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COLEÇÃO

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cação de uma obra única e derradeira, seguindo a máxima pessoana “põe
quanto és no mínimo que fazes”. Queremos que este livro seja um desafio
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© 2014, Sérgio Cerqueira Borges e Chiado Editora


E-mail: geral@chiadoeditora.com

Título: Escravos Sociais e os Capitães do Mato – Chacina de


Vigário geral
Editor: Mayara Facchini
Composição gráfica: Ricardo Heleno – Departamento gráfico
Capa: Prasad Siva
Revisão: Sérgio Cerqueira Borges
Impressão e acabamento: Chiado Print
1.ª edição: Fevereiro, 2015

ISBN: 978-989-51-2756-6
Depósito Legal n.º 383264/14
Sérgio Cerqueira Borges

Escravos
Sociais
e os Capitães
do Mato
Chacina de Vigário Geral

Chiado Editora
Portugal | Brasil | Angola | Cabo Verde
“Deve-se evitar toda “precipitação” e todo o”
preconceito” ao se analisar um assunto e só ter por
verdadeiro o que for claro e distinto.”

René Descartes
APRESENTAÇÃO DA OBRA PELO EXCELENTÍSSI-
MO DESEMBARGADOR DE JUSTIÇA DO TRIBU-
NAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO
DOUTOR JOSÉ MUIÑOS PIÑEIRO FILHO.

A responsabilidade de separar o joio


do trigo

Inicio esta apresentação registrando, desde logo, que


embora não tenha subscrito, na condição de Promotor
de Justiça, a denúncia1 que imputou ao autor desta obra
a participação na chacina de Vigário Geral, ocorrida em
1993, fui responsável direto por requerer a manutenção
de sua prisão por cerca de dois anos. Não é só. Discor-
do de muitas afirmações ou conclusões feitas pelo autor,
bem como não adiro a algumas críticas ou adjetivações,
notadamente a determinados profissionais que atuaram no
caso ou em outros casos citados, seja na condição de mi-
litar ou de membro do Ministério Público.

Então, porque aceitei o encargo tão delicado e aparen-


temente constrangedor? A resposta poderá parecer simples
e ao mesmo tempo estranha e merece, por isso mesmo, ser
explicada. Por primeiro, sempre me instigou a reação do
autor ao que ele entendia como acusação e prisão infame
e injusta, bradando de modo muito peculiar a sua inocên-
cia, em todos os momentos nos quais comparecia ao II

1 Peça formal que dá início a uma ação penal.

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Sérgio Cerqueira Borges

Tribunal do Júri2 para as audiências. Em segundo lugar, a


Chacina de Vigário Geral já foi objeto de documentário3;
programas de televisão4; inúmeras reportagens em todos
os meios de comunicação etc., porém, é a primeira vez
que um dos acusados da Chacina materializa em livro (o
que é diferente de uma mera entrevista) a sua versão e
análise dos fatos que culminaram com a sua prisão, de-
núncia e, ao final, absolvição pelos jurados (leia-se, a so-
ciedade representada por sete pessoas), contrapondo-os.

Em outras palavras, é o respeito à liberdade de expres-


são e ao contraditório que me motiva a apresentar a obra
de Sérgio Cerqueira Borges.

Na verdade, trata-se não apenas de uma crônica sobre


uma tragédia bem real, nada fictícia, mais do que isto há
na obra um interessante estudo apresentando o desenvol-
vimento histórico das Instituições estatais incumbidas da
segurança pública; uma análise sociológica das conse-
quências da fusão entre os Estados da Guanabara e do
Rio de Janeiro, no ponto; o ingresso do autor na Polícia
Militar fluminense em 1982, coincidindo temporalmente
com a ruptura entre o regime governamental militarizado
e o retorno do exílio de líderes políticos a exemplo de
Leonel Brizola; a estrutura da carreira policial, seus vícios
e a necessidade, segundo o autor, de uma unificação ins-
titucional; a história da Chacina, suas razões, as verdades
e distorções na apuração dos fatos, culminando com um
libelo a respeito da prisão cautelar como prevista no or-
denamento jurídico brasileiro, a propiciar injustiças tais

2 No foro central da Cidade do Rio de Janeiro Capital existem quatro tribu-


nais do júri e o feito foi distribuído ao II Tribunal do Júri, por sorteio.
3 LEMBRAR PARA NÃO ESQUECER (2012), de Milton Alencar.
4 A exemplo do programa Linha Direta, da TV Globo (2005).

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Escravos Sociais e os Capitães do Mato

quais – ainda o autor – a que foi ele vitimado e suportou


entre setembro de 1993 e novembro de 1995.

A Chacina, portanto, é pano de fundo ou subtítulo para


a obra intitulada ESCRAVOS SOCIAIS E OS CAPITÃES
DO MATO. O relato de Borjão – como costumava ser
identificado durante a tramitação do processo, principal-
mente para distingui-lo de outro réu com idêntico sobre-
nome: Paulo Roberto Borges da Silva, o “BORGINHO”
– se traduz em verdadeira catarse de quem ingressou no
serviço público na época em que um “policial militar era
respeitado, andava-se fardado com orgulho e prestigiado
pela população” (pág.165).

A coragem em se expor é facilmente constatada com


a leitura do livro. Coragem que aprendi a admirar e, não
posso deixar de consignar, se fez fundamental para o es-
clarecimento, se não da própria Chacina, para a identifica-
ção de parte dos covardes algozes que a cometeram.

Explico. A Chacina aconteceu no dia 29 de agosto de


1993, um domingo. No dia 22 de setembro do mesmo ano,
seis Promotores de Justiça assinaram a denúncia em face
de 33 pessoas, sendo 28 policiais militares, três policiais
civis e dois informantes (X-9). Uma vez que os chacina-
dores estavam encapuzados, parecia evidente que vinte e
cinco dias era tempo bastante insuficiente para investigar
e identificar os autores dos 21 homicídios.

A ação penal foi distribuída ao II Tribunal do Júri onde


Maurício Assayag e eu atuávamos como Promotores de
Justiça e, coincidentemente, já estávamos à frente do
processo relativo à Chacina da Candelária, ocorrida no
dia 23 de julho do mesmo ano. Não demorou muito para

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Sérgio Cerqueira Borges

que nossas preocupações se confirmassem. A principal


testemunha dos fatos, o informante Ivan Custódio, men-
tiu sobre fato relevantíssimo, isto é, como, quando e em
que condições ficou sabendo quem participou da chacina.
Alegara no primeiro depoimento em juízo que na manhã
do dia seguinte, segunda-feira, ouviu, durante horas, na
casa do policial militar José Fernandes Neto, o relato de-
talhado por este feito sobre os fatos, em especial o nome
dos participantes. Ocorre que ao ser interrogado em juízo
referido policial negou a conversa, afirmando que naquela
manhã estava de serviço em uma blitzen envolvendo três
Batalhões e sob o comando conjunto de três capitães.

Esse “álibi” se fez confirmado oficialmente, obrigando


à testemunha, para não ser processada por falso testemu-
nho, a retificar o seu depoimento, retirando, ou ao menos
reduzindo a sua idoneidade, comprometendo o resultado
da ação penal.

Para ampliar a convicção de que a investigação rea-


lizada em tão pouco tempo apresentava falhas e tornava
duvidosa a imputação promovida, a única sobrevivente
que se disse em condições de reconhecer um dos autores
da Chacina, justamente aquele que matara o seu irmão
e tentou igualmente assassiná-la em uma das vielas do
Parque Proletário de Vigário Geral, restou por não reco-
nhecer qualquer dos acusados, porém reconhecendo um
oficial da polícia militar convidado pela juíza a compor o
rol de pessoas que, misturadas, seriam submetidas a reco-
nhecimento5.

5 Trata-se de Jussara Prazeres da Costa, irmã da vítima Edmilson José Pra-


zeres da Costa, assassinado na ...... O oficial “reconhecido” pela testemunha/
vítima era o responsável pela escolta de Ivan Custódio.

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Escravos Sociais e os Capitães do Mato

Portanto, o processo relativo à Chacina de Vigário Ge-


ral caminhava a passos largos para uma impunidade geral
ou na direção de uma grande e manifesta injustiça, levan-
do à condenação, dada a repercussão do caso, de inocen-
tes ou à absolvição de culpados.

Por isso, a coragem de Sérgio Cerqueira Borges e ou-


tro acusados em gravar conversas no ambiente carcerário,
colocando em potencial risco suas vidas se afigurou fun-
damental para permitir, assim, uma profunda investigação
dos fatos, justificando a frase que muitas vezes repeti em
entrevista quando indagado sobre o que se apurou a partir
da apresentação das fitas, por alguns réus, à saudosa juíza
Maria Lúcia Capiberibe e que é reproduzida na página
149 deste livro e inspirou o título desta apresentação: A
separação do joio do trigo.

11
Sérgio Cerqueira Borges

Bem sabíamos que referidos ritos causariam muita po-


lêmica. Havia um antecipado e discriminatório descrédito
público pelo conteúdo de conversas mantidas por presos,
máxime quando acusados da Chacina de Vigário Geral.
Entretanto, submetida à perícia realizada pelo Prof. Ricar-
do Molina, do Instituto de Identificação de voz do Depar-
tamento Medicina Legal da Universidade de Campinas,
com transcrição dos conteúdos, a confirmação positiva
de vários confrontos vocálicos e, principalmente, a cons-
tatação da inexistência de manipulação, deram ensejo à
instauração de um Inquérito Policial Militar, cujo encarre-
gado Coronel Denisar Santos, com a minha participação,
de Assayag e Marcos André Chut, promotor de justiça de-
signado a nos auxiliar, logrou reunir diversas provas que,
seguramente, habilitariam como de fato habilitaram a sus-
tentar perante o Júri ao menos algumas condenações6.

Em maio de 1997 subi à Tribuna do II Tribunal do Júri


para realizar meu último julgamento como Promotor de
Justiça, porquanto assumiria no mês seguinte o cargo de
Procurador de Justiça7.

6 Com efeito, dentre outras provas, logrou-se que dois policiais que susten-
tavam o álibi do réu Sirley Alves Teixeira retificassem os seus depoimentos
afirmando que aquele acusado não se fez presente na Cabine localizada na
Praça Seca para a qual estaria escalado; a confirmação pericial de que hou-
ve adulteração criminosa do Livro do Armeiro do 9º BPM; a comprovação
de que os carros utilizados pelos chacinadores permaneceram estacionados
em um posto de gasolina frontal à passarela que permite chegar ao Parque
Proletário de Vigário Geral; a existência de reunião de diversos chacinadores
momentos antes da Chacina, no PPC de Fazenda Botafogo; o depoimento de
uma das crianças que sobreviveu à Chacina na casa da família de evangélicos
(hoje nominada de Casa da Paz), esclarecendo que foi um dos “chacinadores”
quem impediu que fossem mortos e o ajudou a pular uma laje e se abrigar na
casa vizinha.
7 O cargo de Procurador de Justiça é o último possível de ser atingido na
carreira do Ministério Público.

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Escravos Sociais e os Capitães do Mato

Não por coincidência o réu, Paulo Roberto Alvarenga,


era o primeiro dos 33 acusados da Chacina a ser submeti-
do a julgamento. Foram quatro dias de intensos debates,
oitiva de testemunhas, análise de laudos periciais etc. Ao
final dos trabalhos o Presidente do Júri, juiz José Geraldo
Antônio, anunciava o resultado da votação dos jurados: 6
(seis) votos pela condenação e 1 (um) voto pela absolvi-
ção. Impôs, o juiz, ao réu, a pena de 449 anos de prisão.

A esta condenação seguiram-se outras seis. Muitos


acusados sequer foram julgados porque morreram no cur-
so do processo devido à doença ou em razão de assassi-
nato.

No caso do autor desta obra, não obstante outros dois


valorosos Promotores de Justiça terem pugnado perante
o júri pela condenação, os jurados, por maioria de vo-
tos (4x3), o absolveram, decisão que foi mantida pelos
Desembargadores da 4ª Câmara Criminal do Tribunal de
Justiça.

Faz 21 anos que a Chacina aconteceu. Até hoje man-


tenho contato pessoal com a comunidade do Parque Pro-
letário de Vigário Geral, notadamente com sobreviventes
e familiares das vítimas. O Estado do Rio de Janeiro re-
conheceu, em 2000, a sua responsabilidade moral pela
Chacina8.

8 O Projeto de Lei nº 1588/2000 redigido por Assayag, Chut e por mim e


encaminhado à Assembleia Legislativa pelo Governador Anthony Garoti-
nho, foi aprovado por unanimidade e transformado na Lei nº 3421, de 16 de
junho de 2000, tendo por ementa: “DISPÕE SOBRE A CONCESSÃO DE
PENSÃO À VÍTIMA SOBREVIVENTE DA CHACINA DA CANDELÁ-
RIA, AS VÍTIMAS SOBREVIVENTES E AOS DEPENDENTES DAS VÍ-
TIMAS FATAIS DA CHACINA DE VIGÁRIO GERAL, E DÁ OUTRAS
PROVIDÊNCIAS.”

13
Sérgio Cerqueira Borges

Infelizmente, outras Chacinas aconteceram posterior-


mente, manchando de sangue inocente a Cidade Maravi-
lhosa, a exemplo do que ocorreu na baixada fluminense
em 2005, onde 29 pessoas foram brutal e covardemente
mortas.

A obra que por ora apresento, independentemente de


concordar ou não com as afirmações e conclusões do au-
tor, frise-se, é mais um documento que contribuirá para
manter a lembrança daquela tragédia, na expectativa de
que assim, quem sabe, um dia, a Cidade Partida volte a
ser uma só.

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PREFÁCIO
UMA POLÍCIA MILITAR PARTIDA?
POR CARLOS NOBRE*

As duas palavras do título dessa obra – “escravos so-


ciais” – seria porque, apesar de estarem numa sociedade
capitalista, os policiais militares trabalham igual à es-
cravidão. Essa analogia foi feita pelo o ex– soldado da
Polícia Militar do Rio de Janeiro (PM), Sergio Cerqueira
Borges, hoje advogado, em seu livro, intitulado “Escra-
vos Sociais e os capitães do mato – Chacina de Vigário
Geral. LIVRO I)”.

Nesta obra, Borges, como era chamado pelos antigos


colegas de profissão, mostra, na primeira parte dela, como
era a atuação dos policiais militares durante o primeiro
governo estadual de Leonel Brizola (1983-1986). Brizo-
la, líder populista clássico, se elegera governador com os
votos das camadas negras da periferia e Baixada Flumi-
nense, após anistiado e retornado do exílio imposto pelo
regime militar(1964-1985). Era, no Rio de Janeiro, o pri-
meiro governo eleito democraticamente desde 1964 e tra-
zia muitas esperanças para os servidores e a população
fluminense.

Em seguida, o autor desta obra se dedica a esmiuçar


a Chacina de Vigário Geral ( 21 mortos, em agosto de
1993, no Rio de Janeiro), quando, na época, se transfor-

15
Sérgio Cerqueira Borges

mara num dos 33 PMs acusados de cometerem o crime


bárbaro que chocou o mundo e o Brasil, onde, crianças,
mulheres e favelados, dormindo, foram mortos a tiros por
policiais militares, na madrugada.

Após mostrar que diversos assassinos dos favelados


estavam à solta, Borges fez uma investigação pessoal–
afinal, ele era um policial da área de inteligência, das cha-
madas “P-2” dos batalhões– e, por isso, foi inocentado,
após ficar quatro anos preso. Para tal procedimento, ele
gravou conversas na prisão com alguns acusados que re-
velaram nomes de outros policiais que estavam nas ruas.
Isso provocou a reviravolta do caso, pois, o então promo-
tor de justiça do caso, José Muiños Piñero – hoje desem-
bargador do Tribunal de Justiça – pode acrescentar novos
acusados e mudar os rumos do processo, de acordo com
Borges.

Em relação aos “escravos sociais”, ele quer se referir


ao período no qual como policial em diversas unidades da
corporação, principalmente nos anos 1980, pode obser-
var não apenas um desvio de conduta nos batalhões, mas,
uma situação político-criminal, onde o policial menos
graduado, trabalhava como “escravo” e era obrigado pelo
modo de produção de combate à criminalidade da época a
ser um criminoso em potencial.

Por outra perspectiva, Borges ao falar da crise da ins-


tituição militar, a qual pertencia, também mostra que os
“escravos sociais” já nasciam com o selo da burocracia do
poder público, ao revelar que a fusão dos estados da Gua-
nabara e Rio de Janeiro, em 1975, fez com que os oriun-
dos das duas PMs tivessem tratamentos diferenciados
perante o novo estado fluminense. Ou seja, os policiais

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Escravos Sociais e os Capitães do Mato

oriundos do interior parecem ter ganhado mais primazia


na distribuição salarial.

Assim, se instalou a divergência na tropa e os constan-


tes movimentos de reparação salarial nos quartéis. Bor-
ges, aqui, não avança muito, não estabelece claramente
como foi esta crise histórica de status nas corporações,
mas mesmo assim, mostra que houve desigualdades en-
tre soldados do antigo estado da Guanabara e aquele do
interior.

Mas retornando aos “escravos sociais”: Borges, em sua


obra, revela que, nos anos 1980, era comum nos batalhões
terem oficiais e soldados corruptos. O fato começava pelo
sargento que ganhava propina do soldado para pô-lo em
trabalhos menos arriscados e mais controlados, segundo
Borges. Quem discordasse, ia fazer PO (policiamento os-
tensivo) nas áreas mais críticas, correndo o risco de ser
morto.

Outro fato fundamental para se entender o trabalho


policial em qualquer conjuntura histórica: Borges fala da
cultura do “arrego” na PM fluminense. “Arrego” é quando
a equipe policial de uma determinada região ou batalhão
para não atuar nos domínios dos bandidos ou traficantes
recebe em troca uma compensação financeira. Assim, o
bandido fica livre da ação policial e passa a atuar livre-
mente.

Existem casos de “arrego” que mostram como esta cul-


tura invertida pode provocar naqueles mais vulneráveis.
Segundo Borges, no final dos anos 1980, na Favela do
Borel, da Tijuca, o “arrego” entre os policiais do 6º. Ba-
talhão de Polícia Militar, do Andaraí, e os traficantes, fez

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Sérgio Cerqueira Borges

com que estes dessem tiros nas mãos dos jovens ladrões
da comunidade, para que não roubassem mais naquela re-
gião. Ou seja, havia queixas da classe média contra esses
roubos no batalhão, e os policiais acionaram os traficantes
para que impedissem tais crimes, já que estavam “arrega-
dos” com os marginais.

Além do “arrego”, havia a relação promíscua com os


comerciantes de determinada região, que eram achacados
pelos policiais para pagarem certa quantia por mês a fim
de que as patrulhas mantivessem presença naquele bairro
ou região, segundo Borges.

Ou seja, os policiais investiam na insegurança públi-


ca para oferecer serviços de “segurança” aos cidadãos.
Aqui, Borges, não perdoa ninguém, revelando que muitos
comandantes dos batalhões estavam no esquema de ex-
ploração dos comerciantes e muitos deles “arregados” ao
narcotráfico. Assim, segundo ele, havia duas PMs, aquela
vista nas ruas, em suas viaturas e cabines, e aquela, mais
ou menos oculta, onde a segurança pública era o comér-
cio da insegurança rateado entre todos que dele faziam
parte. Ou seja, esta “insegurança” provocada enriquecia
com corrupção alta muitos praças e oficiais, segundo o
autor da obra.

Assim, havia uma situação perversa dos dois lados.

Os comerciantes, por seu turno, já pagavam alto pelo


serviço através de impostos, mas não se importavam de
pagar pela segunda vez, neste caso, com a pressão psi-
cológica mantida pelos policiais corruptos que ameaça-
vam retirar radiopatrulhas dos bairros caso não recebem
“extra” por aquele serviço, já previamente pago pelos

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Escravos Sociais e os Capitães do Mato

impostos. Em outras palavras: esse achacado não tinha


dúvidas em pagar duas vezes, pois, sabia de antemão, que
não adiantava se queixar, pois, a polícia trabalha assim e
até seus chefes mais altos faziam vistas grossas aos esque-
mas, segundo Borges.

Outra observação sociologicamente interessante é


quando Borges detalha a visão que os governadores, a
cada quatro anos, têm de sua força policial. Segundo ele,
em geral, os oficiais que comandam a PM, honestos ou
corruptos, são tratados da mesma forma pelos governa-
dores. Em outras palavras: permanecem nos cargos desde
que não atrapalhem os interesses dos poderosos. Ou seja,
se manteriam nos cargos, se não provocassem opiniões
desagradáveis da população sobre o seu governo na ques-
tão da segurança pública. Isto porque historicamente a
segurança pública é um tema que os eleitores de todas as
classes consideram prioritário em qualquer eleição. Tanto
é assim que policiais civis ou militares têm sido eleitos
para vereadores prometendo acabar com violência, quan-
do, legalmente, não tem condições para tal, já que são par-
lamentares municipais e não estaduais.

Nesse sentido, segundo Borges, os comandantes da


PM não podem ameaçar a carreira política do governador
nesta área supersensível. Suas gestões à frente das corpo-
rações devem atender aos beneplácitos da estratégia esta-
tal de combate à criminalidade e nunca pensar algo tecni-
camente perfeito em termos policiamento. Daí, então, em
muitos casos, o silêncio angustiado dos comandantes das
duas polícias (civil e militar) diante da crise de segurança
que se abate sobre o estado, pois, não podem botar pé
nisso além da faixa demarcada. Em certo sentido, o filme
“Tropa de Elite II” mostrou um pouco desse métier, onde,

19
Sérgio Cerqueira Borges

o governador do filme, envolvido pela milícia, faz com


que sua polícia corrupta aja como um belo ator para um
espetáculo midiático.

Desse modo, surgem questões antropológicas e sociais


nesse drama de altíssimo poder de explosão política. Ou
seja, existem “ritos de passagem” nisso tudo. Como os
chefes de Polícia (civil e militar), eles não querem ser
demitidos, perderem o poder, então, fazem uma gestão
contrária às normas mais clássicas de segurança pública,
e acabam assim, criando crises e mais crises nas insti-
tuições que dirigem, pois, ninguém domina “máscaras”,
“fingimento”, “ o faz de conta” eternamente. Estas “más-
caras” não têm limite, código de ética, pelo contrário, são
incontroláveis. E, nesta perspectiva, quem perde é a po-
pulação, que desconhece esses acordos e modelos geren-
ciais da segurança pública, que visa, sobretudo, dar luxo e
poder aos corruptos.

Nesse sentido, o cotidiano interno nos batalhões ten-


dem a serem um festival de impunidade e descaso com
coisa pública, de acordo com o relato de Borges, nessa
obra de suma importância. Existia, na época, a transfor-
mação de carros policiais em carcaças. Estas eram reven-
didas em ferros-velhos, num esquema que dava dinheiro
para os envolvidos, ou seja, os donos de ferros-velhos e
policiais. Também havia o impedimento para atuarem nos
morros e favelas além de cabines policiais inúteis, segun-
do Borges, em suas passagens pelos batalhões da PM flu-
minense, a mais antiga do Brasil, criada, em 1809, pelo
então príncipe Regente de Portugal, Dom João VI.

Ele, Borges, ao vivo, como testemunha ocular, como


a segurança pública era sucateada de dentro, ou seja, esta

20
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

segurança pública era uma ficção na percepção da popu-


lação e algo tangível para seus mais diletos protagonistas,
ou seja, aqueles encarregados de debelar os ataques aos
cidadãos pelos criminosos.

Borges, por seu turno, crítico do governo Leonel Bri-


zola, nos anos 1980, diz que, havia bastante omissão na
tropa, naquele momento. Em primeiro lugar, ao impedir
que os PMs entrassem nos morros e favelas do estado, o
governo compactuava com o crime do narcotráfico pre-
sente nestas comunidades. Em vista disso, segundo ele,
os traficantes de cocaína a exploravam com nome o nome
de “Brizola”.

Segundo o ex-militar, naquela ocasião, os bandidos


ficaram ousados e desafiavam abertamente os policiais
com essa política de não subida aos morros e favelas. Às
vezes, escreve ele, alguns soldados ligavam para o tele-
fone 190, da PM, dizendo que havia policiais feridos nos
morros. Era um trote para que a instituição autorizasse a
subida e socorro ao policial ferido entre aspas no morro.

Em relação à Chacina de Vigário Geral, onde se tor-


nou réu, e depois inocente, Borges deixa que seu ex-
comandante, o coronel aposentado Emir Larangeira, ex-
deputado estadual nos anos 1990, explique com detalhes
qual foi à participação da instituição no extermínio dos
favelados.

Assim, em seu livro, o ex-policial e hoje advogado co-


loca um ensaio de seu ex-comandante militar, do 9º.Bata-
lhão de Polícia Militar, em Rocha Miranda, zona norte do
Rio de Janeiro, sobre a chacina que traumatizou o Brasil
e o mundo. Larangeira, desse modo, no livro de Borges,

21
Sérgio Cerqueira Borges

centra fogo em duas personalidades deste caso traumáti-


co.

A primeira é personalidade é Walmir Alves Brum, ex–


comandante da P-2 ( Serviço de Informações) do quartel-
general da corporação, na segunda gestão Leonel Brizola(
1990-1993). Para Larangeira, Brum, naquela época, ho-
mem de confiança do então Secretário de Justiça e Di-
reitos Humanos, Nilo Batista, e do comandante da PM,
coronel Carlos Magno Nazareth Cerqueira, manipulou as
investigações e colocou na lista de assassinos policiais
militares que não tinham nada a ver com o massacre. Ele
fez isso, pois, teria divergências com ele. Não à toa, os
suspeitos arrolados por Brum teriam trabalhando com La-
rangeira, na época que fora comandante militar dos mes-
mos, segundo o ex-militar.

Larangeira, neste ensaio anexado ao livro do ex-subor-


dinado, também investiu contra a poderosa testemunha
levantada por Brum, o X-9 ( informante policial) Ivan
Custodio, que listou todos os participantes da chacina, em
troca de proteção. Larangeira criticou o fato de Custódio
ter sido ouvido e protegido pela PM. Pelas regras legais,
acentuou o ex-coronel da PM, deveria ter sido ouvido na
Delegacia de Defesa da Vida (DDV), que investigava, na-
quela época, crimes homicídios, e hoje extinta.

No entanto, a estratégia, talvez ilegal, visava, sobretu-


do proteger uma testemunha importante, já que, naquela
época, as autoridades de segurança pública do segundo
governo estadual Leonel Brizola ( 1990-1993) não con-
fiavam em determinados setores da Polícia Civil. Se en-
tregue a esta força policial, a testemunha-chave poderia
sumir rapidamente, raciocinaram os investigadores da

22
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

Chacina de Vigário Geral. Desse modo, todo o depoimen-


to de Ivan Custódio ficou sob controle do Serviço de In-
formações do quartel-general da PM, onde predominava
o coronel Brum como seu chefe-geral.

Com certeza, Borges e Larangeira podem estar certos,


a respeito das investigações de Brum, pois, este teria colo-
cado policiais inocentes como réus na chacina de Vigário
Geral. Este jogo é comum nesta área, pois, os policiais são
pressionados a apresentar suspeitos imediatamente diante
de um crime de repercussão. Assim, quando são pressio-
nados pelos poderes mais relevantes do estado, tendem a
perder o controle da qualidade investigativa, e assim, in-
cluir nomes que aparentemente teriam participado de atos
criminosos.

Ao proteger a testemunha-chave de Vigário Geral, os


dirigentes da segurança pública provocaram uma explo-
são dentro do aparelho policial. Ivan Custodio não deu
somente os nomes dos participantes da chacina (coinci-
dentemente ele era sócio criminoso de um dos quatro po-
liciais militares assassinados dois antes da chacina, em
Vigário geral, e que provocou a reação da força policial),
mas revelou uma rede de policiais envolvidos com o tráfi-
co de drogas, extorsão, extermínio, mineiras, entre outros
crimes pesadíssimos.

Mesmo com Larangeira tentando desqualificar um ini-


migo – o coronel Brum –, este, no entanto, era difícil de
ser flagrado como corrupto. Sua qualidade investigativa
a mídia respeitava. Nos anos 1990, foi responsável pelo
estouro de grandes quadrilhas policiais ligadas a crimes
de todos os tipos no estado do Rio de Janeiro. Foi o poli-
cial que investigou e comandou o estouro da fortaleza do

23
Sérgio Cerqueira Borges

banqueiro de jogo de bicho Castor de Andrade, em 1993,


que provocou a maior investigação do Ministério Público
nesta área. A investigação encontrou as chamadas “listas
de propinas” do jogo do bicho, onde, ali, estavam listado
nomes de altas autoridades, até do próprio Nilo Batista, e
de vários artistas, advogados, jornalistas, policiais, atle-
tas, deputados, vereadores. Ou seja, a rede do crime orga-
nizado no Rio de Janeiro, realmente, era extensa.

Por fim, Borges, apesar de crítico contundente da ges-


tão Leonel Brizola no governo do estado do Rio de janei-
ro, a partir de 1983, não tem pudor em dizer que o coronel
negro Carlos Magno Nazareth Cerqueira, foi um grande
comandante da tropa. Ele, Borges, não afirma que Naza-
reth Cerqueira foi corrupto. Ao contrário, reafirma que era
um homem integro.

Na verdade, Borges, aqui, não detalhou a biografia de


um ícone da PM fluminense. Nazareth Cerqueira foi o
grande policial do Brasil dos últimos 40 anos. Ele moder-
nizou completamente a Polícia Militar do Rio de Janeiro,
foi o introdutor da prática dos direitos humanos na abor-
dagem policial, mostrou que a PM se baseava no racis-
mo ao atuar nas ruas, criou diversas unidades que fizeram
história na tropa como o Proerd (Programa Educacional
de Resistencia às Drogas), aplicado em escolas públicas
e privadas do Rio de Janeiro e depois difundido em todo
país.

Mas, de qualquer modo, estamos diante de um livro


fundamentalmente importante para se compreender
as contradições, perspectivas e deslizes da segurança
pública no Rio de Janeiro nos últimos 30 anos. Borges
não tem pudor em desvendar um passado sombrio que ele

24
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

viveu como policial e também como réu de um crime que


não cometeu. Esperamos que esta obra possa ganhar im-
portância para futuramente possamos discutir com mais
profundidade as corporações policiais.

*Jornalista, pesquisador e professor da PUC-Rio.


Autor de “ O negro na Polícia Militar: cor, crime e
carreira no Rio de Janeiro” e “ Mães de Acari: uma
história de protagonismo social”.

25
Sumário
A responsabilidade de separar o joio do trigo......................7
PREFÁCIO....................................................................15
DEDICATÓRIAS & AGRADECIMENTOS.................29
INTRODUÇÃO.............................................................33
Polícia Militar, A Força do Estado, O Poder Desta Que Não
Emana Do Povo, Contra Ele Se Volta, Pela Força Do Poder
do Estado........................................................................39
A Guarda Real de Polícia...............................................43
AGuarda Policial da Província fluminense........................47
A Guerra do Paraguai......................................................49
A República....................................................................51
MAS DEZ ANOS ANTES, INTEXTUALIZANDO:.....53
Excertos de uma promiscuidade antiga............................59
A República, Platão........................................................71
Fusão dos Estados do Rio e da Guanabara........................75
1º de julho de 1974 — Fusões da Guanabara com o
Estado do Rio.................................................................79
DISCURSOS NA ALERJ E ENTREVISTAS.................83
A BANDA PODRE DA POLÍCIA, Existe?...................121
Fascinantes facínoras...................................................129
ABRINDO A CAIXA PRETA.....................................149
O extermínio na era do governo militar:.......................161
AGOSTO DE 1982, ingresso do autor na PMERJ.........165
DISCRIMINAÇÃO RACIAL E DE GÊNERO NA
PMERJ...................................................................177
ALIMENTADOS COM RAÇÃO DE CÃO..................185
9º Batalhão de Polícia Militar (PMERJ)........................189
Transferência para o 9º BPM: UMA ESPERANÇA EM
MELHORAR A SITUAÇÃO DO AUTOR..................191
A bondade humana.......................................................199
SEM UNIFORME........................................................203
“O GALINHO DE QUINTINO”..................................207
Outro caso: Escola Nacional de Administração Pública,
concurso em 1987........................................................209
PATAMO DO CABO PM “W” (9º BPM)....................215
PATAMO DO SARGENTO “A”..................................219
“FUSQUINHA” O MAIS POPULAR E O MAIS FURTADO
OU ROUBADO...........................................................223
Governo Moreira franco – 1987-1990..........................231
LARANGEIRA E A JUNTA COMERCIAL DE MADU-
REIRA....................................................................241
Laranjeira indica um Coronel para sucedê-lo e continuar seu
trabalho...................................................................245
A SERPENTE DEU O BOTE!.....................................255
A IMPRENSA PODE SER LIVRE, ILIMITADAMEN-
TE?..............................................................................259
Crônicas de um Promotor de Justiça...........................281
DISSE O GOVERNADOR BRIZOLA EM 1993:........289
TRÊS TRANSCRIÇÕES DAS FITAS: GRAVADAS NA
PRISÃO REVELAM A CHACINA DIÁLOGOS CUJAS,
A JUSTIÇA PÔDE SEPARAR O JOIO DO TRIGO, NAS
DECLARAÇÕES DO PROMOTOR DE JUSTIÇA DO
CASO......................................................................291
A CHACINA DE VIGÁRIO GERAL 1993...................337
A VERDADE SOBRE A CHACINA DE VIGÁRIO
GERAL........................................................................339
Prisão cautelar...................................................555
STF posiciona-se contra a banalização das prisões
preventivas.....................................................557
CONCLUSÃO:................................................563
DEDICATÓRIAS &
AGRADECIMENTOS.

Dedico este livro a todos os brasileiros injustiçados,


entre estes, os Militares dos Estados da República Fede-
rativa do Brasil, que amargaram injustiças perpetradas
pelo Poder Público em nome daquilo que tanto Nicolau
Maquiavel nos advertiu em sua obra, O PRÍNCIPE, cujo
foca a manutenção do Poder na forma mais cruel objeti-
vada pelos meios aos fins que se faça necessário, entre-
tanto desprovido de qualquer pudor com as pessoas; aqui
as menos favorecidas, vítimas das desigualdades sociais
em que segrega a indignidade humanamente imperdoá-
vel, inaceitável, em que esta obra tem pretensão à por luz
na obscuridade naquilo que este livro puder contribuir a
outra visão do “HOMEM-POLICIAL MILITAR”.
Agradeço a minha família que se fez minha base de
resistência, para não sucumbir ao duro golpe da maior hu-
milhação que o homem pode provar, a perda da liberdade
e suas consequências que sequela inevitavelmente o re-
cluso que prova da injustiça cuja queima, subjuga a sentir
vergonha do que não é responsável, indigna como pessoa
e cidadão, chegando a fazê-lo um débil de saúde física
e mental, incrédulo na sua própria realidade deformante
dos sonhos de toda uma vida. Obrigado Lilia Regina, mi-
nha amada esposa heroína que ao meu lado permaneceu
como uma coluna de sustentação aos escombros cujo me
tornara. Obrigado minha filha Viviane Regina que sofren-
do todo o escárnio da sociedade ainda criança, e ainda
que criança sempre me fizesse o seu herói, como todo pai

29
Sérgio Cerqueira Borges

deveria ser aos filhos, mas de maneira especial sofreu e


sofre junto a minha pessoa este turbilhão de sentimentos
que também a adoeceu de forma que ela mesma sente o
peso de tudo em seus próprios ombros. Obrigado a minha
mãe Maria de Lourdes por me socorrer sempre que pôde.
Obrigado minha saudosa e querida sogra Florinda Dias de
Souza, cuja me estendeu suas mãos de santa a reerguei-me
e continuar caminhando apesar de tudo. Obrigado a meu
filho Michel por agora entender que fui vítima de injustiça
a disposto do que durante anos ao contrário o fizeram crer
sob outro teto que não o meu residia. Obrigado meu caçu-
la temporão João Pedro que não me faz permitir desistir
de tudo com sua docilidade de criança a me chamar de
papai, apaziguando minha revolta contra tudo e a todos os
meus algozes que com outros, nos instrumentalizaram aos
seus desejos vis da ganância desmedida do que seria cer-
to e justo. Perdoa-me Thiago, meu filho primogênito, por
não conseguir evitar que te assassinassem ainda no início
de sua juventude, para que ainda não satisfeitos com o
mal que causaram, o fizeram para atingir-me, a subjugar-
me ao silêncio e resignação a culpa que não tinha. Perdoa-
me meu pai Manasses por ter morrido desgosto, sem antes
conhecer a natureza da minha inocência diante do que os
homens são capazes pela ambição de Poder pelo Poder.
Em especial agradeço aos Doutores Temístocles de Faria
Lima; hoje não mais presente neste plano terrestre, se fez
um pai a que tento seguir seus passos caridosos; e, Dou-
tor Nélio Andrade, ambos os advogados vocacionados a
fazerem justiça cujos honraram o Direito em luta desigual
contra todo um estado de forças gigantescas em que com
seus intelectos e firmeza em obter justiça, agigantaram-se,
não permitindo o perjúrio dos abutres do sistema cujos
desejosos da carniça dos corpos de inocentes, souberam
mostrar que ainda havia em todos nós, vida e esperança

30
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

na Justiça, devolvendo outra vida aqueles; como eu; em


que não acreditavam mais em nada. Agradeço a funda-
mental cooperação do Centro Universitário Augusto Mo-
tta (UNISUAM) no RJ , que desde 2004, possibilitou na
maioria dos semestres, que estudasse com bolsa a gradua-
ção de Direito.

NOTA:

Algumas passagens deste livro, o autor resolve não


identificar os personagens diretamente, citando ape-
nas as iniciais letras de seus nomes; apenas as histórias
que constituía atos ilícitos pelos seguintes motivos: Os
fatos já foram relatados as autoridades competentes
na ocasião do ocorrido por força da função cujo de-
sempenhava; estas também foram citadas com cunho
pedagógico e esclarecedor do contexto dinâmico do
que foram vivenciados pelo autor, nas quais por cer-
to já ocorreu à prescrição punitiva; outrossim, outras
passagens não houve omissão das identidades das pes-
soas, vez que não as prejudicam e são pessoas públicas,
senão somente autentica a legitimidade dos fatos acon-
tecidos citados na obra; entretanto os nomes citados
diretamente intrínsecos aos fatos não foram poupa-
dos. Então seria conduta leviana mencionar nomes dos
personagens cujos foram suas identidades omitidas
pelo autor sem um justificável propósito, mas necessá-
rio os nomes citados pela imposição de legitimação dos
fatos narrados, identificando os nomes, assim sendo,
buscar objetivamente, serem os algozes perseguidores
expostos em seus atos desonrosos para que a sociedade
possa avaliar todo este mecanismo de manutenção do
Poder cruel imposta e indigna aos menos favorecidos
socialmente; também instigar o leitor a filosoficamente

31
Sérgio Cerqueira Borges

perceber que a posição no contexto de herói ou vilão é


apenas um exercício de ponto de vista. Entre trafican-
tes, o marginal da lei que mais mata policial, é o herói
daquele grupo, mas vistos pelos policiais de outra for-
ma, na medida em que policiais matadores de trafi-
cantes de drogas ilícitas são vistos como heróis em seu
grupo social, mas ambos vistos como vilões no consen-
so social; e todos são pertencentes à mesma sociedade
dispostas a esta elite de privilegiados.

32
INTRODUÇÃO

Sabemos que, em nosso país, desde o início, a força


sempre foi o principal instrumento para se alcançar os ob-
jetivos de uma elite de pessoas privilegiadas pela posição
cujas ocupa na sociedade, dispostas em sacrificar qual-
quer um em favor desta. Estas pessoas não se resumem
somente àquelas que estão no Poder Público senão são
elas pertencentes aos vários setores da sociedade e, o que
há em comum a estas denota o alto poder aquisitivo cuja
intercessão de interesse une uma as outras para manten-
ça de seus status quo impelindo a massa populacional a
uma formação de “verdades”, costumes tradicionalizados
artificialmente; um costume mesmo tradicional de forma
artificial pode ser normatizado; comportamentos de inte-
resse podendo favorecer esta elite cuja poderão se asso-
ciar a pessoa ou pessoas (Físicas ou Jurídicas), grupos ou
entidades a margem da lei e da ordem pública, e quem
possa garantir estes interesses ao objetivo comum desta
elite cuja é voltada aos seus interesses; ressalvando é cla-
ro a não generalização, mas a parcela desta elite maléfica
a sociedade, não observa os valores éticos, morais que
estão abaixo destes interesses; mas por vezes gera fatos
sociais cujo exige desta elite, um verdadeiro exercício
manipulador a esta massa de pessoas que ignoram tudo
isto devido a uma limitação intelectual proposital que os
lançam a uma educação limitada quando somente teriam
possibilidade de entenderem a situação delas mesmas, se
um percentual significativo alcança-se educação de ní-
vel superior, mas a realidade é cruelmente reveladora a

33
Sérgio Cerqueira Borges

uma população de mais de 80% de pessoas sem acesso ao


ensino superior cujas poderiam alcançar uma consciên-
cia de sua posição social e de opressão imposta por esta
elite; por outro lado se observa que a educação mediana
melhorou, mas por ser de interesse desta elite, vez que
embora qualifique parte desta massa de maneira de in-
formação limitada, não permite um entendimento cujas
teriam no nível educacional superior; As elites necessitam
então de uma máquina eficiente para conter os possíveis
descontroles insurgentes no seio desta massa de mais de
80% de brasileiros que poderia ameaçar os interesses des-
ta elite; isto ocorre desde a colonização do Brasil; as “sen-
zalas sociais” que são as periferias de pobres com poucos
recursos tende em serem áreas ocupadas militarmente
para o controle sócio-político; esta é uma das razões da
necessidade da existência de duas polícias, uma, militar
outra civil, ambas servem ao Poder, entretanto com par-
ticularidades, a PM, uma polícia administrativa, capaz de
conter a qualquer custo esta massa, quando vai de encon-
tro ao interesse das elites, a civil, uma polícia judiciária,
necessária ao equilíbrio dos interesses desta mesma elite,
bom é dizer, quando do interesse desta elite; duas insti-
tuições cujas ameaçam a revolução e evolução a plena ou
próxima democracia possível; mas seus integrantes são
oriundos desta mesma sociedade reprimida com classes
dominantes e dominados, regulados por Estatutos cujo
violam a própria Constituição Federal quando pensamos
nas garantias a liberdade de locomoção e outros direitos
nesta garantidos a todos; não é por acaso que a polícia
civil tem um efetivo menor com um regulamento mais
flexível; não é militarizada; todavia a PM, o braço mais
forte do Estado, possui um efetivo muito maior e seu re-
gulamento disciplinar, rigorosamente mantem seus inte-
grantes sob total controle; e não se deve confundir com os

34
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

desvios de condutas diversos a este regulamento quando


se assertiva o controle sobre estas instituições, cujo fa-
cilmente o Poder expurga o indivíduo, o “HOMEM-PO-
LICIAL-SEMI-CIDADÃO”, marginalizando-os ao seio
da sociedade, estes cidadãos com direitos limitados a esta
cidadania, o controle então mencionado é o institucional;
mas tanto militares do Estado, quanto policiais civis e to-
dos das classes sociais menos abastadas, quando se trata
de interesse das elites mencionadas, não são blindados
pela ordem constitucional garantidora de direitos, no que
tange a proteção dos abusos de Poder do Estado, estes
com titularidade legal que mascara o verdadeiro objetivo
da Justiça, suprime um dos maiores bens do cidadão ou
cidadã, sua liberdade, com pretextos de proteção à própria
sociedade, exigíveis em requisitos imposta pelas leis, mas
com cunho peculiar a subjetividade do Estado-Juiz; to-
davia com militares do Estado ainda se torna mais grave,
estes podem perdê-la por simples capricho dos tentáculos
da elite existente no seio da PM, legitimado pelos forma-
dores de opinião midiáticos.

Então se questiona baseado no desenvolvimento desta


obra:

• Politica e Segurança Pública podem ser mistu-


radas, sem afetar as instituições e o interesse público?
• As Polícias Militares servem as elites do Poder
ou a sociedade brasileira no todo?
• A existência de duas polícias atende a sociedade
ou a elite dominante dos Poderes econômicos, a quem
a existência destas, interessa?
• Policiais Militares são de fato algozes da socie-
dade ou instrumentos e simultaneamente vítimas das
elites?

35
Sérgio Cerqueira Borges

• O desejo do continuísmo desta dualidade, por


parte dos integrantes da PM dos entes da federação, é
de todos, ou tão somente da fração dominante destas
instituições militares?
• Pode-se tomar-se como verdade absoluta a cul-
pa de pessoas em fatos criminosos quando a imprensa
aponta-as ou eleje-as sem um devido processo legal?
• A imprensa tradicional, concessionária do Po-
der Público, esta compromissada com esta elite, com a
sociedade ou com ela própria seu principal produto de
lucro, a informação?
• O cidadão ao ingressar na PM como Praça o
faz para ser militar ou policial?
• O cidadão ao ingressar na PM como Oficial de
Polícia, o faz para ser militar ou militar e policial pelo
conforto da função?
• Chacinas ou homicídios, corrupção policial,
enfim desvios de conduta afetam os interesses sociais?
• Chacinas ou homicídios, corrupção policial,
enfim desvios de conduta afetam os interesses das eli-
tes do Poder a ponto de modificar este contra senso da
coexistência de duas policias? Ou em verdade é tudo
providencial a manutenção do Poder?
• As chacinas dos anos de 1990 e seguintes são so-
mente efeitos colaterais das administrações governa-
mentais descompromissadas com os deveres do cargo
senão com a mantença no Poder, e se assim for, não se-
riam os governantes os verdadeiros responsáveis pela
manutenção de duas polícias cujas instituições instru-
mentalizam-se a isto?
• O que está definido na Constituição Federal
brasileira no tocante as polícias militares e civis são
realmente o que na praxe ocorre no dia a dia destas
polícias?

36
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

• Qual a diferença entre prisão pena e prisão


cautelar?
• Ao se privar os cidadãos da sua liberdade de
forma cautelar, estes não tem o direito da preservação
das suas identidades até o transito em julgado da sen-
tença, para reguarda-los em casos de injustiças?

37
Polícia Militar, A Força do Estado, O Poder
Desta Que Não Emana Do Povo, Contra Ele
Se Volta, Pela Força Do Poder do Estado.

”Constituição Federal – CRFB – 1988


Título III
Da Organização do Estado
Capítulo VII
Da Administração Pública
Seção III

Seção III
Dos Militares dos Estados, do Distrito Federal e dos
Territórios

(Alterado pela EC-000.018-1998)

Art. 42 – Os membros das Polícias Militares e Cor-


pos de Bombeiros Militares, instituições organizadas
com base na hierarquia  e disciplina, são militares dos
Estados, do Distrito Federal e dos Territórios. (Altera-
do pela EC-000.018-1998)...

...§ 1º – Aplicam-se aos militares dos Estados, do Dis-


trito Federal e dos Territórios, além do que vier a ser fixa-
do em lei, as disposições do Art. 14,  §  8º; do Art. 40, § 9º;
e do Art. 142, §§ 2º e 3º, cabendo a lei estadual específica 
dispor sobre as matérias do Art. 142, § 3º, inciso X, sendo

39
Sérgio Cerqueira Borges

as patentes dos oficiais conferidas pelos respectivos go-


vernadores. (Alterado pela EC-000.020-1998)...”.

São militares do Estado, do Governo, do Poder;


agora o governante está a serviço de quem? É o que
fará a diferença a quem estas servirão como força mi-
litar. Como se observa no artigo da CRFB antes citado
e veremos a seguir, a PM não foi criada para servir a
sociedade diretamente haja vista sua gênese, mas sim
ao Império, aos Monarcas da Corte Portuguesa, ser-
vir ao Poder e quem nele estiverem situados e, nada
ou pouco mudou nestes pouco mais de duzentos anos
naquilo que concerne à servidão. Mais da metade da
população eram de escravos, isto denota a verdadeira
intenção da jazia colonização, senão a exploração das
riquezas; está pacífico por parte dos historiadores este
entendimento; o que ressalto é, culturalmente o senti-
mento cívico, patriótico, não era até então o estímulo
cujo movia aquela população; não era um povo, mas
apenas uma população de exploradores; entretanto,
tal qual a colônia norte americana, os agora habitan-
tes destes “novos mundos” em determinados períodos
distintos resolvem romper com os colonizadores, toda-
via devemos nos ater a colonização norte americana a
título de compararmos à brasileira para fazer certas
distinções. Estes da América do Norte exploravam as
riquezas das treze colônias sem “predá-las”, embora
as explorassem abusivamente do ponto de vista fiscal,
o objetivo era de ampliação territorial; bom é dizer,
devido aos tributos cujos tinham que pagar excessiva-
mente para manter um regime que não era mais as-
piração de parte dos norte americanos; foi o estopim
da revolta e cisão; sua própria história de luta pela in-
dependência fundamentou de forma latente o civismo

40
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

daquele Povo, o seu patriotismo evidente na sua pró-


pria cultura contemporânea e expositiva. O Brasil só
queria mesmo explorar “predatoriamente” as rique-
zas, nunca de fato em primeiro plano desejou ampliar
as terras portuguesas no plano original, os objetivos
de Portugal eram outros; então o Príncipe da coroa
portuguesa, pressionado pelos agora nativos e descen-
dentes portugueses, resolvem romper com a Corte eu-
ropeia portuguesa, proporcionalmente de um conflito
muito menor que a dissensão Norte Americana; lá nas
bandas do Norte até os escravos, e, então não mais es-
cravos; mesmo estando o racismo perdurado depois;
conquistaram suas liberdades e soberania; aqui o
rompimento manteve a desumana escravidão; o sen-
timento patriótico nem se compara com o Norte Ame-
ricano; de fato a história mais profunda revela-nos
que os homens públicos, como magistrados, e demais
administradores da Coroa portuguesa eram em regra
corruptos banidos para o Brasil; ou seja, corrupção
era uma cultura embrionária em nossos pais que per-
siste “matusalenicamente”; e os agora brasileiros sú-
ditos de Pedro (monarca Dom Pedro II), cingiram suas
práticas da mesma forma cujos portugueses perpetra-
vam, persistiram explorando apenas as riquezas que
podiam abocar, com a opressão e exploração da mão
de obra dos negros escravos, ao deleite das elites; esta
prática culturalmente exercida no nosso atual século
não mudou, apenas, os escravos são outros e não tão-
somente os negros, os exploradores agora são outros
pertencentes a uma elite hipócrita demagoga, voraz-
mente ambiciosa; as senzalas agora tão-só estão maio-
res, conhecidas como favelas, comunidades carentes
ou periferia. Então pelos mesmos motivos que a Coroa
portuguesa apresentava uma necessidade em conser-

41
Sérgio Cerqueira Borges

var uma força militar sob seu domínio para manter a


“ordem pública” no interesse de quem governa; sem,
além disso, interessassem em progresso, apenas os pes-
soais; em que este “status quo”; Mauá que o diga! Fos-
se mantido; hoje em tempos contemporâneos as forças
militares estaduais tem a mesma serventia na forma
Legal do binômio Polícia Militar, e é esta o seu real
pretexto de existência até hoje, se não qual a razão da
persistência de duas Polícias, uma Civil e outra Mili-
tar com funções especificadas na Carta Magna, mas
no dia a dia no tocante as operacionalidades fazem a
mesma coisa?

42
A Guarda Real de Polícia

No início do século XIX, como consequência da cam-


panha Napoleônica de conquista do continente europeu, a
Família Real portuguesa, juntamente com sua corte, de-
cidem se mudar para o Brasil. Aqui chegando, a Corte
instalou-se na cidade do Rio de Janeiro iniciando a reor-
ganização do Estado no dia 11 de março de 1808, com a
nomeação de ministros.
A segurança pública, na época, era executada pelos
chamados “quadrilheiros”, grupo formado pelo reino
português para patrulhar as cidades e vilas daquele país, e
que foi estendido ao Brasil colonial. Eles eram responsá-
veis pelo policiamento das 75 ruas e alamedas da cidade
do Rio. Com a chegada dessa “nova população”, os qua-
drilheiros não eram mais suficientes para fazer a proteção
da Corte, então com cerca de 60.000 pessoas, sendo mais
da metade escravos (A natureza jurídica dos escravos
era de serem objetos de propriedades de outros huma-
nos).
Em 13 de maio de 1809, dia do aniversário do Príncipe
Regente, D. João VI criou a Divisão Militar da Guar-
da Real da Polícia da Corte (DMGRP). A DMGRP ini-
cialmente foi formada por 218 guardas e eram compostas
por um Estado-Maior, três companhias de Infantaria e
uma companhia de Cavalaria. Seu primeiro comandante
foi José Maria Rebello de Andrade Vasconcellos e Souza,
ex-capitão da Guarda portuguesa. O mais famoso dos seus
comandantes, porém, foi o terceiro: um brasileiro nato, o
major de Milícias Miguel Nunes Vidigal, que inclusive é

43
Sérgio Cerqueira Borges

citado no livro “Memórias de um Sargento de Milícias”.


A DMGRP usava armas e trajes idênticos aos da Guarda
Real da Polícia de Lisboa. A Guarda Real de Polícia de
Lisboa (força policial-militar criada pelo príncipe regente
D. João em dezembro de 1801) era inspirada na Gendar-
merie Nationale francesa.
A Guarda Real de Polícia, como ficou primeiramen-
te conhecida a PMERJ de hoje, teve participação decisi-
va em momentos importantes da história brasileira como,
por exemplo, na Independência do país. Em 25 de abril
de 1821, quando D. João VI é forçado a retornar para Por-
tugal. Porém, seu filho, o príncipe D. Pedro, permanece
no Brasil. As Cortes de Lisboa, que haviam obrigado o re-
torno de D. João VI, determinam o imediato retorno de D.
Pedro para Portugal. As elites brasileiras, ante isto, pro-
movem um abaixo assinado, cujo movimento entra para
a história como Dia do Fico: em nove de janeiro de 1822,
a população é conclamada a dirigir-se a uma residência
no centro do Rio de Janeiro e assinar um manifesto pela
permanência de D. Pedro. Ante tal ato, o brigadeiro Jor-
ge Avilez, comandante da Divisão Auxiliadora, força de
ocupação portuguesa, determina que integrantes daquela
força impeçam a realização do ato. Em represália, Miguel
Nunes Vidigal determina que as tropas da Guarda Real da
Polícia garantam o abaixo assinado e depois escoltem o
manifesto até o Paço, para ser entregue ao Príncipe D. Pe-
dro. Ao receber o manifesto, D. Pedro comovido anuncia
a sua permanência no Brasil.
A represália vem no dia seguinte, com a rebelião da
Divisão Auxiliadora. Esta força ocupa o Morro do Cas-
telo e ameaça bombardear a cidade, caso D. Pedro não
embarque imediatamente para Portugal. A reação se faz
imediata: sob o comando do brigadeiro Xavier Curado,
tropas fiéis ao príncipe e alinhadas com o desejo de

44
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

independência, incluindo aí a GRP, reforçadas com


populares armados, cercam a Divisão Auxiliadora.
Inferiorizado em homens e munições e com pouca água,
Avilez se rende, sendo ele e a sua tropa expulsa do país.
Tem início as articulações políticas para tornar o Brasil um
país independente, que produzem o seu resultado em 7 de
setembro de 1822. A corporação, por aclamação popular,
passa a se chamar de Guarda Imperial de Polícia, sen-
do, porém negado a mesma a dignidade de ostentar o pa-
vilhão imperial, ao que esta vai perdendo o prestígio que
tivera nos tempos de D. João VI.
Em 13 de julho de 1831, um levante de duas compa-
nhias da Corporação, em conjunto com o 26º Batalhão de
Caçadores do Exército Imperial, traz grandes transtornos
à ordem pública e se transforma numa séria ameaça po-
lítica. Quatro dias depois, a Corporação é extinta, sendo
recriada em 10 de outubro do mesmo ano, com o nome
de  Corpo de Guardas Municipais Permanentes ante
a constatação de que a instituição era indispensável à
sociedade (mas a serviço do Poder). Em 1832, assume
o Comando da Corporação o recém-promovido Tenente
Coronel Luís Alves de Lima e Silva, o futuro Duque de
Caxias. É o primeiro comando militar do futuro Patro-
no do Exército. Durante sete anos – até 20 de dezembro
de1839, Caxias irá participar de diversas campanhas de
repressão a rebeliões empregando os “Permanentes”:
Relião de Miguel de Frias 1– nesta Caxias se junta aos
“Permanentes” voluntariamente, para logo após se tornar
o seu primeiro subcomandante – e ainda: a intentona do
Barão de Büllow, em 1832, a pacificação de Santa Cata-
rina, em 1837, a ocupação da região de Paty do Alferes,
quando da Rebelião de Manoel Congo, em 1838 – que
marca a primeira vez em que forças policiais militares
da capital imperial e da província do Rio de Janeiro

45
Sérgio Cerqueira Borges

atuaram em conjunto – e até da Revolta dos Farrapos, em


1839. Em 1842, ambas as instituições voltarão a lutar jun-
tas sob o comando de Caxias, compondo as tropas Impe-
riais que reprimem as Rebeliões Liberais de 1842 em São
Paulo e Minas Gerais, onde o Corpo Municipal Perma-
nente da Corte se destaca pela bravura, sendo condecora-
do com a Bandeira Imperial pelo Imperador D. Pedro II.

46
A Guarda Policial da Província
fluminense

Com a criação do Município Neutro da Corte (atual


área do município do Rio de Janeiro) por meio do Ato
Adicional de 12 de agosto de 1834, foi criada, em 14 de
abril do ano seguinte, na província, outra força policial
denominada  Guarda Policial da Província do Rio de
Janeiro, por meio da lei provincial nº 16, promul-
gada pelo então presidente Dr. Joaquim José Ro-
drigues Torres com sede na cidade de Niterói (então
capital fluminense), responsável pela área atual do inte-
rior e da baixada do atual Estado do Rio, que recebeu a
alcunha de “Treme-Terra”, uma alusão à força e a co-
ragem demonstrada pelos membros daquela Corporação.
Seu primeiro comandante foi o Capitão João Nepomuce-
no Castrioto Por diversas vezes encontrou-se em combate
lado-a-lado com sua coirmã do Município da Corte, com
a qual, anos mais tarde, viria formar a atual PMERJ, como
nas  Revoltas Liberais de 1842, quando combateu nas
províncias de Minas Gerais e São Paulo e contenção de
revoltas de escravos entre outras insurreições armadas
Brasil afora.

47
A Guerra do Paraguai

(O Paraguai perdeu metade de seu território e con-


viveu com milhares de mortos).

Outro fato histórico que teve participação importan-


te da Polícia Militar fluminense foi o conflito iniciado
em 1865 contra o Paraguai. O Brasil formou com Uru-
guai e a Argentina a chamada Tríplice Aliança.
Na época, como o país não dispunha de um contin-
gente militar suficiente para combater os cerca de 80 mil
soldados paraguaios, o governo imperial se viu forçado,
então, a criar os chamados “Corpos de Voluntários da Pá-
tria”. Em 10 de julho daquele ano, partiram 510 oficiais
e praças do Quartel dos Barbonos da Corte, local onde
hoje está o situado Quartel General da Polícia Militar
(O mesmo cujo queriam vender em 2013). A este grupo
foi dado o nome de “31º Corpo de Voluntários da Pátria”.
Neste contexto surge o mascote da Corporação: o cão
Bruto. Este animal era um cão de rua, que certo dia aden-
trou no Quartel dos Barbonos e virou mascote da tropa.
Quando toda a Infantaria do Corpo seguiu para a Guerra
do Paraguai, Bruto seguiu a tropa e embarcou junto com
eles. Participou ativamente dos combates, e apesar de fe-
rido, retornou com a tropa. Morreu no Rio de Janeiro, en-
venenado. Os praças da Corporação mandaram empalhar
o seu corpo que está em exposição no Museu da Corpora-
ção, no Centro do Rio de Janeiro.
A parte da polícia que cuidava da então província do
Rio de Janeiro, a exemplo do que aconteceu na Corte,

49
Sérgio Cerqueira Borges

também enviou contingente de 510 homens à Guerra do


Paraguai, sob a designação de “12º Corpo de Voluntários
da Pátria”, sob o comando do Tenente-Coronel João José
de Brito, a qual partiu para o teatro de operações em 18
de fevereiro de 1865. Os feitos heroicos deste corpo de
voluntários chegaram ao ponto do governo argentino ter
criado uma medalha em sua homenagem, cuja utilização
foi permitida pelo aviso nº 542 do Exército brasileiro,
em 4 de abril de 1867. Inobstante isto, o 12º CVP foi dizi-
mado na guerra, sendo os seus sobreviventes empregados
– juntamente com integrantes de outros Corpos de Volun-
tários – para compor o 44º CVP. Este Corpo de Voluntá-
rios, sob o Comando do então Major Floriano Peixoto, em
heroica carga, capturou uma bateria de canhões inimigos.
A participação dos CVPs foi de grande importância
em todas as batalhas das quais tomou parte: Tuiuti, Curu-
paiti,  Humaitá,  Estero Bellaco,  Estabelecimento, Suru-
bií,  Lomas Valentinas, Itapiru, Angostura, Avaí e Cerro
Corá.

50
A República

Durante a proclamação da República, em 15 de no-


vembro de 1889, a PM foi a única Corporação policial a
se fazer presente naquele momento, com suas tropas esta-
cionadas no Campo de Santana, onde ficava a residência
do monarca Dom Pedro II. Naquele momento histórico,
assumiu a chefia do governo fluminense Francisco Vítor
da Fonseca e Silva, então comandante do Corpo Policial
da Província, sendo o primeiro governante republicano do
estado do Rio.
Nas décadas seguintes, a PM viu-se envolvida, seja
por ser a força policial da capital federal ou de um dos
principais estados brasileiros, nos diversos aos conflitos
políticos e sociais estaduais que apareceram pelo país,
onde foi empregada, sozinha ou como corpo auxiliar do
Exército. Nesse contexto entram as Revoltas da Armada e
da  Vacina, a Revolução de 1930, Constitucionalista de
1932, entre outros movimentos.
Em  1942, com o estado de guerra entre o Brasil e
a Alemanha, o governo brasileiro se prepara para enviar
à Europa uma Divisão de Infantaria Expedicionária. No
afã de recompor seus quadros, o Exército recebe praças
graduados da PMDF para recompor suas unidades que
estavam com efetivo de paz (somente 1/3 do efetivo).
Entre os policiais militares que são transferidos para a
FEB, está o 3º Sargento Max Wolff Filho, que vem a fale-
cer em combate na Itália, já como 2º Sargento.
Em 1960, a capital do país foi transferida para Brasí-
lia e a cidade do Rio de Janeiro, antigo Distrito Federal,

51
Sérgio Cerqueira Borges

passou a ter o nome de estado da Guanabara. A institui-


ção, que naquela cidade era denominada Polícia Militar
do Distrito Federal, passou a ser chamada Polícia Militar
do Estado da Guanabara (PMEG)9.

9 História da Polícia Militar do Distrito Federal Vol I (1809 a 1889)


História da Polícia Militar do Distrito Federal Vol II (1890 a 1919)
História da Polícia Militar do Distrito Federal Vol III (1920 a 1930)

52
MAS DEZ ANOS ANTES,
INTEXTUALIZANDO:
Os homens de boa vontade (Não deve confundir com
as atuais milícias paramilitares).

O Rio de Janeiro dos anos 50 era bem menos turbu-


lento. Disso ninguém duvida. Mas a cidade estava longe
de ser um mar de paz e tranquilidade: o trânsito já era
caótico, as ruas esburacadas e os casos de violência se
multiplicavam. O Rio, como diziam os jornais, “estava
infestado de facínoras”.

53
Sérgio Cerqueira Borges

Na extinta Favela do Esqueleto, no Maracanã, um gru-


po de lideranças locais decidiu juntar forças para acabar
com a ação de marginais na comunidade. Na lenda, fica-
ram conhecidos como os homens de boa vontade. Eles
chegaram, inclusive, a planejar uma lição para Cara de
Cavalo, um dos bandidos mais famosos dos anos 50, que
havia roubado 800 cruzeiros de uma senhora de idade na
favela.

O jornalista Zuenir Ventura tratou do assunto em seu


livro Cidade Partida: “O plano era pegar o pivete, ras-
par-lhe a cabeça com máquina zero, empurrar-lhe goela
abaixo uma dose dupla de óleo de rícino e amarrá-lo a um
poste durante algumas horas com um cartaz pregado no
peito: Este é o ladrão”. Avisado por um olheiro, Cara de
Cavalo nunca mais voltou.

Ex-morador do Esqueleto e amigo de infância de Cara


de Cavalo, o aposentado Dilmo Emídio, de 60 anos, con-
firma a atuação dos “grupos de correção” na comunidade.
Segundo ele, um dos moradores mais atuantes no com-
bate à violência era Antônio Emídio – apesar do nome,
Dilmo garante não haver parentesco entre eles.

“Antônio organizava os bailes e era uma liderança im-


portante na favela. Queria o melhor para os moradores e
não suportava assaltos na comunidade. Ele tinha um re-
vólver 44 e às vezes usava a arma para colocar os bandi-
dos para correr”, lembra Dilmo, que após a destruição do
Esqueleto se mudou para a vizinha Mangueira. “O proble-
ma é que alguns marginais expulsos da favela depois vol-
tavam. Aí sim dava problema. Teve bandido que voltou e
depois morreu”, garante.

54
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

Sobre os homens de boa vontade, Dilmo esclarece:


“Os moradores realmente pensaram em formar esse gru-
po. Mas não passou de uma ideia. O que acontecia eram
ações isoladas. Nada organizado”, explica.

“Bandido bom é bandido morto”.

Na mesma época em que Antônio Emídio ditava as or-


dens na Favela do Esqueleto, a polícia trabalhava duro
para solucionar o caso dos taxistas assassinados em se-
quência por um bando misterioso no subúrbio carioca.
Os acusados ficariam conhecidos depois como quadrilha
“Bandeira 2”.

Também era prioridade para a polícia nos anos 60 ga-


rantir a segurança dos lojistas. Cansados dos constantes
assaltos, diretores da Associação Comercial do Rio de Ja-
neiro se reuniram com o chefe de polícia do Distrito Fede-
ral, general Amauri Kruel, para cobrar medidas urgentes
contra a violência.

55
Sérgio Cerqueira Borges

Protagonista de um dos maiores escândalos da história


do Rio de Janeiro, ao ser acusado de envolvimento com o
jogo do bicho, prostituição, drogas, cassinos e até clínicas
de aborto, Amauri Kruel prometeu soluções imediatas. Se
fosse necessário, “o extermínio puro e simples dos mal-
feitores”.

E assim foi feito. Como chefe de polícia do Distrito


Federal – e com poderes que na época equivaliam quase
ao de um ministro – o general Kruel ordenou a criação
imediata de uma organização de combate aos marginais
chamada de Serviço de Diligências Especiais (SDE). O
órgão teria carta branca para caçar os marginais onde quer
que eles estivessem.

Na prática, os policiais ganharam autonomia para in-


vestigar, julgar e condenar os supostos criminosos. Em
outras palavras: a polícia praticamente instaurava a pena
de morte no Estado do Rio. A medida ganhou aval de po-
líticos, comerciantes e de alguns setores da população ci-
vil, além de grande parte da imprensa. Mas o pior ainda
estava por vir.

Logo após a criação do SDE, o secretário de Seguran-


ça, Luís França, escolheu doze policiais da sua força de
elite para definitivamente “limpar” a cidade. O grupo fi-
caria conhecido como “Os Homens de Ouro”. Guilherme
Godinho Ferreira, o Sivuca, deputado conhecido até hoje
pelo bordão ‘bandido bom é bandido morto’, foi um dos
primeiros integrantes selecionados. Segundo o próprio Si-
vuca, “o grupo foi criado para acalmar a imprensa e dar
satisfação à sociedade”.

56
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

Em Cidade Partida, Zuenir Ventura descreve assim a


atuação do grupo: “Esses Homens de Ouro ou Turma da
Pesada, também conhecidos como Esquadrão da Morte,
subiriam morros, invadiriam barracos e desentocariam as-
saltantes, caçando-os como ratos”.

Mais da metade dos ‘Homens de Ouro’ vinha da te-


mida Polícia Especial, criada por Getúlio Vargas, durante
o Estado Novo. “Como todo grupo que tem força, co-
metemos excessos”, admitiu Sivuca anos depois. Três
décadas após a extinção da força de elite, o deputado ain-
da se vangloria dos métodos usados pelo grupo. “Depois
de três meses de trabalho, passamos cinco anos sem
ter um taxista morto. Mortos foram os bandidos. Se rea-
giam, era bala neles, mas não sou imbecil de dizer em
público que matei tantos ou quantos”, disse Sivuca, em
entrevista recente.

Heróis (...)

Muitos bandidos famosos dos anos 50 e 60 foram


mortos em suas próprias comunidades. Zé Pretinho, por
exemplo, foi assassinado na porta de seu barraco, no
Morro dos Macacos, na Tijuca. Bidá morreu no Morro
do Querosene, no Catumbi, e Passo Errado, no Tuiuti, em
São Cristovão.

No dia 5 de maio de 1968, na Barra da Tijuca, foi


encontrado o corpo de um homem negro, com as mãos
amarradas, o corpo retalhado por faca e queimado com
pontas de cigarro. Ao seu lado, um cartaz com uma cavei-
ra e duas tíbias cruzadas e a frase: “Eu era um ladrão de
automóvel”. Apesar dos traços claros de tortura e nenhum
sinal de resistência, grande parte dos jornais cariocas con-

57
Sérgio Cerqueira Borges

tinuavam a tratar os policiais como heróis e a defender a


atuação dos grupos de extermínio.

Segundo pesquisa da Marplan, divulgada na Revista


Veja, em 1970, 60% dos paulistas e 33% dos cariocas es-
tavam a favor do Esquadrão da Morte. Dos que apoiavam
as ações da polícia, mais da metade considerava os ele-
mentos mortos irrecuperáveis. O próprio governador de
São Paulo, Abreu Sodré, chegou a declarar, durante entre-
vista na antiga TV Tupi, que o Esquadrão da Morte não
existia. “Isto é invenção (...) o que existe aqui existe em
qualquer lugar do mundo: a polícia precisa se defender
para que nós não morramos nas mãos dos marginais. Por-
que na hora que a polícia não fizer isto, os marginais en-
tram nas nossas casas para violentar nossos lares”, disse.

O medo da classe média com a onda de crimes e as-


sassinatos serviu como justificativa para a criação dos
grupos de extermínio nos anos 50. Mas aos poucos a
sociedade foi também se dando conta de que por trás do
Esquadrão da Morte (que assumiria ainda várias facetas,
como Turma da Pesada, Invernada de Olaria e Scuderie
Le-Cocq), na verdade, se escondiam policiais civis e mi-
litares. A maioria ligada ao tráfico de drogas e ao jogo
do bicho. Nos anos 70, foi finalmente criada a Comissão
Especial de Combate ao Esquadrão da Morte... (texto –
Marcelo Monteiro).

58
Excertos de uma promiscuidade
antiga

Tem tradição no Brasil certo deslumbramento da mí-


dia com ações policiais violentas, desde que em territórios
habitados por pobres. Vem de longe a relação promíscua
da imprensa brasileira com a polícia, que até por motivos
operacionais era praticamente a única fonte de informa-
ção dos repórteres – não por acaso chamados “de polí-
cia”, denominação que desagradava tanto um deles, Jorge
Antônio Barros, que o levou a criar, em 2005, um blogger
chamado “Repórter de Crime”.

E não se suponha que a troca de figurinhas se dava


apenas entre policiais e jornalistas reacionários, ligados
ao poder, sobretudo durante a ditadura (em 1968 conheci
alguns, do O Globo, do O Dia, da falecida A Notícia, que
andavam armados e entravam na Secretaria de Segurança
Pública com a mesma desenvoltura com que o faziam nos
jornais onde trabalhavam; como se um fosse extensão da
outra). Não, a fascinação por relatos policiais contamina-
va igualmente gente que fazia oposição ao regime.

Como na longa entrevista feita na segunda metade dos


anos 1970 pelo saudoso Octávio Ribeiro, o “Pena Bran-
ca”, e pelo cartunista Jaguar, com Sivuca, assim apresen-
tado pelo primeiro: “José Guilherme Godinho Ferreira,
uma massa de músculos de 1,90m e muitos quilômetros
de valentia (....), um ‘cana dura’, estimado pelos colegas
novatos e veteranos da polícia carioca, superestimado

59
Sérgio Cerqueira Borges

pelos bandidos, que sempre evitam atuar em sua jurisdi-


ção: Madureira e adjacências.” A entrevista faz parte do
livro Barra pesada, publicado em 1977 pela Codecri, a
editora do Pasquim...

... Na década de 1970, foi apontado como um dos fun-


dadores da Scuderie Le Cocq, um grupo de detetives da
Polícia Civil dos mais temidos pela criminalidade do Rio
de Janeiro, por sua atuação violenta e por suas ligações
políticas...

A Scuderie Le Cocq foi criada na década de 1960 para


“vingar” o assassinato do detetive Milton Le Cocq de Oli-
veira pelo bandido Manuel Moreira, o Cara de Cavalo.
Usava as iniciais “E.M.” em seu brasão, que os associa-
dos podiam colar, sob a forma de adesivo, no para-brisa
do carro. Achavam que essa insígnia afugentavam assal-
tantes ou ladrões de automóveis. Segundo Sivuca, a abre-
viatura não significava Esquadrão da Morte, e sim “Es-
quadrão dos Motociclistas”, que ele e Le Cocq haviam
sido na Polícia Especial, criada durante o Estado Novo.
Mas em cartazes deixados em locais de “desova”, como
ilustra foto no livro, a sigla aparece embaixo de uma ca-
veira com as tíbias cruzadas.

Sivuca descreve assim o grupo, na ocasião da entre-


vista:

“A Scuderie Le Cocq tá tranquila, muito bem organi-


zada. Existem cerca de 2.500 sócios, entre eles policiais,
jornalistas, médicos, advogados, militares e outros pro-
fissionais liberais. A Scuderie foi criada para perpetuar a
memória de Le Cocq. O presidente era o Euclides Nas-

60
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

cimento e o jornalista David Nasser são o presidente de


honra. “Ele era muito amigo de Le Cocq.”

Convém lembrar que os esquadrões da morte se espa-


lharam por vários estados e se ligaram a atividades como
proteção a bicheiros e traficantes, roubo de carros, falsi-
ficação de documentos e venda de armas. Participaram,
também, da repressão política durante a ditadura, espe-
cialmente em São Paulo. Geraram, no Rio de Janeiro, as
atuais milícias.
Eliminação...

Os entrevistadores questionam em alguns momentos


os métodos da polícia, mas o tom geral é amistoso. Oc-
távio Ribeiro e Jaguar mostram-se mais interessados em
extrair do interlocutor histórias espetaculosas, e também
informações relevantes, como nas seguintes passagens,
ilustrativas de um padrão de selvageria que é antiga mar-
ca registrada da polícia na cidade e no estado do Rio de
Janeiro:

Octávio ‒ Qual foi o primeiro bandido que você matou


num tiroteio?

Sivuca ‒ Não posso determinar quem matou o primei-


ro bandido num tiroteio. Nosso grupo se defendia a todo
vapor. Todo mundo atirava.

Em outra passagem:

“Sivuca ‒ Pior. Quebramos o pau no Estado do Rio [o


antigo, anterior à fusão com a então Guanabara, ocorrida
em 1975]. Matamos os marginais que resistiram e prende-
mos os que esconderam Cara de Cavalo.”

61
Sérgio Cerqueira Borges

... pancadaria e...

O entrevistado menciona também pancadas que distri-


buía. Relata o caso de um bandido que o enganou e co-
moveu fazendo-se passar por trabalhador e pai de família:
“Apanhou porque mexeu com o que há de mais puro, que
são os meus sentimentos”.

...tortura...

A tortura não é omitida.

“Sivuca ‒ [....] Colocamos dois marginais no xadrez,


o outro foi pro setor de Roubos e Furtos. Ficou pelado
durante o interrogatório. Le Cocq achava muito importan-
te tirar a roupa do assaltante. Motivo: abate moralmente,
torna-o uma presa mais fácil através de um interrogatório
razoável.

Octávio ‒ Diga o grau de um interrogatório razoável.

Sivuca ‒ É razoável porque não temos uma polícia


científica, temos uma polícia empírica. O interrogatório
razoável é aquele em que você não utiliza meios científi-
cos. Tratando-se de marginais, de vez em quando tem que
dar um cascudo que é pra ele se lembrar de que não tá sen-
do tratado como uma pessoa decente. Tem que haver uma
distinção entre o interrogatório de um trabalhador e o de
um assaltante. Se os dois forem feitos da mesma maneira
nós estaremos sendo injustos com o trabalhador. Esta é a
razão por que, em algumas ocasiões, o marginal necessita
de levar uns cascudos.

62
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

Octávio ‒ E o  pau-de-arara, Sivuca? É razoável ou


científico?

Sivuca ‒ Você não sabe, irmãozinho? Eu conto. É um


pau mais ou menos deste tamanho (abre os braços). E aí...
uma arara fica andando pra cá e pra lá em cima do pau.
(Imita com dois dedos o movimento de duas perninhas de
arara.) É por isso que chama de pau-de-arara.

Jaguar ‒ Então tá. Continua a história do crioulo nu e


cheirando a barata.

“Interrogatório científico”

Outra passagem sobre tortura:

“Jaguar ‒ Como descobriram que foi Tião Medonho o


autor do assalto ao Trem Pagador?

Sivuca ‒ O delegado Amil Ney Rachid, do Estado do


Rio, levantou que um sujeito chamado Miguel Gordinho
tava envolvido no assalto. Este delegado pediu a cola-
boração de Perpétuo [delegado da polícia carioca], que
manjava muito o Morro da Mangueira. Ele prendeu o Mi-
guel Gordinho na Mangueira. Foi levado pro Alto da Boa
Vista, com o coronel Ardovino [Barbosa, depois deputado
estadual; era ligado a Carlos Lacerda]. O sujeito foi sub-
metido a um interrogatório científico.

Octávio ‒ Como é essa ciência?

Sivuca ‒ Interrogatório científico é um eufemismo, en-


tendem? É apenas uma gíria policial. Deixo a critério da

63
Sérgio Cerqueira Borges

cada um. Cada um interpreta como quiser, entendem? Foi


assim que se iniciou o levantamento do caso.

Octávio ‒ Desculpe a insistência. Não vai ‘sinvucar’


[corruptela que deu origem ao apelido do delegado]. Mas
esse tal interrogatório científico tem alguma coisa a ver
com choque elétrico?

Sivuca ‒ Isto não sei. Que eu saiba o choque elétrico é


usado no hospício. [....]”

“cemitério” do Rio Guandu”

Octávio ‒ Falando em Rio Guandu, quem matou quem?

Sivuca ‒ Muita gente matou e morreu. Bandido tom-


bou bandido. Talvez existam maus policiais matando tam-
bém.

Jaguar ‒ O Guandu não é um dos cemitérios do chama-


do ‘Esquadrão da Morte’?

Sivuca ‒ Quando se fala no tal ‘Esquadrão da Morte’,


liga-se logo à polícia. Não concordo. Ninguém pode pro-
var que são realmente policiais que jogam cadáveres de
marginais naquele rio. Desconheço isso, irmãozinho. Sei
apenas que existem grupos de contrabandistas, contraven-
tores e todo tipo de bandido matando por aí. Os mortos
são abandonados no Guandu, entendem? Não trazem le-
treiro com nomes de seus matadores, né?

Jaguar ‒ Os matadores são todos bandidos?

64
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

Sivuca ‒ É fácil matar alguém na Baixada [Fluminen-


se]. Ali impera a violência. Muita gente se locupleta com
a Lei do Cão. Mata e joga no rio. A culpa sempre recai na
polícia...

Octávio ‒ Tá bom, Sivuca. O matador é invisível. O


morto sempre era irrecuperável. A correnteza lava todas
as pistas, né?

Sivuca ‒ É opinião sua, irmãozinho. Cada um na sua.


Não tenho a mínima preocupação. Nunca participei des-
tas mortes. Continuo insistindo: apesar de agora entender
que bandido é recuperável, se ele reagir mando brasa. Isto
é assegurado pelo próprio Código Penal: legítima defe-
sa putativa, estrito cumprimento do dever legal, exercí-
cio regular de direito, estado de necessidade. Sou contra
a matança a sangue-frio. Todo mundo tem direito a uma
defesa.

[....]

Jaguar ‒ O policial Vianinha realmente é matador?

Sivuca ‒ Não sei irmãozinho. Nada tá provado contra


ele. Sempre foi um bom policial.

Jaguar ‒ Quantos bandidos você já matou?

Sivuca ‒ Sozinho, uns dois ou três morreram duelan-


do comigo. Com o grupo de Le Cocq, uns 19 bandidos.
Sempre trocando tiros com eles. Fui absolvido em todos
os inquéritos. Satisfeitos? Não sou o Coelhão, que dis-
se brincando que já tinha jogado mais de 100 mortos no
Guandu.

65
Sérgio Cerqueira Borges

Jaguar ‒ Defina o Coelhão.

Sivuca ‒ Era um policial do antigo Estado do Rio. O


mais ferrenho caçador de bandidos que já conheci. Atira-
va capengando. Tinha um defeito na perna. Seu apelido
era Coelhão Toco-de-Vela. O bandido morria em tiroteio,
ele virava o cadáver de barriga para cima, cruzava os de-
dos do morto e acendia um toco de vela.

Jaguar ‒ Êta ritual macabro, hein?

Sivuca ‒ Coelhão achava que o sujeito morreu, aca-


bou... Deixou de ser bandido.

Octávio ‒ Você afirmou que Coelhão brincou dizendo


que era responsável por mais de 100 mortes no Guandu.
Será que não era verdade?

Sivuca ‒ Não sei. O homem matou adoidado. Mas é


muita cenoura para um só coelho, né? Certa feita, durante
a construção de uma ponte no Guandu, a draga recolheu
cerca de 15 esqueletos, um amarrado ao outro. Coelhão
comentou, rindo: ‘O cacho de uva é de minha autoria. Isso
dá samba’.

Recuperar ou matar?
Uma resposta do então delegado de polícia reitera que
ele mudou de discurso quando, duas décadas depois, apre-
sentou-se sob o slogan “Bandido bom é bandido morto”:

Sivuca ‒ [....] Algumas autoridades se propuseram a


apresentar Cara de Cavalo à Justiça. Não concordamos.
Resolvemos matar aquele bandido.

66
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

Jaguar ‒ Hoje você pensaria assim?

Sivuca ‒ Hoje sou um advogado, estudei muito o Có-


digo Penal e agora acredito na recuperação do bandido.
[....]”

Favela, sempre pobre, sempre visada.

O padrão de miserabilidade das favelas não mudou


muito. No trecho abaixo, os moradores levam objetos da
casa de um assaltante, como fariam, mais de cinquenta
anos depois, no Morro do Alemão:

“Sivuca ‒ [....] Arrombamos seu barraco [de Cara de


Cavalo], jogamos ventilador, rádio, ferro, fogão, o diabo
pela janela. Os moradores apanharam os objetos [....].”

O discurso da remoção ficou superado, mas na época


era fortíssimo:

“Jaguar ‒ O morro é um ninho de marginalidade, cer-


to? Tentaram resolver com soluções como Vila Kennedy.
Como você vê a questão? Tem que acabar com as fave-
las?”

Sivuca ‒ É evidente que temos que acabar com as


favelas. Se não houver urbanização teremos um mal
maior. [....] A favela deve acabar, sim. E ser trans-
formada em grupos habitacionais. “A Vila Kennedy
demonstrou que é um objetivo que pode ser alcança-
do.”... ?????? 2013... Na verdade poderia sim dar cer-
to se houvesse a presença do Estado Social; durante al-
guns anos foi bem sucedida, mas o Estado abandonou
o território, ficou a mercê dos facínoras.

67
Sérgio Cerqueira Borges

A triste sina do Morro do Cruzeiro.

Uma passagem diz respeito ao Morro do Cruzeiro, ob-


jeto da “operação” policial que antecedeu a recente “con-
quista” do Alemão. Mostra que o lugar é reduto de crimi-
nosos há décadas:

Octavio ‒ Depois da morte de Cara de Cavalo, algum


bandido teve peito pra matar alguém do grupo?

Sivuca ‒ Naquela época, os bandidos eram mais atre-


vidos e covardes [sic]. Luís Cabeleira matou Chocolate
[policial] no Estado do Rio. Fazia misérias no Morro do
Cruzeiro, na Penha.

“Safári” contra a ralé


São dignas de menção as legendas de algumas das fo-
tos que ilustram a entrevista. Elas seguem a retórica poli-
cial da época. Só na terceira aparecem reparos aos méto-
dos dos policiais.

Numa, em que aparecem Sivuca, segurando um fuzil,


e outros policiais: “Os caçadores de Cara de Cavalo com
Sivuca guiando o safári”.

Três retratos 3 x 4 feitos na polícia: “Murilão, Micuçu


e Liece de Paula Pinto ‒ três ‘pernas-curtas’ que já parti-
ram para o além”.

Três cadáveres enfileirados. Sobre o primeiro, um car-


taz do esquadrão da morte com a inscrição “Nós íamos
assaltar bancos”: “Segundo a polícia, essa ralé já não in-
comodará ninguém. É a justiça medieval, tempo de bru-
cutu das cavernas”.

68
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

Trapalhões armados

As lambanças policiais são antigas e antológicas.


Como no exemplo a seguir.

“Sivuca ‒ [....] Cercamos a casa [de Cara de Cavalo].


Combinamos que eu entraria pela porta dos fundos e Pau-
lista pela frente.

Jaguar ‒ A imprensa estava presente?

Sivuca ‒ Estava. Os repórteres Amado Ribeiro, Anver


Bilate, um fotógrafo e parece que mais um ou dois jorna-
listas, não me recordo bem. Entramos na casa. Eu e Pau-
lista chegamos juntos na sala. Aí surgiu um imprevisto:
Euclides Nascimento bateu com a coronha da Winchester
na janela, a arma disparou e quase acertou no Guaíba, que
estava atrás. Se Guaíba não é mais baixo que Euclides, a
bala pegaria nele. [....] O tiro assustou todo mundo. Aí a
rapaziada disparou no telhado, nas janelas, nas portas. Pe-
daços de telhas começaram a cair na minha cabeça. Saí da
casa berrando: ‘Tão malucos? Parem de atirar’. Os tiros
cessaram. Paulista entrou novamente na casa e fui atrás
dele. Tropecei num pedaço de telha no momento em que o
bandido atirou em mim. Errou por pouco. Maneco gritou:
‘Cuidado, Sivuca’. Cara de Cavalo ia disparar novamente.
Aí os colegas me salvaram. Pegaram o bandido com uma
rajada de metralhadora. Então todo mundo atirou no ban-
dido. Mais de 100 tiros. Sérgio Rodrigues gritou: ‘Chega.
O homem já tá morto’. Ninguém escutou, ninguém pare-
ceu ouvi-lo. O umbigo do cara ficou colado na parede.”

O bom policial, à moda de Sivuca

69
Sérgio Cerqueira Borges

Para finalizar, o conceito de boa polícia externado por


Sivuca. Entende-se por que, em matéria de (in)segurança
pública, as coisas só fizeram piorar nas décadas seguintes.
Com a colaboração da mídia.

“Octávio ‒ Você acha boa a polícia brasileira?

Sivuca ‒ Acho a polícia brasileira altamente capaz,


dada a sua capacidade de improvisação, de inventiva,
e principalmente um estímulo interior que talvez vocês
denominem como vaidade. O policial brasileiro gosta de
aparecer. Indiscutivelmente, não dispomos dos recursos
do FBI ou da Scotland Yard. Mas dentro das nossas limi-
tações alcançamos êxitos excepcionais. [....]

Jaguar ‒ Defina um bom e um mau policial.

Sivuca ‒ O bom policial é aquele que, embora contra-


riando alguma orientação superior, procura fazer o ser-
viço de modo a satisfazer a sociedade que serve o bairro
onde tá lotado. [....] O mau policial é aquele que nunca
é processado. É o que não opera, vem à delegacia e fica
sentado. Atende a todos com um sorriso, não resolve caso
de ninguém. Em sua ficha não tem elogios. Também não
tem punição. É um inútil. [....]10”

10 (Observatoriodaimprensa.com.br / Por Mauro Malin em 14/12/2010 na


edição 620)

70
A República, Platão.

Em A República, Platão idealiza uma cidade, na qual


dirigentes e guardiães representam a encarnação da pura
racionalidade.  Neles encontra discípulos dóceis, capazes
de compreender todas as renúncias que a razão lhes im-
põe, mesmo quando duras.  O egoísmo está superado e
as paixões, controladas. Os interesses pessoais se casam
com os da totalidade social, e o príncipe filósofo é a tipi-
ficação perfeita do demiurgo terreno.  Apesar de tudo isso
e desse ideal de Bem comum, Platão parece reconhecer o
caráter utópico desse projeto político, no final do livro IX
de A República.

Tendo em vista esse ideal, o trabalho manual continua-


va não valorizado no âmbito da cidade-estado.  A clas-
se dos trabalhadores não era classe cidadã, pois não lhes
sobrava tempo para a contemplação teórica da verdade
e para a práxis política.  Para Platão, o ideal humano se
realizava na figura do cidadão filósofo, livre das incum-
bências da sobrevivência, constituindo um ideal altamen-
te elitista.

Para além de todas as utopias da sua república ideal, da


figura dos reis filósofos, devemos apreciar o ideal ético de
Estado e o esforço de Platão para desvendar os vínculos
que ligam os destinos das pessoas ao destino da cidade.

71
Sérgio Cerqueira Borges

A República  começa com um sofista, Trasímaco, de-


clarando que a força é um direito, e que a justiça é o
interesse do mais forte. As formas de governo fazem
leis visando seus interesses, e determinam assim o que
é justo, punindo como injusto aquele que transgredir
suas regras. Para responder a pergunta “Como seria uma
cidade justa?”, Sócrates começa a dialogar, principalmen-
te com Gláucon e Adimanto. Platão salienta que a justiça
é uma relação entre indivíduos, e depende da organização
social. Mais tarde fala que justiça é fazer aquilo que nos
compete, de acordo com a nossa função. A justiça seria
simples se os homens fossem simples. Os homens vive-
riam produzindo de acordo com as suas necessidades,
trabalhando muito e sendo vegetarianos, tudo sem luxo.
Para implantar seu sistema de governo, Platão imagina
que se deve começar da estaca zero. O primeiro passo se-
ria tirar os filhos das suas mães. Platão repudiava o modo
de vida com a promiscuidade social, ganância, a mente
que a riqueza, o luxo e os excessos moldam, típicos dos
homens ricos de Atenas. Nunca se contentavam com o
que tinham, e desejavam as coisas dos terceiros. Assim
resultava a invasão de um grupo para o outro e vinha a
guerra. (A República, de Platão)

A intervenção de Sócrates é sábia: governar é estar


a serviço dos governados, como um médico curando
os doentes. A justiça é superior à injustiça e é prefe-
rível sofrer a injustiça a praticá-la. Onde se pratica a
injustiça, aí está à desunião e a discórdia. Onde houver
justiça, aí está à felicidade.

72
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

RETORNANDO AO CONTEXTO HISTÓRICO:

73
Fusão dos Estados do Rio e da
Guanabara

No restante do estado, a corporação ganhou o nome


de Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro já no ano
de 1920, porém com o acrônimo PMRJ. Em 1974, o Go-
verno Federal decide reunir os dois estados através da Lei
Complementar nº 20, que determinava a fusão do Rio de
Janeiro e da Guanabara em 15 de março de 1975. Ainda
segundo essa lei, a nova unidade da federação receberia
o nome de Estado do Rio de Janeiro e, consequentemen-
te, fundir-se-iam as duas Corporações policiais-militares.
Surgiu então a corporação assim como a conhecemos
hoje, com seu Quartel-General no antigo Quartel dos
“Barbonos”, no Centro da cidade do Rio de Janeiro.
Na década de 1980 (1993, primeiro governo Brizola),
assume o comando da Corporação o coronel Carlos Mag-
no Nazareth Cerqueira, oficial culto, negro e professor
defensor dos Direitos Humanos. Ele esboça a primeira
tentativa de mudança dos paradigmas operacionais da Po-
lícia Militar, buscando conduzi-la para uma visão mais
democrática, apagando a formação de força repressora
com que fora caracterizada ao longo de dois governos de
exceção: o “Estado Novo” e os “Anos de Chumbo”. Gra-
ças aos esforços do coronel PM Cerqueira, doutrinas e
programas que hoje são corriqueiros, como o PROERD e
a filosofia de Policiamento Comunitário, tornam-se lugar
presente na PMERJ e espalham-se para outras Polícias
Militares. (Uma incongruência com a maneira de agir da
PM)

75
Sérgio Cerqueira Borges

Em toda sua história, a PMERJ já teve cinco diferentes


nomes na área do antigo Estado do Rio de Janeiro:
· Guarda Policial da Província do Rio de Janei-
ro - 1835
· Corpo Policial da Província do Rio de Janei-
ro - 1844
· Corpo Policial Provisório da Província do Rio de
Janeiro - 1865
· Força Militar do Estado do Rio de Janeiro - 1889
· Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro - 1920
E doze diferentes nomes na área da atual capital flu-
minense:
· Divisão Militar da Guarda Real de Polícia - 1809
· Corpo de Guardas Municipais Permanentes - 1831
· Corpo Municipal Permanente da Corte - 1842

76
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

· Corpo Policial da Corte - 1858


· Corpo Militar de Polícia da Corte - 1866
· Corpo Militar de Polícia do Município Neu-
tro - 1889
· Regimento Policial da Capital Federal - 1890
· Brigada Policial da Capital Federal - 1890
· Força Policial do Distrito Federal - 1905
· Brigada Policial do Distrito Federal - 1911
· Polícia Militar do Distrito Federal - 1920
· Polícia Militar do Estado da Guanabara - 1960

Hoje a Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro tem


mais de 43500 homens espalhados pelo estado em 41 Ba-
talhões que fazem o policiamento ostensivo ordinário e
outras unidades operacionais especiais sob nove Coman-
dos Intermediários (Cmdo Itrm), além de outras unidades
médico-hospitalares, educacionais e administrativas.

Cabe destacar o papel desempenhado por militares


da PMERJ, ao longo da década de 1990 e neste início
de  século XXI, em operações sob as ordens das  Nações
Unidas, em cooperação com o Exército Brasileiro em An-
gola,  Moçambique,  Timor-Leste,  Sudão e no Haiti, em
forças de estabilização e de paz.11

11 História da Polícia Militar do Distrito Federal Vol I (1809 a 1889), His-


tória da Polícia Militar do Distrito Federal Vol II (1890 a 1919), História da
Polícia Militar do Distrito Federal Vol III (1920 a 1930)

77
1º de julho de 1974 — Fusões da
Guanabara com o Estado do Rio

Sem grandes cerimônias, o presidente general Ernesto


Geisel sancionou a Lei da Fusão do Estado do Rio com a
Guanabara. Desde a posse do presidente chegaram ao Pla-
nalto vários documentos apoiando a fusão até que o mi-
nistro Armando Falcão anunciou oficialmente, em abril,
que o assunto estava sendo estudado pelo governo militar.

O então deputado Célio Borja, velho defensor da ideia,


foi o mentor jurídico da questão. Borja reuniu-se com li-
deranças políticas e com Geisel diversas vezes no Rio até
a aprovação do projeto de lei. O primeiro político a admi-
tir abertamente a hipótese foi o senador Ernani do Amaral
Peixoto, que sugeriu que o processo fosse feito de forma
gradual.

79
Sérgio Cerqueira Borges

A realização de um plebiscito, o que seria indicado


para um caso como este, segundo a Constituição de
1946, foi dispensado pela ditadura militar.

Os economistas e técnicos defensores da fusão argu-


mentavam que a união da Guanabara, um polo rico com
grande arrecadação, com o Estado do Rio, com uma pe-
riferia, como a Baixada Fluminense, pobre e sem infraes-
trutura, daria impulso ao desenvolvimento regional.

Com a mudança da capital para Brasília, em 1960,


a Guanabara, foi transformada em cidade-estado, e
continuou sendo importante polo turístico, cultural e
comercial do país. Uma vez que um Estado não pode-
ria investir no outro, a fusão faria desaparecer o im-
pedimento político administrativo da transferência de
recursos entre as duas áreas.

O governo pretendia também, com a junção dos


dois estados, neutralizar o Rio de Janeiro como foco
de oposição ao regime militar. Como a Guanabara era
o único Estado governado pelo MDB, partido da opo-
sição, a intenção era de que com a fusão seria possível
alterar a correlação de forças na Assembleia Legislati-
va e aumentar a influência da Arena no Estado.

‘Brasil Grande’ dos militares

A fusão fazia parte do projeto “Brasil Grande” idea-


lizado pelos militares desde o golpe de 1964. O Rio era
um dos polos estratégicos do general Geisel para a con-
cretização do programa. Nos planos da ditadura estava
à construção de obras monumentais, como a Transa-
mazônica, a Usina Nuclear de Angra dos Reis, a Usina

80
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

de Itaipu e a Ponte Rio-Niterói. Com a inauguração


da via, que ligava as duas cidades, em 1974, o processo
de fusão foi acelerado. A antiga Guanabara mudou o
nome para Rio de Janeiro e passou a ser a capital do
novo Estado, em março de 1975.

“Qualquer governo é melhor que a ausência de


governo. O despotismo, por pior que seja, é prefe-
rível ao mal maior da Anarquia, da violência civil
generalizada, e do medo permanente da morte vio-
lenta.”

“... Como é perigoso libertar um povo que prefere


a escravidão!...”.12

A realidade brasileira nos dá a certeza que até hoje,


ainda somos reféns do Poder, seja ele qual for, seja do
Poder Público, seja do Poder Paralelo, será apenas um
sentimento, sensação ou um fato social?13

12 Thomas Hobbes
13 Nicolau Maquiavel

81
DISCURSOS NA ALERJ E
ENTREVISTAS.

Os discursos na casa do povo do Estado do RJ dão o


tom da disputa pelo poder cujo ao final sempre saem às
classes populares as prejudicadas; que são os “escra-
vos sociais” e seus “capitães do mato”, cito na ALERJ,
seguido de entrevistas cuja dão uma dimensão da luta
pelo poder interno e externo na polícia estadual do RJ
que exemplificam o restante da federação.

Discurso - Deputado Estadual Paulo Ramos ALERJ

“O SR. PAULO RAMOS – Sr. Presidente, Sr(s). De-


putados, muitas vezes os governantes ficam diante de al-
gumas oportunidades que oferecem a eles um momento
ímpar para que demonstrem uma espécie de tendência a
que possam ser reconhecidos como estadistas.
Digo isto porque o Governador Sérgio Cabral, já no
seu segundo mandato, está diante dessa oportunidade.
Estou convencido de que se há alguém que tem a pos-
sibilidade, com toda isenção, de avaliar, de analisar, de
refletir se foi justo o movimento que mobilizou muitos po-
liciais militares e bombeiros militares deste Estado, esse
alguém é S.Exa. E também de analisar se havia razões
para a erupção de algo que nunca acontecera no Estado
do Rio de Janeiro.
Sr. Presidente, acumulo alguma experiência e lem-
bro de que, quando jovem, estando eu no serviço ativo
da Polícia Militar, juntamente com muitos companhei-

83
Sérgio Cerqueira Borges

ros, à época oficiais da Polícia Militar e do Corpo de


Bombeiros, fiz vários movimentos reivindicatórios, cul-
minando, em 1980, com uma espécie de invasão – uso
esta expressão para ser perfeitamente compreendido –
ao Palácio Guanabara. Centenas de oficiais da Polícia
Militar e do Corpo de Bombeiros, praticamente sitiando
o Governador Chagas Freitas na sede do Governo. Por
que aquilo estava acontecendo? Tivemos a mudança da
capital no ano de 1960 e a Polícia Militar do Distrito
Federal experimentava uma remuneração que a equi-
parava aos pares do Exército Brasileiro.
Com a mudança da capital e o surgimento do Estado
da Guanabara, foi preservada a remuneração. E aí, com
o primeiro Governo Chagas Freitas, em 1972, perdemos
a equiparação. A partir do momento imediatamente
após a perda dessa equiparação, começamos a fazer mo-
vimentações na busca da recuperação do salário.
Em 1975, houve a fusão do Estado da Guanabara
com o Estado do Rio de Janeiro. Os companheiros do
antigo Estado do Rio experimentavam uma remunera-
ção menor. Com a fusão, aqueles que vinham do Estado
da Guanabara, alguns que tinham ingressado na Po-
lícia Militar antes da mudança da capital e, portanto,
de investidura federal, ficaram à época sem reajuste de
modo que, num prazo máximo de dois anos, os compa-
nheiros do antigo Estado do Rio ficassem equiparados
aos do antigo Estado da Guanabara.
Quis o destino que o Governador Chagas Freitas re-
tornasse ao Governo do Estado. E olha que, quando o
Governador Chagas Freitas retornou ao Governo do
Estado, muitos movimentos e manifestações vinham
acontecendo na busca da equiparação à época com o
Exército. Porque a Constituição em vigor dizia que os

84
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

militares estaduais não poderiam ganhar mais do que os


seus pares no Exército.
Como não só no antigo Distrito Federal como tam-
bém na Guanabara os militares estaduais eram equipa-
rados ao Exército, a reivindicação permaneceu. Chagas
Freitas volta ao Governo e o movimento cresce, pois es-
távamos diante do mesmo Governador que nos cortara
o benefício.
E aí, no Clube de Oficiais da Polícia Militar e do
Corpo de Bombeiros, assembleias sucessivas foram
realizadas. E numa assembleia, exatamente no dia 30
de março, decidiram os oficiais que deveríamos buscar
uma interlocução imediata com o Governador Chagas
Freitas.
No dia 31 de março de 1980, estávamos nós surpreen-
dendo inclusive o Governador do Estado; estávamos to-
dos no Palácio Guanabara esperando uma interlocução
com o Governador.
Foi um ato que poderia e deveria ter sido caracteriza-
do como grande indisciplina. Não tenho dúvida alguma.
Aliás, sempre que falo isto, me lembro de um velho co-
ronel da Polícia Militar que, em 1972, quando perdemos
a equiparação e ele tentou liderar um movimento no
sentido de recuperar, mas não conseguiu tanta adesão.
Lembro-me que eu ainda novo, capitão, perguntei: “E
aí, Coronel Mazolene, Coronel Pedro Teixeira Mazole-
ne, qual a solução?” E ele falou para mim: “Ramos,
se não houver uma grande indisciplina, não vamos ter
reconhecido o nosso direito”.
E naqueles 31 de março de 1980, estávamos nós pra-
ticando um grande ato de indisciplina, mas completa-
mente justificado em função do histórico da perda, das
perdas maiores em função da Fusão e a situação de avil-
tamento a partir de baixos salários. E já começamos a

85
Sérgio Cerqueira Borges

chegar ao Palácio Guanabara, Deputada Aspásia Ca-


margo, por volta das 8 horas da manhã e às 22 horas o
Governador Chagas Freitas resolveu receber a comis-
são composta de dois oficiais da Polícia Militar e dois
do Corpo de Bombeiros. Para demonstrar o tamanho
da indisciplina, o Governador do Estado durante o dia
chegou a demonstrar a disposição de deixar o Palácio
Guanabara. E aí como estávamos determinados a um
contato direto com o Governador, os pneus do carro do
Governador foram furados, foram esvaziados dentro do
Palácio Guanabara. Os oficiais ocuparam as entradas
e as saídas do Palácio Guanabara, revistavam os car-
ros que entravam e saiam para demonstrar, quero aqui
acentuar, o tamanho da indisciplina, aliás, com reper-
cussão no noticiário do mundo inteiro à época, porque
inclusive, à época, ainda estávamos em pleno vigor do
regime autoritário.
Muito bem. O Governador Chagas Freitas recebe a
comissão, ouve o pleito e diz: “Muito bem, em 48 horas
eu dou a resposta”. Diante da palavra do Governador,
eu que integrava a comissão, pela Polícia Militar eram
dois majores, Ramos e Madureira, e pelo Corpo de Bom-
beiros, o Major Cruz e o Capitão Nei. Voltamos e fizemos
uma assembleia dentro do Palácio Guanabara, no audi-
tório da Secretaria de Planejamento à época. E aí fiz a
comunicação, o Governador dá a resposta em 48 horas.
Muitos ainda resistiram, mas houve o convencimento de
que se o Governador pediu o prazo de 48 horas, para nós
não restava alternativa.
No dia seguinte nos apresentamos nas unidades e os
membros da comissão foram presos, o Major Ramos e
Major Madureira pela PM, e Major Nei e Capitão Cruz
do Corpo de Bombeiros. No Corpo de Bombeiros qua-
tro dias de prisão para cada um e na Polícia Militar 12

86
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

dias de prisão. Centenas de oficiais da Polícia Militar se


apresentaram presos solidariamente no Quartel Gene-
ral.
Vendo o crescimento do movimento que poderia se-
guir outros rumos, o Governador Chagas Freitas anun-
cia o aumento e não toma mais nenhuma medida puni-
tiva a não ser aquele encaminhamento de documento
para que cada um informasse a sua participação. E
aí o aumento foi dado, me lembro, Sr. Presidente, que
uma comissão maior manifestou o entendimento de que
o movimento a partir da concessão estava encerrado e
que as punições eram até muito brandas para um ato de
tamanha indisciplina.
A SRA. ASPÁSIA CAMARGO – Deputado.
O SR. PAULO RAMOS – Pois não, Deputada Aspásia
Camargo.
A SRA. ASPÁSIA CAMARGO – Eu gostaria de cum-
primentar V.Exa. por esta aula de História trazida nesta
tarde em véspera de Carnaval, é uma preciosidade, acho
que ninguém se lembra disso, ninguém sabe, ninguém
conhece, então, eu lhe agradeço esse privilégio de es-
tar aqui e poder ouvi-lo, mas queria também deixar aqui
uma pergunta, que talvez V.Exa. possa ajudar esta Casa
a respondê-la: como podemos fazer para integrar a Polí-
cia Civil e a Polícia Militar, que sempre estão separadas
nesses processos de negociação e nesses planos de car-
reira com situações tão diversas? V.Exa. vê a possibili-
dade de estabelecermos uma negociação para unirmos
essas polícias?
O SR. PAULO RAMOS – Sra. Deputada Aspásia Ca-
margo, agradeço o aparte. Tem havido, até nesse último
movimento de paralisação das atividades, na assembleia
que decidiu pela paralisação, estavam lá também os poli-
ciais civis. E, depois, uma entidade representativa de al-

87
Sérgio Cerqueira Borges

guns policiais civis retirou-se do movimento. Mas sempre,


em várias oportunidades, houve movimentos conjuntos de
policiais civis e policiais militares.
Naturalmente, sendo carreiras diferentes, instituições
diferentes com lei de remuneração diferentes, às vezes
fica difícil a aproximação. Nesse caso houve, porque era
um piso de R$ 3.500,00, eliminada a política de gratifi-
cação. E o piso de R$ 3.500,00 era superior ao piso das
duas corporações – incluindo-se aí o Corpo de Bombei-
ros. Por isso houve a conjugação de esforços.
Caminho para concluir, Sr. Presidente, dizendo que o
Governador Chagas Freitas, com todas as eventuais crí-
ticas e objeções que alguém possa lhe fazer, era uma fi-
gura pública que tinha acumulado muita experiência e se
comportou – no episódio – não de forma vingativa, mas
com a compreensão de que quanto menor fosse a reação
punitiva dele, maior seria a afirmação da autoridade go-
vernamental.
Quando um governo pretende aplicar tantas punições
a centenas de militares estaduais, ao contrário, ele não
está afirmando a autoridade; está demonstrando a falên-
cia da autoridade.
Sr. Presidente, de forma muito serena estou queren-
do dizer que o Governador Sérgio Cabral está diante da
oportunidade de se manifestar, de se comportar como
uma espécie de estadista. Já conversei com alguns com-
panheiros, aqui mesmo na Casa e em outros setores, que
esse movimento dos bombeiros e policiais militares foi
apoiado por vários Senadores, Deputados Federais e De-
putados Estaduais da própria base do governo. Apoiaram
o movimento.
Acredito, Sr. Presidente, seja esse o único caminho
para que possamos ter os ânimos serenados, esgotando
este momento. Obviamente, o processo histórico, as rei-

88
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

vindicações continuam. Mas, para tranquilizar a popula-


ção do Rio de Janeiro e levar a paz para as corporações
militares estaduais, o governador poderia compreender
que há, sem qualquer dúvida, um excesso punitivo.
Não vou nem considerar que a greve foi justa, porque
o governador pode avaliar isso: a questão da PEC 300,
as promessas que ele fez na campanha, o fato de o Rio de
Janeiro ser a última Unidade da Federação em remunera-
ção a seus militares estaduais. Ele pode avaliar tudo isso
e desistir das punições que tende a aplicar – punições que
tendem à exclusão de vários militares estaduais, alguns
até já na inatividade. Alguns com mais de 30 anos, alguns
caminhando para completar 38, 40 anos de serviço.
Não consigo alcançar o objetivo pretendido pelo go-
verno quando preserva esse caminho que tomou de conter
o movimento com o esmagamento, com punições que en-
cerram a vida de muitos que, durante longos anos, pres-
taram tão bons serviços à população.
Que o Governador Sérgio Cabral reflita e possa com-
preender que está diante da oportunidade de demonstrar
se há dentro dele ou não algo que possa representar o
comportamento de um estadista.
Muito obrigado.”14

14 Discurso - Deputado Estadual Paulo Ramos ALERJ

89
Sérgio Cerqueira Borges

Discurso - Deputado Paulo Ramos

Sessão: Ordinária
Expediente:

Responsável:  Deputado. Taquigrafia Data de Cria-


ção: 29/04/1999

Texto do Discurso

O SR. PAULO RAMOS – Sr. Presidente, Srs. Deputa-


dos, em primeiro lugar venho registrar que as correntes
políticas que defendem um país soberano e socialmen-
te justo conquistaram, hoje, uma grande vitória na luta
que travamos para a salvação do que resta do patrimônio
nacional. Em função de seis liminares, não foi realizada
a assembleia geral em Furnas, para a divisão crimino-
sa daquela empresa que está, assim como todo o setor
elétrico na Bacia das Almas, para ser entregue ao ca-
pital estrangeiro. Podemos dizer que é um dos mais la-
mentáveis atos de corrupção que existem em nosso país.
Congratulo, portanto, a todos aqueles que são patriotas,
nacionalistas, em especial os servidores de Furnas, que
se organizaram, que se empenharam e tudo fizeram para
que essa vitória preliminar fosse conquistada.
Estive presente durante toda a manhã e início da tarde
de hoje, juntamente com o Sr. Deputado Edmílson Valen-
tim, a Sra. Deputada Jandira Feghali e o presidente do
meu partido no Rio de Janeiro, ex-Deputado Carlos Lu-
ppi, nos integrando àquela luta e participando da alegria
desta vitória preliminar.
Venho a esta tribuna, Sr. Presidente, para tratar de
um tema que foi abordado, neste expediente, pelo ilustre
Deputado Hélio Luz. Em primeiro lugar, causa-me uma

90
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

grande surpresa que S. Exa, o Sr. Deputado Hélio Luz,


manifeste inusitada solidariedade ao Sr. Deputado Sérgio
Cabral, ao Sr. Deputado Jorge Picciani e ao Sr. Deputa-
do Paulo Melo. Para acreditar na sinceridade desta soli-
dariedade seria necessário não conhecer o Sr. Deputado
Hélio Luz. De qualquer maneira, vivemos nesta Casa,
muitas vezes, posições políticas que podemos chamar de
inusitadas, para não adjetivá-las de oportunistas.
Talvez seja muito fácil para qualquer um nesta Casa
um pouco de articulação nos meios de comunicação,
como plantar num dia uma notícia para tentar, aqui,
colher os frutos no dia seguinte. Se de um lado causa
surpresa a inusitada solidariedade expressa naquilo que
pode ser visto por alguns como denúncia apresentada
pelo Sr. Deputado Hélio Luz, por outro lado não nos cau-
sa surpresa porque o Sr. Deputado Hélio Luz, durante o
tempo em que integrou a administração Marcello Alen-
car, na Secretaria de Segurança Pública, à frente da Po-
lícia Civil, certamente aprendeu, incorporou as práticas,
que são conhecidas de todos nós, que fazem parte da vida
do General Nilton Cerqueira, que é a prática fascista. Lá,
durante algum tempo, prestando serviço e, certamente,
na convivência com o General Nilton Cerqueira, um ho-
mem que tem uma trajetória de vida, dentro do exército
brasileiro, conhecida de todos nós, porque era um grande
repressor, um grande fascista.
O SR. HÉLIO LUZ – Vossa Excelência me concede um
aparte?
O SR. PAULO RAMOS – Concluirei, se V.Exa tiver pa-
ciência, concederei o aparte.
Com certeza absoluta tais práticas fascistas eram re-
conhecidas e visíveis ao Governo Marcello Alencar. Es-
tou convencido de que foi ali que o Sr. Deputado Hélio
Luz encontrou a sua verdadeira escola, até porque, em

91
Sérgio Cerqueira Borges

fases anteriores, o Sr. Deputado Hélio Luz estava integra-


do ao campo progressista.
Aliás, somos surpreendidos ao longo da vida, ao lon-
go do tempo, porque, depois de integrar uma direção da
segurança do Estado do Rio de Janeiro, marcada pelo
nazifascismo, pelo extermínio, por tudo que há de pior
em qualquer visão humanística, surpreendentemente o Sr.
Deputado Hélio Luz retornou talvez à trincheira da qual
ele não deveria ter se distanciado, porque, surpreendendo
mais uma vez a muitos, integrou-se ao quadro do Parti-
do dos Trabalhadores; exatamente trabalhadores que, em
ocupando as áreas mais carentes da população, foram as
grandes vítimas daquelas ações policiais, daquele mode-
lo de segurança pública, daquela filosofia de segurança
pública, isto é, daquele centro de onde emanavam formu-
lações que, aquelas sim, imaginávamos completamente
sepultadas.
Quero dizer e acho que todos sabem que também sou
oriundo da área da segurança pública. Posso dizer com
total tranqüilidade, com a mais completa certeza que a
fase do General Nilton Cerqueira à frente da Secretaria
de Segurança foi uma fase tão escabrosa que chegou a
superar a sua passagem pelo comando da Polícia Militar
de fevereiro de 1981 a fevereiro de 1982. Mas o que não
posso, na liderança do PDT, é compreender, por mais que
me esforce, que agora o Deputado Hélio Luz integre o
Partido dos Trabalhadores que não integrava antes ou si-
mulava que não integrava. Porque sendo do Partido dos
Trabalhadores e se incorporar à administração fascista
do Sr. Marcello Alencar na área da segurança e ainda
dirigida pelo General Nilton Cerqueira.
O SR. HÉLIO LUZ – V.Exa. me concede um aparte?
O SR. PAULO RAMOS – Sr. Presidente, antes de con-
ceder o aparte quero dizer que fica muito difícil para qual-

92
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

quer pessoa em sã consciência compreender tamanho ma-


labarismo, porque é um malabarismo. Sou progressista,
estou no campo progressista, defendo os direitos huma-
nos, defendo as comunidades carentes. Repentinamente
caio nos braços do poder e passo a defender ou a integrar
um projeto completamente oposto para logo depois, em
função da exigência da legislação eleitoral me vincular
a um partido político do campo progressista. E agora já
com assento nesta Casa o nosso Deputado Hélio Luz tal-
vez recupere aquilo que lhe foi ensinado por aqueles que
dirigiam a segurança pública na administração Marcello
Alencar e vem trazer um dado que está tão distante da
verdade porque seria impossível.
Eu não sei das experiências pessoais, da noção de
competência que tem o Deputado Hélio Luz. Por que co-
locar 25 agentes para fazer determinada investigação
sigilosa? Não vou me referir aqui ao detetive português
porque não quero ofender aqueles que estão hoje incor-
porados a nós quando vamos comemorar 500 anos do
nosso descobrimento. Não quero. Mas é surpreendente.
E agora dúvidas a respeito do rumo ideológico do De-
putado Hélio Luz não tenho mais mas passo a duvidar
agora até da sua competência como profissional de po-
lícia. Porque fazer tal julgamento, assacar com certeza
absoluta, levianamente eu só posso compreender que o
bom julgador julga os outros por si. Não sei agora. Ago-
ra me surpreendo e me preocupo. Não sei o que foi feito
no Governo Marcello Alencar, na espionagem política,
no levantamento da vida de parlamentares. Aqueles que
estavam aqui nesta Casa na legislatura anterior talvez
mereçam uma explicação porque o Governador Marce-
llo Alencar teve ampla maioria nesta Casa. Será que foi
através da chantagem tão própria da comunidade de in-

93
Sérgio Cerqueira Borges

formações, tão própria dos meios utilizados pelo General


Nilton Cerqueira? Eu não sei.
O SR. HÉLIO LUZ – Vossa Excelência me concede um
aparte?
O SR. PAULO RAMOS – Concedo o aparte ao Depu-
tado.
O SR. HÉLIO LUZ – Sr. Deputado Paulo Ramos, inu-
sitado o Sr. veja só o que é: na reunião que tivemos no
Palácio Guanabara, V. Exa. demonstrava sua indignação
com a chapa que era apresentada aqui para a Alerj, com
o Sr. Deputado Sérgio Cabral para Presidente e do Sr. De-
putado Jorge Picciani para Primeiro Secretário. Era dito
naquela reunião em alto e bom som que era “a chapa da
Fetranspor”. Tudo levava a crer que montaríamos uma
chapa para enfrentar o problema da Assembléia. Inusi-
tado foi o ,no dia da votação, da eleição do Presidente
desta Assembléia, o seu voto na “chapa da Fetranspor”;
foi inusitado o voto dos que estavam naquela reunião na
chapa da Fetranspor. Aquilo era o inusitado. V. Exa. co-
loca aqui a questão profissional. Lógico, V. Exa. não che-
gou a comandar batalhão, V. Exa. não se atualizou com
relação à segurança. Se V. Exa. tivesse freqüentado mais
um pouco o ambiente da PM, talvez tivesse melhores in-
formações.
Quanto à questão de trabalhar no Governo Marcello
Alencar, V. Exa. omite aqui que o Sr. Marcello Alencar
veio do seu partido; do PDT; veio do seu partido e o co-
nheci quando assessorava o Sr. Governador Leonel Bri-
zola em seu primeiro governo – naquela época eu já era
petista – V. Exa. não estava no PDT; integrava o PMDB;
integrava o partido do Sr. Governador Moreira Franco.
Por isso talvez V. Exa. não tenha todos os dados atua-
lizados sobre a questão política e, possivelmente, sobre
a questão de segurança. Lógico, V. Exa. não perceber o

94
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

rumo ideológico de nosso mandato é normal uma vez que


V. Exa. mudou de partido e não nós. Já éramos petistas
desde 1979, já estávamos na luta defendendo camponeses
muito antes, à época da repressão. Não sei se V. Exa. teve
esta oportunidade mas não tive informação, aqui no Es-
tado do Rio de Janeiro, de sua atuação política. O que me
estranha – talvez V. Exa. não consiga perceber – é isso.
São os desvios que existem ao longo do caminho, assim
como houve o desvio entre o Palácio Guanabara e o dia
2 de fevereiro aqui.
Muito obrigado.
O SR. PAULO RAMOS – Sr. Presidente, o Sr. Deputa-
do Hélio Luz é muito mais jovem que eu. Permaneci na
Polícia Militar durante 22 anos e aqueles aos quais o Sr.
Deputado Hélio Luz se aliou – especialmente o Sr. Gal.
Nilton Cerqueira, foi um entre tantos outros – atribuíam
a mim, na época da ditadura pertencer ao MR-08, ser um
oficial desgarrado da mentalidade da época.
O SR. HÉLIO LUZ – A diferença talvez seja esta Sr.
Deputado: o Sr. permaneceu por 22 anos e eu 25.
O SR. PAULO RAMOS – Comecei muito antes, Sr.
Deputado, somente por isso. Aqueles que militaram, na
época do regime autoritário, contra a ditadura certamen-
te conhecem o Paulo Ramos. Talvez até conheçam com
outro nome. Entre os que militaram na clandestinidade,
entre os que atuaram contra a ditadura certamente sou
conhecido por todos. V. Exa. certamente não conhece
porque V. Exa. participava talvez menos ou em outra trin-
cheira. Gostaria de dizer o seguinte: estranho, estranho.
O Sr. Deputado Hélio Luz fala que, no Palácio Guanaba-
ra, antes da reunião da Mesa, discussões se travaram em
torno de possíveis envolvimentos aqui e ali.
Imaginei que fosse fazer essa denúncia na bancada do
seu partido porque em função da correlação de forças foi

95
Sérgio Cerqueira Borges

organizada uma chapa que consagrou as correntes po-


líticas nesta Casa de acordo com o seu peso. O PT– o
seu partido – foi contemplado com um cargo na Mesa. O
Deputado Carlos Minc, líder da bancada de V.Exa., tam-
bém participou do acordo. Se V.Exa. movido também por
um inusitado purismo achou por bem votar contra, V.Exa.
tem que discutir isso na bancada de V.Exa.
O SR. HÉLIO LUZ – É no inusitado da situação de
cada um. É na coerência. Na seriedade das propostas e
não eleitoreiras. Proposta séria na atuação profissional e
na atuação Parlamentar.
O SR. PAULO RAMOS – Ouvi educada e paciente-
mente o aparte de V.Exa. e gostaria que V.Exa. ouvisse a
resposta.
O Sr. Marcello Alencar cumpriu um percurso bem di-
ferente do de V.Exa. porque ele saiu do PDT e foi para o
PSDB. Quando era do quadro do PDT não desenvolveu,
inclusive à frente da Prefeitura, a mesma política que de-
senvolveu no Governo do Estado com apoio da extrema
direita. O ex-Governador Marcello Alencar é reconheci-
do, hoje, como um quadro da direita. Não foi reconhecido
como um quadro da esquerda. Era um quadro no campo
progressista quando estava no PDT e governou com base
nesses postulados, mas vamos lá.
Seria muito mais responsável que o Deputado Hélio
Luz ao invés de procurar justificar o fato de ter perten-
cido a uma equipe de governo que na área da seguran-
ça conduziu os destinos daquela pasta com base na mais
pura repressão, com base no mais clamoroso desrespeito
aos Direitos Humanos; que ele ao invés de demonstrar
aqui que assimilou aquelas práticas próprias da comuni-
dade de informações de “plantar” notícias, de “plantar”
aqui para “colher” ali.

96
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

O SR. PRESIDENTE (André Ceciliano) – Para con-


cluir, Deputado.
O SR. PAULO RAMOS – ... que ele pelo menos fizesse
uma autocrítica aproveitasse esse debate de hoje, mes-
mo sendo público, para refletir e chegasse aqui e dissesse
assim: olha, realmente, foi um equívoco ter participado
daquele governo; foi um equívoco compactuar com aque-
las práticas. Agora, quero fazer mais uma autocrítica,
Deputado. V.Exa. é quem deveria dizer isso: quero dizer
que em função da busca de algo a que me dedicar no
exercício do mandato de Deputado Estadual “plantei”
essa notícia ainda com as experiências de um passado
não muito distante.
O SR. GERALDO MOREIRA – V.Exa. me concede um
aparte?
O SR. PAULO RAMOS – Seja muito breve e concluirei
em um segundo.
O SR. GERALDO MOREIRA – Serei breve, brevíssi-
mo.
O SR. HÉLIO LUZ – Fui citado, Presidente, então pro-
ponho ao Deputado que ...
O SR. GERALDO MOREIRA – Não concebo, Deputa-
do Paulo Ramos, em hipótese alguma um petista de cora-
ção como dizia o Deputado Hélio Luz servir, por exemplo,
ao General Nilton Cerqueira, que historicamente esteve
com as suas ações neste País sempre ao lado da repres-
são. Isso pública e comprovadamente. Foi o então Ca-
pitão alagoano Nilton de Albuquerque Cerqueira quem
assassinou covardemente o Capitão Lamarca – um ba-
talhador pelos ideais e pelas lutas de libertação do povo
brasileiro -. Então, vemos um petista de coração servir a
um homem que tem um passado desses. Hoje, o Deputado
Hélio Luz não tem autoridade democrática para questio-
nar, principalmente, as ações deste Governo.

97
Sérgio Cerqueira Borges

Concluo dizendo que participo do esforço para a cons-


trução da unidade das oposições. Entendo que PDT, PT,
PCdo B, PSB, PCB devam construir um caminho comum
como única alternativa possível a esse modelo que está aí
implantado no país.
É por essa razão que venho aqui pedir ao Deputado
Hélio Luz que faça uma reflexão e se integre às verdadeiras
correntes progressistas; que ele venha para o lado que
está procurando, inclusive a quase totalidade do partido
que ele integra está procurando construir o caminho
para a afirmação da democracia no Brasil. Esperamos
que o Deputado Hélio Luz reflita porque ele refletindo
certamente poderá, com a experiência que tem, com a sua
prodigiosa inteligência, com a sua competência, ele cer-
tamente vai dar sua contribuição para que a verdadeira
democracia possa florescer no Brasil.
Muito obrigado.15

15 Discurso - Paulo Ramos Sessão: Ordinária - 29/04/1999

98
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

Discurso – Deputado Paulo Melo


 
ALERJ
 
Texto do Discurso

O Sr. PAULO MELO – Sr. Presidente, Srs. Deputa-


dos, gostaria, ao iniciar a minha fala, de fazer uma ho-
menagem às taquigrafas, às oficiais de Ata, a todas as
secretárias desta Casa, em especial, à minha secretária,
Andréia, que é a pessoa que organiza e norteia o meu dia
-a-dia e a minha vida, e a todas aquelas que trabalham
comigo pelo dia de hoje. Espero que tenhamos a devida
compreensão e que saibamos dar valor ao trabalho que
exercem, que é fundamental para o desempenho de nos-
sas funções. A todas vocês o meu abraço especial e meus
sinceros agradecimentos.

Sr. Presidente, quero abordar aqui a questão da segu-


rança pública. Gostaria da atenção do Deputado Hélio
Luz que, juntamente com o Deputado Sivuca, mesmo que
com pensamentos diferentes e ideologias contraditórias,
sempre militou na área de segurança pública. O que não
entendo – e me causa profunda perplexidade – é o es-
panto das autoridades. Em primeiro lugar, o Governador
ficar magoado por ter sido publicada uma foto na qual
alguns carros transportavam marginais com seu material
de trabalho, ou seja, armas. S.Exa., em entrevista, disse
que o Prefeito cometeu uma indelicadeza e prejudicou as
apurações. Prejudicou o quê, se, somente noventa dias
depois, a Secretaria de Segurança consultou o Detran
para saber se o carro era ou não roubado? Levaram ses-
senta, noventa dias para fazer a consulta. Não foi toma-
da outra medida. Perguntem se a estudante do carro foi

99
Sérgio Cerqueira Borges

chamada. Descobriram que o carro dela não havia sido


roubado. Perguntem a estudante se ela deu algum depoi-
mento. Perguntem se ela foi chamada pelas autoridades.
É preciso se tratar esse assunto, de uma vez por todas,
com seriedade.

Deputado Sivuca, isso me faz lembrar aquele velho di-


tado: “Levante-se o tapete e varra-se a sujeira para bai-
xo”, ou seja, ninguém pode saber que existem marginais
andando nas avenidas do Estado do Rio de Janeiro, em
plena noite, transportando armas altamente mortíferas.
Isso ninguém pode saber. Causa profundo constrangi-
mento e estranheza que o Prefeito da Cidade do Rio de
Janeiro peça o policiamento costeiro, uma ação efetiva
da polícia marítima e da polícia federal na Baía da Gua-
nabara, porque atrapalha um planejamento. Qual plane-
jamento, Deputado?

Temos de entender, de uma vez por todas, que o Esta-


do do Rio de Janeiro tem problemas. No entanto, querem
encontrar todas as explicações no Governo passado. É
iguais àquele péssimo marido que tenta culpar a sua mu-
lher pelos problemas do casamento anterior, sem jamais
ver os seus próprios erros, nem admitir a sua culpa; ele
prefere culpar a sua companheira por todos os erros. As-
sim, vão sempre encontrar a culpa no Governo passado.
Os Deputados Hélio Luz e Sivuca não são crianças e sa-
bem que muitos policiais morreram, porque no combate,
quando se está, no dia-a-dia, enfrentando os bandidos,
vidas são ceifadas dos dois lados. Numa guerra, ninguém
entra e ninguém sai com as mãos limpas. Não. Numa
guerra, vidas são entregues em nome do povo e pela de-
fesa do povo, Deputado Sivuca. Numa guerra, famílias
ficam desamparadas, filhos ficam órfãos, mas a sociedade

100
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

fica protegida. O que aconteceu no Rio de Janeiro é que


nós empreendemos uma guerra contra o banditismo. Pes-
soas ficaram na terra, cobrindo e pintando a esperança
do povo com o seu próprio sangue. Mancharam as negras
ruas das favelas com o sangue do policial e, muitas vezes,
com o sangue inocente do morador, e com o sangue do
bandido.

Mas isso é uma guerra! Segurança não se trata com


Sociologia. Em Sociologia se estuda a complexidade da
nossa sociedade, para se encontrar desculpa na distri-
buição de renda. O País mudou. Quando o País cresce
demograficamente, surgem mais pobres, e menos ricos,
porque a renda se concentra. Trata-se de uma história
globalizada. Não adianta um sociólogo achar que essa é
a resposta, que tem a resposta para todos os problemas.
Ele não entende nada de Segurança. Nada! E nem é segu-
ro para tratar de Segurança.

Felicito o Governador Anthony Garotinho por seu li-


vro, que estou lendo com muito afinco. Faz um quadro
comparativo do governo Brizola, do governo Moreira e
do governo Marcello, mostra quantas pessoas foram pre-
sas, a diminuição do roubo de carga e de carros. Real-
mente, vários policiais morreram no cumprimento do de-
ver, porque são policiais, e precisam ser respeitados como
policiais. Não se pode ir ao morro afrontar. Não falo do
Governador, porque eu estava lá. Um subsecretário de
segurança foi humilhar, vilipendiar o policial, mandá-los
guardar as armas. Palavras dele: “Guardem as armas!
Retirem-se daqui!” E foi lá pedir desculpa porque esse é
um governo social. Descobriu-se, depois, que nada tinha
de social. Existia um governo conivente, não pela palavra
do Governador, mas por aqueles que lá foram cumpri-

101
Sérgio Cerqueira Borges

mentar, quando deveriam estar combatendo. Então, isso


é que tem que ser discutido. Estamos dando – e eu dou
e vou continuar dando. O que não pode é ser sectário e
postergador, pelo simples prazer de ser. E que o governo
tenha os mecanismos necessários para poder avançar nas
suas convicções e nos compromissos que tem a cumprir,
e resgatar essa duplicata da mão do nosso povo. Isso, eu
não vou impedir.

Acabei de aprovar o empréstimo de royalties. Fui o au-


tor do substitutivo do Rioprevidência. Disso tudo, quero
ser parceiro do governo. A única coisa de que não aceito
ser parceiro do governo é ser vítima pela omissão, ser
mais uma vítima da violência desta cidade pela omissão
e pela falta de competência daqueles que estão gerindo
a Segurança Pública no Estado do Rio de Janeiro. Ora,
não sabemos mais, quando uma patrulhinha vem ao nos-
so encontro, Deputado Sivuca, se são policiais que vão
nos proteger, ou marginais que acabaram de roubar os
policiais e estão usando o patrimônio do Estado para nos
afrontar. Por quê? Porque o marginal só transita pelas
vias públicas, a claras horas da manhã e da madrugada,
quando sabe que não há combate. Já existia a CETRio
e, no governo passado, ninguém foi flagrado. Por quê?
Porque a polícia combatia. Tinha cuidado, sim, ao entrar
no morro, ao subir ao morro, de ter pessoas mortas, mas
subia ao morro no planejamento. Hoje, nada disso acon-
tece.

Alguns Deputados vêm aqui dizer que, no governo


passado, a Segurança era de extermínio. Desejo eu que
esse governo não se torne o que já vimos em governos
passados, em que havia o extermínio da população – vide
chacina da Candelária e chacina de Vigário Geral. A

102
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

polícia, desmoralizada, sem incentivo algum, procurou,


de maneira errônea e extremamente equivocada e crimi-
nosa, fazer justiça com as próprias mãos. Um governo,
quando não exerce sua autoridade, como comandan-
te-chefe das forças de Segurança Pública, permite que
marginais assim se intitulem e que, em vez de proteger,
passem a minerar o nosso povo, em vez de combater, pas-
se a ter conluio com traficante, subindo de madrugada e
minerando, como foi feito em governos anteriores. Não
queremos nada, queremos apenas uma coisa: que o Go-
vernador tenha os melhores resultados.

Afinal de contas, a única coisa que nós não queremos


é que o Governador seja o produtor do Show de Truman,
porque não queremos, em hipótese alguma, ser o prota-
gonista de uma história triste de pessoas que não têm di-
reito à escolha.
Muito obrigado.16

16 Discurso – Deputado Paulo Melo -ALERJ

103
Sérgio Cerqueira Borges

ORDEM DO DIA

Projeto De Resolução 1466/2006

Informações Básicas

Sessão: Ordinária

Responsável:  Dep. Taquigrafia Data da Cria-


ção: 30/08/2006

Data da
30/08/2006 Hora: 17:10
Sessão:

Texto da Ordem do Dia

O SR. PRESIDENTE (Sivuca) – ANUNCIA-SE A DIS-


CUSSÃO ÚNICA DO PROJETO DE RESOLUÇÃO
1466/2006, DE AUTORIA DO DEPUTADO ADROAL-
DO PEIXOTO GARANI, QUE CONCEDE A MEDALHA
TIRADENTES E O RESPECTIVO DIPLOMA, AO ILUS-
TRE TENENTE-CORONEL PM RR DA PMERJ EMIR
CAMPOS LARANGEIRA, PELOS RELEVANTES SERVI-
ÇOS PRESTADOS AO ESTADO DO RIO DE JANEIRO.

PARECER DA COMISSÃO DE NORMAS INTER-


NAS E PROPOSIÇÕES EXTERNAS, FAVORÁVEL.
RELATOR: DEPUTADO DICA.
Em discussão a matéria. Não havendo quem queira
discuti-la, encerrada a discussão.
Em votação. O projeto recebeu uma emenda.
A SRA. INÊS PANDELÓ – Peço a palavra para dis-
cutir a matéria, Sr. Presidente.

104
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

O SR. PRESIDENTE (Sivuca) – Em discussão a


matéria. Para discuti-la, tem a palavra a Srs. De-
putada Inês Pandeló.

A SRA. INÊS PANDELÓ (Para discutir a matéria) –


Sr. Presidente, esta Casa tem sido questionada algumas
vezes pela aprovação de projetos para concessão de me-
dalhas, diplomas e títulos a pessoas que não são mere-
cedoras de tais honrarias, geralmente por suas atuações
contra a Justiça, contra a ética.

O objetivo do projeto em questão, de autoria do Sr.


Deputado Adroaldo Peixoto Garani, é a concessão de
Medalha Tiradentes ao Tenente-Coronel Emir Campos
Larangeira, que foi comandante do batalhão da área de
Vigário Geral na época da chacina. Ocorre que há várias
denúncias, tendo sido publicadas, inclusive, em vários
jornais da época, de que o agraciado teria tentado enco-
brir o envolvimento de policiais militares no caso.

Assim, Sr. Presidente, nós, da bancada do PT, apre-


sentamos essas emendas para tirar o projeto de pauta,
inclusive esperando que o Sr. Deputado Adroaldo Peixoto
Garani, após refletir sobre o caso, tome ele próprio a ini-
ciativa.
O SR. SIVUCA – Peço a palavra para discutir a maté-
ria, Sr. Presidente.
O SR. PRESIDENTE (Gilberto Silva) – Para discutir a
matéria, tem a palavra o Sr. Deputado Sivuca, que dispõe
de sete minutos e meio.
O SR. SIVUCA (Para discutir a matéria) – Sr. Presi-
dente, vivi aquele momento aqui e, infelizmente, graças
a alguns membros do PT, o Sr. Emir Laranjeira – na
época deputado estadual nesta Casa – não conseguiu

105
Sérgio Cerqueira Borges

ser reeleito, mesmo depois de ficar provado que ele não


tinha nada a ver com a chacina de Vigário Geral; na
verdade apenas alguns membros do batalhão que estava
sob sua responsabilidade provocaram aquela barbárie.

Uma prova de que o Sr. Emir Larangeira não tinha


nada a ver com isso, o Coronel ... Brum, que fez toda a
investigação para o Ministério Público, pediu-lhe des-
culpas pelo prejuízo que sofreu devido a uma interpre-
tação precipitada e equivocada. O Coronel Larangeira
é um homem integérrimo, digno, correto e merecedor de
conviver com todos nós, pessoas dignas. E mais, Sr. Pre-
sidente: naquela oportunidade, também tentaram me en-
volver no ocorrido apenas porque forneci um gravador
e 50 fitas para o carcereiro gravar toda a conversa dos
suspeitos que estavam recolhidos na Polinter. E, graças
a essas fitas, o Desembargados Jorge Loretti, Secretário
de Justiça à época, pôde separar o joio do trigo – o Sr.
Deputado Carlos Minc estava aqui naquele momento e
sabe que o que digo é verdade. Estou falando de algo que
presenciei e, consequentemente, tenho autoridade para
dar este depoimento.

Desta forma, peço ao Sr. Deputado Adroaldo Peixo-


to Garani que não retire seu projeto de pauta, pois isso
seria reincidir numa tremenda injustiça, uma verdadeira
excrescência.
Muito obrigado.
O SR. ADROALDO PEIXOTO GARANI – Peço a pa-
lavra para discutir a matéria, Sr. Presidente.

O SR. PRESIDENTE (Gilberto Silva) – Para discu-


tir a matéria, tem a palavra o Sr. Deputado Adroal-

106
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

do Peixoto Garani, que dispõe de sete minutos e


meio.
O SR. ADROALDO PEIXOTO (Para discutir a
matéria) – Sr. Presidente, o PT está apresentando
uma emenda ao nosso projeto que concede a Me-
dalha Tiradentes ao ex-Deputado Emir Larangei-
ra. Respeitamos a decisão, mas dela discordamos
frontalmente porque o Coronel Emir Larangeira foi
absolvido em todos os processos. Todos, sem exce-
ção. Inclusive um de seus livros – ele tem mais de
nove livros publicados – traz, na íntegra, todos os
processos nos quais ele foi absolvido. Entendo que
essa emenda para impedir que ele receba a Meda-
lha Tiradentes não procede. Manteremos o projeto
e iremos aguardar que essa condecoração seja con-
cedida pelos nossos pares.
Muito obrigado.17
 

17 ORDEM DO DIA Projeto De Resolução 1466/2006

107
Sérgio Cerqueira Borges

Os embates entre os políticos na ALERJ oriundos das


polícias demonstram com clareza o que significa e signi-
ficou segurança pública a eles.

CARÍSSIMO LEITOR. VEJAM ESTES EXEM-


PLOS DE ENTREVISTAS COM IDEIAS TENDEN-
CIOSAS CUJAS DEMONSTRAM A FORMAÇÃO
DE CONCEITOS DE “VERDADES”:

ENTREVISTA/ Marcos Sá Corrêa


19/09/00

“O Ministério Público do Rio de Janeiro fez, nas úl-


timas semanas, uma dupla surpresa para o deputado
estadual Hélio Luz, que acusa o procurador geral José
Muiños Pinheiro de derrapagem na apuração de escân-
dalos no governo Anthony Garotinho. Primeiro revelou
que, apesar de sua fama de policial incorruptível, dez
anos atrás Luz recebeu diretamente do empresário Jair
Coelho, o engaiolado Rei das Quentinhas, a mesada que
bancou as refeições de sua equipe, enquanto foi dele-
gada de Itaperuna, uma cidade do interior. Em seguida,
levou-o a descobrir que sua passagem por Itaperuna foi
mau negócio para a Cereais Praia Formosa, a anteces-
sora da Brasal no império que Jair Coelho ergueu sobre
o monopólio da comida carcerária. Sob aquele arranjo
informal, o número de pratos que a delegacia comprava
por mês caiu de quase quatro mil para pouco mais de mil.
Coberto por essas notas fiscais, o deputado petista volta
ao ataque nesta entrevista.

Como o Sr., um policial com fama de durão, caiu numa


armadilha dessas? 

108
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

Hélio Luz – É história velha. Mais de dez anos atrás,


em maio de 1990, foram morar no interior, nomeado dele-
gado em Itaperuna, no norte do Estado. Deixei na capital
a chefia da Comissão de Combate a Grupos de Extermí-
nio, um cargo desgastante, onde pus tanto PM na cadeia
que eu no fim até brincava, dizendo que já tinha forma-
do meu próprio batalhão. Mas não só foi por isso que me
mudei. Minha mulher havia passado no concurso para
o Ministério Público, começou a viajar muito e nossas
filhas pequenas precisavam de atenção. E fui parar em
Itaperuna.

Era um novato? 
Luz – Que nada. Já tinha então 17 anos de polícia.
Mas nunca havia administrado uma delegacia. Fazia
plantão na polícia e, nas folgas, assessorava movimentos
de posseiros e favelados. Em Itaperuna, encontrei uma
delegacia caótica. O chefe da carceragem, depois de
prender um traficante local, acabou ficando com a mu-
lher e a boca de fumo do preso. Os médicos do hospi-
tal mantinham duas mesas de pôquer num clube de jogo
perto da delegacia. Mas, depois de 10 anos trabalhando
em Homicídios, tinha uma equipe, que foi comigo para o
interior. Eram, se não me engano, 20 policiais, inclusive
duas moças, uma escrivã e uma detetive. Foram elas que
começaram a reclamar da comida de uma pensão imun-
da, escolhida como fornecedora da delegacia pela antiga
empresa de Jair Coelho, a Cereais Praia Formosa. As-
sim, numa viagem ao Rio, acabei contando o problema ao
diretor-geral da secretaria de Segurança, meu colega de
turma Dilermando Amaro. Ele me sugeriu reclamar di-
retamente com o Jair Coelho, que naquela época eu nem
sabia quem era.

109
Sérgio Cerqueira Borges

Ele já tinha o monopólio da bóia nas delegacias e pre-


sídios?

Luz – Não sei, mas acho que sim, ou não estaria envol-
vido com um lugar distante como Itaperuna. Dilermando
me deu o endereço da Praia Formosa. Ficava na Gam-
boa, região portuária da cidade. Era um grande armazém
com escritório no fundo, típico de um atacadista de secos
e molhados. Ele me respondeu que, dali, não podia fisca-
lizar a cozinha de uma pensão em Itaperuna. E propôs:
‘Arruma uma conta que eu deposito o dinheiro e os poli-
ciais comem onde quiserem’.

Isso lhe pareceu normal?

Luz – Depois eu soube que alguns delegados recebiam


o dinheiro vivo, na mão. Hoje não faria, mas na época
não vi nada demais naquilo. Anos antes, o primeiro go-
verno Brizola tinha fechado a Cocea, acabando com a
compra centralizada de merendas no estado. Falou-se
muito que era muito mais barato deixar que as professo-
ras comprassem as merendas diretamente. Achei que era
o mesmo caso. Só tomei o cuidado de não deixar que o
dinheiro entrasse em minha conta pessoal. Abri outra, na
única agência do Banerj em Itaperuna, para os depósitos
de Jair Coelho. Meu pessoal saiu da pensão e passou a
tomar o café da manhã, almoçar e jantar numa padaria
em frente à delegacia, que nós pagávamos diretamente.
Um detetive se encarregava de levantar todo mês o núme-
ro de pratos servidos, eu conferia se os números batiam
com os da nota fiscal e a Praia Formosa recebia a presta-
ção de contas, assinada por mim.

Era muito dinheiro?

110
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

Luz – O bastante para pagar, durante quatro meses,


a alimentação mensal de uma delegacia do interior. Só
fui rever minhas contas agora que o Ministério Público
denunciou os depósitos. Encontrei uma coisa muito
curiosa: durante os quatro meses que passei em Itaperuna,
o custo da alimentação na delegacia caiu a menos da
metade. Antes, Jair Coelho cobrava por Itaperuna o
equivalente a 3.817 refeições por mês. No meu tempo,
com 20 policiais de minha equipe trabalhando na cidade,
o número oscilou entre 1.279 e 1.791 – mesmo assim
porque em agosto, quando a conta subiu, tinha havido
um seqüestro na cidade e o movimento aumentou. Em
setembro, depois que eu saí, o número de refeições subiu
imediatamente para 3.925 refeições. Como o preço era
definido pela licitação, roubava-se na quantidade.

Por que saiu de Itaperuna?

Luz – Aquela é uma cidade onde eu levava minhas fi-


lhas na escola de bicicleta. Mas fica perto da fronteira
de Minas Gerais e do Espírito Santo, portanto terra de
matador. Um dia, ameaçaram o juiz. E eu avisei que, se
ele sofresse um arranhão, passaria com um trator por
cima da casa do suspeito. Pouco depois me avisaram que
os bandidos estavam de olho na minha família. Ameaça-
vam me executar na porta de casa. Pedi reforços, mas em
vez de concentrar mais policiais ainda em Itaperuna, o
que seria realmente uma aberração, mandaram eu voltar
para o Rio. Assim, fui trabalhar na divisão de Entorpe-
centes. Troquei Itaperuna pela delegacia de Entorpecen-
tes. Em matéria de dinheiro, para quem é disso, não pode
haver nada melhor que a Entorpecentes, é um dos luga-
res mais disputados na polícia. Em seguida, fui dirigir
o Departamento Geral de Polícia da Baixada. O diretor

111
Sérgio Cerqueira Borges

anterior levava dez mil dólares por mês do jogo do bicho.


Mas os bicheiros nunca tinham chegado perto de mim,
mesmo porque na Homicídios tinha indiciado duas vezes
o Luizinho Drumond, da Imperatriz Leopoldinense. Logo
que assumi, um velho detetive me procurou e, depois de
muito rodeio, perguntou: ‘Doutor, o pessoal da contra-
venção conhece sua história como delegado, mas agora
quer saber se, como diretor, continua a mesma. Eles po-
dem chegar a 15 mil dólares por mês’.

O que quer dizer isso?

Luz – Quer dizer que, se eu quisesse me corromper,


não seria logo em Itaperuna. Em 1995, virei Chefe de Po-
lícia Civil. Encontrei no gabinete três garçons. O prédio
todo da secretaria tinha cafezinho, água gelada, fruta,
almoço especial, dois lanches por dia. Quis saber quem
pagava aquilo. A festa toda era cortesia de Jair Coelho,
me explicaram. Mandei cortar.
 
Por quê?

Luz – Porque não existe cortesia daquele tamanho.


Os garçons foram dispensados no mesmo dia. Comprou-
se uma garrafa térmica para servir cafezinho no meu
gabinete. Uma tarde, no fim do expediente, me aparece
o encarregado da administração financeira, um tipo
jeitoso, que me deixava desconfiado. Trazia uma pilha
de processos prontos para eu assinar. Era o último dia
para renovar o contrato das quentinhas, ele queria que
eu renovasse sem licitação o acerto com a empresa de
Coelho para fornecer as refeições dos presos e policiais.
Alegava que era urgente. Tão urgente que não dava tempo

112
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

para ler a papelada. ‹Esse tipo de coisa só assino se você


me trouxer com, no mínimo, três dias de antecedência›,
eu lhe disse. Consultei o Tribunal de Contas e descobri
que podia renovar o contrato por 60 dias, enquanto
preparava nova licitação.

As coisas entraram no eixo?

Luz – Dois meses depois, me informaram que faltara


tempo para publicar o edital. Falei com o secretário
de Administração Augusto Werneck e transferi para lá
a presidência da comissão de licitação. Prorroguei os
contratos por mais 45 dias. Durante semanas, eu entrava
na polícia e a primeira coisa que fazia era passar pelo
quarto andar, ver se o processo de licitação estava pronto.
E o pessoal remanchando.

Para quê?

Luz – Para falar a verdade, não sei. Jair Coelho


ganhava todas as licitações, mas pelo visto preferia evitá-
las. Acho que, para ganhar as concorrências, jogava os
preços lá embaixo, eram os ajustes de contrato que ga-
rantiam suas margens. Dividi o estado em 11 áreas, para
quebrar o monopólio. Pedi ao Senai para entrar na dis-
puta. Fiz a licitação.

E aí?

Luz – A empresa de Jair Coelho ganhou todas as onze.


Só perdeu um pedaço dos contratos porque, através do
BANERJ, o banco do estado, pelo menos para as refei-
ções dos policiais troquei o prato-feito por tíquetes-refei-
ções. Jair Coelho perdeu com isso, a partir de dezembro

113
Sérgio Cerqueira Borges

de 1995, 900 mil reais por mês. Aí, foi me visitar. Disse
que, se quisesse, compraria dos policiais todos os nossos
tíquetes, pagando 40% do valor nominal. É um homem
enorme, ex-caminhoneiro, desaforado. E eu sou um bai-
xinho abusado. ‘Se você comprar por 40% ainda é lucro,
porque sua comida o policial põe no lixo’, respondi. Es-
tou contando tudo isso para mostrar uma coisa inexplicá-
vel: se ele tinha uma bomba contra mim, por que nunca
jogou no meu colo nesses anos todos?

Para usar uma metáfora policial, enfiaram um papelo-


te de cocaína no bolso?

Luz  – Não, enfiaram polvilho de Granado. Acharam


talco no meu banheiro e saíram dizendo que é cocaína.
Para eu ter sido sempre abusado do jeito que fui em toda
minha carreira na polícia, não poderia nunca ter levado
dinheiro. Só com propina do vídeo-poquer, um delegado
da Zona Sul pode ganhar 30 mil reais por mês. Quando
fui chefe de polícia, tirei todos os delegados de lá. Se eu
tivesse levado dinheiro em algum lugar, não iria fazer
isso. É assim que a polícia funciona.

O Ministério Público, pelo visto, não concorda.

Luz – Talvez por antipatia. No ano passado, na


Comissão de Orçamento da Assembléia Legislativa, cortei
uma emenda do deputado Paulo Melo dando 40 milhões
de reais para o Ministério Público. Isso num estado que o
governador Anthony Garotinho assumiu dizendo que não
tem dinheiro, anunciando cortes para o funcionalismo.
O governo não tem dinheiro para os funcionários, mas
apóia o auxílio-moradia na Assembléia, para estendê-lo

114
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

aos promotores e juízes, arrombando o teto salarial da


lei. Encaixa-se o quadrado no redondo, inventando nomes
absurdos, como ‘parcela de equivalência estipendial’.

Os promotores querem furar o teto?

Luz – O teto salarial no estado é de 9.600 reais brutos.


O governador Garotinho, que é um aventureiro, diz que vai
reduzi-lo para 8 mil reais, mas deixa um promotor ganhar
12 mil reais líquidos. Por quê? Eu ganho 3.900 como
delegado aposentado. Posso garantir que dá para viver.
Na Assembleia ganho mais seis mil e desde o primeiro dia
prego meu contracheque na porta de meu gabinete. Não
estou na vida pública? Então, meu salário é público. Mas
no Ministério Público há 50 procuradores que têm dois
contracheques e, o que é pior, dois números de matrícula.
Recebem uma parte dos vencimentos como procuradores,
outra por cargos em comissão. Um contracheque vai até
o limite de 12 mil reais líquidos. O outro dá o resto. Eu
acho que um procurador que faz essas coisas assim acaba
com dificuldade de investigar o governo.
O empresário Jair Coelho é um poderoso corruptor?

Luz – Poderoso, não. Grande corruptor. Se fosse po-


deroso não estaria agora na cadeia, onde aliás corre
mais do que nunca o risco de ser depenado. É uma pes-
soa de quem eu não gosto, mas que tem endereço sabido
e profissão. É fornecedor do Estado, não deveria passar
nem doze horas na cadeia. Jair Coelho, digo com toda
a tranquilidade, da candidatura Leonel Brizola para cá,
financiou todas as campanhas de governador. Pôs mui-
to dinheiro em todas elas. E com Garotinho parece ter
uma espécie de parceria. Senão, como é que foi parar em

115
Sérgio Cerqueira Borges

Campos, contratado para recolher o lixo do município,


quando o governador era prefeito?”

“O tráfico é sócio da polícia”

24 de março de 2006

ENTREVISTA/ CARLOS ETCHICHURY

Uma revelação do documentário “Falcões: meninos


do tráfico”, exibido no Fantástico do domingo passado,
assombrou os brasileiros: crianças vendem drogas com
a conivência das autoridades, inclusive as policiais – a
quem pagam salários para o funcionamento dos seus ne-
gócios. Nenhuma novidade para o delegado aposentado
e ex-chefe de Polícia do Rio de Janeiro (de 1995 a 1997,
durante o governo de Marcelo Alencar) Hélio Luz, que
diz isso há pelo menos 10 anos.

Radicado em Paris (França) desde 2002, Luz, 60 anos,


está em Porto Alegre, sua cidade natal e onde residem
familiares. Em um shopping da Capital, Luz conversou
ontem com Zero Hora sobre o documentário produzido
por MV Bill e Celso Athayde, criticou a inexistência de
um “projeto de segurança” no país e voltou a bater no que
denomina de “banda podre” da polícia.

– Ninguém no Brasil pratica crimes sem dar dinheiro


à polícia. Se o cara chegar e cair na besteira de fazer isso,
na segunda ou na terceira vez estará na cadeia. A polícia
no Brasil é eficiente. Ela sabe quem praticou crime, onde
está e como está. Agora, daí a prender e colocar isso no
processo é uma distância grande – disse o delegado apo-
sentado, ao longo de 45 minutos de conversa:

116
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

Zero Hora – O senhor não deve ter se surpreendido


quando meninos revelaram o envolvimento da polícia
com traficantes de drogas.

Hélio Luz – No Rio, o problema não era o Comando


Vermelho, mas sim o “comando azul”, a PM. O proble-
ma é a corrupção na polícia. Existe a impressão no Brasil
de que a criminalidade é alta. Não é. A corrupção da polí-
cia que é alta. A criminalidade é decorrente da corrupção
da polícia. Quando a polícia deixa de ser corrupta, a cri-
minalidade reduz. Quando meninos dizem que participam
do salário da polícia, é verdade. O tráfico, na realidade, é
um sócio da polícia brasileira.

ZH – O senhor é autor de uma frase polêmica sobre


as delegacias especializadas do Rio de Janeiro: “a Rou-
bos rouba, a Furtos furta e a Homicídios mata”. Era isso
mesmo?

Luz -  (Risos) Eu falei um dia em que estava irrita-


do. Eu dirigia a Divisão Anti-seqüestro, no Rio, e estava
aporrinhado porque tinha cinco ou seis seqüestros em an-
damento e havia polícia na outra ponta (seqüestrando).
Então, era eu enfrentando policial. Eu falei: “Bom, a par-
tir de hoje a Divisão Anti-seqüestro não seqüestra mais”.

ZH – Ela sequestrava?

Luz – Sequestrava! Esse é que era o problema. Então,


você não conseguia acabar com o sequestro no Rio porque
a Divisão Antissequestro sequestrava! Ela terceirizava. O
traficante ia lá sequestrava e ela operava o prêmio (resga-
te). Ela (a polícia) ia para dentro da casa do sequestrado e

117
Sérgio Cerqueira Borges

depois operava lá na ponta para pegar o dinheiro do res-


gate.

ZH – Os policiais da Delegacia de Roubos roubavam


também?

Luz – Não vou generalizar. Falo sobre o Rio. Não é


que a (divisão especializada de) Roubos e Furtos pratique
roubo e furto, mas eles vão ser sócios dos ladrões. Falo
na prática. Na hora em que enquadrei a Divisão Antisse-
questro acabou o problema de sequestro no Rio.

ZH – A analogia serve para roubo e furto de veículos?

Luz – Teve uma época em que aumentaram o roubo e o


furto de automóveis no Rio. Então, eu desmanchei a espe-
cializada de roubo e furto de automóveis, transformei em
uma repartição burocrática. Reduziu o índice (de roubo e
furto de veículos). O índice de 1996 foi o menor dos últi-
mos tempos no Rio. Eram eles que roubavam os carros?
Não. Mas eles organizavam o roubo de carros do Rio.

ZH – Talvez o senhor tenha sido o primeiro chefe de


Polícia que disse para todo país ouvir: “Há uma banda
podre na polícia”. Isso foi em 1996. De lá para cá, mu-
dou alguma coisa?

Luz – Não vejo mudança. Em uma instituição pública,


o controle externo vai lá e retira o corrupto. A institui-
ção continua funcionando normalmente. Na polícia, não.
A corrupção é um instrumento utilizado pela polícia. O
Estado sabe disso e tolera.

118
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

ZH – Essa análise vale para o Rio ou para o Brasil em


geral.

Luz – É geral. Talvez a do Rio seja mais corrupta por-


que é uma das mais velhas do país.

ZH – Como o senhor analisa a intervenção do Exército


no Rio?

Luz – Por que o Exército, ao invés de subir as favelas


do Rio, não controla a fronteira seca com o Paraguai e a
Bolívia? Se fizer isso, o tráfico de drogas e de armas vai
cair. Se a Polícia Federal fechar a ponte de Foz do Iguaçu,
o roubo de automóvel e o tráfico de armas reduzem. Todo
mundo sabe disso. É público e notório. Mas por que não
fazem?

ZH – Como o senhor avalia o projeto de segurança do


governo Federal?
Luz – Não me parece que haja um projeto. Não parece
que esteja entre as prioridades do governo.
ZH – Como está a experiência na França? Há algo
que possa ser utilizado no Brasil?

Luz – Não é a oitava maravilha do mundo. Agora, por


exemplo, lá houve protestos, manifestantes tocaram fogo
em 10 mil veículos, mas a polícia não matou ninguém.
É um Estado voltado para sociedade. Ao contrário da
nossa polícia, que faz controle social, a polícia francesa
dá segurança ao cidadão.
ZH – Na França é tolerado que um policial tenha uma
empresa recuperadora de veículos, por exemplo?
 
Luz – (Risos) Não existe isso.

119
Sérgio Cerqueira Borges

ZH – As pessoas de um modo geral acham que mais


policiais nas ruas significa mais segurança. O senhor
concorda?

Luz – É loucura! Os governantes não controlam 10 mil


policiais. Aí, eles contratam mais 10 mil. Bom, quem já
não controlava 10 mil agora vai ter de administrar 20 mil
policiais. O grande problema nesse país é que não há um
projeto de segurança. Deve-se reduzir o número de poli-
ciais, pagar melhor, qualificar. É impossível ter o controle
de 80 mil homens da PM ou de 20 mil da Polícia Civil.

ZH – Além de chefe de Polícia, o senhor foi deputado


estadual pelo PT. Pensa em voltar à vida pública.

Luz – (Risos) Não. A saúde não permite mais.18

18.http://www.obser vatoriodaimprensa.com.br/atualiza/ar tig os/


iq270920003.htm

120
A BANDA PODRE DA POLÍCIA,
Existe?

...ZH a Hélio Luz: “– Talvez o senhor tenha sido o


primeiro chefe de Polícia que disse para todo país ouvir:
“Há uma banda podre na polícia”. Isso foi em 1996. De
lá para cá, mudou alguma coisa?”...
...“...onde pus tanto PM na cadeia que eu no fim até
brincava, dizendo que já tinha formado meu próprio
batalhão... ”(Hélio Luz, Delegado da Polícia Civil DO
RJ)...

Se existe “duas bandas de uma laranja” uma boa,


outra podre, então o problema é de fácil solução,
basta cortar a parte podre e tudo estará certamente
resolvido; mas não é isso que o Estado vem fazendo
nestes anos por meio de autoridades hipócritas? Ges-
tores da Segurança Pública vangloriam-se por excluí-
rem milhares de servidores públicos, concursados e,
a situação da corrupção não se resolve; ou será que a
porção podre é maior parte desta laranja? Acredito
que refletindo as ponderações a seguir, o leitor pode-
rá tirar suas conclusões próprias. Na verdade não há
hemisfério bom e outro ruim da laranja, penso que a
laranja nada tem a ver com o problema, é a árvore que
tem a ser cuidada em seus diversos ramos, mesmo que
haja a necessidade da poda; os frutos, a boa laranja,
só será boa se cuidarmos e entendermos a fisiologia
social do problema. Acredito que ao final todos che-
garemos à conclusão que: acabar com a Polícia não

121
Sérgio Cerqueira Borges

seria possível, afinal quem garantiria a ordem social?


Entretanto, conservar uma polícia militarizada nos
tempos atuais é senão um contrassenso com um Es-
tado Democrático de Direitos, ademais retornaríamos
ao tempo que bandoleiros “lampiãonicos” seriam os
que ditariam as normas. É claro, é uma instituição de
pouco mais de duzentos anos, mas a PMEG (Polícia
Militar do Estado da Guanabara), foi fundida e não é
esta uma espécie de extinção? Aí ninguém do Poder da
época se importou com tradições, imperou o interesse
do Poder, mesmo que não fosse o interesse público a
deixar, por exemplo, a população da Baixada Flumi-
nense em estado pior do que era em todos os aspectos.
A fusão da Polícia Militar com a Polícia Civil, com ou-
tro acrônimo, adequada a uma Constituição Federal,
é algo possível ou imprescindível ao anseio incondicio-
nal para a democracia; digo mais, poderiam instituir
a polícia municipal com chefes de polícia eleitos pelo
Povo, com controle externo de diversos seguimentos
da sociedade; um Brasil gigantesco e diferente em seus
fatos sociais e de farta cultura, acertadamente, esta
descentralização seria um ideal; entretanto o primeiro
passo é sem dúvida a desmilitarização, se não, a socie-
dade almeja mudanças quiçá ao menos à diminuição
do efetivo das Polícias Militares, destinadas apenas
ao Controle de Distúrbios Civil concomitantemente
o aumento das polícias Civil da federação, com uma
modalidade de serviço com policiais uniformizados
com viaturas identificáveis, fazendo o mesmo que a
PM faz; notem que a CRFB torna tudo possível por
emenda constitucional; ora, a sociedade não deseja o
fim da polícia, deseja mudanças, adequação do Esta-
do-Policial; os policiais também esperam por dias me-
lhores, só não querem mudanças os militares Oficiais,

122
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

em parte; afinal qual praça entra para polícia para ser


militar, senão por vocação policial?

O Professor de direito penal da Universidade Federal


de Minas Gerais (UFMG), Túlio Viana assertiva:

“Quando a gente fala em desmilitarização da polícia,


muita gente não entende o que estamos querendo dizer.
Acha que a gente quer que a polícia ande desarmada.
Outros pensam que o problema é a farda. Não tem nada
disso. O problema do militarismo é que a sua lógica é de
treinar soldados para a guerra...

“O problema de a Polícia Militar ter sido forjada na


ditadura incide sobre sua filosofia de atuação. Enquanto
outras polícias do mundo são treinadas para abordar o
sujeito, fazer averiguação e liberá-lo, ou se cometeu um
delito enviá-lo para outras instâncias, como julgamento,
no Brasil é diferente: a ordem é aniquilar o inimigo, que
nesse caso é o povo... 

“É pobre combatendo pobre. O soldado, o cabo, está


na ponta de todos os interesses do Estado e também pri-
vado, por isso, a morte e a lesão ao inimigo é só mais uma
ferramenta de coerção a ser utilizada pelo militarismo”,
observa o professor de direito penal da UFMG, Túlio Via-
na.

Diante disso, o PM (...) revela as humilhações e as prá-


ticas violentas sofridas nos cursos de formação e poste-
riormente nos batalhões pelos soldados, além do direcio-
namento ideológico receitado na instituição. 
“O soldado é tratado como um bicho, um animal, às
vezes como um lixo, isso antes e depois da sua formação;

123
Sérgio Cerqueira Borges

tem sempre que baixar a cabeça para tudo e fazer sempre


direitinho. Quando sai para rua não pode vacilar” diz o
soldado. 
É sobre um clima de pressão que o “resultado” tem que
aparecer. “Quando vamos para uma missão que tem que
tirar as famílias que invadiram um terreno na cidade de
São Paulo, por exemplo, é muito estresse, porque temos
que cumprir a tarefa, seja da maneira que for”, expõe.

Atualmente, dois projetos de Emenda à Constitui-


ção (PEC) circulam no Congresso Nacional em defesa
da desmilitarização da polícia. A PEC 102, de 2011, de
autoria do senador Blairo Maggi (PR/MT), autoriza
os Estados a desmilitarizarem a PM e unificarem suas
polícias.” Ela não faz especificamente a unificação e
a desmilitarização, mas autoriza que cada estado fe-
derado possa fazê-lo caso julgue necessário”, explica
Vianna. A PEC está em tramitação no Senado. 

Já a PEC 430, de 2009, em tramitação na Câmara


dos Deputados, visa a unificação das polícias Civil e
Militar dos Estados e do Distrito Federal, além da des-
militarização do Corpo de Bombeiros, bem como dá
outras funções para as guardas municipais. A propos-
ta é de autoria do deputado federal Celso Russomanno
(PP-SP).

“... Não é da bondade do homem do talho, do cer-


vejeiro ou do padeiro que podemos esperar o nosso
jantar, mas da consideração em que eles têm o seu
próprio interesse. Apelamos, não para a sua humani-
dade, mas para o seu egoísmo, e nunca lhes falamos
das nossas necessidades, mas das suas vantagens...”
(Adan Smith).

124
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

Uma armadinha esta interpretação; pode-se ser dito,


um sofismo; esta analise simplória quando classificamos
o homem, o ser humano, o “homem policial”, como bons
e malvados, a separa-los em duas bandas em uma insti-
tuição, uma virtuosa outra não; o mesmo policial que ex-
torqui em uma blitz é o mesmo que na próxima esquina
evitará que seja assaltado, e na hipótese, em ação simul-
tânea; o homem não é sempre bom ou sempre malvado,
a sua natureza é mais complexa a isto que se afirma e nos
remete neste perigoso engano. Esta divisão sofista em que
existem duas bandas na polícia é uma construção de uma
“verdade” cujo só interessa as especulações, aos interes-
ses particulares de quem dela se valha, a elite é claro. De
um contexto situacional do assunto, vejamos a máxima
de Rousseau:

“... o homem nasce bom, a sociedade é que o cor-


rompe...”.

O surgimento da sociedade organizada corrompe os


homens, levando-os a um estado de barbárie. Ironicamen-
te, podemos concluir disso tudo que, para Rousseau, no
estado “selvagem”, ou seja, na natureza, o homem é bom,
e na civilização, na sociedade organizada, o homem se
perverte, torna-se mal.
Mas o que realmente leva o homem a se corromper?
Qual o fator que, uma vez cuja sociedade organizada surge,
os levam às adversidades, disputas e rivalidades? Para
Rousseau, ironicamente – uma vez que o autor é iluminista
e o movimento buscou defender os interesses burgueses
– o fator que corrompe os homens é a propriedade. O
surgimento da propriedade privada dividiu a humanidade
em dois gêneros: os que têm e os que não têm. Desta
forma, os que têm escravizam, oprimem, se aproveitam

125
Sérgio Cerqueira Borges

dos que não têm, visando a ter mais. Por outro lado, os
que não têm tornam-se cobiçosos, ambiciosos, voltam-
se uns contra os outros, buscando ter o que no estado
natural era de todos. “Por outro lado, o homem, de livre
e independente que era antes (no estado natural), passou
a estar, em virtude de uma profusão de necessidades,
por assim dizer, sujeito a toda a natureza, sobretudo aos
seus semelhantes, de quem num sentido se torna escravo,
mesmo em se tornando seu senhor; rico, precisa de seus
serviços; pobre, precisa de seu auxílio, e a mediocridade
não o coloca em situação de viver sem eles. Logo, é
necessário que incessantemente procure interessá-los
em sua sorte e fazê-los encontrar, real ou aparentemente,
proveito em trabalhar para o seu próprio; isso o torna
dissimulado e artificioso com uns, imperioso e duro
para com outros e torna-lhe imprescindível lograr todos
aqueles de que necessita, quando não pode fazer-se temer
por eles e não acha de seu interesse servi-los utilmente.
En– fim, a ambição devoradora, a gana de aumentar a
sua fortuna relativa, menos por verdadeira necessidade
do que para ficar acima dos outros, inspiram a todos os
homens uma nefanda inclinação para se prejudicarem
mutuamente, uma inveja secreta tanto mais perigosa
quanto, para aplicar seu golpe com maior segurança,
frequentemente assume a máscara da benevolência; em
suma, concorrência e rivalidade de um lado, oposição
de interesses do outro e sempre o desejo oculto de tirar
proveito à custa de outrem; todos esses males constituem
o primeiro efeito da propriedade e o cortejo inseparável
da desigualdade nascente...”.19

19 Rousseau, JJ. Discurso sobre a Origem e os fundamentos da de-


sigualdade entre os homens, São Paulo, Martins Fontes, p 217-218

126
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

A mitificação nos meios de comunicação de “estórias”


levianas transformam bandidos em heróis, e pessoas
com conduta de retidão em facínoras; basta alguns in-
gredientes, ausência do Poder Público e interesses aos
objetivos das elites.

“Em pensar que durante cerca de doze anos na polícia


tinha minha honra intacta cujo muito me orgulhava de
todos os anos de bons serviços prestados comprovados
nos próprios registros da PMERJ; mas na noite de 14 de
setembro de 1993, tornaram-me a imagem de tudo cujo
combati; foi tudo em vão?”

127
Fascinantes facínoras
Impiedosos e controversos, alguns bandidos ganham
fama e chegam a ser confundidos com heróis.

Um homem armado invade uma casa em busca de co-


mida. A dona, humilde viúva da zona rural, não tem o que
oferecer. Tomado por um ataque de fúria, o invasor dá
uma surra na mulher e depois se volta para o jovem filho
da viúva, que presencia tudo. Põe então em prática seu
gosto por rituais de sadismo gratuito: enfia o órgão genital
do menino numa gaveta e a tranca com chave. Depois,
ateia fogo à casa. Desesperado, o rapaz é obrigado a cor-
tar o próprio pênis para salvar a vida.
O facínora responsável por esse crime hediondo é hoje
um mito nacional: Virgulino Ferreira, vulgo Lampião. Sua
ficha criminal não caberia em todas as páginas desta edi-
ção. Durante 22 anos, liderou um bando de cangaceiros
em ataques sangrentos num vasto perímetro de sete esta-
dos do Nordeste. Arrasavam vilas e propriedades rurais.
Estupravam mulheres. Castravam rapazes. Enterra-
vam gente viva. Cortavam cabeças. Sangravam inocentes
como animais em praça pública. Marcavam com ferro em
brasa o rosto de moças que se vestiam de forma “inade-
quada”.
Os poderosos da época anunciavam publicamente sua
indignação com os atentados em série e suplicavam ver-
bas do governo federal para caçar os cangaceiros. Nos
bastidores, porém, faziam acordos com o chefe da gangue,
vendiam-lhe armas e contratavam seus valiosos serviços

129
Sérgio Cerqueira Borges

de jagunço para se livrarem de desafetos e se apossarem


de terras abandonadas. O terror promovido pelo cangaço
contribuiu para a migração em massa do Nordeste para o
Sudeste nas primeiras décadas do século XX. Os cordéis
da época lamentavam o sofrimento do sertanejo nas mãos
dos bandidos:

É um tormento horroroso
essa tal situação,
da gente não poder mais
viajar pelo sertão
para encontrar no caminho
indo cair direitinho
nas unhas de Lampião

Como explicar que, hoje, esse bandido quase só receba


loas, como símbolo de cabra macho, vingador do sertão?
Como explicar Lampião, o Mito?
É o que se perguntava desde criança a antropóloga
Luitgarde Cavalcanti. Sua mãe caíra nas garras do
cangaceiro quando jovem. No episódio, ocorrido no
município de Santana de Ipanema (AL), Lampião trancou
as moças da família em uma casa e ordenou que ninguém
do seu bando encostasse-se a elas. Não foi um súbito
acesso de bondade. Luitgarde atribui a decisão ao racismo
do “rei do cangaço”. Descendentes de holandeses, com
pele clara, olhos azuis, bem vestidas, aquelas mulheres
impressionaram Lampião pelo fino trato e pela boa
aparência. Eram, enfim, de uma “raça refinada”.
Por mais de 20 anos, Luitgarde se dedicou a investigar
o cangaço, num esforço que envolveu pesquisas de cam-
po, análise documental e de referências teóricas e que re-
sultou no livro A derradeira gesta: Lampião e Nazarenos
guerreando no sertão(2000). Para ela, a mitificação de

130
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

Lampião é um absurdo histórico a ser corrigido urgente-


mente. “Ele só conseguiu permanecer 22 anos praticando
seus crimes porque servia à classe dominante. O êxodo
provocado por Lampião refez o latifúndio no sertão nor-
destino. Enquanto foi vivo, ele não era mitificado pelo
povo. Até o início dos anos 1960, nenhum cordel dizia
que Lampião teria ido para o céu; ele sempre aparecia no
inferno”, diz ela. Tanto que o coronel Lucena Maranhão,
o homem que matou o pai do cangaceiro e mais tarde li-
derou a caçada que resultou na morte do próprio Lampião
(1938), entrou para a história alagoana como benfeitor
público. “Haja festa no sertão/ Dê viva todas pessoas/
Que a polícia de Alagoas/ Apagou o Lampião”, celebra-
va o poema popular de Manoel Neném. Lucena elegeu-se
deputado estadual em 1951 com grande votação, e dois
anos depois foi o primeiro prefeito eleito de Maceió.

Então, quando, e por obra de quem, surgiu o Lam-


pião fictício, bravo guerreiro de um Brasil miserável? A
pesquisadora aponta origens bastante distintas para essa
deturpação. Em primeiro lugar estão os que participaram
ou se beneficiaram do cangaço. Os irmãos Melchiades e
Ezequias da Rocha, por exemplo, descendiam de “coitei-
ros” de Lampião – gente que ajudava os cangaceiros a se
esconder e os apoiava com serviços variados. Aos Rocha
soava bem melhor ter ancestrais ligados a um “justiceiro”
do que serem conhecidos como protetores de bandidos.
Eis porque, a partir dos anos 1940, o jornalista Melchia-
des, repórter de A Noite, passou a defender um novo olhar
sobre o cangaço, enquanto o senador e médico Ezequias
compunha cordéis sob o pseudônimo de Zabelê. Trazem
sua assinatura os primeiros versos conhecidos em que
Lampião tem seus atos legitimados pela corrupção rei-
nante. Como estes:

131
Sérgio Cerqueira Borges

“Para havê paz no Sertão,


E as moça pudê prosá
E os rapaz pudê se ri
E os menino diverti
É preciso uma inleição
Pra fazê de Lampião
Gunvenadô do Brasil”

A versão de que Lampião simbolizava um certo ideal


de justiça social atendia a vários interesses. Até mesmo
para os potentados regionais da política e da Justiça, as
vestes de caçadores do justiceiro deviam servir melhor
do que a revelação de conluios com criminosos. No ou-
tro extremo dos embates políticos, o novo Lampião caía
como uma luva para a propaganda comunista no Brasil,
como exemplo de “herói camponês” – a Internacional
Comunista chegou a pensar em recrutá-lo como guerri-
lheiro revolucionário. Nos anos 1960, quando sobreveio a
ditadura e a esquerda se aferrou a símbolos da libertação
popular, não havia mais dúvidas sobre quem teriam sido
os vilões e os heróis nos combates entre cangaceiros e a
polícia corrupta dos coronéis. Some-se a tudo isso a li-
berdade poética de cordelistas e cantadores, tendo à mão
o apelo dramático de personagens altamente simbólicos
e já distantes no tempo. Receita pronta e infalível para o
nascimento do bom bandido.
Aliás, fora de seu contexto, o bordão “Bandido bom
é bandido morto”, popularizado pelo ex-deputado flumi-
nense Sivuca, tem a precisão de uma máxima socioló-
gica. Pois é justamente o que afirma o historiador  best-
seller  britânico Eric Hobsbawm em Bandidos, obra de
referência para os estudos sobre o conceito de “banditis-
mosocial”: “Sem dúvida, é mais fácil converter bandidos
mortos, ou até mesmo remotos, em Robin Hoods, qual-

132
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

quer que tenha sido seu comportamento real”. Se bandido


bom é bandido morto, melhor ainda é bandido inexistente
– é o que comprova o mesmo Hosbawm, ao apontar a len-
da de Robin Hood como ideal universal do bom ladrão.
Sem os pecados e as contradições dos criminosos de carne
e osso, ele se beneficiou da imaterialidade para perenizar-
se no imaginário da honrosa e eterna odisseia humana em
sua luta contra autoridades ilegítimas ou injustas.

Com  Bandidos, lançado no Brasil em 1975, Hobs-


bawm faz uma viagem panorâmica por diversos exemplos
de “bandidos sociais” ao redor do mundo, procurando
embasar esse novo conceito segundo critérios sociocultu-
rais aproximativos. O livro virou referência, para o bem
e para o mal: criticado por muitos, mas obrigatoriamente
citado desde então. O contexto de atuação dos bandidos
sociais de Hobsbawm se relaciona com a era moderna – a
partir da formação dos estados nacionais e do controle dos
territórios por poderes centrais – e se dá sempre na área
rural. A maior causa das críticas à obra é sua análise ge-
nérica de que esse tipo de banditismo teria um significado
pré-político, demarcando um início de reação das popula-
ções excluídas contra a opressão dos poderes locais. Para
Hobsbawm, Lampião entra no rol dos “bandidos sociais”,
embora com a ressalva de que era um personagem ambí-
guo, meio “nobre”, meio “monstro”.  

Ainda que percam precisão quando generalizados, al-


guns modelos de Hobsbawm são úteis para uma verifi-
cação da presença, ou não, do bandido social em casos
específicos de crimes. Um deles é o fator vingança. Em
diversos tempos e culturas, a vingança é encarada como
motivo aceitável para se pegar em armas a fim de fazer
justiça com as próprias mãos. Foi o que levou outro can-

133
Sérgio Cerqueira Borges

gaceiro notório, Antônio Silvino (1875-1944), a conquis-


tar sua vaga no Paraíso dos cordéis: ele começou sua vida
bandida para vingar o pai assassinado. O mesmo argu-
mento por vezes é usado para defender Lampião. Mais
uma vez, a caçadora do mito Luitgarde Cavalcanti se in-
surge contra a tese: “Isso é outra mentira. Lampião entrou
para o cangaço com o pai muito vivo, em 1916. O pai dele
só morreu cinco anos depois”. Quando muito, teria caído
na marginalidade por conta de violentas rixas familiares
anteriores. Em seu livro, Luitgarde chama de “escudo éti-
co” o pretexto da vingança paterna utilizado por Lampião
para justificar suas ações. Antônio Silvino, em oposição,
ganha crédito da pesquisadora por ter mantido um “resto
de honra”, obedecendo a certos limites – não estuprava e
não castrava, por exemplo.
Parece haver uma norma indispensável à consolidação
de todo e qualquer “bom bandido” (real ou imaginário):
a existência de elementos que o diferenciem do “bandido
comum”. No Brasil, o primeiro a apresentar este diferen-
cial teve uma trajetória que revelou muito sobre as rela-
ções de poder e os valores culturais da época, no século
XVIII. Nosso primeiro bandido social conhecido, com
uma legião de seguidores fiéis, foi Manuel Nunes Viana
(?-1738), líder dos emboabas na corrida do ouro das Mi-
nas Gerais.
A ocupação de territórios em busca de riquezas recém-
descobertas, sob poderes ainda fragilmente constituídos,
fez da região cenário ideal para disputas violentas. “A ca-
pitania das Minas nasceu da vontade do ouro e das proezas
dos mais valentes”, resume a historiadora Célia Nonata da
Silva no livro Territórios de Mando. Está naqueles sertões
o DNA dos futuros jagunços e cangaceiros nordestinos.

134
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

Nunes Viana era um homem “honrado” porque soube


fazer valer seu poder: primeiro, enriquecendo como co-
merciante de mantimentos, negociante de gado, fazendei-
ro e contrabandista de ouro; depois, armando-se e criando
um exército de escravos para proteger seus territórios e
expandir seu domínio entre a Bahia e Minas Gerais. No
enfrentamento com quem obstruísse suas pretensões, ser
cruel era prova de virilidade, demonstração necessária
para impor respeito naquele meio. Assim, fosse lenda ou
verdade, foi em seu benefício que circularam histórias
como a de que apressava a morte dos doentes ricos para
tomar-lhes a fortuna, ede que tinha uma lagoa cheia de
piranhas, onde atirava os inimigos. Sua própria filha teria
sido vítima desse ritual macabro.
O valente bandido ganhou mercês de Sua Majestade
por prestar serviços ao rei, “desbravar sertões, destruir
gentios e conquistar terras para a Coroa portuguesa”. Re-
cebeu ainda o título de capitão-mor do São Francisco e o
Hábito de Cristo. Quando os ventos mudaram e ele se viu
perseguido pelo governador D. Pedro de Almeida, conde
de Assumar, Nunes Viana tornou-se oficialmente um fora
da lei. Seu banditismo, então, passou a se legitimar pela
busca da reparação e do desagravo, contra o poder opres-
sor.
Junto à população mais simples, era sabido que tinha o
“corpo fechado”. Este é um traço característico de muitos
bandidos, incluindo a totalidade dos cangaceiros. A práti-
ca tem origem nas religiões africanas: por meio de rituais,
o indivíduo fica em dia com os orixás e, portanto, imune
a qualquer agressão. Circulando em território povoado
por escravos africanos e índios, Nunes Viana inaugurou
um “banditismo mestiço”, valendo-se desses expedientes
místicos para alimentar sua lenda e ganhar seguidores.
Todo o seu exército de negros também era supostamente

135
Sérgio Cerqueira Borges

investido de poderes sobrenaturais. Dizia-se que ele tinha


dons como curar doenças e saber o que se passava em
todos os lugares.
O investimento na imagem pública, mesmo numa épo-
ca de meios de comunicação rudimentares, é outro fator
crucial para a construção do mito. Quem não conhece não
teme. De volta a Robin Hood, Eric Hobsbawm nos lem-
bra de que as lendas em torno do personagem só se es-
palharam pela Europa após a invenção da prensa móvel,
no século XV. Com suas baladas impressas e circulando
amplamente é que o bandido imaginário, cuja existência
teria se dado três ou quatro séculos antes, consolidou sua
fama de herói. No caso do líder dos emboabas, Nunes
Viana, embora sem grandes recursos midiáticos à dispo-
sição, também havia essa intenção de se autopromover:
“Sua vida parece-nos um teatro de valentias e feitos heroi-
cos, cujas ações remetem à ânsia pela referência pessoal e
notoriedade”, atesta Célia Nonata da Silva.
Bandido bom tem que ser  showman. Ainda mais a
partir do século XX. Vale adotar uma marca pessoal, o
Z de Zorro, a lanterna do Bandido da Luz Vermelha, a
peruca loura de Lili Carabina. Cientes de sua condição de
figuras públicas tiram partido do próprio mito, a ponto de
não sabermos mais diferenciar a vida real da ficção. Pro-
vavelmente, em suas mentes conturbadas, eles também já
não saibam. Na era da urbanização, dos jornais, rádio e
TV, a mídia é mais uma arma nas mãos dos bandidos que
desejam se fazer heróis.
  Tenório Cavalcanti (1906-1987) foi mestre na
combinação de vários desses quesitos. Este alagoano
radicado em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense,
pode ser considerado um símbolo da transição entre a
bandidagem rural e a urbana. E soube usar os métodos de
ambas. Para começar, o fator vingança: ainda criança em

136
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

Palmeira dos Índios, teve o pai assassinado em uma briga


por terras, e a morte foi justiçada por parentes. Em suas
memórias, descreve o trauma que o ambiente de violência
rural impôs à sua personalidade: “Como se não bastasse
o flagelo das secas, que tantas mortes causavam, surgiu
o flagelo do cangaço, que espalhava o terror por aqueles
confins. Os bandoleiros assassinavam às centenas,
fazendo o sangue humano regar a terra ressequida pela
estiagem”. O impacto dessas vivências teria influenciado,
segundo ele, sua “formação explosiva, talvez intolerante e
rebelde”. Vítima dos cangaceiros na terra natal tornou-se
um neocangaceiro em seu novo lar, para onde se mudou
com 20 anos incompletos. Começou trabalhando para um
fazendeiro de Caxias, e em pouco tempo já era conhecido
como pistoleiro na rude disputa por terras da periferia ca-
rioca. Seu nome ecoava em episódios de espancamentos,
tiroteios, atentados, assassinatos e chacinas. Visto como
ameaça pelas autoridades, sobreviveu graças à identifica-
ção com a comunidade – um dos requisitos mapeados por
Hobsbawm para definir seus “bandidos sociais”. Majori-
tariamente formada por nordestinos simples que migra-
ram para fugir da seca e do cangaço, a população caxiense
não tardou a acolhê-lo como um igual, com a distinção da
“macheza” e da generosidade em dar aos pobres.
Metido com a apropriação de terras e a contravenção
do jogo do bicho, Tenório deu seu grande salto quando
legitimou o poder por meio de mandatos políticos. Eleito
deputado estadual e depois federal, adicionou à sua per-
sona pública irresistíveis ingredientes populistas. “Ele ti-
nha a atuação de um coronel do interior em seu feudo:
era juiz, polícia, cartório”, descreve o historiador Israel
Beloch, pesquisador da empresa Memória Brasil e autor
do livro Capa Preta e Lurdinha.

137
Sérgio Cerqueira Borges

O título da obra se refere a dois elementos marcantes


do mito que Tenório Cavalcanti construiu em torno de si.
Nos anos 1940, ganhou do general Góes Monteiro, mi-
nistro da

Guerra de Getulio Vargas, um presente que era a sua


cara: uma metralhadora MP-40 alemã, que ele batizou
carinhosamente de “Lurdinha”. Não largava a arma pe-
sada nem mesmo para exercer suas funções parlamenta-
res. Mas para não chamar muito a atenção, passou a usar
uma capa preta, que escondia a metralhadora. Daí o título
do filme “O homem da capa preta”, que o eternizaria nos
cinemas. Outro traço que o diferenciava era o uso da bar-
ba, raríssima entre personalidades públicas de então. Para
completar sua lenda junto ao eleitorado, em 1954 lançou
um jornal popular – Luta Democrática –, daqueles cheios
de crimes e violência. Além de destacar sua atuação polí-
tica e defendê-lo dos ataques dos muitos inimigos, o veí-
culo serviu para propagar o lado messiânico de Tenório
Cavalcanti. E não é maneira de dizer. Nas páginas do Luta
Democrática, os leitores podiam acompanhar a “paixão e
o drama” da vida de um “paladino da nova era”, uma “fi-
gura nazarena” capaz de operar milagres. “Se você é po-
bre ou paupérrimo, se está falido, desiludido, sem ideais,
desperte, levante e caminhe ao nosso lado na luta pela
sobrevivência”, convocava o arauto dos “milhões de Te-
nórios”. Dizem que seus seguidores tocavam a capa preta
para obter graças diversas. Não lhe faltou nem a fama do
“corpo fechado” dos cangaceiros; afinal; safou-se de 47
ferimentos de bala.

Talvez a mais notável diferença entre esse bandido-po-


lítico-urbano e seus ancestrais cangaceiros seja o fato de
não se assumir como assassino. Os tempos eram outros;

138
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

no meio urbano e político, a bravura tinha limites mais


claramente definidos pela lei. Em suas memórias, Tenório
narra 28 episódios de violência ao longo de quase três
décadas, mas não assume nenhum crime e alega sempre
legítima defesa. Declarou-se inocente inclusive do assas-
sinato do delegado Imparato, seu desafeto público, cujo
carro foi metralhado em 1953, num episódio de repercus-
são nacional.
“Não matarás”. Este mandamento sagrado para boa
parte da sociedade contemporânea é também um divisor
de águas no julgamento que fazemos de nossos bandidos.
Simpatizamos mais facilmente com criminosos “inofen-
sivos”, como o ladrão Meneghetti [ver  “Honestamente
ladrão”,p. 26], o inglês Ronald Biggs, do assalto ao trem
pagador, o golpista americano Frank Abagnale(que inspi-
rou o filme “Prenda-meseforcapaz”), o traficante desar-
mado João Guilherme Estrela (“Meunomenão éJohnny”)
e o vigarista Marcelo Nascimento Rocha (“Vips”), entre
outros estelionatários, tratantes e falsários. Certamente
eles se encontram em melhor posição em nossa escala de
valores do que políticos ladrões de dinheiro público. Mui-
tos representam, talvez, o anseio popular de reparação das
injustiças e desigualdades sociais – ladrão que rouba la-
drão tem cem anos de perdão. Quando os representantes
da lei não gozam de credibilidade junto à população, agir
à margem da lei é mais aceitável. No limite, representam
a pulsão humana de afirmar-se afrontando limites que nos
oprimem, como bem detectou Sigmund Freud.
Neste sentido, Leonardo Pareja (1974-1996) é a sínte-
se do “bandido bom” dos dias atuais. Adotado, perdeu o
pai na adolescência e descobriu que a mãe era adúltera.
Caiu numa vida de crescentes ameaças à ordem, testando
seus próprios limites em atos de vandalismo e roubos es-
petaculares. “O perigo é o que me faz viver”. Em uma só

139
Sérgio Cerqueira Borges

noite, em Goiânia, realizou a proeza de assaltar onze pos-


tos de gasolina. Em tempos ultramidiáticos, a coleção de
feitos impressionantes conta pontos positivos para os fora
da lei. O assaltante Lúcio Flávio, embora fosse um assas-
sino sanguinário, fugiu da cadeia oito vezes. O traficante
“Escadinha” foi resgatado do presídio da Ilha Grande de
helicóptero. O assalto ao Banco Central de Fortaleza em
2005 é lembrado mais com admiração do que com indig-
nação.
Mas as ações de Leonardo Pareja talvez tivessem
permanecido no anonimato da bandidagem comum se
ele não envolvesse no sequestro uma figura pública, em
1995. Depois de assaltar uma pousada na Bahia, manteve
como refém a sobrinha do então senador Antônio Carlos
Magalhães. Cercado, viu abrir-se para ele uma oportuni-
dade inédita: a de usar a mídia a seu favor. “Foi a minha
chance de sair de lá. Se fosse a filha de um operário, de
uma dona de casa, tava eu e ela essas horas no cemitério”.
A imprensa começou a criar para ele a imagem-padrão de
monstro: que teria molestado e torturado a moça. Então
resolveu dar entrevistas e mandar cartas para emissoras
de TV. “A crítica fala em ‘inversão de valores’. Mas não:
eu estava colocando os valores no seu devido lugar. Colo-
cando o verdadeiro valor da polícia, que são ladrões, cor-
ruptos, torturadores. Saía a versão da polícia. Eu entrava
na rádio e dava a minha versão. A imprensa foi moldando
a critério dela, e eu fui moldando a meu critério”. Assim
nasceu o mito Leonardo Pareja, bandido justo e defensor
dos oprimidos, plenamente consciente de que construía
um personagem: “Tenho que representar”.
Filmado para um documentário – “Vida bandida”, de
Régis Faria – quando estava preso, teve toda a chance de
desfiar seus argumentos, com fala mansa e vocabulário
articulado, ajudado ainda pela aparência de bom rapaz,

140
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

cara de classe média. “Nunca usei de agressão física nem


agredi moralmente a pessoa”. Nisso, dificilmente se po-
derá dizer que estava mentindo, pois seu principal per-
seguidor o confirmou. “Desconheço qualquer violência
praticada pelo Pareja contra suas vítimas”, declarou o de-
legado que chefiava a Polícia Civil de Goiás à época, cujo
nome de batismo agravava sua má fama no estado: Hitler
Mussolini.
Não faltou à construção da lenda um resgate espetacu-
lar, com a invasão do presídio de Anápolis e a libertação
de comparsas. Mas o grande momento do personagem
ainda estava por vir. Detento no presídio Cepaigo, em
Goiânia, Leonardo Pareja tornou-se porta-voz dos cole-
gas de cárcere na denúncia contra as péssimas condições
da detenção, entre março e abril de 1996. Aproveitou uma
visita de autoridades com o intuito de verificar o impasse
e desencadeou uma rebelião. Em questão de minutos, ele
e seus comparsas conseguiram fazer de reféns o secretário
de Segurança Pública do estado, o presidente do Tribunal
de Justiça, o diretor do presídio e mais de uma dezena de
desembargadores, juízes, promotores e advogados. Nos
dias que se seguiram, as autoridades dividiram celas com
os presos amotinados. Sem tratamento diferenciado. Mais
tarde, os reféns seriam só elogios à organização da rotina
pelos detentos, que incluía lavagem de roupa e limpeza
do espaço. “Eles foram bons demais conosco, não deixa-
ram faltar água nem comida”, atestou o então diretor da
cadeia, coronel Nicola Limongi Filho.
No meio das tensas negociações, o ator Pareja criou a
cena mais impactante de sua curta vida de crimes. Subiu
na caixa d’água do presídio com um violão e a bandeira
do Brasil. Lá em cima, para todas as câmeras que qui-
sessem ver, cantou “Admirávelgadonovo”, uma espécie
de hino dos excluídos, sucesso na voz de Zé Ramalho:

141
Sérgio Cerqueira Borges

“Vocês que fazem parte dessa massa/ Que passa nos pro-
jetos do futuro/ É duro tanto ter que caminhar/ E dar mui-
to mais do que receber...”. Mais tarde, justificaria o ato:
“O que eu queria passar? Que ali tinha brasileiros, e não
presos, e que todo mundo tinha sentimentos”.
Leandro França, escritor e criminalista, usa seus co-
nhecimentos para tentar compreender o que faz de Pareja
um bandido diferente. “Certas peculiaridades que fogem
ao processo ordinário da criminalização, dentre as quais:
a infração a regras não plenamente aceitas pelo corpo so-
cial, sua origem social, sua reação à persecução criminal,
a capacidade de atender a inconfessáveis anseios sociais,
o carisma, a possibilidade de se transformar em um perso-
nagem e de tornar sua história em um enredo policialesco,
seu comportamento pós-apenamento”, enumera o autor
do livro Ensaio de uma vida bandida, versão romanceada
da saga de Pareja.

Diferentemente dos outros bandidos retratados nesta


reportagem, Leonardo Pareja não celebrou acordos com
as autoridades. Limitando-se a desempenhar o papel de
acusador da polícia e defensor dos excluídos, durou pou-
co. Morreu no mesmo ano, assassinado por um colega de
prisão. O mesmo que, para a câmera do documentário,
declarou-lhe lealdade cega: “Faço tudo por ele, até mato”.
O assassino, viciado em drogas, ganhou a liberdade no
ano seguinte.20

Se refletirmos, se ponderarmos o texto do jornalista


Lorenzo, comparado à realidade do Estado do Rio de Ja-
neiro, São Paulo e outros Estados, associando os anos de
outrora do cangaço, não será difícil identificar as causas
do que vivemos hoje em tempos atuais com “ingredien-

20 Lorenzo Aldé, jornalista e professor da Oi Kabum! Escola  de Arte e Tec-


nologia

142
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

tes” similares contextualizados. O abandono dos Poderes


Públicos a região nordestina e o abandono às áreas caren-
tes do Rio de Janeiro, também a outras cidades de muitos
Estados brasileiros, conhecidas como comunidades ou
favelas consequentemente ocorreram resultados seme-
lhantes ou iguais se confrontarem-os as causas e conse-
quências, se observa que ocorreram em épocas distintas
certos fatos; um fato científico social, sem dúvidas. Um
resultado científico exige a repetição do resultado sem-
pre que o experimento for alcançado, e tanto no Nordes-
te, com grupos de cangaceiros, quanto nas favelas com
os traficantes, se deveu a uma única causa: o  abandono
cujos entes públicos da federação deixaram de exercer o
monopólio da segurança pública, abrindo espaço de prá-
ticas de “justiceiros”, de “bandoleiros”; afinal é requisito
contratualista constitucional tal exercício da segurança
pública. Este fato social sem dúvida no que diz respeito
ao RJ teve início mais acentuado na década de 1980. Iní-
cio do Governo de Leonel de Moura Brizola; é unívoco;
o caudilho amarga em sua história a perda do território
de responsabilidade do Estado aos aventureiros bandidos
de várias espécies e facções. O texto do jornalista Lorenzo
Aldé verificou que o Poder Público não é bem visto pelos
seus tutelados constitucionais; então sua força militar tão
pouco, seja: Federais ou Estaduais; neste momento ocorre
à inversão de valores; bandidos até então cruéis, são gla-
mourizados por setores da sociedade das artes em geral
e assumem uma “identidade” de revolucionários contra o
sistema, contra a injustiça social e por aí vai. Lucio Flavio
“PASSAGEIRO DA AGONIA” é um clássico exemplo.
Sem contar com o filme “TROPA DE ELITE” cujo não
retrata enfaticamente nenhum agente do Estado como fi-
gura de herói; pelo menos não era esta a intenção do fil-
me; qual livro, filme, peça teatral dentre outros do gênero

143
Sérgio Cerqueira Borges

retratou um agente destas forças do Estado como “moci-


nhos”; acaso alguém quis fazer sequer um curta de PM
salvando a vida de crianças em escola pública em aten-
tado de franco atirador? Bombeiros Militares salvando
moradores nas diversas tragédias naturais ou ação dos
homens? Só quem se preocupa em criar “heróis” para o
imaginário infantil e exaltação de todos ao seu patriotis-
mo, por exemplo, a ser seguido, são os Estados Unidos da
America do Norte; afinal nosso país não copia sua cultura
a muito e fazemos seus míticos heróis os nossos?

Deste pegamos emprestados e anexamos sua cultura


a nossa. No Brasil só me recordo do “PATRULHEIRO
RODOVIÁRIO”, no mais, se transforma vilões em “mo-
cinhos”; analisem a letra da música Faroeste Caboclo
entre outras mais: “... João teve o pai morto por tiro de
SOLDADO...”; vejam que o soldado de plano já é posto
como vilão; o soldado só é herói dele próprio e de seus
familiares cujo enfrenta o risco da morte, do escarnio
da sociedade com uma miséria de soldo (remuneração),
como se ele mesmo fosse o próprio Estado; e assim ele
é visto, “UM REPRESENTANTE DO ESTADO, QUE
NÃO PODE SER MAIS VIOLENTO QUE O PRÓPRIO
MARGINAL”, contudo pode sofrer toda a injustiça so-
cial como “homem policial”; seus superiores Oficiais fria-
mente afirmam que estes são voluntários quando morre e
sabem dos riscos quando ingressam para a instituição; ora
quem em sã consciência pode imaginar que alguém pres-
ta um concurso para morrer? Risco de morte aduz esta
possibilidade em muitas profissões, mas vez que em mui-
tos noticiários da TV vemos o Oficial da PM fazendo tal
declaração; aí viram apenas estatística. O cidadão presta
concurso para ser policial e não militar! Quem entra para
PM para ser militar é o Oficial, mas que escolha tem o

144
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

Praça? Quem quer ser personagem da musica: “MAR-


CHA SOLDADO CABEÇA DE PAPEL, SE NÃO MA-
CHA DIREITO VAI PRESO NO QUARTEL”; mas é
exatamente a realidade dos militares, sejam Federais ou
Estaduais; exemplo: os acusados inocentes da chacina de
Vigário Geral foram presos por motivos fúteis, coturnos
mal limpos, corte de cabelos crescidos e acusados de uma
chacina sem base acusatória, apenas indícios; mas o que
significa indícios?, Policiais infortunados, descartados;
senão o que aduz semelhança ao texto em epígrafe: um
marginal de uma facção criminosa de nome Ivan Cus-
tódio, a testemunha “I”, transmutado em “mocinho” a
serviço do sistema governamental e de agentes públi-
cos inescrupulosos A SERVIÇO DO INTERESSE DE
UMA ELITE; estes injustiçados “não marcharam direito
e seu papel era tão somente em ter suas cabeças corta-
das!”; meros “figurantes sociais” a serem envolvidos para
um propósito de Poder disputado; já eram vilões mesmo
no imaginário popular, então quando eleitos culpados e
ratificados pela mídia oficial  concessionária  do Estado,
com seus próprios interesses; como tal, o que importa a
verdade? Estão todos fardados ou não! É só caminharem
e seguirem a canção; pois na PM ou você segue a canção
do Vandré ou segue a do Horsae (CANÇÃO DO POLI-
CIAL MILITAR), seres humanos inservíveis ao grau da
cidadania plena; abaixo da escala em que até mesmo os
facínoras marginais são melhor quistos que estes pela so-
ciedade, cujos milhares não voltam ao lar em cerca de
três décadas, e agora mortos, não são heróis nem deles
mesmos, somente os são das suas famílias; e, em um in-
teresse midiático passam enfim por 15 minutos a serem
heróis como produto de notícia apenas, para em seguida
serem anônimos figurantes sociais. Poderiam falar, e o fa-
velado não o é desde o início discriminado também? São

145
Sérgio Cerqueira Borges

sim, todos, tanto os “escravos sociais” como os “capitães


do mato social”. Não sabem, os combatentes federais e
voluntários das forças estaduais foram um dos primeiros
favelados da historia do Rio de Janeiro na primeira favela
desta; oprimidos das PMs não são diferentes do restante
da sociedade proletária: A ocupação do Morro da Provi-
dência surgiu a partir de uma promessa que o governo
fez; entre outros, mas também, a alguns soldados do Rio
de Janeiro enviados à Guerra de Canudos, cuja promessa
feita que em caso de vitória fossem recompensados com
um lar. Ao retornarem ao Rio de Janeiro 1897 e verem
a promessa não ser cumprida; bem típico deste país; os
soldados e outros infortunados, esbulharam parcialmen-
te um morro, que passou a partir daí a ser chamado de
Morro da Providência, em alusão à providência tomada
pelos também soldados. O Morro da Providência passou
a ser chamado de Morro da Favela consoante a um dos
morros junto aos qual a cidadela de Canudos foi construí-
da, assim alcunhada em virtude da planta Cnidoscolus
quercifolius (popularmente chamada de favela) cuja
predominava a região. A partir da associação do nome
“favela” com os soldados, o morro popularmente pas-
sou a ser conhecido como morro da Favela. A ocupação
detonou-se entre o final do século XIX e o início do XX, a
partir da grande reforma urbana imposta pelo engenheiro
Pereira Passos, quando vários cortiços e habitações po-
pulares do centro foram destruídos e a população pobre,
transferida para os morros nas adjacências do centro. No
fim do ano de 1910, o morro da Favela era considerado
o lugar mais violento do Rio de Janeiro. O nome favela
estendeu-se a outros morros e, na década de 1920 ocorre
à popularização do nome favela, as ocupações de colinas
com barracos e casebres passaram a ser conhecidas como
favelas. Com madeiras do cais do porto cujo é próxi-

146
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

mo, construíram barracos no morro da Providência; estes


militares usados e abandonados pela União assim como
a população pobre; parece ser cultural, então. É de Pedro
a Cabral e segue nesta linha enquanto militares for, será
sempre “cabeça de pepel”, papel em branco para que o
Poder nele escreva a história cuja não é dele; então “abra
seu coração” para este “homem policial”, que não é um
ser institucional, senão humano usado e abusado pelo Po-
der para servir as Elites, um instrumento estatal.

Sigamos a sugestão de Nelson Mandela:

“... Se você falar com um homem numa linguagem


que ele compreende, isso entra na cabeça dele. Se
você falar com ele em sua própria linguagem, você
atinge seu coração...”.

147
ABRINDO A CAIXA PRETA.

Em toda evolução da Polícia Militar, permita-me focar


hoje a do Estado do Rio de Janeiro, a história revela a
exata destinação desta instituição, cuja conserva até hoje
sua essência, qual seja, servi a quem está no Poder e ma-
quiavelicamente mantê-lo neste como já vimos, concomi-
tantemente, as disputas internas sempre existiu e sempre
existirá; afinal a instituição passa a ser apenas uma escada
a parcela dominante em que praças serão os degraus; e
como em um “jogo de xadrez político”, em sentido e es-
cala decrescente, sempre haverá prejudicados na forma de
injustiças nestas disputas; é claro que, esta nunca estará a
serviço de quem deveria, a sociedade como um todo, é o
Estado que está a serviço da sociedade, este é o Contrato
Social cujo não assinamos “hoje, uma espécie grosseira
em comparação de um contrato de adesão”, digamos21.
Mas somos parte, verificamos que nem sempre isto ocorre
quando o governante não está a serviço popular; até mes-
mo por que o governante também está pondo sempre prio-
ritariamente seus interesses pessoais à frente do interesse
público; a história do cenário político brasileiro evidencia
a assertiva; do sistema estes políticos não sairão nunca,
dele, do sistema político. Se estes não forem eleitos pelo
Povo, certamente não lhe faltarão cargos para serem no-
meados; é este o acordo velado de uma das facetas da
21 LISBOA, Roberto Senise. Contratos difusos e coletivos. São Paulo: RT,
1997, p. 149.
“Roberto Senise Lisboa afirma que o contrato de massa é um negócio jurí-
dico bilateral ou plurilateral, podendo chamá-lo de contrato de direitos tran-
sindividuais (metaindividuais), difusos ou coletivos, ou ainda, contrato de
interesses sociais.”

149
Sérgio Cerqueira Borges

elite. A PMERJ está a serviço dos “Poderes constituídos”,


mas a própria Constituição deixa claro que “são militares
do Estado”, antes, reserva do Exército, e, não faz menção,
a estar a serviço do Povo. Outrossim, A PMERJ é formada
por cidadãos vindos do seio da sociedade, do Povo, por
assim dizer; a história do homem nos revela que quando
grupos sociais são pressionados, explode uma revolução,
o problema, é como está ocorrerá em sua forma evolutiva
e como irá se apresentar por vezes surpreendendo o “Po-
der”; os desvios de condutas seria uma forma de revolu-
ção? A PMERJ é a soma de seus integrantes, “Homem
Policial”; cujo vive em um grupo social com linguagem
e signos próprios, e, se não forem estudados na medida
em que devam, visando o interesse ao bem comum so-
cial, hoje fica evidente que só será nocivo à continuidade
eivada de fatos lamentáveis, mas inevitáveis, e sem o de-
vido estudo e a atenção que estes mereçam pelas ciências
sócias e humanas, antropológicas, sociológicas etc. com
aplicabilidade e inclusão social destes “homens policiais”;
não haverá regramento no Direito cujo regule e resolva a
situação; as chacinas não cessarão, e isto independente
se esta polícia ainda será duas ou outra nova. E consta-
tar afirmações do tipo: “-Tenho meu próprio batalhão de
excluídos” e “achar graça!” sinaliza algo errado e com
consequências. Outros usam expressões parecidas como
argumentação em defender o Poder Público ou interesse
Público, cujo na verdade estão defendendo seus status
quo neste Poder de interesses difusos das elites abastadas.

Sabemos que:

Antropologia  é a ciência que se dedica ao estudo


aprofundado do ser humano. É um termo de origem

150
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

grega, formado por “anthropos” (homem, ser humano) e


“logos” (conhecimento).

A reflexão sobre as sociedades, o homem e o seu com-


portamento social é conhecida desde a Antiguidade Clás-
sica através do pensamento de grandes filósofos, desta-
cando-se o grego Heródoto que é considerado o pai da
História e da Antropologia.

A sociologia é uma ciência que se dedica ao estudo


dos grupos sociais (conjunto de indivíduos que convivem
agrupados em diversos tipos de associações). Esta ciência
analisa as formas internas de organização, as relações
que os sujeitos mantêm entre si e com o sistema, e o grau
de coesão existente na estrutura social.

Se não for o policial militar estudado como sujeito de


Direito no contexto social e sua história na organização a
que pertence, nunca se entenderá como funciona a cabeça
deste profissional em relação à sociedade, este ser huma-
no, um ator social e não um “figurante institucional”, não
apenas um representante do Estado.

No sentido de causa e consequência, imaginem se os


atores cujo participaram das chacinas ruidosas e as anôni-
mas obtivessem outro enfoque e tratamento; será que es-
taríamos a lamentar tantas mortes?

Miguel Kohlhaas a coisa é, porém, outra.


Quando ele esgotou todos os meios para fazer valer
o seu direito tão indignamente desprezado, quando
um ato injusto exercido pelo gabinete do príncipe
lhe fechou todo o caminho legal, e vê que até a au-
toridade no seu mais alto representante, o sobera-

151
Sérgio Cerqueira Borges

no, faz causa comum com a injustiça, a dor inexpri-


mível que causa semelhante ultraje encoleriza-o e
insurreciona-o.
— “Mais vale ser cão do que ser homem e ver-se
calcar aos pés” — vocifera ele, e imediatamente
toma uma suprema resolução.
— “Aquele que me recusa a proteção das leis, —
acrescenta ele — degrada-me entre os selvagens
do deserto e põe em minhas mãos a clava com que
devo defender-me.”     Arranca a essa justiça venal
a espada desonrada que ela traz e maneja-a de tal
modo que o espanto e o terror se espalham pelo
país; a sua ação é tal que este estado apodrecido é
abalado até os seus fundamentos e o príncipe treme
sobre seu trono.22

Ainda falando das chacinas da década de 1990:


Esta omissão estatal além de possuir RESPONSA-
BILIDADE CÍVEL OBJETIVA, aprofundando em uma
análise mais apurada do aspecto criminal, e responsabi-
lidade concomitante do gestor destes “homens policiais”,
não seria o fato jurídico de um possível dolo eventual?
Vez que não prevenindo o que estava amplamente anun-
ciado publicamente, omitiu-se em seu dever, não se im-
portando, portanto, assumindo o resultado nos lamentá-
veis eventos de extermínios?
Mas transparece que estes homens públicos; da área de
comando; estavam blindados pelo Poder, ademais não ha-
via tradição em punir Oficiais, mais fácil acusar policiais
sem patentes: “... pobres, pobres coitados...”; frase que
ouviria da boca de um Oficial da PM quando aprisionado
no CPI (Comando de Policiamento do Interior); e; mesmo
que fossem estes, inocentes ou não, afinal são apenas “re-
presentantes do Estado” como afirmam sem cansar alguns
22 A Luta pelo Direito – R. von Ihering

152
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

hipócritas cujo não veem o policial como pessoa, senão


“uma peça a ser movida no tabuleiro” não o distinguindo
a pessoa humana do instrumento estatal.
O assunto está sendo tratado com enfoque ao Direi-
to, a Sociologia e a Antropologia, contextualizando os
fatos pela pessoa do autor vivida, estes fatos históricos,
esclarecendo que a dissertação fora iniciada com a histó-
ria da Polícia na sua genealogia, intextualizando a fusão
do Estado do Rio de Janeiro com o Estado da Guanabara,
referencias de justiceiros da década de 1950 e, uma cole-
tânea de discursos de parlamentares oriundos da polícia
com a esperança em ilustrar os fatos e consequências des-
tes pela má administração das pessoas, do “homem poli-
cial” e principalmente pelo desinteresse no entendimento
deste ator social, demonstrando a ambição em se manter
no Poder sempre. Clichê a assertiva: “– Um representante
do Estado não pode ser mais violento...”; o “homem poli-
cial” não é apenas o representante do Estado, senão tam-
bém é o homem do Povo, um cidadão; que a ele mesmo
não se vê como tal, também um excluído, pois implícito,
tem o Estado como opressor. Por vezes os praças encaram
seus Superiores, a Sociedade em geral, como entes a pre-
judica-los; torna-se uma “instituição autista” em relação à
sociedade. “Um animal” acuado para se defender ataca se
assim este “homem Policial” for tratado como tal.

“Nós, homens do conhecimento, não nos conhece-


mos; de nós mesmo somos desconhecidos.” 23

Importante ressaltar o período histórico em que cons-


titucionalmente, a PM era tratada de forma jurídica e po-
lítica na antiga Constituição da República, era então com
ênfase, reserva do Exercito Nacional e atualmente, Milita-
res do Estado (CRFB/88); fazer-se mister a introdução do
23 Friedrich Nietzsche.

153
Sérgio Cerqueira Borges

texto, vez que na fusão, fundiram-se as PM(s) de ambos


Estados, onde a PMERJ já nasceu com um “racha” entre
os sargentos e oficiais destas instituições, devido a privi-
légios de promoções aos policiais graduados e oficiais de
uma das instituições; o exemplo, sargentos que eram em
alguns casos analfabetos, foram imediatamente promovi-
dos ao posto de Major, coronéis etc., assumindo coman-
dos de batalhões, enquanto praças graduados e oficiais de
carreira, subordinados a este da outra corporação fundida,
concorreram às promoções em escalonamento inferior
aos da extinta PMRJ, quem era do Estado da Guanaba-
ra não ficou confortável com as mudanças, também aos
da PMRJ, tinham lá seu descontentamento; perpetuou-se
acirrado, talvez até os dias de hoje, a “rixa”, e é claro,
como no jogo de xadrez, os soldados são os peões deste
jogo político de poder maquiavélico.24

Embora o autor foi afetado de todas as formas ima-


gináveis por este fato social e Jurídico-político, terá em
mente não apresentar sua dor pessoal, pelo menos o míni-
mo necessário à seriedade que o trabalho exija, para não
comprometer a obra, mas: “A INJUSTIÇA QUEIMA A
ALMA E PERECE A CARNE!”. As chacinas da Can-
delária, de Vigário Geral e as demais ocorridas em 1993,
são particularidades deste contexto histórico, do mesmo
contexto causal, cuja há explicações, sociológicas e an-
tropológicas, ciências indispensáveis ao Direito, no que
se refere inclusive a TEORIA TRIDIMENSIONAL DO
DIREITO  do Mestre Miguel Reale (FATO-VALOR-
NORMA).

24 Nicolau Maquiavel, expressão cuja destaca uma de suas características


principal, “OS FINS JUSTIFICAM OS MEIOS”, em verdade, o autor da
obra O PRÍNCIPE, defende a objetividade cujo governante ão em ter, na
manutenção do Poder, desprovido do senso moral, se neste deseja manter-se.

154
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

Poderá o leitor entender como explicação, mas não


como justificativa, por exemplo, como policiais são capa-
zes de matarem concidadãos militares e, ou civis, como se
fossem inimigos da nação quando no período militar e no
“democrático”; como apropriar-se de bens alheios como
se “fosse espólio de guerra”, mas em tempo de paz; pois:
“Nem tudo que é justo, é legal, e, nem tudo que é legal,
é justo!”, todavia neste contexto da tropa, tais fatos eram
ignorados como ilegais, mas de consenso moral aceitável
e, incentivado por seus superiores; surgiram então dentro
da instituição PMERJ, classes com comportamentos com
entendimentos em que correntes “morais” subordinavam-
se nesta premissa. Havia os que acreditavam ser “hones-
to”, prender e apropriar-se dos bens (armas e dinheiro
etc.), “espólio de guerra” é claro, mas também havia os
que eram discriminados dentro desta, por este mesmo
grupo de “honestos”, por se venderem e omitissem na in-
terferência as atividades dos marginais, conhecidos como
“Arregados”, neologismo na PM cujo se refere à trégua
ao combate ao crime mediante propina  e, os que não se
comprometiam com o ilícito, mas descontentes com os
comandantes e o próprio Governo, também se omitiam de
sua vocação, buscando serviços cujo não tinham envol-
vimento direto com o público civil (serviços internos nos
batalhões e outros) e outros quando no serviço de rua, pre-
feriam olhar para o outro lado; afinal o policial é nivelado
pelos que a colocam em evidência negativa, então por que
arriscar representando o Estado se este é o primeiro a in-
justiça-lo e descarta-lo?

Oficiais do Comando, corruptos e honestos, eram


tratados da mesma forma pelo poder Executivo; na PM
ora já rachada com a fusão; havia as duas espécies nes-
ta PMERJ partida ou “mal emendada”; contanto que não

155
Sérgio Cerqueira Borges

interferissem no interesse do governante estatal, afetando


a opinião pública e assim ameaçando a carreira política
do governante, estes, não eram molestados; havia exceção
apenas no período que um coronel do Exercito a coman-
dou antes ao primeiro Comandante vindo da PM; mas as
chacinas foram um marco desta condição omissa dos Po-
deres, de um lado um coronel “treme terra”, de Niterói e
do outro lado, outro coronel da corrente contrária àquele
Poder situacional; este muito ambicioso e inescrupuloso
por Poder, um egocêntrico desprezível, mal quisto até
mesmo pelos seus pares Oficiais. Então a chacina de Vi-
gário Geral pouco depois da Candelária deu visibilidade
a outros crimes, pelo alarde e ruidosas com razão; cegou
autoridades e jornalistas, a ponto de permitirem que regu-
lamentos e normas, tanto da PMERJ, quanto do próprio
ordenamento jurídico fossem “rasgados” de serventia a
Justiça e ao interesse público, o desejo era apenas de “vin-
gança social” por parte da sociedade como um todo, e, a
uma parcela de oficiais e outras autoridades; um momen-
to impar para “frutificarem” sucesso profissional e opor-
tunismo político, não os incomodou usarem de policiais
inocentes para atingir seus objetivos; Nicolau Maquiavel
elogiaria o aprendizado destes tiranos na aplicação do
pensamento em que “... os fins justificam os meios...”,
de sua obra mais celebre, O PRÍNCIPE. O artigo 5º da
CRFB, em seus princípios fundamentais, do Devido Pro-
cesso Legal, da Dignidade da pessoa Humana, do Contra-
ditório em processo, seja Administrativo ou judicial etc.,
simplesmente foram deixados de lado, ao lado do Poder
de quem o detinha ou dele era possuidor, ou mesmo “re-
fém” a época, cujo era cedido pelo Poder estatal que temia
uma intervenção Federal.

156
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

“NÃO PERDERAM TEMPO AO ATACAR OS


PEÕES PARA DERROTAR O REI ADVERSÁRIO”.

Na atividade policial, os anos trabalhados no setor de


inteligência da PMERJ por muito tempo, na (P/2); com-
partilho fatos cujo emendarão o raciocínio do leitor, de
fatos reais e investigações a pessoa do autor confiadas
quando agente de informações do setor de inteligência
da PMERJ, que explicam muitos mitos, por exemplo, por
que alguns dos comandantes da PMERJ, não queriam de
forma alguma substituir os VW patrulhas (“fusquinha”),
por veículos mais modernos, por quê? Uma resposta sim-
ples, corrupção; estes fuscas não eram registrados no
DETRAN, senão somente na própria PMERJ, o chassi era
virgem então; uma característica deste veículo, o chassi é
separado da carroceria, o que facilitava muito as adulte-
rações. Como se acreditavam que os alarmantes furtos e
roubos nos anos 80 e 90 de VW, fusquinha, tinham desti-
nação a países vizinhos, se não para o motor a ser aprovei-
tado em construção de ultraleves; haja ultraleves a escu-
recer os céus do “jovem” Estado do Rio de Janeiro! Uma
lenda urbana, em verdade estes veículos nas mãos de al-
guns oficiais  mancomunados com outros integrantes de
alguns batalhões e pessoas no próprio DETRAN; Oficiais
e praças corruptos transformavam os furtados ou rouba-
dos em radiopatrulhas, licitas viaturas, cujo pelo desgaste
pelo uso e a falta de manutenção proposital, tinham pouco
tempo de vida útil e prematuramente eram descarregadas,
indo ao ferro velho como sucata; a frota oficial; estes veí-
culos como já mencionados, somente estavam registrados
na PMERJ; tinham seus cadastros feitos no DETRAN,
remarcados o chassi, portanto veículos novos, estes eram
vendidos em agências destinadas a este fim; imagina uma
frota de cerca de 600 veículos, por exemplo, diluído em

157
Sérgio Cerqueira Borges

frações aos batalhões, a frota da polícia, ao ser entregue a


PMERJ e, por conseguinte aos batalhões; quantos furtos e
roubos seriam feitos para substituir esta frota em parte por
veículos furtados ou roubados? Afinal quem fiscalizaria
uma viatura da própria polícia na época, que na verdade
era produto de furto ou roubo? Faz a história contada em
livro de ficção, reproduzida no filme Tropa de Elite, ace-
nar apenas a ponta do “ice Berg”, naquela cena do sumiço
de um motor, aprofundando a história real, esta é mais
nebulosa.

158
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

Então se faz necessário retroagir para compreender


o presente e não se repetir os erros no futuro!

159
O extermínio na era do governo
militar:

Quando adolescente, o personagem cujo realmente


nos assustava, sem dúvida era o “mão branca”, lá pelos
anos 70 para 80; os rumores eram divulgados de mortes
de marginais e ao seu lado, uma luva de cor branca era
sempre encontrada, mas era bastante evidente que não se
tratava de um indivíduo apenas os matadores, haja vista
que morria pessoas assassinadas em locais equidistantes,
impossibilitando a probabilidade de haver apenas um ma-
tador ou matadores; outrossim, a mensagem era clara e
comentada: a luva de cor branca era do tipo usado pelos
militares do exercito a exemplo, os militares da PE (polí-
cia do exercito) e BG (batalhão de guardas), batalhões de
elite estes; ressalvo, não estou afirmando que de fato estes
matadores eram militares, entretanto, era sem dúvida o
que se acreditava à época. Nestes anos o jornal que mais
se destacavam eram os Jornais populares no RJ e Guana-
bara, O DIA e A ULTIMA HORA, dizia-se naquela época
que se os espremessem “sairia sangue de suas páginas”,
fotógrafos faziam questão de registrar os buracos dos pro-
jetis no corpo das vítimas, davam maiores destaque a tiros
de calibre 12 (famosa escopeta).

“Mão branca”, mais a frente este neologismo será


abordado; interessante que nesta época, como todo mun-
do, convivesse com pessoas de índole diversas, trabalha-
doras, e, bandidos como vizinhos; era o autor morador no
bairro de Vigário Geral; tanto os trabalhadores como os

161
Sérgio Cerqueira Borges

próprios marginais da época, tinham muito medo de es-


tarem em locais suspeitos ou mesmo em via pública sem
documentos, havia a figura da VADIAGEM (A tipificação
da Contravenção de Vadiagem está insculpida no Decreto
-lei nº 3.688, de 3 de outubro de 1941, Lei das Contraven-
ções Penais, alterado pelas Leis 1.390 de 1951, 6.416 de
1977, 7.437 de 1985, 9.521 de 1997 e a 11.983 de 2009,
em seu artigo 59, tipifica o que seja Vadiagem.)25

“Art. 59 – Entregar-se alguém habitualmente à


ociosidade, sendo válido para o trabalho, sem ter
renda que lhe assegure meios bastantes de subsis-
tência, ou prover a própria subsistência median-
te ocupação ilícita: Pena” prisão simples, de 15
(quinze) dias a 3 (três) meses. Parágrafo único “A
aquisição superveniente de renda, que assegure ao
condenado meios bastantes de subsistência, extin-
gue a pena”

25 Vadiagem: contravenção ou seleção natural dos marginalizados no Estado


Democrático de Direito:
http://jus.com.br/artigos/24074/vadiagem-contravencao-ou-selecao-natu-
ral-dos-marginalizados-no-estado-democratico-de-direito

162
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

Incrivelmente a violência era menor contra o homem


médio, o cidadão comum, embora ocorressem tais mor-
tes; é um fato incontestável; embora não esteja defen-
dendo esta prática da época, tão pouco atualmente, mas
realmente nos dias de hoje vivemos mais tranquilos? Tal-
vez o freio naqueles cujo intentassem transgredir fosse
consequência parecida com que estes Poderes produziam
um rápido e consequente resultado, tanto no antigo regi-
me, como nas regras impostas nas favelas pelo trafico nos
dias de hoje; se na “democracia” que vivemos parece-nos
não ter justiça eficiente ou se tem, apenas é uma sensação
falsa desta; nas comunidades carentes cujo Poder Públi-
co não se faz presente, este receio de transgredir, freia a
delinquência por parte das pessoas não envolvidas com o
crime. Não significa que necessitamos de coercitividade
equilibrada na legislação já existente? A força da espada
estatal, com o uso das leis já existentes, sem que estas se-
jam apenas instrumentos de ascensão política? E quando
usada, usa-se com propósitos escusos? Só faz lembrar-me
de Rudolf Von Ihering e Roberto Campos:

“A justiça tem numa das mãos a balança em que


pesa o direito, e na outra a espada de que se serve
para defender. A espada sem a balança é a força
brutal, a balança sem a espada é a impotência do
direito. ” 26

“O governo não passa de um aglomerado de buro-


cratas e políticos, que almoçam poder, promoção
e privilégios. Somente na sobremesa pensam no
‘bem comum’” 27

26 Rudolf Von Ihering.


27 Roberto Campos.

163
AGOSTO DE 1982, ingresso do autor
na PMERJ.

A PMERJ ainda era comandada por Oficial do Exer-


cito brasileiro; salta aos olhos que na historia contada
pela instituição por meio de seus “historiadores”, cuja faz
parte da introdução desta obra, há um lapso, começam
sua história contemporânea citando apenas o Coronel PM
Carlos Magno Nazareth, era aspiração muito esperada
pelos Tenentes-coronéis da PM ter um dos seus no co-
mando direto da PMERJ naquela ocasião; cabe o esclare-
cimento que nesta época não existia a patente de coronel
na PMERJ senão de Tenente Coronel; entretanto o mais
famoso e querido pela tropa era o Coronel do Exercito
brasileiro Cerqueira (Pena verde, como era chamado pela
tropa estadual), ao mesmo tempo em que este e todos do
Exercito eram por muitos Oficiais da PM odiados, mas
bajulados pelos mesmos Oficiais que o abominavam; Cer-
queira (Cel. do Exercito Brasileiro.) era intolerante com a
corrupção de alguns Oficiais da policia e Praças também,
ao mesmo tempo em que valorizava o trabalho do “praça
honesto e bravo”; sem dúvida, dos coronéis do Exercito,
foi o melhor cuja PMERJ já tivera no comando desta.

PM nesta época era respeitado socialmente, andava-se


fardado com orgulho e prestigiado pela população; po-
de-se afirmar, pois foi vivida esta realidade pelo autor;
sociedade e polícia pareciam mais próximas na percepção
pessoal do autor; embora as pessoas moradoras em fave-
las vivessem como se morassem em outro mundo social,

165
Sérgio Cerqueira Borges

um depósito de trabalhadores braçais sob o domínio do


Estado Militar com seus Destacamentos Policiais nestas;
mas então em 1983, um novo Governador foi eleito para a
desgraça da PM e da Sociedade em geral do RJ, assim era
o consenso na PMERJ, ressalvando os que nele tinham
esperança de mudança com o novo Governador.

Havia o autor, poucos meses alcançado uma baixa hon-


rosa do serviço militar (1º Batalhão de Guarda do Exerci-
to Brasileiro), e, em quatro de agosto de 1982, conquistou
após seleção, sua inclusão nas fileiras da PMERJ, após
meses de qualificação no Centro de Formação de Praças
da PMERJ – CEFAP, então depois de formado como Sol-
dado PM classe “C”, foi designado à apresentação no
sexto batalhão da PM (Tijuca); quase todos os PM(s) for-
mados naquela época, como “regra” em sua maioria, era
lotado no 6º batalhão, classificados na companhia do po-
liciamento do Maracanã (“uma mina de ouro” para quem
a comandava e os superiores destes comandantes quando
dedicados à corrupção); o soldado recruta, trabalhava de
segunda a senda-feira sem folga, de quarta a domingo no
estádio Mario Filho, o “Maracanã” e, segunda e terça no
PO – Policiamento Ostensivo, também conhecido como
“Cosme e Damião”, uma dupla a pé pelas ruas da tijuca;
não havia folga mesmo. O policiamento ao Maracanã
era vendido, e por cabeça, como se fossem os Policiais
Militares “gado”, e vendidos da seguinte forma. Os cami-
nhões de transporte de tropa entravam pelo portão 16 e os
policiais saiam pelo portão 18, e retornavam pelo portão
16, após os mesmos praças mudarem de lugar no cami-
nhão; segundo se sabia, a SUDERJ dava como incentivo
a ser entregue ao PM de serviço um, incentivo pecuniário,
pergunta-se: Algum policial militar já viu a “cor” deste

166
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

incentivo, naquela época? É claro, só quem fazia parte do


esquema da corrupção.

Nesta época o soldado PM não tinha direito a voto,


não possuía título de eleitor, uma situação análoga a um
escravo grego da antiguidade; um “cidadão” de segunda

167
Sérgio Cerqueira Borges

classe, só na Constituição de 1988 pôde dar mais um pas-


so ao encontro da cidadania; ganhou algum poder com
este direito, contudo o regulamento, o RDPM, continuou
tirando a eficácia de alguns direitos já conquistados pela
maior parte dos brasileiros, com suas regras incompatí-
veis com a nova Carta Magna; o RDPM ainda segue “com
uma espada afiada e uma balança desequilibrada”:

Na civilização grega, o trabalho escravo acontecia


na mais variada sorte de funções: os escravos podiam
ser domésticos, podiam trabalhar no campo, nas mi-
nas, na força policial de arqueiros da cidade, podiam
ser ourives, remadores de barco, artesãos etc. Para os
gregos, tanto as mulheres como os escravos não pos-
suíam direito de voto. Muitos dos soldados do anti-
go Império Romano eram ex-escravos.

“O direito é um poder passivo ou pacificado pelo


Estado e é sinônimo de poder, pois sem esta parti-
cipação e legitimação democrática, só resta a vio-
lência, a descrença e a barbárie.” 28

Devido à escala de serviço maçante e abusiva imposta


aos praças, este só poderia melhorar sua situação, se se
compra sua transferência para outra companhia com
folga maior entre o serviço a ser prestado, não foi dife-
rente com muitos e com o autor, conseguiu transferência
para a companhia de RP (radiopatrulha) e PATAMO (Pa-
trulhamento Tático Móvel), ou era isso ou continuar “es-
cravo” da companhia do maracanã; mas isto tudo ocorria
com o início do Governo Brizola. Aí em 1983; opinião
particular do autor; foi o momento em que os criminosos

28 Hannah Arendt – Filósofa

168
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

tiveram fértil terreno para se organizarem e tornarem-se


absolutos nas favelas.

“... Os homens mudam de governantes com gran-


de facilidade, esperando sempre uma melhoria.
Essa esperança os leva a se levantar em armas
contra os atuais. E isto é um engano, pois a expe-
riência demonstra mais tarde que a mudança foi
para pior...” 29

1982 – Brizola é eleito governador do Rio de Janeiro.


Inicialmente defende a prorrogação do mandato do ge-
neral  João Baptista Figueiredo por mais dois anos, mas
em 1984, após intensa pressão popular, passa a apoiar a
campanha pelas Diretas-já.

Uma tragédia para a segurança pública, Brizola, entrou


para o governo do Estado com fama de inimigo do PM, de
revanchista, em dosimetria, passou a ser odiado por mui-
tos, repartindo mais uma vez a polícia já partida; acredite,
mas havia simpatizantes a Leonel de Moura Brizola, es-
perançosos em mudanças; mas para outros, “brizolismo”
era uma “doença”. Então Brizola praticamente paralisou
o combate ao crime no interior das favelas, proibiu qual-
quer incursão sem o comando direto de um oficial a frente
de qualquer operação; a coisa estava tão “feia”; no sen-
timento dos PMs; que radiopatrulhas passavam nas ruas
paralelas das favelas e eram insultados por marginais com
gritos e ofensas nas esquinas das comunidades e nada
podiam fazer, os marginais sabiam da recente ordem aos
PMs, os proibindo de qualquer reação; uma humilhação
era esta a sensação da classe policial; mas não ousavam
ainda atentar contra a polícia ou a integridade do PM, o

29 Nicolau Maquiavel

169
Sérgio Cerqueira Borges

que não impediu os desabafos com os superiores da PM


que foi repassado ao Governador; Para evitar o eminente
confronto, Brizola determinou que as radiopatrulhas não
mais pudessem patrulhar, ficavam estacionadas em
PB(s) Ponto Bases, geralmente em esquinas de ruas
principais com muita visibilidade, e com o girofrex
(luzes no teto das viaturas) ligado (na época conhecida
como operação visibilidade), só podiam se deslocar para
atender ocorrências, quando determinada por via radio
pelo centro de comunicação da PMERJ (maré zero). A
supervisão com muito rigor circulava o roteiro em que as
rádios patrulhas estavam baseadas e, anotavam-nas cujos
girofrex não estava ligado, e pouco importava se por de-
feito ou, e, se este se daria naquele momento, a ordem
era ficar atenta a guarnição, tinham como prioridade mo-
nitorar a luz do equipamento sobre o teto das viaturas, e,
em caso de defeito informar imediatamente pelo radio,
se não, quando retornava ao batalhão, prisão disciplinar
os aguardavam; esta forma de tratamento mascarada de
hierarquia e disciplina embotava no amago do PM uma
situação de humilhação que até aos familiares tinha-se
vergonha de revelar-se em casa. Uma oportunidade im-
perdível aos Oficiais corruptos; os pontos bases passaram
a serem vendidos ao comerciante ou industrial que me-
lhor pagassem.

Diante desta realidade, era a que se encontrava o au-


tor como recruta, uma dicotomia em contradição com a
vibração do autor que ia de encontro à insatisfação com
a situação indigna a pessoa dos PMs cujos não revelasse
extramuros aos amigos e parentes.

Mas para se “fazer polícia”, o policial tinha que come-


ter algumas transgressões administrativas; mas o próprio

170
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

regulamento previa que: “... NA LEGÍTIMA DEFESA...


PODIA-SE TRANSGREDIR O REGULAMENTO...
RDPM”; mas legítima defesa de quem? Do autor, sua, da
sociedade, uma vez que aquelas ordens eram absurdas na
visão do PM e sabedor que objetivava vantagens ilícitas
ao comando, e mais cedo ou mais tarde daria no quadro
social cujo temos hoje, qual seja, o marginal perseguindo
o policial, esta é senão a inversão de valores que vivemos.
Então só havia uma situação em que viaturas; mesmo co-
mandados por Oficiais poderiam entrar nas favelas, uma
operação planejada e determinada pelo comando do ba-
talhão ou em caso de tiroteio com pessoas feridas; isto
é lógico, se não seria omissão flagrante; bom dizer que
o primeiro caso, pode esquecer, raramente senão nun-
ca ocorria. Então os patrulheiros e “patameiros” come-
çaram a passarem trotes pelos telefones públicos (“ore-
lhão”. Ainda não havia bina) para a própria PM, cujos
em geral consistiam em informar de forma anônima que
estava ocorrendo tiroteio em determinadas favelas (isto
ocorria quando se recebia algum informe e sabendo que
nada seria feito.), e, às vezes dizendo inclusive que ha-
via policiais baleados, vez ou outra, informavam perse-
guições inventadas, para justificar a saída do PB (Ponto
Base); com esta manobra os marginais não conseguiam
ainda fortalece-se nas comunidades, devido ao combate
daqueles policiais cujo ainda os atrapalhavam asfixiando
-os, entretanto; e cabe destacar que aqueles “homens po-
liciais” ainda estavam influenciados pelo coronel “Pena
Verde”; mas com esta gestão governamental da segurança
pública sufocando o trabalho da polícia, mais e mais, não
demorou muito para uma parcela dos PM(s) optarem pelo
“arrego” com os marginais; antes da cidade partida, pri-
meiro adveio a PMERJ partida e repartida pela opressão
e corrupção dos corruptores da Cadeia de Comando. Do

171
Sérgio Cerqueira Borges

que adiantavam impedir o acesso da PM as favelas e o


Estado Social também se mantinham ausentes? Terra sem
lei? Não. Normas do Poder paralelo, dos traficantes, um
Direito Consuetudinário implícito no Poder Positivado,
eram senão o que passara a ser a realidade nestas áreas de
abandono do Estado.

Para ser mantido onde se queria trabalhar, RADIO-


PATRULHA ou PATAMO, nos Destacamentos (DPO),
Companhia de Trânsito etc., cujo tinha muitas vantagens
lícitas e ilícitas, o que iria depender do caráter da pessoa e
da formação moral que haviam trazidos de casa, por que
na PM era só deformação; tinha-se que pagar propina aos
sargentos responsáveis pela escala de serviço para nele
ser mantido; e este era apenas um intermediário entre o
comando da companhia; sistema maldito que corrom-
pia-nos! E é claro que alguém tinha que pagar esta conta,
não seria do soldo de “miséria” do praça que sairia o di-
nheiro, e se não entrasse neste jogo sujo, tiraria PO (poli-
ciamento Ostensivo) em alguma periferia de favela, com
grande perigo a vida; pura coação.

Então havia maneiras ilegais, contudo, segundo o


senso moral de alguns policiais “honrados”, “honestos”
naquela compreensão moral deturpada da tropa, cujo
consistia a pratica de extorsão a traficantes; em forma de
espólio de guerra, conduta justa acreditava-se; mas para
outros, o arrego com traficantes era a opção menos ar-
riscada à vida já que para o sistema corruptor da PM
pouco importava a origem do dinheiro. Para muitos pa-
trulheiros; havia outras formas em arrumar dinheiro para
sustentar o sistema corruptor: a arrecadação de dinheiro
com comerciantes do setor de patrulhamento, para que
as patrulhas os privilegiassem com uma segurança mais

172
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

personalizada, uma vez que os Oficiais corruptos priva-


tizaram a segurança pública, os praças fizeram o mesmo;
nesta época não havia a figura da “milícia clandestina”,
com exceção da existente na favela Rios das Pedras, ber-
ço das que existem hoje em dia, mas com outra dinâmica
das que hoje permanecem; havia os PMs que arregrados,
tratavam com os traficantes para que não molestassem os
comerciantes sobre sua “proteção” e quem ousava, se
entenderia com os próprios marginais; o exemplo: tra-
ficantes do morro do Borel deram muitos tiros nas mãos
de ladrões daquela comunidade; havia os policiais não
arregrados que mandavam recados aos traficantes que se
mexessem com seus “tutelados” comerciantes, a respos-
ta seria rápida aos marginais, e nesta época, bandido não
ousava desobedecer, queria mais a polícia longe do seu
reduto, tanto quando de serviço tanto quando de folga;
havia os que davam do seu soldo; os solteiros em geral;
para trabalharem onde queriam ou gozarem de uma fol-
ga, estes procuravam fazer segurança privada para bancar
aquela situação. Uma verdade se delineava, para os PMs
agora pouco importava mais, o Governador não permitia
mesmo a entrada da Polícia Militar nas comunidades e
o Governo já era visto como inimigo, então as coisas se
adequavam desta forma, muitos diziam: “Que se dane a
sociedade então!”.

A cocaína em homenagem feita pelo tráfico ao Go-


vernador passou a ser chamada de “BRIZOLA”, com
direito a carimbo no papelote.

“[...] a injustiça, por ínfima que seja a criatura vi-


timada, revolta-me, transmuda-me, incendeia-me,
roubando-me a tranquilidade do coração e a esti-
ma pela vida.” (Supremo Tribunal Federal. Rio de

173
Sérgio Cerqueira Borges

Janeiro, DF – Obras Completas de Rui Barbosa.


– V. 19, t. 3, 1892. p. 109 – Observações: Trecho da
“Oração perante o Supremo Tribunal Federal”.
Original no Arquivo da FCRB)30

Não raro, exceto quando realmente era necessário para


coibir os desvios de conduta; estava o praça, por moti-
vos fúteis, por vezes por capricho de superiores querendo
demonstrar força dominante, ou por corrupção cujo será
adiante explicado melhor, estes Oficiais participavam em
anotações no livro de partes de ocorrências, a um ou outro
subordinado, e estes respondendo a FI (ficha de informa-
ção); uma versão simulada de defesa do PM a uma apura-
ção de uma infração disciplinar ao regulamento (RDPM)
legitimava uma espécie do contraditório e ampla defesa
(note que na Constituição cidadã só seria consagrado no
artigo 5º em 1988); o subcomandante dos batalhões eram
quem disciplinavam a tropa, atribuindo as punições, en-
tretanto, lembre-se que falei que em segundo plano have-
ria a figura da corrupção, e o modo que esta se dava era
covarde e desonrosa, a F.I. Era entregue ao praça pelo sar-
gento “escalante”, este intermediava um acordo pecuniá-
rio, em que daria sumiço a FI. Assim vários PMs eram
extorquidos pelos seus superiores, o subcomandante nem
tomava conhecimento de quem respondia ou não as tais
fichas de informação e sequer havia alguma anotação no
livro, pois muitas vezes no livro não estava anotado coi-
sa alguma, as fichas eram produzidas diretamente pelos
Oficiais ou Praças Graduados da supervisão e entregue
aos sargentos “escalantes”, o Subcomandante do batalhão
só tomaria providências naquelas que a ele era direciona-
da; o Policial Militar antes de extorquir no serviço, era de
muitas formas extorquidos e humilhados e, assim seguia

30 RUI BARBOSA

174
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

o exemplo cruel do sistema corruptor da instituição. Sa-


lienta o autor que mesmo nos casos em que as fichas de
informação eram entregues aos praças, está já vinha com
a punição expressa, e muitas vezes, até antes do praça
produzir sua defesa escrita, o subcomandante apenas, e,
em muitos casos somente retificavam ou ratificavam-nas.
O leitor etnograficamente faria diferente, recebendo um
soldo indigno e tendo que sustentar esta corja de muitos
oficiais e praças graduados da época, nesta coação vela-
da, tratados como um “nada” e ainda sofrendo o escarnio
social sem na verdade estes serem os responsáveis diretos
desta situação?

“audiatur et altera pars” 31

31 Significa “ouça-se também a outra parte”. Vai ao encontro do Devido


Processo Legal, a ampla defesa.
A Ampla Defesa “não é uma generosidade, mas um interesse público. Para
além de uma garantia constitucional de qualquer país, o direito de defen-
der-se é essencial a Todo e qualquer Estado que se pretenda minimamente
postar-se democrático”

175
DISCRIMINAÇÃO RACIAL E DE
GÊNERO NA PMERJ.

Um ou senão o primeiro grande marco cujo chamou a


atenção aos direitos humanos de pessoas presas pela PM
na jovem democracia foi um caso notório à época do ano
de 1983, em que um Cabo da Polícia Militar, fora fotogra-
fado segurando uma corda em que vários traficantes de
cor negra estavam amarrados pelo pescoço durante uma
operação em uma favela na área do 6º BPM. Ocorre que
a operação policial era comandada por um oficial; naque-
la época, se o PM necessita-se possuir uma algema, ele
quem comprasse, havia carência de tais utensílios à pra-
xe policial; mas à medida que os presos eram agrupados
pelos diversos policiais, o então Cabo PM “M”, recebera
estes já amarrados pelo pescoço, pelo oficial comandante
da operação, “M” recebera a incumbência de acautela-los
daquela forma em um determinado ponto da favela; or-
dens não se discutem; ainda mais por quem dera a ordem;
para piorar a situação de “M”, um fotógrafo da imprensa,
logrou registrar a cena indigna, tendo “M” a segurar a tal
corda, e sendo todos os presos negros. O leitor deve levar
em conta que naqueles tempos sombrios, o racismo era fe-
rozmente agressivo com as pessoas de cor negra por con-
ta da sociedade e perpetrado pelos homens públicos com
posturas sínicas, então não há em se admirar que devido à
falta de oportunidades diversas, estes se viam em grandes
números segregados em comunidades carentes, sendo em
maiores números e posteriormente, vinham outra gama
de pessoas de cor branca, porém vindas do nordeste do

177
Sérgio Cerqueira Borges

Brasil, então por via lógica, sem oportunidade e abandono


sociais, muito mais negros partiam para o crime, isto é
um fato social da época. Mas sendo os presos todos ne-
gros, a foto agravou mais ainda a situação de “M”, cujo
só cumpria ordens e quem dera nunca ficou em evidência
ou foi punido; “o então Cabo “M”, foi punido, aguentou
o escarnio da sociedade e da imprensa, mas é claro, como
não era o responsável direto, não foi excluído da PMERJ;
não era corporativismo, mas sim para sem as algemas
do RDPM, poderia falar demais, entretanto, nunca mais
trabalhou na rua, pelo que se pode afirmar, passou a de-
sempenhar a função de “CABO DE DIA”, um auxiliar do
sargento escalante da companhia, cujo apurava as faltas
do efetivo de serviço das RPs (RADIO PATRULHA) e
PATAMOs (PATRULHAMENTO TÁTICO MÓVEL), a
Cia que pertencia.

178
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

“De que valem leis, onde falta nos homens o sen-


timento da justiça?” (Rio de Janeiro, DF – Obras
Completas de Rui Barbosa. – V. 16, t. 5, 1889. p.
225 – Observações: Trecho do artigo “Faculdades
do Recife”. Não há original no Arquivo da FCR-
B).32

Na PMERJ dos anos 80, a discriminação era tão la-


tente como já dito; e curiosamente pela percepção do PM
cujo incursionavam nas favelas; bom ser dito, saltava aos
olhos o grande número de pessoas de cor negras e nordes-
tinas, era a realidade em que se vivia; o policial militar em
serviço de patrulhamento diverso passou absurdamente a
referir-se aos suspeitos de delitos cometidos cujos eram
negros como de “cor padrão”, mais ou menos a comuni-
cação era assim:

32 RUI BARBOSA

179
Sérgio Cerqueira Borges

RP – “-MARÉ ZERO, 560 chamando”,


CENTRO DE COMUNICAÇÃO – “-prossiga 560”,
RP – “positivo maré, o meliante segundo a solici-
tante é de “cor padrão”...”.

Esta forma indigna de se referir as pessoas de cor ne-


gra era tanto usada pelos que operavam o rádio da viatura
policial, quantos pelos operadores do centro de comu-
nicação; e só parou este tratamento quando o então co-
ronel PM Cerqueira, passou a punir quem insistia nesta
prática; o comandante da PMERJ era negro, mas também
defensor ferrenho dos Direitos Humanos; mas era muito
estranho quando vez ou outra em conversas internas com
colegas policiais negros se brincava dizendo a eles, que
eles também eram de “cor padrão”, estes diziam que: “–
sou gente! E não sou bandido”; aquilo era dito por eles de
forma tão natural, que o conceito era no sentido que “cor
padrão” servia para designar marginais ou suspeitos de
cor negra moradores de favelas, entretanto não se dava
este tratamento a todos os cidadãos negros, mas pior, se
fosse pobre e de cor negra, mas não fosse bandido, era
chamado de “PAPA INDIA”, cujo na linguagem coteja-
da, significava “pé inchado”, designação dada a pessoas
pobres e alcoólatras, pois neste caso pouco importava se
negro ou de pele branca, já o nordestino favelado era cha-
mado de “Bill”; havia um consenso que pessoas vindas do
nordeste davam nomes estrangeiros aos seus filhos; então
até o PM nordestino também muitas vezes eram tratados
por “Bill” que geralmente terminava em discussões aca-
loradas, então quando acontecia ocorrência envolvendo
operários da construção civil cujo eram nordestinos, caro
leitor, a comunicação era:

RP – “maré zero, trata-se de dois “Bill”...”.

180
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

Note que não havia repreensão quanto ao tratamento;


Em geral Oficiais daquela época tinham um discurso à
sociedade, diferente do que fazia a tropa; a PMERJ é uma
“instituição autista”, têm o seu próprio mundo; de fato
não é o PM cujo têm que ser integrado à sociedade, é toda
a instituição, mas com está configuração militarizada e
arcaica, não creio que ocorra.

Portanto há em especial uma observação a um fato so-


cial importante neste contexto, o racismo era reflexo da
própria discriminação social, cujo segregava negros, nor-
destinos e até PMs negros e nordestinos entre outros no
mesmo contexto, no caso dos moradores das favelas, sem
oportunidade de trabalho e educação, se viam sem saída e
majoravam estas comunidades.

Mas será que nos dias de hoje é diferente?

A PM, “braço armado” do Estado; o PM, POLICIAL-


CIDADÃO em contradição com seus semelhantes e ele
próprio, observou o fato de forma tão natural, mas intuiti-
va na sua percepção, todavia sem entender os fatos como
um todo por claras limitações ou comodidade; os pró-
prios policiais negros davam este tratamento aos seus se-
melhantes, objetivando discriminar pessoas marginais às
leis que a realidade social os colocou em situação indigna,
mas sem realmente ter o dolo principal na discriminação
direta, a discriminação era uma mascara cujo policial
convivia e dava ênfase com estes tratamentos; ora; estes
também eram discriminados, e muito, até os dias de hoje
ainda o é, e se não houver mudanças de respeito e digni-
dade tanto a policiais ou qualquer membro da sociedade,
nada mudará, bom dizer que muitos sociólogos e antropó-
logos se empenham a entender o homem no seu contexto

181
Sérgio Cerqueira Borges

social, buscando entender e explicar a violência praticada


ou sofrida por moradores de favelas, mas quem até hoje,
de forma significativa procurou dar o mesmo tratamento
ao policial, no sentido latu e estrito sensu. Quem é o ho-
mem por dentro do uniforme policial? Que grupo social
é este ao qual pertence este “homem policial”? Em regra,
estes são identificados em tais trabalhos, apenas como re-
presentante do Estado, de forma que nem gentes seriam
consideradas, então? Do ponto de visão sócio antropoló-
gico, não é este “homem policial” merecedor de estudos
como as pessoas em geral no seu grupo social? Entender
está cultura e promover entrosamentos necessários às mu-
danças, não seria mais importante do que expurga-lo da
instituição lançando-os a marginalidade social? E apenas,
e tão somente apenas, substituir um “homem policial” por
outro “homem policial”, mas não seria lógico em síntese
o mesmo “homem policial”? Cidadãos não são senão o
somatório de todos em uma sociedade? Acaso o Policial
Militar não vêm do seio da sociedade, ou será que são
“extra-humanos” ou de outro planeta? Uma vítima social
tanto quanto é qualquer pessoa discriminada pelo sistema
corrupto e corruptor no sentido latu sensu e impiedoso
que vivemos? O cidadão em regra não ingressa na polícia
corrupto; ressalvando as exceções; mas este é corrompido
ao longo de sua existência na instituição, de certa forma, é
inevitável para a maioria. Mas com todo respeito a muitos
autores de livros sobre o assunto; em especial, aos oficiais
da PMERJ (Esta é uma assertiva impessoal); mas só po-
deria expor a vida de um praça, senão um praça; às vezes
se compara Oficial da PM a marido enganado por esposa
adultera. É o último, a saber, da traição ou, sabe e finge
não ver; e sabe-se que quando o dito marido toma conhe-
cimento, em “regra” a esposa não está sendo mais discreta
e não está se importando mais; por ação ou omissão, este

182
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

não iria revelar “coisas tão intimas”, somente a “esposa”


poderia expor as razões da traição, mas dizem que esposa
não trai, se vinga! Seriam uma vingança inconsciente os
desvios de conduta para os maus tratos do “esposo esta-
tal”? Assim como no casamento ou qualquer espécie de
união, o segredo está no respeito mútuo. Enquanto não
houver respeito para com o “homem policial”, partindo
da sua própria administração como um todo, “o seis será
trocado pelo meio dúzia”. Mas será que é isso mesmo que
o Poder deseja? E, pouco importa a principal interessada,
a própria sociedade?

Eis que então uma nova personagem ingressa neste


contexto na década de 1980.

Naquela época, as policiais femininas (PMFem) era


novidade, havia poucas nos batalhões da PMERJ, neste
havia talvez cerca de dez no sexto batalhão; trabalhavam
em serviços burocráticos ou nos eventos diversos como
jogos do Maracanã, para atuar em revistas pessoais as
mulheres. Um caso em especial desejo compartilhar com
o leitor: A coisa justa na PMERJ, conduta grave e prejudi-
cial para muitos, até seria no mínimo curioso, mas nunca
seria engraçado. Certa vez, durante um dia de serviço, já
depois do expediente, o oficial de dia (Quem comanda o
batalhão após a saída ou ausência do comandante) fazia
sexo com uma PMFem na sala do Estado Maior, cuja está
localizada sobre o corpo da guarda do batalhão (6º BPM),
ocorre que o oficial de supervisão olhava as cenas pela
fechadura e não se contendo, arrombou a porta e exigiu
que esta fizesse sexo com ele também, ela não aceitou e,
iniciou-se uma luta corporal entre os oficiais (ambos os
Tenentes da PM); o sargento comandante da guarda ou-
vindo os gritos da policial feminina e o arrastar do mobi-

183
Sérgio Cerqueira Borges

liário no andar de cima, não tomou nenhuma providência;


o que queriam? Por muito menos se punia praças, mes-
mos graduados naquela PMERJ dos anos 80. Resultados
da justiça e disciplina: Os dois oficiais foram transferidos
do batalhão, a PMFem foi advertida, e o sargento, coman-
dante da guarda foi punido com dias de prisão. Policiais
femininas naquela época eram muito assediadas pelos ofi-
ciais; todavia não há o leitor em entender a generalização
dos casos, e nem tão pouco que estas sucumbiam em regra
ao assedio destes; é lamentável, mas muitas eram perse-
guidas justamente por não aceitarem tal investida e, quem
ousava se aproximar mesmo como amigo; praça é claro;
também era perseguido; e também não se deve generali-
zar tal comportamento a todos os oficiais da época. Em
todo cesto de tomates há sempre um podre! Mas no sexto,
só “raia miúda” eram retirados do cesto.

“... A luta pela existência é a lei máxima de toda a


criação, manifestando-se sob a forma de instinto
da conservação. Em seu direito, o homem possui e
defende a existência da sua moral. Sem o direito,
desce ao nível do animal. Ihering usa a citação
de heinrich von Kleist, no romance Michael Koo-
lhaas:

“antes ser um cão que um homem, se tenho de ser


pisado.”

O abandono do direito, hoje impossível, mas em


época passada era possível, é um suicídio mo-
ral....”.
Rudolf von Ihering

Será?

184
ALIMENTADOS COM RAÇÃO DE
CÃO.

“... A DIGNIDADE HUMANA é a qualidade  in-


trínseca e distintiva reconhecida em cada ser hu-
mano que o faz merecedor do mesmo respeito e
consideração por parte do Estado e da comuni-
dade, implicando, neste sentido, um complexo de
direitos e deveres fundamentais que assegurem a
pessoa tanto contra todo e qualquer ato de cunho
degradante e desumano, como venham a lhe ga-
rantir as condições existenciais mínimas para a
vida saudável, para que tenha bem-estar físico,
mental e social, além de propiciar e promover sua
participação ativa e corresponsável nos destinos
da própria existência e da vida em comunhão com
os demais seres humanos...”. 33

Havia muitas formas de ganhar dinheiro “fácil” na PM


pelos Oficias cujos eram corruptos; mas naqueles dias da
década de 80, acreditava-se que só os praças se corrom-
piam. Não sendo uma exclusividade apenas do sexto ba-
talhão, o fato cujo compartilho a seguir, é notório a época
em qualquer que fosse o batalhão; o Oficial, geralmente
um Capitão PM, era quem chefiava a seção de aprovisio-
namento de alimentos, que por vezes desviavam parte da
verba comprando alimentos de segunda; a verba destina-
da daria para comprar gêneros alimentícios de primeira;
entretanto o aprovisionador do sexto batalhão exagerou;

33 Ingo Sarlet – Juiz e Jurista brasileiro

185
Sérgio Cerqueira Borges

comprou ração de cachorro, o nome ração, BONZO, esta


ração era servida aos cães simulando pedaços de carne,
bastando adicionar água quente ou morna, e a ração ab-
sorvia o líquido e pareciam pedaços de carne; então sen-
do servido aos PMs como refeição nos ranchos (como se
chama o restaurante dos praças na PM), eram oferecidos
com molho de extrato de tomate para disfarçar; comíamos
estranhando o alimento, até falavam se tratar de carne de
soja, mas nunca poderíamos imaginar tamanho desres-
peito com o ser humano, só descobrimos quando um PM
desligado da seção do citado Oficial; por vingança; re-
velou o cardápio a tropa; foi um reboliço; quase ocorreu
um levante, mas na ocasião em que se deram os fatos, a
possível revolta foi logo sufocada com ameaças de exclu-
são por indisciplina; o que a sociedade espera de pessoas
tratadas assim? Policiais dedicados? Para variar, o Oficial
foi transferido do batalhão, apenas, e tudo foi abafado,
ainda com as ameaças de sempre: se a imprensa tomasse
conhecimento, a escala de serviço iria apertar mais ainda,
sem contar com as perseguições de sempre; punições por
coturno não brilhando (como se chama a bota do PM),
corte de cabelo fora do padrão etc., estas avaliações eram
subjetivas. Parem e pensem: Acaso não era esta uma si-
tuação análoga ao tratamento dados aos escravos negros,
escravos de um regulamento disciplinar como grilhões?

O QUE ESPERAR DE ALGUNS “HOMENS


POLICIAIS” COM ESTE TRATAMENTO?
CIVILIDADE? SERVIR E PROTEGER? OU
COMPORTA-SE DA FORMA QUE É TRATA-
DO?

“De tanto ver triunfar as nulidades; de tanto ver


prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injus-

186
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

tiça. De tanto ver agigantarem-se os poderes nas


mãos dos maus, o homem chega a desanimar-se
da virtude, a rir-se da honra e a ter vergonha de
ser honesto” 34

Um velho brocardo: “-FILHO FEIO NÃO TEM PAI!”.


Na PMERJ como já visto no caso do Cabo “M”; quando a
instituição fica exposta, quem se prejudica, sempre eram
os praças; preservar o Oficial da PM era a mesma coisa
que preservar a própria imagem da PMERJ, praças são
peões a serem usados e descartados no jogo político da
época, e ainda hoje não vejo diferença; mas naquela épo-
ca uma ordem era muito cobrada: entrevista a imprensa só
com autorização superior, entretanto a razão era a seguin-
te: quando ocorriam casos como do Cabo “M”, um oficial
ou o relações pública da Polícia Militar era quem falaria
a imprensa com o velho discurso: “– estamos expurgando
o mau policial”; VEJA SE DARIAM OPORTUNIDADE
AO PRAÇA DE SE EXPRESSAR? Outrossim, quando
havia alguma ocorrência positiva a imagem da PM em
que em verdade só havia participação de praças, logo ao
local chegava um oficial da PM para assumir a ocorrên-
cia; então a saída desta usurpação do bom trabalho do pra-
ça em proveito da promoção pessoal de Oficiais à custa
dos praças foi a seguinte: a imprensa. Jornalistas cujo
cobria crimes, eram os aliados dos praças, os policiais
passaram a andar com o telefone destes jornalistas, e de
forma anônima ou com a identidade preservada, passaram
a informar as ocorrências praticamente, imediatamente
após o ocorrido, quando chegava o Oficial ao local, a im-
prensa na maioria dos casos já estava no local; não raro
e para insatisfação de muitos policiais da época, casos de
repercussão tidos como comandados por Oficiais da PM,

34 Rui Barbosa

187
Sérgio Cerqueira Borges

em verdade estes só apareceriam na delegacia da polícia


judiciária, e colher os loros do bom trabalho, por outro
lado, casos como o do Cabo “M”, também eram informa-
dos a imprensa e assim pretendiam não mais servirem de
“bucha de canhão”, como se diz no jargão popular. Então
hoje em dia, “PAU QUE DÁ EM CHICO, TAMBÉM DÁ
EM FRANCISCO!”, mesmo que seja o “pau” fruto de in-
justiça em alguns dos casos, todavia, em tempos remotos,
os praças eram excluídos, mas Oficiais eram reformados
administrativamente. Mas esta realidade isonômica só
ocorreria com as chacinas DE 1993; Vida que segue.

188
9º Batalhão de Polícia Militar (PMERJ)

Criado pelo Decreto nº. 7.616, de 6 de junho de 1945,


para atender, entre outros encargos, ao serviço de policia-
mento da Zona Rural (atual Zona Oeste da cidade do Rio
de Janeiro), e o de guarda e segurança dos presídios do
então Distrito Federal e da Ilha Grande.
Porém, em 1967, a necessidade de que a Polícia Mi-
litar da Guanabara  sofresse uma reformulação de seu
dispositivo e, depois de estudo do assunto pelo Estado
Maior, decidiu-se pela necessidade da construção de no-
vos batalhõess em algumas Regiões Administrativas da
Guanabara.
Assim, aproveitando um apelo do Administrador Re-
gional de Madureira que, preocupado com problemas de
sua região, solicitou a instalação de um Posto Policial no
bairro de Rocha Miranda  e, graças aos esforços do go-
verno estadual, o batalhão foi inaugurado em 25 de agos-
to de 1968, em suas instalações na Rua Tacaratu nº. 94,
em Rocha Miranda, onde funcionava um Mercado, rece-
bendo, à época, a designação de 7º Batalhão da Polícia
Militar do Estado da Guanabara.
Com a fusão dos estados do Rio de Janeiro e da Guana-
bara, de acordo com a Resolução da Secretaria de Segu-
rança Pública nº. 0071 de 3 de dezembro de 1975, foram,
os Batalhões do novo estado, renumerados, passando o 7º
BPM denominar-se 9º BPM.
Seu brasão tem como símbolos uma árvore seca repre-
sentando a renovação, ligando ao passado quando ainda
7º BPM exercia o serviço de guarda nas penitenciárias, ou

189
Sérgio Cerqueira Borges

seja, simboliza a recuperação do detento. O outro símbolo


é um machado, simbolizando “castigo aos culpados”.
Em 2010, a Secretária de Segurança Pública e o gover-
no do estado do Rio de Janeiro, depois de ouvir os apelos
dos moradores de Irajá, Pavuna e outros bairros da região,
foi criado o 41º BPM para atender a necessidade de segu-
rança pública de Irajá e região.

190
Transferência para o 9º BPM: UMA
ESPERANÇA EM MELHORAR A
SITUAÇÃO DO AUTOR.

No segundo semestre de 1985, usando de uma resolu-


ção publicada no Boletim da PM, cuja em síntese dizia o
seguinte, o Policial Militar pode pedir sua transferência
para a unidade mais próxima a sua residência..., e assim o
autor fez requerimento de transferência para seu lamento
em não continuar no sexto batalhão, mas na ocasião pare-
cia uma boa ideia, já que era morador no bairro de Madu-
reira, na Rua Operário Sadock de Sá, localizada na subida
ou acesso a comunidade da Serrinha, economizaria tempo
e dinheiro com transportes; ademais para um jovem po-
licial cujo na normalidade, eivado de muita “vibração”, e
assim querendo fazer parte de um dos batalhões da época
tido como muito operacional, era a realização da plenitu-
de da vocação; uma mudança radical em relação ao que
vivia no sexto batalhão da Tijuca naquela época, pelos
motivos já expostos; embora no sexto houvesse opera-
cionalidade, entretanto, como já dito, a tropa estava de
“algemas” e mãos amarradas”; os Pms do 9º BPM tinham
fama de mais serem rebeldes a mais respeitados; mas lá
chegando o autor percebeu logo que a linguagem só era
uma, dinheiro.
Em primeiro plano, fui classificado; lógico, um recruta
recém transferido; lotado na companhia de PO (policia-
mento ostensivo); muitos policiamentos deste tipo eram
vendidos aos comerciantes do bairro de Madureira, prin-
cipalmente; necessário relembrar que ainda estávamos

191
Sérgio Cerqueira Borges

no primeiro governo Brizola, e, pelos mesmos motivos


ditos anteriormente, os policiais do nono batalhão eram
extorquidos, corrompidos e, extorquiam quem pudessem
para pagarem seu “tributo”, nos mesmos moldes do sexto
batalhão e é a lógica da corrupção que ocorria em todos
os demais batalhões com a mesma essência, mas intensi-
dade diferente, dependia das “riquezas” da área de cada
batalhão, o que era o diferencial; mas a tropa do nono era
diferente da tropa do sexto; acredito até por que devido
à complexidade do batalhão de Rocha Miranda, onde a
facção criminosa mais perigosa, e, também as outras li-
deranças de outras facções, estavam na área do nono ba-
talhão de Rocha Miranda; o morro do juramento, favela
de Vigário Geral, Parada de Luca e Acari (sem facção até
então), eram onde estava os principais lideres destas fac-
ções criminosas; Acari; um caso a parte; claro que o crime
organizado estava em ascensão em todo o Estado, com a
ausência do Estado nas comunidades; e cada vez mais dis-
tante dos moradores, do cidadão pobre das comunidades
carentes.
Mas do mesmo modo de extorsão do sexto batalhão, o
autor pagou para trabalhar na companhia de RP e PATA-
MO, por pouco tempo; o incrível aconteceu, sem pagar
propina, argumentando necessitar estudar para prepara-
ção ao concurso para Sargento, eram poucos os Sargentos
e possuíam um status social mais elevado, hoje em dia a
Graduação de Sargento está mais democrática ou banali-
zada; naquela época havia duas formas para promoção de
Sargentos, por tempo de serviço cuja promoção era cha-
mada de “Juruna”, destinada a quem não havia estudado
além do exigido para o ingresso na PM, um dos requisi-
tos era de período de tempo de serviço na PMERJ, e, por
meio de concurso público, cujo possibilitava alcançar na
reforma ao Posto de Capitão com soldo de Major quan-

192
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

do reformado. Fazendo um pedido a um Sub-TEN PM


da P/1 (seção que se equivale ao departamento de pes-
soal), consegui uma classificação no serviço interno, fui
classificado na P/3 (seção onde se faz o planejamento do
policiamento); estudaria a noite. No nono não tinha Mara-
canã, mas tinha o comercio de Madureira, e o batalhão era
muito afinado com a junta comercial; “boca rica” como
se dizia; fruía muito dinheiro na venda de policiamento,
o comercio de Madureira “agradava” tanto aos Oficiais
administradores do Batalhão, como aos praças direta-
mente, fazia “a política da boa vizinhança” com todos do
batalhão. O Major PM P/3, chefe da seção era um sujei-
to arrogante; vez ou outra na ausência do seu motorista;
quem era seu primo; usava-me nesta função, não era do
meu agrado, o sujeito não se cansava em querer humi-
lhar-me, como a qualquer praça, quando o servia nesta
função, este ia sempre cantarolando um trecho de músi-
ca: “– Eu não nasci pra coronel, coronel, cooooronel...”,
e dizia: “– Eu nasci, mas você não.”; mas o destino era o
centro comercial de Madureira, ía junto outro Oficial, um
Capitão, também da seção; não desejava mais dirigir para
ele e tentava sempre que requisitado me esquivar; as idas
segundo desconfiávamos era para reuniões com a junta
comercial para “atender aos pedidos” de policiamento;
então ao me indispor com um sargento da seção (P/3)
argumentando que dirigir não era minha função naque-
la seção, este participou ao dito Major cujo aplicou uma
punição ratificada pelo subcomandante. Posteriormente, a
punição foi retirada; havia esta previsão no regulamento
da PM, quando chegam fatos novos cujo possibilitava a
anulação ou perdão da punição, o autor humilhado, mes-
mo assim solicitou pedido de clemência; foi a única pu-
nição cujo havia tido até a chacina de Vigário Geral em
cerca de doze anos de serviço, estava no EXCEPCIONAL

193
Sérgio Cerqueira Borges

COMPORTAMENTO. Então Conversando com o chefe


da P/2 do 9º, a época, “E. S. R”, um Capitão da PM sério,
íntegro, “bastante humano”, solicitou uma oportunidade
naquela seção, aleguei que sofria perseguição explican-
do o caso; sempre tive temperamento forte e não podia
mais conviver com aquela situação irregular e de humi-
lhações, ainda mais que tinha pouco mais de dois anos na
PM; então fui transferido para a companhia de consertos
e serviços (PCSV), e de imediato à disposição da P/2, até
ser efetivado nesta. O agente de segunda seção passa por
uma investigação social, disciplinar e criminal, para en-
tão ser efetivado na P/2; pois deu tudo certo e consegui,
era então agora o agente de codinome Magno, pseudôni-
mo registrado na PM-2.
Embora na tropa de qualquer batalhão houvesse poli-
ciais militares; como já dito; honestos, “honestos”, cor-
ruptos conscientes; sabem que a ocasião faz o ladrão como
faz o “santo”; no nono havia ainda policiais que nem mui-
tos Oficiais tinham coragem de “escreve-los”, era uma
tropa de “ferra brases”, tanto os corruptos, os arregados,
e os honestos então, ainda tinham moral elevado, estes
quem mantinham a estatística positiva alta no batalhão
devido a prisões de “peso”, apesar da complexidade deste
batalhão; ao contrário do que se pensavam estes últimos,
eram em maior numero, entretanto a fama do 9º batalhão
era a pior possível; mas não era área deste batalhão cujo
estava às lideranças das facções criminosas?   Detinha a
fama ruim. Ademais o maior distribuidor de drogas tam-
bém estava lá, responsável por cerca de 70% pela distri-
buição de drogas para o Estado, Darcy da Silva ou Cy de
Acari que não era ligado a nenhuma facção. A Favela de
Acari, o complexo estava a margem da Avenida Brasil;
recebia a “visita” de muitas viaturas de quase todos os

194
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

batalhões da PM, mas só o nono arcava com o ônus do


que lá acontecia.
No morro do Fubá, Carlinhos do Fubá detinha a fama
de vender as melhores drogas, e também sua segurança
era feita por um PM do nono batalhão, era um Cabo; cru-
závamos com o canalha dentro do batalhão sem saber; a
noite era este que disparava tiros de fuzil nos colegas; mas
era ele quem intermediava o “arrego” do batalhão, e não
era para os praças; agentes da segunda seção tinham que
entrar nesta favela clandestinamente ao conhecimento do
comando do batalhão, não para se corromper, mas para
fazer trabalho sério de polícia pertinente a segunda se-
ção, pois se o comando tomasse conhecimento, covardias
iriam acontecer de transferências à coisa pior.
Em Parada de Lucas, Robertinho de Lucas, o maior
atravessador de armas para o RJ; foi ele quem importou os
dois primeiros fuzis AR15, para o então traficante Tunicão
da Favela do Acari, Tunicão ficou encantado com a arma
após assistir o filme PLATOO na época em vídeo cassete,
deitado em um tapete estendido na favela, neste um prato
de cocaína e pior, meninas cujo facínora havia desvirgi-
nado; e meninas bonitas querendo ou não seria sua por
“direito” do Poder Paralelo, ele parecia estar louco pelas
drogas, informes davam conta que neste episódio, estava
trajando apenas um lençol branco, um fraldão, cercado
por muitos marginais armados; no filme um M16, mas foi
após a prisão do Cy cuja esta história será contada mais
adiante; Tunicão um dos Lideres quem assumiu parte do
complexo de Acari, No Juramento quem dava as cartas
era “escadinha”, mas o pior era seu irmão, vulgo Paulo
“Maluco”, extremamente violento. O sujeito tão perigoso
que certa vez em frente às câmeras do jornalismo, quan-
do preso e conduzido por policiais do NUCOE (Núcleo
de Operações Especiais), hoje BOPE afirmou que mata-

195
Sérgio Cerqueira Borges

va mesmo, ao olhar para o policial cujo conduzia pelos


corredores do Fórum Capital, virou-se e disse ao Policial
Militar que ele seria o próximo a morrer, peço vênia por
não seguir a uma cronologia dos relatos, mas fiz estes co-
mentários apenas para ilustrar “an passant” o vespeiro
que havia entrado.
O trabalho do agente da P/2 é diferente do agente da
Corregedoria, a segunda seção ou P/2, é uma seção sedia-
da nos batalhões, mas subordinada a PM/2, que por sua
vez esta sediada no Quartel General da PM, é o setor de
inteligência da PMERJ, embora o comando do batalhão
tenha hierarquia na prática sobre esta, na teoria deveria
a segunda seção; como de fato é; estar subordinado dire-
tamente a PM/2, como já dito. O agente da Corregedoria
fiscaliza o público interno para a correção necessária, “são
anticorpos institucionais”, ou seja, o próprio PM “cortan-
do na carne”; o agente da P/2, ou setor de inteligência,
trabalha sem uniforme, de maneira reservada; daí também
ser chamada de seção reservada; com atenção ao público
externo; ou seja; infiltrar-se na sociedade e tentar ante-
cipar as ações criminosas, ou qualquer ação que seja de
interesse da PM, por exemplo, na época era a P/2 que fa-
zia as pesquisas sociais dos candidatos a PMERJ; minha
opinião: esta função deveria ser feita pela Corregedoria. É
ela, a P/2 que faz o trabalho de inteligência e em conjunto
com a P/3, possibilita o planejamento do policiamento e
operações; seria muito bom se assim funciona-se; lembra-
se cujo disse que o policiamento em parte era vendido
pelo chefe da P/3? Por está razão que sempre seguia re-
latórios a PM/2, nada acontecia; como disse em páginas
anteriores, o corporativismo entre os Oficiais, se não in-
terferisse no interesse do Governo, estes eram intocáveis,
fosse Oficiais honestos ou corruptos, e a corrupção está
em todos os níveis; ressalto que a Polícia Militar, como

196
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

qualquer instituição, está os homens com suas virtudes e


defeitos; na PM há o “homem policial”; não importando
o Posto ou Graduação, contudo, deverá o leitor se lem-
brar de que a natureza humana comporta atos de bondade
e maldades, dependendo do momento e situação, estou
neste momento falando dos Oficiais e praças cujo tive
contato, que agiam de forma contrária ao que deveriam
agir no momento que convivi, todavia, ressalvo os muitos
praças e Oficiais de muito valor e honra que tive o prazer
de trabalhar, heróis dedicados em uma causa impessoal,
senão ser policial que a sociedade deseja para protege-la,
no mesmo contexto temporal.

197
A bondade humana.

Há milênios as cabeças pensantes vêm tentando


determinar se o homem é bom por natureza –
como mencionam Rousseau, Sócrates... mas
tentado ao mal. Opinião representada por
Hobbes, Maquiavel ou a teologia cristã, mediante
o pecado original-. O debate segue firme, mas
agora há uma nova voz a levar em conta: a
neurociência, que está a caminho de estimar
quantitativamente a bondade humana.

Somos bons ou maus? Há uma pequena percentagem


(em torno de 20%) de pessoas que sempre agem de um
modo compassivo e respeitoso com as normas. No outro
extremo, outra porção menor (uns 4%) têm os que siste-
maticamente agem de modo antissocial e desleal, incluin-
do 1% de indivíduos perigosos. Mas o mais interessante
acontece em terra de ninguém (nas favelas e áreas mais
pobres, por exemplo, sem a presença do Estado – ci-
tação minha), onde se movem a maioria dos mortais,
esse 60-80% de pessoas que agem bem ou mal em fun-
ção de como sopra o vento. Isto é, agem conforme o
comportamento do restante, de quem esteja olhando
ou das normas punitivas que imperem no espaço-tem-
po onde se encontrem.
A criminalidade em Nova Iorque reduziu de forma es-
petacular entre a década dos anos 80 (quando os Warriors
dominavam as ruas) e o final de século XX, quando se
converteu em uma das megaurbes mais seguras do conti-

199
Sérgio Cerqueira Borges

nente americano. Um dos motivos alegados para explicar


a mudança de tendência é a chamada “teoria das janelas
quebradas”, aplicada pelo prefeito Rudolph Giuliani du-
rante os anos 90 (política de tolerância zero com os delin-
quentes).
Segundo esta teoria, as pessoas são mais propensas
a se comportar de um modo incivilizado quando o meio
está degradado: edifícios sujos, vidros quebrados, paredes
pichadas... Giuliani decidiu lutar com ferocidade nessa
frente: ordenou que cada vagão que chegasse às garagens
cheios de rabiscos fosse limpo instantaneamente e devol-
vido à rede. Depois de meses de duro pulso, os grafiteiros
acabaram desmoralizados e os trens voltaram a circula-
rem impolutos pelo Subway, tal e qual relata Malcolm
Gladwell em seu livro “The Tipping point”.
Receoso da hipótese dos vidros quebrados, o sociólogo
holandês Kees Keizer decidiu realizar um experimento
na vida real, concretamente na cidade de Groningen, tão
prolixa e cívica quanto o resto do país. Para isso deixou
folhetos publicitários em todas as bicicletas de um esta-
cionamento próximo de um supermercado e tomou nota
de quantos dos ciclistas jogariam o papel no chão ao re-
tirar sua bike: uns 20%. A seguir, procedeu a “degradar”
o estacionamento, enchendo as paredes de pinturas e pi-
chações e voltou a efetuar o experimento. Nesta ocasião,
a percentagem de pessoas que atiraram o papel ao chão
cresceu absurdamente até aos 50%.
Keizer realizou vários experimentos mais da mesma
índole e em todos obteve resultados parecidos: deixou um
folheto bem a vista na boca de uma caixa de correio e,
dependendo de se este estava limpo ou sujo, ou rodeado
de lixo, o comportamento das pessoas variava…, salvo o
20% de conduta irrepreensível e o do outro 20, sempre
disposto a subverter a norma.

200
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

Que conclusões podem tirar destes experimentos? So-


mos bons ou maus? Não dá para falar de percentagens
precisas, mas sim esclarecedoras. Em torno de 20% das
pessoas demonstra desde muito cedo uma tendência à
compaixão e a ajuda, enquanto, no outro extremo, encon-
tram-se o bando de sem-vergonhas, desleais e inclusive
predadores perigosos, ou seja, grandessíssimos fdp os
quais não costumam passar de 4%, percentagem que se
eleva até 20 % quando se trata de condutas mais suaves –
como as descritas no exemplo anterior-.
E o resto? O 60% que está no meio se move em fun-
ção do marco normativo predominante. Em outras pa-
lavras, a maioria silenciosa age segundo sopra o vento:
se o meio tende à colaboração, será mais cooperativo;
se impera a repressão, moderará sua tendência a de-
linquir, a sujar ou a mentir; se acontece a baderna,
igualmente se juntará a maioria e pode fazer coisas
que ele mesmo se sentirá envergonhado posteriormen-
te; se naõ tiver ninguém olhando eventualmente joga-
rá pedra na Jeni e lixo no chão.

Os resultados obtidos pelo experimento holandês são


coerentes com os ensaios realizados por Stanley Mil-
gram  em 1963, mundialmente famosos graças ao filme
“O experimento”. Neles pediam aos voluntários que apli-
cassem choques em outros indivíduos (que simulavam os
ataques). Naquele caso, 15% abandonou a experiência,
preferindo desafiar a autoridade do cientista a perverter
seus próprios princípios morais. No entanto, um preocu-
pante 65% seguiu adiante com as eletrocussões, apesar
dos eloquentes sinais de dor de suas vítimas.35

35 Somos bons ou maus? A neurociência responde as perguntas da filo-


sofia – Metamorfose Digital – mdig.com.br

201
Sérgio Cerqueira Borges

“... a maioria dos mortais, esse 60-80% de pessoas


que agem bem ou mal em função de como sopra o
vento. Isto é, agem conforme o comportamento do
restante, de quem esteja olhando ou das normas
punitivas que imperem no espaço-tempo onde se
encontrem... se o meio tende à colaboração, será
mais cooperativo; se impera a repressão, modera-
rá sua tendência a delinquir...” (O homem é pro-
duto do meio cultural, e o policial é homem, “ho-
mem policial”)...”36

36 mdig.com.br

202
SEM UNIFORME.

Então já efetivado na segunda seção do 9º batalhão,


apto a exercer a função de agente de informações, após
os tramites legais feitos, começo a receber os documen-
tos cujo consistem em notícias crimes chamados de “in-
formes”; estes são assim chamados por não ainda terem
sidos confirmados sua veracidade descritos na notícia,
uma peça de informação, e cabia ao agente de informa-
ção classifica-las, por exemplo: se a fonte era confiável,
a extensão de crédito para informação etc. É claro que
havia uma classificação mais técnica, todavia não cabe
aqui promover um curso de agente da P/2, apenas uma
menção da ideia de como era os tramites; assim o agente
“caia em campo”; às vezes só, às vezes em dupla, às ve-
zes em maior numero de agentes, para por fim investigar
e informa por meio de relatórios em um prazo de quinze
dias os fatos, verdadeiros ou inverídicos.
 
Muitos foram os informes investigados durante alguns
anos em que permaneceu o autor na P/2, alguns confirma-
dos e outros não confirmados; não pretendo listar todos os
cujos funcionou como agente investigador, porém preten-
de citar alguns para por luz ao momento que a polícia e os
“Homens Policiais” viviam naquele Governo “Brizolista”
cujo agonizavam todos que queriam combater o crime,
mas com as proibições já mencionadas privavam os agen-
tes da lei em trazer ordem à sociedade e privilegiavam os
arregados em terreno fértil a corrupção. A segurança Pú-
blica estava inerte as ações das facções criminosas, sim-

203
Sérgio Cerqueira Borges

plesmente já não se limitavam ao tráfico e comercio de


drogas, partiram para outras modalidades como seques-
tros, assaltos a bancos etc., posso lembrar que marginais
do Morro do Juramento, assaltava um mesmo banco no
bairro de Vaz Lobo, todos os dias durante algum tempo, e
nada se podia fazer, uma situação revoltante, muitas vezes
as viaturas policiais perseguiam os veículos dos marginais
até a periferia da favela, mas quando estes facínoras aden-
travam a favela, os policiais não podiam incursionar a co-
munidade, era território seguro a eles, graças às ordens do
Governador Brizola, maré-zero, não autorizava, determi-
nava que esperassem a chegada do Oficial de Supervisão
para isto; alguém em sã consciência acredita que os mar-
ginais ficariam esperando o “circo policial” ser armado?
E, ainda se tinha que driblar os arregados; “brincadeira de
gato e rato”; cujo só causava prejuízo ao erário público
com a operação infrutífera e desgaste cada vez mais ao
moral da tropa de PMs, o que cada vez mais estes, como
já dito, eram corrompidos; não vou entrar no mérito das
ordens do Governo Brizola, se tinha intenção de proteger
as populações mais carentes, por outro lado não os assis-
tiu com ações sociais; realmente estas áreas eram partidas
e separadas do Poder público, ou seja, o “Poder” nestas
constituídos era, senão dos traficantes; então quando vejo
políticos e apresentadores de programas de televisão do
gênero, hoje em dia fazerem médias com o Povo, dizendo
que nas favelas 99% das pessoas são honestas e trabalha-
doras, pois bem e daí? O fato desta estimativa de pessoas
trabalhadoras estarem morando lá; ademais qual a fonte
desta estatística? Não significa que estes, não reconheçam
a autoridade dos traficantes como “legitimada pela força”
e que a eles sintam simpatia ou não aos marginais, uma
vez que o Estado não se faz presente, somente até pouco
tempo com as UPPs, os traficantes são em raras exceções,

204
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

moradores criados na comunidade, se não, pelo menos o


chefe do tráfico, e quando os marginais da lei são de fora
e não entra em sintonia com os moradores, aí entra as in-
formações anônimas contra eles; alguém acredita mesmo
que moradores de comunidades carentes confiam mais em
quem? Portanto esta conversa de sistematizar moradores
honestos e trabalhadores a pessoas que desgostam de tra-
ficantes é conversa de político ou de apresentador de pro-
gramas sensacionalistas da TV.

“... Desconfio de  todos os sistematizadores e os


evito. A vontade de sistema é uma falta de reti-
dão... ”37

Em média o agente de segunda seção do nono batalhão


recebia cerca de cinco a dez informes para em quinze dias
responderem com um relatório por semana, e este remeti-
do a PM/2, entretanto, quando os informes eram no inte-
rior das favelas; já que não se podia entrar, a resposta era
sempre a mesma: “PREJUDICADO”, cujo significa nada
constatado; mas o que fazer de diferente, não era isto que
o Governo queria? A polícia fora da favela?
Pense a dinâmica se funcionasse como deveria: O
agente investiga o informe, constata os fatos delitivos,
produz um relatório com todo o apurado com riquezas de
detalhes de um texto descritivo, informa a PM/2, esta en-
via determinação ao batalhão para montar uma operação,
o comando repassa para a P/3, esta faz o planejamento de
uma operação, e pronto, tudo que o Governador Brizola
não queria polícia na favela; por outro lado, o lado obscu-
ro dos Oficiais que por ventura eram arregados, ou praças
também, toda a operação era realizada, mas com o conhe-

37 NIETZSCHE, Friedrich. O Crepúsculo dos Ídolos. São Paulo: Com-


panhia das Letras, 2006, p. 13.

205
Sérgio Cerqueira Borges

cimento antecipado dos meliantes; então informes em co-


munidades: “PREJUDICADOS”. Os informes então cujo
realmente se procedia eram os fora de favelas; ademais
quem não sabe que em favelas há trafico de drogas?
Casos curiosos ocorreram cujo não eram atribuição da
P/2. Citarei alguns para exemplificar os desvios funcio-
nais: 

206
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

“O GALINHO DE QUINTINO”

Um fato cujo ganhou notoriedade nos anos 80 foi um


infortúnio que o grande e agora ex-jogador Zico do Fla-
mengo do RJ (Arthur Antunes Coimbra) sofreu um de-
sagradável fato ao ter sua residência furtada pelo seu pró-
prio mordomo; equipes da P/2 do nono batalhão; o autor
fez parte de uma das equipes; foram oficialmente designa-
das para fazer a segurança no interior da casa do jogador.
Não bastasse o privilégio indevidamente concedido ao
ídolo pela PMERJ, ainda não satisfeitos, resolveram seus
familiares criticar uma das equipes cujo haveria aberto o
portão automático da residência sem tomarem as devidas
cautelas, na visão destes; ora policiais experimentados
condecorados com reconhecimento da própria PM, já ti-
nham verificado pelo circuito fechado da própria casa o
fator segurança, não dariam conta ao fator preventivo?
No dia seguinte era a equipe do autor de serviço; mas
antes de seguir para Barra da Tijuca, o chefe da segunda
seção “espinafrou” a todos, pois ele também tinha ouvi-
dos poucas e boas de seus superiores. Então O casal havia
saído para assistir a um show no maracanazinho a noite;
a imagem do circuito fechado estava com desfoque cujo
impossibilitava uma nítida visualização, no momento em
que retornaram, foi o autor quem abriu o portão e para ga-
rantir a segurança de todos, saí de arma na mão para veri-
ficar e guarnecer a entrada do carro; é técnica padrão; não
entenderam e se assustaram, deviria estarem traumatiza-
dos talvez; mas foi o bastante para acabar com a missão,
acharam que foi uma represália pela reclamação anterior,

207
Sérgio Cerqueira Borges

mas não foi, era apenas prevenção necessária à segurança


de todos. Conclusão, por algum tempo foi o autor desta
obra, desligado da P/2, transferido para a tropa, o afasta-
mento foi uma espécie de punição; não poderiam punir
oficialmente, Não havia prerrogativa para a segurança a
família do Zico, o que iriam escrever no boletim? Que
a PM deslocou agentes reservados para fazer segurança
indevida para casa de um jogador, ídolo de todos os tem-
pos? Claro que Zico só procurou o que qualquer cidadão
deseja, senão segurança pública, mas não deveria ele con-
tratar uma empresa privada do ramo? Mas, porque faria
tal coisa se a PM deslocou vários agentes que deveriam
estar fazendo o serviço de inteligência para prevenir e a
polícia planejar suas ações? Acredito que tenha aceitado
por estar inseguro e, em quem confiar? Na ocasião acredi-
taram nos homens da P/2 do nono batalhão, não critico o
Zico, uma vez que seu próprio mordomo o havia furtado,
não deve ter nem refletido ou tomado conhecimento que
com o deslocamento daqueles policiais a sua casa, a segu-
rança do cidadão comum estaria em tese prejudicada, mas
em realidade da época, a segunda seção estava mesmo
inoperante; contudo o comando da PMERJ não atentou
ou não se importou, e quis apenas “fazer uma média”.
 Mas depois da “punição” retornei para a segunda
seção; este é o respeito ao profissional de segurança
pública; parece motivador? Na verdade uma falta de
respeito, consideração; não sendo caso isolado na minha
carreira, e estendido tal tratamento a qualquer policial,
praça é claro; confesso que o sentimento funcional fica
muito prejudicado.

208
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

Outro caso: Escola Nacional de


Administração Pública, concurso em
1987.

A PM/2 determinou aos batalhões o envio de três agen-


tes de cada batalhão para uma missão grande e a nível
nacional; não seria missão para Polícia Federal?  Seria o
concurso nacional para a Escola Nacional de Administra-
ção Pública, o concurso era então organizado pela CES-
GRANRIO, cujo Presidente era o senhor Carlos Serpa.
Quem chefiou a operação foi o egocêntrico Oficial da PM
Valmir Alves Brum; de sua autoria apelidou a missão de
OPERAÇÃO PANE, em alusão ao nome da escola com
as iniciais transcritas ao inverso. Designado para fazer a
segurança dos malotes das provas até a abertura destes
viajou, este autor e um casal para Belém do Pará; outros
agentes foram a outros entes da federação; em Belém fi-
camos hospedados no melhor hotel, o Equatorial, naquela
época um hotel quatro estrelas, era o mais caro da época
de Belém, e, tudo por conta do CESGRANRIO. Bom, até
então era uma missão oficial, o problema foi no final cujo
retornamos ao RJ; na palestra aos agentes feita por Brum,
este agradecia e parabenizava o bom trabalho realizado;
ao final do discurso, ele disse a todos: “-Agora uma boa
surpresa a todos, não falei antes para não comprometer a
missão, mas uma gratificação estava reservada pelo exi-
to do serviço; há uma listagem com o nome de vocês lá
no Cosme Velho, na sede do CESGRANRIO, onde todos
terão “direito” a receber um cheque...”. Primeiro. Alguns
agentes sussurraram que a quantia nem valia a gasolina

209
Sérgio Cerqueira Borges

ou a passagem para o deslocamento; Brum já havia com-


partilhado momentos antes o valor a alguns, foi o que
dava para entender. Segundo. Ficou claro que na verdade
a PM/2 da PMERJ, havia sim, eram vendidos os seus ser-
viços ao CESGRANRIO. Então, se realmente houve tal
quantia destinada ao agente cujo participou desta missão,
não sei afirmar ser verdadeira, pois eu não compareci ao
CESGRANRIO. Posteriormente a este fato, Brum con-
vidou-me e a mais dois outros agentes da P/2 do nono
batalhão para trabalhar na PM/2; mas estranhei quando
logo após o convite, Brum indagou-me porque não ha-
via ido buscar o dinheiro no Cosme Velho; respondendo
sem pensar muito, que acreditava que não seria do meu
interesse, e temia no futuro que isto vinhe-se a prejudi-
car-me. Brum estendeu a mão para um aperto a minha,
com um sorriso sínico, e disse que o convite estava de pé,
mas o sembrante e expressão de seus olhos mostravam
que não ficou satisfeito com minha postura, e ainda fez
um comentário: “O “U’ já aceitou, falta você e o “L”; es-
tes foram os outros agentes do nono cujo participaram da
missão; disse:”-gosto de manter alguns agentes mais pró-
ximos”; então indagou: “-mas o que tem de tão bom no
nono batalhão?” Uma pergunta de tom acusatório, falou
me fitando os olhos; o Brum é destes sujeitos que acredi-
ta que só ele é honesto na polícia, mesmo não sendo ele
integro; o que é minha opinião; mas pelo cômodo com-
portamento na operação PANE, fica claro que o senso de
honestidade dele é um tanto deturpado do conceito geral
ético; na verdade ao longo de sua carreira, tentou cons-
truir uma imagem de “paladino da Justiça”, mas à custa de
muitos praças, alguns merecidos, mas muitos injustiçados
pelo senso deturpado em ser uma espécie de inquisidor da
PM, muitos policiais militares perderam seus empregos,
sua honra, e, “psicopaticamente” não se importou com as

210
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

famílias destruídas daqueles que foram injustiçados com


seus atos inconfessáveis.
Os dois casos citados ocorreram em governos diferen-
tes e comandos distintos; o moral pretendido é tão somen-
te ilustrar um ditado da tropa cujo persiste uma realidade
de corrupção e desvios de finalidade da PMERJ em favor
das elites:

“Os Oficiais pelos batalhões passam, mas os pra-


ças ficarão na praça jogando milho aos pombos
que na praça pousarem!”

Pode-se afirmar que os praças das PMs são “PAU


PARA TODA OBRA”, avaliados por psicólogos se seriam
capazes de tirar uma vida, se necessário, sem sentir culpa
(exames psicotécnicos no ingresso a PMERJ os candida-
tos ideais), a isto chamamos de psicopatia; treinados para
guerrilha urbana no CEFAP, mas exigido como policiais
urbanos nos batalhões, funcionam como polivalentes, de
serviços gerais a qualquer função que seja designado se
for conveniente ao Poder Público ou interesse de quem os
comandam; é o militarismo.
O Governo Brizola seguia, assim como seguia a pro-
gressão da violência e os índices alarmantes e crescentes
das modalidades criminosas; a polícia em geral só “es-
tava enxugando gelo”. As polícias mais envolvidas em
escândalos e então, uma parcela significativa dos Poli-
ciais Militares nos batalhões descontentes com está situa-
ção, aderiu a uma nova prática; Coronéis Comandantes
de batalhões insatisfeitos com aquela promiscuidade ou
omissão estatal resolvem arregimentar policiais de suas
confianças e assemelha-os a agente da P/2 usando de um
princípio, o da oportunidade; na pratica aproxima-se qua-
se ao triplo do efetivo de policiais militares atuando que

211
Sérgio Cerqueira Borges

na teoria estariam de folga, dois terços destes, e passam a


irem alguns voluntariamente e outros com nomenclatura
de serviço extra, cujo compareciam aos batalhões na folga
(não recebiam horas extras), param de forma clandesti-
na ao conhecimento governamental entrarem nas favelas,
contra a vontade do Governo, mas “com as bênçãos” dos
comandantes de alguns batalhões, o objetivo, darem com-
bate e por um freio nos desmandos dos marginais que já
começavam a dar sinais hostis de uma forma nunca vista
antes; começavam a atirarem nas viaturas, não só da po-
lícia como até as dos Bombeiros Militares e similares da
área de segurança; nem viaturas de empresas privadas es-
tavam livres de ataques. Consequentemente alguns destes
Comandantes perdiam o Comando do Batalhão.
Eis que um fato estranho e perigoso abrolhava. Um fato
social surgia sem que ninguém houvesse previsto, agora
havia grupos diversos cujo frequentavam as favelas, para
desespero dos traficantes, da PM e dos moradores; neste
ponto Zuenir Ventura tinha razão, era de fato a cidade par-
tida, e nesta repartição, aquela população ficara entregue
a própria sorte e ao Poder do tráfico. Um dos grupos era
de policiais cujo entravam de forma oficial quando ha-
via operações planejadas (coisa rara), outro grupo, os que
compareciam na folga, ativos na madrugada para evitar
confrontos com inocentes presentes e chamar a atenção
da mídia, os grupos dissidentes dos que colaboravam com
os comandos na folga, desviaram da finalidade e daí nas-
ceu os grupos de “mineiras” da década de 1980 (prisões
de marginais com propósito de extorsões); às vezes “no
esbarrão” à noite, havia troca de tiros entre policiais com
outros “policiais”; quando se davam conta; deixavam as
favelas; agentes da segunda seção já monitoravam estes
fatos, mas a função da P/2 era apenas informar a PM/2;
mas, e a Corregedoria? Pelo que parecia nada fazia, não

212
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

havia interesse político; Brizola fazia seus eloquentes dis-


cursos de purificação a PM, mas de alguma forma estava
satisfeito com a diminuição de assaltos e sequestros de
pessoas de bem, porquê de bandidos, estes viraram ati-
vidades corriqueiras e lucrativas; mas como alguns co-
ronéis perderam o pulso da situação, e muitos coronéis
também passaram a se “arregarem” com os donos do tra-
fico de algumas favelas; por meio de “representantes” de
associação de moradores, estes intermediavam acordos de
quantias milionárias para manter os grupos que agora pra-
ticavam as tais “mineiras” o mais distante possível; claro,
as ordens do Governador caíram com uma luva às mãos
sujas de tais Oficiais; os policiais que haviam atendido ao
apelo dos Coronéis honestos para trabalharem na folga
em prol da sociedade e da própria Polícia, agora a maio-
ria, não mais compareciam em suas folgas e só compare-
ciam na nova forma de exploração aos praças, o serviço
extra (na folga), e outros permaneceram nesta prática que
agora viraram células de grupos de extorsão e associa-
ram-se a policiais civis; os serviços extras ganharam mais
uma vez um destino de corrupção, eram de novo vendidos
ao comercio; os trilhos da segurança pública para o Go-
verno Brizola, “descarrilhou” de vez.
No nono batalhão com toda convicção, afirmo que
havia muitos homens valorosos, dedicados; mas como
“homens Policiais”, “falíveis” e suscetíveis a sua nature-
za humana, entretanto, no fiel da balança prestavam um
serviço à sociedade relevante; se eram bons todo tempo,
ninguém o é, contudo havia os que se destacavam em me-
nor numero nas suas naturezas humanas, o pior do que
não se desejam em todos nós:

213
PATAMO DO CABO PM “W”
(9º BPM).

Uma destas células referida tratava-se da guarnição do


Cabo “W”; no dia de serviço daquela guarnição nenhu-
ma boca de fumo da área do nono batalhão funcionava
ou aquelas que se atrevia, está guarnição “estourava-na”
estes policiais eram sem exagero muito operacionais; em
algumas comunidades os marginais faziam até uma piada
aos viciados: “hoje é dia de Zumbi, a boca ta parada”; a
guarnição daquele PATAMO era em sua maioria de poli-
ciais negros, “W” era um sujeito alto; “o próprio capitão
do mato”; bem musculoso; eles não eram arregados com
nenhuma boca de fumo ou traficantes qualquer, entretanto
a virtude destes termina por aí, eram matadores de aluguel
(“gatilho pago”), assaltantes de carro forte, sequestrado-
res de traficantes (mas mesmo o resgate sendo pago, não
tinha jeito, o bandido sequestrado era executado). Certa
vez a guarnição de “W” assaltou um carro forte, usaram
um uniforme, destes de time de futebol, mas na camisa
encontravam-se as iniciais daquela que seria a maior fac-
ção criminosa da época, as iniciais era “CV”; mas a coisa
complicou, o assalto foi em estrada Federal e houve troca
de tiros com agentes da PRF, um patrulheiro morreu; a
guarnição caiu em desgraça; “W” até onde se sabe en-
contra-se desertor, o resto da guarnição, alguns excluídos,
outros mortos. O ser humano é de uma complexidade em
que ressalta a ideia que em alguns momentos age de for-
ma distintamente ético e em outro momento mostra a sua

215
Sérgio Cerqueira Borges

outra natureza, é o “Homem Policial”; basta excluí-lo da


Polícia? 
Um dos casos mais relevante que marcou época do co-
ronel, ora chamado pela tropa: “burro preto”: um repre-
sentante da associação de moradores da favela de Acari
aos portões do 9º batalhão foi abordado pelo então Cabo
“W”; o intermediário do trafico na verdade estava de pos-
se de duas bolsas de papel; as antigas usadas pelos su-
permercados da época; ambas estavam cheias de pacos
de dinheiro a ser entregue ao comandante do batalhão;
“W” de posse das bolsas, gritou o nome do Oficial do por-
tão do corpo da guarda do 9º BPM; o coronel ao abrir
a janela; neste momento ele já sabia da presença do re-
presentante do homem da favela no portão; viu o atrevi-
do “W” gritar, levantando as duas bolsas, o seguinte: “tá
aqui, vem buscar!”; o coronel olhou-o não acreditando no
que via, fechou as janelas, e o Cabo “W” “mineirou” o
corrupto coronel frente a todos cujo presenciaram o fato,
e é lógico, se espalhou como rastilho de pólvora aceso;
mas este Oficial era tão sujo e “arregado” com o tráfico;
quando trabalhou no comando do decimo sexto batalhão
(Olaria), transferiu cerca de 80 policiais cujo combatiam
honestamente e que também mineiravam os traficantes, e,
um traficante de alcunha Olando “jogador”, o pagou para
transferir estes PMs agora nivelados igualmente, os bons
e os envolvidos. No nono batalhão (Rocha Miranda), CY
de Acari também fez o mesmo, pagou a “burro preto”,
presenteando-o com um trator e ele transferiu outros cer-
ca de 80 PMs (esta situação foi apelidada de “BATÔ MU-
CHE”, UMA ALUSÃO AO NAUFRÁGIO QUE CUS-
TOU MUITAS VÍTIMAS EM COPACABANA NO ANO
NOVO); contudo mesmo sendo uma atitude bandida feita
por “W”, este foi ovacionado pela tropa do nono; mas foi
para ele a gota d’agua, é claro. Mas o coronel conhecido

216
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

como “burro preto”, está gozando sua reforma (aposenta-


doria) com todas as suas medalhas de honras. Caríssimos
leitores, acaso por que acham que alguns PMs do 9º BPM
se corrompiam? O exemplo vem de cima! E até a chegada
de um dos coronéis cujo se tornou uma lenda no batalhão
de Rocha Miranda que mudou sua histórica trajetória de
difamado batalhão de “bandidos policiais” a dedicados,
quando “homens policiais” desviados do caminho do bom
policial, novamente vocacionaram-se ao bem; a situação
parecia irreversível; mas Brizola mantinha-se indiferente
a PM e, aqueles canalhas corruptos, Oficiais e praças des-
viados pelo próprio sistema, até então não parecia acenar
mudanças naquela situação; veja então que mais uma vez
afirmo que não há “bandas” de bons e maus, há sim pes-
soas cuja bem administradas e respeitadas, há demonstrar
o melhor do ser humano, se não o pior do “homem poli-
cial” emerge.

217
PATAMO DO SARGENTO “A”.

“A” era o tipico o “boa praça”, mas não era bom pra-
ça, a sua guarnição era “arregada”, principalmente com
o narcotraficante Cy de Acari; sujeito cauteloso, inteli-
gente, dava uma aparência com o personagem de dese-
nho animado, o “DICK VIGARISTA”; interessante que
trabalhavam um dia depois da guarnição do Cabo “W”;
então quando os traficantes não tinham trégua, no outro
dia, tudo liberado. “A” e sua guarnição, não tinha desafe-
tos, aliados dos bandidos, demonstrava camaradagem aos
colegas policiais, se dava bem com todos e também finan-
ceiramente principalmente, “A” mantinha uma residência
alugada em Madureira, ía trabalhar com um carro “caindo
aos pedaços”, não ostentava riqueza, mas era de fato, mo-
rador na Barra da Tijuca, uma cobertura pelo que se sabe;
mas com a chegada de um Comandante novo e honesto,
vindo de Niterói, não demorou e pediu sua reforma re-
munerada (aposentadoria); ainda dizem que o crime não
compensa, está máxima pelo jeito não se aplicou a “A”,
um caso de exceção à assertiva, talvez; “A” Também o é
“Homem Policial”; basta excluí-lo da Polícia? E quantos
casos recorrentes e semelhantes ainda ocorrem e ocorrerá
se só tirar-se o “tomate podre” sem tratar o “fungo” cujo
causa esta doença social; só a espada está funcionando
sem equilíbrio do fiel da balança, neste caso das polícias.
É necessário investir na pessoa, no “homem policial”,
este é um “doente social”; deve-se separar o homem da
instituição; investir somente na instituição é senão jogar
erário público no esgoto; deve-se também adequá-la aos

219
Sérgio Cerqueira Borges

novos tempos; insisti nestes modelos terá um preço alto


demais cuja sociedade não poderá pagar.
Outra célula, talvez a que seria o pivô de uma das cha-
cinas mais ruidosas até os dias atuais, era a do Sargento
Ailton, mas em melhor momento cujo será tratado em
capítulo especial será contado. Só para ressaltar que es-
tas guarnições foram citadas para ilustrar como estavam
os homens, antes convocados para trabalhar na folga e
depois contaminados pela corrupção, devido à inércia
da segurança pública ou abandono por parte do Gover-
no Brizola nas favelas Cariocas, e, havia outras é claro;
como disse antes a corrupção fruía por todos os poros da
PMERJ, mas no nono batalhão a coisa estava tão alarman-
te que estas situações perduraram até ao fim do Governo
Brizola e início do Governo Moreira Franco; os policiais
honestos, desanimados, descrentes de mudanças; os cor-
ruptos, adorando aquela política de (in) segurança do po-
pular Governador; como não ser popular? Afinal era nas
favelas e áreas carentes que Brizola era mais popular; não
os assistiam, mas deixava o Poder Paralelo fazer a parte
“social” que deveria o Poder público fazer; então aquelas
áreas não era terra sem lei, contudo as leis eram locais, do
“comun Law”, impostas pelos marginais que detinham o
território livre a eles; e quem não iria respeita-los nas fa-
velas? O tribunal do crime é rápido e insensível a “Recur-
sos”. Afinal aquela era realidade para os moradores das
favelas; ora, Polícia só entrava para prender seus “prote-
tores”, acabar com a “paz”; quando não, eram os grupos
de “mineiras” já descritos, estes grupos anteriormente; os
dissidentes citados, que foram convocados para evitar o
inevitável; paradoxo o que vou dizer, mas a situação era a
seguinte: não havia roubo, furto aqueles moradores, o es-
paço do morador de comunidade terminava quando o do
outro começava, tendo o poder do tráfico a fazer a “jus-

220
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

tiça”; não é esta uma das definições de Direito? Regular


as relações entre os homens; se não a “justiça local” agia
dolorosamente eficiente. Então três décadas vivendo as
pessoas assim, como da noite para o dia faze-los sociabi-
lizar-se apenas implantando as UPP(s)?
 Não estou aqui para jogar pedras na memória do
Leonel de Moura Brizola, tão pouco dizer, contra sua
dedicação a um país melhor, falar que suas intenções não
eram as melhores para a população, duvidar do seu pa-
triotismo; afinal o autor deste livro não é político partidá-
rio, portanto não filiado a partido algum, seria esta atitude
normal a candidatos adversários, mas sou cidadão; entre-
tanto foi parte cujo vivenciou e participante deste período
histórico; tenho direitos constitucionais à expressão da
opinião, e estive muito mais próximo desta realidade a
que descrevo, do que ele e seus assessores; mesmos os
Oficiais da PM a ele leal ou não; vivi “no olho do fu-
racão” destes anos nebulosos da história da segurança
pública; bom dizer, informações ao chegar ao receptor,
sempre chegam filtradas e, ou, modificadas, dependendo
do interesse político ou particular de quem as transmitem;
se Brizola estava “vendido”, não sabe o autor informar,
se era um oportunista visando apenas o Poder, nada sebe
também, mas certamente testemunhou pessoalmente que
sua desastrosa conduta como governador; nos dois Go-
vernos do Rio de Janeiro; levou-nos a esta atual situação;
não há nada neste mundo que ocorra como consequência
sem uma causa; parece que por vezes se diz o óbvio, mas
às vezes as coisas estão diante de nossos olhos e não en-
xergamos e, quando enxergamos por olhos que não são
os nossos, duvide de tudo, pois não há verdade absoluta,
esta, sempre pode ser manipulada.
Mas o serviço de inteligência do nono seguia em fren-
te; os informes? Estes ainda tinham que serem respos-

221
Sérgio Cerqueira Borges

tados; no entanto como já mencionado, os que seriam


investigados em comunidades, não eram, os cujo havia
possibilidade ou, viabilidade, estes eram respostados, mas
sem muito resultado fático; alguns eram até perigosos ao
próprio agente naquilo cujo ele poderia descobrir. Um
destes informes que em primeira analise seria comum a
ser investigado e não sobrevinha em favelas, aludia uma
rápida e eficaz resposta: prejudicado; mas não foi assim
que iria este em especial cujo passo a relatar:

222
“FUSQUINHA” O MAIS POPULAR E
O MAIS FURTADO OU ROUBADO.

No bairro de Madureira, Vaz Lobo, Marechal Hermes


e redondezas, em apenas alguns dias havia dezenas de
VW, “fusquinhas” furtados, nada de tão assombroso já
que estes eram produto de furto e roubo com constância,
e não era novidade para ninguém; existia até uma lenda
urbana: Estes tinham possíveis destinos, ou seria o motor
usado para construção de ultraleves, ou seriam contraban-
deados para países vizinhos, ou desmontados em oficinas
de desmonte nos ferro-velhos localizados na via Dutra;
muitos realmente eram desmontados, muitas as oficinas
realmente eram investigadas e havia muitos informes de
que policiais davam “cobertura”; ocorre que recebido
pelo autor um informe que consistia investigar uma ofici-
na em Marechal Hermes, e este dava indícios que um lan-
terneiro cujo fazia parte de uma quadrinha de ladrões de
carros, que seu apelido dado a sua especial habilidade era
ele conhecido como “MARTELINHO DE OURO”, bem,
o sujeito já era conhecido dos policiais, então, não foi di-
fícil encontra-lo. Como de praxe do serviço de inteligên-
cia, o suspeito foi mantido sobre vigilância e terminando
os quinze dias para produzir um relatório a PM/2; cabe o
esclarecimento que não havia apenas um informe a res-
postar a PM/2, a vigilância era em momentos esporádicos
e somente quando o informe realmente apresentava novi-
dades que se justifica a vigilância integral, o que até aque-
le momento não havia nada observado e, findando-se o
prazo, o informe foi respondido é claro como: nada cons-

223
Sérgio Cerqueira Borges

tatado. A polícia naquela época não dispunha de nenhuma


tecnologia dos dias de hoje, só havia uma maneira do
agente ou qualquer policial tomar conhecimento de fatos
que contribuísse com qualquer investigação, e estas infor-
mações tinham forçosamente em partir de dentro da qua-
drilha, ou das favelas, ou de quem estivesse sendo inves-
tigado para ser poupado (um acordo), e só um informante,
vulgarmente conhecido no jargão policial como X9 pode-
ria “por luz” para o esclarecimento ou contribuir com al-
guma informação a qualquer investigação, e é bom dizer
que dados vindos destes informantes devem ser analisa-
dos com cautelas; mesmo sendo o informe do vulgo “mar-
telinho de ouro” respostado, um informante sondado, dias
depois passou uma confirmação que o suspeito realmente
estava envolvido em uma grande operação criminosa,
mas com uma advertência, que fosse cuidadoso com a se-
gurança pessoal, pois por tráz de tudo havia um Capitão
da PM. Um relatório complementar foi enviado a PM/2
com o nome do Oficial por telefone. Voltei a manter o
suspeito em observação esporádica e, quando em deter-
minado dia, “martelinho de ouro” em muitos dias não era
mais observado a presença do suspeito em Marechal Her-
mes; recorrendo ao X9, este informou que o suspeito ha-
via sumido, pois havia tomado conhecimento que a P/2
DO NONO BATALHÃO, estava vigiando seus passos,
simplesmente sumiu. Cerca de dois meses depois por pura
coincidência ao passar em uma Rua em Bento Ribeiro
(bairro próximo ao batalhão), bem próximo ao nono po-
deria dizer; estava na porta de uma oficina de lanterna-
gem, e em companhia de um PM do batalhão cujo era lo-
tado na oficina mecânica do 9º BPM; na calçada estava
um chassi de um VW em meio a outros veículos avaria-
dos, contudo; embora não estivesse presente um perito;
pela aparência do local da numeração específica do veícu-

224
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

lo, não indiciava haver raspagem e renumeração, um mis-


tério, cujo não conseguia desvendar; nunca passaria pela
cabeça deste autor à sórdida verdade. Embora o agente de
informação sirva a este propósito, apenas informar, existe
um princípio no serviço reservado chamado de “janela de
oportunidade”, significa: se os agentes não agirem diante
de um possível delito cujo este esteja seguro que haja um
flagrante, e, se não agir, poderá perder o flagrante, a situa-
ção então justificaria a abordagem ou ação adequada; o
policial citado era conhecido, estava com o uniforme tipo
“macacão” da PM dos usados na oficina mecânica da cor-
poração, visivelmente desarmado; ao parar a viatura re-
servada e fui cumprimentar o “colega”; foi como pôde
observar o chassi do fusquinha, esclarece, estava sem a
carroceria e a carroceria estava pintada no interior da ofi-
cina, dava para ver do portão desta; mas diante do nervo-
sismo de ambos, de improviso chamou o colega policial
apartado do suspeito, mentindo, “jogou um verde, para
colher maduro”, dito a ele, “-... amigo, a casa caiu você
está sendo monitorado e este sujeito também; abre a situa-
ção, amigo, e saía desta “furada””, ele fitou os olhos as-
sustado, e também desviava seu olhar ao suspeito; visivel-
mente estava nervoso, percebendo ali uma oportunidade,
enxergado nos olhos do “colega” que este tinha envolvi-
mento; lembrando porém da advertência do informe do
X9 quanto ao envolvimento do Cap PM...; e ele abriu par-
cialmente naquele momento uma das histórias mais im-
pressionantes que nunca poderia se imaginar. Contou do
esquema de transformação de VW (fusquinhas) com
chassis virgens em carros devidamente numerados e ca-
dastrados no DETRAN. Já que não havia flagrante ali
cujo pudesse comprovar sem um exame pericial; ademais
com a possibilidade de chegar mais fundo nesta história,
o que seria ariscar apreender um chassi que nem se sabia

225
Sérgio Cerqueira Borges

de fato se alí seria constatado um ilícito, “M” acabou me


revelando, aquele chassi realmente foi numerado, mas era
parte do esquema, seus documentos eram “verdadeiros”,
legitimados no DETRAN, também tinha muita autoridade
por trás, disse; mas “M” era apenas um “peixe pequeno”
naquela história; ele próprio reconhecia; contudo sabia o
suficiente para esclarecer a corrupção dos VW mitificados
da época. Não obstante não ter todo conhecimento ainda
de todo os fatos, certamente podia acrescentar dados so-
mados a outros, quiçá elucidar mais um crime ou contri-
buir para tal. Já que “M” não detinha todo o saber da his-
tória, procurou conhecimento com as fontes cujo
dispúnhamos na época, o X9, era outro X9; este era espe-
cial, era viciado em drogas, filho de um Oficial da PM que
na época já era falecido; tentara ingressar na PM em mui-
tos concursos (quem fazia a pesquisa social dos candida-
tos eramos nós da P/2, daí seu interesse em informar);
mas devido a seu vício tinha muito trânsito, tanto entre
policiais devido a sua paternidade, quanto em favelas da
área do nono batalhão. O X9 em questão disse que sabia
algo, mas ouvira de outro viciado e também X9 de uma
delegacia da Polícia Civil, mas era tão absurdo que ele
nem havia dado atenção ao que definiu como “doideira”
do amigo; mas esmiuçando o que mesmo sendo a ele
“doidera”, foi pedido que contasse a história; então come-
çou a dizer:” -Uns “57” (como chamavam assaltantes,
uma alusão ao artigo 157 do CP) estavam roubando VW e
era “limpão” (sem risco de serem descobertos) já que os
receptadores eram policiais, estes ladrões levavam os veí-
culos a um ferro velho na rodovia P. Dutra, o nome do
ferro velho, a de um santo guerreiro”, e disse ainda:” –O
“maluco falou que as “cabras” (nome dado aos veículos
roubados ou furtados) iam virar tudo viaturas, azul e bran-
co. O X9 não acreditou, achou que era muito absurda a

226
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

história; não podia pensar diferente, não tinha todas as


informações, que para o serviço reservado tratava-se ape-
nas de informe (dado ainda não confirmado); lembre-se, a
origem da investigação foi à própria PM/2; mas voltou a
atenção ao “colega” PM “M” e posteriormente a ele foi
dado uma “imprensa” (uma forma de coação), disse: “-Ir-
mão, estes VW com chassis virgens?”, “-Qual é a fonte?”,
“-Se não quer se Fud...” começa a falar, esta história já
“babou” (uma gíria significa que já estava em fase de in-
vestigação oficial); mas não estava como já dito era ape-
nas um informe e já respostado a PM/2; foi só uma “im-
prensa”, como já dito; “M” então resolveu falar tudo o
que sabia; contou, mas antes fez prometer que este nunca
revelaria a fonte; então feito à promessa. “M” revelou que
era um esquema que vinha “de cima”, partia da cúpula do
QG da PM, disse que muitas “estrelas” estavam “comen-
do na história”, e, confirmando o que havia dito o primei-
ro X9 consultado, um CAPITÃO da PM... Era a pessoa
cuja tratava diretamente com ele e em outros batalhões
também; disse que os VW na verdade eram veículos no-
vos da frota da PM cuja eram entregues aos batalhões
pelo Governo do Estado e alguns eram desviados, e como
os chassis eram virgens e não cadastrados no DETRAN,
então estes eram numerados e cadastrados no DETRAN
como veículos novos, contudo “M” não sabia que no lu-
gar destas viaturas desviadas, seriam enxertados veículos
furtados ou roubados; também não foi passado a ele esta
informação, afinal era ele naquele momento o informante,
ademais juntando todos os informes, tudo começou a fa-
zer sentido, mas produzido um relatório direto a PM/2. Aí
caro leitor, o CAP PM apareceu morto no bairro do Jar-
dim America; já o conhecia, quando era recruta no 6º
BPM, era ele o chefe da oficina daquele batalhão; mas
quanto ao caso, não soube mais nada; quem ficou preocu-

227
Sérgio Cerqueira Borges

pado com a história agora era eu; passei a andar com


medo da minha própria sombra, andava armado “até os
dentes”, me senti muito fragilizado com aquela situação
inóspita; e pior, veio uma ordem da própria PM/2, para
transferir este autor, do serviço de rua para o serviço de
permanência a P/2; este trabalho consistia em ficar na se-
gunda seção (P/2) em uma escala de 24 horas de serviço
por 48 horas de folga, a missão: monitorar as ocorrências
cujas guarnições se envolviam e informar a PM/2 por te-
lefone; deveria também manter informado o chefe da pró-
pria P/2, e, ao final do serviço, coletar os principais jor-
nais para fazer uma resenha das notícias envolvendo a
polícia em geral para leitura do Comandante do Batalhão.
Não demorou muito e a frota da PM já não era mais de
“FUSQUINHAS” (VW), AGORA ERA DE VEÍCULO
COM CHASSI MONOBLOCO, O GOL, também da VW.
Porque será?
A P/2 do nono batalhão passará nos anos finais do Go-
verno Brizola a ter dois Capitães PM, chefe e subchefe,
aquele que dera ao autor deste livro a oportunidade de
ingressar a segunda seção, era o chefe E.S. R, o outro, Ca-
pitão PM “R” como subchefe, especialista em explosivos,
era conhecido em toda corporação como “Bombinha”;
para se conhecer um Oficial desonesto, bastava compara
-lo a outro com o comportamento do CAP PM “R”; “ho-
mem policial” forjado nas operações especiais, vibrador,
amigo, vinha trabalhar de “TL”, não era nenhum veículo
da VW da época, era trem lotado mesmo; não possuía ou
era proprietário de carro; dizia que seu soldo não com-
portava; este trouxe uma maior operacionalidade a P/2
do batalhão, conseguira um plano com a ajuda do quartel
dos fuzileiros aos fundos da favela de Vigário Geral; cujo
consistia em policiais entrarem com veículos anfíbios por

228
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

trás da favela que é separado por um canal; é necessário


dizer que a operação não foi aprovada? Então só fazía-
mos o que se podia, nada de concreto; apenas “enxuga-
mos gelo”. Nesta época o Cap PM “E. S, R”, então chefe
da P/2, recebera e aceitara o convite para ser Diretor de
um dos Presídios do Frei Caneca, tentou indicar-me para
ser chefe de disciplina deste, também a outro colega da
P/2 em outra função de confiança, entretanto, fomos im-
pedidos de ir pelo Governo Brizola. Por que será? Indago
novamente!
Mas outros chefes vieram; devido à apatia a estes, um
chegava a humilhar alguns agentes; este era casado com
uma Promotora de Justiça, só cumpria o expediente, e nós
os agentes de informação, agora eramos apenas motoris-
tas e nossa obrigação precípua, leva-lo em casa; um abuso
de direito, morava em Botafogo, mais um privilégio já
que não era prerrogativa deste o uso da viatura da P/2 para
este fim; com Oficiais como estes a situação do Estado
em relação à segurança Pública só se agravava, e só nos
limitávamos a informar e dirigir apenas.
Bem, assim seguia o primeiro Governo Brizola; as fa-
velas com a ausência do Estado Social, e com a ausência,
o estreitamento entre traficantes e moradores destas áreas,
tendo estes como o “Poder Legitimado”; situação seme-
lhante a dos nordestinos em relação aos cangaceiros, o
Poder público ausente, Lampião passou a ditar normas e
com o passar dos tempos, virou herói revolucionário em
um processo midiático cultural; mas o morador das fave-
las, sabendo que podiam contar com a ajuda conveniente,
é claro, dos marginais naquilo que seria a ajuda social,
em compras de remédios, gás de cozinha etc. As Polícias,
engessadas, com um efetivo desmotivado, muitos come-
tendo desvios de condutas; e a dívida social deixada la-

229
Sérgio Cerqueira Borges

cunosamente, foi o processo da cisão, da Cidade Partida


falada pelo jornalista Zuenir Ventura.

Mas tudo tem um fim ou uma pausa!

230
Governo Moreira franco – 1987-1990

Moreira Franco tomou posse no cargo em 15 de mar-


ço de 1987. Seus primeiros decretos anularam todas as
contratações, transformações de cargos e nomeações de
funcionários feitas por Brizola desde junho de 1986.

Durante sua gestão, Moreira enfrentou sérias dificulda-


des econômicas e financeiras, ocasionadas principalmente
pela instabilidade da moeda e pelas altas taxas de infla-
ção. Em decorrência da crise, o estado sofreu, com a que-
da na arrecadação de impostos, o adiamento dos investi-
mentos privados e o aumento da dívida pública interna.
Além disso, a quase totalidade da arrecadação tributária
esteve comprometida com os gastos com o funcionalismo
estadual.

Reequipamento e modernização da Polícia Militar e da


Polícia Civil, com aquisição de quase duas mil viaturas e
mais de 400 equipamentos de informática. Construídos
os prédios do 23º Batalhão PM (Leblon) e de núcleos da
Escola de Formação de Oficiais e do Centro de Formação
de Praças (Sulacap). Em construção, o 27º BPM (Santa
Cruz) e a Cia. Independente da PM Feminina (Centro).
Reformas em instalações da PM e Polícia Civil, envolven-
do diversas DPs e Batalhões. Implantação de Delegacia
no Aeroporto do Galeão, e de núcleo do Instituto Médico
Legal em Campo Grande. Instalação, na Praça Mauá. Do
Departamento Geral de Investigações Criminais (DGIC),
reunindo num só prédio diversas Delegacias especializa-

231
Sérgio Cerqueira Borges

das. Construção do Presídio de Segurança Máxima Bangu


I, em Bangu, com 48 vagas. Iniciadas as obras do Pre-
sídio Bangu II, do projeto modular, que pode chegar à
capacidade total de 576 vagas. O Corpo de Bombeiros
tornou-se um dos mais bem equipados do País. Foram
compradas quase 200 viaturas, tais como micro-ônibus,
ambulâncias e carros-tanque, além de tratores e lanchas.
Também foram adquiridos 30 mil metros de mangueiras e
feitas obras na sede da Defesa Civil. A modernização do
Corpo de Bombeiros envolveu também a compra de um
helicóptero Esquilo, que funciona como uma Unidade de
Tratamento Intensivo (UTI) voadora, com macas, sistema
de oxigênio, eletrocardiógrafo e kit de medicamentos e
instrumentos cirúrgicos.

Em relação à segurança pública, o desempenho de Mo-


reira foi cercado de uma grande expectativa, já que havia
prometido solucionar o problema em apenas seis meses.
Os índices de violência no Estado continuaram assusta-
dores.

Ao completar dois anos de governo Moreira anunciou a


recuperação de seiscentas vagas em presídios, bem como
a informatização e o reaparelhamento das polícias civil e
militar. No início de abril de 1989, contudo, a criminali-
dade registrou um crescimento com um total de 125 as-
sassinatos em seis dias (...). No ano seguinte, ocorreu um
sensível aumento dos casos de sequestro e o governo do
estado decidiu instituir uma recompensa para quem forne-
cesse pistas sobre os criminosos. Na época, um integrante
da equipe pessoal do governador chegou a ser acusado
de integrar uma das quadrilhas de sequestradores. Ao jus-
tificar o não cumprimento de sua principal promessa de
campanha, Moreira afirmou “que a cumplicidade com o

232
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

crime organizado no Rio era muito mais profunda do que


se supunha”, atribuindo a explosão de violência ao recru-
descimento da crise social.38

Antes da vinda de um homem de confiança do novo


Comandante Geral, o nono batalhão nesta altura só havia
praças corrompidos, honestos acuados, mas reagindo em
vão, comandantes? Comprometidos até o pescoço com a
corrupção ou entregues a omissão; lembram-se da história
do Cabo “W”, do SGT “A”?

Vindo da terra de Araribóia, o governador havia na-


turalmente se cercado de pessoas de sua confiança; um
destes, o Coronel PM Manoel Elysio, Comandante Geral
da PMERJ; se há duas bandas na PMERJ, são estas de
Oficiais e Praças graduados, uma parte da antiga PMRJ
e a outra da PMEG, esta é descrita desde início do novo
Estado do Rio de Janeiro com a fusão ao “racha”; Elysio
também convidara o primeiro colocado do curso superior
de Polícia, também do outro lado da baía, o Coronel PM
Emir Campos Larangeira; este tinha uma missão especial
e espinhosa. Naquela altura o nono batalhão era o mais em
evidência no que tange a corrupção e abuso de autoridade;
todos os relatos anteriores ao Governo antecedente só se
potencializaram e algumas metas trouxe o comandante na
bagagem: Não se corromper com traficantes da área do
batalhão; como alguns dos seus antecessores, prender o
maior traficante do Estado, Darcy da Silva, o CY de ACA-
RI. O complexo de Acari, margeando a principal Avenida
do Estado, a Brasil, era rota de passagem para quase todas
as viaturas da PM, não raro podia-se observar viaturas de
vários batalhões e também da polícia Civil; não eram ape-
nas o praças a ser encontrados. Acari era favela conheci-

38 Informação Pública na Internet

233
Sérgio Cerqueira Borges

da como “CITYBANK”, CY era distribuidor de cerca de


70% das drogas as favelas do Estado, então muitos poli-
ciais cujos engajados em “mineiras”, ou “arregos” dese-
javam por as mãos neste facínora; e como já dito, Cy não
admitia que atirassem em policiais, tinha muito dinheiro
para bancar propinas; ademais mantinha relação amigável
com todas as facções; estas eram suas clientes afinal; ou
seja, ainda Larangeira teve que baixar os índices de cri-
minalidade de toda área do nono; a imprensa parecia que
tinha uma página reservada ao batalhão de Rocha Miran-
da. Emir então teve também que “limpar” o batalhão dos
“maus PMs”; havia chegado acreditando que a totalidade
da tropa do nono era de “bandidos”; então, do outro lado
da baía trouxe uma equipe de sua confiança de policiais
com conduta exemplares, bastante operacionais; se um
neologismo tivesse ser atribuído a estes, certamente seria:
“OS INTOCÁVEIS”, e de plano já esclareço que é apenas
a uma alusão ao filme de mesmo nome com referência
ao combate à máfia de Capone e não por estarem acima
das normas legais, vinheira com este propósito, combater
a máfia de policiais cujo estava lá, no nono; o batalhão
em forma, o Capitão PM “P”, ao ser apresentado a tropa,
disse sem rodeio logo a que veio: “– Vim a este batalhão
a convite do coronel Larangeira e fui informado que aqui
muitos policiais já passaram a barreira da legalidade e an-
dam em grupos, pois bem aqui está meu grupo, chumbo
trocado não dói, dentro da legalidade, então quem quiser
tentar, tente a sorte ou, peça transferência”, na verdade
algum tempo depois, muitos realmente pediram; aquela
equipe passou a integrar um tipo de serviço cujo existia
em todos os batalhões, PAMESP (Patrulhamento Motori-
zado Especial); é diferente de PATAMO ESPECIAL DO
LARANJEIRA como foi usado covardemente contra ele e
aos acusados inocentes da chacina de Vigário Geral; este

234
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

tipo de serviço tinha em todos os batalhões, foi criado pela


PM/3 já fazia algum tempo, e é claro que assim como no
BOPE ou no SERVIÇO RESERVADO, para lá estarem
trabalhando, os PMs tinham que passarem por um pro-
cesso de seleção e atender a alguns requisitos, no caso do
PAMESP do nono, estava claro que um dos quesitos pre-
ponderante era poder confiar na guarnição; afinal naquele
momento que Laranjeira iniciava seu comando ao nono,
na tropa, eram todos suspeitos; “os justos estavam pagan-
do pelos pecadores”. Logo o Coronel Larangeira viu o
vespeiro que havia entrado.

Lembro que ele estava recém-chegado ao batalhão e a


caminho de Niterói no final do expediente, cujo foi a ele
prolongado, ouviu o que para nós era rotineiramente re-
corrente; pedido de apoio à viatura reservada em troca de
tiros na favela, e esta era Furquim Mendes; esta favela era
uma “estica” (uma espécie de filial do tráfico), esta estica
era de Vigário Geral; uma equipe da P/2, a qual fazia par-
te, havíamos nos deparados com um grande grupo de tra-
ficantes; surpreenderam-nos, não era normal em uma “es-
tica” um grande numero de traficantes; iniciou-se troca de
tiro e estávamos em desvantagens numéricas de agentes e
de armamento; para nossa surpresa, mesmo em desvanta-
gens os marginais foram-se; de certo fugiram do possível
apoio das outras viaturas do batalhão que nestes casos
viam em socorro; mais surpresos ficamos, quando certo
tempo depois chegara ao local o Coronel Comandante do
Batalhão; aquilo para nós não era normal acontecer; nes-
tes anos do Governo Brizola e mesmo no início do Gover-
no Moreira Franco, pouco se via os comandantes “na
rua”, quando os víamos era exceto para nos punir; então
isto ocorreu antes mesmo da vinda dos policiais de Ni-
terói; bem acredito que Larangeira vendo que estávamos

235
Sérgio Cerqueira Borges

em franco combate, acredito que deduziu que aquela


equipe da P/2 não estava envolvida com corrupção; digo
isso, pois posteriormente a P/2 começara a voltar à nor-
malidade do serviço, qual seja, produzir informação, re-
passar a PM/2 e ao comando do batalhão, então havia uma
operação sigilosa dos policiais do PAMESP; e era neces-
sário o sigilo uma vez que para o comandante e até para
nós mesmos da segunda seção, havia muitos “arregrados”
pronto a venderem as informações daquelas equipes; cla-
ro, aí, entrou a astúcia dos “arregados”; lembra-se que foi
dito que havia células de policiais, honestos, “honestos” e
corruptos conscientes? Pois bem, estes cujo naquele mo-
mento estavam voltados à corrupção, passaram a conspi-
rar contra o comando e aquela equipe vinda de Niterói, e
a segunda seção também; pasmem, mas quando eles mes-
mos faziam “mineiras” e havia baleados, ligavam para
PM/2, colocavam na conta dos PAMESPs; como agente
de informações, sabíamos que a PM/2 mantinham agentes
infiltrados na tropa, trabalhando fardado; o problema é
que estes foram seduzidos pelo dinheiro fácil e faziam
jogo duplo; sabia também destes, pois a PM/2 por meio
de convite, haviam tentado me recrutar para este fim, mas
depois da operação PANE desistiram, aí já conhecia os
agentes infiltrados na tropa da própria PM/2; estes eram
da confiança até se corromperem, quando passaram a in-
formar atividades dos PAMESPs com mentiras, até a P/2
do nono passou a ficar em descrédito; mas isto não perdu-
rou muito, estes agentes infiltrados da PM/2 acabaram
sendo descobertos em suas mentiras pela própria PM/2;
eram homens de confiança do subchefe desta; enfim aba-
faram o caso. A PM/2 tinha entre os seus Oficiais de sua
chefia, “homens policiais” cujo faziam parte da outra ban-
da da PMERJ, daquela dividida pela fusão, o Comandante
Geral era da corrente contrária a esses que não eram a ele

236
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

leais. Antes de serem descobertos pela PM/2, estes agen-


tes infiltrados na tropa, haviam informado a agência de
informação da PMERJ que o então TENENTE PM “V”;
cabe ressaltar com o passar do tempo no comando do 9º,
Larangeira já o tratava como a um filho tal era a credibili-
dade conquistada, era Oficial muito operacional e o rela-
cionamento com os agentes da P/2 era de igual para igual,
havia hierarquia sem notarmos o peso do militarismo;
mas os agentes “desviados da PM/2” então infiltrados na
tropa do nono davam conta que na residência de “V” ha-
via um arsenal proveniente de espólio de guerra”; ora, o
Governo Moreira Franco havia tirado as ordens absurdas
cujos policiais não podia entrar em favelas; mas a lacuno-
sa ausência do Estado já havia feito um estrago maior do
que os planos de Segurança Pública do Moreira Franco
poderiam prever; a promessa de resolver os problemas
deste setor em particular em alguns meses foi muito oti-
mista de encontro à realidade; contudo passados cerca de
dois anos do início de seu Governo, este agora queria re-
sultados, então se abriu a temporada de caça aos facíno-
ras; A P/2 do nono sob a chefia do TENENTE PM “V” e
os PAMESPs, todos sob comando do coronel Larangeira,
começaram a apresentar os resultados desejados pelo Go-
verno; e é claro que isto não era do agrado dos “arregra-
dos”; este foi o motivo da falsa informação plantada em
relação à casa do TEN PM “V”; entretanto, o então Ofi-
cial PM da PM/2, Valmir Alves Brum, com este informe,
sem compartilhar a situação com o Comandante Geral;
pelas suas costas; estava providenciando ordem de Busca
e Apreensão para casa de “V”; eis que um de seus pró-
prios agentes que era um dos que ele levara para PM/2,
naquela ocasião já referida da Operação PANE, o da Es-
cola Nacional de Administração Pública; conhecendo da
índole dos agentes da P/2 do batalhão e principalmente da

237
Sérgio Cerqueira Borges

seriedade do trabalho cujo estava sendo feito, corajosa-


mente e leal aos seus princípios, avisou “V” da covardia
cujo Brum estava “armando”; “V” reportou a história ao
coronel Laranjeira; quem não teria medo de covardia, ain-
da mais vinda do BRUM? O comandante juntamente com
o TEN PM “V” se dirigiu ao QG da PMERJ para uma
reunião com o Coronel Manoel Elysio; Larangeira não se
acomodava em deixar assuntos sérios como este para de-
pois; na dita reunião foi o Brum convocado e o Coman-
dante Geral pôde verificar que além de Brum, outros Ofi-
ciais da PM/2, a ele não os eram leais; então se pode
imaginar a situação constrangedora que Brum passara ao
ter que informar; com “atraso”; o que constava contra
“V”; ou seja, nada, além de um informe, juntado a vários
que estes “agentes corruptos” da PM/2, os agentes infil-
trados na tropa cujos já tinham até saído do 9º; mas outros
“arregrados” já vinham minando o comando do batalhão;
o fato é, eu o autor, penso que é este o momento que Brum
passara a odiar aquela cadeia de comando do Governo
Moreira Franco, mas em especial à Larangeira; o Coronel
Laranjeira nunca se manteve calado diante de Brum, não
“tinha papa na língua”, e pelo que se espalhou na tropa,
Laranjeira o “reduziu a pó, moralmente” (“o escula-
chou”), Brum é um sujeito dissimulado e sínico; o conhe-
ço bem, já que trabalhei infelizmente com este sujeito ar-
rogante; mas diante da situação, só o restou ficar calado e
contaminado pela fúria, pelo ódio e o desejo de vingança;
então com as prisões que os policiais em geral do nono
batalhão estavam realizando sob o comando novo e ino-
vador, as estatísticas de modalidades de crime na área,
despencaram, exceto a de mortes de marginais em con-
fronto; não era execução, mas sim resistência dos margi-
nais cujo não queriam perder o domínio das áreas carentes
abandonadas no Governo anterior; cito, por exemplo, um

238
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

dos confrontos no morro do Juramento, um marginal de


nome “Carlinhos Mateia”, fortemente armado com fuzis,
manteve intensa troca de tiros com as guarnições do nono
batalhão, a guarnição do PAMESP o cercara em uma casa,
policiais deste gritava para o facínora se entregar, Laran-
jeira havia orientado a tropa para evitar mortes e privile-
giarem prisões devido às críticas possíveis; os pedidos de
rendição foram muito comentados na época pelos mora-
dores, posteriormente agentes da P/2 foram ao local para
apurar denuncia de excesso, informe vindo da PM/2; mas
os marginais gritavam enlouquecidamente, dizia os trafi-
cantes: “-que iria matar geral”; foi o que dissera os mora-
dores a época a P/2; então não havia outra coisa a fazer
para a guarnição do PAMESP; “Mateia” tombou junta-
mente com outros marginais; muitas comunidades da área
do nono batalhão tiveram o mesmo destino; no Comando
do Coronel Larangeira, quase todos os líderes do tráfico
de favelas de importância ao crime organizado foram pre-
sos ou mortos na área do nono; mas o maior traficante a
ser preso sem dúvida foi o Cy de Acari, e Laranjeira nova-
mente determinara que seu desejo priorizasse em prisões,
e queria-o vivo, tinha muito a dizer o traficante; missão
cumprida, CY foi preso.

239
LARANGEIRA E A JUNTA
COMERCIAL DE MADUREIRA.

No seu comando o Coronel transformou o 9º BPM, de


unidade de fama ruim em um batalhão dos mais opera-
cionais; sem exagero, é só pesquisarem; o nono estava
diariamente nos jornais com alguma prisão de repercus-
são ou grande apreensão de drogas. A Junta Comercial
de Madureira sempre manteve bom relacionamento com
os comandantes do batalhão como já dito, mas mudanças
significativas no nono foram feitas cujo mudou a rotina
dos Praças e Oficiais. Laranjeira acabou com o Cassino
dos Oficias (restaurante dos Oficiais) e o Rancho dos
Praças (restaurante dos praças); esclarecendo que havia
separação para praças graduados e soldados; bem o fato
é, o que era dos soldados foi transformado em um único
restaurante indistintamente para todos, do comandante ao
soldado mais raso, não é necessário dizer que o aprovi-
sionador mesmo se quisesse não tinha mais como desviar
verbas ou alimentos se fosse o caso; havia um praça cujo
tocava órgão, nos proporcionava música ambiente com
direito a garçons que antes só serviam aos Oficiais (PM
faz de tudo nesta PMERJ); nas datas comemorativas ha-
via festa no batalhão com churrascada e sorteio de brindes
e brinquedos aos filhos dos praças; o leitor neste momento
deve está imaginado quem pagava por isto; na verdade
era as doações espontânea cujo antes eram feitas e que
não se sabia o destino e, verba própria destinada ao apro-
visionamento; a verdade é que custava menos manter um
único restaurante; a Junta Comercial doará dois grandes

241
Sérgio Cerqueira Borges

aparelhos de ar condicionado, bicicletas etc. em uma das


festas, doados ao Comandante que de imediato determi-
nou a instalação destes no agora restaurante para todos,
cujo antes existia ventiladores de teto. O Comandante re-
cebia qualquer Policial Militar em seu gabinete, era só
bater na porta, sabe como é: quem dá a mão..., a praça já
ia à geladeira pegando o suco de laranja; atitudes que con-
quistaram os PMs do 9º. Bem não estou provendo a ima-
gem do Larangeira, já que tudo pode ser comprovado por
qualquer policial cujo servil no nono nesta época, estou
relatando e revelando o melhor momento que vivíamos
desde que entrei para PM, apenas com um único objeti-
vo. Argumentar que é possível tratar o PM com dignidade
sem, no entanto, comprometer a hierarquia e disciplina;
vejam que desmilitarização não significa dispor destas
premissas constitucionais. Não é difícil deduzir que poli-
cial satisfeito trabalha satisfeito e produz resultados posi-
tivos; ninguém queria transgredir a disciplina e ficar mal
com o Comandante que inovara. Mas acontece que sem-
pre havia “os tomates podres como em qualquer cesto”
cujo comportamento jazia desde o império; contudo em
relação ao que era o batalhão, os “arregrados” já eram em
menor numero; os próprios praças já intimidavam estas
ações; coisa mais surpreendente que quase presencie: no
interior da favela do Acari, uma guarnição de PATAMO
de “arregrados”, humilhante o ocorrido adiante descrito,
estavam cheirando cocaína fardados, a droga sobre o capô
da viatura, eis que outra viatura de policiais entra pela
Rua Guaíba e vendo aquela situação, começam a atirar
contra PMs e traficantes; a viatura foi simplesmente aban-
donada, foi traficante para um lado e PMs “arregrados”
para outro; nós da segunda seção estávamos dentro da fa-
vela averiguando um informe ao mesmo tempo em que
esta situação ocorrera; posteriormente a guarnição dos

242
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

“arregrados” fora localizada e “esculachada” pela outra


guarnição. Estes pediram em nome de Deus e o que mais
podiam argumentar para não serem denunciados; muitos
prestes a reformar; a guarnição do PATAMO que fizera os
disparos propôs aos “arregrados” que estes pedissem para
saírem do serviço de rua; ora informaram via rádio que
ocorrera uma troca de tiros entre os traficantes para justi-
ficar os furos na viatura do PATAMO; os PMs “arregra-
dos” cumpriram o tratado, a maioria não só pediram para
sair da rua, como pediram transferência do nono batalhão;
soubemos de tudo depois quando deixávamos a favela foi
um dos PMs da guarnição cujo afugentaram tanto os tra-
ficantes quanto os “arregrados” relatou-nos sem se com-
prometer; a PM/2 foi informada mesmo assim, mas não
havia mais materialidade da história, ademais seria uma
situação constrangedora para um batalhão que estava re-
conquistando sua credibilidade, e o que adiantaria tornar
público este caso único, havia muitos outros; a história se
espalhou como rastilho de pólvora e foi assim que muitos
policiais arregrados pediram transferência do nono, senti-
ram-se acuados com a nova postura de muitos PMs que se
animaram novamente ao combate aos traficantes; decerto
a PM/2 deveria ter algum dossiê dos policiais em questão;
mas pelo que se sabe foram alguns reformados (aposenta-
dos); mas “mineiras” era o que não se podia evitar, afinal
não era só policiais do batalhão e da PM que as pratica-
vam na área do nono batalhão.

Emir Laranjeira atendendo sugestão de um irmão,


candidatou-se a Deputado Estadual, com apoio e voto de
muitos moradores, inclusive de Acari, Laranjeira foi elei-
to Deputado Estadual para “matar” o Brum de raiva; em
conversa com o agente “U” da PM/2, tomou este autor
conhecimento que Brum falava sem cerimônias na frente

243
Sérgio Cerqueira Borges

de seus subordinados, promessas de fazer algo a Laran-


geira, que na opinião dele, nada valia; mas o que queria
Brum era estar em seu lugar na ALERJ; a inveja é o pior
dos sentimentos; o problema é que para atingir sua vin-
gança pessoal contra seu desafeto; fomos nós os praças
quem foram prejudicados; e sempre foi assim, “na guerra
do mar contra o rochedo, os mariscos são os que se pre-
judicam!...”. Mas nesta época não era o 9º BPM o úni-
co batalhão a ter um comando equivalente ao do coronel
Laranjeira; o 18º BPM havia o lendário Coronel Duram
(também entrou para o Poder Legislativo posteriormen-
te), também respeitado e querido pela tropa e, com seu
comando apresentou resultados desejáveis pelo Governo;
no 6º, quem o comandava era o Coronel Garcia; um gran-
de homem e “muito humano”, gozava do mesmo respeito
dos PMs; este seria o “EIXO DO BEM” da PMERJ; sim-
plesmente estes três Oficiais fizeram história naquela PM
repartida pela fusão; mas para infelicidade de Laranjeira,
somente ele era o eleito desafeto de Brum ao cruzar-lhe
o caminho.

244
Laranjeira indica um Coronel para
sucedê-lo e continuar seu trabalho.

Brum como uma serpente ferida aguardava na “escuri-


dão” para “dar o bote” na primeira oportunidade!

Eis que começa a operar os atos covardes de persegui-


ções contra os praças cujos trabalhavam para o Estado
voltado ao bem social; serviam a sociedade, fosse o La-
rangeira, fosse outro coronel qualquer; mas sem saberem
já estavam listados. Os PMS vindos com o Coronel La-
rangeira, com a saída deste para a ALERJ, também retor-
nam para batalhões de Niterói, entretanto os que já esta-
vam antes no nono batalhão, antes mesmo da vinda do
comandante que inovara, começam a sentir o braço longo
da injustiça, marcados como “gado”, chancelados como
“larangetes”, começam a sofrer como “pontes humanas”
para Brum impetrar a vingança; eu, o autor desta, foi exo-
nerado da P/2 e transferido para a “tropa fardada”; por
pouco tempo; pois junto com muitos dos policiais que
combatiam os marginais; os mais próximos ao Coronel
Larangeira, foram transferidos para outras unidades; eu,
transferido para o 20º batalhão da PM (MESQUITA, Bai-
xada Fluminense); ao se apresentar, encontrou um Capi-
tão da PM cujo servira no nono; este alertou em segredo,
que a orientação ao comando àquele batalhão ao meu res-
peito era a seguinte, só poderia fazer serviço de PO (Poli-
ciamento Ostensivo); no jargão popular, estava “queima-
do”, disse mais, que estava rotulado como “homem do
Larangeira” Brum já criara o primeiro neologismo para

245
Sérgio Cerqueira Borges

usar, já engendrando um plano mais cruel para o momen-


to certo. Assim fui escalado a uma equipe de quatro Sol-
dados e um Sargento, setor de patrulhamento: Praça de
Belford-Roxo, sem direito a trabalhar em nenhum outro
setor; já estava evidente que seria perseguido; mas já ti-
nha mais de dez anos de serviço, portanto fazia jus à li-
cença de seis “meses (licença prêmio), uma prerrogativa;
pedido esta, resposta “engavetada”. Naquela época o 20º
estava à mercê da contravenção, ora muitos batalhões es-
tavam envolvidos com a contravenção; os Governos “co-
miam” nas mãos dos “Bicheiros”, pois então bastava me-
xer com estes para ser transferido; o que me restava a
fazer mais; por informação dos próprios colegas, estes me
corroboraram onde funcionava a “fortaleza” da contra-
venção, na própria Praça de Belford-Roxo; disse aos cole-
gas: “-... Vamos estoura-la...”, os companheiros não acor-
daram a proposta, perguntaram se estava louco ao mexer
na fortaleza cujo era “parceira” do comando do batalhão,
mas estava decidido a estourar a tal “fortaleza” mesmo
sem os colegas apoiando; mas como culpa-los também
nada tinham a ter com aquela situação? Mas de alguma
forma; creio que fora um destes; alguém avisara ao co-
mando minhas intenções; Bem, não demorou e o “Oficial
de Dia”, cujo nem sei informar o nome; afinal estava a
pouquíssimo tempo naquele batalhão; na palestra tradi-
cional ao policiamento que se preparava para seguir aos
postos, ao encerrar, chamou-me em separado e disse para
não arrumar problemas em seu dia de serviço, disse tam-
bém que minha situação já não era das melhores. Já sentia
a discriminado desde que chaguei, sentia como fosse um
portador de doença contagiosa, “um leproso” cujo todos
queriam manter-se distante; a equipe cujo trabalhava, só
trabalhava por força da escala de serviço, então ao chegar
ao fim do meu turno, o sargento cujo auxiliava o “Oficial

246
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

de Dia”, mandara assim que retornasse comparecer a sua


sala; assim ocorreu, e sem rodeios indagou-me: “-Você
tem algum cunhado doente e internado.”. respondido que
sim, este com ar de desprezo completou: “-Então tinha
(...), sua esposa ligou informando que ele falecera.” Atô-
nito perguntei se ligara naquele momento; já se passava
das 22 horas; este então disse que ela ligara por volta das
12 horas; enfurecido indaguei por que não haviam me in-
formado no ato da ligação uma vez que ainda estava no
batalhão? O Sargento mandou-me acalmar; pura instiga-
ção para que me insubordina-se; debochando, mandou-
me ir logo para casa que seria melhor do que ficar detido;
quando então na presença de minha esposa, senti vergo-
nha de contar o ocorrido; era muito humilhante revelar
que estava tendo aquele tratamento uma vez que me tinha
na conta do policial militar cujo um dia foi do nono bata-
lhão; mas disse a ela que não tinham conseguido avisarem
em tempo para apoia-la no enterro de seu irmão. Assim
durante um mês aguentei aquela rotina do PO na Praça de
Belford-Roxo com tratamento provocante por parte de al-
guns Oficiais para me insubordinar, e eu mesmo já insti-
gando a “estourar” a “fortaleza do bicho”, de encontro
com esta intenção, desanimando em continuar a ser poli-
cial militar; até que recebera a notícia em minha casa que
havia enviuvado da minha primeira esposa, cuja estava
separado de fato, mas não de Direito; então compareci ao
20º batalhão da PM buscando o direito da dispensa do
serviço de NOJO, lá em audiência com o comandante da
companhia de PO, eu, visivelmente descontrolado e a
ponto de explodir, pedi novamente que me colocassem
em licença prêmio, expus a ele o meu drama (esta licença
dá ao PM seis meses de descanso a cada 10 anos), me li-
cenciaram então, e me desliguei daquela situação cuja
nada havia feito para sofrê-la; durante estes meses estava

247
Sérgio Cerqueira Borges

atravessando uma situação financeira muito ruim a ponto


de atrasar o pagamento dos alugueis da casa cuja morava
em Madureira, veio o inevitável, o proprietário pediu a
entrega da residência ou entraria com ação de reintegra-
ção de posse. Por meio de um amigo fui apresentado a um
posseiro no Recreio dos Bandeirantes cujo possuía uma
grande área próxima à comunidade conhecida como Ter-
reirão; consegui comprar em parcelas por meio de nota
promissória um lote, e agora praticamente despejado, fui
com minha esposa grávida de três meses e mais dois fi-
lhos menores de cinco anos de idade morar em duas bar-
racas de acampamento, apenas com roupas, geladeira e
um fogão; por mais de trinta dias moramos nestas até com
madeirites, conseguir construir um barraco no terreno de
posse conquistado; agora me tornara um favelado como
os meus colegas militares vindos da guerra de Canudos.
Durante estes seis meses procurei um Oficial da PM que
pertencera ao nono batalhão e agora este respondia pela
chefia da P/1 (área de Departamento. Pessoal) do 18º ba-
talhão da PM (Jacarepaguá), a ele pedi uma vaga para me
transferir àquele batalhão, bem consegui, saí do 20º e ain-
da fui lotado na terceira companhia destacada do 18º, esta
companhia estava localizada na favela do terreirão a cerca
de 1 km da nova residência; passados os meses da licença
prêmio, me apresentando para o serviço; parti para uma
tentativa de uma nova vida; mas a Polícia Militar já não
era a mesma sob meus olhos; passei e restringir-me ape-
nas a cumprir meu horário; ao mesmo tempo em que abri-
ra um comercio informal de vendas de quentinhas as mui-
tas construções de prédios que naquela época acontecia
um “boom” no Recreio dos Bandeirantes; minha esposa
cozinhando e eu fazendo as entregas e os contatos. Cerca
de pouco mais de cinco meses morando no barraco de
madeirite; estando de serviço em uma cabina na Rua

248
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

Gláucio Gil (não existe mais esta cabina da PM neste lo-


cal), um morador da Rua Nereu Ramos havia procurado
os policiais quando estava de serviço na cabina, éramos
uma dupla, era eu um dos policiais a atender a ocorrência;
o proprietário de um apartamento no prédio relatara que
neste residia um filho de um coronel do Exercito brasilei-
ro já reformado; este na época do Governo Militar havia
comandado a PE (Polícia do Exercito); seu filho era um
arruaceiro com grande grau de periculosidade, possuía
nível superior, formado em engenharia eletrônica; este era
o morador cujo fora pedido a presença da PM para coibir
atos delituosos por ele praticados; o proprietário do
apartamento denunciara que o apartamento estava cercado
de tapumes e o filho deste coronel do EB sitiara o prédio
fazendo uso de arma de fogo não permitindo o ingresso de
nenhum proprietário; bem o meu colega permaneceu na
cabina, eu me dirigi ao endereço para averiguar o caso e
se necessário solicitar apoio; ao chegar ao local, de fato o
sujeito estava na porta do prédio e ao nos ver aproximan-
do-se, entrou e ressurgiu na sua varanda da cobertura com
uma arma na cintura, foi pedido então apoio para em pou-
cos minutos chegar ao local uma equipe comandada por
um Sargento negro; o sujeito passou então a insultar o
Sargento com insultos racistas dizendo: “-Não permito
que este “crioulo” entre no meu prédio...”; vale o desta-
que que a lei de racismo estava recém vigendo; uma situa-
ção difícil, o Sargento agora como vítima pediu a presen-
ça de um Oficial da 3ª companhia para o local, pois o pai
coronel do EB do sujeito chegara ao desenrolar dos fatos
no local; sem pronunciar uma palavra, entrou no prédio e
juntou-se ao seu filho na varanda; chegando ao local en-
fim um TENENTE PM para assumir, simultaneamente
chega também um Major PM, o P/3 do batalhão, o TE-
NENTE ao prestar os cumprimentos militares ao MA-

249
Sérgio Cerqueira Borges

JOR, este, sem pronunciar uma só palavra, antes mesmo


de o TENENTE terminar sua continência, o Oficial Supe-
rior o afastou com o braço esquerdo e também entrou no
prédio, também ressurgindo na varanda, agora os três: O
pai Coronel do ExB, o filho arruaceiro-delinquente e o
Major P/3; o silêncio entre os PMs, atônitos imperou-se
arrogantemente um “Estado Maior” na varanda, e obser-
vávamos a dantesca cena em que o MAJOR PM fardado,
a ele era servido um copo de wisque e após uns minutos
de conversa ao “pé de orelha”, eis que este coloca o copo
sobre uma mesa na varanda e se dirige ao TENENTE e
diz: “-TENENTE!!! reúna a tropa e retornem a 3ª compa-
nhia, a situação já está contornada.” Bem neste momento
gritei ao MAJOR PM: “-Major “R”, a história não é bem
assim; o meliante cometeu varias infrações penais, inclu-
sive crime inafiançável de RACISMO; cabe ressaltar que
era Lei recente e não havia ainda a figura jurídica da IN-
JÚRIA RACIAL; continuei dizendo ao Oficial:”-Já dei
voz de prisão ao cidadão, sua autoridade termina aqui, ele
vai para a 16º com ou sem resistência.”; agora quem esta-
va surpreso era o MAJOR PM; então visivelmente des-
consertado disse ele: “-Ô soldado estou descendo.”; ao
descer o Oficial veio direto falar comigo, mas com uma
postura mais conciliadora do que a maneira imperiosa
cujo militarismo o proporcionava de quando chegara e
disse: “-Ô policia, tá ficando maluco, o pai do rapaz é
amigo pessoal do Comandante do batalhão (18º BPM),
faz o seguinte, vai para a DP (delegacia policial) e faça o
RO (registro de ocorrência)”. Bem, não me restava fazer
outra coisa; já vinha “queimado” do 20º BPM com a alcu-
nha de “larangete”, outrossim, já estava desgostoso com
aquelas situações recorrentes, desde que entrei para PM;
posso conjeturar: o que realmente prejudica a PM, e isto é
em todo o país, são duas coisas, política e militarismo

250
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

misturados; este binômio “POLÍCIA-MILITAR” é in-


compatível com a função da segurança pública, militar
cumpre ordens cegamente para vencer uma guerra, as
missões, o jargão das forças especiais: “MISSÃO DADA
MISSÃO CUMPRIDA”, ora, independente do treina-
mento mais apurado dos homens de preto, no CEFAP
(CENTRO DE FORMAÇÃO E TREINAMENTO DE
PRAÇAS) os recrutas cursando para serem apenas PMs
da tropa convencional recebem treinamento com canções
cujas são verdadeira “lavagem cerebral” a produzir no
subconsciente do militar a invadir e exterminar o inimigo;
já policial não cumpri ordens de estratégia de guerra,
senão cumprir a Lei com técnicas adequadas, melhor,
muitas legislações interdisciplinares com a complexidade
humana, portanto não pode o policial neste momento ser
mais militar quando desempenhando a função policial;
veja, por exemplo, os fatos contados nesta passagem da
minha vida cuja transparece facilmente a confusão que
causa este binômio; por um lado estava eu, um policial
cumprindo com minha missão policial, eis que para impe-
dir-me por motivos políticos de interesses privados de um
membro da elite social, restringindo o cumprimento da
Lei, surge a cobrança no enquadramento militar para evi-
tar a ação. Certamente que fui realmente impedido, entre-
tanto compareci a 16ª DP na Barra da Tijuca, fiz o registro
dos delitos inclusive relatando a Prevaricação cometida
pelo MAJOR PM. Agora era só esperar a represália; mas
para minha surpresa, não houve perseguição por parte do
Comando do 18º BPM. O proprietário do apartamento,
surpreso com aquela situação me fez uma proposta, ofer-
tou-me um emprego quando estivesse de folga, para ser
zelador e também ofereceu um apartamento para residir
com minha família; lembrem que estava habitando um
barraco de madeirite e passando por privações; aceitei é

251
Sérgio Cerqueira Borges

claro; fiquei lá por oito longos meses, fazemos coisas líci-


tas que nos arrependemos para toda uma vida; foram me-
ses de idas e vindas à delegacia da Barra da Tijuca por
conta de problemas causados pelo filho do Coronel do
EB, até por fim este tentar contra minha vida com tiros;
minha esposa inclusive foi ferida no atentado, estava
amamentando minha filha na ocasião. Estando com férias
vencidas, tirei-a e aproveitei para voltar a residir nova-
mente no barraco; novamente um favelado afinal, mas en-
fim retomara a paz de espírito, e com o negocio das quen-
tinhas minha situação financeira estava melhorando,
requeri licença não remunerada com a intenção de pedir
meu desligamento de vez da PM caso meus negócios se
estabilizam e me dando segurança financeira; o pedido da
licença não remunerada estava em analise.

Em 1990 Brizola jazia eleito Governador do Rio de


Janeiro pela segunda vez com o extraordinário índice de
70% dos votos ainda no primeiro turno; neste período ain-
da estava de licença prêmio e os fatos antes descritos não
havia ocorrido ainda, antecipei o relato mais uma vez para
ilustrar a incongruência de uma polícia militarizada; mas
de volta ao contexto:

Concomitantemente o segundo Governo de Brizola


iniciava com as mesmas diretrizes do primeiro Gover-
no, contudo estava servindo agora em um batalhão, em
uma companhia destacada, morando e trabalhando próxi-
mo a minha residência sem favelas tão perigosas na área
da companhia, ademais mantinha negócios de venda de
comida as obras do Recreio dos Bandeirantes; não saía
da redondeza devido a estas atividades; já havia cerca de
quatro anos que saíra do nono batalhão. Voltando de férias
ao me apresentar a 3ª companhia, pela manhã, aguardan-

252
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

do o início do expediente, chegavam notícias por rádios


AM, dando conta que havia ocorrido uma chacina no in-
terior da favela de Vigário Geral; até então todos acredi-
tavam ser os mortos marginais; neste mesmo momento
lia um jornal “dormido” e li com espanto as notícias das
mortes de quatro PMs do nono batalhão; durante o passar
do dia, assistindo as notícias cuja revelara que as vítimas
eram senão moradores inocentes os chacinados. Em cerca
de 15 dias minha vida mudaria drasticamente.

“Para examinar a verdade, é necessário, uma vez


na vida, colocar todas as coisas em dúvida o máxi-
mo possível”.39

39 René Descartes

253
A SERPENTE DEU O BOTE!

Irascível, Valmir Alves Brum inicia sua “VEDETA”.


Os primeiros a serem presos foram de cara os PMS cujo
Larangeira trouxera de Niterói e os que trabalhavam
a serviço deste na ALERJ, depois os que combatiam o
crime organizado na época que era comandante do nono
batalhão, somando seus desafetos; incluo-me nestes dois
últimos grupos; já estavam listados e eleitos desde as
transferências quando Larangeira deixou o nono; usados
com um único propósito, atingir Larangeira. Abusando do
Poder a ele confiado com “carta branca”, Brum fraudou e
forjou contra inocentes e até então culpados, sem saber
quem era quem.

“OS PEÕES QUE NO TABULEIRO DO XADREX


POLÍTICO, COMO NO JOGO DE ESTRATÉGIA,
DEVERIA TER SEUS MOVIMENTOS À FREN-
TE, AGORA FAZIAM MOVIMENTOS EM “L”.”

A chacina saiu completamente do foco da mídia,


eis que argutamente deslocado para os “chaci-
nadores” presos disciplinarmente e apresentados
como tais nos seus locais de prisão, no interior dos
quartéis, em cercados de arame, como gado para
corte ou “bodes” escalados para “expiar” a ira da
opinião pública. Tudo antes de qualquer investi-
gação e a partir apenas da idiossincrática vontade
do principal e aplaudido investigador. Assim esses

255
Sérgio Cerqueira Borges

infortunados foram punidos como partícipes do


crime, execrados perante a opinião pública, ime-
diatamente denunciados e presos preventivamen-
te, tudo baseado no absurdo mannu militari, que
transformou a farsa em verdade absoluta pela via
disciplinar. Esta foi a monstruosidade praticada
pelo sistema, principalmente devido ao irrestrito e
irresponsável o apoio de alguns poucos promoto-
res de justiça. 40

O Poder Judiciário apenas observou e “lavou as


mãos”?

“... Merkel, na sua Teoria geral do Direito Admi-


nistrativo, datada de 1927, afirma que, “em senti-
do rigoroso e técnico, se fala de processo jurídico
somente quando o caminho que leva a um ato esta-
tal não está na livre escolha do órgão competente
para o ato, mas está previsto juridicamente (...)”.
O direito processual administrativo é um caso
particular do direito processual (...) e o processo
administrativo é um caso particular do processo
jurídico em geral. A teoria processual tradicional
considerava o “processo” como propriedade da
justiça, identificando-o com o processo judicial.
Constituía uma dessas restrições habituais de con-
ceitos jurídicos de validez geral.
Explica-se historicamente a limitação do conceito
de processo à justiça, porque dentro desta função
estatal se acham as raízes do “processo” e no seu
âmbito foi elaborado tecnicamente, mas, do ponto
de vista jurídico teórico não é sustentável essa re-
dução, porque o “processo”, por sua própria na-

40 Emir Laranjeira

256
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

tureza, pode ocorrer em todas as funções estatais,


possibilidade que vai se atualizando cada vez mais
(...). Não existe ainda semelhante teoria geral do
direito processual que nos ofereça o comum e vá-
lido para todo o tipo de processo e, assim, cada dis-
ciplina processual particular tem de substituí-la
nesta tarefa, tendo sido a teoria processual civil a
que tomou frente ( 2008, p. 22-23)

Ada Pellegrini Grinover defende que, o processo


não se encerra a atividade jurisdicional: “... Pro-
cesso é conceito que transcende ao direito proces-
sual. Sendo instrumento para o legítimo exercício
do poder, ele está presentes em todas as ativida-
des estatais (processo administrativo, legislativo)
e mesmo não estatais (processos disciplinares dos
partidos políticos ou associações, processos das
sociedades mercantis para o aumento de capital
etc.).(2003, p. 278)...” 41

Casos como as chacinas da década de 1990 e os


abusos estatais; constitucionalmente o Poder Judiciá-
rio realmente há em ser provocado para intervir na
esfera civil, segundo o Princípio da Imparcialidade;
principalmente na época dos fatos, na esfera criminal
é do Estado o monopólio de agir; mas e o Ministério
Público, o fiscal da Lei? Era refém de outro Poder? O
Quarto Poder? A pressão não interferiria na lisura das
investigações? Os anseios das elites? Então o cidadão
cujo tem direitos protegidos pela constituição, não tem
de ser protegido deste Poder anômalo e formador de
“verdades”? A proteção às estas injustiças não seria
41 OS PRINCÍPIOS COSNTITUCIONAIS DO CONTRADITÓRIO E DA
AMPLA DEFESA NO PROCESSO ADMINISTRATIVO DISCIPLINAR
JANAÍNA MACHADO CONCEIÇÃO

257
Sérgio Cerqueira Borges

a não identificação do acusado ou acusados, protegi-


dos até a decisão final da Justiça? DECRETANDO O
JUIZ DE OFÍCIO O SEGREDO DE JUSTIÇA COM
FUNDAMENTOS DO ARTIGO 5º DA CONSTITUI-
ÇÃO CIDADÃ?

258
A IMPRENSA PODE SER LIVRE,
ILIMITADAMENTE?

O ‘Caso Mão Branca’.

“Na imprensa do Rio de Janeiro: narrativa jorna-


lística, ficção e o fluxo do sensacional”

Resumo 
Neste artigo, apresentamos reflexões preliminares
acerca do ‘caso Mão Branca’, que, no início dos anos 80,
foi manchete, durante meses, nos principais jornais do
Rio de Janeiro. Inicialmente, realizamos um sintético le-
vantamento histórico do processo de transição da impren-
sa carioca nos anos 70 e 80, para a seguir propor, através
do caso escolhido, um debate acerca do universo narrati-
vo do jornalismo, em especial o sensacionalista, em suas
relação com o campo da ficção.
Palavras-chave: jornalismo; narrativa; Mão Branca;
sensacionalismo.

Artigo:
Quando a figura do “misterioso justiceiro” ‘Mão Bran-
ca’ começou a aparecer nas páginas da Última Hora, em
janeiro de 1980, a imprensa carioca estava atravessando
uma longa fase de transição. Antes de falarmos especifi-
camente sobre a controversa figura de ‘Mão Branca’ e sua
configuração narrativa, propondo algumas reflexões pre-
liminares sobre jornalismo e sua relação com os universos
do mito e da ficção, bem como sobre o gênero sensacio-

259
Sérgio Cerqueira Borges

nalista, gostaríamos de abordar exatamente o processo


histórico atravessado pela imprensa do Rio de Janeiro, de
forma a contextualizar o cenário no qual tal configuração
se dará.

1 – Contexto histórico da imprensa carioca nos anos


70 e 80
Como vêm apontando diversos autores, como Ana Pau-
la Goulart Ribeiro (2000) e Alzira Alves de Abreu (2002),
a imprensa carioca foi marcada, nos anos 70 e 80, por si-
nais de ruptura e continuidade para com o período antece-
dente, especificamente os “míticos” anos 50, apontados,
para muitos, como o momento histórico da modernização
da imprensa do Rio de Janeiro e sua entrada definitiva
no modelo industrial que caracterizaria o jornalismo nor-
te-americano, de quem o brasileiro iria buscar técnicas e
padrões. Não nos cabe, aqui neste artigo, problematizar
tais construções acerca da memória da imprensa no Rio
de Janeiro. Diversos outros autores já o fizeram, como as
que citamos acima. O que nos interessa, principalmente
em função do espaço que possuímos, é apontar as prin-
cipais características da imprensa carioca nas décadas de
70 e 80, suas relações com o contexto social, político e
econômico da sociedade brasileira do mesmo período e,
principalmente, que consequência isso trará para o objeto
de nosso estudo, a Baixada Fluminense.
Comecemos pelas características da imprensa que se
praticava nos anos 70 e 80. Tecnicamente, o período será
marcado por uma transição entre modelos de impressão
mais arcaicos para uma fase de informatização das reda-
ções e das gráficas, com a introdução dos computadores
nas redações, a digitalização progressiva da diagramação,
o aumento do uso das cores e dos recursos gráficos nas
edições, a melhoria da qualidade do papel e da impres-

260
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

são, acentuando um processo em curso desde o início do


século XX, que é a transformação do jornal em produto
atraente e comercializável, capaz de seduzir.
O trabalho que agora apresentamos faz parte de um
esforço de maior porte que estamos empreendendo no
Laboratório de Mídia e Identidade – LAMI, sediado
no Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Uni-
versidade Federal Fluminense – PPGCOM/UFF, acerca
das imagens que a imprensa carioca vem construindo, ao
longo dos últimos cinquenta anos, sobre a região da Bai-
xada Fluminense, zona metropolitana situada na periferia
da cidade do Rio de Janeiro. Uma versão desse artigo foi
apresentada pelas autoras, em abril de 2005, no III Encon-
tro da Rede Alfredo de Carvalho. O subprojeto “Imagens
da Baixada na Imprensa Fluminense” faz parte do proje-
to “Mídia e Exclusão Social: um olhar etnográfico”, que
vem sendo empreendido com dotação da CAPES, através
do PRODOC, e da FAPERJ, através de recursos do edital
Primeiros Projetos. Para saber mais, ver http://www.uff.
br/lami. Ver também ENNE (2002 e 2003). Satisfazer o
leitor/cliente. Da mesma forma, o período será marcado
também pela concentração cada vez maior dos jornais ca-
riocas na mão de um pequeno número de empresários,
com uma diminuição considerável em termos de ofertas
de títulos dos anos 50 para os 90. Assim, se os anos 80,
especialmente, são considerados um marco em termos de
transformação tecnológica do fazer imprensa no Brasil,
pensando, obviamente, nos grandes jornais, isso se dará
de forma ambígua, pois se, por um lado, a nova forma es-
tética e a nova rotina de produção deste jornalismo, sobre
o qual falaremos adiante, serão percebidas como ruptura
com a fase anterior, em uma inauguração de um “novo
jornalismo”, de outro, tal marco deve ser entendido como
uma extensão, claramente acentuada, de um movimen-

261
Sérgio Cerqueira Borges

to de modernização que estava em curso há pelo menos


oitenta anos. Considerando isso, voltemos ao ponto fun-
damental: os anos 80 irão assistir a uma transformação
acentuada nas formas de produção da imprensa carioca,
não só em termos formais, como em termos de conteúdo e
também quanto ao fazer jornalístico. Para explicarmos tal
ponto, no entanto, precisamos pensar o contexto histórico
no qual o jornalismo dos anos 70, com o qual os anos 80
irão de certa forma dialogar, estava sendo gestado.
Na década de 70, vigorava no país o regime militar
e o conteúdo veiculado na imprensa era rigorosamente
controlado pelo governo. Até a década de 50, o discur-
so jornalístico era claramente marcado pelo partidaris-
mo, posicionamento político e ideológico e as redações
eram espaço também de intelectuais de prestígio. Com
o advento da ditadura militar, em 1964, e especialmen-
te após a promulgação do Ato Institucional nº 5 (AI-5)
em 1968, que acentuou a censura, o distanciamento das
questões políticas tornou-se inevitável. A ideologia, antes
tão presente nas linhas das publicações, deu espaço aos
interesses comerciais dos donos de jornais. O jornalismo
literário e político – que já vinha sofrendo modificações
desde os anos 50 – foi substituído por um conteúdo que
não oferecia riscos de discordâncias com o governo. E a
linguagem, que antes privilegiava a opinião e o comentá-
rio, deveria ser objetiva e neutra, como no modelo norte
-americano. Segundo Alzira de Abreu, que nos servirá de
referência principal nesta parte do trabalho, a grande im-
prensa foi um setor de peso no apoio à deposição do pre-
sidente João Goulart e instauração do regime militar no
Brasil (ABREU, 2002). Os donos dos principais jornais
da época, assim como os veículos de suas propriedades,
ecoavam o discurso do liberalismo, diziam não às restri-
ções ao capital estrangeiro e estatização da economia e

262
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

temiam a ameaça comunista. O que não imaginavam é


que, pouco após a “implementação” do novo governo, co-
meçaria um período de caça aos opositores, e a imprensa
seria severamente censurada. O espaço de jornais e revis-
tas começou a ser ocupado por poemas, figuras e receitas
culinárias como uma estratégia de dar, ao menos simboli-
camente, visibilidade à ação da censura.
Apesar da imposição de limites, o governo investiu
expressivamente em tecnologia neste período, moderni-
zando a comunicação. A lógica era integrar todo o país,
reforçando seu papel centralizador. Destaca-se neste pro-
jeto a criação da Embratel, em 1965, cuja tecnologia vai
permitir que a televisão finalmente se tornasse um veícu-
lo de comunicação de massa, ganhando um cunho mais
profissional e elaborado com a entrada da TV Globo no
mercado.
No período do chamado “milagre econômico” (1967-
1973), quando a economia brasileira apresentou surpreen-
dentes índices de crescimento, novos investimentos em
comunicação modernizaram a maior parte dos jornais
que permanecem no mercado até hoje, construindo novas
sedes e trazendo para o Brasil equipamentos de última
geração, além de incentivarem a formação e a consoli-
dação das grandes redes de TV. Obviamente, através da
iniciativa, o governo aumentou o controle exercido sobre
a mídia.
Foi nessa época que nasceu o jornalismo econômico
nos moldes que conhecemos hoje. Segundo Alzira de
Abreu, a cobertura do desempenho das empresas, dentre
outros diversos setores da economia, abrangendo ainda a
análise de seus resultados, passou a ocupar as páginas da
editoria, agradando tanto ao governo, satisfeito com a di-
vulgação de seu triunfo na área, quanto aos empresários.
O sucesso da editoria foi tamanho que desencadeou uma

263
Sérgio Cerqueira Borges

linha de veículos com este direcionamento, com destaque


para a Gazeta Mercantil, de certa forma herdeiro de uma
tradição que remonta ao Jornal do Comércio.
A essa altura, o investimento em publicidade, fenôme-
no que também se ampliou na grande reforma da década
de 50, era, cada vez mais, uma das orientações principais
tomadas pelos jornais. Sendo os militares os principais
anunciantes, estabeleceu-se uma parceria entre o governo
e as empresas jornalísticas. Abdicar de questões políticas
e transmitir uma informação impessoal e isenta passaram
a serem condições de sobrevivência para os veículos e
manutenção deste alinhamento, no entender de Alzira de
Abreu.
Com o processo de abertura lenta e gradual propos-
to pelo governo Geisel, penúltima gestão presidencial da
ditadura, a censura foi suspensa, mas a total liberdade
de expressão ainda estava longe de ser recuperada pelos
jornalistas. Com menos restrições, a imprensa passou a
adotar o discurso da democracia, anistia e liberdade de
expressão. E a desaceleração da economia reforçou o pro-
testo da oposição, cuja voz anteriormente estava presente
apenas na “imprensa alternativa”. No entanto, os comen-
tários políticos cediam lugar às críticas, que ressaltavam a
pobreza, o desemprego e a má distribuição de renda.
Com a revogação do AI-5, em 1978, os limites impos-
tos aos jornais passaram a ser assegurados pela Lei de
Segurança Nacional, que podia ainda estabelecer crimes
de imprensa e conferir ao ministro da Justiça a função de
suspender periódicos, caso necessário. Apesar de a Lei de
Segurança Nacional ter sido abolida ainda no governo Fi-
gueiredo, foi apenas com a promulgação da Constituição
de 1988 que a imprensa recuperou a plena liberdade de
expressão.

264
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

Depois desse rápido balanço acerca do processo his-


tórico da imprensa na década de 70, passemos agora a
estudar a década de 80, período em que o desenvolvimen-
to tecnológico continua contribuindo significativamente
para modificações no setor de comunicação.
Como indicamos anteriormente, foram introduzidas
novas técnicas de impressão e de registro audiovisual,
acompanhados da informatização e de uma telecomuni-
cação evoluída. Estes avanços vão representar um grande
salto no processo de compilação, produção e transmissão
da informação. Tantos investimentos, no entanto, aponta-
vam para uma cultura que emergia com a nova década: o
empreendedorismo presente nas empresas jornalísticas. A
rentabilidade passou a ser a palavra de ordem. E ampliar
o público consumidor, para aumentar a publicidade e,
consequentemente, o lucro do jornal, que seria convertido
em novos investimentos, tornara-se o ciclo vicioso que os
veículos de comunicação insistiam em sustentar.
Os jornais estavam investindo sistematicamente em
marketing. O conteúdo veiculado, cada vez mais, passa
a ser um produto devidamente adequado ao seu público
consumidor. E obedecendo às exigências mercadológicas,
os próprios veículos passaram a dispor de artifícios que
lhes tornavam mais atraentes e vendáveis, como o uso de
cores e o maior apelo a imagens, por exemplo. Também
foram buscadas outras medidas em termos de linguagem:
textos mais curtos, títulos sintéticos, colunas de notas cur-
tas, recursos gráficos (mapas, quadros, tabelas). Ainda na
tentativa de agradar o leitor/cliente, cadernos dirigidos a
públicos específicos foram criados e a aproximação entre
público e jornal se ampliou, através da sessão de cartas
do leitor, reclamações e serviços. Até artifícios não jor-
nalísticos foram usados, como a distribuição de brindes
e sorteio de prêmios. Lembremos, obviamente, que tais

265
Sérgio Cerqueira Borges

expedientes já haviam sido usados anteriormente, como


atesta Marialva Barbosa (1996). O que é notório nos anos
80/90 é o acirramento dessas estratégias mercadológicas.
Os critérios de seleção das reportagens passaram a
depender dos resultados das pesquisas de mercado. Al-
guns jornalistas temiam que, na busca de se orientar pelas
preferências do leitor, os jornais perdessem o controle de
qualidade da informação, que poderia cair na vulgaridade,
no mau gosto etc. Neste período, tem início uma relação
de conflito entre jornalistas, que buscavam exercer sua
criatividade, e os interesses comerciais dos empresários
que não hesitavam em submeter a produção ao gosto do
leitor (ROXO, 2003).
O processo de produção em si também sofreu mudan-
ças. A informatização das redações permitiu e os interes-
ses comerciais exigiram o aceleramento da produção. Os
jornalistas passaram a trabalhar com prazos rigorosos de
entrega de material, que obedeciam à velocidade de distri-
buição dos exemplares (acordos com companhias aéreas e
distribuidoras locais, por exemplo). O volume de trabalho
dos repórteres aumentou.
Responsáveis também pela diagramação e seleção de
fotografias, em determinadas ocasiões eles são obrigados
a fazer mais de uma matéria por edição. A notícia, que
deixou de ser uma manifestação político-ideológica para
se tornar um bem comercializável, passou a ser enquadra-
da em classificações e a seguir critérios específicos de pu-
blicação. Jornalistas de diferentes empresas consultam as
mesmas fontes, recebem os mesmos press releases (que,
de certa maneira, determinam o controle da informação),
leem os periódicos concorrentes e se guiam por eles, es-
tabelecendo, assim, uma concorrência acirrada, cuja con-
sequência é a repetição das mesmas notícias em todos os
jornais de mesmo público alvo.

266
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

Assim, a mudança no perfil das empresas jornalísticas


exigiu uma nova postura por parte dos proprietários de
jornais, que agora submetem suas decisões a opiniões de
outros profissionais – economistas, administradores – que
se preocupam com questões administrativas e comerciais.
O jornalista, por sua vez, abandona a orientação puramen-
te ideológica, como já foi mencionado, e se adapta a uma
redação alinhada aos interesses mercadológicos.
Além disso, os profissionais da imprensa, oriundos das
faculdades de jornalismo, trabalham para jornais que abri-
ram mão de sua militância política, assumiram um papel
menos opinativo e mais crítico e se diferenciam cada vez
menos uns dos outros, obedecendo a uma padronização
em parte imposta pelos manuais de redação.
Este contexto ajuda a cristalizar uma nova classifica-
ção de profissional, que vem sendo construída desde os
anos 70. Trata-se do jornalista investigador, que através
da metodologia de produção da matéria, em detrimento
de sua temática, cria uma nova categoria de jornalismo: o
jornalismo investigativo. De acordo com Márcio Castilho
(2005), mais presente nos veículos impressos, em espe-
cial nas revistas semanais, o jornalismo investigativo pas-
sa a valorizar o esforço do repórter em buscar e desvendar
a informação, possibilitando a exclusividade das matérias
(ou o que se convenciona chamar de “furo”). Método de
produção muito usado nas reportagens policiais, a investi-
gação pela imprensa é caracterizada por, em geral, colocar
o público a par de alguma má conduta de uma instituição
importante, seja um governo corrupto ou uma falcatrua de
uma pessoa pública de grande visibilidade.
Uma vertente do jornalismo investigativo é o de-
nuncismo, que, diferentemente, vai privilegiar o es-
cândalo, o sensacional, a narrativa dramática. Ca-
racteristicamente, a informação desta categoria visa

267
Sérgio Cerqueira Borges

uma repercussão fora do comum e, frequentemente,


ela sequer é embasada por evidências concretas. Sem
dúvida, tal vertente do jornalismo é fundamental para
pensarmos o caso “Mão Branca”, sobre o qual falare-
mos a seguir.
Portanto, no início dos anos 80, quando aparecerá a fi-
gura de Mão Branca nas principais manchetes dos jornais
cariocas, no Rio de Janeiro, após o contínuo desapareci-
mento de diversos títulos de forte impacto e importância
na história da imprensa carioca, como O Correio da Ma-
nhã, A Tribuna da Imprensa e a Luta Democrática, entre
outros, são quatro os principais jornais que estão disputan-
do a preferência dos leitores: a já citada A Última Hora,
O Dia, Jornal do Brasil e O Globo. Não exploraremos,
aqui, exaustivamente as características de cada um desses
jornais no período estudado, pois isso será objeto de nossa
pesquisa em sua forma mais completa, mas somente ofe-
receremos algumas observações acerca dos mesmos para
um melhor entendimento do que explicaremos a seguir.
A Última Hora é, no início dos anos 80, um periódi-
co totalmente diferente daquele criado décadas antes por
Samuel Wainer, com o intuito de apoiar Getúlio Vargas,
por quem também será apoiada, e que será conhecido
exatamente por seu papel no jogo político e por seu pio-
neirismo no campo das famosas reformas dos anos 50.
No entanto, no início dos anos 80, trata-se de um jornal
em crise, com substancial perda de público e anunciantes,
voltada exatamente para as classes mais baixas em termos
de estratificação socioeconômica.
Seu conteúdo, neste sentido, é predominantemente
sensacionalista, com destaque para matérias policiais e
fait divers, construídas em tom melodramático e com for-
te apelo popular, principalmente por carregar marcas da
linguagem coloquial e da oralidade.

268
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

O Dia, sob o comando de Chagas Freitas, político de


linha conservadora, vai, em parte, se enquadrar no mesmo
modelo de jornalismo, batizado, pelo caráter do seu con-
teúdo, de “espreme que sai sangue”. A disputa dos dois
jornais pelas manchetes sensacionais será uma das marcas
mais reconhecidas do jornalismo carioca deste período.
Ao mesmo tempo, o jornal se destacará como porta-
voz das camadas desassistidas, o que, na interpretação
de Antônio Serra (1986), funcionará como estratégia de
manter-se, em termos de imagem, tanto aliado dos seto-
res do público que pretende alcançar, quanto do governo
e dos empresários, sendo enxergado como intermediário
neste processo.
O Globo e o Jornal do Brasil, neste sentido, estariam
disputando outras fatias de público, ligadas a uma classe
média e média-alta do Rio de Janeiro. Assim, o conteú-
do sensacionalista não apareceria de forma tão explícita
– embora, como demonstre Maurício Duarte (2003), exis-
tam outros recursos para explorar as sensações no leitor
para além das estratégias sensacionalistas diretas –, sendo
nesses dois jornais mais fácil perceber as transformações
formais e de conteúdo que descrevemos acima: uso pro-
gressivo de tecnologia, predomínio da economia como
prato de resistência das edições, conflitos entre jornalistas
e empresários etc. É nesses jornais, inclusive, que se pra-
tica, de forma ostensiva e como recurso de autoimagem,
o chamado “jornalismo investigativo”, sobre o qual tam-
bém falamos anteriormente. Ver ANGRIMANI (1995) e
SERRA (1986).

2 – A construção de um “mito” na imprensa carioca: o


caso “Mão Branca”
Quando o caso Mão Branca começa a ocupar as pá-
ginas dos jornais, inicialmente na Última Hora e depois

269
Sérgio Cerqueira Borges

em todos os listados acima, embora com intensidades,


proporções e enfoques diferentes, como também demons-
traremos em nosso relatório final, isso se transforma, no
período estudado, em comoção pública. Mas quem seria
Mão Branca?
Trata-se de um “justiceiro” que assume a autoria de
diversos “despachos de presuntos”,
como ele mesmo define em suas diversas manifes-
tações junto à imprensa, suas ações de “extermínio de
bandidos”. As notícias acerca de suas ações envolveram
uma extensa rede de jornalistas, policiais, bandidos, polí-
ticos, personalidades e pessoas comuns, se tornando pauta
obrigatória nas conversas diárias dos leitores e de suítes
(continuações das matérias) em outras publicações, como
demonstraremos também em nossa pesquisa. Assim, acre-
ditamos estar diante de um caso muito rico para análises
das mais diversas acerca do fazer jornalístico, da constru-
ção de mitos pela imprensa e do contexto histórico desta
imprensa no período citado Primeiramente, porque “Mão
Branca”, ao que tudo indica, é um personagem de ficção.
Muitas são as versões que correm sobre sua “criação”,
mas a mais recorrente aponta para o repórter policial Jor-
ge Elias, que trabalhava na Última Hora no período e teria
sido o “inventor” de tal personagem. Na verdade, Elias te-
ria criado o personagem para que este assumisse a autoria
de diversas mortes sem explicação que ocorriam no Rio
de Janeiro e arredores, provavelmente causados por gru-
pos de extermínio que atuavam, predominantemente, na
Baixada Fluminense. Mesmo com as variantes em termos
de versão, há um entendimento generalizado, visível na
própria imprensa da época (embora para alguns jornais,
como A Última Hora e O Dia, isso praticamente não tenha
sido problematizado), e mais ainda na visão dos entrevis-
tados hoje, de que “Mão Branca” se trata.

270
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

Outras versões serão exploradas em nosso trabalho fi-


nal.
Já foram realizadas entrevistas com Paulo César Perei-
ra, repórter policial que no período estudado cobria a Bai-
xada Fluminense pelo jornal O Globo, e José Louzeiro,
repórter policial que atuava na Última Hora
De uma “invenção”, de uma “criação”, um “mito”,
uma “brincadeira”, uma “ficção”, uma “estratégia para
vender jornais”, dentre outras expressões recolhidas em
nosso levantamento e no decorrer das entrevistas já rea-
lizadas.
Assim, o personagem que, pelo menos de janeiro a
agosto de 1980, chamou a atenção de toda a imprensa ca-
rioca (além de outros periódicos nacionais e estrangeiros,
que também compõem o nosso levantamento), sendo ob-
jeto diário de matérias feitas pelos jornais O Dia e espe-
cialmente A Última Hora, que em várias edições dedicou
mais de uma página ao tema e muitas vezes utilizaram-no
como chamada de primeira página, foi na verdade uma
criação do denuncismo encobertada pela outorga do cha-
mado jornalismo investigativo.
Esta é uma de nossas principais conclusões, que pre-
tendemos apresentar em nosso trabalho final, mas que
aqui já colocamos em pauta que levantar algumas outras
hipóteses e reflexões.
“Mão Branca” é apresentado como um “justiceiro”,
“matador”, “exterminador”, que atuaria na região da Bai-
xada Fluminense. Como demonstra José Cláudio Alves
(1998), a região é marcada, historicamente, por diversos
processos de violência, dentre eles a ação dos grupos de
extermínio, principalmente após o golpe militar e mais
preponderadamente na década de 70. Neste sentido, uma
das questões que estamos buscando pensar, ao final de
nosso trabalho de pesquisa, é qual a relação possível entre

271
Sérgio Cerqueira Borges

a ficcionalização de um “exterminador” e a legitimação,


via imprensa, da prática do extermínio.
Há todo um trabalho de enquadramento narrativo na
apresentação de “Mão Branca” no jornal A Última Hora,
que será nosso principal objeto de análise. Primeiramente,
“Mão Branca” se manifesta através de ligações para a re-
dação do jornal e para delegacias de polícia. Dessa forma,
o personagem é apresentado, muitas vezes, via discurso
direto, em que ele fala (e não é “falado” pelo repórter).
Obviamente, trata-se de uma estratégia de legitimação da
voz (embora todos saibamos que em todo discurso, como
nos ensinaram Foucault, Bourdieu e Fairclough, dentre
outros, o sujeito que fala é falado por diversas práticas
ideológicas e hegemônicas com as quais ele tem que lidar)
e também de isenção de responsabilidade. Mas é também
uma estratégia de aproximação do leitor com o período
do caso “Mão Branca”, também autor de novela e escri-
tor, que, dentre outros livros, publicou Mito em Chamas.
A Lenda do Justiceiro Mão Branca (São Paulo, Moder-
na, 1997), baseado na história da criação do personagem
“Mão Branca”. Estão programadas ainda outras entrevis-
tas para montarmos o painel necessário para refletirmos
melhores sobre o objeto de nossa pesquisa, personagem,
pois “Mão Branca” se expressa através de uma linguagem
extremamente coloquial, muitas vezes marcada por figu-
ras de linguagem, como eufemismos, metáforas, ironias,
outras por referências religiosas. Além disso, em suas
falas ele se posiciona explicitamente como “alguém do
povo”, como um porta-voz das agruras da população, um
benfeitor que age dessa forma para auxiliar a polícia e
eliminar o mal.
Trata-se de uma composição clássica na narrativa fic-
cional: a disputa maniqueísta. A imagem que se constrói é
a de um justiceiro anônimo, que se sacrifica em nome de

272
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

ideais e que, como uma pessoa do povo, não suporta mais


sofrer sem fazer nada. A Última Hora reforça tal imagem
com cartas de leitores (que, segundo um de nossos entre-
vistados, em parte são inventadas, em parte são enviadas
por leitores que eles acreditam fazer parte dos inúmeros
grupos de extermínio que agiam no Rio de Janeiro, que
enxergam na figura do “Mão Branca” uma imagem públi-
ca ideal para encobrir suas atividades) e através de enque-
tes com personalidades e pessoas comuns que falam o que
pensam sobre “Mão Branca”, com evidente preferência
pelas falas elogiosas.
Neste sentido, pelo que já apuramos, “Mão Branca”
teria sido um sucesso de público, fazendo com que as ven-
das dos jornais, em especial do Última Hora, aumentas-
sem muito. Assim, a criação de um mito, que passa a ser
incorporado como verdade e legitimado através de maté-
rias em vários jornais, não serve para suscitar discussões
sobre o extermínio, mas para legitimá-lo, como também
buscaremos demonstrar.
Segundo José Louzeiro, repórter policial que também
trabalhava na Última Hora no início dos anos 80 e amigo
pessoal de Jorge Elias, há um momento em que a criatura
se volta contra o criador, já que diversos grupos de ex-
termínio começam a utilizar a assinatura “Mão Branca”
para suas práticas de assassinato. Quando o repórter e o
jornal começam a perder o controle sobre a ficção, segun-
do Louzeiro (que afirma ser do conhecimento da chefia da
redação todo o processo inventivo do repórter), e buscam
abandonar o personagem, há uma reação negativa por
parte desses grupos, que começam a ameaçar o repórter,
como Louzeiro irá descrever em seu livro Mito em Cha-
mas, baseado no caso.
Temos, então, uma série de elementos interessantes
para pensar: trata-se de uma ficção, mas os crimes acon-

273
Sérgio Cerqueira Borges

teciam de fato, os cadáveres imputados à “Mão Branca”


estavam, de fato, nos locais apontados pela “misteriosa
voz” em suas ligações para o jornal e para a polícia. Neste
sentido, há uma série de atores sociais que precisam ser
pensados
neste contexto, como os repórteres, fotógrafos e edito-
res dos jornais; grupos de extermínio; policiais; políticos;
personalidades e pessoas comuns depoentes; receptores
desses jornais.
O que nos propomos, e aqui apresentamos como le-
que de ideias e convite à reflexão conjunta, é pensar como
os domínios da narrativa ficcional e jornalística podem
se cruzar. Ou, pensando no livro produzido por Louzeiro
(que confessa ter também ficcionalizado a narrativa, en-
volvendo elementos que não fazem parte do caso ocorri-
do com o repórter da Última Hora), como tais narrativas
se misturam novamente, em mão inversa. Por fim, como
esse ir e vir entre a narrativa ficcional e a jornalística se
envolve com os protocolos de leitura do público receptor,
permitindo que o fluxo do sensacional não se interrompa
e se mantenha contínuo. Sobre esse último ponto, falare-
mos no último item desse trabalho.

3 – Pensando o leitor através das marcas da narrativa


Compartilhamos com diversos autores de que é pos-
sível realizar estudos de recepção através da percepção
de que as marcas dos leitores estão presentes nos textos
antes mesmo de serem lidos. Assim, acreditamos que é
possível, pela análise do caso ‘Mão Branca’, para além de
refletirmos sobre o fazer jornalístico e sua prática narra-
tiva, pensar também o envolvimento do leitor nesse pro-
cesso, através da construção de protocolos de leitura que
permeiam toda produção discursiva.

274
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

Essa concepção privilegia o processo e não as ruptu-


ras, apontando para a tríplice mimese de que fala Paul
Ricoeur (1984), movimentos de prefiguração, configura-
ção e refiguração, em que o passado, presente e futuro são
todos, em certo sentido, medidas de um único presente,
o da configuração da narrativa. Assim, os discursos são
pensados como fluxo, como fronteiras que se movem e
não são estáticas, que dependem dos contextos e da di-
mensão processual para conferir sentido. É no campo do
discurso, como indica M. Bakhtin (1987), dentre outros,
que o signo trava suas batalhas ideológicas, que os su-
jeitos colocam em campo suas disputas hegemônicas e
contra hegemônicas. Neste sentido, a prática discursiva
torna-se referência fundamental tanto para pensar a luta
de classes quanto as disputas pela construção das identi-
dades individuais e sociais. No campo discursivo, temos a
arena mais aberta da disputa pelo direito de significar. As-
sim, se quisermos analisar de que forma os jornais, como
produtos da comunicação de massa, são fundamentais na
construção de memórias e identidades sociais na socie-
dade contemporânea, temos de entender como são cons-
truídas suas práticas discursivas. A ideia é pensar como,
através da apropriação de um real já fragmentado, é pos-
sível construir uma visão, ainda que parcial capaz de ser
confundida com o próprio real. É atributo do discurso jor-
nalístico contemporâneo se postular o papel de remissor
da verdade, testemunha do fato. No entanto, o que vemos
é uma apropriação deste real através de estratégias enun-
ciativas, tanto verbais como não verbais. Os discursos são
formulados não só a partir do sujeito que fala, mas tam-
bém na interação com o sujeito que recebe ou que se su-
põe que receberá. Esta concepção remete à polifonia, as-
sociada ao dialogismo de que fala M. Bakhtin. As teorias
multiculturalistas têm apontado para a mesma relação.

275
Sérgio Cerqueira Borges

Imaginar o discurso como dotado de um sentido único e


portador de uma única voz é não concebê-lo como produ-
to social, como ação social, no sentido clássico proposto
por Max Weber. Embora com diferentes perspectivas, as
teorias do discurso de forma geral apontam para o caráter
de construção social de todo discurso, sem esquecer os da
mídia. Essas apropriações do real não são condutoras de
significados por elas mesmas. São sistemas repletos de
representações simbólicas que dependem, para sua inter-
pretação, tanto do trabalho de ourives do produtor no sen-
tido de codificá-la adequadamente, como das condições
do receptor para interpretá-las. A interpretação, de certa
forma, é o que dá sentido ao discurso, tanto quanto sua
produção. Evidentemente, por se tratar de uma construção
dialógica, em grande medida o discurso se ancora no real,
na própria experiência dos receptores, o que direciona sua
interpretação para os caminhos definidos pelo produtor da
mensagem. Os imaginários sociais são construídos tam-
bém porque há um processo dialético entre os emissores
e os receptores.
Não podemos imaginar nem que os produtores do dis-
curso tenham o poder soberano de produzir mensagens
fechadas, que serão decodificas de maneira uniforme por
todos os receptores, nem que tais discursos não se an-
corem em pressupostos comuns, muitas vezes de base
ideológica, capazes de conduzir a interpretação. No en-
tanto, não podemos perder de vista de que é nas relações
de fronteira, nas situações de interação, que os discursos
sociais são construídos e apropriados. Sem dúvida, as
identidades sociais são forjadas, em larga medida, a partir
dos discursos sociais, e a mídia desempenha papel central
neste processo.
No entanto, as apropriações desses discursos são múl-
tiplas, o que resulta, obviamente, em processos de identi-

276
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

ficação também múltiplos. Assim, as categorias da memó-


ria e da identidade, intrinsecamente relacionadas dentro
dos processos sociais contemporâneos, não podem ser
tomadas separadamente ou de forma estática. Devem ser
pensadas dentro de fluxos comunicacionais, como uma
tessitura permanente realizada por agentes e agências, que
constituem redes de interação social. Os diversos agentes
envolvidos na produção das identidades sociais são su-
jeitos posicionados, que possuem suas demandas dadas
pelas condições do presente. As memórias são narrativas
sociais, práticas discursivas, empreendidas na tríplice mi-
mese proposta por Paul Ricouer. São tecidas nas arenas
de disputas por saber e poder, é objeto de razão e paixão,
são fronteiras móveis que servem ao presente, quando
reelaboram o passado, mas também ao futuro, quando
projetam o devir. É objeto de estratégias e táticas, as quais
pretendemos investigar.
Assim, nossa pesquisa se propõe pensar não somente
as estratégias de produção de significados no caso “Mão
Branca”, mas investigar também como tal construção nar-
rativa é prefigurado dentro de um fluxo do sensacional,
em que as práticas de leitura também são levadas em con-
sideração. Dessa forma, acreditamos que nossa investiga-
ção, para além de permitir uma reflexão, como apontamos
acima, sobre as práticas e as narrativas do jornalismo, nos
permitirá perceber como se processa o fluxo comunica-
cional entre emissores e receptores, evitando uma apro-
priação reducionista ou preconceituosa acerca de atuação
da mídia e dos receptores dentro desse fluxo.42

O ARTIGO das Doutoras em Comunicação, Ana


Lucia S. Enne (UFF) e Betina Peppe Diniz (UFF/RJ)
ilustram com muita clareza a responsabilidade e poder da

42 Por Ana Lucia S. Enne2 (UFF) e Betina Peppe Diniz3 (UFF).

277
Sérgio Cerqueira Borges

imprensa jornalística, de seus jornalistas, sobre vida, re-


putação, desgraças e até morte, naquilo cujo se propõem
a tornar público levianamente, das pessoas e sobre elas,
uma vez que sendo as empresas jornalísticas concessio-
nárias do Poder Público, seriam então vulneráveis aos
anseios das elites e comprometidas com a venda de seu
produto, seu principal interesse?

“Uma mentira repetida mil vezes torna-se verdade” 43

Mais adiante veremos que a imprensa saudosa do per-


sonagem “mão branca”, o reinventaria em 1993, com
um novo nome, aproveitando, divulgando, as lunáticas
afirmações de um coronel da PMERJ, cujo não fez por
menos, para conquistar o Poder e sua “VEDETA”, Poder
antes disputado internamente, e, agora extramuros a ins-
tituição PMERJ, mesmo sobre cadáveres-vivos de cole-
gas de farda, sabendo o mal que estava causando; todavia
concomitantemente, esta imprensa livre ilimitadamente
e descompromissada com a verdade, se aproveitando do
novo personagem, não avaliando ou não se importando
e, com o mesmo propósito defendido pela tese supracita-
da anteriormente, mas com o neologismo, “CAVALOS
CORREDORES”.

Contudo será esclarecida a origem deste nome em mo-


mento oportuno, em contexto apropriado na sequencia
textual.

43 Paul Joseph Goebbels (Rheydt, 29 de Outubro de 1897 – Berlim, 1 de


Maio de 1945) foi um político alemão e Ministro da Propaganda do Rei-
ch na Alemanha Nazi de 1933 a 1945. Um dos principais associados, e gran-
de seguidor, de Adolf Hitler, ficou conhecido pelos seus discursos públicos e
pelo seu profundo e violento anti-semitismo, que o levaram a apoiar o exter-
mínio dos judeus e a ser um dos mentores da Solução Final.

278
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

As três peneiras

“Um homem, procurou um sábio e disse-lhe: –


Preciso contar-lhe algo sobre alguém! Você não
imagina o que me contaram a respeito de... Nem
chegou a terminar a frase, quando Sócrates er-
gueu os olhos do livro que lia e perguntou: – Es-
pere um pouco. O que vai me contar já passou pelo
crivo das três peneiras? – Peneiras? Que penei-
ras? – Sim. A primeira é a da verdade. Você tem
certeza de que o que vai me contar é absolutamen-
te verdadeiro? – Não. Como posso saber? O que
sei foi o que me contaram! – Então suas palavras
já vazaram a primeira peneira. Vamos então para
a segunda peneira: a bondade. O que vai me con-
tar gostaria que os outros também dissessem a seu
respeito? – Não! Absolutamente, não! – Então
suas palavras vazaram, também, a segunda penei-
ra. Vamos agora para a terceira peneira: a neces-
sidade. Você acha mesmo necessário contar-me
esse fato, ou mesmo passá-lo adiante? Resolve al-
guma coisa? Ajuda alguém? Melhora alguma coi-
sa? – Não... Passando pelo crivo das três peneiras,
compreendi que nada me resta do que iria contar.
E o sábio sorrindo concluiu: – Se passar pelas três
peneiras, conte! Tanto eu, quanto você e os outros
iremos nos beneficiar. Caso contrário, esqueça e
enterre tudo. Será uma fofoca a menos para en-
venenar o ambiente e fomentar a discórdia entre
irmãos. Devemos ser sempre a estação terminal de
qualquer comentário infeliz! Da próxima vez que
ouvir algo, antes de ceder ao impulso de passá-lo
adiante, submeta-o ao crivo das três peneiras por-
que: Pessoas sábias falam sobre ideias; Pessoas

279
Sérgio Cerqueira Borges

comuns falam sobre coisas; Pessoas medíocres fa-


lam sobre pessoa).”44

44 Sócrates

280
Crônicas de um Promotor de Justiça

... A chacina de Vigário Geral está intimamente liga-


da ao comércio das drogas. Começou no dia 13 de feve-
reiro/93, quando o irmão de Flávio Negão, Jarbas Pires
da Silva, e sua namorada Simone Silva Medeiros, ambos
com 22 anos, foram sequestrados em Crioba, em Nova
Iguaçu e nunca mais encontrados. Por esta linha de in-
vestigação, que começou a ser estudada no dia 31/08/93,
pelos policiais, conforme ofício enviado pelo Chefe de
Policiamento da PM, tenente coronel Valmir Alves Brum,
a 52º Delegacia de Nova Iguaçu, pedindo informações
sobre o caso, a morte dos policiais seria uma resposta do
traficante ao sequestro e desaparecimento do irmão.

Na referida delegacia, no entanto, não há nenhum re-


gistro do sequestro de Jarbas, que também usava o nome
falso de Márcio Eugênio de Souza, e de sua namorada
Simone. O advogado Paulo Roberto Cruzol, que acom-
panhou o caso a pedido da família, publicou em matéria
do Estado de São Paulo, a seguinte nota: “Os dois foram
sequestrados por policiais, que chegaram a manter con-
tato com a família da moça pedindo o resgate de US$
100 (cem mil dólares). Os pais de Simone, Flávio Perei-
ra de Medeiros e Ivone, chegaram a procurar pelo casal,
sempre evitando a polícia, em função de suas suspeitas,
mas desistiram no início de abril” (Estado de São Paulo,
01/09/93).

281
Sérgio Cerqueira Borges

O jornal “The New York Times”, o mais importante


dos EUA, abriu uma edição do dia 31/08/93, sua página
internacional com notícia sobre a chacina de 21 pessoas
ocorrida no Rio, com o titulo “21 assassinados na favela
do Rio -. Policiais são suspeitos”. O jornal compara a car-
nificina urbana a uma guerra de guerrilha e pergunta: “O
que está acontecendo com este país?”. O correspondente
James Brooke lembra os dois maiores massacres urbanos
ocorridos no Brasil. A dos oito meninos de rua, na Can-
delária, também no Rio e o dos 111 presos da Casa de De-
tenção, em São Paulo, em outubro/92. E assinala que no
Rio de Janeiro 16% dos habitantes aprovaram a matança,
como também 41% aprovaram em São Paulo, no mesmo
ano. A própria Polícia Militar está cada vez mais desres-
peitando a lei, observa o NYT. Até 1989, as expulsões de
membros desta força de 30 mil homens, eram causadas por
conduta inadequada. A partir de 1989, a maior parte delas
passou a ser devido a crimes. Por outro lado, assinala o
jornal, em termos de poder de fogo, a Polícia Militar pare-
ce ter encontrado um concorrente com o aparecimento do
Comando Vermelho, um grupo de tráfico de drogas cujos
membros aprenderam suas táticas que estiveram presos
nos anos 70, junto com guerrilheiros urbanos (New York
Times, transcrito em “O Estado de São Paulo”, 31/08/93).
Conforme informou o conceituado advogado e radialista
Oliveira Filho, em sua conceituada participação, “Ponto
de Vista”, Rádio Dragão do Mar, Programa SOS – Co-
mando Geral, sob a orientação de Hugo Pereira, o gover-
nador Leonel Brizola encaminhou à Assembleia Legisla-
tiva o projeto de rejuvenescimento de quadros da PM. A
ideia, segundo Brizola, é exclusivamente sua. Ele afirmou
que o tenente-coronel José Heleno de Almeida Barbosa,
subchefe do gabinete militar, ficou bastante abalado com

282
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

as notícias publicadas nos jornais de que ele seria o men-


tor da renovação em benefício próprio.

Indagar-se-ia: “Por que razão os executores da Fave-


la do Vigário Geral foram tão abruptos e frios?” Para o
Secretário de Justiça e Polícia Civil, Nilo Batista, não há
dúvida: “A matança das 21 pessoas em Vigário Geral foi
comandada por policiais militares. O Secretário acredita
que o crime da favela tenha ligações com o assassinato
de quatro policiais fuzilados na noite de sábado na Praça
Catolé do Rocha, que fica próxima à Favela de Vigário
Geral, e desabafou: “Nunca vi nada igual”!45

O INFORMANTE DA POLÍCIA, A TESTEMUNHA


“I”, A TESTEMUNHA “BOMBA”, UM FANTOCHE

45 Tribuna do Ceará, 22/09/1993 – A POLÍCIA E A CORRUPÇÃO– www.


sedep.com.br

283
Sérgio Cerqueira Borges

DO CORONEL PM VALMIR ALVES BRUM, QUEM


FEZ DO PODER PÚBLICO SEU FANTOCHE TAM-
BÉM, NEM SE IMPORTOU QUE SUA AMBIÇÃO
ATENDESSE AOS INTERESSES DO CRIME ORGA-
NIZADO TAMBÉM.

Ivan Custódio Barbosa de Lima, a testemunha chave


da investigação fraudulenta da PMERJ que levou dezenas
de policiais inocentes a amargarem anos de cárcere apenas
com sua versão ensaiada exaustivamente pelos Oficiais da
PMERJ, envolvendo ainda a alta cúpula do governo es-
tadual da época e, perante a Justiça carioca, induzindo-a
ao erro impunemente. O que poucas pessoas não sabem
“Ivan X-9” não foi tão-somente um instrumento nas mãos
dos canalhas cujos fomentaram as injustiças usurpando
a função da polícia judiciária, Ivan ou “I”, foi à pessoa
quem junto com Ailton e outros, sequestraram o irmão do
traficante Flavio Negão almejando um resgate por dinhei-
ro; mas não foi o fato ocorrido no dia anterior à chacina
como muitos acreditam e tão pouco os policiais mortos
na praça Catolé do Rocha estavam lá para extorquirem;
afinal nem tiveram tempo para isso, se fosse esta suas in-
tenções! Ivan e outro PM, sócio em negócios de pesca de
Ailton em traineiras cujos possuíam, vinham lesando-o.
Temeroso com a descoberta por Ailton do desfalque e sua
reação, Ivan Custódio resolve então fazer o que em ge-
ral fazem os informantes conhecidos também como X-9;
estes em geral são agentes duplos, vendem-se a quem os
oferecerem maiores vantagens; então com motivos além
do interesse pecuniário, o X-9 cujo goza de trânsito tan-
to entre policiais como entre os próprios marginais como
já dito; se não como saberiam informar sobre os ilícitos?
Resolve então entregar o Sargento Ailton ao “dono” da
favela de Vigário Geral, a Flavio “Negão”, a ele conta

284
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

que foi o sargento quem havia “mineirado” seu irmão; só


não lhe disse que era ele o informante da “mineirada”;
com o traficante forma uma aliança para matarem o sar-
gento; Ivan disse a Flavio Negão que também estava na
lista de Ailton, então começa neste momento; dias antes
da morte do PMs; por em prática o que ocorreria um dia
antes da chacina em Vigário Geral de 1993. O informante,
X-9, sócio e amigo do Sargento PM Ailton mancomunado
com Flavio Negão põem em pratica o plano de atenta-
do aos Policiais Militares. Sendo Ivan o informante do
sargento e de sua total confiança por motivos óbvios, no
dia de sua morte o telefona informando que na praça do
clube do União; como era conhecida a Praça Catolé do
Rocha; havia uma entrega de muitos fuzis AR 15, e, para
não levantar suspeitas, as armas estariam desmontadas,
também seriam transportadas em sacolas em embrulhos
por moradores da favela por ordem do tráfico; era tudo
mentira, a historieta fazia parte do plano de vingança de
Flavio “Negão”; na verdade dezenas de traficantes “arma-
dos até os dentes” aguardariam o sargento e seu motorista
que nada teria de envolvimento com Ailton ou Ivan. A
rotina de supervisão do policiamento na área de um ba-
talhão era da seguinte forma, havia um Oficial PM su-
pervisor cujo circulava toda a área do batalhão e também
um PM graduado, em geral um Sargento ou Subtenente,
chamados de supervisão de graduados; Ailton era neste
dia o supervisor graduado do 9º BPM; Ivan Custódio em
contato telefônico passa esta informação a Ailton; como
havia apenas ele e seu motorista, Ailton e seu motorista
deslocam-se rapidamente para o DPO do bairro do Jar-
dim América para compor um reforço junto à guarnição
daquele Destacamento de Policiamento Ostensivo; assim
ocorreu, mas a rapidez exigida pelo sargento para o em-
barque dos policiais do DPO causou um acidente profícuo

285
Sérgio Cerqueira Borges

ao seu motorista oficial, este ao fechar a porta da viatu-


ra policial, acabou por ter seu braço quebrado ao bater a
porta; salvou-se do que estava por vir; rapidamente um
integrante do DPO assumiu a direção da viatura e todos
se dirigiram aos seus destinos fatais; ao se deslocarem ao
local indicado por Ivan; o X-9 que os atraiu; imediata-
mente ao estacionarem o veículo no ponto indicado pelo
sócio e informante, caíram em um “relâmpago” traiçoeiro
cerco dos traficantes que nem tiveram tempo em desem-
barcarem, exceto o único que interessavam aos facínoras,
o Sargento Ailton, só conseguiu dar alguns passos; Ivan
estava lá, por isso estacionaram sem temor de algo, fazia
parte do sórdido plano dos marginais traficantes e do mar-
ginal X-9. Ivan agora passara a “ser os olhos” e “ouvidos”
de Flavio “Negão”, este se infiltrou no enterro e passou
todos os passos do que pretendiam a polícia e os poli-
ciais presentes no enterro de Ailton; “Negão” e sua qua-
drilha de traficantes dispersaram-se, saindo da favela de
Vigário Geral vez que foi alertado pelo X-9 do plano de
invasão, homiziando-se com seus seguranças mais próxi-
mos no condomínio Padre José de Anchieta; o primeiro
condomínio habitacional do Brasil, localizado próximo
à favela de Vigário Geral, na Estrada do Vigário Geral;
em um apartamento cujo mantinha alugado para este fim
quando necessário. Ivan mapeou todos os lugares que du-
rante a chacina os matadores foram, este havia informado
que seria os locais cujos marginais estariam escondidos e
seus armamentos; a Casa da Paz, residência que toda uma
família fora assassinada, cuja era anteriormente perten-
cente a um dos maiores traficante de Vigário, “Chiquinho
Rambo”, foi muito recomendado por Ivan como local de
confecção de papelotes de cocaína, bem a casa já era co-
nhecida dos policiais do 9º BPM, mas os matadores ce-
gos por vingança, não consideraram que embora a casa

286
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

pertencesse ao traficante mencionado, às pessoas que lá


residiam, nada havia com a morte dos policiais, contudo
fiaram-se na palavra do X-9 que havia fornecido uma lis-
ta com nomes; nomes estes fictícios; mas esta é também
a razão que pessoas foram executadas ao serem identifi-
cadas; guiaram-se pela lista fornecida pelo X-9; todavia
por coincidência macabra, alguns nomes; cuja não havia
sobrenomes, apenas nomes e apelidos; eram pessoas que
nada tinham relação com os traficantes, mas os matadores
cegos por vingança, não hesitaram, se o nome constava
na lista, matavam e quem com estes estivessem; na Casa
da Paz, então residência do “Chiquinho Rambo”, as pes-
soas foram mortas por “queima de arquivo”, os matadores
estavam com toucas ninjas, mas após a revista do local,
e nada que o X-9 informara estava sendo confirmado,
um dos matadores para poder respirar melhor, puxou a
parte inferior da touca abaixo de seu queixo, mas este já
era muito conhecido de todos; era o que pensaram; então
retornaram a casa após saberem o que ocorrerá com os
outros grupos cujos incursionavam a favela e decidiram
eliminar todos da casa por “queima de arquivo”; então de-
pois a última vítima, morto na conhecida Praça Dois, foi
morto por já ter pertencido ao trafico da Rua Porto Rico
próximo a praça Dois, segundo Sirlei Teixeira.

A chacina causou tamanho alarde noticiado na mídia,


também em muitos outros países e, sobre ameaça de inter-
venção Federal, o governo estadual cobrou uma resposta
política e não uma resposta adequada a um processo de
investigação legítimo; a PM cuja não tinha competência
constitucional do ponto de vista legal, já que é polícia
administrativa, passou a liderar as investigações; mesmo
que havendo fortes indícios da participação de policiais
militares, seria a polícia judiciária, a Polícia Civil, cuja

287
Sérgio Cerqueira Borges

teria a legítima competência para investigar, mas esta ser-


viu apenas para legitimar os atos da PMERJ; atropelaram
toda a legalidade dos atos. Então:

288
DISSE O GOVERNADOR BRIZOLA
EM 1993:

“... Diante das monstruosas chacinas da Candelária e


de Vigário Geral, não nos restou outra atitude senão re-
conhecermos que a imprensa internacional tinha motivos
para escandalizar-se e questionar duramente o nosso País
e suas classes dirigentes. Pois se tratou de uma matança
selvagem, desapiedada e inconcebível, de crianças ino-
centes que até se encontravam dormindo.

“Os fatos, por si próprios, nos denunciavam a ação de


grupos de extermínio paramilitares. A resposta de meu
Governo e nossas autoridades, como se viu, foi rápida
e eficaz. Aqueles assassinos estão todos na cadeia e
entregues à Justiça. Vamos prosseguir, puxando o fio
dessa meada, com a certeza de que iremos chegar a cír-
culos importantes, que instigam a discriminação racial, a
segregação, a repressão violenta e o extermínio, no fundo,
para proteger seus insustentáveis privilégios. As investi-
gações e a atuação do Ministério Público, desvendando
aqueles crimes hediondos, provocaram reações mórbidas
e desequilibradas de certas áreas e indivíduos – como
os  sivucas da vida – e alguns empresários como os do
transporte de cargas, que chegaram a ponto de bloquear
a Avenida Brasil para desviar as atenções, no dia em que
se revelavam os nomes daqueles criminosos.

289
Sérgio Cerqueira Borges

“Isto, sem nos referirmos a outros fatos estranhos que


passaram a ocorrer: pedidos de intervenções e uma in-
sistência de certos meios de comunicação em reclamar a
presença do Exército, exagerando notícias sobre o apare-
cimento de armas de guerra nos morros, tudo com o claro
propósito de inverter a situação e restaurar a ideologia da
repressão e da matança....” (Brizola, há 20 anos, apontava
autores da Chacina de Vigário Geral)46

46 http://www.pdt.org.br/index.php/noticias/
brizola-ha-20-anos-apontava-autores-da-chacina-de-vig-
ario-geral

290
TRÊS TRANSCRIÇÕES DAS FITAS:
GRAVADAS NA PRISÃO REVELAM
A CHACINA DIÁLOGOS CUJAS, A
JUSTIÇA PÔDE SEPARAR O JOIO
DO TRIGO, NAS DECLARAÇÕES
DO PROMOTOR DE JUSTIÇA DO
CASO.

Policia Militar do Estado do Rio de Janeiro


Comando de Policiamento do Interior
TRANSCRIÇÃO DE FITA

291
Sérgio Cerqueira Borges

ASSUNTO: CHACINA DE VIGÁRIO GERAL

LOCAL: UPE

VOZ “A” : WILLIAM MORENO (INOCENTE)


VOZ “B “ : SIRLEI TEIXEIRA (CULPADO)

A– Quantas pessoas participaram da situação?


B– Trinta e poucas.
A – Trinta e poucas?
B – Lemos contou trinta e três ou trinta e seis. Foi o
que o Lemos contou na hora.
A– Olha só, lembrar de qualquer coisa, relembrar o
nome.
B– Todo mundo sabe que está estranho aqui!
A– Qualquer coisa.
B– Sabia?
A– As armas de quem está aqui que pode dar balís-
tica...quem do grupo, ...quem do grupo, que poderá dar
balística?
A– Depois que eu te contar isso tudo, só vai sobrar
inocentes (trecho inaudível), (ranger da porta do cubícu-
lo; som de manuseio de folhas de papel).
A– Vamos aqui prá nossa conta.
B– Vem cá!
A– Você ia...
B– ...teve aqui, como é que consegue meu irmão?
A– Agora vamos contar a verdade, quem tá preso que
dá balística? Qual as armas daqui que estão presos que
dá balística?
B– A minha.
A– A tua?
B– Do Betinho, do JOHN
A– Quem é JOHN?

292
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

B– Bicego. Do João Ricardo. Ele tem uma pesada, né


(risadas), dá até medo de pegar nela (risadas).
A– Olha só, daqui, daqui, você se lembra quem está lá
fora e que participou?
B– Vamos botar os que já morreram.
A– Os que já morreram...
B– Cláudio Russão, Felix e Alvim; Baião, André,
Mourão... Conhece Mourão?
A– Eu não, eu não conheço ninguém.
B– Um polícia que era da guarnição dos caras, que
foram do DPO, que (pausa) deles lá. Mas bota aí polícia
do DPO que que eu sei quem é.
A– Polícia do DPO da onde?
B-Do Jardim América, o que sobrou da guarnição,
morreu todo mundo, não sobrou um.
A– Hum!
B– Tava na parada.
A– Ham...fala!
(pausa)
B– Aí o Zeca...
A– Ham...
B– Araújo, Wilson e Luis Carlos “Carequinha”,
Cabo Costa, Cabo Eduardo.
A– Ham....
B– Tem dois que eu sei quem é, mas eu não sei o
nome. Tem um X-9 que é amigo do Wilson, que tava,
que eu não sei o nome. Hã! “Carlinho Jóquei”, mas não
é polícia , “Carlinho Jóquei”. Tem um polícia que foi
com o Cabo Eduardo, ele era do vinte e um. Queto, e se
fodeu. Estou tentando lembrar o nome dele há um ano
e porrada. Conta aí!
A– Treze, quatorze, tem quinze!
B– Luis Testão, Repolhão, Miúdo.
A– Vamos fazer uma geral.

293
Sérgio Cerqueira Borges

B– Quem tava?
A– É.
B– Agora tu sabe, vai só botando: Eu, Lemos, Beti-
nho, Dedeco. Vai vendo aí quem tava, tu sabe.
A– Pô, não me lembro assim.
B– Maginário, Paulinho Alvarenga, Neto...
A– Tá faltando. Agora aqui vamos fazer um apanhado
para montar isso legal. Na casa, na casa, quem partici-
pou na parada das mortes na casa?
B– Miúdo, repolhão, João Ricardo, Bicego.
A– E no bar?
B– No bar foi Betinho e Bicego.
A– Só os dois?
B– O resto eu não sei.
A– E o moleque da pracinha?
B– Fui eu.
A– E o cara da marmita?
B– Não sei. O resto eu não sei primo.
A– Agora o esquema é o seguinte : esperar agora prá
gente fazer um esquema, entendeu? E tentar montar esta
história, tentar montar esta história, que é um quebra-ca-
beça pô, porque sabe o que está foda? O “Pé-de-Banha”
falou comigo que não vai aguentar rapaz. Ontem que...
não está aguentando mais. “– Eu vou falar com a Este-
la”! Eu falei com ele: – que isso “Pé-de-Banha”? Ele fa-
lou prá mim: “– Eu vou falar com a Estela e o caramba!
Você está se precipitando pô, a gente que não foi... porra,
os caras não estão com cabeça prá isso. Oh! O Adilsinho,
como é que está? Bom. Viu Teixeira? Todo mundo tá com
álibi igual ao meu, porra, todo mundo tá com álibi que
estava em casa, porra, meia-noite di, di, di domingo, vai
tá onde?
B– Em casa!

294
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

A– Porra, então todo mundo em casa rapaz! A gente


tem que vê! É um álibi que os advogados de vocês diz que
é fraco! Então tá todo mundo preocupado por causa dis-
so, por que o que vai acontecer? Imagina um dos caras
que entrou na situação, né? Tomarem uma martelada?
Como é que vai ficar esta situação, correto? Ô cara, tem
que ter tempo de tentar botar mais ou menos as coisas no
seu devido lugar, prá, prá depois. Porque daqui, os que
não foram, vamos fazer uma relação dos caras que são
“cabeça-forte”.
B– Tu e o Bigu.
A– “Cabeça fraca”?
B– “Pé” é!
A– Quem mais?
B– Caracas! Todo mundo!
A– Entendeu? Então é aquilo meu irmão, isso, é a ra-
paziada que não foi, porra, eu e o Bigu ainda seguramos
a bola, agora porra, o resto que não tinha cabeça...
B– É «cabeça-fraca», né? Não vai aguentar esta
situação.
A– Pô, tenta lembrar mais aí, pô. Tá faltando nego prá
cacete, não tá não? Você falou que era trinta e seis?
B– Tem dezoito nome que não está preso, pô. É nego
prá caralho (tosse), são dezenove. Tem um cara que eu
não sei o nome dele de jeito nenhum. Só sei de onde
veio, veio com o Zeca.
A– Pera aí, pera aí, conta, pera aí, pô, faltou três.
B– Pô, é foda! também tem nego que eu não conheço
cara. Vamos dizer que tem seis que eu não conheço, que
eu nunca vi na vida, pô! Vamos dizer que tem seis que eu
nunca vi. Tinha muita gente prá eu ficar de olho, o cara
da marmita, é nego prá caralho espalhado pela rua, fora
o que dividiu.
A– Em quantos grupos?

295
Sérgio Cerqueira Borges

B– Dois.
A– Dois grupos caramba?
B– De um lado todo mundo que foi, eu conhecia, do
outro...foda é que foi muita gente.
A– Agora, ninguém ficou tomando conta dos carros?
B– Dos que passou por mim?
A– É, dos carros, dos carros não ficou ninguém toman-
do conta não?
B– Tô tentando lembrar de alguém, mas de repente...
A– E dos caras, e dos caras que tu deu os nomes, será
que algum ainda roda com uma arma que pode dar ba-
lística?
B– É difícil, é difícil.
A– Já tinham desovado? No bar participou?
B– Não ví! Vi Betinho e Bicego. Não sei, não vi. Só
escutei o tiroteio. Já tava chegando lá da esquina, vol-
tando.
A– Na casa dos crentes? Voltou todo mundo?
B– Eu só vi o Miúdo, três dias depois fiquei sabendo
que o João Ricardo me contou que matô todo mundo,
mas eu não vi o Miúdo matando todo mundo não.
A– Quem matô todo mundo? O João Ricardo?
B – Miúdo! Miúdo me contou que “Repolhão” tava,
mas eu não vi não.
A– Hã, só te contaram?
B– Eu revistei a família toda. Tava naquele embuxe,
Miúdo entrou sem capuz, Maginário entrô, aí saí, (tos-
se), virei a esquina e fiquei conversando com o Neto.
Aí Miúdo voltou, eu escuto o Miúdo falar que tem que
matá todo mundo, porque todo mundo me viu entrar
sem capuz.
A– Que você respondeu? Que você falô prá ele então?
B– Aí não. Aí o Miúdo falou: – pô, realmente. Ele
errô porque matou todo mundo no bar. Sabe, ninguém

296
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

conseguiu segurar, Cláudio, ele tá matando todo mundo


no bar. Por isso que nego sabe que eu tava na casa.
A– Por isso que nego conta, conta isso?
B– Por que você não conversa abertamente com o
João Ricardo?
A– Não, não tenho intimidade com ele prá isso.
B– Mas se ele converssasse contigo ele ia te falar.
A-. Ele sabendo que eu não estou na situação, enten-
deu? Sabendo que eu não estou na situação, ele vai sem-
pre se preocupar e não vai entender.
B– Aí eu entrei no bar e... caralho!!! E eu ia conferi
aquele cara que você tomou conta. Eu vi ele só com um
tiro no peito. Mas ele não se mexia. Aí o Neto : vamos
embora, vamos embora que tá todo mundo morto.
A– Ele contou no hospital que se fingiu de morto.
B– Eu ia chegar pertinho dele porque eu desconfiei.
Eu vi ele com um tiro só, cara! O tiro foi aqui assim.
A– Não conferiu ele não?
B– Não conferi.
A– Da, da pracinha?
B– Da pracinha fui eu, eu que matei, eu. O Carlão
falô prá mim assim: – esse cara tava na parada!, Aí o
que eu fiz : saí estalando ele, ele caiu com eu estalando,
estalando. Aí o que que aconteceu... parei com a pistola
aberta, porra.
A– Tava com raiva mesmo!
B– Porra!
A– Mas isso aí. Agora dá um tempo de pensar numa
fórmula calculada. Agora na casa.
B– O João Ricardo é que me contou. Ele veio embora
junto comigo. Foi lá em casa junto comigo. Eu botei
gasolina no carro dele, ele é que me contou que : – tinha
uma garota gostosinha dormindo de costa. Aí Miúdo, aí
Miúdo me falou que ele foi na parada e eu na minha.

297
Sérgio Cerqueira Borges

A– Então quem matou a garota então?


B– Foi ele! Eu posso falar com ele, ele me contou,
mas não tinha garota não, pô. Era toda gostosinha!
Não era criança não, porra. Era uma garota já fodendo,
porra! Criança não morreu nenhuma e eles falam aí:
criança prá caralho! Eu não compreendo.
A– Porque eles falam, morreu criança?
B– Pô, pô, eu não voltei porque eu não tinha coragem
de matar, eu não voltei porque eu não tinha coragem de
matar. Por isso eu não voltei. Pô, tinha uma coroa gor-
dona, coroa gordona.
A– Pô, eu vi aquelas fotos. Eu fiquei chocado mané.
Eu falei : meu Deus do céu! Só velho e crianças, crianças
não, é, é, é só mulher, rapaz. Mas mataram muita mulher,
tu não viu no negócio da, da denúncia? Como é que só
tem nome, só nome de mulher? Morreu mulher prá ca-
ramba!
B– Porque nego matou mulher em outra casa.
A– Hã, deve ter matado.
B– Porque mulher dentro da casa só (tosse) tinha
umas duas ou três (tosse).
A– Vagabundo não morreu nenhum, só um?
B– Só um também.
A– Só um?
B– Só um, e, e tinha algum infiltrado naquele bar.
Naquele bar tinha uns caras estranho prá caralho!
A– É!
B– Aquela história que o Jadir contô é verdade.
A– Qual?
B– Eu e o Baião entramos, pedimos documento de
todo mundo, ví documento e saí.
A– Hã.
B– Quase que eu tirei o capuz prá tomar um limão
brahma. Aí gritaram: não tira o capuz não! Porque se

298
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

eu tiro o cara me reconhece lá no, no... Aquela história


que ele conta é verdade mesmo. Entrô eu e o Baião, en-
tramos, revistamos todo mundo, demos geral, todo mun-
do mostrou documento.O Baião falou : vamos embora,
todo mundo trabalhador. Aí saí! (pausa). Entendeu?
A– É nisso que tem que pensar, cada cabeça pensando,
a gente tem que pensar também. Agora uma fórmula de
tirar os inocentes e de tirar vocês também di, di culpa-
do, entendeu? Tirar os inocentes (barulho) culposo pelo
que eu tô vendo, que os caras que vem conversar comigo,
o “Pé-de-Banha” veio conversar ontem isso comigo de
novo, cara. Aí, esse negócio tá custando; ele disse que
não tem laço de amizade com ninguém, não tem laço de
amizade com ninguém e aí a família em primeiro lugar.
Falei: ô rapaz, calma! Não faz assim! Fica calmo! (pau-
sa). Hã, que nada...
(pausa)
B– Você acha que já deve ter contado para mulher
dele?
A– Deve ter contado aos poucos, no papo. Por isso que
eu quero dar uma solução, fica calmo! Teixeira tá com
uma solução. Aí ele perguntô se você já tinha ido falar
com o Neto a respeito daquela situação. Aí eu falei: se
eu falar, e ele falô que o Advogado dele garante que vai
absolver ele. Ele sendo absolvido, vai absolve todo mun-
do, entendeu? Agora eu vou falar : o Teixeira tá com uma
solução, não vou entrar em detalhes. O Teixeira tá com
uma solução aí, entendeu? Que vai beneficiar a gente que
não foi, a nós que não fomos. E vai beneficiar alguns,
entendeu?
B– Não, não fala que sou eu não, que ele fala demais.
A– Vou falar um outro aí. Não, não vou falar nem ou-
tro. Tem um aí que está pensando numa solução aí. Até
mês que vem já vai tá com uma solução de felicidade,

299
Sérgio Cerqueira Borges

entendeu? Que a situação é essa. Tenta lembrar de mais


nome aí, que tá faltando nome.
B– Mas eu não conheço, rapaz. Se me perguntar, tan-
ta gente foi naquele dia. Por que você não conversa com
Lemos e Betinho?
A– Eles não conversam, assim abertamente comigo.
B– Mas eles não conversam, cara?
A-Eles não conversam comigo abertamente a respeito
disso. Com esse bondão todo só podia ter acontecido isso.
B– Mas foram atitudes isoladas cara.
A– Não tavam cheirado não?
B– Hã, não.
A– Bêbado?
B– Hã, bêbado tinha. Bêbados, né?
A – Mas cheirados não tavam.
B– Cheirados não tinha. Porra, senão eles iam ficar
de bobeira.
A– Pô, os caras em sã consciência não pode fazer isso
rapaz, muita gente. Viu o negócio que saiu no jornal?
B– Não.
A– Negócio da ONG, do Japão, que vai participar do
julgamento?
B– Hã, meu Deus!
A– Comparando a chacina de Vigário Geral com a
Bomba de Hiroshima.
B– Hã, vai tomar no cú!
A– Pô, tô falando prá você, prá tu ver como vai ser
esse julgamento. Imagina tu vê, nego, vai aguentar uma
pressão daquela : ver japonês, ver africano, ver alemão,
ver fotos...
B– Pulá fora é a melhor coisa que tem. Acho melhor
pular fora. É a melhor coisa que tem.
A– Teixeira, eu não posso ir Teixeira. Eu não tenho
nada a ver, os caras também não têm nada a ver.

300
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

B– Quem?
A– Os caras que não foram, tem que tirar eles todos
também.
B– Mas se a gente tirar eles todos amigo.
A– Os caras que não foram.
B– Mas se a gente tirar eles todos, aí sobra quem foi.
Aí a gente sai caguetando quem foi, William!
A– Os caras que não foram, não podem segurar essa
pica. Essa banana, entendeu? Tem que tirar os caras que
não foram: eu, Marques, Adilson, Borjão, é, é “Banha”,
Saraiva, Hélio, Marcão, Marcão, pô, Marcão, coitado, tá
sofrendo prá caramba aí. Tem que tirar essa rapaziada
aí que não foi, Borginho, Vilário, Borginho, Vilário que
também não tem nada a ver com isso...
B– Quer saber de uma coisa? Eles não vai aceitar de
jeito nenhum, cara. Então, quando eles falam em tirar
Borginho e Vilário, eles..
A– Pô, os caras não têm nada a ver com isso.
B– Quando falar em tirar Borginho e Vilário eles pu-
lam!
A– Por causa do Larangeira, né?
B– Por causa do Larangeira, por causa da touca, por
causa do fuzil. Eles não vão acreditar nunca, William!
A– O Larangeira foi prejudicado com isso prá caram-
ba!
B– I como! É como querer tirar o Neto, o Bicego, eles
não vão acreditar.
A– Porque eles estão muito pixado no processo?
B– É. Borginho e Vilário. Luciano eles até tira.
A– Luciano também não tem nada a ver com isso.
B– Luciano, eles até tira. Mas, Borginho e Vilário eu
acho meio difícil. Eu, ô, ô...
A– Eu vou pá, vou levando eles na idéia. Eu vou ten-
tando tranquilizar eles, entendeu? Porque na rapaziada

301
Sérgio Cerqueira Borges

que não foi eu tô ali, eu tô no meio deles. Eles confiam


em mim também. Então eu falo prá eles: meu irmão, fica
calmo! E vou tentando levar assim, até chegar ao deno-
minador comum.
B– Dá?
A– Dá, pô! Você não viu o Dr. Júlio falando? Mais uns
dois meses para sair o libelo, até novembro deve sair o
julgamento. Ela vai ter que dá apoio. A princípio, Neto
vai recorrer, né?
B– Vai?
A– Sei lá, o pessoal tá falando que ele vai recorrer
agora.
B– O Neto vai sentar rapaz!
A– Tão falando que Neto vai recorrer.
B– Ele tá de brincadeira.... Então é comigo mesmo!
Então com todo mundo que eu for falar deixa berrar,
foda-se!
A– Que isso cara?
B– Deixa berrá, foda-se. Se chegar lá a gente fala
que foi eles que foram e a gente não estava aguentando
a pressão, mandamos eles confessar lá!
A– Aí quem foi...
B– Vai falar quem foi...
A– Foi...porra, sacanagem!
B– Aí vai ficar um clima ruim prá caralho!
A– Ô nego, bancando essa cadeia dois anos, não é
meu irmão? É falta de consideração também, né? E a
consideração?
B– Quer berrar, deixa berrar, foda-se! Não vou mais
me ferrar por causa de ninguém não! Me ferrar por
causa disso. Matava quem foi com eles e a gente estava
desesperado fazendo pressão, e aí eles fizeram primei-
ro o que a gente estava pensando em fazer. Quer dizer,

302
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

olha, como é que a gente vai ficar numa situação pior


ainda. Na dúvida?
A– Certo (tosse), pior que é. Tem que chegar à con-
clusão disso aí, tem que chegar à conclusão disso aí, mas
também não pode ser como os caras quer fazer não. Sa-
canagem os caras fazer isso! Nego, com dois anos, ca-
samento que já acabô, mãe de nego que já morreu, e a
mãe do Nicolau taí prá morrer. Imagina a mãe do Nicolau
morrendo aí na cadeia, entendeu? Nego tem que ter con-
sideração também. Não pode ser assim também não; blá,
blá, blá, porra, aí, é gente prá caramba lá fora. Cinco,
cinco mil reais do Advogado aí. Vou ter que vender meu
carro, vender meu carro! Fiquei sem nada, perdi a mu-
lher, perdi emprego, perdi tudo, por uma coisa que não
fiz. Fomos prá aquela 26ª DP onde tivemos aquele mas-
sacre. E há seis meses sem ter uma relação sexual, você
banca isso aí?
B– Não.
A– Pô, tô seis meses sem ter uma relação sexual.
B– Pô, sabe o que o Adilsinho falou prá mim ontem?
– Teixeira, o que mais me irrita é que a gente vai falar
com o cara, diz que não tava, se eu tiver que berrar, eu
só tiro você.
A– Porque você teve um comportamento de homem.
B– Eu falei pros caras: olha a idéia deles, aí deixa
berrar. Adilsinho, eu tô aqui conversando contigo, mas
se você reunir todo mundo e falar : o Teixeira me contou
eu falo: é mentira!
A– Você tá bem na simpatia dos caras!
B– Nós somos malandros, enquanto eles estão, não,
na, na, compreendeu?.
A– Deixa berrar. Deixa berrar! Aí bum, aí não adian-
ta, aí não adianta mais, não adianta mais nada. Você,
pelo menos vem aqui, conversa comigo, tá conversando

303
Sérgio Cerqueira Borges

com o Adilsinho. Tem que começar a conversar com o


Nicolau, Nicolau também é importante. Troca uma idéia
com o Marques, o Marques...Já conversaram, o Arlindo
e o Marques.
B– Conversaram!
A Chegaram a um acordo?
B– Chegaram. Não sei qual mas chegaram.
A– O Arlindo tá, tá invocado com o Marques.
B– Eu tava vendo a hora que eles iam berimbolar.
A– Por que ele tava revoltado com o Marques?
B– Não sei.
A – Tem que esperar. Tua esposa vai chegar agora?
B– Só dez e meia. Chega dez horas dez e meia.
A– Dez horas.
B – Meu irmão, aí eu fico numa situação difícil para
caralho
A– Por que você tava na situação, né?
B– É, é, tem mais caras, porra, não têm o mesmo
pensamento que eu porra!
A– Você tava com um pensamento mais consciente.
B– Porra, enquanto de eu tô aguentando, porra, será
que os caras que estão lá fora, dá para livrar todo mun-
do, porra, mas ninguém se preocupa. Tá arriscado nego
vazar, uma porra dessa e mandar um toque lá para fora.
Rapaz, que eu tô dando eles prá você e eles fazerem re-
presália contra minha família.
A– Eles sabem onde tu mora?
B– Porra, todo mundo sabe, porra!
A– Lá na casa nova?
B– É!
A– Que situação!
B– E me levam “de ralo” junto com vocês.
A– Vai a gente que não tem nada a ver.

304
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

B– Vai eu porque traí a pátria. Olha a responsabili-


dade! Pelo jeito que os caras tão lidando comigo, então
eu não fui. Tu foi? Não! Então deixa berrar. Isso não é
resposta prá dar prá mim, é?
A– Pagando embuxe prá vocês mesmo. A rapaziada
que foi mesmo, pagando embuxe.
B– Pagando, cagando e andando...
A– Já falou com quem?
B– Paulinho Alvarenga falou comigo assim : irmão,
já falei com o Borjão. Irmão, ele veio falar comigo, eu
falei : meu irmão, não tá aguentando, eu falei : meu ir-
mão, não tá aguentando, vai ser condenado, berra essa
porra! É um cara que eu não tenho confiança, não te-
nho a confiança que eu tenho em você. É um cara que
se tiver que chegar lá para o Pinheiro : – o Teixeira que
me contou aquilo, aí, olha só, não tenho, não tenho con-
fiança. Chega lá fora isso, primeiro exemplo que nego
vai dar : passar minha família toda.
A– Nego passa a família mesmo?
B– Passa, porra! Aí pega um filho-da-puta desse e
passa a dele também. É, os caras já tão fudidos, os caras
já tão fudidos.
A– Os caras estão na ativa ainda?
B– Tão. Eles não vão vir.
A– A maioria é do 9º BPM?
B– É, eles não vai vir ficar pensando que eles vão
vir. Eles não vão vir, eles vão ralar porque eles já têm o
exemplo nosso. Eles vão ficar com a vida deles fudida,
mas fode a gente também.
A– Vão ficar tudo foragido?
B– Vão ficar como foragido. Eu, William, vou ti falar
sinceramente, mas se eles continuarem com o mesmo
pensamento, eu vou lavar as mãos, vou lavar as mãos e
vou contar com a sorte. Vou contar com a sorte. Se nego

305
Sérgio Cerqueira Borges

berrar, eu vou chegar lá e vou ficar tranqüilo. Eu não


estava. Eu até entendo o desespero do companheiro.
A– Você não fez mais contato com os policiais que tra-
balhavam com segurança, eles são firmeza mesmo?
B– Qual?
A– Os da Cabine.
B– Meu pai teve contato com eles. Tão trabalhando
no PPC de Jardim América.

FIM

Policia Militar do Estado do Rio de Janeiro


Comando de Policiamento do Interior
TRANSCRIÇÃO DE FITA

ASSUNTO: CHACINA DE VIGÁRIO GERAL

LOCAL: UPE

VOZ: “A” : SÉRGIO CERQUEIRA BORGES (INOCEN-


TE)
VOZ “B” : SIRLEI TEIXEIRA (CULPADO)

A– Teixeira, Teixeira, (...) nêgo não tão passando ba-


tido.
B– Porque você está falando isso?
A– Porque eles não tomam uma atitude na situacão.
Agora eles pensam que estão passando batido?
B– Não.
A– Não estão passando batido.
(pausa)
A– (...). Me dá os nomes dos caras que estão lá fora,
me dá os nomes dos caras que estão lá fora (...) enten-

306
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

deu? (...). Por que quem pode se levantar em júri e falar


quem foi na história? Quem não foi...
B– Mas quem não foi Borges, ouviu falar cara, quem
não foi ouviu dizer...
A– Tudo bem,o Ivan ouviu dizer e tá valendo.
(pausa)
A– E o Neto? Fala o quê? O que falou pra você?
B– Que vai a júri, que não vai recorrer, que o Mauro
do Couto disse que tira ele...
A– Se nêgo detonar ele, ele nega?
B– Nega...
A– Mesmo que ele seja condenado?
B– Não, aí não entraremos neste detalhe, dele ser
condenado...
A– Hã, falaram prá mim que tinham entrado nesse de-
talhe...
B– Não, ele falou que o Mauro do Couto tira ele, e o
Mauro do Couto tirando ele acaba com este processo, e
é verdade...
A– E tu acha que o juri não vai condenar o Neto?
B– Porra, meu irmão. Aí se o júri condenar o Neto
a gente pode chegar perto dele para falar alguma coisa
com ele, mas agora não adianta se precipitar...
A– Ele, ele, assumindo, ele, mais os quatro mais fala-
dos, Neto, Miúdo, Marginário...
B– Miúdo...
A– Tá foragido. Quem mais?
B– Só são eles quatros mais falados...
A– Só eles quatro... eles além de querer levar eles,
querem levar quem não foi., o que é pior. Eu também fui
falar com ele. Ele falou?
B– Falou.
A– O que que ele falou?

307
Sérgio Cerqueira Borges

B– Falou apenas que você teve uma conversa com


ele(...).
A– Eu falei: Neto, porra Neto, vamos ser sinceros... um
processo desse, com dois anos, os promotores estudando
o processo e ninguém vai ser condenado? (...). Nem que
seja na covardia, mas vai ser. E a possibilidade é você os
três mais falados serem “martelados” (...). Aí ele falou: :
Eu estou programado para ficar mais seis anos na cadeia.
Ele está programado seis anos porque ele fez esta merda,
ele foi lá...
B– Agora se ele for condenado, a gente tem como
chegar prá ele: Neto bate esta porra no peito e vai levan-
do fulano, ciclano, beltrano. Não, ele vai tirar todo mun-
do, ele vai botar os caras que estão lá fora e mais nada
(pausa), e a gente te tira desta porra. Porque o cara já
vai se vê perdido, setecentos anos, ele vai se vê perdido:
você vai dá o nome destes caras que estão lá fora e a
gente te tira...
A– Tudo bem, a porra lá Teixeira...
B– Também não sei se vai adiantar não...
A– Tudo bem, a porra lá saiu de controle, mas será que
não tinha um prá segurar...? Porra, brincadeira, entrar
numa porra de uma casa e matar uma porção de, de ...
B– Ainda vieram falar que fui eu que matei todo
mundo lá. Eu aqui ainda escutei esta conversa fiada...
A– Quem foi?
B– Não sei...
A– Se eu for falar, tenho que ter certa propriedade na
coisa...
B– Eu não sei. Sei que Miúdo foi lá, o resto eu não
posso falar, que eu não sei.
(pausa)
A– Aí foi aquela história mesmo, entrou sem touca?
B– “Caô”, muita coisa que este Ivan fala é besteira..

308
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

A– Mas muuita coisa ele fala, que tem realidade!


B– É.
A– Eu fico pensando aqui: ai meu Deus do céu, olha
só, é um absurdo!
B– É um absurdo, eu também acho que é um absurdo,
mas o que eu vou fazer? Aí segundo absurdo: ir contar
tudo para o Ivan, pô, que que eu vou fazer? Em que que
eu errei aí? Porra.
(pausa)
B– Agora ele não tem essa possibilidade. Falou pra
mim: não tem essa possibilidade...
A– Chegou a falar isto com ele, dele assumir?
B– Não. Ele falou: os caras tão querendo que eu as-
suma. Eu falei: não tem essa possibilidade. (pausa).Mas
por quê Neto? Não porque o Mauro do Couto me tira,
e tirando acaba o processo. Ivan diz que foi eu quem
contou pra ele...
A– Aí ele também falou isto pra mim, aí eu falei: ô, ô
Neto, tudo bem, você tá falando isso, agora tá todo mun-
do pronunciado, com exceção dos dois que saíram, que
foram impronunciados. Aí eu perguntei: se todo mundo
for martelado, os culpados vão tirar os inocentes? Você
vai chegar lá e falar quem não tava? Aí ele falou: eu nem
penso nesta possibilidade. Ha, Neto, você tá brincando,
você tem que pensar nessa possibilidade, você tá achan-
do o quê? Hã, vai tirar todo mundo, aí não tira... é outra
coisa,... porra, você viu estes merdas que estão lá fora? É,
eles mandaram um recado...
B– Isto eu estou ouvindo falar...
A– Neto mesmo que mandou chamar ele. Aí o Neto
veio aí...
B– Baião?
A– É. Aí o Baião veio aí, aí conversou com ele e de-
pois... Acho que o Neto tava falando assim: tem que sus-

309
Sérgio Cerqueira Borges

tentar a família do Nicolau, desses caras aí; estes caras


estão passando uma privação danada. E é mesmo, estes
caras tão passando uma privação dandada. Estão quie-
to, sabendo da situacão, e não falam nada. Aí, ele falou
assim: meu irmão, eu falei com o “Zeca Bundinha”. Nem
sei quem é esse F.D.P. Você sabe quem é?
B– Sei.
A– Aí eles falaram assim: é tudo com eles mesmos.
Agora tu vê...
B– Vai tudo sentar na boneca!
A– E esse é tudo com eles mesmos. Teixeira, não é com
a gente não. Eles são burros, eles são burros, porque eles
estão com o rabo preso é com vocês.... Não é como a gen-
te não, porque a gente ouviu falar, né? Vocês sentando em
setecentos anos, será que não passa na cabeça deles que
quem foi na situação vai trazer eles também? Será que
eles estão pensando que estão passando batido?
B– Aí, pois é. Aí os caras mandaram um recado des-
tes, aí você ou o Nicolau, ou qualquer um, senta no
banco dos réus, resolvem a berrá, pô, vai berrá quem já
está sofrendo a um ano e nove meses? Não, vai berrá os
F.D.P. que mandaram um recados desse. Agora é o que
eu te falei meu irmão, vai berrá os caras no ouviu falar:
porra excelência, eu ouvi falar que estes policiais todos
foram...
A– Mas é por isso que eu estou falando, ô Teixeira. De
qualquer maneira, no ouviu falar, no ouviu falar, tu me dá
estes nomes, que eu quero ficar com estes nomes...
B– Quando chegar a hora certa, eu vou te dá...
A– Todos eles...
B– Vou te dá de todos eles...
A– Todos eles.
B– Fica tranqüilo, não comenta isso com ninguém. E
não é pra você chegar no júri e falar que foi eu que dei

310
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

os nomes dos caras. Os caras matam minha família, que


eles conhecem minha família, que de vez em quanto, vai
lá em casa e o caralho...
A– Não, não, isto é responsabilidade...
B– Quando chegar a hora certa eu vou te dá...
A– Isto é responsabilidade...
B– Agora quando você estiver conversando com estes
caras que tão querendo fazer isto, você tem que botar
isto na cabeca deles...
A– Eles não conversam isto comigo não rapaz. O que
a gente tá conversando aí é isso: a gente se reuniu e o
caramba, quem não foi nesta porra, se reuniu: o que nós
vamos fazer? Que a gente tem que pensar, né?
B– Lógico.
A– Aí que fim que o pessoal chegou: conversar com
o Neto, prá ele assumi, prá ele assumi e levar estes três,
quatro nomes, e botar todos estes nomes que estão lá
fora...
B– Hã, eles só estão com estes pensamentos. Eles não
estão pensando em foder quem está aqui sofrendo prá
caralho não, né?
A– Que eu tenha ouvido falar alguma coisa não, mes-
mo porque todo mundo sabe que morre (pausa) agora...
B– Agora, quando tiver uma reunião dessas, você tem
que falar Borges (pausa). Meu irmão, eu acho...
A– Se eu tiver presente, tudo bem (pausa). Coitado do
William, William tá maluco!
B– Qual?
A– O William. O álibi dele é que estava com a namo-
rada dele...
B– Mas o William é firme!
A– Hã.
B– Não precisa se preocupar que o William é firme.
O William Moreno?

311
Sérgio Cerqueira Borges

A– Não tô querendo dizer dele querer, dele querer fa-


lar nada não. O que eu estou falando é o seguinte: é que
ele está com a cabeça quente de sentar no Tribunal do
Júri sem testemunha nenhuma. Ele é firme, mas é um cara
que não tava...
B– Sei disso.
A– É um cara que não tava. Agora tu vê: ele é firme
até quando? Sentar lá e “bumm”, Neto é martelado, e
“bumm”. Ô Teixeira! Ele é firme mas, é,é,é, mas este ne-
gócio é muito relativo. Não vai aguentar uma martelada.
B– Nem eu sei se vou aguentar lá tomar uma mar-
telada (...). Imagine você, se tivesse saído um culpado
nessa impronúncia? Como é que nego tava aí?
A– Saído o quê?
B– Algum culpado nessa impronúncia.
A– Nessa impronúncia?
B– É, porra! Imagine como nego não tava aí,
querendo foder o cara que saiu e o caralho (pausa), em
vez de foder quem tá lá fora e mandado estes recados?
Sabe o que é? É medo! Vai mandar um recado desse lá
prá fora, vai, vai, a gente não sabe como nego vai reagir
a isso também, Borges.
A– Olha só, dois tipos de ameaças de quem não foi
tá sofrendo: você tava na Água Santa e não tá sabendo.
Quando o William saiu daqui, o Neto, o Paulinho Alva-
renga e o João Ricardo imprensaram o cara e ameaçaram
o cara lá dentro do cubículo. Você não sabia disso não?
Imprensaram o cara lá dentro do cubículo e falaram: meu
irmão, olha, tu tá saindo deste processo, esquece esse
processo que tu tem família lá fora. Porra! Se fez isso
com ele faz isso comigo, faz isso com todo mundo que não
foi. Quer dizer que eu estou saindo impronunciado, vai...
B– Mas por que eles fizeram isso com o Williamm? O
William tava pensando em fazer alguma coisa...

312
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

A– Não! É medo do William saí lá fora e falar quem


foi, quem não foi, tá entendendo? E outra coisa: não fa-
laram diretamente.(...). Falaram para o William também:
você não se esquece que aqui, que aqui é pouquinho que
está aqui dentro, mas a maioria está lá fora e vai a famí-
lia tudo para o “rococó”.
B– Que isso rapaz!
A– Que isso? Não falou assim, diretamente, mas falou:
você tem família lá fora...
B– William falou isso?
A– Quem?
B– O William maluco...
A– O William maluco falou isso...
B– Tá com medo! Logicamente.
A– Quem não tá com medo? Agora tu vê, ô Teixeira...
B– O clima tá pior do que eu pensava...
A– Tá pior do que você pensava, porque eles estão
ameaçando meu irmão. Então, quer dizer que já estou me
sentindo ameaçado. Ô Teixeira, pô, quem não foi nesta
porra já está se sentindo ameaçado. Por isto é que está
este clima assim. Quem não foi está se sentindo ameaça-
do.
B– Não é para ficar assim não...
A– Já pensou, rapaz, estes caras mandarem fazer al-
guma coisa com a nossa família? Pô, e esses caras, pô,...
nego falou que estes caras que foram, lá fora..., esse nome
que foi falado, esse tal de Marcelo Repolhão...
B– Eu não conheço não...
A– O cara que é ex-policial e o caralho, um cara que
é viciado...
B– Eu não conheço ele não...
A– O que que este cara tem a perder?
B– Nada.
A– Porra! Mata minha mulher e minha filha (...).

313
Sérgio Cerqueira Borges

B– É por isso que eu estou te falando porra! Vaza


uma porra que eu estou te dando esta lista, manda
passar todo mundo lá...
A– Não vai vazar, mas eu quero os nomes destes caras
todos lá de fora, porque eu estou tirando uma cadeia de-
les há quase dois anos...
B– Para no júri você detonar eles?
A– Hã?
B– Prá no júri você detonar eles?
A– Não, depende. Eu quero esta comigo como um
trunfo, ô Teixeira. Eu quero esta comigo, porque, porra,
chega no júri, senti que a martelada...
B– Agora eu não faço nada nas costas de ninguém.
Eu vou chamar os caras que estavam, vou falar, vou
defender a situação de vocês, que são inocentes. Todo
mundo sabe e vou falar: meu irmão, é o seguinte: se
os caras berrá esta porra, eu vou dá o nome, a lista de
quem tava nesta parada lá fora, para os caras detonar
eles. Agora, não aceito que detone ninguém que esteja
preso aqui (pausa)...
A– Tá bom, deixa eu te falar uma coisa: você vai falar
com eles, da gente, não vai dizer o Borges...
B– Não, não...Borges, não vou dar nomes aos bois.
Vou falar meu irmão: eu vou dá a lista dos caras que
estão lá fora, pro primeiro que for berrá esta porra, prá
não botar quem está aqui dentro, sofrendo junto, prá
trazer cara nova, modificar (pausa) que de repente dá
certo, de repente vai ficar todo mundo preso, mas de re-
pente dá certo. Tem esta hipótese também: você não des-
carta esta hipótese não (pausa): você detonar estes caras
que tão lá fora, ficar eles, ficar a gente e todo mundo
preso. Não discarta esta hipótese não, que pode aconte-
cer, do jeito que o Pinheiro e o Assayag são F.D.P.

314
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

A– Ô Teixeira, eu já estou desesperado. É setecentos


anos! Eu não vou querer mais viver! Eu vou ser since-
ro prá você, você sabe que eu tive oportunidade de fugir
na POLINTER prá cacete. Eu nunca fugi rapaz, porque
eu não sei...Eu não vou viver como bandido rapaz, fo-
ragido! Eu não tenho coragem de praticar um crime, de
assaltar nada. Eu não tenho coragem disso, e como que
um foragido vai arrumar trabalho? Eu não vou assaltar
ninguém, eu não vou, eu sempre fui polícia, eu não vou
ter coragem...
B– É o que eu estou falando: eu não faço nada nas
costas de ninguém, mas tamvbém não vou falar que é
você...
A– Tá, tá...
B– Vou falar: meu irmão, o primeiro que falar prá
mim: Teixeira, eu vou berrá esta porra, eu vou falar:
pera aí irmão, eu vou te dá uma lista dos quinze que
estão lá fora, e você vai falar dos caras e não vai botar
ninguém que está aqui dentro. Vou falar isto prá eles
mesmos...
A– Nego tá falando que não são quinze não. Nego tá
falando que são quase trinta...
B– Quantos são?Aí Borges, eu não sei, aí eu não sei.
Posso puxar o raciocínio, perguntar a um, a dois, que
eu também no, no, saber mais ou menos. O negócio de
trinta e tal, não sei...
A– Porra cara!
B– Não sei, Borges. Porra, se eu tô te falando que vou
dá, vou te falar todo mundo que eu sei, caralho!
A– Tá legal!
(pausa)
A– Pior que foi tanta gente, que você viu quem é quem!
B– Não sei quem estava...

315
Sérgio Cerqueira Borges

A– Meu irmão! Que coisa! Eu já estou desesperado,


eu, eu...
B– Os caras do DPO são inocentes, Sfair, Campos,
Gil. Agora, eu acho que a gente tem que esperar, Bor-
ges, o Neto ser julgado. Chega lá e berra todo mundo,
são F.D.P. e tem mais é que se foder mesmo. Mas quem
garante que vai soltá a gente, vai soltá vocês e vai pren-
der eles? (pausa). A menos que seja feito um acordo.
(pausa).
A– Há uma possibilidade...
B– Se for no pau mesmo, no pau tá arriscado a não
soltar ninguém.
A– Eu estou evitando de até descer. Eu fico mais aqui...
B– Eu também não vou descer mais não, porque todo
mundo é meu amigo e eu não tô sentindo lealdade e eu
acho uma sacanagem botar quem está aqui dentro. Eu
aceito a manifestação dos inocentes, mas eu acho uma
sacanagem botar quem está sofrendo aqui uma porrada
de tempo, tendo uns caras desses lá fora prá detonar,
isso é, se alguém quer detonar...
A– É o que eu tô falando. Eu, sinceramente, não ouvi
nada desse negócio de detonar. O que nego tá falando é
isso: força ô Neto! Miúdo está foragido, foi, Bicego tá fu-
dido, foi, entendeu? Estes caras assim, Maginário, entra.
É um nome que, não adianta tentar...
B– Tá cotado prá porrada...
A– Tá cotado prá porrada...
B– Não vai aceitá não!
A– Não vai aceitá não! Estes quatro nomes, mais estes
caras que estão lá fora, que dá mais ou menos os trinta ou
trinta e poucos que o MP...
B– Não dá esse número não! Não dá isso não! (...)
.Mas a gente bota, tem gente que já morreu, tem uma
porrada de gente, a gente vai botando...

316
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

A– Você vê que a judiaria é tão grande que ameaçaram


o cara, fica ameaçando a nós, “entre ásperas”. A gente se
sente ameaçado e fica a família ameaçada. Daqui a pou-
co há um “zum, zum, zum” que o William tá falando...,
eles estão bolados, né?
B– Claro!
A– Eles estão bolados, querem detonar, querem falar,
querem não sei o quê, quem não sei que lá? Daqui a pou-
co manda matar a esposa de alguém, porra, meu irmão!
B– Porra! Isso aí não! Isso aí não concordo. Se vier
falar esta parada prá mim dá uma merda e o caralho.
Fazer uma parada dessa, eu num..., não vou fazer não,
cara. É o que eu estou falando: vocês já estão sofrendo
cara, pelo crime que não cometeram. Então, tem que ter
consideração por vocês, como vocês têm que ter com a
gente. A gente tá passando a mesma coisa que vocês es-
tão passando, embora tenha uns caras lá fora que man-
daram estes recados. Eu não estava aqui, mas eu soube
que mandaram este recado. É tudo com eles mesmos!
Ha, é tudo com eles mesmos ( som de palmas das mãos
). Aceito, agora (pausa), tem que ver se o MP vai aceitar
soltar todo mundo aqui e prender mais policias. É isso
que eu estou te falando, é uma coisa quase absurda, ô,
ô Borges...
A– Corre o risco deles prenderem estes que estão lá
fora...
B– Tu não conhece as pragas meu irmão...
A– Os que estão aqui dentro e ainda os inocentes de
“ralo”...
B– Vai tudo de “ralo”! E aí? o Pádua, se você não
sabe, foi assim: fez um acordo para dá o Bispo. Desen-
terraram os corpos e foi falando e eles dando garantia
total que iam tirar ele. Na hora eles disseram: infeliz-
mente você vai ter que sentar no banco. Também tá pre-

317
Sérgio Cerqueira Borges

so e não sai nunca mais (pausa). E aí? Adiantou deto-


nar o cara? Veio para a mesma cadeia que o cara. Tá
aí, numa situação difícil. Eu li o depoimento, realmente
detonou e tá preso junto com o cara. Então borges, não
é tão fácil como a gente pensa. Tu acha que eu já não
pensei em tirar a gente e vocês disto? Já pensei fazer
acordo com o MP e o caralho? Mas tenho medo destes
caras, são traíras (pausa).
A– É foda!
B– Botaram a gente numa situação Borges...
A– E, e, são uns merdeiros, né?
B– Botaram a gente numa situação, Borges, (...) difí-
cil prá caralho meu irmão, difícil prá caralho...
A– Porra! Não é sacanagem não Teixeira: eu morando
numa porra de uma favela, meu Deus do céu! Passando
o maior, porra, eu nunca apontei uma arma para assaltar
ninguém e tá passando por uma situação dessas. Eu esta-
va vendendo comida lá...
B– Meu irmão, a gente era polícia prá caralho na rua
e estamos que nem vagabundo, encarcerado. (...). Mas
o que eu posso fazer meu irmão ? (pausa). Até eu fiquei
com raiva do Neto, fiquei irado com o Neto, mas vou
fazer o quê com o cara? O cara já fez a merda...
A– Parece que não foi só ele não, né? Você não lembra
do depoimento do Ivan?
B– Mas aquilo ali é mentira! É mentira!(...).
A– Por quê ?
B– Aquilo ali o Brum, os promotores mandaram ele
falar no outro depoimento. Isso é mentira!
A– Que o Maginário teve com ele?
B– É, isso aí é mentira. O que houve é que o Neto
foi conversar com ele mesmo ele errou até o dia , mas
o que houve foi isso mesmo. É mentira (pausa). Agora
tudo que a gente for fazer, tem que ser muito pensado,
muito orientado, que pode tudo se voltar contra a gente

318
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

mesmo. Pode ser um plano deles, Borges. Você nunca


pensou nisso não? Que pode ser um blefe deles? Um vai
berrá, prende o restante. Bom, o grupo tá formado, eles
detonarem o restante e eles foram também. E agora? E
aí? Como é que fica?
A– E eles não querem saber quem é inocente, quem é
culpado, não querem saber de porra nenhuma?
B– E aí? Bom, prendemos o resto do bando, eu fa-
lei que eles não iam aguentar, na hora eles iam querer
fazer um acordo prá tentar livrar a pele deles. E aí? Tu
nunca pensou nisso não?
A– Já.
B– Hã!
A– Inclusive...
B– É o mais provável...
A– Eu acredito até que, que, muita gente que não foi,
não falou por causa disso, com medo...
B– Não sai...
A– Não sai...
B– Ainda trazer os outros prá cadeia, aí, aí, dá “bi-
rimbolo”...
A– Ainda vai morrer na cadeia...
B– Ainda vai morre dentro da cadeia e se a família
não morre do lado de fora. Se os caras derem um de
Miúdo e foragir? Estão vendo o que a gente passou. Não
vão querer passar a mesma coisa meu irmão... (pausa).
A– Verdade...
B– Não vão querer passar a mesma coisa...
A– Eu me sinto num beco sem saída...
B– Mas nós estamos num beco sem saída!
A– Cara: não tem justiça neste país! Eu vou te falar
mais: eles fizeram isto para dar uma satisfação à socieda-
de. Prenderam quem eles quizeram. porque se eles fazem
uma investigação direitinho..., você vê este Cabo Flávio,

319
Sérgio Cerqueira Borges

pô, na frente das câmeras fez aquele negócio. Se faz uma


investigação direitinho...
B– Se faz uma investigação direitinho, não iam che-
gar a uma conclusão não. Porque o Ivan só falou doze
nomes prá eles, ou oito, sei lá. E eles não tinham como
chegar a mais ninguém, só em oito...
A– Que o Neto falou para ele?
B– É, como era uns trinta, eles tiveram que apresen-
tar trinta (pausa). Se eles investigam direitinho, eles po-
diam foder realmente os caras que foram (pausa). Hã,
mais todo mundo fala : vou berrá esta porra, mas nin-
guém pensa em mais nada...
A– Ô Teixeira, todo mundo pensa, mas o que adian-
ta um inocente berrá e ficar preso também? Todo mundo
pensa rapaz, todo mundo pensa que se berrá a família
lá..., porque eles ameaçamm mesmo...
B– Isso aí eu nunca vi. Tô sabendo agora por você...
A– Porque você estava na Água Santa. Você pergunta
aí discretamente, sem falar que fui eu que falei. Pergunta
aí...imprensaram o cara lá no cubículo, o cara indo em-
bora feliz...
B– Meu irmão: para os caras fazerem isso, o William
deve ter jogado alguma “fulera” que ia fazer alguma
coisa...
A– Jogou “fulera” não rapaz. Eles vêem o desespero
do cara durante o tempo que tá preso aí e pensam que o
cara livre vai jogar conversa fora...quem foi, quem não
foi. É isso aí: preventivamente ameaçaram o cara, mas só
que eles fazendo isso, todo mundo que não foi se sentiu
ameaçado e todo muundo tem, família. Já pensou se um
merda desse, um “Zeca Bundinha” desse pega minha es-
posa? Porra, pelo amor de Deus! O cara já tá preso, não
fez porra nenhuma e ainda vai morre a família. É uma
coação fodida...

320
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

B– Eu sei, porra!
(pausa).
A– Minha filha tava doente esta semana, (...) sempre
está doente, nesta situação sempre acontece estas coisas.
Aí chega com uma listagem de remédio prá comprar, eu
não tenho dinheiro, não tenho rapaz. Aí, moral da histó-
ria, pedi a um outro e o Souza e o Major que conseguiu
comprar o remédio e estes merdas que fizeram esta merda
nem quer saber não, nem quer saber, tá entendendo? Aí,
moral da história, o remédio arrumou, mas tem uma dieta
aqui, e só tem água na geladeira. Porra meu irmão, tu
ouvi uma coisa dessa é foda. Tu ouvi uma coisa dessa com
a família toda morrendo aí. A mãe do Nicolau tá desenga-
nada. A mãe do Rochinha morreu...
B– Que que tem a mãe do Rochinha?
A– Morreu.
B– Sinto muito por ele. E daí?
(pausa)
A– É foda! (pausa) é foda ô Teixeira, eu realmente, só
quem pode saber da porra é quem foi, porque a gente só
ouviu falar...
B– Eu não estou entendendo nada (...). Eu só falo
uma coisa meu irmão: eu nego até o fim, até morre (...)
agora os caras que vão berrá (pausa).
A– Ninguém falou em berrá...
B– Cuidado...
A– Ninguém falou em berrá...
B– Cuidado, pensa bem antes de fazer estas coisas e
muita cautela!

Policia Militar do Estado do Rio de Janeiro


Comando de Policiamento do Interior
TRANSCRIÇÃO DE FITA

321
Sérgio Cerqueira Borges

VOZ “A” – SÉRGIO CERQUEIRA BORGES (INOCEN-


TE)
VOZ “B” – SIRLEY ALVES TEIXEIRA (CULPADO)

A– ...Por isso que eu estou falando que ele não vale


nada, por que aí ele não quer saber da gente?
B– Não sei, eu não sei o que passa pela cabeça dele.
A– Prá você vê como é que são as coisas...
B– Nào, mas eu não estou falando que isso vai acon-
tecer. Eu estou falando...
A– Mas você mesmo...
B– ...Porra, tá me entendendo? o Ivan sabe de uma
porrada que não foi, não sabe? Ele sabe de uma porrada
que não foi. Ele sabe que deu oito nomes, mas falou os
trinta que o BRUM mandou.
(pausa)
A– É foda, Teixeira!
B– A situação é igual. O Mauro do Couto falou: – é
delicadíssima. A menos que a gente nunca tenha visto
o Neto e o Ivan e nunca tenha ido em nada com esses
caras.
A– Tá dando prá telefonar hoje?
B– Não sei, só atendi um telefonema, que o cara ficou
me apressando. Fiquei puto! Desliguei o telefone, não
aguento mais!
(pausa)
A-...Passaram este tal de Cabo Costa?
B– Passaram! Era um que eu ia dá o nome dele. Pas-
saram ontem. Disseram que na rua os caras não tava
assim com ele não.
A– Por quê?
B– Não sei, por quê não sei. Não tavam se dando bem
e o caralho. Tava uma fama entre eles, os caras fala-
ram prá mim: olha meu irmão, não liga prá Costa, não

322
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

pede nada a Costa, você não confia mais em Costa não.


Eu falei: tá legal...via o que eu tava conversando com
você, e se eles encontrarem o William, eles vão matar o
William. Deixa esta história vazar, negócio de trinta no-
mes e o caralho. Se eles não “passar a roca” no William,
com família e tudo! Meu irmão, nossa situação é foda, é
delicada prá caralho!
A– Meu Deus do céu!
B– ...Rosana ligou prá mim e falou prá mim assim:
ligaram prá mim e falaram que querem falar comigo
urgente, o que é? Eu falei: não sei, vê o que que é você
e fala prá mim depois, não por telefone. Me fala domin-
go...minha mulher já está com medo.
(pausa)
A– Sabe o que vai acontecer, ô Teixeira? Esses caras
vão começar a se matar lá fora!
B– Já começou, meu amigo! Mataram o Detetive que
foi na parada. Eu não tenho certeza, eu não tenho certeza
se eles mataram. Eu não posso dizer certo. Luciano
me falou que o cara apareceu morto com um tiro de
45 dentro do carro, que saiu com uma puta, a arma
disparou e matou ele. Mataram esse tal de, mataram o
Cláudio Russão, três, mataram o Félix.
(pausa)
A– Meu irmão, quer dizer, prá pegar um inocente e
mandar pro cú, pouco custa...
B– Pouco custa não! É certo!
A– É, é certo, e aí?
B– Mas como é que eles vão pegar um inocente e
mandar prá cú assim?
A– ...É meu irmão, por que você tá falando aí, é, é, ao
bater essa história, eles vão se desesperar. Quer dizer,
eles vão querer saber quem é quem...

323
Sérgio Cerqueira Borges

B– Ainda mais: desde a POLINTER que tem essa


história. Nego já enche a cabeça dos caras desde a PO-
LINTER...
A– De matar o Williamm?
B– Não! Esse negócio de berrá e o caralho! (pausa)
A– Meu Deus do céu! Eu tou preocupado é com a mi-
nha família...
B– E eu não estou com a minha? E eu não estou com
a minha? Eu tava no bagulho! E não estou com a mi-
nha? Eles vão lá amanhã falar o que com a minha mu-
lher? O quê que tem amanhã prá falar?
A– Eles vão falar isso aí...
B– Não sei, não sei. Vamos vê. Tomara que não! To-
mara que não!
A– Do jeito que tá...há fumaça há fogo...
B– Se for isso, fodeu malandro! Se for isso os caras
não vão vim em cana. Eles já estão vendo o exemplo da
gente. (pausa)
A– Meu Deus do céu! Olha só onde me enfiaram! Dois
anos press aí, eu consigo provar minha inocência e saio,
ainda tenho que ficar preocupado com esses putos quere-
rem me matar, ô Teixeira, isso aí é o fim da vida, é o fim
da picada!
B– É pior do que morrer malandro! Se tivesse
morrido acabava com esse sofrimento de uma vez...
Agora o culpado é nego de dentro, que fica mandando
fofoquinha lá prá fora...
A– Mas esse negócio aí, do jeito que o Maginário fa-
lou, que o Maurício veio aí, falou...
B– Maurício teve aí?
A– Eu acho que teve. Foi o Maurício ou o Marquinho...
B– Nào deixaram entrar...
A– Não deixaram entrar, mas falou pelo telefone. Do
jeito que falou, que o General...

324
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

B– Foi o William?
A– Hã...
B– Foi o William. E se eles me perguntar eu vou fa-
lar, meu irmão, eu vou deixar minha família na bola, a
família de um que está preso, que não tem nada a ver
com isso? (pausa). Se eles me perguntar, eu vou falar:
foi o cara que saiu e que, macomunado com alguém,
deu o nome de todo mundo. Agora quem é esse alguém
entre os trinta, meu amigo? Eu não vou adivinhar, por-
ra, eu sei que não fui.
A– Entre estes trinta não, né?
B– Entre os dezoito, nós aqui somos dezoito...
A– Não,...nem entre os dezoito...
B– Eles vão eliminar quem tava, eu acho...
A– É!
B– ...E vão tirar as conclusões deles...
A– É isso que eu estou falando. A gente que é inocente,
porra, é o risco de vida?
B– Não sei se é isso não, quer dizer, vamos aguardá
prá vê, né?
A– ...Porra! Eu estou apavorado ô Teixeira, porra,
a minha situação não é brincadeira não rapaz. Eu não
guento mais! Dois anos, eu pagando uma coisa que eu
não fiz e ainda tenho que correr risco e a minha família
também (pausa) e eles não querem saber não meu irmão.
Eles já estão matanndo, porra!
B– Eu sei Borges, mas a gente não pode falar Borges
( trecho pequeno desgravado por acidente)...mas porra,
que eu vou fazer? (pausa( porque eles não me mataram
quando eu fui em casa?
A– É diferente, é diferente ( pequeno trecho inaudí-
vel)... Também vão matar todo mundo que foi?

325
Sérgio Cerqueira Borges

B– ...Destacaram dele...eles disfarçaram e falaram


prá mim: muito estranhho, né? Eles falaram prá mim
do Detetive e desse cara aí. (pausa)
A– Mas o quê que eles fal...?
B– Nós demos uma prensa no Detetive e o Detetive
não está aguentando.
A– Não está aguentanndo por que?
B– Meu amigo, tem nego que treme quando a inves-
tigação chega perto.
A– E o Cabo Costa também...
B– O Cabo Costa eles não estavam sentindo fiemeza,
se afastaram, tiraram ele da guarnição, não levaram ele
em serviço nenhum. Aí eu saí, fui ao DPO, falei com o
Cabo Costa: que tá havendo Costa? Eu não sei... Que
que tá havendo? Vocês têm que se unir...uns toque, sa-
ber se os caras mataram o Costa, tá entendendo?...É me-
nos um a vim preso!
A– Heim?
B– Pelo menos só vem o nome dele (pausa). Foi al-
guém da terceira assinar a pronúncia? Não, né?
A– Não sei, acho que não. Deixa eu vê se dou um te-
lefonema la’.

FIM

Policia Militar do Estado do Rio de Janeiro


Comando de Policiamento do Interior
TRANSCRIÇÃO DE FITA

326
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

VOZ “A” – SÉRGIO CERQUEIRA BORGES (INOCEN-


TE)
VOZ “B” – JOSÉ FERNANDES NETO (CULPADO)

A– ...Neto
B– Oi...
A– (trecho inaudível)
B-..O que eu posso fazer eu faço Borges. O Baião veio
aí, o Baião veio aí. Eu mandei um catuque pros caras...
A– Sabe qual é o problema? Nego tá vivendo com pro-
babilidade. Tem que viver é de realidade, tem que viver é
a realidade. Nego tá falando que os Advogados tira e o
caralho a quatro, mas sabe o que acontece? Quando sen-
tar um cara que não foi na chacina, lá, vai detonar todo
mundo que foi, você não concorda comigo? Aí não tem
Advogado que livre dessa porra não. E nego já tá com
esse pensamento aí Neto.
B– ...Já vieram aí...o William e o Campos já vieram
em cima de mim, mas é o que eu tou falando, eu não
posso chegar. Agora nego falou: o Braga brincou aí, eu
até chamei a atenção do Braga...: o Advogado do Neto
vai recorrer, não sei o que. Primeiro veja bem, minha
mulher teve aí, falou o seguinte: – fala com ele, até o
dia...não vou recorrer nada,...todo mundo no escritório
tá confiante, tá otimista.
A– ...O Mauro do Couto sabe da realidade?
B– O quê?
A– Sabe da realidade?
B– Não!
A– Ele sabe da realidade ou tá enganado?
B– Claro que não! Eu vou contar prá Advogado isso?
A– Hã!
B– Eu vou contar prá ele a realidade rapaz? Porra
nenhuma!

327
Sérgio Cerqueira Borges

A– Mas é isso que eu tou falando, ele não sabe, ele tá


lidando como se todo mundo fosse inocente. Aí vai chegar
um cara lá, bem, p “Pé-de-Banha” é um que não ban-
ca,...o William tá desesperado (pausa) que o álibi dele é
fraquíssimo...
B– Já conversei com o William já...
A– Já conversou?
B– Que ele veio conversar comigo, já conversei.
A– Que ele tá desesperado, que ele tá desesperado,
entendeu?...Outra coisa, e outra coisa, pô meu irmão, é,
porra, Bicego já tá fodido mesmo. O Braz tava falando
prá gente. Bicego já tá fodido, ele tá com vontade de lar-
gar a causa dele.
B– Hã?
A– Porque Bicego é causa perdida. Bicego é o cara
mais falado no processo, tá entendendo? Aí, moral da
história, ele, que ele falou? Ele falou...eu tava conversan-
do com o Maginário lá em baixo, porra...alguém tem que
bater com essa porra no peito e chega de mentira irmão.
Nego fica pensando que Vigário Geral não dá condena-
ção, eu fico abismado de ouvir uma coisa dessa. Ô Neto...
os Promotores estão estudando este processo há dois
anos, e mesmo assim o júri é popular, o júri é soberano, o
júri é soberano. Se tiver mandado, fodeu, tá entendendo?
Então o que que vai esperar, por que nego tá falando em
setecentos anos? Porque não tem autoria...e Maginário
mesmo falou, ele não deu tiro em ninguém na favela, tá
entendendo? Então meu irmão, você também vai bancar
um uma merda que o Teixeira fez, o Marcelo Repolhão, é
aquela coisa...
B– Concordo com você. Minha situação é essa, e eu
me coloco na situação de vocês...
A– Porra cara! Tenho mulher e três filhos...

328
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

B– Sei Borges. Mas veja bem: quem vai bater essa


porra no peito?
A– Aí que é a foda, alguém tem que ser consciente. O
que não pode, o que não pode é nego ficar na pica e levar
os outros. Porra, o cara quer ir para o inferno e não quer
ir sozinho, não quer ir sozinho, aí é foda. Quem eu não
sei, quem eu não sei, eu acho que os mais pesados tem
que que...não adianta se iludir não rapaz, não adianta se
iludir não, você puxa o carro, se tu for condenado leva
todo mundo, se for absolvido solta todo mundo, né? Você
é a mola mestre do processo, você é a mola mestre do
processo. Agora, porra, alguém tem que tomar a decisão
rapaz (pausa) .Porra! A gente tá aguentando essa porra
há dois anos cara, porra, todo mundo quieto, todo mundo
quieto (pausa) uma porra que a cadeia já sabe, a cadeia
toda, por quê?...O Paulinho Alvarenga é um cara que foi
e fica falando para o Mamede.E aí? A cadeia toda já sabe
rapaz, e aí? E esses caras você acha que não entendo...
B– Eu, particularmente, o pessoal fica querendo que
eu comente, não comento nada, não falo de nada, por
quê? Eu não gosto de comentar nada, por quê? Comen-
tário sai de uma maneira, daqui há pouco chega de outra
maneira. Fico no meu cantinho, faço minhas coisinhas
que não...sei que a situação de muita gente tá difícil, sei,
imagino, posso até presumir...
A– Porra cara! Minha filha doente...
B– É o caso do Campos. Tem outros colegas que estão
passando fome, eu sei. O que eu puder fazer, Borges...O
Baião veio outro dia aí, eu cheguei e falei: pô, Baião,
tem uns colegas que estão em uma situação difícil, difí-
cil, difícil. Baião, dá uma atenção às famílias dos caras
lá fora...
A– Disseram que eles mandaramm um recado mal-
criado, que os caras falaram: é tudo com eles mesmo...

329
Sérgio Cerqueira Borges

B– Ô Borges, a mim não foi trazido nada disso. Eu só


posso dizer prá você o que chegou a mim...
A– Eu acho, eu acho que o negácio não é tão simples.
É porque eles á que fizeram a merda. O negócio é botar,
trazer eles à responsabilidade, tem que trazer à respon-
sabilidae, que eles estão pensando que eles não podem
ser presos? Que eles não pode vim parar na cadeia? Eles
acham que os inocentes não sabem, quem é quem? Porra,
Neto, ele não estão tampando o sol com a peneira não?
Né? Eles sabem que a gente sabe?
B– Ninguém tá tampando o sol com a peneira não!
Eu tou te explicando...que eu posso fazer é mandar fazer
alguma coisa lá fora...porque eu compreendo as dificul-
dades que vocês têm de família, os problemas pessoais
que alguns me trazem...
A– ...Perdi meu emprego, pô, perdi meus dois filhos,
que perdi a posse dos meus filhos, a minha filha, a minha
mulher infartou por causa do problema de coração, por-
ra, vê só a carga...
B– Eu sei...
A– Minha mulher ligou ontem, dizendo que minha fi-
lha tá com pneumonia, não tinha dinheiro prá remédio. O
Major é que arrumou dinheiro com o Souza e o dinheiro
da igreja de Paulinho ( Paulo de Tarso) e comprou re-
médio. E outra coisa, o médico passou uma dieta. Minha
mulher falou: só tem água na geladeira. Porra meu ir-
mão, isso aí, sinceramente...e numa parada meu irmão,
que eu não tava, porra!
B– Eu sei!
A– E sabe de uma coisa? Esses caras que tava aí,...
tão tudo com dinheiro e não querem saber de ninguém
não rapaz...
B– O que eu posso dizer inclusive, o que eu posso
resolver dentro das minhas possibilidades, eu faço, você

330
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

tem visto meu comportamento. Eu nunca fui arrogante


com ninguém, eu nunca fui prepotente com ninguém,
você tem visto meu comportamento com todo mundo. É
a mesma maneira...
A– E tem outra coisa também: você sabe que o MP
recorreu da pronúncia do William, da impronúncia...
B– Não.
A– Recorreu da impronúncia e do desmembramento do
processo (pausa) da impronúncia e do desmembramen-
to. Tu acha que o William “Maluco”, porra, e o William
“Maluco” já tá querendo explodir esta porra desde o iní-
cio. Tu acha que se ele voltar ele vai ficar quieto? Que ele
vai querer voltar prá cá?
B– ... Se a própria Juíza preferiu tomar aquela deci-
são, ela não vai, ela não recorre, ela não vai dá...
A-...Mas não é decisão dela. A decisão é de um Desem-
bargador...
B– ...Todo mundo achou, nós, nós aqui achamos que
o motivo que ela tirou o William, ela podia tirar, ela po-
dia tirar mais da metade. Mas é a opinião da Juíza, tá
entendendo? Que tá o problema já há um tempão...
A-...Eu já estou desesperado ô Neto. Eu tou desespe-
rado, tou quieto mas tou desesperado, já pensou, Neto?..
B– Eu imagino Borjão.
A– Já pensou Neto, sentar no Tribunal do Júuri e ser
condenado a setecentos anos em uma coisa que não fiz?
Pô, se eu tivesse feito, pô, porra, mas é foda Neto, uma
situação...
B– ...Vamos analisar por outro lado, vamos analisar
por outro lado: os Advogados diz deve vim a ordem, en-
tre os Advogados e o MP, eu presumo que ninguém deve
sentar primeiro do que eu...
A– ...Quem deve sentar primeiro...você, Teixeira, Mar-
ginário...

331
Sérgio Cerqueira Borges

B– Eu, eu sou franco a você, eu sou um cara que até


fui acusado. Veja bem, ... eu, Flávio, Bicego, tomamos
vinte e seis anos e não tinha nada...
A– Agora deixa eu te fazer uma pergunta: se por aca-
so, se por acaso sentar e ter condenação geral, quem vai
tirar os inocentes? Vai chegar: ôba, vamos falar a verda-
de agora...
B– Sinceramente eu não sei. Eu não estou pensando
nem mesmo nessa hipótese, e...
A– Mas tem que ser pensado...
B– ...Se eu for entrar numa guerra já derrotado, en-
tão é melhor nem ir prá guerra!

FIM

Uma visão social:

“...Violência urbana no Rio de Janeiro: a década das


chacinas A análise das Chacinas de Acari, da Candelária
e de Vigário Geral não se esgota na tentativa de com-
preensão de sua expressão fenomênica, sendo importante
o deslindamento da inscrição da violência oficial, envol-

332
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

vendo, recorrentemente, setores populares, em um dado


campo de forças. Para o entendimento das chacinas em
questão, é importante, portanto, que sejam consideradas
condições históricas – econômicas, sociais, políticas e
culturais – que possibilitaram sua emergência. Em outros
termos, devem-se levar em conta os seguintes aspectos:

a) o lugar ocupado pela polícia na (re) produção e


gestão dos conflitos sociais urbanos, no Rio de Janeiro,
nas duas últimas décadas, em estreita conexão com sua
herança política da ditadura militar;

b) as complexas relações entre a polícia e os setores


socialmente excluídos (práticas de negociação, favoreci-
mentos, confrontos);

c) o impacto da crescente autonomização da polícia


em relação ao restante do Estado sobre a política de se-
gurança pública (ou sua não implementação);

d) as matrizes simbólicas que articulam representa-


ções em torno do poder, legalidade, justiça, ética, direitos
humanos, exclusão social, violência, entre outros aspec-
tos.

Ressalta-se que tais episódios de violência envolvendo


policiais não são isolados, quer se tome o Estado do Rio
de Janeiro como palco de sua eclosão, quer se tome o
conjunto do país. São fenômenos que, antes, estão ins-
critos na lógica da gestão da “questão social” no Brasil,
mediada por densas relações de poder, tributárias das de-
sigualdades que permeiam as relações antagônicas fun-
damentais. Há, entretanto, algumas peculiaridades que
marcam os fenômenos em questão:

333
Sérgio Cerqueira Borges

1. todos resultaram em assassinatos coletivos e deram


origem a fortes mobilizações ao nível da sociedade, con-
quanto tenham provocado reações ambíguas e díspares
por parte de diferentes frações de classe;

2. a chacina da Candelária representa o deslocamento


da violência policial cotidiana praticada contra os seto-
res excluídos em seu próprio território (favelas, em geral)
para o centro financeiro da cidade do Rio de Janeiro –
espaço do qual crianças e adolescentes ousaram se apro-
priar e estabelecer suas próprias condições de habitabi-
lidade, lazer e sobrevivência;

3. a chacina de Acari eliminou as vidas de onze jo-


vens, dentre os quais, oito menores, em um sítio na Bai-
xada Fluminense; as investigações indicam que o crime
foi praticado por policiais civis e militares, pelo fato de
alguns daqueles jovens, que eram assaltantes, terem se
recusado a pagar propina aos policiais;

4. a chacina de Vigário Geral ocorreu em represália


ao assassinato de quatro policiais militares, atribuído a
traficantes desta localidade; na noite seguinte, mais de
quarenta homens (policiais civis, militares e alcaguetes),
fortemente armados e encapuzados, invadiram a favela,
arrombaram casas e mataram vinte e uma pessoas, atin-
gindo famílias inteiras, inclusive crianças;

5. a prática de ações ilegais por parte de integrantes


do governo, responsáveis, em tese, pela garantia da le-
galidade e da ordem pública, torna – se objeto mesmo de
investigação da corporação policial, marcada historica-
mente por este paradoxo... ”47
47 Universidade Federal do Rio de Janeiro Centro de Filosofia e Ciências
Humanas Escola de Serviço Social – VIOLÊNCIA URBANA E CONSTITUI-

334
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

É isto que se resume o “homem policial”: “...


integrantes do governo...”, apenas?

ÇÃO DE NOVOS SUJEITOS POLÍTICOS: UM DESAFIO À INTERVEN-


ÇÃO SOCIAL – Suely Souza de Almeida

335
A CHACINA DE VIGÁRIO GERAL
1993.

Conto do Vigário Geral.

“Não é fácil forjar uma acusação contra um ino-


cente.” 48

“Poderia haver jamais alguém culpado, se bastas-


se negar a acusação? Poderia haver alguém ino-
cente, se bastasse acusar?” 49

“A respeito da injustiça é cometida de duas for-


mas: pela violência e pela fraude. uma diz respeito
á raposa, outra ao leão. todas duas são indignas
do homem, mas a fraude é a mais desprezível. de
todas as injustiças a mais abominável é a desses
homens que, quando enganam, procuram parecer
homens de bem!” 50

O capítulo a seguir foi uma contribuição e doação


do Coronel da Polícia Militar do Estado do Rio de Ja-
neiro e Escritor, Emir Campos Larangeira. Um tex-
to preciso, cujo seria conteúdo de um livro dele cujo
abordaria o mesmo tema, com enfoque diferente tal-
vez, que gentilmente e desapegado, quiçá “... De tanto
ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus...”

48 Publílio Siro
49 Amiano Marcelino
50 Túlio Cícero – Orador – advogado e filósofo romano

337
Sérgio Cerqueira Borges

desanimou-se ao se declarar cansado, e, ao tomar co-


nhecimento que historiava sobre mesmo tema, não
ponderou outros interesses, senão expor a verdade in-
contestável de um das maiores injustiças e como con-
sequência, impunidades de uma da mais ruidosa cha-
cina ocorrida na favela de Vigário Geral.

Farei intervenções na exposição do texto almejan-


do dirimir dúvidas que julgar importante a esclarecer,
sempre há o que acrescentar naquilo cujo soube e não
dissertaria melhor, àquilo cujo texto poderá acrescen-
tar dentre o meu saber dos fatos.

“De tanto ver triunfar as nulidades; de tanto ver


prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injus-
tiça. De tanto ver agigantarem-se os poderes nas
mãos dos maus, o homem chega a desanimar-se
da virtude, a rir-se da honra e a ter vergonha de
ser honesto”51

51 Rui Barbosa

338
A VERDADE SOBRE A CHACINA
DE VIGÁRIO GERAL

“Quando uma teoria científica não permite atin-


gir os objetivos que os agentes políticos têm em
mente, eles recorrem à trapaça, à fraude, à men-
tira, à demagogia etc. Quando esses meios fa-
lham, eles usam a violência para destruir o que
não sabem ou não são capazes de controlar.” 52

1. PRIMÍCIAS

Este texto parte de verdades anotadas em docu-


mentos policiais, ministeriais e em processos e senten-
ças judiciais que se encontram à disposição de quem
os quiser conferir. Também serão anotadas inferên-
cias sobre textos e falas transcritas em laudos periciais
(ICCE), grafadas em livros e confirmados em juízo
por seus mentores e interlocutores, de modo que é
viável a sua reprodução parcial ou total em vista dos
objetivos deste trabalho, que se resumem ao registro
histórico do nefasto acontecimento resumido no títu-
lo, em ordenamento cronológico e factual que permita
sua absorção integral e cristalina. O texto, portanto,
deve ser visualizado como um sistema contendo diver-
sos subsistemas interagentes, inter-relacionados e in-
terdependentes.

52 Martinez, Paulo – Política, Ciência, Vivência e Trapaça – Ed. Mo-


derna, SP, 1992

339
Sérgio Cerqueira Borges

Não será uma tarefa simples porque se trata de


contextura social complexa. Todavia, poderá ser en-
tendida na sua integralidade, em especial se mental-
mente interligada a vários outros contextos: políticos,
policiais, ministeriais, judiciais, jornalísticos, técnicos,
pessoais e familiares, todos vinculados ao que se pode-
ria denominar por contextura psicossocial específica,
ou seja, subsistema de um sistema contextual mais am-
plo, representado pelo turbulento, anômico e mórbido
ambiente social do RJ, característica predominante
nas décadas de oitenta, noventa e consequentemente
seguinte. Alguns nomes e fatos receberão destaque e
serão algumas vezes repisados, para que o leitor me-
morize a participação dos personagens dentro do con-
texto apresentado. Isto é deveras importante devido ao
emaranhado de nomes e fatos, a maioria deles velozes,
tais como passes de mágica, exatamente para confun-
dir ilusão com realidade.

Pretendo, por meio deste esforço de inferência, doar


ao público a verdade sobre a mais teratológica trapa-
ça ocorrida em pleno “Estado Democrático de Direi-
to”: a pseudo-apuração da chacina de Vigário Geral.
Para lograr atingir o fim a que me proponho, alerto ao
leitor mais uma vez que alguns aspectos serão repeti-
dos, eis que também repisados na farsa substitutiva
de uma apuração criminal que não houve. Mas agora,
passados quase vinte anos da perpetração do bárbaro
crime, creio poder reproduzir a trapaça da apuração
encetada por agentes públicos de diversos talantes e
de instituições várias, públicas e particulares, tudo
com base em fatos concretos, de natureza documental
e testemunhal. Pois a trapaça viria a ser depois des-
barrancada em diversos processos judiciais sob o cri-

340
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

vo do contraditório, inclusive, é lógico, no processado


que versou sobre a terrível chacina, afeto ao II Tribu-
nal do Júri da Capital do Rio de Janeiro a partir de
setembro de 1993. Encerradas, pois, estas primícias,
devemos agora fixar o calendário dos meses de agosto
e setembro de 1993, a fim de permitir reconstituição
dos fatos em suas datas originárias:

28/29 ago/93 (sábado/domingo – madrugada):

Assassinato de quatro PMs na Praça Catolé do Ro-


cha, em Vigário Geral. As vítimas militares estaduais
formavam uma guarnição comandada pelo SGT PM
da radiopatrulha, o comandante do 9º BPM, CEL PM
CESAR PINTO, se viu pressionado por muitos PMs
revoltados e já se encaminhando à insubordinação.
Houve, neste momento, a inércia do comandante no
sentido de montar imediata operação repressiva visan-
do à captura dos assassinos já identificados: trafican-
tes de Vigário Geral comandados por Flávio Negão.
Alegou o comandante, na ocasião, que lhe faltavam
meios para agir imediatamente, sendo certo, porém,
que ele poderia solicitar reforços inclusive do BOPE.
Também existe a hipótese – não comprovada – de que
o CEL PM CESAR PINTO intencionava realizar a
operação repressiva e teria sido impedido por seus su-
periores, que lhe negaram apoio. Neste efervescente
primeiro momento, diante da viatura caracterizada
com as cores da bicentenária corporação com quatro
corpos mortos de PMs fardados dentro dela, o sangue
jorrando pelas frestas e banhando o chão, já se veri-
ficava a presença de IVAN CUSTÓDIO em meio aos
revoltados PMs. Estava ali, não pelo fato de ser PM.
Não, ele jamais fora PM. Estava ali na condição de só-

341
Sérgio Cerqueira Borges

cio e amigo do SGT AILTON em três barcos de pesca.


Estranha ligação, em tese, pois nem o sistema apurou
se tratar IVAN CUSTÓDIO de contumaz bandido do
Comando Vermelho, nada demais naquela época de
total e assumida anomia em que a inércia da polícia
produziu essas estranhas ligações entre o Bem e o Mal
do topo à base da hierarquia social e política.

29/ago/93 (domingo – tarde):

Há o sepultamento dos quatro PMs em cemitérios


diferentes. Emergiu então a revolta restrita ao sepul-
tamento do SGT AILTON, o que em muito contri-
buiu para validar o monitorado testemunho de IVAN
CUSTÓDIO, já que este novamente se fez presente.
Se nada mais bastasse para acirrar os ânimos, ne-
nhum dos PMs mortos recebeu honras fúnebres. Tudo
pelo fato de o atônito comandante-geral da PMERJ,
– sintonizado com a anomia reinante nos intestinos
do governo ao qual se integrava, – limitar-se a absur-
damente “culpar” os mortos por “falta disciplinar”
(deslocamento não autorizado ao local onde foram as-
sassinados), pondo assim mais lenha na fogueira. Era
evidente que o ânimo dos revoltosos indicava que po-
deria haver represália não oficial na favela, mas nada
foi feito para evitá-la, muito pelo contrário...

29/30/ago/93 (domingo/segunda-feira – madruga-


da):

Ocorre a chacina de 21 pessoas na favela de Vigário


Geral, perpetrada por um desconhecido grupo de en-
capuzados (“ninja”). Há um violento clamor público
na manhã de segunda-feira, ante os 21 corpos enfilei-

342
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

rados em caçambas do IML, a multidão em volta e a


imprensa cobrando in loco as providências de autori-
dades públicas também presentes e já apontando ain-
da sem qualquer base factual que o crime fora pratica-
do por PMs. Com efeito, tratava-se de dedução óbvia
desde antes do acontecimento não evitado...

31/ago/93 (terça-feira):

Tomam o Brasil e o mundo as veementes pressões


da opinião pública contra o governo, exigindo provi-
dências imediatas. Crescem os rumores de intervenção
federal no RJ.

1º/set/93 (quarta-feira):

Continuidade das pressões, com o acirramento da


ameaça de Intervenção federal no RJ como uma pos-
sibilidade imediata, levando ao pânico o governo local.

Os Poderes ameaçados? Não, o Poder é institucional,


mas quem o tem nas mãos e em tese emana do Povo; entrou
em pânico com esta real possibilidade da Intervenção
Federal, foi esta o motivo à motivação da “carta branca”
confiada aos pseudos investigadores inquisidores em
extrair a “verdade”; sendo esta produzida ou construída,
pouco importava se reflexo da realidade dos fatos; ademais
os seguimentos da sociedade, a imprensa, a sociedade em
geral, o MP, Poder Justiciário etc. , estavam sensíveis
e aflorados a qualquer assertiva do Estado desejosos
de justiça por parte destes aos anseios; todos queriam
mais do que justiça, desejavam uma vingança social; e
desde a idade média, queima-se bruxas, por conta de um
justo motivo, senão manter-se o Poder; mas quão tantas

343
Sérgio Cerqueira Borges

injustiças cometeram desde então. Não raro em jornais


atuais vemos pessoas fazerem “justiça” com as próprias
mãos, e em seguida com melhor apuração, saber-se que
era um ledo equívoco; a história jurídica no oferta alguns
casos também de erros judiciais, observo por exemplo: A
escola de Base em SP, o caso dos irmãos Nave e, muitos
cujo sem notoriedade alcançadas, mas estão a ratificar o
falho sistema, nos sistemas penais. (parágrafo do autor do
livro)

02/set/93 (quinta-feira):

Surge do nada uma testemunha ocular do fato,


morador da favela de Vigário Geral: LUIZ CARLOS
BARBOSA. A testemunha permite a produção de dois
longos e detalhados depoimentos, atribuindo o crime
aos traficantes de Parada de Lucas e de Vigário Geral.
O primeiro foi prestado na sede da PM.2, ao major
PM MARCOS PAES e assinado por testemunhas da
própria PM.2, e o segundo, na 39ª DP, em presença do
promotor de justiça VICENTE ARRUDA FILHO e do
delegado titular da 39ª DP, DR. OTÁVIO SEILLER.

3/set/93 (sexta-feira):

O então Major PM VALMIR ALVES BRUM, dora-


vante BRUM, dá início às prisões disciplinares de PMs
já autorizadas por seus superiores, com Mandados de
Busca e Apreensão em suas residências, apreendendo
armas e outros materiais comuns à cultura policial (lu-
vas e toucas “ninja”), com ressalva de que os próprios
policiais que cumpriam os Mandados também utili-
zavam toucas “ninja”, depois proibidas pelo Dr. Nilo
Batista após denúncia pela imprensa.

344
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

04/set/93 (sábado):

Continuidade das ações contra PMs escolhidos por


BRUM como supostos participantes da chacina, logo
apresentados com grande estardalhaço à imprensa
como “CAVALOS CORREDORES”: o “TIMÃO DO
EXTERMÍNIO” que intentava com a chacina “DE-
SESTABILIZAR O GOVERNO” Brizola (era a justi-
ficativa dos motivos para o crime; note que destiva-se
um “antídoto político” a Intervenção).

05/set/93 (domingo):

Continuidade das buscas domiciliares e de pri-


sões disciplinares endereçadas a PMs escolhidos por
BRUM como supostos participantes da chacina, se-
gundo a mesma tática anterior: presença no enterro
do SGT PM AILTON ( uma tese contraditória, já que
houve pessoas que não compareceram aos sepulta-
mentos, mas foram presos, e há também muitos cujo
foram e não foram presos).

06/set/93: (segunda-feira):

Publicação de prisões disciplinares do primeiro rol


de PMs, num total de 15 (quinze), vinculando indire-
tamente essas punições à chacina, e já afirmando no
texto das punições que “a transgressão disciplinar e o
crime foram cometidos” pelos PMs punidos. Um de-
talhe importante: bem antes de anunciada a localiza-
ção de IVAN CUSTÓDIO; concidentemente vinhera a
apontar os mesmos punidos disciplinamentes como os
chacinadores; detalhes despercebidos; o que importa-
va era punir, seja lá quem fosse.

345
Sérgio Cerqueira Borges

07/set/93 (terça-feira):

Nenhum fato além do estardalhaço na divulga-


ção de prisões disciplinares e Mandados de Busca e
Apreensão em residências de PMs escolhidos por
BRUM como “bois de piranha” para “bancar” a
chacina. Brum determinava prisões até por telefone;
o autor do livro é um exemplo clássico; o Oficial de
Dia do 18º BPM recebe ordens por telefone para pren-
der o PM Borges; quando perguntado pelo Tenente o
motivo da prisão, este diz ao Oficial de Dia que seria
informado posteriormente; na verdade não havia, foi
ciado posteriormente; assim como foi feito com todos
os eleitos a “culpados”.

08/set/93 (quarta-feira):

Emerge das trevas do sistema situacional outra tes-


temunha (IVAN CUSTÓDIO BARBOSA DE LIMA,
doravante IVAN CUSTÓDIO), na data acima, mesma
em que fora expedido e cumprido Mandados de Busca
e Apreensão na sua residência na rua Vaidi, em Se-
petiba, com a ressalva de que não se tratava de PM.
Portanto, não havia nos anais da corporação o seu en-
dereço nem se sabe até hoje com precisão como o loca-
lizaram. Esta proclamada “testemunha-chave” (anti-
go clichê hollywoodiano) era, sim, contumaz criminoso
do CV. Ligara-se, porém, ao SGT AILTON (um dos
4 PMs assassinados na véspera da chacina) e ao PM
NETO, também do 9º BPM, numa insólita sociedade
composta de três barcos de pesca. O civil em sublinha
estivera no local da morte dos 4 PMs (em solidarieda-
de ao seu amigo e sócio assassinado) e comparecera
ao seu sepultamento no dia seguinte. Enfim, um alvo

346
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

preferencial do sistema situacional, posto se encaixar


no critério inicial e quase que único de apuração: es-
tar presente ao sepultamento do SGT AILTON basta-
va para alguém se tornar um potencial “chacinador”.

Esta data da localização de IVAN CUSTÓDIO (08


set 93) é crucial à inferência, eis que dissimulada pelo
sistema para 13 set 93 para imprimir uma inexistente
naturalidade que no primeiro depoimento que apenas
assinou, grafado em 13 set 93 pela DELEGACIA DE
DEFESA DA VIDA (DDV), cuja sede e titularidade
(delegado de polícia ELIAS GOMES BARBOSA, do-
ravante ELIAS BARBOSA) foram transferidas para a
PM.2, situada no QG da PMERJ (flagante a afronta a
Constituição Federal; a PM não tem legitimidade para
tal, é competência da Polícia Judiciária, mas a PM é
Administrativa). Ademais, esta data de 08 set 93 como
a da localização de IVAN CUSTÓDIO, além de constar
no seu respectivo Mandado de Busca e Apreensão, foi
depois confirmada pelo desavisado BRUM no II Tri-
bunal do Júri em 07 mai 94, contrariando declarações
do próprio marginal, que, em depoimento no mesmo
Tribunal, em 02 out 93, dissimulou ter sido localizado
numa “segunda-feira, na terceira semana após os fa-
tos” (correspondente ao dia 13 set 93).

“Nietzche disse que “existe inocência na men-


tira quando há sinal de boa fé numa causa”, ou
seja, ele (como Platão) defende a mentira social
como uma coisa não ruim. Mas, mesmo Nietzche,
que entendeu estar na motivação da mentira sua
possível virtude, posteriormente afirmou: “fiquei
magoado, não por me teres mentido, mas por não
poder voltar a acreditar-te.” Ou seja, a mentira

347
Sérgio Cerqueira Borges

descoberta corrói até seus defensores. “Ninguém


quer ser vítima de mentiras, apesar de regulares
algozes.”...
...”A moral não tem importância e os valores mo-
rais não têm qualquer validade, só são úteis ou
inúteis consoantes à situação”; “A verdade não
tem importância; verdades indubitáveis, objetivas
e eternas não são reconhecíveis. A verdade é sem-
pre subjetiva...”.
Über Wahrheit und Lüge im außermoralischen Sinn,
1873 – publicado postumamente; edição brasileira,
2008). 

Ressalve-se ainda que os Mandados de Busca e


Apreensão (centenas) foram expedidos e cumpridos
no mesmo dia, não se justificando, destarte, que o do
criminoso do CV, IVAN CUSTÓDIO, fosse cumprido,
apenas o dele, cinco dias após, sendo certo que a infor-
mação passada por BRUM em juízo desbarrancou a
armação que o sistema situacional encetara com a sua
intensa participação. Daí a insinuação de que ele con-
firmou a data-chave de 08 set 93 por mero descuido.

09/set/93 (quinta-feira): nenhum fato além do es-


tardalhaço na divulgação de novas prisões disciplina-
res e Mandados de Busca e Apreensão em residências
de PMs escolhidos por BRUM.

10/set/93 (sexta-feira): nenhum fato além do estar-


dalhaço na divulgação de novas prisões disciplinares
e Mandados de Busca e Apreensão em residências de
PMs escolhidos por BRUM.

348
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

11/set/93 (sábado): nenhum fato além do estarda-


lhaço na divulgação de novas prisões disciplinares e
Mandados de Busca e Apreensão em residências de
PMs escolhidos por BRUM.

12/set/93 (domingo): nenhum fato além do estar-


dalhaço na divulgação de novas prisões disciplinares
e Mandados de Busca e Apreensão em residências de
PMs escolhidos por BRUM.

13/set/93 (segunda-feira):

Data do primeiro documento formal do sistema: o


artificioso “termo de declarações”, em sede da PM.2
(QG da PMERJ), assinado por IVAN CUSTÓDIO e
no qual foi editada a lista geral de 72 alvos do sistema
(PMs e Policiais Civis) e a primeira versão do bandi-
do sobre a chacina, que depois teve de ser desmentida
porque ele teria “ouvido” do PM Neto toda “estória”
na segunda-feira, 30/ago/93, pela manhã. Ocorre que
o sistema descobriu que naquela manhã de 30/ago/93 o
PM Neto estava de serviço, fardado e comandado por
Oficiais do 14º BPM, numa operação de rua naquela
data, o que desarranjou a “estória” montada.

Também em 13 set 93 foram publicadas punições


disciplinares de outros PMs selecionados por BRUM,
em mais uma demonstração de que a data de 13 set 93
fora escolhida como o falso início de tudo. Esse “ter-
mo de declarações” apresenta uma descarada sequên-
cia nominal em três momentos: a geral, apontando 72
nomes; a da presença no sepultamento do Sgt Ailton,
contendo 24 nomes extraídos da primeira lista sem
perder a sequência anterior; e a do “TIME” da chaci-

349
Sérgio Cerqueira Borges

na, que apresenta 29 nomes na mesma ordem seqüen-


cial extraída da lista geral, algo impossível de aceitar
como resultado da “memória privilegiada” do bandi-
do ou de qualquer ser humano. Trata-se, sem dúvida,
de um termo forjado para o bandido apenas assinar,
com fortes possibilidades de ter sido datilografado em
máquina da Chefia de Polícia Militar no Méier e não
na PM.2 (QG da PMERJ), como afirmam seus auto-
res.

14/set/93 (terça-feira): nenhum fato além do estar-


dalhaço na divulgação de novas prisões disciplinares
e Mandados de Busca e Apreensão em residências de
PMs escolhidos por BRUM.

15/set/93 (quarta-feira): publicação de mais um rol


de prisões disciplinares no Boletim da PM. Reunião no
Quartel General da PMERJ, com declarações do pro-
motor de justiça MENDELSSOHN PEREIRA, na saí-
da, afirmando NÃO HAVER TESTEMUNHAS NEM
PROVAS PARA PEDIR A PRISÃO PREVENTIVA
DOS PMS PRESOS DISCIPLINARMENTE.

16/set/93 (quinta-feira): notícia nos principais jor-


nais do Rio reproduzindo declarações do promotor de
justiça MENDELSSOHN PEREIRA, especialmente
nos jornais “O GLOBO” e “JB”.

17/set/93 (sexta-feira): novas prisões disciplinares


de PMs publicadas em Boletim da PM, sempre vincu-
lando indiretamente em seu texto padrão para todos
os selecionados e punidos, a participação na chacina.

18/set/93 (sábado): nenhum fato novo.

350
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

19/set/93 (domingo): nenhum fato novo.

20/set/93 (segunda-feira): edição do “termo de de-


clarações” da DDV em sede da PM.2 (QG da PMERJ)
listando os 33 (trinta e três) alvos do sistema, sendo 28
(vinte e oito) PMs selecionados entre os punidos até
esta data, com a ressalva de que 02 (dois) deles foram
punidos no dia seguinte – 21 set 93 (LUIZ CARLOS
PEREIRA MARQUES e ADILSON DE JESUS RO-
DRIGUES) e outro (VALDEIR RESENDE DOS SAN-
TOS) que somente seria punido em 29 set 93. O PM
WILLIAM ALVES não figurou entre os punidos no
mês de setembro.

21/set/93 (terça-feira): nenhum fato novo.

22/set/93 (quarta-feira): 28 POLICIAIS MILITA-


RES, 03 POLICIAIS CIVIS E 02 CIVIS DENUNCIA-
DOS COMO AUTORES E CULPADOS PELA CHA-
CINA DE VIGÁRIO GERAL.

23/set/93 (quinta-feira): estímulo da mídia para as


fitas gravadas( note, não são as fitas gravadas nas pri-
sões pelos acusados), com divulgação direta das falas
de IVAN CUSTÓDIO acusando inúmeros alvos já es-
colhidos pelo sistema, a esta altura já listados para a
tese da “FORMAÇÃO DE QUADRILHA”.

24/set/ 93 (sexta-feira):

O delegado ELIAS BARBOSA, com base nas fitas


gravadas (entrevistas feitas por diversas vozes desco-
nhecidas), emite um “RELATÓRIO PRELIMINAR”
no Inq. Pol. Destinado à “FORMAÇÃO DA QUADRI-

351
Sérgio Cerqueira Borges

LHA” sugerindo o indiciamento dos alvos listados.


Nesta mesma data, o delegado divulga pelo Jornal
O DIA um “SCRIPT” do “TIMÃO DO EXTERMÍ-
NIO”, alegando que a fonte única era IVAN CUSTÓ-
DIO. Nesse desenho do delegado há uma numeração
de 1 a 33 (todos os acusados pela chacina), numeração
esta que reproduz a sequência da lista geral gravada
no fraudulento “termo de declarações” de 13/set/93
(entre aspas para indicar a falsidade do documento
policial). Esse “SCRIPT” do delegado foi descarada-
mente utilizado por IVAN CUSTÓDIO para acusar
os “GRUPOS” e “TIMES” desenhados pelo delegado
com o fim exclusivo de sua utilização nas fitas grava-
das por desconhecidos interlocutores e o bandido.

***

Houve a DENÚNCIA e a decretação da prisão pre-


ventiva dos trinta e três acusados no dia seguinte (22/
set/93), dois dias após a difusão de mais um “depoi-
mento” de IVAN CUSTÓDIO (20 set 93) o segundo
providenciado pelo delegado ELIAS BARBOSA, nele
contendo os nomes que formariam o rol dos denun-
ciados. Assim o sistema encerrou esta fase já manten-
do o controle sobre as notícias veiculadas pela mídia,
especialmente porque, a partir de 13 set 93 (primeiro
“depoimento” de IVAN CUSTÓDIO), o sistema anun-
ciava a existência de uma grande “QUADRILHA”
formada por policiais civis e militares, nela incluindo
todos os alvos gravados naquele primeiro “depoimen-
to”. Desta maneira – colocando a responsabilidade das
denúncias toda na conta de um criminoso membro do
CV, estranhamente localizado em 08 set 93, mas so-
mente divulgada sua aparição a partir de 13 set 93 – o

352
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

sistema conseguiu instituir notícias sensacionalistas,


especialmente porque entre os alvos listados foi inseri-
do o então Deputado Emir Larangeira, em represália
às denúncias que fazia dando conta de que nenhuma
investigação estava sendo realizada e que o sistema es-
tava fabricando culpados pela chacina.

Entre 13 e 24 de set o sistema passou a divulgar as


fitas gravadas com o meliante IVAN CUSTÓDIO na
sede da PM.2 (QG da PMERJ) e no Palácio Guanaba-
ra. Nessas gravações, IVAN CUSTÓDIO relata uma
infinidade de fatos delituosos e os atribui aos acusados
pela chacina e a outros alvos do sistema, sempre ale-
gando que um dos acusados pelos crimes comentara
com ele sobre os detalhes (“ouvia sempre de terceiros”;
deveria ser padre não X9). Essas fitas provocaram
enorme estardalhaço porque continham acusações
várias contra delegados de polícia, oficiais da PMERJ
e outros policiais civis e militares, num emaranhado
de informações que impressionavam a imprensa, esta
que, sem qualquer cuidado, difundia em manchetes
sensacionalistas as tais acusações oriundas unicamen-
te do bandido.

Nesta fase foi-se formando uma falsa idéia de que a


chacina de Vigário Geral havia sido realizada por um
“GRUPO PARAMILITAR” denominado “TIMÃO
DO EXTERMÍNIO”, subdividido em “TIMES” e
“GRUPOS” que visavam com os crimes e a chacina de
Vigário Geral a “DESESTABILIZAR O GOVERNO”
Brizola”. Essa manobra do sistema somente veio à luz
a partir de 24 de set 93, quando o delegado ELIAS
BARBOSA fez divulgar, exclusivamente pelo Jornal O
DIA um desenho de sua autoria, segundo ele decorren-

353
Sérgio Cerqueira Borges

te de informações “relatadas” pelo bandido, demons-


trando o tal “TIMÃO DO EXTERMÍNIO”.

Enquanto a trapaça se desenvolvia, o próprio Go-


vernador Brizola, assim como o Vice-Governador Nilo
Batista, anunciavam em uníssono que a idéia desses
“criminosos”, PMs e policiais civis, era a de “DESES-
TABILIZAR O GOVERNO”, ficando claro que a tese
fora praticada pelo sistema mediante monitoração do
bandido do CV, porém apresentado como um singe-
lo “X.9” que fora camelô, motorista de praça, artesão
e sargento temporário do Exército, ou seja, perfil de
pessoa passível de credibilidade. Depois restou pro-
vado: tudo mentira! A mídia engoliu a isca porque a
única fonte das notícias era o sistema, que repassava
as falas do bandido do CV gravadas em fitas para os
ávidos repórteres, cada qual desejando “furar” seu
concorrente.

2. A PRIMEIRA TESTEMUNHA PLANTADA PELO


SISTEMA (LUIZ CARLOS BARBOSA)

Mas a comunidade de informações agiu rápido em


busca de uma solução para a chacina, cujo clamor se
fazia sentir mui violentamente nas primeiras horas,
diante dos corpos das vítimas de Vigário Geral. Tanto
que logo no dia 02 set 93 surgiu não se sabe de onde
uma testemunha ocular prestando dois depoimentos.
O primeiro ocorreu no quartel-general da PMERJ,
nas andurriais instalações da PM.2. O segundo foi
prestado na 39ª DP (Pavuna). Tratava-se dum morador
da favela de Vigário Geral, identificado como LUIZ
CARLOS BARBOSA. Nas duas ocasiões, a testemu-
nha esclareceu minuciosamente a dinâmica da chacina

354
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

no interior da favela de Vigário Geral, que afirmava


ser seu local de moradia. Apontou como autores da
chacina, traficantes de Parada de Lucas, e da própria
favela de Vigário Geral, nominando-os detalhadamen-
te (Seria uma primeira versão mentirosa para livrar-
sem da temida INTERVENÇÃO FEDERAL?).

O primeiro depoimento dessa testemunha, ocorrido


na sede da PM.2, foi levado a termo pelo então ma-
jor PM MARCOS PAES e seus auxiliares diretos, que
também assinaram o documento. Levado depois, pelos
agentes da PM.2, à 39ª DP (Pavuna), LUIZ CARLOS
BARBOSA reafirmou tudo que antes dissera na PM.2.
Depôs na presença do delegado titular, DR. OTÁVIO
SEILLER, e do promotor de justiça, DR. VICENTE
ARRUDA FILHO, que assistiu e também referendou
com sua assinatura o referido depoimento.

Há muitos fatos estranhos em relação a essa inusi-


tada e descartada testemunha: a uma porque não foi
preservada, apesar de sua disposição voluntária e co-
rajosa em denunciar os autores e culpados pelo tene-
broso crime, mesmo correndo riscos por morar no lo-
cal; a duas porque esse cidadão não prestou qualquer
declaração na Delegacia de Defesa da Vida (DDV),
para onde depois fora avocado o processo por deter-
minação do Dr. Nilo Batista. Só houve, na verdade,
uma singela tentativa do delegado ELIAS BARBOSA
em reinquiri-lo, mesmo assim porque o Ministério Pú-
blico determinou tal providência; a três, porque essa
testemunha não foi ouvida em Juízo, a par de infrutí-
feras tentativas da defesa dos acusados, que pediram
diligências para tal fim. Mais estranha ainda foi a de-
claração do coronel PM EDGARD DA COSTA MA-

355
Sérgio Cerqueira Borges

GALHÃES, doravante MAGALHÃES, chefe da PM.2


na época dos fatos: diante da MM. Srª. Drª. Juíza, Pre-
sidente do II Tribunal do Júri, MAGALHÃES asse-
gurou que na sua opinião a testemunha foi “planta-
da”, vejam bem a afirmação, PLANTADA; ora, quem
planta uma testemunha, não plantaria outra se este
fosse de melhor interesse destes?

Os três depoimentos estão acostados no processo


que apura a chacina de Vigário Geral. É imperativo,
então, indagar:

I. Se a testemunha foi “plantada”, como “descon-


fiou” MAGALHÃES, então chefe direto de MARCOS
PAES, então quem a “plantou”?...

II. Por que MAGALHÃES “desconfiou” e mesmo


assim não investigou nada? Afinal, se a testemunha
foi “plantada”, e o fato dizia respeito diretamente ao
deslinde da chacina de Vigário Geral, é certo que esta
investigação sobre quem a “plantou” levaria à certeza
absoluta da autoria do tenebroso crime, pois somente
a algum chacinador interessaria “plantar” uma teste-
munha como essa. Ou terá sido outra a razão?...

III. Não seria imprescindível preservar a integrida-


de física da testemunha?...

IV. Não seria caso de colocá-la imediatamente sob


a proteção do Estado, em local certo e sabido, como o
fizeram com a outra, IVAN CUSTÓDIO?...

Por outro lado, se o que disse a testemunha é ver-


dadeiro – e não há nada até agora que tenha destruí-

356
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

do com qualquer prova material tudo o que ela de-


clarou formalmente –, os muitos inocentes – policiais
civis e militares, além de autônomos (“X.9”) – não te-
riam amargado como erradamente réus processo que
se tornaria tão tenebroso quanto a própria chacina.
Esses inocentes tiveram de suportar nos porões das
prisões o máximo da indigência, da indignidade hu-
mana e do infortúnio, para desespero deles e de suas
famílias. Porque hoje não há mais dúvida de que os
incriminados é quem foram “plantados” pelo sistema
como autores e culpados por um fato de terrível me-
mória, no qual não tiveram participação. As provas no
processo assim o asseguraram e as decisões judiciais
assim concluíram.

É bom lembrar que tudo que houve em relação à


testemunha LUIZ CARLOS BARBOSA foi presenciado
e fiscalizado por um promotor de justiça. Por isso é muito
grave a «opinião» não apurada do então chefe do principal
órgão de apuração dos fatos: a famigerada PM.2. na
verdade, MAGALHÃES colocou sob suspeita, de uma
só vez, seu próprio setor de trabalho, seus subordinados,
o delegado de polícia DR. OTÁVIO SEILLER, além
do Ministério Público, neste ato representado pelo DR.
VICENTE ARRUDA FILHO.

Esta é, sem dúvida, uma situação inusitada, um


mistério a ser deslindado e que, como tudo indica, tem
origem e fim no âmbito da própria facção (comunida-
de de informações). Pois é certo que a ter razão MA-
GALHÃES, todas as baterias dos investigadores se
teriam naturalmente voltado para o deslinde do mis-
tério, resultando na solução da própria chacina. Ou

357
Sérgio Cerqueira Borges

será que realmente “plantaram” a tal testemunha de


primeira hora?... É de se perguntar:

I. Por que a facção preferiu o testemunho de “ou-


vir dizer” de terceiros (IVAN CUSTÓDIO, BANDIDO
DO CV), em vez do testemunho que supostamente viu
tudo?...

II. Por que a facção não trabalhou com as duas tes-


temunhas e suas versões?...

III. Será que a “opinião” de MAGALHÃES, exter-


nada oficialmente no II Tribunal do Júri, foi mais um
ato falho dentre tantos outros já observados ao longo
do processo e dos anos?...

IV. E se a testemunha LUIZ CARLOS BARBOSA


mentiu duas vezes sobre assunto tão grave, por que
não culminou processada e punida? Seria um louco?
Afinal, que mistério foi esse que o sistema ignorou?

A perfeição e a coerência desses dois depoimentos


prestados por LUIZ CARLOS BARBOSA – se é que
ele realmente existiu no mundo e na favela –, associa-
das ao desinteresse do sistema em aprofundar essa
vertente investigatória, leva à conclusão de que tudo
não passou de trapaça, a primeira iniciada pelo siste-
ma em buscar uma rápida solução para o tenebroso
crime, colocando-o na conta de traficantes de Parada
de Lucas sem se importar em apurar a verdade. Aliás,
a verdade foi a única coisa que jamais interessou ao
sistema.

358
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

Dentro dessa ótica, não é difícil concluir que o siste-


ma queria uma solução veloz para a chacina, fosse ou
não compatível com a realidade dos fatos. E ela veio
através da PUNIÇÃO DISCIPLINAR DE MUITOS
PMS QUE COMPARECERAM AO SEPULTAMEN-
TO DO SARGENTO AILTON, assassinado com mais
três PMs por traficantes de Vigário Geral na véspera
da chacina, MAS TAMBÉM HOUVE QUEM NEM
COMPARECEU AOS VELÓRIOS E FORAM TAM-
BÉM PRESOS; NÃO HÁ LÓGICA, HÁ SIM IN-
TERESSES DIFUSOS. Os quatro compunham uma
guarnição fardada e embarcada em viatura caracte-
rizada. Mais curioso ainda é que o critério se prendeu
somente ao enterro do SGT PM AILTON, eis que, em
estando presente o facínora IVAN CUSTÓDIO, não
por acaso sócio do sargento num barco de pesca, bas-
tou ao sistema usar esse novo caminho tão trapaceiro
quanto o anterior.

Enfim, o facínora do CV ocupou o centro da trapaça


como única testemunha a acusar PMs fotografados no
enterro do seu amigo sargento, apontando em fotos até
quem nem no enterro compareceu, sempre alegando
ter ouvido do PM NETO, também seu sócio e do SGT
PM AILTON no tal barco de pesca (fato documenta-
do). Deste modo, não interessou ao sistema mais nada,
havia no enterramento do sargento “bodes” suficien-
tes para “expiar” pelo tenebroso crime que ocorreu
em Vigário Geral naquela mesma noite de domingo. E
foi a partir dessa decisão que o sistema simplesmente
“esqueceu” de LUIZ CARLOS BARBOSA, que por
essa hora, e desde aquela época, pode ter sido simples-
mente apagado do mapa pelos perigosos arapongas
que inventavam autores e culpados pela chacina.

359
Sérgio Cerqueira Borges

3. A VERDADEIRA DATA DA LOCALIZAÇÃO DE


IVAN CUSTÓDIO BARBOSA DE LIMA

Com efeito, o trunfo do sistema situacional pede-


tista para dar resposta à chacina de Vigário Geral foi
um famigerado criminoso do CV, IVAN CUSTÓDIO,
como demonstrarei em momento posterior. Ironia do
destino, talvez, ou irresponsabilidade total, esse me-
liante foi utilizado como um autômato a serviço de
trapaças jamais imaginadas, a não ser em épocas e si-
tuações de extrema tirania em que a crueldade não ne-
cessitava de freios. Mais ou menos como na Inquisição
e tribunais semelhantes, o poder público capitaneado
pelo PDT funcionou para se livrar das consequências
de sua própria omissão ante um crime organizado
com o qual antes concertara para ganhar eleições com
os votos favelados determinados pelo terror das armas
dos traficantes mandatários das favelas do RJ. Claro
que o bandido não surgiu por acaso, mas consequente
de uma promiscuidade que se instalara no ambiente
social do estado, com uma polícia posta lado a lado
com o banditismo em razão de assumida inércia do po-
der político.

O facínora do CV IVAN CUSTÓDIO estava pre-


sente ao sepultamento do sargento Ailton, do qual era
sócio num barco de pesca e decerto em “mineiras”,
e fora deste modo fotografado. E, como se verá, era
já conhecido por muitos policiais do nono batalhão.
Feita a ressalva, passarei a demonstrar que a data da
localização dele foi 08 set 93, ou até antes, e não como
blefou o sistema situacional para legitimar as mentiras
do bandido arrancadas mediante promessas de ano-

360
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

nimato e outra identidade no exterior. Isto é de suma


importância para a compreensão das orquestrações
que ocorreram nos bastidores da PM.2, pois foi efeti-
va e intensa a sua manipulação, com ele colaborando
de todos os meios e modos. Aliás, esta foi apenas mais
uma trapaça da facção (malfeita, por sinal) que per-
mitiu diversos desdobramentos artificiais para a incri-
minação dos alvos do sistema. Destaquem-se trechos
específicos de seu depoimento no II Tribunal do Júri,
em 02 out 93:

(...); que na terceira semana após o fato, numa


segunda-feira o depoente estava em Sepetiba em
sua residência, quando avistou um Gol do qual
desceram o Sargento DE SOUZA, pessoa que
reconheceu como sendo P 2 do Nono Batalhão
e o Capitão CARLOS; que o depoente não ficou
intranquilo porque conhecia bem o sargento...
(Grifos nossos)

Esse trecho do depoimento apresenta afirmações


fundamentais para elucidar a orquestração do sistema
a partir da colaboração robotizada da “testemunha-
chave”. A começar por ele mesmo afirmar que conhe-
cia adrede o SGT DE SOUZA, homem de confiança de
CESAR PINTO e membro da P.2 do novo batalhão, o
que demonstra haver intimidade anterior entre eles.
Ele ainda afirma que “conhecia bem o sargento”, o
que reforça a certeza de que estava mui bem identi-
ficado pelo sistema antes ainda de ocorrer a chacina
de Vigário Geral, não sendo demais concluir que ele é
suspeitíssimo de ter participado do crime com os ver-
dadeiros matadores. Também é mais que evidente ter
ele preferido apontar inocentes em vez dos seus ami-

361
Sérgio Cerqueira Borges

gos que com ele participaram do crime. Deste modo,


ele pôde contar com a proteção velada do seu grupo
enquanto fazia o jogo do sistema, este, que almejava
nada mais que se livrar do grave problema e evitar a
intervenção federal no RJ. É fácil imaginar a “carta
branca” dessa turma que “investigou” e “solucionou”
o grave crime.

Há de se esclarecer de pronto que as dissimulações


terceira semana e segunda-feira significam a fixação
indireta da data de seu preparado termo de declara-
ções DDV de 13 set 93, que a facção procura desespe-
radamente legitimar. Mas esse termo tem sido omitido
pela acusação, que não quer se arriscar a defendê-lo,
por ser tão preparado, sistematizado e matemático
que não resistiria a uma arguição de psicólogos, peda-
gogos e de outros especialistas capazes de comprovar
que o ser humano não é capaz de, ao ser “inquirido”,
“responder” da forma como esse termo se apresenta.
Ademais, todos aqueles que participaram direta ou in-
diretamente da localização da “testemunha-chave” in-
sistem no esforço em fixar a tal “segunda-feira”. Nilo
Batista declarou no seu depoimento no II Tribunal do
Júri, em 17 jun 94:

(...); Que certo dia, uma segunda-feira, quando


ainda Secretário de Justiça, recebeu telefonema
do Coronel Cerqueira afirmando este que tinha
conhecimento de uma pessoa e que tal pessoa te-
ria notícia acerca do fato acontecido em Vigário
Geral.

Disse também o delegado ELIAS BARBOSA, em


seu depoimento no II Tribunal do Júri:

362
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

(...); Após os autos do inquérito terem sido re-


metidos para a delegacia na qual trabalhava o
depoente, este começou a receber informações
através do Gabinete do Secretário de Polícia,
pois as investigações davam-se inicialmente a
partir daquele comando (...); que as investiga-
ções partiam do Gabinete da Polícia Civil (...);
seguia-se como linha de investigação os dados
trazidos pelo Alto Comando da Polícia Militar.

(...); até que em uma segunda-feira foi entregue


para a PM.2 um mandado para Busca e Apreen-
são na casa de IVAN AGUIAR ...

(...); o Mandado acabou sendo cumprido na se-


gunda-feira...

(...); que o primeiro depoimento de Ivan foi na


segunda feira...

(...); que a partir do dia 13 todos os atos do in-


quérito eram realizados sob sua presidência...

A insistência em fixar a “segunda-feira” como o dia


em que IVAN CUSTÓDIO foi localizado, para sincro-
nizar como 13 set 93, encontra unanimidade também
no major PM Carlos Alberto Silva e Souza – o então
capitão Carlos – responsável pela Busca e Apreensão
na residência de IVAN CUSTÓDIO. Tanto quanto o
delegado, afirmou o major Carlos que o fato ocorreu
numa “segunda-feira”, em “13 set 93”, tendo o cuida-
do “de consultar a sua agenda” no dia em que prestou
depoimento no II Tribunal do Júri. O próprio IVAN
CUSTÓDIO revelou, no mesmo II Tribunal do Júri,

363
Sérgio Cerqueira Borges

uma das mais gritantes contradições, que garante ine-


quivocamente ter sido localizado bem antes de 13 set
93:

(...); que no primeiro e no segundo dias que pres-


tou declarações foram exibidas ao depoente foto-
grafias dos acusados...

Como poderia IVAN CUSTÓDIO levar dois dias


para analisar as fotografias dos acusados, se foi loca-
lizado na segunda-feira à noite, mesma data do pre-
parado depoimento? E, se houve “primeiro e segundo
dias...” aquele termo de declarações era para ser data-
do, no mínimo, de 14 set 93. A conclusão:

IVAN CUSTÓDIO NÃO FOI LOCALIZADO NA


TÃO CONSAGRADA
SEGUNDA-FEIRA, 13 set 93, MAS EM 08 set 93.
OU ATÉ ANTES.

E esta comprovada antecedência foi usada pelo sis-


tema para uma lavagem cerebral, espontânea e con-
sentida, na “testemunha-chave”.

O termo de declarações DDV de 13 set 93 – bastante


longo e minucioso – foi omitido nas Alegações Finais
da Acusação no processo da chacina de Vigário Geral,
porque o Ministério Público o tem evitado tanto quan-
to pode, para que essas verdades não sejam reveladas.

E para cessar qualquer dúvida a respeito da ver-


dadeira data da localização de IVAN CUSTÓDIO, e
nada permaneça no campo das armações e especula-
ções, vamos usar a inconfundível declaração do pró-

364
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

prio BRUM (que vinha investigando o paradeiro de


um ex-PM – Ivan da Silva Aguiar – através da P.2 do
RPMont, com as vistas no endereço de IVAN CUSTÓ-
DIO, sabe-se lá como) no II Tribunal do Júri, em 07
mai 94:

(...) que a data em que Ivan foi levado para teste-


munhar na PM.2 é a mesma constante da Busca
e Apreensão na rua Valdir, 60 – Sepetiba...

Por não ter tido a mesma prudência e o mesmo


“senso profissional” do major PM CARLOS ALBER-
TO SILVA E SOUZA, ou confiando demasiadamente
na memória, BRUM não agendava suas falas. E o que
dizia em um momento, contradizia em outro. Só que, o
que ele não anotava, de alguma forma ficava registra-
do. E aí está o exemplo contundente, inadvertidamen-
te declarado pelo mais “diligente investigador”.

O Mandado de Busca e Apreensão foi datado e


cumprido, realmente, como afirmou BRUM, em 08
set 93, portanto numa quarta-feira, cinco dias antes
do que os sintonizados depoentes, membros da facção
tentam dissimular, tanto quanto vem tentando, tam-
bém, o treinado IVAN CUSTÓDIO. E nenhuma razão
havia para a açodada facção retardar suas ações logo
neste caso. Disse, ainda, BRUM, confirmando a inegá-
vel pressa:

(...); que naquela mesma semana da chacina o


Delegado ELIAS GOMES BARBOSA da DDV
passou um dado importante para o depoente
no sentido de que em determinado endereço em
Sepetiba morava um elemento conhecido como

365
Sérgio Cerqueira Borges

IVAN que trabalhava como X-9 e que teria envol-


vimento com a chacina de Vigário Geral (...); que
objetivando levantamento de dados em razão da
emergência da diligência, o depoente entrou em
contato com o Comando do Regimento de Ca-
valaria que determinou a ida de uma equipe ao
local para a confirmação, ficando certo tratar-se
do endereço da Rua Valdir nº 60, onde realmente
existia um IVAN (.. .).

Ora, a “mesma semana da chacina” está conti-


da entre os dias 30 ago 93 (segunda-feira) e 06 set 93
(a segunda-feira seguinte). BRUM evidencia bem a
“emergência da diligência”, fator mais do que óbvio
em razão da expectativa de sua importância e motivo
suficiente para a ação imediata no sentido da localiza-
ção desse “envolvido”.

Admitir, portanto, que os sintonizados depoentes


Nilo Batista, Elias Barbosa e Carlos Alberto Silva e
Souza tenham razão, e que o Mandado de Busca e
Apreensão (datado de 08 set 93) tenha sido cumprido
somente na “segunda-feira” dia 13 set 93, ou, como
disse o monitorado IVAN CUSTÓDIO, no II Tribunal
do Júri em 02 out 93, “terceira semana após os fatos,
numa segunda-feira”, que coincide com o dia 13 set 93,
é consagrar a idiotice geral.

Com referência às fotografias, o próprio delegado


assegura ter pedido aos jornais as fotos dos sepulta-
mentos. Mas já havia fotos disponíveis e pertencentes
aos arquivos da PMERJ, que certamente foram uti-
lizadas. E não é difícil compreender a separação de
fotos individuais pela PMERJ, pois o próprio coman-

366
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

dante do 9º BPM – CESAR PINTO – estava presente


ao sepultamento do Sargento Ailton, assim como en-
viou representantes aos outros sepultamentos.

Muitos dos PMs presentes ao sepultamento do SGT


AILTON já estavam identificados pelo processo de co-
nhecimento rotineiro, especialmente aqueles que ser-
viam, ou serviram no 9º BPM, no período de comando
do referido coronel.

As demais fotos dos alvos de BRUM com certeza já


estavam separadas, assim como diversos deles até já
presos, mesmo não tendo comparecido a sepultamento
nenhum. Portanto, não há qualquer possibilidade de
explorar a “coincidência”.

Trata-se de tentativa infantil da facção em querer


autenticar o ilegítimo, ou seja, atribuir a IVAN CUS-
TÓDIO a proeza de identificar os incriminados que
não foram aos sepultamentos, mas agora dizendo que
os nomes deles foram indicados pelo ex-PM Neto e que
os conhecia de um depósito de bebidas em São João de
Meriti.

4. O VERDADEIRO IVAN CUSTÓDIO BARBOSA


DE LIMA

IVAN CUSTÓDIO, qualificado como “testemunha-


chave” para a elucidação da chacina de Vigário Geral,
condição que o permitiu destruir muitas reputações de
pessoas inocentes, recebeu, na verdade, todas as pro-
messas de impunidade do sistema situacional, sendo
forte a possibilidade de ele ter participado da chacina,
em especial por ser sócio do sargento Ailton num bar-

367
Sérgio Cerqueira Borges

co de pesca. O SGT AILTON e mais três PMs de sua


guarnição foram emboscados e assassinados por trafi-
cantes de Vigário Geral na Praça Catolé do Rocha na
véspera da chacina.

Em vista da grande repercussão desse tão deplorá-


vel fato, todas as insidiosas e infundadas, assim como
monitoradas acusações dessa “testemunha-chave”,
apesar de reconhecidamente falsas, foram tornadas
“verdadeiras” acolhidas pelos “investigadores” do
sistema situacional e por eles divulgadas para a im-
prensa sem qualquer critério mínimo compatível com
a prática nas da investigação criminal. Fizeram dele
protagonista de monstruosas mentiras, tais como su-
geria o insidioso ministro da Propaganda Nazista Jo-
seph Goebells: “Uma mentira repetida mil vezes, vira
verdade”.

Apresentado como pessoa idônea, sem anteceden-
tes criminais, terceiro-sargento do Exército Brasileiro,
motorista de praça, camelô etc., a “testemunha-cha-
ve” atendeu perfeitamente à avidez da imprensa e ao
desespero das autoridades públicas em buscar solução
imediata para o grave problema que enfrentavam, so-
bretudo diante do clamor público e da ameaça de in-
tervenção federal no RJ.

Na verdade, IVAN CUSTÓDIO é membro


integrante da facção do crime organizado COMAN-
DO VERMELHO. E foi plantado pela facção, inven-
tado como “testemunha-chave”, posto ter sido a única
solução encontrada para uma resposta rápida a tudo e
a todos, diante do caos social produzido pela tragédia.

368
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

Com a frieza típica do bandido “cabeça-feita”, ca-


deeiro contumaz, treinado e forjado na senda do crime,
à sombra da impunidade, vinha ele ocultando de todos
e até da Justiça sua verdadeira origem criminosa. Esse
famigerado bandido, íntimo da cúpula do CV, como
adiante ficará comprovado, possuía vasta folha penal,
com diversos crimes confirmados, inclusive com divul-
gação por alguns jornais: Furtos, furtos qualificados
com participação de duas ou mais pessoas, receptação,
uso de documentos falsos, tráfico de entorpecentes, e
assalto a mão armada. Esses crimes foram cometidos
em três Estados da Federação: Rio de Janeiro, São
Paulo e Mato Grosso.

Considerando a real possibilidade de troca de iden-


tidade (dedução de sua própria folha penal), a faci-
lidade de locomoção (verdadeira onipresença) do CV
pelo Brasil, impunidade e anonimato, não é demais
concluir que esse marginal possa ter praticado, tam-
bém, crimes em outros Estados da Federação.

A ligação efetiva e material do marginal com o CV,


íntima com a cúpula dessa facção criminosa, está re-
lacionada com suas parcerias nos assaltos a mão ar-
mada que cometeu. Um dos seus comparsas, nos dois
assaltos praticados aqui no Rio, foi o perigoso margi-
nal conhecido pela alcunha de CHAPELÃO – LUIZ
CARLOS DE SOUZA BARROS – membro ativo da
alta cúpula do CV.

Diversas reportagens jornalísticas, além da folha


penal do RJ anexas, comprovam a perniciosa e hedion-
da importância de CHAPELÃO no mundo do crime
e liderança no CV. Do mesmo modo aparecem as es-

369
Sérgio Cerqueira Borges

treitas ligações de CHAPELÃO – parceiro de assaltos


de IVAN CUSTÓDIO – com outro perigoso assaltan-
te, chefão do CV, LUIZ CARLOS CRUZ – o CACA-
LO –, que na sua imensa folha penal, também anexa,
apresenta crimes em conjunto com CHAPELÃO, além
das notas jornalísticas inconfundíveis. CACALO figu-
ra, inclusive, em parceria de assalto com ROGÉRIO
LENGRUBER, o BAGULHÃO, líder do CV, já faleci-
do. São ligações materiais inequívocas.

Não há dúvida, portanto da participação da “teste-


munha– chave” em diversos crimes, bem como de sua
estreita ligação com a cúpula do CV. Esta é uma situa-
ção grave na medida em que todas as acusações, den-
tre outras, às referentes à Chacina de Vigário Geral,
partiram somente de insidiosas, falsas, infundadas ou
orquestradas denúncias não confirmadas de um fora
da lei, um reconhecido bandido do CV.

Pois tal igual uma metralhadora giratória descon-


trolada, o marginal IVAN CUSTÓDIO, com as devi-
das instruções de quem o produziu e dirigiu, destroçou
a honorabilidade e destruiu a imagem de pessoas reco-
nhecidamente inocentes. Infelizmente, ele foi estimu-
lado amparado em sua pérfida missão por alguns inte-
grantes do quadro de autoridades públicas da Polícia
Militar, da Polícia Civil, do Ministério Público, bem
como dos próprios mandatários políticos do RJ.

Sobreleva considerar, ainda, a espetacular cobertu-


ra da imprensa – inclusive internacional – cujo dano
em seu rolo compressor é irreparável. Tudo isso pro-
duziu também um estrago de grandes proporções na
imagem do Rio de Janeiro e do Brasil.

370
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

A Chacina de Vigário Geral conseguiu legitimar a


mais absurda injustiça praticada pelo Sistema Gover-
namental contra inocentes e indefesos policiais mili-
tares e policiais civis. E tem ainda legitimado um sem
-número de abusos de poder, dissimulado em trapaças
bem urdidas pelo sistema situacional do qual já tanto
nos referimos.

Em momento algum a facção estatal de menor por-


te – ou qualquer outra autoridade maior da PMERJ,
da PCERJ ou do MP – informou à imprensa e à popu-
lação a verdadeira índole de IVAN CUSTÓDIO, a sua
vida de bandido com vasta folha penal interestadual e
sua ligação do a cúpula do CV.

Em nenhum momento os investigadores, em exibi-


cionismo exacerbado, alguns até alçados à condição
de “garotos-propaganda” do Governo no tenebroso
episódio da Chacina de Vigário Geral, em nenhum
momento informaram sobre o passado criminoso de
IVAN CUSTÓDIO e as suas ligações incontestes com o
CV, embora, claro, soubessem de tudo.

E fez pior: a facção orquestrou e vem sustentando


até hoje as mentiras do marginal, decerto revirando
os arquivos policiais para colocá-los em dia. A ânsia
da facção em prejudicar a quem toma como desafeto,
e a vaidade de “garotos-propaganda” de alguns os ce-
garam totalmente. A tal ponto que a facção deixou de
dar a atenção devida ao CV ou fingiu esquecer o essen-
cial: Investigar a idoneidade da “testemunha-chave” e
apurar suas absurdas denúncias antes de apresentá-la
à opinião pública verdades indiscutíveis. Assim tudo
funcionou: como solução mágica da Chacina de Vigá-

371
Sérgio Cerqueira Borges

rio Geral e de todos os crimes que estavam insolúveis,


como “pedras nas chuteiras” dos integrantes do Sis-
tema.

Afinal, é possível conceber que o sistema situacio-


nal desconhecia o passado de crimes de IVAN CUS-
TÓDIO e suas ligações íntimas com a cúpula do CV?...
Ah, uma coisa é certa: até seu primeiro depoimento no
II Tribunal do Júri a “testemunha-chave” negou seu
passado de crimes e de membro do CV, sendo desmas-
carado pelas primeiras provas documentais no proces-
so, para surpresa, inclusive, dos ilustres promotores de
justiça.

Considerando o tenebroso passado do marginal do


CV e sua já extensa folha penal, é possível supor que
qualquer investigação mínima jorraria luz sobre no-
vos dados de sua vida de crimes. Mas isto é providência
desnecessária, as provas que existem são suficientes.
Mas que fique claro que a facção não se interessou em
desvelar todos os crimes do misterioso personagem do
CV... Também já é possível aventar a hipótese, basea-
da em dados concretos sobre a vida marginal de IVAN
CUSTÓDIO, de que ele teria participado da chacina.
Daí conhecê-la nos mínimos detalhes, mas “plantan-
do” participantes de acordo com a vontade da facção
que o sustentou e ainda o mantém impune e motivado.

Assim IVAN CUSTÓDIO agradou aos seus chefões


e pares do CV, que festejaram a vitória em seus redu-
tos com pagodes e chopadas; agradou às autoridades
do governo da época, porque permitiu demonstrar
eficiência nas investigações, com a fabricação dos cul-
pados; agradou à imprensa, pois nunca houve tanta

372
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

notícia sensacionalista à disposição desses veículos de


comunicação de mensagens. Tudo isso apenas vem
reafirmar a vitória do CV sobre o Poder Público e so-
bre a sociedade do RJ, decorrendo disto, inclusive, a
intervenção das Forças Armadas no combate ao crime
no Rio.

Vistos, vamos ao dossiê de CV IVAN CUSTÓDIO.


Acresce ao dossiê a folha de alterações do marginal
durante sua passagem pelo Exército Brasileiro, o que
comprova ser ele, além de criminoso contumaz e peri-
goso, um descarado mentiroso:

4.1. FOLHA DE ALTERAÇÕES DE IVAN CUSTÓ-


DIO NO EXÉRCITO BRASILEIRO

Incorporou em 15. 01.75 NO 20º Bat Log PQD, fun-


ção motorista, soldado 1.055,Cia Mat. Bel.

PQDT em 09.12.75.

Transferido p/of. nº 894, de 05.12.75, para o 27º B. I.

09.11.76 – Luto genitora de 04/fev/76 a 12/fev/76.

REENGAJOU POR DOIS ANOS A CONTAR DE


15 JAN 76.

A 10 dez, em Bl 231, publicou que faltou ao quartel


desde o dia 08 dez 76, completando 24 horas no dia 9/
dez de ausência.

A 238 (Nr Bl) de 27/dez/76 – publicou ter deixado


de se apresentar no quartel por término de férias che-

373
Sérgio Cerqueira Borges

gando a passar ausente Nr 28 do art. 13, transgressão


GRAVE (preso por 15 [quinze] dias em separado) In-
gressando comportamento MAU.

A 07 jan 77, o BI nº 005, publicou que tendo che-


gado ao conhecimento através do Ofício Nr 47177, de
05 Jan 77, do Titular da 29ª DP cópia de ocorrência
em que se viu envolvido o militar desta OM, na qual o
mesmo tem sido preso em flagrante por roubo de auto-
móvel conforme confissão feita espontaneamente pelo
referido Soldado, não fora este o primeiro carro rou-
bado fato este que caracteriza ser autor como indigno
de permanecer nas forças armadas. Resolvo com base
no nº 2 do Art. 141 da RLSM de acordo com a letra C
do parágrafo 2º, do nº 2 do Art. 125 do E/1, licenciá-lo
a bem da disciplina, e posteriormente apresentá-lo a
29ª DP, por onde correrá o inquérito sobre as ativida-
des em que o Sd em tela é indiciado.

Em consequência licencio a bem da disciplina pela


prova de ato indigno contra o pundonor militar que o
incapacita de permanecer nas fileiras do E B, de acor-
do com o Nr 2 do Art. 141 do RLSM letra C do pará-
grafo 2º do Nr 2 do Art. 125 do E/1 (Idt 0131502-5)
Ivan Custódio Barbosa de Lima, filho de Walter Cus-
tódio de Lima e Margarida Barbosa, nascido em 01
Fev, bras, solt, cútis pard cl cabelos cast/esc e crespo
olhos cast esc..

Declarou residir à Rua Lambarí, Nr 117 – Madu-


reira – RJ.

Recebeu Certificado de Isenção Nr 45.829 Série A


Licenciado.

374
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

4.2. FOLHA PENAL DE IVAN CUSTÓDIO

RG: 03418.380-6

Filiação: Walter Custódio de Lima e Margarida


Barbosa

.......................................................................................

Rio de Janeiro:

11ª V.C. 28.12.76 – Ofício 4301 da 29ª DP, Madurei-


ra. Art. 157 Par. 2º incisos I e II. Proc. 34656 – Flag.
1057/76 Cond. 5 anos e 4 meses a regime de reclusão
fechado. Comparsa: CHAPELÃO.

19ª VC – 22.04.77 – Proc. 32453. Inq. 59 da DRF.


Art. 157 Par. 2º incisos I e II – Comparsa: CHAPE-
LÃO

.......................................................................................

Mato Grosso do Sul:

Proc. 002/82 – tipo comum – arts. 155 e 304 C/C 5l


do CP. Trans. Julgado – não consta multa. Mandado –
expedição em 06.08.82 – Incid. Penal art. 155 CP. Clas.
Condenação prescrição – 05.07.82

.......................................................................................

375
Sérgio Cerqueira Borges

São Paulo:

Inq. 683/83 – 03ª DP – 22.06.82 Inst. 26/04 – Tipo


Policial Portaria – Campos Elísios – Vítima Yaeke
Miura – Inc. Penal Art. 155 CP – Proc. 371/83 – Deci-
são 21.12.84 – tipo comum – 11ª VC – Inc. Penal Art.
155 do CP – RG 14. 218.247-3 – Trans. Julgado – Não
consta multa. Sit. Trans. Julgado – absolvido.

.......................................................................................

São Paulo:

Inq. 0097/83 – Del. 01ª DP – Fato 07.12.82 Inst.


26/04. Tipo: Policial Portaria – Vítima José Bueno Al-
ves. Inc. Penal Art. 155 Par. 04

Baurú:

Inc. I do CP. Art. 155 Par. 04 Inc. IV CP. Art. 180


CP. Inq. 0064/83 – Del. 01ª DP. Fato: 12.12.82 Inst.
10/82. Tipo: Policial Portaria – Vítima: Aparecido
Belchior. Inc. Pen. Art. 155 Par. 04 Inc. I CP. Art. 155
Par. 04 Inc. IV CP. Art. 180 CP. Proc. 700/83 – Deci-
são 30.09.86 – tipo comum – Aut. Jud. 1ª VC – Sist.
Transit. Julgado – Condenado. Inc. Penal – Art. 180
CP – Pena: 1 ano Reclusão. Trans. Julgado – Não cons-
ta multa – 1Cruzeiro.

Proc. 700/83 – Decisão 18.06.91 – Tipo: Comum –


Aut. Jud. 1ª VC – Sist. Extinção da Punibilidade. Inc.
Penal – não consta – Trans. julgado: Não consta multa.

376
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

Mandado: Seq. 002 N. Proc. 700/83 – Aut Jud 1ª


VC Exp 04.12.86 – Pena 1 ano reclusão – Inc. Penal
Art. 180 CP. Clas. Condenação prescrição; Situação:
Existe C M Corresp. – Cumprimento.

Contramandado – Aeq. 001 – Nº Proc. 700/83 Aut.


Jud. 1ª V. C. Exp. 20.06.91. Motivo – Extinta a puni-
bilidade.

.......................................................................................

São Paulo:

Inq. Nº 2937/83 Del. Pol. – Fato 11.07.83. Inst. 11.07.


Seq. 002 – Tipo: Policial – Flagrante. Inc. Pen. Art.
012/ Lei 6368 – Lei de Entorpecentes.

Diadema:

Condenado a 4 (quatro) anos de prisão fechada,


Sentença Transitada em Julgado. Conduzia 117 Kg. de
maconha. Proc. Nº 514/86 – Tipo: Sumaríssimo – Nº
Inq. 2937. Aut. Jud. 1ª VC – Art. 0012/Lei de Entorpe-
centes – Trans. Julgado – Não consta multa.

.......................................................................................

OBSERVAÇÕES DO IDENTIFICADO: sinais


particulares – Seq. 004 – Descrição: tatuagem no bra-
ço esquerdo e no peito.

INFORMAÇÕES GERAIS:

Seq. 004 Desc. Qualificação indireta em 28.06.83

377
Sérgio Cerqueira Borges

Inf. preso – Seq. 001 Informação 03.02.83. Histó-


rico – Prisão – Data: 28.01. Local: Casa de Detenção
– Motivo: Flagrante.

Inf. Preso – Seq. 002 Informação 07.04.83 – Históri-


co – Transf. Data 05.04 – Local: Botaguassu – Motivo:
Cumprir Pena.

São Paulo – Capital – 9ª VC – Informação da Divi-


sião Técnica de Distribuição e Informação Criminal
DIPO 2, de 7 OUT 93: ESTELIONATO EM 24.12.80.

*********************************

4.2.3 – FOLHA PENAL DE LUIS CARLOS DE


SOUZA BARROS (Vulgo CHAPELÃO)

RG 02625938

.......................................................................................

23ª VC – Art. 155 CP – Proc. 4071 Inq. 60 da 27ª DP


– Cond. 02 anos e 06 meses

.......................................................................................

15ª VC – Art. 157 – Par. 2º I e II do CP – Proc. 10597


– Inq. 125/71 da 27ª D. P.
Cond. 06 anos e 08 meses.

.......................................................................................

378
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

11ª VC – Art. 157 – Par. I e II do CP – Proc. 26460 –


Cond. 05 anos e 04 meses

.......................................................................................

11ª VC – Art. 157 – Par. 2º I e II do CP – Flagrante


1057/76 – Proc. 34656 – 29ª D. P.
Cond. 08 anos de Reclusão – Comparsa: IVAN
CUSTÓDIO.

.......................................................................................

12ª VC – Art. 157 Par. 2º I e II e 288 C/C 51 CP


Proc. 23436 – Inq. 65/72 da 27ª DP. Cond. a 07 anos de
Reclusão.

.......................................................................................

23ª VC – Art. 288 do CP e e 19 da LCP – Flagrante


257/79. Cond. 03 anos e 08 meses
.......................................................................................

19ª VC – Art. 157 Par. I e II do CP – Proc. 32453


DRF. Anulado. Comparsa: IVAN CUSTÓDIO.

.......................................................................................

Comarca de Angra dos Reis – Art. 12 da Lei 6368/76.


Absolvido.

.......................................................................................

379
Sérgio Cerqueira Borges

11ª VC – Proc. 28021. Inq. 89 da 17ª DP – Absolvido.

.......................................................................................

8ª VC – Art. 157 Par. I e II C/C Art. 288 Par. Único


C/C Art. 51 do CP. Proc. 45633.
Inq. 69/81 da DRF. Condenado 08 anos. Obs.: Nes-
te assalto a quadrilha foi constituída pelos marginais
RUBENS PEREIRA DA SILVA e LUIZ CARLOS DA
CRUZ (CACALO)

.......................................................................................

19ª VC – Proc. 37777 – Inq. 109 da DRF de 10.06.81.


Absolvido.

.......................................................................................

12ª VC – Inq. 108/81 DRF. Proc. 018 – SEM CON-


DENAÇÃO

.......................................................................................

23ª VC – Proc. 16539 – SEM CONDENAÇÃO

.......................................................................................

2ª VC – SERRA C. ESPÍRITO SANTO – MANDA-


DO DE PRISÃO 318/83. Art. 157 Par. 2º I e II C/C 44,
I Todos do CP. Mandado expedido em 16.01.84

.......................................................................................

380
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

*********************************

4.2.4 – FOLHA PENAL DE LUIZ CARLOS DA CRUZ


ou JORGE LUIZ DA SILVA (CACALO)

R G 3 209 825

.......................................................................................

2ª AUDITORIA DA MARINHA – Art 27 do Dec.


Lei 898/69 – Proc. 395/75 – Condenado 07 anos e 03
meses

.......................................................................................

6ª VC – Art. 155 Par. 4º IV do CP – Proc – Cond. 08


meses.

.......................................................................................

15ª VC – Art. 48 da Lei 898/69 – LSN – Proc. 17468


– Alvará de Soltura da 15ª VC.

.......................................................................................

16ª VC – Art. 157 Par. 2º I e II do CP – Proc. 38180


– Cond. 11 anos e 05 dias.

.......................................................................................

20ª VC – Art. 157 Par. 2º I e II do CP C/C 51 Par. 1º


do CP – Proc. 30309 – Cond. 08 anos e 09 meses

.......................................................................................

381
Sérgio Cerqueira Borges

22ª VC – Art. 157 Par. 2º I e II e III C/C 12 II do CP


– Proc. 13072 – Cond. 08 anos

.......................................................................................

27ª VC – Art. 157 Par. 2º I e II do CP – Proc. 39106


– Cond. 11 anos e 10 meses.

.......................................................................................

14ª VC – Art. 157 Par. 2º I e II C/C 25 do CP – Proc.


17522 – Cond. 09 anos

.......................................................................................

19ª VC – Art.157 Par. 1º, 2º I e II e 3º e 329 do CP –


Proc. 35806 – Cond. 10 anos e seis meses

.......................................................................................

15ª VC – Art. 129 e 354 C/C 51 do CP – Proc. 39225


– Cond. Absolvido

.......................................................................................

08ª V.C. Art. 157 Par. 2º I e II C/C 288 Par. único


C/C Caput do CP Proc. 45633 – Cond. 08 anos – com-
parsa CHAPELÃO.

.......................................................................................

382
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

23ª VC – Art. 297, 304 do CP – Proc. 16637 – Cond.


03 anos

.......................................................................................

35ª VC – Proc. 027 – Inq. 113/81 da DRF

.......................................................................................

Flagrante 480/87 da 13ª DP, em 16/07/87

.......................................................................................

27ª VC – Art. 157 Par. 2ª I e II do CP – Proc. 51448


– Cond 10 anos e 06 meses – comparsa BAGULHÃO

.......................................................................................

23ª VC – Art. 19 da L.C.P. – Proc. 22325 – Inq 336


– Extinta a punibilidade

4.2.5 – CONCLUSÃO E IMAGENS

O marginal LUIZ CARLOS DE SOUZA BARROS,


que tem vulgo de CHAPELÃO, comparsa de IVAN
CUSTÓDIO no primeiro e no segundo assaltos relata-
dos, é da cúpula do CV.

O corréu citado LUIZ CARLOS DA CRUZ, que fi-


gura no processo da 8ª VC, é o CACALO, que está na
penitenciária Milton Dias e faz parte do CV.

Por sua vez, CACALO é co-réu de ROGÉRIO


LENGRUBER em assalto a banco e enquadrados na

383
Sérgio Cerqueira Borges

lei de segurança nacional. ROGÉRIO LENGRUBER


(BAGULHÃO), faleceu em 1992. O atual líder do CV
na época em que este texto foi produzido era FRAN-
CISCO VIRIATO (JAPONÊS).

Pelos co-réus citados e pela importância dos mes-


mos no CV é possível concluir a estreita ligação da
“testemunha-chave” com a cúpula desta organização
Criminosa. Também é provável que IVAN CUSTÓ-
DIO, tenha participado de outros crimes ligados ao
CV, principalmente assaltos e tráfico de drogas, e em
outros Estados da Federação.

Vejam agora o diagrama das ligações de IVAN


CUSTÓDIO com o CV a partir do entrelaçamento dos
crimes praticados em parceria:

384
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

5. A MANIPULAÇÃO DE IVAN CUSTÓDIO

São inúmeros os motivos que levaram a testemunha


IVAN CUSTÓDIO a colaborar como um robot com a
facção. Apesar da sua localização casual, confundido
com outro IVAN (EX-PM IVAN DA SILVA AGUIAR),
na verdade sua decisão manifestou-se voluntariamen-
te, a opção mais agradável, se comparada com as reais
possibilidades de retaliação, com as quais, de repente,
IVAN CUSTÓDIO se deparou: ou colaborava e rece-
bia as benesses da facção, ou não colaborava e correria
riscos de toda ordem, inclusive o de ser transformado
em chacinador (forte possibilidade em em razão do seu
perfil criminoso e da amizade e sociedade com o sar-
gento Ailton). Ademais, ele teria de cumprir condenação
devida à Justiça na Cidade de Diadema, São Paulo. O
primeiro indício encontra-se no próprio depoimento de
02 OUT 93, prestado no II Tribunal do Júri. IVAN CUS-
TÓDIO declara o seguinte (doc. nº 01):

(...); que atuava constantemente com o depoente


os policiais-militares NETO, AILTON, MAGI-
NÁRIO, MIUDO, BICEGO FARINHA, Sargento
FLÁVIO, WILLIAM Soldado PM, Soldado PM
Betinho, nome de guerra AMARAL; que o de-
poente que na DRFC o depoente trabalha com
a equipe de quadro detetives chamados SOUZA,
WALMIR, PAULINHO e RENATO (...)

É inquestionável o fato de que IVAN CUSTÓDIO era


“X-9” da polícia. Sua própria folha penal indica sua ín-
tima relação com o submundo do crime. Por isso ele era
fonte de informações privilegiada e decerto muito utili-
zada por policiais.Também não se pode negar que essa

385
Sérgio Cerqueira Borges

prática de utilizar informantes é corriqueira na polícia,


cultura observada até em outros países – os enlatados
norte-americanos estão aí a informar.

A questão crucial é o limite de contágio entre um lado


e outro; e, pelo visto, a arte de IVAN CUSTÓDIO em
dissimular atinge quase a perfeição, fato corriqueiro
para quem vive na linha divisória entre o bem e o mal,
entre bandidos e policiais enganando a ambos. Do mes-
mo modo, é inegável que a cultura do “X-9” é prevalente
na polícia civil, e a vida pregressa da testemunha IVAN
CUSTÓDIO deixa isso bem claro. Daí ele ter consegui-
do conquistar a confiança recente de uma pequena par-
cela de policiais parece comum, apesar de reprovável.

Outro fato devidamente comprovado é o de que IVAN
CUSTÓDIO tornara-se sócio do SGT AILTON e do PM
NETO num negócio de pesca que incluía três barcos e
razoável conta bancária em seu nome. Também se com-
provou que IVAN CUSTÓDIO vendera um dos barcos
no mês de agosto de 1993, não estando esclarecido se
com a aquiescência do SGT PM AILTON. No dia 28
ago 93 o seu sócio, SGT AILTON, é assassinado na Pra-
ça Catolé da Rocha, em Vigário Geral, juntamente com
mais três policiais-militares de sua guarnição, atraídos
para uma estranha emboscada. Ficaram à mercê do tra-
ficante FLÁVIO NEGÃO e sua quadrilha, fato já escla-
recido pela polícia. Mas um ponto não está esclarecido:
Por que os PMs caíram inadvertidamente na boca do
lobo?

Segundo consta, durante o sepultamento do SGT
AILTON, em que IVAN CUSTÓDIO se fez presente, o
clima não estava bom para ele. Havia desconfiança por

386
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

parte dos PMs que o conheciam, e IVAN CUSTÓDIO


teria sido admoestado por aqueles PMs em relação aos
direitos da viúva do SGT AILTON. Ainda no depoimen-
to de 02 OUT 93, assegurou IVAN CUSTÓDIO:

(...); que na quinta-feira o Sargento FLÁVIO pela


tarde estava na Delegacia e disse que tinha um
bom trabalho para aquela noite em Parada de Lu-
cas ( ... ); que o depoente não foi àquele encontro
para mais uma mineira por ter ficado receoso (...)
Grifo nosso.

Verdade ou não, uma coisa é evidente: IVAN CUS-


TÓDIO não estava com a consciência tranquila. Pas-
sou a desconfiar dos amigos comuns do seu sócio SGT
AILTON, sendo certo que este deve ter sido o motivo de
tornar-se “X-9” contra eles. Também já está esclareci-
do que IVAN CUSTÓDIO surgiu pela via mais natural:
a Polícia Civil. Disse BRUM em seu depoimento no II
Tribunal do Júri:

(...); que naquela mesma semana da chacina o de-


legado ELIAS GOMES BARBOSA da DDV pas-
sou um dado importante para o depoente no sen-
tido de que em determinado endereço em Sepetiba
morava um elemento conhecido como IVAN, que
trabalhava como “X-9” e que teria envolvimento
com a chacina de Vigário Geral; (...). Grifos nos-
sos.

Ainda nesse depoimento, BRUM afirma:

(...); que o cidadão encontrado naquele endereço


chamava-se IVAN CUSTÓDIO BARBOSA DE

387
Sérgio Cerqueira Borges

LIMA, que se apresentou à polícia dizendo-se es-


tar correndo risco de vida e que passaria a colabo-
rar para não morrer; que IVAN foi levado para a
PM-2; ( ...) Grifo nosso.

Com essas declarações do BRUM duas coisas ficaram


bem claras em relação a IVAN CUSTÓDIO: o medo de
morrer e a imposição da facção, que decerto houve, para
ele colaborar. E neste ponto reside a questão crucial:
a motivação de IVAN CUSTÓDIO em colaborar, asso-
ciada às notórias vantagens que lhe foram oferecidas
atingiu o máximo limite:

IVAN CUSTÓDIO FOI DESCARADAMENTE


MANIPULADO!

A partir desse momento é imperioso considerar seu


passado de crimes, que lhe remonta à juventude, além, é
claro, dos seus crimes recentes. No primeiro caso, rele-
va-se sua vida pregressa, que o situa como um crimino-
so contumaz, além de suas ligações com o CV.

A vida pregressa de IVAN CUSTÓDIO não deixa dú-


vidas quanto ao seu desprezo pelo próximo. A não ser
num raro momento de distraída sinceridade, ele deixa
escapar uma opinião contrária ao seu comportamento,
durante os diálogos gravados em fitas transcritas pelo
ICCE:

(...). Já falei alguns, citei alguns aí, naquela fita...


é muita podridão às vezes eu fico até com vergo-
nha, que é tanta coisa. É o que eu tô fazendo, eu
tô fazendo que, eu me sinto um traidor, né? Eu
sou um traidor. (...) Delicada. Eu sou um traidor.

388
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

Quando isso aí estourar, que vai estourar e vai vir


a público, quem fez e quem não fez, até os policiais
que nunca conheceu esse polícia aí, tá nessa fita
aí, vai me odiar (... ). Fls. 51 e 52 do Laudo do
ICCE nº 1171196. Grifos nossos.

É certo que a facção não se contentou em registrar


o verdadeiro conhecimento de IVAN CUSTÓDIO, que
talvez nem interessasse à apuração da CHACINA DE
VIGÁRIO GERAL. Caso contrário, sobrariam fitas com
relatos a respeito do fato específico que atordoava o sis-
tema. Nessas condições, a facção não fez por menos:
transformou-o num robot, como será facilmente cons-
tatado. São inúmeros os exemplos já definitivamente
consignados, dando conta de que IVAN CUSTÓDIO é
um MENTIROSO ILIMITADO, a tal ponto que é capaz
de mentir sobre si mesmo até nas situações em que sabe
haver provas concretas para desmascará-lo.

Apenas a guisa de reflexão, serão registradas duas
definições de LANNOY DORIN (Introdução à Psico-
logia, Editora do Brasil S/A, São Paulo, 1981). Essa
indiscutível anormalidade comportamental de IVAN
CUSTÓDIO não resistiria ao mais elementar enqua-
dramento no campo das psicoses, que segundo o autor
retro-mencionado “dependem de fatores hereditários,
constitucionais e ambientais”. Ainda escudado no autor,
não seria demais admitir a hipótese – a ser examinada
por especialistas – de que IVAN CUSTÓDIO é um “ma-
níaco-depressivo” típico:

O indivíduo sente falta de meios para se adaptar, foge


da realidade, constrói outro mundo, tem pensamentos
fantásticos. São comuns os desequilíbrios mentais (ci-

389
Sérgio Cerqueira Borges

clotimia), com períodos de excessiva exaltação ou de


profunda depressão. O ataque chega a durar até 10 me-
ses, vindo depois um período de estabilidade, em que a
pessoa parece ser normal. Trabalha e vive bem.

Há, ainda, outro enquadramento que precisa ser


avaliado no comportamento de IVAN CUSTÓDIO,
também segundo LANNOY DORIN, a que se refere à
paranoia:

É um sistema delirante durável. As ilusões de


perseguição e grandeza são mais duradoras e mais
sistematizadas que na esquisofrenia paranóide. Os
ressentimentos são profundos e o paranóico geral-
mente procura agredir aqueles que estiverem pre-
sentes em seus conflitos. É um tipo perigoso para a
sociedade: egocêntrico e destruidor, conhece seus
inimigos e julga que sua grandeza depende de eli-
minação de pessoas que o prejudicam.

Para que não haja dúvida a respeito do nível de “en-


tendimento” entre o robotizado IVAN CUSTÓDIO e
seus manipuladores, será anexado nesta sequência de
raciocínio um Laudo da DRA. CHRISTIANE COE-
LHO, Psicóloga e Psicopedagoga, demonstrando o per-
fil da personalidade do marginal irresponsavelmente
transformado em robot pela facção que buscava deses-
peradamente uma solução para a chacina de Vigário
Geral.

O trabalho da DRA. CHRISTIANE COELHO será
de grande valia ao entendimento do que será demons-
trado e comprovado, porque, inevitavelmente, suas abs-
trações alcançaram as intenções de muitos dos agentes

390
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

que “dialogaram” com IVAN CUSTÓDIO, gravaram


alguns dos “diálogos” e transcreveram os resultados em
Laudos transcritos na íntegra pelo Instituto de Crimina-
lística Carlos Éboli – ICCE.

Esses Laudos do ICCE representam o que há de mais
autêntico, posto que não podem ser desnaturados na sua
origem ou desmentidos a posteriori. Por isso as grava-
ções dos diálogos se constituem em Variáveis Indepen-
dentes (causas), que permitirão inequívoca análise dos
resultados, dos efeitos (Variáveis Dependentes), além de,
ainda, descortinar muitas Variáveis Antecedentes (moti-
vações dos manipuladores e dos manipulados).

5. 1. PERFIL PSICOLÓGICO DE IVAN CUSTÓDIO


(POR CHRISTIANE COELHO – PROFISSIONAL
EM PSICOLOGIA E PSICOPEDAGOGIA – CRP
11922 )

Este estudo tem como objetivo traçar o perfil psi-


cológico de IVAN CUSTÓDIO. O estudo constitui-se
a partir de exame psicológico e psicopedagógico da
transcrição das fitas gravadas na PM.2 e em outros lu-
gares desconhecidos, transcritas por peritos do ICCE,
além de informações obtidas em seus depoimentos e
outros estudos realizados por diferentes advogados.

A princípio me chama a atenção o fato de sua iden-


tidade vir à tona somente após ter feito vários depoi-
mentos. O que se passa com a identidade de Ivan?
Quem é o Ivan que precisa ser ocultado? Ou será que
alguém consegue definir quem é Ivan?

391
Sérgio Cerqueira Borges

A questão da identidade perpassa todo o caso da


chacina, onde se procura identificar chacinadores por
meio de denúncias feitas por um cidadão cuja identi-
dade se tentou ocultar. Mas em alguns pontos do de-
poimento Ivan se autodefine:

LAUDO 1171196:

Pág. 51:

B ─ Eu não sou nada.

B ─ Eu sou um traidor.

Pág. 52:

B ─ É igual a mim, tudo tráfico.

Quanto à apresentação de seu nome, cabe ressal-


tar que ele utiliza diferentes nomes e filiações. Ivan foi
ouvido em fitas gravadas, termos de declarações e em
depoimento perante o II Tribunal do Júri. Em outras
épocas foi ouvido na 29ª Delegacia Policial desta Capi-
tal, na 11ª Vara Criminal, na Delegacia de Bataguassu
─ MS, no Juízo de Direito daquela comarca, na dele-
gacia de Diadema ─ SP, além de em inúmeros outros
processos a que respondeu.

Suas declarações são disparatadas: ora é assaltante


confesso, ora um inocente que conduzia o automóvel
roubado por um amigo inteiramente insuspeito, e no
qual levava em passeio um dos próceres do CV, LUIZ
CARLOS SOUZA BARROS, o CHAPELÃO (29ª
DP ─ 11ª VC); ora é sargento temporário do Exérci-

392
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

to demitido por ato do Presidente Geisel em 1977 (II


Tribunal do Júri, em 02 out 93 e na DDV, em 13 set
93), quando, na verdade, só foi soldado raso e expulso
por seu comandante por ter sido preso em flagrante
assaltando, ocasião em que confessou outros assaltos;
ora é camelô, pintor de quadros, motorista de táxi, e
iniciante, junto aos policiais Nélio Machado e Ricardo
Wilke, na 12ª DP (onde jamais tais policiais estiveram
lotados).

Na sua ininterrupta carreira de informante e ex-


torsionário, há dezesseis anos, a partir de 1977, nesta
capital, ora é empregado na indústria hoteleira pau-
listana, radicado na capital do Estado de São Paulo,
onde seria proprietário desde 1975, até ser preso por
outro delito, em 30 de dezembro de 1976, evadindo-se
do Presídio Edgard Costa em 15 de agosto de 1979,
quando cumpria a pena que lhe fora imposta na 11ª
VC; ora é IVAN CUSTÓDIO Barbosa de Lima, cario-
ca, casado, filho de Walter Custódio de Lima e Mar-
garida Barbosa, “X-9” (II Tribunal do Júri, fls. 01, em
02 out 93); ora seu pai é Walter de Lima, ora é Walter
L. de Lima, e seu nome IVAN CUSTÓDIO Barbosa
(Bauru ─ SP); ora mantém a adulteração de seu pró-
prio nome e passa a ser filho de João Custódio e Ma-
ria Custódio , nascido e criado em São Paulo, Capital,
motorista desempregado que, por não ter onde dormir
em São Paulo, capital.

Apesar de alegar ali ser residente e proprietário de


um apartamento, além de antigo funcionário, mensa-
geiro da indústria hoteleira paulista, na Companhia
Hoteleira Comodoro Deusdet, desde 1975, foi obriga-
do a pernoitar em Diadema ─ SP, juntamente com dois

393
Sérgio Cerqueira Borges

outros traficantes, na guarda de “apenas” 117 quilos


de maconha remanescentes do total de 560 quilos da
erva que trouxera de Mato Grosso do Sul na semana
seguinte à sua libertação da cadeia de Bataguassu ─
MS. Por tal expressiva prisão em flagrante Ivan ficou
recolhido apenas dois dias. É que, mediante ameaças
de morte, armado e perigoso, convenceu seu co-réu e
a respectiva esposa a assumirem toda a responsabi-
lidade pela gigantesca quantidade de droga, ficando,
então, solto. Posteriormente, isso veio às claras e Ivan
terminou condenado a três anos e meio de reclusão e
mais cem dias de multa por tráfico de entorpecentes.

Magistrados consignaram sobre ele antigas ─ mas


inteiramente atuais ─ observações: péssimos antece-
dentes e personalidade voltada para o crime (Diade-
ma, fls. 196), não aplicada a suspensão condicional da
pena por não estar o Magistrado convencido de que
Ivan não tornaria a delinquir. E ainda porque, que-
brando as condições de fiança, traiu a confiança do
Juízo (Bataguassu, fls. 217).

Ivan ora transmuda o início de sua carreira como


informante/extorsionário para 1987, com o Dr. Eli
Clarindo, na DRF. Mas o Dr. Eli só veio a ser lotado
nessa Delegacia em 1991.

É estranhável que não soubesse o ano em que saiu do


Exército ─ 1975 ou 1976 ─ ainda mais que na DDV foi
taxativo ao dizer que saíra em 1977. Mais surpreendente
ainda é o fato de, em 1975, Ivan contar apenas com 17
anos de idade, não podendo engajar-se no Exército. Com
essas alterações substanciais, o acima transcrito repete as
anteriores declarações prestadas na DDV.

394
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

Prosseguindo em suas mentiras, Ivan não explica


quando foi motorista de táxi, pois foi preso em fla-
grante, expulso do exército e condenado, conforme do-
cumentos anexos.

IVAN CUSTÓDIO, aquele que não é “nada” ─ con-


forme se definiu ─, pode vir a ser tudo, como a carta
coringa num jogo onde é capaz de aparecer em diver-
sas situações num período curto de tempo, com uma
gama enorme de informações e detalhes. E em cima
dessa “versatilidade” em sua identidade, a Ivan come-
te inúmeros “atos falhos” em seus relatos:

Acto falho – Acto em que o resultado explicita-


mente visado não é atingido, antes se acha substi-
tuído por outro. Fala-se em actos falhados, para
não designar o conjunto das falhas da palavra,
da memória e da ação, mas para os comporta-
mentos que o indivíduo é habitualmente capaz
de obter êxito, e cujo fracasso é tentado a atri-
buir apenas à sua falta de atenção ou ao acaso”.
Freud demonstrou que os actos falhados eram
tal como os sintomas, formações de compromis-
so entre a intenção consciente do indivíduo e o
recalcado.
Donde resulta que o ato falho é, noutro plano,
um ato bem sucedido: o desejo inconsciente rea-
liza-se nele de uma forma muitas vezes muito
manifesta.
O ato falho engloba não apenas ações, mas toda
espécie de erros, de lapsos na palavra e no fun-
cionamento psíquico. (Laplanche e Pontalis –
Vocabulário da Psicanálise).

395
Sérgio Cerqueira Borges

Quem é IVAN CUSTÓDIO?... Quem são os reais


sujeitos de suas denúncias?

Calcado nos erros-atos falhos do pronome pessoal


utilizado por IVAN CUSTÓDIO, deduz-se que ele se
inclui nas ações em grande parte do relato, quando de-
põe na 1ª pessoa do singular ou do plural:

LAUDO Nº 1171196:

Fls. 36:

B ─ Tiramos ele do morro.

Fls. 39:

B ─ Quando nós o soltássemos; fomos pro


escritório.

Fls. 40:

B ─ Prendemo ele; encontramos certas


quantia em dinheiro.

Fls. 44:

B ─ Nós quebramo a pia.

Fls 57:

B ─ Pegamo a Dutra, matamo ele.

Fls. 58:

396
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

B ─ Tomamos uma certa quantia em di-


nheiro; resolvemos matar ele.

Fls. 59:

B ─ Botamos ele dentro do carro; depois


saímos.

Fls. 60:

B ─ Incendiamos trayller, pintamos o dia-


bo.

LAUDO Nº 1171572:

Fls. 02:

B ─ Chegamos lá.

Fls. 03:

B ─ Viemos embora.

Fls. 21:

B ─ Prendemos ele na moral; nós agarra-


mos ele; nós metemos ele; consegui levan-
tar a casa dele; usamos o efetivo todo.

Fls. 22:

B ─ Foi eu quem prendi.

Fls. 27:

397
Sérgio Cerqueira Borges

B ─ Eu saí do morro.

Fls. 42:

B ─ Nós tava té preocupado.

Em outros tantos relatos, ele não define o


sujeito da ação, usando a expressão “a gen-
te”.

LAUDO Nº 1171572:

Fls. 04:

B ─ A gente viemos.

Fls. 26:

B ─ Chegou pra gente.

Fls. 27:

B ─ A gente só quer a maconha; a gente vai


fuder ele.

Fls. 42:

B ─ A gente tava pensando que tavam


preso.

Fls. 58:

398
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

B ─ É o que a gente achamo mais justo.


Fls. 59:

B – Como a gente fala feijoada.

LAUDO Nº 1171196:

Fls. 30

B ─ Só quando a gente recuperam.

Fls. 39:

B ─ Bem claro pra gente.

Fls. 61:

B ─ Fora Gambá que ele tem também, que


a gente tava que eu não botei...

Ele e eles são sujeitos da mesma ação. A partir des-


tes atos falhos e tantos outros aqui não exemplificados
chega-se à conclusão de que IVAN CUSTÓDIO parece
se identificar com ambos os grupos: polícia e crimi-
nosos, mostrando possuir dupla identidade. Este fato
se repete quando ao analisarmos os vocabulários de
seus depoimentos, deparamo-nos com o linguajar das
duas culturas. Assim, em meio a tantos: “corremo”;
“tava”; “num trem”; “né”; “são o grupo que são liga-
do”; “mineira”; “tomá”; “foi os home”; “matou esse
cara”; “ele num deixa vazar”; “vamo falar”; “mer-
mo”; “gestafa”; “bizor”; “os home que cerca ele, né”;
“não dá bote”; “vende pa morro, ele tem os contato”;
“primeiro R-15 panhado no Rio”; “ele é o mais ferra-

399
Sérgio Cerqueira Borges

do dele, é dificil panhá ele”; “isso né, pô”; “vamo vê”,


“traficante bão”; “Pá chocá mermo”; “é pago pra fazê
o queê num faz de graça”; “mata o cabô”; “vagabun-
do ralava”; “adora andá de ouro o neguinho”; “isso aí
é prá acriá futo né”; e outras mais...

Aparecem pérolas como:

“desestabilizar o Governo”, “desestabilizar o Esta-


do”, “desestabilizando”, “idéias subversivas”, “sub-
versivo”, “subversão”, “conexão política”, “aleatoria-
mente”, “orquestrado”, “articulado”.

Das quais só “desestabilizar”, com suas inflexões,


foi repetida até a exaustão, pelo menos 14 vezes, além
de iniciadas pelo interrogador até IVAN CUSTÓDIO
apreender o seu significado e repetir corretamente.
Exemplos de dupla identidade:

LAUDO Nº 1171572:

Fls. 21:

B ─ Nós metemo ele; prendemos ele na mo-


ral; consegui levantar a casa dele.

Fls. 40:

B ─ Que a parada não era com ele; pega-


ram os malandros; começaram a dar uma
geral; os vagabundos espirrou.

Fls. 42:

400
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

B ─ Não tem mais idéia não.

Fls. 45:

B ─ Aí passaram o rodo.

Fls. 46:

B ─ Quebraram os caras.

Fls. 55:

B ─ Fizemos uma base de operação.

Fls. 59:

B ─ Quebramo eles lá mesmo, passamo o


rato neles lá mesmo.

E uma fala interseção das duas culturas:

“É, o, pra ‘descaterizar’ do crime ‘hedioso’


para 129.” (LAUDO 1171572 ─ FLS. 29)

Ainda em seu discurso, ele cai em contradição em


relatos feitos por ele mesmo anteriormente, o que evi-
dencia o conflito existente dentro de si próprio, não
conseguindo manter as histórias que conta. No decor-
rer de vários de seus relatos ele projeta sua dificuldade
de identidade trocando nome de sujeitos de uma mes-
ma ação. Denota-se um conflito imenso de identidade,
que é projetado na sua incapacidade de identificar fa-
tos e sujeitos com veracidade, integridade e persistên-
cia de dados.

401
Sérgio Cerqueira Borges

A folha penal de IVAN CUSTÓDIO é surpreenden-


temente vasta. A variedade de crimes por ele pratica-
dos coloca-o como um “criminoso genérico”. Há assal-
tos a mão armada, tráfico de drogas, furtos simples e
qualificados, uso de documento falso, ameaça de mor-
te, estelionato, receptação e inúmeros crimes de morte
com requintes de crueldade. IVAN CUSTÓDIO foge
totalmente à regra do criminoso específico com prefe-
rência e especialização em determinado tipo de delito.

Ao mesmo tempo em que leva essa vida insana e


impune ─ não importando aqui as razões ─ IVAN
CUSTÓDIO tem residência fixa, família organizada,
bens patrimoniais estruturados, enfim, tudo dentro da
normalidade de qualquer cidadão comum. Estes dois
lados contrastantes de sua personalidade demonstram
uma cisão em seu caráter e identidade. O seu histórico
criminal já demonstra uma impossibilidade de especi-
ficar a sua especialidade no crime onde, nem em seus
atos, ele marca uma identidade.

A cisão em sua personalidade esquizóide impli-


ca em uma dinâmica de caráter psicótico, embora o
quadro sintomático se constitua de manifestações neu-
róticas. Sua fala é contraditória e repetida de forma
estereotipada. Este quadro limítrofe foi denominado
pseudoneurótico por Hoch e Polatin, com grande ca-
racterística de se constituir de uma “auto-identidade”
obscura, onde a pessoa passa a desempenhar papéis
sem que defina sua identidade. Sua conduta é delin-
quente (violando leis e normas):

Sendo que do ponto de vista social, é capaz de com-


portar-se normalmente e reorganizar suas experiên-

402
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

cias de acordo com novas situações e viver segundo


padrões estabelecidos pela maioria dominante (mes-
mo que discorde). É capaz de se integrar na vida social
buscando nas relações interpessoais um suporte de sua
personalidade. (Dorin).

Dentro desta condição de funcionamento psíquico,


IVAN CUSTÓDIO buscou no desempenho como “X-
9” uma atividade onde pôde projetar nas relações in-
terpessoais os dois lados de sua dupla personalidade,
ou seja, integrado com policiais e criminosos, manipu-
lando a informação ao seu bel-prazer.

5.1.1 ─ ANÁLISE PSICOPEDAGÓGICA DAS FITAS


GRAVADAS NA PM.2

Supondo-se que este tipo de depoimento seja uma


práxis rotineira dentro da delegacia, o qual se dá pe-
rante um interrogatório, e buscando-se a definição de
tal palavra no dicionário da língua portuguesa, eis que
se encontra:

Interrogatório: auto em que se reduzem a escrito


as respostas que dá o indicado ou réu às pergun-
tas feitas pela autoridade competente.

Conclui-se então que num interrogatório há um su-


jeito que busca o saber naquele que estás sendo argui-
do. O detentor do saber é o interrogando e não o inter-
rogador. Este último procura se manter neutro e sem
influenciar nas respostas, à busca da verdade pura,
fruto do saber único daquele que está respondendo.

403
Sérgio Cerqueira Borges

Partindo desta definição, o que houve, então, na-


quelas fitas, se assemelha mais a um diálogo do que
a um interrogatório, já que o mesmo dicionário, dá a
seguinte definição para diálogo:

1 ─ Falar alternadamente, conversar.

2 – Travar ou manter entendimento (duas ou


mais pessoas) com vistas à solução de problemas
comuns.

Esta última, sim, seria a definição que melhor cabe


à relação entre IVAN CUSTÓDIO e seus interlocuto-
res, que, curiosamente, mantêm oculta suas identida-
des ─ o que vem de encontro à questão central de toda
esta história. Num diálogo existe uma circularidade
maior do saber sobre a informação trocada, onde um
ou mais elementos interagem com suas idéias, o que
ocasiona um resultado final cuja produção passa a ter
mais de um sujeito-autor, visto que todos ali acabam
influenciados uns pelas idéias e intervenções dos ou-
tros. Donde se conclui que o produto daquelas grava-
ções poderia passar a ter como autores todos que ali
dialogaram, sem distinção de posições como interlocu-
tor e interlocutando, que melhor cabe a um quadro de
interrogatório.

Não são poucos os exemplos que comprovam esta


afirmativa. Seguirei este relatório enumerando tais
exemplos:

I ─ O interlocutor (sujeito nunca identificado) sur-


ge em quase todo o tempo como detentor do saber e do
poder sobre o que ali está sendo dito. Fato incompará-

404
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

vel na relação que estabelecem, e daí decorrem os atos


falhos.

a) No decorrer de todo o processo, IVAN CUSTÓ-


DIO utilizou-se repetidamente da contração “né = não
é?”

Segundo o psicanalista Ricardo Rudolfo, é a repe-


tição de um sintoma que lhe dá o valor de “significan-
te” no discurso de um sujeito. Significante, no caso,
seria o elemento que traz um valor simbólico do senti-
do, aquele que representa e expressa uma informação
qualquer. IVAN CUSTÓDIO busca neste ato falho a
confirmação do interlocutor ao que ele está falando,
como se aquele tivesse que comprovar a informação
“né = não é?”, ou seja, aquilo que realmente é está no
poder e saber do interlocutor. E, para comprovar ain-
da mais esta hipótese, estas situações em alguns exem-
plos vêm acompanhadas de trechos onde se denota
dúvida ou gaguejo, cabendo mais uma vez, aqui, neste
momento, a definição que traz o dicionário da língua
portuguesa para “gaguejar”: “Pronunciar com hesita-
ção, falar sem certeza, vacilar nas respostas.”

Outros exemplos de hesitação:

LAUDO Nº 1172868:

Fls. 36:

B – É. Todos os grupos na rua que... Comando


Paralelo, que eles falam é o, é o, é o, co, o
carro sem pátria...

405
Sérgio Cerqueira Borges

Fls. 17:

A ─ Quem foi que metralhou?

B ─ Tava o Dete... eu num tava no carro


né. Eu... que vê, quem tava levan, levando
a metralhadora era o Creazola...

B ─ Eu acho que, que quem que metralhou


foi o Creazola...

LAUDO Nº 1171572:

Fls. 10:

B ─ Quem, quem me contou isso foi o pró-


prio Leandro e u, u, u, o Flávio...

Fls. 35:

B ─ O Go, o Governo, essa é a.

Fls. 65:

B ─ Hoje o Bip dele é o, o... Nilson, O Bip


dele é..., esse é solda, é detetive...

Portanto, o “né?” acompanhado de hesita-


ção transportava a certeza para quem per-
guntava, e não para aquele que respondia.
Exemplos:

406
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

LAUDO Nº 1172868:

Fls. 02:

B ─ Na época era do Nono, deve trabalhar


num dos... patamos especiais do Nono, né?

Fls. 05:

B ─ É, já... Jacinto, o Cunha, O Borges, né,


o...

Fls. 09:
B ─ Do, Augostinho já ditei, né, já falei o
grupo todo aí, né?

LAUDO 1171572:

Fls. 14:

B ─ O time, o Vela, esse pessoal que sempre


dito aí, né?

Fls. 34:

B ─ O Coronel Larangeira tem que assu-


mir, né?

Fls. 55:

B ─ E passamo no Nono Batalhão, panha-


mo o, o, o time, o grupo, né?

407
Sérgio Cerqueira Borges

Fls. 57:

B ─ O time era bom, né?

LAUDO Nº 1171196:

Fls. 34:

B ─ Onde o senhor for eu tenho que ir, né?

Fls. 53:

B ─ Enter, enterrada, né?

b) Também para comprovar a interferência do in-


terlocutor nas respostas do interlocutando, compro-
vando-se a hipótese de que ali houve um diálogo mais
do que um interrogatório, é o fato de que o primeiro
iniciou várias sentenças na afirmativa, tentando ao fi-
nal dar constatação de interrogação à sua afirmação, o
que imbui o diálogo com caráter de indução ; podendo
aqui chamarmos tais sentenças afirmativas com ponto
e/ou pronome de interrogação ou entonação de inter-
rogação. Exemplos:

LAUDO Nº 1171196:

Fls. 27:

A ─ Isso foi quando, isso?

B ─ Isso foi uma semana depois da posse


dela.

408
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

A ─ Certo, num sábado.

B ─ Isso.

Fls. 32 e 33:

B ─ Quem vendeu esse aí foi Souza Pauli-


nho, e o Walmir, o Renatinho, que faz parte
da equipe.

A ─ Muito bem...

Fls. 44:

A ─ Ele começou como olheiro ou fogue-


teiro?

B ─ Olheiro, olheiro e fogueteiro é uma coi-


sa só.

A ─ Aí depois passou.

B ─ Segurança da Boca.

A ─ Certo

B ─ Segurança do homem até ser gerente


de boca.

A ─ Certo.

Fls. 51:

A ─ Já falou alguns aqui, já?

409
Sérgio Cerqueira Borges

Fls. 66:

A ─ Ele jogou bomba em alguma casa de


alguém? (frase antecipa fato, e afirma com
ponto de interrogação).

LAUDO Nº 1172868:

Fls. 05:

A ─ Mas passou pelo crivo do, do Coronel


Laranjeira, né?

Fls. 06:

A ─ Mas quem matou foi o pessoal do La-


ranjeira?

A ─ ..., partiu alguma determinação do Co-


mando Geral da PM?

Fls. 07:

A ─ O Creazola tava nessa?

Observa-se ainda a concordância de IVAN CUS-


TÓDIO com os manipuladores de diversas maneiras:

1. Em muitos casos ele concorda com o “É”;



2. Em muitos outros ele concorda com “ISSO” ou
“É ISSO”;

410
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

3. Em outros inúmeros casos ele concorda repetin-


do o final da pergunta. (ou afirmativa dissimulada em
pergunta).

O mais raro é a sua discordância, o que indicaria


neutralidade no diálogo. Mesmo sendo ele o provável
detentor do conhecimento (réu confesso por atos fa-
lhos) a deformação da história original pelos manipu-
ladores acaba com a neutralidade do relato e IVAN
CUSTÓDIO passa a concordar com o que sabe e não
ser mais a verdadeira história que conhece. É tama-
nha a intensidade da vontade de concordar que:

Quando o manipulador erra na pergunta, Ivan erra


na resposta.

O exemplo mais contundente é observado no rela-


to do “CRIME DO ZORRO”, no Laudo nº 1171572,
folhas 16. Na primeira, IVAN CUSTÓDIO refere-se a
um “Opala beje, quatro portas”. Na segunda refere-se
a um “Gol azul”. Na terceira, vale registrar mais um
diálogo:

A ─ Mas, em dois carros, né?

B ─ Hã.

A ─ Dois.

B ─ Dois carros... Opala Beje... e um Opala


branco que era do Creazola...

Vê-se que a preocupação do manipulador era a de


inserir o “Opala branco do Creazola” junto com o an-

411
Sérgio Cerqueira Borges

terior e imediatamente citado “Gol azul”. Os dois es-


queceram o “Gol azul” e erraram juntos. O negócio é
sempre concordar.

c) O interlocutor detém o poder e direção do que


Ivan falará a seguir. Ele induz a troca de assunto e
por vezes até clarifica e antecipa o nome do sujeito da
próxima denúncia:

LAUDO Nº 1171196:

Fls. 57:

A ─ Outro

B ─ Outro...

A ─ Agora quero envolvendo outra DP...

LAUDO Nº 1171572:

Fls. 19:

B ─ ... pediu uma, como é que se dá o nome,


essa...

A ─ Licença. (interlocutor adianta palavra


não expressa por B).

Fls. 07:

A ─ Carro quente?

B ─ Carro bom, esse era bom.

412
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

C ─ O outro carro?

B ─ O outro carro era roubado.

A ─ Era uma cabra, né?

B ─ Usado pra parada de polícia.

C ─ E tava com o armamento todinho, AR


-15,metralhadora, tudo na mala”.

(A e C dão exemplos de completar o racio-


cínio de B detalhando a informação)

Fls. 40:
B ─ ... Hã, Hã. Todo mundo de cara limpa,
não tinha ninguém de...

A ─ De ninja.” (A completa o raciocínio de


B em relação a ninja).

II ─ Do encadeamento entre um assunto e outro


chama-me a atenção o fato de por diversas vezes faltar
uma sequência e encadeamento característicos tanto
de um diálogo que transcorre naturalmente quanto de
um interrogatório. Esses desencadeamentos por ve-
zes, eram acompanhados de direcionamento do inter-
locutor, o que lhe tira a neutralidade esperada, como
também em outras passagens o direcionamento vem
acompanhado de indução e inclusão de assunto, onde
há perda de encadeamento do sentido. Exemplos:

413
Sérgio Cerqueira Borges

LAUDO Nº 1171572:

Fls. 05:

B ─ E agora. Falando do caso da Promoto-


ra Tânia.

Fls. 14:

B ─ Agora vou falar do crime do Zorro.

Fls. 26:

A ─ Morro do Gambá. Situação do Morro


do Gambá. Vão bora.

Fls. 30:

A ─ A ligação desse grupo, esse grupo é li-


gado a que...

Fls. 39:

A ─ Vai falando aí, já tá ligado.

Fls. 47:

B ─ Agora voltando a falar da morte do


Coroné...

Fls. 52:

B ─ É, agora falando aquele outro crime,


tal do Carelli...

414
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

Fls. 55:

B ─ Pera ai. Não. Agora falando em outra


chacina...

Fls. 60:

B ─ É, agora voltando, é outro trabalho do grupo...


Ainda bastante importante é perceber que em re-
latos que não pertencem à sua história de vida IVAN
CUSTÓDIO nunca comete atos falhos, visto que ali
não há saber inconsciente, ou seja, um saber vivido
por ele; há apenas uma repetição de informações ouvi-
das. Como se numa repetição de um SCRIPT.

Esses exemplos podem ser verificados no relato do


crime do coronel Oscar e da Promotora Tânia, onde
ele acusa na terceira pessoa, apenas hesitando quanto
ao domínio da história, o que obriga os manipuladores
a cometerem inúmeros atos falhos no sentido de dire-
cionar o assunto aos objetivos de pretendem alcançar.

É também marcante em seus relatos a presença de


estereótipos, que vão se repetindo como chavões em
vários depoimentos: «umas armas», «uma certa quantia
em dinheiro», «sempre trabalhou», «tem que assumir»,
«aí falei, tudo certo».

III ─ Da relação estabelecida entre os participan-


tes do “interrogatório-diálogo” poderíamos levantar a
hipótese de ter havido até uma negociação, uma troca
de interesses que se pode deduzir das seguintes passa-
gens:

415
Sérgio Cerqueira Borges

LAUDO Nº 1171196:

Fls. 46:

B ─ Não sei se vale a pena citar nomes.”


(Interlocutor: “Vale”).

Fls. 51:

B ─ O senhor acha que se eu trabalhasse,


eu ia ter o que tenho hoje?...

A ─ Por falar nisso,..., o Defensor Público


vai trabalhar contigo, para ver o problema
das venda dessa, tem que vender esses ne-
gócios.” (O interlocutor instrui Ivan a ven-
der o que possui para facilitar a defesa).

LAUDO Nº 1172868:

Fls. 29:

A ─ Eles não gostam do BOPE?

A ─ PM-2 também não gostam?

A ─ E incomoda esses grupos?

Fls. 32:

A – Eu sei, mas, depois disso tudo você


acredita ao menos um pouco na polícia?

416
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

Fls. 37:

A ─ Você acha que, que o favelado, o povo


gosta do Governador Brizola?

IV ─ Da identidade dos reais sujeitos de ditas ações


poderíamos dizer que em várias passagens os nomes
foram mudados para o mesmo fato; em outras, Ivan
foi direcionado a dar nomes (como visto anteriormen-
te). A identidade de interlocutores e interlocutando é,
em diversas circunstâncias, ocultada num processo
que se desencadeou da busca de identidade de chaci-
nadores, onde os fatos lá estão, apenas faltando os no-
mes dos sujeitos destas ações. A principal testemunha
tem dupla identidade, e bem poderíamos encerrar este
estudo com as afirmativas de Ivan acerca da identida-
de de quem ele acusa:

LAUDO Nº 1171572:

Fls. 14:

B ─ o time, o Vela, esse pessoal que sempre


dito aí, né?

LAUDO Nº 1171196:

Fls. 52:

B─ Quem fez e quem não fez vai me odiar

O que levaria IVAN CUSTÓDIO a fazer tal afirma-


tiva? Um caso de busca de identidade bem poderia ter
como fio condutor a afirmativa de IVAN CUSTÓDIO,

417
Sérgio Cerqueira Borges

em forma de interrogação: “Doutos representantes do


Ministério Público, quem fez e quem não fez, o que
dizem?”

Se diz: “A justiça é cega”. Cabe discriminar os reais


sujeitos destas ações para que a justiça continue cega
na imparcialidade, e não cega aos interesses políticos
tão evidentes em todo este processo.

Este último ato falho (quem fez e quem não fez)


é, sem dúvida o mais precioso de IVAN CUSTÓDIO.
Disse ele em 19 nov 93 no seu segundo depoimento
prestado no II Tribunal do Júri:

(...); que o depoente só denunciou quem fez e


nunca declarou em jornais que teria denunciado
quem fez e quem não fez; que muitas coisas que
saem nos jornais o depoente não falou, distor-
cendo o que o depoente disse nas fitas gravadas.

Ora, é aí que reside a essência do ato falho, o ponto
mais importante da análise psicopedagógica e da ava-
liação da personalidade de um indivíduo. A resposta
consciente de Ivan no depoimento é um evidente con-
traste com a sua afirmação inconsciente ─ um raro
momento de normalidade ─ e leva a conclusão de que
tudo o que disse até agora precisa ser revisto, investi-
gado, repassado num interrogatório neutro, isento de
más intenções.

IVAN CUSTÓDIO deveria ser afastado de todos,


isolado com segurança durante um bom tempo, inter-
nado em local próprio, até desaparecerem os sintomas

418
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

e efeitos da lavagem cerebral consentida a que foi sub-


metido.

Christiane Coelho
Psicologia ─ Psicopedagogia
CRP 11922

Psicologia ─ Formada pela Universidade Santa Ur-


sula ─ Rio de Janeiro.

Pós-graduação em Psicopedagogia ─ Escuela de
Psicopedagogia de Buenos Aires.

Pós-graduação em Psicopedagogia ─ Centro de Es-


tudos Psicopedagógicos do Rio de Janeiro.

Mestrado em Educação ─ Framingham State Colle-


ge ─ USA.

Membro da American Montessori Society.

Representante da Escuela Psicopedagogica de Bue-


nos Aires, na Cidade do Rio de Janeiro.

Coordenadora do Programa Internacional de Mes-


trado em Educação de Framingham State College no
Rio de Janeiro.

6. OS “BODES” DO SISTEMA PARA BANCAR A


CHACINA

6.1. O PRIMEIRO DEPOIMENTO PREPARADO


PARA IVAN CUSTÓDIO BARBOSA DE LIMA AS-
SINAR, EM 13 SET 93

419
Sérgio Cerqueira Borges

Na sequência das trapaças do sistema situacional


pedetista, emergiu das trevas misteriosas da PM.2 o
primeiro depoimento lavrado pela DDV (Delegacia de
Defesa da Vida), em de 13 set 93, base desta específica
inferência. Esta foi a primeira peça formal produzida
pela Polícia Civil em sede da PM.2, no QG da PMERJ,
logo divulgada com grande estardalhaço para a im-
prensa, que já se vinha deliciando com as falas mo-
nitoradas do robot gravadas em fitas e postas perto
dos ouvidos da imprensa, espécie de “aquecimento”
prévio a aguardar a chegada do primeiro documento
escrito e oficializado. Interessa, portanto, fixar o racio-
cínio neste preparado depoimento e no que “declara”
IVAN CUSTÓDIO, já a serviço da facção que “apura-
va” a chacina de Vigário Geral. Na verdade, em vez de
investigar o delegado ELIAS BARBOSA, encarrega-
do do inquérito policial, em conluio com membros da
PM.2, limitou-se à orquestração de uma tese-solução,
típica de arapongas, para IVAN CUSTÓDIO apenas
assinar, como será facilmente comprovado.

Os critérios de escolha dos alvos estavam definidos


desde o dia seguinte à chacina e se resumiram no se-
guinte:

A – Por obra exclusiva de BRUM, com o apoio ir-


restrito do sistema situacional pedetista, cravaram na
lista alguns PMs comandados pelo TCel Larangeira
no 9º BPM muitos anos antes. Pois o comando do en-
tão TCel PM Laranjeira ocorreu de 10 abr 89 a 02 abr
90, e a chacina, em 30/31 de agosto de 1993. Esses indi-
gitados PMs, por sinal, não serviam há mais três anos,
não compareceram ao sepultamento dos quatro PMs
assassinados na véspera da chacina, além de residirem

420
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

em Niterói e São Gonçalo, havia também o PM Sér-


gio C Borges, cujo também não compareceu a sepul-
tamento algum, entretanto era agente P/2 e visinho de
IVAN CUSTÓDIO, o X9 havia no passado se prestado
a ser informante da P/2 do 9º BPM;

B – PMs que foram ao sepultamento do SGT AIL-


TON, incluindo-se policiais civis que também compa-
receram;

C – PMs que foram comandados pelo Cel PM Gar-


cia, no 6º BPM e no 21º BPM, em represália ao famo-
so episódio da morte de dois PMs no Morro da Caixa
D’água, na Penha, e às reações indignadas das pra-
ças durante o duplo sepultamento. Na ocasião um PM
encapuzado pronunciou críticas ao comando-geral da
corporação e ao governo pedetista;

D – PMs que serviram com o falecido SGT AILTON


ou eram seus amigos;

E – Policiais civis da DRFC e da DRE, locais últi-


mos onde a testemunha IVAN CUSTÓDIO assegura
ter trabalhado como “X-9”.

F – Policiais civis ligados ao delegado Elson Cam-


pelo.

Assim foi estabelecido o universo de alvos, sendo


certo que, no caso da PMERJ, a maioria estava pre-
sa administrativamente desde 03 set 93 (daí o inegável
conhecimento prévio dos alvos), já inserida na nota de
culpa publicada em boletim da PMERJ a suspeição de
participação na chacina, como será demonstrado. E,

421
Sérgio Cerqueira Borges

dentre inúmeros punidos, alguns depois foram depois


isentados de acusações sem que se saiba qual a lógi-
ca utilizada para o encarte e o descarte, em vista de
que todos foram penalizados pelos mesmos motivos
indiretos gravados em texto único. Deste modo cíni-
co é que foram marcados os “bodes” posteriormente
denunciados tanto pela “chacina” quanto por diver-
sos “crimes” e por uma imaginária”quadrilha”. Toda
essa trapaçaria do sistema teve origem entre os dias 08
set 93 e 13 set 93, e seguiu em frente até culminar nas
absurdas acusações lavradas contra os “bodes” em de-
núncia ministerial e processo judicial.

Nesta fase entre a chacina de Vigário Geral (ma-


drugada de 29/30 ago 93) e a data em que foi assinado
esse preparado depoimento pela DDV (13 set 93) – in-
sisto que levado a termo na sede da PM.2 –, a facção
ativou intensamente a mídia com o foco nos “CAVA-
LOS CORREDORES”: magnífica invenção encetada
para atingir o principal desafeto do sistema situacio-
nal pedetista: o deputado estadual Emir Larangeira
oficial da PMERJ e adversário franco do desgoverna-
do brizolismo.

Evidenciado está que os acusados apenas serviram


como pêoes no tabuleiro político do Poder, “HOMENS
POLICIAIS”. (parágrafo redigido pelo autor do li-
vro).

O assunto “CAVALOS CORREDORES” será tra-


tado à parte, mas é imperioso referenciá-lo no contex-
to da análise desse depoimento de 13 set 93. Consigno
então um dado importantíssimo sobre os tais “CAVA-
LOS CORREDORES” a partir de afirmações contidas

422
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

nas declarações de BRUM prestadas no II Tribunal do


Júri em 07 mai 94:

(...); que o nome Cavalos Corredores foi dado


pelos moradores de Acari a policiais do 9º Bata-
lhão que ali ingressavam em incursões de forma
acelerada para atividades clandestinas lícitas e
ilícitas, que atuam em patamos especiais cria-
das pelo então comandante do 9º Batalhão, Cel
EMIR LARANGEIRA (...)

Depois de fazer esta acusação, BRUM ainda afir-


mou nesse depoimento:

(...); que o depoente em nenhum momento deu


outra definição a cavalos corredores, senão aque-
la prestada hoje em juízo; (...).

Talvez pela euforia do momento anterior em que


o mentiroso foi alçado pela imprensa à condição de
“herói”, ou pelo tempo decorrido, esqueceu-se ele da
entrevista que gravara – ao vivo e a cores – na CEN-
TRAL NACIONAL DE TELEVISÃO (CNT), em 09
set 93. Ao ser perguntado pela entrevistadora Luciana
sobre os tais “CAVALOS CORREDORES”, ele res-
pondeu:

Cavalos corredores são grupos de PMs do nono


Batalhão e de outras unidades e de outras ins-
tituições policiais que entravam na favela cor-
rendo num estilo de tática de guerrilha, com
armamento pesado, assustando as pessoas e pra-
ticando uma série de arbitrariedades e violência.

423
Sérgio Cerqueira Borges

Ora senhores, senhoras, leitores e leitoras, datave-


nha, é esta a descrição do deslocamento no interior de
qualquer área de conflito, favelas muitas vezes, cujas
reportagens em tempo real, mostram policiais em
deslocamentos, ressaltando ser está técnica adotada e
treinada constantemente pelas corporações policiais;
o que adinte Laranjeira esclarece; mas isto é notório
hoje em dia no cotidiano do repórter policial; basta
ver as reportagagens da TV RECORD, por exemplo,
Ernani Alves e Cristina Cruz; ambos receberam trei-
namentos especiais para tal, e juntamente com os po-
liciais fazem os deslocamentos, mostranto em tempo
real ou não a atividade descrita pelo BRUM. Será que
a vinte anos atrás estes jornalistas seriam incluídos na
lista dos chacinadores de Vigário? Seriam então, RE-
PORTERES CORREDORES? Vejam quão ridículas
seria hoje em dia tal possibilidade na hipótese ocor-
rer? Mas a vinte anos atrás foi possível. (Este parágra-
fo é da lavra do autor do livro, um aparte na redação
do Larangeira). Mas segue a entrevista:

Não satisfeita com a resposta, que soou diferente do


que os órgãos de imprensa vinham noticiando, a entre-
vistadora LUCIANA insistiu:

Então é um grupo separado, não tem nada a ver


com o nono batalhão?

BRUM, surpreendido, partiu para a arguta digres-


são:

A Polícia Militar como instituição, ela repudia


todo e qualquer ato de violência praticada contra
a população, principalmente contra a população

424
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

menos favorecida da sociedade, que são as pes-


soas que vivem nas comunidades carentes que
chamamos de favela, morro. E esse tipo de ação
são ações isoladas, ações orientadas por determi-
nadas pessoas que não tem compromisso com a
filosofia da instituição, notadamente a atual...

Que digressão!... Enfim, os tais “CAVALOS COR-


REDORES” não passavam de mais uma falácia do sis-
tema, brotada, claro, de mentes sórdidas. Entretanto,
é imperioso esclarecer que a tática de deslocamento de
fração mínima de tropa em velocidade é corriqueira
na formação do militar para o combate. Aprende-se
isto no Exército e na PM. É normal o deslocamento
de um ponto para outro para ocupar “coberta” (local
que protege das vistas, mas não do fogo inimigo) ou
“abrigo” (local protegido das vistas e do fogo inimigo).
Portanto – e diferentemente do que afirmou BRUM –
o deslocamento correndo é forma de proteção dos tiros
durante o trajeto. E todo bom policial está condicio-
nado por treinamento – e por instinto – a adotar esse
corriqueiro procedimento.

A verdade é que esses policiais civis e militares, ao


se deslocarem correndo, não só se protegem dos tiros,
como também, de acordo com o que informa o jorna-
lista Carlos Amorim no seu Livro “Comando Vermelho
– A história secreta do crime organizado”: “Ao deslocar-
se rapidamente, o policial consegue chegar antes que
os traficantes desarmem a sua quitanda”. Em resumo,
transformar o policial rápido no deslocamento em
“criminosos CAVALOS CORREDORES”, é, com efei-
to, um belo serviço prestado ao tráfico. Além, é lógico,
do inconfundível falso testemunho de BRUM, se com-

425
Sérgio Cerqueira Borges

paradas suas desencontradas versões, sendo certo que


a da CNT corresponde exatamente ao que ele já havia
predeterminado – “policiais-militares do 9º BPM, de
outras unidades e de outras instituições” –, ou seja, a
síntese de primeira trapaça materializada por ELIAS
BARBOSA no preparado depoimento DDV, de 13 set
93, que IVAN CUSTÓDIO apenas assinou.

Portanto BRUM, íntimo dos bastidores da trapaça,


não mais poderia declarar que “CAVALOS CORRE-
DORES” eram apenas PMs do 9º BPM para fixar suas
insânias no seu desafeto Emir Larangeira. Pois muitos
dos acusados, como já se disse, já estavam presos an-
tes do dia 13 set 93 e punidos disciplinarmente como
“envolvidos” na chacina de Vigário Geral. E a maio-
ria, enfim, não era do 9º BPM. Aliás, muitos deles nem
mesmo eram PMs e tantos outros jamais serviram lá
no tempo de comando do então TCel PM Larangeira
(abr 89/abr 90)...

Observa-se, igualmente, o caráter político da di-


gressão de BRUM para fugir da pergunta da entre-
vistadora. Já a referência grifada, “PATAMOS ESPE-
CIAIS”, emitida por BRUM no depoimento de 07 mai
94, de tão hilariante permite aventar a idéia do então
TCel Larangeira ter fabricado por sua conta alguns
“veículos especiais” para atuar em “atividades clan-
destinas lícitas e ilícitas...”

Ora, alguma coisa está errada nisso, pois, a serem


“atividades clandestinas”, como afirmou BRUM, não
poderiam ser “lícitas”. Somente “ilícitas”. E como des-
crever “PATAMOS ESPECIAIS”?... Seria uma pata-
mo blindada?... Teria armamento embutido na care-

426
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

nagem?... Teriam cores diferentes ou camuflagens?...


Seriam equipadas com luzes especiais ou totalmente
apagadas?... Seriam veículos médios, grandes ou pe-
quenos?... E mais: com autorização de quem e com
que recursos o TCel Larangeira as fabricou?... Quem
liberou a verba?... Com quem estariam hoje essas
“PATAMOS ESPECIAIS” depois que o TCel Laran-
geira se licenciou para ser eleito deputado estadual?
Tem alguma garagem especial, talvez uma “bat-caver-
na”?... Ora!

E por que só em 07 mai 94 BRUM fez a denúncia


dessas misteriosas viaturas, omitindo-as, portanto, por
mais de 04 (quatro) anos depois da saída do TCel La-
rangeira do comando do 9º BPM? Logo BRUM, justo
ele, que como sub-chefe da PM.2 da PMERJ tinha o
poder/dever de fiscalizar as ações das Unidades Ope-
racionais, inventar uma bobagem dessa? Que loucura!

É tão ridícula essa afirmação de BRUM que basta


prestar atenção na atuação do TCel Larangeira no comando
do 9º BPM para ver que a imprensa estava sempre junto
nas ações – e às vezes chegava antes. É certo que, a
existir esse “Bat-móvel” que BRUM chama de «patamos
especiais criadas pelo então comandante do 9º Batalhão»,
isto teria sido notícia bombástica, capa da Revista VEJA
ou matéria até no New York Times.

Sintomático é que esta designação “PATAMOS ES-


PECIAIS”, neologismo criado por aquele oficial, foi
exatamente a mesma expressão usada pela “testemu-
nha-chave” no II Tribunal do Júri, em seu depoimento
de 02 out 93, ao disparar acusações contra o deputado
Emir Larangeira. Impressionante, sim, a sintonia en-

427
Sérgio Cerqueira Borges

tre ambos (BRUM e IVAN), pura evidência da lava-


gem cerebral que recebeu o segundo personagem da
trama, pois IVAN CUSTÓDIO nunca foi PM, e, não
sendo do ramo, deve ter aprendido a estranha nomen-
clatura com o seu manipulador.

Nesta mesma linha de criatividade que produziu


as “PATAMOS ESPECIAIS”, foi inventada tam-
bém as demais expressões: “CAVALOS CORREDO-
RES”, “LARANGETES”, “COMANDO MARROM”,
“THUNDERCATS” e outros curiosos epítetos objeti-
vando denegrir a imagem de Emir Larangeira, asso-
ciando-a a comportamentos, atos e ações reprováveis,
porém tudo artificial e com puro objetivo de marke-
ting.

Neste ponto serão observados diversos detalhes que


reforçam as manipulações anteriores ao dia 13 set 93
e seu impacto no preparado termo de declarações da
DDV. Será feita uma análise comparativa entre alguns
trechos dos laudos do ICCE e do termo de declarações
de 13 set 93.

Esse termo de declarações de 13 set 93 é falho logo


no seu início: não consigna o Registro Geral (RG) de
IVAN CUSTÓDIO e grava na primeira folha duas
mentiras da testemunha: o nome incompleto do pai,
“WALTER DE LIMA”, quando, na verdade, é WAL-
TER CUSTÓDIO DE LIMA, e a mentirosa afirmação
de que foi terceiro-sargento temporário do Exército,
quando, na realidade, não passara de soldado raso li-
cenciado por ter sido preso em flagrante assaltando a
mão armada.

428
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

Na segunda folha do documento da DDV Ivan rela-


ta sua vida pregressa como camelô e “X-9” da Polícia
Civil, em total desencontro com o passado de crimes
que ele astutamente ocultava, até ser desmascarado,
em 02 out 93, no II Tribunal do Júri: era membro im-
portante do CV. Ainda nesta segunda folha a testemu-
nha inicia suas citações dando ênfase a uma idéia de
“GRUPOS” que seguramente não é sua. E neste ponto
começa a trapaça, que deve ser vislumbrada a partir
da lista sequencial de punições publicadas no Bol da
PM até o dia 13 set 93, trapaça que será demonstrada
à exaustão neste trabalho. Eis então a primeira leva de
punidos (A LISTA):

Boletim da PMERJ de 06 set 93:

OPM GRADUAÇÕES E NOMES DOS PUNI-


DOS
12º BPM SD PM JONAS SILVA DOS SANTOS**
BPChq SD PM EDUARDO JOSÉ ROCHA CREA-
ZOLA**
12º BPM SD PM HÉLIO VILÁRIO GUEDES*
14º BPM SD PM JOSÉ FERNANDES NETO*
12º BPM SD PM WILTON ELIAS DA CUNHA**
23º BPM SD PM RENATO AFONSO FERNANDES**
DGP SD PM ARLINDO MAGINÁRIO FILHO*
12º BPM SD PM PAULO R. BORGES DA SILVA
(BORGINHO DE NITERÓI)*
4º BPM SD PM CARLOS TEIXEIRA (BIGU)*
9º BPM SD PM DEVERALDO LIMA BARREIRA**
9º BPM SD PM ALEXANDRE BICEGO FARI-
NHAS*
17 º BPM SD PM NELSON SIQUEIRA GONÇALVES
FILHO**

429
Sérgio Cerqueira Borges

16º BPM SD PM JÚLIO CESAR BRAGA ( PÉ-DE


-BANHA)*
14º BPM SD PM LEANDRO MARQUES DA COS-
TA ( MIÚDO)*
5 º BPM SD PM REGINALDO PEDRO BEZERRA**

Os que estão em negrito culminaram escolhidos


para bancar a chacina da forma como vem sendo ex-
posta. Para facilitar a observação, os nomes previa-
mente escolhidos e anotados no tal “termo de declara-
ções” de 13 set 93 para responder pela chacina serão
numerados. Ivan inicia alegando “conhecimento” em
relação a alguns poucos e predomina nessa segunda
folha até a quinta folha, o “RECONHECIMENTO
POR FOTOS DA PRESENÇA NO SEPULTAMEN-
TO DO SARGENTO AILTON”. Assim se resume este
ordenamento sequencial:

1. NETO; 2. MIÚDO; 3. BICEGO; 4. MAGINÁ-


RIO; 5. HÉLIO; 6. RESENDE; 7. WILLIAM; 8.
VELA; 9. ADILSON; 10. ROCHINHA; 11. PM
DA MESMA FOTO INDICADO PELO Nº 03,
CUJO NOME O DECLARANTE NÃO SABE
E, INCLUSIVE, PARTICIPOU DA CHACINA;
12. GIL; 13. PESSOA COM A SETA Nº 01 NA
FOTO DE Nº. 04; 14. JOÃO RICARDO; 15. PM
BORGES, LOTADO NO 18º. BPM ( não compa-
receu a nenhum dos sepultamentos); 16. BETI-
NHO; 17. BIGU; 18. POLICIAL DA FOTO Nº
02 DA SETA Nº 05.

Depois de listados 18 acusados nesta ordem sequen-


cial, com o curioso detalhe, no caso do nº 11, que a
testemunha Ivan afirma “olhando a foto” e “sem sa-

430
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

ber o nome” que o mesmo “participou da chacina”,


a trapaça prossegue. Ora, IVAN CUSTÓDIO alega-
ra desde o início que o PM NETO, seu amigo e sócio,
lhe declinara tão-somente os nomes dos participantes.
Como então ele afirmar que a imagem da foto seria
de algum chacinador?... Entretanto, vale consignar al-
guns trechos extraídos das declarações prestadas pela
testemunha Ivan no II Tribunal do Júri em 02 out 93
e em 19 nov 93:

(...) Pelo patrono do 8º acusado foi perguntado e


pela testemunha respondido que o depoente não
pode reconhecer os acusados como chacinadores
porque não presenciou a chacina; que o depoen-
te fez o reconhecimento fotográfico dos acusados
em sede policial; (...). (II Tribunal do Júri, em 02
out 93 – sic).

(...); que o nome dos três acusados WILLIAM,


HÉLIO E JONAS não foi mencionado pelo
NETO, mas este fez a descrição física dos mes-
mos o que permitiu fossem identificados pelo de-
poente; (...). (II Tribunal do Júri, em 19 nov 93
– sic).

Mas logo depois, no mesmo depoimento, a testemu-


nha Ivan estabelece o aberrante paradoxo:

(...); que NETO não fez a descrição física das


pessoas, mas sim referindo-se a trabalhos reali-
zados; que o depoente só pode fazer o reconhe-
cimento à vista de tais pessoas; que o depoente
não pode dar a descrição física mentalmente dos

431
Sérgio Cerqueira Borges

mencionados acusados cujos nomes não se recor-


dou (...). (II Tribunal do Júri, em 19 nov 93).

É tão contundente a contradição que fica difícil crer que


o «reconhecimento» por fotos tenha saído da memória da
testemunha Ivan. E como fica o tal PM nº 11 da mesma
foto, cujo nome e declarante não sabe e, inclusive, par-
ticipou da chacina? Como pôde Ivan concluir isto? Só
há uma conclusão: o termo de declarações DDV, de 13
set 93, foi indiscutivelmente preparado!...

Continuando o tal “reconhecimento”, ainda na ter-


ceira folha, são incluídos os alvos criteriosamente se-
lecionados, conforme será mais detalhado neste traba-
lho. O primeiro alvo desta fase de “reconhecimento” é
o PM Vilário (Hélio Vilário Guedes). Esse PM Vilário
enquadra-se no “critério A”, ou seja, ligado ao TCel
Larangeira, servia no 12º BPM, em Niterói, mora em
São Gonçalo e estava de serviço no dia da chacina de
Vigário Geral no distante município de Maricá.

A seguir são citados os alvos ligados ao Cel PM Gar-


cia: Cb PM Afonso, PM Agostinho, PM Fantarigo (já
falecido), PM Valentim (já falecido), PM Rangel e PM
Videira. Os dois PMs falecidos são aqueles já referi-
dos como geradores da reação indignada da tropa nos
seus sepultamentos. Foram assassinados no Morro da
Caixa D’água, na Penha. Estes são todos enquadrados
no “critério C”.

Antes, porém, há uma referência ao PM Bernardes


(Amauri do Amaral Bernardes), anterior à citação do
PM Vilário. Este cabo insere-se no “critério B”. A se-
guir é citado o PM Borges (Paulo Roberto Borges da

432
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

Silva), enquadrado no “critério A”. Mas, para azar da


facção, esse PM, que também mora em Niterói, não
foi a sepultamento algum e não serve no 9º BPM des-
de julho de 1990 (servia no 12º BPM), também estava
comprovadamente de serviço no quartel na data da
chacina de Vigário Geral. Mas seu nome foi inserido
no tal “reconhecimento” com todos os ingredientes es-
tabelecidos pela facção. Talvez tenha sido em função
dos “elementos administrativos indiciários” a que se
refere BRUM em seu depoimento de 07 mai 94 e cujo
significado só ele conhece (doc. nº 05).

Depois do PM Paulo Roberto Borges é inserido


mais um “reconhecimento” por foto: o do PM “Pé de
Banha”. Em seguida, mais um alvo enquadrado no
“critério A”: O PM Cunha, também com todos os “ele-
mentos administrativos indiciários” de BRUM. Esse
PM também servia no 12º BPM e estava de serviço
no controle do abastecimento de viaturas operacionais
no dia da chacina de Vigário Geral. Por não ter como
imaginar sua ausência do quartel, já que cada viatura
abastecida depende de sua assinatura intransferível,
foi descartado da acusação. Mas os “elementos admi-
nistrativos indiciários” permaneceram e o PM foi in-
serido nos “crimes” e na “formação de quadrilha”. A
seguir é citado o PM SARAIVA (ADILSON SARAIVA
DA HORA), nos seguintes termos:

“(...); SARAIVA motorista do Cel. Larangeira e


morador em Nilópolis”.

O PM SARAIVA foi ao sepultamento do SGT PM


AILTON. Todavia, esta citação, da forma como foi in-
serida, merece reflexão mais apurada. Observando-se

433
Sérgio Cerqueira Borges

as folhas nº 38 do laudo do ICCE nº 1171196, constata-


se o mais aberrante caso de indução, cujo objetivo é
resumido nesta citação de 13 set 93.

Da forma como foi efetuada a indução, fica muito


claro que Ivan não conhecia o PM SARAIVA e teve
que ser ajudado para decorar seu nome e sua figura
física, além do detalhe de ser “MOTORISTA DO CEL
LARANGEIRA” e de ser “MORADOR EM NILÓ-
POLIS”.

O texto será iluminado para evidenciá-lo bem, sen-


do certo que havia um “script” nas mãos do Delegado
Elias Barbosa e de um personagem que interferiu no
diálogo –caracterizada a sua voz por um traço (–) pela
perícia.

Após o PM Saraiva, ainda são citados os PMs Sfair,


Campos, os três PMs que morreram na Praça Catolé
da Rocha, seguidos do PM Creazola (que estava preso
disciplinarmente no dia da chacina). Depois Ivan afir-
ma que “conhece” Jonas do 9º BPM (é detetive de po-
lícia desde 28 dez 90). Por fim uma citação do tenente
Vilaça, do 9º BPM, não se sabendo o motivo, a não ser
o fato de ter sido chefe da P.2 do 9º BPM no período de
comando do TCel Larangeira.

Seguindo a “equação matemática” são inseridos os


policiais civis da DRE, da DRFC entre outros e alguns
autônomos. Assim, aquele ordenamento sequencial ri-
goroso, consignado até o nº 18, foi completado:

19. BERNARDES; 20. VILÁRIO; 21. BORGES


de Niterói; 22. PÉ DE BANHA; 23. SARAI-

434
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

VA; 24. SFAIR; 25. CAMPOS; 26. JONAS; 27.


LEANDRO; 28. MARCÃO; 29. CHUCA; e 30.
JORGE.

Todos estes acusados pela chacina de Vigário Geral.

Ainda na 5ª folha, a testemunha Ivan (“inquirida


disse”):

“(...); que no dia 29 de agosto do corrente ano o


declarante foi ao enterro do Sgt Ailton no cemi-
tério de Ricardo de Albuquerque, estando pre-
sentes ao enterro as seguintes pessoas do relacio-
namento do declarante:

1. NETO; 2. MIÚDO; 3. BICEGO; 4. MAGINÁ-


RIO; 5. HÉLIO; 6. RESENDE; 7. WILLIAM
(BATE BOLA); 8. VELA; 9. ADILSON; 10. RO-
CHINHA; 11. POLICIAL DA SETA 3 DA FOTO
1; 12. GIL; 13. POLICIAL DA FOTO 4, SETA 1;
14. JOÃO RICARDO; 15. BORGES do 18º BPM
(reconhecido em foto, sem que tenha compareci-
do a nenhum sepultamento); 16. BETINHO; 17.
BIGU

Observe-se que até esse ponto, e pela segunda vez,


a sequência dos nomes é exatamente a mesma depois
de todo “conhecimento” e “reconhecimento” feitos na
primeira fase. A seguir, uma ligeira alteração:

18. WILLIAM ALVES; 19. POLICIAL DA


FOTO 02 SETA 05, NÃO SABENDO DECLI-
NAR SEU NOME; 20. PÉ DE BANHA; 21.

435
Sérgio Cerqueira Borges

CUNHA; 22. SARAIVA; 23. MARCÃO; 24.


CHUCA; e 25. PAULO ALVARENGA

Entre tantas outras incongruências como, por


exemplo, ser do “relacionamento pessoal de Ivan”
uma pessoa da foto que ele “não sabe o nome”, sobre-
leva observar a rigorosa sequência dos nomes escolhi-
dos pela facção. Nas folhas 06, 07, 08, 09 e parte da
folha 10 do preparado termo de declarações Ivan re-
lata com precisão rigorosa a dinâmica da chacina de
Vigário Geral, tudo “segundo o PM Neto”. Tão preci-
sa que ele consegue até citar com perfeição a tese dos
“GRUPOS” e caracterizar todos os carros e seus pro-
prietários. Depois desse longo e penoso relato vem o
desfecho sensacional:

(...); que segundo o NETO as pessoas que tive-


ram participação na chacina foram do TIME: 1.
NETO; 2. MIÚDO; 3. BICEGO; 4. MAGINÁ-
RIO; 5. HÉLIO; 6. RESENDE; 7. WILLIAM
(BATE BOLA); 8. VELA; 9. ADILSON; 10. RO-
CHINHA; 11. PESSOA INDICADA NA FOTO
DE Nº 1, DE SETA 03; 12. GIL; 13. PESSOA IN-
DICADA NA FOTO Nº 4, DE SETA 1; 14. JOÃO
RICARDO; 15. BORGES, DO 18º BPM; 16.
BETINHO; 17. BIGÚ; 18. PESSOA INDICADA
COM O Nº 05 DA FOTO 02; 19. JONAS; 20. PÉ
DE BANHA; 21. SARAIVA; 22. LEANDRO DA
DRE; 23. MARCÃO; 24. CAMPOS; 25. CHU-
CA. 26. JORGE; 27. PAULO ALVARENGA; 28.
LUCIANO, DO 18º BPM; 29. SFAIR.

É difícil entender como pôde IVAN CUSTÓDIO,


com a formidável precisão de um computador de última

436
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

geração, concluir que as pessoas das fotos, inclusive as


indicadas apenas por setas que ele “não sabe os nomes”
tenham participado da chacina, pois é certo que o PM
NETO “não fez a descrição física das pessoas”, confor-
me ele mesmo assegurou em seu depoimento de 02 out
93, no II Tribunal do Júri, o que aqui já se sublinhou.
Muito mais inconcebível é admitir que esta listagem
do “TIME” seja fruto da “memória fotográfica” de
IVAN CUSTÓDIO ou de qualquer outro ser huma-
no. Na verdade, tudo se resumiu numa lista prepara-
da pelo delegado ELIAS BARBOSA e por BRUM, na
qual os alvos foram verticalmente listados e repetidos
nas fases de “conhecimento”, “reconhecimento” e “ci-
tações”.

Foi desta maneira simplória que ambos forjaram o


termo de declarações de 13 set 93. E desta lista global
foram extraídos os nomes dos presentes ao sepulta-
mento do Sgt PM Ailton. Porém, não perceberam os
facciosos ELIAS BARBOSA e BRUM que esses nomes,
extraídos da lista global, acabaram por formar um
SISTEMÁTICO ORDENAMENTO A LISTAGEM
SEGUINTE, ou seja, uma lista menor decorrente da
primeira, ainda acrescida de nomes citados no “re-
lato”. E, se não bastasse, depois do longo “relato” de
Ivan, surge o famigerado “TIME”, extraído, é óbvio,
DA MESMA LISTA GLOBAL. Desta maneira, e sem
que os membros da facção o percebessem, os nomes
denunciaram a artificial e inconfundível sequência, o
que permitiu até numerá-la. É óbvio que atribuir ta-
manha proeza de memória a IVAN CUSTÓDIO signi-
fica passar um “atestado de burro” para todas as men-
tes normais. Melhor dizendo: significa querer repassar
a própria burrice para terceiros.

437
Sérgio Cerqueira Borges

E, por mais incrível que possa parecer, esse termo


de declarações de 13 set 93 assinado por IVAN CUS-
TÓDIO foi a “solução” encontrada pela facção para
“elucidar” a chacina de Vigário Geral e para desen-
volver os passos seguintes visando à formação da
imaginária quadrilha, assim como foi por métodos se-
melhantes que a facção retaliou à vontade seus alvos
preferenciais, forjando um monstruoso arabesco ab-
solutamente inverídico. Tudo, claro, a partir de alguns
fatos extraídos da história de vida do solícito IVAN
CUSTÓDIO, ou das resenhas jornalísticas arquivadas
na PM.2, mas transformados em acusações várias com
a aquiescência do marginal, que, por sua vez, não ti-
nha outra saída: ou colaborava irrestritamente ou se-
ria também “chacinador de Vigário Geral”. Assim os
facciosos legitimaram suas monstruosidades.

Ocupando cinco laudas do preparado termo de de-


clarações de 13 set 93 e antecedendo ao famigerado
“TIME”, esse relato aparece pela primeira vez com
uma clareza e uma precisão inconfundíveis, capaz de
impressionar qualquer mortal. Tudo muito perfeito,
como exige uma bem elaborada trapaça. O relato re-
porta-se ao sepultamento do SGT AILTON, no qual
IVAN CUSTÓDIO – sócio do falecido sargento nas
“mineiras” e num negócio de barcos de pesca, junta-
mente com o PM NETO – estava presente em todos os
momentos. Se não bastasse, também os carros supos-
tamente utilizados na chacina são listados nos míni-
mos detalhes, como se fora obra da memória de IVAN
CUSTÓDIO, embora o sistema já os tivesse recolhi-
do depois de apreendê-los em poder de seus alvos. Ou
seja, tudo tão elaborado quanto o artificioso “TIME”
de chacinadores.

438
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

Somente os presentes ao sepultamento do SGT AI-


LTON foram transformados em matadores de Vigário
Geral. Os outros três PMs assassinados na mesma oca-
sião pelos mesmo traficantes, ao que parece não causa-
ram indignação e revolta em ninguém, e nem poderia,
pois, afinal, IVAN CUSTÓDIO não compareceu aos
demais sepultamentos; por isso, não poderia estender
a trapaça.

Excessão. O PM Sérgio Cerqueira Borges (Borjão),


não compareceu a nenhum dos sepultamentos, contu-
do foi reconhecido por Ivan, em fotos, no sepultamen-
to do SGT AILTON. Como isto é possível? É simples,
naqules dias “absolutistas”, não se fazia necessário
se provar nada, a própria palavra de Ivan já era tido
como tal.

De tão perfeita, a “estória” teve que começar no do-


mingo, dado indispensável à legitimação da sequência
temporal, para se chegar, como num roteiro de cinema,
à segunda-feira. Tudo realmente perfeito: o caminho
para a DRFC, a notícia da Rádio Tupi informando so-
bre os “21 mortos” (às 05:00h, quando ninguém ainda
sabia o número de vítimas) na favela de Vigário Geral,
o desvio do itinerário em razão da notícia veiculada ao
alvorecer. Enfim, uma sequência perfeita que foi arti-
ficiosamente grafada no preparado depoimento. Pena
que não haja gravações em fitas para conferir. Aliás,
sobre a chacina de Vigário Geral não se gravou uma só
fita com a voz de IVAN CUSTÓDIO. Por quê?... Sim-
ples: porque ele não sabia de nada, ou sabia de tudo e
de todos, e de si próprio, mas não os poderia nominar
nem se acusar, algo que decerto negociou com o siste-
ma: acuso quem me mandarem e fico de fora...

439
Sérgio Cerqueira Borges

Depois, a chegada à casa do PM NETO, na segunda-


feira por volta das 06:00h e o relato do modus operandi
dos “chacinadores” feita pelo PM NETO para IVAN
CUSTÓDIO das 07:00h às 13:00h da mesma segun-
da-feira, sempre acentuando a idéia de “grupo” e do
“time”. E aqui cabe salientar que é muito fácil recons-
tituir o “modus operandi” a partir do levantamento do
local do crime e de informações obtidas entre popula-
res. Na verdade, é possível inventar à vontade para se
chegar ao resultado conhecido.

Aliás, a dinâmica do crime no interior da favela


já havia sido esmiuçada por um importante testemu-
nho, tanto na sede da PM.2 como na 39ª DP, na data
de 02 set 93. Trata-se da testemunha LUIZ CARLOS
BARBOSA, que “viu” os fatos, mas foi estranhamente
abandonado pela facção, um fato estranho e não escla-
recido, tudo indicando ter sido apenas uma tentativa
da facção em fraudar mais uma “solução” para a cha-
cina de Vigário Geral, já que, em 02 set 93, e ao que
parece, não existia ainda IVAN CUSTÓDIO, fator que
propiciou a nova fraude.

Pouco importava qual dinâmica seria adotada, cru-


cial era uma logo ser apontada como “real e verdadei-
ra”; pressões, interesses difusos dos “maquiavélicos”
investigadores, rápido optaram por Ivan, a melhor es-
colha para fraude.

Também não é difícil a alguém com “memória foto-


gráfica” decorar “estórias” para repeti-las convenien-
temente, conforme ocorreu em 02 out 93, no “grande
dia” de IVAN CUSTÓDIO no II Tribunal do Júri. En-
tre o primeiro depoimento, em 13 set 93, e o “gran-

440
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

de dia”, transcorreram 19 (dezenove) dias de treino,


tempo suficiente para decorar esta e outras “estórias”,
como realmente aconteceu.

“Saber é pouco; saber na relação exata é muito,


saber no ponto exato é tudo.”
(Hugo Hofmannsthal)

Entretanto, após o “grande dia” de IVAN CUSTÓ-


DIO no II Tribunal do Júri, a facção foi surpreendida
com a constatação material de que o PM Neto estava
de serviço no quartel (14º BPM) naquela segunda-fei-
ra pela manhã, citada por IVAN CUSTÓDIO. Por isso
não lhe poderia ter contado nada, o que desbarrancou
toda a “estória” escrita no termo de declarações de
13 set 93, decorada e fielmente repetida em 02 out 93
diante do Juiz e de todo o mundo. Mas a facção não se
apertou, deixou passar um tempo, treinou novamente
o papagaio e o colocou novamente diante do Juiz do II
Tribunal do Júri, em 19 nov 93. Assim surgiu a nova
versão da chacina nas barbas de todos que apenas
queriam participar do massacre humano de inocentes.
Nada demais. Afinal, nos tribunais de Torquemada
também era assim...

“Não é fácil forjar uma acusação contra um ino-


cente.” (Publílio Siro) 

A leitura dos três relatos esclarecerá indubitavel-


mente o absurdo, talvez o maior desleixo da impune
facção, sendo certo que o erro não foi do seu robotiza-
do colaborador, capaz de memorizar e declarar como
suas tantas quantas fossem as versões determinadas
pela facção. Ele só tinha a ganhar com isso...

441
Sérgio Cerqueira Borges

Esta conclusão, associada a outros fatos inconfun-


díveis que se representam pela constante, rigorosa,
uniforme e nítida sequência dos nomes, apelidos, pa-
tentes, unidades da PM que pertencem ou delegacias,
mesmo considerando inclusões e exclusões; pela des-
crição da dinâmica da chacina, caracterizando todos
os carros, listados nos mínimos detalhes, bem como
seus proprietários; pelo “modus operandi” dos “cha-
cinadores” e até pela tese dos “GRUPOS”, “TIMES”
etc. Tudo isso, mais o preciso roteiro temporal: o cami-
nho para a DRFC, a notícia na Rádio Tupi, o desvio de
itinerário... O domingo... A segunda-feira... O relato
de 07:00h às 13:00h, os “21 mortos”... Tornam impos-
síveis a qualquer ser humano tal proeza de memória,
ficando, pois, evidente que o termo de declarações da
DDV, de 13 set 93, foi preparado pelo delegado ELIAS
BARBOSA e outros para IVAN CUSTÓDIO apenas
assinar, com a inequívoca participação de arapongas
da PM.2 e de agentes da Chefia de Polícia Militar. Não
houve, pois, investigação nenhuma, e tudo com o aval
de promotores de justiça, que, iludidos pela má-fé dos
“investigadores” da PMERJ e da PCERJ inadvertida-
mente referendaram a trapaça assinando juntos essa
inconfundível equação matemática. Isto, na melhor
das hipóteses... E cabe novamente a indagação, para
não ser esquecida: “Por que há fitas gravadas com
tantos assuntos e crimes, transcritas pelo ICCE, e não
há uma sequer relatando a chacina de Vigário Geral?”

A seguir será apresentada a milimétrica tabela, sín-


tese exata do termo de declarações DDV, de 13 set 93,
tão matemática que somente foi possível ao computa-
dor representá-la. Dizer que tudo que está configurado
no termo saiu da memória da “testemunha-chave” é

442
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

consagrar um novo fenômeno inerente ao ser huma-


no, designado pela facção por “memória fotográfica”.
Ou melhor, é consagrar idiotice geral do restante do
mundo.

QUADRILHA
(critério de NOME DE CHACINA
BPM
Nº escolha dos GUERRA
SIM/NÃO
alvos) APELIDOS SIM/NÃO

1 A 3º BPM PM MIRANDA NÃO NÃO


12º
2 A PM BARREIRA NÃO SIM
BPM
3 9º BPM SGT AILTON* MORTO (1)*
14º
4 B PM NETO SIM SIM
BPM
14º PM MIÚDO
5 B SIM SIM
BPM (BEBEZÃO)
6 B 9º BPM PM BICEGO SIM SIM
7 B DGP PM MAGINÁRIO SIM SIM
8 B 9º BPM PM HÉLIO SIM SIM
16º
9 B PM RESENDE SIM SIM
BPM
PM WILLIAM
10 B 6º BPM SIM SIM
MORENO
11 B 4º BPM PM VELA SIM SIM
12 9º BPM PM NEGREIROS NÃO NÃO
23º
13 B PM ADILSON SIM SIM
BPM
14 B 9º BPM PM ROCHINHA SIM SIM
15 B 9º BPM FOTO 1, SETA 3 NÃO (?) NÃO (?)
PM GIL
16 B 9º BPM SIM SIM
AZAMBUJA
17 B 9º BPM FOTO4, SETA 1 NÃO (?) NÃO (?)
18 B 4º BPM PM J. RICARDO SIM SIM

443
Sérgio Cerqueira Borges

18º PM SÉRGIO
19 AD SIM SIM
BPM BORGES
20 B 3º BPM PM BETINHO SIM SIM
21 B 4º BPM PM BIGU SIM SIM
16º
22 B FOTO 2, SETA 5* NÃO (?) NÃO (?)
BPM
23 B 9º BPM PM BERNARDES SIM SIM
12º
24 A PM VILÁRIO SIM SIM
BPM
25 C DIP PM AFONSO NÃO NÃO
21º
26 C PM AGOSTINHO NÃO SIM
BPM
21º
27 C CEL GARCIA NÃO NÃO
BPM
28 C 6º BPM PM FANTARIGO* MORTO (2)**
29 C 6º BPM PM VALENTIM* MORTO (3)***
30 C 6º BPM PM RANGEL NÃO NÃO
31 C 6º BPM PM VIDEIRA NÃO NÃO
12º
32 A PM BORGINHO SIM SIM
BPM
EMIR
33 A ALERJ NÃO SIM
LARANGEIRA
16º
34 B PÉDE BANHA SIM SIM
BPM
12º
35 A PM CUNHA NÃO SIM
BPM
36 B ALERJ PM SARAIVA SIM SIM
37 D 9º BPM PM SFAIR SIM SIM
38 9º BPM PM MENDONÇA MORTO (4)****
39 9º BPM PM IRAPUAN MORTO (5)*****
40 D 9º BPM PM CAMPOS SIM SIM
41 A BPCH PM CREAZOLA NÃO SIM
42 ? PCERJ DET. JONAS NÃO SIM
20º
43 A TEN VILAÇA NÃO NÃO
BPM
44 F PCERJ DET. NÉLIO NÃO NÃO

444
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

45 F PCERJ DET. RICARDO NÃO NÃO


46 E PCERJ DET. WAGNER NÃO NÃO
47 E PCERJ DET. LEANDRO NÃO SIM
48 E PCERJ DET. MARCÃO SIM SIM
49 E PCERJ DET. MARCÃO NÃO NÃO
50 E PCERJ DET. FERREIRA NÃO NÃO
51 E PCERJ DET. NESTOR NÃO SIM
52 E PCERJ DET. SOUZA NÃO SIM
53 E PCERJ DET. PAULO NÃO SIM
54 E PCERJ DET. RENATO NÃO SIM
55 E PCERJ DET. WALMIR NÃO NÃO
56 E PCERJ DET. JADER NÃO NÃO
57 E PCERJ DET. GILBERTO NÃO NÃO
58 E PCERJ DET. DANIEL NÃO NÃO
59 E PCERJ DET. IVAN NÃO NÃO
ESCRIVÃO
60 E PCERJ NÃO SIM
AMÉRICO
61 E PCERJ ESCRIVÃO HÉLIO NÃO SIM
62 E PCERJ DET. LUIZINHO NÃO SIM
63 E PCERJ DET. SANTANA NÃO NÃO
64 E PCERJ DET. MARCÃO NÃO NÃO
65 E PCERJ DET. BAHIA NÃO NÃO
66 E DRE “X.9” CHUCA SIM SIM
67 E DRE “x.9” SATO NÃO NÃO
68 E DRFC “X.9” FANTASMA NÃO NÃO
60 E DRFC “X.9” MAIA NÃO SIM
70 E DRE “X.9” JORGE SIM SIM
71 B 9º BPM PM ALVARENGA SIM SIM
18º
72 D PM LUCIANO SIM SIM
BPM

LEGENDA

(1) Assassinado na Praça Catolé do Rocha *


(2) Assassinado na Praça Catolé do Rocha **

445
Sérgio Cerqueira Borges

(3) Assassinado na Praça Catolé do Rocha ***


(4) Assassinado no morro da Caixa d’água ****
(5) Assassinado no morro da Caixa d’água *****

A – Por obra exclusiva de BRUM, com o apoio ir-


restrito do sistema situacional pedetista, cravaram na
lista alguns PMs comandados pelo TCel Larangeira
no 9º BPM muitos anos antes. Pois o comando do en-
tão TCel PM Larangeira ocorreu de 10 abr 89 a 02 abr
90, e a chacina, em 30/31 de agosto de 1993. Esses indi-
gitados PMs, por sinal, não serviam há mais três anos,
não compareceram ao sepultamento dos quatro PMs
assassinados na véspera da chacina, além de residirem
em Niterói, São Gonçalo e Recreio dos Bandeirantes;

B – PMs que foram ao sepultamento do Sgt Ailton,


incluindo-se policiais civis que também comparece-
ram;

C – PMs que foram comandados pelo Cel PM Gar-


cia, no 6º BPM e no 21º BPM, em represália ao famo-
so episódio da morte de dois PMs no Morro da Caixa
D’água, na Penha, e às reações indignadas das pra-
ças durante o duplo sepultamento. Na ocasião um PM
encapuzado pronunciou críticas ao comando-geral da
corporação e ao governo pedetista;

D – PMs que serviram com o falecido Sgt Ailton ou


eram seus amigos;

E – Policiais civis da DRFC e da DRE, locais últi-


mos onde a testemunha IVAN CUSTÓDIO assegura
ter trabalhado como “X-9”.

446
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

F – Policiais civis ligados ao delegado Elson Cam-


pelo.

Não é difícil concluir que o critério predominante


para a escolha dos alvos foi à presença no sepultamen-
to do SGT AILTON. Também está claro que os acu-
sados pertenciam a diversos batalhões sem jamais te-
rem servido no 9º BPM. E os que serviam no 9º BPM,
muitos deles não faziam parte do efetivo no período de
comando do então TCel PM Larangeira. Na realidade,
a própria lista indica a descarada opção do sistema
por retaliar desafetos do governo, tanto na PMERJ
como na PCERJ, tudo a partir da monitoração de um
bandido do CV que apenas foi decorando e repetindo
como um papagaio o que o sistema lhe determinava,
conclusão, aliás, constante de uma das inúmeras sen-
tenças judiciais posteriores em que o juiz inocentou
todos os réus apontados pelo bandido, não sem antes
criticar severamente os seus mentores. E quando com-
parou o bandido a um papagaio, pediu desculpas por
ofender a ave...

Ora bem, tornando ao cerne do assunto, ao longo


dos dias pós-chacina outros PMs foram punidos, até
que no dia 20 set 93, tendo como base a cronologia das
punições, foram extraídos 28 PMs para se somarem a
cinco não PMs, ou seja, dois “X.9” e três detetives de
polícia. Sobre a sequência das punições será feita ou-
tra inferência para demonstrar que os arapongas nem
se deram ao trabalho de embaralhar os nomes cons-
tantes do depoimento grafado pelo delegado ELIAS
BARBOSA em 20 set 93, sendo a DENÚNCIA, datada
de 22 set 93, nada mais que “xerox” desse depoimento,
ou seja, seguiu a mesmíssima ordenação sequencial.

447
Sérgio Cerqueira Borges

Sim, os acusadores do MP obedeceram à artificiosa


métrica posta no mundo como consequente da “me-
mória fotográfica” de IVAN CUSTÓDIO, algo que tal-
vez nem Albert Einstein conseguisse.

Depois foi grafado um depoimento pelo delegado


ELIAS BARBOSA, em 29 set 93, para dar formato à
denúncia da FORMAÇÃO DE QUADRILHA, com-
pletando-se assim a trapaça do sistema situacional.
Nesse depoimento assinado por IVAN CUSTÓDIO os
nomes são igualmente sequenciados, tais como ocor-
reu em 13 set 93, ou seja, o bandido conseguiu repro-
duzir a mesma sequência dos nomes 16 dias depois,
acrescentando um emaranhado de acusações para dis-
simular a LISTA preparada antes de 13 set 93. E a
imprensa, abastecida pelo sistema deste modo, e indig-
nada como todo mundo, despejou sobre os alvos suas
terrificantes notícias, danificando reputações sem se
preocupar com o conteúdo mentiroso que o sistema si-
tuacional produziu a partir da fala de um bandido do
CV e nada mais. E não se tratou apenas de fala menti-
rosa, mas de fala monitorada com scripts desenhados
pelo delegado ELIAS BARBOSA, que do script se ser-
viu e permitiu ao bandido fazer o mesmo, em perfeita
sintonia entre o criador e a criatura, para atender aos
seus mentores da PCERJ, da PMERJ e do MP. Assim
foi a trapaça na primeira hora e assim ela prosseguiu
até o fiasco dos processos, que, felizmente, separou o
joio do trigo e inocentou a imensa maioria dos réus
apontados pelo bandido da prática de inúmeros cri-
mes extraídos da sua própria cultura criminosa, aliás,
sempre acompanhado de bandidos do CV, como já se
demonstrou, e nunca com policiais. Ou então a partir
de relatos malfeitos pelo marginal como consequência

448
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

de monitoração que esbarraram na verdade dos fatos


e desmoronaram de caminho. Mas o imediato objeti-
vo do sistema situacional foi plenamente alcançado e
afastou o desgoverno pedetista da intervenção federal,
este sim, o escopo maior dos trapaceiros.

Esclareça-se, por fim, que todos esses termos de de-


claração (alguns não mais os tenho) integram o pro-
cesso original que apurou no II Tribunal do Júri a cha-
cina de Vigário Geral, logo no primeiro volume, e pode
ser conferido minuciosamente.

6.2. A FABRICAÇÃO DE CULPADOS PELA VIA


DISCIPLINAR

6.2.1 – SÍNTESE DOS FATOS

6.2.1.1 – O ASSASSINATO DE 04 (QUATRO) PMs


EM VIGÁRIO GERAL

Este específico esforço de inferência objetiva de-


monstrar que não houve qualquer investigação cri-
minal para determinar a autoria e a culpa dos verda-
deiros responsáveis pela tenebrosa chacina de Vigário
Geral; o que gerou consequentemente, INJUSTIÇAS
e IMPUNIDADES.

Na época foram formalmente denunciadas 33 (trin-


ta e três) pessoas, a saber: 28 (vinte e oito) PMs, 03
(três) policiais civis e 02 (dois) autônomos – “X-9” –,
resultado final da trapaça disciplinar: a deliberada es-
colha de “bois de piranha” para responder pelo tene-
broso crime e aliviar o governo pedetista da interven-
ção federal.

449
Sérgio Cerqueira Borges

Como é notório, na noite/madrugada de 28/29 Ago


93 – sábado/domingo – uma guarnição fardada do 9º
BPM, composta de 04 (quatro) PMs, foi barbaramente
assassinada por traficantes da favela de Vigário Geral,
na Praça Catolé da Rocha, situada no mesmo Bairro
em que se localiza a favela.

O brutal assassinato dos PMs fez convergir ao local


inúmeros PMs, incluindo-se o comandante do 9º BPM,
Cel PM Cesar Pinto. O ambiente era de incontrolável
revolta, ficando mais que evidente a possibilidade de
haver alguma ação descontrolada da tropa contra os
traficantes.

Segundo o noticiado e posteriormente confirmado,


CESAR PINTO evitou, naquele dramático momento,
que a reação vingativa se efetivasse, arguindo que não
havia possibilidade de se organizar uma ação eficaz
contra os criminosos em razão de falta de recursos hu-
manos e bélicos. Há também quem comente que ele
foi impedido de agir imediatamente por ordens supe-
riores, algo compreensível em vista na natural inércia
da polícia por conta de conluios entre o poder público
e o poder marginal desde o episódio da Ilha Grande
narrado pelo jornalista Carlos Amorim no seu livro
Comando Vermelho – a história secreta do crime orga-
nizado (vide Google).

No dia seguinte – domingo, 29 ago 93 –, antes do se-


pultamento dos PMs, houve as primeiras declarações
do comando-geral da PMERJ questionando a presen-
ça deles, no local da emboscada, divulgando-se inclu-
sive a possibilidade de os mesmos estarem pratican-
do ação desautorizada e, portanto, ilícita. A posição

450
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

oficial da PMERJ, compatível com o desprezo que o


governante nutria pela polícia, decerto revoltou ainda
mais a tropa, especialmente a do 9º BPM, unidade a
que pertenciam os 04 (quatro) PMs assassinados.

Em razão dessa inoportuna postura oficial, os PMs


foram sepultados sem honras. No cemitério, o clima
era de revolta acumulada, tudo indicando a real pro-
babilidade de haver uma tentativa de retaliação pelas
próprias mãos por parte dos revoltados. Apesar disso,
a PMERJ simplesmente se omitiu: não providenciou
qualquer ação preventiva no sentido de garantir segu-
rança na favela de Vigário geral, homizio dos trafican-
tes assassinos dos PMs. Enfim, não cuidou de aliviar a
tensão e a insegurança naquele ambiente social repre-
sentado também pelo bairro de Vigário Geral como
um todo, ou seja, dentro e fora da favela. Também não
cuidou, a PMERJ, do desencadeamento de qualquer
ação repressiva objetivando capturar os matadores
dos PMs sabidamente homiziados no interior da fave-
la, local indiscutivelmente alvo de possível reação de
vingança por parte da revoltada tropa.

Sem embargo, não se preocuparam as autoridades


públicas civis e militares em proteger a população de
Vigário Geral, que ficou indefesa diante da real proba-
bilidade de confronto – oficial ou não – entre policiais
e traficantes. Em resumo: a PMERJ se omitiu delibe-
radamente, deixando a população residente naque-
le ambiente social entregue à própria sorte. A única
providência que houve foi um singelo reforço do PPC
de Jardim América diante da ameaça dos arrogantes
traficantes em atacar aquela fração de tropa ali desta-

451
Sérgio Cerqueira Borges

cada para completar o serviço anterior matando mais


PMs.

Sob a ótica da análise científica, todas as variáveis


independentes (causas) estavam bastante visíveis e em
vigoroso andamento, pois as reações, no nível psico-
lógico, ultrapassaram o campo das atitudes (mani-
festações não-observáveis do comportamento) e já se
evidenciavam como inegável possibilidade de produzir
resultados nefastos – variáveis dependentes (efeitos).
Mesmo assim, enjoada de lidar com manifestações de
vária ordem no seu dia a dia de polícia de manuten-
ção da ordem pública, nada fez a PMERJ nem para
controlar a mais que previsível revolta da tropa, nem
agiu contra os traficantes assassinos – o que certamen-
te amenizaria a revolta e indiretamente protegeria a
comunidade favelada.

O silêncio absoluto no tenso e indefeso ambiente so-


cial foi observado pelo próprio MARCOS PAES, na
época major e oficial da PM.2 encarregado de super-
visionar a localidade. O referido oficial, segundo rela-
tou no II Tribunal do Júri, circulou por toda a área de
conflito – PPC de Jardim América, Praça Catolé da
Rocha e Rua Bulhões Marcial (imediações da passare-
la de acesso ao interior da favela e local de homizio dos
bandidos) –, nada observando a não ser o eloquente
silêncio. Isto em torno de zero hora de 29/30 Ago 93,
domingo/segunda-feira. Já no PPC de Jardim Améri-
ca, o então major PM MARCOS PAES constatou um
preocupante clima de tensão dos PMs que lá estavam
de serviço, com todos os PMs assustados ante a possi-
bilidade de atentado, ameaça que se efetivara por tele-
fonema anônimo.

452
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

Segundo declarou o referido oficial no II Tribunal


do Júri, ele cuidou de acalmar os ânimos dos PMs,
limitando-se a apenas isto, não providenciando mais
reforço para o local. Em resumo, esta era a situação,
sobremaneira propícia à eclosão de algum aconteci-
mento nefasto.

6.2.1.2 – A CHACINA

Todos os avisos ignorados, ao amanhecer de domin-


go para segunda-feira, 29/30 Ago 93, as rádios já no-
ticiavam ter havido a tragédia no interior da favela
de Vigário Geral, com informações ainda imprecisas a
respeito do número de mortos.

Nas primeiras horas da segunda-feira, houve a


constatação da tragédia e o inevitável clamor público,
com as emissoras de televisão divulgando ao vivo as
cenas do tenebroso crime. E lá compareceram diversas
autoridades policiais civis e militares, destacando-se o
DR. NILO BATISTA e o CEL PM CARLOS MAGNO
NAZARETH CERQUEIRA, ambos demonstrando
excessivo nervosismo em razão da apavorante cena.
Pressionados, essas autoridades, respectivamente de-
clararam em sintonia uma com a outra: “Foi a PM!”;
“Tudo leva a crer que foi PM!”

A precipitada conclusão dessas duas autoridades,


diretamente responsáveis pela deliberada inação do
aparelho policial nos acontecimentos da véspera, po-
rém antes de qualquer investigação, não trazia no bojo
nenhuma novidade. Era gritante a relação de causa e
efeito, sequência tão previsível como as encontradas
nas ciências naturais, mas que não fora interrompi-

453
Sérgio Cerqueira Borges

da por qualquer providência interveniente do sistema


entre as causas e seu tenebroso e esperado resultado,
com o fim de evitá-lo. Ora, isto se insere inconfundivel-
mente nas atribuições da PMERJ, que tem o exclusivo
poder/dever de agir imediatamente na ocorrência de
inevitáveis crimes – repressão –, contra os quais, obri-
gatoriamente, deve também providenciar no sentido
da evitá-los.

Esta é a missão constitucional de qualquer Polícia


Militar brasileira. Mas bastou a precipitada “conclu-
são” do comando-geral da PMERJ informando à opi-
nião pública e ao seu público interno que os 04 (quatro)
PMs assassinados na véspera – sepultados sem honras
militares – estavam em situação irregular, para que
todo o sistema subordinado se inibisse ao extremo da
absoluta e incontestável omissão. Omissão, aliás, con-
cluída em extenso relatório da Defensoria Pública Es-
tadual no processo por danos morais movido por pa-
rentes das 21 vítimas de Vigário Geral. Sim, omissão
da PMERJ! Pelas características do resultado, a ação
dos chacinadores fora fulminante, pegando de surpre-
sa as indefesas vítimas, sem possibilidade de defesa.

6.2.1.3 – AS PROVIDÊNCIAS OFICIAIS

Logo nas primeiras horas da segunda-feira, inicia-


ram-se as diligências policiais, ficando a 39ª DP – de-
legacia distrital da área – responsável pela apuração.
Enquanto isso, a PMERJ, através da Chefia de Polícia
Militar e da PM.2 (Serviço Reservado), comandadas
e/ou diretamente orientadas por BRUM, iniciava uma
absurda caçada aos PMs, recolhendo aleatoriamente
à prisão disciplinar inúmeros PMs, com Mandados

454
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

de Busca e Apreensão já expedidos, tudo em razão


da gritante relação de causa e efeito já aventada,
que imediatamente e sem restrições justificava todas
as suas idiossincráticas sugestões de suspeitos (PMs
fotografados durante o sepultamento do SGT AILTON
e outros escolhidos por razões de pura retaliação
pessoal).

Sim, essa caçada humana, – em vez de focalizar


como alvos preferenciais os PMs mais exaltados, e que
assim se externaram no local das mortes dos 04 (qua-
tro) PMs e nos seus sepultamentos (mesmo assim um
absurdo), – foi encetada tal qual metralhadora girató-
ria, atingindo incontável número de oficiais e praças
que já estavam na mira do sistema situacional PMERJ
por alguma outra razão. Curiosamente, os PMs que
compareceram ao sepultamento do SGT AILTON fo-
ram os alvos preferenciais, esquecidos os que se fize-
ram presentes aos sepultamentos dos 03 (três) PMs
mortos juntamente com o SGT AILTON, além de ou-
tros desafetos da lista negra do Brum.

Conforme esclarecido em tópico específico, no dia


02 Set 93, quatro dias após os fatos, surge uma estra-
nha testemunha ocular do crime, moradora na favela
de Vigário Geral. Levada à sede da PM.2, essa teste-
munha é interrogada por MARCOS PAES e relata
com precisão milimétrica os fatos, denunciando sua
dinâmica e apontando alguns autores e culpados pelo
tenebroso crime: traficantes das favelas de Parada de
Lucas e de Vigário Geral.

Essa testemunha, de nome LUIZ CARLOS BAR-


BOSA, é conduzida à 39º DP, lá reiterando o que dis-

455
Sérgio Cerqueira Borges

sera na PM.2, agora na presença do DELEGADO


TITULAR, DR. OTÁVIO SEILLER, que ainda esta-
va responsável pelas apurações, tudo na presença do
PROMOTOR DE JUSTIÇA, DR. VICENTE ARRU-
DA FILHO. Estava, pois, instituída a primeira versão
para o crime.

A testemunha LUIZ CARLOS BARBOSA não foi


preservada e, estranhamente, sumiu. Sim, sumiu do
mapa, literalmente, apesar das fortes evidências que
denunciara. A conclusão só pode ser uma: essa teste-
munha foi providencialmente “plantada”, como as-
segurou MAGALHÃES, então Chefe da PM.2, em
depoimento no II Tribunal do Júri, de quem, aliás,
MARCOS PAES era subordinado. Mas, se foi “plan-
tada”, quem a “plantou”?

Esta indagação leva a duas alternativas: ou foi


“plantada” por algum chacinador, o que implicaria
investigar fortemente esta vertente, identificar o autor
do “plantio” e assim se chegar à sua identificação e
à primeira prova material de autoria e de culpa dos
chacinadores; ou foi “plantada” pelo próprio sistema
na ânsia de buscar uma rápida e conveniente solução
para o tenebroso crime almejando bloquear a temida
Intervenção Federal. Isto é um mistério até hoje; por-
que, como já se tem a absoluta certeza de que a chaci-
na fora praticada por PMs, policiais civis, bombeiros e
autônomos – “X-9” –, é difícil compreender que tenha
surgido ao acaso testemunho tão contundente, sendo
certo que, pelo deliberado “esquecimento” dessa teste-
munha, é possível que tenha sido eliminada.

456
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

Enquanto esse fato estranho ocorria, o sistema pro-


videnciava a centralização das investigações no pró-
prio Gabinete da Polícia Civil e no Alto Comando da
Polícia Militar, ficando a Delegacia de Defesa da Vida
– DDV – responsável pelas apurações, e deslocada
para a sede da PM.2, no QG da PMERJ, saindo do
cenário investigatório a 39º DP.

A partir dessa nova conjuntura, no dia 03 Set 93 a


caçada humana encetada pela PM.2 e Chefia de Polícia
Militar intensificou-se, contando ela com o apoio irres-
trito da Polícia Civil e do Ministério Público, este últi-
mo providenciando os Mandados de Busca e Apreen-
são nas residências de PMs listados pela PMERJ.

Foi momento de dramática perplexidade para mui-


tos PMs e seus familiares que tiveram suas casas in-
vadidas por afoitos agentes – fortemente armados e
com os rostos encobertos por máscaras “ninja” –, que,
desta forma truculenta e igualando todos os “escolhi-
dos” aos piores marginais, cumpriam os Mandados de
Busca e Apreensão, uma afronta à dignidade humana
nunca vista na história da PMERJ.

São incontáveis os PMs que receberam o impacto


dessas aleatórias providências mannu militari, tudo
escudado apenas na idiossincrasia de arapongas que
agiam com carta-branca de todas as autoridades pú-
blicas incomodadas com a ameaça de intervenção fe-
deral no Estado do Rio de Janeiro, fato amplamente
noticiado.

Esses critérios de escolha dos todo-poderosos ara-


pongas não se fixaram apenas na supostamente prin-

457
Sérgio Cerqueira Borges

cipal lógica de investigação: a exaltação de ânimo de


alguns PMs no local das mortes dos 04 (quatro) PMs
assassinados na véspera da chacina e a revolta deles
nos sepultamentos, em especial no do sargento Ailton,
com ressalva de que todos foram diretamente observa-
dos por CESAR PINTO nas duas ocasiões.

Os principais exaltados estavam mais do que iden-


tificados desde antes, inclusive por fotos, o que impli-
caria a verificação de seus comportamentos posterio-
res como forma coerente de investigar. Praticamente
todos os PMs que compareceram ao local das mortes
dos 04 (quatro) PMs foram às raias da insubordinação
contra CESAR PINTO. Isto, sem dúvida, deveria ser
a primeira linha de investigação, claro que sem a cele-
ridade havida e os desvios propositais do sistema para
atingir seus fins escusos.

Na verdade, a arapongagem abriu o leque para o


campo que mais lhe interessava: retaliações político
-pessoais contra seus desafetos e contra seus alvos in-
ternos já em observação pelo controle interno. Buscou
assim “matar muitos coelhos com uma só cajadada”,
esquecendo-se deliberadamente da singularização dos
verdadeiros criminosos e partindo para a apoteótica
caçada humana cujo efeito na mídia transformou o lí-
der dos arapongas em “herói”.

A chacina saiu completamente do foco da mídia, eis


que argutamente deslocado para os “chacinadores”
presos disciplinarmente e apresentados como tais nos
seus locais de prisão, no interior dos quartéis, em cer-
cados de arame, como gado para corte ou “bodes” es-
calados para “expiar” a ira da opinião pública. Tudo

458
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

antes de qualquer investigação e a partir apenas da


idiossincrática vontade do principal e aplaudido in-
vestigador. Assim esses infortunados foram punidos
como partícipes do crime, execrados perante a opinião
pública, imediatamente denunciados e presos preven-
tivamente, tudo baseado no absurdo mannu militari,
que transformou a farsa em verdade absoluta pela via
disciplinar. Esta foi a monstruosidade praticada pelo
sistema, principalmente devido ao irrestrito e irres-
ponsável o apoio de alguns poucos promotores de jus-
tiça.

“Quem não sabe o que busca, não identifica o que


acha.”
(Immanuel Kant)

“LUTA. Teu dever é lutar pelo Direito. Mas no dia


em que encontrares o Direito em conflito com a
Justiça, luta pela Justiça”
(Eduardo Couture)

Vejam então como o sistema montou a sua farsa,


assim publicada em boletim ostensivo ou reservado da
PMERJ:

7. AVERIGUAÇÃO SUMÁRIA DO NU/CPM

PUNIÇÃO DE OFICIAIS E DE PRAÇAS NA


ATIVA

Após análise minuciosa da Averiguação Sumária


supra-referendada, instaurada para apurar ir-
regularidades e ilegalidades dos PPMM em tela,
em acontecimentos sucedidos na Baixada Flumi-

459
Sérgio Cerqueira Borges

nense, em 29/30 AGO 93, verifica-se, face ao con-


tido nos autos, que o fato reveste-se de crime da
competência da justiça comum, em apuração na
DDV e transgressão disciplinar, desvinculada do
crime, cometidos pelos PPMM em questão, ra-
zão pela qual o Comandante Geral resolve:

1. Punir disciplinarmente, pela transgressão dis-


ciplinar desvinculada do crime: a) (...)

Sem tanto esforço para concluir o óbvio (aconteci-


mentos sucedidos na Baixada Fluminense, em 29/30
AGO 93), a interrupção é apenas para esclarecer que
esta letra “a” refere-se ao Capitão PM José Agnaldo
Pirassol Ruas, síntese maior da inconsequência e da
impunidade do sistema. O Capitão Pirassol, por ser
amigo pessoal do deputado Emir Larangeira e ter
com ele servido no nono batalhão quatro anos antes
de ocorrer a chacina (abr 1989/abr1990), foi preso e
anunciado para toda a mídia nacional e internacional
como o “comandante da chacina de Vigário Geral”.
Por enquanto, esta monstruosidade, já provada em
contrário até mesmo com a anulação da punição, per-
manece impune.

Neste ponto serão listados os punidos naquele dia


06 set 93, com ressalva do texto inicial, que logo consi-
derou que o crime foi cometido pelos punidos, apesar
da afirmação de que o fato estava “em apuração na
DDV”, prova de que o inconsequente e impune siste-
ma fabricou culpados antes mesmo de o fato apurado
legalmente. O texto da punição consistiu num ENLA-
TADO comum a todos os alvos, nos seguintes termos:

460
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

(...), do 12º BPM, por ter descumprido normas


administrativas da Corporação, à medida que se
enleou a fato desairoso, ferindo a honra pessoal,
o pundonor militar e o decoro da classe, man-
tendo conluio com terceiros para a prática de
atos ilícitos, concorrendo com os seus atos para
desprestígio do nome da Corporação, piorando
a sua situação à medida em que mentiu em de-
poimento, prejudicando a aclaração dos fatos e
acobertando ações delituosas. Seu procedimento
demonstra ruptura de suas obrigações para com
a PMERJ e a Sociedade...

Este texto manu militari resume bem a truculência


do sistema. Trata-se de um inequívoco e subjetivo LI-
BELO ACUSATÓRIO, que, em última análise, e asso-
ciando-o ao texto inicial já transcrito, significou a cons-
ciente manifestação da vontade do sistema PMERJ em
transformar seus “bois de piranha” em chacinadores
de Vigário Geral (o “fato desairoso”).

E bastou a negativa da autoria, assim como a não


disposição dos seus alvos em “apontar culpados”, é ló-
gico, segundo a mesma idiossincrasia do sistema situa-
cional, para que ele transformasse, como fez, inocen-
tes em chacinadores pela via disciplinar. Assim, foram
punidos 15 (quinze) PMs em 06 set 93, na sequência
abaixo (os grifados em vermelho foram denunciados
como chacinadores:

OPM GRADUAÇÕES E NOMES DOS PUNIDOS


12º BPM SD PM JONAS SILVA DOS SANTOS**
BPChq SD PM EDUARDO JOSÉ ROCHA CREAZOLA**
12º BPM SD PM HÉLIO VILÁRIO GUEDES*

461
Sérgio Cerqueira Borges

14º BPM SD PM JOSÉ FERNANDES NETO*


12º BPM SD PM WILTON ELIAS DA CUNHA**
23º BPM SD PM RENATO AFONSO FERNANDES**
DGP SD PM ARLINDO MAGINÁRIO FILHO*
12º BPM SD PM PAULO ROBERTO BORGES DA SILVA (BOR-
GINHO DE NITERÓI)*
4º BPM SD PM CARLOS TEIXEIRA (BIGU)*
9º BPM SD PM DEVERALDO LIMA BARREIRA**
9º BPM SD PM ALEXANDRE BICEGO FARINHAS*
17 º BPM SD PM NELSON SIQUEIRA GONÇALVES
FILHO**
16º BPM SD PM JÚLIO CESAR BRAGA ( PÉ-DE-BANHA)*
14º BPM SD PM LEANDRO MARQUES DA COSTA ( MIÚDO)*
5 º BPM SD PM REGINALDO PEDRO BEZERRA**

Legenda:

** Não denunciados pela chacina de Vigário Geral.


* Denunciados pela chacina de Vigário Geral (Em ne-
grito).

Em 13 set 93, mais três PMs foram punidos, ago-


ra com as suas Notas de Culpa elaboradas pela DGP/
DPA/SJD (nº 3504). Mas a tese do enlatado permane-
ceu, alterando-se apenas sua monstruosa forma lite-
rária (“episódio sucedido na data de 29/30 ago 93, em
Vigário Geral”). Esta foi uma constante que vinculou
as prisões disciplinares, por motivos banais e diversos,
à chacina de Vigário Geral (o “episódio”):

462
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

16º BPM 3 º SGT PM ADILSON DA SILVA PEREIRA**


1º BPM 3º SGT PM REINALDO TOMAZ DA SILVA**
RCES SD PM LUIZ CLÁUDIO BATISTA**

Esses três PMs, primeiro incriminados como “cha-


cinadores” e depois excluídos de qualquer acusação,
foram punidos, respectivamente, pelos seguintes mo-
tivos disciplinares:

A. O 3º SGT PM ADILSON DA SILVA PEREI-


RA, porque:

“Teve apreendidas em sua residência armas que,


segundo alegou, estavam em seu poder para re-
paros, não apresentando documentos de pro-
priedade e origem”.

B. O 3º SGT PM REINALDO TOMAZ DA SIL-


VA, porque:

“Ficou constatado que deixou de comunicar for-


malmente, em tempo hábil, mudança de endere-
ço, bem como renovação de sua identidade fun-
cional”.

C. O Sd PM LUIZ CLÁUDIO BATISTA, por-


que:

“Teve apreendida arma de fogo não registrada


em nome próprio, motivando a propagação ne-
gativa da imagem da corporação, ferindo a ética
policial-militar, o decoro da classe, o sentimento
do dever e o pundonor militar”.

463
Sérgio Cerqueira Borges

Este último merece reflexão mais acurada, para que


seja conhecida ao máximo a truculência da facção de
arapongas, exemplo máximo da monstruosidade des-
ses “investigadores”: o PM Batista não servia no 9º
BPM, não compareceu aos sepultamentos e já estava
vivenciando dramáticos momentos na sua vida pessoal
e familiar: era portador do HIV.

Este seu dramático estado particular, mantido até


então em absoluto segredo, sobretudo pelo HPM/Rio
e seus éticos profissionais, veio à tona por iniciativa do
próprio “acusado” como única alternativa de resgatar
sua reputação, já que, de sua carreira, nada mais es-
perava, por ter sido excluído dos quadros da PMERJ.

Contudo, entre ser “chacinador” e assim perder a


dignidade, o PM Batista preferiu divulgar, amargura-
do, o seu segredo, em nome da mesma dignidade que
tanto procurou preservar. A facção, tomada de surpre-
sa, silenciosamente voltou atrás na decisão: reintegrou
o PM Batista aos quadros da PMERJ e reformou-o
como 3º Sargento.

O seu exemplo, porém, deve servir agora para ca-


racterizar e esclarecer não somente essa injustiça, mas
todas as outras, igualmente monstruosas, praticadas
contra os demais. De tudo isto se conclui sem medo de
errar: se o PM Luiz Cláudio Batista não estivesse com
AIDS seria “nomeado” chacinador. Por sorte, seu in-
fortúnio o livrou da acusação; mas, em compensação,
a boa saúde dos demais acabou por servir como azar.
***

464
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

A partir do dia 15 set 93, choveram punições no bo-


letim da PMERJ, enquadradas no modelo de sempre,
o enlatado:

“episódio sucedido em 29/30 Ago 93, em Vigário


Geral”.

Curiosamente, esta data de 15 set 93 coincide com


uma reunião reservada, no Gabinete do Secretário de
Estado da Polícia Militar, que será abordada em mo-
mento posterior.

Como objetivo desta inferência é o de comparar,


no final, as sequências de punições publicadas em bo-
letim, com outras, a fim de provar que nada saiu da
mente de IVAN CUSTÓDIO Barbosa de Lima, mas,
sim, das insidiosas mentes dos membros da facção,
será feita a síntese sequencial das punições dos PMs
conforme figuraram nos boletins da PMERJ, acom-
panhadas dos “motivos disciplinares” que geraram as
respectivas punições em suas respectivas datas.

***

A primeira punição que figura nesse dia 15 set 93


é relativa ao Sd PM Wilton Elias da Cunha, do 12º
BPM, reeditando a outra punição gravada no Boletim
da PMERJ de 06 set 93. Insistiu a facção em transfor-
mar esse alvo em “chacinador”, assegurando no seu
texto, com a assertividade de sempre, e “em face das
investigações”, a síntese:

465
Sérgio Cerqueira Borges

(...) relativas aos fatos ocorridos em Vigário Ge-


ral, em 29/30 Ago 93, no qual há indícios de sua
participação...

Não teve como prosperar a insídia da facção: o PM


Cunha estava de serviço no 12º BPM, na data do “epi-
sódio”, abastecendo as viaturas operacionais – tare-
fa intransferível – durante as 24 horas, assinando de
próprio punho em horários diversos e sequenciados os
documentos relativos a esses abastecimentos. Por isso
não foi possível à facção fazer prevalecer seu absurdo
manu militari transformando esse PM em “boi de pi-
ranha” – critério constante para todos. Foram então
punidos em 15 set 93:

1. Sd PM Wilton Elias da Cunha** – 12º BPM.


Motivo disciplinar: porque ausentou-se do quar-
tel entre 06 set 93 e 14 set 93, onde fora detido em
face das investigações...

2. Sd PM Gil Azambuja dos Santos* – 9º BPM.


Motivo disciplinar: foi constatado o mau estado
de conservação de sua carteira de identidade ex-
pedida pela corporação, com a fotografia total-
mente irreconhecível...

***

No dia 17 set 93 foram punidos mais 10 (dez)


PMs:

“Piorando a sua situação diante do surgimento


de indícios de sua participação em irregularida-
des, na data de 29/30 Ago 93, em Vigário Geral”.

466
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

Claro está que as “irregularidades, na data de


29/30 Ago 93”, só podem se referir à chacina. Eis,
pois, a lista:

3. Cb PM Edmilson Campos Dias* – 9º BPM.


Motivo disciplinar: deslocou-se de sua UOp, a
serviço, para o DPO Jardim América, utilizan-
do-se de veículo particular...

4. Sd PM Sérgio Cerqueira Borges* – 18º BPM.


Motivo disciplinar: deixou de comunicar, for-
malmente, em tempo hábil, mudança de endere-
ço...

5. Sd PM Sirley Alves Teixeira* – 9º BPM. Moti-


vo disciplinar: constatação do uso de bigode de
forma a alterar-lhe as características fisionômi-
cas daquelas existentes em fotos e documentos
oficiais existentes nos arquivos da Corporação e
da carteira de identidade...

6. Sd PM Marcelo dos Santos Lemos* – 23º BPM.
Motivo disciplinar: deslocou-se de sua UOp, a
serviço, para o POGEP/Praia, utilizando-se de
veículo particular...

7. Sd PM Roberto Cesar do Amaral Jr. (Beti-


nho)* – 16º BPM. Motivo disciplinar: deixou de
regularizar, em nome próprio, veículo transacio-
nado com terceiro de forma a cadastrá-lo junto à
sua Uop, assim como exercer atividades remune-
radas estranhas à corporação...”

467
Sérgio Cerqueira Borges

8. PM William Moreno da Conceição (Bate-Bo-


la)* – 16º BPM. Motivo disciplinar: deixou de
regularizar, em nome próprio, veículo transacio-
nado com terceiro de forma a cadastrá-lo junto
à sua UOp...

9. Sd PM Paulo Roberto Alvarenga* – 9º BPM.


Motivo disciplinar: carteira de identidade com
prazo de validade vencido...

10. Sd PM João Ricardo do Nascimento Batista*


– 4º BPM. Motivo disciplinar: deixou de comu-
nicar formalmente, em tempo hábil, mudança de
endereço...

11. Cb PM Amauri do Amaral Bernardes* – 9º


BPM. Motivo disciplinar: deixou de comunicar
formalmente, em tempo hábil, mudança de en-
dereço...

12. Sd PM Luciano Francino dos Santos* – 18º


BPM. Motivo disciplinar: foi alvo de mandado
de busca e apreensão, ocasião em que se dirigiu
de maneira desrespeitosa a superior, ofenden-
do-o, culminando por mentir em depoimento,
quando procurou inverter a situação...

***

Como se pode depreender, a facção puniu esses PMs


por “irregularidades”, apesar de referir-se em seguida
ao hediondo crime ocorrido em Vigário Geral. Isto ca-
racteriza bem a “certeza” da facção ao selecionar os
seus “bois de piranha”, pois todos os 10 (dez) punidos

468
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

na data de 17 set 93, assim como o PM Gil Azambuja,


último listado em 15 set 93, foram transformados em
“chacinadores” pelos prosaicos motivos disciplinares
que dificilmente resultariam punições rigorosas. Mas
todos foram punidos com 30 dias de prisão e excluí-
dos da Corporação, provocando na opinião pública o
impacto esperado, a falsa eficiência propalada como
eficácia absoluta da facção na solução da chacina de
Vigário Geral.

No dia 20 set 93, data em que foi gravado outro pre-


parado “termo de declarações” de Ivan Custódio pela
DDV, listando os 33 “bois de piranha”, o Boletim da
PMERJ tornou público as seguintes punições:

13. Cb PM Hélio Gomes Lopes* – 9º BPM. Mo-


tivo disciplinar: ficou constatado que o mesmo
havia emprestado a terceiros sua arma particu-
lar, adquirida através da Corporação, ocorrendo
desaparecimento da dita arma, mediante roubo,
fato não comunicado à Corporação e a nenhum
outro órgão da SEPC/RJ...

14. Sd PM Jamil José Sfair Neto* – 9º BPM. Mo-


tivo disciplinar: deslocou-se da sede da OPM
para o DPO Jardim América, utilizando auto
particular, descumprindo, assim, normas admi-
nistrativas da corporação...

15. Sd PM Adilson Saraiva da Hora* – DGP.


Motivo disciplinar: constatou-se raspagem do
bigode de forma a alterar-lhe as características
fisionômicas daquela existente na carteira de
identidade...

469
Sérgio Cerqueira Borges

16. Sd PM Dermerval Luiz da Rocha* – 9º BPM.


Motivo disciplinar: deixou de comunicar formal-
mente, mudança de endereço por ocasião de seu
estado conjugal...

17. Sd PM Gilson Nicolau de Araújo* – 9º BPM.


Motivo disciplinar: constatou-se alteração de ca-
racterística particular, sem permissão ou comu-
nicação...

***

No dia 21 set 93 mais duas punições foram publica-


das, sempre com o mesmo enlatado, que se resumem:

18. Sd PM Luiz Carlos Pereira Marques (Vela)*


– 4º BPM. Motivo disciplinar: deixou de regula-
rizar em nome próprio, motocicleta transaciona-
da com terceiro, mantendo-a em circulação com
documentos de propriedade e de uso pessoal em
desrespeito às regras de trânsito...

19. Sd PM Adilson de Jesus Rodrigues* – 14º


BPM. Motivo disciplinar: por utilizar em veículo
particular de sua propriedade, originariamente
movido a álcool, gás butano e carteira de identi-
dade em precário estado de conservação...

***

No dia 27 set 93 ocorreu mais uma punição, do (20)


Cb PM Valdeir Resende dos Santos*, do 16º BPM,
com a alegação de que “fora denunciado pelo Minis-
tério Público”. Ou seja: neste caso a carroça andou na

470
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

frente do “boi de piranha”, o que não importa, pois as


relações de causa/efeito de todos os implicados têm a
mesma origem: o artificialismo da fabricação de cul-
pados pela via disciplinar e pela denúncia vazia de
conteúdo posta no boquirroto de IVAN CUSTÓDIO,
que funcionou como um robot a referendar a trapaça.

Também é certo que os motivos disciplinares foram


lançados apenas para dissimular o inquestionável mo-
tivo principal: presença no sepultamento do Sargento
Aílton, que abrangeu a absoluta maioria dos incrimi-
nados por esse parcial critério. É lógico que causaria
espécie punir tantas pessoas, transformando-as em
criminosas, alegando com clareza este principal e ab-
surdo motivo.

Afinal de contas, havia muito mais PMs no sepulta-


mento do Sgt Ailton e dos outros três PMs, sepultados
no mesmo dia e pelo mesmo motivo; inclusive estava
presente o próprio comandante do 9º BPM, que, para
coerência do “critério”, teria que ser também chacina-
dor. Daí a conveniente dissimulação.

Apenas à guisa de observação, não há nos Boletins


da PMERJ naquele mês de setembro punição impos-
ta ao (21) Sd PM William Alves*. Ao que parece, ele
foi escolhido por último como alvo por razões tão in-
confessáveis quanto os demais e posto como primeiro
nome do preparado depoimento DDV de 20 set 93. Isto
sugere a lembrança do que foi inferido a seu respei-
to no preparado depoimento de 13 set 93, ocasião em
que esse alvo substituiu ou corresponde a um daqueles
“PM Foto x, Seta y” presentes ao enterro do SGT AIL-
TON, mas que IVAN CUSTÓDIO “não sabe o nome”

471
Sérgio Cerqueira Borges

e que “inclusive participou da chacina”, mesmo con-


fessando que o PM NETO só lhe declinou nomes e não
lhe mostrou nenhuma foto. É mole? Ora, fenômeno
idêntico deve ter ocorrido com o PM Valdeir Resen-
de dos Santos, que, por isso, aparece fora da ordem
cronológica das punições disciplinares: critério predo-
minante para acusar os alvos que compareceram ao
sepultamento do SGT AILTON.

Como ele poderia identificar alguém deste modo,


se ele próprio construiu a história (uma delas, entre
outras desencontradas) de que “ouviu” do PM Neto os
nomes de quem participara da chacina”. Então, como
pode ser explicado o modo de ele dizer em depoimento
que alguém que ele “não sabe o nome” e que “inclusive
participou da chacina”? Eta armação malfeita! Valia
tudo, mesmo, no tempo da impunidade dos “investiga-
dores” bancados pelo MP.

***

Neste ponto será elaborada uma tabela contendo


três colunas: A primeira coluna será originária da lis-
tagem sequencial dos nomes dos PMs punidos no de-
correr do mês de setembro, excluídos aqueles que não
foram transformados em “chacinadores”.

Esses nomes estarão situados nos blocos correspon-


dentes às datas das punições obedecendo-se a exata
sequência cronológica dos blocos de punições e dos
nomes. A segunda coluna corresponderá à exata se-
quência dos nomes registrados no preparado termo
de declarações DDV de 20 set 93. A terceira coluna
corresponderá à exata sequência apresentada na De-

472
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

núncia do Ministério Público de 22 set 93. Será que


alguma memória humana será capaz de produzir tal
feito? Vamos então à tabela:

Data Nomes dos Depoimento Denúncia


da punição alvos de MP
adrede 20 set 93
sequenciados
nas punições
disciplinares
em Bol da
PMERJ.
(2) 06 set 93 PM Hélio idem idem
Vilário
Guedes
(3) 06 set 93 PM José idem idem
Fernandes
Neto
(4) 06 set 93 PM Arlindo idem idem
Maginário
Filho
(5) 06 set 93 PM Paulo R. idem idem
Borges da
Silva
(6) 06 set 93 PM Alexandre idem idem
Bicego
Farinha
(7) 06 set 93 PM Carlos idem idem
Teixeira
(8) 06 set PM Julio idem idem
93 Cesar Braga
(9) 06 set PM Leandro idem idem
93 Marques da
Costa

473
Sérgio Cerqueira Borges

(28) 27 set PM Valdeir idem idem


93 Resende dos
Santos
(10) 15 set PM Gil idem idem
93 Azambuja dos
Santos
(14) 17 set PM Marcelo idem idem
93 dos Santos
Lemos
(16) 17 set PM William idem idem
93 Moreno
(15) 17 set 93 PM Roberto idem idem
Cesar do
Amaral Jr.
(13) 17 set PM Sirlei idem idem
93 Alves Teixeira
(11) 17 set PM Edmilson idem idem
93 Campos Dias
(12) 17 set PM Sérgio idem idem
93 cerqueira
Borges
(19) 17 set PM Amauri idem idem
93 do Amaral
Bernardes
(18) 17 set PM João idem idem
93 Ricardo do N.
Batista
(17) 17 set PM Paulo idem idem
93 Roberto
Alvarenga
(20) 17 set PM Luciano idem idem
93 Francisco dos
Santos

474
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

(23) 20 set PM Adilson idem idem


93 Saraiva da
Hora
(21) 20 set PM Hélio idem idem
93 Gomes Lopes
(24) 20 set PM Demerval idem idem
93 Luiz da Rocha
(22) 20 set PM Jamil José idem idem
93 Sfair Neto
(25) 20 set PM Gilson idem idem
93 Nicolau de
Araújo
(26) 21 set PM Luiz idem idem
93 Carlos P.
Marques
(27) 21 set PM Adilson idem idem
93 de Jesus
Rodrigues
(27) 21 set 93 PM Adilson de idem idem
Jesus Rodrigues
detetive Marcos Vinicius idem idem
detetive (Ex-PM) Jonas idem idem
Lourenço
detetive Leandro da Silva idem idem
Costa
“X.9” Jorge Leandro S. idem idem
de Souza
“X.9” Adriano Maciel idem idem
de Souza

Para que não se tenha nenhuma dúvida de que o


termo de declarações de 20 set 93 se reporta à crono-
logia das punições disciplinares, grafa-se a seguir fac
símile dele para comparação com os boletins (imutá-
veis e arquivados na PMERJ, bem como juntados no

475
Sérgio Cerqueira Borges

processo da chacina, claro que passando ao largo da


atenção ministerial no primeiro momento). Portanto,
é certo que somente um estúpido poderia imaginar ser
o bandido capaz de reproduzir de memória o nome
dos acusados na mesmíssima sequência com que fo-
ram punidos disciplinarmente em boletim da PM du-
rante algumas semanas e em meio a tumulto. Claro,
portanto, que o sistema produziu a peça a partir dos
boletins e o bandido a assinou sem saber que fora for-
jada desta maneira. E assim a trapaça seguiu adiante
até a denúncia do MP na mesmíssima ordem cronoló-
gica das punições. É simples: o sistema foi listando os
alvos segundo os critérios já vislumbrados, mantendo-
se, porém, fiel ao critério presença no enterro do SGT
AILTON para legitimar as assinaturas de IVAN CUS-
TÓDIO em diversos depoimentos preparados, não
apenas para inventar culpados pela chacina, mas para
acusar inocentes por centenas de crimes recolhidos às
pressas dos arquivos do sistema, sempre em dia, claro.

Mais sintomática, insisto, é a punição do PM Val-


deir Resende dos Santos, ocorrida após a lavratura do
termo de declarações e da denúncia, pondo assim as
carroças na frente do “boi de piranha”. É provável que
tenha sido por demora em o acusado ser reconhecido
por foto da presença no enterro, um daqueles “foto x,
seta y” que o bandido não conhecia nem ouvira do PM
Neto seu nome nem nome algum, isto não passou de
ardil do sistema para enquadrar os presentes ao se-
pultamento do SGT AILTON como chacinadores sem
qualquer prova técnica ou testemunhal além do ban-
dido afirmando ter ouvido do PM NETO os tais nomes
e o PM NETO negando o fato, ficando uma palavra
contra a outra, mas suficiente para mandar todos às

476
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

barras dos tribunais sem qualquer investigação cri-


minal séria. Aliás, investigação criminal séria houve
no ICCE (Instituto de Criminalística Carlos Éboli):
nenhuma balística positiva em centenas de armas
apreendidas com os alvos do sistema. Confiram, pois
diretamente a sequência do termo de declarações for-
jado pelo delegado e busquem na PMERJ os boletins
para ver se confere com o que denuncio com todas as
letras.

Outro fiasco decorrente da pressa do sistema foi en-


quadrar como PM o detetive da PCERJ Jonas Lou-
renço, antes realmente PM, mas excluído a pedido
para se integrar à PCERJ, eis que aprovado em con-
curso público com tal desiderato.

477
Sérgio Cerqueira Borges

478
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

479
Sérgio Cerqueira Borges

480
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

6.3. OS NEOLOGISMOS DO SISTEMA

6.3.1 – CONSIDERAÇÕES INICIAIS

Em toda a história da humanidade tem sido muito


frequente nos processos de comunicação de mensagens
a criação de novas expressões e símbolos, produzindo-
se, assim, reforços ou efeitos especiais com o fim de
tornar imediata sua percepção e influenciar o ambien-
te. Seja flexionando palavras ou dando-lhes novos sig-
nificados, o fato é que a transformação e/ou a evolução
semântica de termos e expressões estão presentes no
nosso cotidiano. Durante muito tempo o Brasil inteiro
divertiu-se assistindo às exóticas aparições do perso-
nagem Chacrinha (magnífica criação do profissional
de tevê Abelardo Barbosa), com evoluções e danças de
suas telebailarinas carinhosamente conhecidas como
Chacretes. Também o cinema produziu seus ídolos in-
fantis com denominações próprias de sensacionalismo,
fixando imagens através da derivação de títulos: todos
os pertences do “Batman” eram “Bat-alguma coisa”.

Os veículos de comunicação de massa são tão dinâ-


micos que uma expressão há pouco considerada “ca-
lão” ou “chula” passa a ser falada ou narrada como
corriqueira. Mas esse mesmo modismo que traz uma
excitante novidade torna-a logo obsoleta, substituindo-
-a por coisa nova. Esta situação pitoresca criou outra
expressão pertinente, que designa o ultrapassado, em
desuso e descartado: “Já era!”

Desse oportuno conjunto de circunstâncias que im-


pressionam o inconsciente coletivo, alcançando os di-
versos segmentos da sociedade, se valem a publicidade

481
Sérgio Cerqueira Borges

e a propaganda, trabalhando marketing, merchandi-


sing e outras técnicas de oportunidade como poderosos
instrumentos de convencimento, sejam quais forem as
naturezas do que tenham para apresentar e/ou vender.

Símbolos gráficos, fotos, letras estilizadas, núme-


ros disformes, logotipos e logomarcas proporcionam
absorção momentânea, com identificação imediata do
que se quer apresentar: Holywood, Coca-Cola, Xerox,
Disney e Bombril são marcas ligadas à facilidade e ao
prazer. Mas também a hedionda suástica em todo o
mundo e o CV no Rio de Janeiro associam-se ao ter-
ror, à morte, à impunidade, ao narcotráfico, à corrup-
ção policial, à corrupção política e a outras podridões
aterradoras de um sistema situacional que costuma-
mos designar como “poder público...”.

A imagem é uma representação mental, conscien-


te ou não, formada a partir de vivências, lembranças
e percepções passíveis de serem modificadas. As ima-
gens afetam e são afetadas por atitudes e opiniões de
indivíduos ou grupos. Por isto são facilmente mani-
puladas através de processos artificiais, como aque-
las técnicas alienígenas a que nos referimos. Segundo
os estudiosos, a imagem, por ser um fenômeno muito
mais individual, é caracterizada pela fragilidade. Ima-
gem é conceito ou conjunto de opiniões subjetivas de
um indivíduo ou de um grupo social sobre uma orga-
nização, uma empresa, um produto, uma instituição,
uma personalidade etc. A imagem é efêmera. Por isso é
que os estudiosos são unânimes em assegurar que não
se pode dela exigir o que se conhece por justiça e equi-
líbrio. E exatamente aí reside o perigo, pois a imagem,
enquanto dura, constrói e destrói com facilidade e vo-

482
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

lúpia surpreendentes. É tão poderoso o efeito benéfico


e, sobretudo, maléfico das técnicas de manipulação da
imagem, que a constituinte atentou para o problema
e consignou texto literal, contundente, indiscutível,
como se observa no Inc. X, do Art. 5º da CF, verbis:

“São invioláveis a intimidade, a vida privada, a


honra e a imagem das pessoas, assegurado o di-
reito à indenização pelo dano material ou moral
decorrente de sua violação”.

A sabedoria do legislador fez-se presente, pois, no


fim de contas, o texto sintetiza o direito de preservação
de um dos mais imprescindíveis valores que confor-
mam a dignidade da pessoa humana (Inc. III do Art.
1º da CFRB). Indiscutível, portanto, é o valor jurídi-
co-pessoal da imagem, que se sobrepõe aos textos me-
nores das leis subordinadas à Carta Magna. É muito
perigosa essa técnica de manipulação da imagem, de
efeito arrasador. Por isso a propaganda e a contrapro-
paganda são consagradas desde os primórdios até mes-
mo por seu uso instintivo. Nenhum exército dispensou
ou dispensa a propaganda como arma de guerra.

A guerra psicológica é uma indiscutível realidade.


Por isso é exaustivamente estudada e atualizada por
serviços de inteligência em todo o mundo. No Brasil,
os serviços de inteligência são corriqueiramente co-
nhecidos por comunidades de informações, dentre as
quais se incluem aquelas configuradas nas estruturas
organizacionais das Polícias Militares (PPMM), que
são forças auxiliares reserva do Exército Brasileiro.

483
Sérgio Cerqueira Borges

As comunidades de informações das PPMM são


subsistemas do sistema federal, mantendo com este
perfeita e orientada interface. E essas estruturas guar-
dam a cultura da guerra psicológica, forma eficaz de
atuação em tempos de normalidade ou de anormali-
dade. Por isso é que os profissionais dessas estruturas
gastam tempo analisando jornais, formando dossiês
de assuntos relativos aos que eles denominam de cam-
pos – político, econômico, social, militar etc. –, tarefas
exercitadas por analistas treinados com este fim.

A produção e a difusão de informações são ativida-


des precípuas dessas comunidades fechadas cujas téc-
nicas vão desde a pura criatividade dos “arapongas”
até às informações sérias extraídas de fatos verdadei-
ros. Estas últimas, porém, legitimam as falsas, que são
“criadas” para atingir objetivos inconfessáveis.

Uma prática comum entre os membros desta peri-


gosa facção consiste, dentre outras, no seguinte: dese-
jando o chefe do sistema instituir uma “verdade” para
atingir alguém, ele pode fixar o “tema” e determinar
aos diversos segmentos subordinados que comecem a
“informar” a respeito daquele “tema” artificialmente
escolhido. Assim, uma determinada agência (subsis-
tema) difunde um “informe” – categoria de assuntos
com pouca credibilidade inicial – gravando o “tema”
predeterminado. Outras agências (subsistemas) ado-
tam o mesmo procedimento prévio, e começam a
cruzar as falsas informações. A difusão é catalogada
na Agência Central (o sistema: origem de tudo) e já
recebe classificação categorizada. Depois, basta acio-
nar um amigo qualquer da imprensa para noticiar o
“tema”, legitimando-o em espaços de difusão abertos.

484
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

A partir daí o “tema” já pode ser classificado como


“informação”, categoria “A-1”, ou seja, proveniente
de “fonte fidedigna”.

É comum que a fonte seja do tipo: “moradores da


comunidade tal... segundo comentários que ocorreram
em tais lugares diferentes... consta que... segundo
informante classificado como fonte A-1... conforme
publicado no jornal etc.” Em resumo: através de terceiros
(sujeitos indeterminados), e sem qualquer materialidade,
o «tema» inventado pelos «arapongas» ganha contornos
de «verdade» e o «RELATÓRIO» já está pronto para
ser utilizado contra o(s) alvo(s). Assim foi durante o
Estado Novo e durante outra posterior ditadura, quando
muitos cidadãos brasileiros foram retaliados, presos,
desaparecidos, banidos do país etc., sendo os seus “dos-
siês” baseados no nada factual transformado em ins-
trumento jurídico de natureza grave.

Há também os amigos do sistema, os informantes,


que têm as suas classificações – fontes – de acordo com
seu grau de importância no meio social e sua utilida-
de para o sistema. Desta maneira, são formadas as re-
des de informações, arabesco somente entendido por
“arapongas”, pois são tão complexas e misteriosas es-
sas “redes” que as pessoas comuns, estranhas ao meio,
não conseguem nunca compreendê-las. E muitas delas
participam como inocentes úteis...

Os arquivos dos sistemas de informações são perfei-


tos. As interligações entre os subsistemas garantem a
preservação dos dados, de modo que é fácil aos “ara-
pongas” abrir arquivos, fingir destruí-los para enga-
nar a legalidade, pois as suas cópias já estão difun-

485
Sérgio Cerqueira Borges

didas e arquivadas em outros subsistemas, eis como


o sistema continua a existir em forma cística e assim
mantém em mimetismo seu status quo.

Uma organização social somente existe se integra-


da e dinamizada por pessoas; caso contrário, seria um
sistema inerte e inerme. Mas a questão crucial reside
exatamente neste ponto: nas pessoas. Quando estas
substituem por malícia o dever de ofício, o respeito às
leis e aos regulamentos e as próprias regras univer-
sais do sistema, este se torna um antivalor, um peri-
go social. Este é o conceito que melhor se adapta ao
real funcionamento da comunidade de informações da
PMERJ na era brizolista. Na realidade, Brizola sabia
mais que ninguém que a comunidade de informações
é arma poderosa, eis que dela fora vítima. Por isso em-
punhou-a contra quem bem quis.

Durante esses últimos e tumultuados anos, o sistema


de informações do período BRUM e MAGALHÃES
adotou critérios arrojados e ações que ultrapassaram
os limites da normalidade e da legalidade. Abusaram
da denunciação caluniosa, do falso testemunho, da
violência arbitrária, da violação do sigilo profissional
etc. Criaram fenômenos artificiais nos seus “laborató-
rios do mal”. Depois transformaram suas “criações”
em “sigilos profissionais”, para, finalmente, divulgá
-los como “verdades” para a opinião pública, através
dos amigos do sistema localizados principalmente na
imprensa. Não há quem resista a um bem elaborado
“mistério”... O nome disso: guerra psicológica. Só que,
em vez de ser utilizada contra os inimigos da sociedade
(que em tempos de normalidade até poderiam ser as-
sim designados os arrogantes e impunes criminosos),
os “arapongas” somente buscaram os seus próprios

486
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

interesses de promoção pessoal e de retaliação aos con-


trários a esses métodos medievais típicos de regimes de
exceção.

Neste ponto se inserem os mais novos e poderosís-


simos amigos do sistema: os promotores de justiça se-
guidores do ex-procurador geral de justiça Antônio
Carlos Silva Biscaia, depois assumido político militan-
te do PT. Uma associação perfeita: de um lado “ara-
pongas” capazes de abarrotar os promotores de justiça
com invenções deles próprios e sem qualquer funda-
mento de verdade, e por eles mesmo divulgadas com
base apenas na insidiosa fé de ofício e na força bruta
da comunidade de informações. Do outro lado alguns
sectários promotores de justiça com excesso de poder,
porém ávidos exatamente daquilo que os “arapongas”
mais tinham a oferecer: a força bruta e as mentiras,
como, aliás, sempre o fizeram. Enfim, uma união per-
feita: o poder que faltava aos “arapongas” nesses tem-
pos de “Estado Democrático de Direito”, dispensável
na ditadura, mas agora imprescindível para o sistema
transformar suas falsas verdades e as suas elaboradas
mentiras em falsas opiniões. Assim então nasceram do
nada os epítetos...
Niilismo: s. m. (filos.) aniquilamento, redução a
nada. / Ausência de toda a crença. / Nome dado por al-
guns críticos ao idealismo absoluto. / Doutrina política
segundo a qual as condições apresentadas pela organi-
zações sociais são tão más que justificam a sua destrui-
ção,  independentemente de qualquer programa cons-
trutivo. / Nome que por vez se dá ao terrorismo ou à
propaganda revolucionária. / F. lat. Nihil (nada).53

53 AULETE, Caldas. Dicionário Contemporâneo da Língua Brasileira. Vol.


IV. Rio de Janeiro: Delta, 1978.

487
Sérgio Cerqueira Borges

6.3.2 – CAVALOS CORREDORES

“Não se brinca com os cavalos corredores”.

Esta frase, do jornalista Carlos Nobre, ao estilo de


Agatha Christie, esclarece bem a dimensão fictícia do
neologismo, na verdade criado por BRUM para va-
lorizar o livro intitulado MÃES DE ACARI – Uma
história de luta contra a impunidade, Rio de Janeiro,
Ed. RELUME-DUMARÁ, 1994. Esse livro acabou se
constituindo num importante documento, na medi-
da em que o jornalista, segundo se pode observar no
transcorrer da leitura do livro dele, teve o cuidado de
gravar as entrevistas que fez com diversas pessoas e
autoridades, fixando, dessarte, suas empolgadas e im-
punes opiniões, das mentiras a ele transmitidas com a
eloqüência de um trapaceiro, oportunista que detinha
toda credibilidade situacional; Nobre, respeitado jor-
nalista, reconhecidamente ativista da defesa da cultura
negra e das massas oprimidas, não poderia imaginar
que por Brum estava sendo usadas para consubistan-
ciar mentiras com aparência de verdades absoluta;
Não há como criticar o trabalho jornalístico e escri-
tor da obra citada de Carlos Nobre, não foi o único a
legitimar mentiras invencionistas daqueles algozes de
policiais inocentes; a obra muito importante para que
em seu próprio contexto pudesse extrair o que há de
verdade nas elocubrações do coronel “vedete”; como
se referiu a ele o Ex-Comandante dos Governos Brizo-
las, coronel PM Cerqueira.

A obra, foi badalada como nunca. Ostenta prefácio


escrito por Danielle Mitterrand (ex-primeira-dama da
França), que garantiu incentivos da Fundação France

488
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

Libertés, do Comitê de Solidariedade França-Brasil,


para a elaboração do livro, através do CEAP — Centro
de Articulação das Populações Marginalizadas —, ór-
gão dirigido pelo petista Ivanir dos Santos, importan-
te figura política que, através da entidade que dirige,
tem conseguido notoriedade pessoal aqui e no mundo.
Outra personalidade destacada é a extinta promotora
de justiça Tânia Maria Salles Moreira, que escreveu
sua opinião sobre o livro quase que no mesmo nível
de importância do prefácio de Danielle Mitterrand: na
dobra de capa. E do seu texto se deve consignar alguns
pontos, a fim de ficar bem claro seu envolvimento polí-
tico-pessoal com esta empreitada:

(...). O Destino, sábio, colocou o CEAP (Centro


de Articulação de Populações Marginalizadas)
na vida daquelas mulheres doídas. Soube, tam-
bém, fazer sua dor cruzar com o empenho dos
integrantes da Comissão Especial e a tenacidade
do diligente tenente-coronel Brum, da PM (...).
A edição do presente livro tem enorme impor-
tância porque leva os fatos ao conhecimento do
grande público, e os perpetua...

A Promotora Tânia ainda recebeu do autor do livro


um especial agradecimento, nos seguintes termos:

Sem a clarividência de Tânia Maria Salles Moreira


muitas passagens deste livro estariam nubladas.

A Promotora Tânia notabilizara-se na Baixada


Fluminense por fazer apologia do uso da maconha nos
processos criminais em que atuava ministerialmente.
Fazia-o por meio de artigo de sua lavra a respeito da

489
Sérgio Cerqueira Borges

cannabis sativa, que costumava juntar aos processos


e, assim, constrangia juízes ao pedir arquivamento de
flagrantes de tráfico de drogas. Além disso, já teve pro-
blemas com outros colegas promotores de justiça que
não misturam a digna incumbência desta categoria es-
pecial de servidores públicos com política. A promoto-
ra Tânia intitulou-se, pela imprensa, como “Assessora
do CEAP”. Isto bem esclarece sua motivação pessoal
e política, de cunho ideológico petista. Na verdade, é
uma forma sutil de exercitar a proibitiva atividade
político-partidária sem se filiar diretamente ao PT.
Ela, com efeito, não poderia estar ausente desse livro,
ressalvando-se seu elogio direto a BRUM e sua frase
sobre os fatos relatados no livro e que, se levados “ao
conhecimento do grande público”, os “perpetua”. Im-
portante esta verificação da ilustre promotora, porque
interessa demais a ideia de que o dano causado pelo
livro está, com efeito, “perpetuado”. E vale o registro
do agradecimento feito pelo autor do livro ao Ivanir
dos Santos, dirigente do CEAP, nos seguintes termos:

Ivanir dos Santos foi um importante autor inte-


lectual desta obra: agradeço muito pelo convite.

Outra destacada personalidade é o ex-procurador


geral de justiça Antônio Carlos Silva Biscaia, a quem
o autor dedicou extenso espaço para uma entrevista
que merece leitura direta (págs. 168 e 169), além de ter
gravado o seguinte agradecimento:

O Procurador-Geral de Justiça Antônio Carlos


Biscaia foi simpático em relação ao livro, assim
como os promotores da Assessoria de Direitos
Humanos...

490
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

No mesmo nível de importância, e junto com Bis-


caia, vem o agradecimento a Brum:

O coronel Brum foi uma luz nas partes obscuras


desta história.

E neste ponto será registrado o foco de todos os con-


flitos existentes entre o então Deputado Emir Larangei-
ra e BRUM e todas as outras sectárias personalidades
elogiadas no livro: um orquestrado “reconhecimento”
montado pela PM.2, da qual o Brum era na época o
Chefe, na sede da Corregedoria Geral da Polícia Ci-
vil – liderada pelo notório petista Hélio Luz, delegado
de polícia. Integravam o grupo que “reconheceria” os
policiais civis e militares como “chacinadores dos onze
de Acari” as mães dos marginais e de suas namora-
das, hoje conhecidas como as “Mães de Acari”, numa
alusão deformada das “Madres de la Plaza de Mayo”,
mundialmente conhecidas por tentarem localizar os
seus entes queridos desaparecidos durante a ditadura
militar na Argentina.

Como se vê, as “Mães de Acari” não passavam


duma tentativa política de reedição do exemplo argen-
tino, com uma sutil diferença: aqui as mães escolhidas,
infelizmente, não passavam de mães de meia dúzia de
sequestradores e assaltantes de banco e de suas mal
acompanhadas namoradas; o que não diminui a dor
destas na busca da verdade. Mas aqui é Brasil... Con-
tudo, o próprio autor do livro “Mães de Acari” acabou
por registrar o fato de tal modo que merece a verifica-
ção direta dos textos relativos ao “reconhecimento”.
Na verdade, esta foi uma das primeiras tentativas vi-
síveis de BRUM – já assessorado pelas sectárias per-

491
Sérgio Cerqueira Borges

sonalidades da Polícia Civil e do Ministério Público,


conforme se deduz do livro – em fabricar culpados por
crimes para sua promoção pessoal. A primeira citação
é historiada pelo próprio autor:

(...). O jornal revelou que o deputado-militar


Emir Larangeira tumultuara o reconhecimento
dos policiais militares, na Corregedoria da Polí-
cia Civil. Larangeira confessara ter melado o re-
conhecimento que, para ele, teria sido uma farsa
montada pela Polícia Militar. A interferência e
participação do deputado Emir Larangeira, de
fato, tornou polêmico o reconhecimento, segun-
do reconhece próprio Brum. – A presença de La-
rangeira, certamente, atrapalhou...

Com efeito, “a presença de Laranjeira, certamen-


te, atrapalhou”, porque o que estava para ocorrer
naqueles idos de 1991 não era reconhecimento, mas
“reconhecimento”, ou seja, uma farsa. E a presença
do então deputado foi porque recebera denúncia dan-
do conta que o tal “reconhecimento” seria comandado
pelo Dr. Salvador Mendes do Couto, notório advogado
de traficantes da favela de Acari, em conluio com todas
aquelas personalidades que diretamente participavam
da orquestração. E a “presença de Larangeira”, que
tanto incomodou, foi acompanhada do Dr. Jorge Antô-
nio da Silva, respeitadíssimo advogado do Município
de São Gonçalo, na época Presidente da OAB naquele
Município e depois um dos 25 notáveis Conselheiros
da OAB do Estado do Rio de Janeiro. O que “atrapa-
lhou” mesmo não foi a “presença do Larangeira”, que
teve o cuidado de comparecer com um representante
da OAB, o que assustou sobremaneira os trapaceiros.

492
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

A respeito da afirmativa inicial do autor – “o jornal


revelou” –, na verdade deve ter sido ele próprio, que
em 1992, quando BRUM, violando sigilo profissional,
fez publicar no Jornal O DIA um daqueles “RELA-
TÓRIOS” já mencionados, reportando-se ao episódio
e aos seus “Cavalos Corredores”. Nesta época o jor-
nalista Carlos Nobre era empregado daquele Jornal.
Mera coincidência apenas... Isto depois será esmiuça-
do, pois interessa, agora, registrar um trecho da entre-
vista que o autor do livro gravou com uma das “Mães
de Acari”, de nome Edméia, e publicada a sua íntegra
nos seguintes termos:

(...) – A senhora reconheceu alguns dos PMs que


fizeram a extorsão?

– Não. Eu não estava em condições, mas a meni-
na reconheceu. Um ano depois, a Rosângela re-
conheceu todos eles.

– Quem mais participou do reconhecimento?

– O advogado, o Salvador. Estava também o ad-
vogado do Larangeira e o capitão Odilon, que
investigava o caso com o coronel Brum. Eu não
reconheci nenhum. Quem eu conhecia não apa-
receu. Então, enquanto a menina reconhecia, o
Salvador falou: Eu vou reconhecer porque quero
ajudar vocês. Isto é muita bagunça, é muita saca-
nagem. Onde estão nossos polícias? Isto é o Sal-
vador falando. Mas tava de truta com eles, né?
(...). Ele, o advogado falou: eu vou reconhecer
primeiro. Depois você reconhece (...). Pra ele não

493
Sérgio Cerqueira Borges

fazer o reconhecimento... Ele abandonou a gente.


Passava PM e ele nada...

A inferência do texto sintetiza com clareza o tal “re-


conhecimento”, que consistia no apontamento prévio,
pelo Dr. Salvador Mendes do Couto, daqueles PMs já
escalados por BRUM para bancar o crime. A seguir vi-
ria a confirmação, pelas mães dos bandidos, especial-
mente por Edmeia, dos “culpados”, que certamente já
sairiam da Corregedoria de Polícia presos e algema-
dos, assim como filmados e fotografados fardados por
toda a imprensa que lá estava, é lógico, convocada com
todo estardalhaço.

Como assegurou o próprio Advogado dos trafican-


tes de Acari, Salvador Mendes do Couto, tudo era uma
“sacanagem”. Mas a inusitada presença de um depu-
tado e ex-comandante do 9º BPM, e que conhecia bem
o tal advogado, aliada à outra providencial presença
da OAB, representada pelo ilustre Dr. Jorge Antônio
da Silva, levou o pânico aos trapaceiros, assim como
instalou o ódio nas mentes e corações daquelas per-
sonalidades que tentavam fabricar culpados. A partir
daí choveram informes, informações, relatórios etc.
contra Emir Larangeira, cuja ficha na PM.2 até então
só possuía elogios, o que está comprovado por certidão
de Habeas Data emitida pela própria PM.2 de BRUM
em virtude de ter sido requisitada pelo então deputado
em meados de 1991, porque era fácil antever os con-
flitos e retaliações que viriam. Parodiando a frase do
jornalista Carlos Nobre:

Não se brinca com a comunidade de informações!

494
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

Apesar da necessidade de se extrair outros trechos


do livro, a fim de esclarecer com precisão a verdadeira
origem do neologismo “Cavalos Corredores”, é indis-
pensável a leitura atenta e completa de todo o seu teor,
porque, sem perceber, o autor descortinou um lado da
moeda, o que permitirá, neste trabalho, apontar o ou-
tro lado, sendo certo que há mentiras e verdades re-
sultantes muito mais das entrevistas do jornalista com
as sectárias personalidades do que de suas próprias
conclusões, que, no dizer da promotora Tânia Maria
Salles Moreira, são de domínio do “grande público” e
estão “perpetuadas”. E, a propósito de mentiras per-
petuadas, vale o registro de uma declaração do coronel
Cesar Pinto, um fiel escudeiro de Brum, ao jornalista
Carlos Nobre:

(...) Cesar Pinto diz que não encontrou nenhum


Inquérito Policial Militar (IPM) sobre a extorsão
praticada em 1990 por seis soldados, sob o co-
mando de Larangeira, em Acari. Não encontrei
nenhum documento a este respeito. Sei do caso
de Acari pelos jornais, conta ele...

E nem poderia: o então Tcel PM Larangeira dei-


xou o comando do 9º BPM em 03 de abril de 1990. A
tal extorsão referida teria ocorrido em julho de 1990,
portanto muito depois de haver encerrado o seu perío-
do de comando. O fato teria havido na época em que
o comandante era o TCEL PM JOSÉ IVAN DA SIL-
VA. Como, então, poderia o desafeto do CORONEL
PM CESAR PINTO mandar instaurar IPM? Mas a
mentira está perpetuada no livro e nos falsos termos
descritos pelo autor, atribuindo-os ao mentiroso Ce-
sar Pinto. Mas esta é apenas uma entre muitas outras

495
Sérgio Cerqueira Borges

mentiras perpetuadas nesse livro; ressalto, não por


culpa do autor Carlos Nobre, afinal credibilizou Brum
como um grande investigador, como poderia imaginar
uma trapaça?

Retomando a afirmação do jornalista Carlos Nobre


resumida na frase já destacada (“o jornal revelou”),
certamente referindo-se a ele próprio ou a algum outro
companheiro seu do jornal em que militava na época,
este trabalho buscará, agora, localizar com precisão
a origem dos “CAVALOS CORREDORES”, a fim de
que fique inequivocamente claro que é a mente do pró-
prio BRUM e resultante de seus próprios atos pratica-
dos à frente da PM.2 e da Chefia de Polícia Militar. E
a esse respeito será registrado trecho do próprio livro
MÃES DE ACARI, certamente Brum infruenciára:

(...) Finalmente, em 1992, o reconhecimento ofi-


cial da participação de policiais no caso estourou
na imprensa, graças ao Serviço de Inteligência e
Informações da PM, a P-2, na época comandada
pelo tenente-coronel Walmir Alves Brum. Em 28
de janeiro de 1992, o jornal O DIA, veículo de
grande penetração nas camadas populares, pu-
blicou o relatório reservado da P-2 sobre o caso
(...). O relatório do tenente-coronel Walmir Al-
ves Brum foi especialmente bombardeado pelo
tenente-coronel Emir Larangeira, que chefiava o
9º BPM na época do sequestro das moças e rapa-
zes de Acari e mais tarde foi acusado de perten-
cer ao grupo de extermínio Cavalos Corredores,
envolvido, em setembro de 1993, no massacre de
Vigário Geral...

496
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

Esse “RELATÓRIO” produzido pelo tenente-co-


ronel Brum e somente por ele divulgado em 1992, na
verdade remonta aos idos de 1991. Esta foi a maneira
que Brum encontrou para se desforrar do malsucedi-
do “reconhecimento”. E não poderia ser de outra for-
ma, pois não era reconhecimento algum, como manda
a Lei, mas sórdida trapaça promocional da corrente
esquerdista muito bem referida no livro.

De acordo com o método típico da comunidade de


informações liderada por Brum e já explicado no iní-
cio, esse RELATÓRIO, ainda em 1991, foi desdobrado
como verdade para a Polícia Civil, tanto que, em 14
de novembro daquele ano, o Serviço de Homicídio da
Baixada, órgão do Departamento Geral de Polícia da
Baixada, expediu um relatório sobre o crime de extor-
são praticado por PMs do 9º BPM, na favela de Aca-
ri, no dia 14/07/90, sábado, uma afirmativa categórica
fundada tão somente no tal “RELATÓRIO” da PM.2,
que, entre outras reclamações, consignou o seguinte:

(...). Todos faziam parte de um grupo especial-


mente criado pelo Coronel Emir Larangeira
para o combate ao tráfico de drogas. Ficaram
conhecidos pelo terror que implantavam nas co-
munidades mais carentes, ganhando o epíteto de
Cavalos Corredores, por serem os únicos poli-
ciais que entravam nas favelas correndo.
A identificação do grupo somente foi possível
com a intervenção da 2ª Seção do Estado-Maior
da PMERJ, quando então tivemos acesso às fi-
chas funcionais dos policiais.
Cabe aqui salientar que estes policiais ainda têm
a proteção do Coronel Emir Larangeira, hoje

497
Sérgio Cerqueira Borges

reformado e Deputado Estadual. No dia em que


todo o grupo foi chamado para se submeter a re-
conhecimento no DGPB, o Coronel Larangeira
lá compareceu juntamente com o advogado Jor-
ge Antônio da Silva para acompanhar os traba-
lhos.

É certo que o tal «RELATÓRIO» da PM.2 deve ter


servido como «verdade» para a reprodução de muitos
outros documentos como esse da polícia civil, pelo qual
responde um policial cuja Matrícula é nº 267638-5, de
nome ilegível e dirigido ao Delegado titular do serviço,
Dr. Icaro Silva. Com relação ao TCel Brum, o livro deixa
muito claro sua verdadeira face, tão impressionante que
será tratada à parte, num outro documento que sintetizará
sua verdadeira personalidade segundo ele próprio.
Contudo, o que interessa aqui é o neologismo «Cavalos
Corredores», que ainda não conseguiu e nem conseguirá
ultrapassar as barreiras da própria PM.2 de Brum e nem a
sua origem subjetiva e artificial.

Curiosa a observação do relatório da Polícia Civil,


extraída, é óbvio, do outro que lhe deu origem, quando
menciona o fato de policiais entrarem na favela cor-
rendo, como se isto fosse exclusividade de um grupo,
que, para azar desses trapaceiros mentirosos, e segun-
do as “verdades” que informam, os “Cavalos Corre-
dores” foram “identificados” a partir da tal extorsão,
em julho de 1990, período que nada tem a ver com o
anterior comando do mais visado por esses “arapon-
gas”. Restou, pois, aos sectários da seita de BRUM,
a saída única: apelar para IVAN CUSTÓDIO. Entre-
tanto, isto somente complicou e ampliou a subjetivida-
de dos tais “Cavalos Corredores”.

498
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

Em primeiro lugar porque não há como aduzir que


foi Ivan Custódio, a festejada “testemunha-chave”,
quem esclareceu o “tema” da comunidade de informa-
ções. Assim se expressou IVAN CUSTÓDIO, durante
as gravações dos seus diálogos, já no final do último
Laudo do ICCE (nº 112868), certamente indagado por
um dos “arapongas” que desconhecia a origem ar-
tificial dos “Cavalos Corredores”, não sem antes ter
tentado inserir um novo epíteto para os imaginários
“grupos”, como será visto:

(...) A – Isso aí você põe no papel. Vou desligar


um pouco aqui a gravação. O, Ivan essa, esse,
esse, esse apelido que eles têm Cavalos Corredo-
res, isso aí começou quando isso ?

B – Não, isso aí, ô, ô, isso aí foi até, se falá, nun-


ca me perguntaram isso, isso aí... É o único que;
que acertou nesse, nesse nome aí foi o Governa-
do que falou que era Comando Marron, mas o
Comando num é marrom, o Comando Azul, isso
é lá de Comando Paralelo
A – O Governador, quer dizer que o Governador
acertou ? Hã, hã, hã.

B – Aí ele acertou, só errou a cor. Nunca foi Ca-
valo Corrida. (...)

A – Quer dizer que o Governador teve até mais
perspicácia do que?

B – É. Só que ele errou na cor, ele botô Marrom
mas num é Marrom, é Azul. Ou eles chamavam
de Comando Azul ou, ou, ou, ou senão de Os Ca-

499
Sérgio Cerqueira Borges

muflados, que a maioria do grupo usava aqueles


casacos.

A – Camuflado.

B – Camuflado.

A – Inclusive eu peguei um na casa do Creazola...

(Laudo ICCE nº 1172868, págs 35/6 – letra A
corresponde ao manipulador e letra B é IVAN
CUSTÓDIO).

Como se vê, não há como atribuir ao conhecimen-


to de IVAN CUSTÓDIO o mais festejado neologismo,
fato deveras relevante, porque, para quem convivia
com PMs do 9º BPM na época de comando do então
TCel Larangeira, é muito estranho que IVAN CUS-
TÓDIO nunca tenha ouvido falar em “cavalo corri-
da”.

Na verdade, o convívio de IVAN CUSTÓDIO com


alguns poucos PMs do 9º BPM é inegável e comprova-
damente recente, conforme se pode deduzir dos seus
emaranhados de declarações, mas, principalmente,
pelos indícios consignados em seus depoimentos, dian-
te de Juiz, no II Tribunal do Júri, ocasião em que ele
pôde declarar o que memorizou mas não pôde ser ma-
nipulado para se comportar o tempo todo como papa-
gaio, sempre repetindo e concordando com os temas
dos seus manipuladores durante os diálogos grava-
dos nos andurriais corredores palacianos e ne sede da
PM.2.

500
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

In casu, o manipulador do referido diálogo estava


mais interessado em criar o seu próprio epíteto (OS
CAMUFLADOS), para valorizar sua apreensão na
residência do PM Creazola. Por isso permitiu uma
raridade: que IVAN CUSTÓDIO emitisse uma opi-
nião não manipulada. E esse “anônimo” manipulador,
que, ao que tudo indica, trata-se do CEL PM MAGA-
LHÃES – foi quem cumpriu o Mandado de Busca e
Apreensão na casa do PM Creazola. E deve ter sido
severamente admoestado pelo mentor dos “CAVALOS
CORREDORES”: BRUM, pois o inadvertido manipu-
lador excluiu-lhe a preciosa oportunidade de atribuir
a IVAN CUSTÓDIO a origem do seu predileto epíteto.

Ainda no II Tribunal do Júri, IVAN CUSTÓDIO


fez referência aos epítetos “COMANDO AZUL,
THUNDERCATS e LARANGETES”, afirmando que
era assim que “OS TRAFICANTES” denominavam
os PMs do 9º BPM. O registro pode parecer insignifi-
cante, mas, se associado ao que vem dizendo BRUM a
respeito de sua artificial criação, fixada na tese de que
“os moradores de Acari” assim denominavam PMs
do 9º BPM; e considerando ainda que as amizades de
BRUM são MÃES DE BANDIDOS, então esses “mo-
radores” devem ser os TRAFICANTES mencionados
pelo robot IVAN CUSTÓDIO, pois é certo que isto
nada tem a ver com realidade. Mas é a lógica, mesmo
que possa parecer sofisma.

Neste ponto, é forçoso discordar do jornalista Car-


los Nobre, que afirma no seu livro ser BRUM “um dos
policiais-padrão para os 40 mil favelados de Acari “
(MÃES DE ACARI, pág. 138). Se fosse isto verdade, a
sua votação a deputado federal pelo PRONA nas últi-

501
Sérgio Cerqueira Borges

mas eleições – muito mais concentrada em Santa Cruz


– não poderia ser tão ridícula (aproximadamente 3 mil
votos). BRUM deve ter sido votado em Acari, sim, mas
não pelos “40 mil favelados de Acari”...

Por derradeiro, serão registradas as “definições” de


BRUM a respeito de “CAVALOS CORREDORES”,
não só para desmascarar seu artificialismo, como tam-
bém comprovar o mimetismo do seu criador, além de
seu descarado e impune falso testemunho consignado
no II Tribunal do Júri, em 07 mai 94. Em primeiro lu-
gar será fielmente consignada a entrevista de BRUM
na Central Nacional de Televisão – CNT –, em 09 set
93, ao vivo e a cores, respondendo às indagações da
entrevistadora de nome Luciana:

Cavalos Corredores são grupos de PMs do nono


Batalhão e de outras unidades e de outras ins-
tituições policiais que entravam na favela cor-
rendo num estilo de tática de guerrilha, com
armamento pesado, assustando as pessoas e pra-
ticando uma série de arbitrariedades e violência.
Grifos nossos.

A insólita resposta de BRUM, que incluiu como


“PMs do 9º BPM” até “PMs de outras unidades” e de
“outras instituições policiais”, não convenceu e muito
menos agradou à entrevistadora LUCIANA, porque
contrariava frontalmente tudo o que o próprio BRUM
vinha comentando pela imprensa a respeito dos tais
“CAVALOS CORREDORES”, sempre especificando
o 9º BPM como a sua única origem, além de associá-los
ao então comandante e seu desafeto TCel Larangeira.
Por isso a entrevistadora Luciana insistiu:

502
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

Então é um grupo separado, não tem nada a ver


com o nono Batalhão?

Com a maior tranquilidade, típica dos dissimulados


e acostumados ao mimetismo, BRUM deixou a per-
gunta da entrevistadora sem resposta, saindo-se com
a seguinte digressão de caráter político:

A Polícia Militar como instituição, ela repudia


todo e qualquer ato de violência praticada con-
tra a população menos favorecida da sociedade,
que são as pessoas que vivem nas comunidades
carentes que chamamos de favela, morro. E esse
tipo de ação são ações isoladas, ações orientadas
por determinadas pessoas que não têm compro-
misso com a filosofia da instituição, notadamente
a atual.

Não foi por acaso que BRUM abriu o leque de sua


definição sobre “CAVALOS CORREDORES”. Ele,
juntamente com os outros membros da facção, já ha-
via preparado a lista dos alvos que seriam fabricados
culpados pela chacina de Vigário Geral. Além disso,
contavam com o robot IVAN CUSTÓDIO, localizado
no dia anterior (08 SET 93), para referendar a trapa-
ça. Por isso não poderia vir a público e especificar o 9º
BPM, porque excluiria os demais “bois de piranha” da
projetada incriminação. Todavia, o tempo e a certeza
da impunidade fez com que BRUM esquecesse a entre-
vista que gravou – e ficou devidamente guardada para
uso futuro. Assim, ao depor no II Tribunal do Júri e
perguntado o que significavam “CAVALOS CORRE-
DORES”, ele deu a seguinte definição:

503
Sérgio Cerqueira Borges

(...); que o nome Cavalos Corredores foi dado


pelos moradores de Acari a policiais do 9º BPM
que ali ingressavam em incursões de forma ace-
lerada para atividades clandestinas lícitas e ilí-
citas, que atuam em patamos especiais criadas
pelo então comandante do 9º Batalhão, Cel Emir
Laranjeira (...). Grifos nossos.

Agora o mimético BRUM capricha uma definição


de acordo com o novo momento e seguindo os obje-
tivos político-retaliatórios contra o seu desafeto. Mas
não se arrisca a assegurar quais são os anônimos “mo-
radores de Acari”, sendo certo que não são aqueles
“40 mil” referidos pelo seu jornalista predileto: Carlos
Nobre. Depois assegura a existência de “PATAMOS
ESPECIAIS”, que nunca existiram da forma descri-
ta; na PM qual batalhão não dispunha na época da
modalidade deste policiamento denominado PEMESP
(Patrulhamento Motorizado Especial)? A não ser na
sua mente. E ainda consegue designar “atividades
clandestinas” como “lícitas”, talvez um ato falho por-
que ninguém melhor do que ele sabe que isto é pura
invencionice.

Mas, BRUM não contava com outra pergunta que


lhe seria feita, no mesmo depoimento, e declarou com
todas as letras o seguinte:

(...); que o depoente em nenhum momento deu


outra definição a Cavalos Corredores senão
aquela prestada hoje em juízo,(...). Grifos nossos.

Impressionante o falso testemunho, a denunciação


caluniosa e a certeza de impunidade de BRUM, que

504
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

inventou do NADA os tais “CAVALOS CORREDO-


RES”, apenas para servir como elemento de impres-
sionismo e valorizar a história banal da cartilha po-
lítica intitulada “Mães de Acari”, servindo-se de suas
próprias invencionices para retaliar a imagem do seu
inimigo político, vivenciando os tempos da SS Nazista,
como um dos seus prestigiados membros: o olho do sis-
tema pairando acima das Leis vigentes no país. Tudo
isto, é lógico, porque era e continua sendo protegido
por alguns sectários Promotores de Justiça ligados ao
ex-Procurador Geral Biscaia. Até quando?...

A conclusão sobre “CAVALOS CORREDORES”,


diante de tudo que foi relatado, só pode ser uma:
NUNCA EXISTIRAM, a não ser na diabólica e in-
ventiva mente de BRUM. Ou, como disse o seu amigo,
protegido, o bandido do CV IVAN CUSTÓDIO: não
existe “Cavalo Corrida”. E para discordar das duas
conclusões: CAVALOS CORREDORES existem, sim,
no Jóckey Club, ou então no Regimento de Cavalaria
da PMERJ, que, por sorte, o TCel Larangeira nunca
comandou.

NOTA DO AUTOR:

Cabe-me agora o esclarecimento que realmente


nunca no 9º BPM existiu um grupo conhecido por este
neologismo, entretanto antes do coronel Laranjeira
comandar o batalhão de Rocha Miranda, jazia uma
guarnição de PATAMO, comandada por um Cabo PM
“C”; este tinha uma fisionomia de rosto alongado, ele
sim tinha o apelido de “Cavalo Corredor”, e realmen-
te foi na favela de Acari que ganhara este apelido, foi
na época do traficante CY (Darcy da Silva); este tra-

505
Sérgio Cerqueira Borges

ficante tinha uma política de não enfrentamento à po-


lícia, e, aí dos seus que disparasse contra um policial;
não queria os policiais contra ele ou chamar a atenção
para seu reduto, afinal não era de nenhuma facção e
distribuía cerca de 70% das drogas do RJ, também Cy
era um dos afilhados do contraventor da época Tuni-
nho Turco (morto pela PF em Marechal Hermes em
sua residência), “TURCO” o orientava neste sentido,
o incentivava a aliciar o policial em vez de confron-
ta-lo; e no Governo Brizola, não era tarefa difícil ao
traficante. Para se prender o “vapor” (sujeito que ven-
dia as drogas), tinha que correr muito, afinal os “va-
pores” da época do Acari era meninos, “mirrados”,
muito magros e corriam demais (o depois traficante
Jorge Luiz, morreu na prisão, quando mais novo era
um “vapor do Cy), então a guarnição do verdadeiro
“Cavalo Corredor”, apenas um PM, era afamado por
nunca perder um “vapor” na corrida, este também era
atleta e corria como um maratonista! Ou seja, Laran-
jeira realmente nunca havia tomado conhecimento do
apelido deste Cabo PM; e por que deveria saber? Era
senão uma informação sem nenhuma importância; o
que deve ter acontecido: Brum deve ter ouvido um ou
outro morador se referir à guarnição do Cabo “C”
quando tentava construir provas no caso dos mortos
em Magé; e se faz necessário ressaltar que o Cabo PM
“C” era integro, não era “arregrado”, possuía muitos
elogios por prisões e apreensões na favela do Acari;
ora, Brum então tratou de apelidar os eleitos a cul-
pados do caso de Acari com este neologismo e depois
estendido aos acusados também eleitos por Brum, na
CHACINA DE VIGÁRIO GERAL DE 1993, assim
como no caso do “MÃO BRANCA”, a imprensa pas-
sou a sensacionalizar e foi desta forma que nasceu a

506
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

“estória” dos “Cavalos Corredores”; o mais interes-


sante, o Cabo “C”, nunca foi envolvido por Brum em
nada, acredito que a ele, até esta história é inédita, não
me surpreenderia, já que não investigou coisa alguma,
inventou tudo, como já exaustivamente demonstrado
pelo texto do Laranjeira. (nota do autor)

6.3.3 – LARANGETES

Eis um bom lugar para falar dos “LARANGETES”


e do coronel Cesar Pinto. Ah! Você estava imaginando
que eu iria esquecer-se deste personagem... Mas não ol-
vidaria mesmo de “prestigiá-lo” nesta narrativa, com
a ressalva de que somente me reportarei a fatos com-
provados. Então vamos lá: esta é outra “obra de arte”
tornada pública ao estilo da comunidade de informa-
ções, a contrapropaganda que os arapongas conhecem
bem. Mas a sua aparição será facilmente reconstituída
e servirá para comprovar as relações de intimidade
político-pessoal entre BRUM e CESAR PINTO, dois
partidários do fascista PRONA liderado pela inimiga
pública número um dos PMs: a EX-DEPUTADA FE-
DERAL REGINA GORDILHO.

Como será observado, nunca as peças de um
“quebra-cabeça” encaixaram-se com tanta perfei-
ção. Diferente do exemplo do “Chacrinha” e de suas
“Chacretes”, cuja imagem era positiva e geradora de
entretenimento para o público e benefícios pecuniários
para o saudoso apresentador, a expressão “LARAN-
GETES” foi diabolicamente criada para denegrir um
nome de família que sempre foi motivo de orgulho
para os seus detentores. O efeito negativo, por conse-
guinte, atingiu muito além da minha pessoa. Afetou-

507
Sérgio Cerqueira Borges

me a família, inclusive inúmeras crianças que sempre


se orgulharam do sobrenome Larangeira. Imagine só,
caro leitor, como ficaram as crianças e adolescentes
nos colégios e universidades sendo questionadas em
razão desses “LARANGETES”? Foram monstros,
sem dúvida!

Com efeito, esta invenção “LARANGETES” foi
ainda pior do que a outra (“CAVALOS CORREDO-
RES”), que, mesmo sendo extremo o seu malefício,
fixou-se tão-somente em PMs, quase que todos anôni-
mos, sendo eu o mais afetado, eis que alvo predileto de
seus irresponsáveis desafetos pessoais e políticos. Tudo
bem! Que se danem!

O livro “Mães de Acari” continuará no foco, pois


documenta muito bem a importância de CESAR PIN-
TO para BRUM, que lhe abriu amplo espaço no livro,
tudo, é lógico, para reforçar a imagem pública desses
dois personagens políticos, a fim de atender aos seus
objetivos futuros de se candidatarem, como o fizeram,
– BRUM, a Deputado Federal e CESAR PINTO a Vi-
ce-Governador, – pelo PRONA, em 1994.

Nesse livro, CESAR PINTO defende-se das inúme-


ras e intransferíveis denúncias que lhe fiz, tudo em ra-
zão de ofício, porque ele, em vez de comandar sua tro-
pa, estava “fazendo política” em locais onde PMs do 9º
BPM sempre foram recebidos à bala, além de outras
medidas absurdas que encetou durante seu desastrado
período de comando, o verdadeiro tempo das mineiras
e chacinas, dentre as quais a de Vigário Geral.

508
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

Mas os ataques começaram pelo próprio CESAR


PINTO, – decerto combinado com o seu líder BRUM,
– uma “tese política” dessas espalhafatosas figuras fas-
cistas somente percebida pela maioria depois de efeti-
vada na prática, com a oficialização de suas candida-
turas.

Curiosa é a versão defensiva de CESAR PINTO


registrada no livro “à moda Carlos Nobre”, ao mes-
mo tempo em que foram inseridos ataques e menti-
ras: – “Nazareth Cerqueira estava preocupado com o
9º BPM, no distante bairro de Rocha Miranda, cujos
soldados vinham sendo acusados de inúmeras práti-
cas criminosas. Também não queria nomear para lá
um comandante que entrasse em atrito com o depu-
tado Emir Larangeira, ex-comandante do Batalhão”.
– Ora, o comandante que substituiu o então TCel La-
rangeira foi o TCEL JOSÉ IVAN DA SILVA. Não foi
CESAR PINTO!

Importa, todavia, esclarecer a origem do epíteto


“Larangetes”: tudo começou quando eu, ainda depu-
tado recebi no seu gabinete o Dr. Icaro Vital Brasil,
eminente Advogado e filho do fundador do Instituto
que lhe deu o nome, o notável cientista Vital Brasil.
O Advogado chegou acompanhado de um cidadão de
nome Cícero Fidelis de Arruda, a fim de solucionar um
problema que envolvia o comando do 9º BPM, que na
época estava entregue a CESAR PINTO.

O fato apresentado pelo Dr. Icaro Vital Brasil, e
segundo o seu acompanhante, consistia na apreensão
de um carro por Cesar Pinto sob a alegação de que o
referido veículo pertencia a um traficante e teria sido

509
Sérgio Cerqueira Borges

objeto de extorsão. O cidadão, amparado pelo Advo-


gado que o trouxe, garantia que o carro era dele e que
o tal PM, seu amigo, estava de posse do veículo com a
sua autorização, ao mesmo tempo em que me fez vistas
da documentação.

O Dr. Icaro Vital Brasil reclamava da ilegalidade


da permanência do tal veículo no quartel, quando de-
veria ser encaminhado ao órgão competente da Polí-
cia Civil, a fim de dirimir a dúvida em local próprio.
Pediu-me que intercedesse junto a CESAR PINTO, a
fim de que ele recebesse o Sr. Cícero Fidelis de Arruda.
Diante disso, – e somente por isso, – foi feita a liga-
ção telefônica, atendida por CESAR PINTO em tom
grosseiro, tendo ele afirmado que “não adiantava pe-
didos”, e que o tal veículo ficaria retido no quartel e a
guarnição envolvida no problema seria punida (???).

Eu, sem entender a agressividade gratuita do com-


panheiro, e desconhecendo totalmente os antecedentes
do problema, – que, por sinal, não me dizia respeito,
– disse-lhe que teria duas alternativas para atender ao
solicitado: ou ele recebia o cidadão, ou o problema se-
ria encaminhado ao Quartel General. Para mim tanto
fazia. Não tinha nada a ver com o caso, mas não abria
mão de atender ao ilustre advogado, por questão de
cortesia.

O que eu não percebera, ainda, é que o circo já es-


tava armado entre CESAR PINTO e BRUM. Mesmo
assim, Cesar Pinto resolveu receber o tal cidadão, fi-
cando o caso encerrado, apesar da minha perplexida-
de com a inesperada indelicadeza de uma pessoa que,
até então, mantinha bom relacionamento comigo.

510
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

Poucos dias após esse fato, do qual somente partici-


param os personagens citados e em local fechado, re-
cebi telefonema de um jornalista do Jornal “O Estado
de São Paulo”, pedindo-me explicações a respeito de
uma publicação nos classificados daquele periódico,
bastante esquisito, ditando os seus termo:

LARANGETES – Waldir, Carlos Alberto e Cel-


so ficarão impunes. Cerca e Eira os protegerá,
para que Larangeira continue a dar frutos po-
dres. A Briza da Orla precisa limpar o seu quin-
tal no Rio.

Hum!... Esquisito! Não é mesmo?... Sabe quem cos-


tuma fazer isso, caro leitor? Sim! sim! “Arapongas”!
Bem, sem compreender absolutamente nada, pedi ao
jornalista um tempo para adquirir o jornal e analisar
a insólita publicação. Em seguida telefonei para o 9º
BPM e confirmei que os nomes eram de PMs do 9º
BPM. Estavam presos por CESAR PINTO em razão
de suspeita de extorsão havida no Morro do Fubá, o
que, de imediato, foi associado ao episódio anterior já
relatado.

É mais que óbvio que fiquei indignado com o fato, tanto


que, ao retornar a ligação para o jornalista do Estadão, além
das explicações dadas, assegurei-lhe que quem deveria
ser tratado como «fruto podre» seria o próprio autor do
anúncio, ou seja, CESAR PINTO. Nesta oportunidade,
aproveitei para denunciar ao Jornal que CESAR PINTO
havia ido, somente com o seu motorista e desarmado, à
Favela de Parada de Lucas, um dos locais mais perigosos
do Rio, dominado pelo traficante e assaltante de bancos
Robertinho (hoje falecido), notório e perigoso traficante,

511
Sérgio Cerqueira Borges

que sempre recebeu, qualquer aparato policial a tiros.


Estranho... Muito estranho... CESAR PINTO não levou
tiro nenhum. Ao contrário, foi até festejado...

Lembram-se daquela “Operação Rio”? No ano de


1994? A Marinha apreendeu drogas e armamentos
avaliados em quase um milhão de reais naquela fave-
la, que continua perigosa, fato amplamente divulgado
pela imprensa. Ao conversar com o jornalista do “Es-
tadão” eu sintetizei a minha indignação assegurando,
primeiro, que CESAR PINTO não tinha como negar
o que eu dizia, pois fora por ele declarado, causando
muita espécie, diante de algumas dezenas de Oficiais da
PMERJ e de autoridades públicas durante a sua par-
ticipação como examinador de tese do Curso de Aper-
feiçoamento de Oficiais. Portanto, CESAR PINTO, ou
era um louco ou tinha conluio com os bandidos, pois
nada justificava o seu “heroísmo” sob a singela descul-
pa de que lá teria ido para apurar faltas de milicianos.
Documentei isto, na época, em ofício dirigido ao Cel
PM Nazareth Cerqueira, ao qual requisitei providên-
cias. Nada houve! CESAR PINTO era “peixe”! ...

Depois, no livro de Carlos Nobre, CESAR PINTO,


além de confirmar o fato descrito, – certamente ele foi
à favela protegido pelas “armas” dos repórteres da
TV Manchete, – afirmou que ele próprio fora a São
Paulo e descobrira a origem do anúncio, atribuída ao
nacional Arthur Marques Henrique Filho, assessor da
Deputada Regina Gordilho. Que coincidência! ... Mas
eu fiz melhor: interpelei judicialmente o Jornal “Esta-
dão”, obtendo a informação dessa forma. Como se vê,
agi diferente do modo como o mentor dos “LARAN-
GETES” assinalou, assim como é certo que ele procu-

512
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

rou antecipar para o comando-geral da PM o inevitá-


vel: a autoria material do anúncio, que ele certamente
já sabia (por ser um descarado participante). Venha
especular comigo, caro leitor:

a) Como o tal Arthur Marques Henrique Filho teve


acesso à informação sobre os PMs do 9º BPM, para
gerar o anúncio ?

b) Como o tal Arthur Marques Henrique Filho con-
seguiu associar o fato à discussão anterior entre Cesar
Pinto e o então Deputado Emir Larangeira ?

c) Onde ele aprendeu a cifrar textos à moda comu-
nidade de informações, a já comentada contrapropa-
ganda ?

d) Por que o anúncio foi divulgado em São Paulo ?

e) Por que Cesar Pinto, como assegura o livro, foi
direto a São Paulo “descobrir” a autoria do anúncio?
Por que não verificou aqui mesmo no Rio de Janeiro,
onde o Jornal tem representação para qualquer fina-
lidade ?

f) Por que o tal Arthur Marques Henrique Filho,
ao ser interpelado judicialmente pelo então Deputado
Emir Larangeira, simplesmente desapareceu, sumiu
do mapa, fugiu, não sendo até hoje localizado ?

g) Por que a então Deputada Regina Gordilho, exa-
tamente ela, foi quem apoiou o Cel PM Cesar Pinto
para que ele entrasse na favela de Vigário Geral, junto
com ela, na manhã de 30 Ago 93, no momento mais

513
Sérgio Cerqueira Borges

cruciante, diante do clamor, da indignação do mora-


dores e dos 21 mortos, dando-lhe o salvo conduto para
ali penetrar ?

h) Por que Cesar Pinto foi candidato a Vice-Gover-
nador exatamente pelo PRONA da Regina Gordilho ?

i) Por que BRUM foi candidato a Deputado Federal
exatamente pelo PRONA da Regina Gordilho ?

Ah! Pode parar! vá enganar outro! E depois vem


CESAR PINTO afirmar no livro de Carlos Nobre:
“Larangeira, seu colega de corporação, agiu inescru-
pulosamente, sem se dar ao trabalho de investigar a
autoria do anúncio.” Como se vê, pela opinião expres-
sada por CESAR PINTO a investigação da autoria do
anúncio através de interpelação judicial foi conside-
rada “comportamento inescrupuloso”, o que dispensa
maiores considerações. Todavia, esse episódio do tal
veículo apreendido servirá como outra indiscutível
constatação de que IVAN CUSTÓDIO possuía intimi-
dade com o cotidiano do 9º BPM exatamente na época
de CESAR PINTO. Isto pode ser observado nos diálo-
gos gravados em fitas e transcritos pelo ICCE:

(...). B – É o que tá preso, que tem um sítio lá em


Magé, onde tá enterrado esse pessoal da chacina
de Acari. Acho que, se não me engano, ele tá pre-
so na Polícia Federal de Minas. Quem colocou
ele na rua foi o Coronel Pinto. Numa extorsão
no morro do Fubá, eles tomaram o carro, o car-
ro do traficante Nilson (...), tomaram uma parati
verde e mais uma quantia em dinheiro. E foram
com esse carro pro Batalhão, chegaram lá toma-

514
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

ram um bote dentro do Batalhão com esse carro,


e foram excluídos. (Fls. 52 do Laudo ICCE nº
1171572).

(...). B – No escritório, nesse coisa aí. Aí depois


eles foram excluídos logo aqui na gestão do Pinto
agora, eles fizeram uma mineira no, em cima do,
Ad, é, Nilson do Fubá, né. Que era gerente do
Bochecha, tomaram dinheiro e uma parati verde
e foram pro Batalhão com essa parati. Aí o... ma-
landro depois que sofreu a mineirada, falou com
o advogado dele localizou a,

A – Parati.

B – No Batalhão e falou com o comandante, o


comandante pren, prendeu a parati dentro do
Batalhão... ( Fls. 08 do Laudo ICCE nº 1172868 ).

Peço ao leitor reiteradas desculpas por citações.


Mas aqui estamos tratando de situações reais e docu-
mentadas. Daí a impertinência, para não dar chance
aos desonestos arapongas. Bem, continuemos. Apesar
da hesitação do robot em alguns momentos, dando a
impressão de que não conhecia bem os detalhes do
fato, o que é mais forte é a constatação de que ele tinha
conhecimento de um assunto interno, de domínio ex-
clusivo do batalhão, na época de Cesar Pinto coman-
dante.

Das duas uma: ou ele foi manipulado para inserir


esse tema, – uma constante nos diálogos, advindo daí
a hesitação quando ele quase designa por “Ad”, talvez
citando o nome do famigerado bandido Adlas, de Vi-

515
Sérgio Cerqueira Borges

gário Geral, – ou então sabia mesmo, fator muito mais


consistente se associado ao inegável fato de ele conhe-
cer bem Cesar Pinto.
Tudo que aqui está historiado tem o correspondente
documento por mim produzido, na época, sempre em
decorrência de reiteradas e preocupantes reclamações
de PMs do 9º BPM contra os insólitos comportamen-
tos de Cesar Pinto. E ele, no livro de Carlos Nobre, – e
por ele ajudado, certamente a pedido de BRUM, – ten-
ta justificar, como no exemplo anterior:

O coronel Cesar Pinto explica por que adotou o


novo método de colocar apenas um soldado em
cada radiopatrulha: — Sozinho numa viatura, o
policial tem o seu grau de percepção e perspicá-
cia aumentado, passa a executar tarefas amplas,
cuida de sua segurança e da comunidade. Ele é
quem faz os relatórios, dirige o veículo, sai do
carro para participar da ocorrência. Ou seja,
ganha em produtividade. Entretanto, este tipo
de trabalho só deve ser executado durante o dia,
nunca à noite, por causa dos riscos. Na verdade,
esse novo método foi uma tentativa de impedir
que duplas de policiais fizessem mineiras com
traficantes. Um soldado sozinho na viatura pen-
saria duas vezes antes de entrar numa boca-de-
fumo para exigir ou pegar propina.

Essa “novidade” implantada por CESAR PINTO


foi na época por mim denunciada, em razão de apa-
voradas reclamações de PMs do 9º BPM e diante dos
riscos a que estavam sendo submetidos por essa inova-
ção. Em primeiro lugar isto é prova material, confessa,
da ilegalidade praticada pelo desastrado comandante

516
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

do período das mineiras e chacinas – quase todas ocor-


ridas na circunscrição do batalhão comandado por
CESAR PINTO: 04 policias civis no Jardim América,
04 PMs na Praça Catolé da Rocha e 21 moradores em
Vigário Geral. Que grande comandante!? ...

Os regulamentos da PMERJ são imperativos: uma


radiopatrulha não pode ser colocada no policiamento
ostensivo com menos de 02 (dois) PMs, recomendan-
do-se até 03 (três), dependendo do grau de periculo-
sidade do ambiente a ser policiado, a fim de garantir
a integridade física dos homens contra os riscos da
profissão. Nunca, jamais 01 (um)! Esta recomenda-
ção tem valor nacional, posto ser prescrita para todas
as Polícias Militares pelo Estado-Maior do Exército,
que estabelece normas para cumprimento pelas For-
ças Auxiliares. E leis, regulamentos, normas e instru-
ções são feitos para serem obedecidos, tanto que o não
cumprimento é crime prescrito no Art. 324 do CPM.
E o nono batalhão sempre foi recordista em mortes
de milicianos. Mas, como já expliquei, Cesar Pinto era
um dos “protegidos” de Cerqueira!

E como também já cansei de comentar, o ambiente


social da Zona Norte do Município do Rio de Janei-
ro é um dos notoriamente mais perigosos do Estado.
Por isso, a inovação ilegal de CESAR PINTO só tem
uma explicação válida: estímulo à omissão, e não como
tentou o seu amigo jornalista Carlos Nobre simploria-
mente legitimar, com base nas certamente autorizadas
e nunca desmentidas entrevistas, uma indiscutível ile-
galidade. Mas a omissão era a tônica do brizolismo.
Por isso, é provável que CESAR PINTO estivesse
cumprindo ordens. Tem lógica, não tem?

517
Sérgio Cerqueira Borges

Mas é lamentável que esse autor dos “LARANGE-


TES” tenha gozado de tanto prestígio, principalmente
com o seu correligionário BRUM, outro que pode ter
ajudado a montar o texto do anúncio classificado que
lhe deu origem, pois é especialista em criar epítetos.
Também é lamentável que o próprio ex-Procurador
Geral de Justiça, Antônio Carlos Silva Biscaia, tenha-
se omitido a respeito das inúmeras denúncias por mim
diretamente formuladas, ainda como deputado, con-
tra o desastrado comandante do nono batalhão. Que
bobo que fui! Biscaia era “time contra”! ... E, se fos-
sem acolhidas as denúncias que fiz, ou, pelo menos,
que CESAR PINTO tivesse sido afastado a tempo do
comando do 9º BPM, não teriam ocorrido tantas mi-
neiras e chacinas naquele período de julho de 1991 a
setembro de 1993...

6.3.4 – THUNDERCATS

Quanto a esse neologismo não há muito que esclare-


cer. Ele não tem origem a não ser a do desenho anima-
do que em tempos idos era exibido na tevê. A tradução
seria talvez “gatos relâmpagos”, não se podendo fazer
maiores abstrações.

IVAN CUSTÓDIO faz referência aos tais “THUN-


DERCATs” num depoimento no II Tribunal do Júri,
assegurando que tanto estes quanto os “LARANGE-
TES” eram nomes dados a policiais do 9º BPM por
traficantes, algo muito vago e mal treinado.

Outros “arapongas” da comunidade de informa-


ções já andam dizendo que PMs se “autonominavam”
assim, mas até agora não há um só “THUNDERCA-

518
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

TS” assumido. Em resumo, não há origem possível de


se reconstituir, o que permite a suposição, mais aproxi-
mada da realidade, de que isto deve ter sido inventado
por algum “araponga” aficcionado por desenho ani-
mado e que determinou ao robot IVAN CUSTÓDIO
sustentar esta incompreensível aleivosia, assim como
tentaram criar “os camuflados”, conforme o exemplo
anteriormente destacado.

Ou então se trata de “pensamento fantástico”, típi-


co da patologia mental na qual Ivan Custódio se insere
sem muita dificuldade. Diante do seu comportamento
até agora observado, ele deve, seguramente, ser “ma-
níaco-depressivo”. Mas como ele atribui tal designa-
ção “a traficantes”, e sendo ele um comprovado agente
do mal, sendo o tráfico de drogas um dos componentes
materiais de sua própria vida, pode ser que Ivan Cus-
tódio e os “arapongas” vejam os “THUNDERCATS”
como seus inimigos. Afinal os “THUNDERCATS”, no
desenho animado, eram agentes do bem...

6.3.5 – COMANDO AZUL

Esse epíteto tem origem clara e inequívoca. Segun-


do a imprensa, a expressão foi atribuída ao Delegado
Hélio Vígio, numa alusão a alguns PMs presos por ele
por envolvimento em seqüestro. Ele então estabeleceu
por sua conta e risco um paralelo da PM, que usa far-
damento azul, com o Comando Vermelho. Na época
houve reação oficial da PMERJ, através do próprio
Cel PM Cerqueira, tendo o Delegado Hélio Vígio ne-
gado e atribuído à própria imprensa a maledicência
contra a instituição PM.

519
Sérgio Cerqueira Borges

Há diversas matérias jornalísticas a respeito do assunto,


que se resume nisto, sem nada mais a acrescentar, a não ser
a tentativa político-humorística, se não fosse trágica, dos
«arapongas» e de Ivan Custódio nos diálogos gravados
em fitas, transcritos pelo ICCE.

6.3.6 – PATAMOS ESPECIAIS



Esta designação, inexistente, permitirá, todavia, es-
clarecer a sintonia entre os sectários da Chefia de Po-
lícia Militar e da PM.2 com seu ilustre acólito, o mem-
bro do CV, IVAN CUSTÓDIO, destacando-se BRUM,
com quem o robot deve ter ficado naqueles misteriosos
e inconfessáveis 05 (cinco) dias, entre 08 SET 93 e 13
SET 93, e com quem, sem dúvida IVAN CUSTÓDIO
até hoje demonstra incomum sintonia, em nível de
conluio mesmo.

Ao depor pela primeira vez no II Tribunal do Júri,


em 02 OUT 93, após quase 01 (um) mês de treino, Ivan
Custódio disparou a sua treinada tese:

(...); que na época do Coronel Larangeira havia


duas patamos especiais que alguns chamavam de
LARANJET e outros de TANDERQUET; que
havia um entrosamento entre a DRE e o 9º Ba-
talhão...

É fácil observar, entre outras inúmeras incongruências


de IVAN CUSTÓDIO, a de assegurar o seu treinado
“tempo de conhecimento” com a absoluta maioria dos
PMs. Logo nas primeiras folhas desse depoimento ele
estereotipou esse tempo em “um ano” ou “dois anos”,
o que, retroagindo, corresponderia a mais ou menos

520
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

o mês de setembro do ano de 1991. Desta maneira, o


seu “tempo de conhecimento” ficou distante do final
do período de comando do então TCel Larangeira –
ABRIL DE 1990 – em mais de um ano. Mas logo a
seguir, antes da citação retro-mencionada, IVAN CUS-
TÓDIO afirma o seguinte:

(...); que o depoente foi passando por outras


Delegacias, mas, efetivamente, veio a conhecer
tantos os policiais civis como os militares que
constam da Denúncia há um ou dois anos atrás,
digo, desde 1989 para cá em especial em 1990 na
gestão do Coronel Larangeira no comando do
9ºBPM.... Grifos nossos.

Observa-se, logo, a aberrante contradição de IVAN


CUSTÓDIO em relação ao “tempo de conhecimento”
e no fato de que a sua mal treinada intenção era asso-
ciar o comando do então TCel Larangeira com a dire-
ção da DRE na época do Delegado Dr. Antônio Nona-
to, uma total impossibilidade, pois o referido Delegado
não dirigia a DRE em concomitância com o comando
do TCel Larangeira no 9º BPM. Isto, na verdade, foi a
senha para ele adentrar a principal aleivosia das “PA-
TAMOS ESPECIAIS”. E vale ressaltar um aspecto
deveras importante: IVAN CUSTÓDIO sempre se re-
fere a “duas patamos especiais”, e isto será abstraído,
a fim de que se esclareça que tal citação não é alea-
tória, mas vinculada a uma realidade conhecida por
BRUM, que já militava na PM.2 na época de comando
do TCel Larangeira.

Quando o TCel Larangeira assumiu o comando do


9º BPM, uma das suas preocupações para evitar ações

521
Sérgio Cerqueira Borges

isoladas de PATAMOS ou de “mineiras” foi a rigorosa


observância dos regulamentos. Com efeito, era termi-
nantemente proibido e motivo de punição disciplinar o
não cumprimento do prescrito no MANUAL BÁSICO
DO POLICIAL MILITAR (M-4), no seu Art. 146:

A ação em favelas deve ser executada com 2 duas


viaturas do PATAMO, no mínimo. Grifos nossos.

E recomenda, no seu Art. 150:

(...) quando for utilizada mais de uma viatura


PATAMO para o patrulhamento em conjunto, o
comandante será um Oficial Subalterno.

Pelo visto, talvez o “correto” seria o TCel Larangei-


ra agir como o Cel PM Cesar Pinto, amigo e correli-
gionário político de BRUM no PRONA, colocando um
PM por radiopatrulha na área do 9º BPM, apesar da
expressa recomendação regulamentar proibindo tal
prática, como pode ser comprovado a partir da pró-
pria determinação da IGPM – Inspetoria Geral das
Polícias Militares – órgão do Estado-Maior do Exér-
cito, no MANUAL BÁSICO DE POLICIAMENTO
OSTENSIVO:

(...). 3. Denomina-se guarnição ( GU ), a fração


que atua no processo de policiamento motoriza-
do, composta, no mínimo, de 2 (dois) patrulhei-
ros, sendo um deles motorista.

É competência privativa da União «legislar sobre»,


conforme prescrição contida na Inc. XXI do Art. 22 da
CRFB:

522
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

“Normas gerais de organização, efetivos, mate-


rial bélico, garantias, convocação e mobilização
das polícias militares e corpos de bombeiros mi-
litares”.

As Polícias Militares são Forças Auxiliares Reser-


va do Exército. E se incumbe, este último, através da
IGPM, de fazer com que as “normas gerais” sejam
cumpridas pelas Polícias Militares. Por isso, as orien-
tações da IGPM são imperativas aos seus destinatá-
rios, assim como as PPMM não podem inventar meios
e modos de agir contrariando normas superiores. E
muito menos pode um comandante de Unidade Ope-
racional olvidar as prescrições geradas por leis e regu-
lamentos, como fez o Cel PM Cesar Pinto ao inovar o
policiamento motorizado.

Isto foi denunciado pelo então Deputado Emir La-


rangeira à Auditoria de Justiça Militar, em Ofício diri-
gido ao representante do MP, o que deve ter, em muito,
desagradado à facção. Daí a retaliação das tais “PA-
TAMOS ESPECIAIS”, pois, para cada denúncia séria
feita contra CESAR PINTO, o seu correligionário e
amigo BRUM, através do seu robot, inventou algo pa-
recido para desforrar, o que só é percebido por quem
está sendo atingido pela retaliação.

No mesmo depoimento de 02 OUT 93, no II Tribu-


nal do Júri, disse ainda Ivan Custódio:

(...); que o grupo de policiais-militares que per-


tenceu ao nono Batalhão e atuava com o depoen-
te resolveu largar a equipe daquela Delegacia a
DRFC e passou a trabalhar por conta própria

523
Sérgio Cerqueira Borges

fazendo mineira nas favelas da área do nono Ba-


talhão; tendo algumas vezes o depoente atuado
em companhia de tais policiais que eram conhe-
cidos pelo nome de Comando Azul, Laranjet ou
Tanderquet, dentre os traficantes... Grifos nos-
sos.

Esta citação de IVAN CUSTÓDIO serve para de-


monstrar o quanto é difícil misturar mentiras com
verdades. É indiscutível o fato de que Ivan Custódio,
no ano de 1993, era “X-9” da DRFC, não só por suas
próprias declarações como também por confirmações
feitas em Juízo, através de depoimentos de policiais.
Também é indiscutível, pois está declarado e provado
materialmete, que IVAN CUSTÓDIO ERA sócio dos
falecido SGT AILTON e do PM NETO, assim como,
cruzando-se os depoimentos do PM NETO com o de
IVAN CUSTÓDIO, fica claro e evidente que eles se co-
nheceram há 02 (dois) anos – contados de outubro de
1993 – e que o PM NETO foi quem apresentou o SGT
AILTON a IVAN CUSTÓDIO em tempos ainda mais
recentes. E é mais do que inquestionável que o ex-PM
NETO, já preso antes de depor no II Tribunal do Júri,
não teve possibilidade material de qualquer conta-
to prévio com o seu sócio para combinar o tempo de
conhecimento. Como se vê, nada consegue escapar do
desastrado período de comando de CESAR PINTO.

É deveras curioso que Ivan Custódio atribua a


«traficantes» a designação de PMs do 9º BPM, em tempos
recentes, como já visto, pelos epítetos «COMANDO
AZUL, LARANJET ou TANDERQUET». Uns dizem
que os tais PMs «se autonominavam». BRUM diz que os
«moradores da favela de Acari» (somente a favela de Acari

524
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

parece existir, porque nunca citam outras concretamente)


denominavam PMs do 9º BPM na época de comando do
TCel Larangeira, como «CAVALOS CORREDORES».
Por sua vez, os «moradores» com quem BRUM manteve
e mantém estreito relacionamento são, induvidosamente,
mães de bandidos. E a favela de Acari era e continua
sendo um dos locais de maior intensidade de venda de
drogas, exatamente o «santuário» do «CY DE ACARI»,
um dos mais importantes traficantes presos pelo então
TCel Larangeira. Ora, há «algo de podre no Reino da
Dinamarca»...

Como se pode depreender, as peças do “quebra-ca-


beça” invariavelmente se encaixam em período muito
posterior ao do comando do então TCel Larangeira.
Existe a impossibilidade material de mudar as datas
de fatos concretos como crimes e mineiras relatados
por IVAN CUSTÓDIO, todos recentes. E para que não
restem dúvidas, vale destacar duas referências feitas
por ele no II Tribunal do Júri, em 02 OUT 93 e em 19
NOV 93, respectivamente:

(...); que na terceira semana após o fato, numa


segunda-feira o depoente esteve em Sepetiba em
sua residência quando avistou um gool do qual
desceram o Sargento DE SOUZA, pessoa que re-
conheceu como sendo P.2 do nono Batalhão (...);
que o depoente não ficou intranquilo porque co-
nhecia bem o Sargento... (II Tribunal do Júri– 02
OUT 93 ). Grifos nossos.

(...); que conhecia o SARGENTO DE SOUZA


do 9º Batalhão em Rocha Miranda(...); que o de-
poente apenas cumprimentava o SARGENTO

525
Sérgio Cerqueira Borges

DE SOUZA não mantendo nenhum relaciona-


mento com o mesmo; que já prendeu o próprio
SARGENTO AILTON... ( II Tribunal do Júri –
19 NOV 93 ). Grifos nossos.

Claro está que, para conhecer bem o Sargento DE


SOUZA e até cumprimentá-lo, isto só poderia ter ocor-
rido no 9º BPM e no período de comando do Cel PM
Cesar Pinto, de quem o referido Sargento é homem de
confiança e lá foi servir levado pelo citado Oficial. Isto
a partir de JULHO DE 1991.

Não é o caso, aqui, de avaliar a relação pessoal de


IVAN CUSTÓDIO com o homem forte da P.2 do 9º
BPM e pessoa da estrita confiança de CESAR PINTO,
que o membro do CV “conhecia bem” e “cumprimen-
tava”. Interessa observar o fato concreto da presença
física e da intimidade desse “X-9” com a Unidade no
tempo de CESAR PINTO, o que certamente não ocor-
reria, como nunca ocorreu, no período de comando do
mais retaliado, o TCel Larangeira, que nunca tinha
ouvido sequer comentários a respeito da existência
desse desqualificado marginal do CV.

A forma de policiamento denominada PATAMO é,


com efeito, especial, conforme determinam as normas
e regulamentos da PMERJ. Também os homens que
atuam em PATAMOS têm que ser especiais, de acordo
com as mesmas normas e regulamentos. Ao que pa-
rece, a intenção do BRUM em desmerecer o correto,
a fim de atingir seu desafeto, esbarra no seu próprio
desconhecimento profissional. Ao orientar IVAN CUS-
TÓDIO para se referir às tais “DUAS PATAMOS ES-
PECIAIS”, BRUM deve ter-se recordado que na época

526
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

de comando do Tcel Larangeira não havia operações


policiais-militares em favelas sem a rigorosa obser-
vância das prescrições regulamentares. E, é muito
sintomático que somente BRUM e IVAN CUSTÓDIO
refiram-se às tais “PATAMOS ESPECIAIS”...

Na verdade, em caso de operações em favelas, eram


sempre duas PATAMOS, sim, ou até mais, sempre co-
mandadas por Oficiais, uma exigência absolutamente
legal. E na falta de mais, eram duas mesmo, comanda-
das por Oficiais Subalternos, assim como as operações
em favelas eram feitas regularmente, mesmo, porque
esta é uma das indispensáveis e obrigatórias missões
de qualquer Unidade Operacional. Quem assim não
procede está compactuando com a omissão e admitin-
do como normal o hediondo narcotráfico e os “santuá-
rios” de traficantes em favelas.

6.3.7 – CONCLUSÃO

Tudo que aqui foi mencionado decorre de inferên-


cias sérias e documentadas. O livro MÃES DE ACARI
– Uma história de luta contra a impunidade, de autoria
do jornalista Carlos Nobre, além de misturar mentiras
com verdades e de tentar imitar o estilo ficcionista de
verdadeiros escritores, é uma obra motivada por teses
político-petistas-racistas.

Caracteriza-se esse livro pelo oportunismo político


e quiçá financeiro de um grupo fechado de persona-
lidades com interesses nítidos de promoção pessoal.
Entretanto, acabou por servir para reconstituir mui-
tos fatos e alertar para outros importantes, como, por
exemplo, os conflitos entre o TCel Larangeira com os

527
Sérgio Cerqueira Borges

fascistas BRUM e CESAR PINTO, e também o acir-


rado conflito entre os sectários de Biscaia com o então
Deputado Emir Larangeira, tudo situado no campo
nítido da inimizade pessoal.

Esclarece, sobremaneira, o livro, a perfeita inte-


ração entre os sectários destacados pelo autor como
“heróis”, o seu lado da moeda, e a sua antipatia pelos
“vilões”, o outro lado da moeda, que foi por ele deli-
beradamente mascarado, na medida em que publicou
todos os fatos sem ouvir quaisquer desafetos do seu
seleto grupo, este representado por sectários que se
desviaram das reais e imperativas finalidades de seus
cargos públicos e trapacearam à vontade nos últimos
anos, mas que muito terão de responder na Justiça,
pelos DANOS à dignidade que não respeitaram.

Por derradeiro, vale a ressalva de que nada do que


ocorreu nos bastidores do poder passado é novidade. A
tentativa de transformação de fatos reais em deturpa-
dos fenômenos é prática corriqueira, principalmente
quando envolve política e ideologias, nas quais estão
sempre presentes e ativos os sectários. E a esse respei-
to ensina com muita propriedade o Professor Pedro
Martinez, na sua obra “Política, Ciência, Vivência
e Trapaça”, Coleção Polêmica, 6ª Ed., Ed. Moderna
Ltda. São Paulo, 1992, pág.13:

(...). Como a trapaça ajuda a política – O impor-


tante para muita gente é vencer, porque o vence-
dor recebe as glórias do poder e, com ele, o cré-
dito da verdade. Quando uma teoria científica
não permite atingir os objetivos que os agentes
políticos têm em mente, eles recorrem à trapaça,

528
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

à fraude, à mentira, à demagogia, etc. Quando


esses meios falham, eles usam a violência para
destruir o que não sabem ou não são capazes de
controlar...

O autor não para somente nesta contundente afir-


mação; acrescenta, dentre muitas outras importantes
referências históricas que deram origem às suas abs-
trações, na mesma obra, págs. 44 e 45:

(...) Quando os fatos concretos da realidade são


deturpados, distorcidos e escamoteados de mui-
tas formas, já não se está fazendo política so-
bre bases teóricas de caráter científico, mas, ao
contrário, trata-se de ilusões criadas com ideias
falsas, que constituem as ideologias (...). O ad-
jetivo sectário é aplicado aos que atribuem um
valor tão infalível e indesmentível às suas ideias,
como se elas tivessem o caráter sagrado de seita
religiosa, deixando portanto de ser uma opinião
racional e tomando o sentido de crença ou fé...

Para BRUM, que disse na VEJA-RIO que “quem


ameaça pode ser ameaçado com investigações”; que
disse, ainda, no livro “Mães de Acari”: “...me autono-
meei esse grande homem da polícia”; que disse ainda,
no mesmo livro: “...utilizo a investigação espírita para
chegar a fatos concretos”; (não sabe ele que mesmo no
espiritismo, há os obessores desencarnados, e não en-
trando no mérito de crenças ou fé, mas considerando a
possibilidade da ajuda espiritual, não deveria levar em
conta estar sendo obsediado, aliás não seria absurdo,
já que fez tanto mau a tanta gente, não duvidaria está
sendo usado por um espirito vingativo, pensando ele

529
Sérgio Cerqueira Borges

ser outro; no p´roprio meio de informações há sem-


pre esta possibilidade de um informante ao informar
algo, esta~tão somente querendo usar o agente; será
Brum um ingênuo? Não creio, é mau caráter mesmo
– inserção do autor); segue o texto do Laranjeira:...; e
que “como investigador, não receia confrontar análi-
ses científicas com o que ocorre no mundo imprevisí-
vel e delicado da espiritualidade” ( págs. 56 e 57 ), os
neologismos devem ter representado uma sua notável
“criação”, as “ideias falsas” perfeitas e tão bem escla-
recidas pelo eminente Professor Paulo Martinez, que
explicam bem a sua origem anormal.

6.3.8 – ANEXOS

Foram apresentados em juízo os anexos que para o


fim deste texto serão dispensados, eis que guardados no
melhor lugar: no processo judicial: DEFESA PRÉVIA
– DENÚNCIA Nº 06/93

DOC. Nº 01 – A PERSONALIDADE DO TENEN-


TE-CORONEL VALMIR ALVES BRUM, SEGUN-
DO ELE PRÓPRIO. (Obs.: já anexado ao Memorial
Descritivo, como Doc. Complementar nº 23 ).

DOC. Nº 02 – DOCUMENTOS REFERENTES A


DENÚNCIAS CONTRA O CEL PM CESAR PINTO.
(Obs.: já anexado ao Memorial Descritivo como Doc.
Complementar nº 31 ).

DOC. Nº 03 – EXEMPLAR DO LIVRO “MÃES


DE ACARI – Uma história de luta contra a impunida-
de”, do jornalista Carlos Nobre.

530
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

DOC. Nº 04 – MATÉRIAS JORNALÍSTICAS SO-


BRE COMANDO AZUL.( Obs.: já anexado ao Memo-
rial Descritivo como Doc. Complementar nº 28 ).

DOC. Nº 05 – SÍNTESE DE LEGISLAÇÃO


PMERJ. (Obs.: já anexado ao Memorial Descritivo
como Doc. Complementar nº 30 ).

7. EXEMPLOS DE MANIPULAÇÃO

Abundam exemplos de manipulação do meliante


Ivan Custódio Barbosa de Lima, todos contando com
a sua prestimosa colaboração, assim deixando um im-
pressionante rastro a confirmar a trapaça. Aliás, ela
começa por um emaranhado de fitas gravadas entre o
bandido e alguns interlocutores identificados e outros
que jamais o foram, o que bem indica ter sido essa tra-
paça urdida para alimentar a mídia nos primeiros mo-
mentos de cobrança sobre os autores e culpados pelo
bárbaro crime.

Curiosa e estranhamente, porém, nenhuma fita


com o bandido narrando a dinâmica da chacina e
apontando seus autores foi apresentada ao público ou
anexada a processos judiciais, o que sugere uma des-
carada omissão do sistema situacional (evitando pôr
o bandido a falar de um crime que ele próprio reu-
nia todas as características de participação). Ou então
destruíram esse material probatório específico, embo-
ra fosse de grande validade se naturalmente colhida a
confissão do bandido, que, como a grande maioria dos
PMs acusados por ele, compareceu ao sepultamento do
SGT AILTON e era seu sócio em três barcos de pesca.
Enfim, um amigo íntimo do SGT. AILTON, tal como

531
Sérgio Cerqueira Borges

muitos dos acusados que foram ao sepultamento, nem


todos do nono batalhão, como já se demonstrou.

Ressalve-se, ainda, que IVAN CUSTÓDIO jamais


foi PM, mas se trata de criminoso ligado à cúpula do
CV, que conseguiu se infiltrar no meio policial por con-
ta da sua capacidade de dissimular ou por outros in-
teresses escusos que o aproximaram de policiais civis
e militares. Num contexto assim é difícil compreender
por que o bandido não tenha sido interrogado sobre o
crime principal (CHACINA DE VIGÁRIO GERAL)
durante as intensas horas de gravação com interlocu-
tores da PM.2, da CORREGEDORIA INTERNA E da
DELEGACIA JUDICIÁRIA MILITAR da PMERJ,
além da PCERJ, representada principalmente pelo
delegado ELIAS BARBOSA, encarregado do inquéri-
to policial avocado da 39º DP para a DELEGACIA DE
DEFESA DA VIDA (DDV), cuja sede fora transferida
para dentro da PMERJ, local onde tudo foi orques-
trado e depois corroborado por promotores de justi-
ça escalados pelo Procurador-Geral de Justiça, DR.
ANTÔNIO CARLOS BISCAIA, para acompanhar e
fiscalizar o inusitado labor policial nos meandros do
serviço secreto da PMERJ. Vejam então o exemplo a
seguir, apenas um dentre muitos:

7.1. A MANIPULAÇÃO VISANDO AO “RECO-


NHECIMENTO” DO PM SARAIVA (ADILSON
SARAIVA DA HORA), “MOTORISTA DO CEL LA-
RANGEIRA”

IVAN CUSTÓDIO efetivamente não conhecia o PM


SARAIVA, o que será facilmente comprovado nesta in-
ferência.

532
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

Estão acostados ao Processo de Vigário Geral os Lau-


dos do Instituto de Criminalística Carlos Éboli (ICCE),
contendo as transcrições das fitas gravadas por IVAN
CUSTÓDIO, contendo diálogos com ELIAS BARBOSA
e membros da PM-2 cujas vozes não foram identifica-
das. A respeito das referidas transcrições, afirma a perí-
cia na folha inicial do trabalho:

(...) Conveniente lembrar que as palavras e termos


que compõem os textos datilografados à guisa de
transcrição traduzem expressamente o que dizem
as pessoas cujas vozes estão gravadas, não se per-
mitido os Peritos interpretação ou correção do que
é referido nos diálogos.

Com efeito, houve diálogos, que não se confundem


com inquirições. O “diálogo” é a manifestação mais
corriqueira de comunicação entre pessoas. A respeito
dessa forma de comunicação, assim se expressa o mes-
tre Aurélio Buarque de Holanda Ferreira:

Travar ou manter entendimento (duas ou mais


pessoas) com vistas à solução de problemas co-
muns.

Foi exatamenta o que ocorreu na comunicação ha-


vida entre os membros da facção e IVAN CUSTÓDIO.
Mas antes de apresentar a inconfundível manipulação
feita para essa desclassificada testemunha “reconhe-
cer” o PM SARAIVA, é necessário escudar este esforço
de inferência. Para tanto serão citados trechos do livro
O Processo da Comunicação – Introdução à teoria e à
prática –, cujo título original é The Process of Commu-

533
Sérgio Cerqueira Borges

nication – Berlo, David Kenneth, tradução Maretins


Fontes Ed. Ltda, São Paulo, 4ª ed. brasileira, 1982:

A (...) Quer dizer que há um objetivo na comuni-


cação do qual muitas vezes não estamos cônscios
em nossas própria conduta. Dificilmente podemos
deixar de nos comunicar, com ou sem propósito
conhecido. Desde a infância, aprendemos e pra-
ticamos as técnicas verbais e não verbais de in-
fluenciar ou manipular o ambiente. Estes padrões
de comportamento se tornam tão entranhados, tão
habituais, que muitas vezes não percebemos a in-
sistência com que procuramos manipular...

b (...) Em suma, nós nos comunicamos para in-


fluenciar – para influenciar com intenção. Ao ana-
lisarmos a comunicação, ao tentarmos melhorar
nossa habilidade de comunicar, a primeira ques-
tão a levantar é: que desejava o comunicador que
ocorresse como resultado de sua mensagem? Que
procurava conseguir em termos de influenciar o
ambiente? Em conseqüência de sua comunicação,
que pretendia que os outros acreditassem, que
pudessem fazer, que dissessem? Em termos psico-
lógicos, que resposta procurava obter?... Ibidem,
Pág. 22.

O que se observa nos diálogos registrados nos laudos


é a comunicação intencionalmente deformada, dissimu-
lada, e de difícil percepção conjunta. Todavia, no caso
do PM SARAIVA os manipuladores não perceberam
que suas intenções ficaram gravadas, sendo certo que
se a gravação não tivesse sido transcrita isto nunca po-
deria ser provado. Mas essa não percepção, tão bem co-

534
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

mentada por David K. Berlo, há muito está consagrada


na Psicologia, com o nome de ato falho ou ato falhado.
Tão corriqueiro é este conceito que no próprio dicioná-
rio do Mestre Aurélio – Aurelião – encontramo-lo nos
seguintes termos:

Ato falhado. Psican. Ato Falho. Psican. Interfe-


rência, num ato intencional, de um outro acidental
e aparente sem propósito produzido pelos meca-
nismos de um desejo inconsciente, cuja intenção
primeira é levar a cabo esta realização acidental.

Também é certo que muitas fitas gravadas não foram


transcritas pelo ICCE, conforme se pode depreender das
leituras atentas dos Laudos. Mas apesar da triagem feita
pela facção, quis o destino que o exemplo do PM SA-
RAIVA permanecesse intacto, prova absoluta de que seu
“reconhecimento” foi indiscutivelmente treinado.

A indução feita para IVAN CUSTÓDIO “reconhe-


cer” o PM SARAIVA está registrada pela Perícia do
ICCE no Laudo de nº 1171196, de 05/OUT/93, sendo
certo que esta data é da expedição do referido Laudo,
nada tendo a se relacionar com a época em que ocorre-
ram as gravações.

Participa do diálogo com a “testemunha-chave” o


delegado ELIAS BARBOSA, indicado com a letra “A”.
IVAN CUSTÓDIO está indicado pela letra “B” (fls. 20).
Neste Laudo, o relato é iniciado por IVAN CUSTÓDIO
sem a interferência do delegado, aparentando um mo-
nólogo. A partir das folhas 20 começa o diálogo entre
ELIAS BARBOSA (“A”) e IVAN CUSTÓDIO (“B”).
Nas folhas 38 do Laudo nº 1171196, inicia-se a indução

535
Sérgio Cerqueira Borges

no sentido de fazer Ivan Custódio aprender o que neces-


sitava ser memorizado para uso posterior.

Curioso é que a perícia inicia anotando “barulho de
máquinas de datilografar e diversas vozes”, incluindo a
interferência de uma terceira pessoa cuja voz foi iden-
tificada pela Perícia através de um simples (–) TRAÇO.

Inicia-se então a indução para IVAN CUSTÓDIO


gravar na memória algo que seguramente não conhe-
cia: a figura física do PM SARAIVA.

Eis a pergunta inicial do (–) TRAÇO: (“Vê se você


reconhece esse aqui”), e o absoluto silêncio de IVAN
CUSTÓDIO, que obrigou ao TRAÇO indicar quem era
a figura física da foto. Deste modo ficou indubitavel-
mente claro que Ivan Custódio NÃO CONHECIA O PM
SARAIVA.

E logo na segunda interferência, o (–) TRAÇO inicia


sua indispensável manipulação, tentando fixar na men-
te de Ivan Custódio a associação do nome com a figura
física do PM SARAIVA contida na foto:
(–) ESSE É O SARAIVA

IVAN CUSTÓDIO permanece em silêncio, o que


obriga ao manipulador (–) TRAÇO reforçar o aprendi-
zado através da repetição:
(–) ESSE AQUI É O SARAIVA

Finalmente, e mesmo sem gravar sua voz, IVAN


CUSTÓDIO dá a impressão de ter captado o aprendi-
zado e emitido algum sinal afirmativo. É o que se de-

536
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

duz claramente pela frase seguinte do manipulador (–)


TRAÇO:

(–) ENTÃO TÁ

Ciente disto o manipulador determina a IVAN CUS-


TÓDIO que fale:

(–) FALA

Mas, ao que parece, o monitorado IVAN CUSTÓDIO


não estava com a memória funcionando e continuou até
esse ponto do diálogo em completo silêncio. E logo vem
a sintomática frase do desconhecido (–) TRAÇO, já na
sexta interferência com IVAN CUSTÓDIO em silêncio:
(–) ESSE AÍ TAVA

Afinal, eu agora indago: “TAVA” em quê?...

Neste ponto, com Ivan Custódio ainda em silêncio,


certamente acumulando os ensinamentos em sua me-
mória, há a primeira interferência do delegado (A), não
em molde de pergunta, mas seguindo a mesma linha de
manipulação do (–) TRAÇO:

A – SARAIVA MOTORISTA DO...

Desta maneira ELIAS BARBOSA reforçou o “reco-


nhecimento” do nome SARAIVA e indicou para IVAN
CUSTÓDIO sua atividade motorista e deixou no ar para
ele preencher a lacuna, como num teste de aprendizado:

DO...

537
Sérgio Cerqueira Borges

Não adiantou! IVAN CUSTÓDIO não conseguiu


atender ao delegado e não respondeu para preencher a
lacuna. Então o (–) TRAÇO ofereceu mais um dado para
reavivar a sua memória:
(–) É ADILSON SARAIVA DA ROCHA

Curioso é que o próprio detentor do conhecimento


demonstra não conhecer o PM SARAIVA, dando cla-
ras mostras de ter decorado mal o “script”. O referido
PM chama-se ADILSON SARAIVA DA HORA, e não
como o (–) TRAÇO ensinou: “(–) É Adilson Saraiva da
Rocha”.

Neste ponto, depois de 07 (sete) insistentes inter-


ferências do (–) TRAÇO e aquela do delegado, IVAN
CUSTÓDIO reage pela primeira vez e fala:

B – TRABALHA EM NILÓPOLIS

IVAN CUSTÓDIO demonstrou, assim, não ter não


ter fixado o aprendizado, pois o PM SARAIVA não “tra-
balha em Nilópolis”. Ele residia em Nilópolis. Todavia,
apesar do erro, IVAN CUSTÓDIO citou aleatoriamen-
te o local de residência do PM SARAIVA, associando
a “trabalhar”. Tal fato sugere ter havido algum outro
treinamento não gravado e mal decorado pelo solícito
robot.

A seguir, ELIAS BARBOSA (A), também atuando na


tese do aprendizado forçado do “reconhecimento” do
PM SARAIVA, completa aquela lacuna (DO...) deixada
no vazio por IVAN CUSTÓDIO:
A – MOTORISTA DO CORONEL LA-
RANGEIRA

538
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

Mas o (–) TRAÇO logo corrige a informação dirigida


ao bandido, no que imediatamente o delegado concorda:

(–) DEPUTADO EMIR LARANJEIRA

A – DO DEPUTADO EMIR LARANGEIRA É

Assim é finalmente inserida na mente do bandido


a informação desejada, faltando apenas arrumá-la de
acordo com o script, ao qual o (–) TRAÇO se refere sem
atentar para a fita rodando:
(–) ISSO AÍ EU BOTEI.

Afinal, eu novamente indago: botou o quê? Botou


onde?

Aparece, então, a síntese desejada, depois de todos


esses esforços e desencontros do (–) TRAÇO e do dele-
gado (A):

A – CERTO É MOTORISTA E MORADOR EM


NILÓPOLIS

O “certo” significa aprovação. Concluíram os dois


manipuladores a maléfica intenção: internalizar na
mente de IVAN CUSTÓDIO a síntese do “conhecimen-
to” desejado: a intenção exaustivamente buscada desde
o início. E com “cópias” e outros ingredientes. Esta sín-
tese induzida, assim ficou:

539
Sérgio Cerqueira Borges

Nome: SARAIVA

Função: MOTORISTA DO CORONEL OU DEPUTA-
DO EMIR LARANGEIRA.

Residência: MORADOR EM NILÓPOLIS.

A respeito dessa grosseira orquestração denominada


“reconhecimento”, vale aqui citar um dado da Psicolo-
gia Social:

Nem as atitudes nem os átomos podem ser obser-


vados, mas ambos podem ser indiretamente me-
didos. (Psicologia Social. Lambert, William W. &
Lambert, Wallace E. Zahar Editores. RJ, 1981, 5a.
Edição, Pág. l6.

Com efeito, este é o exemplo inconfundível de como
foi efetuado o “reconhecimento” dos alvos escolhidos
para assumirem a “autoria” da chacina de Vigário Ge-
ral. E, para corroborar ainda mais esta absurda orques-
tração, é imperioso destacar como o PM SARAIVA foi
“reconhecido” por Ivan Custódio no preparado “termo
de declarações”, DDV, de 13/SET/93, objeto deste estu-
do:

(...); SARAIVA, MOTORISTA DO CEL LARANGEI-


RA E MORADOR EM NILÓPOLIS.

Depois de tanta evidência, resta apenas a indagação,


rememorando a dúvida popular sobre quem nasceu pri-
meiro: o ovo ou a galinha? Em outras palavras: a sínte-
se do “reconhecimento” foi primeiramente conseguida
no preparado depoimento de 13/SET/93 para depois ser

540
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

inserida na mente de IVAN CUSTÓDIO? Ou o contrá-


rio? Na verdade, não importa. Tal qual a dúvida popu-
lar, o resultado é o mesmo, pois tanto quanto o “ovo e a
galinha” existem, o preparado depoimento e a manipu-
lação do “reconhecimento” também existem.

Esta foi a “identificação de modo preciso” a que se


refere a Acusação (Ministério Público) nas suas alega-
ções finais do Processo referente à chacina de Vigário
Geral, sendo certo que “precisa” tentou ser a facção ao
elaborar o “método de identificação” via manipulação
de IVAN CUSTÓDIO. Mas, como se vê, não conseguiu
a facção tal intento. Os rastros ficaram muito marca-
dos no terreno movediço da fabricação de culpados pela
chacina de Vigário Geral.

No seu “grande dia” no II Tribunal do Júri, em 02/


OUT/93, esse esforço de manipulação do delegado (A) e
do (–) TRAÇO e o aprendizado introduzido penosamen-
te na memória do receptivo IVAN CUSTÓDIO resulta-
ram na seguinte frase de “reconhecimento”:

(...); que conhece o Soldado SARAIVA, 4º acusado,


do 9º Batalhão; que o conhece há dois anos...

Ora, o PM SARAIVA estava à disposição da Assem-


bléia Legislativa (ALERJ) desde 27/FEV/91, servindo
como motorista do Deputado Emir Larangeira. Os “dois
anos” afirmados por Ivan Custódio retroagem a 02/
OUT/91, portanto muito mais que “dois anos”– uma das
medidas padrão de tempo adotadas por IVAN CUSTÓ-
DIO (?), sendo que a outra é de “um ano”. A conclusão
é simples: IVAN CUSTÓDIO não consegue estabelecer
tempo maior na quase totalidade dos casos porque a sua

541
Sérgio Cerqueira Borges

aparição no contexto do 9º BPM era mais recente e se


encaixava com precisão no período de comando de CE-
SAR PINTO.

Além do exemplo do SGT DE SOUZA, que IVAN


CUSTÓDIO assegurou no II Tribunal do Júri, em 02/
OUT/93, “conhecê-lo bem”, vale aqui registrar o que
consta nas folhas 55 do Laudo 1171572 do ICCE, acos-
tado aos autos do processo:

(...) B – Pera ai. Não. Agora, falando em outra


chacina, tem a chacina de Madureira... Foi me-
tade do ano passado, entre junho e agosto de 92
(...) Deixou o helicóptero sobreaviso, prá levantá
vôo, e passamo no nono Batalhão, panhamo o, o,
o time, o grupo, né, que é Ailton, o Neto, esse pes-
soal todo que eu tô citando aí, vários...

Como se pode inferir, a ser verdade e existirem os tais


“TIMES” e “GRUPOS” no 9º Batalhão, isto deveria ser
inserido no período de Comando de CESAR PINTO. Ou
será que se trata de mais uma deslavada mentira ou “es-
tória” mal memorizada por IVAN CUSTÓDIO?

Vale, por derradeiro, ressaltar que IVAN CUSTÓ-


DIO afirmou no II Tribunal do Juri, em 02/OUT/93,
que conhece o PM NETO (seu sócio) “há dois anos” –
fato confirmado pelo próprio PM NETO no II Tribunal
do Júri – e que este o apresentou ao SGT AILTON (seu
outro sócio) “há um ano” atrás. Considerando, ainda,
que o tempo máximo predominante é de dois anos em
relação aos acusados, é de se concluir – se tudo isto fos-
se sério – que os tais “GRUPOS” e “TIMES” do 9º BPM

542
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

surgiram realmente no âmbito da responsabilidade de


CESAR PINTO.

E mais: como IVAN CUSTÓDIO assegurou que co-


nhecia bem o SGT DE SOUZA, declinando, inclusive,
sua condição de P-2 do 9º BPM, é de se indagar se o re-
ferido sargento – homem de confiança de CESAR PIN-
TO – pertencia ao “GRUPO” e ao “TIME”, “panhado”
no Nono Batalhão em “Junho e Agosto 92”.

Esta grosseira indução decerto não foi observada por


ELIAS BARBOSA nem pelo outro interlocutor que teve
sua voz designada pela perícia por um (–) TRAÇO, caso
contrário eles não se arriscariam a degravá-la. Isto, na
verdade, se constitui em mais um precioso ato falho,
passado ao largo da observação desatenta e impune da-
queles que manipularam IVAN CUSTÓDIO à vontade
durante as gravações de seus diálogos, com o fim de
legitimar as mentiras que serviram de “prova” contra
muitos inocentes, como neste caso do PM ADILSON
SARAIVA DA HORA. Este que, aliás, foi inocentado da
chacina de Vigário Geral por requerimento do próprio
Ministério Público.

7.2. A MANIPULAÇÃO DENOMINADA “CRIME DO


MENOR DE DEZ ANOS”

Esta é mais uma das inconfundíveis tentativas de


transformação de realidade em mentira por meio da ma-
nipulação de IVAN CUSTÓDIO, permitindo à facção
teatralizar mais uma peça dissociada da verdade com o
inegável propósito de atingir o TCel PM Larangeira –
então Deputado Estadual –, para variar envolvendo o
seu motorista, o PM Adilson Saraiva da Hora.

543
Sérgio Cerqueira Borges

Só que a trama se desfaz pelas provas trazidas à luz


e em razão do descuido dos trapaceiros, integrantes
daquela insipiente facção, que deixaram pegadas nos
desastrados espetáculos mal montados, pessimamente
dirigidos e desastradamente interpretados. Os rastros
serão inferidos a seguir.

Tudo passa por IVAN CUSTÓDIO, que na ânsia de
acusar e agradar seus interlocutores culmina, ele pró-
prio, confessando seus crimes através de inconfundíveis
atos falhos. Nada demais em se tratando de um membro
ativo do CV...

Lembrando que os diálogos gravados em fitas se de-


ram logo após a detenção de IVAN CUSTÓDIO por sus-
peição de sua participação na chacina de Vigário Geral,
provavelmente desde o dia 03 de set 1993, data inicial da
caça aos PMs que compareceram ao sepultamento do
SGT AILTON, íntimo do bandido e seu sócio em barcos
de pesca. E mais se deve lembrar que IVAN CUSTÓDIO
estava identificado por fotos de presença no referido se-
pultamento, emerge então mais um crime cuja versão se
deformou para atingir inocentes.

O fato fora registrado na 39ª DP (Pavuna) sob os títu-
los sequestro e roubo seguido de sequestro; a mentirosa
versão é gerada nos diálogos transcritos no Laudo do
ICCE nº 1171196, folhas 58 e 59:

(A – Delegado Elias Barbosa) – (B – Ivan Custó-


dio)

B – Esse de Acari, o Pedro Paulo comandou com


o sobrinho de Jorge Luís, inclusive nesse até o Sa-

544
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

raiva tava também. Esse foi feito com o carro do


Coronel Larangeira, aquele Opala preto dele.

A – Hum

B – Eles foram fazer uma mineira... Acari, pren-


deram esse garoto, sobrinho de Jorge Luís... ga-
roto de menor, garoto devia ter 10 anos na época
11 anos.

A – Hum.

Nesse diálogo com aparência de naturalidade, IVAN


CUSTÓDIO apresenta seu relato com o verbo na tercei-
ra pessoa do plural – pronome eles – ou denomina in-
divualmente (O Pedro Paulo comandou... eles foram...
prenderam...) e insere, recitando conscientemente a ex-
pressão “Saraiva tava” e o “Opala preto”... “do Coro-
nel Larangeira”. Mas logo comete seus atos falhos sem
se dar conta de que ele próprio é parte integrante desse
crime hediondo. Continua o depoimento, inconsciente-
mente, conjugando agora os verbos na primeira pessoa
do plural:

B – Aí tomamos uma certa quantia em dinheiro,


umas armas, só que o Miudo foi no Amarelinho,
todo mundo conhecia o Miudo, inclusive esse Ve-
reador, esse Pedro Paulo da Associação do Ama-
relinho, então prá não dá essa pista, resolvemos
matar ele. Botamos dentro do opala, nesse dia a
gente tava com esse Opala do Coronel Larangeira,
esse opala preto da Assembléia.

A – Da Assembléia ?

545
Sérgio Cerqueira Borges

B – Botamos ele dentro do carro, levamos lá pro


Guandu onde temos o escritório, falei pro senhor,
seria interessante o senhor ir lá.

A – É, eu quero ir lá ver esse lance.

B – É interessante o senhor ir lá... o senhor foto-


grafando. Aí levamos prá lá, lá foi morto, tiro na
cabeça, depois aberto sua barriga, jogado no rio,
depois saímos.

A – Hum, hum, jogaram aonde nesse lugar mes-


mo?

B – Levamos pro escritório.

(...)

B – Isso, aí o outro queria dar tudo. . . tá ferido


temos que socorrer.

Tudo isso deveria estar inserido logo na abertura de
qualquer peça acusatória. Afinal, esse tenebroso acon-
tecimento evidencia um crime hediondo – sequestro
seguido de morte de uma criança. Por isso mesmo, a
facção, que jogou todos os focos de luz na “testemunha-
chave” agora não conseguiria manter no palco o seu
íntegro “terceiro-sargento temporário do Exército”, ou
o seu “camelô” ou seu “motorista de taxi”, pois teria
de admitir diante da Justiça a verdade acidentalmente
confessada por IVAN CUSTÓDIO, imprimindo a certe-
za absoluta de que ele próprio participou desse terrível
crime! Mas a facção não providenciou absolutamente
nada a respeito.

546
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

O fato sabido era a existência do PM SARAIVA – PM


Adilson Saraiva da Hora –, posto pela PMERJ à dis-
posição da Assembléia Legislativa como motorista do
Deputado Emir Larangeira. Como já se demonstrou,
foi inconfundível a trapaça do reconhecimento do PM
Saraiva com vistas a envolvê-lo na chacina de Vigário
Geral, aquele “reconhecimento” já explicado minucio-
samente.

Agora o foco é o carro (opala preto). Efetivamente


fora apreendido um opala preto e encaminhado à pe-
rícia pelo delegado Elias Barbosa, mas que não era o
da ALERJ nem o do então deputado Emir Larangeira,
fato que não pode ser negado. Eis o diálogo transcrito
no Laudo 1171196, folhas 34, mais uma vez o delegado
como o interlocutor “A” (ELIAS BARBOSA) e IVAN
CUSTÓDIO como “B”:

(...) B – Leandro, que o senhor me perguntou, es-


tava usando dois carros, um Opala preto, quatro
portas, comodoro, placa Hong Kong...

Por conta desse Opala preto, que jamais foi o da


ALERJ, tornou-se fonte de inspiração a gerar entusias-
mado texto na peça acusatória do processo de forma-
ção de quadrilha, assinada pelo ex-Procurador Geral de
Justiça Antônio Carlos Biscaia:

(...), isto sem falar no uso do seu Opala preto, de


propriedade da Assembleia Legislativa, numa mi-
neira realizada em Acari e que terminou na exe-
cução da vítima, um menor de apenas dez anos de
idade, que, para tanto, foi levado para o ‘escritó-
rio’ do Guandu e lá assassinado com um tiro na

547
Sérgio Cerqueira Borges

cabeça sendo o corpo desovado nas águas do rio,


após eviscerado, conforme a praxe do grupo.

A falsa versão: havendo supostamente um “opala


preto” nesse crime do menor de dez Anos, seria, forço-
samente, então, “esse Opala do Coronel Larangeira,
esse Opala preto da Assembléia” conforme palavras de
Ivan Custódio. E esta versão inspiradora do ex-procu-
rador-geral estaria validade se não fosse a revelação do
Inquérito Policial correspondente, na 39ª DP, que mos-
trou, pelo relato das testemunhas, constar a verdadeira
versão, o fato real revelado: um opala branco ou beje
caracterizava o carro dos criminosos, e não um “opala
preto”.

Enfim, o “Opala Preto do Deputado Emir Larangei-


ra” jamais foi o “Opala Preto” referido por IVAN CUS-
TÓDIO nas gravações. Observe-se que para relatar esse
fenômeno o monitorado robot nem precisou de recorrer
ao “script”, como em outros casos. Na sua memória, es-
tava ainda muito recente a indução para “reconhecer”
o PM Saraiva, quando o (–) TRAÇO, nas folhas 58, diz
para o delegado:

(– Isso aí eu botei)

(– Esse aí tava)

(– Tem, tem, já pegaram as cópias aqui)

Esse “script” certamente continha o “Opala Preto do


Coronel Larangeira” para ser inserido no orquestrado
relato do crime do menor de dez anos: a versão deturpa-
da da verdade, que era outra.

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Escravos Sociais e os Capitães do Mato

É preciso ser daltônico em último grau, ou excessi-


vamente mentiroso, para confundir as contrastantes
cores PRETA versus BRANCA, principalmente no volu-
me cromático das dimensões de um opala. E, no caso, a
mentira não pertence a IVAN CUSTÓDIO, réu confesso
do crime por inúmeros atos falhos. Pertence aos mem-
bros da facção que a urdiram, especialmente a ELIAS
BARBOSA e ao desconhecido manipulador (–) TRAÇO.

7.3. A MANIPULAÇÃO DENOMINADA CRIME DA


BARREIRA

Para reforçar a prova de que nada foi mera coinci-


dência, vale consignar mais outro contundente exemplo
de monitoração feito no decorrer das gravações. Trata-
se de um fato identificado nas fitas como CRIME DA
BARREIRA.

Primeiro esse fato foi citado por Ivan Custódio nos


seus também programados diálogos com ELIAS BAR-
BOSA, nas folhas 60/61 do Laudo ICCE nº 1171196,
sem quaisquer referências a nomes. Mas, observando-
se o relato de IVAN CUSTÓDIO sobre o mesmo fato,
decorrente do diálogo com o seu anônimo interlocutor
da PM.2, nas folhas 39/43 do Laudo ICCE nº 1171572,
há um momento, nas folhas 40, em que IVAN CUSTÓ-
DIO tenta afirmar que os autores do referido crime não
estavam encapuzados:

(...) todo mundo de cara limpa, não tinha ninguém


de...

549
Sérgio Cerqueira Borges

Imediatamente o seu manipulador, identificado pela


letra “A” (ELIAS BARBOSA), interfere acrescentando
a informação que interessava:

A – De ninja

IVAN CUSTÓDIO logo concorda com seu mestre e


ainda assegura que o carro dos “criminosos” era um
OPALA BEJE, curiosamente o carro sempre utilizado
pelo seu sócio em barcos de pesca, o PM NETO, cuja
placa MU-8075 aparece em diversas acusações contra
alguns alvos, entre os quais aquele ex-PM.

Ocorre, todavia, que a exemplo do caso do menor de


dez anos – em que IVAN CUSTÓDIO é indiscutivelmen-
te participante, verdade facilmente perceptível através
de seus incontáveis “atos falhos” –, ele também é parti-
cipante desse outro crime, conforme se deduz de seu in-
confundível “ato falho” contido nas folhas 42 do mesmo
Laudo ICCE nº 1171572:

(...) jogaram lá no Guandu, viemos embora, isso...



Ora, tanto no caso do menor de dez anos quanto nes-
se denominado “CRIME DA BARREIRA” foi possível
levantar o feito original em sede policial. E, nesse caso,
segundo diversos e inconfundíveis testemunhos presta-
dos por moradores da Favela da Barreira, – e até por
parentes das vítimas, – os sequestradores estavam en-
capuzados e o carro era uma KOMBI BEJE, detalhes
colocados pelas testemunhas oculares com toda clareza.

Assim mais uma vez os facciosos “investigadores”,
que monitoraram os relatos de IVAN CUSTÓDIO nas

550
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

gravações, deram-se mal. E se não houvessem docu-


mentos policiais arquivados para confrontação?... Ora,
nos dois casos (MENOR DE DEZ ANOS E CRIME DA
BARREIRA) a palavra do bandido ganharia força e
mais inocentes seriam imolados... A realidade é que es-
sas manipulações foram constantes durante os diálogos,
algo natural em se tratando de arapongas em ação.

É fácil imaginar, pelos gritantes exemplos detectados


nas gravações, como esse irresponsável delegado
orquestrou inúmeros depoimentos para IVAN CUSTÓDIO
somente assinar, decorar e depois depor (ditar) como
«verdades» suas em Juízo. Não há, com efeito, um só
«termo de declarações” elaborado por esse delegado –
não cabe assegurar que ele presidiu esses feitos, por-
que seria impróprio – que tenha sido realmente fruto
de declarações espontâneas de IVAN CUSTÓDIO. É só
conferir cada um e compará-los com essas desastradas
orquestrações gravadas em fitas para se ter a absoluta
certeza de que tudo não passou de trapaça.

7.4. CONCLUSÃO DESTA PARTE

Fôssemos aqui retratar cada caso de manipulação


o assunto não teria fim. Afinal, foram muitas as fitas
gravadas e depois transcritas pelo ICCE, situação que o
sistema não pôde evitar tendo em vista que seu conteúdo
foi acessado livremente pela imprensa e não poderia de-
pois desaparecer. Não fosse esse nó em que o sistema se
enfiou no início, por puro nervosismo, não haveria ago-
ra como a imprensa se defender dos processos por danos
morais e materiais. Daí a transcrição da trapaça, que,
entretanto, foi ignorada pelo MP na maior desfaçatez.
E não cabe aos membros desta importante e poderosa

551
Sérgio Cerqueira Borges

instituição negar conhecimento em relação às fitas. Do


mesmo modo, seria ridículo que pessoas tão inteligen-
te e cultas, integrantes daquele órgão ministerial, não
percebessem a sórdida manobra do sistema situacio-
nal composto no caso das fitas por agentes da PM.2 da
PMERJ e policiais civis capitaneados por ELIAS BAR-
BOSA, titular DELEGACIA DE DEFESA DA VIDA.
Daí a conclusão de que todos estavam concentrados em
torno de um só objetivo: trapacear para livrar o atônito
governante LEONEL BRIZOLA da INTERVENÇÃO
FEDERAL no RJ. E não se sabe se a imprensa difundia
o material forjado sabendo-o forjado, uma forte possi-
bilidade, pois imaginar apenas ganância pelo sensacio-
nalismo como fator de desatenção chega a ser ridículo.
Afinal, a boa imprensa há sempre de ser investigativa
e jamais deveria funcionar como papagaio do sistema
situacional. Que fique aqui, portanto, a dúvida contra a
imprensa da época!54

Uma tese empolhe-se: todas as espécies de prisão


cautelar devam as partes ter o mesmo tratamento
cujas têm nos casos das ações de família; ou seja, até o
trânsito em julgado NO CASO DE PRISÃO CAUTE-
LAR, serem grafadas quando contidas, em SEGRE-
DO DE JUSTIÇA com todos os fundamentos e garan-
tias da Constituição Federal da República Federativa
do Brasil por decisão do juiz no mandado de prisão,
certamente a possibilidade duma decisão justa ao final
será muito grande, afinal a cautelar é uma exceção a

54 TEXTO DA LAVRA DO ESCRITOR E CORONEL DA PMERJ–


EMIR CAMPOS LARANGEIRA, QUE GENTILMENTE CONTRI-
BUIU COM A DOAÇÃO DESTE MAGNIFICO TRABALHO DE PES-
QUISA REVELADORA DA CONSPIRAÇÃO IMPREMENTADA POR
AGENTES DO ESTADO DO RJ.

552
Escravos Sociais e os Capitães do Mato

regra que é estar solto até o trânsito em julgado da


sentença condenatória:
Diante das últimas considerações que apontam o
risco a todos, senão