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IMPACTO AMBIENTAL E DANO AMBIENTAL

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Eloy Fenker

RESUMO

O Homem extrai da natureza seu sustento e os bens materiais de que necessita para
sobreviver, produzindo impacto ambiental como uma necessidade inerente e com autorização
social e justificativa ética. A sustentabilidade consiste na possibilidade de manter um equilíbrio
eterno e sistêmico que permita a continuidade da vida nesse planeta. Inclui os aspectos
sociais, econômicos e ambientais, de forma integrada e indissociáveis. As organizações são
sustentáveis quando atendem os interesses de seus proprietários e também da sociedade.A
atuação dos individuos decorre de suas crenças e valores pessoais, que exigem limites
derminados pelas crenças e valores da sociedade. A ética e as Leis criadas pelo homem é que
ditam, em última instância, os limites de sua atuação. Nossa legislação é omissa e confusa ao
conceituar dano ambiental, tendendo a confundí-lo com o impacto ambiental etica e
socialmente justificado. O trabalho pretende demonstrar que dano ambiental deve ser
interpretado no contexto da sustentabilidade ambiental, social e econômica, pois impacto não é
dano, necessariamente, ao mesmo tempo em que, ocorrendo, precisa ser reparado ou
compensado à sociedade. Uma adequada formulação e interpretação das leis, então, é
questão estratégica para toda e qualquer sociedade, com reflexo nas organizações, que
necessitam clareza e segurança jurídica.

Palavras-chave: Sustentabilidade, Qualidade ambiental, Impacto ambiental, Dano Ambiental,


Legislação Ambiental, Custos Ambientais.

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Contador, Auditor. Pós-graduado em Auditoria (UFRGS/BACEN); Pós-graduado em Finanças (UFRGS); ex-
Professor Universitário (UFRGS); Mestrando em Contabilidade – Gestão de Custos Ambientais pela
Universidade do Rio dos Sinos (Unisinos) em São Leopoldo - RS; Membro da Environmental Management
Accountants Network Europe – EMAN-EU. epoa@hotmail.com
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1 INTRODUÇÃO

Alterações no sistema de crenças e valores da sociedade estão gerando um novo


paradigma que, na visão de Capra (2006, p.259), “transcende as atuais fronteiras disciplinares
e conceituais”, e demandam uma estrutura sistêmica, que está sendo formulada por indivíduos,
comunidades e organizações, de acordo com novos princípios.
A economia é um sistema vivo formado por seres humanos em contínua ação entre si
e com os ecossistemas circundantes de que a vida depende. A palavra atual é
sustentabilidade, assim entendido o atendimento das necessidades atuais sem comprometer
as gerações futuras. O impacto da atividade humana sobre o meio ambiente tem sido objeto de
estudos e regulação, visando assegurar a continuidade e dignidade da vida no longo prazo.
Regras demandam clareza e orientação na tomada de decisões.
O sucesso de uma estratégia de controle depende fundamentalmente do
comportamento humano e este, de um sistema de limites, mormente em condição de mudança.
(DIEHL, 2004:). Um dos limites para nortear a atuação dos indivíduos ou organizações é a Lei.
Para este propósito, é fundamental se entender o que a Lei considera uma atuação ambiental
responsável e sustentável em benefício da sociedade e o que deve ser objeto de censura ética
e eventual punição.
O presente estudo, de caráter exploratório, tem o objetivo de tecer considerações sobre
impacto e dano ambiental para subsidiar políticas de gestão sustentável e também alertar para a
indispensável necessidade de um debate e consideração multidisciplinar do tema.

2 IMPACTO AMBIENTAL E DANO AMBIENTAL

Impacto Ambiental – definição legal. Conforme a Resolução n° 01/86 do CONAMA,


impacto ambiental pode ser definido como:

Qualquer alteração das propriedades físicas, químicas e biológicas do meio


ambiente, causada por qualquer forma de matéria ou energia resultante das
atividades humanas que, direta ou indiretamente, afetam a saúde, a segurança e o
bem-estar da população; as atividades sociais e econômicas; a biota e a qualidade
dos recursos ambientais.

Conforme o inciso II do artigo 6º. da Resolução, o impacto ambiental pode ser


POSITIVO (trazer benefícios) ou NEGATIVO (adverso), e pode proporcionar ÔNUS ou
BENEFÍCIOS SOCIAIS. Não se pode falar em impacto, sem qualificá-lo, para fazer um juízo de
valor, da mesma forma que não se pode falar em comportamento, sem qualificá-lo.
Não consta haver Lei brasileira definindo o que é DANO AMBIENTAL, o que é um
contra-senso, porque há punição por dano ambiental. Conforme Steigleder (2004:117):

A expressão “dano ambiental” tem conteúdo ambivalente e, conforme o


ordenamento jurídico em que se insere, a norma é utilizada para designar tanto as
alterações nocivas como efeitos que tal alteração provoca na saúde das pessoas e
em seus interesses.
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Milaré (2005:734) também se apóia na advertência de Bessa Antunes ao falar nas


“dificuldades que a moderna literatura tem encontrado para definir dano ambiental, e aponta
vinculação com os conceitos legais de poluição e degradação. Com isso, tende-se a imaginar
que os jusambientalistas definem uma espécie a partir da enumeração de uma sub-espécie.
Para maior confusão lógica, a sub-espécie é não é, parte do gênero, como se demonstrará.
Dano é PREJUÍZO. Como se procurará demonstrar, a busca de um conceito de dano
ambiental exige considerações especialíssimas, que em última instância estão vinculadas ao
conceito de prejuízo. Prejuízo corresponde a um desequilíbrio. Ora desequilíbrio pressupõe
uma balança ou balanço para mensuração, pois prejuízo decorre do confronto entre Custo e
Benefício, entre Receita e Despesa, não sendo um conceito direto, absoluto.
Por exemplo, se alguém toma um bem de outrem, pode estar causando prejuízo ou
não, dependendo de quanto dá em troca, se der. O dano ambiental é uma resultante de
impactos positivos e negativos, ambivalente, que dificilmente pode ser vislumbrado senão por
uma equipe multidisciplinar, pois está vinculado a outros conceitos, como por exemplo de
considerações sociais e econômicas, e ainda, na área ambiental, vinculado aos conceitos de
degradação e poluição, do inc. II do art 3º. da Lei 6938/81, que por sua vez definem a partir de
uma outra espécie, e sub-espécie daquela. E confunde-se o impacto com prejuízo. Alguns
entendem que degradação ambiental ou poluição são sinônimos de dano, ou prejuízo
ambiental. Não é correto, na maioria das vezes.
IMPACTO NÃO É DANO. Impacto negativo não é dano. Impacto positivo não é dano.
A resultante de todos os impactos, quando negativa, pode ser dano, considerando-se dano
sinônimo de prejuízo (que decorre do confronto do componente positivo com o componente
negativo).
Degradação não é dano, é impacto. Poluição não é dano: é impacto. Nossa Lei é falha
ao deixar de definir DANO, induzindo as pessoas a pensar que dano é o IMPACTO.
A definição de degradação está vinculada, na Lei 6938, ao de qualidade ambiental:

Art. 3º - Para os fins previstos nesta Lei, entende-se por:

I - meio ambiente, o conjunto de condições, leis, influências e interações de ordem


física, química e biológica, que permite, abriga e rege a vida em todas as suas
formas;

II - degradação da qualidade ambiental, a alteração adversa das características


do meio ambiente;

III - poluição, a degradação da qualidade ambiental resultante de atividades que


direta ou indiretamente:

a) prejudiquem a saúde, a segurança e o bem-estar da população; b) criem


condições adversas às atividades sociais e econômicas; c) afetem
desfavoravelmente a biota; d) afetem as condições estéticas ou sanitárias do meio
ambiente; e) lancem matérias ou energia em desacordo com os padrões ambientais
estabelecidos.
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Faz-se uma primeira tentativa de ordenação para um estudo cognitivo dos termos:

DANO> MEIO AMBIENTE> DANO AMBIENTAL> QUALIDADE> DEGRADAÇÃO DA


QUALIDADE> POLUIÇÃO IMPACTO NEGATIVO> IMPACTO POSITIVO> ATIVIDADE
DO INDIVÍDUO

Há inconsistências que não resistem a uma análise cognitiva.


Degradação viria a ser uma alteração ADVERSA das características do objeto, o meio
ambiente. Mas o que seria adversa e em que intensidade se deveria considerá-la? Porque
alteração adversa, em princípio, poderia ser o resultado de um IMPACTO NEGATIVO, o que
condicionaria, para caracterizar um resultado final, a examinar a natureza e circunstâncias do
impacto, que sabemos ,pode ser POSITIVO. Mas também pode ser negativo com componentes
positivos maiores do que a parcela negativa. Ou pode ser um impacto negativo associado com
impactos positivos de outras naturezas, como social, econômica, que superem sua grandeza
negativa, resultando num balanço final POSITIVO. Neste caso, haveria um LUCRO, ou
BENEFÍCIO final positivos. Como foi visto, toda alteração negativa gera alteração positiva em si
ou em outros componentes. Não se conclui sobre o todo sem examinar todas as partes, numa
visão sistêmica.
Poluição, por sua vez, foi definida pela Lei como uma espécie, ou a única espécie, de
degradação, eis que outras não foram citadas, pressupondo-se que inexistam ou que não se
encaixam no objetivo da Lei, porque se necessárias, não teriam sido omitidas. Só foi
necessária a inclusão da poluição.
Uma simples dedução lógica permite provar que impacto não é dano. Segundo
Spinosa, “uma definição para que seja dita perfeita deverá explicar a essência interna da coisa,
cuidando-se de que não usemos em seu lugar algumas propriedades”. In casu, a espécie
(poluição) não pode ser o gênero (degradação).
Um exame superficial do conceito de impacto permite inferir que impacto é tudo, desde
o respirar, porque altera as propriedades do ar inspirado, dentro do organismo, afeta o bem-
estar da população de forma positiva, contrária ao sentido de dano, que se imagina algo
negativo, prejudicial. O Impacto tem sentido positivo, neutro ou negativo. O dano, só pode ter
sentido negativo.
A aparente confusão legal leva a entender dano como sendo poluição ou degradação.
Ora, poluição e degradação certamente não são consistentes com o conceito de impacto
positivo. Seriam no máximo o componente negativo da equação, e não todo o impacto, ou a
resultante final.
Portanto, Impacto, definitivamente NÃO É DANO. Dizer que algo é quando é e não é,
forma típica da linguagem e filosofia oriental, certamente será motivo de má interpretação numa
cultura ocidental. Resultado idêntico seria dizer que COMPORTAMENTO é crime, quando
comportamento é e não é crime, porque o bom comportamento inquestionavelmente não o é.
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Numa consideração holística ou sistêmica,o todo é igual à soma das partes. Admita-se
que sim, por ora. Na consideração da atuação humana, o componente ambiental é uma parte,
um pequeno e fundamental componente, mas nunca o todo. Existem considerações sociais,
éticas, comunitárias, individuais, metafísicas, biológicas de várias espécies, econômicas, e até
ambientais, enfim, um quase infinito de considerações envolvendo a vida do ser humano que
determinam, condicionam, são afetadas, pela atuação (atividade) da qual derive um impacto
ambiental negativo. Um impacto ambiental negativo pode ser examinado inicialmente em TRES
DIMENSÕES, duas não passíveis de classificação como dano:
Numa primeira dimensão, isoladamente, um impacto ambiental negativo poderia ser
analisado a) sob o ponto de vista de sua magnitude e b) pelo ponto de vista de sua justificação
ética ou imprescindibilidade. Ocorre um impacto ambiental negativo sempre que o homem se
relaciona com a natureza, o que significa, a cada instante, sob o aspecto temporal. O homem
respira; o homem retira da natureza o ar que respira; bebe a água da natureza; pisa e mata a
formiga quando caminha; lavra a terra; mata o animal para comer; mata a célula que o mataria;
mata o ser humano em legítima defesa; corta a árvore para construir seu abrigo contra a
intempérie, retira o minério para construir o equipamento médico que salvará vidas, etc., numa
graduação crescente, que é justificada, tornada justa, ética, por essência. Este impacto
ambiental negativo jamais poderia vir a ser considerado dano ou passível de censura ética,
seja pela sua absoluta necessidade, seja pela sua pequena magnitude – prevista no art 6º. da
Res. 01/86 do Conama, que obriga a sociedade à adoção de um critério de tolerabilidade.É um
impacto autorizado pela sociedade, mormente por ser feito sob a forma de estudo prévio e
participativo, autorizativo.
Medeiros (2004:157) entende que a participação democrática, aliada à igualdade,
fraternidade, remete a responsabilidade ambiental a todos, indistintamente, e nunca atribuição
de um indivíduo.Uma vez autorizado pela sociedade, não se falará em dano privado.Aliás, o
respeito à autorização social e legal está previsto na Lei 9605/98, de Crimes ambientais.
O inciso II do art 6º. da Res Conama 01/86 exige a previsão da magnitude e
importância dos prováveis impactos relevantes e NÃO PERMITE seu exame isolado dos
impactos ambientais positivos, tratados a seguir. Esta consideração é compatível com o Art.
170 de nossa Constituição Federal, que exige tratamento conforme a magnitude do impacto em
si. A necessidade de considerar a significância do impacto também foi contemplada no art. 54
da Lei 9605/98, de Crimes Ambientais.
Mas mesmo que de magnitude e importância relevante, ainda assim o impacto
ambiental negativo por si só não pode ser considerado dano, sem levar em conta outros
componentes positivos, o que permite construir a ponte para a segunda dimensão.
Então, tem-se uma segunda dimensão para se considerar um impacto ambiental.
Tem-se que considerar o impacto positivo, os benefícios ambientais do impacto. Por exemplo,
ao se impactar negativamente na construção de uma barragem, ao mesmo tempo há um
impacto positivo para a flora e fauna que se aproveita de uma concentração maior de água; ao
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se retirar uma árvore, oportuniza-se o crescimento de outras no mesmo local; ao se desviar o


curso de um rio, pode-se estar evitando erosão de uma área crítica, etc. Neste caso, a
Resultante seria a soma algébrica das magnitudes dos impactos positivo e negativo.
Uma terceira dimensão, cumulativa, do impacto ambiental, consiste em considerar os
custos e benefícios sócio-econômicos deste impacto, além dos benefícios ambientais,
cumulativamente. Como exemplo, a retirada de uma floresta para construir uma estrada; a
construção de uma hidrelétrica; de linha de transmissão; a retirada de minerais; construções de
cidades sempre geram, além do impacto ambiental negativo, um impacto ambiental positivo e
ainda, cumulativamente, um impacto social e econômico positivo e eventualmente um reflexo social
e econômico negativos, tal como a oportunidade de vida e emprego; melhoria das condições de
vida; conforto e bem-estar social; fabricação de máquinas e equipamentos; habitação, ou o
desconforto social, de grandeza resultante positiva (magnitude positiva menos magnitude negativa)
que pode ser maior do que a parcela de negativa do impacto ambiental, resultando com isto, ao
final uma soma positiva, com anulação do impacto negativo. (FENKER, 2007a)

A mensuração sistêmica e sustentável do dano

Neste sentido, pode-se recorrer à Ciência Contábil para se contabilizar o impacto em


suas diversas dimensões. O Resultado ou Rédito Contábil de uma organização corresponde à
diferença entre Receitas e Custos. O parágrafo 1º do artigo 187 da Lei 6404/76 diz que o
Resultado pode ser Positivo (Lucro ) ou Negativo (Prejuízo). Resultado é Gênero, sendo Lucro
e Prejuízo as espécies. Analogamente, na área ambiental Impacto é o gênero, que decorre do
confronto de Receitas (Benefícios Ambientais + Benefícios Sociais+ Benefícios Econômicos), e
dos Custos (Custos ambientais + Custos Sociais + Custos Econômicos), sendo espécies
Impactos Positivos e Impactos Negativos.
Pode-se então construir a equação final.
Resultado do Impacto = (IAP+ISP+IEP) – (IAN+ISN+IEN), onde:
IAP = Impacto Ambiental Positivo IAN = Impacto Ambiental Negativo
ISP = Impacto Social Positivo ISN = Impacto Social Negativo
IEP = Impacto Econômico Positivo IEN = Impacto Econômico Negativo
O Resultado (gênero) será positivo (lucro ou benefício final) ou negativo (prejuízo
final). Teremos ao final um Resultado Positivo do impacto ou um Resultado Negativo do
impacto. Agora sim, já sistêmico.
Sistemicamente, não se pode examinar o impacto ambiental dissociado dos sociais e
econômicos. Portanto, quando alguem interpreta dano ambiental como sinônimo de impacto
negativo, está omitindo, não só o componente positivo do impacto ambiental, como os
impactos sociais e os econômicos. Uma interpretação deveras imprestável para o regramento
das relações humanas. Ora, se o dano é uma resultante de impactos positivos e negativos, e
havendo no mínimo seis componentes, três positivos e três negativos, adotar-se um
componente negativo como sinônimo de dano seria uma fraude matemática. Aliás, não é outra
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a tendência mundial, incorporada entre outros na Agenda 21, de que sejam considerados
indissociavelmente os resultados ambientais, sociais e econômicos, numa visão holística.
Também a Lei 6938 de 31/08/1981 que é base da Política Nacional do Meio Ambiente
definida na Constituição, exige a consideração dos aspectos sócio-econômicos. Estas
considerações de Balanço ou Resultado de impactos positivos e negativos pode ser resumida
pelo termo SUSTENTABILIDE, tão presente em nosso momento histórico.Não existe atuação
ambiental dissociada de atuação social e econômica. Portanto, não existe impacto ambiental
dissociado de impacto social e de impacto econômico. Não há como analisar um sem o outro.

3 CONSIDERAÇÕES SÓCIO-ECONÔMICAS DO IMPACTO AMBIENTAL

O Homem vive daquilo que extrai da natureza. Tudo que é matéria provém da
natureza. Não existem fatores de produção senão a natureza e mão-de-obra do homem. Toda
atuação humana impacta na natureza, é ética e necessária. (FENKER, 2007 b)
A sustentabilidade das empresas nada tem a ver com filantropia, no entanto esta tem
obrigação de gerar um fluxo de benefícios para todos seus stakeholders (acionistas,
empregados, clientes, parceiros de negócios e para a comunidade que opera). Entre os
stakeholders externos podem ser citados comunidade, investidores, ONGs, órgãos públicos,
reguladores, imprensa – e até futuras gerações. (Savitz e Weber, 2007, p.28 e p.65).
DANO AMBIENTAL e conceito de DANO ZERO.
A característica essencial da natureza é ser original ou natural.
Ação antrópica é a ação do homem sobre a natureza, de forma a alterar sua
condição natural. Se observarmos a terra a partir de uma imagem de satélite, podemos ver o
resultado da ação antrópica, caracterizada pela alteração da paisagem, retirada de florestas,
existência de plantações, construções, etc. Vê-se “o dedo do homem”.
Alteração ambiental é toda alteração produzida pela atividade humana ao atuar sobre
a natureza, que modifica sua condição original (ou natural). A responsabilidade pelas decisões
ambientais é da sociedade e dos indivíduos, de forma indissociável. Há uma co-
responsabilidade em todas as decisões. A sociedade precisa de bens e serviços ambientais e
autoriza o indivíduo ou ente econômico a atuar no ambiente, dentro de certas condições, que
precisam ser seguidas, com proveitos sociais e economicos para a própria sociedade.
DANO ZERO é a inexistência de dano, sob o ponto de vista econômico, social e
ambiental quando apreciado de forma isenta e sistêmica em relação ao contexto de vida do ser
humano no momento de sua prática. É o dano eticamente aceito pela sociedade; é o dano
eticamente praticado; o dano inexistente; o dano inerente, o dano reparado ou compensado.
É a ausência de dano ou, então, se existente, o benefício para a sociedade é igual ou
superior ao impacto. É o equilíbrio, o “caminho do meio”; o “ponto doce de sustentabilidade”; é
a sustentabilidade econômica, social e ambiental. É a qualidade total, buscada pelas Normas
de Qualidade, e de modo específico pela Norma série Iso 14000 , que cuida da Qualidade
Ambiental. Na graduação do impacto ambiental, tem-se:
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Impacto de magnitude irrelevante

Os impactos ambientais negativos de magnitude irrelevante (tais como: matar um


mosquito; limpar um terreno para plantação de subsistência; derrubar uma árvore para
construir o abrigo contra as intempéries; etc.), pela sua natureza, não deveriam ser objeto de
questionamento ético ou legal. O princípio da materialidade também justifica sua
desconsideração, não recomendando ao ser humano se preocupar com “mesquinharias” ou
com “bagatelas”. Neste sentido, é oportuno se ler o artigo de PIZZATTO (2007), onde a Lei, se
interpretada no sentido literal, “tenta transformar em crime atos simples de controle de fauna,
como matar mosquitos, percevejos, pulgas, controlar ratos e outras atividades cotidianas dos
seres humanos”. (grifamos).

Impacto inevitável e necessário

A definição é da sociedade. Os custos e os benefícios são da sociedade. Uma vez que


ela necessita de bens ou serviços, há de arcar com os ônus ou custos, sejam eles econômicos,
sociais ou ambientais. O indivíduo toma as decisões que são inerentes à sua relação com a
natureza e por elas se responsabiliza, atentando para não tomar decisões contrárias ao
interesses da sociedade. É a sociedade, que, de forma participativa e democrática, como manda
a Constituição, opina previamente sobre o EIA/RIMA e a conveniência ou não de determinada
atividade. E, depois, confirma sua autorização e necessidade, adquirindo o produto. Nenhuma
empresa produziria o produto não-desejado pela sociedade, porque iria à falência.
São inevitáveis os impactos que precisam ocorrer, sem os quais o objetivo de acesso
ao recurso natural não poderia ser atingido. Ou se pratica o impacto ou não se acessa o
recurso. É o impacto inerente à atividade, faz parte do processo. Como exemplo, para retirar
um mineral precisa-se retirar a cobertura do solo, movimentar a terra; sem derrubar a árvore
não se pode construir a residência ou a rodovia, etc.
São necessários aqueles que são praticados para atender uma necessidade social,
maior e inadiável do ser humano, impossível de ser atendida a um custo social e ambiental
menor ou de outra forma alternativa. A sociedade é autorizadora e co-responsável por este, e
não o indivíduo. Neste caso, procedendo-se uma análise custo-benefício, o benefício social de
uso do recurso natural é superior ao custo do impacto ambiental, que é aceito pelo e para o
Homem, no contexto atual. Por exemplo, o benefício social de utilização de um mineral para
construção de um equipamento de tratamento de saúde é maior do que o custo do impacto
ambiental praticado; Há uma justificativa ética para a prática do impacto. Implicitamente, se
pode inferir sobre conceito e características do impacto evitável e desnecessário. É a
sociedade que decide o que é necessário.
Note-se que, no contexto atual, a atuação de indivíduos ou organizações com impacto
ambiental significativo depende de um prévio estudo de Impacto Ambiental, que leve em conta
o custo-benefício ambiental, social e econômico para a sociedade. A sociedade é participativa,
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nos termos da Constituição e da Legislação brasileira. Os Estudos de Impacto Ambiental (EIA)


e os Relatórios de Impacto Ambiental (RIMA) são feitos de forma participativa, com divulgação
para a sociedade. Uma vez autorizado pela sociedade e pelos órgãos por ela criados, há uma
justificativa ética e legal para a realização do componente negativo do impacto ambiental, eis
que o positivo foi julgado maior pela sociedade, ou será solicitada uma compensação.
Por este motivo, não se cogita e, considerar dano o impacto ambiental negativo feito sob
autorização social. Mesmo assim, quando um EIA/RIMA aponta um Resultado Negativo no
balanço dos impactos, sendo necessários, alguns projetos são autorizados, mas é exigida uma
compensação para repor o equilíbrio e manter a sustentabilidade sistêmica da qualidade de vida.
A compensação, o que seria e como é calculada? A compensação corresponde à resultante
entre impacto negativo deduzido do impacto positivo, incluindo-se os custos e benefícios
ambientais, econômicos e sociais. Aqui não se cogita em eliminar os impactos negativos, ou
mesmo de considerá-los dano. Mas sim, em mantê-los, compensando de outra forma.

A reparação do dano ambiental

Reparar deveria ser entendido como colocar paridade, balancear, ou equilibrar a


equação. A soma dos componentes negativos deduzida da soma dos componentes positivos
dá o resultado. Se o resultado for negativo está a indicar que o custo ambiental, econômico e
social é maior do que o benefício em grandeza. Aqui está a gênese do dano. Uma reparação
se faz necessária para no mínimo manter o equilíbrio da equação.

Reparabilidade desnecessária

É impacto negativo justificado por impacto positivo.É impacto que não é dano, impacto
inerente, impacto contextual, ou impacto eticamente justificado, impacto inevitável e
necessário. É o impacto ambiental negativo causado em proveito e aceito pela sociedade, sem
necessidade de reparação, por estar envolvido o conceito místico e sistêmico de relação do
homem com a natureza e que são decorrentes de atividades essenciais, necessárias para a
sobrevivência do ser humano. Incluem-se os danos cuja magnitude não justifique a reparação.
São inerentes à Vida, como no caso de matar animais para comer; tomar água do rio;
comer a fruta; comer o peixe; derrubar floresta para construir a casa; preparar um terreno para
plantar o alimento, etc.
Fazem parte do contexto, na cadeia de sobrevivência, inerente à condição humana.
Não são impactos censuráveis sob o aspecto ético e não se cogita em reparação ou
recomposição. No direito, não são considerados danos reparáveis, e diz-se que não estão
incluídos entre as vedações ou proibições.
Alguns impactos negativos poderiam ser recompostos, mas são inviáveis: árvore
retirada para uso do solo na agricultura; cobertura retirada do solo para construir residências ou
cidades. Não se pode, no local onde está plantado o cereal ou construída a residência, repor a
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árvore. A sociedade, em nome do atendimento de suas necessidades atuais, e considerando a


inexistência de alternativas praticáveis no momento a menor custo ambiental, autoriza este
impacto negativo como eticamente válido. São exemplos de impactos negativos impossíveis de
recompor: petróleo; minérios; a água bebida; o animal comido pelo habitante primitivo da floresta.
Há uma tendência atual e crescente da sociedade cobrar pelo uso destes recursos,
como é o caso da cobrança pelo uso da água, ou cobrança pela concessão de exploração do
minério Este pagamento, pelo mecanismo econômico de mercado, é incorporado ao custo do
produto e repassado aos clientes da cadeia de valor do recurso, suportado, em última
instância, pelo usuário final. Assim, consolida-se o princípio do usuário-pagador, que muitas
vezes tem sido preconizado como do poluidor-pagador. Somente alguns membros da
sociedade que são os adquirentes dos bens e serviços, suportam este ônus, em oposição à
situação em que toda a sociedade arca com ele. A tese do poluidor-pagador não tem suporte
nem correspondência na realidade econômica, pois todo o custo, em princípio, é repassado ao
produto. Caso o poluidor arcasse com o custo da despoluição, internalizando-o, aumentaria o
seu custo, e consequentemente aumentaria o preço cobrado pelo produto. Ao contrário, se
externalizar este custo, paga toda a sociedade. Afinal, o produto é feito para o usuário, e não
para o produtor.

Reparabilidade necessária

Todos os danos (diferença entre custo e benefício, ou resultado entre impactos


negativos e positivos) não aceitos pela sociedade deveriam ser reparados. A pressão da
sociedade é de que estes danos sejam ZERADOS, na equação, eliminando o dano.
Dependem, entretanto, de considerações técnicas, econômicas e legais, quanto à forma de
reparação. É viável pensar que a recomposição de alguns impactos não seja viável atualmente,
mas o seja no futuro.As formas de reparação podem incluir, nesta ordem de preferência social:

Reconstituição da condição original

É adotada quando for possível reconstituir o ambiente original, denominando-se


genericamente de recomposição da degradação ambiental, segundo a melhor tecnologia
disponível. É o caso de recuperação de áreas degradadas pela retirada dos minérios trazendo-a
ao estado inicial, com reposição do “bota-fora” e plantio de floresta ou coberturas recomposição
de solo em função de erosão provocada; replantio, após o término da atividade, de árvores
derrubadas para acesso a locais; limpeza de água de rios e mar; retirada de material tóxico,
perigoso, contaminante, etc. Neste caso, a empresa incorre nos custos de recomposição.
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Compensação

Compensação é a forma adotada quando a reconstituição da condição original não é


possível. É feita mediante entrega de outro bem ou recurso, em substituição àquele degradado,
que tenha o equivalente valor econômico, social ou ambiental. Cita-se como exemplo a
compensação para a inundação de uma área para construção de uma barragem. Neste caso,
ambientalmente não há o que se fazer na própria área, então a reparação não será ambiental,
porque o dano é irreversível.
A sociedade aceita a inundação, por vislumbrar benefícios sociais necessários, mas
entende que o benefício ainda assim é inferior ao dano causado, exigindo um complemento
para equilibrar a equação, sob a forma de uma compensação. Nestes casos, a empresa incorre
em custos de compensação. Estes podem ser de várias espécies, como:

Pagamento em moeda

Pagamento ao Estado em espécie. O Estado, em tese, utilizaria este recurso para


promover e melhorar as condições ambientais em outro loção, como uma Unidade de
Conservação, uma campanha de educação ambiental, etc. Nossa legislação prevê o
pagamento em dinheiro na ordem de 0,5% do valor do investimento.

Implementação de melhoria ambiental ou social em outro local

Uma forma de compensar a degradação é a melhoria em outro local, como o plantio


de árvores, criação de uma Reserva Natural de Preservação Permanente - RPPN; realização
de campanhas para conscientização ambiental; construção de residências ou escolas
populares, etc.

Benefício com o uso alternativo mantendo a condição degradada

Alguns componentes naturais alterados podem ser destinados a uso alternativo, de


interesse social, de forma a compensar de forma indireta o dano causado: por exemplo, na
cidade de Curitiba, Brasil, a cratera de uma pedreira foi transformada em um espaço de valor
cultural, denominado Pedreira Leminsky. Outras áreas podem ter valor paisagístico, histórico, etc.

O dano contingente ou de risco inerente

Em toda atuação (ato-ação) humana existem riscos. Na atuação ambiental não


poderia ser diferente. A existência de riscos está associada, é inerente à atividade, incluindo
riscos de falhas humanas; riscos de falhas de equipamentos; riscos de emergência de causas
naturais (chuvas, tempestades, raios); riscos de efeitos de acidentes provocados por outrem.O
risco é contingencial, imprevisível, desconhecido, impensável. Contingencial é o que pode ser
ou não ser.
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Em princípio, o risco é da sociedade, ao necessitar um bem ou serviço. No entanto, cada


indivíduo é responsável pela sua atuação e corre riscos. A teoria do risco exige um cálculo de
probabilidade estatística e considerações econômicas de tratamento do risco. Neste ponto
economia e direito ficam confusos, e a contingência será definida por evento futuro, desconhecido,
com maior ou menor grau de probabilidade. Neste ponto é clara a lição de MIRRA:

A partir daí, o que se verifica é que os profissionais envolvidos com a utilização da


legislação ambiental passam a ter de lidar com probabilidades na aplicação do
Direito Ambiental e os juízes, principalmente, passam a ter de tomar decisões nos
processos com base nessas mesmas probabilidades, o que contraria a formação
tradicional dos juristas de uma forma geral e dos juízes em especial, como sabido
bastante apegada à idéia de segurança e certeza jurídicas.

Para fazer frente aos riscos prováveis, as empresas incorrem em custos adicionais, ou
custos de contingências, visando com isto evitar prejuízos futuros, aos quais seriam somados
os custos intangíveis de perda de imagem e relacionamento. A tendência ainda é de que as
empresas, a partir das crenças e valores, incorram em custos volitivos ao gradativamente
internalizarem custos sociais, além daqueles exigidos pelas leis, objetivando com isto manter
a sustentabilidade a longo prazo e retribuir à sociedade pela autorização de funcionamento.

4 CONCLUSÕES

O Homem somente sobrevive daquilo que extrai da natureza. Tudo o que possui
matéria é extraído da natureza. Homem e natureza são um só. A novidade do tema ambiental
emergente explica o estágio embrionário em que nos encontramos, em termos de
conscientização social, crenças e valores, quanto em termos de regulação e aplicação. Os
gestores ambientais das organizações enfrentam um alto risco jurídico de interpretações
equivocadas que podem comprometer a sustentabilidade de sua empresa.
O mundo jurídico, por sua vez, tão autônomo na aplicação das Leis, deveria tomar
consciência de que o tema ambiental não pode ser tratado senão de forma holística, sistêmica,
o que implica na indispensável atuação multidisciplinar para qualquer tomada de decisão, sob
pena de parcialidade. A consideração de dano não pode ser dissociada de impacto, em suas
dimensões positiva e negativa. Impacto ambiental, por outro lado, não pode ser analisado
dissociado de impacto econômico e social.
A sustentabilidade que se busca neste planeta é a do Ser Humano Integral, e o
equilíbrio exige consideração sistêmica de todos aspectos envolvidos: sustentabilidade que
permite a vida das atuais e das futuras gerações. Cabe aos gestores incorporarem na área
econômica as considerações, crenças e valores éticos, sociais e ambientais emergentes, como
estratégia de competitividade sustentável a longo prazo.
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REFERÊNCIAS

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