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UNIVERSIDADE FEDERAL DA BAHIA

FACULDADE DE DIREITO

Gabriel Vianna Cavalcante Fernandez

ANTROPOLOGIA I – SEGUNDA AVALIAÇÃO

Salvador
2012
A categoria “relação social” é infinitamente ampla, podendo ser desmembrada
em diversas esferas como, por exemplo, relações produtivas, relações afetivas, relações
burocráticas, relações de cunho religioso, entre outras diversas. Sendo assim, seria
muito difícil estabelecer, minimamente, uma ótica de análise capaz de unificar todos
esses matizes da categoria “relação social”, não fosse o objeto de estudos as relações
sociais no Brasil. Por sua formação histórica sui generis e pela própria persistência de
certas características na problemática social brasileira, dois temas aparecem como
transversais às relações sociais nesse país: a questão racial e a confusão entre a esfera de
influência do privado e o domínio público.
A questão racial tem origem na formação da sociedade brasileira que, ao
escravizar e tornar os índios servos das missões religiosas e importar negros da África
para o trabalho forçado, criou uma realidade em que o elemento branco se sobrepõe ao
elemento índio e ao elemento negro. Se num primeiro momento essa hierarquia é
justificada por argumentos religiosos, no fim do século XIX e início do século XX nós
teremos a introdução da ideologia do racismo científico no seio do debate nacional. Se
apropriando deturpadamente de conceitos do evolucionismo darwinista, o racismo
científico explica as diferenças sociais através de um discurso cientificista que atribui o
atraso econômico e social do Brasil à mestiçagem da raça branca, e superior, com raças
inferiores (leiam-se índios e negros).
Esse tipo de discurso é apropriado pelos diversos centros de pensamento do
país(as faculdades de direito e medicina, principalmente) e se torna não só vetor
ideológico de pesquisas, artigos de jornal e panfletos, mas também justificativa para o
não cumprimento das premissas liberais que deveriam organizar o novo Brasil
republicano. De acordo com os “princípios científicos” do racismo em voga, o Estado
brasileiro não teria mais a missão de integrar os seus elementos constitutivos – ou seja,
os negros antigos escravos e índios, tão excluídos da vida pública nacional – e poderia,
à vontade, aplicar suas políticas de “limpeza” social, como foi, por exemplo, a
reurbanização do Rio de Janeiro no início do século XX.
Hoje em dia o racismo pode ser percebido de diversas formas. Embora o
invólucro científico do discurso racista tenha sido, em larga escala, derrotado, as
estatísticas ainda mostram que a cor da pele é fator de restrição a espaços como a
Universidade, os palcos e passarelas e os cargos de comando. Por outro lado, o número
de usuários do sistema prisional e os índices de mortalidade de jovens são, em grande
medida, preenchidos por pessoas da população negra.
A distinção tênue entre a esfera pública e a esfera do privado, tema tão
privilegiado pela sociologia brasileira, também tem uma ligação profunda com as
estruturas sociais de nosso país, pois, fundada é na grande concentração de propriedade
e poder político nas mãos de poucos e consubstanciada na forma paternalista de relação
entre os diversos estratos sociais. É sobre esses alicerces que surgem à cultura do “Você
sabe com quem está falando?” e o “jeitinho brasileiro”.
O “Você sabe com quem está falando?”, baseado comumente na cultura do
apadrinhamento, tem fortes ligações com o modo hierarquizado de organização da
sociedade brasileira. É utilizado de modo autoritário, frente a uma negativa para
conseguir o objeto desejado, rememorando ao interlocutor sua posição inferior dentro da
hierarquia social, ou mesmo informando o mesmo das suas relações sociais com
autoridades, que lhe dão mais direito a trânsito social – por exemplo, “Sou filho do
prefeito”, “sou compadre do delegado”, “sou amigo do magnata”, entre outras
possibilidades.
Já o “jeitinho brasileiro” é um tipo de engenharia social que subverte a frieza da
norma e a impessoalidade do espaço público. Muitas vezes utilizado com base no
compadrio, mas sem o autoritarismo do “Você sabe com quem está falando?”, o
“jeitinho” pretende dar uma solução antijurídica a qualquer pequeno problema
burocrático, mas que pode ser contornado mediante “boa-vontade” (que, por certas
vezes pode significar o pagamento de pequenas quantias, de “agrado”). Tem uma raiz
no paternalismo das relações sociais e com certa rejeição da formalidade jurídica e das
soluções formais, impessoais e/ou meritocráticas. O “jeitinho” é tão disseminado entre
nós, brasileiros, que é sinônimo de qualquer tipo de arranjo, como a gambiarra, o
improviso, o quebra-galho, etc.
Ambas as posturas permanecem fazendo parte da cultura brasileira nas soluções
dos problemas do dia-a-dia. Sejam na resolução de problemas de transito, pequenos
conflitos com a burocracia estatal e até mesmo questões judiciais são permeadas pela
cultura do compadrio, pelo autoritarismo do “Você sabe com que está falando?” ou pela
malandragem eficiente do “jeitinho brasileiro”.