Você está na página 1de 7

Recomendações cristãs para as eleições.

Introdução

1) Em primeiro lugar, vamos situar a questão do ponto de vista de Deus. Ele


criou a terra e todas as coisas e nos entregou para administrá-la (Gn 1:28).
É certo que Deus é o dono de tudo mas Ele entregou o governo em nossas
mãos.

2) Não dá para eleger Deus presidente, deputado, senador, governador, etc.


É uma escolha humana, da qual nós somos responsáveis, para escolher
outros humanos. Tanto nós quanto eles darão conta de seus atos e
escolhas. O mérito ou a culpa serão nossos e não é de Deus!

3) Um dia, contudo, Jesus voltará e governará ele mesmo toda a terra.


Naquele dia, que todos esperamos, Jesus será o rei e teremos um governo
de justiça e paz. Tudo que desejamos como correto para um país
acontecerá no governo de Cristo. Mas até lá, não devemos nos iludir. Nosso
reino não é desse mundo!

4) Deus pode levar alguém até uma posição de governante? Sim, pode. Mas
isso não é regra e acho pouco provável que Deus queira fazer isso
dependendo exclusivamente do voto da igreja. Deus não criou a igreja para
votar, montar partidos ou eleger governantes.

5) Para alguém ser eleito, pela vontade de Deus ou não, deve conquistar
apoio em amplos setores da sociedade, da qual a igreja apenas seria mais
um. Ou seja: a eleição de alguém é uma escolha humana, onde a igreja,
composta de humanos, apenas participa.

6) Deus poderia usar uma candidatura ou partido para despertar a igreja


para cumprir uma tarefa que estivesse sendo negligenciada, como exercer o
seu papel profético ou ajudar aos necessitados e oprimidos? É possível.

7) Mas nesse caso a candidatura seria só um meio e não um fim. Deus, na


sua infinita sabedoria, estaria utilizando uma situação histórica para atuar
na implantação do seu reino. Um exemplo é o censo romano que levou
Jesus a nascer em Belém. E isso só valida o argumento que a escolha do
governante é um evento humano e não divino.

8) O ponto que quero enfatizar é que eleições são atividades tão seculares
como ir comprar pão. As conseqüências são maiores mas mesmo assim não
dá para espiritualizar o que Deus entregou para a nossa exclusiva
competência. Repito: Deus nos deu a terra para nós governarmos e não Ele.
Deus, a princípio, não tem candidatos.

O que o cristão deve fazer?

9) Mas, então, o que Deus requer de nós em uma eleição? O mesmo que
espera de todo ser humano, independente de ser crente ou não: Escolher
um governo que cumpra adequadamente suas funções, ou seja: que
procure fazer um país o mais justo, igual e próspero possível.
10) A condição pecaminosa humana impede que qualquer governante,
sistema de governo ou partido consiga estabelecer um país justo, igual e
próspero. Essa utopia só se realizará no governo de Cristo. Mas isso não
quer dizer que devamos cruzar os braços e deixar o barco afundar. É uma
escolha do menos pior. Ou do mal menor.

11) Para poder escolher conscientemente é necessário entender primeiro a


dinâmica dos governos humanos e da democracia em especial. Deus
gostaria que agíssemos como irmãos e que partilhássemos a natureza que
Deus nos deu. Entretanto o que sempre aconteceu foi haver grupos que tem
acesso aos recursos e outros que não tem esse acesso.

A dinâmica dos governos humanos e o sistema democrático

12) Desde que o mundo foi contaminado pelo pecado existem dominadores
e dominados. Senhores e escravos. Patrões e empregados. Conquistadores
e conquistados. A desigualdade é uma marca do gênero humano e isso
sempre gerou conflitos.

13) O grupo que está ‘por cima’ sempre quer manter seu status e abafar o
grupo que está ‘por baixo’. Independente de quem está com a razão (na
maioria dos casos ninguém está!). Os egípcios oprimiam os hebreus, os
babilônios oprimiram os judeus, os romanos oprimiram os cristãos, a igreja
católica oprimiu os protestantes, os burgueses oprimiram os operários, a
igreja anglicana oprimiu os metodistas e por aí vai.

14) Antigamente essa disputa pelo poder se dava na forma de armas. A


classe dominante se apoiava nas armas para continuar dominante. As
outras classes, dominadas, se organizavam para resistir e tão logo
conseguissem armas, faziam uma revolução, golpe ou algo parecido.

15) Na maioria esmagadora dos casos, o problema não estava na classe


dominante. A classe dominada, quando virava dominante, fazia tudo de
ruim que a antiga classe dominadora fazia. Se não pior.

16) Em algum momento no final do século 18 começaram a surgir idéias


para minimizar essa eterna disputa, que tantas vidas ceifava, arrasava a
economia e emperrava o progresso. A idéia era criar um sistema para essa
disputa de poder no qual o vencedor ganhasse o poder mas garantisse a
sobrevivência dos vencidos. E tivesse que continuar a negociar com eles.

17) Aproveitando a idéia grega de democracia, o sistema que foi criado, e


aperfeiçoado durante os anos, em vários países, tenta garantir a vontade da
maioria da população, mas ao mesmo tempo protege as minorias, dando-
lhes direitos.

18) Não mais usamos armas mas o voto. Os vencedores não podem fazer
tudo. As atribuições de um governo são divididas: Uma parte cuida da
aplicação da justiça, outra da execução das responsabilidade do estado
(exército, escolas, saúde, dinheiro, etc.) e outra da feitura das leis e da
fiscalização.

19) Tudo é negociado. O poder é dividido. Não é um sistema muito eficiente


mas garante que os vencidos (a minoria) terá voz e que os vencedores terão
limites naquilo que desejam fazer. E que tem um prazo para tentar
permanecer no poder, sendo ou não reconduzidos. E assim a democracia vai
se equilibrando.

20) Fica fácil entender esse conceito quando pensamos em minorias étnicas
como em países da África, ou mesmo no atual estado de Israel, onde a os
árabes elegem seus deputados, apesar do país ser judaico.

21) Aqui no Brasil, e nos países do ocidente de maneira em geral, essa


divisão de grupos, classes, vencedores e vencidos não é étnica mas sim em
interesses econômicos e visões ideológicas. Vamos entender as duas coisas.

Interesses econômicos em conflito

22) Os interesses econômicos em um país complexo como o Brasil


constantemente são contrários. Para alguns, é bom que o dólar fique baixo
(importadores). Para outros, deveria estar nas alturas (exportadores). Um
grupo acha que devemos investir na agricultura (agronegócio). Outro
entende que ganharíamos mais dinheiro investindo na industria.

23) Esses interesses divergentes são incontáveis. E cada grupo faz pressão,
banca campanhas, procura votos para seus candidatos entre outros
expedientes. É uma luta que nem sempre aparece. Ninguém quer perder o
seu negócio.

24) Apenas para citar um fato, nas eleições de 2002, uma associação que
representa um desses grupos econômicos anunciou que se tal candidato
vencesse, os 800 maiores empresários do país fechariam suas fábricas e
sairiam do país. Era uma chantagem, que acabou não acontecendo.

25) Para citar alguns temas econômicos: valor do salário mínimo, programas
sociais, impostos, pedágios nas estradas, fiscalização de leis trabalhistas,
regulação do mercado de capitais e dos bancos, taxa de juros, subsídio para
construção de casas, ajuda do BNDES para empreendimentos, licenças
ambientais mais rígidas para obras, etc.

26) Em alguns casos, há consenso. Em outros, não havia mas passou a


haver. E em outros as posições são opostas, mesmo que no discurso para
ganhar os votos pareçam iguais. Nessa hora é que o histórico do candidato
e do partido faz a diferença.

27) A democracia é esse espaço de lutas por interesses e não há nada de


essencialmente errado nisso. Mas um cristão pode lutar (ou considerar
votar) pelos seus interesses? Sim, é claro. Se for algo legítimo, que não se
envergonha de fazer, por que não se empenhar em conquistar ou manter?

28) Se você depende de um benefício dado pelo governo (pode ser tanto o
bolsa família quanto o financiamento do BNDES), e quer que ele seja
mantido, considere votar no candidato do governo.

29) Por outro lado, se o candidato da oposição promete mutirões de saúde


pública, e você será beneficiado com isso, considere votar nesse candidato.
Não tenha vergonha de expor sua opinião. Se achar necessário, lute por ela.
30) O que não pode é ser hipócrita. Se um cristão for funcionário público e é
um péssimo funcionário, falta constantemente e não cumpre suas tarefas,
não pode alegar que vota em tal candidato para manter seus privilégios.
Erra duplamente.

31) Por outro lado, o cristão que é servidor público, e que trabalha
corretamente, pode considerar votar no candidato que, segundo seu
entendimento, vai valorizar seu trabalho. Não está sendo hipócrita.

32) Não quer dizer que devemos votar apenas pelos nossos interesses. Mas
não quer dizer também que somos obrigados a desprezá-los. Não devemos
ser ingênuos: Democracia não é um sistema para escolher o melhor para o
país. É um sistema de defesa de interesses no qual as partes conflitantes
perdem o mínimo possível.

33) No longo prazo, o sistema acaba atingindo parte do objetivo original


(justiça, igualdade e prosperidade) porque todos os interesses envolvidos
acabam sendo acomodados da melhor forma possível.

Ideologias em conflito

34) Alem dos interesses econômicos envolvidos, existe também a questão


ideológica. Todos nós temos uma idéia de como deve ser a sociedade. Essa
visão, mais ou menos idealizada, é a sua ideologia.

35) O governo de uma sociedade, de um país, tem um papel


importantíssimo em definir como será a sociedade, principalmente através
da formulação e da execução das leis. Todo governante, consciente ou não,
segue uma ideologia e tenta impô-la a sociedade, que pode ou não aceitá-
la.

36) Existem várias ideologias mas elas invariavelmente tratam de dois


assuntos básicos: liberdade econômica e liberdade individual. Para facilitar
o entendimento, podemos colocar essas duas dimensões em dois eixos,
com extremos bem definidos. Vejamos:

37) No eixo econômico, temos em um extremo uma visão que toda a


economia deveria ser controlada pelo Estado, pois só ele tem como saber o
que as pessoas precisam e decidir produzir somente o necessário. Não
haveria competição. A idéia é atender as necessidades básicas de toda a
população, para que ninguém fique sem o mínimo. A palavra chave aqui é
igualdade. É o que chamam de socialismo ou esquerda.

38) No outro extremo desse eixo econômico, há a visão que o Estado não
deve se intrometer em nada na economia. O próprio mercado se ajustará
sozinho às demandas e necessidades da população, sempre de maneira
mais eficiente possível. Quem for competente se estabelecerá. Quem não
conseguir, ficará na miséria, pois não merece estar no mercado. A palavra
chave aqui é meritocracia. É o que chamam de capitalismo ou direita.

39) Em nenhum lugar do mundo se consegue ter um desses dois extremos.


O socialismo não consegue se manter pois nivela por baixo a economia e
ela acaba entrando em colapso sem inovação e produtividade. E o
capitalismo precisa suportar os excluídos do seu sistema sob o risco de forte
convulsão social. O que existe em cada país é uma inclinação mais para um
lado ou para o outro.

40) Não há nada errado em se ter uma preferência de ideologia econômica.


E a bíblia até dá suporte às duas visões. Espera-se, entretanto, que quem
escolha uma delas, mesmo que apenas moderadamente, seja coerente
nessa escolha. Que assuma suas posições e as saiba defendê-las.

41) O outro eixo ideológico é o das liberdades individuais. Diz respeito a


quanto o Estado pode ou não intervir na nossa vida cotidiana. Ao vivermos
em sociedade, temos que abrir mão de fazer algumas coisas. O quanto de
‘liberdade’ estamos dispostos a perder e de suportar dos outros é o ponto
de debate.

42) De um lado, há as pessoas que entendem que é obrigação do estado


em proibir um grande número de comportamentos das pessoas. Não estão
dispostas a conviver com algumas manifestações que consideram nocivas a
sociedade. Acham que o Estado deve intervir mais na vida cotidiana de
cada um. Querem um estado interventor.

43) Exemplos de estado interventor: proibição de beber, de fumar, de união


homossexual, de andar com poucas roupas, de exercer livremente a religião
que quiser, de falar o que bem entender, de manter relações sexuais sem
vínculo matrimonial, de usar drogas, de abortar, de ver alguns filmes, de ler
certos livros, de etc.

44) Não se trata só de ditadura aqui mas sim da interferência do estado na


vida das pessoas. O que normalmente ocorre nas ditaduras é a censura da
imprensa (falta de liberdade de expressão). Mas existem muitas
democracias cujo estado é interventor também(educação dos filhos, uso de
símbolos religiosos, proibição de uso de drogas, etc.).

45) Do outro lado do eixo, estão as pessoas que acham que o Estado não
deve se meter em praticamente nada na vida de ninguém, pois cada um
deve dar conta de si mesmo. As pessoas são livres e responsáveis por seus
atos e tirando as garantias mínimas de respeito a vida e a propriedade,
ninguém tem nada a ver com a vida do outro. Querem um estado garantidor
das suas liberdades.

46) Exemplos de estado garantidor: liberação das drogas, do casamento


homossexual, do naturismo (andar sem roupas), da liberdade de expressão
irrestrita, das relações sexuais sem nenhum vínculo moral, do aborto, etc.

47) Embora os cristãos sempre lutem pela liberdade religiosa, em geral


sempre apoiaram um estado mais interventor. A bíblia é bem clara sobre a
condição humana e afirma que o homem não é livre para decidir o que é
bom. Precisa de limites e deve encontrá-los na palavra de Deus.

48) O que não quer dizer que devamos apoiar ditaduras. A bíblia também é
contra a opressão. Há algum espaço para divergência nesse eixo entre os
cristãos mas temos certeza que Deus condena a libertinagem. Deus é um
Deus moral. Não dá para ir alem disso.
49) Não existe grande correlação entre opções dos eixos econômico e de
liberdade. Existem estados interventores de direita e de esquerda. Existem
estados garantidores de direita e de esquerda.

50) Considerando os dois eixos ideológicos (econômico e de liberdade),


cada pessoa tem um ‘mapa’ da sua ideologia, mais ou menos como no
exemplo abaixo:
Estado
Aceita bastante intervenção Interventor
do estado e é um pouco de
‘esquerda’

Esquer Direit
da a
É um pouco contra a
intervenção do estado e é
bastante de ‘direita’
Estado
Garantidor
51) Voltando as eleições, devemos considerar votar nos candidatos que
defendem o mais próximo possível da nossa própria ideologia. Como é
pouco provável que todos pensem da mesma forma, nos agrupamos em
torno das idéias comuns.

52) Tentando exemplificar: se no meu eixo ideológico econômico, prefiro um


maior controle do estado na economia (embora não concorde com o
comunismo), vou procurar votar em um candidato que valorize as empresas
estatais que dão certo. E certamente evitaria um que quisesse privatizar
essas empresas.

53) Outro exemplo: No meu eixo ideológico de liberdades, sou um pouco


conservador e contra a liberação das drogas. Vou procurar votar no
candidato que tem combatido o tráfico e apoiado clínicas de reabilitação. Da
mesma forma, vou evitar o candidato que se mostrou favorável a liberação.

54) É muito difícil encontrar um candidato que ‘case’ perfeitamente com a


nossa ideologia. Assim, novamente, fazemos as escolhas pelo menos pior.
Ou pelo mal menor. Não é errado escolher um candidato para que outro não
vença. Desde que se faça isso de maneira consciente, não há problema.

55) Vale aqui o mesmo princípio para os interesses econômicos. A


democracia não é um sistema para escolher a melhor ideologia para o país
e sim para que as diferentes ideologias convivam com o mínimo de perda
de participação possível.

56) Haverá uma ideologia dominante? Sim. Mas ela é o resultado das
pressões das inúmeras pressões que as demais ideologias fazem na luta
democrática por mais e mais espaço. E o que não era aceito ontem, hoje já
pode passar a ser. E o contrário também.

Problemas ao escolher em quem votar


57) As influencias dos meus interesses econômicos e da minha ideologia se
misturam muitas vezes, e é dessa mistura que deveria sair o convencimento
para escolher em quem votar nas eleições.

58) Ocorre que existem muitas interferências na hora de fazer essas


ponderações. O que deveria ser um processo racional e lógico, acaba se
transformando em uma decisão altamente passional e as vezes irracional.

59) A mídia, que deveria ser fonte confiável de informações, no Brasil tem
se mostrado parcial e em alguns casos desinforma seus
leitores/expectadores. Não baseie seus julgamentos somente no que dizem
os jornais e na televisão.

60) A internet permite acesso quase irrestrito a informação. Aproveite-se


disso. Mas tome cuidado porque ela também é usada para desinformar.
Quantos emails falando mentiras ou meias verdades recebemos nesse
tempo de eleições, falando mal do candidato A ou B?

61) O apelo que muitos fazem ao preconceito, ao anonimato, a acusação


sem provas e a boa fé das pessoas, na maioria dos casos é proposital e só
serve para deturpar as informações e confundir ainda mais nossas opções.

Recomendação final

62) A minha recomendação para o cristão nas eleições é: Tenha convicção


do que você quer. Aprenda a escolher. Não vote por emoção ou impulso.
Não se deixe ser manipulado. Se não está confortável com nenhum
candidato, e ao mesmo tempo não considera o favorito insuportável, vote
em branco. É seu direito.

63) Não precisava nem lembrar, mas é obvio que não devemos votar em
pessoas com péssima reputação moral. Tendo o devido cuidado com
acusações sem provas, não vote em corruptos e bandidos, só por
defenderem seus interesses ou ideologia. É melhor votar em branco.

64) Peça a Deus calma e discernimento. Ele certamente te ouvirá. Que Deus
nos abençoe. Amem.

Interesses relacionados