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1982-1670

NÚMERO 107 JUN/JUL 2017

Conhecimento
PERIFERIAS A vida nas comunidades
melhora quando
Onde se vê se usa o saber local

escassez, Educação
O sistema escolar
sobram reduz ou reproduz
desigualdades?
potencialidades

Gestão pública
Há muitos indicadores,
mas falta o olhar territorial
EDITORIAL
Por que periferias importam
Elas reúnem significativa parte da população brasileira e têm o menor
acesso a oportunidades. Só por esses dois motivos as periferias urbanas
e o combate às desigualdades socioespaciais já mereceriam figurar no ESCOLA DE ADMINISTRAÇÃO DE EMPRESAS
DE SÃO PAULO DA FUNDAÇÃO GETULIO VARGAS
topo das prioridades da gestão pública. DIRETOR Luiz Artur Brito

Mas as periferias também importam por tudo o que representam:


imensa criatividade, forte relacionamento comunitário, enorme
expressividade cultural, um celeiro de ideias e inovações,
potencialidades as mais heterogêneas possíveis. COORDENADOR Mario Monzoni
VICE-COORDENADOR Paulo Durval Branco

Historicamente, as periferias no Brasil influenciam JORNALISTAS FUNDADORAS Amália Safatle e Flavia Pardini
EDITORA Amália Safatle
comportamentos, tendências e movimentos culturais que acabam
EDIÇÃO DE ARTE José Roosevelt Junior
www.mediacts.com
apropriados pelo “centro”. Ainda assim, este centro se refere às ILUSTRAÇÕES José Roosevelt Junior (seções)
EDITORA DE FOTOGRAFIA Flavia Sakai
periferias de forma pouco elogiosa, geralmente nivelando-as como REVISOR José Genulino Moura Ribeiro
GESTORA DE PRODUÇÃO Bel Brunharo
Iniciativa: uma massa homogênea: “comunidades carentes”, “aglomerados COLABORARAM NESTA EDIÇÃO
Andrea Vialli, Cíntya Feitosa,
subnormais”, “assentamentos precários”, “indigentes”. DiCampana (coletivo fotográfico),
Diego Viana, Fábio Rodrigues, Haroldo da Gama Torres,
Por que só enxergar escassez onde existem riquezas tão abundantes? Magali Cabral (textos e edição), Mauricio Érnica,
Neuza Árbocz, Paula Galeano, Pepe Guimarães
Ricardo Sennes
O conceito de riqueza, infelizmente, ainda é determinado pela régua
JORNALISTA RESPONSÁVEL
econômica, que por sua vez desconsidera ativos menos tangíveis, Amália Safatle (MTb 22.790)

ANUNCIE
como os vínculos sociais, a espontaneidade, o jeito de ser e de viver Para informações sobre anúncio no website
e no pdf da edição disponível para download,
contate Bel Brunharo:
das periferias. belbrunharo@pagina22.com.br

Muito assediadas em períodos de campanha eleitoral, essas REDAÇÃO E ADMINISTRAÇÃO


Avenida Nove de Julho, 2029, 11º andar - São Paulo - SP
populações ficam praticamente invisíveis tão logo os gestores (11) 3799-3212 / leitor@pagina22.com.br
www.fgv.br/ces/pagina22
assumem seus cargos. Afogada em números e indicadores que pouco
CONSELHO EDITORIAL
Ana Carla Fonseca Reis, Aron Belinky,
traduzem as especificidades de territórios tão singulares e diversos José Eli da Veiga, Leeward Wang,
Mario Monzoni, Pedro Telles,
entre si, a administração pública perde a oportunidade de desenvolver Roberto S. Waack, Rodolfo Guttilla

nesses locais todo o potencial que ali reside. Perdem as periferias, IMPRESSÃO: HRosa Serviços Gráficos e Editora
TIRAGEM DESTA EDIÇÃO: 1.000 exemplares

perdem os centros, perdem todos. Os artigos e textos de caráter opinativo assinados

www.namaocerta.org.br Este Projeto Especial de PÁGINA22, que tivemos a honra de realizar


por colaboradores expressam a visão de seus autores,
não representando, necessariamente, o ponto de vista
de Página22 e do FGVces.

em parceria com a Fundação Tide Setubal, é um convite para que a


gestão pública aprofunde o olhar sobre esses territórios tão valiosos
e incrivelmente ainda pouco compreendidos.
Boa leitura!
A REVISTA Página22 ADERIU À LICENÇA
CREATIVE COMMONS. ASSIM, É LIVRE
A REPRODUÇÃO DO CONTEÚDO – EXCETO
IMAGENS – DESDE QUE SEJAM CITADOS COMO FONTES A PUBLICAÇÃO E O AUTOR.

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ÍNDICE Use o QR Code para acessar Página22
gratuitamente e ler esta e outras edições PROJETO ESPECIAL

Muitas vozes, múltiplas leituras

Há uma década, a Fundação Tide Setubal, criada em 2006 como uma organização
familiar, atua no enfrentamento das desigualdades na periferia da Zona Leste de São
Paulo. A escuta, o diálogo, a presença e a criação de vínculos com a região são pressupostos
que orientam nossas ações construídas com a comunidade.
Nos primeiros dez anos, o percurso de atuação institucional deu-se no Extremo Leste
de São Paulo, centrado no desenvolvimento local por meio da cultura, do esporte, do
empreendedorismo, da formação para a cidadania de jovens, famílias e educadores. Com
base nos resultados e aprendizagens desse percurso, assumimos o desafio de inaugurar
um novo ciclo de atuação, voltado para outras periferias urbanas, para a produção de

16 conhecimento e para a incidência em políticas públicas, estimulando a participação


popular e a transparência de dados abertos e territorializados sobre alocação de recursos
públicos. Buscamos, assim, contribuir para a redução das desigualdades socioespaciais
CAPA

Além dos estereótipos


e a justiça social.
Sabemos que temos um desafio que não se pode enfrentar sozinho. As periferias são
As periferias de grandes cidades são territórios onde a maioria das pessoas vive em situação de carência
e vulnerabilidade. Falso ou verdadeiro? múltiplas e heterogêneas, assim como a complexidade das questões sociais. É preciso
mobilização, articulação e fortalecimento de atores e instituições locais, poder público,
10 Entrevista A socióloga Maria Alice Setubal e o jornalista Tony Marlon defendem o uso de "periferias", no plural,
pois são “múltiplas, diversas, divergentes e, algumas vezes, convergentes” moradores e sociedade civil para ações multidimensionais e intersetoriais, em meio aos
processos contínuos de produção de desigualdades.
22 Gestão Pública Influenciados por múltiplos fatores, gestores públicos tomam decisões e alocam recursos sem
conhecer a fundo o seu grande eleitorado: as populações periféricas É preciso também espaço para debater o tema, por meio de diferentes olhares e vozes,
criando diálogos capazes de construir caminhos conjuntos para a transformação social.
26 Indicadores Dados certeiros poderiam oferecer uma visão mais clara das mazelas das periferias
A parceria da Fundação Tide Setubal com PÁGINA22 – neste Projeto Especial – nasce
32 Participação Iniciativas buscam reduzir a distância entre as populações periféricas e o poder público. Em São Paulo,
alinhada a tal perspectiva. Produzimos esta edição com o propósito de proporcionar
plano de bairro surge como alternativa de mobilização
a leitura do tema de maneira múltipla e diversa. Esperamos que o conteúdo contribua
38 Caminhos Aplicar o conhecimento cotidiano dos habitantes já é um componente importante para promover
para reflexões e diálogos, inspirando ações em diferentes territórios e proporcionando
a integração urbana das periferias
encontros na busca da igualdade.
42 Tecnologia Como a tecnologia pode modernizar a gestão pública e aproximar as políticas dos anseios sociais

SEÇÕES CAPA: ILMAR CARVALHO Paula Galeano,


5 Projeto Especial 6 Notas 9 Artigo I 31 Artigo II 37 Artigo III 46 Última Superintendente-executiva da Fundação Tide Setubal

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NOTAS por Neuza Árbocz NOTAS
FORMAÇÃO JORNALISMO

Potências das periferias É Nóis!


Da ideia de ensinar, durante cinco sába- desde 2009, já se graduaram mais de 300 violência nas periferias de cinco capitais; “Jo-

Q
uando a realidade é muito dura à sua volta, nada como de diferentes periferias do mundo para que, juntas, por meio dos, moradores do Capão Redondo a fazer jovens de bairros afastados, por meio de vens Políticos“, grande reportagem sobre a
encontrar pessoas que enfrentam situações seme- de vivências e trocas, formulem um novo pensamento sobre fanzines, as jornalistas Amanda Rahra e bolsas de estudo conquistadas em dispu- bancada jovem na Câmara dos Deputados; e
lhantes e sonham em transformá-las. Mesmo que elas seus territórios. Um olhar transformador que desperte para Nina Weingrill construíram um laborató- tado processo de seleção. Em 2017, foram o “Prato Firmeza”, primeiro guia gastronô-
estejam a quilômetros de distância. O fenômeno das redes as diversas realidades e potenciais que elas contêm”, diz Eliana rio intenso de descobertas das periferias 270 inscritos para as 10 vagas disponíveis. mico das periferias de São Paulo.
on-line possibilitou que pares se encontrem, conversem e de- Sousa Silva, filha de Maria e João Aleixo, criadora das Redes de na Grande São Paulo. “Começamos como Os escolhidos desenvolvem visão críti- O aprendizado engloba modelos de ne-
sabafem para fazer frente aos desafios do seu dia a dia. Além Desenvolvimento da Maré e idealizadora do projeto. voluntárias e foi impossível parar”, relata ca das mídias, aprendem técnicas de traba- gócios e como gerar renda com um jornalis-
de facilitar o compartilhamento e a disseminação de soluções Como base para essa rede, o instituto selecionou, em Rahra. “A formação que oferecemos par- lho nas variadas linguagens e realizam suas mo diverso, plural e de qualidade. A iniciati-
criativas e inovadoras. 2017, dez bolsistas para um programa de formação com re- te da mão na massa, da ação. Isso abre a próprias produções. Entre elas, destaques va, batizada de É Nóis - Inteligência Jovem,
Ciente do poder dessa conexão, nasce no Brasil uma pro- sidência no Complexo da Maré, no Rio de Janeiro, entre os percepção dos participantes tanto para como “Identidade Parcelada”, reportagem conta hoje com ensino on-line e uma agên-
posta inédita, a formação da rede Internacional das Periferias, quais seis participantes da América Latina (três de diferentes as realidades a sua volta quanto para suas multimídia sobre consumo e influência de cia de notícias sobre as periferias, além de
lançada pelo Instituto Maria e João Aleixo. Este, por sua vez, estados do Brasil), três de países africanos e um de Portu- próprias habilidades e identidade”. marcas na juventude da periferia; “Menina parcerias com veículos da grande imprensa
criado pelo Observatório das Favelas, é uma organização vol- gal, priorizando grupos historicamente marginalizados. Es- Na Escola de Jornalismo que mantêm Pode Tudo”, investigação sobre machismo e para difundir os conteúdos de seus alunos.
tada para firmar uma agenda de Direitos à Cidade, através da tes construirão em conjunto uma visão tomando por base a
ressignificação das favelas e melhores políticas públicas. "Pe- vitalidade da comunidade, que possa ser uma referência para INOVAÇÃO
riferia é plural. Não existe modelo único. Reuniremos pessoas o fortalecimento da democracia contemporânea.
Máquinas contra a taxa de pobreza
Ao se tornar estudante de Engenharia Comercial, José Ma- solucionar o desafio da higiene nesse modelo, imaginou uma má-
nuel Moller mudou-se para um bairro da periferia de Santiago, quina capaz de automatizá-lo. Graças a um prêmio de um concur-
no Chile, em uma casa dividida com amigos. Todos com pequena so universitário, produziu os primeiros protótipos de sua ideia em
renda, adquiriam comida e itens de limpeza nos mercados pró- 2012. No ano seguinte, após outro prêmio de fomento, uniu-se ao
ximos, um pouco a cada semana, conforme obtinham algum designer industrial Salvador Achondo para criar a empresa Algra-
dinheiro. Não demorou para Moller notar que pagavam muito mo e difundir sua solução em toda a América Latina.
mais pelos produtos dessa forma do que se pudessem optar por Hoje, colecionam 18 prêmios de reconhecimento, alcançam
embalagens maiores. mais de 780 pontos de venda no Chile e na Colômbia e ainda co-
“Essa é a realidade nas periferias. As pessoas trabalham, memoram mais de 46 mil toneladas de resíduos sólidos evitados,
recebem e compram aquilo que dá. Não importa se esta compra graças à eliminação de embalagens não retornáveis. Os produtos
fragmentada sai mais cara. É o que eu chamo de “taxa de pobre- fornecidos em suas máquinas são, em média, 40% mais baratos
za’”. Para combatê-la, Moller imaginou vender produtos a granel, que os comercializados em pequenos volumes e geram maior ga-
diretamente dos produtores, nos próprios armazéns locais. Para nho aos comerciantes parceiros.
ALCINÉA CAVALCANTE

RAFAELA SENA
FESTIVAL
Literatura engajada
Sentir-se parte ou não do tecido demonstra o entrelaçamento de uma principal, em novembro, no Morro
ARTE NA AMAZÔNIA
social central dos núcleos urbanos periferia existencial com a territorial. do Vidigal.
Encanto dos Alagados está ligado, em geral, ao CEP onde “Uma não existe sem a outra e, além “Fomos uma antena para um
Casas de palafitas já foram retratadas artísticos”, explica o criador do projeto conseguiu transformar o que era um pon- se habita. Contudo, o sentimento delas, há a periferia narrativa”, movimento que já existia nas
em quadros, músicas, poesias e romances. Encanto dos Alagados. Em parceria com to de leitura em uma biblioteca, graças à de isolamento, de invisibilidade, ou completa. periferias: de novos leitores e novos
Se essa situação serviu de fonte de inspi- um coletivo que integrava no ano de 2011, parceria com a escola estadual da região. até mesmo de ser alvo de aversão, Para lidar com todas elas, a edição autores. Mapeamos 120 saraus
ração para muitos artistas, por que não George começou a fazer apresentações Nos seis anos de trabalho, mais agentes também se manifesta por razões de 2017 da Festa aborda as Revoluções. nos bairros periféricos só do Rio
percorrer a via contrária e levar arte até os teatrais, de circo, contação de histórias, culturais se juntaram à iniciativa e aprovei- muito mais difíceis de contornar. Por meio de encontros reflexivos, de Janeiro. Resolvemos ser uma
habitantes desses espaços e, com ela, am- oficinas e muitos outros eventos que, no taram para levar informações essenciais Por isso, Júlio Ludemir, um programados de maio a setembro na plataforma de apoio a esse público
pliar seus horizontes, seus sonhos? decorrer do tempo, atraíram a atenção aos moradores, além de apurar seu senso dos idealizadores da Flup, a Festa cidade do Rio de Janeiro, a 6ª Flup vai que busca e se faz representar em
Esse foi o desejo de Wenner George, para a situação do local. estético e filosófico. Literária das Periferias, escolheu gerar uma coletânea de poesias e outra criações literárias”, explica Ludemir,
um produtor cultural de Macapá (AP). “Re- Em dezembro de 2013, por exemplo, “Somos um ponto de resistência”, defi- homenagear Caio Fernando Abreu no de narrativas curtas sobre o tema. ao relembrar como iniciou o trabalho
cebi uma indenização de uma casa e resolvi a encenação do Auto de Natal sobre as ne George. Já a poeta Márcia Corrêa prefe- evento do ano passado. Para ele, a Além disso, organizará a III Gincana em conjunto com Écio Salles entre
investir em um espaço junto às palafitas passarelas de madeira da área, muitas em re ver o Encanto como uma flor-de-lótus obra desse escritor gaúcho portador Literária na rede de ensino carioca os jovens de Nova Iguaçu, na Baixada
de Muca, na Zona Sul daquela cidade. A más condições, conquistou a promessa de dedicada a transformar o entorno em um de HIV, que viveu de 1948 a 1996, e encerrará com seis dias de evento Fluminense, em 2008.
população ali não tinha acesso a produtos reforma pela prefeitura. No mesmo ano, jardim de “saberes, pulsares e fazeres”.

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NOTAS
HAROLDO DA GAMA TORRES
Demógrafo e doutor em Ciências Sociais, é sócio da Din4mo, empresa voltada para
o desenvolvimento de negócios com impacto social positivo
artigo

Isso que entendemos por desigualdade


Embora as estatísticas deem uma noção objetiva sobre a dimensão da disparidade social,
esta só pode ser compreendida em uma experiência vivida

C
omo demógrafo, trabalhei
certo período na Fundação
Seade, estudando as mais
diversas estatísticas relacio-
nadas a desigualdades urbanas. Como
se sabe, podemos falar desse tema em
termos de renda, condições residenciais,
educacionais e de oportunidades, ou ain-
da por recortes distintos segundo etnia,
DIVULGAÇÃO

gênero e acesso a serviços públicos. Mas


foi o percurso diário à fundação, então lo-
calizada no coração da Cracolândia, em
CIDADANIA
São Paulo, que talvez me tenha dado uma
Soluções urbanas em jogo noção mais profunda sobre o significado
dessa expressão.
Um lugar malcuidado convida a mais com cuidado, afeto e celebração. Acredita- ONGs, governo, lideranças e empresas.
Próximo à Estação da Luz, esse local
pouco caso. Vira, aos poucos – ou, algumas mos que podemos materializar o melhor O resultado são mais de 20 pontos
já era então o território dos “noias”, como
vezes, bem rapidinho – depósito de lixo, en- dos mundos se isto for feito de forma livre em periferias de todo o Brasil renovados
são chamados os usuários de crack que
tulho, e não raro, ponto de criminalidade. e espontânea, desde já”, comenta Rodrigo e transformados de acordo com as es-
circulam livremente pelo espaço. Em
Este é o relato mais frequente que os in- Alonso, um dos fundadores. colhas de seus habitantes, desde 2000.
geral, são seres quase etéreos, meio que vasculha o lixo buscando algo para urbanas que tenho percorrido me leva-
tegrantes do Instituto Elos ouvem quando Assim, criaram juntos algumas ferra- Alguns que até mesmo enfrentavam pro-
desorientados, sujos e desnutridos. Uns revender e ter o que comer. ram a entender que a desigualdade so-
visitam bairros afastados dos centros das mentas de mobilização cidadã que alavan- blemas graves de enchentes ou disputa
nos abordam pedindo algum trocado, Como é dormir diariamente em um cial só pode ser compreendida em uma
grandes e médias cidades brasileiras. Nas- cam a ação coletiva. Entre elas, o Jogo Oá- de gangues. Toda a metodologia desen-
enquanto a maioria segue desconexa, quarto de 8 metros quadrados, mofado experiência vivida. Lembro frequente-
cido do encontro de cinco jovens amigos ar- sis e a jornada dos Guerreiros Sem Armas. volvida nestes 16 anos de trabalho está
não raro arrastando um cobertor velho. e sem ventilação, em uma favela? Como mente de um texto memorável de Jane
quitetos, a organização vê abundância onde Ambos partem da diversão para despertar disponível no site do Instituto Elos para
Como encará-los? se sente uma mãe quando o filho vai para Jacobs, uma urbanista que – ao escre-
muitos enxergam escassez. a vontade de sonhar um bairro melhor, ao quem quiser "realizar um Oásis" onde
Às vezes, saía para almoçar na Sala uma escola que ela sabe de qualidade ver sobre Nova York – chamou atenção
“Nossa atuação está baseada nos so- mesmo tempo que convidam os diversos mora; com manual detalhado e suporte
São Paulo, um espaço restaurado e duvidosa, onde o professor falta com para a importância da interação entre os
nhos, mais do que nas queixas, e realizá-los atores locais a se envolver: moradores, nas mídias sociais.
agradável do Centro, protegido por se- frequência e para onde o filho segue, cidadãos no espaço urbano, sem o que
guranças, onde nós, “os normais”, pode- passando por um caminho inseguro? uma cidade não existe de verdade ("The
EVENTO
mos comer com tranquilidade. Porém, Vivi grande parte da minha carreira importance of the sidewalk").
Inventando moda o caminho mais curto entre o Seade e produzindo e divulgando estatísticas. Só podemos nos reconhecer como
Passarela, glamour, marcas famosas e roupas caríssimas. Um espaço, em geral, ina- a Sala São Paulo passava pela Rua do Com esse recurso, eu e tantos outros conviventes em uma mesma cidade ao
cessível e elitizado, teve suas portas abertas à periferia quando modelos e estilistas de Triunfo – uma ironia que dá nome a um buscamos mostrar que, no Brasil, os interagir uns com os outros no espaço
Paraisópolis, comunidade da Zona Sul paulistana, participaram da São Paulo Fashion Week conjunto de fracassos urbanos: pré- 10% mais ricos detêm mais de 50% da público. Precisamos entender que o
2017, no palco da TNT-Lab. A proeza de unir os dois polos deve-se a Alex Santos, idealizador dios invadidos, lojas de computadores renda total; quase metade dos brasilei- mendigo esbravejando do outro lado da
do Periferia Inventando Moda (PIM), evento semestral iniciado em 2014. usados, oficinas mecânicas um pouco ros não tem coleta de esgoto; e ainda, em rua, o menino da periferia com dificulda-
“Tem gente criativa e bonita na periferia. Quando a galera se vê dentro da São Paulo suspeitas, lixo. Mesmo na hora do almo- São Paulo, se contam cerca de 1 milhão des na escola, a família que vive na casa
Fashion Week, entende que pode fazer parte, o que é superimportante para a sua identi- ço, só me arriscava a andar pela Rua do de favelados e mais de 600 mil analfa- de 20 metros quadrados na favela, sem
DIVULGAÇÃO

dade e autoestima”, comenta Nilson Mariano, psicólogo, produtor-executivo do projeto. Triunfo em grupo. betos adultos. Hoje, percebo que nos piso ou banheiro completo, e eu compar-
Foi num curso de Corte e Costura em Paraisópolis que Alex descobriu sua verdadeira Para além dos noias – talvez o faltavam informações fundamentais: tilhamos um destino comum.
vocação, embora sonhasse em ser publicitário. A partir daí, ingressou em Design de Moda e passou a dar workshops de modelos na espectro social mais extremo de nossas Como é viver essa vida? Como os que a Sei que, no plano individual, temos
escola da comunidade. “A experiência fashion faz com que o indivíduo reflita sobre seu estilo pessoal, sua identidade e o modo com o assimetrias –, são muitos os viventes vivem enxergam o mundo? poucas oportunidades de mudar tudo
qual se apresenta e se coloca no mundo”, explica. urbanos que escolhemos não ver: a De fato, embora as estatísticas nos isso. Mas sei também que a cidade erra-
Sua iniciativa se desdobrou em workshops de beleza, de fotografia, de DJ, e outros eventos como o Maloka Fashion, além de editoriais moça drogada, caída na calçada no sol deem uma noção objetiva sobre a di- da, incompleta, confusa e injusta é a mi-
regulares de moda, uma agência de modelos e, até, uma aceleradora de marcas, que acompanha por um ano os criadores selecionados do meio dia; o mendigo acampado sob a mensão das desigualdades, a Cracolân- nha cidade. Por isso, é preciso olhar para
para cada PIM. “Existe o lado ruim no universo da moda, o do jogo de ego. Mas essa mesma sede de superação provoca um aprendizado marquise da agência bancária; o velho dia ou as diversas favelas e periferias ela, pensar sobre ela, e agir.
constante, incentiva cada um a dar o melhor de si e a aprimorar o seu olhar para a sociedade”, conclui o empreendedor.
Ver: ibge.gov.br ou seade.gov.br. Do livro: Jacobs, Jane. The Death and Life of Great American Cities. 1961.

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ENTREVISTA MARIA ALICE SETUBAL E TONY MARLON

É preciso
transver o mundo
POR AM ÁLI A SAFATLE E M AGALI CABRAL FOTO PEPE GUI M ARÃES

Dizem que a periferia é carente – mas carente do quê? Só o Estado pode dar escala às
políticas de transformação social – mas de que Estado estamos falando? Os resulta-
dos de educação das escolas das periferias não são tão distintos dos consolidados de
outras regiões – mas leva-se em conta a desigualdade que existe dentro de cada uma
dessas localidades? Fulana de tal empreendeu na favela – ou estava apenas tentando
sobreviver?
Perguntas como essas indicam que lidar com a questão das desigualdades socioespa-
ciais no Brasil requer um olhar bem mais aprofundado e cuidadoso. Qualquer leitura
apressada sobre um tema tão complexo recai em visões estereotipadas, simplistas.
Nesta conversa, partimos de dois pontos de vista, o da socióloga Maria Alice Setubal,
falando sobre as periferias com base em experiências como a da Fundação Tide Setubal,
e o do jornalista Tony Marlon, falando a partir das periferias. Uma causa comum aos
dois é a defesa do conceito plural de periferia, pois são “múltiplas, diversas, divergentes
e, algumas vezes, convergentes”. Essa diversidade exige abordagens peculiares, seja
por parte do gestor público, seja de qualquer cidadão na sua relação com a cidade.
“Como diz Manoel de Barros, é preciso transver o mundo”, pontua Tony.

Formada em Ciências Sociais e doutora em Psicologia, Maria Alice (Neca) Setubal é presidente do Conselho Consultivo da Fundação Tide Setubal, que atua em São
Miguel Paulista, Zona Leste de São Paulo. Também preside o Conselho de Governança do Grupo de Institutos, Fundações e Empresas (Gife)

Tony Marlon é jornalista e fundador da Escola de Notícias, que atua no Campo Limpo, Zona Sul de São Paulo. Filho de boias-frias nascido em Salinas, no Vale do
Jequitinhonha, participou do Projeto Arrastão, onde teve os primeiros contatos com oficinas de comunicação. Ao ser selecionado no programa Virada de Futuro
da Fundação Abrinq, conquistou uma bolsa para o curso superior

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MARIA ALICE SETUBAL E TONY MARLON

Nas duas últimas décadas é perceptível um de São Paulo, André] Sturm falou que adoraria que início desse movimento de valorização? diferentes entre si, como são diferentes as de
movimento de valorização das periferias. o artista do Capão Redondo fosse levado para o Tony – Pra mim, sim. O Sérgio Vaz e o Binho de- Fortaleza, de Belo Horizonte, e assim por diante.
Vocês concordam com essa visão? Se sim, Centro, circulasse pela cidade, mas não um rapper, ram o palco, e os Racionais, a identidade. Então é ter um novo olhar que leve em conta o que
qual a origem desse movimento? e sim um músico, um artista [risos]. Quer alguém Neca – Se você pensar no olhar capitalista, é aquele espaço, aquela região, qual a história, os
Maria Alice (Neca) Setubal – De um lado, sim, di- que manje mais de pesquisa de música que o KL todos os movimentos são cooptados e transfor- valores, as tradições, quais são as políticas que já
ria que a periferia adquiriu maior visibilidade, espe- Jay dos Racionais MC’s? Fiz um texto gigante que mados. Mas aí os movimentos também têm de se vieram antes, por que deram certo, por que não
cialmente pelas questões culturais, os coletivos, a termina assim: “O [álbum] Sobrevivendo no Inferno transformar. Porque a outra alternativa é ficar se- deram. É conseguir customizar muito mais as
questão da música, da diversidade etnorracial e de foi a política pública que nenhuma prefeitura fez: gregado, falando só com os seus amigos. políticas públicas.
gênero. Por outro lado, há um posicionamento que me deu identidade”. Isso nos anos 90, e os saraus Somos uma instituição preocupada em comba-
traz os ódios, as intolerâncias em relação à perife- fizeram o mesmo nos anos 2000. Se o rap me deu É como repartir os benefícios da ter as desigualdades, especificamente as socioes-
ria. Talvez um exemplo forte sejam os “rolezinhos”: o direito de existir, o sarau me deu um palco. Não biodiversidade: o mateiro descobre uma paciais. O que é o direito de circulação na cidade?
não é permitido aos jovens entrar no shopping... só eu existo, mas tem um senhor que aprendeu a planta medicinal, mas em geral quem explora Onde está a equidade? Qual é o orçamento da cida-
como assim? Então esse olhar em relação à perife- ler aos 18, hoje tem 51 anos e está no seu décimo a descoberta é a indústria farmacêutica. A de? Como esse orçamento se divide entre as várias
ria é ambíguo da parte da sociedade. romance. Ele é eletricista. Tem essa coisa do olhar questão é como repartir os benefícios? regiões? Se não olharmos para a desigualdade,
Tony Marlon – A gente, que mora na periferia, que é uma ação de conquista que passa pelo viés Tony – Um exemplo que vivi há um mês: uma em- não vamos conseguir construir esse país que está
tem uma frase inicial: a gente não está represen- cultural – o que o Sarau do Binho fez por nossa ge- presa com interesse em grupos jovens me procurou, sendo falado aí. Não estamos falando de 5%, 10%,
tando, porque não tem essa de representatividade, ração a gente nunca vai conseguir agradecer, mas pagando uma grana que meu pai e minha mãe traba- estamos falando de 30%, 40% da população em
mas é uma voz dentro da representatividade. Outra acho que tem isso de aqui é até onde você pode ir. E lharam uma vida pra ganhar e comprar uma casa. nível de pobreza. É muito significativo.
coisa que para mim é muito forte é a briga simbó- o rolezinho é a prova disso. Eles iam me pagar isso em um mês pra eu ajudá-los Tony – Importa porque é uma força de trabalho
lica para pluralizar a periferia, de colocar um “s” Eu percebo isso quando a gente vai partici- a desenhar uma estratégia de comunicação para da cidade muito forte. Hoje eu tinha uma reunião
no final. Porque elas são múltiplas, diversas, diver- par de alguns espaços e leva problematizações jovens da periferia. Eu fui muito direto: “Vocês que- às oito e meia, peguei o trem às seis e vinte para
gentes e, algumas vezes, são do tipo: “Não tem mulher rem mudar o modus operandi conseguir chegar em tempo
convergentes. Exemplo rá- negra nessa mesa?” E ouvi na forma de se relacionar?” e o trem estava lotado – é
pido: há dez dias, a Fundação Se o rap me deu dizerem: “Nossa, esses ca- A menina da agência: “Não, o A desigualdade está um fluxo migratório mes-
Perseu Abramo realizou uma
conversa sobre a percep- o direito de existir, ras são chatos, hein!” Eu
falei: “Desculpa, mas vocês
que o meu cliente quer é ven-
der o produto dele”, porque dentro de cada uma mo. A gente está sempre
falando em termos relati-
ção política da periferia. Das
quatro pessoas que estavam
o sarau me deu me convidaram para uma
mesa de sete pessoas e tem
ele não consegue vender lá.
Eu levantei, e disse: “Muitíssi-
das regiões, por isso vos. Quando você olha para
dentro do Campo Limpo e
falando, nenhuma era da pe- um palco sete homens? Não me sinto mo obrigado, mas não me in- é mais complexo você vai para o sul, percebe
riferia. Isso não fez nenhum à vontade”. Daí eles dizem: teressa ativar consumidores. que nas bordas existe a pe-
sentido pra gente. A gente, “Mas não tem nenhuma mu- Agora, se você quiser repen- riferia da periferia. É assim
que faz parte da Rede Jornalistas das Periferias, lher fazendo trabalho de comunicação comuni- sar o seu modelo de negócios e quiser que a respon- em Paraisópolis. Tem uma avenida principal onde
fez uma mega-ação blocada de todo mundo ir lá e tária”. Como não? Então tem uma parada de va- sabilidade social não seja vista como uma área, mas as casas são triplex, como diz o Criolo [na faixa
falar: “Mano! Vocês estão loucos? Querem conver- lorização, sim, principalmente porque os saraus como um valor institucional, aí você me chama para Grajauex], duas lajes é triplex. E você tem a grota.
sar sem botar a gente na conversa?” e o rap deram uma identidade política, um norte que a gente gere valor para as duas partes”. Ninguém quer colar na grota, porque lá é onde o
Então, a disputa desse termo é justamente para político para o discurso. Mas, ao mesmo tempo, bicho pega. Acho que por isso é importante pro-
dizer que a Zona Leste é completamente diferen- fica aqui no seu cantinho. Por que as periferias importam para vocês? blematizar essa coisa do plural.
te da Zona Sul, que é completamente diferente da Por que essa causa os move? Neca – Uma vez, na Secretaria de Educação, ouvi
Norte, do Graja [Grajaú], do Campo Limpo. Toda a Isso fica mesmo no cantinho ou acaba sendo Neca – Na Fundação [Tide Setubal], a gente tem uma apresentação de um pesquisador mostrando
dinâmica comunitária é diferente uma das outras, apropriado como se deu com o samba? Existe o mote de que o território importa e isso possui vá- que os resultados de educação das escolas das
inclusive a dinâmica de ação social. São 2 horas e 40 um paradoxo de que a periferia cria, e o rios significados. As políticas públicas não podem periferias não eram tão distintos dos resultados
para colar no Colônia, no extremo Sul. Dá quase pra reconhecimento dessa criação pelo centro é ser políticas homogêneas que vêm direto de um ór- consolidados de outras regiões – justamente porque
ir a Santos e voltar. ao mesmo tempo a sua expropriação. Como gão central de Brasília, do Oiapoque ao Chuí, como não se leva em conta essa diferença. A desigualdade
No último ano e meio, parece que todo mundo lidar com isso? se todos fossem iguais, como se as regiões do Bra- está dentro de cada uma dessas regiões, por
descobriu essa força política que as periferias têm. Tony – O caminho se faz caminhando. Por sil não importassem. Estamos falando de pessoas isso é mais complexo. Cada região reproduz a
A pesquisa da Perseu Abramo fala sobre isso. A exemplo, tem gente do hip-hop que acha que o Emi- diferentes, biomas diferentes, realidades sociais e mesma lógica da cidade. As escolas que estão
gente estava problematizando uma série de coisas cida é um vendido. Se os Racionais MC’s não conti- econômicas completamente diferentes. no centro regional têm os melhores professores
sobre isso. Mas só agora todo mundo resolveu es- nuassem cantando Diário de um Detento, eu nunca Então, quando dizemos que periferia importa e e alunos com melhor nível cultural. À medida
cutar, de uma fonte oficial, legitimada por alguém, saberia que existe um preso chamado Mumia Abu- que o território importa, nós estamos falando de que se distanciam do centro, as desigualdades
dentro de uma pesquisa? Só o Campo Limpo tem -Jamal, dos Panteras Negras. espaços diferenciados e que as políticas públicas são maiores. Os dados encobrem esse cenário.
mais de 600 mil pessoas, mas a pesquisa ouviu 90. têm de estar de acordo com aquelas realidades. A gente aqui na Fundação está começando a
Escrevi um texto em que o [secretário de Cultura Os Racionais MC’s representam o marco do Certamente, as periferias de São Paulo são discutir muito como trabalhar os dados e traduzi-

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MARIA ALICE SETUBAL E TONY MARLON

los, porque esses dados estão todos blocados. coisa que ninguém falava lá. Aí um outro grupo
Tony – Eu gosto muito dessa coisa do “fazedor”,
que sempre existiu e agora leva um nome oficial,
– Leo, Sheyla, Fran –, sai de lá e fala e a gente vai
trabalhar com mobilidade. Ninguém falava de mo-
Indicadores são importantes, mas é preciso
“empreendedorismo social”. Essas pessoas vão
emergindo por absoluta necessidade. Então, es-
bilidade lá. E só falou de mobilidade porque o olhar
diferente da Escola de Notícias, que foi formado
articular dados quantitativos e qualitativos.
tou gravando agora uma série de entrevistas para
lançar um podcast em junho e a pessoa fala assim:
pelo olhar diferente do Arrastão, fez com que eles
pensassem: “Peraí, não é só o [Programa Escola]
Hoje se desperdiça muito dinheiro público
“Ah, que legal, fulana no Campo Limpo empreen- Bike Anjo que entende de mobilidade.
deu né?” Imagina! Ela estava sobrevivendo. Ela Esse é um exemplo de como se está rompen-
nunca foi no Sebrae. É muito louco, porque, se as do um ciclo, por isso que ninguém está entendendo
políticas públicas não chegam, esses fazedores nada do que fazer na periferia. E essa galera que
começam a emergir porque precisam resolver está vindo pergunta: “Tony, o que você vai fazer de-
um problema e a gente sabe que ninguém vai re- pois da Escola de Notícias?” Existir, né! Existir já dá
solver. Um exemplo disso é o shopping-trem – o trabalho pra cacete. Já ouço alguns financiadores nho, o Sérgio Vaz têm uma rede de conexão, mas Neca, você, que é de uma família da elite
shopping-trem é maravilhoso. As pessoas ficam dizerem: “A sua geração está saindo muito rápido do outros não conseguem. econômica, sofre preconceito pelo fato de
horas no trem e já compram tudo ali mesmo. Os projeto que criou”. Eu respondo: “Lidem com isso! A Tony – Quando eu era menino, o que mais me ser da elite, de uma família de banqueiros?
produtos são lançados primeiro lá. nossa geração é uma geração multilutas e não vai irritava era quando a TV nos apresentava como Neca – Já sofri muito ao longo da vida. Tinha di-
ficar em um lugar só”. jovens carentes. Carente não é sobrenome. E o pa- ficuldade em lidar com o sobrenome e tudo com o
Essas iniciativas amenizam, mas não drão de carência é interessante, porque em geral é que a família representa. Eu, que sempre atuei na
transformam a ponto E qual é a próxima luta? um padrão econômico. Mas, como o meu valor não área social e de educação, me sentia culpada com
de resolver o problema Tony – Em breve nasce- passa simplesmente pelo econômico, para mim essa ambiguidade. É uma questão sempre difícil.
da desigualdade. Só o
Estado pode dar escala às
O que mais rá a Historiorama, que vai
desenhar conteúdos e expe-
não existe carência nesse sentido. Alguém como
a Suzane von Richthofen, para mim, é carente de
Quem não me conhece já me rotula. Mas já foi pior,
porque hoje já tenho uma trajetória e isso fez com
transformações? me irritava era riências para que as pessoas humanidade, amor, afeto. Eu brincava com os re- que eu seja hoje mais reconhecida pela consistên-
Neca – Eu diria, em uma usem a comunicação para pórteres: “Quando fala de carência, você se refere cia dessa história do meu trabalho profissional e da
resposta rápida, que sim. Só quando a TV nos restaurar a sua autonomia. a quê?” Essa coisa do carente emerge bastante, minha vida pessoal.
o Estado tem o poder de al-
cance e tal para dar escala.
apresentava como Essa é a brincadeira. Estou
desenhando um jogo de car-
porque a visão de mundo é estabelecida pelo eco-
nômico. E não é assim que funciona. E o que despertou lá atrás essa vocação
Mas que Estado? Nenhuma jovens carentes tas para que as pessoas te- social em você?
fundação ou coletivo vai re- nham conversas profundas, Quando a gente vai falar de indicadores Neca – Eu estudei em um colégio de freiras
solver nada isoladamente, não sobre o que elas fazem, sociais, eles também não consideram os experimental, o Nossa Senhora do Morumbi. As
mas a importância dessas iniciativas é influenciar, mas sobre quem elas são. As conversas genuínas ativos intangíveis, criativos. Os indicadores freiras que estavam atuando para aquele grupo
mostrar, fazer advocacy, fazer pressão. Essa é a nascem de quem a gente é, não do que a gente faz. captam ainda menos que a gente imagina? experimental eram superjovens – a maioria delas
escala possível para as fundações e coletivos: Queria muito entender como este aparelhinho Neca – Tenho uma diferença com análises que logo depois largou a escola e foi para a Teologia da
poder influenciar, trazer luz, provocar o debate, [mostra o celular] cria experiência que me dá pos- consideram apenas dados quantitativos, porque Libertação. Nessa fase, tive uma educação voltada
incomodar. sibilidade de autonomia sobre a minha vida. Infor- precisam ser demonstrados com regressões e para direitos e justiça social. Foi ali que comecei a
Tony – Percebo um movimento bem interessan- mação é poder. Aprendi com o meu pai quando a grandes gráficos. Tudo o que não é medido, men- me ligar no tema. Depois fiz Ciências Sociais. Sou de
te. Metade do que sou se deve ao Projeto Arrastão. polícia entrou em casa sem mandado e meu pai surável, sai fora desse tipo de análise. Por exem- uma família de banqueiros, mas que sempre res-
Foi ele que abriu a minha cabeça e me apresentou comprou uma Constituição e começou a ler. E ele plo, como medir o que é um bom professor? Muitas peitou muito as minhas posições. Gostavam de um
pra tudo que conheço. Só fiz faculdade por causa da falou: “Agora ninguém nunca mais vai entrar aqui, das competências para ser um bom professor não debate, valorizavam a liberdade de expressão e de
Fundação Abrinq, que tinha o programa Virada de porque eu sei o meu direito”. É isso. Se a gente são mensuráveis quantitativamente. Não dá para escolher os próprios caminhos.
Futuro. Formou uma geração, todo mundo da mi- conseguir usar toda a tecnologia a nosso favor medir, por isso não se leva essa informação em Tony – Essa porrada existe aqui e existe do outro
nha turma saiu criando coisas que não eram ações para criar experiências cidadãs, empáticas, a gen- consideração. Mas como se pode tirar da análise lado também. Um monte de gente hoje não gosta do
sociais, mas algo assim: como é que eu pego esses te restaura a nossa autonomia. o professor, que é quem mais impacta na educa- Mano Brown, porque ele faz show no Credicard Hall.
valores que me foram ensinados, abraço uma ativi- ção, como demonstram as pesquisas nacionais e O Brown não está preso mais, ele está falando de
dade que gosto muito e pulverizo. O Rubens foi para Tem muita potência nas periferias, mas o que internacionais? Essa questão dos indicadores é outras coisas. Mudou, já passaram 24 anos. Vamos
a dança, eu fui para comunicação, o Washington foi aparece é o estereótipo da carência. importante, mas precisamos amadurecer muito, libertar. A gente não precisa de herói. A gente não
para o teatro. A gente termina a nossa jornada lá no Neca – Tem múltiplas potências, mas também de modo a articular dados quantitativos e qualita- está se escutando. Eu trouxe o Caco Barcellos [do
Arrastão, sai e vai criar coisas. Ficamos quatro ou existem muito menos recursos, mesmo. E há um tivos. Enquanto isso, desperdiça-se muito dinheiro programa Profissão Repórter] no início da Escola de
cinco anos criando coisas. preconceito muito forte em relação à periferia. público em projetos que às vezes viram espuma. Notícias. “Pô, mano, vai trazer logo um cara da Glo-
O projeto Arrastão era socioeducativo, daí vem É preciso se virar muito mais para conseguir que bo?” Mas é o Caco Barcellos, não é a Globo. Como
o Escola de Notícias e trabalha com Antroposofia, o empreendedorismo dê certo. Você [Tony], o Bi- Falamos sobre preconceito agora há pouco. diz Manoel de Barros, é preciso transver o mundo.

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REPORTAGEM CAPA

“(...) a definição de periferia não deve ser


construída em torno do que ela não possuiria
em relação (...) a um centro hegemônico. Ela
deve ser reconhecida pelo conjunto de prá-
ticas cotidianas que materializam uma or-

Trutas
ganização genuína do tecido social com suas
potências inventivas, formas diferenciadas
de ocupação do espaço e arranjos comunica-
tivos contra-hegemônicos e próprios de cada

e quebradas
território.”
Claro que o documento inclui também uma
extensa lista de desafios voltados para a re-
dução da desigualdade e o bem-viver, mas o
enfoque é a valorização das potencialidades

As periferias de grandes cidades existentes nos bairros periféricos. O geógrafo


e dirigente do Observatório de Favelas Jailson

como São Paulo são territórios de Souza e Silva, um dos autores da Carta, ex-
plica que há um tipo de olhar “domesticado”

onde a maioria das pessoas que impede algumas pessoas de ver beleza
em lugares como a Maré, onde vivem mais de

vive em situação de carência e 140 mil moradores em cerca de 40 mil habita-


ções. “[Alguns visitantes] não conseguem ver

vulnerabilidade. Falso ou verdadeiro? nenhuma beleza na favela, não enxergam a


intensidade das ruas, a sensualidade presen-
te na juventude, a criatividade nas experiên-
cias culturais e artísticas, o valor das crianças
brincando soltas, as músicas, as danças.”
POR MAGALI CABRAL
Outra possibilidade para entender esse
FOTO DICAMPANA FOTO COLETIVO
novo conceito de periferia pode-se notar ao

R
dar uma conferida in loco nas quebradas. Para
esponder essa questão não é tão sim- quem tem o hábito de só frequentar eventos
ples quanto poderia ser duas décadas no Centro Expandido de São Paulo, partici-
atrás. De lá pra cá, por razões ainda par de um dos muitos saraus que acontecem
não totalmente decifradas, prova- semanalmente em vários bairros mais afas-
velmente por falta de distanciamen- tados pode ser instrutivo. No mínimo, apren-
to no tempo, tem surgido nas periferias e fa- de-se que de fato está míope quem só enxerga
velas tantas iniciativas autênticas no campo carência e violência nas periferias.
das artes e do conhecimento que, somadas, Só na Zona Sul da cidade é possível optar
sugerem ser possível uma interrupção na po- entre o Sarau da Cooperifa, o mais antigo de
laridade centro-periferia. todos, o do Binho, o Preto no Branco, o Sobre-
Um bom começo para tentar entender o nome Liberdade, entre vários outros ainda
turbilhão de ações criativas de âmbito cultu- não tão badalados. Na Cooperifa, a qualidade
ral, social e econômico que movimenta e areja dos versos, o tempero dos quitutes do Zé Bati-
a vida nas periferias das capitais brasileiras é dão – o dono do bar que abriga o movimento –,
ler a esclarecedora Carta da Maré – Manifesto a temperatura da cerveja e o astral despojado,
das Periferias . Escrita a muitas mãos de vá- alegre e participativo da “plateia” são capa-
rias nacionalidades durante o Seminário In- zes de facilmente transformar um visitante
ternacional de Periferias, realizado em abril pontual em frequentador contumaz.
no Complexo da Maré, na Zona Norte do Rio
de Janeiro, diz a Carta: CIDADE EM PEDAÇOS
O velho Aristóteles dizia que a cidade ideal
Leia em bit.ly/2q8BUrn
seria aquela que do ponto mais alto fosse

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CAPA

Por não frequentarem as periferias, quantos um lugar apenas para ser visto, é um lugar de
onde a gente consegue ver [o mundo] de forma
firmão./ Ei, Valdiza sem palavras, hein?/ Jairão tá
no coração, irmãozão./ Garotos de periferia saco-
londrinos deixaram de conhecer pessoalmente diferente”, reflete Heritage, que atualmen-
te trabalha no eixo Brasil-Reino Unido com
de a rede/ que vocês são o amanhã, certo? ...”

o maior dramaturgo de todos os tempos? movimentos culturais populares como o Nós


do Morro, da Favela do Vidigal, na Zona Sul
A psicanalista Maria Rita Kehl chegou a
analisar o notável sucesso do grupo em seu
do Rio, e o grupo AfroReggae. “Aprendi aqui livro A Fratria Órfã (Olho D’Água, 2008): “É a
que, para Shakespeare, aquela região onde ele capacidade de produzir uma fala nova e sig-
possível enxergá-la toda. A ideia presente Heritage, professor de Artes Cênicas na Queen montava as suas peças era o melhor ponto de nificativa sobre a exclusão, que faz dos Ra-
nesta concepção de pólis, segundo o econo- Mary Universidade de Londres, também vista para olhar o rei, a coroa, a cidade.” cionais MC’s o mais importante fenômeno
mista e sociólogo Marcelo Paixão, professor tem um bom argumento para mostrar o que musical de massas do Brasil dos anos 1990”.
do Departamento de Estudos Africanos e da podem estar perdendo aqueles que fecham SUJEITO PERIFÉRICO Para Tiarajú D’Andrea “... [os Racionais MC’s]
Diáspora Africana e do Instituto de Estudos os olhos para as periferias. Imagine o mundo Criado em um bairro da Zona Leste paulis- foram os principais expoentes de uma nova
Latino-Americanos Teresa Lozano, da Uni- sem Shakespeare. Por não frequentarem tana, o sociólogo Tiarajú Pablo D’Andrea, em forma de enxergar os territórios da pobreza
versidade do Texas (EUA), é a de que os habi- as periferias da cidade, quantos londrinos sua tese de doutorado, defendida no Departa- no Brasil, e, por extensão, o próprio Brasil...
tantes, mesmo não sendo uma família, são deixaram de conhecer pessoalmente mento de Sociologia da Universidade de São É fato que após o surgimento do grupo e do
como se fossem, pois há ali uma relação de aquele que viria a ser o dramaturgo mais Paulo, atribui à obra do grupo de rap Racionais impacto do discurso por eles elaborado nunca
identidade. “Se as pessoas de uma determi- influente de todos os tempos? O bardo e MC’s, cujo primeiro disco é de 1988, a criação mais a visão sobre a periferia foi a mesma.”
nada comunidade política ou social não com- sua trupe encenavam os espetáculos bem à de um novo entendimento sobre o que seja
partilham valores nenhum, [as relações] aca- leste do Rio Tâmisa, em uma das periferias periferia e a forte influên- O QUE SE QUER OLHAR?
bam virando uma grande confusão com todo mais degradadas de Londres na época. cia na autoimagem que os Em meados do ano
mundo batendo cabeça.”
De certo modo, a reflexão do acadêmico
“Shakespeare hoje parece ser um autor
do centro, e o meu trabalho é exatamente
moradores passaram a ter
de si mesmos.
Após os Racionais, passado, o Datafolha
Instituto de Pesquisas
descreve o que de fato ocorre nas grandes cida- ‘descentralizá-lo’” , conta o inglês. Intitulada A Formação nunca mais a visão e a Fundação Tide Se-
des em razão da polaridade centro-periferia. Para explicar como se “descentraliza” dos Sujeitos Periféricos: Cul- tubal realizaram um
Haveria nessas relações, segundo ele, uma al- Shakespeare, Heritage começa lembrando tura e política na periferia sobre a periferia foi levantamento em São
teridade sem simetria de poder e de direito. “O
centro pode muito e a periferia atua servindo
que o conceito de periferia não é apenas geo-
gráfico. “É também de identidade.” A univer-
de São Paulo , a pesquisa
trata do processo de sur-
a mesma Paulo em que 46% dos
moradores (foram ou-
ao centro.” Ou seja, o centro absorve das peri- sidade, por exemplo, é central na formação de gimento desse sentimento vidas 2.017 pessoas de
ferias mão de obra barata e isso, em princípio, conhecimento, mas dentro da instituição há centrado no orgulho da condição de “sujeito todas as regiões da cidade) associavam pe-
significa uma melhor posição. Mas não. Para disciplinas diferenciadas situadas na perife- periférico” , termo que autor utiliza para de- riferia à pobreza e à violência. Segundo o re-
Paixão, mesmo que a criminalidade fosse zero, ria do ensino, entre elas as Artes Cênicas. “O finir o “indivíduo que passa a agir politica- latório, 4 em cada 10 moradores declararam
ninguém sai ganhando com uma cidade toda teatro é um ato crítico e Shakespeare reunia mente a partir desse orgulho”. evitar bairros periféricos e um quarto dos
fragmentada em dimensões hierárquicas. nos séculos XVI e XVII cerca de 3 mil pessoas As letras das músicas do Racionais MC’s entrevistados disse ter sofrido preconceito
Como em qualquer tipo de instituição, co- em um espetáculo. Tinha potencial para de- são altamente críticas e costumam enfatizar em razão do local onde mora. Os indicadores
munidade ou agrupamento humano, quando safiar as autoridades. Por isso seu teatro era o discurso da falta, da pobreza e da violência. oficiais tampouco costumam ser portadores
se está fundamentado nessa lógica da frag- na periferia, onde aconteciam as lutas, as Mas também abordam as potencialidades da de boas notícias sobre as periferias.
mentação, as relações se traduzem em uma execuções, onde se fazia sexo, onde se ama- população. Em uma delas, Trutas e Quebradas, Mas esses números representariam uma
crise permanente, na qual ninguém se sente va, onde havia jogos ilegais. Gosto de pensar o o grupo, integrado por Mano Brown, Ice Blue, verdade absoluta? Jailson Souza e Silva critica
confortável. O que os dois lados perdem? O so- teatro de Shakespeare assim – diz Paul Heri- Edi Rock e KL Jay, homenageia dezenas de a metodologia aplicada em indicadores de
ciólogo explica que, nas relações, um polo não tage. Ele adorava estar nas periferias.” bairros nos arredores da cidade de São Paulo e órgãos como o Instituto Brasileiro de Geografia
pode ser compreendido sem o outro. “Como Quando desembarcou no Brasil, em 1991, o vários de seus personagens: e Estatística (IBGE) ou o Instituto de Pesquisa
dois territórios estranhos, o centro não pode produtor cultural foi trabalhar em presídios, “... Não sei de nada./ Não salvo e amo quem me Econômica Aplicada (Ipea), entre outros. “O
entender o que a periferia tem de mais legal onde por 15 anos produziu peças teatrais com ama./ Desprezo o zé-povinho e amo a minha que- IBGE chama favela e periferia de aglomerados
nem usufruir das formas de manifestação detentos, detentas e guardas. Essa experiên- brada./ Obrigado Deus por eu poder caminhar de subnormais e todos os seus indicadores são
cultural ou dos espaços coletivos de sociabi- cia lhe mostrou que, de um ponto de vista pe- cabeça erguida./ Ae Jaçanã, Serra Pelada, Jardim negativos. O Ministério das Cidades usa o termo
lidade que poderiam ser vividos por ambos. riférico (para ele, as cadeias são como perife- Ebron de fé./ Firmeza Valcinho./ E ae 9 de julho, é assentamento precário. A mídia e pessoas em
Do mesmo modo, a periferia poderia também rias), é possível enxergar o mundo com mais nós./ Wellington, Pulguento, tá valendo./ Calibre geral falam em comunidade carente. E o Ipea
ter no centro um local que fosse seu.” clareza, ideia que guarda semelhança com a do gueto, Raciocínio das ruas, Relatos da inva- chama as pessoas abaixo de um determinado
do grego Aristóteles. “Às vezes, quando pre- são... é a caminhada certa./ Serrano, resistente, nível de pobreza de ‘indigente’. Todos os juízos
PONTO DE VISTA cisamos avaliar algo que já conhecemos mui- são marcados negativamente. Como alguém
Leia em bit.ly/2pEt55V
O produtor cultural britânico Paul to bem, é preciso se deslocar. A periferia não é vai ter orgulho de nascer na favela, se é impelido

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CAPA

a ter vergonha da sua cor negra, de morar numa de é rio que curva./ Na margem da solidão./ Eu pessoas, as esquinas, o boteco, a calçada, o tiva, o centro histórico e afetivo da cidade,
quebrada, de seus pais serem trabalhadores sou um peixe dentro d’água./ Eu já nem me afogo sabor da vida urbana, as ruas tortas, os becos, para onde ainda convergem os eixos radiais,
manuais e terem origem nordestina?” em ilusão/. enfim, a vida real”, como afirma o arquiteto e segundo o arquiteto, foi se pulverizando em
Em sua opinião, esses indicadores oficiais As opções de vida feitas por Loredana de urbanista Marcos Cartum, ex-professor do policentros e tornou-se obsoleto. Já foi aban-
nem sequer expressam a verdade. Ele duvida Oliveira, 29 anos, produtora multimídia, co- Instituto de Arquitetura e Urbanismo da USP donado pela elite econômica, que prefere os
dos índices que dizem que bairros como Hi- municadora visual, poeta e frequentadora dos em São Carlos. Agora, no século XXI, é a glo- shopping centers, e agora vem sendo ignora-
gienópolis (região central de São Paulo) ou saraus da Zona Sul paulistana, também refor- balização que chega e põe em risco a identi- do também pelos moradores das periferias,
Morumbi (na Zona Sul) não têm nenhuma çam as dúvidas de Jailson Silva quanto à per- dade nas grandes cidades e os bairros perifé- que preferem ocupar e dar nova identidade
vulnerabilidade, enquanto o vizinho Campo cepção dos indicadores que medem a quali- ricos, por sua vez, tornam-se repositório do aos seus próprios bairros. O resultado é um
Limpo e São Miguel Paulista (no extremo les- dade de vida nas periferias. Ela nasceu em um ritmo da vida urbana que vai perdendo as suas vazio e eventuais reocupações desse centro-
te) são intensamente vulneráveis. “Por esses bairro pobre de São Paulo, foi adotada ainda características no centro. “Paradoxalmente, -referência por moradores de rua. “Ou seja,
indicadores, o Morumbi e Higienópolis são bebê por uma família italiana e criada em um explica Cartum, a essência identitária do cen- o centro vai deixando de ser a antítese da pe-
paraísos terrestres” , afirma. “Mas que indi- bairro “nobre” da capital. “Quatro anos atrás, tro vai ficando cada vez mais na periferia.” riferia e passando a ser a própria periferia.”
cador é esse que não mede a capacidade de as fiz o caminho inverso” , diz ela. “Fui criada na Vítima de uma perversidade especula- (Colaborou Amália Safatle)
crianças brincarem juntas na rua? Nesse sen- burguesia e voltei para a periferia por opção.”
tido, onde a vulnerabilidade é maior, no Mo- Esse regresso começou a despontar quando
rumbi ou em São Miguel Paulista? E a capaci- ela passou a dar aulas para crianças morado-
dade das pessoas de se reunir para produzir ras de ocupações em São Paulo. Por gostar de
coisas coletivas, onde é maior, em Itaquera ou escrever poesias e por ser mulher negra, foi TERRITÓRIO, UM PERSONAGEM
em Higienópolis?” , ques- gostando de frequentar
Se estivéssemos no campo das Ciências Naturais, poderíamos definir “território” como escreveu o geógrafo
tiona Jailson Silva. os saraus. Daí a se mudar
Milton Santos: “A área de influência de uma espécie animal, que exerce o domínio de forma mais intensa no
Aline Anaya, pedagoga
e poeta que atua no Cole-
"Tenho muito para um bairro do extre-
mo sul não demorou. “O
centro e que perde esta intensidade ao se aproximar da periferia, onde passa a concorrer com domínios de
outras espécies”. Mas, como estamos no campo das Ciências Sociais, o conceito é bem mais abrangente e, de
tiva Audácia, grupo femi- orgulho de ser preta Brasil é um país muito
novo, a melhor concisão é de Milton Santos:
nista “de quebrada” que preconceituoso e ser uma
busca dar visibilidade a e periférica", mulher negra dentro de
“O território é o chão e mais a população, isto é, uma identidade, o fato e o sentimento de pertencer àquilo
que nos pertence. O território é a base do trabalho, da residência, das trocas materiais e espirituais e da vida,
mulheres negras e perifé-
ricas através de atividades
diz a poeta uma realidade branca não
é fácil. Eu não tinha nem
sobre os quais ele flui. Quando se fala em território, deve-se, pois, de logo, entender que se está falando em
território usado, utilizado por uma dada população.”
socioeducativas, é por si noção da minha identida-
O uso político do termo território, ou territorialidade, segundo o próprio geógrafo, teria sido adotado a partir
só uma resposta aos questionamentos do so- de de mulher negra até vir parar aqui de volta” ,
do século XIX para tratar do papel desempenhado pelo Estado no controle das relações entre as classes sociais
ciólogo ativista da Favela da Maré. Ela tem 26 revela. Fluente em inglês e italiano, a comu-
e os espaços ocupados. Pelo tamanho e pelo enraizamento da desigualdade social hoje no Brasil, é possível
anos e faz tempo que trocou os programas que nicadora que hoje trabalha ensinando línguas
deduzir que o Estado ainda faça esta leitura de território, e não aquela, mais moderna.
fazia nas regiões centrais de São Paulo pelos estrangeiras em coletivos voltados para a edu-
Em entrevista nesta edição, a socióloga Maria Alice Setubal explica por que o território exerce papel
da Zona Sul. Frequentadora assídua de saraus, cação afirma: “Aqui me sinto mais à vontade,
importante no combate à desigualdade: “As políticas públicas não podem ser políticas homogêneas. Estamos
onde apresenta suas poesias, para ela a arte mais eu mesma”.
falando de pessoas diferentes, biomas diferentes, realidades sociais e econômicas completamente diferentes.
tem mesmo um papel fundamental nesse
Então, quando a gente fala que o território importa, estamos se referindo a espaços diferenciados, e as políticas
processo que está mudando o jeito de ser pe- O ESPÍRITO LOCAL públicas têm de estar de acordo com aquelas realidades”.
riférico. “A arte atrai pessoas e proporciona Para os gregos e os romanos, todo local
Territórios também remetem a questões fundiárias, que, por sua vez, também remetem à desigualdade.
identidade” , afirma. (podia ser a casa, a rua ou um pequeno bair-
Nas grandes cidades brasileiras crescem dois tipos de periferia: a dos bairros populares ocupados pelas
Apesar de crítica quanto a algumas letras ro) era dotado de um genius loci. Trata-se de
camadas mais pobres da população; e outra, meramente geográfica, dos grandes condomínios exclusivos,
dos Racionais MC’s, a poeta acredita que o gru- uma divindade ou um espírito que protege ou
cercados, policiados e dotados de uma ampla gama de serviços, de modo que a camada mais rica não precise
po teve, sim, um papel preponderante nessa dá uma certa identidade ao lugar. O arquiteto
necessariamente ir às ruas, aos centros urbanos.
transformação, pois introduziu um caráter italiano Aldo Rossi recuperou esse conceito
Segundo a socióloga holandesa Saskia Sassen, esse modelo de uso do território contribui para perenizar
político à condição de ser periférico. “Essa para reforçar suas críticas à vertente do mo-
ainda mais as desigualdades, não só no Brasil, mas em outras grandes cidades como Londres e Nova York.
pauta nos levou a fazer uma busca ancestral dernismo que, na primeira metade do século
Em palestra no “Seminário Internacional Cidades e Territórios: Encontros e fronteiras na busca da equidade”,
sobre quem somos – a periferia é construí- XX, propunha uma arquitetura mais racional
realizado no ano passado na Fecomercio, em São Paulo, ela disse que esses megaprojetos de condomínios
da por pessoas pretas e indígenas. Tudo isso e funcional que resultava em uma concepção
representam a negação do espaço urbano , uma vez que são territórios totalmente controlados. As pessoas
mudou o meu olhar. Tenho muito orgulho de urbanística planejada e asséptica. Ou seja,
que não têm poder podem, no máximo, trabalhar ali. O território urbano, ao contrário, são espaços “onde os que
ser preta e periférica” , disse Anaya, antes de faltava nela o genius loci.
não têm poder também conseguem criar uma história, uma cultura e uma economia”. (MC)
dar uma palinha da sua arte: Na mira do meu Em contraposição, na década de 1970 entra
Assista à conferência completa em bit.ly/2pWvo3p
sonho./ Na contradição do solo./ Eu na vida me em cena o chamado pós-modernismo, “que
exponho./ Minhas dores eu boto no colo./ Sauda- passa a valorizar nas cidades o encontro das

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REPORTAGEM GESTÃO PÚBLICA

Elaboração: Página22

FATORES E FORÇAS Fragmentação


da máquina

QUE INFLUENCIAM conforme


interesses

A DECISÃO DO partidários

GESTOR PÚBLICO Burocratização


de processos

Voo raso Falta de visão


sistêmica e
de conexão
dos serviços
Influenciados por múltiplos fatores, gestores públicos públicos

tomam decisões e alocam recursos sem conhecer a fundo


seu grande eleitorado: as populações periféricas

Excesso e
P O R A M Á L I A S A FAT L E sobreposição
de leis, gerando Pouco

“V
insegurança e preparo em Cultura política
indefinições administração no País voltada
ocê, cidadão, acredita que interesses da sociedade, pois se baseia na con-
pública para a busca
o gestor eleito para sua ci- quista do poder e na sua manutenção por outros do poder em si
dade cumpre as funções caminhos que não o da relação aberta e franca mesmo
Interesses
descritas acima?” com a população” , afirma Maristela Bernardo, corporativistas,
“Você, gestor, diante socióloga e consultora independente. Segun- por parte de
de uma autoavaliação, que nota atribuiria a si do ela, o padrão dominante é de que a gestão diversos sindicatos
de profissionais
mesmo?” funciona como um aporte [um instrumento] da que atuam na área
“E se avaliarmos especialmente as políti- política e não o contrário. Assim, a gestão está pública
Pensamento de
cas públicas voltadas para as periferias: ‘Como mais voltada para o horizonte de poder político curto prazo
essas populações têm sido atendidas?’” do que para a satisfação da população – isso em
As respostas a essas perguntas devem in- todos os níveis, do local ao nacional. Aparelhamento
dicar uma considerável distância entre as ex- Em tese, o voto seria o instrumento pelo dos movimentos
pectativas e aquilo que é efetivamente entregue sociais e
qual a população descontente sinalizaria ao
formação de Fortalecer os
à população, principalmente as suas parcelas gestor como trabalhar pelo bem da comuni- "currais" eleitorais conselhos das
menos favorecidas. Uma maneira de entender dade, com ética e transparência. Mas, exata- localizados periferias
– e então combater – esse descompasso é inves- mente para não perder o voto, muitas vezes
tigar os diversos fatores que influenciam o pro- o encaminhamento de problemas acontece
cesso de tomada de decisão do gestor, afetando a
qualidade dos serviços públicos prestados.
– só que a curto prazo. “Porque, se o gestor
apresentasse uma solução mais estruturante,
COMO O BOM GESTOR PODE SE BLINDAR
Não há como iniciar esse mapeamento agiria pensando a longo prazo, ou seja, além
sem partir de um olhar conjuntural da po- de uma possível gestão dele” , diz a socióloga. Criar políticas
lítica brasileira. Os tempos atuais, embora A capitalização do voto faz com que o enca- Ter uma específicas de
postura digna e Capturar a
traumáticos, têm sido pródigos em revelar as minhamento de soluções não necessariamen- inteligência estímulos e
republicana punições para
entranhas do sistema político, as quais reba- te seja o melhor, e sim tenha a finalidade de coletiva, usando
o máximo da Buscar formação o funcionário
tem diretamente na população, atingindo a ser percebido rapidamente, o que leva à perda tecnologia da e capacitação público que serve
ponta: as periferias de cada município. de eficiência do ponto de vista do bom aten- informação permanente as periferias

“Existe uma lógica básica do sistema políti- dimento à população. “Vemos, diversas vezes,
co que não é favorável ao bom atendimento dos que determinadas soluções [da gestão pública]

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GESTÃO PÚBLICA

são dinheiro jogado fora, pois atendem a in- ver uma inteligência por parte da Prefeitura ELEMENTOS DISPERSOS das estruturas de governo. Além da lógica elei-
A região da teresses localizados, sem fazer a conexão de para analisar esses dados e saber que a re- A falta de conectividade na gestão públi- toral, o gestor também é prisioneiro dos interes-
prefeitura regional
de M’Boi tem uma
um problema com o outro. Perde-se eficiência gião do M’Boi Mirim é diferente da região de ca também é apontada pelo empresário Ri- ses corporativos, que tomam conta da máquina
população de porque não se conecta problemas” , resume. São Miguel Paulista não só geograficamente. cardo Young, que foi vereador de São Paulo pública com um olhar muito voltado para seu
aproximadamente Mas também porque M’Boi possui uma im- entre 2013 e 2016 e acompanhou de perto as próprio beneficio. “Cada um dos diversos sindi-
600 mil pessoas
(563.305 segundo
TEMPO E ESPAÇO portante área de manancial e isso impacta ações do Executivo. catos – professores, médicos, enfermeiros, en-
A pesquisa,
dados de 2010) Some-se esse fator do curto-prazismo à fortemente em questões de habitação e des- Em linha de pesquisa que está de- genheiros, arquitetos, analistas e processadores na área de
maior que 8 capitais falta de uma visão do território, fazendo com locamento” , exemplifica Burgos. senvolvendo na Universidade de São Paulo, de dados – tem seu viés, sem necessariamente complexidade na
brasileiras, como gestão pública,
Florianópolis e
que gestores trabalhem sem considerar as es- Segundo Spink, os dados até permitem Young trabalha com a hipótese de que não dialogar com o programa de governo.”
pretende mapear
Vitória pecificidades locais. As periferias, por exem- abordar o território de modo mais geral. No se alcança um desenvolvimento sustentável O quinto fator, segundo ele, é o fato de os os gargalos
plo, são geralmente trabalhadas como uma entanto, como trabalhar na prática a territo- nas cidades – o que afeta sobretudo as popu- partidos se transformarem em corretores de que impedem
massa homogênea. Já o olhar territorial, que rialidade específica? É possível obter dados lações periféricas – porque há três elementos interesses localizados, levando à formação a integração
sistêmica entre
compreende a complexidade, permitiria ao sobre transporte, por meio da base de dados do essenciais dispersos: a sustentabilidade, o de “currais eleitorais”. E, por último, cita a a inteligência
gestor tomar decisões baseadas na conecti- Bilhete Único. Mas como saber a real deman- desenvolvimento das instituições e a inteli- própria qualificação do gestor. “O político urbana, a prática
vidade. E por que o gestor deve olhar para as da de mobilidade de mulheres, que transitam gência urbana (como aplicativos para gestão, tradicional é formado para ganhar eleições, socioambiental e
a atualização das
periferias em primeiro lugar? Simplesmente pela cidade entre casa, trabalho, creche, UBS e quantificação de serviços, medição de tempo tornou-se um especialista nisso. Por isso, instituições
por dois motivos: elas reúnem enorme parte escola dos filhos? “Só consigo saber me aproxi- de resposta do setor público e georreferen- quando chega no cargo de gestor, o preparo
da população e têm menor acesso a oportuni- mando dos territórios, o que sempre é um desa- ciamento). Quem trabalha em cada um des- que tem para gerir é muito pequeno. São pou-
dades e bons serviços. fio, inclusive para o gestor. Um grande número ses campos raramente se conecta com o outro cos os que possuem uma visão sistêmica.”
Nas bordas da Zona Sul da cidade de São de pessoas não significa ‘uma base de dados’; para trocar visões e incorporar práticas. Como sair dessa sinuca? Para Young, o ges-
Paulo, as populações di- significa ‘pessoas’” , frisa o Ele enumera seis fatores que influenciam tor precisa ter forte posição republicana, crian-
zem: “O Estado não chega professor. a tomada de decisão de um gestor público. do um espaço de diálogo o mais suprapartidá-
até a gente” , segundo re-
lato dos professores Peter
Embora acessem Reduzir a distância
entre os dados e as de-
Começa com a gestão sendo fragmentada
pela lógica eleitoral, ou seja, para se eleger,
rio possível, para não ficar refém de amarras
políticas. Deve capturar a inteligência cole-
Spink e Fernando Burgos, diversos serviços mandas das pessoas é o gestor precisa se render às alianças entre tiva, usando a tecnologia da informação e ga-
do Centro de Estudos em
Administração Pública e públicos, as um dos objetivos de uma
estação de pesquisa que
partidos. “De coalizão isso não tem nada: é
simplesmente a fragmentação da máquina
rantindo que não fique de fora quem tem algo
importante a contribuir. Também precisa ser
Governo (CEAPG), da Fun-
dação Getulio Vargas, que
periferias sentem o CEAPG montou em 2013
no M’Boi Mirim, envol-
pública de acordo com interesses partidá-
rios.” O segundo fator é a estrutura burocra-
formado e capacitado permanentemente, além
de oferecer boas condições para funcionários
desenvolvem pesquisas ausência do Estado vendo 25 a 30 pesquisa- tizada da administração pública, em que os públicos que trabalham nas periferias e maio-
nos distritos de Jardim São dores em temas como conselhos que permitiriam a participação res punições por desvios e faltas. Deve, por fim,
Luís, Jardim Ângela e Ca- desenvolvimento local, popular acabam virando espaço de troca e fortalecer os conselhos das periferias, tornan-
pão Redondo. Só que na região existem diversos conectividade e agricultura urbana . não de discussão aprofundada. Em terceiro, do-os mais resistentes ao jogo partidário.
postos de Unidade Básica de Saúde (UBS), vá- Para Spink e Burgos, os números são im- há um cipoal de leis – são mais de 9 mil –, e Mas claro que nada disso adiantará sem a
rias unidades do Centro Educacional Unificado portantes, mas não suficientes. Além disso, muitas se sobrepõem, gerando o que ele cha- vontade do próprio gestor de cumprir a fun-
(CEU), subprefeituras, muitos funcionários pú- se mal aproveitados, há o risco de levar as ma de “uma geleia de indefinições”. ção que assumiu, a de trabalhar para o bem
blicos e serviços em funcionamento. políticas públicas a sofrer do que apelidaram Outro problema, cita Young, é o aparelha- comum, em consonância com as leis. O que
Dados sobre Por que, então, essa percepção de que o Es- de “indicadorite”. “A área de educação é a que mento corporativo dos movimentos sociais e requer, antes de tudo, dignidade.
educação são tado é ausente? Para os professores, a razão está mais sofre de ‘indicadorite’ , ou seja, foi mui-
obtidos pelas na falta de conexão de serviços públicos que leve to reduzida a resultados quantificáveis. Não
escolas e censos
de educação; dados em conta os territórios e as demandas específi- traduzem o cotidiano. Sem isso, não se con-
sobre saúde, por
meio do Sistema
cas das pessoas em locais tão heterogêneos.
Por trás dessa falta de conexão está a au-
segue elaborar políticas com o grau de espe-
cificidade necessário” , diz Burgos.
O RECURSO CERTO NO LOCAL CERTO
Único de Saúde;
e dados sobre sência de uma inteligência no uso dos indica- Na visão de ambos, a vulnerabilidade ur- Quando as grandes cidades concentram esforços nas áreas mais vulneráveis, é possível reduzir
assistência, por dores para tomada de decisão sobre políticas bana tem um componente institucional ao desigualdades intramunicipais e proteger os direitos de crianças e adolescentes: esta é a conclusão do Fundo
meio dos Centros públicas e alocação de recursos. O problema, qual pouca gente presta atenção: a ausência de das Nações Unidas para a Infância (Unicef), que desenvolveu uma plataforma para monitorar e combater a
de Referência em
Assistência Social portanto, não reside na quantidade de dados, conexões ativas e cotidianas entre as diferen- desigualdade nas grandes cidades. Trata-se da Plataforma dos Centros Urbanos, lançada em parceria com a
(CRA) e Centros que são abundantes. O município de São Pau- tes instituições básicas. “Por isso que há esta prefeitura e o Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente (CMDCA) de cada município.
de Referência lo, por exemplo, dispõe de muitos indicadores sensação de que o Estado não chega” , diz Spink. Nos últimos três anos, oito capitais brasileiras participaram da iniciativa: Belém, Fortaleza, Maceió, Manaus,
Especializado de
Assistência Social sobre as periferias no que se refere aos três Rio de Janeiro, Salvador, São Luís e São Paulo. Conheça os resultados em goo.gl/KVIkJS.
(Crea) grandes sistemas educação, saúde e as- Saiba mais sobre a Estação de Pesquisa de M’Boi em
ceapg.fgv.br/m-boi/sobre-estacao
sistência social. “No entanto, é preciso ha-

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REPORTAGEM INDICADORES

Ponto cego
POR FÁBIO RODRIGUES
FOTO DICAMPANA FOTO COLETIVO

Dados certeiros poderiam oferecer


uma visão mais clara das mazelas das periferias
e ajudar os gestores públicos a saná-las

É
como um diagnóstico médico. Se a situação de cada escola ou posto de saúde
errarem a doença que você tem, ne- individualmente. Para chegar ao quadro ge-
nhum tratamento dará certo” , resume ral que os gestores locais realmente preci-
a pesquisadora do Observatório das sam, no entanto, ainda é necessário ligar os
Metrópoles e professora da Faculdade pontos. “Você tem sistemas que geram uma
de Arquitetura e Urbanismo da Universidade massa de informação, mas isso não produz
de São Paulo (FAU/USP) Suzana Pasternak, ao inteligência suficiente para olhar os territó-
tentar explicar o que leva ao naufrágio tantas rios analiticamente”, ressalta.
políticas voltadas para a periferia.
Chega a ser um tanto desconcertante que MATÉRIA-PRIMA DISPONÍVEL
o principal problema a ser enfrentado hoje Em princípio, as prefeituras não estão fa-
ainda seja o desconhecimento da realida- zendo nada de errado ao recorrer a dados pro-
de. Afinal, estamos praticamente imersos duzidos externamente. É o que garante a pro-
em dados. Nos últimos anos, as prefeituras, fessora do curso de Arquitetura e Urbanismo
especialmente as das maiores cidades, vêm da Universidade Federal de Santa Catarina
acumulando verdadeiras montanhas de (UFSC), Adriana Rossetto, dedicada ao estudo
indicadores com o propósito explícito de de indicadores há mais de duas décadas. “Usar
Ferramenta ajudar seus gestores a tomar decisões melho- indicadores coletados por órgãos nacionais
que traduz uma res. Em São Paulo, por exemplo, o Departa- como o IBGE [Instituto Brasileiro de Geografia
situação ou
fenômeno por meio
mento de Produção e Análise de Informação e Estatística] é válido. Temos de transformar
de informações (Deinfo) da Prefeitura de São Paulo conta com esse investimento em algo útil” , diz.
sintetizadas em uma equipe multidisciplinar de 26 pessoas Tanto é assim que prefeituras vistas
um número de
forma a permitir responsável por manter atualizada uma cesta como referência no assunto recorrem a bases
seu monitoramento de 287 destes números . nacionais. “Grande parte dos dados que
sistemático Ainda assim, as prefeituras parecem so- processamos é produzida por instituições
frer de uma peculiar hipermetropia quando o altamente especializadas” , reconhece a geóloga
assunto é o que acontece em suas periferias. Luciana Pascarelli, que, desde fevereiro, dirige
Isso porque, segundo o demógrafo e pesqui- o Deinfo de São Paulo.
sador do Centro Brasileiro de Análise e Pla- Não que esses dados sejam imprecisos. En-
nejamento (Cebrap) Haroldo Torres, as bases tre as pessoas entrevistadas nesta reportagem,
de dados nacionais não são produzidas den- há consenso de que temos dados de boa qualida-
tro de um referencial territorial. São infor- de disponíveis. “Comparado a outros países da
mações “granulares” que dizem muito sobre América Latina, o Brasil tem boas bases de da-
dos, como as do IBGE, do Inpe [Instituto Nacional
Os números podem ser consultados no portal ObservaSampa: de Pesquisas Espaciais] e de diversos ministérios.
observasampa.prefeitura.sp.gov.br
É um conjunto bom para orientar processos de

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INDICADORES

tomada de decisão” , avalia a coordenadora do


Núcleo de Indicadores de Desenvolvimento e
tados, porque nenhum gestor tem condições de
acompanhar tudo” , diz Adriana Rossetto. É na falta de informações devidamente
georreferenciadas que grande parte dos problemas
Pesquisa (Nidep), Diva Paz. No entanto, para ganhar agilidade é preci-
so abrir mão de uma parte da precisão do in-
FALSA SIMPLICIDADE
típicos das periferias some dos indicadores
dicador. “Quanto mais você aglutina a infor-
Vistos de uma certa distância, os indi- mação, mais o indicador se afasta da realidade
cadores parecem medidas objetivas e uni- que busca demonstrar” , alerta a pesquisadora.
versalmente válidas da realidade, mas essa Esse é o momento crucial para compreender
simplicidade desaparece conforme vamos corretamente os objetivos com que cada indi-
O Índice de nos aproximando. Adriana Rossetto ressalta cador foi criado e o que realmente significa.
Desenvolvimento que uma simples média – ferramenta mate- Um indicador simples largamente usado é o é essencial para a compreensão das necessi- Sem ter essas informações devidamente
Humano (IDH) mática inevitável ao lidar com indicadores – que informa quantas ruas contam com sanea- dades e potencialidades específicas de cada estruturadas, fica difícil ter uma ideia cla-
combina a
expectativa de vida, pode levar a erros crassos de entendimento mento. Esse é um dado inegavelmente impor- região da cidade. Também é o grande desafio ra sobre eventuais desigualdades na forma
o grau de educação da realidade. “Digamos que uma pessoa está tante, mas, isoladamente, resulta em apenas que as prefeituras precisam enfrentar muitas como as prefeituras gastam seu dinheiro.
e o PIB per capita. com a cabeça no forno e os pés no congela- um quadro quantitativo. “E o qualitativo? É isso vezes sem ter o instrumental necessário [leia “Quase não existe informação orçamentária
É usado pela ONU
para comparar a dor. Na média, a temperatura está boa. Mas, o que precisamos saber para entender a relação quadro]. “É importante analisar o indicador e georreferenciada. Você não consegue saber
qualidade de vida na verdade, não está nada bem”, exemplifica a entre saneamento e espaço” , explica Rossetto. conectá-lo com a realidade municipal, algo onde são feitos os investimentos e para onde
em diferentes professora da UFSC. É a chamada dimensão intraurbana dos da- que exige das prefeituras técnicos com expe- vão os salários”, critica Torres.
países
Esse é um dos ralos por onde as especifici- dos que, não raro, acaba se perdendo quando riência”, avalia Luciana Pascarelli, do Deinfo. Sem esses ajustes finos, o diretor-executivo
dades das periferias escorrem. Mas há várias os indicadores são montados com base em in- O diretor-executivo do Instituto Soma – do Instituto Soma afirma que ficam em
outras armadilhas no caminho. Embora mui- formações compiladas especificamente para a organização com a missão de fortalecer a go- suspenso os ganhos na qualidade do trabalho
tos indicadores sejam de entendimento direto escala nacional por órgãos federais. “Tais indi- vernança dos municípios brasileiros –, André do poder local que o uso de indicadores poderia
– expectativa de vida ou mortalidade infantil cadores não permitiriam a leitura e a identifi- Luis Moraes, advoga que as prefeituras assu- trazer e, com isso, as administrações acabam
são medidas pouco controversas –, há casos cação direta dos locais onde estão concentrados mam um papel mais ativo na coleta dos da- reincidindo no velho voluntarismo. “Os
em que é necessário aglutinar diversas infor- os problemas” , pontua Sibele Fiori, arquiteta da dos que compõem seus indicadores. “As pe- municípios trabalham por impulso político” ,
mações para produzir um índice complexo. Por Prefeitura de Passo Fundo, no Rio Grande do Sul. riferias têm uma riqueza de diferenças. Cada comenta Moraes, do Soma, acrescentando que
exemplo, o IDH. “A agregação dá bons resul- Reconstituir esse aspecto dos indicadores cidade precisa coletá-las e sistematizá-las. as prefeituras estão sempre sobrecarregadas
Realidades diversas precisam ser tratadas de demais pelo dia a dia e sem recursos para
maneira diversa” , afirma. analisar os indicadores de forma sistemática.
Para Haroldo Torres, do Cebrap, ainda “Sem essa sistematização, ficam ‘dando murro
“temos pouca informação qualitativa sobre em ponta de faca’ e repetindo experiências
UM PROBLEMA DE GRANDES A PEQUENOS MUNICÍPIOS o serviço [público] prestado”. Segundo ele, é que já não deram certo no passado” , lamenta.
na falta de informações devidamente georre-
Ter dados confiáveis resolve só parte do problema. Saber o que fazer com eles é igualmente importante.
É nesse ponto que se forma uma zona de turbulência das mais complicadas no que diz respeito ao uso de
ferenciadas que grande parte dos problemas PRECISA QUE DESENHE?
típicos das periferias some dos indicadores. Contar com informações mais “mastiga-
indicadores na gestão dos problemas urbanos.
Os dados escolares, por exemplo, dificilmen- das” não é só uma questão de conveniência.
Muitas prefeituras ainda estão longe de desenvolver as competências necessárias para o uso desse ferramental.
te mostram o perfil dos professores de cada Alguns fenômenos só se tornam legíveis de-
Diva Paz, coordenadora do Núcleo de Indicadores de Desenvolvimento e Pesquisa (Nidep), viveu uma imersão nessa
escola. “Escolas em bairros periféricos têm pois de traduzidos visualmente. No auge da
realidade na época do lançamento do Portal ODM, dedicado ao acompanhamento dos Objetivos de Desenvolvimento
muitos substitutos e muitas faltas, mas, como polêmica em torno do anúncio de que a atual
do Milênio. A equipe que coordenava realizou seminários que atingiram cerca de mil municípios. “Tirando capitais e
isso não aparece nos dados públicos, não en- administração da Prefeitura de São Paulo,
cidades maiores, [os servidores] têm grande dificuldade de lidar com essas informações”, lamenta.
tra nos debates como deveria” , exemplifica. sob o comando de João Doria, estava pensan-
Essa é uma percepção reforçada por André Luis Moraes, diretor-executivo do Instituto Soma. “Há cidades
Entre as ausências mais desconcertantes do em fechar as farmácias municipais para
que não têm um corpo técnico estruturado ou as ferramentas de informática necessárias”, afirma. Além disso,
mencionadas por Torres está a falta de orça- começar a distribuir medicamentos pelas
imersas no trabalho do dia a dia, as equipes nem sequer dão conta de absorver mais essa responsabilidade.
mentos municipais devidamente espaciali- redes particulares, o estudante de Geografia
Segundo a professora de Arquitetura e Urbanismo da UFSC Adriana Rossetto, historicamente, as prefeituras
zados. Em São Paulo, por exemplo, é relati- Hugo Nicolau Barbosa de Gusmão publicou
nem sempre foram exigentes com a qualificação de seus quadros. “Dificilmente vemos um incentivo para que
vamente fácil saber quanto a prefeitura gasta em seu blog Desigualdades Espaciais uma
esses servidores se atualizem. Essa é uma herança que precisa ser vencida”, afirma.
por área de atuação , mas não como esses série de mapas comparando a distribuição de
É um contexto que só piora pelo fato de que muitas cidades trocam parte substancial de suas equipes a cada
desembolsos estão distribuídos geografica- ambas as redes pela cidade .
mudança de administração, resultando em descontinuidades. “Isso dificulta a capacidade de gestão e contribui
mente. O mais perto que dá para chegar é por
para a ruptura dos processos de monitoramento”, comenta a arquiteta Sibele Fiori, da Prefeitura de Passo Fundo.
A Open Knowledge Brasil possui um mapeamento dos
meio dos relatórios de execução orçamentária
orçamentos de algumas capitais brasileiras. Acesse em
que as 32 prefeituras regionais da cidade di- paraondefoiomeudinheiro.org.br
Acesse em goo.gl/dZvYlp
vulgam – um processo excessivamente árduo.

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INDICADORES MAURICIO ÉRNICA
Professor da Faculdade de Educação da Unicamp artigo

O sistema escolar reduz ou reproduz


"A sociedade ainda não está sendo chamada a desigualdades?
participar diretamente do planejamento urbano, mas As disparidades socioespaciais, ao separar fisicamente os grupos sociais e produzir

já entende melhor a parte do controle", diz professora diferentes estruturas de oportunidades na educação, reforçam as iniquidades

A
s desigualdades educacio- vergem ainda em outro importante re- Ao contrário, o sistema escolar possui
nais das grandes metrópoles sultado. Torres, Bichir, Gomes e Carpim relativa autonomia. Em sua configura-
estão, comumente, asso- verificaram a persistência de desigual- ção observável, cumpre papel ativo na
Em uma mera “batida de olho” , ficava pa- poder público. A apropriação dos indicadores
ciadas a suas desigualdades dades educacionais entre indivíduos produção dessas desigualdades, antes
tente o quanto a decisão da prefeitura preju- pela sociedade é uma perspectiva que entusias-
socioespaciais. O que sabemos, a esse residentes em regiões diferentes da de mais nada porque distribui oportu-
dicaria os moradores dos bairros mais afasta- ma Adriana Rossetto. “Começamos a entrar na
respeito, sobre o caso paulistano? cidade, porém com características so- nidades educacionais desigualmente,
dos. “Como sou nascido e criado em Cangaíba, questão da governança. A sociedade ainda não
Os pesquisadores Graziela Perosa, ciais similares, tais como renda familiar, favorecendo os grupos mais ricos e es-
na Zona Leste, sei que não tem farmácia de está sendo chamada a participar diretamente
Frédéric Lebaron e Cristiane Leite de- escolaridade dos pais, sexo e etnia. Eu e colarizados da cidade, habitantes das
rede. Só temos lojas de bairro por aqui” , diz. do planejamento urbano, mas já entende me-
monstram que, nas regiões mais perifé- Batista sustentamos que, a uma mesma regiões mais privilegiadas, e desfavore-
Gusmão ressalta que os dados já estavam lhor a parte do controle”, comemora.
ricas e mais pobres da cidade, com taxas faixa de renda familiar e a um mesmo ní- cendo, em relação a estes, todos os de-
disponíveis na forma de tabelas, mas que, ao Seria uma forma de nivelar um pouco o jogo
baixas de conclusão do Ensino Médio, vel de escolarização dos pais, alunos que mais grupos, porém mais agudamente a
mapeá-los, a compreensão foi imediata. político e dar mais voz à sociedade. “Quan-
praticamente a totalidade das matrí- estudam em escolas localizadas em ter- população mais pobre e menos escolari-
“Sabe aquela história de ‘precisa que de- to mais os dados brutos são abertos, maior a
culas na Educação Básica distribui-se ritórios com diferentes níveis de riqueza zada, habitante das periferias.
senhe’? Os mapas conseguem pegar infor- chance de a sociedade civil construir as pró-
pelas escolas públicas. Por sua vez, nas costumam ter desempenhos escolares Espera-se do sistema escolar, con-
mações muito densas e as tornam compreen- prias narrativas. Não é sempre que acontece
regiões mais ricas, onde há os maiores distintos. Assim, enquanto alunos mais tudo, que atue para reduzir desigualda-
síveis”, afirma o estudante, acrescentando essa apropriação, mas é o ideal” , opina o di-
percentuais de diplomados no Ensino pobres alcançam níveis melhores que des. Para tanto, é urgente que se altere
que essa é uma ferramenta “muito negligen- retor-executivo da Open Knowledge Brasil
Superior, as matrículas concentram-se seus semelhantes quando estudam nas a lógica de distribuição dos recursos
ciada”. Para tentar popularizá-la, ele organi- Ariel Kogan, ressaltando que o ambiente di-
em escolas privadas, e muitas delas são escolas mais centrais e mais ricas, alu- educacionais, destinando-se mais e me-
za cursos periódicos sobre o assunto. gital oferece uma grande oportunidade para
as que possibilitam o acesso às carreiras nos mais ricos têm resultados mais bai- lhores recursos para as regiões mais po-
O trabalho de mapeamento realizado pelo a criação de um novo campo democrático.
mais valorizadas do Ensino Superior. En- xos que seus pares quando estudam nas bres. Porém, não de modo a se produzir
estudante aponta para uma direção relevante. “Não há periferias no ambiente digital” , en-
tre esses extremos, nos grupos médios, escolas mais periféricas e mais pobres. a distribuição igual desses recursos. Há
Os indicadores não são apenas ferramentas de cerra (leia mais sobre tecnologia em reportagem
nos quais predomina como maior diplo- Temos evidências, portanto, de que mais de meio século sabe-se que, sob a
gestão, mas também armas de pressão sobre o à pág. 42).
ma o Ensino Médio, verifica-se tanto a as desigualdades socioespaciais, ao se- aparente igualdade de oferta, a lógica
demanda por escolas privadas de menor pararem fisicamente os grupos sociais e escolar favorece estudantes de famílias
custo como a procura por instituições ao produzirem estruturas de oportuni- mais escolarizadas e com práticas cultu-
públicas de reconhecida qualidade. dades educacionais muito desiguais para rais de maior legitimidade, sobretudo as
DESERTOS ALIMENTARES TAMBÉM SÃO INDICADORES Essas instituições públicas de me- os habitantes das diferentes regiões, não escolares. Por isso, universalizar a
lhor qualidade, contudo, são distribuí- terminam por produzir trajetórias edu- escola que pressupõe os grupos médios
Toda vez que o tema indicadores vem à tona, os olhares voltam-se, quase automaticamente, para os das desigualmente na cidade. Segundo cacionais desiguais para os diferentes e as elites escolarizadas realimentaria,
serviços públicos. Mas as periferias também são, muitas vezes, ignoradas pelo setor privado. Uma forma Haroldo Torres, Renata Bichir, Sandra grupos, contribuindo para a reprodução de outro modo, mecanismos de repro-
particularmente aguda dessa lacuna vem sendo explicitada pelo conceito de “desertos alimentares” – a Gomes e Thais Regina Carpim , a ofer- de desigualdades sociais. dução de desigualdades.
percepção de que, em muitas vizinhanças, não há oferta de alimentos frescos, o que, na prática, contribui para a ta de educação pública regular é mais Muito embora se deva reconhecer Nos territórios mais pobres, é preci-
adoção de dietas com base em alimentos processados e pouco nutritivos. precária nas periferias do que nas áreas a força desses mecanismos, há conse- so políticas específicas. Neles, a política
“Esse conceito, cunhado nos Estados Unidos, olha para o poder de compra e a distância em relação a lojas centrais. O autor deste artigo e Antônio quências políticas do fato de indivíduos educacional não pode estar separada
que vendam alimentos in natura”, explica Fernanda Carreira, coordenadora do Programa de Formação Integrada Augusto Batista , investigando as de- com características sociais semelhan- de outras políticas sociais, a começar
do Centro de Estudos em Sustentabilidade da Fundação Getulio Vargas (GVces). Mapear a situação dos desertos sigualdades educacionais existentes no tes terem resultados escolares dife- por aquelas capazes de assegurar, du-
alimentares em São Paulo é justamente a missão dos alunos da décima quarta turma do FIS, uma disciplina da interior de uma subprefeitura da Zona rentes, associados a características do radouramente, condições mínimas de
FGV-Eaesp oferecida a alunos e alunas da graduação. Leste da cidade, mostram que, nessa território em que se localiza a escola em subsistência, para que as famílias pos-
Ainda não foram consolidados indicadores capazes de dar conta do problema, mas já é possível traçar região, quanto mais rico é um microter- que estudam. Isso nos convida a pensar sam liberar tempo e energia para essa
diferenças entre o Brasil e os EUA. O problema por aqui parece estar menos ligado à oferta em si – as ritório, melhores costumam ser os indi- que o sistema escolar não é um canal atividade que requer esforços contí-
periferias brasileiras contam com sacolões e feiras livres – do que a outros fatores. “Há questões culturais cadores educacionais de suas escolas. neutro de conversão de desigualdades nuos, cotidianos e de longo prazo, que é
e, principalmente, ligadas a tempo. Como as pessoas trabalham, estudam e ainda passam horas no trânsito, Esses dois últimos trabalhos con- sociais em desigualdades educacionais. a escolarização.
acabam não tendo como se alimentar melhor”, diz.
PEROSA, G. S.; LEBARON, F.; LEITE, C. K. S. O espaço das desigualdades educativas no município de São Paulo. Pro-Posições, Campinas, v. 26, n. 2 (77), p. 99-118, maio/ago. 2015.
TORRES, H. G.; BICHIR, R. M.; GOMES, S.; CARPIM, T. R. P. “Educação na periferia de São Paulo: Ou como pensar as desigualdades educacionais.” In: RIBEIRO, L. C. Q.; KAZTMAN, R. (Orgs.).
A Cidade contra a Escola? Segregação urbana e desigualdades educacionais em grandes cidades da América Latina. Rio de Janeiro: Letra Capital; Montevidéu: Ippes, 2008. p. 59-90.
ERNICA, M.; BATISTA, A. A. G. “A escola, a metrópole e a vizinhança vulnerável.” Cadernos de Pesquisa. Fundação Carlos Chagas: São Paulo, v. 42, n. 146, p. 640-666, maio/ago. 2012.

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REPORTAGEM PARTICIPAÇÃO E POLÍTICA

Articulação,
palavra-chave
Iniciativas buscam reduzir a distância entre as populações
periféricas e o poder público. Em São Paulo, plano de bairro
surge como alternativa de mobilização

POR ANDREA VIALLI


FOTO DICAMPANA FOTO COLETIVO

E
ntre as Várzeas do Rio Tietê, com e planejamento urbano apontam o Plano de
uma história que remonta aos índios Bairro como o mais promissor mecanis-
Guaianazes e à migração nordestina mo de participação popular nas metrópo-
atraída pelos empregos da indústria les. Mas, afinal, o que é um plano de bairro?
química, São Miguel Paulista pul- Considerado a primeira instância de par-
sa vibrante como um polo local de comércio ticipação da população no planejamento da
e serviços no Extremo Leste de São Paulo. O cidade, o Plano de Bairro é um dos instru-
distrito populoso, com 369 mil moradores, mentos trazidos pelo Plano Diretor do Muni-
abriga o Jardim Lapenna, bairro localizado cípio de São Paulo (artigos 43 e 44 da Lei nº
entre a linha do trem da Companhia Pau- 13.885/04), que prevê a divisão da cidade em
lista de Trens Metropolitanos (CPTM) e um bairros, o estímulo à participação das pre-
terreno público, parcialmente ocupado pela feituras regionais (antigas subprefeituras) e
população ao longo das últimas três décadas. conselhos de representantes na elaboração
A região carrega o ônus comum às periferias de planos locais. Além disso, fornece diretri-
Fundação Getulio das grandes metrópoles: baixo IDH em com- zes para a participação popular.
Vargas (FGV),
Fundação Tide paração à média paulistana; maior índice de Para o cidadão, é a oportunidade de ter
Setubal, Faculdade desemprego, especialmente entre os jovens; representatividade nas decisões que dizem
de Arquitetura falta de equipamentos de lazer; saneamento respeito ao local onde vive e de canalizar
e Urbanismo
(FAU-USP), básico precário, com baixa cobertura da rede diversas demandas para uma só direção. “O
Parque Várzeas do de esgotos e vulnerabilidade a enchentes. benefício mais óbvio do Plano de Bairro con-
Tietê, Secretaria É do Jardim Lapenna que deverá sair o pri- siste no fato de que ele permite unir várias
Municipal de
Habitação, meiro Plano de Bairro da cidade de São Paulo demandas em um só movimento participa-
Companhia de depois da revisão do Plano Diretor Estratégi- tivo. Nas periferias as necessidades são mui-
Desenvolvimento co, aprovada em 2014. Desde o ano passado, tas – é o problema da drenagem, do lixo, da
Habitacional e
Urbano (CDHU) e diversos atores ligados ao bairro estão escassez de serviços públicos” , afirma Ciro
ONG Águas Claras tomando parte nesse novo eixo de atuação Biderman, coordenador do Centro de Política
no território. Especialistas em participação e Economia do Setor Público da FGV.

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PARTICIPAÇÃO E POLÍTICA

Segundo ele, os cidadãos brasileiros hoje todos os passos e participem do processo” , diz trazer creches, a UBS e pontos de leitura para o sa, para que não agrida a dinâmica local.
dispõem de poucos instrumentos de media- ele. A expectativa é de que a adesão dos mora- bairro. Hoje a Fundação Tide Setubal também Na prática, é preciso entender a região, a
ção com o poder público. Nas grandes cida- dores seja representativa, graças ao histórico faz a gestão compartilhada com a comunida- comunidade e como seus diferentes atores se
des, as prefeituras regionais ajudam a redu- de engajamento dos moradores do bairro na de de dois equipamentos sociais: o Galpão de comunicam, antes de qualquer intervenção
zir essa distância, mas, na prática, contam luta por melhorias para o território. Cultura e Cidadania e o CDC Tide Setubal, que – seja de caráter formativo, seja de agrega-
com pouco poder de decisão. Quando se tra- Há casos em que as instâncias de participa- está dando lugar à construção de um Centro de ção das pessoas. Um grupo de ribeirinhos da
ta dos moradores das periferias, o abismo é ção popular são canalizadas com a ajuda de uma Educacional Unificado (CEU). Amazônia terá um processo participativo
ainda maior – eles veem o Estado e os entes organização, que cumpre o papel de direcionar a Agora, com a elaboração do Plano de Bair- muito diferente de um grupo de uma perife-
públicos como ineficazes e apenas interes- energia local para objetivos específicos. Atuan- ro, o desafio é encarar as demandas atuais, ria da cidade grande, exemplifica. “O prin-
sados em arrecadar impostos sem dar uma te no Jardim Lapenna há mais de uma década, a como a melhora dos indicadores de habitação cípio básico de um processo participativo é
contrapartida aos cidadãos, especialmente Fundação Tide Setubal começou seu trabalho e infraestrutura urbana, e desenvolver articu- construir algo com o grupo, e não para ele.
os que vivem longe dos bairros centrais e em no bairro como agente tradicional do Terceiro lações para influenciar políticas públicas que Não pode ser top-down [de cima para baixo],
condições mais precárias. Isso ficou eviden- Setor, buscando contribuir com escuta, criação assegurem um futuro sustentável. Além disso, é aí que muitas instituições erram em suas
te na recente pesquisa conduzida pela Fun- de vínculos, presença e diálogo. Aproximou-se o trabalho tem outro objetivo, que é construir tentativas de organizar mecanismos parti-
dação Perseu Abramo, Percepções e Valores de lideranças locais, ajudou a estabelecer equi- uma metodologia para a montagem de um pla- cipativos”, diz.
Políticos nas Periferias de São Paulo . pamentos públicos locais e realizou atividades no de bairro que possa ser replicada em outras
Para Biderman, é neste momento que o culturais e esportivas. Depois, voltou-se para periferias – nesse sentido, já há conversas em FAZER JUNTO
processo de construção de planos de bairro, uma maior oferta de serviços à população, in- andamento com lideranças do Grajaú, na Zona Esse ponto de partida de construir uma
como o que está sendo desenhado no Jardim tervenções em escolas públicas e a construção Sul de São Paulo. história junto com e não para a comunidade
Lapenna, torna-se significativo: permite unir do Galpão de Cultura e Cidadania, um marco Os meios de organização e participação está na atuação da Fa.Vela, de Belo Horizonte,
a comunidade local, que já tem para os moradores. popular diferem de acor- ONG que tem como obje-
um histórico de participa- O passo seguin- do com características tivo identificar e estimu-
ção e mobilização social, em
torno de novas questões que
As periferias veem te foi expandir sua
atuação nas escolas,
próprias de cada região,
como perfil demográfico,
Construir algo com o lar o “empreendedorismo
de base favelada” em três
afetam a vida dos moradores. o Estado como com a formação de histórico de mobilização grupo e não para ele grandes comunidades da
Nos últimos anos, o bairro
recebeu um intenso fluxo de ineficaz, interessado professores desen-
volvida com meto-
social ou região geográ-
fica. Mas há um ponto em é o princípio básico Região Metropolitana de
BH e capacitar os morado-
ocupação, o que contribuiu
para que a população saltas-
apenas em dologias próprias. A
partir de 2011, a Fun-
comum que une as peri-
ferias ou mesmo regiões
de um processo res em gestão de negócios
e na economia criativa e
se de cerca de 1.100 morado- arrecadar impostos dação passou a atuar centrais socialmente de- participativo solidária. Ainda que os
res em 2010 para os mais de 3 de forma mais inten- sassistidas do Oiapoque temas como participação
mil atuais. Com novas mo- sa em articulação e na ao Chuí: a necessidade de social e política não fos-
radias erguidas em condições irregulares, ampliação de parcerias com agentes locais, representatividade. “O processo participati- sem do escopo inicial do grupo, hoje eles per-
praticamente dentro de um córrego afluen- instituições privadas e o poder público. As- vo é algo ainda muito novo para o Brasil, são passam os fóruns e workshops realizados pelo
te do Rio Tietê, essa fração do bairro, conhe- sim, procurou fortalecer instâncias de parti- poucas décadas em que esses mecanismos Fa.Vela. “A descrença na política tradicional e
cida como “Baixo Lapenna” , está ainda mais cipação social, como o Fórum de Moradores estão se desenrolando e essas capacidades a vontade de fazer a diferença dentro da pró-
vulnerável a enchentes, o que gera um qua- do Jardim Lapenna, e ajudou a intermediar estão sendo construídas” , afirma Letícia Ar- pria comunidade são elementos que a gente vê
dro de tensão entre os antigos moradores e a relação do bairro com atores externos ao thuzo, pesquisadora do programa de Desen- cada vez mais presente no discurso dos mora-
os recém-chegados. território. Segundo José Luiz Adeve, coorde- volvimento Local do GVces. dores”, diz o administrador de empresas João
nador de projeto da Fundação Tide Setubal, o No âmbito do programa Cidades Susten- Souza, cofundador e presidente do Fa.Vela.
ENGAJAMENTO primeiro momento de mobilização no Jardim táveis – uma cooperação entre o GVces e o A ONG trabalha com quatro programas de
O trabalho participativo do Plano de Bairro Lapenna realizou-se pela educação e pela Instituto Arapyaú –, Arthuzo mapeou mais aceleração de pequenos negócios. O primei-
ainda está no início. Além das instituições con- saúde, que foi bem-sucedido graças a uma de 200 experiências de participação da so- ro envolve capacitação para microempresas
vidadas, o desafio agora, segundo Biderman, grande vocação solidária no bairro. ciedade civil, e esteve presente em inicia- tradicionais (das áreas de alimentação, cons-
é comunicar a população do Lapenna sobre as “O Fórum de Moradores foi fundamental tivas em regiões tão diferentes quanto Três trução civil, serviços de estética). O segundo, o
instâncias de participação e conseguir uma boa para que a população conquistasse equipa- Lagoas, em Mato Grosso do Sul, e Sobral, Favela Resiliente, é voltado para o incentivo de
adesão para os fóruns e discussões. “Usaremos mentos públicos importantes. Quanto mais no Ceará. Com experiência também em negócios de impacto socioambiental, e já gerou
desde mídias sociais até aplicativos de celular qualificadas e conscientes de seus direitos as trabalhos de desenvolvimento local entre novas empresas na área de reciclagem e servi-
que exijam baixa conectividade para garantir pessoas se tornam, mais ganhos são possíveis” , comunidades ribeirinhas na Amazônia, a ços de lavagem de veículos sem uso de água.
que as pessoas do bairro sejam informadas de conta Adeve, mais conhecido na vizinhança pesquisadora afirma que a interferência Outro programa dedica-se aos “hackers da
como “Cometa”. A mobilização social, articu- de atores externos (como ONGs, academia favela”
, jovens com interesse e inclinação tecno-
Acesse a pesquisa aqui: goo.gl/cvvSd6
lação e interlocução institucional ajudaram a ou agentes públicos) precisa ser cuidado- lógica, para que desenvolvam suas habilidades e

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RICARDO SENNES
PARTICIPAÇÃO E POLÍTICA Economista, doutor em Ciência Política e sócio-diretor
da Prospectiva Consultoria
artigo

Políticas sociais 2.0


É impossível falar em empreendedorismo sem A quebra do ciclo da pobreza só será possível se a qualidade na gestão
lidar com as dificuldades de etnia e de gênero e a descentralização econômica andarem juntas

H
á um certo consenso no Bra- de trabalho e onde os serviços sociais
potencial empreendedor nesse campo. Por fim, proximidade com o modo de vida das comu-
sil sobre os avanços gerados superam os da sua região de origem. O
há também o Fala Fa.Vela, onde moradores de nidades fez com que outras questões, além da
por políticas públicas pro- que mina o desenvolvimento das perife-
sucesso – os “heróis e heroínas da favela” – dão econômica, viessem à tona.
movidas com relativa conti- rias, portanto, não é apenas a pobreza e a
palestras que inspiram outras pessoas. Em dois Além de ensinar a gerir um negócio, os pro-
nuidade e coerência nos últimos 20 anos. precariedade dos serviços sociais, mas a
anos de atividade, já foram realizadas ações de gramas da ONG também discutem questões
Os melhores resultados podem ser vis- falta de dinamismo econômico.
educação empreendedora com 60 pequenos ne- étnicas e de gênero, bem como a autoestima de
tos na educação, na saúde e no combate Para superar esse obstáculo, é pre-
gócios locais, e todos os treinamentos são rea- quem vive em favelas e tem de lidar com o pre-
à pobreza, por meio da transferência di- ciso também descentralizar parte dos
lizados com recursos de financiamento coletivo conceito do restante da cidade. “Em um país
reta de renda. Ao atingir parte dos obje- instrumentos de fomento, que hoje são
e algum apoio de organismos internacionais, com agudas desigualdades, é impossível falar
tivos quantitativos propostos, é preciso, basicamente federais e voltados para
como o Consulado dos Estados Unidos. em empreendedorismo sem lidar com as difi-
então, que as políticas sejam ajustadas políticas horizontais, além de garantir
O Fa.Vela surgiu como um coletivo de 12 culdades que um jovem pobre e negro, ou uma
agregando novas metas de qualidade e a capacitação de gestores municipais e/
amigos que tinham em comum o fato de se- mulher negra, encontra em sua trajetória.
eficiência. Podemos dizer que a boa po- ou metropolitanos. Levar infraestrutu-
rem egressos de áreas pobres de Belo Hori- Aqui eles se sentem um pouco mais acolhidos” ,
lítica pública é aquela que tem data para volução do ponto de vista de estratégia ra física e digital, criar escolas técnicas
zonte e terem tido acesso à educação uni- diz Souza, ele mesmo morador do Morro do
mudar de fase ou ser substituída. e de instrumentos. e cursos profissionalizantes atrelados
versitária. A motivação inicial desses jovens Papagaio, aglomerado de comunidades pobres
No caso da educação, merecem des- A fase quantitativa é marcada pelo a áreas com clusters de serviços espe-
foi usar seus conhecimentos para ajudar na que se tornou a maior favela de Belo Horizonte,
taque indicadores quantitativos do Ensi- papel central empenhado pelo governo cializados são algumas das ações pos-
transformação social das periferias, dan- na Zona Sul da cidade. (leia mais sobre dispari-
no Fundamental e Médio. Em 2016, foi a federal, pelo predomínio de estratégias síveis, em particular nas regiões metro-
do mais dinamismo à economia local. Mas a dades de gênero e etnia no quadro abaixo).
primeira vez na história que mais de 50% horizontais e semelhantes para todo o politanas periféricas.
dos jovens completam o ciclo básico na País, pela garantia de recursos e pela Um exemplo internacional tem sido
idade correta. Já em relação aos alunos articulação entre uma elite de gestores a criação de fundos de investimentos
matriculados no Ensino Superior, o nú- públicos com acadêmicos e ONGs para cogeridos por entidades subnacionais e
mero passou de 2,7 milhões em 2000 garantir apoio e certa blindagem de agentes de mercado. O estado de New
MULHERES E NEGROS: RECORTE DAS DESIGUALDADES para 7,8 milhões em 2015. suas estratégias. Jersey, nos Estados Unidos, foi bem-
Em saúde, o avanço foi igualmente Para atingir metas qualitativas de -sucedido em medidas para atrair inves-
Mesmo com a melhora dos indicadores sociais nos últimos anos, como a redução da pobreza e da miséria relevante. A expectativa de vida do brasi- eficiência, o engajamento das demais timento de indústrias de biotecnologia
absoluta no Brasil, não houve expressiva redução das desigualdades sociais – em parte pelo fato de o tema leiro saltou de 69 anos em 2000 para 75,5 unidades da federação passa a ser cru- com ações dessa natureza.
ser complexo, pois compreende questões econômicas, sociais, políticas e educacionais. E, quando é feito o anos em 2015. Como resultado de massi- cial, assim como a capacidade de definir Há uma falsa ideia de que o único fa-
recorte de territórios, de etnia e gênero, essas desigualdades se tornam ainda mais contundentes. Habitantes vas campanhas de vacinação, doenças estratégias adequadas a cada região ou tor de intervenção no desenvolvimento
das periferias enfrentam todos os dias uma cruzada para vencer dificuldades, que se acentuam mais quando é como paralisia infantil e tuberculose fo- cidade. O que marca essa fase 2.0 de po- econômico urbano é o mercado imobi-
solicitado o CEP de sua residência. ram eliminadas quase por completo. líticas sociais é a necessidade de empo- liário. Na realidade, são fenômenos mui-
As estatísticas recentes reforçam o quão desigual a sociedade brasileira ainda é – em termos sociais e Iniciada nos anos 1990 e ampliada derar os gestores locais que, apesar de to mais amplos e potentes. O que mais
também em relação às questões de gênero e etnia. Lançado em abril de 2017, o mais recente ranking do IDH da na década de 2000, as várias versões terem profundo conhecimento da reali- segrega espacialmente ricos e pobres
ONU analisa a desigualdade entre homens e mulheres nas nações, e estamos na 92ª posição entre 159 países de políticas de transferência direta de dade da região, ainda dependem enorme- é a diferença de dinamismo econômico
analisados. No Brasil, a renda per capita das mulheres é 66,2% inferior à dos homens, mesmo elas tendo mais renda foram responsáveis por tirar da mente de recursos e decisões federais. e oportunidades entre as regiões. Por-
escolaridade e maior expectativa de vida do que os homens. miséria mais de 25 milhões de pessoas Ainda que o desafio sozinho seja enor- tanto, faz mais sentido tratar o mercado
Na questão étnica, as ações afirmativas, tais como as cotas para afrodescendentes nas universidades, e por praticamente erradicar a pobreza me, o esforço será em vão se não hou- imobiliário como epifenômeno, ou seja,
vêm trazendo avanços importantes, segundo dados do estudo Retrato das Desigualdades de Gênero e Raça, extrema no País. Com esses resultados, ver políticas que garantam a geração de um efeito indireto e consequente.
do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea): entre 1995 e 2015, a população adulta negra com 12 anos é difícil não reconhecer o sucesso da oportunidades econômicas compatíveis Os gestores públicos estaduais e
ou mais de estudo passou de 3,3% para 12%. O salto foi grande no Ensino Superior: em 2000, havia apenas iniciativa, tanto do ponto de vista social com as demandas regionais. Políticas municipais devem estar atentos e capa-
6,3% de estudantes pretos entre 18 e 24 anos frequentando universidades; em 2010 o percentual saltou para como do econômico. com foco em promoção de empregos, citados para desenhar políticas públicas
30,4% (pretos), embora os bancos das universidades ainda sejam ocupados por 60,7% de estudantes brancos. As políticas citadas precisam ser renda e espaços para novos negócios que atenuem essa dinâmica. Em países
Segundo uma projeção do Ipea, com base na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) de 2007, alteradas justamente porque atingiram são fundamentais para que a região capitalistas, onde a lógica do mercado
seria necessário manter o mesmo ritmo de queda durante pelo menos 40 anos para que se consolidasse uma seus objetivos, ou parte significativa de- periférica não perca as externalidades é a base da economia, são políticas de
sociedade mais igualitária do ponto de visto etnorracial. les, sendo a próxima etapa a passagem positivas para outras regiões mais de- fomento de oportunidades econômicas
de metas quantitativas para metas qua- senvolvidas. Nesse cenário, jovens bem descentralizadas que melhor respon-
litativas. Mas o que parece ser apenas qualificados mudam-se para bairros ou dem a esse desafio, e elas devem ser
uma diferença semântica exige uma re- cidades com melhores oportunidades parte das políticas sociais 2.0.

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REPORTAGEM CAMINHOS

Dos saberes locais


Aplicar o conhecimento cotidiano dos habitantes tornou-se
componente importante para promover a integração urbana
das periferias
POR DIEGO VIANA FOTO DICAMPANA FOTO COLETIVO

A
gangue de Carlos Cruz foi atingida las de formação e recebe apoio do Fundo das
em cheio pela violência mexicana Nações Unidas para a Infância (Unicef), do
em 1999, quando um jovem ligado Banco Interamericano de Desenvolvimento,
ao narcotráfico de sua periferia, ao da Comissão Europeia e de diversas empre-
norte da Cidade do México, foi mor- sas privadas. Carlos Cruz viaja o continente
to em uma guerra de facções. Cruz era então ensinando sua metodologia de atuação e, no
um jovem dedicado a vários crimes, que ele ano passado, deu palestras na universidade
mesmo enumera: “Tráfico de armas, falsifi- americana de Stanford.
cação de documentos, extorsão”. “O que vimos, desde adolescentes, era a
A morte abalou profundamente os pan- violência nas ruas. Morávamos em bairros
dilleros. Cruz decidiu que era tempo de aban- duros das periferias, onde aprendemos que a
donar um estilo de vida que acabaria por vi- única forma de socializar era a violência”, diz Os casos de duas cidades latino-america- vela tanto as possibilidades de transformações
timá-lo também. A mudança não foi simples Cruz. “Para nós, as únicas coisas que exis- nas, Medellín e Rio de Janeiro, são uma de- físico-espaciais quanto as oportunidades eco-
em uma área com oferta deficiente de tra- tiam eram as gangues, as cadeias e a polícia.” monstração inequívoca do que pode acon- nômicas que podem advir das reformas” , diz.
balho e formação. Mas o jovem se deu con- Uma coisa que a experiência no crime ensi- tecer de diferente quando o ponto de partida Não se trata só de geração de empregos,
ta de que tinha um material com que podia nou é que é preciso trabalhar naquilo que ele para os projetos de intervenções urbanísticas mas também das funções que os novos edi-
trabalhar: o mundo do crime é tão organiza- designa como “ambientes sociais”: ruas, es- é a própria comunidade, em comparação com fícios poderão exercer. “Percebemos que a
do quanto o das atividades legais, emprega colas, prisões e outros. “É aí que planejamos, projetos imaginados somente nas altas esfe- população favorece transformações urba-
técnicas de administração eficazes e mobi- tanto em nível local como regional, a forma- ras da administração. nas em que estão claros não só a melhoria de
liza saberes que o grupo de Cruz e outros na ção de lideranças, com pessoas já envolvidas A partir de 1999, a segunda maior cida- acesso, mas também como os edifícios vão
região já dominavam. nas gangues” , explica. de da Colômbia, Medellín, passou por uma exercer uma função econômica para o pró-
A virada consistiria em convencer chefes transformação radical. Conhecida até então prio local”, explica o arquiteto.
de gangues locais a aplicar seus conhecimen- DE DENTRO PARA FORA pelo alto índice de homicídios, a cidade aos Foi assim que nos edifícios construídos para
tos à finalidade oposta: em vez da inserção O caso mexicano ilustra o principal ele- poucos se tornou mais famosa como exemplo permitir a acessibilidade nos bairros, como o te-
pelo consumo que os jovens buscavam nas mento de sucesso das iniciativas para me- basilar de integração urbana. leférico (metrocable), estabeleceram-se comér-
atividades criminosas, a inserção social, por lhorar a vida nas periferias e promover a in- “A prefeitura estava aberta às deman- cios locais, centros de formação e contabilidade,
meio de novas formações e a abertura de ho- tegração urbana. Trata-se de aplicar saberes das das comunidades, o que foi fundamental instalações de serviços públicos. Segundo o ar-
rizontes. Esta é a história do surgimento da cotidianos dos habitantes, partir de deman- para orientar os projetos”, afirma o arquiteto quiteto, esses ambientes fortaleceram a econo-
ONG Cauce Ciudadano (Caminho da Cida- das que eles mesmos expressam e atacar os Gustavo Restrepo, professor da Universida- mia local e o senso de comunidade.
dania), definida como uma “autoconstrução problemas que há muito já identificaram. de Pontifícia Bolivariana de Medellín e au-
para a paz” e formada por pessoas que, como O segundo ponto crucial é a conjugar dife- tor de projetos de transformação da cidade. ESCUTA SURDA
sublinha seu fundador, não tiveram estudos rentes experiências. Com essa filosofia, Cruz e “Essa foi a chave: empoderar as populações. Medellín foi inspiração para iniciativas
formais. Segundo Cruz, “não existem esco- outros empreendedores ligados à ONG Ashoka Isso diferencia Medellín de muitas cidades semelhantes em todo o continente, a começar
las para gente como nós” , porque “o sistema fundaram em 2004 a Escuela Latinoamericana latino-americanas.” pelo Rio. Para tornar-se sede das Olimpía-
escolar para o qual nos convidam a voltar é o para la Actoría Social Juvenil, que forma lide- O desenvolvimento urbano adquire poder, das de 2016, a cidade comprometeu-se com
mesmo que nos expulsou”. ranças comunitárias voltadas para a aplicação na medida em que expressa o desenvolvimento uma série de iniciativas de reforma urbana,
Hoje, a ONG atua em várias partes do Mé- desses saberes. “Articular as experiências re- social e econômico das comunidades, explica incluindo a urbanização de favelas e o incre-
xico, é responsável por administrar esco- força nossa capacidade de mobilização” , diz. Restrepo. “A participação das populações re- mento dos transportes.

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CAMINHOS

No Grande Rio, os problemas são vistos da ótica Os saberes locais e as demandas dos pró-
prios moradores exercem um papel crucial
ao cerne do problema das periferias. Segun-
do Leitão, programas de habitação no Brasil

da capital, ou de parte dela: a Zona Sul


na filosofia da Fundação, como no método do têm o vício de empurrar as pessoas para lon-
Cauce Ciudadano. Segundo Galeano, o trabalho ge, em razão do preço da terra. Não se aventou
realizado em São Miguel ao longo de dez anos a possibilidade de que um cálculo mais amplo,
levou à sistematização da metodologia, basea- envolvendo custos de transporte, energia, sa-
Hoje, porém, o quadro brasileiro é bem contros para discutir a região metropolitana, da em quatro pressupostos. São eles o “fazer neamento e serviços públicos como escolas,
distinto do colombiano. A urbanização das os “Fóruns Rio” , sediados a cada vez em pon- com” , a “escuta”
, o “diálogo” e o “vínculo”. segurança e postos de saúde, demonstrasse ser
comunidades estancou e, para piorar, depois tos diferentes da malha urbana. Um dos ob- “Fazer com” expressa um trabalho em que mais barato oferecer habitação mais próxima.
de alguns anos com boas notícias na área de jetivos é conseguir que candidatos a eleições todos constroem as diretrizes do que precisa Morando em condições precárias e com
segurança pública, os cariocas voltaram a ex- locais se comprometam com uma agenda de ser feito. A “escuta” diz respeito à descoberta a perspectiva da casa própria, uma família
perimentar trocas de tiros diariamente. desenvolvimento integrada. No ano passa- das demandas, dos potenciais e dos saberes já que recebe um apartamento pelo programa
“O poder público faz uma escuta surda das do, diz Silveira, as mobilizações obtiveram o presentes no território. Já o “diálogo” consiste Minha Casa Minha Vida, por exemplo, acei-
demandas da população” , diz o geógrafo Hen- apoio de dois prefeitos e cinco vereadores que em buscar articulações institucionais, estrei- ta sem pestanejar. Para Leitão, se tivessem
rique Silveira, natural de Duque de Caxias e conseguiram se eleger. tando laços com associações de bairro, igrejas, acesso a informações mais precisas sobre o
coordenador-executivo da ONG Casa Flumi- Nem sempre o embate com a atuação sur- subprefeitura, escolas e outras entidades. O local para onde vão ser levadas, essas famí-
nense. “Um representante do gestor público da do Estado resulta em derrota, diz Silveira, “vínculo” ensina que é necessário estar pre- lias talvez pensassem de outro modo.
aparece nas audiências, finge que escuta, mas citando a Escola Municipal Friedenreich, no sente nos territórios para produzir laços que “A ideia é que, quando a prefeitura oferecer
fica por aí. Temos um grande déficit de trans- Maracanã. Ela seria demolida para a expansão efetivamente deem frutos. uma casa, a pessoa possa rebater com núme-
parência e participação real na condução das do estacionamento do estádio, mas a mobili- “Esses princípios permitem que sejamos ros”, diz Leitão, enumerando: “Aqui não tem
políticas públicas.” zação da comunidade local a manteve de pé. “É reconhecidos como um saneamento, vou ter de ti-
Silveira dá como exemplo a construção da preciso criar espaços reais de transformação agente articulador de di- rar meus filhos de uma es-
Linha 4 do Metrô, que liga a Zona Sul à Barra da
Tijuca. A sociedade civil e o Ministério Público
do poder público, e precisamos entender que o
poder público envolve o Estado e a sociedade.
versas ações, nas quais a
comunidade se envolve
Ao lidar com o cola com boa nota no Ideb
[Índice de Desenvolvimento
manifestaram-se contra o traçado proposto Se não, vira só poder estatal”, declara. e produz junto” , afirma poder público, a da Educação Básica] e colo-
pelo governo. A população preferia outro traje-
to, fiel ao projeto original da malha metroviá- METODOLOGIA
Galeano. “Depois de dez
anos, fizemos um es- informação é o car em outra com péssima
nota, não vou conseguir
ria, mas foi ignorada pelo governo estadual.
A Casa Fluminense, fundada em 2013,
Algumas das vitórias mais significativas
estão em detalhes que parecem insignifican-
tudo dos indicadores de
São Miguel Paulista, nas
instrumento mais trabalho, porque o empre-
gador não vai querer pagar
procura pensar os problemas da Região Me- tes, como a saída suplementar de uma esta- áreas em que atuamos, e a difícil de obter o vale-transporte...”
tropolitana do Rio de modo integrado, ar- ção de trem. Na Zona Leste de São Paulo, o região melhorou mais do O projeto consiste em
ticulando movimentos sociais dedicados a potencial da mobilização de moradores pelo que as vizinhas.” produzir um banco de
áreas ou temas específicos, diz Silveira. “A bem comum pode ser atestado, justamente, dados com os custos comparados da vida
Região Metropolitana do Rio não consegue na conquista de uma conexão entre a comu- FERRAMENTAS em diferentes periferias. Esses dados fica-
se ver como área com 21 municípios. Os pro- nidade do Jardim Lapenna e uma estação da Ouvir as reivindicações dos moradores é rão abertos para consulta, principalmente
blemas são vistos da perspectiva da capital, Companhia Paulista de Trens Metropolitanos apenas um dos desafios. Outro é encontrar os movimentos de moradia que se confrontam
ou de parte dela: a Zona Sul. Até os problemas (CPTM). A Estação São Miguel ficou pronta instrumentos para que as populações possam diretamente com o poder público.
das favelas são vistos em relação à Zona Sul.” em agosto de 2013, sem um acesso ao norte, exercer seu poder de pressão. Este é o terceiro A mobilização de baixo para cima, a arti-
A desconexão entre os desejos da popula- onde está a comunidade do Jardim Lapenna. A elemento que aumenta as chances de produzir culação dos movimentos e o acesso à infor-
ção e as ações dos governos, tanto municipal pressão organizada dos moradores conseguiu mudanças positivas: ao tratar com o poder pú- mação são os pontos em comum às iniciativas
quanto estadual, não é um indicativo de que que, em outubro do ano seguinte, uma nova blico, a principal ferramenta – mas também a bem-sucedidas em redesenhar a relação en-
faltem à periferia da cidade vozes que reivindi- passarela de acesso fosse inaugurada. mais difícil de obter – é a informação. tre a sociedade civil e o Estado nas periferias.
cam melhorias. Ao contrário, em diversos su- O Jardim Lapenna faz parte da área de atua- “O maior problema da relação com o Es- Nas palavras de Paula Galeano, essas
búrbios e comunidades há fortes movimentos ção da Fundação Tide Setubal, que se ocupa de tado é que a informação é muito restrita. En- preocupações orientam os próximos pas-
sociais. Segundo Silveira, uma meta da Casa mobilização social e formação de lideranças tão as pessoas não conseguem nem avaliar se sos da Fundação Tide Setubal: “Se queremos
Fluminense é ser o espaço em que esses mo- em São Miguel Paulista. “A comunidade fica uma política é boa para elas” , afirma o jurista trabalhar com as periferias para que elas se
vimentos se comuniquem e se articulem, para à beira da linha do trem. Quando fizeram a Sergio Leitão, diretor de relacionamento com desenvolvam e se queremos que o poder pú-
não ficarem isolados uns dos outros. “Muitas Estação São Miguel, planejaram a saída só do a sociedade do Instituto Escolhas, que se de- blico tenha um olhar de investimento mais
vezes, eles fazem trabalhos bem parecidos, lado mais rico. Esse foi um exemplo de como dica a “colocar em números as questões que estruturado e contínuo para essas regiões, é
mas poderiam se fortalecer e conseguir mais fortalecer o caminho de reivindicação de cau- afetam a vida das pessoas”. preciso se articular com os movimentos mais
vitórias se agissem em conjunto” , afirma. sas coletivas”, relata a psicóloga Paula Galea- “Quanto Custa Morar Longe” é um dos pro- ativos e avançar na causa da transparência
A entidade organiza periodicamente en- no, superintendente da Fundação. jetos em curso no instituto. Sua fórmula vai dos dados públicos” , afirma.

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REPORTAGEM TECNOLOGIA

Participação
multiplataforma
Como a tecnologia pode modernizar a gestão pública
e aproximar as políticas dos anseios sociais

POR CÍNTYA FEITOSA FOTO DICAMPANA FOTO COLETIVO

U
ma das características comuns às “Pode até ser que [o aumento do uso de re-
manifestações de junho de 2013 e às des sociais e a queda em plataformas oficiais]
que se seguiram a elas nos últimos sejam cenários isolados, mas não deixa de ser
anos foi o uso das mídias sociais um indicativo de como o Brasil está envolvido
para sua organização – um combo em uma dinâmica de contradição” , avalia Júlio
da crise de representatividade e do advento Andrade, professor da Universidade Federal
de novas formas de comunicação que mudam Fluminense (UFF) e pesquisador em demo- social representativa – o que prejudica tam- blicas em redes sociais. Mas, se tivermos visão
com mais rapidez do que os gestores públicos cracia e participação digital. Andrade des- bém quem tem menos acesso à internet. “A antiquada, esperar que falem sobre o programa
têm conseguido acompanhar. taca também que os espaços de participação própria dinâmica de construção da ferra- A ou B, não vamos perceber. Elas falam sobre a
O aumento da conectividade – ainda que oficial, juntamente com a crise da represen- menta não deve ser submetida a uma lógica vida delas, sobre como demora pra pegar ôni-
maior entre os estratos mais ricos da popula- tatividade, têm tido a sua efetividade ques- de cima para baixo, mas trazer a visão da po- bus, sobre segurança pública, sobre o preço do
ção – e a popularização de smartphones abrem tionada. Isso leva ainda ao fortalecimento do pulação para o design da ferramenta.” gás”, diz Pedro Lenhard, pesquisador da Dapp.
uma janela para novas formas de participação papel do gestor e de seus canais pessoais em Além das plataformas oficiais, os governos O que dificilmente se encontra nas redes
(leia quadro à pág. 44). Mas, ao mesmo tempo detrimento de canais oficiais. não podem abrir mão de observar a dinâmica são elogios a programas e ações do governo.
que o aumento da presença digital em meios O descrédito pode vir tanto do cenário po- de diálogos que já acontece organicamente na “A gente observa, pela quantidade de infor-
descentralizados cresceu e foi fundamental lítico conturbado quanto de dados concretos, rede. Um dos projetos desenvolvidos pela Di- mações que conseguimos coletar e pelos te-
para levar causas às ruas, a adesão a instru- como a queda no número de obras do orça- retoria de Análise de Políticas Públicas (Dapp) mas que pesquisamos, uma comprovação da
mentos oficiais consolidados apresentou que- mento participativo executadas – atribuída da Fundação Getulio Vargas (FGV), por exem- hipótese de várias correntes da linguística
da nos últimos anos. também à crise econômica. O especialista plo, é a análise do que se fala em mídias so- que dizem que o cidadão tende a se manifes-
Um exemplo é o Orçamento Participati- aponta ainda questões como o desenho da ciais sobre política em todo o País. A pesquisa tar, em qualquer instância, tendo como moti-
vo de Belo Horizonte, iniciativa pioneira no plataforma e da participação social. Uma das é feita com base em menções de palavras- vação inerente a insatisfação” , complementa
Brasil e referência mundial, que ocorre des- formas mais comuns de envolvimento da po- -chave nas redes no território nacional em Lucas Calil, também da Dapp.
de 1993 e ganhou sua versão digital em 2006. pulação é apresentar demandas para votação, temas como educação, meio ambiente, saúde,
No primeiro ano da experiência, foram re- já a partir de uma triagem de propostas. segurança, mobilidade, economia e política. APRENDER A PARTICIPAR
gistrados mais de 500 mil votos, de acordo Ocorre que grupos com maior poder de “As pessoas falam muito sobre políticas pú- Incentivar entre jovens de periferias o in-
com dados oficiais. Na última edição, em mobilização acabam “vencendo” com suas teresse pela participação política por meio da
Acesse em bit.ly/1svVADO
2013, foram apenas 8.900. demandas, no lugar de haver uma interação comunicação digital é uma das motivações da

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TECNOLOGIA

Para uma participação digital ativa, a formação de depende de infraestrutura, mas também de
acesso a renda e diversos outros fatores da eco-
e informações técnicas, gerando um grande
centro de inteligência pública. “Isso possibili-

off-line é imprescindível
nomia.” Para Júlio Andrade, da UFF, o estado taria a mineração de dados e, a partir daí, rea-
da arte em transparência e interação digital é lizar política pública mais proativa e alinhada
ter sistemas integrados, que reúnam dados de ao anseio da sociedade. No âmbito municipal,
redes sociais, de ouvidorias (sejam elas à moda tudo ainda é muito fragmentado, então todo
antiga, sejam digitais), de conselhos gestores esse potencial acaba se perdendo.”
Cipó Comunicação Interativa, projeto de Salva- comunidade pensa muito nos jovens” , relata.
dor que promove a educação para o empodera- Mas, para uma participação digital ativa,
mento e empreendedorismo da juventude, em a formação off-line é imprescindível. “Como
especial da juventude negra da capital baiana. funcionam as eleições? Como cobrar de ve-
Para isso, além de formação em História, readores? A gente trabalha esses temas tam- REALIDADE REPROGRAMADA
política, empreendedorismo, entre outros bém, assim como leitura de editais, partici-
Quando se mora “longe de tudo”, como se costuma dizer, as carências em
temas, os jovens participam de aprendiza- pação cultural, dados públicos. Não começa
infraestrutura e a falta de acesso a educação, cultura e serviços de qualidade podem
do em comunicação digital – o que envolve nas redes sociais. Eles precisam saber o ca-
desanimar. Mas são justamente essas condições que motivam algumas pessoas a criar
desde produção de conteúdo, programação e minho formal para cobrar” , afirma Santos.
soluções localizadas, mas com potencial de replicação. Nesta hora, as novas tecnologias
uso para promoção de pequenos negócios até Além das votações, petições on-line e debates
são grandes aliadas, na medida em que reduzem as distâncias físicas, agilizam a
navegação segura e privacidade. “O que cos- sobre políticas públicas propriamente ditas, a
comunicação e dão voz àqueles que têm pouco espaço e escuta na sociedade.
tumo abordar com os jovens é que a internet educadora ressalta que não se pode deixar de
Inspirado por tais fatores, o Comitê de Democratização da Informática (CDI),
não é só exposição da vida pessoal. Ela pode observar outras formas de participação digi-
organização carioca que atua em sete países, lançou em 2015 o Recode, movimento
Referência e deve ser usada para outras coisas, porque a tal. “Na internet tem vídeos de rap e slam,
voltado para jovens de 14 a 29 anos que pararam de estudar e estão sem emprego formal.
a poetry slam, juventude de periferia não tem espaço na mí- por exemplo, que falam de política, de racis-
batida de poesia, Com base em conceitos do educador Paulo Freire, o Recode habilita o jovem a ser um Organização
em tradução livre dia tradicional, mas a web possibilita ter voz”, mo, de educação, de oportunidades. Isso deve
“reprogramador” da sua realidade. criada em 1995
do inglês, uma diz Geisa Santos, educadora da Cipó e ativista ser considerado” , conta Santos. voltada para a
O resultado são histórias emocionantes, como a de Ricardo Pereira, de 23 anos,
“batalha” de poetas em temas como privacidade na internet e in- Lenhard, da Dapp, avalia que ações para transformação
morador de Itaboraí, na Grande Niterói (RJ). Com as habilidades adquiridas no programa, social por meio da
clusão tecnológica de mulheres. ampliar a participação política digital devem
ele pôde ajudar Pedro Paulo de Almeida, de 46 anos, vizinho, portador de paralisia inclusão digital
Os equipamentos do projeto foram doados ocorrer em várias frentes e ser concomitantes.
cerebral. “Pedro é independente e trabalha como auxiliar administrativo, mas enfrentava
e a gestão e conservação são compartilhadas “Temos questões de conectividade em dois po-
obstáculos para se locomover”, conta o jovem que prototipou, com Pedro e a colega carioca
com a comunidade. “A comunidade criou um los. Um são as soluções de governo eletrônico,
de curso Raíssa Rodrigues, o aplicativo Repare de mapeamento de buracos, desníveis e
centro para que todos pudessem usar. A inter- serviços – o polo administrativo; o outro é o au-
má conservação nos caminhos para pedestres. Hoje, contam com apoio empresarial para
net é paga em conjunto, assim como alguém mento da conexão, que depende de uma série
aprimorar o produto e lançá-lo no mercado.
para tomar conta – e tomar conta no sentido de de fatores”
, diz. “Nem todos podem ser resolvi-
Damares Muniz, da Zona Leste de São Paulo, de 19 anos, desenvolveu com três amigas
suporte técnico, não de segurança. A própria dos pela administração pública. Conectivida-
o Wiggs Perfect, aplicativo para facilitar a doação de cabelo a pacientes com câncer. “Pude
ver como posso mudar o mundo ao meu redor de uma forma acessível”, declara a jovem.
Já a doula Camila Habdallah, 27, de Campo Grande, Zona Oeste do Rio de Janeiro, usou sua
experiência no Recode para incentivar partos humanizados no Complexo do Alemão. Seu

DESIGUALDADE NO ACESSO À WEB projeto foi selecionado para apoio financeiro e de formação pelo British Council, com
viagem de aprendizado ao Reino Unido. Em outros pontos do Brasil acontecem iniciativas Organização
O acesso à internet é crescente no Brasil, mas essa evolução ainda revela desigualdades socioeconômicas. similares. Em São Paulo, o movimento Periferia Hacker realizou sua primeira oficina em internacional do
Reino Unido para
A boa notícia é a difusão maior dos smartphones, aparelhos mais acessíveis para a população de menor renda. outubro de 2016, na qual foi desenvolvido um aplicativo para divulgar a agenda cultural relações culturais
Em 2015, o Brasil alcançou o índice de 58% da população conectada à internet, de acordo com dados da do Grajaú (bairro da periferia da Zona Sul). Na mesma cidade, o FabLab Livre SP põe e oportunidades
última pesquisa TIC Domicílios, realizada pelo Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI). O aumento foi de 5% impressoras 3D à disposição da população para que aprendam a produzir diversos objetos educacionais
em relação a 2014. Porém, a pesquisa aponta também o nível de desigualdade no acesso à rede: 95% dos em diferentes escalas através de processos colaborativos de criação, compartilhamento
entrevistados da classe A e 82% da classe B haviam utilizado a rede menos de três meses antes da entrevista. do conhecimento e do uso de ferramentas de fabricação digital.
Na classe C, o número cai para 57%; e, nas classes D/E, para 28%. No Nordeste, comunidades unem-se para ter acesso à internet. Uma das pioneiras foi
Os dados coincidem com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) de 2015, do Instituto a associação de pescadores da cidade de Congo, na Paraíba. Suas 56 famílias uniram-se
Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que aponta que 57,8% dos lares do País tiveram acesso à internet. para instalar um computador com acesso à rede e “ficarem mais integradas ao mundo”,
Ainda de acordo com a Pnad, os smartphones já se consolidaram como o maior meio de acesso à internet no como definem. Na periferia do Recife, moradores compartilham o sinal trazido por rádio e
Brasil – 92,1% do total, o que é atribuído ao valor mais baixo dos aparelhos em relação a computadores. o mesmo acontece na zona rural pernambucana. – por Neuza Árbocz

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ÚLTIMA
RICARDO VAZ

A Rede Jornalistas das Periferias é uma iniciativa de comunicador_s, morador_s de bairros


periféricos da cidade de São Paulo, que atuam em diferentes frentes e áreas do campo, e
de coletivos e movimentos de comunicação periféricos organizados, que tem o objetivo de
promover e disseminar a informação produzida pelas periferias e para as periferias.

Importante que se ressalte, nem a Rede Jornalistas das Periferias, nem outras que existem ou
virão, darão conta da complexidade que são as periferias da cidade. Por isso, nos enxergamos
como uma das redes possíveis, um recorte de pessoas e coletivos. Ou seja: não nos
enxergamos como voz, mas como uma das vozes. Das várias vozes que existem, existirão.

A nossa rede acredita na potência e importância de que as vozes das próprias periferias
sejam as protagonistas no conteúdo jornalístico sobre essas regiões da cidade, constituídas
historicamente em condições sociais de desigualdade de raça, classe e gênero, que se

Pro infinito azul


reproduzem, até mesmo, no ambiente profissional da comunicação.

A nossa rede afirma em sua constituição a defesa dos direitos dos moradores das periferias
...Pode crer/ Esperei a semana inteira/ Finalmente, hoje é terça-feira/
de São Paulo e apoia grupos de comunicação periféricos de todo o país, compreendendo os
Vou subindo a ladeira/ Vou no passo a passo/ no suingue do balanço/
ritmando no compasso/ Cooperifa meu quilombo cultural/ é poesia
contextos específicos de cada região, além de outras iniciativas que valorizem e mobilizem as
literatura marginal/ Cooperifa academia das letras/ no risco da minorias em prol de uma sociedade mais justa, plural e democrática para todos os cidadãos.
caneta contemplando o luar/ chegando inspiração de todo lugar/ num
balão pelo ar flutuando ele vai pro infinito azul...

A letra de Quilombo Cultural, rap composto pelo taxista e poeta Jai-


ro Periafricania, tornou-se uma espécie de hino da Cooperifa, movi-
mento cultural que acontece todas as noites de terça-feira, na Zona
Sul de São Paulo. A música faz menção aos balões de gás que a Coo-
perifa costuma soltar quando termina o sarau no bar do Zé Batidão.
As bexigas “transportam” poesias que “aterrissarão” em momentos
e locais incertos. Preferencialmente próximo a alguém que saiba
apreciá-las. – por Magali Cabral

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