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A CRISE DO MOVIMENTO COMUNISTA

Fernando Claudin
Resenha (títulos e subtítulos do original) por Luiz Souto

Revolução Alemã (1919)


Campanha do Partido Nazista (1933)

CAPÍTULO 4 – A CRISE POLÍTICA

No início do capítulo Claudín apresenta sua tese sobre as causas da falência da IIIª Internacional, da qual
as experiências que vai analisar são os exemplos. As causas principais residem em três contradições fundamentais
da Internacional Comunista (IC):

1) Teoria da revolução mundial x Desenvolvimento histórico real


A teoria considerava que se chegara à fase final do sistema capitalista, tendo a era das revoluções socialistas
na Europa sido iniciada com a Iª Guerra Mundial a partir da Revolução Russa; daí a necessidade dos
comunistas organizarem a ofensiva revolucionária. Porém, na realidade, a vaga revolucionária
desencadeada pela 1ª Guerra Mundial se esgota a partir de 1920, ficando a Rússia Soviética isolada, o
capitalismo se recupera e inicia uma nova fase de expansão e as massas permanecem majoritariamente
ligadas às organizações social-democratas.

2) Estrutura ultracentralizada x Diversidade nacional


A estrutura da IC se baseia na concepção de que ela é um partido revolucionário internacional do qual os
partidos comunistas nacionais são seções. A autonomia dos PC’s é limitada pois sua política e mesmo as
questões organizativas internas estão subordinadas às teses dos Congressos da IC e, no intervalo entre os
congressos, às decisões do Comitê Executivo. Por outro lado a nível nacional existia uma grande
heterogeneidade nas estruturas sociais e políticas das nações, mesmo entre as de capitalismo avançado.
Particularidades na estrutura de classe, no desenvolvimento histórico, nas contradições internas das
sociedades levavam a que teses gerais de congressos não pudessem ser aplicadas mecanicamente nos países
sem avaliar suas condições e sua viabilidade.

3) Subordinação crescente à política soviética x Necessidades do movimento revolucionário


Com o fim da guerra civil e a estabilização da Rússia como Estado, esta passa a ter interesses geopolíticos
que necessariamente entram no cálculo dos dirigentes soviéticos, que a todo momento devem considerar a
segurança e a manutenção da integridade do país. A política externa soviética passa a se impor sobre a
organização mundial que é a IC. Por outro lado cada país tem suas características e necessidades na luta
revolucionária que podem, e frequentemente irão, entrar em contradição com os interesses da política
externa do Estado Soviético.
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1) A Experiência Alemã

a) O maior desastre da Internacional Comunista

A derrota do Partido Comunista Alemão (PCA) perante o nazismo é uma catástrofe que destrói para sempre
o partido como força política. O partido, que é o segundo maior da esquerda alemã (atrás do Partido Social-
Democrata - PSD), após a subida de Hitler ao poder é decretado ilegal, seus bens e fundos econômicos
expropriados e seus dirigentes e militantes perseguidos, presos, mortos. Durante a 2ª Guerra Mundial o PCA não
tem qualquer papel na oposição interna ao nazismo e mesmo no pós-guerra seu papel político na República
Federal Alemã (Alemanha Ocidental) é irrelevante.
A responsabilidade da derrota se deve à política determinada pela IC que foi seguida à risca pelo PCA. Na
sua crítica à derrota no congresso de 1935 a IC, através do relatório de Georges Dimitrov, imputa ao PCA o erro
de ter seguido uma política sectária silenciando que o partido seguiu fielmente as ordens da IC
Como pano de fundo havia uma clara contradição entre a estabilização das relações germano-soviéticas,
com a colaboração econômico-militar pelo tratado de Rapallo1, e a tarefa de realizar a revolução socialista que
derrubaria a república de Weimar.

b) Insurreições prematuras e expulsões premonitórias

Entre 1919 e 1923 a Alemanha atravessa um período conturbado, ocorrendo três insurreições
revolucionárias.
Em janeiro de 1919 há a insurreição espartaquista que ocorre a despeito da liderança do PCA (Rosa
Luxemburgo, Liebknecht) considerarem-na prematura. É tentada sua organização mas a repressão violenta e a
não adesão das massas trabalhadoras levam ao esmagamento da insurreição e ao assassinato do núcleo dirigente
mais preparado teoricamente. Não houve o envolvimento da IIIª Internacional nesta insurreição, que só foi
fundada em março de 1919.
Em 1921 a IC considera que se está á beira de uma situação revolucionária, apesar da posição contrária da
direção do PCA (Paul Levi). Este é expulso do PCA e a insurreição de março de 1921 comandada pela nova
direção fracassa; em virtude da derrota o PCA perde 50% de seu efetivo.
Mesmo avaliando posteriormente que fora um erro ter determinado a ação de março, a IC mantém a
expulsão de Paul Levi, precedente inédito de expulsão de membro por divergência teórica mas que se tornará
posteriormente uma regra.

c) Mudança de enfoque: a revolução se torna perigosa para a Rússia da NEP

Em 1923 há tensão na Alemanha em virtude da invasão do Ruhr pela França 2. Trotsky declara publicamente
que realizar um chamado revolucionário contra a agressão francesa poderia levar a uma nova guerra e isto
ameaçaria a URSS, que estava em processo de recuperação após o fim da guerra civil e, por conseguinte,
ameaçaria a luta pelo socialismo.
A situação interna da Alemanha é inflamada com manifestações contra a invasão realizadas por comunistas
e por fascistas enquanto o governo do chanceler Wilhelm Cuno utiliza como tática a “resistência passiva”
(suspensão das remessas de pagamentos de reparações, determinação de que os funcionários públicos não
acatassem ordens dos ocupantes, etc.). No entanto o governo Cuno promove uma política econômica desastrosa
que leva a uma desvalorização acentuada do marco e à hiperinflação. Em agosto de 1923 o gabinete Cuno
renuncia e é substituído pelo gabinete liderado por Gustav Streseman, que conta com a participação de social-
democratas, e promove a estabilização econômica associada ao estado de sítio para conter os protestos.
Na discussão sobre a revolução alemã Stalin apresenta críticas às perspectivas da revolução alemã que serão
a base de sua política posterior durante todo o período de existência da IC:
a) Transpõe mecanicamente as premissas da vitória bolchevique para o contexto de outros países como
critério para definir a viabilidade de uma revolução. Não realiza uma análise das contradições realmente
existentes, mesmo para determinar se há similaridades. Além disso a perspectiva russa do processo revolucionário
baseado na Revolução de Outubro se impõe a partir da hegemonia bolchevique na direção da IC.
b) Desconfia da capacidade revolucionária dos comunistas não-russos, embora a experiência internacional
de Stalin fosse mínima e praticamente inexistente antes de 1917.
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c) Subordinação total do problema à situação soviética. Em todas as questões internacionais Stalin em
primeiro lugar e prioritariamente avalia o interesse nacional da URSS.
Em setembro de 1923 a IC determina que o PCA prepare uma insurreição revolucionária para outubro,
deixando para este apenas a decisão de definir a data. Há resistência dos militantes à participação em governos
social-democratas na Saxônia e na Turíngia como forma de preparação para a insurreição. Em virtude de ter
detectado os preparativos para a insurreição, o governo aciona o exército para ocupar para a Saxônia; os comitês
operários, majoritariamente social-democratas não atendem ao chamado para a insurreição. Nesta situação o PCA
autonomamente ordena a suspenção da insurreição para evitar uma tragédia; em Hamburgo o aviso não chega e
após três dias um levante minoritário e isolado é debelado.
A IC coloca a culpa da “derrota” da insurreição na direção do PCA, se recusando a admitir que não havia
condições para seu sucesso.

d) Para que uma teoria da revolução alemã se existem Stalin e a “política leninista” ?

A pretensa “derrota” da insurreição de outubro serve de pretexto para expulsar os membros da tendência
interna que preconiza maior democracia interna e adaptação da política à realidade nacional, taxando-os de
“direitistas”.
A partir de 1924 há o processo de “bolchevização” dos PC’s com a determinação de terem maioria de
elementos operários nas direções. Na prática é a imposição da centralização burocrática, o afastamento ou
silenciamento dos quadros intelectuais e o menosprezo pelas particularidades nacionais.
Entre 1926 e 1928 a luta contra a oposição de esquerda na URSS se associa à luta contra os elementos de
esquerda nas seções da IC; no PCA há a expulsão de dirigentes e a troca da direção.
Tanto as alas de direita e esquerda do PCA, embora divergindo sobre a estratégia e tática, buscavam elaborar
uma análise e política autônoma, entrando em choque com o centralismo e dirigismo da IC. Com a expulsão dos
elementos mais antigos é abandonada a influẽncia do pensamento de Rosa Luxemburgo dentro do comunismo
alemão.
A política de Stalin é o menosprezo pela teoria, o abandono pelas seções da IC das elaborações teóricas e
apenas a aplicação da política determinada pela direção da IC.

e) Frente única no capitalismo e partido único no socialismo

No início da década de 1920 existe uma ofensiva do capital sobre as condições de vida da classe
trabalhadora no contexto da recuperação econômica do pós guerra. Associado a isso a maioria da classe operária
europeia se mantem dentro dos partidos e organizações social-democráticas.
Neste contexto a frente única operária surge como estratégia defensiva contra os ataques do capital.
A maior iniciativa foi a convocação de uma conferência conjunta dos três organismos internacionais pela
Internacional independente (2½)3 para elaborar uma ação conjunta de social-democratas e comunistas, a qual
ocorreu entre 2 e 5 de abril de 1922 em Berlin.
A posição da IC em relação à frente única é instrumental: serve para aumentar a influência dos comunistas
entre os operários e disputar espaço com a social-democracia. Mesmo governos de coalizão entre social-
democratas e comunistas seriam considerados aceitáveis mas a ditadura do proletariado exigiria o afastamento
dos social-democratas e participação só dos comunistas. Assim a proposta de frente única seria vantajosa mesmo
que rejeitada, pois serviria para “desmascarar” os reformistas.
A política de frente única da IC se baseava na avaliação de que o capitalismo encontrava-se em um estágio
no qual seria incapaz de atender as reivindicações de direitos dos programas social-democratas e automaticamente
haveria nos trabalhadores a disposição para lutar contra a burguesia. Os líderes social democratas seriam meros
agentes do capital que não realizariam nenhuma ação real de defesa dos trabalhadores, exceto por pressão das
massas.
No entanto, devido justamente à recuperação econômica do pós guerra, havia margem para se obter
concessões e reformas em prol dos trabalhadores.
A política de frente única da IC se mostrava contraditória porque buscava a ação conjunta com os partidos
e sindicatos social-democratas ao mesmo tempo em que os acusa de traidores; dentro da URSS promovia a
repressão de correntes políticas operárias com as quais buscava aliança na Europa e denunciava o imperialismo
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ao mesmo tempo em que tinha ingerência dentro das nações que compuseram o Império Russo, de acordo com
os interesses da Rússia Soviética (intervenção na Geórgia).
Assim a frente única tanto podia servir aos comunistas para denunciar políticas conciliatórias dos social-
democratas, quanto aos social-democratas para denunciar as contradições das políticas dos comunistas orientada
pela IC.
Embora seja tirada uma plataforma comum de luta e a formação de um comitê conjunto, a IIIª Internacional
se retirada conferência das três Internacionais. Apesar disso em seu IVº Congresso reafirma a política de frente
única, definindo que há contradição entre fascismo e democracia burguesa.

f) Social-democracia = Social-fascismo = inimigo principal

Em 1925 o Vº Congresso da IC revisa a política de frente única, a considera “oportunismo de direita” e faz
a identificação entre social-democracia e fascismo, suas diferenças sendo de grau e não de natureza. É afastada a
ideia de ações conjuntas com direções social-democratas.
A concepção teórica de Stalin, pervertendo a política leninista utilizada na Revolução Russa, considera que
o ataque principal deve ser contra os partidos intermediários, portanto é a social-democracia e não o fascismo o
inimigo principal.
Esta concepção se aprofunda a partir de 1927 com a avaliação de que já está em curso uma crise do sistema
capitalista após a pretensa “estabilização”, com a abertura de um novo período de auge revolucionário. Em virtude
disso a luta contra a social-democracia deve ser intensificada e seu “desmascaramento” atrairia os operários para
o campo revolucionário, garantindo a vitória sobre o fascismo. É iniciada a luta contra os “direitistas” que
propõem a frente única operária contra o fascismo.

g) O caminho da catástrofe

Na década de 1920 os PC’s ficam isolados das massas pela conjunção de vários fatores: paralisia teórica,
rebaixamento da vida política interna, centralismo burocrático, ambiente interno instável com expurgos à direita
e à esquerda, subordinação da política interna à da URSS e negação da contradição entre fascismo e democracia
burguesa, afastando o elemento positivo da política prévia de frente única.
No PCA isto se reflete na estagnação do número de membros e dos resultados eleitorais durante toda a
década.
A crise de 1929 leva a uma ascensão do fascismo em toda a Europa e na Alemanha isto é bastante
pronunciado pelo impacto da crise. Há uma evolução enorme da influência do partido nazista, com um aumento
moderado da influência comunista e redução da influência social-democrata.
O aumento dos votos nazistas se dá principalmente pela migração massiva das camadas médias; há ainda
participação significativa de operários, principalmente desempregados.
Os comunistas adotaram uma política sindical sectária, rompendo com os sindicatos reformistas e
construindo sindicatos comunistas, levando a sua inserção reduzida na massa operária, que permanece ligada aos
organismos social-democratas. O seu maior percentual de crescimento se dá entre os desempregados. Além disso
a política do PCA é o chamado direto da revolução socialista a ser feita nos moldes soviéticos, o que aumenta
ainda mais a rejeição entre as camadas médias.
Como analisa Trotsky, uma das precondições da revolução é que as camadas médias sejam atraídas para o
campo proletário; na Alemanha elas migravam massivamente para o fascismo.
Uma política antifascista coerente deveria ter sido a frente única com os social-democratas pela defesa dos
direitos democráticos das massas contra o fascismo, não chamando a revolução imediata pois as condições para
isso não existiam e a maioria dos operários seguiam as lideranças reformistas.
A política do PCA é justamente o oposto, chegando a votar junto com os nazistas contra governos social-
democratas e alardeando estas ações como avanços na luta revolucionária pelo isolamento dos reformistas.
Como resultado, na eleição de 1932 o partido nazista obtém a maioria porque os votos comunistas e social-
democratas foram separados, quando unidos superariam os votos nazistas, que já apresentava sinais iniciais de
recuo eleitoral.

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Notas:
1. Tratado de Rapallo é assinado em 16 de abril de 1922 entre a URSS e a Alemanha em que ambas
renunciam mutuamente à indenizações financeiras, renunciam a exigências territoriais e contempla a formação
de empresas mistas a fim de estimular o comércio entre ambas as nações. Em cláusulas secretas abria a
possibilidade da Alemanha produzir na URSS armamentos proibidos pelo Tratado de Versalhes ao mesmo tempo
em que haveria o treinamento técnico de elementos do Exército Vermelho.
2. A invasão da região do Ruhr por tropas francesas ocorre em 11 de janeiro de 1923 como resposta da
França ao não pagamento de parcelas da dívida de guerra alemã estipuladas pelo Tratado de Versalhes. A
Alemanha tinha solicitado no ano anterior uma moratória de um ano no pagamento dos 269 bilhões de marcos-
ouro devidos (equivalente a mais do que o seu PIB anual), que não foi aceito. Em resposta a França realizou a
ocupação da região do Ruhr, a área mais industrializada da Alemanha, só se retirando em definitivamente em 25
de agosto de 1925.
3. Oficialmente chamada de União dos Partidos Socialistas para a Ação Internacional, também chamada de
Internacional de Viena ou Internacional dois e meio, foi fundada em janeiro de 1922 sob liderança do partido
social-democrata austríaco e reunia os partidos social-democratas mais à esquerda, que discordavam da anterior
IIª Internacional (ou Internacional de Berlim) mas também da IIIª Internacional. Termina por fundir-se à
Internacional de Berlim em 1925.