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07/05/2018 A autossabotagem brasileira. O ‘país foi praticamente jogado num abismo’.

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NOS CONFLITOS A PERGUNTA, NOS EVENTOS A RESPOSTA.

A autossabotagem brasileira. O ‘país foi praticamente


jogado num abismo’.

2 de maio de 2018

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“Aqui a polarização é mais grave. Não se vê alternativa, uma saída a curto prazo. Esse golpe pode ser
muito mais longo do que foi o de 1964”, crê um dos cientistas mais renomados do mundo, Miguel
Nicolelis.

Acostumado a palestrar pelo mundo, Nicolelis diz que o Brasil é visto hoje como um enigma
geopolítico.

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07/05/2018 A autossabotagem brasileira. O ‘país foi praticamente jogado num abismo’. | Dinâmica Global

Tutaméia – O golpe iniciado em 2016 é “uma tsunami política que tem um objetivo muito claro:
remover qualquer traço de potencial soberania do Brasil, eliminar o Brasil do cenário geopolítico
mundial como uma voz dissidente nas Américas e sabotar os Brics”. A avaliação é do neurocientista
Miguel Nicolelis em entrevista ao Tutaméia.

Para ele, a situação atual é muito pior do que a vivida nos idos de 1964: agora o golpe “carrega dentro
dele a semente da destruição, a obliteração total de qualquer vestígio de soberania brasileira”.

“É trágico. Se estivéssemos no século 5 a.C aqui, um dos grandes poetas gregos iria escrever uma
tragédia grega sobre a história brasileira. Nós somos a manifestação, no século 21, de uma tragédia
grega do século 5 a.C. Temos provavelmente um dos comportamentos mais peculiares do mundo,
que é essa contínua tentativa de autossabotagem ao próprio país, essa autofagia brasileira, esse tiro
no pé crônico é único”, afirma.

Nicolelis é um dos mais importantes cientistas do mundo. Membro das Academias de Ciência
brasileira, francesa e do Vaticano, doutor em medicina pela USP, ele recebeu mais de 30 prêmios
internacionais. Desde 1994, é professor da Duke University, nos Estados Unidos. Ficou mais
conhecido do grande público quando, na abertura da Copa de 2014, Juliano Pinto, paraplégico havia
dez anos, deu o chute de abertura dos jogos. Três metros atrás de Juliano estava Nicolelis, idealizador
(com John Chapin) do paradigma cérebro-máquina que proporcionou a realização do inédito e
revolucionário movimento.

Entusiasta da ciência e do Brasil, Nicolelis idealizou o projeto do Instituto Internacional de


Neurociências de Natal. Relatou a saga de criação do Campus do Cérebro no Rio Grande do Norte
em Made in Macaíba (Planeta, 2016). Seu primeiro livro, Muito Além do Nosso Eu (Companhia das
Letras, 2011), foi traduzido em dez línguas.

Início do fim do Brasil

… Dois anos depois do impeachment de Dilma Rousseff, o neurocientista ainda lembra da dor aguda
que sentiu enquanto acompanhava, desde o seu escritório nos Estados Unidos, a vergonhosa sessão
da Câmara dos Deputados, em 17 de abril de 2016. Uma votação como aquela, diz, jamais aconteceria
no congresso norte-americano ou em outro país.

“Nunca haveria uma votação cujo motivo subliminar é a entrega do país. Não era o jogo de tirar a
presidente, que era jogo de cartas marcadas. Em jogo ali era o primeiro capítulo dessa tragédia que
um dia pode ser escrita com o seguinte título: ‘O Começo do Fim do Estado Brasileiro’. É isso que eu
temo deixar para os meus netos”, declara. E emenda: “Pode parecer exagero, eu estou muito
tranquilo nessa análise. Acho que não demos a devida dimensão do que está havendo aqui”.

Quinta coluna

“Tem interesses externos geopolíticos gigantescos, que não passam nem por governos, mas por
interesses corporativos”, ressalta. Mas acrescenta: “O Brasil é muito proeminente na geração de uma
quinta coluna tão efetiva. Não conheço nenhum outro país que seja tão fácil arregimentar pessoas
nativas desse país para destruir a viabilidade do próprio país. Isso é muito proeminente nesse país.
Tivemos a França de Vichy (governo francês fantoche dos nazistas, entre 1940-1944), mas aqui salta
aos olhos. O Brasil é um país dividido profundamente hoje. Em outros tempos, teria muito receio em
imaginar se esse país continuaria a ser um país só”.

Em 1964, observa, “a correlação de forças jogou o Brasil numa ditadura militar, mas onde os militares
tinham um plano de Brasil. Não concordo (com o que o regime fez), mas não havia dentro do
movimento militar o desejo de destruir a soberania brasileira, entregar a Amazônia, a nossa fronteira
marítima – que era muito menor do que é hoje. Os militares foram atrás das 200 milhas, preservar a
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Amazônia, (criaram) a Embraer, o computador brasileiro, universidades federais. Não existia naquele
golpe a estratégia de destruir o brasil como player mundial – e nesse existe. Desde a concepção, nesse
golpe o mantra central é alijar o Brasil de ser um player mundial. Em todas as esferas”.

Sabotagem

E desenvolve o argumento: “Não é à toa que a ciência brasileira está sendo sucateada. As
universidades federais estão sendo atacadas a ponto de se discutir a possibilidade de algumas delas
desaparecerem. O orçamento científico foi cortado em mais de 60%. A Embraer está sendo dada. O
programa espacial brasileiro eu visitei na Base de Alcântara….”

Nicolelis conta que essa visita foi um dos momentos mais emocionantes de sua carreira. “Chegar lá e
ver a base de lançamento brasileira, que também foi sabotada. Ninguém esclareceu direito o que
aconteceu naquele acidente, anos atrás, quando o Brasil estava no limiar para entrar no clube restrito
de países que são capazes de colocar objetos em órbita.”

E afirma: “Eu vejo tudo isso encadeado: a entrega do pré-sal, os abusos que nós todos temos
testemunhado. Eu sou filho de juiz do Tribunal de Justiça, conservador, que nunca deu uma
entrevista na vida, um juiz garantista”. Hoje, na sua visão, “nossas garantias jurídicas estão
evaporando. Tudo isso é parte de um enredo completo, facetado, multidirecional, que tem um
objetivo central muito bem edificado, muito bem construído – que é a evaporação da soberania do
Brasil como país que importa. Alguns anos atrás estávamos a ponto de passar – por algumas
centenas de milhões de dólares não passamos – a economia da França e da Inglaterra. De repente,
parecia que o Brasil ia dar certo”.

Pedra no sapato

Nicolelis relata que encontrou todas as pistas para o roteiro do golpe no último livro de Moniz
Bandeira (A Desordem Mundial, da editora Civilização Brasileira). Desde que os governos do PT
chegaram ao governo, lembra o neurocientista, “o Brasil votou na ONU sistematicamente contra os
interesses norte-americanos. Israel, Iraque, Líbia, todas as questões geopolíticas essenciais que
foram colocadas diante da ONU, o Brasil foi contra. O Brasil era uma pedra no sapato, não há a
mínima dúvida”.

Ele enfatiza que o Brasil, naqueles anos, era “um pais emergente com uma ascensão dramática, que
começa a desfiar economias poderosas, cria uma outra esfera econômica, política e cultural que são os
Brics, passa a participar de um modelo alternativo de governança global, afirma uma posição e cria
uma identidade – vamos combater a fome, a miséria, vamos criar uma sociedade mais justa”.

Meninos do Acre

Nicolelis diz que, entre 2004 e 2010, “o Brasil era a esperança do mundo”, diferente da “mesmice
da comunidade europeia, do liberalismo predominante norte-americano, nós vamos ter no Brasil
uma sociedade utópica. Eu consegui recrutar cientistas do mundo para vir trabalhar aqui, porque
os caras queriam estar aqui. Hoje, não”.

Ele cita um dado revelador. Durante os governos petistas, a Finep (Financiadora de Estudos e
Projetos), agência de apoio e financiamento à ciência e tecnologia no país, chegou a ter um orçamento
superior ao da Darpa (Defense Advanced Research Projects Agency), a agência norte-americana
responsável por pesquisa na área militar e responsável, por exemplo, pelo embrião da internet.

“O Brasil é tão fenomenal do ponto de vista potencial que pequenos sopros de lucidez e de visão
fazem o troço explodir. Os governos do PT fizeram uma pequena abertura do que é necessário fazer
para evoluir. E veja o que aconteceu.”
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Ele mesmo responde: “Foram 14 anos de prosperidade intelectual, humanística, cultural e científica.
Teve erros? Um monte. Mas foi um pequeno sopro e isso aqui decolou. Veja, por exemplo, o projeto
Ciência Sem Fronteiras. Dei uma aula em Harvard que foi a coisa mais emocionante da minha
carreira. Tinha 150 pessoas no auditório, e havia 30 brasileiros. Moleques do Acre fazendo
astrofísica!”.

Lembra que o programa envolveu mais de cem mil jovens, “foi o maior projeto do planeta”.

“Cadê a reação da comunidade científica contra o golpe? As universidades estão sendo sucateadas.
Cadê a inteligência brasileira para discutir isso?”, pergunta Nicolelis.

Elefante na sala

Para enfrentar todo esse desastre em curso, Nicolelis considera fundamental a discussão de um
projeto de nação. Um projeto fundamentalmente político, em torno de pontos mínimos: nação,
democracia, distribuição de renda, alinhamento com os Brics, educação pública de qualidade. “O país
precisa fazer uma discussão profunda sobre o ethos nacional, do que é aceitável e do que tem que ser
expurgado… O passado escravocrata conta?, perguntamos.

“É mistura de muita coisa que nunca foi trazida para fora, posta na sala. Colegas alemães da minha
idade contam que até os anos 1960 era muito parecido na Alemanha. Ninguém falava do passado
nazista nas escolas. Era o elefante. E, de repente, em 68 aquilo veio para fora. A nova geração alemã
pôs para fora e expurgou aquilo do âmago da nação”, responde.

Nesse processo, o sistema educacional, contando a história do país sob Hitler, foi fundamental. Aqui,
é preciso debater muito a história para a elaboração de saídas consistentes. Nicolelis diz sentir falta
aqui de um relato da nossa história do ponto de vista dos oprimidos. Algo como o historiador
Howard Zinn fez em A People History of the United States.

Erro estratégico

Nicolelis não está otimista com os desdobramentos da situação atual. Considera que a esquerda
cometeu erros estratégicos na condução da resposta ao golpe.

Um deles foi, nas eleições para prefeito em 2016, priorizar a disputa das vagas como se fosse
momento normal, em vez de usar a campanha para continuar e aprofundar a denúncia do golpe.

Isso, na opinião dele, “tirou o fôlego do movimento contra o golpe, foi um erro estratégico dramático.
Porque essa eleição municipal não mudou nada…

“O país foi praticamente jogado num abismo. Dizia-se nos anos 1980 que o Brasil não podia cair no
abismo porque era maior do que o abismo. Lamento informar que o abismo está ficando maior do
que o Brasil”, afirma.

Sem pacificação

Da mesma forma com que erros foram cometidos em 2016, agora Nicolelis diz que há repetição de
equívocos.

“Vejo gente dizendo que as eleições vão pacificar o Brasil. Pacificar nada. As eleições norte-
americanas não pacificaram os Estados Unidos. Essa polarização nos Estados Unidos tem um
paralelo aqui. Aqui a polarização é mais grave. Não se vê alternativa, uma saída a curto prazo. Esse
golpe pode ser muito mais longo do que foi o de 1964. No de 1964 houve uma reação. Agora não vejo
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visão estratégica, um projeto de nação claro. Meu medo é que, se não houver uma clara aglutinação
em torno de um projeto de nação, hoje é possível imaginar a obliteração da nação. Sem um projeto
interno que aglutine o maior número de brasileiros em torno de uma visão de país, a coisa é séria.
A autofagia passa a ser um processo de autoaniquilação da identidade nacional. Eu acho que o
risco que estamos vendo é o fio da meada de um processo que pode levar a isso. Como eu achava que
2013 foi o fio da meada do que aconteceu.”

Lula, o Juscelino do século 21

Nicolelis faz paralelo da situação atual com a presidencial de 1965 – que não houve. Como agora,
Juscelino (então favorito) foi acusado de ser beneficiário de um apartamento. “A história do Brasil não
se repete como farsa, mas como plágio. A eleição foi cancelada e entramos num hiato de 20 anos.
Acho que agora a eleição não vai ser cancelada, mas ninguém sabe o que vai acontecer. No momento,
se remove o Juscelino do século 21, que é o Lula, que claramente está na frente.”

….

Tiro na Constituição

Em suas frequentes viagens pelo mundo, fazendo pesquisas, dando aulas e palestras, Nicolelis nota a
perplexidade de seus interlocutores. Conta ouvir: “‘O Brasil era nosso parceiro estratégico. O Brasil
era o celeiro da China. De repente, vocês estão dando um tiro na cabeça’. Ninguém entende nada.
Somos um enigma geopolítico. Os caras não entendem. A prisão do Lula é incompreensível. Um
processo igualzinho ao Ka a, com inconsistências, abusos, tudo que não faz parte da tradição no
mundo Ocidental.”

“Quem respeita a Constituição? Quando se rejeitam conceitos pétreos, a presunção da inocência?


Quando se passa por cima (da Constituição), se dá um tiro no coração. O pessoal diz que o que
aconteceu no Brasil não é igual ao que aconteceu com Getúlio em 54. Eu discordo. O tiro só não foi
dado no coração de um indivíduo, o tiro foi dado no coração da Constituição do Brasil. O paralelo é
muito mais profundo, é pior do que 1964. É a pior crise institucional da história do Brasil. Porque o
tiro não foi dado numa pessoa. O tiro foi dado no coração da norma máxima de um país que é a
Constituição. Você atirou no ventrículo da Constituição. Como você repara o ventrículo? Não é uma
cirurgia simples, há risco de morte.”

Assista a entrevista na íntegra.

Brasil vive momento mais difícil.

Em "brasil"

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Golpe e Ditadura Militar seriam alternativa aos problemas do Brasil?

Em "brasil"

A intervenção que começou há séculos.

Em "brasil"

Autores: Eleonora de Lucena e Rodolfo Lucena

Sugestão de leitura de Miguel Freitas

Fonte: Rede Brasil Atual

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Categoria : brasil, colonialismo, democracia ameaçada, entrevista, golpe de estado, judiciário


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Um pensamento sobre “A autossabotagem brasileira. O


‘país foi praticamente jogado num abismo’.”

adriano salvian em 2 de maio de 2018 às 18:48 disse:


Esqueceu da corrupção que roubava muito além das corrupções anteriores durante os governos
petista. Dinheiro desviado para secar a economia e arrecadar fundos para promover a destruição
da democracia brasileira. É o quê vemos hoje. Os ‘bois de piranha’ como fies, bolsa família,
mandar estudantes para Europa, etc, eram para justificar os gastos além do normal durante o
período Lula 2 e Dilma 1 e 2. Ao contrário da sua visão, vejo um país tomando rumo, acordando
para a política e no aguardo de novas eleições para limpar todos estes corruptos que sobraram (e
que ainda mandam no país) e cuja função é só tirar vantagem para eles, lembre-se que todos eles
trabalhavam junto com o pt durante o governo petista.

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