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EXCELENTÍSSIMO SENHOR DOUTOR JUIZ DE DIREITO DO JUIZADO

ESPECIAL CÍVEL DA COMARCA DE LUCAS DO RIO VERDE – ESTADO DE


MATO GROSSO.

Autos nº

D.L.B JOIAS LTDA ME, já qualificada nos autos acima mencionados que move
em face de CIELO S/A, vem mui respeitosamente à presença de Vossa
Excelência, apresentar impugnação à contestação.

1. DA EXISTÊNCIA DE GRUPO ECONÔMICO.


A Requerida alega suscintamente que não é responsável pela administração dos
cartões de crédito dos consumidores finais e que, tão somente, é responsável
pela tecnologia de informação – máquina de cartão.
Não obstante os esclarecimentos prestados pela Requerida o que, em verdade,
existe é um grupo econômico entre a ELO e CIELO, sendo que a primeira
responderia pelos cartões e a segunda pela máquina de cartões. A
caracterização deste grupo econômico fica pela similaridade dos nomes
fantasias e logos e pelo fato de possuírem sede no mesmo edifício comercial,
conforme cartão CNPJ, anexo.
Nitidamente a existência de um grupo econômico, razão pelo qual ambos devem
ser responsabilizados por eventuais perdas e danos à Requerente.

2. DA ALEGADA DECADÊNCIA CONVENCIONAL.


A Requerida alega que por força da Cláusula 23 do contrato ocorreu a
decadência convencional, pois na referida cláusula está previsto que “o Cliente
terá o prazo de 30 (trinta) dias corridos a contar do repasse para apontar
qualquer diferença nos valores (...)”.
A Requerida não leu a petição inicial ou finge que não leu, pois há anotações a
mão – com fornecimento de protocolos de atendimento – que indicam que as
reclamações com os valores se iniciaram pouco tempo depois da contratação da
máquina de cartões – menos de um mês após a instalação. Os problemas com
a Requerida começaram cedo, o que já não chega a ser novidade pela
quantidade de lojistas que reclamam dos serviços da Requerida.
O ajuizamento da presente ação pode ter sido além do prazo decadencial
convencional, mas as reclamações administrativas não o foram. Ademais o
prazo estipulado pela Requerida coloca os lojistas em condição de inferioridade,
pois o contrato não pode ser negociado e hoje como boa parte das vendas são
feitas no débito ou crédito o comerciante se sujeitas às condições da operadora
de cartão de crédito.
Veja, Excelência, que a Requerida sequer refuta os protocolos de atendimento
e tentativas de solução administrativas da Requerente, trabalha a Requerida
apenas com o prazo de ajuizamento da ação, sem observar que fora tentado
solução administrativa que foi infrutífera.
O ajuizamento da presente ação constituiu a última saída da Requerente para
forçar a Requerida a pagar o que deve à Requerente, sob pena de se enriquecer
ilicitamente.
Portanto, Excelência, ante as inúmeras tentativas administrativas para
solucionar o problema referente ao repasse de valores para a Requerente, deve
ser afastada a preliminar de decadência convencional, porquanto constatado a
divergência já houve reclamação formal com registro de protocolo junto à
Requerida, que agora se faz de esquecida para não pagar.

3. DA INVERSÃO DO ÔNUS DA PROVA.


A Requerida alega que o ônus da prova não deve ser invertido, porquanto a
Teoria Finalistas do Direito do Consumidor prevê sua aplicação apenas aos
consumidores finais.
Não obstante o entendimento da Requerida a inversão do ônus da prova não
depende apenas da aplicação do direito consumerista, mas estando previsto
também na norma geral, ou seja, no Código de Processo Civil quando ficar
demonstrado que a outra parte possui maior capacidade de produção da prova.

Art. 373. O ônus da prova incumbe:


I - ao autor, quanto ao fato constitutivo de seu direito;
II - ao réu, quanto à existência de fato impeditivo, modificativo ou
extintivo do direito do autor.
§ 1o Nos casos previstos em lei ou diante de peculiaridades da
causa relacionadas à impossibilidade ou à excessiva dificuldade
de cumprir o encargo nos termos do caput ou à maior facilidade
de obtenção da prova do fato contrário, poderá o juiz atribuir o
ônus da prova de modo diverso, desde que o faça por decisão
fundamentada, caso em que deverá dar à parte a oportunidade
de se desincumbir do ônus que lhe foi atribuído.
§ 2o A decisão prevista no § 1o deste artigo não pode gerar situação
em que a desincumbência do encargo pela parte seja impossível ou
excessivamente difícil.
§ 3o A distribuição diversa do ônus da prova também pode ocorrer por
convenção das partes, salvo quando:
I - recair sobre direito indisponível da parte;
II - tornar excessivamente difícil a uma parte o exercício do direito.
§ 4o A convenção de que trata o § 3o pode ser celebrada antes ou
durante o processo.

Esta possibilidade legal visa proteger à parte mais fraca na lide, in casu, a
Requerente é nitidamente a parte mais fraca do processo, porquanto a
Requerida é um dos grandes players do mercado de operadores de cartão de
crédito. A inversão do ônus da prova permitirá a correta aplicação da justiça e a
correta apreciação das provas, já que a sua produção é facilitada pelo vasto
arquivo da Requerida.
Desta feita, requer seja deferida a inversão do ônus da prova, conforme autoriza
o art. 373, §1º do Código de Processo Civil de 2015.

4. DA EXISTÊNCIA DE RESPONSABILIDADE CIVIL.


Em decorrência deste incidente, a Requerente experimentou situação
constrangedora, tendo sua imagem abalada, face as dificuldades para realizar
pagamentos já que não recebia o valor correto, com seus reflexos prejudiciais
sendo suficiente a ensejar danos morais. A empresa Requerida agiu com
manifesta negligência e evidente descaso com a Requerente.
Sua conduta, sem dúvida, causou danos à imagem, à honra e ao bom nome da
Requerente, de modo que passou uma imagem de mau pagador, de forma
absolutamente indevida.
Desta forma, não pode a empresa Requerida se eximir da responsabilidade pela
reparação do dano causado, pelo qual responde.
Sobre o tema, assim já decidiram os egrégios Tribunais de Justiça, in verbis:
Caio Mário da Silva PEREIRA ensina que o indivíduo é titular de direitos
integrantes de sua personalidade, o bom conceito que desfruta na sociedade, os
sentimentos que estornam a sua consciência, os valores afetivos, merecedores
todos de igual proteção da ordem jurídica (PEREIRA, Caio Mário da Silva.
Responsabilidade Civil. 9ª ed. Rio de Janeiro: Forense. 1998. p. 59).
A Constituição Federal de 1988 preceitua em seu artigo 5º, inciso X, que:

“Art. 5º. Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer
natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes
no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à
segurança e à propriedade, nos termos seguintes: (...) X - São
invioláveis a intimidade, a vida privada, a honra e a imagem das
pessoas, assegurado o direito à indenização pelo dano material ou
moral decorrente de sua violação;"

Dessa forma, claro é que a Requerida, ao cometer imprudente ato, afrontou


confessada e conscientemente o texto constitucional acima transcrito, devendo,
por isso, ser condenada à respectiva indenização pelo dano moral sofrido pela
Requerente.
Diante do narrado, fica claramente demonstrado o absurdo descaso e
negligência por parte da Requerida fazendo-a passar por um constrangimento
lastimável.
O ilustre jurista Rui Stoco, em sua obra Responsabilidade Civil e sua
Interpretação Judicial, 4ª ed. ver. atual. e ampl.. Editora RT, p..59, nos traz que
a noção de responsabilidade é a necessidade que existe de responsabilizar
alguém por seus atos danosos.
A única conclusão a que se pode chegar é a de que a reparabilidade do dano
moral puro não mais se questiona no direito brasileiro, porquanto uma série de
dispositivos, constitucionais e infraconstitucionais, garantem sua tutela legal.
À luz do artigo 186 do Código Civil, aquele que, por ação ou omissão voluntária,
negligência ou imprudência, violar direito e causar dano a outrem, ainda que
exclusivamente moral, comete ato ilícito.
Para que se caracterize o dano moral, é imprescindível que haja: a) ato ilícito,
causado pelo agente, por ação ou omissão voluntária, negligência ou
imprudência; b) ocorrência de um dano, seja ele de ordem patrimonial ou moral;
c) nexo de causalidade entre o dano e o comportamento do agente.
A presença do nexo de causalidade entre os litigantes está patente, sendo
indiscutível o liame jurídico existente entre eles, pois se não fosse a retenção de
repasses a mesma não teria sofrido os danos morais pleiteados, objeto desta
ação.
Evidente, pois, que devem ser acolhidos os danos morais suportados, visto que,
em razão de tal fato, decorrente da culpa única e exclusiva da empresa
requerida, a Requerente teve a sua imagem afligida, exposta como sendo como
mau pagadora perante outras empresas e pessoas, pois com os atrasos ou
mesmo falta de repasses acabou atrasando o pagamento de contas.
Dano moral, frise-se, é o dano causado injustamente a outrem, que não atinja ou
diminua o seu patrimônio; é a dor, a mágoa, a tristeza infligida injustamente a
outrem com reflexo perante a sociedade.
Neste sentido, pronunciou-se o E. Tribunal de Justiça do Paraná:

“O dano simplesmente moral, sem repercussão no patrimônio, não há


como ser provado. Ele existe tão-somente pela ofensa, e dela é
presumido, sendo bastante para justificar a indenização” (TJPR - Rel.
Wilson Reback – RT 681/163).

A respeito, o doutrinador Yussef Said Cahali aduz:

“O dano moral é presumido e, desde que verificado ou pressuposto


da culpabilidade, impõe-se a reparação em favor do ofendido” (Yussef
Said Cahali, in Dano e sua indenização, p. 90).

Preconiza o art. 927 do Código Civil aquele que, por ato ilícito, causar dano a
outrem, fica obrigado a repará-lo.
Não se pode deixar de favorecer compensações psicológicas e/ou a sua imagem
ao ofendido que, obtendo a legítima reparação satisfatória, poderá, porventura,
ter os meios ao seu alcance de encontrar substitutivos, ou alívios, ainda que
incompletos, para o sofrimento. Já que, dentro da natureza das coisas, não pode
o que sofreu lesão moral recompor o status quo ante restaurando o bem jurídico
imaterial da honra, da imagem, por que o deixar desprotegido, enquanto o
agressor se quedaria na imunidade, na sanção? No sistema capitalista a
consecução de recursos pecuniários sempre é motivo de satisfação pelas coisas
que podem propiciar ao homem.
Harmonizando os dispositivos legais feridos é de inferir-se que a reparação
satisfatória por dano moral é abrangente a toda e qualquer agressão a honra,
dignidade, reputação, liberdade individual, vida privada, recato, abuso de direito,
imagem, enfim, o patrimônio moral que resguarda a personalidade no mais lato
sentido.
Indubitavelmente, feriu fundo à honra e a imagem da Requerente ver seu nome
protestado por um título já quitado, espalhando por todo e qualquer lugar que
fosse, a falsa informação de que é inadimplente.
MARIA HELENA DINIZ (Curso de Direito Civil Brasileiro, 7º vol., 9ª ed., Saraiva),
ao tratar do dano moral, ressalva que a reparação tem sua dupla função, a penal
"constituindo uma sanção imposta ao ofensor, visando à diminuição de seu
patrimônio, pela indenização paga ao ofendido, visto que o bem jurídico da
pessoa (integridade física, moral e intelectual) não poderá ser violado
impunemente", e a função satisfatória ou compensatória, pois "como o dano
moral constitui um menoscabo a interesses jurídicos extrapatrimoniais,
provocando sentimentos que não têm preço, a reparação pecuniária visa a
proporcionar ao prejudicado uma satisfação que atenue a ofensa causada." Daí,
há necessidade de observar-se as condições de ambas as partes.
Em que pese o grau de subjetivismo que envolve o tema da fixação da
reparação, vez que não existem critérios determinados e fixos para a
quantificação do dano moral, a reparação do dano há de ser fixada em montante
que desestimule o ofensor a repetir o cometimento do ilícito.
E na aferição do quantum indenizatório, CLAYTON REIS (Avaliação do Dano
Moral, 1998, Forense), em suas conclusões, assevera que deve ser levado em
conta o grau de compreensão das pessoas sobre os seus direitos e obrigações,
pois "quanto maior, maior será a sua responsabilidade no cometimento de atos
ilícitos e, por dedução lógica, maior será o grau de apenamento quando ele
romper com o equilíbrio necessário na condução de sua vida social". Continua,
dizendo que "dentro do preceito do 'in dubio pro creditori' consubstanciada na
norma do art. 948 do Código Civil Brasileiro, o importante é que o lesado, a
principal parte do processo indenizatório seja integralmente satisfeito, de forma
que a compensação corresponda ao seu direito maculado pela ação lesiva."
Bem se vê, à saciedade, ser indiscutível a prática de ato ilícito por parte do
requerido, configurador da responsabilidade de reparação dos danos morais
suportados pelo autor.

5. REQUERIMENTOS.
Diante do exposto, requer se digne Vossa Excelência em julgar procedentes os
pedidos da petição inicial, condenando a Requerida em danos materiais e
morais.
Reitera, ainda, o protesto de provas formulado na petição inicial.

Termos em que, respeitosamente,


Pede e espera deferimento.
Lucas do Rio Verde, 14 de julho de 2018.

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