Você está na página 1de 56
·Dirceu Lindoso la9oal!\a • 3ª edição - revista e ampliada •

·Dirceu Lindoso

la9oal!\a

3ª edição - revista e ampliada

Dirceu Lindoso

• Dirceu Lindoso ' la9oaV\a 3ª edição - revista e ampliada '

'

la9oaV\a

edição - revista e ampliada

'

Obras do Autor:

Póvoa Mundo. José Olympio,

1981.

Uma Cultura em Questão: a

a/agoana . Edufal, 1981 .

Mínimas Coisas. A Voz do

Lenheiro,

1981 .

A Diferença Selvagem. Civilização

Brasileira, 1983.

A Utopia Armada: rebeliões de

pobres nas matas do tombo real .

Paz e Terra , 1983/Edufal, 2005.

Liberdade e Socialismo. AMPM

Editora, 1986.

A book of days for de brazi/ian

literaly year. Co-autoria Fundação Biblioteca Nacional, 1993.

Mar das Lajes.

Catavento/Edufal/FCCM, 1999.

Formação de Alagoas Boreal.

Catavento, 2000.

Interpretação da Província: estudos de cultura a/agoana.

Edufal/Fundação Manoel Lisboa ,

2005.

As lnvençoes da Escrita. Cepa!,

2006.

Marená: um jardim na selva. Cepa!,

2007

Lições de Etnologia Geral:

introdução ao estudo de seus

princípios. Edufal, 2008.

, ·~

.

O Poder Quilombo/a: a comunidade mocambeira e a organização Social quilombo/a .

Edufal, 2007.

A Razão Quilombo/a: estudos em torno do conceito quilombo/a de nação etnográfica. Edufal , 2011 .

O Grande Sertão: os currais de

bois e os índios de corso.

Fundação Astrojildo Pereira, 2011.

O Círculo Arcaico e outros estudos

etnológicos. Edufal, 2013.

,

índios de corso. Fundação Astrojildo Pereira, 2011. O Círculo Arcaico e outros estudos etnológicos. Edufal, 2013.
1·1' , DIRCEU LI NDOSO ,.,, /' INTERPRETAÇAO DA PROVINCIA: ESTUDO DA CULTURA ALAGOANA 3ª

1·1'

1·1' , DIRCEU LI NDOSO ,.,, /' INTERPRETAÇAO DA PROVINCIA: ESTUDO DA CULTURA ALAGOANA 3ª edição

,

DIRCEU LI NDOSO

,.,,

/'

INTERPRETAÇAO DA PROVINCIA:

ESTUDO DA CULTURA ALAGOANA

3ª edição - revista e an1pliada

/ Edufal

DA PROVINCIA: ESTUDO DA CULTURA ALAGOANA 3ª edição - revista e an1pliada / Edufal Maceió, AL,

Maceió, AL, 20 15

,•

a IJNIVel!SIDADll f.EDEJ!AL or. AL.Ac;oAs Ueitor l:urico dl' IJarros l.ôbo flll10 \'lre-reirora f!arhl'i

a

IJNIVel!SIDADll f.EDEJ!AL or. AL.Ac;oAs

Ueitor

l:urico dl' IJarros l.ôbo flll10

\'lre-reirora f!arhl'i llocha de Almrida ll:urns

Dircrora da Edufal Maria Srela 'fhrrcs llarros l.amcirJ$

Conselho Editorial Edufof

oll :1ria Srd:t Tor res llarms l:mwirns (l•rt-sitk• ntl') l'rrnantfa Uns de IJ m:t (Sccrcr:íria)

,\111Jcrs on

1le .~lcncarMenezes

llruno CC::sar Cmdc:tnll Cín·ro Pfrirb de OJfrciru C:wvalho

Eurico füluan lo Pin l() de Ll'mos

l'crnando Anrônio Gomt•s de 1\ndrnde frrnando SíMo C:walcanre Pimcn1d Geraldo M~jcJ~Gaudforio Faria J :m:1ín :1 Xi s ro de lla rro s Uma

José f vam i t"l n d a Si fYa ll arhal ho

rro s Uma José f vam i t"l n d a Si fYa ll arhal ho
rro s Uma José f vam i t"l n d a Si fYa ll arhal ho

Coorde ua ~:lo Editorial:

l!etis:io:

ft•rnanda l.ins

!>irct·u l.indoso

lsm élia Th111rt's

]Or)lc Santos

Ca pa:

J>i11gra111açãu:

Supcrvis:io gr:ílka:

Edrnliso 11 Vasn111ee1os

Mfrcio llohrrtu Vieira de Melo

Tra1"111cn10 'J 'fr 11i ro

Cat:llo~aç;io na fonte

IJ11iwrsidadr Fedrrnf de Al:lgoas

Bihliotc~a l:e111ml - l>ivisão de

llibflo11•c:lrio llt·sponsfref: V;d11•r dos Sa111os Andrntlc

L747i

Lindoso. Dirceu. 19.lZ·

h11e11m·1aç:ioda pro1Ílllia: estudo.da cuhura alagoana i llirct~1l.ludCl.IO.

•3.cd. ·Maceió : l!DUfi.lt, 2015.

!Olp.

Inclu i biblfog1·an~

J. :\lagoas - Cultura · fli~uirl:i.1. Tírulo.

CDU: 008(81j,S)

'

11 ~ ~,

l =~

Editura allliada:

_

AU OCJA çAoaRASJlElflA

oe EotT ORAs UHl'Jfl<snA~v.s

Direitos de:~!•cdlç;io rescn·•do.< à

~dufal 1 : <1 i 1or ; do U ni1Nsid:i d c

l'ede 1 ·~ 1 tl c

.

.Va~'Clas

Cc111ro d t l 111eresso Co 111u ni 1ário

A1: Lwril~IMelo M<~a,:efn · C

n

(CIC) pus A. C Simlie$

CIJJJ. lini\l'fSit:írfa, Macci<VAL C.1>.: 57072.•)]IJ

Co11lato:1 : W\n~edufal.com.br f ~unrato<{•cdufaJ.com .br I (82) 3! 14. li f l i ll f 3

1 vis1o sociológica ' como classi ficou

> ., d fi

·ção do caráter

A Moreno Brandao, pe a . '

~

a nossa ger .

provincial alagoano.

lte e cst'1bdcccu a pnmcn ª e im

·

'

,

1

1

1

1

• • • ,., P< , l'l' CÍél ciO l'rcfácio à 2ª. Edição l'rcfád o
• • • ,., P< , l'l' CÍél ciO l'rcfácio à 2ª. Edição l'rcfád o

,.,

P<

• • • ,., P< , l'l' CÍél ciO l'rcfácio à 2ª. Edição l'rcfád o à

,

l'l' CÍél ciO

l'rcfácio à 2ª. Edição

l'rcfád o à 3ª. Edição

/

SUMARIO

,

,

1. 1

17

21

 

- Represen tação Social da Escrita da Cult ura Alagoana no Século XIX

23

li

- Ruptura e Conti nu idade

na Cultura Alagoana

49

Bibliografia Geral

74

Ili

- Uma Cultu ra e1n Questão: a Alagoana

79

7

,.

""' .

, . " " ' • . , ri'un1 século e1n que a antiguidade não é

,

ri'un1 século e1n que a antiguidade não é fiador de nada.

Tavares Bastos, Cartas do Solí!ário,

(CartaXXV), Rio de janei ro. 1862.

9

, ,, PREFACIO Da IJi stô ria da ge nt e al ago an a

,

, ,, PREFACIO Da IJi stô ria da ge nt e al ago an a já

,,

PREFACIO

Da IJi stô ria da ge nt e al ago an a se disse ser a hi s tória de t1111a ge nt e

qll llft li nufíhia, e que no es paço elas Alagoas - com tal abundância de lagoas, rio s

u rl uc hos - a i111portância da água foi 11iüx in1a na caracterização do co1nplcxo

fljil'dr! o' , J~ass im que as águas alagoanas apt1recc1n ainorosan1ente estudadas- no

tll Y. t ' I '

t:o11fess:l ()(.'.(avio, en1 sua obra 111cn1orialística Co111bafes e Batalhas, que iniciara

n l'MtTl!a de Cct 11(,(,es e Lagoas cm J. 9 I 8 e ntre os aratus e as ventanias de un1

Mu11da (1. Unia con fi ssão a seu 1nodo anfíbia, e que indica

cx pr< .' ssivo de Gilberto Frcyrc - e1n Canaes e Lagoas d e Octavio Brandão.

: dos t's lc ros da l agoa

n pn·s,:uça das á~uas alagoanas na esc rita de u1n

Il t• Ma ceió dizia o folclorista Th éo Brandão que era urna cidade que vive sob o

11 IH110 da ;Ígua. Aágua presenciando tudo: a cconoinia , a vida literária , as fonnas

tk 111o radia , o t ran s port e. a fi xa ção da vid a rural e urbana. É essa pr ese n ça

quase incônwda das águas que faz de Cttfu11ga de Jorge de Li111a t1111 ro111ancc d 11 pla111cn tc a nfí bio : pel a presença inqu i ct an l c do rcdc n1oi nho da l agoa Mundaú ,

n dl'slocar-se sinistr a 111e nt e e1n torn o cios este ros ela boca da bar ra , e da n1i séri a- 111111Hla 6 de seu pcr sonage1n: u1na misé ria a seu modo a nfíbia. Desde Canaes e

po r Ca l 11 11g a d e jo r ge d e Li n1 a e alcan ç an d o

f.n,~oas de Octa vio Brand~io ,p assa nd o

o:; rilos

d.os seus filhos 1nais rebeld es.

poen1áticos de Pôziorr-.'vlu11do , meu ro mance de

iniciação, as águas- de

lagoas, rios , riachos, estcros 1nari11lios e as 111ais longas,

coin o 1náxi1no de despudor a breve litcratu l'<l alagoana.

j:i oceânicas - invadctn

É claro que há os ron1ances de Gracilia110 Rmnos, que são puro chão,

J a:> :íguas de pu11donor sendo apenas as das chuvas. ElnAugústía a presença das

na densa tran1a p sicológ ica

:íg u ~ts de Maceió apenas se sugere, i ns in uando-se

(Lo pcrsonage111; en1 Vítlas Secas as {iguas apenas pluviais são urna promessa

1111111 chão seco de sert ão, q\1c de repcn te se enla1ncia, nas prilnciras chuvas,

FHEYRE, Gilbrrto. Prefácio . ln : DIEG l lES JIC, Manut'i . O vrm,l!ii ê1111sillagoas. Ri o de Janeiro: l:\ 1\, t ?li 9,

p. xii • wii.

DIEG l lES JIC, Manut'i . O vrm,l!ii ê1111sillagoas. Ri o de Janeiro: l:\ 1\, t

11

cn1 ba rrei ros; cn1 Sâo Bernardo as águas das chuvas flo rcsce1n os paus- d' arcos, 1narca111 o ri tn10 nolurno do sonho, da s uspeita e da tragédia. São, pois, águas con lidas, sc n1 lux úria de ab u ndância , sc n1 do1nínio eco lógico. Poucas ou abundan 1es, psicológicas ou físi cas, as águas don1ina111 a cu llura al agoa11a,

rna rcando-lhc as criaçõe:;, das egrégias às 1nais si1n ples

alagoana uma gen te qu ase anfíbia, con10 a ca racterizo u Gilberlo Frc)1rc, 111as de

cullura de fortes do1n inâ nci as anfíbias: a pesca, os n1eio s de con1u ni cação, as hahila ções quase p;1l afí tic as, as cida des be iran do rios , n1ares, lago as e nrnnguczais mar inh os; a toponírnía exposta ao clo1nínio aquático, conH) indicou Manu el Di egucs Jú nior, con1seus povoados e e11gc11~1os de 110rnes de ;íguas - Rí ac hão,

e an ô11in1as. Não é só a

'

'

,

Poço, Hib eira , Agua Co mprida, Agua Fria, Agua Clara, Hiacho Bran co. acre sce nro o 11on1c da velh a ca pital - Alagoas - que foi ta1nbé111 o da

A essa li s ta Comarca e

da Provínc ia, e é hoj c o do Es tado; e ainda os vários Olhos d'Agua qu e des ig11a1n povoados, vilas e 11u111icípios. A alagoa na é, de foto e por ant onon1ásia, unia civili zação da ;ígua: de chuvas, nas inatas (unidas , onde a111adurccen1 os ca naviais; n1ar in has, no recortado litoral de rios e eslerus de rna ngu ezais; lacus tr es, nas lagoas q11c se estr ndern es parsas de 1\ilaceió para o Sul; fl uviais, n:t abu11d:1ncia dos grandes rios - co1no o São Francisco - e nos peq uenos rios ond e inedrou

a civilização do açlÍc ar. São in úme ras as :ígu as qu e esco rre1n pelo recôncavo de 1\ilacció, faze ndo que a cidade crescesse 1Huna restinga seca e arenosa, e subisse ávida para os tabu leiros do Farol, do Martins e do Jacu tinga.

Não é por acaso que a obra-pri nia da nossa li teratura, co rno expressão po ética, SC'ja ju starne n te urna c riação anfíbi a: a In ve nção de 01je11 de jorge d. e

Li1na. Em Sl' ll longo e belo poema o poeta nos dá a 1nais concisa explicação

urn a ilha:

de

Que é uma ilha senão um círculo?

(Sone to X.XIII , Ca nt o IV)

Ailha é apenas uni círculo 1 n1as um círculo especial de !erra e águas, tuna figura anfíbia. Aos que consideran1, co rno eu, as Alagoas LllH enclave soci al ,

12

co rno eu, as Alagoas LllH enclave soci al , 12 ~nlfüco e cultural , a
co rno eu, as Alagoas LllH enclave soci al , 12 ~nlfüco e cultural , a
co rno eu, as Alagoas LllH enclave soci al , 12 ~nlfüco e cultural , a

~nlfüco e cultural , a definição da il ha co 1110 círcu lo é um a 1netáfor a alagoana ucuhura. Sem a água , a 1nc táfora d a i lha de sap a rece. E a te rra ap e na s se 111 a

d,autt n:1o con sti tui a n1et:ífo ra insu la r. Aágua é o círc ulo da ilha: :u~d.istinção tn nll 11c 11 1a l. Só a 111et áfo ra aquática do cí r c u lo ( l :í r ea l idade e concrsao a fig u ra da lllm IJuaginada. Í~pcrfcila e a lagoa na a i1nage 111 do poeta- e per feição aquática e lllC'lnfó rica- exp lica nd o a figu ra da ilha co 1110 a real ida de ci o círc ul o . Ass iste -se no \'L•rl! o de.Jorge de Urna à percepção da reali dade co 1no fi gura, i111agc1n e ~alavr:~

Hill! ' ('

a c on c rctud e geog r áfica ou s o c i a l asp am- ~e a~ realidades da n 1ctafora. l~

li l'( ' IH ' esc nta ção, que só se ve rifi ca co r no c ria ção visual , auditiva, pcrcep.tiv ;~.o u

i•oncc• ltual , por inter venção

R11 !111ago da esc rita qu e faz qu e pcrdur e111 as realidades como rcprcs e nta çao.

da palavra . São as palavras que cri a111, e a csc nta !J2~t.

SOo as 111 at é rias da J'orina espectra l, o

c·o11tine11tes do 11:\0 pod e exis li r ltl s t6rica. Co rno

vid a - s u a hi s tóri a e vivê nc ias - que constitue1n, sob u11H1 con le údo das imagos . En cerra a rnatéria da escrita esses

espectro, que é a represe nt açào d.o real príslíno e atual, porqu e repres en tação 11:1 esc ritH scrn ess as fo rn1as sociais de exist ên cia adve rti u o poda:

o perigo da rida s<io os vácuos.

( Poema VI , Ca n to IV).

o que pretendo 1noslrar nos dois ensaios é con10 se figu rou na escrit a

dos sé c ul os XVIII e XIX e no co1 n eço cio século XX a existênc ia his tó ri ca de ss a

g(' llt(' anfíbia: a alagoana ; e co1110 se estruturou con10 espaço .social o .es~J:~ço a l ago; u1 0 d a ant i ga ca pit ania d e Pcr 11 ai11buco. Atra vés ele um cunt11u1u 1~ h1ston~o a cultura alagoana se cs trul ura media nte ur n lento processo de seduncntaçao :-; oci al e rápidos n101n e11tos el e ru ptur as. Ne1n se mpre na cultura alagoana a v1sao ideológica progress ista coincide, num mesn10 agente criador, con1 as rup~un~s dos códigos de criaçfio, nc rn a visão ideo lógica con servadora corn a pcnnan cnc1a dos códigos canônicos. É o caso de Jorge de Li1na, que sendo portador de urna

id e ologi; da

Rarnos, que se nd o portador d.e u1na id.colog ia de rn ptura adota urn cod1go cstel 1co

'

. -

pcrn1<1nência ado t a 11n1 có di go es t é l ico de ruptura; e o ~e.Gracil~a.no

' • ., ., h., c n1 ba r reiros; cni Siio Bernardo as águas

' •., .,

h.,

c n1 ba r reiros; cni Siio Bernardo as águas das chuvas florescem os pa us-d'a rcos, marca111 o ritn10 nolu rn o do sonho, da suspeit a e da tragédia. São, po is, :'iguas

contidas, sen i luxúria de abu ndânc ia, sen1 dorn ínio ccol1ígico. Poucas ou abundantes, psicológicas ou físicas, as águas doininarn a cultu ra al agoa na, rna rcand o- lh e as criações, das egrégias às 1nais sirn pl es e anô ni n1as. Não é só a alagoana wna ge nte qua se :111fíbia, coi no a caracterizou Gilberto rrcyre, n1as de cu ltura de fo rtes dornin âncias anfíbias: a pesca, os rneios de cor n t111icaçflo, as habitações quase palafíricas, as cidades beirando rios, n1ares, b goas e nianguczais n1ar ir 1hos; a topo11ín1ia expos ta ao dornínio aquMico, corno ind icou Manue l Di eg ues Júni or, con1 se us povoados e engenbos de norn es de ág ua s - Ri ac hão, Poço , Hib eira , 1\gua Co rnprida, Agua Fria, 1\gua Clara, Hiacho Branco. Aessa lista

acresce nto o non1e da velha capital - Alagoas - que foi ra1nbén1o da

da Província 1 e é hoje o do Estado; e ainda os

povoados , vilas e n1uni cípios. A civilização da :ígua: de chuvas, nas

Coniarca e

,

vários Olhos d'Agua qu e des ignarn

alagoana é, de fato e por an touon1ásia, urna rnatas (unidas , onde aniadureccrn os canaviais;

110 rccorfado litora l de rios e esteros de nianguezais ; lacustres, nas

lagoa s que se este nd ern espa rsas ele Ma ceió para o Sul; ílu via is, na abundfüicia dos gra nd es rios - cor no o São Francisco - e nos peque nos rios onde n1cdrou a civilizaçiio do aç(1ca r. São in(11ueras as águas que escorrcrn pelo recô ncavo de Maceió, fazendo qu e a ci cbde crescesse nun1a resti nga seca e arenosa, e subiss e ávida para os tabu leiros do Farol, do Martins e do Jacutinga.

Não é por acaso qur a ob ra-pri rna da nossa litera11ira, co rno expressão poética , seja j us ta rncnte unia criação a nfíbia: a In venção d e 01j'e11 d e Jo rge d e Unia . En1 se u longo e bdo poema o poeta nos a rnais conc isa explicação de urna ilha:

niarinha s,

Qu e é uma ilha senão um círculo?

(Soneto XX lll , Canto IV)

A ilha é apenas u1n círcu lo, rnas um círculo especi al de terra e águas, uma figura anfíbia. Aos ([Ue consideran1, co1no eu, as Alagoas un1 enclave social,

12

consideran1, co1no eu, as Alagoas un1 enclave social, 12 político e cultural , a definição ela
consideran1, co1no eu, as Alagoas un1 enclave social, 12 político e cultural , a definição ela

político e cultural , a definição ela ilha con10 círculo é uma tnetáfora alagoana da cultura . Se n1 a ;\gua , a rn ctáfora da ilha desap arece. E a ter ra apenas se n1 a ;ígu a não constit ui a n1el;ífora insular. A água é o círc ul o da ilh a, su a dis ti nção conti nen tal. Só a rnet:ífo ra aq uática do círculo dá realidade e conc isão à figura da Ilha imaginada. É perfeita e alagoana a irnagcr n cio poeta- e perfeição aquática e

rn etafórica - expl icando a figu ra da ilh a r o 1110 a realidade elo círcu lo. Assiste-se no

\'Crso de jor ge de Ur na à pe rcepção da reali dad e corno figura, irnage1n e pa lav r;:

Entre a concretud e geográfi ca ou social aspa rn-se as realidades da rneláfo ra. E a representação, qu e só se ver ifi ca con10 cri ação vis ual , auditiva, perceptiva ou conceilual 1 por Intervenç ão da palavra. São as palavras que cria111, e a escrita lixa. 1: a imago da escrita que faz qu e pcrcl ure1n as realidades con10 rep resentação.

São as rnatérias da vicia -- s1nt história e vivências - que conslit11en1, sob u1na

forma espectral , o

continentes do es pectro, qu e é a represe ntação do real prístino e atual, porque

n:io pode ex is tir hist órica. Con10

contcíido das imagos. Encerra a inatéria da escrita esses

rep rese nta ção na esc rit a scr 11 essas fo r n1as sociais de exist ê ncia ad\'ert iu o pocla:

Operigo ela vida são os vácuos.

(Poema VI, Canto TV).

o que preten do rnoslra r nos dois ensaios é con10 se figu rou na escrita dos sécul os XVJJI e XIXe no con1eço do século X.X a existê ncia histórica dessa

gente anfíbia: a alagoana ; e corno se estr ut urou con10 espaço social o espaço a lagoano da ant iga capitania de Pcr11a1nbuco. Através ele um conthu1u1n histó rico

a cultura alagoana se es trutura mediante un i lento processo de sedirnenlação

social e rápid~srnon1entos de ruptun1s. Ncn1 se mpre na cultura alagoana a visão Ideológica progressista coincíclc, num nH!srno agente criador, coin as rupturas . dos códigos de criação, ncrn a visüo id eo lóg ica conservadora co1n a pennanencra d.os cócl.igos canônicos. É o caso de Jorge de Lirna, que sendo portador de uma ideologia da perrn~1nênciaadota uni código estético de ruptura; e o de Gracilia110 Ratnos, que se11do portador d.e ur na id eo logia de ruptur a adota un1 código estético

~

.

13

de per man ência. Por isso, a cultura ahlgoana revela que ideo logia de ruptura e cód igo estético revolucionário não são se1n pre coisas coincidentes, ne1n ideologia

de st atus quo e

código estético de penn anência. Do ponto de vista esté t ico,

o revolucionário é J orge de Li1na, e não Graciliano Ha1nos. Do po nto de vista

ideológico, é Graciliano Rarnos que se revela o revol ucionário, enq uan to Jorge de Li1na se vincula às fornias ideológicas não-re volucionárias, conse rvadoras

até rea cionárias. São duas at itudes quias1náticas, cn1 que os códigos estético e ideológico se invcrtcn1: o conservadoris1110 estético passa a ser expressão criaiiva de unia ideologia de ruptura, e o rcvolucionari srno estético a expressão criativa de t11na ideologi:.l de pennanência. Assirn, so achain eni quiasn10 as pos turas estéticas e ideo lógicas dos dois niaiores no nies da cultura alagoana. S~o posturas

e

a seu modo anfíbias, en1 qu e se n1ist ura1n o rcvolucio11arisn10 ideológico e o conser vadoris1no estético c1n Graciliano Ra1nos, e o co11servadoris1110 ideológico e o rcvo lucionaris1 no esté ti co eni Jorge de Liina. Cornprovain, assitn, as duas rna b altas expressões criadoras de nossa cultura a natureza anfíbia da gente

ah1goílna. A:i água s - a revolução, a rllptura - e a ter ra - a pcrn1anêncin, a fixide z

do slttl 11s q110 - 1narca11do a fig ura de nossa cultur:t: a il ha, que o nosso poeta rnaior deduziu ser tinia criação de Orfeu.

No ensaio pr in1ciro - RejJr<!sentaçrio Soc ia l na Escrita da Cu/ lur a

ttlagoana 110 Século XIX - esboço as condiçõe:; e1n que :;e criou o espaço ala goano a partir do espaço colonial da capitan ia ele Per na1n buco, e co1110 escrita do século XIX de1én1 sua representação . No ensaio segun do - Ruptura

e

Contínuid(lde 11c1C11/lura 11/agoana - esboço algun1as das cond ições e 111 que se

fonnou a vida cultural nas Alagoas atraves d.e uni processo social que incl ui fato res

a

Penso que desse 111odo se estabe lece

urna parte da história do povo ala~oano e do seu fazer cultural que ainda não havia sido tot«tlizada nu rna escrita de história da cultura. São dois ensaios un1

de ron1pitn ento e fa tores de co nti nuidade .

tanto esq ue1n;í tí cos, poi s se desti nara111 a conferências no Mu se u lhéo Br an dão da Universidade Federal de Alagoas (UFAL), cru que o Autor dispunha de tcrnpo

1n ín i1no d e exposi~ão. Co1 npl e tá- l os seria tarefa de urn livr o. O que nos l e va a

publicá -los não é só o apelo de algu ns amigos - en1 es pecial do folclo rista josé

14

Maria Tcnório Rocha -, 111as sab<.' r que ambos os textos ac r esce11ta111 algo de novo à an<llise cultural que efctuanios 1rns longas p;íginas do nosso A UtopiaArnu1da. Agradeço à Secretaria Extraordiná ria da Cultura de Alagoas, na pessoa ele seu titular, o jornalista Noalclo Dantas, a oportunidade oferecida de ler este trabalho c1n sessào especial cio Museu Théo Brandão, e que ago ra o pu bli co u .

Petró polis (\Vestphalia), scte1nbro de l984.

15

• ' i ~· ' ' PREFACIO A 2ª. EDICAO / ,., , Nio sei

'

i

'

'

PREFACIO A2ª. EDICAO

/

,.,

,

Nio sei tudo sobre cultpra alagoana. Tal vez porque esse tudo não exista.

cultpra alagoana. Tal vez porque esse tudo não exista. Quando publiqud Urna Cutlura e111 Queslcio: a

Quando publiqud Urna Cutlura e111Queslcio: a Alagoa11a, que foi u111agentileza

do então re itor da

produ zia de cultura cn1 Alagoas, fosse ou não gerado no

t 1llusiasn10 pelo qu<.' se

Un iversidade Federal de 1\lagoa s, joão Azevedo,

e parte de se u

funbito da UFAL, o meu an1igo e grande poeta lv1arcos Farias Costa usou de 111na Ironia, dessas que lava1n a ahna de quen1 as faz: - Dirceu Lindoso juntou os cacos es palh ados, e con1eles, usando boa técnic:t arqueológica, criou a cultura alagoana . Qu em co nh ece o po eta Marcos Fari as Costa sabe quão criativas são as suas ironias. !lá alguma verdade no que quis diz<'r o poeta, e não sei se estava presente na noite de 26 de agosto de 1980, quando li esse texto no salão nobre

do Instituto Hbtórico e Geográfico de Alagoas , no vel ho casarão da rua do Sol, e

rrcebi o diplonia de n1c n1bro honorário, assinado por meu professor elo Li ceu Alagoano, Dr. Abelardo Duarte, então secretário perpéluo, e pelo presidente, Dr. .José Maria de Melo, ilust re folclorista e romanci sta da Viçosa, e o folclorista e etnógrafo Felix Unia.Júnior, 2°. secretário. Foi unut noite 1nen1orávcl , que contou

con1 a presença de 11111 pintor polonês, c1n plena ditadura 111ililar. U1na noite de

coníluência de homens de tendências opostas , e presidida por Dr. jo sé Lages, ajudado por <1t11igos con10 a prof'l. Solange Lages e Ernani Mero.

Às vezes se faz necessário o escritor usar do ofíci o de arqueólogo para criar o que todo inundo via, n1as não queria criar: ;1 cultura a[agoana. Todos nela trabalhavam, às vezes con1 e1npenho de n1ouro, rnas faltava quen1 chegasse e dissesse: isto é a cu ltura alagoana, nela está a nossa ;tinia, ocrnpenho de gerações que nos ensinaran1 a ler livros, partituras, tocar i11str11nw11tos musicais, co1npor rnúsica e escrever livros e pocnrns. Nela , os 1Jon1cns e nnr lheres crant poeta~, cornpu nhain ron1ances de grande bel eza, e diziam co1n orgulho: Sou escritor!

E assi111 foi jorge de Lin1a. E ass in1 foi Graciliano Ra111os. Magistrais! E n1c di zia

li

•• ' " r ""''. e111sua casa 110 Rio de janeir o a escritora Raquel

••

'

" r

""''.

e111sua casa 110 Rio de janeir o a escritora Raquel de Queiroz, que aqui 1noro u: -

Alagoas é urr1 pipin e ir a d e int electuais. Co1no nã o ve r que

e esse al go 111a is

arrcpe1l(lo. ll ojc

a lvos das ida d e s do tc 111po , 111:is lú c id o con10 u 1n anjo de sacris ti a.

aqu i ha via algo 111a is,

e la esc re vi , e

n ão n1 e

se cha 1nava cu ltur a alagoana? Pois sobre

é con1 orgu lho que aperto a

n1fw do velho Lêdo Ivo, os cabelos

Por que essa idéia de qu e, para dcscrC\'Cr

a cultura alagoana,

cu use i

essa ar te arqueo lógica de unir t:acos, colar pedaços do que se achava partido? A

i111age n1 nasce da aus ê ncia de

uma escr ita q ue una par tes

q ue se e nco nt rava 111

desco11 ectad:1s, sem qualque r referê ncia er udita. Daí a idéi a da cacaria rt! unida de

u111a 111a11ei ra sis tcn 1áti ca na con ferê ncia lida rfa noirc de 26 de agosto de 1980 .

no bo1n sen tido arq ueológico, do qual saiu un1 perfeito vaso niaraj oara de tesos de Mara jó. Equando eu 111e propus escrever o texto U1nct Cultura cNn

Cacaria

un1 dos

.Questão: a ll lagoa 11a, seg ui os três princípios básico s do conh ecí n1 cn to fil osó fico ,

apontado por Ernst Cassirer en1 seu Z11r Logik der Ku!lurwissenscbcr/len (Berli111, 1942): o11âosaber deSócrates, adoe/a ignorantia de Nicolau de Cusa e adtí11ída

sisten1ática de Descartes. i\ conferência do Instiluto Histórico e Geográfico foi

unia pri1neira desc ri ção dos fa tos do qu e chan1aria, ao acabar de escrever ,

de

cu ltura alagoa na . Fiz con1 os fa tos que ti nha a rn e u di spor, deixa ndo de lado os

que s e e11contrava1n i nves t ido s de u111 excessivo carát e r 1nágico. E11 fi 111, a esc ri ra

te111 urna funç ão sin1bóli ca, ela é e não é o que diz, ou o que se quer dizer, e encerra tuna int enção polít ica ocul ta. Apos ição do índio bo roro flagrado por C. Lévr-St ra uss co1n lápis e papel na 111ão desenhando sua "escrita" e n1ostrando que sabia escrever. Isso é urna posição 1nítica, pois o que ele queria mostrar aos

outros índios e ao antropólogo belga é ·que sab ia "es crever" , que desco brira o

segredo daqu eles garranchos: rnostrar poder pol ítico.

Essa conferência de 26 de agosto de 1980 foi na realidade a prin1cira tentativa qu e fiz de descrever 11111 co1jNts inscription111n da cultu ra alagoa na,

que n<io fosse o que

estudar a nativ o 1nentali~y do s 111cl an és i c os da Nova Guiné , nuts qu e r evelasse a

anal'Orn ia da cu ltllra alagoana (Malinowski,B., 1l1gona11ts q/tbe \flesl ern

London, J922). Foi um est udo que se con1p l cta ri a depois, quand.o na semana

o antropólogo anglo-po lonês Bron islaw Malinows ki fez para

Pacijic.

18

anglo-po lonês Bron islaw Malinows ki fez para Pacijic. 18 de 17 a 24 de agosto

de 17 a 24 de agosto el e 1984 li nrnis dua s co n fe rênci as so bre cultura alagoana , a

convite (lc Jo sé

o Sc1n inário de Cultura Popu lar 110 Museu Théo Brandüo , da Universid ade f ederal

de

de fatos , que levaran1 a um co1pus íJ1scn/>lío11111n 1nais con1pleto e longo. As

conferências, en1 1985,

Secretaria de Cultura cio Estado. Meus agradecin1entos à então diretora do Museu Théo Brand:ío, a profª. Car111c1n Lúcia Dantas, pela manei ra atencio sa co111 que recebeu o co11ferc11cista . E ao poe1t1 Ca rl os Molitcn10 , que se rviu ele 111oderador.

Eis que agora s urge a oportu ni th1de de tuna reedição conjunt.a das três co nfer ências pela Funda çáo Manoel Lis boa, un1 a das figuras ínclitas da lut a pela \'ida den1ocr<ítica 1 assass inado fria1n cntc pela barbárie 111ilítar que assolou o nosso País, cuj<t edição agrad eço a Lui s Abílio de Sous a Neto, Presidente dessa Fundação, assessorado por Luiz Sávlo de Alin ei da e Christiano Barros Marin ho da Silva, antropó logo e autor de es!udos so bre os J<ariri -Xokó.

Maria Ten óri o Ho cha e de Noaldo Moreira Dant as , que rea liza ra111

Ala goas. Nessas duas confe r ências 111c estendi con1 gar ra a tuna va ri ed ade

saí ram pu blicadas nos Cadernos de Cultura - 2, da

19

"., " ' , ' ' - / PREFACIO A 3ª. EDIÇAO Este li\'ro foi

"., "

'

,

'

'

-

/

PREFACIO A3ª. EDIÇAO

Este li\'ro foi sendo criado aos poucos. Foi fruto das conferências que fiz q11ando retornei à minha terra depois de uni longo exílio que 1ne obrigou tuna

diladura mili ta r in1po sta ao Bra s il. Voltei à. Alagoas sabe ndo o que era a pequena minha terra . E aq ui até agora 111c vejo lendo arquivos e escrevendo liv ros. Poi s não tenho outro ofício quando j á co 111plctci n1cus difícei s 82 anos de idade. Todo

es te pequeno livro organize i-o fazendo conferê ncias e aqui

qua ndo toda a idad.c 1nc cabe. Forain conferências feitas co1n bons períodos

de alternâncias. E nos c ntr cn1ci os r epensei Alagoas e vi que até então nã o ha via

('OJJsistência na interpretação de sua cultura. E questionei culturalm ente a cultura alagoana. E desco br i sua essê ncia: ser u1na cultura anfíbia fo rn 1ada de

rne tenho até hoje,

, rios, u n i caudaloso como o São Francisco, e de cana i s e lagoa s l acustres . 1~, p o i s, uma cu ltura cm sua extensão lacustre, palust re e li to rânea. Urna cultura onde predornina lHna defin ição co nceituai de an fibial idade. O conceito de sertão, que rnar ca o Nordeste , é nela uma fín1br ia e quase se não vê. Unia cu ltu ra, entr eta nto,

';

todos os cle1nen tos de

caracterização ainda não forarn ditos. Uma questão nela ainda questionável. Parti de un1a pergunta fund.an1en tal: que é a cul tu ra alagoan a? Oqu e nela a caracteriza?

corn que1n se pode questio nar. Urna cu ltura onde

Na 1ninha reflexão que sobre ela fiz, rec ebi de 1ni n1 1nesn10 a resposta:

trata- se a alagoana de urn a cu ltu ra cco logica1ncntc bc1Hônica. Ela vive a u111

tcn1po e.111 terra , en1 p<l ntano e no n1a r. El a se me ap r ese nta n un 1a i 1na ge rn

quase rios , qu a~e pântano s, quase 111ar. !\'las não tão seca qu e 1ni s tura de p â nt anos , 1na11g u cz ai s, la gunas, rnar e fí rn bria de

inata seca e sertão. Quer geografia n1ais bela? E nela se ouve urna azoada anliga

vire ser tão. U1na

adcniraveln1ente

de aratacas e jandaias qu e se esc ond.iain e ocu ltava n1 povoados . E 11ascc ra1n

ass in1 as cidacl cs n1ar ít i1n a~ d as du as Alagoas: a boreal , que é urn a criação da Porto Calvo histór ica, e t1 aust ral, qu e a criou a Penedo luso -fla1nenga. E assi1n

que é urn a criação da Porto Calvo histór ica, e t1 aust ral, qu e
que é urn a criação da Porto Calvo histór ica, e t1 aust ral, qu e

21

1\la goas se figurou 11 0 n1apa co l o nial. Convicto d os n1cus trabalh os de pe~quisas

e co111posiç:ío, e ntrego a novos e vel hos leitores esta nova ed ição.

' • .,

Maceió, julho de 2014.

Di rceu l. indo so

22

,

'

., Maceió, julho de 2014. Di rceu l. indo so 22 , ' , , REPRESENTACAO

, ,

REPRESENTACAO SOCIAL NA~SCRITA DA CULTURA ALAGOANA NO SECULO XIX

O fato de cu ltura se nos parece o elc n1en to decisivo na co nfigura ção

de u111 povo. Hevcla o pap el social corno n1ediad or entre a nature za e as ações

hun1anas cm sociedade. São os valores da cu ltu ra que defin e1n, e1n tern1os

simbólicos, as condições de es tabilidade das relações sociais do111inantes, traçam

o perfil de identidad e dos co11glon1crad.os populacionais definidos, configura1n

suas fonnas históricas, dotando -as de unia individualidade indiscutível. Ess a

individualidade, que uma população adquire ao longo de SUít vida hi stórica, se expressa con10 uni a n1ásca ra , unrn idi oss incras ia, cuja percepção de se us

va lores sin 1bólicos faz qu e a dis tin ga mos de

dizcr 1 identificando ind ivi dua lid ades cult ura is: - Essa é tuna gente alagoana ou

outras populações, e possa1nos

scrgipana ou pcrna1nbu ca11a ou haiana 1 -

corno dircrsidatlc cultu ral

tlc ser-se

dizer: - Esse é un1 povo brasileiro, argenti no,

ur uguaio

brasileiro; ou possainos ou paraguaio! - con10

fo nnas nacionais diversi fi cadas do ser social. São as

fonnas históricas na detcrn1 i11ação dos valores da cultura que nos capacitan1 na idenlificação desses sistc n1as e s ubsistcn1as culturais, u ns 111ais e outros n1c nos

ho 1nogêncos, resgua rdados por uni contínuo de trad ição . Rcfiro-n1e à tr ad ição da

língua , à tradição dosfolk1flC~)'S, à tr adição dos 111ores , das cre n ças e d os fazeres cult urais, das condutas socia is e de u1na cert a tendência na crialividadc de ralo rcs estéticos, intelectuais e sociais. Essas tradi ções se estruturam sociahn ente co1110

valo res e condutas , com porta n1e nt os e crenças sociais, que se elabor an1po r111cio de urna constelação de signos e práti cas, que se co1nportain socialn1entc n111n co11tinuu11t histórico cspccffi co. Isto é: nunia série ou sistcn1 a de tcn1poralid adcs sociais, que cornumente designamos de cultu ra. Acultura é 11111:.1 realidade qu e o ho1nen1 prod.uz por 111eio ele idcações

e de pr áticas soc iais, e que se reflete cn1 nível ele seus refe rent es como

23

u1na composiçiio

in tcligin1os urna cultura, identificando-a corno u1na realidade específica

produ zi da as prát icas

unia ideação de va lores e signos que rcpresentan1 pr~llicas soci ais. E ta111bér11 o cstabclecirne nt o, nuni contí111un11 hi stórico, de práticas que estabelecern

a c ri ação d o espaço onde se l ocaliza1n os produtos dessas prática s, isto é, <~ espaço social idea lizado cu1110 uni valo r. Ten1-sc então o espaço cultural, que e

o 111cio cri ado pelas ações dos homens na soc iedad e, e onde se localizarn, 11111n

co11tin111111i. es paço- hi stórico, os signos, valorfs e

práticas sociais. Por 111eio da percepção das práticas culturais, percebcn1os unia

identidade de represe ntatividades si1nbólicas, de que so1nos portadore s como indivíduos e co1no c()letividades. São condutas e valores que introjeta111os de uni 111odo consciente na vida social, e que fazeni que naturt1hnenle scjan1os - lhcs detentores. E descobri1n os Llln faro novo: unrn cultura não se reduz aos

produt o:; qu e clabo ra1nos c1n nfvd rnat c ria l, fftas se constitui, do 1ncsr n o 111oclo, de uni tipo específico de produt os que su hsti1uc111 a JJ1aterit1/idade elas práticas por urna constelação de signos e sí111bolos. Acultura se apresenta , pob,

especial de signos, sírnbo los, condutas e fazeres . Quando

intel igindo o 1nodo conio

por nossa con duta socia l, estamos de fato

sociais e as práticas ('Spacia is se excrc itan1. Unia cultura nã? é apenas

condutas produ zidos pel:1s

con10 un1 prod uto do traba lho social e u1n produto idealizado desse

trabalho .

o que penneia o tra bal ho social de sua ideação é a criatividade, que

se exerce

socialn1c11te en1 dois planos: o do indivíduo e o da coletividade. A criativi dade coletiva é uni processo de estruturação dos produtos niatc riais e dos prod ul os ideali zado s ao longo de 11111 cuntí1 1uuJJ1 h istórico - espacia l , que ser\'e d e base e de a11teript1çiio à cria li vidade i11divid11a1. Isto é: sen1 u1na herança social e se ni u1n trabalho social ant ecedente seria quase i111possívcl a criatividade individual.

,.,

\V'illiani Graharn Su111ner, nu1na visão exclu sivista dos fatos socia is,

~.

disse qu e os jólkwt(J'S silo htconscientes, e,1ponlâneo.~~ sern coordenetçtio' ·

Se Lt1n a estru tur a cultural de antecedênc ia se faz necessíÍria para estabelecer· se a existência de atividades culturais, os conceitos de espontaneidade e de coordenação aplicados aos jófkwt(}'S ou usos e aos 1nores ou costurnes, nas condi ções teóricas e1n que aparecem na análise de \X-'illia111 Graharn Su1nn er,

24

parccein-nie cxagcraclos. Unl<l cultura não é u111 fato social de espontaneidade

absoluta nen i se favorece de aus ência de coordcnaçáo. A estrut ura analít ica de un i fato cultural - seja uni ni ito, un i produto a rt esanal, seja un1a oração, 11111 gesto, unia canção de trabalho. uni rito - revela um con1ponente fonnado por utn arca bouço <le invar ia ntes. ce rta ordeni ou deterni inação dentro da qual se situa111 su as condições de perrnanência e de va ri ações, sua linguagem de repetição e sua linguage1n de criação. Os elen1e1ltos que cons ti tue111 uma

n rlt ura -se ja1n 1nateriais ou valores - são ca111bi:ívcis, pcnuanentcs, perecíveis,

ren ováveis, criativos ou Inconscientes, Su11111cr

onde con1parccem como uma linguagem, um uso inconsciente ele signos. Mas

a espo ntaneidade e a descoordenação de seu cornparecin1ento na Yida social se

t•xagera de urn 1110<10 abso lut o. Oque Sumner quer detenninar, con1 sua análise, s:i o as condiçõ es d.e penna11 ê 11c ia co ni o se es tru t uram os valores na sociedad e,

:t prescnlanclo

conservadores. Co nceb endo osfolkwr1;11s ou us os con10 dcs laca as condições de sua realização na vida social,

conio uni ato cs p o n t:1neo dos f azeres ~ocía is . A vida el e sociedade ,

na concepção excl usivista de Sumn cr. cons iste cni fazerfolkways e apli cá-los, o

que obvi an1cn tc é u1n exagero. Mas

unia re produção de clcn1c nlos de permanência, jus tificando sociologica1ncnte as existências sociais co1no unia fábrica ele prod ução e reprod uçfto de elcrnentos tl c status quo, de pcnnanência .

A vida soc ial não se red uz ohvia1nentc à lin ica expressão de produzi r .folÁ?wa_ps, t ra nsfonnanclo-os e1n 1nores 0 11 costumes e eni fe nfüncnos de nias sa.

Surnne r se liniita a definir a vicl.a social co1110

l lá exagero e unil atera lidade nessa postura teórica. A análise de Sun1ner, ao distinguir a diferença entre usos (fofkwt~F,1) e cost u111es (n1ores), acentua o caráter n1oral do co nc eito de coslu n1es, dotando-o de u 111 perfil conce ituai que se define por 111cio de agregações ét ico-sociai s e filosóficas. Desse rnoclo,

o costume se define n1oral e clicmn cn tc, e a sociedade o predispõe a urna <tvaliação ética, subordinando-o a um quadro estabelecido de valores , passando

a constituir na sociedade un1 apare lho axiológico , unia cai.xa ele valores . A

análise de Sunin er, por sua vez . apresenta a produ ção social dos usos co1110 utn 111odo de satisfazer-se necess id ades vitais. Oser social, na visão exclusi vi s ta

25

de Su 111ner, se aprese nt a corno urn produ to r ele at os, antes de se r um produ tor

de p cns~u11c11tos 2 Essa dife rença. que a so ci ologia de Sun111er estabelece, en tre produtores de atos e pro dutores de pensa rncnto, encerra rnuitas difi culdacks, pois não se pode na vida social separar -se estanquernentc o fazer social dos seus sí111bolos. Tanto no indivíduo quanto na sociedade não 1ne parece que os atos se dissocie rn das forrnas do pensa rnento que os s i111boliz a1 n . Pe nso que

a

hi pótese de Sur nnc r é invcr ific:ível tant o e1n ní\'el das sociedades neolí ticas

e

co1npl exas, quanl o das sociedades pré-his tóricas desaparecidas ou

de que

res ta111 tes tcn1unh os arqueo lógicos deficientes e esparsos. Se Surnner

adr n irc

s ua tese sociológica cor no u nia longí nqua l}ipót ese pré -hist óri ca, qu e não

rne parece o caso, arqu eológicos não

En1bo ra a cultura ge re-s e na superfície so cial qu e lh e é dad a hist orica111en te, aparecendo conio t11na cunn1lação suc ess iva de va lor es, condut as, usos, cosl un 1es e faze res - desse modo forn1and o uni ço11ti11uu1n

d e lc1n poralida des sodais - , só se pe rc ebe contrad itoria 1nentc co1no u111a

fo rn1a soc ial lotal izantc e de função sincrônica. Corno fe nôrneno socia l, a

cultura prod uz-se co rno u1n processo ina is ou n1e nos lo ngo e cu n1u lat ivo, onde

se refle te1n as relações sociais do1ninantes nu 1n fio de tc111poralidades , mas sua percepção se realiza co n10 urna totali dade de função sin crô11ica - t11na

estrutur a . A percepção da cultura co 1110 história socia l é u ni esfo rço

ainda ass irn é irnpos~ível verificá-la, e111 raz ão de os res tos faze rem es se tipo de registro .

t eórico

ern que ocorre a detenninação de sua função diac rônica - a história cult ural.

Avivência inco nsc ien te da cultura pelo ser social adqui re a nat ureza

linguagen1, onde se cons tela111os signos e os sírnbol os que dcr iven1das práticas

de urn a

lin gua ge rn. Os s ignos da linguag e rn d a cultura é que n os dão

de unia fun ção si11crô11ica. i\ percepção da cultura corno t1111a

sincróni ca é urn dado qu e deriva da forma co1no os signos e sí1nbo los, que a co1npõ en1, se es rrulur a rn 11u1na linguagern. A cultura é urna cornp os iç:io d.e signos sociai s ern es tado de idcação, quando a 1naterialidade das práti cas sociai s se avocarn e rn val ores. Isto é: ern signos e sírnbolos. Adecifração dos va lores

de tuna

sociais. É assi 111

qu e os fa tos da cul tura se no s ap arece m con1 0 fat os

s ua natur eza nianlfest'ação

26

arece m con1 0 fat os s ua natur eza nianlfest'ação 26 (!llC essa Jinguagc1n especia
arece m con1 0 fat os s ua natur eza nianlfest'ação 26 (!llC essa Jinguagc1n especia

(!llC essa Jinguagc1n especia l compõe nun1a fo n na es tr utura!, num s isten1a ou s11bsiste1na de elerne ntos e invar iantes , só é viável po r meio da aná lise teórica,

co nduta teó rica que estabeleça sin1u ltanean1ente u rn e unia percepção estética ou científica dos valores. A

transferência sirnples da linguagcrn dos signos e sírnbolos para a li nguagen1 16gica do di scurso não parece urna condiç<io bas lant e para a correta decifração da lin guagen1 dos s ignos e sí1nbolos da cul tura . Ü preciso que oco rr a ur n corte

a nal ítico de natu reza epistcn 1ológica que fi xe o favo rec in1ento de co ndi ções capa zes ele in stitu ir, ern nível de co mp reensão, um a rn etaling uagen 1 crít ic a que se estabel eça cpistcmologica rne nl e co rn relação à linguage111 don1inant e dos signos e sín1bo los culturai s requ e ridos . Sern a constituiçáo dessa r11eta-linguagen1 crítica, diferenciada e constituída através de conceitos e

cal egorias de as condi ções

de urna cul tura . Apesar de vivcnciarrnos in ter iorr nen te unia cu ltura, :;ó na

co nd ição do cs labelcc im enlo teórico de 111 11 a 111ctali nguagc n1 cpis tc n10Jógica,

1ambé1n un1 cliscur:-;o ele

dista ncia1n ento e urna raciona lidade crítica, podc rnos perceber en1seu conteúdo sen1ântico as rna nifcstações da li nguagem cultura l totalizante.

é u rn refe r encial a b erto de

\'alores, rnas tun a cod ificação dos produ tos de ideação das práticas sociais por rneio de signos e sí111bolos. Ern razão de sua nalureza referenci al não basta a consti tuição de u1 na 1netal i 11guage 111 que seja a pe n as a lr a n s literaçâo ou t r a n sfe r ência dos si gno s par a u111a lingu age 111 de di scun;o . Essa i nsufi ci ê ncia se revel a cm nível do s di sc urs os d es c r iti vos, e la bo r ad os 111edia 11t e a apli caçã o à r e a lida d e dos fa to s culturais de técnicas descrilivo-e nurn cralivas, facilmente 1nanipuláveis. E urna solução, a do discurso descritivo, qu e se res tringe a efetuar uma distribuiçflo d.os signos culturais ern vário s d.os s ub s ist en1as da linguagem. co1nu1n. Ern vez de penetrar nos elcn1 entos d.a es trutur a, bas t·a-se e n1 enu1nerar suas manifestaçõ es. É compreensível qu e a pe rce pção d. e uma cultura a partir da estrutura de se us elen1entos de represe ntação seja u111a tarefa cheia de dificuldades de ordetn

de u111a racio nali dade discu rsiva pa ralela , que seja

lslo é, por via ele ur n a dista nci:unen to crítico

unia ralio , d.e u111 di sc ur so de racionalidade, não se alcan ça1n

favor áveis el e decifr ação (e deco difi caçã o) da caixa de val or es

O co n teú do sc11 1ânt ico de 111na cultu r a não

,

27

1ncto<lo lógica e teór ica . O discurso descrit ivo te1n o papel de int eligir os valore::;

corno

parte da norma lidade socia l, de un1 1noclo qu e elida suas contradiçê>es

ou as

r eprese nt e co 1110 não

fazendo pa r te da Jing u age1n co d ificada da c u lrur a.

lsto é: do ponto de vista do discu rso descr it ivo, a eli1ninação das contradições ou o cstabc lcci1ne 1110 de sua ausê n ci a teó rica conduz ao esl a be lcci 1ne nto do discurso conserva d or, o discurso cu ltura l e n 1que se institueni, co 1110 d efin iti vos, os elcn1e11tos de pcnnanência, de status quo. (~essa definição categórica elos valores de permanência que favorece, na representação de u1na cultu ra, seu fio de co11rinuicladc. Os elei n en tos co1nponcntcs de t11na realid ade cu llural se rcvel:un, nessa li11guage111 discursiva, de uiri 11H~lo unilateral, e1n que os valores de pennanênda são postulados co1110 abundante1ncnte llcgcmônicos. Desse 1nodo

se estabelece a visão unilat eral da cultura. Os elernentos hegernônicos passa 1n a

·~., ·-

se r os justificat'ó rios

Mas na rep rese nt ação social <la cultura não se aprese11tan1 só os elementos de perrnanên<.:ia, dirigidos ao es tab elec in1ento do status quo, n1as tan1b érn os ele men tos de rup t ura , que asso1 nan1 con10 um co1nplexo de Y<llorc!:> de descon tinuidad e. Se os vnlores de pennan ência se <lirige1n às fo n nas sociais de repetição e repro du ção, os valores de rupt ura, por sua vez, se· diri ge111 preferenc ialmente às forn1as de criativida des e recr iações. A cultura, co1no totalidade social , r c:;ulta das relações dialéticai; en t r e valorei; de p enna 11ê 11cia

e va lores de ruptu ra, que 111arca111, jJer se, as vias do conse r\'adorisnio

e as vias ela revo lução. A dialé tica do contínuo e do desconrínuo é que estabe lece as co nd ições de pern1anência ou de ruptura dos fatos cul turais . Ú incon1precnsÍ\'c l unia cultura se n1sc us·valores de perinanência ou desp rovid a ele valores d.e ruptura . O que se 1nodifica de cultura a cult ura são os !'cores corno se rna11ifes ta111 uns ou outros dos valor es . Unia cultura pode es labe lece r- se de rnodo que os valores hegeinônicos seja1n os de pennanência. Con10 pode hav er cu l!ur a e ni que os valores prevalecentes sejarn os el e ruptura.

A hcge n1onia de qualquer uni desses valores não depende apenas do 111odo

co1no se estrut ura1n os valores culturais nu1n síste111a ou subs istema de repres en t<tção socia l. Ahegenionia de unia trama de valores culturais - seja

das condições do status quo.

28

de pennanência , seja de ruptura - depende funda1nentalt11e11te do 111odo

r on10 se est rut ura111 as prát icas socia is. A :1ntecedênci a

con1 relação às práticas cul turai:; estahclccc as condições de cstrururação dos 1•alo res culturais en1 uni siste1na ou subsistc111a ele representação soci al. A <' sc rila é a superfície, nas soc iedades d eten t oras da li n gu a ge111 gráfica , onde l'ssa representação dos f;ito:; cultu rais se estabelece ele u1111nodo codificado. O!iis te111a ou subsiste 111a de codificação cios valores cu ltura is re\'ela o n1odo ro mo se cstrutu ra111sin1bolica111t~ntcesses va lores, como eles se estabe lecem na co ndi ção de urna lin gua gc 1n, com s ua gran1;lt'ica específica e con1 tuna 1'.scrita social de reprcscnt·ação e expressão.

M.as - con10 frisei antcrionn ent e - u111a cultura não consti tui uni referencial aberto <le valores , senão uma téc nica de codificação do:; valores produzidos pelas pnllica:; sociais. Eni nível dít cultura, os valores produzidos pelas práticas sociais se apresentam 1nascarados. É a 11iáscara que revela que urna traina de valore:; passou da sua cond ição de produtos n1cra111ente sociais

das práticas sociais

,

para a condição de produtos cs pec ifi<.:arncnl e sinibólicos. Ena cond.ição de valores !' i111bólicos que esses produtos de práticas sociais vigen1 na cultura. Não ba::;!a seretn produtos de u1na prática social. Épreciso que se rnascarem e111sí.rnbolos.

lcgilit nam co1no valo res

da cultura. É por nie io do 1nascaramc11to dos produtos das práticas sociais que

se cstrutura1n os valores como sí1nbolos cultu rais. Pois unia relação entre

1 1 alor e 111âscara. A noção de 111áscara, como nos a latinidade, é generativa da noçã.o de pessoas. Con10 revelou Marcel M:tuss \ ao longo da histó ria do

Ocidente estabel eceu-se u1na relação de iden tidade entre a usada corno técnica de represen tação teatral latina, e a de

pessoa. Eni lati1n,jJersona é a máscara que se usava 110 teatro para representar

con10 rnáscara social , que a. ciência

social 1noclerna resgata con10 fun ção ou catego ria da representação no espaço ela sociedade. O indivíduo é dotado d.e persona lidade , isto é, d.e tuna máscara social, que pocle ao longo da vida social constituir unia pcnnanência ou u in fator de ruptura e criatividade.

co1no sí1nbolos é que os produtos das pní ticas sociais se

noção de jJersona,

individualidade ou

a personagcrn. Daí partiu a noção de pessoa

29

. ·-

Aconfiguraç:ío cultural esta belece o 1nodo co 1no as cu ltura s fu11cio11a1n

en1 tcrin os el e un t t r ep resen tati vi dade de valores, isto é, de produ tos soc iai s

n1ascarados. Esse

pro dut os das práticas sociais a valo res cult urai s. Nessa passage n1, e ern ra zão do niodo co1no se estru tunun as prát icas, a configu ração cu l!ural pode representa r l11na hcgen1oni a dos va lores de pen nanê11cia ou a hege1nonia dos valores de ruptura. O traba lho social, e1n que se const it uen1 as práticas sociais, ali1nenta a1nbas as categorias de valores, e de urn nwdo às vezes sin1ul tfü1co: quando se pensa favo rece ndo :i hcgc1no nia de u1n, es tá-se historicamente favorece ndo a h egc rno 11 i a d o outro. É qu e a con di~ão hi stór ica corno se realiza o tra ba lho social é urn processo di alético pcnn;111cnte 1 qnc se fa1orece, nun1 11101ncnto histó ri co, as condições de certas práticas sociais, passa a favo recer, ern outro, as condições

de práticas sociais oposras. Unia cultura é un1 produto hi stórico, ainda qu ando sua historicidade

não seja un1 lngredit'n le soc ial faciln1 entc perceptível. Apenas con10 uni artifício

n1etodológi co a cu llur a se re prese nta 1eor ica 1nente

de signos e símbo los privados de historicidades. O que sign ifica qu e c1 11 sua

co ncrelude não possa exis tir co1110 criaçáo desprovida de suporte socia l. A

cu ltu ra é urna 1nanifes tação da socie dade. Con10 tal, não ex iste cu llur a sc rn

socied ad e. Pode exisl ir u1n a cultura co 1nun1 a un ia

cull ura latina transnacional, a cultura anglo-saxônica transnacional, a cul tura

tu pi -guarani comu 1n a várias sociedades indíge nas, a cult ura es lava ou grega

co1nu1n a uma dive rsi da de de povos. E pode exist ir unia socie da de co 1n

diversidades de cul tu ras: a soc iedade ~oviética, que ao lado lle u1na cultura co1nu1n socia lis ta, possuía lll lla di ve rsi<lade de cu ltur as nacionais; ou cer tas man ifcsta~f>es cultu rai s (hine:;as co1nuns a tibetanos , a u1n scg rn ent o ele populações da antiga Cochin china e outras sociedades do sudoes te asiático. Do 1nes 1no niodo , ap rese nta-se na cultura nacional brasileira un1a diversidad e de cu lturas provinc iais que gua rdan1 suas específicas condições de criatividade dentro da cul tura nacional. São as províncias culturais, de autononiia relat iva

e subn1etidas aos inip ac tos de cr iação da cultura naci onal. O qu e procuro

masca r:unento representa as condições de passage n1 dos

corno un1 produt o soc ial

ou 1nais soc iedad es: a

~o )

dt•terminar neste estudo é o modo con10 essa autodeten ninação das culturas p1•ov i11ciais se estabe lece na escr ita do111inante. E de un i modo ma is específico:

t' Olllo a autocletennin açã o de u111a cult ura - a alagoana - se realiza nun1período dncl o de nossa vida his tórica - o século XIX.

Para a detcri ni nação dessa inrngo é preciso est udar con10 se rea liza ram

us imagens prirn itivas que configuran1 a

criação ele u1na imagem cultur al

11t 1tônon1a - no in te rior da cultura na ciona l brasile ira - da cultura proY incia l

alagoana. Isto é: como se represen ta o es paço alagoano como

parte da capit ania

de Pcrnan1buco? ind.ícios de que 110 sécul o XVIII o es paço alagoano se aprese ntava con10 dotado de u1n modo diferencial de falar-s e o portugu ês de orig c'm n1inhota ou alé 111- tcja na ; co n1 0 u1n ag lo1ne r ado popul acional ond e se iniciavam certas formas de di stinções de conduta social, de aglutinainento dos elementos culturai s; de defini ção política da organização social en1 aldelas

indíge na s, povoações, vilas, fregues ias, co 111arcas; d.e un1 espaço físico configura do

e de referências topogr:íficas nítidas. Essas características iniciais esboçan1 un1

espaç o físico-social capaz d.e esta belece r a fo nna çã o de t11na i1nage111 d iferenc ial

de iniago, co ns tit

da i111ager 11 don1i nante pcrna1nbucana. for111aJi1,a-sc em nírcl da escrita unia

uída por d.uplas i1n age 11s d ís pares: a das Alago as

e a de Pern an1buco. Decorri do apenas 1neio século da fon nação da últi rna

duplicic~ide

irnagenl se te centista da s Al ago a s - a de 1774 - ass i ste-se ao fato d a a uto1101nia dessa iniageni diferencia l, que se vinh a fo nna11clo ao longo de dois séculos ele fonnação histórica no inlerior do es paço da capitania de Perna mbuco. Apr ime ira n1anifestação de t11na futura aulo11on1ia ela i1nage1n diferenci al alagoa na no contexto ele don1i11ação da i1nagc n1 da capitania de Perna111buco ocorreu e1n 17J1 , quando é cr iada a comarca das Alagoas. Ein J.817 - 1nais de un1 século de poi s - essa configuração d e íl Ut o 1101nia se t.ra nsfo nn a e1n a utod etenn ina ção, separa ndo-s e a iniage 111 das Alago11s da in1age1n de Pe rn a111huco n1edia11t e u1n decreto re al que cria a capi ta ni a da s Al agoas.

A escrita d.os do cun1cn tos pri1niti vos do sé culo XVIII revela e1n suas referências corográfi cas, na descri ção da organização adtn inistrati.va, no volun1c de produção econô 1nica e no rccc nsea1nento den1ográfico a dupla i1nagc1n

31

adtn inistrati.va, no volun1c de produção econô 1nica e no rccc nsea1nento den1ográfico a dupla i1nagc1n

que se vinha fonnando , por n1cio da qual se configura a diferenciação de uni espaço novo 110 int e rior da antiga capitania de Pcrnainbuco. Esse ~sp aço novo coinprcendia a parte sul do terr itório de Pcrna1nbu~o, a parll_r dos rios Persinunga e Jacuípe, ao norte , e o rio São Francisco ale a cachoctra de Paulo Afonso , ao sul. Pelo oeste alcançava parte do anligo sertão do Jup i, :~1n entre tant o penct r1-lo profu11dt11ne111e. Essa ilnagcn1 nova se apresenta n1t1cla

na Infornuiçâo (Jerrtl dfl Capitania de Pernt11nb11co , de l 749, e na Jder1_r~t1

Popi;laçiio tia Capikntía de PernaJ11.buco, de 1774, esta últin1a ~endoo:·ela'.ono

,.~

., .,

'

do governo do capitão-general j ozé Cezar de Menezes. A

encer ra urn acervo documental que se s itu a en j re os an os t111a 1s do scculo XV I1 e a priin eira nwtade do séc ulo XVll1 1 ; e aldert da Pojndaçiio, por sua v~z,é tll ll esboço bastante cornpl eto de na tureza corográfica, econôinica e adn1l111strat1va da C};pitania de Pcr narnbu co, onde se acha circun scrito o es paço das Alagoas, nas cond ições da scgu 11da n1c1ade do séc ulo XVllI5. Nesses dois documentos

prinlitivos, principah11cnte no de 1774, surge o espaço alago'.1110 co1:10 ~1n1a iinagein dí~pardo espaço da capitania de Pcrna 1nbuco. Na f1!/(~r11u'.~~10G.eral

a dcte 11 ç5o do es paço ela co1narca e.las Alagoas na escrita oltc ial a111da

/J~or111a~;1u Ge ral

de 1719

não é tuna criaç;io nítida e co mpl eta. Hevcla-se ainda diluíd a cn1.: pa'.·tc na

iinagein -inãc da capitan ia de Perna1nbuco , 1nas j á prevê 111na tcnd~nc1a.<~uc

se accntuar:í quase três décadas depois_ c1n out ro docu1ne nto da

que é a ide(/ r/(I População de I 774. E aquele uni doc un1cnto

i inage ni que gan h a r á seus conto r nos n iais nítidos cn1 1 774, onde a 01~a.odad c da configuração inicial se dilui, e o espaço alagoano co1neça a ad~u1nr s,eus contornos territorial e político, clefinindo-se co1no tuna i1nage111 d1spar. l~ssa dispa ri cladc de in1agc111 fornece os pri1ne iros clc1nentos de configuraç~o autôno 111 a, que irão ga nh ar co ntornos definitivos quase n1eio sécu lo depms ,

cs~nta0~1c1al,

rclcrcnc '.al da

co1n a cria çiio, por ato régio, da cap itania das Alagoa s.

'

No docu inento de 177 4 se co nstelain os espaços soc iais, econon u cos

/'o

e fí s ico s _ numa propo r cio 11 a lid a cl c que configura uin p roj eto. h ls t 6 r lco ~e autonoinia política e autodctcrn1inaç:lo cultural- que irão_det~1:n1'.11ara _cn:tç_ao das con dições para o al'o de 18 l7. Odecreto régio de 1817 da leg1t11n1dade Jll nd1ca

32

ao que un1 processo hist órico de mais de dois séculos viera acun1ulando. A i1nage111 da Idea der Pop11!açrío de 1774 já localiza na escrita oficial u1na in1age1n

díspa r, qu e vai estabelecer régio de l6 de sctcn1bro de

a idéia de sepa ração e de autono1n ia que o dec reto 1817, assin ad o por Do1n j oão VI, consunia, erigindo

a co1narca das Alagoas à condiç~o de capitani:t, isen tando-a absoluta111ente da

s1tjeiçt70, e11t que alé agora esteve, dogoverno da capiltt11ia de Pernanibuco -

como se lê no texto régio . Na segunda déc ada do sécu lo XIXa iniagen1 do espaço

alagoano se achava co111plcta, configurada na c.xpres:;ão territorial , social, política e eco nômica nu1na co1narca suje ita i'1 capitania de Pcrna1nbuco. Odecreto régio de 1817 é u1n reconhcci111c11to, e111 nível político, de realidades eco nôrnicas e

dcrnográfícas jacen tes. Como Ciicrcvcu o

historiador Craveiro Costa, e111 1817

Jit tores econôniicos

ht1vian1 preparado

e de111ognffícos , o/ H! ra 11do o tlesenvolviJnento da Co1narca 1

o cenário

do dnuna histórico da autono1n.ia 6 •

U1n espaço soc ial não

se conslit ui ape nas nunia con figuração de orden1

política e socia l. E para usar a noção cunhada por Henri Léfcbvre 7 , podernos dizer

que o espaço social é t1111a realidade onde ocorre a transformação das práticas

:-.oci ais em práticas es paciai s. No caso da capitania das Alagoas, as prát icas sociais sugere111 urna subn1issíio a de1ern1inadas práticas políticas, de autonon1ia relativa 11 0 i 11lc r io r <la organização po lítica do Re in o do Bras il, Po r tu ga l e Al gar ves, que o decreto régio de 16 de se le1nbro de J817 enuncia na for ma de u111 go verno

, dando conta da

tudo directa111ente pelas sccretorias de Es tado co111pet entes. Is to é, a ca pit ania se

estrutura po li tica1nente como unia fonna regional de poder de Estado, subrnet ido ao poder central do Reino Unid o. com a ind epen dência de 1822, constiluído o

Império <l o Brasil , a capilania da s Alagoas, con 10 as detnais existe nt es, evolui pa ra a forma política de província./\ cessação dos laços de s ujei ção política co n1 a capilania

i 11depe11dente (

), co11ijàcu/dade de co11ceder ses111arias (

)

de Pernarnbuco favoreceu, na ca pi tania d.e Alagoas, depois Província criação de uni espaço cu llur al alagoa no , que const itui a n1at erialização

difere ncial que se vinha formando nu ma a nt ecedência de 1nais de dois séculos.

As pr áticas espaciais config11ra 111 a iinagen 1prin1itiva nun1a iln agcn1 atual dt autono tnia relativa , que sen·e d.e supo rte ao dese111penho institucio nalizado tlc

e Estado, a da inrngen1

33

.,

~"

pr:íticas sociais diferenciais, que dcsignarnos con10 espaço fí!l ico e regionalidade

a!agoanos.1\ criação do espaço alago:ino se 1naterializa, de fato, a par tir das pr:ític:ts sociais que se configura111 co 1no u1na i1nage m diferencial no contexto da i1nagen1 de perna1nbuca11idade. A in1agc1n de Perna1nbuco co1no capitania que encerra as diversidades regionais é tuna herança das práticas sociais e políticas da Sociedade e do Es tado co loniais. A fonn a ção da i 111age1n diferen ci a l das Alagoas, en1bor a constc1n suas raízes na época colonial, se 1naterializa no Reino Unido, quando se

estabelece, por decreto régio, a capitani a elas Ala g oa s con 10 en tidad e política de autono1nia

prefigura na image111 diferencial que se produz Jla escrila do século _XVI 11. E essa

iin;tgcn1 qu e pe rdur a, e se 111atcrializa co1110 ato político

pernambu ca no no decreto de Dom joão VI. Só a partir de 1 817 a~ 1:la go as. ~ª'.> uma i1nage111 política ho1nogênea e :1t1tô no1na , qu e se pas s a a cl ch 111r na chhc1l história social e política do futuro ln1pério.

Alagoas e111 1817. Adestinação das r elativa no co rp o d o Brasi l l{e ~110 se

de scparaçao do cspa~o

do século XIX inicia -se o ciclo de

r ep resentaçfto da i111agcm au1ônon1a da Província na escri ta. E::i:>e ciclo se constitui por 111eio da elaboração consciente de opúsculos e esboços que busca111 representar a realidade pro vinc ial por 111eio de u1na irnagc111 ho111ogêne~ e configurada, que reílita as condições do espaço físico, o ho1ne111, a procluçao,

a organ ização ad1 n in is tr ativa e as vicissitudes da vi d a histórica 11 u n1a esc ri ta de representação. /\ re presentatividade da escrita, entretanto, resguarda todos_ os ingredientes ~uccon1põc111 urna ideologia de representação socia l, gerada en~lllvcl de unia Iiegcn1onia de classes: a <los senho res de engen ho e dos con1erc1antes das vilas de porto de 1nar. Desde o ÜjJIÍsculo da DescrijJçâo G'eographica de J.844~, assinado anonirnmnente por Hu1n Brasileiro - 1nas que se atribui ao ex-presidente da Província, Antônio Juaqui111 de Moura -, essa esc rita de represe ntação vin cula os interesses soci ais das classes do1ninantcs fonnadas por senho1:es de engenho e ricos corncrciantes . A história ela Província passa a ser contada a partir dos interesses de classe dos grand es propri etários ru rais e da bur g u <:sia i nc r can til u rb ana . Desse modo , a escri ta de representa~ilo socia l alagoarrn não se apr ese nta corno urna criação ingênua ou des provida ele urna

no final da pr imeira 1netade

34

.,

.,
.,
provida ele urna Só no final da pr imeira 1netade 34 ., marca de do1ninação 11

marca de do1ninação 11 0 cont exto de classe da sociedade do século XlX. É de fato urna escri ta de erudição, nias L11na escrita de erudição sociahnente rnarcada. Vincula a ideologia de base da sociedade alagoana do sécu lo XIX e as ideologias con1plen1e11tares que o jogo de aco1nodação elos scg1nentos sociais do111inantes provoca. A in1agcn1 diferencial se 111atcrializa, e se consolida co1no fato de poder. /\ image1n prin1iti,;a, gerada nas vic issitudes ela história ad111i11istra tiva do

séc ulo XVll l, dá lugar, ern 1817 , à image 1n diferencial de se para ç:1o e autono1nia. Consolidadas estas, surge uma nova i1nage1n provincial, que se produz nas condi ções con10 as classes hegcn1ônicas da Província estrut uran1 o poder . E então a in1agen1 pre\'alec ente durant e o séc ulo XIX não é rnaí s a que se dirigia para es tabelecer uma disparidade co111 a irnage1n-111f1e da capitania de Pcrnan1hu co

diferença que donlina nas duas fixação ela in1agem da diferença

autônon1a de 18 I7, co nsoli dada na in1age111 de província e1n 1822, a i111agc111 de representação social que co1neça a gerar-se na escrita é do1ninada pelas condições de hegernonia dos se nhores ele engenho e dos ricos co1ncrdantes. E - esta

i111agen1- dir igida ago ra a consolidar as con di ções de do1nínaçâo dessas classes

sociais. Apartir de 1822, a imagem a que a escrita social serve ele suporte é a da dominação, que estabelece sua hege monia sobre as ela diferença. Pela ilnpostação da in1agen1 de do111inação, hege111oniza-se a escrita de representação social co1110 uni inst n11nento que veic ul a, se m dubiedades, os pro dutos el a ideo logia de base. As práticas políticas republicanas - dirigidas cont ra o flnp é r io - e as pr áticas políticas abolicionistas - dirigidas contra o siste1na de escravidáo - at.ua1n de modo a não n1odificar essa in1agen1 do poder, mas apenas seg1nentá- la. Ai1nagen1 d.a don1i na ção passa inc6 lun1e, corno se não existisse 111 práti cas sociais qu e lh e eran1 agressivas, con10 a Guerra dos Cabano s de 1832. Mas a d.on1inação da escrita so br e a in1ag e n1 a abs trai , ap rese ntando -~1 con10 i ndiferente às condições da vida social ela Provín eia.

nem con1 a i111agen1 de nial cri alizaçfío dessa prilneiras décadas do século XIX. A part ir da

,

No Opúsculo da DescrijJçt7.o Geograpbica d.e 1844 o espaço alagoano

provincial se aprc::;cuta dotado ele coesão social e expressão política. Asocicd aclc alagoana se revela cstrul urada en1 pní.licas cconôrn ícas lllle lhe marca1n u111a

35

fisionomia específica. O desempenho político das classes sociais se revela, por sua vez, co11fli1a111c, a ideologia de base do1ni na11do sobra11ceinu11cntc sobre os

co nflit os e divis ões, e vi nc ulan do as ideolog ias co1nplen1cntnres que rctl etcan

in te resses de grupos políticos ou facções no interior da dorninação tradic ional.

Por exc111plo: a lula e ntre Li sos e Cabe ludos, an1bas as facções da 1ncs1na class e dor nin ante el e se nhore s de e nge nho e ric os con1erciantes , er n confli to pe la hcgcn1011ia no poder po lítico üa Província . Ainda quando esses conílitos ent re facções da classe dorninante adquire1n um alcance popular, co1no ocorreu con1

a alian ça en t re Li sos e Cabanos, o que de fato a histó ri a provincial apresenta é

o início do ciclo das rebeliões popu lares com OJdena111e11lo olig:írquico, que vai cessar cni I 9 12, na República, corn a Soberania Popular que derrub ou do pod er lo ca l a oligarquia Ma ll a.

A ra zão dess a a li an ça, tão própria ?t história soci al ala goana, entre

.,

,

.

scgn1entos populares e facções oligá rquicas, talvez se expliq ue pelo rnod o conH) se estrutu r a na soc iedade a lagoana o poder tradi cional co 111 hegemon ia de senhores

a clienlela po lítica; apoio da cli c nt c•la

rural ao s :ie nh ores de engenho para enfrentar a co111petiçâo que lhe~ faz ian 1, na apropr iação da r enda p ro\ ·i ncial , os con 1erciant es agiotas e os co1 n erci a 11t es

ex portadores-ii11portadores. A recorrência ao apoio popu la r não dissi pava o

conteúdo de cl ass e do onlena 1nento oligárquico

acentuava as condições de con1pc tição entre facções das classes don1ina11tes pela partilha e apropriação da renda gerada pelo capital fundiário e pelo capit al

inl erfe rência de cruel dade

e de it1tol erâ ncia. Os vários ataq ues capital da Província, substituindo a

Alagoa do Sul , revelan1 que a burgues ia ine rcantil urbana não se considerava lora do alcance dos ataques e pilhage11s oligárquico-populares. Abu rguesia 1ncrcant'íl urbana reve lou, nesse con texto de lutas, un1 hábil jogo de corpo, 1nante11tlo,

quando se declarava (1ualquer urna das hege rnonias faccionais, as co nd ições de

de cnge 11ho e comen:iantcs urba11os; o 1nodo con10 se recruta

o a lt o índ ice de co nc e ntra ção fundiária ; a necessidade de

do pod e r provinc ial. Ao contrário ,

n1ercantil urbano . Foran1 a intervenção oligárquica pern1anente e a de $eg111entos populares que deram a essas rebeliões o seu 1náxitno

a Maceió, que a partir de 1839 veio a se r a capital ant iga de Sa nta Maria Madalena. da

36

seu poder. Claro, sem qu e pudesse evitar certas perdas materiais . Mas através do jogo de corpo hábi l 1nanli11ha as condi ções de poder que rcve lava1n , desde aque la época, o início de unia hegc n1onia.

tática da participação ela burguesia 111erc an lil urbana no poder j) Ol ítico se rea lizo u através de l11na n1odalidadc de aliança entre essa burguesia

e o poder fun di ário tradicional. Enlrc essas tá ticas aparecc 1n , entre o utras , as

1natri1noniais, que não resguardavan1 os senhores de engenho da falência <.:on10 nobititavarn os 11u1scatesgana11ciosos. da acusação do hisloriador Craveiro Cosla. Esse ca rn inh o das táticas nrntr i1r1oni ais explica a linh age 111 breve de 1n ui tas fan1ílias burguesas de Ma ce ió , onde a fortuna ac umul ada n a agiotage m e no co1nércio n1aríti1T10 jan1ais chegou a coincidir con1os foros de nobreza que os te ntan1. Se1T1pre a forlun a foi rnaior.

A

pro,·incial

No OjJúsculo da Descripçiio Geo,~rapbíca d.e 1844 já se reprcse nla111

os interesses de classe da burguesia mercan til urbana. E1nhora narre a história provincial desde o ponto de vista do s senhores de engen hos e criadores de gado que 1nantinha111 a hcgcn1onia rural , vinc11 la a lese da 1nodernização por 111cio de ínvesti111cntos capitalistas. Pela pri1neira Yez ocorre na escrita de do n1inação tradic io nal a irriage1n dos capita list as como os verdadeiros 111tísculos do co1/Jo social - na image1n que lhe dá o texto. A fu nção dessa classe de capitalistas , segundo o Opúscu/u de 1844, é a de restaurar o c0tnércio

e a cultura, e pron1over a indúst ria e as ar tes . O reequ ipamento dos estalei ros

íar - se-á por 1ncio ele i n vcs ti1n e 11t o s capita l istas . Sugere ainda o Opúsculo de 1844: a substituição do trabalho c!\cravo pelo trabalho assalariado e a criação de um Banco Provincial ou de un1a Caixa filia l de Desconto. É, pois,

11111 progra1na con1plcto de capitalização da eco non1ia tradicional alagoana. Ein seu projeto d e ag<~iornt/.lnenlo da eco nomia alagoana, o Opúsculo de l84 4 não deixa cap itali s 1i ca 11Jc nt c de insin u ar a necessi d.ade de transfonnar as cinco a ld eias ind ígenas ex isten t es na Pr ovíncia e 111 fonte d e n1ão-de-obra assalariada e de inviabiliza r a econo n1i<1 de coleta que se es tabeleceu co1no categoria econô rni ca de passage m, nas con di ções alagoa nas, entre a cconon1ia escravista e a econon1ia de mercado. Arenda dife rencia l da terra, produ zida

37

pelo arrcnda111e11to das terras , lagoas e pedreiras das aldeias aos proprietários rurais, favorecia o descnvolvi1 11ento de un1a categoria econô111ica de passagcn1

ent re a escravidã o e o cap ila lis 1no, e que, de fato, retardava o su rgin1cnto <la n1ão-dc-obra assalariada, no ca1npo. O Opúsculo de 1844 não se contentou en1 est abelecer a in1agen1 dos ca pitalistas co1no os verdadeiros u11ísculos do co11x; social. Insinua ta111bén1 a redu ção das aldeias indígenas a acainpai nc11t os

da eco nomia esc ravista e da unia eco110111ia de 1nen.:ado.

de trabalhado res assa la riados e a su bstit uição economia de co leta pelas novas condições de

Refere-se~difi culdad e de conseguir-se trabalhadores livres - ou trabal hadores por.Jornal - e d e n uncia co1no Ju11í pouca a ~não-de-obra esc rava . Al ega que

a facil idade con io os pobr es conseg uia1n o alhnenlo individual, por 1ne io de

ociosidad e e1 n que vivian1 essas capital incidia sob re a produção

dos eslalei ros, e a fal ta de u111 banco de crédilo dificultava a tornada de ca pitais

po pulaçücs r11rais. Por sua vez, a carênci a de

unia eco 11o rni a na tural de colei a, favo r ecia a

de invcst in1ent o. Í:: unia visão 1nercantilista do capita lis1no, qu e incide so bre os el os fráge is da cco no1nia tradicion<tl alagoana, que se baseava na cxport·ação

de novas rotas

corncrciais internas e externas, para facilidade de a1npliação e con;wlidaçfw do n1crcado interno , con1 navegabilidade dos principais rios e lagoas. /\ risão 1ne rcantilis ta se estende à História social, onde estabelece o para<lig1na da escrita para o julgan1e11to das rebeliões populares, e que seria pos tcriorn1entc vinculada pelo discurso historiográfico alagoano, a partir do texto da G'eo3rt1phia Alagoanct de Thon1az do Bo1n-Fin1 Espíndola, en1 1860.

Apers pectiva 1nercantil-capitalbta se acentua no text uári o da (ieraçéío d e 1860: 11a esc rita d e A. C. Tavares Bastos se revela un1a doutrina do liberalis1no

1nerca111il e uma crítica à eslrutura burocrático-autoritária do Estado Tn1perial ; nos dois e:->boços de José Alexandrino Dias de J\!toura se revela, por su a vez, na

fo rn1a de un1 ape lo à in du :;tri :1li zação; en1 Ladisl au Neto e Fernan des de Barros

se 1nanifcs ta111 os pri1nei ros escritos de pesquisas siste1nát icas de nossa riqueza

botânica e min eral; ein Dias Cabral se revela no evol ucionis1no co nsiderado corno unut filosofia do progresso, que se opõe às ideologias religiosas arcaicas;

açucarei ra e 111adeireira. O progra1na ainda incluía abert1 1ra

38

cm Araújo Jorge é o est ud o da botânica co1no.filoso,fia da natureza; e1n i\'lcllo

Moraes se revela a utilidade indu st rial das plantas 1nedici11ais brasileiras . úa visão

n1crcantil-capitalista gerando-se no interior da cult ura alagoana con10 formas lcóricas de ap licação social da idéia ele progresso e de civilização.

Os estudos de geog.rafia sa nitária e 1ned ici na social que co 11tê1n as escritas

da Geographít1 Alagoa11a el e Thomaz do Bon1-fi111 Espínclola e dos es boços hislórico -acln1i11istra tivos de Dias de Mou ra totalízam essa contribuição da (/eraçâo de 1860 à in1plantação da idé ia de pro gresso na cullura alagoana. Nu 1n perí odo

dois esboços histó rico-

ad.1ninistrativos da prov ín c ia d e Al agoas: a Fala de 1860 \ e os Apontrunentos de 1869 10 O pri1neiro desses esboços incl11 i u1n1t saudação a Don1 Pedro II en1 sua vi si ta às /\lagoas , uni re lato hi stóri co da Província, u111 outro relato geog rá fico e, por úllin10, 11111 relato ad 1ninis trn t·ivo. Na par te que cons lil u i a saudação ao casal tnonárqu ico, Dias de Moura coloca cn1 lern1os de precedência hislórica o terri tório alagoano co1110 o S<'gundo ponto da cosia atlântica do Brasil alcançado pelos descobrimentos da frota na\'al de Cristóvão Colornbo. rsto é: um segincn to da cos ta alagoana teria sido alcançado pelo naYio JVi1la, capitaneado por Vicente Yafiez P i n zón, a pós za rp a r do cabo de San t o 1\~ostinho ( designado Cab o d e la Consolación) . Por esse ca1n inho, induzia o território alagoano a parlicipar dos dcsco brin1 e ntos an tecedentes dos espan hóis no cont inente an1e rican o. Con10 náo existe1n provas téc nicas desses dcscobri1ncntos do Brasil, pelos espanhóis ela expedição naval de Co lonibo, na hislória das navegações, conslit uindo as referências apenas postulações, a indu ção hi stó rica efetuada pela es crita de Dias de Moura lc m t1111a fun ção: aprofundar , po r 1neios ideo lógicos, a vida histórica da provínc ia ele

, de

nove an os, José Alexandrino Dias de Moura pub lica

Alagoas. Essa tese de aprofuncla1n e11to el a vid a histórica pro vincial reapa rece , con10 íll"gu1nento ideológico , e m v;ír ios 11 wn1 c nto s da esc rita hi s toriográf ica a lagoana, e todas as vezes sen1 qualquer induzi1ne11to probalório de que a lese seja verdadeira.

nada parecido u1na ideo logi a

de aprofunda1ne11to da vida históri ca tão requerida, en1 alguns 1110111entos, co1;10 fonna de legi tiniar urna esc rita de do111inação tradicional.

Falta-lhe a docuinentação necessári a, e a lradição oral não guarda ant es do fin 1da pritn e ira rn etade ci o séc ulo XIX. Pern1ane ce co.1no

e a lradição oral não guarda ant es do fin 1 da pritn e ira rn

39

Apart e hi stórica do esboço de Dias ele Moura estabelece unia cronologia d os fa tos da vida socia l alagoana , incl uindo aco n te cin 1entos achn i11 is trati vos e

po líticos provinciais. Nessa ocasião a insurreiçâo agrária de 1832

n1od o conciso na escri t a h is t oriográfica, desig na da de rebe li ão, d e guerra ci 11i l,

el e caba11atla e deg uatr(( dos caba nos. Desse 1n odo a escrit a el e Dias de Mou ra revela s ua his toricidade, elidindo os conceilos de patologia social cotll qu e o Optiscufo de 1844 passou a designar a insurreição agrária de 1832. Ocaso talvez de111onstrc certa si111patia de Dias de M.oura pela Gue rra dos Cabanos, ta lvez não de t·odo revelada, mas que su::i escrita inconsciente1nc11tc registra . Nesse n1csn10 ano de 1860 o tra!atn cnto da do à Guerra dos Ca!laiios na G'eog1't1pbia Alagoanrt de Thornaz do Bo1n-Fi1n Espíndola é o de acentuar o 1nodclo conde nat ór io do Opúsculo de 1844, onde se aplicain aos fe nô111cnos dessa insurreição agnfria

co nceito$ pa tológicos de história social. Talvez que 110 espaço alagoano da esc rita

algu1na sinlpatia pela Guerra dos Cabanos se revel a na forrna de classificar a ins urreição e os qu e dela parti ci pararn co1no insurretos. A sinipatia popu lar alagoa11a pelos co mhatenlcs caba11os 1nais de un1a vez :;e rcgi:;trou nos :111Hi~ da Província e nos doc11n1cn tos n1ilitarcs sob re a guerra.

su rge de urn

A pa rt e geog rá fica es bo ça a figura da Província co 1no u n ia ·irnag c 111

n1ate1na1izada de urna realidade física que co1npona t1111a configuração político-

histórica de contornos definit ivos. O que a escrita de Dias de Moura es tan1pa é

a i111agcn1 das Alagoas na figur a geo n1étr ica de 111J1 triângulo retângulo cuja

/J1/Jote1111sa é a linha irregular que partindo dajoz dopequeno rio Persi111tnga

e a fre111essando as 11u1tas de jacuípe e de Perna1nbuco /Jtl i ten11inar na

Aj iu1so (1 ona dt1 ,\ 1nrtiores do 111undo): serve11i, -lb e dos

cachoeira de Paulo

,

"•

,

outros dois lados a costa ba11bt1dt1 pelas aniladas águas do !ltlântil:o e o : assoberbado curso do Bai:vo S. Francisco, cttjajbzjf,~ura o 11értece do âng ulo t(lio,· a hipotenusa ou nzaior !tido do triângulo orça 86 léguas j;o11co 111ctís ou n-ienos,- o ladojornu((/o pelo curso do rio 50 e o do litoral 34, o qual.fica cornpreen rlido en tre bk' 55' 3 0 " e J(l 31' de latitude sul e 26u e 2lf e .58'de

longitude oeste de Lisboa . O enge nh eiro Conrado Jacob de Nien1eye r con fere l.200 léguas quadradas ao es paço da pro\'Íncia das Alagoas. N~i percepção cio

40

'

.

'

'

'

espaço alagoano finda o papel das in1agc ns indcte nninadas . e se introduz a

i1uage1n n1ate111ática de configu ração geornétrica definida, projetada so bre as coordenadas geográfi cas, com detenninações astro11ô111icas, descrição das lin has

orográficas, per fil dos sisten1as íl u\'i ais e da linh a ela costa, localização de

cidades. A i1n age1n co111arcan a inicial era difusa e de configuração indet enn inada.

A i1nage1n da capitania ganha con tornos ní tid os, co1n persistência ai nda de

algumas indeterminações. A longa vicb histórica da Província ia constituir unia

imagcn1

con10 tuna i111agcrn mat e111:Hica de uma real idade político-histórka

e su rgir

definida, dot ada de pccu Iia ri dades , inco nfundível corno provincial idade no

contexto político elo Império.

vilas e

cada vez 1nais nítida, até

perd er pratican1 entc suas indcte rn1inaçõcs,

O esboço adquir e u1 11 teo r soc iológ ico quando descr e ve a organi zaçfü>

adn1inistraliva e algunrns fo nnas de vida soc ial. l\ss im, rcla1a1n-sc as cond.i çtics

de vidi~<la população pob re do Pont al da Barra, cn1 Maceió , pela fortna de

hab itação: u 111 agregado de cerca de 50 C(,(bc111as cobertas depalha e hrtbitadas

/1or j)(Jbres jJescadores. As co ndi ções de navegação palustre sã.o descritas a partir do pequ eno trapiche sit uado no Trapi che da Barra, co1n e111barcaçôes e

canoas que naL,.egaJJ/ nas duas lagoas. Discute a razoa bil idade ou não dos sítios escol hi dos para locali za r povoações, co1no é o caso de Coqueiro Seco, na ribeira da lagoa Mundaú, a fertili dade da ilha de Santa Hila, co1n 18 engen hos de açúcar

e suas culturas de

cafeeiros, rujo arbusto -diz-.frut(fica e:rtraordinarirunente

nas circunvizí11ba11ças da cidade à so1nbrt1 das jaqueira~~· a. excelência do

porto n1arílirno da Barra Gra nde, em Maragogi, !ttl/Jez o 111.elhor porto da Proufncia. Louva o sílio onde se ergueu a povoação de Coqueiro Seco por sua

posição pitoresca, e as terras agríco las qu e a cercavain, apesar ela aparência de esterilidade, davarn excelentes cultu ras de vinhas, que produzian1 as tn clhores uvas da Província. Mas não são só de louvação as refe rências geográficas claFala

ele 1860. Revelou-se Dias de Mount u111 ecologista exaltado, quando protesta

contra a presença do verdete nas águas da lagoa Manguaba, bcn1 de frente à vila do Pilar, exalando cheiro pütrido de gás sulfídrico, e co1n péssinia conseqüência

so bre o es tado san itár io das popu lações ribeirinhas. E111 razão da presen ça elo

41

verdete sul fíd rico nas águas ela Manguaba é que gras savai n ali as cpiden1ias

senipre 1 11ais i11te11sc11neute e que a!>)ebres intenwitenles sejtnn consta11!es. Mas

o protesto ecológico ele Dias de Mou ra não fica só na defesa das águas da lagoa Ma nguaba . Acusa os proprict:í ri os pela de str uição dos bosq ues de pa u- brasil, e diz que estava1n quase exaustos pelo jogo e 111acbado do proprietário e pela

especulaçtio e cobiça do conlrt1ba11dista. Ou quando co1n pcnsa sua tristeza

pela destruição dos bosques de pau-brasil co1n l11na descrição verdadciran1 en te lírica do reino natural alagoano: rios, lagoas e 111ar de excelentes /Jeixes; ca111pos, inatas e sertões onde pasccn1 tranqüilos os rebanhos, e vive excelente caço e tri11a11111ielodiosas aves. Os Apo1tltone11tos de 1869 fon na 1n 11111 di scurso estatís ti co-político. Descreve corn n1lnlic ia ruas, logradouro s e prédios das povoações, vi las e cida des da Província. Nesse sen tido é unt estudo de incstin1ávcl valor, pode -se dizer que insubst ituível e ún ico. Talvez u1n dos pontos 1nais interessantes dess e trabalho de Dias de Moura seja sua crít ica ã escolha do sítio geográfico para a construção

de Macei ó. Dá,