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IBEROGRAFIAS

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LUGARES E TERRITÓRIOS:
PATRIMÓNIO, TURISMO SUSTENTÁVEL,
COESÃO TERRITORIAL

Coordenação de
Rui Jacinto

IBEROGRAFIAS

33
Colecção Iberografias
Volume 33

Título: Lugares e territórios: património, turismo sustentável, coesão territorial

Coordenação: Rui Jacinto


Autores: Adrielson Furtado Almeida, Agostinho da Silva, Antônio Avelino Batista Vieira, Antonio Cordeiro Feitosa,
Conceição Malveira Diógenes, Daniela Maria Vaz Daniel, Fernando Baptista Pereira, Fernando Manuel
Videira dos Santos, Helena Santana, Hélio Mário de Araújo, Joana Capela de Campos, João Albino M. da
Silva, José Sampaio De Mattos Júnior, Lillian Maria de Mesquita Alexandre, Messias Modesto dos Passos,
Paulo Espínola, Pedro de Alcântara Bittencourt César, Pedro Javier Cruz Sánchez, Pedro Tavares, Renato
Emanuel Silva, Rita de Cássia Lana, Ronaldo Barros Sodré, Rosário Santana, Rui Jacinto, Samuel de Jesus
Oliveira Maciel, Sílvio Carlos Rodrigues, Sofia Salema, Tiago Fernandes Teotónio Pereira, Vanessa
Alexandra Pereira, Vicente Zapata, Vítor Murtinho, Willian Morais Antunes de Sousa

Pré-impressão: Âncora Editora

Capa: João Guerreiro | Âncora Editora

Impressão e acabamento: LOCAPE - ARTES GRÁFICAS, LDA.

1.ª edição: Abril 2018


Depósito legal n.º 440195/18

ISBN: 978 972 780 643 0


ISBN: 978-989-8676-15-3

Edição n.º 41033

Centro de Estudos Ibéricos


Rua Soeiro Viegas n.º 8
6300-758 Guarda
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www.cei.pt

Âncora Editora
Avenida Infante Santo, 52 – 3.º Esq.
1350-179 Lisboa
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O Centro de Estudos Ibéricos respeita os originais dos textos, não se responsabilizando pelos conteúdos, forma e
opiniões neles expressas.
A opção ou não pelas regras do novo acordo ortográfico é da responsabilidade dos autores.

Apoios:
Lugares e territórios: património, turismo sustentável, coesão territorial 7
Rui Jacinto
RECURSOS DO TERRITÓRIO: PAISAGENS E PATRIMÓNIOS

Paisagem urbana histórica, a Lusa Atenas como matriz cultural de Coimbra 19


Joana Capela de Campos; Vítor Murtinho
A Fundação do Mosteiro de Santa Clara-a-Nova de Coimbra. 43
Propagandística política, tratadística arquitectónica e engenharia militar
entre a Dinastia Filipina e a Dinastia de Bragança
Pedro Tavares; Sofia Salema; Fernando Baptista Pereira
Alcalá de Henares e Coimbra, Universidades Património Mundial: 57
responsabilidade e compromisso de futuro em dois contextos ibéricos
Joana Capela de Campos; Vítor Murtinho
De floresta a fábrica, de fazenda a floresta: paisagem cultural e desafios à 79
preservação da memória no interior do Brasil
Rita de Cássia Lana
A alteração da paisagem na Mina de São Domingos como problema 93
metodológico: a valorização do seu património para um turismo industrial
insustentável
Vanessa Alexandra Pereira
La Memoria del Paisaje. Marcas Sagradas en el paisaje simbólico de la 107
región Duero-Douro
Pedro Javier Cruz Sánchez

PATRIMÓNIOS IMATERIAIS E TURISMO

A Flauta de Tamborileiro na raia portuguesa: meio e estratégia de 129


desenvolvimento social e cultural
Rosário Santana; Helena Santana
Itinerários literários: Leituras e leitores de Camilo Castelo Branco, em 149
particular, Agustina Bessa-Luís
Daniela Maria Vaz Daniel
Quatro cartas de Hermès 169
Willian Morais Antunes de Sousa
Natureza e patrimônio de valor turístico do território de Icatu, Estado do 175
Maranhão: possibilidades de uso ambiental sustentável
Antonio Cordeiro Feitosa
Amazônia Atlântica: Patrimônio Natural versus Turismo Balnear 197
Adrielson Furtado Almeida
Turismo de base comunitária: vivências dos discentes do IFCE no território 209
Cearense
Conceição Malveira Diógenes; Pedro de Alcântara Bittencourt César
Singularidades no litoral sul de Sergipe/bra e litoral do Algarve/pt: turismo, 225
cultura e políticas públicas
Lillian Maria de Mesquita Alexandre, Hélio Mário de Araújo, João Albino M da Silva

DINÂMICAS SOCIOECONÓMICAS EM DIFERENTES CONTEXTOS TERRITORIAIS

O GTP aplicado ao estudo da Bacia Hidrográfica do Ribeirão Santo Antônio/ 245


Sudoeste do Estado de São Paulo - Brasil
Messias Modesto dos Passos
Canais de levada e regos d’água: contribuições portuguesas para uma outra 261
abordagem brasileira
Renato Emanuel Silva; Sílvio Carlos Rodrigues; Antônio Avelino Batista Vieira
Um território, uma raça, um património genético: 275
a “Região” do Jarmelo e a Vaca Jarmelista
Agostinho da Silva
Os movimentos migratórios e o encontro de culturas em microterritórios 287
insulares lusófonos: a diversidade da imigração nas pequenas ilhas dos
Açores
Paulo Espínola;Vicente Zapata
Perfil dos Alunos que frequentam o 3º Ciclo do Ensino Básico 301
nas Escolas do Distrito da Guarda
Fernando Manuel Videira dos Santos
Quali(ficar) o caminho 325
Tiago Fernandes Teotónio Pereira
Contradições e Possibilidades nos Conflitos por Terra: o Caso do Maranhão 333
José Sampaio De Mattos Júnior; Ronaldo Barros Sodré;
Samuel de Jesus Oliveira Maciel
Lugares e territórios: património, turismo
sustentável, coesão territorial

Rui Jacinto
Centro de Estudos de Geografia e Ordenamento do Território (CEGOT)

A declaração de 2017 pela Organização das Nações Unidas (ONU) como Ano
Internacional do Turismo Sustentável para o Desenvolvimento levou o Centro de Estudos
Ibéricos (CEI) a incluir este tema no Curso que promove regularmente quando estão prestes
a terem inicio as férias escolares. A XVIIª Edição do Curso de Verão, realizada entre 28 de
junho e 1 de julho, sob o lema “Lugares e territórios: novas fronteiras, outros diálogos”, além
de afirmar o CEI como uma plataforma de difusão de conhecimento, aberta à cooperação
cientifica e ao diálogo institucional, deu publica expressão do seu compromisso para com
os territórios mais débeis, onde relevam os espaços de baixa densidade e fronteiriços. As de-
zenas de investigadores participantes, onde se incluem muitos provenientes de diferentes
universidades do espaço lusófono, testemunham a aposta do CEI em aprofundar, aquém e
além-fronteiras, parcerias e diálogos que o articulem com diferentes redes de investigação.
O Curso de Verão é pautado pelas seguintes preocupações: (i) identificar e valorizar
os recursos do território, naturais e humanos, materiais e intangíveis, enquanto fatores
7 // Lugares e territórios: património, turismo sustentável, coesão territorial

críticos e estratégicos do desenvolvimento (paisagem, património, cultura, etc.); (ii) ana-


lisar comparativamente dinâmicas económicas e sociais, em diferentes contextos espaciais,
sobretudo entre os diferentes Países de Língua Portuguesa (PLP), promovendo a discussão
de estratégias e a identificação de boas práticas que concorram para promover a coesão ter-
ritorial; (iii) esbater fronteiras entre saberes e incentivar o diálogo entre investigadores que
permitam alargar redes e consolidar parcerias no espaço ibérico, quer europeu e africano
quer latino-americano; (iv) valorizar o trabalho de campo como estratégia pedagógica
e de promoção do património natural e cultural, como espaço de diálogo para análises
comparatistas entre regiões de diferentes geografias e outras latitudes.
Os debates havidos em sala e no terreno, refletidos nos textos que se dão à estampa,
foram estruturados nas seguintes coordenadas: (i) recursos do território: paisagens e patri-
mónios; (ii) patrimónios imateriais e turismo sustentável; (iii) dinâmicas socioeconómicas
em diferentes contextos territoriais.

As paisagens e os patrimónios são marcas impressivas que diferenciam os territórios e


ajudam a moldar as respetivas identidades. O tempo havia de os confirmar, por outro lado,
como recursos estratégicos para o desenvolvimento, sobretudo nos territórios mais débeis,
caracterizados pela escassez doutras potencialidades, como é o caso do Interior de Portugal
em geral e dos espaços transfronteiriços em particular. São, pois, ativos importantes que
podem induzir efeitos positivos nas economias locais, particularmente no setor do turismo.
A paisagem, como o património, tem vindo a suscitar amplos debates que cruzam
múltiplas fronteiras, das conceptuais, que obrigam a perscrutar os respetivos significa-
dos, às que percorrem as várias tipologias por onde se desmultiplicam. Depois de ser um
“conceito-chave do paradigma dominante da Geografia de entre as duas grandes guerras”
a paisagem entrou novamente na agenda dos geógrafos, como dos cultores doutras disci-
plinas, ao regressar “em várias frentes e a partir de escolas antecedentes distintas”1. Natural
ou humanizada, o caracter polissémico da paisagem confere-lhe, também, um valor pa-
trimonial, qual palimpsesto onde fica inscrito o engenho do homem e registadas as várias
facetas da sua ação, particularmente a permanente luta pela sobrevivência.
A Convenção Europeia da Paisagem2, adotada em Florença, em 20 de Outubro de
2000, subscrita por Portugal e posteriormente vertida para o plano legislativo interno
(Decreto n.º 4/2005, de 14 de Fevereiro), reconhece a sua importância “para alcançar o
desenvolvimento sustentável, o estabelecimento de uma relação equilibrada e harmoniosa
entre as necessidades sociais, as actividades económicas e o ambiente”. O preâmbulo da
referida norma refere que a paisagem cumpre “importantes funções de interesse público
nos campos cultural, ecológico, ambiental e social e que constitui um recurso favorável à
8 // Lugares e territórios: património, turismo sustentável, coesão territorial

actividade económica, cuja protecção, gestão e ordenamento adequados podem contribuir

1
Jorge Gaspar (2001) – O retorno da paisagem à Geografia. Apontamentos místicos. Finisterra, XXXVI, 71,
pp. 83-99.
2
Para efeitos de Convenção “«Paisagem» designa uma parte do território, tal como é apreendida pelas po-
pulações, cujo carácter resulta da acção e da interacção de factores naturais e ou humanos”. Os objetivos
da Convenção foi “promover a protecção, a gestão e o ordenamento da paisagem e organizar a cooperação
europeia neste domínio” (Artigo 3.º), aplicar “a todo o território das Partes e incide sobre as áreas naturais,
rurais, urbanas e periurbanas. Abrange as áreas terrestres, as águas interiores e as águas marítimas. Aplica-se
tanto a paisagens que possam ser consideradas excepcionais como a paisagens da vida quotidiana e a paisagens
degradadas” (Artigo 2.º).
A Unesco adotou mais recentemente (2011) uma Recomendação sobre a Paisagem Urbana Histórica (PUH).
para a criação de emprego”, antes de enunciar os pressupostos que devem presidir a uma
“política da paisagem”.
As autoridades públicas devem, pois, enunciar os “princípios gerais, estratégias e linhas
orientadora que permitam a adopção de medidas específicas tendo em vista a protecção,
a gestão e o ordenamento da paisagem”. Além da preocupação “em alcançar o desen-
volvimento sustentável estabelecendo uma relação equilibrada e harmoniosa entre as ne-
cessidades sociais, as actividades económicas e o ambiente” considera-se que a paisagem:
(i) “desempenha importantes funções de interesse público, nos campos cultural, ecológico,
ambiental e social, e constitui um recurso favorável à actividade económica, cuja protecção,
gestão e ordenamento adequados podem contribuir para a criação de emprego”; (ii) “con-
tribui para a formação de culturas locais e representa uma componente fundamental do
património cultural e natural europeu, contribuindo para o bem-estar humano e para a
consolidação da identidade europeia”; (iii) “é em toda a parte um elemento importante
da qualidade de vida das populações: nas áreas urbanas e rurais, nas áreas degradadas bem
como nas de grande qualidade, em áreas consideradas notáveis, assim como nas áreas da
vida quotidiana” (Decreto n.º 4/2005, de 14 de Fevereiro).
O património, por seu lado, conheceu uma considerável evolução desde que deixou de
exprimir o significado que vulgarmente lhe é associado. O valor exclusivamente mesurável
que lhe era atribuído, ligado ao sentimento de posse e de propriedade, pessoal, familiar
ou empresarial, alargou-se ao incorporar dimensões mais intangíveis que lhe passam a
conferir, também, uma representação simbólica. A maior abrangência do significado com
a assunção destes valores nunca lhe retirou o antigo significado associado à ideia de me-
mória e de herança, que o vincula a direitos adquiridos, que tanto podem ser detidos por
indivíduos ou grupos sociais, por lugares ou países.
A carga simbólica e a dimensão cultural que carrega não impediu que o património con-
tinue a ser regulado por convenções e normas vigentes na ordem jurídica local, nacional ou
internacional. Os valores que incorpora conjugados com o estado de abandono e progres-
9 // Lugares e territórios: património, turismo sustentável, coesão territorial
siva degradação, patente em muitos locais, levou à intervenção de diferentes organizações,
nacionais e internacionais, com destaque para UNESCO que gizou uma Convenção vi-
sando a Proteção do Património Mundial, Cultural e Natural (Paris, 1972). Esta deci-
são, que passou a constituir uma referência, acabou por desencadear um movimento que
apostou em sinalizar e salvaguardar obras ímpares, testemunhos únicos e de excecional
interesse que são merecedoras de serem transmitidos como legados da Humanidade às
gerações futuras. Anualmente, durante a reunião do Comité da Convenção do Patrimônio
Mundial, aprova-se a inscrição de novos bens na Lista do Património Mundial, após estu-
dos, levantamentos científicos, investigações, análises, informações históricas e visitas aos
locais. Até ao momento foram classificados 1073 bens como Património da Humanidade,
entre monumentos, sítios, edifícios, cidades, bosques, montanas, lagos, etc. ou paisagens
culturais, estando entre os consagrados alguns ícones mundialmente conhecidos, como a
Grande Muralha, Machu Picchu, Palácio de Versalhes, Acrópole de Atenas, centro histórico
de Florença ou o Parque Nacional e Cataratas do Iguaçu.

Património Mundial: número de bens classificados por região

Estados com
Cultural Natural Misto Total %
bens inscritos

Europa e América do Norte 434 62 10 506 47.2 50


Asia e Pacifico 177 64 12 253 23.6 36
América Latina e Caraíbas 96 38 5 139 12.9 28
Africa 51 37 5 93 8.7 35
Estados Árabes 74 5 3 82 7.6 18

Total 832 206 35 1073 100.0 167

Fonte: http://whc.unesco.org/en/list/stat (24.03.2018)

A distribuição dos bens classificados entre os diferentes continentes e países mostra


uma geografia assimétrica cuja lista é encabeçada pela Itália com 53 bens distinguidos.
Segue-se a China (52), Espanha (46), França (42), Alemanha (42), Índia (36), México (34),
Reino Unido e Irlanda do Norte (31), Federação Russa (28), Estados Unidos da América
(23), Irão (22), Japão (21) e Brasil (21); Portugal é o 18º país segundo o número total de
inscrições com 18 bens classificados como Património Mundial. Esta profunda discrepân-
cia decorre do conceito de património subjacente à atribuição daquela classificação, duma
evidente visão eurocêntrica e do caráter económico que se esconde por detrás dalgumas
opções. O marketing turístico tem especial apetite por locais icónicos, que usa em proveito
da atividade que promove, aproveitando a imagem dos lugares distinguidos como recurso
estratégico devido ao enorme valor, material e simbólico, adquirido com esta distinção.
Se a classificação dum dado lugar faz crescer o seu valor também deve aumentar a
10 // Lugares e territórios: património, turismo sustentável, coesão territorial

responsabilidade na sua conservação e manutenção através duma gestão consequente.


Os textos deste apartado assinalam a importância do património, o seu capital cultural
e valor simbólico (Pierre Bourdieu), bem como as marcas, sagradas e profanas, inscri-
tas nas paisagens ao longo dos tempos pelos diferentes poderes (régio, religioso, politico,
económico, etc.). O contributo do património natural para definir o espírito dos lugares
é reforçado pela “propagandística política” carregada pelo património construído. A pai-
sagem, onde estão disseminados monumentos (capelas, mosteiros, castelos, etc.) e habi-
tações, acaba por exprimir a correlação de forças entre os poderes em presença. São disto
testemunho as várias gramáticas da arquitetura, rural ou urbana, popular ou erudita, antiga
ou moderna, bem como a renovação operada no povoamento mais arcaico, ao nível das
nossas aldeias, onde podemos observar o sucesso económico e o consequente prestigio
social alcançado pelos seus proprietários: se a casa do brasileiro permanece como símbolo
dum estatuto alcançado após penosa jornada, a casa do emigrante, fechada durante quase
todo o ano, a aguardar expetante uma breve visita durante as curtas férias ou a festa da
aldeia, é o testemunhos mais eloquente e palpável da mais profunda ausência que se abateu
sobre boa parte do país mais remoto.

Os patrimónios, as paisagens e os lugares de exceção, nas diferentes formas que podem


assumir, são ativos incontornáveis dos territórios, sobretudo os mais recônditos, excluídos
e situados à margem dos eixos que estruturam e organizam os processos mais dinâmicos
de desenvolvimento. A generalidade dos estudos de caso que foram apresentados sobre
os espaços urbanos ou as áreas rurais, seja Coimbra e Alcalá de Henares ou Minas de
S. Domingos, Região do Douro ou interior Estado de São Paulo, ressaltam o significado
da memória e os desafios que coloca a valorização do património e a preservação da paisa-
gem, se estiver em causa implicar tais legados na promoção dos territórios e da qualidade
de vida das respetivas comunidades.
As declarações de princípio, convenções, normas, políticas e estratégias destinadas a
preservar a paisagem e valorizar o património, material ou imaterial, são justificadas por
aquelas nobres razões ou reclamados pela necessidade da (re)utilização ou (re)funcionali-
zação de modo a proporcionar algum retorno financeiro. Os programas de ação destinados
a este tipo de projetos apontam, além da visitação e do acolhimento a eventos culturais,
abrem a possibilidade de albergarem outras atividades, quase sempre de cariz económico,
ligadas ao turismo. A valorização do património tem pecado, segundo alguns, pela exces-
siva patrimonialização ou usado para fins que comprometem e tornem insustentável o seu
futuro se tais opções não forem devidamente acauteladas. Sinalizam este princípio, por
exemplo, a reafectação do Mosteiro de Santa Clara-a-Nova (Coimbra), como doutros mo-
numentos do mesmo tipo, para acolherem hotéis e pousadas ou a recente polémica sobre
11 // Lugares e territórios: património, turismo sustentável, coesão territorial
o uso, quiçá, abuso, que estava a ser dado ao Panteão Nacional.
O património imaterial pode concorrer para os mesmos objetivos levando em consi-
deração os efeitos dos bens mais representativos de Portugal, que a UNESCO reconhe-
ceu e incluiu na Lista Representativa do Património Cultural Imaterial da Humanidade3.
A nível regional podemos atender à musica popular (do adufe à flauta de tamborileiro na

Esta Lista é constituída, no caso de Portugal, pelos seguintes bens: Fado (2011), Dieta Mediterrânica (2013,
3

em conjunto com Chipre, Croácia, Espanha, Itália, Grécia, Marrocos), Cante Alentejano (2014), Manufatura
de Chocalhos (2015), Olaria negra de Bisalhães (2016), Falcoaria Portuguesa (2016), Boneco de Estremoz
(Figurado em Barro) (2017). A falcoaria inclui os seguintes países onde tem longa tradição: Emirados Árabes
Unidos, Áustria, Bélgica, República Checa, França, Alemanha, Hungria, Itália, Casaquistão, República da
Coreia, Mongólia, Marrocos, Paquistão, Qatar, Arábia Saudita, Espanha, República Árabe da Síria.
raia portuguesa, p. ex.) ou à literatura, por permitir traçar possíveis roteiros a partir de certos
autores (Rotas de Escritores, p. ex.) ou de algumas obras (A viagem de Salomão). Além do
contributo para o desenvolvimento sociocultural ajudam a reforçar o património natural e
demais recursos locais (termas, p. ex.) na diversificação da oferta e valências turísticas. Outras
práticas (p. ex. turismo de base comunitária) e a analise comparativa do turismo em distintos
contextos regionais e socio espaciais (p. ex.: litoral sul de Sergipe e litoral do Algarve) pode
ajudar e encontrar boas práticas, soluções e modalidades mais inovadoras e criativas.
A relação entre património e turismo, complexa e cada vez mais cúmplice e estreita,
pode representar uma oportunidade ou um problema, caso a hipotética salvação se trans-
forme numa irremediável perdição. A relação intrínseca com o território levou a encarar o
património como um fim, se os projetos se esgotam e restringem apenas à sua recuperação,
ou um meio, quando servem de pretexto para abordagens integradas que, superando o
âmbito local, sejam enquadradas em estratégias de desenvolvimento regional ou nacional.
O modo como passou a ser encarado pode ser ilustrado pelas intervenções levadas a cabo
na Região Centro quando, partir dos anos 90, foi reconhecido como um recurso critico
para o desenvolvimento territorial. A valorização e promoção do património desenca-
deou uma multiplicidade de intervenções diretas, quase sempre restritas e focadas num
único imóvel, classificado como monumento nacional ou, em alguns casos, distinguido
pela UNESCO como Património da Humanidade, como aconteceu nos Mosteiros de
Alcobaça, da Batalha e no Convento de Cristo.
As intervenções que transcenderam a estrita incidência ser local inseriram-se em es-
tratégias regionais que apostavam na definição de redes de lugares organizados segundo
critérios geográficos ou temáticos. O caso das Aldeias Históricas de Portugal e da Rede das
Aldeias de Xisto, os mais representativos, configuraram Ações Integradas de Base Territorial
que, partindo de intervenções ao nível do património de cada uma das aldeias, contem-
plaram ainda projetos de infraestruturas, de melhoria dos espaços públicos e de apoios
específicos à economia local, incentivando microiniciativas que aproveitassem diferentes
12 // Lugares e territórios: património, turismo sustentável, coesão territorial

recursos endógenos. Os resultados materiais ao nível do edificado e os efeitos positivos na


economia e no tecido social das aldeias têm de ser somados ao inestimável contributo para
integrar e quebrar o ancestral isolamento de muitos lugares, ajudando a colocar no mapa
territórios que passaram a integrar diferentes rotas e circuitos, nacionais e internacionais.
Não são despiciendos os efeitos intangíveis nem o impacto positivo na debilitada auto-
estima de pessoas e comunidades particularmente marcadas pela interioridade, no que de
mais profundo este conceito encerra em termos de despovoamento, abandono, ausência,
depressão e isolamento.
A integração de lugares remotos em diferentes redes, rotas, circuitos e itinerários regionais
e internacionais, independentemente doutras avaliações quantitativas, alterou a maneira
de olhar lugares e territórios, diminuiu distâncias, atenuou o esquecimento, aumentou a
probabilidade de visitação e reorientou os fluxos turísticos. A mobilização dos recursos do
território em proveito dum turismo que se espera mais sustentável e amigo do desenvolvi-
mento tem levado ao desenho e promoção de múltiplas rotas, roteiros, circuitos e itinerá-
rios. O facto deste esforço não ter subjacente uma lógica coerente e concertada, redundou
numa excessiva proliferação de rotas e consequente banalização da ideia por colidir umas
vezes com contradições geográficos e em outras conflituar do ponto de vista temático,
aumentando a fragmentação e prejudicando as leituras assertivas do território.

Roteiros na Região segundo o Turismo do Centro de Portugal:


realidade e imaginário

13 // Lugares e territórios: património, turismo sustentável, coesão territorial


Os produtos divulgados pelo Turismo de Portugal – Centro4 visando promover o turis-
mo na região esboçam uma Geografia do Turismo da Região Centro que revela um com-
promisso entre ócio e negócio ao valorizar certos recursos e outros ativos mais apelativos
para marcar a diferença e tornar a região mais atrativa. Sem nos alongarmos na análise das
propostas nem dos respetivos conteúdos, conclui-se que a oferta se orienta para o imagi-
nário do turista com perfil e apetência para demandar a Região, dando expressão e visibi-
lidade à logística, aos equipamentos e à diversidade de recursos disponíveis nas diferentes
parcelas do território (natureza, património, etc.). A oferta é promovida a partir de vários
produtos que se estruturam a partir das coordenadas que melhor representam um certo
entendimento da maneira como funciona atualmente esta atividade: (i) Cidades5; (ii) Ver
& Fazer: Sightseeing, Cultura, Lazer, Heath & Wellness6; (iii) Comer, comprar & dormir:
Gastronomia, Compras, Alojamento7; (iv) Roteiros 8.
O esboço da geografia implícita nos 16 roteiros destacados pelo Turismo do Centro
de Portugal, conforme se observa no mapa, mostra não só os pontos fortes, onde a Região
tem vantagens, como expressa o imaginário duma certa leitura e interpretação da Região
centro. Os roteiros apresentados, podem agrupar-se em algumas tipologias específicas
orientadas para captar determinados segmentos turísticos:
(i) cultural: Património da Humanidade, Arte Nova, Arte urbana (grafittis em Estarreja,
Aveiro, Figueira da Foz, Viseu, Covilhã e Fundão), Cerâmica (Aveiro, Ovar, Válega,
Vista Alegre, Bordallo Pinheiro); Rota da Lã (Museu de Lanifícios da Covilhã, polo
interpretativo da transumância a partir da Serra da Estrela);
(ii) Cultura imaterial: Judiarias (além de Belmonte, as mais conhecidas judiarias situam-se na
raia: Guarda, Trancoso, Castelo Rodrigo, Celorico da Beira, Almeida, Foz Côa, Pinhel,
Linhares e Belmonte), Aristides de Sousa Mendes, A Viagem do Elefante (a partir do

4
Turismo de Portugal – Centro: http://www.centerofportugal.com/pt/
5
São destacadas: Aveiro, Coimbra, Figueira da Foz, Viseu, Guarda, Covilhã, Castelo Branco, Leiria, Alcobaça,
14 // Lugares e territórios: património, turismo sustentável, coesão territorial

Batalha, Fátima, Tomar, Nazaré, Óbidos, Peniche.


6
Ver & Fazer: (i) Sightseeing: Aldeias Históricas, Aldeias do Xisto, Parques Naturais, Hills & Mountains,
Castelos, Birdwatching; (ii) Cultura: Arqueologia, Street Art, Churches & Monuments, Arqueologia
Industrial, Fado de Coimbra, Herança Judaica; (iii) Lazer: Cycling, Kids & Families, Turismo Ativo,
Surf, Praias, Casa de Fado, Bars & Discos, Casinos, Golfe, Voos de Balão, Visitas Guiadas); (iv) Heath &
Wellness: Mantenha-se Saudável, Recupere a sua saúde, Educação em Saúde, Termalismo, SPAs termais.
7
Comer, comprar & dormir: (i) Gastronomia: Restaurantes, Queijos, Doçaria Regional, Enoturismo;
(ii) Compras: Produtos de Design, Brands we love, Lojas Tradicionais, Mercados, Lojas de Fábrica; (iii)
Alojamento: Hotéis, Turismo no Espaço Rural, Self-Catering.
8
Roteiros: 1. Património da Humanidade; 2. Arte Nova; 3. Cerâmica; 4. Vales Glaciários; 5. Moliceiro
na Ria; 6. Bacalhau; 7. Mata do Buçaco; 8. Cerejas; 9. Rota dos Jardins; 10. Judiarias; 11. Aristides de
Sousa Mendes; 12. Translana (Rota da Lã – A transumância na Península Ibérica; Museu de Lanifícios da
Covilhã); 13. A Viagem do Elefante; 14. Arte urbana; 15. Birdwatching no Centro de Portugal; 16. Surfar
no Centro de Portugal.
romance homónimo de José Saramago, destacando-se a passagem pelos lugares emble-
máticos de Castelo Novo, Belmonte, Sortelha, Cidadelhe e Castelo Rodrigo);
(iii) Produtos locais: Rota do Bacalhau (Museu Marítimo de Ílhavo, Navio-Museu Santo
André, Navio Santa Maria Manuela), Cerejas (Alpedrinha, Castelo Novo e a paisagem
da Gardunha);
(iv) Património natural: Vales Glaciários (Vale Glaciário do Zêzere; Alforfa, Loriga, Covão
Grande e Covão do Urso), Birdwatching no Centro de Portugal (Ria de Aveiro, Peniche,
Reserva Natural da Faia Brava, Monumento Natural das Portas de Ródão, Parque
Natural do Tejo Internacional), Mata do Buçaco, Rota dos Jardins (Quinta das Lágrimas
e Jardim Botânico em Coimbra, Buçaco, Parque Aquilino Ribeiro (Viseu) e Jardins
da  Casa da Ínsua  (Penalva do Castelo); Castelo Branco: Jardim do Paço Episcopal;
Bombarral: Buddha Eden Garden; Tomar - Mata dos Sete Montes; Caldas da Rainha –
Parque D. Carlos I; Parque de escultura contemporânea em Vila Nova da Barquinha),
Moliceiro na Ria, Surfar no Centro de Portugal (Praia da Barra, Figueira da Foz, Buarcos,
Cabedelo, São Pedro de Moel, Nazaré: XXL Biggest Wave Award”, Peniche, onde relevam
a Praia do Baleal Norte-Lagido, Praia do Medão-Supertubos e Santa Cruz)

15 // Lugares e territórios: património, turismo sustentável, coesão territorial


RECURSOS DO TERRITÓRIO:
PAISAGENS E PATRIMÓNIOS
Paisagem urbana histórica,
A Lusa Atenas como matriz
cultural de Coimbra

Joana Capela de Campos


Universidade de Coimbra (DARQ – FCT, UC)
Vítor Murtinho
Universidade de Coimbra (DARQ – FCT, CES, UC)

Introdução

Numa altura em que o território europeu atravessa algumas ameaças, com base na
violência de guerrilha e de terror, que visam colocar em causa os princípios de dignidade,
de liberdade e de segurança do cidadão europeu – mas em geral e por extensão do Ser
Humano – e também, para assinalar os cem anos sobre o fim da Primeira Grande Guerra,
o Conselho Europeu assume uma posição bastante clara, ao estabelecer o período de 2018
como o Ano Europeu do Património Cultural. Também em 2018, a Organização das
Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO) comemora os quarenta
anos das primeiras inscrições na LPM. Num tempo de incertezas quanto ao futuro, uma
certeza devemos ter: através do património cultural podem ser estabelecidos os discursos
de paz e, por isso, qualquer comemoração de cultura é uma afirmação positiva sobre o
19 // Lugares e territórios: património, turismo sustentável, coesão territorial
futuro da e na humanidade.
O papel do património cultural sai mais reforçado, para se afirmar como um recurso
no desenvolvimento de uma comunidade global de paz, construindo e reconstruindo pon-
tes de diálogo que promovam a tolerância e a diversidade dos patrimónios do mundo e,
assim, promover relações interculturais. Seguindo a mesma lógica e, por consequência, a
proteção e a salvaguarda do património também saem reforçadas, como um eixo estratégico
fundamental para o desenvolvimento das comunidades e dos seus territórios.
No entanto, o património cultural é um recurso não renovável, levando a que o tema
da sua sustentabilidade assuma algum relevo nas práticas de investigação e nos estudos
que vão sendo desenvolvidos a nível global, com mais evidência nas últimas décadas,
nomeadamente, ao nível do PM, tendo em conta a sua gestão e o seu planeamento
para futuro.
A inscrição de um bem na LPM, ou qualquer outra classificação patrimonial, implica
algumas transformações para o desenvolvimento do seu contexto urbano. Por um lado, na sua
vertente material, pelas condições consequentes dessa distinção internacional, com a introdu-
ção de políticas e dinâmicas de proteção e salvaguarda do património, dentro do perímetro
classificado, mas também na sua área de influência urbana adjacente, que também vai ab-
sorver essas dinâmicas de intervenção, sobretudo, pela reabilitação dos seus espaços públicos
e privados, assumindo uma contaminação positiva da atribuição do título. Por outro lado,
também devem ser tidas em conta, as transformações decorrentes de um título PM, nomea-
damente, na vertente imaterial do seu contexto urbano, ou seja, nas práticas e nos usos das
dinâmicas socioculturais, que se verificam e manifestam no domínio do contexto urbano ma-
terial, uma vez que, essa distinção internacional assume contornos de mediatização global, na
promoção desses espaços, que passam a ser procurados por um número crescente de pessoas.
Mas muitas vezes, a atribuição de um título pode induzir a uma criogenização do
espaço urbano e monumental, sem se considerar, que o valor patrimonial está sujeito a
uma evolução, porque é parte integrante de um sistema dinâmico. Essa postura assente na
criogenização desses espaços demonstra o entendimento a que está sujeita qualquer área
patrimonial – que se deve demarcar com um limite claro e estático, dentro do resto do seu
contexto urbano – e, por isso, o princípio da proteção e da salvaguarda do património é
entendido como contrário ao desenvolvimento urbano.
Para rebater essa postura, têm contribuído algumas organizações e instituições in-
ternacionais, como a UNESCO, através dos seus Centro e Comité do PM, com os seus
consultores – o Conselho Internacional de Monumentos e Sítios (ICOMOS), o Centro
Internacional de Estudos para a Conservação e Restauro dos Bens Culturais de Roma
(ICCROM) e a União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) – e ainda,
alguns parceiros, como o Conselho Europeu, que tendo em conta a evolução do pensa-
20 // Lugares e territórios: património, turismo sustentável, coesão territorial

mento sobre a proteção e a salvaguarda do património, têm sobressaído pela produção de


textos e recomendações que promovem a gestão patrimonial de modo integrado numa
gestão para o desenvolvimento urbano sustentável.
Uma das propostas mais recentes para se considerar a problemática em torno da
sustentabilidade e da gestão integrada, no âmbito do património cultural em contexto
urbano, surge a partir da Recomendação sobre a Paisagem Urbana Histórica (PUH) da
UNESCO, de 2011.
Numa primeira instância foi um instrumento político para a necessidade de uma res-
posta aos acontecimentos e pressões de desenvolvimento a que as cidades estavam sujeitas na
transição do milénio. Esta Recomendação da UNESCO caracteriza-se por promover uma
abordagem multidisciplinar da gestão dos recursos urbanos, assentes no património, sobre
uma plataforma de conjugação de vários layers multifuncionais, através da PUH, entendida
como uma escrita da relação e da ação do ser humano com/sobre o seu meio ambiente.
A expectativa criada em torno desta abordagem é grande por ser considerado que, a PUH
é capaz de ser um conceito operativo para traduzir o enquadramento das dinâmicas sociocul-
turais num sistema abrangente territorial, que evolui ao longo do tempo. De certa forma, a
promoção para uma integridade dinâmica é a grande mais-valia que a PUH introduz na abor-
dagem da gestão e planeamento do património em espaço urbano, ao considerar, em simul-
tâneo, o binómio relações-ações verificadas entre a população e o território, tendo em conta
o seu desenvolvimento integrado e sustentável. Talvez por acolher os novos modos de vida,
característicos de uma sociedade contemporânea, como parte da dinâmica da complexidade
que os espaços urbanos enfrentam hoje, que a abordagem da PUH possa ser extrapolada para
outros contextos, como uma forma mais operativa de gerir e planear o espaço urbano, em geral.

A Paisagem Urbana Histórica, uma perspetiva histórica

A diversidade sempre foi uma realidade inerente à multiculturalidade das comunida-


des do mundo. Mas a sua consciencialização e o seu reconhecimento tendem a ser, só há
poucas décadas estabilizados, de modo oficial, na tentativa global de democratização do
património de e para todos, no âmbito do PM.
As primeiras inscrições na Lista do Património Mundial (LPM), de acordo com as
disposições expressas na Convenção para a Proteção do Património Mundial, Cultural
e Natural (CPM1972), assinalam o quadragésimo aniversário, em 2018. Mas logo na
primeira década de inscrição de bens com Valor Universal Excecional (VUE) na Lista, o
Comité do PM demonstrou algumas preocupações na sua capacidade em ser um inven-
tário representativo, equilibrado e credível da diversidade cultural existente em todo o
21 // Lugares e territórios: património, turismo sustentável, coesão territorial
mundo (Capela de Campos & Murtinho, 2017b).
Para tal, foi realizado um estudo pelo ICOMOS, entre 1987 e 1993, no sentido de
se analisar e avaliar os resultados da LPM até então. Consequentemente, o objetivo visava
propor ajustes, correções das metodologias e das dinâmicas correntes nos processos de
inscrição de bens na LPM, para além de se ter em vista a adoção de uma Estratégia Global,
no futuro (pelo Comité do PM), precisamente, numa tentativa de tornar a LPM mais
representativa, equilibrada e credível (WHC, 1994).
No relatório final do estudo, apresentado em 1994, o ICOMOS referia, que a pobreza
de resultados da LPM sobre a diversidade das manifestações culturais das comunidades/
/sociedades, em muito, se devia à divisão simplista do património entre cultural e natural.
Além disso, o relatório também alertava para o facto de não estar a ser considerado que, em
muitas comunidades/sociedades, a paisagem, ou criada ou habitada pelos seres humanos,
era uma representação dos modos de vida das comunidades que nela viviam e que, por
isso, também deveria ser considerada com valor cultural.
A noção de património passava a centrar-se no contexto social do ser humano, com
todas as suas complexidades e representações estabelecidas no espaço físico que o suporta-
va. O relatório do ICOMOS alertava para que todas as manifestações, desde a arquitetura,
a história, a arte, a arqueologia, as tradições, os usos e os costumes, das manifestações
sociais em geral, que eram mantidas ao longo do tempo por uma comunidade eram, tam-
bém, representativas da relação recíproca entre a comunidade e o espaço por ela habitado,
que se manifestava no seu ambiente físico e não-físico.
Tendo em conta a evolução teórica que colocava a paisagem como produto cultural,
desde 19841, com estas observações, este documento do ICOMOS pode ter sido um
dos primeiros, no contexto do PM, a reclamar o reconhecimento destas manifestações
enquanto resultados de processos culturais e, portanto, sujeitos a uma condição de trans-
formação e de mudança, inerente a um processo evolutivo. A maioria dos bens na LPM era
património cultural em contexto urbano2, o que colocava pertinência na questão relativa
à sua futura gestão e manutenção, tendo em conta o próprio desenvolvimento urbano, que
ia ganhando dinamismo através de vários setores económicos (Sonkoly, 2012).
Já desde 1962 que a UNESCO vinha exprimindo, através da Recomendação sobre a
salvaguarda da beleza e do carácter das paisagens e dos sítios, algumas preocupações quanto à
proteção e salvaguarda destes patrimónios sujeitos a transformações com uma grande com-
ponente irreversível, pois, uma das características que definia o tempo pós-II Grande Guerra
era a transição acelerada, que estaria patente na vida quotidiana e na cidade (Doxiadis,
1965). Apesar de considerar que a salvaguarda das paisagens e dos sítios era essencial e ne-
cessária, tanto para a saúde e vida sociocultural dos seres humanos – que eram influenciados
pelo ambiente físico – como para a sua própria riqueza – enquanto suportes de atividades
22 // Lugares e territórios: património, turismo sustentável, coesão territorial

1
No campo disciplinar da geografia, em 1984, Denis Cosgrove já defendia a paisagem como produto cultural
(Cosgrove, 1998, 2002) e Augustin Berque assumia a paisagem na dualidade, marca e matriz, das ações do
ser humano sobre o território (Berque, 1998). No início dos anos 90, no campo disciplinar da teoria da ar-
quitetura da paisagem, Elizabeth Meyer e James Corner enfatizavam a ligação profunda entre a teoria crítica
e o contexto social e político, no qual aquela era feita e usada, sendo que, esta ligação, enquanto mediação
e reconciliação da paisagem com outras ideias culturais, fazia parte da própria sociedade, tendo em conta
a evolução histórica dos processos e experiências relacionais entre a sociedade-paisagem e o seu papel ativo
numa agenda político-social (Corner, 2002a, 2002b; Meyer, 2002; Swaffield, 2002).
2
Em 1994, a LPM contava com 439 bens inscritos, sendo 326 culturais, 94 naturais e 19 mistos; 93 dos bens
eram inscritos na categoria cidade. Ou seja, 74.26% de bens inscritos eram património cultural e, 28.53%
desse património cultural eram cidades históricas. Ou seja, um número considerável dos bens inscritos
(21.18%) pertencia à categoria cidades históricas, sem considerar as áreas e os monumentos urbanos que
eram inscritos como património cultural, mas não estariam considerados na categoria cidade.
económicas – a UNESCO reconhecia, todavia, que as paisagens e os sítios estavam sujeitos
a um rápido desenvolvimento e progresso tecnológico, sobretudo os urbanos, devido à es-
peculação do uso de solo para investimentos imobiliários, colocando em causa o seu aspeto
e o seu carisma. Por esse motivo, os gestores e os decisores das políticas da cidade e do terri-
tório deveriam assumir medidas de salvaguarda, não só para as paisagens e sítios, mas para a
generalidade do território, de modo a prevenir e a corrigir alguma ação que prejudicasse ou
destruísse a sua imagem (Lynch, 1989), beleza e carácter, enquanto valores reconhecidos.
Deste modo, o planeamento urbano e a supervisão deveriam ser entendidos como
medidas de salvaguarda, bem como o zonamento, que poderia escalonar as áreas mais
sensíveis e suscetíveis a interferências externas, se tivessem sido definidas e estipuladas
normas de controlo e de fiscalização que conseguissem impedir, ou pelo menos, minimizar
as interferências prejudiciais ao conjunto em causa.
No entanto, desde 1976 que a UNESCO, através da Recomendação sobre a salvaguarda
e o papel contemporâneo das áreas históricas (Carta de Nairobi), também estimulava o de-
senvolvimento urbano, de forma sustentável, equilibrada e em consonância com os modos
de vida da sociedade contemporânea, uma vez que o espaço físico enquanto suporte de
vida, deveria corresponder às necessidades demonstradas em cada momento. Para isso, as
áreas históricas e o seu contexto adjacente deveriam ser considerados como um todo, como
refere a Recomendação. Logo, o planeamento e a gestão dessas áreas históricas, também de-
veriam ser coerentes numa perspetiva abrangente, assumindo a fusão das especificidades,
diversidades e variações territoriais – ou pelas atividades humanas, ou pela topografia, ou
pela organização espacial, ou pelos espaços construídos, ou pelas suas marcações visuais
– de modo equilibrado, não assumindo o todo como uma soma de partes, sob pena de se
introduzir fronteiras e limites espaciais, mesmo que invisíveis, dentro do território.
Desde o primeiro instrumento de orientações operativas e técnicas para a implemen-
tação da CPM1972, de 19773 que, nas candidaturas de bens à inscrição na LPM, eram
solicitados detalhes de medidas de proteção administrativas e legais, diagnósticos do esta-
23 // Lugares e territórios: património, turismo sustentável, coesão territorial
do de preservação e conservação dos bens, a propriedade e a responsabilidade sobre o bem
(nacional, regional ou local), planos de gestão ou propostas para desenvolver esses planos
ou, ainda, planos diretores locais e regionais de desenvolvimento urbano.
A partir de 1984, para além dos detalhes já existentes acrescia a solicitação de uma
previsão de medidas e contraordenações, para cenários de alteração do contexto urbano
adjacente ao bem proposto, nomeadamente, na altura e no volume das construções.
Complementarmente, também eram solicitados elementos visuais, por levantamento fo-
tográfico, que evidenciassem, especificamente: a vista aérea sobre o bem proposto e o seu
O primeiro rascunho de trabalho do documento das Operational Guidelines é datado de 30/06/1977 e
3

a primeira versão oficial do texto data de 20/10/1977. Cf. (Capela de Campos & Murtinho, 2017b).
contexto; a vista dos monumentos dentro da área proposta; e, várias vistas panorâmicas
com diferentes ângulos de visão, desde o perímetro externo do bem, para avaliar a skyline,
e o seu contrário. Ou seja, vistas panorâmicas que pudessem mostrar a paisagem urbana
do bem e do seu contexto, a partir e para além dos seus limites.
A partir de 1997, todas estas informações sobre o bem candidato passavam a ser obri-
gatórias, apresentando uma estrutura específica, que ia sendo cada vez mais detalhada,
com a sua identificação, a sua descrição, a sua gestão, os fatores que afetam o bem, a sua
monitorização, bem como, outras documentações que sejam relevantes para informar e
clarificar a pretensão (Capela de Campos & Murtinho, 2017b). Deste modo, ao nível
das candidaturas de inscrição na LPM, o escalonamento do nível de preocupação sobre a
relação entre o património e o seu contexto urbano, ia sendo mais exigente e específico, ao
longo dos anos, uma vez que se verificava uma pressão crescente nos processos de desen-
volvimento local e regional, para atingir os padrões de globalização económico-financeira.
As paisagens urbanas, enquanto registos dos usos e das impressões das suas populações
ao longo dos tempos, não tinham sofrido grande impacte, até às décadas finais do sécu-
lo xx, mantendo as características morfológicas das cidades, no geral, com poucas varia-
ções (Conzen, 2004). Estas premissas eram verificadas, principalmente, nos seus espaços
urbanos antigos e, por isso, estes espaços, comummente denominados Centros Históricos,
evidenciavam o processo histórico das transformações que iam sendo realizadas, por ne-
cessidade, em cada contemporaneidade, mas de modo a não alterar a paisagem urbana do
contexto territorial, deixando visíveis os estratos de intervenções de todas as épocas como
um palimpsesto (Corboz, 1983). À paisagem urbana pode ser atribuído, assim, um valor de
autenticidade representativa da evolução à qual havia sido sujeita.
No entanto, a partir dos anos 80, era sobre as cidades que estes impactes se verificavam
com mais intensidade, principalmente, pelo setor da construção, que conhecia períodos de
forte ascensão, com produção de muita riqueza, sendo assumido como uma alavanca da
economia global, alterando o paradigma do planeamento urbano (Sonkoly, 2011). Ainda
24 // Lugares e territórios: património, turismo sustentável, coesão territorial

assim, essa riqueza seria feita à custa de valores essencialmente sociais e culturais, o que
seria prejudicial para as cidades e para os espaços urbanos: os centros antigos, com um
forte cunho sociocultural, tinham sido abalados por fenómenos de abandono e de con-
sequente gentrificação, bem como os próprios limites das cidades que tendiam a crescer.
A transformação morfológica dos espaços urbanos e as suas dinâmicas, em geral, contri-
buía para a alteração da imagem e da configuração espacial das cidades, colocando a sua
integridade visual em causa, com alterações da skyline.
As permanências que tinham sido referências identificadoras do lugar, ao longo dos séculos,
estavam em risco de serem transformadas ou destruídas, sob a perspetiva de uma modernização
high-tech do espaço da cidade. Além disso, essas transformações também eram assimiladas pelas
populações que atuavam nesses espaços e lugares urbanos. Transformava-se o lugar, transformava-
-se a população, pois «o lugar é considerado o suporte essencial da identidade cultural, (…) que
ancora a pessoa humana (…) na sua geograficidade» (Le Bossé, 2013, p. 225).
A UNESCO e o PM entendiam que estas transformações das cidades, dos seus espa-
ços e lugares urbanos, trariam consequências irreversíveis, sobretudo para as cidades com
um maior cunho sociocultural e para aquelas que já estavam inscritas na LPM (Cameron,
2008; UNESCO, 2009), se não fossem adotadas medidas de contenção, salvaguarda e
proteção. Por norma, os bens e sítios PM eram (e são) espaços mais sensíveis e suscetíveis a
sofrerem maiores danos materiais quando as ações de proteção e de salvaguarda tendiam a
falhar, em grande parte, devido à falta de eficácia ou de eficiência na prevenção, sobretudo
nos seus processos de planeamento e planos de gestão, quando não eram devidamente
equacionados ou quando não lhes era dada a devida importância.
Todavia, a transição do milénio conhecia aquele caso que alterava o modo de se encarar
e confrontar os processos de desenvolvimento urbano, que faziam pressão sobre as dinâmicas
políticas de gestão das cidades e que, por isso, se tornava paradigmático: o caso de Viena.

A Recomendação sobre a Paisagem Urbana Histórica

Em 2001, o Centro Histórico de Viena foi inscrito na LPM. Em simultâneo, a cidade


precisava de reabilitar a sua plataforma intermodal de transportes urbanos e o local escolhi-
do, para essa intervenção, era a antiga estação de comboios. Esse equipamento localizava-se
dentro do limite estabelecido pela área de proteção do bem PM.
O projeto inicial consistia num aglomerado de edifícios em torre, com uma escala
altimétrica e volumétrica bastante pronunciada e divergente do existente, alterando a pai-
sagem urbana e a skyline da área classificada e, por consequência, da cidade. De tal forma,
terá sido considerada grave essa possível intervenção, que em 2002, era considerada a
25 // Lugares e territórios: património, turismo sustentável, coesão territorial
hipótese de se retirar o Centro Histórico de Viena da LPM.
O projeto foi alterado e construiu-se o que existe hoje (Wien-Mitte). Porém, este caso
terá atingido o limite daquilo que era aceitável pelo PM4, em relação às tensões existentes
entre o desenvolvimento local e os processos de globalização, que estavam a acontecer, de
modo transversal ao território urbano, sobretudo europeu, na transição do milénio. O caso
de Viena vinha alertar para uma realidade que, apesar de não ser alheia ao PM, ganhava
protagonismo nos debates internacionais sobre os centros urbanos e as cidades e criava
impacte político nas suas dinâmicas de gestão e de desenvolvimento5.
Desde 2017 que o Centro Histórico de Viena está inscrito na LPM em Perigo.
4

Cf. (Rössler, 2015).


5
Em 2005 era adotado o Memorando de Viena6, uma reação direta ao processo de
avaliações e negociações da ocorrência do caso concreto, que resultava de uma conferência
internacional, promovida pela UNESCO, sob o tema Património Mundial e Arquitetura
Contemporânea. Por princípio, o objetivo da conferência não passaria por banir qualquer
intervenção na cidade existente, pois tal formulação iria contra os princípios já defendidos
em recomendações, textos e cartas anteriores. De facto, o propósito da conferência passava
por propor novas perspetivas sobre a abordagem às novas necessidades e aos novos progra-
mas tendo em conta o resultado da integração da arquitetura contemporânea na cidade
existente. Paulatinamente, os pressupostos de proteção e salvaguarda do património iam
sofrendo transformações perante a consciência da totalidade do sistema urbano, da sua
complexidade e do seu dinamismo que estavam sujeitos a uma evolução contínua.
O PM tentava dar resposta à dificuldade verificada, quer na definição concetual quer
nas práticas e metodologias, de modo que fosse traduzida a problemática associada e equa-
cionada, a partir dos casos inscritos na LPM. Deste modo, seria a partir da conjugação e
da mistura concetual e teórica com a prática, que era desenvolvido um conceito que se pre-
tendia operativo – paisagem urbana histórica – e que se apresentava como uma abordagem
aglutinadora de várias perspetivas e textos, desde a Recomendação sobre a salvaguarda da
beleza e do carácter das paisagens e dos sítios, de 1962 até ao Memorando de Viena de 2005.
Se durante várias décadas, o PM tinha promovido investigação e debates internacio-
nais, sobre conceitos e metodologias de atuação de proteção e salvaguarda para os sítios
e bens com VUE, que eram o principal foco de preocupação, a partir do novo milénio,
as preocupações do PM ganhavam outra dimensão e abrangência. O enquadramento e a
integração do bem no seu contexto urbano passaria a ser uma premissa fundamental para
garantir uma adequada metodologia de proteção e salvaguarda, na futura gestão do bem.
O PM empenhava-se no trabalho de promoção de planos de gestão e de planeamento in-
tegrado, no âmbito dos planeamentos locais e regionais, desde a sensibilização, a formação, a
comunicação e a recomendação. Esta promoção passava pelo reconhecimento na falta de arti-
26 // Lugares e territórios: património, turismo sustentável, coesão territorial

culação entre as dinâmicas de gestão dos bens PM com a gestão e planeamento das suas áreas
adjacentes, tanto ao nível físico, como ao nível sociocultural, como se fossem realidades dis-
tintas. Neste sentido, estas barreiras ou fronteiras invisíveis ainda podem subsistir, no modo
como se enquadra a abordagem a esta realidade – que é só uma – num contexto territorial.
Em 2011, a UNESCO promovia a Recomendação sobre a PUH, que ganhava um es-
tatuto de instrumento político, no enquadramento de uma gestão patrimonial integrada.
Tornava-se essencial, por isso, esclarecer de modo exigente a definição concetual7 desta
6
O caso de Viena era o motivo da primeira conferência específica sobre o tema, dando origem ao Vienna
Memorandum (WHC, 2005), considerado como a primeira tentativa de definição do conceito PUH. Cf.
(Bandarin & Oers, 2012; Sonkoly, 2011; Veldpaus, 2015).
7
Cf. (Jokilehto, 2010).
nova abordagem, sobretudo, devido às circunstâncias verificadas nos desenvolvimentos
urbanos contemporâneos à transição do milénio, período em que as tensões entre o desen-
volvimento local e os processos de globalização se intensificaram. Por ser um tema quase
transversal ao contexto do desenvolvimento urbano europeu, o caso de Viena assumia
contornos paradigmáticos, sendo reconhecida tanto a urgência como a necessidade de um
debate específico sobre o tema e sobre as suas implicações e consequências no futuro.
A Recomendação define a PUH como sendo a área urbana entendida como resultado de
sucessivos layers históricos de atributos e valores culturais e naturais, que para além da noção
de Centro Histórico ou conjunto, se enquadram num contexto urbano mais alargado na sua
condição geográfica8. Ou seja, o entendimento sobre a PUH é o reflexo da evolução histórica
e da expansão concetual sobre o património cultural, codificado pelo desenvolvimento social,
cultural e económico, que se manifesta, atua e surge nas dimensões material e imaterial do
território, sendo representativo do estágio intelectual de cada contemporaneidade (Capela de
Campos, 2017, p. 67; Oers & Roders, 2012; Sonkoly, 2011; UNESCO, 2011, pp. 50–55).
Desta forma, este resultado conferia uma identidade ao território, dotada de elemen-
tos e características inerentes a si próprio e à sua circunstância, dotando o território de
uma singularidade distintiva de qualquer outra. Tal facto constituía essa identidade como
uma construção cultural (Corrêa, 2013, p. 61), onde o espaço visado se transformava num
lugar, no qual os seus habitantes (insiders) e todos os outros (outsiders) reconheciam essa
sua singularidade, tanto funcional, como morfológica ou até simbólica (Relph, 2008).
Sob esta leitura, a PUH podia ser considerada como uma matriz cultural do território
(Capela de Campos & Murtinho, 2017a). Uma matriz conferia o grau de unidade a um
sistema, como um território, a partir da qual, se podem gerar, estabelecer, potenciar ou in-
tensificar inter-relações entre os seus componentes e elementos. Apesar da complexidade de
um território, uma leitura e análise da sua matriz cultural permitia verificar as inter-relações
entre população-território e, consequentemente, estabelecer princípios que possibilitassem
potenciar e promover ações para a sua identificação e para a sua apropriação pela população.
27 // Lugares e territórios: património, turismo sustentável, coesão territorial
A promoção e o fortalecimento da inter-relação entre a população e o território po-
tenciava uma base ao nível do conhecimento emocional9, para que a PUH se constituísse
como uma plataforma interdisciplinar, onde é possível estabelecer correlações entre as

8
A Recomendação sobre a PUH define-a como «the urban area understood as the result of a historic layering
of cultural and natural values and attributes, extending beyond the notion of historic centre or ensemble to
include the broader urban context and its geographical setting» (UNESCO, 2011, p. 52).
9
A propósito de se fortalecerem os laços emocionais entre a população e o território, através de ações e práticas
de «conhecer para compreender» (Capela de Campos & Murtinho, 2017a), verificava-se que «o património
cultural não define identidades estáticas. É por ir incorporando e assumindo as novas realidades e os novos
modos de uso, com base nas dinâmicas de reconhecimento e de apropriação, que são criados laços emotivos de
pertença, entre as comunidades e os patrimónios, numa garantia de continuidade de utilização das máquinas
de memória, quer no tempo presente, quer para o futuro» (Capela de Campos & Murtinho, 2017b, p. 147).
várias dinâmicas existentes nos layers que a compunham: tanto aqueles da sua vertente
material – espaços construídos ou naturais – como os da sua vertente imaterial – usos,
vivências, tradições e costumes – e, assim, contribuir com conteúdos pró-ativos para uma
gestão sustentável do território. Este aspeto tornava-se relevante e pertinente pois conduzia
a um objetivo de planeamento e de gestão integrada do património, numa escala urbana
mais ampla e com perspetiva territorial, extrapolando claramente a própria área patrimo-
nial. Ou seja, a abordagem da PUH permitia ter uma visão de planeamento e gestão mais
inclusiva, quer ao nível do contexto urbano social, cultural, económico e ecológico, enfati-
zando que os processos de transformação e de desenvolvimento faziam parte integrante da
evolução normal de um sistema urbano, ao longo do tempo (Veldpaus, 2015, pp. 48–49).
Seria por todas estas novas perspetivas centradas na melhoria da qualidade de vida
das populações, que no futuro, no campo da gestão do património seja expectável que
haja mais desenvolvimento ao nível de uma transformação de pensamento e de consci-
ência sobre as dinâmicas e sinergias criadas pelos processos patrimoniais, que promova,
consequentemente, uma transformação nas abordagens e nas metodologias de proteção e
salvaguarda do património, do que propriamente sobre o património em si.
Tendo em conta estas considerações – e antecipando que o conhecimento teórico pode
surgir de acontecimentos reais e de atuações e casos práticos –, considera-se que o caso da candi-
datura da Universidade de Coimbra – Alta e Sofia (UC-AS) à LPM, que ocorreu em simultâneo
ao desenvolvimento do processo de definição da PUH e de toda a sua envolvência, pode con-
tribuir com algumas possibilidades de abordagem à avaliação e à monitorização dos processos
de intervenção urbana, para uma gestão integrada das áreas patrimoniais no espaço urbano.

Lusa Atenas, a matriz cultural do território de Coimbra

Durante muito tempo, a imagem urbana de Coimbra definida pela Alta e pela Baixa até
à margem do rio Mondego (conformada entre a baixinha e o Jardim Botânico e, encimada
28 // Lugares e territórios: património, turismo sustentável, coesão territorial

pela plataforma de Minerva e a Torre da Universidade) e denominada como a Lusa Atenas10


era a representação recorrente da paisagem urbana da cidade11. Sobre as águas do Mondego,
a Lusa Atenas vinha sendo associada, inequivocamente, à Universidade e à própria cidade
(Fig. 1). A paisagem urbana da colina da Alta assumia um papel central na representação,
10
O epíteto que recorrentemente caracteriza Coimbra, Lusa Atenas, é de origem difusa, mas defende-se que,
«se o conceito de Lusa-Atenas é quinhentista, o termo específico só se vulgarizou, no fim do século de oito-
centos» (Dias, 2010, p. 3), havendo, inequivocamente, a «comparação de Coimbra com a mítica capital da
Grécia, pátria de poetas, historiadores, filósofos» (Dias, 2010, p. 4).
11
Até ao início do século xx, a representação da cidade fazia-se sobre a área compreendida entre o rio, a Baixa, a
Alta e as ensanches oitocentistas implementadas na Quinta de Santa Cruz (Avenida Sá da Bandeira, Praça da
República e Bairro Sousa Pinto) até ao Convento de Santa Ana e penitenciária, como se verifica na publicação
Spain and Portugal: Handbook for Travelers, de 1908, publicado por Baedeker. Cf. (Macedo, 2006, p. 125).
com o casario a descer até ao rio e coroada com o complexo do Paço das Escolas, colégios
e edifícios universitários, constituindo-se como uma constante no imaginário daqueles que
a referiam, a cantavam, a pintavam, a representavam, vezes sem conta ao longo dos tem-
pos. Uma identidade espacial criada, recriada e rememorada, ao longo dos séculos e que,
também, seria representativa do interesse da sua população em cada contemporaneidade12.

Figura 1. Vista sobre a colina da Lusa Atenas, a partir da beira-rio e Estádio Universitário.
Fotografia: Joana Capela de Campos.

Não é inconsequente que Coimbra se tenha constituído «um caso raro, senão mesmo
único, do urbanismo português, em que no seu conjunto uma cidade se transformou
numa estrutura mono-funcional, quase um equipamento por alguns séculos» (Rossa,
2001, p. 11). Pelo papel desempenhado pela Universidade na estabilização do contributo
sócio-político-económico-cultural que tinha vindo a imprimir a Coimbra e na constante
que tinha vindo a ser o valor refúgio da imagem da Lusa Atenas ao longo dos séculos, se 29 // Lugares e territórios: património, turismo sustentável, coesão territorial
compreenda que tivesse recaído, sobre a Universidade, a responsabilidade de uma candi-
datura patrimonial à UNESCO13. Em 22 de junho de 2013, o VUE do bem UC-AS era
reconhecido, sob os critérios ii, iv e vi, passando a integrar a LPM.

12
Dias verificava que, desde quinhentos, havia «claramente, a declaração da consciência do valor do Saber e
da sua preponderância em relação a todas as coisas. O Saber é o maior tesouro do homem, que pode utilizar
para o bem ou para o mal» (Dias, 2010, p. 5).
13
O processo de candidatura de Coimbra a PM teve início em 1982, podendo ser verificadas três fases: 1) de
1982 a 1998, onde várias áreas da cidade foram equacionadas para candidatura, sendo identificados diversos
proponentes, desde Matilde Sousa Franco (em 1982 era a Diretora do Museu Nacional de Machado de
Castro) à Câmara Municipal de Coimbra; 2) de 1998 a 2003, uma fase mais introspetiva e preparatória para
uma candidatura da Universidade; e 3) de 2003 a 2013, com o desenvolvimento da candidatura da UC-AS
à UNESCO, até à sua inscrição na LPM a 22/06/2013. Cf. (Capela & Murtinho, 2015; WHC, 2013).
Tendo em conta a sua definição, a PUH de Coimbra, onde se inseria o bem UC-AS,
espacialmente, seria constituída num contexto urbano mais alargado do que aquele pelo
qual era imediatamente reconhecida. Esta matriz cultural do território da cidade, condi-
cionante da forma urbana e, ao mesmo tempo, condicionada por ela, podia ser considera-
da tanto pela sua valência material como pela imaterial (Capela de Campos & Murtinho,
2017a). Ao se equacionar o contexto urbano numa valência material, esta podia ser ve-
rificada no espaço físico do bem classificado PM com 117 hectares. Esta área era cons-
tituída pela área do bem UC-AS – 35,5 hectares, sendo 29 hectares dessa área na Alta
e 6,5 hectares na Sofia – e pela sua zona de proteção com 81,5 hectares (Fig. 2). Além
desta área UC-AS PM, também deveria ser considerada para uma valência material, a
sua área urbana de influência, que se delimitava pelas linhas de cumeeira envolventes à
colina da Universidade, para constituir a plataforma de estudo Alta/Baixa/Santa-Clara.
Considerando o seu contexto urbano refletido numa valência imaterial, tal poderia ser
verificado através das dinâmicas socioculturais e dos usos que se iam estabelecendo e sendo
realizados na valência material dos espaços urbanos, traduzindo para o espaço físico as
novas formas de estar e de viver a cidade.
30 // Lugares e territórios: património, turismo sustentável, coesão territorial

Figura 2. Localização da área UC-AS e da sua zona de proteção, na LPM. Imagem: Hugo Andrade, UC.

Alguns acontecimentos visíveis terão sido determinados durante e pelo processo de can-
didatura de Coimbra a PM (1982-2013), no contexto urbano definido, por ser um espaço
privilegiado para se criar sinergias capazes de correlacionar a dinâmica comunidade-território.
A proteção e a salvaguarda de patrimónios ou a reabilitação e a requalificação de equipamentos
e espaços públicos ou áreas urbanas podem ser verificadas, por toda a área afeta à área PM. Mas
também podem ser verificadas ações de proteção e salvaguarda, de requalificação e reabilitação
em espaços dentro da área urbana de influência e adjacente à área PM, como a zona ribeirinha,
frente de rio ou ainda a margem de Santa Clara (Capela de Campos & Murtinho, 2017a).
As transformações, que a cidade vinha absorvendo em cada contemporaneidade, permi-
tiam estabelecer continuidades urbanas de permanência, de atravessamentos e de vivência ao
longo dos seus espaços, promovendo o conhecimento para uma compreensão do território,
aos seus habitantes, residentes e utilizadores. Aqueles que promoviam, principalmente, o ca-
minhar, o percorrer, o deambular pelo espaço urbano e que, em simultâneo, fortaleciam as
suas continuidades, ou seja, aqueles que participavam na ação da cidade (Certeau, 1998) iam
definindo protocolos de identidade ao longo do espaço, transformando o existente numa con-
dição de cultura (Botta, 1996), dinamizando as relações entre o indivíduo, a comunidade e a
sociedade com o território. Práticas que, nesse sentido, iam criando uma diversidade de visões
individuais, criando e estabelecendo laços comuns, definindo um lugar com singularidade.
Para além de todas as manifestações enunciadas, o campo da arquitetura ensinava, há
muito, a necessidade de usar o espaço – para além da questão física, havia ainda a questão
dimensional espácio-temporal – para serem estabelecidas as inter-relações necessárias à
compreensão do território onde estava inserido o património cultural. No entanto, era por
se estabelecerem estas inter-relações entre o indivíduo-comunidade-sociedade com o terri-
tório, em diversos locais e em diversos momentos, que se permitia ir estabilizando a PUH
e salvaguardando a sua integridade e a sua autenticidade, que se assumiam dinâmicas14 no
processo evolutivo da criação de uma identidade do lugar e do seu contexto urbano.
No âmbito do PM estão a ser desenvolvidas e estudas algumas ferramentas, metodolo-
gias e taxonomias, que se pretendem operativas, para a aplicação da abordagem da PUH,
na gestão e no planeamento integrado dos recursos patrimoniais e das dinâmicas urbanas,
não tanto sobre as transformações que vão sendo realizadas sobre o território, mas sim,
sobre a orientação e o enquadramento, em que essas transformações devem ser realizadas.
31 // Lugares e territórios: património, turismo sustentável, coesão territorial
Apesar de cada caso ser único, o processo de candidatura de Coimbra à inscrição na LPM
não deixa de ser um laboratório, cujos resultados de experiências e dinâmicas próprias
podem ser um contributo válido para futuras candidaturas semelhantes ou, ainda, para se
poderem ajustar e melhorar metodologias e práticas utilizadas na gestão integrada de sítios
classificados em contexto urbano e em futuras intervenções urbanas. Conforme já foi refe-
rido, é sobretudo um investimento na transformação das abordagens e, consequentemen-
te, das metodologias de proteção e salvaguarda do património, do que sobre o património
em si e, por isso mesmo, podem ser extensíveis a qualquer contexto urbano.

A propósito do conceito integridade dinâmica, cf. (Zancheti & Loretto, 2015).


14
Universidade de Coimbra – Alta e Sofia: o sistema de vistas

Em todos os processos de candidatura à LPM, havia entidades externas e conselheiras


do Comité do PM, que faziam uma avaliação prévia dessas candidaturas e emitiam os respe-
tivos pareceres, que serão tidos em conta, para o veredito final sobre a inscrição do bem na
Lista. No caso de Coimbra, por a UC-AS ser um bem cultural, a entidade avaliadora foi o
ICOMOS, que antes de emitir o parecer final, questionou a candidatura sobre determinados
aspetos que haviam suscitado algumas dúvidas, aquando a visita dos membros do ICOMOS
a Coimbra, para uma Missão de Avaliação Técnica, realizada entre 17 a 23 de setembro de
2012 (ICOMOS, 2013, pp. 198–206).
Como já foi referido a extensão espacial do bem era considerável. No entanto, devido
à circunstância topográfica do bem proposto, a dimensão e os limites da área de proteção
do bem, bem como, a sua gestão futura foram questionados, por carta. Na segunda carta
trocada com a delegação de Portugal na UNESCO, datada de 20/12/2012, por considerar
que eram necessários alguns esclarecimentos relativos, precisamente, aos limites da área
de proteção do bem proposto, o ICOMOS questionava o Estado-membro se não seria de
reconsiderar expandir esses limites propostos devido à topografia do lugar e, assim, poder in-
cluir todas as áreas que são relacionadas visualmente com o bem, cujo futuro desenvolvimento
poderia vir a ter um impacto visual significativo (ICOMOS – Regina Durighello, 2012).
Um dos propósitos das questões levantadas colocava-se porque, topograficamente, sobre-
tudo na área candidata da Alta, o bem apresentava uma implantação estratégica e privilegiada
em relação ao seu contexto urbano. Além desse facto, as experiências dos casos do Wien-Mitte
(Viena) ou os enquadramentos da Torre de Londres e da catedral de Colónia, ainda não haviam
sido apagadas da memória. Tendo em conta a conjuntura dos desenvolvimentos teórico-concetuais
dos últimos anos no PM, bem como a evolução das exigências relativas à gestão futura dos
bens, desenvolvidas nas Operational Guidelines, a preocupação do ICOMOS mostrava-se sobre
a possibilidade de qualquer intervenção ou transformação potencial poder ocorrer no contexto
urbano do bem candidato mais abrangente e, assim, poder prejudicar a integridade do bem,
sobretudo, a visual e, por conseguinte, a integridade da paisagem urbana, da qual fazia parte
32 // Lugares e territórios: património, turismo sustentável, coesão territorial

integrante e, no limite, pelas alterações que poderia impor à imagem da própria cidade.
A Associação RUAS15 (gestora do bem UC-AS) respondia a todas as questões e dúvidas, de forma
justificada, recorrendo aos regulamentos e instrumentos legais em vigor à data, nomeadamente:
15
A Associação RUAS – Recriar a Universidade, Alta e Sofia foi fundada em janeiro de 2012, pela UC, a
Câmara Municipal de Coimbra (CMC), a Direção Regional de Cultura do Centro, com poder executivo
e a SRU Coimbra Viva (Sociedade de Reabilitação Urbana) sem poder executivo, por serem as quatro
entidades com poderes e responsabilidades sobre a área candidata e, assim, poder ser feita uma gestão inte-
grada. A Associação RUAS contava com o trabalho de um quadro de técnicos, de áreas como arquitetura,
engenharia civil, arqueologia, relações internacionais, administração pública e economia, previstos para os
três Gabinetes Técnicos – de Estruturação Urbana (GTEU), de Acompanhamento do Plano (GTAP) e de
Informação, Valorização e Salvaguarda (GTIVS), afetos à UC ou à CMC. Além disso, a Associação RUAS
contaria com o apoio de um quadro de peritos de várias entidades externas à estrutura de gestão (como do
ICOMOS-Portugal, a título de exemplo). Cf. (RUAS – Raimundo M. Silva, 2012, 2013).
1) A Lei nº 107/2001, de 8 de setembro e o Decreto-lei nº 309/2009, de 23 de outu-
bro – que estabeleciam a lei de bases e a sua regulamentação sobre o regime de proteção e
valorização do património cultural português;
2) O Regulamento Municipal de Edificação, Recuperação e Reconversão Urbanística da
Área afeta à candidatura da Universidade de Coimbra a Património Mundial da UNESCO,
incluindo a Zona de Proteção, publicado por Aviso nº 2129/2012, no Diário da República
nº 30/2012, Série II de 10 de fevereiro e que, se encontrava em vigor desde Março de 2012;
3) O Plano Diretor Municipal de Coimbra (PDM), que estaria em fase de revisão,
sendo expectável a sua conclusão até ao final de 2013 e a sua publicação em 201416; e,
4) O Plano Estratégico para a Cidade de Coimbra, aprovado pela Câmara Municipal
de Coimbra (CMC) e publicado no Edital nº 21/2010, onde elencava os quatro grandes
objetivos estratégicos para Coimbra17, com a definição das Áreas de Reabilitação Urbana.
Estes quatro instrumentos seriam, de acordo com a resposta da RUAS, suficientes e
adequados para garantir a devida proteção e salvaguarda do bem UC-AS, da sua área de
proteção e da sua área urbana adjacente18. Tal facto era corroborado pelos limites definidos
nos vários instrumentos legais em vigor e pela sua gestão concentrada e integrada numa só
entidade, a Associação RUAS. Além disso, anexava um estudo, para justificar que a combi-
nação entre a proteção do bem UC-AS, com a proteção prevista no PDM – a definição da
zona do Centro Histórico com os seus três graus de proteção – era a adequada e assegurava
as preocupações sobre os possíveis impactes visuais que pudessem ser equacionados por
qualquer intervenção na área urbana em causa.
Esse estudo baseava-se no sistema de vistas ou tudo aquilo que era visível a partir de
vários lugares (viewshed), constituído por três elementos essenciais: um observador, um
ponto ou lugar de observação e uma área de observação.
A área de observação era determinada com recurso a uma ferramenta de projeto urbano
e de arquitetura paisagística – a Zona de Influência Visual (Zone of Visual Influence – ZVI),
também denominada por Zona de Impacto Visual –, que se caracterizava por considerar a
área geográfica que era visível a partir de um determinado ponto, a partir da qual se estabelecia 33 // Lugares e territórios: património, turismo sustentável, coesão territorial
uma bacia visual (visual bay), que era a área física, na terra, na água ou no ar, visível pelo olho
humano (assumido, geralmente, com 1,65 metros de altura) a partir de determinado ponto
ou lugar (LI & IEMA, 2013). Com a aplicação da ZVI verificavam-se as áreas privilegiadas de

16
Tal como previsto, o PDM era anunciado por Aviso nº 7635/2014, no Diário da República nº 124/2014,
Série II de 1 de julho.
17
Os objetivos estratégicos estipulavam: «A) desenvolvimento integrado dos activos da saúde, numa envolvente
empresarial dinâmica; B) densificação económica da região, com empresas integrando um elevado grau de
I&D; C) revitalização de Coimbra como destino turístico diferenciado; D) redefinição urbana da Cidade, po-
tenciando os actuais vazios urbanos e privilegiando a centralidade do Rio Mondego» (CMC, 2010, pp. 21–24).
18
A inscrição da UC-AS na LPM, em 22/06/2013, era publicada no Anúncio nº 14917/2013, no Diário da
República nº 236/2013, Série II-B de 5 de dezembro, constituindo-se como mais um instrumento legal de
proteção e salvaguarda da área PM.
visualização e perceção, entre um lugar e o seu contexto territorial, permitindo, assim, avaliar
e determinar as áreas sujeitas a um maior impacte visual em caso de intervenções urbanas.
Cada bacia visual era definida e registada segundo as coordenadas do ponto ou lugar de
observação, sendo que, para o caso de estudo tenham sido escolhidos os lugares preferenciais de
visualização sobre o bem classificado, como o caso de ruas, praças, percursos, eixos viários, mi-
radouros, edifícios e espaços públicos, terraços, varandas ou colinas; mas também seriam identi-
ficados os lugares preferenciais de visualização do contexto urbano a partir do bem classificado.
Os procedimentos metodológicos aconteciam por várias etapas. A primeira baseava-se
nos levantamentos cartográficos, topográficos e altimétricos do existente em modelação tri-
dimensional, constituindo um Modelo Digital de Superfície (Digital Surface Model – DSM)
incluindo todos os detalhes existentes à superfície terrestre (volumes construídos e vegeta-
ção), onde os dados eram recolhidos com o recurso a um Sistema de Informação Geográfica
(Geografic Information System – GIS) e tecnologia LiDAR de leitura laser e introduzidos no
modelo digital. Na segunda etapa, com o modelo tridimensional estabelecido, eram feitas
as leituras de amplitude de visibilidade para vários pontos ou lugares de observação, previa-
mente identificados, ou seja, para cada lugar escolhido era definida uma bacia visual, que
determinava o alcance visual territorial desse lugar. Posteriormente, eram feitas análises aos
dados recolhidos e, através de sobreposições de resultados, verificavam-se as manchas que,
em simultâneo, correspondiam à bacia visual comum e, assim, definir uma maior ou menor
amplitude visual entre os vários pontos de visualização, definindo a magnitude da ZVI.
As conclusões do estudo assumiam que a área de maior impacte visual passível de ser preju-
dicial ao bem UC-AS, correspondia à coincidência de área entre a magnitude da ZVI e os limites
definidos pela área de proteção do Centro Histórico, definido no PDM, ficando, desta forma,
justificada a não necessidade de expansão dos limites da área de proteção do bem UC-AS.
Todavia, a possibilidade de utilização desta ferramenta de projeto de um modo perma-
nente, pelo menos, nestes contextos urbanos, deveria ser equacionado, tendo em conta as
vantagens que apresenta (Capela & Murtinho, 2014).
O sistema de vistas estabelece o princípio do ver e ser visto em simultâneo, assumindo
34 // Lugares e territórios: património, turismo sustentável, coesão territorial

a sua valência pública e introduz o conceito de inter-visibilidade (Lalana Soto & Santos y
Ganges, 2011), em que a vista sobre o bem é essencial mas, a vista a partir do bem, também
é relevante para a sua compreensão e identidade dentro do seu contexto urbano (Fig. 3).
A inter-visibilidade acrescenta uma complexificação na abordagem da compreensão e do en-
tendimento do bem, uma vez que, a importância das vistas para além de refletirem princípios
de composição visual inerentes à valência material do bem em si, também refletem os valo-
res19 associados ao bem, mais subjetivos e sujeitos a escolhas e interpretações (Beaudet, 2008).
19
Relembre-se que o tema geral do congresso científico e Assembleia Geral do ICOMOS, realizado em
Florença entre 10 e 14 de novembro de 2014, tinha como título Heritage and Landscape as Human Values,
sendo que o seu quinto sub-tema abordava, precisamente, Emerging tools for conservation practice, onde esta
problemática estava a ser debatida. Cf. (Capela & Murtinho, 2014).
Figura 3. Vista sul da Torre da UC. Fotografia: FG+SG, UC.

Todavia, a inter-visibilidade também pode ser a democratização do conhecimento sobre


o valor urbano do bem, a partir de espaços com vista sobre o bem classificado, aumentando
os olhos que veem e observam20. Nesse âmbito, deveriam ser promovidos determinados locais
dentro da área pré-estabelecida – neste caso, a plataforma Alta/Baixa/Santa Clara – tendo
em conta a magnitude da sua ZVI, de modo a serem identificados lugares de observação 35 // Lugares e territórios: património, turismo sustentável, coesão territorial
relevantes, não só de compreensão do bem UC-AS no seu contexto urbano, como também,
de monitorização e de vigilância sobre potenciais transformações da Lusa Atenas. A definição
desses lugares deveria ter em consideração todos aqueles que demonstraram ser relevantes
para a construção cultural que foi feita sobre o território, ao longo dos séculos, enquanto
suporte da sua identidade cultural – a Lusa Atenas –, estabelecendo a geograficidade das suas
população (Fig. 4). Tais lugares de observação relevantes deveriam ser de acesso público livre,
garantindo a continuada realização de ações de observação pela população em geral, poten-
ciando a monitorização e a vigilância das possíveis transformações ocorridas sobre a PUH.
Relembra-se, a propósito, a premissa de Jane Jacobs que defendia que a segurança da cidade depende dos
20

olhos que por ela correm (Jacobs, 1994).


Figura 4. Vista sobre a colina da Lusa Atenas, a partir do Choupalinho. Fotografia: Manuel Ribeiro, UC.

Qualquer análise técnica de monitorização, feita com recurso ao sistema de vistas em


fase de projeto, pode proteger o bem e o seu contexto urbano de uma futura intervenção
que pusesse em causa o equilíbrio da sua PUH. Esta metodologia de projeto pode ser utili-
zada como uma forma preventiva de proteção e salvaguarda do património, permitindo ser
uma ferramenta operativa na gestão e manutenção dos bens classificados e do seu território
de influência, mas também, na sustentabilidade do seu desenvolvimento expectável.

Considerações finais
36 // Lugares e territórios: património, turismo sustentável, coesão territorial

Este trabalho centrou-se sobre a abordagem da PUH, no âmbito da gestão de bens


inscritos na LPM, permitindo que fosse possível pensar sobre os recursos do território de
um modo integrado ao nível do seu planeamento e da sua gestão sustentável.
Num primeiro momento, considerou-se a noção da PUH, que vem sendo abordada e
desenvolvida ao longo das discussões e textos promovidos no âmbito do PM, pese embora,
só com a discussão do caso de Viena, em 2005, se tenha assumido teórica e concetual-
mente; e, depois, com a Recomendação sobre a PUH, de 2011 da UNESCO, onde seria
promovida uma abordagem multidisciplinar da gestão dos recursos urbanos, assente no
património, sobre uma plataforma de conjugação de vários layers multifuncionais.
A promoção da continuidade espacial urbana e a incorporação das transformações ne-
cessárias para responder às novas exigências de uma vida contemporânea deviam ser assu-
midas sem prejuízo de perturbar o equilíbrio da PUH da cidade. Desta forma, no exercício
de desenho da cidade, devem ser contemplados vários layers, que a abordagem da PUH
permite correlacionar. Por um lado, pela continuidade do espaço, que pode ir desfazendo as
barreiras e as fronteiras urbanas, que ainda subsistem no território, que deve ser equaciona-
do pela gestão e pelo planeamento do espaço urbano. Por outro lado, pela garantia de que
as manifestações e representações sociais, bem como, os novos modos de vida e de consumo
da sociedade contemporânea possam ser estabelecidos e incorporados nas relações socieda-
de-território, por ações de conhecimento, compreensão, apropriação, uso e pertença.
De certa forma, como foi referido, a grande mais-valia que a PUH introduz na abor-
dagem da gestão e do planeamento do património em contexto urbano é a promoção
para uma integridade dinâmica e considerar, em simultâneo, o binómio relações-ações
verificadas entre a população e o território. Assim, numa lógica de promover o desenvolvi-
mento integrado e sustentável do contexto urbano, assume esses novos modos de vida da
sociedade contemporânea como parte da dinâmica da complexidade que os espaços urba-
nos enfrentam hoje. Talvez por haver essa interação dinâmica e abrangente entre os vários
layers multifuncionais da PUH (quer os materiais, quer os imateriais) possa ser considerado
que a sua abordagem se arrisque a ser extrapolada para outros contextos patrimoniais que
não os do PM ou, até mesmo, poder ser considerada para todos os contextos urbanos
independentemente da sua classificação patrimonial.
Num segundo momento considerou-se o caso da candidatura da UC-AS para inscrição
na LPM, o que aconteceu em 22 de junho de 2013 e contemporâneo ao processo de defi-
nição da PUH, como um laboratório de experiências privilegiado em acontecimentos rele-
vantes para o tema, nomeadamente, pela intervenção e reabilitação de espaços e edifícios
na sua área de influência urbana, potenciados pela candidatura e pelo título PM alcançado.
Topograficamente, o bem classificado UC-AS tem uma localização privilegiada sobre o
37 // Lugares e territórios: património, turismo sustentável, coesão territorial
seu contexto urbano. E tal foi considerado essencial para a criação da sua identidade ao logo
dos séculos, associada a um epíteto cuja noção remonta à estabilização da Universidade na
cidade – a Lusa Atenas, constituindo-se a matriz cultural do território da cidade. Por ser
um espaço de reconhecimento identitário e com uma forte valência cultural, não só pela
vertente material, mas também pela vertente imaterial, está sujeito a todas as pressões espe-
culativas e de globalização, que são coincidentes aos centros urbanos, sobretudo, europeus
com as mesmas características.
Por esta conjuntura, a PUH pode contribuir para a transformação das abordagens que
se entendem prejudiciais ao contexto urbano onde o bem está inserido e, consequente-
mente, questionar as metodologias de proteção e salvaguarda do património, neste caso
PM, tendo em conta a sua gestão sustentável para o futuro. Mais do que pensar sobre o
património em si próprio, a PUH pensa a sua abordagem e a sua integração nos novos
modos de vida e de consumo da sociedade contemporânea e, por isso, a pertinência da sua
aplicação poder ser extensível a qualquer contexto urbano.
Desse ponto de vista, tornam-se importantes os procedimentos e metodologias, desde
a análise, a avaliação e a monitorização dos processos de intervenção urbana, para uma
gestão integrada e cada vez mais eficaz das áreas patrimoniais em contexto urbano. O PM
tem promovido debates internacionais no sentido de serem desenvolvidos instrumentos,
ferramentas e metodologias capazes de serem adaptáveis às necessidades de cada caso.
Para finalizar, este trabalho sublinha uma proposta baseada no sistema de vistas, uma
ferramenta de projeto urbano e da arquitetura paisagística, cuja utilização em contex-
to urbano com forte ímpeto cultural, assente no património construído, pode resultar
numa possibilidade de auxílio à gestão e planeamento do bem classificado e da sua área
de influência, tendo em conta as vantagens que foram equacionadas.
O sistema de vistas pode vir a contribuir para que esta abordagem da PUH sobre o
património em contexto urbano, que ainda está a dar os seus primeiros passos, possa ser
uma das mais operativas para a gestão do património em espaço urbano.
Pela sua abrangência, o sistema de vistas pode constituir-se como uma ferramenta
preventiva sobre potenciais intervenções que causem prejuízo sobre o sistema urbano onde
o bem classificado está inserido e que, geralmente, é mais vulnerável a essas situações.
Simultaneamente, o sistema de vistas pode contribuir para uma maior variação das ações
de observação do bem classificado, potenciando, por um lado o seu conhecimento e enten-
dimento e, por outro, a monitorização e vigilância sobre a sua PUH. Portanto, equacionar
lugares que possam ser dinamizados para a observação do bem PM e da sua área urbana de
influência, pode ser um ativo no auxílio de uma gestão integrada e integrante do bem para
o futuro, assim como, integrar as vistas, os eixos visuais e os pontos ou lugares de reco-
nhecimento desses espaços e dos marcos territoriais urbanos nas dinâmicas da gestão e da
38 // Lugares e territórios: património, turismo sustentável, coesão territorial

manutenção do bem, é um contributo importante para proteger e salvaguardar o sistema


urbano na sua totalidade.
É por todas estas novas perspetivas centradas na maior qualidade de vida das popu-
lações, que no futuro, no campo da gestão do património seja expectável que haja mais
desenvolvimento ao nível de uma transformação de pensamento e de consciência sobre
as dinâmicas e sinergias criadas pelos processos patrimoniais, que promova, consequente-
mente, uma transformação nas abordagens e nas metodologias de proteção e salvaguarda
do património, do que propriamente sobre o património em si.
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41 // Lugares e territórios: património, turismo sustentável, coesão territorial


A Fundação do Mosteiro de
Santa Clara-a-Nova de Coimbra
Propagandística política, tratadística arquitectónica e engenharia
militar entre a Dinastia Filipina e a Dinastia de Bragança

Pedro Tavares
Sofia Salema
Centro da História da Arte e Investigação Artística (CHAIA), Departamento de
Arquitectura da Universidade de Évora
Fernando Baptista Pereira
Centro de Investigação e Estudos em Belas Artes de Lisboa (CIEBA),
Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa,

O presente artigo incide sobre os antecedentes da fundação do Mosteiro de Santa Clara-


-a-Nova de Coimbra, caracterizado pela tratadística arquitectónica e militar da época da
Restauração, partindo da pesquisa documental propomos contextualizar a sua edificação.
O Mosteiro de Santa Clara-a-Nova, embora sendo uma obra de vulto da Restauração,
encontra-se parcamente estudado. Esta obra promove a propagandística político-religiosa
do Culto da Rainha Santa Isabel de Portugal, que a Casa de Bragança perpétua após os
Habsburgo. Numa altura em que as obras do Reino eram condicionadas pelas despesas da
guerra, sendo que as de maior relevância eram de carácter militar e erigidas nas áreas geo-
gráficas mais sensíveis da defesa territorial. O progressivo assoreamento do velho conven-
to, aliado à necessidade de afirmação política da nova dinastia, impulsionam D. João IV a
43 // Lugares e territórios: património, turismo sustentável, coesão territorial
ordenar que se lance a primeira pedra da construção do novo Mosteiro de Santa Clara de
Coimbra (1649), na qual determina que em língua latina se refira à Rainha Santa Isabel
como sua Avó e Senhora.
Na documentação relativa à construção do Mosteiro de Santa Clara-a-Nova verifica-se
que plantas originais e infra-estruturas, são da autoria de Frei João Turriano. (Silva 2000)
Frei Turriano é filho de Leonardo Torriani, um dos mais notáveis engenheiros militares
da corte de Filipe I de Portugal, descendente de uma família que já tinha adquirido fama
no panorama internacional ao serviço do Imperador Carlos V. Em 1598, após a morte
de Filipe Terzi, Leonardo é nomeado Engenheiro-mor do Reino, projectou e deu pareceres
sobre as fortificações na defesa da Barra do Tejo, entre as quais o Forte de São Lourenço
da Cabeça Seca, no qual foi sucedido após a sua morte pelos seus filhos, Diogo e João
Turriano. (Boiça and Barros 2004)
Não obstante ao regime de observância, seguindo a longa tradição de herança de cargos
públicos, Fr. Torriano recebe de D. João IV o cargo de Engenheiro-mor do Reino. Durante
treze anos traça diversas casas religiosas. O conhecimento arquitectónico de Fr. Turriano
pode verificar-se no estudo do catálogo da sua biblioteca, herdada de seu pai, e onde se
destacam diversos tratados arquitectónicos, como de Andrea Palladio e Sebastiano Serlio,
os quais estudou e anotou com minúcia. De facto verifica-se uma correlação entre estes e
a solução adoptada no cenóbio Isabelino de Coimbra. (Abreu 2003)
O Mosteiro de Santa Clara-a-Nova é a última obra de vulto de arquitectura de Frei
Turriano, “Esta imponente massa arquitectónica, que segue o modelo profano dos palácio-bloco
do final da centúria antecedente, é obra importante de síntese entre o modelo «chão» da arqui-
tectura religiosa e certos pressupostos eruditos da arquitectura aristocrática de sinal Herreriano,
que pela sua expressiva ambiguidade de novo nos recorda o peso da engenharia militar em tais
empresas.” (Serrão 2003)

A propagandística do Culto da Rainha Santa Isabel de Portugal

Nos séculos xiii e xiv, promoviam-se na cristandade as relações entre nobreza, santi-
dade e caridade, especialmente relacionadas com as Ordens Franciscanas. Diversas casas
de nobreza seguiam de perto o exemplo de Santa Isabel da Turíngia, em particular os seus
descendentes. A obtenção da canonização, e por consequência do status de beata stirps,
enfatizava a importância político-religiosa destas famílias, cuja hagiografia frequentemen-
te utilizavam na Diplomacia. Entre seus descendentes canonizados figuram, São Luís de
França, São Luís de Anjou e a Rainha Santa Isabel de Portugal. (Dupuy 2002)
O culto da Rainha Santa Isabel nasce por vox populi, foi posteriormente cultivado
44 // Lugares e territórios: património, turismo sustentável, coesão territorial

pelos seus descendentes dinásticos. Os fundadores da Dinastia de Avis tinham presente a


sua importância, sobretudo em alturas de maior instabilidade política. A propaganda é de
facto intensa no propósito de se legitimarem, como foi o caso da escolha do Convento de
Santa Clara de Coimbra para as núpcias de D. Duarte I e Leonor de Aragão. (Rodrigues
et al. 2014) Também o Rei D. Manuel I irá utilizar a sua antepassada para reforçar a sua
legitimidade, obtendo do Papa Leão X a beatificação a 15 de Abril de 1516, sendo o culto
autorizado localmente.
A devoção da Casa de Avis à Rainha Santa Isabel é evidente na procissão solene que
D. João III e Catarina de Áustria organizam ao túmulo a 20 de Janeiro 1554, coincidindo
com o nascimento de D. Sebastião. Este augúrio impulsiona a propagação do culto por todo
o reino, sendo este anuído pelo Papa Paulo IV em 1556, a pedido de D. João III.(Abreu
2003) D. Catarina de Áustria durante a regência irá continuar a promover e divulgá-lo. Será
sobre a sua influência que se funda a Confraria da Rainha Santa Isabel de Portugal. Este é
o início de uma intrínseca e longa relação entre o culto e as Infantas e Rainhas Habsburgo,
resultando na sua disseminação pelo Sacro-Império e a ambicionada canonização.
Os Filipes institucionalizaram a inacessibilidade e invisibilidade do Rei como princí-
pio fundamental político. Na corte Filipina as mulheres Habsburgo, cuja missão era ga-
rantir as relações entre os diferentes ramos da Casa de Áustria, partilhavam a esfera privada
do monarca, facilitando-lhes o exercício do poder na política do Império. Tal foi o caso
de Joana de Áustria (mãe de D. Sebastião) regente do reino de Espanha e Margarida de
Áustria (Duquesa de Mântua) Vice-Rainha de Portugal, entre outras. Porém a intervenção
política nem sempre dependia de uma estratégia directa, nesse caso utilizavam redes de in-
fluência, onde família, religiosidade e política se cruzavam, não só na esfera privada, como
é o caso das Descalças Reais, como na pública; através de cronistas que as retractavam
a partir de estereótipos religiosos femininos, os quais serviam para derrubar as barreiras
políticas dos Validos.
O culto da Rainha Santa Isabel foi também utilizado como estratégia para aplacar
as tensões políticas resultantes da inacessibilidade do monarca, que se prolongaram até à
Restauração. Temos como exemplo Isabel de Bourbon, esposa de Filipe III de Portugal,
a qual foi particularmente devota à Rainha Santa Isabel, actuando igualmente na esfera
política como pacificadora entre povos. Esse papel de mediadora dos conflitos, particu-
larmente entre seu irmão e esposo (respectivamente reis de França e Espanha), reforçou
a sua oposição ao Valido Olivares. Muito dedicada às Clarissas (tal como todas as rainhas
da monarquia espanhola), após a rendição de Breda e a canonização da Rainha Santa, em
Junho de 1625 celebra estes acontecimentos na Corte em Madrid, numa procissão religio-
sa. Como dita a tradição, a imagem da Santa surge transfigurada na soberana, assumindo
assim suas virtudes e feitos, vestida com roupas tecidas pela própria e adornada com as suas
45 // Lugares e territórios: património, turismo sustentável, coesão territorial
jóias.(Pérez Cantó et al. 2015)
Em 1640, na sequência de conflitos internos entre a coroa, nobreza, aristocracia e a
burguesia cristã-nova, inicia-se a Restauração surgindo a necessidade de legitimação tanto
ao nível interno como externo da Dinastia de Bragança. O integrismo antijudaico (que
identificava o judaísmo com Madrid), a devoção Mariana Imaculista, o Messianismo e
a Eucaristia, serão as correntes de culto presente na liturgia de legitimidade. O Culto da
Rainha Santa Isabel, cuja disseminação extra-peninsular já era evidente, passou também a
integrar o programa político-religioso dos Bragança. (Gomes 1987)
Em 1649, D. João IV ordena que se lance e inscreva na primeira pedra da construção do
novo Mosteiro de Santa Clara, na qual determina que se refira à Rainha Santa Isabel como
“ sua Avó e Senhora”. Numa altura em que as obras nacionais eram condicionadas pelas des-
pesas da Guerra da Restauração, a construção deste imponente cenóbio, estende-se durante
os reinados dos próximos cinco monarcas, reflecte o programa político-religioso deste culto.
A traça do Mosteiro de Santa Clara-a-Nova é testemunho da Restauração. Atribuída
a Frei João Turriano, segue as orientações régias da Igreja ser sumptuosa, pois deveria al-
bergar, para além da Rainha Santa “ (…) no mais superior lugar (…) ”, a sepulturas de reis.
O imponente e austero cenóbio, rematado por Torreões ao gosto do de Filipe Terzi, marca
a paisagem da margem esquerda do Mondego.

A consolidação do ensino da arquitectura militar Portuguesa;


Dos Áustria aos Bragança

Desde 1514 que o ensino da cosmografia era leccionado no Armazém da Guiné e da Índia.
Em 1562 D. Catarina de Áustria oficializa a Escola de Moços Fidalgos do Paço da Ribeira. A esco-
la preparava jovens nobres, entre os quais D. Sebastião, no estudo da matemática, cosmografia,
geometria e arquitectura. Em 1576 António Rodrigues (Mestre de todas as Obras Régias e das
Obras de Fortificação) produz para as aulas diversos tratados manuscritos e sebentas das aulas
teóricas de Arquitectura Militar, com base em Vitrúvio e nos Primo Libro e Secondo Libro di
Prespectiva di Sebastian Serlio Bolognese. Esta estrutura oficial de ensino, consolidada desde
1562 em Portugal, foi transferida para Madrid por Filipe I e Juan de Herrera, após a união da
Coroas, criando no Alcázar a Academia de Matemáticas e Arquitectura (1583). (Moreau 2011)
Durante o Reinado de Filipe I é criada a Aula de Architectura do Paço da Ribeira,
ou Aula do Risco (1594), cujo primeiro mestre de Arquitectura foi Filipe Terzi, seguido
por Nicolau de Frias (1598), Matheus do Couto o velho (1631) e António Torres. Era
composta por três alunos remunerados, com experiência suficiente em arquitectura, que
prestavam serviço ao Gabinete de Obras D’el Rei. Estes aprendiam as questões teóricas da
46 // Lugares e territórios: património, turismo sustentável, coesão territorial

Arquitectura Civil, Religiosa, Militar e específicas do desenho, espelhadas no Tractado de


Architectura quê leo o Mestre, & archit Mattheus do Couto o velho (1631). (Moreau 2011)
A par da Aula do Risco funcionava desde 1590 a Aula de Esfera do Colégio de Santo Antão.
O Colégio, fundado pelos Jesuítas quando estes se instalaram em Portugal (1545), preparava
missionários para a Índia, tendo sido frequentado por muitos estrangeiros que procuravam
o ensino náutico e o estudo da matemática acima do nível elementar. Estudaram neste
Colégio Baccio da Filicaia (engenheiro-mor do Brasil), João Teixeira Albernaz (o velho),
Bartelomy Zanit, João Nunes Tinoco e Luís Serrão Pimentel. (Moreau 2011)
A Guerra da Restauração tornou imperativa a defesa territorial, o que obrigou à con-
tenção dos gastos e ao contributo para o esforço de guerra. Preservar as fronteiras exigia
a mobilização de homens e recursos, para reorganizar e modernizar o aparelho defensivo
terrestre e marítimo. Diversos engenheiros militares estrangeiros preservaram as suas fun-
ções, outros foram transferidos pela Coroa, no entanto a sua substituição era tratada com
prudência. Teriam que ter habilitações e sobretudo serem acima de qualquer suspeita, tal
como exemplifica o Decreto do Conselho de Guerra de 1643, que determina que nunca
fosse confiada a cidadão estrangeiro a disposição da planta de defesa da Barra Do tejo. Esta
medida reflectia igualmente a má experiencia que o monarca teve com arquitectos france-
ses na fortificação de Cascais, recebiam ordenados avultados e faziam e desfaziam muitas
vezes as obras, com graves prejuízos para os cofres do reino. (Boiça and Barros 2004)
Uma das medidas adoptadas por D. João IV para diminuir a dependência de profis-
sionais estrangeiros, foi a criação em 1641 da Aula de Artilharia e Esquadria no Paço da
Ribeira, direccionada para engenheiros militares. Em 1647 é transferida para a Ribeira das
Naus com o nome de Aula da Fortificação e Arquitectura militar (sendo também apelidada
de Academia militar ou Aula Régia). Até então o ensino baseava-se na experiência e no estu-
do de manuscritos dos próprios lentes, baseados em tratados estrangeiros. A Academia produziu
e imprimiu dois tratados de fortificação, o Methodo Lusitanico de Desenhar Fortificaçoens
(Luís Serrão Pimentel, 1680) e O Engenheiro Portuguez (Azevedo Fortes,1728). Os dois
séculos de experiência em fortificação e urbanismo proporcionaram a criação de um mé-
todo próprio de aplicação de conceitos teóricos desenvolvidos na Europa, impressos nestes
dois tratados. Para além da aprendizagem de conceitos teóricos de intervenção utilizavam
métodos de aprendizagem de tecnologias, através de medições, levantamentos de terrenos,
desenhos e construções de componentes de fortificação. (Moreau 2011)
Com a Restauração e a dificuldade de contractar engenheiros para as colónias, o en-
sino oficial de arquitectura militar portuguesa irá expandir-se para além-mar. No Brasil as
primeiras instituições são fundadas em Salvador (1696), Rio de Janeiro (1698), São Luís
(1699), Recife (1701) e Belém (1758). Apesar das Aulas Militar serem um reflexo do estímu-
lo renovador de Luís Serrão Pimentel, o ensino era directamente ligado à estrutura militar,
47 // Lugares e territórios: património, turismo sustentável, coesão territorial
adoptando no entanto o modelo da Aula do Risco, do tempo dos Habsburgo.(Moreau 2011)

Os Torriani/Turriano;
Engenheiros e Arquitectos ao serviço dos Habsburgo e dos Bragança

No séc. xvi artistas italianos ao serviço da coroa moviam-se entre as cidades do Império
Habsburgo onde formavam as suas oficinas e famílias. Na época moderna não existiam
quaisquer garantias de cuidados sociais, indigentes dependiam da caridade que era um con-
ceito diferente do direito social actual. Os laços familiares eram a base sólida para negócios
eficazes, os quais se apoiavam na confiança e no bem da comunidade. Na maior parte dos
contractos verifica-se de facto que as responsabilidades legais e dívidas de determinado
artesão ou mestre eram também imputadas aos seus herdeiros, sendo muitas vezes estes
também assinados por suas esposas. Por sua vez o ingresso de familiares em cargos na Corte
era uma garantia da execução de dívidas que o Rei tivesse para com estes. A prática do
nepotismo era portanto usual, sendo considerada estabilizadora neste contexto político/
/social. Este é também o caso da família Turriano. (Zanetti 2015)
Juanelo Turriano (engenheiro, matemático, mecânico, astrónomo e Relojoeiro-Real;
Cremona1500 - Toledo 1585) era um artesão-empreendedor que se tornou uma celebri-
dade ao serviço de Carlos V e de Filipe I de Portugal, tendo durante essa altura construído
os relógios astronómicos mais importantes do Renascimento e participado na reforma do
calendário do Papa Gregório XIII. Nas obras reais de engenharia, foi o autor da maquinaria
hidráulica que elevava água do Tejo ao Alcázar de Toledo, os célebres Los Artificios (1569).
Era mester e amigo do arquitecto Juan de Herrera, tendo privado com personagens ilustres
como Joana de Áustria, sobretudo devido à fama internacional que adquiriu. (Garcia 2008)
O cargo de Relojoeiro Real obrigava Turriano a trabalhar continuamente para o Rei,
porém podia angariar e executar trabalhos para outros clientes, tendo patenteado durante
esse período diversas invenções para as cidades de Veneza, Mântua, Florença e Roma.
Como mestre da sua oficina, dependeu de um conjunto de oficiais de forma a poder
dar resposta às encomendas e ao Imperador. Estes oficiais teriam que dar assistência aos
relógios, à construção e administração dos equipamentos hidráulicos e inspecções técni-
cas (fundição, engenharia hidráulica, topografia, astronomias, entre outras). Entre eles
figuram diversos familiares sendo um deles o seu sobrinho Bernardino Turriano (futu-
ro capitão de Cremona), cujo filho Leonardo será anos mais tarde nomeado do Filipe I
Engenheiro Maior do Reino de Portugal.(Zanetti 2015)
Bernardino Turriano mudou-se para Toledo, a seguir ao nascimento do seu filho
Leonardo Torriani (Cremona 1558 - Lisboa 1628), para aprender os segredos do ofício do
48 // Lugares e territórios: património, turismo sustentável, coesão territorial

seu tio, os quais desejava praticar com igual sucesso. É bastante provável que tenha pro-
curado também desta forma ser apresentado à Corte, tal como ocorreu a outros membros
da família. Efectivamente conseguiu trabalhos nas cortes de Emanuele Filiberto (Duque
de Sabóia) e Ottavio Farnese (Duque de Parma e Piacenza), sem no entanto ter adquirido
qualquer sucesso nas suas empresas. Porém, Bernardino deve ter capitalizado dos seus laços
familiares para ajudar o seu filho, é possível que este tenha sido recomendado na Corte em
Espanha por intervenção seu tio-avô Juanelo. (Vigano 2010)
Durante a Dinastia Filipina a importância da defesa dos territórios dos Habsburgo
implicou a contratação de diversos engenheiros-militares estrangeiros. Leonardo Torriani,
antes de ser chamado à Península Ibérica, já tinha adquirido fama internacional ao serviço
do Imperador Rodolfo II de Habsburgo. Em 1584 é nomeado por Filipe I de Portugal
Engenheiro do Rei na Ilha de La Palma, com instruções de construir um molhe e um tor-
reão. Passados três anos foi encarregado de visitar todas as fortificações do Arquipélago
das Canárias para avaliar e desenvolver o sistema defensivo. A maioria dos seus projectos
não será edificada, tendo no entanto publicado a Descripción e Historia del reino de las
Islas Canarias (As Afortunadas 1588-1590).(Fig. 1) Em 1590 efectua os primeiros aponta-
mentos de carácter meteorológicos sobre o Pico de Teide, sendo o pico do vulcão um dos
pontos mais altos desde a antiguidade.

Figura 1. Mapa das Ilhas das Canárias associadas ao signo zodiacal de Câncer, segundo Leonardo
Torriani, finais do séc. xvi. (fonte: Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, cota Ms. 314, pág. 8.)

Das Canárias é Torriani é trasladado para Orán, Cartagena, Berbería e finalmente


49 // Lugares e territórios: património, turismo sustentável, coesão territorial
Portugal. Em 1596 começa a dirigir as obras da Fortaleza de Viana do Castelo. Com a morte
de Frei Giovanni Vicenzo Casale, é encarregado de dirigir as obras do Forte de São Lourenço
do Bugio e do Forte de São Julião da Barra do Tejo. Após a morte de Filipe Terzi (1598) é
nomeado Engenheiro-mor do Reino, cargo que ocupará durante 30 anos, e passa a dirigir
também as obras da Fortaleza de São Filipe de Setúbal. É-lhe também atribuído por diversos
autores o modelo original do Forte de São Marcelo na Capitania Real da Bahia (Brasil, 1612-
-1623), cujo projecto apresenta semelhanças ao Forte do Bugio. (Moreau 2011) Projectou
igualmente a dragagem do estuário do Tejo, para a qual chegou a desenhar máquinas.(Fig.2)
Para além de diversas obras de arquitectura que participou, entre elas a Igreja de São Vicente
de Fora, elaborou diversos estudos para o abastecimento de água em Lisboa.
Figura 2. Escavadora, Dos discursos de Leonardo Turriano el primero sobre el Fuerte de
San Lourenço de Cabeça Ceca en la Boca del Taxo el segundo sobre limpiar la Barra del
dicho Rio y otras diferentes. (fonte: B.N.P. Microfilme, cota F.R. 193, pág.62)
50 // Lugares e territórios: património, turismo sustentável, coesão territorial

Frei João Turriano é o segundo filho do segundo casamento de Torriani com uma por-
tuguesa. Em 1629 professa na Ordem de São Bento, no Mosteiro da Saúde. Segundo al-
guns historiadores inicia os seus estudos continuados na Aula do Risco, onde o pai leccionava
Engenharia e Fortificação. Não obstante ao seu regime de observância e seguindo a longa tra-
dição de herança de cargos públicos, após a morte do pai é nomeado em 1631 por D João IV
para o cargo de Engenheiro-mor do Reino, tendo no entanto sido preterido pelo seu irmão
Diogo Turriano. Durante o serviço à coroa traça diversas fortificações e obras de arquitectura
religiosa, onde a estética resultante de um aprendizado de pai para filho, se encontra presente.
Segundo Fr. Francisco de S. Luiz, Turriano estava “ (…) sempre ocupado nos estudos do desenho,
de obras de arquitectura, a que se inclinavam os papéis de seu pai.”. (Abreu 2003)
Na Guerra da Restauração D. António Luís de Meneses, Conde de Cantanhede, im-
pulsiona e superintende a continuação das obras da defesa da Barra do Tejo, tendo con-
tando com o contributo inicial do Engenheiro das Fortificações da Barra, Mateus do Couto
(o velho). Em 1643 na sequência da administração danosa de Mateus Couto (o qual mais
tarde será ilibado de traição), D. João IV pede a nomeação de um engenheiro acima de
qualquer suspeita e de nacionalidade portuguesa. Terá sido por conhecer em pormenor o
trabalho do pai que Frei Turriano assume após a morte de Diogo Turriano a direcção das
obras de São Julião da Barra (O Escudo do Reino) e desenha o Forte do Bugio e o Forte
de São Bruno de Caxias. Para além das obras no Tejo acompanhou e deu pareceres das
Obras da Praça Forte de Peniche, do Forte de São Francisco Xavier no Porto e projectou
igualmente o Forte de Nossa Senhora das Neves em Matosinhos.(Boiça and Barros 2004)
Apesar do conhecimento e experiência de Frei Turriano em Engenharia Militar, o
maior número de projectos da sua autoria são sobretudo de arquitectura religiosa, incluin-
do diversos dormitórios: o do Mosteiro de Santa Maria em Alcobaça, o das Inglesinhas
e da Estrela em Lisboa, o de Odivelas, o Travanca e o de Semide.(Abreu 2003) Terá sido
porventura a necessidade urgente de construir um dormitório para albergar as freiras do
Convento de Santa Clara de Coimbra, que é emitido o alvará de 1647 de sua Majestade
para a construção do novo Convento no Monte da Esperança, nomeando para a gestão
financeira da obra o Conde de Cantanhede: “…do meu Conselho de guerra e vedor da
minha fazenda (…) que terá particular cuidado e vigilância de ver e examinar como e de que
maneira (…) se despende o dinheiro (…) ”. (Silva 2000) É sobre a sua autoridade que no
ano seguinte delega que o Padre Frei João Turriano faça a traça do Mosteiro.
A documentação relativa à construção do Mosteiro de Santa Clara-a-Nova mostra de
facto que, apesar da multiplicidade de arquitectos e engenheiros militar que sucederam a
Frei Turriano, a Planta Universal e infra-estruturas, tais como a “ (…) obra e canos de água
(…) ”, são da sua autoria. (Silva 2000)

51 // Lugares e territórios: património, turismo sustentável, coesão territorial

A planta universal do Mosteiro de Santa Clara-a-Nova;


Tratadística Arquitectónica na biblioteca de Turriano

D. João IV, no contexto da política de renovação das casas religiosas e devido ao asso-
reamento do velho Mosteiro de Santa a Clara-a-Velha, ordena a construção do Mosteiro de
Santa Clara-a-Nova para acolher o corpo de “sua Avó e Senhora”. A necessidade de afirmação
política da Dinastia Bragantina resultou num novo programa construtivo e na busca de um
novo figurino estético na arquitectura nacional. Esta corrente estética, nascida do utilitarismo,
da escassez de recursos e da falta de encomendas, transita do estático maneirismo para um
decorativismo “epidérmico” barroco. A arquitectura muitas vezes foi exercida por projectistas
pertencentes às Ordens Religiosas, onde permaneciam em observância. É neste enquadra-
mento que se desenvolve a obra de arquitectura religiosa de Fr. João Turriano. (Abreu 2003)
Em 1648, é determinado pelo Superintendente das obras do cenóbio que o Padre
Frei João Turriano execute a traça para o dito Mosteiro, a qual segue as orientações régias
de albergar sepulturas de reis e da construção de um edifício anexo destinado a Paço Real.
As obras de fundação do Mosteiro de Santa Clara-a-Nova foram condicionadas pelo es-
forço de guerra, como mencionado no registo do Alvará de Sua Majestade (1647), o qual
salientava que “(…) não aja nisto superfluidades gastos nem despesas de que Deus se não
servira nem o aperto das guerras do tempo prezente o permitem.”(Silva 2000)
O conhecimento teórico que Frei Turriano adquiriu e aplicou na arquitectura deste
cenóbio pode-se vislumbrar através dos livros e tratados que lhe pertenceram. Ao falecer,
a 9 de Fevereiro de 1679, a sua biblioteca ficou na posse do Colégio de São Bento de
Coimbra, sendo composta por diversos exemplares que adquiriu em vida, para além de
outros que herdou do pai.
Tratados de arquitectura militar como o Due Dialoghi di M.Iacomo de’ Lanterni da
Paratico, bresciano (à ragionare del modo disegnare le piante delle fortezze secundo Eulide,
Venezia 1557) ou a Nuova inventione de fabricar fortezze (Giovanni Battista Belici, 1598),
estão repletos de notas marginais suas, as quais se estendem para fora dos limites dos fo-
lios. No seu catálogo destacam-se igualmente dois conhecidos tratados arquitectónicos,
o Quattro Libri dell’Architettura de Andrea Palladio (Marco Antonio Brogiollo, Veneza,
1642), e o Tercero y quarto libro de architettura de Sebastiano Serlio (Francisco Villalpando,
tradução castelhana, 1573), os quais estudou com minúcia (Abreu 2003).
No Quattro Libri de Andrea Palladio, cuja edição é contemporânea à data de constru-
ção do Mosteiro de Santa Clara, verifica-se um estudo mais aprofundado, sugerindo por
vezes uma correlação entre as partes que anota e o Mosteiro. Preocupações presentes no
projecto, como a orientação solar da livraria, a disposição e proporção das salas nobres, a
52 // Lugares e territórios: património, turismo sustentável, coesão territorial

localização de adegas, de dispensas e latrinas e sobretudo ventilação, são extraídas do seu


exemplar do livro de Palladio, na parte que concerne aos edifícios civis, as quais adoptou
no cenóbio. Também as potencialidades paisagísticas da implantação, sobretudo a rela-
ção entre o cuidado da elaboração de fachadas na proximidade do rio, são extraídas das
considerações de Palladio (Abreu 2003).
O seu exemplar do Livro III de Sebastiano Serlio, dedicado às Antiguidades, poderá
estar na génese do desenho do claustro. Nele anota proporções de átrios, claustros, cortili e
fóruns, cuja função e disposição é fundamental na organização das restantes dependências.
Não seria portanto de estranhar que o claustro do Mosteiro Isabelino já estivesse delineado
nas plantas originais, da sua autoria.
O interesse que mostra pelo emprego da gramática das ordens como enunciam Palladio
e Serlio, em particular o seu correcto dimensionamento e a sobreposição em estruturas
porticadas, são notórias na obra final. Nas suas leituras, constata-se a aversão de Serlio
à construção de arcarias sobre colunas redondas que este considera “cosa viciosa y falsa”
aconselhando que “Arcos /se fação sobre pi-/lares e não sobre Colunas” (Abreu 2003). (Fig.3)

Figura 3 – Tercero y quarto libro de architettura, Sebastiano Serlio, tradução castelhana Francisco Villalpando,
1573.(fonte: Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra,cota R-61-1)

A solução que mais tarde seria adoptada no esquema compositivo do claustro (Fig.4)
53 // Lugares e territórios: património, turismo sustentável, coesão territorial
encontra-se espelhada nessas recomendações serlianas, sobretudo no que concerne às estru-
turas porticadas, das quais salientamos: ”se os arcos queremos hazer, há de ser sobre Pilastrones
quadrados. Y demas de esto sobreponer o arrimar a ellos las columnas redondas para mas
ornato.” (Abreu 2003). Considerações técnicas presentes na obra de Serlio, tais como o
dimensionamento de um sistema de arcaria em pontes ou o cravar de gatos metálicos na
pedra dos suportes de um claustro e o seu tratamento (de forma a que não se crie ferrugem
nas paredes), poderão ter sido tecidas por Fr. Turriano no projecto de claustro.
Pode-se concluir que a importância do estudo da robustez dos elementos portantes de Serlio
por Fr. João Torriano “ (…) torna-se num axioma, que bem poderia ser ilustrado pela construção do
claustro de Coimbra, de solidez filiada no exercício da arquitectura militar.” (Abreu 2003)
Figura 4. Modelo 3d do Claustro Serliano do Mosteiro de Santa Clara-a-Nova,
antes da reforma barroca. Proposta do autor, (2017).

Conclusão

Foi no período dos Habsburgo que se criou em Portugal o estatuto de Grandeza.


Com a Restauração praticamente metade das casas titulares de nobreza desapareçeram,
grande partes suprimidas por pemanecerem fiéis a Filipe III de Portugal. As casas extin-
tas foram substituidas pela elevação simultânea de outras, recrutadas entre Restauradores,
criando um novo período de estabilidade na elite titular monárquica que irá durar até
ao Pombalismo.
É indiscutível a importância da nova nobreza na gestão das obras do reino, a quem
a Coroa remunerou por serviços prestados na guerra com titulos de nobreza e cargos
inerentes à sua importância . Tal é o caso de D. António Luís de Meneses, Conde de
Cantanhede, elevado mais tarde a Marquês de Marialva, que pertencia ao Concelho de
Guerra e era vedor da Fazenda de D. João IV. Ao mesmo tempo foram-lhe delegadas obras
de engenharia-militar, como o Escudo do Reino, e de arquitectura religiosa, como é o caso
54 // Lugares e territórios: património, turismo sustentável, coesão territorial

do Mosteiro de Santa Clara-a-Nova. É sobre a sua tutela que duas famílias de engenheiros
militares e arquitectos são recrutados para trabalhar neste mosteiro, os Turriano e mais
tarde os Couto, já conhecidos na corte por descenderem e terem acompanhado os autores
dos projectos de defesa da Barra do Tejo.
Frei João Turriano, após treze anos de serviços prestados à coroa, troca a arquitectura
pela docência da Cadeira de Matemática na Universidade de Coimbra. Quando falece
(com 70 anos) há muito que Mateus Couto (sobrinho) superintendia a obra do Mosteiro
de Santa Clara-a-Nova. Apesar de ser o autor da Planta Universal, a documentação que se
conhece da obra não refere que Turriano alguma vez a tenha dirigido ou visitado, muito
menos a do claustro que se inicia 20 anos depois da sua morte.
Após Turriano abandonar o projecto, Mateus do couto (que recebia mercês de D. João
IV para estudar arquitectura com o tio, Mateus do Couto o Velho), é chamado para dirigir
a obra no Mosteiro. Após a morte do tio sucedeu-o no ofício de Arquitecto das Obras das
Ordens Militares, sendo promovido ao ofício de Arquitecto e Mestre das Obras dos Paços
de Salvaterra e Almeirim e Real Mosteiro da Batalha. Durante a substituição do Marquês
de Marialva pelo Marquês do Alegrete, na superintendência da obra de Santa Clara, conti-
nuará a trabalhar nas medições dos trabalhos efectuados no Mosteiro, sendo sucedido nos
seus diversos cargos, pelo seu protegido, Manuel do Couto.
Esta inter-relação entre arquitectos e engenheiros-militar no projecto do Mosteiro irá
reflectir-se na obra que hoje podemos observar erguida. Apesar de se apresentar com uma fei-
ção resultante das reformas Joanina e Pombalina, muito ao estilo de Custodio Vieira e Carlos
Mardel, pode-se verificar que os elementos estruturais são mais próximos da cultura arquitec-
tónica militar de feição maneirista. As tipologias que observamos surgiram com as diversas
reformas barrocas, resultantes da inadequação do modelo original, tendo parte da estrutura
original sido alterada de forma a adaptar melhor o Mosteiro às necessidades das Clarissas.
Podemos apenas supor que as proporções e a cenografia do projecto do Mosteiro de
Santa Clara-a-Nova, que muitas vezes se aproximam das empregues num Palácio da Fé,
poderão estar relacionadas com a necessidade que os Bragança tinham de projectar uma
imagem forte de patrocínio Régio.

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PROGRAMA DOUTORAL HERITAS – ESTUDOS DE PATRIMÓNIO [REF.ª: PD/00297/2013]


[Programas de Doutoramento Nacionais e Internacionais – 2013]
56 // Lugares e territórios: património, turismo sustentável, coesão territorial
Alcalá de Henares e Coimbra, Universidades
Património Mundial: responsabilidade
e compromisso de futuro em dois
contextos ibéricos

Joana Capela de Campos


Universidade de Coimbra (DARQ – FCT, UC)
Vítor Murtinho
Universidade de Coimbra (DARQ – FCT, CES, UC)

Introdução

Numa candidatura patrimonial de um bem em contexto urbano, quando entendida


como um ativo para a gestão e para o desenvolvimento urbano, assume-se que o valor
atribuído a esse bem se constitui como uma parte integrante do seu contexto e que, con-
sequentemente, a sua gestão deve ser equacionada de forma integrada, promovendo uma
continuidade dentro do ambiente urbano.
Nesse sentido, desenvolver uma candidatura patrimonial será assumir uma responsabili-
dade e um compromisso de futuro. Por um lado, a responsabilidade passaria pela produção
de conteúdos, que promovessem o estudo e o conhecimento do bem proposto, que deveria
ser disponibilizado às suas populações, pelas entidades que o gerem, ativando uma lógica de
conhecer para compreender, dentro das práticas de proteção e salvaguarda do património. Por
outro lado, o compromisso de futuro seria traduzido por um processo de candidatura que
57 // Lugares e territórios: património, turismo sustentável, coesão territorial
se estabelecesse a partir de um projeto político com intenções e estratégia de intervenção
tanto para a área com um valor reconhecido, como para o seu contexto urbano e, no limite,
para o seu território de influência, mesmo que a apresentação da candidatura não viesse a
colher os resultados esperados. Desta forma, pensar o património cultural, não como uma
memória do passado, mas antes um ativo da contemporaneidade para o futuro, permitia
promover essa responsabilidade e esse compromisso, estabilizando-os numa plataforma de
diálogo entre gerações, que iriam recebendo, usando, e acrescentando valor ao existente.
Por estes enunciados, as candidaturas patrimoniais têm, ou deveriam ter, alta impor-
tância para a gestão futura dos bens e dos recursos patrimoniais, constituindo-se como
uma identificação e uma seleção de valores comuns à comunidade. Valores esses que sendo
herdados das gerações anteriores, em muitos dos casos se mantinham em vigor e a que de-
veriam ser acrescentados os de matriz contemporânea por fazerem parte de uma vivência e
de uma cultura atual. Assim se entende que pensar o património não deveria ser sinónimo
de estagnação temporal. Pelo contrário, pensar o património na sua vertente material e
na sua vertente imaterial não deveria ser uma performance cultural (Smith, 2017, p. 16),
onde a necessidade de afirmação cultural tem vindo a ser cada vez mais reconhecida pela
sua importância na vida quotidiana contemporânea. Mais do que se pensar no passado,
o património seria uma questão de presente com perspetiva de futuro, onde o passado seria
apenas uma lição para ser usada em cada contemporaneidade.
Além disso, alguns estudos sugerem que as políticas de reconhecimento do binómio
património-identidade, assente na diversidade e na representação de valores essenciais
para o individuo e/ou comunidade, possibilitam novas leituras sobre o valor social do
património, nomeadamente, na promoção da cidadania (Smith, 2017). Enquanto valor
identificado para uma representação política e ética da comunidade, o património cultural
estabelecia o direito a essa identidade, porque apesar de poder ser uma questão emotiva,
seria, antes de mais, uma questão absorvida como fundamental para induzir um juízo de
valor comum.
Na Europa e no Mundo, o ano de 2018 será um período de comemorações sobre o
património cultural1 e, consequentemente será promovido um reforço do seu papel e da
sua importância na criação dos discursos de paz que devem ser, ininterruptamente, pro-
movidos pela tolerância na diversidade cultural e por relações interculturais entre todos os
cidadãos do mundo (Capela de Campos & Murtinho, 2017c).
Para além desta perspetiva, também seria percetível que um processo de candidatu-
ra patrimonial iria potenciar e incentivar uma dinâmica de desenvolvimento económico
gerada a partir da oportunidade da atribuição de um título, sobretudo, se as entidades
envolvidas tiverem influência internacional, como a Organização das Nações Unidas para
a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO), através do PM ou, ainda, como o Conselho
58 // Lugares e territórios: património, turismo sustentável, coesão territorial

da Europa. Nesse sentido, estudos têm vindo a apontar para a existência de uma coinci-
dência entre cada inscrição na LPM – devido ao mediatismo que era gerado à sua volta – e
o aumento do número de visitantes desse sítio2. Consequentemente seria expectável que
qualquer inscrição na LPM se traduzisse numa dinâmica geradora de desenvolvimento,
não só ao nível do bem classificado e dos seus perímetros definidos como zona de proteção,
mas também, naquela que poderia ser considerada a sua área de influência territorial, onde
diversas atividades económicas poderiam ser potenciadas. Quando os bens classificados
1
Cf. Capela de Campos, J e Murtinho, V. «Paisagem Urbana Histórica, a Lusa Atenas como matriz cultural
de Coimbra», no presente número da publicação do Centro de Estudos Ibéricos.
2
Cf. (Rebanks Consulting Ltd & Trends Business Research Ltd, 2009; Salazar, 2010).
se localizassem num contexto urbano, então o desenvolvimento potenciado também se
assumiria como tal. Dentro do contexto urbano material ou físico – na área do património
classificado, sua zona de proteção e área de influência urbana – seria verificado um desen-
volvimento baseado, sobretudo, na proteção e salvaguarda do património e na reabilitação
urbana, tanto ao nível do parque edificado como dos espaços públicos; dentro do contexto
urbano imaterial – nas dinâmicas quotidianas da vida e dos usos espaciais (que se manifes-
tam na vertente material do contexto urbano) – o desenvolvimento urbano seria verificado
nas atividades turístico-culturais e novas formas de consumo da sociedade contemporânea
(Capela de Campos & Murtinho, 2017a).
Este trabalho pretende refletir sobre o contributo que uma candidatura patrimonial
em contexto urbano pode acrescentar para o desenvolvimento e para a gestão de uma
cidade, através das sinergias geradas pela sua circunstância e que vão influenciando, poten-
ciando, estabelecendo e transformando algumas dinâmicas socioeconómicas, no seu terri-
tório de influência. A abordagem metodológica será qualitativa e realizada com recurso a
uma analogia entre dois estudos de casos localizados em diferentes contextos territoriais,
nomeadamente, os casos ibéricos inscritos especificamente na categoria das Universidades
Património Mundial (UPM), da LPM: a Universidade e Recinto Histórico de Alcalá de
Henares (URHAH) e a Universidade de Coimbra – Alta e Sofia (UC-AS).
Embora as datas de inscrição dos dois casos possam ter alguma influência nos resulta-
dos – pela evolução que o próprio discurso filosófico-concetual no âmbito do PM sofreu
entre as datas de inscrição de uma e outra na LPM, 1998 e 20133 –, as práticas processuais
e a linguagem padronizada e promovidas pela inscrição dos bens na LPM são as mesmas,
ou seja, os dois casos foram inscritos na mesma categoria patrimonial e foram atribuídos
os mesmos critérios de justificação de Valor Universal Excecional (VUE) do bem, pela
UNESCO. Sobre esta particularidade da candidatura dos dois casos de estudo, num pri-
meiro momento, é feito um esclarecimento sumário desta condição, com o objetivo de
melhor explicitar e enquadrar os dois casos de estudo.
59 // Lugares e territórios: património, turismo sustentável, coesão territorial
Todavia, cada um dos casos tem o seu contexto geográfico, histórico, político, social,
económico e cultural, acrescentando ainda as suas próprias trajetórias evolutivas antes e
depois da inscrição na LPM. Desta forma, considera-se pertinente enunciar os parâmetros
e justificações que foram estabelecidos como responsabilidade e compromisso de futuro,
nas respetivas candidaturas a PM de Espanha e de Portugal. Com este tópico pretende-
-se aferir de que modo é que tais enunciados se traduziram em contributos ativos para a
promoção da coesão do território de influência de cada caso de estudo, tendo em conta os
aspetos evolutivos de contextualização para cada uma das universidades em estudo.

Cf. (Capela de Campos & Murtinho, 2017c).


3
Por fim, verificam-se as variações entre os dois casos, resultantes na realidade dos seus
contextos urbanos, pelas influências diretas ou indiretas do processo de candidatura e da
consequente inscrição dos bens na LPM.
O reconhecimento de um estatuto de PM deveria induzir a uma continuada reflexão
e ação, ao nível da sua gestão e planeamento, integrados num contexto mais abrangente,
podendo estes constituírem-se como fatores críticos e estratégicos da promoção da coesão
territorial, ao serem consideradas as transformações necessárias para responder às novas
exigências dos modos de vida, dos usos e das dinâmicas socioculturais.

A categoria Universidades na Lista do Património Mundial

A LPM constitui-se como um instrumento de gestão patrimonial ao nível da política


internacional, pela inscrição de patrimónios, com VUE justificado – conforme estipula-
do na Convenção para a Proteção do Património Mundial, Cultural e Natural de 1972
(CPM1972)4 – e, também, representativos da diversidade cultural de todo o mundo,
desde 1978, ano das suas primeiras inscrições. Em 1994, o Comité do PM adotava uma
Estratégia Global5 cujo principal objetivo seria alcançar uma LPM representativa, equili-
brada e credível, que refletisse essa diversidade cultural.
Os estudos de caso abrangidos por este trabalho – a URHAH (WHC, 1999, p. 31) e a
UC-AS (WHC, 2013, p. 208) – foram inscritos na LPM pelo reconhecimento dos respe-
tivos VUE e sob a categoria UPM, uma das categorias mais sub-representadas na LPM em
quarenta anos, com apenas cinco bens inscritos, conforme se apresenta no seguinte quadro:

Quadro 1. Relação dos bens inscritos na categoria UPM.


Ano de Nome do bem na LPM Localização Critérios
inscrição (VUE)
1987 Monticello e a Universidade da Virgínia Charlottesville, i, iv, vi
Estados Unidos da América
60 // Lugares e territórios: património, turismo sustentável, coesão territorial

1998 Universidade e Recinto Histórico de Alcalá de Henares Alcalá de Henares, Espanha ii, iv, vi
2000 Cidade Universitária de Caracas Caracas, Venezuela i, iv
2007 Campus Central da Cidade Universitária da Universidade Cidade do México, México i, ii, vi
Nacional Autónoma do México
2013 Universidade de Coimbra – Alta e Sofia Coimbra, Portugal ii, iv, vi

4
A CPM1972 considera dez critérios justificativos do VUE, sendo que, os primeiros seis (i, ii, iii, iv, v e vi)
correspondem à justificação de bens culturais e os últimos quatro (vii, viii, ix e x) correspondem à justificação
de bens naturais.
5
Uma das propostas equacionadas passava pelo incentivo de se inscreverem bens em novas categorias patri-
moniais ou em categorias sub-representadas, para além daquelas que seriam recorrentemente abrangidas,
como Cidades/Centros Históricos ou Monumentos (Capela de Campos & Murtinho, 2017c).
Dos 1073 bens inscritos na LPM até 2017 e distribuídos por 167 países, só cinco seriam
inscritos sob a categoria Universidades, sendo este detalhe, a causa de distinção que permitia
diferenciar estes casos. Todos os outros exemplos de universidades presentes na LPM esta-
vam dissimulados em contextos urbanos mais vastos e inscritos sob outras categorias6, sendo
essas categorias designadas como Cidades históricas ou Centros históricos, entre outras. Desta
forma, todas as outras instituições de ensino superior faziam parte integrante de um valor
diferenciável do valor específico atribuído às universidades por si só. Esta variação na com-
preensão das várias categorias patrimoniais, se por um lado potenciava uma maior capacidade
de abranger uma maior diversidade de bens culturais, naturais e mistos, conforme estipulado
pela CPM1972, por outro, estimulava uma maior exigência na justificação do VUE, preci-
samente, pela maior especificidade atribuída pela diferenciação de categoria. Por esta formu-
lação, considerava-se pertinente fazer a analogia dos dois casos específicos das universidades
europeias e ibéricas inscritas sob a categoria UPM – a URHAH e a UC-AS – às quais havia
reconhecido um VUE, justificado segundo os mesmos critérios ii, iv e vi (Quadro 1), tanto
pelos contributos e influências que tiveram ao longo dos séculos como também, por aqueles
que continuam a ter, tanto numa escala local, como numa escala global.
O critério ii justificava o VUE pelo facto de as universidades testemunharem uma troca
de influências considerável, durante um determinado período ou numa área cultural espe-
cífica do mundo, no desenvolvimento da arquitetura ou da tecnologia ou das artes monu-
mentais, da planificação das cidades ou da criação de paisagens (UNESCO WHC, 2016,
p. 41). Este critério assumia que o bem podia ser, não só, um gerador urbano fundamental
para a evolução morfológica da cidade e do seu território, através do plano da cidade e da
sua paisagem urbana histórica, mas também, da sua área cultural: Alcalá de Henares foi a
primeira cidade planificada da idade moderna para albergar uma universidade, cujo dese-
nho servira de modelo para outros centros universitários, e Coimbra foi durante séculos
a única universidade portuguesa e do mundo lusófono. A temática cultural, nestes casos
ibéricos, abrangia uma área global, sendo que no caso espanhol, tal era mais evidente e
61 // Lugares e territórios: património, turismo sustentável, coesão territorial
concentrado nas américas e, no caso português, mais diversificado e pontuado pelo mundo,
decorrente dos seus períodos históricos referentes aos descobrimentos marítimos. Terá sido
nestes períodos que as suas influências mais se fizeram sentir sob diversas geografias pelas

De vinte e seis universidades identificadas na LPM, em atividade ou não, vinte e uma fazem parte de bens
6

mais vastos e inscritos sob as categorias: Centro histórico (8), Cidade histórica (6), Cidade colonial (1),
Conjunto histórico (1), Conjunto religioso (1), Conjunto monumental de época (1), Sítio arqueológico
(1), Monumento (1) e Jardim botânico (1). Para o caso ibérico, para além da URHAH e da UC-AS, foram
inscritas: em 1985, a Universidade de Santiago de Compostela inserida na área PM denominada Cidade
Histórica de Santiago de Compostela (Espanha); em 1986, a Universidade do Espírito Santo inserida na
área Centro Histórico de Évora (Portugal); em 1988, a Universidade de Salamanca inserida na área Cidade
Histórica de Salamanca (Espanha); e, em 2003, a Universidade Internacional da Andaluzia inserida na área
Conjunto Monumental Renascentista de Úbeda e Baeza (Espanha).
suas práticas de expansão e de urbanização, que eram contemporâneas à implantação e
estabelecimento definitivo das duas universidades ibéricas, no seu espaço atual.
Em simultâneo, o critério iv avaliava um exemplo excecional de um tipo de constru-
ção ou de um conjunto arquitetónico ou tecnológico ou de uma paisagem, ilustrando um
ou vários períodos da história humana (UNESCO WHC, 2016, p. 41). Este critério era
suportado, no caso de Alcalá, pelo campo concetual do desenho da cidade ideal, sendo a
imagem da Cidade de Deus a sua inspiração para a criação de um modelo urbano, que
depois seria disseminado pelo mundo. No caso português, o critério iv era suportado pela
miscigenação urbana entre a universidade e a cidade, durante sete séculos, onde a evolução
de uma seria o reflexo da outra e, por conseguinte, o reflexo da história da arquitetura,
da universidade, da cidade, do país, da europa e do mundo.
Por fim, o critério vi implicava estar, direta ou materialmente, associado a aconteci-
mentos ou a tradições vivas, a ideias, a crenças, ou a obras artísticas e literárias, com signi-
ficado universal excecional (UNESCO WHC, 2016, p. 41). O caso de Alcalá representava
a cidade do saber e das artes como centro de influência na língua espanhola e berço de
Miguel de Cervantes e da sua obra-prima D. Quixote. No caso de Coimbra, a sua univer-
sidade contribuía para formar elites de todo o mundo lusófono, das artes às humanidades e
às ciências, tendo várias das suas tradições seculares sido adotadas por outras universidades,
para além do espólio académico e universitário único.
Nesta enunciação sumária dos critérios justificativos do VUE de cada um dos bens, se
depreendia que, apesar de serem os mesmos para os dois casos, cada critério era lato o sufi-
ciente para poder ser adaptável a cada caso. Nesse sentido, a capacidade de demonstração e de
justificação do VUE do bem era, assumidamente, uma responsabilidade do Estado-membro
proponente da candidatura e decorria da própria circunstância e condição do bem em causa7.

Candidatura a Património Mundial: compromisso e responsabilidade


para o futuro
62 // Lugares e territórios: património, turismo sustentável, coesão territorial

O património cultural havia assumido várias atribuições ao longo das contempora-


neidades e, por isso, a capacidade que uma candidatura à UNESCO desenvolvia sobre as
sinergias criadas a partir da proteção e salvaguarda do património, para potenciar o desen-
volvimento urbano e económico de uma cidade, era uma conclusão apontada em vários
estudos e amplamente reconhecida, sobretudo pelas dinâmicas turístico-culturais que se
iam intensificando sobre a área patrimonial (Rebanks Consulting Ltd & Trends Business

7
Quanto à especificidade apresentada nos documentos de candidatura à UNESCO referentes aos bens
URHAH e UC-AS, cf. (Lopes, 2012a; Vallhonrat, 1997).
Research Ltd, 2009; Salazar, 2010). Tal realidade transformava os processos de submis-
são de candidaturas para inscrição de bens na LPM numa competição global (Askew,
2010), explicitando o volume desproporcionado de submissões de candidaturas de bens
em contexto urbano, para atribuição do título da UNESCO8.
Nas respetivas candidaturas de Espanha (URHAH) (Fig. 1) e de Portugal (UC-AS) (Fig. 2)
à UNESCO, para a aferição do VUE, da autenticidade e da integridade que tornam cada
caso único e distintivo, seriam assumidos compromissos e responsabilidades sobre a proteção
e salvaguarda do bem e a sua gestão de futuro, suportados pelas circunstâncias e condicio-
nantes da evolução dos próprios bens e da sua ligação com os seus contextos urbanos.

63 // Lugares e territórios: património, turismo sustentável, coesão territorial

Figura 1. Planta de inscrição dos limites da área URHAH PM e da sua zona de proteção.
Imagem: WHC-UNESCO, candidatura 876-Espanha, 1998.

A instituição Universidade de Alcalá (UA), conhecida como Universidade Complutensis


– herança do nome de Alcalá romana, Complutum – era a quarta universidade a ser criada em
Espanha9, com o alto patrocínio do arcebispo de Toledo e do rei D. Sancho IV. Os Estudos
8
A propósito da problemática relacionada com a diversidade da LPM, cf. (Capela de Campos & Murtinho,
2017c).
9
Palencia terá sido a primeira universidade criada em Espanha, em 1212, desaparecida entretanto; a segunda
foi a Universidade de Salamanca, em 1218; a terceira foi a Universidade de Valladolid, em 1241. Cf. (Rivera
Blanco, 2014, p. 20).
Gerais seriam criados a 20 de Maio de 1293, seguindo o modelo das Universidades de Paris
e de Salamanca e reunindo algumas características das de Bolonha e de Lovaina (Rivera
Blanco, 2014, p. 20). Todavia, seria no final da Idade Média que passaria a conhecer um
novo ímpeto institucional e urbano (Galván, 2014).
Em 13 de Abril de 1499, o cardeal Francisco Jiménez de Cisneros refundava a insti-
tuição por bula papal, dotando aos Estudos Gerais a denominação de Universidade10. Esta
etapa na história de Alcalá constituía-se com a visão reformista de Cisneros, centrada nos
ideais renascentistas e humanistas e alterando a estrutura física não só da UA – que chegou
até aos nossos dias – mas também, da cidade que era dotada com uma nova estrutura e or-
ganização urbana. Neste sentido, o desenho da nova universidade era expandido à própria
cidade, que se encontrava desprovida de vida urbana11, ao contrário do que acontecia em
Bolonha, Oxford, Paris e Salamanca, onde as universidades se iam adaptando e incorpo-
rando na realidade urbana estabelecida. Assim, a primeira cidade universitária dos tempos
modernos (Vallhonrat, 1997), idealizada por Cisneros segundo a imagem da Civitas Dei,
transformava-se numa ensanche quinhentista desenvolvida por dezoito quarteirões12, con-
cretizada e planificada na área oriental da cidade medieval muralhada, com a colaboração
do arquiteto Pedro Gumiel (Rivera Blanco, 2014, p. 28).
A cidade de Alcalá, impulsionada pelo desempenho da sua universidade13, transformava-
-se num centro de desenvolvimento científico e cultural, ao longo dos séculos xvi, xvii e xviii
com novas implantações, alterações, transformações, construções, reformas e atualizações do
seu espaço universitário.
No entanto, seria no século xviii14 que a universidade começava a entrar num pe-
ríodo de decadência arrastando a cidade pelo mesmo caminho. Em 1821, era criada a

10
Em 14 de Abril de 1499, Cisneros lançava a primeira pedra do Colégio Maior de Santo Ildefonso, dando
início simbólico e formal à nova Universidade Complutensis, cuja Constituição era promulgada em 1510.
Cf. (Rivera Blanco, 2014, p. 22).
11
Metade da cidade estava sem uso e abandonada devido à expulsão dos judeus de Espanha, realizada a partir
64 // Lugares e territórios: património, turismo sustentável, coesão territorial

de 1496, sendo que, por esse motivo, a atividade comercial tenha conhecido um declínio. A nova realidade
permitia que Cisneros utilizasse a área urbana abandonada para instalar uma verdadeira cidade universitária.
Cf. (Rivera Blanco, 2014; Vallhonrat, 1997).
12
Com a construção de um Colégio Mayor, dedicado a Santo Ildefonso patrono de Toledo, era feita a repre-
sentação da Casa do Saber e do Templo da Sabedoria pela imagem de Jesus, de doze Colégios Menores, cada
um dedicado aos apóstolos e de mais seis Colégios Menores dedicados aos discípulos.
13
A abertura de imprensas permitira a impressão da Bíblia Poliglota Complutense, em 1514-17, considera-
da como um monumento da tipografia moderna, tendo como suporte a obra-prima de Elio Antonio de
Nebrija, a Gramática de la Lengua Castellana, publicada em 1492 (Contreras, 2014), bem como outros
textos do professor das Universidades de Alcalá e Salamanca. Além disso, Alcalá era o berço de nomes maio-
res das letras e das artes, destacando-se Miguel de Cervantes Saavedra com a sua obra-prima El ingenioso
Hidalgo Dom Quijote de La Mancha, de 1605.
14
Em 1770, era instituída a supressão dos Colégios Menores, levando à ruína e abandono muitos dos edifícios
associados a usos e funções complementares aos académicos.
Universidade Central em Madrid, antecipando o fecho da universidade cisneriana, que
apesar do seu prestígio e da sua importância para as artes, a língua e a cultura espanholas,
seria encerrada em 183615.
Em 1851, acontecia o caso que a candidatura da URHAH à UNESCO classificava
como único na história das cidades (Vallhonrat, 1997, p. 19): um grupo de cidadãos de
Alcalá juntava-se e formava a Sociedad de Condueños de los Edifícios que fueron Universidad16,
que iria adquirir o conjunto de edifícios na expectativa do futuro retorno da universida-
de. Este episódio da história de Alcalá revelava-se único e sem paralelo, na forma como
os seus cidadãos reconheciam o valor do seu património arquitetónico universitário e lhe
atribuíam uma conotação de guardião da sua memória cultural coletiva e da sua identidade
como comunidade de Alcalá17 (Vallhonrat, 1997, p. 19). Todavia, só em 1975, Alcalá vol-
taria a sentir o pulsar universitário na cidade, com um polo de ampliação da Universidade
Complutense18 de Madrid, sendo a UA refundada por decreto real, dois anos depois.
A partir de 1985, sob o lema «Al futuro con el passado», a UA ganhava autonomia
académica e promovia um investimento na requalificação do património universitário,
para uma área total de 185 hectares. O lema pretendia representar o projeto de recupera-
ção do passado, através da recuperação e reabilitação do património universitário, para ir
construindo um projeto de futuro nesta nova etapa da universidade cisneriana. Tal esforço
seria merecedor de vários prémios e distinções nacionais e internacionais e no seguimento
de uma colaboração estreita entre cidade e universidade seria desenvolvido o processo de
candidatura à UNESCO, para inscrição do bem URHAH na LPM, o que se verificara,
com efeito, em 5 de dezembro de 199819.

15
Todos os serviços da UA (recursos humanos, universitários e pedagógicos) eram transferidos para Madrid
e a maior parte dos edifícios e bens eram vendidos para pagar dívidas do Estado, outros seriam pilhados e
outros seriam demolidos.
16
A partir desse momento, cabia à Sociedade de Condóminos gerir os bens constituintes da propriedade,
alugando ou cedendo os edifícios a instituições e a privados na condição da sua conservação e manutenção,
65 // Lugares e territórios: património, turismo sustentável, coesão territorial
para salvá-los da ruína, já que, a falta de uso tornaria a sua manutenção insustentável. Desta forma, os
edifícios sofreriam transformações para responder a novas funções, convertendo-se em residências, colé-
gios públicos e religiosos, quartéis, grupos desportivos e culturais. Cf. (Clemente San Román & Quintana
Gordon, 2014; Echeverría Valiente, 2005; Vallhonrat, 1997).
17
O início do século xx trazia a Espanha, a necessidade de se proceder à declaração formal do estatuto patrimonial
dos bens e de se continuar a catalogar os bens, que já estava a ser feita desde o século anterior (Martín Jiménez,
2016). Nesse âmbito, o Colégio Maior de Santo Ildefonso era classificado Monumento Nacional, em 1914.
18
A partir da década de 70 do século xx, havia uma significativa expansão universitária em Espanha, abrindo
caminho à expansão da Universidade Central de Madrid, que havia substituído por completo a UA, assumindo
a denominação Universidade Complutense de Madrid como reconhecimento, por um lado, da sua alma mater
cisneriana, mas por outro, como homenagem àquela que tivera um papel tão importante e influente para a
cultura e artes espanholas, europeias e americanas (Clemente San Román & Quintana Gordon, 2014, p. 78).
19
Na 22ª sessão do Comité do PM, realizada em Quioto entre 30 de novembro e 5 de dezembro de 1998,
a URHAH era inscrita na LPM, sob os critérios ii, iv e vi (World Heritage Committee, 1999, p. 31).
Seria com o regresso da universidade à cidade de Alcalá, que se começava a inverter o
ciclo de decadência urbana. A UA não acabara porque a comunidade local se havia identifi-
cado com o seu valor patrimonial, que também era o seu valor urbano. O projeto cisneriano
era, neste sentido, uma matriz cultural do território de Alcalá. E era na sua integridade,
como um todo coerente, que permitia conhecer, reconhecer e compreender o território, toda
a sua evolução e o seu desenvolvimento. Deste modo, era sob a perspetiva da continuidade
que o processo PM era assumido, num percurso pedagógico de negociações entre a cidade e
o governo, que tiveram a proteção e a salvaguarda de património como ação principal, para
alavancar o desenvolvimento local, com base no regresso da universidade à cidade.
66 // Lugares e territórios: património, turismo sustentável, coesão territorial

Figura 2. Planta de inscrição dos limites da área UC-AS PM e da sua zona de proteção.
Imagem: WHC-UNESCO, candidatura 1387-Portugal, 2013.
No caso português, as circunstâncias e condicionantes da evolução da universidade
com o seu contexto urbano eram semelhantes com o desenvolvimento da sua congénere
castelhana20, a partir do momento em que D. João III decidira sedear a universidade
portuguesa, definitivamente, em Coimbra21.
De um modo resumido, e como referia Dias, podia ser verificado que a influência que a
universidade incutira ao nível do desenvolvimento da cidade, se projetava de modo eviden-
te em três momentos fundamentais, com reflexo direto no desenho urbano (Dias, 1994):
1537 – a transformação de Coimbra em cidade universitária; 1772 – a reforma pombalina;
e, 1941 – a construção da Cidade Universitária do Estado Novo.
Se o primeiro momento contribuía para a estabilização do ensino superior em Portugal,
conseguia-o através dos planos urbanos que eram delineados e construídos para albergar a
comunidade universitária, na Baixa e na Alta de Coimbra, não deixando de ter em conta,
outros parâmetros de substancial relevância urbana e urbanística, nomeadamente, o au-
mento da população que tal decisão implicaria22: a abertura da Rua de Santa Sofia23, na
Baixa de Coimbra, que era equacionada a partir do processo24 da reforma do Mosteiro de
Santa Cruz, abrindo uma rua nova para norte do «tabuleiro da praça»25; e a reforma do

20
Com exceção da fase que promulgara o encerramento da universidade alcalaína, em 1836, e que, como já
se referiu, arrastaria a cidade de Alcalá por um período de decadência urbana até ao período pós-Segunda
Grande Guerra Mundial.
21
Era assumido que o marco fundacional da universidade portuguesa tinha sido a carta régia assinada em 1 de
março de 1290 por D. Dinis – o «documento precioso», segundo António de Vasconcelos (Pimentel, 2005, p.
40) –, criando os Estudos Gerais, na cidade de Lisboa. Não obstante, a universidade era transferida várias vezes
alternando entre Lisboa (1290-1308; 1338-1354; 1377-1537) e Coimbra (1308-1338; 1354-1377; a partir de
1537, o estabelecimento definitivo da UC). Cf. (Lobo, 2010; Lopes, 2012b; Pimentel, 2005; Rossa, 2001).
22
Num quarto de século, a população de Coimbra que rondava os cinco mil habitantes passava a doze mil,
ultrapassando todas as expectativas iniciais de D. João III que, consecutivamente, teria que gizar soluções
e respostas ao sucessivo aumento das necessidades residenciais e logísticas disponíveis, bem como, dotar a
universidade de mais espaços para estudantes e mestres. Cf. (Rossa, 2006).
23
Designação da rua nova, clarificando o carácter e a identidade programática daquela que iria receber as
construções dos colégios para o ensino preparatório e superior (Lobo, 2006). No entanto, apesar deste seu
67 // Lugares e territórios: património, turismo sustentável, coesão territorial
carácter ideológico e funcional atribuído ao plano inicial, a sua materialização não se concretizara, por ini-
ciativa régia, ficando, de resto, a qualidade da «sua materialidade arquitectónica e urbanística, pelo seu papel
de ensanche de uma cidade atrofiada» (Rossa, 2006, p. 19).
24
Este processo era iniciado com alguns episódios de impulso urbanístico, com a passagem de D. Manuel pela
cidade em 1502, na viagem de peregrinação a Santiago de Compostela, tendo dado grande destaque tanto à
reforma de Santa Cruz como à reforma do Paço Real, entre outros (Rossa, 2001, pp. 531–611). No entanto,
era já sob o signo régio de D. João III que a reforma do Mosteiro de Santa Cruz era realizada, a partir de
1527, sob a alçada do monge jerónimo frei Brás de Barros, através de uma ensanche quinhentista para norte
do mosteiro (Lobo, 2006). Este empreendimento, onde seriam construídos colégios, teria como propósito
reintroduzir «os estudos no mosteiro crúzio (…) e com a eventual mudança da Universidade para Coimbra»
(Buescu, 2005, p. 199), o que acabaria por se efetivar a 1 de março de 1537.
25
Referência ao «pavimento lajeado, sobrelevado em relação à Praça de Sanção (actual 8 de Maio), que se esta-
beleceu efectivamente defronte dos dois primeiros colégios» (Lobo, 2006, p. 24), o Colégio de São Miguel
e o de Todos-os-Santos.
Paço Real e da Alta, no geral, que evidenciava dificuldades em fixar habitantes e, portanto,
dispunha de espaço ou abandonado ou por edificar (a nascente).
O segundo momento de refundação da universidade decorrera em 1772 com a Reforma
Pombalina do ensino e beneficiando de algumas implementações prévias levadas a termo
por D. João V – alimentadas pelo fluxo de ouro e de pedras preciosas vindas do Brasil –,
nomeadamente, aquela que Germain Bazin consideraria como «a biblioteca mais faustosa
que jamais viu»26, a Biblioteca Joanina construída entre 1717 e 1728. A nova reforma,
assente na extinção do ensino da Companhia de Jesus em Portugal, baseava-se em ações
de renovação estrutural das dimensões pedagógica e científica, tendo como consequência a
valorização das ciências exatas e naturais e dos métodos de observação e de experimentação
(Carvalho, 1996).
Mantendo a leitura sobre o papel da universidade para formar elites, como um ins-
trumento de Estado, o ministro Sebastião José Carvalho e Melo, mais conhecido por
Marquês de Pombal, aprovaria a reformulação de espaços e a construção de novos equipa-
mentos27 para uso escolar. Pese embora a criação de novas relações urbanas pela construção
dos novos equipamentos universitários, sendo a mais evidente (e prejudicial) consequente
da localização do Observatório Astronómico no topo sul do Pátio das Escolas, seria a reforma
ao nível do ensino que mais contribuiria para a evolução da UC.
O terceiro momento de grande impacte na universidade e na cidade, com evidente
transformação urbana e urbanística, prendia-se com as intervenções do Estado Novo de
1941 a 1975 (Capela & Murtinho, 2015). Apesar de Portugal se ter mantido distante das
consequências da Segunda Grande Guerra, a cidade sentira um duro golpe, com a cons-
trução da Cidade Universitária de Coimbra, na Alta. Recorrendo à tábula rasa, o projeto
impunha-se sobre o existente, sem equacionar a relação de escala tanto construtiva como
urbana, que alterava o contexto urbano sócio morfológico e, prejudicava continuidades
espaciais, ainda sentidas naquela que seria, desde 2013, parte da área PM.
No entanto em 1995, por necessidade de expansão para acomodar as engenharias e a
68 // Lugares e territórios: património, turismo sustentável, coesão territorial

saúde, a UC avançava com um concurso de ideias para a requalificação dos seus espaços na
Alta, onde um dos seus principais objetivos era reestabelecer as conexões e os laços com a
cidade antiga e existente, procurando minimizar as fronteiras impostas.

26
Germain Bazin foi conservador chefe do Museu do Louvre e um importante historiador de arte, com espe-
cial destaque no estudo do período barroco. A frase referida correspondia ao título de artigo publicado por
Bazin após a sua visita à biblioteca da Universidade de Coimbra (Bazin, 1960).
27
A título de exemplo, enumera-se, o Laboratório Químico, o Observatório Astronómico, o Jardim Botânico
e o Museu de História Natural. Cf. (Dias & Gonçalves, sem data, pp. 97–114).
Seria, contudo, em 200328, que a Universidade assumiria o seu papel de liderança, na
responsabilidade e compromisso com a cidade e, depois com o mundo, pelo seu prota-
gonismo no processo de candidatura a PM, que ia acontecendo em Coimbra desde 1982
(Capela & Murtinho, 2014). O enquadramento estratégico da candidatura assumia um
dever e um compromisso geracional, que segundo as palavras de Seabra Santos se justifica-
vam num «fortíssimo sentido de futuro: o de prevenir a agressão patrimonial e a dispersão
da memória colectiva» (Santos in Universidade de Coimbra, 2005, p. 5).
De certa forma, a Universidade que havia sido responsável pelas intervenções do
Estado Novo, fazia um mea culpa, e devolvia à cidade um estatuto de reconhecimento no
seu valor material e imaterial, promovendo intervenções de requalificação e reabilitação
do seu património físico e contaminando processos de reabilitação urbana pela sua área
de influência urbana. Neste caso, ao contrário da candidatura da URHAH, a perspetiva
da candidatura à UNESCO era assumida, sobretudo, como um eixo estratégico de desen-
volvimento, assente na proteção e salvaguarda do património e, portanto, propulsora de
dinâmicas de desenvolvimento urbano (Capela de Campos & Murtinho, 2017a).

A influência das candidaturas nas dinâmicas urbanas

A oportunidade de serem assumidos compromissos e responsabilidades para o futuro


equacionava-se sob a perspetiva de uma proteção, salvaguarda e gestão integrada dos bens
patrimoniais para uso da universidade, numa primeira instância, mas também de desen-
volvimento dos seus contextos urbanos. Além dessas atuações principais, as sinergias,
criadas a partir desta realidade patrimonial inserida em contexto urbano, iam contagian-
do algumas atividades, nomeadamente, a reabilitação urbana e as atividades turísticas,
que potenciadas e aproveitadas poderiam canalizar alguma influência urbana para um
planeamento mais amplo e equilibrado sobre o território.
69 // Lugares e territórios: património, turismo sustentável, coesão territorial
Por um lado, na candidatura da URHAH à UNESCO, tais compromissos e respon-
sabilidades de futuro equacionavam-se como um processo de continuidade sobre aquilo
que vinha a ser realizado desde o regresso da universidade à cidade. Por outro lado, na can-
didatura da UC-AS, tais compromissos e responsabilidades de futuro eram equacionados
como catalisadores de eixos estratégicos de desenvolvimento, tanto ao nível da reabilitação

Com efeito, era com Fernando Seabra Santos eleito Reitor da UC em 20/01/2003 e reeleito em 15/01/2007
28

que, por sua iniciativa, era oficializada a intenção para que fosse a UC o bem candidato à UNESCO, pedido
que seria realizado em julho de 2003 ao Ministério dos Negócios Estrangeiros. Em 14/05/2004, a UC era
inscrita na Lista Indicativa de Bens, pela Comissão Nacional da UNESCO, dando início à última fase do
processo de Coimbra a PM e deixando para trás os sucessivos e falhados projetos de candidatura de outras
áreas da cidade. Cf. (Capela & Murtinho, 2014).
do património universitário como da necessidade de inter-relação univer(sc)idade, por um
«regresso em simultâneo da cidade à Alta e da Universidade à Sofia e à cidade» (Lopes,
2012b, p. 9). Desta forma, seria pertinente ilustrar como é que estas perspetivas assumidas
pelas duas candidaturas, eram equacionadas e traduzidas para a realidade urbana dos dois
casos ibéricos e também para o seu contexto territorial.
No caso de Alcalá, não se podia deixar de referir algumas particularidades derivadas
de outros acontecimentos, para além daqueles já equacionados e que também contribuíram
para a realidade urbana contemporânea.
A predominância e a disponibilidade da tipologia de colégio29 aliadas ao facto da proximi-
dade de Alcalá com Madrid (uma distância de 30 Km) permitiram que as operações urbanas
mais relevantes, depois do encerramento da UA, tivessem acontecido com recurso a altera-
ções e transformações dos edifícios universitários em quartéis, prisões, hospitais e armazéns,
durante o século xix. Ou seja, a Alcalá universitária tinha-se transformado, sobretudo, numa
cidade militar. Também a construção da estação de caminho-de-ferro levaria algum crescimen-
to urbano, a norte e este da cidade, que reinvestira na direção tradicionalmente privilegiada
com Guadalajara. Todavia estes episódios não impediram o escalar de decadência urbana, que
se acentuava com as destruições dos bombardeamentos da Guerra Civil de Espanha (1936-
-1939) e que se prolongavam até o período do pós Segunda Grande Guerra (1939-1945).
A partir de 1960, a legislação municipal sofria alterações, no sentido de potenciar o cres-
cimento urbano, usufruindo da proximidade com Madrid, alavancando uma desordem urba-
nística que se começava a impor e a ameaçar o casco urbano antigo. Essa crescente especulação
imobiliária era travada com o plano de 1968, que declarava o Centro Histórico de Alcalá
como Conjunto Histórico, permitindo afastar ou, pelo menos, minimizar os efeitos que ame-
açavam a área do centro urbano medieval e cisneriano, mais sensível e já bastante sofrida com
as destruições das guerras. Quando a universidade voltava à cidade e ao seu espaço fundacional
encontrava uma área de 185 hectares bastante danificada e destruída ou em ruína.
Em 1979, a Direção Geral de Arquitetura do Ministério de Obras Públicas e Urbanismo
70 // Lugares e territórios: património, turismo sustentável, coesão territorial

dava início ao processo, onde era promovida a catalogação e estudo planimétrico do conjun-
to de edifícios históricos de Alcalá dirigido pelo arquiteto José Maria Pérez González Peridis
(Rivera Blanco, 2014, p. 32). Este ato dava origem àquela que dava a base de intervenção
sobre o património universitário cisneriano, entre 1982 e 1984, sob a direção do arquiteto
Carlos Clemente, numa atuação interdisciplinar30 entre entidade e comissões técnicas locais
29
A propósito da distinção, arquitetonicamente falando, entre colégio e sede universitária, ver (Lobo, 2010).
30
Numa primeira fase era feito o reconhecimento, o levantamento e a análise do património, para depois se
avaliarem e se definirem os possíveis usos contemporâneos compatíveis com a organização e a tipologia do
edifício. Deste modo, era possível proceder à integração de novas funções académicas e administrativas nos
diversos espaços, sem que para tal fosse necessário recorrer a transformações e alterações que pusessem em
causa a identidade do próprio edifício.
e regionais de coordenação de aspetos arquitetónicos, artísticos, construtivos, científicos e
académicos, depois de se recuperar a propriedade ou o usufruto dos edifícios históricos no
ato do Convénio Alcalá de 1985.
Era pelo grande investimento na requalificação do património universitário, que a UA
vinha a ser merecedora de vários prémios e distinções nacionais e internacionais31, desde
1983, e local do Prémio Cervantes, que a partir do Paraninfo, atribuía anualmente o
galardão maior da literatura de língua espanhola.
Todavia, estas ações não ficavam centradas no casco antigo de Alcalá de Henares
(Comunidade Autónoma de Madrid). Com efeito, nesta nova etapa de recuperação do patri-
mónio da cidade e da universidade, a UA também estendia o seu espectro de recuperação de
património à província de Guadalajara32 (Comunidade Autónoma de Castilla-La Mancha).
Além disso, a UA apostava na construção de um Campus Científico-Tecnológico como uma
lógica de expansão universitária dentro da cidade de Alcalá, tirando partido do terreno ocu-
pado pelas instalações do campo de aviação e paraquedismo de uso militar, localizado a norte
da cidade e adjacente ao «S» histórico da Via Complutense (Chías Navarro, 2014).
A reabilitação do parque edificado também ia acompanhando a consolidação do patri-
mónio universitário que, com o crescimento e expansão da universidade, criava dinâmicas
socioeconómicas, assentes no seu paradigma de Univer(sc)idade do saber da cultura, das
artes e das letras, permitindo estabilizar uma população de 200 mil habitantes, decuplicando-
-a desde o final da Segunda Grande Guerra.
No caso de Coimbra, a universidade desenvolvia ações e práticas de intervenção sobre
o património, promovendo a sua proteção e salvaguarda através de operações de interven-
ção para uma integridade dinâmica33 (Zancheti & Loretto, 2015), que tinham vindo a ser
desenvolvidas desde a fase de candidatura. A pertinência desta especificidade, no caso de
Coimbra, assentava no estatuto paradigmático que alguns dos espaços inseridos na UC-AS
PM (22/06/2013) assumiam, independentemente da sua realidade – em ruína, em projeto
e em fase de obras de requalificação. Com efeito, algumas intervenções em espaços PM,
71 // Lugares e territórios: património, turismo sustentável, coesão territorial
só seriam terminadas depois da data de inscrição do bem na LPM, criando uma lógica
de continuidade – acrescentando valor ao existente – e assente no processo evolutivo e
transformativo do espaço que antes de ser, já era património.
31
Dos prémios e distinções obtidos, pela intervenção no património universitário cisneriano e na cidade de Alcalá
de Henares, sublinham-se em 1994, o Prémio Europa Nostra; em 1996, o Prémio do Ano do Meio Ambiente
(União Europeia); em 1998, inscrição na LPM (UNESCO) da URHAH; e em 2005, a Distinção de Honra do
Colégio Oficial de Arquitetos de Castela-La Mancha. Cf. (Rivera Blanco, 2014; Vallhonrat, 1997).
32
A partir de 1979, a UA ia adquirindo edifícios com valor histórico em Pastrana e em Sigüenza, de modo a
potenciar e a alargar a oferta académica e cultural. Esta condição tornava este caso particular na realidade
espanhola, em que uma universidade se estendia geograficamente por duas Comunidades Autónomas (Casa
Martín & Garcia Bodega, 2014).
33
Sobre esta abordagem, ver Capela de Campos, J e Murtinho, V. «Paisagem Urbana Histórica, a Lusa Atenas
como matriz cultural de Coimbra», no presente número da publicação do Centro de Estudos Ibéricos.
Em algumas dessas e de outras intervenções, a transformação do espaço ia sendo assumida
para a sua adaptação às exigências dos novos modos de ensino e de usos académicos contem-
porâneos, permitindo que a continuidade no uso pudesse ser enfatizada como recurso eficaz
de manutenção34. Cumulativamente, era necessário garantir a conservação e manutenção dos
espaços académicos para o normal funcionamento das suas atividades e, ainda, considerar a
afluência dos visitantes, que segundo os dados disponíveis, tinham vindo a aumentar35.

Figura 3. Vista sobre Coimbra para sul do complexo do Paço das Escolas.
Fotografia: Joana Capela de Campos, 2017.
72 // Lugares e territórios: património, turismo sustentável, coesão territorial

34
Eram disso exemplos, as intervenções realizadas no complexo do Paço das Escolas, no Laboratório Químico
(Museu da Ciência), no Colégio da Santíssima Trindade (Casa da Jurisprudência da Faculdade de Direito)
ou nas Estufas do Jardim Botânico, na Alta e no Colégio da Graça (Centro de Documentação 25 de Abril e
Centro de Estudos Sociais), na Baixa, entre outros.
35
A título de exemplo, os dados até 31/12/2016 informam que havia 442 510 visitantes aos vários espaços
turístico da UC, com maior incidência, sobretudo, na Biblioteca Joanina no complexo do Paço das Escolas.
Cf. (Capela de Campos & Murtinho, 2017a; Moreira, 2017). Esta realidade, acrescida de publicidades
mediáticas e cinematográficas (nomeadamente, pela utilização do modelo da Biblioteca Joanina no filme
A Bela e o Monstro (2017), do realizador Bill Condon e produção da Disney), deveria ser considerada para
uma gestão equilibrada destes números sobre estes espaços, tendo em conta o seu impacte sobre o patrimó-
nio, nomeadamente, aquele que continua a ser mais suscetível de perdas irreparáveis, pela sua especificidade
e pelas suas condicionantes e circunstâncias, como no caso da Biblioteca Joanina.
Em estudos já realizados para a UC-AS, onde se procurava fazer «um balanço sobre o
processo transformativo visível e consequente da candidatura e título PM» (Capela de Campos
& Murtinho, 2017a, 2017b), seriam verificadas algumas considerações, nomeadamente, o pa-
ralelismo e a complementaridade entre os processos de proteção e salvaguarda do património
com o desenvolvimento urbano na área urbana de influência do bem. A oportunidade gerada
a partir de uma candidatura patrimonial era assumida como um propulsor de algumas ativida-
des económicas, como o turismo ou a construção, sendo que, seja expectável por contamina-
ção, um investimento na reabilitação e requalificação urbana geradas por novas vivências (Fig. 3),
usos e comportamentos socioculturais urbanos, tanto pelo setor público como pelo privado.
Esta realidade traduzia-se no investimento verificado na área urbana considerada, ao nível do
setor público, pela requalificação dos espaços públicos, de infraestruturas e de equipamentos
socioculturais, fortemente impulsionados pela municipalidade. Adicionalmente, também o
setor privado vinha a acompanhar esta evolução no investimento dos recursos, sobretudo
pelas dinâmicas da requalificação urbana que se verificavam sobre a reabilitação do parque
habitacional e sobre o desenvolvimento de serviços, sobretudo, direcionados ao setor turístico.
Além disso, verificava-se que a oportunidade gerada pela inscrição da UC-AS na LPM,
ou seja, pela valorização de um VUE com um mediatismo internacional próprio nestas
dinâmicas e que potenciavam um aumento do número de visitantes nesses lugares PM
(Salazar, 2010), tinha sido aproveitada e gerida, também por uma perspetiva regional e ter-
ritorial, como eram evidência alguns projetos do Turismo do Centro, que estava a apostar
nos quatro Lugares Património Mundial do Centro de Portugal36.

Considerações finais

Pensar o património, não como uma memória do passado, mas antes um ativo da
contemporaneidade para o futuro, permite estabilizar uma plataforma de diálogo entre
gerações, que vão recebendo, usando, e acrescentando valor ao existente. Desta forma, 73 // Lugares e territórios: património, turismo sustentável, coesão territorial

conhecer cada caso, contextualizando e enquadrando a sua evolução antes e depois de um


processo de candidatura, permite compreender os critérios evocados para a justificação de
um valor reconhecido. Neste trabalho é sublinhada a importância do papel da Península
Ibérica, na história cultural europeia e mundial, por ter um património universitário
único, reconhecido internacionalmente.
Já em 2009, a Direção Geral do Património Cultural promovia um projeto denominado Rota dos Mosteiros
36

Património da Humanidade da Região Centro, aprovado no âmbito do eixo estratégico da valorização do es-
paço regional do Programa Operacional Regional do Centro – MaisCentro, dentro do Quadro de Referência
Estratégico Nacional (QREN) de 2007 a 2013, onde estruturava apoios de intervenção sobre os então três
casos PM do Centro: o Mosteiro da Batalha e o Convento de Cristo em Tomar (1983) e o Mosteiro de
Alcobaça (1989). Cf. (Martins & Franca, 2017).
Por outro lado, o conhecimento produzido sobre cada caso, inerente a um processo
de candidatura, permite equacionar as várias prioridades numa gestão integrada, sobre o
património, como também, sobre o seu contexto urbano, numa ideia de continuidade da
fruição do património inserido em contexto urbano. Deste modo, é possível deduzir que o
reconhecimento de um VUE no âmbito da UNESCO, tanto pela comunidade como pelas
entidades locais, nacionais e internacionais, deve ser considerado um ativo, quer para uma
gestão sustentável de um sítio PM, quer pelo seu contributo na participação em protocolos
de planeamento e gestão integrada para uma maior coesão territorial.
No domínio e âmbito do PM verifica-se que as ações de proteção e salvaguarda, sobre
um património reconhecido pelos diversos agentes, potenciam uma transformação nas
dinâmicas socioeconómicas dentro do seu território de influência. A pertinência no es-
tudo destes exemplos justifica-se na articulação do entendimento e do conhecimento da
conformação espacial com os protocolos de gestão destes bens, dominados pelas relações
espácio-sociais subordinadas às diversas geografias e, por isso, cheias de especificidades
próprias do lugar e de cada território.
Este trabalho pretendeu estabelecer uma reflexão, baseada na analogia entre os
dois exemplos ibéricos inscritos na categoria das Universidades, na LPM – URHAH e
UC-AS –, a partir do delineamento estratégico que orientou as duas candidaturas e as
suas respetivas influências no desenvolvimento de dinâmicas socioculturais e económicas,
nos seus territórios de influência.
Num primeiro momento, contextualizou-se cada um dos bens, no âmbito da
UNESCO, aferindo que Alcalá de Henares e Coimbra assumiram um compromisso e
uma responsabilidade num plano internacional, ao afirmarem a proteção e a salvaguarda
do património como projeto de futuro. Este tópico permitiu aferir as convergências for-
mais entre os dois casos de estudo: os mesmos critérios de justificação do VUE; a mesma
categoria de inscrição; e o mesmo desígnio de proteção e salvaguarda do património.
Todavia, num segundo tópico, verificou-se que os dois casos apresentam divergências
74 // Lugares e territórios: património, turismo sustentável, coesão territorial

intrínsecas, decorrentes de acontecimentos e dinâmicas próprias, enquadrados pelas va-


lências históricas, geográficas, políticas e socioculturais únicas e específicas de cada caso.
Ainda assim, é sobre o mesmo desígnio de proteção e salvaguarda do património que
tecem as suas diretrizes para estabelecerem o compromisso e a responsabilidade de futuro.
No entanto, essas diretrizes são estipuladas, no caso espanhol, num processo de continui-
dade com aquilo que já estava a ser feito e, no caso português, como eixo estratégico e,
portanto, gerador de dinâmicas de desenvolvimento urbano.
Para finalizar, verificou-se que se a influência das candidaturas nas dinâmicas urbanas
foi consequente num plano material inerente a dinâmicas de reabilitação e requalificação
dos vários espaços públicos e privados, também o foi num plano imaterial subjacente a
dinâmicas estipuladas por novas práticas socioculturais, de uso e de apropriação do espaço,
próprias da contemporaneidade.
A produção de conhecimento sobre estes casos, onde o bem patrimonial está inserido
num contexto urbano, pode ser um estímulo para que, cada vez mais, seja possível uma par-
ticipação ativa de todos os intervenientes em relação àquilo que, por princípio, é de todos.
Por conseguinte, esta analogia pretendeu, também, ser um contributo para se conhecer me-
lhor estes exemplos, que viram reconhecido um VUE, não só pela sua qualidade no passado,
mas, sobretudo, pela sua possibilidade de futuro como centros dinamizadores de cultura e
de cidades do saber, por uma inter-relação de continuidade do paradigma univer(sc)idade.

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77 // Lugares e territórios: património, turismo sustentável, coesão territorial


De Floresta a Fábrica, de Fazenda a Floresta:
Paisagem Cultural e Desafios à Preservação
da Memória no Interior do Brasil

Rita de Cássia Lana


Universidade Federal de São Carlos (UFSCar)

Introdução

O objetivo deste texto é apresentar a problemática que subjaz a uma paisagem cultural
de interesse turístico em um espaço específico, portador de significados da herança cultural
na região de Sorocaba, estado de São Paulo – Brasil; trata-se do caso: a) dos remanescentes
de patrimônio arquitetônico-industrial da Real Fábrica de São João do Ipanema, criada
por Carta Régia de D. João VI em 04 de dezembro de 1810, um conjunto de edificações
tombado pelo IPHAN e internacionalmente reconhecido; b) registros documentais e icônicos-
-fotográficos dos processos sócio-econômicos que produziram a chamada “Revolução
Verde”, em meados do séc. xx, neste mesmo espaço da chamada Fazenda Ipanema e c) dos
significados sobrepostos a estas camadas de memória com o advento da unidade de conser-
vação Floresta Nacional de Ipanema no início dos anos 1990 na mesma paisagem cultural.
Assim, pode-se dizer que se este espaço físico-natural originalmente recoberto pela
79 // Lugares e territórios: património, turismo sustentável, coesão territorial
Mata Atlântica foi habitat de etnias indígenas sucedidas pelos colonizadores portugueses e
espanhóis interessados nas riquezas de seu subsolo, situação que durou de 1597 até 1810,
quando se tornou a Real Fábrica de Ferro, convertendo-se na virada do século xx na
Fazenda Ipanema e chegou às primeiras décadas do século xxi como Floresta Nacional de
Ipanema, estamos diante de uma superposição de camadas históricas de densidade variada
e ao desabrigo de políticas de preservação destes muitos componentes que refletem mais
de 500 anos de história e cultura neste local único.
Pelo que oficialmente se estabeleceu em termos da legislação sobre patrimônio histó-
rico cultural brasileiro, existe proteção por processo de tombamento do IPHAN/Instituto
do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional ao conjunto de remanescentes da Real
Fábrica de Ferro desde 1964; esta proteção diz respeito a uma área delimitada no docu-
mento técnico e que inclui o conjunto de edificações e ruínas que foram posteriormente
objeto de restauros parciais, por diversas vezes; entretanto, nunca se logrou que ao restauro
e limpeza do sítio histórico se estabelecesse um programa de educação patrimonial con-
jugado ao uso turístico e de lazer bem sucedido, mesmo levando-se em conta o potencial
de uma área em que se poderia falar da história do país desde a colônia até o advento da
república (ainda que se deva ressalvar as iniciativas de prover qualificação para que os guias
que atuam nas trilhas naturais da Floresta Nacional informem aos visitantes dados sobre o
passado industrial da unidade de conservação).
Por outro lado, o decreto 530 que criou a unidade de conservação na categoria de
Floresta Nacional em 1992 colocou os termos de uso, preservação e exploração do local
e de seu subsolo, inserindo-a no sistema mais amplo de gestão pelo Ministério do Meio
Ambiente que se denomina SNUC – Sistema Nacional de Unidades de Conservação; den-
tro da lógica que é vigente neste aparato legal, cada unidade de conservação deve ter um
plano de manejo, documento que rege e orienta todas as ações que são permitidas aos ges-
tores e à comunidade de visitantes, inclusive contemplando objetivos de pesquisa e edu-
cativos, bem como de lazer e turístico, usos econômicos e extrativos, etc. Como a Floresta
Nacional compreende a área maior da Fazenda Ipanema e o sítio dos remanescentes da
Real Fábrica de Ferro está inserto nela, tem-se uma situação em que dois instrumentos de
proteção, oriundos de fontes legais separadas, se sobrepõem.
Ao contrário do que poderia parecer óbvio, não houve uma sinergia imediata entre os ór-
gãos responsáveis pela gestão conjunta da FLONA de Ipanema e sítio histórico da Real Fábrica
que se refletisse em termos de visitação e oferta de produtos turísticos e educativos; o que se
viu ao longo dos últimos vinte e cinco anos, ou seja, desde que houve a criação da unidade de
conservação, foi um suceder de desencontros entre os gestores, pontuado de períodos curtos
em que tentativas de ações conjuntas se perderam ou foram paulatinamente abandonadas.
Esta avaliação se apóia em primeiro lugar no que se encontra nos documentos dos ór-
80 // Lugares e territórios: património, turismo sustentável, coesão territorial

gãos responsáveis (ICM/BIO, pelo Ministério do Meio Ambiente e 9a.Superintendência do


IPHAN, pelo Ministério da Cultura), mas também pelo que não está dito nas homepages
destes órgãos e principalmente no sítio eletrônico da FLONA de Ipanema. Desde 2005 a
autora acompanha em visitas anuais a situação in loco bem como através de notícias em peri-
ódicos da região e contato direto com pesquisadores e funcionários que atuam na unidade de
conservação. Este percurso levou a algumas reflexões que vão a seguir e como se chegou a elas.
Aponta-se que para além da denominação do patrimônio “de pedra e cal” ou edificado
e a pretensa intangibilidade do meio natural (de resto fabricada, pois a Mata Atlântica ori-
ginal foi completamente devastada e recomposta posteriormente por ação humana) está a
se exigir um avanço nas concepções para o estabelecimento de relação do físico/natural com
seu oposto/complementar, qual seja, o legado intangível que recobra visibilidade através da
execução e manutenção de técnicas, elaboração de produtos e práticas que modificam o
espaço natural, convertendo-o em paisagem cultural: marca da ação humana no território
ao longo do tempo; repositório de afetividades e conflitos que converte um local em lugar,
espaço impregnado pela memória das gerações passadas que se endereça ao futuro.

Notas para a discussão da imaterialidade e sua aplicação ao caso


da Fazenda Ipanema

O patrimônio cultural gerado pelas atividades econômicas agro-industriais no Brasil


é tão plural quanto desconhecido em seus aspectos mais recentes e característicos; de fato,
se a história das técnicas tem revelado um potencial para desvendar particularidades de
práticas do cotidiano das populações em um passado remoto, é inquietante constatar o
interesse ainda incipiente que as técnicas surgidas contemporaneamente e seus registros
despertam. A inquietação se justifica pelo ritmo acelerado das inovações que na sociedade
atual faz desaparecer formas de viver e de fazer, substituindo-as total ou parcialmente em
questão de poucos anos, e também pela falta de preocupação em registrar aquilo que se
torna obsoleto. Em relação a certas práticas cotidianas do século xix e xx, seus instrumen-
tos de uso diário, conhecimentos implícitos na utilização dos mesmos e como estes eram
difundidos paira um silêncio, uma ausência de informações para além das generalidades
– e que se torna tanto mais espesso quanto mais se aproxima o final do século passado.
Ao examinar o caso dos patrimônios em risco na Floresta Nacional de Ipanema,
pressupõe-se estabelecer de que condições e características se depreende a análise em
curso. Desta forma, apresenta-se alguns dados para situar o espaço e suas peculiaridades.
Para um entendimento do que constitui o espaço representado na Figura 1, rememore-
-se algumas marcas culturais ao longo da ocupação humana neste local:
81 // Lugares e territórios: património, turismo sustentável, coesão territorial
– Vestígios de sítios arqueológicos pré-históricos;
– Trechos de caminhos usados pelos indígenas anteriores à chegada dos europeus,
usualmente designados como peabirus;
– 03 trilhas que se encontram, segundo o zoneamento da unidade de conservação na
chamada “área primitiva”, quais sejam:
a) Trilha de Afonso Sardinha – a partir do Sítio Histórico existe um percurso de 1.600m
que acompanha o Ribeirão do Ferro e leva até ruínas da primeira tentativa para extração
de minério na área do Morro de Araçoiaba, chamados “Fornos de Afonso Sardinha”; esses
fornos eram do tipo direto, como se vê na Figura 2 e constituem o que restou do empre-
endimento levado a frente por volta de 1597 pelo bandeirante Afonso Sardinha; de acordo
com Zequini (2007), foi a primeira tentativa de instalar uma fábrica de ferro no Brasil de
que se tem registro:

Figura 1. Localizaçâo da Flona de Ipanema:


Coordenadas geográficas: 23º 25’ 49”S; 47º 37’ 22”O
82 // Lugares e territórios: património, turismo sustentável, coesão territorial

Figura 2. Foto do Sítio Histórico Afonso Sardinha


Fonte: Luciano Bonatti Regalado/Cruzeiro do Sul, 2011
b) Trilha dos Fornos de Cal: derivando da trilha de Afonso Sardinha, tem cerca de
1.500 metros e passa por onde havia fornos de produção de cal no século xix, atravessando
por trechos de mata reconstituída.
Trilha da Pedra Santa/Cruz de Ferro da Pedra Branca e Monumento à Varnhagen: é
uma trilha de 06 quilômetros em subida para um mirante no topo do Morro de Araçoiaba,
de onde se descortina a região do entorno amplamente em dias claros; aproximadamente
na metade da subida encontra-se uma saliência rochosa na qual teria habitado um monge
eremita, de acordo com crenças populares capaz de realizar curas milagrosas – daí vem o
nome “pedra santa” e permanecem ainda sinais de culto, inscrições semi-apagadas além das
tradições que ligam a figura do monge a outro religioso considerado santo que teria surgido
na região do Contestado, Santa Catarina, no período inicial do século xx. Além do mirante,
o final da trilha conduz ao Monumento dedicado à Varnhagen, diplomata brasileiro que
nasceu no local e é considerado o pai da história do Brasil, como se pode ver na Figura 3:

83 // Lugares e territórios: património, turismo sustentável, coesão territorial

Figura 3. Vista do Monumento à Varnhagen


Foto de Divulgação/Prefeitura Araçoiaba da Serra
– Um Sítio histórico, na chamada “Zona de Uso Público”, em cujo espaço encontram-se as
seguintes edificações: Alto Forno Mursa, Altos Fornos Geminados, Antiga Sede Administrativa,
Casa da Guarda, Casa das Armas Brancas, Cruz de Ferro, Depósito de Arreios, Fornos de
Carvão, Ponte Articulada, Relógio de Sol, Represa Hedberg, Oficina de Modelagem, Engenho
de Serrar e Cemitério Protestante; esta enumeração encontra-se na homepage do ICMBio,
juntamente com a seguinte advertência ao possível interessado na visitação: “Devido a loca-
lização e apelo visual, o Sítio Histórico, mesmo que não seja percorrido em toda a sua extensão,
e nem mesmo seja a motivação original do visitante, é uma área de visitação obrigatória durante
sua permanência na UC.” (sublinhado meu). Também se encontra em alguns locais da mesma
homepage a denominação de “Trilha do Sítio Histórico”, com a informação de que para este
“percurso” não há necessidade de guia, sendo esta uma “opção” do visitante”.
Ainda haveria que mencionar a existência no espaço da FLONA de Ipanema de outra
localidade de povoamento, a Vila Smith e também as instalações de diversos momentos do
século xx para atividades de exploração dos minerais no subsolo, além do desenvolvimento
de implementos e insumos agrícolas, seja de sementes, maquinário e técnicas que permi-
tiram alcançar modernização de padrões nas atividades, assim como o período dedicado à
escola de pilotagem de aviões agrícolas que impulsionaram o aumento na produtividade
do campo brasileiro a partir da metade final do século xx.
A partir daqui já se pode retornar ao que foi sugerido no início deste trabalho: que ine-
xiste uma sinergia entre os órgãos que atuam como gestores no caso da FLONA de Ipanema,
embora haja funcionários (como no passado também houve) que demonstram dedicação e
procuram ir muitas vezes além de seus deveres para solucionar problemas graves de conser-
vação tanto do meio natural quanto dos edifícios que constituem o patrimônio histórico.
O plano de manejo da FLONA de Ipanema, como seu documento de diretrizes e
normas foi revisto recentemente (a última revisão data de 2017) e traz algumas diferenças
interessantes em relação a planos de manejo anteriores. O diagnóstico que é feito neste
documento continua apresentando inconsistências e omissões de questões que se referem
84 // Lugares e territórios: património, turismo sustentável, coesão territorial

ao Sítio Histórico, mas tem sido mais detalhado e cuidadoso com outros dados sobre o
que ocorreu no local durante os anos de gestão do Ministério da Agricultura (praticamente
o século xx todo) e também ao tratar das pretensões de empresas de mineração de forma
mais aberta, balizada e esclarecendo riscos ao ambiente natural que diversas atividades
antrópicas acarretam. Sem dúvida estas alterações representam um sinal de que há uma
intenção de caminhar para um trabalho mais integrado com órgãos como o IPHAN, mas
o equacionamento para que isto venha a ocorrer não parece ser evidente pelo teor dos
documentos e do material em disponibilidade ao público para divulgação.
Tanto é assim que a definição sobre o que seria paisagem cultural (entendida aqui
como uma soma das atividades humanas e do meio natural que vai produzir singularidades
e diversidade ao que o olho captura, proporcionando a emergência de afetividades e assim
possibilitando caminhos para a educação patrimonial e ambiental) não aparece de forma
clara no documento de manejo, mas antes sinaliza visões que ainda carregam preconcei-
tos e estereótipos românticos acerca do que merece ou não ser preservado no âmbito da
FLONA de Ipanema.
A linguagem trai o que há de contradição neste caso: o Sítio Histórico, citado várias
vezes no volume de diagnóstico do plano de manejo como “de rara beleza”, compondo um
todo harmônico com a paisagem do Morro de Araçoiaba é tratado nas instruções aos visi-
tantes com o menoscabo de “não necessita de guia, sendo opcional”; então a história seria
auto-evidente ou algo opcional? Os elementos de sinalização (placas e totens) que estão
disponíveis nos locais que integram o sítio histórico são parcos de informação e muitas
vezes limitam-se a dizer o nome e dar alguma referência vaga sobre que tipo de atividade
ocorria no espaço, faltando dados de que função tinha no todo maior da organização do
ciclo metalúrgico, como as camadas de sentido de outras atividades se sucederam ao longo
dos anos e reaproveitaram determinadas configurações espaciais, até que se tornaram tão
estranhas que o abandono foi completo e muito se perdeu.
Por outro lado, o volume que se destina ao planejamento no documento de manejo
parece indicar até com alguma ênfase um passo na direção da atividade turística (indica-se
o uso de diversos edifícios para concessão de restaurante, cafeteria, infraestrutura hoteleira e
pousada(sic), loja de souvenires e assim por diante; naturalmente isto terá que ser proposto
na área histórica por razões diversas, mas a principal é um reconhecimento implícito que a
sustentabilidade financeira e de interesse pela existência da FLONA passará sem dúvida pela
capacidade de atrair visitantes e gerar aportes financeiros diversificados que permitam frear
a deterioração do patrimônio histórico-cultural. Daí a proposição de que a Casa da Guarda
seja destinada aos serviços de café e restaurante e a antiga sede do CENEA se converta em
pousada, como pode ser visto em um dos programas de manejo contidos no plano geral.
E na página 108, que trata de diretrizes para o programa da área de uso público, i.é.,
85 // Lugares e territórios: património, turismo sustentável, coesão territorial
do sítio histórico principalmente, pode-se ler como atividades a serem desenvolvidas:
“– Apresentação de espécies notáveis da fauna, acompanhadas de ilustrações ou fotos, com
destaque para as espécies endêmicas e /ou em extinção;
– Apresentação sucinta dos principais aspectos históricos e culturais da Flona e
região;(...)”(sublinhado meu)

A discrepância entre o tratamento dos conteúdos naturais e sócio-culturais fica es-


cancarada neste ponto; para tratar de mais de quatrocentos anos de história do local e
da região bastará uma apresentação sucinta – outro exemplo de que a gestão se esforça
para atingir algo além do que tem sido feito, mas se compromete negativamente nestes
pequenos detalhes que acabam por revelar a concepção que subjaz ao pensamento dos ela-
boradores/gestores deste espaço natural e do patrimônio histórico-cultural aí depositado.
Retornando ao debate sobre a imaterialidade, chega-se ao ponto que importa destacar:
não se trata de investir dinheiro para restaurar edifícios industriais meramente pela beleza ar-
quitetônica ou singularidade do exemplar colonial, de que sem dúvida os remanescentes são
detentores, mas de devolver-lhes os sentidos das lides humanas que animaram o seu interior,
de trazer à memória das novas gerações formas de vida que não possuem mais que registro
empoeirados adormecidos em arquivos distantes; trata-se de a partir de documentos de
época ou de especialistas nas temáticas dos ofícios exercidos na Fazenda Ipanema e na Real
Fábrica de Ferro, inumar práticas e labores que novamente darão a medida o engenho huma-
no em sua faina de séculos para atingir o patamar de conhecimentos no qual nos achamos.
Como se vê na figura 4, é possível ter indicações sobre aparatos e funcionamento
de diversos edifícios que funcionavam na Real Fábrica de Ferro, em muitos artefatos
nela produzidos estampados apenas com a sigla FFI. O que ressalta no desenho mi-
nucioso de Dupré é o aproveitamento dos desníveis da represa Hedberg para gerar
energia e resfriamento das máquinas em operação; infelizmente, os canais que condu-
ziam as águas nesse trajeto estão enterrados por episódios de períodos chuvosos que
trouxeram cheias e deixaram submerso grande parte do sítio histórico, como se pode
ver em imagens até recentes.
86 // Lugares e territórios: património, turismo sustentável, coesão territorial

Figura 4. Carta topográfica do Distrito de Ipanema, de Leandro Dupré. Foto da Acervo da Autora
Figura 5. Represa Hedberg. Jornal Cruzeiro do Sul/Foto:Emidio Marques, 2012

Como não oferecer ao público, ao visitante da FLONA de Ipanema alguma explicação


sobre o quanto se pode compreender do desenvolvimento de questões do mundo con-
temporâneo e dos caminhos que nos trouxeram ao século xxi ao passar por estes edifícios
mudos mas tão eloquentes? Na imaterialidade da técnica reside a humanidade das gerações
que a praticaram e depuseram suas esperanças de melhorias para as gerações vindouras; daí
também se elevam as vozes dos trabalhadores que se gastaram em existências extenuantes,
87 // Lugares e territórios: património, turismo sustentável, coesão territorial
fossem homens escravizados por outros ou pela própria vontade de arrancar segredos de
uma natureza ainda desconhecida em parte, como o foi Varnhagen pai. O patrimônio
industrial se converte em uma arqueologia não apenas de artefatos e máquinas, mas dos
cotidianos de diferentes grupos sociais em busca da sobrevivência diária.

Se o espaço revelar o tempo – uma fagulha de esperança

Em 2009 foi criado o NEHA – Núcleo de Estudos Históricos e Ambientais, no âm-


bito da chefia da FLONA; trata-se de uma iniciativa para reunir e buscar salvaguardar
objetos, livros, documentos e muitos outros itens de tipologias museológicas diversas que
pudessem lançar luz sobre o passado deste local fascinante, onde camadas de significações
e dados históricos se adensam, formando um notável emaranhado de ações que se entre-
laçam ao fio central da história nacional mas que também se conectam com as cidades do
seu entorno: Sorocaba, Iperó, Araçoiaba, Capela do Alto, Bacaetava. No seu sítio eletrônico
explica-se sua intencionalidade:

“O Centro de Memória de Ipanema tem sua origem no Núcleo de Estudos


Históricos e Ambientais criado por meio da Portaria FNI nº 01/2009 publicado no
Boletim de Serviço do ICMBio em 21 de Setembro de 2009. A partir da publicação
da Portaria FNI nº 03/2012, de 06 de novembro de 2012, o Núcleo de Estudos
passou a ser denominado de Centro de Memória de Ipanema, apresentando os
seguintes objetivos:​​
– Localizar, recolher, recuperar, reproduzir, organizar e conservar a documenta-
ção referente aos aspectos históricos e ambientais da Floresta Nacional de Ipanema e
da região onde se encontra inserida;​
– Promover a integração de profissionais e interessados na discussão de temas e
assuntos históricos e ambientais ligados à Floresta Nacional de Ipanema;
– Organizar e implantar acervo histórico, banco de imagens e biblioteca
temática;
– Disponibilizar para consulta pública as informações por meio de instrumentos
de pesquisa;
– Colaborar em programas e atividades culturais e educativas com a finalidade
de preservar e divulgar a memória histórica da Floresta Nacional de Ipanema.
– Colaborar na implantação, preservação e divulgação da memória institucional
do ICMBio.” (disponível em: http://memoriafni.wixsite.com/memoriaipanema/criao)
88 // Lugares e territórios: património, turismo sustentável, coesão territorial

Muita coisa se achava guardado na própria FLONA, mas sem acondicionamento ade-
quado e em condições que propiciavam a deterioração acelerada. A parte iconográfica era
uma das mais atingidas, pois o material fotográfico não dispunha sequer de sala para que
fosse pelo menos colocado em separado e pudesse ser higienizado e tratado. Algumas des-
tas imagens podem ser vistas por vezes em reportagens que jornais da região publicam, mas
se encontram ainda dispersas por acervos particulares muitas vezes e com risco de serem
descartadas, como por exemplo o registro da paisagem feito na FIGURA 6:
Figura 6. Vista aérea da Vila de São João do Ipanema. Fonte: Venedável Acosta, 1978

Com a perspectiva de ações preservacionistas destes suportes da memória, em 2012


o NEHA passou a ser o Centro de Memória da FLONA de Ipanema, com atividades de
exposições, pesquisas e palestras bem como práticas de conservação preventiva de acervos.
Seus fundos reúnem itens bibliográficos, iconográficos, cartográficos, museais e também
de multimedia, que através de parcerias com especialistas diversos vem sendo catalogados,
escaneados, classificados e estudados. Ainda está se constituindo e resta esperar que a re-
visão do Plano de Manejo venha a impulsionar esta perspectiva de entender a paisagem
89 // Lugares e territórios: património, turismo sustentável, coesão territorial
cultural da FLONA de Ipanema pelas suas múltiplas faces, sem que nenhuma prevaleça
sobre a outra, pois todas são essenciais para entender cada um de seus nuances.
Como já indiquei alhures, parece que ao se examinar as peculiaridades da relação espaço-
-tempo à luz das lembranças que podem estar contidas em um determinado ambiente se
afirma a tese: “O espaço esconde o tempo”, isto é, ver o espaço em seu estado atualizado
é não ver tudo o que este mesmo espaço já foi, sua trajetória no tempo. A memória, frag-
mento do tempo resgatado ao esquecimento, é diretamente atingida por esta consideração.
Elevar um momento específico do espaço ao estatuto de patrimônio, de lembrança dotada
de valor coletivo significa, antes de mais nada, relegar todos os outros momentos ao limbo,
à desvalia do olvido. Outro perigo ainda se apresenta na espinhosa tarefa de gerenciar o
patrimônio sem despojá-lo de seu potencial transformador e formador de consciência: a
recuperação do conhecimento em termos de know-how, do saber fazer das práticas diárias
(das quais o espaço é suporte), e que em muitos casos é só o que pode vir a ser conhecido
de uma imensa massa de indivíduos que desapareceram sem deixar qualquer outro traço
biográfico. Reconhece-se já de algum tempo que o mundo do trabalho é o principal con-
formador de boa parte do imaginário das populações e que os usos e costumes em seu
âmbito são pistas preciosas para conhecer um passado ainda por ser estudado.
No Brasil de forma geral e no caso da FLONA de Ipanema em particular necessário é
que os gestores se dêem conta do que se torna essencial para que se possa superar o dilema
em que se encontra o patrimônio das práticas industriais e agro-industriais nas últimos qua-
trocentos anos; também é relevante perceber que o tratamento deste tema pode ser interes-
sante para o entendimento de como ainda não se desenvolvem políticas públicas para certas
áreas da memória social, que sofrem o estigma de não serem entendidas pelos agentes públi-
cos como portadoras de valor coletivo e de significados a serem recuperados e preservados.

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91 // Lugares e territórios: património, turismo sustentável, coesão territorial


A alteração da paisagem na Mina de São
Domingos como problema metodológico:
A valorização do seu património para um
turismo industrial insustentável

Vanessa Alexandra Pereira


Investigadora associada do Instituto de História Contemporânea da FCSH/
Universidade Nova de Lisboa

Introdução

A exploração dos recursos geológicos é praticada desde a Antiguidade, com enfoque para
o período romano, que no território português assentou a partir do século I. É, contudo,
com o advento da centúria de Oitocentos, após a moderna industrialização e o consequente
alargamento da sua influência aos diversos territórios, primeiramente europeus e posterior-
mente ao nível global, que a actividade extractiva adquiriu uma dimensão nunca antes observada
na economia mundial. Embora os tempos sejam outros, o estatuto desta indústria ainda hoje
se mantém, por ser principal responsável pelo abastecimento de matérias-primas cruciais ao
desenvolvimento e continuidade de toda a economia – um papel que, que em meados do
século xix, simbolizou o impulso ao arranque das revoluções industriais.
Em Portugal, a modernização das explorações mineiras enquadrava-se na política de 93 // Lugares e territórios: património, turismo sustentável, coesão territorial

fomento da Regeneração1, com os recursos do subsolo funcionando a par de uma eco-


nomia de livre comércio e exportação, como forma de contrapeso na balança comercial
face às contínuas importações de máquinas e matérias-primas, desta feita destinadas ao

Período da Monarquia Constitucional estabelecido depois da insurreição militar de 1851, liderada pelo ma-
1

rechal duque de Saldanha, que promoveu a estabilização do sistema liberal monárquico português (1820-
-1910), após anos de conflito desencadeados pela carta constitucional de 1826. Para romper com o pas-
sado, a Regeneração aclamava como palavra de ordem os valores do Progresso, traduzidos no esforço pela
modernização e fomento do desenvolvimento económico. O mentor desta linha de orientação foi Fontes
Pereira de Melo, o primeiro titular da pasta do recém-criado Ministério das Obras Públicas, Comércio
e Indústria, e a figura central do governo de Saldanha. A sua obra ficou conhecida como o Fontismo.
A Regeneração termina em 1890, quando eclode a crise do liberalismo monárquico.
esforço de modernização nacional (Cabral, 1979). Dado que as suas potencialidades eram
consideráveis e os seus focos de exploração tinham de ser legalmente enquadrados para
constituírem fontes de receita, foi lançada a Lei de Minas de 1852, promotora de grandes
investimentos, sobretudo estrangeiros, e que desencadeou a produção nacional em larga
escala, visando alimentar as indústrias transformadoras da Europa central.
É então que se verifica a modernização do Alentejo. Uma região que, pese a sua gé-
nese agrária, demarcada pela paisagem de trigo e montado, e acompanhada pela baixa
densidade populacional, é também uma terra de contrastes, com dinâmicas que reportam
ao século xix. Nesta época, todo o processo de industrialização nacional já apresentado,
vivia em paralelo com o território espanhol, os efeitos da “febre mineira de Oitocentos”,
fenómeno que intersectou todo o sul da Península Ibérica.
Foi, portanto, da conjugação de inúmeros acontecimentos conjunturais, tanto do
panorama interno como externo, e ainda com o surgimento das primeiras notícias em
Espanha que apontavam para a existência de ricos filões de minério naquela zona – já
explorada pelos antigos – que resultou a corrida a essas concessões. A área a explorar
tratava-se da Faixa Piritosa Ibérica2, correspondente ao território compreendido entre o
Baixo Alentejo e a Andaluzia, com 250-300 km comprimento por 30-50 km largura, um
dos maiores chapéus de ferro3 da Europa, e um dos grandes distritos mundiais de metais
básicos, estimando-se que tenha gerado cerca de 1300 milhões de toneladas de minério.
Actualmente, do seu solo conhecem-se aproximadamente 90 jazigos que têm na pirite
a sua principal mineralização. Em quadros económicos distintos, das suas explorações,
extraía-se o cobre e o enxofre, reportando isto aos perfis industriais que historicamente a
caracterizaram4.
Perante este quadro, o Alentejo conheceu focos de desenvolvimento industrial ímpa-
res, transitando da paisagem do trigo e montado para uma industrialização efectiva, com
especial destaque para a exploração dos seus recursos minerais. E em estrita simbiose com
o país vizinho, que prosperava com as minas de pirite em Tharsis e Rio Tinto, Portugal
94 // Lugares e territórios: património, turismo sustentável, coesão territorial

tinha no distrito de Beja, especificamente em Aljustrel e São Domingos, os seus grandes


bastiões no palco internacional.

2
Zona geológica formada por acção vulcânica há cerca de 359 milhões de anos.
3
Nome atribuído à parte mais superficial e exposta de um filão mineral, que consiste na visualização de uma
rocha intensamente oxidada, erodida ou decomposta.
4
A indústria mineira da Faixa Piritosa Ibérica obedecia a rigorosos ciclos económicos, dependendo directa-
mente do aproveitamento útil da matéria extraída. Numa primeira fase, a extracção realizava-se em exten-
são; posteriormente, a alteração do paradigma obrigou a que a extracção fosse feita em profundidade, numa
lógica de aproveitamento do minério pobre, como o enxofre destinado à produção de ácido sulfúrico.
O legado da indústria e a modificação da paisagem

Ora, a mina de São Domingos foi a mais paradigmática exploração de pirite à es-
cala nacional, ainda que situada em plena linha fronteiriça, na margem esquerda do
Guadiana, concelho de Mértola. Activa entre 1854 e 1866, e tendo materializado a
maior concentração operária da região, em números que alcançaram os quatro milhares
no período de maior produção, constituiu em definitivo a redefinição do concelho, que
foi cenário de uma industrialização absolutamente singular em contexto rural, composto
por especificidades sub-regionais muito contrárias àquele que é o tradicional quadro do
Alentejo profundo.
A prosperidade teve a sua fundação no contexto de origem do empreendimento. Um
investimento metodicamente organizado, congregador de capitais das esferas bancária,
diplomática, industrial e intelectual da Europa, compreensão fundamental para a pre-
missa seguinte. Conhecer a sua instalação industrial com vista à intervenção no presente
é perceber que os laços que ligavam estes homens assentavam numa rede de informação
complexa, um mundo de informação que transcendia a administração mineira e inclusi-
ve as próprias fronteiras geográficas. Um empreendimento que requereu a agilização de
múltiplos critérios, numa obra colectiva de engenharia que para se fazer erguer convocou
os elementos mais avançados da ciência e da técnica, num resultado final representado
perante a modificação definitiva de toda a envolvente. Na sua essência, compreender o
significado daquilo que subsiste hoje é perceber que, para além de uma obra à imagem
do seu próprio tempo, e que nos deixou sinais de um centro de industrialização nacional
equiparado à áurea europeia, também concebeu in loco uma dupla valência: a herança,
tanto na sociedade pós-industrial como na paisagem, enquanto protagonistas directos
do património.
Neste sentido, a mina tornou-se agente activo na criação de um lugar patrimonial
notável, testemunha do nascimento de uma nova comunidade através da sua acção indus-
95 // Lugares e territórios: património, turismo sustentável, coesão territorial
trial, originando uma sociedade simultaneamente rural e industrial. Sobrevém, portanto,
um território revestido por contornos urbanos e industriais, numa terra em constante
transformação, que urge de aprofundamento científico rigoroso com recurso à interven-
ção interdisciplinar. Enquanto herdeira de uma forma de exploração, a aldeia da Mina de
São Domingos é um local de identidade num espaço de transição, que padece de diversos
problemas económicos, sociais e ambientais. Como tal, merece receber uma diversificação
na sua actividade, assente sobretudo na valorização cultural das suas potencialidades natu-
rais e patrimoniais, tendo como componente legitimadora o recurso à memória colectiva,
enquanto elemento agregador de toda a comunidade.
Da comunidade mineira à sociedade pós-industrial

No século xix, o aparecimento das indústrias mineiras apresentava recorrentemen-


te um padrão: a deslocação de grandes massas humanas para os pontos de extracção.
Ganhavam assim vida os coutos mineiros, agregados habitacionais de crescimento rápido,
gerados por via directa da industrialização e destinados a suprir as necessidades daí prove-
nientes (Alves, 1997). Em rigor, um processo de causa efeito associado ao estabelecimento
de grandes indústrias, e o povoado da Mina era o produto da mina industrial. Do povoa-
do sobrevinha a comunidade, fruto de uma experiência industrial intensiva e extensiva.
E nisto, São Domingos distingue-se como um dos polos industriais mais extraordinários
do Alentejo, pois originou e modelou uma comunidade sob o signo da órbitra industrial
subjacente, fruto directo do exercício da sua actividade (Quintas e Pereira, 2017).
Acontece que comunidade e identidade passam são conceitos intrínsecos e têm de ser
atendidos como tal. Para além dos trabalhadores nacionais, laboravam em São Domingos
vários espanhóis, oriundos da província de Huelva, particularmente das suas minas, assim
como ingleses, embora estes desempenhassem funções administrativas. Por sua vez, entre
a comunidade portuguesa, predominavam os alentejanos e algarvios, vindos do panorama
latifundiário alentejana ou das pescas algarvias (Guimarães, 1989). Atendendo à natureza
agrária do Alentejo, o polo industrial da mina de S. Domingos enquanto maior centro
salarial do Baixo Alentejo, era significativo o seu contributo para a economia local e para o
sustento das comunidades em redor. E por este motivo, muitos dos que deixavam o posto
de trabalho acabavam por regressar (Pereira, 2015).
A formação da sociedade concede o mote para a ponte com a identidade social. Nestas
comunidades, todos os trabalhadores eram mineiros. Independentemente da origem geográ-
fica e das funções laborais distintas, todos componham um grupo que tinha como suporte
de vida o mesmo trabalho. Eram pessoas demasiado próximas da mina para que pudessem
constituir um grupo socialmente diferente. O espaço mineiro era tão estruturante quanto
96 // Lugares e territórios: património, turismo sustentável, coesão territorial

o tempo. As relações sociais nascidas em aldeias mineiras transcendiam frequentemente a


esfera dos laços laborais, estendendo-se a ligações de vizinhança e de parentesco. A base
identitária construía-se e reconstruía-se, em função dos ciclos produtivos e das dinâmicas
impostas pelo sector, numa sociabilidade que acabava por espelhar-se na consciência dos
indivíduos e da própria comunidade. Em rigor, foi o imperar daquela que foi empresa
concessionária durante a maior parte da sua actividade, a Mason & Barry, que contribuiu
para o crescimento tanto social como cultural da comunidade, num grau transgeracional
e multigeracional (Guimarães, 1989).
Presentemente, as povoações que viveram em exclusivo da actividade mineira assis-
tem a múltiplos processos de reestruturação, os quais procuram rentabilizar o respetivo
património em torno do desenvolvimento concelhio, essencialmente numa óptica de
aproveitamento para fins turísticos. Nisto, por todas as suas potencialidades, o exemplo
mais evidente na Faixa Piritosa Ibérica é de facto a Mina de São Domingos. Após o fim
da exploração, o seu extenso complexo mineiro foi alvo da mais pragmática destruição in-
dustrial de que há memória no Alentejo. Uma vez recuperada a titularidade da concessão,
a primeira companhia concessionária La Sabina, procedeu ao desmantelamento e demoli-
ção das infraestruturas. Depois disto, o pouco que restou foi gradualmente saqueado por
particulares. Com o passar dos anos, a sua paisagem adquiriu um semblante que evoca
um cenário quase apocalíptico, numa dimensão tal que o património que sobreviveu da
antiga mina é localmente designado como “ruínas”. Independentemente destas asserções,
ele permanece intrínseco à identidade das gerações mais velhas.
Por decorrência da cessação da actividade, principal fonte de subsistência em todo o
concelho, verificou-se um surto de êxodo rural, traduzido num fenómeno de mobilidade
mineira. O destino da população foi a fixação na cintura industrial de Lisboa, ou em alguns
casos, nos países estrangeiros com maior comunidade portuguesa. Desta feita, o elemento
que originou a comunidade foi também o grande responsável pelo despovoamento da sua
aldeia. E até à viragem do último século, aqueles que viveram em São Domingos tornaram-
-se testemunhas da sua fragmentação e da transição do seu paradigma. É nesta medida que
o corolário das sociedades mineiras pós-industriais deve ser tratado com acuidade.

Intervenção territorial do património mineiro

Em Junho de 2013, a Mina de São Domingos foi classificada como «Conjunto


de Interesse Público», naquela que foi a maior classificação de um património em ruí-
nas alguma vez feita em Portugal. O seu território tem como entidades proprietárias,
zeladoras e difusoras, a La Sabina Sociedade Mineira e Turística S.A. (herdeira da so-
97 // Lugares e territórios: património, turismo sustentável, coesão territorial
ciedade mineira de 1855, e detentora de centenas de habitações mineiras na Mina de
S. Domingos e no Pomarão, das instalações industriais, da linha férrea e do palácio
da administração, que em 1996 celebrou um contrato com o Estado Português e a
Câmara Municipal de Mértola, no qual se prevê o planeamento da restruturação das
duas localidades), a Fundação Serrão Martins (constituída em 2004 pela Câmara de
Mértola e a La Sabina, é uma instituição sem fins lucrativos que tem como objectivo
a proteção, conservação, valorização e divulgação dos valores patrimoniais da Mina de
S. Domingos e do seu complexo mineiro) e o Roteiro das Minas e Pontos de Interesse
Mineiro e Geológico de Portugal (iniciativa da Direcção Geral de Energia e Geologia
do Ministério da Economia da Inovação e do Desenvolvimento, e da Empresa de
Desenvolvimento Mineiro SA). Em articulação, actuam em prol do aproveitamento
cultural, turístico, geológico e mineiro da localidade.
Mais recentemente, foi obtido um investimento de 20 milhões de euros, financiados
por fundos europeus, depois aprovada a candidatura do território da mina ao progra-
ma operacional sustentabilidade e uso eficiente dos recursos (POSEUR). Nesta linha, a
Câmara Municipal de Mértola e a Empresa de Desenvolvimento Mineiro (EDM) já ce-
lebraram o acordo de parceria para as obras de requalificação ambiental, com a EDM a
empreender a obra em várias fases, lançadas a concurso. Neste sentido, já se encontram em
curso as primeiras duas fases, num investimento total de cerca de 7 milhões de euros, que
se antevê realizar até 2019.
Por tudo isto, o seu legado industrial, estendido desde a aldeia mineira até ao porto
fluvial do Pomarão no Guadiana, numa extensão de 17 quilómetros, encontra-se cada vez
mais associado às intervenções dedicadas à resolução dos seus problemas ambientais e à
salvaguarda do seu património mineiro.

Sobre o problema metodológico: conclusões para a prática do turismo


industrial sustentável

Para que esta intervenção resulte, é determinante que seja erguida uma ponte entre
a preservação do passado industrial e identitário da localidade, em articulação com a
recuperação ambiental do território, e acima de tudo, um aproveitamento turístico que
atente nestes factores. Sem a confluência destes pontos, não haverá turismo industrial
que perdure.
Os acontecimentos históricos são a primeira premissa da memória. Isto significa que
presentemente não basta unir a comunidade sob um património comum. Importa consi-
derar que são três as gerações ulteriores ao encerramento da exploração, sendo que algumas
98 // Lugares e territórios: património, turismo sustentável, coesão territorial

não têm quaisquer laços com esse mesmo passado industrial. Para existir transferência de
informação, há que estimular a memória. Primeiramente, a identidade da comunidade
tem de ser tratada na fonte, convocando a utilização da história e das suas novas metodo-
logias, como a história oral e a história local. Só fazendo uso correcto da ciência que nos
permite compreender todas as dinâmicas conjunturais estruturantes, é possível intervir
rigorosamente na multidisciplinaridade, fulcral para o tratamento de todas as valências,
avançando-se para o passo seguinte, a educação patrimonial.
Acontece que a realidade de São Domingos contrasta com a conduta praticada nas
minas de Huelva, inscrita numa óptica de educação patrimonial coesa no tocante à uti-
lização das ciências mãe restantes áreas disciplinares, o que se tem demonstrado vital na
valorização e promoção do seu património industrial. O caminho percorrido pelo país
vizinho na implementação do turismo industrial mineiro prossegue com notas de suces-
so, ao socorrer-se dessa educação patrimonial, que é a aplicação directa das intervenções
académicas de excelência. O exemplo de Espanha prima por, na base que sustenta o seu
património, fazer eficientemente a convergência de três vertentes: a da comunidade, o dos
órgãos locais e regionais, e o da academia.
Actualmente, na aldeia muitos dos seus habitantes referem-se ao que resta do gran-
de complexo mineiro como ruínas. Por outro lado, aqueles que visitam a povoação em
lazer, sem vínculo familiares, ignoram a existência do vasto património industrial que se
esconde nas imediações. A existência deste património histórico tem, até então servindo
exclusivamente um propósito: dar a conhecer o nome da terra para o turismo de lazer.
Quando esse objectivo é atingido, o património histórico perde importância, e a sua
critica e conhecimento científicos são abandonados.
Como tal, é extrema a necessidade de um esforço coordenado entre os três vectores
apontados. No entanto, em primeira instância, ele tem de ser encetado pelo poder local
e pelo meio académico, organismos que produzem o estimulo científico e detêm o poder
de decisão, para posteriormente ser possível abraçar a comunidade, integrando-a. É certo
que as transversalidades da temática desta mina criaram uma consciência da sua relevân-
cia, a qual tem sido produtora de estudos que atravessam parte significativa das ciências
sociais e exactas. Contudo, ao invés do modelo espanhol, que opera segundo conteúdos
de rigor, o caso português tem absorvido uma miríade de intervenções muito dispersas na
sua actuação, gerando fracos resultados e até mesmo assumpções erróneas. Não se verifica
uma estratégia delineada, o que tem estado na senda da ausência de multidisciplinaridade
criteriosa. Isto incorre num panorama que não pode ser secundarizado, pois é passível de
ser precursor na construção de quadros mentais falaciosos junto da comunidade; esses
quadros, uma vez incutidos na sociedade pós-industrial, tornam-se reincidentes e derrotam
a educação patrimonial que poderia estar a ser feita.
99 // Lugares e territórios: património, turismo sustentável, coesão territorial
No cômputo final, enquanto devida prática para a intervenção territorial à luz de
um turismo industrial sustentável, há que valorizar, promover, defender e enquadrar a
sociedade pós-industrial da Mina de São Domingos, assim como o seu território urbano
e industrial. É conveniente atender que se trata de uma comunidade em plena mudança
de paradigma, sendo por isso, um espaço de transição. Estamos a falar de pessoas que
sentiram o fim da época industrial, transitando quase de imediato para um contexto
de despovoamento, e presenciaram de imediato ao longo das últimas duas décadas um
“repovoamento”, ainda que sazonal, motivado pela procura do turismo de lazer.
Subsiste então um movimento descoordenado entre a existência do patrimó-
nio industrial, inerente à identidade da comunidade e à sua memória colectiva. Das
mutualidades aqui implícitas, poderão surgir uma série de boas práticas para uma in-
tervenção directa nas suas potencialidades, reforçando a sua competitividade face aos
casos emblemáticos mencionados, através do recurso às raízes do seu património. Afinal,
a Mina de São Domingos é a localidade nascida em redor da exploração mineira que a
baptizou, e só o seu estudo sério e aprofundado permitirá compreender tanto a origem
como as permanências do seu território.
Em suma, patrimonializar não passa exclusivamente, nem deve começar pela recupe-
ração ou tratamento de estruturas físicas e ambientais, mas pelo conhecimento da linha
evolutiva das respectivas dinâmicas históricas e territoriais. Uma barreira que, se ultrapas-
sada, deixará aberto o caminho para a colaboração entre as entidades locais, a academia
e a comunidade. Desse modo, poderá catalisar-se o potencial do território por via de um
turismo interventivo, que não se fique apenas pela componente de lazer. Prosseguindo a
lógica de aproveitamento do crescimento da actividade económica do turismo, poderá
até mesmo ser praticada contemplando-se outros elementos, incrementando o turismo
cultural, científico e/ou académico, que premeie não só o património industrial, mas que
englobe a identidade da sua comunidade.

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103 // Lugares e territórios: património, turismo sustentável, coesão territorial


Anexos

Figura 1. A Corta (inundada através do rompimento das represas após o esgotamento económico da mina)
104 // Lugares e territórios: património, turismo sustentável, coesão territorial

Figura 2. Águas ácidas na Achada do Gamo


Figura 3. A degradação do II palácio do administrador James Mason, situado no
bairro dos ingleses (antes da reconversão em estabelecimento hoteleiro)

105 // Lugares e territórios: património, turismo sustentável, coesão territorial

Figura 4. Estabelecimento metalúrgico da Achada do Gamo


Figura 5. O rio Guadiana e a aldeia do Pomarão (fronteira com a barragem da ribeira de Chança e Espanha)
106 // Lugares e territórios: património, turismo sustentável, coesão territorial

Figura 6. A Tapada Grande, antiga represa industrial n.º 4, materialização do turismo de lazer
La memoria del paisaje.
Marcas sagradas en el paisaje simbólico
de la región Duero-Douro

Pedro Javier Cruz Sánchez


Investigador post-doctoral en la Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD)
Colaborador del Centro de Estudos Transdisciplinares para o Desenvolvimento
(CETRAD)

Introducción

Sobre los conceptos de paisaje sagrado


Ciertos tipos de marcas indican la presencia de fronteras y de límites en el paisaje. En
este sentido, cabe mencionar como en las inmediaciones del monasterio riojano de Valvanera
las denominadas Cruces Blancas, situadas en las inmediaciones a una distancia prudencial del
santuario, se prohibían traspasar las fronteras del mismo a las mujeres desde la Edad Media.
A este respecto un privilegio de Alfonso VI fechado en el año 1092 mandaba que:
(…) conforme establecido el día de la congregación en la predicha iglesia (de
Valvanera) de los obispos D. Sancho, D. García y D. Gomesando y del abad D. Domingo,
que ninguna mujer entre en este término. Del mismo modo ordeno y confirmo que nin-
guna (mujer) entre allí; y si entrare, sea detenida hasta que pague sesentas sueldos al
107 // Lugares e territórios: património, turismo sustentável, coesão territorial
procurador del rey (…). (PÉREZ ALONSO, 1971: 62).

Estas marcas, de las que se constatan multitud de tipos, como tendremos oportu-
nidad de analizar más adelante, se encuentran en el paisaje como hitos, como señales,
formando parte de fronteras, pero también como memoria de diferentes prácticas cul-
turales, según se manifiesta en una bien contrastada ritualidad agraria (ARIÑO, 1992).
Se trata de marcas o huellas que dan cuenta, en la mayor parte de los casos, de unos pai-
sajes dotados de sacralidad, territorios en los que la carga simbólica aparece conformada
a través de multitud de elementos reconocibles, materiales pero también inmateriales,
conformando espacios de notable personalidad que cabe diferenciar de aquellos otros
de naturaleza diferente. Tratamos no solo de paisajes físicos, perceptibles, sino también
de lo que se denominan paisajes inconscientes o paisajes entrópicos o lo que es lo mismo,
aquellos espacios que no llegamos a ver, que escapan a nuestra mirada (CARERI, 2016:
137). Y lo hacemos a partir de una interpretación simbólica del territorio, entendido
este como una representación donde los espacios llenos y los espacios vacíos se alternan,
conformando territorios híbridos, es decir, los paisajes sagrados objeto de nuestro análisis
(ibidem, 24-25).
Con la investigación de los paisajes simbólicos de la región Duero-Douro hispano-
-portuguesa que nos encontramos efectuando en la actualidad1, pretendemos dar cuenta
de este tipo de marcas, a través de su estudio tipológico y de los cambiantes significados
que estas tienen en función de los contextos donde las documentamos. Los objetivos son,
como podemos comprobar, bastante ambiciosos; no obstante, con las presentes notas in-
troductorias pretendemos avanzar en el conocimiento de estas huellas, más o menos inde-
lebles, a través del análisis de los tipos que con mayor frecuencia comparecen en el mundo
rural tradicional, en especial de los contextos, de los espacios, donde éstas hacen acto de
presencia, así como de las intenciones para las que se realizaron. Es una empresa compleja
y somos conscientes, no cabe duda. Ello es evidente al advertir la extensa variedad de tipos
y subtipos que se disponen en el contexto urbano y especialmente en el campo.
El interés en recuperar la memoria de las casi indelebles huellas en el paisaje es alto desde
que ciertos autores se han interesado por la región Duero-Douro y se ha mantenido inaltera-
ble hasta la fecha. En este sentido, este interés se acrecienta en la actualidad atendido el hecho
de que este tipo de paisajes culturales no han de entenderse como conjuntos estáticos cerrados
sobre sí mismos, sino que hay que analizarlos y explicarlos en contextos más amplios, no solo
paleo-económicos y científicos, sino también de rentabilidad cultural y turística, tratando de
integrar los elementos objetos de estudio con los de otra naturaleza – accidentes naturales
destacados, construcciones sagradas, fortificaciones, tradiciones, gastronomía, etc., con el fin
de comprender de una manera holística el paisaje o paisajes culturales del territorio Duero-
108 // Lugares e territórios: património, turismo sustentável, coesão territorial

-Douro y de actuar sobre el mismo posteriormente de una manera integrada.


Nuestro ámbito de trabajo se puede encuadrar, según el Atlas de los Paisajes Agrarios
de España y a un nivel de análisis escalar, dentro del dominio Mediterráneo, una catego-
ría de paisaje que cabe catalogar en los “Paisajes ganaderos mediterráneos” y dentro de
una clase definida como “paisajes de monte mediterráneo, dehesas y grandes pastade-
ros”, uno de cuyas unidades arquetípicas en la comunidad de Castilla y León podría ser

1
Proyecto de investigación post-doctoral titulado: “Paisajes sagrados en la región Duero-Douro. Definición,
catalogación, análisis, procesos de patrimonialización y creación de recursos como generador de riqueza
turística”, de la Escola da Ciências Humanas e Sociais de la Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro,
dirigido por la profesora Maria Olinda Rodrigues Santana.
el Sayago zamorano (MOLINERO, BARAJA Y SILVA, 2013 [1]: 19) y, por extensión,
El Abadengo salmantino.
Como se acepta en la actualidad, la tipificación de los paisajes agrarios, como el que es-
tudiamos, se basa en sus elementos constituyentes, concretados en los campos de cultivo y
los espacios incultos, los núcleos de poblamiento y las infraestructuras viarias, incluyendo
todas las combinaciones posibles y las formas complejas derivadas de éstas (ibidem, 8). En
función de las actividades humanas sobre el paisaje, existen tres categorías de aprovecha-
miento agrario: el cultivo de la tierra, el cuidado de los animales y la explotación forestal,
las cuales en combinación han contribuido de manera intensa a la construcción del pai-
saje. Son además la manifestación visual y patente de la acción de la mano del hombre en
la naturaleza, siendo las propias huellas que imprimen la cultura la transformación a lo
largo del tiempo. Se pasaría así, de un paisaje como concepto amplio derivado del término
latino pagus (campo y tierra pero también el pueblo o la aldea), a otro con matices más
culturalistas, a otro de tipo “cultural” (CAPEL, 1983: passim).
Con todo, el Consejo Europeo del Paisaje (CEP) redefine el término, renovándolo y
reorientándolo, para adaptarse a las nuevas concepciones normativas y académicas de los
últimos años. Así, el CEP pasa a definir los paisajes como “cualquier parte del territorio tal
y como lo percibe la población, cuyo carácter sea el resultado de la acción y de la interacción
de factores naturales y/o humanos” (MOLINERO, BARAJA y SILVA, 2013[1]: 9). Esta
definición es de vital importancia si consideramos que abarca todo el territorio, agrupan-
do en una misma definición el patrimonio natural, el arquitectónico o el arqueológico.
Ello permite hablar de paisajes agrarios o paisajes rurales que conforman un “conjunto de
tramas integradas en la configuración, en la imagen y en la gestión del paisaje” (ibidem, 9).
El CEP sincretiza así otras definiciones de paisajes para ofrecer un nuevo enunciado mul-
tifacético del paisaje que prioriza algunos temas como las áreas de consumo y aprovisio-
namiento, sus formas y funciones, los objetos y las miradas, la naturaleza y la cultura, la
herencia histórica, la actualidad del paisaje agrario y las prospectivas de futuro. Atendidas
109 // Lugares e territórios: património, turismo sustentável, coesão territorial
estas premisas y atendiendo a que lo rural “(…) está presente en la configuración histórica
y en la interpretación de prácticamente todos los paisajes de territorios de añeja ocupación
agraria de España” (MATA, 2004: 112), este tipo de paisajes pasarán a ser totalizadores
históricos que sincretizan en el presente las huellas del pasado, las metabolizan en la
dinámica del presente y las proyectan hacia el futuro (MOLINERO, BARAJA Y SILVA,
2013[1]: 10).
El proyecto de análisis y puesta en valor de los paisajes sagrados de la región Duero-
-Douro, pretende ser un estudio integrador de su paisaje cultural. Ante todo no persigue,
como apuntaba Antonio Ariño Villarroya (2002), una “fiebre de nostalgia” conserva-
cionista que subyace en las prácticas patrimonializadoras ni tampoco fetichizar este
patrimonio, sino más bien generar conocimiento y conservar sin destruir ni transformar.
Como apunta este mismo autor, nuestro objetivo es mejorar las condiciones de vida de
las personas más frágiles en el tiempo presente, levantar su dignidad y reforzar su calidad
de vida. Por otro lado, intervenir sobre un patrimonio que permita mirar al pasado sin
cultivar la complacencia y la compasión, sino invitar al asombro, al sobrecogimiento,
provocando inquietud y conmoción.
Nuestra intención de estudiar los paisajes sagrados de la región Duero-Douro gira,
grosso modo, en torno al análisis de un paisaje cultural específico. Tal y como lo define la
Convención de la UNESCO los paisajes culturales representan las “(…) obras que combi-
nan el trabajo del hombre y la naturaleza”; incluye este concepto, por tanto, una diversidad
de manifestaciones de la interacción entre el hombre y su ambiente natural. En este sen-
tido, la pregunta, a la hora de plantearse el desarrollo del tema es la siguiente: ¿existe un
paisaje cultural sagrado específico en tierras del Duero-Douro? Nosotros planteamos que
efectivamente se constata, a través de unos caracteres específicos que tienen que ver con el
desarrollo histórico y la localización en un marco de frontera, la hipótesis de que existe una
marcada personalidad cultural en este territorio fronterizo que permite el surgimiento de
un paisaje cultural sagrado el cual percibimos, con especial intensidad, en las marcas físicas
y mentales existentes en el territorio (CRUZ, 2016b).
Tal y como lo define el geógrafo Eduardo Martínez de Pisón, el paisaje “es la proyección
cultural de una sociedad en un espacio determinado desde una dimensión material, espiritual,
ideológica y simbólica”. En consecuencia, por paisaje simbólico hay que entender la com-
binación dinámica de elementos físicos (en este caso, el entorno natural) y los antrópicos
(es decir, la acción humana) los cuales, conjuntados, convierten el territorio en un entra-
mado social y cultural en continua evolución. Como lo entiende el Convenio Europeo del
Paisaje, éste se corresponde con un: “área, tal y cual lo percibe la población, resultado de la
interacción dinámica de factores naturales y humanos”. A través de esta serie de definiciones,
parece quedar claro que el fundamento del paradigma del paisaje distingue entre paisaje
110 // Lugares e territórios: património, turismo sustentável, coesão territorial

y medio ambiente, entre los que dan cuerpo a un extenso conjunto de recursos culturales
y son el escenario para todo tipo de actividades de una comunidad de la cual, en cada
generación, se imponen unos mapas cognitivos propios, antropogénicos e interconectados.
El Plan Nacional de Paisajes Culturales los entiende, en este sentido, como “el resultado de la
interacción en el tiempo de las personas y el medio natural, cuya expresión es un territorio perci-
bido y valorado por sus cualidades culturales, producto de un proceso y soporte de la identidad de
una comunidad” (CRUZ PÉREZ, 2015: 13).
Dentro de los mismos se distinguen los denominados “paisajes simbólicos” que se
fundamentan en acontecimientos de carácter social, históricos, artísticos, religiosos o lú-
dicos creadores de nuevos “escenarios” que se suman a otros tipos de paisajes y que suelen
generar uno nuevo (paisajes sagrados)2. Se trata, de “espacios narrativos” entendidos como
“aquellos con capacidad para comunicar, guardar la memoria y transmitir información, desar-
rollado a partir del análisis de las características y condiciones de los espacios singulares y de los
hechos o acontecimientos cuando los resultados son destacables (events places)” (SABATÉ BEL,
2004). Los paisajes simbólicos comparten e intercambian valores con otras categorías de
paisajes –urbanos, agrarios, históricos, religioso, etc.- y con determinadas manifestaciones
como las propias del patrimonio cultural inmaterial, especialmente cuando responden a
un soporte espacial concreto que forma parte de la identidad de un sitio (por ejemplo,
celebraciones religiosas). Además, como apunta Margarita Ortega, suelen estar ritualiza-
dos y marcan escenarios de representación o de recorridos que incorporan experiencias de
carácter sensorial. Sigue detallando esta autora “Los paisajes simbólicos requieren, con mayor
motivo, la explicación y transmisión –la narrativa- de su significado por las diversas activida-
des objeto de apreciación (artística, histórica, religiosa, lúdica…), muchas veces imposibles de
delimitar de manera clara y, por tanto, a integrar o complementar” (ORTEGA, 2015, 384).
Consideraba Durkheim que lo sagrado es aquello superior en dignidad y poder, esto
es, lo sujeto a estar prohibido, pero que se puede acceder a ellos a través de una serie de
rituales propios, así como de la religión misma; concepto de sagrado y manifestación de
lo sagrado que Mircea Eliade denominaba como hierofanía (ELIADE, 1998: 15). Por su
parte, Baez-Jorge apunta como la noción de lo sagrado de una comunidad determinada
tiene una explicación particular, no necesariamente igual a la comunidad vecina. Otros
autores, como Alicia Barabás, denominan santuarios a los lugares sagrados, si bien dife-
rencia entre aquellos que tienen construcciones y aquellos otros que son sitios naturales;
los segundo carecen de control de la Iglesia sobre el calendario celebrativo, así como de las
devociones efectuadas en ellos. Esta misma autora, finalmente, apunta como el territorio
en si mismo también tiene carácter sagrado para las sociedades tradicionales, debido a su
evidente vinculación con los ancestros, al tiempo que está dotado de lugares sagrados y
simbólicos, construidos diacrónicamente a partir de los derechos adquiridos de acceso,
111 // Lugares e territórios: património, turismo sustentável, coesão territorial
control y uso a lo largo de los tiempos (BARABAR, 2003: 112, citado en MADRIGAL
et alii, 2016: 3).
En otra ocasión, tratamos el tema de los paisajes sagrados al hilo del análisis de dos
modelos que establecimos para la comarca salmantina de El Abadengo (CRUZ, 2016a: 35-
-56). Apuntábamos como el desarrollo de los distintos conceptos de paisaje ha ido variando
a lo largo de los años, en función de los especialistas que se han adentrado en el tema,

En los últimos años, la literatura sobre los espacios simbólicos o paisajes sagrados ha crecido notablemente.
2

Destacamos las aportaciones, para el caso de la prehistoria, de Richard Bradley (1993, 1998 y 2000), la
recopilación de estudios sobre los espacios sagrados medievales (SABATÉ y BRUFAL, 2015) o el libro sobre
los espacios sagrados toledanos (VIZUETE y MARTÍN, 2008).
tal y como han puesto de manifiesto algunos autores (ANSCHUETZ, WILSHUSEN Y
SCHIECK, 2001: 164-168), destacando los denominados “paisajes rituales”, como pro-
ducto de acciones estereotipadas que representan órdenes socialmente preceptuadas, me-
diante las que las comunidades definen, legitiman y mantienen la ocupación de las tierras
que los acoge (ibidem, 178). Los estudios de los paisajes rituales en la literatura científica
anglosajona, examinan las pautas de distribución espacial de rasgos rituales tales como
los edificios religiosos, los monumentos, las plazas o los petroglifos, combinando así la
potencialidad de los espacios y las representaciones sociales de todos ellos (HIRSCH y
O’HANLON, 1995: passim). Con ello se mejora el potencial para evaluar de forma crítica
la incorporación ritualizada de lugares especiales (periferia) a los paisajes segregados de los
espacios de población y actividad (centro), dentro del entorno construido por un grupo
(ANSCHUETZ, WILSHUSEN Y SCHIECK, 2001: 178-179). Con todo, el paisaje es
un producto socio-cultural creado por la objetivación de la acción social y del imaginario
que modela una realidad multidimensional: ambiental, social, simbólica, cultural y per-
ceptiva. El paisaje según autores es, en definitiva, una realidad eminentemente social que
se fundamenta culturalmente (AYÁN VILA, 2005: 120). En consecuencia, el espacio se
erige en una construcción social, imaginaria, en movimiento continuo arraigada en la cul-
tura, a causa de lo cual se establece una estrecha relación estructural entre las estrategias de
apropiación del espacio y la organización social y simbólica del mismo (ibidem, 120-121).
Por su parte, la antropología anglosajona y especialmente la alemana –M. Eliade,
R. Otto, Dhile, etc.- ha tratado con cierto detenimiento la cuestión conceptual de la sacra-
lización del espacio, al menos en su acepción espacio-temporal (HERBERS, 2009: 568),
no llegando a definir convincentemente el concepto de lugar o espacio sagrado. En fecha
reciente, se ha establecido la definición de Sitio Sagrado como un “área de especial significa-
do espiritual por los pueblos y comunidades”, en tanto que los Sitios Naturales Sagrados son
“áreas de agua o tierra que tienen especial significado espiritual para los pueblos y comunidades”
(WILD y McLEOD, 2008: 21), si bien estas definiciones, asentadas en una observación de
112 // Lugares e territórios: património, turismo sustentável, coesão territorial

los pueblos indígenas de Sudamérica, apenas si son aplicables a nuestro ámbito de estudio.
Se destaca así como las pautas de actuación de la denominada “geografía religiosa”, nos
puede permitir determinar los modelos de ocupación de una comarca determinada a través
del análisis de las señales más evidentes en el paisaje, como son las ermitas y los santuarios.
A partir del estudio de la composición de las advocaciones titulares, la ubicación de ermitas
en antiguos despoblados o en sitios arqueológicos, la localización en tierras de propiedad
comunal, al pie de vía de comunicación y de la ubicación de los templos en los límites ter-
ritoriales, se pueden estudiar los desniveles creados por la existencia de lugares cargados de
sacralidad y desvelar el afloramiento de hitos o marcadores netamente insertados de forma dia-
crónica por los grupos que ocupan un territorio determinado (SALLNOW, 1987: 12-13).
La geografía religiosa queda definida entonces, por las relaciones mantenidas entre las
imágenes y sus fieles, las formas ritualizadas, los tiempos para el culto y la atracción devo-
cional periódica, activada y deseada (FERNÁNDEZ SUÁREZ, 1999: 42). En este tipo de
paisajes sacros confluyen vectores, en definitiva, de muy diversa índole cuya conjunción
contribuye a reforzar, como ocurre en el caso de algunos santuarios andaluces, su valor pa-
trimonial y simbólico (NARANJO RAMÍREZ, 2010: 48). Siguiendo el modelo cordobés
es preciso basarse en vectores históricos, entendidos como lugar mágico y mítico, vectores
religiosos que comprenden la devoción mariana, cristológica o de determinados tipos de
santos, vectores sociológicos a través de los cuales se puede identificar la esencia del pueblo,
en nuestro caso del occidente salmantino y finalmente vectores geográficos en cuanto que
la selección territorial, en el campo antropológico, constituye una de las mejores atalayas
para analizar el tema de los espacios sagrados y simbólicos (CRUZ, 2016a: 35-56).
Destacamos, por su interés, la definición que de paisaje sagrado hacen constar Madrigal,
Escalona y Vivar (2016: 3); apuntan estos autores como el “Paisaje sagrado de una comu-
nidad es una porción de territorio modelado y transformado por ella a lo largo del tiempo en
función de la relación con sus deidades o con su sobrenaturaleza” (2016: 4). El territorio se
puede sacralizar a través de la marcación y transformación de ciertos lugares por parte de
la deidad o de lo sobrenatural, los cuales pueden cambiar la percepción y la valoración de
ciertos lugares a través de su manifestación que puede ser, a su vez, casual o estratégica. En
este orden de cosas, el paisaje sagrado suele ser transformado a partir de ciertos cambios de
posesión del territorio o a través de determinados mecanismos geopolíticos o económicos-
-administrativos, los cuales suelen acontecer a lo largo del tiempo (ibidem, 4).
En el territorio la noción de lo sagrado y la forma en que se plasma en este, siguen
apuntando estos autores, va a dar lugar a un paisaje aparentemente físico dentro del que
se forma una suerte de meta-paisaje o paisaje espiritual, al que solo suelen acceder ciertos
especialistas rituales que, en comunión con toda una serie de seres físicos pero también
imaginarios, dan lugar a una sobrenaturaleza: “La forma de redefinir y darle legitimidad
113 // Lugares e territórios: património, turismo sustentável, coesão territorial
como sagrados a estos paisajes es a nivel de las prácticas rituales, su señalización por medio de
cruces, objetos simbólicos, piedras y ofrendas, y la realización de otras actividades que demues-
tren el respeto y mantengan la relación con la sobrenaturaleza manifestada” (MADRIGAL,
ESCALONA y VIVAR, 2016: 4); paisaje que se ha de estudiar, como cabe esperar, desde
una óptica de la construcción social del territorio (BERGER, 1969).
Como vemos, la conceptualización de los paisajes sagrados o simbólicos y subsidia-
riamente, las marcas que los dan cuerpo, es compleja y varía en función de las ópticas que
apliquemos, bien sean antropológicas, históricas o incluso ecológicas. Para una correcta
interpretación de paisaje sagrado que contemple la multitud de elementos que lo conforman,
se puede resumir a través del siguiente esquema:
1. Paulatina conquista simbólica del territorio a través de:
· Evolución histórica
· Usos económicos, políticos, sociales y culturales del territorio
2. Evolución de los rituales. Transformación del paisaje en clave ritual
· Espacios agrarios. Ritualidad específica agraria:
· Rituales agrícolas: rituales estáticos
·Bendición de campos
· Rogativas
· Rituales ganaderos: rituales en tránsito
· Espacios simbólicos naturales
· Rocas, bosques, agua
· Espacios políticos
· Fronteras: límites y periferia
· Espacios de ritualidad específica
· Ermitas y santuarios
· Espacios de paso
· Caminos, cañadas
· Mojones, amilladoiros, cantos de los responsos

Dentro de los paisajes sagrados encontramos, tal y como apuntaban Madrigal,


Escalona y Vivar, una serie de señales, de marcas, de muy variada naturaleza que vienen a
responder a un amplio abanico de necesidades, que cuentan, a grandes rasgos, con algunas
de las siguientes características que dejamos aquí simplemente apuntadas:
1. Las marcas de sacralidad o demarcación actúan de efectivo control físico, pero tam-
bién mental del territorio (paisajes entrópicos).
2. Responden al control simbólico de determinados espacios, bien sean económicos,
religiosos, sociales como administrativos.
3. Las marcas establecen de manera física las fronteras y límites de territorios vecinos.
4. Las marcas responden a la necesidad de contar con elementos referenciales.
5. Se relacionan, por lo tanto, con el derecho consuetudinario a través de determinadas
instituciones tradicionales (veceras, compañas, quiñones, fetosines, etc.) (TUERO, 1976),
114 // Lugares e territórios: património, turismo sustentável, coesão territorial

dando lugar a ciertos patrimonios comunes que conforman la denominada “memoria del
paisaje” (ABELLA, 2016).
6. Los paisajes sagrados se suelen formar a partir de cierta acumulación de marcas o
hitos cargados de ritualidad, tanto tangibles como intangibles.
7. Finalmente, dan lugar a “espacios narrativos” o event places generadores de “lugares
de memoria” (NORA, 1989).

Marcas y paisaje están íntimamente unidos. Aunque, como lo hace Francesco Careri,
podemos entender el concepto de marca –marche-, como denominación tradicional que
solía darse a los lugares situados en los confines mismos de un territorio, a los bordes
de sus fronteras (CARERI, 2017:11), somos partidarios de ampliar a una idea de mayor
alcance, como lo hacen Jelin y Langland, como escenarios donde se despliegan, a lo largo
de la historia, las más variadas demandas y conflictos, siendo además puntos de identifi-
cación de los pueblos. Las marcas territoriales se encuentran justificadas en términos de
derechos de propiedad anclados en la memoria de los antepasados, a través de los esfuerzos
por “(…) recrear y traer al presente memorias e identidades referidas a un pasado colectivo, sea
histórico o mítico” (JELIN y LANGLAND, 2003: 1-2).

Las “marcas” en los paisajes a través de algunos ejemplos de la


región Douro-Duero

Los paisajes, del tipo que sean, cuentan con una serie de elementos que los individuali-
zan de los demás. Así, mientras que en los agrarios son las actividades agrícolas y ganaderas
y todas las prácticas asociadas a estas actividades las que lo modelan y lo dotan de unos
caracteres propios, en los sagrados es la presencia de unas determinadas construcciones y
prácticas sociales, cargadas de ritualidad, las que otorgan carta de naturaleza. Con todo, la
sacralidad se manifiesta en la mayor parte de los paisajes culturales, incluso los naturales, a
través de una serie de prácticas rituales y de una serie de marcas u objetos simbólicos que
permiten realizar una diferenciación respecto al entorno que los rodea. En cierto sentido,
las huellas de lo sagrado, material e inmaterial, se manifiesta de manera constante en
diferente escala, una veces de forma intencionada y otras de manera accidental.
Nos interesa destacar, en este orden de cosas, la presencia de marcas en el paisaje, que
pueden ser de naturaleza material cuando se trata de elementos visibles, pero también inma-
terial las cuales suelen llevar implícitas, por su parte, una serie de “acciones rituales”, que se
pueden originar en prácticas religiosas pero también profanas. En función de esta primera
diferenciación se pueden dividir, a su vez, en marcas de sacralidad y, por otro lado, marcas de 115 // Lugares e territórios: património, turismo sustentável, coesão territorial
demarcación. Esta doble distinción nos permite analizar la extensa variedad de tipos de marcas
que encontramos en los paisajes tradicionales. A través de algunos ejemplos que se documen-
tan a ambos lados del Duero, especialmente en la parte salmantina, tratamos de dar cuenta
de algunos de los principales tipos de marcas que hipercaracterizan este territorio de frontera.
Lo que hemos dado en llamar marcas de sacralidad acoge, en realidad, un sinfín de
situaciones en las que lo sagrado se manifiesta en el territorio, de manera física, a través de
monumentos naturales y realizados por el hombre y a través de un amplio abanico de huellas
entre las que destacan las cruces, pero también de acciones rituales3 de los individuos sobre
Al respecto resulta de obligada consulta los trabajos de Cruces Villalobos (2010) y de Vallverdú Vallverdú
3

(2010). El primero de ellos realiza un interesante análisis crítico del concepto de ritual y ritualidad.
el territorio a través de unos “principios de congregación” (VV.AA., 1991: 263), que otorgan
un carácter performativo a dichas acciones. Para el caso de las marcas físicas éstas son, como
apuntamos, de muy variada naturaleza, de ahí la lógica dificultad de resumir en unos pocos
tipos, la extensa variedad de marcas que podemos documentar en el paisaje.
Una de las marcas más evidentes son los monumentos, bien los naturales como los
levantados por el hombre. En el caso de los segundos, la erección de las construcciones
sagradas, especialmente las ermitas y los santuarios campestres se erigen en las principales
marcas sobre el paisaje, al erigirse en hitos referenciales del territorio4. La erección de estos
monumentos responde a numerosas causas, tal y como ha puesto de manifiesto Henares
(HENARES DÍAZ, 2004: 115-126):
– Nacimiento del espacio sagrado por medio de una leyenda que da origen al culto de
la Virgen, de Cristo o de algún santo, especialmente la primera, que lo hace por hallazgo
o aparición (VELASCO MAÍLLO, 1996: 87).
– Selección de un entorno privilegiado para situar la aparición, entorno que en el
que suelen concitarse determinadas características topográficas, naturales o con especial
significado histórico (castro prerromano o ocupación anterior, etc.).
– Ha de existir una apropiación de la imagen (y del lugar) por parte de la comunidad,
con el fin de crear vínculos no solo físicos, sino también afectivos.
– La creencia y, por ende, la imagen y su espacio físico, ha de institucionalizarse a
través del control por parte de la autoridad eclesiástica.
– Finalmente, los posibles conflictos por la propiedad del santuario o ermita, muy comu-
nes en los lugares liminales se han de resolver por medio de determinados rituales y prácticas
como pueden ser las romerías, las rogativas u otro tipo de manifestaciones, como pueden ser
los traslados temporales de las imágenes a las parroquias de las poblaciones en conflicto.

Aunque no son abundantes las ermitas o santuarios en la región Duero-Douro, en-


contramos algunos ejemplos interesantes gracias a sus ubicaciones – ermita de Nuestra
116 // Lugares e territórios: património, turismo sustentável, coesão territorial

Señora del Castillo en Pereña de la Ribera o ermita de San Cristóbal en Villarino de los
Aires –, las cuales se levantan en sitios en altura, destacados en su entorno, habitualmente
sobre montes santos o tenidos por sagrados en virtud de sus particularidades orográficas o
por la existencia de leyendas sobre los mismos. En este sentido, una de las marcas sagradas
más habituales son las relativas a lugares naturales, habitualmente montes o rocas, árboles
singulares – no pocas veces bosques – o lugares con presencia de agua (fuentes sacras),
4
Existe una abundantísima bibliografía sobre este tema. Al respecto, es de obligada consulta los trabajos de
William Christian (1976, 1978, 1990 y 1991), de Díez Taboada (1989 y 1995), de Velasco (1996), de
Garganté y Solá (2017) y de Muñoz Jiménez (2010), entre otros muchos. Para el caso portugués, no pode-
mos dejar de consultar el trabajo de Resende (2011) o el estudio que de la Capela de Nossa Senhora do Fojo
realiza Olinda Santana (2017).
entre los más comunes, muchos de los cuales son recursos estratégicos que es necesario
singularizar por medio de una sacralización física – habitualmente presencia de cruces o
de otro tipo de marcas – a través del componente mítico o legendario. En territorio de
la raya hispano-portuguesa constatamos numerosos ejemplos de esta naturaleza, caso de
La Peña Gorda en la localidad homónima, un imponente domo granítico que la leyenda
justifica como la china que la Virgen se sacó del zapato, en el conocido episodio bíblico de
la Huída a Egipto, por no decir los abundantísimos casos de rochas sacras, fragas de abalar
o penedos de mouros conocidas en buena parte del territorio portugués (ROLINHO, 2000;
RODRÍGUEZ CRUZ, 2008: 115-116).
No vamos a analizar de forma detenida los cruceros, por cuanto ya lo hemos realizado
en otras ocasiones (CRUZ, 2016b)5, uno de los elementos que mejor definen la propia
naturaleza de los paisajes sagrados. Los cruceros no se levantan al azar, sino que responden
a una lógica de ocupación del territorio muy determinada, unas veces establecida por la
autoridad eclesiástica –como los viacrucis, los cruceros de atrio o las cruces que se erigen en
el lugar donde se levantó una vieja ermita–, y en otras ocasiones erigidos por el poder local
como auténticos mojones o hitos viarios, como ocurre con lo que hemos dado en llamar
cruces de dirección, de las que contamos con magníficos ejemplos en la comarca zamorana
de Sayago (CRUZ, 2018). Los cruceros no dejan de ser, en definitiva, elementos referencia-
les en el territorio (CRUZ, 2012: 315-352), de ahí que, frente a otras marcas, se le otorgue
carta de naturaleza tanto religiosa –cruces de asilo– como jurídica o administrativa –cruces
de villa, cruces juraderas–, de ahí su reconocimiento en fueros y ordenanzas municipales.
Encontramos en estos mismos territorios un particular tipo de marcas que tienen
relación directa con las rocas sagradas o sacra saxa (ALMAGRO, 2015; ALMAGRO y
GARI, 2016), habitualmente localizadas al pie de los caminos, denominados amilladoiros
o cantos de las Ánimas, de los que conocemos abundantes ejemplos en tierras del occi-
dente castellano y leonés. De entre ellos, destacamos la Peña del Perdón de La Redonda6,
en la provincia de Salamanca y varios en la comarca vecina de Sayago. En territorio de 117 // Lugares e territórios: património, turismo sustentável, coesão territorial

los Arribes del Duero zamoranos, en Almeida de Sayago, en el camino a la ermita de


Nuestra Señora de Gracia, se encuentra la denominada encina de las Ánimas, donde el
caminante, tras rezar un Padrenuestro por las Ánimas, depositaba una limosna en una
caja (PANERO, 2000: 134-135). En Carbellino, por su parte, se localiza la Peña de las
Ánimas, en el camino de esta localidad a Arroyo. La tradición obligaba a tirar una piedra
y rezar un Padrenuestro para evitar tener problemas con las ánimas en el transcurso del
En este trabajo recogemos la abundantísima bibliografía existente sobre el particular, especialmente la gallega.
5

Este y otros hallazgos fueron dados a conocer en su día por Benito y Grande (1992: 91), otorgando una serie
6

de interpretaciones erróneas que no vienen al caso comentar. En fecha más reciente, Almagro en varios traba-
jos que listamos en el apartado bibliográfico, se ha preocupado de efectuar una efectuar su análisis científico.
viaje (ibidem, 135). Este ritual nos remite, en todo caso, al de la presencia de amilladoiros,
tan populares en tierras gallegas, uno de cuyos ejemplos más conocido es la Cruz de Ferro
de la localidad leonesa de Foncebadón, protectora para el peregrino, conocidos en otras
regiones castellano y leonesas como cantos de los responsos, ya mencionados, carneiros en
Galicia o fieis de Deus (ALMAGRO GORBEA, 2006: 14) o pedras do namorados o de ca-
samento (ALMAGRO Y TORRES, 2015: 7-22), en tierras portuguesas. Estos amilladoi-
ros, muchas veces camino de santuarios principales (Nuestra Señora de Gracia en Sayago;
Nª Sª de Majadas Viejas en La Alberca o camino de San Andrés de Teixido en A Coruña),
siguen una vieja tradición pagana, al decir de Taboada (TABOADA CHIVITE, 1975:
101-112), que asociaba los cantos con las almas de los difuntos (ALMAGRO, 2006: 14).
En este sentido, existe una relación directa de este tipo de manifestaciones culturales con
las viejas prácticas medievales llevadas a cabo en torno a los túmulos prehistóricos7, los
cuales vienen a ser interpretadas como la afirmación de las élites locales en la tierra por
medio de una continuidad con el pasado (BRADLEY, 1993: 113-129).
En cierto sentido, las cruces de dirección guardan grandes similitudes con las almi-
nhas del territorio portugués8; La función principal de las alminhas portuguesas es la
conmemorativa, al erigirse en monumentos que apelaban a la realización de una oración,
un responso, para la salvación de los fieles; en determinados casos sirven de señal de una
muerte y como los cruceros de la Raya, se localizan al pie de los caminos, en zonas de paso
y encrucijadas, siguiendo similares patrones de situación geográfica.
Tampoco vamos a adentrarnos en el tema de las cruces y frases alegóricas que se plasman
en la arquitectura, debido a que en otras ocasiones nos hemos centrado en ellas de manera
extensa (CRUZ, 2014, 2016b, 2017 y e.p). La cruz emite una serie de mensajes, a veces
cifrados, que permiten un diálogo entre emisor y receptor. La cruz se erige en un símbolo
de significado polisémico que, en función de su cronología y de su ubicación, significa unas

Para esta cuestión remitimos a los trabajos de Blas Cortina (1997: 84-87) y, sobre todo, de Álvarez Vidaurre (2011).
7
118 // Lugares e territórios: património, turismo sustentável, coesão territorial

La literatura sobre las alminhas portugueses es extensa y desde que se publicara el clásico trabajo de F.
8

BABO titulado Alminhas. Padrões de Portugal cristão, encontramos una veintena de trabajos sobre este
particular elemento simbólico del paisaje. Destacamos de entre ellos, el de M. C. CHIEIRA PREGO
(1997): Roteiro das alminhas do Concelho de Sever de Vouga. Cámara Municipal de Sever de Vouga; el
de AFONSO RODRIGUES, J. A. (2003): Marcos de santidade nos caminos do Rochoso. O silêncio dos
costumes, Guarda analiza, por su parte, las alminhas desde una óptica antropológica. También son inte-
resantes el trabajo de BROCHADO DE ALMEIDA, C.; SOUSA GONÇALVES, M. C. Y RAMOS B.
DE ALMEIDA, J. (2013): Fé e Religiosidade Popular en Ponte de Lima. Cruzeiros, Vías-Sacras, Nichos e
Alminhas. Municipio de Ponte da Lima; el de F. ABREU y R. MIRANDA (2001): Alminhas do Concelho
de Condeixa-a-Nova. Cámara Municipal de Condeixa-a-Nova; el de P. C. LOPES DE MIRANDA y O. J.
CARRASQUEIRA MARTINS (2003): As alminhas do Concelho de Tábua. Parroquia de Midoes; el de
R. PEREIRA, J. ARAUJO y M. COSTA (2007): Alminhas, Cruzeiros e Vias-Sacras do Concelho de Paços
de Ferreira. Religiosidade e Cultura Popular. Cámara Municipal de Paço de Ferreira y el de J. TORRES
(2011): “Alminhas de ontem o de hoje”, Sabucale, 3: 83-90. Revista do Museu de Sabugal, quien además se
encuentra en la actualidad realizando el catálogo de las alminhas del Concelho de Sabugal (com. personal).
cosas u otras. No solo es señal de la presencia de ciertos contingentes poblacionales –con-
versos o cripto-judíos–, sino que también es marca indicadora de la pertenencia a una orden
religiosa, en conjunción con una larga serie de emblemas o frases religiosas, y es, a la vez,
detente contra la entrada del mal –espantabrujas o espantademonios–, donde configura una
suerte de barrera mental, de marca que permite definir lo interior/exterior, lo de afuera y
lo adentro. Como apuntaba Campbell, las cruces en la arquitectura son los “guardianes del
umbral” (CAMPBELL, 2015:109)9, dando cuenta de una interesante dialéctica ya tratada
por Gastón Bachelard (1992: 250-270). Se trata, en todo caso, de las marcas que mejor
identifican los paisajes sagrados gracias a que la cruz es el símbolo religioso por antonomasia.
Dentro de la familia de las marcas de sacralidad, debemos de mencionar, finalmente, otro
tipo que se emparenta con las sacra sax o piedras sagradas, cuales son las huellas tenidas por
sagradas, de entre las que podemos mencionar las pisadas de la Virgen, herraduras, cazoletas,
huellas de pies, la Pata de la Mula, la huella del caballo de Santiago, etc. Se trata de elementos
que habitualmente se encuentran en plein champ, en espacios agrestes, en lugares rocosos,
singularizados gracias a los extraordinarios testimonios orales y legendarios de estos lugares
que ilustran, como apunta Jesús Suárez, la asimilación de estas huellas por parte de las clases
populares y su inmediata conversión en iconos religiosos, específicamente cristianos para la
mayor parte de ellos, capaces de generar determinadas acciones rituales como arrodillarse o
elevar una plegaria al cielo. Dan pie, a su vez, a la generación de leyendas o motivos legenda-
rios basados en su potencial como desencadenantes de fenómenos meteorológicos adversos
que se suceden ante ciertos actos contrarios a la creencia popular (SUÁREZ, 2016: 281-282).
En nuestra zona de estudio debemos mencionar la roca de La Patá (o La Patica) en Pereña
de la Ribera (Salamanca), que la creencia popular interpreta como la huella de la mula de la
Virgen en el pasaje bíblico de la Huída a Egipto; se trata de una “marca” que ya tratamos en
su momento (CRUZ, 2016a: 52), por lo que no vamos a volver sobre ella.
Hay que apuntar como las marcas de demarcación tienen un origen antiguo que podemos
retrotraer, al menos, a la época romana, en la que documentamos una de las primeras ope-
119 // Lugares e territórios: património, turismo sustentável, coesão territorial
raciones emprendidas por el poder para ordenar los espacios. En el Noroeste de la Península
Ibérica encontramos una serie de documentos que permiten precisar la forma en que se
plasmaba la ordenación de las provincias romanas, modelo que se perpetuó en el tiempo. Por
un lado, encontramos los mojones o termini que marcaba los límites de las comunidades;
por otro lado, se solía recurrir a otros sistemas para definir los territorios tales como la propia
orografía del terreno, los cruces de caminos, las fuentes, los ríos, etc. (VV.AA., 2002: 83-85).
Dentro de esta familia hemos de destacar, pues, los hitos y mojones como una de las
marcas que mejor definen la personalidad del territorio. En fecha reciente, Concepción
Son interesantes las aportaciones que, en este sentido, realiza Manuel Delgado sobre lo que denomina “los
9

monstruos del umbral” (DELGADO, 2008: 105-117).


de la Peña ha realizado un magnífico estudio sobre este tipo de marcas (PEÑA, 2008:
115-139) que fijan los límites, marcas rumbos, manifiestan dominios, facilitan la regula-
ción de paso y adquieren un elevado valor tutelar y simbólico (ibidem, 138). Hitos y mo-
jones dan testimonio, a su vez, de la presencia de lugares de pasto y de viejos caminos y
generan, como cabe esperar, las fronteras10 entre comunidades para lo cual se efectuaron
los amojonamientos, necesarios para la correcta convivencia de las comunidades. Con
cierta periodicidad era necesario revisar los confines del término señalados por medio
de cruces en peñas y árboles, lo que suponía la afirmación espacial propia frente a la del
vecino y la definición de la liminaridad y territorialidad local dentro de cada comarca
en las que subyacían conceptos tales como “(…) autoridad, sometimiento, conflictividad,
convivencia, vecindad y sociabilidad, hábitat y paisaje, recursos humanos y cotidianeidad”
(CEA, 2012: 398). Desde la antigüedad, estos límites territoriales había sido objeto de
culto por parte de las capas más bajas de la sociedad, quienes los habían adornado y trans-
formado a lo largo del tiempo erigiéndose en una especie de lithoi empsychoi y “piedras
con vida” o piedras animadas (FREDBERG, 2010: 89), tema que de forma tan magistral
trató Fumagalli (1989).
Para ello se organizaba un tipo de procesión cívica11, un itinerarium, formado por los
alcaldes ordinarios de los cabildos, el procurador síndico de cada población y varios tes-
tigos, así como los escribanos con sus mesas y carpetas (CEA, 2012: 398); con un orden
determinado se revisitaban y (re)definían los límites del término12 comprobando los hitos
que solían ser cruces grabadas en ciertas piedras, contando con pasos los tramos entre ellos
y remarcándolos o supliéndolos, según tocara, manteniendo así en perfecto estado el “mapa
mental” y físico del territorio, fundamental en la vida cotidiana del Antiguo Régimen.
Estas visitas a los amojonamientos son frecuentemente citadas en la documentación
serrana; el doctor Cea Gutiérrez describe con detalle el que se realizó el 17 de septiembre
de 1792 para “renovar las mojoneras y cruces” que separan los términos salmantinos de La
Alberca de Monforte (ibídem, 399-400). En este documento, de excepcional importancia
120 // Lugares e territórios: património, turismo sustentável, coesão territorial

para el conocimiento en profundidad de esta práctica comunal, se describen los hitos-cruces,


10
Es de obligada consulta el análisis de las fronteras que desde la óptica antropológica realizan Ana Rivas
(1994), Lisón (1994) y Delgado (2008). Sobre la frontera hispano-portuguesa es necesario consultar
PEREIRO, RISCO y LLANA (2006) y SALINAS DE FRÍAS (2013).
11
Las Ordenanzas de Astorga y San Justo de la Vega (León) relatan con detalle cómo era el ritual de apeo:
“Item, cuando se hallan apeos en el lugar, donde se hicieren, vayan los regidores y avisen a los lugares inmediatos
que señalen día y hora para que vayan dos hombres de capacidad [peritos], y temerosos de Dios [requisito para la
jura] y dos muchachos nombrados por los concejos con el presente notario y juez de comisión y renueven las arcas
[o mojones]” (LEAL, 2000: 158),
12
En la actualidad se continúa haciendo en el norte de la provincia de Palencia, en la localidad de Brañosera,
bajo la significativa denominación de la “mojonera” (ALLENDE Y MARTÍNEZ, 2011), también “mojona-
da” o “mojollas” que se celebraban cada diez años levantándose acta con sus correspondientes “apeos”, una
vez comprobado el estado de conservación y su restauración, llegado el caso.
inter-distanciados una media de 2.950 pasos, y se especifican las señales que se emplean para
fijar el territorio: árboles, piedras, peñascos (movedizos, hundidos o subterráneos) así como
la orientación de los mismos, gracias a los cuales la identidad de ambas localidades quedaban
perfectamente reforzadas hasta una nueva visita (ibídem, 401). En este sentido, la aprehen-
sión o mancipatio de tierras por parte de particulares o tomas de posesión jurisdiccional se
ejercían mediante un complejo ritual, oral y gestual, que se ejercía en ciertas circunstancias
poniendo las manos sobre los mojones y más concretamente sobre la cruz grabada en el hito,
ritual cuya génesis se encuentra ya en los textos latinos (LEAL, 2000: 159).
Los mojones, como símbolos parlantes que indican propiedad, están definidos en el
Diccionario de la RAE como la “Señal permanente que se pone para fijar los linderos de here-
dades, términos y fronteras”; son, por tanto, elementos que señalizan y protegen las tierras,
dividen el espacio, fragmentando el entorno y testifican además la identidad al encontrarse
unidos al orden y a la autoridad. Poseen una función demarcadora y de vigía, por lo que
en la mayor parte de las ocasiones son necesarias unas dimensiones determinadas o unas
marcas características para que pudieran ser vistos o al menos saber dónde se encuen-
tran, de ahí que se ubicaran en lugares elevados y destacados como montículos o túmulos
prehistóricos, sobre piedras o accidentes naturales singulares, (PEÑA VELASCO, 2008:
118; ÁLVAREZ VIDAURRE, 2011: 74).
Las marcas más habituales en los deslindes de término son la representación de cruces en
los árboles y, más comúnmente, en ciertas piedras localizadas en lugares por lo común elevados
o destacados en el entorno (FERRO COUSELO, 1952: 69-77). Aunque se tiene constancia
documental de su existencia desde el siglo IX (en Cataluña hay documentos fechados en el
año 882 y en Galicia en el 911), los ejemplos de cruces que han llegado a nuestros días se
suelen datar a partir del siglo xvi en adelante. Tal y como Fernández Ibáñez y Lamalfa Díaz
ofrecieron en su día, la tabla tipológica de las cruces de términos que aparecen en afloramien-
tos naturales de roca, menhires prehistóricos, miliarios romanos o piedras enhiestas clavadas
para tales fines es bastante corta, reduciéndose a cruces incisas simples –latinas y griegas–,
121 // Lugares e territórios: património, turismo sustentável, coesão territorial
cruces de Calvario, cruces potenzadas en T y cruces trinitarias (2005: 260), acompañadas
de representaciones humanas y animales, alquerques, letreros, huellas de plantas de calzado,
pentalfas, etc. bien aisladas o en abigarrados conjuntos localizados en abrigos rocosos. En este
sentido, el tipo de cruz de término más empleado en los deslindes fue la griega con un círculo
inserto en cada cuadrante13, como marcando los cuatro puntos cardinales.
Todo este conjunto de “representaciones rupestres de época histórica”, según los definen
estos autores, ofrecen unas formas de expresión cultural propias de momentos medieva-
les o post-medievales, de eminente carácter rural que al tiempo que se empleaban como
En otras variantes menos frecuentes varía el número de puntos de cuatro a doce (FERNÁNDEZ y
13

LAMALFA, 2005: 260).


referencia física y mental de un territorio compartido, servían de elemento sacralizador14 y
por ende protector; como apuntan Fernández y Lamalfa “Este corto repertorio iconográfico
se localiza en lugares muy concretos y actúan con un lenguaje simbólico (codificado), mediante
el cual se expresaba una comunidad” (2005: 265).
La relación entre territorio y poder queda evidenciada a través de ciertas marcas que se
levantan en un contexto en el que éstas se erigen como hitos inviolables de elevado valor
simbólico que exige de la comunidad gran respeto (AFONSO, 1993: 100), que generan
entre la población cierto sentido de pertenencia a la tierra. Destacan, en este sentido, los
marcos de demarcação do Alto Douro Vinhateiro que, al valor simbólico de los mismos, se
asocian otros como los económicos y administrativos. Estos “marcos”, conocidos como de-
marcación pombalina, nacieron en 1756 a instancias de Sebastião José de Carvalho e Melo,
marqués de Pombal. El objetivo principal era delimitar el área capaz de producir vinos de ca-
lidad, con especial atención a los denominados como vinhos de feitoria que eran exportados
a Inglaterra (FAUVRELLE, 2007: 27). Mediante la erección de hitos de cantería labrada,
se establecía el control de una frontera conformando un cuerpo estable capaz de perpetuar
una demarcación que servía además de garante a través de su propia materialidad, referencia
física que permitía la creación de mapas “mentales” del territorio duriense (ibidem, 30).
Nos dejamos conscientemente muchos otros tipos de marcas; marcas que se encuentran
al pie de caminos, marcas que se dibujan en los árboles como señal de propiedad (ABELLA,
2016: 236-237), marcas escondidas, marcas de cantero. Tan solo se han apuntado algunos
ejemplos que permiten definir, en conjunto, no solo los paisajes sagrados sino, más bien, la
mayor parte de los paisajes culturales que caracterizan los territorios bañados por el río Duero.

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14

habla bien a las claras de la configuración semántica del territorio a través de las acciones que puntualmente se
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A Flauta de Tamborileiro na raia portuguesa:
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Helena Santana
DeCA, Universidade de Aveiro
Rosário Santana
UDI, Instituto Politécnico da Guarda

Introdução

Antecipamos que, não só a música, como os patrimónios materiais e imateriais de


uma região, de um povo, de um país são, e cada vez mais, tidos como factores de efetivo
desenvolvimento não só cultural, como económico, social e regional de inegável valor e
eficiência, constituindo-se ainda ferramentas de animação social e civilizacional que se
expõem, a cada vez, mais eficazes na promoção e valoração de uma região, de um país, de
um povo. Neste sentido, todos os elementos que compõem a memória dos povos e das
gentes, se evidenciam como recursos que se revertem, obrigatoriamente, em conteúdos e
práticas a serem desenvolvidos por agentes promotores de progresso, não só a nível local,
como a nível artístico, cultural e regional.
Tendo como principal objetivo a identificação e valorização dos recursos do território,
129 // Lugares e territórios: património, turismo sustentável, coesão territorial
dos recursos tangíveis e intangíveis de um povo enquanto factores críticos e estratégicos de
desenvolvimento, pensámos efetuar uma reflexão sobre a forma como a música e, em par-
ticular aquela específica à prática da Flauta de Tamborileiro, surge e se exterioriza enquan-
to recurso de uma região. Será ainda nossa intenção mostrar de que forma esta se pode
constituir factor de preservação e promoção de um património. Como estratégia de desen-
volvimento regional, pretendemos identificar a forma como a Flauta de Tamborileiro, e o
Tamborileiro em particular, se exteriorizam na região da raia portuguesa e espanhola, bem
como além-fronteiras, quer seja na Europa, como além-mar.
Sabemos que a representação mais antiga que se conhece de um Tamborileiro remonta
ao século xiii. Essa representação encontra-se no Códice Escurialense das Cantigas de
Santa Maria de Afonso X, Rei de Castela e Leão1. O Tamborileiro, bem como o conjunto
dos instrumentos que interpreta – a Flauta e o Tamboril –, estão presentes ainda hoje em
muitos países da Europa e do Mundo, surgindo em algumas regiões de Portugal, mas tam-
bém de Espanha, nomeadamente a região de Aragão, bem como no sudoeste de França2.
Reveladores de uma cultura muito própria, percebemos que os aspetos performativos e
interpretativos da sua prática musical surgem ligados à sua interpretação, mas, também, ao
contexto social e cultural em que se inserem. Estes contextos são também, e simultaneamen-
te, de natureza religiosa, mas, também, pagã, e indicadores de uma prática musical com
dupla intencionalidade. Revelando a riqueza dos povos e das suas tradições, mas igualmente
os diversos patrimónios materiais e imateriais referenciados, os Tamborileiros denotam
uma capacidade musical, gestual, interpretativa, social, cultural e interventiva bastante
fortes. São por isso, mas não só, alvo da nossa particular atenção e pesquisa.

1. A Flauta de Tamborileiro e o seu tocador

Fernando Lopes-Graça, grande estudioso e divulgador da música tradicional portu-


guesa, menciona por diversas vezes, e em numerosos dos seus escritos, que a riqueza da música,
nomeadamente da música dita portuguesa, se encontra na maneira como se trabalha a melodia
e a harmonia, o ritmo e o tempo, a partir dos elementos do folclore nacional. Paralela e simul-
taneamente, permitimo-nos afirmar que a riqueza da nossa música se expressa, também,
na natureza do canto e do instrumental que o acompanha, bem como na especificidade
dos contextos culturais e sociais onde se produz3. Mas não só em Portugal esta riqueza se
mostra, também além-mar ela se exterioriza. No caso da Flauta de Tamborileiro e do seu
tocador, ela denota características comuns em diferentes países, mas também as apresenta
exclusivas. Os contextos em que se exibe são identicamente próprios, particularizando in-
tenções, ações e representações culturais e religiosas de inegável valor e tradição, conforme
130 // Lugares e territórios: património, turismo sustentável, coesão territorial

nos encontremos em Portugal, Espanha, França ou além-mar, bem como mais a Norte ou
a Sul dos países e regiões referenciadas.

1
A sua disseminação pela Europa terá acontecido ainda nesse século, século xiii.
2
Mesmo que durante o século xvii a sua representação iconográfica surja mais enfática na Europa, percebe-
mos, no entanto, que é pouco frequente a sua presença em iconografias no decorrer do século xviii. Este
facto surge fruto de uma não aceitação pelas classes ditas mais cultas e eruditas deste tipo de prática musical.
3
Neste sentido, a Flauta de Tamborileiro, e as práticas musicais a ela associadas, surgem diversas em distintas
regiões de Portugal, da Europa e do mundo, revelando um modo de ser e estar único e que revelamos ao
longo deste trabalho.
Presente ainda hoje em diversas regiões do nosso país, nomeadamente na região de
Miranda do Douro, a Flauta de Tamborileiro surge identicamente na sua congénere es-
panhola Zamora. Diz-se ainda no interior Alentejano, encontrando, neste caso, paralelo
com a região de Huelva na província de Andaluzia, assim como com o sul de Badajoz na
Estremadura, na vizinha Espanha. Na região da Beira Alta e Beira Baixa, encontra paralelo
com a região fronteiriça de Castela e Leão. De referir também a presença do Tamborileiro,
e da sua maneira tão particular de executar duplamente a Flauta e o Tamboril, na região
Provençal de Fontvieille Alpilles em França, e na região de Vera Cruz no México4. Sendo
em Portugal conhecida como Flauta de Tamborileiro, sobrevém na vizinha província
de Andaluzia sob a designação de Pito Rociero. Em França, nomeadamente na região de
Provence, a Flauta é denominada de Galoubet e na região de Gascogne de Flabuta. Nas duas
regiões o Tamboril é denominado de Tambourine e o instrumentista de Tambourinaire.
Apuramos assim que o conjunto instrumental denominado de Flauta de Tamborileiro
é constituído por uma Flauta e um Tamboril. Os Tamboris admitem modificações es-
truturais e sonoras de relevo conforme as regiões e os países referenciados, sendo que os
Tamboris portugueses são, no nosso entender, de natureza mais arcaica que os congéneres
de Espanha. De grande dimensão, o Tamboril alentejano é semelhante ao seu congénere
espanhol, sendo a sua decoração idêntica nos dois lados da fronteira. Já em França, e no
México, encontramos diferenças significativas neste instrumento5.
Sendo nosso intento mostrar a forma como um caso tão particular de prática musical
do Tamborileiro se exprime ao longo dos tempos, e em contextos territoriais e civilizacio-
nais tão diversos como os apresentados, buscaremos as especificidades que adquire nos
diversos países, procurando delinear ainda, a particularidade dos contextos onde emerge e
se define ferramenta de desenvolvimento e animação social e culturais. Analisaremos tam-
bém a forma como o Tamborileiro surge em ambos os lados da região da raia, buscando
a forma como este se torna reflexo da cultura e símbolo de um povo que, pelo seu caráter
forte e empreendedor, se lançou na conquista de outros mundos, denunciando além-mar
131 // Lugares e territórios: património, turismo sustentável, coesão territorial
a presença de símbolos que definem estruturas culturais e sociais próprias. Neste sentido,
intentamos a valorização de um património histórico e cultural, material e imaterial, que
se mostra, no nosso país, infelizmente quase extinto. Contrariamente, surge valorizado
além-fronteiras.

4
Esta presença dá-se, no nosso entender, fruto da influência portuguesa e castelhana que decorre aquando do
processo de colonização iniciado em por volta de1500.
5
No que concerne a região francesa, o tamboril é em madeira, ornamentado no corpo da caixa-de-ressonância e
de formato alongado. Já no que ao México diz respeito, o tambor é igualmente em madeira mas de pequenas
dimensões. O seu formato remete para as representações da Idade Média na Europa, nomeadamente aquelas
das cantigas de Santa Maria de Afonso X Rei de Castela. O seu formato contribui de forma única e indelével
para o bom desempenho nas interpretações musicais e cénicas dos tamborileiros no México.
1.1. A Flauta – Definição geral e descrição
Como mencionado, o conjunto instrumental interpretado pela figura do Tamborileiro
é constituído por dois instrumentos: a Flauta e o Tamboril. É do conhecimento geral que
a Flauta define um tipo de instrumento musical da família dos aerofones (instrumentos
de sopro), consistindo, e no caso da Flauta interpretada pelo Tamborileiro, numa flauta
de bisel com três orifícios. Estes orifícios situam-se no extremo oposto ao bisel, dois na
parte superior e um na parte inferior do instrumento. Dado a rusticidade e simplicidade
do instrumento, este toca-se utilizando várias intensidades de sopro. Esta ação visa a ob-
tenção dos diferentes harmónicos de uma fundamental, conseguindo-se assim, produzir
uma escala diatónica. O instrumento toca-se, recorrendo sempre à mão menos expedita
do instrumentista, para que a mão mais ágil atue no manejo da baqueta que se destina a
percutir o Tambor. Este instrumento, que normalmente é de duas membranas, é nele que
se realiza o acompanhamento da melodia que se faz ouvir na Flauta. Quanto à forma de a
suster, esta é presa entre a boca onde se situa o bocal, e o dedo anelar e o mindinho da mão
que o sustenta, no extremo oposto do instrumento.
A Flauta de Tamborileiro toma diversas designações, conforme já referido, nos diver-
sos países e regiões em análise. Especificamente em Portugal, e no Alentejo, a Flauta de
Tamborileiro toma a designação de Pífaro, Pífano, Flaita6 ou Gaita, sendo este último o
termo mais usado nesta região de Portugal. As Flautas, construídas geralmente pelo pró-
prio tocador, seguem modelos pré-existentes, com medidas pré-estabelecidas e formatos
bem simples. Os modelos e práticas de construção seguidos pelos seus construtores, são
transmitidos de geração em geração, e surgem como conhecimento que convém preservar
e valorar. Os materiais empregues na sua construção, nomeadamente as madeiras, provêm
da flora local, utilizando-se preferencialmente a madeira do sabugueiro7. Como elemen-
tos decorativos vislumbramos o uso do corno na zona da boquilha e do bisel, assim como
de molduras esculpidas na zona do pé do instrumento, no extremo oposto ao bisel, para
que o tocador coloque o dedo anelar e mindinho, ajudando assim a segurar o instrumento.
132 // Lugares e territórios: património, turismo sustentável, coesão territorial

No que à decoração diz respeito, as Flautas podem ainda conter gravações e incisões
feitas no seu corpo, representando formas geométricas e figurativas várias. Em alguns casos
as incisões são também pintadas utilizando-se preferencialmente as cores vermelha, verde e
amarela8. No que concerne a sua dimensão, não se conhece um tamanho ou formato único,
podendo ser encontrados exemplares com comprimentos e formatos diversos, pois a sua di-
mensão pode oscilar entre os 34 e os 46 cm. Este facto contribui de forma muito marcada

6
Termo usado igualmente para designar a gaita de beiços.
7
É esta a madeira que encontramos nos exemplares mais antigos, exemplares esses que servem de modelos aos
instrumentos construídos mais recentemente.
8
Pontualmente, encontramos os instrumentos pintados na totalidade do seu corpo.
para a variabilidade do sonoro e do campo de frequências do instrumento. Esta variabilidade
age sobre o espectro do som e, consequentemente, sobre o seu timbre. A furação interior é,
nestes casos e na maior parte das vezes ligeiramente cónica, com a zona mais larga no extremo
da boquilha, o que concorre identicamente para a determinação da sua afinação e sonoridade.
Segundo a organologia e a acústica musical, a Flauta de Tamborileiro assemelha-se a
alguns instrumentos que encontramos na Idade Média na Europa. Os sons fundamentais
não são muito empregues nas diversas peças que constituem o seu repertório, sendo que a
escala começa, usualmente, na oitava superior ao som fundamental, recorrendo ao 2.º har-
mónico. Em seguida, torna-se contínua ao ser executada, por intensidade de sopro, através
da realização dos 3.º, 4.º e 5.º harmónicos9. Esta escala pode chegar a ter um âmbito supe-
rior a uma oitava no caso do Galoubet Ocitano. As afinações, diferindo em cada tetracorde,
permitem, como estruturas de afinação, modelos que podem ser de dois tetracordes iguais.
Neste caso, estes instrumentos consentem a composição de melodias em apenas quatro
modos base, segundo a estrutura do primeiro tetracorde, a que corresponde o modo de Dó,
Ré, Mi e Fá, respectivamente10. No caso do Galoubet, a Flauta da região de Provence, o ins-
trumento inicia normalmente a sua escala em Dó, sendo a sua estrutura intervalar definida
por tons inteiros. Este facto permite tocar, se iniciarmos a escala na 2ª e na 3ª nota acima
da fundamental, em Ré Maior e em Mi Menor, respetivamente11. No caso da Península
Ibérica, os dois sistemas de organização sonora em uso mais frequente, são os que corres-
pondem os modos de Ré e de Mi, frequentes na música popular da raia portuguesa. Tendo
a extensão de uma oitava, o instrumentista amplia esta extensão no âmbito de uma quinta,
unicamente variando a intensidade do seu sopro. Através de uma eficaz combinatória da
posição dos dedos, o Tamborileiro pode tocar um total de doze sons diferentes, incluindo,
ainda, todos os graus cromáticos. Deste facto sobressai a possibilidade de uma combinatória
melódica bastante rica, e potenciadora de diversas organizações melódicas.

1.2. O Tamboril – Definição geral e descrição


133 // Lugares e territórios: património, turismo sustentável, coesão territorial
O outro instrumento executado pelo Tamborileiro é o Tambor, instrumento designa-
do de Tamboril, um bimembranofone de caixa-de-ressonância cilíndrica. Feito em madei-
ra ou chapa de metal, este instrumento possui ainda um bordão em cada uma das peles que
o constituem. As membranas são em geral de pele de cabra, encontrando-se enroladas
e cosidas usando estruturas de madeira que se colocam nos topos do instrumento. As
peles são postas em tensão, recorrendo a procedimentos diversos. No caso do Tamboril
9
Como neste caso, o intervalo maior entre dois registos é de uma quinta (2.º e 3.º harmónicos), os furos
existentes são suficientes para se obter as alturas necessárias para perfazer toda a escala.
10
Pontualmente encontramos instrumentos onde a afinação, não difere.
11
Medindo cerca de 25 cm, o Galoubet é fabricado com madeira de ébano, pau rosa, amendoeira ou oliveira.
Estes factos permitem-lhe um sonoro diferenciado dos exemplares construídos em Portugal.
alentejano, o instrumentista recorre a um sistema bastante elementar e arcaico, sistema
esse no qual a pele é esticada diretamente a partir do arco de madeira a que se encontra
presa a pele. A corda passa, neste caso, pelos pequenos furos que se encontram na pele,
junto do arco do instrumento. Esta forma de esticar a pele, apesar de usar o dobro das
presilhas de um Tambor, encontra-se presente em vários exemplares de Tambores não só
europeus, como nas representações mais antigas deste instrumento, demonstrando a an-
tiguidade do seu processo de construção. Os bordões, simples cordéis ou tripas de porco
enroladas e esticadas ao longo das peles do Tamboril, quando tensos e percutidos, fazem
com que o bordão vibre. Na sua forma de tocar, o Tamboril, é preso por uma correia
ao braço com que se toca a Flauta, e percutido com uma baqueta com a mão contrária.
O Tamboril usado na região alentejana tem como principal característica a sua grande
dimensão. O seu som é grave e propício à execução de ritmos simples e lentos, construções
rítmico temporais próprias da música da região. Já na vizinha Espanha, em Huelva, os
Tamboris, apesar de possuírem formato similar aos portugueses, diferenciam-se nos aros
de madeira onde se prendem as cordas com que se esticam as peles. Da mesma forma que
as Flautas, os Tamboris são também eles construídos pelos próprios tocadores. Dos exem-
plares que felizmente chegaram até nós, encontramos alguns com uma estrutura de chapa
de metal, cuja origem pode ter sido a reutilização de latas e recipientes de metal12.
O Tambourine, que tem semelhanças com o Tamboril em uso em Portugal e em
Espanha, possui uma caixa cilíndrica de formato alongado, podendo conter ornamen-
tações diversas no corpo da caixa de ressonância. Possui ainda duas membranas de pele
em cada uma das suas extremidades, permitindo a diferenciação mais marcada da sono-
ridade. Pelas características que apresentam as peles ressoam diferentes. Uma, pelo facto
de uma ser muito fina, geralmente de veado jovem, possui uma sonoridade mais aguda; a
outra, mais espessa, de cabra, permite ao Tamboril francês ter uma sonoridade mais grave.
Em conjunto com a primeira, produz um som muito peculiar.
O Tamborileiro ao executar o instrumento percute a pele mais fina que se situa na parte
134 // Lugares e territórios: património, turismo sustentável, coesão territorial

superior do instrumento, pondo assim em oscilação o ar dentro da caixa. Esta ação coloca se-
guidamente em vibração a pele inferior que, dadas as suas características, reenvia o ar em ba-
lanceamento para a pele superior. Esta ação permite a este instrumento o desenvolvimento
de características sonoras e timbricas peculiares, outorgando um acompanhamento do tipo
bordão/baixo continuo à flauta – o Galoubet. A baqueta usada é constituída por três partes
bem distintas, o punho que serve de contrapeso, o corpo fino de madeira dura e, a ponta em
osso, que percute a pele do Tamboril. Estas características permitem uma subtileza de toque
e um gestualidade interpretativa muito precisa, da qual resulta o som único do Tamboril.
12
No que toca à decoração, os Tamboris alentejanos são, na sua maioria, pintados de forma monocromática,
usando as cores azul ou verde. O mesmo proceder se verifica do outro lado da fronteira, em Huelva.
2. A presença da Flauta de Tamborileiro na Europa

Ao longo dos tempos e da história do homem, a Flauta de Tamborileiro surge diligente


em diversas regiões do país e do mundo. Na Europa, este conjunto instrumental assoma de
diferentes formas, sendo que representações suas retratando os dois instrumentos de forma
conjunta – a Flauta e o Tamboril –, se encontram ligadas a momentos bem precisos da prática
musical, cultural, religiosa e social dos países e das gentes em apreço. Numa primeira fase,
e associado às classes sociais mais abastadas e, socialmente mais bem representadas, nome-
adamente a corte europeia e os seus eruditos, este conjunto instrumental surge em vários
contextos e acontecimentos sociais, nomeadamente a prática musical em bailes, casamentos,
torneios ou paradas militares, momentos que se mostram de forte influência e presença a
nível não só social, como económico e cultural. Para além da Flauta e do Tamboril tocados
por um só indivíduo, existem ainda representações de músicos tocando a Flauta em simultâ-
neo com outros instrumentos, tais como pequenos Sinos ou Tambores de cordas13. Da análise
documental podemos aferir ainda que as primeiras representações deste conjunto instrumen-
tal, tocado em simultâneo pelo mesmo intérprete, surge, durante o século xiii, na Europa,
estando representado no Códice do Escorial, nas Cantigas de Santa Maria de Afonso X, rei de
Castela e Leão14. Podemos afirmar também, e analisando as representações que nos chegaram
até hoje, que até à primeira metade do séc. xv a figura do Tamborileiro surge frequentemente
retratado a solo. O alargamento do conjunto instrumental, e a sua associação a outros instru-
mentos como a Harpa, a Viola da Gamba ou mesmo a Sanfona, assoma em período posterior,
de acordo não só com a época, como com o contexto da representação.
Mais tarde, a partir da segunda metade do séc. xvi, a Flauta e o Tamboril, bem como
a sua prática interpretativa e musical, surgem, progressivamente, associados às classes so-
ciais mais desfavorecidas, o que faz com que este conjunto instrumental perca popularidade
e prestígio entre as classes mais abastadas e, socialmente, mais representativas. Este facto
conduz ao seu progressivo desaparecimento, não só como prática musical, mas também
como prática cultural, religiosa e social. Ao nível das suas representações iconográficas, repre- 135 // Lugares e territórios: património, turismo sustentável, coesão territorial

sentações essas que se mostrariam reveladoras de uma prática musical consentânea com o
analisado, a sua presença revela igualmente um decréscimo significativo atestando o desme-
recimento que o mesmo toma por parte das classes sociais mais representativas da sociedade.
Este facto dá-se a partir da segunda metade do século xvii. A representação da Flauta e do
Tamboril torna-se, consequentemente, pouco frequente no decorrer do séc. xviii.
13
Ao longo do século xx, percebemos estas representações em algumas partes da vizinha Espanha, nomeada-
mente na região de Aragão e do sudoeste de França, junto aos Pirenéus. O facto, permite-nos afirmar que
esta prática transcorre todo um tempo que se mostra bastante longo e, por isso, difícil de desmerecer.
14
No entanto, mesmo que este apareça somente na segunda metade do séc. xiii, a sua disseminação por toda
a Europa aconteceu de uma forma tão rápida, que surgem menções e representações da sua existência em
muitos países europeus já ao longo deste século.
Se nas classes mais abastadas, se junto dos nobres e dos mais eruditos, a sua prática
tende a ser desmerecida, se não abolida, junto do povo e das classes mais desfavorecidas, a
sua prática e mérito desenvolveu-se, progredindo e existindo até hoje. Este facto, este júbi-
lo, deu-se por via popular, sendo disso exemplo não só Portugal, como a Espanha e França,
países onde a Flauta e o Tamboril detém ainda hoje um grande poder de enraizamento,
enraizamento esse que se faz não só a nível local, como regional15. Num contexto mundial
mais alargado, e como já referido, a figura do Tamborileiro encontra-se presente em vários
países da América Latina, o que nos leva a colocar a hipótese que esta presença se dá fruto
da ação direta dos povos europeus e do processo de colonização, ação que se mostra a vá-
rios níveis e com diversos graus de atuação. No entanto, percebemos as diferenças culturais
que lhe são próprias, inerentes a um dizer e fazer de além-mar.

2.1. A Flauta de Tamborileiro em Portugal


Em Portugal, a representação mais remota da figura de um Tamborileiro da qual temos
referência, encontra-se numa iluminura da Crónica Geral de Espanha datada do séc. xiv16.
No que concerne esta representação, e segundo Veiga de Oliveira (2000: 260-261) o
Tamborileiro surge,
(...) aparentemente em funções mundanas, (...) tocado por um jovem que o leva no
antebraço esquerdo, não pendurado, como hoje, mas pousado e preso verticalmente; a
mão esquerda segura e dedilha a flauta (com o braço esquerdo flectido e encostado ao
peito), enquanto a direita bate a pele com uma baqueta virada para cima. O desenho
deixa dúvidas quanto à estrutura e formato exato do tamboril, não se podendo dizer
qual o sistema de prisão de peles, nem quanto à existência ou não de bordões (...).17

O Tamborileiro surge representado ainda na “Adoração dos Pastores”, representação


dos finais de séc. xvi, depositada atualmente no Instituto de Odivelas, e na “Natividade –
136 // Lugares e territórios: património, turismo sustentável, coesão territorial

Adoração dos Pastores” presente na igreja de Santa Maria de Alcáçova, em Elvas18.

15
No entanto, e no que diz respeito a Portugal, a sua presença é bem menos significativa que noutros países da
Europa. Em todos estes casos, a Flauta e o Tamboril surgem com especificidades e características próprias,
numa grande variedade de modelos que resultam, em parte, da sua grande dispersão geográfica. Este facto é
bastante importante para a caracterização e especificação de uma prática interpretativa e musical que ainda
hoje impera em algumas regiões do mundo.
16
Esta iluminura encontra-se na Biblioteca da Academia das Ciências de Lisboa.
17
A maneira como o Tamborileiro prende o Tamboril parece-nos idêntica à presente nos Tamborileiros retra-
tados nas Cantigas de Santa Maria de Afonso X, e naquela que emerge dos eventos protagonizados por “Los
voladores de Papantla”, no México, uma tradição Totonaca. No entanto, a natureza melódica e rítmica das
canções interpretadas, bem como o contexto social, cultural e, muitas vezes religioso, em que se insere, é outro.
18
Esta pintura está datada dos séc. xvii-xviii.
É ainda possível encontrar a Flauta tocada em simultâneo com o Tambor de Cordas
em duas pinturas do retábulo da Igreja de Madre Deus, monumento do séc. xvi, assim
como a figura de um rapaz a tocar Flauta e Tamboril, conjuntamente com um velho tocador
de Sanfona, num painel do Mosteiro de S. Vicente de Fora, em Lisboa19.
Atualmente, e em Portugal, encontramos a figura do Tamborileiro em duas zonas bem
distintas do território nacional. A primeira, em Trás-os-Montes em Terras de Miranda do
Douro, estando a sua prática associada às festividades que aí têm lugar, tais como as Danças
dos Pauliteiros e dos Velhos, as Festas dos Rapazes, o Presépio de Natal, além dos diferentes
Ofícios e outras Solenidades Religiosas. Apesar da sua presença ser mais forte no Nordeste
Transmontano, não deixa de ter alguma expressividade de atuação mais a Sul, no Alentejo.
Notamos uma forte influência e paralelismo com Espanha, nas duas zonas de atuação do
Tamborileiro. Os conjuntos instrumentais denotam semelhanças nos dois lados da fron-
teira. Verificamos essas semelhanças não só entre Miranda do Douro e Zamora (Castela
e Leão), como no Alentejo no que concerne a margem esquerda do Guadiana, compre-
endendo os concelhos de Serpa, Moura, Barrancos e Mourão, com Huelva (Andaluzia) e
com o sul de Badajoz (Estremadura).
Da análise documental, percebemos ainda que no Alentejo, a Flauta e o Tamboril são
tocados em simultâneo pela mesma pessoa. O Tamborileiro surge como presença regular
nas festas patronais e romarias de cada povoação, sendo uma figura indispensável nos
momentos mais importantes das festividades, nomeadamente o peditório, a alvorada ou
ainda nos bailes. Contudo, notamos que ao longo do século xx, a prática deste conjunto
instrumental e a presença do Tamborileiro no Alentejo sofre um decréscimo significativo
em termos qualitativos e quantitativos dos seus tocadores. No entanto, este decréscimo
não é recente, ele já se vem a efetivar, desde o final do século xix. Este decréscimo de efe-
tivos, e consequente desaparecimento dos seus agentes está, de acordo com alguns autores,
relacionado com o advento das bandas filarmónicas que se tornaram uma ameaça à figura
do Tamborileiro, não só na região do Alentejo, como um pouco por todo o país. Contudo,
137 // Lugares e territórios: património, turismo sustentável, coesão territorial
e citando Breyner (1900: 71-72), no concelho de Serpa “(...) ainda mesmo com as filar-
mónicas, o tamborileiro faz-se ouvir em todos os círios, ou festas d›arraial, e romarias aos
santos (...), [para as quais era] (...) indispensável o tamborileiro(...)”.

Toda esta informação nos atesta da importância da figura do Tamborileiro, tanto a nível social como cultu-
19

ral, em ambientes de natureza não só religiosa como pagã. Concomitante, o Tamborileiro surge, ao longo
dos séculos, como figura maior de uma cultura, de uma prática musical, de uma região, de um país, de um
povo, estando representado em diversos contextos, tanto ao nível da nobreza como do clero e daqueles que
possuíam os meios de fazer arte.
Paralelamente, Oliveira (2000: 128) explica que no início dos anos 60 do século passado,
o Tamborileiro teria já
(...) desaparecido há aproximadamente 50 anos da maioria das localidades onde
era tradição – de Serpa, nas festas de S. Pedro; de Moura; de Aldeia Nova de S. Bento,
no círio do Espírito Santo e nas festas de Junho, onde também acompanhava as
Danças dos Coices; de Brinches e das Pias, na Santa Luzia; de Santo Amador; de
Safara, na festa das Endoenças, que era muito concorrida; da Póvoa, no S. Miguel;
da Granja, no S. Sebastião; etc., – o tamborileiro pode contudo ver-se ainda em
Barrancos, nas Festas de Santa Maria, em Santo Aleixo, nas de Santo António e da
Tomina, e em Vila Verde de Ficalho, nas da Senhora da Pazes. [acrescenta ainda que
a flauta e o tamboril são aqui utilizados com] (...) funções nitidamente cerimoniais,
e o seu repertório reduz-se a uma breve fórmula de feição tradicional20.

No século passado, e noutras regiões de Portugal, existe referência, por parte de Michel
Giacometti, à presença de Flautas de Tamborileiro na Beira Alta e na Beira Baixa, zonas
fronteiriças com a região de Salamanca na província espanhola de Castela e Leão, onde o
instrumento mantém, ainda hoje, um grande enraizamento (Correia, 2004).
Como podemos observar, são numerosos os testemunhos que nos relatam a presença
e a prática da Flauta e do Tamboril em Portugal em diversas regiões do país, testemunhos
esses que se dão em torno das várias práticas que se desenvolvem aquando das romarias e
das festas patronais, nas quais a figura do Tamborileiro desempenharia um papel influente.
Neste sentido, seria figura de destaque no peditório, no qual percorria as ruas da povoação
anunciando a presença do Santo, dos festeiros e do fogueteiro, para que todas as casas da
povoação estivessem receptivas à sua passagem. Noutros momentos, surge aquando da
alvorada que se inicia na madrugada dos dias de festa, anunciando as cerimónias religiosas
e litúrgicas que se seguiam em honra do patrono21. A sua presença manifestar-se-ia tam-
bém aquando da procissão, neste caso tocando à frente do cortejo. No caso dos bailes, dos
138 // Lugares e territórios: património, turismo sustentável, coesão territorial

quais ainda possuímos alguns registos, a figura do Tamborileiro fazia face às necessidades
musicais de uma ação dançante, ação essa na qual os moços e as moças da região poderiam
encetar conversa e um contacto mais próximo se assim o desejassem.
No que concerne os bailes, Nunes (1899: 20-21), refere as danças “religiosas” bailadas
ao som do Tamborileiro, nomeadamente,
(...) na Festa do Espírito Santo, Aldeia Nova de S. Bento; nas festas das Pazes,
em Vila Verde de Ficalho; na Festa da Tomina, em Santo Aleixo; na Festa de Santa

20
No entanto, nestas mesmas povoações ainda hoje encontramos a figura do Tamborileiro aquando das festas
e romarias da região.
21
Aqui existem vários relatos da Flauta e do Tamboril tocados dentro do templo, da Igreja.
Luzia, em Pias; entre outras, [as quais estariam já em decadência. No entanto, temos
que referenciar as danças “populares e amorosas”, presentes na margem esquerda do
rio Guadiana, nomeadamente, [(...) os bailes de roda, o maquinéu, os pinhões, o seu
pésinho, o fandango, os escalhavardos, o sarilho, e o fogo del fuzil.

O Tamborileiro, além de ser um agente cultural de inquestionável valor, seria também


um detentor das tradições da terra, conhecendo todas as características e preceitos a seguir
nas várias etapas de uma festa ou romaria22.
No Sul do país, nas festas e romarias de diversas povoações da região do Alentejo,
era usual juntarem-se os Tamborileiros e os Guiões das terras vizinhas. Como nos re-
fere Oliveira (2000: 128), relativamente à Festa da Senhora das Pazes em Vila Verde
de Ficalho:
(...) aqui, como em Santo Aleixo, também outrora acorriam as “festas” das várias
povoações, incluindo as da vizinha Espanha, com os seus guiões e tamborileiros, que
os da terra iam esperar de cada vez, tocando depois ora uns, ora outros; e aos carros
dos romeiros de toda a parte. Numa fila contínua, vinham ornamentados com arcos
e verduras (…).

A proximidade entre povoações dos dois lados da fronteira evidencia-se nesta afir-
mação, pelo que, e no caso da povoação de Vila Verde de Ficalho (Serpa), e a povoa-
ção espanhola de Rosal de la Frontera (Huelva), se mantém ainda hoje laços estreitos de
colaboração23. Musicalmente sobressaem as suas semelhanças, mas, sobretudo, as suas
dissemelhanças, pois que o Tamborileiro alentejano usa um Tamboril de dimensões consi-
deráveis, cujo som é grave, acarretando, na sua forma de tocar, a exigência de ritmos lentos
e simples, característica que encontramos também nos Tamborileiros das terras vizinhas
de Huelva. Já os Tamborileiros das regiões mais a Norte, utilizam Tamboris de menores
dimensões, instrumentos que permitem a execução de ritmos mais complexos e rápidos,
139 // Lugares e territórios: património, turismo sustentável, coesão territorial
próprios a um repertório mais expedito.
Na Península Ibérica, e no que ao traje diz respeito, não nos deparamos com qualquer
particularidade, pelo que aduzimos que não existe nada de relevante a mencionar. Já no que
concerne a sua ocupação profissional, podemos atestar que os tamborileiros se encontravam
ligados a atividades de pastorícia e criação de animais, o que lhes permitiu aceder à Flauta
22
Neste sentido, era muitas vezes o Tamborileiro que, tendo conhecimento de todas as especificidades do ofício,
indicava o caminho a seguir no peditório, e demais ações a cumprir nas festas. Fruto dos vários anos de ex-
periência no ofício, a sua figura surge assim, como a presença e saber de uma cultura e tradição externa à sua
própria prática. A sua ação não é, neste sentido, pura e unicamente musical, mas também social e ritualista.
23
Ainda hoje são conhecidas as visitas de Rosal de la Frontera à Festa de Nossa Senhora das Pazes em Vila
Verde de Ficalho, acompanhadas do Guião de Santo Isidro e do Tamborileiro.
de três furos e ao uso de peles de cabra nos Tambores24. Breyner (1900: 72) afirma a este
respeito que “(...) o ser tamborileiro foi sempre de exclusiva competência dos cabreiros”.
Este oficio é aquele ao qual estavam (e ainda estão ligados) alguns antigos Tamborileiros,
como é o caso do Tamborileiro de Santo Aleixo que detinha a ocupação de pastor (Oliveira
2000: 132), ou do Tamborileiro de Aldeia Nova de S. Bento, que Michel Giacometti foi
encontrar no Monte de Belmeque. Este encontro deu-se na década de sessenta do século xx,
trabalhando o mesmo como “vaqueiro” e “porqueiro” simultaneamente.
De carácter artesanal, e muitas vezes feitos pelo próprio tocador, ou por algum artesão
local, a aprendizagem da feitura e da maneira de tocar os instrumentos era feita tanto em
contexto familiar, como pela observação de outros Tamborileiros. Estes podiam pertencer,
não só a regiões mais próximas da sua área de influência, como a povoações vizinhas. No caso
de povoações da raia, esta observação poderia, inclusive, ser feita do outro lado da fronteira,
o que lograria conduzir à apropriação de outras formas de tocar os instrumentos, outros
ritmos e melodias25. Verificamos identicamente uma evolução na sua prática interpretativa
e musical, assim como na maneira como o conjunto instrumental se apresenta. Neste fazer,
o juntar de outros instrumentos ao conjunto primeiro, leva a uma alteração desse mesmo
conjunto instrumental e, consequente, da sua natureza timbrica e instrumental. O alarga-
mento e desenvolvimento da natureza melódica, rítmica, harmónica e timbrica do conjunto,
assim como da densidade e natureza do discurso musical construído, dimensiona uma ação
interpretativa outra, que se mostra mais densa e transmissora de um outro fazer artístico,
musical e cultural. Podemos ainda afirmar, e especificamente em relação à região sul do
nosso país que, e sem qualquer hesitação, a prática da Flauta e do Tamboril a acompanhar
o canto, ou outros instrumentos, embora não conhecidos enquanto registos no território
português, se encontram presentes numa prática instrumental em que a Flauta e o Tamboril
estão acompanhados pela Viola Campaniça, instrumento popular nesta região, e que poderá
ter partilhado o seu repertório com a referida formação. Este facto surge como elemento
potenciador de um desenvolvimento musical, cultural e social diferenciado26.
140 // Lugares e territórios: património, turismo sustentável, coesão territorial

A prática da Viola Campaniça surge hoje mais viva em Portugal. Sabemos que ressur-
giu o interesse por este instrumento, o que levou a um reaparecimento dos seus tocadores
24
Neste sentido, podemos aferir que a Flauta de Tamborileiro, também conhecida por Flauta de três furos, é
particularmente conhecida não só em Portugal como em Espanha, estando muito divulgada ao nível dos
instrumentos tradicionais. De fabrico artesanal, este instrumento alargou o seu perímetro de influência a
outros continentes que não o Europeu, sempre com a função de animar festividades. Recorrendo a um só
músico, o facto permite uma maior versatilidade de ação e um menor custo para os romeiros.
25
Esta apropriação de elementos de um e outro lado da fronteira encontra-se descrita e considerada na
observação e análise dos documentos que nos foram disponibilizados.
26
Neste sentido, é possível encontrar na Biblioteca-Museu da povoação de Vila Verde de Ficalho um
velho exemplar de Viola Campaniça, que nos pode remeter para o uso deste instrumento na formação
instrumental em análise.
na região do Alentejo, para nós um sinal de que se poderá recuperar a tradição não só da
prática deste instrumento a solo, como da tradição Tamborileira na região. Revela-se então
fundamental, e necessário, proteger e estudar o pouco repertório ainda existente sobre
a forma de tocar deste instrumento, bem como a dos Tamborileiros alentejanos, pois o
património é rico e passível de se perpetuar no futuro. A riqueza deste património poderá
constituir-se factor de progresso económico destas regiões, revelando-se o capital necessá-
rio para a criação e o desenvolvimento de uma diferente atratividade dos territórios e, con-
sequente, das regiões e do país a que pertencem. Apesar de ainda raro e difícil, cremos crer
que, fruto do interesse das novas gerações pelo que é da terra, pelo que é autêntico, pelo
que é natural e tradicional, os fará, a médio e longo prazo, procurar as raízes e tradições de
um povo que é o seu, tornando-os motores de desenvolvimento e renascimento dos terri-
tórios. Neste sentido, a prática Flauta e do Tamboril, não só no Alentejo, mas progressiva-
mente em outras regiões do país, poderá vir a ser, dadas as peculiaridades e especificidades
dos instrumentos, um fator de desenvolvimento regional que levará inevitavelmente a uma
revitalização da figura do Tamborileiro como forma de dinamizar os territórios, revitalizar
tradições e recuperar a memória musical das gentes pela preservação e recuperação dos ri-
tuais e ritos ao seu uso inerentes, bem como dos instrumentos musicais, elementos de um
património material e imaterial que devemos preservar27.

2.2. A presença do Tamborileiro em Espanha, França e além-mar


Já do outro lado da fronteira, em Huelva na Andaluzia, ou em Badajoz na Estremadura,
encontramos uma tradição tamborileira bem viva. Mesmo tendo havido identicamente
uma redução do número de tocadores, ainda assim mantiveram-se em número significati-
vo para que a figura do Tamborileiro não desaparecesse. Notamos que depois da recupera-
ção que se efetuou deste instrumento em meados dos anos 80, este conjunto instrumental
é, agora, um conjunto instrumental muito popular. Da mesma forma que em Portugal, o
Tamborileiro surge em algumas povoações da província de Badajoz ligado às festas e ro-
141 // Lugares e territórios: património, turismo sustentável, coesão territorial
marias de cada povoação, tocando nos vários momentos da festividade. Do seu repertório,
destacam-se os temas de baile e de danças de espadas. Neste sentido, nas serras de Huelva
e na província de Badajoz, a Flauta e o Tamboril surgem ligados aos bailes e danças de
espadas, por oposição à região de Huelva em que este conjunto, exceção feita às partes
serranas, assoma ligado às romarias, nomeadamente à romaria do Rocio. Deste facto surge
que o instrumento, a Flauta de três furos tenha, nesta região, a denominação de Gaita

De referir que o interesse crescente pela área da etnomusicologia e da organologia ao nível das ciências musi-
27

cais, se tornou igualmente um motor de desenvolvimento de materiais e grupos instrumentais diferenciado-


res das inúmeras regiões do país e do globo; um conhecimento fundamentado e científica e historicamente
informado, também.
Rociera28. Na região de Huelva, além da sua presença aquando dos toques de alvorada,
o Tamborileiro marca presença na procissão e nos bailes. Incorporando, desde a primeira
metade do século xx, temas de sevilhanas e, desde finais dos anos 80, temas do flamenco
no seu repertório, surge como elemento diferenciador de uma cultura, dita, popular. A sua
prática musical surge ainda, e muitas vezes, realizada juntamente com outros instrumentos,
nomeadamente a Guitarra29.
Sabemos igualmente que, e no que concerne a maioria dos territórios rurais do inte-
rior da raia, as atividades agrícolas predominam, modelando a paisagem e estabelecendo a
identidade de um território que transmite, ainda assim, o espírito arreigado das gentes que
lutam contra a adversidade. Particular nesta população, é a esperança e a luta continuada
na defesa daquilo que é seu, não só no que concerne o território, mas, acima de tudo, da
identidade e da tradição. Assim,
e para todas as fainas, e para todas as estações, e para todas as horas, lá tem a can-
ção dolorida ou álacre, estimulante ou resignada, que, no alvor da manhã, no pino
do dia ou no crepúsculo do anoitecer, ecoa por devesas, vales e outeiros, dizendo a
secular comunhão ou a secular luta do homem com a terra (Lopes-Graça s.d.: 24).

Apesar das transformações que inevitavelmente ocorrem nos territórios, a carga sim-
bólica e o espaço das vivências que revelam, constituem a identidade que se mostra na
forma de ser e estar de um povo, e na sua relação com o meio. De acordo com diversos
autores, é na alternância entre o tempo de trabalho e o tempo de ócio, que o tempo se
revela e demarca, em tempos de fainas e de romarias,
em que moços e moças, velhos e velhas, escorreitos e aleijadinhos, se enca-
minham, por montes e vales, às vezes durante léguas e léguas, ao Santuário da
sua devoção, em grande concurso do povo, que, feitas as preces, cumpridas as
promessas ou dados os louvores ao orago, se liberta, numa alegria rútila e saudá-
vel, de cuidados e canseiras, folgazando, mercadejando, comento e amando em
142 // Lugares e territórios: património, turismo sustentável, coesão territorial

toda a simplicidade de espírito e sem qualquer ideia de ofensa aos lugares sagrados
(Lopes- Graça s.d.: 35).

28
De notar, que esta Gaita, a norte, possui dimensões menores, pelo que produz sons mais agudos por oposi-
ção às suas congéneres de Huelva e Badajoz, cujas dimensões maiores nos presenteiam com sons mais graves.
29
Esta diferença em relação ao território português surge como uma mais valia para este estudo, dado que nos
revela, a riqueza e a evolução dos grupos instrumentais nos diferentes países e regiões, evolução essa que se
mostra fruto de uma cultura, de uma sociedade, e de uma economia bem diversa, que se desenvolve nos dois
lados da fronteira.
Nestas romarias, a música e a dança possuem um papel de relevo, dando ordem e mes-
tria ao que de mais inato e percebido o homem detém. Assim, é necessário perceber que a
música não está dissociada do homem enquanto ser pensante, e que tem, no momento da
festa e da romaria, a oportunidade de mostrar um pouco mais livre. Estas vivências são, no
nosso entender, especialmente importantes no decorrer de práticas sociais e culturais que
padronizam comportamentos e relações sociais.
Na província de Andaluzia assistimos a uma mescla de práticas cujos repertórios mu-
sicais, seja dos grupos de tamborileiros ou dos grupos de flamenco, seguem modelos bem
definidos e institucionalizados, referentes ao património social e cultural da Romería de
El Rocío30. Sabemos que as romarias estão sempre ligadas às manifestações populares pagãs
que secundam a festa religiosa. Neste sentido, devem ser vistas como demonstrações cultu-
rais e rituais de quem o homem se apropria enquanto crente e temente a um Deus maior.
Para Arregi (1993: 532)
a la religiosidad popular pertenecen las ideas de una comunidad sobre los seres
sobrenaturales y su influencia en la vida (creencias), así como las prácticas mediante
las cuales el individuo o la colectividad se pone en relación con estos seres (ritos).

Esta religiosidade, visível nas festas populares entre as quais vimos a destacar as ro-
marias e as peregrinações aos santuários, e nas quais se englobam a prática musical
dos Tamborileiros, mostra-se também nos elementos estudados e característicos das
Festividades de Santo Isidro em Rosal de la Frontera, São Mamede em Aroche e Santo
António em Cortegana. A religiosidade presente nestas festividades em honra das imagens
titulares das festas e irmandades de cada região, constituem-se espaços de determinação
religiosa e cultural que não podemos, nem devemos escamotear, e que podem ser vistos
como ferramentas de desenvolvimento social, económico e territorial de inegável valor e
eficácia. No que concerne as irmandades, estas encontram-se presentes nos dois lados da
fronteira, sendo bastante importantes no desenrolar das festas, das romarias e dos rituais.
143 // Lugares e territórios: património, turismo sustentável, coesão territorial
A presença dos seus Mordomos na organização das festividades em honra dos seus Santos
Padroeiros, frequentemente associadas a Ermidas que se situam na periferia das aldeias
e povoações é da sua inteira responsabilidade. Em outro, sabemos que é em volta destas
Ermidas e Santuários que se conservam com maior fervor as crenças populares, e onde têm
lugar as festividades mais importantes para o povo. Organizando-se de forma similar em
todas as regiões, seguem padrões pré-definidos, pois que desempenham um papel e uma
O calendário festivo das gentes de Andaluzia segue as antigas festividades religiosas romanas que organizam os
30

tempos do homem diferenciando-o do tempo de ócio ou do tempo de lazer. As festividades que se celebram têm
por base o calendário pagão, comemorando distintos momentos da vida; as festividades dos santos padroeiros
de cada região, também. Notamos igualmente a apropriação da cultura nas diversas regiões e o enriquecimento
das suas formas musicais pela incorporação de elementos da dança e do folclore de um dado território.
função muito importante para esse mesmo povo, tanto do ponto de vista religioso, como
do ponto de vista profano, no qual se englobam os aspectos político, social, artístico e
cultural aí vigentes31.
Mas não só em Portugal e em Espanha se verifica a existência desta prática musical –
o Tamborileiro. E, mesmo que a presença e a execução conjunta da Flauta associada ao
Tamboril esteja presente em todos os países da Europa, é só a partir do século xvii que
este conjunto instrumental toma a sua forma definitiva, dado que é neste período que as
artes e tradições populares se afirmam. Neste sentido, podemos constatar a presença do
Tamborileiro, da Flauta e do Tamboril, em inúmeras representações de pintores ao longo
dos tempos, tais que Joseph Vernet (1714-1789), Jacques Rigaud (1680-1754), Antoine
Raspal (1738-1811) e Nicolas Lancret (1690-1743). Em França, a presença de músicos
provençais em Paris faz aparecer aí, a figura do Tamborileiro. De referir, neste sentido, as re-
presentações de Joseph-Noël Carbonel (1741-1804) e Jean Joseph Châteauminois (1744-
-1815). No entanto, o início do século xix foi um ponto de viragem para a presença do
Tamborileiro em França, nomeadamente na sua capital, Paris, pois a Revolução Francesa
e a queda da Monarquia põem fim ao uso regular deste conjunto instrumental, dando
lugar às orquestras32. Relegados para segundo plano e obrigados a deslocar-se para ou-
tras regiões do país, encontramos a figura do Tamborileiro na região de Vaucluse e em
Arles. No entanto, e mais recentemente, notamos que a presença do Tamborileiro em
regiões como as de Provence e Gascogne onde o uso destes instrumentos, a Flauta e o
Tamboril, se encontra bem enraizado e conservado. Em Provence, a Flauta é denomi-
nada de Galoubet e em Gascogne, de Flabuta, como referido anteriormente. Nas duas
regiões o Tamboril é denominado de Tambourine e o instrumentista de Tambourinaire.
Relativamente aos instrumentos utilizados, percebemos que os Tambores são bastante
semelhantes, no que ao seu diâmetro diz respeito, e em relação aos usados na Península
Ibérica. Contudo, notamos que são maiores em profundidade e mais ricos em relação à
sua decoração33.
144 // Lugares e territórios: património, turismo sustentável, coesão territorial

Relativamente às práticas musicais, culturais e sociais a eles associadas, diferenciam


significativamente das praticadas em Espanha e em Portugal, pois são fruto de práticas
de maior relevo e qualidade, tanto a nível musical, como instrumental. Estas práticas

31
De referir que, a romaria, possui um carácter mais lúdico e festivo que as festividades religiosas em torno do
patrono. Na província de Andaluzia predomina a romaria. Este facto surge como factor diferenciador face a
outras festividades desta região espanhola.
32
Já referimos que, e no caso de Portugal, esta prática se viu constrangida, se não aniquilada e desmerecida,
pelo florescimento das Bandas Filarmónicas.
33
De salientar ainda que este conjunto instrumental assoma também em Inglaterra, Itália e nos Países Baixos,
assim como na Eslováquia, República Checa e Rússia. Nestes países mais a oriente, a Flauta é tocada a solo
não requerendo a presença do Tambor.
decorrem de um saber que se quer continuado, e que, os franceses, relevam aquando das
suas festas e romarias. Ao nível de um ensino formal e institucional, a formação faz-se em
escola contribuindo para o seu desenvolvimento. No entanto, percebemos que somente as
Regiões de Marselha, Aix en Provence e Toulon mantém, ainda hoje, a tradição popular do
Tamborileiro, sendo possível encontrar a disciplina de Flauta de Tamborileiro em diversos
Conservatórios de Música em França34, facto que nos permite aferir da importância do
folclore e das tradições nestes territórios35.
Por outro lado, não só a formação de músicos em contexto formal mas, sobretudo, a
sua formação em contexto informal, permitem a prática sistemática destes instrumentos.
O uso deste conjunto instrumental, em contextos sociais e festivos mais tradicionais e
populares, como são as festividades, as festas e as romarias populares, permitem que os
mesmos não se extingam e, a sua presença, seja de grande valor para o desenvolvimento
e para a continuidade de uma prática em contexto. Os grupos de música tradicional,
os grupos e associações folclóricas, as casas da música, os centros de interpretação, e
demais agentes promocionais de cultura e tradição, possuem aqui um papel fundamen-
tal. Simultaneamente, os grupos folclóricos provençais permitem preservar a cultura e
as tradições locais, dado que os trajes, as danças e as músicas são executadas ao som da
Flauta de três furos (Galoubet) e do Tamboril, pondo em relevo o nome desta região.
Durante as suas representações, estes grupos usam instrumentos tradicionais da região
de Provence. Acompanhando a Farandola, uma dança tradicional, este conjunto instru-
mental está presente nas Festas de São João, Santo Elói, nas cavalgadas, podendo ainda
animar casamentos, aniversários e outras cerimónias a pedido dos seus organizadores. As
festividades de São João em particular, possibilitam a presença dos Tamborileiros num
costume provençal que remonta à região da Catalunha, onde as fogueiras de São João
eram presença habitual nos rituais associados a estas festividades. Estas práticas estendem-
-se desde o Principado do Mónaco até à região dos Alpes, sendo motivo de festejos e
ajuntamentos populares vários. Esta tradição, presente desde o século v, ligada aos cultos
145 // Lugares e territórios: património, turismo sustentável, coesão territorial
pagãos dos Solstícios, foi transformada pelos cristãos, consentindo o uso das fogueiras

34
Em 1864 é fundada uma Academia do Tamboril em Aix o que promove a criação de uma classe, mesmo que
efémera, de Tamboril no Conservatório de Aix. Em Marselha surge em 1888 um movimento de conservação
do tamboril e, depois da Primeira Grande Guerra (1914-1918), é revitalizado este conjunto instrumental
pelos grupos folclóricos. René Nazet publica mesmo em 1964 um Método Elementar de Flauta e Tamboril
da autoria de Maurice Guis. Atualmente existem classes de Tamboril em diversas Escolas e Conservatórios
de Música em Aix, Avignon, Arles e Martigues.
35
Neste sentido, e fruto de uma prática informada, a presença de um conjunto tão característico como este
nas festividades populares e regionais, conduz à revitalização não só desta prática, como dos patrimónios
material e imaterial das regiões referidas. Simultaneamente, pode ser um marco diferenciador na cultura e
nas tradições, assim como um fator de desenvolvimento económico, social e cultural.
aquando das referidas Festas36. As Festas em honra de Santo Elói, padroeiro dos ferreiros
e dos animais, eram acontecimentos onde os desfiles realizados em volta destes eventos
eram acompanhados pelas Flautas e Tamboris, tocando árias tipicamente provençais ao
ritmo de danças populares e tradicionais37.
Se a disseminação e importância deste conjunto instrumental, denominado de Flauta
de Tamborileiro, se encontra ligada a diversas formas de culto que se acham já desde a
Idade Média, verificamos que esta disseminação se faz relevante também pela natureza da
sua prática instrumental. A correspondência desta, com as danças e as coreografias que
acompanham a prática musical da Flauta e do Tamboril, práticas essas que se encontram
relacionadas, a nível religioso com as festividades do Corpo de Deus e, a nível pagão, com
as festividades do Solstício e as Recoltas de Verão, é marcante. De notar ainda que os
trajes usados nas festividades pagãs são parecidos: vestes brancas com cinturas e chapéus
engalanados com flores. As coreografias são também elas muito similares, pois são danças
em volta de um mastro, com cintas que se entrelaçam em movimentos circulares bem
ensaiados38. Concomitantemente, não podíamos deixar de referenciar neste trabalho, a
presença deste conjunto instrumental do outro lado do Atlântico, nomeadamente por
Terras de Vera Cruz e no México. No que concerne o uso deste conjunto instrumental
nesta região do globo, podemos afirmar que as culturas Inca e Asteca já usavam este tipo
de instrumentos antes da chegada dos Portugueses e dos Espanhóis, pelo que, não será de
estranhar a presença destas características e modos de dizer o musical nas suas danças. Esta

36
Em 1955, um grupo de escalda, ao chegar ao cimo do Monte Canigou próximo de Perpignan, alumia
todo o vale de luz para relembrar o costume dos povos Celtas que, instalados na província de Roussillon,
acendiam fogueiras para alumiar toda a região aquando do Solstício de Verão. Depois de 1963, esta chama
de São João desce da montanha e chega à localidade de Perpignan afim de permitir a todos os habitantes o
acesso à chama de Canigou. Ao longo do seu caminho, esta chama é transportada por indivíduos vestidos
de branco e transmitida às localidades vizinhas. Atualmente, esta chama está presente em Arles e todas as
localidades de Provence que aí vêm buscar a chama, revitalizando uma série de tradições presentes nas mú-
146 // Lugares e territórios: património, turismo sustentável, coesão territorial

sicas, danças, profissões e utensílios usados em épocas anteriores. Num caso como no outro está ligada ao
Solstício de Verão, conservando as suas características pagãs.
37
As Festas em honra de Santo Elói, padroeiro dos ferreiros e dos animais, são celebradas em dois momentos
distintos: a festa religiosa no dia 1 de Dezembro e as festividades pagãs no dia 25 de Junho aquando da
transferência das suas relíquias da Catedral de Noyon para Paris em 1212. Esta festa é um costume Provençal
dos mais coloridos que se realiza ao norte dos Alpes desde Avignon a Toulon. Composta pelas Cavalgadas
dos Carreto Ramados, assim como por charretes engalanadas por ramagens, esta festa é uma homenagem
aos cavalos como ferramenta de trabalho e meio de transporte antes do aparecimento de outros meios de
transporte mais modernos. O desfile de Santo Elói remonta à Idade Média, época em que os aldeões defen-
diam as suas terras e pertences. Esta prática obrigava a que possuíssem uma cavalaria, uma milícia dirigida
por um capitão, e um chefe das cavalarias que portava um estandarte como forma de identificação. Os des-
files são acompanhados pelas Flautas e Tamboris, os Galoubets e os Tambourines, tocando árias tipicamente
provençais ao ritmo de danças populares e tradicionais.
38
De notar que, na sua origem, estas danças com mastros eram danças guerreiras.
presença faz-se notar, nomeadamente na Danza del Venado, uma dança ritual dos índios
Yaquis e Mayos dos estados mexicanos de Sinaloa e Sonora, e dos Voadores de Papantla.
No caso dos Voadores de Papantla, esta tradição, de origem Totonaca, consiste numa
dança em que quatro homens se lançam de uma altura superior a vinte metros de cabeça
para baixo e presos por fitas que se encontram enroladas no seu corpo. À medida que o
ritual prossegue, e a estrutura superior do poste gira, as fitas vão-se desenrolando e os
homens descendo progressivamente até ao solo. A dança dá-se de forma lenta, e o ritual
se faz sacrifício. Pendurados num poste que se encontra encimado pelo Sacerdote – o
Tamborileiro –, que toca de forma contínua os seus instrumentos, a dança prossegue, e
os quatro homens, que simbolizam os quatro pontos cardeais, lançam-se numa descida
extasiada até ao solo. Mostram assim a sua força mas também um sacrifício, um sacrifício
do que é de si para que a comunidade renasça, revitalize e floresça. Do ponto de vista
social, cultural e económico, são, no nosso entender, denunciadores de desenvolvimento.
Não podemos ainda deixar de referir que esta representação da Flauta de Tamborileiro se
encontra presente em quase toda a América Latina, presença essa que se faz sentir desde o
Equador até ao Peru e Venezuela. Não podemos deixar de fazer notar ainda, que a flauta
de três furos também se mostra mais a Oriente, na China, Coreia e Japão. Neste dizer,
permitimo-nos salientar a importância da presença Portuguesa e Espanhola nestes locais,
bem como na disseminação destes instrumentos pelo mundo.

Considerações finais

Como breve reflexão, queremos salientar a presença da música, da dança e da arte,


bem como da manufatura de instrumentos musicais tradicionais, e da sua prática aquando
das manifestações religiosas e pagãs nas diversas partes do globo, como fator de desen-
volvimento económico, social e cultural. Queremos ainda relevar a importância destes
147 // Lugares e territórios: património, turismo sustentável, coesão territorial
contextos como materializações e manifestações decorrentes da existência e permanência
de um património material e imaterial da maior importância e relevo. Queremos identica-
mente referir que, em cada uma das regiões, esse património, para além de ser um factor
de desenvolvimento social, económico e local, se torna fator de preservação das tradições,
revelando-se elemento de desenvolvimento cultural, artístico e humano.
A prática musical do Tamborileiro, e os seus instrumentos em particular, revelam iden-
ticamente, e em todos os locais referidos, uma importância maior no que concerne a per-
manência e imanência das tradições, sejam elas de natureza religiosa ou profana. Estando
presente tanto nos cultos, como nas festas pagãs, traz até nós a necessidade de refletir sobre
a sua importância, bem como sobre a sua relevância, e a de certos conjuntos instrumentais
na vida das gentes. Como recurso endógeno, urge ponderar nos meios necessários à sua di-
vulgação e preservação, para que o saber e cultura locais não sucumbam no esquecimento
do tempo e dos espaços de uma barbárie contemporânea.
A Flauta de Tamborileiro, presente na Europa e no mundo, surge uma representa-
ção daquilo que se faz de mais puro a nível religioso e profano, numa interação entre
o Tamborileiro e o povo, povo e o meio, o meio e o rito, o rito e a tradição, a tradição
e culto, o culto e o conhecimento, o conhecimento e a materialidade, a materialidade
e a imaterialidade de um recurso que nos permite a fruição e a divulgação de um saber
que é nosso, em festivais, romarias e eventos que promovem não só as crenças, como o
património e as tradições que se vão fazendo de todos nós. Fruto da força e da atrativi-
dade daquilo que se constituiu um recurso puro, vemos, na revitalização destas práticas e
saberes, assim como na sua divulgação, a necessidade de conservação da memória indivi-
dual e coletiva de um povo, bem como do conhecimento e das práticas a ela associadas.
Neste fazer se dá o progresso, se mostra uma necessidade, e se torna o homem um ser e
ter que é de todos.

Referências bibliográficas:

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Antropología, Barcelona: Boixareu.
Breyner, Alexandre de Mello, (1900) “O Tamborileiro”, A Tradição, Ano II, nº5, Serpa. (http://
www.archive.org/stream/tradio12lisbuoft#page/n7/mode/2up)
Correia, Conceição e Roquete, Catarina, Michel Giacometti, (2004) Caminho para um Museu,
Câmara Municipal de Cascais.
Jambrina Leal, Alberto e Cid, José Ramón, (1989)  La Gaita y el Tamboril, Centro de Cultura
Tradicional, Salamanca.
Lopes-Graça, Fernando (s.d.), A Canção Popular Portuguesa, Lisboa, Colecção Saber, Publicações
148 // Lugares e territórios: património, turismo sustentável, coesão territorial

Europa-América.
Nunes, M. Dias, (1899), “Danças Populares do Baixo Alentejo” A Tradição, Ano I, nº 1, Serpa.
(http://www.archive.org/stream/tradio12lisbuoft#page/n7/mode/2up)
Oliveira, Ernesto Veiga de,  (2000) Instrumentos Musicais Populares Portugueses, Fundação
Calouste Gulbenkian, Lisboa.
Itinerários literários: Leituras e Leitores
de Camilo Castelo Branco, em particular
Agustina Bessa-Luís

Daniela Maria Vaz Daniel

“Mudo de terra para terra, precedido sempre do tédio que lá me


vai esperar” (Camilo Castelo Branco1).

1. Introdução

Sendo a zona da Raia pródiga em autores de renome, quer a ela estejam ligados por
nascimento ou por opção afetiva, conhecer a vida e a obra desses escritores e estabelecer per-
cursos literários será certamente uma mais-valia para a comunidade e para a própria região.
É comum afirmar-se que Camilo Castelo Branco amava o Norte apesar de ter nascido
em Lisboa. De facto, o mestre demostra esse amor na escolha de personagens e locais que
conhece ou lhe são familiares, centrando-se a larga maioria das suas obras de ficção em
Trás-os-Montes ou no Minho onde viveu a maior parte da sua vida e conviveu de perto
com as populações. Contudo, o mais profícuo autor luso e um dos maiores escritores por-
149 // Lugares e territórios: património, turismo sustentável, coesão territorial
tugueses do século xix não limita o espaço das suas narrativas a essas duas áreas geográficas,
localizando inclusivamente parte de diversas obras no estrangeiro.
Ainda no respeitante ao território nacional, o autor não foi indiferente às gentes do
Centro. O seu avô paterno, Domingos José Correia Botelho, alcunhado por Bexiga e co-
nhecido pelo Dr. Brocas, formara-se na Universidade de Coimbra em Leis e em Cânones,
tendo exercido funções em Cascais, no Porto, em Vila Real e em Viseu. Assim, a razão para
alguns dos romances de Camilo, ou cenas dos mesmos, se passarem em terras da Beira,

In TRANCOSO, Miguel (Coordenação). Camilo e Castilho – correspondência do primeiro dirigida ao


1

segundo. Coimbra, Imprensa da Universidade,1930, pp.11-12.


nomeadamente em Gouveia, Lamego, Pinhel e Viseu, poderá dever-se ao facto de o seu
avô ter desempenhado o cargo de juiz de fora na comarca de Viseu durante três anos.
É do conhecimento geral que o mestre leu os clássicos, mas tal asserção parece-nos
demasiado vaga e abrangente reclamando uma clarificação sobre as suas escolhas de entre
os mesmos. Assim, o presente artigo reflete a análise deste autor multifacetado, amado por
uns e odiado por outros, numa perspetiva biobibliográfica, literária e cultural.
Conscientes de não pertenceu a nenhuma escola, cremos que as leituras por ele realizadas
se refletem no seu trabalho literário, tal como as vivências, o que se pode facilmente observar
nas leituras que outros da sua obra fizeram, interpretando os percursos e as escolhas que fez.
Que autores leu Camilo Castelo Branco? Quais desses escritores o influenciaram? Que
figuras da cultura portuguesa e internacional leram Camilo? Quem reflete na sua obra a
vida ou a produção literária do autor? E, finalmente, como o vê Agustina Bessa-Luís, uma
das maiores romancistas portuguesas do nosso século, admiradora confessa do mestre e
autora de duas obras em que o coloca como figura central?

2. Enquadramento Literário

Poderíamos definir Camilo Castelo Branco como um escritor romântico com in-
cursões no Realismo, tendo a maioria dos críticos defendido que foi a figura central do
Ultrarromantismo apesar da sua desafeição a escolas. Tal enquadramento não dispensa um
conhecimento profundo da sua vida já que a existência tipicamente romântica o definiu
enquanto homem e como romancista.

“São estas circunstâncias biográficas – a bastardia, a orfandade, as tradições ro-


manescas da família, a educação religiosa, o convívio com a paisagem física e huma-
na das províncias do Norte, o conhecimento íntimo do meio portuense, as aventuras
sentimentais, os lances da vida boémia e turbulenta, a pobreza, os desgostos, a doen-
150 // Lugares e territórios: património, turismo sustentável, coesão territorial

ça, o isolamento de S. Miguel de Ceide, o profissionalismo na carreira das letras – o


quadro fundamental de referências para a leitura de Camilo, enquanto a experiência
biográfica o modelou e enriqueceu […]” ( Prado Coelho, 2001: 67)

A corrente literária do Romantismo que durou cerca de quarenta anos (1825-1865)


tinha como referência os ideais liberais, repudiava as formas rígidas da Literatura e veio
destronar a epopeia enquanto género narrativo mais comum e acarinhado, dando prefe-
rência ao romance. O enriquecimento da classe burguesa, a par do desenvolvimento das
técnicas tipográficas, assim como do fim da censura e da inquisição proporcionaram uma
manifesta difusão do livro.
É frequente dividir-se o período romântico em três fases. A primeira decorre de 1825
a 1840, destacando-se como principais autores Almeida Garrett (1799-1854), António
Feliciano de Castilho (1800-1875) e Alexandre Herculano (1810-1877) estando estes
ainda muito ligados ao Classicismo, já que mantêm diversas características neoclássicas.
A segunda geração romântica, comummente denominada de ultrarromântica, desenvolveu-
-se essencialmente em torno das cidades de Coimbra e do Porto, tendo sido liderada por
João de Lemos (1819-1890), e apresentando como principais expoentes Camilo Castelo
Branco (1825-1890) e Soares de Passos (1826-1860). As principais características desta
fase do Romantismo são o fascínio pela morte, o pessimismo exacerbado, a inatingibilidade
da felicidade no amor, a religiosidade e o naturalismo.
Também conhecida por pré-realista, a terceira geração romântica portuguesa teve
como representantes fundamentais João de Deus (1830-1896) e Júlio Dinis (1839-1871)
em cujas obras já era notória a dissolução das características românticas.
O Realismo, género literário também presente nalgumas obras de Camilo, veio desen-
volver olhares postos no futuro, no progresso e na ciência, uma vez que a preocupação for-
mal dos realistas assentava na exatidão, na precisão de estilo e de linguagem para descrever
a realidade. Balzac (1799-1850) foi o fundador do Realismo na Literatura, sendo Eça de
Queirós (1845-1900) apontado como o criador da corrente em Portugal.
De acordo com David Frier2, Camilo é a única figura representativa da segunda fase
do Romantismo, sendo o carácter do autor, assim como o tom da sua obra, indubitavel-
mente românticos, apesar de certas produções de pendor realista. Este crítico defende
ainda que certas obras lusitanas seriam inimagináveis se Camilo não tivesse criado uma
prosa tipicamente portuguesa.
Há também a enfatizar a linguagem e o estilo do mestre: um vasto e riquíssimo
vocabulário, umas vezes arrancado, sem retoques, da fala do povo, outras vezes de sabor
arcaizante. De facto, na sua obra encontramos uma oratória vocabular extraordinária,
graças ao uso de léxico extremamente rico e colorido, assim como de uma linguagem
151 // Lugares e territórios: património, turismo sustentável, coesão territorial
vernácula exemplar. Camilo revelava um estilo invulgar, onde a vertente clássica, a par
da sentimental e romântica, se explicam pela leitura dos autores clássicos junto de padre
António de Azevedo, e a linguagem popular se deve ao contacto direto tido com o povo,
nomeadamente do Minho e de Trás-os-Montes.
Todavia, o convívio com as gentes da Beira está igualmente patente na sua produção
literária, nomeadamente em Amor de Perdição, o seu mais aclamado romance, assim como
em Noites de Lamego e O Bem e o Mal. Relativamente ao primeiro, no qual Camilo narra a
história de seu tio paterno, Simão António Botelho, a ação passa-se em Coimbra, no Porto
In FRIER, David. As (Trans)Figurações do Eu nos Romances de Camilo Castelo Branco (1850-1870). 1.ª edição.
2

Lisboa: Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 2005, pp. 52.


e em Viseu, sendo esta última o local de nascimento das personagens principais e residên-
cia das respetivas famílias. No que respeita ao volume intitulado Noites de Lamego, do qual
fazem parte diversos contos, a alusão a esta cidade da Beira Alta, pertencente ao distrito
de Viseu, surge não só no título da obra e no prefácio da mesma, como no último conto.
De facto, uma das personagens principais do texto intitulado César ou João Fernandes? é o
filho do barão da Penajóia e reside em Penajóia, freguesia do concelho de Lamego. Quanto
ao romance O Bem e o Mal, que Camilo dedica a padre António de Azevedo, toda a ação
se centra nas ermas terras do atual distrito da Guarda. Efetivamente, não só o padrinho
do alter-ego de padre António de Azevedo era um velho fidalgo de Pinhel, como uma das
personagens principais, Ladislau Tibério Militão, nascera no termo de Pinhel, em Vila
Cova (o verdadeiro topónimo é Bouça Cova) e o vicariato situava-se em S. Julião da Serra,
uma das freguesias urbanas de Gouveia.
Apesar da paixão pela gente simples do povo e das características marcadamente lusas
da sua pena, Jacinto do Prado Coelho salienta a originalidade e a independência do mestre:

“Camilo, dentro da restrita esfera do Portugal do Romantismo, construiu o seu


mundo peculiar. Fê-lo com bastante independência, procurando obedecer à sua lei
própria, seguir o seu caminho, elaborar os materiais da experiência que ia adquirindo
dos homens e da vida. Por isso geralmente se apresenta Camilo como uma força da
natureza, sobranceiro a escolas, impermeável a tendências que não fossem as pró-
prias tendências instintivas” (Prado Coelho, 2001: 107).

De facto, este conceituado académico da crítica camiliana definiu Camilo como


um escritor entre dois mundos, considerando o seu Romantismo contido dada a grande
influência dos clássicos, e o seu Realismo pessoal e singular.
Além das obras em prosa narrativa, Camilo distinguiu-se noutros géneros, designadamen-
te antologia, biografia, crítica literária, epistolografia, folhas volantes, história, jornalismo,
152 // Lugares e territórios: património, turismo sustentável, coesão territorial

polémica, prefácios, romance, teatro, traduções e versos.

3. Camilo Castelo Branco

3.1. Breves notas biográficas

Camilo Ferreira Botelho Castelo Branco nasceu em Lisboa, na Rua da Rosa, a 16 de


Março de 1825. Foi baptizado na Igreja dos Mártires a 14 de Abril de 1825, vindo a ser
perfilhado pelo pai aos quatro anos. Era filho de Manuel Joaquim Botelho Castelo Branco,
solteiro, e de Jacinta Rosa do Espírito Santo Ferreira. Ambos viviam em mancebia e já
tinham uma filha mais velha, Carolina.
Camilo ficou órfão de mãe com cerca de dois anos e de pai quando contava dez, carre-
gando a sua orfandade pela vida fora. Toda a sua instabilidade afetiva, nascida da ausência
do amor e do carinho dos pais, assim como do facto de não ter uma casa a que pudesse
chamar lar, se veio a revelar no seu carácter melancólico e no modo depressivo de encarar
a vida. Assim, quando a cegueira ameaçava afastá-lo do mundo das letras, o génio escolheu
retirar-se do palco da vida.

3.2. O autor e a sua obra

Camilo iniciou os estudos primários em Lisboa, em 1830, mas com a morte do pai, a
22 de Dezembro de 1835, as duas crianças foram viver para Vila Real de Trás-os-Montes.
Os órfãos foram entregues aos cuidados de sua tia paterna, D. Rita Emília da Veiga Castelo
Branco, e do amante desta, João Pinto da Cunha, que fora nomeado tutor dos menores.
Em 1839, Carolina casou-se com Francisco José de Azevedo, estudante de medicina,
integrando Camilo o novo lar em Vilarinho de Samardã, no distrito de Vila Real. Aí, passava
a maior parte do tempo em contacto com a natureza e a vida transmontana, recebendo uma
irregular educação ministrada por padre António José de Azevedo, irmão do seu cunhado.
A vivência de Camilo foi um saltitar de paixão em paixão, de desgosto em desgosto,
de procura constante de um regaço onde se acolher, tendo perseguido, incessantemente,
esse amor, confundindo-o, com frequência, com breves paixonetas. Assim, aos dezasseis
anos casou-se com Joaquina Pereira de França, de quinze, e dois anos depois, após o nas-
cimento da filha, fugiu para o Porto, onde levava uma vida de boémia, iniciando-se então
no jornalismo e na poesia. Em 1845, publicou os seus primeiros poemas: Os Pundonores
Desagravados e O Juízo Final, redigindo também O Sonho do Inferno3. Em 1846, de volta
a Vila Real, apaixonou-se por Patrícia Emília de Barros, fugindo com ela para o Porto.
153 // Lugares e territórios: património, turismo sustentável, coesão territorial
João Pinto da Cunha mandou-os prender alegando que lhe haviam roubado dinheiro e,
até se provar a sua inocência, a 23 de outubro, o casal permaneceu na Cadeia da Relação
do Porto, de onde o escritor escreveu a Alexandre Herculano pedindo-lhe proteção. Nessa
data, Camilo passou a colaborar nos periódicos O Nacional e Periódico dos Pobres, estreando-
-se ainda como dramaturgo com a peça Agostinho de Ceuta.
Em 1847 Camilo e Patrícia Emília regressaram a Vila Real tendo nascido, a 25 de
Junho de 1848, Bernardina Amélia Castelo Branco, fruto dessa relação. Contudo, Camilo

Dado o elevadíssimo número de obras do autor, apenas referiremos o nome e a data de publicação de al-
3

gumas que nos pareceram mais importantes por assinalarem uma iniciação de género ou uma inovação de
estilo, ou, ainda, por serem obras mormente conhecidas ou apreciadas.
abandonou mãe e filha pouco depois e voltou para o Porto onde entrava em polémicas
acesas n’ O Nacional.
Na primeira fase do autor está patente a influência de cultores do romance negro como
Ana Radcliffe (1764-1823) e Eugène Sue (1804-1857) tendo Camilo publicado folhetos
de cordel anonimamente. Foi então que fez uso de inúmeros pseudónimos, não conse-
guindo, no entanto, disfarçar a autoria dos mesmos, dado o cunho inconfundível da sua
escrita e o tom jocoso a eles associado. Há a destacar, por ordem cronológica, Arqui-Zero,
Barão Gregório, O Cronista, Fouché, Ninguém, Saragoçano, Anastácio das Lombrigas,
Carolina da Veiga Castelo Branco, Anacleto dos Coentros, AEIOUY, C. da Veiga, A Voz
da Verdade, Visconde de Qualquer Coisa, O Antigo Juiz das Almas de Campanhã, José
Mendes Enxúndia, D. Rosária dos Cogumelos, João Júnior, Manuel Coco, Modesto,
Felizardo, e Egresso Bernardo de Brito Júnior.
De 1848 a 1850, Camilo residiu no Porto onde colaborou no Jornal do Povo e convi-
veu com os “mais notáveis e esperançosos talentos da burguesia portuense”4 pertencendo
ao grupo dos Leões do café Guichard. Frequentava teatros e cafés, envolvia-se em brigas e
duelos, vindo também a cometer uma tentativa de suicídio da qual o salvou José Augusto
Pinto de Magalhães, morgado da Quinta do Lodeiro e mais tarde uma das personagens
principais do romance Fanny Owen de Agustina Bessa-Luís. Apesar da educação marcada-
mente eclesiástica que fez dele um crítico do suicídio, a sua vida trágica levou-o a ponderá-lo
e tentá-lo por diversas vezes.
Foi em 1850 que Camilo redigiu Anátema, o seu primeiro grande romance. Também
participou na polémica “Alexandre Herculano e o clero”, assumindo-se como escritor pú-
blico. De facto, a escrita seria, a partir de então, a sua única profissão e fonte de rendi-
mentos. Consta que foi nesse ano que se cruzou pela primeira vez com Ana Plácido e se
matriculou no Seminário Episcopal. Em 1852 e 1853, fundou, respetivamente, os jornais
religiosos O Cristianismo e Cruz. A sua participação jornalística manteve-se, sendo de
assinalar que Camilo se tornou redator do jornal Porto e Carta. A partir de 4 de Março
154 // Lugares e territórios: património, turismo sustentável, coesão territorial

de 1853, o romance Mistérios de Lisboa foi sendo publicado, em folhetins, no diário por-
tuense O Nacional, tendo sido editado em livro em 1854. Em 1855, publicou as obras
Cenas Contemporâneas e O Livro Negro do Padre Dinis, vindo a luz, em 1856, o romance
Onde Está a Felicidade? que foi recebido com agrado pela crítica e a partir do qual se crê
que o autor atingiu a maturidade literária. São desta fase os romances passionais de forte
intensidade dramática em que revisita temas como a bastardia, a orfandade, o abandono
das mulheres, a reclusão em conventos das raparigas apaixonadas e os amores fatais.

4
CASTELO BRANCO, Camilo. Anátema. Lisboa, Círculo de Leitores, 1981, pp. 24.
Em 1857, Camilo e Ana Plácido viviam já uma relação íntima, tendo pouco cuidado
em esconder o adultério que em breve se viria a tornar público. Vãs foram as tentativas
de Manuel Pinheiro Alves, abastado marido de D. Ana, para afastar os apaixonados e
silenciar a sociedade portuense pois, decidida a lutar pela felicidade ao lado do homem
que amava, Ana Plácido abandonou o lar conjugal em 1859, levando o seu filho, Manuel
Plácido, e indo viver com Camilo. Foram presos na Cadeia da Relação do Porto, em 1860,
sob a acusação de adultério. Aí Camilo trabalhava sem cessar e gozava de um tratamento
especial. Para além de ter colaborado na imprensa do Porto e de Lisboa, redigiu diversos
livros. A segunda passagem do mestre pela prisão foi imprescindível para o seu amadure-
cimento enquanto homem e enquanto escritor: “Enfim, a estada na prisão levou Camilo a
concentrar-se, a debater no seu íntimo os grandes problemas morais; mais ainda: apressou
a maturidade do escritor; a sua linguagem tornou-se, dum modo geral, mais reflexiva, mais
densa, com a sóbria contenção do desengano e da sabedoria” (Prado Coelho, 2001: 57).
Após a absolvição, o autor manteve uma intensíssima atividade literária, fruto da ur-
gência catártica e da necessidade económica, o que lhe valeu o reconhecimento por parte da
sociedade cultural de então e uma notoriedade invejável. Em 1861 publicou, para além de
Doze Casamentos Felizes, a obra que mais parecia apreciar: O Romance de Um Homem Rico.
Amor de Perdição, Coisas Espantosas, Estrelas Funestas, Memórias do Cárcere, As Três Irmãs, e
Coração, Cabeça e Estômago foram publicados em 1862. Na última surgem certos toques de
um humorismo discreto que se viria a desenvolver em A Queda dum Anjo e a transformar
na truculenta sátira de costumes de Eusébio Macário e A Corja. Em 1863 publicou, entre
outras, duas obras nas quais faz alusão à Beira: O Bem e o Mal e Noites de Lamego.
Apesar do sucesso do escritor e da absolvição de ambos, a sociedade portuense não per-
doou ao casal que acabou por se exilar, a partir de 1864, na quinta de S. Miguel de Ceide que
fora herdada por Manuel Plácido, filho legítimo de Manuel Pinheiro Alves mas em relação
ao qual havia dúvidas se não seria, na realidade, fruto dos amores entre a sua mãe e Camilo.
A 28 de Junho de 1863, nasceu Jorge, o primeiro filho (legítimo) de Camilo e Ana Plácido,
155 // Lugares e territórios: património, turismo sustentável, coesão territorial
tendo Nuno nascido a 15 de Setembro de 1864. Ambos lhes deram muitas preocupações e
desgostos devido aos problemas mentais do primeiro e à vida desregrada do segundo.
Camilo foi publicando, entre 1875 e 1877, as Novelas do Minho, consideradas, a par
com A Brasileira de Prazins (1882), obras de transição do Romantismo para o Naturalismo.
O mestre foi agraciado com o título de Visconde de Correia Botelho, a 18 de Junho de
1885, o que provocou um grande escândalo na sociedade portuense de então, tendo vindo
a casar-se com Ana Plácido, a 9 de Março de 1888, no Porto, pelas dez horas da noite.
Graças à iniciativa de João de Deus, o autor foi homenageado na data do seu 64.º ani-
versário por escritores, artistas e estudantes, mas nada parecia minorar o seu depressivo
estado de espírito dada a iminente cegueira. No dia 1 de Junho de 1890, o conceituado
oftalmologista Edmundo de Magalhães Machado observou o mestre e recomendou-lhe
uma cura de águas no Gerês. Compreendendo o subterfúgio, Camilo desferiu um tiro de
revólver na têmpora direita enquanto Ana Plácido acompanhava o médico à saída.

4. Leituras Camilo

“A sua maneira de escrever é bem reveladora da formação que recebeu, no assíduo con-
tacto com os clássicos portugueses, mas também da natural inclinação para a eloquência,
expressa num estilo simultaneamente vigoroso e coloquial, literário e popular, dramático e
cómico” (Prado Coelho, 2001: 44).

Como já afirmámos, Camilo leu os clássicos, nomeadamente os portugueses e os latinos,


bem como a literatura eclesiástica, pela mão de padre António José de Azevedo que, para
além da doutrina cristã, lhe ensinou latim, francês e um pouco de literatura portuguesa.
Padre António é um marco essencial na vida do mestre, não apenas pelos ensinamen-
tos que lhe ministrou e pelos escritores cujo convívio lhe facultou, mas fundamentalmente
pela amizade e cumplicidade que existia entre ambos.
Mais tarde, quer por ser um leitor compulsivo, quer pela sua profissão, revisitou os
clássicos e tomou contacto com os autores de diferentes nacionalidades, sendo ávida a
necessidade de se cultivar e atualizar, sendo de salientar os trabalhos de tradução que lhe
permitiram a aproximação a um variadíssimo leque de autores estrangeiros, particularmente
franceses e ingleses.

“[…] Camilo, excepcional devorador de livros, decerto se deixou influenciar,


mais ou menos conscientemente, por escritores que o impressionaram e lhe suge-
riram maneiras de encarar o real e processos de fazer novelas. Não podemos, pois,
156 // Lugares e territórios: património, turismo sustentável, coesão territorial

deixar de realçar a influência que a literatura francesa exercia na Península Ibérica,


desde os tempos remotos dos provençais, passando pela época das luzes. “Os heróis
das primeiras novelas camilianas, soturnos e febris, descendem em linha directa de
Oswald, René e Manfred” (Prado Coelho, 2001: 121).

Da leitura de autores portugueses há a referir tanto os escritores mais conceituados


como os menos conhecidos. Dos primeiros destacam-se Alexandre Herculano, Almeida
Garrett, António Feliciano de Castilho, padre António Vieira, Bernardim Ribeiro, Camões,
Eça de Queirós, Fernão Mendes Pinto, Guerra Junqueiro, Gil Vicente, Luís António
Verney e Tomás Ribeiro, sendo de destacar a aparente influência de Garrett na propensão
para divagações, no carácter satírico e no estilo faceto de obras do mestre, como Anátema,
O  Senhor do Paço de Ninães ou O Que Fazem Mulheres, entre outros. No concernente aos es-
critores ditos menores surgem Barbosa e Silva, Bulhão Pato, Coelho Lousada, Ernesto Biester,
Faustino Xavier de Novais, Francisco Morais Sarmento, Inácio Pizzaro de Morais Sarmento,
D. João de Azevedo, Joaquim Pinto Ribeiro, José Gomes Monteiro, Júlio César Machado,
padre Manuel Bernardes, Rebelo da Silva, Soares de Paços e padre Teodoro de Almeida
Quanto à literatura francesa salientam-se nomes como Alexandre Dumas (Pai), Balzac,
Chapelain, Chatterton, Chateaubriand, Madame Cottin, Descartes, Feuillet, Flaubert,
George Sand, Joseph Marie Eugène Sue, La Calprenède, La Fontaine, Lamartine, Léon
Bloy, Malherbe, Musset, Pascal, Prévost, Racine, Roselly De Lorgues, Rosseau, Sainte-
-Beuve, Sénancour, Stendhal, Teófilo Gautier, Vigny, Voltaire, Victor Hugo, para além
dos autores de menor relevo, parecendo inevitável a intertextualidade. “Leitor incansável,
Camilo pode dizer-se que conheceu a melhor parte da literatura francesa da primeira
metade do século, desde os grandes astros até aos autores de segunda ou terceira plana,
psicólogos e moralistas […]” (Prado Coelho, 2001: 120).
No tocante à literatura inglesa há a nomear, para além dos clássicos Alexander Pope,
Byron, John Milton, e William Shakespeare, romancistas tão celebrados como Ana
Radcliffe, Eugène Sue, Henry Fielding, Hugh Walpole, Jonathan Swift, Oliver Goldsmith,
Samuel Richardson, Walter Scott e William Thackeray.
Relativamente à vizinha Espanha, Camilo conhecia essencialmente os autores dos sé-
culos xiv, xv, xvi, xvii e xviii: Caldéron, Cervantes, Gôngora, S. João da Cruz, Marquês
de Santillana, frei Agostinho Antolínez, António Pérez, frei Ciríaco Pérez, Francisco de La
Cueva, Francisco Santos, Mira de Amescua, Moratin e Tirso de Molina. Relativamente aos
escritores seus contemporâneos há a salientar Espronceda, Balmes e Zorrilla.
Crê-se que a leitura de autores italianos foi diminuta, apontando Jacinto do Prado
Coelho nomes como Alessandro Manzoni, Alessandro Tassoni, Carlo Goldoni, Dante,
Giovanni Boccaccio, Giacomo Leopardi, Ludovico Ariosto, Marino, Pietro Aretino,
157 // Lugares e territórios: património, turismo sustentável, coesão territorial
Petrarca, Silvio Pellico e Torquato Tasso.
Até que ponto terá Camilo convivido com a literatura alemã? Acredita-se que a sua cul-
tura germânica seria reduzida uma vez que Camilo não falava essa língua que designava como
áspera e bárbara e terá acedido a tal cultura através das traduções francesas ou portuguesas de
obras de August von Kotzebue, Christian Johann Heinrich Heine, Christoph Wieland, Ernst
Theodor Hoffmann, Goethe, Kant, Klopstock, Schiller e os discípulos de Lessing.
No que respeita aos autores suíços salientam-se Gessner e Zimmerman.
Camilo era um viajante mas fazia-o essencialmente através dos livros, não só pela ânsia
de se manter ao corrente das obras que iam surgindo ou que ainda não lera, mas também
pela urgência de fugir à realidade que o cercava.
5. Leitores de Camilo

“Compreender a obra de Camilo depende muito duma experiência fatal, não


exactamente empírica, e que nos marca para as coisas extremas da existência: as pai-
xões. Veladas pela linguagem às vezes típica, outras vezes gongórica, as paixões são
o húmus da obra de Camilo. Não as que ele conta, mas as que ele viveu, ou desejou
viver” (Bessa-Luís, 2008: 15).

Inúmeros são os leitores de Camilo, divididos em diferentes faixas etárias, extratos so-
ciais e épocas, nos vários suportes que a leitura oferece. Do mais simples lavrador ao mais
conceituado analista literário a todos ele conquista com o tema, o enredo ou a linguagem,
no âmbito do texto literário, da literatura marginal, de folhetos vários, de representações
teatrais ou reflexões filosóficas. “Camilo, escritor de novelas, personagem de novela (…)
Camilo mexe connosco, os seus leitores. Faz-nos participar nas suas novelas, incita-nos a
refletir, obriga-nos a tomar partido como se nos consultasse e lhe fosse indispensável a nossa
opinião de leitor, um diagnóstico médico que ele, impaciente, aguarda” (Ferreira, 1997: 55).
Para além das análises académicas, emergem outras abordagens nomeadamente na
ficção e na arte pictórica, sendo de salientar alguns dos nomes da cultura que, atraídos
pelo estilo, pela obra ou pelo temperamento do mestre, foram leitores de Camilo e vieram
a assumir esse fascínio e a dar as suas leituras a públicos diversificados, num diálogo trans-
versal que pode adotar diversas variantes, como o género literário, o cinema ou a pintura.
Contudo, seria impossível assinalar neste breve artigo os inúmeros leitores de
Camilo5,nomeadamente os camilianistas cujos ensaios vão desde 1888 até aos nossos
dias, pelo que nos cingiremos a alguns dos nomes incontornáveis da cultura portugue-
sa e estrangeira, entre os quais destacamos Agustina Bessa-Luís, Alexandre Herculano,
António Lopes Ribeiro, Aquilino Ribeiro, Carlos Botelho, Eduardo Lourenço, Francisco
José Viegas, Francisco Moita Flores, Francisco Santos, Guerra Junqueiro, Jacinto do
158 // Lugares e territórios: património, turismo sustentável, coesão territorial

Prado Coelho, José Régio, Júlio Pomar, Luiz Francisco Rebello, Manoel de Oliveira,
Mário Cláudio, Miguel de Unamuno, Paula Rêgo, Ramalho Ortigão, Raúl Ruiz, Teresa
Bernardino, Teixeira de Pascoaes, Teófilo Braga, Vasco Graça Moura, Vasco Pulido Valente,
Vieira de Castro, Vitorino Nemésio.
Agustina tem vindo a evidenciar, não só uma desmesurada atração pelo mestre e um
conhecimento abrangente da sua obra, como também características de escrita comuns
que nos permitem ver nos seus textos um reflexo do primeiro profissional das letras lusas.
A ascendência de Camilo está patente quer ao nível do conteúdo, quer no que respeita aos
5
Vide DANIEL, Daniela Maria Vaz. Leituras e Leitores de Camilo Castelo Branco, em especial, Agustina Bessa-
-Luís. Dissertação de Mestrado, Universidade da Beira Interior, 2010.
temas ou ao tom utilizado pela autora. As semelhanças mais óbvias poderão prender-se
com a localização espacial da ação e as vivências do povo nortenho, uma vez que inúmeras
narrativas da autora e a grande maioria das do mestre decorrem no Norte, particularmente
na zona de Entre Douro e Minho, cujas gentes e suas existências os fascinaram, vindo a
ser o mote de diversas obras. Outras características comuns são a proficuidade de ambos,
a versatilidade de géneros e a inspiração em factos reais já que os dois se apoiam em estó-
rias verídicas para a redação de belos romances ou novelas, e ambos nutrem prazer pelos
romances históricos. Cremos ainda que Agustina, na senda de Camilo, tem a preocupação
de fazer denúncia social e comunga da ironia e do sarcasmo que tanto seduziam o mestre,
sendo esta característica marcante na sua obra. Outra característica destacada em Agustina
que nos faz pensar na influência de Camilo é o prazer que a autora parece sentir ao analisar
os sentimentos e as relações humanas, conforme atesta Bigotte Chorão: “[…] Agustina,
romancista que é sobretudo – romancista de lúdica e, não raro, implacável análise dos
sentimentos e das relações humanas […]” (Chorão, 1987: 156-157).
Agustina Bessa-Luís tem retratado “o tipo-limite do génio português” como ninguém,
pelo que este estudo incide sobre a sua caracterização a partir das obras Fanny Owen e
Camilo: Génio e Figura. Todavia, consideramos importante ressalvar que tanto os nossos
juízos de valor como os da autora poderão não ser fiéis pois Camilo possuía uma personali-
dade obscura que até na vivência do quotidiano era difícil de conhecer, como o salienta em
Camilo – A Obra e o Homem, João Bigotte Chorão: “As contínuas contradições de Camilo
– negando hoje o que afirmava ontem, resignado um dia, revoltado no outro, rezando para
depois blasfemar –, essas contradições tornam problemática, e mesmo abusiva, a tentativa
de catalogá-lo” (Chorão, 1979: 61-62).
Porém, e apesar do risco que corremos, pensamos que tem a maior pertinência refletir
sobre a imagem que de Camilo veio, de geração após geração. Aliás, a romancista teve a
preocupação de nos presentear com uma representação fidedigna, como afirma no prefácio
de Fanny Owen: “Pareceu-me necessário e útil trazer Camilo Castelo Branco à luz da nossa
159 // Lugares e territórios: património, turismo sustentável, coesão territorial
experiência humana sem o traduzir na opinião de escritor que é a minha” (Bessa-Luís,
1985: prefácio).
De facto, e contrariamente ao que na autora é habitual, Agustina incluiu um prefácio
à obra Fanny Owen, para explicitar a génese do mesmo, utilizando a ironia que, no nosso
entender, herdou de Camilo: “Não é coisa usual eu incluir prefácios nos meus livros.
Entendo que eles se recomendam como os peregrinos de Santiago, pelas conchas que têm
no chapéu e que simbolizam a viagem no sentido supremo, de descoberta, testemunho
e redenção” (Bessa-Luís, 1985: prefácio). Mas, o encantamento de Agustina pelo nosso
autor vem de longe. O seu primeiro ensaio surge em 1964, na revista O Tempo e o Modo,
num artigo denominado “Camilo Castelo Branco, Um pé dentro do mar, outro na areia”.
Posteriormente, a 26 de Dezembro de 1978, redige o estudo A Enjeitada, que reeditará,
em 2008, integrado na obra Camilo: Génio e Figura. O seu magnetismo fará com que a
autora se venha a debruçar sobre a sua vida e a sua obra transformando-o numa “entida-
de” do romance Fanny Owen ou em personagem nos textos dramáticos “Ana Plácido” e
“O Tempo de Ceide”, textos esses incluídos no livro Camilo: Génio e Figura.

5.1. Retratos de Camilo segundo Agustina

“Camilo, lido ou ignorado, mantém-se como o tipo limite do génio português”


(Bessa-Luís, 2008: 27)

Na nossa opinião, e tal como Eduardo Lourenço afirma, Agustina Bessa-Luís é a her-
deira de Camilo, quer a nível temático, quer no que respeita à narrativa, estando assim a
escritora associada à corrente neorromântica. Algumas das asserções de Agustina, proferi-
das numa entrevista à Sociedade Portuguesa de Autores, revelam essa atração, claramente
assumida, que Camilo exerce sobre si, chegando a escritora a apontar Bernardim Ribeiro e
Camilo Castelo Branco como figuras tutelares do nosso passado literário.
Assim, demonstraremos como a sua mais profícua leitora tem potenciado a obra
do mestre muito para além das letras, nomeadamente nas duas obras sobre as quais nos
debruçaremos de seguida.

5.1.1. Fanny Owen (1985)


Este romance retrata o caso verídico, ocorrido em 1850, da paixão e tragédia entre José
Augusto Pinto de Magalhães e Fanny Owen. José Augusto, descendente dos senhores da
Ponte da Barca, era um proprietário rural que desperdiçava o tempo pelas mesas dos cafés
e a escrever poesia. Era um rapaz altivo, triste e desinteressado. Fanny era uma rapariga
bonita e esbelta, de pele fina, filha do coronel Owen, auxiliar e conselheiro de D. Pedro
160 // Lugares e territórios: património, turismo sustentável, coesão territorial

aquando das lutas liberais. José Augusto e Camilo Castelo Branco frequentavam o mesmo
círculo literário tendo-se tornado amigos. Aparentemente, estavam ambos apaixonados por
Fanny e José Augusto sentia ciúmes de qualquer tipo de cumplicidade entre a sua amada e o
escritor. José Augusto raptou Fanny com a intenção de se casar com ela. Quando lhe comu-
nicou tal facto Camilo tentou dissuadi-lo e posteriormente enviou-lhe um embrulho com
as cartas que a musa de ambos lhe escrevera, datadas de quando já havia um compromisso
entre Fanny e José Augusto. Este, sentindo-se ferido no seu orgulho e, apesar da aparente
ingenuidade das missivas, acusou Fanny de o ter humilhado e informou-a de que, mesmo
que mantivesse o casamento, nunca a chamaria sua esposa nem viveria com ela. A cerimó-
nia do casamento teve lugar sem a presença de nenhum elemento da família Owen e nunca
se consumou. A infeliz definhava a olhos vistos, devido ao desprezo a que a família a votava
e à injusta rejeição do marido, acabando por morrer a curto trecho. Sentindo-se culpado
pela morte da mulher e atormentado com a hipótese de ela não ser virgem aquando do
casamento, José Augusto quis que fosse autopsiada vindo o resultado confirmar a ino-
cência da jovem esposa. Sem a mulher que amara e a quem destruíra, José Augusto viveu
atormentado, vindo a falecer com uma overdose de ópio pouco tempo depois.
A visão de Camilo encontrada na obra Fanny Owen afigura-se-nos algo contraditória já
que Agustina ora o celebriza e enaltece, ora o critica contundentemente. A justificação de
tal atitude parece-nos ser apenas uma: a extrema complexidade do carácter de Camilo que
seduz a autora, sem, no entanto, lhe toldar o poder de discernir um homem egocêntrico,
invejoso, vingativo, insurreto, colérico, frívolo, manipulador, ambicioso, malevolamente
irónico, libertino e mesmo vil. No entanto, também nos apresenta a outra faceta exaltando
a sua sensibilidade, emotividade, inteligência, argúcia, lealdade e, até, generosidade.

5.1.2. Camilo: Génio e Figura (2008)


Na obra Camilo: Génio e Figura, constituído por análises de Agustina ao homem e
ao escritor, enquadram-se, a par dos ensaios camilianos mais representativos, dois textos
dramáticos inéditos, dividindo-se o volume em duas partes: “Camilo Autor” e “Camilo
Personagem”.Na primeira parte, designada por “Camilo Autor”, inserem-se os estudos
“Um monstro a Retalho”; “O romanesco em Camilo – A Enjeitada”; “Camilo e as cir-
cunstâncias”; “Camilo – a dissimulação”; “Riso e castigo em Camilo Castelo Branco” e
“Camilo e Eugénia ”. A segunda parte, denominada “Camilo Personagem”, é constituída
pelas peças “Ana Plácido” e “O Tempo de Ceide”.
Ao longo da obra e à medida que a autora vai analisando Camilo enquanto autor e
como personagem, é-nos apresentada uma visão clara do que o mestre representa para a
escritora, sobressaindo do livro, para além do conhecido deslumbramento pelo homem e
pelo escritor, um estudo profundo e continuado sobre o mesmo, sendo de assinalar um
161 // Lugares e territórios: património, turismo sustentável, coesão territorial
invejável conhecimento, não só do percurso de vida, como de toda sua a obra literária.

5.1.3. Camilo: homem, escritor e personagem


Tal como já anteriormente asseverámos, Agustina idolatra Camilo apesar de também
lhe reconhecer os inúmeros defeitos. Contudo, o temperamento neurasténico do autor,
evidente na sua ironia corrosiva, tudo parece justificar e amenizar.
Da leitura das duas obras anteriormente citadas surge a imagem que os leitores mais
atentos já retinham do mestre: homem complexo e de forte personalidade, capaz de atos
de grande generosidade ou de enorme malvadez; impulsionado por um carácter impetuoso
e bélico, mas sincero e possuidor de bons sentimentos.
Deste modo, faremos uma breve síntese das principais e contraditórias características
apontadas por Agustina.
Talentoso: Camilo Castelo Branco, um moço com talento, bexigas e má memória. A má
memória é essencial para escrever romances e para os poder viver; na vida e nos romances, tudo
se repete (Bessa-Luís, 1985: 8).
Mal-amado: Camilo era um gazeteiro, no parecer dos comendadores da Ordem de Cristo.
Não o convidavam para os seus salões senão na véspera dos bailes, para que ele estampasse no
jornal os primores dos novos aristocratas e as suas púrpuras, onde se encabritavam leões pareci-
dos com grifos e górgonas (Bessa-Luís, 2008: 12).
Inspirador: Quando o coração me falha neste dialecto de escrever livros, volto-me para
Camilo, que é sempre rei mesmo em terra de ciclopes (Bessa-Luís, 2008: 11).
Desprezado: Camilo, um folhetinista pago para usar o talento nos litígios em que os ho-
mens ricos não gostavam de comprometer-se pessoalmente. O barão do Bolhão pagava-lhe as
verrinas para atingir os seus inimigos. E desprezava-o (Bessa-Luís, 1985: 46-47).
Prodigioso: Não sei como Aquilino se enganou aqui, e só viu em Camilo um adulado, um
jornalista pegajoso, com vales metidos à caixa e botas cambadas. Ele era o que todos nós já sa-
bemos, um Voltaire à moda do Porto, com mais tripas do que carne do lombo. Eu cá, parece-me
bem assim. É um monstro a retalho, o que produz grandes obras (Bessa-Luís, 2008: 13).
Amargurado: Toda a obra de Camilo está enraizada num trauma de juventude que ul-
trapassou toda a anterior experiência sensual. Possivelmente não é do alcance desta meditação
sobre A Enjeitada essa exploração da psique camiliana. No entanto, em A Enjeitada apare-
cem nitidamente as fundas perversões da razão que lançam Camilo na carreira de romancista
(Bessa-Luís, 2008: 17).
Estratega: Nesse tempo Camilo era conhecido nos saraus dos conventos e nos colóquios pagãos
com professas. […] Aquelas assembleias de freiras e comerciantes que respiravam forte pelo nariz,
e senhoras com a atroz mantilha e bandos chatos como iscas de fígado, deviam dar-lhe a noção da
sua pequena importância, da sua miserável celebridade. Basta ver como Camilo usava a língua
162 // Lugares e territórios: património, turismo sustentável, coesão territorial

portuguesa para ficarmos informados sobre a sua vontade de poder, de conquistar a atenção, a
fama e alma da Praça. Isso acontece com o espírito que é ávido porque é extremamente sobrecarre-
gado de talentos. Aconteceu com Shakespeare, por exemplo (Bessa-Luís, 1985: 112-113).
Timorato: Tanto temia Camilo o punho da sociedade para quem escrevia e que, afinal,
não era persistente na crueldade nem obstinada na estupidez (Bessa-Luís, 2008: 24).
Mordaz: Camilo é um autor que não compulsa o léxico do coração com muita ousadia. Um
Luciano de Rubempré, que desabrocha com Eça num Charlie Gouvarinho, mal entrevisto de ras-
pão numa vitória, “ao trote estepado de duas éguas inglesas”, parece-nos impossível nos romances
de Camilo. Não lhe pedia a alma sagacidades endémicas, e o livro que depôs no regaço de Ana
Plácido, Eusébio Macário, escrito em quinze dias numa prosa sumptuosa e quase estrídula, como
os cantos campesinos do Minho, não é um romance realista, mas um delírio de desapontamento,
de náusea combatida pelo exorcismo do riso. É por isso que, depois de dar franco exercício à sua
língua viperina, viperina como a de Thackeray e humorista como a dele, estaca o olhar sobre
Vítor Hugo e exclama: “Esse velho não era nada tolo!”. E ri-se. Logo a seguir fica outra vez triste,
cismador de cenas patéticas e dolorosas como a do avô que vê entrar o neto ferido pela porta a den-
tro. Ri-se para que a angústia não lhe petrifique o coração, é apenas isso (Bessa-Luís, 2008: 46).
Apreciado: E, agora, eles sabiam que aquele rapaz de quem todos dependiam um pouco,
tanto para escrever um poema como para escolher a amante, estava a convergir para esse centro
de irrealidade e de terrível destruição, onde a rejeição do amor não era mais possível (Bessa-
-Luís, 1985: 80).
Desencantado e Sarcástico: Camilo, como Flaubert, teve desde cedo essa visão duma bibliote-
ca feita para não ser entendida. Achou o mundo vulnerável, a cultura uma fraude, e o intelectual
um depravado. E riu-se. Este riso, nascido como um escudo, para invalidar a força do seu desen-
canto perante a vulgaridade dos homens, esse riso surtiu efeito enquanto a juventude o justificou.
Depois tornou-se numa má consciência, e a sociedade não lhe perdoou. Faltou-lhe a concisão de um
Swift para fazer verdade um estado de alma e não uma figura retórica (Bessa-Luís, 2008: 72).
Erudito: Camilo conhece o significado gramatical e moral de cada palavra, nunca usa um
termo sem propriedade (Bessa-Luís, 2008: 42).
Símbolo da identidade portuguesa: Camilo, lido ou ignorado, mantém-se como o tipo-
-limite do génio português. A Enjeitada tem muito da sistemática fuga à felicidade que, por
estranho que pareça, é muito da nossa índole. Desfrutamos do presente, mas não desejamos
dele senão um furtivo encontro, pois sabemos que a fortuna é sempre ilegítima para os homens,
errantes neste mundo onde tudo acontece e nada se resolve (Bessa-Luís, 2008: 27).
Genial: Quem quiser ler Camilo em esplendor e glória, leia a Maria da Fonte, um dos
maiores livros de língua e fígados e coração portugueses. Camilo é isso: génio truculento, esti-
lo maduro de risadas entre aventuras truanescas e sentimento sufocado de algumas lágrimas.
Homem da nossa lei, nem bom nem fingido; capaz de matar com os olhos fechados e de renegar
163 // Lugares e territórios: património, turismo sustentável, coesão territorial
até a honra, se ela é negócio de ferir os outros. Português, não há outro tão grande nas
letras. (Bessa-Luís, 2008: 26).

6. Considerações Finais

Entendemos que a ação formativa presente na obra de mestre pode concretizar-se


através de duas atitudes fundamentais: os preceitos de ordem moral e a atenção do leitor
para o ridículo existente nos vários grupos sociais. Assim, poderemos afirmar que Camilo
foi um educador tendo a sua pedagogia sido essencialmente levada a cabo através da sátira,
da ironia e do sarcasmo. Com efeito, o leitor era sistematicamente alertado para os juízos
de valor do narrador e convidado a reflectir sobre os desvios da sociedade. Dado um certo
ressentimento perante a mesma, e até em relação à própria vida, Camilo sentia a necessi-
dade de denunciar, desafrontar e reabilitar, colocando-se muito frequentemente em franca
solidariedade para com os desvalidos. De facto, e ao estilo romântico, as vivências foram
essenciais na sua produção literária, sendo o circuito obra-biografia-obra muitas vezes fre-
quentado pelo mestre. Temas como a bastardia, a orfandade, o abandono, o desengano
amoroso, a omnipotência do dinheiro, a fidalguia decadente, a prosápia dos senhores, os
arrivistas, os falhos de escrúpulo, ou os brasileiros de torna-viagem foram por ele glosados,
numa assumida intertextualidade entre a vida vivida e a vida ficcionada.
Primeiro profissional das letras portuguesas, Camilo foi largamente influenciado pelos
autores clássicos, nomeadamente pelos latinos, assim como por Alexandre Herculano ou
Almeida Garrett, ilustres portugueses seus contemporâneos. Escritores franceses como
Lamartine, Vítor Hugo e Voltaire também terão sido cruciais no seu desenvolvimento
enquanto homem e como escritor. A marca de Byron, Cervantes, Shakespeare, Hugh
Walpole, Eugène Sue ou Ana Radcliffe está, ainda, patente no seu trabalho literário.
Apesar de não ter seguido nem criado uma escola, o valor de Camilo enquanto homem
de letras é inquestionável, assim como o seu papel na literatura portuguesa do século xix,
estando o seu cunho presente nos trabalhos de importantes nomes da cultura, como disse-
mos, umas vezes inconscientemente, em outras ocasiões com clara assunção. Efetivamente,
têm vindo a surgir, tanto na sua época como ao longo dos anos, claros ou mais subtis sinais
da influência do ultra-romântico mais amado e odiado, como foi dado ver por Agustina
Bessa-Luís que com as obras Fanny Owen e Camilo: Génio e Figura se lançou no desafio
de tirar Camilo das brumas e o exibir “à luz da nossa experiência humana”, desafio esse
já levado a cabo por muitos outros leitores e admiradores do mestre. Nesta autora é bem
visível a influência do mesmo, nomeadamente no interesse por determinados temas, na
análise psicológica das personagens ou no uso do tão singular tom irónico.
164 // Lugares e territórios: património, turismo sustentável, coesão territorial

Camilo pretendia, paralelamente, ser popular e bem remunerado, sem, no entanto,


ter de prescindir dos seus ideais literários. Nem sempre tal foi possível, tendo, por vezes,
de se submeter às diretrizes e encomendas dos editores, redigindo, na tentativa de cativar
os leitores, simultânea ou alternadamente, obras que agradassem às diferentes classes dos
mesmos: elementos do povo ávidos de sensacionalismo, senhoras ociosas que se delicia-
vam com grandes emoções e lances dramáticos, pais de família que se pareciam rever
no atento e ilustre narrador, moças ingénuas sonhando com heróis românticos, e jovens
contestatários à procura de pensamentos filosóficos e críticas sociais. Criador da típica
novela passional, a sua marca indelével permanecerá para sempre no seio da cultura e da
identidade portuguesas.
A Literatura e a Geografia andam sempre de mãos-dadas dado que os autores são
amplamente influenciados pela paisagem física e humana, como é fácil de verificar no lé-
xico extremamente rico e expressivo das personagens de Camilo ou na ascendência da sua
aldeia e da Serra da Estrela na escrita de Vergílio Ferreira. Assim, cremos que urge usufruir
do que a Literatura traz aos lugares e do modo como estes moldam os escritores criando
projetos culturais que evidenciem os autores de cada região, enriquecendo deste modo o
conhecimento das populações e valorizando os próprios locais.
Atendendo ao enorme legado que nos foi deixado pelo mestre, e à semelhança dos
projetos levados a cabo pela Casa de Camilo ou das atividades realizadas em municípios
nos quais Camilo centrou alguns dos seus romances, ou tendo ainda como exemplo o pro-
jeto cultural que se criou partindo de Viagem do Elefante, de José Saramago, cremos que
a promoção de roteiros dos escritores da nossa região deveria ser um caminho a percorrer
no desenvolvimento sustentado deste território de baixa densidade.

7. Referências

7.1. Bibliográficas

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Camillo Castello Branco. Porto: Livraria Portugueza e Estrangeira, 1874.
7.2. Fílmicas

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13 episódios da autoria de Francisco Moitas Flores. Lisboa: Antinomia, Produções Vídeo.
OLIVEIRA, Manoel de & Instituto Português de Cinema/IPC, Centro Português de Cinema/
/CPC, Radiotelevisão Portuguesa/RTP, Cinequipa, Tobis Portuguesa. 1978. Amor de Perdição.
Longa-metragem baseada na obra homónima de Camilo Castelo Branco. Lisboa: V.O. Filmes,
Ver Filmes.
OLIVEIRA, Manoel de & V.O. Filmes. 1981. Francisca. Longa-metragem baseada no romance
Fanny Owen de Agustina Bessa-Luís. Lisboa: Rank Filmes de Portugal.
OLIVEIRA, Manoel de & Madragoa Filmes. 1992. O Dia do Desespero. Longa-metragem baseada
na epistolografia e na história verídica de Camilo Castelo Branco. Lisboa: Atalanta Filmes.
RUIZ, Raúl & Paulo Branco/Leopardo Filmes/Alfama Films Production/RTP. 2010. Mistérios
de Lisboa. Longa-metragem baseada na obra homónima de Camilo Castelo Branco. Lisboa:
Leopardo Filmes.
RUIZ, Raúl & Paulo Branco/Leopardo Filmes/Alfama Films Production/RTP. 2010. Mistérios de
Lisboa. Série televisiva de 13 episódios baseada na obra homónima de Camilo Castelo Branco.
Lisboa: Leopardo Filmes.
168 // Lugares e territórios: património, turismo sustentável, coesão territorial
Quatro cartas de Hermès bilíngue

Willian Morais Antunes de Sousa


EHESS Paris

É um prazer ir a essa cidade-fronteira mais uma vez que está se tornando, pouco a
pouco, um porto para os jovens, pesquisadores e curiosos em geral. Desta vez, propomos
a leitura de quatro das noventa cartas que compõem Cartas de Hermès. O propósito desta
apresentação é somente estabelecer um primeiro contato entre o universo de Hermès e o
público do XVII Curso de Verão do Centro de Estudos Ibéricos de Guarda, Portugal.
Meus agradecimentos vão aos amigos Dominique Pomente, Julien Boucly, Maria
Leidiana Mendes, Mark Gamal e Thalita Miranda.
A versão bilingue é para criar outras possibilidades na Guarda.
Grand Paris, 13.05.17

XXIX
“Senhor Pescador de Tartarugas, “Seigneur Pêcheur de Tortues, 169 // Lugares e territórios: património, turismo sustentável, coesão territorial
vós não me conheceis mas, vous ne me connaissez pas,
não há problema. Sois um Pescador da Terra, mais ce n’est pas grave. Vous êtes un Pêcheur de
o qual merece uma carta. Ontem, a proa la Terre,
deste barco suportou o peso de dois qui mérite une lettre. Hier, la proue
golfos bravos, correntezas e de mon bateau a subi le poids des tourments de
qualquer coisa mais. Um se chama a Boca, deux
o outro a Rosa. Juntos se chamam na Boca golfes sauvages, des courants en colère
da Rosa. Não sei o porquê. Por quê? Por que et de quelque chose d’autre. L’un se nomme la
Boca e Rosa? E por que não cactos? Por Bouche,
onde passei, senhor Pescador da Terra, não l’autre la Rose. Ensemble ils s’appellent Dans la
havia tartarugas. Vi Bouche
elefantes cobertos de mantos de mitra, de la Rose. Je ne sais pourquoi. Pourquoi
macacos que carregavam ao peito Bouche et Rose ? Et pourquoi pas cactus ? Par où
um pingente de esmeralda, alguns linces je suis passé, seigneur Pêcheur de la Terre, il n’y
de estimação e cobras que embelezavam as avait pas
crianças e os jardins das casas. Que de tortues. J’ai vu
maravilha seria se o deserto, que tanto me des éléphants qui portaient des toges en mitre,
faz falta, fosse todo em pó de ouro. des singes qui portaient sur la poitrine
Compraríamos un pendentif d’émeraude, quelques lynx
todas as florestas, animais e rios do mundo. domestiques et des serpents qui embellissaient à
É tão difícil crer em um elefante la fois
quando sequer tem uma matinha le cou des enfants et les jardins des maisons.
para criar um veado. Ah o deserto... Só Quelle merveille serait notre désert, celui
no deserto para crer na união do pó e da água, qui me manque, s’il était tout en poudre d’or.
o homem, Nous achèterions
e nada mais. Pescador da Terra, retirai tudo toutes les forêts, les animaux et les fleuves du monde.
o que ele disse. Eis o senhor no cais, olhando Il est si difficile de croire en un éléphant
para mim. Não vos assustais, pois isto na proa quand on n’a même pas un bois
foi apenas o rebento do beijo pour élever un cerf. Ah le désert...
da Boca da Rosa.” Il n’y a que le désert pour croire en l’union
de la poudre et de l’eau, l’homme,
et rien de plus. Pêcheur de la Terre, oubliez tout
ce qui vous a été dit. Vous voilà sur le quai à me
regarder.
Ne vous effrayez pas, car ce bruit
c’est la proue qui craque,
c’était le fruit du baiser
de la Bouche de la Rose.»
4.2.17

XXX
“Oi senhor Pescador de Caranguejos, “Bonjour seigneur Pêcheur de Crabes,
170 // Lugares e territórios: património, turismo sustentável, coesão territorial

sou este rapaz que acaba de vos dar esta c’est moi qui viens de vous offrir cette
carta. Não me conheceis, o que não é um lettre. Vous ne me connaissez pas.
problema. Como ides senhor Pescador da Lama? Comment allez-vous, seigneur Pêcheur de la Boue ?
Oiço dizer por aí que a lama é os restos J’ai entendu dire que la boue n’est que les restes
do mundo das nascentes e de todas as margens. du monde des sources et de toutes les rives.
Para onde vou não há, com certeza, nem Où je vais il n’y a sûrement ni crabes
caranguejos ni boue. Par contre, il y a beaucoup de décombres
nem lama. Há muitos destroços de tempos hérités de temps
passados, velharias de lembranças que passés, des souvenirs antiques qui
serão conservadas no seront conservés sur du
papel. Desculpai-me Pescador da Lama, papier. Excusez-moi Pêcheur de la Boue,
é que contraí a doença de mar. Vejo coisas j’ai attrapé le mal de mer. Je vois des choses là
onde não há. Imagino pássaros, onde où il n’y a rien. J’imagine des oiseaux là où
nem borboletas há. Lembro-me de terras il n’y pas même de papillons. Je me souviens des terres
por onde passei, e que me são caras suas que j’ai connues, et leurs palmiers me sont
palmeiras, e que me vem à boca o gosto chers, et me revient aux lèvres
do beijo velho com sabor de amêndoas brancas. le goût d’un baiser ancien,
Essa vontade de voltar, de amar a mesma celui des amandes blanches.
gazela, de experimentar o mesmo cavalo, Cette envie de rentrer, d’aimer la même
de correr os mesmos caminhos de areia, gazelle, de monter le même cheval,
e de ver o céu avermelhado sobre as de courir les mêmes chemins de sable
dunas. Isso é sintoma da doença et de voir le ciel rougeâtre sur les
de mar. Meu corpo rejeita comida, não dunes, c’est le symptôme du mal
que esta não seja boa, mas porque ele quer de mer. Mon corps refuse la nourriture, cela ne
aquela que outrora comera, daí se veut pas
emagrece quando se está no mar. dire qu’elle n’est pas bonne, mais il veut celle-là
E as cartas também vão ficando penosas, qu’il avait autrefois mangée. C’est ainsi
labirínticas e carnívoras, também que l’on perd du poids quand on est en haute mer.
sintomas dessa doença que dá vontade Et les lettres deviennent pénibles,
de voltar. – Volver!, gritou um homem labyrinthiques et carnivores, ce sont aussi
ontem à noite. Atracávamos em um les symptômes de cette maladie qui donne envie
porto produtor de cobre e bronze. – Volver!; de rentrer. – Volver!, a crié un homme
aquele homem não suportará a navegação, pensei. hier soir. Nous débarquions dans un
Está doente e sente falta de suas pedras port producteur de cuivre et de bronze. – Volver!;
preciosas, ele quer voltar. Quando um il ne survivra pas à la navigation, me suis-je dit.
doente quer morrer, ele se deita, fecha os Il est malade et ses joyaux lui manquent,
olhos e se cobre. Em alguns casos a cura il veut rentrer. Quand une
parece ser o silêncio. Outra vez, chegando ao personne veut mourir, elle se couche, ferme les
porto de Nucam, quatro mulheres e suas yeux et se couvre. Certains pensent que
crianças carregaram três homens, que la seule guérison possible est le silence. Un jour,
sofriam da tal doença, para descansar en arrivant au
aos pés de uma Adansonia digitata, trazida de longe, port de Nucam, j’ai vu quatre femmes et leurs
e os homens foram colocados lá onde já não se podia enfants amener trois hommes qui
mais ouvir as vagas do mar. Que eu souffraient de cette maladie, pour les faire reposer
mesmo me livre desse pesadelo. Não aux pieds d’un Adansonia digitata qui venait de loin.
quero adoecer disso. Os marinheiros Ils furent laissés là où l’on ne peut plus
a chamam saudade. Doença de mar entendre le bruit des vagues de la mer. Loin de moi
que é tratada com o silêncio. Ó senhor, que vós mesmo ce cauchemar. Je ne veux 171 // Lugares e territórios: património, turismo sustentável, coesão territorial
vos livreis dessa má sorte. Pescador pas attraper ce mal. Les marins
da Lama, eu sou livre porque nunca l’appellent saudade. Mal de mer
tive vontade de voltar, de reamar, de tudo. qui se guérit par le silence. Ô seigneur, que vous-même
Pescador da Lama, esta é uma carta e soyez libéré de ce malheur. Pêcheur
obrigado por acenar, agradecendo com de Crabes, je suis libre parce que je n’ai jamais eu
a mão, chapéu ao peito e este vosso envie
sorriso de quem não sabe ler. Pescador de rentrer, d’aimer encore, du tout.
da Lama, uma boa viagem.” Pêcheur de la Boue, voici une lettre et je vous remercie
de me saluer, votre chapeau sur la poitrine et votre
sourire de celui qui ne sait pas lire. Pêcheur
de la Boue, bon voyage. »
4.2.17
XXXI
“Senhor Pescador de Garças, “Seigneur Pêcheur d’Aigrettes,
hoje tenho um sono de garça, voo baixo aujourd’hui j’ai un sommeil d’aigrette, mon vol
e se meus olhos tivessem membranas, est bas
seriam olhos com membranas. As et si mes yeux avaient des membranes,
aranhas têm tantos olhos e os ce serait d’yeux avec des membranes. Les
flamingos têm tanto rosa e os araignées ont beaucoup d’yeux,
macacos têm todo o futuro, mas les flamants ont autant de roses et
nenhum deles precisa de um les singes ont tout l’avenir à eux, mais
nome, Hermès. aucun d’eux n’a besoin d’un
Pescador dos Mares, estou dormindo nom, Hermès.
em pé. Desculpai-me, dormirei três Pêcheur des Mers, je m’endors
dias, e na quarta noite terminarei esta debout. Excusez-moi, je dormirai trois
carta. Durmo. jours, et la quatrième nuit je finirai cette
É quarta noite e desembarco em vosso lettre. Je m’endors.
cais, senhor Pescador dos Mares. Não C’est la quatrième nuit et je débarque dans votre
venho vos contar das doenças que vi, não. port, seigneur Pêcheur des Mers. Je ne viens pas
Eu vim dançar ao lado esquerdo das vous raconter les maladies que j’ai vues, non.
garças de vossa Je suis venu danser du côté gauche des
festa. Hoje é dia de festa, retirai aigrettes de votre
de mim o que me ballet. Aujourd’hui est jour festif, enlevez-moi
deram. Retirai de mim meus olhos, ce qu’on m’a donné.
retirai meus olhos do mar. Retirez-moi mes yeux,
Agradeço a todos retirez mes yeux de la mer.
pelos cinco flautistas, três Je vous remercie tous,
harpistas e infinitos músicos. les cinq flûtistes, trois
Nesta noite, eu harpistes et les infinis musiciens.
só quero dançar com as garças Ce soir, je veux
desta cidade danser avec les aigrettes
de colunas de de cette ville
turquesa. Por aqui passaram aux colonnes de
meus amigos. Ai ai senhor Pescador, nem vos turquoise. Par ici mes amis
conto o que sei. Ai ai, nem vos conto que sont passés. Ah seigneur Pêcheur, je ne vous
172 // Lugares e territórios: património, turismo sustentável, coesão territorial

a vaga que está para chegar nos cobrirá raconte


ao menos nossos três planos do tempo. pas ce que je sais. Ah ah, je ne vous raconte pas que
Espero que ela não venha endurecer minhas la vague qui arrive nous enveloppera
penas. Olhai como as garças nos trois plans de temps.
levam ao ar suas mãos. Olhai como J’espère qu’elle ne durcira pas
os dedos brincam no ar tentando mes plumes. Regardez comme les aigrettes
eclipsar a lua. Hoje eu vim para lèvent leurs mains en l’air. Regardez comme
dançar convosco, retirai minhas leurs doigts jouent dans l’air, essayant
penas. – Até amanhã lembranças d’éclipser la lune. Aujourd’hui je suis venu pour
de flamingo. Hoje eu quero estar com danser avec vous, enlevez-moi mes
todos, quero doar o que há de melhor plumes. – A demain, souvenirs
de mim, meus passos. Olhai como des flamants! Aujourd’hui je veux être avec
nós tentamos acortinar a lua. vous tous, je veux vous faire le don du meilleur
Olhai nosso bronzeado de en moi, mes pas. Regardez comme
madrugada prateada. Cá na Terra, nous essayons de voiler la lune.
forma-se um cordão de prata, em roda Regardez notre peau bronzée
derivamos ao som dos músicos, d’aube argentée. Ici sur la Terre,
bebemos pouco porque amanhã trabalhamos, on forme une chaîne d’argent, en ronde,
dançamos por que sonhamos nous dérivons au son des musiciens,
em ser o motor do mundo. Não nous buvons peu car demain
esquecei que eu mesmo não bebo, meus amigos nous travaillons, nous dansons parce que nous rêvons
sim. Não esquecei que eu vos deixo d’être le moteur du monde. N’oubliez
o melhor de mim, meus passos. pas que je ne bois pas, mes amis
Senhor, vossas garças não querem me deixar ir, si. N’oubliez pas que je vous laisse
dei-lhes alguns de meus melhores tecidos, le meilleur de moi-même, mes pas.
não querem me deixar ir, dancei para elas, Seigneur, vos aigrettes ne veulent pas me laisser
não querem me deixar ir, não lhes dou enfim partir,
o que todas querem, o meu beijo. Pescador je leur ai donné quelques-uns de mes plus beaux
de Garças, eu nunca beijei. Retiro-me.” tissus,
elles ne veulent pas me laisser partir, j’ai dansé
pour elles,
elles ne veulent pas me laisser partir, mais je ne
leur offre pas
ce qu’elles veulent toutes, mon baiser. Pêcheur
d’Aigrettes, je n’ai jamais donné un baiser. Je me
retire.”
5.2.17

XXXII
“Difícil é escrever à luz do dia. “J’ai du mal à écrire sous la lumière du jour.
Eu gostaria que minhas pegadas não me Je voudrais que les empreintes de mes pas ne me
seguissem, mas que fossem por aí procurando o suivent pas, mais qu’elles partent
que fazer. à la recherche d’autre chose.
Senhor Pescador de Olhos, não tenho Seigneur Pêcheur d’Yeux, je n’ai pas 173 // Lugares e territórios: património, turismo sustentável, coesão territorial
pratas. Procurei em meus sacos, encontrei folhas d’argent. J’ai beau chercher dans mes sacs,
secas, não tenho pratas. j’ai trouvé des feuilles sèches, je n’ai pas d’argent.
Devo então aguardar a vinda da tripulação. Je dois alors attendre le reste de l’équipage
Navegamos em grupo e meu car nous naviguons en groupe et mon
barco não carrega metais. Ah se eu pudesse vos bateau ne transporte pas de métaux. Ah si je pouvais
pagar com uma carta, isso me arranjaria. Estou vous payer avec une lettre, cela m’arrangerait.
ferido, Pescador dos Céus. Não foi Je suis blessé, Pêcheur des Cieux. Ce n’était pas
lança, até porque não faço guerra. Quando une lance, car je ne fais jamais la guerre. Quand
encontro guerras, cavalarias e lanças je croise les guerres, les cavaleries et les lances,
por aí, eu me sento à beira da je m’asseois au bord des chemins,
estrada e aguardo a tragédia passar. attendant que passe la tragédie.
Estou ferido, foi o vento que me rasgou ontem Je suis blessé, c’est le vent qui m’a déchiré hier
à noite. Passaram três rajadas de vento: soir. Passèrent trois rafales de vent :
uma das velas se partiu e voou une des voiles s’est rompue et s’est envolée
feito morcego cego na solidão do mar, comme une chauve-souris aveugle dans la solitude
um homem que se curava de saudade de la mer,
se cobriu de cetim e pulou ao mar; un homme qui se guérissait de sa saudade
talvez ele tenha morrido, e eu fiquei entre as s’enveloppa de satin et sauta dans la mer ;
cordas e correntes, precisamente fiquei il est peut-être mort, et je suis resté entre
debaixo de uma âncora. Nunca tive âncora como les cordes et les chaînes, précisément je suis resté
escudo, mas foi assim. Perdi pouco sous une ancre. Je n’avais jamais eu d’ancre comme
sangue e no lugar ganhei vento bouclier, mais ce fut ainsi. J’ai perdu peu de
dentro de minhas veias. Passei a respirar sang, et à sa place du vent
melhor. Fora est entré dans mes veines, j’ai pu mieux
o frio e o medo da tripulação, ganhei respirer. En plus
três rasgos de pele. Cada um para du froid et de la peur de l’équipage, je me suis fait
lembrar da existência dos planos trois coupures sur la peau du bras. Chacune d’elles
do tempo. Parece que a escrita é uma maneira pour me rappeler l’existence des plans du
de forçar a passagem entre temps. Il semble que l’écriture soit une manière
esses planos. Pescador de Olhos, por que de forcer le passage entre
pescais olhos e não astros? Sois Pescador ces plans. Pêcheur d’Yeux, pourquoi
dos Céus, mas em vosso anzol só pêchez-vous les yeux et non pas les étoiles ? Vous
vejo olhos de gaivotas. Quereis apenas olhos êtes Pêcheur
e nada mais? Vedes as gaivotas livres, des Cieux, mais à la pointe
elas não podem ver. Elas morrem? de votre hameçon je ne vois que
Pescador de Olhos, cada carta que escrevo é como se des yeux de mouettes. Ne voudriez-vous que des yeux
um dos planos do tempo et rien de plus ? Voyez les mouettes libres,
se abrisse e me dissesse, Retirai-vos elles n’arrivent pas à voir, meurent-elles ?
do mundo!. RETIRAI-VOS DO MUNDO!, Pêcheur d’Yeux, chaque lettre que
repete o vento. RETIRAI-VOS DO MUNDO!, j’écris est comme si l’un des plans du temps
repetem as velas dos barcos que chegam. s’ouvrait et me disait, – Retirez-vous du
RETIRAI-VOS DO MUNDO!, repetem as gaivotas monde ! RETIREZ-VOUS DU MONDE !,
sem olhos que voam baixo. E por que répète le vent qui passe. RETIREZ-VOUS DU
eu escrevo Retirai-vos do mundo! se não MONDE !,
tenho coragem de arriscar a assertiva da répètent les voiles des bateaux qui arrivent.
frase? Quem é que deve ser o objeto RETIREZ-VOUS DU MONDE !, répètent les
174 // Lugares e territórios: património, turismo sustentável, coesão territorial

dessa oração? Assinarei esta carta antes mouettes


de responder à pergunta. Pescador de qui passent au vol bas. Qui est-ce
Olhos, eis três sacos de prata. Dai-nos l’objet de cette phrase ? Sans courage,
um abrigo.” je te signerai cette lettre avant
de répondre à cette question.
Pêcheur d’Yeux, voici trois sacs d’argent.
Hébergez-nous. »

10.2.17
Natureza e patrimônio de valor turístico do
território de Icatu, estado do Maranhão:
possibilidades de uso ambiental sustentável

Antonio Cordeiro Feitosa


Degeo-NEPA
Universidade Federal do Maranhão (UFMA)

Introdução

O uso dos recursos do território é inerente aos animais superiores e apresenta um


panorama evolutivo inscrito no processo de apropriação das técnicas e das tecnologias
pelos grupos humanos. Neste percurso, alguns grupos desenvolveram estratégias e técnicas
que permitiram avanço mais rápido na exploração e processamento dos materiais dispo-
nibilizados pela natureza, enquanto muitos permaneceram em estado gregário e outros
se beneficiaram de intercâmbios que representaram avanços técnicos rápidos, mas com
custos incalculáveis.
As terras da costa norte do Brasil figuraram no contexto das disputas entre os portu-
gueses e os espanhóis, pela partilha do mundo imaginado, no final do século xv, ratificadas
pelos tratados de Alcáçovas-Toledo, em 1479, e de Tordesilhas-Simanca, em 1494. Com a
175 // Lugares e territórios: património, turismo sustentável, coesão territorial
localização do Brasil, em 1500, a nova possessão passou a integrar o patrimônio e o ima-
ginário dos portugueses até a instituição do sistema de capitanias hereditárias e a primeira
tentativa de ocupação do Brasil em 1530 (FEITOSA, 2014), quando se tornou conhecida
através da visita de Diogo Leite, por determinação de Martim Afonso de Souza.
Os insucessos dos donatários da capitania do Maranhão, durante a primeira metade
do século xvi, resultaram na inibição de novas empresas de portugueses com tal propósito,
por cerca de meio século, fato que abriu espaço para aventureiros – piratas e corsários – de
várias nacionalidades, inclusive portugueses, que passaram a frequentar a costa norte do
Brasil para negociar com os índios, obtendo muitas vantagens na aquisição de diversos bens
minerais além dos da fauna e da flora regional que tinha grande valor no mercado europeu.
Mariz e Provençal (2011, p. 29) referem que “de 1594 até 1596 Jacques Riffault, com três
naus, patrulhava a costa do Rio Grande do Norte até o Maranhão e concluiu aliança com
os índios” para cooperação com a coroa francesa. Destas aventuras resultou a permanência
de franceses como Charles des Vaux e Du Manoir que conviveram com os índios da ilha do
Upaon-açu e no entorno do Golfão antes da ocupação oficial, granjeando sua amizade e acei-
tação de aliança para este fim. Para além da simples amizade, nas tentativas de conquista do
Ceará, havia relatos de que alguns grupos indígenas possuíam armas obtidas dos aventureiros.
Autoridades espanholas e portuguesas estavam devidamente informadas sobre a presen-
ça de aventureiros na costa norte do Brasil, pois, conforme Mariz e Provençal (2011, p. 75),
ao final do século xvi, “numerosos franceses viviam entre os índios no Maranhão” negocian-
do trocas e aquisição de produtos da região que tinham alto valor de mercado na Europa.
Estas atividades continuaram no início do século xvii, como atesta a presença de
navios comandados por dois corsários de Diepe na ilha de Santana, quando da chega-
da da expedição de Daniel de la Touche para fundar a França Equinocial, ato marcado
pela construção e inauguração do forte de São Luís, celebração da primeira missa no dia
8 de setembro de 1612, data da fundação da cidade em homenagem ao monarca francês
Luís XIII, apoiador da iniciativa.
Sobre a presença francesa no Maranhão por ocasião da chegada da esquadra de Daniel
da la Touche, Monteiro (2013, p. 16) afirma que “lá, já se encontravam uns 400 franceses
e navios oriundos do Havre e de Dieppe, o que mostra que já frequentavam bastante o
local. Isto justifica o clima de festa descrito por Meireles (1982) por ocasião da recepção a
Daniel de la Touche.
Para avaliar os perigos da presença e da ocupação do Maranhão pelos franceses, o
Governador de Pernambuco, Diogo de Menezes, encarregou a Diogo de Campos Moreno,
sargento-mor do reino, a missão de investigar acerca do estado dos acontecimentos relacio-
nados com as notícias da presença de franceses e outros aventureiros na costa da Paraíba
ao Maranhão, no início do século xvii (SERRÃO, 1968; MORENO, 1968; MARIZ e
176 // Lugares e territórios: património, turismo sustentável, coesão territorial

PROVENÇAL, 2011).
Após executar missão que lhe fora atribuída, Diogo de Campos recomendou a urgên-
cia nas ações para a conquista das referidas terras das quais se diziam “tantas grandezas que
parecia fabuloso” (MORENO, 2011, p. 29), e, pelo êxito da missão, logrou ser mandado a
Lisboa e a Madrid para defender suas propostas perante as autoridades das respectivas coroas.
No início do século xvii, duas iniciativas de particulares ganharam a simpatia do
Governador em Pernambuco. Segundo Studart Filho (1959) e Lisboa (2012), em 1603,
Pero Coelho de Sousa tomou a inciativa e recebeu apoio das autoridades de Pernambuco
para organizar uma expedição ao Maranhão, a qual não ultrapassou o rio Parnaíba devi-
do aos improvisos, reduzido apoio oficial e desavenças entres os expedicionários. Sucesso
maior do que a expedição comandada por Pero Coelho não obtiveram os padres Luís
Filgueira e Francisco Pinto, em 1607, que não conseguiram ultrapassar a serra da Ibiapaba
onde fora dizimada pelos índios, e novamente o Maranhão foi relegado ao desamparo das
coroas portuguesa e espanhola.
No alvorecer do século xvii, a costa norte do Brasil movimentou o cenário político
internacional adquirindo visibilidade global pela via da ocupação francesa do Maranhão,
para fundar a França Equinocial, e da consequente circulação das informações relativas a
este episódio no âmbito do império luso-espanhol. Os domínios desse império se esten-
diam desde a Península Ibérica até a África, América e Ásia, e integravam estruturas eco-
nômicas e políticas de alta produtividade e competividade que interessavam diretamente
à Inglaterra, Itália e à República das Sete Províncias dos Países Baixos, atual Holanda
(BETHENCOURT, 1998).
Alguns testemunhos da negligência das autoridades portuguesas, espanholas e de seus
prepostos no governo do Brasil para com a integração da costa norte, compreendendo as
terras entre o Ceará e o Maranhão, são recorrentes na literatura histórica. Dentre os quais
destacamos o de Serrão (1968, p. 152) ao afirmar que somente em face da perspectiva de
invasão francesa e dos riscos que este episódio representaria para a coroa espanhola foi
capaz de reconhecer

que a zona equatorial do Brasil, que fora, até então, mais ou menos ignorada na
sua grandeza geográfica, era, de igual modo, parte integrante do vasto território. [...]
Mas tendo conhecimento da ameaça francesa no Maranhão, os Filipes “acordaram”
para a existência das partes do norte, desde o Rio Grande ao início do Amazonas,
que convinha povoar e defender, pois eram a porta de entrada da América Central
— e com mais rigor — da América espanhola.

No contexto das disputas entre os reinos que competiam por terras e por recursos
em territórios de além-mar, o Maranhão passou a despertar o interesse desses povos por
177 // Lugares e territórios: património, turismo sustentável, coesão territorial
integrar uma região muito rica em produtos que tinham ampla aceitação no mercado eu-
ropeu e, no plano geopolítico, por representar uma possibilidade de acesso ao interior da
Amazônia e mesmo às riquezas de ouro do Peru, já conhecidas dos espanhóis e cobiçadas
por muitos aventureiros.
No presente estudo, apresenta-se uma análise da evolução do território do municí-
pio de Icatu, localizado na margem oriental da baía de São José, área que desempenhou
papel destacado por ocasião da campanha dos portugueses para expulsar os franceses do
Maranhão e frustrar a tentativa de implantação da França Equinocial, projeto que inte-
grava os objetivos da coroa francesa desde a derrota na campanha de instalação da França
Antártica, no Rio de Janeiro.
O território de Icatu: da casualidade à condição estratégica

Abandonado pelos donatários, inalcançado pelas expedições de Pero Coelho de Sousa


e dos padres Francisco Pinto e Pereira Filgueira, e negligenciado pela coroa portuguesa
antes e durante o reinado de Filipe II durante a União das Coroas Ibéricas, apesar das
medidas requeridas pelas autoridades da colônia na Bahia e em Pernambuco, mediante
a invasão francesa, o território do Maranhão, já no reinado de Filipe III, recebeu toda
atenção das autoridades de Madrid, de Lisboa e de Pernambuco, o que se materializou por
meio da Jornada do Maranhão, em 1614.
A ocupação indígena da ilha Upaon-Açu, atual ilha do Maranhão, denuncia percur-
sos e percalços dos primitivos habitantes desde a Amazônia (LOUREIRO, 1982) e do
nordeste do Brasil, tanto pela costa como pelo sertão, com testemunhos mais relevantes
desta última região pelas conexões com as culturas dos grupos primitivos e as evidên-
cias expressas pela memória das lutas contra os portugueses na Bahia e em Pernambuco
(MORENO, 2011).
Ao início do processo de conquista e povoamento do Maranhão pelos europeus, o
território estava ocupado por grande número de aldeias indígenas com atividade seminô-
made que se distribuíam acompanhando a costa e os vales dos rios, todos perenes e muitos
com grande caudal e abundante fauna. Em face da diversidade e da quantidade de recursos
produzidos pela natureza, os primitivos habitantes vivenciavam os mais diversos conflitos
sociais para garantir a posse das áreas mais produtivas.
A ocupação francesa do Maranhão constituiu a motivação que faltava para acelerar
a decisão das autoridades de Portugal e Espanha. Diante do risco potencial de invasão
dos territórios espanhóis das Caraíbas e dos Andes, Filipe III de Espanha e II de Portugal
substituiu o governador de Pernambuco nomeando Diogo Botelho com a missão de
dar prioridade ao resgate da hegemonia das coroas ibéricas sobre a costa norte do Brasil,
compreendendo toda a extensão desde a Paraíba até a Amazônia.
178 // Lugares e territórios: património, turismo sustentável, coesão territorial

Para superar todas as frustrações das tentativas anteriores, realizadas por iniciativas
particulares e com apoio oficial secundário, o Governador de Pernambuco assumiu a coor-
denação das ações iniciais, escolhendo a equipe e custeando a logística com o melhor que
a situação permitia. Mariz e Provençal (2011, p. 79) afirmam que, se “não fosse o auxílio
de outras capitanias, os luso-espanhóis teriam sido forçados a adiar as operações” contra a
colônia francesa, o que poderia ser desastroso para as duas coroas.
Uma importante missão preparatória para a campanha contra os franceses no Maranhão
foi atribuída a Martim Soares Moreno, em 1611 (ARAÚJO, 2015; PIANZOLA, 2008;
MORENO, 2011), com o propósito de examinar os fatos relacionados com a presença de
franceses na Costa Norte do Brasil, missão cumprida com grande atraso e pouca utilidade
para o planejamento operacional, uma vez que o relatório chegou com grande atraso na
Espanha e em Portugal, mas só foi recebido pelo comandante da Jornada do Maranhão
quando as operações já estavam em curso.
A Chegada da frota comandada por Albuquerque a Graxenduba, às 10 horas do dia
26 de outubro de 1614, ocorreu a salvamento, mas não incógnita, como atesta o sargento-
-mor Diogo de Campos Moreno (2011, p. 60) que “fizeram tal aparato que subitamente
em toda a Ilha Grande, a qual a duas léguas e meia estava defronte, se fizeram fumaça por
toda a costa, dando aviso que durou espaço grande”. Outra evidência da exposição dos
portugueses é referida por Moreno (2011, p. 61) que, ainda durante a descarga dos navios,

viram vir correndo à ribeira uma canoa grande com muitos índios, a qual che-
gada à terra foram recebidos de Jerônimo de Albuquerque e de todos com muita
alegria. Porém ele, mostrando mui pouca, estavam com tanta turbação que ao prin-
cipal lhe tremiam quantos ossos tinha descompostamente, e não de frio [...] Nas
perguntas variavam: houve deles que disseram que na ilha havia muitos franceses;
outros disseram que já eram idos, e que não havia ninguém...

Mariz e Provençal (2011, p. 83) relatam evento semelhante e atestam a artimanha dos
franceses ao registrarem que Du Prat, um dos oficiais de comando da armada de Daniel de
la Touche, enviou um dos chefes indígenas de Upaon-Açu para conversar com Jerônimo
de Albuquerque, fingindo-se decepcionado com os franceses e esperando avaliar as forças
dos portugueses”. Esta estratégia marcava o modus operandi da abordagem dos franceses,
à época, que se passavam por amigos confiáveis para extrair tudo que pudessem em troca
de poucas quinquilharias.
O episódio da visita dos índios demonstra a primeira estratégia dos franceses e a per-
cepção dos portugueses acerca dos acontecimentos vindouros, fartamente descritos por
historiadores, mas ainda sem uma análise acurada sobre o teatro da guerra, que culmina-
179 // Lugares e territórios: património, turismo sustentável, coesão territorial
ram com a vitória das tropas de Jerônimo de Albuquerque. Na sequência das artimanhas,
Daniel de la Touche convenceu Albuquerque a enviar comissões às respectivas coroas para
resolver as pendências políticas quanto a quem deveria permanecer no Maranhão. Este
ardil é comprovado mediante o aliciamento de oficiais da tropa de Albuquerque, enquanto
esperava reforços da França, ainda sob o regime anteriormente acordado. A solução defi-
nitiva da guerra foi assumida por Alexandre de Moura com a prisão do comando francês e
sua deportação para Lisboa (MOURA, 1905, p. 61).
A emergência da situação de guerra condicionou a escolha de um sítio para ocupar
apenas enquanto durassem as ações contra os franceses, o mais próximo que se podia al-
cançar incógnito e com segurança. Foi escolhido o topo da colina de Guaxenduba, como
posição estratégica para segurança das operações, mas para o Sargento-mor Diogo de
Campos Moreno, integrante do comando da armada (MORENO, 2011, p. 60), o ponto
escolhido era desfavorável por ser uma costa franca com planície de maré alternando partes
com vasas, pedras e areias, por extensão de mais de meia légua, “de modo que, tirando ser
água para beber, e boas terras, e madeiras ao redor de si, tudo o demais que se busca em
razão de guerra lhe falta; mas já chegados ali, e descobertos, não havia outro remédio”.
Entre outras desvantagens estavam o efetivo e o poder bélico.
As características ambientais encontradas pelos portugueses no Maranhão divergiam, em
grande medida, das reconhecidas nos trechos até então percorridos na costa norte do Brasil,
pela notável magnitude da energia expressa pelas forças da natureza, pois a proximidade da
linha equinocial tudo maximizava. Para a tropa da Jornada incumbida de expulsar os franceses
do Maranhão, o desconhecimento do ambiente e a falta de conhecimento dos índios represen-
taram obstáculos logo suplantados pela emergência da expectativa da defesa em face da missão.
Reconhecendo as potencialidades do ambiente, Jerônimo de Albuquerque mandou que
preparassem o desembarque e a primeira instalação portuguesa no Maranhão, para abrigo
contra os rigores do clima e defesa contra eventuais investidas dos franceses. Foi escolhido
o local denominado Monte de Guaxenduba (CARVALHO, 2014) onde, segundo Moreno
(2011, p. 61), de imediato foi construído o Forte, um hexágono “perfeito, capaz de alojar
em si toda aquela gente e se defender com
mui pouca, acomodando-se com o terre-
no” (Figura 1), batizado com o nome de
Santa Maria, e a Capela para ofício dos
sacerdotes, instalações que obedeciam ao
padrão de todas as infraestruturas iniciais
de ocupação portuguesa, quando se trata-
va de missão oficial. Segundo Johnson e
Silva (1992), a localidade ocupada depois
180 // Lugares e territórios: património, turismo sustentável, coesão territorial

foi chamada Vila Velha.


Enquanto construíam a estrutura de
apoia à tropa, o comando da Jornada do
Maranhão não podia descurar da vigilân-
cia dos franceses, enquanto mediava apoio
dos índios tapuias das vizinhanças de
Guaxenduba que também eram inimigos
dos Tupinambás, da Ilha Grande, apoia-
Figura 1. Planta do Forte de Santa Maria, em Guaxenduba
dores das tropas invasoras. E as animosi-
Fonte: adaptado de https://www.google.com.br dades continuavam configurando o clima
de guerra com incursões de espionagem de ambas as partes. Moreno (2011, p. 64) registra
“que continuamente andavam com as armas nas mãos, e atravessando matos, e rondando os
postos das praias, guardando postos, fazendo emboscadas, batendo varedas, reconhecendo
pistas, vigiando lanchas e trabalhando nas obras e na descarga dos navios, de sorte que não
havia sair de um trabalho sem se deixar de entrar em outro”.
Almeida (2016), Araújo (2015), Carvalho (2014), Moreno (2011), Mariz e Provençal
(2011), Lacroix (2006), Meireles (1982) destacam os conflitos, as escaramuças e as refre-
gas recorrentes na costa norte do Brasil durante a campanha para expulsar os franceses.
Especificamente sobre o embate em Guaxenduba, registram as ações de espionagem de
ambas as tropas, a emboscada dos franceses no dia 7 de novembro de 2014, a participação
dos índios, a intimidação dos franceses e as respostas da artilharia portuguesa, a batalha
campal que culminou com a vitória dos portugueses e os desdobramentos subsequentes,
até a consolidação do domínio lusitano, merecendo destaque a desaprovação do acordo
pela corte de Madrid (LACROIX, 2006) por ter sido feito com um pirata.
A localização do forte de Santa Maria e do sítio exato onde ocorreu a Batalha de
Guaxenduba tem sido objeto de algumas dúvidas em face da toponímia e das dificulda-
des técnicas próprias da época dos acontecimentos, notadamente em termos da precisão
das medições. Lago (1822) refere uma posição do Forte de Santa Maria, considerada por
Bonnichon e Guedes (1975), Meireles (1982) e reproduzida por Mariz e Provençal (2011,
p. 83), como a mais precisa situada “na foz do rio Anajatuba (ou Inajatuba) onde localizou
numa ponta junto ao rio Tajuaba, vestígios de um forte”.
Abordando o teatro das operações de Guaxenduba, a historiografia valoriza a intervenção
milagrosa de uma virgem cuja simbologia foge ao objeto desta análise. Com referência à loca-
lização e situação geográfica, Lima (2006) situa Guaxenduba nas proximidades da cidade de
Icatu, na praia perto do rio Mamuna. Entende-se que a referência mais próxima é de Almeida
(2016, p. 68) que registra a localização referida por Lago (1822) como “as ruinas da Fazenda
Tatuaba da missão dos padres jesuítas”. Para este autor, “o forte de Santa Maria está localizado
181 // Lugares e territórios: património, turismo sustentável, coesão territorial
no sítio Guaxenduba, na colina acima da praia de Santa Maria. Dista na direção norte, seis
quilômetros para a boca do rio Tatuaba e ao sul, 12 quilômetros para o estuário do rio Munim”.
À luz dos estudos referidos, concordamos com a descrição de Almeida (2016) e acres-
centamos a localização exata próxima ao povoado e à praia de Santa Maria, obtida com uso
de GPS por ocasião de visita às ruínas do Forte, sendo mensuradas as coordenadas geográ-
ficas 02º38’25” de latitude sul e 44º05’46” de longitude oeste (Figuras 2 e 3). A colina de
Guaxenduba ocupa uma das extremidades de um conjunto de tabuleiros costeiros modela-
dos pela drenagem pluvial e pelo esbatimento das ondas e correntes de marés, resultando
numa paisagem de intensa dinâmica que alterna áreas de praias arenosas, terraços de abrasão
marinha limitados por falésias de até 25 metros de altura, reentrâncias preenchidas por vasas.
Figura 2: Localização geográfica do município de Icatu Fonte: adaptado de IBGE, 2014.

Com a consolidação do domínio português no Maranhão, as autoridades se transfe-


riram para o forte de São Luís, fundado por Daniel de la Touche, na Ilha Grande e reno-
meado após a conquista como São Filipe, pelos portugueses. Almeida (2016, p. 93) relata
que, antes da mudança definitiva, Jerônimo de Albuquerque fundou o arraial de Santa
Maria de Guaxenduba junto ao forte, para abrigar os portugueses que lutaram na batalha,
com “casas simples, inclusive a igreja, todas de casas de taipa de pilão, cobertas de palha
de pindoba, portas e janelas de meaçabas e piso de saibro batido”. Em seguida os índios
182 // Lugares e territórios: património, turismo sustentável, coesão territorial

tapuias, também remanescentes da batalha, com suas famílias, construíram uma aldeia na
borda do tabuleiro, situada a cerca de 1 km do forte de Santa Maria.
Para facilitar as operações de embarque e desembarque na comunicação com a sede da ca-
pitania e atender as demandas da administração, Alexandre de Moura mandou construir uma
povoação, em local próximo a Guaxenduba, com estrutura capaz de contribuir para a defesa
da Ilha Grande, proteger a foz do rio Munim contra a entrada de aventureiros e recuperar
embarcações. No local parece ter sido edificada a sede da capitania de Icatu, pois, em 1621,
detinha o único porto de entrada para a conquista e o povoamento das terras do Munim.
Os moradores das povoações desenvolviam atividades compatíveis com os recursos
ambientais e a técnicas que dominavam: caça, pesca, cultivo de feijão, milho e fava, com
sementes doadas por Ravardière. Nas famílias indígenas predominava a prática do extrativis-
mo vegetal, constando de palha, frutos e caules, da caça, da pesca e o cultivo da mandioca.
Não há registros de que os índios da região de Icatu cultivassem o algodão, embora algumas
tribos da Região Nordeste do Brasil utilizassem a fibra desse arbusto (COUTO, 2011).

Natureza e patrimônio em Icatu

Antes de dar posse a Jerônimo de Albuquerque na direção da Capitania do Maranhão


e retornar a Pernambuco, Alexandre de Moura fez a primeira distribuição de terras da
província do Maranhão para a instalação de um povoado que abrigasse os portugueses e
brasileiros que auxiliaram na conquista do Maranhão. Nessa mesma tendência, seguiu-se a
ocupação das aldeias indígenas mais estruturadas e a fundação de novas aldeias e fazendas
por padres jesuítas com o pretexto de se promover a salvação dos índios e sua incorporação
ao conjunto dos súditos do reino.
Logo que foi empossado na direção da Capitania do Maranhão, Jerônimo de Albuquerque
desencadeou o processo de conquista e colonização de todo o território maranhense. Como
medidas iniciais destinadas a reverter a influência dos franceses junto aos índios, procurou
estreitar relações com chefes indígenas da Ilha Grande, de Tapuitapera, atual Alcântara, e de
Cumã, atual Guimarães, que constituíam as maiores aglomerações com as quais os france-
ses haviam estabelecido laços de amizade. Nesta empresa foi brilhante, conforme Viveiros
(1992, p. 14), “na conquista da amizade do indígena, que se achava grandemente intrigado
com o português, conquistador, pela habilidade ardilosa dos franceses”.
Diante das perspectivas da coroa portuguesa em relação ao Maranhão e à Amazônia,
e da conjuntura geopolítica da época, marcada pelo interesse da França, Inglaterra e
Holanda pelo norte da América do Sul, a emergência das comunicações com a metrópole
motivou a criação do estado do Maranhão Colonial, separado do Brasil. Por esta divisão,
183 // Lugares e territórios: património, turismo sustentável, coesão territorial
o território de Icatu constituiu uma das sete capitanias subsidiárias em que foi dividido o
Maranhão, integrando uma vasta região composta pelas capitanias do Ceará, do Itapecuru
e do Mearim (CAVALCANTI FILHO, 1990; MEIRELES, 2001; ALMEIDA, 2016),
com administração direta da Coroa e protegida por algumas particularidades da legislação
que resultaram em vantagens significativas, como a isenção de algumas proibições impostas
pela Companhia Geral de Comércio.
Na cronologia da conquista, seguiu-se a integração da região de Icatu no processo de
povoamento da capitania do Maranhão, tornando-se a segunda vila edificada no conti-
nente (FEITOSA e TROVÃO, 2006; TROVÃO, 2008), situada na foz do rio Munim.
Para Almeida (2016, p. 96), um verdadeiro paraíso, pela abundância de recursos naturais:
“uma terra boa e fértil, de água pura e cristalina, de flora e fauna abundantes”, com uma
exuberante variedade de animais silvestres. A qualidade da água motivou a denominação
toponímica de Icatu que, no idioma tupi, significa “Água Boa”.
À época dos primeiros empreendimentos portugueses na região de Icatu, o território
estava ocupado por tribos de indígenas que transitavam pelas terras do nordeste maranhen-
se e que vivenciavam os mais diversos conflitos sociais, muitos dos quais foram estendidos
para as relações com os portugueses, pois eram tribos seminômades que não reconheciam
direitos de outros sobre a terra e os bens inerentes a esta condição. Almeida (2015) discri-
mina as aldeias de São Gonçalo, São Jacob, Iguaranos, Tabajaras, Engenho do Munim e
as fazendas Tatuaba, Nossa Senhora da Vitória e Munim Mirim, além de episódios entre
os padres e os índios, e registra conflitos com os índios Guianares, Caicases e Tapuias na
forma de quebra de acordos, perseguição e captura para escravização como mão-de-obra.
Os elementos do meio físico do município de Icatu integram uma região de litologia
sedimentar arenosa, inconsolidada (Fotos 1 e 2), sobreposta à estrutura ígnea do Arco
Ferrer-Urbano Santos (BANDEIRA, 2013; FEITOSA, 1983), com o relevo evidenciando
a planície costeira marcada por extensa superfície tabular rebaixada, modelada pela dre-
nagem pluvial, configurando pequenos cursos d´água (Figura 3), com forte ocorrência de
formações superficiais arenosas que conformam paleodunas, com maior ocorrência na área
nordeste do município. No litoral, a grande amplitude das marés expõe uma ampla planí-
cie litorânea caracterizada pela deposição sedimentar de areia muito fina, silte e argila que
formam praias (Foto 3), e ambientes de manguezais modelados pelo complexo de canais
de marés onde drenam os braços de mar Anajatuba e Mamuna (Foto 4).
184 // Lugares e territórios: património, turismo sustentável, coesão territorial

Foto 1. Estrutura sedimentar – praia de S. Maria. Fonte: Acervo do autor.


Foto 2. Estrutura sedimentar – povoado Salgado. Fonte: Acervo do autor.

Foto 3. Vista da praia de Santa Maria. Fonte: Acervo do autor.

185 // Lugares e territórios: património, turismo sustentável, coesão territorial

Foto 4: Vista do canal de maré com manguezal. Fonte: Acervo do autor.


O clima da região de Icatu é do tipo tropical úmido, evidenciando a proximidade da
linha equinocial pela singularidade das médias anuais de temperatura, pluviosidade e de
umidade relativa do ar, além de estar situada em uma área franca aos ventos e às ondas
marinhas que atingem a borda oriental da baía de São José, embora abrigada das fortes
correntes de marés do Golfão Maranhense, por ter como anteparo a ilha do Maranhão.
A cobertura vegetal das superfícies tabulares é dominada por formações pioneiras de
dunas e restingas e formações mistas de cerrado com babaçu, apresentando fitofisionomia
de capoeirão misto. Nos leitos dos rios, a flora é marcada pela ocorrência de formações de
palmáceas, dentre as quais predominam as palmeiras da juçara (Euterpe edulis) e do buriti
(Mauritia flexuosa) (Fotos 6). Na faixa litorânea alternam-se praias, falésias e manguezais
com Rizophora mangle, L., depósitos de vasas predominantes nos rios Anajatuba e Munim.
No continente, o relevo tabular é modelado por diversos cursos fluviais, distinguindo-
-se os rios Amazonas, Anajatuba, Grande, Itatuaba, Munim e a cachoeira do Boqueirão,
além de cursos menores, todos mantendo razoável volume d´água ao longo do ano e
utilizados pela população para os mais diversos fins, como banho de pessoas e de animais,
dessedentação de animais, lavagem de roupas e de veículos, uso doméstico e preparo da
mandioca para fazer farinha d´água (Fotos 6), entre outros. A qualidade das águas motivou
a denominação toponímica da vila, depois capitania e mais tarde município.
Acerca do significado toponímico de Icatu, validamos a descrição de Navarro (2005)
que remete à origem tupi do vocábulo, com o significado de “águas boas”, obtido pela
aglutinação do signo y (água, rio) e do termo katu (bom). Por ocasião da invasão francesa,
Abbeville (2002) e d’ Evreux (2002) fizeram os primeiros registros do termo “Icatu”,
seguindo-se muitos historiógrafos dentre os quais Almeida (2016) que compila referências
de valor toponímico em Bettendorff (2010) e Varnhagen (1953) como “fontes boas”. Essa
visão está em desacordo com o significado, pois, excetuando-se as águas do mar, as demais
se enquadram na concepção da língua tupi.
186 // Lugares e territórios: património, turismo sustentável, coesão territorial

Foto 5. Formação de palmeira da juçara. Acervo do autor.


Foto 6. Banho no rio Areia – povoado Ribeira. Acervo do autor.

As características climáticas e hidrológicas atuando sobre as formações superficiais de do-


mínio arenoso, mesmo durante longo período geológico sem intervenções humanas signifi-
cativas, não possibilitaram o aporte de matéria orgânica suficiente para desencadear processos
edáficos de maturação do solo, fato que explica a baixa fertilidade natural e a tipologia domi-
nante dos Neossolos Quartzarênicos (SANTOS, 2013). Esta condição é reforçada pelo regis-
tro de Marques (2008, p. 617) de carta do governador enviada à corte em 1716, afirmando
que a vila de Icatu “se vai despovoando por ser um sítio muito doentio e morrer muita gente e,
sobretudo, por não criarem as terras os mantimentos, por serem a maior parte delas areadas”.
Sobre a flora de Icatu, Gaioso (2011, p. 84) refere que “abundam de muitas árvores de
angiroba, ou andiroba, de cuja castanha se tira uma massa que, desfeita ao sol, desfila um azeite
para alumiar e de que se faz sabão”. Marques (2008, p. 618) registra a existência de matas com
madeiras “próprias para construção de casas, navios e móveis” como “aroeira, ameiju amarelo
e preto, angelim, bracutiara, bacuri vermelho e branco, maçaranduba, pau-roxo, pau-santo,
187 // Lugares e territórios: património, turismo sustentável, coesão territorial
paparaúba branca e amarela” e que “são muito próprios para a criação de gado vacum.” A esta
descrição podem-se acrescentar as formações dos exuberantes manguezais e de espécies vege-
tais como babaçu (Attalea speciosa), buriti (Foto 6) e juçara (Foto 5), entre outras. O consu-
mo dos produtos derivados não se valorizava à época, como acontece na atualidade, além de
permitirem a elaboração de subprodutos artesanais com boa aceitação no mercado turístico.
O território de Icatu evoluiu mais rapidamente com as técnicas introduzidas pelos
conquistadores, pois os índios usavam instrumentos trabalhados em pedra e madeira e
receberam ferramentas vindas de Portugal. Isto representou um enorme avanço técnico
que foi registrado por d´Abbeville (1975, p. 60) ao transcrever o discurso do cacique
Japiassu de que estavam dispostos a não mais pensar “em foices, machados, facas e outras
mercadorias, e conformados com voltar à antiga e miserável vida de nossos antepassados
que cultivavam a terra e derrubavam as árvores com pedras duras”.
Os instrumentos trazidos da Europa foram incorporados ao desenvolvimento das ati-
vidades de extrativismo animal, apoiado na caça e na pesca; vegetal, baseado na coleta de
frutos e corte de madeira; na cultura agrícola e pecuária para subsistência, com a orienta-
ção dos padres jesuítas e posteriormente dos donos da terra, todos apoiados pela navegação
fluvial como meio de escoamento do excedente da produção, o que não era abundante,
pois, conforme Gaioso (2011, p. 83), “suas terras não serviam para a cultura do arroz e
algodão. Porém, por outra parte são muito propícias para a produção de farinha”.
As atividades dos primeiros conquistadores foram desenvolvidas com maior produtivida-
de nas aldeias e fazendas controladas pelos jesuítas, onde se fabricava açúcar e cachaça de cana,
e tiquira, de mandioca (ALMEIDA, 2016), além do cultivo de outros produtos destinados
ao consumo interno. Uma exceção a esta tendência parece ter sido o Engenho do Munim,
cuja prioridade estava apoiada na exploração de madeira para exportar (VIVEIROS, 1965).
A continuidade do desenvolvimento territorial de Icatu alternou conflitos entre os na-
tivos e os colonizadores, motivados pela escravização daqueles para emprego nas atividades
produtivas, e também entre os colonizadores e gestões da capitania, fatos que motivaram o
esvaziamento das terras da vila por morte ou por fuga. Almeida (2016, p. 101) assinala que
“os capitães-mores, constantemente, promoviam guerra aos índios reduzindo-os à escravi-
dão. Usavam desses meios pretextando haver ameaças de ataques dos gentios à vila ou a en-
genhos e lavouras”. Ademais, registra fases positivas e negativas desse processo, destacando-se
a rapidez da construção da vila instalada em 1691, junto do forte de Santa Maria. Segundo
Betendorff (1910, p. 509), este fato despertou interesses financeiros de muitos portugueses
radicados na região do Itapecuru, e sua acelerada destruição, em 1698, em decorrência do
massacre feito pelos índios caicases que afugentou os colonos não vitimados.
A continuidade da crise parece ter representado uma extensão das condições de toda a
capitania, apesar dos esforços da coroa no sentido de estimular a aquisição de mão-de-obra
188 // Lugares e territórios: património, turismo sustentável, coesão territorial

escrava a baixo custo. Em 1749, o governador do estado do Maranhão refere que a povoa-
ção da vila de Santa Maria de Icatu “tem poucos moradores e a maior parte de pequenos
cabedais (BERREDO e CASTRO, 1749, p. 11) e, em 1751, o Governador Francisco
Xavier de Mendonça Furtado, sobre a situação encontrada no Maranhão, afirma que

Vim parar a uma terra onde não só se não conhece o comércio, mas nem nunca ou-
viram estas gentes falar na mais leve máxima dele; vindo os comissários de Lisboa roubar
estes moradores, eles despicam-se não lhes pagando, ou fazendo-o com gêneros falsifica-
dos e por preços exorbitantes, e com estes estabelecimentos não é muito que tenha che-
gado ao ponto de ser quase impossível o restabelecer-se (MENDONÇA, 2005, p. 86).
O Governador Mendonça Furtado transferiu a sede do Governo para Belém, colo-
cando São Luís e o Maranhão em plano secundário com reflexos em todas as capitanias
subsidiárias. Uma década mais tarde, Moraes (1860, p. 78) trata da vila de Icatu afirmando
ser “tão falta de cabedais, como de moradores [...] a mais pobre de toda a comarca”. A con-
tinuidade da situação motivou reivindicações dos representantes da vila de Santa Maria
de Icatu, rogando ao Rei que autorizasse a transferência da povoação para um local cuja
situação geográfica possibilitasse maiores recursos e lhes facilitasse mais produtividade.
Com a anuência do Rei, foi implantada a nova vila, onde se situa a sede do municí-
pio desde 1759, mantendo-se o topônimo da vila antiga. Almeida (2016, p. 120) relata
a prosperidade inicial da Vila Nova de Icatu, cujo porto “servia de parada obrigatória de
canoas, cúteres e depois de vapores que subiam e desciam o rio Munim, até o afluente
Iguará, transportando passageiros e mercadorias”, além da posição estratégica para a defesa
da capital, pela baía de São José, e de toda a interlândia do rio Munim.
Os sucessos da nova vila de Icatu resultaram no crescimento de alguns núcleos de
povoamento como o de Miritiba e o de Morros, cuja emancipação implicou perdas de
território e de recursos. Para Almeida (2016), a abolição dos escravos e o crescimento da
povoação de Morros, emancipada em 1898, deram inicio à fase de decadência da vila nova
de Icatu, pois em pouco tempo esta povoação se tornou mais importante do que a sede,
concentrando grande parcela da economia do município e oferecendo boas estradas para
a comunicação com São Luís, através do rio Itapecuru, e com Parnaíba, no Piauí. O sítio
de Morros tinha a seu favor a melhor qualidade das águas dos rios, melhores condições de
travessia do rio Munim e de acesso ao rio Itapecuru e à vila de Rosário.
No início do século xx, a construção da estrada de ferro interligando as cidades de São
Luís e Teresina contribuiu para acelerar as relações da vila de Morros com a de Rosário,
resultando no declínio da navegação fluvial e relegando a vila de Icatu ao plano secundário
em que ainda se encontra, apesar dos investimentos em infraestrutura, no início deste
século, como a pavimentação da BR 402 que beneficiou a região com rodovia asfalta-
da ligando a sede do município à capital do estado e ao polo turístico de Barreirinhas. 189 // Lugares e territórios: património, turismo sustentável, coesão territorial
Atualmente as perspectivas de crescimento econômico de Icatu são renovadas em face do
projeto de implantação de uma linha de Ferry Boat para servir à região, interligando-a à
capital do estado através da cidade de São José de Ribamar.
Considerando a avaliação dos elementos naturais no contexto da patrimonialização, o
território de Icatu possui muitas áreas enquadradas como de proteção legal por serem am-
bientes costeiros, como praias, mangues, falésias, e continentais, como mananciais, bosques
de babaçu e de bacuri, entre outros, todos protegidos pelo Código Florestal Lei 12.727/2012
e pelas resoluções próprias do Conselho Nacional de Meio Ambiente-CONAMA.
As leis federais são objeto de ações de fiscalização no âmbito do governo do Estado que
institui documentos legais com vistas ao melhor cumprimento dos estatutos. O território
de Icatu integra a Área de Proteção Ambiental Upaon-Açu/Miritiba/Alto Preguiças, ins-
tituída pelo governo do estado do Maranhão através do Decreto no 12.428/92, com o
propósito de disciplinar o uso sustentável dos recursos naturais da região abrangida. Em
nível municipal, deve-se atender ao que disciplina a legislação federal e estadual além das
deliberações da competência específica. Neste contexto merece destaque a aprovação da lei
municipal nº 350/2015 que “dispõe sobre a faixa de proteção, recuperação e conservação
ambiental do curso do rio Itatuaba e suas matas ciliares” (PMI, 2015).
Através de estudos de campo, destacamos os pontos de maior relevância por valor pa-
trimonial para o município (Figura 3), para além da proteção legal já instituída e outros de
grande potencial como patrimônio cultural por seu valor histórico, arquitetônico e religio-
so, entre outras manifestações. Dentre os locais de maior potencial natural consideramos
os locais já instituídos pela população, como a praia de Santa Maria com suas respectivas
falésias (Fotos 1 e 3), a falésia e o manguezal próximos ao povoado Salgado (Fotos 2 e
4), os banhos próximos ao povoados Moinho, Ribeira (Foto 6), São Lourenço, Itatuaba,
Salgado (Foto 7), Boa Vista e a cachoeira do Boqueirão (Foto 8).

Foto 7. Banho rio Amazônia – pov. Salgado. Acervo do autor.


190 // Lugares e territórios: património, turismo sustentável, coesão territorial

Foto 8. Banho cachoeira do Boqueirão. Acervo do autor.


Como sítios de valor histórico e cultural merecem destaque os locais do forte de Santa
Maria, da Vila Velha de Icatu, as sedes das antigas missões religiosas e das fazendas, e a sede
da cidade de Icatu. O sítio do forte (Foto 9) deve ser recuperado e compreender a borda do
tabuleiro com extensão para o local da batalha de Guaxenduba e do cemitério respectivo,
cuja localização precisa carece de pesquisa. Almeida (2016) registra as principais missões
religiosas e fazendas com uma descrição superficial sobre a respectiva localização, o que
também carece de pesquisa histórica, cartográfica e arqueológica. Na sede do município,
o conjunto formado pela praça da Matriz e praça folclórica (Foto 10) reúne a Casa da
Câmara, a Igreja de Nossa Senhora da Conceição (Foto 11) e o Porto, bem como o busto
de Jerônimo de Albuquerque (Foto 12), construído no século xviii.

Figura 3. Locais de maior interesse como patrimônio turístico em Icatu. Fonte: adaptado de IBGE, 2014

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Foto 9. Ruínas do forte de Santa Maria. Acervo do autor.


Foto: 10. Praças da Matriz e Folclórica. Acervo do autor.