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Direito e neoliberalismo

Nicolao Dino de Castro e Costa Neto

Sumário
1. Introdução. 2. A passagem do Estado li-
beral ao estado de bem-estar. 2.1. Uma idéia
inicial. 2.2. O Estado liberal. 2.3. O Estado soci-
al. 2.4. O substrato filosófico e ideológico do
Estado social. 2.4.1. O pensamento de Rousseau.
2.5. O Direito no Estado-providência. 2.6. A cri-
se do Welfare State e seus reflexos na realiza-
ção dos direitos fundamentais. 3. A ideologia
neoliberal e a globalização econômica: o im-
pacto no campo da realização dos direitos fun-
damentais. 3.1. A onda neoliberal. 3.2. O proje-
to neoliberal e o “empecilho” da democracia.
3.3. O desprezo pelo estado: a verdadeira face
do neoliberalismo. 3.4. O Direito no projeto
neoliberal. 3.5. Resíduos do neoliberalismo: os
impactos nos direitos fundamentais e nas rela-
ções sociais. 3.6. Ampliando os espaços de re-
sistência. a) A ética da alteridade e a reconstru-
ção de um novo contrato social. b) O ensino e a
práxis do Direito. c) Direitos humanos – con-
cretização da Declaração Universal de 1948. 4.
Conclusão.

1. Introdução

O presente trabalho parte de uma pre-


missa que vem sendo insistentemente deba-
tida por cientistas sociais, historiadores e
filósofos contemporâneos: o século XX foi
um período de contrastes, em que se alter-
Nicolao Dino de Castro e Costa Neto é Pre-
naram momentos de positiva vitalidade
sidente da Associação Nacional dos Procura-
dores da República, Mestre em Direito pela Fa- econômica e política e instantes de dra-
culdade de Direito da Universidade Federal de mas morais, políticos e culturais, com re-
Pernambuco e Professor Assistente da Univer- flexos profundos nos valores vigentes na
sidade Federal do Maranhão. sociedade.
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Uma avaliação do “breve século XX” sonhada, contra os azares da doença, da
deve obedecer a uma tríplice perspectiva: um desgraça e mesmo da terrível velhice dos
primeiro período, denominado a era da ca- pobres?”.
tástrofe – marcada pelas duas grandes guer- De fato, contrapondo-se ao laissez faire
ras –, em que “uma crise econômica mundi- liberal – conquista maior do século XIX, que
al de profundidade sem precedentes pôs de preconizava um Estado mínimo –, inaugu-
joelhos até mesmo as economias capitalis- rou-se no século XX um modelo de Estado
tas mais fortes e pareceu reverter a criação mais intervencionista. Deste, além das liber-
de uma economia mundial única, feito bas- dades e garantias individuais já conquista-
tante notável do capitalismo liberal do sé- das, passou-se a exigir a afirmação de direi-
culo XIX”. Um segundo momento – aclama- tos sociais, com a função primacial de redi-
do como a era de ouro –, a partir do fim da mensionar as condições materiais e cultu-
Segunda Guerra Mundial, no qual, não obs- rais de vida dos indivíduos, compatibilizan-
tante o longo período da guerra fria1, o mun- do segurança jurídica com segurança soci-
do ocidental (mais precisamente os países al.
capitalistas desenvolvidos), partindo da Coincide, pois, a “era de ouro” com a era
posição hegemônica dos Estados Unidos, do Estado-providência, na qual aspirações
experimentou um período de crescimento de bem-estar foram positivadas em regras
econômico efusivo, com grandes avanços jurídicas, passando a constituir mais do que
tecnológicos, progresso industrial e acessi- meras expectativas sociais, mas exigências
bilidade a bens de consumo revolucionado- “judicializáveis”.
res de hábitos sociais. E, finalmente, uma No entanto, as “décadas de crise” remar-
terceira fase, iniciada por volta do ano de caram o colapso do próprio sistema capita-
1973, enfocada como as “décadas de crise” lista, encontrando-se na ordem do dia. Nela
(HOBSBAWM, 1999, p. 16-17). ainda estamos imersos e mesmo aqueles que
As “décadas de crise” caracterizam-se não são capazes de decodificá-la sentem
por profundas e radicais transformações no suas conseqüências, seja em razão das alte-
cenário político e econômico mundial, pela rações na economia de mercado, seja em
perda dos poderes econômicos dos Estados decorrência das modificações processadas
nacionais, pela derrocada do “socialismo no cotidiano das relações intersubjetivas,
real”, (com a queda do muro de Berlim e de com a descompassada aceleração da com-
todos os sonhos socialistas cultivados por petição global de todos contra todos2.
detrás dele), bem como pelos profundos des- Afirmar que tal período de desmorona-
nivelamentos sociais, com extremos de ri- mento não tem seus efeitos restritos ao uni-
queza e miséria jamais imaginados por eco- verso econômico seria tautológico, porquan-
nomistas da “era de ouro”. to não se poderia conceber que os fortes im-
Na chamada “era de ouro”, não obstan- pactos na economia não repercutissem nou-
te a tendência à utilização de novas tecno- tras searas, abstendo-se de influenciar pro-
logias que dispensavam cada vez mais a fundas alterações nas relações sociais e no
mão-de-obra, o impacto do desemprego em campo do Direito.
massa não pôde ser percebido com tanta Analisando os problemas deste final de
nitidez, porquanto a economia cresceu de século no plano político-constitucional, Jor-
modo a assegurar ou até mesmo ampliar o ge MIRANDA (1996, p. 98) registra a “cha-
número de empregos. E, como salientou mada crise do Estado-providência, deriva-
HOBSBAWM (p. 262), “se os tempos se tor- da não tanto de causas ideológicas (o reflu-
nassem difíceis para eles, não haveria um xo das idéias socialistas ou socializantes
Estado previdenciário universal e generoso perante idéias neoliberais) quanto de cau-
pronto a oferecer-lhes proteção, antes nem sas financeiras (os insuportáveis custos de

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serviços cada vez mais extensos para popu- Daí ser possível, sob o ângulo da Filoso-
lações activas cada vez menos vastas), de fia, analisar criticamente os novos rumos
causas administrativas (o peso de uma bu- delineados para as relações sociais no mun-
rocracia, não raro acompanhada de corrup- do globalizado, examinando as mutações
ção) e de causas comerciais (a quebra da que se pretende implementar no campo do
competitividade, numa economia globali- Direito e seus reflexos na atividade estatal
zante, com países sem o mesmo grau de pro- de distribuição de justiça.
tecção social)”. Para o desenvolvimento do trabalho, cabe
A crise econômica mundial está direta- estabelecer, de forma arbitrária, um marco
mente relacionada com a crise do Estado- zero: as conquistas sociais que caracteriza-
providência. Some-se a isso a derrocada ram o Welfare State. A partir daí é que se pro-
do socialismo real, para conceber-se, en- põe a análise das implicações da famigerada
tão, a abertura da trilha conducente à tão investida neoliberal na redefinição do fenô-
festejada”crise do paradigma”. Tal crise é meno jurídico no final do milênio, com sensí-
marcada pela desregulação global da vida veis reflexos no início deste novo século.
econômica, social e política. A demarcação desse ponto de partida
Nesse terreno germinou o fenômeno neo- não dispensa certamente o exame dos fun-
liberal que, aproveitando-se da indigitada damentos do liberalismo clássico, já que o
crise global, propôs o absoluto esgotamento desenvolvimento do Estado-providência
dos “velhos paradigmas”, fragilizando con- possui um significado de ruptura com um
ceitos de soberania do Estado-nação e suge- modelo não mais satisfatório.
rindo a existência de uma nova ordem social. Em seguida, dirigimos nossa pretensão
Como, então, assimilar ou enfrentar pro- para um diagnóstico do Welfare State e o sig-
fundas alterações propostas (rectius, impos- nificado do Direito em tal contexto. As ra-
tas)? Como, por exemplo, aplicar critérios zões do colapso do Estado social constitu-
de justiça distributiva num novo cenário em objeto de preocupação deste estudo, in-
cada vez mais adverso à prevalência dos clusive como forma de demonstrar a “for-
direitos sociais? ça” que projetou o ideário neoliberal para o
Nossa pretensão, neste ensaio, consiste plano da realidade.
em proceder basicamente a uma análise crí- Tal força – apresentada por seus artífi-
tica desses aspectos, questionando verda- ces como a salvação do capitalismo – tem
des estabelecidas. Para tanto, imprescindí- sido responsável por profundas modifica-
vel se faz um olhar filosófico, ainda que bre- ções no terreno da democracia e da própria
ve, da realidade posta. Em face de seu cará- aplicação do Direito, em face das propostas
ter universal, o traço crítico-axiológico cons- de desregulação dos espaços públicos, com
titui elemento inarredável do conhecimento a diminuição da presença do Estado nos
filosófico (REALE, 1994, p. 48-49). A crítica diversos setores da atividade social.
filosófica possibilita a análise dos pressu- Tudo isso vem sendo cuidadosamente
postos do objeto do conhecimento, conso- engendrado com vistas a assegurar a liber-
ante critérios valorativos. Criticar, pois, nas dade de mercado e sua autoregulamenta-
palavras de REALE (p. 49), “é descer à raiz ção. O Estado minimiza-se e com ele ames-
condicionante do problema, para atingir o quinham-se os direitos sociais duramente
plano ou estrato do qual emana a explica- conquistados pelas sociedades modernas.
ção possível”. Como será adiante demonstrado, perce-
Tudo isso é evidentemente exercitável be-se um caráter “neofeudal” nessas novas
mediante uma escala de valores. Ao filoso- propostas de regulação que são apresenta-
far, valora-se. É da essência da Filosofia a das como algo perfeito e acabado, não ha-
valoração. vendo mais nada a fazer, senão aderir...

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Contudo, os insucessos residuais que síntese, nas drásticas alterações processa-
são deixados pelas políticas neoliberais, das no período entre as duas grandes guer-
notadamente no campo social, com o agra- ras e no acirramento do confronto entre o
vamento dos índices de miséria e desempre- capitalismo e o socialismo, reforçado pelo
go p.ex., revelam “furos” em suas propos- êxito da Revolução Russa de 1917. Para
tas, permitindo enxergar a certeza de que outros, porém, essa leitura seria sobremodo
“nem tudo são flores” no neoliberalismo, superficial, não traduzindo com a necessá-
apesar do manto ideológico que o encobre. ria profundidade a idéia-força do Estado-
Daí a última parte do trabalho dedicada ao providência, conforme será visto a seguir,
estabelecimento de estratégias de resistên- com Pierre Rosanvallon.
cia à onda neoliberal.
Não há, aqui, a pretensão de apresentar 2.2. O Estado liberal
uma resposta pronta e definitiva à proble- Desdobrando a primeira linha de racio-
mática que se desvela, mas tão-só de ampli- cínio, vale partir da constatação de que o
ar os espaços de debate, buscando, por meio Estado liberal representou a mais importan-
de um olhar crítico, soluções democráticas te conquista sócio-política do final do sécu-
para as questões suscitadas. lo XVIII, com a ruptura das concepções ab-
solutistas do poder até então reinantes e a
2. A passagem do Estado liberal ao correlata promoção intransigente dos ide-
Estado de bem-estar ais de liberdade e igualdade – marcos da
Revolução Francesa de 1789.
2.1. Uma idéia inicial A afirmação de um Estado constitucio-
nal, de um Estado de Direito, pressupunha
Os questionamentos acerca do crepús- a negação de todo e qualquer exercício de
culo do Estado-providência e da crise do poder absoluto. A palavra de ordem consis-
Direito Positivo que se sucedeu a partir daí, tia na limitação do poder político. A ampli-
em razão das mutações decorrentes do fe- tude dos espaços públicos era, pois, contras-
nômeno da globalização, não podem pres- tada com a exaltação dos valores de igual-
cindir de uma avaliação sobre as origens e dade e liberdade, acarretando a minimiza-
os fundamentos do welfare state. De fato, a ção das funções do Estado3.
crise global detectada na sociedade contem- O sentimento prevalecente naquele mo-
porânea encontra-se fortemente conectada mento histórico justificava em certa medida
com o esgotamento do Welfare State e com a esse pensar. Afinal, o Estado absoluto ca-
derrocada do socialismo real. racterizava-se pela excessiva concentração
Se no abalo do Estado de bem-estar pode- de poder nas mãos do rei e de seus adeptos.
se encontrar a origem da desintegração só- As regras jurídicas eram esparsas e rarefei-
cio-política e das profundas e radicais alte- tas, pairando acima delas a vontade do so-
rações no plano jurídico, curial é diagnosti- berano. Considerando-se esse quadro, na-
car, ainda que de relance, as raízes do Esta- tural que o alvorecer da antítese desse mo-
do providenciário, para, depois, abordar o delo primasse pela negação de tudo quanto
seu apogeu e o seu declínio. representasse uma postura absolutista e cen-
O Estado social, Estado-providência ou tralizadora. Era tempo de florescimento da
Estado do bem-estar surgiu como oposição liberdade e da igualdade; tempo de limitar
ao exaurido modelo do Estado liberal bur- o Estado; tempo de incentivar o individua-
guês do século XIX. Há, porém, posiciona- lismo4.
mentos díspares sobre a evolução e amadu- Formava-se, assim, ambiente propício ao
recimento do welfare state. Para uns, a dinâ- desenvolvimento da Escola Clássica do Di-
mica do Estado-providência residiria, em reito Natural, que firmou a base sobre a qual

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foi edificado o pensamento jurídico da civi- sável sua proteção por normas jurídicas,
lização ocidental, com a reafirmação de di- como ideal comum a ser alcançado por to-
reitos fundamentais, nomeadamente a dos os povos e por todas as nações (cf. art.
igualdade e a liberdade. 2º da Declaração de 1948).
Apesar dessa efervescência teórica, ha- A amplitude dos direitos consagrados
via, na primeira fase da evolução das “afir- na Carta Universal pode ser justificada pela
mações de direitos”, um enorme vácuo en- tragédia que representou a segunda grande
tre a previsão de um “estado de natureza” – guerra, com suas radicais transformações
segundo o qual todos os homens nascem sociais e econômicas.
livres e iguais – e a realidade fática, na qual Após a efêmera coalizão entre o capita-
tais valores universais eram totalmente des- lismo e o comunismo, destinada a derrotar
pidos de eficácia. o nazifacismo7, tornou-se nítida e inequívo-
Nessa etapa inicial, as declarações de ca a divisão do mundo em duas forças anta-
direitos, na análise de Norberto BOBBIO gônicas, em dois campos ideológicos que
(1992), surgem como teorias filosóficas, com passaram a defrontar-se, como sabido, no
uma feição prospectiva, como um ideal a ser longo período da “guerra fria”: o bloco ca-
construído 5. pitalista, capitaneado pelos Estados Unidos
Numa segunda etapa, a afirmação de da América, e o bloco socialista, representa-
direitos do homem, sendo recepcionada pelo do hegemonicamente pela URSS.
“legislador”, passa a constituir a base de Essa contraposição de forças e a neces-
um novo Estado, não mais absoluto, porém sidade de conter o estigma do comunismo,
destinado à satisfação de fins presentes, agora mais fortalecido com a derrota impos-
acima e além dele próprio. A Declaração dos ta a Hitler, impôs ao capitalismo liberal a
Direitos do Homem e do Cidadão, de 1789, necessidade de ampliar o rol dos direitos
representa, nessa linha, um primeiro passo fundamentais, porquanto o saldo da Segun-
na transposição do vazio entre a teorização da Guerra trouxe novas demandas sociais.
dos “direitos naturais” e a sua efetividade6. Se a Primeira Guerra já havia alertado
A Declaração dos Direitos do Homem e para a ineficiência de direitos fundamen-
do Cidadão de 1789 – ponto marcante da tais previstos apenas formalmente, pondo
Revolução Francesa – realçara, de fato, es- em xeque o pensamento liberal, os efeitos
ses direitos, podendo ser considerada o re- da Segunda Guerra foram decisivos para o
sultado da consagração dos valores alber- reconhecimento de novos direitos e, o que é
gados pelo pensamento liberal. Todavia, mais importante, para o desenvolvimento
como registra Ernst BLOCH (apud AZEVE- de uma nova postura do Estado frente aos
DO, 1999, p. 80), “os anseios primaveris da mesmos8.
Revolução Francesa não chegaram a realizar- É nesse ambiente intermédio entre as
se. Faltou transformar a liberdade, igualda- duas grandes guerras que despontam pro-
de, fraternidade do cidadão puramente polí- fundas reflexões críticas acerca da efetivi-
tico em energias vivas dos homens vivos...”. dade do plexo de direitos emergente do pen-
A terceira fase da formação e consolida- samento liberal. Paulo BONAVIDES (1980,
ção das declarações de direitos – a etapa p. 31) registra, nesse passo, a ácida crítica
culminante e sempre inacabada – é marca- de Alfred VIERKANDT, formulada em 1921,
da pela Declaração Universal dos Direitos em relação à excessiva retração do Estado
do Homem, de 1948. Nela, verificam-se os diante de exigências sociais cada vez mais
traços característicos da universalidade e da crescentes. Segundo aquele autor, a igual-
positivação. Vale dizer, os princípios nela dade cunhada pelo liberalismo existia ape-
insculpidos são dirigidos a todos os ho- nas no plano formal, encobrindo um mun-
mens, de qualquer Estado, sendo indispen- do de desigualdade de fato – econômicas,

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sociais, políticas e pessoais – e uma liberda- O autor de O fim do laissez-faire (1926),
de de oprimir os fracos, “restando a estes, denunciando a arbitrária repartição da ren-
afinal de contas, tão-somente a liberdade de da, pregava, em síntese, a intervenção do
morrer de fome”. Estado no domínio econômico, por meio de
No mesmo sentido o comentário de Plau- uma política fiscal e da regulação das taxas
to Faraco de AZEVEDO (1999, p. 82), acen- de juros. Com isso, considerava ser possível
tuando que a “experiência histórica mos- o restabelecimento de níveis satisfatórios de
trou que a concepção liberal do ‘Estado mí- emprego, criando, pois, ambiente propício
nimo’ (que hoje quer-se ressuscitar como se ao consumo – requisitos essenciais para o
fora a mais acabada das aquisições cultu- desenvolvimento econômico. Ao mesmo
rais) era incapaz de assegurar a vida digna tempo, buscava KEYNES instituir maior
à maioria das pessoas (...) abandonadas à eqüidade social10.
própria sorte diante da ‘neutra indiferença
do Estado”. 2.3. O Estado social
As deficiências do modelo liberal torna- A partir da segunda guerra mundial, os
vam-se, naquele momento histórico, mais delineamentos de um modelo de Estado so-
evidentes com o êxito dos ideais da Revolu- cial intervencionista, providenciário, vão-se
ção Russa de 1917 e com o fortalecimento tornando mais evidentes. De fato, como as-
do pensamento socialista que passou a do- severado anteriormente, a crise econômica
minar o leste europeu. O Estado comunista então reinante aprofundou os vazios deixa-
revelava-se inabalável à depressão mundi- dos pela postura negativista do Estado, dei-
al, marcada pelo colapso da Bolsa de Nova xando transparente a contradição existente
Iorque, em 1929. Certamente, não fosse esse entre o valor da igualdade jurídico-formal,
dado relevante para a história, o regime so- preconizado pelo modelo liberal, e as desi-
viético consubstanciado no “socialismo gualdades sociais cada vez mais incisivas.
real” não se apresentaria como uma “terrí- A liberdade política pouco significava sem
vel ameaça” aos princípios abrigados pelo a presença efetiva de meios destinados ao
liberalismo clássico9. seu exercício pleno.
Pode-se afirmar, assim, que dois elemen- O Ocidente, dominado pela estrutura
tos concorreram de forma entrelaçada para capitalista, temia que a deterioração das
o remodelamento do liberalismo e para re- condições materiais de existência social
conhecimento de novos direitos de caráter conduzisse a uma escalada rumo ao mode-
social: a) a grave crise econômica que asso- lo socialista que se fortaleceu no pós-guer-
lou o mundo no período que medeou as ra. Conforme destacado por Paulo BONA-
duas grandes guerras, e b) as sombras do VIDES (1980, p. 211), o “velho liberalismo,
triunfo da Revolução Russa de 1917, com o na estreiteza de sua formulação habitual,
robustecimento do pensamento socialista, não pôde resolver o problema essencial de
vivo agora na experiência bem sucedida do ordem econômica das vastas camadas pro-
sistema soviético, notadamente após o se- letárias da sociedade, e por isso entrou irre-
gundo grande confronto bélico. mediavelmente em crise”.
Não se pode deixar de mencionar, por Nesse quadro, registra HOBSBAWM
outra face, o papel do economista KEYNES (1999, p. 176-177) que, enquanto florescia o
na superação do profundo abalo econômi- pensamento teórico basilar do modelo neo-
co no período “entreguerras”, fator relevan- liberal, com o trabalho de Friedrich von
te para a sobrevivência do capitalismo e Hayek a defender enfaticamente a liberda-
para o alvorecer do Estado de bem-estar so- de de mercado, os “governos capitalistas
cial, nos moldes prevalecentes no mundo estavam convencidos de que só o interven-
ocidental. cionismo econômico podia impedir um re-

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torno às catástrofes econômicas do entre- econômicas, coloca na sociedade todas as
guerras e evitar os perigos políticos de pes- classes na mais estreita dependência de seu
soas radicalizadas a ponto de preferirem o poderio econômico, político e social, em
comunismo, como antes tinham preferido suma, estende sua influência a quase todos
Hitler”. os domínios que dantes pertenciam, em gran-
O capitalismo do período pós-guerra de parte, à área da iniciativa individual,
modificou-se radicalmente e com ele o com- nesse instante o Estado pode com justiça
portamento do Estado frente às demandas receber a denominação de Estado social”
sociais. Surge, assim, um modelo reconhe- (BONAVIDES, 1980, p. 208).
cedor da importância da classe trabalhado-
ra e das aspirações social-democratas. 2.4. O substrato filosófico e ideológico
As preocupações dominantes do mode- do Estado social
lo estatal que se desenhava eram o estabele- A linha de abordagem até aqui desen-
cimento de uma política de pleno emprego e volvida levou em consideração apenas as-
de efetivação de direitos sociais, como a pre- pectos sociais e econômicos conducentes ao
vidência e a educação. Nada disso o velho caminhar histórico do absolutismo ao mo-
laissez faire poderia oferecer. Estabeleceu-se, delo de Estado de bem-estar social, passan-
pois, uma espécie de conjunção entre libe- do pelo liberalismo clássico.
ralismo econômico e democracia social. A natureza do presente trabalho não
A realização desses novos desígnios exi- poderia desprezar, por evidente, o exame
gia profundas modificações na postura do das matrizes ideológicas que viabilizaram
Estado. Outrora mínimo, neutro, o Estado a sedimentação dos ideais materializados
passou a ser intervencionista, providenciá- pelo Welfare State, o que nos conduz irreme-
rio. Reestruturou-se o Estado, passando da diavelmente a uma perspectiva filosófica11.
abstenção à ação, redirecionando-se à tare- Questionando todos os fenômenos de
fa de integrar a igualdade jurídica à igual- dominação, a filosofia não poderia deixar
dade social mediante prestações positivas. de contribuir, com a visão crítica que lhe é
Convém assinalar que tal comportamen- própria, para o delineamento das vertentes
to não consistia evidentemente na negação propiciadoras da superação de obstáculos
dos avanços decorrentes do liberalismo po- à consecução dos ideais igualitários que
lítico e econômico, mas sim na ampliação permearam o Estado-providência.
daquelas conquistas, rumo à cristalização Daí a necessidade de abordar aquela que
das transformações sociais intensamente talvez seja a mais importante construção
exigidas. Tem-se aí o desenho do Welfare teórica subjacente à escalada histórica rumo
State: “Quando o Estado, coagido pela pres- ao Estado de bem-estar social.
são das massas, pelas reivindicações que a
impaciência do quarto estado faz ao poder 2.4.1. O pensamento de Rousseau
político, confere, no Estado constitucional Considerado o maior pensador do sé-
ou fora deste, os direitos do trabalho, da pre- culo XVIII, Jean-Jacques Rousseau foi apon-
vidência, da educação, intervém na econo- tado por KANT como o “Newton da moral”
mia como distribuidor, dita o salário, mani- e pelo poeta H. HEINE como a “cabeça re-
pula a moeda, regula os preços, combate o volucionária da qual Robespierre nada mais
desemprego, protege os enfermos, dá ao tra- foi do que a mão executora”.
balhador e ao burocrata a casa própria, con- Nascido em Genebra, no ano de 1712,
trola as profissões, compra a produção, fi- Rousseau imortalizou-se como autor do cé-
nancia as exportações, concede o crédito, lebre Contrato social. Mas é noutro não me-
institui comissões de abastecimento, provê nos importante escrito, o “Discurso sobre a
necessidades individuais, enfrenta crises desigualdade”, que ROUSSEAU constrói o

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mito do bom selvagem, segundo o qual o ho- conflitantes. Sob o prisma ideológico, o pen-
mem, em seu estado natural, é bom e despido samento rousseauniano pode ser reduzido
de instintos violentos. Socializado e condi- a três correntes básicas, na precisa síntese
cionado às injunções culturais, o homem de Paulo BONAVIDES (1980, p. 188): a pri-
embrutece, sendo tomado por incontíveis meira, que vê na vontade geral “a idéia de
vícios. integração política, de onde se parte para o
A expressão “estado natural” constitui Estado totalitário das modernas variantes
uma “categoria teórica que facilita a compre- conservadoras e reacionárias”; a outra, que
ensão do homem presente e suas opressões”12. não percebe coerência nem unidade lógica
Em ROUSSEAU, no mundo primitivo tudo em sua doutrina, mas sim contradições in-
pertencia a todos. A desigualdade e a hostili- superáveis; e a terceira, composta por aque-
dade nascem com a idéia da propriedade13. les que associam a doutrina de Rousseau
No Contrato social, ROUSSEAU (1999, p. “à evolução do moderno pensamento polí-
9) principia com a advertência de que o ho- tico e, tanto quanto os primeiros, mas de
mem nasce livre e por toda a parte se encon- modo distinto destes, percebem a admirá-
tra agrilhoado. Qual, então, a proposta re- vel linha de unidade a que se prestam, para
volucionária suscitada pelo filósofo gene- uma construção doutrinária mais firme, os
brino? A reconstrução – responde-se – de princípios políticos versados nas obras ca-
um novo modelo social, com base na vonta- pitais do pensador”.
de geral. Esta, por seu turno, consistiria numa Não obstante esses contraditórios pon-
ressocialização calcada no interesse co- tos de vista acerca do pensamento do filóso-
mum. fo genebrino, afigura-se incontestável a
A volonté générale – marco da sua passa- importância da construção teórica da von-
gem de uma visão pessimista para uma pers- tade geral. Por esta, como já foi acentuado, o
pectiva otimista da realidade social propug- indivíduo aliena-se, abdicando do indivi-
nada por ROUSSEAU – traduzir-se-ia na dualismo tão festejado pelo liberalismo clás-
negação dos interesses privados e egoísti- sico, para vincular-se à vontade de todos ou
cos do homem, redimindo-o e reconduzin- da maioria. O indivíduo abre mão de sua
do-o a um pensar coletivo e socializante, liberdade singular, para inserir-se num todo,
com a formação de um corpo moral. A von- em que deve prevalecer a igualdade. Como
tade geral pressupunha, pois, a renúncia aos observa Cabral de MONCADA (1995, p.
interesses individuais, em prol da consecu- 234), por meio deste processo “o indivíduo
ção dos interesses da coletividade. Trata-se, integra-se num todo, enriquecendo; troca a
sem dúvida, da proposta de um novo pacto sua liberdade natural por uma liberdade
social, no qual uma inédita e revolucioná- política; em vez de uma liberdade negativa,
ria visão de liberdade se apresenta: a liber- de exclusão e oposição contra o Estado, as-
dade condicionada à felicidade geral, à sa- sume robustecida uma liberdade nova, po-
tisfação do interesse comum. sitiva, de integração e colaboração dentro
Para tanto, imprescindível seria o alinha- de um todo de que faz parte, e que é esse
mento a uma “consciência pública”, exerci- mesmo Estado”.
tável pelo Estado. É por meio deste que se Ora, identificando-se a vontade geral
alcança a prevalência da vontade geral14. com a “vontade soberana do Estado”
A vontade geral é encarnada no Estado, (MONCADA, 1995, p. 235) e estando o exer-
levando ao esvaziamento do indivíduo e da cício da liberdade vinculado à prevalência
sua individualidade, bem como à sua ab- daquela, percebe-se a negação à idéia da
sorção pelo corpo social, sem deixar restos. excessiva individualidade preconizada
É nesse ponto que a teoria do contrato pelo pensamento liberal, para conceber-se
social sofre com interpretações díspares e uma nova proposta de inserção do indiví-

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duo no meio social, no qual o exercício de 2.5. O Direito no Estado-providência
seus direitos é interdependente dos demais
membros da coletividade. A partir dos contornos acima definidos,
Vislumbra-se nesse encadeamento de pode-se afirmar que o direito no Estado de
idéias, não uma proposta totalitária de Es- bem-estar ou Estado-providência tem a fun-
tado, mas sim um reencontro do indivíduo ção primacial de realizar a justiça social, no
com a possibilidade de coexistência harmô- sentido de distribuir com equilíbrio e pro-
nica, caracterizada pelo conjunto das liber- porcionalidade os direitos e deveres entre
dades exercitadas pelo “homem civil”. os indivíduos, eliminando, na medida do
A vontade geral constitui a essência da possível, as desigualdades existentes16.
democracia social, pois não basta, para Já foi dito que, principalmente a partir
ROUSSEAU, um Estado forte, mas sobretu- da segunda grande guerra, o Estado evo-
do um Estado no qual seja possível a reali- luiu de seu modelo liberal-burguês para uma
zação da liberdade política15. feição mais democrática e social. Nesse pas-
Sob essa perspectiva, o pensamento so, a concepção de Direito sofreu sensível
rousseauniano revela a gênese dos ideais variação, não mais se caracterizando ape-
embalados pelo Estado social, porquanto o nas como veículo instituidor de “liberda-
“homem não existe [...] no particular, senão des” contra o Estado. De fato, para muito
no geral; é social e não individual” (BONA- além de uma visão individualista, na qual
VIDES, 1980, p. 189). valores de liberdade, segurança e proprie-
Enfatizando a proposta democrática, a dade deveriam preponderar, o Direito no
filosofia de Rousseau libera o caminho para Estado social assumiu uma postura presta-
a realização de profundas transformações cional, preocupando-se nitidamente com a
sociais, com bases populares representadas realização efetiva do homem-cidadão17.
pelo consentimento geral. Para tanto, não bastavam apenas os cha-
Não havendo liberdade sem Estado, e mados “direitos de liberdade”, já assegura-
inexistindo Estado sem “adesão geral”, dos no âmbito do Estado liberal. Desenvol-
ROUSSEAU propõe, para muito além do li- veram-se, pois, os direitos sociais (educa-
beralismo individualista, uma concepção ção pública, saúde pública, previdência e
de Estado em que as liberdades políticas assistência social, meio ambiente sadio etc.),
constituem o combustível indispensável à ao mesmo tempo em que se procurou reco-
promoção do bem comum. Substitui-se, nhecer um conteúdo positivo aos direitos
como bem destaca MONCADA (1995, p. de liberdade.
245), o conceito jusprivatístico de uma li- Nada disso seria possível sem o alvore-
berdade contra o Estado pelo conceito jus- cer de uma democracia representativa, des-
publicístico de uma liberdade política só concentrando-se o exercício do poder. Sem
possível dentro do Estado. isso, novos direitos não encontrariam terre-
Tudo isso está, sem dúvida, na raiz do no propício a um regular desenvolvimento.
modelo do Estado Social. Daí a conclusão Como destaca Norberto BOBBIO (1992, p.
esposada por Paulo BONAVIDES (1980, p. 41), “a luta pela afirmação dos direitos do
201-202), segundo a qual Rosseau “assina- homem no interior de cada Estado foi acom-
la precursoramente o fim da metafísica in- panhada pela instauração dos regimes re-
dividualista da burguesia e cria tecnicamen- presentativos, ou seja, pela dissolução dos
te o acesso à democracia social, com a pre- Estados de poder concentrado”.
servação da liberdade”. A vontade geral ser- Com a proclamação de novos direitos
ve de “conteúdo e base ao novo Estado soci- fundamentais, denominados direitos soci-
al por que há de reger-se a evolução doutri- ais, assumiu o Estado uma inédita missão,
nária das democracias ocidentais”. promovendo e realizando direitos, em prol

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do bem-estar dos indivíduos. Não mais se neou-se, pois, um Estado de Direito cuja pre-
fazia suficiente a liberdade contra o Estado ocupação básica era a realização de justiça
ou em relação ao Estado, que marcou a pri- social, com vistas a assegurar condições de
meira fase da evolução dos direitos do ho- existência com padrões mínimos de digni-
mem. Superando a segunda etapa de con- dade.
solidação de direitos políticos, expressa, no
dizer de BOBBIO, no exercício das liberda- 2.6. A crise do Welfare State e seus
des no Estado, impunha-se, agora, a liberda- reflexos na realização dos direitos
de mediante o Estado. Por isso, tais direitos fundamentais
foram denominados “direitos prestacio- A eficácia dos novos direitos fundamen-
nais”, visto que exigiam a realização de pres- tais sociais de caráter prestacional requer,
tações positivas do Estado, em prol da reali- como visto, uma ação concreta e incisiva do
zação de novos valores de cidadania18. Estado. Vale dizer, exige-se do Estado a im-
Esse novo estágio dos direitos fundamen- plementação de políticas públicas condu-
tais que, no dizer de BOBBIO (1992, p. 33), centes à promoção dos direitos a prestações
expressa o “amadurecimento de novas exi- sociais materiais.
gências” constitui marca indelével do Esta- Essa postura representa, na prática, um
do social, revelando um firme propósito de papel intervencionista do Estado na ativi-
eliminação de desigualdades materiais, com dade econômica e, a par disso, maior pres-
a ampliação dos espaços para o real gozo tação de serviços públicos.
das liberdades fundamentais. Todavia, o incremento dos serviços esta-
A concretização dos direitos sociais exi- tais, para o atendimento das novas e cres-
giu, portanto, um perfil ativo do Estado, de centes demandas sociais, acarretou eviden-
moldo a alcançar a igualdade material e a temente o aumento de gastos públicos. Tal
adequada harmonização com os direitos de fenômeno, diagnosticado como hipertrofia
liberdade. do Estado social, terá contribuído para sua
Por outro lado, a crescente exigência de derrocada?
prestações tendentes à superação de desi- O colapso do Welfare State tem merecido
gualdades tornou inevitável a tarefa come- de argutos analistas diversas avaliações.
tida ao Estado, consistente na moderada Colhe-se em Pierre ROSANVALLON (1997)
mitigação de liberdades, contrabalancean- importante reflexão sobre os possíveis fato-
do interesses que eventualmente pudessem res conducentes à chamada “crise do Esta-
entrar em rota de colisão. do social”. Segundo o autor, não é apenas a
Essa compatibilização dos direitos fun- extensão do Estado ou o peso das despesas
damentais, na busca das igualizações pre- sociais que está em causa, mas, sobretudo,
tendidas, caracterizou, de igual sorte, o Es- as relações entre este e a sociedade.
tado providenciário, revelando seu forte Nesse passo, apresenta ROSANVALLON
papel intervencionista. E não poderia ser de três explicações possíveis. Uma primeira
outro modo, em face da heterogeneidade dos justificativa residiria no surgimento da dú-
direitos fundamentais (políticos, econômi- vida quanto à idéia da igualdade como fi-
cos, sociais, culturais) cujo leque se amplia- nalidade social. A igualdade passou a não
va19. mais ser considerada como um valor impres-
Pode-se asseverar, em arremate, que a cindível numa sociedade motivada pelo
positivação do Direito no Estado social le- desejo de diferença. Há uma “crise de repre-
vou em conta as sensíveis transformações sentações do futuro”, resultado de uma es-
econômicas, verificadas primordialmente pécie de avaria no imaginário social. Con-
após a Segunda Guerra Mundial, e o des- forme Pierre ROSANVALLON (p. 28), “nin-
pontar de novas exigências sociais. Deli- guém fala dos progressos sociais do futuro,

200 Revista de Informação Legislativa


ninguém formula os objetivos de uma nova tado-providência com a transformação ope-
etapa, ninguém se arrisca a descrever uto- rada nas duas últimas décadas no fenôme-
pias concretas”, mas o que prevalece “é a no da cidadania social 21. Para o cientista
perspectiva de manter conquistas que estão social lusitano, a crise em tela resulta do
sendo ameaçadas” 20. próprio esgotamento do regime de acumu-
Outra explicação consistiria na crise de lação consolidado no período pós-guerra,
solidariedade vigente. O Estado-providên- denominado “regime fordista”22.
cia, na condição de agente central de redistri- Tal crise possui, ainda na ótica de Boa-
buição e de organização de solidariedade, ventura de Sousa SANTOS (p. 249), uma
atuando como uma grande interface, substi- dimensão político-cultural caracterizada
tui a ação isolada dos indivíduos por um com- por um confronto entre a subjetividade (pes-
portamento prestacional positivo. Contudo, soal e solidária) e a cidadania (atomizante e
o incremento dessas interfaces coincide com estatizante). Segundo o autor, “a cidadania
o aumento da retração social. As relações so- social e o seu Estado-providência transfor-
ciais distanciam-se cada vez mais da organi- maram a solidariedade social numa presta-
zação de solidariedade criada pelo Estado ção abstracta de serviços burocráticos bene-
social, tornando-a opaca e abstrata. Nas pa- volentemente repressivos, concebidos para
lavras de ROSANVALLON (p. 37), na atuali- dar resposta à crescente atomização da vida
dade, “a interface estatal tornou-se muito opa- social mas, de facto, alimentando-se dela e
ca e sobretudo os mecanismos de expressão reproduzindo-a de modo alargado.”
da solidariedade automática estão cada vez Nesse ponto, o pensamento de Boaven-
mais isolados das formas de sociabilidade tura Sousa Santos coincide com a opinião
intermediárias [daí resultando] um custo cada de Pierre ROSANVALLON (p. 33), quando
vez mais elevado dos serviços sociais do Es- este assinala o abalo intelectual do Estado
tado-providência em relação ao que represen- providenciário, consistente na crise de soli-
tariam os custos do encargo desses serviços dariedade. Distante das relações sociais re-
em nível mais descentralizado”. ais, a rede de solidariedade que esse Estado
Finalmente, uma terceira explicação providenciário promove acha-se cada vez
plausível para a crise do Estado-providên- mais abstrata, realizando verdadeiro emba-
cia estaria na modificação da equação keyne- ralhamento daquelas.
siana. Fulcrada na combinação de eficácia Não sendo este o objeto do presente tra-
econômica, justiça social e liberdade, a equa- balho, impõe-se apenas ressaltar que, inde-
ção de John Maynard KEYNES foi decisiva pendentemente dos reais fatores que propul-
para a sobrevivência do capitalismo após o sionaram o colapso do Welfare State, não se
colapso econômico entre as duas grandes deve perder de vista que tal crise não atinge
guerras mundiais. Enxergando o elemento somente o Estado. A crise é primacialmente
social como estruturante interno da dinâ- da sociedade, comprometendo, noutro pas-
mica econômica, KEYNES considera o Esta- so, o próprio sentido da cidadania, da de-
do-providência necessário à redistribuição mocracia, bem como a efetividade dos direi-
social, a fim de que progresso social e eficácia tos fundamentais.
econômica caminhem juntos. Destaca, porém, No que toca à representação democráti-
Pierre ROSANVALLON (p. 42) o questiona- ca23, é oportuno registrar que a decadência
mento da política keynesiana provocado pela do Estado-providência implicou a descone-
crise econômica e sua impotência para redu- xão daquela com as aspirações sociais bási-
zir o desemprego, gerando fissura profunda cas, vinculando a democracia – confinada,
no seio do Estado-providência. agora, ao estrito espaço político (stricto sen-
Boaventura de Sousa SANTOS (1996), a su) – a interesses corporativos de cunho
seu turno, relaciona o definhamento do Es- globalizante.

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Convém melhor explicitar esse ponto. A 3. A ideologia neoliberal e a
ampliação do processo de democratização globalização econômica: o
em determinada sociedade pode decorrer, impacto no campo da realização
entre outros fatores, da migração da demo- dos direitos fundamentais
cracia política (aqui entendida como o ato
de votar) para a democracia social, exercitá- 3.1. A onda neoliberal
vel nos diversos espaços sociais (família,
escola, empresa etc.). Trata-se da passa- O neoliberalismo constitui o suporte ide-
gem da democratização do Estado à de- ológico-político das mudanças efetivadas
mocratização da sociedade a que se refe- nas relações entre Estado e sociedade, em
re, com propriedade, Norberto BOBBIO resposta à crise econômica que começou a
(1997, p. 55-56). O desenvolvimento da de- ser desenhada a partir dos anos setenta.
mocracia não é aferido em face do núme- Enquanto doutrina, o neoliberalismo
ro de pessoas com direito a voto, mas, nasceu como reação teórica à ascensão do
antes, a partir da quantidade de instânci- modelo de Estado de bem-estar logo após a
as nas quais ela é exercida. Segunda Grande Guerra. Seu texto-mãe é
Acontece, porém, que o colapso do Esta- creditado a Friedrich HAYEK (1990?), de-
do de bem estar social implicou o enfraque- nominado O Caminho da servidão, no qual
cimento da própria democracia representa- são questionadas de forma veemente quais-
tiva24. A crise de solidariedade que marcou quer limitações impostas à economia de
o declínio do Estado-providência revela-se mercado, por parte do Estado.
também pela apatia política, acirrando o Curiosamente, enquanto os pilares do
“indiferentismo” e, com ele, o fenômeno do Estado-providência estavam sendo constru-
conformismo das massas. ídos na Europa, os teóricos do neoliberalis-
Por outro lado, a multicitada crise do mo sintonizavam seu discurso, manifestan-
Estado social compromete sensivelmente a do firme oposição àquilo que consideravam
efetividade dos direitos fundamentais, em uma letal ameaça à liberdade econômica e
razão da crescente desregulação e minimi- política, capaz de conduzir a uma “moder-
zação do Estado. na servidão”.
De fato, menos Estado significa reduzir A doutrina neoliberal era de todo incom-
a sua atividade prestacional, ou seja, sua patível com o keynesianismo e o solidaris-
potencial capacidade de, mediante presta- mo que então preponderavam nos alicerces
ções positivas, promover a igualdade mate- do Estado social. Realizando um balanço
rial, mitigando as desigualdades sócio-eco- do neoliberalismo, Perry ANDERSON
nômicas. Pode-se inferir daí que a retração (1995) registra que os “avisos neoliberais”,
do Estado não conduz diretamente ao au- dos quais eram articulistas Hayek, Milton
mento de liberdade, tampouco à plenitude Friedman, Karl Popper, Lionel Robbins, en-
da cidadania. tre outros, não produziram, na época, o im-
Tudo isso constitui reflexo inescondível pacto desejável, num período em que o ca-
das distorções do fenômeno da globaliza- pitalismo associado às políticas providen-
ção econômica. A redução do Estado – traço ciárias florescia, atingindo seu apogeu na
fundamental da crise antes descrita – guar- chamada “era de ouro”25.
da íntima relação com as alterações proces- Sobreveio, contudo, profunda instabili-
sadas no cenário mundial, embaladas pelo dade do modelo econômico, a partir de 1973.
pensamento neoliberal, provocando radi- Verificou-se no mundo capitalista uma sen-
cais transformações no cenário do Direito e sível desaceleração das taxas de crescimen-
da justiça. A esse tema dedicaremos os tópi- to econômico aliada à elevação das taxas de
cos seguintes. inflação. Os reflexos sociais seriam inevitá-

202 Revista de Informação Legislativa


veis. Desemprego em massa, miséria, pro- tina, impôs-se no México (1988), na Argen-
fundas desigualdades sócio-econômicas tina (1989), no Peru (1990), na Venezuela
vieram à tona, enfim, com surpreendente (1989) e no Brasil. Aqui, o sopro neoliberal
força. A era de ouro anunciava seu crepús- foi sentido com maior nitidez a partir do
culo. Governo Fernando Collor.
Enquanto nos chamados países perifé- Em síntese ligeira, a sociedade assistiu
ricos os índices de pobreza e miséria avan- passivamente ao gradativo triunfo neolibe-
çavam em proporções alarmantes, a inquie- ral, com o surgimento de uma “nova ordem
tação social nos países capitalistas ricos, mundial”, cuja expressão de ordem basilar
tais como os Estados Unidos, Austrália e consiste em “menos Estado e mais merca-
Canadá, era menos perceptível, em razão dos do” 27.
“sólidos” sistemas de seguridade social ali
existentes. Apesar disso, e como conseqü- 3.2. O projeto neoliberal e o
ência dessa “malha” que absorvia os pro- “empecilho” da democracia
fundos reflexos da crise, as economias nes- O objetivo básico da política neoliberal é
ses e em diversos outros Estados tornavam- “libertar a acumulação de todas as cadeias
se mais sensíveis, ante o alto custo da ma- impostas pela democracia” (PRZEWOR-
nutenção dos benefícios sociais. SKI28 apud ARRUDA JÚNIOR, 1997, p. 63).
Surgia, dessarte, terreno propício à im- A necessidade de assegurar a prevalên-
plementação do pensamento neoliberal. Em cia das decisões de mercado conduz inelu-
plena crise capitalista, acirrava-se o debate tavelmente a um minimalismo estatal, de
entre keynesianos e neoliberais, com a apre- modo a desarticular qualquer forma de re-
sentação de modelos absolutamente incon- sistência às exigências do capital privado.
ciliáveis entre si26. Se, no campo econômico, o neoliberalis-
A história registra que paulatinamente mo prega a desregulação e o não-interven-
ganharam corpo, nos diversos quadrantes, cionismo estatal, no campo político o proje-
as idéias preconizadas pela doutrina neoli- to neoliberal assenta-se na despolitização
beral. Fator de grande impulso, sem dúvi- das relações sociais e na limitação ou, como
da, foi o colapso do “socialismo real”, mar- querem alguns, no redirecionamento da de-
cado pela derrocada do modelo comunista mocracia.
da Europa Oriental. A hegemonia neolibe- Como anota BOBBIO (1997, p. 114), o “li-
ral se impunha, então. beralismo é, como teoria econômica, fautor
Num breve resgaste histórico, vale regis- da economia de mercado; como teoria polí-
trar que a experiência neoliberal pioneira se tica, é fautor do estado que governe o menos
deu no Chile, durante a ditadura Pinochet, possível ou, como se diz hoje, do estado mí-
que, nas palavras de Perry ANDERSON nimo (isto é, reduzido ao mínimo necessá-
(1995, p. 19), “começou seus programas de rio)”.
maneira dura: desregulação, desemprego Não há dúvida quanto à íntima relação
massivo, repressão sindical, redistribuição entre as duas vertentes do pensamento libe-
de renda em favor dos ricos, privatização ral, pois uma eficiente forma de diminuição
de bens públicos”. Quase uma década de- do Estado aos mínimos termos consiste em
pois do “balão de ensaio” chileno, o pro- retirar dele o domínio da arena em que se
grama neoliberal se instalava, em 1979, na desenvolvem as relações econômicas, tor-
Inglaterra, com o Governo Thatcher. A se- nando excepcional a intervenção do poder
guir, avançou nos Estados Unidos, com político nos negócios econômicos.
Ronald Reagan, na Alemanha, com Khol, A redescoberta do liberalismo – para
espraiando-se por quase todos os países do usar a expressão do filósofo italiano – pro-
norte da Europa ocidental. Na América La- clama, de um lado, a prevalência da força

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de mercado contra as peias do Estado e, de ções sociais e com uma participação na de-
outro, a falácia da máxima e irrestrita liber- mocracia interna das organizações e das
dade. empresas, através de métodos como o con-
Além disso, constitui quintessência da trole operário, a co-gestão e a autogestão”.
hegemonia ideológica do neoliberalismo o Dessa maneira, prepondera a noção de que
enfraquecimento do Estado, com sua sub- o Estado social pressupõe sempre a demo-
missão a interesses transnacionais e a con- cracia política, mas, para além disso, reafir-
seqüente fragilização do conceito de sobe- ma sua inclinação à adoção da democracia
rania nacional. social, com características específicas de
Há no projeto neoliberal um nítido pro- uma democracia econômica e uma demo-
pósito de rechaçar a social-democracia – cracia empresarial.
responsável pela produção do Estado de Esse é precisamente o núcleo da crise de
bem-estar, a qual é posta em implacável fogo governabilidade ou da ingovernabilidade
cruzado: da direita (neoliberal) e da esquer- sistêmica 30. O sistema gerou expectativas
da (comunismo, consoante o modelo que que não mais podem ser respondidas com a
predominou na antiga União Soviética)29. intensidade almejada pelo Estado. O proje-
Mas, afinal, por que a democracia se to hegemônico do neoliberalismo, aprovei-
apresenta como um empeço aos ideais pro- tando-se desse momento de debilidade, lan-
postos pelos adeptos do novo liberalismo? ça-se, pois, com força total e implacável e,
A resposta a essa pergunta não pode pres- de dedo em riste, imputa à democracia a
cindir da consideração de um outro aspecto pecha de entrave a ser, senão descartado,
enfaticamente apontado pela nova versão pelo menos redimensionado.
do liberalismo, qual seja a ingovernabilida- Há, ainda, um outro importante aspecto
de dos Estados assistenciais, cada vez mais a considerar. A democracia foi o veículo con-
pressionados por demandas sociais e sem ducente ao delineamento do Estado assis-
lastro financeiro suficiente para atendê-las tencial. Não há como dissociar o fortaleci-
na forma reivindicada. mento deste do desenvolvimento da demo-
No Estado-providência, a conquista de cracia, já que foram os regimes democráti-
direitos sociais está intimamente conectada cos que propiciaram a formulação de novas
com a maior possibilidade de participação exigências, as quais, por sua vez, levaram à
dos indivíduos, numa revelação de seu for- formação de novos direitos sociais.
te poder social. As oportunidades de parti- A democracia nos moldes praticados no
cipação são asseguradas pelo próprio Esta- Estado assistencial atingiu seu ponto extre-
do, como condição para o comprometimen- mo ao não estabelecer limites ao mercado
to da ordem política com a idéia de uma es- político. Instalou-se, assim, uma incontível
fera pública ativa. democracia de massa, responsável, de certa
Na análise da cientista política Nuria forma, pela gama de exigências sociais im-
Cunill GRAU (1998, p. 35), com apoio em postas ao Estado.
García PELAYO, a “conexão do princípio Mas como observa argutamente Norber-
da igualdade com o ideal de participação, to BOBBIO (1997, p. 123), essa relação não
no contexto da idéia da autodeterminação, se estabelece apenas de “baixo para cima”,
leva inclusive a assumir a necessidade de ou melhor, das camadas sociais para a elite
ampliar a própria esfera do exercício demo- governante. Segundo o autor, ao interesse
crático”. Assim, observa a autora, com apoio do cidadão eleitor de obter favores do Esta-
em García PELAYO, que a “participação na do corresponde o interesse do político eleito
formação da vontade estatal deve ser aper- ou a ser eleito de concedê-los.
feiçoada por uma participação no produto Instala-se, assim, uma espécie de “mer-
nacional, através de um sistema de presta- cado político”, no qual, a exemplo do mer-

204 Revista de Informação Legislativa


cado econômico, prevalece aquele que mais, do fenômeno neoliberal, reveladora de sua
e melhor, atende às expectativas da cliente- força de manipulação.
la, mediante a oferta de maiores e melhores Pretende o neoliberalismo uma comple-
“vantagens” 31 . ta reformulação do modelo de democracia
Na ótica do novo liberalismo, é funda- representativa, por considerá-la incompatí-
mental romper com o modelo democrático vel com sua proposta básica de deslocar o
vigente no Welfare state, pois isso represen- eixo central decisório para o espaço da pro-
ta, antes de mais nada, eliminar os cami- dução, renegando o espaço da cidadania. A
nhos para a “saturação” do Estado e para a nova realidade desenhada exige, então, uma
“asfixia” da liberdade econômica, causa- readequação da democracia.
das por demandas de cunho social. Essa requalificação pressupõe a redução
Isso significa, sobretudo, que, na verten- da democracia a um aspecto puramente pro-
te neoliberal, a preservação da democracia cedimental. Desativando as demandas po-
não constitui prioridade. Prioritária, sim, é pulares, a democracia prestar-se-ia apenas
a restauração dos fundamentos não políti- a definir o procedimento, o método destina-
cos da sociedade. Importa resguardar as do a legitimar a administração do Estado,
decisões de mercado. Importa “desmassifi- sem a potencialidade de criar e/ou fortale-
car”, ou seja, desestruturar as organizações cer uma autonomia decisória nas instânci-
para propiciar a “espontaneidade” de uma as políticas.
outra instância social, o mercado32. Com tal coloração, a democracia revelar-
Daí a necessidade de conter a democra- se-ia impotente para transformar a “vonta-
cia, na visão do “novo liberalismo”. Mas de popular” (expressada por meio do sufrá-
eliminá-la, simplesmente, e instaurar Esta- gio) em poder substantivo. Como observa
dos totalitários poderia representar uma Nuria Cunill GRAU (1998, p. 40-41), “o dis-
interminável contradição com a “liberdade” curso a favor da redução do papel das insti-
que o neoliberalismo pretende assegurar no tuições públicas estatais não se torna em
mercado. Ademais, haveria insuperáveis algo que fundamenta a ampliação do espa-
resistências às propostas neoliberais, por ço político a favor da sociedade [mas, ao
parte de sociedades mais desenvolvidas, se, contrário], a ‘administração’ da participa-
junto com aquelas, fosse apresentado um ção política, a ‘funcionalização tecnificação’
discurso explicitamente totalitário. Convém da participação social e a concepção da de-
mascarar, pois. Para tanto, ao mesmo tem- mocracia como ‘método ou procedimento’
po em que desarticula e despolitiza as rela- convertem-se nas expressões concretas da
ções sociais, o neoliberalismo exalta a liber- valorização particular da instância social
dade como princípio moral intangível e ab- que, definitivamente, parece fundamentar o
soluto33. O deslocamento do centro das de- deslocamento das decisões em direção a ela,
cisões para a sociedade não quer nem Esta- na necessidade não apenas de estabelecer
do forte (no sentido providencial), tampou- controles ao governo, mas, também, de de-
co sociedade politicamente articulada. Quer sativar as demandas populares”.
apenas mercado aberto e robustecido, imu- É, portanto, firme o propósito da ideolo-
ne aos influxos de uma sociedade neutrali- gia neoliberal de reduzir a democracia a um
zada e de uma cidadania entorpecida, cada sistema de regras do jogo alheio aos antago-
vez mais tíbia e indiferente. nismos sociais, dissociado dos fins e valo-
Qual será, então, o novo papel reserva- res que devem inspirar a dinâmica social.
do à democracia dentro desse cenário? Se Essa concepção minimalista atende per-
esta – a democracia – não mais deve articu- feitamente à idéia de Estado ínfimo, vez que,
lar demandas populares, o que dela espe- tornando a democracia vazia de significa-
rar? Eis aí uma das facetas mais perversas do social, esvazia-se, por extensão, a ins-

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tância político-governamental. Fica-se, pois, ciudadanos, cuyas asociaciones dicen que-
diante da viva expressão política do neoli- rer que crezcan. Ni del que prohíbe comer-
beralismo – o “neoconservadorismo” (cf. ciar con Cuba, o vota en la ONU a favor
BORON, 1995, p. 78). del hambre de lons niños irakies. Ni tam-
poco del estado que reprime a los invaso-
3.3. O desprezo pelo Estado: a res de tierra, o al que controla el comercio
verdadeira face do neoliberalismo ambulante – ‘competencia desleal’, que le
O Estado mínimo preconizado pelo novo dicen a esa forma de desempleo encubier-
liberalismo não significa necessariamente to. Y qué decir del estado torturador: qui-
“Estado fraco”. én há oído a un campeón del neoliberalis-
A vertente neoliberal propugna um Es- mo preocuparse por los derechos huma-
tado mínimo, capaz de permitir a mobilida- nos – como no sea el de los empresarios a
de do mercado, e, ao mesmo tempo, um Es- disfrutar de la propiedad que compran con
tado forte, no sentido de ser apto a assegu- el fruto de ‘la propiedad privada’?” (p. 5).
rar e a fazer respeitar a “espontaneidade” Há, ainda, uma faceta mais perversa na
das regras de mercado. proposição do “Estado mínimo”, sob o man-
O minimalismo estatal é, pois, em certo to neoliberal: deplorar tudo o que possa ad-
sentido, uma falácia, um engodo, uma ine- vir do Estado como algo inútil, ineficiente,
briante cortina de fumaça destinada a ocul- perdulário, ou, o que é pior, contaminado
tar e, principalmente, entreter possíveis ad- de corrupção emanada de uma grande ma-
versários. lha de funcionários “ociosos e ímprobos”.
Adverte, nesse sentido, Óscar CORRE- Trata-se, em síntese, de desqualificar o “pú-
AS (1996, p. 4-5) que, ao propor menos Esta- blico”, numa cínica e deturpada exaltação
do e mais sociedade civil, o projeto neolibe- do “privado” (“menos Estado, mais socie-
ral refere-se, no primeiro caso, aos controles dade civil”) (cf. BORÓN, 1995, p. 78).
do capital, e, no segundo, às empresas pri- É esse discurso repulsivo que tem con-
vadas. E o mais chocante – continua ele – é duzido, por exemplo, ao desmantelo da edu-
o fato de se haver conseguido introduzir no cação pública, à crescente privatização dos
imaginário jurídico e social “la idea que el serviços de saúde e à descrença galopante
neoliberalismo está contra del estado y a na capacidade do Estado de prover a segu-
favor de la ciudádanía.” Daí sua crítica in- rança dos cidadãos, abrindo o espaço ao
cisiva: surgimento das milícias privadas.
“Lo que pasa es que el estado, del cual Tudo isso possui o nítido e insofismável
la izquierda es enemiga, es, precisamente, objetivo de desprestigiar a capacidade re-
el estado del que los liberais no dicen nada, gulatória do Estado e criar alternativas de
al cual no han propuesto achicar el estado auto-regulação social que prescindam do
comandado por los jerarcas del capital – o intervencionismo estatal. Promove-se, nes-
por sus empleados –, porque sin ese esta- se sentido, uma lógica de fragmentação do
do no podrían estupidizar el imaginario poder, na qual o Estado não regula nem li-
colectivo y reproducir esta ideologia in- mita, mas apenas alarga o campo da auto-
sulsa. O al estado casado con el narcotrá- gestão, chegando a níveis transnacionais.
fico, sin cuyas ganancias, invertidas en
empresas, no en el bienestar de nadie, no 3.4. O Direito no projeto neoliberal
conseguirián niveles mínimos de repro- Não há dúvida de que toda essa preten-
ducción ampliada de su capital. De ese dida redefinição de perfil do Estado e da
estado no dicen que debe haber ‘menos’. sociedade civil reflete de forma significati-
Ni del que compra armamento inútil, como va no Direito, notadamente em sua expres-
no sea para la represión de los propios são positiva. Isso se evidencia com maior

206 Revista de Informação Legislativa


nitidez a partir da perspectiva de que os canismos de proteção de indivíduos ou clas-
modelos de tensão social e política no Esta- ses, a preocupação desse Direito “reflexivo”
do liberal, no Welfare state e no pretenso Es- é “desenvolver uma engrenagem normati-
tado neoliberal são diferenciados. va adequada a esse cenário de fragmenta-
Com efeito, no Estado liberal, os confli- ção do poder e, por conseqüência, de poli-
tos são marcadamente interindividuais, ao centrismo: engrenagem essa em condições
passo que no Estado-providência as tensões de forjar uma racionalidade jurídica nova e
estabelecem-se entre classes. A seu turno, apta a superar a permanente tensão entre
no projeto neoliberal, os conflitos instalam- as racionalidades formal e material subja-
se entre corporações, sendo de natureza in- cente aos padrões legais desenvolvidos no
terorganizacional. âmbito do Estado liberal e do Estado provi-
No Estado liberal, o Direito empenha-se denciário ou social” (FARIA, 1999, p. 194).
em regular basicamente as exigências de li- O projeto neoliberal, em síntese, procla-
berdade e igualdade, numa “sociedade de ma uma estrutura jurídica fragmentada e
indivíduos” que, calcada no valor “segu- policêntrica, debilmente sancionadora e pro-
rança jurídica”, busca conter as arbitrarie- videncial, incentivadora da formação de
dades e o despotismo do Estado contra os espaços de auto-regulação (v.g. negociação
cidadãos. No Estado-providência, cujo va- e arbitragem), distante do “espaço da cida-
lor básico é a “eqüidade”, o Direito empe- dania” e inserida no “espaço da produção”.
nha-se em promover relações sociais menos
desiguais, atuando positivamente (a redun- 3.5. Resíduos do neoliberalismo: os
dância é proposital) em prol de um equilí- impactos nos direitos fundamentais e
brio substantivo. Já as políticas neoliberais nas relações sociais
sugerem um Direito “reflexivo”, centrado na Despreocupado em prover e mais empe-
valoração das subjetividades, que não im- nhado em “autonomizar” as relações de
põe nem sanciona, mas tão-só propicia e mercado, o projeto neoliberal apresenta re-
incentiva a formação de espaços de negoci- síduos lastimáveis no campo da realização
ação e de auto-regulação34. dos direitos fundamentais. Trata-se do fe-
É intuitivo que, prevalecendo no ideário nômeno, tantas vezes proclamado no meio
neoliberal uma proposta de prevalência das acadêmico, da crise dos paradigmas.
forças de mercado e descentralização do Como resultado da dilapidação do Esta-
exercício do poder, o Direito, enquanto pro- do social – tarefa a que tanto se dedicou a
dução normativa, ponha-se a serviço da re- ideologia neoliberal –, houve um vital en-
alização desse propósito. Assim, o Direito fraquecimento dos direitos fundamentais
perde o caráter redistributivista e finalísti- sociais positivados em inúmeras Constitui-
co, preponderante no Estado de bem-estar ções modernas. Apenas para exemplificar,
social e, impulsionado pela globalização do direitos anteriormente assegurados como
mercado e pelo enfraquecimento do Estado- fruto de conquistas sociais, tais como irre-
nação, assume uma feição de instrumento dutibilidade de salários, aposentadoria in-
estimulador de interações e negociações tegral e estabilidade no emprego, passam
entre as organizações responsáveis pelo re- no discurso neoliberal à condição de privi-
direcionamento da sociedade. légios odiosos e sérios entraves à desejável
A tarefa posta ao Direito no projeto neo- “autodeterminação do mercado”, bem como
liberal é, destarte, propiciar a auto-resolu- à efetividade de planos econômicos impos-
ção de conflitos, criando normas procedi- tos aos países “emergentes” como o único e
mentais capazes de viabilizar a redução das verdadeiro caminho da redenção econômica.
tensões, sem coerção ou intervenção contro- O desmantelamento dos direitos sociais
ladora. Para muito além da criação de me- promovido pelo projeto neoliberal é apre-

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sentado com a ambígua e escamoteadora saladoramente em escala mundial, tende a
denominação de “flexibilização”, cujo tra- um esvaziamento dos direitos que gradati-
ço marcante é, principalmente, a “deslega- vamente se foram incorporando ao patrimô-
lização” de direitos previdenciários e tra- nio jurídico dos sujeitos, considerados tan-
balhistas. to sob o prisma individual quanto coletivo;
Não é à toa, pois, que, no Brasil, o Gover- e, nesse sentido, movimenta-se em sentido
no passado, comprometido com o ideário contrário à tendência de acumulação de di-
neoliberal e empenhado na inserção do país reitos e de ampliação dos espaços de reivin-
no mercado globalizado, tenha-se dedica- dicação e de exercício da cidadania, que
do tanto à realização de mudanças drásti- caracterizou estes dois últimos séculos no
cas na Constituição Federal, “flexibilizan- Ocidente”.
do” direitos sociais. Trata-se, sob essa ótica, de um retorno
O neoliberalismo, como visto, despreza ao período anterior ao da proclamação de
o direito, notadamente quando se trata do direitos, verificado na segunda metade do
direito a ter direitos. século XVIII, denominado pelo autor, em
O grande resíduo resultante da onda linguagem metafórica, de “infância do Di-
neoliberal é a dramática elevação dos índi- reito”35.
ces de exclusão social e o agigantamento do Por outra face, a hegemonia do pensa-
fosso entre ricos – que se tornam mais ricos mento neoliberal provoca mudanças estru-
– e pobres, agora elevados (ou melhor, redu- turais no bojo das relações sociais, alteran-
zidos) à categoria de miseráveis. Esse acir- do até mesmo padrões de comportamento.
ramento de desníveis sociais constitui refle- A desregulação preconizada, o esfacela-
xo inocultável do desapreço à promoção dos mento do Estado- providência e o estímulo
direitos fundamentais sociais que predomi- à economia social de mercado têm propor-
na no pensamento neoliberal. cionado a implementação da política do
Mas não é só no campo dos direitos soci- “salve-se quem puder”, com o acirramento
ais que se projeta a crise desencadeada pelo do indiferentismo social.
sopro neoliberal. Como bem revela Ingo O novo pensamento liberal afirma-se,
Wolfang SARLET (1999, p. 137), “a dimi- assim, sob o signo de uma concepção exces-
nuição da capacidade prestacional do Es- sivamente individualista de coexistência
tado e a omissão das forças sociais domi- social, em que a competitividade constitui
nantes, além de colocarem em xeque a já tão fator preponderante, numa sociedade vazia
discutível efetividade dos direitos sociais, de valores e de sentido36.
comprometem inequivocamente os direitos Será plausível falar num retorno a um
à vida, à liberdade e à igualdade (ao menos modelo de Estado hobbesiano, no qual o ho-
no sentido de liberdade e igualdade real), mem assume cada vez mais a postura de
assim como os direitos à integridade física, “lobo” de seus semelhantes? A esse respei-
propriedade, intimidade, apenas para citar to, vale lembrar que, segundo Thomas HO-
os exemplos mais evidentes”. BBES, em seu Leviatã, os homens encontram-
De fato, debilitando-se direitos sociais e se em estado natural de guerra de todos con-
agudizando-se as desigualdades sócio-eco- tra todos; um estado em que a tendência é a
nômicas, elevam-se os níveis de violência apropriação individual daquilo que é ne-
rural e urbana, com manifesto prejuízo a cessário para sua sobrevivência e conserva-
outros direitos fundamentais constitucio- ção.
nalmente assegurados. O insulamento social é decorrência dire-
Na feliz síntese de Agostinho Ramalho ta das práticas neoliberais, pois nelas a so-
MARQUES NETO (1999, p. 226-227), o “mo- lidariedade é valor a ser desprezado e es-
delo neoliberal, que se vem impondo avas- quecido, assumindo em seu lugar um pro-

208 Revista de Informação Legislativa


fundo sentimento de insegurança pessoal. De fato, para que melhor começo de re-
A fragmentação que ressalta do ideário sistência do que, desmistificando a meta
neoliberal atinge em cheio os indivíduos, os primacial da derrubada da inflação, apon-
quais passam a ter uma convivência desa- tar o acirramento das desigualdades sócio-
gregadora e excludente, em incontrastável econômicas, a elevação das taxas de desem-
paradoxo com os festejados caminhos da prego e os baixíssimos níveis de crescimen-
globalização. to econômico nos países da América Latina
Enfim, a exacerbação do fenômeno da que implementaram medidas neoliberais,
exclusão – saldo direto das políticas neoli- tornando-se reféns do capital transnacional
berais – traz a reboque o agravamento de volátil?38.
tensões cada vez mais distanciadas de sen- O neoliberalismo, sem dúvida, consoan-
timentos de solidariedade, tais como práti- te ressaltou Óscar CORREAS (1996, p. 3),
cas discriminatórias em relação a minorias conquistou fervorosos adeptos, até mesmo
sociais e transferências de responsabilida- entre suas principais vítimas. Mas está lon-
de pela “crise” social instalada às próprias ge, muito longe de se constituir uma unani-
vítimas desta (a perambulação de crianças midade, não obstante o caráter hegemônico
nas ruas seria atribuível aos pais que não que assume.
as mantêm em casa; a mendicância em ele- Como destaca Perry ANDERSON (1995,
vadíssimo percentual decorreria do desin- p. 23),
teresse pelo trabalho etc.)37. “Economicamente, o neoliberalis-
mo fracassou, não conseguindo ne-
3.6. Ampliando os espaços de resistência nhuma revitalização básica do capi-
À vista desse quadro, é possível resistir talismo avançado. Socialmente, ao
à cruzada neoliberal? A resposta a essa in- contrário, o neoliberalismo conseguiu
dagação pressupõe o desnudamento da muitos dos seus objetivos, criando
“ideologia da fadiga”. sociedades marcadamente mais desi-
Com efeito, um dos maléficos reflexos do guais, embora não tão desestatizadas
novo liberalismo é a produção de um senti- como queria. Política e ideologicamen-
mento de absoluta impotência diante da “for- te, todavia, o neoliberalismo alcançou
ça” que cresce e devora a tudo e a todos. êxito num grau com o qual seus fun-
Essa impressão mais se dissemina e se con- dadores provavelmente jamais sonha-
solida em face do fenômeno da globaliza- ram, disseminando a simples idéia de
ção da economia, responsável pelo entrela- que não há alternativas para os seus
çamento das diversas sociedades em todo o princípios, que todos, seja confessan-
mundo. É o que Óscar CORREAS (1996) do ou negando, têm de adaptar-se às
denominou de “ideologia do cansaço”, tra- suas normas”.
duzida pela sensação de que “nada há que Assim, curial é a definição de estratégi-
fazer”, senão esperar ser tragado pela onda as de resistência, apresentando-se alterna-
neoliberal. tivas capazes de desestruturar os pilares de
É absolutamente necessário denunciar sustentação do neoliberalismo, entre os
esse manto ideológico de inércia e romper quais se destacam a passividade (docilida-
as amarras que impedem o questionamento de), a despolitização e a desarticulação so-
do discurso neoliberal. Nesse passo, pode- cial. Alinhem-se, pois, entre tantos, alguns
se principiar pelo elenco dos insucessos de caminhos possíveis:
tal política no cenário econômico, exata- a) A ética de alteridade e a reconstrução
mente naquela seara em que prometia solu- de um novo contrato social
ções para os “males” causados pelo Estado As bases do pensamento liberal remode-
de bem-estar social. lado, como já visto, confluem para uma con-

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cepção individualista da sociedade. Norber- Essa renúncia à sede de poder, para Pie-
to BOBBIO (1997, p. 127), assinalando a exis- tro BARCELLONA (p. 117), é mais que um
tência de um “novo contrato social”, afirma exercício estético. É uma postura com ine-
que o “contratualismo moderno nasce da quívoco significado ético de desarme unilate-
derrubada de uma concepção holística ou ral, potencialmente capaz de “interrumpir
orgânica da sociedade (a concepção segun- para siempre la historia de la violencia y de
do a qual, de Aristóteles a Hegel, o todo é la explotación del hombre por el hombre y
superior às partes), nasce da idéia de que o del hombre sobre la natureza.”
ponto de partida de todo projeto social de De outra parte, referindo-se a alternati-
libertação é o indivíduo singular com suas vas de combate à crise do Estado-providên-
paixões (a serem dirigidas ou domadas), cia, Pierre ROSANVALLON (1997, p. 86)
com seus interesses (a serem regulados e propõe, a par de uma redução da demanda
coordenados), com suas necessidades (a do Estado, um reencaixe da solidariedade
serem reprimidas ou satisfeitas). na sociedade e a produção de uma maior
O individualismo distorcido que marca visibilidade social.
a sociedade pós-moderna revela-se respon- Pode-se aproveitar aqui o pensamento
sável pelo estabelecimento de relações de de ROSANVALLON (1997), especificamen-
indiferença recíproca que bem se amoldam te no que concerne aos dois últimos vetores,
ao ideal neoliberal das relações de merca- como meios de oposição de resistências à
do. Isso tudo, como salienta Pietro BARCE- escalada neoliberal. Assim, a reinserção da
LONA (1996, p. 113), solidariedade na sociedade consistiria basi-
“no sólo libera ao individuo de los camente na aproximação da sociedade de si
vínculos y de las dependencias impu- mesma, tornando-a mais densa no que toca à
estas por las organizaciones comuni- existência de variadas formas de sociabilida-
tarias anteriores, sino que disuelve de. Densificando-se, a sociedade passa, se-
toda forma de sociabilidad y por últi- gundo o autor, a valorizar o elemento solida-
mo la posibilidad de producir libre- riedade, tornando-o fundamental e alternati-
mente outra ‘forma de vida’ que re- vo ao modelo de sociedade de consumo.
presente la confirmación recíproca de A par disso, faz-se necessário, na análi-
la individualidad y de la opción de se de Pierre ROSANVALLON (1997, p. 94),
asignar-se fines comunes (esto es, la elevar a visibilidade social, ou seja, “deixar
exclusión de mediadores económicos aflorar mais nitidamente o movimento da
de la cooperación necesaria para pro- sociedade”, tornando o social mais compre-
ducir y reproducir la vida)”. ensível e, ao mesmo tempo, propiciando a
É preciso, pois, contrapor à racionalida- formação de elos de solidariedade mais re-
de neoliberal, que despreza o homem, um ais, sem a intermediação do Estado. Conso-
sentido ético de alteridade, que valoriza o ante o autor, aumentar a visibilidade social
outro e suas diferenças, tal como sugerido é “permitir que se enxertem na sua expres-
por Agostinho Ramalho MARQUES NETO são formas de socialização transversais e
(1999, p. 229). solidariedades curtas” (p. 96). Vale dizer, a
Pietro BARCELLONA (1996, p. 117), pro- solidariedade deve assumir na sociedade
pondo esse pensar, esclarece que “aproximar- uma dimensão voluntária, sem regras e/ou
se al otro significa entonces renunciar a de- processos pré-estabelecidos. Cria-se, dessar-
sarrollar la propia voluntad de poder, que te, não apenas uma solidariedade instituci-
llevaría fatalmente a la negación o a la asi- onal – marca indelével do Estado-providên-
milación del otro: significa ejercitarse en la cia –, mas também uma solidariedade ime-
pasividad de dejar sitio al otro, incluso den- diata, somente factível mediante a translu-
tro de – y junto a – nosotros”. cidez da conflitualidade social.

210 Revista de Informação Legislativa


Não estaria aí o embrião da reconstru- institucionaliza a mudança e a adap-
ção de um novo contrato social? Tal inda- tação mediante procedimentos com-
gação conduz à proposta instigante de Nor- plexos e altamente móveis. Assim, o
berto BOBBIO (1997, p. 128), segundo a qual, direito positivado é um direito que
em contraposição ao neocontratualismo dos pode ser mudado por decisão, o que
liberais, seria instituída uma espécie de des- gera, sem dúvida, certa insegurança
vio, de atalho à concepção individualista com respeito a verdades e princípios
da sociedade, inserindo “um projeto de con- reconhecidos, lançados então para
trato social diverso, que inclua em suas clá- um segundo plano, embora, por outro
usulas um princípio de justiça distributiva lado, signifique uma condição impor-
e, portanto, seja compatível com a tradição tante para melhor adequação do di-
teórica e prática do socialismo”. reito à realidade em rápida mutação,
b) O ensino e a práxis do Direito como é a de nossos dias”.
O caráter alienante do ensino jurídico, Essa potencialidade transformadora do
empenhado basicamente numa análise des- Direito deve ser melhor direcionada a partir
critiva de métodos e procedimentos desti- do meio acadêmico, a fim de que não se re-
nados à consecução de uma justiça formal, produza nas Universidades o perfil de ator
merece ser reformulado, de modo a ampliar, jurídico adequado à consolidação do ideal
com uma nova visão e um pensar críticos, o neoliberal: um profissional alienado de seu
espaço de resistência às concepções neoli- contexto social, vazio de sentido e de finali-
berais39. dade, portador de uma informação burocrá-
Ora, não há dúvida de que o Direito de- tica, subserviente e indiferente às tensões
sempenha relevante função social que, as- sociais que o rodeiam40.
sociada a uma dimensão crítica e engajada É fora de qualquer dúvida que a forma-
a um ideal transformador, pode desaguar ção de uma consciência crítica acerca da
no questionamento da legitimidade dos ca- realidade circunjacente, da qual o Direito
minhos tracejados pelos fautores do pensa- faz parte, favorece a definição de uma im-
mento neoliberal. portante opção política: instrumentalizar ou
Para tanto, é bastante considerar que o não o neoliberalismo. É a partir dessa op-
arcabouço normativo do Direito não é dado, ção que se pode estabelecer, certamente, uma
mas construído, estando, pois, sujeito aos estratégia de legitimação, pelo Direito, das
condicionamentos ideológicos dos que se propostas neoliberais ou, ao revés, de resis-
dedicam à tarefa de estabelecer as “regras tência incisiva à onda desagregadora que
do jogo”. Além disso, a mutabilidade do fe- estas representam. Imprescindível, em sín-
nômeno da positivação favorece a perma- tese, definir como será preenchido o “espa-
nente compatibilização do Direito com as ço da positivação” do Direito.
expectativas sociais, sendo garantia de sua A par da fibratura crítica dos atores jurí-
“eterna reconstituição, do seu avanço, que dicos, desde o “berço acadêmico”, deve-se
vai desvendando áreas novas de libertação” enfatizar, por outro lado, o delineamento do
(LYRA FILHO, 1982, p. 119). papel a ser desempenhado pelo Poder Judi-
Merece registro, nesse particular, a ob- ciário. Vale dizer, da práxis jurídica.
servação de Tércio Sampaio FERRAZ JÚNI- Considerando ser o Judiciário o deposi-
OR (1980, p. 41): tário final de conflitos não resolvidos nou-
“A principal característica do di- tras instâncias (sociais), curial é o estabele-
reito positivado é que ele se liberta de cimento de uma postura existencial trans-
parâmetros imutáveis ou longamente formadora de seus agentes, não mais sendo
duradouros, de premissas material- tolerável uma postura acrítica de “fiéis ser-
mente invariáveis e, por assim dizer, vos” da lei.

Brasília a. 40 n. 160 out./dez. 2003 211


Não se está cogitando – é bom prevenir – inúmeras digressões no campo da interpre-
de um atuar alheio e distante da normativi- tação e da própria integração das lacunas
dade. Isso comprometeria, a nosso ver, a le- ideológicas existentes no ordenamento jurí-
gitimidade institucional do Judiciário. Mas dico-positivo42. Pode residir aí o antídoto ao
a uma atuação estritamente legalista e bu- desmonte do arcabouço constitucional que
rocrática pode-se contrapor um comporta- ainda resiste em neutralizar o avanço da
mento judicial que propicie a “reintrodução onda neoliberal. E esse é sem dúvida o gran-
do próprio direito no interior das relações de desafio, a encruzilhada entre o velho e o
sociais” (FARIA, 1989, p. 105). Isso recon- novo, que, nem por ser novo, se revela me-
duz o Judiciário a um papel efetivo de Po- lhor e mais justo43.
der do Estado, infenso ao “mito da neutrali- c) Direitos humanos – concretização da
dade” e comprometido socialmente com a Declaração Universal de 1948
realização da ordem legal justa41. Os direitos humanos constituem a últi-
Inegável, nesse mister, é a tarefa cometi- ma fronteira na cruzada em defesa dos va-
da à hermenêutica, ou, mais detidamente, lores da cidadania e da democracia. Consti-
aos mecanismos de completabilidade do tuem, de igual sorte, um sólido obstáculo ao
ordenamento jurídico. Conquanto não seja deletério fenômeno da exclusão – marca re-
este o objeto do presente trabalho, é impor- gistrada das práticas neoliberais.
tante referir, ainda que de relance, que, por A razão dessa assertiva correlaciona-se
meio da interpretação e dos métodos da com o fato de a Declaração Universal dos
auto-integração e da heterointegração, a ju- Direitos Humanos, enunciada após a trági-
risprudência pode alcançar, inclusive su- ca Segunda Grande Guerra, representar “a
prindo lacunas do ordenamento jurídico, a consciência histórica que a humanidade tem
finalidade social da norma, conectando-a dos próprios valores fundamentais na se-
com preceitos de justiça social. gunda metade do século XX” (BOBBIO,
E uma boa diretriz para tal empreitada 1992, p. 34).
consiste em interpretar e aplicar a norma a Pode-se afirmar, então, que a nota de fun-
partir da Constituição, buscando sempre, damentalidade presente na concepção dos
“entre as várias possibilidades [...] escolher- direitos humanos decorre do reconhecimen-
se uma interpretação não contrária ao texto to da necessidade de serem protegidos e pro-
e programa da norma ou normas constitu- movidos determinados valores essenciais à
cionais” (CANOTILHO, 1983, p. 1151). consecução de uma existência digna – pa-
No Brasil, por exemplo, que possui uma trimônio cultural comum a toda a humani-
Constituição concebida em um modelo de dade.
Estado de bem-estar social, a práxis jurídi- Fixada essa premissa, é facilmente per-
ca não pode alhear-se a essa fonte legitima- ceptível o descompasso entre as caracterís-
dora. O grande problema, porém, é que o ticas da globalização cunhada sob o signo
Governo brasileiro tem-se empenhado na do neoliberalismo e a expectativa internaci-
missão de desfigurar esse perfil constituci- onal em torno da efetividade dos direitos
onal por meio de “redentoras” propostas de humanos e da ampliação de seu rol basi-
reforma constitucional, na busca de adequar lar44.
o Estado ao “mercado globalizado” de ins- O caráter universal, indivisível e inter-
piração neoliberal. dependente dos direitos humanos e, pois,
Isso comprometeria a atuação do Judici- de todo o leque de valores essenciais subja-
ário como “espaço de resistência” ao avan- centes deve-se contrapor ao padrão neoli-
ço do neoliberalismo, em face do esfacela- beral de globalização (imposto pelo “Con-
mento do referencial constitucional? A per- senso de Washignton”), alavancando os
gunta é instigante e certamente reconduz a Estados em direção à realização daqueles.

212 Revista de Informação Legislativa


Tal contraste pode significar o despertar da do, por sua vez, o fluxo da vertente neolibe-
letargia em que se encontra mergulhada a ral.
sociedade atual, num gesto de ruptura com Isso pressupõe o reconhecimento daqui-
a já apontada “ideologia da fadiga”. Assim lo que PÉREZ LUÑO45 (apud SARLET, 1999,
propõe J.A. Lindgren ALVES (1999, p. 164): p. 168-169) denominou “irrenunciável di-
“Se, conforme ensina Foucault, o mensão utópica” dos direitos humanos,
Direito foi inventado como uma for- numa reafirmação de que muito ainda há
ma de legitimação do poder estatal na de ser percorrido para alcançar-se um espa-
Idade Clássica, deixariam os direitos ço de cidadania menos opaco e mais pleno
humanos de ser uma afirmação do de sentido.
indivíduo contra esse mesmo poder?
Talvez sim, talvez não, dentro do con- 4. Conclusão
texto da Revolução Francesa, em sua
fase napoleônica. Mas não numa épo- O amadurecimento das concepções filo-
ca como a nossa, em que tais direitos sóficas do contratualismo, do individualis-
são reconhecidos internacionalmen- mo e do iluminismo, dos quais foram figu-
te e se tornam passíveis de cobranças ras destacadas Locke, Montesquieu, Ros-
internas e interestatais, limitando sig- seau e Kant, desaguou na estruturação do
nificativamente o arbítrio do poder Estado constitucional, ou Estado de Direi-
constituído. to, como reação ao exercício absoluto do
................................................................. Poder, impropriamente denominado de “Es-
Até mesmo, portanto, para os pós- tado absoluto”.
estruturalistas convictos ou pós-mo- O Estado constitucional desenvolveu-se,
dernos exigentes, a Declaração Uni- assim, sob a inspiração das correntes libe-
versal dos Direitos Humanos abre ca- rais que exaltavam o exercício da liberdade
minhos inestimáveis. Na mesma me- acima de tudo, com a conseqüente limita-
dida em que o pós-estruturalismo se ção do poder político.
propõe emancipatório, o multicultu- Natural e indispensável o remodelamen-
ralismo que ele justificadamente en- to desse novo Estado por meio do Direito, à
dossa não pode ser indiferente às luz dos ideais liberais prevalecentes.
opressões de culturas extra-ociden- Por outra face, a radical transformação
tais. Nem pode a pós-modernidade, como da sociedade no período entre guerras, as
continuação ou superação do racionalis- nefastas desigualdades sócio-econômicas
mo humanista, tornar-se fundamentalis- decorrentes do modelo liberal (“laissez faire,
ta, aceitando como inelutáveis as cruelda- laissez passer”) exigiram, como foi visto, uma
des aberrantes de qualquer comunidade, postura mais intervencionista do Estado,
ou do integrismo eficientista do mercado levando, noutro passo, ao desenvolvimento
globalizado” [grifos nossos]. dos direitos sociais.
É de se intuir, destarte, que a Declaração Enquanto, porém, a sociedade ainda se
Universal dos Direitos Humanos, bem as- debate na histórica luta pela afirmação e
sim o seu permanente desafio de implemen- plenitude dos direitos fundamentais, o
tação e atualização representam um impor- mundo capitalista, em seu reduzido círculo
tante núcleo de resistência e de contraponto decisório, reanimado pela derrocada dos
ao esvaziamento ético do novo liberalismo. “socialismos reais”, e em nome da recupe-
A pavimentação desse trajeto leva em conta ração econômica dos Estados (“abalados”
os aspectos positivos do fenômeno da glo- e sufocados pelas demandas sociais cada
balização, os quais reforçam a nota da uni- vez mais crescentes), impõe a adoção de
versalidade dos direitos humanos, reprimin- políticas neoliberais que se disseminam

Brasília a. 40 n. 160 out./dez. 2003 213


como inexorável exigência da economia glo- cional utilização da terra; o enfraquecimen-
balizada. to da concepção de democracia representa-
A expressão neoliberalismo encerra uma tiva; a dilapidação do Estado social, enfim.
noção de algo que se renova, mas que, ao O êxito da empreitada neoliberal não
mesmo tempo, retorna ao passado. Conflu- seria possível sem o concurso de poderoso
em, para a definição desse fenômeno políti- mecanismo de obscurecimento social, capaz
co e econômico, idéias de continuidade e de de desviar a atenção de possíveis focos de
ruptura, como lembrado por Agostinho Ra- resistência. Essa obnubilação coletiva con-
malho MARQUES NETO (1999, p. 231). Se- ta com a produção científica de “notáveis
gundo ele, ao falar-se de liberalismo, suge- economistas”, bem como de “juristas de
re-se um retorno a um modelo antigo. Po- plantão” que modelam a ilusão da realida-
rém, “esse liberalismo é neo, é novo, com o de conveniente, encarregando-se de tornar
que se diz implicitamente que algo do libe- palatável (se isso é possível) o indigesto pra-
ralismo clássico não mais subsiste nele”. E to que nos é servido, farto em desagregação
esse algo nada mais é que o “abandono, em social e em desigualdades materiais.
favor da eficiência econômica, de princípios Todo esse quadro caracteriza, na expres-
éticos fundamentais, dos quais resultam rele- são de Plauto Faraco de AZEVEDO (1999,
vantes conseqüências políticas e jurídicas”. p. 103), o caráter ideológico do neoliberalis-
O neoliberalismo, embalado pelo fenô- mo, responsável pela “desconformidade
meno da globalização da economia, prega a entre sua imagem mental e sua realidade
transnacionalização dos mercados, a des- efetiva, induzindo ao erro de avaliação e tra-
regulamentação das instâncias decisórias tamento desta”. Isso também desvela a di-
dos conflitos, a perda de certeza e seguran- mensão totalitária do neoliberalismo, que se
ça do direito positivo, a interpenetração de apresenta como uma única opção possível
interesses privados e interesses públicos, a e contra a qual não adianta resistir.
proliferação de espaços sócio-jurídicos au- Em dado momento da narrativa, foi sus-
tônomos, a flexibilização dos direitos soci- tentado que o neoliberalismo nutre profun-
ais, o redimensionamento da democracia e do desapreço pelo Direito. O cotidiano das
a erosão da soberania do Estado, com o des- reformas legislativas em curso em nosso país
locamento de seu conceito para o âmbito do não desmente a assertiva. Com efeito, não é
mercado. por acaso que, empolgado pelo apelo neoli-
O Estado, assumindo a feição de garan- beral globalizante, verificou-se enorme em-
tidor do livre mercado e da competitivida- penho na eliminação de direitos sociais his-
de, passa a ser um Estado mínimo, reduzin- toricamente consagrados. Daí a afirmação
do-se, com ele, a noção de espaço público. de que o direito social, num cenário neolibe-
A forte conseqüência dessas posturas ral, carece de condições de efetividade (FA-
neoliberais pode ser sentida por meio de um RIA, 1999, p. 283).
único fenômeno: o da exclusão social, cada Todavia, a insistência na preservação e
vez mais aguda, notadamente nos países de realização de direitos fundamentais sociais
“economias emergentes”. A exclusão é a sín- constitui um significativo espaço de resis-
tese de todos os impactos decorrentes do tência à escalada neoliberal, assinalando a
novo liberalismo: o enxugamento dos direi- presença importante de sua discussão na
tos sociais; a privatização dos serviços de agenda contemporânea. Por que e para quê?
saúde; o insuficiente serviço de educação Para preenchimento, em breve síntese, do
pública; a ausência de controle estatal ade- sentimento de “vazio de futuro” (Santos,
quado no tocante ao emprego de verbas pú- 1996) que nos é legado pelo neoliberalismo.
blicas; a não consolidação de uma política A impressão final que fica é a de que o
agrária satisfatória para assegurar uma ra- neoliberalismo representa, sem perdão do

214 Revista de Informação Legislativa


exagero, uma neobarbárie, na qual os interes- são) como externamente (pela redução ao mínimo
ses individuais se submetem aos interesses das suas funções perante a sociedade)”.
4
Conforme anota Paulo BONAVIDES (1980, p.
de grandes corporações; em que os concei- 31), invocando o pensamento de VIERKANDT, no
tos e categorias fundamentais da lógica ju- “liberalismo, o valor da liberdade [...] cinge-se à exal-
rídica cedem espaço a princípios de conteú- tação do indivíduo e de sua personalidade, com a
do econômico (MARQUES FILHO, 1999, p. preconizada ausência e desprezo da coação estatal.
5
235); em que os valores da democracia são Anota BOBBIO (1992, p. 29): “A liberdade e a
igualdade dos homens não são um dado de fato,
extraviados e, em seu lugar, são implanta- mas um ideal a perseguir; não são uma existência,
dos espaços de decisão conectados com os mas um valor; não são um ser, mas um dever ser.
espaços de produção; em que não há visibi- Enquanto teorias filosóficas, as primeiras afirma-
lidade de sociedade, mas de mercado; em ções dos direitos do homem são pura e simples-
que não se enxergam cidadãos, mas apenas mente a expressão de um pensamento individual;
são universais em relação ao conteúdo, na medida
consumidores. em que se dirigem a um homem racional fora do
É preciso, pois, ampliar ao máximo, por espaço e do tempo, mas são extremamente limita-
exemplo, os horizontes propiciados pelas das em relação à sua eficácia, na medida em que
cruzadas em prol da concretização dos di- são (na melhor das hipóteses) propostas para um
reitos humanos. São esses componentes utó- futuro legislador”.
6
“O segundo momento da história da Declara-
picos que poderão abrir caminho à consta- ção dos Direitos do Homem consiste, portanto, na
tação de que nada é acabado ou irrealizá- passagem da teoria à prática, do direito somente
vel, e que ainda é tempo de reconhecer que, pensado para o direito realizado. Nessa passagem,
ao contrário do que sugere o neoliberalis- a afirmação dos direitos do homem ganha em con-
mo, a dignidade da pessoa não é um bem de creticidade, mas perde em universalidade. Os di-
reitos são doravante protegidos (ou seja, são au-
consumo a ser livremente transacionado no tênticos direitos positivos), mas valem somente no
mercado. âmbito do Estado que os reconhece” (BOBBIO,
O limiar de um novo Governo e de uma 1992, p. 29-30).
7
nova Legislatura é sempre um bom momen- Essa aliança episódica foi assim referida por
to para reanimar velhas certezas ou para Eric HOBSBAWM (1999, p. 17): “A democracia só
se salvou porque, para enfrentá-lo, houve uma ali-
alimentar novas esperanças. Tudo depen- ança temporária e bizarra entre o capitalismo libe-
derá da rota a ser traçada. ral e o comunismo: basicamente a vitória sobre a
Alemanha de Hitler foi, como só poderia ter sido,
uma vitória do Exército Vermelho. [...] Uma das
ironias deste estranho século é que o resultado mais
Notas duradouro da Revolução de Outubro, cujo objeti-
1
vo era a derrubada global do capitalismo, foi sal-
Segundo HOBBES, a guerra significa não ape-
var seu antagonista, fornecendo-lhe o incentivo – o
nas a batalha, mas o período de tempo em que a
medo – para reformar-se após a Segunda Guerra
vontade de lutar é suficientemente conhecida.
2
Mundial e, ao estabelecer a popularidade do plane-
Como assinala, mais uma vez, Eric HOBSBA- jamento econômico, oferecendo-lhe alguns proce-
WM (p. 404): “A tragédia histórica das Décadas de dimentos para sua reforma”.
Crise foi a de que a produção agora dispensava 8
Como observa Eric HOBSBAWM (1999, p.
visivelmente seres humanos mais rapidamente do 142), o “século XX multiplicou as ocasiões em que
que a economia de mercado gerava novos empre- se tornava essencial aos governos governar. O tipo
gos para eles... A economia mundial se expandia, de Estado que se limitava a prover regras básicas
mas o mecanismo automático pelo qual essa ex- para o comércio e a sociedade civil e oferecer polí-
pansão gerava empregos para homens e mulheres cia, prisões e Forças Armadas para manter afasta-
que entravam no mercado de trabalho sem qualifi- do o perigo interno e externo, o ‘Estado-guarda-
cações especiais estava visivelmente desabando”. noturno’ das piadas políticas, tornou-se tão obso-
3
Jorge MIRANDA (1996, p. 86-87) comenta: leto quanto o ‘guarda-noturno’ que inspirou a me-
“O Estado constitucional, representativo ou de Di- táfora”.
9
reito surge como Estado liberal, assente na idéia de Plauto Faraco de AZEVEDO (1999, p. 83-84)
liberdade e, em nome dela, empenhado em limitar observa: “Toda esta corrente doutrinária crítica do
o poder político tanto internamente (pela sua divi- capitalismo e denunciadora de seus excessos, as-

Brasília a. 40 n. 160 out./dez. 2003 215


sim como a obra de Marx e Engels, que o estuda e valor normativo, constituindo um ponto de refe-
prevê a sua destruição, não teriam tido a relevância rência na determinação dos aspectos corrompidos
que tiveram, não fora o triunfo da Revolução Russa que se insinuaram em nossa natureza humana”.
13
de 1917. Independentemente de qualquer juízo de “O primeiro homem que, depois de ter cerca-
valor sobre a conhecida obra de John Reed, tem-se do um terreno, pensou em dizer ‘este é meu’ e en-
que convir que ela abalou o mundo, criando uma controu ingênuos que nele acreditaram foi o verda-
força concreta oposta ao capitalismo, suscitando deiro fundador da sociedade civil. Quantos crimes,
abundante literatura a assinalar-lhe as contradi- conflitos, homicídios, misérias e horrores teria pou-
ções, estimulando a utopia do socialismo, aguçan- pado ao gênero humano aquele que, arrancando a
do esperanças de vida mais consentâneas com a cerca ou tapando o fosso, houvesse gritado aos
dignidade humana, ao mesmo tempo que dava seus semelhantes: “Não deis ouvido a este impos-
origem a um mundo bipolar, em permanente e pe- tor; estareis perdidos se esquecerdes que os frutos
rigoso confronto”. são de todos e a terra não é de ninguém!” (REALE;
10
Analisando a “equação keynesiana”, Pierre ANTISERI, 1990, p. 765).
14
ROSANVALLON (1997, p. 40) observa, com pro- Conforme observam Giovanni REALE e Da-
priedade: “Em resumo, Keynes conclui que o Esta- rio ANTISERI (1990, p. 770-771): “Estamos diante
do é levado a intervir por intermédio da política de uma socialização radical do homem, de sua to-
fiscal e da determinação da taxa de juros para re- tal coletivização, para impedir que emerjam e se
gular o nível adequado ao pleno emprego da pro- afirmem os interesses privados. Com a vontade geral
pensão para consumir. Mas ele deve igualmente pelo bem comum, o homem só pode pensar em si
intervir para estimular o investimento, visto não ser pensando nos outros, ou seja, somente através dos
julgada suficiente a influência da política bancária outros, não como instrumentos, mas como fins em
da taxa de juros para fixá-lo no seu melhor valor si, como são todos os componentes. Ninguém deve
possível. ‘Pensamos também’, diz ele, ‘que a am- obedecer ao outro, mas sim todos à lei, sagrada
pla socialização do investimento será o único para todos, porque fruto e expressão da vontade
meio de se assegurar aproximadamente o pleno geral”.
15
emprego’”(p. 391). É nesse sentido que deve ser Cabral de MONCADA (1995, p. 243-244),
entendida a equação keynesiana. É a partir daí que porém, analisando o mito da vontade geral, assim
a relação entre o crescimento e o desenvolvimento se posiciona: “Por este motivo, e com toda a razão,
do Estado-providência poderá ser pensada como já se tem dito que a democracia, que com LOCKE e
não contraditória. Progresso social e eficácia econô- os ingleses se mantinha ainda individualista e libe-
mica caminharão logicamente juntos. ral, atomística e mero equilíbrio de egoísmos, com
11
Com efeito, a filosofia “é um específico e in- ROUSSEAU se torna totalitária. Individualista ain-
contestável modo de interrogar a realidade [...], o da no seu ponto de partida e nos seus pressupos-
modo mais radical e omnicompreensivo, o mais tos racionais, sem dúvida, ela é totalitária e anti-
fundamental e totalizador, que não se detém em liberal no seu ponto de chegada. Partindo da liber-
instâncias imediatas e nem sequer penúltimas, mas dade do homem e dos seus direitos naturais origi-
que é inerente à mais indeclinável vocação de extre- nários, o dogma da soberania do povo e o mito da
mo”. (GARCIA VENTURINI apud CERLETTI, vontade geral acabam por tomar na construção do
1999, p. 101). GARCIA VENTURINI, José Luis. La sistema a dianteira sobre os outros elementos e por
filosofia: para qué sirve? La nacion, Buenos Aires, 9 anular nela todos os vestígios do seu liberalismo”.
16
jul. 1972. Suplemento Cultural, p. 3. Conquanto considere o “mercado competiti-
12
Por meio da expressão “estado natural”, ano- vo” instituição social essencial, aponta John RA-
tam Giovanni REALE e Dario ANTISERI (1990, p. WLS (1997, p. 8) que a estrutura básica da socie-
761) que “é importante distinguir o essencial e ori- dade – objeto primário da justiça – apresenta di-
ginário do artificial e desviador. Como podemos ler versas posições sociais, sendo que indivíduos nas-
no Discurso sobre a desigualdade, ‘não é uma pe- cidos em condições diferentes têm expectativas de
quena empresa distinguir os elementos originários vida diversas. Assim, segundo o autor: “É a essas
daquilo que há de artificial na natureza atual do desigualdades, supostamente inevitáveis na estru-
homem e conhecer a fundo um estado que não exis- tura básica de qualquer sociedade, que os princípi-
te mais, que talvez nunca tenha existido, que pro- os da justiça social devem ser aplicados em primei-
vavelmente nunca existirá, mas do qual, porém, é ro lugar”.
17
necessário ter noções justas para poder avaliar bem Pertence a BOBBIO (1997, p. 112) a observa-
o nosso presente. Quem quisesse determinar exata- ção sempre precisa, segundo a qual “... a passa-
mente as precauções a tomar para fazer anotações gem do estado liberal para o estado social é assina-
válidas sobre o assunto deveria ser muito mais filó- lada pela passagem de um direito com função pre-
sofo de que se acredita.’ Na economia do pensa- dominantemente protetora-repressiva para um di-
mento de ROUSSEAU, o estado natural tem um reito cada vez sempre mais promocional”.

216 Revista de Informação Legislativa


18
Assinala, nesse sentido, Ingo Wolfgang SAR- até então essas relações, perante a internacionaliza-
LET (1999, p. 143-144): “Vinculados à concepção ção dos mercados e a transnacionalização da pro-
de que ao Estado incumbe, além da não-interven- dução. Como esta regulação estava centrada no
ção na esfera de liberdade pessoal dos indivíduos, Estado nacional, a sua crise foi também a crise do
assegurada pelos direitos de defesa (ou função Estado nacional perante a globalização da econo-
defensiva dos direitos fundamentais), a tarefa de mia e as instituições que se desenvolveram com ela
colocar à disposição os meios materiais e imple- (as empresas multinacionais, o Fundo Monetário
mentar as condições fáticas que possibilitem o efe- Internacional, o Banco Mundial)” (SANTOS, 1996,
tivo exercício das liberdades fundamentais, os di- p. 248).
23
reitos fundamentais a prestações objetivam, em “A expressão ‘democracia representativa’ sig-
última análise, a garantia não apenas da liberdade- nifica genericamente que as deliberações coletivas,
autonomia (liberdade perante o Estado), mas tam- isto é, as deliberações que dizem respeito à coletivi-
bém da liberdade por intermédio do Estado, par- dade inteira, são tomadas não diretamente por aque-
tindo da premissa de que o indivíduo, no que con- les que dela fazem parte, mas por pessoas eleitas
cerne à conquista e manutenção de sua liberdade, para esta finalidade” (BOBBIO, 1997. p. 44).
24
depende em muito de uma postura ativa dos po- A debilidade da democracia representativa
deres públicos”. tem aberto espaço à formação de um novo modelo,
19
Norberto BOBBIO (1992, p. 33), a esse pro- a democracia organizacional, da qual nos ocupare-
pósito, registra: “Quando digo que os direitos do mos mais adiante.
25
homem constituem uma categoria heterogênea, re- “As condições para este trabalho não eram de
firo-me ao fato de que – desde quando passaram a todo favoráveis, uma vez que o capitalismo avan-
ser considerados como direitos do homem, além çado estava entrando numa longa fase de auge sem
dos direitos de liberdade, também os direitos soci- precedentes – sua idade de ouro –, apresentando o
ais – a categoria em seu conjunto passou a conter crescimento mais rápido da história, durante as
direitos entre si incompatíveis, ou seja, direitos cuja décadas de 50 e 60. Por esta razão, não pareciam
proteção não pode ser concedida sem que seja res- muito verossímeis os avisos neoliberais dos perigos
tringida ou suspensa a proteção de outros. Pode-se que representavam qualquer regulação do merca-
fantasiar sobre uma sociedade ao mesmo tempo do por parte do Estado. A polêmica contra a regu-
livre e justa, na qual são global e simultaneamente lação social, no entanto, tem uma repercussão um
realizados os direitos de liberdade e os direitos so- pouco maior. Hayek e seus companheiros argu-
ciais; as sociedades reais, que temos diante de nós, mentavam que o novo igualitarismo (muito relati-
são mais livres na medida em que menos justas e vo, bem entendido) deste período, promovido pelo
mais justas na medida em que menos livres”. Estado de bem-estar, destruía a liberdade dos ci-
20
O paradoxo crucial das modernas socieda- dadãos e a vitalidade da concorrência, da qual de-
des democráticas residiria exatamente no enfoque pendia a prosperidade de todos. Desafiando o con-
dado ao valor igualdade: “A demanda de igualda- senso oficial da época, eles argumentavam que a
de civil ou política traduz-se pela determinação de desigualdade era um valor positivo – na realidade
uma forma idêntica para todos. A igualdade tem imprescindível em si -, pois disso precisavam as
como objetivo a abolição radical das diferenças de sociedades ocidentais. Esta mensagem permane-
estatuto civil ou político. A demanda de igualdade ceu na teoria por mais ou menos 20 anos” (AN-
econômica ou social se apresenta de um outro modo: DERSON, 1995, p. 10).
26
ela se exprime como vontade de redução das desi- Eric HOBSBAWM (1999, p. 399) documen-
gualdades. Os dois procedimentos não são simé- tou esse confronto da seguinte forma: “Era uma
tricos: produção de igualdade geradora de identi- guerra de ideologias incompatíveis. Os dois lados
dade em um caso, redução da desigualdade, no apresentavam argumentos econômicos. Os keyne-
outro, sem fixação de um objetivo gerador de iden- sianos afirmavam que altos salários, pleno empre-
tidade” (ROSANVALLON, 1997, p. 29). go e o Estado de Bem-estar haviam criado a de-
21
Por cidadania social entenda-se a conquista manda de consumo que alimentara a expansão, e
de direitos sociais no campo das relações de traba- que bombear mais demanda na economia era a
lho, da seguridade social, da saúde, da educação, melhor maneira de lidar com depressões econômi-
por parte das classes trabalhadoras. cas. Os neoliberais afirmavam que a economia e a
22
“A crise do regime fordista e das instituições política da Era de Ouro impediam o controle da
sociais e políticas em que ele se traduziu assentou, inflação e o corte de custos tanto no governo quan-
em primeira linha, numa dupla crise de natureza to nas empresas privadas, assim permitindo que
econômico-política, na crise de rentabilidade do os lucros, verdadeiro motor do crescimento econô-
capital perante a relação produtividade-salários e mico numa economia capitalista, aumentassem”.
27
a relação salários directos-salários indirectos, e na Segundo Rodolfo ROMERO (apud ARRUDA
crise da regulação nacional, que geria eficazmente JÚNIOR, 1997, p. 61), a política econômica do ne-

Brasília a. 40 n. 160 out./dez. 2003 217


oliberalismo tem como estratégia: privatização, des- – retomada, desenvolvida e divulgada por Schum-
regulamentação, flexibilidade, dívida externa, ajus- peter – de que o líder político pode ser comparado
te, sem protecionismo e, como finalidade essencial, a um empresário cujo rendimento é o poder, cujo
a adjudicação de recursos da sociedade e do po- poder se mede por votos, cujos votos dependem da
der, favorecendo a transnacionalização da econo- sua capacidade de satisfazer interesses de eleitores
mia, da política e da cultura, com rápidos padrões e cuja capacidade de responder às solicitações dos
de acumulação”. ROMERO, Rodolfo. O neolibera- eleitores depende dos recursos públicos de que pode
lismo. San Antonio de los Altos: CLAT: Central La- dispor”.
32
tinoamericana de Trabajadores, 1992. “Para garantir a neutralização das organiza-
28
PRZEWORSKI, Adam. Capitalismo e social-de- ções sociais – e, em geral, para desorganizar os
mocracia. São Paulo: Companhia das Letras, 1989. grupos sociais –, o discurso remete à imagem da
29
Tal situação curiosa ensejou o seguinte co- ‘derrocada da política’. Neste contexto, reivindica-
mentário de Norberto BOBBIO (1997, p. 119): “Uma se uma autoridade mínima não submetida à parti-
situação paradoxal, quase grotesca. Como então cipação política ativa e às demandas sociais, tal
se pode definir uma situação em que a mesma for- como expressa claramente a afirmação de Friedrich
ma de estado – e atente-se que se trata de forma de Von HAYEK, citada por LECHNER: ‘podemos
estado que se veio realizando praticamente em to- impedir o governo de servir aos interesses especi-
dos os países democráticos – é condenada como ais, apenas privando-o do poder de usar a coerção
capitalista pelos marxistas velhos e novos, e como para fazê-lo, o que significa que podemos limitar
socialista pelos velhos e novos liberais? Das duas os poderes dos interesses organizados, apenas li-
uma: ou estas categorias – capitalismo, socialis- mitando os poderes do governo.’ Esta limitação do
mo, etc. – tornaram-se tão gastas que não podem governo, que pretende traduzir-se também em sua
mais ser usadas sem criar confusão, ou a dupla descentralização: ‘é preciso ‘descentralizar’ o po-
crítica é apenas aparentemente contraditória, por- der a fim de que o poder individual – a proprie-
que de fato o estado de bem-estar foi (e será talvez dade privada – não seja neutralizado pela orga-
ainda por muito tempo, suponho) uma solução de nização dos despossuídos’, transforma-se, fi-
compromisso que, como todas as soluções de com- nalmente, na restrição e no próprio questiona-
promisso, presta-se a ser confutada pelas partes mento da democracia” (apud GRAU, 1998, p.
opostas. Se de dois indivíduos que de longe obser- 39-40).
33
vam uma figura, um diz que ela é um homem e o Como observa Óscar CORREAS (1996, p. 7),
outro que é um cavalo, antes de conjeturar que “El neoliberalismo se parece y se diferencia del viejo libe-
ambos não sabem distinguir um homem de um ralismo. Se parece en que ambos usan la misma prestigi-
cavalo, é lícito pensar que tenham visto um centau- osa palabra – ‘libertad’. Pero se diferencian en que aquél
ro (e então seria possível sustentar que se equivoca- la usaba para referirse a todas las manifestaciones de la
ram ambos, pois os centauros não existem)”. vida humana, la libertad de propriedad en primer plano,
30
Conforme observa José Eduardo FARIA claro. Mientras, que el cachorro contemporáneo lo usa
(1999, p. 118-119), em termos conceituais, “a no- exclusivamente para hablar del comercio y la circulación
ção de governabilidade tem sido associada à inca- ampliada del capital.”
34
pacidade de um governo ou de uma estrutura de A propósito do direito reflexivo, anota José
poder formular e de tomar decisões no momento Eduardo FARIA (1999, p. 195-196): “É esse, justa-
oportuno, sob a forma de programas econômicos, mente, o caso do ‘direito reflexivo – reflexividade
políticas públicas e planos administrativos, e de entendida aqui com a capacidade de um sistema
implementá-los de modo efetivo, em face de uma de tematizar sua própria identidade; de perceber
crescente sobrecarga de expectativas, de problemas como, em seu meio ambiente, operam outros siste-
institucionais, de clivagens políticas, de conflitos mas em relações de interdependência, relações es-
sociais e de demandas econômicas; nesse sentido, sas que incluem o próprio sistema reflexivo; de co-
um sistema político se tornaria ‘ingovernável’ quan- locar-se a si mesmo no papel de outros sistemas
do não conseguisse mais confirmar essas expecta- para ver, dessa perspectiva, seu próprio papel; de
tivas, filtrar, selecionar e dar uma resposta a essas institucionalizar mecanismos aptos a viabilizar uma
demandas, solucionar esses problemas, neutrali- recíproca autolimitação das possibilidades de ação
zar essas clivagens e dirimir esses conflitos de ma- dos sistemas, tendo em vista seus respectivos valo-
neira eficaz e coerente – mesmo expandindo seus res, interesses e necessidade. O principal objeto deste
serviços, suas estruturas burocráticas e seus ins- direito é, assim, a própria autonomia dos sistemas.
trumentos de intervenção, em nome do aumento de Sua função é viabilizar a autonomia regulada des-
sua capacidade de direção, coordenação, filtragem, ses sistemas, a fim de que possam maximizar sua
seleção e desempenho.” racionalidade interna mediante os adequados pro-
31
Anota BOBBIO (1997, p. 123): “Não deixa cedimentos tanto de formação do consenso quanto
entretanto de ser iluminante a idéia de Max Weber de tomada de decisão coletiva”.

218 Revista de Informação Legislativa


35
Segundo esclarece Agostinho MARQUES velha tradição normativista-formalista da dogmá-
NETO (1999, p. 225), a expressão “infância” pro- tica jurídica, que se expressa por meio de proposi-
vém de infans, antis, ou seja, que não fala, sem voz. ções hipotéticas de dever-ser e cuja preocupação
Então, as ordens jurídicas até as Revoluções Ame- central é a subsunção dos fatos à prescrição legal,
ricana e Francesa “não tinham voz para atribuir di- valorizando apenas os aspectos lógico-formais do
reitos subjetivos, mas apenas para prescrever obri- direito positivo e enfatizando somente as questões
gações e estabelecer as sanções aplicáveis nos casos da validez da norma, da determinação do signifi-
de transgressão.” cado das regras, da integração das lacunas e da
36
Registra Plauto Faraco de AZEVEDO (1999, eliminação das antinomias? Ou, pelo contrário, já
p. 116), destacando as palavras de Ralph estarão recebendo uma formação capaz de identi-
DAHRENDORF: “Na Europa, ‘descobrem-se es- ficar e esclarecer o significado político das profis-
tranhas semelhanças entre o fim dos Oitocentos e o sões jurídicas, possibilitando-lhes assim um dis-
fim dos novecentos. Agora, como então, as pessoas tanciamento crítico e uma clara consciência das inú-
vivem um período de individualismo descomedi- meras implicações de suas funções em sociedades
do: ao manchesterismo de ontem corresponde o fortemente marcadas pelo crescente descompasso
tatcherismo de hoje. Os indívíduos vivem contra- entre a igualdade jurídico-formal e as desigualda-
postos uns aos outros, em feroz competição, em des sócio-econômicas?”
41
que prevalecem os mais fortes – ou melhor, aqueles Calha bem o destaque feito por José Eduardo
que eram tidos como tais, quaisquer que fossem as FARIA (1989, p. 107) a texto produzido pelo Gabi-
qualidades que os haviam levado ao êxito”. nete de Assessoria Jurídica às Organizações Popu-
37
“Enquanto para a sociedade de classes, da lares: “... a utilização de normas vigentes não signi-
“antiga modernidade”, o proletariado precisava ser fica adesão à ordem legal injusta. O direito deve ser
mantido com um mínimo de condições de subsis- criticado sempre que não corresponda aos desejos
tência (daí o Welfare State), para a sociedade efici- populares. Ocorre que as normas podem ser um
entista, da globalização pós-moderna, o pobre é eficiente instrumento de defesa do povo. O despre-
responsabilizado e estigmatizado pela própria po- zo pela via jurídica como solução para certos pro-
breza. Longe de produzir sentimentos de solidarie- blemas implica o desperdício de uma oportunida-
dade, é associado ideologicamente ao que há de de para a conquista de ganhos reais. Existem deter-
mais visivelmente negativo nas esferas nacionais, minadas leis que favorecem, sob diversos aspectos,
em escala planetária: superpolulação, epidemias, as lutas populares e resultam não apenas da von-
destruição ambiental, vícios, tráfico de drogas, ex- tade das classes dominantes, mas do somatório de
ploração do trabalho infantil, fanatismo, terroris- vários fatores que concorrem para a produção do
mo, violência urbana e criminalidade.” (ALVES, direito. O desprezo à legalidade reflete uma tenta-
1999, p.147). tiva de se alienar”.
38 42
Atilio BORÓN (1995, p. 102), neste particu- - Entende-se por lacuna, na dicção de BOB-
lar, enfatiza: “Não deixa de ser uma curiosa mos- BIO (1994, p. 140), “a falta não já de uma solução,
tra de sucesso o fato de que as economias que são qualquer que seja ela, mas de uma solução satisfató-
saneadas com o remédio neoliberal tenham mais ria, ou, em outras palavras, não já a falta de uma
pobres que nunca e a ‘dívida social’ cresça de for- norma, mas a falta de uma norma justa, isto é, de
ma incontida. As ‘instituições financeiras internaci- uma norma que se desejaria que existisse, mas que
onais’, eufemismo para se referir ao BM [Banco não existe. Uma vez que essas lacunas derivam
Mundial] e ao FMI [Fundo Monetário Internacio- não da consideração do ordenamento jurídico como
nal], recomendam calorosamente umas políticas ele é, mas da comparação entre ordenamento jurí-
que geram pobreza e exclusão social e, ao mesmo dico como ele é e como deveria ser, foram chama-
tempo, encomendam numerosas pesquisas sobre o das de “ideológicas” para distingui-las daquelas
tema e manifestam sua consternação pelo agrava- que eventualmente se encontrassem no ordenamento
mento do flagelo da pobreza na América Latina. jurídico como ele é, e que se podem chamar de “re-
Como se entende essa contradição, mais além da ais”. Podemos também enunciar a diferença deste
inegável cota de hipocrisia que permeia estas preo- modo: as lacunas ideológicas são lacunas de iure
cupações?” condendo (de direito a ser estabelecido), as lacunas
39
Pertence a Tércio Sampaio FERRAZ JÚNIOR reais são de iure conditio (do direito já estabelecido)”.
43
(1980) a ácida, porém realista, definição do ensino É oportuno destacar a advertência de José
jurídico predominante no País. Trata-se, segundo o Reinaldo de Lima LOPES (1989, p. 141), ao debru-
autor, do predomínio da “arte de saber fazer sem çar-se sobre a função política do Poder Judiciário:
saber por que”. “A interpretação ou hermenêutica é também um
40
Daí o questionamento de José Eduardo FA- tema filosófico fundamental de nosso tempo, reva-
RIA (1989, p. 96-97), ao se reportar à formação dos lorizada pela filosofia da linguagem e pela filosofia
atores jurídicos: “Estarão sendo eles formados na da história. No direito a hermenêutica sempre foi

Brasília a. 40 n. 160 out./dez. 2003 219


um tema-chave. As decisões dos tribunais fixam BONAVIDES, Paulo. Do Estado liberal ao Estado so-
os limites e o sentido das leis e dos atos do Estado. cial. 4. ed. Rio de Janeiro: Forense, 1980.
Ao fazer isto ele é portador de pontos de vista que
BORÓN, Atílio. A sociedade civil depois do di-
vão prevalecendo. O mais importante ao consi-
lúvio neoliberal. In: SADER, E.; GENTILI, P.
derarmos esta função é perceber o isolamento
(Org.). Pós-neoliberalismo: as políticas sociais e o
social e político do Judiciário na atual crise do
Estado democrático. Rio de Janeiro: Paz e Terra,
Estado”.
44 1995.
É voz corrente em todo o mundo, por exem-
plo, a premente necessidade de se promover a defe- CANOTILHO, José Joaquim Gomes. Direito Cons-
sa do meio ambiente; e não se pode negar que tal titucional. 3. ed. Coimbra: Almedina, 1983.
meta remete à solução de inúmeros outros impas-
ses umbilicalmente vinculados a essa questão, tais CERLETTI, Alejandro A.; KOHAN, Walter O. A
como, melhoria dos níveis educacionais da po- filosofia no ensino médio: caminhos para pensar seu
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