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Proteção constitucional dos direitos

fundamentais culturais das minorias sob a


perspectiva do multiculturalismo

Ana Maria D´Ávila Lopes

Sumário
1. Introdução; 2. Definindo as minorias;
3. O Multiculturalismo; 4. A contribuição
de Will Kymlicka na defesa das minorias
culturais; 5. Os direitos culturais como
direitos fundamentais; 6. Proteção consti-
tucional da diversidade cultural humana;
7. Conclusão.

1. Introdução
Através dos séculos da história da hu-
manidade, as minorias têm sido eliminadas,
assimiladas ou discriminadas, o que afronta
o princípio da dignidade inerente a todo
ser humano. Essa é uma situação que tem
ficado muito mais patente como conseqüên-
cia do processo de globalização, quando o
mundo parece não ter mais fronteiras nem
para o trânsito das pessoas e nem para a
divulgação dessas violações.
Nesse contexto, é que este artigo visa ana-
lisar os direitos culturais das minorias sob a
perspectiva da Teoria do Multiculturalismo,
que visa justamente contribuir na construção
das bases teóricas para o pleno reconheci-
mento, proteção e promoção dos direitos
Ana Maria D´Ávila Lopes é doutora em fundamentais dos grupos minoritários.
Direito Constitucional pela Universidade Fe-
deral de Minas Gerais. Professora do Mestrado
em Direito Constitucional da Universidade 2. Definindo as minorias
Federal do Ceará. Professora do Programa de Remillard (1986, p. 14) ensina que a
Pós-graduação em Direito da Universidade de
história moderna da proteção internacio-
Fortaleza. Bolsista de Produtividade em Pes-
quisa do CNPq. nal dos direitos das minorias começou nos

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séculos XVI e XVII, em relação à proteção a) critérios objetivos:
das minorias religiosas. Assim, o Tratado − a existência em um Estado de um
de Westphalia de 1648, que declarou o grupo de pessoas com características étni-
princípio da igualdade entre católicos e cas, religiosas ou lingüísticas diferentes ou
protestantes, pode ser considerado o pri- distintas do resto da população;
meiro documento em garantir direitos a − a diferença numérica do grupo mino-
um grupo minoritário. ritário em relação ao resto da população;
Nos anos seguintes, outros tratados ga- − a posição não dominante desse grupo
rantindo especialmente a liberdade religio- minoritário.
sa foram surgindo. Contudo, é importante b) critério subjetivo:
assinalar que, em todos esses casos, o prin- − o desejo das minorias de preservarem
cipal objetivo dos tratados era a celebração os elementos particulares que as caracteri-
da paz e não exatamente a proteção direta zam, ou seja, a vontade comum do grupo
de uma determinada minoria. de conservar seus rasgos distintivos.
Talvez o primeiro momento mais es- Em função desses critérios, Capotorti
pecífico de proteção das minorias possa (apud REMILLARD, 1986) define as mi-
ser considerado a Conferência da Paz norias como:
(Paris 1919), que expressamente declarou “un groupe numériquement infe-
a igualdade de todas as pessoas perante a rieur au reste de la population d´un
lei, a igualdade dos direitos civis e políti- Etat, en position non dominante,
cos, a igualdade de trato e a segurança das dont les membres – ressortissants de
minorias. Cabe, sem dúvida, à Sociedade l´Etat – possedent du point de veu
das Nações o mérito de ter sido a primeira ethnique, religieux ou linguistique,
organização internacional que buscou pro- des caracteristiques qui different de
teger universalmente os direitos de todas celles du reste de la populatioon et
as pessoas. manifestent même de façon implicite
A partir daí, o grande salto foi dado un sentiment de solidarité, á l´effect
apenas em 1966 com o Pacto Internacional de preserver leur culture, leurs tradi-
dos Direitos Civis e Políticos, que, no art. 27, tions, leur religion ou leur langue.”
estabeleceu a proteção das minorias étnicas, No entanto, devemos chamar a atenção
lingüísticas e religiosas1. A Declaração para o fato de que certas minorias são maio-
Universal dos Direitos do Homem de 1948 rias numéricas, como sucedia na África do
não continha nenhuma menção expressa Sul no tempo do apartheid, em relação à
sobre esse tipo de direito. população negra (WUCHER, 2000, p. 46).
A demora na regulação de tão essen- Nesse sentido, o critério objetivo numérico
ciais direitos pode ter sido conseqüência pode ser insuficiente para determinar o
da dificuldade em definir o termo minoria. conceito de minoria, sendo a sua exclusão
Capotorti (apud REMILLARD, 1986, p. 13), social e a falta de participação nas deci-
membro especial da subcomissão da ONU, sões políticas o melhor critério objetivo de
destaca a existência de dois tipos de crité- definição.
rios para definir as minorias: De qualquer forma, o tradicional con-
1
Art. 27 – “Nos Estados em que existam mino-
ceito de minoria tem-se limitado a consi-
rias, religiosas ou étnicas, não se negará às pessoas derar apenas as características lingüísticas,
que pertençam às ditas minorias o direito que lhes religiosas ou étnicas de um grupo para sua
corresponde, em comum com os demais membros de definição como minoritário. Conceito esse
seu grupo, a ter sua própria vida cultural, a professar
e praticar sua própria religião e a empregar o seu
que vem sendo ampliado por autores como
próprio idioma” (ORGANIZAÇÕES DAS NAÇÕES Semprini (1999) que, além de criticar esse
UNIDAS, 1966). conceito restritivo de minorias, assinala a

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importância de considerar outras carac- direitos. O reconhecimento pelo Estado
terísticas passíveis de serem aplicadas na da diversidade cultural e dos direitos
definição, levando-se em consideração a das minorias passa inevitavelmente pela
cultura e a realidade de cada sociedade. mediação institucionalizada de uma elite
Desse modo, todo grupo humano, cujos saída da própria minoria. Esse tipo de Mul-
membros tenham direitos limitados ou ticulturalismo provoca tanto apoios como
negados apenas pelo fato de pertencerem a rejeições, haja vista colocar em discussão
esse grupo, deve ser considerado um grupo as dicotomias: espaço público/privado,
minoritário. universalismo/relativismo de valores, di-
reitos individuais/coletivos, objetivismo/
3. O Multiculturalismo subjetivismo.
Semprini (1999, p. 90 et seq.) chama
O Multiculturalismo – também chama- essas dicotomias de “aporias conceituais”,
do de pluralismo cultural ou cosmopoli- afirmando que as diferenças entre a epis-
tismo – tenta conciliar o reconhecimento e temologia multiculturalista e a monocul-
respeito à diversidade cultural presente em turalista tornam difícil qualquer mediação
todas as sociedades. dialética, transformando as controvérsias
“A expressão multiculturalismo desig- decorrentes desse choque em quatro prin-
na, originariamente, a coexistência de for- cipais aporias conceituais:
mas culturais ou de grupos caracterizados a) essencialismo versus construtivismo:
por culturas diferentes no seio das socie- a noção de essencialismo é utilizada pelos
dades modernas (...). Existem diferentes defensores do Monoculturalismo para
noções de multiculturalismo, nem todas no sustentar que as minorias e suas identi-
sentido ‘emancipatório’. O termo apresenta dades são dados objetivos da realidade
as mesmas dificuldades e potencialidades social, “peças imóveis do mosaico social”.
do conceito de ‘cultura’, um conceito cen- Diferentemente, no enfoque construtivis-
tral das humanidades e das ciências sociais ta, endossado pelos multiculturalistas, as
e que, nas últimas décadas, se tornou terre- identidades minoritárias são o produto da
no explícito de lutas políticas.” (SANTOS; própria evolução histórica da sociedade,
NUNES, [200 - ?]) num contínuo processo dinâmico e trans-
Mikhaël Elbaz (2002, p. 27), pela sua formador.
vez, ensina que Multiculturalismo é um Os monoculturalistas utilizam o enfo-
conceito e uma ideologia, cuja polissemia que essencialista como argumento para
somente pode ser entendida no âmbito da legitimar o status quo e justificar qualquer
desestruturação da narração nacional, sob oposição a mudanças. Uma das manifes-
os efeitos da globalização. Nesse sentido, o tações teóricas do essencialismo é o ge-
Multiculturalismo pode ser entendido de nético, “para o qual cada grupo humano
diferentes formas, assim: está condicionado definitivamente quanto
à sua inteligência e em seu potencial de
3.1. O Multiculturalismo
mobilidade social conforme seu patrimônio
comunal e corporativo
genético” (SEMPRINI, 1999, p. 91). Nessa
O Multiculturalismo comunal e corpo- linha de pensamento, o prêmio Nobel de
rativo deriva da lógica da politização da Medicina James Watson pronunciou-se ao
luta entravada pelas minorias na busca atribuir como causa do atraso do continente
pelos seus direitos historicamente negados. africano a menor – segundo ele – capacida-
É essa uma lógica que ao mesmo tempo de intelectual dos negros. Afirmação pela
é pragmática e instrumental, na medida qual teve que posteriormente se desculpar
em que objetiva criar novos titulares de (BBC BRASIL, 2007).

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b) universalismo versus relativismo: o tamente salientar seu caráter conflitual e
universalismo defende a existência de valo- aparentemente insolúvel, cuja análise exige
res e julgamentos morais absolutos. Ensina uma visão de conjunto e interdisciplinar.
Semprini (1999, p. 92) que a “utopia univer-
salista nasce com o Iluminismo, concretiza- 3.2. O Multiculturalismo
se nas revoluções americana e francesa e é como ideologia política
traduzida politicamente nas instituições de- O Multiculturalismo como ideologia
mocráticas”. Contrariamente, os relativistas política busca se apoiar menos no Estado do
afirmam “a impossibilidade de estabelecer que contestar o monoculturalismo. Nesta
um ponto de vista único e universal sobre o perspectiva, o ressentimento multicultu-
conhecimento, a moral, a justiça, ao menos ralista é contra o eurocentrismo e o andro-
na medida em que existam grupos sociais centrismo, demandando uma releitura da
ou minorias com finalidades e projetos de história e a desconstrução da comunidade
sociedade diferentes” (SEMPRINI, 1999). do saber. Busca-se, assim, partir da noção
Para os multiculturalistas, o universalismo da existência de humanos diferenciados e
é uma violência, haja vista pretender elimi- não de um ideal de igualdade, que oculta
nar a diferença e impor um ponto de vista versões e interpretações da diferença fun-
particular apresentado como universal. dadas numa unidade imaginária.
c) igualdade versus diferença: a igual- Numa análise da sociedade americana,
dade é a base da utopia universalista que, Semprini afirma que, desde a Declaração da
ignorando as desigualdades econômicas, Independência dos Estados Unidos, as eli-
culturais e sociais dos indivíduos, prevê tes políticas e culturais do país provinham
direitos cuja real eficácia se perde no forma- da tradição puritana e anglo-saxônica,
lismo, favorecendo e fortalecendo a maioria. condicionando o ulterior desenvolvimento
Para os multiculturalistas, o espaço social é americano. Assim, acrescenta que “a alma
heterogêneo. Dessa forma, qualquer aplica- do país permaneceu branca, anglosaxônica
ção de uma lei que seja cega às diferenças e protestante (WASP)” (SEMPRINI, p. 24),
existentes entre os indivíduos e os trate como deflagrando a concepção do modelo de
se estivessem em igualdade de condições cidadão americano como o homem, branco-
estará sendo claramente discriminatória. anglosaxão e protestante, excluindo-se,
d) reconhecimento subjetivo versus como tal, qualquer indivíduo que não
mérito objetivo: os multiculturalistas sa- reunisse essas qualidades.
lientam a importância do reconhecimento
para ajudar a fortalecer a auto-estima dos 3.3. O Multiculturalismo e a
membros dos grupos minoritários. Esse Síndrome Benetton
reconhecimento é concretizado com a O Multiculturalismo e a Síndrome Benet-
adoção de livros didáticos e programas de ton refere-se à mercantilização da cultura.
ensino nos quais é resgatada a contribuição O mundo como um bazar faz temer a ba-
histórico-social das minorias e, especial- belização da cultura, mas assinala simulta-
mente, se concretiza por meio de ações neamente a capacidade da reinterpretação
afirmativas, como as cotas educacionais. contextualizada dos produtores e receptores
Essa perspectiva é fortemente criticada das mensagens e dos bens. O mundo tem-se
pelos monoculturalistas, que defendem a convertido numa aldeia global, caracterizan-
política do mérito, ressaltando o aspecto do-se como um mosaico de sabores, sons e
positivo da competência e reivindicando cheiros, que mostra que o Multiculturalismo
critérios objetivos de avaliação. não necessariamente significa pluralismo
Semprini (1999, p. 95) qualifica essas cultural, mas, às vezes, reduz a cultura a
quatro aporias como oposições para jus- uma única adaptada às exigências locais.

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Elbaz (2002, p. 31) afirma que a ge- pação política, visto que o maior problema
neralização desse Multiculturalismo nas existente em muitos estados é que o exer-
grandes cidades pode dificultar ainda mais cício da cidadania depende da nacionali-
a convivência de populações heterogêneas dade. As formas tradicionais de aquisição
devido à falta de um referencial comum que da nacionalidade são duas: a) nascer no
as permita viver juntas. território do Estado (ius soli); b) ser des-
Após a análise dos três modelos, Elbaz cendente de um nacional (ius sanguinis). O
(2002, p. 32) resume o Multiculturalismo a primeiro critério é basicamente utilizado
duas proposições: pelos Estados de imigração (como os Es-
− apesar das nossas diferenças, todos somos tados do continente americano), enquanto
humanos, afirmação derivada da concepção que o segundo critério é utilizado pelos
pauliana fundadora do universalismo cris- Estados de emigração (estados europeus
tão, que reconhece a alteridade como parte na sua maioria). De qualquer forma, esses
interna da humanidade; critérios são hoje inadequados levando-se
− é graças às nossas diferenças que podemos em consideração o alto grau de mobilidade
aceder à humanidade, proposição decorrente das pessoas no mundo globalizado. Assim,
da “lectura herderiana del mundo, que pre- os estados europeus não são mais estados
sume que todo conjunto humano tiene un exclusivamente de emigração, pois muitos
Geist, una singularidad que tiene derecho deles apresentam um significativo número
a preservarse y a transmitirse” (ELBAZ, de imigrantes, enquanto que os estados
2002, p. 33). americanos apresentam uma expressiva
população que emigra a outros estados em
4. A contribuição de Will Kymlicka na busca de novas oportunidades de vida. A
defesa das minorias culturais impossibilidade do acesso à condição de
nacional desses imigrantes é extremamente
Além das controvérsias na doutrina a grave na medida em que esse fato provoca
respeito da própria definição de minorias, sua exclusão do exercício da cidadania, o
pouco tem sido feito para estabelecer um que, pela sua vez, decorre da limitação e,
elenco especial de direitos visando garantir até negação, de muitos direitos fundamen-
o pleno exercício da cidadania e a inclusão tais. (GELBAZ; HELLY, 2002).
na sociedade dos grupos minoritários. b) o Estado multinacional: no qual co-
Nesse sentido, a contribuição de Kymlicka existem mais de uma nação devido a um
(1996) tem sido notável. O autor canadense processo de convivência involuntária (in-
distingue, inicialmente, dois modelos de vasão, conquista ou cessão) ou voluntária
Estados multiculturais (KYMLICKA, 1996, (formação de uma federação) de diferentes
p. 14): povos. As minorias desse tipo de estado são
a) o Estado multiétnico: correspondente basicamente nações que existiam origina-
ao Estado onde convivem várias nações riamente no território do estado, passando
devido a um processo de imigração como, a conviver com outras nações que chegaram
por exemplo, os Estados Unidos, Canadá e posteriormente, como é o caso dos aborígi-
Austrália. Não obstante os imigrantes não nes canadenses, dos índios americanos ou
ocuparem terras natais, podem ser conside- dos indígenas brasileiros.
rados grupos minoritários, com a condição Durante muito tempo, os estados ameri-
de que se estabeleçam conjuntamente e canos, e outros tradicionalmente considera-
obtenham competências de autogoverno. dos estados de imigração como a Austrália
O grande desafio dos estados chamados ou o Brasil, ignoraram os direitos das suas
multiétnicos é garantir que os imigrantes nações originárias, fundados na errônea e
possam ter acesso aos direitos de partici- lamentável concepção de que essas nações

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“não tinham cultura” ou “eram de cultura limitação mencionada por Kymlicka tem
inferior”, em relação à cultura ocidental. provocado a negação de qualquer direito
Kymlicka dirige sua atenção, precisa- de autogoverno às nações originárias dos
mente, a esses grupos minoritários, às na- estados multinacionais;
ções originárias, consoante com a definição b) Direitos especiais de representação:
tradicional de minoria da ONU, que apenas direitos que visam garantir a participação
reconhece os grupos com especiais carac- das minorias no processo político, por meio
terísticas étnicas, lingüísticas ou religiosas de, por exemplo, ações afirmativas;
como minorias. Dessa maneira, Kymlicka c) Direitos poliétnicos: dirigidos a fo-
dedica sua Teoria do Multiculturalismo a mentar a integração das minorias na socie-
analisar as culturas minoritárias entendidas dade, denominados assim porque “tienen
essas apenas como nações ou povos. Não como objetivo ayudar a los grupos étnicos
obstante o autor canadense afirme não y a las minorías religiosas a que expresen
desconhecer a existência ou a importância su particularidad y su orgullo cultural sin
de outros grupos minoritários, como as que ello obstaculice su éxito en las institu-
mulheres, homossexuais, idosos, etc.2. Li- ciones económicas y políticas de la sociedad
mitação que não prejudica a importância da dominante” (1996, p. 53). Esses direitos se
repercussão das suas propostas na defesa concretizam, por exemplo, na exigência de
das minorias em geral. subvenção pública para as práticas cultu-
Desse modo, Kymlicka (1996) propõe o rais das comunidades ou para ter acesso em
reconhecimento dos seguintes três tipos de condições de igualdade ao intercâmbio de
direitos especialmente destinados a garan- bens e serviços.
tir a proteção das minorias e sua inclusão Desses três grupos de direitos, impõe-se
na sociedade: ressaltar, para fins deste artigo, o terceiro
a) Direitos de autogoverno: a maioria grupo, ou seja, os direitos poliétnicos que
das nações minoritárias tem recorrentemen- objetivam a proteção das diferentes ma-
te reivindicado o direito a alguma forma de nifestações culturais das minorias, acorde
autonomia política ou de jurisdição territo- com um modelo de Estado Democrático
rial. Direito esse que está previsto na Carta de Direito, no qual todos os seres humanos
o
das Nações Unidas de 1945, no artigo 1 , no devem ter seus direitos fundamentais ga-
qual se estabelece o direito de autodetermi- rantidos, excluindo-se qualquer forma de
nação dos povos. O grande problema tem discriminação.
sido a delimitação do significado do termo
“povos”, visto que tradicionalmente esse 5. Os direitos culturais como
direito não tem sido aplicado às minorias direitos fundamentais
nacionais internas (as minorias originárias,
como os indígenas), mas apenas às colônias Os direitos fundamentais podem ser
de ultramar (“tese da água salgada”). Essa definidos como normas constitucionais de
caráter principiológico, que visam prote-
2
Kymlicka (1996, p. 35) reconhece a extrema abran- ger diretamente a dignidade humana nas
gência do termo cultura, podendo este aludir tanto a suas diferentes manifestações e objetivam
um grupo com diferentes costumes (“cultura gay”),
legitimar a atuação do poder jurídico-
a um tipo de civilização (“civilização ocidental”), ou
remeter à idéia de nação ou povo, sendo justamente estatal e dos particulares (LOPES, 2001).
esta última acepção a utilizada pelo autor canadense, Da definição pode-se inferir que os direitos
seguindo a corrente instaurada pelo Pacto de Direitos fundamentais são normas positivas do mais
Individuais e Políticos de 1996, que apenas reconhece
alto nível hierárquico, visto a sua função de
como minoria os grupos lingüísticos, étnicos ou reli-
giosos minoritários, sem que isso signifique desconhe- preservar a dignidade de todo ser humano,
cer a importância das outras acepções. tarefa que deve ser centro e fim de todo agir.

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Aliás, a proteção da dignidade humana é de Direito. A insistência pelo emprego do
o elemento essencial para a caracterização questionado termo geração, que parece
de um direito como fundamental. É claro indicar que a nova geração extinguiria
que todo direito, toda norma jurídica, tem a anterior, deve-se ao fato de que hoje a
como objeto a salvaguarda e bem-estar do doutrina é unânime em aceitar que as três
ser humano – ou pelo menos assim deveria gerações coexistem sem extinguir uma a
sê-lo – mas, no caso dos direitos fundamen- outra, descartando, assim, qualquer tipo de
tais, essa proteção é direta e sem mediações confusão que o termo possa provocar.
o o
normativas. O §1 do art. 5 da Constituição A bibliografia existente a respeito de
Federal acolhe essa vertente teórica quando quase todos esses direitos é muito rica
estabelece que todas as normas de direitos e variada, não apenas no Brasil, mas no
e garantias fundamentais têm aplicação mundo todo. Não é difícil encontrar obras,
imediata. Assim, por exemplo, afirmar pesquisas e estudos sobre o direito à vida,
que toda manifestação cultural deve ser à liberdade, à igualdade ou à propriedade,
primordialmente protegida é reconhecer clássicos direitos individuais. Dos direitos
que todo povo tem o igualitário direito ao políticos muito, também, tem-se escrito,
seu reconhecimento e preservação como tal, especialmente nos dias atuais com a redefi-
sem necessidade de prévias qualificações nição do conceito de cidadania. Os direitos
nem regulação infraconstitucional. sociais e econômicos, por sua vez, têm sido
O caráter principiológico dos direitos objeto de análises e discussões que têm
fundamentais, pela sua vez, deriva da até ultrapassado os âmbitos do discurso
estrutura abstrata do seu enunciado, con- jurídico, para tornarem-se centro de aten-
forme os ensinamentos do jurista alemão ção de outros cientistas preocupados com
Robert Alexy (1993). Por outro lado, afirma- a satisfação das necessidades básicas dos
se, também, que os direitos fundamentais seres humanos. Os novos direitos difusos,
buscam legitimar o Estado, na medida em como os que protegem o meio ambiente e
que a forma como esses direitos são pre- o consumidor, ou os decorrentes dos avan-
vistos, protegidos e promovidos em uma ços da biomedicina e da informática, têm
ordem estatal permitirá definir o grau de atraído também o interesse interdisciplinar
democracia vigente nesse Estado. de velhos e novos estudiosos do Direito.
Tradicionalmente, os direitos funda- Entretanto, pouco, ou quase nada, tem-se
mentais têm sido classificados em três ge- dedicado ao estudo dos direitos culturais.
rações de direitos, levando em consideração Os direitos culturais, incluídos na se-
a época histórica do seu surgimento. Nesse gunda geração dos direitos fundamentais,
sentido, a primeira geração de direitos, surgiram nos inícios do século XX, com o
que compreende os direitos individuais intuito de defender e promover basicamen-
e políticos, surgiu juntamente com a afir- te o direito à educação, visto que, à época, a
mação do individualista e abstencionista expressão direito cultural estava associada à
Estado Liberal de Direito, no fim do século idéia de instrução. Com o passar dos anos, e
XVIII. A segunda geração, que abrange os graças ao processo mundial de globalização
direitos sociais, econômicos e culturais, foi e aos aportes teóricos do Multiculturalismo,
produto das lutas e reivindicações sociais ampliou-se o conteúdo do termo cultura,
que deflagraram o intervencionista Estado sendo hoje entendido como toda manifes-
Social de Direito, consolidado na segunda tação criativa e própria do sentir e pensar
década do século XX. Por último, a terceira de um grupo social.
geração, que abarca todos os direitos difu- “A cultura é um conjunto de traços
sos, está ainda em fase de desenvolvimento distintivos espirituais e materiais, in-
e ampliação do atual Estado Democrático telectuais e afetivos que caracterizam

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uma sociedade ou um grupo social. com base nesse entendimento é que foram
a a
A cultura engloba, além das artes e aprovadas, nas 31 e 33 sessões gerais da
das letras, o modo de viver junto, UNESCO em 2002 e 2005, respectivamente,
o sistema de valores, as tradições e a “Declaração Universal sobre Diversidade
crenças.” (UNESCO, 2002). Cultural” e a “Convenção sobre a proteção
A ultrapassada identificação de cultura e promoção da diversidade das expressões
com instrução-educação não fazia mais do culturais” estabelecendo, esta última, entre
que refletir a errada concepção da hegemo- seus princípios:
o
nia da cultura européia, considerada como “Art. 2 Princípios orientadores
o modelo das outras. Desse modo, à época, (...)
não se podia falar de um direito cultural 3. Princípio da igual dignidade e do
como o direito de todo povo de se manifes- respeito de todas as culturas
tar segundo suas próprias tradições, costu- A protecção e a promoção da di-
mes ou valores, mas como direito de “toda versidade das expressões culturais
pessoa de aprender a cultura ocidental”. implicam o reconhecimento da igual
“A idéia de cultura, num dos seus dignidade e do respeito de todas as
usos mais comuns, está associada a culturas, incluindo as das pessoas
um dos domínios do saber institu- pertencentes a minorias e as dos po-
cionalizado de Ocidente, as huma- vos autóctones.” (UNESCO, 2006)
nidades. Definida como repositório Toda cultura, enquanto não afronte a
do que de melhor foi pensado e pro- dignidade humana, é válida e valiosa e,
duzido pela humanidade, a cultura, como tal, deve ser respeitada e protegida.3
neste sentido, assenta em critérios de Desse modo, os direitos fundamentais
valor, estéticos, morais, ou cognitivos culturais que, na sua origem, referiam-se
que, definindo-se a si próprios como apenas ao direito à educação, mudaram
universais, elidem a diferença cultu- hoje de conteúdo. Assim, enquanto o direi-
ral ou a especificidade histórica dos to à educação passou hoje a ser identificado
objetos que classificam. (...). como instrução e compreendido como
Uma outra concepção, que coexiste um direito social, conforme o previsto no
o4
com a anterior, reconhece a plurali- art. 6 da Constituição Federal de 1988, os
dade de culturas, definindo-as como direitos fundamentais culturais passaram a
totalidades complexas que confun- se referir a todas as manifestações materiais
dem com as sociedades, permitindo e imateriais dos diversos grupos humanos.
caracterizar modos de vida assentes Foi dessa forma como o constituinte brasi-
em condições materiais e simbólicas. leiro concebeu esses direitos, prevendo-os
Esta definição leva a estabelecer dis- nos artigos 215 e 216.
tinções entre culturas que podem ser Com efeito, no art. 215, estabelece-se
consideradas seja como diferentes e a obrigação do Estado de proteger todas
incomensuráveis, e julgadas segun-
do padrões relativistas, seja como 3
No entanto, o reconhecimento da diversidade
exemplares de estádios numa escala cultural dos seres humanos não deve ser usado como
pretexto nem muito menos para justificar atos trans-
evolutiva que conduz do ‘elementar’ gressores à dignidade humana ou dos outros direitos
ou ‘simples’ ao ‘complexo’ e do ‘pri- fundamentais, conforme o disposto no art. 4o da Decla-
mitivo’ ao ‘civilizado’.” ( SANTOS; ração Universal sobre a diversidade cultural.
NUNES, [200-?]). 4
Art. 6o – “São direitos sociais a educação, a
saúde, o trabalho, a moradia, o lazer, a segurança,
Hoje, não mais deve entender-se que a previdência social, a proteção à maternidade e à
existem hierarquias de culturas nem impo- infância, a assistência aos desamparados, na forma
sições de modelos comportamentais. Assim, desta Constituição”. (Brasil, 1988)

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as manifestações populares, indígenas, mente iguais e, muito menos, culturalmente
afro-brasileiras e de todos os outros gru- iguais. O Direito deve tratar as pessoas
pos participantes do processo civilizatório como iguais, mas não visar igualá-las.
nacional, enquanto que, no art. 216, define- Deve-se promover o reconhecimento e
se o patrimônio cultural brasileiro como o a valorização de todos os grupos culturais.
conjunto de bens de natureza material e Valorização esta que deve ser inculcada
imaterial, tomados individualmente ou em desde os primeiros anos de formação da
conjunto, que sejam portadores de referên- pessoa, fixando-se, nos programas de en-
cia à identidade, à ação e à memória dos sino fundamental, o respeito aos valores
diferentes grupos formadores da sociedade culturais e artísticos, nacionais e regionais,
brasileira. conforme dispõe a Constituição (art. 210).
Portanto, os direitos fundamentais O ensino da história brasileira, por sua vez,
culturais não podem mais ser entendidos deve levar em conta as contribuições das
como sinônimos de instrução ou educação, diferentes culturas e etnias para a formação
o
sem que isso implique qualquer intenção do povo brasileiro (art. 242, § 1 ).
de diminuir-lhes sua importância ou trans- O resgate ao respeito da diversidade é
cendência para o desenvolvimento da per- um imperativo do Estado Democrático de
sonalidade humana. A presente proposta, Direito, no qual todas as culturas devem
diferentemente, dirige-se a contribuir para ter o direito de manifestar-se livremente,
a valorização da diversidade cultural de conforme o estabelecido no inciso IX, do
o
todos os povos5, por meio do cumprimento art. 5 : “é livre a expressão da atividade
e aperfeiçoamento das normas nacionais e intelectual, artística, científica e de comu-
internacionais vigentes. nicação, independentemente de censura
ou licença”.
6. Proteção constitucional da Portanto, é tarefa do Estado reconhecer,
diversidade cultural humana em primeiro lugar, essas diferenças para
assim protegê-las, proibindo qualquer tipo
Não existe nada mais rico do que a di- de discriminação e promovendo o bem de
versidade humana. Impor padronizações todos, sem preconceitos de origem, raça,
ou modelos culturais é ir de encontro à sexo, cor, idade ou quaisquer outras formas
própria natureza do ser humano e, con- de discriminação (inc. IV do art. 3 ).
o

seqüentemente, ir contra sua dignidade, Entretanto, não é suficiente apenas


princípio fundamental do Estado brasileiro proclamar o reconhecimento da diversi-
o
(art. 1 , III). dade cultural (art. 215), ou da liberdade
o
A norma prevista no caput do art. 5 , de manifestação de expressão da atividade
“todos são iguais”, deve ser interpretada intelectual, artística, científica e de comu-
no âmbito jurídico da sua aplicação. Todos, o
nicação (art. 5 , IX), ou a proibição de qual-
perante o Direito, são iguais, e assim devem o
quer forma de discriminação (art. 3 , III),
ser tratados pelo Direito6. Não obstante, se não se estabelecem normas concretas de
inexistem dois seres humanos biologica- proteção e promoção desses direitos. As-
sim, é competência comum da União, dos
5
O termo povo é utilizado neste texto no sentido
amplo de nação ou comunidade cultural, e não no
Estados, Distrito Federal e Municípios:
sentido político-jurídico. “Art. 23. (...)
6
Art. 5o – “Todos são iguais perante a lei, sem III – proteger os documentos, as obras
distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos e outros bens de valor histórico, ar-
brasileiros e aos estrangeiros residentes no País
a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à
tístico e cultural, os monumentos, as
igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos paisagens naturais notáveis e os sítios
seguintes: (...)” (BRASIL, 1988). arqueológicos;

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IV – impedir a evasão, a destruição e que se vive em uma sociedade democrá-
a descaracterização de obras de arte tica, na qual todas as pessoas têm iguais
e de outros bens de valor histórico, direitos de desenvolver plenamente sua
artístico ou cultural; personalidade.
V – proporcionar os meios de acesso
à cultura, à educação e à ciência; 7. Conclusão
(...)”
Impende salientar que a referida obri- No atual mundo globalizado, a defesa
gação não deve ficar reduzida à atuação do da diversidade cultural torna-se um im-
Poder Público, devendo existir a colabora- perativo ético indissociável do respeito à
o
ção da sociedade (216, § 1 ). Com efeito, dignidade humana, conforme o disposto na
a sociedade não pode ficar à margem da “Declaração Universal sobre a diversidade
efetivização dos direitos fundamentais. A cultural” da UNESCO. Assim, não é mais
Constituição Federal prevê diversos meca- possível aceitar que as manifestações cultu-
nismos de participação popular na defesa rais dos povos minoritários continuem não
de seus direitos. Participação esta que pode apenas sendo ignoradas, mas subjugadas,
ser de forma individual como, por exemplo, menosprezadas e até exterminadas. No sé-
por meio do exercício do direito de petição culo XXI, a humanidade ainda tem a chance
para denunciar ou reclamar a violação de de superar os erros do passado, porque
algum direito (conforme a alínea “a” do o reconhecimento e o respeito do Outro
o
inciso XXXIV do art. 5 ) ou da ação popu- constituem pressupostos para a construção
lar para defender o patrimônio histórico e e solidificação de uma sociedade pacífica.
o
cultural (inciso LXXIII do 5 ), ou de forma
coletiva, por meio da ação civil pública.
A responsabilidade da sociedade está Referências
também evidenciada na atividade econômi-
ca que, mesmo de natureza privada, deve ALEXY, Robert. Teoría de los derechos fundamentales.
viabilizar o desenvolvimento cultural e o Madri: Centro de Estudios Constitucionais, 1993.
bem-estar da população (art. 219). Assim, BBC BRASIL. Nobel se desculpa por declarações so-
por exemplo, na produção e programação bre inteligência negra. BBC Brasil, [S. l.], 19 out. 2007.
das emissoras de rádio e televisão devem Disponível em: <http://www.bbc.co.uk/portuguese/
reporterbbc/story/2007/10/071019_geneticistades-
ser atendidos os seguintes princípios: culpa_fp.shtml>. Acesso em: 07 nov 2007.
“Art. 221. (...)
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tivas; ccivil_03/Constituicao/Constituiçao.htm>. Acesso
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independente que objetive sua di- la sociedad-mundo. In: ______ ; HELLY, Denise.
vulgação; Globalización, ciudadanía y multiculturalismo. Granada:
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tural, artística e jornalística, conforme ______ ; HELLY, Denise. Globalização, ciudadanía y
percentuais estabelecidos em lei; multiculturalismo. Granada: Maristán, 2002.
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juntar esforços para a concretização dos LOPES, Ana Maria D´Ávila. Os direitos fundamentais
direitos fundamentais culturais, porque, como limites ao poder de legislar. Porto Alegre: Fabris,
somente dessa forma, poder-se-á afirmar 2001.

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