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O ideal de justiça política e constituição

em John Rawls
Análise dos pontos principais da “teoria da justiça como
equidade”

Paulo Roberto Barbosa Ramos e


Jorge Luís Ribeiro Filho

Sumário
1. Introdução. 2. Os princípios fundamen-
tais de justiça como reguladores da estrutura
básica da sociedade. 3. A estrutura básica da
sociedade como objeto primário da concepção
de justiça idealizada por John Rawls. 4. Posição
original: “status quo” inicial da teoria rawlsiana.
5. Peculiaridades do contrato social hipotético
rawlsiano. 6. Conclusão.

Introdução
John Rawls, filósofo norte-americano
falecido no ano de 2002, deixou como par-
te de seu legado uma teoria substancial,
contrária ao utilitarismo1, que transforma a
Paulo Roberto Barbosa Ramos é Professor de igualdade em um valor bastante palpável,
Direito Constitucional do Curso de Direito da até mesmo sob o ponto de vista político.
Universidade Federal do Maranhão, do Progra-
Falar em igualdade no campo da filo-
ma de Pós-graduação em Políticas Públicas da
UFMA (Mestrado e Doutorado), do Programa
sofia política contemporânea, por si só,
de Pós-graduação em Saúde e Ambiente da não representaria grande novidade. Na
UFMA (Mestrado). Pesquisador do UNICEU-
MA. Mestre em Direito pela UFSC. Doutor em
1
Ao estabelecer os contornos daquilo que seria o
objetivo principal de sua teoria, John Rawls estabele-
Direito pela PUC/SP. Coordenador do Núcleo
ceu que a sua construção buscaria ser uma nova alter-
de Estudos de Direito Constitucional da UFMA. nativa para aqueles que não se mostraram simpáticos
Promotor de Justiça no Estado do Maranhão. à sistemática dominante: “Talvez eu possa explicar o
Jorge Luís Ribeiro Filho é Graduando em meu objetivo principal neste livro da seguinte forma:
Direito pela Universidade Federal do Maranhão em grande parte da filosofia moral moderna, a teoria
(UFMA); Membro do Núcleo de Estudos de sistemática predominante tem sido alguma forma
Direito Constitucional da Universidade Fede- de utilitarismo. Um dos motivos para isso é que o
utilitarismo foi adotado por uma longa linhagem de
ral do Maranhão (NEDC – UFMA), Estagiário
brilhantes escritores, que construíram um corpo de
do Ministério Público do Estado do Maranhão pensamento verdadeiramente impressionante em seu
(Promotoria do Idoso de São Luís-MA), Bolsista alcance e refinamento. (...) O resultado é que muitas
de Iniciação Científica do CNPq (2009-2010 / vezes parecemos forçados a escolher entre o utilitaris-
2010-2011). mo e o intuicionismo.” (RAWLS, 2000b).

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verdade, muitos teóricos que atuam nesta e proporcionariam as bases necessárias e
seara já consagram tal valor fundamental possíveis para a efetivação da “Justiça como
como centro irradiador das mais plausíveis equidade”.
construções2. Nestas circunstâncias peculiares, os en-
John Rawls (2000b) demonstrou em tes representativos sagrariam os princípios
sua Teoria da Justiça que conseguiu captar, de justiça social que mais satisfizessem
de forma peculiar, a essência desse valor. aos seus anseios comuns. Em consonância
Repaginando a hipótese tradicional do com a teoria em análise, os princípios que
contrato social, ele obteve uma construção preencheriam com maior excelência os pré-
herdeira do pensamento kantiano3, otimista -requisitos exigidos seriam os seguintes4:
e politicamente aceitável. A) Cada pessoa tem o mesmo direito
A situação pensada por Rawls, apesar irrevogável a um esquema plenamente
de preponderantemente hipotética, fornece adequado de liberdades básicas iguais que
expectativas interessantes, tanto do ponto seja compatível como mesmo esquema de
de vista coletivo quanto do individual. liberdades para todos.
Chega-se, assim, à conclusão de que seria B) As desigualdades sociais e econô-
possível obter um convívio social mais micas devem satisfazer duas condições:
acolhedor se a realidade fosse encarada a primeiro, devem estar vinculadas a cargos e
partir do prisma da razoabilidade. posições acessíveis a todos em condições de
Resumidamente, o autor convida igualdade de oportunidades; e, em segun-
os estudiosos de sua teoria a pensarem do lugar, tem de beneficiar ao máximo os
que, situadas em uma posição original e membros menos favorecidos da sociedade.
recobertas por um véu de ignorância, as A partir de uma rápida leitura dos prin-
pessoas firmariam um “pacto igualitário” cípios acima transcritos, pode-se inferir,
entre outras coisas, que a teoria da Justiça
2
Neste ponto, é interessante endossar a ideia do enquanto Equidade se embasa na ideia de
filósofo Ronald Dworkin, trazida à baila por Will que os empenhos de cada componente da
Kymlicka, porquanto entende-se que a interpretação
dispensada ao valor igualdade, na Teoria da Justiça, foi
sociedade têm valor igual e, portanto, me-
bem mais importante que a sua própria escolha: “(...) recem tratamento similar, até mesmo por
Na visão de Dworkin, toda teoria política plausível força do que dispõe o chamado princípio
tem o mesmo valor fundamental, que é a igualdade. da diferença.
São todas teorias igualitárias. (...) Esta sugestão é Para efeito de melhor compreensão da
claramente falsa se compreendermos ‘teoria igualitá-
ria’ como teoria que sustenta uma distribuição igual proposta deste artigo, é fundamental res-
de renda. Mas há outra idéia de igualdade na teoria saltar que não se pretende explorar, minu-
política, mais abstrata e mais fundamental – a saber, ciosamente, o intenso caminho que abarca o
a idéia de tratar as pessoas como iguais. (...)” / “(...) exame da proposição acerca da justiça feita
A sugestão de Dworkin é a de que a idéia de que cada
pessoa tem importância igual está na essência de todas
por Rawls. Não se aspira discutir todos os
as teorias políticas plausíveis.” / “Se a sugestão de meandros de sua tese.
Dworkin estiver correta, então, o ceticismo que muitas Acredita-se que existam pontos da teo-
pessoas sentem a respeito da possibilidade de solu- ria rawlsiana que, por sua natureza e pela
cionar racionalmente debates entre teorias de justiça
função que exercem, merecem um maior
pode estar mal colocado ou, de qualquer maneira,
ser precipitado. (...) Enquanto a visão tradicional nos empenho interpretativo. Sendo assim, esta
diz que o argumento fundamental na teoria política
é aceitar ou não a igualdade como valor, esta visão 4
Os princípios em discussão foram elaborados e,
revista nos diz que o argumento fundamental não diversas vezes, reformulados por John Rawls (2003)
é aceitar ou não a igualdade, mas interpretá-la. (...)” durante o desenvolvimento da teoria da Justiça como
(KYMLICKA, 2006, p. 5). equidade; por opção metodológica, procurou-se
3
Ver “O Construtivismo kantiano na teoria mo- utilizar no presente artigo a formulação encontrada
ral”, presente na obra: Rawls, 2000. na obra “Justiça como equidade: uma reformulação”.

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análise voltar-se-á apenas a questões rela- os membros menos favorecidos da
cionadas aos pontos principais e sobre os sociedade.”
quais é possível falar mais objetivamente. Rawls defendeu a ideia de que dois
Para que se alcance a meta proposta, o princípios de justiça teriam sido escolhidos
presente trabalho adotará o seguinte enca- por agentes racionalmente autônomos em
deamento: num primeiro momento, serão um status quo inicial denominado de posição
abordadas questões referentes à escolha da original5. O primeiro deles buscaria assegu-
estrutura básica da sociedade como objeto rar as liberdades básicas de gozo individua-
da “teoria da justiça como equidade”. Pos- lizado por parte de cada cidadão, enquanto
teriormente, analisar-se-ão os princípios de que o segundo voltar-se-ia à amenização
justiça apontados por Rawls como aqueles das desigualdades socioeconômicas co-
que seriam escolhidos na posição original, muns e inevitáveis em um contexto social.
sob influência de determinados fatores de Logo nas primeiras linhas de seu livro
ordem procedimental. Depois, as atenções “Uma Teoria da Justiça”, o autor estabe-
serão voltadas à posição original, momento leceu:
no qual se enfatizará que ela é um expe- “(...) a idéia norteadora é que os
diente de exibição utilizado pelo autor com princípios da justiça para a estrutura
o escopo de conceber a igualdade entre os básica da sociedade são o objeto de
indivíduos. Já à guisa de encerramento, se- consenso original. São esses princí-
rão trazidos à discussão pontos remissivos pios que pessoas livres e racionais,
ao contrato social hipotético, oportunidade preocupadas em promover seus
em que se afirmará que tal mecanismo, próprios interesses, aceitariam numa
apesar de bastante usual, é utilizado pelo posição inicial de igualdade como
filósofo com outros objetivos, distintos dos definidores dos termos fundamentais
rotineiramente perseguidos. de sua associação. Esses princípios
devem regular todos os acordos
2. Os princípios fundamentais subseqüentes; especificam os tipos
de cooperação social que se podem
de justiça como reguladores da
assumir e as formas de governo que
estrutura básica da sociedade
se podem estabelecer. A essa maneira
Reveja-se uma das mais recentes formu-
lações dos princípios de justiça elaborados 5
A ideia de que os princípios estariam a serviço
por Rawls (2003), extraída do seu livro “Jus- daquilo que o autor chamou de “justiça do contexto
social” fica clara, mesmo que de forma embrionária, no
tiça como equidade: uma reformulação” e presente fragmento da sua obra: “Sustentarei, ao con-
já expressa no tópico introdutório: trário, que as pessoas na situação inicial escolheriam
“1o princípio: Cada pessoa tem o mes- dois princípios bastante diferentes: o primeiro exige a
mo direito irrevogável a um esquema igualdade na atribuição de deveres e direitos básicos,
enquanto o segundo afirma que as desigualdades
plenamente adequado de liberdades econômicas e sociais, por exemplo desigualdades de
básicas iguais que seja compatível riqueza e autoridade, são justas apenas se resultam
com o mesmo esquema de liberdades em benefícios compensatórios para cada um, e par-
para todos. ticularmente para os membros menos favorecidos
da sociedade. Esses princípios excluem instituições
2o princípio: As desigualdades sociais que se justificam com base no argumento de que as
e econômicas devem satisfazer duas privações de alguns são compensadas por um bem
condições: primeiro, devem estar vin- maior do todo. Pode ser conveniente, mas não é justo
culadas a cargos e posições acessíveis que alguns tenham menos para que outros possam
prosperar. Mas não há injustiça nos benefícios maiores
a todos em condições de igualdade conseguidos por uns poucos desde que a situação dos
de oportunidades; e, em segundo menos afortunados seja com isso melhorada. (...)”
lugar, tem de beneficiar ao máximo (RAWLS, 2000b, p. 16).

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de considerar os princípios de justiça de Rawls, atuariam na estrutura básica da
eu chamarei de justiça como equida- sociedade, com força vinculativa advinda
de.” (RAWLS, 2000b, p. 12). da isonomia do processo de escolha, bem
Nesse estágio pré-contratual, os in- como do “consenso” obtido na posição
divíduos representativos, por motivos original.
estratégicos, estariam encobertos por um John Rawls, buscando conferir maior
véu de ignorância, o qual enfraqueceria as aplicabilidade aos princípios concebidos,
ambições individuais, uma vez que possi- advertiu que, para que atingissem seus
bilitaria o desconhecimento transitório de objetivos, eles deveriam estar dispostos
determinadas particularidades das suas obedecendo a uma ordem de prioridade,
próprias naturezas6. segundo a qual o primeiro princípio tem
Por tudo quanto exposto, facilmente se primazia sobre o segundo (ordem lexical
chega à conclusão de que a Teoria defendi- ou ordenação serial):
da por Rawls partiu da concepção de justiça “Esses princípios devem obedecer
procedimental pura, ou seja, passou-se a a uma ordenação serial, o primeiro
considerar que, se os princípios de justiça antecedendo o segundo. Essa orde-
foram escolhidos em um estágio em que nação significa que as violações das
predominou a equidade e a ausência de sub- liberdades básicas iguais protegidas
missão entre os homens, eles eram justos7. pelo primeiro princípio não podem
Os princípios8, como elementos com ser justificadas nem compensadas
maior carga axiológica da Teoria da Justiça por maiores vantagens econômicas
e sociais. Essas liberdades têm um
6
Este entendimento encontra-se registrado, por âmbito central de aplicação dentro
exemplo, na seguinte passagem: “Na justiça como
equidade a posição original de igualdade corresponde do qual elas só podem ser limitadas
ao estado de natureza na teoria tradicional do contrato ou comprometidas quando entram
social. (...) Entre as características essenciais dessa situ- em conflito com outras liberdades
ação está o fato de que ninguém conhece seu lugar na
básicas.” (Idem, p. 65).
sociedade, a posição de sua classe ou o status social e
ninguém conhece sua sorte na distribuição de dotes e Analisando com maior rigor as disposi-
habilidades naturais, sua inteligência, força, e coisas se- ções contidas nos dois princípios de justiça
melhantes. (...) Os princípios da justiça são escolhidos elaborados por Rawls, percebe-se que, de
sob um véu de ignorância. Isso garante que ninguém é
favorecido ou desfavorecido na escolha dos princípios
fato, sua teoria só teria aplicabilidade em
pelo resultado do acaso natural ou pela contingência uma sociedade democrática, marcada por
de circunstâncias sociais. (...)” (RAWLS, 2000b, p. 13). um sistema de intensa cooperação com-
7
Para que a proposta de John Rawls seja corre- posto e gerido por indivíduos razoáveis e
tamente entendida, precisa-se aceitar que, se o local
ou o momento onde a escolha dos princípios foi feita
dispostos a colaborar para o desenvolvi-
era marcado por completa ausência de subordinação mento de uma comunidade forte, porém,
entre os homens, pautada na isonomia, a escolha sem abrir mão de seus planos pessoais.
dos princípios que regulariam a estrutura básica da O problema da escolha racional e ra-
sociedade também foi justa. É o que se depreende da
seguinte citação: “[...] a justiça procedimental pura zoável dos princípios de justiça em um
se verifica quando não há critério independente para momento marcado pela isonomia e pela
o resultado correto: em vez disso, existe um proce- ausência de subordinação entre os indi-
dimento correto ou justo de modo que o resultado víduos (posição original) desperta, ainda
será também correto ou justo, qualquer que seja ele,
contanto que o procedimento tenha sido corretamente
aplicado. (...)” (RAWLS, 2000b, p. 92). várias ordenações sociais que determinam essa divisão
8
A função primordial dos princípios, nesse desvantagens, e para que se firme um acordo quanto
momento inicial de organização da estrutura básica às partes distributivas adequadas. Essas exigências
da sociedade, pode ser extraída da seguinte ideia definem o papel da justiça. As condições básicas que
materializada pelo filósofo em estudo: “(...) Assim, dão origem a essas necessidades são as circunstâncias
princípios são necessários para que se escolha entre as da justiça.” (RAWLS, 2000b, p. 137).

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hoje, bastante polêmica. Nesta senda, váli- uma relação “harmônica e convergente” en-
da é a seguinte indagação: John Rawls teria tre os chamados juízos intuitivos e os prin-
arriscado a plausibilidade de sua teoria ao cípios de justiça social, responsáveis pela
recorrer a dispositivos como a posição ori- regulação da estrutura básica da sociedade:
ginal e o contrato social para influenciarem “[...] Podemos esperar por um proce-
na escolha de determinados princípios? dimento de vai-e-vem entre nossos
Acredita-se que não. O filósofo norte- juízos intuitivos e a estrutura dos
-americano parece ter partido do pressu- princípios explicativos, fazendo ajus-
posto de que o peso das convicções morais tes primeiro em um dos lados, e em
dos seres representativos utilizados por seguida no outro, até chegar ao que
ele na posição original coloca tais recursos Rawls chamou de estado de equilíbrio
(posição original e contrato social hipoté- reflexivo, no qual ficamos satisfeitos
tico) mais como garantidores do que como ou pelo menos tão satisfeitos quanto
fundamentadores de sua teoria. podemos racionalmente esperar. (...)
Ele procurou, por meio desses expe- Pode perfeitamente acontecer que,
dientes, mostrar que o emprego atual pelo menos para a maioria de nós,
(pós-contratual) dos dois princípios da nossos juízos políticos habituais per-
justiça social seria conveniente, pois, em um maneçam nessa relação de equilíbrio
caráter prévio (pré-contratual), apesar de as reflexivo com os dois princípios de
condições terem sido outras, fora razoável justiça de Rawls, ou pelo menos que
anuir com eles. assim possa ser feito através do pro-
O idealizador da Justiça como equidade cesso de ajuste que acabei de descre-
defendeu que as pessoas possuem um en- ver. [...]” (DWORKIN, 2007, p. 244).
tendimento intuitivo, ou, até mesmo, uma No mesmo sentido, Rawls (2000b, p. 22):
ponderação procedente da “vivência diá- “[...] Todavia, há um outro aspecto
ria”, a qual aponta para o fato de que certos para a justificativa de uma determi-
juízos convencionais são inerentemente nada descrição da posição original,
retos e outros absolutamente inaplicáveis, que consiste em observar se os prin-
porquanto corrompidos pelo egoísmo, que cípios eventualmente escolhidos
cega o homem médio. combinam com nossas ponderações
Dessa forma, a metodologia utilizada sobre a justiça ou se as ampliam
por ele buscou elencar princípios que moti- de um modo aceitável. Podemos
vassem e aclarassem os nossos próprios ju- observar se a aplicação desses prin-
ízos ponderados, retirando, de certa forma, cípios nos levaria a fazer, a respeito
a “responsabilidade fundamentadora” que, da estrutura básica da sociedade,
se fosse totalmente atribuída à posição ori- os mesmos julgamentos que agora
ginal e ao contrato social hipotético, poderia fazemos intuitivamente e nos quais
tornar o seu argumento bastante inerme. depositamos a maior confiança; ou
É ideal que tal entendimento seja sedi- se, nos casos em que nossas opiniões
mentado a partir da técnica do equilíbrio atuais são vacilantes, esses princípios
reflexivo9, a qual pode ser caracterizada por mostram uma solução que podemos
aceitar após reflexão. [...]”
9
Nas palavras do próprio autor: “Volto-me agora
para a noção do equilíbrio refletido. A necessidade
dessa idéia surge da seguinte maneira: segundo o o nosso senso de justiça. (...) Como vimos, esse estado
objetivo provisório da filosofia moral, pode-se dizer é aquele que se atinge depois que uma pessoa avaliou
que justiça como equidade é a hipótese segundo a qual várias concepções propostas e decidiu ou revisar seus
os princípios que seriam escolhidos na posição original juízos para conformar-se com um deles ou manter-se
são idênticos àqueles que correspondem aos nossos ju- firme nas próprias convicções iniciais (e na concepção
ízos ponderados e, assim, esses princípios descrevem correspondente). (...)” (RAWLS, 2000, p. 51-52).

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John Rawls utilizou, portanto, a posição Acaba sendo incontestável que John
original e o contrato social para mostrar, Rawls se propõe a desenvolver uma teoria
hipoteticamente, que as pessoas teriam marcada pelo bom senso e pelo compro-
aceitado seus princípios de justiça, sofrendo metimento com a amenização e justificação
influência das adequadas condições, se ti- das desigualdades10 inerentes a todos os
vessem sido sondadas, mas isso correspon- modelos sociais, pois, conforme foi possível
deria a outro momento de reflexão, já que perceber, pela elaboração de seus princípios
uma das condições primárias para o aceite de justiça, o autor mostrou-se sensível a
racional é que tais princípios figurem como duas questões, sem as quais não há como
uma justificação de nossas convicções. falar em justiça, quais sejam: a preservação
Desnecessário dizer que, em sede de dos direitos fundamentais de 1a geração
posição original, os ideais morais não eram (liberdades individuais) e a atenuação
e nem poderiam ser os mesmos para todos das questões referentes às desigualdades
os indivíduos. As pessoas, conforme se socioeconômicas.
destacou anteriormente, possuiriam convic-
ções, aptidões e pretensões que, certamente, 3. A estrutura básica da sociedade
seriam discrepantes. Sem um método capaz
como objeto primário da concepção
de “canalizar” esses anseios tão contrastan-
de justiça idealizada por John Rawls
tes, a teoria em análise tenderia ao fracasso.
John Rawls, buscando evitar essa conse- John Rawls se utilizou de diversos me-
quência, utilizou-se, ao elaborar a posição canismos procedimentais ou concepções-
original, da técnica do “equilíbrio reflexivo” -modelos11 para dar corpo à sua teoria,
(buscou organizar as ideias e princípios a qual, ao longo dos anos e, sobretudo,
básicos latentes no bom senso, promovendo devido às inúmeras críticas, foi-se re-
comparações, esclarecendo pressupostos e construindo e dando margem a diversas
eventuais consequências, desenvolvendo, interpretações, por vezes contraditórias.
assim, uma teoria coerente de justiça). Buscando mostrar que o que ele desenvol-
Por equilíbrio reflexivo, entenda-se: veu foi uma teoria política e não metafísica,
“[...] A esse estado de coisas eu me o autor retomou, em diversos outros livros,
refiro como equilíbrio reflexivo. as discussões iniciadas em “Uma teoria da
Trata-se de um equilíbrio porque justiça”. (RAWLS, 200b).
finalmente nossos princípios e opi-
niões coincidem; e é reflexivo por- 10
Pois, de acordo com o que defendeu o autor:
“A injustiça, portanto, se constitui simplesmente
que sabemos com quais princípios de desigualdades que não beneficiam a todos. (...)”
nossos julgamentos se conformam e (RAWLS, 2000b, p. 66).
conhecemos as premissas das quais 11
O elemento procedimental, na Teoria de John
derivam. [...]” (RAWLS, 2000b, p. 23). Rawls, revela-se de fundamental importância. Ao
tratar de algumas das concepções-modelos adotadas,
Sendo assim, apesar de ser possível ele asseverou: “As duas concepções-modelos básicas
inferir de alguns pontos do próprio pensa- na teoria da justiça como equidade sãs as de uma
mento rawlsiano que apenas os princípios sociedade bem ordenada e de uma pessoa moral.
de justiça são “construídos”, sendo que a Seu interesse está em destacar os aspectos essenciais
da nossa concepção de nós mesmos como pessoas
posição original e os demais expedientes morais e da nossa relação com a sociedade enquanto
metodológicos, eventualmente enxertados cidadãos livres e iguais. (...) A posição original é
em sua teoria, são “estipulados”, pode-se uma terceira concepção-modelo desse gênero que
afirmar que, se o equilíbrio reflexivo não tem um papel mediador. Ela serve para vincular a
concepção-modelo da pessoa moral aos princípios de
“constrói” a posição original, ele pelo me- justiça que caracterizam suas relações entre cidadãos
nos garante a sua efetividade como recurso na concepção-modelo da sociedade bem ordenada.”
teórico-hipotético. (RAWLS, 2000b, p. 53).

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Não é novidade que a Teoria da Justiça Ele acabou por assinalar, também, que,
proposta por Rawls se desenvolveu por como as instituições são compostas por
meio de procedimentos de construção ap- indivíduos, não há como imaginar uma
tos a determinar resultados tão equitativos sociedade bem organizada sem partir da
quanto possíveis, a exemplo do contrato ideia de que os seus membros são compro-
social hipotético. O objetivo do presente metidos com o seu desenvolvimento e com
tópico é discutir aquilo que o filósofo norte- o respeito ao próximo.
-americano chamou de estrutura básica da A maneira pela qual seria conservada a
sociedade, analisando a relação desta com inviolabilidade de cada cidadão que com-
a posição original e com a noção de pessoa põe uma sociedade bem ordenada, bem
idealizada por Kant. como a forma por meio da qual a Consti-
A preferência de John Rawls pelo pro- tuição consagraria direitos fundamentais,
cedimento contratualista já apontava para é questão relacionada à ideia de estrutura
o fato de que o objeto primário de sua con- básica da sociedade. Toda e qualquer pro-
cepção de justiça seria a estrutura básica dução legislativa do Estado assim como
da sociedade. Discutir a maneira pela qual eventuais atos da administração deveriam
deveriam ser repartidos os lucros e os pre- ser realizados com plena observância dos
juízos advindos do trabalho realizado em princípios13 pensados na posição original
conjunto, estabelecer limitações à formula- e positivados, originariamente, a partir do
ção de leis por parte do Estado, com vistas a contrato social firmado.
evitar violações dos direitos fundamentais Promovendo certa limitação de sua
dos cidadãos, bem como estipular as balizas teoria à esfera política, ressalvando que
dentro das quais as desigualdades sociais e a mesma não é metafísica, como muitos
econômicas seriam toleradas tornou-se um críticos apontaram, John Rawls, de maneira
dos grandes escopos da teoria desenvolvida bastante sintética, estabeleceu que a estru-
por Rawls ao longo de vários anos e regis- tura básica da sociedade corresponde à:
trada em suas diversas obras. “[...] maneira pela qual as principais
Desde o livro “Uma Teoria da Justiça” instituições sociais se arranjam em
(Idem), John Rawls (2000b, p. 3) já afirma- um sistema único, pelo qual consig-
va que “a justiça é a primeira virtude das nam direitos e deveres fundamentais
instituições sociais, como a verdade o é dos e estruturam a distribuição de vanta-
sistemas de pensamento”. Com essa singela gens resultante da cooperação social.
frase, o já citado filósofo norte-americano A constituição política, as formas de
demonstrou que a produção legislativa e propriedade legalmente admitidas, a
as instituições12 em geral deveriam ser or-
ganizadas com o propósito de resguardar 13
A motivação dos indivíduos representativos que
a inviolabilidade de cada cidadão. habitavam a posição original, no que tange à escolha
dos princípios fundamentais de justiça, poderia ser
explicada, também, de acordo com o que asseverou
12
Neste trecho de sua obra, o autor traz à baila Kymlicka (2006, p. 69), a partir de duas proposições:
um conceito bastante importante de instituições: “Por “Rawls tem dois argumentos a favor dos seus princí-
instituições entendo um sistema público de regras que pios de justiça. Um é contrastar sua teoria com o que
define cargos e posições com seus direitos e deveres, ele considera ser a ideologia prevalecente no que se
poderes e imunidades, etc. Essas regras especificam refere à justiça distributiva – a saber, o ideal da igual-
certas formas de ação como permissíveis, outras como dade de oportunidade. (...) O segundo argumento é
proibidas; criam também certas penalidades e defesas, bem diferente. Rawls argumenta que seus princípios
e assim por diante, quando ocorrem violações. Como de justiça são superiores porque são o resultado de um
exemplos de instituições, ou, falando de forma mais contrato social hipotético. Ele afirma que se as pessoas,
geral, de práticas sociais, posso pensar em jogos e ri- em um tipo de estado pré-social, tivessem de decidir
tuais, julgamentos e parlamentos, mercados e sistemas quais princípios deveriam governar sua sociedade,
de propriedade. (...)” (RAWLS, 2000b, p. 58). escolheriam estes princípios (...).”

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organização da economia e a nature- primeiro plano, não se prenderia às ques-
za da família, todas, portanto, fazem tões que envolvem as pessoas tomadas em
parte dela.” (RAWLS, 2000b, p. 3). sua individualidade, tanto mais porque
Conforme será possível perceber adian- a natureza humana e, por conseguinte,
te, o contrato social possui, na Teoria da as relações sociais são sempre marcadas
Justiça como Equidade, forte carga garanti- pela instabilidade e discordância. O que o
dora, uma vez que, graças a tal expediente, filósofo americano elegeu como foco foi a
a escolha e a futura incorporação dos prin- organização da estrutura basilar da socie-
cípios na vivência cotidiana poderiam ser dade, buscando, portanto, a efetivação da
feitas de maneira mais adequada, condu- justiça no contexto social e a consequente
zindo os empenhos dos gestores públicos visualização de suas construções, precipu-
e dos demais cidadãos para as escolhas amente, pelo prisma da generalidade, da
mais razoáveis. coletividade, do público.
Dito de outra forma, o conteúdo do O contrato social, o qual, conforme as-
acordo firmado por cidadãos iguais, livres e severou o próprio autor, deve ser elevado
mutuamente desinteressados, pautados em a um maior grau de abstração do que os
padrões morais bastante fortes, teria como usualmente estudados em autores como
preocupação principal os princípios de jus- Locke, Hobbes e Rousseau, acabou sendo
tiça social, os quais regeriam o arcabouço um bom mecanismo de efetivação de direi-
fundamental da sociedade, porquanto: tos e estabelecimento de garantias perante o
“[...] Apesar de um amplo elemento Estado, o que não impede a utilização desse
de justiça processual14 pura se trans- sistema de proteção em caso de violação de
mitir aos princípios de justiça, esses direitos que tem como autores os próprios
princípios devem, contudo, encarnar cidadãos comuns.
uma forma da estrutura básica, à luz Nesse contexto, ganha sentido vislum-
da qual os processos institucionais brar a estrutura básica da sociedade como
correntes devem ser conduzidos e objeto principal de uma concepção de
os resultados acumulados das tran- justiça ancorada no valor fundamental de
sações individuais continuamente igualdade. Quando posta em evidência a
ajustados.” (Idem, p. 5). “força vinculante” dos princípios eleitos em
Ao eleger como objeto principal de sua uma posição inicial de igualdade (posição
concepção de justiça a estrutura básica da original rawlsiana), é possível compelir o
sociedade, John Rawls parece ter objetivado Estado a não violar os direitos de ninguém,
mostrar que a sua teoria, pelo menos em bem como os cidadãos a se respeitarem
como sujeitos de direitos igualmente im-
14
Também denominada de justiça procedimental portantes.
pura (pure procedural justice). “A justiça procedimental Assim, é lícito afirmar que os princípios15
pura se verifica quando não há critério independente
para o resultado correto; existe um procedimento
escolhidos na posição original, firmados em
correto ou justo de modo que o resultado será também um contrato, acabariam regendo, dentro
correto ou justo” (RAWLS, 2000a, p. 378). “[...] Recor- dos limites da moral e da razoabilidade, a
rer à justiça processualística pura na posição original
significa que, em suas deliberações, os parceiros não 15
Afirma Rawls (2000, p. 5) que: “Exige-se um
precisam aplicar os princípios de justiça estabelecidos conjunto de princípios para escolher entre várias
anteriormente e que, portanto, eles não estão limitados formas de ordenação social que determinam essa
por um cerceamento desse tipo. Em outras palavras, divisão de vantagens e para selar um acordo sobre as
não existe instância exterior à perspectiva própria dos partes distributivas adequadas. Esses são os princípios
parceiros que os limite em nome de princípios anterio- da justiça social: eles fornecem um modo de atribuir
res e independentes para julgar as questões de justiça direitos e deveres nas instituições básicas da sociedade
que se podem apresentar para eles enquanto membros e definem a distribuição apropriada dos benefícios e
de uma determinada sociedade.” (Idem, p. 58-59). encargos da cooperação social.”

218 Revista de Informação Legislativa


relação dos indivíduos com o Estado, bem estarem obedecendo a regras e princípios
como dos cidadãos entre si. Nas palavras que eles mesmos escolheram (seria este
de Rawls (2000b, p. 20), “na teoria da justiça um embrião do princípio republicano e
como equidade, as instituições da estrutura democrático?). Há, portanto, um “dever”
básica da sociedade são consideradas como de obedecer ao sistema de regras18 advindo
justas desde que satisfaçam aos princípios das instituições, uma vez que ele teria sido
que pessoas morais livres e iguais, e colo- fruto da autonomia e da envergadura moral
cadas numa situação equitativa, adotariam de cada um dos cidadãos que estava na
com o objetivo de reger essa estrutura.” posição original e firmou o contrato social.
Ao tratar do papel das instituições que Mesmo recorrendo a mecanismos como
fazem parte da estrutura básica da socieda- a posição original19, véu de ignorância20 e a
de, John Rawls (Idem, p. 13) afirmou: concepções-modelos como a da sociedade
“[...] O papel das instituições que bem ordenada21, é bastante utópico pensar
fazem parte da estrutura básica é que uma sociedade, como a defendida por
garantir condições justas para o con- Rawls, estaria livre das desigualdades so-
texto social, pano de fundo para o ciais e econômicas.
desenrolar das ações dos indivíduos Neste ponto, torna-se mais evidente a
e das associações. Se essa estrutura influência kantiana22 na Teoria da Justiça
não for convenientemente regulada e
certa visão de si próprios, defendendo e aplicando os
ajustada, o processo social deixará de princípios primeiros de justiça a respeito dos quais
ser justo, por mais justas equitativas se puseram de acordo. Na seção V examinarei os cer-
que possam parecer as transações ceamentos impostos aos parceiros graças aos quais a
particulares consideradas separada- posição original pode representar os elementos essen-
ciais da autonomia completa.” (RAWLS, 2000b, p. 54).
mente.” 18
Sobre o parágrafo, imperioso reconhecer que:
O que vai tornando a noção de estru- “Ao afirmar que uma instituição e, portanto, a es-
tura básica mais palpável à medida que trutura básica da sociedade, é um sistema público
se desenrola a Teoria rawlsiana é a ideia de regras, quero dizer que todos os que estão nela
engajados sabem o que saberiam se essas regras e a
segundo a qual os indivíduos representa- sua participação na atividade que eles definem fossem
tivos, pensados por John Rawls e erguidos resultado de um acordo. Uma pessoa que faz parte de
sobre bases kantianas16, portanto, racional- uma instituição sabe o que as regras exigem dela e dos
mente autônomos17, sentir-se-iam livres por outros.” (RAWLS, 2000b, p. 59).
19
A posição original é, de acordo com Rawls
16
Ver “O Construtivismo kantiano na teoria mo- (2000b, p. 380), “um procedimento figurativo que per-
ral”, presente na obra: Rawls, 2000b. mite representar os interesses de cada um de maneira
17
Quanto à autonomia racional, faculdade da qual tão equitativa que as decisões daí decorrentes serão
os seres representativos rawlsianos seriam dotados, elas próprias equitativas. (...)”
interessante observar a seguinte passagem: “No mo-
20
Mecanismo utilizado por Rawls (2000b, p. 383)
mento, porém, só considerarei os parceiros na posição com o escopo de “preservar a equidade na escolha dos
original como os agentes racionalmente autônomos princípios e não fazer que intervenham as contingên-
de um processo de construção. Como tais, eles repre- cias naturais e sociais. (...)”
sentam o aspecto da racionalidade que faz parte da
21
Por sociedade bem ordenada, entenda-se:
concepção da pessoa moral própria dos cidadãos de “Modelo do que é a sociedade democrática quando
uma sociedade bem ordenada. A autonomia racional os princípios de justiça nela operam e a unificam.”
dos parceiros na posição original difere da autonomia (RAWLS, 2000b, p. 382).
completa exercida pelos cidadãos na sociedade. A au-
22
O construtivismo kantiano na Teoria da Justiça
tonomia racional é aquela dos parceiros na medida em de Rawls ficou bastante perceptível nesta passagem:
que são agentes de um processo de construção. Essa é “Justificar uma concepção kantiana no quadro de uma
a noção relativamente estreita que se precisa colocar sociedade democrática não quer dizer simplesmente
em paralelo com a noção kantiana de um imperativo argumentar de maneira correta a partir de certas
hipotético (ou de racionalidade que se encontra na premissas ou a partir de premissas publicamente
economia neoclássica). A autonomia completa é compartilhadas e mutuamente aceitas. A verdadeira
aquela dos cidadãos na vida cotidiana, que têm uma tarefa consiste em descobrir e formular as bases mais

Brasília a. 48 n. 189 jan./mar. 2011 219


de Rawls e, por conseguinte, na ideia de social de sua Teoria da Justiça, conforme
estrutura básica da sociedade, uma vez se comprova a partir da leitura do seguinte
que, graças à moralidade, à liberdade, à fragmento de texto:
igualdade e, sobretudo, à razoabilidade, os “[...] O papel social de uma concepção
indivíduos levariam em conta variáveis de da justiça consiste assim em permitir
ordem econômica e organizacional, autori- a todos os membros da sociedade
zando determinadas desigualdades, desde compreenderem por que as institui-
que constituídas de modo a beneficiar os ções e as disposições básicas que eles
membros menos favorecidos da socieda- compartilham são aceitáveis, bem
de23. Vale lembrar que essas desigualdades, como em fazer com que os demais
para serem válidas, também deveriam estar igualmente o compreendam.” (RA-
vinculadas a uma realidade na qual todos WLS, 2000b, p. 48).
tivessem a mesma oportunidade de atingir Ainda no âmbito da posição original,
os mais diversos empregos e cargos, con- citada anteriormente, Rawls procurou
forme estabelecia o princípio da diferença24. demonstrar como a noção de autonomia
Ainda se baseando em Kant, John Rawls kantiana foi utilizada em sua teoria, justi-
buscou elaborar aquilo que seria o papel ficando a adoção dos princípios de justiça
social e ressaltando a importância do “véu
profundas desse acordo que se pode esperar estejam de ignorância”, mecanismos sem os quais
enraizadas no bom senso. Ela pode chegar a criar e a não seria possível estabelecer qualquer
moldar pontos de partida para esse acordo exprimin-
do, sob uma forma nova, as convicções que pertencem
ordem de composição à estrutura básica
à tradição histórica e vinculando-as à gama variada da sociedade:
das convicções mais sólidas, daquelas que residem “Kant acreditava, julgo eu, que uma
ao exame crítico. Ora, como disse mais acima, o que é pessoa age de modo autônomo quan-
específico de uma doutrina kantiana é a relação entre
do os princípios de suas ações são
o conteúdo da justiça e uma certa concepção da pes-
soa como livre e igual, como capaz de agir ao mesmo escolhidos por ela como a expressão
tempo de modo racional e razoável e, por conseguinte, mais adequada possível de sua natu-
como capaz de participar da cooperação social entre reza de ser racional igual e livre. Os
pessoas assim concebidas. O construtivismo kantiano princípios que norteiam suas ações
pretende recorrer a uma concepção da pessoa que
seja aquela que a cultura adota implicitamente ou,
não são adotados por causa de sua
pelo menos, que se revela aceitável pelos cidadãos posição social ou de seus dotes na-
uma vez que lhes tenha sido apresentada e explicada turais, ou em vista do tipo particular
corretamente.” (RAWLS, 2000a, p. 50-51). de sociedade em que ele vive ou das
23
Esboçando a ideia central da teoria rawlsiana,
com ênfase para a identificação do campo de inci-
coisas específicas que venha a querer.
dência do seu segundo princípio de justiça, o autor Agir com base em tais princípios é
Will Kymlicka estabeleceu: “Sua ‘concepção geral de agir de modo heterônomo. Ora, o véu
justiça’ é composta de uma idéia central: ‘todos os bens de ignorância priva as pessoas que
primários sociais – liberdade e oportunidade, renda e
riqueza, e as bases do respeito de si mesmo – devem
ocupam a posição original do conhe-
ser distribuídos igualmente, a menos que uma distri- cimento que as capacitaria a escolher
buição desigual de qualquer um ou de todos estes bens princípios heterônomos. As partes
seja vantajosa para os menos favorecidos’. (...)” / “(...) chegam às suas escolhas em conjun-
As desigualdades são permitidas se aumentam minha
parcela inicialmente igual, mas não são permitidas se,
to, na condição de pessoas racionais
como no utilitarismo, elas invadem a minha parcela iguais e livres, sabendo apenas da
equitativa. Esta é a única e simples idéia no âmago da existência daquelas circunstâncias
teoria de Rawls.” (KYMLICKA, 2006, p. 66-67). que originam a necessidade de prin-
24
O princípio da diferença “é a segunda parte do
segundo princípio de justiça que é escolhido em TJ,
cípios de justiça.” (Idem, p. 276).
invocando o princípio do maximin ou a estratégia de O modelo procedimental do imperativo
evitação do risco.” (RAWLS, 2000b, p. 380). categórico kantiano, por sua vez, também

220 Revista de Informação Legislativa


foi essencial para justificar a opção pelos são igualmente representadas como
dois princípios de justiça social que regu- pessoas dignas, e o resultado não é
lariam a distribuição dos ônus e dos bônus condicionado por contingências arbi-
oriundos do convívio social: trárias ou pelo equilíbrio relativo das
“Os princípios da justiça também se forças sociais. Assim, a justiça como
apresentam como análogos aos im- equidade é capaz de usar a idéia de
perativos categóricos. Por imperativo justiça procedimental pura desde o
categórico Kant entende um princípio início. Fica claro, então, que a posição
de conduta que se aplica a uma pes- original é uma situação puramente
soa em virtude de sua natureza de ser hipotética. [...]” (RAWLS, 2000b, p.
racional igual e livre. A validade do 129-130).
princípio não pressupõe que se tenha Esse artifício ajudou, entre outras coisas,
um desejo ou um objetivo particular. a demarcar o conceito de Justiça como Equi-
(...) Agir com base nos princípios da dade, padrão jurídico-político perseguido
justiça é agir com base em imperati- pela filosofia de Rawls, em função da ideia
vos categóricos, no sentido de que de justiça procedimental pura.
eles se aplicam a nós, quaisquer sejam O conceito de justiça procedimental, no
os nossos objetivos particulares. [...]” contexto em que foi empregado na Teoria
(Ibidem, p. 277-278). da Justiça rawlsiana, é de fundamental
Analisando a obra de John Rawls, pôde- importância, pois, como ficou claro em di-
-se perceber que, ao eleger a estrutura bá- versas passagens extraídas dos seus livros,
sica da sociedade como objeto principal de tal autor colocou como principal meta a ser
sua teoria, o autor conseguiu transformá-la, alcançada a justiça institucional, cujo objeto
cada vez mais, em uma concepção política primário é o que ele mesmo chamou de
e, até mesmo aplicável, guardadas as devi- estrutura básica da sociedade.
das proporções, em uma democracia cons- Sobre esse ponto de vista, dispõe Rawls
titucional, na qual “a concepção pública de (2000b, p. 7-8):
justiça deveria ser, tanto quanto possível, “[...] Para nós o objeto primário
independente de doutrinas religiosas e fi- da justiça é a estrutura básica da
losóficas sujeitas a controvérsia.” (RAWLS, sociedade, ou mais exatamente, a
2000b, p. 202). maneira pela qual as instituições
sociais mais importantes distribuem
direitos e deveres fundamentais e
4. Posição original: “status quo”
determinam a divisão de vantagens
inicial da teoria rawlsiana
provenientes da cooperação social.
Rawls quis que a posição original fosse Por instituições mais importantes
entendida como um artifício contempla- quero dizer a constituição política e
tivo, ou seja, como um expediente de exi- os principais acordos econômicos e
bição utilizado com o escopo de conceber sociais. (...) A justiça de um esquema
a igualdade entre os indivíduos e de legi- social depende essencialmente de
timar os marcos equitativos que deverão como se atribuem direitos e deveres
conduzir futuras relações. fundamentais e das oportunidades
Em harmonia com esse entendimento, econômicas e condições sociais que
tem-se: existem nos vários setores da socie-
“[...] A posição original é definida dade [...].”
de modo a ser um status quo no qual Outro fato bastante interessante e que
qualquer consenso atingido é justo. É deu contorno ao entendimento rawlsiano
um estado de coisas no qual as partes acerca da justiça é a maneira como os indi-

Brasília a. 48 n. 189 jan./mar. 2011 221


víduos eram limitados por instrumentos posición social, sus talentos e incli-
abstratos. Esses sujeitos representativos naciones específicas ni su ‘concepción
estariam sendo influenciados por certas del bien’. (...) Rawls se refiere a las
circunstâncias garantidoras, o que tornaria limitaciones del conocimiento como
possível conceber seus interesses e suas de- a un ‘velo de la ignorancia’. (...) Los
cisões da maneira mais isenta possível. Para postulados motivacionales son, em
dar densidade à escolha dos princípios de primer lugar, que los agentes em la
justiça social, este ponto é importantíssimo. posición original son racionales, y em
Da hipótese da posição original decorre, segundo, que no son altruistas (...)”.
de acordo com o que se percebe, a neces- Diante dessas características, é certo
sidade de enfraquecer certas ambições afirmar que a posição original, para servir
individuais que poderiam ser prejudiciais ao fim a que foi concebida por Rawls, preci-
ao sistema de cooperação social pretendido. sou oferecer aos contratantes uma imagem
O mecanismo responsável pela execução satisfatoriamente clara acerca das variáveis
dessa tarefa é o “véu de ignorância”. que estavam em jogo (relativas, sobretudo,
Os homens representativos, que es- ao todo, à generalidade), permitindo a
tariam na posição original, possuiriam, tomada de uma decisão desinteressada,
naturalmente, convicções, aptidões, pre- porém exata, prudente, moral, previsível
tensões, mas, devido à influência do “véu e, consequentemente, justa. Tal concepção-
da ignorância”, viveriam uma espécie de -modelo acabou possibilitando a identifi-
“vazio mental estratégico”. Graças a essa cação entre a visão que os componentes
particularidade, eles acabariam firmando de uma sociedade bem ordenada têm de
um contrato, antes mesmo de descobrirem si mesmos como cidadãos e o conteúdo de
em que situação estarão quando de sua sua concepção pública de justiça.
retirada. Ao tratar dessa ideia, o próprio John
Assim, limitados por esse véu, dispositi- Rawls (2000b, p. 126-127) afirmou:
vo que bloquearia possíveis ações de cunho “[...] A idéia intuitiva da justiça
egoístico, os indivíduos representativos, se- como equidade é considerar que os
gundo Rawls, não possuiriam embasamen- princípios primordiais da justiça
to para comerciar pacotes de habilidades constituem, eles próprios, o objeto
naturais ou para deturpar a aplicação dos de um acordo original em uma situ-
princípios em benefício próprio. ação inicial adequadamente definida.
Importante observar, ainda nesse con- Esses princípios são aqueles que
texto, que, ao tratar fatores condicionantes pessoas racionais interessadas em
que envolvem a posição original, Brian promover seus interesses aceitariam
Barry (1993, p. 20) concebeu uma sábia nessa posição de igualdade, para
classificação, a qual objetivou distinguir determinar os termos básicos de sua
os pressupostos de conhecimento e os associação. Deve-se demonstrar,
motivacionais, os quais levariam à escolha portanto, que os dois princípios da
racional: justiça são a solução para o problema
“Las condiciones de ‘la posición de escolha apresentado pela posição
original’ pueden dividirse em dos original [...]”.
clases: aquellas que se refieren AL Desse modo, entende-se que o autor em
conocimiento y aquellas que se re- comento empregou a ideia de posição origi-
fieren a la motivación. Enunciados nal figurativa para acionar uma concepção
de modo sumario, los limites del peculiar do valor igualdade, ressalvando
conocimiento residen em el hecho as implicações trazidas pela adoção de tal
de que los agentes no conocen su conjectura e possibilitando a escolha futura

222 Revista de Informação Legislativa


e indispensável de determinados princípios concepção da pessoa moral, considerada
de justiça25. como livre e igual.
Nesse sentido, asseverou Will Kymli-
cka (2006), recorrendo à interpretação do
5. Peculiaridades do contrato social
expediente contratual dada por Ronald
hipotético rawlsiano
Dworkin (2007):
Na busca de um método capital que con- “[...] Contudo, como observa
ferisse certa regularidade à sua teoria, John Dworkin, há outra maneira de in-
Rawls recorreu ao tradicional procedimen- terpretar os argumentos de contrato
to contratualista. Tal mecanismo, porém, foi social. (...) Invocamos a idéia de
utilizado com outros objetivos, distintos, um estado de natureza não para
em parte, dos usualmente perseguidos. determinar as origens históricas da
Ele aspirou, mediante um acordo co- sociedade ou as obrigações históri-
letivo unânime, legitimar as bases sobre cas dos governos e indivíduos, mas
as quais as decisões dos indivíduos e a para modelar a idéia de igualdade
atividade das instituições deveriam estar moral dos indivíduos. (...) A idéia
pautadas. Assim, agentes racionalmen- de um estado de natureza, portanto,
te autônomos, submetidos a condições não representa uma afirmação an-
razoáveis, chegariam a um acordo sobre tropológica a respeito da existência
princípios públicos de justiça social, que pré-social dos seres humanos, mas
ganhariam “força vinculativa” por meio uma afirmação moral a respeito da
do contrato hipotético. ausência de subordinação natural
Ao se utilizar do expediente contratual, entre os seres humanos [...].”
John Rawls logrou êxito, principalmente, Invocando o argumento contratual,
em dois sentidos: 1) acabou por legitimar foi possível promover o assentamento
a escolha dos princípios pelos quais sua de princípios de justiça por meio de uma
argumentação será desenvolvida e 2) tor- posição de equidade, os quais, além de
nou universal uma escolha que poderia ser constituírem um importante reforço proce-
restringida ao campo da subjetividade dos dimental (agem como um meio, um canal),
indivíduos representativos, já que a decisão são fundamentadores de direitos (estão no
tomada na posição original não deve ser seio do fim proposto por Rawls).
baseada em interesses individuais e sim Como se sabe, a expressão “princípios”,
em uma racionalidade coletiva justificada. independentemente do campo de conhe-
Diferenciando-se dos “contratualistas cimento no qual está sendo empregada,
costumeiros”26, que buscavam, tão-somen- transmite a ideia de cláusulas embrioná-
te, determinar qual forma de governo seria rias, que servem como pedra angular para
mais eficiente, qual seria a procedência o desenvolvimento de algum estudo. Na
histórica das sociedades civis etc., o filósofo Teoria da Justiça de John Rawls, isso não
em tela utilizou o argumento contratual é diferente.
com o intuito de entrever, hipoteticamente, O equilíbrio das futuras relações é re-
a essência da moralidade escolhida por sultado de uma efervescência de comandos
sujeitos representativos em uma situação provenientes dos dois princípios da justiça
primitiva igualitária. Sendo assim, Ra- social elencados por Rawls, que norteiam,
wls buscou autenticar a relação entre os motivam e restringem as ações atinentes
princípios primeiros da justiça social e a ao convívio cooperativo. A partir deles,
é possível estabelecer a interpretação da
25
Sobre este posicionamento, ver também: Gar-
garella (2008). igualdade e da liberdade que convém às
26
Locke, Hobbes e Rousseau, por exemplo. sociedades democráticas modernas.

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Sendo assim, com o fito de prover maior “Observem que o primeiro princípio
densidade material aos princípios de jus- de justiça aplica-se não só à estrutu-
tiça social, o referido autor ofereceu uma ra básica (os dois princípios fazem
releitura do clássico argumento do contrato isso), mas mais especificamente ao
social hipotético. Ele ambicionou, preci- que consideramos ser a constituição,
puamente, extrair os principais efeitos de escrita ou não. Observem também
determinados nortes éticos concernentes à que algumas dessas liberdades,
equidade existente entre indivíduos livres, sobretudo as liberdades políticas
racionais e mutuamente desinteressados. iguais e a liberdade de pensamento
Com essa construção, foi possível o vis- e associação, devem ser garantidas
lumbre da essência da moralidade adotada por uma constituição.”
pelas pessoas, se estas pudessem considerar A maneira pela qual o contrato é empre-
a sociedade a partir de um marco zero, ou gado implica uma teoria profunda que elege
seja, de um status quo inicial (posição ori- como meta basilar defender a inviolabilida-
ginal rawlsiana). de, fundada na justiça, de cada ser humano.
Partindo do pressuposto de que acei- Certamente, Rawls não defende a ideia
taríamos seus princípios, se, com o auxílio de que, em alguma época remota, membros
de algum mecanismo (como o véu de igno- de determinada comunidade “real” firma-
rância) sobre eles refletíssemos, John Rawls ram um contrato, reconhecendo caráter
conferiu maior consistência ao argumento vinculativo a uma série de premissas que
contratual e, por conseguinte, à sua ideia deveriam reger as suas relações futuras.
de igualdade moral inicial. Como já foi mencionado, o seu acordo é
Parece, portanto, que a forma mais estrategicamente imaginário.
acertada de encarar a iniciativa contratual Ele pretendeu, tão-somente, afirmar
hipotética rawlsiana é considerá-la como que, se indivíduos representativos estives-
um expediente metodológico utilizado sem em uma posição original, recobertos
com o fito de idealizar uma situação assi- por um véu de ignorância, inclinar-se-iam
nalada pela carência de submissão natural a “aceitar”, como mais coerentes e poli-
entre os seres humanos. Um estágio no ticamente viáveis, os seus princípios, até
qual as pretensões dos indivíduos, apesar mesmo por sua natureza de seres racionais,
de limitadas por um estado transitório de iguais e mutuamente desinteressados.
desconhecimento (proporcionado pelo
véu de ignorância), recebessem a mesma
6. Conclusão
valoração.
Cabe ressaltar, além disso, que, como a Diversos críticos apontaram que referi-
teoria da Justiça enquanto Equidade se baseou do autor, ao tentar atacar as teorias denomi-
em direitos invioláveis (sujeitos diferentes nadas de abrangentes, acabou por formular
são titulares de pretensões que têm direito uma tese tão metafísica quanto as demais.
de resguardar), a ideia de utilizar o recurso Tendo em vista tais críticas, John Rawls se
contratual fez ainda mais sentido. empenhou em mostrar, incessantemente,
John Rawls, na referida teoria, procurou que sua teoria iria basear-se em questões
dar atenção especial à proteção das “liber- de interesse público, sobre as quais um
dades básicas” dos indivíduos, termo este consenso seria bem mais provável.
que, em uma interpretação bastante razo- Para tanto, conforme demonstrado
ável, designaria os direitos fundamentais nos tópicos antecedentes, John Rawls, ao
que devem ser, a qualquer custo, reconhe- propor a “Justice as Fairness”, além de
cidos constitucionalmente. Nas palavras de afirmar que o “justo” tem prioridade sobre
Rawls (2003, p. 64-65): o “bem”, pensou em uma definição de Jus-

224 Revista de Informação Legislativa


tiça que tivesse sua efetividade justificada a A importância do véu da ignorância
partir da equidade do processo de escolha também não pode ser esquecida, já que, por
dos seus princípios. esse mecanismo, foi preservada a idoneida-
É lícito afirmar, portanto, que a escolha de na escolha dos princípios, em detrimento
da posição original como objeto da Teoria de eventuais contingências causadas pelo
da Justiça de Rawls, a utilização da posição egoísmo.
original, importantíssima para a viabili- Dessa forma, tornou-se importante
dade da escolha inicial dos princípios de analisar esses artifícios procedimentais e
justiça, bem como o emprego do contrato materiais trazidos pela Teoria da Justiça
social foram de fundamental importân- de John Rawls, pois eles funcionam como
cia, tanto pela riqueza metodológica que verdadeiros garantidores da eficácia das
acrescentaram à Teoria de Rawls, como proposições levantadas.
pela força garantidora e fundamentadora
que exerceram.
Em consonância com o afirmado em Referências
linhas anteriores, Rawls parece querer que
a posição original seja entendida como um BARRY, Brian. La teoría liberal de la justicia: examen
artifício contemplativo, que serve, entre crítico de las principales doctrinas de “Teoría de la
outras coisas, para legitimar os marcos justicia” de John Rawls. Tradución de Heriberto Rubio.
México: Fondo de Cultura Económica, 1993.
equitativos que deverão conduzir futuras
relações, justificando, também, a escolha DWORKIN, Ronald. Levando os direitos a sério. Tra-
“atual” (pós-contratual) de certos prin- dução de Nelson Boeira. 2. ed. São Paulo: Martins
Fontes, 2007.
cípios de justiça social, que, por sua vez,
regulariam a estrutura básica da sociedade. GARGARELLA, Roberto. As teorias da justiça depois de
Foi bastante inteligente e estratégica, Rawls. São Paulo: Martins Fontes.
portanto, a opção de John Rawls de eleger KYMLICKA, Will. Filosofia política contemporânea:
a estrutura básica da sociedade como o uma introdução. Tradução de Luís Carlos Borges.
objeto de sua teoria. Nela se materializaram Revisão Marylene Pinto Michael. São Paulo: Martins
Fontes, 2006.
as principais concepções-modelos criadas
pelo autor, bem como se tornou mais per- LOCKE, John. Dois tratados sobre o governo. 2. ed. São
ceptível a maneira pela qual os princípios Paulo: Martins Fontes, 2005.
de justiça iriam atuar no sentido de regular RAWLS, John. Justiça como equidade: uma reformu-
a performance das principais instituições e lação. Organização Erin Kelly. Tradução de Claudia
Berliner. São paulo: Martins Fontes, 2003.
a conduta dos indivíduos que se encontra-
riam em convívio cooperativo. ______. Justiça e democracia. Seleção, apresentação e
Quanto ao contrato social, em específico, glossário de Catherine Audard. Tradução de Irene A.
Paternot. São Paulo: Martins Fontes, 2000a.
adverte-se que ele precisa ser entendido
como um expediente cuja função primor- ______. Uma teoria da justiça. Tradução de Almiro
dial é garantir e dar “força vinculativa Pisetta e Lenita M.R. Esteves. São Paulo: Martins
Fontes, 2000b.
hipotética” à essência da moralidade esco-
lhida por sujeitos representativos em uma
situação primitiva igualitária.

Brasília a. 48 n. 189 jan./mar. 2011 225