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Richard Vainberg
424 ESTADO E CONFISSOES RELIGIOSAS ESTADO MODERNO 425

Egeu e da Líbia). Estas normas foram comple· partido de De Gasperi, para poder garantir o do seu manifesto contraste com os princípios cons· BIBLIOGRAFIA. - Aur. VU., Cinquant'anni di concorda-
tadas em 1938 com "Providências para a defesa pleno apoio da Igreja, que lhe permitisse manter titucionais. Mais: os órgãos competentes do Es- to, La Nuova ltalia, Firenze 1979 (fase. espee. de "11 Ponte",
da raça italiana" e com v,árias outras disposições a situação privilegiada sancionada pela legisla- tado, em vez de interpretar tal sistema dentro do XXV, 2·3); Id., StalO democratico e regime pattizio,
que privavam os judeus de certo número de direi~ ção lateranense. t assim que se explica o con- espírito da Constituição, lançaram mão de todos GiutTre, Milano 1977; Id., Teoria e prassi de/le libertà di
tos e liberdades, mesmo sob o aspecto religioso- traste existente entre os aspectos mais avançados os meios, IIrecorrendo às disposições mais iliberais religione, 11 Mulino, Bologna 1975; Id., Un secolo da Porta
cultural. da nova ideologia constitucional {igualdade dos da época fascista para complicar e impedir a Pia, Guida l Napoli 1970; G. CATALANO, Sovranità dello
As relações com a Igreja católica se mantive- cidadãos sem distinção de religião, defesa dos regular satisfação das aspirações relisiosas das mi- Slato e autonomia de/la Chiesa ne/la Costituzione, GiutTrê,
norias religiosas italianas" (Lariccia). Milano 1974; M. FALCO, Su/la condizione giuridica del/e
ram substancialmente boas ao longo de vinte anos direitos do homem até mesmo dentro das orga-
de fascismo, desenrolando-se dentro do sistema nizações sociais Hintermédias", liberdade igual minoranze religiose in /talia, ........ , Firenze 1934; G.
FUBINI, lA condizione giurii:iica del/'ebraismo italiano, La
concordatário. Nenhuma das partes conseguiu, para as confissões religiosas, liberdade de reunião V. A QUESTÃO DA CONCORDATA. - A questão
Nuova Italia, Firenze 1974; A. C. JEMOW, Chiesa e Stato
contudo, atingir os objetivos prefixados: o da e de associação, defesa dos. direitos individuais e da Concordata, ou seja, a questão da adaptação
in Italia neg/i ultimi cento' anni, Einaudi, Torino 1963 2 ;
reconstrução de um "Estado católico", da parte coletivos à liberdade religiosa, liberdade de ex- da legislação originada nos acordos de Latrão
F. MARGlüITA BRooLIo, ltalia e Santa Sede daUa grande
eclesiástica, e o da "fascistização" da Igreja, da pressão de pensamento, liberdade de ensino, igual- aoS princípios da Constituição, e a dos entendi-
guerra a/lCf Conci/iazione, Laterza, Bari 1966; Id., Stato e
parte fascista. Os únicos momentos de crise, em dade de acesso às profissões e cargos públicos, mentos com as confissões religiosas não católicas
con!essitmi religiose, I. Ponti; 11. Teorie e ideologie, La
1931 e 1938, foram devidos às polêmicas respei· etc.) e a linha conservadora das estruturas jurí- mantêm-se, mais de trinta anos decorridos desde Nuova Italia, Firenze 1975-77; Individuo, gruppi, confes-
tantes à Ação Católica que a Santa Sé, à sombra dicas exístentes (recusa não só da abolição como a promulgação da Carta republicana, ainda aber- sioni religiose nello Stato democratico, ao cuidado de A.
dos privilégios lateranenses, pretendia transfor· também de qualquer modificação do conjunto de tas e sem solução. De 1967 a 1978, o Parlamento RAvA, Giuffre, Milano 1973; F. RUFFINI, Relazioni tra
mar num grande frigorífico (De Felice), onde nOrmas derivadas dos acordos de Latrão, conti- não cessou de manifestar a sua vontade a favor Stato e Chiesa, 11 Mulino, Bologna 1974; Chiesa e Stato
hibernassem os católicos militantes, protegidos da nuidade da autolimitação dos poderes do Estado de modificações - de acordo com a Santa Sé nella storia-d'ltalia, ao cuidado de P. SCOPPOLA, Laterza,
inquinação ideológica, à espera de tempos me· em matérias mesmo não pertencentes à ordem _ dos Pactos de Latrão e do estabelecimento de Bari 1967; G. SPADOLINl, La questione dei concordato. te
lhores que permitissem a sua transformação em da Igreja), cuja prevalência, passando através da acordos específicos para regulamentação das re- Monnier, Firenze 1976, Indicações bibliográficas comple-
classe dirigente, capaz de substituir a fascista ou, divisão dos partidos da esquerda operária, levou lações com as confissões não católicas. São co- tas poderão também ser encontradas in S. LARlcCIA,
na pior das hipóteses, capaz de a defrontar, não àquela referência especifica do art. 7.° da Cons- nhecidos pelo menos cinco projetos de revisão Diritto ecclesiastico italiano, Bibliografia 1929-1972, Giuf-
sendo possível catolicizá-la. Com· os acordos de tituição ("As suas relações são reguladas pelos da Concordata (unilateral o de 1969, negociados Ire, Milano 1974; e Bibliografia 1973-1980, Cedam, Pa-
1931, o regime obteve a reafirmação do caráter Pactos de Latrão") que fez com que uma magis- com a Santa Sé os de 1976, 77, 78 e 79; há ainda dora 1980; Id., Bibliografia sui Patti Lateranensi (1929-
religioso, da "diocesanidade" da Ação Católica, tratura particularmente sensível às orientações outro de 1980, mas não foi publicado); dois pro- 1979), in AUT. VÁR., Cinquant'anni di Concordato, cit.
e da sua estreita dependência da hierarquia ecle- políticas dominantes atribuísse a cada uma das jetos de acordos com as confissões dos valdenses
siástica; com os de 1938, a suspensão das hosti- normas dos Protocolos de 1929 "o mesmo valor e metodistas; um projeto de acordo com a religião [FRANCESCO MARGIOTIA BROBLIO]

lidades pontifícias, prelúdio da reforma dos es· e a mesma eficácia que teriam, se houvessem judaica. Nenhum dos Governos que se sucederam
tatutos de 1939, que serão julg~dos "de acordo sido incluídas na Carta Constitucional ou ... na Itália a partir de 1967 e, sobretudo, a partir
;om os desejos do Governo". Pouco mais de uma aprovadas por lei constitucional, e, poderia dizer- do começo das negociações com o Vaticano
década era passada sobre o dia 3 de janeiro de se ainda, um valor até maior. devido à sancionada (1976) conseguiram resolver os pontos essenciais Estado Moderno.
1925 e Mussolini se apercebia de não ter con- inaplicabilidade do processo de revisão constitu- das relações Estado-Igreja {instituições e bens
seguido absorver as grandes forças que, no en- cional" (Tribunal de Cassação, 23 de junho de eclesiásticos, atividades não eclesiásticas das ins- I. O ESTADO MODERNO COMO FORMA HISTÓ'
tanto, lhe haviam permitido tomar definitivamen- 1964). Só depois da introdução do divórcio (de- tituições, instrução religiosa nas escolas públicas, RICA DETERMINADA. - "Para a nossa geração,
te o poder (a monarquia, o Vaticano e a grande zembro de 1970), já no fim da V legislatura que, reconhecimento das sentenças eclesiásticas nas reentra agora, no seguro patrimônio do conhe~
burguesia) e que, por isso, se tornariam o alvo com a maioria do centro-esquerda, começou a causas matrimoniais, etc.) de modo que fosse cimento científico, o fato de que o conceito de
dos ataques, se não conseguissem sobreviver-lhe sentir o degelo parlamentar do problema da re- possível enviar ao Parlamento um texto suscetível 'Estado' não é um conceito universal, mas serve
gloriosamente (o que aconteceu por pouco tempo visão da Concordata, começa a abrir caminho na de ser aprovado. A questão da Concordata aca- apenas para indicar e descrever uma forma de
com a monarquia). Foi assim que lhe sobrevive- jurisprudência da Corte Constitucional a hipótese bou também por bloquear a aprovação dos acor~ ordenamento político surgida na Europa a partir
ram os Pactos de Latrão, expressamente mencio- de que o art. 7.° da Constituição, ao reconhecer dos com os valdenses e metodistas, preparados do século XIII até os fins do século XVIII ou
nados pela Constituição republicana (art. 7.°), que ao Estado e à Igreja uma mútua posição de inde- por uma comissão mista apropriada. inícios do XIX, na base de pressupostos e mo-
sancionou, graças à insistência da Democracia pendência e soberania, mesmo que haja dado Na realidade, cama parece evidente desta breve tivos específicos da história européia e que após
Cristã, a manutenção integral, com todas as suas importância constitucional aos Pactos de Latrão, alusão às referências históricas relativas à proble- esse período se estendeu - libertando~se, de cer~
bases, da ordem político-jurídica estabelecida pa- IInão pode ter o poder de negar os princípios mática das relações Estado-confissões religiosas, ta maneira, das suas condições originais e con-
ra as relações entre o Estado e as confissões supremos do ordenamento constitucional do Es- o sistema em vigor acha'~se ainda ligado a uma cretas de nascimen to - a todo o mundo civili-
religiosas no tempo do fascismo, fazendo dela tado" (Corte Constitucional, 30/1971). e~trutura social inalterada quanto às relações de zado." Esta afirmação de Erost Wolfgang Boec-
um dos elementos básicos da continuidade ins- Quanto às demais confissões religiosas, embo- poder, não obstante as profundas transformações kenfoerde pode servir bem como ponto de par-
titucional, que, diga-se ainda, mercê dos direitos ra a Constituição as haja equiparado à católica da sociedade italiana e a progressiva secularização tida, depois de esclarecermos que o método aqui
de liberdade individual e coletiva aprovados pela no plano de uma "igual liberdade" e lhes haja da mentalidade e dos comportamentos verificados adotado é o método histórico-crítico, entendido,
Carta de 1948, acabou por ampliar o campo da reconhecido o direito de se organizarem segun-
11 nestas últimas décadas. Basta pensar nos re- de uma parte, como método destinado a dar ao
intervenção da Igreja na vida pública para além do os próprios estatutos" e de verem reguladas sultados referendários de 1974 e 1981 sobre dois fenômeno que. se quer estudar a necessária espes-
dos 'limites desejados pelo legislador concordatá- as suas relações com o Estado por meio de leis temas, o divórcio e o aborto, estreitamente vin- sura conceptual e, de outra parte, a marcar as
rio, oferecendo ao partido da união dos católicos vinculadas a prévios Hentendimentos" com seus culados a tal sistema. É um sistema que não exatas fronteiras dentro das quais se pode usar
instrumentos decisivos para a sua consolidação. representantes (art. 8.°), todo o sistema legisla- poderá, por conseguinte, modificar~se sem uma homogeneamente tal conceito. Em tal sentido, o
A questão democristã vinha, sob este aspecto, de tivo referente à sua condição jurídica e atividade, paralela e efetiva mudança nas relações entre as "Estado moderno europeu" nos aparece como
encontro à questão concordatária, exigindo do em vigor antes de 1948, continuou' vigente apesar classes sociais. uma forma de organização do poder historicamen-
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te determinada e, enquanto tal, caracterizada por lado, agiam com efeitos devastadores sobre os condição do pnnClpe e de seus auxiliares, das nização do poder. A unidade de comando, a terri-
conotações que a tornam peculiar e diversa de espaços fechados e limitados dos senhorios feu- camadas que representavam a organização do po- torialidade do mesmo, o seu exercício através de
outras formas, historicamente também determi~ dais, fundados sobre uma economia natural ex- der que delas derivava. O "Estado", em conclu- um corpo qualificado de auxiliares "técnicos" são
nadas e interiormente homogêneas. de organização c~usiv_ament~ agrícola e de troca e sobre a orga~ são, de tudo o que' diz respeito à esfera da vida exigências de segurança e de eficiência. para os
do poder. mzaçao socIal correspondente, estática e integra- humana organizada, não diretamente voltada para estratos de população que de uma parte não
O elemento central de tal diferenciação consis- da, prevalentemente concentrada sobre as rela- fins espirituais. l i A distinção entre o espiritual conseguem desenvolver suas relações sociais e
te, sem dúvida, na progressiva centralização do ções pessoais do senhor com seus subordinados. e o mundano, inicialmente introduzida pelos Pa- econômicas no esquema das antigas estruturas
poder segundo uma instância sempre mais ampla, O encontro dos dois movimento.s descritos, do pas para íundamentar o primado da Igreja, desen- organizacionais e por outra individuam, com cla-
que termina por compreender o âmbito completo alto e do baixo, realizou-se bastante lentamente cadeou agora sua força na direção do primado reza, na persistência do conflito social, o J11aior
das relações políticas. Deste processo, fundado num primeiro plano, espacial, constituído pelo e da supremacia da política." obstáculo à própria afirmação. Desde a sua pré-
por sua vez sobre a concomitante afirmação do "território": extensão física suficientemente am- história, o Estado se apresenta precisamente corno
princípio da territorialidade da obrigação poli- pla de terreno, de modo a permitir a creSCente II. O EsTADO COMO "ORDEM POLÍTICA". - A a rede conectiva do conjunto de tais relações,
tica e sobre a· progressiva aquisição da impessoa w
integração de interesses e de relações entre grupos transição, entretanto, não foi indolor, se é ver- unificadas no momento político da gestão do po-
lidade do comando político, através da evolução vizinhos e a receber o reconhecimento e a disci- dade que as lutas religiosas que laceraram a Eu· der. Mas é só com a fundação política do poder,
do conceito de ojjicium, nascem os traços essen- plina institucional. f: a passagem que Theodor rapa nos séculos XVI e XVII devem ser consi- que se seguiu às lutas religiosas, que os novos
ciais de uma nova forma de organização polí- Mayer sinteticamente definiu na tese "do Estado deradas como matriz e ponto necessário de pas~ atributos do Estado - mundaneidade, finalidade
tica: precisamente o Estado moderno. para associações pessoais ao Estado territorial ins~ sagem da nova forma de organização do poder e racionalidade - se fundam para dar a este
Max Weber definiu o caráter da centralização titucional" (Personenverbandtstaat e Institutionel- expressamente político. A dramaticidade de tal último a imagem moderna de única e unitária
- válido, sobretudo, em nível histórico-institu- ler Flaechenstast). gênese é, ainda, exaltada pelo fato de que o con- estrutura organizativa formal da vida associada,
cional - em algo marcadamente politológico, O segundo plano no qual se deu o encontro flito religioso encontrou, por fim, sua solução - de autêntico aparelho da gestão do poder, ope-
como "monopólio da força legítima". A obser- liga-se ainda mais ao momento institucional e· ao destacadamente na França e também na Alemanha racional em processos cada vez mais próprios
vação permite compreender melhor o significado problema da organização do poder, através da e na Inglaterra - não no triunfo de uma fé e definidos, em função de um escopo concreto:
histórico da centralização, colocando à luz, para aparição, em diversos "senhorios" antigos em que sobre a outra mas na superação das pretensões a paz interna do país, a eliminação do conflito
além do aspecto funcional e organizativo, a evi- originariamente se situava o novo "território", de de fundar um poder sobre uma fé. Para além social, a normalização das relações de força, atra-
dência tipicamente política da tendência à supe- um momento sintético de decisão e de Governo das partes em contenda entrincheiradas em duas vés do exercício monopolístico do poder por parte
ração do policentrismo do poder, em favor de representado pelo senhor territorial, ou seja. pel~ frentes opostas pela conservação dos residups do do monarca, definido como souverain enquanto
uma concentração do mesmo, numa instância ten- príncipe, com o Governo do qual o antigo e gené- policentrismo do poder em bases senhoriais, fun- é capaz de estabelecer, nos casos controversos,
dencialmente unitária e exclusiva. A história do rico senhorio, de conteúdo prevalentemente pes- dado nas antigas liberdades feudais agora em de que parte está o direito, ou, como se disse,
surgimento do Estado moderno é a hístóría desta soal, se transforma numa soberania de conteúdo vias de se transformar nos modernos direitos de decidir em casos de emergêncía. Com Bodin,
tensão: do sistema policêntrico e complexo dos marcadamente político. f: a passagem do senhorio inatos, e da rigorosa afirmação do poder mono~ o mais conhecido dos politiques e com Hobbes,
senhorios de origem feudal se chega ao Estado terreno (Grundherrschaft) à soberania territorial crático do rei sobre as tradicionais bases divinas que, meio século depois, nos oferece, em bases
territorial concentrado e unitário através da cha~ (Landeshoheit), através da Landesherrschaft. Am- e pessoais, teve a melhor visão técnica do poder, ainda mais rigorosas e modernas, uma conclusão
mada racionalização da gestão do poder e da bos os planos exprimiam, porém, um dado de entendido como ordem externa necessária para análoga, a fundação mundana do poder unitário
própria organização política imposta pela evo- fundo comum, na medida em que serviam para garantir a segurança e a tranqüilidade dos súditos, e concentrado, totalitário e absoluto se completa.
lução das condições históricas materiais. dar fonna - uma das formas possíveis - a novos se concentrava expressamente sobre a realização É este o caráter essencial do novo Estado in~
Isto implica a pesquisa de forças históricas que conteúdos políticos, surgidos da mudança social do processo de. integração e de reunificação do cluindo o plano institucional e organizativo. Em
interpretaram o novo curso e se tornaram por~ levada a cabo e gerida pela incipiente burguesia, próprio poder na pessoa do príncipe, amparado referência ao mesmo, já se falou de Estado-má~
tadoras dos novos interesses políticos em jogo. em vias de achar o próprio espaço exclusivo de por uma máquina administrativa (a organização quina, de Estado-aparelho, de Estado-mecanismo,
Nos seus termos essenciais, a forma de organi~ ação nas coisas do mundo, cada vez mais espe- dos serviços) eficiente e funcional aos interesses de Estado-administração: em qualquer dos casos
zação do poder, conforme a tais interesses, se radas das coisas do céu, e, portanto, cada vez dos estratos sociais. A doutrina dos politiques, se trata de urna organização das relações sociais
opõe a um mundo político caracterizado por dois mais necessitadas de regimes e de segurança ime- expressão própria do primeiro funcionalismo' da (poder) através de procedimentos têcnicos prees-
aspectos de fundo, aparentemente contraditórios. diata e atual, mais do que de estimativas morais monarquia francesa e, através dele, das forças tabelecidos (instituições, administração), úteis pa-
O primeiro é a concepção universalista da respu- e de promessas ultraterrenas. Não foi por acaso mais vivas do "Terceiro Estado", se resume na ra a prevenção e neutralização dos casos de con~
blica christiana, enunciada na teoria e atuada na que o Terceiro Estado ofereceu ao príncipe, em necessidade da unidade do país, na observância flito e para o alcance dos fins terrenos que as
prática, da parte papal, através da luta das inves- sua maioria, os "auxiliares" de que se serviu das ordens do soberano corno lei suprema e no forças dominadoras na estrutura social reconhe-
tíduras (1057-1122); por ela foram colocadas as para fundar, teoricamente, e colocar em ato, con- reconhecimento do próprio soberano e da sua cem como próprias e impõem como gerais a todo
premissas para a ruptura irremediável da unidade cretamente, sua nova soberania. soberania como in~tância neutral, colocada acima o país. Isto tornou-se possível dentro de uma
político-religiosa que ainda regia a vida política A sucinta descrição que acabamos de fazer dos partidos e dos súditos: a única em grau de nova visão do mundo, resultante da passagem de
do Ocidente. Na verdade - e este é o segundo representa, em suas linhas gerais, o "Estado" polí- conservar a paz. A religião cessa de ser parte uma concepção da ordem como hierarquia' pre-
aspecto - mesmo proclamando o primado do tico da Europa cristã na idade imediatamente pré- integrante da política. Esta última se justifica, fixada e imutável de valores e de fins, estendida
espiritual sobre o político, a fim de solidificar moderna, a saber entre o século XIII e o século agora, a partir de dentro, para os fins a que é a todo o universo, ordem à qual a esfera social
mais seu próprio primado, de fato, o Papa reco~ XVI. Este é, por outro lado, o significado que chamada a realizar, que são os fins terrenos, ma- não podia senão adequar~se através de uma arti-
nhecia a autonomia, pelo menos potencial, da o termo "Estado" (Status, Estat, Estate, Staat) teriais e existenciais, do homem: em primeiro culação interna que respeitasse a harmonia do
política e oferecia o terreno em que poderiam geralmente possui nos documentos do tempo: in~ lugar a ordem e o bem-estar. cosmos, estendida, enfim, a uma ordem mais res~
sediar-se, mover~se, fortalecer~se e enfim preva~ dica a condição do país, tanto em seus dados so~ f: fácil de entender, neste processo, o papel trita e imediata, mas mais atinente ao homem:
lecer os interesses temporais que brotam das no- ciais como políticos, na sua constituição material, desenvolvido pelas chamadas premissas necessá~ a ordem mundana das relações sociais, que o ho~
vas relações econômicas e sociais. Estas, de seu nos traços que constituem seu ordenamento: a rias para o nascimento da nova forma de orga- mem podia e devia gerenciar diretamente com os
ESTADO MODERNO 429
428 ESTADO MODERNO

lIantiga sociedade por' categorias sociais": isto tucional, os comIssanos fiscais do prmclpe em
instrumentos de que dispunha, com base nas ne- de uma valiosa organização das forças SOCIaIS ambos os sentidos e ainda mais o papel centra-
evidencia de forma ·nítida o caráter não diferen-
cessidades e nas capacidades de sua natureza. E é tradicionais; em dois 'planos, estreitamente afins,
ciado de uma estrutura organizativa em que a líssimo do conceito de Hbem-estar" como objetiv
esta última, indagada sempre mais profundamente o da decisão e o da administração. O e!emento
separação entre sodal e político não se h~via da política econômica e como premissa da polí-
em suas conotações empíricas e materiais (por unificante do dualismo constitucional que daí tica fiscal do Estado mercantilista demonstram
ainda verificado inteiramente e persistia uma ar-
obra primeiramente de Hobbes) que fornece a resulta é principalmente constituído pelo motivo tlcU1açaO pOllcentrica, com base na prevalência claramente a obrigatoriedade desta passagem para
necessária passagem lógica entre a própria vida financeiro que desde o início se apresenta como o crescimento do Estado moderno.
senhorial ou "pessoal" do poder. O Estado mo·
do homem no mundo - carga de medo e de um dos mais 'sólidos fios condutores da experiên- derno significava precisamente a negação de tudo A redução das categorias sociais à faixa social,
egoísmo, necessitada de paz e bem-estar - e cia estatal moderna. A origem "senhoril" do po· isto: a instauração de um nível diferente da vida desvinculada da política em que dominava o
Deus sempre mais abstrato e "escondido" que der monárquico foi na verdade de tal maneira social, a delimitação de uma esfera rigidament,e aparelho estatal, significou também a superação
tudo justifica. marcada que depressa condicionou o processo de separada de relações sociais, gerenciada exclUSI- defin~tiva daquela organização das relações inter~
A ordem estatal torna-se assim um projeto "ra- formação do aparelho estatal por causa da abso· vamente de uma fonua política, no sentido não humanas que era característica da antiga socie·
cional" da humanidade em torno do próprio des· luta insuficiência das entradas privadas do prín· equívoco visto acima, Em tal esfera reentra~a~, dade por categorias sociais, na qual, para além
tino terreno: o contrato social que assinala sim~ cipe para a instauração de uma administração também mais ou menos diretamente, os tradIClO- da distinção entre público e privado, não era
bolicamente a passagem do Estado de natureza eficiente e sobretudo para a criação de um nais Hdireitos e liberdades" das categorias sociais; admitida nenhuma presença política do indivíduo,
ao Estado civil, não é mais do que a tomada de exército estável. Daí resultou a ahsoluta ne- mas as mesmas eram submetidas à gestão unitá- totalmente absorvido pela dimensão comunitária
consciência por parte do homem dos condiciona- cessidade do príncipe de recorrer à ajuda do ria e política de que toda a esfera dependia, por de membro de um corpo social - desde a fa-
mentos naturais a que está sujeita sua vida em "país", através de suas expressões políticas
parte do prí:?cipe mo~ocrático sobe~an,o que ga- mília até a representação de categoria através
sociedade e das capacidades de que dispãe para e sociais: as categorias sociais reunidas em rantia o direIto. A valIdade desses direItos e des· da qual a vida social encontrava sua explicação.
controlar, organizar, gerir e utilizar esses condi- assembléia. Entende-se facilmente que tal ajuda sas liberdades era confiada à decisão do príncipe Logo que o Estado - o príncipe e seu aparelho
cionamentos para sua sobrevivência e para seu não podia deixar de ser subordinada a um e tornava-se sempre mais discutível, na medida de poder. - se tornou monopolista na esfera
crescente bem-estar. Mas desde o momento em prévio "conselho" da parte das própri~s ca- em que lentamente diminuía o motivo da· força política - os seus interlocutores diretos não fo-
que tudo isto pressupõe a instauração da ordem madas sociais, em torno dos fins para os quais
das categorias sociais frente ao Estado moderno: ram mais as categorias, mas os indivíduos - sú-
"política" que visa a eliminação preventiva dos o príncipe tinha sido obrigado a solicitar sua
o motivo financeiro, Pouco a pouco, o príncipe ditos em cada esfera da sua vida "privada". Este
conflitos sociais, surge imediatamente o problema ajuda financeira. O conselho era normalmen-
acantonou o Hdireito de aprovação dos impostos" dado que encontra infinitos dados na história
do lugar ocupado nessa estrutura pelos grupos te acompanhado de um controle posterior pa·
dos grupos sociais, inventando modos e qmai,s cultural e religiosa do Ocidente nos séculos XVIl
sociais tradicionais e peros grupos em vias de ra gerir as somas cobradas, que muitas vezes se
de exação das contribuiçães controladas e adml' e XVIII constitui o terreno de base no qual
formação (camadas, classes), na sua pretensão transformava numa autêntica administração di-
nistradas diretamente por ele, e as categorias SOM se constitui em primeiro lugar. a tomada de cons-
de exercício de uma função de hegemonia sobre reta por parte das categorias em torno da cobran·
ciais perderam a sua posição constitucional ori· ciência por parte do individuo da identidade e
toda a comunidade. A partir do sucesso diferente ça feita. Junte-se a isto que a posição de força
ocupada por estas camadas sociais no nascente ginária e viram reduzida a sua presença - .q~e da característica comum de seus interesses pri-
e dos vários graus de domínio que tiveram as até aqui tinha sido glolial dentro de uma Vlsao vados. Secundariamente, e em conseqüência disso,
velhas e novas forças sociais, surgiram as diferen- Estado territorial tinha importantes reflexos no
do mundo que não conhecia distinção entre o a primeira organização de tais interesses através
ças verificadas em diversos países e em diversos plano constitucional, na participação que eles ob-
social e o político, entre sociedade e Estado - à de uma atitude sempre menos passiva e mais
momentos históricos em torno do modo geral de tinham e exerciam nos mais altos cargos admi"
esfera social. f: neste ãmbito que elas não ces· crítica em relação à gestão estatal por parte da
organização das relações sociais, como variantes nistrativos e políticos que paulatinamente ia sur"
saram de representar um papel mais ou menos força histórica que havia proporcionado a supe-
do mesmo modelo geral de Estado, detentor do gindo para acompanhar o crescimento da dimen"
importante segundo os diversos países, continuan- ração da antiga estrutura feudal: o príncipe. f:
monopólio da força legítima. são estatal.
do, algumas vezes, a exercer relevantes influências por essas vias e sobretudo na base do desenvol·
Que tudo isto constituísse um elemento con" políticas, mantendo e organizando fermentos de vimento econômico, verdadeiro princípio unifi·
III. DA ANTIGA SOCIEDADE POR CAMADAS ATÉ traditório à tendência de fundo do Estado mo· resistência que não devem ser desprezados em cador dos interesses comuns dos súditos, severa-
A MODERNA SOCIEDADE CIVIL. - Na impossibili~ derno, entendida como tendência para a centra- relação ao príncipe absoluto. mente empenhados não apenas na defesa das
dade de seguir detalhadamente toda a evolução, lização e para a gestão monopolista do poder coisas privadas mas na valorização política do
Esse processo foi possível, conforme se acen·
bastará indicar o módulo fundamental em que por parte de uma instância unitária, e monocrá- domínio privado, que se foi formando a moderna
tuou, graças à progressiva conguista, por parte
ela gira e destacar a persistência na primeira fase tica, ainda que apoiada sobre um sólido aparelho do príncipe e de seu aparelho administrativo, da "sociedade civil" como conjunto organizado dos
de organização do Estado moderno da articulação de serviços, não há necessidade sequer de de· esfera financeira, à qual estava intimamente liga- interesses privados, e, dentro dela, a primordial
social por camadas (baseadas no reconhecimento monstrá-Io. O desenvolvimento constitucional do diferenciação em classes, na base de uma domi-
da a esfera econômica do país. Isto pode acon-
jurídico dos "direitos" e "liberdades" tradicio- Estado moderno devia desenvolver·se contra as tecer, em primeiro lugar; graças ao apoio que nação sempre menos contrastada conseguida pelo
nais e no prestígio da posição social adquirida) categorias sociais, em função da eliminação do o príncipe facilmente encontrou, na sua luta con- novo modo de produçãG capitalista.
e a prefiguração contemporânea, nessa evolução, seu poder político e administrativo. Mais ainda: tra os privilégios, até fiscais, da mais importante
de um modo diferente de articulação social, hori- talvez seja possível afirmar que se pode falar das categorias sociais: a nobreza, Este apoio veio IV. A CONCI;PÇÃO LiBERAL DG EsTADO E A SUA
zontal e não vertical, fundada sobre a posição de Estado moderno em sentido próprio apenas Foi exatamente no momento culminan-
da parte dos estratos mais empenhados da popu- CRISE, -
de classes no confronto das relaçães de pro- quando o dualismo constitucional típico do "Es-
lação e particularmente da burguesia urban~, n,a te da forma de organização do poder da Idade
dução capitalista. Debaixo do primeiro perfil se tado por categorias sociais" foi definitivamente Moderna, ou seja, no âmbito do Estado absoluto,
mira de uma distribuição dos encargos fiscaIS
fala normalmente de SoCIEDADE POR CATEGO- alojado. Que isto tenha podido acontecer com que se operacionalizou a colocação em crise da
mais justa entre as várias forças do país e tam-
J
RIAS ou CAMADAs (v.) para indicar a fase relativa facilidade, depende do fato de que aquele bém, de uma ativa política de defesa, de susten- legitimação exclusiva do príncipe à titularidade
inicial do Estado moderno, caracterizada pela poder era na realidade fundado numa concepção tação e de estímulo do príncipe em relação à do próprio poder através da tentativa de requa-
unidade territorial e pela emergência de uma e numa organização das relações sociais no velho atividade manufatureira e comercial. A impor- lificação política das posiçães privadas que no
instância de poder tendencialmente hegemônico estilo. Não é por acaso que hoje se prefere falar, tância de que foram revestidos, no plano insti- período intercalar se vinham mais ou menos cons-
na figura do príncipe e também pela presença em vez de "Estado por categorias sociais", de
430 ESTADO MODERNO ESTRATEGIA E POLlTICA DOS ARMAMENTOS 431

cientemente organizando a nível social. Que tal ulteriormente aperfeiçoados e reforçados, em cor- sobretudo da ordem econômica, cujo andamento BIBLIOGRAFIA. - R. BENnlX, Re o papaIa. 11 potae e il
andamento apresente defasagens cronológicas não respondência com o· progressivo - caráter técnico
natural era agora posto em dúvida pela menor mandato di governare, Feltrinelli, Milano -1980; J. BUR-
indiferentes nos países do Ocidente, sobretudo no assumido pelo Governo e pela administração, à
homogeneidade de classe da sociedade civil e pela CK~AR~T, Meditazioni sul/a storia universale (1905), San-
que respeita à experiência continental e anglo- qual se tinha reduzido toda a carga de neutra- impossibilidade de um controle automático e uní- som, Flfenze 1957; M. S. GIANNINI, Corso di diritto am-
saxônic8, parece não alterar o significado do pro- lidade que desde o início havia caracterizado a voco do próprio Estado, por parte desta última. ministrativo, vol. I, parte l.a; "Le premesse sociologiche
cesso descrito (ao menos em seu sentido global), experiência estatal como monopólio político. O O, bem-estar voltou a ser o objetivo mais presti- e storiche e i profilí costituzionali", Milano 1970; O.
o qual consiste na contestação, por obra dos movi~ fenômeno se enquadrava, por sua vez, num pro- gioso da gestão do poder, embora não mais em HINTZE, Organizzazione, cultura, società. Saggi di storia
função declaradamente fiscal e político-econômi- cosliluzionale, ao cuidado de P. SCHIERA, Mulino, Bologna
mentas revolucionários modernos, não já da es- cesso mais geral de formalização do próprio Es·
ca, como nos tempos do Estado absoluto, e sim 1.980; Scienze po/itiche, I: (S. e po/itica) , ao cuidado de
trutura de poder submetido ao Estado absoluto, tado para o qual se tornava cada vez menos neces-
em vista de um progressivo e indefinido proces- A. NEGRI, Feltrinelli, Milano 1970; G. POGGI, La vicenda
mas principalmente da personificação histórica sária a personificação na figura do monarca e
so de integração social. A administração a quem del/o Stato moderno. Una prospettiva sociologica, II Mulino,
que tal estrutura tinha recebido na figura do sempre mais indispensável a conotação abstrata
fora atribuída, na ídeologia do Estado de di- Bologna 1978; Lo.8. moderno, ao cuidado de E. ROTELLI
monarca. A unicidade do comando, o seu caráter dentro de esquemas logicamente sem objeção e
reito, uma função marginal e subsidiária (mesmo e P. SCHIERA, 11 Mulino, Bologna 1971 ss; Crisi delto
de última decisão, a sua possibilidade de atuação convencionais, o principal dos quais era exata- Stato e storiograJUl contemporanea, ao cuidado de R.
através de um sólido aparato profissional de ór- mente a lei, a norma jurídica. se de fato, como bem entenderam os maiores
RUFFILI, 11 Mulino. Bologna 1979; C. SCHMITT, La dit-
gãos executivos e coativos: tudo isto não muda, A passagem da esfera da legitimidade para a teóricos do Estado de direito, ela exercia o papel
tatura. Dalle origini del/a idea .moderna di sovranità alla
como não muda o objetivo de fundo a que tudo esfera da legalidade assinalou, dessa forma, uma insubstituível e delicadíssimo de ponte entre so- lotta di c/asse operaia (1964 3 ), Laterza, Bari 1975; Id.,
isto era dirigido: a instauração e a manutenção fase ulterior do Estado moderno, a do Estado de ciedade e Estado, como demonstra o próprio nas- Le categorie dei ''po/itico'', II Mulino, Bologna 1972; The
da ordem. direito, fundado sobre a liberdade política (não cimento do direito administrativo, pujante desde Formation o/National States in Western Europe. ao cuidado
Apenas que esta ordem, embora continuasse apenas privada) e sobre a igualdade de partici- o início) reconquistou dO tal modo a antiga im- de CH. TILLY, Princeton University Press, Princeton 1975;
a apresentar-se como exclusivamente mundana, pação (e não apenas pré-estatal) dos cidadãos portância, tirando vantagem, de que no período M. WEBER, Economia e società (1922), Edizioni di Comu-
racional e técnica, perde o significado prevalen- (não mais súditos) frente ao poder, mas geren- intermediário ela se tinha subtraído naturalmente nità, Milano 196 J.
temente neutral, de defesa do conflito social e ciado pela burguesia como classes dominantes, de toda a ligação com o titular pessoal do· poder
de garantia da liberdade subjetiva que tinha tido com os instrumentos científicos fornecidos pelo (o monarca absoluto) e vivia portanto de uma (PIERANGELO SCHJERA]
direito e pela economia na idade triunfal da Re· vida autônoma, como parte essencial do ordena-
até aqui, para ganhar lentamente conotações po-
sitivas, de realização e desenvolvimento de inte· volução Industrial. mento estatal, favorecida, por sua vez, daquele
resses mais precisos, áescritos e apresentados co- E em relação a este Estado, fundado sobre o caráter de neutralidade e tecnicismo que deriva
de sua integral sujeição à ordem jurídica. Estratégia e Política dos Armamentos.
mo próprios do indivíduo, agora colocado ao nível dheito, a ponto de ter sido levado a coincidir
de protagonista direto da vida civil e política. com o ordenamento jurídico que respeita o indi- Não é o caso de relembrarmos as preocupações
São os valores do individuo os que completam víduo, e seus direitos naturais e também a socie- de TocquevilIe e de Weber em relação ao renas- 1. DELIMITAÇÃO DO CAMPO. - Assim como a
agora a ordem estatal: esta última se apresenta, dade e suas leis naturais, sobretudo no campo da cimento burocrático. Bastará perg'untar-se, com estratégia é a técnica utilizada pará alcançar um
precisap1ente através da mediação jusnaturalística, economia, que foi proposta a definição de "ins- base em tudo quanto até agora se disse, quais objetivo (individual ou coletivo, privado ou pú-
como a soma e a codificação racionalizada dos trumento de domínio da classe dominante" e que foram os interesses materiais que de fato se con- blico, pacífico ou bélico-militar), assim a política
valores individuais. O profundo enraizamento so- foi desenvolvida a coerente diagnose da sua ne· cretizaram neste processo de reconquista de at~i­ dos armamentos representa o instrumento com
cial destes últimos na sociedade civil, agora ple- cessária eliminação, uma vez que aquele domínio butos essenciais (de intervenção política) por par- que os Estados desenvolvem a sua estratégia. O
namente organizada, faz com que, finalmente, a podia ter sido concentrado, graças à instauração te da ordem estatal para a qual se tinha em vão uso material de uma arma é, pois, a fase final
própria ordem se finja pessoa e assuma para si de uma sociedade sem classes. Mas é em relação tentado ó exorcismo formal. O· fim autoritário que de um complicado processo, iniciado com a defi-
os elementos de legitimação do poder e de ex- a este mesmo Estado que se exerceu & capacidade tiveram as primeiras tentativas de instauração do nição de um objetivo, determinação da estratégia
plicação do mesmo que até então tocavam ao de sobrevivência da sociedade .civil, burguesa, Estado em todos os países é bem conhecido de mais apta a alcançá-la e escolha dos meios mais
príncipe, agora descrito como um "déspota"; na com o emprego de meios cada vez mais refinados todos. Se não se tratou de conseqüências inevi- eficazes; as armas poderão ser usadas, mas, por
melhor das hipóteses como déspota paterno e de auto-organização e de controle da ordem cons- táveis, é certo, porém, que elas foram o fruto vezes, bastará que sejam apenas exibidas para se
iluminado. Isto torna-se tanto mais plausível quan- tituída. Assim, se sobre o plano teórico como no de uma adesão não crítica ao desenvolvimento obter a adequação da vontade do adversário ao
to são os próprios indivíduos que detêm os ins- plano da atuação prática, a elaboração de modelos que mais ou menos inadvertidamente andava objetivo prefixado.
trumentos diretos de determinação de tal ordem, de representação e de associação mais adequados transferindo no plano de soluções meramente Tendo por base esta delimitação geral do cam-
através da conquista fatigante do poder de de- à expansão da sociedade (por causa da entrada materiais, reificadas, problemas de substância e po, várias distinções são possíveis. Segundo uma
cisão (o de consumo, ou seja, o poder legislativo) nela de novos titulares de novos direitos) e re- qualidade referentes aos valores últimos da vida primeira distinção, a estratégia é a programação
por parte da força hegemônica da sociedade orga- lacionados com o papel. qualitativamente diverso humana. Depois de cinqüenta anos, os meios téc- a longo prazo do uso de instrumentos políticos
nizada: a burguesia. Esta última, em virtude da que nela desenvolveu a burguesia como força nicos de gestão da ordem social e econômica se e militares na condução dos conflitos internacio·
estrutura não mais vertical mas horizontal de nova hegemônica levou à recepção dos temas de fundo refinaram bastante. Analogamente, porém, talvez nais, ao passo que a tática seria a aplicação di-
ordem sociaL pode exercer, em primeira pessoa, da doutrina democrática, formalizados no fenô- se acalmaram as defesas tradicionais da socie w
reta e variável, conforme as circunstâncias. do::;
embora em ,nollle de todos, o poder de Estado, meno do parlamentarismo e do partido de massa, dade (do homem), no confronto com uma admi- instrumentos individuais. Do ponto de vista pura-
o qual achou, por sua vez, a própria encarnação o verdadeiro passo em frente foi porém repre- nistração tecnocrática, à qual parece agora dever- mente militar, a tática é "a arte de utilizar as ar-
no ordenamento jurídico e a própria justificação sentado pela constituição do Estado como Estado se necessariamente reduzir a versão contemporâ- mas em combate, tirando delas o maior rendimen-
material na ordem natural da economia. O Estado social, em resposta direta às necessidades subs-
nea do antigo modelo estatal de ordem racional to" (Reaufre), enquanto que a estratégia se pode
continuou a existir em: sua dimensão histórica; no tanciais das classes subalternas emergentes. As-
e mundano, entendido como prevenção, repressão conceber como um plano mais vasto e complexo,
plano institucional bem pouco mudou na passa- sistiu-se, por outras palavras, a uma retomada',
ou gestão do conflito social. O que ralta agora que se apóia num conjunto de princípios de ca-
gem do antigo para o novo regime; pelo contrário, por parte do Estado e do seu aparelho, de uma
questionar é se esse modelo ainda é válido. ráter geral e de propósitos diretamente operativos,
os traços essenciais do Estado moderno foram função de gestão direta da ordem social, mas