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Nº 1301 . 8/2 A 14/2/2018 . CONT. E ILHAS: €3,50 .

SEMANAL
A NEWSMAGAZINE MAIS LIDA DO PAÍS WWW.VISAO.PT

NUCLEAR RUI RANGEL


AS NOVAS
AMEAÇAS A FUGA
NA ERA TRUMP DE ANGOLA,
OS LUXOS E AS
PSD POLÉMICAS
OS OITO
ESCOLHIDOS DO JUIZ
DE RUI RIO

FUGAS INESQUECÍVEIS
PARA AVENTUREIROS, FAMÍLIAS, GASTRÓNOMOS E APAIXONADOS
IDEIAS DE MINIFÉRIAS EM PORTUGAL + oS LIVRoS PARA LEVAR NA BAGAGEM
C. M. ODEMIRA
VISÃO
8 FEVEREIRO 2018 / Nº 1301

12 Entrevista: Manuel Lima

RADAR
16 Imagens da semana VÍTOR RIOS/GLOBAL IMAGENS
22 Raios X
24 A semana em 7 pontos
26 Holofote
27 Almanaque
28 Inbox
29 Transições
30 Próximos capítulos
32 Rui Rangel, juiz sem causa própria
Suspenso pelo Conselho Superior de Magistratura, Rui Rangel é o alvo
central da Operação Lex, que investiga crimes de corrupção relacionados
FOCAR com a “venda” de decisões judiciais. Conhecido dos portugueses do mundo
62 Consequências do “crash” da televisão e do futebol, o juiz é muito mais do que um magistrado.
Retrato fiel
bolsista
66 Escolas com currículos
alternativos 42 “Make” América nuclear outra vez
70 Dar à luz em tempo de guerra O braço de ferro entre os EUA e a Coreia do Norte será apenas um
dos pretextos para a “renuclearização” da América. Num ambicioso e
72 Cuba, o senhor que se segue dispendioso programa a 30 anos, os americanos pretendem “reconstruir”
74 As curiosidades das e modernizar a sua capacidade bélica. Será uma nova corrida aos
Olimpíadas de inverno armamentos?
76 A nova estrela da moda
48 Os oito escolhidos de Rui Rio
VAGAR A uma semana do congresso do PSD, a VISÃO revela oito nomes
imprescindíveis no universo do novo líder. Conheça as surpresas, as
78 Foi você que escreveu isto?... origens e os projetos dos novos protagonistas do “processo de renovação
84 Os sonhos também em curso”
se vestem
88 Pessoas
90 Tendências:
56 Alemanha: Volta, Marx, estás perdoado?
Num momento em que o impasse político se arrasta sem que seja formado
Airbnb da comida um novo Governo, os alemães voltam às ruas e às lutas laborais nunca
vistas no passado recente. E ainda se fala da Autoeuropa...
VISÃO SETE
94 Programas diferentes
para as miniférias Online W W W.V I S A O . P T
Últimos artigos na BOLSA DE ESPECIALISTAS VISÃO
OPINIÃO
6 António Lobo Antunes
8 Rui Tavares Guedes
40 Adolfo Mesquita Nunes
65 José Carlos de Vasconcelos Carmo Machado Pedro Graça Viviane Aguiar
92 Miguel Araújo ENSINO NUTRIÇÃO BLOGGER
130 Ricardo Araújo Pereira Sou alvo de bullying Uma estratégia A contagem crescente
alimentar para para os 50
Portugal

Todos os dias, um novo texto assinado por um dos 28 especialistas convidados

8 FEVEREIRO 2018 VISÃO 3


LINHA DIRETA Correio do leitor

À boleia da internet
arrasta-se muito lixo.
É, por isso, necessário proteger
as crianças desta invasão
aleatória, ensiná-las
Escapadelas perfeitas a lidar com este fenómeno
e, acima de tudo, mentalizá-las
Com as miniférias do Carnaval à porta, quatro jornalistas foram procurar –
e encontraram – os melhores locais para passar alguns dias, seja a desfrutar de que há alternativas
com a família, a namorar, a apreciar a gastronomia ou simplesmente a aven- para lá dos ecrãs.
turar-se. O resultado da descoberta está na VISÃO Se7e desta semana, em José M. Carvalho, Chaves
que ao longo de 16 páginas fica a saber onde pode dormir numa casa-árvore
com os filhos, como percorrer o Alentejo através da gastronomia, quais os
roteiros ideais para caminhar e os sítios mais românticos para partilhar. DE COSTAS PARA O PAPA
Depois de ler o artigo senti que isto é
Manuel Gonçalves da Silva, que além de jornalista é gastrónomo, dedicou- algo que se passa em todas as religiões,
-se a escolher a viagem ideal para quem aprecia comer, e Miguel Judas, com os fundamentalismos, e espero que
autor de um livro sobre os 200 melhores caminhos pedestres do País, fez não leve a nada mais grave, quando tanto
as sugestões para os aventureiros. Já as jornalistas Florbela Alves e Susana se lutou pela liberdade de expressão e de
género. Fiquei assustada e lembrei-
Lopes Faustino foram descobrir os locais certos para as famílias – com -me de quando tinha 7 ou 8 anos e me
visitas a castelos e dormidas em iurtes, por exemplo – e os mais indicados proibiram de entrar na igreja de calças.
para os casais, onde podem ver o pôr do Sol de sonho ou fazer um Quirina Dias, Amadora
piquenique entre vinhas. Para cada tipo de viagem, a VISÃO dá-lhe dicas OBRIGADA LOBO ANTUNES
de sítios onde comer, beber e dormir ­­— pelo meio, são deixadas algumas Ninguém como ele arranca as palavras
sugestões de livros para ler no cenário que escolher. Ideias a não perder. das entranhas do corpo. Exorcizar
Nesta edição da VISÃO, conta-se também a história de Rui Rangel, o juiz do os sentimentos e expurgar o que de
melhor ou pior existe nele é magnifico e
Tribunal da Relação de Lisboa que é suspeito de ‘‘vender’’ sentenças judiciais admirável. A honestidade e sensibilidade
num processo que tem também Luís Filipe Vieira entre os 14 arguidos. fazem dele um autor sem medo e sem
Os jornalistas José Plácido Júnior e Sílvia Caneco falaram com quem o escrúpulos de usar o português para
rodeou nos últimos anos e relatam a vida deste juiz, 62 anos, que viveu a se regenerar com a vida. Mesmo sendo
médico não terá acesso a nenhum
sua juventude em Angola, de onde fugiu com os três irmãos mais velhos, elixir que lhe prolongue a existência,
quando tinha 20 anos, por a sua família estar conectada com o MPLA e mas o exercício orgânico que pratica
por a UNITA estar a chegar à zona onde residiam. Lembram ainda seu acrescenta-lhe de certeza algum tempo
regresso-relâmpago a África, onde foi jornalista da Rádio Nacional de mais neste planeta.
Dinora Ferreira, Massamá
Angola e chegou a ser preso em 1977, e contam os sucessos e fracassos
da carreira em Portugal que começou em 1982, depois de Rui Rangel se CORREÇÃO
licenciar em Direito. Todos lhe apontam o jeito para comunicar e a tentação Por lapso, na secção Gosto dos Outros
para se envolver em polémicas. (V1299), a Praça de Santiago, em
Guimarães, foi ilustrada com uma
fotografia da Praça da Oliveira.
Aos leitores, as nossas desculpas.

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que considerar mais importantes.

4 VISÃO 8 FEVEREIRO 2018


CRÓNICA

Quatro Cartas de Amor:


Primeira
POR ANTÓNIO LOBO ANTUNES

O
meu ouvido esquerdo morreu hoje, dia 3 óculos escuros, ele que nunca usava óculos escuros.
de Janeiro de 2018, por volta da uma hora A frase
da tarde. Esperava que durasse ainda mais – Quem é que não gostava dele?
algum tempo, uns anos, uns meses. Estava nunca se apagou em mim. Era uma pessoa
enganado: metade de mim desapareceu silenciosa e discreta, de grande beleza física.
num estalar de dedos, para sempre. Não Demorei anos a perceber que sofria muito.
é trágico: é só horrível. E isso a gente A minha mãe, também surda, adorava-o. Passou
aguenta. A otoesclerose é um problema pela vida sem nunca incomodar ninguém.
hereditário: recebi-o da minha mãe, do Herdei-lhe a surdez: infelizmente não lhe herdei a
meu avô, por aí fora. Dos Almeida Lima, bondade. Nunca o vi zangado, nunca o vi ralhar fosse
porque sou Almeida Lima, de que tanto gosto. Não com quem fosse. A minha mãe
me lembro de ver o meu avô Almeida Lima sorrir. – O teu pai gosta mais da minha família que da
Quase não falava, também. Uma ocasião, em criança, dele
perguntei ao meu pai se gostava dele. Respondeu e era verdade. Ele, que quase nunca saía, passava
– Quem é que não gosta dele? sempre o mês de Setembro em Nelas, na casa dos
ILUSTRAÇÃO: SUSA MONTEIRO

Morreu novo, tinha eu treze anos Almeida Lima, na varanda para a serra. Quando
(não, doze) o nosso pai morreu o meu irmão Joãozinho, que é
sou o filho mais velho de dois filhos mais velhos como continuo a tratá-lo dentro de mim, estava em
e foi a única vez que vi o meu pai chorar apesar dos Bragança, numa dessas comemorações do

6 VISÃO 8 FEVEREIRO 2018


08-02-18 03:25

10 de Junho, e veio logo para Lisboa mas pela Beira Alta, esquisito, parvo, com uma ferida enorme cá dentro
claro, em homenagem ao pai, e quando chegou e nos que não entendia, fechado num mundo de angústia,
abraçámos agradeci-lhe tê-lo feito, respondeu-me contraditório, violento, a tremer de um amor que me
(nunca esquecerei a sua cara) consumia e não era capaz de comunicar a ninguém.
– Os teus direitos de primogenitura Depois melhorei ao começar a escrever. Como se pode
ele que tinha muito mais qualidades de primogénito estar cheio de paixão e não conseguir transmiti-la?
do que eu, que vivo num mundo que nem sei bem E não sou má pessoa, palavra. Quer dizer: acho que não
qual é. Adiante. Anda-me lá com isto, Almeida Lima. sou má pessoa. Depois hoje fiquei sem metade
Por volta dos quinze anos, a minha mãe começou do corpo. A que sobra irá desaparecer por seu turno,
a ensurdecer. Os meus avós levaram-na ao médico. é uma questão de tempo. Continuarei sozinho dentro de
Contava ela que lhe disseram mim. Como o meu avô. Como o meu avô mas sem a sua
– Não caia na asneira de ter filhos para não lhes bondade, a sorrir vagamente num canto da varanda para
transmitir esta doença. a serra, fechado na redoma de silêncio que me deixou.
Perguntei Lembro-me do seu sorriso. Herdei-o: é meu agora. Pode
– O que fez a mãe? ser-se feliz assim. Pode ser-se feliz assim? Que pena não
Respondeu-me conseguir perguntar-lhe. Como se sentem os senhores
– Chorei uma semana e depois arranjei seis rapazes. como você, porque foi sempre um senhor, e os palermas
Acrescentou como eu nunca lhe chegarão aos
– Desafio qualquer mulher calcanhares? Queria tanto vê-lo
no mundo a ter filhos tão bonitos Como se pode estar agora na vindima, de casaco de linho
e tão inteligentes como os meus
num movimento orgulhoso
cheio de paixão e não entre os cachos de vinho branco. Por
mais moucos que estejamos os dois
e tranquilo. Apesar de fisicamente conseguir transmiti- e por muito pouco que falássemos
frágil era dura como aço. O meu pai, -la? E não sou má havíamos, palavra de honra, de
quase no fim da vida
– A tua mãe é uma pessoa
pessoa, palavra. Quer conversar todo o tempo: une-nos
a menina dos olhos da sua filha,
extraordinária dizer: acho que não que o avô plantou com paixão neste
sempre sem uma queixa, uma
pieguice. Quando o Pedro morreu
sou má pessoa. Depois mundo enquanto eu sou apenas
o produto mais rebelde dela. Mas
fomos os cinco a casa dela. Disse hoje fiquei sem metade por acaso vi-lhe o rosto quando foi
apenas duas frases. A primeira foi do corpo. A que sobra da história do meu cancro. Olhe,
– Tenham misericórdia de mim
e a segunda
irá desaparecer por não se aborreça comigo mas nunca
dei por tanto amor num rosto de
– Uma mãe não tem o direito seu turno, é uma mulher. Agora multiplique isto por
de estar viva com um filho morto.
E foi logo ter com ele, resoluta,
questão de tempo. seis e junte-os ao pai deles.
A primeira vez, depois da partida
sem uma queixa, sem uma lágrima, Continuarei sozinho do meu pai, que entrei na sua casa,
sem um sobressalto sequer. Pegámos dentro de mim disse
no seu caixão na igreja e levámo- – Isto sem o pai fica vazio.
-lo aos ombros. Fui uma besta de Ele que estava sempre fechado no
incompreensão e violência para com ela quando lhe escritório. A mãe respondeu, de mansinho
disse anos antes – É que o teu pai tinha uma presença muito forte.
– Quis fazer de nós uns aleijados, não foi? E agora, avô, diga-me lá como se vai aguentar com
E ficou calada a olhar-me. Assim, que tempos tantos rivais ao mesmo tempo?
a olhar-me em silêncio. Eu era o grande problema dela: Lembra-se do verde dos olhos dela? Lembra-se que
indisciplinado, desobediente, mau aluno, cercado pelo até os seus pés eram perfeitos? Mãe, mãe, não nos deixe
mimo todo da família. A minha mãe, entrevistada num nunca. Posso não mostrar porém amo-a tanto. Desculpe
livro espanhol, acerca de mim: lá a mariquice eu que uma ou duas vezes
– Foi sempre recebido por todos como um deus na (talvez três)
terra. a sentei ao meu colo. Não imagina como me senti
Era verdade: tratavam-me tão bem. E eu insaciável, feliz.

8 FEVEREIRO 2018 VISÃO 7


OPINIÃO
HISTÓRIAS
DA CAPA
Há uma agonia no
Interior, não se esqueçam
P O R R U I T A V A R E S G U E D E S / Diretor-executivo
1

A
unidade de Portugal, com as cafés apinhados de jovens em amena cava-
fronteiras políticas mais estáveis queira, além de um movimento constante
e duradouras da Europa, não se de pessoas nos largos fronteiros às igrejas.
deve à geografia mas à obra hu- Agora, muitos desses cafés estão fechados,
mana, conforme Orlando Ribeiro a maior parte das casas mostra-se de jane-
tão bem enunciou e explicou, na las trancadas e sem luz, e é preciso espe-
primeira metade do século XX, rar pela hora da missa para se ver alguns
quando revolucionou as bases (poucos) idosos a saírem da igreja. Em vilas
do estudo da geografia em Portugal. Num e cidades do Interior, algumas delas ainda
território de contrastes, “disposto de través há pouco tempo com um dinamismo inte- Temos sugestões
na zona mediterrânica, bem engastado ressante, tem sido praticamente impossível diferentes de
escapadas para
numa península que é como a miniatura encontrar um restaurante aberto nas noites
um fim de semana
de um continente”, segundo as palavras do de sábado – não há clientes suficientes,
prolongado, para
geógrafo, o território português tinha tudo, dizem. Lembro-me também, e não foi as- aventureiros,
na verdade, para ser cultural e politicamen- sim há tantos anos, de passar várias noites comilões,
te muito dividido e fragmentado. Nomea- de Consoada numa aldeia beirã, no meio namorados
damente, como sabemos, entre o Norte e o de centenas de pessoas, em volta de uma ou em família.
Sul, em que o primeiro possui caracterís- imensa fogueira de Natal que aquecia os
ticas atlânticas e sempre foi mais povoado, corpos e os espíritos. Regressei, no último
enquanto o segundo é mais mediterrânico Natal, à mesma aldeia e ao mesmo ritual
e menos habitado.
Nos últimos anos, no
da fogueira: mas desta vez
éramos só algumas de-
2
entanto, tem-se acentuado É gritante ver zenas. E quase todos nós
outro contraste e, novamen- o estado com idades compreendi-
te, em consequência muito das entre os 35 e os
mais de opções humanas
de abandono 65 anos – os mais velhos
do que da própria especifi- a que estão estavam enclausurados
cidade da geografia. É uma devotadas aldeias em lares de idosos, e os
divisão entre o País habitado e povoações onde, mais novos, simplesmente,
e o País desertificado. É a já não existem por ali ou
divisão entre o País que está ainda há cerca de perderam os laços familia-
continuamente no centro uma década, era res que, no passado, ainda Esta solução com
da atenção mediática e o
outro que apenas conse-
possível encontrar os agarravam ao local.
Este abandono
uma imagem da
gue chamar a atenção por cafés apinhados intensificou-se, ao que
serra da Estrela
pode funcionar...
causa das tragédias que se de jovens parece, nos últimos anos,
abatem sobre as suas gentes. quando, curiosamente,
É a divisão entre o País que o Interior até ficou mais
concentra o poder e o País que tem sido
esquecido por todos os poderes.
próximo do Litoral, graças à rede de
autoestradas que rasgou o País em todas
3
Basta voltar a percorrer os territórios do as direções. O problema é mesmo esse:
Interior para perceber a lenta agonia em passou a ser fácil sair de lá. O êxodo
que caíram as regiões mais afastadas das tornou-se mais simples, eficaz e rápido,
grandes cidades do Litoral. Tenho-o feito, até porque, apesar das declarações
com alguma frequência, nos últimos meses, grandiosas ou das retóricas eleitoralistas,
por razões pessoais, em viagens de car- pouco ou quase nada se fez de significativo
ro que, umas a seguir às outras, me fazem que permitisse fixar as pessoas no
despertar para a dimensão de uma realida- Interior, dar-lhes qualidade de vida e criar
de que, sinceramente, não imaginava que vantagens competitivas para as empresas
pudesse ser já tão grande e devastadora. que lá queiram investir e instalar.
É gritante ver o estado de abandono a A unidade do País devia ser um desígnio ... mas esta capa
que estão devotadas aldeias e povoações nacional. Todos o sabemos, é verdade, mas com a Costa
Vicentina é muito
onde, ainda há cerca de uma década, era também todos rapidamente o esquecemos
apetecível. O difícil
possível estacionar o carro e encontrar – como fazemos ao Interior. rguedes@visao.pt
é escolher!

8 VISÃO 8 FEVEREIRO 2018


Manuel Lima Designer, especialista em Visualização de Informação

Tenho medo de que


o volume de informação seja
de tal maneira avassalador que
conduza a uma apatia geral:
a de que as pessoas prefiram
viver a sua vida à margem
de tudo
SARA BELO LUÍS J O S É C A R L O S C A R VA L H O

12 VISÃO 8 FEVEREIRO 2018


V
Vive nos EUA desde 2003, mas o
sotaque açoriano revela-lhe a origem:
Manuel Lima nasceu há 39 anos
em São Miguel. Trabalha na Google
como designer, sendo uma das vozes
mundiais na área da visualização
de dados. A propósito dos seus
livros, a revista Wired escreveu que
transformava informação em arte.
O que é que, neste momento, está a
fazer na Google?
Coordeno uma equipa de cerca de
30 pessoas. Gerimos todo o User
Experience (UX) da Google Cloud,
em Nova Iorque, o que corresponde
a cerca de 18 produtos de big data,
storage e monotorização. Trabalho
com UX designers, UX investigadores
e UX engenheiros.
A visualização de dados é acessível
ao grande público, não é só para
geeks?
Quando comecei, era um nicho de
geeks e académicos. Hoje, ainda não
está em todo o lado como o jornalismo
ou outras áreas da comunicação, mas
acho que está cada vez mais acessível
para o grande público, as pessoas é
que, muitas vezes, não se apercebem
que têm diante de si certo tipo de
trabalhos que já são considerados
visualização de dados. Nos últimos
a razão dessa nossa propensão para o
círculo?
E de que todos somos fazedores e
consumidores de imagens?
Isso é universal. Mas a imagem ainda é
vista de um modo pejorativo.
“É bonita, mas é uma imagem, serve
apenas para ilustrar o texto.”
Esse tipo de pensamento não com-
preende que a imagem é utilizada como
forma de comunicação muito antes de
haver palavras. Durante milhares de
anos, não havia texto, não havia um
alfabeto que pudéssemos ensinar aos
nossos filhos. A imagem e os símbolos
eram o nosso modo de comunicar. E os
círculos foram as primeiras maneiras
que os seres humanos utilizaram para
o fazer: os primeiros datam de cerca de
40 mil anos a.C., aparecem em várias
gravuras rupestres, fazendo anéis
concêntricos, espirais, um sem-nú-
mero de outras formas. Temos uma
Tem muitas saudades de ver o céu 15 anos, abriram-se muitas portas propensão para a imagem porque ela
estrelado: “Nem nos damos conta da e, agora, há uma enorme aposta na está connosco há pelo menos 40 mil
poluição luminosa gerada por cidades visualização de informação sobretudo anos, enquanto o alfabeto tem apenas
como Nova Iorque.” por parte dos media. Quer o New York cerca de 6 mil anos. Uma das áreas que
Olha-se para o seu trabalho e Times quer o Wall Street Journal, acho mais interessantes de estudar é a
pensa-se que o design não só por exemplo, possuem equipas Alta Idade Média, todos os designers
atravessa todos os tempos como exclusivamente dedicadas ao design deviam estudar esse período.
tem que ver com tudo. É assim? de informação. Não é um buraco negro?
Detesto estar dentro de uma caixa, de E as empresas? Não, é um buraco com muito mais luz
uma só disciplina do conhecimento Também, as empresas começam a do que se imagina. É curioso porque,
humano. O que sempre me fascinou perceber que a visualização de dados nos séculos XII e XIII, a Europa foi,
na visualização de dados é que, tal pode ser uma ajuda para tornar literalmente, inundada por um enorme
como o próprio design, está presente visível o invisível. Trabalham, muitas volume de informação vinda da Roma
em tudo, em todas as disciplinas. The vezes, com problemas relativamente e da Grécia Antiga. Fala-
Book of Trees [2014] recolhe 800 anos complexos que só eles conhecem -se em big data como se fosse uma
de cultura visual e The Book of Circles (ou desconhecem), e a visualização de coisa do nosso tempo, mas é preciso
[2017] abrange mil anos. Se vir a dados é uma maneira de trazer à tona ter consciência que o movimento de
minha biblioteca, inclui livros de tudo certos padrões. então foi muito semelhante. Existem
e mais alguma coisa, de Biologia, de Como começou a fazer a vários testemunhos dessa época que
Arqueologia, de Ciência, de Filosofia… investigação para este seu último descrevem um volume avassalador
Gosto dessa pluralidade, costumo livro, The Book of Circles? de informação. Foi a primeira vez
dizer que sou um designer que detesta A ideia nasceu numa palestra que que os estudiosos, na altura ligados
livros de design. dei em Portugal, a propósito da sobretudo à Igreja, idealizaram novas
O design não é, portanto, observação de uma professora de formas para dar sentido e fazer
a disciplina das coisas bonitas Filosofia, Olga Pombo, que me representar essa big data, criando
e/ou funcionais? questionou porque é que a maior muitos dos diagramas que usamos
Longe disso. Sempre fui um designer parte das representações gráficas atualmente. A Alta Idade Média é a
muito pragmático. Quando estava que eu mostrava era circular. Achei génese do design moderno porque
na universidade, em Lisboa, li uma a pergunta muito interessante, mas foi aí que se definiram uma série de
citação do italiano Bruno Munari não consegui dar-lhe uma resposta e, princípios de representação gráfica
defendendo que, neste século, o mais tarde, quando apresentei o meu que, hoje em dia, ainda utilizamos.
designer terá de descer do seu primeiro livro [Visual Complexity, Pode dar exemplos?
pedestal de artista, dignando-se 2011] na Biblioteca Pública de Nova O princípio do chunking, que nos diz
a projetar para as massas, para a Iorque, uma pessoa da assistência que é muito mais fácil processarmos
generalidade da população. De um disse-me que lera um estudo que conjuntos de informação. O cartão
logótipo de uma empresa ao símbolo associava os círculos à felicidade. de crédito é um exemplo: temos
de um talho. Nunca achei interessante Fiquei obcecado com o assunto. segmentos de quatro algarismos
o design como moda, o design do À felicidade e à perfeição. separados porque é mais fácil
ponto de vista artístico, como peça de No fundo, todo o livro é uma tentativa memorizar quatro dígitos de uma
museu. de dar resposta a essa pergunta: qual vez do que uma sequência de

8 FEVEREIRO 2018 VISÃO 13


Seis círculos comentados por Manuel Lima

‘‘A cúpula da Basílica de Superga, em ‘‘Um pormenor da enorme estrutura ‘‘Modelo geocêntrico: a Terra no centro do
Turim, é umas das minhas justaposições circular do Grande Colisor de Hadrões, Universo, rodeada pelos quatro elementos
de círculos preferidas porque contrasta a maior experiência científica alguma e os 11 “céus” (onde podemos observar
religião com ciência’’ vez realizada’’ planetas como Mercúrio, Vénus e Marte)’’
Visions of Heaven, David Stephenson, 2005 Compact Muon Solenoid, Maximilien Brice e Figure of the Whole World, Thomas Blundeville,
Michael Hoch, 2008 1613

16 algarismos. Ou seja, existem E é a visualização de dados que vai


princípios de memorização, inerentes ajudar-nos?
à própria prática do grafismo, que Sim, é. Para mim, foi muito impor-
provêm dessa época. E, tal como hoje, tante um gráfico que um professor
a Alta Idade Média foi também uma me mostrou na Parsons School of
época de experimentação com novas Design, em Nova Iorque. Reflete o
metáforas visuais – as experiências espetro do conhecimento humano:
são riquíssimas, podemos comprová- os dados transformam-se em infor-
-lo em vários manuscritos medievais. mação, a informação transforma-se
Não é, portanto, verdade que este- em conhecimento e o conhecimento
jamos a lidar, pela primeira vez na transforma-se em sabedoria. O que
História da Humanidade, com uma Fala-se em 'big sempre considerei mais interessante
quantidade avassaladora de dados?
Não, não é verdade. Temos é um
data' como se foi a transformação da informação em
conhecimento. Esse é, julgo, o grande
desafio diferente: um volume de dados fosse uma coisa passo: a informação está acessível,
bastante elevado e uma tecnologia
melhor para dar sentido a esses dados.
do nosso tempo, mas, como é que nós, seres humanos,
podemos transformá-la em conheci-
É possível apreender tamanha mas é preciso ter mento humano? Em algo prático que
quantidade de dados?
Para um ser humano, é de facto
consciência que, possa ajudar-nos no dia a dia?
Quer exemplificar?
impossível. Julgo que, se virmos nos séculos XII e Ainda há pouco falava com alguém so-
bem, a nossa capacidade de gerar
dados e de os armazenar excedeu, em
XIII, a Europa foi bre o projeto Tracing the Visitor’s Eye,
realizado em Barcelona. Usaram-se
larga medida, a nossa capacidade de inundada por um imagens do Flickr, retiraram-se a hora
lhes dar sentido. Esse é, de resto, o
grande desafio: daqui a alguns anos,
enorme volume e a localização de cada imagem. Com
estes dois dados, recriou-se o trajeto
num simples computador portátil, de informação de inúmeras pessoas que se passeavam
teremos a mesma capacidade de
possuir igual volume de dados da
vinda da Roma na cidade. Imagine a importância desta
informação para a câmara municipal,
Biblioteca do Congresso ou da British e da Grécia rede de transportes e planeamento
Library. Imagine toda a riqueza do
conhecimento humano no nosso
Antiga. A Alta urbano. Posso dar-lhe mil e um exem-
plos, tem que me mandar parar [risos].
telemóvel. É uma coisa incrível, um Idade Média é a Continue, continue.
desejo irrealizável durante quase toda
a nossa história, não tenho dúvidas de
génese do design Existe outro exemplo, quase um
estudo de caso, e que tem que ver com
que chegaremos lá muito facilmente. moderno o ecossistema: há 15 anos, o bacalhau

14 VISÃO 8 FEVEREIRO 2018


THE BOOK OF CIRCLES, PRINCETON ARCHITECTURAL PRESS
‘‘O número de anos que falta para ‘‘As 65 diferentes variedades de queijo, ‘‘As cores predominantes no vestuário
vários recursos naturais acabarem: agrupadas pela sua textura (mole, meio apresentado na Semana da Moda de
ecossistemas a amarelo, combustíveis mole, meio duro, duro) e pelo animal Londres, Milão, Paris e Nova Iorque,
fósseis a azul, minerais a vermelho’’ produtor (vaca, ovelha, cabra, búfalo)’’ para o outono-inverno de 2015’’
Stock Check, IIB Studio, 2011 The Charted Cheese Wheel, Pop Chart Lab, 2013 Color Chart, EDITED, 2015

na Nova Escócia, no Canadá, estava ver meio vazio. E sou também um termos uma população tão carente
quase a desaparecer. Houve uma ação humanista, na medida em que acredito de informação. Isso existe em várias
imediata para matar a foca, que se no bem da Humanidade e na nossa zonas dos Estados Unidos da América.
julgava ser era o principal predador do capacidade de fazer coisas muito boas. E eu posso estar sentado num café de
bacalhau. Assistimos ao extermínio de A visualização de dados pode Brooklyn a ver um manuscrito medie-
imensos animais, até que um biólogo conduzir a melhores democracias, val de um museu alemão.
se decidiu a fazer uma visualização na medida em que permite dispor E também não é um paradoxo que
do ecossistema (um mapa lindíssimo, de mais informação? seja muito mais fácil consultar a
em rede, no qual se vê o número de A visualização de dados traz mais reprodução de uma gravura secular
espécies e de subespécies de que o transparência às democracias, do que ter acesso a uma imagem de
bacalhau se alimenta) e descobriu-se desmistifica mitos e, à partida, é de 2002?
que era uma subespécie que estava esperar um maior conhecimento do Do ponto de vista digital, existe quase
a conduzir ao desaparecimento público em geral sobre determinadas um laissez-faire: estamos a perder um
do próprio bacalhau. Em suma, a temáticas que anteriormente estariam sem-número de artefactos digitais.
visualização de informação permite escondidas até de modo intencional. Muitos deles já desapareceram,
eliminar certos tabus e certas Tudo isso produz efeitos no poder não há sequer como reavê-los.
maneiras de pensar simplistas. do cidadão comum. Na Idade Média, Outro dos paradoxos é o facto de
Obriga-nos a ter mais literacia dizia-se muitas vezes que devíamos essa informação ser extremamente
visual? cingir essa informação à produção efémera. Houve imagens que não
Há aquela frase que diz que “lemos de livros sobre certos temas e a consegui reproduzir no livro porque
melhor aquilo que lemos mais”, mas determinadas pessoas. foram retiradas do site, o plug-in
as pessoas terão, de facto, de ter uma Tem medo que isso volte a deixou de existir ou a reprodução já
certa flexibilidade mental para se acontecer? não tinha qualidade suficiente.
ajustar a novas metáforas. Sim, tenho sempre receio em relação É a nossa idade das trevas?
Do ponto de vista da privacidade, a esses modos de filtrar a informação, E corremos o risco de os nossos filhos
que consequências pode ter essa que deve estar acessível a todos. olharem para trás e verem uma era
quantidade de dados? E também tenho medo de que o volu- digital negra, em que está muita coisa
Sou um tecnocrata porque acredito me de informação seja de tal maneira a acontecer, mas que, como não foi
que a tecnologia, desde que bem avassalador que conduza a uma apatia documentada, é como se não tivesse
orientada, pode conduzir a coisas geral: a de que as pessoas prefiram existido. Empresas privadas como
boas. viver a sua vida à margem de tudo. o Facebook são detentoras de uma
Isso não é um tecnocrata, é um Isso já acontece? riqueza imensa do ponto de vista
otimista. Julgo que o maior paradoxo de sempre cultural, mas, a qualquer momento,
Sou um tecnocrata otimista. Por é vivermos nesta época que possui o podem abrir falência, fechar os
defeito, sou um otimista, vejo sempre maior volume de informação que al- servidores e nunca ninguém mais vai
o copo meio cheio em vez de o guma vez tivemos e, ao mesmo tempo, ter acesso a nada. sbluis@visao.pt

8 FEVEREIRO 2018 VISÃO 15


RADAR

> A luta continua


Desta vez, quem se manifesta
são os curdos no Líbano que
protestam contra a ofensiva
turca em Afrin, o enclave
curdo na Síria. O ataque
começou há duas semanas
e as autoridades da Turquia
detiveram já mais de 500
pessoas, por declararem
o seu desagrado nas ruas
ou nas redes sociais – tudo
“propaganda terrorista”,
justificou o Ministério
do Interior turco. Até a
Associação Turca de Médicos
viu 11 dos seus membros
serem presos, depois de
afirmar em comunicado que
“a guerra é um problema de
saúde pública” e de pedir
a paz. A operação militar
chamada Ramo de Oliveira
começou no dia 20 e visa
dominar as Unidades de
Proteção do Povo (YPG), as
milícias curdo-sírias que
dominam o território na região
fronteiriça e que, apoiadas
pelos EUA, tiveram um papel
crucial no combate aos
jihadistas do Daesh na Síria.

Foto: Joseph Eid/AFP/Getty Images

16 VISÃO 8 FEVEREIRO 2018


8 FEVEREIRO 2018 VISÃO 17
> A caminho de casa
A época mais concorrida de
viagens na China já começou
– e os comboios de alta velocidade
mostram-se a postos, dada a
expectativa de quase três mil
milhões de deslocações. A razão
de tanta agitação é o Festival da
Primavera, mais conhecido como
Ano Novo Chinês, e que este 2018
é dedicado ao Cão de Terra. Até dia
12 de março, serão 40 dias de um
volume de passageiros imbatível,
um fluxo imenso que começou no
final dos anos 1970. Mas nessa
altura apenas se deslocaram
100 milhões de chineses. Este
ano, estima-se que o número de
passageiros a viajar por rotas
ferroviárias e aéreas aumente
perto de 10 por cento – por
oposição aos trajetos rodoviários,
que diminuem 1,6 por cento.

Foto: VCG/Getty Images


> A brincar, a brincar
A festa começou com o voo do anjo
do costume: milhares prontos para
a folia, reunidos na Praça de São
Marcos, em Veneza, ficaram quase
sem fôlego quando uma estudante
se lançou do alto da basílica, presa
a um cabo de 80 metros, acima da
multidão, e lançou confetis sobre
turistas e venezianos, naquele que
é um dos mais famosos e antigos
carnavais do mundo. Diz-se que
foi criado em 1162, após uma
vitória militar, mas que entrou em
decadência até aos anos 1980. De
volta ao seu auge, não esquece a
brincadeira. O alvo é o preferido dos
dias de hoje, Donald Trump, claro –
e lá está o cartaz atrás do boneco
de cabelo cor de laranja a anunciar
que, em matéria de botões e de
nuclear, “o meu é mais comprido”...

Foto: Awakening/Getty Images


RAIOS X

As donas disto tudo As gigantes da tecnologia anunciaram marcos


inéditos nas suas receitas, confirmando que vivem
uma era de ouro graças à revolução digital

T E R E S A C A M P O S tcampos@visao.pt

Empresas de (muito) valor


Chamam-lhes os pesos-pesados do mundo da tecnologia porque são as que mais impulsionam a inovação
– e isto num cenário de quebra geral no consumo de smartphones

Na Apple, o valor acrescentado Já a Amazon está focada na A Google está por de trás de
assenta muito nos pedidos de automatização dos seus processos patentes consideradas prioritárias
patentes, vinculados a inovações de armazenamento e logística. para diversas áreas, como a
para o iPhone e seus dispositivos Recentemente, inaugurou a Inteligência Artificial em robôs,
periféricos. Além disso, está a Amazon Go, em Seattle, o seu a visão computacional, drones e
tentar desenvolver as experiências conceito de futuro do comércio de carros autónomos – para não falar
de realidade aumentada para os bairro. Só tem de escolher o seu do armazenamento na nuvem, os
utilizadores do iPhone e do iPad produto e sair, sem passar pela dispositivos móveis
– e é ainda a que fez o maior caixa – um conjunto de sensores e as tecnologias sem fios.
esforço para se posicionar faz o resto.

€80
no mundo da saúde digital.

67 €1 500
MILHÕES
MIL MILHÕES
MIL MILHÕES O seu lucro foi o maior de sempre
A receita da Alphabet, dona da
Google, foi muito impulsionada
A Apple bateu o recorde na registado pelo considerado líder pelo aumento das vendas de
faturação, superando as próprias mundial do comércio eletrónico. anúncios online. Só pelo acesso
expectativas. Ao todo, são 1,3 A empresa está também na frente e manutenção da Cloud fez quase
milhões de fiéis, número que no campeonato dos assistentes 1 milhão.
explica o seu sucesso, dada a pessoais – e eletrónicos, claro.
quantidade de aparelhos da marca
a funcionar no planeta. Mais:
os adeptos da marca da maçã
cresceram 30 por cento. Há dois
anos, eram apenas um milhão.

Fiquem atentos porque continuamos muito


empenhados no desenvolvimento de novos produtos”

Jeff Bezos, dono da Amazon e do The Washington Post,


o homem mais rico do planeta

22 VISÃO 8 FEVEREIRO 2018


7
PONTOS DA SEMANA

POR
FILIPE LUÍS*

‘MADAGÁSCAR’, A SEQUELA
António Costa e Vieira da Silva tenham sido a pedra de toque da
estiveram, esta semana, na expressão primeira fase do consulado de António
feliz de um título no site da VISÃO, Costa...)
“entre a espada de Bruxelas e a parede Na mesma semana, a Direção-Geral
parlamentar”: entre os que exigem para os Assuntos Económicos e
a revisão do código laboral, de modo a Financeiros da Comissão Europeia,
reforçar o pendor garantístico, para os que aplaude os progressos contra
trabalhadores, da respetiva legislação, e a precarização, pede o reverso da
os que veem numa maior liberalização medalha, ou seja, despedimentos mais
dos despedimentos a solução para a flexíveis – o que, no limite, mantém
circulação entre postos de trabalho e, a “precarização por outros meios”,
portanto, para o fomento do emprego. reforçando o habitual cinismo e
É uma velha dicotomia que perpassa hipocrisia da tecnocracia de Bruxelas...
as doutrinas de várias escolas opostas Perante estes inputs exteriores, o que
de Economia. A esquerda parlamentar fazem o ministro do Trabalho, Vieira da
subiu o tom das exigências, nesta Silva, ou o primeiro-ministro, António
semana, perante o Governo do PS. Costa? Seguem a regra dos pinguins
E se o acelerar do processo de dos conhecidos filmes de animação da
valorização das carreiras contributivas saga Madagáscar: “Sorrir e acenar.”
longas, de forma que os trabalhadores No fundo, a postura do Governo, face
nessas condições se possam reformar quer às recomendações de Bruxelas
sem penalizações, é um compromisso quer às exigências dos seus parceiros,
a que o Governo não pode escapar é a de fazer-se desentendido. Perante
– mas que o PCP quer ver cumprido a Europa, António Costa vai tendo, para
ainda este ano –, a revisão do código apresentar, o cumprimento do défice,
laboral, exigida pelo Bloco de Esquerda, o crescimento e a descida do
já fia mais fino: nas posições conjuntas desemprego. Para quê mexer? E perante
assinadas com os partidos apoiantes, os parceiros, a letra dos acordos
o PS compromete-se a tomar medidas assinados – e nem mais uma vírgula.
contra a precariedade e relativamente à Ainda por cima, exibindo a medalha
contratação coletiva – mas em nenhum da resistência à... Comissão Europeia!
lado se fala de reversão do código, E ainda por cima, o País não está muito
no seu todo (ainda que as reversões virado ao protesto. Até quando?
*Editor-Executivo
fluis@visao.pt

24 VISÃO 8 FEVEREIRO 2018


160
NÚMERO FRASE

Eu não sou daqueles que dormem


com um olho aberto. Eu, quando
durmo, tenho os três olhos fechados
Bruno de Carvalho, presidente do Sporting, na longa
declaração em que anunciou um ultimato aos sportinguistas: ou
a Assembleia Geral aprova as suas alterações estatutárias
São as peças e disciplinares ou ele demite-se.
Em exibição, na
exposição Fernando
Pessoa: toda a arte é OPORTUNIDADE
uma forma de literatura,
inaugurada, esta Preparar
semana, no Museu
Rainha Sofia, em Madrid.
o futuro
Entre pintura, desenhos Se os grandes políticos
e fotografia, contam-se se revelam em função da
obras de nomes como oportunidade e da coragem,
Almada Negreiros ou o nº 2 de Carlos Carreiras
Amadeo de Souza- na Câmara de Cascais,
-Cardoso. Pode ser Miguel Pinto Luz, pode
visitada até 7 de maio. emergir como um nome
LUSA

incontornável no futuro do
partido. Parece muito cedo
POLUIÇÃO – Rui Rio nem sequer ainda
JULGAMENTO tomou posse – mas é agora

Só vistos Lava-me, porco que começa a construir-se


um protagonismo. Pinto Luz
Se alguém pudesse escrever, nas espumas poluidoras do
Parece que não, no meio chegou a ser dado como
rio Tejo, a conhecida inscrição que volta e meia aparece nos
de operações de nomes possível candidato
vidros de automóveis muito sujos, a dificuldade estaria em
sonantes como Lex ou a suceder a Passos Coelho.
encontrar o destinatário: o Estado negligente que não legisla
Fizz, mas o certo é que há Faltava-lhe notoriedade.
corretamente nem pune os prevaricadores? As autarquias
por aí um processozinho Mas, com frases como
complacentes que abrandam a vigilância para não porem em
– o dos vistos gold, esta – “Rio tem o dever
causa a economia local? Os industriais inconscientes que
lembram-se? de conduzir o partido à
continuam a fazer descargas poluentes na certeza de que só
– que já está em fase 3ª vitória consecutiva
quando estas se tornam visíveis a olho nu é que podem ser
de julgamento. Um dos em legislativas” – fica na
incomodados? De repente, o Parlamento acordou e, numa
arguidos, já ninguém se fotografia. Dando de barato
unanimidade rara, todos os partidos estão de acordo que se
recorda, mas foi ministro que o CDS não existe –
deve fazer alguma coisa. Veremos se, no afã de legislar sob
da Administração quem ganhou, em 2015, foi
pressão, as medidas a tomar salvaguardam, mesmo, o res-
Interna de Passos a PàF... –, aqui está alguém
peito pelo ambiente, economia e postos de trabalho de que
Coelho... Nesta semana, que, aos 40 anos, tem muito
nunca ninguém se lembra quando a ordem é fechar e proibir.
Miguel Macedo negou, tempo para continuar a
em tribunal, qualquer aproveitar as oportunidades
espécie de favorecimento de marcar a agenda.
B I L H E T E S G AT E
a empresas no concurso
dos helicópteros Kamov
– o que quer que isto
Foi só um cravanço
tenha que ver com
os vistos gold, mas o Ninguém parece ter ido à bola bilhetes para a bola”. Claro
assunto fez parte da com o Ministério Público, nes- que não eram os bilhetes que
sessão. Para definir a sua te caso dos bilhetes pedidos estavam em causa, mas uma
posição, o ex-governante por Mário Centeno para ir ver hipótese de favorecimento
usa uma frase conhecida: um jogo do Benfica. Ainda por ilícito. Mas isso, agora, não
“O Ministério Público cima, as buscas no Ministério interessa nada. Afinal, foi só
confunde a estrada das Finanças ficaram errónea um cravanço. E quem nunca
da Beira com a beira mas inevitavelmente asso- cravou nada, como diria Ma-
da estrada.” ciadas ao ridículo de terem nuela Ferreira Leite, que atire
sido motivadas por “dois o primeiro verylight.

8 FEVEREIRO 2018 VISÃO 25


HOLOFOTE

Uma Thurman Depois da fúria, conta a sua história


A segunda vez “Sinto-me mal”
Depois do episódio A ATRIZ AMERICANA, Continuou a
do quarto em
Londres, a atriz DE 47 ANOS, JUNTA-SE fazer filmes com
Weinstein, embora
pediu a uma
amiga que fosse
AGORA AO MITOO E AO tivesse passado
a olhá-lo como
com ela ao hotel
para confrontar
ROL DE MULHERES QUE um inimigo e isso
tenha afetado a
A primeira vez o produtor face FORAM ASSEDIADAS Teremos sua relação criativa
ao o que se tinha com o realizador
Uma Thurman
deu uma grande passado na PELO PRODUTOR sempre Paris
Na verdade, Quentin Tarantino.
entrevista ao jornal
americano New
véspera.
O encontro estava DE CINEMA HARVEY Uma lembra que
já tinha estado
Uma Thurman está
ciente de que o seu
York Times, em marcado para o
bar, mas, quando
WEINSTEIN, COM QUEM numa situação silêncio na altura
em que interpretou
que decide quebrar
o seu silêncio em lá chegou, Uma TRABALHOU EM VÁRIOS caricata com
o produtor, num Mia Wallace, em
Pulp Fiction, ou
foi convencida
relação às histórias
de assédio sexual pelos assistentes FILMES hotel em Paris,
durante um Beatrix Kiddo, nos
em Hollywood. de Harvey a subir encontro de dois volumes de
Também ela, ao quarto dele. LUÍSA OLIVEIRA
trabalho em que Kill Bill (2003 e
conta, foi Foi então que ele surgiu apenas 2004), pode ter
vítima dos surgiram ameaças de roupão. aberto caminho a
comportamentos contra a carreira “Não me senti que outras atrizes
inapropriados do de Thurman. ameaçada. Achei fossem vítimas do
dono da Miramax. O produtor de que ele estava a dono da Miramax.
O produtor Hollywood assume ser superidiossin- “Sinto-me muito
apanhou-a num que pode ter crático, como um mal por todas
quarto de hotel, assediado a atriz, tio tímido as mulheres que
em Londres, mas nega que a e excêntrico.” foram atacadas
por ocasião da tenha ameaçado, Depois, levou-a depois de mim”,
estreia de Pulp porque a considera até uma sauna, assume ao New
Fiction (Thurman uma profissional apesar de ela estar York Times.
era protagonista, “brilhante”. completamente Mas precisou de
a empresa de vestida, casaco esperar que a fúria
Weinstein produzia e tudo. A história passasse – “tinha
e distribuía o acabou com medo de chorar”
filme) e investiu. o produtor – para contar
“Empurrou- embaraçado, ao mundo que
-me para baixo, embora se também ela tinha
tentou agarrar- conhecessem sido um alvo.
-me, fez todo o muito bem, a sair
tipo de coisas de lá.
desagradáveis.
Mas, na verdade,
ele não me forçou
a nada. Eu era tal
qual um animal a
contorcer-me para
sair dali, como
uma lagartixa.”

26 VISÃO 8 FEVEREIRO 2018


ALMANAQUE

PRÉMIO

‘Nobel da Educação’
em versão portuguesa

Aves que espalham o fogo


Criado há três anos, pela
Varkey Foundation, uma
organização sem fins
lucrativos, fundada pelo
indiano Sunny Varkey,
O milhafre-preto é o mais recente suspeito como forma de valorizar
de provocar incêndios florestais professores que usam
práticas inovadoras nas aulas,
É uma descoberta científica com implicações diretas na paisagem portuguesa. o Global Teacher Prize já
Segundo revelou o Journal of Ethnobiology na última edição, citando um estudo premiou, com um milhão de
de geógrafos, biólogos e antropólogos das universidades de Sydney, na Austrália, dólares, Maggie MacDonnell,
e da Pensilvânia, nos EUA, há três espécies de aves que espalham o fogo e criam professora da comunidade
novos focos de incêndio. Entre elas está o milhafre-preto, uma das muitas aves inuít, a palestiniana Hanan
migratórias que nidificam em Portugal. al-Hroub e a inglesa Nancie
Os primeiros a desconfiar de que algumas aves teriam um papel importante na Atwell. Em 2016, Portugal
forma como os incêndios se espalham foram os povos indígenas do Norte da chegou mesmo a ter o
Austrália. Há muito que sustentam que aquele trio, conhecido como “falcões professor João Couvaneiro
de fogo” (milhafre-preto, milhafre-assobio e falcão-castanho), usa uma entre os finalistas deste que
técnica semelhante para encontrar comida: mergulham para apanhar galhos é considerado o «Nobel da
incandescentes e depois lançam-nos sobre zonas secas, ateando novos focos de Educação». Agora a versão
incêndio. Com isso, fazem com que as potenciais presas fujam para campo aberto, portuguesa da iniciativa
facilitando-lhes a caça – um frenesim alimentar, como lhe chama Bob Gosford, irá premiar com €30 mil
o melhor professor de
ornitólogo. “E os aborígenes já sabem disto há 40 mil anos ou mais”, remata um
Portugal. Em maio, quando
dos coautores do estudo Mark Bonta, bolsista da National Geographic e geógrafo
for anunciado o vencedor
na Universidade Penn State. Das três, apenas o milhafre-preto é muito comum do Global Teacher Prize
nos nossos céus a partir da primavera – e até ao fim do verão. Portugal, a organização quer
que os portugueses olhem
para alunos, pais,
e professores como atores de
um sistema cujo papel
é chamar e aproximar todos
da Educação. Nesta cadeia,
os professores funcionam
como “uns distribuidores
de jogo”, assinala Afonso
Mendonça Reis, o docente
que trouxe este prémio
mundial para Portugal. “Têm
um papel de proximidade,
de acesso privilegiado e de
complemento à família.” Com
as candidaturas a decorrerem
até 10 de março, são vários
os critérios de seleção, como
ter impacto nos alunos, na
HISTÓRIA profissão e na inovação que
trazem à Educação. “Os
Descoberto pedaço desconhecido do Muro de Berlim critérios valorizam muito o
envolvimento dos professores
Até agora supunha-se que não havia mais esta descoberta em 1999, numa zona de na sociedade e o seu impacto
remanescentes daquela estrutura – oficial- floresta em Berlim-Schönholz, e concluiu além da escola”, acrescenta
mente tinha sido tudo demolido –, mas afi- que este pedaço era efetivamente do Muro Afonso Mendonça Reis.
nal parte ficou esquecida numa zona flores- original, depois de ter pesquisado em vários Daí ser obrigatório que 85%
tal da cidade. Este resto agora descoberto arquivos locais sobre o destino dado àquela do valor do prémio seja usado
tem 80 metros e era um bocado da barreira secção. Sabe-se agora que é da primeira em projetos extra-aulas,
construída nos anos 1960 para dividir a geração, anterior à chamada “Faixa da Mor- de modo a “dar oxigénio
capital alemã, nos tempos em que Berlim te” que, cheia de arames farpados e torres ao ímpeto criativo
estava no centro da Guerra Fria. O historia- de vigia, impedia a ligação entre a parte e empreendedor
dor amador Christian Bormann, na foto, fez Ocidental e Oriental da cidade. dos professores”. S.C.

8 FEVEREIRO 2018 VISÃO 27


INBOX

M O D É S T I A À PA R T E

Fui alvo de uma


campanha
difamatória reles Agora
só faço
NUNO ARTUR SILVA
Ficcionista e empresário,
ex-administrador da RTP

o que acho
a comentar, pela primeira vez,
o facto de não ser reconduzido
para um novo mandato

que tem
valor
MAITÊ PROENÇA
Atriz brasileira, a festejar
60 anos e 40 de carreira, a
assumir que foi muitas vezes
vítima de assédio – mas
sobreviveu

Queremos deixar
de contribuir para
as ilhas de lixo
PAN PESSOAS-ANIMAIS-
-NATUREZA
Partido escreveu a Al Gore, na
véspera da discussão do projeto
que quer limitar o uso do plástico FRASE DA SEMANA
na restauração

A crise dos
Passar o fim de
semana a passear refugiados não
com a família num C H O Q U E F R O N TA L
é sobre eles,
hipermercado é um
sintoma de atraso
mas sobre
cultural todos nós
JOÃO VIEIRA LOPES AI WEIWEI
Presidente da Confederação do Artista e ativista chinês que, nos seus últimos
Comércio e Serviços de Portugal trabalhos, se tem empenhado em chamar
a atenção para aquela que é considerada a
maior crise humanitária que
o planeta enfrenta, desde
Quando desci do a II Guerra Mundial

Evereste pensei: “Este


não é o meu limite” Se admitirmos Eutanásia tem
ÂNGELO FELGUEIRAS a eutanásia, de ser aprovada
Comandante da TAP, o primeiro a relação de porque há abusos
português a alcançar o polo sul confiança médico- médicos no
-doente é destruída prolongamento da
PEDRO AFONSO vida
Estou com muito mais Psiquiatra e responsável FRANCISCO GEORGE
voz do que o Bono Vox da Associação dos
Médicos Católicos
Presidente da Cruz
Vermelha Portuguesa,
JOSÉ CID Portugueses, a que nunca quis
Cantor, a propósito do último manifestar-se contra a pronunciar-se enquanto
álbum proposta do BE foi diretor-geral da Saúde

Fonte: Diário de Notícias, Jornal de Negócios, Jornal i, Público, The Guardian, TSF
28 VISÃO 8 FEVEREIRO 2018
TRANSIÇÕES

MORTE
Professor emérito de
Ciências Políticas, Gene
Sharp era conhecido
como motor intelectual da
resistência não-violenta.
Nos anos 1950 foram-lhe
impostos nove meses
de prisão por se recusar
a cumprir o recrutamento
para a guerra da Coreia.
Em 1983, fundou o Instituto
Albert Einstein, organização
não-governamental para
fomentar a não-violência e,
em 1994, publicou o famoso
guia prático Da Ditadura
à Democracia, um manual
de contestação viral antes
de haver internet. Dia 28,
aos 90 anos.

Publicou livros e artigos


sobre ciência e educação.
Acumulou passagens por J O S É AV I L L E Z
cargos de liderança nem

O Ronaldo dos tachos


sempre bem-sucedidas. Em
tratamento devido a uma
depressão, Fidel Castro
Díaz-Balart, ou Fidelito,
como era conhecido o filho Já não bastava termos a melhor cidade para viver, as praias mais
mais velho do ex-líder encantadoras, um português à frente do Eurogrupo e outro na ONU
cubano Fidel Castro, acabou
por suicidar-se. Dia 1, aos
– agora Avillez é considerado o cozinheiro do ano, a nível mundial
69 anos.
Há 28 anos que a Academia reconhecimento do caminho feito.”
Internacional de Gastronomia atribui Com apenas 38 anos, o chefe,
o Grand Prix de l'art de la Cuisine. responsável pelos restaurantes
Há 27 anos que víamos o prémio Belcanto, Cantinho do Avillez, Pizzaria
que distingue “os grandes artistas da Lisboa, Café Lisboa e Mini Bar Teatro,
cozinha contemporânea, cujas mestria todos no Chiado, junta-se assim a
e criatividade são reconhecidas um firmamento composto por nomes
internacionalmente”, passar pelas sonantes como Massimo Bottura, Joan
NOMEAÇÃO
mãos de chefes italianos, franceses, Roca ou René Redzepi.
“Autoridade dinamarqueses ou espanhóis. Em 2018 Na mesma altura, a academia francesa
internacionalmente quebrou-se o enguiço, finalmente – atribuiu o prémio de Chef de l’Avenir
reconhecida na Educação”, José Avillez arrebatou-o para Portugal. (jovens promessas, já conquistado
foi como Augusto Santos Numa altura em que Mário Centeno por Avillez em 2005) ao português
Silva, o ministro dos dirige o Eurogrupo, António Pedro Pena Bastos – até há pouco
Negócios Estrangeiros Guterres está à frente da ONU à frente do restaurante da Herdade
justificou a escolha de e Cristiano Ronaldo é o melhor do Esporão –, o de Prix au Sommelier
António Sampaio da do mundo, pela quinta vez, o chefe a Gabriela Marques (Varanda do Ritz,
Nóvoa como embaixador de com duas estrelas Michelin traz outro em Lisboa) e o Prémio Multimédia a
Portugal na UNESCO. Para motivo de orgulho ao País. A notícia, Leonardo Pereira, pelo programa Chef
o Governo, é importante recebeu-a em trânsito, no dia 5. de Raiz. Se ainda quisermos continuar
aproveitar a experiência Como é comum na sua agitada vida, em modo orgulho luso, escreva-se
naquela área do antigo reitor regressava da Califórnia, onde esteve que George Mendes (descendente de
da Universidade de Lisboa, numa formação. Quando aterrou, portugueses), com uma estrela no
agora reitor honorário da comentou, agradecido e honrado: restaurante Aldea, em Nova Iorque, foi
mesma, e antigo candidato
“O nosso objetivo tem sido promover agraciado com o prémio de Literatura
presidencial. Dia 2.
a gastronomia portuguesa no mundo. Gastronómica pelo livro de receitas
Este prémio é, sem dúvida, um My Portugal. Luísa Oliveira

8 FEVEREIRO 2018 VISÃO 29


Artadi
tem 42 anos,
PRÓXIMOS CAPÍTULOS doutorou-se
em Harvard e
faz ioga todos
os dias

3 P E R G U N TA S A . . .

Salvador Malheiro
“Não me importo de ser
o mártir de Rui Rio”
No início, foram as histórias de arregimentação
de militantes, suspeitas de irregularidades e de
viciação de resultados nas eleições internas,
em Ovar. Seguiu-se a suspeita de favorecimento
autárquico à empresa Safina, propriedade de Pedro
Coelho, líder da concelhia do PSD, que levou o
Ministério Público a abrir um inquérito. Salvador
Malheiro, um dos homens a quem Rio deve a sua
chegada à liderança e ao qual se augurava um
E S PA N H A
lugar relevante na futura direção, está na berlinda.

A senhora da Catalunha 1 Sente que é um empecilho para Rui Rio?

Não serei empecilho. Não passei a ser mais


inteligente e poderoso depois de Rio ganhar
Carles Puigdemont, o autoexilado presidente as eleições internas. Estranho que se insista em
da região, negoceia um Conselho da República notícias baseadas em intrigas, falsidades e meias
em Bruxelas. Com um lugar especial para Elsa Artadi verdades, com o objetivo de denegrir-me. Estive,
estou e estarei com Rui Rio por convicção, nunca
Tem um currículo imaculado e ainda não desistiu de ser pro- à espera de cargos ou de lugares. Aliás, já lhe tinha
fessora de ioga. Licenciada e mestre em Economia pela Univer- dito que o meu contrato é com o povo de Ovar, mas
vou ajudá-lo naquilo que ele precisar. Estou com
sidade Pompeu Fabra, em Barcelona, com um doutoramento
este projeto de mudança de corpo e alma.
em Harvard, nos EUA, onde deu também aulas, Elsa Artadi i
Vila nunca pensou dedicar-se à política. Mas as saudades da
sua Catalunha natal fizeram com que abandonasse as funções 2 Não facilitaria a vida ao líder do PSD
de consultora do Banco Mundial, em Washington, e renuncias- se dissesse já que está indisponível para
se igualmente a uma carreira académica na Universidade Luigi cargos, tendo em conta as investigações?
Bocconi, em Milão. É assim que, em 2013, já como funcionária Não faz sentido! Ele sabe que serei sempre solução,
do Govern, o executivo da comunidade autónoma, decide criar nunca problema. Não estou na política por estra-
La Grossa de Cap d'Any (o equivalente à lotaria de fim de ano) tégia ou taticismo. Se não fosse eu o alvo desta
e torna-se uma figura pública. Agora, aos 42 anos, eleita depu- perseguição, seria outro. Mas não me importo de
tada nas eleições regionais de dezembro, é uma das pessoas que ser o mártir de Rui Rio.
fazem parte do círculo de confiança de Carles Puigdemont, o
demitido e autoexilado presidente da Catalunha. O homem que 3 Associa esta polémica aos
declarou unilateralmente a independência pretende ultrapassar resquícios da campanha interna?
o atual impasse nas negociações entre as
forças soberanistas e aposta na forma- Em certo sentido, sim. É uma
ção de dois governos, um em Bruxelas tentativa de, através de mim,
e outro em Barcelona. O primeiro seria tentarem denegrir Rui Rio, um
homem impoluto que chegou onde
PUIGDEMONT um Conselho da República, com pode- chegou por mérito e que é uma
NÃO QUER res executivos, liderado por ele próprio
a partir da capital belga, no hotel Husa
referência do PSD e do País. Estou
de consciência tranquila.
LIDERAR UM President Park; o segundo seria um exe- Tenho orgulho no meu
GOVERNO cutivo de gestão, com Elsa Artadi a tomar
conta da economia e das finanças, na
percurso profissional
e político, e confio na
SIMBÓLICO praça de Sant Jaume. Uma fórmula que Justiça. De resto,
A PARTIR DO aRajoy justiça e o primeiro-ministro Mariano
dificilmente aceitariam mas que
avaliarei o recurso à
justiça para defender
HOTEL HUSA permite a Puigdemont ganhar tempo. o meu nome. Não
PARK, NA Nem que seja para esperar pelas eleições
europeias de 2019 e garantir um lugar
há factos nesta
história, apenas e só
CAPITAL BELGA como eurodeputado. aparências. M.C.

30 VISÃO 8 FEVEREIRO 2018


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RANGEL
O MAL-AMADO
NAS MUITAS FACES DE RUI RANGEL, CABE O JUIZ
MEDIÁTICO A QUEM É CRITICADA A VAIDADE
E A EXPOSIÇÃO; O ADEPTO DO BENFICA QUE SE
CANDIDATOU À PRESIDÊNCIA DO CLUBE; O RAPAZ
QUE FUGIU DE ANGOLA NUM HONDA CIVIC; O “BON
VIVANT” APRECIADOR DO LUXO... AS HISTÓRIAS
DO POLÉMICO DESEMBARGADOR SOB QUEM
PENDEM SUSPEITAS DE CORRUPÇÃO
J O S É P L ÁC I D O J Ú N I O R E S Í LV I A CA N E C O
A
subornos para redigir ou influenciar decisões
judiciais favoráveis – quase não há coragem
nem amizade que cheguem para defendê-lo
sem pedir o anonimato.
Esses, os amigos, são os que agora quase
em surdina dizem que “os outros” sempre
o invejaram. “Ele é brilhante, e um sedutor.
Se entra numa sala e começa a falar prende
toda a gente. Até pode ser um bandido, mas
os outros nunca perdoaram que fosse uma
estrela”, diz um advogado que com ele pri-
vou e o admira. Outros gabam-lhe a garra, a
capacidade para se envolver em projetos cí-
vicos e os seus talentos para a comunicação.
Rangel, o bon vivant, o boémio, o noc-
tívago, que gosta de viagens, de festas e
de bons restaurantes, sempre acompanhado
de mulheres vistosas. Ele é o comentador de
televisão, é o juiz que se candidatou à presi-
dência do Benfica, sofrendo uma humilhante
derrota infligida por Luís Filipe Vieira… que
agora é arguido no mesmo processo, por
suspeitas de troca de favores.
As muitas facetas de Rui Rangel – de
que aqui se levanta o véu – parecem ine-
vitavelmente marcadas por aquele verão
quente de 75.
Angola, julho de 1975. Um Honda Civic, car-
regado de bidões cheios de gasolina, corre DE JORNALISTA A “REVOLTOSO”
contra o tempo, fugindo do cenário de guerra Em agosto de 1975, os irmãos Rangel aterram
que ameaça Sá da Bandeira (hoje Lubango). em Lisboa, sem emprego e sem perspetivas.
A proximidade dos guerrilheiros da UNITA O mais velho, Emídio – que viria a ser diretor
apressa os ocupantes do carro. Os quatro da TSF, da SIC e da RTP, e que faleceu em
irmãos de apelido Rangel – Emídio, Ernâni, 2014 –, chegou a vender livros de porta em
Jorge e Rui, todos confessos simpatizantes porta. Rapidamente, o “caçula” Rui decide
do MPLA – deixavam para trás casas, pro- que esta vida não é para ele e regressa a An-
fissões, amigos, os encontros no café Fló- gola. Com o país a iniciar uma guerra civil,
rida ou as férias nas praias de Moçâmedes. nenhum dos irmãos pensara em voltar. Muito
E também as recordações do Liceu Diogo menos os pais, Emídio, técnico de máquinas
Cão – o mesmo onde, por ironia, andou reformado da Companhia Mineira do Lobito
Jonas Savimbi –, cujos estudantes vestiam e da Junta Autónoma de Estradas, e Edwiges
capa e batina no ano final do Secundário. Augusta.
Sá da Bandeira era a única cidade angolana Após chegar a Luanda, Rui Rangel arranja
“autorizada” por Coimbra a usar esse traje. emprego como jornalista na Rádio Nacional
Na fuga no Honda Civic, os irmãos reve- de Angola. Até que rebenta, a 27 de maio
zam-se na condução, evitando os campos de 1977, a “Revolta Ativa”, uma dissidência
de refugiados, dominados pela UNITA. Dias OS QUATRO pela extrema-esquerda encabeçada por Nito
depois chegam a Windhoek, capital da atual Alves, que as forças afetas ao Presidente
Namíbia. “Só levávamos a roupa que tínha- IRMÃOS RANGEL Agostinho Neto reprimem sem misericór-
mos vestida”, costuma lembrar Rui Rangel, o
mais novo dos irmãos, à época com 20 anos.
FUGIRAM DE dia. Milhares de pessoas foram torturadas
e assassinadas.
Rui Manuel de Freitas Rangel, hoje com ANGOLA EM Neste cenário, foi um “milagre” Rui Ran-
62 anos, mais de três décadas no exercício da
magistratura, agora suspenso, nunca venceria
JULHO DE 1975, gel. Numa entrevista ao site DW, contou
que, naquele dia, quando saía da rádio, foi
um concurso de popularidade entre os seus AO VOLANTE DE “preso por indivíduos que se intitularam da
pares. É o mal-amado. A maioria dos juízes DISA-Direção de Informação e Segurança
não lhe perdoa a vaidade, o protagonismo, UM HONDA CIVIC, de Angola, a polícia política”. Seguiram-se
os traços de juiz superstar que ousou fugir
dos padrões cinzentos do mundo judiciário.
LEVANDO APENAS violentas agressões: “Partiram-me um braço
e fraturaram-me quatro costelas.” Rangel diz
Se, aos poucos, Rangel, se foi tornando “uma “A ROUPA QUE que “tinha algumas pessoas amigas de um
espécie de pária”, de quem a maioria dos ma-
gistrados queria distância, agora – depois de
TÍNHAMOS lado e do outro”, o que explicará o que lhe
aconteceu, mas afirma que “não tinha nada
tornar-se oficialmente suspeito de receber VESTIDA” a ver com a linha mais radical” liderada por

34 VISÃO 8 FEVEREIRO 2018


O QUE É O PROCESSO LEX
Nasceu do Rota do Atlântico – em que José Veiga é o principal arguido – e investiga uma alegada rede de corrupção
e tráfico de influência em torno de decisões judiciais. Rangel está no centro dessa suposta rede e, por isso, o caso está
a ser investigado pelo Supremo Tribunal de Justiça. O desembargador é suspeito de redigir decisões judiciais favoráveis
ou influenciar as de outros, a troco de alegados subornos. Os outros arguidos dividem-se entre supostos clientes,
angariadores, intermediários, familiares e amigos que o terão ajudado a dissimular o património

OCTÁVIO CORREIA
As ligações dos arguidos ao juiz BERNARDO ANDRÉ PROENÇA MARTINS
Os inspetores da PJ que vigiavam José Veiga De uma conta de Veiga saíram cerca de 300
apanharam este escrivão da 9ª secção mil euros para este jovem de 24 anos, filho de
da Relação de Lisboa a transportar processos José Santos Martins. O MP suspeita que uma
para o ex-agente de futebolistas e colocaram-no parte terá sido o pagamento de uma alegada
logo sob escuta. Suspeito de ser um intermediário interferência de Rangel num processo em que
de Rangel, é um dos cinco detidos. Veiga foi absolvido (caso João Pinto).

NUNO PROENÇA JOSÉ SANTOS MARTINS


Enteado do advogado José Santos O advogado tinha no
Martins, é suspeito de também ter seu escritório provas de
sido usado para disfarçar a origem transferências para Rui Rangel.
do dinheiro que, alegadamente, O seguro do carro do juiz também
acabava nas mãos do juiz Rui Rangel. estava em seu nome.
Foi detido por suspeitas de ser
um testa de ferro de Rui Rangel
FÁTIMA GALANTE e de usar contas suas e de
Ainda casada no papel com familiares para fazer circular
Rangel e juíza da 6ª secção alegados subornos.
cível da Relação de Lisboa,
foi constituída arguida por
suspeitas de colaborar com LUÍS FILIPE VIEIRA
o marido num esquema de O presidente do Benfica
venda de decisões judiciais. terá pedido ajuda para
A magistrada já tinha sido resolver uma ação no
investigada por alegadamente Tribunal Administrativo
pedir dinheiro a advogados em e Fiscal de Sintra
troca de sentenças favoráveis, (relacionada com o seu
mas o caso foi arquivado. IRS de 2010). Em troca
do favor, alegadamente
prometera a Rangel um
cargo no Benfica.
JOÃO RODRIGUES
A maioria conhece-o como ex-
-presidente da Federação
Portuguesa de Futebol. Foi advogado
de seguradoras e o primeiro a
representar Álvaro Sobrinho num
processo em Portugal. É suspeito de RUI RANGEL
ser um intermediário entre Rangel O juiz do Tribunal da Relação JORGE BARROSO
e quem queria comprar decisões de Lisboa foi constituído O advogado foi um dos cinco
judiciais favoráveis. arguido por suspeitas de detidos. É suspeito de ter
corrupção, recebimento intermediado o alegado favor
indevido de vantagem, tráfico pedido por Vieira a Rangel.
FERNANDO TAVARES de influência, fraude fiscal e
Vice-presidente do Benfica branqueamento de capitais.
para as modalidades e amigo Tornou-se suspeito no Rota RITA FIGUEIRA
de Rui Rangel, viu o seu gabinete do Atlântico, quando o sócio É mãe de uma filha de Rui
na SAD do clube ser varrido pelos de José Veiga contou que o Rangel. À semelhança do seu
investigadores e foi constituído empresário teria pedido ajuda pai, Albertino Figueira, e de
arguido. Fez parte da lista de Rangel ao juiz para desbloquear Bruna Amaral (ex-namorada de
para as eleições à presidência do um processo fiscal. Rangel), é suspeita de ajudar a
Benfica, em 2012. ocultar património do juiz.

8 FEVEREIRO 2018 VISÃO 35


Uma vida de polémicas
O afastamento do processo de José Sócrates foi apenas mais
um episódio na vida de um juiz que sempre teve uma atração pela
controvérsia. No seu currículo constam suspeitas de plágios,
processos disciplinares, trabalhos para Angola e ligações perigosas

Os plágios probabilidade, iria daquele processo


O acórdão que acabou ter de decidir algum (Eliseu Bumba). O
com o segredo de recurso apresentado caso não chegou a dar
justiça interno na pelo ex-primeiro- origem a um inquérito
Operação Marquês, -ministro, não se disciplinar, porque
em 2015, reproduz coibira de criticar a os factos já tinham
quase quatro páginas justiça portuguesa, prescrito. As suas
de uma decisão da num espaço de colaborações para
Relação de Coimbra, comentário da TVI, Angola e São Tomé
mas Rangel não colo- acusando-a de reagir estão agora também
cou quaisquer aspas de “forma vingativa”. a ser investigadas na
ou itálico. Nesse con- O Supremo entendeu Operação Lex.
teúdo está incluída a que “à mulher de
referência ao padre César não bastava
António Vieira: “Quem ser séria” e que o juiz
levanta muita caça e se tinha excedido nos
não segue nenhuma comentários públicos.
não é muito que se As suas palavras
recolha com as mãos já tinham merecido
vazias.” A decisão outra punição.
continha também Valeram-lhe uma
várias frases retiradas multa de 15 dias de
Os encontros
de um texto científico salário, aplicada pelo
com Veiga
de um professor uni- Conselho Superior
Em fevereiro de 2016,
versitário. da Magistratura e Nito Alves. E meses depois deixou Luanda,
Rangel foi apanhado
O plágio foi desmas- confirmada pelo de volta a Lisboa.
no meio da teia de
carado pelo Público. Supremo Tribunal de Na capital portuguesa, começou a frequen-
José Veiga, o ex-
Justiça. A tudo isto, tar o curso noturno de Direito da Clássica de
-agente que apoiara
Rangel respondia Lisboa. Teve como colegas Isaltino Morais ou
a sua candidatura
dizendo-se vítima de Celeste Cardona. Na turma de Rangel – a A,
à presidência do
um “assassínio de
Benfica. O Ministério que ficou conhecida pelos colegas como “a
caráter” desde que
Público descobrira dos betinhos de direita” –, estudava também
tomara, em setembro
que Veiga e Rangel o ex-ministro e antigo dirigente do Benfica
de 2015, a decisão
mantinham encontros Rui Gomes da Silva.
favorável a um dos
porque o empresário Quem o conheceu, à época, diz que “não se
recursos de José
lhe pedira ajuda para distinguia particularmente como aluno” e que,
Sócrates.
resolver um processo na atividade associativa e política, se “mexia
O Caso Sócrates fiscal. José Veiga muito, mas produzia pouco”. Faça-se-lhe,
O Supremo Tribunal Os trabalhos ainda tentou proteger- porém, a justiça de assinalar que concluiu o
de Justiça decidiu, para Angola se, dizendo que Rangel
curso com uma boa média: 15 valores.
em março de 2017, A procuradora do o procurava porque
caso Vistos Gold
Logo que se formou, em 1981, começou a
que o juiz deveria ser andava “cego com o
impedido de tomar remeteu para o Benfica”. Mas o seu
dar aulas de Direito Processual Civil – tema
qualquer decisão na Conselho Superior sócio Paulo Santana ao qual viria a dedicar vários livros. José
Operação Marquês, da Magistratura, no Lopes apresentou uma Santos Martins, o advogado que foi detido
por haver “motivo final desse processo, versão mais detalhada por suspeitas de ser um testa de ferro de Rui
sério e grave para uma participação sobre o pedido. Rangel, é um dos poucos amigos que o juiz
duvidar da sua contra Rui Rangel Quando questionado conserva desses anos de licenciatura. Com
imparcialidade”. Por por suspeitas de ter sobre o que ganharia frequência, o desembargador era visto nas
várias razões: Rangel recebido dinheiro Rui Rangel em troca imediações do seu escritório num 4º andar
tinha combinado um e viagens (para si e dessas supostas na Avenida de Berna – onde a Polícia Judi-
almoço com Sócrates para o seu filho) por influências, o sócio ciária viria a descobrir registos de transfe-
antes da sua detenção elaborar códigos de Veiga respondeu rências e talões que comprovavam sucessivos
e, apesar de saber jurídicos para Angola, assim: “Não há depósitos na conta do desembargador. Do-
que, com grande através de um arguido almoços grátis.” cumentos que Santos Martins alega serem as

36 VISÃO 8 FEVEREIRO 2018


provas de que sistematicamente transferia
dinheiro para o juiz para saldar uma dívida
superior a 300 mil euros, decorrente de
negócios imobiliários.

O HOMEM DOS CONFLITOS


Em 1983, Rui Rangel ingressou no Centro
de Estudos Judiciários (CEJ), onde escolheu
a judicatura, em detrimento do Ministério
Público. Terminado o CEJ, foi juiz no Tribunal
Judicial de Albufeira, entre 1984 e 1986. Mas
apenas três anos depois, no início de 1989,
surge pela primeira vez na ribalta mediática.
Era “juiz-asa” do coletivo que ia julgar cinco
homens acusados de terem sido recrutados
em Portugal para mercenários dos GAL,
Grupos Antiterroristas de Libertação, uma
organização para-policial espanhola que
encetou uma “guerra suja” contra supostos
etarras, no País Basco espanhol e francês,
provocando, na década de 1980, 27 mortos
em 33 atentados.
Por questões de segurança, o julgamento
foi até transferido do Tribunal da Boa-Ho-
ra para o de Monsanto, em Lisboa, com o
coletivo a ser presidido por Ricardo Cardo-
so, conhecido como o juiz do laço, e tendo
Francisco Caramelo como “segundo asa”.
Perante a estupefação geral, no dia da leitura
da sentença, Ricardo Cardoso e Rui Rangel
apareceram cada um com o seu acórdão.
Francisco Caramelo desempataria, a favor
de Rangel, com Ricardo Cardoso a exarar um
Cenas da vida voto de vencido.
benfiquista Por causa dos permanentes conflitos pro-
Em 2012, Rui Rangel
fissionais e pessoais com o colega Ricardo
candidatou-se
Cardoso, Rui Rangel apenas aguentou traba-
à presidência do
clube, contra Luís
lhar seis meses na Boa-Hora. Dali transitou
Filipe Vieira. Foi para as Varas Cíveis de Lisboa, no Palácio da
derrotado e passou Justiça, o que lhe deu “material” para a sua
a elogiar o “grande tese de mestrado em Ciências Jurídicas. Inti-
e incontestável líder tulada O Ónus da Prova no Processo Civil, a
do Benfica” sua dissertação seria aprovada com distinção,
em julho de 1999, na Faculdade de Direito da
Universidade Católica de Lisboa.
Os conflitos, no entanto, não se ficaram
por aqui. Em 1992, era Rui Rangel vogal da
Associação Sindical dos Juízes Portugueses
AS TRÊS (ASJP), após integrar a lista vencedora das
MULHERES eleições, liderada por Noronha do Nasci-
mento, quando entrou em contenda com
QUE SÃO MÃES o secretário-geral da associação, juiz Bet-
DOS SEUS tencourt Faria, o qual se demitiu em maio
de 1993. Rangel tomar-lhe-ia o lugar, para,
TRÊS FILHOS ainda antes do fim do mandato, em 1994, ele
e Noronha do Nascimento, se incompatibili-
TAMBÉM FORAM zarem por completo. “Rangel não gostava de
CONSTITUÍDAS trabalhar em conjunto, fazia o que lhe ape-
tecia sem dizer nada a ninguém”, relata uma
ARGUIDAS NO fonte conhecedora. E, nos meses em que foi
PROCESSO DA secretário-geral, anota a mesma fonte, “as
despesas correntes da associação cresceram
‘OPERAÇÃO LEX’ como nunca antes tinha acontecido”.

8 FEVEREIRO 2018 VISÃO 37


Nas eleições seguintes da ASJP, o juiz Condomínio
ainda liderou uma lista de oposição à re- de luxo
Nos Terraços da
candidatura de Noronha do Nascimento.
Barra, nos arredores
A “ousadia” valeu-lhe uma “tareia” de 89%
de Lisboa, onde vive, a
contra 11 por cento. renda de um T3 chega
aos €3 500 por mês
VIDA DE LUXO
Em 2004, Rui Rangel sobe a juiz desembar-
gador, transitando para o Tribunal da Relação
de Lisboa. Três anos depois, funda, a convite
do colega Eurico Reis, a Associação Juízes pela
Cidadania, que nasceu com a intenção de ser
uma força de oposição à Associação Sindical
dos Juízes Portugueses. Mas bastaram dois
anos para os dois juízes entrarem em colisão,
com Eurico Reis a demitir-se. “Quando co-
mecei a ter uma maior proximidade com ele
vi coisas de que não gostei. Confrontei-o. Não
me deu respostas satisfatórias. Sempre gostou
de viver bem. De onde vinha o dinheiro? Sei
bem quanto um desembargador ganha e até
onde os nossos salários podem ir”, diz agora
Eurico Reis à VISÃO.
O juiz da área cível do Tribunal da Relação
de Lisboa e atual presidente do Conselho
Nacional de Procriação Medicamente Assis-
tida recorda que, na altura, confrontou os
outros membros da associação com aquelas
suspeitas: “A gota de água foi quando se quis
candidatar à presidência do Benfica. Todo
o envolvimento com o futebol é uma coisa
vergonhosa. Disse-lhes que assim não queria
continuar, mas os outros preferiram apoiá-lo.”
Na verdade, não foi ali que a vida faustosa
de Rui Rangel começou a levantar suspeitas.
“Ainda ele era secretário-geral da Associação
Sindical dos Juízes e já se dizia que estava
metido em golpes. Eu dava o benefício da dú-
vida. Diziam-me para ter cuidado mas não me da Barra, no Alto do Dafundo, onde figuras
davam provas. Não percebia: se era assim tão do mundo desportivo como César Peixoto
perigoso como podia ser secretário-geral? E compraram casa.
quem me dizia isso eram as pessoas que o ti-
nham posto nesse cargo”, lembra Eurico Reis.” AS PAIXÕES E O BENFICA
Advogados, inspetores da Polícia Judiciária JÁ QUANDO ERA Rangel tanto é comparado a Sócrates como
ou procuradores são praticamente unânimes:
as suspeitas sobre Rui Rangel não apanharam
SECRETÁRIO- ficará para a história como o único juiz (até à
data) afastado do processo contra o ex-pri-
ninguém de surpresa. Um coordenador da -GERAL DA meiro-ministro.
Polícia Judiciária recorda que Rangel “sem- Entre processos disciplinares e ligações
pre gostou de bons carros e casas luxuosas”. ASSOCIAÇÃO perigosas (ver caixa As muitas polémicas
Outros ainda não deixam de comparará-
-lo a José Sócrates: em comum dizem ter as
SINDICAL do juiz), Rangel já fez correr rios de tinta.
Ninguém se esquece do que disse ao jornal i,
relações com as mulheres (há três ex-mu- DOS JUIZES em 2015, quando confrontado com suspeitas
lheres de Rangel constituídas arguidas na
Operação Lex), “um perfil de revista cor de
PORTUGUESES, de plágio reveladas pelo Público: “Os juízes
são a classe menos confiável em Portugal.”
rosa”, “o viverem manifestamente acima das AS DESPESAS Essa frase – repetida nos últimos dias nas
suas possibilidades” e “um certo autismo”. redes sociais, em tom jocoso, depois de ter
Como juiz desembargador no Tribunal da CORRENTES sido constituído arguido – era apenas uma
Relação de Lisboa, Rui Rangel não deve re-
ceber mais de 3200 euros líquidos mensais.
CRESCERAM pequena parte das declarações demolidoras
que fez contra os colegas: “Não faço parte
Apesar disso, conduz carros topo de gama COMO NUNCA do grupo de juízes cinzentões que acha que
como um Range Rover (que custa no míni-
mo 85 mil euros) e vive num apartamento
ANTES TINHA está fechado numa redoma de vidro. Infeliz-
mente eles não sabem ser membros de um
arrendado no luxuoso condomínio Terraços ACONTECIDO poder soberano, agem com mentalidade de

38 VISÃO 8 FEVEREIRO 2018


A opulência ceram-se em 2009 e viveram uma relação
atribulada. Apesar de já não viverem juntos,

de Rangel almoçaram e jantaram um com o outro nas


vésperas das detenções.
Bruna Amaral é outra das ex-namoradas
Há muito que a vida de Rangel. Chegaram a ser vistos e fotogra-
faustosa do desem- fados juntos, em junho de 2012, numa festa
bargador Rui Ran- no BBC – Belém Bar Café. Também Bruna foi
gel era comentada constituída arguida no processo.
entre os seus pares Mas se há uma paixão que todos lhe co-
da magistratura. nhecem é o Benfica, clube de que é sócio
Como poderia um desde os seus 27 anos. O benfiquismo tor-
salário de juiz do nou-se mais evidente em 2009, ano em que
Tribunal da Relação integrou pela primeira vez um movimento
de Lisboa – que não de oposição à direção de Luís Filipe Vieira,
deve ultrapassar os juntamente com João Varandas Fernandes. O
3200 euros líquidos – Benfica Vencer, Vencer acabaria, no entanto,
Vida familiar Com o pai (à esq.), chegar para comprar
por desistir de concorrer às eleições, depois
durante a campanha para as eleições um Range Rover de
de José Eduardo Moniz se recusar a avançar
do Benfica, em 2012, e com o irmão 2016 (com um preço
base a rondar os
como candidato. Só que o juiz tomou-lhe o
Emídio (à dir.), já falecido
86 mil euros), para gosto e, em 2012, numa luta contra o relógio,
pagar uma renda de encabeçou ele próprio uma candidatura à
funcionários públicos.” Apesar de todas as um apartamento no presidência do clube. Não conseguiu mais do
suspeitas, o juiz desembargador continuou condomínio luxuoso que uma derrota pesadíssima nas urnas: ob-
a tomar decisões no Tribunal da Relação de Terraços da Barra, teve apenas 17% dos votos dos sócios da Luz.
Lisboa, algo que muitos dos seus pares clas- no Alto do Dafundo, Na época, Rangel era tão contundente nas
sificam agora de “incompreensível”. Só depois em Oeiras, onde ain- suas críticas a Luís Filipe Vieira que todos
da megaoperação de buscas da Operação da vive, bons restau- estranharam quando começou a mudar o
Lex, e de Rui Rangel ser constituído arguido rantes, boas roupas discurso sobre o presidente. Num momento
e notificado para prestar declarações (a lei e ainda sobrar para o juiz rejeitou liminarmente colaborar com o
impede-o de ser detido), o Conselho Superior o sustento de três presidente do clube, mais tarde passou a elo-
da Magistratura decidiu suspendê-lo de fun- filhos de três mulhe- giar-lhe “a faceta diplomática” e, já em 2016,
ções. A mesma medida foi aplicada à mulher res diferentes? Es- descreveu-o como “o grande e incontestável
com quem se casou, teve um filho e da qual sas dúvidas não são líder do Benfica”.
nunca se divorciou no papel: Fátima Galante, de hoje, mas volta- Mais do que Vieira, quem não gostou nada
que estava prestes a tomar posse como juíza ram a ser colocadas da candidatura de Rangel em 2012 foram os
conselheira no Supremo Tribunal de Justiça, agora que Rangel foi próprios magistrados, que não deixaram de
e que é suspeita de atuar em conluio com constituído arguido criticar a inépcia do seu órgão disciplinar
por suspeitas de
Rangel no esquema de corrupção e tráfico de (Conselho Superior da Magistratura) que à
corrupção, recebi-
influência em torno de decisões judiciais. O época se limitou a sugerir ao juiz que sus-
mento indevido de
juiz desembargador também tentou a sorte vantagem, tráfico de
pendesse as suas funções enquanto decorria
no 15º Concurso Curricular de acesso ao Su- influência, fraude fis- o período eleitoral. Rangel limitou-se a pedir
premo Tribunal de Justiça mas não conseguiu cal e branqueamento escusa num recurso que corria na Relação de
classificação para atingir o patamar máximo de capitais. Lisboa contra a claque No Name Boys.
da carreira. A mediatização do juiz sempre foi um pro-
Fátima Galante é na prática ex-mulher do blema para os seus pares, que torciam o nariz
juiz. Na magistratura, muitos comentam com à sua faceta de comentador televisivo. Para a
estranheza que os desembargadores nunca história ficam as suas trocas de impressões
se tenham divorciado no papel. A verdade é com Marinho e Pinto, no programa da RTP
que anos e anos depois continuam amigos e Justiça Cega. O ex-bastonário da Ordem dos
jantam juntos com frequência. Deste relacio- Advogados admira em Rangel “a sua capaci-
namento nasceu João Rangel, filho mais velho dade de trabalho e a sua coragem”: “Porque
do juiz, dentista na clínica Maló (já passou fazia denúncias e criticava a própria Justiça.
por Cascais e Shanghai e está atualmente Era um caso único no País um juiz ser assim,
em Luanda). desassombrado, expor-se daquela maneira
Rui Rangel tem ainda outros dois filhos com críticas aos colegas e ao próprio fun-
de duas mulheres diferentes. Madalena, com cionamento dos tribunais. Há outros juízes
5 anos, é filha de Rita Figueira, sua antiga que comentam na televisão – o Eurico Reis, o
companheira. A jurista – que ia para uma Ricardo Cardoso – mas ninguém fazia aque-
entrevista na Câmara de Cascais no dia em las críticas tão contundentes e tão certeiras.”
que foi detida pela Unidade de Combate à Marinho e Pinto fala num tom elogioso mas,
Corrupção da PJ – é uma das suspeitas de sem querer, acabou por comparar Rui Rangel
ajudar Rangel a ocultar património. Conhe- a dois dos seus “arqui-inimigos”. visao@visao.pt

8 FEVEREIRO 2018 VISÃO 39


OPINIÃO

A dicotomia esquerda
versus direita
P O R A D O L F O M E S Q U I T A N U N E S / Dirigente do CDS

A
dicotomia esquerda/direita é hoje insu- como os manuais de ciência política ordenam.
ficiente para se organizar politicamente Há incoerência ideológica em muita gente, dirão.
o eleitorado, e talvez por isso os partidos Incoerência que os partidos não devem aceitar,
políticos, um pouco por toda a Europa, insistirão. Será? Ou será que essa dicotomia é que,
enfrentem dificuldades na atualização do sendo relevante, se tornou insuficiente para organi-
seu discurso ou do seu posicionamento. zar o eleitorado? Será que essa dicotomia, uma vez
Desde logo, essa dicotomia tem sido alcançado um consenso ocidental pela economia
atenuada pela realidade. O consenso de mercado, responde às questões do nosso tempo?
sobre a superioridade do capitalismo, Tendo a considerar que a grande questão
sobre a economia de mercado, esten- do nosso tempo, nesta vertigem de mudança que a
deu-se da esquerda à direita. Com certeza que há globalização empresta, neste caminho de inovações,
diferenças, espaços para discussão, mas essas dife- novidades, concorrência, nesta existência veloz, glo-
renças são cada vez mais acessórias ou de pormenor. bal, é sobretudo aquela que nos posiciona face a essa
Esquerda e direita estão de acordo sobre a necessi- vertigem, a essa mudança. Como reagir ao novo, ao
dade de vivermos numa economia de mercado, no estrangeiro, ao que nos desafia, ao que concorre, aos
capitalismo. Não é de estranhar que muitas das caras novos produtos e novos serviços e nova economia?
que associamos à austeridade sejam de esquerda. Como reagir à mudança, à velocidade? Essa talvez
O tão odiado Dijsselbloem, agora já menos odiado seja a questão do nosso tempo, e para a qual estão
porque Centeno passou para o lado de lá, é socialis- a organizar-se duas respostas. De um lado, os que
ta, é de esquerda, isto para dar só um exemplo. aceitam a mudança, a concorrência, as novas empre-
Haverá exceções, com certeza, a este consenso, sas, os novos trabalhadores que procuram adaptar-
mas elas são raras e, em muitos casos, começam -se, aclimatar-se, aproveitar as vantagens, mitigan-
a ser episódicas, porque a realidade tem muita força. do os custos de transição, convictos de que não há
Veja-se o Bloco de Esquerda que aprova orçamen- outra forma de subir na vida, de cumprir projetos de
tos que deixam o investimento público em mínimos felicidade, senão entrar no comboio. De outro lado,
históricos, ou o Governo Syriza, que só entusiasmou os que receiam a mudança, que procuram preservar
as redações na oposição e de que agora não se houve a realidade, protegendo empresas e pessoas de novas
falar, orientado em fazer da economia da Grécia uma empresas e novos trabalhadores, fechando frontei-
economia competitiva de mercado. Estes exemplos ras, tentando atrasar o que possa perturbar a ordem
confirmam a tendência, por mais folclore utilizado estabelecida, sempre preferível.
no seu disfarce, de consensualização, por convicção É esta a dicotomia do nosso tempo, penso, que
ou imposição da realidade, de que sem contas certas, separa os que defendem uma sociedade aberta e uma
credíveis, não é possível atrair investimento massivo. sociedade fechada. E esta é uma divisão transversal.
Mas não é só. O eleitorado há muito deixou de Temos direita que defende uma sociedade aberta e
conseguir rotular-se em dois grandes grupos, o da direita que defende uma sociedade fechada. O mes-
esquerda ou o da direita, coerentemente alinhados. mo sucede com a esquerda. Talvez por isso haja tanto
Basta olhar à nossa volta, entre amigos e conhecidos, em comum nos populistas: por mais diferentes que
cada pessoa uma mescla nem sempre coerente de sejam as suas histórias e inspirações, há muito a unir
ideias e sentimentos, umas vezes concordando com os populistas de esquerda ou os de direita, e por isso
partidos de esquerda, outras de direita. a sua atratividade de largo espetro. Da mesma forma,
Haverá espaço para os ferrenhos de um lado ou há muito a unir socialistas que aderem ao liberalismo
para os ideólogos de serviço do outro, mas o eleito- e conservadores que há muito o adotaram, cientes
rado há muito que vai fazendo as sínteses com que de que só numa sociedade aberta poderemos crescer.
se sente confortável. Não é por acaso que os populis- Não há nada de errado em continuar a falar de
tas vão buscar votos a todo o lado, mesmo ao que se direita ou de esquerda. Eu sou de direita. O que se
supunha o oposto. Aconteceu com Trump ou Le Pen. passa é que falar de direita ou de esquerda deixou de
Mas não são só os populistas, porque as variações ser suficiente para se perceber as tendências sociais,
eleitorais na Europa mostram uma flutuação que não o eleitorado, o que é sempre grave para partidos po-
encontraria explicação se o eleitorado se organizasse líticos que não prescindem de eleitores para existir.

40 VISÃO 8 FEVEREIRO 2018


´
O NOVO POQUER
NUCLEAR
MAIS JOGADORES. REGRAS MENOS DEFINIDAS.
TUDO EM JOGO NO GRANDE TABULEIRO MUNDIAL
W. J . H E N N I GA N

Estas crateras em forma


de disco no condado de Nye,
no Nevada, EUA, são resultado
de mais de mil testes nucleares
subterrâneos realizados
pelo Pentágono durante
a Guerra Fria

42 VISÃO 8 FEVEREIRO 2018


N
Num vasto troço de deserto desabitado no sul do Nevada,
nos Estados Unidos da América, centenas de crateras mar-
cam a paisagem. São resquícios das explosões nucleares
do tempo da Guerra Fria, que fizeram derreter as rochas
e fundiram as areias, para assegurar que a América podia
participar no impensável: uma guerra mundial termo-
nuclear. As multidões de cientistas e generais há muito
que partiram – os Estados Unidos não testam uma arma
atómica desde 1992, quando o então Presidente George
H.W. Bush declarou uma moratória unilateral. Mas o
campo de testes da Segurança Nacional do Nevada não
foi completamente abandonado. Uma equipa de guardas
vigia a base adormecida, menos de 140 quilómetros a
noroeste de Las Vegas, pronta a acender as luzes de novo
se o dia chegar.
E pode chegar mais depressa do que muitos julgam.
Desde 1993 que o Departamento de Energia tem de
estar preparado para conduzir um teste nuclear no espaço
de dois ou três anos, se o Presidente o ordenar. No final
do ano passado, a Administração Trump deu ordens, pela
primeira vez, ao departamento para se preparar para levar
a cabo um teste nuclear de aviso em seis meses.
Não é período de tempo que chegue para instalar uma
ogiva a 1200 metros de profundidade, e fixar toda a ins-
trumentação técnica e equipamentos de diagnóstico. Mas
o propósito da explosão, que a Administração rotula de
“um teste simples, sem hesitações e com processos simpli-
ficados”, não se destina a assegurar que as mais poderosas
armas do país estão operacionais, ou a verificar se um
novo tipo de ogiva funciona. Em vez disso, disse à Time
um responsável da Administração de Segurança Nacional
Nuclear, tal teste seria “conduzido para fins políticos”.
A questão, diz esta e outras fontes, seria mostrar à Rús-
sia de Vladimir Putin, à Coreia do Norte de Kim Jong-un,
ao Irão do ayatollah Khamenei e a outros adversários o
que têm pela frente.
O Presidente Trump não ordenou ainda este teste, mas
a simples consideração de uma manifestação de força –
pelo país que abriu a era nuclear ao lançar bombas ató-
micas, em 1945, sobre duas cidades japonesas – marca
um desvio provocatório da linha de contenção sóbria que

8 FEVEREIRO 2018 VISÃO 43


caracterizou a postura norte-americana du-
rante décadas. Para evitar a guerra nuclear e o O PODER destinadas a desnuclearizar a península da
Coreia, ameaçando pelo contrário a Coreia do
alastrar das armas a estados não-nucleariza-
dos, a estratégia dos comandantes-em-chefe,
DA MALA PRETA Norte com o seu botão nuclear “muito maior
e mais potente”. “A política estratégica dos
democratas e republicanos, sempre foi a de Todos os Presidentes EUA tem sido, há muito, a redução do papel
reduzir os arsenais nucleares e forjar novos dos EUA, antes de e do número de armas nucleares”, diz Andrew
acordos de controlo de armas. tomar posse, têm Weber, que trabalhou durante 30 anos nos
A Administração Trump, em contraste, está uma formação para departamentos de Estado e da Defesa, antes
convencida de que a melhor forma de limitar saber como ativar a de se reformar em 2015. “Essa ideia parece
o alastramento do perigo nuclear é expandir bomba nuclear ter sido amachucada e atirada pela janela.”
e anunciar a sua capacidade para aniquilar os A equipa de Trump diz que está a res-
inimigos. Além de pôr o campo de testes do A mala passa de ponder a más políticas das anteriores admi-
Nevada em prontidão, Trump assinou um pla- mãos nos segundos nistrações que deixaram o país vulnerável,
no de 1,2 biliões de dólares para renovar todo que se seguem à enquanto outros países faltaram aos acordos
o complexo de armas nucleares e autorizou o tomada de posse e países que não tinham o nuclear decidiram
desenvolvimento de uma nova ogiva nuclear, a de cada Presidente armar-se. “O Presidente detesta maus ne-
primeira em 34 anos. Está a financiar a pesqui- norte-americano. gócios”, diz à Time um alto responsável da
sa e desenvolvimento de um míssil de médio É transportada por Administração. “Há um entendimento do
alcance móvel. Esta nova arma, se testada ou um assistente que, controlo de armas como um bem intrínseco,
instalada, seria proibida por um acordo velho de forma discreta, a por si mesmo. Nenhum acordo é um bom
de 30 anos sobre forças nucleares, assinado, coloca perto do Chefe acordo. Não pensamos assim.” Responder
durante a Guerra Fria, com a Rússia (que já de Estado recém- agressivamente à violação dos tratados, lan-
violou o tratado). E, pela primeira vez, os -empossado çar novos programas de armas nucleares e
Estados Unidos estão a alargar os cenários recordar ao mundo o poder do arsenal nu-
nos quais o Presidente pode decidir avançar, Também conhecida clear norte-americano, diz esse responsável,
incluindo “ataques estratégicos não nucleares como football é a melhor forma de evitar que outros criem
significativos” como ciberataques. nuclear – ou bola ou aumentem os seus arsenais.
“Temos de modernizar e reconstruir o nuclear –, a mala Os governos estrangeiros lançaram fortes
nosso arsenal nuclear, esperando nunca ter preta é revestida de avisos em resposta. O ministro da Defesa da
de vir a usá-lo, mas tornando-o tão forte e couro, para evitar China urgiu, em janeiro, o governo Trump
poderoso que dissuada quaisquer atos de chamar a atenção a abandonar um “espírito de Guerra Fria”
agressão”, disse Trump, a 30 de janeiro, no e a encarar as questões de uma forma mais
seu discurso do estado da União. “Talvez um Apenas o Presidente “racional e objetiva”. O Presidente russo
dia, no futuro, haja um momento mágico dos Estados Unidos Vladimir Putin acusou, em dezembro, os
em que os países do mundo se juntem para está habilitado a ativar EUA de violarem um acordo histórico sobre
eliminar as armas nucleares. Infelizmente, a bomba nuclear. armas nucleares do tempo da Guerra Fria e
ainda lá não chegámos”. Assim, a mala preta levarem a cabo uma política militar agressiva
acompanha-o em que “afeta seriamente a segurança na Europa
FOGO E FÚRIA todas as deslocações e no resto do mundo”. Tanto a China como a
As rápidas mudanças estratégicas acompa- Rússia estão a elevar o nível das suas armas
nharam a retórica fora das normas de Trump. A famosa mala nucleares. Outras potências nucleares, como a
Até agora, todas as administrações america- preta transporta um Coreia do Norte, o Paquistão, a Índia e Israel,
nas, desde Dwight D. Eisenhower, tinham evi- livro de instruções, continuam a desenvolver novos sistemas.
tado referir-se à possibilidade de lançar uma para ativar a bomba
guerra nuclear e mantinham, avançavam ou nuclear, e o famoso CORRIDA JÁ COMEÇOU
defendiam explicitamente tratados destinados “biscoito”, um Em vez de dissuadir esses esforços, dizem
a limitar a proliferação de armas nucleares. aparelho digital que especialistas em controlo de armamentos
Trump ameaçou abertamente lançar “fogo e pode acionar um de ambos os partidos políticos, as ações de
fúria como o mundo nunca viu” e tem sido ataque nuclear. No Trump vão acelerá-los. Uma nova corrida
hostil aos acordos internacionais. No briefing seu interior há ainda aos armamentos nucleares não seria limi-
do Pentágono de 20 de julho pediu alegada- uma lista com as tada a duas superpotências em busca de um
mente mais armas nucleares, e não menos, localizações onde o equilíbrio estratégico numa Guerra Fria, mas
quando os conselheiros militares sugeriram Presidente dos EUA viria a incluir muitos mais países, incluindo
reduções a nível global dos arsenais nucleares. se pode refugiar inimigos entre si em zonas do globo onde as
Trump classificou como mau negócio o guerras quentes ocorrem com regularidade.
acordo Novo START, que reduz e limita as “A nova corrida aos armamentos já come-
armas nucleares nos Estados Unidos e Rússia. çou”, diz o antigo secretário da Defesa William
Questionou repetidamente o acordo multila- Perry. “É diferente na sua natureza da que
teral com base no qual o Irão suspendeu o seu ocorreu durante a Guerra Fria, que se focava
programa nuclear e prometeu denunciá-lo em na quantidade, com duas superpotências a
maio, se não forem introduzidas alterações. produzirem um número absurdo de armas.
Minou publicamente as conversações diplo- Hoje está concentrada na qualidade e envolve
máticas do secretário de Estado Rex Tillerson vários países em vez de apenas dois. O risco

44 VISÃO 8 FEVEREIRO 2018


Nova corrida ao armamento 215
OGIVAS
140
OGIVAS
7 000
OGIVAS
15
OGIVAS
Em todo o mundo, potências nucleares REINO UNIDO PAQUISTÃO RÚSSIA COREIA DO NORTE
novas ou já estabelecidas estão Construir uma frota O arsenal nuclear A renovação das Desenvolve
a modernizar os seus arsenais. de submarinos deve aumentar na forças nucleares mísseis de curto
Eis o que estão a desenvolver classe Dreadnought próxima década. inclui novos e médio alcance
armados com O governo deu submarinos e lançou o primeiro
mísseis balísticos prioridade ao e bombardeiros ICBM em julho.
tipo Trident II D5. desenvolvimento modernos, Ainda tem de
Operacionais em de capacidade em juntamente com provar capacidade
Submarino Míssil Aeronave 2030 mísseis balísticos novos ICBM móveis de lançamento no
e de cruzeiro e pesados mar, os sistemas
de guia ou veículo
de reentrada

AMÉRICA
DO NORTE
EUROPA
ÁSIA 270
OGIVAS
MÉDIO CHINA
ORIENTE
6 800 Conta instalar um
novo ICBM móvel,
OGIVAS este ano. Renova
EUA ÁFRICA submarinos e aviões
para transportarem
Reconstruir AMÉRICA
os três pés da 300 DO SUL 80 130 mísseis,
possivelmente
chamada tríade OGIVAS OGIVAS OGIVAS nucleares
nuclear, AUSTRÁLIA
reequipando FRANÇA ISRAEL ÍNDIA
laboratórios de Renovar os submarinos Não reconhecem publicamente o seu Desenvolve um míssil
armas, custaria classe Triomphant para programa nuclear. Negam relatórios de cruzeiro supersónico.
uns 1,2 biliões transportarem o míssil que indicam estarem a armar as suas Primeiro submarino
de dólares nos M51, melhorado em frotas de submarinos diesel-elétricos nuclear ficou FONTE FEDERATION
OF AMERICAN
próximos 30 anos alcance e segurança com mísseis nucleares operacional em 2016 SCIENTISTS; SIPRI

INFOGRAFIA VISÃO

de um conflito nuclear é hoje mais elevado da Força Aérea Paul Selva, vice-presidente
do que era durante a Guerra Fria.” do Estado Maior conjunto, diz à Time que o
A Administração Trump planeia dar em presidente precisa de opções. Trump e os seus
breve um passo em frente no desenvolvi- sucessores, afirma, não podem ter de escolher
mento de uma nova geração de armas na sua entre matar milhões de civis e recuar com-
Revisão da Postura Nuclear, um documento pletamente. “As pessoas sentem desconforto
de estratégia. Desde o fim da Guerra Fria quando se fala de travar uma guerra nuclear e
que os EUA não designam qualquer nova em dar opções ao Presidente, seja lá ele quem
arma nuclear enquanto tal e a Rússia tem for,” diz Selva. “A estabilidade estratégica no
trabalhado para diminuir a escala dos seus mundo entre os nossos concorrentes nucleares
arsenais estratégicos. Um primeiro esboço do e os nossos pares nucleares foi conseguida.
documento, de 64 páginas, publicado em ja- Não é um direito de nascença”.
neiro pelo Huffington Post, incluía duas novas O RISCO DE UM O novo plano de Trump também alarga o
armas instaladas em submarinos, uma delas “uso em primeiro” de armas nucleares por
equipada com uma pequena ogiva atómica
CONFLITO NUCLEAR parte do presidente, estendendo-o a circuns-
para utilização em teatro de guerra. É HOJE MAIS tâncias que incluem “ataques estratégicos
A nova ogiva, conhecida como arma nuclear não-nucleares” contra os Estados Unidos ou
tática, seria disparada de um submarino. Difere
ELEVADO DO QUE ERA seus aliados. Isso pode significar ciberataques
de uma arma estratégica, que está concebida DURANTE A GUERRA contra os sistemas de comando e controlo
para destruir cidades e grandes alvos militares. nucleares ou contra infraestruturas civis,
A América precisa de armas nucleares de com-
FRIA, AVISA O ANTIGO como a rede elétrica ou o sistema de controlo
bate, diz a equipa de Trump, para deter os ar- SECRETÁRIO aéreo, concluíram especialistas em controlo
senais táticos dos adversários. Numa escalada de armas. As anteriores administrações li-
de guerra com a Rússia ou a China, o exército
DE DEFESA DOS EUA, mitaram a ameaça de uma resposta nuclear
norte-americano poderia lançar uma “guerra WILLIAM PERRY a acontecimentos com um número massivo
nuclear limitada” em vez de arrasar cidades de vítimas, como ataques com armas quí-
inteiras com armas estratégicas. O general micas ou biológicas. Stephen Schwartz, um

8 FEVEREIRO 2018 VISÃO 45


especialista em política de armas nucleares,
disse que a preocupação principal é o alargar
do chapéu de chuva nuclear para “incluir estas
novas e não extremas possibilidades, baixando
assim dramaticamente a fasquia do uso da
força nuclear.”

APREENSÃO GENERALIZADA
O plano de Trump também traz uma nova
abordagem, cética, aos acordos de controlo
das armas nucleares. No orçamento do Pen-
tágono para 2018, Trump incluiu fundos para
o desenvolvimento de um novo míssil. Se for
testado ou instalado, o míssil violará um pacto
de há 30 anos com a Rússia, o INF - Tratado
de Forças Nucleares de Alcance Intermédio.
Ao contrário dos seus predecessores, Trump
confronta diretamente a prévia violação
do tratado por parte da Rússia, diz David
Trachtenberg, subsecretário de Defesa, que
ajudou a supervisionar o plano. “O mundo
não é tão benigno como muitos esperavam Imagens reais Controvérsias sobre as relações nucleares
que fosse”, remata. O poder destruidor EUA-Rússia não são coisa nova. Os estra-
Os avanços de Trump em termos de nu- de uma bomba tegas discordam há muito sobre se se deve
clear, expressos tanto em documentos de atómica foi captado, contrariar a ameaça nuclear de Moscovo com
orientação política como em encontros se- em marco de 1953, uma escalada ou com contenção. É um jogo
cretos ao longo do último ano, geraram res- pelos cientistas de póquer nuclear com apostas muito altas.
postas no estrangeiro que vão da preocupação norte-americanos, A Administração Trump, na sua abordagem
silenciosa até à indignação. durante um teste agressiva, está a apostar na coação. “Temos de
A 8 de novembro, quase cinco semanas realizado no deserto ter esta posição de força para trazer a Rússia
depois de Trump aprovar o desenvolvimento do Nevada de novo à mesa das negociações”, diz Laura
do novo míssil, o secretário da Defesa James Cooper, uma especialista do Pentágono. “Mas
Mattis reuniu-se com os ministros da Defesa não estamos a rasgar os tratados que nos ser-
dos países da NATO. Realizado numa sala de viram tão bem nas últimas décadas”.
conferências de máxima segurança e sob a mais Se não conseguir alterar o INF, dizem à
alta classificação, conhecida por “Top Secret Time fontes oficiais, a administração Trump
cósmico”, o briefing de Mattis revelou as infor- não está interessada em entrar em novos
mações da espionagem americana que indicam acordos com a Rússia. Isso é um problema
violação do tratado INF por parte da Rússia. particular porque o novo START, um acor-
As agências de informação dos Estados do de controlo do armamento fundamental,
Unidos reuniram imagens de satélite e infor- vai expirar dentro de três anos. O acordo de
mações adicionais que indicam que Moscovo 2010 limita cada lado a 1550 ogivas nucleares
anda há anos a testar um míssil de cruzeiro instaladas. Se desaparece, seria a primeira vez
que viola o tratado, no campo de testes de que o esforço para limitar os stocks estraté-
lançamento de foguetes de Kapustin Yar no gicos da Rússia e dos Estados Unidos ficaria
leste da Rússia, disseram fontes do Pentágono em suspenso desde 1991.
à Time. O míssil foi agora instalado em duas Os antigos senadores Sam Nunn e Richard
bases militares russas, colocando em risco as Lugar, cuja ação foi crucial para se conseguir a
capitais da Europa. ratificação dos tratados sobre armas nucleares
O míssil de cruzeiro russo, que violou o nos anos caóticos que se seguiram à Guerra
tratado, pode ser lançado sem dar aos aliados Fria, temem o fim do controlo das armas
muito tempo de avanço para determinar o que por junto. “Temos uma erosão severa”, diz
foi disparado contra eles. O líderes teriam de Nunn. “Vamos entrar num período de muito
interpretar rapidamente o bip nos seus ecrãs maior risco na arena nuclear”. Lugar afirma:
de radar e decidir a resposta. O acordo INF, “A tendência é para nos afastarmos deste tipo
assinado pelo Presidente Ronald Reagan e o de acordos internacionais, o que é profunda-
líder soviético Mikhail Gorbachev, em dezem- mente preocupante… e francamente perigoso.”
bro de 1987, foi o único acordo de controlo
das armas nucleares capaz de eliminar uma COMPETIÇÃO ESTRATÉGICA
classe inteira de armas. Forçou as superpo- O resto do mundo, por seu lado, não está de
tências a abater mais de 2600 mísseis, que olhos fechados perante o acelerar da com-
podiam lançar um ataque nuclear na Europa petição EUA-Rússia. Embora os dois países
em menos de dez minutos. tenham quase 93% do arsenal nuclear mun-

46 VISÃO 8 FEVEREIRO 2018


dial, há hoje nove países armados. Estes, não quilómetros 2,800 na atmosfera, dez vezes
só não têm planos de desarmamento, como mais alto que a Estação Espacial Interna-
não pensam em reduzir o número de ogivas. cional. Se a trajetória de voo fosse a direito,
O número de armas nucleares no mundo di- poderia ter atingido Nova Iorque, Washington
minuiu desde a Guerra Fria, de um máximo ou praticamente qualquer outra cidade dos
de cerca de 70300 em 1986 para 14550, se- Estados Unidos.
gundo a Federação de Cientistas Americanos O falso alarme de míssil balístico no Havai,
(FAS). Mas o ritmo das reduções abrandou a 13 de janeiro, foi o lembrete mais dramá-
drasticamente. tico do que está em jogo. Especialistas em
“Hà volta do globo, subiu o valor percebido desarmamento alertam para o facto de este
de adquirir armas nucleares, enquanto que ser apenas um dos riscos numa nova era de
as repercussões de violar tratados diminuiu”, diplomacia arriscada. “Trump não disse o
diz Hans Kristensen, diretor do projeto de que os últimos dez Presidentes disseram,
informação sobre o nuclear da FAS. “Estamos que é que nós vamos liderar as questões da
claramente numa competição estratégica não-proliferação e os acordos de controlo
dinâmica em que todos os lados se estão a de armas”, afirma Thomas M. Countryman,
armar”, afirma. “Se essa dinâmica não é tra- um diplomata com uma carreira de 35 anos.
vada e revertida, teremos uma escalada quase “Acho que isto é uma indicação de que a
inevitável para uma corrida aos armamentos. importância de parecer macho é maior do
É a natureza da besta”. que a redução da ameaça de guerra nuclear”.
Se Trump rompe o acordo nuclear com Philip Coyle, um antigo diretor de testes
o Irão, os analistas temem que Teerão corra no campo de tiro do Nevada, também alerta
para uma arma. O seu rival regional, a Ará- para o perigo de má avaliação. “Vivemos um
bia Saudita, poderia então desenvolver a sua SE TRUMP ROMPER tempo em que precisamos de mais tempo
própria bomba atómica, ou importar uma do O ACORDO NUCLEAR para pensar onde estivemos e para onde va-
aliado Paquistão, que também tem um arse- mos”, declara. “Há pouca margem para erro”.
nal nuclear em crescimento acelerado para
COM O IRÃO, Os americanos de uma certa idade lembrar-
contrariar o seu arquirrival, a Índia. A China OS ANALISTAS TEMEM -se-ão do Relógio do Apocalipse, do Boletim
tem hoje um submarino nuclear, conhecido dos Cientistas Atómicos. Exprime o risco de
como a classe Jin, que dá aos seus militares
QUE TEERÃO CORRA aniquilação pelo nuclear em minutos que
a capacidade para lançar do mar mísseis ba- PARA UMA ARMA. nos separam da meia-noite. A 26 de janeiro,
lísticos intercontinentais. citando as manobras de Trump, o ponteiro
Poucas ameaças são maiores ou mais ime-
O SEU RIVAL dos minutos avançou 30 segundos, o mais
diatas para os EUA que as colocadas pela Co- REGIONAL, A ARÁBIA próximo do Juízo Final que ficámos desde
reia do Norte. Pyongyang lançou um recorde que os Estados Unidos e a Rússia testaram
de 23 mísseis em 16 testes desde que Trump
SAUDITA, PODERIA em 1953 as suas bombas de hidrogénio, com
tomou posse. Testou pelo menos seis ogivas ENTÃO DESENVOLVER meses de intervalo.
nucleares, e a espionagem norte-americana
crê que a Coreia fez progressos na miniatu-
A SUA PRÓRIA
rização de uma ogiva nuclear para montar BOMBA ATÓMICA © 2018, TIME Inc. Todos os direitos reservados.
num míssil. O mais recente lançamento deste Traduzido da TIME Magazine
país isolado, a 29 de novembro, subiu a 4500 e publicado com autorização da TIME Inc.

8 FEVEREIRO 2018 VISÃO 47


OS ESCOLHIDOS
Uns são jovens com mérito, outros tarimbados na política.
Há caras conhecidas mas também revelações. Alguns
podem aparecer já na ribalta, dos outros ouviremos falar
em breve. Rio juntou-os e vai aproveitá-los. O que fazem,
o que pensam e o que se pode esperar deles?
M I G U E L C A R VA L H O

48 VISÃO 8 FEVEREIRO 2018


Arrancar a Rui Rio
qualquer esboço sobre a

A
equipa que vai escolher
para liderar o PSD é
tão difícil como entrar
na caixa-forte do Tio
Patinhas. Mas depois
começa a perceber-se:
Rio preza a lealdade, tem em conta quem se
esgadanhou por ele e desvaloriza carreiris-
mos. Mas, para ter mão na gestão quotidiana
da casa, também precisa de pacificar a fa-
mília social-democrata à custa de “primos e
afilhados” de várias origens e sensibilidades.
Óbvios, na nova geometria “laranja”, serão
o ex-ministro David Justino e o deputado
Feliciano Barreiras Duarte – onde, ver-se-á.
Mas a dupla, além da cumplicidade com o
presidente eleito e de ter sido decisiva para a
vitória, é garantia de experiência política, co-
nhecimento profundo do partido e currículo
em áreas que irão marcar a agenda do PSD.
Do mix que a VISÃO apresenta nas páginas
seguintes estão mais alguns que darão
cartas no partido que Rio está a idealizar, na
frente interna e externa. E ainda haverá es-
paço para premiar a dedicação, compromis-
so e fidelidade histórica de Maló de Abreu e
de Paulo Mota Pinto.
Junte-se a esses um conjunto de notáveis,
dirigentes, deputados ou autarcas que andou
com Rio ao colo e está debaixo dos holofo-
tes. Estes são os casos de Carlos Peixoto
(Guarda), Nataniel Araújo (Vila Real), Adão
Silva (Bragança), Rui Rocha (Leiria), Nuno
Martins (Almada), Pedro Alves (Viseu), Álva-
ro Amaro (Guarda), Cláudia Aguiar (Madeira),
Fernando Ramalho (Maia), Regina Bastos
(Aveiro), Nunes Liberato (ex-chefe da Casa
Civil de Cavaco), Rui Quelhas (Gondomar)
e António Tavares (Porto). O terreno autár-
quico é onde Rio poderá recuperar apoian-
tes de Santana, na presunção de optaram
sem calculismos e de boa-fé. Telmo Faria
(Óbidos), Nuno Freitas (Coimbra) e Paulo
Cunha (Famalicão) serão esses casos. Para o
fim, deixamos Salvador Malheiro, presidente
da Câmara de Ovar e diretor nacional de
campanha de Rio. Com o Ministério Público à
perna, passará ele de estrela do firmamento
a personagem ofuscada? À VISÃO, o autarca
garante que será sempre solução, nunca
problema (ver entrevista na página 30).
A última palavra, em todo o caso, cabe ao
novo inquilino.

8 FEVEREIRO 2018 VISÃO 49


1
CATA R I N A RO C H A F E R R E I R A
37 anos
UP WITH PEOPLE
E “CORAÇÃO NA BOCA” LUCÍLIA MONTEIRO
Primeiro o riso quebra-gelo, conta-
giante, já a fazer furor no PSD. Depois,
o “coração na boca”, de quem não se
põe em bicos de pés mas rejeita mol-
dar-se a calculismos e ao politicamente cação. Conseguiu durante um perío- de Rio. Um deles reporta-se a 1995,
correto. “Os partidos e os políticos são do, mas depois o tempo fugiu. As “ur- quando a Associação Portuguesa das
o lado mais conservador da socieda- gências” da filha de 5 anos impõem-se Empresas do Setor Elétrico e Eletróni-
de. O próprio PSD está fechado para e isso incluiu o recente espetáculo de co convidou Rio para secretário-geral.
os militantes e o Parlamento não pode Karol Sevilla, estrela da telenovela Soy “Davam-lhe 1000 contos à época
ser um balcão de negócios. Deve- Luna, em Lisboa. A poesia de Torga e (5000 euros) por uma tarde, com direi-
mos atrair pessoas qualificadas, com de Sophia são refúgio seguro para ela, to a carro. Rejeitou porque podia haver
valores, ética, e rejeitar quem vive de também adita ao universo de Kafka. conflito de interesses”, recordou o ami-
compadrios, amiguismos e aparelhis- “Ajudou o facto de a minha avó viver go, numa sessão pública, em Viana do
mos. Rio vai trazer ar fresco.” Eis, sem na cidade austríaca onde ficava o sa- Castelo. Noutra altura, Carvalho Mar-
pedir licença, Catarina Rocha Ferreira. natório em que ele morreu. Mas não tins estava em Las Vegas quando “caiu”
Portuense, advogada e antiga aluna sou nada kafkiana.” um presidente do PSD. “Recebi 50 tele-
do Colégio Alemão, foi ela o discreto fonemas a dizer-me para convencê-lo

2
par do ex-ministro David Justino na a candidatar-se a líder, quando ele era
elaboração da moção de estratégia do presidente da Câmara. A chamada da
novo líder. “Partimos muita pedra, foi minha mãe foi ao contrário. Disse-me:
uma experiência riquíssima”, confessa, ‘O Rio é de palavra, não deve aceitar.
depois de passagens pela Assembleia C A R VA L H O M A R T I N S Se aceitar é igual aos outros’.”
Municipal do Porto no último manda- 63 anos Falar do homem que “guarda re-
to de Rio e pelo Conselho de Jurisdi-
ção Nacional do partido. Apoiante de AMIGO, COM CHUVA gisto de tudo o que ganhou, gastou
ou depositou” até hoje, incluindo os
Paulo Rangel, seu antigo professor,
no congresso de 2010, considerou um OU COM SOL canhotos dos cheques, é fácil para o
ex-deputado. “Tem um controlo rigo-
passo natural apoiar Rio. “É persis- “Sou de Ponte de Lima e, por lá, o roso sobre essa área desde o primeiro
tente, honrado, pensa na política para PSD procurou sempre ter o melhor depósito. Está liberto de tudo, mais
o bem comum e é exímio a conseguir empresário, o melhor carpinteiro, o do que as pessoas pensam.” Carvalho
o impossível. Com ele, até acredito na melhor dentista e por aí adiante. Não até já tinha anunciado a sua reforma
maioria absoluta em 2019!” Catarina tenho dúvidas de que, nesse sentido, antecipada destas andanças, mas, no
desafia o PSD a antecipar debates so- a escolha de Rui Rio é um regresso seu caso, será a decisão... irrevogável?
bre evolução tecnológica, Inteligência do partido às origens.” Para António “A política ativa acabou, mas o Rui
Artificial, cibersegurança e ecologia. “O Carvalho Martins, deputado entre sabe que pode contar comigo, sobre-
imediatismo não responde aos grandes 1991 e 2001, e antigo governador civil tudo numa missão como esta.”
problemas da sociedade. É preciso um de Viana do Castelo, “basta que Rio
novo 25 de Abril. Com mais liberda- seja igual a si próprio” para fazer jus
de, mais mobilidade e conhecimento”, à matriz fundadora do velho PPD. E
reclama a ex-presidente da Associação antecipa: “Muita gente ficará sur-
Europeia de Estudantes de Direito. preendida com a sua sensibilidade
Praticante de ioga, domina três para as fragilidades sociais. É algo
línguas e vai a caminho no árabe. Na que mexe muito com ele, embora seja
memória, guarda “o ano espetacular” uma faceta pouco conhecida”, revela
em que se juntou ao projeto Up With o economista e empresário que Rio
People e percorreu o planeta. “Queria escolheu para secretário-geral-ad-
fazer coisas diferentes e o Porto era junto no PSD, em 1996.
pequeno para mim.” Os direitos hu- Estudaram ambos na Faculdade de
manos são a sua praia, Gandhi a refe- Economia do Porto, a relação fez o seu
rência. Um dia, alguém a recomendou caminho e é hoje blindada. “Temos uma
a Arianna Huffington, fundadora do amizade fortíssima”, reconhece o em-
site de notícias The Huffington Post, presário minhoto, guardião de episó-
que a desafiou a escrever para a publi- dios que, segundo ele, atestam o caráter

50 VISÃO 8 FEVEREIRO 2018


3
CASTRO ALMEIDA
60 anos
O CÚMPLICE
AUTÁRQUICO
QUE DETESTA
“CHAPELADAS”
A verdade pode ser nua e crua, sem
deixar feridas, quando é dita por
amigos de longa data. “O Rui é for-
reta, sim!” garante, sem engasgan-
ços, Manuel Castro Almeida, antigo
governante e ex-autarca em São
João da Madeira. Em todo o caso,
convém temperar o que foi dito:
“Ele tem um grande respeito pelo
dinheiro. Pelo seu, sim, mas so-
bretudo pelo dos outros. Não gasta
nada que não seja necessário. De-
testa o desperdício. De tudo: de di-
nheiro, de tempo e até de palavras”,
assegura o atual gestor e consultor
de empresas.
A amizade e a admiração mú-
tuas vêm de trás, do Parlamento,
mas consolidaram-se durante a
experiência autárquica de ambos.
Divergem, claro, mas estão sinto-
nizados quanto à descentralização,
à afirmação do poder local e ao
equilíbrio do território. No amigo,
DIANA TINOCO

Castro Almeida destaca “o pouco


respeito pelo politicamente correto,
o sentido do dever e a capacida-
de de lutar contra a corrente”. Para
um adversário, será “teimoso”. Para volta, porém, a condimentar o perfil. sinais a condizer. A começar pelo
um apoiante, “convicto”. O secretá- “Ouve muito”, garante. “Se outra grupo parlamentar:
rio de Estado do Desenvolvimento opinião for melhor do que a sua, ele “O líder do PSD não tem de estar na
Regional no último governo do PSD volta atrás. E, às vezes, até parece Assembleia, mas quem lá está tem
que nem está a ouvir.” de ter a confiança do líder e agir
As vitórias de Cavaco, “o maior em sintonia com a direção.” Para o
período de desenvolvimento do antigo autarca, a fórmula é simples:
País”, e a “tarefa patriótica de Pas- quanto mais depressa o partido
sos ao tirar Portugal da bancarro- se unir, mais rápido o País perce-
ta” reforçaram a relação de Castro berá quem tem diante dos olhos:
Almeida com o PSD. Mas também “Até porque o Rui tem um enorme
há desconfortos. “O que me dá a potencial eleitoral.” De momento, o
volta ao estômago são as chapela- presidente do PSD não abre o jogo
das eleitorais e a arregimentação de sobre a equipa, mas Castro Almei-
votos. Lido mal com isso”, confes- da, qual chef, sabe que cozinhar a
sa. Certo de que Rio “não é dado a pacificação interna requer condi-
comportamentos sectários e tem mentos variados, nem sempre os
LUCÍLIA MONTEIRO

genuína vontade de integrar quem mais óbvios ou prováveis. “A minha


apoiou o seu adversário sem cálcu- disponibilidade para colaborar com
los mentais”, Castro Almeida espera ele é total. Mas é possível fazê-lo
também, da parte de quem perdeu, sem cargos ou lugares.”

8 FEVEREIRO 2018 VISÃO 51


4
e admite mesmo que os simpatizan-
tes tenham direitos de participação
na vida interna sem a pressão de
torná-los militantes do dia para a
VLADIMIRO FELIZ noite. “Se a pessoa se sentir em casa,
44 anos mais cedo ou mais tarde irá filiar-
O BILL GATES DE RIO -se”, crê. Ele, com pais de esquerda,
sentiu-se em casa a partir das lei-
Não larga o computador portátil, turas de textos de Sá Carneiro. De-
nem durante a conversa. Engenheiro pois, vieram as campanhas, e por aí
mecânico, responsável pela área de adiante, até seguir os passos de Rui
Smart Cities e diretor de Sistemas de Rio. “O PSD precisa de regenerar-
Informação do Centro para Excelên- -se”, afirma. “Não se constrói nada
cia e Inovação da Indústria Automó- de novo sem olhar para a história,
vel, em Matosinhos, Vladimiro co- mas trata-se de fazer valer o melhor
meça e acaba os dias a pensar digital. do partido sem populismos.” Tradu-
“Nos últimos 15 anos, terei ido a um zido por miúdos: “é preciso recupe-
balcão de um banco três vezes”, ilus- rar a identidade. Não podemos ser
tra. A presença de Rui Rio no mundo um bocadinho de tudo, até porque
virtual, na campanha interna, foi da os partidos perdem o ADN em fun-
sua lavra. Se puxarmos o filme atrás, ção dos ciclos de poder”. Deseja um
era óbvio: vereador e vice-presidente PSD ao centro, mas “sem esquecer
do ex-autarca do Porto, o antigo CEO que a sociedade portuguesa é ten-
da Fundação para a Divulgação das dencialmente mais de esquerda”.
Tecnologias da Informação liderou

5
pelouros que tornaram a cidade pre-
miada internacionalmente nas áreas
do digital e da inovação tecnológica.
“A este nível, os partidos continuam
arcaicos. Em parte, isso explica que L I N A LO P ES
um jovem questione porque há de 56 anos
filiar-se num PS ou PSD”.
Vladimiro tem ideias para re- A SINDICALISTA
solver isso. Melhor: tem um plano.
Garante que, “no espaço de um QUE QUER
DESENFERRUJAR
DIANA TINOCO

ano”, seria possível transformar o


partido numa espécie de “PSD Net-
flix”, permitindo aos militantes, em O PSD
qualquer parte do País e do mun-
do, participarem na vida interna Naquele 4 de dezembro de 1980, igualdade de oportunidades está
de forma mais fácil, ágil, regular e estava à espera do fundador do “enferrujado” e “tem de voltar a
transparente. “A revolução organi- partido, num comício, em Setúbal, funcionar. E a igualdade de género
zacional do partido faz-se com mais quando ele optou pela viagem, em é uma peça decisiva”, acrescenta,
proximidade, física e digital.” Tornar direção ao Porto, que terminaria esperançada em ver o partido, já
os debates interativos ou distribuir de forma fatídica em Camara- neste congresso, assumir um pro-
conteúdos em streaming terá de ser te. “Portugal seria diferente se Sá grama reformista em que caibam o
algo tão natural como respirar. Vla- Carneiro não tivesse morrido tão combate às disparidades salariais
dimiro vai mais longe cedo”, crê a engenheira química entre sexos, e à violência sobre as
de formação e dirigente nacional mulheres, e os apoios à natalida-
da UGT, Lina Lopes. Simpati- de. Para a sindicalista e presidente
zante do PSD desde 1977, filiada da Comissão de Mulheres da UGT,
desde 2005, casada, mãe de dois Rui Rio elevará o PSD a “um novo
filhos, a presidente das Mulheres patamar de eficácia política”. Sem
Sociais-Democratas apoiou Rio que a ideologia atrapalhe. “Se 'ser
mas também recebeu elogios da de esquerda' é defender um Estado
candidatura oponente. A luta, ago- que se confunde com a sociedade
ra, é “trazer mais mulheres para a e nacionaliza empresas e bancos,
política” e garantir formalização não quero um PSD de esquerda.
estatutária a esta estrutura in- Se 'ser de direita' é defender um
LUCÍLIA MONTEIRO

formal que conta, para já, com 16 Estado confessional e moralista ou


coordenadoras distritais e várias centrado exclusivamente na Defe-
responsáveis concelhias. No PSD e sa, Segurança e Justiça, não quero
no País, assegura, o mecanismo da um PSD de direita”, resume.

52 VISÃO 8 FEVEREIRO 2018


JOSÉ CARLOS CARVALHO

7
manhas adversárias adquiridos nas
lutas internas do seu distrito, mas
sobretudo no tempo em que foi
secretário-geral da JSD. Em Torres
Vedras, chegou ao pormenor de HUGO CARNEIRO
contar as 31 cadeiras da sede do 35 anos
PSD para desmontar propaladas
enchentes santanistas. De print “PEQUENO RIO”,
screen em print screen, foi iden-
tificando outras matreirices, além CATÓLICO E FÃ
de pôr ao serviço de Rio a rede de
contactos intergeracionais que cul-
DE SARAMAGO
tivou no partido. Chamam-lhe “Pequeno Rio” e já
Membro de uma “orgulhosa e perceberá porquê. Nas eleições
tradicionalista família numerosa”, internas, este quadro do Banco de
pai babado, sportinguista e com Portugal na área da supervisão foi
percurso sólido na área empresarial o homem das contas. “Se não tiver
ligada ao ambiente, Bruno garante: dinheiro para uma campanha digna,
“Não preciso da política.” No Parla- vou no meu carro. Não fico a dever
mento, passou um mau bocado por a fornecedores”, disse-lhe Rui Rio.
causa do apoio a Rio, mas mante- Hugo Carneiro levou a missão à
ve-se firme. “Quero contribuir para migalha. “Consigo identificar o rasto
desconstruir a ideia de um PSD de cada verba que entrou. E ainda
que só pensa em salvar os anéis e devolvi um donativo de 2 mil euros.
os dedos”, assume. Da política com Não estava como eu queria.” As

6
adrenalina a viciado em Dan Brown contas finais serão apresentadas em
e Daniel Silva – “gosto de page-tur- breve, mas “gastámos abaixo dos 90
ners, livros excitantes, tenho pressa mil euros orçamentados”, assume.
de chegar ao fim” –, Bruno tem Hugo foi ao pormenor de criar um
BRUNO COIMBRA gostos musicais que vão do compo- carimbo para inviabilizar as subscri-
36 anos sitor Einaudi a Pearl Jam, passando ções não conformes. “O Hugo não
O GIN LOVER por Caetano Veloso. “Gasto muito
dinheiro em duas coisas: viagens e
deixa pontas soltas. E é mais forreta
do que o Rio. Até guarda os talões
“TODO O TERRENO” gin.” Consta que a garrafeira de gin
é de meter respeito. Estaria horas a
de desconto do Continente”, asse-
gura quem o ajudou na logística.
Dirigiu a “Volta” de Rio ao país do falar sobre “destilações”, “tónicas” Portuense de origens humildes,
PSD profundo que ajudou a des- e “botânicos”, mas o tempo, agora, formou-se em Economia na mesma
montar “meias verdades” sobre o “é de separar as águas”. faculdade de Rio. A trabalhar no
candidato. “Muita gente, depois de BES, licenciou-se em Direito, na
o conhecer, filiou-se no partido”, Católica, em horário pós-laboral.
atesta o deputado Bruno Coimbra, Aderir ao PSD, em 2000, tinha sido
natural do Luso, engenheiro am- o mais fácil: “Fui às Páginas Ama-
biental e ex-mandatário de Passos relas, liguei para as sedes, mas nin-
em Aveiro. O abraço emocionado guém atendeu. Depois lá consegui,
e firme de Rio, no final da campa- sem padrinho.” Integrou as listas à
nha, selou uma amizade construí- Câmara do Porto nas autárquicas
da on the road. Bruno foi mesmo de 2009 em 10º lugar. Rio pedi-
um todo o terreno ou não tivesse ra nomes de jovens com currícu-
ele a experiência e o olho vivo para lo meritório, nada de carreiristas

8 FEVEREIRO 2018 VISÃO 53


políticos. Eles não se conheciam e
só conversaram a sério após uma
reunião do executivo em que Hugo
substituiu um vereador. Dali a nada
estava encontrado o adjunto e coor-
denador do Conselho Municipal de
Finanças que o autarca precisava.
Hugo prefere a agulha virada ao
centro-esquerda. “Não podemos
deixar ninguém para trás. O lucro
não pode ser o princípio nem o fim”,
reforça este católico. Agenda para o
País? Reforma da Segurança Social,
estabilidade do sistema educativo e
descentralização. “Já mudei de casa
por seis vezes e partilho apartamen-
to. Havendo uma filial do Banco de
Portugal no Porto, tenho de estar
em Lisboa?”, questiona. Professor
na Católica, escreve poesia e prosa
para a gaveta. Chegou a Walt Whit-
man via Clube dos Poetas Mortos,
sabe Pessoa de cor, ofereceu várias
edições de Cem Anos de Solidão a
amigos e é fã incondicional de Sa-
ramago. “Não era isto que estava à
espera, pois não?”

8
FELICIANO BARREIRAS DUARTE
51 anos
INCANSÁVEL,
“À VELOCIDADE
LUÍS BARRA

DOS AVIÕES”
Corria 2004, era ele secretário de de resto, distinguido pela comu- seu confronto com a direção foi
Estado com a “pasta” da integração nidade chinesa em Portugal –, pu- público e ruidoso, acusando-a de
de imigrantes, quando o chefe de blicou vários livros e, dizem, é um caucionar a postura “trumpista” e
Governo, Durão Barroso, decidiu trabalhador incansável, “à velocida- xenófoba de alguns protagonistas.
fazer um Conselho de Ministros de dos aviões”, para usar a expres- “Chamei a atenção, inclusive de
sobre o tema em Óbidos. O assunto são com que ele próprio ilustrou Passos, para o facto de o partido
nunca foi pacífico no PSD e, no fi- a vida de governante. Foi chefe de estar a resvalar. O PSD feriu
nal da reunião, um colega chamou- gabinete de Pedro Passos Coelho, e violou grosseiramente o seu pa-
-lhe esquerdista. “Respondi que mas não demorou a desiludir-se. trimónio em áreas como
ficaria preocupado se me chamas- As entranhas do partido, nos a imigração, cujo maior exemplo
sem racista ou fascista.” Esquerdis- seus vícios e virtudes, são-lhe é o discurso populista e demagó-
ta, ele? Feliciano Barreiras Duarte, familiares e, também por isso, foi gico de André Ventura. Até nestas
natural do Bombarral, autoprocla- de utilidade extrema na campanha matérias, tenho grande sinto-
ma-se republicano, católico e não interna para identificar maçãs po- nia com Rio”, assume. Encerrada
socialista. Já agora, conservador dres. “Conhecemo-nos há muitos a disputa interna, “é chegado o
nos costumes, liberal na economia anos, mas o seu perfil de estadista momento para convergir de boa-
e social-democrata nas responsabi- aproximou-nos. -fé”. Do lado de fora, o PSD tem
lidades sociais. Feliciano tem lugar A vitória de Rio encerra o ciclo à sua espera o combate com “um
reservado no universo Rio. Depu- do Portugal negativo, do qual o Governo preocupado em satisfa-
tado, com experiência governativa PSD ainda não tinha feito o luto. zer clientelas e protestos de rua.
– fez parte de três executivos –, É preciso assumir uma oposição Quando se está com os pés acima
tem um pensamento estruturado credível, combativa e esclareci- do chão, algo de errado deve estar
sobre políticas de imigração – foi, da”, desafia. Nos últimos anos, o a acontecer”.

54 VISÃO 8 FEVEREIRO 2018


TAEG:10,5 % TAEG de 10,5% e TAN 8,90% para um financiamento
de 7.500€ a pagar em 48 mensalidades de 187,56€.
MTIC: 9.115,38€. Para mais informações consulte-nos.
MARX
ESTÁ DE VOLTA
À ALEMANHA
No ano em que se celebra o 200º aniversário
do nascimento do autor do manifesto
comunista, o país mergulhou numa vaga
de contestação social inaudita.
As reivindicações culminaram num acordo
histórico com o patronato, que vem
consagrar novas conquistas sociais
PAT R Í C I A F O N S E C A

56 VISÃO 8 FEVEREIRO 2018


8 FEVEREIRO 2018 VISÃO 57
K
Karl Marx lançou o mote: “Proletários de todo
o mundo, uni-vos! Os trabalhadores não têm
nada a perder, a não ser as suas correntes.” Mas
até o pai dos ideais revolucionários de esquerda,
nascido na mais antiga cidade da Alemanha,
Tréveris, abriria a boca de espanto perante a
vitória alcançada esta terça-feira, 6 de feverei-
ro, pelos camaradas da indústria automóvel.
Depois de três dias de greve geral, de-
cretados pela poderosa União de Sindicatos
IG Metall, que representa 2,27 milhões de
trabalhadores dos mais importantes setores
OS CUSTOS
DA GREVE
Três dias de
paralização no
setor metalúrgico
causaram
à indústria
automóvel
prejuízos de 200
milhões de euros
GETTYIMAGES

da economia germânica, o patronato cedeu. AS BASES


Acordou o maior aumento salarial das últimas DO ACORDO
décadas (4,3%), a redistribuição de lucros e
aceitou até, embora com restrições específi-
cas, uma reivindicação sem paralelo a nível
4,3%
Aumento salarial
sobre o “Trabalho 4.0”, buscando manter a
capacidade competitiva dos operários nesta
era tecnológica.
mundial: as 28 horas de trabalho semanal. Num país que se pode gabar de estar muito
“Este acordo será um marco no caminho
para um mundo de trabalho moderno e auto-
determinado”, disse Jörg Hofmann, presidente
€400
ANO
próximo do pleno emprego (a taxa de desem-
prego é agora de 5,4%, a mais baixa desde a
reunificação, em 1990), com os juros da banca
da IG Metall, citado pelo Financial Times. Complemento extra favoráveis à classe média, onde as empresas

27,5%
Eleito em 2015, as preocupações centrais produzem na sua máxima capacidade e a eco-
deste sindicalista, membro do SPD (partido nomia cresce consecutivamente desde 2011
socialista) alemão, retratam bem a situação (subiu 2,2% em 2017), o Bundesbank anun-
confortável em que se encontra o operariado DO SALÁRIO ciou também que em 2018 deverá registar-se
germânico (ver caixa). Mão de obra barata, Prémio anual o maior crescimento dos últimos sete anos.
eles não o são, nem aceitam ser – já bastam 28h de trabalho, As reivindicações salariais continuam a
os 2,7 milhões de precários que se sujeitam a com a redução fazer parte da cartilha sindical, claro. Neste
remunerações de miséria, como identificou o do horário braço de ferro era reclamado um aumento de
Instituto das Ciências Económicas e Sociais comparticipada 6%, mas as prioridades são – e serão cada vez
(WSI). O que os distingue é precisamente pelas empresas mais –, as relacionadas com as condições ge-
a sua qualificação, e a IG Metall conseguiu no caso de rais de trabalho e a promoção de um melhor
recentemente mais investimento das em- trabalhadores com equilíbrio entre a vida pessoal e profissional.
presas na comparticipação dos estudos de filhos ou idosos Como escreveu Marx, há mais de 150 anos,
trabalhadores que pretendam especializar-se, a cargo, durante n'O Capital, “quanto menos comes, bebes,
bem como a criação de um grupo de estudos dois anos compras livros, vais ao teatro e ao café, pen-

58 VISÃO 8 FEVEREIRO 2018


sas, amas, teorizas, cantas, sofres ou praticas Contestação Além do aumento salarial de 4,3%, a par-
desporto, mais economizas e mais cresce o A primeira greve geral tir do vencimento de abril, os trabalhado-
teu capital. És menos, mas tens mais. Assim em 15 anos no setor res receberão um pagamento de 100 euros
todas as paixões e atividades são tragadas pela metalúrgico promete extra neste primeiro trimestre de 2018. Em
cobiça.” Com o nível de conforto assegurado, ser um rastilho para 2019, esse valor fixo será de 400 euros e eles
o proletariado alemão busca agora ser mais – outras paralizações receberão ainda um prémio equivalente a
mas também não aceita ter menos. 27,5% do seu salário mensal, se as condições
económicas favoráveis previstas para os pró-
TRÉGUAS ATÉ 2020 ximos dois anos se mantiverem. Têm ainda
Pode parecer um equilíbrio difícil de alcançar permissão para reduzir a sua semana de tra-
mas foi nesse fio do arame que se escreveram balho de 35 horas para 28 (mas sem manter o
as linhas do acordo assinado esta semana, mesmo salário, como reivindicavam), exceção
e que vigorará durante 27 meses até 31 de feita àqueles que tenham filhos pequenos ou
março de 2020. Para já, abrange 900 mil idosos a cargo, que poderão reduzir o horá-
trabalhadores nas fábricas de Baden-Würt- rio até dois anos e converter o valor dessas
temberg, onde se inclui a Daimler (Mercedes/ horas não trabalhadas em oito dias extra de
Mitsubishi) e o grupo Bosch, por exemplo, folga (pagas). Em contrapartida, as empresas
mas irá ser estendido a toda a metalurgia e podem a partir de agora voltar a propor con-
indústria automóvel nacional – prevendo- tratos de 40 horas por semana, sempre que
-se também um “efeito de imitação” para exista escassez de profissionais qualificados.
outros setores, com negociações dos con- “Não há como negar, o 4 antes da vírgula
tratos coletivos de trabalho aprazados para dói”, desabafou Stefan Wolf, diretor da Sü-
os próximos meses. dwestmetall, a federação de empregadores

8 FEVEREIRO 2018 VISÃO 59


JÖRG
HOFMANN
SINDICALISTA
de Baden-Württemberg, no final das nego- POLIGLOTA
ciações. No entanto, congratulou-se com a
duração do acordo alcançado, que “permite
E FÃ DE PUNK
É um negociador
garantir a organização das empresas”, sem
nato e um mestre da
mais sobressaltos, nos próximos dois anos.
concertação social.
Estas negociações foram acompanhadas Aos 62 anos, o líder
com especial interesse pelo Banco Central da maior central
Europeu, que conseguirá manter valores mais sindical da Alema-
próximos da inflação pretendida se os salários nha – a IG Metall, que
na maior economia da Zona Euro aumenta- representa quase
rem, mas também pelas centrais sindicais de dois milhões e meio
outros países. Depois de em 2015 ter fixado de trabalhadores –
o valor mínimo de pagamento legal em 8,5€ acaba de ver refor-
por hora, colocando a Alemanha no top 5 dos çado o seu prestígio
países com os salários mínimos mais elevados com o acordo agora
(1 527€, contra os 580€ de Portugal, que figu- alcançado para que
ra entre os cinco mais baixos da UE), a mais haja aumentos sala-
importante indústria da Europa volta a ser um riais de 4,3% e uma
“farol” para o mercado de trabalho mundial, semana de 28 horas
evoluindo no sentido contrário à precariedade. para quem precise.
Filho de professo-
A AMEAÇA DOS SINDICALISTAS NAZIS res e licenciado em
O socialismo, o comunismo e a social-demo- Economia e Socio-
cracia nasceram na Alemanha. Mas também o logia, Jörg Hofmann
nazismo. E as eleições de setembro passado ainda colocou a
provaram que esses ideais não foram com- hipótese de seguir
uma carreira acadé-
pletamente derrotados no final da II Guerra
mica na universidade
Mundial. O partido de extrema-direita Al-
de Estugarda. Só
ternativa para a Alemanha (AfD) ficou em
que a curiosidade
terceiro lugar, conquistando 92 deputados. pelo mundo laboral
Curiosamente, muitos dos seus eleitores são colocou-o na rota da
trabalhadores sindicalizados, que tradicio- IG Metall em 1982,
nalmente votariam à esquerda. quando é recrutado
Nos seus discursos à porta das fábricas, como especialista
os líderes da AfD não se cansaram de criticar em novas tecnolo-
a onda de “trabalhos precários” criados nos gias. Foi o início de
últimos anos por cristãos-democratas e so- uma ligação que o
GETTYIMAGES

ciais-democratas e assumiram a bandeira de levaria ao topo da


lutar pelos direitos dos operários – sobretudo instituição, em 2015,
daqueles que têm sido mais afetados pelas reconhecendo os
mudanças na economia mundial, como os seus dotes para lidar
do setor mineiro. com patrões e em-
No Ruhr, uma região que produziu carvão pregados. Militante
desde o séc. XVI, impulsionou a revolução social-democrata,
industrial e aguentou a fatura de duas guer- antigo simpatizante
ras mundiais, a última mina deverá fechar da extrema-es-
querda e da filósofa
marxista Rosa Lu-

A ALEMANHA
xemburgo, Hofmann
é uma personagem
sempre capaz de
surpreender: é gran- ENTRA EM 2018
de fã da banda punk
Die Toten Hosen (Os
COM A TAXA DE
Calças Mortas) e o DESEMPREGO
MAIS BAIXA DE
seu perfil oficial diz
que fala fluentemen-
te francês, inglês e
português. Como SEMPRE E COM
se não bastasse, é
ainda membro dos
A ECONOMIA EM
Conselhos de Super- CRESCIMENTO
RECORDE
visão da Volkswagen
e da Bosh.

60 VISÃO 8 FEVEREIRO 2018


portas no final deste ano. Num bastião tra- Vitória a necessidade de salvar o Estado social ale-
dicionalmente socialista, o candidato da AfD A União de Sindicatos mão – mas para os alemães. “Se queremos
conseguiu 20% dos votos com o seu slogan IG Metall, de matriz justiça social, precisamos gerir bem o fluxo
“pró-carvão, pró-diesel e anti-imigração”, socialista, representa de imigrantes”, disse ao New York Times.
como explicava esta semana, em entrevista 2,27 milhões de “Fronteiras abertas e bem-estar social não
ao New York Times. A indústria automóvel trabalhadores condizem um com outro.”
é agora o principal alvo dos sindicalistas de Depois da chegada de um milhão de re-
extrema-direita, que têm já uma base con- fugiados sírios, desde 2016, e com as vagas
siderável de apoiantes em empresas como a imigratórias sempre em crescendo nas últi-
Daimler e a BMW. O plano, dizem, é criar um mas décadas, do Sul pobre para o Norte rico,
novo grande movimento de trabalhadores: este tipo de discurso encontra terreno cada
a União Alternativa da Alemanha. vez mais fértil nos bairros da classe média
A base nacionalista é, obviamente, a ques- alemã – até entre outros emigrantes mais
tão-chave que diferencia o discurso destes “tradicionais” e com outras raízes na vida
sindicalistas sui generis, que tradicionalmente germânica, como os portugueses.
defendiam mais o capital do que a força do A vida dá muitas voltas mas, mesmo num
trabalho. O caso de Frank-Christian Hansel, país tão inovador, não deixa de ser irónico
um proeminente membro do AfD em Ber- que a cartilha de Karl Marx esteja agora a ser
lim, permite perceber que essa é também a revista e apropriada pela extrema-direita,
porta de entrada para setores do eleitorado que prossegue focada na sua luta, de fábrica
que nunca antes votariam à direita. Hansel em fábrica: “Proletários de toda a Alemanha,
conquistou milhares de votos ao defender uni-vos!” pfonseca@visao.pt

8 FEVEREIRO 2018 VISÃO 61


FOCAR BOLSAS

E, de repente,
veio o crash
“Investir devia
ser mais como ver
a tinta a secar ou
a relva a crescer.
Se queres O inverno ainda vai a meio mas os índices
bolsistas já resfriaram. Com os olhos no
excitação, agarra termómetro da economia nos Estados Unidos
em 800 dólares da América, a ameaça de uma febre de subidas
dos juros deixou os investidores com arrepios.
e vai a Las Vegas” O contágio atravessou o mundo e os mercados
Paul Samuelson caíram a pique. O que vem aí?
Economista norte-
-americano e vencedor PA U L O Z A C A R I A S G O M E S
do Nobel da Economia
(1915-2009)

31-10-2017
23377,24

62 VISÃO 8 FEVEREIRO 2018


Pânico Os corretores
encheram-se de nervos, mas
as perdas foram acentuadas

I
pela atuação das máquinas

26-01-2018
magine que está em plena au-
26616,71 toestrada e que, apesar de alguns
avisos que vai encontrando pelo
caminho, continua a conduzir a
120 à hora e a apreciar a paisagem,
como se nada fosse. Até que, do
meio do nada – e apesar dos si-
nais ao longo da viagem – avista
a lomba. O mais certo é travar a
fundo, correto?
O exercício pode ser um pa-
ralelo para o que aconteceu nos
últimos dias nas bolsas mundiais. Me-
ses de valorizações alimentadas por li-
quidez abundante nos mercados e por
promessas de reduções de impostos
levaram os preços das ações a valores
historicamente altos. Boa parte sem que
se encontrasse uma lógica económica
na base dessas avaliações tão otimistas.
E, de repente, a cavalgada de meses deu
lugar a dias de quedas abruptas.
Vamos a contas: em Nova Iorque,
mais de um bilião de dólares perdidos
em valor em menos de uma semana,
os índices com perdas recorde – no
caso do industrial Dow Jones a maior
perda nominal de sempre, mais de mil
pontos num dia. O “banho de sangue”
estendeu-se à Europa e depois à Ásia,
onde os investidores acusaram o con-
tágio com quedas superiores a 3% nos
índices. Lisboa não escapou ao derrame
05-02-2018 e os investidores viram eclipsar-se em
24345,75 poucos dias todos os ganhos conquis-
tados em 2018.
“No último ano, desde a eleição de
Donald Trump e até agora, os merca-
dos tiveram subidas consecutivas du-
rante um ano sem grandes correções.
Isto deve-se a níveis muito baixos das
taxas de juro e a incentivos dos bancos
centrais”, argumenta Gualter Pacheco,
trader da GoBulling – Banco Carregosa,
referindo-se aos 11 biliões de dólares
de liquidez injetados nos mercados
pelos bancos centrais, como parte dos
estímulos para recuperar as principais
economias mundiais depois da grande
recessão de 2008. Quando o dinheiro
é barato, os investidores tornaram-se
menos seletivos na hora de investir e,
pior, mais insensíveis aos sinais de risco
que já vinham sendo apontados.
No centro das preocupações está a
maior economia mundial, onde o ritmo
de recuperação começa a surtir efeitos
na inflação. Com os EUA próximos do
pleno emprego e os salários a come-
çarem a subir há mais disponibilidade
para gastar e, por isso, maior proba-

8 FEVEREIRO 2018 VISÃO 63


BOLSAS

bilidade de subida dos preços e o risco


de sobreaquecer a economia. A subida
dos juros por parte da Reserva Federal
americana tem exatamente como obje-
tivo impedir esse efeito. Mas a festa nos
mercados estava demasiado boa, e Wall
Street torce o nariz às preocupações do
banco central.
Este movimento da subida dos juros
iniciou-se em dezembro de 2015 (quan-
do os juros eram virtualmente zero) e
já conheceu cinco aumentos, reagindo
aos bons ventos económicos. Na Euro-
pa, espera-se que o BCE siga o mesmo
caminho, ainda que mais tarde.
Agora, os especialistas antecipam
três, quatro ou, no limite, cinco mexidas “SIM, AS PESSOAS
durante 2018. O que alimenta os receios
de que um aumento demasiado rápido
DEVEM PREOCUPAR-SE.
possa penalizar a recuperação em curso
e desencadear, no limite, nova recessão.
NÃO FAZEM IDEIA, MAS
Além disso, juros mais altos retiram TÊM PARTE DO SEU
atratividade ao mercado de ações, até
aqui “dopados” com dinheiro barato FUTURO INDEXADO AOS
e estímulos do banco central.
A juntar à abundância de dinheiro MERCADOS”, LEMBRA
no mercado esteve ainda a expectativa
de ganhos com impostos, criada com a
O ECONOMISTA JOÃO
aprovação da reforma fiscal da admi- DUQUE perdas, vender mais títulos e tornar as
nistração Trump. No final, no espaço descidas mais fortes. “O trading algorít-
de um ano, as ações valorizaram entre mico de papel é mais negativo do que se
20% a 30% nos EUA, sempre a baterem fosse só negociação manual,” considera
máximos históricos. Steven Santos, gestor do BiG.
“Tinha de dar uma correção, houve E para a economia real, que se levanta
tanta liquidez no mercado, uma injeção dos anos de chumbo da crise, o com-
brutal de moeda. Muita dela foi parar portamento dos mercados acionistas
aos mercados,” considera o economista pode criar novos entraves no caminho
João Duque, em declarações à VISÃO. da recuperação. Há o risco de que o sen-
Agora, um quarto do valor acrescen- timento negativo na bolsa, a continuar,
tado pelo efeito Trump evaporou-se, o possa transferir-se para os consumido-
que não desarma o otimismo do líder res, gerando crises de confiança.
norte-americano, que no último ano
agitou a bandeira dos máximos nos HÁ MOTIVO PARA PREOCUPAÇÃO?
mercados como sinal de saúde da polí- “Sim, as pessoas devem preocupar-se.
tica da “América Primeiro”. “O foco do Não fazem ideia, mas têm parte do
Presidente são os nossos fundamentais seu futuro indexado aos mercados. Os
económicos de longo prazo, que se fundos de pensões onde têm alguns in-
mantêm excecionalmente fortes,” rea-
giu a porta-voz da presidência, Sarah PARA A PORTA-VOZ vestimentos vão ressentir-se. É normal,”
sinaliza João Duque. Por outro lado, as
Huckabee Sanders. DA CASA BRANCA alterações muito bruscas aumentam o
risco e o custo do investimento, fazen-
O TRIUNFO DAS MÁQUINAS “O FOCO DO do-o retrair e podendo levar a afrouxar
Apesar nas quedas dos últimos dias este- o crescimento económico.
ve ainda outro fator – a forte intervenção PRESIDENTE Daí à procura de ativos de refúgio
da tecnologia nos mercados. Cada vez
mais transações são realizadas através TRUMP SÃO OS pode ser um passo. E, na teoria, Portugal
pode piscar mais forte nos radares dos
de negociação algorítmica que recorre
a modelos matemáticos para tomar de-
FUNDAMENTAIS investidores em busca de alternativas,
como o imobiliário. “Se começar a ver
cisões de investimento rápidas. O facto
de ter algoritmos a negociar no mercado
ECONÓMICOS DE investidores com capacidade a mudar
investimento das ações para o imobi-
com este pânico acaba por intensificar as LONGO PRAZO” liário e a injetar dinheiro em carteira

64 VISÃO 8 FEVEREIRO 2018


OPINIÃO

O MP. Mas quem,


porquê e para quê?
P O R J O S É C A R L O S D E VA S C O N C E L O S

O
s qualificativos mais o concedera. De imediato concluin-
usados para designar do que o benefício fora concedido
o inquérito do Ministério pela Câmara de Lisboa; e nem era
Público a Centeno foram benefício, mas simples aplicação
“ridículo” e “absurdo”. da lei.
E também lhe ouvi chamar Ora, face a tudo isto, como foi
“envergonhante”. Sem possível o Ministério Público (MP)
divergir do acerto de tais abrir um inquérito a Centeno e
classificações, prefiro não qualificar fazer até uma busca no Ministério
e seguir por outro caminho. Como das Finanças? Sabendo, claro, além
desgraçadamente vem sendo usual de tudo o resto, a repercussão que
não poucos media, com flagrante o (inexistente) “caso” teria a nível
intenção política, interesseiro sen- nacional e, pior, internacional
sacionalismo ou manifesta incom- – com o potencialmente suspeito
petência, ou as três coisas, os factos acabado de ser eleito presidente
apareceram por vezes desvirtuados, do Eurogrupo? Ou seja, sabendo os
mal contados ou apresentados de danos causados a um governante
forma a insinuar relações de causa- – na circunstância, de um inqué-
lidade inexistentes. Sintetizarei rito, mesmo que logo arquivado,
o que julgo essencial. alguns danos sempre ficam – e até,
O ministro das Finanças, lá fora, ao país.
Mário Centeno, benfiquista sócio Conheço a autonomia de que
e parte para Portugal isso trará procura de bancada, que- goza cada magistra-
adicional. De repente ficamos com um rendo assistir a do do MP – no qual,
problema de preço,” avisa. um jogo de risco, o Impõe-se como em toda a par-
Para já, se a queda no preço das ações Benfica/Porto, por saber quem, te, há do bom e do
parece excessiva, não são de afastar novas
descidas. “Foi uma correção bastante exa-
razões de segurança
foi aconselhado a ir
em concreto, mau, há muito quem
se paute pelo escru-
gerada por toda a exposição alavancada para o camarote do foi responsável puloso cumprimento
– a volatilidade tão baixa no ano passado, presidente do clube, pelo inquérito da lei e dos objetivos
o uso da alavancagem e de estratégias o que implicava um a Centeno, nela consignados,
[de investimento] mais exóticas,” afirma convite. Feito por ele, e pode haver quem
Steven Santos. “É difícil prever se vai con- ou por alguém em qual o seu não se paute só por
tinuar. O que ajudou o mercado a subir seu nome, o convi- fundamento isso… Ora é preciso
desde 2014 foram as políticas dos bancos te, lá foi para o sítio e resultado que se saiba, para
centrais. Se a política for invertida, não em que é habitual o bem e para o mal,
me espantaria que houvesse correções”, verem-se numerosos quem, em concreto,
diz por seu lado Gualter Pacheco. políticos, empresários, governantes, é responsável pelo quê, não deven-
Na terça-feira os índices europeus etc. Meses depois, houve uma “no- do ficar tudo sob o “manto” pouco
tocaram novos mínimos de três meses tícia” num diário digital de marcada diáfano de MP. Que ou corresponde
e Lisboa acumulou a sétima queda (há orientação política, a que se seguiu a anonimato ou a atribuir respon-
dois anos que não caía de forma tão uma manchete num diário sensa- sabilidades a quem tem nele ocupa
prolongada). “Os grandes abanões têm cionalista, que noutra peça noticiou a posição cimeira, Joana Marques
sempre este padrão – esticão e subida. haver sido depois concedido um Vidal, que muito prezo e no caso
É o normal, mas não me deixa descan- benefício fiscal ao filho do presi- não terá responsabilidade concreta
sado,” define João Duque, para quem dente dos “encarnados”. Logo… nenhuma.
ainda assim o tropeção dos últimos dias Logo, nada. Nada, concluiria Enfim, impõe-se saber quem to-
foi “supersaudável”. qualquer pessoa com isenção e mou a iniciativa da “operação”, com
“O corrigir para a verdade [dos preços] bom senso. Porque não lhe passaria que fundamento, o que justificou e
não é mau. O que é pena é que suceda de pela cabeça um ministro das Finan- visou a busca ao Ministério, qual o
uma forma tão dramática,” acrescenta. ças “vender-se” por um convite seu resultado, que elementos novos
Por mais sinais que vejam no caminho, para ir para o camarote em vez de levaram ao imediato arquivamento
os mercados parecem esperar até estar ficar no seu lugar na bancada… E, se do inquérito a Mário Centeno… É
em cima dos obstáculos para desligar passasse, no mínimo iria verificar uma questão de transparência. De
o piloto automático. zgomes@exame.pt que benefício fiscal seria e quem Justiça. De defesa do próprio MP.

8 FEVEREIRO 2018 VISÃO 65


EDUCAÇÃO

O que fazer
com a
liberdade?
As escolas deixaram de ser
todas iguais. Pelo menos, as
223 envolvidas num projeto-
-piloto do Ministério da
Educação. Fomos a Estarreja
ver como se constrói este
mundo novo
JOANA LOUREIRO

E
D I O G O B A P T I S TA / N FA C T O S

squeçam o rato de laborató- O 10º ano anda num entusiasmo com e os alunos estão muito entusiasmados.”
rio ou qualquer outra espécie isto de aprender com o que acontece à Mas o que é que se passa naquele
anónima de um ensino mais nossa volta. E de interagir com a comu- agrupamento de escolas, com mais de
académico. Na Escola Se- nidade nem que seja para mudar uma três mil alunos (desde o nível pré-escolar
cundária de Estarreja (ESE), vírgula à realidade. Há quem avance, por ao secundário)? O edifício onde apren-
o estudo de três turmas do exemplo, com a ideia de visitar idosos dem – cuja requalificação foi concluída
10º ano, do curso de Ciências em lares ou em centros de saúde. Ou em 2012 –, com a sua arquitetura de
e Tecnologias, focou-se no com um concerto solidário cujas recei- linhas arrojadas, enquadra-se bem na
lagostim-vermelho-do-Lou- tas possam reverter para os Bombeiros imagem de “escola do século XXI”.
isiana, uma praga invasora Voluntários de Estarreja. Estarreja foi uma das instituições de
vinda dos EUA para os arro- “Uma coisa é falar da investigação do ensino a aderir ao Projeto de Autono-
zais do Baixo Vouga Lagunar, ponto de vista teórico, outra coisa é vi- mia e Flexibilidade Curricular (PAFC),
com um impacto no ecossistema. “Foi venciar o processo de construção do co- a experiência pedagógica lançada pelo
a professora quem sugeriu o tema, mas nhecimento, como eles vão fazer agora”, Ministério da Educação, em 223 escolas
pensámos que seria interessante porque sublinha Dorinda Rebelo, 56 anos (32 de (públicas e privadas) de todo o País, o
é um problema da nossa comunidade”, ensino), coordenadora do departamento que representa um quinto do total. Por
conta Mariana Matos, uma das alunas de Matemática e Ciências Experimentais enquanto, apenas nos anos iniciais de
envolvidas no projeto. da ESE. “Acaba por ser muito mais rico cada ciclo (1º, 5º, 7º e 10º anos). A medida

66 VISÃO 8 FEVEREIRO 2018


Sala de aula O arranjo
das mesas em forma
de U facilita a inclusão
de todos os alunos

implica que até 25% do programa curri- que permite autonomizar do programa
cular possa ser gerido autonomamente aprendizagens que são transversais”,
pelos estabelecimentos de ensino, com explica Dorinda Rebelo. Para Maria-
traduções concretas muito distintas. na, “damos os conceitos que apren-
Como é que isso se faz? Numa en- díamos na sala de aula, mas de forma
trevista recente à VISÃO, João Cos- mais interessante e motivadora”. Afinal,
ta, secretário de Estado da Educação, “a maioria [dos alunos] não vê a utilidade
exemplificou: “Temos de garantir que das matérias fora da escola, no dia a dia.
todos os alunos, no final do 2º ano, estão Damos a matéria porque é obrigatória,
a ler com fluência, sem hesitação, sem mas ninguém liga. Aqui sabemos que
soletrar. Se o professor chega lá pelo este estudo vai servir para alguma coisa”,
método A, B ou C, lendo o livro A, B ou acrescenta a professora. Neste caso, re-
C, isso tem de ser gerido em função das colhidos e trabalhados os dados no Baixo
necessidades específicas dos alunos que Vouga Lagunar, será possível aplicá-los
tem à frente – e não a partir de uma me- no controlo da reprodução do lagostim,
todologia que é prescrita centralmente sem destruição dos arrozais.
pelo Ministério da Educação.” Outros projetos extracurriculares
Este é o ponto central a partir do qual desenvolvidos em outros anos letivos
se constrói a escola idealizada por este pela ESE, como o das eco-escolas ou
Governo, com um “ensino orientado um outro relacionado com o empreen-
para a vida” e nem tanto para o exame. dedorismo, foram agora integrados no
currículo. “Sempre fomos uma escola
A CONTAR PARA A NOTA ativa, mas os alunos trabalhavam nes-
Aos alunos de Estarreja foi-lhe apre- tes projetos e não havia no quadro uma
sentado um guião no início do ano es- forma de os avaliar numa disciplina,
colar, com uma série de tarefas a seguir, enquanto agora já podemos fazê-lo”,
desde as saídas de campo para recolha adianta Dorinda Rebelo.
de exemplares do dito no lagostim-ver- Em convergência com esta estraté-
melho-do-Louisiana, conversas com gia transdisciplinar está também uma
agricultores, a intensas pesquisas. Várias nova componente de currículo intro-
disciplinas foram incluídas neste DAC duzida pelo Ministério da Educação,
(Domínio de Autonomia Curricular): a Cidadania e Desenvolvimento (CD),
a Biologia e a Geologia, mas também em todas as escolas que aderiram ao
a Físico-Química, a Matemática (para PAFC. Uma experiência de promoção
as medições dos lagostins e sua repre- de uma sociedade mais justa e inclu-
sentação gráfica), o Português (irão tra- siva, trabalhada transversalmente, em
balhar a comunicação em ciência, com todos os anos iniciais de ciclo e em todas
a elaboração de um poster) e a Filosofia as disciplinas. No ensino secundário,
(numa abordagem às questões da ética divididos por grupos, os alunos têm de
e da sustentabilidade). definir um projeto de intervenção na
“Há uma abordagem interdisciplinar, sua comunidade e o plano para o exe-

OS PROJETOS
DOS ALUNOS EM PROL
DA COMUNIDADE,
COMO AS VISITAS
A IDOSOS OU EVENTOS
BENEFICIENTES,
PASSAM A CONTAR
PARA A NOTA FINAL

8 FEVEREIRO 2018 VISÃO 67


EDUCAÇÃO

cutarem, como, no caso de Estarreja,


as já referidas visitas a idosos e o con-
certo solidário. E a nota final, atribuída
por todos os professores, contribuirá
para a média do aluno.
Deolinda Tavares, a professora de
Filosofia responsável pelo projeto de
CD no agrupamento de Estarreja, cir-
cula pela sala de aula, com as cadeiras
dispostas em “U”, espicaçando os alunos
para falarem um pouco mais sobre as
mudanças ocorridas na escola. “É difícil
salientar as diferenças, porque no 10º
ano estamos a iniciar um novo ciclo, não
sabemos exatamente o que resulta do
novo projeto e o que já existia”, confessa
Inês, uma das estudantes. Da parte da
professora, ainda que se esteja numa fase
embrionária, há que realçar os conselhos
de turma “mais coesos e dialogados”.
Reconhece até uma dinâmica palpável
entre os pupilos, nem sempre movida
pelo interesse numa melhor avaliação.
É o caso do Parlamento dos Jovens, uma
iniciativa da Assembleia da República,
a que todas as escolas podem aderir.
“Este ano houve um envolvimento dos
alunos muito maior, com várias listas
a concorrer e o projeto nem sequer conta
para a nota”, sublinha Deolinda Tavares.

Rankings há muitos
A SUBVERSÃO DAS TURMAS é claramente tradutora de uma ação
A libertação de espaço curricular para suportada no compromisso, na com-
que, em cada escola, se possa promover petência e no rigor”, sublinha.
o trabalho articulado entre as Apren- A Escola Secundária de Foi este universo tão lato de alunos
dizagens Essenciais (documentos de Estarreja aparece em 51.º que levou a escola a avançar, neste se-
orientação curricular, em contraponto (entre 633) no ranking de gundo período, com as aulas de Gestão
aos programas, que elencam os conhe- escolas elaborado pelos Autónoma do Currículo, depois de co-
cimentos, as capacidades e as atitudes jornais Diário de Notícias nhecerem bem o perfil dos alunos do 10º
a desenvolver obrigatoriamente pelo e Jornal de Notícias. ano. Subvertendo o conceito ortodoxo
aluno) e outras aprendizagens, com Nesta classificação são de turma, distribuíram os alunos por
aprofundamento de temas, explorações consideradas as médias três grupos, de acordo com as maiores
interdisciplinares e componentes locais das notas dos alunos ou menores dificuldades manifestadas
do currículo, é um dos objetivos Projeto nos exames nacionais de na aprendizagem. Assim, “podemos
de Autonomia e Flexibilidade Curricular. Português e de Matemática, dar mais atenção àqueles que se ex-
Daí o interesse em participar mani- seja no ensino público ou põem menos e têm mais dificuldade na
festado pelo Agrupamento de Escolas no privado. O ordenação interpretação dos textos, ao passo que
de Estarreja, envolvendo 742 alunos e desta informação em forma aqueles que têm melhores resultados e
134 professores (cerca de 80% do cor- de tabela qualificativa, são mais rápidos no raciocínio podem
po docente é efetivo), de todas as áreas. feita por vários órgãos de ir mais além”, entende a professora Do-
comunicação social, têm
Para Jorge Ventura, 48 anos, o diretor do rinda Rebelo.
gerado intensa discussão.
agrupamento, a decisão foi óbvia. Afinal, segundo Jorge Ventura, “de-
Primeiro porque há escolas
Por estes dias, o diretor não conseguia que inflacionam as notas
vemos adequar o serviço educativo para
conter o entusiasmo pela classificação dos seus alunos para se que a igualdade de oportunidades seja
da secundária como a 6ª melhor escola posicionarem melhor; depois efetiva e passe de uma mera intenção.”
pública, segundo a leitura do ranking porque a classificação não Numa das primeiras aulas de Gestão
das escolas feita pelo Jornal de Notícias reflete a diversidade do meio Autónoma do Currículo, cada aluno
e pelo Diário de Notícias. “Somos a úni- escolar, a escolaridade dos ainda se sentava a medo, espreitando
ca secundária do concelho, não temos pais dos alunos, nem a sua pelo canto do olho para os colegas de
qualquer mecanismo de segregação no localização em meios mais outras turmas e hesitando perante as
ato de matrícula, por isso esta posição ou menos desfavorecidos. perguntas da professora. Divididos em

68 VISÃO 8 FEVEREIRO 2018


Aprender Fazer pesquisas e gerir
informação é mais importante do que
memorizar a matéria. Em baixo, o diretor
da Secundária de Estarreja, Jorge Ventura

O que dizem
os números
Aprovado em julho e
implementado neste
ano letivo, o Projeto de
Autonomia e Flexibilidade
Curricular visa dar mais
independência às escolas.
Esta sexta-feira, 9 de
fevereiro, um encontro
nacional a ter lugar na
Faculdade de Medicina
Dentária de Lisboa fará um
primeiro balanço

223
Escolas envolvidas (167
públicos e 56 privados)

EM VEZ DE COLOCADOS
NUMA TURMA
CLÁSSICA, OS ALUNOS
culação entre as diferentes disciplinas.
Este quebrar de barreiras tem sido um
dos pontos positivos realçados pelo cor-
po docente da ESE. “São momentos de
reflexão conjunta que favorecem o tra-
balho colaborativo”, aponta a professora.
Como nota negativa, apenas o facto
46 910
Alunos abrangidos (a maioria
no 1º, 5º e 7º anos)
SÃO DISTRIBUÍDOS de o Ministério da Educação não ter

2 278
disponibilizado mais atempadamente
POR TRÊS GRUPOS, os documentos das Aprendizagens Es-
DE ACORDO COM AS senciais (só o fizeram no início do ano
letivo). As queixas quanto à extensão
MAIORES OU MENORES do programa continuam a existir, “mas
precisamos de o ler de modo correto,
DIFICULDADES NA porque ele tem redundâncias tremen-
das, que a nossa autonomia permite
APRENDIZAGEM contornar”, esclarece Jorge Ventura. O total de turmas incluídas
Afastarem-se dos manuais é o primei- a nível nacional

6 832
ro passo. “O manual está como nota de
rodapé, é uma fonte de pesquisa como
pares, procuravam pesquisar e sistema- qualquer outra”, defende Dorinda Rebe-
tizar informações sobre as biomoléculas, lo. “Agora isto não é fácil, é quebrar com
um pouco perdidos no novo método. o que estava definido e construir novos
“Muitos ainda não me conheciam, mas materiais”, acrescenta.
depois começaram a falar mais e a colo- O diretor da ESE sabe que ainda há
car dúvidas”, conta Dorinda, no final da muito por fazer. “Estamos no ano zero,
aula. “É uma experiência nova.” as pessoas têm de perceber qual o es-
Todas as semanas a equipa pedagógi- paço e latitude de intervenção. Mas o Professores implicados
ca adstrita à aplicação do PAFC, dividida caminho da autonomia e da flexibilidade (dos quais 3 280 a receber
por anos, reúne-se para discutir a arti- é irreversível”, assegura. jloureiro@visao.pt formação sobre o projeto)

8 FEVEREIRO 2018 VISÃO 69


Espírito de missão Maria
V O L U N TA R I A D O Afonso, 34 anos, obstetra,
sente-se mais completa depois
das experiências com
os Médicos Sem Fronteiras

LUÍS BARRA
Dar à luz em tempo de guerra
Com o perigo sempre à espreita, a médica Maria Afonso já fez nascer uns inesperados
trigémeos, mas também sofreu trágicas derrotas nas suas missões no Afeganistão

A
VÂ N I A M A I A

campainha da Maternidade de cabeça para baixo. Depois de respirar Maria Afonso, especialista em gineco-
de Khost, no Afeganistão, fundo, foi necessário inverter a posição logia e obstetrícia no Hospital de Santa
soou perto da meia-noi- ainda dentro do útero. O segundo rapaz Maria, em Lisboa, realizou a sua primeira
te. “Parto no carro!”, gritou nascia, também, cheio de vitalidade. missão humanitária em 2013, ao servi-
alguém. Enquanto calçava Contudo, a barriga da mãe continuava ço da organização não-governamental
as luvas cirúrgicas, Maria enorme… “Voltei a fazer um exame vaginal Médicos Sem Fronteiras (MSF). Passou
Afonso corria para a entrada e senti outro par de pezinhos!”, conta a dois meses no Paquistão e outros três no
principal do hospital, acom- obstetra. Invertida a posição do terceiro Afeganistão. A médica encaixa no perfil
panhavam-na duas parteiras bebé, nascia mais um rapaz saudável. mais procurado pela instituição: “mulhe-
afegãs. Quando chegaram Inesperadamente, Maria Afonso fazia, res de nacionalidade neutra”. Regressou à
junto do automóvel, o bebé já estava assim, o seu primeiro parto de trigémeos, Maternidade de Khost, a 230 quilómetros
cá fora e o cordão umbilical tinha sido no final do ano passado. “Também acon- de Cabul, em outubro do ano passado, de
cortado por uma familiar, mas a grávida tecem coisas maravilhosas!”, exclama a novo integrada numa equipa da MSF. E
avisou-as de que esperava gémeos. jovem médica de 34 anos, contrastando ficou surpreendida com a alegria dos an-
Levaram-na imediatamente para a esta história feliz com o choque da che- tigos colegas no momento do reencontro.
sala de partos e prepararam-se para o gada: “Nunca tinha visto tantos bebés Nascem neste hospital, em média,
segundo nascimento. O bebé não estava mortos in utero. Foi assustador”, confessa. 2 mil crianças por mês (quase tantas

70 VISÃO 8 FEVEREIRO 2018


INTEGRADA
Maria Afonso
habituou-se a
trabalhar com
a cabeça coberta
e usa roupas
tradicionais.
É uma forma de
se aproximar das
pessoas

TRIGÉMEOS
PREMATUROS A médica
Muitas mulheres portuguesa ajudou
recorrem a clínicas três rapazes
para induzirem saudáveis
o parto antes do a nascer,
termo da gravidez, na Maternidade
por pressão da de Khost,
família para saber no Afeganistão
o sexo do bebé

quantos os partos em Santa Maria no ano passou por três mortes maternas. A mais estão a tirar o curso de Medicina: estu-
inteiro). Desta vez, Maria Afonso passou marcante foi a de uma jovem de 20 anos, dam de manhã, tratam da casa à tarde e
seis semanas a tentar contrariar as esta- grávida do primeiro filho. Há três dias que trabalham na maternidade à noite.
tísticas que colocam o Afeganistão entre a rapariga sofria de síndrome de HELLP, “A MSF não tem armas ou proteção
os países com a mortalidade materna uma doença com afeção multissistémica. das Forças Armadas, a segurança decorre
mais alta do mundo. De acordo com a A ida à maternidade gerida pela MSF foi inteiramente da aceitação da população.”
Organização Mundial de Saúde, em 2015, sendo adiada porque vivia longe e o acesso Todas as pessoas – incluindo as pacientes
sucumbiam 396 mulheres por cada 100 aos transportes era difícil. Passou as suas – têm de ser revistadas à entrada e passar
mil nascimentos de bebés vivos. A mor- últimas horas com convulsões mas, devi- pelo detetor de metais. A delegação de
talidade neonatal também é elevada, com do ao risco de viajar à noite, a família só a Jalalabad da ONG britânica Save the Chil-
o óbito de 35 recém-nascidos por cada levou ao hospital depois de o Sol nascer. dren foi alvo de um atentado do Daesh
mil nascimentos. A falta de cuidados Chegou em estado de falência multior- há duas semanas, que provocou mais de
pré-natais, o difícil acesso a cuidados gânica. Era tarde demais. O bebé tinha uma dezena de vítimas e deixou todas
primários de saúde e o hábito de induzir 24 semanas e também não sobreviveu. as organizações em alerta. Dias depois,
o parto intempestivamente, são alguns Quando aterrou no Paquistão, em também foi perpetrado um ataque em
dos principais motivos para a alta taxa. 2013, e deparou com temperaturas acima Cabul com uma insuspeita ambulância
“A pressão da família é tão grande que dos 40 graus, Maria Afonso questionou- armadilhada. O último balanço ultrapassa
muitas mulheres recorrem a clínicas pri- -se se conseguiria trabalhar com a cabeça a centena de mortos. “Quando acontece
vadas para induzirem o parto às 32 ou 35 coberta. Hoje, já se tornou um hábito. algo assim, ficamos apreensivos”, admite.
semanas”, explica. Uma das razões para Também se acostumou a que os colegas As reuniões de segurança fazem parte
provocar o nascimento prematuro dos interrompam o trabalho para irem rezar. do quotidiano da maternidade. “Não há
bebés é a ansiedade por saber o sexo da “De vez em quando, era preferível que rotina fora do hospital e do complexo
criança. Dar à luz um rapaz é muito mais não parassem imediatamente o que estão onde dormimos.” Mas é preciso ocupar
celebrado do que dar à luz uma rapariga. a fazer, é importante estarmos lá também as folgas ao fim de turnos de 24 horas:
por isso”, diz. Algumas parteiras afegãs “Faço ginástica, cozinho, vejo cinema ao
O VALOR DA VIDA ar livre... E até montámos uma parede de
As mulheres têm uma posição extrema- escalada!” No contentor onde dorme não
mente enfraquecida na sociedade afegã. falta eletricidade, água potável e internet,
A gravidez é vista como um estado de mas o seu conforto é outro. “Dormimos
vergonha, já que resulta da relação sexual. bem à noite porque vemos o efeito ime-
“Um dos motivos do atraso na procura de
cuidados de saúde é o pudor de dizerem A GRAVIDEZ É VISTA COMO diato do nosso trabalho.” Mesmo depois
de regressar a casa, Maria Afonso sente
à sogra que estão com contrações ou a
perder sangue”, sublinha a médica.
UM ESTADO DE VERGONHA, o impacto da experiência: “Lido com as
emergências de forma mais tranquila. Sou
“A coisa boa da obstetrícia é que lida
maioritariamente com a vida. O proble-
JÁ QUE RESULTA DA uma médica mais completa e corajosa.”
E, em 2019, espera contribuir para salvar
ma é quando corre mal…” Maria Afonso já RELAÇÃO SEXUAL as esperanças de outro país. vfmaia@visao.pt

8 FEVEREIRO 2018 VISÃO 71


Nova geração Nascido em
CUBA 1960, Miguel Díaz-Canel
será o primeiro líder cubano
nascido após a revolução

O senhor que se segue


A longa era dos irmãos Castro terminará em abril,
com a eleição de um novo Presidente. Poderá Miguel Díaz-Canel,
atual nº 2, fazer uma perestroika em Cuba?

N
PAT R Í C I A F O N S E C A

a História contemporânea de A sucessão estaria decidida desde


Cuba haverá sempre um a.C. 2013, quando Raúl Castro anunciou
e um d.C.: antes de Castro e
depois de Castro. Os irmãos
ALEJANDRO CASTRO que iniciava o seu “último mandato” e
que se retiraria em 2018. A escolha do
Fidel e Raúl conduziram os ESPÍN, FILHO MAIS VELHO Partido Comunista Cubano (PCC) recaiu
destinos do país durante sobre Miguel Díaz-Canel, nascido um
mais de meio século e, não DE RAÚL CASTRO, FOI ano após a revolução, um homem alto
sendo expectável que a saída
de cena do atual Presiden- AFASTADO DA CORRIDA e bem-parecido que, segundo alguma
imprensa, dá ares ao ator Richard Gere.
te, prevista para 19 de abril,
mude de um dia para o outro o rumo da
PELO PAI: 'CUBA NÃO Formado em engenharia, destacou-se
como líder nacional da juventude co-
nação, esse será sempre um momento
simbólico (como foi a morte de Fidel,
QUER SER UMA SEGUNDA munista e, mais tarde, como ministro
da Educação. Nos últimos cinco anos
em 2016). É o fim de uma era. COREIA DO NORTE' assumiu o cargo de vice-presidente,

72 VISÃO 8 FEVEREIRO 2018


acompanhando ou substituindo Raúl
Castro em importantes visitas de Esta-
A ERA CASTRO nário. O facto de se ter mantido longe
dos holofotes terá jogado a seu favor.
do, como as realizadas à Rússia, à China “Ele tem sido um bom soldado, sempre
e à Coreia do Norte. 1959 na sombra”, descreveu recentemente à
Reservado, pouco se sabe da sua REVOLUÇÃO CUBANA agência France Presse o especialista em
vida privada. Filho de um mecânico e Fidel Castro força a destituição de política cubana Christopher Sabatini,
de uma professora primária, cresceu na Fulgêncio Batista e assume o poder. professor na Universidade de Columbia,
província de Villa Clara, no interior da Raúl Castro e Che Guevara são em Nova Iorque.
ilha. Terminou a adolescência de cabelos os seus braços-direitos. Ao longo dos últimos 15 anos, man-
pelos ombros, ouvindo Beatles, e chegou teve-se na cúpula do partido, passando
1960
a apoiar a organização de concertos rock quase despercebido, apesar do seu me-
EMBARGO NORTE-AMERICANO
e espetáculos transformistas na cidade tro e noventa de altura. “É um homem
Começou por ser uma resposta
de Santa Clara (o que não era muito à nacionalização das empresas
com uma grande solidez ideológica”,
bem-visto). Na rádio local, sonhava fa- americanas após a revolução e explicou Raúl Castro, quando o nomeou
zer jornalismo de investigação. Depois perdura até hoje, num braço de ferro vice-presidente, em 2013. E poderá este
licenciou-se, entrou na estrutura da ju- político. Em 2014, Obama anunciou “jovem intelectual” grisalho ter ideias
ventude comunista cubana, graduou-se que as relações diplomáticas e novas sobre o que deve ser uma nação
como tenente-coronel numa unidade de comerciais iriam ser retomadas de socialista? Se as tem, nunca as parti-
defesa antiaérea e cumpriu uma missão forma gradual, mas com a eleição de lhou. Nas poucas declarações que fez à
com os sandinistas, na Nicarágua. De Trump esse processo foi interrompido. imprensa, limitou-se a elogiar os ideais
volta à cidade natal, tornou-se professor revolucionários dos “pais fundadores”.
universitário, casou-se, teve duas filhas, 1961/62 O que ele verdadeiramente pensa escapa
divorciou-se, casou-se outra vez. A sua A BAÍA DOS PORCOS a todos os analistas, da Casa Branca à
atual companheira, Lis Cuesta, catedrá- 1500 cubanos treinados pela CIA União Europeia: é um mistério.
tica de cultura cubana, já o acompanha tentam tomar o poder em Cuba
em todas as visitas oficiais ao estrangei- mas são derrotados. Fidel autoriza a À BEIRA DO COLAPSO
ro, o que não é usual com outros diri- instalação de mísseis soviéticos na O país que Miguelito vai herdar de
gentes. Tal como ele foi sendo iniciado ilha (são retirados quando os EUA Raúl Castro vive uma das piores crises
nos grandes palcos mundiais, também desmantelam os seus, na Turquia). económicas de que há memória, ape-
CRÉDITO FOTO

ela tem sido preparada para assumir o 1967 nas comparável à dos anos 1990, na
papel de primeira-dama. ADEUS, CHE
sequência da queda do Muro de Berlim
Ernesto Guevara é morto na Bolívia, e da desagregação da URSS. Severa-
O LÍDER NA SOMBRA onde organizava uma nova guerrilha mente atingido pelo furacão Irma, em
A ascensão de Miguel Díaz-Canel foi para levar os ideais revolucionários a setembro passado, a ilha caribenha viu
lenta, gradual e discreta, ao contrário toda a América Latina. as suas receitas com o turismo caírem
do percurso meteórico de outros jovens a pique. Além disso, as dificuldades na
no PCC, apontados como delfins dos 1975 Venezuela levaram a cortes radicais na
irmãos Castro. Carlos Lage, que che- PARA ANGOLA, EM FORÇA transferência de petróleo barato para
gou a secretário do Comité Executivo Cuba começa a enviar tropas para Cuba, e as restrições novamente impos-
do Conselho de Ministros (um cargo Angola, apoiando o MPLA (até 1988). tas por Donald Trump – retrocedendo
equiparado a primeiro-ministro, no no caminho de abertura iniciado por
sistema presidencial), ou Felipe Pérez 1991/94 Barack Obama – ameaçam seriamente
Roque, a quem foi entregue a pasta dos CRISE DOS ‘BALSEROS’ uma economia demasiado débil para
Negócios Estrangeiros, são exemplos Com o colapso da URSS, a economia suportar mais restrições.
de políticos de uma nova geração (hoje de Cuba cai a pique e milhares Será imperativo fazer reformas, mas
nos 50-60 anos) afastados pelos “erros de cubanos fazem-se ao mar em poucos acreditam na possibilidade de
cometidos” – segundo Raúl Castro, pequenas balsas, rumo aos EUA. Miguel Díaz-Canel avançar com uma
devido à sua “sede de poder”. Também perestroika em Cuba, a curto prazo, até
2000
Alejandro Castro Espín, de 52 anos, filho porque Raúl Castro, apesar dos seus 86
ESTABILIZAÇÃO
mais velho de Raúl e figura de proa no anos, deverá manter-se como secre-
Bill Clinton autoriza a venda de
gabinete do pai, foi apontado como pos- medicamentos e alimentos a Cuba.
tário-geral do Partido Comunista até
sível sucessor. Este coronel, que perdeu Fidel e Chávez assinam um acordo 2021 – controlando, assim, as decisões
um olho na guerra de Angola, terá sido para trocar petróleo venezuelano por do comité político e cada vírgula da linha
afastado da “corrida” precisamente pelo serviços médicos cubanos. O turismo ideológica do governo.
pai, com a justificação de que “Cuba não dá algum alento à economia. Para já, estas são mudanças que pa-
pode ser, e não quer ser, uma segunda recem ser feitas para que tudo fique na
Coreia do Norte”. 2008/16 mesma. Mas o impulso está dado e, uma
Miguelito, como Raúl Castro o tra- FIDEL SAI DE CENA vez em movimento, a dinâmica de uma
ta na intimidade, é apenas cinco anos Depois de dois anos hospitalizado, ‘el nova geração no poder (a primeira d.C.)
mais velho que Alejandro e acabou por comandante’ dá lugar ao irmão Raúl. pode revelar-se difícil de travar. A His-
ser apadrinhado pelo velho revolucio- Morre aos 90 anos. tória o revelará. pfonseca@visao.pt

8 FEVEREIRO 2018 VISÃO 73


-8°
DESPORTO

Cromos 2
e números ATLETAS

olímpicos
Vão representar Portugal
em PyeongChang: Arthur
Hanse, em esqui alpino,
e Ke Quyen Lam,
Temperatura esperada em esqui nórdico

36
na cerimónia de abertura,
em PyeongChang. Estes
prometem ser os jogos
Depois de duas candidaturas falhadas, olímpicos de inverno mais
frios desde 1994, ano em
a cidade sul-coreana de PyeongChang que Lillehammer, na Noruega,
recebe entre 9 e 25 de fevereiro foi a cidade anfitriã.
a família olímpica e promete converter

150 MIL
os jogos num “festival de paz”.
Apesar dos escândalos de doping e
do afastamento dos atletas russos,
MIL
Estrangeiros foram
o evento servirá ainda de pretexto impedidos de entrar
na Coreia do Sul por
para promover o diálogo entre Seul, constituírem uma ameaça
Pyongyang e Washington Sul-coreanos inscreveram-se durante as olimpíadas
para receber pouco mais de
FILIPE FIALHO
200 convites de acesso aos

36mil
95
dois espetáculos da banda
norte-coreana Samjiyon,
em Seul e Gangneung

PAÍSES Estrangeiros foram

60 MIL
impedidos de entrar
Participam nestes Jogos. na Coreia do Sul por
No total, há 6500 atletas constituírem uma
divididos por 15 modalidades Polícias, militares e outros ameaça durante as
agentes vão ser responsáveis olimpíadas
pela segurança dos Jogos

1 1 0 M I L P R E S E R V A T I V O S
Vão ser distribuídos na aldeia olímpica até ao final da competição – dá uma média de 37 por atleta.

Seun Adigun Claudia Pechstein


NIGÉRIA ALEMANHA
Esta recém-formada Vai celebrar 46 anos no
quiroprática que vive próximo dia 22 e é uma lenda
nos EUA e tem 31 anos da patinagem de velocidade:
é uma antiga velocista mais de uma centena
olímpica (dos 110m de recordes e de títulos
barreiras) que vai mundiais, sete participações
integrar a equipa de olímpicas e em só uma delas,
bobsleigh do seu país em 2014, não subiu ao pódio

74 VISÃO 8 FEVEREIRO 2018


Shannon-Ogbani Abeda
ERITREIA
Com 21 anos, este estudante
de Ciências Informáticas
nascido em Alberta, no Canadá,
vai representar o país onde
nasceram os seus pais. A par
da Eritreia, também a Nigéria,
o Equador, a Malásia, o Kosovo
e Singapura estreiam-se nas
olimpíadas de inverno
Chloe Kim
EUA
Em 2014, não a deixaram ir a Sochi
por ser demasiado jovem. Agora,
aos 17 anos, é considerada um génio
do snowboard graças aos títulos
conquistados e aos seus triplos
mortais. Nasceu na Califórnia,
mas em PyeongChang vai ter
o apoio da sua família
sul-coreana

Mikaela Shiffrin
EUA
Começou a ganhar títulos
mundiais aos 17 anos.
Agora, com mais cinco,
promete ser umas das
figuras do esqui alpino,
a par da sua companheira
e grande rival,
Lindsey Vonn

OS RECORDES
DAS DERRAPAGENS
Valores em milhares de milhões de dólares
OS RECORDES Orçamento Custo final
51,0 51,0
DAS DERRAPAGENS 45,0
OS RECORDES
Valores em milhares de milhões de dólares 23,7 51,0
Orçamento DAS
Custo final DERRAPAGENS 45,0 16,0
Valores em milhares de milhões de dólares 15,2
Orçamento Custo final 6,9
23,7 3,6 4,
20,0 1,2 3,2 2,5
2,420,0 3,0 1,4
18,0
15,2 23,7 16,0 14,0 12,9
20,0 10,3 18,08,02004
6,9 15,2 7,6
16,0 1996 1998 2000 2002 2006
3,6 3,2 2,4 2,5 3,0 4,5 2,0ATLANTA
5,0NAGANO SYDNEY SALT LAKE CITY ATENAS 14,
TURIM
1,2 1,4 Austrália 7,6
10,3
6,9 EUA
4,5
Japão EUA
5,0
Grécia Itália
1,2
3,6 3,2 2,4 2,5 3,0
Verão
1,4
Inverno Verão
2,0
Inverno
FONTE Council on Foreign Relations, Korea Times, Le Monde, Time, CNN
Verão Inverno

1996 1998 2000 2002 2004 2006 2008 2010 2012 2014 2016 2018
ATLANTA NAGANO SYDNEY SALT LAKE CITY ATENAS TURIM PEQUIM VANCOUVER LONDRES SOCHI RIO DE JANEIRO PYEONGCHANG
EUA Japão Austrália1996 EUA 1998 Grécia 2000 Itália 2002 China 2004 Canadá2006 Reino Unido
2008 Rússia 2010 Brasil 2012 Coreia do Sul
2014 2
Verão Inverno Verão Inverno
Inverno Verão Inverno Verão Inverno Verão Inverno Verão Inverno
FONTE
FONTE Council
Council on
on Foreign
Foreign Relations,
Relations, Korea
Korea Times,
Times, Le
ATLANTA
Le Monde,
Monde, Time,
Time, CNN
CNN
NAGANO SYDNEY SALT LAKE CITYVerão ATENAS TURIM PEQUIM VANCOUVER LONDRES SOCHI
AR/VISÃO
AR/VISÃO
RIO DE
EUA Japão Austrália EUA Grécia Itália China Canadá Reino Unido Rússia B
Verão Inverno Verão Inverno Verão Inverno Verão Inverno Verão Inverno V
FONTE Council on Foreign Relations, Korea Times, Le Monde, Time, CNN
8 FEVEREIRO 2018 VISÃO 75
MODA

Fixe estes caracóis


A campanha mundial do novo perfume
da Paco Rabanne é um excesso puro. E a culpa
é do portuguesíssimo Francisco Henriques

T
ROSA RUELA

ó Romano acabou de rea- É em andamento, num comboio, que


lizar um sonho e agora vai Francisco fala com a VISÃO. Acabara de
ter de arranjar outro. É o passar uns dias em Madrid e seguiam-se
próprio dono da Central mais uns quantos na capital catalã, an-
Models quem o diz, con- 1994 tes de rumar a Nova Iorque. Ao fim de
fessando-se “feliz da vida” Nasceu, a 21 de novembro dois anos a trabalhar fora de Portugal, o
por ter finalmente conse- modelo aprendeu a aproveitar as viagens
guido formar um top mo- 2014 Entrou no concurso para pôr a escrita em dia. “Sou muito
del. Tínhamos-lhe pedido Fresh Faces, da Central Models próximo da minha família”, confessa.
para ajudar a desenhar o “Agora que ando sempre de um lado
retrato de Francisco Henriques, um 2015 Estreou-se para o outro, valem-me as tecnologias
miúdo de Queluz de Baixo que está na Moda Lisboa e no Portugal que ajudam a diminuir as saudades.”
agora no topo do mundo da moda. Fashion Pudesse o arroz de pato lá de casa,
“Há uns dias, em Barcelona, ele não o seu prato preferido, ser teletrans-
podia sair à rua, porque toda a gente portado e quase nada lhe faria falta.
o reconhecia. E vai suceder o mesmo 2017 Ganhou o Globo de Ouro É exagero porque, além dos pais, da avó
do Melhor Modelo
cá, quando a Paco Rabanne avançar Maria José e do irmão mais novo, Mar-
Masculino
com a promoção a seguir à campa- tim, fazem-lhe falta os amigos que o
nha mundial do perfume Pure XS”, tratam por Kiko e com quem de vez em
vaticinou. “É só começarem as en- quando ainda joga umas futeboladas.
trevistas...” Durante dez anos, treinou-se a sério

76 VISÃO 8 FEVEREIRO 2018


Topo do mundo
Nas passarelas
ou na publicidade,
Francisco dá a
cara pelas grandes
marcas da moda
para ser jogador de futebol, sempre a
ponta-de-lança ou a extremo. Como
os pais trabalhavam, era a avó quem o
acompanhava aos treinos. E, já adoles-
cente, continuou a apostar nesse sonho.
“Quando estava dentro do campo não
pensava em mais nada, nem sequer nas
negativas”, ri-se, divertido. “Dava-me
gozo marcar golos, é algo inexplicável.”
A moda foi um acaso, como tantas
vezes acontece. No liceu seguiu Econo-
mia e, chegado à universidade, optou
por Desporto, mas em 2014 instaram-
-no a entrar num concurso da Central
Models e largou tudo. Não ganhou, mas
acreditou quando lhe disseram que ti-
nha um perfil bom para fazer carreira
em todos os países. “Mede 1,88m e tem
um corpo lindíssimo e natural”, resume
Tó Romano.

QUAL ‘DAVID’, DE MIGUEL ÂNGELO


Quando Francisco foi receber o Globo
de Ouro de Melhor Modelo Masculi-
no, em maio do ano passado, Kenton
Thatcher, fotógrafo de moda e publi-
cidade inglês, radicado há vários anos
em Portugal, teve uma epifania. “Já sei
porque 'rebentou' para o mundo e não
vai parar – é exatamente o arquétipo
de beleza que é o David do Miguel
Ângelo”, disse ao dono da Central.
E os seus caracóis entram nessa equa-
ção. “É o que o distingue e identifica
com David”, nota Tó Romano. “Não
pode cortá-los, a não ser quando for
supermediático.”
O caminho para o mediatismo come-
çou a ser trilhado há quase quatro anos,
tinha Francisco 19. Seguiram-se dois
anos de formação, durante os quais o
modelo aprendeu a posar sem se sentir
a presença do fotógrafo. “Depois deste
processo de amadurecimento, almocei
com os seus pais e combinámos um
ano sabático e um novo almoço dali
a 12 meses”, conta Tó Romano. “Mas
o segundo almoço não chegou a con-
cretizar-se, porque, entretanto, surgiu
o convite da Paco Rabanne.”
Francisco já desfilara para marcas
como a Hermès, a Armani ou a Balmain,
mas o divertido anúncio ao perfume
Pure XS, em que uma dúzia de mulhe-
res desmaia ao vê-lo nu, deu-lhe outra
notoriedade. Além da Central Models,
agora já é representado por mais dez
agências, de Nova Iorque a Sydney, e
tem de recusar pedidos para trabalhos.
Os caracóis, adivinha-se, não irão durar
muito mais. rruela@visao.pt

8 FEVEREIRO 2018 VISÃO 77


Fernando Pessoa é a grande vítima
de citações erradas na literatura
portuguesa. Há até um grupo
no Facebook (Apócrifos de Fernando
Pessoa) só com o objetivo
VAGA R de denunciar falsidades. E não,
nunca escreveu “Pedras no caminho?”

“Escrever
é sempre ocultar
algo de modo
a que possa
ser descoberto”
Italo Calvino
Escritor
(1923-1985)

“ Pedras
no caminho?
Guardo todas ,
um dia
vou construir “
um
castelo...
Fernando Pessoa

78 VISÃO 8 FEVEREIRO 2018


Eu nunca
ARTES

disse isso!
O MUNDO DAS CITAÇÕES É UMA SELVA CHEIA
DE ARMADILHAS. MUITAS FRASES QUE NOS HABITUÁMOS
A VER ENTRE ASPAS ESTÃO ERRADAMENTE ATRIBUÍDAS
− E A INTERNET AMPLIFICOU UM FENÓMENO TÃO ANTIGO
COMO A ESCRITA... CUIDADO COM O QUE PESQUISA
PEDRO DIAS DE ALMEIDA

8 FEVEREIRO 2018 VISÃO 79


N
ARTES


Nunca foi tão fácil chegar a citações de denunciá-las. Pessoa nunca escreveu
inspiradoras, lapidares, motivacionais “Existe no silêncio, uma tão profunda
e à medida de quem as procura. O pro- sabedoria que às vezes ele se transforma
blema é que também nunca foi tão fácil
cair em enganos e amplificá-los, par-
na mais perfeita resposta”; Pessoa nunca
escreveu “Conserva a vontade de viver. Não
concordo
tilhando pelo mundo frases atribuídas Não se chega a parte alguma sem ela”;
a autores que nunca as disseram ou as Pessoa nunca escreveu “O importan-
escreveram. A internet tornou-se uma te pra mim é saber que eu, em algum
poderosa máquina não “de emaranhar
paisagens”, citando um já clássico texto
momento, fui insubstituível e que esse
momento será inesquecível.” com o que
poético de Herberto Helder (que, por
sinal, é construído a partir de um con-
Mas, sejamos justos: a internet é
tão poderosa que podemos dizer que, dizes, mas
defenderei
junto de citações...), mas de emaranhar ao mesmo tempo que é a principal
frases e autorias. “A internet não criou responsável pela ampliação dos erros,
o problema, apenas multiplicou expo- também é a melhor ferramenta para
nencialmente a divulgação de citações
e estórias erradamente atribuídas”, diz
os descobrir, denunciar e divulgar.
O autor da tal frase sobre as “pedras até à morte “
à VISÃO Onésimo Teotónio Almeida, o
académico e escritor açoriano há muito
no caminho” − que, por misteriosos de-
sígnios, foi muitas vezes acrescentada a o teu direito
a dizê-lo
residente nos EUA, mas sempre atento um poema de Augusto Cury, resultando
às pequenas e grandes histórias da lite- num híbrido erradamente atribuído a
ratura portuguesa. Pessoa −, um brasileiro que assinava o
seu blogue (Por um Punhado de Pixels) Voltaire
POBRE PESSOA como Nemo Nox, escreveu em março
A principal vítima de apócrifos (fra- de 2006 um post sobre o assunto: “No
ses que não são dos autores a que são início de 2003, chateado com os obs-
atribuídas, citações falsas) na nossa táculos que encontrava e tentando ser
literatura parece ser Fernando Pessoa. um pouco otimista, escrevi aqui estas
Como se alguns heterónimos desconhe- três frases: 'Pedras no caminho? Eu
cidos tivessem sobrevivido à morte do guardo todas. Um dia vou construir
escritor, em 1935, e espalhassem, ainda um castelo.' Não pensei mais nisso até
por aí, a sua inspiração (ou falta dela). que recentemente comecei a receber
Uns versos, em particular, têm-lhe sido emails pedindo que eu confirmasse ser
atribuídos um pouco por toda a parte o autor do trechinho. Aparentemente,
(epígrafes, grafites e, claro, blogues e o trio de frases tomou vida própria e
redes sociais): “Pedras no caminho? espalhou-se pela internet lusófona com
Guardo todas. Um dia vou construir variações na pontuação e na atribui-
um castelo.” Quem está mais familia- ção da autoria. (...) Cheguei eu mesmo Uma crónica inteira,
rizado com o estilo do poeta e seus a duvidar da minha autoria. Poderia com o título Quase, circula
heterónimos torce o nariz. Mas, apa- ter cometido um plágio inconsciente, pela internet como se fosse
rentemente, há muita gente que não está recolhendo da memória alguma coisa de Luis Fernando Verissimo.
nada familiarizada com o assunto... As lida no passado e achando que se tra- Ele nunca a escreveu
atribuições erradas são tantas que existe tava de material original? Revirei os mas chegou a vê-la impressa
uma página no Facebook (Apócrifos de poemas pessoanos em busca de pedras em seu nome e traduzida
Fernando Pessoa) com o único objetivo e castelos mas não consegui encontrar para francês

“ Desconfie do destino e acredite


em você. Gaste mais horas realizando
que sonhando, fazendo que planejando,
vivendo que esperando, porque, “
embora quem quase morre esteja vivo,
quem quase vive já morreu
Luís Fernando Veríssimo

80 VISÃO 8 FEVEREIRO 2018


Esta célebre tirada nunca
foi dita, ou escrita,
por Voltaire... Uma biógrafa
Salvar a realidade
do pensador francês resumiu Neil Armstrong, depois de alunar, disse uma frase
assim o seu pensamento enigmática: “Good luck, Mr. Gorski”. Anos depois, numa
no início do século XX, entrevista, explicou o significado da frase proferida: em
e a frase fez o seu caminho criança, quando jogava baseball no quintal, a bola foi
Por parar ao terreno da família vizinha, os Gorski. Armstrong
Afonso Cruz foi apanhá-la e, inadvertidamente, presenciou uma
discussão entre o senhor Gorski e a senhora Gorski, em
que a ouviu gritar com o marido: “Sexo oral? Vais ter sexo
qualquer coisa remotamente parecida oral quando o miúdo da casa ao lado chegar à Lua!”
ao trecho em questão. Vasculhei os he- Esta história não teria piada se fosse creditada a outra
terónimos e tampouco achei o guarda- pessoa qualquer. Não teria valor sem a falsa autoria
dor de pedras.(...) Enfim, convenci-me, e é a burla que lhe confere sentido.
até que provem o contrário, de que fui Há uns tempos, enquanto caminhava pelas ruas de San
eu mesmo quem escreveu as tais linhas. Juan, em Porto Rico, vi, à porta de uma livraria, um cartaz
Outra coisa engraçada é que nem me pendurado com uma frase atribuída a Jorge Luis Borges:
sinto orgulhoso de ter escrito isso, “Sempre imaginei que o paraíso fosse uma espécie de
parece-me hoje até um pouco piegas, livraria”. Borges disse efetivamente uma frase parecida,
como aqueles cartazes motivacionais que sempre tinha imaginado o paraíso como uma espécie
com fotos bonitas e frases otimistas. de biblioteca, mas num contexto pouco laudatório para
Até me admiro de não terem atribuído as bibliotecas. De resto, o que creio ter acontecido foi um
a autoria ao Paulo Coelho.” E termina: erro de tradução. Alguém leu a frase de Borges em inglês
“Atribuições incorretas? Eu guardo e traduziu “library” para “livraria” (esta má tradução – ou
todas. Um dia vou escrever uma tese.” deturpação premeditada – é frequente nas redes sociais).
Não deixa de ser estranho terem, numa livraria de língua
UMA MARAVILHA E UM HORROR espanhola, traduzido do inglês uma frase de Borges.
Claro que é mais fácil perpetuar erros O que é certo é que entre uma biblioteca e uma livraria há
com autores que já não estão cá para diferenças fundamentais que alteram todo o significado
que a frase poderia ter. A ideia de paraíso é pertinente
se defenderem. Mas os vivos não estão
com a ideia de graça, e o conhecimento partilhado
imunes ao fenómeno, e a autodefesa não
gratuitamente numa biblioteca assenta-lhe bem. Pelo
é tarefa fácil... O escritor brasileiro, mais contrário, uma livraria é um negócio.
reconhecido pelas suas crónicas breves Alguns autores são atratores de coisas boas. Tudo o
e irónicas, Luís Fernando Verissimo é AUTORES MAIS que é anónimo e se fez de bom na sua geração é-lhes
uma vítima recorrente de falsas citações. atribuído. Por outro lado, alguma coisa medíocre que
No seu caso, houve mesmo uma crónica MEDIÁTICOS um desses grandes autores possa ter proferido é
inteira (intitulada Quase) que foi fazendo DÃO MAIS desacreditada: “Um génio como ele jamais diria isso”.
o seu caminho pela internet até chegar, Max Jacob tem uma frase espirituosa sobre o campo,
mesmo, a ser impressa em papel como VISIBILIDADE E quando o médico o aconselha a passar uns tempos fora
se fosse sua (é de uma tal Sarah Wes- CREDIBILIDADE. da cidade: “O campo, esse lugar horrível onde os frangos
tpahl). Em 2005, Verissimo escreveu, andam crus?” Já vi esta frase atribuída a Gabriel Garcia
nas páginas do jornal Zero Hora, uma MAS TAL Márquez (com alguma pertinência, pois este autor titulou
crónica sobre o assunto − que, muito PRÁTICA NÃO uma crónica da sua autoria com a frase de Jacob),
apropriadamente, começava assim: Cortázar, Borges... Autores mais mediáticos dão mais
“A internet é uma maravilha, a internet É DE AGORA. visibilidade e credibilidade. Mas tal prática não
é um horror.” “Já li vários textos com QUANTOS é de agora. Quantos textos clássicos não foram atribuídos
assinaturas improváveis na internet, a certos autores para terem credibilidade e chegarem
inclusive vários meus que nunca assinei, TEXTOS aos leitores? Desde tratados de alquimia atribuídos a São
Tomás de Aquino a hinos creditados a Homero, sempre
ou assinaria”, escreveu. “O incómodo, CLÁSSICOS houve uma profusão de pseudoepigrafia. Leonardo da
além dos eventuais xingamentos, é só a
obrigação de saber o que responder em NÃO FORAM Vinci tem uma série de teorias associadas ao seu nome,
incluindo a imagem no sudário de Turim. Se fossem
casos como o da senhora que declarou ATRIBUÍDOS creditadas a Bonifácio Bembo, não teriam o mesmo
que odiava tudo o que eu escrevia até ler,
na internet, um texto meu que adorara e A CERTOS impacto.
Noutros contextos, creio que a falsa atribuição da autoria
que, claro, não era meu. Agradeci, mo- AUTORES cria um distanciamento da realidade e, desvalorizando-a,
destamente. Admiradora nova a gente
não rejeita, mesmo quando não merece. PARA TEREM coloca a ficção num lugar impoluto em que vale por si
mesma e não por qualquer relação que possa ter com a
Tenho sido elogiadíssimo pelo Quase. CREDIBILIDADE E realidade. Ou seja, como disse Fernando Pessoa, “a ficção
Pessoas me agradecem por ter escrito não serve para nos salvar da realidade, serve para salvar
o Quase. Algumas dizem que o Quase CHEGAREM AOS a realidade, imaginando caminhos e alertando-nos para
mudou suas vidas. Uma turma de for- LEITORES? outros que são a consumação de pesadelos.”

8 FEVEREIRO 2018 VISÃO 81


ARTES

mandos me convidou para ser seu patro- de libertação à Argélia, um estudante right to say it', was his attitude now”).
no e na última página do caro catálogo argelino, irritado, confrontou Albert Neste caso, a célebre frase apócrifa não
da formatura, como uma homenagem Camus com a sua suposta indiferença. trai o espírito autor, podemos dizê-lo.
a mim, lá estava, inteiro, o Quase. Não O escritor francês nascido em Orão, Ar- Mas muitas vezes, demasiadas, isso
tive coragem de desiludir a garotada. Na gélia, em 1913, terá respondido: “Neste acontece.
internet, tudo se torna verdade até prova momento lançam-se bombas sobre os “A citação tem triplo poder mágico:
em contrário e como na internet a prova elétricos de Argel. A minha mãe pode legitima, enobrece e desresponsabili-
em contrário é impossível, fazer o quê?” estar num desses elétricos. Se é isso za”, escreve Rui Zink à VISÃO a partir
E a cereja no topo deste amontoado de a justiça..., eu prefiro a minha mãe.” de Calcutá, onde participa num festival
mal-entendidos: “No Salão do Livro Para a posteridade ficou uma frase literário. “Sempre houve citações-boato
de Paris, na semana passada, ganhei da simplificada, e com sentido diferente, (assim começavam muitos linchamentos)
autora um volume de textos e versos que ainda lhe é atribuída muitas vezes: mas o corta-e-cola de agora tornou tudo
brasileiros muito bem traduzidos para “Entre a justiça e a minha mãe, prefiro mais fácil. Gostamos de alguém? Cola-
o francês, com uma surpresa: eu estava a minha mãe.” Ele nunca a disse. E tam- mos-lhe bela frase. 'Avante, camarada',
entre Clarice Lispector, Carlos Drum- bém Voltaire nunca proferiu uma das assinado: Prof. Cavaco Silva. Não gos-
mond de Andrade, Manuel Bandeira e citações que mais vezes lhe é atribuída tamos? Bota-lhe frase odiosa. 'Detesto
outros escolhidos, adivinha com que (muito recordada nos dias que correm): portugueses', assinado: Maria Vieira”,
texto. Em francês ficou Presque.” “Não concordo com o que dizes, mas acrescenta, em tom irónico.
defenderei até à morte o teu direito a
INJUSTIÇAS dizê-lo.” Até o pode ter pensado, mas CLARICE, A “MAIS MALTRATADA”
Como tudo começa? Na maior parte quem escreveu essa frase, precisamente Na praga de citações na internet, mui-
dos casos, é difícil de saber. Mas é certo para explicar a atitude do pensador e tas vezes em sites construídos só para
que muitos mal-entendidos são bem escritor francês, foi uma sua biógrafa, esse fim, acontece muitas vezes que
anteriores à internet e que podem ter Evelyn Beatrice Hall, no início do sé- uma qualquer frase, inspiradora ou
diversas motivações, mais ou menos culo XX (escreveu, no livro The Friends anedótica, que até já ouvimos em qual-
casuais, com má-fé ou inocência. Numa of Voltaire: “'I disapprove of what you quer lado e faz parte do imaginário
conferência na Suécia, durante a guerra say, but I will defend to the death your coletivo, é atribuída a imensas pessoas.
Um exemplo entre muitos: “Algumas


pessoas sentem a chuva. Outras ape-
nas ficam molhadas” é uma frase que

Algumas pessoas aparece atribuída, pelo menos, tan-


to a Bob Marley como a Bob Dylan.

sentem a chuva.
Quem a disse primeiro? Nenhum deles.

Outras apenas,
“ O site norte-americano QI (Quote In-
vestigator, uma espécie de Sherlock
Holmes à procura das origens de to-
das as citações) pesquisou e concluiu

ficam molhadas
que quem a popularizou primeiro foi
o cantor country e ator Roger Miller
num programa de televisão, em 1972.
Em Portugal, o site Citador.pt é dos
Bob Marley / Bob Dylan mais populares. Foi lançado em 2003
por Paulo Neves da Silva, também autor
de vários livros com citações.“Na altura
não havia nada do género na internet.
Senti que era interessante partilhar”,
diz à VISÃO. “O tempo das pessoas é
limitado, não dá para ler tudo. Por outro
lado, há autores e livros pouco divul-

Uma questão de Bobs...


Esta frase tão depressa
aparece atribuída a Bob
Marley como a Bob Dylan.
Mas é certo que nenhum
deles a inventou

82 VISÃO 8 FEVEREIRO 2018


Clarice Lispector é uma campeã
de apócrifos... Neste caso há
uma simplificação grosseira
de uma frase muito mais complexa

“ Não se preocupe
em entender, viver
ultrapassa qualquer

entendimento
Clarice Lispector

gados que, desta forma, podem chegar O catalão Enrique Vila-Matas é um o que escreveríamos se escrevêssemos”
a mais leitores, nem que seja de forma dos grandes cultores da arte da citação é atribuída a Nathalie Sarraute; em Paris
parcial. E a ideia é essa: dizer às pessoas na literatura atual. Usa-as, livremente, e nunca se Acaba, a mesmíssima cita-
que vale a pena lerem e refletirem sobre não garante nem o seu rigor nem a sua ção é de Marguerite Duras. Por email,
este autor, esta frase, este poema, este autenticidade. “Trabalho com as cita- Vila-Matas explica-se à VISÃO: “De
livro, mesmo quando eu próprio estou ções como se fossem uma sintaxe para Nathalie Sarraute não é, certamente.
em desacordo com o sentido da frase”, construir o que quero dizer. Na metade O que acontece é que a personagem Mac
acrescenta. Paulo sabe que nem todos das vezes, as citações são inventadas, ou se engana, como é um principiante na
os sites do género (e há mesmo mui- transformadas para dizer o que quero escrita faço com que se engane. Podia
tos...) são de confiança: “Há muitos que dizer; ou seja, metade delas são falsas”, ser de Marguerite Duras, mas a frase
são pouco confiáveis, sem validação. disse em entrevista ao jornal Folha de de Duras, do seu livro Escrever, é mais
Procura-se ganhar alguns trocos com São Paulo. Exemplo? No seu mais recen- complexa: 'Escrever é tentar saber o que
anúncios... Na maior parte dos casos, te romance, Mac e o seu Contratempo, escreveríamos se escrevêssemos − só o
as pessoas colocam citações sem se a bela frase “escrever é tentar saber sabemos depois − antes.' É uma frase
preocuparem com a autoria ou o rigor.” algo complicada por isso simplifiquei-a.”
E, bom conhecedor do meio, afiança: Liberdade acima de tudo.
“A autora que vejo mais maltratada nas Em Portugal, atualmente, Afonso
citações, com muitas delas inventadas, Cruz é um dos mais destemidos uti-
é a [brasileira] Clarice Lispector. Talvez lizadores das citações como elemento
porque apresenta, nas crónicas, uma literário. Não hesita em confessar que
escrita mais terra a terra, que alguns muitas das citações presentes na sua En-
confundem com uma escrita corrente, ciclopédia da Estória Universal, já com
vulgar, fácil de imitar.” vários “volumes”, pertencem ao mundo
da ficção, mesmo quando são acompa-
A ARTE LITERÁRIA DA CITAÇÃO nhadas de nomes bem conhecidos.
No outro extremo da negligência gros- A propósito deste mundo de erros
seira na atribuição de autorias encon- e enganos, Onésimo recorda-nos uma
tramos a arte da citação, ou a citação cena do filme Annie Hall, de Woody
como arte. Há escritores que potenciam Allen. Passa-se numa fila para comprar
mal-entendidos, misturando conscien- bilhetes de cinema. Atrás da personagem
temente realidade e ficção. Onésimo de Woody Allen alguém fala, em voz
Teotónio Almeida recorda um caso pas- muito alta e petulante: cita abundante-
sado com o escritor açoriano Daniel de
Sá. Dele, recorda Onésimo: “Tinha uma
O ESCRITOR CATALÃO mente as teorias do filósofo e teórico da
comunicação Marshall McLuhan. Irri-
rara capacidade de imitar a escrita de
escritores portugueses famosos.” Entre
ENRIQUE VILA-MATAS tado, Woody Allen afasta-se um pouco
e vai buscar o próprio McLuhan (então
amigos divulgou, a certa altura, dois be- USA LIVREMENTE com 66 anos) que desmente o presumido
los sonetos escritos ao estilo de Natália professor: “Não sabe nada sobre o meu
Correia (Auto-Retrato Alexandrino e Ao CITAÇÕES COMO trabalho, é absolutamente incrível como
Amor). Foi com surpresa que Daniel os
encontrou reproduzidos em vários sites,
PARTE DA SUA ARTE conseguiu tirar um curso para dar au-
las.” Woody Allen vira-se, então, para a
nesse mundo sem fronteiras chamado
internet, como se de originais de Natália
LITERÁRIA. MUITAS câmara e diz aos espectadores: “Ah, se a
vida fosse assim...” Não é. palmeida@visao.pt
Correia se tratasse... DELAS SÃO FALSAS *Com Luís Ricardo Duarte

8 FEVEREIRO 2018 VISÃO 83


Inspiração Esboços do
guarda-roupa do filme
CINEMA A Forma da Água que
valeu a nomeação para
o Oscar a Luís Sequeira

Sonhos que
se vestem
O luso-canadiano Luís Sequeira pode ganhar
o Oscar de Melhor Guarda-Roupa pelo filme
A Forma da Água. À VISÃO, contou como
Portugal é fundamental para recuperar energias.
E revelou segredos de Hollywood
VÂ N I A M A I A

Q
uando era criança, xicano Guillermo del Toro soma 13 no- Normalmente, viaja duas vezes por
Luís Sequeira costu- meações. A 4 de março, saber-se-á se ano para Portugal, mas chega a passar
mava brincar aos pés o luso-canadiano irá levar a estatueta temporadas de dois ou três meses, de
da mãe enquanto ela para casa à primeira – e se o filme será cada vez, no País. Adora Lisboa e o Porto.
costurava. Divertia-se um dos grandes vencedores (ou um dos “No Canadá, há quem vá descansar para
com os tecidos, botões grandes derrotados) da 90ª cerimónia cottages no Norte do país; vão de carro e
ou dedais. Apesar de dos Oscars. demoram quatro horas. Eu, em vez de ir
trabalhar num hospital em Toronto, O designer optou por não ver o anún- de carro, vou de avião!”, brinca, antes de
no Canadá, a mãe continuava a fazer cio dos nomeados em direto. Só quando soltar uma gargalhada. Às vezes, no dia
roupa, relembrando os tempos em que o seu telefone começou a vibrar inces- seguinte a terminar um filme já está no
tinha meia dúzia de mulheres às suas santemente percebeu que era candidato. aeroporto: “Chego a Portugal e passados
ordens num atelier em Lisboa. Ainda Habitualmente, reunia-se com os ami- dois dias sou outra pessoa.”
hoje, Luís Sequeira guarda os catálogos gos e acompanhava a cerimónia pela
com os vestidos de noiva criados por televisão, mas este ano vai estrear-se na ALMA LUSITANA
ela, nos anos 50, na capital portuguesa. passadeira vermelha do Dolby Theatre, As visitas regulares ajudam-no a man-
Quando nasceu, na década seguinte, em Los Angeles. “Tudo isto foi um enor- ter a fluência no português. “Tenho
a família já estava bem integrada na me presente. Desde ser convidado para um sotaque que faz as pessoas sorrir.
comunidade portuguesa de Toronto. fazer o filme até à nomeação”, afirma. E gostava de ter mais vocabulário, mas
“A minha mãe era uma senhora muito “É maravilhoso estar entre candidatos consigo explicar-me mais ou menos...”
bonita, tinha uma grande paixão pela com trabalhos fantásticos, precisamente
moda e também pelo cinema”, recorda, por fazer aquilo de que gosto; quantas
aos 53 anos, ao telefone a partir dessa pessoas vivem a vida inteira sem fazerem
cidade canadiana onde nasceu e vive o que realmente gostam?”
atualmente. Apesar de a mãe ter sido Mas quem corre por gosto também
determinante no despertar do seu in-
teresse pela moda, a verdade é que ela
cansa. E é em Portugal que Luís Sequeira
recupera energias entre os filmes e as sé-
LUÍS SEQUEIRA JÁ
torcia para que o seu único filho fosse ries de televisão dos quais é responsável PERDEU A CONTA AO
contabilista. “Queria que eu escolhesse pelo guarda-roupa. O pai era originário
uma profissão que desse dinheiro, em do Estoril e a mãe de Lisboa, mas a sua NÚMERO DE PESSOAS
vez de ir para a área artística. Mas a
minha escolha deu resultado...” Quanto
geografia mais terna fica perto de Aveiro.
“Tenho muito boas memórias dos tem- QUE NOS ÚLTIMOS
a isso, não há dúvidas.
Luís Sequeira está nomeado para o
pos em que íamos a Portugal quando era
garoto. Os meus avós maternos viviam
TEMPOS LHE PEDIU
Oscar de Melhor Guarda-Roupa pelo
seu trabalho em A Forma da Água.
numa casinha em São João de Loure
[Albergaria-a-Velha]”, recorda. “Ainda
RECOMENDAÇÕES
A longa-metragem do realizador me- tenho essa casa e adoro ir lá.” SOBRE PORTUGAL

84 VISÃO 8 FEVEREIRO 2018


se passa no período da Segunda Guerra
Mundial, e eu estou apaixonado por ele.
Adorava ser o produtor e fazer o guar-
da-roupa de um filme inspirado nele.”
Construir um legado faz parte da
sua ideia romântica do cinema. “Quan-
do temos o nosso nome num filme, ele
continua lá, mesmo se já não estivermos
cá”, explica. E nada contribui tanto para
um legado cinematográfico como ganhar
o mais prestigiado prémio da Academia.
Mas a sua paixão pelo cinema vai além
do desejo de reconhecimento eterno:
“Apaixonei-me pela ideia de criar outros
mundos”, conta. Quando era miúdo, a
rotina de sábado à noite era ver filmes
antigos. Começou pelos musicais, mas
seria a ficção-científica a confirmar-lhe
o desejo de entrar no mundo do cinema.
Tinha 17 anos quando viu Blade Runner
Na verdade, Luís Sequeira explica-se dações sobre Portugal. “Quando voltam, (1982). “Foi fascinante ver como o guar-
muito bem. Toda a entrevista à VISÃO dizem que as pessoas são incríveis, que da-roupa do filme alterou a moda da
foi respondida em português – e só foi é mais em conta do que ir a Paris ou época”, destaca.
preciso clarificar uma ou duas palavras. Berlim, e que a comida é ótima. Também Aos 23 anos, quando já tinha a
“Tenho dupla nacionalidade e sinto adoram as praias, claro.” Do outro lado sua própria loja de roupa, trocou de-
mesmo que uma parte de mim é por- do Atlântico, tem a perceção de que o finitivamente a moda pelo cinema.
tuguesa”, confessa. “Gosto muito das País está a viver uma golden era (época Começou como estagiário e, no Canadá,
pessoas. E é um País que mesmo em de ouro), mas não está admirado: “Por- foi subindo na hierarquia até chegar a
2018 tem uma alma antiga.” Mas não tugal é uma joia da Europa.” diretor de guarda-roupa. Dez anos de-
é só dos amigos (e do clima) que tem Tem dificuldade em acompanhar o pois de ter atingido o topo da carreira,
saudades quando está no Canadá; “Ado- cinema nacional a partir do Canadá, mas aceitou ser assistente de guarda-roupa
ro lulas grelhadas, camarão, amêijoa alimenta o sonho de vir a rodar um fil- em alguns filmes produzidos em Los
à Bulhão Pato, porco preto, rojões…” me na capital portuguesa. E já sabe qual Angeles, como Giras e Terríveis (2004),
E a lista podia continuar. Já perdeu a seria a história que gostava de contar: de Mark Waters, ou Cinderella Man
conta ao número de pessoas que nos “Há um livro chamado Uma Pequena (2005), de Ron Howard. Seria essa a sua
últimos tempos lhe pediram recomen- Morte em Lisboa, de Robert Wilson, que porta de entrada na alta-roda do cinema.

8 FEVEREIRO 2018 VISÃO 85


CINEMA

“Esses contactos foram fantásticos. De-


ram-me uma perspetiva do mundo de
Criar, coser, vestir fluidez e, com o vento, se movia como
se estivessem dentro de água.”
Foram os trabalhos como assistente
Hollywood.” Hoje, aconselha sempre os E o desafio de lidar com as estrelas
que lhe permitiram entrar no universo
mais novos a não terem pruridos de dar de Hollywood? “Somos todos pessoas.
de Hollywood. Entretanto, Luís Sequeira
um passo atrás... Eu sou como uma espécie de bartender
já foi o principal responsável pelo
[empregado de bar], as pessoas podem
guarda-roupa de vários filmes
BASTIDORES DE HOLLYWOOD despejar os seus problemas comigo. Faço
e séries de relevo. Alguns exemplos:
Seria durante as filmagens de Mamã o máximo para que toda a gente esteja
(2013), de Andy Muschietti, que se cru- contente com o meu trabalho e não te-
zaria com Guillermo del Toro pela pri- 2004 nho tido problemas. Talvez seja melhor
meira vez. “Estava numa prova com Giras e Terríveis bater na madeira…”, graceja.
de Mark Waters, com Lindsay Lohan
a atriz Jessica Chastain, ela fazia de A avalanche de denúncias de assédio
e Rachel McAdams
rock chic, e quando abrimos a por- sexual em Hollywood não o surpreen-
ASSISTENTE DE GUARDA-ROUPA
ta do camarim estava lá o Guillermo.
A reação dele foi: 'Uau! Fantástico!'”. 2005
O realizador mexicano era o produtor- Cinderella Man
-executivo do filme e convidou-o para de Ron Howard, com Russell Crowe
fazer o guarda-roupa da série de tele- e Renée Zellweger
visão que produziu a seguir, The Strain. ASSISTENTE DE GUARDA-ROUPA
“Sou alguém que, faça o que fizer, tento
sempre dar o meu melhor. Penso que o 2008
Guillermo viu isso.” Também partilham Rasgo de Génio
de Marc Abraham, com Greg Kinnear,
a mesma visão sobre o papel do guarda-
Lauren Graham e Alan Alda
-roupa: “Quando fazemos um close-up,
a roupa é o cenário dos atores, e é muito RESPONSÁVEL PELO GUARDA-ROUPA
importante que complemente o papel, 2011
sem lhe tirar nada.” A Coisa
Luís Sequeira acredita que a sua mis- de Matthijs van Heijningen Jr., com
são passa por dar vida à roupa. “Há fil- Mary Elizabeth Winstead e Joel
mes que vemos dez ou vinte anos depois Edgerton deu. “Há anos que se ouve histórias so-
e, apesar de terem o estilo do seu tempo, RESPONSÁVEL PELO GUARDA-ROUPA
bre algumas destas pessoas.” Esta seria
não são datados. É isso que tento sempre a única resposta em que Luís Sequeira
fazer.” Em A Forma da Água também 2013 optaria pelo inglês. “[O assédio] era
foi obrigado a superar desafios técnicos. Mamã quase uma tradição, uma coisa de que
“A roupa teve de ser feita com um forro de Andy Muschietti, com Jessica se falava há décadas acho maravilhoso
especial para proteger os atores da chuva Chastain e Nikolaj Coster-Waldau que agora se entenda que não é de todo
e fizemos sapatos iguais aos de cabedal RESPONSÁVEL PELO GUARDA-ROUPA aceitável. Nunca foi, mas hoje as pessoas
têm mais força para o denunciarem”,
2013 assegura. “Dou grande crédito às pri-
Carrie meiras pessoas que tiveram a coragem
de Kimberly Peirce, com Chloë Grace de falar com essa atitude deram força a
Moretz e Julianne Moore outras vítimas para denunciarem.” E não
RESPONSÁVEL PELO GUARDA-ROUPA acredita que o “tsunâmi” fique por aqui:
“Não será só na indústria do cinema,
2016 também noutros contextos laborais, e
Special Correspondents até na família e entre amigos, haverá
de Ricky Gervais, com Ricky Gervais
menos tolerância perante este tipo de
e Eric Bana
comportamento”. “It’s about time [já
RESPONSÁVEL PELO GUARDA-ROUPA não era sem tempo]”, conclui.
2014-2016 Atualmente, está a trabalhar numa
The Strain produção da Netflix, 12/24, um filme
série de televisão criada por Guillermo natalício com estreia marcada ainda para
del Toro e Chuck Hogan este ano. O ator Kurt Russell encarna o
em vinil para serem fáceis de secar, Pai Natal. Findas as filmagens, Luís Se-
RESPONSÁVEL PELO GUARDA-ROUPA
depois das filmagens na água”, revela. queira passará nova temporada em Por-
À VISÃO, confessa que a cena final do 2017 tugal. “Gosto de ter um equilíbrio entre
filme, quando a personagem principal A Forma da Água trabalho e descanso. Tenho pela vida a
aparenta estar na água, foi, na realida- de Guillermo del Toro, com Sally mesma paixão que tenho pela profissão.”
de, filmada no ar. “Tive de desenhar o Hawkins, Octavia Spencer e Michael E, quem sabe, talvez traga a estatueta
mesmo fato em tecidos que pareciam Shannon dourada na bagagem. vfmaia@visao.pt
ser os mesmos, mas que tinham muita RESPONSÁVEL PELO GUARDA-ROUPA

86 VISÃO 8 FEVEREIRO 2018


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PESSOAS

Segundo romance
da atriz brasileira,
A Glória e seu
Cortejo de Horrores
(Companhia das
Letras, 224 págs.,
€15,99) explora
mais, e de forma bem
sucedida, a “porta
imensa” da segunda
carreira que se
abriu a esta “leitora
voraz” que, confessa
à VISÃO, “via a
literatura como algo
para além do meu
alcance”

FERNANDA
TORRES
“O equívoco é o pior fantasma de um artista”

C
onhecemo-la bem seus equívocos e sinto-me mais livre venta-nos. Não é o meio que garante
como a cómica Vani para exercer essa acidez com os ho- a seriedade de um projeto artístico,
da série Os Normais. mens. As mulheres estão passando por mas a qualidade da obra e essa rara
Fernanda Torres, um momento de afirmação de seus capacidade de tocar o público.
52 anos, filha de direitos, seria mais delicado apontar A “sinfonia de Morfeu”, a indife-
Fernanda Montenegro, as falhas e os maus caminhos numa rença sonolenta do público, é o pior
é atriz com A maior... mulher. fantasma para um criador?
que surpreendeu com um belo O romance espelha um dilema dos É a prova de que você fracassou em
romance de estreia, Fim (2013). Este atores: telenovelas versus projetos comunicar com a plateia, em chegar ao
segundo romance corresponde às sérios, aqui Shakespeare. Escolher outro. Ou não. Van Gogh só foi reco-
expectativas, uma história desenvolta um lado é a “morte do artista”? nhecido depois de morto, A Montanha
sobre um ator em decadência. A televisão não é o fim da ambição Mágica é um livro extraordinário mas
“Catástrofes vêm em cardume”, lê-se. do artista. Conheço muitos atores, eu pesado, pode agir como um poderoso
A vida é uma telenovela, é o que é. incluída, que encontram aí um vasto sonífero, embora isso não diminua a
Porque adotou, aqui, uma outra voz campo de experimentação e de reali- grandeza de Thomas Mann. Este Lear
masculina, a de Mario Cardoso, ator zação. A televisão é a única indústria é ridículo e insuportável para a sua
de meia-idade caído em desgraça? de entretenimento do Brasil, só ali há diminuta plateia. O equívoco é o pior
Desde Fim, a voz masculina sur- um mercado de trabalho sólido. Isso fantasma de um artista.
giu naturalmente. Os personagens é uma conquista. Mas a arte é uma A Glória... é uma visão desencanta-
masculinos afastam-me de mim, da profissão de risco. A acomodação que da sobre a vida de ator, e o mundo.
escrita confessional. Como sou atriz, leva Mario para o buraco é culpa dele, O que há, aqui, de autobiográfico?
e escrevo na primeira pessoa para jor- que confunde profissão com emprego, O próprio livro é o antídoto do de-
nais e revistas, a alteração de género torna-se cínico e vazio. Este Rei Lear sencanto. Fala de uma certa distância
ajuda-me a entrar na ficção, salva-me de shopping center é absurdo, mais que o público tem, hoje, da arte. Até
da identificação direta. Uma segunda equivocado do que a novela O Quinze ao século XX, a arte era instrumento
razão é o facto de eu ter uma tendên- que o levou ao estrelato. Eu sempre de transformação da sociedade, mas o
cia ácida, quase cruel, na maneira de procurei trabalhar em teatro, cinema terceiro milénio apresentou-se como
tratar os meus personagens. Gosto de e TV: um veículo salva do outro, rein- estatístico, tecnológico, e parte desse

88 VISÃO 8 FEVEREIRO 2018


Woody Harrelson, um Sr. Presidente
poder perdeu-se. Eu quis fazer uma Na onda de filmes dedicados à história norte-
reflexão sobre isso, sobre a importân- -americana do século XX, estreia já, a 15 de fevereiro,
cia que a arte tinha na minha juventu-
de e a que lhe cabe agora. Apocalypse o biopic LBJ sobre Lyndon B. Johnson que confirma
Now era um filme mainstream. Hoje, o talento deste ator: o de ser um camaleão
só há super-heróis nas superpro-
duções. Por outro lado, a televisão Woody Harrelson tem sido um ator fora da caixa, sem
sofisticou-se: as séries on demand não complexos em aceitar papéis de todos os azimutes:
têm a potência de um Bergman, de um tanto foi o serial killer Mickey Knox, em Natural Born
Truffaut, mas andam bem mais inte- Killers – Assassinos Natos (1994), como interpretou o
ressantes do que o cinema comercial. controverso pornógrafo Larry Flynt em The People vs.
A Glória… conta também a história
do Brasil e do mundo nessas últimas
Larry Flynt (1996), tanto arriscou participar na saga
décadas, e a tragédia social que divide juvenil distópica Os Jogos da Fome (2012-2015), na
o meu país. A arte é um bom recorte pele do desiludido Haymitch Abernaty, como vestiu
para refletir sobre o que nos aconte- a farda do chefe de polícia William Willoughby, cuja
ceu. Mas todo o livro é autobiográfico, autoridade é desafiada pela mãe de uma adolescente
pois parte da visão do autor. Dizem assassinada em Três Cartazes à Beira da Estrada
que A Glória e seu Cortejo de Horro- (2017), interpretação que lhe valeu uma nomeação para
res é mais autobiográfico do que Fim, os Oscar na categoria de Melhor Ator Secundário.
por tratar da profissão que abracei aos
13 anos. Mas Fim fala do meu susto
Até lá, podemos ver a sua improvável transformação
com a consciência da morte. física em LBJ, película sobre Lyndon B. Johnson,
Hoje, é mais eficaz passar a men- o vice-presidente sulista que acaba por ascender
sagem através da comédia/tragico- à Sala Oval após o assassinato de John F. Kennedy.
-média? O público está viciado O timing desta estreia é providencial, tendo em conta
nos tweets e punch lines? a recente divulgação de documentação secreta sobre
Não vejo relação entre o vício nefasto a morte do Kennedy mais amado e mitificado. Mas
das redes, tweets, facebooks e grupos LBJ não se limita a rever os dias dramáticos vividos
de internet e o humor ou a tragicomé-
dia. Nelson Rodrigues, o maior dra-
em Dallas, a 22 de novembro de 1963. O realizador
maturgo brasileiro, era tragicómico. Rob Reiner retrata os bastidores de Washington,
Macunaíma, do modernista Oswald revelando a irritação de Lyndon B. Johnson perante o
de Andrade, é tragicómico. Assim retrato glamorizado do clã Kennedy e a sua inimizade
como o são Eça de Queirós e Flaubert. com o procurador Robert F. Kennedy, assim como
A tragicomédia é algo sério, profundo as suas crises de consciência provocadas pela forma
e refinado, nada tem que ver com essa como chegou à cadeira presidencial e, sobretudo, a
apologia à fofoca, esse tribunal das sua mudança de opinião em prol dos direitos civis dos
redes que disseminou, não o humor,
mas o ódio pelo planeta.
negros. O tipo de papel pelo qual Robert de Niro
A Glória... confirma uma forte voz e outros sacrificariam um dedo... S.S.C.
literária. É o seu segundo ato?
Quando terminei Fim, achei que havia
aprendido algo. Mas em Glória, a
sensação era a de ter voltado à estaca
zero. E, de novo, sinto-me agora como
Sísifo, que acabou de rolar a pedra
montanha abaixo. A diferença é que
venci o segundo livro. Não é tarefa
fácil, vencer o medo de ser o autor de
um livro só. Não sei se chegarei ao
terceiro, mas escrever passou a fazer
parte da minha rotina. Um livro é feito
de muitas impressões, de cenas que
nos revisitam até serem postas no pa-
pel. Assemelha-se à pintura. É preciso
jogar a primeira tinta, ver como se
comporta na tela, não se pode apressar.
Eu fui mordida pela escrita e espero
que ela jamais me abandone. É algo
libertador e potente.
Sílvia Souto Cunha / scunha@visao.pt

8 FEVEREIRO 2018 VISÃO 89


Na casa do Zé A americana
TENDÊNCIAS Abigail, de visita a Lisboa,
estreou-se nesta moda de marcar
“online” um jantar caseiro,
servido por um desconhecido

Airbnb da comida
Depois de desenvolver aplicações para arranjar dormida
e meios de transporte mais baratos, a economia de partilha
virou-se para as refeições em casa de anfitriões locais

Q
LUÍSA OLIVEIRA

uando as irmãs america- pessoas que também adere à experiên-


nas Abigail e Jessica, de cia, mais ou menos arriscada. A troca de
23 e 26 anos, entram na emails serve apenas para acertar porme-
casa de José Esteves, no nores acerca de alguma restrição alimen-
centro de Lisboa, às oito DURANTE AS FÉRIAS, tar e para se conhecer a morada do host (é
da noite de uma sexta- assim que se chama quem abre as portas
-feira, encontram-no OS TURISTAS de casa para servir refeições a turistas).
informalmente de chinelos e de avental.
O Zé (como se apresenta online) é o anfi- PROCURAM, CADA VEZ São já várias as aplicações (e sites)
que nos permitem marcar refeições do
trião de um jantar tradicional português
anunciado na EatWith.
MAIS, A EXPERIÊNCIA tipo supper club, que é como quem diz
em casa de alguém, tal qual se tratas-
A refeição foi combinada através da caixa
de mensagem desta plataforma e nela não
DE CONVIVER COM se de um restaurante. Em Portugal, as
mais representativas são a Eatwith.com,
deve revelar-se mais do que o número de HABITANTES DO PAÍS presente em variadíssimas cidades do

90 VISÃO 8 FEVEREIRO 2018


mundo, e a Portuguesetable.com que,
tal qual o nome indica, só tem anfitriões RESERVAS ONLINE ementa, o preço (€54) e algumas fotos. E
foi aprovado, sem delongas. Mais tarde,
em Portugal a servir comida nacional. enviaram-lhe a casa um fotógrafo pro-
Durante o jantar, que as americanas Além da EatWith e da fissional para que as imagens da comida
partilham com a namorada e uma amiga Portuguese Table (ver texto) fossem realmente apetitosas. Do dinhei-
há várias aplicações que
de José, o anfitrião há de ir por várias ro que pede aos turistas – pago através
se dedicam à marcação
vezes à sua pequena cozinha, recheada da plataforma –, a EatWith fica-lhe com
de refeições em casa de
de temperos. Primeiro, para misturar estranhos
20 por cento.
os ovos com a farinheira, depois, para Depois deste inusitado programa,
terminar o bacalhau à Brás com amêi- 1 que classificaram, antes de saírem para
joas e salicórnia e, por fim, para fazer AIRBNB EXPERIENCE o hostel onde estão hospedadas, como
uma redução com morangos para a sua Neste site, conhecido pelo aluguer “muito bom”, Abigail e Jessica poderiam
sobremesa-fetiche. de alojamento local, também há ter ido à plataforma dar estrelas e acres-
Com o mapa de Portugal numa mão e uma secção de food&drinks, em centar um comentário. Por exemplo,
um cálice de Moscatel de Setúbal na ou- que se proporciona experiências Carmen, que provou da mesma ementa
tra, José Esteves mostra a sua mesa com gastronómicas que incluem em dezembro, não resistiu a publicar um
tábuas de queijos e enchidos de qualida- refeições caseiras. chorrilho de elogios para todos lerem:
de de várias regiões do País, que hão de “Zé é um grande chefe mas, além dos
ser devidamente assinaladas no tal mapa 2 pratos maravilhosos, ele partilhou uma
que lhe serve de cábula. O anfitrião não DINNEER série de histórias acerca das origens dos
enche os copos sem explicar de onde Nasceu no Brasil, mas já tem produtos e da História de Portugal.”
vem o vinho. “Este é do Dão e ficou na presença em 20 países. Foi Também foi há pouco mais de um ano
49ª posição na lista da Wine Spectator”, concebido a pensar nos milhares que Paulo Castro, 53 anos, criou a Portu-
conta às americanas que estão em Lisboa de brasileiros espalhados pelo guese Table, no seguimento do trabalho
para uma visita-relâmpago. mundo, daí que a oferta seja final da pós-graduação em marketing
À medida que a refeição avança, a con- maioritariamente de pratos do digital e com a ajuda de um programa
outro lado do Atlântico.
versa flui, muito mais alimentada pelo an- de aceleração de startups do Turismo de
fitrião do que pelas jovens irmãs. “Nestes 3 Portugal. Paulo é ele próprio um host e
casos, a comida tem de ser boa, mas elas sabe que 90% das reservas são feitas por
DIANA TINOCO

MEAL SHARING
virem aqui jantar é muito mais do que Esta plataforma compromete- estrangeiros. Por enquanto, a plataforma
isso, é estarem em casa de um português”, -se a ligar as pessoas através da só existe em Lisboa e no Porto, mas ele
nota José Esteves. Jessica avisa que, para comida e tem anfitriões em muitos planeia que cresça para o Algarve.
elas, este tipo de marcação, feita há duas países, Portugal incluído. Os anfitriões passam por uma en-
semanas, em New Jersey onde vivem, se trevista e uma formação em higiene e
trata de uma absoluta estreia. E só o fize- 4 segurança alimentar. Depois, prova-se a
ram porque um amigo lhes recomendou BON APPETOUR ementa para se ver, na realidade, se esta
esta espécie de Airbnb da comida. Apesar de estar bem estabelecida sabe tão bem como as fotografias, envia-
Se percebessem a língua em que canta na Europa, tem forte presença na das no ato da inscrição, fazem parecer.
Amália, entenderiam melhor o espírito Ásia e oferece 20% de desconto na João Paulo, 36 anos, e Marta, 42,
com que José Esteves as recebe. A ban- primeira experiência. percorreram este caminho. No aparta-
da sonora, ouvida na sala de jantar, não mento onde vivem, em Almada, servem
deixa margem para dúvidas: “Numa casa 5 uma ementa vegetariana, baseada nas
portuguesa fica bem pão e vinho sobre WITH LOCALS tradições portuguesas, como as bifanas
a mesa. E se à porta humildemente bate Tem presença em 26 países, nos (de seitan caseiro) ou a salada de orelha
alguém, senta-se à mesa com a gente.” vários continentes, mas Lisboa de porco (com algas a imitar a mesma
aparece como destino de topo. textura). Um grupo de cinco amigas
UM JANTAR 'BLIND DATE'
6 alemãs, na casa dos vinte, invade a sala
Não se pense que o nervosismo só está de jantar decorada ao estilo vintage. Das
FOOD FRIENDS
do lado de quem vai comer à casa de Há quem lhe chame o Tinder
colunas, sai o som indiscriminado da
desconhecidos. “No dia anterior, quando da comida. Esta aplicação não Rádio Amália, mas ninguém lhe presta
começo a preparar a refeição, sinto-me reserva jantares em casa, mas põe atenção. As amigas preferem ouvir os
como se fosse para um blind date”, em contacto desconhecidos para conselhos para passeios turísticos – ser
compara José. E nem a experiência que irem a um restaurante juntos. anfitrião também é gostar de revelar o
ele já ganhou atenua esse sentimento, melhor do seu País.
transformado em adrenalina. A refeição já está pré-preparada, mas
Foi há cerca de um ano que este a cadência entre os pratos tem pouco rit-
engenheiro do território profissionali- mo. As alemãs não se importam, porque
zou os jantares que sempre gostou de vão enchendo os copos de vinho por-
organizar em sua casa, com amigos... tuguês e soltando gargalhadas cada vez
e amigos de amigos. Inscreveu-se na mais sonoras. E no final, brindam o casal
plataforma, enviou uma descrição da com um sentido “delicious”. loliveira@visao.pt

8 FEVEREIRO 2018 VISÃO 91


CRÓNICA

Não é este o carpinteiro, filho de Maria e irmão de Tiago, José, Judas


e Simão? (...)

U
Jesus lhes disse: “Só em sua própria terra, entre seus parentes e em
sua própria casa, é que um profeta não tem honra”. Marcos 6:3,4.

ma pessoa desdenha do que conhece. De quem


conhece, porque santos da casa não fazem milagres.
P O R M I G U E L A R A Ú J O / Músico Dos lugares que conhece, em particular aquele onde
se encontra num determinado momento, porque
“o campo é onde não estamos. Ali, só ali, há sombras

Santos
verdadeiras e verdadeiro arvoredo”, como diz o
velhinho Bernardo Soares no seu desassossego.
É próprio do nosso pendor desconfiado. O que nos

da Casa
é familiar vem-nos deformado pela proximidade, vem em forma de
espelho. Os que nos são próximos parecem-se demasiado com a nossa
própria reles e pálida existência, a sua natureza mundana irmana por
demais com a nossa própria, apanham constipações, aborrecem-se
a ver o preço certo em euros, bebem cerveja portuguesa pela garrafa
e vão ao cinema ao Arrábida Shopping ao domingo. O Sting foi visto
no Dolce Vita das Antas, na véspera de atuar no Marés Vivas, em Gaia,
e estava sozinho numa Pans & Company e eu, com estes próprios
olhos que a terra há de tragar como se fossem os de um comum
mortal, digamos por exemplo os olhos de um não-cantor famoso, vi
uma pessoa inteligente argumentar que não, nem pensar, não podia
ser o Sting porque o Sting não come sandes de delícias do mar num
centro comercial nas Antas. Muito recentemente uma pessoa que eu
conheço bem foi promovida a um alto cargo de administração de
uma grande empresa e o coro dos indignados cantou o seu estribilho
de incredulidade em uníssono de forma automática e imediata, em
forma de sussurro surdo e à boca pequena, porque como é que era
possível. E eu acho mesmo que não é inveja. É simplesmente isso: nós
não toleramos ver um de nós levantar a garimpa simplesmente porque
achamos impossível, como é que é possível se andou comigo na escola.
O diagnóstico é definitivo: desconfiamos demasiado de nós próprios
para achar sequer possível ou tolerável um dos nossos sair da casca.
Nós somos as pessoas normais, não somos de aparecer na televisão
nem em listas do jornal Expresso nem em nada disso. Acontece às vezes
comigo: encontro um amigo de há 20 anos e de repente digo que estou
na música, e que agora sou cantor e que até não me tenho dado mal e
o olhar de incredulidade não tem nunca qualquer vestígio de inveja, é
sempre o ar de um incrédulo “tu??? mas andavas na minha turma”. Ou
então o contrário, ainda hoje um condutor do Uber que me apanhou
achou impossível ser eu, o famoso astro, no carro dele. “O que é que
você está a fazer no Porto?” Quando digo que moro aqui e que sou
mesmo daqui, a surpresa é sempre total. É tudo natural. Eu também
sou assim. Há certos cargos que eu não admito que sejam ocupados por
pessoas de carne e osso, da minha criação, da minha escola, da minha
igualha. Há certos postos de alta responsabilidade que eu só confio a
Vi uma pessoa desconhecidos, a seres mitológicos criados desde sempre para aquela
inteligente digníssima, inacessível e inatingível função: pilotos de avião, condutores
argumentar que não, de veículos pesados e cirurgiões. Se algum amigo meu decide ir a
esgazear no seu carro comigo a bordo, peço imediatamente para sair
nem pensar, não podia e ameaço que vou de autocarro. Só porque não conheço o condutor do
ser o Sting porque autocarro. Se conhecesse, já não queria. Se vou ser operado a seja o que
for, nunca na vida ninguém me apanha no bloco, prostrado e inerte,
o Sting não come à mercê do bisturi de alguém das minhas relações. Até posso ter ido a
sandes de delícias uma consulta antes da operação, mas Deus me livre de saber que aquela
do mar num centro douta entidade de bata branca e plaquinha na porta do consultório vai
ao Arrábida Shopping, bebe cerveja pelo gargalo e tem qualquer espécie
comercial nas Antas de vida que se assemelhe à minha.

92 VISÃO 8 FEVEREIRO 2018


VONTADE DE ESCAPAR?
A pensar nas miniférias de Carnaval,
quatro sugestões de programas para espíritos
aventureiros, famílias, gastrónomos
e apaixonados
para
aventureiros

A andar também
se descansa
Algures em Portugal, longe das cidades, ainda há sítios onde
o tempo continua a correr ao ritmo da natureza: um roteiro
que começa no Gerês e termina na Costa Vicentina,
não sem antes passar pela serra da Lousã

É
M I G U E L J U D A S visaose7e@visao.pt

também alguns exemplos da singular relação


entre Homem e Natureza nesta região, como as
“brandas” e as “inverneiras”. As primeiras são um
espaço sazonal no alto da montanha usado como
zona de pastoreio durante o tempo mais quente,
enquanto as segundas ficam a cotas mais baixas e
servem também para cultivo. Ainda hoje conti-
nuam a ser usadas e geridas em comunidade –
como acontece com a branda do Poulo da Seida,
junto à qual pastam algumas vacas cachenas, a
N203
raça autóctone da região, e um ou outro cavalo
1 N103 selvagem. Fica situada num prado, em pleno
Gerês
topo da montanha, onde o visitante é surpreen-
dido por uma autêntica aldeia de “cortelhos”,
É ao fim da tarde, quando o Sol se esconde por os rudes abrigos dos pastores, construídos em
detrás das serranias, que a beleza desta paisagem pedra sobreposta, que remetem quem aqui chega
se revela em todo o seu esplendor. Do alto do para um tempo cada vez mais distante.
A1
miradouro da Porta do Mezio avistam-se, ao
longe, os penedos das serras de Soajo, da Peneda 2 PELA SERRA
e da Amarela, cuja imensidão se apresenta 2 Lousã É quase premonitória a frase que se lê na al-
como um irrecusável convite para partir à minha dedicada ao Senhor dos Aflitos, em que
descoberta. A Porta do Mezio é uma das entradas alguém, há muito tempo, pintou à mão numa
oficiais do Parque Nacional da Peneda-Gerês, A13 pequena tábua: “Milagre que fez o Senhor dos
funcionando aqui como ponto de partida para A1 Aflitos à aldeia da Cerdeira, que não a deixou
os visitantes recém-chegados à região. O Centro morrer.” Durante as invasões napoleónicas,
Interpretativo inclui um parque escultórico com quando foi uma das poucas, a par da vizinha
as mais emblemáticas espécies animais da região, Candal, a não ser saqueada pelas esfomeadas
A2
canteiros com flora do parque, um museu com o tropas francesas. Isolada da serra, a aldeia parece
espólio das escavações do Núcleo Megalítico do ter parado no tempo com o seu casario em xisto
Mezio e uma zona de lazer com piscina, circuito A2 espalhado pela encosta, num verdadeiro monu-
de manutenção e ginásio ao ar livre. mento ao engenho humano. Não é difícil imagi-
nar a dureza das vidas que outrora a habitaram,
VASCO CELIO/STILLS

Costa
1 NO PARQUE NATURAL 3 Vicentina num ciclo que teve o seu fim na década de 70
Mas o que atrai cada vez mais pessoas é a beleza N120 A2 do século passado, quando uma discussão sobre
dos vários percursos pedestres que cruzam estas a partilha da água acabou em tragédia para os
serras, dando a conhecer não só a paisagem mas últimos habitantes da Cerdeira, numa história

94 VISÃO 8 FEVEREIRO 2018


Parque Nacional da Peneda-Gerês

8 FEVEREIRO 2018 VISÃO 95


imortalizada, em 1992, no filme O Fim do Mun-
do, de João Mário Grilo. E, para a aldeia, o fim do
mundo aconteceu de facto com o golpe de sacho
a ler
com que Augusto Constantino encerrou, em Júlio Verne,
definitivo, a questão. Phileas Fogg e
Nem aí, porém, a aldeia deixou de ser am- Passepartout são
parada pelo Senhor dos Aflitos: após cumprir anfitriões neste
a pena, Constantino regressou para se dedicar, livro-enciclopédia,
até ao fim da vida, a ensinar e a partilhar os seus que derruba
conhecimentos com os novos habitantes que fronteiras. Em
então começavam a chegar. Uma das primeiras A Volta ao Dia
foi a alemã Kerstin Thomas, que tem na aldeia em 80 Mundos
um ateliê de artesanato contemporâneo em que (Cavalo de Ferro,
336 págs., €18,98),
cria imaginativas peças em madeira. Foi também
Julio Cortázar
ela uma das responsáveis pelo renascimento
fala de jazz,
da Cerdeira através da arte, quando começou a literatura, receitas
organizar a exposição Elementos à Solta, que, há para fazer dançar
mais de uma década, espalha as obras de diversos Serra da Lousã
raparigas ou do
artistas internacionais pelos campos circundan- “sentimento de não
tes. Um dos melhores modos de conhecer a zona estar totalmente”,
é a pé, pelos percursos que pouco a pouco devol- juntando
veram a vida aos antigos trilhos serranos, como o histórias, poemas,
que parte junto ao castelo da Lousã e percorre as imagens – ideias
aldeias de Casal Novo e Talasnal. para caminhar
Por estas serranias, onde no início do diferentemente.
século XIX penaram os invasores franceses,
perdem-se hoje grupos de caminhantes e Exploradora do
praticantes de trail running ou de BTT. Para dar mundo num tempo
resposta a esta nova procura foi inaugurado o em que a viagem
primeiro Centro de Estágio de Trail Running era uma aventura
em Portugal, equipado com dormitório, romântica,
balneários, estação de serviço para bicicletas e a nómada
ginásio. Fica em Vila Nova, freguesia de Miranda Annemarie
do Corvo situada a cerca de 400 metros de Schwarzenbach
redescobre a
altitude, também conhecida por ter sido um dos
Pérsia, atual Irão,
primeiros locais onde Miguel Torga trabalhou
neste O Vale
como médico. Só à volta da pequena aldeia Feliz (Teodolito,
existem três circuitos de trail, de 10, 25 e 50 152 págs., €14),
quilómetros, e 14 percursos de BTT, com mais recordando
de 230 quilómetros de extensão, que permitem percursos hoje
percorrer a quase totalidade do concelho. destruídos:
Mazandaran,
3 À BEIRA-MAR Samarcanda, a
Do terraço das Casas do Moinho, uma unidade velha Bagdade...
de turismo rural numa encosta da zona antiga S.S.C.
de Odeceixe, vê-se, ao longe, a Ponta Branca, a
falésia que delimita, a norte, a praia de Odeceixe. Costa Vicentina
Tem aí início um dos troços mais bonitos da Rota
Vicentina, considerada no ano passado pela re-
vista Condé Nast Traveller “uma das costas com falésias e caprichosas enseadas rochosas, onde,
percursos pedestres mais bonitos do mundo”. Ao aqui e ali, se avistam pequenas figuras humanas,
todo, são mais de 400 quilómetros para percor- a tentar a sorte na pesca ao sargo ou na apanha
rer a pé, entre Santiago do Cacém e o cabo de do percebe. Um pouco mais acima, na Azenha do
São Vicente, através dos antigos trilhos e cami- Mar, no restaurante com o mesmo nome deste
nhos desde sempre utilizados pelas populações pequeno porto de pesca, a sul da Zambujeira do
locais. Está dividida em dois percursos, o Cami- Mar, a sala de refeições ainda espera pelos clien-
nho Histórico (pelo interior) e o Trilho dos Pes- tes que aqui vêm em busca do afamado (e barato)
cadores (junto ao mar), que se cruzam em Porto arroz de marisco, mas na esplanada já quase
Covo e Odeceixe. A caminhada é feita ao som do não há mesas. Estão ocupadas por grupos que
vento, do mar e do piar das aves marinhas, numa chegam, de mochila às costas e bastões na mão,
banda sonora perfeita para a natureza selva- para retemperar forças com uma refeição ligeira
gem desta rude paisagem costeira, feita de altas e seguir caminho, trilho fora.

96 VISÃO 8 FEVEREIRO 2018


conta com nove 3 CERVEJARIA MAR
suítes e cinco
quartos.
ALJEZUR
1 CASA DAS
VIDEIRAS 
R. da Escola, 13,
ARCOS DE VALDEVEZ 
Aljezur > T. 282 994
R. 25 de Abril,
Datada do 113-115, Aldeia Nova 155
séc. XVII, é uma das do Concelho,
casas mais antigas Odeceixe 3 A AZENHA
da vila de Soajo, > T. 282 949 266/91 DO MAR ODEMIRA
conhecida pelo seu 220 3001/91 753 2770
> a partir de €90
conjunto único de (com pequeno-

espigueiros. Azenha do mar,
-almoço) Odemira > T. 282 947
297
 3 MONTE DA CHOÇA
Bairros, Soajo, Arcos SÃO TEOTÓNIO 3 ALTINHO, TAPAS
de Valdevez > T. 258 E PETISCOS ODECEIXE
576 205/93 333 7076 
> €60 (quarto duplo) São Teotónio 
> T. 283 958 626 R. 25 de Abril, 151 B,
1 LIMA ESCAPE
JOSÉ CARIA

/96 260 8325 > casas Odeceixe > T. 91 952


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-almoço)
PONTE DA BARCA
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em estilo Tipi ou
nas mais espaçosas
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este parque de VIDEIRA SOAJO DA PORTA DO MEZIO
campismo conta ARCOS DE VALDEVEZ
ainda com uns 
originais Eiró, Soajo 
> T. 258 576 205 Mata do Mezio, Arcos
bungalows de Valdevez > T. 258
suspensos.
1 ESPIGUEIRO 522 157 / 258 510 100


DO SOAJO SOAJO 2 LOJA DO SENHOR
Parque de
 FALCÃO
Campismo de Entre MIRANDA DO CORVO
Av. 25 de Abril, 1425,
Ambos-os-Rios
Soajo > T. 258 576 136
> Lugar de Igreja, Inaugurada em
Entre Ambos-os-Rios, 1878 por Lourenço
Ponte da Barca >
1 SABER AO
Falcão, hoje
T. 258 588 361/96 496 BORRALHO SOAJO é a sua bisneta,
9309/92 650 3332 >
€50 e €60 (glamping)  Filomena Falcão,
Av. 25 de Abril, Costa a responsável pela
2 CERDEIRA Velha, Soajo > centenária taberna
VILLAGE LOUSÃ T. 93 320 4718 e mercearia, onde
/96 370 8986 há regularmente
 noites de
Cerdeira, Lousã
2 O BURGO LOUSÃ fado, tertúlias,
> T. 239 994 621 lançamentos de

/92 540 1432 > casas
Ermida da Senhora da
livros ou sessões
a partir de €70 de leitura.
Piedade, Lousã
>T. 239 991 162
C. M. ODEMIRA

2 HOTEL PARQUE

SERRA DA LOUSÃ 2 TI LENA LOUSÃ R. José Falcão, 105,
MIRANDA DO CORVO Pereira, Miranda do
A ementa é fixa e Corvo > T. 91 416
 há que escolher 3323
Outro troço obrigatório é o que tem início Parque Biológico mal se faz a
em Almograve, embora neste caso em direção a da Serra da Lousã, reserva, porque 2 PARQUE BIOLÓGICO
Miranda do Corvo a casa é pequena
sul. Pela estrada de terra batida paralela à praia > T. 239 095 054
DA LOUSÃ
e os pratos, MIRANDA DO CORVO
chega-se ao porto de pesca de Lapa das Pombas, > a partir de €64 cabrito no forno,
seguindo-se, a partir daí, pelo trilho na falésia. (quarto duplo)
bacalhau assado Este parque de vida
A dada altura, o percurso afasta-se da costa, em 3 CASAS ou chanfana, são selvagem dedica-
direção ao Medo Amarelo, um pinhal junto a uma confecionados -se em exclusivo
DO MOINHO ODECEIXE apenas por a espécies
duna móvel, que avança e recua consoante os
Distribuída por encomenda. autóctones
caprichos do vento. A chegada à aldeia do Cava- vários núcleos nacionais.
leiro, já bem perto do cabo Sardão, é finalmente junto ao moinho de 
assinalada pelo majestoso voo das cegonhas, que vento de Odeceixe, Talasnal, Lousã 
aqui nidificam nas falésias. A caminhada é longa, esta unidade de > T. 93 383 2624 Miranda do Corvo
mas vale bem esta recompensa. turismo de aldeia /91 193 2948 > T. 239 538 444

8 FEVEREIRO 2018 VISÃO 97


para
famílias

Porque os miúdos
– e os pais! – merecem
Dias em que se dorme numa casa da árvore, num hotel com um “skate
park” ou numa iurte como as da Mongólia. Pelo meio, as crianças ainda
montam a cavalo, visitam castelos e brincam ao faz-de-conta
F L O R B E L A A L V E S * falves@visao.pt

98 VISÃO 8 FEVEREIRO 2018


GETTY IMAGES

E
m Trás-os-Montes, o frio pode ser que liga Pedras Salgadas a Vila Pouca de Aguiar.
gélido, mas nada que atrapalhe uns Já no Minho, em Viana do Castelo, visite-se o
bons dias de descanso e de diversão, interior do navio Gil Eannes e o que resta deste
porque os miúdos merecem (e nós antigo hospital que apoiava a frota portuguesa
também!). Escutam-se os pássaros do bacalhau nos mares da Gronelândia e da
logo que se atravessa o portão do Terra Nova. Para as famílias que gostam de
Pedras Salgadas Spa & Nature férias ativas, o Feel Viana tem um sports center
Park, na antiga vila termal, onde nos que aluga equipamentos para a prática de stand
esperam 20 hectares de flora – ou up paddle, surf, bodyboard, vela, running,
oito quilómetros de caminhadas trekking e ciclismo. O hotel, com 46 quartos no
– e de arborismo para quem não tenha vertigens edifício principal e nove bungalows de madeira
nem medo de atravessar pontes suspensas. As 16 construídos sobre estacas, no pinhal da Praia do
eco-houses – 14 em terra e duas tree houses – Cabedelo, inclui um parque de skate. Enquanto
descobrem-se entre árvores centenárias. O spa os miúdos estão entretidos, os pais podem
termal, com piscina interior, deixa a luz natural relaxar no spa, estúdio de ioga, ginásio ou piscina
entrar no edifício do século XIX, renovado pelo interior.
arquiteto Siza Vieira. Lá fora, há minigolfe, Sigamos pela A25 rumo à Covilhã, ansiosos
parque infantil e bicicletas disponíveis para quem por ver a serra da Estrela com neve. Se não
queira esquecer o frio e percorrer a ciclovia podermos escorregar no manto branco, a

8 FEVEREIRO 2018 VISÃO 99


alternativa será uma “aula” de Geologia no
Centro Interpretativo do Vale Glaciar do Zêzere,
em Manteigas – onde podemos andar de balão
a ler Pedras Salgadas Spa
& Nature Spa, em
Vila Pouca de Aguiar
(numa viagem virtual), ao longo de Livro perfeito
13 quilómetros. O antigo sanatório dos para miúdos
ferroviários da Covilhã, transformado em e graúdos, este
Pousada Serra da Estrela, projeto de Eduardo Lá Fora – Guia
Souto de Moura, pode não parecer a escolha mais para Descobrir
óbvia, mas o certo é que as crianças passeiam a Natureza
com todo o à-vontade pelo edifício com traça (Planeta Tangerina,
dos anos 20, a 1 200 metros de altitude. Para 368 págs., €24,60)
eles, há livros e brinquedos, sala de jogos, piscina vai despertar
interior de acesso livre, sessões de cinema com a vontade de
comungar com
pipocas, além de um imenso jardim.
a natureza, de
prestar atenção
AJUDAR A PREPARAR O JANTAR
às plantas e aos
Desça-se a Estrela e, entre Viseu e Coimbra, bichos de todos
conheça-se um aldeamento turístico onde A PA RT IR DE
os tamanhos e
(quase) nos sentimos em casa. Junto à Barragem feitios. A família vai € 16 0 oas
da Aguieira, o Montebelo Aguieira Lake Resort aprender a fazer 1 noite/2 pess
& Spa tem 152 habitações, entre apartamentos caixas-ninhos
T1 e T2, moradias T3 e villas T4. O hotel possui nas árvores
piscina interior e spa, parque infantil, minigolfe, e a identificar
courts de ténis, circuito de manutenção e espécies de aves,
bicicletas para alugar. É Carnaval e, se os miúdos peixes e répteis.
não dispensarem os disfarces, há um atelier de E, se chover, pode
máscaras, caça ao tesouro, pinturas faciais e, abrigar-se e ver as
até, um desfile. Descendo para sul, saindo na belas ilustrações
portagem de Fátima (ou na de Torres Novas, se de Bernardo
se viajar a partir de Lisboa), siga-se em direção Carvalho...
a Mira de Aire, onde se encontram as nossas
maiores grutas turísticas com 11 km (só 600 O Segundo Livro
metros são visitáveis). Se for dos que apreciam da Selva (Livros do
a natureza, recomenda-se um passeio pelo Brasil, 224 págs.,
€14,40), de
Parque Natural das Serras de Aire e Candeeiros.
Rudyard Kipling,
Ali perto, na aldeia de Alvados, entre campo
continua com
e oliveiras, ficam os 12 quartos do sustentável as aventuras
Cooking and Nature. As crianças são bem- de Mowgli, o
-vindas e, para elas, existe a sala pica-pau verde rapazinho que
com lápis de cor e jogos didáticos (adultos não cresceu com lobos,
entram). A fogueira – acesa todos os fins de tarde amigo da pantera
lá fora – convida a conversas sob as estrelas. Bagheera e do urso
E porque o hotel privilegia a cozinha, a família Baloo. Um clássico
pode juntar-se a preparar o jantar. aqui ilustrado com
Ainda no Oeste, a dez quilómetros de Óbidos, desenhos feitos
entre campos de alho-francês, as quatro casas pelo pai do autor.
de madeira do Óbidos Wood Villas, abertas há S.S.C.
ano, convidam a dias de preguiça. Aproveitando
um terreno de família, em Olho Marinho, Hélder Montebelo Aguieira Lake Resort,
Mesquita construiu casas sustentáveis (painéis no Vale da Aguieira
D.R.

solares no telhado) com nomes de árvores


– Sobreiro, Freixo, Pinheiro-Bravo e Loureiro. de Florence e de Louis Giordimaina, com quatro
O pequeno-almoço é entregue entre as oito e iurtes (Douro, Tejo, Lima e Minho), uma versão
as dez da manhã. Lá fora, além do jacúzi (água moderna das tendas tradicionais da Mongólia.
a 38-40 graus), há bicicletas disponíveis e, a Sem televisão, os jogos serão um bom pretexto
pedido, um passeio de carroça. Não muito longe, para passar o tempo em família ou, nos arredores,
está o novíssimo Dino Parque (abre nesta sexta, visitar o Convento de Tomar e o Castelo de
9) e a vila de Óbidos. Cavalos lusitanos é o que Almourol. No interior alentejano, acaba de reabrir
não falta na Quinta M, no coração do Ribatejo, o Monte Selvagem, em Montemor-o-Novo, com
a 15 quilómetros da Golegã. Xarope, Tremoço e 300 animais de 75 espécies e ainda com o faz-
Fronteiro estão disponíveis para volteios de -de-conta nas cabanas dos índios. Sugere-se a
20 minutos no picadeiro (€20), na propriedade pernoita no Évora Hotel, entre um mergulho na

100 VISÃO 8 FEVEREIRO 2018


CASAS DA ASSEICEIRA A COMIDINHA LAGOS
PEDRAS SALGADAS PORTO COVO Os donos, Pedro
SPA & NATURE Glória e Graciete,

PARK VILA POUCA Porto Covo, Sines
são os anfitriões
desta casa de
DE AGUIAR > Reservas Airbnb
ambiente familiar.
> a partir de €125
 Abrótea arrepiada,
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do Castelo > T. 258
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brincadeiras sem fim. *com Joana Loureiro de €62/pessoa 15h, 19h30-22h > €35 18h > €4

8 FEVEREIRO 2018 VISÃO 101


para
GAST RóNoMoS

Viagem aos sabores


do Alentejo
Passeio tranquilo ou incursão súbita ditada pela urgência de um desejo,
tanto faz, a cozinha dos restaurantes alentejanos chama por nós
M A N U E L G O N Ç A L V E S D A S I L V A comer&beber@visao.pt

E
is o programa da viagem que vos pro- das Furnas, que tem um miradouro fabuloso, o
pomos: percorrer o Alentejo e visitar cabo Sardão, que está num dos mais belos trechos
alguns restaurantes representativos da costa portuguesa, a albufeira de Santa Clara e
da gastronomia regional com os seus aldeias típicas vizinhas.
produtos, os seus cheiros e os seus sa- Atravessamos o Baixo Alentejo para ir dar ao
Solar do Forcado
bores. Mas nem só a cozinha nos atrai. Portalegre restaurante 3 Molhó Bico, em Serpa. Respira-se
O viajante encontrará também no seu N119 7 Alentejo: fachada branca, arcos e abóbadas, quadros
8
percurso o cante alentejano e outros Páteo Real de artistas plásticos locais, talhas de barro, arte-
motivos de interesse que reforçarão os Alter do Chão sanato regional. Saboreiam-se iguarias regionais,
desejos de conhecer melhor e de voltar Gadanha Mercearia 6 como queijo de Serpa, paio alentejano, torresmos
Estremoz A6
sempre ao Alentejo. Evitámos os grandes centros, do rissol, espargos com ovos e fígado de porco de
Adega Velha
como Évora, lugar de culto da gastronomia, é certo, A6
Mourão coentrada, nas entradas; migas com carne de porco
mas já bem conhecido e regularmente visitado. País das Uvas 5 preto frita, açordas de bacalhau e de pescada, caldo
Indo pelo litoral, impõe-se uma paragem no res- Vila de Frades 4 de cação, ensopado de borrego, cozido de grão e
taurante 1 Arte&Sal, em São Torpes. Está assente Arte&Sal N206 caça, nos pratos principais. Doçaria conventual e
São Torpes
no areal com um letreiro sugestivo que acrescen- 1 3 tradicional. Vinhos do Alentejo.
Molhó Bico
ta ao nome a sua vocação: “Casa de peixe”. Uma 2 Serpa Em redor, outros lugares inspiradores, como as
oportunidade para saborear robalo do mar, sargo, Tasca do Celso duas rouparias (queijarias) do centro da cidade, onde
Vila Nova
salmonete, garoupa e outros peixes da costa muito de Milfontes também se pode visitar oficinas de artesãos, vê-los
frescos e bem grelhados, ou a açorda de ovas e de N120 A2 trabalhar e comprar as suas obras; as várias adegas
camarão e o esparguete com mariscos. Sines tem de Pias; o Museu do Relógio; e o quadro natural
praias admiráveis, umas com grandes areais, outras único do Pulo do Lobo, no Guadiana. Novo percur-
pequenas, enquadradas por rochedos, como as de so, agora em sentido ascendente, para a adega-res-
Porto Covo, que importa visitar. Também há muito taurante 4 País das Uvas, em Vila de Frades. A sala
para admirar em terra, como o Badoca Safari Park, principal é muito pitoresca com enorme pé-direito
no caminho para Santiago do Cacém. Prosseguindo, e sete grandes talhas de barro, nas quais ainda se faz
no rumo ao sul, vamos dar à 2 Tasca do Celso, em vinho. Cozinha alentejana com ementa diversificada:
Vila Nova de Milfontes. Está numa casa branca com nas entradas, enchidos da terra, torresmos de rissol
barra azul, cozinha regional, culinária sólida e carta e silarcas com ovos; nos pratos principais, cozido de
extensa. Excelentes amêijoas à Bulhão Pato, lulinhas grão, que é o ex-líbris, feijão com cardos, migas de
fritas, espargos com ovos e pica-pau de porco preto, espargos com carne de alguidar e açordas de tomate
nas entradas; e açorda de gambas, cherne com e de perdiz. Boa doçaria tradicional. Só vinhos da
massinha ou grelhado (divinal, a cabeça), cataplana Vidigueira.
de peixe, bife “à la Planch” e naco de vitela grelhado, O cante alentejano solta-se, por vezes, nas
nos pratos principais. Doçaria tradicional. Boa gar- vozes de clientes locais ou de grupos, como os de
rafeira. É obrigatório um passeio a pé pelo centro Vila de Frades e os da Vidigueira. Outra tradição
histórico para ver o Forte de São Clemente, ex-líbris rural e antiga é o vinho de talha, cuja história tem
FILIPE POMBO

da vila (só por fora, dado ser propriedade privada), especial relevância na Vidigueira, podendo ser
e a Igreja de Nossa Senhora da Graça, entre outros conhecida numa visita às ruínas romanas de São
monumentos, tal como visitar as praias, como a Cucufate, seguida de outra à Adega Tradicional de

102 VISÃO 8 FEVEREIRO 2018


Gadanha Mercearia

8 FEVEREIRO 2018 VISÃO 103


A PA RT IR DE
€ 25
preço médio/pe
ssoa

Tasca do Celso

Talhas da Herdade do Rocim, promovidas por esta


empresa, sob marcação prévia. a ler A norte do Alentejo, em Portalegre, o 7 Solar do
Forcado está instalado numa casa centenária que
foi estalagem, talho, mercearia e taberna, antes de
TOURO BRAVO E PORCO PRETO Alfredo Saramago se tornar um restaurante de referência, no princípio
Seguimos por terras do Alentejo central em deman- é sempre um bom do milénio. Para entrada, cabeça de xara, cacholeira
da da 5 Adega Velha, em Mourão. À nossa espera, companheiro, com cozida, toucinho frito e outros petiscos locais. Nos
sobre a mesa da sala com grandes talhas de barro ou O Livro-Guia pratos principais, reinam as carnes: espetada de
de outra repleta de telefonias antigas, pão alentejano do Alentejo touro bravo, cozido de grão com rabo de touro, rins
e azeitonas bem temperadas, a que se podem juntar ou Doçaria e cachaço de porco preto, bochechas de novilho
queijos, paio de porco preto e outros petiscos, antes Conventual do bravo e lacão assados no forno. Boa doçaria regio-
dos pratos de sustância, que rescendem: sopa de Alentejo. Mas nal. Vinhos de Portalegre. Um passeio pela cidade
cação, sopa da panela, cozido de grão, ensopado outra sobremesa inclui necessariamente visitas à Casa-Museu de
de borrego, lebre guisada, perdiz estufada e muito sugere-se aqui: José Régio, aos museus da Tapeçaria e Municipal,
mais. Boa doçaria conventual. Vinho branco da Contos Carnívoros à Sé e ao Mosteiro de São Bernardo. Indispensável,
(Ahab, 240 págs.,
Vidigueira e tinto de produção própria. Antes ainda, programar uma ida à serra de São Mamede
€18,95), de
ou depois da refeição, faz bem subir ao castelo, para desfrutar a paisagem e os trilhos pedestres.
Bernard Quiriny,
contemplar a vila medieval e visitar a Igreja Matriz juntam 14 relatos
Esta viagem termina em beleza no 8 Páteo
de Nossa Senhora das Candeias. Também há que fantásticos. Real, em Alter do Chão, junto da igreja matriz e
programar visitas a dois museus singulares, o da Começam à mesa perto do castelo. Cozinha regional simples e sabo-
Aldeia da Luz, onde se interpretam as alterações de um restaurante, rosa. Nas entradas, há bons petiscos locais: morcela
decorrentes da construção da barragem do Alqueva; e servem convivas de Alter, painho de porco, torresmos e queijos; o
e o da Adega Cooperativa da Granja, que preserva as como uma mulher- mesmo acontece nos pratos principais: borrego de
memórias da produção do vinho e do azeite. -laranja que se pasto de Alter do Chão com arroz amarelo (arroz de
O passo seguinte leva-nos à 6 Gadanha Mer- deixa beber pelos açafrão), que é o prato mais emblemático, sopa de
cearia, em Estremoz. É restaurante, esplanada, bar amantes... S.S.C. cação, sarapatel de borrego, migas alentejanas com
de tapas, garrafeira e mercearia. A cozinha inspira-se bochechas ou entrecosto frito e migas de espargos
no receituário e é fiel aos produtos e sabores locais. com carnes grelhadas de porco do montado. Seria
Há iguarias que os clientes não dispensam, como os imperdoável ir a Alter e não visitar o castelo, do sé-
cogumelos com enchidos e os croquetes de borrego, culo XIV; a Villa Romana da Casa de Medusa e a ne-
nas entradas; o mil-folhas de bacalhau com presun- crópole, na Estação Arqueológica de Alter do Chão;
to, já emblemático, as bochechas de porco preto com o Núcleo Museológico da Casa do Álamo, que conta
esmagada de batata e as presas de porco preto com a história de uma típica casa agrícola alentejana; e a
migas de espargos, nos pratos principais. Sobreme- pitoresca aldeia de Alter Pedroso, de onde se avista
sas aliciantes, como o mil-folhas de chocolate. grande parte do território do Alto Alentejo.

104 VISÃO 8 FEVEREIRO 2018


125 > qui-ter 12h30- > T. 245 612 301/96
-14h30, 19h30-22h 802 4537 > qua-seg
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almoço > €20 (preço
Trata-se de um médio)
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dos ex-líbris e está Neste parque

FILIPE POMBO
aberta ao público.  temático, fazem-se
Adega Velha País das Uvas R. dos Aviadores, 32, safaris, veem-se
Vila Nova de Milfontes aves de rapina e
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817 5726 > ter- dom
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RESTAURANT ESTREMOZ ADEGA VELHA MOURÃO 
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Convento do Mosteiri-
nho (junto à Praça da
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de 41 quartos, 586 443 > ter-sáb 10h-12h30, 14h-17h30
alguns têm lareira 12h30-15h, 19h30-
e vista para a serra -21h, dom 12h30-15h
> €15 (preço médio) RUÍNAS ROMANAS
de Ossa. DE SÃO CUCUFATE
GADANHA MERCEARIA VIDIGUEIRA
 ESTREMOZ
R. Brito Capelo, 
Estremoz > T. 268 338  Vidigueira > ter
400/96 131 3476 Lg. Dragões de 14h-17h, qua-dom
> a partir de €72 Olivença, 84-A, 10h-13h, 14h-17h30
Estremoz > T. 268 333
CASA DA PALMEIRA SERPA 262/96 992 9540 e 96 MUSEU DA LUZ MOURÃO
517 1521 > ter-dom
É um solar com 300 12h30-15h, 19h30-
Inaugurado em
metros quadrados, -22h30 > €30 (preço 2003, o museu dá
quatro quartos, médio) a conhecer, através
cinco salas e terra- de vários suportes,
ço panorâmico. SOLAR DO FORCADO vídeo, fotografia,
A ocupação máxima PORTALEGRE objetos e documen-
é de nove pessoas. tos, as mudanças
 ocorridas na região.
R. Cândido Reis, 14, O edifício possui

Portalegre > T. 245 uma janela através
Centro da cidade,
330 866/93 812 7033 da qual é possível
Serpa > €120/noite
> seg-sex 12h-15h,
19h-22h, sáb 12h-15h
ver a localização da
> €20 (preço médio) antiga aldeia da Luz.

PÁTEO REAL 
ARTE&SAL S. TORPES ALTER DO CHÃO Lg. da Igreja de Nossa
Senhora da Luz, Luz,
  Mourão > T. 266 569
Praia de Morgavel, Av. Dr. João Pestana, 257 > ter-dom 9h30-
D.R.

S. Torpes > T. 269 869 37, Alter do Chão 13h, 14h30-17h30 > €2

8 FEVEREIRO 2018 VISÃO 105


para
NAMoR AR

De mão dada
Um piquenique entre vinhas, ver o pôr do Sol na planície
alentejana, ou olhar as estrelas lá no alto da colina,
são algumas sugestões para passar uns dias a dois
– sem pressas e isolados de tudo e de todos
S U S A N A L O P E S F A U S T I N O slopes@visao.pt

106 VISÃO 8 FEVEREIRO 2018


GETTY IMAGES

C
om o IP2 renovado, o trajeto até entre a Massagem Malhadinha de Casal (de
Albernoa, onde fica a Herdade origem sueca, composta por várias técnicas)
da Malhadinha Nova, faz-se ou o piquenique romântico entre as vinhas que
com relativa facilidade. A cidade rodeiam o edifício, com sete quartos duplos
mais próxima, Beja, fica a uns e três suítes. Há ainda que fazer uma refeição
escassos 22 quilómetros, por no restaurante de cozinha de autor, que tem
isso sugere-se um passeio pelo o chefe Joaquin Koerper como consultor.
centro histórico, nem que seja só Mais a sul, ainda no Alentejo, fica o Campo
para subir à torre de menagem Branco, região de cultivo de cereais de sequeiro
do castelo. A 40 metros de e habitat de várias espécies de aves, virada para
altura, a vista sobre a planície do Baixo Alentejo uma planície a perder de vista, e onde o pôr
é ampla e vale por si só, ainda que não chegue do Sol é imperdível, está a Casa dos Castelejos.
para ver a entrada da Herdade da Malhadinha Não é fácil lá chegar, mas vale a pena o sossego
Nova, onde o serviço é de luxo, mas tem a e a paz proporcionados por este recanto do
calma e a simplicidade alentejanas. A chegada pequeno Monte do Guerreiro, na zona de Castro
faz-se por uma alameda ladeada de vinhas e Verde, onde se pode passear à descoberta desta
aproveitar o melhor da propriedade é visitar a aldeia perdida no tempo. As três casas têm
adega, conhecer a coudelaria ou aproveitar o nove quartos e várias zonas de estar interiores
spa. Sem imposições, é o hóspede que decide que convidam a serões à lareira. Durante o dia,

8 FEVEREIRO 2018 VISÃO 107


A PA RT IR DE
€ 2 50
1 noites/casal

Herdade da Malhadinha Nova Country House & Spa, em Beja

chama a atenção a passagem de aves que por


aqui seguem a sua rota. O birdwatching é, aliás, Natura Glamping, na serra da Gardunha
uma das atividades mais procuradas, mas o
melhor é escutar o cantar dos pássaros e relaxar
a ler
em boa companhia. As ilustrações de
O destino é agora o Alto Alentejo, mais Pedro Lourenço
concretamente Monsaraz, vila-museu servem bem
encarrapitada lá no alto da colina e de visita esta reedição do
obrigatória pela sua arquitetura, património, clássico de Mark
e também pela vista sobre o Alqueva. Para Twain, a ler, uma
dormir, rume-se ao São Lourenço do página aqui, outra
TIAGO MIRANDA

Barrocal, hotel de cinco estrelas inserido numa ali, entre passeios A PA R


T IR DE
propriedade agrícola isolada, onde o tempo passa e pausas. € 1 15
ao ritmo de caminhadas pelos trilhos, um jantar Os Diários de
a dois ou um tratamento no spa. Se o objetivo Adão & Eva
for apenas preguiçar e namorar, isso também é (Cavalo de Ferro, Para os viajantes mais aventureiros, o Natura
possível – não sendo preciso ir até à Rocha dos 96 págs., €13,99) Glamping é um desafio. A 925 metros de altitude,
Namorados, que fica ali tão perto. narra, em tom em plena serra da Gardunha, sobre a cidade do
Embora não seja época de mergulhos, humorístico, os Fundão, neste camping sofisticado dorme-se
viajemos até às praias da Costa Vicentina (des)encontros em domos geodésicos, nome para as bolas de
à sombra da
que, mesmo de inverno, são bonitas de se plástico a partir das quais se vê as estrelas
macieira ancestral,
ver. É aqui, num outro Alentejo, virado para e um anoitecer – ou um amanhecer – que não se
e a primeira guerra
a serra de Monchique, que está o Paraíso dos sexos. S.S.C.
esquece. Já em Gemieira, Ponte de Lima, entre
Escondido. Neste turismo rural, o bungalow vinhas e jardins, dorme-se em tendas de luxo,
mais alto é o lugar ideal para apreciar a feitas de tecido e estacas de pinho nórdico.
paisagem, feita de terrenos íngremes onde O Carmo's Boutique Hotel equipou-as com
sobrevoam águias e se observam perdizes. camas de dossel e banheira junto à varanda, para
E, se a viagem até aqui se fez de carro, dizemos não se perder a vista elevada.
já que a melhor maneira de chegar à Companhia Avançando ainda mais para norte, entre o
das Culturas é de comboio. Da estação- Alto Douro e o Planalto Beirão, fica o Longroiva
-apeadeiro de Castro Marim chega-se, em Hotel Rural, onde o espírito termal proporciona
300 metros, a este turismo rural instalado momentos de repouso e tranquilidade com
numa propriedade de agricultura biológica, recurso às águas medicinais. A partir da aldeia
com um spa hammam, quartos luminosos de Longroiva, a meio caminho entre Meda
e onde se faz ioga numa corkbox. e Vila Nova de Foz Coa, pode descobrir a região

108 VISÃO 8 FEVEREIRO 2018


Gemieira, 10, de vitela mirandesa
Gemieira, Ponte de DOP com maçã
Lima > T. 91 058 em vinho do Porto,
CASA DOS CASTELEJOS 7558/258 938 743
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S. Marcos da VILA NOVA DE FOZ COA 
Ataboeira, Monte do Museu do Coa,
Guerreiro, Castro  R. do Museu, Vila Nova
Verde > T. 96 948 Qt. do Orgal, Castelo de Foz Coa, Guarda
9844 > a partir de €70 Melhor, Vila Nova de > T. 93 215 0155
Foz Côa > T. 254 318 > ter-sáb 12h-16h,
HERDADE DA 081 > a partir de €200 19h-22h, dom 12h-16h
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COUNTRY HOUSE LONGROIVA HOTEL
& SPA BEJA RURAL MEDA
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Albernoa, Beja Lugar do Rossio,
Longroiva, Meda
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> a partir de €250 > T. 279 149 020 Até março, há
> a partir de €65 observações
SÃO LOURENÇO DO astronómicas
BARROCAL MONSARAZ noturnas.

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EN 514, Monsaraz
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VOVÓ JOAQUINA BEJA Courela da Coutada,
Monsaraz > T. 96 036
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Manuel Lino, uma > €12, €8 (10-17
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SÃO TEOTÓNIO tos como rabanada família)
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Carmo's Boutique Hotel, em Ponte de Lima São Teotónio, Odemira
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R. do Sembrano, 57,
Lg. da Conceição, Beja
COMPANHIA DAS Beja > T. 96 130 2815
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CULTURAS CASTRO MARIM > ter-qui 12h30-
-14h30, 19h-22h,
> ter-dom 9h30-
-12h30, 14h-17h15
sex-sáb até 22h30
 > €2 (dá acesso ao
Fazenda Núcleo Visigótico)
S. Bartolomeu, R. do MARISQUEIRA O BARCO
Monte Grande, Castro S. TEOTÓNIO MIRADOURO
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062/ 96 036 2927 O arroz de DO CASTRO
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especialidade, mas PONTE DE LIMA
COLMEAL COUNTRYSIDE há sempre peixe
A 143 metros de
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HOTEL FIGUEIRA fresco e marisco.


altura, tem vista
DE CASTELO RODRIGO sobre o vale do
seguindo umas das várias rotas feitas para  Lima e os vestígios
passear.  Loteamento da de um povoado da
Qt. do Colmeal, Bemposta, Lt. 1, São
Num cantinho da Beira Transmontana, perto Colmeal, Figueira de Teotónio, Odemira
Idade do Ferro.
de Figueira de Castelo Rodrigo, o Colmeal Castelo Rodrigo > T. 283 959 007
Countryside Hotel veio dar nova vida à serra > T. 271 312 352 > a > ter-dom 12h-22h30 
partir de €95 (quartos), Lugar de Chão, Facha,
da Marofa, quando o casario em ruínas foi €185 (apartamentos) CASA DA TERRA Ponte de Lima
transformado num hotel de 14 quartos e spa, PONTE DE LIMA
desenhado pelo arquiteto Pedro Brígida, que NATURA GLAMPING ALTO DA MAROFA
forrou os telhados com folha de zinco, puxando FUNDÃO  FIGUEIRA DE CASTELO
Passeio 25 de Abril,
pelas cores do xisto e do granito da terra.  Antiga Cadeia das
RODRIGO
Isolada de tudo e de todos, no concelho de Serra da Gardunha, Mulheres, Ponte de A 975 metros
Foz Coa, está também a Casa do Rio, na Quinta Alcongosta, Fundão > Lima > T. 258 941 040 de altitude,
T. 93 352 9451/275 031 > ter-qui 9h-20h, neste miradouro
do Orgal, em Castelo Melhor, onde se chega por 786 > a partir de €85 sex e dom 9h-21h,
uma estrada de terra batida ou pelo rio Douro. encontra-se uma
(casa do guarda), €115 sáb 9h-22h
réplica da figura
A maior surpresa é a construção da casa, (domos geodésicos)
do Cristo Rei.
em madeira e vidro sobre pilares, com seis RESTAURANTE
CARMO’S BOUTIQUE CÔA MUSEU
quartos, todos com varanda e vista para o HOTEL PONTE DE LIMA
Douro, como se estivesse a pairar entre as VILA NOVA DE FOZ COA 
Serra da Marofa,
vinhas que a rodeiam, convidando mesmo  Tem vários pratos Figueira de Castelo
R. Santiago da de bacalhau, posta Rodrigo
a namorar.

8 FEVEREIRO 2018 VISÃO 109


Manifesto
O QUE ANDAMOS A GOSTAR (OU NEM POR ISSO) DE DESCOBRIR POR AÍ

J O A N A L O U R E I R O jloureiro@visao.pt

> muitíssimo bom > bom


DOCE ROMANTISMO ANIMAR É PRECISO
A Leitaria da Quinta A 13ª edição do projeto educativo
Animar começa este sábado, 10, em
do Paço propõe adoçar a Vila do Conde, com uma instalação
interativa na Solar, que convida
boca dos namorados com quatro filmes a saltar da tela para
a galeria de Arte Cinemática.
um éclair especial: massa A programação inclui ainda sessões
rosa, dupla cobertura de de cinema, visitas guiadas
à exposição, workshops e ateliers
chocolate, recheio de
mousse de champagne
e framboesas, cereja > bonzinho
e folha de ouro. VINHOS NO PÁTIO
Para ser degustado A 4ª edição desta montra vínica
simples ou oferecido num das regiões demarcadas de Lisboa
e da Península de Setúbal está de
estojo com um bouquet regresso de sexta a domingo, dias
9 a 11, ao Pátio da Galé, no Terreiro
de rosas e uma garrafa do Paço, com provas, masterclasses
e workshops. A entrada custa €3
de espumante.
Quem resiste?
> assim-assim
CARNAVAL À BRASILEIRA
Os blocos Colombina Clandestina
e Baque do Tejo são os animadores
do Carnaval de rua do Village
Underground, em Lisboa, que
acontece na terça, 13. A cafetaria
estará aberta a partir das 12h, com
pratos, bebidas e petiscos.
As crianças são sempre bem-vindas

> para esquecer


SEM SALA DE ENSAIO
Durante 12 anos, a Fábrica da Rua da
Alegria esteve ocupada por dezenas
de companhias de teatro.
O edifício voltou agora para a ESMAE
e muitas das estruturas temem não
encontrar espaço alternativo…

110 VISÃO 8 FEVEREIRO 2018


COMER E BEBER

Jamie's Italian Lisboa


Do Reino Unido, mas com receitas de Itália
O (muito) aguardado restaurante da cadeia mundial que leva o nome de Jamie Oliver já abriu no
Príncipe Real. Ali, há pizzas, massas frescas e outras especialidades italianas

D.R.
As latas de tomate de conserva, em chili, alho e salsa, servidas com maionese de alho
cima da mesa, causam estranheza. Pelo (€7,75). Mas guarde-se apetite para as massas
O Jamie’s Ita- peso, percebe-se que estão cheias e, um frescas, feitas todos os dias com as farinhas 00
lian de Lisboa olhar mais atento, revela estarem e de trigo, ovos free range (de galinhas criadas
é o número 64 dentro da validade. Antes que se faça ao ar livre) e muito amor, conforme pode ler-
da cadeia de um disparate, aguarde-se pela justifica- -se num quadro perto da mesa. À escolha há
restaurantes ção. Esse momento acontece quando as tábuas de spaguetti nero com lulas fritas, mexilhões, polvo,
de Jamie Oli- carnes frias e a vegetariana (€7,50 por pessoa) são alcaparras, chili, anchovas, tomates e vinho branco
ver, proprie- servidas no novíssimo e (muito) aguardado (€13,95), e tagliatelle com molho ragú de carne de
tário também restaurante Jamie’s Italian, do conhecido chefe vitela, preparado em cozedura, com vinho tinto e
do Barbecoa, britânico Jamie Oliver, aberto há duas semanas no coberto com pão ralado e parmesão (€11,95). Das
em Londres. Príncipe Real, em Lisboa. São uma espécie de base oito pizzas da ementa, o destaque vai para a truffle
O chefe britâ- para elevar, ao olfato mas também aos olhos, as shuffle com molho branco, queijo Cantal, cebolas
nico é ainda tábuas compostas por salami de funcho, mortade- aromatizadas em balsâmico, ovo e trufa negra
responsável la com pistácio, vegetais grelhados e marinados (€15,95), e nas carnes, as costeletas de borrego
pela Jamie em alho e azeite de ervas aromáticas, queijo grelhadas (€17,95) – e que o chefe britânico
Oliver Food Pecorino, entre outros ingredientes. apregoa como sendo responsáveis pelos dedos
Foundation É com estas iguarias que se pode começar queimados de alguns clientes, que não esperam
e o Food a refeição neste restaurante, especializado na que estas arrefeçam para as comer à mão. Para
Revolution
cozinha italiana, com 500 metros quadrados, terminar, sugere-se um brownie com molho
Day que têm
distribuídos por três pisos e dois terraços. Ainda de chocolate, com gelado de caramelo salgado
por objetivo
melhorar a
nas entradas, há que provar o pão brioche, com e pipocas caramelizadas. Muita coisa com a mão
qualidade de manteiga de ervas caseira, alho tostado, alecrim de Jamie Oliver para ser saboreada, portanto,
vida das pes- e parmesão (€4,75) e as lulas fritas crocantes com só o próprio é que nem vê-lo. Sandra Pinto
soas através
de uma boa u
alimentação. Pç do Príncipe Real, 28A, Lisboa > T. 92 530 1411 > dom-qui 12h-16h, 19h-23h, sex-sáb até às 24h

8 FEVEREIRO 2018 VISÃO 111


COMER E B E B E R

POR
MANUEL
G O N ÇA LV E S
D A S I LVA

comer&beber@visao.pt

LUCÍLIA MONTEIRO
Oficina Porto
A arte da gastronomia
O nome completo do restaurante é Oficina Arte.Gastronomia e diz o essencial sobre o sonho
de um galerista e de um chefe de cozinha que se concretizou neste projeto
Cozinha baseada Faltava, naquela zona da cidade do e meio, embora com diferenças na combinação de
na tradição Porto, o Quarteirão das Artes da ingredientes e/ou na apresentação. Nas entradas
portuguesa, Avenida Miguel Bombarda, um destacam-se as favas, agora com outra apresen-
com os seus restaurante como este, contemporâneo tação: um estufado com chouriço, ovo escalfado,
produtos, e capaz de representar condignamente tomate assado e queijo; as vieiras frescas, também
receitas a nona arte – a gastronomia. O galerista sempre presentes, aqui numa confeção simples na
e até modos Fernando Santos tinha o espaço adequado numa chapa com ervilhas de quebrar, presunto cro-
de confeção, antiga oficina de restauro de automóveis, e o chefe cante e pó de azeite; e o fresco e guloso canelone
mas atualizada de cozinha Marco Gomes procurava um lugar de algas com recheio de sapateira, camarão e
com a
onde pudesse dar outra expressão à sua cozinha berbigão. Nos pratos principais – seis de peixe,
criatividade,
profundamente enraizada na tradição portuguesa, um vegetariano e seis de carne, a que acrescem
a experiência
e a técnica do
mas com rasgos de modernidade, para levar mais cinco medalhões de lombo de boi maturado – há
chefe Marco longe a experiência do Foz Velha. Juntaram opções que se impõem, como o polvo no forno
Gomes vontades e transformaram a oficina velha num com batata-doce, pimentos assados e crocante de
restaurante moderno. O arquiteto Rodrigo mandioca; o lombo de atum fresco laminado com
Patrício e o designer Paulo Lobo ajudaram a criar puré de ervilha e gravilha de legumes; o lombo de
um local moderno e belíssimo que preserva traços bacalhau tradicional com broa, coentros e grão-
e até materiais de origem. Ficou espantoso. -de-bico, que é um clássico; o cordeiro de leite
Motivo de admiração é também a cozinha, com arroz de carqueja e couve ao vapor; o mil-fo-
baseada na tradição portuguesa, com os seus pro- lhas de perdiz vermelha com legumes e molho da
dutos, sabores, receitas e até modos de confeção, mesma, num estufado à moda antiga com a massa
mas atualizada com a criatividade, a experiência folhada artisticamente intercalada, e o lombinho
e a técnica do chefe Marco Gomes. A ementa, de porco bísaro com castanhas, cogumelos, chalo-
que muda de quatro em quatro meses, realça, tas e ervas do campo. Para sobremesa, as rabana-
agora, produtos da época, como as castanhas, os das de sempre, numa versão mais sofisticada com
cogumelos ou as carnes de porco bísaro. É fácil gelado de caramelo salgado e redução de vinho do
reconhecer pratos que vêm do Foz Velha ou das Porto. Excelente garrafeira com um bom leque de
cartas anteriores do Oficina, que abriu há um ano vinhos a copo. Serviço eficiente e simpático.


R. Miguel Bombarda, 273-282, Porto > T. 22 016 5807 / 93 671 2384 > ter-sáb 12h30-15h, 19h30h-23h, seg 19h30-23h
> €40 (preço médio)

112 VISÃO 8 FEVEREIRO 2018


Periquita Edição
Tico Tico e Novo Rio Lisboa Especial António
Escasseiam em Lisboa os Zambujo 2014
restaurantes onde possamos De um lote
encontrar lampreia fresca com as castas
e bem cozinhada, no tempo Castelão (50%),
dela, e a situação tende a Touriga Nacional
piorar, pois O Retiro do Chefe (33%) e Touriga
Costa, em Alcântara, que era Francesa (17%),
um dos seus redutos, fechou tem cor rubi, aroma
no fim do ano para dar lugar, intenso com notas
ao que se diz, a um hotel. frutadas e florais,
Entre meia dúzia de poisos apontamentos de
seguros que resta para especiarias e um
saborear a “divina lampreia”, toque de madeira.
como lhe chamou Afonso Paladar cheio de
Lopes Vieira num devaneio fruta com taninos

Namorar o vinho
poético, está o Tico Tico macios, acidez
e Novo Rio, à esquina das correta, final longo
avenidas do Rio de Janeiro e muito agradável.
e da Igreja, no Bairro de €14,99

Desejo, cobiça e paixão


Alvalade, cujos donos, de
origem minhota, asseguram
a presença diária de uma das Titular Blush
iguarias mais características
da terra onde nasceram.
Edition 2017
Além de restaurante Em vez de ouvir lamentos sobre a falta de De uvas da casta
de cozinha tradicional reconhecimento da qualidade dos nossos vinhos, Touriga Nacional,
portuguesa, apresenta- apresenta um
-se como cervejaria e
queremos ver promoções inteligentes e contínuas tom muito bonito,
marisqueira. Os petiscos e Graças ao Dia dos Namorados, alguns produto- entre o rosa e o
os mariscos predominam res tomaram a iniciativa de associar o vinho ao alaranjado, aroma
nas entradas: croquetes, intenso e fresco
amor e à vida. Não é novidade que o vinho,
rissóis, joaquinzinhos fritos, com prevalência de
entre outras potencialidades, tem o condão de
amêijoas à Bulhão Pato, frutos vermelhos.
gambas grelhadas e o
falar aos sentidos, de despertá-los, e de
Paladar elegante,
camarão da costa ao natural. incentivar a arte de viver. com assinalável
Nos pratos diários, com A empresa José Maria da Fonseca chamou a música, na estrutura que o
produtos portugueses, a sair voz de António Zambujo e no ritmo da guitarra, para juntar recomenda para
continuamente, não faltam ao Periquita tinto, marca quase mítica da casa. O Periquita a mesa, embora
o arroz e a massa de tamboril Edição Especial António Zambujo 2014 “tem um paladar também se possa
com gambas, os filetes de frutado com taninos melódicos, ora suaves ora em evidên- beber só. €5,25
polvo com arroz de grelos, cia, como a música de António Zambujo”, afiança o produ-
o pargo ou a garoupa assados tor. Para acompanhar o vinho, oferece-se o download do
no forno, a feijoada de álbum do cantor Rua da Emenda. É bem visto! Herdade dos Grous
gambas (feita ao momento), a
cabidela, o leitão (de Negrais),
Mais discreta, a empresa Caminhos Cruzados, produ-
tora de vinhos do Dão, sugere o seu Titular Blush Edition
Moon Harvested 2014
entre outros, de confeção 2017 pela simples razão de ter uma cor muito leve, sem A casta Alicante
simples, bem apurados e deixar de ser complexo e estruturado. Ora aí está, a verda- Bouschet está na
saborosos. Alguns têm dia de é que se trata de um bom e bonito rosé, apropriado para base deste vinho
fixo: favas com entrecosto, à alegrar a vista e também o paladar. A Herdade dos Grous que fermentou
segunda; bacalhau à Gomes limitou-se a vir agora chamar a atenção para o seu Herda- em lagares com
de Sá, terça; cabrito à padeiro, maceração intensa
de dos Grous Moon Harvested 2014, certamente a contar
quarta, sexta e domingo; e estagiou em
com o efeito da carga romântica que o nome contém, a que
cozido à portuguesa, quinta barricas novas de
acresce a grande qualidade do vinho. carvalho francês.
e domingo; dobrada, sábado.
Em Portugal, onde há um património vitivinícola de ex- Cor rubi quase
Boa doçaria tradicional.
Garrafeira abrangente.
ceção com marcas consagradas internacionalmente, ouve- opaca, aroma
Serviço despachado e -se em todos os cantos a mesma lamúria: os nossos vinhos complexo a frutos
simpático. estão entre os melhores, mas não lhes dão o devido valor; pretos, com
não se vê publicidade capaz de sensibilizar o consumidor notas de madeira.
para a qualidade dos vinhos e o seu real valor. Aproveitem Paladar rico, com

Av. Rio de Janeiro, 19 C-21, Lisboa
as oportunidades, mesmo que pareçam ingénuas, como a taninos maduros,
> T. 21 849 1495 / 2351 > seg-dom do Dia dos Namorados. e final longo e
12h-23h > €25 (preço médio) persistente. €42

8 FEVEREIRO 2018 VISÃO 113


SAIR PORTO INSÓLITO
G E R M A N O S I LVA

Patacos de
Gulden Draak Bierhuis Porto Monchique
A casa das belgas O que resta do Mosteiro de
Monchique fica no bairro de
Miragaia, junto ao rio Douro.
A parte da igreja está agora
Vai abrir o primeiro bar de cerveja Gulden Draak, em obras, para ser convertida
em hotel, segundo parece.
com 12 referências de pressão artesanal e 65 em garrafa Este convento ficou célebre
porque Camilo Castelo
Três anos depois de abrirem o bar Pausa, no Branco localizou nele aquele
Porto, os irmãos Abílio Vinha e José Monteiro lance dramático de Amor
juntaram-se a Rafael Lopes e Rita Castro e, de Perdição em que Teresa
sem olhar para trás, viraram-se para a cerveja. de Albuquerque se despede
O número 82, da Rua José Falcão, reabre este de Simão e ainda o vê a
sábado, 10, como Gulden Draak Bierhuis. embarcar no veleiro que o
“Aceitámos o desafio da Gulden Draak para abrir a sua levará para o exílio. O que
primeira casa em Portugal e a segunda no mundo”, realça
Abílio Vinha. Depois de Praga, na República Checa, a marca
belga de cervejas instala-se na cidade do Porto. Para isso,
e como nos últimos meses quase todos os dias ficavam
clientes à porta, mudaram-se as mesas e os sofás para
acomodar 60 pessoas.
Entre loiras, ruivas, morenas e pretas, há 12 referências
de cerveja de pressão artesanal (€2,50 a €6,50) e 65 em
garrafa (€4,50 a €7,50). Embora a maioria seja de origem
belga, claro, ali também se encontram produções alemãs,
inglesas, americanas e portuguesas, como a Gyroscope, pouca gente saberá é que,
da marca OPO74, ou a Wonderlust, da Colossus. Serve-se no Mosteiro de Monchique,
ainda vinho a copo (€3) e alguns licores e whiskies (€5 a também funcionou uma Casa
€9). Para partilhar há pão de alho, pratos de queijo com da Moeda. Aconteceu na
mostarda artesanal belga Tierenteyn Verlent (€3,95). segunda metade do século
Por cima do balcão brilham cerca de 300 copos, XIX, já depois da extinção das
de 15 modelos diferentes e adequados a cada estilo de ordens religiosas, durante
cerveja. As paredes estão mais despidas, mas nem por isso a guerra da Patuleia. Uma
se vai deixar de conversar ao ritmo do jazz, do blues ou do comissão nomeada pela
rock. Sempre numa onda tranquila. Susana Silva Oliveira Junta Provisória do Governo
foi incumbida de formar a tal
Casa da Moeda de Monchique
para nela “serem cunhadas,
Nas mesas do
diariamente, 240 moedas
Gulden Draak
em patacos e moedas de
Bierhuis está
dez réis…” Precisando de
disponível um
matéria-prima para o fabrico
jornal mensal
das moedas, a Comissão
com notícias
Instaladora da Casa da
do mundo
Moeda de Monchique pediu
cervejeiro e
às autoridades que lhes
ainda infor-
entregassem “dois morteiros
mações sobre
do ano de 1733 que por não
cada uma
serem bombas próprias
das cerve-
do seu calibre se acham
jas (estilo,
inutilizadas no trem [quartel
aroma, sabor)
– arrecadação] do Ouro…”
que ajudam a
Os patacos que foram feitos
escolher.
em Monchique tinham
gravada a punção a letra “P”
que queria dizer Porto.
D.R.

Mas, fora da cidade, ninguém


os aceitava.

R. José Falcão, 82, Porto > T. 91 675 1359 > seg-qui 16h-24h, sex-sáb 16h-2h

114 VISÃO 8 FEVEREIRO 2018


COMPRA R

LUCÍLIA MONTEIRO
A Zoo in my Wall Porto
Arca de Noé
Das mãos de Márcia Barbosa saem animais para decorar a parede lá de casa, feitos em papel
maché e pintados com tinta acrílica
A designer Surgiu por acaso o coelho Nico, A constatação de que o seu trabalho poderia
gráfica gosta o primeiro animal feito por Márcia fazer parte de um negócio maior só surgiu, no
que se sinta Barbosa, há dois anos e meio, com a entanto, quando a Zoo in my Wall saltou frontei-
a textura e a intenção de “decorar uma parede ras. “Um turista americano passou na livraria e
irregularidade vazia” da sua livraria infantil Index, comprou os animais que havia para uma loja de
das suas peças. no Centro Comercial de Bombarda, decoração em Los Angeles”, conta Márcia.
“Nunca foi no Porto. No entanto, com o passar do tempo, A americana Harbinger, fundada pela designer de
minha intenção foram aparecendo outros, todos eles, com nome interiores Sally Bennett, passou assim a ser uma
fazer animais próprio: o leão Sebastião, o gato Félix, o tapir das suas clientes, tal como a loja inglesa Liberty, a
ultrarrealistas”,
Nestor, o lobo Óscar, a girafa Cecília, a raposa The Conran Shop, em Londres e em Paris, a The
diz
Franklin. O sapo Romeu foi o último a chegar, Store, em Londres e Berlim, ou a Galleria Mia,
que, tal como todos os outros bichos (a partir de em Roma. Por cá, e além da Index – onde o leão
€30) que fazem parte desta espécie de arca de Sebastião, o gato Félix, o sapo Romeu ou a girafa
Noé, é feito à mão com papel maché e pintado Cecília passaram a tomar conta da livraria e atelier
com tinta acrílica, ali mesmo, na Index. –, os animais d'A Zoo in My Wall estão à venda no
Um animal levou a outro, os pedidos foram Armazém 66 (Viana do Castelo), O Risco (Aveiro),
aumentando e Márcia Barbosa decidiu dar nome ao A Venda (Caldas da Rainha) e Kare (Lisboa).
projeto. A Zoo in my Wall é inspirado no livro Os Lo- Tal como no livro que a inspirou, também
bos nas Paredes, de Neil Gaiman, sobre uma menina Márcia imagina os seus animais “a morarem atrás
que se convence de que há lobos dentro das paredes das paredes da loja e a virem, de vez em quando, ter
da sua casa. A designer gráfica gosta que se sinta a com as pessoas”. E são clientes de todas as idades.
textura e a irregularidade das suas peças. “Nunca foi É que tanto se vendem para decorar a sala ou o es-
minha intenção fazer animais ultrarrealistas”, diz. critório, como o quarto das crianças. Florbela Alves


Index > Centro Comercial de Bombarda > R. Miguel Bombarda, 285, loja 2, Porto > T. 93 903 3344 > seg-sáb 12h-20h

8 FEVEREIRO 2018 VISÃO 115


VE R

Portas Abertas – Rising Stars Lisboa


O futuro da música passa por aqui Moon Duo Braga,
A Fundação Gulbenkian abre as portas ao público para dar Coimbra e Lisboa
a conhecer alguns dos mais talentosos jovens músicos europeus O duo americano
de rock psicadélico,
composto por Sanae
Yamada e Ripley
Johnson, regressa
a Portugal para uma
minidigressão de três
datas que servirá para
apresentar o quarto
álbum de originais,
Occult Architecture,
editado em 2017.


GNRation > Pç. Conde de
Agrolongo, 123, Braga

DANIEL DELANG
> T. 253 142 200 > 9 fev,
sex 22h > €7 > Salão
Brazil > Lg. do Poço, 3, 1º
Andar, Coimbra
> T. 239 837 078 > 10 fev,
sáb 22h > €10 > Musicbox
Já começa a ser uma tradição, a cada início do ano, a iniciativa > R. Nova do Carvalho, 24,
Lisboa > T. 21 347 3188
Em paralelo Portas Abertas de entrada gratuita, na qual, ao longo de um dia > 12 fev, seg 22h > €10
com os inteiro, o público é convidado a vivenciar uma atmosfera
concertos, a musical em ambiente festivo e informal. No programa destaca-
programação
dos Portas
-se uma vez mais o ciclo Rising Stars, uma ação desenvolvida
pela ECHO – European Concert Hall Organisation, rede
Samuel Úria Sintra
Abertas
inclui ainda
europeia, composta por algumas das mais prestigiadas salas de concertos,
da qual faz parte a Fundação Gulbenkian, que anualmente seleciona um
e Castelo Branco
a exibição do
conjunto de “jovens músicos de excecional talento” para receberem O “trovador das
documentário
Op.ção e
formação na gestão dos respetivos percursos artísticos e atuarem nos patilhas” continua a
conta com diversos palcos pertencentes a esta organização. Assim, ao longo de todo apresentar o disco
diversas o dia, o público pode assistir às atuações de seis jovens músicos, que neste Carga de Ombro (de
atividades domingo terão por sua conta o Grande Auditório da Gulbenkian. 2016) desta vez com
musicais para O primeiro a subir ao palco, logo pelas 11 horas, é o trompetista húngaro um concerto de cele-
toda a família, Tamás Pálfalvi, de 25 anos, que surgirá acompanhado do compatriota bração. Não só por re-
como o Eu Marcell Szabó ao piano para interpretar obras de autores tão diversos como gressar ao local (C.C.
Compositor Albinoni, Bartók, Debussy ou Gershwin. Às 13 horas, é a vez do violinista Olga Cadaval) onde se
ou o austríaco Emmanuel Tjeknavorian mostrar porque é, aos 22 anos, um dos estreou ao vivo, mas
conSertar mais premiados e aclamados músicos da sua geração, enquanto às 15 horas também por partilhar
o palco com dois
conCertando. a cantora holandesa Nora Fischer, neste caso na companhia de Mike
convidados: Camané e
Fentross no alaúde e de Daniël Kool ao piano, interpreta um alinhamento
Tiago Bettencourt. Em
que percorre vários séculos de música. As cordas estarão representadas Castelo Branco, vai
pelo quarteto francês Quatuor Van Kuijk, liderado pelo violinista francês apresentar-se a solo.
Nicolas Van Kuijk, de apenas 31 anos, com atuação marcada para as
17 horas, e pela violista sueca Ellen Nisbeth, que chega duas horas mais

tarde. O programa fica concluído, pelas 21h, com a atuação do percussio- Centro Cultural Olga
nista luxemburguês Christoph Sietzen, que aos 25 anos é considerado Cadaval > Pç. Dr.
um dos melhores executantes de marimba da atualidade. Miguel Judas Francisco Sá Carneiro,
9353B, Sintra > T. 21 910
7110 > 9 fev, sex 22h > €15
> Cine-Teatro Avenida
 > Av. Gen. Humberto
Fundação Calouste Gulbenkian > Av. de Berna, 45 A, Lisboa > T. 21 782 3000 > 11 fev, Delgado, Castelo Branco
dom 10h30 > livre > T. 272 349 560 > 10 fev,
sáb 21h30 > €10

116 VISÃO 8 FEVEREIRO 2018


Às Vezes o Amor Bob Marley 73rd BDay
Celebration Lisboa
Volta a Portugal No dia em que se cumprem os
73 anos sobre o nascimento
de Bob Marley, os ritmos
jamaicanos vão fazer balançar
O festival chega este ano a mais cidades, para celebrar o amor Lisboa neste concerto-
ao som de alguma da melhor música feita no País -tributo, em honra do rei
do reggae, que contará
com a participação de mais de
O conceito é simples e cantor lisboeta. Além da fadista,
20 artistas. Além dos cabeças
tem-se revelado um no sábado, 10, apresentam-se também de cartaz internacionais, como
sucesso, como se comprova Diogo Piçarra, em Lagoa, Luísa os jamaicanos The Twinkle
pela lotação esgotada de Sobral, em Vila do Conde, Mafalda Brothers ou os britânicos Zion
todos os concertos das três Veiga, em Beja e Os Azeitonas em Train, a ocasião ficará ainda
edições anteriores deste Viana do Castelo. Já na quarta, 14, dia marcada pela atuação de uma
Às Vezes o Amor, já conhecido como em que se comemora o São Valentim, espécie de seleção nacional
o Festival dos Namorados. Durante sobem ao palco a dupla Deixem o do reggae, composta por
dois dias, uma dúzia de artistas irá Pimba em Paz (composta por Manuela nomes como Janelo Costa,
passar por um igual número de Azevedo e Bruno Nogueira) em Freddy Locks ou Orlando
cidades, para celebrar o Dia de São Castelo Branco, os HMB, em Leiria, Santos, entre outros, que será
Valentim ao som de alguma da os Resistência, no Porto, Sara acompanhada em palco pelo
melhor música nacional. Às dez Tavares, em Faro e Tiago Bettencourt, coletivo Elephant Step na
cidades do ano passado (Aveiro, Beja, em Aveiro. Neste mesmo dia, mas em interpretação de alguns dos
Castelo Branco, Faro, Lagoa, Leiria, Lisboa, os Amor Electro regressam ao maiores clássicos
Lisboa, Porto, Viana do Castelo e Vila Campo Pequeno com um espetáculo de Bob Marley.
do Conde), juntam-se também este preparado especialmente para a
ano a regressada Évora e a estreante ocasião e que contará com a presença 
Estúdio Time Out > Mercado da
Setúbal, onde atuam, respetivamente, de convidados como Aurea, José Cid, Ribeira > Av. 24 de Julho, Lisboa
Raquel Tavares, a 10, e João Pedro Teresa Salgueiro ou Marco Rodrigues > T. 21 395 1274 > 9 fev, sex 22h30
Pais, a 14, com um concerto que − certamente, um dos momentos > €20
servirá também para celebrar os altos desta quarta edição do
20 anos de carreira do músico e festival. M.J.
Júlio Pereira Lisboa
Depois de Rui Veloso, no
mês passado, é agora a
vez de Júlio Pereira ser o
protagonista de mais um
espetáculo do Ciclo Cordas,
uma iniciativa do músico
cabo-verdiano Bau criada
com o objetivo de prestar
tributo aos instrumentos
de cordas – sejam eles
a guitarra portuguesa, o
cavaquinho, o violino, o alaúde
ou o berimbau. Nesta noite,
o músico português e exímio
tocador de instrumentos,
como o cavaquinho ou o
bandolim, vai partilhar o palco
com o também cabo-verdiano
Jon Luz, que já acompanhou
MARCOS BORGA

à viola nomes como António


Zambujo, Ana Moura, Roberta
Sá ou Sara Tavares.

 
Lagoa, Viana do Castelo, Évora, Beja > 10 fev, sáb 22h > Lisboa, Porto, Vila do Conde, Castelo Branco, B.Leza > Cais da Ribeira Nova,
Setúbal, Aveiro, Faro, Leiria > 14 fev, qua 22h > €12 a €35 Armazém B, Lisboa > T. 21 010
6837 > 8 fev, qui 22h30 > €10

8 FEVEREIRO 2018 VISÃO 117


VER

Encyclopédie de la Parole, Suite nº 3 Lisboa


O poder das palavras Eu Uso Termotebe
Obrigar-nos a um ato de reflexão e responsabilização é a proposta da terceira e o Meu Pai Também
suíte do coletivo de teatro Encyclopédie de la Parole que agora chega a Portugal
Lisboa
Seja qual for o modus operandi de promoção desta suíte, que se encontra no
para explorar a linguagem, o eco é YouTube, ouve-se uma voz, sem pruridos: Mais uma peça do
sempre o mesmo: as dores do “Amo o dinheiro, escolhi ser amante do ciclo Portugal em
mundo e o que fazemos dinheiro, decidi atrair dinheiro.” Vias de Extinção
(trabalho importan-
individualmente para as atenuar. Conjunto de documentos sonoros
tíssimo de descen-
Sem quaisquer juízos de valor, a reunidos pelo encenador Joris Lacoste e
tralização por parte
ideia é a da confrontação. Se na Suite nº 2, harmonizados pelo compositor Pierre- da direção de Tiago
apresentada em 2016 no Teatro Maria Matos, -Yves Macé, este capítulo da Encyclopédie Rodrigues no Nacio-
em Lisboa, o projeto francês Encyclopédie de la Parole está interessado em explorar nal D. Maria II).
de la Parole trabalhava o mote da a linguagem ordinária – tão ordinária e Com encenação de
comunicação oral do ponto de vista das entranhada no nosso quotidiano que nem Ricardo Correia, esta
palavras de ordem, agora, na Suite nº 3 (que nos apercebemos da agressão que por vezes peça parte de teste-
estreia nesta sexta-feira, 9, e fica até sábado, opera sobre nós. Aborda, no fundo, o perigo munhos recolhidos
10, no Teatro de São Luiz, Lisboa), explora-se da repetição ad nauseam e da indiferença junto de trabalhado-
a questão dos efeitos indesejados que as que isso pode provocar em cada indivíduo, res de zonas operá-
palavras podem ter sobre nós. Troquemos em cada cidadão. Uma espécie de abanão rias fabris em ruína
isto por miúdos. Na Suite nº 2, havia em que nos é dado, como se nos sacudissem em Portugal.
palco um quinteto de intérpretes a proferir, um pouco o pó.
em jeito de coro, palavras de ação como: A Suite nº 1, ABC foi apresentada no 
“Diretamente do Casino Resort Tahj Mahal festival Alkantara em 2014, com um coro Teatro Nacional D. Maria
II > Praça D. Pedro IV,
de Donald Trump em Atlantic City, New em palco de 11 intérpretes internacionais e Lisboa > T. 21 325 0800
Jersey, 'preparemo-nos para fazer outros 11 locais, em que podia ouvir- > 8-11 fev, qui-sáb 21h30,
barulhoooooo!'”. Agora, na Suite nº 3, há dois -se, por exemplo, um sermão dado por um dom 16h30 > €6 a €12
cantores e um pianista em palco. No excerto televangelista. Cláudia Marques Santos

Cabarética Lisboa
Um ciclo de home-
nagem ao teatro de
vaudeville pela Nova
Companhia, Cabaré-
tica está em cena no
Teatro do Bairro, em
Lisboa, e é composto
por três espetáculos:
a reposição de Kiki
(desta vez com Carla
Bolito), a estreia de
Bas Fond e a perfor-
mance de burlesco
Lady M, de Marlyn
Ortiz (que já dançou
em concertos de Ma-
FREDERIC IOVINO

donna, Britney Spears


ou Jennifer Lopez).


Teatro do Bairro > Rua
 Luz Soriano, 63, Lisboa
São Luiz Teatro Municipal > R. António Maria Cardoso, 38, Lisboa > T. 21 325 7640 > 9-10 fev, sex-sáb 21h > T. 21 347 3358 > até 25
> €5 a €10,50 fev, qua-dom 21h30
> €10 a €12,50

118 VISÃO 8 FEVEREIRO 2018


BRUNO SIMÃO

Libertação Coimbra
A última criação da Hotel Europa
reflete sobre a Guerra do Ultramar,
considerada pela companhia “o
episódio mais traumático da História
recente de Portugal”, seguindo o
ponto de vista da luta pela liberdade
em Angola, Guiné e Moçambique e
o consequente impacto na ditadura.
Além das pesquisas sobre os conflitos
e do recurso a entrevistas a antigos
combatentes, o espetáculo de teatro
documental socorre-se dos discursos
políticos de protagonistas de ambos
os lados das trincheiras, como António
Oliveira Salazar, Amílcar Cabral, Jonas
Savimbi e Samora Machel. Este é o
terceiro capítulo (após Portugal não
é um País Pequeno e Passa-Porte) do
ciclo que a Hotel Europa, formado pelo
duo André Amálio (Portugal) e Tereza
Havlíčková (República Checa), dedicou
ao fim do colonialismo português,
tentando rebater narrativas formatadas
e ideias feitas. Em palco, a perspetiva
autobiográfica de André Amálio junta-
-se à da atriz moçambicana Lucília
Raimundo e à do dj angolano Nelson
Makossa. J.L.


Teatro Académico Gil Vicente
> Pç. da República, Coimbra > T. 239 855 636
> 8 fev, qui 21h30 > €7
VER

Álvaro Lapa: No Tempo Todo Porto


Lançador de enigmas
A retrospetiva mais abrangente dedicada ao artista, filosófico e radical, que fez
As Flores
o seu próprio caminho – distante de movimentos, modas, correntes e capelinhas do Imperador Lisboa
Serão cerca de 300 as obras patentes nesta grande retrospetiva dedicada a Álvaro Matéria de sonho
Lapa (1939-2006), artista prolífico e enigmático, galardoado com o Grande para fiéis jardineiros,
Prémio EDP 2004. Comissariada por Miguel von Hafe Pérez, esta exposição esta exposição revisita
os fascínios botânicos.
– histórica – integra pintura, desenhos e objetos compreendidos entre 1963
Partindo dos motivos
e 2005, revelando trabalhos nunca antes apresentados publicamente. Aliás,
florais de dois tapetes,
recupera a produção anterior a 1968 que, refere o comissário, o artista omitiu datados do século
deliberadamente nas anteriores retrospetivas dedicadas à sua obra em 1994 (Museu XVII, na Índia Mogol,
Calouste Gulbenkian) e em 2006 (Pavilhão Branco e Pavilhão Preto), por achar que que integram o acervo
“só a partir desse período teria encontrado a sua voz própria”. Ou seja, Álvaro Lapa: do Museu Gulbenkian
No Tempo Todo é a “primeira exposição de caráter retrospetivo que não se concretizou constituído por 85
sob a específica e idiossincrática tutela do próprio autor”. Von Hafe Pérez defende: “Numa exemplares tecidos
perspetiva histórica e estética percebe-se, no entanto, que muitos dos seus trabalhos na Pérsia, Índia ou
anteriores a essa data – e que agora se apresentam com plena consciência do risco Cáucaso,
curatorial subjacente – remetem para aspetos absolutamente vitais da sua produção a mostra comissariada
ulterior, como sejam a presença da mesa enquanto leitmotiv estrutural e o efeito libertador por Clara Serra e
do informalismo inicial relativamente a códigos de representação convencionais.” Teresa Nobre de
Convencional é um termo distante da prática do artista que infundiu a obra com a sua Carvalho evoca outra
formação filosófica, referências aos autores de eleição (Milarepa, Kafka, Freud, Lowry, espécie de Primavera
Mallarmé...), as amizades (com Palolo, Joaquim Bravo, António Areal, João Cutileiro, Ângelo Árabe: reúne obras
de Sousa...), a predileção pelos materiais pobres (plátex, papéis vários) e uma resoluta liberdade de arte, desenhos e
que o desarruma nas prateleiras da História da Arte. A olho nu, o observador encontra enigmas, objetos, que recordam
linhas sombreadas, frases inscritas nas pinturas, cadernos-pintura, colagens, assemblages. descobertas e
Retratos e paisagens dominam, define o curador. E conclui: “A pintura de Álvaro Lapa é a influências mútuas
expressão de um oximoro viabilizado: a imagem dita e a palavra vista.” Sílvia Souto Cunha entre Oriente
e Ocidente, no
que respeita ao
conhecimento
naturalista botânico.
Flores exóticas e
luxuriantes, como as
acácias do Egito, as
iúcas, aloés ou tulipas,
inspiraram revoluções
decorativas,
originaram jardins
privados, obcecaram
eruditos, resultaram
em belíssimos
livros de ilustração
botânica. Uma história
que, em tempos
ecologicamente
conscientes, ganha
outras leituras.
S.S.C.


Museu Calouste
D.R.

Gulbenkian – Coleção
do Fundador > Av. de
 Berna, 45A, Lisboa
Museu de Arte Contemporânea de Serralves > Rua D. João de Castro, 210, Porto > T. 22 615 6500 > 9 fev-13 mai, > T. 21 782 3000
seg-sex 10h-19h, sáb-dom 10h-20h > €10 > 9 fev-21 mai, qua-
-seg 10h-17h30 > €3

120 VISÃO 8 FEVEREIRO 2018


Amor Amor Beuys
Feito em grande parte

Efémero, eterno
através de um precioso
espólio de imagens de
arquivo até aqui inéditas,
este documentário dá-nos
a conhecer uma das mais
Um filme que é uma história de paixões e uma deambulação sobre o amor influentes e controversas
no regresso de Jorge Cramez, dez anos depois de “Capacete Dourado” figuras da arte alemã do
século XX. Joseph Beuys
foi um vanguardista que
explorou formas alternativas
de expressão artística, como
a instalação, o vídeo e a
performance, em busca
de um sentido mais profundo
e global da arte. É um
daqueles casos em que
a arte se confunde com a
vida, pois havia uma certa
atitude performativa em
todo o seu quotidiano e
até mesmo na silhueta
iconográfica que o tornou
uma figura mítica. Tudo isso
é bem expresso no filme,
em que se confundem os
dois campos (do homem e
do artista), prevalecendo um
D.R.

constante questionamento
A infância e a adolescência Pierre Corneille (La Place Royale), sobre a definição da própria
“arte”. Beuys, de resto,
têm sido temas recorrentes dramaturgo francês do século
assume-se, ele próprio,
dos filmes de Jorge Cramez. XVII, e coloca em confronto duas
um provocador, como se a
Em Amor Amor, o regresso posturas antagónicas sobre o amor: reação positiva ou negativa
às longas-metragens dez o amor eterno e o amor vadio. E é a ao seu trabalho/atitude
anos depois de Capacete atitude ou definição das personagens completasse verdadeira-
Dourado, avança um pouco na idade perante o amor que dita a ação e mente a obra. Tal como
das personagens, mas o espírito suas consequências – o que se revela o trabalho de Beuys,
mantém-se semelhante. Em muitos de forma clara e inequívoca logo no o documentário é
pontos, é uma espécie de aventura diálogo inicial, entre Marta e Lígia. estruturado de forma
de liceu protagonizada por homens Esteticamente Cramez é cuidado, relativamente desorganizada
e mulheres adultos, imberbes e sem mas não esconde a sede de aproveitar e livre, cheio de imagens
grandes responsabilidades, que passam ao máximo a beleza da cidade de Lisboa fascinantes que apelam
o tempo entre conversas de café, como cenário (abusando de lugares ao gosto por uma arte
bebedeiras e dissertações sobre o amor. comuns, como os miradouros). Serve-se interventiva e fazendo do
Em geral, fica a sensação de que as também de alguns expedientes de forma próprio filme um objeto
personagens de Amor Amor preferem bem-sucedida, como o uso exógeno de artístico. M.H.
falar sobre o quanto estão apaixonadas música clássica sobre a pista de dança,
do que realmente se apaixonarem. oferecendo-nos uma leitura mais 
Passa a ideia de que há um problema emocional daqueles momentos. De Andres Veiel, documentário
> 107 minutos
de casting: a história encaixaria mais O melhor que o filme tem são
naturalmente em atores e personagens as atrizes (os atores são medianos).
mais novos. Ana Moreira e Margarida Vila-Nova
O filme parte de um argumento com interpretações deslumbrantes
muito antigo. Talvez por aí também sustentam o filme e ganham cada cena,
se possa explicar essa perceção de concedendo-lhe emoção e naturalidade
deslocamento etário. Inspira-se em na justa medida. Manuel Halpern


De Jorge Cramez, com Ana Moreira, Jaime Freitas, Margarida Vila-Nova, Nuno Casanovas, Guilherme
Moura > 107 minutos

8 FEVEREIRO 2018 VISÃO 121


LIVROS E DISCOS

Irmão de Gelo Alicia Kopf


Expedição-limite
Começou por ser uma exposição de desenhos, este livro híbrido
atravessa as tradicionais fronteiras entre imagem e palavra

Um Quarto em Atenas
Tatiana Faia
Uma nova voz
confirmada numa
coleção que tem
minerado poetas-
-pepitas como a de
Tatiana Faia (1986),
residente em Oxford,
cenário propício
às referências
clássicas que a
autora manuseia
com a displicência
da familiaridade
D.R.

na sua condição de
Todas as expedições arriscadas têm guias. Para entrar neste estrangeirada. Pedro
Mexia, coordenador
livro, lugar incerto que baralha as bússolas literárias, aposte-
da coleção, evoca
-se nas palavras de Enrique Vila-Matas, outro desbravador
Jorge de Sena e Ruy
de territórios ficcionais instáveis: “Neste assombroso Irmão Belo a propósito
de Gelo [Alicia] Kopf narra como nos expomos ao risco e à dos poemas de
solidão de uma expedição polar, quando tentamos abrir Um Quarto em
novos caminhos na escrita. Para Kopf, a arte contemporânea distingue- Atenas (Tinta da
-se pela necessidade de ampliação de fronteiras e limites, algo que não China, 156 págs.,
acontece, por exemplo, no limitado âmbito narrativo espanhol.” Artista €14,90), dizendo-os
Irmão de Gelo plástica e escritora (premiada em ambas as disciplinas), criou uma “quase narrativos
(Alfaguara, narrativa-processo, em que a própria caminha sobre uma película de ou quase cifrados,
224 págs., gelo fino − um estado de espírito confessado. O leitor, esse, atravessa intensos, irónicos,
€17,50) culmina uma paisagem de elementos díspares, distante de uma narrativa descontentes”.
o projeto convencional: Irmão de Gelo tem desenhos, notícias, entradas diarísti- Entre trânsitos e
multidisciplinar cas, imagens meteorológicas, fotografias, apontamentos científicos, afetos, há referências
de Alicia Kopf, frases desgarradas – e uma candura límpida. Como se não bastasse a Kafka e Chagall,
que incluiu uma a ventania formal, a autora navega entre o ensaio narrativo e o álbum Sophia e Fedra,
exposição feita autoficcionado – mas Kopf garante que esta não é uma obra autobio- gravatas e trabalho
com o material arqueológico...
gráfica. Há, aqui, um irmão autista, alguém encerrado num mundo
recolhido para “Entrando e saindo
subterrâneo, como nessa teoria de John Cleve Symmes, descrita nas
a sua tese de de livrarias de arte/
doutoramento
primeiras páginas: a de que a Terra tinha dois buracos nos extremos
que comunicavam entre si. “Se fosse possível chegar ao polo, ter-se-ia tenho-me julgado
transformada, civilizada”, escreve
aqui, numa ao alcance todo um universo interior”, lê-se. E as metáforas continuam:
em Alguns Poemas
narrativa sobre “Os exploradores polares do início do século XX eram místicos à
Portáteis − uma
as históricas procura do Santo Graal.” E ainda: “Como tornar visível o invisível é uma pátina civilizacional
explorações pergunta pouco frequente para um explorador e muito frequente para que desconstrói com
aos polos um artista.” A criação do objeto arte, a compreensão de um autista, mestria. S.S.C.
as primeiras expedições aos polos? Há em todas um mesmo gesto
cristalino – a conquista de algo fugidio. S.S.C.

122 VISÃO 8 FEVEREIRO 2018


D.R.
Always Ascending Franz Ferdinand
Renascimento
Depois de uma crise de crescimento, a banda
escocesa, agora com dois novos membros,
teve uma injeção de (boa) energia
Quando uma banda especializada na
nobre arte pop de fazer canções breves,
com a ambição de as tornar memoráveis
e poderosas, consegue criar uma
gramática própria, lança-se numa
provável história de triunfos e encerra-
-se, ao mesmo tempo, numa espécie de prisão.
Os dias super-rápidos que vivemos não lidam bem O nome
com a repetição, e uma banda pode passar de um do novo disco
ambiente de entusiasmo geral para a irrelevância se dos escoceses
cometer o pecado de, aparentemente, estar sempre Franz Ferdinand,
a fazer a mesma canção. Always
Estes rapazes de Glasgow conseguiram Ascending
rapidamente, desde 2003, definir o seu som, (“sempre
feito da voz carismática de Alex Kapranos e de a subir”), tem
uma pop dançável com uma linha rítmica muito um tom positivo
e otimista
bem marcada (uma espécie de punk dos Clash
que contagia
transformado em pop do século XXI). A fórmula
várias das suas
parecia estar a esgotar-se quando, em 2013, canções
lançaram Right Thoughts, Right Words, Right
Action, o quarto disco de estúdio. Seguiu-se uma
colaboração com os velhinhos Sparks (FFS, com
pormenores deliciosos mas sem agitar as águas).
Neste regresso, há sangue novo: sai o fundador
Nick McCarthy e entram, em guitarras e teclados,
Julian Corrie e Dino Bardot. E isso nota-se.
Always Ascending tem, afinal, o ingrediente
fundamental nestas coisas da pop: entusiasmo.
E, não, não é sempre a mesma cantiga. Slow Don't
Kill me Slow, a última faixa, por exemplo, mostra
bem que os Franz Ferdinand ainda procuram
novos caminhos, navegando aqui por águas que os
levam a aproximar-se de canções dos Smiths ou
dos Divine Comedy. Pedro Dias de Almeida
TV

Here and Now TVSéries


Filosofias e alucinações Missão: 100%
Os veteranos Tim Robbins e Holly Hunter brilham no novo drama Português RTP1
familiar de Alan Ball, o criador de “Sete Palmos de Terra” O novo programa
de António Raminhos
também podia
chamar-se “orgulho
nacional”. Em Missão:
100% Português,
o humorista foi
convidado a abrir
as portas de sua
casa e a viver,
durante seis meses,
só com produtos
portugueses.
A missão vai dividir-se
em 24 programas,
em que Raminhos só
compra alimentos e
produtos desenhados,
idealizados ou
fabricados em
Portugal. O humorista
D.R.

começa por esvaziar


a sua casa de
Here and Now não tem o toque de humor ou a comoção de chinesices, de móveis
Ambos os Parenthood e Irmãos e Irmãs, mas o facto de a história low cost do Norte da
protago- também andar à volta de uma família americana meio Europa e de roupa
nistas, Tim disfuncional traz certas lembranças. Só o elemento feita na Ásia. Tudo
Robbins e sobrenatural, bastante ténue, que não ofusca o argumento, será substituído por
Holly Hunter, desvia as atenções. Esta é a terceira série de Alan Ball, o produtos nacionais.
celebram homem de Beleza Americana, filme com o qual venceu o Oscar de Só o universo das
60 anos, em Melhor Argumento, e das séries de culto Sete Palmos de Terra (2001) e suas três filhas
2018. Cada
Sangue Fresco (2008), com inúmeros Globos de Ouro no palmarés. permaneceu
um tem, no
Em Here and Now, Alan Ball faz a sua reflexão sobre a família – uma, intocável, tendo-lhe
seu currículo,
americana progressiva e multirracial; outra, muçulmana contemporânea, apenas restado o
um Oscar –
tentando mostrar que tudo não passa de uma experiência. sofá comprado em
ele com Mys-
O casal Greg Bishop Boatwright (Tim Robbins) e Audrey Bayer (Holly Sintra. Irá percorrer
tic River, ela
Hunter) vive, aparentemente, dias de normalidade. E como estes atores Portugal, de norte
com O Piano,
representam bem a normalidade. Só o facto de terem quatro filhos, a sul, à procura
filmes que
todos já adultos, três dos quais adotados no Vietname, na Libéria e na dos vendedores
vale a pena
Colômbia, gera alguma diferença. Assim como os temas abordados: o e fabricantes que
(re)ver.
generation gap entre a mãe, terapeuta e supercontroladora, e a filha oferecem o melhor
produto e, pelo meio,
millennial com instinto natural para rejeitar a família; o consumo de
tentará convencer
marijuana por Ramon, o filho colombiano gay que começa a sofrer de
familiares e amigos
misteriosas alucinações e passa a consultar um psiquiatra muçulmano; a fazer o mesmo,
ou o estado depressivo do pai, professor de Filosofia que, há 30 anos, porque consumir
escreveu um best-seller, quando o mundo ainda não estava virado menos é mais
do avesso. Greg sente-se, por vezes, um adolescente, outras parece sustentável. “À minha
que o coração vai parar de bater. É um filósofo à procura de significados, casa, só lhe falta um
mas nem sempre os consegue encontrar. Como qualquer um de nós. bigode para ser 100%
Sónia Calheiros portuguesa”, brinca
o humorista. S.C.

Estreia mundial 11 fev, dom 2h, seg 22h45 
Estreia 10 fev, sáb 21h15

124 VISÃO 8 FEVEREIRO 2018


E S CA PA R

DIANA TINOCO
WC by The Beautique Hotels Lisboa
Dormir numa casa de banho?
No novo hotel de quatro estrelas, decorado pela designer Nini Andrade Silva, recria-se o universo
dos banhos de espuma, com banheiras na receção e azulejos nos quartos
Quando se lê WC, numa fachada, fica-se até à conceção, contou com a ajuda do gabinete de
O grupo The a imaginar se o significado destas duas arquitetura Nuno Leónidas.
Beautique letras, escritas em tamanho gigante, é “Queremos oferecer todas as comodidades
Hotels vai aquele que pensamos ser. No caso deste como se os nossos hóspedes estivessem realmente
abrir mais prédio no número 35 da Avenida a dormir numa enorme casa de banho, apostando
dois hotéis Almirante Reis, juntam-se outras em pormenores que fossem capazes de trazer essa
em Lisboa: palavras, deixando perceber que se trata de um mesma sensação, com espaços alusivos ao uni-
o Madalena hotel pertencente ao grupo The Beautique Hotels verso da água e aos banhos de espuma”, diz Karim
Beautique (proprietário também do Figueira Beautique Rajaballi, diretor do hotel quatro estrelas, aberto em
Hotel, na Rua
Hotels, na Praça da Figueira). outubro.
da Madalena,
Antes de se fazer qualquer julgamento, é com Os 41 quartos, de diferentes tamanhos e vistas,
com decora-
ção a remeter
curiosidade, e (algum) espírito critico, que entra- têm todos uma decoração sóbria e baseada na
para o univer- mos no WC para perceber que é lá dentro, afinal, mesma palete de cores, com os tons azul-água
so feminino, que tudo o que pensámos inicialmente se concre- e verde a predominar. É no último piso, que se
até final deste tiza. Logo à entrada, os hóspedes são brindados encontra o mais cobiçado de todos: o quarto 601
ano; e o Dos com uma banheira, frascos de perfumes e uma tem banheira ao fundo da cama e uma varanda
Reis Beau- rececionista que veste uma espécie de pijama e uma virada para esta Lisboa multicultural, com o Cas-
tique Hotel, touca. Um olhar mais atento descobre ainda, dentro telo de São Jorge a rematar a paisagem. No piso
também na de uma vitrina, rolos de papel higiénico e cotonetes, -0, mas com janelas para a avenida, fica O Banho,
Avenida Al- e, através de uma cortina transparente, espreita- o restaurante do hotel. Com uma ementa baseada
mirante Reis, -se uma secretária e um computador, para uso de no receituário português, com apontamentos de
em frente ao quem ali pernoitar. outras cozinhas do mundo, à prova estão bife da
WC, previsto A ideia de fazer a decoração de um hotel em vazia angus com migas de feijão frade (€18),
para 2020. torno de uma casa de banho, há muito que passava e cabrito, chalotas confitadas, castanhas e cogu-
pela cabeça da designer de interiores Nini Andrade melos salteados (€16), entre outras sugestões.
Silva. A madeirense acredita que se vê a qualidade Aos almoços, de segunda a sexta, aproveite-se
de um hotel por esta assoalhada, muitas vezes o menu completo por €11. De resto, sinta-se à
menosprezada. Para a ajudar neste projeto, que de- vontade, como se estivesse numa casa de banho
morou cerca de quatro anos, desde a sua aprovação em ponto grande. Sandra Pinto


Av. Almirante Reis, 34, Lisboa > T. 21 053 7001 > a partir €180 (quarto duplo, época baixa)

8 FEVEREIRO 2018 VISÃO 125


O gosto dos outros

Teresa Ricou Tenda de circo do Chapitô


Lisboa
“É a nossa casa de espetáculo, um
lugar mágico onde se cruzam as artes
Com uma vida inteira circenses, performativas, teatrais e
dedicada ao circo musicais, numa programação
como Teté, a mulher- rica, variada e inclusiva.” Este
mês, a Companhia do
-palhaço, a mentora
Terminal de Cruzeiros Lisboa do Chapitô, em Lisboa,
Chapitô apresenta
Hamlet e os
Teresa Ricou pede especial atenção
a esta obra junto ao rio Tejo, do
partilha os seus Zarco, “um grupo
de jovens músi-
arquiteto Carrilho da Graça, e com a lugares de eleição cos, altamente
qual tem vontade de trabalhar. “Com promissores,
o diretor Ricardo Ferreira e com os S U S A N A L O P E S FA U S T I N O que conta com o
artistas de circo do Chapitô, quem slopes@visao.pt regresso de Jorge Galvão
sabe não acontecerá uma surpresa.”

É no Castelo de São Jorge,


Sobre Escher
e a exposição em Lisboa, que este ano o Chapitô
celebra o Carnaval com um
retrospetiva no Museu de Arte
Popular, em Lisboa, diz Teresa espetáculo circense na rua,
Ricou: “É um fascínio! O estímulo a aproveitar o cenário do
das obras de arte gráficas monumento.
à criação artística circense.”

Espiral – Divulgação
de Alternativas Lisboa
É ao diretor da Espiral, Manuel
António, que Teresa Ricou agradece
existirem lugares como este, onde
destaca os sabores da cantina
e a biblioteca. “O corpo
e a mente em
constante
Café das Patrícias Sintra
stresse, Neste restaurante, perto das Azenhas
projetos do Mar, a fundadora do Chapitô
profundos de é sempre acolhida com uma boa
vida, precisam refeição “cheia de carinho e graça”.
de carinho e uma “É uma cozinha com alma, feita pela
boa comidinha”, diz. mão de mulheres”, elogia.

126 VISÃO 8 FEVEREIRO 2018


JOGOS

Palavras cruzadas O S T E R M O S - C H AV E D A AT U A L I D A D E

>> HORIZONTAIS >> 1. Quem quer um salmão transgénico? – a primeira maçã gene-
ticamente modificada, já disponível nos EUA, está a ser duramente atacada pelos am-
bientalistas, mas a maior revolução aconteceu quando um salmão chegou ao mercado
(…). // 2. Espaço de 12 meses. Elemento de formação de palavras que exprime a ideia de
povo, raça. Avenida (abrev.). // 3. Parte do templo destinada aos fiéis. Palavra havaiana
que designa lavas ásperas e escoriáceas. A pessoa ou coisa masculina de que se fala.
// 4. E assim por diante. Espécie de pato selvagem que tem o peito, as asas e o lombo
escuros. // 5. O m. q. belo. Ação de alimpar árvores, campos. // 6. Agente ou advogado
que legaliza propriedades territoriais com títulos falsos (Brasil). // 7. Assalto ao “(…)” –
investigação VISÃO: como a maçonaria, a família do presidente Emanuel Martins e os
políticos de Oeiras tomaram conta da Fundação, com suspeitas de má gestão e uso
de dinheiros públicos para fins pessoais. // 8. Qualquer abertura circular. Desmontar.
// 9. Pessoa que coleciona selos postais. // 10. Insignificância (fig.). Planta herbácea da
família das umbelíferas. A unidade. // 11. Esteva. Sermão ou prédica de pouco valor.
>> VERTICAIS >> 1. Os projetos de lei para que os médicos possam receitar (…) vão
ser discutidos em comissão parlamentar – a VISÃO falou com dois médicos – João Se-
medo, do BE e Isabel Galriça Neto do CDS, que nos dão as suas razões a favor e contra
a medida. Telecópia. // 2. Nome próprio feminino. Acrónimo de Imposto sobre o Valor
Acrescentado. // 3. Inexperiente. Sensação que se experimenta na proximidade de um
corpo quente. // 4. Extraterrestre (abrev.). Barrete dos gondoleiros venezianos.
// 5. Designa diferentes relações, como posse, matéria, lugar, proveniência (prep.). Va-
riedade de oliveira. // 6. Pedra (Bras.). Atilho. Aqui está. // 7. Antiga trombeta mourisca.
Serra ou monte. // 8. Contr. da prep. em com o art. def. o. Designativo da pedra constituí-
da por sulfato de alumínio e potássio hidratado. Mais mau. // 9. Falha de segurança no
WhattsApp permite (…) nas suas conversas – foi descoberta uma falha de segurança
que permite que alguém se infiltre nas suas conversas sem autorização e sem que o
utilizador perceba. // 10. Arbusto da família das cistáceas, vulgarmente chamado erva-
-das-sete-sangrias. Trato por tu. // 11. Camada pigmentária da íris. Muito oiro.

>> Q U I Z >> 1. B. // 2. A // 3. C // 4. C // 5. A // 6. B // 7. C // 8. B // 9. C // 10. B


SOLUÇÕES

// 4. Et, Gura. // 5. De, Carlota. // 6. Ita, Lio, Eis. // 7. Anafil, Alpe. // 8. No, Ume, Pior. // 9. Espiões, // 10. Alcar, Atuo. // 11. Úvea, Oirama.
8. Aro, Apear. // 9. Filatelista. // 10. Avo, Aipo, Um. // 11. Xara, Sermoa. >> VERTICAIS >>1. Canábis, Fax. // 2. Ana, IVA. // 3. Novel, Calor.
>> HORIZONTAIS >> 1. Canadiano. // 2. Ano, Etno, Av. // 3. Nave, Aa, Ele. // 4. Etc, Fusca. // 5. Bel, Alimpa. // 6. Grileiro. // 7. Século. //

Sudoku FÁC I L Quiz


POR PEDRO DIAS DE ALMEIDA

1. Onde nasceu o arquiteto 6. Onde decorre, até 10 de fevereiro,


Álvaro Siza Vieira? o UEFA Futsal Euro, campeonato
A. Vila do Conde europeu de futebol de salão?
B. Matosinhos A. Macedónia
C. Lousada B. Eslovénia
C. Sérvia
2. Como se chama o novo álbum
de The Legendary Tiger Man? 7. Quem reuniu textos dispersos
A. Misfit no livro Manobras de Guerrilha −
B. Misty Pugilistas, Pokémons & Génios?
C. Mister A. Mário Cláudio
B. José Luís Peixoto
3. Onde fica, desde 2009, C. Bruno Vieira do Amaral
o museu de arte contemporânea
Brandhorst? 8. A célebre Pasta Medicinal Couto
A. Berlim foi criada, em 1918, em que cidade?
B. Viena A. Braga
C. Munique B. Porto
C. Lisboa
4. Que marca venceu mais vezes
o histórico Rali de Monte Carlo? 9. A atriz Sandrine Bonnaire realizou
A. Renault um documentário (agora nas salas
B. Citroën portuguesas) sobre quem?
C. Lancia A. Janis Joplin
B. Joni Mitchell
5. Em que ano foi inaugurado C. Marianne Faithfull
o Jardim Zoológico de Lisboa
(no Parque de São Sebastião 10. Quem escreveu Sexus,
da Pedreira)? agora reeditado em português?
DÊ-NOS NOTÍCIAS > T.21 469 8101 > T. 22 043 7025 A. 1884 A. Jean Genet
> VISAOSE7E@VISAO.PT B. 1911 B. Henry Miller
C. 1928 C. Anaïs Nin

128 VISÃO 8 FEVEREIRO 2018


Proprietária/Editora: TRUST IN NEWS, UNIPESSOAL LDA.
Sede: Rua Rodrigo Reinel, 9, 1.º - Esq. 1400-319 Lisboa.
NIPC: 514674520.

NAMORAR COM CH CHUVA DE CORAÇÕES


Gerência da TRUST IN NEWS: Luís Delgado,
Filipe Passadouro e Cláudia Serra Campos.
Composição do Capital da Entidade Proprietária: 10.000,00 euros,
Principal acionista: Luís Delgado (100%)
Publisher: Mafalda Anjos
by CAROLINA HERRERA
NESTE DIA DOS
“Os momentos
que uma mulher NAMORADOS by SWATCH
gasta consigo
mesma e seus
pensamentos, Adeus aos flocos de
Diretora: Mafalda Anjos
Di­re­to­r-Executivo: Rui Ta­va­res Gue­des antes de sair para neve cintilantes
Subdiretora: Sara Belo Luís o mundo, captam em breve vão
Edi­to­res-Exe­cu­ti­vos: Catarina Guerreiro e Filipe Luís a intimidade chover corações!
Ga­bi­ne­te Edi­to­rial: Jo­sé Car­los de Vas­con­ce­los (Coor­de­na­dor)
que representa toda a idéia por trás de CH Privée”. Todo o romance
EXAME/Economia: Tiago Freire (diretor) necessário para um
Edi­to­res: Alexandra Correia (So­cie­da­de), Fi­li­pe Fia­lho (Mun­do), Inês Be­lo Carolina Herrera de Baez
arrebatador Dia dos
(VISÃO Se7e), João Car­los Men­des (Grafismo), Ma­nuel Bar­ros Mou­ra (vi­sao.pt)
e Pe­dro Dias de Al­mei­da (Cul­tu­ra) Namorados pode ser
Re­datores Prin­ci­pais e Gran­des Re­pór­te­res: Cláudia Lobo, José Plácido encontrado na
Júnior, Mi­guel Car­va­lho e Ro­sa Rue­la última criação da Swatch, o HEARTY LOVE.
Re­da­ção: Carmo Lico (online), Cesaltina Pinto, Cla­ra Car­do­so, Cla­ra Soa­res,
Clara Teixeira, Flor­be­la Al­ves (Coor­de­na­do­ra VI­SÃO Sete/Por­to), Joana Loureiro,
A PRENDA Este lançamento especial casa fantasia com
funcionalidade num relógio com um atraente
José Pedro Mozos, Luí­sa Oli­vei­ra, Luís Ri­bei­ro (Coor­de­na­do­r Sociedade), Margarida
Vaqueiro Lopes, Patrícia Fonseca, Paulo C. Santos, Paulo Zacarias Gomes, Rui Antunes,
IDEAL padrão geométrico cheio de corações.
San­dra Pin­to, Sa­ra Ro­dri­gues, Sara Santos (redes sociais), Sa­ra Sá, Síl­via Caneco, by MARCOLINO Esta edição limitada e numerada a nível mundial
Síl­via Sou­to Cu­nha, Só­nia Ca­lhei­ros, Su­sa­na Lo­pes Faustino, Su­sa­na Silva Oli­vei­ra, a 7.645 peças apresenta-se numa bela e
Te­re­sa Cam­pos (Coordenadora Radar) e Vânia Maia O TAG HEUR AQUARACER distinta embalagem especial. O relógio encontra-
Gra­fis­mo: Pau­lo Reis (Editor adjunto), Te­re­sa Sen­go (Coor­de­na­do­ra), é a prenda ideal para a sua se no interior de um caixa redonda e branca
Ana Ri­ta Ro­sa, Edgar Antunes, Hugo Filipe e Patrícia Pereira
In­fo­gra­fia: Álva­ro Ro­sen­do e Ma­nue­la To­mé
cara metade, pois é um relógio repleta de pequenos corações vermelhos, que
Fo­to­gra­fia: Fer­nan­do Ne­grei­ra (Coordenador), Diana Tinoco, para o homem contemporâneo que combina com a bracelete do HEARTY LOVE.
José Carlos Carvalho, Lucília Monteiro, Luís Barra e Marcos Borga tem um lifestyle dinâmico e que Seja qual for o tempo que o dia 14 de fevereiro
Co­pydesk: Rui Car­va­lho aprecia as melhores coisas da vida. nos traga, o HEARTY LOVE vai assegurar
Se­cre­ta­ria­do: Sofia Vicente (Di­reção), Te­re­sa Ro­dri­gues (Coor­de­na­do­ra), uma chuva de corações no dia mais romântico
Ana Pau­la Fi­guei­re­do e Luís Pin­to O LONGINES CONQUEST CHRONO alia a do ano. Com esta Edição Especial Dia dos
Co­lunistas: Adolfo Mesquita Nunes, An­tó­nio Lo­bo An­tu­nes, Capicua,
Ger­ma­no Sil­va, Isabel Moreira, João Semedo, José Eduardo Martins, Paul Krugman,
elegância à performance tornando-o Namorados, não vais tirar o teu Swatch do pulso!
Pe­dro Nor­ton, Ricardo Araújo Pereira, Rita Rato e Thomas Piketty a prenda ideal neste S. Valentim. #SwatchThis
Co­la­bo­ra­do­res Texto: Manuel Gonçalves da Silva, Manuel Halpern, Mi­guel Ju­das
Ilus­tra­ção: João Fazenda (Boca do Inferno), Susa Monteiro (António Lobo Antunes)
Centro de Documentação: Gesco
Redação, Administração e Serviços Comerciais: Rua Calvet de Magalhães,
nº 242, 2770-022 Paço de Arcos – Tel.: 214 698 000 Fax: 214 698 500
Delegação Norte: Rua Conselheiro Costa Braga nº 502 – 4450-102 MATOSINHOS
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Este dia de São Valentim não e cores da paixão. Do romântico
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BOCA DO INFERNO

Não há e-fome que


não dê em e-factura
POR RICARDO ARAÚJO PEREIRA

T
odos os anos prometo o mesmo: desta meses anteriores. É contabilidade e nostalgia. Um ál-
vez é que eu não vou deixar a validação de bum de recordações do consumo. Depois de um ano
facturas para o fim do prazo. Vou ser um a pedir facturas e a fornecer números de contribuin-
cidadão responsável e validar facturas dia te, dedico-me agora a verificar facturas e a reintro-
a dia. É rápido e fácil. Ou então semana a duzir números de contribuinte. É pena que o sistema
semana. Assim é que é. Tiro um bocadi- fique por aqui. Gostaria muito de manter o convívio
nho ao fim-de-semana e valido, não custa com estas facturas por mais algum tempo. Tenho
nada. Se calhar é melhor mês a mês. Sim, a certeza de que, com um pouco de imaginação, o
mês a mês é mais sensato. E depois chega Ministério das Finanças conseguiria encontrar uma
Fevereiro e tenho as facturas todas por va- maneira de, depois do pedido e da validação, obrigar
lidar. Sou, ao mesmo tempo, um daqueles políticos o cidadão a realizar mais duas ou três operações
aldrabões e o eleitorado traído. fiscais com estas mesmas facturas. Uma revisão da
Esta semana tenho estado a dar o meu passeio validação, por exemplo. Ou a verificação da revisão
anual pelos bens e serviços que adquiri nos doze da validação. Ou a comemoração das bodas de prata
da validação, efectuada 25 anos após o pedido da
factura.
Enquanto o processo de validação se mantém
como está, o contribuinte tem o gosto de se con-
frontar com facturas que foram inseridas e vali-
dadas, outras que foram inseridas mas estão por
validar, e outras ainda que nem foram inseridas nem
estão validadas. Ninguém sabe porque é que o siste-
ma deixa facturas por validar ou inserir, mas todas
estas três modalidades oferecem diferentes praze-
res. A simples verificação conforta, mas a validação
realiza-nos. E a reintrodução completa de facturas
requisitadas há meses exercita a memória. A que se
referem estes 12 euros e meio que paguei à “Manuel
Antunes, Lda” a 12 de Maio de 2017? Será uma des-
pesa de Habitação? Saúde? Ou Outros? Não faço a
mínima ideia. Por isso, em princípio, é Outros.
É impressionante o dinheiro que, anualmente, gasto
em Outros.

Tenho a certeza de que, com


um pouco de imaginação,
o Ministério das Finanças
conseguiria encontrar uma
maneira de, depois do pedido
ILUSTRAÇÃO: JOÃO FAZENDA

e da validação, obrigar o
cidadão a realizar mais duas
ou três operações fiscais com
estas mesmas facturas

130 VISÃO 8 FEVEREIRO 2018