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Língua Portuguesa

e Literatura
Professor

Caderno de Atividades
Pedagógicas de
Aprendizagem
Autorregulada - 03
9º ano | 3° Bimestre

Disciplina Curso Bimestre Ano


Língua Portuguesa Ensino Fundamental 3° 9º

Habilidades Associadas
1. Identificar o sentido especializado do termo “romance” diferenciando-o do uso comum
do termo
2. Relacionar características físicas e psicológicas dos personagens à sua composição como
um todo.

3. Utilizar pistas do texto para fazer antecipações e inferências a respeito do conteúdo.

4. Estabelecer as diferenças estruturais entre romance, conto e crônica.


Apresentação

A Secretaria de Estado de Educação elaborou o presente material com o intuito de estimular o


envolvimento do estudante com situações concretas e contextualizadas de pesquisa, aprendizagem
colaborativa e construções coletivas entre os próprios estudantes e respectivos tutores – docentes
preparados para incentivar o desenvolvimento da autonomia do alunado.
A proposta de desenvolver atividades pedagógicas de aprendizagem autorregulada é mais uma
estratégia pedagógica para se contribuir para a formação de cidadãos do século XXI, capazes de explorar
suas competências cognitivas e não cognitivas. Assim, estimula-se a busca do conhecimento de forma
autônoma, por meio dos diversos recursos bibliográficos e tecnológicos, de modo a encontrar soluções
para desafios da contemporaneidade, na vida pessoal e profissional.
Estas atividades pedagógicas autorreguladas propiciam aos alunos o desenvolvimento das
habilidades e competências nucleares previstas no currículo mínimo, por meio de atividades
roteirizadas. Nesse contexto, o tutor será visto enquanto um mediador, um auxiliar. A aprendizagem é
efetivada na medida em que cada aluno autorregula sua aprendizagem.
Destarte, as atividades pedagógicas pautadas no princípio da autorregulação objetivam,
também, equipar os alunos, ajudá-los a desenvolver o seu conjunto de ferramentas mentais, ajudando-o
a tomar consciência dos processos e procedimentos de aprendizagem que ele pode colocar em prática.
Ao desenvolver as suas capacidades de auto-observação e autoanálise, ele passa ater maior
domínio daquilo que faz. Desse modo, partindo do que o aluno já domina, será possível contribuir para
o desenvolvimento de suas potencialidades originais e, assim, dominar plenamente todas as
ferramentas da autorregulação.
Por meio desse processo de aprendizagem pautada no princípio da autorregulação, contribui-se
para o desenvolvimento de habilidades e competências fundamentais para o aprender-a-aprender, o
aprender-a-conhecer, o aprender-a-fazer, o aprender-a-conviver e o aprender-a-ser.
A elaboração destas atividades foi conduzida pela Diretoria de Articulação Curricular, da
Superintendência Pedagógica desta SEEDUC, em conjunto com uma equipe de professores da rede
estadual. Este documento encontra-se disponível em nosso site www.conexaoprofessor.rj.gov.br, a fim
de que os professores de nossa rede também possam utilizá-lo como contribuição e complementação às
suas aulas.
Estamos à disposição através do e-mail curriculominimo@educacao.rj.gov.br para quaisquer
esclarecimentos necessários e críticas construtivas que contribuam com a elaboração deste material.
Secretaria de Estado de Educação

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Caro tutor,
Neste caderno, você encontrará atividades diretamente relacionadas a algumas
habilidades e competências do 3° Bimestre do Currículo Mínimo de Língua Portuguesa
do 9º ano do Ensino Fundamental. Estas atividades correspondem aos estudos durante
o período de um mês.
A nossa proposta é que o aluno desenvolva estas Atividades de forma
autônoma, com o suporte pedagógico do professor aplicador, que mediará as trocas de
conhecimentos, reflexões, dúvidas e questionamentos que venham a surgir no percurso.
Neste Caderno de Atividades, os alunos irão estudar o romance “Vidas Secas”
para compreender melhor esse gênero literário de grande importância para sua
formação como cidadão. Na primeira aula, eles poderão aprender as diferentes
definições para o termo “romance”. Na segunda aula, o aluno vai aprender a
relacionar as características físicas e psicológicas dos personagens à sua composição
como um todo. Na aula 3, eles vão aprender a inferir o significado de palavras
desconhecidas no texto e, na aula 4, a utilizar as pistas do texto para fazer inferências
de sentido. Dedicaremos a aula 5 ao aprofundamento das diferenças entre romance,
conto e crônica. E, por fim, na aula 6, confrontaremos a estrutura do conto e da
crônica com a do romance.
Este documento apresenta 08 (oito) Aulas. As aulas serão compostas por uma
explicação base, para que você seja capaz de auxiliar o aluno a compreender as
principais ideias relacionadas às habilidades e competências do bimestre em questão, e
atividades respectivas. As Atividades são referentes a dois tempos de aulas. Para
reforçar a aprendizagem, propõe-se, ainda, uma pesquisa e uma avaliação sobre o
assunto.

Um abraço e bom trabalho!


Equipe de Elaboração

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Sumário

Introdução............................................................................................................. 03
Objetivos Gerais.................................................................................................... 05
Materiais de apoio pedagógico............................................................................. 05
Orientação didático-pedagógica........................................................................... 07
Aula 1: Você sabe o que é romance? .................................................................... 08
Aula 2: Como são descritos os personagens?........................................................ 14
Aula 3: Palavras desconhecidas no texto .............................................................. 17
Aula 4: Nas entrelinhas: descobrindo os sentidos ................................................ 23
Aula 5: Diferenças entre crônica, conto e romance ............................................. 26
Aula 6: Registrando as diferenças ........................................................................ 30
Avaliação ............................................................................................................... 35
Pesquisa ............................................................................................................... 40
Referências ........................................................................................................... 42

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Objetivos Gerais

No 9º ano do Ensino Fundamental, o foco recai sobre o estudo do gênero


romance. Considerando essa oportunidade, a opção foi pelo romance “Vidas Secas”,
umas das obras mais importantes da literatura brasileira e, ao mesmo tempo, um texto
relativamente de fácil apreensão, o que pode aproximar os adolescentes dos clássicos
nacionais e ainda desfazer o mito da inacessibilidade das narrativas mais célebres.
A abordagem deste caderno irá contemplar, em especial, as seguintes
habilidades “identificar o sentido especializado do termo ‘romance’ diferenciando-o do
uso comum do termo”, “relacionar características físicas e psicológicas dos
personagens à sua composição como um todo”, “utilizar pistas do texto para fazer
antecipações e inferências a respeito do conteúdo” e “estabelecer as diferenças
estruturais entre romance, conto e crônica”.

Materiais de Apoio Pedagógico

No portal eletrônico Conexão Professor, é possível encontrar alguns materiais


que podem auxiliá-los. Vamos listar estes materiais a seguir:

Aula Teleaulas Orientações Pedagógicas do


Reforço escolar
Referência Autonomia nº CM
http://www.conexaoprof
18 – EF essor.rj.gov.br/download
19 – EF s/cm/cm_74_9_9A_3.pdf
http://www.conexaoprofessor.r
20 – EF
Aula 1 j.gov.br/downloads/cm/cm_11_
http://www.conexaoprof
81 – EF 9_9A_3.pdf
82 – EF essor.rj.gov.br/download
83 – EF s/cm/cm_75_9_9A_3.pdf

http://www.conexaoprof
08 – EF
Aula 2 essor.rj.gov.br/download
18 – EF s/cm/cm_74_9_9A_3.pdf

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19 – EF
20 – EF http://www.conexaoprofessor.r http://www.conexaoprof
22 – EF j.gov.br/downloads/cm/cm_11_ essor.rj.gov.br/download
41 – EF 9_9A_3.pdf s/cm/cm_75_9_9A_3.pdf
44 – EF
45 – EF
http://www.conexaoprof
essor.rj.gov.br/download
11– EF s/cm/cm_74_9_9A_3.pdf
http://www.conexaoprofessor.r
15 – EF
Aula 3 j.gov.br/downloads/cm/cm_11_
http://www.conexaoprof
22 – EF 9_9A_3.pdf
32 – EF essor.rj.gov.br/download
s/cm/cm_75_9_9A_3.pdf

http://www.conexaoprof
essor.rj.gov.br/download
11– EF s/cm/cm_74_9_9A_3.pdf
http://www.conexaoprofessor.r
15 – EF
Aula 4 j.gov.br/downloads/cm/cm_11_
http://www.conexaoprof
22 – EF 9_9A_3.pdf
32 – EF essor.rj.gov.br/download
s/cm/cm_75_9_9A_3.pdf

18 – EF http://www.conexaoprof
19 – EF essor.rj.gov.br/download
s/cm/cm_74_9_9A_3.pdf
20 – EF http://www.conexaoprofessor.r
Aula 5 44 – EF j.gov.br/downloads/cm/cm_11_
http://www.conexaoprof
64 – EF 9_9A_3.pdf
essor.rj.gov.br/download
65 – EF s/cm/cm_75_9_9A_3.pdf
84 – EF
18 – EF http://www.conexaoprof
19 – EF essor.rj.gov.br/download
s/cm/cm_74_9_9A_3.pdf
20 – EF http://www.conexaoprofessor.r
Aula 6 44 – EF j.gov.br/downloads/cm/cm_11_
http://www.conexaoprof
64 – EF 9_9A_3.pdf
essor.rj.gov.br/download
65 – EF s/cm/cm_75_9_9A_3.pdf
84 – EF

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Orientação Didático-Pedagógica

Para que os alunos realizem as Atividades referentes a cada dia de aula,


sugerimos os seguintes procedimentos para cada uma das atividades propostas no
Caderno do Aluno:
1° - Explique aos alunos que o material foi elaborado que o aluno possa compreendê-lo
sem o auxílio de um professor.
2° - Leia para a turma a Carta aos Alunos, contida na página 3.
3° - Reproduza as atividades para que os alunos possam realizá-las de forma individual
ou em dupla.
4° - Se houver possibilidade de exibir vídeos ou páginas eletrônicas sugeridas na seção
Materiais de Apoio Pedagógico, faça-o.
5° - Peça que os alunos leiam o material e tentem compreender os conceitos
abordados no texto base.
6° - Após a leitura do material, os alunos devem resolver as questões propostas nas
ATIVIDADES.
7° - As respostas apresentadas pelos alunos devem ser comentadas e debatidas com
toda a turma. O gabarito pode ser exposto em algum quadro ou mural da sala para
que os alunos possam verificar se acertaram as questões propostas na Atividade.
Todas as atividades devem seguir esses passos para sua implementação.

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Aula 1: Você sabe o que é romance?

Nesta aula, vamos relembrar rapidamente os gêneros narrativos que focamos


no caderno anterior.
Você se lembra que estudamos os gêneros crônica e conto? Pois bem! Neste
caderno, vamos estudar um gênero que mantém uma relação muito estreita com a
crônica e o conto, pois apresenta algumas características em comum com esses
gêneros. Estamos falando do gênero “romance”.
Comecemos pensando o que nos remete a palavra “romance”. Certamente
você deve ter associado romance a relacionamento amoroso, namoro, enfim, algum
tipo de relação a dois que envolve o sentimento amor. Na verdade, esse é um dos
possíveis significados para a palavra romance, mas não é o único.
Veja, a seguir, os possíveis significados para o termo romance:

Romance
1. Narração histórica em versos simples.
2. Língua ou conjunto de línguas derivadas do latim.
3. Narração em prosa, de aventuras imaginárias, ou reproduzidas da realidade,
combinadas de modo a interessarem o leitor.
4. Fantasia.
5. Novela, conto.
6. Relacionamento amoroso.
Disponível em http://www.priberam.pt/dlpo/Default.aspx?pal=romance Acesso em 17 set. 2013.

Repare que há pelo menos seis definições possíveis para a palavra romance.
Portanto, neste caderno, quando falarmos de romance, estaremos nos referindo ao
gênero narrativo, literário, que pode vir ou não imerso em uma trama de amor. Você
já ouviu falar ou mesmo já leu algum romance policial, ou de aventura, ou de ficção
científica? Portanto, romance e amor não estão necessariamente ligados. Aqui, neste
caderno, consideraremos a definição 3 de romance descrita anteriormente: uma

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estrutura textual que apresenta um enredo (história), contado por um narrador,
vivenciado por personagens, dentro de um limite de tempo e espaço. Não são
exatamente esses mesmos elementos que podem aparecer também na crônica e no
conto? Sim, mas o romance se diferencia da crônica e do conto pelo fato de o romance
apresentar várias ações secundárias, que se desenrolam simultaneamente à ação
principal, enquanto que a crônica e o conto apresentam, via de regra, apenas uma
ação principal. Além disso, as personagens dos romances costumam apresentar uma
profundidade psicológica maior do que as personagens de um conto, por exemplo.
Também o tempo e o espaço apresentam organizações diferentes, não se limitando
apenas aos seus aspectos linear (5 minutos, um mês, três anos, um século) e físico, (a
casa, a rua, a fazenda, a feira), respectivamente.
Dessa forma, para estudarmos o gênero romance, retomaremos alguns
conceitos que já foram abordados no caderno anterior, porém, agora, com mais
profundidade. Vamos começar nossos estudos?

Atividade Comentada 1

A seguir, transcrevemos um fragmento do primeiro capítulo de um conhecido


romance da literatura brasileira, intitulado Vidas Secas, de Graciliano Ramos. A obra
retrata a dura saga de uma família de retirantes sertanejos que migram fugindo da
seca, da fome e da pobreza do sertão em busca de melhores condições de vida e
sobrevivência. Neste capítulo, temos a descrição da terra árida e do sofrimento da
família. Após a leitura, responda às questões propostas.

MUDANÇA
Na planície avermelhada os juazeiros alargavam duas manchas verdes. Os
infelizes tinham caminhado o dia inteiro, estavam cansados e famintos.
Ordinariamente andavam pouco, mas como haviam repousado bastante na areia do
rio seco, a viagem progredira bem três léguas. Fazia horas que procuravam uma

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sombra. A folhagem dos juazeiros apareceu longe, através dos galhos pelados da
catinga rala.
Arrastaram-se para lá, devagar, Sinhá Vitória com o filho mais novo escanchado
no quarto e o baú de folha na cabeça, Fabiano sombrio, cambaio, o aió a tiracolo, a
cuia pendurada numa correia presa ao cinturão, a espingarda de pederneira no ombro.
O menino mais velho e a cachorra Baleia iam atrás.
Os juazeiros aproximaram-se, recuaram, sumiram-se. O menino mais velho pôs-
se a chorar, sentou-se no chão.
- Anda, condenado do diabo, gritou-lhe o pai.
Não obtendo resultado, fustigou-o com a bainha da faca de ponta. Mas o
pequeno esperneou acuado, depois sossegou, deitou-se, fechou os olhos. Fabiano
ainda lhe deu algumas pancadas e esperou que ele se levantasse. Como isto não
acontecesse, espiou os quatro cantos, zangado, praguejando baixo.
A catinga estendia-se, de um vermelho indeciso salpicado de manchas brancas
que eram ossadas. O voo negro dos urubus fazia círculos altos em redor de bichos
moribundos.
- Anda, excomungado.
O pirralho não se mexeu, e Fabiano desejou matá-lo. Tinha o coração grosso,
queria responsabilizar alguém pela sua desgraça. A seca aparecia-lhe como um fato
necessário - e a obstinação da criança irritava-o. Certamente esse obstáculo miúdo não
era culpado, mas dificultava a marcha, e o vaqueiro precisava chegar, não sabia onde.
Tinham deixado os caminhos, cheios de espinho e seixos, fazia horas que
pisavam a margem do rio, a lama seca e rachada que escaldava os pés.
Pelo espírito atribulado do sertanejo passou a ideia de abandonar o filho
naquele descampado. Pensou nos urubus, nas ossadas, coçou a barba ruiva e suja,
irresoluto, examinou os arredores. Sinhá Vitória estirou o beiço indicando vagamente
uma direção e afirmou com alguns sons guturais que estavam perto. Fabiano meteu a
faca na bainha, guardou-a no cinturão, acocorou-se, pegou no pulso do menino, que se
encolhia, os joelhos encostados no estômago, frio como um defunto. Aí a cólera
desapareceu e Fabiano teve pena. Impossível abandonar o anjinho aos bichos do
mato. Entregou a espingarda a Sinhá Vitória, pôs o filho no cangote, levantou-se,
agarrou os bracinhos que lhe caíam sobre o peito, moles, finos como cambitos. Sinhá

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Vitória aprovou esse arranjo, lançou de novo a interjeição gutural, designou os
juazeiros invisíveis.
E a viagem prosseguiu, mais lenta, mais arrastada, num silêncio grande.
Ainda na véspera eram seis viventes, contando com o papagaio. Coitado,
morrera na areia do rio, onde haviam descansado, à beira de uma poça: a fome
apertara demais os retirantes e por ali não existia sinal de comida. Baleia jantara os
pés, a cabeça, os ossos do amigo, e não guardava lembrança disto.
Num cotovelo do caminho avistou um canto de cerca, encheu-o a esperança de
achar comida, sentiu desejo de cantar. A voz saiu-lhe rouca, medonha. Calou-se para
não estragar força.
Deixaram a margem do rio, acompanharam a cerca, subiram uma ladeira,
chegaram aos juazeiros. Fazia tempo que não viam sombra. Sinhá Vitória acomodou os
filhos, que arriaram como trouxas, cobriu-os com molambos. O menino mais velho,
passada a vertigem que o derrubara, encolhido sobre folhas secas, a cabeça encostada
a uma raiz, adormecia, acordava. E quando abria os olhos, distinguia vagamente um
monte próximo, algumas pedras, um carro de bois. A cachorra Baleia foi enroscar-se
junto dele.
Estavam no pátio de uma fazenda sem vida. O curral deserto, o chiqueiro das
cabras arruinado e também deserto, a casa do vaqueiro fechada, tudo anunciava
abandono. Certamente o gado se finara e os moradores tinham fugido.
Iam-se amodorrando e foram despertados por Baleia, que trazia nos dentes um
preá. Levantaram-se todos gritando. O menino mais velho esfregou as pálpebras,
afastando pedaços de sonho. Sinhá Vitória beijava o focinho de Baleia, e como o
focinho estava ensanguentado, lambia o sangue e tirava proveito do beijo.
A fazenda renasceria e ele, Fabiano, seria o vaqueiro, para bem dizer seria dono
daquele mundo.
Os troços minguados ajuntavam-se no chão: a espingarda de pederneira, o aió,
a cuia de água e o baú de folha pintada. A fogueira estalava. O preá chiava em cima
das brasas.
Uma ressurreição. As cores da saúde voltariam à cara triste de Sinhá Vitória. Os
meninos se espojariam na terra fofa do chiqueiro das cabras. Chocalhos tilintariam
pelos arredores. A catinga ficaria verde.

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Baleia agitava o rabo, olhando as brasas. E como não podia ocupar-se daquelas
coisas, esperava com paciência a hora de mastigar os ossos. Depois iria dormir.
Disponível em http://www.diciomario.com.br/vidas_secas_101.html Acesso em 15 set. 2013.

Disponível em http://alimenteocerebro.com/a-aridez-e-a-frieza-de-vidas-secas/ Acesso em 15 set. 2013.

1) Que personagens aparecem no capítulo “Mudança”?


Resposta comentada: Fabiano, Sinhá Vitória, cachorra Baleia, o menino mais velho e
o menino mais novo, o papagaio.

2) Em que espaço os personagens vivenciam os fatos narrados?


Resposta comentada: Na caatinga ou sertão.

3) Em relação do foco narrativo, o narrador conta a história em 1ª ou 3ª pessoa?


Justifique sua resposta com um fragmento do texto.
Resposta comentada: 3ª pessoa, pois o narrador não é um dos personagens da
história. Alguns fragmentos possíveis:
“O menino mais velho pôs-se a chorar, sentou-se no chão.”
“Tinham deixado os caminhos, cheios de espinho e seixos, fazia horas que pisavam a
margem do rio, a lama seca e rachada que escaldava os pés.”
“A fazenda renasceria e ele, Fabiano, seria o vaqueiro, para bem dizer seria dono
daquele mundo.”

4) Nos romances, é muito comum o enredo não ser linear, ou seja, não obedecer a
uma ordem temporal fixa, cronológica, em que um fato se sucede ao outro. No

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capítulo “Mudanças”, o narrador faz um recuo no tempo e volta a acontecimentos
anteriores aos fatos que está narrando. Transcreva do texto uma passagem que
exemplifica um retrocesso do narrador, ou seja, um fato que aconteceu em um
momento anterior ao momento em que está narrando as ações para o leitor.
Resposta comentada:
“Ainda na véspera eram seis viventes, contando com o papagaio. Coitado, morrera
na areia do rio, onde haviam descansado, à beira de uma poça: a fome apertara
demais os retirantes e por ali não existia sinal de comida. Baleia jantara os pés, a
cabeça, os ossos do amigo, e não guardava lembrança disto.”

5) No trecho “O pirralho não se mexeu. Fabiano desejou matá-lo.” Por que esse desejo
do vaqueiro não se concretizou? Explique.
Resposta comentada: Porque Fabiano sabia que o filho não era culpado pela sua
desgraça, pela seca.

6) Considerando a estrutura da narrativa, dividida em apresentação ou exposição,


complicação, clímax e desfecho, responda: a que parte do romance Vidas Secas
pertence o capítulo “Mudança”? Justifique.
Resposta comentada: Trata-se da apresentação, uma vez que as circunstâncias da
trama estão sendo apresentadas nesse capítulo e, por isso, ele é o primeiro. O
narrador apresenta os personagens, o tempo, o espaço, faz a descrição desses
elementos e introduz as primeiras ações vividas pelas personagens.

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Aula 2: Como são descritos os personagens?

Nesta aula, vamos aprender a identificar e relacionar as características físicas e


psicológicas das personagens à sua composição como um todo.
Ao lermos uma história, quase sempre o narrador tem a preocupação de
descrever os personagens para que o leitor possa fazer uma idéia de como eles são,
tanto nos seus aspectos físico quanto psicológico.
As características físicas geralmente estão associadas aos sentidos que o corpo é
capaz de perceber (tato, paladar, audição, olfato e visão). Por exemplo, se uma pessoa
é alta/baixa, magra/gorda, tem olhos azuis, verdes ou castanhos, se tem cabelos
curtos/longos, lisos/cacheados, se é branca, negra ou morena, se possui dentes
alinhados, tortos, brancos, amarelados ou se é banguela, forte/fraco, doente/
saudável... Enfim, as características físicas das personagens são descritas por meio de
adjetivos, que constituem uma classe de palavra cujo objetivo principal é caracterizar
os seres. Assim, pela utilização dos adjetivos no texto, o narrador é capaz de expor os
traços exteriores do ser, como os traços faciais, as partes do corpo, o jeito de falar, de
andar e de se vestir.
Por outro lado, as características psicológicas são aquelas que dizem respeito aos
aspectos emocionais, mentais e comportamentais do ser, tais como comportamento,
defeitos, virtudes, personalidade, caráter, preferências. Portanto, dizer que uma
pessoa é simpática/antipática, mentirosa, misteriosa, traiçoeira, falsa/confiável,
determinada, pessimista/otimista, segura/insegura, triste/alegre, destemida/covarde,
inteligente/estúpida são características psicológicas que os personagens podem
apresentar numa narrativa.
Por fim, cabe lembrar que nem sempre as características psicológicas das
personagens aparecem de modo explícito no texto, assim como as características
físicas. Muitas das características psicológicas podem ser percebidas por meio de
inferências (deduções), a partir da análise das ações, falas e comportamentos das
personagens.

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Atividade Comentada 2

1) Observe com bastante atenção as imagens a seguir. A partir delas, preencha o


quadro com as características físicas de cada personagem do romance “Vidas Secas”.

Resposta comentada:
Caro tutor, nesta atividade, o aluno deve guiar-se pelas imagens das personagens
para fazer a descrição física delas. É apenas uma forma de os alunos compreenderem
como podem ser identificadas as características físicas. Entretanto, as características
físicas apontadas nessa atividade podem não corresponder às características
descritas pelo narrador na obra.

Personagens Características físicas


Fabiano
Moreno, estatura mediana,
magro, possui barba, rugas no
rosto, usa roupas simples e
surradas, camisa branca,
chapéu de couro, carrega um
facão nas mãos.

http://www.festlatinosp.com.br/2013/filme_vidas_secas.php
Sinhá Vitória Morena, cabelos pretos e
lisos, lábios carnudos, usa um
véu branco sobre a cabeça.

http://www.exopto.com/
Menino mais velho Moreno, magro, cabelos
castanhos, usa pouca roupa,
pés descalços.

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http://www.palmeiraespirita.com.br/files/vidas_secas.htm
Baleia Cachorra malhada de branco e
amarelo, pelos curtos, magra.

http://expirados.com.br/loja/products/Vidas-Secas-%252d-
1963.html

2) Agora, propomos que você aponte uma característica psicológica de cada


personagem que aparece no capítulo “Mudança” da aula anterior. Após, transcreva
uma ação vivenciada por cada uma das personagens e que se relacione com a
característica que você indicou.
Resposta comentada:
Personagem Característica psicológica Fragmento do texto
“- Anda, condenado do diabo, gritou-
Fabiano Rude, grosseiro. lhe o pai.”
“Não obtendo resultado, fustigou-o
com a bainha da faca de ponta.”
“O pirralho não se mexeu, e Fabiano
desejou matá-lo.”
“Sinha Vitória acomodou os filhos,
Sinhá Vitória Protetora que arriaram como trouxas, cobriu-os
com molambos.”
“Mas o pequeno esperneou acuado,
Menino mais Medo, temor depois sossegou, deitou-se, fechou os
velho olhos.”
“Iam-se amodorrando e foram
Baleia Solidária despertados por Baleia, que trazia nos
dentes um preá.”

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Aula 3: Palavras desconhecidas no texto

Nesta aula, vamos estudar a importância de inferir, ou seja, deduzir, concluir,


identificar o sentido com que uma palavra desconhecida está sendo usada num texto.
Esta habilidade de leitura – inferir o significado de palavras desconhecidas no
texto – é de extrema importância para uma leitura eficiente, uma vez que, em muitos
momentos, você precisará ler um texto e compreendê-lo sem, contudo, dispor de um
dicionário ou internet para pesquisar o significado de possíveis termos desconhecidos.
Vamos fazer um rápido exercício para você compreender melhor como é possível
deduzir o significado de uma palavra a partir do contexto em que ela está inserida.
Observe o seguinte título de um texto:

Como dirimir o trabalho infanto-juvenil no Brasil.

(Disponível em: http://inez-nerez.blogspot.com.br/2012/06/como-dirimir-o-trabalho-infanto-


juvenil.html)

Repare que há, nesse título, uma palavra que pode ser estranha para você:
dirimir.

Inicialmente, para que seja possível chegar a alguma conclusão sobre o possível
significado da palavra “dirimir”, procure reconhecer:
1) O tema que está sendo anunciado no título do texto. Percebeu que
certamente o texto irá tratar de algo relacionado ao trabalho infanto-juvenil?
2) Em seguida, procure refletir em torno do contexto em que a palavra
“dirimir” aparece; pense que relação de sentido essa palavra estabelece com o
tema que será abordado no texto, o trabalho infantil.
3) Agora já é possível imaginar o significado de “dirimir”: extinguir, acabar, fazer
cessar, abolir, resolver, solucionar, entre outros.

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Além dessa estratégia de análise do contexto, você também provavelmente
utilizou seu conhecimento de mundo para chegar ao possível significado do termo
desconhecido. Você já leu, já ouviu pessoas comentarem, já assistiu na TV reportagens
ou até mesmo teve uma aula na escola sobre os prejuízos acarretados pelo trabalho
infantil. Sendo assim, você não imaginaria que “dirimir” poderia apresentar um
significado diferente de “extinguir”, “resolver”, pois seria no mínimo estranho alguém
ser a favor do trabalho infantil nos dias de hoje, escrever sobre isso e principalmente,
publicar na internet.

Atividade Comentada 3

Agora você vai ler um fragmento do terceiro capítulo de “Vidas Secas”,


intitulado “Cadeia”. Pela primeira vez aparece a figura do soldado amarelo, que mais
tarde voltará simbolizando a autoridade do governo. Também, pela primeira vez,
insinua-se a ideia de que não é apenas a seca que faz de Fabiano e sua família pessoas
animalizadas. Ele é preso sem qualquer motivo e torna a analisar sua situação de
homem-bicho. Só que, desta vez, não tem mais coragem de sonhar com um futuro
melhor. No final do capítulo, Fabiano está ciente de sua condição de homem vencido
e, pior ainda, sem ilusões com relação à vida de seus filhos.

CADEIA
Aí certificou-se novamente de que o querosene estava batizado e decidiu beber
uma pinga, pois sentia calor. Seu Inácio trouxe a garrafa de aguardente. Fabiano virou
o copo de um trago, cuspiu, limpou os beiços a manga, contraiu o rosto. Ia jurar que a
cachaça tinha água. Por que seria que seu Inácio botava água em tudo? perguntou
mentalmente. Animou-se e interrogou o bodegueiro:
- Por que é que vossemecê bota água em tudo?
Seu Inácio fingiu não ouvir. E Fabiano foi sentar-se na calçada, resolvido a
conversar. O vocabulário dele era pequeno, mas em horas de comunicabilidade
enriquecia-se com algumas expressões de seu Tomás da bolandeira. Pobre de seu

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Tomás. Um homem tão direito sumir-se como cambembe, andar por este mundo de
trouxa nas costas. Seu Tomás era pessoa de consideração e votava. Quem diria?
Nesse ponto um soldado amarelo aproximou-se e bateu familiarmente no
ombro de Fabiano:
- Como é, camarada? Vamos jogar um trinta-e-um lá dentro? Fabiano atentou
na farda com respeito e gaguejou, procurando as palavras de seu Tomás da bolandeira:
- Isto é. Vamos e não vamos. Quer dizer. Enfim, contanto, etc. É conforme.
Levantou-se e caminhou atrás do amarelo, que era autoridade e mandava.
Fabiano sempre havia obedecido. Tinha muque e substância, mas pensava pouco,
desejava pouco e obedecia.
Atravessaram a bodega, a corredor, desembocaram numa sala onde vários
tipos jogavam cartas em cima de uma esteira.
- Desafasta, ordenou o polícia. Aqui tem gente.
Os jogadores apertaram-se, os dois homens sentaram-se, o soldado amarelo
pegou o baralho. Mas com tanta infelicidade que em pouco tempo se enrascou.
Fabiano encalacrou-se também. Sinha Vitória ia danar-se, e com razão.
- Bem feito.
Ergueu-se furioso, saiu da sala, trombudo.
- Espera aí, paisano, gritou o amarelo.
Fabiano, as orelhas ardendo, não se virou. Foi pedir a seu Inácio os troços que
ele havia guardado, vestiu o gibão, passou as correias dos alforjes no ombro, ganhou a
rua.
Repetia que era natural quando alguém lhe deu um empurrão.
Outro empurrão desequilibrou-o. Voltou-se e viu ali perto o soldado amarelo,
que o desafiava, a cara enferrujada, uma ruga na testa. Mexeu-se para sacudir o
chapéu de couro nas ventas do agressor. Com uma pancada certa do chapéu de couro,
aquele tico de gente ia ao barro. Olhou as coisas e as pessoas em roda e moderou a
indignação. Na catinga ele às vezes cantava de galo, mas na rua encolhia-se.
- Vossemecê não tem direito de provocar os que estão quietos.
- Desafasta, bradou o polícia.
E insultou Fabiano, porque ele tinha deixado a bodega sem se despedir.

19
- Lorota, gaguejou o matuto. Eu tenho culpa de vossemecê esbagaçar os seus
possuídos no jogo?
Engasgou-se. A autoridade rondou por ali um instante, desejosa de puxar
questão. Não achando pretexto, avizinhou-se e plantou o salto da reiuna em cima da
alpercata do vaqueiro.
- Isso não se faz, moço, protestou Fabiano. Estou quieto. Veja que mole e
quente é pé de gente.
O outro continuou a pisar com força. Fabiano impacientou-se e xingou a mãe
dele. Aí o amarelo apitou, e em poucos minutos o destacamento da cidade rodeava o
jatobá.
- Toca pra frente, berrou o cabo.
Fabiano marchou desorientado, entrou na cadeia, ouviu sem compreender uma
acusação medonha e não se defendeu.
- Está certo, disse o cabo. Faça lombo, paisano.
Fabiano caiu de joelhos, repetidamente uma lâmina de facão bateu-lhe no
peito, outra nas costas. Em seguida abriram uma porta, deram-lhe um safanão que o
arremessou para as trevas do cárcere. A chave tilintou na fechadura, e Fabiano ergueu-
se atordoado, cambaleou, sentou-se num canto, rosnando:
- Hum! hum!
Disponível em http://www.diciomario.com.br/vidas_secas_101.html Acesso em 16 set. 2013.

1) Desde o primeiro capítulo de “Vidas Secas”, você deve ter se deparado com várias
palavras desconhecidas. Entretanto, é possível deduzir o significado de muitas delas ao
considerar o contexto em que aparecem. A partir disso, aponte os possíveis
significados dos termos destacados nos fragmentos a seguir. Uma dica: procure voltar
ao texto e ler o parágrafo onde o termo se encontra. Assim, facilita a identificação do
seu significado.

a) “Atravessaram a bodega, a corredor, desembocaram numa sala onde vários tipos


jogavam cartas.”
Resposta comentada: entraram, adentraram, alcançaram, chegaram.
b) “- Desafasta, ordenou o polícia. Aqui tem gente.”

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Resposta comentada: afasta, saia do caminho, abra espaço.
c) “Sinha Vitória ia danar-se, e com razão.”
Resposta comentada: irritar-se, zangar-se.
d) “Com uma pancada certa do chapéu de couro, aquele tico de gente ia ao barro.”
Resposta comentada: cairia ao chão, tombaria.
e) “A chave tilintou na fechadura...”
Resposta comentada: balançou e produziu som, fez barulho.

2) Você deve ter percebido que o fragmento do capítulo “Cadeia” traz algumas
expressões bastante populares utilizadas na linguagem coloquial, aquele nível de
linguagem que usamos com nossos amigos e familiares, em situações que não exigem
formalidade. Observe os trechos transcritos a seguir e explique o significado de cada
termo destacado, considerando-se o contexto em que aparecem.

a) Aí certificou-se novamente de que o querosene estava batizado e decidiu beber


uma pinga, pois sentia calor.
Resposta comentada: Acréscimo de água ao querosene para aumentar o lucro nas
vendas.
b) Tinha muque e substância, mas pensava pouco, desejava pouco e obedecia.
Resposta comentada: Músculo.
c) Na catinga ele às vezes cantava de galo, mas na rua encolhia-se.
Resposta comentada: Mandar, ser valente, comandar.
d) - Lorota, gaguejou o matuto.
Resposta comentada: Bobagem, conversa sem fundamento, mentira.
e) Em seguida abriram uma porta, deram-lhe um safanão que o arremessou para as
trevas do cárcere.
Resposta comentada: Tapa, empurrão, ato violento.

3) O capítulo “Cadeia” conta como aconteceu a prisão de Fabiano. Leia o capítulo


novamente, identifique os elementos dessa parte da narrativa e preencha o quadro
seguir.

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Resposta comentada:
Personagens Fabiano e o soldado amarelo
Conflito O soldado amarelo prende e agride Fabiano sem motivo, abusa de
seu poder de autoridade policial.
Espaço Bodega ou botequim e cadeia ou prisão.
Tempo Embora não esteja explícito, depreende-se que essa parte da
narrativa aconteceu em algumas horas.
Narrador Onisciente.

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Aula 4: Nas entrelinhas: descobrindo os sentidos

Caro aluno, nesta aula 4, vamos estudar um dos aspectos mais importantes da
leitura que é a identificação de sentidos implícitos nos textos.
Em muitos momentos, ao lermos um texto, temos a impressão de extrair dele
algumas informações que não estavam escritas, mas tudo nos levava àquela conclusão.
Certamente, isso já lhe aconteceu, pois essa situação é muito comum. Ser capaz de
perceber informações “escondidas”, subentendidas ou pressupostas nos textos
constitui-se uma habilidade essencial de leitura. Mas, para realizar uma leitura
eficiente, o leitor deve captar tanto os dados explícitos quanto os implícitos, uma vez
que leitor perspicaz é aquele que consegue ler nas “entrelinhas”. Muitos textos
exploram de forma produtiva informações implícitas, porque, de fato, para atingir os
efeitos que se deseja, torna-se necessário trabalhar num nível mais profundo de
leitura.
Nos capítulos de “Vidas Secas” que temos estudado até aqui, há vários
momentos em que informações implícitas são veiculadas pelo narrador, sem que, no
entanto, estejam escritas letra por letra. A compreensão dessas informações
subentendidas é condição essencial para se garantir um bom nível de leitura do
romance. Dessa forma, em várias situações, aquilo que não é dito, mas apenas
sugerido, importa muito mais do que aquilo que é dito abertamente.
Vamos ver um pouco mais sobre isso na atividade a seguir.

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Atividade Comentada 4

1) Vamos relembrar um trecho do capítulo “Mudança”. Releia:

“Ainda na véspera eram seis viventes, contando com o papagaio. Coitado,


morrera na areia do rio, onde haviam descansado, à beira de uma poça: a fome
apertara demais os retirantes e por ali não existia sinal de comida. Baleia jantara os
pés, a cabeça, os ossos do amigo, e não guardava lembrança disto.”

Repare que, nesse fragmento, há uma informação explícita e outra informação


implícita a respeito do fato que ocorrera ao papagaio. Com base nisso, responda: para
quem o papagaio serviu de comida? Explique.
Resposta comentada: O papagaio serviu de comida não só para baleia, como aparece
explicitamente no texto (“Baleia jantara os pés, a cabeça, os ossos do amigo...”), mas
também para toda a família. Essa informação não aparece explícita no texto, mas
podemos depreendê-la, uma vez que a causa da morte do papagaio não foi fome ou
sede. Se fosse, provavelmente teria sido informado pelo narrador. Se considerarmos
o trecho “...a fome apertara demais os retirantes e por ali não existia sinal de
comida.”, entende-se que o papagaio foi comido pela família porque eles estavam
com muita fome e não havia comida por perto. Outra confirmação de que a família
comeu o papagaio encontra-se novamente na passagem: “Baleia jantara os pés, a
cabeça, os ossos do amigo...”. Baleia jantou apenas os pés, a cabeça e os ossos, mas
não a carne, que certamente serviu de alimento para a família.

2) Leia o último parágrafo do capítulo Baleia:

“Baleia queria dormir. Acordaria feliz, num mundo cheio de preás. E lamberia as
mãos de Fabiano, um Fabiano enorme. As crianças se espojariam com ela, rolariam
com ela num pátio enorme, num chiqueiro enorme. O mundo ficaria todo cheio de
preás, gordos, enormes.”

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Disponível em http://veja.abril.com.br/blog/todoprosa/antologia/que-cena-a-morte-de-baleia-em-
vidas-secas/ Acesso em 17 set. 2013.

O que podemos deduzir do sonho de Baleia? O que ela imagina existir?


Resposta comentada: Imagina a existência de um mundo feliz após a morte, um
mundo dos cachorros, cheio de preás gordos, um mundo farto, sem seca, sem
privações e sofrimentos.

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Aula 5: Diferença entre crônica, conto e romance

Nesta aula, você vai aprender a identificar as principais características que


diferenciam e aproximam os gêneros crônica, conto e romance.
Mas você pode estar se perguntando: o que, afinal, distingue crônica, conto e
romance? Veja, na tabela, as seguintes definições para cada um dos gêneros
narrativos.
Crônica Conto Romance
A crônica se caracteriza É uma narrativa mais curta É uma narrativa longa, que
por ser um texto curto, que o romance e que tem habitualmente envolve um
leve, que geralmente como característica central número maior de
aborda temas do cotidiano condensar um único personagens complexos,
e, devido à sua atualidade, conflito, tempo, espaço e maior número de conflitos,
geralmente é veiculada no reduzir o número de tempo e espaço mais
meio jornalístico. personagens. aprofundados.
Uma crônica pode contar, É uma espécie de flash da É possível classificar o
comentar, descrever ou vida das personagens romance quanto à sua
ainda analisar um fato. temática: de amor, de
aventura, de memórias,
policial, histórico, ficção
científica, psicológico, etc.

(GANCHO, Cândida Vilares. Como analisar narrativas. São Paulo: Ática, 2006.)

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Atividade Comentada 5

Agora, você vai ler último capítulo de “Vidas Secas”. Com a nova seca, Fabiano
juntou todas as coisas, a sua família e seguiu caminho. Mais uma vez estavam de
mudança. Como não queria confronto com o patrão, fugira de madrugada, mas não
sabia para onde iria, sabia apenas que tinha que prosseguir.

Capítulo XIII – Fuga


A vida na fazenda se tornara difícil. Sinhá Vitória benzia-se tremendo, manejava
o rosário, mexia os beiços rezando rezas desesperadas. Encolhido no banco do copiar,
Fabiano espiava a catinga amarela, onde as folhas secas se pulverizavam, trituradas
pelos redemoinhos, e os garranchos se torciam, negros, torrados. No céu azul as
últimas arribações tinham desaparecido. Pouco a pouco os bichos se finavam,
devorados pelo carrapato. E Fabiano resistia, pedindo a Deus um milagre. Mas quando
a fazenda se despovoou, viu que tudo estava perdido, combinou a viagem com a
mulher, matou o bezerro morrinhento que possuíam, salgou a carne, largou-se com a
família, sem se despedir do amo. Não poderia nunca liquidar aquela dívida exagerada.
Só lhe restava jogar-se ao mundo, como negro fugido.
Saíram de madrugada. Sinhá Vitória meteu o braço pelo buraco da parede e
fechou a porta da frente com a tramela. Atravessaram o pátio, deixaram na escuridão
o chiqueiro e o curral, vazios, de porteiras abertas, o carro de bois que apodrecia, os
juazeiros. Ao passar junto às pedras onde os meninos atiravam cobras mortas, Sinhá
Vitória lembrou-se da cachorra Baleia, chorou, mas estava invisível e ninguém
percebeu o choro.
Desceram a ladeira, atravessaram o rio seco, tomaram rumo para o sul. Com a
fresca da madrugada, andaram bastante, em silêncio, quatro sombras no caminho
estreito coberto de seixos miúdos - os meninos à frente, conduzindo trouxas de roupa,
Sinhá Vitória sob o baú de folha pintada e a cabaça de água, Fabiano atrás, de facão de
rasto e faca de ponta, a cuia pendurada por uma correia amarrada ao cinturão, o aio a
tiracolo, a espingarda de pederneira num ombro, o saco da matalotagem no outro.

27
Caminharam bem três léguas antes que a barra do nascente aparecesse. Fizeram alto.
E Fabiano depôs no chão parte da carga, olhou o céu, as mãos em pala na testa.
Arrastara-se até ali na incerteza de que aquilo fosse realmente mudança. Retardara-se
e repreendera os meninos, que se adiantavam, aconselhara-os a poupar forças. A
verdade é que não queria afastar-se da fazenda. A viagem parecia-lhe sem jeito, nem
acreditava nela. Preparara-a lentamente, adiara-a, tornara a prepará-la, e só se
resolvera a partir quando estava definitivamente perdido. Podia continuar a viver num
cemitério? Nada o prendia aquela terra dura, acharia um lugar menos seco para
enterrar-se. Era o que Fabiano dizia, pensando em coisas alheias: "o chiqueiro e o
curral, que precisavam conserto, o cavalo de fábrica, bom companheiro, a égua alaza,
as catingueiras, as panelas de losna, as pedras da cozinha, a cama de varas. E os pés
dele esmoreciam, as alpercatas calavam-se na escuridão. “Seria necessário largar
tudo?”As alpercatas chiavam de novo no caminho coberto de seixos. Agora Fabiano
examinava o céu, a barra que tingia o nascente, e não queria convencer-se da
realidade. Procurou distinguir qualquer coisa diferente da vermelhidão que todos os
dias espiava, com o coração aos baques. As mãos grossas, por baixo da aba curva do
chapéu, protegiam-lhe os olhos contra a claridade e tremiam.
Os braços penderam, desanimados.
- Acabou-se.
Disponível em:
http://www.portaleducarbrasil.com.br/Userfiles/P0001/File/Vidas_secas_de_Graciliano_Ramos.pdf
Acesso em set. 2013.

1) Você deve se lembrar da estrutura clássica da narrativa: apresentação ou exposição,


complicação, clímax e desfecho. A que parte do enredo pertence o Capítulo XIII –
Fuga? Explique.
Resposta comentada: O Capítulo XIII – Fuga é o último capítulo e constitui o desfecho
da obra. Nesse capítulo, continua a saga da família fugindo da seca e em busca de
melhores condições de vida.

2) Por que Fabiano resolveu deixar a fazenda? Explique.

Resposta comentada: Porque já havia chegado outra grande seca e tudo na fazenda
estava praticamente perdido.

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3) Por que Fabiano foi embora, de madrugada, sem, sequer, despedir do fazendeiro?
Resposta comentada: Porque estava devendo o dono da fazenda e não poderia pagá-
lo.

4) Ao abandonar a fazenda e reiniciar sua peregrinação fugindo da seca, que


sentimento impulsiona Fabiano a buscar um lugar melhor para viver? Comprove sua
resposta com uma passagem do capítulo XIII.
Resposta comentada: Fabiano tinha esperança de encontrar um lugar melhor para
viver. “Nada o prendia aquela terra dura, acharia um lugar menos seco para
enterrar-se.”

5) O capítulo XIII – “Fuga” e o capítulo I – “Mudanças” apresentam uma semelhança


em relação às ações das personagens, isto é, uma marca constante no enredo e que
fica ainda mais evidente nesses dois capítulos. Aponte essa semelhança na narrativa.
Resposta comentada: Os dois capítulos narram a peregrinação da família em busca
de um lugar com melhores condições de vida e sobrevivência. Foram inúmeras as
tentativas de fuga feita pela família, pois eles tinham necessidade de fugir da seca
para sobreviver. A saga da família começa no capítulo “Mudanças”, perpassa todo o
enredo e retorna no capítulo “Fuga” com a mesma esperança do primeiro capítulo.

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Aula 6: Registrando as diferenças

Lembra-se de quando você estudou no caderno anterior os gêneros crônica e


conto? Certamente você deve ter percebido que esses gêneros apresentam
características semelhantes e distintas em relação ao romance. Uma dessas diferenças
diz respeito à estrutura e à temática mais complexa nos romances. Para entender
melhor essas diferenças, você irá ler, a seguir, exemplos desses três gêneros. Então,
releia a crônica “O homem trocado” e o conto “Por que o cachorro foi morar com o
homem” que você já estudou no caderno anterior a este. Não se lembra destes textos?
Não tem problema. Eles estão aqui e podem ser relidos com calma por você. Considere
também os capítulos de “Vidas Secas” que você já leu neste caderno e observe as
particularidades da crônica, do conto e do romance.

Texto 1 - Crônica
O homem trocado

O homem acorda da anestesia e olha em volta. Ainda está na sala de


recuperação. Há uma enfermeira do seu lado. Ele pergunta se foi tudo bem.
- Tudo perfeito - diz a enfermeira, sorrindo.
- Eu estava com medo desta operação...
- Por quê? Não havia risco nenhum.
- Comigo, sempre há risco. Minha vida tem sido uma série de enganos...
E conta que os enganos começaram com seu nascimento. Houve uma troca de
bebês no berçário e ele foi criado até os dez anos por um casal de orientais, que nunca
entenderam o fato de terem um filho claro com olhos redondos. Descoberto o erro,
ele fora viver com seus verdadeiros pais. Ou com sua verdadeira mãe, pois o pai
abandonara a mulher depois que esta não soubera explicar o nascimento de um bebê
chinês.
- E o meu nome? Outro engano.
- Seu nome não é Lírio?
- Era para ser Lauro. Se enganaram no cartório e...

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Os enganos se sucediam. Na escola, vivia recebendo castigo pelo que não fazia.
Fizera o vestibular com sucesso, mas não conseguira entrar na universidade. O
computador se enganara, seu nome não apareceu na lista.
- Há anos que a minha conta do telefone vem com cifras incríveis. No mês
passado tive que pagar mais de R$ 3 mil.
- O senhor não faz chamadas interurbanas?
- Eu não tenho telefone!
Conhecera sua mulher por engano. Ela o confundira com outro. Não foram
felizes.
- Por quê?
- Ela me enganava.
Fora preso por engano. Várias vezes. Recebia intimações para pagar dívidas que
não fazia. Até tivera uma breve, louca alegria, quando ouvira o médico dizer:
- O senhor está desenganado.
Mas também fora um engano do médico. Não era tão grave assim. Uma
simples apendicite.
- Se você diz que a operação foi bem...
A enfermeira parou de sorrir.
- Apendicite? - perguntou hesitante.
- É. A operação era para tirar o apêndice.
- Não era para trocar de sexo?
Disponível em: http://pensador.uol.com.br/frase/MjMxNDk5/ Acesso em 08 ago. 2013.

Texto 2 – Conto
Por que o cachorro foi morar com o homem

O cachorro, que todos dizem ser o melhor amigo do homem, vivia antigamente
no meio do mato com seus primos, o chacal e o lobo.
Os três brincavam de correr pelas campinas sem fim, matavam a sede nos
riachos e caçavam sempre juntos.
Mas, todos os anos, antes da estação das chuvas, os primos tinham dificuldades
para encontrar o que comer. A vegetação e os rios secavam, fazendo com que aos
animais da floresta fugissem em busca de outras paragens.

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Um dia, famintos e ofegantes, os três com as línguas de fora por causa do forte
calor, sentaram-se à sombra de uma árvore para tomarem uma decisão.
– Precisamos mandar alguém à aldeia dos homens para apanhar um pouco de
fogo - disse o lobo.
– Fogo?- perguntou o cachorro.
– Para queimar o capim e comer gafanhotos assados - respondeu o chacal com
água na boca.
– E quem vai buscar o fogo?- tornou a perguntar o cachorro.
– Você!- responderam o lobo e o chacal, ao mesmo tempo, apontando para o
cão.
De acordo com a tradição africana, o cão, que era o mais novo, não teve outro
jeito, pois não podia desobedecer a uma ordem dos mais velhos. Ele ia ter que fazer a
cansativa jornada até a aldeia, enquanto o lobo e o chacal ficavam dormindo numa
boa.
O cachorro correu e correu até alcançar o cercado de espinhos e paus pontudos
que protegia a aldeia dos ataques dos leões. A notícia, e das cabanas saía um cheiro
gostoso. O cachorro entrou numa delas e viu uma mulher dando de comer se distrair
para ele pegar um tição.
Uma panela de mingau de milho fumegava sobre uma fogueira. Dali, a mulher,
sem se importar com a presença do cão, tirava pequenas porções e as passava para
uma tigela de barro.
Quando terminou de alimentar o filho, ela raspou o vasilhame e jogou o resto
do mingau para o cão. O bicho, esfomeado, devorou tudo e adorou. Enquanto comia, a
criança se aproximou e acariciou o seu pêlo. Então, o cão disse para si mesmo:
– Eu é que não volto mais para a floresta. O lobo e o chacal vivem me dando
ordens. Aqui não falta comida e as pessoas gostam de mim. De hoje em diante vou
morar com os homens e ajudá-los a tomar conta de suas casas.
E foi assim que o cachorro passou a viver junto aos homens. E é por causa disso
que o lobo e chacal ficam uivando na floresta, chamando pelo primo fujão.

BARBOSA, Rogério Andrade. Histórias Africanas para contar e recontar.


Disponível em: http://docenciaonlinesaberespedagogicos.blogspot.com.br/2012/10/alguns-contos-
africanos.html Acesso em 11 ago. 2013.

32
Atividade Comentada 6

Agora, preencha o quadro a seguir e registre as diferenças existentes entre a


crônica “O homem trocado”, o conto “Por que o cachorro foi morar com o homem” e o
romance “Vidas secas”.

CRÔNICA (O homem trocado) CONTO (Por que o cachorro ROMANCE (Vidas Secas)
foi morar com o homem)
Qual a trama?
Um homem, que a vida toda A mando do chacal e do Uma família de retirantes
vivenciou enganos, se interna lobo, o cão vai até a aldeia caminha pelo sertão em
para fazer uma simples cirurgia dos homens pegar fogo. busca de uma vida melhor.
de apêndice, mas acaba sendo Chegando lá, o cão é bem Enfrenta grandes
submetido, equivocadamente, tratado por uma mulher e dificuldades como fome,
a uma cirurgia de mudança de seu filho. O cachorro decide, sede, a falta de um lugar
sexo. então, viver ao lado dos para de estabelecer. Depois
humanos porque era mais de muito caminharem, os
bem tratado por eles do que retirantes encontram uma
por seus parentes. casa aparentemente
abandonada, mas logo chega
o dono, para quem Fabiano
começa a trabalhar e por
quem é explorado.
Desiludida, a família deixa a
fazenda e recomeça sua
peregrinação pelo sertão em
busca de um lugar melhor
para viver.
Onde ocorre a trama (espaço)?
No hospital. Na floresta. No sertão nordestino.

Quando ocorre a trama (tempo)?


Não há indicação precisa, Não há indicação precisa de
Não há indicação precisa, mas mas percebe-se que tempo. Parece que a trama
percebe-se que a narrativa se acontecera há muitos anos. dura alguns meses. Há mais
passa em algumas horas. presença do tempo
psicológico do que
cronológico.
Quais os personagens da trama?
O cachorro, o chacal, o lobo Fabiano, Sinhá Vitória, a
O homem e a enfermeira. e os homens. cachorra Baleia, o menino
mais novo, o menino mais
velho, o papagaio, o
fazendeiro ou patrão, Seu
Tomás da bolandeira, Seu

33
Inácio, o soldado amarelo.
Qual o desfecho da trama?
O homem descobre que O cão, ao ser bem tratado Fabiano foge da fazenda
novamente foi vítima de um pelos humanos, decide viver onde trabalhava e vai
engano e passou por uma ao lado destes e abandona novamente seguir sua
cirurgia de mudança de sexo. seus parentes. peregrinação no sertão em
busca de um lugar melhor
para viver.

É possível dar continuidade à história? Como você imagina essa continuidade?


Resposta pessoal: é possível Resposta pessoal: talvez seja Nos romances, o enredo é
que os alunos imaginem uma possível que os alunos organizado de forma
continuação para a trama. O imaginem uma continuação circular. Ao concluir a
professor deve apenas estar para a trama. O professor história, o autor não permite
atento para avaliar se essa deve estar atento para o acréscimo de outras ações
continuação estará coerente avaliar se essa continuação paralelas à trama, pois a
com o restante da narrativa. estará coerente com o história está organizada em
restante da narrativa. uma estrutura fechada e
qualquer acréscimo
descaracterizaria a obra .

34
Avaliação

Caro, Professor Aplicador, sugerimos algumas diferentes formas de avaliar as turmas


que estão utilizando este material:

1° Possibilidade:
As disciplinas nas quais os alunos participam da Avaliação do Saerjinho, pode-se utilizar
a seguinte pontuação:
 Saerjinho: 2 pontos
 Avaliação: 5 pontos
 Pesquisa: 3 pontos

As disciplinas que não participam da Avaliação do Saerjinho, podem utilizar a


participação dos alunos durante a leitura e execução das atividades do caderno como
uma das três notas. Neste caso teríamos:

 Participação: 2 pontos
 Avaliação: 5 pontos
 Pesquisa: 3 pontos

Caro(a) aluno(a),

Agora que você estudou as seis aulas deste bimestre, está preparado para
testar os conhecimentos adquiridos ao longo destas quatro semanas! A seguir, você
deverá responder às questões propostas. Elas foram formuladas, de acordo com as
habilidades trabalhadas neste caderno. Bom trabalho e boa prova!
Nas questões a seguir, propomos que você leia outro fragmento de “Vidas
Secas” para poder respondê-las.
Leia o Capítulo VI – O menino mais velho – para responder às questões de 1 a 3.

35
Capítulo VI – O menino mais velho
Animara-se a interrogar Sinhá Vitória porque ela estava bem-disposta. Explicou
isto a cachorrinha com abundância de gritos e gestos. Ele nunca tinha ouvido falar em
inferno. (...) Sinhá Vitória, distraída, aludiu vagamente a certo lugar ruim demais, e
como o filho exigisse uma descrição, encolheu os ombros. O menino foi à sala
interrogar o pai, encontrou-o sentado no chão, com as pernas abertas, desenrolando
um meio de sola. - Bota o pé aqui. A ordem se cumpriu e Fabiano tomou medida da
alpercata: deu um traço com a ponta da faca atrás do calcanhar, outro adiante do
dedo grande. Riscou em seguida a forma do calçado e bateu palmas: - Arreda. O
pequeno afastou-se um pouco, mas ficou por ali rondando e timidamente arriscou a
pergunta. Não obteve resposta, voltou à cozinha. (...) Naquele dia a voz estridente de
Sinhá Vitória e o cascudo no menino mais velho arrancaram Baleia da modorra e
deram-lhe a suspeita de que as coisas não iam bem. Foi esconder-se num canto, por
detrás do pilão, fazendo-se miúda entre cumbucos e cestos. (...) O pequeno sentou-se,
acomodou nas pernas a cabeça da cachorra, pôs-se a contar-lhe baixinho uma história.
Tinha um vocabulário quase tão minguado como o do papagaio que morrera no tempo
da seca. Valia-se, pois, de exclamações e de gestos, Baleia respondia com o rabo, com
a língua, com movimentos fáceis de entender. (...) Como não sabia falar direito, o
menino balbuciava expressões complicadas, repetia as sílabas, imitava os berros dos
animais, o barulho do vento, o som dos galhos que rangiam na catinga, roçando-se.
Agora tinha tido a ideia de aprender uma palavra, com certeza importante (...) Não
acreditava que um nome tão bonito servisse para designar coisa ruim. (...) Achava as
pancadas naturais quando as pessoas grandes se zangavam, pensava até que a zanga
delas era a causa única dos cascudos e puxavantes de orelhas. Está convicção tornava-
o desconfiado, fazia-o observar os pais antes de se dirigir a eles. (...) A cadelinha
chegou-se aos pulos, cheirou-o, lambeu-lhe as mãos e acomodou-se. Como era
possível haver estrelas na terra? Entristeceu. Talvez Sinhá Vitoria dissesse a verdade. O
inferno devia estar cheio de jararacas e suçuaranas, e as pessoas que moravam lá
recebiam cocorotes, puxões de orelhas e pancadas com bainha de faca.
Disponível em http://textolivre.com.br/livre/24886-vidas-secas-de-graciliano-ramos-carcara-cega-mata-
e-come-mas-nao-os-comeram Acesso em 28 set. 2013.

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1) No trecho “(...) - Bota o pé aqui. A ordem se cumpriu e Fabiano tomou medida da
alpercata (...)” há presença do discurso direto. Assinale a alternativa que apresenta a
transposição INCORRETA do trecho em destaque para o discurso indireto.
a) (...) Fabiano mandou que o filho botasse o pé lá.
b) (...) O pai havia dito para o filho colocar o pé ali.
c) (...) Fabiano ordenou ao filho que botasse o pé aí.
d) (...) O pai disse ao menino que botasse o pé no local indicado.
Resposta comentada: A resposta correta é letra C.
Em “– Bota o pé aqui.”, foi utilizado o modo imperativo “bota” e o advérbio “aqui”. Na
transposição do discurso direto para o indireto, é necessário que se acrescente um
verbo dicendi para indicar que a fala é do narrador (“mandou”, “havia dito”, “disse”).
Além disso, a forma verbal “bota” vai para o imperfeito do subjuntivo (“botasse”) ou
pode ser substituída pela forma “para colocar o pé”, sem prejuízo de sentido. O
advérbio “aqui” é substituído pelos advérbios “lá” e “ali” ou também pelo adjunto
adverbial de lugar “no lugar indicado”. Entretanto, o advérbio “aí” não está adequado
porque remete a um lugar em que se encontra o personagem no momento de sua
fala. Como o personagem teve sua fala “traduzida” pelo narrador (discurso indireto), o
advérbio foi incorretamente utilizado. Dessa forma, as alternativas A, B e D estão
corretas quanto à passagem do discurso direto para o indireto.

2) Nesse capítulo, fica evidente que uma das características psicológicas mais marcantes
do menino mais velho era a
a) inteligência.
b) curiosidade.
c) obediência.
d) doçura.
Resposta comentada: A resposta correta é letra B.
No capítulo VI, fica evidente que o menino mais velho é curioso, procura saber das
coisas. Ele quer saber o significado da palavra “inferno” e pergunta ao pai e à mãe.
Não há indicação de que, por ser curioso, ele era necessariamente inteligente. Por
isso, a resposta da letra A está incorreta. As alternativas C e D também não se
sustentam no texto. Não há pistas de que o menino seja “doce” ou “obediente”.

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3) Em qual das passagens a seguir evidencia-se a presença de um narrador onisciente,
aquele que revela os sentimentos e pensamentos das personagens?
a) “Ele nunca tinha ouvido falar em inferno.”
b) “A ordem se cumpriu e Fabiano tomou medida da alpercata (...)”
c) “Como era possível haver estrelas na terra? Entristeceu. Talvez Sinhá Vitoria
dissesse a verdade.”
d) “O pequeno sentou-se, acomodou nas pernas a cabeça da cachorra, pôs-se a contar-
lhe baixinho uma história.”
Resposta comentada: A resposta correta é a letra C.
Nas alternativas A, B e D, fica claro que o narrador limitou-se apenas a contar as ações
da personagem. Não houve nessas opções nenhum tipo de informação sobre as
emoções ou pensamentos dela. Já na letra C, o narrador transmite para o leitor um
pensamento (“Como era possível haver estrelas na terra?”, “Talvez Sinhá Vitoria
dissesse a verdade.”) e um sentimento da personagem (“Entristeceu”).

4) O termo “romance” pode apresentar vários significados. Assinale a alternativa que


melhor caracteriza o romance como um gênero literário, tal como “Vidas Secas”.

a) “O negócio do romance está se tornando rapidamente em uma indústria


multibilionária, e a ilha de Grand Bahama encontrou uma forma de fazer dinheiro
nesse nicho de crescente de mercado. Butiques exclusivas como o hotel Old Bahama
Bay, na ponta oeste de Grand Bahama, e o Pelican Bay, em Lucaya, têm feito
casamentos encantadores e pacotes de lua-de-mel desenhados para seduzir a maioria
dos casais com seus gostos e necessidades distintas.”
(Disponível em: http://www.bahamasturismo.com.br/bahamas/noticias_show/1 Acesso em 02 out.
2013.)

b) “Encontram-se agrupadas sob a designação de línguas românicas todas aquelas que


tiveram a sua origem no Latim, em particular no Latim Vulgar, e a partir dele
evoluíram. (...) a partir do século V, motivado pela invasão dos povos bárbaros a
unidade linguística desfez-se, dando origem a diferentes falares, os romances, que
correspondiam à contaminação do latim vulgar por diversos substratos e superstratos.
Entre os romances que se formaram entre o século V e o século X, temos o castelhano,

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o leonês, o galo-provençal, o romance lusitânico, do qual o português é um
prolongamento.”
(Disponível em http://esjmlima.prof2000.pt/hist_evol_lingua/R_GRU-D.HTM Acesso em 02 out. 2013.)

c) “Romance é uma forma literária do gênero narrativo literário que transpõe para a
ficção a experiência humana. Suas características são a narrativa longa, geralmente
dividida em capítulos, os personagens variados e complexos em torno das quais
acontece a história principal e também histórias paralelas a essa, pode apresentar
espaço e tempo variados.
Disponível em http://obelletrista.wordpress.com/2012/10/10/conceito-e-caracteristicas-do-romance/
Acesso em 02 out. 2013.

d) “Um primeiro olhar nesses números pode até levar a concluir que não, a amizade
não existe - é sempre um romance fracassado ou dormente. Mas especialistas dizem
que é justamente por causa dessa atração que a amizade pode surgir. Na verdade,
mesmo quando não há envolvimento sexual, pode haver atração.”
Disponível em: http://super.abril.com.br/cotidiano/namoro-ou-amizade-535998.shtml

Resposta comentada:
O significado de “romance” que melhor define a obra “Vidas Secas” encontra-se na
letra C e diz respeito ao gênero literário. As opções A e D apresentam o sentido do
termo “romance” como relacionamento amoroso entre pessoas, amor. Já na letra B,
o conceito de “romance” diz respeito às diversas línguas que se originaram do latim.

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Pesquisa

Caro professor aplicador, para esta atividade, sugerimos que divida a turma em
grupos.
Se possível, permita que os alunos acessem a sala de informática ou consultem
jornais, revistas e livros na sala de leitura da escola para dinamizarem o trabalho com
novas possibilidades de fontes de pesquisa.
Bom trabalho para vocês!

Para esta atividade, é importante que você organize grupos com os seus
colegas. Se possível, pesquise na sala de informática ou em jornais, revistas e livros na
sala de leitura da escola.
Bom trabalho para vocês!

O romance foi escrito em 1938 e narra em 13 capítulos a história de uma típica


família de nordestinos brasileiros, sobreviventes das secas. A história passa-se no semi-
árido do nordeste brasileiro, iniciando com a “Mudança” e terminando com a “Fuga”.
O leitor tem a impressão de que a saga da família é circular: as mesmas dificuldades
que a família enfrenta durante todo o livro ainda se repetirão diversas vezes em sua
constante peregrinação.
A partir dessas informações, pesquise na internet ou em outras fontes as
seguintes informações:
1. O enredo de Vidas Secas
Resposta comentada:
Uma família de retirantes caminha pelo sertão em busca de uma vida melhor.
Enfrenta grandes dificuldades como fome, sede, a falta de um lugar para de
estabelecer. Depois de muito caminharem, os retirantes encontram uma casa
aparentemente abandonada, mas logo chega o dono, para quem Fabiano começa a
trabalhar e por quem é explorado. Desiludida, a família deixa a fazenda e recomeça
sua peregrinação pelo sertão em busca de um lugar melhor para viver.

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2. Qual o problema social que permeia Vidas Secas?
Resposta comentada:
A obra denuncia a pobreza excessiva, a miséria e as dificuldades pelas quais passam
os sertanejos nordestinos.

3. Contexto histórico de Vidas Secas.


Resposta comentada:
O livro Vidas Secas foi escrito em 1938, menos de dez anos após a Crise de 1929, em
uma época em que os efeitos ainda podiam ser notados. Levando a população a
temer seus efeitos em longo prazo. Neste sentido, o autor buscava denunciar as
condições de miséria na qual se encontrava a grande maioria dos nordestinos.
4. Pesquise fotos sobre a seca de 2013 no nordeste brasileiro.

5. De posse das informações e das fotos, é hora de montar o painel. Cole algumas fotos
e abaixo delas coloque as informações pesquisadas sobre Vidas Secas. Ao término,
reflita com seus colegas de grupo sobre o seguinte questionamento: o que mudou de
1938 para 2013 para a população nordestina?
Resposta comentada: o aluno pode trazer fotos de jornais, revistas ou retirar da
internet. Após a seleção, colar as fotos em cartolina e expor no mural da sala.
Quanto ao questionamento, o aluno deve chegar à conclusão de que pouco mudou
para a vida do nordestino em termos de enfrentamento da seca, da miséria e de
outros problemas sociais. Será ainda proveitoso que eles ampliem a reflexão para
todo o país.

Caro tutor, aproveite a oportunidade do estudo do romance “Vidas Secas”, e


recomende a leitura integral da obra, certamente disponível na biblioteca da escola e
também por meio da internet, como pelo link:
http://colegioconexaoserradamesa.com.br/public/material/material_1ano_em_livro_v
idassecas.pdf

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Referências

[1] ABAURRE, Maria Luiza M.; ABAURRE, Maria Bernadete M.; PONTARA, Marcela.
Português: contexto, interlocução e sentido. São Paulo: Moderna, 2010. 2º vol., p. 174-
230.

[2] Brasil, Ministério da Educação. PDE: Plano de Desenvolvimento da educação: SAEB:


ensino médio: matrizes de referência, tópicos e descritores. Brasília: MEC, SAEB; Inep,
2008.
[3] CEREJA, William Roberto; MAGALHÃES, Thereza Cochar. Português: linguagens. V.
2, ensino médio. 7. ed. ref. São Paulo: Saraiva, 2010.
[4] GANCHO, Candida Vilares. Como analisar narrativas. São Paulo: Ática, 2006.
[5] ILARI, Rodolfo. Introdução à semântica: brincando com a gramática. 5 ed. São
Paulo: Contexto, 2004.
[6] KOCH, Ingedore. Ler e compreender os sentidos do texto. São Paulo: Contexto,
2006.
[7] MARCUSCHI, Luiz Antônio. Produção textual, análise de gêneros e compreensão. 3.
ed. São Paulo: Parábola, 2008, p. 233.
[8] (Org.) Editora Moderna. Projeto Araribá. Português 7ª série. São Paulo: Ed.
Moderna, 2006.
[9] PLATÃO, Francisco; FIORIN, José Luiz. Para entender o texto: leitura e redação. 10.
ed. São Paulo: Ática, 1995.
[10] Rio de Janeiro. Secretaria de Estado de Educação. Orientações Pedagógicas para o
9º ano do Ensino Fundamental – 1º e 2º ciclos do 3º bimestre. Rio de Janeiro, 2013.
[11] Rio de Janeiro. Secretaria de Estado de Educação. Roteiro de Atividades para o 9º
ano do Ensino Fundamental – 1º e 2º ciclos do 3º bimestre. Rio de Janeiro, 2013.

SITES PESQUISADOS:

http://www.priberam.pt/dlpo/Default.aspx?pal=romance Acesso em 17 set.


2013.
http://www.diciomario.com.br/vidas_secas_101.html Acesso em 15 set. 2013.

42
http://alimenteocerebro.com/a-aridez-e-a-frieza-de-vidas-secas/ Acesso em 15
set. 2013.

http://www.festlatinosp.com.br/2013/filme_vidas_secas.php

http://www.exopto.com/

http://www.palmeiraespirita.com.br/files/vidas_secas.htm

http://expirados.com.br/loja/products/Vidas-Secas-%252d-1963.html

http://veja.abril.com.br/blog/todoprosa/antologia/que-cena-a-morte-de-
baleia-em-vidas-secas/ Acesso em 17 set. 2013.

http://veja.abril.com.br/blog/todoprosa/antologia/que-cena-a-morte-de-
baleia-em-vidas-secas/ Acesso em 18 set. 2013.

http://www.portaleducarbrasil.com.br/Userfiles/P0001/File/Vidas_secas_de_G
raciliano_Ramos.pdf Acesso em set. 2013.

http://pensador.uol.com.br/frase/MjMxNDk5/ Acesso em 08 ago. 2013.

http://docenciaonlinesaberespedagogicos.blogspot.com.br/2012/10/alguns-
contos-africanos.html Acesso em 11 ago. 2013.

http://textolivre.com.br/livre/24886-vidas-secas-de-graciliano-ramos-carcara-
cega-mata-e-come-mas-nao-os-comeram Acesso em 28 set. 2013.

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Equipe de Elaboração

COORDENADORES DO PROJETO

Diretoria de Articulação Curricular

Adriana Tavares Maurício Lessa

Coordenação de Áreas do Conhecimento

Bianca Neuberger Leda


Raquel Costa da Silva Nascimento
Fabiano Farias de Souza
Peterson Soares da Silva
Marília Silva

PROFESSORES ELABORADORES

Andréia Alves Monteiro de Castro


Aline Barcellos Lopes Plácido
Flávia dos Santos Silva
Gisele Heffner
Leandro Nascimento Cristino
Lívia Cristina Pereira de Souza
Tatiana Jardim Gonçalves

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