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Ver a cidade daqui

A cidade que é longe


Meu olhar que é longe
Nessa intuição metafísica
Como um punhado de moedas
Na mão solar de um anjo

Ouço um sopro no meio do silêncio


É o Anjo (suas palavras de chumbo)

-Acomoda-te a ideia conclusiva


De teres passado como as coisas
És tu também coisa, coisa consumada
Como a esquina que se esquece, diluída
E rostos que vos transitam pela rua
Os carros, notícias, anúncios, tratados!
Tudo passa, é uma relva húmida que evapora!

Na cidade (um susto) me trespassa


Quem me chama com a boca da noite
Bêbada, e oferta, vendida, aberta como a flor
Disponível para aquele dá o preço de seu ouro?

E a cidade longe diz


Que os anjos só fazem mentir
E que o céu anil é metal escuro
E vil que a noite perfura
Como a navalha nos olhos
E longe, a cidade se desboca
(Não tem discurso linear e se esboroa
Portanto alguns enlouquecem)

E se encerra depois no silêncio


Da luz dessa lua que mingua
Como eu estrela sem grandeza
Aqui nesta janela.