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Kirst
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© dos autorres
1* edição: 2 2003

Direitos resservados desta edição:


Universidaode Federal do Rio Grande do Sul

Capa: Carlsa M. Luzzatto


Ilustração c d a capa: Trabalho realizado por Luiz Silveira Guides, na Oficina de
Criatividade do Núcleo de Atividades Expressivas Nise da
Silveira do Hospital Psiquiátrico São Pedro, em Porto Alegre
Revisão: MMaria da Glória Almeida dos Santos
Editoração • eletrônica: Fernando Piccinini Schmitt
Bolsista d e s apoio: José Ricardo Kreutz

C328 Cartografias e Devires: a construção do presente./ organizado por


Tania Mara Galli Fonseca e Patrícia Gomes Kirst. - Porto Alegre:
Editora da UFRGS, 2003.

Inclui referências bibliográficas.

1. Psicologia social. 2. Cartografia. 3. Devir. 4. Subjetivação. 5.


Heterogênese. 6. Perspectiva da diferença. 7. Metodologia de pesqui­
sa. 8. Modo de produção. 9. Gênero. 10. Subjetividade. 11. Trabalho.
I. Fonseca, Tania Mara Galli. II. Kirst, Patrícia Gomes. III. Título.

CDU 302.7

Catalogação na publicação: Ana Iaicia Wagner - CRB10/1396

ISBN: 8.5-7025-678-7
SUMÁRIO

Apresentação / 9

Parte I - Olhar e perspectivismo

Um outro olhar / 17
Evgen Bavcar

Corpo: ponte para o mundo / 23


Oswaldo Giacoia Junior

6 Redes do olhar / 43
Patrícia Gomes Kirst

A rede: uma figura empírica da ontologia do presente / 53


Virgínia Kastrup

Utopias como âncoras simbólicas / 63


Edson Luiz André de Sousa

Da função política do tédio e da alegria / 69


Peter Pál Pelbart

Parte II - Cartografia como modo de produção:


agenciamento de conceitos-afetos

Complexidade, transdisciplinaridade e produção de subjetividade / 81


Eduardo Passos e Regina Benevides

0 Conhecimento e cartografia: tempestade de possíveis / 91


Patrícia Gomes Kirst, Angélica Elisa Giacomel,
Carlos José Simões Ribeiro, Luis Artur Costa e Giovani Souza Andreoli
© dos autores
Ia edição: 2003

Direitos reservados desta edição:


Universidade Federal do Rio Grande do Sul

Capa: Carla M. Luzzatto


Ilustração da capa: Trabalho realizado por Luiz Silveira Guides, na Oficina de
Criatividade do Núcleo de Atividades Expressivas Nise da
Silveira do Hospital Psiquiátrico São Pedro, em Porto Alegre
Revisão: Maria da Glória Almeida dos Santos
Editoração eletrônica: Fernando Piccinini Schmitt
Bolsista de apoio: José Ricardo Kreutz

C328 Cartografias e Devires: a construção do presente./ organizado por


Tania Mara Galli Fonseca e Patrícia Gomes Kirst. - Porto Alegre:
Editora da UFRGS, 2003.

Inclui referências bibliográficas.

1. Psicologia social. 2. Cartografia. 3. Devir. 4. Subjetivação. 5.


Heterogênese. 6. Perspectiva da diferença. 7. Metodologia de pesqui­
sa. 8. Modo de produção. 9. Gênero. 10. Subjetividade. 11. Trabalho.
I. Fonseca, Tania Mara Galli. II. Kirst, Patrícia Gomes. III. Título.

CDU 302.7

Catalogação na publicação: Ana Lucia Wagner - CRB10/1396

ISBN: 85-7025-678-7
SUMÁRIO

Apresentação / 9

Parte I - Olhar e perspectivismo

Um outro olhar / 17
Evgen Bavcar

Corpo: ponte para o mundo / 23


Oswaldo Giacoia Junior

Redes do olhar / 43
Patrícia Gomes Kirst

A rede: uma figura empírica da ontologia do presente / 53


Virgínia Kastrup

Utopias como âncoras simbólicas / 63


Edson Luiz André de Sousa

Da função política do tédio e da alegria / 69


Peter Pál Pelbart

Parte II - Cartografia como modo de produção:


agenciamento de conceitos-afetos

. Complexidade, transdisciplinaridade e produção de subjetividade / 81


Eduardo Passos e Regina Benevides

0 Conhecimento c cartografia: tempestade de possíveis / 91


Patrícia Gomes Kirst, Angélica Elisa Giacomel,
( 'arlos José Simões Ribeiro, Luis Artur Costa e Giovani Souza Andreoli
Um roteiro para Clio / 103
Sandra Jatahy Pesavento

P Corpolumetempoiesis: o vivo a ser pesquisado / 113


Fabio D al Molin, José Ricardo Kreiitz e Juliana Leal Dornelles

,j Novos coletivos sociais: a multidão e o amor ao tempo a constituir / 129


Cláudia Perrone

Trabalho e contemporaneidade: o trabalho tomado vida /1 3 7


Angélica Elisa Giacomel, Angela Pena Ghisleni,
Mayte Raya Amazarray e Se Ida Engelman

Os materiais da autoria / 149


Regina Orgler Sordi

Ima(r)gens / 166
Liana Timm

Inventando uma outra psicologia social / 177


Rosane Neves da Silva

Parte III - Experimentando cartografar

O esquecimento doeu - Ver e rever o tempo / 191


Elida Tessler

Despachos no museu: sabe-se lá o que vai acontecer [...] / 207


Suely Rolnik

Tempos empilhados e espacializados: questões sobre a subjetivação


no processo criativo de trabalhos plásticos / 219
Cláudia M aria França Silva Gozzer

Metáforas de sonhos / 241


Clarice Averbuck

f) A cidade subjetiva / 253


Tania M ar a Galli Fonseca

o Cartografia: do método à arte de fazer pesquisa / 259


Denise Mairesse
0 Genitais femininos e os lugares da diferença / 273
Paola Basso M enna Barreto Gomes

O espectador e o filme: efeitos especiais do inconsciente / 299


Paulo Fonseca

4> Cartografando a onda teen / 307


Patrícia Genro Robinson

§ Sala de aula em rede:


de quando a autoria se (des)dobra em in(ter)venção / 319
Margarete Axt, José Ricardo Kreutz

0 A instituição e sua borda / 341


Regina Benevides e Eduardo Passos

Corpo-sentido: a clínica a partir de uma psicologia dos sentidos / 357


Rejane Czermak

Relógios sem ponteiros: desvelando uma história de vida / 375


Bárbara Elisabeth Neubarth
UM OUTRO OLHAR

E vgen B avcar

Diante das interrogações que os problemas da visão, da cegueira e do


invisível levantam, uma resposta demasiadamente pessoal poderia ser preten­
siosa e pouco convincente. E refletindo sobre essas questões que lembro as
palavras de um amigo cego que, ainda criança, me disse: “Você sabe, a minha
situação seria insuportável se você e tantos outros iguais a mim não existis­
sem”. No gueto onde vivíamos naquele tempo, a solidariedade se imporia para
cimentar a unidade de um grupo social etiquetado como “privado de visão fí­
sica”. Quando penso nesta reflexão hoje, me soa ingênua, mas também muito
mais verdadeira do que aparece nessa formulação simples. Meu amigo sabia
que não estamos sós, e a primeira prova era a minha presença como interlocu­
tor, e em seguido aquela dos outros colegas da turma e a existência de tantos
outros que sabíamos que eram cegos, conforme as estimativas e classificações
das estatísticas. Talvez a frase “não estamos sós” designava inconscientemen­
te a presença muito mais largamente das pessoas que sofreram a nossa sorte e
também, simplesmente, a fortuna de cada indivíduo.
As figuras míticas vindas da nossa cultura greco-romana, como o Ci­
clope, Édipo, Ulisses, Tirésias, Argus, nos revelam a historia do olhar nas
suas formas mais primitivas. O Ciclope, por exemplo, arquétipo da visão
intuitiva a mais rudimentar, dotado de um olho só, vê de uma maneira uni­
dimensional. Para ele, ainda existe uma visão paradisíaca do mundo, e
mesmo ouvindo a voz de Ulisses, ele não pode se libertar desse apego ao
todo da natureza para começar a olhar de outra maneira. Por isso, no mo­
mento da castração simbólica, quando Ulisses o priva do seu único órgão

Evgen Bavcar é fotógrafo, escritor e filósofo esloveno naturalizado francês. Cego desde
os 12 anos, vem desenvolvendo um trabalho sobre o estatuto da imagem na contempo-
raneidade. E doutor em Filosofia e Estética. Pesquisador do CNRS (França), desde 1976
e autor de inúmeros livros, dentre os quais Le voyeur absolu (1992).
Tradução de Francis Poulet, estudante de Antropologia em Lyon, França; revisão de M a­
ria Carolina Vecchio e Freda Indursky.

17
da visão, ele continua olhando em monocular e cai na armadilha do gran­
de espertalhão que conhecia a diferença entre forma e conteúdo, entre o
nome e a coisa. Mais precisamente, para o Ciclope, Ulisses e Ninguém são
um só e como seus irmãos entendem que ele não foi a vítima de ninguém,
eles não vão socorrê-lo. A sua visão continua sendo unidimensional e não
pode se opor à percepção binocular de Ulisses que vê, poder-se-ia dizer, o
nome e a coisa, em paralelo ou separadamente, conforme serve a seus pla­
nos estratégicos. Com Ulisses, aparece o olhar ligado ao saber: Ele vê o
que sabe e nada mais. Claro, é a mesma coisa com o Ciclope, mas sem saber
olhar, não há pensamento diferenciado e, consequentemente, ele deve olhar
sempre a mesma coisa, isto é, a unidade da natureza, o Um e indivisível na­
tural, que o leva ao seu trágico final. No desenvolvimento do “saber olhar”
mítico, Ulisses representa o olhar normal, isto é, a visão comum, a visão na­
tural, considerada perfeita. Ulisses tendo vencido a batalha contra o Ciclo­
pe, o olhar monocular fica inadaptado quando o olho humano começa a pensar
o que vê e a fazer a diferença entre o significante e o significado, entre o ob­
jeto e o seu signo, a pessoa e o seu nome. De tal maneira que, em relação ao
Ciclope, Ulisses se situa no mesmo nível que a criança frente ao espelho, fren­
te ao objeto que vai fazer nascer nele o olhar diferenciado. Não é por acaso
que o olhar do Ciclope é representado na arte na forma de um espelho. Na
realidade, a figura de deste monstro infeliz repercute a nossa própria experiên­
cia diante do espelho que nos força a separar a imagem refletida do seu ob­
jeto real. Na realidade, somos todos ciclopes infelizes, tendo esquecido o
nosso destino trágico, certos e convencidos de que o olhar binocular de Ulisses
é a única resposta para a natureza. Isso significa que a nossa condição de
Homens acha com Ulisses a distância que nos permite pensar o mundo sem
recair na fatalidade mítica. O sacrifício do olhar monocular do Ciclope é
necessário para pagar o privilégio de não olhar sempre a mesma coisa, sem
condições e sem esperança de também ver por nós mesmos. O olhar mono­
cular é o olhar da fatalidade que é, afinal de contas, cega porque se refere a
si mesma, se repetindo infinitamente como o fazem os espelhos. Nessa pers­
pectiva, Ulisses representa o olhar destacado do determinismo arcaico que,
no destino de Edipo, vai vestir uma outra forma, a cegueira.
O rei, não tendo reconhecido a sua mãe, fica cego para poder olhar
a mulher. Isto é, para superar o pecado original no qual ele cai sem sa­
ber. Assim, a sua resposta à Esfinge: “É o Homem” encontra todo o seu
valor. Binocular perfeito, Edipo não sabia que não podia sair da fatalida­
de mítica sem cair na consciência da sua condição de homem; e é aqui
que começa a se preparar o nascimento do terceiro olho. Édipo, tendo
perdido a visão - a sua dupla visão - não pode mais navegar entre a vol­
ta para a fatalidade e a separação insuportável de um Ulisses que se con-

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tenta com a diferenciação visual entre o nome e a coisa. Privado dessa
capacidade, Édipo se dirige para uma terceira possibilidade, uma visão
que vai além do todo-mítico e o ver diferenciado de Ulisses para se dire­
cionar ao invisível. A frase de Kazantzakis talvez tenha sido escrita para
esses Ulisses satisfeitos com eles mesmos e com suas visões diferencia­
das: “Que pena dos nossos olhos de argila, porque não podem perceber
o invisível”. Para Édipo, trata-se do sacrifício dessa argila para que o in­
visível - uma outra forma de existência - se tom e o objeto do seu dese­
jo. Privado da visão binocular, ele acha um referente sintético no tercei­
ro olho, pois só esse pode ir em direção ao invisível. Infelizmente, o des­
tino de Édipo foi freqüentemente mal-entendido, pois os cristãos o con­
sideraram às vezes como “o monstro grego”, sem admitir que ele repre­
sentava uma parte deles mesmos. É por isso que a tradição cristã o subs­
tituiu pela figura de Santa Luzia, que mexe mais no plano do imaginário
e, com a acentuação iconográfica da castração simbólica, tenta ocultar
ao mesmo tempo, a castração real e a noção do pecado original. Também
não podemos esquecer todas as grandes injustiças, os preconceitos e os
ultrajes que afetam aqueles que, no imaginário, fazem o papel de Édipo,
o grupo social etiquetado “os cegos”, apesar do seu terceiro olho.
A arqueologia do olhar nos ensina que essa nova qualidade da visão
humana se expressa melhor ainda no olhar de Tirésias, arquétipo perfeito
do olhar desprendido dos fundamentos míticos. Tirésias nos propõe, de certa
maneira, os olhares-limite, isto é as visões que nunca aceitam o mundo
como está e sim como poderia ser. A sua interpretação da frase do oráculo:
“É preciso se defender dos persas atrás de paredes de madeira”, não se sa­
tisfaz com o significado contido no enunciado simples, mas procura ir além
de nomes como “paredes”, “madeira”, até criar a síntese num terceiro ter­
mo: “os navios”. O resultado dessa visão é um processo criador que a libe­
ra do determinismo contido nas palavras “paredes” e “madeira”. O olhar
de Tirésias, vai mais longe do que a visão dos simples mortais que vêem e
portanto entendem no primeiro sentido a reposta do oráculo: “tem que se
defender dos persas atrás de paredes de madeira”.
Poderíamos adicionar também neste processo dos olhares que os ar­
quétipos míticos nos livram, o olhar de Argus, que consegue tão bem ver
sem ser visto. É claro que isto nos levaria longe demais na arqueologia
da visão. Portanto, é verdade que o mundo moderno, com suas inumerá­
veis câmeras, visíveis e invisíveis, começa a sonhar com o poder de Ar­
gus quando, às vezes, na sua cegueira generalizada perde a consciência
de poder ser visto. Poder olhar sem ser visto é o sonho de um mundo
policial que não se pensa mais ele mesmo, mas se acha absoluto nas suas
visões aparentemente ilimitadas. Na época do todo visual, que começa a

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li«> lii ' i > In iiii|iiiilam ia do verbo e da narração, somos obri-
giiil" ......... ....... iii iobie as lãntasias de Argus para não nos esquecer
de qii«' p"i iiiiii’. |n*i leito que seja esse Argus que constitua a técnica da
ótica nu idi'i na, os olhos de argila, que nem sempre podem ir ver o invisí­
vel, sito o seu suporte real.
Quanto mais o mundo visível se estende, mais cresce também, na mes­
ma lógica e nas mesmas proporções, o mundo invisível. Para que servem
todos os satélites de observação, Argus do espaço, se não sabemos mais
olhar além do nosso pequeno cotidiano visível? Até os cientistas mais sé­
rios sabem que a extensão da nossa visão é muito pequena quando compa­
rada com o que as máquinas podem captar do real. O astrofísico Peter von
Balmoos acha que até os cientistas que observam o céu estão numa posi­
ção de cegos, pois no universo conhecido comparado com um piano de 53
oitavas, eles só podem ver uma mera oitava com os seus próprios olhos.
Neste caso, não deveríamos confiar somente no olhar tecnológico da ciên­
cia, se nossa língua, nossa representação interior, não são capazes de se-
gui-lo. Portanto, como diz um provérbio russo, é melhor “acreditar no seu
próprio olho, mesmo se for vesgo”.
No domínio da ciência moderna, seria desejável dar mais valor ao
nosso terceiro olho, aquele da representação interior, voltado para o in­
visível. Nosso mundo moderno se tornou uma evidente, pois aparente­
mente tudo é transparente e reconhecível. As câmaras que nos observam
desde o céu, mas também aquelas instaladas nos nossos lares terrestres,
são a expressão de um Argus tecnológico, que voltou seus inúmeros olhos
para o interior, isto é, para a auto-satisfação narcísica do olhar sobre si.
Nós nos observamos, tendo esquecido que esses olhares já são manipu­
lados e não nos permitem ver-nos como somos verdadeiramente. Sobre
esse assunto, poderíamos evocar o pessoal da televisão que é visto sem
poder ver; mas é assim para todo mundo: o fato de ser visto sem poder
olhar vira uma prática universalmente difundida. Ás vezes, eu penso que
o meu colega cego, na escola, dizia a verdade quando constatava que não
estávamos sós. Seria preciso definir de outra maneira a cegueira em re­
lação ao mundo dos videntes, que acreditam ver tudo, mas esqueceram
que passar por Édipo e Tirésias é o nosso destino comum. Plotin dizia:
“se os homens não tivessem alguma coisa de solar, eles não poderiam
perceber o sol”. Nós provavelmente nos esquecemos disso, recusando aos
nossos olhos, que participam da essência das estrelas, o direito às origens
e o direito de olhar para o infinito
Todavia, em todas as épocas da história do homem, existiu um infi­
nito, além do horizonte do nosso olhar físico. O infinito, como aspiração
para ir além do visível, sempre foi a nossa vontade de ver as coisas exte-

20
riores pela nossa interioridade também, e de dar assim ao nosso olhar ex­
terior a capacidade de exceder as visões mais imediatas. No olhar huma­
no de hoje, se reflete a memória de todos aqueles que, antes de nós, que­
riam olhar com os seus próprios olhos e que nos deram como herança o
poder de continuar a missão deles nas dimensões temporais e nos espa­
ços do universo que são os nossos. É por isso que temos que levar a sério
essa missão transmitida por tantos olhares que, apesar de um apoio tec­
nológico fraco, descobriram novos mundos e realidades celestes inédi­
tas. Isto também significa que não devemos nos contentar com o céu es­
trelado por câmeras que nos observam, mas que sempre devemos tentar
olhar com os nossos próprios olhos, por mais frágeis que sejam. São os
cegos que recusam ver somente através do unidimensional do olhar e que
acreditam na necessidade mítica da passagem pela cegueira para acessar
a uma nova visão do mundo. Não posso imaginar nova visão que não te­
nha sua origem no ponto cego que dá ao olho humano a possibilidade de
distinguir entre a luz e as trevas.
Aceitar a cegueira é admitir o mundo dos objetos que manifestam a
sua materialidade através das sombras que lhes asseguram uma realidade
tangível, além da transparência absoluta do todo-visível. Não podemos virar
reféns da luz fugindo á fatalidade mítica que nos priva da alegre fusão com
a natureza, para poder tomar distância e entender o enigma da Esfinge. Por
isso, nunca quis considerar a cegueira no mero plano individual, isto é, no
gueto do grupo social do qual pertenço, mas sempre em um contexto mais
amplo da experiência universal. Para mim, os cegos representam o único
grupo que ousa olhar o sol bem nos olhos. Como as antigas vítimas propi­
ciatórias imoladas aos cultos solares, eles aceitam o sacrifício para que outro
sol se levante. Esses Narcisos sem espelhos e esses pintores privados de
imagens, para mim, nunca constituiriam uma categoria separada na qual a
humanidade teria querido os deixar, mas são seres humanos inteiros. E
encontro freqüentemente arquétipos da cegueira quando vago em minhas
galerias interiores onde, às vezes, convidados insólitos me fazem compa­
nhia em meus olhares para o invisível. Essas silhuetas não me amedron­
tam como antes, quando a decisão de outrem, muito mais do que minha
própria experiência, faziam de mim um cego. Se me defino como icono­
clasta exterior e iconófilo interior, é para tentar reconciliar os dois modos
de visão possíveis, e sobretudo para revalorizar o olhar do terceiro olho.
Penso que, desde os gregos, esse foi esquecido ou escondido pelos progres­
sos de uma visão que pretende ver tudo sem saber nada e sem representar
o que ela viu. Comunicando ao outrem as imagens dos meus próprios al­
gures, faço de minha fotografia uma espécie de diálogo que lhe assegura
uma existência interativa. Pensando bem, me contento com o frágil vis­

21
lumbre que ilumina os meus espelhos interiores e dão um sentido às ima­
gens dos sonhos. Porque esquecemos muito freqüentemente que os sonhos
também precisam de luz e de ícones a quem mandar as suas rezas notur­
nas. Por mais fracas que sejam, as imagens de sonhos sempre são a expres­
são de uma natureza outra que, na banal transparência do cotidiano, opõem
as frágeis visões iluminadas interiormente, isto é, por elas mesmas.
Podemos, com a mesma lógica que fez dizer a Plotin que o olho hu­
mano não poderia ver o sol se não tivesse ele mesmo alguma coisa solar,
afirmar que o dia que nos maravilha não nos daria uma mera imagem se o
nosso olho não estivesse preparado pelos sonhos noturnos. E se às vezes
somos forçados a observar o mundo de olhos fechados, é sobretudo para
conservar o caráter frágil dos sonhos que nos levam para os espelhos do
invisível.

22
CORPO: PONTE PARA O MUNDO

O sw aldo G iacóia Ju n io r

Para Nietzsche, quando se considera a história da filosofia, até ago­


ra, de um ponto de vista suficientemente crítico, pode-se constatar que “o
pior, o mais persistente, o mais perigoso de todos os erros foi um erro de
dogmáticos, a saber: a invenção por Platão do espírito puro e do Bem em
si . ” 1 É desse pesadelo dogmático que o pensamento crítico pode nos des­
pertar. Nossa tarefa, como filósofos, consiste precisamente em permane­
cer despertos e, justamente por isso, colocar a verdade novamente sobre
os próprios pés, pois o sortilégio de Platão consistiu em colocá-la de cabe­
ça para baixo.
Embalada pela crença na invenção platônica do espírito puro e do Bem
em si, ao herança filosófica de Platão reputou o subjetivo - perspectivísti-
co como o contrário da verdade, isto é, como erro, engano, ilusão. Porém,
o que ocorreria se acordássemos do pesadelo dogmágico em que nos mer­
gulhou Platão?
Revelar-se-ia o caráter onírico daquela invenção e, com ele, a possi-
blidade de que a verdade estivesse justamente do outro lado: aquele do dis­
farce, do velamento, da aparência; que a condição da verdade fosse a mes-

Oswaldo Giacóia Junior é professor universitário, coordenador associado do Curso de


G raduação em Filosofia do IFCH/Unicamp. É doutor e pós-doutor pela Freie Universität
Berlin. É pós-doutor pela Universidade de Viena da Áustria. Dentre as suas publicações
mais recentes destacam-se “O último homem e a técnica moderna”, publicado na Revista
Internacional de Filosofia e Práticas Psicoterápicas, “Perspectivismo, genealogia e
transvaloração” na revista Cult, n.37. Também seus livros Labirintos da alma e Nietzsche
como um psicólogo - este último editado pela editora da Unisinos - podem ser considera­
dos como marcos na produção de pensamento contemporâneo.
1N ietzsche, F. Jenseits von Gut und Böse, Vorrede, in Sämtliche Werke, K ritische
Studienausgabep (KSA). Ed. G. Colli und M. Montinari. Berlin/New York/München: de
Gruyter, DTV, 1980, vol. 5, p. 12. Salvo indicação em contrário, as traduções são de m i­
nha autoria. A s letras BM. abreviam doravante : Para além de bem e mal, a tradução para
o português do título do livro de que foi extraída a citação.

23
ma da pele - que sem dúvida mostra algo, na superfície, porém somente
na medida em que, ao mesmo tempo, encobre uma profundidade que dis­
simula e subtrai ao olhar.
Se invenção do espírito puro e do Bem em si é uma ousada inversão
de valores ( Umwertung der Werte)', e uma vez que agora conseguimos des­
pertar do pesadelo platônico - esse é, de acordo com a convicção de
Nietzsche, o inteiro sentido da radicalização do projeto crítico kantiano e
de toda filosofia moderna - , então nossa tarefa mais autêntica e radical con­
siste em subverter a inversão platônica.
Esse é um dos principais sentidos do programa filosófico da transva-
loração de todos os valores (Umwertung aller Werte): “Minha filosofiap/a-
tonismo revertido: quanto mais afastado do verdadeiro ente tanto mais puro,
belo, melhor. A vida no brilho da aparência como meta ” .2
A vertente crítica desse programa se ocupa com a tarefa de demons­
trar que a crença em pressupostos, ou “preconceitos” metafísicos atávicos
não é um “equívoco” do passado, que tenha sido superado pela moderni­
dade filosófica. Ao contrário, ele se encontra presente não apenas no racio-
nalismo cartesiano e na filosofia que dele deriva, mas constitui uma espé­
cie de legado comum dessa modernidade.
Para Nietzsche, mesmo os aparentemente insuspeitos rincões da ló­
gica e das matemáticas, mesmo mais rigorosos defensores das ciências da
nataureza- ainda que professem o mais intransigente ateísmo e creiam uni­
camente na realidade da matéria - permanecem reféns de “ancestrais arti­
gos de fé metafísicos”, que têm sua raiz na crença platônica, de procedên­
cia imemorial, na dignidade filosófica na substância imortal da alma, esse
nosso “verdadeiro Eu” .
E para revelar a eficácia latente do platonismo, mesmo em seus ad­
versários filosóficos mais professos, que Nietzsche empreende sua crítica
genealógica da modernidade filosófica; seu propósito é denunciar o dog­
matismo inconsciente de que se nutrem as mais diversas tentativas de fun­
damentação objetiva do conhecimento e da moralidade.
Tomemos como ponto de partida o fundamentalismo racionalista de
Descartes. Contra o fundamento arquimediano das ciências, Nietzsche ob­
jeta que a evidência presente na proposição “penso, logo existo”, ao con­
trário do que pensava o pai da filosofia moderna, não é uma certeza imedia­
ta, uma intuição, uma presença objetiva e transparente ao espírito da res
cogitans, mas derivada, por inferência inconsciente, que tem por base a
estrutura gramatical da proposição atributiva.

%
: Nietzsche, F. Fragmento póstumo do final 1870-abril de 1871, número 7 [156], In: KSA,
v. 7 ,p 199.

24
Sejamos mais cautelosos do que Descartes, que se manteve preso à arma­
dilha das palavras. Cogito é, decididamente, apenas uma palavra, porém
ela significa algo múltiplo: algo é múltiplo e nós, grosseiramente, o deixa­
mos escapar, na boa fé de que seja uno. Naquele célebre cogito se encon­
tram: 1) pensa-se; 2) eu creio que sou eu que pensa; 3) mesmo admitindo-
se que o segundo ponto permanecesse implicado, como artigo de fé, ainda
assim o primeiro ”pensa-se contém uma crença, a saber: que “pensar"
seja uma atividade para a qual um sujeito, no mínimo um “isso” deva ser
pensado - além disso, o ergo sum nada significa! Mas isso é fé na gramáti­
ca; aqui já são instituídas “coisas” e suas “atividades”, e nos afastamos da
certeza imediata. Deixemos, então, de lado aquele problemático “isso”, e
digamos cogitatur, como fato, sem intromissão de artigos de fé. Dessa
maneira, novamente nos iludimos, pois também a forma passiva contém
artigos de fé, e não apenas “fatos”; in summa, precisamente o fato não se
deixa estabelecer de maneira nua, o “acreditar” e o “opinar” estão introdu­
zidos no cogito do cogitat e do cogitatur-. Quem é que nos garante que,
com o ergo, nós não extraímos algo desse acredtiar e opinar, algo que
remanesce? Algo é acreditado, logo acredita-se em algo - uma falsa forma
de conclusão! Por fim, já se deveria saber o que é “ser”, para retirar-se do
cogito um sum, já se deveria igualmente saber o que é saber - parte-se da
crença da Lógica, sobretudo no ergo, e não apenas no estabelecimento de
um fatum [...] O que é conhecer, em relação ao ser? Para aquele que, para
tais questões, traz preparados consigo artigos de fé, a prudência cartesiana
não tem mais nenhum sentido, ela chega demasiado tarde. Antes da ques­
tão do ‘ser”, deveria estar decidida a questão do valor da Lógica.3

Nietzsche considera, pois, que a evidência do cogito é caudatária da


divisão da sentença gramatical elementar (sujeito - objeto), duplicada na
categoria lógica de subsistência (substância) - inerência (atributo). O “in­
concusso fundamento” pretendido por Descartes é, na verdade, obtido a
partir de um deslizamento inconciente que parte da divisão gramatical,
passando pelas categorias lógicas de substância e atributo e, dela, para a
de causa - efeito, que nelas repousa.
Esse raciocínio seria o seguinte: a) penso; b) pensar é atividade, e toda
atividade é atributo de um sujeito (um substratum, uma substância), que
tem que ser pensado como agente; logo c) eu, o sujeito, sou. Daí porque
Descartes possa, partindo de “eu penso, eu sou”, consolidar sua segunda

’Nietzsche, F. Fragmento póstumo de agosto-setembro de 1885, numerado como 40 [23]; in:


KSA, op. cit, v. 11, p. 639s. Esse fragmento é desmembrado nos aforismos 16 e 17 de BM.

25
certeza inabalável: “eu sou uma substância cuja essência ou natureza con­
siste no pensar (res cogitans)".
Quando, porém, desmembramos essa célebre proposição, nela não en­
contramos senão “a superstição popular” que está no alicerce de todo ma­
jestoso edifício dogmático: a crenca no sujeito lógico-gramatical como
unidade substancial. Aquela proposição contém, pois,

uma série de afirmações ousadas, cuja fundamentação é difícil, talvez


impossível; por exemplo, que sou eu que pensa; que, em geral, tem que
haver um “algo” que pensa, que pensar é uma atividade e um efeito de
parte de um ser, que é pensado como causa, que existe um “eu”, final­
mente, que já está estabelecido o que deve ser designado com pensar -
que eu sei o que é pensar.4

Se vai a pique o empreendimento cartesiano de fundar o inteiro edi­


fício do saber verdadeiro sobre a imediatez do cogito, igual destino viti­
ma a antítese do projeto racionalista, a saber a tentativa empirista de fun­
dam entar o conhecimento em certezas hauridas em percepções simples
e imediatas.
Nesse caso, a refutação nietzscheana toma Locke e sua posteridade
filosófica como os endereçados principais. Contra eles, Nietzsche faz ver
que os conceitos e os sistemas filosóficos não surgem, nem se desenvol­
vem, arbitrariamente, mas conforme um desdobramento orgânico, como
os “membros da fauna de alguma parte da terra”, um ecossistema, diría­
mos hoje. Conceitos e sistemas historicamente existentes são especifica­
ções de um “esquema básico de filosofias possíveis” que sempre percor­
rem a mesma órbita, sucedendo-se numa ordem determinada.

O assombroso parentesco de família de todo filosofar hindu, grego, ale­


mão, se explica com bastante simplicidade. Justamente onde existe um
parentesco linguístico, toma-se impossível, em absoluto, evitar que, em
virtude da filosofia comum da gramática - quero dizer, em virtude do do­
mínio e da direção inconsciente de funções gramaticais idênticas - tudo se
encontre disposto de antemão para um desenvolvimento e uma sucessão
homogêneos dos sistemas filosóficos: do mesmo modo como parece estar
impedido o caminho para possibilidades distintas de interpretação do mun­
do. Os filósofos da área lingüística uralo-altáica (na qual o pior desenvol­
vido é o conceito de sujeito) olharão com grande probabilidade “o mundo”

1Nietzsche, F. BM, 16; op.cit. p.29.

26
de maneira diversa, e serão encontráveis em outros caminhos que os dos
hindugermanos e muçulmanos.5

Nesse caso, o núcleo do argumento consiste em demonstrar que a pro­


veniência de nossas idéias não é simples e imediata, um decalque de nos­
sas impressões sensíveis elementares, mas lógico gramaticalmente pré-for-
madas; por sua vez, a estrutura gramatical da língua que falamos tem raí­
zes históricas, ligadas aos avatares da constituição e desenvolvimento de
um povo, de uma cultura - variando, portanto, de acordo com as matrizes
linguísticas que estão na base das grandes unidades culturais e étnicas.
Também no caso da proveniência das idéias, com ojá se evidenciara
com a análise do cogito, a interpretação é inseparável do fato: do mesmo
modo que “a verdade”, doravante, tem estatuto metafórico e só pode figu­
rar entre aspas, assim também ocorre com “o mundo” - que se estrutura
como outro universo para um filósofo de outra raiz linguística, com uma
gramática diferente da hindogermânica.
Vemos, pois, que nem racionalismo nem empirismo podem prover
uma fundamentação objetiva do conhecimento. Além disso, quanto à des-
construção da evidência do cogito, ela desencadeia também, segundo
Nietzsche, processo filosófico de importância central para a modernida­
de: a diluição da noção de subjetividade predominante na tradição.
A certeza gerada pelo eu penso, como é patente, tem seu fundamento
na clareza e na distinção produzida pela representação. Esta, por seu tur­
no, quase sempre esteve identificada com a atividade da consciência, inte­
lecto, mente, espírito, ou razão que, sob tal ponto de vista, podem ser to­
mados como termos sinônimos: o fundamento epistemológico da represen­
tação é a complementaridade entre entre sujeito e objeto; como ego cogi­
to, o sujeito da representação é idêntico à unidade da consciência.
Para Nietzsche, é justamente a dissolução dessa unidade que se en­
contra em ação na filosofia modema. É nesse sentido que o ceticismo pode
ser interpretado como a tendência geral dessa filosofia; seu propósito, cons­
ciente ou não, é o solapamento da segurança inspirada pela certeza inaba­
lável da consciência de si. Por essa razão, Nietzsche situa o próprio Kant
nas trincheiras do movimento cético:

No fimdo, o que faz, pois, toda a filosofia mais recente? Desde Descartes? -
e, em verdade, mais em oposição a ele do que sobre a base de seu preceden­
te - por parte de todos os filósofos, sob a aparência de uma critica do concei­
to de sujeito e predicado, cometc-se um atentado contra o antigo conceito de

5BM, 20, p.34s.

27
alma - quer dizer, um atentado contra o pressuposto fundamental da doutrina
cristã. A filosofia mais recente, como ceticismo gnoseológico, é, de maneira
velada ou abertamente, anticristã: ainda que não seja, de modo algum, anti-
religiosa, seja dito para os ouvidos mais sutis. Outrora, com efeito, acredita­
va-se na “alma”, como se acreditava na gramática e no sujeito gramatical:
dizia-se “eu” é condição, “penso” é predicado e condicionado - pensar é
uma atividade para a qual tem-se que pensar como causa um sujeito. Depois,
com uma tenacidade e astúcia dignas de admiração , fez-se a tentativa de ver
se não se poderia sair fora dessa rede - se, por acaso, o contrário não seria
verdadeiro: “penso”, como condição, “eu” como condicionado; “eu”, por­
tanto, apenas uma síntese produzida pelo próprio pensar. No fundo, Kant
quis demonstrar que, partindo do sujeito, não se poderia demonstrar o sujeito
- o objeto também não: pode não lhe ter sido sempre estranha a possibilidade
de uma existência aparente do sujeito, isto é, “da alma”.6

Porque o sujeito tem seu estatuto ontológico fundado na unidade sim­


ples da consciência, a desubstancialização da subjetividade cartesiana, le­
vada a efeito pela dedução transcendental das categorias do entendimen­
to, na Crítica da razão pura, assim como a resolução da primeira antino­
mia, na Dialética transcendental, de fato, denuncia o paralogismo come­
tido por Descartes, mas para colocar em seu lugar a pressuposição neces­
sária de uma unidade formal integrando num sujeito a síntese das repre­
sentações. Nesse processo, o “eu penso”, como apercepção transcenden­
tal perde toda substancialidade, reduzindo-se à consciência formal de um
“eu”, que deve acompanhar todas as demais representações, precisamente
para que estas se unifiquem num sujeito.
O que, todavia, permanece metafísicamente o mesmo é que a subjeti­
vidade, apesar de meramente aparente, ou seja, de ser o efeito da síntese re­
alizada pelo pensar, continua fundada na categoria de unidade simples. Por
isso, a crítica de Nietzsche atinge também esse ponto do programa crítico
kantiano, enredado pelo sortilégio da unidade gramatical, tal como outrora
Descartes. Tendo-se volatilizado o antigo “eu”, Nietzsche pode escrever:

Um pensamento vem quando “ele” quer, e não quando “eu” quero; de ma­
neira que constitui uma falsificação da realidade efetiva dizer, o sujeito “eu”
é a condição do predicado “penso”. Isso pensa: mas que aquele “isso” seja
precisamente o antigo e prov erbial “eu” é, para dize-lo de modo suave, nada
mais do que uma hipótese, uma asserção, sobretudo não uma “certeza imedia-

6BM, 54, p.73.

28
ta”. Definitivamente, dizer “isso pensa” já é dizer demasiado: já esse “isso
contém uma interpretação do processo, e não faz parte do mesmo."

Portanto, nem como consciência formal, nem como substância pen­


sante, o auto exame da representação não pode demonstrar a unidade efe­
tiva da subjetividade. Pelo contrário, a radicalização do criticismo poderia
mesmo avalizar a convicção do caráter ilusório dessa unidade.
Mas, se pela via do “eu penso” (pelo caminho da representação) não
fazemos senão nos enredar nas malhas da própria representação, não nos
seria permitido um acesso à essência do real por uma intuição, ou certeza
imediata de outra espécie, a saber pela imediatidade da vontade? Não se­
ria a Vontade, no sentido schopenhaueriano do termo a “coisa em si”?
Para além de toda representação organizada pelo princípio de razão -
para além, pois, de espaço, tempo, causalidade; portanto para além de toda
possibilidade da sucessão, da contiguidade e da multiplicidade - , não atin­
giríamos o núcleo metafísico necessariamente uno da realidade por meio do
querer, do ato de vontade, objetivada em meu corpo, que não tenho, mas sou?
Esta foi, com efeito, a solução encontrada por Schopenhauer. E, se
Nietzsche interpreta a filosofia de Schopenhauer como o ponto mais alto do
desenvolvimento da metafísica, isto é, sua transformação em ciência e em
sistema, então a refutação da doutrina schopenhaueriana do corpo e da von­
tade será, para ele, também outro golpe mortal no dogmatismo metafísico.
Paradigmática, a esse respeito, é a análise levada a efeito no aforis­
mo 19 de Para além de bem e mal. Como veremos a seguir, também esse
caminho não conduz à “verdadeira” realidade, à essência do universo, ao
núcleo ontológico da coisa mesma; ou seja, também aqui não haverá como
deslindar o fato da interpretação.

Os filósofos costumam falar da vontade como se esta fosse a coisa mais


conhecida do mundo; sim, Schopenhauer deu a entender que a vontade era a
única coisa por nós propriamente conhecida, inteiramente conhecida, conhe­
cida sem subtração e acréscimo. A mim parece, porém, que Schopenhauer,
também nesse caso, só fez precisamente o que filósofos costumam fazer: que
ele assumiu e exagerou um preconceito popular. Querer parece, para mim.
sobretudo algo complicado, algo que somente como palavra é uma unidade,
- e justamente em uma palavra reside o preconceito popular, que se tomou
senhor da sempre apenas exígua precaução dos filósofos. Sejamos, pois, uma
vez, mais precavidos, sejamos “não-filosóficos”.8

7BM, 17, p. 31.


"Nietzsche, F. Id. Aforismo 19, op. cit., p. 31 s.

29
M- Jo ^m ntade, o expediente cuja ação
eedita-se, no plano da analise da eraliza_se a superstição da
ternos na análise da rePr e s ®n t a ç a 0 oT, pcão do intelecto. Desse modo,
C° nSt^e extraída de uma superficial auto m P observara a respeito dos
unida^ apiicar a esse contexto, o que N ie ^ forte evldência: “Também
Podej ent°s e percepções que se imPoern , Daiavra não garante a uni-
sentlTln^ sucede Sequentemente, a lf uda l l u s a 0 mduzida pela simpli-
a1, coisa ” 9 - também aqui nao ha s «Vontade” correspondesse
dade ja palavra, como se à unidade do
cidade .dade, ou simplicidade do querer.
\y
t. - lugar, uma pluralidade de senti-
pjgamos: em todo querer ha. em p ^ nos af aslamos, o sentimen-
^ntos, a saber, o sentimento do estad to desse própn0 “afastar-se”
do estado para o qual tendemos, o sC muscular que os acompa-
desse “tender", e, além dtsse um s e n ™ « ° ^
p e que. ISo logo “queremos . u n i q u e n ^ ^
..jjraços e pernas , inicia seu jogo por um
m a nluralidade de sentimentos; e
pn todo ato volitivo existe, pois, u m Pensament0 que comanda faz
apenas sentimentos, pois também u P ^ ^ ^ deye acredltar que
n e c e s s a r i a m e n t e de toda ^ ^ L a i i e r e r ’ como se então áinda per-
Pa d 5a separar esse pensamento do q u complexo do que
se P° esse a vontade!”" Querer e, pois, a g muito m P
arecer, à p a rtir da unidade nominal de Vontade u p
P° e .„separávelmente todo sentir e ■ q uerer complexo de sentir
te ^ ..Ém terceiro lugar, a vontade e ^ ^ L a q u e l e afeto do comando.
ar, mas sobretudo ainda um afeto, a ^ , essencialmente 0 a f e t 0
eA> q u e e ,d ®t l 0 m i n a d 0 ] ,o L e tem que obedecer: ‘eu sou livre’,
de V 10ndaoK 7 ^ 7 , ^ 0 ato de vontade se produz na e pela divi-
f , tem que o b ed ecer . Todo ato ae _ mesmo e nao m 0 va-

*5 00'«*™ d° ",E u "- ExlS,t ó' P-0,S' T '" „ m “eu” que comanda e um “ ele” ,
m úsculo - uma d.vrsao, entrs u * eu ^
ú i s e r ç ^ i ^ u e ^ complexacorTelação de forças que
&il11 V4t/ ^ ua 111JW* y—------ x
me11...
n1 i,tui; todo q u erer, tem que nhpdecer.
obedecer.
con5

~~w , i 14 Trad. Paulo César de Souza. São Pau-


.^che, F. Hut>tano, demasiado humano, I,
'^'.^panhia das Leiras, 2000, p.24s.
1®.jjKíche, F. B M , 19, op.cit. p.31 s.
iiiW
ulbiJ

30
Ora, pois, observe-se agora o que é o mais assombroso na vontade - nessa
coisa tão complexa, para a qual o povo tem apenas uma palavra: na medida
em que, em cada caso dado, somos, ao mesmo tempo, os que comandam e
os que obedecem - e, como os que obedecem, conhecemos os sentimentos
do constranger, urgir, pressionar, resistir, mover, que costumam ter início
imediatamente depois do ato da vontade; na medida em que nós, por outro
lado, temos o hábito de nos transplantar enganosamente para além dessa
dualidade, por meio do conceito sintétido “eu”, - acrescentou-se ainda à
vontade toda uma corrente de errôneas conclusões e, consequentemente,
de falsas avaliações da própria vontade, - de maneira que aquele que quer
acredita, de boa fé, que querer seja o bastante para a ação.13

Nessa passagem, a noção, anteriormente mencionada, de unidade sin­


tética do eu adquire um sentido ligado ao universo do querer, não mais da
representação. A síntese nele realizada é aquela da pluralidade de vivên­
cias e estados psíquicos numa unidade criada pela consciência. Nesse sen­
tido, a consciência produz uma identificação do “Eu” com o já menciona­
do afeto do comando.
Dessa maneira, quando queremos e esperamos que o comando da von­
tade seja executado, pela via da descarga do querer como ação, identifica­
mo-nos com os sentimentos próprios dessa condição, como o coagir, o
oprimir, o constranger, deixando na sombra a dualidade inerente a toda
relação de comando, a saber: a dualidade entre poder e resistência.
Essa identificação reune estados antagônicos numa unidade fictícia,
cuja expressão se dá como consciência do poder “da vontade”, ou me­
lhor como consciência da “liberdade” . O essencial consiste aqui num
processo de unificação e identificação, cujo efeito principal é a simplifi­
cação do que é complexo:

Dado que, na maioria dos casos, só é realizado um ato de vontade onde


também podia ser esperado o efeito do comando, isto é, a obediência,
então traduziu-se em sentimento a aparência de que aqui haveria a ne­
cessidade do efeito-, é o bastante: aquele que quer acredita, com um con­
siderável grau de segurança, que, de algum modo, vontade e ação sejam
uma única coisa - , ele atribui o sucesso, a execução do querer, à própria
vontade e, ao fazê-lo, goza de um incremento daquele sentimento de po­
der que todo sucesso traz consigo. “Liberdade da vontade” - essa é a
palavra para aquele complexo estado prazeroso daquele que quer, que

11 Ibid

31
comanda e, ao mesmo tempo, se coloca como um com o executante, -
que, enquanto tal, co-experimenta o triunfo sobre resistências, porém jul­
ga consigo mesmo que seria sua própria vontade quem propriamente su­
peraria as resistências. Desse modo, aquele que quer acrescenta aos seus
sentimentos de prazer, enquanto aquele que comanda, aos sentimentos de
prazer das bem sucedidas ferramentas executantes, das “sub-vontades”
serviçais, ou das “sub-almas” - sim, nosso corpo é apenas uma estrutura
social de muitas almas.14

O que se apresenta, pois, sob o manto da unidade aparentemente sim­


ples da vontade, é um intrincado complexo psiquico, que deve ser cuida­
dosamente submetido à análise. Nele ocorre, com efeito, um duplo processo
de identificação: por um lado, no sentimento de prazer produzido pela obe­
diência ao comando, identificam-se a instância que comanda e as “subfer-
ramentas” executoras do comando. Nesse processo, o sentimento tônico
de ter sido obedecido domina a superfície da consciência e, fundindo-se
com ela, percebe-se a si mesmo como unidade.
Desse modo, o “Eu” acredita que basta a força de sua vontade para
que sejam vencidas todas as resistências que se opõem ao desencadeamento
do efeito desejado, ou seja, à ação efetiva. É nesse intrincado processo de
fusão e identificação que tem origem o sentimento de autarquia e liberda­
de da vontade. “L ’effet c 'est moi. ocorre aqui o que ocorre em toda comu­
nidade bem construída e feliz, a saber que a classe dirigente se identifica
com os sucessos da comunidade . ” 15
Completa-se, dessa maneira a dissolução de toda evidência que ain­
da poderia restar como cidadela recuada para a filosofia modema: a filo­
sofia subjetivamente centrada não pode mais subsistir nem no polo da re­
presentação, nem no polo da vontade. Em nenhum deles se repousa numa
unidade simples, o “Eu” se revelou como um abismo de problemas, em
nenhuma parte se tem acesso ao real, à coisa mesma, nem sequer pela via
do “Eu” ; o “fato” nu e puro jamais pode ser estabelecido. A consciência
filosófica está irremediavelmente encerrada no círculo infinito das inter­
pretações. Com isso, consumiram-se, por esgotamento as formas tradicio­
nais de acesso à “verdadeira realidade”.
É nesse horizonte essencialmente hermenêutico que Nietzsche arti­
cula sua hipótese global de interpretação da existência, fundada no con­
ceito de vontade de poder, sob o signo da certeza de que não há texto -
apenas interpretação. Curiosamente, o primeiro anúncio da doutrina da

14Ibid.
15Ibid.

32
vontade de poder, ou, dito com mais precisão, a primeira exposição con­
ceituai dessa doutrina se dá no aforismo 22 de Para além de bem e m al,
que se inicia justamente com uma espécie de elogio velado dafilologia.

Que, como a um velho filólogo que não pde abdicar da maldade de colo­
car o dedo sobre más artes de interpretação, me seja perdoado - mas
aquela “regularidade da natureza” de que vós físicos falais com tanto
orgulho, como se - subsiste apenas graças a vossa interpretação e má
“filologia”; - ela não é nenhum conteúdo de fato, nenhum “texto”, senão
apenas um arranjo e uma distorção de sentido ingenuamente humanitá­
rios, com os quais vindes fartamente ao encontro dos instintos democrá­
ticos da alma moderna!16

Aquilo que se encontra em questão no presente experimento é a pro-


blematização do mais aparentemente indisputado dos textos: aquele escri­
to pela hard Science, a física moderna. Esse texto é constituído pelas leis
naturais, pela regularidades que institui a unidade da experiência, cuja
máxima expressão se condensa na universalidade da lei segundo a qual os
efeitos são produzidos a partir de suas causas. É a isso, desde Kant, que se
dá propriamente o nome de natureza, a saber, a existência das coisas, na
medida em que é determinada por leis universais.
Para Nietzsche, essa regularidade é, em primeiro lugar, interpretação,
não-texto. Em segundo lugar, pode-se dizer que se trata de uma interpreta­
ção ideológica, na medida em que representa a consagração inconsciente
do modo tipicamente democrático de pensar - dos instintos democráticos,
no vocabulário provocativo de Nietzsche.
Com efeito, se existem leis na natureza, isso tem, pelo menos, dupla
conseqüência: em primeiro lugar, trata-se de leis uniformes, às quais estão
submetidos todos os fenômenos da natureza - de maneira que, todos são
igualmente governados por tais leis.
Em seguida porque, perante a imutabilidade de tal ordenamento, nada
se pode fazer: como elementos da natueza, todos os homens estão igual­
mente submetidos às suas leis; tais leis são universais e necessárias, por­
tanto ninguém pode modificá-las, não se pode senão obedecê-las. Mesmo
a pretensa dominação humana da natureza não é senão sujeição a essas leis.

Porém, como foi dito, isso é interpretação, não texto: e poderia vir al­
guém que, com um propósito e arte de interpretação antitéticos, soubesse

“ BM, 22, p.37.

33
extrair, da leitura da mesma natureza e em face dos mesmos fenômenos,
precisamente a imposição, tiranicamente impiedosa e inexorável de pre­
tensões de poder - um intérprete que soubesse colocar diante de vosos
olhos a universalidade e incondicionalidade vigentes em toda “vontade
de poder”, de tal maneira que quae toda palavra, até mesmo a palavra
“tirania” finalmente parecesse inutilisável ou já como uma metáfora
debilitante e suavizadora - algo demasiado humano. E que, inobstante,
afirmasse desse mesmo mundo aquilo que vós afirmais, a saber, que ele
tem um curso “necessário” e “calculável”, porém não porque nele domi­
nem leis, senão porque faltam absolutamente leis, e todo poder, em cada
instante, extrai sua derradeira conseqüência.17

E indispensável prestar atenção em dois aspectos relevantes nesse tre­


cho: em primeiro lugar o cenário rigorosamente filológico em que o expe­
rimento transcorre: trata-se de um afrontamento entre duas interpretações:
por um lado, a interpretação mecânica do universo, que repousa sobre o
“texto” das leis naturais; por outro lado, uma “arte de interpretação e pro­
pósitos” opostos.
A refutação do estatuto de texto pretendido pela interpretação meca-
nicista do universo pode ser ilustrado ‘estudo de caso’ do atomismo mate­
rialista, tal como é levado a efeito por Nietzsche, à luz das implicações e
resultados epistemológicos da teoria da ação a distância formulada por
Boscovitch. Nietzsche argumenta que, ao ocontrário do que se pretende,
não nos encontramos perante uma superação do antigo e “ingênuo” ato­
mismo metafísico de Demócrito, mas de interpretação que se mantém in­
conscientemente refém de velhas armadilhas metafísicas.
No aforismo 12 de Para além do bem e do mal, Nietzsche se incum­
be de dar sustentação a seu argumento: “No que se refere ao atomismo ma­
terialista, esta é uma das coisas mais bem refutadas, e talvez não exista hoje
na Europa, entre os eruditos, ninguém tão inculto que continue atribuindo
a ele uma significação séria, exceto talvez para uso doméstico, a saber, como
uma abreviatura dos meios de expressão . ” 18
Percebe-se que, desde o início, que o pretenso texto não consiste se­
não em uma economia de meios de expressão, na medida em que fomece
um esquema abreviado para descrição de fenômenos empíricos. Descre­
ver a realidade empírica a partir da hipótese da combinação de partículas
ou átomos de matéria é uma simplificação, para fins de descrição e mani-

l7lbid.
l8Nietzsche, F. BM. Aforismo 12. In: KSA Op. cit. v. 5, p.262s.

34
pulação de certos fenômenos ousei vavcia, ^ M<Jv.______
que a própria “realidade” seja composta de tais átomos materiais.
A inferência nesse sentido pressupõe a petição de princípio de acor­
do com a qual seria possível conhecer essa estrutura básica do real, inde­
pendente de nossas hipóteses, ou, dito de outro modo, independentemente
das condições “subjetivas” de nosso aparelho cognitivo, que se enraízam,
em derradeira instância, na estrutura lógico gramatical de nossa linguagem.

A refutação mais radical do atomismo materialista se dá, graças, sobretu­


do, àquele polonês Boscovich, que junto com o polonês Copémico, foi até
hoje o maior adversário e o maior vitorioso contra a aparência sensível.19

Copérnico e Boscovich figuram como aliados no combate à grosse­


ria filosófica que confia na aparência sensível; com isso, Nietzsche quer
dizer que os modelos matemáticos empregados por ambos permitem a cons­
trução de hipóteses teóricas sobre os fenômenos naturais que ultrapassam
os dados fornecidos pelos sentidos; não, porém, para retomar às hipósta-
ses da metafísica tradicional, isto é, as idéias ou essências inteligíveis.
Se modelos de Copémico e Boscovich também fornecem a moldura
teórica para uma “realidade inteligível”, distinta dos fenômenos forneci­
dos pelos sentidos, as conseqüências que se pode extrair de tais modelos
se encaminham numa direção inteiramente distinta da metafísica tradicio­
nal. Eles representam momentos avançados na história da ciência ociden­
tal porque eles dissolvem pseudo-evidências fossilizadas, até então admi­
tidas como verdades inquestionáveis.
Pois, enquanto Copémico nos persuadiu a acreditar, contra todos os
sentidos, que a terra não está fixa; Boscovich nos ensinou a abjurar tam­
bém da crença na última coisa na Terra que “estava fixa”, a crença no
“material”, na “matéria”, no átomo, nesse último resíduo de partículas
terrestres; foi esse o maior triunfo sobre os sentidos até então conquista­
do na Terra .20
Se, com Copémico, dissolve-se a crença na qual a Terra está fixa (aten­
temos para a polissemia desse “estar fixa” - isto é, ser inabalável, segura,
constante), então não se pode mais crer em nenhuma estabilidade no uni­
verso. Este se tornou, no mais radical sentido do termo, infinito.
Contra a ideologia positivista dominante no meio científico do final
do século XIX , é possível demonstrar que, a partir da noção de campo de
força de Boscovich, os fenômenos de ação a distância são inteligíveis sem

'Mbid.
-°Ibid.

35
suporte material elementar da força, o átomo de matéria, de onde a força
irradiaria seus efeitos.
Nesse sentido, a noção de campo de forças tomaria possível, segun­
do a interpretação de Nietzsche, operar unicamente com o conceito de for­
ça e de efetivação, sem necessidade do conceito de átomo material, ou de
substância simples, que acaba então por se revelar um precipitado episte-
mológico da categoria lógico gramatical de sujeito - portanto, um sucedâ­
neo materialista da crença na alma.
Percebe-se, pois, o primeiro objetivo estratégico do experimento de
Nietzsche: ele consiste em denunciar a falácia argumentativa implícita na
teoria que combate, em demonstrar que ela também é interpretação, não
texto - o que se faz a partir da revelação do caráter ideológico da pretensa
objetividade científica e da demonstração anterior do enraizamento lógi­
co gramatical (e, portanto, culturalmente determinado) de toda teoria.
Em seguida, percebemos o segundo momento do experimento pers-
pectivista: a contra dicção, propriamente dita. Opondo-se como intérprete
à física modema, o perspectivista, a partir da mesma natureza e em face
dos mesmos fenômenos, extrairia outra leitura, tendo como fio condutor
o coneito de “vontade de poder”.
A partir dessa ótica, o curso da natureza seria previsível, necessário e
calculável, justamente porque não há leis naturais, e sim porque na natu­
reza vigora incondicionalmente a vontade de poder. A necessidade nela
presente é aquela que vige em toda força, em toda relação de domínio e
sujeição: todo poder, a todo instante, extrai sua derradeira conseqüência.
Desse modo, a natureza, como vontade de poder, só pode ser pensa­
da como infinita multiplicidade de forças em relação, como um imensurá­
vel campo de forças, cuja essência consiste em sua efetivação integral, a
cada instante.
Que credencial tem a segunda interpretação, que a tomaria preferí­
vel à primeira? Que espécie de plus teórico se apresentaria em sua contri­
buição para a inteligibilidade da natureza? Em primeiro lugar, um nível
superior de auto reflexão e autocrítica: a interpretação baseada na vontade
de poder sabe de seu caráter incontomavelmente interpretativo - por isso
ela não pretende ser texto contraposto à interpretação física, do mesmo
modo como a “veracidade” de Nietzsche não se apresenta como mais ver­
dadeira do que a da tradição metafísica, mas a dissolve.
Em segundo lugar pelos efeitos potencializadores que produz: a in­
terpretação física, fundamentada na regularidade do curso da natureza con­
duz à resignação, à submissão do conhecimento e do agir humanos às leis
imutáveis e inflexíveis da natureza. A interpretação fundada na vontade de

36
pvjUCi 11UC1 a Ulll lllllllIdUVJ Iiun^umc UWu/^myau w upviaviuuauuuuv j w i v
a natureza (lembrem-nos das expressões “necessário” e “calculável”, que
remetem para o âmbito da operacionalização técnica da teoria); ela capa­
cita a vontade humana de poder para imprimir sobre a natureza sua pró­
pria legislação.
Esse segundo sentido do experimento é tão fundamental quanto o pri­
meiro, na medida em que Nietzsche escreve Para além de bem em mal como
prelúdio de uma filosofia do futuro, ou seja, como um texto que cria as con­
dições de possibilidade para o surgimento de novos filósofos - os legisla­
dores para os próximos milênios, uma vez que a legislação anterior entrou
em colapso, com a morte de Deus e, em conseqüência dela, com o niilis­
mo e o acabamento da metafísica.
Novos filósofos, esses espíritos muito livres necessitam de nova at­
mosfera espiritual. Essa atmosfera é propiciada por uma espécie de Au-
JkJanmg da Aufklàrnng, a saber por aprofundamento crítico do Esclareci­
mento. É impossível recuar daquele limiar filosófico já alcançado, ou seja,
é necessário que o pensamento se emancipe de toda tutela e vassalagem
que o mantinham agrilhoado ao obscurantismo e à superstição.
Todavia, é necessário ir mais adiante: justamente porque somos es­
clarecidos e emancipados, é imperioso que ousemos problematizar o va­
lor absoluto da verdade e colocar em questão a existência de qualquer
sentido objetivo, vigente na natureza ou na história, independente da von­
tade humana.
Dado esse passo, desaparece o texto, resta apenas o poder infinito da
interpretação instituidora de sentido e de valor. Justamente por esse moti­
vo o aforismo ora comentado conclui da seguinte maneira:
“Supondo que também isso não seja senão interpretação - e vós se­
ríeis pressurosos o suficiente para objetar isso? - ora bem, tanto melhor.” 21
A expressão final: ‘tanto melhor’ fomece a chave para a resposta à obje­
ção. Tanto melhor que seja interpretação, porque não há senão interpreta­
ção e, nessa medida, é melhor que ela seja consciente de si, coerente e não
mistificadora. É nesse sentido que Nietzsche se põe à busca da formula­
ção por que pretende garantir sua própria interpretação liberadora.
Um experimento levado a efeito com o intuito de dar consistência
epistemológica à própria tentativa de construir uma interpretação global
da existência, preparando as condições espirituais para o advento dos
novos espíritos livres, essa é a tarefa instituída pela conjunção entre o pers-
pectivismo e a doutrina da vontade de poder. Esse empreendimento, po-

21Ibid.

37
demos ve-lo em marcha por meio de uma análise dos aforismos 2 2 da
primeira seção de Para além cie bem e mal, combinado com o aforismo
36 da segunda seção -intitulada justamente o espírito livre. No aforismo
36, Nietzsche apresenta uma formulação conceituai rigorosamente pers-
pectivista da vontade de poder.

Suposto que nenhuma outra coisa seja “dada” como real, além de nosso
mundo de desejos e paixões, que não possamos descer ou subir a nenhuma
outra “realidade” que não justamente à realidade de nossos impulsos - pois
penar é apenas um relacinar-se entre si desses impulsos: não seria permiti­
do fazer a tentativa e formular a pergunta se esse dado não é bastante para
compreender, partindo do idêntico a ele, também o assim chamado mundo
mecânico (ou “material”)?22

A condição colocada como início do experimento - a saber, que o


único “dado” de realidade a que temos acesso é o complexo domínio de
nossas pulsões, uma vez que o pensamento resulta da oposição e aliança
entre impulsos só em parte conscientes - representa uma conquista tanto
da teoria do conhecimendo de Schopenhauer, que Nietzsche assume par­
cialmente, quanto de sua própria teoria do conhecimento, largamente de­
senvolvida em suas obras anteriores, particularmente, quanto a isso, em A
Gaia ciência.
Dada essa condição, não seria permitida a interpretação analógica,
de modo que, a partir do que nos é semelhante - a saber, do mundo orgâ­
nico - , poderíamos inferir algo a respeito do universo inorgânico? Em
outras palavras: uma vez admitido que, no mundo orgânico, vigora in­
condicionalmente a vontade de poder, não seria possível, por raciocínio
analógico, generalizar a hipótese, afirmando que ela vigora também no
mundo mecânico?
Para Nietzsche, esse alargamento não somente não é arbitrário e proi­
bido, como é lícito e ordenado, justamente pela racionalidade científica. É
necessário conduzir nossas hipóteses a um máximo possível de generali­
zação e uniformidade, economizando princípios supérfluos, sobretudo os
teoleológicos.
Assim o determina, com efeito, o rigor dos procedimentos, desde a
famosa navalha Guilherme de Ockam, pois a consciência do método tem
que ser “essencialmente economia de princípios .” 23

22BM, 36, p. 54s.


23BM, 13, p. 28

38
Por essa razão, não devemos acenai Víli uia t-opovivu uv -------
enquanto não tenhamos levado a seu extremo limite [...] a tentativa de nos
bastarmos com uma só .” 24 Isso decorre da própna definição de método, afir­
ma Nietzsche, parodiando o modo matemático de expressão.
Para que o experimento seja conduzido adequadamente, seria neces­
sário conceber o mundo inorgânico como uma form a prévia e mais primi­
tiva da vida:

como algo dotado de idêntico grau de realidade que aquele possuído por
nossos afetos - como uma forma mais tosca do mundo dos afetos, na qual
se encontra ainda englobado, numa poderosa unidade, tudo aquilo que em
seguida, no processo orgânico, se ramifica e configura [...] como uma es­
pécie de vida pulsional na qual todas as funções orgânicas, a auto regulação,
a asimilação, a alimentação, a secreção, o metabolismo, permancecem sin­
teticamente ligadas entre si.25

Se admitimos a causalidade da vontade - e Nietzsche não duvida que


a moderna consciência científica o faça considerando, por razões de mé­
todo, que não podemos asserir outra espécie de causalidade sem levar a
seu extremo limite aquela que admitidos; então, é necessário considerar a
causalidade da vontade como única.
Ora, sendo única a causalidade da vontade, então temos que admitir,
desde a doutrina kantiana da categoria de relação, que esta comporta, não
apenas causalidade e dependência, mas também comunidade e reciproci­
dade. Daí pode-se inferir que, se a vontade produz efeitos, isto é, se a von­
tade cansa, ela não pode produzir efeitos senão sobre algo que lhe seja
comum e recíproco, isto é, sobre vontade.
“A ‘vontade’, naturalmente, só pode produzir efeito sobre ‘vontade’
- e não sobre ‘matéria’ (não sobre ‘nervos’, por exemplo ) . ” 26 De onde re­
sulta legítima hipótese que se pergunta se, onde quer que se possa reco­
nhecer que efeitos são produzidos, não estaríamos em face da produção de
efeitos de vontade atuando sobre vontade; se, na medida em que em todo
acontecimento mecânico atua uma força, não estaríamos também aí em face
de uma força de vontade, de um efeito de vontade.

Suposto, finalmente, que se conseguisse explicar nossa inteira vida pulsional


como a conformação e ramificação de uma única forma fundamental da

24BM, 36, p. 55.


25 Ibid.
“ Ibid.

39
necessidade de se pressupor uma partícula atômica que seria como que o
suporte material elementar da força, o átomo de matéria, de onde a força
irradiaria seus efeitos.
Nesse sentido, a noção de campo de forças tomaria possível, segun­
do a interpretação de Nietzsche, operar unicamente com o conceito de for­
ça e de efetivação, sem necessidade do conceito de átomo material, ou de
substância simples, que acaba então por se revelar um precipitado episte-
mológico da categoria lógico gramatical de sujeito - portanto, um sucedâ­
neo materialista da crença na alma.
Percebe-se, pois, o primeiro objetivo estratégico do experimento de
Nietzsche: ele consiste em denunciar a falácia argumentativa implícita na
teoria que combate, em demonstrar que ela também é interpretação, não
texto - o que se faz a partir da revelação do caráter ideológico da pretensa
objetividade científica e da demonstração anterior do enraizamento lógi­
co gramatical (e, portanto, culturalmente determinado) de toda teoria.
Em seguida, percebemos o segundo momento do experimento pers-
pectivista: a contra dicção, propriamente dita. Opondo-se como intérprete
à física modema, o perspectivista, a partir da mesma natureza e em face
dos mesmos fenômenos, extrairia outra leitura, tendo como fio condutor
o coneito de “vontade de poder”.
A partir dessa ótica, o curso da natureza seria previsível, necessário e
calculável, justamente porque não há leis naturais, e sim porque na natu­
reza vigora incondicionalmente a vontade de poder. A necessidade nela
presente é aquela que vige em toda força, em toda relação de domínio e
sujeição: todo poder, a todo instante, extrai sua derradeira conseqüência.
Desse modo, a natureza, como vontade de poder, só pode ser pensa­
da como infinita multiplicidade de forças em relação, como um imensurá­
vel campo de forças, cuja essência consiste em sua efetivação integral, a
cada instante.
Que credencial tem a segunda interpretação, que a tomaria preferí­
vel à primeira? Que espécie de plus teórico se apresentaria em sua contri­
buição para a inteligibilidade da natureza? Em primeiro lugar, um nível
superior de auto reflexão e autocrítica: a interpretação baseada na vontade
de poder sabe de seu caráter incontomavelmente interpretativo - por isso
ela não pretende ser texto contraposto à interpretação física, do mesmo
modo como a “veracidade” de Nietzsche não se apresenta como mais ver­
dadeira do que a da tradição metafísica, mas a dissolve.
Em segundo lugar pelos efeitos potencializadores que produz: a in­
terpretação física, fundamentada na regularidade do curso da natureza con­
duz à resignação, à submissão do conhecimento e do agir humanos às leis
imutáveis e inflexíveis da natureza. A interpretação fundada na vontade de

36
poder libera um ilimitado horizonte de cognição e operacionalidade sobre
a natureza (lembrem-nos das expressões “necessário” e “calculável”, que
remetem para o âmbito da operacionalização técnica da teoria); ela capa­
cita a vontade humana de poder para imprimir sobre a natureza sua pró­
pria legislação.
Esse segundo sentido do experimento é tão fundamental quanto o pri­
meiro, na medida em que Nietzsche escreve Para além de bem em mal como
prelúdio de uma filosofia do futuro, ou seja, como um texto que cria as con­
dições de possibilidade para o surgimento de novos filósofos - os legisla­
dores para os próximos milênios, uma vez que a legislação anterior entrou
em colapso, com a morte de Deus e, em conseqüência dela, com o niilis­
mo e o acabamento da metafísica.
Novos filósofos, esses espíritos muito livres necessitam de nova at­
mosfera espiritual. Essa atmosfera é propiciada por uma espécie de A u ­
fklärung da Aufklärung, a saber por aprofundamento crítico do Esclareci­
mento. É impossível recuar daquele limiar filosófico já alcançado, ou seja,
é necessário que o pensamento se emancipe de toda tutela e vassalagem
que o mantinham agrilhoado ao obscurantismo e à superstição.
Todavia, é necessário ir mais adiante: justam ente porque somos es­
clarecidos e emancipados, é imperioso que ousemos problematizar o va­
lor absoluto da verdade e colocar em questão a existência de qualquer
sentido objetivo, vigente na natureza ou na história, independente da von­
tade humana.
Dado esse passo, desaparece o texto, resta apenas o poder infinito da
interpretação instituidora de sentido e de valor. Justamente por esse moti­
vo o aforismo ora comentado conclui da seguinte maneira:
“ Supondo que também isso não seja senão interpretação - e vós se­
ríeis pressurosos o suficiente para objetar isso? - ora bem, tanto melhor.” 21
A expressão final: ‘tanto melhor’ fomece a chave para a resposta à obje­
ção. Tanto melhor que seja interpretação, porque não há senão interpreta­
ção e, nessa medida, é melhor que ela seja consciente de si, coerente e não
mistificadora. É nesse sentido que Nietzsche se põe à busca da formula­
ção por que pretende garantir sua própria interpretação liberadora.
Um experimento levado a efeito com o intuito de dar consistência
epistemológica à própria tentativa de construir uma interpretação global
da existência, preparando as condições espirituais para o advento dos
novos espíritos livres, essa é a tarefa instituída pela conjunção entre o pers-
pectivismo e a doutrina da vontade de poder. Esse empreendimento, po-

21Ibid

37
vontade - a saber, da vontade de poder, como é minha proposição (Satz) -
suposto que se pudesse reconduzir todas as funções orgânicas a essa vonta­
de de poder e nela se encontrasse também a solução para o problema da
geração e da nutrição - trata-se de um problema então ter-se-ia adquirido
o direito de determinar inequivocamente toda força produtora de efeitos
como vontade de poder. O mundo visto por dentro, o mundo determinado e
designado por seu “caráter inteligível”, seria justamente “vontade de po­
der”, e nada além disso. 27

Se forem obedecidas todas as prescrições teóricas e metodológicas


presentes no experimento, tomadas todas as cautelas mencionadas, para que
se possa efetuar licitamente a generalização, então a universalização da hi­
pótese da vontade de poder produzira o máximo grau de simplificidade,
abstração e unidade em nosso conhecimento.
Com ela, estaríamos de posse de uma interpretação global (Gesamtau-
slegtmg) do mundo inorgânico e orgânico, tendo como ponto de partida o
universo humano, por nós conhecido - analogamente ao modo como po­
deríamos interpretar todo fenômeno natural a partir da hipótese da atração
recíproca de partículas de matéria.
Para concluir, insisto em chamar a atenção para que o perspectivis-
mo de Nietzsche - aqui entendido como complemento epistemológico exi­
gido por uma interpretação global da existência que se instaura no hori­
zonte teórico aberto pelo conceito de vontade de poder - não tem como
conseqüência necessária um apagamento da diferença entre a metódica e
rigorosa racionalidade científica, por um lado, e metódica e outras formas
de manfiestação do espírito humano, como a arte, por outro lado.
Como se pode provar pelos exemplos das análises anteriormente em­
preendidas, a deposição da interretação física, ou mecânica do universo,
para substituí-la pela hipótese da vontade de poder tem como base e pres­
suposto, como também já observamos, as prescrições de rigor do método
científico, o que é explicitamente tematizado pela seguinte regra autopres-
cnta: “Ter pela frente a representação mecanicista como princípio regula-
tivo do método. Não como a forma de considerar o mundo mais compro­
vada, porém como a que tom a necessário o maior rigor e disciplina e que
mais põe de lado a sentimentalidade .” 28
Tal como pretendemos sugerir, o perspectivismo experimental de
Nietzsche - compreendido em sua tarefa de reversão do platonismo - não

27lbid.
^N ietzsche, F. Framento póstum o de abril-junho de 1885, numerado como 34 [76}. In:
KSA, v. 11, p 443

40
tem por objetivo principal despotencializar ou desacreditar as possiblida-
des da razão teórica ou prática, mas sim de liberá-las das onerosas hipós-
tases metafísicas com que a tradição as sobrecarregou. A “objetividade”
científica conserva, pois, sua especificidade e suas credenciais, sobretudo
aquelas fundadas no rigor metodológico e no recurso necessário à prova
do acerto empírico das teorias. Essas credenciais, porém, não amparam
qualquer pretensão de acesso à estrutura ontológica da realidade. Para
Nietzsche, elas hipóteses fecundas, “fícções heurísticas” que expressam a
inesgotável riqueza d a poiesis humana.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

NIETZSCHE, F., Sämtliche Werke, Kristischc Studicnausgabc (KSA), Ed. G Colli


und M. Montinari, Berlin/New York/München: de Gruyter, DTV. 1980.
. F. Humano, demasiado humano, I, 14. Trad. Paulo César de Souza. São
Paulo: Companhia das Letras, 2000.

41
REDES DO OLHAR

P atrícia G om es K irst

O que está em jogo quando se está a ver? O que dispara a cada movi­
mento do olhar? O olhar é formado pelo objeto visto? O olhar é o precon­
ceito primeiro dos sentidos?
Sem dúvida, o olhar é mistério vibrante, envolvendo as delícias da
sedução de estar frente a frente com o mundo, com saciar a fome de apro­
priar-se de territórios e criar imagens daquilo que se quer ver.
N esse ensaio busco ligar olhar e pensamento ou certa orquestração
presente no momento de ver. Baseio-me na noção relacionada ao eterno
movimento de criação, movimento, abertura e conexão. Assim, através do
conceito de rizoma/rede (Deleuze e Guattari, 1995), procuro estabelecer
uma configuração entre olhar, sujeito e mundo.
O olhar do sujeito desconstrói-se e perde-se levado pela vida do ob­
jeto, mas imediatamente reencontra-se e reflete-se no visto. A rede do olhar
é criada na mestiçagem do movimento encadeado na própria diluição do
sujeito e do objeto em nome do encontro e da atribuição de sentido. A na­
vegação pelo objeto/mundo e o encontro de portos não podem ser preme­
ditados, mas considerados como efeitos da existência, da máquina do co­
tidiano e do constante exercício de “fluidificar” as formas, criando outros
territórios e outros ritmos do tempo. Tal navegação pode ser traduzida como
subjetivação ou o sujeito buscando-se em pedaços de imagem, em lembran­
ças reavivadas e nas palavras que transbordam do ver...
A rede de cada olhar contém o trabalho do produtor da imagem, suas
intenções e escolhas técnicas e, em decorrência, pode-se obter o resgate
do processo de construção de alguns sentidos do texto imagético ou, da
m esm a forma, traçar algumas relações de territorialidade através da itine-
rância das traduções atribuídas ao visto. Segundo Deleuze e Guattari (1996,

P atríca Gom es Kirst é psicóloga e m estre em Psicologia Social e Institucional pelo Pro­
gram a de Pós-Graduação em Psicologia Social e Institucional. Docente, consultora de
projetos de capacitação em RH, pesquisadora e fotógrafa.

43
p. 109) “os estudos baseados na esquizoanálise não se propõem a represen­
tar, interpretar nem simbolizar, mas apenas traçar mapas e linhas, marcan­
do suas misturas tanto quanto suas distinções”.
Assim, pensar sobre as redes que implicam o olhar quer alcançar, por
assim dizer, uma visualização dos acoplamentos entre o olhar daquele que
produz a imagem e os possíveis espectadores. Tais acoplamentos formam
volumes, configurando pontos altos nos quais surge maior produção dis­
cursiva em tomo das imagens e seus pontos planos onde o produtor da
imagem teve certa intenção em fazer emergir falas e estas não foram pro­
duzidas. Nesse terreno do plano, pode se caracterizar espécies de “esbura-
camento”, percebendo-se estados de não-signo, em que o conteúdo ima-
gético não produz reflexão evidente e manifesta por parte do espectador.
A concepção dessa topologia, formada pelos encontros e desencon­
tros dos discursos com as imagens, do criador com suas intenções e com
seu público, tem como base a idéia de que a imagem somente toma o mun­
do quando potencializada pelo dito, ou melhor, nada nela é dissociada de
sua provocação. A imagem não pode ser separada das palavras em sua re­
ferência porque ela mesma já se constitui como narrativa. Desde muito
cedo, aprendemos que a imagem serve para ilustrar o texto não se tendo
clareza de que ela própria é um texto e, por efeito disto, existe a tendência
à não detenção do olhar na imagem, pois, no texto que a acompanha, su­
pomos, residir toda sua explicação.
O texto imagético, como ferramenta do pensamento, se revela como
superfície possível para que o desejo invente seus jogos e as subjetivida-
des sejam engendradas. Neste sentido, a teoria do rizoma/rede institui um
objetivo: criar e teorizar a processualidade do inconsciente desejante do
sujeito que cria a imagem com suas imagens e seus sujeitos espectadores/
enunciadores, fazendo surgir um terreno complexo e acidentado que se
forma pelo jogo transubjetivo ou cartografia. Assim, pode-se apresentar um
conceito de inconsciente ao romper com os limites intrapsíquicos e pode
ser identificado junto a qualquer produção discursiva, seus efeitos no co­
letivo e no eterno relançamento das palavras e das imagens como expres­
sões das existências.
Nesse sentido, toma-se importante considerar as “escolhas” do cons­
trutor de imagens como seqüencialidade, enquadramento, tomada, objeto
central e objetos periféricos, posição de captação, notas, horizontalidade
ou verticalidade, desfocagem, etc., visto que tais opções têm sentido cul­
tural, podendo conferir certas qualidades ao objeto.
Pode-se pensar a significação por um lado, como o exercício de uma
métrica e, por outro, como uma forma de propagação do objeto a ser des­
vendado. S ena como a execução de uma reconfiguração do objeto, pela

44
via da acomodação do mesmo em certa linguagem, permitindo seu aces­
so à subjetividade.
Pelo fato do sujeito constituir-se de territórios dos quais é alienado, é
que decorre a possibilidade, na produção de sentido, de diferir do que é,
recriando-se. Precisamente, nos movimentos de devir frente à imagem, é
que o sujeito poderá significá-la em outros códigos como a palavra, a es­
crita ou silêncio, revelando que se concede atenção somente às imagens
que podem, de alguma maneira, tomar certo ordenamento e conexão com
nossa própria trajetória, apresentando-se como alvo de possível tradução.
Retomando: a tradução de imagens pode ser realizada pela metodo­
logia fundamentada no conceito de rizoma de Deleuze e Guattari (1995),
abarcando noções que remetem ao heterogêneo, ao múltiplo, uma estética
na qual os dados não ocupam lugares fixos, mas são mobilizados a cada
leitura, efetuando uma quebra de relações causais fixas. De acordo com os
autores (1995, p. 16),

[...] um rizoma não cessaria de conectar cadeias semióticas, ocorrências


que remetem às artes, às ciências, às lutas sociais. Uma cadeia semiótica é
como um tubérculo que acumula traços muito diversos, lingüísticos, mas
também perceptivos, mímicos, gestuais, cogitativos [...]

O agenciamento estético pode instaurar, eventualmente, um movimen­


to de individuação/singularização no sujeito, que encontra incentivo para
potencializar algumas de suas muitas impressões com o exercício do per-
cepto, da fruição e da sensibilização que, por sua vez, o desterritorializam.
Em tais processos de desterritorialização, podem ser gerados novos
territórios existenciais, a partir da remodelação do eu, projetado na ima­
gem. O sujeito vivência o signo, quando compartilha de sua mecânica so­
cial criando o significante. A criação do significante reporta a uma auto-
afirmação do sujeito através da apropriação do real nos seus corresponden­
tes sígnicos. Seria uma reinvenção do existente, através da atribuição de
sentido das cadeias semióticas disponíveis.
A formação de territórios existenciais, que estão sempre cambiando,
tem uma de suas possíveis gêneses nos desdobramentos que cada sujeito
executa quando em contato com determinados universos de referência. O
universo de referência dado pela imagem é “coordenado” por certos teste­
munhos das formas materiais que, quando supostamente tomadas como
objetos pelo espectadores, fazem fluir cargas de complexidade. Segundo
Guattari (1992, p.45) “a complexidade transita, coloca-se em relação a ela
mesma e com o que lhe é outro, com o que a altera. Essa atualização da
diferença opera uma seleção agregativa sobre a qual poderão se enxertar

45
constantes, estados de coisas”. A complexidade em jogo na aten-
’í™ , jmagem tem a ver com a impossibilidade de influências a priori ou
^ao a saber desprendido da experiência, sendo a própria coexistência, dada
e un pntemplação, que realiza a conexão entre ambos: olhar e imagem em
Pe a ^lesm a cadência de tempo - sintonia/sincronia/interpenetração.
uma '^ara Deleuze e Guattari (1992, p.272) “contemplar é criar, mistério
Hção passiva, sensação”. Tal sensação de contemplação vai se derra-
a cx\ç>pela imagem, na medida em que, ela preenche momentaneamente
man. ,ito da visualização. Seria como se só fosse possível ao sujeito perce­
bi SUJ <?i mesmo no limite daquilo que vai o compondo durante seu existir.
^er ã, de expressar algo sobre uma imagem qualquer se pode perceber a
e^idade de um tipo de testemunho mudo, mas que modifica a consis-
Hf06') do instante da visualização até o surgimento de possíveis expressões
‘(ação ao referente. Seria como um ensaio interno e silencioso de pos-
efn Tt/. atos em relação aos “chamados” do mundo. A expansão da imagem
Slvei)stura com a experiência do sujeito é que pode ser ligada à contem-
na produzindo, então, o discernimento e as distinções. Em Deleuze
n os#’ P-135) o sujeito se multiplica em “espectros” de atenção e se auto-
' f*npla quando contempla a imagem, “não dizemos eu a não ser por estas
c<^ ' ^stemunhas que contemplam em nós; é sempre um terceiro que diz
,, y idéia de contemplação refere-se a um sujeito não compacto, que pode
eu ' ,jr em e de si.
Ir e Cada imagem, tomada como rede/rizoma é, pois, a partida para uma
. de reflexões que, conectadas tomam-se mapas. As falas dos especta-
f * assim, constroem a cadeia de signos da imagem, sendo o rizoma-
. or m, sempre definido no e pelo fora. Portanto, as imagens só tomam
ima^ o quando cercadas pelos discursos que propiciam. Poder-se-á, então,
sent'lintar: que conexões e “leituras” possibilitam ou que mutações as ima-
Per®tomam por sua exterioridade?
gen' A metáfora da vespa e da orquídea de Deleuze e Guattari (1995, p. 18)
(ta-se importante para a compreensão do conceito de rizoma: “A ves-
rnoS,desterritorializa, tomando-se ela mesma uma peça no aparelho de re-
Pa sjiição da orquídea; mas ela reterritorializa a orquídea, transportando o
Pr® jf A vespa e a orquídea fazem rizoma em sua heterogeneidade”. Para
pól^,, relação de rizoma/rede aconteça, os meios devem ser diferenciados,
í!
que*jO possíveis as movimentações “territoriais” pelo significado que um
sen vem a atribuir e atribuir-se na relação com o outro.
entí: Então, pode-se pensar, desde tal perspectiva rizomática que o constru­
jtj imagens se desterritorializa no ato de obter imagens, tentando captu
tor |(na mensagem com signos potenciais, para que seu objeto possa se re-
rar i1dirializar
' através da produção de sentido, inventada por outros olhos. Este
terri1

46
mapa está em constante constituição, criando devires com o sujeito e seu
discurso/atribuição de sentido, em um processo de trânsitos que lança as re­
flexões para mais e mais longe do próprio território imagético.
O conceito de rizoma/rede, quando empregado na leitura da imagem
pela Psicologia Social, reporta às múltiplas formas de encontrar espaço de
expressão no exercício de visualização. A expressões encontradas em cada
depoimento que uma imagem pode propiciar, podem ser pensadas como
segmentos, articulações, espaços de auto-suposição, reflexão ou ainda ter­
ritórios cartografados pelo olhar.
A cartografia da imagem, realizada pelo construtor da imagem e pelo
espectador, pode ser considerada pura criação de sentido. A teoria do rizo­
ma procura tecer intersecções ou territórios (in)comuns entre os olhos da­
queles que colhem imagens e os olhos daqueles que as consomem.
Nessa rede de territórios do que chamamos realidade ou aquilo que
podemos ver, a imagem, como signo, se corresponde com o real. Através
desses simulacros do real, veiculam-se os estereótipos, ou seja, formas con­
taminadas por um poder capaz de padronizar os sentidos. O que interessa
nos sentidos desse rizoma é procurar, nas mensagens, os conteúdos que
foram arrastados formando imobilizações de sentido, os jogos de poder e
suas articulações em estereótipos. A busca desses valores, cultural e ideo­
logicamente cristalizados, serve de sustentação para a leitura de como os
signos são arrastados pela economia cultural em vigência. Esta mesma
concepção, em relação à produção de sentido também pode ser lida em
Suely Rolnik e Felix Guattari (1993) quando referem que o desejo tem sua
linha de montagem na cultura de massa, ou mais precisamente, quando
afirmam que o desejo tende a ser serializado. Através do discurso ou da
captação dos sentidos do texto imagético, o desejo toma certa materialida­
de, “corporifica-se” e, assim, podem ser investigados seus processos de si­
mulação e sua face recém inaugurada.
A intenção é se fazer sensível às “verdades” produzidas pelas ima­
gens. Para que se possa pensar sob o ponto de vista do social, é preciso
cartografar como os desejos são aprisionados e arrastados uniformemente
(trajetos subordinados a pontos fixos/endurecimento de segmentaridades/
ponto de cruzamento ou ressonância massiva entre os olhares) na criação
de certos regimes de verdade que virão a ser a lente por onde passarão a
maioria dos olhares. Quando se pode identificar este tipo de regime terri­
torial endurecido, está-se diante de um “efeito” macropolítico na medida
em que as sensibilidades podem ser antevistas ou predeterminadas e a ima­
gem perde a sua vitalidade não mais sendo transformada pelo espectador,
mas, pelo contrário, sendo reproduzida como um xerox. Um dos aspectos
importantes da macropolítica é a sua qualidade de “máquina de ressonân­

47
cia”, ou seja, de homogeneinização de sentidos e correlações. Tal centrali-
zamento não se opõe aos discursos menos repetitivos que residem no mes­
mo espaço rizomático, pois para que as exceções possam ser identificadas
devemos ter um parâmetro e um tipo de discursiva insistente. Dentro da
macropolítica, que nesse estudo está ligada aos discursos que arrastam o
rizoma imagético-discursivo para um mesmo pólo ou mesmo que desace­
leram o potencial de virtualidade da imagem legitimando-a como uma só,
existe algo que escapa, transbordando e se alastrando para novos sentidos,
justamente, em função de combater ou desterritorializar as imposições das
segmentaridades solidificadas ou afastar uma espécie de estética linear:
micropolítica/quanta.
Assim, o desejo pode ser pensado como arrastado e aprisionado ou
resistindo e tomando-se recém dito e pensado. Este espaço, a princípio ge­
nuíno, posteriormente pode vir a se tom ar um pólo de repetição (as linhas
de escape podem tomar força e engendrarem um novo ritmo, as marés de
produção de sentido) e, por isso, micro e macropolítica estão definitiva­
mente embricadas, apesar de não serem a mesma e de se articularem, ju s­
tamente, pela ordem da diferença. Ao passo que a imagem pode gerar am­
bas as políticas, pode-se supor que contenha em seu interior territórios que
propiciem tanto linhas, como a difusão das mesmas e, ainda, trânsitos in­
determinados. Cada partícula/grão da imagem pode ser transformado em
um sufocamento, em uma transmutação, mas capturado e, a partir disto,
tomado, incontestavelmente, pelos agenciamentos de poder que se impõem,
devido à sua presença constante entre o espectador e o referente.
Com base em Gabriel Tarde (apud Deleuze e Guattari, 1996), pode-
se pensar a potência imagética como um “fluxo” ou uma crença ou desejo
que pode se propagar em forma de atribuição de sentido (sobrecodifica-
ção) de uma cópia mais ou menos desfocada da imagem apresentada com
o intuito de “dar conta”, generalizar, encontrar uma suposta essência, crian­
do, assim, uma estrutura baseada em um único eixo e dando a perceber as
possibilidades diminutas de mudança de opinião: macropolítica.
Por outro lado, a dita propagação pode não estar inclinada à unifica­
ção e permite, então, a produção pela diferença (desterritorialização) ca­
racterizada pela hibridez e por um “controle” menos rígido da produção.
E, principalmente, demonstrando maleabilidade no redirecionamento do
desejo em relação à imagem e, conseqüentemente, a disposição em ser le­
vado por novas cargas de sentido que, por ventura, poderiam não ter sido
percebidas: micropolítica.
Em ambos os “fluxos”, sentidos partilhados são condição para que a
comunicação seja possível, fazendo com que as coisas tomem certa visi­
bilidade e que o pesquisador ou o produtor de imagens possa tanto produ-
zir signos-imagens quanto imprimir sua versão sobre a produção discursi­
va. A referida visibilidade condiciona por onde e para onde a luz será lan­
çada mantendo, por conseguinte, certos territórios na sombras e impreg­
nando “o visto” de verossimilhança. A imagem como construtora de mun­
dos e de certezas que, algumas vezes, convergem para um mesmo ponto é
que será o foco privilegiado deste ensaio.
A transubjetividade ou produção coletiva advinda dos espectadores,
que tiveram à sua disposição imagens, fornece dados de como um grupo
social produz “realidade”. Segundo Ibánez (1994, p. 105), “o social não é
radicado nas pessoas, nem fora delas, mas se produz entre elas”. A mesma
concepção pode ser tomada em relação à “verdade” produzida pela ima­
gem, que não repousa nem sobre o referente nem tão pouco sobre o cons­
trutor de imagens, mas no espaço entre ambos. Neste espaço, intermedia­
do por intensidades de atração, é que se dá o ato criativo. A imagem se pro­
duz no intermezzo, sendo uma tecnologia de encontro.
O tipo de corte, proposto no espaço imagético e discursivo, não é de­
terminado por um padrão e sim por irregularidades que são efetuadas em
forma de uma rede móvel que admite retornos e torções variáveis. Conse­
qüentemente, os dados podem ser pensados na forma intervalar.
Assim sendo, a imagem pensada como rede/rizom a faz-se agen­
ciamento, na m edida em que se cerca de uma rede de depoimentos, tor­
nando-se uma totalidade significante. Tal totalidade abriga o múltiplo
devido às possibilidades de divisão através da busca de intensidades-
diferenças no interior dos discursos e das imagens. É im portante escla­
recer aqui o conceito de agenciam ento que, p ara G uattari e Rolnik
(1993, p.317), é “uma noção mais ampla do que as de estrutura, siste­
ma, forma, etc. Um agenciamento comporta componentes heterogêneos,
tanto de ordem biológica, quanto social, maquínica, gnosiológica, im a­
ginária [...]” Guattari (1992, p. 127) propõe cham ar mais precisamente
de “agenciam entos territorializados de enunciação” os diversos modos
de semiotização, tendo-se como um deles a imagem, que cria “vetores
de subjetivação” , possibilitando ao sujeito tornar mais visível o con­
texto social no qual se territorializa.
Os efeitos de subjetivação que a imagem ocasiona podem ser com­
preendidos ao se levar em conta as conexões que foram feitas, os tipos de
significantes empregados em relação à imagem, ou seja, para qual cadeia
discursiva podem ser remetidos os registro imagéticos. Dar sentido ao
ambiente, pela imagem, é mensurar as mensagens contidas neste signo,
estancando as derivações virtuais através do encontro de certa textura que
se tome o equivalente discursivo para a rede apresentada. Para que tal tex­
tura se produza, o espectador lança uma re-cartografia por sobre a realiza-

49
ila pelo construtor da imagem. Também pode ser pensado como re-carto-
grafía qualquer discurso relacionado à imagem.
Segundo Foucault (1992), o ver e o falar compõem o território no qual
o saber é operado. Já o poder se produz bem na separação entre o olho e a
palavra. Entre o olho e a palavra ou a matéria física e a gramática, as estra­
tégias de promoção de sentido são produzidas. Buscar um sentido para as
coisas vistas é um ato, antes de tudo, de investimento de desejo. O poder,
neste sentido, modela o desejo e faz com que o sujeito diga o que acredita
ter visto. Aquilo que é dito sobre certa coisa vista é a verdadeira coisa, ver­
dade esta que se ergue e esvai na própria produção discursiva. A coisa em
si, sem o dito, de nada serve quando se quer descobrir as cegueiras que o
poder promove. Cada momento histórico, com suas instituições, traz regi­
mes de visibilidade/escuridão e, como efeito, certas possibilidades de enun­
ciação. Tais possibilidades colocam-se virtualmente interiores em cada
coisa/alvo do olhar. O poder reside no espaço entre o sujeito e as coisas do
mundo, pois transborda dos objetos e das paisagens quando o sujeito se
dispõe a falar. Na produção discursiva sobre o que se vê, o visto toma a
intimidade do enunciador e já não se pode separar o visto, o dito e o sujei­
to e, em conseqüência, saber e poder.
As discursividades/visibilidades, portanto, são territorializadas con­
forme as práticas nas quais os sujeitos, em grupos sociais, estão imersos.
Tudo o que pertence ao cotidiano, está “encerrado” em discursividade. O
que vemos no dia-a-dia, de antemão, possui comentários prontos e, até
mesmo, parecem estar inerentes as próprias coisas.
Mas, mesmo com a “domesticação” do olhar, existem “brechas”/“re-
tomadas” para que as coisas tomem algum frescor e novos discursos en­
trem em cena. O mundo seduz e, espectador e construtor respondem, re­
cortando e atribuindo sentido. A busca da verdade se faz sem perceber, pois
as verdades se impõem e lançam seus encantos para que os autores se apro­
priem. Segundo Deleuze (1987, p. 16),

a verdade depende de um encontro com alguma coisa que nos force a pen­
sar e a procurar o que é verdadeiro. Pois é, precisamente, o signo, que é
objeto de um encontro, que exerce sobre nós, a violência. O acaso do en­
contro é que garante a necessidade daquilo que é pensado.

Todos os atores implicados no processo de criação do signo imagéti-


co têm seu papel na construção daquilo que irá ser lido. Construtor da ima­
gem, objetos, contexto e cenário misturam-se em um espaço onde suas fi­
guras se assemelham a ponto de se tomarem uma só. Todos estão imersos
no discurso social e, se a imagem inventa o discurso dominante, aquele que

50
a concebeu, o construtor da imagem, também participa deste sentido, crian­
do o que poderíamos chamar de “substrato” para o exercício de enuncia­
ção. Para que seja possível identificar como as relações de poder impreg­
nam os signos, temos de nos colocar no interior desse jogo de forças, sem
pretensões de neutralidade, pois, todos nós estamos na grade cultural que
entoma os processos de produção de sentido.
A subjetivação se relaciona com a “elaboração” de associações-sen-
tidos, porque pode ser conceituada como um campo determinado da ex­
periência histórico-cultural em que o sujeito se faz figurar. Alguns auto­
res contemporâneos têm pensado a subjetividade instituída pelo múlti­
plo, por fluxos heterogêneos e o processo de subjetivação pelo caminho
traçado pelo sujeito em meio ao conhecimento, à sociedade, às informa­
ções, às imagens, à técnica, à política, enfim, aos estratos formadores do
que chamamos humano e que conseqüentemente fazem a “ancoragem”
de modos de ser e enunciar.
Tal jogo de forças pode ser identificado, segundo Deleuze e Guattari
(1995, p. 12), como rizoma fazendo referência exclusivamente à “multipli­
cidade, linhas, estratos e segmentaridades, linhas de fuga e intensidades,
agenciamentos maquínicos e seus diferentes tipos, os corpos sem órgãos e
sua construção, sua seleção, o plano de consistência, as unidades de medi­
da em cada caso”. Seguindo este conceito, a imagem compõe sua comple­
xidade nas diferentes texturas da cor, no corte executado pelo enquadra­
mento da cena, na composição dos elementos, na escolha do plano de foco,
na leitura da luz. Ela própria constitui-se como trama complexa, emara­
nhado rizomático de virtualidades e devires.
Segundo Guattari (1992, p. 130), “a potência estética, embora em igual
direito com as outras - potências filosóficas ou políticas - talvez esteja em
vias de ocupar posição privilegiada no meio dos agenciamentos coletivos
de enunciação de nossa época” . As múltiplas direções discursivas conse­
qüentes do contato com a imagem estão associadas com a vivência estéti­
ca do meio sociocultural pelo sujeito enunciador. O signo pode ser concei­
tuado como recriação do real. Segundo Baktin (1989, p. 62), “o signo não
pode ser separado da situação social sem ver alterada sua natureza semió­
tica” . Ainda para o autor, o signo tem uma natureza plurivalente, expres-
sando-se por uma multiplicidade de significantes geridos no cotidiano do
sujeito. Os processos de atribuição de sentido podem ser pensados como
formados e formadores dos sujeitos da enunciação.
A complexidade do signo imagético está contida no recorte, na par­
cela, no instantâneo, pois a imagem se apresenta como obra total e, no
entanto as imagens podem decompostas em detalhes ou recriadas como
quadro geral pelo sujeito que é agente transformador da percepção pri­

51
meira. Devido a isto, a imagem - rede não possui uma identidade una,
pois ela agencia o desejo do sujeito nas suas suposições em tomo dos flu­
xos semióticos, materiais e sociais contidos na imagem, tornando-a um
campo aberto de invenções.
Pode-se dizer, portanto, que o uso da imagem como fonte de inspi­
ração teórica privilegia a potência estética, conforme aponta o pensamento
de Deleuze. No terreno das comunicações estamos vivendo “a civiliza­
ção da imagem”, com a sucessiva centralidade da mesma, modificando
dentre outras práticas os usos da palavra. Se o homem contemporâneo
está acostumado à comunicação pela imagem, a pesquisa científica pode,
pois, apropriar-se deste dispositivo a fim de buscar uma interface condi­
zente com a atualidade.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BAKTIN. M. Marxismo e linguagem. São Paulo: Hucitec, 1981.


DELEUZE, Gilles. Crfr/ca e clínica. São Paulo: Ed. 34, 1997.
DELEUZE, Gilles e GUATTARI, Felix. Milplatôs: capitalismo e esquizofrenia. Rio
de Janeiro: Ed. 34, v.l, 1995.
. M il platôs: capitalismo e esquizofrenia. Rio de Janeiro: Ed. 34, v.3, 1996^
. O que é a filosofia? Rio de Janeiro: Ed. 34, 1992.
FOUCAULT, Michel. As palavras e as coisas: uma arqueologia das ciências huma­
nas. São Paulo: Martins Fontes, 1992.
GUATTARI, Felix. Caosmose: um novo paradigma estético. Rio de Janeiro: Ed. 34,
1992.
GUATTARI. Felix; ROLNDC, Suely. Micropolítica: cartografias do desejo. Petrópolis:
Vozes, 1993.
IBANEZ, Tomás. Psicologia social construcionista. México: Universidade de Gua-
dalajara, 1994.

52
A REDE: UMA FIGURA EMPÍRICA
DA ONTOLOGIA DO PRESENTE

Virgínia K astrup

O conceito de rede é oriundo da topologia que, ao contrário da geo­


metria, focaliza apenas, no objeto estudado, suas propriedades mais sim­
ples, e por isso mais dramáticas, desconsiderando uma série de fatores,
como medidas de largura, altura ou profundidade. Por isso a topologia não
precisa recorrer à álgebra, como faz a geometria. Por isso, também, seus
objetos são ditos de geometria variável. A rede é um desses objetos. O que
aparece nela como único elemento constitutivo é o nó. Pouco importam
suas dimensões. Pode-se aumentá-la ou diminuí-la sem que perca suas ca­
racterísticas de rede, pois ela não é definida por sua forma, por seus limi­
tes extremos, mas por suas conexões, por seus pontos de convergência e
de bifurcação. Por isso a rede deve ser entendida com base numa lógica
das conexões, e não numa lógica das superfícies. Pode-se evocar o exem­
plo das redes ferroviária, rodoviária, aérea e marítima, e ainda o das redes
neural, imunológica e informática. São todos exemplos de figuras que não
são definidas por seus limites externos, mas por suas conexões internas.
Isso quer dizer que nenhuma delas pode ser caracterizada como uma tota­
lidade fechada, dotada de superfície e contorno definido, mas sim como
um todo aberto, sempre capaz de crescer através de seus nós, por todos os
lados e em todas as direções.
Entre as figuras topológicas, a rede destaca-se por ser vazada, com­
posta de linhas e não de formas espaciais. O primado da linha sobre a for­
ma, bem como sua definição por uma lógica das conexões, evoca o con-

Virgínia Kastrup é doutora em Psicologia e professora no Instituto de Psicologia da


Universidade Federal do Rio de Janeiro, onde participa do Curso de Pós-Graduação em
Psicologia. É pesquisadora do CN Pq e coordenadora do grupo integrado de pesquisa
UFRJ-UFF “Cognição e produção da subjetividade” . É autora de A invenção de si e do
mundo - uma introdução do tempo e do coletivo no estudo da cognição (Papirus, 1999) e
possui diversos artigos publicados em revistas especializadas.

53
cejtc? de rizoma, criado por G Deleuze e F. Guattari. É em Mille plateaux
( 1 9 $ ^ ) 9 ue explicitam suas “características aproximativas”, na forma de
^e 's princípios de funcionamento do rizoma.
O primeiro é o “princípio de conexão” : qualquer ponto de um rizoma
ser conectado a qualquer outro e deve sê-lo (Deleuze e Guattari, 1980,
j 5 ). Esse princípio distingue o rizoma do modelo da árvore, no qual existe
um ^ entro’ um Ponto fix0>a partir do qual todas as ramificações se reali-
a r r l. Como sistema acentrado, o rizoma faz conexões sem obedecer a uma
o r d ^ m hierárquica ou de filiação. Conecta-se por contato, ou antes, por
c o n tá g io mútuo ou aliança, crescendo por todos os lados e em todas as di-
reçc?e s. As conexões ou agenciamentos provocam modificações nas linhas
c o l e t a d a s , imprimindo-lhes novas direções, condicionando, sem determi-
nar conexões futuras. E um princípio que se ergue contra o princípio de
caU’^alidade, contra o determinismo e a previsibilidade. Vai, portanto, contra
os pfessupostos da ciência moderna, comportando um regime temporal em
e não vigoram a cronologia, a sucessão e a reversibilidade, necessárias
ao ftincionam ento por causa e efeito.
O segundo é o “princípio de heterogeneidade”, que revela que o ri-
z o rjla não é de natureza lingüística. Marcando posição singular diante do
e s trtituralismo, Deleuze e Guattari afirmam que “um método de tipo rizo-
rnát‘C° ® obrigado a analisar a linguagem efetuando um descentramento
sokf-e outras regiões e outros registros” (1980, p. 16). A linguagem aparece
GOif*0 uma c^as hnhas que o compõem, conectando-se com cadeias mate-
rjaj$, biológicas, políticas e econômicas heterogêneas, irredutíveis a ela.
O terceiro é o “princípio de multiplicidade”, que explicita que o rizo-
m a pão é uma totalidade unificada, nem é composto de totalidades ou for-
puras - sujeito, objeto, natureza etc. Ele é pré-subjetivo e pré-objeti-
vo jsto é, composto de singularidades pré-individuais que, dotadas de ve-
loci^ade, estabelecem entre si conexões, agenciamentos, relações recípro-
caSí formando as linhas do rizoma. O princípio de multiplicidade é princí-
■0 de diferença interna, de autocriação, explicando as transformações do
rjZ0 tna sem apelar para qualquer instância supostamente exterior. É o prin-
cjpjo ontológico mais importante, pois é por seu intermédio que Deleuze e
0 U3 ttari podem afirmar que o campo das existências atuais - sujeito, ob-
■ t 0 etc. - resta imerso, desde sempre e para sempre, num campo movente
gingularidades pré-individuais, que assegura sua situação no devir. Se-
fldo M. Buydens (1990), este corresponde ao primeiro nível do trans-
ceIidental deleuziano, pois é a condição de toda existência atual, sem ser
eje próprio jamais atualizado enquanto tal. O rizoma, como multiplicida-
é anterior ao plano das conexões efetivas, mas é condição de toda efe-
jl^dade e atualização dos agenciamentos.

54
O quarto é o “princípio da ruptura a-signifícante”, que responde peia
tensão permanente entre o movimento de criação de formas e organizações,
e de fuga e desmanchamento dessas mesmas formas. Considerando-se
como ponto de partida o plano informe das multiplicidades, as formas pas­
sam a ter um caráter irremediavelmente contingente e temporário, poden­
do sempre ser rompidas. Para a distinção entre rizoma e estrutura, evoca-
se o fato de que o rizoma é composto de linhas que figuram o movimento,
o tempo inventivo. “Oposto à estrutura, que se define por um conjunto de
pontos e posições, por correlações binárias entre estes pontos e relações
biunívocas entre estas posições, o rizoma é feito somente de linhas” (De-
leuze e Guattari 1980, p.32). A forma surge como uma linha que se fecha,
abolindo temporariamente o movimento criador. Mas ela sempre pode en­
contrar uma linha de fuga que lhe recoloque no devir.
O quinto é o “princípio da cartografia”. É o primeiro princípio meto­
dológico da filosofia de Deleuze e Guattari. Ele aponta para o fato de que
o pensamento sobre o rizoma não é representacional, mas inventivo. Pen­
samento cujo funcionamento é congruente com a natureza inventiva do
próprio rizoma. Faz conexões com ele, entra em sua composição e partici­
pa de seu movimento criador. O mapa “faz parte do rizoma”, “é aberto, é
conectável em todas as suas dimensões, desmontável, reversível, suscetí­
vel de receber modificações constantemente” (1980, p. 2 2 ).
O sexto e último é o “princípio da decalcomania” . Ele parece, à pri­
meira vista, um antiprincípio, que vale mais pelo que recusa do que pelo
que afirma. Pois o decalque é uma figura da representação e corresponde
à lógica da árvore, que “consiste em decalcar algo que se dá já feito”. Mas
a relação entre o mapa e o decalque é mais complexa. Ambos são méto­
dos; ambos encontram apoio nas propriedades do rizoma. O mapa apreen­
de suas linhas, seus movimentos e tendências. O decalque capta “os im­
passes, os bloqueios, os germes de pivô ou os pontos de estruturação” ( 1980,
p.23). Daí uma exigência: começar pelo mapa e então projetar o decalque
sobre ele. Pois os pontos de estruturação são entendidos como estabiliza­
ções temporárias do funcionamento criador do rizoma. Fala-se, então, de
criação de organizações, de estabilização de movimentos, de neutraliza­
ção de multiplicidades. Daí ser preciso “religar os decalques ao mapa, re­
lacionar as raízes ou as árvores a um rizoma” (1980, p. 23-24). Com a es­
tratégia inversa, ou seja, começando pelo decalque, toma-se impossível
encontrar explicação para o movimento criador.
Um dos pontos capitais do conceito de rizoma é apontar para um do­
mínio anterior a todas as dicotomias - pensamento e ser, sujeito e objeto,
discursivo e extradiscursivo. E afirmá-lo como “um caso de sistema aber­
to” (Deleuze, 1972-1990, p.45), como um sistema que, repudiando a cau­

55
salidade linear e transformando a noção de tempo, aparece como condi­
ção dos regimes e das formas existentes, inclusive de sujeito e objeto. Tra­
balhar com o conceito de rizoma é afirmar que há “um outro domínio”, que
excede o domínio das formas, onde se mistura o que era em aparência dis­
tinto, onde se conecta o que permanecia separado. O rizoma é, do ponto
de vista das formas, um outro domínio; mas é preciso notar que esse outro
domínio é também o meio do qual elas emergem e que subsiste em seu
entomo, fazendo com que, entre as formas, as relações sejam mais do que
um jogo obscuro de transportes e influências. Toda transformação que atin­
ge o domínio das formas passa sempre por esse outro domínio, rizomáti-
co, capilar, que corresponde ao domínio da inventividade. Todo estudo da
cognição 1 que pretenda dar conta da invenção deve, portanto, exceder o
domínio das formas, ultrapassá-lo na direção desse outro domínio.
O modo de funcionamento do rizoma marca de forma definitiva o
rompimento com o princípio de causalidade. Em princípio, poder-se-ia
afirmar que é o rizoma inteiro que desempenha o papel de princípio cau­
sal. Pois isolar algo do rizoma para lhe atribuir a função de causa é contra­
ditório com o próprio conceito de rizoma, é um reenvio ao pensamento
representacional. Entretanto, como produtor de efeitos imprevisíveis, o ri­
zoma coaduna-se mal com o princípio de causalidade, que encerra a idéia
de uma relação constante entre causa e efeito, uma relação necessária, pas­
sível de ser repetida e, portanto, marcada pelo determinismo. O rizoma
aparece, então, mais bem caracterizado como condição do que como cau­
sa. Condição indeterminada, posto que aberta, das formas existentes. Pois
o rizoma não possui limites definidos, não é uma forma, mas condição de
existência das formas. E um tipo de “estrutura” na qual os elementos en-
contram-se reunidos numa simultaneidade não unificável. Os eventos su­
cessivos não são, por isso, previsíveis. Pelo seu próprio funcionamento, o
rizoma modifica-se a todo momento. Há criação - ou, antes, autocriação -
desse plano ontológico, pré-subjetivo e pré-objetivo. A criação não é refe­
rida a uma faculdade subjetiva, pois não há nada fora do rizoma, não há
instância exterior. Tomá-lo como figura ontológica significa existencializar
o que existe entre as formas, ou, como denomina Latour, “o meio”.
Retomo os princípios do rizoma porque eles lançam luz sobre o con­
ceito de rede, utilizado por Bruno Latour para pensar a criação dos híbri­
dos. Explico: o rizoma tem duas faces: ele é o método e é também a figura
da ontologia de Deleuze e Guattari. O pensamento e o ser são rizomáticos,
mas não formam dois planos isomorfos. Constituem, antes, duas faces de

1Seguindo esta direção o estudo da cognição aproxima-se do estudo da produção da sub­


jetividade (Kastrup, 2000).

56
um mesmo plano. Como o rizoma, a rede de Latour é, ao mesmo tempo,
uma forma de pensar o surgimento dos híbridos e sua própria ontologia.
Os elementos que o híbrido põe em conexão são heterogêneos - materiais,
sociais, tecnológicos, lingüísticos etc. A conexão dos heterogêneos não é
centralizada, hierárquica ou garantida por qualquer determinismo, mas é
capaz, por si só, de engendrar formas inéditas e inesperadas, que rompem
com formas anteriores, sem o recurso de uma força externa. Um híbrido
pode ser cartografado, em seu movimento criador e inventivo, além de
poder ser tratado quanto a seus “pontos de estruturação”.
A rede é uma encarnação, uma versão empírica e atualizada do ri­
zoma. É já um campo visível de efetividade, onde ocorrem agenciamen­
tos concretos entre os elementos que a compõem. Para Latour, os híbri­
dos emergem da rede, bem como a ciência que os recusa. Ambos são pro­
dutos da rede, que é composta de elementos da natureza e da sociedade,
intelectuais e políticos, materiais e institucionais. Latour define a rede
como sendo, ao mesmo tempo, “real, coletiva e discursiva” (1991, p. 12).
Como o rizoma, a rede articula elementos heterogêneos como saberes e
coisas, inteligências e interesses, onde as matérias trabalham fora do con­
trole dos métodos.
Incontáveis mediadores operam entre a inteligência do cientista e a
natureza, entre o sujeito e o objeto da investigação. Esses mediadores são:
instrumentos disponíveis, artigos científicos e outros documentos selecio­
nados como pertinentes, competências tecnocientíficas, mas também ad­
ministrativas, dos pesquisadores, recursos financeiros destinados ao pro­
jeto por instituições de fomento ou indústrias, interlocutores científicos,
parceiros comerciais etc. Todos esses elementos heterogêneos - reais, co­
letivos e discursivos - participam do processo de criação da ciência (Callon,
1989). Entender a ciência dessa forma é fazer dela uma leitura pragmáti­
ca, contra a perspectiva epistemológica, que abstrai a ciência de seu fazer
efetivo e faz dela um discurso exclusivamente comprometido com a ver­
dade. A visão purificada da ciência é uma das faces da modernidade.

ETERNIDADE, HISTÓRIA E TEMPO HETEROGÊNEO

O tempo aparece no contexto do discurso oficial da modernidade de


duas formas, conforme seja utilizado para pensar a natureza ou para pen­
sar a sociedade, então consideradas como dois domínios separados. No
domínio da física moderna a natureza é um domínio separado, transcen­
dente em relação às mudanças históricas. O tempo tem como característi­
ca a eternidade, o que se revela na busca de leis invariantes e universais. A

57
natureza é o reino da necessidade, da repetição idêntica do passado. A físi­
ca moderna trata de sistemas fechados, que não participam do tempo in­
ventivo. Ela trabalha sobre os estados do sistema, por ela considerados
equivalentes entre si, realizações particulares das mesmas leis universais .2
Por outro lado, no discurso da modernidade o tempo da sociedade é
considerado um tempo histórico, que tem como principal característica ser
um “tempo que passa”, no qual o passado não se conserva, mas se perde, é
abolido, desaparece. O surgimento da história como disciplina científica,
bem como o de locais de registro e conservação de objetos e documentos
- museus, bibliotecas etc. - são sinais da temporalidade histórica moder­
na. É exatamente a crença na perda irremediável do passado que impõe a
criação de suportes materiais para sua conservação e de uma disciplina que
trabalhe sobre eles. O modelo desse tipo de temporalidade é a revolução, a
ruptura, o corte radical e definitivo com o passado anterior.
A modernidade fala de períodos históricos, epistemes, mentalidades,
em virtude da coesão sistemática de certo conjunto de elementos. É a con­
sideração de que esses elementos pertencem a um mesmo tempo, a um tem­
po homogêneo, que explica que eles formem estruturas, ainda que históri­
cas. Essas estruturas são semelhantes, portanto, aos sistemas naturais, sendo
também estudadas naquilo que caracteriza seu funcionamento no eixo sin-
crônico. As duas expressões do tempo na modernidade - a eternidade e o
tempo histórico - aparecem então como casos particulares de uma mesma
maneira de conceber o tempo. Para Latour “a idéia de uma repetição idên­
tica do passado, bem como de uma ruptura radical com todos os passados,
são dois resultados simétricos de uma mesma concepção do tempo” (1991,
p.75). Tanto a ciência natural como a ciência histórica trabalham com um
tempo cronológico, no qual presente, passado e futuro são estudados como
estados ou momentos separados. No caso da história, cuja situação é me­
nos evidente, cabe ressaltar que as revoluções e rupturas, que correspon­
dem ao momento em que o sistema se desestabiliza, são necessariamente
pressupostas, pois sem elas tomar-se-ia impossível explicar o movimento
da história, a passagem de uma estrutura a outra. Mas o que é importante
sublinhar é que, elas próprias, não são explicadas. A instabilidade, a força
tendencial que conduz à transformação das estruturas, aparece, então, como
o impensável da história modema.
Entretanto, a distinção entre essas duas maneiras de conceber o tem­
po é minimizada quando ambas são confrontadas com uma terceira forma

2A situação em outros campos da ciência modema, como é o caso da teoria da evolução,


é por certo um pouco mais complexa, pois há um reconhecimento de que o tempo promo­
ve modificações efetivas e inventa novas formas.

58
de temporalidade, que caracteriza u 1111I^IVil ICÍIIIWIIIV/ MMw- ---- -
serva que a maneira histórica de pensar nunca cobriu a totalidade dos se­
res que coexistem num mesmo estrato, que jamais a contemporaneidade
pôde ser nivelada pelo tempo homogêneo da história. Ele sublinha que “a
disciplina moderna agrupava, enganchava, sistematizava, para manter uni­
da, a pletora de elementos contemporâneos e, assim, eliminar aqueles que
não pertenciam ao sistema. Essa tentativa fracassou. Não há mais, nunca
houve nada além de elementos que escapam ao sistema, objetos cuja data
e duração são incertas (1991, p. 74). Para Latour, é a existência concreta de
tais seres, os híbridos, que evidencia a contradição do projeto da moderni­
dade, apontada pelo título de seu livro Jamais fom os modernos. Ele parte,
portanto, da empiria, de seres existentes na atualidade, paraproblematizar
esse projeto e a concepção de tempo que lhe é própria. E a existência dos
híbridos, por ele descritos como “seres politemporais”, que exige a consi­
deração de um outro tempo. O paradoxo da modernidade não é uma con­
tradição lógica. Ele está localizado no real. O real é paradoxal, complexo,
portador de diferença interna. E é a atualidade, naquilo que ela porta de
novidade, que reduz a distância entre os pólos separados pela modernida­
de. É a proliferação dos híbridos que faz do abismo entre duas regiões on­
tológicas um campo de gradações contínuas. São eles que, criados pelo
cruzamento de séries heterogêneas, operam concretamente a passagem das
regiões e dos tempos que a modernidade havia isolado. Conforme vere­
mos, é em Bergson, ou seja, na ontologia do presente , 3 que Latour busca
elementos para pensar os híbridos.
Latour afirma a existência de um tempo em que existe a conservação
integral do passado. Ora, essa é exatamente a tese que Bergson apresenta
em Matéria e memória (1896). A tese bergsoniana é que há uma conserva­
ção integral da memória. Trata-se de uma memória ontológica e não psi­
cológica. Memória é tempo, duração. Colocar, em relação a isto que é de­
nominado “memória pura” ou “passado em geral”, a questão de sua sobre­
vivência, do local de sua conservação, é partir de um falso problema. Pois
seria, no caso, colocar o problema do tempo a partir do problema do espa­
ço, como se o tempo precisasse de uma localização espacial para se sus­
tentar enquanto tempo. Para Bergson a memória sobrevive “em si”, na

3A expressão é de Michel Foucault (1994) que identifica na filosofia de Kant um ponto de


bifurcação na filosofia moderna: a ontologia do presente, que pensa a partir dos achados
da história e introduz o ser no tempo, e a analítica da verdade, que pensa movida pelos
achados da ciência e reduz a filosofia a uma discussão sobre o conhecimento e a lingua­
gem. Para um exame aprofundado dos efeitos desta bifurcação no campo dos estudos da
cognição cf. Kastrup (1999).

59
duração, ou melhor, enquanto duração (Bergson, 1896, p. 124). O passado
não é o presente que passou, não se forma gradativamente. Ele existe des­
de sempre e, o que é mais importante, coexiste com o presente.
Bergson apresenta essa tese no terceiro capítulo de Matéria e memó­
ria, quando trata da relação entre o passado e o presente com base nos con­
ceitos de virtual e atual. Esclarece que o atual, ou seja, as formas existentes
na atualidade, só podem ser entendidas se nos colocarmos, de saída, no vir­
tual (Bergson, 1896, p. 111). Pode-se afirmar, tendo em vista suas colocações,
que sua ontologia do presente é toda sustentada no conceito de virtual e, por
seu intermédio, é desenvolvida a crítica à concepção de um real pré-forma-
do, todo feito desde sempre, em favor de um real que se define como dura­
ção. Na expressão de Deleuze (1996), o presente ou atual não é um estado,
mas porta o virtual como uma espécie de névoa a seu redor, ou seja, traz con­
sigo o devir. Não é um instante ideal, matemático, um limite abstrato que
separa passado e futuro, mas é um instante real e concreto, onde o tempo
decorre. O presente porta a duração no sentido em que participa do passado
e aponta na direção do futuro. Havendo continuidade entre presente, passa­
do e futuro, o presente está sempre em vias de formação. Do passado traz
consigo a virtualidade; do futuro a imprevisibilidade.
Deleuze destaca a importância do conceito de virtual na obra de Berg­
son que, a seu ver, teria conduzido a uma concepção paradoxal de tempo.
Esclarece que, entre passado e presente, não existe sucessão, mas coexistên­
cia: “O passado e o presente não designam dois momentos sucessivos, mas
dois elementos que coexistem, um que é presente, e que não cessa de passar,
o outro, que é passado, e que não cessa de ser, mas pelo qual todos os pre­
sentes passam” (Deleuze 1966, p. 54). E continua: “o passado não segue o
presente, mas ao contrário é suposto como a condição pura sem a qual ele
não passaria”. Pensando o par virtual-atual, Bergson dá corpo a uma ontolo­
gia criacionista, que aí se confunde com uma ontologia do presente, em opo­
sição à ontologia do dado, do pré-formado, que entende o presente como
realização do possível. Pois quando, para entender o presente, trabalha-se
com o par possível-real, considera-se o processo de presentificação como
realização. E, conforme esclarece Deleuze (1966, p. 100), “o processo de re­
alização é submetido a duas regras essenciais, aquela da semelhança e aque­
la da limitação”. Tudo que existe no presente não é senão a realização de uma
das possibilidades preexistentes. Não há criação, mas limitação, seleção a
partir de um conjunto dado. Ao contrário, a “atualização tem por regras a
diferença ou a divergência, e a criação”. A atualização é então processo de
diferenciação, cujo resultado não pode ser antecipado.
A tese bergsoniana parece sustentar a concepção que Latour propõe
dos híbridos. Quando refere-se a eles como formas existentes no presente

60
e que, ainda assim, são politemporais, está, como Bergson, trabalhando com
uma concepção de tempo distinta do tempo homogêneo e irreversível, que
se onenta numa única direção. O híbrido é uma forma atual, sendo então
portadora de virtual. Baseando-se na tese bergsoniana, afirma: “O passa­
do permanece, ou mesmo retoma. E essa ressurgência é incompreensível
rara os modernos” (Latour 1991, p. 6 8 ). Define, então, o tempo como o
movimento de vaivém, que opera “a ligação entre os seres” (1991, p.74).
.As práticas de mediação misturam “épocas, gêneros e pensamentos” hete­
rogêneos, pertencentes a todos os tempos. E por esse caminho, pela ma-
ueira como entende os híbridos, que vemos esboçarem-se em Latour ele­
mentos para uma concepção da invenção no dominio do estudo da cogni­
ção na qual o novo não substitui o passado, rompendo com ele. O novo é,
aesre sentido, definido pela ligação, pela coexistência de diversas cama-
do tempo, nunca perdidas, jamais ultrapassadas definitivamente, mas
ecr-servadas desde sempre e reunidas nas formas cognitivas da atualidade.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

=E?.GSON. H. (1896). Matéria e memória. São Paulo: Martins Fontes. 1990.


BLYDENS, M. (1990), Sahara. L ’esthetique de Gilles Deleuze, Paris, Vrin, 1990.
CALLON. M. (org), La science et ses réseaux, Paris, La Decouverte, Strasbourg,
Conseil de 1'Europe: Paris, Unesco.1989.
DELEUZE. G (1966), Le Bergsonisme, Paris. PUF, 1991.
. "O atual e o virtual”. In: E. Alliez, Deleuze filosofia virtual. São Paulo: Ed.34
Laras. 1996.
DELEUZE, G e GUATTARI, F. (1980) M ilplatôs - v.l. Rio de Janeiro: Ed.34 Le-
«as. 1995.
FOUCAULT. M. (1994), “Qu’est-ce que les lumières?”. In: D. Defert e F. Ewald
«Ofs) Dits et ècritspar Michel Foucault, v.IV. Paris. Gallimard, 1994.
LATOUR. B. (1991) Jamais fomos modernos. Rio de Janeiro: Ed.34 Letras, 1994.
LASTRUP. V (1999) A invenção de si e do mundo - uma introdução do tempo e do
■o nos estudos da cognição. Campinas: Papirus, 1999.
_. "A Psicologia na rede e os novos intercessores”. In: T. G. Fonseca e D. J.
Francisco (Orgs) Formas de ser e habitar a contemporaneidade. Porto Alegre: Ed.
Umversidade/UFRGS, 2000.

61
UTOPIAS COMO ÂNCORAS SIMBÓLICAS1

Edson L uiz A n d ré de Sousa

Criar implica instaurar uma existência. Toda criação que se inscreve


na cultura como obra de espírito busca fundar um modo de olhar e uma
forma singular de compartilhar uma experiência. O que chamamos, por­
tanto, de cultura é o resultado de muitos atos criativos costurados no tem­
po. Por isso sempre que pensamos em cultura imediatamente podemos nos
referir a uma história que se produz num tempo determinado e uma expe­
riência que é transmitida. Pensar as condições desta transmissão configu­
ra um dos maiores desafios de nossa contemporaneidade.
Quais são, portanto, as condições de transmissão que dão forma e con­
sistência à experiência do sujeito contemporâneo? Qual o papel dos artis­
tas nesta transmissão? Quais os espaços de compartilhamento das expe­
riências singulares no laço social ? Qual a história, a memória e a narrati­
va possíveis para cada um de nós?
Num tempo que insufla em nossos ouvidos a virtude da autonomia cons­
truindo nossos ideais de forma narcísica e individualista, nada melhor que uma
parada estratégica para reflexão. Vivemos uma profunda confusão entre a or­
dem do singular e a ordem do individual. Estas categorias não podem ser con­
fundidas. O singular produz um estilo, busca uma forma de narrar uma histó­
ria, desenha uma memória possível e, portanto, constrói condições para que
uma transmissão aconteça. Nessa direção esse singular é uma peça fundamental

Edson Luiz Andrc de Sousa é psicanalista, professor no Departamento de Psicanálise e


Psicopatologia do Instituto de Psicologia da UFRGS. Professor no PPG de Psicologia
Social e Institucional e do PPG em Artes Visuais - UFRGS. Doutor em Psicanálise e
Psicopatologia pela Universidade de Paris 7. A nalista membro da Associação Psicanalíti-
ca de Porto Alegre e Associação Freudiana Internacional em Pans. Organizador junto
com Elida Tessler e Abrão Slavutzky do livro Invenção da vida: arte e psicanálise. Porto
Alegre: Artes e Ofícios, 2001.
1 Este texto é um a versão am pliada de um artigo publicado no Caderno de Cultura do
Jornal Zero Hora em 18 de março 2002.

63
no que pode ser compartilhado. Por outro lado, o individual - reinado da for­
taleza egóica em suas carapaças defensivas - sonha em poder prescindir desta
herança compartilhada. Produz, dessa forma, estas aberrações, que estamos can­
sados de ver, de indivíduos que desprezam a herança que os constituiu, se ex­
cluindo de uma história que os precede e não podendo reconhecer, na cultura,
quem são seus pais. Mas cuidado, não é suficiente uma referência a uma he­
rança, a uma tradição para que estejamos salvos do afogamento solipsista!
Dentro dessa mesma perspectiva, não é suficiente reconhecer uma tradição para
garantirmos uma história e um futuro. Então por qual caminho?
“Saber orientar-se numa cidade não significa muito. No entanto, per­
der-se numa cidade, como alguém se perde numa floresta, requer instrução”.2
Vale, então, a imagem que podemos deduzir daí, de que é preciso saber se
perder para poder produzir um encontro. A condição espiritual e produtiva
do perder-se não se resolve com a informação que orienta, mas com as pos­
sibilidades de narrar tal experiência. Forcei um pouco essa imagem para poder
introduzir uma outra idéia que me parece crucial neste debate sobre a fun­
ção da cultura e que Benjamin se preocupa em desenvolver, com todos os
seus detalhes, em alguns de seus textos, mas sobretudo no ensaio “O narra­
dor - considerações sobre a obra de Nikolai Leskov”. Nesse texto, dedicado
a uma reflexão sobre Leskov, escritor russo do século XIX, Benjamin con­
trapõe ao declínio da arte de narrar a apologia da informação.

Se a arte da narrativa é hoje rara, a difusão da informação é decisivamente


responsável por esse declínio. Cada manhã recebemos notícias de todo o
mundo. E, no entanto, somos pobres em histórias surpreendentes. A razão é
que os fatos já nos chegam acompanhados de explicações. Em outras pala­
vras: quase nada do que acontece está a serviço da narrativa, e quase tudo
está a serviço da informação.3

Certamente, a pequena luz que esta idéia nos traz nos permite um olhar
crítico e atual sobre o que vivemos hoje. E neste mesmo texto que ele nos
deixa perplexos ao falar que a arte de narrar está em vias de extinção, im­
plicando uma dificuldade (senão impossibilidade) de intercambiar expe­
riências: “As ações da experiência estão em baixa, e tudo indica que conti­
nuarão caindo até que seu valor desapareça de todo.”4 Não há nenhuma

2 Benjamin, Walter. Infância em Berlim por volta de 1900. In: Obras escolhidas II. São
Paulo: Brasiliense, 1995, p.73.
3Benjamin, Walter. O narrador - considerações sobre a obra de Nikolai Leskov. In: Obras
escolhidas, v. 1., São Paulo: Brasiliense, 1985, p.203.
4Benjamin, Walter. Ibid. p. 198.

64
dúvida da pertinência desta idéia e o quanto padecemos de uma história
cega e de uma memória muda quando de nossa boca não sai nenhuma pa­
lavra nova. Para que serve uma história e uma memória que simplesmente
se contentam em repertoriar as evidências do senso comum (de que pouco
duvidamos) e em nos obrigar a uma repetição infinita em forma de eco?
Num estado de dispersão de idéias que conduz a uma anestesia da vida,
o sujeito contemporâneo imediatamente se confronta com uma sensação
de abandono e de fracasso. Na medida em que ele não pode nada enunciar
legitimamente em seu nome próprio, descobre-se estrangeiro em sua terra
natal e, desesperadamente, tenta conter seu tédio e desânimo com algum
artifício que restitua a sensação, mesmo incipiente, de estar contido em
algum lugar. A teoria dos conjuntos que anima a lógica do mercado, prin­
cípio motor de nosso tempo, já é conhecida de todos: consumo, logo sou.
Apropriar-se do objeto confere ao sujeito um ar de superioridade e de con­
sistência, mesmo que para isto tenha que fechar os olhos para o imenso
vazio que anima sua existência. Este objeto pode ter muitas faces: do car­
ro novo ao city tour da viagem de férias, dofa s tfo o d ao novo software, do
reality show às produções culturais. Um mergulho na cultura não é sufi­
ciente como garantia contra a tentação de se fartar no bujjet livre do mer­
cado de idéias. Talvez aqui tenha sentido uma dietética que possa nos ga­
rantir alguns princípios morais e nos proteger de uma obesidade precoce
que nos imobiliza. Nosso tempo criou um novo tipo de anestesia dos sen­
tidos pelo excesso de estímulos e, mais do que isso, pelo imperativo que
impõe um consumo a qualquer preço. Percebemos aí que o essencial é no
estilo de “relação ” (quando há uma) e, não simplesmente, uma confiança
cega no valor intrínseco do objeto do qual me aproprio. Walter Benjamin
sublinha este impasse quando faz referência às formas alienadas de estar
na cultura. “Nem sempre eles são ignorantes ou inexperientes. Muitas ve­
zes, podemos afirmar o oposto: eles “devoraram” tudo, a “cultura” e os “ho­
mens”, e ficaram saciados e exaustos”.
Podemos imaginar o quanto o estado de exaustão abre caminho para a
pasteurização do gosto impondo ao sujeito os ideais que deve aderir se quer
ser minimamente recompensado com uma tímida sensação de conforto. Com
o enfraquecimento dos laços de sua história e identidade fica à disposição
do mercado que não se esquece de cobrar de cada um, com os juros da pró­
pria vida, as promessas em que se engajou. Paradoxalmente, é não pagando
esta dívida que podemos restaurar nosso crédito com o futuro.
Se por um lado é fundamental resgatarmos na arqueologia de nos­
sas origens uma identidade, mesmo incipiente, mas que nos informe de
alguns traços de nossa herança, por outro, devemos nos apressar em di­
zer que ela não é suficiente. E preciso confrontá-la com uma alteridade

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UTOPIAS COMO ÂNCORAS SIMBÓLICAS1

Edson Luiz André de Sousa

Criar implica instaurar uma existência. Toda criação que se inscreve


na cultura como obra de espírito busca fundar um modo de olhar e uma
forma singular de compartilhar uma experiência. O que chamamos, por­
tanto, de cultura é o resultado de muitos atos criativos costurados no tem­
po. Por isso sempre que pensamos em cultura imediatamente podemos nos
referir a uma história que se produz num tempo determinado e uma expe­
riência que é transmitida. Pensar as condições desta transmissão configu­
ra um dos maiores desafios de nossa contemporaneidade.
Quais são, portanto, as condições de transmissão que dão forma e con­
sistência à experiência do sujeito contemporâneo? Qual o papel dos artis­
tas nesta transmissão? Quais os espaços de compartilhamento das expe­
riências singulares no laço social ? Qual a história, a memória e a narrati­
va possíveis para cada um de nós?
Num tempo que insufla em nossos ouvidos a virtude da autonomia cons­
truindo nossos ideais de forma narcísica e individualista, nada melhor que uma
parada estratégica para reflexão. Vivemos uma profunda confusão entre a or­
dem do singular e a ordem do individual. Estas categorias não podem ser con­
fundidas. O singular produz um estilo, busca uma forma de narrar uma histó­
ria, desenha uma memória possível e, portanto, constrói condições para que
uma transmissão aconteça. Nessa direção esse singular é uma peça fundamental

Edson Luiz André de Sousa é psicanalista, professor no Departamento de Psicanálise e


Psicopatologia do Instituto de Psicologia da UFRGS. Professor no PPG de Psicologia
Social e Institucional e do PPG em Artes Visuais - UFRGS. Doutor em Psicanálise e
Psicopatologia pela Universidade de Paris 7. Analista membro da Associação Psicanalíti-
ca de Porto Alegre e Associação Freudiana Internacional em Paris. Organizador junto
com Elida Tessler e Abrão Slavutzky do livro Invenção da vida: arte e psicanálise. Porto
Alegre: Artes e Ofícios, 2001.
1 Este texto é um a versão am pliada de um artigo publicado no Cadem o de Cultura do
Jornal Zero Hora em 18 de março 2002.

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no que pode ser compartilhado. Por outro lado, o individual - reinado da for­
taleza egóica em suas carapaças defensivas - sonha em poder prescindir desta
herança compartilhada. Produz, dessa forma, estas aberrações, que estamos can­
sados de ver, de indivíduos que desprezam a herança que os constituiu, se ex­
cluindo de uma história que os precede e não podendo reconhecer, na cultura,
quem são seus pais. Mas cuidado, não é suficiente uma referência a uma he­
rança, a uma tradição para que estejamos salvos do afogamento solipsista!
Dentro dessa mesma perspectiva, não é suficiente reconhecer uma tradição para
garantirmos uma história e um futuro. Então por qual caminho?
“Saber orientar-se numa cidade não significa muito. No entanto, per­
der-se numa cidade, como alguém se perde numa floresta, requer instrução”.2
Vale, então, a imagem que podemos deduzir daí, de que é preciso saber se
perder para poder produzir um encontro. A condição espiritual e produtiva
do perder-se não se resolve com a informação que orienta, mas com as pos­
sibilidades de narrar tal experiência. Forcei um pouco essa imagem para poder
introduzir uma outra idéia que me parece crucial neste debate sobre a fun­
ção da cultura e que Benjamin se preocupa em desenvolver, com todos os
seus detalhes, em alguns de seus textos, mas sobretudo no ensaio “O narra­
dor - considerações sobre a obra de Nikolai Leskov”. Nesse texto, dedicado
a uma reflexão sobre Leskov, escritor russo do século XDÍ, Benjamin con­
trapõe ao declínio da arte de narrar a apologia da informação.

Se a arte da narrativa é hoje rara, a difusão da informação é decisivamente


responsável por esse declínio. Cada manhã recebemos notícias de todo o
mundo. E. no entanto, somos pobres em histórias surpreendentes. A razão é
que os fatos já nos chegam acompanhados de explicações. Em outras pala­
vras: quase nada do que acontece está a serviço da narrativa, e quase tudo
está a serviço da informação.1

Certamente, a pequena luz que esta idéia nos traz nos permite um olhar
crítico e atual sobre o que vivemos hoje. E neste mesmo texto que ele nos
deixa perplexos ao falar que a arte de narrar está em vias de extinção, im­
plicando uma dificuldade (senão impossibilidade) de intercambiar expe­
riências: “As ações da experiência estão em baixa, e tudo indica que conti­
nuarão caindo até que seu valor desapareça de todo.”4 Não há nenhuma

2 Benjamin, Walter. Infância em Berlim por volta de 1900. In: Obras escolhidas II. São
Paulo: Brasiliense, 1995, p.73.
3 Benjamin, Walter. O narrador - considerações sobre a obra de Nikolai Leskov. In: Obras
escolhidas, v I , São Paulo: Brasiliense, 1985, p.203.
4 Benjamin, Walter. Ibid. p. 198.

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dúvida da pertinência desta idéia e o quanto padecemos de uma história
cega e de uma memória muda quando de nossa boca não sai nenhuma pa­
lavra nova. Para que serve uma história e uma memória que simplesmente
se contentam em repertoriar as evidências do senso comum (de que pouco
duvidamos) e em nos obrigar a uma repetição infinita em forma de eco?
Num estado de dispersão de idéias que conduz a uma anestesia da vida,
o sujeito contemporâneo imediatamente se confronta com uma sensação
de abandono e de fracasso. Na medida em que ele não pode nada enunciar
legitimamente em seu nome próprio, descobre-se estrangeiro em sua terra
natal e, desesperadamente, tenta conter seu tédio e desânimo com algum
artificio que restitua a sensação, mesmo incipiente, de estar contido em
algum lugar. A teoria dos conjuntos que anima a lógica do mercado, prin­
cípio motor de nosso tempo, já é conhecida de todos: consumo, logo sou.
Apropriar-se do objeto confere ao sujeito um ar de superioridade e de con­
sistência, mesmo que para isto tenha que fechar os olhos para o imenso
vazio que anima sua existência. Este objeto pode ter muitas faces: do car­
ro novo ao city tonr da viagem de férias, do fa s t fo o d ao novo software, do
reality show às produções culturais. Um mergulho na cultura não é sufi­
ciente como garantia contra a tentação de se fartar no buffet livre do mer­
cado de idéias. Talvez aqui tenha sentido uma dietética que possa nos ga­
rantir alguns princípios morais e nos proteger de uma obesidade precoce
que nos imobiliza. Nosso tempo criou um novo tipo de anestesia dos sen­
tidos pelo excesso de estímulos e, mais do que isso, pelo imperativo que
impõe um consumo a qualquer preço. Percebemos aí que o essencial é no
estilo de “relação ” (quando há uma) e, não simplesmente, uma confiança
cega no valor intrínseco do objeto do qual me aproprio. Walter Benjamin
sublinha este impasse quando faz referência às formas alienadas de estar
na cultura. “Nem sempre eles são ignorantes ou inexperientes. Muitas ve­
zes, podemos afirmar o oposto: eles “devoraram” tudo, a “cultura” e os “ho­
mens”, e ficaram saciados e exaustos”.
Podemos imaginar o quanto o estado de exaustão abre caminho para a
pasteurização do gosto impondo ao sujeito os ideais que deve aderir se quer
ser minimamente recompensado com uma tímida sensação de conforto. Com
o enfraquecimento dos laços de sua história e identidade fica à disposição
do mercado que não se esquece de cobrar de cada um, com os juros da pró­
pria vida, as promessas em que se engajou. Paradoxalmente, é não pagando
esta dívida que podemos restaurar nosso crédito com o futuro.
Se por um lado é fundamental resgatarmos na arqueologia de nos­
sas origens uma identidade, mesmo incipiente, mas que nos informe de
alguns traços de nossa herança, por outro, devemos nos apressar em di­
zer que ela não é suficiente. E preciso confrontá-la com uma alteridade

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que a instigue, que a transforme, que a questione. O confronto com a di­
versidade é fundamental para interpelar as compulsões conservadoras do
“si mesmo” e abrir brechas na identidade. Neste ponto, o desenho mais
claro é de uma zona de fronteira que nos mostra o quanto nos apropria­
mos de um sentido essencial quando pisamos na terra do outro. Por isso,
Heidegger insistia em dizer que uma fronteira não é o ponto onde algo
termina mas, como os gregos reconheceram, a fronteira é o ponto a par­
tir do qual algo começa a se fazer presente.
Pensar em produção cultural em nossa contemporaneidade implica,
necessariamente, em questionar o clássico isomorfismo entre espaço, lu­
gar e cultura. Quando falamos em culturas nacionais estamos apagando
algumas fronteiras que, mesmo minoritárias, não se reconhecem na hege­
monia do conceito. Muitos pensadores tem ultimamente trabalhado nesta
direção. Um deles, Homi Bhabha, chega a dizer que “o que é teoricamente
inovador e politicamente crucial é a necessidade de passar além das narra­
tivas de subjetividades originárias e iniciais e de focalizar aqueles momentos
ou processos que são produzidos na articulação de diferenças culturais”.
Este cruzamento de territórios, embora seja aparentemente consen­
sual, revela também seus impasses, principalmente a voracidade de cer­
tas formas que não toleram o que é destoante. São múltiplas as formas
de exclusão que desautorizam qualquer esforço de mudança do laço so­
cial. Mesmo os grupos aparentemente coesos e “harmônicos” sabem deste
perigo e se protegem a sete chaves. Qual é o ponto de silêncio em um
determinado grupo? Ora, o que liga um coletivo é certamente sua lingua­
gem, sua história, seus rituais, mas sobretudo os limites de sua lingua­
gem. Daniel Sibony no seu magnífico ensaio sobre o racismo nos mostra
que é em torno deste ponto de silêncio que trabalha a função de exclu­
são: se um membro do grupo evoca um ponto de silêncio, ele corre o ris­
co de exclusão. O grupo precisa desta função para assegurar a sua exis­
tência. O que faz com que o grupo seja um conjunto de pessoas decidi­
das a se calarem sobre a mesma coisa, a proteger esta coisa e a proteger-
se dela. Percebemos aí uma forma de existência que se apoia sobre a ex­
clusão. Ora, vemos aqui a importância de abordar este fantasma que pro­
cura controlar a identidade de um coletivo. Estaríamos nós a altura de
intervir neste ponto com nossas idéias e nossas ações?
Vivemos em nossos dias o impasse do descrédito atribuído a função
das utopias. Não podemos esquecer que a utopia sempre teve na história
da humanidade uma função de crítica social funcionando muito mais como
um convite a não tomar as formas de vida que se apresentam como defini­
tivas, irreversíveis e naturais. Neste sentido ela poderia cumprir com a
importante missão de arrancar os sujeitos do pântano do senso comum que

66
institui os sentidos aos quais deveríamos nos curvar. A utopia tem aqui uma
função de convite à imaginação. Ela permite que os sujeitos possam fazer
dos espaços que vivem um lugar. Abre, portanto, lugares para imagens
possíveis. Todo ato criativo traz em si uma utopia. O sentido da utopia não
seria, num primeiro momento, de ir em direção ao real mas sobretudo contra
o real. Normalmente, pensa-se em utopia como algo fora da realidade, ilu­
são, evasão, fantasia, delírio, projetos vazios. Esta forma de utopia funcio­
naria no clássico vetor presente - futuro. Seu horizonte seria sempre de
buscar tomar-se real. Se ficamos restritos a esta perspectiva, tais formas
utópicas perdem sua força. Como propõe Roger Dadoun podemos inver­
ter o sentido do vetor e pensar na utopia como um movimento que vai do
futuro ao passado, numa correnteza contra a realidade. A utopia adquire
aqui sua virtude de crítica social.
Trata-se, por conseguinte, de imagens que podem funcionar como ân­
coras simbólicas fundando lugares. Esta voz da imaginação, que tanto deve­
ríamos esperar dos intelectuais, se consolida quando estes se comprometem,
com sua obra, no debate dos valores do seu tempo. A cultura faz laço social
e por isso não pode se tomar território privativo de poucos e zona restrita de
especialistas nem sempre dispostos a lutar pelo bem comum e que facilmente
esquecem a dimensão política de uma produção. Se pensarmos a cultura como
viagem, como sugere James Clifford, percebemos que ela cria novos terri­
tórios de circulação e de vidas possíveis. Ela tem que necessariamente estar
presente em qualquer política de inclusão social.
Se toma cada vez mais necessária uma utopia que cumpra a função
de despertar e que possa combater as múltiplas faces da violência a qual
estamos confrontados: a violência do dogmatismo, a violência da hegemo­
nia das formas do senso comum que impedem o aparecimento do novo,
anestesiando as singularidades, a violência das discussões políticas vazias
de atitudes.
DA FUNÇÃO POLÍTICA DO TÉDIO
E DA ALEGRIA

P eter P á l P elb a rt

Toni Negri tem razão. Apesar da catástrofe que parece estar no fundo
da obra de Giacomo Leopardi (por exemplo, a memória dos vários fracas­
sos históricos, como o do século das Luzes e da Revolução Francesa), sua
poesia é uma lufada de imaginação, de transgressão e de ressurgência. Que
o leitor me perdoe o desvio aqui proposto, mas não há como deixar de alu­
dir a um dos mais belos textos sobre o tédio e a alegria escritos pelo poeta
italiano, publicado como parte de seus Opúsculos morais, em junho de
1827. Chama-se “História do gênero humano”,1

A ÂNSIA DO IMPOSSÍVEL

Era uma vez uma terra, muito menor do que a nossa, com regiões pla­
nas, céus sem estrelas, sem mar, homens todos da mesma idade, em suma:
por toda parte havia muito menor variedade e magnifíciência do que hoje.
Contudo, os homens compraziam-se insaciavelmente em observar e admirar
o céu e a terra, consideravam-nos lindíssimos, imensos, infinitos tanto em
majestade como em graça, e extraíam de cada sentimento incríveis delí­
cias, crescendo contentíssimos, com um pouco menos do que se chama fe­
licidade. Mas passada a infância e a adolescência, dimuinuiu aquela viva­
cidade nos seus espíritos. Passaram a andar pela Terra, e perceberam que

Peter Pál Pelbart é professor do Programa de Pós-Graduação em Psicologia Clínica pela


PUC de São Paulo. Graduado em Ciências Sociais pela USP e Filosofia pela Universite
Paris IV (Paris-Sorbone). É doutor em Filosofia pela U SP cuja tese se tom ou o livro O
tempo não-reconcihado: imagens de tempo em Deleuze. Seu mestrado pela PUC/SP tam­
bém lhe rendeu uma publicação intitulada Da clausura do fora ao fora da clausura:
oucura e desrazão. Publicou ainda A nau do tempo rei e Vertigem por um fio.
1 Giacomo Leopardi, Poesia e prosa Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1996, p .311 -321.

69
embora grande, tinha limites certos e não tão vastos que fossem inatingí­
veis. Pelo que crescia o seu dissabor, de modo que um manifesto tédio de
existir os invadia universalmente. Aos poucos, com a saciedade, ficaram
tão desesperados, não mais suportando a luz e o ar que respiravam antes,
que cada um a seu modo foi se privando deles.
Isso pareceu horrendo aos deuses, que a morte fosse preferida à vida
pelas criaturas humanas, cuja espécie haviam formado com tão singular
apuro e com maravilhosa excelência. Júpiter deliberou então, para melho­
rar a condição humana, e orientá-la para a felicidade com maiores subsí­
dios, mas sem poder satisfazer plenamente ao desejo de infinito que ambi­
cionavam os homens em toda coisa e neles mesmos, e de juventude eter­
na, que contrariava as leis da natureza e os decretos divinos, e de perfei­
ção, Júpiter resolveu então propagar os termos da criação, enfeitá-la: en­
grandeceu a terra, infundiu o mar para diversificar-lhe a aparência e intro­
duzir distâncias, aumentando os confins incognocícveis, pôs em tudo ares
de imensidão, em profundidade, em altura, na noite, na luz, na temperatu­
ra. Mas também diversificou as idades, de modo que a velhice de uns sor­
vesse a juventude de outros, e vice-versa. Para multiplicar ainda mais o in­
finito, nutrindo a imaginação dos homens, criou o eco, escondeu-o nos va­
les e nas cavernas, proveu as selvas de ruído surdo e profundo, e criou os
sonhos, encarregados de iludir os homens com aquela plenitude de uma
incompreensível felicidade, com imagens obscuras e indeterminadas, pe­
las quais os homens suspirariam incessante e ardentemente.
Levantou-se assim o ânimo dos homens, e voltou a graça e o amor à
vida, a delícia e o espanto com a imensidão das coisas terrenas. Esse esta­
do de coisas durou mais que o primeiro, principalmente porque os mais
velhos reviviam com a juventude dos moços, mas à medida que o tempo
progredia, voltou a faltar a novidade, resssurgiu o tédio e a desestima pela
vida, reduziram-se os homens a tal abatimento, de modo que passaram a
chorar a cada recém-nascido. Daí nasceu a iniqüidade, da própria calami­
dade do desencanto.
Punidos com o dilúvio, restaram apenas dois sobreviventes, que pouco
a pouco restauraram a espécie humana. Júpiter, que entendeu a ânsia de
impossível que atormentava os humanos, e que essa ânsia aumentava na
proporção em que diminuíam os demais males com os quais deviam preo­
cupar-se, decidiu entreter os homens em mil atividades e desviá-los o má­
ximo possível do diálogo com o próprio espírito. Difundiu entre eles do­
enças e desventuras, a ver se se contentavam com o bem que possuíam.
Sabia que com a dor aumenta a esperança e o apego à vida, que os infeli­
zes têm certeza de que seriam felicíssimos caso se livrassem de sua dor
presente. Lançou também trevas, raios, eclipses, e estabeleceu o espanto

70
entre os mortais, a ver se se reconciliariam os homens com os momentos
de apaziguamento. Enviou igualmente para eles alguns espectros, como
Justiça, Virtude, Glória, Amor-pátrio, Verdade. Tais visões fizeram bem aos
homens, mas cobraram deles muito esforço e vida e sangue. Mas também
elas com o tempo deterioraram-se e cresceu entre os humanos o fastio, e o
amargo desejo de felicidade desconhecida.

NIILISMO E HORROR

E hora de interromper o pastiche que fiz do texto de Giacomo Leo-


pardi sobre a “História do genero humano”, do qual usei trechos inteiros e
deformei muitos outros, omitindo várias passagens. Meu propósito inicial
é desprender-me do encanto que suscitou em mim essa historinha que te­
ria agradado a Schopenhauer ou Cioran, grandes admiradores de Leopar-
di, mas também a Nietzsche, no pólo oposto da alma filosófica. Qual é um
dos motos desse texto? E a idéia de uma roda do tédio que arruina o ho­
mem e contra o qual o deus luta, a cada vez inventando um expediente novo,
mais engenhoso ou alambicado, seja de diversificação, de tortura, de ele­
vação, de aspiração, de humilhação. A idéia, de qualquer modo, é que a
existência não basta para dar ao homem a alegria que lhe caberia. Tampouco
o mundo se basta. Tudo advém dessa indigência, que nenhum deus pode
jamais preencher. Um pouco rapidamente, e de modo expeditivo, vejo nessa
idéia como que um horizonte moderno de desencanto, cuja teoria Scho­
penhauer desenvolveu com maestria filosófica, e em cujo oco vem alojar-
se de maneira compensatória a idéia de prazer, alegria, felicidade. Não é
fácil escapar dessa dinâmica, o nada e o infinito, a indigência e a promes­
sa, a tortura e o repouso... Não está claro, tampouco, a que ponto em Leo-
pardi, assim como em Schopenhauer, não é essa uma antecipação visioná­
ria da absorção da sociedade pela artificialidade capitalista, na sua homo­
geneização indiferente e no misto de tédio e horror que ela inspira.2
O fato é que vivemos um momento particularmente aflitivo, no to­
cante aos afetos que o contexto social nos inspira. Poderíamos evocar os
últimos acontecimentos em Nova York e o clima de estupor, terror, para­
nóia, mobilização bélica, mas é preciso dizer que a sensação de niilismo
que o atentado apenas escancarou o antecede em muito. Em todo caso,
numa atmosfera dessas falar sobre alegria é uma tarefa impossível, e no
entanto, talvez tanto mais necessária. No belo diário de Viktor Klempe-
rer, um professor de literatura judeu que descreve o dia-a-dia durante a

' Tom Negri, “Lcopardi européen”, Futur Antérieur, n 41-42, Paris, 1997, p 17.

71
ascenção do nazismo, as poucas vezes em que aparece a palavra alegria
é para falar da relação da esposa com os gatos, “a única coisa que signi­
fica uma alegria genuína e uma ligação autêntica com a vida.”3Pois bem,
nossa época obviamente é outra, não estamos presenciando a ascenção
do nazismo, mas temos a impressão, por vezes, de que carecemos de ins­
trumentos conceituais para apreciar o que nos acontece com luzes dife­
rentes daquelas que iluminam o proscênio da comédia social. Daí o en­
tusiasm o que me inspirou o estudo de um italiano radicado em Paris,
M aurizio Lazzarato, que pôs em questão tantos lugares comuns sobre
afetos sociais.4Eu vou resumir em poucas palavras uma teoria rica e com­
plexa, inspirada em Gabriel Tarde. Tarde é um sociólogo-filósofo do fi­
nal do XIX, que desenvolveu o que se poderia chamar de uma economia
afetiva, ou uma economia psicológica, numa direção inteiramente estra­
nha ao século positivista em que ele viveu.

DESEJO E SIMPATIA

Tomemos a questão do desejo. O desejo em Tarde é um pleno, não


lhe falta nada, ele é um absoluto, uma força, uma virtualidade que tende à
sua atualização: ele tende a ir ao limite de sua potência. Mesmo o que cha­
ma de desejo aquisitivo encontra sua base, não numa incompletude do ser,
mas numa expansividade essencial, numa ambição propagatriz. Na sua ir­
radiação infinita a força encontra outras forças com as quais ela se com­
põe segundo interferências felizes, ou infelizes, estabelecendo relações de
comando e obediência, ou de cooperação. Nessa espécie de metafísica de
Tarde, a força não faz a experiência da falta, mas do limite, o que é outra
coisa. Toda força se associa ou entra em conflito com outras forças para
satisfazer sua avidez conquistadora, para aumentar sua irradiação e trans­
formar o limite num obstáculo a transpor.
Concedamos a Tarde esse ponto de partida, sejam quais forem as ob-
jeções que se possa evocar a respeito. O passo seguinte é examinar como
essa força afetiva opera. Para Tarde, tudo se passa por imitação e inven­
ção, todos imitam e inventam, imitam e impõem variações ao que imitam,
e a vida social inteira poderia ser reconstruída à luz dessas duas constan­
tes. Daí segue-se que todos e qualquer um inventam, na densidade social
da cidade, no trabalho, na conversa, nos costumes, no lazer - todos inven-

1 Victor Klemperer. Os diários de Victor Klemperer. São Paulo: Cia das Letras, 1999.
4 C f M aurizio Lazzarato, Puissances de l 'invention, Paris, Les empecheurs de penser en
rond, 2002.

72
tam, mas inventam o quê? Novos desejos e novas crenças, novas associa­
ções e novas formas de cooperação. A invenção não é prerrogativa dos gran­
des gênios, nem monopólio da indústria ou da ciência, ela é a potência de
todos e de cada um. Quando eu imito um gesto e submeto esse gesto a uma
pequena variação, por minúscula que seja, isso constitui uma invenção, na
medida em que ao ser imitado, toma-se quantidade social, e assim pode
ensejar outras invenções e novas imitações, novas associações e coopera­
ções. Quando foi que o primeiro jovem começou a usar o boné virado para
trás? Difícil dizer quem foi o inventor desse gesto minúsculo que posterior­
mente se tomou a marca de toda uma geração, que ensejou novas associa­
ções, cumplicidades, hostilidades, agrupamentos, etc.
De todo modo, à luz dessa economia afetiva, a subjetividade é uma
força viva, até mesmo uma potência política. Pois as forças vivas pre-
sèntes na rede social, com sua inventividade intrínseca, criam valores pró­
prios, e manifestam sua potência própia. E o cjue alguns chamam de po­
tência de vida do coletivo, sua biopotência. É um misto de inteligência
coletiva, afetação reciproca, produção de laço. Os economistas se deram
conta, nos últimos anos, que a natureza do trabalho contemporâneo soli­
cita cada vez mais esses ingredientes. Se pensamos em alguns setores de
ponta, como tecnociência, mídia, publicidade, são trabalhos que reque­
rem mais imaginação do que esforço, mais criatividade do que operações
maquinais, mais invenção do que repetição, mais solidariedade entre cé­
rebros do que isolamento solitário. Nada a ver com o trabalho automáti­
co, burro e repetitivo cuja versão cinematográfica está em Chaplin de Os
tempos modernos. Segundo a interpretação de alguns, essa mudança na
natureza do trabalho se deve à recusa crescente do trabalho burro e repe­
titivo, e expressa a vontade de liberar a inventividade, o que hoje se cha­
ma de força-invenção, e também liberar a “alegria” da cooperação. Não
sou eu dizendo, mas os economistas, sociólogos. A aspiração dos homens
teria se voltado para a cooperação interpsicológica, intermental, e pode­
mos citar a internet como um pequeno exemplo de concretização dessa
direção histórica que visa o que Tarde chama de “simpatia” . A simpatia
como uma potência constitutiva, um princípio cooperativo, uma relação
social fundamental.

DIFERENÇA E INVENÇÃO

Mas esse princípio de cooperação, de simpatia, é todo o contrário de


uma concórdia homogeneizante. O universo de Tarde é proliferante, múl­
tiplo, diverso.

73
Existir é diferir, a diferença, a bem dizer, num certo sentido é o lado subs­
tancial das coisas, o que elas têm de mais próprio e de mais comum. [...] A
diferença é o alfa e o ômega do universo; por ela tudo começa [...] Por toda
parte uma exuberante riqueza de variações e de modulações inauditas jorra
[das | espécies vivas, sistemas estelares, [...] e acaba por destruí-los e renová-
los inteiramente [...] Se tudo vem da identidade e se tudo visa e vai à iden­
tidade, qual é a fonte desse rio de variedades que nos encanta? Estejamos
certos, o fundo das coisas não é tão pobre, tão temo, tão descolorido quan­
to se supõe. Os tipos não passam de freios, as leis não são senão diques em
vão opostos ao transbordamento de diferenças revolucionárias, intestinas,
onde se elaboram secretamente leis e tipos de amanhã [,..].5

Aqui tudo é novidade. A propria invenção é um acontecimento jubi­


loso, uma combinação singular, encontro, hibndação, novo agenciamento
das relações entre as forças, que rearranja as coisas de maneira distinta. É
uma pequena diferença introduzida no mundo. Como se vê, entramos numa
atmosfera muito distinta daquela presente no conto de Leopardi, onde o
tédio leva os homens ao desespero e ao suicídio.
É que no pensamento de Tarde, inventar é uma grande alegria. A ale­
gria da invenção tem a ver com as novas formas de cooperação que ela
enseja. Tarde chega a falar de uma alegria “social”. Diz ele: “Quem diz
sociedade diz alegria; a alegria é a flor natural da sociabilidade”. A alegria
tem a ver com agir conjuntamente. Mesmo na grande indústria, com toda
a exploração ali presente, a cooperação e o agir conjuntamente introduzem
alegria na ação. E assim chegamos à tese mais radical de Tarde: toda ação
que empenha forças psicológicas, visa “a aquisição da alegria mais do que
o evitamento da dor”. É um ponto de vista curioso para alguém com tama­
nho trato social e econômico como o autor, já que a economia política e a
sociologia, mas também algumas vertentes do discurso “psi”, estão fun­
dadas sobre a falta, a carência, o sofrimento, a dor. Segundo Tarde, são
marcas de um pensamento teológico-político. Tarde diz claramente: “Ao
ler [tais autores] parece que todas as necessidades dos homens são negati­
vas, que eles têm por objetivo a supressão de um sofrimento, tal como a
fome, a sede, o frio, de natureza orgânica, - ou então essas outras priva­
ções de natureza intelectual: a ignorância, por exemplo. É verdade, como
o quer Schopenhauer, que só a dor é real, que o prazer nada mais é do que
sua ausência, sua negação, sua isenção”?

5 Gabriel Tarde, Monadologie et Sociologie, Paris, Collection Les Empêcheurs de Penser


en rond.

74
Numa obra de ficção científica estranhamente premonitória, Tarde se
refere a um momento futuro em que um Império único terá recoberto o pla­
neta, terá conquistado os confins mais longínquos, numa homogeneização
crescente, de linguagem, de cultura, de modos de vida, com o que se teria
reintroduzido um tédio universal, uma monocronia, uma insipidez global
que fará bocejarem os homens, lembrando curiosamente a situação evoca­
da por Leopardi no inicio desse texto. A partir dessa abolição de toda exte­
rioridade, porém, Tarde não evoca o surgimento de novos valores superio­
res que pudessem entreter o homem entediado, tal como o fez Leopardi -
ao contrário. Uma catástrofe ecológica, a ação de um bárbaro dissidente, o
bastardo Miltíade, misto de eslavo e bretão, teria precipitado uma transva-
loração de todos os valores, ao apontar a necessidade de abandonar o alto
e os valores transcendentes, e voltar-se para baixo, para as profundidades
vulcânicas do planeta, o incomensurável da criação, a invenção comum, a
relação verdadeiramente social do que hoje se convencionou chamar de
Multidão, a partir de suas virtualidades inexploradas.6

A multidão
Eu gostaria, de posse desses poucos elementos, fazer uma ponte com
um pequeno texto escrito por Toni Negri há pouco tempo a respeito do
momento que vivemos hoje, nessa estranha transição do moderno para o
pós-modemo. Diz Negri que estamos no fim de uma guerra monstruosa
que cobriu todo o século XX e que teve resultados tão dramáticos como os
da Guerra dos Trinta Anos, vivida no início do século XVII por Descartes.
Mas, acrescenta ele, dessas perturbações nasce o novo. O novo, em Des­
cartes, teve as características do sujeito individual. Entre nós, tem as ca­
racterísticas de uma multidão ético-política. “Mas para ambos, tanto para
Descartes quanto para nós, esse filho recém-nascido [seja o sujeito indivi­
dual ou a multidão] está sujo com todas as dores de sua geração. Padece­
mos esse momento sem conseguirmos apreender interiormente a alegria
da nova descoberta, e estamos confusos diante da potência do acontecimen­
to assim como, introspectivamente, atordoados com nosso estupor.”
Eis o que eu gostaria de articular minimamente: a alegria indizível
ainda com a descoberta dessa nova figura chamada multidão, e a alegria
como força intrínseca da própria multidão.
Duas palavrinhas sobre a multidão. Multidão é tradicionalmente um
termo pejorativo, ele designava um mundo pré-social que era preciso trans-

6 C f M aurizio Lazzarato, Puissances de l invention, op.cit.

75
formar numa comunidade política. A teoria política distingue multidão e
povo, sendo o povo um corpo público animado por uma vontade única, e a
multidão um simples agregado, que o governante enfrenta, e que cabe a
ele domar, dominar. Diferentemente de Hobbes ou Rousseau, na sua ca­
racterização negativa da multidão, Espinosa enxergava a democracia como
a acentuação máxima da atividade criadora da multidão. Ora, a multidão,
e nas condições contemporâneas isso é ainda mais visível, como o diz Vir-
no, é plural, centrífuga, ela foge da unidade política, ela não assina pactos
com o soberano, ela não delega a ele direitos, ela é resistente à obediência.
O povo, ao contrário, converge numa vontade geral, se reflete no sobera­
no ou no Estado. Ora, com a desagregação das classes sociais e a emer­
gência de um proletariado imaterial, ou intelectualidade de massa, que tra­
balha com informação, com programação, com imagens, com imaginação,
essa pluralidade de cérebros e afetividade conectados em rede, um certo
caráter da riqueza coletiva vem à tona. Ao revalorizar a multidão, Negri
fala justamente da potência dessa reserva coletiva, da construção do co­
mum, e da alegria. A definição espinosana da alegria é: a paixão pela qual
a alma passa a uma perfeição maior [Ética, Livro UI]. E a condenaçao vi­
rulenta que faz Espinosa das paixões tristes: “só uma feroz e triste supers­
tição proíbe que nos alegremos., quanto maior for a alegria de que somos
afetados, tanto maior é a perfeição a que passamos (260).”
Mas onde está a Multidão nesses termos anteriormente definidos,
como reserva coletiva plural, como construção do comum, como alegria?
Alguns localizam a emergência da multidão na cena contemporânea no
movimento de 68. Outros vêem sua ressurgência paulatina no movimento
que vai de Seattle a Gênova, passando por Porto Alegre. Ora, temos a im­
pressão de que tudo isso foi ofuscado subitamente pelo desmoronamento
das torres gêmeas e por afetos de massa alternados, de terror, de compai­
xão, de solidariedade, de júbilo, de ódio, de rebeldia, e é como se vísse­
mos desfilarem diante de nós signos arcaicos, signos futuros, no mais dra­
mático e imprevisível cenário desde a Segunda Grande Guerra, em que o
que parecia o plácido e tedioso fim da história, descrito por Leopardi ou
por Fukuyama, subitamente cede o lugar a um estrondoso terremoto, dei­
xando entrever o mais sinistro e o mais auspicioso.

CONCLUSÃO

Ora, talvez é chegado o momento de amarrar algumas pontas disso


que viemos desenvolvendo. Eu pretendi colher alguns elementos que nos
ajudassem a pensar a dimensão política da alegria e a alegria como uma

76
dimensão do político. Não é um tema fácil, a começar pelo tema clássico
da instrumentalização da alegria como pão e circo, como diversionismo,
até as formas mais contemporâneas de capitalização e até investimento na
alegria com fins mercadológicos inegáveis. E num momento tão dramáti­
co como esse que vivemos, em que se enfrentam duas “justiças” infinitas,
dois fundamentalismos especulares e complementares, a Lei do Mercado
e a de Deus, na qual a militarização do confronto e a generalização do ter­
ror nos enche de angústia, temos a impressão de que o niilismo contempo­
râneo chega a seu ápice. Impossível tematizar a alegria sem esse pano de
fundo, da mercantilização da afetividade, da militarização do cotidiano, da
psicopatia política. Um dos mais ativos militantes italianos soltou recen­
temente um apelo reivindicando uma mudança de tom, de humor, de psi­
quismo, contra o atiçamento aterrorizante, depressivo, de pânico. Eu re­
produzo aqui uma frase provocativa desse texto: “Organizemos a festa, a
alegria. Aleluia, o capitalismo global decidiu fazer-se a guerra. O gigante
que parecia indestrutível iniciou uma obra de autodestruição.”
Num contexto inteiramente outro, uma psicanalista surpreende-se que
a alegria tenha tão pouco lugar na teoria psicanalítica, quando ela é um afeto
tão precoce quanto a angústia. Ao lado da série da castração, constituída
pela frustração e renúncia, Radmyla Zygouris propõe alinhar a série da
jubilação, a alegria, o júbilo liberador em relação ao domínio do outro. Não
é meu propósito nem de minha competência adentrar o domínio psicanalí-
tico, e não cabe construir pontes estapafúrdias entre domínios tão diver­
sos, mas eu terminaria arriscando uma pequena idéia que se pode encon­
trar em Deleuze a respeito dessa série jubilosa. Diz Deleuze: somos água,
terra, luz e ar contraídos. Nossa sensibilidade vital primária percebe que
somos aquilo que contraímos, e nós contemplamos jubilosamente aquilo
de que procedemos. Beatitude em que se contempla em si mesmo não si
mesmo, mas aquilo de que se procede. Assim, o lírio, unicamente pela sua
existência, canta a glória dos céus, das deusas e dos deuses, isto é, dos ele­
mentos que ele contempla, contraindo. Mesmo sob a palavra eu, há peque­
nos eus, almas contemplativas. Sujeitos larvares nos quais o eu dissolvi­
do, como diz Deleuze, canta a glória de Deus, isto é, do que ele contem­
pla, contrai e possui.7E a maneira pela qual o mundo é dobrado no sujeito,
maneira pela qual o sujeito preende o que o rodeia, e se preenche a si, ma­
neira pela qual o sujeito se alegra na medida em que se preenche daquilo
que o constitui, self-enjoyment de Whitehead.

7 G. Deleuze. Diferença e repetição. Trad. Luiz Orlandi e Roberto Machado, Sâo Paulo:
Graal, 1988, p. 141

77
Passo agora às minhas considerações finalíssimas. Tarde previu uma
catástrofe ecológica, a ação de um bárbaro dissidente, o bastardo Miltía-
de, misto de eslavo e bretão, precipitando uma transvaloração de todos os
valores.Não sabemos se os acontecimentos do 11 de setembro prenunciam
essa transvaloração dos valores ou apenas reforçarão micro e macrofascis-
mos os mais atávicos e retrógrados. Em todo caso, podemos reivindicar
uma reconversão dos afetos, uma nova economia afetiva, em que as má­
quinas de guerra não se apropriem por inteiro dos afetos de revolta e que
se redesenhe uma nova equação entre alegria privada e política.
COMPLEXIDADE,
TRANSDISCIPLINARIDADE
E PRODUÇÃO DE SUBJETIVIDADE

Eduardo Passos
Regina Benevides

O pensamento contemporâneo enfrenta uma questão importante que gos­


taríamos de situar como ponto de partida para nossa reflexão. Trata-se do
tema da complexidade, uma questão específica, embora não menos difícil e
delicada, que querem os discutir em sua relação com as noções de
transdisciplinaridade e produção da subjetividade. Estaremos propondo esta
reflexão de um certo lugar no qual estas três noções se atravessam. Este lugar
é o dos estudos da subjetividade em uma perspectiva transdisciplinar. Acredi­
tamos que na fronteira das disciplinas, na zona de indeterminação que se pro­
duz entre elas, é possível tratar o tema da subjetividade em sua complexidade.
Quando falamos de complexidade não queremos este único sentido
que lhe é atribuído pelo senso comum. Complexo não é só o complicado,
o que ainda não se explicou ou que insiste como um limite para o conhe­
cimento. N a ciência contemporânea, ao contrário, o complexo é a proprie­
dade de certos fenômenos cuja explicação exige de nós o esforço de evi­
tarmos as simplificações reducionistas. Tal esforço resiste a uma tendên­
cia que foi dominante no campo da ciência moderna que, por princípios
metodológicos, fazia da explicação uma busca do simples. Explicar, neste
sentido, é apreender o fenômeno em sua simplicidade. Portanto, o que não
é simples é complicado, precisando ser explicado, isto é, simplificado,
reduzido às suas unidades simples.

Eduardo Passos é doutor em Psicologia, área de pesquisa Estudos da Subjetividade,


professor adjunto no Departamento de Psicologia da UFF.
Regina Benevides de Barros é doutora em Psicologia Clínica, área de pesquisa Estudos
da Subjetividade, professora adjunta no Departamento de Psicologia da UFF.

81
E como se define esta simplicidade? Para a ciência modema é simples
o que é isolado, descrito e explicado por uma disciplina. E simples o que se
submete à luz de um paradigma científico. A simplicidade de um problema
da ciência é resultado da semelhança ou adequação entre a questão investigada
e o paradigma dominante, no sentido atribuído a este conceito por Thomas
Kuhn.1 E graças ao paradigma que unifica as teorias de um dado campo
científico, que é possível identificar e isolar um problema evitando a forma
complicada como ele inicialmente se apresenta. A simplicidade é, portanto,
o resultado de um ação depurativa da ciência modema. E conseqüentemen­
te, tal ciência se caracteriza por manter-se no isolamento de seu meio ambiente
- o laboratório, a academia ou a Universidade - purificando os fenômenos,
simplificando-os, separando-os do mundo natural ou laboratorial de onde
provêm.2 Na oposição entre simplicidade e complexidade, opta-se pelo pri­
meiro termo, definindo-se o compromisso científico.
No entanto, a ciência se transforma, já que é dela essa vontade de
superação que lhe garante uma história e mesmo um progresso. Sem
entrar no mérito da discussão se já somos pós-modernos ou se jamais
fomos plenamente modernos, o fato é que a simplicidade não é mais o
ponto de convergência da ciência contemporânea. Verificamos em exem­
plos da física, da química e da biologia atuais que há um franco movi­
mento de divergência frente ao simples. E dessa maneira, aquela atitude
depurativa e aquele princípio de isolamento - isolamento do fenômeno
em relação à complicação do mundo e isolamento da ciência quanto às
outras formas de saber - cedem lugar a uma nova forma de experimen­
tação que abre a ciência para o contato com a complexidade em sua
dimensão irredutível. Um conjunto de novos objetos de investigação -
como os atratores caóticos, as estruturas dissipativas e os sistemas longe
do equilíbrio termodinâmico descritos por Prigogine, ou a diferenciação
embriológica tal como descrita por Waddington - impõe uma aborda­
gem que considere a evolução para níveis de complexidade superiores.3
A ciência contemporânea assumiu o desafio de pensar o processo de
auto-organização daqueles sistemas que evoluem, dissipando estruturas
e criando para si novas formas. Vale aqui citar Prigogine e Stengers em
sua avaliação do tema da complexidade:

‘Kuhn, Thomas. A estrutura das revoluções científicas. São Paulo: Perspectiva, 1987.
2Acerca desta ação purificadora da ciência modema, cf. Latour, Bruno. Jamais fomos
modernos. São Paulo: Ed. 34, 1997.
3Para uma melhor compreensão desses novos objetos da ciência contemporânea sugeri­
mos a leitura de Prigogine, Ilya & Stengers, Isabelle. Enciclopédia Einaudi. v. 26 Siste­
ma. Lisboa: Imprensa Nacional, 1993.

82
A atualização dos processos de auto-organização em termodinâmica per­
tence à evolução contemporânea das ciências da natureza. Quer se trate da
biologia, com a nova importância assumida pelas questões ecológicas, da
física, ou do desenvolvimento dos conceitos formais que permitem colocar
um problema idêntico em diferentes registros (catástrofes, objetos fractais,
estabilidade e flutuação, ordem pelo ruído, etc.), o problema já não consis­
te hoje em reduzir a complexidade ou em evitá-la, mas em procurar os
meios para a descrever, para compreender de que maneira a evolução para
uma complexidade crescente, ainda por definir, pertence propriamente à
história natural da natureza.
Mas a transformação determinada pelo fato de aceitar a complexidade
como problema legítimo das ciências não é apenas intelectual, é também
potencialmente social. Vimos que a separação entre o real simples e o
aspecto complexo operada pelas ciências clássicas naturais e clássicas
justifica a separação autoritária entre os que sabem, que têm acesso aos
“fatos” elementares, isolados nos laboratórios, e os que ficam prisionei­
ros das ilusões [...] Por conseguinte, atualmente as ciências naturais apren­
deram, pelo menos em princípio, que é necessário sair dos laboratórios,
dos lugares protegidos onde seus paradigmas se elaboram. Elas sabem
doravante que as situações idealizadas, simples, não são suscetíveis de
lhes fornecer uma chave universal. Devem, pois, voltar a ser “ciência da
natureza”, confrontadas com a múltipla riqueza que durante muito tempo
se arrogaram o direito de esquecer na sua busca dc uma verdade geral, de
uma simplicidade oculta.4

Eis, então, o desafio assum ido pela ciência da com plexidade: supe­
rar o antigo isolam ento e produzir no encontro com outros saberes. E des­
se desafio, sua forma paroxística é a aposta transdisciplinar, isto é, o pen­
samento que se produz no atravessamento das disciplinas, não no interior
delas, mas entre elas.
O tem a da com plexidade nos força, portanto, a pensar o problema
das fronteiras dos objetos e dos saberes. N a verdade, se estam os de acordo
com o fato de que os recortes binarizantes e excludentes operados pelos
paradigmas das ciências, construídos nos últimos séculos, já não bastam
para que possam os investigar/criar o mundo, im põe-se a construção de
uma outra postura, um outro modo de operar sobre/com as práticas. Ob­
serve-se que aqui já estam os optando por nos referir a práticas e não a
objetos-alvo de certas teorias. Estamos com eçando a transitar por entre
práticas cujas fronteiras apresentam porosidade maior, aberturas suscetí-

4Idem, p. 109-110.

83
COMPLEXIDADE,
7TUNS DISCIPLINARIDAD E
tODUÇÃO DE SUBJETIVIDADE

Eduardo Passos
Regina Benevides

>contemporâneo enfrenta uma questão importante que gos-


eomo ponto de partida para nossa reflexão. Trata-se do
uma questão específica, embora não menos difícil e
querem os discutir em sua relação com as noções de
e produção da subjetividade. Estaremos propondo esta
: cere lugar no qual estas três noções se atravessam. Este lugar
; da subjetividade em uma perspectiva transdisciplinar. Acredi-
ifronteira das disciplinas, na zona de indeterminação que se pro-
. e possível tratar o tema da subjetividade em sua complexidade,
falamos de complexidade não queremos este único sentido
|tf d x n d o pelo senso comum. Complexo não é só o complicado,
se explicou ou que insiste como um limite para o conhe-
Na c:èr.c:a contemporânea, ao contrário, o complexo é aproprie-
sne-s fenómenos cuja explicação exige de nós o esforço de evi-
; amplificações reducionistas. Tal esforço resiste a uma tendên-
àommante no campo da ciência modema que, por princípios
s. fazia da explicação uma busca do simples. Explicar, neste
e arreer.der o fenômeno em sua simplicidade. Portanto, o que não
e complicado, precisando ser explicado, isto é, simplificado,
ís s uas unidades simples.

e doutor em Psicologia, área de pesquisa Estudos da Subjetividade,


no Departamento de Psicologia da UFF.
iide-s de Barros é doutora em Psicologia Clínica, área de pesquisa Estudos
professora adjunta no Departamento de Psicologia da UFF.

81
E como se define esta simplicidade? Para a ciência moderna é simples
o que é isolado, descrito e explicado por uma disciplina. É simples o que se
submete à luz de um paradigma científico. A simplicidade de um problema
da ciência é resultado da semelhança ou adequação entre a questão investigada
e o paradigma dominante, no sentido atribuído a este conceito por Thomas
Kuhn.' É graças ao paradigma que unifica as teorias de um dado campo
científico, que é possível identificar e isolar um problema evitando a forma
complicada como ele inicialmente se apresenta. A simplicidade é, portanto,
o resultado de um ação depurativa da ciência moderna. E conseqüentemen­
te, tal ciência se caracteriza por manter-se no isolamento de seu meio ambiente
- o laboratório, a academia ou a Universidade - purificando os fenômenos,
simplificando-os, separando-os do mundo natural ou laboratorial de onde
provêm.2 Na oposição entre simplicidade e complexidade, opta-se pelo pri­
meiro termo, definindo-se o compromisso científico.
No entanto, a ciência se transforma, já que é dela essa vontade de
superação que lhe garante uma história e mesmo um progresso. Sem
entrar no mérito da discussão se já somos pós-modernos ou se jamais
fomos plenamente modernos, o fato é que a simplicidade não é mais o
ponto de convergência da ciência contemporânea. Verificamos em exem­
plos da física, da química e da biologia atuais que há um franco movi­
mento de divergência frente ao simples. E dessa maneira, aquela atitude
depurativa e aquele princípio de isolamento - isolamento do fenômeno
em relação à complicação do mundo e isolamento da ciência quanto às
outras formas de saber - cedem lugar a uma nova forma de experimen­
tação que abre a ciência para o contato com a complexidade em sua
dimensão irredutível. Um conjunto de novos objetos de investigação -
como os atratores caóticos, as estruturas dissipativas e os sistemas longe
do equilíbrio termodinâmico descritos por Prigogine, ou a diferenciação
embriológica tal como descrita por Waddington - impõe uma aborda­
gem que considere a evolução para níveis de complexidade superiores.3
A ciência contemporânea assumiu o desafio de pensar o processo de
auto-organização daqueles sistemas que evoluem, dissipando estruturas
e criando para si novas formas. Vale aqui citar Prigogine e Stengers em
sua avaliação do tema da complexidade:

1Kuhn, Thomas. A estrutura das revoluções cientificas. São Paulo: Perspectiva, 1987.
2Acerca desta ação purificadora da ciência m odema, cf. Latour, Bruno. Jamais fomos
modernos. São Paulo: Ed 34, 1997.
3Para uma melhor compreensão desses novos objetos da ciência contemporânea sugeri­
mos a leitura de Prigogine, Ilya & Stengers, Isabelle. Enciclopédia Einaudi. v. 26 Siste­
ma. Lisboa: Imprensa Nacional, 1993.

82
A atualização dos processos de auto-organização em termodinâmica per­
tence à evolução contemporânea das ciências da natureza. Quer se trate da
biologia, com a nova importância assumida pelas questões ecológicas, da
física, ou do desenvolvimento dos conceitos formais que permitem colocar
um problema idêntico em diferentes registros (catástrofes, objetos fractais,
estabilidade e flutuação, ordem pelo ruído, etc.), o problema já não consis­
te hoje em reduzir a complexidade ou em evitá-la, mas em procurar os
meios para a descrever, para compreender de que maneira a evolução para
uma complexidade crescente, ainda por definir, pertence propriamente à
história natural da natureza.
Mas a transformação determinada pelo fato de aceitar a complexidade
como problema legítimo das ciências não é apenas intelectual, é também
potencialmente social. Vimos que a separação entre o real simples e o
aspecto complexo operada pelas ciências clássicas naturais e clássicas
justifica a separação autoritária entre os que sabem, que têm acesso aos
“fatos” elementares, isolados nos laboratórios, e os que ficam prisionei­
ros das ilusões [...] Por conseguinte, atualmente as ciências naturais apren­
deram, pelo menos em princípio, que é necessário sair dos laboratórios,
dos lugares protegidos onde seus paradigmas se elaboram. Elas sabem
doravante que as situações idealizadas, simples, não são suscetíveis de
lhes fornecer uma chave universal. Devem, pois, voltar a ser “ciência da
natureza”, confrontadas com a múltipla riqueza que durante muito tempo
se arrogaram o direito de esquecer na sua busca de uma verdade geral, de
uma simplicidade oculta.4

Eis, então, o desafio assum ido pela ciência da com plexidade: supe­
rar o antigo isolamento e produzir no encontro com outros saberes. E des­
se desafio, sua forma paroxística é a aposta transdisciplinar, isto é, o pen­
samento que se produz no atravessamento das disciplinas, não no interior
delas, mas entre elas.
O tem a da com plexidade nos força, portanto, a pensar o problema
das fronteiras dos objetos e dos saberes. N a verdade, se estam os de acordo
com o fato de que os recortes binarizantes e excludentes operados pelos
paradigmas das ciências, construídos nos últimos séculos, já não bastam
para que possam os investigar/criar o mundo, im põe-se a construção de
uma outra postura, um outro modo de operar sobre/com as práticas. Ob-
serve-se que aqui já estam os optando por nos referir a práticas e não a
objetos-alvo de certas teorias. Estam os com eçando a transitar por entre
práticas cujas fronteiras apresentam porosidade maior, aberturas suscetí­

4 Idem, p. 109-110.

83
veis à ação de saberes variados que ao serem colocados fo ra de seus cam­
pos específicos são forçados a atravessar planos até então desconhecidos.
A operação, aqui, não é mais a de recortar por dicotomização, separação
de objetos e saberes a eles correspondentes, mas a de transversalização.
Temos, então um novo problema. Necessitamos de outros conceitos. N e­
cessitamos, até mesmo de uma outra maneira de concebê-los.
Imediatamente o que se destaca é a necessidade de discutir a noção
de problema e sua relação com a noção de conceito. Quando falamos de
problema evocamos a filosofia bergsoniana e o modo como ela toma a
situação problemática em seu duplo aspecto: criação de um problema e
solução de um problema.
Esse duplo aspecto corresponde aos movimentos divergentes do
pensamento. Este se realiza através do método da inteligência (preocu­
pação com a vida utilitária, com a adaptação e, portanto com a solução
de problemas), mas também pelo método da intuição (preocupação com
o movimento, com o que é da ordem do devir e, portanto com a criação
de problemas). Os movimentos divergentes do pensamento permitem a
realização de duas modalidades cognitivas: a ciência (inteligência) e a
filosofia (intuição).
Tomemos o problema da clínica já que ela nos coloca este duplo
aspecto. De um lado, a clínica se apresenta como um campo de problemas
a serem resolvidos exigindo o esforço intelectual de construção de estraté­
gias de intervenção. De outro, ela se constitui como um plano problemáti­
co a ser criado exigindo o esforço intuitivo de desmontagem dos proble­
mas estabelecidos e a invenção de novos problemas, de novos modos de
existência. Este é o sentido, acreditamos, de uma clínica da produção da
subjetividade, uma clínica não do sujeito, mas da subjetivação, não da
mera solução dos problemas, mas da criação de novas questões. Mas afir­
mar este duplo aspecto da clínica não pode significar uma dicotomização
entre uma dimensão técnica, porque preocupada com a solução de proble­
mas e uma dimensão ético-estético-política porque criadora da clínica.
A nova operação - a de transversalização impõe um processo de
desestabilização daquilo que era até então nomeado como o campo da
clínica: objetos bem definidos e teorias internamente consistentes, sujei­
tos do conhecimento e objetos a serem conhecidos, territórios bem marca­
dos de ação, e sp e c ia lista s cô n scio s de seu d iscu rso s. C om a
desestabilização, o que emerge é o plano de constituição da clínica no
qual as dicotomias dão lugar aos híbridos,5 as fronteiras apresentando seus

5Cf. Latour, 1997.

84
graus de abertura, suas franjas móveis por onde os saberes se argúem, as
práticas se mostram em sua complexidade. A criação do plano da clínica
é, portanto, não só a invenção de novos problemas como de estratégias de
solução dos impasses gerados nas novas configurações.
Neste sentido, com a desestabilização do campo da clínica, não se
perde a preocupação com as questões estratégicas embora estas não mais
se definam como puramente técnicas. Se acompanhamos a etimologia da
palavra técnica, que provém de techné, significando o fazer, não é possí­
vel conceber a clínica sem esta dimensão pragmática. No entanto, esta
dimensão apresenta-se aqui, menos como método ou inventário de proce­
dimentos e formas de ação e mais como um processo constante de inven­
ção de estratégias de intervenção em sintonia com os novos problemas
constituídos.
O caráter híbrido das estratégias de intervenção está exatamente no
ponto onde a solução de problemas convoca seu rearranjo, a invenção de
um novo território onde tal problema será necessariamente outro. A solu­
ção de um problema se confunde com a criação de um outro problema. E
por isso que podemos dizer que na clínica importa muito mais a criação de
novas entradas do que a “descoberta” de saídas.
Inventamos, no plano problemático da clínica um conceito-ferramenta
capaz de acompanhar estes movimentos de hibridação que lhe são própri­
os: o conceito de clínica transdisciplinar. Nesse caso, o conceito proposto
parece agravar aquilo que consideramos como próprio da noção ela mes­
ma de conceito.
Segundo Deleuze e Guattari o conceito não deve ser entendido como
a definição de uma essência nem como a descrição de um estado de coisa,
mas se apresenta como uma “cartografia de circunstância”.6 Como tal,
apresenta-se como o plano de emergência de algo, isto é, a rede de cir­
cunstâncias engendradoras de dada realidade. O conceito, portanto, ex­
pressa um processo de produção. Neste sentido, o conceito de subjetivida­
de diz menos respeito a uma forma ou estrutura subjetiva do que a um
processo de subjetivação, assim como o conceito de clínica transdisciplinar
é a expressão do plano de constituição da clínica.
Enquanto produção, o conceito não se apresenta como uma totalida­
de fechada. Em O que é a filosofia?1Deleuze e Guattari dizem que não há
conceito simples, pois todo conceito tem componentes, sendo, portanto,

‘ Deleuze, Gilles. Mil platôs não formam uma montanha, eles abrem mil caminhos filosó­
ficos. In: Escobar, Carlos Henrique de (org.) Dossier Deleuze. Rio de Janeiro: Hólon,
1991
7Deleuze, Gilles; Guattari, Félix. O que è a filosofia? São Paulo: Ed. 34, 1993.

85
uma multiplicidade. É por isso, também que podemos afirmar que o con­
ceito possui contorno indefinido, irregular, já que nunca totaliza comple­
tamente seus componentes (do contrário seria um puro caos).
Mas, se o conceito desempenha função de todo, isso se realiza para­
doxalmente sem que as partes sejam efetivamente totalizadas na unidade
do conceito. Em o Anti-Edipo8 esta idéia já aparecia quando diziam que
deve se distinguir o todo que totaliza, que unifica, submetendo seus com­
ponentes, subsumindo o diverso na identidade do um e o todo que não
totaliza porque se põe como uma “totalidade ao lado das partes”. “E se
encontramos uma totalidade assim ao lado das partes, é um todo dessas
partes, mas que não as totaliza, uma unidade de todas essas partes, mas
que não as unifica, e que se acrescenta a elas como uma nova parte com­
posta à parte”.9
Tomemos o conceito de grupo para dar consistência a esse sentido de
uma totalidade ao lado. O caráter à parte do todo faz dele menos um
elemento de homogeneização de seus componentes do que uma forma de
comunicação “ aberrante” entre partes não comunicantes. Na clássica
conceituação de grupo temos a definição dele como “um todo mais do que
a soma das partes”.10 O sentido aqui é justamente o de uma totalidade que
estabelece, por meio da identificação, uma homogeneização de suas par­
tes, de suas diferenças, estabelecendo entre elas “ com unicações”
unificadoras. O grupo, tomado como dispositivo de desindividualização
ou de coletivização, imprime outro sentido à idéia de totalidade, já que
está à parte, ao lado de seus componentes, atiçando a diferenciação, pro­
duzindo mil platôs.
Esta irregularidade do contorno do conceito lhe garante uma força
de transversalização. Cada conceito reenvia a outros conceitos, formando
rede, conexões, tanto em sua história, quanto em seus devires.
A história de um conceito diz respeito ao seu movimento de zigue-
zague, atravessando planos e problemas diversos. Em um conceito há
sempre pedaços ou componentes oriundos de outros conceitos que res­
pondiam a outros problemas de planos discursivos diversos. O devir de
um conceito é a relação de entrecruzamento dos conceitos situados num
mesmo plano. Cada conceito reenvia a outros conceitos em seu devir ou
em suas conexões presentes. Dizem Deleuze e Guattari: “Todo conceito,
possuindo um número finito de componentes, bifurcará sobre outros con­

8Deleuze, Gilles; Guattari, Félix. O anti-Édipo: capitalismo e esquizofrenia. Rio de Ja­


neiro: Imago, 1976.
9Deleuze, Gilles; Guattari, Félix, op. cit, p.61.
10Lewin, Kurt. Princípios de psicologia topológica. Sâo Paulo: Cultrix, 1973.

86
ceitos compostos de modos diferentes, rnaa que constituem outras re­
gras do mesmo plano, respondendo a problemas conectáveis, partici­
pando de uma co-criação”.H
O conceito enquanto multiplicidade, criado pela associação de com­
ponentes heterogêneos, é sempre singular e composto. Singular porque
toda criação é uma singularização e composto porque a criação aqui é
realizada por elementos heteróclitos. Neste sentido, o conceito não é uni­
versal, já que é uma realidade criada. Como diz Nietzsche, em suas obras
póstumas (1884-1885): “os filósofos não devem se contentar em aceitar
os conceitos que lhes dão, para somente limpá-los e fazê-los reluzir, mas é
preciso que eles comecem a fabricá-los, criá-los, pô-los e persuadir os
homens a recorrer a eles”.12
O caráter composto do conceito é o que lhe confere consistência.
Segundo Deleuze e Guattari, a consistência diz respeito ao grau de
indiscemibilidade do conceito, isto é, aquilo que se passa nas regiões de
vizinhança ou de contágio, o que se passa entre os domínios. Os compo­
nentes de um conceito mantêm-se nele distintos porém inseparáveis. Essa
inseparabilidade se dá como zonas de devir ou de vizinhança internas ao
conceito (endoconsistência). Mas o conceito tem também uma consistên­
cia que se forma na relação com outros conceitos. N a rede formada, rede
de conexões dos regimes de variação, constroem pontes sobre o plano
conceituai (exoconsistência).
Em O que é a filosofia? Deleuze & Guattari exemplificam essa
análise com o conceito de eu tal como ele aparece na forma do cogito
cartesiano, o eu de Descartes. Esse conceito possui três componentes:
duvidar, pensar e ser, de tal forma que o sentido do conceito se dá como
uma multiplicidade em relação e cuja fórmula sintética é a do: penso,
logo existo.
O conceito se condensa no “ponto E” : E de existir, E de Eu. Eu duvi­
do, eu penso, eu sou. Em Descartes a força dessa condensação se deve a
duas funções dom inantes a essa época: função de universalização/
totalização e função de individualização. Entretanto, como nos lembram
D eleuze e G uattari, essa tentativa de to talização neste ponto de
condensação, mesmo aí, não é forte o suficiente para impedir que os com­
ponentes intensivos do conceito se arranjem em zonas de indiscemibilidade
por onde eles se atravessam tomando-se inseparáveis.
Uma primeira zona de vizinhança se estabelece entre duvidar e pen­
sar: Eu que duvido, não posso duvidar que penso. Uma segunda zona se

11Deleuze,Gilles; Guattari, Félix, 1993, p.24.


l:Nietzsche, Friedrich. Os pensadores. VolXXXII. Sâo Paulo: Abril, 1974

87
estabelece entre pensar e ser: para pensar é preciso ser. Mas se, em Des­
cartes, as funções universalizadora e individual izadora são dominantes,
permitindo a pregnância do conceito de Eu, no pensamento contemporâ­
neo, outras funções vêm tomar o lugar daquelas.
Num artigo publicado na revista Confrontation,13Deleuze afirma que
“um conceito não morre quando se quer, mas apenas quando novas fun­
ções em novos campos o tomam caduco”.14 Um conceito, portanto, reali­
za funções, põe a funcionar relações sendo ele próprio feito delas, de tal
modo que é melhor construir novas funções e descobrir novos campos do
que ficar preso em um movimento circular crítico-reativo.
Nesse artigo, Deleuze pergunta-se acerca da função do conceito de
sujeito. P rim eiram en te, ele te ria d esem penhado um a função de
universalização no campo do pensamento e da linguagem. Em segundo
lugar, o conceito de sujeito desempenhou uma função de individualização,
no campo onde o indivíduo é uma pessoa que fala e a quem se fala: rela­
ção eu-tu. São os dois aspectos do sujeito: o eu (je) universal e o eu (moi)
individual.
No pensamento contemporâneo, mudanças parecem indicar o apare­
cimento de novas funções e a exigência de novos conceitos. O tema da
sin g u la riz a ç ã o o cu p a p ap el de d estaq u e cad a v ez m aior na
contemporaneidade. O singular é o que se situa na vizinhança, é o que
possui consistência, formando o plano da multiplicidade não referido a
nenhum sujeito ou unidade preliminar. No lugar da universalização, vigo­
ra a função de singularidade.
A função de singularidade substitui, portanto, a função de universa­
lidade. Na clínica pudemos identificar essa passagem quando distingui­
mos “o caso da clínica” da “clínica de um caso”. A primeira dizendo res­
peito à experiência da clínica em seu processo de singularização, isto é,
uma clínica se fazendo ou em constante construção (o plano da clínica). Já
a segunda, referindo-se às tentativas de buscar no testemunho fidedigno
do “caso” a confirmação dos universais da clínica - fórmulas técnicas e
conceitos naturalizados (édipo, castração, sexualidade).
Contemporânea a essa função, há uma outra que é a função de
individuação não pessoal dos acontecimentos. Pode-se cham ar esta
individuação de hecceidade ou individuações não pessoais pois revestidas
de um caráter neutro, impessoal e impreciso que foge do jogo entre o eu e
o tu. Estas individuações configuram domínios do indeterminado, isso
que nas línguas saxônicas se expressaria com a quarta pessoa do singular,

13Deleuze, Gilles. Un concept philosophique. Confrontation, n.20, p.89-90, 1989.


14Deleuze, Gilles, op. cit, p.89

88
o it. O que se individua, aqui, não é um Eu ou uma pessoa, mas um acon­
tecimento em sua singularidade, e em sua indefinição: um vento, um grito,
um cachorro magro na rua, uma vida, uma estação, etc.
Deleuze conclui que “a noção de sujeito perdeu muito de seu interes­
se em nome das singularidades pré-individuais e das individuações não
pessoais” .15
Essas novas funções apontam para um outro conceito afeito aos
movimentos de singularização e individuação. Daí o conceito clínico de
subjetividade enquanto processo de subjetivação e diferenciação. Estes
conceitos e as funções a eles correlatas compõem alguns dos eixos da
construção do plano da clínica transdisciplinar.
Afirmamos: “Toda clínica é transdisciplinar” . Para sustentar tal afir­
mação, teremos que realizar movimentos que não traçam um percurso
linear e necessário. Trata-se, ao contrário, de uma construção que pode­
mos dizer rizomática, já que se faz por múltiplas entradas, por diferentes e
novas direções.
Percorrer caminhos cheios de bifurcações, ousar rotas que nos levam
sempre a outras inesperadas rotas. Fazer certas escolhas, certos desvios e
não outros. Tomar da diferença seu potencial de diferir. Afirmar que, num
certo sentido, somos sempre marinheiros de primeira viagem ou, pelo
menos, que devemos nos esforçar para sê-los.

15Op.cit, p.89.

89
CONHECIMENTO E CARTOGRAFIA:
TEMPESTADE DE POSSÍVEIS

Patrícia Gomes Kirst


Angélica Elisa G iacom el
Carlos José Simões Ribeiro
Lu is A rtur Costa
Giovani Souza Andreoli

Cartografar remonta a uma tempestade... Tempestade de escolher ro­


tas a serem criadas, constituir uma geografia de endereços, de registros de
navegação, buscar passagens... Dentro do oceano da produção de conhe­
cimento, cartografar é desenhar, tramar movimentações em acoplamentos
entre mar e navegador, compondo multiplicidades e diferenciações. Ao
mesmo tempo, sustentar uma postura ético-estética de acolher a vida em
seus movimentos de expansão segundo implicações políticas do tempo, do
perspectivismo, da contingência e invenção.

Patríca Gomes Kirst é psicóloga e mestre em Psicologia Social e Institucional pelo Pro­
grama de Pós-Graduação em Psicologia Social e Institucional. Docente, consultora dc
projetos de capacitação em RH, pesquisadora e fotógrafa.
Angélica Elisa Giacomel é psicóloga e m estranda do Programa de Pós-Graduação em
Psicologia Social e Institucional/UFRGS.
Carlos José Simões Ribeiro é psicólogo e mestre em Psicologia Social e Institucional -
UFRGS. Integrante do grupo de pesquisa “Modos de trabalhar, modos de subjetivar”
Autor do artigo: “Fluidos in fluxo ou como escapar da solidez”. In: Fonseca, Tama G. M.,
Francisco, Deise J. Formas de ser e habitar na contemporaneidade. Porto Alegre: Edito­
ra da Universidade, 2000.
Luis Artur Costa é graduando do Curso de Psicologia da UFRGS. Bolsista de Iniciação
Científica sob orientação da Dra Tânia Galli Fonseca.
Giovani Souza Andreoli é psicólogo clínico e institucional e M estrando do Programa de
Pós-Graduação em Psicologia Social e Institucional da UFRGS. Integrante do grupo de
pesquisa “Autopoiesis” coordenado pela Dra. Cleci Maraschin, graduando do Curso de
Artes Plásticas do Instituto de Artes da UFRGS.
Os autores são integrantes do Grupo de Pesquisa “Modos de trabalhar, modos de subjetivar”,
coordenado pela professora Dra. Tania M ara Galli Fonseca.

91
A cartografia vem sendo apresentada e problematizada contemporanea­
mente - num movimento de resgate da dimensão subjetiva da criação e pro­
dução de conhecimento - por autores como Gilles Deleuze, Michel Serres,
Félix Guattari, Sueli Rolnik e Pierre Lévy no que se convencionou chamar
de “pensamento da diferença” ou “filosofia da multiplicidade”. Estes, por
sua vez, são inegavelmente influenciados pela produção de Nietzsche.
O termo “cartografia” utiliza especificidades da geografia para criar
relações de diferença entre “territórios” e dar conta de um “espaço”. As­
sim, “Cartografia” é um termo que faz referência à idéia de “mapa”, con­
trapondo à topologia quantitativa, que categoriza o terreno de forma está­
tica e extensa, uma outra de cunho dinâmico, que procura capturar inten-
sidades, ou seja, disponível ao registro do acompanhamento das transfor­
mações decorridas no terreno percorrido e à implicação do sujeito perce-
bedor no mundo cartografado.
A cartografia não determina em si uma metodologia, porém antes, pro­
põe uma discussão metodológica que se atualiza na medida em que ocor­
rem encontros entre sujeito e objeto.
Este ensaio procura contribuir para a produção de conhecimento no
âmbito acadêmico através da problematização do conceito de método. Para
tanto, nós - psicólogos sociais ligados à Universidade, e mais especifica­
mente ao Grupo “Modos de trabalhar modos de subjetivar”, em sua dimen­
são tripartida de pesquisa, ensino e extensão - tomamos a história de nos­
sa própria disciplina, inserida num percurso epistemológico, para falar de
como o conhecimento produz realidades expressas em sujeitos e mundos.
Buscaremos, portanto, explicitar esse caráter enroscado/enervurado do
conhecimento e desnaturalizar os modos pelos quais ele se torna forma de
verdade, como o caso do método científico cartesiano.

O HOMEM E O CONHECER/SER

A psicologia, como função problematizadora do pensamento, tem suas


origens perdidas nas não-fronteiras da história, podendo ser considerada
atuante nas práticas humanas desde tempos remotos. Os gregos da Anti­
guidade, apegados a uma metafísica própria e a seus universais parajusti-
fícar o saber, perscrutaram as reentrâncias do homem, seu conhecer, afe­
tos, memória, sentir e agir. As regras lógico-matemáticas ou geométricas
era atribuído um status ontológico privilegiado: o fundamento da verdade
era o Logos/Nous em sua atividade de obtenção do que jamais deixa de ser,
universal, imutável, transcendente ao sensível - o inteligível. Empreitada
justificada pela sua própria beleza e importância moral, pois o ápice do

92
humano seria a existência contemplativa, este Nous que distingue o homem
do “meramente” animal.
Apropriando-se da filosofia grega, a teologia cristã, romana e m e­
dieval, irá repetir a fuga do sensível, das paixões. As formas universais e
verdadeiras abandonam suas antigas alocações e passam a ser parte de
Deus, pura inteligência infinita. O corpo permanece uma prisão que nos
obriga ao sensível, impedindo o acesso imediato das verdades. Em bus­
ca do inteligível, deve-se fugir das sensações, descartando-as em prol das
únicas fontes seguras de conhecimento: a iluminação divina e a verdade
revelada no texto bíblico. Enfim, o sujeito cristão epistêmico e moral são
indiscerníveis.
Então, houve uma atribulação criativa denominada Renascimento. Li-
bertando-se dos dogmas da autoridade da Igreja, passou-se a uma liberda­
de de criação que não carregava a imposição dos sistemas teológicos; mul­
tiplicaram-se caminhos possíveis, retomando o desconhecido. Porém, dian­
te da multiplicidade de novas certezas e da dissolução de antigas, surge a
dúvida cética. Muitos se angustiavam com a ausência de solo do Renasci­
mento e buscavam uma nova forma de certeza.
Para findar com as cores, sabores, apetites e odores, que acabavam
por frutificar uma multiplicidade de matizes do pensamento, e que, com
sua leveza enalteciam a dúvida, forjou-se o método. Na luta contra o dog­
ma e a dúvida erige-se algo que não é em si a Verdade, mas sim o modo de
obtê-la. O método como dura disciplina do experienciar, transmutador das
fugidias contingencialidades sensíveis em números e leis, tem na matemá­
tica o emblema da certeza dos experimentos de medição e da “pureza” de
raciocínio. Portanto, a autoridade do experienciar não estava propriamen­
te no indivíduo, afinal, seus apetites e paixões, o que se denomina subjeti­
vo, haviam sido excluidos da produção de conhecimento pelo método, o
qual atribui autoridade à experiência empírica e à razão “bem conduzidas”.
Assim, a autoridade migrou das grandes escolas, dos grandes pen­
sadores para o método, o qual, por sua vez, poderia ser usado por qualquer
indivíduo que, ao utilizá-lo, participaria de sua autoridade, tomando-se um
sujeito epistêmico universal, mas jamais estando autorizado por si. O su­
jeito, em uso do método, toma-se sempre igual a si e a todos, pois, como
modo de apreensão do que é geral e estático, o método propõe-se a excluir
do homem toda diferença e movimento, tudo o que é imprevisto e contin­
gente. Este é o indivíduo neutro da modernidade, que esterilizado pelo
método, adquire a assepsia e a pureza necessárias para investigar o real sem
infectá-lo. Acreditava ser possível um conhecimento direto, exato e frio
das “coisas em si”, como se a razão, suposta substância independente dos
acidentes, refletisse uma imagem impossível de ser vislumbrada com os
olhos, mas unicamente através de conceitos fixos, aos quais se atribui uma
realidade demonstradamente necessária.
Passado o século XVIII, vemos a agonia no pensamento ocidental,
a “ [...] crise de uma certa cartografia da existência humana que começa
a se fazer sentir no final do século XIX e se intensifica cada vez mais ao
longo do século XX - a cartografia do sujeito da razão constituído no Ilu-
m inismo” (Suely Rolnik, 2000, p. 14). O medo e o descontentamento com
os rumos seguidos pelo projeto da modernidade expressaram-se em diver­
sos autores. Dois, especialmente afins em suas críticas, são Dostoievski e
Nietzsche.

“ [...] onde estão minhas causas primeiras, em que me apóie? Onde estão os
fundamentos? Onde irei buscá-los? Faço exercício mental e, por conseguin­
te, em mim, cada causa primeira arrasta imediatamente atrás de si outra,
ainda anterior, e assim por diante até o infinito” (Dostoievski, 2000, p.29).

Vemos aqui, a angústia do modemo que não se percebe capaz de crer


nos axiomas de sua própria doutrina, que na busca pela verdade não se
defronta com as evidências autodemonstráveis, mas apenas com um flu­
xo infinito que destitui de autoridade todo seu discurso sobre a natureza
das coisas. M as,“ [...] o homem é a tal ponto afeiçoado ao seu sistem a e
à dedução abstrata que está pronto a deturpar intencionalmente a verda­
de, a descrer de seus olhos e de seus ouvidos apenas para justificar sua
lógica” (idem, p.36).
O homem modemo evita o sensível, pois este é fugidio, e o seu cor­
po, como se prisão fosse, pois o submete ao duplamente incontrolável: o
sensível das sensações e o irascível das paixões. Entretanto, sob o jugo da
Razão, ouve-se um grito de liberdade do indivíduo e seus ímpetos, paixões
e peculiaridades. Pois, as amarras que fornecem segurança, são as mesmas
que aprisionam.
Nietzsche irá dizer que a aparente ausência de cores da assepsia do
método, nada mais é do que uma pintura que busca expressar com suas tintas
a ausência de coloração. Ao invés de constituir uma posição externa às
outras, desde onde tudo se pode ver isto não passa de mais uma perspecti­
va, afirmada por uma “vontade de não ter vontade”.
Assim, o homem não possui a capacidade que almeja de obter um
conhecimento universal e irrestrito, devido às suas contingências, pois
estas são tudo que há. Tampouco é possível um saber de lâmina fria, in­
dependente das turbulências das paixões. Afinal, como distinguir o de­
sejo e demais afetos do pensar? O próprio “sujeito” em Nietzsche é um
turbilhão de forças em constante embate estratégico, em constante mo-

94
vimentação, à qual, usualmente, atribuímos uma unidade centrada na
consciência. Tais forças presentes, desde os seres unicelulares até o “so­
cial”, transbordam ao próprio indivíduo; que não é simplesmente um,
como tampouco possui fronteiras delimitadas. Além do mais, não há dis­
tinção entre este ser e a expressão do arranjo de forças, como se vivêsse­
mos em uma tela expressionista, onde inexiste a cisão forma-conteúdo,
um e outro são um só. São efeitos e efeitos a se concatenar em uma tra­
ma dinâmica, a qual constitui uma espécie de jogo em permanente trans­
mutação. Um jogo que tem suas regras afirmadas e mudadas em cada
ação, mas jamais como algo subjacente ao que ocorre, elas são no que
ocorre, enquanto ocorre.
Porém, a muitos angustia esta existência errante e repleta de dúvida.
O movimento vertiginoso cria, no abdômen de muitos, um frio cortante e,
por isso, esses logo se escondem, com medo do fluxo, em abstrações ge­
rais e etemas as quais eles afirmam absolutas, quase divinas, por demasia­
do humanas.

Acreditais no palácio de cristal, indestrutível através séculos, isto é, um


edifício tal que não se lhe poderá mostrar a língua às escondidas, nem fazer
figa dentro do bolso. [...] Pensai o seguinte: se em lugar do palácio, existir
um galinheiro, e se começar a chover, talvez eu trepe no galinheiro a fim de
não me molhar; mas, assim mesmo, não tomarei o galinheiro por um palá­
cio, por gratidão, pelo fato de ter me protegido da chuva. Estais rindo,
dizeis até que, neste caso, galinheiro e palácio são a mesma coisa. Sim,
respondo, se fosse preciso viver unicamente para não se molhar.
(Dostoievski, 2000, p.48-49)

Assim, negando-se a adorar um guarda-chuva conceituai qualquer,


Nietzsche (1999, p.99) propõe:

[...] tenho pelo menos um par de cotoveladas prontas para o cego furor
com que os filósofos se rebelam contra serem enganados. Por que não?
Não passa de um preconceito moral, que verdade tem mais valor que
aparência; é até mesmo a admissão mais mal demonstrada que há no
mundo. (p.310) [...] A falsidade de um juízo ainda não é para nós ne­
nhuma objeção contra esse juízo [...] A pergunta é até que ponto é
propiciador de vida [...]. (p.304) [...] Para isso é preciso esperar pela
chegada de uma nova espécie de filósofos, [...] filósofos do perigoso
“talvez” em todos os sentidos, (p.304) O[s] andarilhofs] [...] não como
viajante[s] cm direção a um alvo último: pois este não há. [...] tem de

95
haver nele[s] próprio[s] algo de errante, que encontra sua alegria na
mudança e na transitoriedade.

A CIÊNCIA DO OBJETO E O OUTRAMENTO CIENTÍFICO

O legado cartesiano diferencia clara e distintamente o mundo exte­


rior do mundo interior, fundando, a partir daí, a neutralidade científica. Pelas
regras tradicionais do método científico, o sujeito-pesquisador e objeto-
pesquisado ocupam lugares fixos, pressupondo-se ainda a sua neutralida­
de e seu descolamento da história, do ambiente social, de seu inconsciente
e do próprio corpo.
Contrariamente, na perspectiva cartográfica, o objeto pode instaurar,
no sujeito, um estado de outramento, que consiste em tomar-se estrangei­
ro de si mesmo, possibilitando-lhe experimentar-se em novos espaços e
modos da existência. Aqui, o sujeito pode ser entendido como uma multi­
plicidade à espera de recursos para sair do conhecido e (re)fazer sua forma
através de devires do mundo; traduzir é duplicar-se não em outro idêntico,
mas em um outro efêmero.
O ato de outrar-se, ou a disposição em fazê-lo, opera-se no movimento
de se deixar levar por uma força a ponto de se tornar a força. O cartógrafo
se sabe integrante da investigação, testemunha de seus próprios movimentos
de conhecer. Assim, temos de contar com as descobertas e as estratégias
de investigação a cada encontro e, neste sentido, o cartógrafo não se quer
neutro, quer-se justamente desimpedido e tensionado pelo encontro com o
mundo através da pesquisa. O cartógrafo procura afirmar-se através do
encontro com o objeto e não no distanciamento dele. Segundo Deleuze
(1997, p. 169), “ [.. .] cada vez que um corpo convém com o nosso e aumen­
ta nossa potência, uma noção comum aos dois corpos pode ser formada,
de onde decorrerão uma ordem e um encadeamento ativos das afecções.”
Cartógrafo e objeto nascem juntos e percorrem a vida de modo insepará­
vel na criação de problemas.
O problema de pesquisa para o cartógrafo é arrebatamento e, portan­
to, não apenas da ordem de uma escolha consciente. Para que isto seja pos­
sível, o cientista deve ter paixão e, a partir deste ímpeto, poderá criar con­
dições e idéias para dar sentido aos processos de produção de conhecimento,
atentando para o novo, para a diferença, sem se deixar seduzir pela como­
didade da repetição. “Para o nosso olho é mais cômodo, numa dada oca­
sião, reproduzir uma imagem com freqüência já produzida, do que fixar o
que há de novo e diferente numa impressão: isso exige mais força, mais
‘moralidade’” (Nietzsche, 1992, p.92).

96
Porém, o que pode ser tomado como uma escolha é a sua forma de
investigar, inspirando orientação reflexiva, onde palavra “reflexão” tem sua
origem em reflexo e, se pensarmos em um espelho, este tem sua partida na
luz que emana do sujeito e retoma a ele oferecendo sua própria imagem
invertida; também é interessante apontar que a palavra reflexão tanto pode
ser entendida como ato ou efeito de refletir ou como meditação e prudên­
cia. Portanto, a distinção de um pesquisador cartógrafo é que este é inter-
visto, vendo-se refletido no objeto. Tratar-se-ia de um jogo de espelhos de
inúmeras imagens onde desejo/formação/memória do pesquisador criam
reflexos do objeto.
A produção do objeto de pesquisa poderia ser vista como expressão pos­
sível das sensações, percepções e afectos do cartógrafo. Daí importa mar­
car, novamente, a implicação do cartógrafo com o objeto, pois não temos
percepções, somos percepções e, seguindo esta linha, somos nosso objeto.
Entretanto, a cartografia deve apresentar-se de alguma forma distan­
te de seu autor, pois a pesquisa deve ter estabilidade sozinha. Assim, a car­
tografia é uma semelhança produzida e não “a semelhança”, é uma extre­
ma continuidade, um enlaçamento. Por isso, para que a cartografia crie
consistência, deve-se evitar um mal-entendido: pensa-se que cartografias
são produzidas com percepções e sensações, lembranças ou arquivos, via­
gens e fantasmas. Mas, para que se possa ter certa estabilidade na pesqui­
sa cartográfica, certos cuidados devem ser observados - como a coerência
conceituai, a força argumentativa, o sentido de utilidade dentro da comu­
nidade científica e a produção de diferença; enfim, o rigor científico.
Para que a pesquisa cartográfica tenha tal autonomia é necessário que
possua espaços vazios (sua força de impulsão para o fora), de indetermi-
nação, espaços onde a interlocução possa ser bem-vinda e onde a pesquisa
possa ser repensada no sentido da eterna recriação. O cartógrafo não se nutre
do desejo de conservação de seu pensamento, mas do desejo de pensar, pre­
servando, assim, as condições para o instituinte. Na cartografia não se busca
a firmeza de um equilíbrio estático ou avanços em direção à verdade en­
quanto experiência de eternidade. O cartógrafo é um experimentador das
perdas que o conhecimento impõe. Ele também quer perder-se, pois é o
único modo de ganhar: ganhar a experiência de se rever e de manter um
certo grau de desprendimento perante a pesquisa e conhecimento produzi­
do. O cartógrafo se alimenta de uma espécie de intimidade com o “mor­
rer”, o perdido, a finitude e a precariedade de sua perspectiva.

97
A CIÊNCIA CARTOGRÁFICA INVENTA SUJEITOS,
CONCEITOS E OBJETOS

O caráter instituinte da cartografia está ligado à explicitação das sen­


sações, muitas vezes fugidias, nos encontros com aoE jetaJSalienta-seli
importância de conceituar a sensação, pois ela é ilocalizável, tanto n o,car­
tógrafo quanto nos fluxos cartografados, ou mesmo nos tempos de encon­
tro e produção. A sensação é “intermezzo”, é a exigência do mundo, de­
manda irresistível de fabulação e guia de procedimentos.
A cartografia pressupõe intenções de quem a percorre. Ela tem como
objetivo arrancar o percepto das percepções, do objeto e dos estados de
um sujeito percipiente. Bem como arrancar o afecto das afecções, passa­
gem de um estado a outro. A cartografia busca extrair um bloco de sen­
sações, um puro ser de sensações. E, para isso, de acordo com cada au­
tor, o método e sua invenção são a própria pesquisa, enquanto a sensa­
ção é o próprio pensamento ou aquilo que faz com que o cartógrafo se
impressione e expresse sua relação com as coisas que o tocam.
Sendo uma explicitação das sensações, a cartografia se produz atra­
vés de conceitos, depoimentos e compromissos. Os conceitos, portanto,
nunca podem ser separados das sensações, eles são suas letras, seus regis­
tros ou suas vibrações. Os conceitos não são apenas formas abstratas em
busca de uma perfeição simétrica. São ações, instrumentos. Como ações,
estão presentes em tudo que se refere ao existir e ao experienciar.
Conceitos são, usualm ente, identificados como idéias, represen­
tações, enfim, constructos da substância não-sensível de nossa mente,
circunscritos a este universo abstrato e autocontinente. D estituídos de
concretude, espacialidade, vagam por um tempo linear, seguindo uma
reta entropicam ente organizada por nossa experiência consciente. For­
mas sem cor, odor, ou emoção, habitantes de um universo inacessível,
de um tempo irreversível ditado pela escassez de possíveis. U m a das
características da profusão de conceitos espaciais na filosofia da dife­
rença, como “ conceituar”, “cartografar” e “territorializar”, é a ruptura
com esta autocontinência mental, dem onstrando a condição de dobra
do que antes se acreditava ser herm eticam ente isolado. Ao afirmarmos
que conceitos constituem territórios, estratégias, estamos afirmando a
concretude de suas ações.
As sensações, os conceitos e as percepções são um elo, algo que acon­
tece entre pesquisador e objeto, sendo o material que faz com que se tor­
nem contínuos e amalgamados na medida das inspirações que ambos lan­
çam no mundo. Segundo Deleuze, (1992, p.222),

98
[...] perceptos desta vida. deste momento,
das em uma espécie de cubismo, de simul
púsculo, de púrpura ou de azul, que não te
senão eles mesmos.

A cartografia, assim, pode ser pensada


corporada a emergência, a finitude, a criaçã<
está ligada, portanto, à vontade racional fíxj
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Do ponto de vista cartográfico, existe u
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motivo, o conhecimento desde o momem

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A CIÊNCIA CARTOGRÁFICA INVENTA SUJEITOS,
CONCEITOS E OBJETOS

O caráter instituinte da cartografia está ligado à explicitação das sen-


sações, muitas vezes fugidias, nos encontros com o objeto. Salienta-se a
importância de conceituar a sensação, pois elaé ilocalizável, tanto no car­
tógrafo quanto nos fluxos cartografados, ou mesmo nos tempos de encon­
tro e produção. A sensação é “intermezzo”, é a exigência do mundo, de­
manda irresistível de fabulação e guia de procedimentos.
A cartografia pressupõe intenções de quem a percorre. Ela tem como
objetivo arrancar o percepío das percepções, do objeto e dos estados de
um sujeito percipiente. Bem como arrancar o afecto das afecções, passa­
gem de um estado a outro. A cartografia busca extrair um bloco de sen­
sações, um puro ser de sensações. E, para isso, de acordo com cada au­
tor, o método e sua invenção são a própria pesquisa, enquanto a sensa­
ção é o próprio pensamento ou aquilo que faz com que o cartógrafo se
impressione e expresse sua relação com as coisas que o tocam.
Sendo uma explicitação das sensações, a cartografia se produz atra­
vés de conceitos, depoimentos e compromissos. Os conceitos, portanto,
nunca podem ser separados das sensações, eles são suas letras, seus regis­
tros ou suas vibrações. Os conceitos não são apenas formas abstratas em
busca de uma perfeição simétrica. São ações, instrumentos. Como ações,
estão presentes em tudo que se refere ao existir e ao experienciar.
Conceitos são, usualm ente, identificados como idéias, represen­
tações, enfim, constructos da substância não-sensível de nossa mente,
circunscritos a este universo abstrato e autocontinente. D estituídos de
concretude, espacialidade, vagam por um tempo linear, seguindo uma
reta entropicam ente organizada por nossa experiência consciente. For­
mas sem cor, odor, ou emoção, habitantes de um universo inacessível,
de um tempo irreversível ditado pela escassez de possíveis. Uma das
características da profusão de conceitos espaciais na filosofia da dife­
rença, como “conceituar”, “ cartografar” e “territorializar”, é a ruptura
com esta autocontinência mental, dem onstrando a condição de dobra
do que antes se acreditava ser herm eticam ente isolado. Ao afirmarmos
que conceitos constituem territórios, estratégias, estamos afirmando a
concretude de suas ações.
As sensações, os conceitos e as percepções são um elo, algo que acon­
tece entre pesquisador e objeto, sendo o material que faz com que se tor­
nem contínuos e amalgamados na medida das inspirações que ambos lan­
çam no mundo. Segundo Deleuze, (1992, p.222),

98
[...] perceptos desta vida. deste momento, fazem estourar percepções vivi­
das em uma espécie de cubismo, de simultanismo. de luz crua ou de cre­
púsculo, de púrpura ou de azul, que não tem mais outro objeto nem sujeito
senão eles mesmos.

A MÁQUINA CARTOGRÁFICA
E AS COEXISTÊNCIAS TEMPORAIS

A cartografia, assim, pode ser pensada como “máquina” que tem in­
corporada a emergência, a finitude, a criação, a produção/destruição. Não
está ligada, portanto, à vontade racional fixa, unívoca e representacional,
mas ao inconsciente, que se estende por sobre tudo, para além da história
que conhecemos em direção às origens do humano. O maquínico cartográ­
fico se caracteriza não porque faz retomar o mundo em forma de ficção,
mas porque o mundo recriado adentra o sujeito e pode modificá-lo, sobre­
vivendo na medida em que opera pontos de vista e “encorpa” subjetivida-
des. N este sentido, a cartografia se configura, como uma máquina de tipo
exopoíético, pois produz mundos, redes de significações. Tam^éro-pede
ser considerada como máquina autopoiética, pois se produz através de uma
dobra, ou seja, como efeito da subjetividade que registra o mundo. Desdo­
bramentos e redobramentos, gerados pela pesquisa, podem aproximá-la de
■eu papel no engendramento das subjetividades.
Do ponto de vista cartográfico, existe uma aliança móvel, uma dança
onde o momento do sujeito penetra o momento do objeto, acabando por
formar instantes mútuos nos quais sujeito e objeto somem e fazem surgir
um testemunho do tempo em algum lugar. Como modo de produção de
conhecimento, a perspectiva cartográfica pode ser reconhecida como

| ... | um ponto de preensão, território, dobra securitária, com risco de um


retorno melancólico ao natal, mas é tambcm uma linha potencial cujos
pontos podem se redistribuir: distribuição polifônica, variações de veloci­
dade, de densidade de orquestração [...] (Alliez, 2000, p.497)

Na pesquisa cartográfica, o tempo pulsa, pois se evidenciam os mo­


dos pelos quais os sujeitos percebem , experimentam e narram a passa­
gem do tempo em suas próprias vidas e naquilo que estudam. Por este
motivo, o conhecimento desde o momento de produção não pode ser
tomado como algo generalizante, mas singularizante e único. O tem ­
po. tomado na pesquisa como parte do procedimento cartográfico, orien-
ta-nos à desterritorialização/reterritorialização promovidas na perfor­
mance sujeito-objeto, captadas nos registros advindos de tal encontro.
Portanto, aquilo que na pesquisa cartesiana pôde se chamar de des­
crição, narrativa ou discurso, a partir do ponto de vista cartográfico será
cham ado de produção existencial, ontológica ou cartografia do tempo.
Assim, os movimentos de pesquisa serão movimentos do viver. Deste
modo, a cartografia ativa linhas de fuga do objeto, porque o que está em
jogo nos processos do conhecer são os devires oriundos do mundo vistos a
partir da singularidade do sujeito e na abertura de lugares que possam rom­
per com os sentidos conhecidos.
Na pesquisa, o meio para a propagação do “ritomelo” é o recorte/cMí-
up e o registro de um objeto específico num momento específico. No pró­
prio ato de limitar os fluxos do objeto é que a expressão é construída. As­
sim, o tempo é contido e construído - desterritorializado pela sua sobre­
posição - e com isso surgem efeitos de novas demarcações/organizações
nos ritmos de derramamento da ampulheta complexa que paira, invisível,
dentro de cada cartografia.
Pesquisador e pesquisa armam labirintos do tempo onde passadfis se
encontram sob o signo dos “ritomelos” tomados vivos a cada registro. O
passado nos empurra para a produção de sentidos e, naquele objeto no qual
paira o tempo de algo que é significativo para o sujeito, a vida aflora. “O
pequeno ritomelo... é a verdadeira vida... é o que nos salva da corrida para
o túmulo... é a prova do eterno” (Alliez, 2000, p.503).
Enfim, a cartografia propõe-se a capturar no tempo o instante do en-
V contro dos movimentos do pesquisador com os movimentos do território
de pesquisa. E o encontro que se registra e não seus objetos. O cartógrafo
sabe que é impossível congelar um objeto para estudar sua natureza sob
todos os ângulos, isentando-se de implicação direta, conforme propõe a
ciência positivista. Cartografar é seguir o movimento de ecceidades que
se conectam e produzem desvios ao invés de regras e, a partir daí, novos
movimentos. A cartografia é um terceiro que se produz, podendo conec-
tar-se a outros e produzir ainda outros, infinitamente. Assim, não existem
“ritomelos” autônomos, são funções que emergem quando deslocadas/des-
territorializadas de seu espaço, sendo sugadas por uma memória, vindo a
fazer parte da história de uma vida.
Subentende-se, pois, uma indiferenciação entre prática e teoria, onde
se sustentam trocas constantes em uma construção continuada. A cartogra-
fia^ em suma, trabalha com a atribuição de sentidos em relação àos percur­
sos de uma investigação, uma leitura particularizada - e consciente de sua
particularidade, sua condição relativa - que considera saberes diversos, e

100
outras tantasinformacões e expressões como inventores da complexa con­
dição humana nos devires da produção de conhecimento.
Segundo Lévy (1994, p. 12), quando nos perguntamos que mundo es­
tamos ajudando a fazer existir, podemos responder que, “ [...] ou mante­
mos a dobra como essência de acontecimento ou trabalhamos para endu-
recê-la em oposições, estratos, substâncias” . O cartógrafo possui a vonta­
de do estrangeiro e se implica com a atitude de lutar por manter a dobra
flexível, animada pelo frescor da curiosidade em dia, pelo ímpeto das tro­
cas, sobretudo no pensar. A máquina sempre deve estar pronta para a vida,
com seus ímpetos, suas imagens possíveis de idéias e reminiscências.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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DELEUZE. Gilles. Crítica e clínica. São Paulo: Ed. 34, 1997.
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DOSTOIEVSKI, F. Memórias do subsolo. Tradução de Boris Schnaiderman, 3.ed.,
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FIGUEIREDO. Luís Cláudio M. Revisitando as psicologias: da epistemologia à éti­
ca das práticas e discursos epistemológicos. 2. ed. São Paulo: EDUC; Petrópolis:
Vozes, 1996.
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LÉVY, Pierre. As tecnologias da inteligência: o futuro do pensamento na era da
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NIETZCHE, F. Obras incompletas. In: Os pensadores. São Paulo: Nova Cultural,
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NIETZCHE, Para além do bem e do mal. Tradução de Paulo César de Sousa. 2. ed.
São Paulo: Companhia das Letras, 1992.
PEDRO. Rosa Maria Leite Ribeiro. Tecnologia e complexidade: uma reflexão sobre
a cultura contemporânea. In: Série Documenta/EICOS/UFRJ. n.8, 1999.
ROLNIK, Suely. Cartografia sentimental: transformações contemporâneas do dese­
jo. São Paulo: Éstação Liberdade, 1989.
ROLNIK. Suely. O corpo vibrátil de Lygia Clark. In: Caderno Mais! São Paulo:
bollia de São Paulo, 30/4/2000.

101
UM ROTEIRO PARA CLIO

Sandra Jatahy Pesavenlo

A metáfora da cartografia, que preside o conjunto dos textos desta


obra, é rica de significados. Cartografar é, antes de tudo, mapear um terri­
tório e explorar a natureza, percorrendo espaços e nele identificando luga­
res - territórios dotados de sentido - ou descobrindo paisagens - recortes
do espaço organizados pela estética do olhar.
Pensar uma cartografia do social é já avançar da natureza para a cul­
tura, que, de uma certa forma, já se encontravam presentes no enunciado
anterior, quando localizávamos atribuições de significado ao território. Mas
uma cartografia do social remete a pensar as ações dos homens, que se ins­
crevem, necessariamente, em uma temporalidade.
Temos assim, com uma cartografia social, o enquadramento dos dois
vetores pelos quais os homens tem construído, através da história, a sua
apreensão e organização do mundo: o espaço e o tempo.
Queremos, contudo, pensar uma cartografia dos territórios daquele
saber que se arvora em deter a fala autorizada sobre o tempo: a história.
E nada melhor do que começar pelos gregos, com seus mitos ordena-
dores do mundo. Ali encontramos Clio, a musa da história, que compartilha
com sua mãe, Mnemósine, a mesma trilha que leva ao passado. Mas Clio
mudou de feição ao longo da sua caminhada no tempo, desde o Parnaso.
Comecemos pelo tempo sem tempo que é o do mito, no qual Clio,
com a trombeta da fama e o estilete da escrita, fazia acontecer aquilo que
cantava. Desde a mitologia, Clio é voz, é narrativa que se faz texto, é re­
gistro de lembrança daquilo que foi um dia.

Sumira Jatahy Pesavento é historiadora, doutora, USP, São Paulo, 1987, pós-doutoramentos
em Paris: EHESS (1990), Pans VII (1992-1993), EHESS (1995-97). Área de Pesquisa:
I listória Cultural; temas: cidade, cultura, história e literatura, imagem. Pesquisador IA do
<'NI ’q Professora titular da UFRGS (Depto. História, Programa de Pós-Graduação em His-
lóiiii, Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Urbano e Regional). Autora de
livros como O imaginário da cidade, pela Editora da UFRGS.

103
Do tempo do mito ao tempo dos homens, a definição aristotélica a
fez narrativa daquilo que aconteceu, o que a toma muito próxima, em ter­
mos de resultado, daquela outra noção do mesmo Aristóteles, que é a da
verdade: a correspondência do discurso com a realidade. Narrativa verda­
deira, a história era a realidade do acontecido.
Mesmo que a história continuasse a perpetuar, pela escrita, os feitos
dos homens, alardeando a sua fama, para a glória dos reis, dos Estados ou
de Deus, e com isto articulasse, no tempo, uma seqüência de ações enca­
deadas, deixou de ser considerada uma narrativa, pois este termo ficou re­
servado ao discurso ficcional.
A partir desta visão, Clio foi tanto identificada como sinônimo do pas­
sado, ou dos fatos memoráveis que um dia tiveram lugar, quanto passou a
ser entendida como a ciência que estudava estes fatos. Particularmente, esta
postura de entendimento da história acentuou-se com o racionalismo car­
tesiano do século XVÜ, para chegar ao século das Luzes oitocentista, até
atingir ao cientificismo do século XDÍ, com a entronização de Clio como
a rainha das ciências.
Como ciência, a virada do século XDÍ para o XX dotou a história de
leis, métodos e consagrou a supremacia dos documentos, dignificando a
pesquisa. Historicistas e positivistas professavam a verdade inscrita no
documento, legitimando um campo de saber, e afirmavam a autoridade da
fala sobre o passado. No século XX, uma postura marxista de análise con­
sagrou a cientificidade da ciência histórica como desveladora do real.
Por longo tempo, no Brasil, os historiadores percorreram os caminhos
do marxismo, particularmente forte nos anos 70, em um contexto de dita­
dura e repressão, quando uma série de perguntas tinha lugar no meio aca­
dêmico, no seio das ciências humanas: como foi possível? Porque não deu
certo? Onde tudo começou?
As questões que mobilizavam o debate, e com ele a pesquisa, no âm­
bito da história, eram aquelas relacionadas com o processo de acum ula­
ção capitalista no país, com a formação das classes sociais e seus limites
de atuação, bem como a presença do Estado e seu caráter no Brasil, tal
como as condicionantes ideológicas que explicavam o autoritarism o.
Algumas certezas povoavam o universo mental da maioria dos historia­
dores: a dinâmica da dominação e da resistência, a luta de classes como
motor da história, as contradições presentes no social, as explicações ra­
cionais da realidade.
Diante de uma geração de pesquisadores que se lançava nos arqui­
vos em substituição à outra que já os freqüentara, mas com outras preo­
cupações e perguntas a fazer à história, parecia que tudo estava à espera
de quem quisesse se aventurar: fontes, oficiais e privadas, espécie de re-

104
serva intocada ou sujeita à nova leitura, iluminada pelo referen
xista de análise.
Os anos 80 trouxeram para os intelectuais brasileiros, na
abertura democrática do país, a tradução de alguns autores fund
para uma renovação do pensamento: Antonio Gramsci, Walter B
Michel Foucault, Marshall Berman, Edward P. Thompson. Algi
eram mais lidos e difundidos, outros, apenas aflorados, timidam
debates, mas todos eles indicavam, com as suas reflexões, que í ^
se reorientava na sua reflexão e pesquisa, alargando o seu campo
Para além do político, descortinava-se uma outra concepção
do e do poder, em uma multiplicação de espaços, agentes, prátic
cursos, desvelando estratégias de composição e expondo os ardis
monia a tecer-se entre os grupos, além de revelar os meandros do
intelectual como construtor de verdades.
Para além do social, o conceito da classe se reformulava e passr
viver com outros recortes do social. A classe, fundamentada na pr
ancorada no sindicato e no partido, ampliava-se para uma compreens
fazer-se, o que implicava adentrar nos terrenos do cotidiano, da cult
valores, assim como se introduzia a noção da diferença, revelando a
cidade do social através dos recortes da etnia, do gênero, da cor.
Para além do econômico, a modernização cedia lugar à idéi
demidade, conceito nitidamente cultural para expressar uma ex
histórica, individual e coletiva, de viver a transformação capit
mundo, tendo a cidade como o seu epicentro.
Outros espaços, outras fontes, outros problemas passaram
o campo de pesquisa dos historiadores. A cidade, os espaços do ]
do privado, da elite e do povo, a história dos subalternos, dos desl
com suas práticas e sua cultura, a ordem e a desordem. Mulheres
criminosos e boêmios surgiram como personagens da história, a
uma elite, burguesa e aristocrata, a impor seus valores.
Os historiadores descobriam novas fontes ou voltavam às
com novas perguntas. Mas, sobretudo, algo de importante ocd
meçar a ir para além dos modelos explicativos da realidade, rc
com as certezas que desfaziam as perguntas... Os modelos até
sentes já previam as respostas, impedindo a aventura do conh
dada pela descoberta!
Dos anos 80 para os anos 90 deu-se a grande virada da histo
0 surgimento de uma nova postura, renovada por um outro pata»
tomológico de análise.
Nessas décadas finais do século XX, com a tão discutida crid
1ndigmas racionais explicativos da realidade, a história passou pq
Do tempo do mito ao tempo dos homens, a definição aristotélica a
fez narrativa daquilo que aconteceu, o que a toma muito próxima, em ter­
mos de resultado, daquela outra noção do mesmo Aristóteles, que é a da
verdade: a correspondência do discurso com a realidade. Narrativa verda­
deira, a história era a realidade do acontecido.
Mesmo que a história continuasse a perpetuar, pela escrita, os feitos
dos homens, alardeando a sua fama, para a glória dos reis, dos Estados ou
de Deus, e com isto articulasse, no tempo, uma seqüência de ações enca­
deadas, deixou de ser considerada uma narrativa, pois este termo ficou re­
servado ao discurso ficcional.
A partir desta visão, Clio foi tanto identificada como sinônimo do pas­
sado, ou dos fatos memoráveis que um dia tiveram lugar, quanto passou a
ser entendida como a ciência que estudava estes fatos. Particularmente, esta
postura de entendimento da história acentuou-se com o racionalismo cai -
tesiano do século XVII, para chegar ao século das Luzes oitocentista, até
atingir ao cientificismo do século XIX, com a entronização de Clio como
a rainha das ciências.
Como ciência, a virada do século XIX para o XX dotou a história do
leis, métodos e consagrou a supremacia dos documentos, dignificando ;i
pesquisa. Historicistas e positivistas professavam a verdade inscrita 110
documento, legitimando um campo de saber, e afirmavam a autoridade da
fala sobre o passado. No século XX, uma postura marxista de análise cou
sagrou a cientificidade da ciência histórica como desveladora do real.
Por longo tempo, no Brasil, os historiadores percorreram os caminhos
do marxismo, particularmente forte nos anos 70, em um contexto de dita
dura e repressão, quando uma série de perguntas tinha lugar no meio aca
dêmico, no seio das ciências humanas: como foi possível? Porque não deu
certo? Onde tudo começou?
As questões que mobilizavam o debate, e com ele a pesquisa, 110 âm
bito da história, eram aquelas relacionadas com o processo de acumula
ção capitalista no país, com a formação das classes sociais e seus limites
de atuação, bem como a presença do Estado e seu caráter no Brasil, lal
como as condicionantes ideológicas que explicavam o autoritarism o
Algumas certezas povoavam o universo mental da maioria dos historia
dores: a dinâmica da dominação e da resistência, a luta de classes como
motor da história, as contradições presentes no social, as explicações ia
cionais da realidade.
Diante de uma geração de pesquisadores que se lançava nos arqui
vos em substituição à outra que já os freqüentara, mas com outras preo
cupações e perguntas a fazer à história, parecia que tudo estava à espei .1
de quem quisesse se aventurar: fontes, oficiais e privadas, espécie de re

104
«H'i vii intocada ou sujeita à nova leitura, iluminada pelo referencial mar-
m tu de análise.
( )s anos 80 trouxeram para os intelectuais brasileiros, na virada da
«liiMkira democrática do país, a tradução de alguns autores fundamentais
t mu i uma renovação do pensamento: Antonio Gramsci, Walter Benjamin,
' In IH*I 1'oucault, Marshall Berman, Edward P. Thompson. Alguns deles
tMitm mais lidos e difundidos, outros, apenas aflorados, timidamente, nos
iMuili’\ mas todos eles indicavam, com as suas reflexões, que a história
»h icMincntava na sua reflexão e pesquisa, alargando o seu campo.
Pura além do político, descortinava-se uma outra concepção do Esta-
ilii e do poder, em uma multiplicação de espaços, agentes, práticas e dis-
i ui 'mi'., desvelando estratégias de composição e expondo os ardis dahege-
iiiniiiii a tecer-se entre os grupos, além de revelar os meandros do trabalho
lltlalei mal como construtor de verdades.
Para além do social, o conceito da classe se reformulava e passava a con-
VIvpi com outros recortes do social. A classe, fundamentada na produção e
ui ii *a ui la 110 sindicato e no partido, ampliava-se para uma compreensão do seu
flltvi w. o que implicava adentrar nos terrenos do cotidiano, da cultura e dos
>nli ui"., Hssim como se introduzia a noção da diferença, revelando a multipli-
i iiliu l.* do social através dos recortes da etnia, do gênero, da cor.
Pm u além do econômico, a modernização cedia lugar à idéia da mo-
tlainidiule, conceito nitidamente cultural para expressar uma experiência
In iliiiini, individual e coletiva, de viver a transformação capitalista do
miiiiilii, lendo a cidade como o seu epicentro.
<bilros espaços, outras fontes, outros problemas passaram a povoar
ii i iimpo de pesquisa dos historiadores. A cidade, os espaços do público e
do privado, da elite e do povo, a história dos subalternos, dos desde baixo,
i mu o ms práticas e sua cultura, a ordem e a desordem. Mulheres, negros,
11 mimosos e boêmios surgiram como personagens da história, ao lado de
tiniu •'Ido. burguesa e aristocrata, a impor seus valores.
( >s historiadores descobriam novas fontes ou voltavam às mesmas,
i oi 11 novas perguntas. Mas, sobretudo, algo de importante ocorria: co-
lin v u a ii para além dos modelos explicativos da realidade, rompendo
11 ii11 ii*. certezas que desfaziam as perguntas... Os modelos até então as-
■ttmi' '. |á previam as respostas, impedindo a aventura do conhecimento
ilmlii poln descoberta!
I )os anos 80 para os anos 90 deu-se a grande virada da história, com
li «liiulmento de uma nova postura, renovada por um outro patamar epis-
iMimilógico de análise.
Nessas décadas finais do século XX, com a tão discutida crise dos pa-
Iflillumiis racionais explicativos da realidade, a história passou por profun­

105
das transformações. Passemos a comentar alguns dos novos enunciados que
delineiam o roteiro de Clio. Façamos uma espécie de cartografia do cam­
po de Clio, mapeando seu roteiro ou itinerário de ação.
Algumas questões de natureza epistemológica presidem esta mudança
no campo da história, com a entrada em cena de um patamar conceituai di­
ferenciado. Em primeiro lugar, registrou-se um retomo da concepção da his­
tória como narrativa. A história passou a ser entendida como um discurso
sobre o mundo, um olhar entre outros que pretende dar conta do real, uma
narrativa que busca responder perguntas sobre o passado, uma montagem
de ações encadeadas e dotadas de um sentido e conteúdo explicativo.
Ora, a narrativa da história tem como marco temporal de análise o pas­
sado, mas segundo questões colocadas a partir do presente da escritura, o
que faz com que seja continuamente reescrita, a cada geração, porque mu­
dam as perguntas e os problemas que os homens se colocam diante do real.
Por outro lado, a narrativa da história tem uma perspectiva de futuro:
há um terceiro oculto, que é o público leitor. Logo, a produção de um tex­
to histórico leva em conta a recepção desta narrativa, há uma dimensão
social de redistribuição da trama explicativa. Nesta medida, as escolhas e
as perguntas que se faz o historiador não são desvinculadas deste contex­
to. Há uma faceta de escolha pessoal do historiador, de trajetórias subjeti­
vas, familiares, formações intelectuais específicas, meio social, status,
paixões, mas todo historiador é historicizado, ou seja, está inserido em um
meio onde se registra um horizonte de expectativas que formula perguntas
e espera respostas...
A história é narrativa que responde a questões, formulando respostas
às indagações do seu tempo. Nesta medida, um segundo referencial se in­
troduz no campo da história: como narrativa ou discurso sobre algo, a his­
tória é representação.
Ela é representação construída que se coloca no lugar de ações trans­
corridas no tempo. Ela aspira a ser aquilo que é o cerne da definição do
conceito de representação: estar no lugar de. A rigor, é possível dizer, a
partir das formulações de Chartier,1 que a história reconstrói e representa
o mundo.
O historiador, por seu turno, elege temas - recortes do real - que se
configuram como intrigantes e relevantes no seu tempo, ou seja, que sus­
citam problemas e perguntas à contemporaneidade na qual ele se insere. A
história, ou, melhor dizendo, os historiadores, estão sempre a redescobrir
o passado, a redefinir seus temas e a construí-los como objeto, ou seja, a
problematizá-los a partir de escolhas orientadas por referenciais teóricos.

1Chartier, Roger. O mundo como representação. Estudos Avançados. São Paulo: USP, 5/11.

106
Sendo narrativa que reconstrói o mundo, inventando o passado, o dis­
curso da história busca resgatar este sistema de representações coletivas
que dá sentido à realidade a que se dá o nome de imaginário.2Ao entender
que tudo o que existe é realidade qualificada, a história cultural pretende
chegar lá, neste reduto sensível de apreensão da realidade, neste sistema
de construção mental que chega a se substituir o real, pois guia a percep­
ção e é matriz de práticas sociais. O imaginário é, por assim dizer, tema e
objeto preferencial da narrativa histórica, ao mesmo tempo em que se pode
dizer que a história é reconstrução imaginária de sentido para o entendi­
mento da realidade do passado, ao elaborar um discurso que comporta
imagens de significação, socialmente reconhecidas.
Ora, as questões/problemas que se definem em tomo da escolha de
certos temas dizem respeito não só à temporalidade na qual se colocam,
mas também ao marco conceituai escolhido. Os conceitos, estas constru­
ções intelectuais que explicam e problematizam o real, são como que ócu­
los para enxergar o mundo. Construções intelectuais carregadas de senti­
do e sempre relacionais, os conceitos se articulam e dão a chave para a
construção de um tema em objeto de pesquisa.
Mas um historiador precisa de registros, de marcas daquilo que teria
ocorrido um dia. Sem que haja traços que presentifiquem esta ausência no
tempo, não há trabalho possível para a história. Esta causa ausente - acon­
tecimento, personagem, fala, sentimento - deve chegar até o presente sob
a forma de um texto, um discurso, uma palavra, uma voz, um som ou en­
tão como imagem, coisa, materialidade, sem o que não é possível acessar
o passado. Estes registros do passado são, por sua vez, marcas que se co­
locam no lugar dos acontecimentos ocorridos um dia.
Sem a existência da pergunta, estes traços/registros são apenas velhos
ou interessantes, pois é só pelas questões formuladas pelo historiador, à
luz da teoria, que eles se tomam antigos, marcas do passado, fontes ou do­
cumentos para uma pesquisa. O pesquisador os descobre como fontes, ou
seja, como provas do passado que chegam até o presente.
Estamos, pois, diante de um processo narrativo que se propõe como
representação daquilo que foi e que definimos como que uma espécie de
invenção do real: há a construção de um problema e de um tema converti­
do em objeto de pesquisa; há também a construção dos traços do passado
em fontes, a partir das perguntas formuladas. Pois bem, suponhamos que
o historiador tem um tema, um objeto-problema e possui fontes. Como vai
trabalhar com elas em função da sua pergunta/questão?

2Baczko, Bronislaw; Boia, I.ucian, Les imaginaires sociaux, Paris, Payot, 1994.

107
Este como, operativo, diz respeito a um método, e, no caso da his­
tória, não há como se furtar a pensar no método da montagem, tal como
o define W alter Benjamin,3 ou no método indiciário, como formula Car­
io Ginzburg4 As fontes precisam ser cruzadas, compostas, superpostas
em redes de sentido, para que revelem correspondências, analogias, con­
trastes, relações múltiplas. H á um trabalho de composição de dados, de
montagem de um puzzle, um a verdadeira urdidura entre os cacos dis­
persos do passado que multiplicam as possibilidades de interpretação
da fonte.
Um recurso metodológico que fa z a fonte falar é, justamente, a pos­
sibilidade de lidar com a intertextualidade, de um texto a outro texto, do
texto ao extratexto, de uma fonte com outra, em uma espécie de palimp-
sesto de escritas, onde um remete a um outro. E, neste ponto, revela-se o
que se chamaria o capital do historiador: sua bagagem de erudição, seu re­
pertório de leituras acumuladas que potencializa a interpretação.
O resultado deste processo é uma narrativa, ou seja, a escrita de um
texto histórico, onde se conjugam elementos da retórica, como estratégia
de convencimento e argumentação e como a própria estética. A escrita do
historiador monta um enredo, desfaz uma intriga, demonstra, convence,
prova, seduz. Há um público leitor a cativar, a argumentar e demonstrar,
pela narrativa, como as coisas teriam ocorrido um dia em um certo mo­
mento do passado.
Mas todos estes pressupostos, acima expressos, são dados a partir de
uma certa compreensão da história, no campo do que se chama a história
Cultural, que, como se disse, deu entrada no Brasil ao longo dos anos 90
do último século.
Tal postura e enfoque da história enfrentam, hoje, desafios e impas­
ses. Um deles se refere àquela condição aristotélica primeira, que estabe­
lecera para a história o status de ser uma narrativa verdadeira.
Desde o momento em que Clio passou a ser entendida desta outra for­
ma, pela história cultural, ressalvas se estabeleceram à sua pretensão de
atingir a verdade do passado. O final das certezas normativas da organiza­
ção do mundo fez com que a dúvida se instaurasse como o princípio do
conhecimento e que a versão verossímil seja o resultado deste processo.
Nesta medida, a obtenção da verdade do acontecido resta como meta ou
projeto intelectual a ser perseguido pelo historiador, mas tendo clareza de
que tais verdades são parciais, datadas, cumulativas. Há um compromisso

3Benjamin, Walter, Paris, capitale du XIXe. siècle. Le livre des passages, Paris, CERF, 1989.
4Ginzburg, Carlo. Mitos, emblemas, sinais: morfologia e história. São Paulo: Companhia
das Letras, 1990.

108
do historiador em atingir a verdade do acontecido, mas ele sabe que che­
gará a versões aproximadas, o mais possível, daquilo que um dia teria ocor­
rido. Talvez mesmo seu texto acabe sendo dotado de verossimilhança, e
não de veracidade! Mas este processo não impede que o historiador bus­
que manter o seu pacto com a verdade, compromisso este perturbado pela
impossibilidade da verificação. Afinal, o seu objeto, via de regra, não é mais
passível de reprodução ou de observação direta, pois se situa por fora da
experiência do vivido.
O que fazer, pois, para garantir o máximo de aproximação com o tal
real passado? O historiador busca amarrar seu texto e a argumentação a
um referencial teórico preciso, que preside a pergunta e organiza a expli­
cação que compete à resposta, estabelecendo uma retórica argumentativa
que se apoia nas fontes e na sua articulação através de um método de aná­
lise. Teoria e método, fonte e retórica são recursos e estratégias do historia­
dor para obter de seu discurso um efeito de verdade, que ousa se propor
como versão autorizada do real.
Mas há outros desafios, como o de fazer fa la r a fonte. A rigor, já foi
dito que o historiador tem, a seu dispor, o mundo como campo para sua
pesquisa e registros infindáveis do passado a seu dispor. Mas também ar­
gumentamos que é uma escolha que define um tema, tal como é uma per­
gunta que o constrói como objeto e que também faz de um registro do pas­
sado um documento. As fontes falam, as fontes revelam, mas dependem
da questão que as interroga, do problema que lhes é exposto.
Nada é, a priori, dado pela sua natureza, não há transparências ou li-
teralidades a receber ou descrever. Nenhuma fonte traz, em si, a verdade
do que foi, ela é indício daquilo que um dia ocorreu, e só revelará sentidos
aquele que formular uma pergunta, iluminada pela teoria. Se a realidade
fosse transparente, disse um dia Marx, não haveria necessidade de inter­
pretá-la. Se a fonte contivesse, em si mesma, a verdade ou a literalidade
da experiência do passado, atarefa do historiador seria apenas transcrevê-
la. É por isso que certos registros ou marcas do passado são fontes ou do­
cumentos para uns, e para outros não: porque revelam significados a al­
guém que formulou uma questão e viu, nelas, uma pista para a decifração
de um enigma.
Mas também a fonte, para falar, depende de outras questões. Por exem­
plo, o que chamamos da distância do passado. Há que ter em conta que os
homens de um outro tempo falavam e agiam orientados por outras lógicas
e valores, guiados por outras normas e razões. Como disse LowenthaP o

5Lowenthal, David, EI posado es nn pais estrano, Madrid, Akal, 1998.

109
passado é um país estranho, onde se fala uma língua diferente. Para aces­
sá-lo, há que se despir, na medida do possível, dos referenciais da época
da escritura, para mergulhar no mundo dos personagens de um outro tem­
po, sob o risco de avaliações pautadas por valores e juízos de um época
distinta daquela que se pretende resgatar.
E aqui se chega ao desafio máximo da história cultural: chegar lá,
naquele reduto profundo e de difícil apreensão que são as sensibilida­
des do passado: como os homens se representavam e representavam o
mundo, como se expressavam, em termos de valores e idéias, sentimen­
tos e razões. M as, para isso, há que ter em conta desafios: para o histo­
riador, ler a tradução deste mundo interior, mental e sensível, indivi­
dual e coletivo, só se dá na medida em que chegarem do passado as ma­
nifestações exteriores, os registros de apreensão acessíveis ao pesqui­
sador. N esta medida, todo historiador se defronta com este impasse: a
apreensão de um sentimento deve objetivar-se em uma marca visível,
recuperável pela pesquisa.
Isto desemboca, necessariamente, em um elenco de novas fontes,
qualitativamente diferente e que obriga o historiador a enfrentar mais de­
safios... Se tais registros forem de natureza pictórica ou romanesca, obri­
gará o historiador e dialogar com novos parceiros, no terreno das artes
ou da literatura. Nesta nova interlocução, Clio se verá obrigada a abdi­
car de sua postura de rainha das ciências para dialogar com tais parcei­
ros, que podem estar situados no terreno da arquitetura, da literatura, da
arte, da psicologia.
Estabelece-se como que uma postura interdisciplinar, ou talvez trans-
disciplinar, mas o importante a registrar é que o diálogo se faz sem que a
história deixe de ser o lugar da fala e da pergunta. Se uma primazia cabe, é
aquela do terreno da questão formulada: mesmo tomando imagens do tipo
pintura como fonte, a investigação continua sendo no terreno da história
porque é deste campo que se lança a questão a resolver.
Por outro lado, as fontes, e sobretudo estas que dizem respeito às sen­
sibilidades, se apresentam de forma cifrada. Cabe ao historiador enfrentar
o terreno da metáfora, da alegoria e do simbólico, destas maneiras de di­
zer de outra fo rm a , por associação ou contraste de imagens e palavras, que
insinuam um terceiro sentido. A situação com que se defronta o historia­
dor da cultural ainda se complica quando se leva em conta que tais inter­
pretações devem se fazer sem cair no reducionismo das codificações ou
modelo, mas levando em conta tanto a historicidade das significações atri­
buídas quanto a recorrência a certas imagens arquetípicas que se reatuali-
zam e se ressignifícam no tempo e no espaço.

110
Tortuosos, difíceis, inusitados, talvez, os desafios com que se defron­
tam os historiadores nestes novos caminhos de Clio. Mas, sobretudo, de­
safiadores, pois não oferecem certezas acabadas, mas propiciam renova­
das questões e, sobretudo, alternativas de roteiro para os investigadores.
Esta cartografia implica detectar uma transformação contínua, um proces­
so de mapear o mundo através de um campo de saber que, ao pensar o pas­
sado, se reatualiza com o seu tempo.

111
CORPOL UMETEMPOIESIS:
O VIVO A SER PESQUISADO

Fa bio D a l M olin
José Ricardo Kreutz
Juliana Leal Dornelles

Este texto, longe do propósito de martelar informações e verdades, é


uma tentativa de costurar provocações e arrematar pensamentos que bro-
tam da fonte da imanência e seccionam-se em despretensiosas e tênues fron­
teiras na acidentada geomorfologia do saber, delimitando arte, filosofia e
ciência. Em nosso método, apresentamos a arte como lume, a filosofia como
temporalização, e a ciência como estratégia poiética e autopoiética.
A intencionalidade disso é construir uma perspectiva de pensarmos o
vivo nas pesquisas da subjetividade. É com essa inspiração que nos apare­
ce pela primeira vez corpolumetempoiesis, ou seja, como num amálgama
indiferenciado comportando-se e evoluindo como um sistema vivo, estes
tiês intercessores1forjarão um entendimento para a importância deste mes­
mo “vivo” no plano das pesquisas dos modos de subjetivação no contem­

lá ld o Dal M olin é psicólogo graduado pela UFRGS, mestre em Psicologia Social e


Institucional — UFRGS, membro do grupo “Modos de trabalhar, modos de subjetivar,
piofessor no curso integrado de formação de agentes de segurança pública Susepe, BM e
Policia Civil.
.lime K icanlo K rcutz é psicólogo graduado pela Universidade do Vale do R io dos Sinos,
mestnindo cm Psicologia Social e Institucional - UFRGS na linha de pesquisa “ Subjetivi-
dndes contemporâneas, discursos e sintomas sociais”, membro do grupo “M odos de tra-
Imllmr, modos de subjetivar”, colaborador do projeto de pesquisa e intervenção em ambien-
lm de rede - CONSTRUTEIAS - do PPG da Educação - UFRGS.
.Iiiliana Leal Dorncllcs é psicóloga graduada pela UFRGS, mestranda em Psicologia
Nocinl e Institucional - UFRGS na linha de pesquisa “ Subjetividades contemporâneas,
diNclli sos e sintomas sociais”, membro do grupo “Modos de trabalhar, modos de subjetivar”,
t luwn do grupo de teatro “Firuliche” .
11 llili/am os o termo intercessor na acepção que lhe dá Deleuze. Cf. D eleuze, G. Os
uiirin .soics Em ( 'onversações. Rio de Janeiro: Editora 34, 1992, p. 151-168.

113
porâneo. Tal entendimento se desdobra em no mínimo três eixos funda­
mentais: 1) a maquinaria organizativa deste “vivo” = corpopoiesis\ 2) O
“vivo” como dispositivo temporal para pensar o funcionamento sistêmico
de pesquisa no plano social = tempoiesis; 3) Um ensaio sobre a estética do
corpo na sociedade contemporânea a partir de uma pesquisa que é viva
como a arte na sua conformação e deformação = himepoiesis.
Ao escrever as linhas que se seguem, caminhamos o caminho, cede­
mos ao lirismo e forjamos conceitos duros, argumentamos e, vez em quan­
do, flutuamos como plumas em furtivas escapadelas poéticas, levamos a
sério o que dizemos jamais sem um quê de irreverência e malícia, enfim,
fazemos do desequilíbrio nosso ponto de metaestabilidade.
A precisão metodológica é nosso objetivo, pois entendemos que ela
pode ser como o chá de Mandrágora: um potente afrodisíaco cuja dose
excessiva é veneno mortal. Queremos ser ímpares na medida em que cada
autor é um e todos são três. Porém podemos ser pares que se acoplam e
dialogam como num campo de forças, já que seis mãos ciborgues digitam
movidas por aprendizados que nos tomam incontáveis.
Sendo assim, aprofundando aquela que imaginamos ter sido a estra­
tégia de Deleuze e Guattari ao escrever O que é a filosofia? - de um des­
dobramento de dois autores em muitos traduzidos num devir ciência, um
arte e noutro filosofia - somos três autores e estamos tomando este texto
um único corpo autoral, respeitando sua complexidade de variáveis, po­
rém reconhecendo os limites de seu território. Nesse sentido corpolumen-
tempoiesis é o que pretendemos gerar a partir dessa multiplicidade.

CORPOIESIS

Diremos, de outra forma - e certamente não o diremos melhor -


que uma sociedade é, ao mesmo tempo, máquina e organismo.
Seria unicamente máquina se os fins da coletividade pudessem
não apenas ser rigorosamente planificados. (Canguilhem, 1966,
p.224)

Quem escreve e quem lê o que está escrito aqui? Cérebros codificam in­
formações para mãos que digitam palavras que serão impressas para que olhos
leiam e cérebros decodifiquem. Aquilo que tradicionalmente está colocado
como a empiria do objeto, não abarca a complexidade de transformações que
os corpos sofrem no ato da pesquisa. Tudo o que um pesquisador pode dizer
sobre um corpo ou um organismo vivo é a partir do seu próprio viver.
A partir disso é importante fazermos a diferenciação entre o vivo e o
viver: no vivo “as regras de ajustamento entre si são imanentes” (Cangui-

114
lhem, 1966, p.222-223), quer dizer, não há conflitos nem brigas, no máxi­
mo uma dorzinha de barriga aqui e uma dorzinha de cabeça acolá, o que
poderia ser qualificado como uma dimensão orgânica (de organismo). En­
quanto, no viver, as regras são sempre uma preocupação aos dirigentes da
sociedade, ou seja, estruturam-se a partir de forças também externas e atra­
vés de um maquinismo abstrato de funcionamento. O vivo sente fome, dor,
sono, mas as regras sociais do viver estabelecem, em sua complexidade,
hora para dormir, para comer, o diagnóstico da dor, bem como o que se
come, em que lugar se dorme, e quem é responsável pela cura da dor.
A partir de agora sempre que falarmos de algo vivo queremos que se
subentenda esse funcionamento imanente do organismo vivo na sua relação
com o viver. Com isso estaremos começando a apresentar a vocês, o nosso
objetivo principal que é en tender ofenômeno a ser pesquisado enquanto um
sistema complexo, articulado e aberto. Este corpo do vivo e do viver.
Uma rocha resigna-se à sua fixidez pétrea, permitindo que a água do
mar ou do rio apenas a dissolva lentamente, ou que o limo cresça e se multi­
plique em suas costas. Há milhares de anos as rochas reinavam absolutas em
nosso planeta, em sua imobilidade conformada, e tudo não passava de água
batendo em rochas, rochas deslocando-se pelo céu ou pelas placas tectôni-
cas. As rochas e as águas conflituavam-se, derretiam e solidificavam em uma
simbiose termodinâmica, até que algumas moléculas de proteína resolveram
se fechar num ciclo, e tal fechamento teve para nosso mundo o efeito de uma
bomba. Inaugurava-se uma outra dimensão, a nossa dimensão, a divisão en­
tre o vivo e o não-vivo. E foi esta bomba que fez com que biólogos como
Maturana e Varela (2001) produzissem questões ao mesmo tempo físicas e
metafísicas sobre a vida, que seriam respondidas por religiosos e teólogos
como “a vida é a prova da existência de Deus”. A resposta da biologia é: o
sentido da vida é produzir a vida, autoproduzir-se.
A nova visão de mundo oriunda da física contemporânea e que foi
aplicada ao conhecimento biológico mostra-nos a vida como um processo
de conservação e adaptação às dificuldades, ou neguentropia,2 sendo que
um recurso utilizado para tal é o do aproveitamento de experiências “bem-
sucedidas” através de um arquivo repleto de informações sobre as mesmas.
Para auxiliar em nosso raciocínio, Bergson também nos fala sobre a ques­
tão da adaptação:

As condições não são um molde na qual a vida irá inserir-se, c do qual


receberá a sua forma: ao raciocinar assim, é-sc iludido por uma metáfora.
A forma ainda não existe, e à vida caberá criar ela própria uma forma apro-

2Wiener, 1972.

115
priada às condições que lhe são dadas. Terá que tirar partido dessas condi­
ções, neutralizar-lhes os inconvenientes, e utilizar-lhes as vantagens, em
suma, responder às ações externas construindo uma máquina que não pos­
sui nenhuma semelhança com elas. Aqui adaptar-se já não significará repe­
tir, mas sim replicar, o que é totalmente diverso. (Bergson, 1964, p. 8 8)

Em cada espécie viva, no decorrer de gerações, as populações vão


nascendo, vivendo experiências e dificuldades, procurando adaptar-se e
reproduzindo-se de diversas formas. Chegamos, pois, a um princípio ho-
logramático: nosso corpo é composto de bilhões de células que possuem
um núcleo onde ficam gens que contêm informações básicas para a fa­
bricação de novas células para manutenção do corpo. Nossas células es­
tão o tempo todo morrendo e novas são fabricadas em um princípio de
conservação, que não é assim tão instável. Bom, ele é estável a ponto de
irmos dormir como Homo Sapiens sem correr o risco de no dia seguinte
acordarmos como baratas, mas possui uma certa instabilidade no senti­
do de, no início do verão o indivíduo teuto-rio-grandense ser branqui-
nho e no fim, após muito sol, algumas células começarem a reproduzir-
se com excesso de melanina, causando as famosas manchas solares, que
podem ou não ser um câncer.
No nível macroscópico, também funciona assim: muitas caracterís­
ticas podem manter-se, mas, por exemplo, grandes migrações ou mudan­
ças climáticas podem alterar as informações a ponto de introduzir diver­
sos graus de variabilidade. Isso seria o motivo de, no norte gelado haver
uma tendência das pessoas serem branquinhas e terem o mínimo de man­
chas de melanina, e na África Central, a melanina predominar na pele.
Mas, no fim das contas, tanto um viking quanto um guerreiro hutu são
homo sapiens.
O DNA é uma espécie de computador, que vai operando, salvando
uns arquivos e deletando outros, e às vezes podemos salvar um arquivo
nocivo (no caso de determinadas síndromes). Sob esta visão, o gene não
determina nada, pelo contrário, ele é determinado pelo conjunto de ações
adaptativas de uma espécie inteira, e as informações contidas neles podem
ou não ser utilizadas pelos indivíduos, dependendo de questões probabi-
lísticas ou até mesmo de escolha. Esta poderia ser a replicação referida por
Bergson. De certa forma, os genes são nossos e os utilizamos do jeito que

3N esse sentido Bergson também pode nos ajudar a pensar ao dizer que “ [...] os fatos
mostram-nos que a transm issão hereditária constitui exceção e não regra. Como esperar

116
“queremos”, ou às vezes nosso comportamento, de forma inconsciente,
coletiva ou individual pode vir a potencializar a sua ação.3
O corpo, sob o ponto de vista da genética, ostenta uma macromemória
e uma micromemória, um devir elástico de células que nascem e morrem
em organismos que nascem e morrem, como parte de espécies que surgem e
se extingem. Como Maturana e Varela (2001) dizem, podemos observar os
sistemas como unidades simples ou compostas, a célula pode ser vista como
ãjeum ãóU e suas moléculas, o órgão como reunião de células, o organismo
como conjunto de órgãos, a espécie como conjunto de organismos.4Esta cu­
riosa repetição de um padrão encontrada em samambaias, montanhas e cou-
ves-flor, foi descoberta por um matemático chamado Mandelbrot, através da
geometria não linear dos fractais. Mas, como mostra o trabalho de Prigogi-
ne, somos sistemas dissipativos, longe do equilíbrio, estamos montados em
uma vertiginosa flecha do tempo, contra a qual nossa única arma é o ciclo
da vida, nosso território móvel, nômade, que replica a repetição para existir.
Todo dia nasce todo tipo de ser, mesmo que nos pareçam iguais, são com­
pletamente diferentes: o Fábio é diferente do Ricardo, que é diferente da Ju­
liana, embora todos sejam humanos. Esta replicação existencializante é o que
cria os Ritomellos, conceito musical agenciado por Guattari da obra de Mareei
Proust. É a replicação de um organismo e seus efeitos que gera o domínio
comum a dois ou mais organismos, que compartilham impressões e geram
um território comum, compartilhado, que, no caso específico da espécie hu­
mana, gera a idéia de corpo. O corpo, já atentam Deleuze e Guattari, é gera­
do pelas idéias e histórias de corpo, um processo de bricolagem, daí, para a
noção de que todo corpo é um “corpo sem órgãos” (CsO).
U ma das dinâmicas de possíveis acoplamentos entre unidades huma­
nas e outras entidades da natureza dá-se pelo domínio de representações
simbólicas. Um dos importantes domínios de representação da consciên­
cia humana é a noção de “corpo”, marca de um processo lingüístico e
histórico.Nesta perspectiva, organização, estrutura, acoplamentos, reali-

que dela possa resultar a formação de um órgão como o ôlho?” (p. 109), ou seja, a gené­
tica realmente funciona enquanto um dos m últiplos códigos que influenciam na composi­
ção da vida dos corpos mas não determina tão diretamente como se imagina. Ainda Bergson
irá nos dizer m ais adiante que os imprevistos na constituição dos órgãos são tão imperati­
vos quanto a determinação dos códigos. Diz ele: “Para nós, o todo duma máquina organi­
zada representa de fato, a rigor, o todo do trabalho organizador (embora isso só seja ver­
dade de uma forma aproximativa), mas as partes da máquina não correspondem as partes
do trabalho, porque a materialidade desta máquina já não representa um conjunto de
meios empregados, mas sim um conjunto de obstáculos vencidos, trata-se antes duma
negação do que duma realidade positiva.” (p. 117-118)
1Ver M aturana, 2 0 0 1

I 17
mentação, identidade, são características processuais daquilo que chama­
mos sistema representacional. Mas, a noção de sistema transcende a dimen­
são representacional, pois representação representação e corpo são duas
faces sem espessura. O que estamos falando aqui é que o plano do viver é
representacional, enquanto o “vivo” está nas afecções. Ambos são de na­
turezas distintas, embora coexistentes.
Dentro desta dinâmica, chegamos ao fato de um sistema ser uma reu­
nião de elementos cuja integração (organização) produz algo diferente da
produção dos elementos em separado (estrutura), e esta integração pode
ser reconhecida por um observador extemo (realimentação). O todo é di­
ferente da soma de suas partes. Aqui fazemos uma interface para a metá­
fora do Corpo Sem Órgãos: um sistema surge como potência emergente,
ele é o produto de uma junção, de uma reunião, de uma enação, ou cogni­
ção corporificada, (Varela, Thompson e Rosch, 1992). Como explicitare­
mos mais a seguir, o corpo surge em um domínio lingüístico, que é sem­
pre heterogêneo e compartilhado, bem como as noções de “doença”, “sin­
tom a’, “cura” são constantemente revistas e rediscutidas pelos cientistas.
Por enquanto, continuemos desenvolvendo a noção de sistemas vi­
vos. Os sistemas vivos são aqueles que, em sua dinâmica de acoplamen­
tos, historicamente modificam sua estrutura, mantendo a organização, e
tais modificações estruturais determinarão seus comportamentos futuros.
Acoplamentos estruturais são perturbações mútuas ocorridas na interfa­
ce entre os sistemas vivos, que influenciarão em seus comportamentos
futuros. Os sistemas vivos são auto-organizadores, ou seja, são dotados
de uma dinâmica interna de funcionamento, e abertos ao fluxo de maté­
ria e energia, que pode ser em forma de informação trocada entre elemen­
tos do mesmo sistema ou no acoplamento entre elementos de sistemas
distintos. Os sistemas vivos, mais explicitamente os organismos celula­
res, além de auto-organização, possuem uma característica que os defi­
ne enquanto vivos; a produção de si mesmos, ou autopoiése. Ou seja, os
componentes de um sistema vivo vão usar seus acoplamentos para repro­
duzir a si mesmos e manter a organização do sistema. As organelas de
uma célula, por exemplo, formam uma rede de cooperação mútua, cujo
objetivo é a manutenção do organismo celular e sua organização, e tal
organização só faz sentido no trabalho mútuo da manutenção da célula
enquanto célula. Esta organização é realimentada pelo histórico de seus
acoplamentos, ou seja, possui um tipo de memória corporal. No entan­
to, cada organela pode ser entendida como um sistem a próprio, daí a
importância de quem faz as distinções. O vivo observa e entende o vivo.
O leitor mais atento perceberá aqui mais uma pista de como a linguagem
se inscreve na complexidade do sistema vivo.

118
Como falávamos antes, a organização é realimentada pelo históri­
co de acoplamentos, por isso é necessário que entendamos um pouqui­
nho como funciona esta realimentação. A realimentação é um processo
que se refere a outra característica importante dos sistemas (não só os
vivos): a auto- regulação. A auto regulação é a tendência de certos siste­
mas a observarem seu desempenho, mantendo o equilíbrio dinâmico. A
prim eira ciência a preocupar-se com a auto-regulação foi a cibernética
(ciência do timoneiro) e o exemplo mais simples de auto-regulação é o
termostato. Os seres humanos, como organismos vivos autopoiéticos,
apresentam diversos microssistemas auto-regulados em suas unidades,
e o principal é o que os integra e os realimenta continuamente. Uma das
múltiplas vias de auto-regulação, realimentação e produção de acopla­
mentos é a consciência, em suas formas experiencial e reflexiva. Esta
produção de acoplamentos simbólicos influenciará sobre a autonomia de
um sistema, que pode ser mais ou menos influenciado por fatores exter­
nos a sua dinâmica, ou seja, este Corpo Sem Órgãos movimenta forças
que o constroem. O viver é capaz de transformar o vivo e vice-versa. Uma
idéia de corpo pode modificá-lo radicalmente, pois também é corpo e o
interpenetra. Quando Pôncio Pilatos tomou célebre o ato de lavar as mãos,
está passou por uma mudança estrutural e organizativa com a descoberta
dos microorganismos, ou seja, às atribuições de “redimir-se da culpa” ou
am enizar o mau cheiro acoplaram-se ao combate a seres que na dinâmi­
ca social só existem na literatura médico-biológica ou nos seus efeitos
nocivos ao corpo que são percebidos via perceptos e afectos. Não é o
organismo quem diagnostica a doença, este apenas a manifesta, e sim, o
“Corpo”, que também é construído pelo saber médico.
Retomando nosso eixo de argumentação, é ao vivo que a pesquisa res­
ponde. Toda esta perspectiva evolutiva e sistêmica, autopoiética brota de
conclusão radicalmente simples: um cientista que observa uma bactéria no
microscópio precisa lembra-se que existe uma linhagem que os aproxima
intimamente, e uma tênue linha simbólica que os diferencia, ou seja, para
pesquisar a bactéria é necessário que o pesquisador atualize o seu “devir-
bactéria” . Generalizando: para pesquisar qualquer sistema vivo em seu
viver, o pesquisador é também pesquisado por este sistema.

TEMPOIESIS

Até agora nosso corpolumetempoiesis já teve um primeiro olhar lan­


çado sobre si mesmo e em direção ao leitor que tem interesse de aprendei
sobre a geomorfologia desta perspectiva de pesquisa. Esse monstrinhc
começou dizendo que ele funciona como um sistema que se “auto-inven-
ta”, que se realimenta com outros sistemas por acoplamentos estruturais e
também que isso tudo é auto-regulativo como nos termostatos. Também
este monstrinho, nas suas traquinagens científicas, ousadamente disse que
a linguagem é um sistema acoplado ao corpo e que “amenizar o mau chei­
ro” e “lavar as mãos” pode ser um “corpo” produzido pela linguagem, den­
tro de um perfeito funcionamento adaptativo e autopoiético. Mas, para
avançarmos, precisamos fazer uma dobra na intencionalidade deste texto.
Agora ele não quer mais falar da especificidade organizativa e concreta do
vivo na nossa pesquisa, mas aproveitar os sinais que formam dados anterior­
mente no que dizia respeito de como podemos lançar nosso olhar investi-
gativo sobre o sistema vivo. Para isso necessariamente teremos de acoplar
a este corpo um outro sistema que o compõem: o tempo. Para o pesquisa­
dor que quiser realmente aprofundar mais a noção do vivo da pesquisa a
partir de uma demanda de entender o contemporâneo, é necessário que
pensemos o tempo, pois este nos lançará para a razão mais ontológica dos
fenômenos. Para isso, é necessário que tomemos como premissa que o tem­
po é o que qualifica e diferencia os fenômenos. Que faz os fenômenos du­
rarem e se comportarem como se fossem vivos igual aos sistema referidos
anteriormente. Ou seja, o tempo nasce com a vida.
Esta é a razão ontológica. Que as coisas duram; que o jeito mais inte­
ressante de pensarmos as coisas é pela duração que vai construindo o sis­
tema vivo. A duração nos dará a idéia da proveniência da vida. A caracte­
rística desta duração dirá que os caminhos pelos quais o corpo percorrera
ao auto-inventar-se tem o seu estôfo no tempo. Vejamos como Bergson irá
nos situar nessa questão. Para isso ele pensa no nosso “viver o vivo” e diz:

[...] a nossa duração não é um instante que substitui outro instante: se assim
fôsse. jamais haveria presente. Não haveria prolongamento do passado no
atual, não haveria evolução, nem duração concreta. A duração é o progres­
so contínuo do passado que rói o futuro e incha avançando. Visto que o
passado incessantemente cresce, também se conserva indefinidamente. A
memória conforme tentamos provar, não é a faculdade de classificar recor­
dações em uma gaveta ou de as inscrever num registro. Não há registro,
não há gaveta, não há sequer, aqui. propriamente uma faculdade, porque
uma faculdade age por intermitências, quando quer ou quando pode, ao
passo que o amontoar-se do passado sobre o passado prossegue sem tré­
guas. (Bergson. 1964. p.44)

A partir disso chegamos a uma consigna que iremos defender no cam­


po científico como sendo a mola mestra da discussão epistemológica que

120
está surgindo: É imperativo que nós, pesquisadores da diferença e das es­
tratégias de subjetivação no campo social, consideremos sempre que nos­
sa fonte de pesquisa não está morta. Ao contrário, é uma fonte que fala
que sente, que reclama seus direitos, uma criança que vai crescendo e rei­
vindicando um espaço. Uma fonte que dura. Um corpo vivo no tempo dí
história antimemória. Um corpo presente numa geografia complexa di
eventos costurado por durações ou duras ações do tempo no social. A idéi;
dos fenômenos enquanto geografia complexa nos coloca frente a uma ques
tão importante em relação a própria história, ou seja como tem se pensadc
a história de uma forma linear e não geográfica. Nesse sentido podemo:
iniciar a discussão fazendo nossas as palavras de Peter Pal Plebart ao refe
rir Deleuze. Vejamos:

A História é um marcador temporal do Poder. As pessoas sonham cm co


meçar ou recomeçar do zero, e também temem onde vão chegar, ou cair
Sempre buscamos a origem ou o desfecho de uma vida, num víci<
cartográfico, mas desdenhamos o meio, que é uma antimemória. É aí qui
se atinge a maior velocidade, onde os mais diferentes tempos sc comum
cam e se cruzam, onde está o movimento, o devir, o turbilhão, diz Dclcuzi
literalmente. (Pelbart, 2000, p. 179)

É nessa perspectiva de entender o vivo da nossa pesquisa, que pode


mos responder justamente no sentido de: a) dizer que a pesquisa já não ser
mais um registro fidedigno do fenômeno nem um arquivo documentadi
com possibilidade de repetição do seu efeito; b) a história da cultura nã<
se encontra guardada num registro universal, não sendo assim possível no
deslocarmos tal e qual os fatos que foram experienciados na época. A pes
quisa hoje já não mais se comprometerá com registros históricos ou regis
tros fenomênicos abstratos, sem corpo, universais e eternos, c) o que exis
te é energia circulante. Os fenômenos estão imersos numa confluência d
matéria absconsa e cinzenta - tão complexa quanto sua vontade de podei
Estas confluências fazem, de uma forma tísica, tênue, raquítica e quas
paralítica, as enunciações e os pensamentos se concretizarem no discursi
Isso é o resultado da pesquisa: um corpo vivo e volitivo (a fonte) que s
encontra com outro corpo vivo e volitivo (o pesquisador) que, colocado
num campo de batalhas de força e resistência têm como efeito uma pers
pectiva de linguagem e os vestígios desta luta é que serão, enfim, o resul
tado da pesquisa.
Ao invés de memórias, teremos marcas ou transformações nos coi
pos. Ou, como falamos no item anterior, uma memória corporal Os ft
nônienos, por mais abstratos que possam parecer, são inscritos na cos

12
mologia da vida. As coisas não ficam registradas na “mente” e dela trans­
postas, tal e qual uma cópia da matriz e do evento pesquisado, para um
registro oficial. O que queremos é uma pesquisa que tenha como função
a relação de um corpo para outro corpo. Como pretendia Nietzsche, o fio
condutor é o corpo. A pesquisa, neste caso, tem uma função muito mais
afectiva e perspectivista, do que acumulativa e produtora de verdades.
No limite, queremos que a pesquisa tenha sempre em vista a sua capaci­
dade de fazer os corpos morrerem e viverem tal qual a evolução criadora
presente na duração.
Ao dizer que “a duração real é aquela que morde as coisas, e nelas
deixa as marcas dos dentes”, Bergson (1964. p.68) nos ajuda apensar como
os nossos fenômenos de pesquisa estão juncados no tempo de um jeito que
fica quase impossível pensá-los se comportando de outra forma que não a
de um sistema vivo. O tempo da duração é o tempo como a vida se desen­
rola neste sistema. Como a vida incha e inscreve as linguagens da história
no corpo, não por intermitências de fatos, mas como um amálgama indife­
renciado que traz todo o passado na mordida do presente. Somos partidá­
rios das idéias neobarrocas que defendem que devemos preservar o corpo
fenomênico ao invés de nos perdermos no labirinto do método.5
As noções de corpo e de vida, então, passam a ser importantíssima para
a pesquisa no contemporâneo. Estamos nos deparando com a necessidade
de ampliarmos a leitura do método científico justamente por entendermos
que este de alguma forma encarou seus objetos como estáticos e sem aquele
vigor necessário para fazer da pesquisa, principalmente nas ciências huma­
nas, algo mais propositivo e menos representativo. Sob a perspectiva dos sis­
temas vivos, somos senhores, e não escravos do método
Quando pensamos no vivo do corpo presente em cada fenômeno a ser
pesquisado e quando nos comprometemos com uma pesquisa mais impreg­
nada e mais saturada de variáveis, acabamos identificando categorias que
sempre foram marginalizadas no campo científico. Como ilustração, po­
demos nos referir ao percurso dos historiadores contemporâneos pós-fou-
caultianos, aventureiros das fontes marginais: ao contrário de muitos que
desconsideram como fonte de pesquisa a coluna social dos jornais, as re­
vistas em quadrinhos e os desenhos animados, os contemporâneos têm es­
sas “obscenidades científicas” como fontes privilegiadas de pesquisa, pois
são nas marginalidades que se constroem os modos de subjetivação no so­
cial. Para nós, pesquisadores obscenos, algumas idéias de Deleuze serão
interessantes para avançarmos na discussão:

5Deleuze diz que o pior labirinto é a linha reta. Ora, o método científico é a linha reta na
qual mais nos perdemos...

122
Não há obsceno em si - diz Klossowski quer dizer o obsceno não c a
intromissão do corpo na linguagem, mas na sua comum reflexão, c o acto
de linguagem que fabrica um corpo para o espírito é o acto pelo qual a
linguagem se supera a si própria ao reflectir um corpo. “Não há nada mais
verbal que os excessos da carne [...] A descrição reiterada do acto carnal,
não somente dá conta da transgressão, mas é ela própria uma transgressão
da linguagem pela linguagem". (Deleuze, 1996 p. 11)

Para finalizar este item, queremos dizer que, se a relação pesquisa/


pesquisador se constituir como obscena, acreditamos ter alcançado o nos­
so objetivo para a compreensão dos fenômenos, ou seja, se, no efeito da
nossa pesquisa, conseguirmos provocar a reação que se tem quando se está
frente a uma obscenidade, estaremos experimentando a afecção dos cor­
pos (pesquisador e fonte). O impacto que temos quando não querermos ver
a cena por ser obscena, é o efeito para nós de uma pesquisa que deu certo.
Esta é a transgressão da linguagem pela linguagem.
A partir disso, vemos que o corpo tem uma particular intimidade com
as diferentes linguagens. Mais do que isso, como vimos, a linguagem re­
flete um corpo, a cada enunciação. Por isso, aqui nesse texto, nossa lin­
guagem está necessariamente refletindo um corpolnmetempoiesis, nitida­
mente encarnado em Fábios, Ricardos, Julianas, Rianas, Facardos, Julá-
bios e assim por diante.
Então, temos uma pista de que a relação pesquisa pesquisador abre a
possibilidade de criarmos dispositivos lingüísticos para ensinar nosso fe­
nômeno de pesquisa falar, ou seja, este vivo, esta criança germinal quer
aprender a falar e quer nos ensinar como ela se (des)envolve nas suas sin­
gularidades e nas suas idiossincrasias.

6Aquilo que já morreu, estamos aproximando aqui ao que Bergson chama de fenômenos de
“destruição orgânica”. Veja como ele irá entender a pesquisa por esta perspectiva: “[...] O
estado de um corpo vivo terá sua explicação completa no estado imediatamente anterior?
Sim, no caso de se admitir, a príori, a assimilação do corpo vivo aos outros corpos da
natureza, e a sua identificação pela necessidade da causa, com os sistemas artificiais sobre
os quais operam o químico, o físico e o astrônomo. Mas em astronomia, ou física e em
química, a proposição tem sentido nitidamente determinado: significa que certos aspectos
do presente, importantes para a ciência, podem ser calculados em função do passado imedi­
ato. Nada semelhante existe no domínio da vida. Neste, o cálculo abrange, quando muito,
certos fenômenos d ç destruição orgânica. Mas quanto a criação orgânica, os fenômenos
evolutivos que constituem propriamente a vida, pelo contrário, nem sequer vislumbramos
como os poderíamos submeter a um tratamento matemático.” (Bergson, 1964, p.57)

123
O que tínhamos antes em pesquisa era uma linguagem sem corpo e
sem vida, uma linguagem que falava daquilo que já morreu,6 daquilo que
parece não ter sido visitado pelo tempo, ou seja, tínhamos a pretensão des­
te Universal eterno em termos de tempo. Ora, o eterno é vazio, não dá nem
espaço ao virtual. Então, o vivo, na sua relação com o viver, como indica­
dor de estudo nos nossos fenômenos, nos põe em contato com uma lingua­
gem menos abstrata e simbólica e nos lança necessariamente numa vivên­
cia de tempo junto com o fenômeno. Fazer falar a fonte é preservar o fe­
nômeno, é saturar de variáveis, é inventar artifícios para estar experimen­
tando o fenômeno na medida em que ele realmente está acontecendo no
tempo. É dar-se conta de que o método pode muitas vezes nos aprisionar.
Com já lembramos anteriormente, fazer falar a fonte é preservar o fenô­
meno e ampliar a noção de método de pesquisa.
Fazer falar a fonte é entender que esta fonte não nos fala nada, ela
fala de algo que nos é virtual, de algo que está gritando por atualização.
“Nunca se fala a alguém, fala-se de alguém a uma potência apta a reflec­
tir-se, a desdobrar esse alguém, e, desse modo, não o nomeamos sem o
denunciarmos a um espírito que assume a forma de um estranho espelho.”
(Deleuze, 1996, p. 16-17) Esta potência, este espírito é precisamente a fun­
ção da pesquisa. E importante estarmos sempre procurando outros mun­
dos povoados por espíritos e potências que dobram e desdobram a lingua­
gem em proposições de novas estratégias de subjetivação dentro das vir-
tualidades que, constantemente, vão se atualizando.
Então para nos aprofundarmos mais ainda nos pecados da carne, con­
vidamos o leitor para um passeio pela natureza e pela linguagem e pelo
que consideramos ser o grito do corpo no contemporâneo. Esse passeio
cosmológico e entorpecente certamente nos auxiliará a perceber estas idios­
sincrasias do corpo na linguagem e sinalizará para um ensaio sobre um tipo
de subjetivação do corpo no nosso tempo.

LUMEPOIESIS

Com este tópico o leitor será convidado a adentrar no universo infi­


nito das linhas de fuga que compõe, como platôs, um plano de consistên­
cia que emerge da pura imaterialidade de um plano de imanência. Assim
como são produzidas formas fixas e territórios homogeneizantes, também
são produzidos pontos de resistência. E é sobre essa produção que iremos
falar, relacionando o plano da reflexão teórica sobre os modos de subjeti­
vação com uma produção teatral contemporânea. E sempre bom lembrai
que toda obra de arte é um acontecimento, uma produção do vivo. A nossa

124
intenção é dar um exemplo concreto de que a pesquisa no plano da subje­
tividade pode ser pensada assim, ou seja, como um sistema vivo em arte,
em criação, em invenção, em conformação e deformação. Olhar a arte, tor­
na-se impassível e impossível de abarcamento total pelo plano da lingua­
gem. O que faremos será um recorte, território que, nas suas não-palavras,
nos ajude a ter esperanças e a certeza de que é possível fazer pesquisa de
uma forma diferente. Vamos ao exemplo:

LUME, s. m. Fogo; luz; clarão; brilho; vela; (fig) perspicácia; dar a lume:
publicar.

Apelamos ao dicionário para precisar a palavra que compõe o texto.


Com tantos sinônimos que remetem ao plano da iluminação, dá para pen­
sar que não foi ingênua a escolha do nome do grupo de teatro cuja produ­
ção artística servirá como marcador dessa reflexão.
O LUME é um dos poucos grupos de teatro brasileiro vinculados a uma
Universidade com o propósito de produzir pesquisa. Seu foco de trabalho é
a preparação técnica do ator, utilizando para isso um intenso trabalho físico
baseado nos princípios da antropologia teatral de Eugênio Barba, Grotowski,
Peter Brook e um pouco mais remotamente, Antonin Artaud - o que já pode
ser considerado como fonte marginal nas artes cênicas.
A antropologia teatral configura-se como fonte marginal porque de­
manda, como a palavra mesmo diz, um processo de criação que nunca está
totalmente pronto. É como work inprogress. Sendo assim, a montagem de
um espetáculo pode levar meses e até anos para ser apresentada para o pú­
blico (dar a lume), respeitando o tempo de criação de cada um. Aí já se ins­
tala uma diferença, pois, em geral, as montagens teatrais são uma verda­
deira corrida contra o tempo, com data de estréia definida antes mesmo do
início dos ensaios. A falta de dinheiro é quase sempre a razão para a pres­
sa, embora também existam as ditas peças caça-níquel, isto é, juntam-se
atores globais e saem Brasil afora apresentado-se para uma grande massa
de público que paga de 30 a 100 reais por um mgresso. Essa é a famosa
indústria do entretenimento, que gera espetáculos onde a arte, geralmente,
In a só no cheiro.
Mas, para não cair em julgamentos cínicos sobre a produção do en-
iietemmento, voltaremos ao nosso foco - um pouco de arte cênica: Abram
as comuas, desçam ofo co de luz: Aqui está o corpo da senhora Isinha. Isi-
nhtt tem 76 anos, mora no interior do Tocantins. Dona Isinha perdeu mari­
do lilhos, sobrinhos, netos. Antes a casa era toda cheia, agora é vazia. Dona
hinhu, sozinha, não tem quase dentes, Dona Isinha tem dor nos joelhos,
Dona Isinha anda devagarinho segurando as costas e avançando a barriga.
Dona Isinha gosta de café com queijo.
Figuras como essa são a matéria que dá vida ao espetáculo CAFÉ
COM QUEIJO, que o grupo LUME vem apresentando. Você já imaginou
a possibilidade de que alguém ao invés do tradicional leitinho, adicione
queijo no cafezinho preto? Foram anos de pesquisa no interior da região
Norte e Centro Oeste, baseadas na técnica teatral da mímesis corpórea, isto
é, imitação de formas, gestos e trejeitos do corpo de uma pessoa. A partir
da observação e registro desse corpo, os atores passam a trazê-lo para o
seu próprio, construindo os personagens. Qualquer semelhança com a no­
ção sistêmica abordada anteriormente não é mera coincidência, ou seja, a
mímeses é o que Bergson referia como replicação. Por mais que se imite,
nunca os atores conseguirão repetir tudo, eles construirão outro corpo, se­
melhante, mas absolutamente singular.
O resultado é tão belo quanto simples, e, ao final do espetáculo, fi­
cam em cena algumas fotos das pessoas “reais” de quem os atores “cola­
ram” o físico. Como reação, algumas vezes a platéia até avança nessas fo­
tos, num ímpeto de devorá-las. No meio do burburinho que se forma, po­
dem ser escutadas as vozes desse público que tenta reconhecer nas ima­
gens os corpos que os atores trouxeram em seus corpos: “Ah, essa aqui é
aquela da dor...”; “Vejam, este aqui é o Seu Fulano [...]”
Podemos perceber o quanto nosso século produziu carências de vi­
das “de verdade”, palpáveis. E o barroco foi um marco na constituição
de um homem de referências confusas sobre si mesmo e a sociedade, onde
a única possibilidade de certezajazia na consciência de que tudo não pas­
sava de ilusão. Hoje, afogados em imagens manipuladas, em corpos per­
feitos e anabolizados, ainda não se encontra a “realidade” do próprio
corpo. Novamente, encontramos o conflito entre o viver representacio-
nal e as afecções do vivo.
Nesse buraco sem fundo entra a propaganda, que inventa e vende cor­
pos e espetáculos. E produz aquele fenômeno do vício: precisamos de água
e tomamos água salgada. Aí estão os corpos ideais e também todo o tipo
de idéia pronta, de opinião e de senso comum. A representação, na mídia
vence o vivo e toma-se lei. Nesse balaio-de-gatos se encontram as refe­
rências padronizadas, que não deixam de fora nem a produção científica.
Anteriormente, falávamos sobre como a fonte de pesquisa está viva, e de
como toda a identidade de um corpo se constitui sobre o que esse corpo
tem de incorpóreo e intangível. E agora nos deparamos com a relatividade
dessas formas que, produzidas em regimes de verdade, são muito difíceis
de escapar: eis o obsceno, aquilo que somos proibidos de ver.

126
Assim, nos deparamos também com as possibilidades desse plano de
imanência de onde brotam as fontes vivas do ser. Esse plano é puro corpo-
sem-órgãos (CsO), aquele onde o organismo ainda não se faz presente: “O
inimigo é o organismo. O CsO não se opõe aos órgãos, mas a essa organi­
zação dos órgãos que se chama organismo. E verdade que Artaud desen­
volve sua luta contra os órgãos, mas, ao mesmo tempo, contra o organis­
mo que ele tem: o corpo é o corpo. Ele é sozinho. E não tem necessidade
de órgãos. O corpo nunca é um organismo.” (Deleuze e Guattari, 1996, p.21)
É esse corpo que tentamos domesticar, mas cuja domesticação é sem­
pre frustrada, pois o máximo que consegue é imprimir marcas, estratificá-
lo. O plano liso que insiste em sua presença, visível mesmo depois das
marcas, retoma (ritom ellos) da nossa cultura que não é parte dos corpos e
nem dos espetáculos criados como ideais. Como dizia Nietzsche, essa di­
mensão da criação é evidenciada na medida em que toda a produção hu­
mana não pode fugir disso. Assim, não é porque existe um padrão de bele­
za que deixam de existir outras formas estéticas. E era com essa legitimi­
dade que os atores apresentavam as formas atípicas de um viver que não é
espetáculo. Assim, para nós, deve proceder o pesquisador, fazer espetácu­
lo do obsceno, do deformado, trazer a lume as afecções invisíveis do vivo.
Assim são as marcas do corpo impostas pelo tempo: barrigas proe­
minentes, bocas sem dentes, pernas tortas, corcundas, etc. Corpos por onde
passara uma vida. Porém não uma vida fabricada pelas exigências de um
mercado, mas sim inseparável de sua história e memória. Isso tudo para
nos dizer que o corpo, mesmo aquele habitado pela história, não é livre de
marcas. E essas marcas serão sempre prisões e libertações. O que nos pa­
rece é que, nas feridas do tempo, pelo menos há uma certa preservação de
um estrato (o plano de imanência): distância que se alonga ao pensarmos
nas marcas fabricadas num corpo que já não tem a vivência de suas pró­
prias marcas.
N a economia globalizada, as normas e referências estão no topo da
montanha dos grandes alpinistas políticos, econômicos e sociais, e encon­
tramos um desafio no cotidiano, que é o de não sucumbir aos apelos de uma
cultura globalizada. Dentro disso práticas singularizantes ocupam um es­
paço privilegiado, operando como linhas de fuga. Um corpo vivido e não
montado a partir do padrão estético dos meios de comunicação de massa,
um corpo que tenha saliências e reentrâncias, e que por assim ser, carre­
gue a potencialidade do infinito. O vivo é senhor, e não escravo do viver.
O corpo-sem-órgãos de Artaud não é o corpo padronizado e silicona-
do da Joana Prado. Corpo-sem-órgãos é o corpo-semente-devir, caos-ger-
me, por onde os fluxos de intensidade brotam nas veias e entranhas de uni
corpo que não possui entranhas, divisões, cortes. Estranho paradoxo de um

127
corpo que fisicamente ocupa (e é necessário que ocupe) um lugar nesta
matéria absconsa que, para além de ser matéria-fisica, é matéria-memó-
ria. Corpo, afecto e percepto. O pesquisador deve habitar, em sua vida, o
Corpo sem órgãos dos fenômenos a serem descobertos.
Por tudo isso, podemos ainda “levantar as mãos aos céus” e agra­
decer à arte por nos mostrar, de forma tão simples, o quanto a produção
de um corpo não é nada simples. Aproveitando esta metáfora, queremos
mostrar o quanto a produção de uma pesquisa passa por produzir a vida,
ou seja, este corpolumetempoieses que tentamos descrever nestas inter­
mináveis linhas.
Diversas produções contemporâneas têm lutado para incluir, em seu
processo de trabalho, esse lado de comunicação que não se restringe ape­
nas ao o que se diz, mas também ao como se diz e de que form a se chegou
nisso que se diz, inserindo a dimensão crítica dessas formas de habitar o
contemporâneo. A prática toma-se peça-chave nessa engrenagem da co­
municação, pois de nada adianta a crítica se não a inserimos na invenção
de nós mesmos. E essa consciência sobre a sinceridade de nossas práticas
anda junto com o discurso. Se perguntas em que um simples texto pode
mudar nossas práticas habituais, respondemos que estamos nos incluindo
dentro de uma grande rede de pessoas que se propõe a praticar um mundo
outro. Com humildade e compaixão, vamos legitimando possibilidades, que
não têm pretensão de verdades, mas que nos servem como apoio e resis­
tência. Enfim, é isso que gostamos de fazer.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BERGSON. Henri. A evolução criadora. Rio de Janeiro: Ed. Delta: 1964.


CANGUILHEM, Georges. O normal e o patológico. 5. ed. Rio de Janeiro: Ed. Fo­
rense Universitária, 2000.
DELEUZE. Gilles. O mistério de Ariana. Vega Limitada, Lisboa, 1996
PELB ART, Peter Pál. A vertigem por um fio: políticas da Subjetividade Contemporâ­
nea. São Paulo: Editora Iluminuras Ltda. 2000.
MATURANA, Humberto; VARELLA, Francisco. A árvore do conhecimento. Ed.
Palas Atena. 2001.
WIENER, Norbert. Cibernética e sociedade: o uso humano de seres humanos. Ed.
Cultrix, 1972.

128
NOVOS COLETIVOS SOCIAIS:
A MULTIDÃO E O AMOR
AO TEMPO A CONSTITUIR

Cláudia Perrone

Comecemos pela questão do novo coletivo. Há o Império e a nova


ordem mundial. Dele não se pode fugir. O Império é o mercado mundial
que não conhece concorrente e envolve suavemente todas as facetas da vida
humana. Resta o quê? Esperar que os trabalhadores se organizem e rom­
pam o círculo infernal do capital. Mas isto se, e somente se, desejarmos
criar uma “globalização democrática”, em oposição a uma “globalização
capitalista” .
O Império têm, como todo o social, fronteiras flexíveis e não exis­
tem mais Estados soberanos que sustentem, por si mesmos, uma amplia­
ção de riquezas e de poder por meio da ocupação territorial. A sombra do
Império caiu sobre todas as nações. Não sabemos onde ele inicia e nem
onde termina. A sua pretensão é se expandir urbi et orbis, ele não conhece
exterior. Como sociedade de controle mundial, o Império é a realização do
mercado mundial. O mercado mundial é contrariado pelas exclusões (Hardt,
2000, p.361), ele prospera incluindo efetivos sempre crescentes. A reali­
zação do mercado mundial é a soberania imperial em sua totalidade.
Tradicionalmente, o Império é definido por um domínio ilimitado no
sentido espacial; ele é ilimitado no sentido temporal, pois é posto como
necessário e eterno; é ilimitado no sentido social pois o seu objeto é a pró­
pria vida. Imperceptivelmente nos tomamos cidadãos do Império. Com es­
tranhamento kafkiano, um dia acordamos pertencendo a ele.
A quase imaterialidade desta passagem têm sua explicação através
do destino manifesto do Império: tornar-se a sociedade mundial de con-

Cláudia Perrone é psicóloga graduada pela PUCRS, doutora em Teoria da Literatura,


professora no Curso de Pós-Graduação em Psicologia Social e Institucional da UFRGS c
no Curso de Psicologia da Universidade Federal de Santa Maria.

12 9
trole, a realização mesma da fluidez. Não há uma ruptura com sociedade
disciplinar descrita por Michel Foucault, mas uma intensificação e uma
generalização, como acertadamente indicou Michel Hardt, dos aparatos
normatizantes da disciplinariedade que anima interiormente nossas prá­
ticas comuns e cotidianas. N a bela imagem de Gilles Deleuze saímos dos
túneis estruturais da toupeira para as infinitas ondulações da serpente. Na
sociedade disciplinar, os efeitos das tecnologias biopolíticas eram par­
ciais, mas quando o poder se faz biopolítico, a vida mesma é convertida
no objeto da poder. O biopoder é a produção da vida social para mais além
das normas, ele engloba não só o político da teoria clássica, mas deter­
mina uma esfera de exercício do que anula a distinção entre o público e
o privado e funciona em todos os níveis e em toda a profundidade do corpo
social. Seu objeto é a vida social e o vivo na sua totalidade. O biopoder
rege a vida social a partir do seu interior, administra e modela a produ­
ção e a reprodução da vida mesma.
A sociedade de controle é difusa no controle do corpo dos seus cida­
dãos, com sua matriz “democrática” e imanente no campo social. Há uma
interiorização das regras e imperativos pelos sujeitos mesmos via máqui­
nas culturais e informacionais elaborando a organização dos corpos em um
paradoxo: um estado de alienação autônoma no qual o sujeito é minado
desde o seu interior, estruturalmente via uma pseudocultura que não é mais
do que um catálogo de prescrições, de palavras de ordem predeterminan­
do desejos, representações, expressões. Trata-se dos “ bens culturais” e de
seus suportes: televisão, cinema, internet, jogos, vídeos.
Negri levou as idéias de Foucault sobre o biopoder até um ponto de
suspensão e apresenta no seu livro O poder constituinte-, uma dimensão
constitutiva e uma abertura absoluta. Negri toma a idéia de biopoder como
um lugar de recomposição de resistências. No limite máximo desta sus­
pensão foucaultiana:

Estamos diante de uma concepção de sujeito que tem, formal e


metodologicamente, características adequadas ao procedimento absoluto.
Com efeito, este sujeito é potência, tempo e constituição: é potência de
produzir trajetórias constitutivas, é tempo sem nenhum sentido predeter­
minado, é constituição singular. (2002, p. 46)

Negri propõe um horizonte de atividades, de resistências, de von­


tades e desejos que recusam a ordem hegem ônica e propõe caminhos
constituintes. O sujeito deste caminho é a multidão, o novo coletivo so­
cial. A multidão, atravessada pelo biopoder, pode gerar formas de con-
trapoder na sua conectividade imprevisível e pronta para inventar novas

130
formas democráticas e um novo poder constituído. O poder constituinte
se encontra disperso na multidão, como potência para gerar uma contra-
império. A luta preconizada é essencialmente resistência, uma subversão
a partir do interior.
Já esboçamos três questões importantes: a multidão, a multidão como
coletivo social e o poder constituinte. O primeiro passo é desdobrar cada
uma destas idéias a partir da tese de Negri do poder constituinte como al­
ternativa à modernização capitalista na história ocidental. Não desenvol­
veremos toda a teoria sobre o poder constituinte, mas apenas um esboço
mínimo para pensarmos a multidão como o novo coletivo social que per­
mite pensar não apenas os movimentos sociais, mas também Seattle ou
Gênova, uma oposição imediata e acentrada contra o poder imperial. E uma
interpretação ligeira pensar Seattle ou o Fórum Social Mundial de Porto
Alegre como um movimento superficial e limitado. A verdadeira questão
é: como estabelecer uma resistência sem o “fora”?
O poder constituinte é, fundamentalmente, o conceito de política como
inovação e radical transformação da sociedade capitalista. No final dos anos
70, Negri escreveu A anomalia selvagem-ensaio sobre o poder e a potên­
cia em Spinoza que o levou a uma reflexão ontológica sobre sua experiên­
cia política. Nos primeiros anos da década de 70, ele participou de lutas
operárias em Milão e Turim e promoveu uma ampla discussão sobre o de­
senvolvimento dos movimentos sociais durante esta década na Itália.
A leitura de Spinoza marca a revolução ontológica que o próprio Ne­
gri apresenta em três teses:
a) Spinoza funda o materialismo moderno:
b) O filósofo holandês funda uma forma não-mistifícada de demo­
cracia, isto é, ele coloca o problema da democracia no campo do materia­
lismo como crítica de toda a mistificação do estado, acrescentando que é
no protagonismo das massas que Spinoza coloca o fundamento da ação
transformadora social e, ao mesmo tempo, a política. (Aída, 1998, p. 146)
c) Spinoza mostra alternativas radicais a história da metafísica, ou seja,
é a idéia da anomalia selvagem, a expressão da transgressão histórica do
ordenamento que não foi livremente constituído pela multidão.
Em Spinoza, o processo constituinte acumula ser, qualitativa e quan­
titativamente, ocupa novos espaços, constrói. Negri toma-se um leitor spi-
noziano de Marx:

[...] há um outro Marx, dos Gründrisse, que pensa o trabalho e sua importân­
cia na produção do valor. Um Marx que pensa o desenvolvimento das forças
produtivas como estando essencialmente ligado à dimensão do trabalho. O
trabalho como dimensão essencial da potência humana, que produz relações.
que desenvolve processos sociais, produzindo subjetividades coletivas, o que
comumente chamado produção da cultura. (In; Costa, 1993, p.40-41)

A teoria do poder constituinte é desenvolvida a partir da relação en­


tre multidão e potência. O poder constituinte é um sujeito para Negri. Este
sujeito é a subjetividade coletiva que desprende-se das condições e con­
tradições aos quais sua força constituinte é submetida nos momentos cru­
ciais da história política e constitucional (2001, p.447). Isto porque a mul­
tidão é a antítese contínua da progressão constitucional e o sujeito consti­
tuinte não se submete à permanência estática da vida constitucional. Em
outras palavras, a multidão é descontinuidade, é ruptura e inovação.
O modemo é, de acordo com Negri, a negação da possibilidade de
que a multidão possa se expressar como subjetividade. O modemo é en­
tendido como o pensamento totalizador que assume a criatividade indivi­
dual e coletiva para reinscrevê-la na racionalidade instrumental do modo
capitalista de produção. A potência da multidão provoca medo e a política
modema, na acepção de Negri, nasce não da administração, mas do medo.
A racionalidade não é apenas um instrumento de ordenação, mas é funda­
mentalmente um instrumento de repressão. O poder se nutre da potência
constituinte e sem ela não existiria. Para lidar com essa potência, o poder
realiza o isolamento da potência da multidão no social: esta é a segunda
característica do modemo. Esta operação implica na neutralização da mul­
tidão no político e exige o seu confinamento no social. Assistimos, então,
o esquadrinhamento do político pelas disciplinas, quer ele se denomine
economia política, sociologia, psicologia, sua tarefa é sempre separar a
potência do social da potência do político.
A sede das determinações da nova racionalidade é transferida para a
ontologia. E preciso reencontrar as bases da nova racionalidade onde flui
o trabalho vivo, onde o social encontra a sua respiração vital - no lugar
onde se formam “as seqüências do agir e as pulsações criadoras”. A forma
da nova racionalidade, seu locus ontológico, é a relação entre a potência e
a multidão. Esta é a tram a ontológica de invenção da subjetividade, que
configura a produção social, engloba o social e o econômico no político,
abarca a organização da produção e a organização política de maneira cons­
titutiva. Aqui é importante marcar a diferença entre multidão e classe so­
cial. A multidão é um conjunto de múltiplas emergências, de forças e sin­
gularidades. A classe social forma-se como conceito a partir da idéia de
massa modema, a partir da ilusão de uma identidade orgânica. N a multi­
dão o conceito de classe não é dispensado, é antes problematizado pelas
subjetividades que pensam, produzem valor e reproduzem o mundo e a vida,
são singularidades em obra que possuem o poder do trabalho imaterial.

132
A noção de trabalho imaterial é desenvolvida por Negri, associada à
constituição de um sujeito antagônico ao poder do capital e do Império,
Negri desenvolve a partir do reconhecimento de um estranho paradoxo. É
sobre a derrota do operário fordista e sobre o reconhecimento da centrali-
dade do trabalho vivo mais e mais intelectualizado na produção que tem-
se constituído as variantes do modelo pós-fordista. Na grande empresa,
restruturada, o trabalho é um trabalho, em níveis diferentes, a capacidade
de eleger entre diversas alternativas e, portanto, a responsabilidade de al­
gumas decisões. O conceito de interface dá conta desta atividade. É a in­
terface entre as diferentes funções, entre os diferentes equipamentos, en­
tre os níveis de hierarquia, etc. Como é prescrito pelo novo management,
hoje é a alma do operário o que deve prevalecer na fábrica. É sua persona­
lidade, sua subjetividade o que deve ser organizado e dirigido. Qualidade
e quantidade de trabalho são reorganizados ao redor de sua imaterialida­
de. Esta transformação do trabalho operário em trabalho de controle, de
gestão de informação, de capacidade de decisão requer a subjetividade e
atinge os sujeitos de maneira diferente segundo suas funções. Assim, o ci­
clo do trabalho imaterial está pré-constituído por uma força de trabalho
social autônoma, capaz de organizar seu próprio trabalho e suas próprias
relações. Nenhuma organização científica do trabalho pode determinar
antecipadamente esse saber fazer e esta criatividade produtiva social que
constituem hoje a base de toda a capacidade de empreendimento.
Para Negri, vivemos a época da hegemonia da “intelectualidade de
massas”. Todo membro da sociedade é um produtor de mais-valia, inde­
pendentemente de sua condição de assalariado, encontrando-se em seu
cérebro a principal força produtiva. Neste sentido, ao contrário de autores
que sustentam a tese do “ fim do trabalho”, e deduzem dela a impossibili­
dade de constituição de um sujeito com possibilidades de emancipação, para
Negri, a multidão é o “proletariado” autônomo, é o conjunto das classes
subalternas. Da potência da multidão vêm a força para um antagonismo
não dialético, mas capaz de se produzir no aqui e no agora, vide Seattle e
Ciênova. O trabalho imaterial não necessita mais do capital e de sua ordem
social para existir, mas se apresenta como livre e construtivo. Ao dizer que
esta nova força de trabalho não pode ser definida no interior de uma rela­
ção dialética é preciso explicitar que a relação mantida com o capital não é
apenas antagônica, ela está mais além do antagonismo, ela é constitutiva
de uma realidade diversa.. O antagonismo se apresenta sob a forma poder
constituinte que se revela como outro do poder constituído.
O movimento constituinte é ininterrupto, a sua construção pela base
atravessa as emergências singulares e coordena a ação destas. Neste pro­
cesso não se aplicam normas gerais e abstratas, mas se organizam conste­

133
lações de interesses, acordos e relações que são permanentemente reavalia­
das. Se existem regras de procedimento, elas mesmas são constantemente
repensadas. A expansão contínua da multidão se dá por atividades empre­
endedoras, num uso certamente irônico desta palavra por Negri, que atra­
vessam o social, o político, o jurídico e o institucional. O procedimento é
a forma concreta que cada expressão de subjetividade assume ao relacio-
nar-se com as demais. O procedimento dissolve o mito constitutivo do con­
trato social. Mas não apenas isto - há a interpretação e o desenvolvimento
do seu movimento genealógico é como imbricação de paixões e insti­
tuições, de interesses e capacidades empreendedoras que o contrato social
mitificou, que o procedimento propõe um tecido ontológico aberto.
A democracia do biopolítico não é formal, mas absoluta, imanente à
multidão que considera toda transcendência uma variação do poder de do­
minação. Negri aponta para uma diferença crucial entre o empreendedor
biopolítico e o empreendedor parasita. O empreendedor biopolítico é on­
tológico, vela pela construção de uma trama produtiva. Esta construção é
encontrada em algumas experiências de comunidades, de coletividades,
cooperativas ou de experiências de coletividades solidárias. O empreen­
dedor biopolítico é aquele que organiza o conjunto das condições de re­
produção da vida e da sociedade, e não somente da “economia” . É um
empreendedor de subjetividade e igualdade.
O poder constituinte não se forma com a redução de singularidades
ao uno, mas como lugar de sua imbricação e de sua expansão. Na riqueza
das infinitas expressões da multidão está sua força criadora. A nova racio­
nalidade da multidão se configura como lógica das singularidades em pro­
cesso, em fusão, em contínua superação. Ela contraria a uniformidade. A
desutopia ajuda a compreender o processo: a partir dela a racionalidade
revela-se como impossibilidade de uniformizar o mundo da vida no ins­
tante em que o reconstrói criativamente. A uniformidade é o pecado da uto­
pia e mostra o seu enraizamento no moderno bem como seu déficit como
elemento destrutivo das próprias condições do devir. O poder constituinte
sempre rompe a uniformidade e sua criatividade busca a diversidade como
a racionalidade de sua consistência ontológica.
A multidão dá voz a racionalidade do concreto, ou seja, a cooperação
é a articulação do número infinito de singularidades que entram na com­
posição produtiva do novo. Cooperação é inovação, é riqueza, é a base da
expressão da multidão. Ela é a forma pela qual as singularidades produ­
zem o novo, o rico, o potente, a única forma de reprodução da vida. A coo­
peração é o valor central da nova racionalidade.
O poder constituinte, assim, cumpre a sua função ontológica: cons­
truir o ser novo, construir uma nova natureza na história e um novo mundo

134
da vida. Neste momento podemos repensar o do poder constituinte: ele é
a definição de um paradigma da política. E a política é a potência onto­
lógica de uma multidão de singularidades operantes. Chegamos ao nú­
cleo duro do argumento de Negri: todas as problematizações tradicionais
não souberam justificar a potência da comunidade. O poder constituinte
m uda radicalmente o terreno da definição ao transferir da política para a
ontologia a criação do ser novo. Ontologicam ente estamos diante da
multidão das singularidades e do trabalho criador de potência. A política
é o lugar dessa imbricação, na medida em que se apresenta como um pro­
cesso criador, um processo constituinte. Não há mediação, termo tão caro
ao pensamento da esquerda, mas genealogia, uma produção coextensiva
e cooperativa da comunidade e da força, ou, da multidão e da potência.
A dialética não dá conta deste processo que abre infinitamente, e não fe­
cha, novas dimensões do ser, reconhecendo-se e operando a cada momen­
to como desutopia constitutiva.
Negri, discute, ainda, a temporalidade do poder constituinte. É a pre­
cipitação no tempo que revela a criação contínua da figura ontológica do
poder constituinte como política, ou seja, como matriz de uma expansão
de inter-relações entre singularidades, sempre renovadas e abertas. O novo
tempo é definido por Negri como a alma do poder constituinte na medi­
da em que este faz do mundo da vida uma essência dinâmica, síntese sem­
pre renovada da natureza e da história. A política é o horizonte da revo­
lução que não termina, mas continua a ser aberta pelo tempo. Viver uma
ética de transformação, que se expressa em um desejo de participação,
revela o amor pelo tempo a constituir. E a multidão: o amor ao tempo a
constituir. Cabe a nós acelerar esta potência e, no amor ao tempo, inter­
pretar sua necessidade.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ALLIEZ, Eric (org.). Gilles Deleuze: uma vida filosófica. São Paulo: 34, 2000.
COSTA, Rogério (org.). Limiares do contemporâneo. São Paulo: Escuta, 1993.
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EAZZARATO. M.; NEGRI.A. O trabalho imaterial. Rio de Janeiro: DPA, 2001.
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QUINTAR, Aída. A potência do poder constituinte cin Negri. In: I.ua nova, São Pau­
lo, n.43, p. 131-155, 1998.

135
TRABALHO E CONTEMPORANEIDADE:
O TRABALHO TORNADO VIDA

Angélica Elisa G iacom el


Angela Pena Ghisleni
M ay te Raya Am azarray
Selda Engelman

Como o trabalhador contemporâneo pode traçar, com sucesso, uma


trajetória profissional é tema encontrado em jornais e revistas atuais. Com
o intuito de delinear o “perfil” mais adequado para tal empreendimento,
essas matérias tentam especificar, embasadas na opinião de “experts” no
assunto, quais características são, mais freqüentemente, esperadas e prio-
rizadas em processos seletivos.
Lê-se que, além de exigências objetivas como formação escolar, apa­
rência física, domínio de informática e de idiomas, o mercado de trabalho
aponta como necessário ao trabalhador que almeja ser bem-sucedido apre­
sentar certas “competências” que não poderiam ser definidas senão desde
o plano da subjetivação. Segundo reportagem de Deise Oliveira (2001),
dentre essas competências, as principais são a “flexibilidade para reagir a
mudanças” e a “habilidade nos relacionamentos pessoais” . Além destas,

Angela P ena G hisleni é fisioterapeuta, especialista em A dm inistração Hospitalar,


inestranda em psicologia social e Institucional da UFRGS e integrante do “Grupo de
pesquisa novas tecnologias, novas organizações do trabalho e suas repercussões sobre a
saúde” do PPGPSI-UFRGS.
Angélica Elisa Giacomel é psicóloga, mestranda em psicologia social e Institucional da
l II RGS e integrante do Grupo de “Pesquisa modos de trabalhar, modos de subjetivar” do
PPGPSI-UFRGS.
May te Raya Amazarray é psicóloga, mestranda em psicologia social e institucional da
I )|'R(rS, integrante do Grupo de “Pesquisa saúde mental e trabalho” do PPGPSI-UFRGS
e do Fórum Permanente de Prevenção de LERJDORTdo Rio Grande do Sul
Selda Engelman é administradora, mestranda em psicologia Social c institucional da
UFRGS e integrante do Grupo de “Pesquisa modos de trabalhar, modos de subjetivar" do
PPGPSI-UFRGS.

137
Simoni Missel, Cláudio D ’Amico e Nara Mello (2001) citam outros fato­
res de empregabilidade também considerados: equilíbrio emocional, dis­
posição para o aprimoramento técnico e pessoal constante, capacidade de
estabelecer metas claras, comprometimento e criatividade, comunicação
adequada e capacidade para o trabalho em equipe.
Especialistas em orientação profissional, conforme Oliveira (2001),
indicam que o maior desafio para o iniciante no mercado de trabalho é o
de se desligar de conceitos herdados como o de que “um bom trabalho é
aquele que oferece estabilidade e remuneração elevada”. A tendência das
relações aponta para o desapego ao conceito de emprego. Não ter empre­
go não pode significar não ter trabalho. Outra orientação oferecida é a de
que, no mundo globalizado, deve-se desfazer as amarras que “impedem a
decolagem”, tanto em relação à família e à moradia, quanto em relação à
própria profissão. Quem deseja um bom trabalho deve ser flexível a ponto
de abrir mão da formação inicial para desempenhar outras atividades que
o mercado exija. Viajar, tomar contato com outras culturas, comunicar,
conectar, trazer experiências de berço, entre outros, mais do que diferen­
ciais, parecem estar se tomando ditames de padrão.
A contemporaneidade propõe, portanto, uma flexibilização em rela­
ção ao próprio conceito de trabalho, não fixando apenas o emprego, mas
considerando também outras formas de contratos, como o serviço de ter­
ceirização, o trabalho autônomo, informal, temporário, voluntário, as co­
operativas e os estágios. Da mesma forma, a importância de operar com o
conceito de “qualidade” em todas as funções - não apenas na produção de
trabalho, mas nas relações entre colegas e clientes - mostra-se como outra
condição insistentemente marcada. A demanda é que tais conceitos sejam
encarnados na maneira de ser e agir dos trabalhadores.
Pode-se dizer, assim, que tal “perfil” exigido para os trabalhadores, de­
fine não somente modos de trabalhar, mas modos de ser. O objetivo deste
artigo é abordar tal relação entre trabalhador e trabalho, problematizando-a
com o auxílio do maquinário conceituai de autores como Michel Foucault,
Gilles Deleuze, Félix Guattari e Toni Negri. Para tanto, toma-se necessário
explorar alguns de seus conceitos para entendermos algo desta situação em
que demandas profissionais de caráter técnico misturam-se, na atualidade,
cada vez mais, com demandas pessoais de caráter subjetivo.

SOCIEDADE DISCIPLINAR E SOCIEDADE DE CONTROLE

Quando nos referimos ao contemporâneo, visualizamos, segundo Fou


cault (1999), duas tecnologias de poder concomitantes e sobrepostas, a sa

138

À
ber: a disciplinar e a de regulação. A tecnologia disciplinar, situada nos
séculos XVIII e XIX, com seu apogeu no início do século XX, também é
entendida por Deleuze (1992) com sociedade disciplinar, uma vez que toda
a organização social passou a ser normatizada pela disciplina.
A sociedade disciplinar caracteriza-se pela introdução de tecnologias
orientadas para que permitem que os indivíduos sejam manipulados como
corpos dóceis, a partir da implementação de dois vetores de atualização:
um espacial e outro temporal. Por meio do vetor espacial, produz-se uma
demarcação entre o dentro e o fora, através dos espaços de confinamento:
o indivíduo não cessa de passar de um espaço fechado a outro (a escola, a
fábrica, a prisão). Por outro lado, através do vetor temporal, produz-se um
automatismo dos corpos. Ritmos cadenciados são impostos no interior dos
dispositivos institucionais, buscando anestesiar formas de experimentação
criativa do tempo.
Na fábrica (Foucault, 1995), o tempo dos homens passa o ser trans­
formado em tempo de trabalho, em troca de um salário, e o corpo, trans­
formado em força útil, moldado, formado dócil, produtivo, submisso, vi­
giado, corrigido, qualificado para ser um corpo capaz de trabalhar. O tem­
po de trabalho e a força de trabalho caracterizam essa sociedade, e a linha
de montagem traduz o seu ponto culminante.
Na técnica da regulação, que eclodiu com a Segunda Guerra Mundi­
al, a disciplina não é excluída, mas integrada a essa nova tecnologia. Tal
técnica não se dirige ao corpo, como na disciplinar, mas à vida dos homens.
Foucault (1999) chama a passagem da disciplinarização para essa nova
tecnologia como passagem da anátomo-política do corpo humano para a
biopolítica da espécie humana. A biopolítica consiste, sobretudo, no esta­
belecimento de mecanismos reguladores da população global, na fixação
de seu equilíbrio - manutenção de uma média, estabelecimento de uma
hoineostase e de uma regulação dos processos biológicos do homem-es-
pécie - em suma, na otimização de um estado de vida. Assim, delineia-se
a era de um “biopoder” (Foucault, 2001).
Deleuze (1992) aborda essa tecnologia da regulação como produto e
produção de uma “sociedade de controle”, apontando que se trata de uma
mudança na maneira pela qual o poder marca o espaço no contemporâneo.
Portanto, o poder passa a incidir não apenas sobre a vida qualificada, mas
sobre a vida não-qualificada, sobre o viver. O biopoder captura o sujeito
ainda no plano de criação, de modo que estamos sempre dentro de seu do­
mínio. A lógica que antes funcionava no interior das instituições se esten­
de. hoje, a todo o campo social.
Segundo Michel Hardt (2000), não se pode pensar a sociedade de con-
tiole sem considerar o mercado mundial, que é o ponto de partida e de che­

1.19
gada do capitalismo. Podemos utilizar a forma do mercado mundial como
modelo para compreender a forma da soberania imperial em sua totalida­
de. Assim, como não há um fora no mercado mundial, na medida em que o
planeta inteiro é o seu domínio, não há fronteiras para o exercício do bio-
poder: seus limites são móveis e fluidos.
O biopoder, então, mantém uma relação de indissociabilidade com o
capitalismo. Sociedade de controle, biopoder, globalização: estamos falan­
do do Capitalismo Mundial Integrado (CMI), conforme já o fez Guattari
(1987). Para esse autor, o capitalismo contemporâneo é mundial e integra­
do porque nenhum país e nenhuma atividade humana ficaram fora do seu
controle. O CMI colonizou todos os recantos do planeta, ignorando a di­
versidade dos povos e os diferentes regimes políticos.
Esta colonização não se dá apenas pela extensão dos territórios, mas
de maneira intensiva, de modo que todos empregam sua vida ao capital:
crianças, mulheres, homens, desempregados, estudantes, donas-de-casa. A
sujeição é completa: o capital anexou tudo o que pôde e em profundidade
- por isso é capitalismo expansionista e intensionista. Trata-se da integra­
ção maquínica, ou seja, o campo de ação do capital não está apenas no tra­
balho assalariado, mas onde todos nós estamos. O capital não é só econô­
mico, é material e semiótico, é um agenciamento coletivo complexo. A
mídia é o principal veículo dessa integração maquínica e o marketing pas­
sa a ser o setor privilegiado das empresas.
O trabalho, portanto, emancipou-se da disciplina da fábrica para um
trabalho imaterial, podendo ser entendido, conforme Peter Pelbart (2000)
e Toni Negri (2001), como aquele que produz o imaterial - por exemplo,
em vez de fabricar carros, sapatos, produz imagens, serviços, conhecimen­
tos. O trabalho imaterial não pode ser entendido simplesmente como um
trabalho intelectual, mas como um trabalho que se caracteriza pela malea­
bilidade, pela capacidade de inserir-se em qualquer situação. Talvez essa
possa ser a característica mais marcante da nova força de trabalho, essa
plasticidade que permite ao trabalhador inserir-se a todo momento na ima­
terialidade dos fluxos produtivos. O trabalho imaterial incide na subjetivi­
dade humana. É um trabalho afetivo, já que seus produtos são intangíveis:
sentimento de bem-estar, satisfação, paixão, inclusive a sensação de per-
tencimento a uma comunidade ou grupo.
Segundo Negri (2001), na sociedade contemporânea não é mais o cor­
po que é posto a trabalhar disciplinarmente, e sim a alma. Mas quando o
autor refere esta idéia, ele não se propõe retornar à dicotomização corpo/
alma; pelo contrário, ele se refere às relações de afeto e aos diferenciais de
produtividade que são agora o próprio cérebro das pessoas que trabalham:
“ [...] a máquina-ferramenta foi arrancada do capital pelo operário, para que

140
ficasse com ele por toda a sua vida, que o operário encarnou essa potência
de produção dentro de seu próprio cérebro, [...]” (Negri, 2001, p.27).
Para Negri, a ferramenta de trabalho está encarnada no cérebro, mas,
lembremos, a partir da concepção do homem como um todo, em que o cé­
rebro faz parte do corpo, congregando não só funções cognitivas, mas tam­
bém tudo o que pertence ao “sentir”. O trabalho se constrói, portanto, a partir
das ferramentas encarnadas, apropriadas, que são a própria vida posta em
produção. E, colocar a vida em produção significa colocar em produção
os elementos de comunicação da vida, pois a vida individual se torna pro­
dutiva no momento em que entra em comunicação com outras ferramen­
tas encarnadas. A linguagem, como forma de comunicação, toma-se fun­
damental neste processo produtivo.
Acontece que a linguagem, como o cérebro, está ligada ao corpo, que
não se exprime simplesmente de maneira racional, mas através das potên­
cias de viver, das potências expansivas, de liberdade que o autor chama de
afetos. Portanto, a vida afetiva se toma uma das expressões da ferramenta
de trabalho encarnada no corpo e o controle capitalista se intensifica ju s­
tamente nessa potência de agir das pessoas. Seguindo essa lógica, a em­
presa possui formas de controle mais sutis e mais eficazes, uma vez que
engolfa o trabalhador pela participação, gerando a ilusão de uma intera­
ção democrática.
Ora, se é a própria vida que é posta à disposição da produção, como
não estar totalmente comprometido com a empresa? Ou melhor, nem pre­
cisamos realmente de UMA empresa para estarmos trabalhando, pois o
processo produtivo extrapolou os limites físicos e invadiu as casas, o tem­
po livre, as relações familiares. O trabalhador contemporâneo encontra-se
em situação de total dedicação às atividades profissionais. Sua vida tor­
nou-se seu trabalho.

PRODUÇÃO DE SUBJETIVIDADE

Se, hoje, os modos de trabalhar passam por tal transformação, urge


questionar as implicações desta nos modos de subjetivação.
A tradição moderna de ciência nos ensinou a conceber subjetividade
como indissociada da idéia de indivíduo. Legado do cartesianismo, o pro-
leto epistemológico da modernidade delimitou em seu horizonte o propó­
sito de depurar do humano sua essência cogitam. E, esperava-se da psico­
logia o cumprimento desta missão investigativa com o intuito de alcançar
o sujeito puro da razão, ou seja, o sujeito epistêmico, aquele pronto para
conhecer, livre de suas implicações mundanas.

141
No entanto, a nova disciplina psicológica foi, paradoxalmente, des­
cobrindo o exato avesso deste projeto, ou seja, sua impossibilidade, mes­
mo que diante disto, tenha se subjugado, ao longo da história, ao juízo do
“tribunal epistemológico”, tentando a todo custo resgatar a possibilidade
de seu empreendimento, sob o risco de ficar sem uma “filiação científi­
ca”. Diante da denúncia da frágil precariedade do pressuposto metafísico
da razão, a psicologia se dividiu. Vislumbrando a multiplicidade, tomou-
se múltipla também - psicologia da personalidade, do desenvolvimento,
do trabalho, clínica, escolar, social. Contudo, a sombra do cogito parece
ainda pairar sobre muitas das concepções vigentes.
Jefferson Bemardes (2001), em uma leitura histórica, mostra que mes­
mo a psicologia social dividiu-se, depois de se tomar insustentável o pro­
pósito de unificar as perspectivas pelo método experimental. Sob a égide
do positivismo, tentou-se, durante muito tempo, reduzir os fenômenos so­
ciais ao âmbito do individual, pressupondo que tais fenômenos têm sua
“gênese natural” no indivíduo humano.
No entanto, a dicotomia indivíduo/sociadade não é mais suficiente
para dar conta do entendimento da atual situação econômica e política do
planeta - embora a apologia à individualidade liberal, independente e au­
tônoma, exerça um papel importantíssimo nesta configuração. Entendemos
que o social não é uma simples extensão da natureza individual, mas seu
meio de produção e também seu produto. Assim, subjetividade é igualmente
produção em processo e coletividade.
Peter Pelbart nos esclarece que, desta perspectiva, subjetividade

[. ..] pode então ser definida como uma modalidade de inflexão das forças
do Fora, através da qual cria-se um interior. Interior que encerra dentro
de si nada mais que o Fora com suas partículas desaceleradas segundo
um ritmo próprio e uma velocidade específica. A subjetividade não será
uma interioridade fechada sobre si mesma e contraposta à margem que
lhe é exterior, feito uma cápsula hermética flutuando num Fora
indeterminado. Ela será uma inflexão do próprio Fora, uma Dobra do
Fora. (Pelbart, 1989, p. 135)

O fora não é um nada indefinido, mas composição de partículas mó­


veis, aceleradas, mistura de tempos e potências criativas. Deste ponto de
vista, podemos dizer que o sujeito é força, potência criativa, e o que o di­
ferencia, em seu interior, do fo ra que o compõe é a existência estética, o
cuidado de si, o poder de afetar a si mesmo, enfim, a relação de força con­
sigo mesmo.

142
Guattari (1992) nos ajuda compreender esta idéia que tentamos com­
por a respeito de subjetividade com a noção de fluxos. E, junto com De-
leuze (1976), resgata aspectos da filosofia de Bergson (como as relações
de tempo e espaço) que nos permitem pensar esta dobra, a subjetividade,
em termos de sua processualidade, de movimentos permanentes de “vir a
ser”, de devir, a partir das trocas de fluxos com o que é exterior a seus po­
ros, com o fora.
Subjetividade é, então, algo sempre construído, fabricado, produzi­
do nos encontros, acoplamento de fluxos que não se cansam de pedir pas­
sagem à medida mesma em que são cortados em agenciamentos maquíni-
cos de produção. E o desejo é, nesta configuração, o fluxo agenciador dos
encontros, que potencializa e é potencializado pelo outro, produz o si na
medida em que produz o outro.
Por isso, podemos falar em modos de subjetivar, ou seja, regimes de
regulação de fluxos que permitem ou desautorizam determinados acopla­
mentos com o outro, seja este o trabalho, a família, o conhecimento, a reli­
gião, a arte. Assim, os processos subjetivantes podem ser capturados por
determinados modos de fazer, pois estão sempre em relação com uma tra­
ma de saberes estratificados e estratégias de poder.
Embora possa parecer por demais categórico, urge denunciar que o
capitalismo já descobriu isso há muito tempo. Inventou novos modos de
investimento social do desejo, apropriando-se das operações maquínicas
de corte-fluxo a que Deleuze e Guattari (1976) denominam esquizo.

CAPITALISMO E ESQUIZOFRENIA

Esquizo (do grego schízo) significa justamente separar, cortar, fen­


der, e os autores já citados remetem a esta perspectiva sua concepção de
formação social. Tal como se processa a produção de subjetividade, assim
liimbém sobre o corpo social correm fluxos que a sociedade esforça-se por
codificar, instituindo pontos de corte, pólos interceptores. Cada sociedade
leve, assim, conforme a sua época, um axioma desde o qual codificavam
seus fluxos e instituíam regimes próprios de corte/conexão dos mesmos -
no feudalismo, por exemplo, os regimes de propriedade de terras, de tro­
cas, de casamentos, etc. - embora sempre algum fluxo escape das opera­
ções de corte. O ocaso de uma formação social dá-se no momento em que
iifio consegue mais manter sob o jugo de seus códigos, a despeito de qual-
quei aparato repressivo ou busca de novos axiomas, os fluxos que esca­
pam e escorrem torrencialmente.

143
O capitalismo, porém, parece dispor de uma axiomática (Deleuze,
1971), de modo que, em momentos de crise, consegue sempre criar novos
axiomas, axiomas complementares, mesmo contraditórios, resultando disto
um poder de recuperação realmente extraordinário. Ora, ele próprio insti­
tuiu-se sobre um paradoxo:

[...] se os fluxos descodificados têm sido o terror de todas as outras forma­


ções sociais, o capitalismo constituiu-se historicamente sobre algo incrí­
vel, a saber, o que era o terror das outras sociedades, a existência e realida­
de de fluxos descodificados e que, de fato, são assunto seu. (Deleuze, 1971,
p.2 - tradução livre)

Deleuze refere, neste trecho, precisamente o ocaso do feudalismo,


quando se encontram:
descodificações de fluxos de propriedade territorial, sob a forma de gran­
des propriedades privadas; descodificação de fluxos monetários, sob a for­
ma do desenvolvimento da fortuna mercantil; descodificação de um fluxo
de trabalhadores sob a forma da expropriação, da desterritorialização de ser­
vos e pequenos campesinos. (Deleuze, 1971, p.3 - tradução livre)
O capitalismo surgiu, assim, de uma conjunção de fluxos descodifi­
cados e desterritorializados, “sobre a quebra de todos os códigos e territo-
rialidades sociais- existentes.” Para a formação de um capital, teve de se
descodificar o dinheiro “através das formações embrionárias do capital
comercial e do capital bancário”. Logo, não só é peculiar ao capitalismo
seu poder de recuperação por conseguir reterritorializar os fluxos desco­
dificados, mas também a potência para desterritorializar os códigos que não
mais lhe convêm.
Por este motivo, Deleuze pode afirmar que, então, a máquina capita­
lista é louca. Eis o porque da aproximação que faz com a esquizofrenia.
Ora, o esquizofrênico é propriamente aquele que não se deixa apreender
pelos códigos sociais; antes, cria os seus próprios e os modifica, bagun­
çando qualquer referente de signos, significados e significantes - ele não
se deixa axiomatizar.
A diferença radical, por outro lado, é que, para se manter como for­
mação social, o capitalismo precisa das pessoas como interceptores de flu­
xos. Logo, nos diz Deleuze, não se trata de uma formação que nos põe es-
quizos no nível dos modos de viver, mas no nível de processo econômico.
Assim, o esquizofrênico, tal como é produzido pela sociedade, é comple­
tamente avesso ao funcionamento deste sistema, é o seu negativo.
O que importa ressaltar, contudo, é que o capitalismo, como sistema
econômico, conseguiu mimetizar o próprio processo de produção social e,

144

4
assim, consegue capturar também os processos de produção de subjetivi­
dade. É precisamente aqui que se colocam as condições para a constitui­
ção e ação de um biopoder, bastando que se desenvolvam dispositivos ca­
pazes de engendrá-lo, pondo-o a funcionar. Isso nos permite dizer que, na
referida passagem da sociedade disciplinar para a de controle, não assisti­
mos à mudança de uma formação econômica a outra, mas à evolução, apri­
moramento de um mesmo sistema, o que explica a coexistência, hoje, da
mais severa disciplina com os equipamentos mais sofisticados de gerencia­
mento e expansão da produção.

O QUE DIZER, ENTÃO, SOBRE “SUCESSO PROFISSIONAL”


NO TRABALHO CONTEMPORÂNEO?

Talvez coubesse, antes, questionar o que seria o sucesso profissional


tão almejado, ou melhor, o que nos é apresentado socialmente como su­
cesso profissional?
Ora, o que é valorizado pela sociedade num “trabalhador de suces­
so” é justamente o perfil de trabalhador que tem sua alma posta discipli­
narmente a trabalhar. É esta norma reguladora, nesta sociedade de contro­
le, que captura o sujeito. Somos induzidos a pensar que sucesso profissio­
nal é realizar-se como consumidor, é possuir status, é pertencer a uma co­
munidade ou grupo. O profissional de sucesso é, acima, de tudo aquele que
vende a imagem de ser um profissional de sucesso.
Mas será realmente isso o sucesso profissional? E quanto à realiza­
ção pessoal, sabemos o que é isto? Se foram apropriados os processos co­
letivos de produção de subjetividade, como desviar a captura dos fluxos
produtivos? E possível reagir a tal controle?
Marc Ferro (2000) esclarece que as faltas no trabalho por greves e as
antigas reivindicações de direito ao trabalho e à saúde do trabalhador vêm
sendo substituídas por um aumento dos dias de falta por doença. Segundo
este autor, a doença tomou-se uma nova forma de rejeição social, um de-
sengajamento individual em resposta a um mal-estar geral. Estar doente
não é mais um acidente, mas uma forma de vida que oferece uma identi­
dade àqueles que tiveram seus modos de subjetivar irremediavelmente cap­
turados. A doença é uma manifestação individual justamente porque é es­
tratégia do capitalismo a criação de um individualismo exacerbado, um
narcisism o doentio. O coletivo de trabalhadores não consegue mais se ar­
ticular para a defesa dos seus direitos, as formas coletivas de reapropria-
çilo do trabalho são cada vez mais raras.

145
As sensações desta realidade opressiva ressoam, pulsam no próprio
corpo do trabalhador, que constrangido nas formas que tem para se expres­
sar e, refletindo a forma que lhe impuseram como homogênea e ideal, per­
feita e “saudável”, apresenta-se como fechado em si mesmo e com poucas
possibilidades de novas perspectivas e novos encontros. Um corpo, mui­
tas vezes, desfragmentado, sem aberturas para novos sentidos, tomado pela
dor, pela inércia ou pelo desespero de querer modificar e não saber como,
tal como nos mostram as chamadas “epidemias” de lesões por esforço re­
petitivo (LER/DORT).
Formas de trabalhar que indicassem afirmações de vida consistiriam
em resistir sem o ressentimento crônico daquele que somente se “queixa”
e faz da vida um suplício eterno. Agenciar outras maneiras de trabalhar co­
letivamente ou individualmente, rompendo com as mais variadas sobre-
codificações relacionadas com as normatizações e regras tradicionalmen­
te totalitárias do trabalho no contemporâneo e abrir espaços públicos para
discussões destas alternativas e como realizá-las, configuram-se como re­
sistências positivas.
No entendimento de Suely Rolnik, Guattari, Deleuze e Pelbart, re­
sistência positiva é, propriamente, uma forma positiva de agir, viver, se
posicionar e encontrar saídas, linhas de fuga para as crises. É um re-exis-
tir, uma atualização constante do viver, dos hábitos, dos movimentos coti­
dianos; o encontro com uma nova forma de existência que surge da dobra
sobre si mesma, e não algo negativo, que se opõe permanentemente.
O coletivo trabalhador deve ser restabelecido como primordial para
qualquer novo empreendimento no campo do trabalho. Poder-se-ia com­
parar este coletivo como o significado de multidão ensinado por Hardt
(2000) e Negri (2001). Para estes autores, a multidão é sempre o múlti­
plo, o diverso, o heterogêneo, o complexo e, no entanto, a multidão se
torna UM quando ela assume sua condição de multiplicidade e se pulve­
riza, quando seus modos de subjetivação se apresentam heterogêneos,
quando seus objetivos se modificam a cada conquista, buscando sempre
outros caminhos e outras formas de resistir, quando a vida se apresenta
como diferentes e múltiplas potências. O coletivo trabalhador no senti­
do de multitude, da multidão como “um”, pode fazer mais da resistência
do que simples objeção e transformar qualquer crise em possibilidade de
criação de uma nova vida.
A partir desses conceitos, o sucesso profissional não poderia vir a ser
concebido como resistência positiva? O sucesso profissional não poderia
vir a se constituir na busca por novas formas de viver, de criar, de dobrar-
se sobre si? E isto põe em questão não somente este trabalhador de que fa­
lamos, figura abstrata de nossa tentativa teórica, mas, sobretudo, as nossas

146
práticas profissionais, sejamos nós psicólogos, médicos, fisioterapeutas,
pesquisadores, enfim, enquanto operadores sociais. Estamos atrasados em
relação a nós mesmos se ainda pensamos que só se pode transformar o so­
cial, a cultura, os comportamentos depois de conhecê-los, para, então, do­
miná-los. Ora, as transformações se fazem no seio próprio da ação, o fazer
impõe uma ordem, engendra encontros, compõe e decompõe. Trata-se,
fundamentalmente, de uma questão de implicação ética.
Se o capital dita formas homogêneas de ser e fazer, é preciso saber
que elas não são as únicas. O espaço para a alteridade, num contexto como
este, não preexiste a nada, ele é criado, precisa ser agenciado. Precisa-se
de agentes! Agenciamentos coletivos de enunciação de novos modos, di­
ferentes, singulares de subjetivação são o único antídoto possível para esta
situação de coisas, para reverter este quadro terrificante que paralisa as
potências inventivas das coletividades.
Ora, se uma das principais competências necessárias para o sucesso
profissional, conforme referido no início deste texto, é a flexibilidade para
reagir a mudanças, temos nas mãos as armas suficientes. Basta trabalhar­
mos para a produção deste novo espaço. Pode-se, assim, entender tal fle­
xibilidade como uma atitude passiva de acomodação às mudanças, mas
preferimos pensar que possa ser veículo de resistências inventivas, positi­
vas, às mudanças externas impostas.

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148
OS MATERIAIS DA AUTORIA

Regina Orgler Sordi

Se cartografar é deixar-se afetar por forças, movimentos, direções, ten­


dências, esta reflexão pretende desacelerar numa pergunta: quais são os ma­
teriais que formam a autoria de pensamento? Como vai sendo trabalhada
essa argila que vai dando formas ao aprender, criando pensamentos, idéias?
Não se trata de um perguntar ao outro para que me diga o que tenho que
pensar; trata-se de perguntar junto a autores cujas reflexões têm vindo em
auxílio da curiosidade e até de uma certa perplexidade: fala-se muito em
análise de discurso, mas pouco se fala em autoria de pensamento.
Neste trabalho, parto da idéia de que a autoria tem a ver com a vontade
de produzir efeitos. Está mais próxima ao trabalho imaginado de um oleiro,
nas palavras de Cruz ( 1998), modelando umas caçarolas, umas vasilhas e que,
em certo momento, interrompe seu trabalho, um instante antes de levar es­
sas panelas ao fogo. ,.Eo que faz o oleiro nesta interrupção? Algo que até ali
não havia feito em seu trabalho: toma a ponta de um instrumento e decide
incluir umas marcas, um desenho em sua panela e continua aquele processo
até o seu término. Que intervalo se abre nesta interrupção? A eficácia de um
gesto de autoria, nos diz Cruz. A importância de incluir descontinuidades em
processos que, de outra forma ficariam subsumidos a uma outra lógica, a da
eficiência das continuidades, da falta de intervalos, de descanso, de pensa­
mento. Para que o oleiro possa encontrar-se com sua autoria, precisa não
somente do ato criativo - novas formas de produção - mas encontrar um sen-
lido na própria obra: a possibilidade de que, a partir dali, essa panela seja
portadora de sua marca, seus sinais, que fale para si de um outro modo, em
sua produção. Precisa romper com o destino e inscrever-se nas condições de
sua própria história. O movimento paradoxal da autoria é que, simultanea­
mente, o sujeito se encontra e é encontrado.

Itegina O rg le r S ordi c psicóloga, doutora em Educação tJFRGS; professora Adjunta no


Instituto dc Psicologia UFRGS; pesquisa na área: Sociedade do Conhecimento e Ecolo­
gia Social e Cognitiva no Mestrado em Psicologia Social c Institucional da UFRGS.

149
Autoria não tem a ver com o que já está feito, não é compreendida
como um produto, mas como uma abertura para o sempre inacabado; fala
mais de um devir, um modo de situar-se, uma ética que tem a ver com o
desejo de produzir e com as possibilidades produtivas do outro. O escri­
tor, a escritora, entrega sua obra ao outro, mas há uma diferença entre es­
crever e ser escritor/escritora. O escrever está para mim, o escritor/escri­
tora é para o outro (Larios, 2000). A autoria se instala entre o escrever e
seu produtor e no reconhecimento que possa fazer de si mesmo, a partir de
encontrar-se com sua obra. Usufruir da autoria é desfrutar de seu proces­
so, porque potencializa o autor, o que não significa o mesmo que ser pro­
prietário - até porque, não parece haver uma unidade completa entre a obra
e o autor. Esta última, tem vida própria. .A palavra autor está mais relacio­
nada com a responsabilidade, não no sentido de propriedade privada, mas
ao que permite construir um espaço de pensamento. “Supõe confiar nas
possibilidades de criar o que já está aí, poder fazer pensável a experiência
vivida” (Femández, 2001, p.91).
A pergunta inicialmente formulada remete a uma busca dos mate­
riais que formam a autoria. Penso que esta pergunta pode ser melhor com­
preendida ao tentar situar o lugar desde onde ela se gerou. Poderia dizer,
no momento, que ela se gerou de várias ignorâncias. Trabalhando em Psi­
cologia Escolar, abastecendo-me das teorias da aprendizagem e do de­
senvolvimento, sentia que ainda assim, faltava um olhar específico so­
bre a aprendizagem que tratasse esse tema como um fenômeno humano
complexo e não meramente instrumental. Acostumei-me a considerar,
desde minha experiência como aluna do ensino fundamental e posterior­
mente, aluna universitária, mas também, a partir das teorias psicológi­
cas estudadas, que o aprender era o resultado de. Nesta perspectiva, uma
nota, uma medida, um olhar sobre a transmissão do conteúdo, o qual de­
veria ser devolvido num a avaliação, era sinônimo de uma boa ou uma
má aprendizagem.
Se aprender era apenas aquilo, trabalhar naquele intervalo estreito
conduzia a dois tipos de ignorância: a) quem apresentava baixos resulta­
dos escolares, era considerado um aluno-problema e, portanto, precisa­
va ser derivado a uma atenção especial; a) Responsabilizando-se ao alu­
no e não poucas vezes, sua família, perdia-se a oportunidade de incluir -
professor e psicólogo escolar - num espaço de reflexão em que os três -
professor, psicólogo e aluno - tinham um problema para resolver. Assim,
uma prim eira cegueira estabelecia-se: a de que o psicólogo era suficien­
temente onipotente para resolver a situação. Desta, advinha uma segun­
da cegueira: a de que o professor, experimentando um alívio ilusório ao
encaminhar o problema para outro resolver, via desaparecer seu aluno e

150
sentia-se, em verdade, frustrado e impotente em seu trabalho. “Sabemos
que tanto a impotência como a onipotência são duas formas opostas de
um mesmo problema: não conseguir conectar-se com a ‘potência’. Po­
tência como reconhecimento das próprias possibilidades, como autoria”
(Fernández, 2001, p. 127).
Deste choque em que um investia-se de plenos poderes e o outro, de-
sinvestia-se absolutamente, o resultado final era muito desastroso: profes­
sores queixando-se dos psicólogos que não resolviam nada e psicólogos
queixando-se que trabalhavam em tomo das queixas dos professores e que
não recebiam nenhum reconhecimento. E de onde vinha essa sensação de
que nada se resolvia? A meu ver, de pressupostos pobres e limitados sobre
a aprendizagem, concepções parciais, talvez as mais superficiais e menos
produtivas. Aprendizagem era o produto, muito pouco discutia-se acerca
de seu processo.
As teorias psicológicas mais consistentes, que nos auxiliavam - e se­
guem auxiliando - a fundamentar o campo da aprendizagem, curiosamen­
te, não eram propriamente, teorias da aprendizagem. De um lado, a psico­
logia genética, uma teoria sobre a construção conhecimento. De outro, a
psicanálise, uma teoria sobre a constituição do sujeito psíquico. E neste
ponto, surgia uma terceira ignorância: quando aquele aluno que não apren­
dia em sala de aula era encaminhado para o psicólogo escolar, como abor­
dar sua dificuldade? Para responder esta pergunta, inúmeros olhares se bi­
furcavam: ou explicava-se a dificuldade de aprendizagem como uma ma­
nifestação de conflitos emocionais, ou como detenção dos processos cons-
trutivos do conhecimento ou, o que era mais grave, como um defeito em
alguma habilidade específica. Era como se várias disciplinas abrissem suas
portas para observar o fenômeno para, logo, voltarem às suas casas e bas-
tarem-se em suas explicações.
Foi então que Sara Pain, nos anos 60, ao tentar resolver os impasses
leóricos e práticos sobre o campo da aprendizagem, enunciou que as teo­
rias psicológicas - a psicanalítica e a psicologia genética - cindiam o su-
leito em dois. Apresentou-nos mais duas ignorâncias sobre o aprender:
a) ausência de programação instintiva, a qual nos condena e nos abre
as portas para o aprender;
b) a presença de duas instâncias psíquicas que se ignoram mutuamen­
te o consciente e o inconsciente. Por um lado, temos um sujeito epistêmi-
co, que conhece. Por outro, temos um sujeito simbólico, que se desconhe­
ce Para cada sujeito, desenvolveram-se teorias muito potentes, mas que
minca dialogaram entre si.
Felizmente, a ignorância pode ser transformada numa vivência mui-
lo produtiva, se a considerarmos em sua função positiva (Paín, 1999 ), aque-

151
la em que a falta de sentido, tanto consciente quanto inconsciente, nos for­
ça a realizar um trabalho de ligações que nunca se acaba.
O pensamento ativo nos força a realizar ligações. Estas ligações, por
sua vez, nos impelem a fazer escolhas. Antes de escolher, tudo é possível,
mas quando escolhemos, há uma decisão, um limite. Aqui aparece, nova­
mente, o tema da responsabilidade que todo o pensar contém. Pensar é res­
ponsabilizar-se. E perguntamos, junto com Sara Paín: o que há de consciente
naquilo que pensamos? De onde vêm estas escolhas, essas decisões de se­
guir por uma via e não por outra? Certamente, se o produto de nosso pen­
samento é consciente, se temos acesso a ele, seu processamento é, contu­
do, inconsciente. Não temos acesso imediato ao pensamento, não sabemos
por que pensamos.
Começamos a entender que a aprendizagem é muito mais do que o
resultado de alguma coisa. Ela é o fenômeno humano, por excelência, a
máquina simultaneamente subjetiva e objetiva, consciente e inconsciente,
que potencializa nosso pensamento e processos criativos. E, aqui, chega­
mos novamente ao tema da autoria de pensamento.

Em nossas mãos está a aprendizagem da autoria de pensamento onde a


inteligência, conhecendo seu alcance, aceita resignar ante o desejo de co­
nhecer tudo e, conectando-se com a função positiva da ignorância, pode
aceitar conhecer parcialidades, mas assumindo-se como co-autora, junto
com o desejo, com a história própria e do mundo que habita esse sujeito.
(Femández, 2001, 90)

Foi necessário percorrer um caminho diferente ao da psicologia, para


encontrar-me com a riqueza das novas concepções sobre o aprender. O novo
caminho apontava não mais para as estradas disciplinares construídas na
modernidade, mas para as fendas que estas estradas deixavam repletas de
perguntas sem responder.
Assim, no campo da aprendizagem, essas gretas denunciavam que
nem os problemas orgânicos, nem os problemas emocionais, nem os pro­
blemas de QI, nem os processos construtivos de pensamento, por si sós,
respondiam pelos fracassos ou pelos sucessos no aprender. Era necessário
situar-se frente a um novo posicionamento.
Ainda hoje, a “indisciplinada” psicopedagogia clínica, campo teóri­
co que emerge das fendas deixadas pelas teorias relacionadas à aprendiza­
gem, é muitas vezes definida como sendo um mero somatório de duas teo­
rias fortemente constituídas - epistemologia genética e psicanálise. Entre­
tanto, ao definir-se como uma reflexão e uma prática sobre a abertura de
espaços objetivos e subjetivos de construção de autoria de pensamento

152
(Fernández, 1987), inaugura um posicionamento, um modo de situar-se
frente ao aprender com uma originalidade própria.
De que materiais, então, é feita a autoria de pensamento?
Diria, numa abordagem ainda muito inicial, que o barro e a água da
autoria partem das noções de “entre”, cada vez menos entendida como uma
preposição e muito mais como noção de “diferença” .

“ENTRE” EM AUTORIA

Cruz (1999) lança uma pergunta instigante: “Como se aprende aqui­


lo que não se pode ensinar?” (comunicação oral). Há coisas que não se pode
ensinar, mas que se aprende neste intervalo, nesta distância, nesta incon­
gruência entre um e outro ou nesta incongruência consigo mesmo. Pode-
i íamos pensar, já distantes da noção de aprendizagem como resultado de.
(|ue aquilo que se ensina não corresponde ao que o outro aprende. Não há
uma correspondência ou correlação, mas sim, um “entre” o que se ensina
e o outro aprende, espaço de transformação, em que algo novo se gera
"Entre” não deve ser confundido, então, com passagem ou com ponte.
( 'hristlieb fala em uma nova materialidade, uma terceira realidade, que não
está dentro, mas que também não está fora, mas entre, que encarna numa
terceira natureza, inquantifícável e impecavelmente real” (p. 51).
Acompanhando o pensamento deste autor, a noção de “entre” deve
ser substantivada, sujeito em si mesma, que permite falar, não de uma reu-
iiião de experiências ou coincidência que está entre dois significados, mas
do significado que estk entre dois e todos.
Nas origens do desenvolvimento do aparelho psíquico, Winnicott des­
creveu, desde a psicanálise, um fenômeno transicional, um “entre” estru-
t ui ante da vida de relação e determinante das capacidades humanas de brin-
i ui, pensar e criar. Este autor conceituou uma fase na qual o ego do bebê
i onge ao mundo como se ele fosse parte de si mesmo e separado, ao mes­
mo tempo. Enfatiza que o bebê e sua mãe nunca questionam tal distinção.
I ssa ilusão é mantida: a de que o bebê controla e cria o mundo, um mundo
que satisfaz suas necessidades na medida em que elas são demandadas. A
I I uição de um objeto que seja tanto interno quanto externo é referido como
ii ei latividade psíquica primária. De acordo com Winnicott, o ego do bebê
adquire a habilidade para criar um objeto devido ao bom cuidado mater­
no, o que significa que a existência da mãe, por um período de tempo, está
lolbrida a esta preocupação maternal primária. E a este objeto autocriado
que Winnicott chama de objeto transicional e a este espaço, entre o bebê e
a mile, de espaço transicional e que é representativo de uma fase do desen­

15.1
volvimento onde o fora e o dentro não são distinguíveis porque a mãe aju­
da a manter a ilusão de que tal distinção não existe. O fenômeno transicio-
nal não fala então de uma correlação entre a mãe e o bebê, mas de uma
zona onde pode acontecer a diferenciação, pode construir-se a individua­
ção do sujeito, o trânsito entre o eu e o não-eu. Não se trata apenas de uma
aquisição do desenvolvimento, mas de uma experiência que se expande para
a vida. E nesse lugar onde nascem as possibilidades criativas e de confian­
ça, onde se pode jogar e é o mesmo espaço onde se pode aprender (Fer-
nández, 1989).
Como a criatividade surge da construção do espaço transicional, o qual
podemos chamar de espaço de jogar?

Falo de uma ficha, logo digo que esta ficha é um jogador, logo falo de
jogador, logo, do jornal esportivo que nomeia ao jogador, logo da altura e
características físicas do jogador. E relato histórias pessoais dos jogadores
como se tratassem realmente de pessoas.
Então, uma ficha verde é um jogador com camiseta verde. Um botão é uma
bola de futebol.
Mas então, tenho que acreditar que o que vejo é um jogador e não uma
ficha.
Para apaixonar-me pelo jogo, tenho que assassinar a palavra ficha e
atravessa-la com histórias. Sc digo “ficha”, não jogo, perco minha capaci­
dade imaginativa, me concretizo. Dar-lhe vida. Isso é o que apaixona. Isso
é o terapêutico do processo lúdico. Da história futebolística à criação de
novas histórias possíveis compartilhadas pelo grupo que pratica o jogo. O
jogo nos afeta a todos, os adolescentes. Nos sentimos "afetados” pelo jogo.
Diz Brasi: "Há uma cadeia de idéias que começa com o problema dos afe­
tos, depois segue com o devir c poderíamos dizer que termina com a pro­
blemática da criatividade”. (Pavlovsky, 1996, p. 39,40).

Como diz Pavlovsky, a capacidade imaginativa durante a experiên­


cia do jogo é a “cozinha” do processo criativo. É aí que entra o trabalho de
autoria: “quando almejamos fazer com que algo do desejável seja, primei­
ro, possível e, logo, provável. O pensamento não trabalha apenas com as
possibilidades; trabalha também com a decisão” (Femández, 2001, p.90).
A autoria, então, não tem a ver apenas com o crer/criar o jogo, mas
está igualmente ativa no momento da decisão de usá-lo, momento de sua
apropriação. A apropriação significa reconhecer-se em sua produção.

Mas o que motivou o nosso "agenciamento'’ não foi .só o jogo cm si. mas a
capacidade de construir histórias sobre os jogadores. O que nos apaixona

154
va era a capacidade maquínica de imaginar para além do concreto do jogo.
O jogo durava 20 minutos cronológicos em um espaço determinado de
l,50m X lm (a cancha). Mas este espaço-tempo, era atravessado por histó­
rias inventadas pelo grupo que criavam outras unidades de espaço-tempo.
Fugíamos das regras do jogo concreto e seus contornos e fabricávamos c
suscitár amos pequenos acontecimentos. (Pavlovsky, 1996, p.41)

As crianças do jogo de Pavlovsky, deslizando-se num espaço e num


tempo transicionais, decidiam, responsabilizavam-se por aquilo que cria­
vam. Neste espaço “entre”, operava o conhecimento/afeto, a matéria pri­
ma entre os jogadores e o jogo.
Rodulfo (1997), analisando a cena da amamentação como a escritura
de um jogo, nos diz que, no curso da mamada, o bebê repara um botão da
blusa da mãe, concentra-se e começa a trabalhar nele. Como no jogo dos
adolescentes, o ser do botão fica em suspenso, altera-se sua existência, es­
sência e função como botão. “Brincar significa usar a coisa para o que não
é [...]” (Rodulfo, p. 14). A hipótese básica do autor é a de que o jogo/botão
não é um objeto entre outros, mais um primeiro objeto no qual o bebê ins­
creve/escreve um certo entre com o outro. É um ato que só a criança pode
fazer. E pensar que toda classe de objetos, incluindo o conhecimento, de-
i iva destes primeiros trabalhos/entre...
Tradicionalmente, a psicanálise tem pensado que a criança entra em
relação com a mãe e, a partir daí, pode jogar com os outros e com as outras
coisas. No curso do pensamento aqui introduzido, o enfoque rota. Muda o
seu centro: o bebê come enquanto joga. Se ele só come, algo está mal.
A partir da cena descrita acima, podemos pensar que a autoria de pen­
sam ento significa jogar com as idéias, “pôr entre parênteses o ser da coi­
sa", estar nesse entre, reconhecendo a idéia que vem do outro e simultane­
amente, reconhecendo algo próprio ali, nos interstícios entre o desconhe­
cimento, o conhecimento e o desejo de conhecer.
Para que isto ocorra, é necessário dar entrada às diferenças...

“DIFERENÇAS” EM AUTORIA

Espaço e tempo transicionais são a matéria prima para que o sujeito


se singularize, trabalhe sua diferença.
Costumamos pensar que autorizar-se é diferenciar-se:

Para construir um pensamento, principalmente, necessitamos diferenciar-


nos de... Então, para que a criança possa dizer "não gosto que meu pai me

155
ofenda” tem que construir uma ideia, dar-lhe um nome, ela precisa diferen­
ciar-se daquilo, porque senão, “eu sou má. me comportei mal e papai me
respondeu”, o que não é o mesmo. (Femández, 1998, p.47).

Da cena transicional descrita por Winnicott, emerge a possibilida­


de de diferenciar-se do outro. Curiosamente, só nos diferenciamos gra-
dativamente na medida em que experimentamos a simbiose com o ou­
tro. Muito cedo, entretanto, a mãe vai “permitindo” a entrada do pai (re­
presentado aqui tanto pela figura concreta do pai, quanto pelo chamamen­
to da cultura), processo que produz um afastamento necessário da mãe
em relação ao bebê e que introduz no mesmo a necessidade de ir em bus­
ca de outros objetos. Do ponto de vista da aprendizagem, é necessário
compreendermos que a apresentação ao mundo dos objetos, precisa acon­
tecer a partir deste vínculo, como se os olhos da mãe, apresentassem aos
olhos do bebê, um mobili, por exemplo, e agora, ambos os olhares se
entrecruzem com o objeto (Paín,1987 ). É da força dessa des-ilusão que
cria-se o espaço de autoria. Ensinar é precisamente desejar que o outro
aprenda... mas que aprenda a partir do que se mostra e não o que se mos­
tra. Não se trata, então, de que o bebê “apreende” os objetos porque es­
tejam ao seu alcance, mas porque estão investidos deste amor, deste de­
sejo de que conheça. A aprendizagem não acontece por fora de laços de
amor e de desejo. É precisamente porque existe o amor, que desejamos
parecer-nos com o outro, ao mesmo tempo em que desejamos diferen-
ciar-nos dele:

Quem ensina se oferece como modelo identificatório. Não se aprende por


imitação, querendo fazer o mesmo que faz o outro. Aprende-sc querendo
se parecer com quem nos ama e amamos. Precisamos querer parecer-nos
ao outro, e que esse outro nos aceite como semelhantes, para poder desejar
diferenciar-nos dele, com menos culpa, ou melhor ainda, podendo elaborar
a culpa por diferenciar-nos. (Femández, 2001, p.40).

Uma das formas de incorporar a diferença, trabalhar com ela, é pre­


cisamente, poder nomeá-la. E esta operação não tem a ver com oposição
ou com anulação. Não poucas vezes, instalando-nos numa lógica binária,
corremos o risco de reduzir a diferença e, deste modo, opô-la. Não se tra­
ta, apenas, de um funcionamento binário, rígido; além disso, agrega-se que
somente um dos poios está marcado. E nesta segunda torção em que acaba
por se arruinar a diferença. Não poucas vezes, deixamos de usufruir da ri­
queza mesma do pensamento que é, por definição, uma operação de corte,
uma descontinuidade, para considerar tudo o que não está num dos poios

156
como “o” diferente e esse “diferente”, como “o” excluído. Se pudéssemos
sair dessa lógica binária e nos aventurássemos a pensar “as diferenças” tal­
vez pudéssemos estar mais próximos a um modo de posicionar-nos, dan­
do entrada à originalidade, ao devir, ao múltiplo:

Tudo é multiplicidade desde o começo [...] Fugíamos do espaço da cancha.


Desterritorializávamos o campo e inventávamos outros territórios. Insisto
em que o que nos manteve agenciados ao jogo durante anos foi a criação de
outros espaços-tempos que rompiam o contorno das regras do jogo. Cada
partida era um encontro com essas histórias que adquiriam um nível de
“crença” grupai. Histórias compartilhadas. A criação, no mesmo “evento”
da partida, de outros acontecimentos que envolviam o clima de mistério
que nos transbordava. (Pavlovsky, 1996, p. 41).

E sempre a partir de uma linha de fuga de onde surgem os pequenos


acontecimentos de que nos fala Pavlovsky. Entendo as linhas de fuga como
mais um espaço de onde devém a diferença.
São estes espaços-tempos por onde advém a autoria de pensamento
com tudo o que pode pôr em jogo da capacidade criativa. Habitando es­
tes espaços de pensamento, Deleuze nos dirá que o aprender instala-se
como uma segunda potência, que nasce na sensibilidade, não propriamen­
te na cognição.

Nunca se sabe de antemão como alguém vai aprender - que amores tornam
alguém bom em Latim, por meio de que encontros se é filósofo, em que
dicionários se aprende a pensar. Os limites das faculdades se encaixam uns
nos outros sob a forma quebrada daquilo que traz e transmite a diferença.
(Deleuze, 1988, p. 270)

Este momento-limite, em que o sujeito é captado por um sentimento


de estranheza, momento de diferir de si mesmo frente ao que até agora tem
sido, é o momento da produção de sentidos, momento por excelência, da
invenção (Kastrup, 2000).
Aprender passa a ser entendido como a experiência de problematiza-
çAo, de constranger-se pela realidade de ficar repentimamente des-locado.
Pura diferença, encontro não perfeito entre o polo do sujeito e o polo do ob-
|vlo, não explicados nem pela subjetividade, nem pela objetividade, mas um
encontro a espera de uma interpretação. Trata-se aí, pensandojunto com De-
leii/.e e Kastrup, de uma aprendizagem que nasce no campo do sensível, dos
Mf.nos da matéria que precisam ser decifrados. Será suficiente que um signo
do objeto nos afete e nos sentiremos constrangidos a interpretá-lo. Esse aro­

157
ma... de onde vem, de onde o conheço? Neste momento, nossa cognição é
chamada para trabalhar, momento segundo, tentativa de captura definitiva
da diferença. “O signo aparece, temos certeza de que ele nos atinge de fora,
mas não sabemos ainda qual o seu sentido. Possui a força de uma interroga­
ção que nos força a pensar, de um problema que exige solução. Sua força de
problematização impõe-se como inevitável.” (Kastrup, 2000, p.6).
Aproximamo-nos de um conceito de autoria que está bem mais pró­
ximo ao trabalho do brincar e da arte do que do trabalho alienante. E difí­
cil encontrar momentos em que o pensamento científico possa corporifí-
car em arte. O fenômeno da aprendizagem é talvez um dos lugares privile­
giados onde essa articulação possa melhor ser realizada.

CARTOGRAFAR A AUTORIA DE PENSAMENTO


IMPLICA SITUAR-SE NO PARADIGMA ESTÉTICO

Precisamente porque a aprendizagem começa quando estranhamos e


problematizamos, ela requer autoria, o processo e o ato de produção de sen­
tidos e de reconhecimento de si mesmo como protagonista e participante
de tal produção.
Durante algum tempo, Paín revolucionou as idéias sobre as estru­
turas do pensamento, introduzindo, para além da dimensão objetiva - ló­
gica, conceituai - uma dimensão subjetiva - dramática, desejante. Mais
recentemente, a autora introduziu uma terceira dimensão, a elaboração
estética, sem a qual, qualquer teoria de transmissão de conhecimento fi­
caria incompleta.
O tema do estético está para aquém do conceituai. Assim como nos
propõe Deleuze (1988), a estética baseia-se na sensibilidade, coagula-se
numa ignorância que se orienta para uma manifestação enigmática. E s­
tamos no terreno dos signos, puros sensíveis, formas, cheiros, cores, at­
mosfera visual carregada de sons, sentimentos, transvasamento, riqueza
de fundo. E de tudo isso, o momento estético é despersonalizante, ao
mesmo tempo que imprescindível. Ele é o detonador da cognição, do
momento segundo, para deixar de ser ignorância e ser reabsorvido numa
lógica capaz de contê-lo. O momento estético é gratuito, fortuito, está
sempre em excesso, sempre além do que se pede. Traduz-se numa forte
ressonância emotiva, uma emoção que se dá pela perda de compenetra­
ção. Como diz Christlieb (1994), é um momento de encantamento (mas
pode ser também, de um pavor absoluto), em que a realidade provoca o
infinito para que lhe responda.

158
Os artistas, os místicos, os poetas e as crianças o fazem por profissão; os
enamorados, os desesperados e os adolescentes, por urgência; o resto dos
cidadãos mais ocupados em seus afazeres, também o fazem, mas por mo­
mentos. [...] O encantamento é aquela fase da realidade onde o cientista
encontra de improviso a resposta a suas dúvidas, se faz e luz e o angustiado
adquire lucidez, tudo está claro, o poeta redige o verso que faltava para
transcrever o cosmos, tudo tem sentido e o místico saúda Deus, a dona de
casa se detém pasmada diante da angélica beleza de sua cozinha, o dia é
perfeito e a criança cria outra vez o mundo dentro de seu jogo, [...], Einstein
curva o tempo, Santa Teresa entra no céu, Arquimedes grita eureka, a
Cervantes lhe ocorre o nome Don Quixote, a gente descobre o fio negro c
inventa a água tíbia e todos juntos topam com a verdade total, completa,
ultimada. (1994, p. 30).

O momento estético é o da estupefação, o descobrimento que se dá


em estado de surpresa e cuja emoção, não se recorda, é sempre uma resso­
nância no presente. O momento estético não responde a nenhum desejo,
pois a surpresa vem do que não estava desejado, é algo que vem da abertu-
in Desde a estética, o mundo revela-se para o sujeito, força sua interpreta­
ção, obriga uma passagem do excesso ao conhecimento.

Quando o sujeito fica tonto, se excede, há que dar-lhe uma palmadinha


para que volte de sua fascinação, porque corre o risco de ficar ali; quando o
sonho se excede em seus excessos, o sonhador desperta porque corre o
perigo de ficar perdido no sonho. [...] Com efeito, quando se toca o limite
da realidade, o conhecimento dá um passo atrás, porque sabe que um só
passo adiante implica transpor o ponto de fuga por onde se escapa todo o
conhecimento, o ponto onde um milímetro depois, desaparece toda a reali­
dade, ali onde começa o infinito de onde não se regressa: os clássicos gê­
nios loucos são o protótipo do passinho a mais. (Christlieb, 1994, p.31)

0 momento estético pode ser muito freqüente, mas não pode durar
iiuiilo mais do que um par de instantes, porque por uma parte, carece de
ancoragens empíricas para manter-se, já que não se pode descrever, nem
imaginar e, por outra parte, para dar-se conta que, em verdade, houve tal
momento, há que tomar distância, recordá-lo e, então, descrevê-lo e ima­
gina lo, saber que foi correto, da mesma maneira como se faz com os so­
nhos, que sabemos que existem, porque deles despertamos.
1)esde a criação lingüística, Bakhtin (1 979) analisa que o primeiro mo-
n kmiIo da atividade estética é o excedente da visão, a sobra de conhecimento,
iiiiin oxtraposição concreta de si frente ao mundo. Mas, a atividade estéti­
ca propriamente dita começa quando regressamos para nós mesmos e a
nosso lugar fora do outro, quando estruturamos e concluímos o material
vivencial. Em uma obra verbal, nos diz o autor, há que levar em conta os
momentos de vivência fusionai, o “sobrante” de visão e os momentos de
conclusão, que não se sucedem cronologicamente, mas que, em uma vi­
vência real, se entretecem e se fusionam. Cada palavra compreende am­
bos os momentos e leva a uma dupla função: dirige a vivência e a conclui,
ainda que possa prevalecer um e outro momento.
Pensamos junto a todos estes autores, que a autoria de pensamento
nos fala deste posicionamento frente ao novo que é, num primeiro momento,
da ordem do sensível, captura dos excessos - que produzem dor, prazer,
comoção, o sublime - num corpo que se abre para o mundo, mas que logo,
retoma e necessita transformar essa realidade e a si mesmo. Todavia, este
retomo necessário de que nos falam Paín, Deleuze, Christlieb, Bakhtin,
Femández, abertura para a criatividade, pode ter um caráter defensivo e,
neste caso, nada de novo se produzir e o sujeito, ao não poder reconhecê-
lo, abolir as diferenças. Outra atitude defensiva (Femández, 2001) é não
poder encontrar nada conhecido naquele novo a conhecer e, neste caso,
abolir também o gesto e a responsabilidade da autoria.

Aprendendo a concluir...
[...] para poder compreender
Há um tempo para falar, escutar, escrever
Um tempo para concluir
Um tempo para compreender - só que o tempo para compreender é sempre
posterior ao de concluir...
Jorge Gonçalves da Cruz

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BAJTÍN, M, Estética de la Creación Verbal, Madrid, Siglo XXI, 1979.


CHRISTLIEB. P. F., Psicologia social, intersubjetividad y psicologia coletiva,
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Conocimiento, Realidady Ideologia. AVEPSO, Caracas. 1994.
CRUZ, J. G., El vacío, ausência de estupidez en la inteligência artificial, in Revista
Epsiba, Buenos Aires, n. 7, março, 1998.
DELEUZE, J., Diferença e repetição. Rio de Janeiro: Graal, 1998.
FERNÁNDEZ, A., La Inteligência Atrapada, Buenos Aires, Nucva Vision, 1987.

160
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. Os idiomas do aprendente. Porto Alegre: Artmed, 2001.
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PAÍN. S. Subjetividade e objetividade. São Paulo: Cevec, 1987.
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PAVLOVSKY, E.; KESSELMAN, H & DE BRASI, J.C., Escenas Multiplicidad -
Estética e Micropoliticas, Buenos Aires, Búsqueda, 1996.
RODULFO, R., La constituición dei juguete como protoescritura, Revista Epsiba.
Buenos Aires, n.4, março, 1997.
WINNICOTT, D. O brincar e a realidade. Rio de Janeiro: Imago, 1975.

161
INVENTANDO UMA OUTRA
PSICOLOGIA SOCIAL

R osane N eves da Silva

1. POR UM A GENEALOGIA DO SOCIAL

O social é a coisa melhor partilhada do mundo. Basta abrir um jor­


nal ou ligar a televisão para encontrar essa palavra disseminada nos mais
diferentes segmentos da sociedade contemporânea: há social em toda parte.
Sendo assim, bastaria um pouco de bom senso para concluir que todo mundo
sabe o que é o social.
Na maioria das vezes, o social confunde-se com a qualificação da­
quilo que constitui uma característica comum a todas as formas de exis­
tência coletiva que pressupõem um certo tipo de relação entre seus mem­
bros. Nesse caso, tal expressão traduziria uma qualidade intrínseca às for­
mas de organização das diferentes sociedades humanas, apresentando-se
como sinônimo da própria noção de sociabilidade. Visto dessa perspecti­
va, o social toma-se um fato natural tão evidente que pode parecer supér­
flua e desnecessária toda tentativa para defini-lo.
No entanto, a própria evidência do social começa a colocar alguns pro­
blemas quando ela é transposta para o campo da psicologia: se o social, do
qual se ocupam os psicólogos sociais, confunde-se com aquilo que consti­
tui uma qualidade intrínseca ao modo de existência do homem (em função
da necessidade que todo ser humano possui de se relacionar com outros
homens para poder se constituir como tal), seria uma redundância falar de

Rosane Neves da Silva é psicóloga, doutora em Educação (UFRGS), professora no D e­


partamento dePós-Graduação em Psicologia Social e Institucional no Instituto de Psico­
logia da UFRGS. Trabalha na linha de pesquisa “Processos de subjetivação” .
Este texto sintetiza algumas das questões trabalhadas na tese de doutorado Cartografias
do social: estratégias de produção do conhecimento, apresentada no Programa de Pós-
Gruduação em Educação da UFRGS cm junho de 2001.

177
uma psicologia social pois toda psicologia seria sempre e indiscutivelmente
uma psicologia social.
Considerar o social como um “fato natural” acaba portanto colocan­
do os psicólogos sociais diante de dois problemas: o primeiro, consisti­
ria em precisar a especificidade do objeto de estudo de um campo de in­
vestigação denominado “psicologia social”, pois tomando o social como
um fa to natural e evidente toda psicologia é social. O segundo problema
consistiria em explicar os motivos pelos quais, diante de um objeto tão
natural e evidente como este que se ocupa da interação entre os indiví­
duos, um campo de conhecimentos voltado para o estudo dessa intera­
ção somente foi adquirir um contorno mais preciso a partir do final do
século XIX. É como se o objeto da psicologia social “falasse” por si
mesmo e tom asse igualmente supérflua e desnecessária qualquer ques­
tão relativa à sua própria especificidade.
Isso explica por que consideramos que para compreender a invenção
de uma psicologia social é preciso partir de um movimento de desnaturali­
zação do social, ou seja, um movimento que cessa de tomar o social como
uma simples evidência fundada no senso comum e passa a problematizá-lo
em função de um campo histórico específico forjado a partir de um determi­
nado conjunto de práticas. Podemos então dizer que se o social existe entre
os indivíduos, não é apenas em função das múltiplas interações que se pro­
duzem entre os mesmos, mas que é sobretudo numa espécie de interstício -
marcado por uma multiplicidade de acontecimentos - que podemos perce­
ber o plano de consistência onde o social se constitui como problema.
Neste sentido, podemos dizer que é a própria evidência do social que
nos impede de ver que o social como problema é um fenômeno recente,
forjado a partir de uma configuração específica de práticas que não se en­
contram em todas as sociedades. Isso quer dizer que o social não deve ser
considerado como um “objeto natural” inerente à nossa condição humana,
mas um objeto construído e produzido que não cessa de se transformar ao
longo do tempo em função das diferentes práticas que o constituem.
Sendo assim, não vamos encontrar apenas uma configuração do so­
cial, mas várias: cada formação histórica cria um campo de possibilidades
de onde emerge uma certa problemática que engendra, simultaneamente,
uma configuração específica do social.
De uma forma bastante sintética podemos dizer que a partir do mo­
mento em que alguns disfuncionamentos não são mais regulados de um
modo relativamente informal no tecido de uma sociedade, passando a ser
regulados por certos dispositivos institucionais que vão se ocupar de tais
disfunções, deixamos de considerar o social como uma evidência e passa­
mos a constitui-lo como um problema que tem a sua própria especificida­

178
de. Este seria o primeiro passo para se pensar a singularidade da invenção
de uma psicologia social e de seu objeto de análise.
Por ora, vamos compreender como a noção de disfimção permite-nos
esboçar uma primeira configuração do social, anterior ao própno surgimento
da psicologia como campo específico de saberes e de práticas. Esta primeira
configuração implica um modo de intervenção que se distingue do espaço das
relações informais e vai se caracterizar pela criação de determinados disposi­
tivos institucionais - tais como os asilos, os hospícios e os orfanatos - para se
ocupar daquilo que uma formação social define como “disfunção”. A criação
destes diferentes espaços de confinamento tem por objetivo dar conta de al­
guns disfiincionamentos da sociedade em um determinado momento, tendo
como pano de fundo uma problemática formulada a partir de um campo assis-
tencial organizado em tomo de uma lógica do enclausuramento.
Esta primeira configuração caracteriza um sistema que se convencio­
nou chamar de “social-assistencial” (cf. Castel, 1995). A lógica inerente a
esse sistema consiste na delimitação de alguns critérios - tais como per­
tencer à comunidade e ser incapaz de trabalhar - para definir as popula­
ções que serão assistidas.
Temos portanto uma primeira configuração do social que se organiza
a partir desse campo assistencial, definindo-se basicamente em tomo de um
vetor espacial (pertencer ou não à comunidade), mas que, ao mesmo tempo,
já deixa transparecer a relação entre o social e o mundo do trabalho.
Com o desenvolvimento da industrialização, nós podemos falar do
surgimento de uma nova configuração do social. A partir da segunda me­
tade do século XIX, o social entra em cena como um problema que extra­
pola o domínio até então marcado pelo modo de intervenção característi­
co do campo assistencial. Para Donzelot (1994, p. 18), a emergência de uma
questão que doravante será definida como uma questão especificamente
social “surge no momento em que o ideal republicano, forjado no século
das Luzes, se vê confrontado à forma democrática quando ela foi pela pri­
meira vez posta em prática, ou seja, logo após a revolução de 1848”.
A partir desta data, o ideal republicano se vê colocado num impasse:
começa a se tomar evidente a incompatibilidade entre as duas ordens que
sustentam seu projeto democrático, a saber, uma ordem política fundada
na noção de direito que garante uma soberania igual a todos, e uma ordem
econômica que estimula uma liberalização do mercado e uma intervenção
mínima do Estado na regulação das trocas comerciais.
Aparentemente, os princípios formulados pela nova ordem política
não pareciam incompatíveis com o desenvolvimento de uma ordem eco­
nômica fundada sobre o liberalismo, ou seja, com o fim dos monopólios e
das corporações. No entanto, a associação do voluntarismo político (base­

179
ado na noção de direito enquanto fundamento da soberania de cada indiví­
duo) e do laissez-faire econômico (baseado na intervenção mínima do Es­
tado sobre o mercado) liberava, segundo Donzelot (1994), uma série de
antagonismos e contradições. Tomemos como exemplo a situação que se
produziu com o fim dos monopólios e das corporações: do ponto de vista
político, o Estado deve garantir a todo cidadão o livre acesso ao trabalho
(já que todos os homens são iguais perante a lei), mas, ao mesmo tempo, o
Estado não pode assumir a responsabilidade de assegurar trabalho para
todos, pois assim ele estaria sendo incoerente com o princípio de base do
liberalismo econômico (ou seja, a idéia do Estado-mínimo).
Sendo assim, a palavra de ordem de um “direito ao trabalho”, enun­
ciada pelos operários franceses durante a revolução de junho no distante
ano de 1848, produz a centelha que acaba por levar ao rompimento da ca­
pacidade consensual atribuída até aquele momento à noção de direito na
forma democrática modema.
Nós podemos dizer que uma das primeiras lições ditada pela forma de­
mocrática da República nascente é a de não confundir o “livre acesso ao tra­
balho” com um “direito ao trabalho”. Se hoje em dia consideramos “natural”
essa diferença, o mesmo não aconteceu no momento em que os ideais republi­
canos procuravam se consolidar em meados do século XEX. Naquela ocasião,
lutar por um direito ao trabalho era uma decorrência natural do próprio exercí­
cio da cidadania: o direito ao trabalho era um direito como outro qualquer.
Esta universalidade embutida na noção de “direito” acabou revelando
a própria fragilidade do regime democrático que caracteriza a forma repu­
blicana modema, pois tal noção não seria generalizável a todas as situações;
ela deve ser empregada somente naquelas situações que não constituam uma
ameaça ao modelo imposto pelos princípios do liberalismo econômico.
Para Donzelot (1994), é a partir do rompimento desse consenso em tomo
da noção de direito que uma “questão social” emerge a fim de preencher o
vazio resultante dessa fratura entre uma ordem política fundada sobre o re­
conhecimento dos direitos do cidadão, e uma ordem econômica que produz
uma nova organização do trabalho (em tomo da idéia de “trabalhador livre”,
“dono da sua própria força de trabalho”), obedecendo às leis do mercado.
Esta fratura atinge o ponto nevrálgico das democracias modernas que pode
ser sintetizado da seguinte maneira: a noção de direito (que constitui um dos
pilares da forma democrática) não deve se generalizar indiscriminadamente
pelo conjunto da sociedade, ou seja, essa noção deve garantir a organização
liberal da economia (assegurando, neste caso, um direito à propriedade), sem
portanto se estender a um eventual direito ao trabalho.
No vazio dessa fratura resultante da incompatibilidade entre as duas
ordens anteriormente mencionadas é que vai se criar todo um sistema de

180
regulações - além daquelas já instituídas pelo campo assistencial - para
neutralizar os contrastes que opõem o imaginário político à dura realidade
da sociedade civil. Segundo Castel (1995, p. 19), “esse hiato entre a orga­
nização política e o sistema econômico permite marcar, pela primeira vez
com clareza, o lugar do ‘social’”, ou seja, é no vazio deixado pela incom­
patibilidade entre os princípios que norteiam o projeto republicano que nós
encontraremos umaproblematização do social que ultrapassa os limites de
um campo meramente assistencial.
É importante enfatizar que essa nova problematização do social, atra­
vés da criação de um sistema de regulações que marcam aquilo que se con­
vencionou chamar de “Estado-Providência”, é indissociável de uma pro­
blemática concernente às transformações da própria organização do mun­
do do trabalho em função das novas normas impostas pelo desenvolvimento
da sociedade industrial.
Nós veremos que esta segunda configuração do social ainda preser­
va vários elementos da configuração anterior, só que estes elementos se­
rão problematizados e atualizados de um modo completamente distinto.
As mudanças que aí acontecem são desencadeadas pela liberalização sel­
vagem do próprio mercado de trabalho e provocam o surgimento de um
novo perfil de populações carentes em função do surgimento de um novo
lipo de miséria. Trata-se de um novo tipo de miséria porque é uma miséria
que aumenta proporcionalmente a um aumento de riqueza. E este novo tipo
de miséria vai se constituir numa am eaça à própria coesão social no come­
ço da sociedade industrial exatamente porque acaba expondo as contradi­
ções inerentes ao sistema capitalista.
Podemos dizer que o que marca a diferença entre a primeira e a se­
cunda configuração é precisamente o novo estatuto do social nesta última.
<) social não se caracterizará apenas por um conjunto de dispositivos e de
práticas que buscam regular os disfuncionamentos da sociedade. Essa ca-
uicterística, que já marcava a primeira configuração do social, permane-
t ciá na segunda, embora seja atualizada de outra maneira em função dos
novos problemas que atingem, desta vez, a dinâmica da sociedade indus-
Irial. O importante é que agora, nesta segunda configuração, o social se
lorna, além de tudo, um objeto de conhecimento. Aí reside a principal di­
ferença com relação à primeira configuração: a objetivação do social en­
quanto um novo domínio de saber.
O fenômeno das multidões certamente desempenhou um papel deci-
Mvo nesse processo de objetivação do social não apenas porque as multi­
dões ameaçavam uma certa “ordem social” mas, fundamentalmente, por­
que suas reivindicações tornavam evidentes as contradições inerentes à
dinâmica do projeto liberal. No hiato instaurado entre os ideais políticos e

IKI
as premissas econômicas, as multidões emergem como uma espécie de gás
prestes a destruir a nova organização da sociedade modema. Em função
de seu caráter explosivo e imprevisível, as multidões constituíam uma ver­
dadeira ameaça à coesão social e, por este motivo, tomaram-se objeto de
uma investigação sistemática em diferentes campos de conhecimento (da
sociologia à psicologia social, por exemplo).1

2. AS DOBRAS DA SUBJETIVAÇÃO CAPITALÍSTICA

A objetivação do social, característica da segunda configuração, é


acompanhada por um outro movimento complementar que é a objetiva­
ção do indivíduo. Estes dois movimentos assinalam a emergência de um
novo território do saber que, segundo Foucault (1966), marca o advento
das ciências humanas. Essa relação de complementaridade pode ser resu­
mida da seguinte maneira ao processo de objetivação do social corres­
ponde um processo de objetivação do indivíduo.
A correspondência entre esses dois processos pode ser explicada por­
que ambos são expressões distintas de um mesmo modo de subjetivação,
isto é, da produção de um mesmo modo de existência. Ao utilizarmos a
palavra subjetivação estamos considerando que esta expressão constitui,
“um modo intensivo e não um sujeito pessoal” (Deleuze, 1990, p. 135).
Um processo de subjetivação traduz, portanto, o modo singular pelo
qual se produz a flexão ou a curvatura de um certo tipo de relação de for­
ças. Podemos dizer que cada formação histórica irá dobrar diferentémem
te a composição de forças que a atravessam dando-lhe um sentido particu­
lar. Isso explica por que um mesmo elemento (a noção de social, por exem­
plo) pode adquirir uma configuração distinta em função do modo pelo qual
se produz a vergadura ou o plissamento das forças que o atravessam.
A idéia de dobra é portanto fundamental para entendermos o que vem
a ser um processo de subjetivação. Ela toma-se um importante operador
conceituai para pensar a produção, ao longo da história, de diferentes mo­
dos de constituição da relação consigo e com o mundo, ou seja, dos dife­
rentes modos de produção da subjetividade.
A dobra, neste caso, deve. ser tomada como um conceito filosófico e
é através do pensamento deleuziano - sobretudo nas obras dedicadas a Fou­
cault (Deleuze, 1986) e a Leibniz (Deleuze, 1988) - que encontraremos

1Os conceitos de “anomia social” e de “alma coletiva”, criados respectivamente no cam­


po da sociologia por Durkheim e no campo da psicologia por Le Bon, buscam oferecer
uma explicação para o fenômeno das multidões na segunda metade do século XIX.

182
sua expressão. Nessas obras, Deleuze procura apreender a problemática que
atravessa o campo de investigação destes dois filósofos em um determina­
do momento, mostrando que tanto as tecnologias de si propostas por Fou-
cault como a mônada leibniziana exprimem a idéia de multiplicidade e de
criação permanente que vão forjar o conceito deleuziano de dobra.
Para Deleuze (19881. tudo no mundo existe dobrado. Sendo assim,
nós poderíam os dizer que são essas múltiplas dobraduras do tecido social ~
que vão produzir diferentes modos de expressão da subjetividade. A do­
bra, neste caso, pode ser caracterizada como o ponto de inflexão através
do qual se constitui um determinado tipo de relação consigo; o modo pelo
qual se produz um Dentro do Fora (cf. Deleuze, 1986, p. 104). A noção de
dobra não é portanto independente do campo social: a produção de um certo
tipo de relação consigo e com o mundo é coextensiva às forças que atra­
vessam/constituem um determinado arranjo do tecido social.
Deleuze (1986) considera que há quatro tipos de dobras presentes em
qualquer modo de subjetivação. A primeira concerne à “parte material de
nós mesmos que vai ser cercada, apanhada na dobra” (o corpo, entre os
gregos; a carne, entre os cristãos, e assim por diante). A segunda é a “regra
singular” pela qual “a relação de forças é vergada para tomar-se relação ft
consigo” (pode ser tanto uma regra “divina”, “racional”, “estética”, ou
outra, conforme o caso). A terceira é a maneira pela qual se constitui uma
relação entre saber e verdade. A quarta se refere àquilo que o sujeito espe­
ra do exterior. Esta última dobra já pressupõe um modo de subjetivação
calcado na idéia de uma divisão entre o dentro e o fora, característico das
formações ocidentais (cf. Deleuze, 1986, p. 111-114).
Essas quatro dobras propostas por Deleuze (1986) nos permitem com­
preender a singularidade do modo de subjetivação que caracteriza esta zona
de intensidades de onde emerge aquele duplo movimento de objetivação:
a objetivação do social e a objetivação do indivíduo.
Vejamos agora como essas quatro dobras vão se atualizar no modo
de subjetivação específico à segunda configuração do social, ou seja, no
modo de subjetivação capitalístico:2 é preciso disciplinar o corpo (primei­
ra dobra) vinculando-o a um lugar preciso na produção a partir da vigi-

2 O termo “capitalístico” foi forjado por Félix Guattari (1986) durante os anos 70 para
designar um modo de subjetivação que não se achava apenas ligado às sociedades ditas
capitalistas, mas que caracterizava também as sociedades, até aquele momento, ditas so­
cialistas, bem como as dos países do Terceiro Mundo, já que todas elas viveriam numa
espécie de dependência e contradependência do modelo capitalista. Por isso, do ponto de
vista de uma economia subjetiva, não haveria diferença entre essas sociedades, pois elas
reproduziriam 11111 mesmo tipo dc investimento do desejo no campo social

183
lância constante do espaço que ele ocupa em cada momento (na escola, na
fábrica, na prisão, etc.), e nele imprimindo uma cadência ritmada no tem­
po a partir de uma programação de seus gestos, que será tanto mais eficaz
quanto mais se tome automática e retire todo vestígio de vontade do cor­
po. Por outro lado, é recorrendo a um modelo de racionalidade, organiza­
do em tomo de uma regra de equivalência geral (segunda dobra), que pro­
duz, ao mesmo tempo, uma segmentação e uma homogênese dos univer­
sos de valor, que as forças que atravessam esse campo de intensidades se­
rão dobradas para constituir um novo tipo de relação consigo, que, daqui
para a frente, será territorializada sobre a idéia de individuo. Esse novo
território subjetivo permite a esse “indivíduo” reconhecer-se ao mesmo
tempo como sujeito e objeto de conhecimento (terceira dobra). Essas três
dobras preparam o ponto de inflexão para a criação da quarta dobra desse
modo de subjetivação, garantindo, a partir daí, sua operacionalidade. A
quarta dobra se constitui por um movimento de dupla captura: ao mesmo
tempo em que são criadas duas séries dicotômicas - o indivíduo, de um
lado, e a sociedade, de outro - , não cessam de proliferar todos os tipos de
mediação para estancar o trabalho de hibridação entre essas duas séries,
produzindo assim o que poderíamos chamar de uma individualização do
social caracterizada pelo achatamento e a sistemática homogeneização da
experiência subjetiva.3
Essas quatro dobras não podem ser dissociadas: cada dobra segue a
outra e a precede, tudo isso simultaneamente, pois elas fazem parte de um
mesmo campo de intensidades e são expressões de um certo tipo de rela­
ção de forças que, neste caso, caracteriza a subjetivação capitalística.
A principal característica desse modo de subjetivação é a de “em­
baralhar’' todos os códigos: na medida em que opera a apropriação das
forças produtivas dentro de novas relações de produção sustentadas pela
divisão entre o dentro e o fora, provoca, simultaneamente, a abolição sis­
temática de toda relação a uma exterioridade. A armadilha da subjetiva­
ção capitalística traduzir-se-ia portanto em um movimento de dupla cap­

3 Podemos dizer que a expressão “psicologia social” atualiza a lógica inerente a esse
modo de subjetivação: ela pressupõe que se aceita a separação entre individuo e socieda­
de como dois pólos distintos, dilatando assim cada vez m ais a experiência de uma subje­
tividade privatizada a partir de uma proliferação da idéia de individuo e de uma naturali­
zação da noção de social. Em função dessa separação, e inclusive para alirmá-la, a maior
parte das teorizações no campo da psicologia social não cessa de fazer proliferar todo tipo
de mediação entre esses dois pólos (o que, em realidade, não faz senão aum entar a distân­
cia entre eles), construindo assim todo um campo de conhecimentos a partir de um pro­
blema mal colocado, ou seja, a partir dessa dicotomia.

184
tura que implicaria forjar a separação entre estes dois registros (o dentro
e o fora) e, ao mesmo tempo, romper com tal divisão já que a lógica ine­
rente à dinâmica capitalística é uma lógica inclusiva, fundamentalmente
desterritorializada e homogeneizante, que não cessa de fabricar riqueza
e miséria ao mesmo tempo e em todos os lugares. Isso significa que a
lógica capitalística não opera por exclusão e sim a partir de uma estraté­
gia de inclusão diferencial (cf. Hardt, 2000, p.365). Deste modo, nada
escapa à ubiqüidade do seu poder.
A partir da segunda metade do século XX podemos perceber um novo
tipo de arranjo dessa lógica capitalística, traçando o esboço de uma tercei­
ra configuração do social. Isso não significa que o campo de intensidades
das demais configurações não continue reverberando na experiência con­
temporânea: as problemáticas que atravessam respectivamente o campo as-
sistencial (primeira configuração) e o campo dos sistemas de regulação das
relações entre trabalho e capital (segunda configuração) continuam presen­
tes. Elas simplesmente perdem seu impacto como “princípio organizador”
de um certo arranjo do campo social em função de outros elementos que
passam a habitar este campo, remetendo a novos problemas que, por sua
vez, engendram uma outra configuração do social, marcada agora pela
volatilização do poder capitalístico.
Nós podemos dizer que esta terceira configuração caracteriza-se ba­
sicamente por uma revolução tecnológica e cibernética que produz um novo
arranjo do tecido social a partir do advento de novas tecnologias resultan­
tes dos avanços da informática. Este conjunto de novas tecnologias aliado
a uma concentração de poder do capital financeiro internacional dá condi­
ções para a criação de uma nova ordem mundial, um mega-mercado pla­
netário conhecido pela expressão “globalização”. A globalização implica
não somente a eliminação de limites bem definidos (“ausência de frontei­
ras”)4 como também uma aceleração da velocidade que se traduz pela si­
multaneidade dos acontecimentos. Deste modo, podemos dizer que a prin­
cipal característica dessa terceira configuração do social é estabelecer no­
vas coordenadas nas relações de tempo-espaço, criando uma superfície lisa
para a expansão “ilimitada” do capital que vai sem dúvida afetar os modos
de existência em escala planetária.
Vejamos como as quatro dobras de que falamos anteriormente, atua­
lizam a lógica subjacente ao modo de subjetivação capitalístico nessa ter­
ceira configuração do social: chegamos a um estágio de modelagem con­

4 Evidentemente que esta eliminação das fronteiras apenas existe quando se trata de de­
fender os interesses dos países que ditam as regras deste modelo, configurando-se portan­
to numa liberalização seletiva das regras do comércio mundial.

185
tínua e visibilidade permanente que se produz através de um culto exacer­
bado do próprio corpo (primeira dobra). A regra singular que norteia o tipo
de relação consigo (segunda dobra), calcada sobre o registro de uma equi­
valência geral dos valores, se desenvolve numa perspectiva cada vez mais
intimista, atualizando-se sobre o que Foucault (in Dreyfus e Rabinow,
p.333) denomina de “nossos sentimentos” A confissão pública toma-se,
assim, a forma de expressão por excelência desse intimismo exacerbado.
Por outro lado, a relação entre saber e verdade (terceira dobra) se territo-
rializa através da proliferação do pensamento único (marcado por propo­
sições que afirmam, por exemplo, “o fim da história”), instaurando um re­
gime de verdade onde o mundo perde o sentido e, consequentemente, fa­
zendo com que nossa ação no mundo tome-se supérflua e desnecessária.
Isso faz com que a relação do nosso ser com a verdade oriente-se para um
movimento de interiorização especulativa - marcado, por exemplo, pela
proliferação dos livros de auto-ajuda- que é totalmente compatível com o
projeto neoliberal. O movimento de dupla captura (quarta dobra) atuali-
za-se através da idéia de crise permanente. A armadilha semiótica, neste
caso, funciona a partir da regra segundo a qual quanto mais as coisas se
desarranjam, melhor elas funcionam (cf. Deleuze e Guattari, 1972). A cri­
se tom a-se assim o “meio imanente ao modo de produção capitalista”
(p.274). É neste sentido que a crise das diferentes instituições (família,
educação, trabalho) aumenta enormemente a eficácia das estratégias de
controle sobre as mesmas. Tais estratégias operacionalizam-se por meio
da “gestão de microconflitualidades numa zona de expansão contínua”
(Hardt, 2000, p.367), traduzindo assim uma axiomática capitalística for­
jada a partir da idéia de “crise generalizada”.5

3. NOTAS PARA UMA ONTOLOGIA DO PRESENTE

A partir do que vimos até aqui, podemos nos perguntar qual a função
de uma psicologia social na atualidade. Inicialmente é preciso considerar
que o tema geral das análises em psicologia social é a dobra, ou seja, ngjn
o indivíduo, nem a sociedade, nem a interação entre ambos, mas o modo
como um determinado conjunto de práticas produz uma certa forma de

5 Podemos pensar em alguns exemplos para entender o modo pelo qual essa gestão de
microconflitualidades se operacionaliza atualmente: na família, através da proliferação
dos m anuais de orientação aos pais; na educação, por meio da implementação de uma
estratégia de “formação permanente”, e no trabalho, pela “flexibilização” (leia-se “fim”)
de uma legislação trabalhista.

186
relação consigo e com o mundo. Para pensarmos esta dobra é necessário
transitar, como diz Guattari (1992, p. 24), de um paradigma cientificista para
um paradigma ético-estético. Dentro de um paradigma cientificista a no­
ção de dobra não faz o menor sentido já que tal paradigma opera a partir
de uma lógica dicotômica que toma o indivíduo e a sociedade como duas
realidades distintas. Neste modelo, a psicologia social não tem outra saída
a não ser estudar a “interação” entre indivíduo e sociedade, ou então a ques­
tão da inter-subjetividade e os processos de mediação daí decorrentes. Num
paradigma ético-estético, a noção de dobra atualiza a dimensão de criati­
vidade processual que constitui nossos territórios existenciais e, ao mes­
mo tempo, afirma a dimensão temporal dos agenciamentos que produzem
diferentes modos de subjetivação. Neste novo paradigma, a psicologia so­
cial procurará identificar as formas de captura da subjetivação dominante
através da crítica à axiomática capitalística. Se aqui a arte funciona como
uma referência é porque ela encarna, de certo modo, uma forma de resis­
tência à ordem estabelecida e às práticas de modelização dominantes.
Neste sentido, consideramos que a função da psicologia social na atua­
lidade é a de realizar uma ontologia do presente e colocar em questão quem
somos e qual é este mundo, este período em que vivemos. E do encontro
com estas questões e da violência que elas provocam em nosso pensamen­
to que se pode produzir a criação de novos territórios existenciais que pos­
sibilitem re-singularizar a subjetividade contemporânea em cima de novos
valores. A dimensão política da psicologia social na atualidade está preci­
samente nesta recusa às formas de assujeitamento da subjetivação capita­
lística em sua versão neoliberal.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

CASTEL, R. (1995), Les métamorphoses de la question sociale, Paris, Fayard.


DELEUZE, G (1986), Foucault. Paris, Minuit.
DELEUZE, G (1988), Le pli: Leibniz et le barroque, Paris, Minuit.
DELEUZE, G (1990), Pourparlers, Paris, Minuit.
DELEUZE, G et GUATTARI, F. (1972), L ’A nti-Edipe. Paris, Minuit.
DONZELOT, J. (1994), L'invention du social: essai sur le déclin des passions
politiques. Paris, Seuil.
FOUCAULT, M. (1966), Les mots et les choses, Paris, Gallimard.
FOUCAULT, M. (1984), Pourquoi étudier le pouvoir: la question du sujet, in
DREYFUS, H. e RABINOW. P. Michel Foucault: un parcours philosophique, Paris,
Gallimard.

187
O ESQUECIMENTO DOEU -
VER E REVER O TEMPO1

E lida Tessler

“ quid est enim tempus?”


(que é pois o tempo?)
Santo Agostinho, Confissões

O tempo e o espaço são elementos essenciais de qualquer produção


ou reflexão em artes plásticas. Parece-me que toda obra, todo objeto, toda
idéia apresentada pelo artista quer reivindicar para si um tempo e um es­
paço próprio, aspirando à inauguração de algo novo. O novo, de novo?
Podemos dizer, então, que estamos sempre em busca de um outro come­
ço, querendo participar do mito do etemo retomo. Neste movimento repe­
titivo criamos nossos laços com a história.
São muitos os filósofos e pensadores que dedicaram seus estudos ao
toma do tempo. Por contingência ou por necessidade, defrontaram-se com
.1 dificuldade de dimensionar o conceito e relacioná-lo com problemas exis­
tenciais das mais diversas ordens, principalmente porque esta noção im­
plica o período situado entre a vida e a morte de qualquer ser. Pois foi jus-
i imente o instigante título da exposição Ver o Tempo apresentada por Evan-

1 ll(l:i Tessler é artista plástica, doutora em História da Arte na Uiversidade de Paris I


Pmithéon - Sorbonne, França, professora no Departamento de Artes Visuais e no Progra-
llin de Pós-Graduação em Artes Visuais do Instituto de Artes da UFRGS. Pesquisadora na
rtii n de Poéticas Visuais - Processos de criação artística. Fundadora e coordenadora des­
de I '193, junto com o artista plástico Jailton Moreira, do Torreão - espaço de produção e
iipiolundamcnto de pesquisa em arte contemporânea (Porto Alegre).
1 li xlo criado a partir da exposição Ver o Tempo, de Evandro Salles, realizada na Pinaco-
Iim a Ilarfio de Santo Angelo do Instituto de Artes da UFRGS, no período de 22 de maio a
I ) de junho de 1997, com promoção do Programa de Pós-Graduação em Artes Visuais.
imos, Evandro Salles apresentou a exposição DESENHOS, na galeria Arte Futura
(hlMNllm/I)!•’), atualizando todas as questões aqui trabalhadas.

191
dro Salles, artista plástico residente em Brasília, (1955, Belo Horizonte -
M G) que me fez pensar o tempo, percorrendo algumas trilhas desenhadas
por outros autores e artistas.
Esta reflexão é fruto de um encadeamento de lembranças que surgi­
ram ao mesmo tempo em que tomávamos contato com o tema central da
exposição. Não farei economia das respectivas citações, pois, mais do que
ilustrar ou apoiar este trabalho, elas irão constituir-se como o próprio tex­
to, como uma espécie de colagem ou jogo de memória.2
Rememoramos, por exemplo, Mareei Proust, que seguiu em busca
do tempo perdido. Michel Butor, também escritor francês, pensou as mo­
dificações nas coisas e nos seres enquanto um trem segue pelos seus ca­
minhos de ferro.3É Butor que escreve um livro sobre o emprego do tem ­
po e este segue sendo, obviamente, o seu personagem principal.4 Além
de nos remeter aos meandros de nossa relação com o tempo que passa,
Butor nos lança intempestivamente ao cerne da problemática acerca da
constituição do eu. Em uma de suas entrevistas, ele vem a comentar que
nada é puramente exterior a nós, ou puramente interior. Segundo ele, in­
seridos nesta lógica, nós somos sempre muito menos daquilo que acre­
ditamos ser. Esta colocação nos interessa particularmente pelo seguinte:
é possível um esquecimento do eu enquanto este está a constituir-se? O
que somos, finalmente? Gostaríamos de desenvolver aqui uma reflexão
sobre a linguagem, pois reconhecemos nela o que de mais verdadeiro
existe como produção individual. O que Butor faz, então, é lembrar-nos
constantemente que nós somos a nossa linguagem, nossos objetos, a de­
coração que está em tomo de nós em nossas casas. Somos a nossa famí­
lia, o nosso meio, e o tempo que faz.
Evandro Salles traz à tona, nas fotografias expostas, sua memória do
mundo, em seu tempo preciso.
O que Sigmund Freud inaugurou, com a invenção da psicanálise,
foi a reflexão sobre o tempo do/no inconsciente. Jacques Lacan, seguin­
do esta rota, relendo Freud, desenvolveu uma teoria em tomo do tempo
lógico. Heidegger nos ofereceu o seu Ser e tempo. Ser é tempo? O que é
pois o tempo?
Vejo o tempo como uma dobra, e não como uma linha estendida, estica­
da, marcada por pontos aqui e lá. Vemos o tempo enquanto seqüência, e a de-

2 Também é necessário dizer que os títulos dos trabalhos do artista estão presentes no
texto com tipo de letra diferenciada, permitindo o leitor o acompanhamento de tal cadeia
de associações.
3Butor, M., La modification. Paris, Ed. Rombaldi, 1970 (1. ed. em 1957)
4Butor, M ., L 'emploi du temps, Paris, Ed. Minuit.

192
sejamos a mais longa possível, quase infinita, “a perder de vista”. A idéia de
fim está sempre distante de nosso eterno recomeçar. A dobra encobre justa­
mente o inevitável, guarda uma ilusão. Estaremos muitas vezes prestes a acre­
ditar nos intervalos como renascimento, e não como morte. Fugimos do indi­
zível. Tememos o inominável. Dizia José Saramago: “esta coisa que não tem
nome, somos nós mesmos.” Por vezes, esquecemos disso: esquecemos do eu.

REVER O TEMPO

Eu sou aquele
que o tempo não mudou
Embora outro, eu sou o mesmo
Eu sou um mero sucessor
A minha estirpe
Sempre esteve ao seu dispor
Me dê ouvidos que eu lhe digo quem eu sou
Péricles Cavalcanti

Evandro Salles não é um fotógrafo, no sentido estrito do termo. Dele,


conhecemos desenhos, ilustrações e programações visuais. Este artista
tem também dedicado-se à pintura. São telas de grandes dimensões, onde
a monocromia aponta ser um dos elementos principais. Nas pinturas que
pude conhecer, sem pre encontrei a presença do desenho. A linha presen­
te, ora apenas anunciando a si mesma, ora contando a história de uma
ligura, é sem dúvida, o que liga o desenho anterior à produção atual.
1ivandro Salles tem um a relação muito direta com a noção de seqüência.
Um momento após outro, registrados em fotografia, e a marca do tempo
surge enquanto conseqüência.
Duas questões importantes se fazem presentes nesta nossa tentati­
va de compreensão da idéia da repetição em artes plásticas, através da
análise das obras de Evandro Salles em sua exposição. A primeira delas
é justamente uma pergunta: H á repetição nas séries fotográficas expos­
tas? E se a resposta for positiva, como averiguá-la? A segunda questão,
de ordem mais ampla porque abrange o conceito de repetição em si, é
que o tempo registrado, capturado pela técnica da fotografia, não estaria
a impedir qualquer espécie de repetição? Lem brarem os aqui também
I leráclito, dizendo que jamais banhamo-nos nas águas do mesmo rio. Ou
sfto águas passadas que não movem mais moinhos, ou nós não somos mais
aqueles de um segundo atrás.
Disso, também não queremos esquecer. Não queremos perdermo-nos
nos bifurcados, labirínticos caminhos do tempo. Atirando pedrinhas ou mio­

193
los de pão pelas trilhas abertas, deixamos alguns traços, queremos certifi­
car-nos de que ali estivemos e de que por ali poderemos voltar para casa.
Estamos, pois, sempre a necessitar de provas. A fotografia tem, por
característica específica, a sua prova-contato. Contato direto entre o nega­
tivo e o positivo. A superfície do papel como campo de pouso de nossas
impressões visuais, quase digitais. Quando a fotografia é corpo, a celulose
sensibilizada é pele. Sais de prata, suores em preto e branco. Banco de da­
dos. Dança dos dedos.
Nas fotografias de Evandro Salles, encontramos muitos dedos, mui­
tas mãos, muitos corpos. Há as referências diretas: cabelos, bocas, mãos,
olhares, rostos, uma mulher. Indiretamente, sentimos também corpo em
nuvens, em pedras, em águas, em montanhas distantes. O que nos chama
especialmente a atenção é o fato de uma só imagem não bastar. Há que ser
uma série de imagens, uma quantidade grande de registros, que “provém”
a impossibilidade de reter o tempo, o de um corpo, o de nós mesmos.
Vejamos como abordar a questão da seqüência. Como diferenciar o
“quase igual”, o parecido, da cópia? Toda fotografia é cópia. Há uma ma­
triz: o negativo. Mas o que está em jogo aqui não é o número de reprodu­
ções a partir de uma só pose. E a seqüência delas.
Evandro Salles interessa-se por livros de artistas. O objeto-livro não
se oferece de forma imediata e completa. A história está escrita em algu­
mas páginas. A estrutura do objeto trás em si a questão da seqüência e seus
elementos são gráficos. As imagens misturando-se ao texto. A frente rela­
cionada ao seu verso, e o inverso dos instantes constituindo exatamente
aquilo que sempre procuramos: recuperar o tempo perdido.
Com Ver o tempo o artista, desejou criar um objeto poético, através
do qual nós temos que passar, atravessar, para percorrer os vários momen­
tos que ele possui. Podemos entender bem o que representou a invenção
da perspectiva para as novas concepções de espaço na arte. E a questão do
tempo, como abordá-la? De que forma experimentar o aspecto formal da
seqüência? Outras questões, como as conceituais, por exemplo, são para­
lelas, e construídas intuitivamente pelo artista.
Geralmente, experimentamos um prazer incomensurável no ato da
busca. E assim o repetimos várias vezes. O encontro com o objeto perdido
já não nos satisfaz tanto, ou chega mesmo a provocar uma sensação desa­
gradável. A morte está justamente lá onde não há mais desejo. “Proteja-
me daquilo que eu desejo”, clama a artista Jenny Holzer, em seus anún­
cios luminosos, espalhados na paisagem urbana e perturbada de nosso co­
tidiano ocidental.
A noção de prazer está implícita em algumas declarações de Evan­
dro Salles: “Eu gosto muito de fazer fotografia” e “Desde pequeno, eu gos-

194
tava dos livros. Eu ficava mais vendo do que lendo as estórias”.5 Seu gozo
talvez fosse o de se defrontar com a possibilidade de passar de uma página
a outra, de uma imagem a outra, de distintas realidades. O que fica é a idéia
de passagem, de continuidade. Ele também entrega-se ao olhar uma mu­
lher absorta em sua atividade de trançar seus cabelos, o que motiva-o a re­
gistrar através da fotografia, estes gestos.
O etemo retomo faz-se através do temo contorno das coisas ao nosso
redor. Os objetos têm seu valor próprio, acrescido de nossos afetos. Quan­
do olhamos algo de forma especial, e o escolhemos como nosso, algo nas­
ce da ordem do resgate. Cada vez que registramos sua imagem, deposita­
mos nele nossos fantasmas e uma parte de nossa memória. Não queremos
esquecer de nós mesmos. Talvez por esta razão, tendemos a repetir.
O conceito de repetição guarda em si o seu paradoxo. Há, ao mesmo
tempo, na necessidade de repetir, a sua impossibilidade. Não há como re­
produzir o mesmo. A repetição traduz nosso desejo de recuperação de um
lugar, de um objeto, de um momento. Na verdade, a busca de recuperação
do mesmo é a nossa maneira de resistir à passagem do tempo. “Doa em
quem doer, ninguém quer morrer”, canta Arrigo Bamabé. Ninguém quer
esquecer. Todos querem vingar-se da perda. O esquecimento do eu, doeu.
A voz de um poeta, no filme Terra em transe de Glauber Rocha tam­
bém nos alerta para a riqueza de imagens presente em objetos e sensações
muito próximas de cada um de nós e, paradoxalmente, o conseqüente es­
quecimento de nós mesmos nos bifurcados caminhos entre fantasia e rea­
lidade, entre vida e morte:

Quando a beleza é superada pela realidade,


Quando perdemos nossa pureza nestes jardins de males tropicais,
Quando no meio de tantos anêmicos respiramos
O mesmo bafo de vermes em tantos poros animais,
Ou quando fugimos das ruas e dentro da nossa casa
A miséria nos acompanha em suas coisas mais fatais
Como a comida, o livro, o disco, a roupa, o prato, a pele,
O fígado de raiva arrebentando, a garganta em pânico
E um esquecimento de nós inexplicável,
Sentimos finalmente que a morte aqui converge
Mesmo como forma de vida agressiva.6

rodas as declarações do artista advêm de nossas conversas durante o período de monta­


gem da exposição.
' Rocha, CHauber. Roteyros do terceyro nnmdo. Organizado por Orlando Senna. Rio do
Janeiro Alhambra/Embralilme, 1985, p.302.

105
Neste desabafo epitelial de Glauber Rocha, todas as questões se in­
terpenetram, principalmente aquelas referentes à criação artística. Estamos
diante de um poeta que se autoquestiona permanentemente acerca do va­
lor das palavras. É ele quem diz, como Guimarães Rosa nos seus grandes
sertões, que a vida é uma grande aventura, (e viver é muito perigoso!) es­
tando acima das horas que vivemos. Vemos o tempo? Vivemos o tempo?
Como registrá-lo em imagens? O poeta possui o instrumental da escrita.
Através dele, quer entender o mundo:

Não anuncio campos de paz


Nem me interessam as flores do estilo
Como por dia mil notícias amargas
Que definem o mundo em que vivo.

O poeta chega a afirmar, em um determinado momento, que a poesia


não tem sentido. Palavras são somente palavras... e as palavras são inúteis.
E as imagens, nos são úteis? O que faz com que o artista se aproprie delas,
através dos mais diversos procedimentos, como a pintura, o desenho, a
fotografia? Para que servem as imagens?
Mais uma vez, podemos pensar que a imagem instaura um lugar. Re-
lativiza o tempo, pois o percurso é sempre trânsito, ou transe. Está em jogo
aqui tudo o que está relacionado com o ponto de vista. Se por um lado a
imagem está a serviço da prova, atestando um momento e um espaço es­
pecífico, por outro, apresenta-se enquanto dúvida: é real? é simulacro? pode
traduzir um lugar específico ou o lugar para onde queremos retomar?
Estamos emaranhados em uma multiplicidade de eventos cotidianos.
Todos os dias, encontramo-nos envoltos por um complexo de coisas que ora
desviam nossa atenção para um lado, ora provocam o tropeço de nosso olhar,
direcionando-o para outros pontos.. Inventamos eternas dívidas em relação
ao nosso projeto de construir o futuro. Criamos pequenas rotinas, a fim de
organizar a vida: escovar e trançar o cabelo todos os dias, lavar as mãos an­
tes e após as refeições, olhar pela janela do avião, quando não resta-nos nada
mais a fazer em nossos trânsitos aéreos, no momento em que estes tomam-
se também rotina. De manhã, estender os lençóis, entender o tempo escon­
dido por trás daquilo que a gente vê. A seda de tuas mãos. Para isso, é preci­
so encontrar o ponto certo. Um ângulo de visão. Um pouco mais. Um pouco
menos. A justa medida. E exatamente neste instante que acionamos o dispa­
rador da câmera fotográfica. Velocidade e abertura fracionados em par per­
feito. O gesto registrado em sua seqüência.
Outros pares se fazem interessantes nas imagens apresentadas por
Evandro Salles. Visualisemos o seguinte: águas e pedras, mares e mon-

196
tanhas, nuvens e o corpo humano. Algo afirma-se como discurso. Mas
não há a narração de uma estória, e sim da procura de um certo vazio.
Um pequeno sonho. Às vezes, estas imagens plenas de elementos, nos
colocam diante de um nada absoluto, o nosso nada. Como não é uma nar­
rativa, não há um começo específico, um meio, um fim. Porém, há um
momento privilegiado. O momento mágico é aquele onde começa-se as
coisas, exatamente aquele momento que estamos vivendo agora. A his­
tória começa quando acaba e acaba quando começa. O primeiro elemen­
to de uma série não significa, portanto, o início de tudo, porém pode re-
dimensionar toda a sua seqüência. A história está sempre se reconstruin­
do. E assim como a história, uma obra de arte não é jamais linear e, por
conseguinte, nunca conseguiremos penetrá-la completamente. A resig-
nificação da história é uma promessa de liberdade. Entre o antes e o de­
pois, há o indeterminado, o infinito, tudo o que pode nos fazer pensar em
destino. A história está no gerúndio.

O DESCANSO DA MODELO

Limite do diáfano em. Por quê em?


Diáfano, adiáfano.
Se por os cinco dedos através,
é porque é uma grade, senão uma porta.
Fecha os olhos e vê.
James Joyce

O desenho quase não podia mais dar conta do contorno do corpo. Um


emaranhado de linhas tomou lugar de seus pensamentos. Transformou-se
em cortina. Foi preciso abri-la, como quem levanta as pálpebras em uma
manhã de sol. “Eu ia ficar cego de tanto desenhar a linha”, disse-nos Evan-
dro Salles. Sua relação com o desenho é estreita. Sua prática vem-se de­
senvolvendo ao longo dos anos. Para ele, a linha chegou a se exaurir. Atra­
vés de sua contínua repetição, as estórias começaram a se sobrepor, des­
truindo o que era da ordem do invocativo. O desenho linear mostrava a li­
nha somente. Sendo os desenhos de grande dimensão, as linhas tomaram-
se exaustivas para o olho e também para o fazer do artista. Evandro Salles
viu o trabalho defrontar-se com o seu próprio limite. Sua opção pela foto­
grafia não excluiu outros procedimentos, tais como a pintura, o desenho, a
construção de livros, a criação de textos. Suas atividades são diversas, po­
rém aí está um outro movimento interessante. Elas não são dispersas. A
lácilidade em construir diferentes coisas em atividades também diversas
faz com que Evandro Salles procure um ponto de apoio, um fio condutor,

197
mas não um ponto de vista único: “Eu sempre prezei uma certa cegueira
ao trabalhar”, disse-nos ele. Procurando o saber insabido, resvalamos em
nosso avanços e recuos, até o tropeço. Aí sim, a obra fala! Pois quando fa­
lamos alguma coisa, sabemos o que queremos dizer? Em cada esbarro, uma
revelação. A dor da perda é pior que a do esquecimento. E a compulsão à
repetição estrutura-se em tomo de uma perda, na medida em que o que se
repete não coincide com o que isso repete.
Jeanne Marie Gagnebin trás uma excelente reflexão sobre o tempo,
calcando sua teoria em tomo das Confissões de Santo Agostinho. Alguns
elementos de seu ensaio nos são particularmente preciosos, contribuindo
para nosso estudo acerca das fotografias de Evandro Salles. Ela propõe,
por exemplo, a idéia de “uma experiência do tempo em termos ativos de
esticamento, de dilaceração, de tensão entre o lembrar e o esperar.”7A lem­
brança é o passado e a espera, uma expectativa, remetendo ao futuro. Ten­
são entre opostos, luta esta, definida pela autora, como dolorosa. O que dói
é aquilo que não coincide, que fica entre o passado e o futuro, em um pre­
sente que “não é mais um mero ponto indiferente de passagem, mas sim
instante privilegiado de apreensão dessa não-coincidência, tomada de cons­
ciência ativa desse incessante esticamento”. O que nos leva a pensar, evi­
dentemente, nos desenhos criados pelos espaços de intervalo entre uma
fotografia e outra. A parede, mero suporte, toma-se superfície importante
na constituição da obra. Linhas que se entrecruzam perpendicularmente,
formando uma rede de imagens que ora lembram grades, ora fazem-nos
ver janelas abertas. Paisagens esquecidas do eu. Rasgos de memória.
A memória também dói. A história do eu tem suas feridas e cicatrizes.
Vamos repetir mais uma vez. O que é a memória? O esquecimento
de alguma palavra, uma cena, o nome de uma pessoa, provoca-nos estra-
nhezas, pois pode estar ali presente, no algo esquecido e nas lembranças
encobridoras. A memória inaugura sempre o espaço do quase. Não é pos­
sível haver certezas nas lembranças. E é neste interstício que Evandro Sal­
les se lança. Aí reside a necessidade da série, da seqüência, da “fragmenta­
ção” em quadros: para recordar, repetir e elaborar. Novamente, todo regis­
tro é inevitável. Freud escreveu, em 1914, um texto chamado “Recordar,
repetir e elaborar”, onde aprofunda a teoria sobre o esquecimento como
uma espécie de retenção.8 O escritor português José Saramago em uma
conferência sobre sua obra, no início do ano de 1997 em Porto Alegre, co­
menta as suas relações com o tempo, com a história, com a literatura. Di­

7Gagnebin, Jeanne Marie. Linguagem, memória e história. Rio de Janeiro: Imago p.77.
8Freud, Sigmund. Obras completas - Tomo II Madrid: Editorial Biblioteca Nueva, 1981,
p. 1683.

198
zia ele: “Eu imaginava o tempo como uma grande tela, um grande pano
branco, onde eu poderia depositar tudo, tudo, tudo, sem perder nada”. Não
podemos deixar de sublinhar aqui a necessidade de repetir o vocábulo tudo,
retendo imediatamente o seu sentido. Já o poeta brasileiro Waly Salomão,
em seu “Poema Jet-Lagged” anuncia “Escrever é se vingar da perda / Em­
bora o material tenha se derretido todo, igual queijo fundido”.9
Indo para além do desenho, que não poderia mais dar conta deste con­
torno disforme, derretido, Evandro Salles optou pela fotografia, apresen­
tando-a em séries. Ele também não quer perder.
Em uma das seqüências fotográficas apresentadas, há uma referên­
cia explícita à noção de esquecimento. Nesta proposição, o que está em jogo
é o interstício entre o finito e o infinito. Tudo poderia recomeçar de novo!
Sua trança, seu sorriso. As imagens de um rosto feminino traduzem um
desejo que não é da modelo e sim do fotógrafo. O esquecimento é sempre
um ideal, porém a realidade nos agarra em algum lugar de nosso corpo.
Esquecer-se de qualquer outra realidade senão a de seus pensamentos, e
esta foi a regra inicial. Não traduzir em feição suas emoções. Para além de
um piscar de olhos, o enigma de uma relação a dois. Eu e Tania olhando
pensamentos. Um homem e uma mulher. Um homem e um homem. Uma
mulher é uma mulher. Uma rosa é uma rosa é uma rosa. E o mundo é re­
dondo, confirma-nos Gertrude Stein.
Cada série é composta por uma determinada quantidade de cópias fo­
tográficas, variando entre 12,24 e 36 poses, conforme, evidentemente, a pe­
lícula comprada no comércio. Esta é também um outra regra do artista. Não
determinar por si mesmo um número qualquer. Ele já vem prescrito na cai­
xinha do filme. Não é somente uma relação de acaso. Apenas despreocupa­
ção com algumas escolhas, afinal, preza-se uma certa cegueira... Pequeno
sonho. Mas o que importa é que para cada série existe a primeira fotografia,
a marca inicial, o ato inaugural. A partir do Um, é possível contar.10
A história começa quando acaba e acaba quando começa. O conceito
de passado nos interessa, já que estamos falando do tempo e de alguns es­
quecimentos. Mas, quando é que começa o passado? Ninguém o sabe. Ou
melhor, não há outra coisa senão o passado. Ao que Jeanne Marie vem dis­
cutir, dizendo que reiteradas vezes ouvimos queixas filosóficas acerca da
transitoriedade do tempo humano: _
?
o passado não existe, pois já morreu, o futuro tampouco, pois ainda não c,
e o presente, que deveria ser o tempo por excelência porque é a partir dele

9 Salomão, Waly. Algaravias, Rio de Janeiro: Editora 34, 1996, p.29.


10 Kaufmann, P. (Org ). Dicionário enciclopédico de psicanálise, op.cit., p.449.
que se afirmam a morte do passado e a inexistência do futuro, o presente
então nunca pode ser apreendido numa substância estável, mas se divide
em parcelas cada vez menores até indicar a passagem entre um passado
que se esvai e um futuro que ainda não é.11

Um dos aspectos mais importantes da exposição de Evandro Salles é o


caráter do tempo sem tempo. Sabemos que o tempo passa, mas ignoramos
qualquer data, qualquer contextualização histórica. “Toda a história é con­
temporânea, isto é obvio; tão óbvio que não nos damos conta.” Para Evan­
dro, o tempo talvez descanse. A construção de sentidos lhe dá sossego.

O TEMPO ESTÁ NUBLADO

Então
Nuvoleta refletiu pela última vez
Em sua leve e longa vida
e minguou todas as miríades de pesaventos
num só
cancéulou os seus compromissos
subiu pelos balaustros,
gritou um núvil nominho ninfantil, nuée, nuée [...]
Péricles Cavalcanti/Augusto de Campos

Em suas séries fotográficas, Evandro Salles pratica um pouco do que


aprendeu com o zen-budismo. Ele tem a paciência necessária para sensi­
bilizar-se com as Pequenas diferenças. Se são nuvens, são tantas nuvens!
Se são céus, outros azuis. Há uma enorme distância entre as fotos em co­
res e as outras, em preto e branco. Da montanha o mar está próximo, e ali
sim, como a Montanha de Saint Victoire, de Cézanne, vemos as infinitas
diferenças entre uma e outra imagem da série, todas elas fornecendo-nos
um pouco de informações, a partir da interrogação sobre o tempo, do eu
narrador. Seriam estas fotografias, este objeto poético criado por Evandro,
uma espécie de “confissão”?
A fotografia permitiu a Evandro Salles a abertura de outro espaço de
experiências. O artista decidiu captar, em cada viagem sua de avião, du­
rante um certo período de tempo, uma imagem do céu, através da janela
da aeronave. O resultado não é uma série exatamente, mas é quase como
se fosse. As imagens funcionam em conjunto, e as relações formais entre
elas, de cor, textura, contrastes entre o claro e o escuro, diversidade de con-

11 (iagncbin, Jeanne Mario, op. cit. p 72

203
tomos, nos conduzem a pensar nas linhas de um desenho. Passar de uma
nuvem a outra funciona como folhear um livro: uma página virada pode
traduzir a passagem do tempo.
Nesta sua exposição, onde Evandro Salles mostrou o resultado de suas
pesquisas com a máquina fotográfica, encontramos nas imagens apresen­
tadas fortes relações com o desenho, com a pintura, com a escrita. Uma
espécie de (des)colagem Os elementos gráficos perpassam toda obra, e o
que nos interessa neste momento é o olhar que atravessa a técnica e aterri­
za no espaço sensível ali presente. Por isso a idéia de decolagem, de vôo,
de pássaros. Como deixar de lembrar as sempre mutáveis figuras que ve­
mos nas nuvens, principalmente quando crianças, ou nos momentos de
necessários devaneios? Nosso olhar perdido deseja reencontrar um paraí­
so também perdido. Em nossas tentativas de marcar um lugar, o nosso lu­
gar, tendemos a retomar ao mesmo, inserindo-nos no mito da origem: quem
somos? de onde viemos? Pequenos fragmentos do cotidiano, como uma
mulher trançando o seu cabelo todas as manhãs, por exemplo, irão nos re­
conduzir aos movimentos de início, meio, fim, movimento este nem cir­
cular nem em linha reta, e sim em espiral. A repetição de uma diferença
seria aqui uma espécie de desvio.
Fotografar nuvens significou, para Evandro Salles, um distancia­
mento da técnica da fotografia. Diz o artista que a prim eira nuvem defi­
ne todo o processo, como momento inaugural. O que as nuvens fazem
lá, diante de nossos olhos? Elas aguardam, simplesmente, o nosso olhar.
Elas guardam, melhor dizendo, a possibilidade de visão. Divisão de es­
paços entre o que está diante delas e o que se encontra além. Um golpe
de asa. Um céu nublado.
Esta imagem de nuvens diante dos olhos fez-me lembrar de um fotó­
grafo cego bastante conhecido. Trata-se de Evgen Bavcar, nascido em 1946,
na Eslovênia e que vive atualmente em Paris. Assim como o conceito de
repetição guarda em si seu paradoxo, a idéia de que um cego possa ser fo­
tógrafo também nos surpreende. O que para nós tem valor de olho, a lente
da máquina fotográfica, a que equivaleria para um cego? Ele faz a seguin­
te declaração: “A máquina fotográfica para um cego é uma câmera escura
diante de outra câmera escura.”12 Neste particular jogo, algo se duplica.
Definir Evgen Bavcar como fotógrafo cego é reduzir violentamente sua
atividade. Bavcar é filósofo, e dedica suas pesquisas à estética. “A filoso­
fia da arte é o meu trabalho”, comenta, mesmo que privado de pintura e de
outras artes visuais. Como pesquisador, ele cria estratégias finíssimas para
driblar a sua falta de visão. Comenta sobre “ter olhos nas pontas dos de-

12Bavcar, Evgen, Le voyeur absolu, Paris, Seuil, 1992, p. 15

204
dos” e em uma certa escuta visual. Diz gostar de ir aos museus e escutar o
som dos passos daqueles que olham silenciosamente uma obra de arte. Aos
poucos, foi-se adaptando as mudanças no ritmo de vida que a cegueira pro­
voca, e buscou distinguir nas descrições das imagens aquilo que exprime,
antes de mais nada, os fantasmas daqueles que observam o quadro.
Evgen Bavcar não nasceu cego. Sua infância foi marcada por momen­
tos dramáticos. Seu pai morreu quando ele tinha 7 anos. Aos 11, um galho
fere o olho esquerdo. “Durante meses eu olhava o mundo com um olho
só”.13Porém, pouco tempo durou o que parecia ser uma sorte. Mais tarde,
um detonador de minas feria o seu olho direito. É assim que ele relembra:
“Eu não fiquei bruscamente cego, mas pouco a pouco, ao longo dos me­
ses, como se se tratasse de um longo adeus à luz.” Em seus escritos, este
filósofo faz constantemente lembrar a diferença entre ver e não ver. Como
ter acesso ao mundo visível? Como se estrutura o “olhar” de um cego? Ele
atesta ter a necessidade do olhar do outro sobre si e sobre suas fotografias:
o sonho da coisa inacessível me levou um dia a tirar minhas primei­
ras fotos. É claro que sem nenhuma pretensão artística, pois o desafio es­
tético só me é vagamente acessível. A superfície lisa das imagens tiradas
pelo aparelho fotográfico não se dirige a mim. Eu só tenho um resquício
material de paisagens e de pessoas que eu vi ou encontrei. Assim, meu olhar
só existe pelo simulacro da foto que foi vista pelo outro. Eu me contento
com esta grande inutilidade.14
Já ouvimos um poeta perguntar-se pela utilidade das palavras, ou da
poesia em si, lembram-se? E as imagens, nos são úteis? Não cansamos de
repetir esta mesma pergunta. Estamos agora diante de um testemunho acer­
ca de sua inutilidade, que afirma, porém: “Tenho necessidade deste olhar
do outro para quem as imagens se animam em meu interior”.
Por quê associar as nuvens à cegueira? Talvez haja aqui um elemen­
to importante de nossa análise. A nuvem é figura e faz figura. Ela não re­
presenta nada, apenas se faz presente. Somos nós que atribuímos sentido
aos esboços esvoaçantes em jogo de luz e sombra. Como sempre, ce soul
les regardeurs quifont Je tableau15Evandro Salles tenta uma equivalência
entre corpo humano e nuvens, lá onde poderia ser possível esquecer-se do
eu. Nossos modos de subjetivação, no entanto, impedem-nos de subtrair
completamente um maior grau de identificação com as mãos, as bocas, os
rostos e os movimentos dos braços de uma mulher.

"B avcar, Evgen, Le voyeur absolu, Paris, Seuil, 1992, p.8


"Idem ., ibidem, p l 5
"F am osa frase de Marcel Duchamp, que relativiza a posição do autor, do artista.

205
O que é, pois, o olhar para um fotógrafo? O que pode ser, por conse­
qüência, o olhar para um cego? Eis uma tentativa de resposta formulada
por Bavcar:
Talvez seja a soma de todos os sonhos dos quais esquecemos a parte
do pesadelo, quando nos colocamos a ver as coisas de outras maneiras. E
depois, as trevas nada mais são do que uma aparência, dado que a vida de
todo ser humano, tão sombria quanto seja, é feita também de luz. E da
mesma maneira que o dia se ilumina freqüentemente com o canto dos pás­
saros, eu aprendi a distinguir a voz da manhã da voz da noite.16
O aparelho fotográfico que registra céus e nuvens cumpre a difícil ta­
refa de aproximar-mo-nos daquilo que nos é distante. Porém, o que signi­
fica aparelho? Pierre Kaufman nos diz que a idéia de aparelho, e aqui tam­
bém podemos pensar em aparelho da memória, esta ligada às de lugar, de
espaço, de localização, de processo, de funcionamento, de conjunto, de
sistema, de modelo, de máquina. Todas essas idéias nos interessam forte­
mente, pois assim como Evandro Salles configura sua exposição como um
objeto poético, nós podemos associá-la a uma espécie de aparelho que “re­
presenta o que não conhecemos para nos permitir conhecê-lo, ou pelo me­
nos imaginá-lo e construí-lo”.17
Somente a partir do esquecimento do eu é que se produz algo parti­
cular. A produção artística aí reside. O trabalho O descanso da modelo, que
escapa à série, que exige um lugar privilegiado, específico, foi anunciado
como obra da exposição. No entanto, não se fez presente. Foi esquecido
em casa? Trata-se de uma fotografia em grande formato da modelo des­
cansando. O fato dela estar sozinha, de ser uma “peça única” talvez a te­
nha impedido de participar de um contexto onde a idéia de repetição este­
ve permanentemente implícita.

16idem, ibidem, p. 16
"K aufm ann, Pierre (org) Dicionário enciclopédico de psicanálise - o legado de Freud e
Lacan. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1996, p.45.

206
DESPACHOS NO MUSEU: SABE-SE LÁ
O QUE VAI ACONTECER1 [...]

Suely Rolnik

Trata-se sempre de liberar a vida lá onde ela é prisioneira, ou


de tentar fazê-lo num combate incerto.
Gilles Deleuze e Félix G uattari2

A vida, em sua potência de variação, constitui um dos alvos privilegia­


dos do investimento do capitalismo contemporâneo. Tendo esgotado os hori­
zontes visíveis para sua expansão, é no invisível que o capital irá descobrir esta
sua mina inexplorada: extrair as fórmulas de criação da vida em suas diferen­
tes manifestações, será seu alvo e também a causa de sua inelutável ambigüi­
dade. É que se, por um lado, para atingir seu alvo, lhe será indispensável in­
vestir em pesquisa e mvenção, o que aumenta as chances de expansão da vida,
por outro lado, não é a expansão da vida a meta de seu investimento, mas sim
a fabricação e a comercialização de clones dos produtos das criações da vida,
de modo a expandir o capital, seu princípio norteador. O exemplo mais óbvio
são as pesquisas genéticas que resultam num banco de dados de DNA, que ali­
menta a indústria biotecnológica com matrizes a serem reproduzidas, até mesmo
num futuro remoto. Porém, não é só da vida biológica que interessa ao capita­
lismo extrair a fórmula, mas igualmente da vida subjetiva, na qual se produz o
sentimento de si e um território de existência se configura, sem o qual dificil­
mente se consegue sobreviver. Como a biodiversidade na natureza, fonte exu­
berante de investimento para o capital, há um multiculturalismo de modalida­
des de constituição de subjetividade.

Suely Rolnik é psicanalista e professora titular da Pontifícia Universidade Católica de


São Paulo (coordenadora do Núcleo de Estudos da Subjetividade do Pós-Graduação de
Psicologia Clínica).
1Conferência apresentada in The Deleuzian Age, Californian College o f Arts and Crafts
(San Francisco, 2000)

207
Assim o neocapitalismo convoca e sustenta modos de subjetivação
singulares, mas para serem reproduzidos, separados de sua relação com a
vida, reificados e transformados em mercadoria: clones fabricados em
massa, comercializados como “identidades prêt-à-porter" ? O que se ven­
de são imagens destas identidades/mercadoria que serão consumidas in­
clusive por aqueles de cuja medula subjetiva o capital se alimentou para
produzi-las. Na reinvenção contemporânea do capitalismo, a distância en­
tre produção e consumo desaparece: o próprio consumidor toma-se a ma­
téria-prima e o produto de sua maquinação.
Clones de subjetividade constituem padrões de identificação efême­
ros. Para fazer girar este mercado, é necessário que novos tipos de clone
sejam produzidos o tempo todo, enquanto outros saem de linha, tornam-se
obsoletos. A diferença entre anomalia e anormalidade, pode nos ser útil para
avançar nesta reflexão. “Anomalia” é uma palavra de origem grega que
designa o rugoso, o desigual, o singular e “anormalidade”, uma palavra de
origem latina que qualifica aquele que contradiz a regra, definindo-se em
relação a características genéricas.4Assim, na tradição latina as manifes­
tações do que é o mais próprio da vida, sua potência criadora, são inter­
pretadas como negação e, consequentemente, condenáveis. Aparentemente,
no modo de produção atual esta tradição estaria se deslocando: as mani­
festações da potência criadora tendem a não mais ser interpretadas como
anormalidade, transgressão de uma referência absolutizada, mas sim como
anomalia; tomadas em sua positividade, tais manifestações deixam de ser
malditas. Pelo contrário, a anomalia é acolhida exatamente por sua singu­
laridade, ganhando não só lugar garantido, como incentivo e prestígio. No
entanto, a meta deste forte investimento na anomalia é sua conversão em
matéria-prima na fabricação de novos clones, novas formas genéricas de
viver, novos tipos de referência homogeneizadora. E portanto a tradição
latina que insiste, numa versão atualizada.
Em outras palavras, o estatuto da potência criadora hoje é intrinseca­
mente marcado por uma ambigüidade: a criação nunca foi tão festejada,
mas desde que o princípio de sua produção deixe de ser prioritariamente a
vida (a problematização do que impede sua expansão e a invenção de ter­

2O que é a filosofia?, “Percepto, afecto e conceito” , trad. Bento Prado Jr. e Alberto Alonso
Mufloz. Ed. 34, 1992; p.222.
3ç f “Toxicômanos de identidade”, conferência de Suely Rolnik na.V Documenta (Kassel,
1997).
4 D istinção proposta por G. Canguilhem, em seu livro Le normal et le Pathologiqe (P.U.F ,
p. 81-82), e retomada por G. Deleuze et F. G uattan, em “ 1730 - Devir-intenso, devir-
animal, devir-imperceptível [ .. ]” , Platô 10, de Mil Platôs, Vol. 4, trad. Suely Rolnik Ed.
34, São Paulo, 1997.

208
ritórios que a viabilizem), para submeter-se ao capital como princípio or­
ganizador central. Caso contrário, por não haver outras vias de reconheci­
mento social a não ser por semelhança e analogia em relação aos padrões,
mesmo que efêmeros, a anomalia corre o risco de cair numa espécie de lim­
bo, sem qualquer presença efetiva na cena social e, portanto, sem qualquer
poder de interferência nas transformações deste cenário. Assim, as subje-
tividades neste regime têm duas opções: serem criadoras, mas para con-
verter-se em matéria-prima de identidades prêt-à-porter, ou serem suas
passivas consumidoras. Fora disso, as invenções da vida tendem a não ter
qualquer sentido ou valor.
Exploração invisível de um bem invisível, a vida, é igualmente no in­
visível que deverão operar as artimanhas para combatê-la. A resistência,
hoje, tende a não mais situar-se por oposição à realidade vigente, numa
suposta realidade paralela; seu alvo agora é o princípio que norteia o des­
tino da criação, já que, como vimos, esta tomou-se uma das principais se­
não a principal matéria prima do modo de produção atual. O desafio está
em enfrentar a ambigüidade desta estratégia contemporânea do capitalis­
mo, colocar-se em seu próprio âmago, associando-se ao investimento do
capitalismo na potência criadora, mas negociando para manter a vida como
princípio ético organizador. Este é um desafio que se coloca atualmente
em todos os meios, com problemas específicos em cada um deles.
A arte é um meio onde tal estratégia incide com especial vigor. E que a
arte constitui um manancial privilegiado de potência criadora, ativa na sub­
jetividade do artista e materializada em sua obra. Artistas são por princípio
anômalos: subjetividades vulneráveis aos movimentos da vida, cuja obra é
a cartografia singular dos estados sensíveis que sua deambulação pelo mun­
do mobiliza. A anomalia dos artistas e suas criações é o que faz girar o mer­
cado da arte. Mas se isto intensifica as oportunidades de criação e circula­
ção no mercado, por outro lado, para entrar no circuito, a obra tende a ser
clonada, esvaziada do problema vital que ela cartografou; também clonada,
lende a ser a subjetividade do artista, esvaziada de sua singularidade em pro­
cesso, e transformada em identidade, de preferência glamurizada. Juntas, obra
e subjetividade traficadas, formam o pacote a ser veiculado pela mídia e ven­
dido no mercado da arte, cujo valor será determinado por seu poder de sedu­
ção. Se atingir um valor alto, poderá ser ainda vendido em outros mercados,
como é o caso da moda, para agregar valor de glamour cultural à marca que
o comprar. Ao artista não-clonado, restam em geral poucas saídas para fazer
circular sua obra. O destino de muitos é trabalhar nos departamentos de cri­
ação das agências que produzem as identidades prêt-à-porter, design, pu­
blicidade, etc. E no meio da arte que este capitalismo renovado irá encontrar
o s artífices de suas clonagens.

209
Em função desta política específica de separação entre arte e vida,
própria do contemporâneo, a utopia de religá-las continua na ordem do
dia; mas esta questão, que atravessa toda a história da arte moderna, re­
coloca-se hoje em novos termos. E exatamente neste ponto que encon­
tramos Tunga e suas “instaurações” .5 Dispositivo singular que, com sa­
gacidade e humor, instala-se no âmago da ambigüidade do capitalismo
contemporâneo, e de dentro dele problematiza e negocia com sua nova
modalidade de relação com a cultura. Estratégia que mantém viva a fun­
ção político-poética da arte e impede que o vetor perverso do capitalis­
mo tome conta da cena, reduzindo a arte à mera fonte de mais-valia, es­
vaziando-a por completo de sua função.
Embora o nome “instauração” seja uma invenção recente do artis­
ta, a proposta que designa encontra-se em sua obra desde os primórdios.6
E a possibilidade de nomeá-la que surge certamente depois de um deter­
minado ponto de sua trajetória, em que o procedimento se refina e se ra­
dicaliza, ganhando uma explicitação maior.7 E quando passam a aconte­
cer mais sistematicamente as séries de instaurações em que os objetos,
materiais, questões, personagens e elementos com as quais a obra se cria,
não apenas são extraídos do próprio meio onde a instauração se faz, mas,
o que é mais significativo, muitas vezes eles são componentes do modo
de fazer território no meio em questão. Além disso, os universos esco­

5 “Instauração” é o nome dado por Tunga para uma estratégia recorrente em seu trabalho.
Consiste em incorporar à obra pessoas estranhas ao mundo da arte, protagonistas de uma
espécie de performance, seguindo um ritual com objetos e materiais sugeridos pelo artis­
ta; restos da performance compõem uma instalação que permanece exposta. O conjunto
formado pela performance + processo + instalação “instaura” um mundo.
6Já em CameraIncantate (Palazzo Reale, M ilão, 1980), obra em que Tunga trabalha com
vários tipos de luz, o artista incorpora a performance de dois albinos e dois negros, o claro
e o escuro. O albino fica dizendo que veio fazer uma “instalação” elétrica e que esse
negócio de arte não lhe interessa. Depois desta primeira experiência, virão instaurações
que se repetirão em diferentes contextos, diferenciando-se a cada vez, formando séries,
como acontece com suas instalações. São elas: Xifópagas Capilares (três vezes, em 1985,
e três vezes, em 1989); Sem te amavi (três vezes, em 1992 e uma, em 1995); Caro amigo
(1996); Passeio de vanguarda em l êneza ou Debaixo do meu chapéu (abertura da Bienal
de Veneza, 1995 e retoma incorporada a Inside Out, Upside down, abertura da X D ocu­
menta, Kassel, 1997). As séries de instaurações são sempre intercaladas com séries de
desenhos, esculturas, ou instalações sem performance. Além disso os vários tipos de sé­
ries se compõem entre si resultando em outras tantas obras. Por exemplo: Xifópagas Ca­
pilares com a instalação Lagarte/Lizart/Lesarte (Congresso de Psicanálise, RJ, 1985).
7 Com Espasmos aspiratórios ansiosos (AI.S. ou Anxious Inhaled Startles; Rio, MAM.
1996); Experiência de Física Sutil (An Experiment on Keen and Subtle Physics) ou Avant-
guarde Walk in Soho (Nova York, 1996), que retom a com outro nome em 1996, e nova­
m ente em 1997, incorporada a Inside Out, Upside down.

210
lhidos são não apenas os mais distantes do universo da arte, mas princi­
palmente aqueles em que o vetor perverso do modo de produção domi­
nante atinge seus extremos.
Numa ponta, office boys, figurantes classe D, desempregados, sem-teto,
sem-terra, ex-presidiários e, mais recentemente, meninos que já viveram na
rua8. As sobras do sistema, aqueles que não podendo ser nem matriz de clo­
ne, nem seu consumidor, não chegam sequer a entrar no circuito e ficam va­
gando pelo limbo. Na outra ponta, top-models, as mais radicalmente reduzi­
das a suporte de identidade prêt-à-porter, adolescentes cujo maior desejo é
prestar-se à clonagem, assim como consumir os clones de si mesmas. A tal
ponto que quando acaba a adolescência e são expelidas deste mercado, é
comum sua subjetividade esvaziada cair em depressão.
Assim, os protagonistas queTunga elege para suas instaurações são
aqueles que ficam totalmente fora do campo de visibilidade e aqueles que,
ao contrário, ocupam toda a extensão do campo e que são eles mesmos pura
imagem. Os totalmente excluídos e os totalmente incluídos. Duas formas
de empobrecimento da vida enquanto potência criadora. Miséria material
e social de uns. Miséria espiritual e subjetiva de outros. O que acontece
quando estas figuras tomam-se personagens de si mesmos no cenário da
arte? Examinemos algumas instaurações de Tunga.
Convidado pelo Instituto Itaú Cultural para propor uma obra na ave­
nida Paulista, Tunga decide trabalhar com office boys, numa instauração
que ele chamará de Cem terra. Office boys transitam pela avenida durante
todo o horário do expediente, pois são eles os mensageiros não eletrônicos
entre os escritórios de luxo das corporações que substituíram as mansões
dos barões do café, e entre a elegante avenida e outras áreas da cidade. E,
110 entanto, é como se não pertencessem à paisagem oficial, a qual se in­
terpõe entre o olho e a realidade, como um filtro que impede de enxergá-
los e os transforma em “sem-terra” . Quando Tunga leva uma centena de­
les a ocupar um quarteirão inteiro da avenida, o que se instaura ali é uma
terra que eles criam a seu modo, com a cultura de seus gestos, suas marmi­
tas, as redes onde descansam seus corpos nordestinos, sua facilidade err
montar barraca em qualquer lugar a qualquer hora, habituados que estão i
nomadizar pela cidade. E a instauração deste mundo que se fará aqui obrt
de arte. O nada daquelas vidas supostamente inexistentes reanima-se, sa

" lí o caso das instaurações: Cem Terra, SP, 1997, que volta no Reina Sofia, Madrid, 2 0 0 1
Tereza, entrega do prêmio Johny Walker, M useu de Belas Artes, RJ, 1998, que retoma nc
mesmo ano na galeria Cristopher Grime, Los Angeles, em 1999, no Centro Cultura
Ricolcta, Buenos Aires, e em 2000, na Bienal da Coréia c na Bienal de Lyon; e, po
ultimo, a proposta para The Quiet in lhe LandII, Salvador, 2000, aqui privilegiada

211
do limbo e volta a pulsar. Anarquiza-se a cartografia da avenida: instala­
dos ali inteiramente à vontade, eles ganham uma existência na paisagem,
agora não mais passível de ser ignorada: o espectador/transeunte é obriga­
do a vê-los, e a relação entre eles não pode mais ser denegada. A força do
resultado formal, tanto na escolha dos objetos e corpos, quanto em sua dis­
posição na avenida, é inseparável do sucesso da problematização que a obra
opera, seu efeito disruptivo.
Já em Tereza, Tunga trabalhará com um grupo de sem-teto. O nome
da instauração vem de uma conhecida prática dos presidiários que consis­
te em usar os cobertores disponíveis para fazer tranças de vários metros
com as quais tentam fugir da prisão. Os sem-teto deverão fazer “terezas”
que, neste caso, servirão para fugir do museu ou galeria onde a instaura­
ção se faz. Como pontua o próprio artista, a obra aqui é ao mesmo tempo
individual e coletiva, ao mesmo tempo escultura e instrumento de fuga do
espaço da arte, instauração de uma ligação entre o espaço do museu e o
espaço da rua onde vivem os sem-teto. Mais uma vez, instaura-se uma con­
fusão no mapa dominante, ao qual estes personagens não estavam incor­
porados, como os office boys Cem Terra.
Muitas das vezes que realizou tanto Cem Terra como Tereza, Tunga
foi obrigado a utilizar-se de figurantes classe D para fazer os papéis de office
boys ou presidiários. A razão alegada foi a exigência de leis trabalhistas
que protegem os atores, mas talvez a razão implícita, mais decisiva, tenha
sido o pavor que provoca nos espaços institucionais da arte, a idéia de se­
rem ocupados por esta “corja de marginais” . De qualquer modo, a estraté­
gia não perde seu vigor, pois o que são tais figurantes senão desemprega­
dos que desempenham papéis de quem não teve oportunidade de aprender
coisa alguma, e só cumpre funções inespecíficas, no palco, como na vida.
Eles pertencem à mesma população que office boys, sem-terra e sem-teto,
adultos ou meninos - todos eles figurantes classe D deste mundo em que
vivemos.9 Continua portanto sendo no mesmo meio que o trabalho instau­
ra um deslocamento crítico.
Em todos estas instaurações, reativa-se a função poético-política da
arte, produz-se uma resistência à tentativa de pervertê-la: a obra volta a ser

9A esse respeito, são significativas as anedotas em tomo de Tereza. Quando a instauração


foi feita pela primeira vez, com figurantes recm tados no Rio de Janeiro, muitos deles já
haviam passado por registro policial, talvez a maioria deles fosse composta de ex-presidi-
ários. Q uando Tunga lhes ensinou como fazer uma tereza, foi motivo de gargalhada geral.
Na terceira vez que a instauração foi feita, em Buenos Aires, os protagonistas foram sem-
teto recmtados nas m as por um gmpo de jovens anarquo-surrealistas. A notícia de uma
vaga de emprego, tão rara para aquela população, espalhou-se muito rapidamente pela
cidade, provocando uma fila enorme de candidatos no dia da seleção.

212
problematizadora do meio onde ela se faz. Na contramão do sistema que
ou reconhece modos de fazer território para cloná-los, ou marginaliza os
inclonáveis, Tunga cria para estes modos de subjetivação um espaço de
visibilidade onde eles atuam ao vivo, protagonistas de si mesmos, com seu
próprio elenco de ferramentas e materiais de construção de território. Os
clonáveis, como é o caso das top-models, vivem na cena o movimento con­
trário àquele que os converte em clichês: a instauração parte exatamente
de sua imagem clonada, no próprio meio em que é lançada ao mercado, o
desfile de moda, mas para tentar liberar a vida que ficou ali aprisionada.
Os não clonáveis, sobras tomadas invisíveis, como office boys, sem-teto,
presidiários e figurantes de classe D, saem dos bueiros da marginalidade e
ganham a cena. Embaralham-se as cartas, redistribuem-se os sujeitos no
campo de visão, desautoriza-se a cartografia oficial estabelecida pelo ca­
pital como princípio norteador.
Neste contexto podemos problematizar a instauração Salitre + En­
xofre + Carvão que Tunga propôs para a parceria e n tre i Quietude da Ter­
ra II e o Projeto Axé.10 Criar um cotidiano de convívio entre um certo tipo
de artistas, de diferentes origens, e garotos ex-habitantes das ruas de Sal­
vador, que inseridos no Projeto Axé, tentam libertar-se do confinamento
na marginalidade, tendo na arte uma de suas principais armas. A que vem
esta curiosa iniciativa? É verdade que entre crianças e artistas há ressonân­
cias. Ambos tendem a explorar o meio onde vivem, ensaiar conexões e
desconexões; experimentar devires. É nesta lúdica irreverência que tomam
corpo seus territórios de existência - brincadeira, num caso; obra, no ou­
tro - , subjetividades em elaboração, indissociáveis do meio. Criança e ar­
tista seriam portanto os modos de subjetivação que mais se distanciam da
situação reinante de torpor do sensível e nivelamento da percepção, e mais
se aproximam da anomalia.
Mas a realidade está longe disso: exatamente por sua anomalia, artis­
tas e crianças interessam especialmente ao capitalismo renovado. Se o ar­
tista, como vimos, é incontestavelmente atraente para a indústria da clo­

10A Quietude da Terra II é um projeto criado por France Morin (fundadora da revista de
arte canadense Parachute e ex-curadora do N ew M useum of Comtemporary Art de Nova
York). A curadora convidou 17 artistas contemporâneos de diferentes países, para c|iie
cada um desenvolvesse, durante um mês e meio, um projeto com grupos de crianças que
já viveram nas ruas de Salvador. O conjunto dos trabalhos teve 7 meses de duração, entre
1999 e 2000. Uma exposição com as obras resultantes dos 17 projetos foi organizada no
M AM da Bahia em julho de 2000, acompanhada de um livro/catálogo bilingüe. O acesso
ás crianças se deu através de uma parceria com o Projeto Axé, instituição baiana que há
vários anos vem desenvolvendo um trabalho pedagógico e artístico com meninos que
vivem na rua

213
nagem, na criança, o exercício da capacidade poética, tende a ser inibido
pela infantilização, produto das forças aliadas do familialismo, da peda-
gogização e do mercado que fazem dela um consumidor mirim.
Ora, crianças que vivem ou viveram na rua talvez sejam as que mais
escapem à infantilização. É que sua própria condição as obriga a explorar
e cartografar os meios por onde circulam, de modo a improvisar territó­
rios de existência. São pequenas comunidades autogeridas, que se formam
e se dissolvem na velocidade de seu nomadismo forçado pelos imprevisí­
veis remansos da vida urbana. Mas atenção, seria certamente ingênuo idea­
lizar estas crianças: confinado à cloaca da cidade, o exercício desta sua
potência não desemboca em nada além da sobrevivência, isto quando bem-
sucedido, o que já é muito face o destino de morte violenta e prematura
que ameaça aquelas existências sem-valia.
É verdade que o equívoco mais recorrente em relação a estas crian­
ças não é sua idealização, mas sua diabolização ou vitimização. Quando
diabolizadas, o desejo é de eliminá-las do cenário e o caso é de polícia ou
de justiça; quando vitimizadas, o desejo é de salvá-las, e o caso fica então
entre a psicologia, a pedagogia e a arte. É evidente a necessidade de criar
para estas crianças oportunidades de sair da marginalidade, e portanto é
incontestável o valor de iniciativas com esta pretensão, seja da psicologia,
da pedagogia, da arte, ou de qualquer tipo de associação entre elas. O peri­
go é de, ao invés de reconhecerem o modo próprio de subjetivação daque­
las crianças em sua positividade, para dele extrair uma potência em sua
inserção, tais iniciativas as enxerguem como vítimas que deverão ser sal­
vas através do modelo da criança infantilizada, que tentam projetar sobre
elas. Quando isto prevalece, um efeito paradoxal pode resultar da genero­
sidade que move este tipo de prática: não encontrando ressonância, a foi
ça poética, especialmente viva naquelas existências, corre o risco de min­
guar. Neste caso, em vez de combatida, a inibição desta força estará sendo
reiterada, agora não mais pela exclusão social, mas pela domesticação, que
pretende integrar estas crianças ao mundo dos clones infantis; no lugar de
anômalos, lhes caberá então o destino de cidadãos normais, provavelmen
te com menos chances de “sucesso” - isto quando não caírem na categoria
de anormais, e em sua conseqüente patologização.
Como criar meios para favorecer a inserção destas crianças sem que
elas percam sua preciosa anomalia? O que a arte tem a ver com isto? lista',
e outras perguntas envolvem tal complexidade que o único que se pode
pretender é pensá-las o mais precisamente possível, e experimentar estia
tégias que as problematizem o mais agudamente que se conseguir.
A proposta deTungavai nesta direção: encontrar procedimentos que
façam do encontro com aqueles garotos a ocasião, por mais fugaz e incei

214
ta, de driblar, na alma da criança que já viveu na rua, mas igualmente na
alma do artista, a faceta perversa do sistema econômico vigente que tende
a cercear sua potência criadora, excluindo um e clonando o outro. Para isso
o artista terá que contar com a cumplicidade de uma sintonia efetiva com
aquelas crianças. É na anomalia, comum aos dois, que ele irá encontrar esta
cumplicidade; mais precisamente, na anomalia que busca afirmar-se como
tal sem ser clonada, nem marginalizada. De fato, há provavelmente sinto­
nia entre uma criança que já viveu na rua e está em luta contra sua margi-
nalização, mas tentando através da arte não perder sua singularidade, e um
artista que se associa ao sistema da arte que lhe oferece oportunidades de
realização, mas não perde a força problematizadora de seu trabalho de cria­
ção, artista que resiste portanto à cafetinagem do sistema, sem cair no man s
land da marginalidade - sem dúvida, o caso de Tunga. De todo modo, há
provavelmente mais sintonia entre este tipo de criança e este tipo de artis­
ta do que entre uma criança que já viveu na rua e a maioria das crianças
infantilizadas que vivem em família. Do mesmo modo, há provavelmente
mais sintonia entre este tipo de artista e este tipo de criança, do que entre
ele e artistas que se submetem sem crítica a tal cafetinagem, e até a dese­
jam, chegando inclusive a conduzir a criação para tomar-se seu objeto;11
ou entre este tipo de artista e que se mantém fora da jogada, remanescen­
tes tardios de um romantismo supostamente heróico. Atualizar esta sinto­
nia virtual entre anômalos, para criar um campo de forças que os sustente,
lhes permita resistir à cafetinagem de sua força criadora, e libere devires
nos dois campos, ainda que infinitesimais, é o desafio que Tunga parece
propor-se a enfrentar. O quanto isso será possível, não dá para prever. Efei­
tos deste tipo dependem de uma trama complexa e sutil de fatores; não há
como planejá-los; eles acontecem ou não.
Tunga apostará todas suas fichas na potência do ritmo na cultura bai­
ana, que ele pretende convocar em sua instauração Salitre + Enxofre +
( 'arvão. Importante força no processo de subjetivação dos baianos que, por
sua exuberância, tomou-se de uns anos para cá a menina dos olhos da in­
dústria fonográfica, a qual extrai daí matéria-prima para a fabricação de
um de seus mais rentáveis produtos, seguindo a lógica do capitalismo con­
temporâneo anteriormente mencionada. Em sua ambigüidade imanente,
esta estratégia tem ampliado espantosamente as oportunidades para os
músicos baianos; mas, por outro lado, a tendência é o ritmo ser clonado e
destituído de sua vitalidade, para ser devolvido ao mercado como um con-
limto limitado de trejeitos estereotipados, mímica empobrecida que forma

11CT José (ill, /I confusão como conceito In Os anos 80. Culturgest, Lisboa, 1998

215
a identidade prêt-à-porter “estilo baiano” : carcaça de um corpo reduzido
a clichês de sexualidade, que perdeu o erotismo e a potência poética de so­
nhar mundos. A vertente perversa se completa com o consumo deste pro­
duto pelo próprio baiano de quem se extraiu a seiva para produzi-lo. O
“baiano” que vem conquistando seu lugar no mercado multicultural do
Brasil e do mundo globalizado tende a ser, em muitos casos, esta imitação
servil de seu clone.
“Axé music” é o nome de um dos produtos desta vampirização do
“axé” - palavra de origem iorubá que designa a energia sagrada dos ori­
xás, poder vital presente em todos os seres e todas as coisas, força criado­
ra, e que neste sentido mais amplo foi incorporada à língua brasileira. A
indústria fonográfíca, em seu vetor perverso, tem o cínico requinte de usar
o próprio nome da força que parasitou, o axé, para batizar seu clone estéril
que ela fabrica e comercializa. Mas o ritmo naquela cultura é um manan­
cial tão rico que, apesar do sucesso desta maquinação sinistra, seu axé não
se esgota, sua força de existencialização mantém-se viva, a criação não pára.
A instauração terá início com os garotos reunidos numa área lateral
da exposição, como numa concentração de escola, formando um grupo
compacto e fazendo uma certa algazarra. Com um aceno de Tunga, a arru­
aça se generalizará sob a forma de um bloco que desfilará arrastando e ro­
lando os tambores pelo chão, armando uma verdadeira hecatombe musi­
cal. Aos poucos, cada um irá se desgarrando do grupo, sozinho ou em par,
com a tarefa de encontrar seu lugar naquele espaço. Uma vez instalado,
irá descobrir as substâncias e utensílios domésticos que Tunga colocou a
seu dispor12. Com curiosidade investigativa, deverá então improvisar um
uso musical daqueles apetrechos, com a única ressalva de evitar qualquer
referência conhecida.
Tunga fará do museu o espaço de um ritual, que oficiará a abertura
da exposição, transformando o museu num híbrido de arte e terreiro. Ao
pedir aos garotos que busquem um a um seu lugar naquele espaço, é o
traçado de seus corpos que dem arcará ritualmente os territórios, criando
uma nova paisagem, tanto na geografia do museu, quanto na geografia

12 Entre os objetos, Tunga privilegia os de folha de Flandres, utensílios artesanais que


im itam aqueles de alumínio fabricados industrialmente, e recriam à sua maneira no dia-a-
dia das casas mais humildes, um certo cenário das casas abastadas - funis, raladores,
assadeiras, batedores de clara, pás de pegar farinha ou açúcar em barracas de feira,
lamparinas, tiofós, agulhas e fios. Acrescentará ainda, objetos de algodão: rolos e cotonetes,
mas tam bém limpadores de copo e garrafa, coadores de café, etc. E m ais outros tantos
apetrechos: luvas de borracha de operário, rabinhos de coelho e coisas quetais. Entre as
substâncias, ceras, farinhas e ingredientes do gênero, e três bacias contendo salitre, enxo­
fre e carvão respectivamente.

216
de suas existências. Ao pedir em seguida, que uma vez instalados, pes
quisem os utensílios de seu cotidiano e façam com eles um som desco
nhecido, também os objetos estarão adquirindo uma função ritualística
O tambor é o objeto emblemático por excelência do tráfico do ritmo efe
tuado pela indústria fonográfíca, a qual o faz transitar de instrumento ri
tualístico e criador, para matriz de clonagem e sua mimese. Não por aca
so, aqui é exatamente o tambor que será o agente do caminho de volta
ou mais precisamente do caminho de ida, agente da resistência. Com o
tambores se arrastando e rolando pelo chão, produzindo aquela balbúr
dia sonora e, depois, no encontro dos tam bores com os utensílios domés
ticos transformados em instrumentos improvisados, gerando aquele son
estranho, um quebra-quebra ou arrastão sonoros se anunciarão eventu
almente na memória. Mas na verdade se algo estará se quebrando, po
um breve momento, é o invisível jogo de cartas marcadas da relação en
tre o museu e seu fora, levando de roldão a marginalização daqueles me
ninos, a clonagem de seu ritmo e da força do artista. Por um breve mc
mento, talvez se quebre a tendência a mimetizar o clone de si mesmo qu
uma cena como esta, de grande visibilidade e prestígio, poderia esta
mobilizando no artista, como nos garotos; e, ao invés disso, se reative
no artista, a potência crítica da arte e, nos garotos, a potência do ritm
como agente de construção de território. Um quebra-quebra invisível, me
cumba para os novos tempos.
O caráter ritual das instaurações de Tunga situa-se no rastro do cam
nho aberto na arte por Lygia Clark, para quem o artista contemporâneo é
propositor de “um rito sem mito”. De fato não haverá aqui nem rito, nei
mito, estabelecidos apriori. O ritual será comandado pela realidade sens
vel daqueles garotos, convocada em sua alma e encarnada em seus gesto
na ginga refinada de seus corpos e em seu modo de explorar os objete
conhecidos naquele universo desconhecido, tateando o estranhamento qi
esta ambigüidade mobiliza. O mito se engendrará do próprio ritual, ma|
imanente da singularidade daquelas vidas. É esta liberdade de cartografa
driblando a clonagem de suas cartografias, que estará se inscrevendo ei
sua alma, como um mito apropriado para o contemporâneo, na contraco
rente da eternidade de mitos absolutizados do passado, mas também c
valor genérico dos mitos descartáveis do presente.
Terminada a instauração, espera-se que o acontecimento não se pac
fique, e que sua memória permaneça vibrando durante todo o tempo <
exposição, nos objetos que compõem a instalação: restos do ritual que :
deu naquele recinto, como ficam restos de despachos na natureza ou e
encruzilhadas das cidades, esperando que o recado chegue aos Orixá
Contaminada pelo meio onde se produziu desta vez, a obra de arte revel

2
se como despacho, portadora de um poder mágico de interferência ener­
gética no ambiente, para nele combater as forças reativas e liberar a cria­
ção. Interferência imperceptível mas efetiva. E, como todo despacho, fica
na obra gravada a memória desta experiência: a afirmação da força políti-
co-poética na prática artística e a afirmação da força do ritmo de criança
não infantilizada na subjetividade daqueles meninos - memória de uma
linha de desterritorialização que os arrastou ambos, o que só foi possível
por se tratar de um encontro entre as forças da anomalia em cada um de­
les, e assim mesmo por um breve instante. Não dá para saber se esta me­
mória estará reverberando naqueles objetos, se os Orixás a terão ouvido e
abençoado, nem por quanto tempo permanecerá no ar depois que a insta­
lação tiver sido desmontada.
Não há ato de criação que não pegue a revés, ou não passe por uma
linha liberada”, escrevem Deleuze e Guattari.13 Promover algo que se pa­
reça “com uma atmosfera ambiente, onde só a vida pode engendrar-se”14
ainda que fugazmente, é o que Tunga deseja com seus despachos nos
museus. E, mesmo assim, como ele próprio prudentemente adverte, “sabe-
se lá o que vai acontecer. .

13G. Deleuze et F. Guattari, Mille Plateaux. Capitalisme et schizophrénie, “ 1730 - Devenir-


mtense, devenir-animal, devenir-imperceptible [...]”, Plateau 10; “ 1730 - Devir-intenso,
devir-ammal, devir-imperceptivel [. . .]”, Platô 10, deM ilplatôs, v.. 4, trad. Suely Rolnik.
Ed. 34, São Paulo, 1997.
14 Cf. N ietzsche, Considérations intempestives, “U tilité et inconvéniant des études
historiques”, paragraphe 1; citado por G. Deleuze et F. G uattari, in Mille Plateaux.
Capitalisme et schizophrénie, “ 1730 - D evenir-intense, devem r-anim al, devenir-
imperceptible [...]”, Plateau 10; p.363; Mil platôs, v. 4, trad. Suely Rolnik. Ed. 34, São
Paulo, 1997.

218
TEMPOS EMPILHADOS
E ESPACIALIZADOS:
QUESTÕES SOBRE A SUBJETIVAÇÃO
NO PROCESSO CRIATIVO
DE TRABALHOS PLÁSTICOS

C láudia M aria França Silva Gozzer

1. ARTE PARA A SUBJETIVAÇÃO E A CLÍNICA

Uma
orelha.
Comecemos este texto com uma orelha, esta parte do corpo relacio­
nada à função auditiva, e que no entanto, de quando em quando, inscre­
ve-se no universo das artes visuais. Algumas dessas ocorrências pode­
riam ser citadas, desde o “estilo orelha”, uma outra denominação da
estética barroca quanto aos seus volteios compositivos, no uso de rocalhas
e volutas, propiciando uma linha serpenteada, labiríntica - tal qual uma
orelha.1 Op o objeto de apreciação do connoisseur Morelli, que ao estu­
dar uma obra para dar-lhe uma atribuição, reparava não no seu foco
compositivo, mas no estilo que se repetia em zonas desprivilegiadas,

Cláudia M aria França Silva Gozzer, natural de Belo Horizonte, é artista plástica e
professora auxiliar na Universidade Federal de Uberlândia, onde leciona disciplinas nas
áreas de Desenho e Expressão Tridimensional. Atualmente é mestranda em Poéticas visu­
ais pelo Instituto de Artes da UFRGS e bolsista CNPq. Seu projeto de pesquisa é intitulado
(iravidade por um fio: o peso e a leveza em um projeto de instalação, e deverá ser defen­
dido em maio de 2002.
1“Nunca foi despropositado assemelhar a forma do barroco à profundidade curvilínea de
uma orelha; circunstância que lhe valeu ser designado na Baviera do Sul, por estilo de
orelha.” Emídio Rosa de Oliveira, Profundidade. In: Pereira, Paulo (coord.) Dicionário
da arte barroca, Portugal, Lisboa Editorial Presença, 1989, p .387.

210
periféricas, como as pontas dos dedos das figuras representadas, ou os
lóbulos de suas orelhas.2 Lembremo-nos também do filme Veludo Azul,
de David Lynch, em que o personagem principal encontra uma orelha
perdida no meio de uma folhagem, esse enigma iniciando, de maneira
insólita, o suspense de toda a trama.
Entretanto, a orelha mais famosa parece ser uma daquelas que van
Gogh extirpou de seu corpo. Esse ato de insanidade e sacrifício lhe garantiu,
pelo menos no senso comum, um rótulo - o de louco - tão reconhecido e
adotado para a classe artística quanto o de gênio, outorgado ao autor de A
Monalisa. No entanto, tanto o rótulo de louco quanto o de gênio não são
nem um pouco confortantes para quem é artista nos dias de hoje. Ambas
classificações são marginais, colocam o autor visual como um indivíduo
isolado da sociedade, cuja obra não é resultado do seu trabalho, mas de
algo que transcende o próprio artista. Alguém que toma-se objeto para
que o outro o idolatre ou mesmo zombe dele. Uma imagem aquém ou
além do outro, enfim, nunca alguém igual a ele, em conformidade com a
própria condição efêmera, trágica e instável de qualquer ser humano.
No meio artístico, porém, Van Gogh, de louco, converteu-se de certa
maneira em um parâmetro para nós artistas, como agente da subjetivação:
“a soberania da subjetividade, enquanto agente da verdade, é a grande
questão modema. O sujeito é um guerreiro que se faz conquistando a si
mesmo, fazendo de seu corpo agente do sentido. Ninguém melhor do que
Van Gogh... Seu dilaceramento intemo. Seu incômodo no mundo”.3 O ato
de Van Gogh desvia-se de ser um ato insano para colocar-nos sobre a
liberdade, o sacrifício, a ousadia e a necessidade de engajamento do artis­
ta contemporâneo com sua própria obra - uma questão ética para o artista:
depois dele, “cortar a orelha virou matéria obrigatória nos currículos de
história da arte”.4
N esse sentido, parecem-nos no mínimo “simpáticas” algumas con­
siderações de profissionais da psicologia clínica que colocam o artista
e a arte em geral como focos de mira para se pensar o processo de
form ação do sujeito e a própria prática clínica. Isso porque há um in­
vestim ento do artista em seu fazer e em seu pensar, antes, durante e
depois desse fazer; nesse mesmo fazer, ele, enquanto sujeito, também

2 Segundo M orelli, toma-se “necessário examinar os pormenores mais negligenciáveis, e


menos influenciados pelas características da escola a que o pintor pertencia: os lóbulos
das orelhas, as unhas, as formas dos dedos das mãos e dos pés.” Cf. Ginzburg, Carlo.
Mitos, emblemas e sinais. São Paulo: Companhia das Letras, 1989, p. 144
’Doctors, Márcio. A verdade e o sujeito. Guiadas artes. São Paulo: n. 18, 1990, p.34-40: 37.
4Basbaum , Ricardo, apud Doctors, op. cit., p.40.

220
se faz. Há uma perspectiva ética nessa atitude do artista que tais consi­
derações procuram salientar.
Sueli Rolnik é autora de um desses textos. Ela propõe-nos um percur­
so em direção ao interior de uma subjetividade, tendo a pele como estrutura
de acesso, que, se num primeiro momento é da ordem da estabilidade, pare­
de que determina as diferenças do fora e do dentro, à medida dessa viagem,
vai se transformando em estrutura vibrátil, permeável às oscilações exter­
nas e escoando-as para dentro. A cada nova reação do interior do indivíduo
com o fora - a cada “dobra” sofrida pela pele, a autora nomeia de diagrama:
“cada vez que um diagrama seforma, a pele se curva novamente —[...] cada
modo de existência é uma dobra da pele que delineia o perfil de uma deter­
minada figura de subjetividade.”5 É nesse sentido que podemos perceber a
carga de transitoriedade e flexibilidade que assum e o processo de
subjetivação: um processo que desterritorializa quaisquer tentativas de se
fixar tempos e espaços. Melhor seria dizer que dentro e fora não seriam
mais categorias fixas do espaço, mas “situações espaciais”: “cada linha de
tempo que se lança é uma dobra que se concretiza e se espacializa num
território de existência, seu dentro. [...] Cada figura e seu dentro dura tanto
quanto a linha de tempo que a desenhou [...]”. 6
Entretanto, esse processo não se dá de maneira assim tão simples. Se
essa relação do indivíduo com o meio promove uma certa homeostase, há
dentro de todos nós, como que um dentro cristalizado, uma “árvore” aves­
sa aos trânsitos, sempre a postos, dotando a pele de filtros que permitem
entrar somente o fora “conveniente”. Cria-se, na radicalidade dessa crista­
lização interna, uma situação de “inconciliabilidade” : um mal-estar dado
pela impossibilidade de superação dessa tensão. Essa seleção do “fora”
interrompe o fluxo natural do tempo, culminando na modalidade de inter­
rupção “drogadição de identidade” :

O viciado em identidade tem horror ao turbilhão das linhas de tempo cm


sua pele. A vertigem dos efeitos do fora o ameaçam a tal ponto que para
sobreviver a seu medo ele tenta anestesiar-se, deixando vibrar em sua pele,
de todas as intensidades do fora, apenas aquelas que não ponham em risco
sua suposta identidade. Este homem se vê então obrigado a consumir al­
gum tipo de droga se quiser manter a miragem de uma suposta identidade.
[...] Obviamente, ele nunca chega lá, já que lá é uma miragem. E quanto
mais se frustra, mais corre atrás; e quanto mais desorientado, estressado.

5Rolnik, Sueli. Subjetividade, ética e cultura nas práticas clínicas. Cadernos de subjeti­
vidade. Sâo Paulo: PUCSP, v .l, n .l, 1993, p.305-313; p.306.
Mbid., p.307.

221
ansioso, perseguido, culpado, deprimido, em pânico, mais ele se droga.
Um círculo vicioso infernal.7

Sueli Rolnik vê a diferença no artista, na maneira pela qual ele “admi­


nistra” as suas transformações internas com o exterior e as repõe em obra.
Assim, se ele sempre se apresenta como diagrama em gerúndio, seu trabalho
coloca-se na mesma situação - o work in ptvgress - ao mesmo tempo alimen­
tando e sendo alimentado pelo meio. Atentemo-nos aqui para o sentido de
“obra aberta” de Umberto Eco, obra cuja condição de existência repousa no
seu devir, na abertura semântica que permite a sua atualização através do
tempo - “como proposta de um “campo” de possibilidades interpretativas,
como configuração de estímulos dotados de uma substancial indeterminação,
de maneira a induzir o fruidor a uma série de “leituras” sempre variáveis [...]”8
- e percebamos como a obra aberta afina-se com o pensamento de Rolnik
sobre a destinação social dessa subjetividade-(em)-obra:

é primeiro em microuniversos culturais e artísticos que relações de força inédi­


tas ganham corpo e, junto com um corpo, sentido e valor. Estes microuniversos
constituem cartografias [...] do ambiente sensível instaurado pelo novo diagra­
ma. Tais cartografias ficam à disposição do coletivo afetado por este ambiente,
como guias que ajudam a circular por suas desconhecidas paisagens.9

7Ibid, p.308-309. Esse “vício de identidade” parece encontrar eco no texto de Luís C láu­
dio Figueiredo, ao colocar sobre a condição do estrangeiro na formação do sujeito. O
estrangeiro, que muitas vezes está muito mais próximo do que comumente se espera,
pode su scitar reações de reforçar em alguém com “drogadição de id en tid ad e” o
estranhamento, “mantendo o estranho tão longe quanto possível [...]” Cf. Luís Cláudio
Figueiredo,/! questão da alteridade nos processos de subjetivação. In: Catenna KoltaI(org.)
O estrangeiro. São Paulo: Escuta/Fapesp, 1998, p 62.
8Eco, Umberto. Obra aberta:forma e indeterminação nas poéticas contemporâneas. São
Paulo: Perspectiva, 1976, p. 150. M ais à frente o autor complementa: “ [...] assim como o
leitor escapa ao controle da obra, a certa altura a obra parece escapar ao controle de quem
quer que seja, inclusive do autor, e prosseguir o discurso “sponti sua”, como um cérebro
eletrônico enlouquecido. Então, não há mais possibilidades; mas o indistinto, o originá­
rio, o indeterminado em estado selvagem, o todo, o nada.” Ibid, p. 162.
9Rolnik, Sueli. Umberto op. cit., p .308 A drogadição de identidade surge como o estágio
em que seria útil uma ajuda profissional. E é aí que esse diagrama em aberto - a figura do
artista - é chamada a ser, pelo menos observada, não somente pelo paciente, mas sobretu­
do pelo profissional que o atende. Abre-se, além de uma “porta” social para a figura do
artista, outra perspectiva, ética. Aqui entende-se ética como afirmação da vida enquanto
continua desestabilização. Uma ética dada por essa constante subjetivação e que deve
chegar até o profissional, impelindo-o a uma nova postura: “estar à escuta da dor causada
pela desestabilização, anunciadora da finitude. [...] é preciso [...] suportar esta dor em nós
mesmos e improvisar modos de existência que dêem sentido e valor para aquilo que o
m al-estar de nossa pele nos sopra.” Sueli Rolnik, op. c i t , p.310.

222
Já Cristina Rauter constrói seu pensamento tendo como horizonte a
afirmação de Deleuze e Guattari da Arte como sendo uma “psicanálise
bem-sucedida”, esperando que, à maneira do processo artístico, haja tam­
bém, por parte da clínica, uma “eficácia [.. .] no sentido de produzir muta­
ções no campo da subjetividade”.10 No entanto, desde já ela afasta-se tan­
to de um a concepção de Arte que lida com questões biográficas e
idiossincráticas de artistas quanto de uma idéia historicista da Arte e de
valorização da memória. A autora, ao enfocar seu olhar para a Arte, o faz
na perspectiva do impacto social e estético dos movimentos de vanguar­
da. E é por isso mesmo que seu ponto de partida é o fim do século XIX,
dado como o início da arte moderna, que caracterizou-se pelo rompimen­
to com a tradição. Juntamente com a noção tradicional e instituída de arte,
outros valores também começam com sua derrocada ao fim do mesmo
século. É o caso da família burguesa, sobre cujos escombros nasce a psi­
canálise, campo de impasses a atuar sobre o sujeito, instância “já em deri­
va” : “nunca se lutou tanto por um eu, e nunca a produção da subjetividade
teve um caráter tão serializado, tão uniformizado e impessoal”.11
Ao referir-se às vanguardas artísticas, a autora notadamente detém-
se no construtivismo russo, por perceber relações deste com a “Clínica
Construtivista” de Guattari, “capaz de romper com ideais de cientificidade
ultrapassados, tomando paradigmas ético-estético-políticos”.12 Esses
paradigmas refutam os princípios da verificabilidade científica e da
imprescindibilidade de provas para se constatar um fato ou uma teoria.
Entretanto, se os vícios do utilitarism o e do tecnicismo cerceiam a
inventividade criadora, tal como se deu no próprio Construtivismo Russo,
processo similar pode acontecer na prática clínica. Essa “tentação prag­
mática e utilitária” é verificada pela questão do trabalho. Há uma tentativa
de adaptação do psicótico ao sistema ou da intensificação de sua capaci­
dade criadora, mas tomando-o alheio ao resultado de sua produção.
E assim a autora prossegue: estabelecendo relações de analogias des­
sas novas proposições artísticas questionadoras de valores estético-artísti-
cos arraigados no seio da sociedade, com a necessidade de produção de
“novos universos existenciais” que possam colocar-se frente a antigas es­
truturas do ser social, ela detecta essas relações como crises que se tornam
làtores geradores de novas propostas artísticas. Rauter fará um interessan­
te paralelo entre alguns conceitos de Deleuze e Guattari e de depoimentos

'"Rauíer, Cristina. Subjetividade, arte & clinica. In: Andrc Silva et alli (org.) Subjetivida­
de: questões contemporâneas. São Paulo: Editora Hucitec, 1997, p. 109-119, p. 109.
" Ibid., p. 114.
11Ibid., p. 112.

223
dados por Malevitch. Se para este artista o passado era encarado como um
obstáculo, isso implicava em um conceito de inventividade que admitia o
novo, um conceito de criação que compactuava com a postura moderna
em geral. Assim, para ele havia uma instância criadora, que ele denomina
de “vazio criador”, de onde provêm as formas e os objetos do mundo da
ciência. Essa idéia, entretanto, foge da noção de transcendência que ali­
menta a Filosofia até o fim do século XIX. Sua arte, pelo contrário, se
visualizarmos o “quadrado preto” ou o “quadrado branco sobre fundo bran­
co”, nada diz dessa transcendência, mas de uma imanência que se traduz
na própria superfície do quadro, ele então sendo visto na sua própr a
objetualidade. “Malevitch criou a denominação superfície plana pictural
para designar o que considerava ser a grande invenção modema das artes
plásticas, ao se desprender da função representativa.”13 Esse plano não
representacional significaria, assim, a autonom ia da pintura e sua
desvinculação a qualquer função externa a si mesma.
Num caminho diferenciado do de Malevitch, Deleuze14 chega a essa
potência de criação, denominada de “plano de imanência” . Um plano do
qual nos servimos na criação de nossa subjetividade, o caos originário do
qual tudo provém. Nossa subjetividade, entretanto, não como organizadora
desse caos, mas advinda dele, de um “inconsciente maquínico” : “um in­
consciente que se autoproduz, que é este plano a partir do qual todas as
formas são criadas,” onde o que importa não é o resultado obtido (o sujei­
to), mas “os deslocamentos ou os agenciamentos”15 (a subjetivação). Che­
gamos assim à idéia de que, se o inconsciente maquínico opera na forma­
ção de uma subjetividade por uma riqueza processual de agenciamentos,
de maneira analógica isso se dá com o sujeito-artista e se dá na arte con­
temporânea, especificamente aquela derivada das experimentações dos
anos 60 e 70, cuja força e interesse estão calcados no espaço entre a con­
cepção inicial de uma idéia e sua provável concretização. Algo que se
assemelha assim ao termo poiein, um resgate do próprio termo fazer. O
fazer artístico pressupõe uma descontinuidade de ação e tempo, a ação do
acaso como co-estruturador às avessas da obra. O inconsciente maquínico
operando, portanto, no espaço do intervalo: o “coeficiente artístico” esti­

13Rauter, Cristina, op. cit., p. 117.


14Contrariamente ao “pictural”, Deleuze aposta na arte “figurai”, ou seja, aquela que
amda m antém vínculos de reconhecimento com uma realidade externa à da arte. Porém, a
arte figurai coloca-se, com suas formas, em aberto, "para se deixar atravessar por um
campo de forças ” 14, uma força “caósmica”, aqui entendendo-se o caos como germe de
criação. Cf. Rauter, op. cit., p. 118.
ls Ibid., p. 118.

224
pulado por Duchamp, como sendo “uma relação aritmética entre o que
permanece inexpresso embora intencionado, e o que é expresso não inten­
cionalmente”.16

2. CRIAÇÃO EM PROCESSO...

N esta segunda parte que se inicia, gostaríamos de desenvolvê-la uti­


lizando produções teóricas ainda provenientes dos campos da psicologia e
da filosofia, mas que pudessem estar norteando idéias e reflexões sobre o
processo criativo em arte.
Tomemos inicialmente as reflexões de Pierre Lévy, acerca dos con­
ceitos de virtual, atual, possível e real.17 Esses termos adjetivam proces­
sos que se dão com as substâncias e os acontecimentos, cada par - virtual
com o atual, possível com o real, passando de uma latência a uma ocorrên­
cia. Para o autor, essas maneiras de ser - o chamado “quadrívio ontológico”
- acontecem todas juntas, em qualquer situação ou fenômeno, sem uma
linearidade ou uma hierarquia entre elas.
Em relação ao par po ssível/rea l, Lévy coloca sobre a carga
fantasmática que perpassa o possível. Ele é visto como um real ainda não
realizado, não manifesto. Entre o possível e o real há uma relação de
especularidade cujo diferencial repousa apenas na existência “real” do
real, em detrimento da “possibilidade” do possível. Se ambos se asseme­
lham, a passagem de um estado para outro não envolve necessariamente
um ato criativo: “O possível é exatamente como o real: só lhe falta a exis­
tência. A realização de um possível não é uma criação, no sentido pleno do
termo, pois a criação implica também a produção inovadora de uma idéia
ou de uma figura. A diferença entre possível e real é, portanto, puramente
lógica”.18 No entanto, o par virtual/atual trabalha com a idéia de proble­
ma e de solução, o virtual sendo visto como “complexo problemático” e o
atual solucionando esse complexo, até que um outro problema se anuncie.

A atualização aparece então como a solução de um problema, uma solução


que não estava previamente no enunciado. A atualização é criação, inv en­
ção de uma forma a partir de uma configuração dinâmica de forças c fina­
lidades. Acontece então algo mais que a dotação de realidade a um possí-

16Duchamp, Marcel. O ato criador. In: Gregory Battcock, A nova arte. São Paulo: Pers­
pectiva, 1975. p.73.
17Lévy, Pierre. O que é virtual? São Paulo: Editora 34, 1996.
"Ib id , p. 16.

225
vel ou que uma escolha entre um conjunto predeterminado: uma produção
de qualidades novas, uma transformação das ideias, um verdadeiro devir
que alimenta de volta o virtual. [...] 0 real assemelha-se ao possível; em
troca, o atual em nada se assemelha ao virtual: responde-lhe. 19

Por meio desta passagem podemos concluir pela não correspondên­


cia entre o virtual e o atual, em oposição ao que acontece no par real/
possível. Neste, há uma carga de previsibilidade que perpassa da potência
à sua efetivação em algo palpável, uma espécie de execução de um pro­
grama preestabelecido. Isto já não ocorre com o outro par, em que há um
esforço do ser em estar atento àquilo que está produzindo, ou à sua própria
processualidade. Há, portanto, uma submissão do que se pode chamar de
“resultado” ao devir, e por isso mesmo devendo ser considerado sempre
como “resultado parcial .
Não há como não pensar aqui no processo de instauração de uma
obra de Arte. Há uma dimensão do processo que pode se relacionar com o
par possível/real. É quando executamos determinadas ações mecânicas,
previsíveis, que sabemos de antemão o fim a que se propõem. Cada lin­
guagem tem o seu elenco específico, embora sempre aberto, de ações des­
se tipo. A dimensão insuspeita da criação refere-se ao par virtual/atual. O
virtual não possui lugar fixo, é nômade, não se constitui por antecedência,
mas é sempre um novo problema ou questão que se aponta sempre que
uma solução se providencia. Se “ela implica a mesma quantidade de
irreversibiüdade em seus efeitos, de indeterminação em seu processo e de
invenção em seu esforço quanto a atualização”, se ela “é um dos princi­
pais vetores de criação da realidade”,20 podemos associar o conceito de
virtual ao próprio conceito de formatividade de Luigi Pareyson. Para o
esteta, o formar transcende a condição de uma simples execução técnica,
a realização de um projeto em que tudojá está estabelecido. Formar é um
fazer que se auto-inventa.

Uma operação é formativa [...] quando descobriu as próprias regras ao


invés de aplicar regras prefixadas. Formar, então, significa “fazer” e “sa­
ber fazer” ao mesmo tempo: fazer inventando ao mesmo tempo o modo
em que no caso particular aquilo que se deve fazer se deixa fazer [...] Em
síntese, formar significa por um lado fazer, executar, levar a termo, pro­
duzir, descobrir, figurar, saber fazer; de tal maneira que invenção e pro­

19Ibid, p 16-17.
20Ibid, p. 18.

226
dução caminham passo a passo, e só no operar se encontrem as regras d;
realização, e a execução seja a aplicação da regra no próprio ato que c ;
sua descoberta.21

Note-se que os verbos elencados por Pareyson não são excludente:


entre si; entre cada um deles há um “e” oculto que tom a complexo o for
mar. Há um grau de imprevisibilidade que nos lembra os “agenciamentos’
que caracterizam o conceito de rizoma posto por Deleuze e Guattari
agenciamentos ou conexões sempre possíveis e compossíveis, em que s<
descartam os termos excludentes do tipo “ou/ou” para assumirem as cone
xões do tipo “e/e”.22
Entretanto, há um desejo construtivo que permeia a formatividade
proveniente de seu próprio nome. Implica assim na consciência de que h
um plano de consistência, a “potência criadora” colocada anteriormente
mas o processo de formação se servindo desse plano não no intuito d
estabelecer limites rígidos, “arborizá-los”, mas uma organização “frouxa
(uma atualização), aberta a uma outra configuração, sempre que uma nov
questão (uma virtualização) se aponta.
Lévy estabelece um paralelo entre o quadrívio ontológico e as quatr
causas aristotélicas. Por meio da etimologia do verbo existir, Lévy colc
ca-nos que o radical latino sistere, significa estar colocado. Daí derivar
os vocábulos existir, resistir, subsistir, insistir, que irá utilizar para com
plementar o seu raciocínio analógico, além do verbo acontecer.
Para Aristóteles, o movimento das formas, coisas vivas e não vi
vas, movimento esse que provoca a contínua transformação, dá-se pc

21Pareyson, Luigi. Estética e teoria da formatividade. Petrópolis: Vozes, 1993. p.60


” Para os autores, o pensam ento tradicional estrutura-se no m odelo árvore, que
representacional, é o pensamento do “eu” como instância normatizada do ser. Respeita
modelo da descendência, da tradição. É a árvore genealógica, as heranças, a ordem e
classificação. Já o rizoma é o desvio, a produção do próprio inconsciente, é antigcnealógic
Constitui-se de ligações que se fazem sem qualquer critério, apontando sempre para ;
diferenças, para os encontros involuntários. E o modelo da incompletude, o que para i
autores, resume-se na expressão n-1, onde n indica o total: assim, “n-1” demonstra
impossibilidade dessa totalidade, visto que n está sempre subtraído de uma parcela qi
lhe garantiria a idéia de totalidade. Os conceitos de árvore e rizoma relacionam-se, des
forma, ao próprio processo de subjetivação, posto que o ser hum ano faz pele todo o tem|
com o seu meio, transforma-se, ao m esmo tempo que cria modos de fixação desses câi
bios - e que serão novamente desterritorializados.oí/ infinitum. O ser humano, como pi
tensão totalizante, é algo de extrema vulnerabilidade: há um sem-número de forças, sitn
ções de intervalo que a todo momento desmancham o esquema totalizante, convertem!
o no conceito de diagrama colocado por Sueli Rolmk. C f G. Deleuze; F. Guattari, A
platôs, v. 1, São Paulo: Ed. 34,1995.

2:
meio do que ele chama de causas, atuando nos termos da substância (o
ser) e da temporalidade dessas formas. As causas seriam aquilo que con­
tribui para a realidade de uma substância. Utilizando como exemplo o
escultor que realiza uma escultura em mármore, Aristóteles assinala as
causas - material, formal, eficiente e final - que constituem o processo
de criação e realização dessa escultura. Assim, a causa material seria a
matéria do mármore, pedra por meio da qual está sendo esculpida a for­
ma; a causa fo rm a l corresponde à identificação da escultura, espécie de
“iconografia” que nos permite reconhecê-la como sendo uma figura hu­
mana, por exemplo; a causa eficiente seria o próprio escultor, o agente
transformador da matéria, mármore, em estátua de homem; por fim, a
causa final, a finalidade de toda essa ação do escultor, relacionada à
virtualidade, à idéia de potência que ronda a mente do escultor e que o
impulsiona à ação. A causa final determina, portanto, o “destino”, a fun­
ção das formas. Por isso a relação estreita que esta causa estabelece com
a causa formal, que irá particularizar, por meio da causa eficiente, o
objeto. Parte-se assim, da idéia presente na mente do escultor, para o
particular, aquilo que especifica uma forma23.
O autor (Lévy) relaciona, dessa maneira, a causa material com o
conceito de realização, posto que este dá corpo matérico a uma forma,
encama-a, seguindo uma ação mecânica, de resultados mais ou menos
previsíveis. Para Lévy, o real subsiste ou resiste, ou seja, a matéria oferece
resistência à ação. A causa formal, ele vincula-a ao possível, da ordem do
ainda não manifestado, sujeito a um programa que será realizado. “O pos­
sível contém formas não manifestas, ainda adormecidas: ocultas no inte­
rior, essas determinações insistem”,24 ou seja, elas teimam, perseveram na
sua atitude de realização. O atual relaciona-se à causa eficiente visto que
aqui seria o reino do processo de criação propriamente dito. O atual acon­
tece. Há, pela mão do escultor, um embate constante com a idéia e com a
matéria, o que exige constantes soluções aos problemas que se apontam:
“o operário, o escultor, o demiurgo, sendo um ser vivo e pensante, jamais
pode ser reduzido a um simples executante: ele interpreta, improvisa, re­
solve problemas. [...] o tempo criativo da atualização traça uma história,
transcreve uma aventura do sentido constantemente reposta em jogo”.25
Por fim, a virtualização coloca-se ao lado da causa fin a l porque envol­
vem, ambas, aspectos ligados à finalidade de uma ação ou objeto. Desco­

23Cf. Aristóteles, São Paulo: Abril Cultural, 1979, p.23-27. (Os pensadores).
24Lévy, Pierre, op. cit., p. 137.
25Ibid, p. 139.

228
brir a função, ou o porquê de alguma coisa é dotá-la de uma questão, u
problema. É fazê-la existir.26
Vê-se, no entanto, que pela última colocação de Lévy acerca da ca
sa eficiente, há um pequeno diferencial no que toca as causas aristotélicí
posto que para Aristóteles havia uma certa hierarquia entre elas, a cau
final em um nível mais alto, a determinar a forma, a maneira de atuaç
sobre a matéria, esta sempre na posição mais inferior, submetida às outr
causas. Se Lévy reclama uma importância maior à causa eficiente, acentu
mos essa des-hierarquização das causas, no sentido de conferirmos ur
grande importância ao universo da matéria, no que toca o processo
instauração de uma obra de arte, e na possibilidade que ela oferece
alterar uma idéia preestabelecida.
Gostaríamos ainda de colocar mais algumas considerações sofc
outros teóricos, no intuito de vinculá-las às “causas” e ao processo cri
tivo em geral. Uma delas provém de Luís Cláudio de Figueiredo. I
seu texto sobre o estrangeiro, o autor irá colocar que o adulto apresenl
se como um estranho para a criança, um depositário de enigmas q
impõe a ela a constante tarefa de traduzir esses enigmas, simbolizai
assimilá-los, dentro do processo de formação da linguagem. Há, enti
tanto, fragmentos ou enigmas não solucionados e sem solução que
localizarão no inconsciente infantil. O enigma, ou o estrangeiro, ser
portanto, um agente gerador de movimento. Podemos estender ess
considerações para além do sujeito-criança, e incluirmo-nos nesse pi
cesso de tradução como uma ação que denota uma certa temporalida<
a da ordem do acontecimento: “ uma ruptura na trama das represen
ções e das rotinas”.27 Esse tempo do acontecimento irrompe em nós den
de um pano de fundo que o autor denominará de “espaço potência
uma proximidade absoluta em que os acontecimentos podem se da
onde estamos relativamente indefesos. É como se o estrangeiro, o est
nho, o “outro” - habitasse esse espaço potencial.

De início estamos todos, assim, ’dentro’ dos outros, sejam os outros fai
lia, classe social, nação, tradição, sistema lingüístico etc. E este “outr
anterior ao “eu”, ao “tu” e ao “ele”, é este “outro” indiferenciado - c <

26Isso implica em outra questão que é a diferença posta pelo autor em relação ao conct
de existência no alemão (Dasein) e no latim (existere), significando, respectivamei
assumir uma presença e abandonar uma presença. Assim, o autor questiona: “tudi
passa como se o alemão sublinhasse a atualização e o latim a virtualização” Pierre I A
op.cit., p 20
37 Ibid, p.67.
nesta medida precede a emergência da alteridade - que antes de aprender­
mos a fazer e a dizer “eu fiz”, antes de aprendermos a pensar e a dizer “eu
pensei”, antes de querermos e dizermos “eu quero”, já faz, já pensa, já quer
e já sente por nós.28

O processo de formação do sujeito seria, assim, nada homogêneo, e


pleno de cisões. Ao colocar sobre o exemplo grego de acolhimento do
estrangeiro no seio de sua sociedade, Figueiredo aponta que isso se dá
porque há algo de familiar nessa estranheza do outro, ao mesmo tempo
em que o familiar abriga algo da diferença. Esse pensamento afina-se com
o de Jean-Pierre Vernant, ao apontar a importância do culto de deuses
estrangeiros na sociedade grega, notadamente na lenda da fundação de
Esparta, acentuando a função da deusa Artemis como deusa fundadora
das cidades. Ela presidiria a passagem do Outro ao Mesmo, da inclusão do
indivíduo estrangeiro na cultura local, da passagem do diferente ao seme­
lhante. O autor ainda acrescenta que esse legado grego - o espírito
civilizatório, a tolerância para com o Outro - pode representar o processo
civilizatório de qualquer grupo humano que necessariamente enfrenta o
problema da alteridade em sua constituição, desde os contatos externos
até a questão da morte.29
Pareyson, em uma passagem de seu texto já mencionado, colocará a
seguinte questão acerca do processo autogerador da obra de arte. Ele diz:
“Eis o mistério da arte: a obra de arte se faz por si mesma, e no entanto é
o artista quem a faz.”30 Isso significa dizer que há dois caminhos que se
entrecruzam no processo criativo; um deles, específico da própria obra,
percebida então como organismo em que ela é ao mesmo tempo semente
e fruto; outro, o da direção proveniente do artista, marcada pelo projeto,
pelas ações do acaso, pelas tentativas que constroem o seu saber.

28Ibid., p.70
29Jean-Pierre Vernant, La nmerte en los ojos: figuras dei otro en la antigua Grecia, Bar­
celona, Gedisa, 1986. Há que se fazer também uma referência a Roger Caillois quando
coloca-nos sobre a psicastenia, espécie de prática mimética exercida pelo homem, como
necessidade de integração ao ambiente e como condição formadora de sua identidade:
“[...] vê-se claramente manifestado a que ponto o organismo vivo faz corpo com o meio
onde vive. Em tomo dele e nele, constata-se a presença das mesmas estruturas e da ação
das mesmas leis. Tão bem que, a bem da verdade, ele não está num “meio” e a própria
energia que ele recorta, a vontade do ser de perseverar em seu ser, se consome exaltando-
se e o atrai já secretamente em direção à unifonm dade que escandaliza sua imperfeita
autonomia.” Cf. Caillois, Mimetismo e psicastenia legendária. Revista Che Jbui, Porto
Alegre, v. 1, n.0, 1986, p.68.
30Pareyson, Luigi. op. cit., p.78.

230
É possível pensar, assim, que o artista é sempre um co-autor de seu
trabalho. Dizer que “a obra de arte se faz por si mesma” é pontuar a exis­
tência de um caminho de certa maneira autônomo da forma, é considerar
que o trabalho é regido por leis internas que, em grande parte prescindem
e até mesmo são inconscientes ao artista. Como se houvesse uma indepen­
dência das causas formal e material em relação às causas eficiente e final.
Nesse sentido, pode-se dizer que matéria e forma são um “outro” para o
artista. Ou que a própria obra já possui suas causas eficiente e final espe­
cíficas, sendo o seu conjunto, um estranho para o programa do artista.
Porém, ao mesmo tempo que os programas da obra e do artista são estran­
geiros entre si, são também familiares. Um outro que o artista bem recebe,
pois sabe que somente assim irá concretizar seu projeto, seu “sonho”.
Se bem observarmos a história da escultura, há algo que chama-nos
a atenção que é o domínio técnico do escultor sobre a sua matéria, geral­
mente a pedra, a madeira e o bronze. É perceptível a necessidade de uma
excelência da causa eficiente em mimetizar, por meio da matéria escolhi­
da, outras matérias. Assim, temos o mármore representando panejamentos,
carnes de corpos, dando à peça a impressão de maciez e leveza por meio
de uma matéria naturalmente dura, pesada e áspera. Se Aristóteles aponta
uma importância maior à causa final, percebemos que, no que toca a Es­
cultura Moderna e Contemporânea, esse “outro”, dado pelas causas for­
mal e material, ou pelo possível/real de Lévy, reclamam-se também como
determinantes no processo instaurador de uma obra. A partir de Rodin, a
causa material crescentemente se liberta e começa a dizer-nos de sua rea­
lidade e de suas características peculiares, e essas informações participam
do repertório formal e conceituai de toda a obra. Isso é perceptível quando
o escultor deliberadamente não pole o mármore, em algumas de suas com­
posições. René Passerón, ao colocar sobre a importância do processo de
instauração de uma obra de arte, um dos modos de ação da Poiética, enfatiza
a não passividade da causa material: “Aquilo que Aristóteles denominava
a ‘causa material’ da obra não é nada passiva, e a obra será o produto
ambíguo de uma luta entre a subjetividade do artista e as necessidades
técnicas do material”.31 Isso porque a arte moderna e Contemporânea ace­
nam com vigor para o processar do objeto.
O processar do objeto toma-se, assim, algo análogo ao processo de
subjetivação descrito por Rolnik. Uma subjetivação envolvida com a
forniatividade, com a plasticidade da dobra, com a virtualização/atualiza-
çáo/potencialização/ realização, com a alteridade, com a matéria/forma/
ação/finalidade: um patchwork em curso de idéias e visualidades.

" I’iisscrón, René. Da estética à Poiética Porto Arte: Porto Alegre,v 8, n. 15, nov. 1997, p. 109
3. ... DE TEMPOS DOBRADOS E EMPILHADOS

Aqui o enfoque direciona-se para uma tentativa de análise proces­


sual de dois trabalhos plásticos. O pretendido é entremear, na descrição de
ambas as propostas, algumas idéias esboçadas nos tópicos anteriores, de
maneira a integrá-los, bem como elucidar questões pertinentes a cada exer­
cício em particular e verificar possíveis correspondências formais e/ou
conceituais entre ambos.

Coluna de tecidos
O que aqui chama-se de “coluna” é um empilhamento de diversos
tipos de tecidos brancos tendo como limites o chão e o teto de um determi­
nado lugar. Esta idéia ainda não se vinculava a um local específico ou a
uma “engenharia” que a mantivesse de pé; suas únicas especificidades
eram a cor branca dos tecidos e a forma verticalizada. O que se pode
perceber ai é apenas um apelo formal e matérico. Ao entrar na Pinacoteca
do Instituto de Artes da UFRGS (lugar onde será exposta), o que me cha­
mara primeiramente a atenção fora a coluna de concreto existente no es­
paço. Assim, no projeto para a instalação que será ali executada, e da qual
a coluna de tecidos participa - resolvi povoar a área próxima da coluna
com outras duas colunas - pseudocolunas - que respeitam a mesma área
da base e altura do elemento modelo. Na pseudocoluna em questão, cada
unidade (tecido envolvendo uma peça de roupa branca), será empilhada
repetidamente, de maneira a preencher a área da base da coluna de con­
creto e respeitando-se o pé-direito da galeria.
Paralelamente a essa adaptação formal do estudo à nova realidade
espacial, ao organizar velhas agendas e cadernos, percebia quantas pesso­
as queridas haviam passado por minha vida, bem como outras que se tor­
naram desafetos, relacionamentos comuns, passageiros ou passíveis de
esquecimento. Ao listá-las, deu-se o insight de, ao invés de trabalhar sim­
plesmente com tecidos empilhados, pedir a cada uma daquelas pessoas
uma peça própria de roupa branca para que constituísse a coluna. Poste­
riormente, organizei os nomes em ordem cronológica, para direcionar o
empilhamento das roupas. Os contatos que não puderam ser efetuados,
seja por morte, mudanças e não-reciprocidade, serão apresentados na co­
luna por meio de toalhas brancas virgens.
E possível pensar nesta pseudocoluna assumindo uma estreita rela­
ção com o corpo e com a identidade, sendo admitida como uma espécie de
auto-retrato conceituai. Este fora o eixo de pensamento para a concepção
de um trabalho bem complexo. Isto porque, em tese, nunca se concluirá, a

232
depender sempre de variáveis externas a ele (a participação do outro), li
essa participação que determinará sua “consistência” e “altura”.
Assim, o estudo inicial da coluna de tecidos foi readaptado para a
realidade da Pinacoteca enquanto pé-direito e base; em relação à idéia de
auto-representação, houve uma readaptação de suas matérias e tons de
branco para que se apresentassem mais diversificados. Pode-se pensar aqui
que o próprio espaço, com suas peculiaridades, estaria funcionando como
causa material ativa, determinando a adaptação da coluna de tecidos às
suas coordenadas. De outro lado, os tecidos foram se particularizando cada
vez mais à medida que a causa fin a l fora sendo burilada; de simples teci­
dos, a coluna passaria a ser constituída de roupas de outras pessoas, bem
como de tecidos com e sem memória. A causa final determinaria, assim,
uma especificação maior da causa material. Por outro lado, o ponto de
partida do trabalho fora uma questão formal. Ou seja, o referencial era
uma coluna, e sua forma vertical. Entretanto, em se tratando de um traba­
lho de participação coletiva, fica cada vez mais nublada a visualização do
elemento arquitetônico tomado como modelo. O foco fora alterado: da
forma(da causa form al), o interesse volta-se para a causa material, que
por sua vez, volta-se para o processo de instauração da idéia. Essa altera­
ção de foco aparece no transcurso do processo como uma ameaça à não-
realização da forma.
O estudo para a coluna apresenta uma diversidade de brancos que
permite associá-los à questão dos tipos e tempos de uso do tecido e da
roupa. Cada roupa que constitui a coluna pertence a uma pessoa conside­
rada na lista. Isso já indica que a roupa branca vem impregnada de uma
carga de realidade vivida pelo outro. Ela “traduz” o outro, pode ser sua
pele, marcar uma identidade, mesmo que a roupa seja a mais comum pos­
sível: uma blusaHering, por exemplo. Ao ser envolvida por uma manta de
tecido, esse processo de impregnação de “realidade” pela roupa é como
que desacelerado ou interrompido, posto que cada envoltório guarda a
roupa e todas as suas memórias. No entanto, ele toma para si a continui­
dade da impregnação por meio do contato com a nova realidade espacial
da pseudocoluna, o que altera sua tonalidade inicial. Ele toma-se a interface
de duas realidades: uma delas, congelada pelo ato da manta em envolvê-
la; a outra, aquela a que ela está ex-posta.
Dobrar, envolver e empilhar tecidos remetem às ações cotidianas do
universo doméstico de manutenção da ordem e da limpeza. Garantem à
pseudocoluna um ar prosaico, pela ausência de uma técnica ou conjunto dc
técnicas artísticas específicas da escultura tradicional. A ação de dobrar tor­
na-se uma das primordiais no processo de suspensão da coluna: esta passa <1
ser uma combinatória das ações principais de dobrar e empilhar. As dobras

233
Foto 1. D etalhe de roupas em pilhadas.

acontecem ora nas roupas, ora nos tecidos envoltórios. Dobrar também rela-
ciona-se à própria inserção de movimento no interior da matéria, determi­
nando o surgim ento da form a-unidade que se repetirá por meio do
empilhamento. Se a dobra faz duplicar a espessura do plano, este passa a ser
um plano-potência. Por meio da dobra, não se pode mais pensá-lo somente
como área, mas como medição volumétrica. Ele converte-se em tridimensão.
O plano responde como uma “mola”, em que a altura da forma resultante
parece ser a projeção de uma unidade padrão que desdobra-se ao infinito, ou
até que atinja um obstáculo (no caso da coluna, o teto).32

32 M enciono aqui o conceito de dobra, de Deleuze. Se a dobra é m encionada como uma


das ações principais que se dá sobre o suporte, ela, para Deleuze, é o movimento inter­
no de geração de forma, pela matéria. O plano, ao dobrar-se e se desdobrar, multiplica-
se n vezes, confirmando o caráter elástico da matéria. Pela dobra, há um a “variação
contínua da matéria assim como um desenvolvimento contínuo da forma.” Cf. G. Deleuze,
apud Eliane Chiron, [...] D esfazer as dobras de alguma coisa que lhe havia sido dada
toda dobrada....Porto Arte, v.7, n. 11, 1996, p.96. Essa idéia deriva do pensamento de
Leibniz, filósofo alemão do século XVII, em relação à mônada - unidade espacial que
sendo um a partícula infinitesim al, concentra em si o todo, e pelo seu desdobramento
infinito, gera a forma: “A divisão do contínuo deve ser considerada não como a da areia
em grãos, mas com o um a folha de papel ou de um a túnica em dobras, de tal modo que
possa haver nela um a infinidade de dobras, umas m enores que as outras, sem que o
corpo jam ais se dissolva em pontos ou m ínim os.” G. Deleuze, A dobra: Leibniz e o
barroco. Campinas: Papirus, 1991, p .17.

234
Se a dobra é o ato que permite o desenvolvimento da forma, o ato de
dobrar promove uma “invaginação” do plano e o que estava no lado de
fora, vai para dentro. A dobra constante passa a ser então um signo do
eterno fluxo e refluxo do exterior com o interior, quando ela assim consti­
tui a pseudocoluna. Esta, adquirindo uma intenção autofigurativa, assu­
me, dessa maneira, ser esse processo infinito de subjetivação, em que há
uma constante inflexão do fora para o dentro. A dobra, nesse sentido, não
é somente um tipo de ação sobre o suporte; apresenta-se como processo
transformador da matéria e como formador do sujeito. Converge, assim,
com o exposto por Sueli Rolnik sobre o processo de subjetivação, tendo
como agente, a metáfora da pele, e que no caso da pseudocoluna, seria a
pele-tecido. Cada tecido que envolve uma roupa toma-se um fora de um
dentro, ao mesmo que um dentro de outro fora, isto é, a interface da roupa
e do entorno, mencionada há pouco. Ou uma fita de Mòebius.
Na elaboração da lista e no próprio processo de ereção da coluna,
penso nos conceitos de árvore e rizoma. A elaboração da lista e a própria
coluna são tensões entre esses modelos de pensamento. Há um desejo de
busca de organização, de genealogia e de identidade, mas os rizomas sur­
gem por todo o tempo: a memória curta e passageira, os esquecimentos, a
proximidade temporal, a inclusão de acidentes de percursos e as próprias
ações do acaso. As toalhas brancas podem ser consideradas como rizoma
porque são elementos de desconexão, ou seja, promovem a descontinuidade
das dobras do tecido envoltório das roupas. Elas presentificam a não-reci-
procidade, o corte das relações pessoais: presentificam ausências. A pro­
ximidade temporal retira possibilidades de hierarquia em relação aos con­
tatos que constituem as partes mais altas da coluna; ali, o rizoma avança
juntamente com o tempo presente. O pensamento árvore é mais perceptí­
vel na base da coluna, em que há um distanciamento temporal maior, e a
presença da família (das tradições, do culto e respeito aos antepassados) é
ali majoritária. O rizoma é a própria possibilidade de incompletude da
coluna. Poderá haver insuficiência de roupas e tecidos, e a coluna não
adquirir altura suficiente para ser lida plenamente como referência ao ele­
mento arquitetônico.
Se a pseudocoluna de tecidos tenta ser um retrato memorialista,
isto implica em uma dimensão temporal que evoca o passado, espécie de
“ prestação de co n tas” com igo m esm a, como se a coluna fosse a
materialização de uma necessidade íntima de auto-reconhecimento, pelo
menos parcial. Entretanto, o crivo dá-se no presente. E no agora que se
dá esse desejo de materialização, de relação das pessoas, de reencontro e
de desencontro, de coleta, de preparo do material. E no tempo presente
que tenho a consciência da complexidade deste processo de subjetivação.

235
Apseudocoluna surge assim como uma coexistência de estados, em que
existe a possibilidade de conexão com estados deixados de lado: expe­
riências do passado latentes. Por outro lado, o próprio trabalho abre uma
brecha para a sua inconclusão: uma dimensão de tempo futuro coloca-se
no sentido em que não saberei se haverá outras pessoas a incluir e au­
mentar o volume da coluna.
Essa atitude de rememoração dá-se descontinuamente, como se hou­
vesse uma gradação de estados de “passado”, que por sua vez, não sur­
gem à mente em uma sucessão cronológica, mas na temporalidade do
acontecimento, aqui entendido como irrupção. Uma pessoa lembrada,
ou um fato, às vezes surge em mente de maneira inesperada, interrom­
pendo um fluxo de imagens em uma seqüência talvez lógica: parece ser
algo “estranho”, ou no mínimo, estranhamente vindo à superfície. Lem ­
bra-nos aquele espaço da “proximidade absoluta” descrito por Luís Cláu­
dio Figueiredo, no qual nos encontramos indefesos em relação ao estra­
nho. A isso se junta também o próprio conceito de origem, de Walter
Benjamin, diferentemente do sentido de origem dado pelo senso comum.
Se neste há uma idéia de gênese, de procedência ou de causalidade, para
o filósofo, a origem coloca-se como um “turbilhão do rio”, um salto no
tempo, em que o passado, ao mesmo tempo em que volta pelo ato da
rememoração, o faz impossibilitado de sua total realização no presente.
O movimento da origem somente pode acontecer “por um lado, como
restauração e reprodução, e por outro lado, e por isso mesmo, como
incompleto e inacabado.”33 Tal idéia vislumbra-se na pseudocoluna à
medida de sua ereção no espaço da Pinacoteca, ou no processo mesmo
de coleta de seus fragmentos/roupas. Se inicialmente desejante de uma
totalidade, o seu processo de chegar à origem aponta esse desejo como
“promessa de realização sempre ameaçada” .34

ENSAIO FOTOGRÁFICO
Este ensaio fotográfico é o exercício visual de relatar, por meio de 12
imagens de slides, passagens do tempo. Como já estava envolvida no pro­
cesso de instauração da pseudocoluna de tecidos, algumas questões desse
trabalho naturalmente foram direcionando a escolha do tema do ensaio.
Destaco inicialmente o aspecto da textura da coluna, dado pelo processo
de empilhamento dos tecidos e roupas. Outro fora o aspecto escultórico da

33 Benjamin. A origem do drama barroco alemão p.68, apud Jeanne M arie Gagnebin,
História e narração em W. Benjamin. São Paulo: Perspectiva/Fapesp, 1998, p. 17.
34Gagnebin, Jeanne Marie, op. cit. p 17

236
coluna, aspecto esse marcado pela pretensa estabilidade do volume. Algo
da estaticidade que marca a própria escultura, em seu sentido tradicional.
Dois elementos constituíram o exercício: o olhar, representado pela
câmera fotográfica, e um livro antigo, usado e desbotado, marcado pelo
tempo. Seu próprio título já evocava uma idéia presente na coluna de teci­
dos: trata-se de A sombra das raparigas em flor, terceiro volume de Em
Busca do tempo perdido, de Mareei Proust.35 Saliente-se aqui o fato de
nunca haver lido essa obra. O processo de instauração da coluna, bem
como a leitura de alguns textos filosóficos e da psicologia,36 apontavam-
me para a necessidade de conhecer essa obra proustiana. O próprio con­
ceito benjaminiano de origem, que permeava as reflexões sobre a coluna
de tecidos, afinava-se com o que supunha encontrar lendo as páginas de
Em Busca ... Assim, soma-se ao exercício propriamente dito, a busca em
sebos e em coleções particulares de pessoas conhecidas por uma edição
do livro que correspondesse a essa idéia de tempo passado. Entretanto, lê-
lo, em seus vários volumes, iria na contramão da imposição de prazos do
próprio processo do mestrado. Pareceu-me natural conhecê-lo pelas bor­
das, ou seja, na impossibilidade de ler a obra em seu conteúdo naquele
momento, vê-la como objeto-livro, sendo preponderante assim a leitura
de seu estado físico, maténeo, cromático.
D essa maneira, pensei em um movimento contido, algo que pudesse
ser registro da lentidão do tempo. A câmera fixa, imóvel, registraria o
objeto-livro, também em sua imobilidade. Todas as doze passagens se­
riam, dessa forma, aparentemente iguais. Entretanto, havia um movimen­
to interno, ocultado pelo próprio livro, visto como um sólido constituído
de paredes texturizadas, ou como um simples empilhamento de páginas
enrugadas e amareladas, plenas de orelhas, marcas de seu uso. Seria o
movimento quase imperceptível do marcador de texto. O livro, colocado
em posição de descanso sobre uma mesa, abrigava um pequeno marcador
de papel amarelado que ia avançando do início ao fim do livro, indicando
que se processava ali uma leitura linear do referido objeto. As doze ima­
gens apresentariam-nos, assim, uma leitura do tipo normal, dessas que
começam no início e terminam no fim do livro. Na capa do livro utilizado
estavam impressos tanto o título do volume quanto o título geral da obra.
O primeiro fotograma da seqüência diferencia-se dos subseqüentes por

"P ro u st, Marcel. A sombra das raparigas em flor. 2. ed., tradução de M ario Quintana.
Porto Alegre: Ed. Globo, 1957.
16Benjamin, Walter, imagem de Proust, op.cit.; Jeanne M arie Gagnebin, op. cit., Cristina
Rauter,T memória como campo intensivo: algumas direções apartir de Deleuze, Nietzsche
e Proust, op.cit.

237
apresentar em ponto de vista superior, o marcador exatamente sobre o
título do volume, ocultando-o, e deixando à mostra somente o título, Em
busca do tempo perdido. Note-se, no entanto, que o título da obra por si só
já é um índice de uma questão importante e formadora dos trabalhos-
exercícios em análise. Essa viagem temporal que constitui a coluna é sina­
lizada como desejo no título do livro-objeto. Nesse sentido, é possível
pensar que, mesmo desconhecendo o conteúdo da obra proustiana, o seu
título toma-se conteúdo do ensaio fotográfico. É dessa maneira que se
articulam os exercícios, como se um fosse a continuidade formal e
conceituai do outro. A pseudocoluna de tecidos apresenta-se no ensaio
fotográfico, enquanto processo de subjetivação materializado, temporali-
zação espacializada, tal qual se supõe ser a obra proustiana.

Foto 2. D etalhe de livro com o m arcador.

Se o ensaio fotográfico acena para a pseudocoluna de tecidos, as


situações rizomáticas provenientes do processo da coluna foram apontan­
do para uma outra possibilidade de apresentação da seqüência de slides,
onde se veriam todas as imagens ao mesmo tempo, mas que infelizmente
não pude realizar. Resolvi, desta forma, apresentá-la em sua total placi­
dez, em contraponto às “ebulições” internas pelas quais eu estava passan­
do como “narradora” da coluna. Essa placidez do ensaio fotográfico tam­
bém encontra eco na coluna, na medida em que, ao olhar desavisado, ela
lhe parecerá simplesmente o resultado de uma ação excessiva de empilhar

238
roupas. Poderá esse olhar conjeturar sobre a questão do trabalho, da ob­
sessão, do acúmulo de coisas na sociedade contemporânea, enfim. Mas
poderá ele suspeitar que trata-se de um desejo de autofíguração dada pela
alteridade? Que há um outro (feito por outros) que se esconde ali?
Esta seqüência cronológica dos slides privilegiava também o foco do
espectador no elemento variável, o marcador, que passou a funcionar como
“seta”, deslizando para baixo, na medida em que o livro está na posição
horizontal sobre a mesa, ao mesmo tempo que para a frente. Algo dado
pela própria leitura (fictícia) deste livro: avançar a leitura é ir para a frente
no tempo cronológico, ou seja, é respeitar a seqüência lógica das páginas;
no entanto, quanto mais se avança nesse sentido, mais se chega ao passa­
do fictício, tempo da própria narrativa, que se supõe ser a de um passado
redescoberto. Há uma sobreposição paulatina de tempo cronológico futu­
ro (o marcador indo para a frente) e de tempo psicológico passado (o
marcador indo para baixo), indicando o presente como resultante dessa
leitura dialética (uma diagonal). Um presente, no entanto, diferido de suas
matrizes, porque imiscuído da subjetividade do leitor.
Essa fusão de direções apresenta-se no processo da coluna, quando
de uma tensão existente no desejo de erigir um volume - ir para cima -
contra a ação gravitacional que tudo empurra - para baixo. Há também
essa tensão de tempos (um rizoma temporal ?), que só faz avançar o volu­
me de tecidos na medida em que se mergulha no passado: tal qual o verso
de Jean Tardieu, “para avançar, eu me volto sobre mim mesmo”.
Entretanto, a resultante é aparentemente estática - por fora a placi­
dez de um conjunto de páginas ou de um conjunto de tecidos que repre­
sentaria a intimidade e o repouso, mas em cujo espaço intemo habita um
ciclone. Para baixo, para frente, para trás, para cima, são direções aponta­
das no ensaio e no exercício da coluna, que sendo pluridirecionais ao mesmo
tempo, indicam um certo contra-senso nas suas constituições. Todas essas
variações de direções colocam-nos sobre a im possibilidade de uma
linearidade no que concerne ao processo instaurador de uma obra. É então
que a imagem da orelha, com a qual este texto fora iniciado, ressurge, por
outro viés: não mais como o símbolo da violação e sacrifício que o artista
faz de si mesmo em prol de ser um agente da subjetivação, mas como
aquela orelha solta no jardim, que permite que o enredo de Veludo azul
seja a busca pelo dono do órgão perdido. Ou então que a orelha e seus
volteios barrocos corresponda ao percurso labiríntico que todo artista (e
quiçá todos nós) faz enquanto tenta instaurar uma obra de arte.
Até quando essas visualidades permanecerão estáveis?
METAFORAS DE SONHOS

C larice A verbuck

APRESENTAÇÃO

Este trabalho é o fruto da re-elaboração de reflexões feitas há mui­


tos anos, cuja escritura é retomada quase na sua totalidade, com certas
modificações, numa nova leitura, como uma espécie de re-apropriação
do sentido, achados posvindouros ao texto passado - ou ao passado do
texto - o que não é alheio ao tema mesmo da reflexão: a relação do indi­
víduo com o tempo e com a memória e suas construções progressivas que
lhe dão acesso ao pensamento e ao símbolo.
Nós o concebemos como metáforas que se desenharam em nossa
imaginação e cujo primeiro trabalho de escritura já lhe dera um lugar na
realidade objetiva, como uma impressão ou revelação de um filme que

( hirissc A verbuck é Psicóloga, psicanalista, colaboradora e co-organizadora do Grupo


de Trabalho sobre O trabalho psicanalítico revisitado pelos textos sobre a negatividade,
uo ( irupo Lionês de Psicanálise Rhône-Alpes da Sociedade Psicanalítica de Paris (SPP).
Membro do Grupo de Estudos e de Pesquisas Psicanalíticas sobre a Criança e o bebê
(< lerpen), Paris. Maître assistant, ex-professora associada da U.C.de Lyon, responsável
pelo ensino da psicologia clínica infantil: Abordagem psicanalítica da mfância junto ao
Piimuiro Ciclo de Ciências Humanas e Sociais, (de 1986 a 2002). Diploma de Ensino
Superior Especializado em Psicologia Aplicada, opção Psicologia Clínica pela U niversi­
dade I umières, Lyon II; diplom as de Aperfeiçoamento en Psicoterapia e de Especializa-
çfln em Psicologia Clínica pela PUCRGS. Ex-membro da equipe de Saúde Mental do
SiNlema de Saúde Comunitária da U.S. M urialdo da Secretaria de Saúde e Meio Ambiente
do US e oo-fundadora da Residência em Saúde Comunitária. Ex-professora da graduação
em Psicologia, na PUCRGS e na Unisinos.
lesto elaborado a partir do Grupo de Trabalho sobre “O trabalho analítico revisitado
pelos lestos sobre a negatividade de Wilfred R. Bion, André Green e Jean Guillaumin”,
uo <Impo I .íonês de Psicanálise Rhône-Apes, da Sociedade Psicanalítica dc Paris, Lyon
J000/2001
• I oi igmal do presente texto foi elaborado em francês e traduzido pela autora cm maio de
/ O i l , ’ A n citações das obras em francês são também traduções da autora.
conserva o rastro do fenômeno operado pela objetiva do fotógrafo. A pro­
pósito, dizíamos naquela época, que a palavra escrita, herdeira de um
espaço potencial da tradição oral, se oferece como traço de passagem.
Ela devolve ao visual a imagem enraizada no corpo e cumpre uma fun­
ção vincular por sua natureza de ponte e de testemunho.
Esse é ainda nosso pensamento e o que hoje nos propomos consiste
no estabelecimento de relações, do vértice psicanalítico, de certos aspec­
tos do trabalho das “transformações1 criadoras” no seio da experiência
da negatividade, implícitos nas noções abordadas nessas reflexões. Bus­
camos vincular pensamentos partilhados que marcaram nosso espírito e
que ainda o influenciam, às vezes como modelo, às vezes como referên­
cia, ponto de partida para novos rumos. De toda maneira, o que diríamos
com certeza é que esses pensam entos, nascidos ao mesm o tem po
de »lealdades cruzadas» (Winnicott, 1966) e de movimentos solitários,
encontraram nas relações partilhadas sua fonte de inspiração.
O texto que segue é uma espécie de rêverie sobre o tempo e as
passarelas e no terreno das rêveries, situaria a noção de tempo como um
componente paterno precoce, ligado ao componente materno e fem inino
da personalidade, constituídos pelas noções de espaço e de continente.

BALADA DO TEMPO E DAS PASSARELAS -


PEQUENO CONTO ANTROPOLÓGICO

[... ] procure, como se fosse o primeiro homem, dizer o que vê,


vive, am a e perde.
Rainer M aria Rilke (1903)

Os estudos feitos regressivamente através do tempo histórico nos


têm mostrado que o homem, desde o princípio, inscreveu sentidos na
passagem que o destino lhe concede. Limitado pelo tempo e animado pelo
desejo, “transforma o desespero em esperança”2 e pode tom ar-se revolu-

1“Transformações” - título de uma obra de Wilfred Bion (1965); do latim trans-formare:


“formar para além ”. Bion sublinha a importância, no trabalho psicanalítico, do percurso a
realizar de O (estado original) em direção a K (knowledge: conhecimento) e de K em
direção a O.
2 Conforme o estudo de François Laplantine (1974), Les trois voix de l ’imaginaire - le
messianisme, la possession, l'utopie: movimentos de ruptura antropologicamente nor­
m ais, como reação à insuficiência e à falta de significações sociais, nascidos de uma
matriz cultural simbólica (Deroche), suscitados pelos grupos de transformação, segundo
as leis da imaginação coletiva em revolta.

242
cionário, desafiando a ordem opressora do «contra-senso» da realidat
Da falta, da dor e do desejo, cria a imagem e o pensamento e sem sal
(ou sabendo ?) já é artista e metafísico desde os primeiros momentt
quando celebra a vida, ou rende homenagem e cultua seus mortos. Ef
to de protesto criador,3 concilia-se com a realidade, acordo nascido
descoberta de sua capacidade de re-presentar, re-signifícando no presei
uma ausência, criatura que, em sua sabedoria lúdica, o homem simi
inventar.
N a busca do conhecimento, ele descobre princípios que não tardi
a lhe impor novos enigmas. Apaziguamento efêmero, qual pássaro fu
tivo esvoaça sem captura, devolvendo-o à dúvida e ao saber que pou
sabe. Como se o mundo e a vida zombassem de seu desejo de explic
mesmo antes de com-preender, desafio corriqueiro a seus sonhos oni|
tentes onde se vê criador incondicional do espetáculo da existência
sua própria, mas não somente, também daqueles que o cercam ou
escapam. Assim, decifrando enigmas, não só descobre chaves, como
inventa, falsas e verdadeiras (as quais deve aprender a diferenciar), i
samos das mil e uma noites lhe abrindo portas e lhe dando acesso a pa
cios, casebres, a montanhas, corações, túmulos.
Por ilusões e des-ilusões, o homem vai a-preendendo. Entre desi
bertas e revelações, ele se inventa a si mesmo, sem se aperceber que i
oásis e nos eclipses ele fotografa o que vê, vive, ama e perde. Poeta f
gidor, “finge tão completamente, que chega a fingir que é dor a dor c
deveras sente”.4
Poesia ou sabedoria milenar, ilusão de permanência que ajuda a
ver - adivinhas das cirandas dos meninos - cada enigma decifrado p
jeta e assenta a cultura.
N ômade-caçador ... guerreiro ... sacerdote, sustentado por col
cálice feminino, que se articulam em ligação harmoniosa com o temp
o movimento de conquista, o homem descobre a essência nos olhos <
aparências (apropriação de um rosto - descoberta de si no olhar da mã
para ( arte de fingir) logo criar máscaras que ocultem aquilo que ele \
teme diferenciar.

' () protesto criador nos envia a Jean Guillaumin (1975, p.227), sobre o papel do o t
estético e do sim bolismo na sublimação: o escândalo revitalizante promovido pelos !
bolos em sua dimensão de contestação e de re-invençâo de sentidos. Ver também os tc
dc René Kaess (1979) quando descreve a criação de dispositivos anticrise, postos
execução pelo homem, para regular as falhas da aparelhagem psicosocial
* Através do poeta plural, Fernando Pessoa, em Auto-psicografia, evoco também 1
Martins quando o cita cm 1970, para descrever o “transe de tingir”, que interpretaria
como estado máximo de “áurea poética” .
Não saberíamos avaliar o quanto essa máscara esconde e o quanto
ela mostra e se ela é o vestígio de um envelope que não pôde se desco­
lar - avatares da prematuridade psíquica de ser humano - ou antes, a for­
mação incipiente de um novo tecido ainda em via de acomodação ao or­
ganismo hospedeiro. Quem sabe ainda, o que não é raro, mas tantas ve­
zes desastroso, a máscara seria função de um anteparo invisível que obe­
dece a forças negativas, igualmente invisíveis quanto poderosas, operando
de maneira implacável com o objetivo de calar, de suprimir, de sufocar,
de imobilizar, de desfazer os elos de vida em germinação, atendendo que
a inanição cumpra o trabalho da morte (se pudermos nos permitir de des­
naturar o sentido construtivo atribuído à palavra “trabalho” e nos conec­
tarmos somente com o sentido etimológico utilizado na língua francesa
até o século XVI, sentido de tormentar e de sofrer).
A desaparição do objeto e do ego no neutro, ne-uter (Andrée Gre-
en, 1983), realiza, através da in-diferença, a plenitude narcisista. A indi­
ferença, como a concebemos no sentido de W. Bion, superfície serena de
um mar diabólico e tormentado, trabalha ativamente para semear “me­
nos Amor” e “menos Ódio” : procedimentos anti-emoção, engendrando
a des-aprendizagem, o des-prezo, o des-entendimento.
Fascinado e aterrorizado pelo desejo de conhecimento - busca de
síntese, de uma integração sempre em estado de devir, freqüentemente
confundida com fantasias onipotentes de possessão e plenitude - o ho­
mem prossegue através de questões, invenções, ensaios, renúncias, tate­
ando na caminhada, através de “migrações dolorosas”,5 dor de ser ele
mesmo o objeto do conhecimento com um efeito real de crescimento e
de maturidade mental e o distanciamento e perda do objeto primário (León
e Rebeca Grinberg, 1984), cesuras6 (W. Bion, 1977a) que a impulsão da
vida incitam a conhecer e cujas fe rid a s e cicatrizes1 (Jean Guillau-
min,1987) o tempo do viver propõe-se a pensar - no duplo sentido da
língua, de atividade mental e de prestar curativos - pensaduras.

5 O tema da migração, tratado por León e Rebeca Grinberg desde 1965, em relação ao
problema da identidade e retomado na obra de 1984, Psicoanalisis de la migracióny dei
exilio nos coloca, evidentemente, face à nossa própria experiência migratória, àquela dos
dois autores e a “de um grande número de pioneiros da psicanálise”, tema axial na história
do movimento psicanalítico.
6 “Estude a cesura; não o analista, o analisando, o inconsciente, o consciente, a saúde
mental, a loucura, mas a cesura, o vínculo, a sinapse, a (contra-trans)ferência, o humor
transitivo-intransitivo” (Bion, 1977b).
7 “A condição lêrida da psyché é bem a única epistemologia que lhe é oferecida sem
postulado e sem a priori, a única que lhe dá uma oportunidade de operar a vida, na sombra
e na luz [. . ].” (Guillaumin, 1987, p.219) .

244
A atração por horizontes, adaptação compelida, prazer novo desco­
berto, o mundo é desde então transformado por volúpia sedentária. A gri­
cultor (segredos maternos partilhados em identificações alternadas com
o seio e a semente fecundos), apropria-se da terra, lhe concede cuidados,
bendiz os frutos, os caules, as raízes; vem a hora das colheitas: sementes
armazenadas, celeiros, moedas, tesouros. O ciclo das estações orienta a
economia: sol e lua se alternam, anjos guardiões da relojoaria divina.
O tempo reconhecido e a inscrição das noções de investimento e de
repartição de forças, a troca e o comércio assegurados, as diferenças se
afirmam e a exogamia é revindicada. Destino político, se faz cidadão. Ao
mesmo tempo, nas profundezas das minas ou ainda como ferreiro, busca
e transforma a matéria bruta, não sem medo de desacralizar as entranhas
terrestres, como violadores de sepulturas da estória dos Funerais do Rei
de Ur, mito utilizado por Bion para compreender e explicar o movimen­
to audacioso que permite a profanação dos mistérios e segredos do in­
consciente, no processo do conhecimento.
Em seu percurso de transformações e de descobertas, faz projetos,
imprime seu nome: arqueólogo, arquiteto, legislador, cenarista, a orga­
nização social faz também dele (celeiros de papel obrigam) o contador e
o economista. Os sonhos de alquimia multiplicam suas formas, na busca
de luzes e metais... que luzam!... faróis que norteiam suis em viagens
por terra e em alto mar.
Vitorioso, doma o medo, se faz temerário. O mundo e ele se teriam
conciliado. O trajeto já foi longo: a criação de mitos, lendas, religiões,
seitas e ritos. A descoberta da bússola, novas terras, a posse, coloniza­
ção. N a des-aculturação, se acultura, quantas vezes, adotando como seu,
o triunfo sobre os próprios ancestrais. O saber desabrocha, até mesmo o
conhecimento. Criação de escolas, academias, universidades. Faz a guerra
e a paz (quantas vezes? devemos ainda crer que pode apreender?), es­
creve livros, pinta quadros, se faz profeta, constrói novos templos, es­
creve a história e a interpreta - há aqueles que a revisam, constrói usinas
e arranha-céus (êxodos rurais... promessas messiânicas), superpopula­
ção de cidades: novamente nômade, volta ainda a imigrar.
Migrador, prossegue a busca, através de questões, revelações, in­
venções. Honestidade de propósitos neste mundo de incertezas, “inven­
ta” até mesmo a epistemologia que lhe daria os critérios, a fim de poder
conhecer como parte do pensar. Pensar pensamentos, curativos, para con­
tinuar a viver e amar e encontrar as palavras para dizê-lo. Por esses ca­
minhos vão os homens: artistas-economistas, contadores de custos e de
esperanças, operários-construtores de casas e templos, asilos, prisões,
enquanto concebem brinquedos e armas, o infantil insaciável sempre pre-

245
sente no adulto. Entre sonatas, baladas, visões e trevas se tece o texto de
um conto - cantigas de ninar (e de rodar) de outrora - que vêm integrar e
ritmar os sons insensatos de um tempo que não sabemos mais, alicerce
onde vem se apoiar e se desdobrar o inesperado, por conta da própria vida.
Quem sabe seria por aí, nessa zona tão nossa e tão desconhecida,
que fica o campo - ponto de encontro - dos “pensamentos errantes em
busca de um pensador” (W. Bion, 1972).
N este longo percurso da corrida de estafetas, olimpíada trans-gera-
cional onde a chama viva se transmite na filiação das linhagens e das cul­
turas, no interior do indivíduo que amou, no “re-conhecimento” (Zimer-
m an,1999)8 daquilo e daqueles que perdeu, se criou a imagem, a re-pre-
sentação, o símbolo. Com ele vai compondo metáforas com as fotogra­
fias que se imprimem no espaço de sua imaginação. Essas fotografias,
«relicários de sentidos» (no sentido dado por Jean Guillaumin, 1975) são
o resultado de aprendizagens na trajetória, onde o tempo da vida e das
relações partilhadas faz conhecer a criação lúdica do tempo de viver ...
Brinquedos da infância, manchados de saudade, ocupam o canto es­
querdo de uma peça claro-escura, de paredes quase brancas. Do lado di­
reito, a janela oval, entre-aberta, deixa entrar notas musicais (sinfonia em
bemol) nascidas em uma manhã de domingo: celebram, entre as pausas, a
intuição ... fugaz ... do sentido do indizível.
M etáforas de renda se fingem de cortinas para a janela sóbria que
se abre ao exterior.

Deixar amadurecer inteiramente, no âmago de si, nas trevas do indizível e


do inconsciente, do inacessível a seu próprio intelecto, cada impressão e
cada germe de sentimento e aguardar com profunda humildade e paciência
a hora do parto de uma nova claridade: só isso é viver artisticamente na
compreensão e na criação. (Rainer Maria Rilke, 1903)

A escolha da m etáfora, para sonhar e pensar as transform ações


criadoras em psicanálise, se inspirou no percurso literário e lingüístico
de m inha irm ã Lígia e no seu trabalho rigoroso, o estudo crítico de um

8 A propósito da noção de vínculo, em psicanálise, como estrutura emocional-relacional,


D avid E. Zimerm an identifica e descreve uma quarta natureza, constituída pelo “vínculo
do reconhecimento” que abriga quatro conceituações: reconhecimento de si próprio; re­
conhecimento do outro na sua diferença; reconhecimento ao outro, a gratidão e enfim, ser
reconhecido pelo outro. Esse vínculo, descrito por Zimerm an (1999, p .165-169; 2001,
p.429), se inscreve - completando-a - na Teoria do Conhecimento proposta por Bion, ao
lado dos vínculos de amor, de ódio e de conhecimento.

246
poema brasileiro impregnado da alma imigrante de um gaúcho dos pam ­
pas, o modernista Raul Bopp. Mergulho na cosmovisão poética de Bopp:
com lucidez e seriedade, ela descobre e desvela o “sub-solo do poem a
incantatório” como o prefaceia seu m estre e orientador, G uilherm ino
César (1985).
Banhando com o poeta no universo da imagem e do som, ouvindo e
sentindo ambos, o canto e os falares de pensamentos silvestres da nature­
za gaúcha, estuários intersticiais mestiços do curso amazonense, Ligia es­
tuda as raízes do poema, passando pelo material do folclore e da expres­
são popular: ela examina as estruturas do imaginário, do mito à metáfora.

«E natural [...] que esta poesia cosmogênica de apreensão do começo das


coisas seja predominantemente imagética, metafórica. (Ligia Morrone
Averbuck, 1985, p. 142)9

Devolvemos à Lígia a palavra, a propósito da imagem:


“A imagem, palavra-experiência enraizada no corpo devolve ao vi­
sual a relação entre as palavras e as coisas.” No dizer de Cassiano Ricar­
do, “haverá até uma certa prevalência da imagem quando se verificar que
não há objeto reconhecível sem a imagem que dele temos impressa na
memória visual.” Segundo ele, continua Lígia, seria impossível viver en­
tre os objetos e coisas, como se estivéssemos todos os dias vendo pela
primeira vez; ou seja, sem a sua fotografia já guardada em nossa imagi­
nação (1985, p. 142-143).
Para Lígia, “a palavra do poeta assume os contornos das formas que
ele escolheu para traduzir o mundo por ele percebido. Assim, neste uni­
verso de forte impregnação do real, a imagem se oferece como retrato
desse mundo, refração do real”. Citando Suzanne Langer, ela observa que
todo “pensar começa com o ver; mas não necessariamente com os olhos,
mas com algumas formulações básicas da percepção dos sentidos, no
idioma peculiar da visão, da audição, do tato, normalmente de todos es­
ses sentidos juntos” (op. cit., p. 142).
Ainda é Lígia que vai mostrando como “a visão mágico-mítica que
Ibrmou a macroestrutura do poema se repete na sua microestrutura, na
sua imagética, nas relações entre as palavras”. Com Alfredo Bosi, ela re­
laciona a percepção que opera a geom etria da imagem, com a dinâmica
do desejo (op.cit., p. 142).

“ Averbuck, Ligia Morrone (1985), “Estruturas do imaginário: do mito à metáfora -


animismo, magia e imagem” . In: Cobra Norato e a Revolução caraíba. Rio de Janeiro
I ivraria José Olímpio Editora, Brasília: Instituto Nacional do Livro, p. 138-170.
Essa análise da linguagem estética enuncia noções que a psicaná­
lise, em sua m etapsicologia contem porânea discute, do vértice dos fe­
nômenos inter e intrapsíquicos, na origem da formação do pensamento
verbal.
Pelo estudo do poema, o poeta e seu crítico sonham o mito. O gos­
to e o apetite das palavras e das letras, de um e do outro, desvendam e
real-izam 10 a função vincular da palavra, na sua natureza de ponte e de
testemunho. Epopéia “dos começos” de todos nós, aqui se vê bem, o que
queria dizer Bion, quando falava do mito, como sonho da humanidade e
do sonho, como mito do indivíduo.
Segundo ele, o pensamento primitivo de tipo pré-verbal depende da
introjeção e da assimilação das impressões sensoriais inscritas na emo­
ção. A aprendizagem do pensamento verbal supõe que uma função da per­
sonalidade que ele chama função alfa, possa operar sobre a tomada de
consciência da experiência emocional. “A função alfa transforma as im­
pressões de sentidos em elementos alfa que são semelhantes e talvez
mesmo idênticos às imagens visuais com as quais os sonhos nos familia­
rizaram”. (Bion, 1967).
Bion considera, de maneira paradoxal, que os pensamentos antece­
dem a capacidade de pensar e que um “aparelho para pensar os pensa­
mentos” vai se instaurar sob a pressão dos elementos protomentais pre­
cursores do pensamento simbólico. O aparelho para pensar vai se desen­
volvendo e se adaptando, para fazer face aos pensamentos. N a sua ori­
gem, esse aparelho seria o dispositivo que recebe as impressões de sen­
tidos relativas ao canal alimentar e todo o envelope sensorial que faz parte
da oralidade como captação e absorção do mundo. Seu fundamento con­
siste no vínculo emocional de conhecimento (vínculo K - Knowlege, do
inglês: vínculo do conhecimento). Trata-se, em sua origem, do vínculo
entre o bebê e a mãe, de maneira mais precisa, entre a boca e o seio. O
vinculo K designa uma experiência emocional pela qual duas pessoas,
ou duas partes de uma mesma pessoa, estão em relação. E ele pois que
garante a capacidade de comunicação consigo mesmo e com os outros: a
função psicanalítica da personalidade.11
Para Jean Guillaumin (1987) a verdadeira singularidade epistêmi-
ca da psicanálise residiria na conjunção única entre a antecipação de uma
prática intuitiva, seguida de uma teorização exigente para dizer, da ma­

10Para Bion o “pensamento vazio” (conceito extraído de Kant) ou pré-concepção depen­


de da experiência para se real-izar, dando origem ao conceito.
11 Sobre os temas do conhecimento e da formação do pensamento, objeto de nosso inte­
resse como psicanalista, nos referimos particularm ente ao nosso artigo de 1999.

248
neira mais aproximada possível, a contribuição da ascese prática. Segundo
ele, a resposta dada por Freud, ao trabalho posto em marcha por essa con­
junção, foi a “invenção” funcional do aparelho para pensar psicanaliti-
camente, aparelho aberto para a “negatividade”, justamente para acolher
a problemática do irrepresentável, do “infinissável”.
Podemos, pois, dizer que as palavras-experiências enraizadas no
corpo (como a prática intuitiva antecipou em um Freud o corpo de sua
teorização), seriam as transformações pelos elementos alfa das impres­
sões exteroceptivas, interoceptivas e proprioceptivas, sob o efeito com­
bustível e generativo da emoção, englobando tudo o que está a serviço
da captação, característico da fase oral de ingestão do mundo. Tais im­
pressões armazenadas se inscrevem na apercepção nascente do vínculo
direto com a mãe, cuja rêverie interpreta a letra e a música da comunica­
ção recíproca nascida e composta na relação.
A metáfora se oferece como “visão” (“Para existir literariamente,
essa visão alucinatória se faz como metáfora” Ligia Averbuck, op.cit.
p. 141) do trabalho de transformação da coisa-em-si em re-presentação,
no reconhecimento da necessidade e do desejo de comunicar. Da falta
(ausência), da dor e do desejo, nasce a imagem-pensamento: as forças
de ligação da posição depressiva permitem o trabalho de integração, as­
sociado ao pensamento verbal e à linguagem. O fotógrafo-aprendiz tra­
balha - revelação de negativos a serviço do imaginar - o artesanato de
imaginárias que preparam as sublimações.
O acervo de experiências e das vivências individuais armazenadas
desde o primeiro contacto com o mundo contém uma parte que resta para
sempre não representada ou irrepresentável. M as, quem pode saber o
montante e a natureza daquilo que não chega à representação pelo traba­
lho de transformações dos elementos brutos, “selvagens”12 (a coisa-em-
si, ou elementos beta, de Bion)? Cada terra tem seus segredos e cada um,
como lavrador, sua maneira singular de explorar e de comunicar com seu
terreiro e seu torrão.
Outro aspecto relativo ao acervo, diz respeito ao tempo e às genea­
logias: memória e lembranças do grupo social cristalizados na cultura-

12 “ Se um pensamento sem pensador se apresenta, pode-se tratar de um ‘pensamento va­


gabundo’, ou de um pensamento destituído do nome e do endereço de seu mestre, ou de
um ‘pensamento selvagem’. A questão consiste em saber o que fazer a respeito. Sc o
pensamento é selvagem, você pode, certamente, tentar domesticá-lo. [... ] O que me inte­
ressa, por enquanto são os pensamentos selvagens para os quais não se pode encontrar
nenhum vestígio de propriedade ou de genealogia”. W. Bion, (1977b), Pemée saitvage,
pensée apprivoisée, 19XX, p.45.
que individualmente integramos em nossa bagagem, de maneira mais ou
menos seletiva, mais ou menos inconsciente. Esses processos que se ope­
ram na aprendizagem da experiência, situam-se na origem dos movimen­
tos identificatórios, mas também dos movimentos de diferenciação, guar­
diões, ambos, de um espaço para a criatividade.
A dimensão de espaço, por definição, nos envia à noção de não-satu-
ração. A criação seria uma espécie de individuaçao-integrativa, do dina­
mismo ordenador da vida, comportando “a outra face, indissociável, da mo­
eda, o negativo em sua dimensão destruidora” (Didieu Anzieu, 1996), como
o instrumento do escultor fere a matéria inocente. Esse espaço aberto se
refere a um devir sempre em potencial, rio acima e rio abaixo - o ponto
“O” (origem), de Bion, talvez o que Jean Guillaumim nomeia o “infinis-
sável” - no entanto sempre inscrito em uma genealogia.
Toda criação já é uma transformação e deve a alguém ou a muitos
um reconhecimento.
O tempo das transformações estaria talvez associado ao componente
paterno estruturante da personalidade e situa-se como fundamento de toda
relação realista com o mundo. A inscrição precoce desse componente na di­
mensão feminina da personalidade - espaço e continente - consubstanciaria
as qualidades relativas ao movimento e à duração. A vida, ela mesma, escre­
ve sentidos no paradoxo13da transicionalidade recíproca entre passagem e
permanência', o infinissável da personalidade como “obra” aberta.u
***

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13 Os fenômenos paradoxaixais “vêm se intercalar entre dois modos de realidades em


ruptura relativa um com o outro. A experiência do paradoxo vivido estabelece um a conti­
nuidade, se constitui como uma ponte, é geradora de vínculos” . René Roussillon (1991),
Paradoxes et situations limites de la psychanalyse, 2001, p.67.
14 Obra aberta-, título de um livro de Umberto Eco (1962) cuja contribuição filosófica e
semiológica influencia a psicanálise contemporânea na pessoa de Antonino Ferro, autor
que opera uma conjunção original e fecunda do pensamento de Bion e de Freud, como
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252
A CIDADE SUBJETIVA

Tania M a ra G alli F onseca

Ao dar início ao presente texto, vem-me à mente os trabalhos dos ar­


tistas Hundertwasser e Pollock, em cuja arte podemos encontrar uma ver­
dadeira arma de descodificação.
A produção imagética de tais artistas impregna-se de lucidez e sensi­
bilidade, e opera, não como representação de mundos, mas como corpo pul-
sante, dotado da potência de afetar outros corpos, produzindo a captura de
pulsações gratuitas e desordeiras. Seu vigor reside em seu desejo pela for­
ma e na coragem de aceitar o estranhamento do informe. Arte-pensamen-
to, cujos atos mostram que a intensidade da vida está intacta e que, comc
diria Artaud, bastaria dirigi-la melhor.
Gostaria de trabalhar nesse momento, em especial, uma proposiçãc
que, partindo da indissociabilidade entre mundo e sujeitos, desloca a pers­
pectiva do social e do urbano para além das referências identitárias, situan­
do-os no plano da invenção e da dessubjetivação.
Tomo, pois, como protagonista especial da cena contemporânea, a pró
pria multidão, não no tradicional sentido pejorativo e negativo utilizadc
pela ciência política clássica. De “animal feroz”, de algo que é preciso or
ganizar e dominar, a noção de multidão é aqui assumida como a riquezi
imanente ao comum, comum que se opõe ao UM, coletivo de minorias
conjunto plural de capacidades produtivas, de cooperação e de desejos
(Toni Negri, 2001). Verdadeira potencialidade de contrapensamento, mui
tidão de seres, humanos e inumanos, acoplados em redes de conexão, con
figurando um rosto móvel, de múltiplas faces, cuja duração carateriza-s
pela mudança permamente e pelo devir. Uma espécie de Babel, movida pel

Tania M ara Galli Fonseca é psicóloga, doutora em Educação, professora titular em l’s
cologia Social no Instituto de Psicologia da UFRGS. Coordena o Grupo de Estudos
Pesquisas “Modos de trabalhar, modos de subjetivar”, é autora da obra Gênero, trabalh
e subjetividade e organizadora de Formas de ser e habitar a contemporaneidade e Modi
de trabalhar, modos de subjetivar: um estudo da reestnituração produtiva.

25
pluralidade de vozes e línguas, que retira de seu passado imemorial, no­
vos presentes, multiplicidades que nada têm a ver com a reprodução de
referências identitárias. Produção de mundos e de sujeitos como obra da
qual fazem parte a incerteza, o estranho e a invisibilidade; produção afas­
tada, pois, da perspectiva subjetivista que busca firmar a concepção de um
humano forjado pela consciência e pela vontade de poder. Produção fun­
dada no encontro intempestivo dos corpos, e não em traçados ideais, aprio-
rísticos. Produção estilística de milhares de sujeitos-escultores da existên­
cia que, com suas práticas e astúcias, são capazes de transformar os acon­
tecimentos e imprevistos em ocasiões de sobrevivência. Em nossa socie­
dade, essas práticas se multiplicam e revelam uma espécie de inteligência
coletiva, que se faz autora anônima de um aparente caos, que, contudo,
expressa uma ordem marcada pela invenção de novas linhas e novos an­
dares nos espaços de si e do mundo.

I - AS CINCO-PELES

Para Hundertwasser, a metáfora da PELE é revestida de uma vigoro­


sa expressividade por nos passar a idéia de permeabilidade e plasticidade,
permitindo a criação de espaços onde forma e conteúdo se confundem e se
produzem recíproca e inseparavelmente. A pele como envelope do incor­
porai, delimitadora de um espaço do corpo habitado por forças e intensi-
dades. Interface suscetível aos movimentos, ao dobrar-se e ao desdobrar-
se, superfície de inscrição e acolhimento das forças exteriores, fronteira de
um dentro e de um fora, mesmo que se venha a problematizar a questão da
inexistência de um interior do corpo.
Para o artista, existiriam cinco-peles, quais sejam: a epiderme, o ves­
tuário, a casa, o meio social e o meio global. Imbricadas e coexistentes, as
peles se intercomunicariam não de modo arborescente, hierárquico e cen­
tralizado, ou seja, a partir da consciência e vontade de um sujeito, que ope­
raria como centro do processo. Fora e dentro, mundo e sujeito não existi­
riam mais como realidades dadas, mas produzidas na relação passaria a ser
considerada como a constituidora dos termos. Isto nos leva a buscar o re­
gistro das diferenças nas repetições como ferramenta de produção de rup­
tura e análise. Não há, pois, desde esse olhar, um sujeito que possa vir a
ser apreendido a priori, identificando-se aí, uma espécie de construtivis-
mo, cujo modo de produção faz do humano, um efeito de articulações con­
tingentes de elementos múltiplos e de diversas naturezas. Humano-inumano
amalgamados nas densas corredeiras dos acontecimentos, demandando
tom ar audíveis e visíveis, em um instante imediatamente posterior, os jor-

254
ros de vida a-signifícantes, pré-individuais e impessoais. Resolução p;
ciai e relativa que sustenta uma certa pulsão de desmanchamento das fc
mas, plano de composição em que o real se transmuta em realidades ci
única garantia é o fato de serem parciais e finitas.
Cinco-peles, elementos humanos e inumanos conectados em uma r
lação de interferência instabilizante, atravessamento desestabilizador g
rador não de identidades novas mas de um processo de diferenciação qi
não tende à estabilidade e à reprodução do idêntico (Regina Benevides
Eduardo Passos, 2000). Relação de agenciamentos, de perturbações, re
sonâncias em que pode-se dizer, como Hunderwasser e Pollock, não a<
fundamentos e sim ao solo, às fundações.
No lugar do indivíduo, individuações. No lugar do sujeito, subjetiv
ção. [...] Não se trata de modo algum de reunir, unificar, mas de constri
redes por ressonâncias, deixar nascer mil caminhos que nos levariam
muitos lugares (Regina Benevides e Eduardo Passos, 2000, p. 78)

II - OS RIZOMAS DE CAPTURA E FUGA

Desde esse ponto de vista, a vida passa a ser considerada como ob


de arte, como algo a ser construído e modelado, obra do tempo, constiti
da pelo constante morrer de suas formas. A vida como texto em permanen
escrita, como campo de tensões no qual milhões de criaturas ordinária
anti-heróis, infames levam a cabo suas estratégias de astúcia, compost
por operações multiformes e fragmentárias e que denotam sua capacidai
inventiva sempre a se insinuar nas dobras dos poderes.
“M aneiras de fazer que constituem as mil práticas pelas quais i
usuários se reapropriam do espaço organizado. [...] operações m icr
bianas que proliferam no seio das estruturas tecnocráticas e alteram s<
funcionamento [...]” (Michel de Certeau,1994, Ç.41). O cotidiano r
vela seu potencial político e transfoffnadorTTevando-nos pergunte
como é que uma sociedade inteira não se reduz à extensa e microfisn
rede de vigilância e controle que a atravessa. Quais são, enfim, os pr
cessos mudos que, em luta com os poderes instituídos também orgar
zam a ordem sociopolítica? Produtores desconhecidos, esses suieite
tal como artistas da vida, produzem trilhas que não se enquadram n
estatísticas, realizam perform ances individuais e coletivas que os tc
na comparáveis aos melhores surfistas que, ao se moverem em um me
móvel e fluido, buscam tirar partido de forças que lhes são estranhas
realizam suas evoluções como configurações irrepetíveis, porque eft
tos de uma complexa rede associativa de elementos conjugada às su
habilidades Intuitivas e páticas.

2 ‘.
III - A CIDADE SUBJETIVA

Destacarei, a partir desse ponto, a questão da cidade. Quando se fala


em cidade, deve-se pensá-la como obra por excelência. A cidade muda
quando muda a socidade em seu conjunto, sendo que tais transformações
“não são os resultados passivos da globalidade social. A cidade depende
também das relações de imediatice, das relações diretas entre pessoas e
grupos que compões a sociedade” (João Frayze-Pereira, 1997, p.24). Como
obra pode ser pensada no sentido de uma obra de arte coletiva, visto ser o
espaço não apenas organizado e instituído, mas também esculpido, apro­
priado por este ou por aquele grupo. O urbano corresponde a uma forma
de encontro e dispersão dos elementos da vida social: coisas, pessoas, sig­
nos. A cidade possui uma realidade espessa de sentidos relacionados aos
seus habitantes. Pode dar ligar à imagem de uma imensa casa, “o lugar onde
moro”, pode ser concebida como máquina produtora de subjetividade in­
dividual e coletiva, como território onde se cruzam questões econômicas,
sociais, culturais... O porvir da humanidade parece inseparável do devir
urbano. Os corpos não estão na cidade, eles a habitam e são sustentados
por ela, podendo-se mesmo falar de uma cidade subjetiva, guarida ou trin­
cheira dos sujeitos/habitantes, espécie de morada, de universo de referên­
cia onde se constroem territórios existenciais.
“Como os sonhos, as cidades são construídas por desejos e medos”,
nos diz ítalo Calvino (1990, p.44), podendo ser vistas como um emaranhado
tenso entre racionalidade geométrica e existências humanas. Não nos in­
teressa, aqui, a cidade como conceito geográfico, mas como símbolo com­
plexo e inesgotável da existência humana. Comparando-a com trabalhos
de Pollock, teríamos uma espécie de mapa imenso, formado por um ema­
ranhado de linhas, pontos, sinais aparentemente arbitrários. Se nos diver­
tíssemos a instigar nossa imaginação, traçando um mapa dos itinerários
percorridos pelos habitantes de uma cidade em só dia, em uma só hora,
obteríamos um quadro abstrato e expressionista. E,

[...] se nos empenhássemos em seguir qualquer desses percursos e tivésse­


mos condições de compará-lo com o percurso que aquele dado indivíduo
deveria ter seguido obedecendo aos motivos “racionais” dos seus movi­
mentos [...] perceberíamos com surpresa o quanto são diferentes. (João
Frayze-Pereira, 1997. p.29)

Psicogeografia, que tem como dispositivo principal o locomover-


se, a errância, faz-nos ver a cidade como texto que comporta múltiplas
traduções, porque seus traçados mostram-se como apropriações espaciais,

256
como aventuras de viagem, viagem aberta para a experiência da alteri-
dade. O objeto urbano é de uma grande complexidade, podendo ser con­
cebido como topografia existencial produzida pelos caminhantes ao an­
dar e produtora de relatos de viagens cuja importância reside, justam en­
te, na ordem do invisível, do ainda não captura pelo discurso, mas que
nos indica a existência de uma espécie de vazio, ainda livre da presença
dos códigos e dos regimes de poder. Um vazio como tentação ao desejo,
espaço de passagem para uma errância feita com o pensamento, com a
memória e com o sonho.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BARROS, Regina Benevides de; PASSOS, Eduardo. A construção do plano da clíni­


ca e o conceito de transdisciplinaridade. In: Psicologia: teoria e pesquisa, jan-abr,
2000, v. 16, n.l, p.71-79.
CALVINO, ítalo. As cidades invisíveis. São Paulo: Cia das Letras, 1990.
CERTEAU, Michel. A invenção do cotidiano. Artes de fazer. Petrópolis: Vozes, 1994.
FRAYZE-Pereira, João. Crise e cidade. Por uma poética do acompanhamento
terapêutico. In: Crise e cidade. Organizado pela Equipe de Acompanhantes terapêuticos
de A Casa. São Paulo: EDUC, 1997.
NEGRI, Toni. Exílio, seguido de valor de afeto. São Paulo:Iluminuras, 2001.
RESTANY, Pierre. O poder da arte. Hundertwasser. O pintor-rei das cinco peles.
Lisboa: Taschen, 1999.

257
CARTOGRAFIA: DO METODO A ARTE
DE FAZER PESQUISA

D enise M airesse

A cartografia no campo da psicologia social remete o pesquisador a


uma intensa reflexão sobre o fazer da pesquisa. Isto é, o que é a pesquisa,
o que significa fazer pesquisa e quais as implicações do pesquisador neste
ato. Desde esta reflexão, coloca-se em questão os fundamentos da pesqui­
sa científica e toda a tradição moderna que sustenta estes fundamentos
como busca da constatação de fatos e sustentação da verdade. Assim, a
cartografia acontece como um dispositivo,1 desconstruindo esta forma de
pesquisa onde sujeito e objeto ocupam posições determinadas por um pen­
samento produzido desde coletivos e materiais sociotécnicos (Pierre levy,
1997)2 que os distinguem, e promovendo uma ampla discussão teórica
em torno do fazer e da metodologia da pesquisa. A cartografia participa e
desencadeia um processo de desterritorialização3 no campo da ciência
para inaugurar uma nova forma de produzir o conhecimento, um modo
que envolve a criação, a arte, a implicação do autor, artista, pesquisador,
cartógrafo. Seguindo este pensamento, marcado por um paradigma ético,

llrn isc M airesse é mestre em Psicologia Social e Institucional pela UFRGS, Psicóloga
i lliuca e Institucional, atuando em consultório privado e hospital geral, membro do gru­
po de pesquisa “M odos de trabalhar, modos de subjetivar” de coordenação da professora
doutora Tania M ara Galli Fonseca -U F R G S . Pesquisadora na área de Psicologia social e
liiuliliicional.
1"<» dispositivo [grupai] consiste na montagem-de uma situação que articule elementos
heleiogêneos, ou melhor, é aquilo que aciona certos modos de funcionamento produzindo
di leiiiunados efeitos”. (Barros, 1994, p.414)
M t' vy I’ierre. Tecnologias da inteligência: ofuturo do pensamento na era da informática
Fio d« Janeiro: Ed 34,1997.
1A palavra território, como um conceito teórico formulado por Félix G uatarn e Gíllcs
I li Umi/ o. diz respeito a uma construção espacial subjetiva, que permite a montagem e
d i , montagem de modos de ser dos sujeitos envolvidos, ou seja, territorialização e
di li ii ilonali/,ação destes modos (Regina Duarte Benevides de Barros, 1994).
estético e político, observa-se que, como um pesquisador/cartógrafo bus­
ca conhecer o seu pretenso objeto, este já está sendo inserido em novos
processos que o transformam e o descaracterizam de sua forma original e
isto se dando na duplicidade e no desdobramento da experiência que se
vive do e no tempo e das formas que são esculpidas por este. Utilizando-
se da metáfora da pele, Michel MafFezoli (1996, p. 127)4 explica o signifi­
cado do formismo e o seu valor na compreensão e na fundação do corpo
social. As diversas forças presentes no social provocam turbulências e
produzem ondas que se articulam como dobras, redesenhando o tecido
social, conforme suas lógicas de inclusão e excTusão, determinando con-
ceitos e modos de subjetivarão. Neste encontro, não só o objeto, mas o
próprio pesquisador já não é mais o mesmo e assim a única compreensão
que pode ser realizada é sobre os fenômenos efeito do encontro destes, no
instante mesmo em que este ocorre, o que só pode acontecer ao ser apre­
endidos no espaço do entre,5-6 entre uma dobra e outra. Deste modo, a
pesquisa, em seu sentido social, se realiza como uma viagem por outros
universos de significação que convoca um novo olhar sobre as paisagens,
estabelecendo uma nova interface com o mundo e com os sujeitos. Assim
é, quando nos deixamos atravessar e redesenhar por outros que nos visi­
tam, muitas vezes se instalando e se tomando parte de nós mesmos.
Surgimento e mutação, não de um, mas de muitos em nós, causando per­
plexidade, surpresas, temor, mas também sensação de alívio e liberdade
na saída da mesmice, do tédio infernal do M esmo, na repetitividade sem
história, num eterno presente que é em si a imagem de uma morte sem
desfecho (Peter Pál Pelbart, 1993, p.20).7
* Assim, algumas disciplinas que tratam dos modos de subjetivação
vem trabalhando com as noções de tempo, espaço e arte em sua relação de
composição e decomposição das formas.
Desde a ciência geográfica, na qual o termo cartografia é oriundo, já
se tem estas três noções incluídas. A cartografia registra as paisagens que

4M affezoli, Michel. No fundo das aparências. Petrópolis: Vozes, 1996.


5M ichel Serres (1993, p.55) chama de espaço do entre, um terceiro lugar, “o lugar do
mestiço, o ponto do qual jam ais se fala” e que transforma de modo mais ou menos inten­
so, toda um a ecologia social e cognitiva dos modos de subjetivação. O espaço do entre
remete a se pensar em; entre dois focos, o que contradiz a racionalidade do funcionamen
to homogêneo, equilibrado, pois quando se está entre, não se está em lugar nenhum, não
se corresponde a nenhum modelo. Então, servindo a uma lógica do que se pretende idên
tico, é preferível excluí-lo, omiti-lo, negando-o no discurso.
6Serres, Michel. Filosofia mestiça, le tiers instruit. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1993
’ Pelbart, Peter Pál. A nau do tempo rei. sete ensaios sobre o tempo da loucura Rio dc
Janeiro: Imago, 1993.

260
se conformam segundo sua afetação pela natureza, pelo desenho do tem­
po, pela vida que por ali passa. E, o cartógrafo, é aquele que traça ou
mapeia o cartograma. Segundo Aurélio Buarque de Holanda Ferreira,
cartograma é o mapa em que se representam, p o r meio de pontos, figuras,
linhas, colorido, previamente convencionados, um fenômeno quanto à sua
área de ocorrência, movimentação e evolução (1986, p.360).8
Outras disciplinas9 que até então, em nome de uma cientificidade, se
mantiveram rigorosamente distantes na produção teórica de mundos dife­
rentes, na prática da vida encontram-se entramadas, entrelaçadas. Redes
de produção de subjetividade, redes de produção de territórios. Territórios
produzidos naturalmente e socialmente. Cartografar o espaço social da
Terra, nos permite um retrato da nossa ecosfera, registrando os níveis de
crescimento do buraco na camada de ozônio. Produção que nos remete a
um hibridismo de conceitos, a uma análise das forças naturais, históricas e
políticas envolvidas neste fenômeno.
Portanto, nos torna politicamente interessante usufruir deste termo
como uma ferramenta facilitadora para desencadear novos percursos cien­
tíficos em favor de uma compreensão e de uma maior apropriação do
que atribuem os teóricos nitzscheneanos e deleuzianos de acontecimen­
to. O acontecimento, segundo estes autores, corresponde ao inusitado
absoluto, àquilo que inesperadamente se impõe sobre todas as outras
lormas e que transforma toda uma ecologia social e cognitiva10 dos modos
de subjetivação e apreensão dos objetos/ mundo. O acontecimento fala
por si e rompe com todas as certezas e evidências do que nos parece
mais sagrado. N este sentido, o acontecimento rompe com a linearidade
do tempo, funda um tempo outro no qual presente, passado e futuro co­
existem. Desafia as lógicas cartesianas de progresso e evolução, e in-

" Ferreira, Aurélio Buarque de Holanda. Novo dicionário da língua portuguesa. 2. ed. Rio
de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1986.
*"( Ifereça às disciplinas estabelecidas [epistemologia, as ciências sociais, as ciências do
lt'Xlo| uma bela rede sociotécnica, algumas belas traduções, e as primeiras extrairão os
i iiuccitos, arrancando deles todas as raízes que poderiam ligá-lo ao social ou à retórica; as
Niigundas irão am putar a dimensão social e política, purificando-a de qualquer objeto; as
In i eiras, enfim, conservarão o discurso, mas irão purgá-lo de qualquer aderência indevida
a icul idade - “horroresco referens” - e aos jogos de poder” . (Bruno Latour, 1994, p. 11)
111A purtir do conceito de Ecologia Cognitiva, Pierre Lévy ( 1993, p. 168) defende a idéia
de um “coletivo pensante homens coisas... e um mundo cognitivo matizado, misturado”
Ini qual os efeitos de subjetivação emergem de processos locais c transitório.?.
I )u um lado as coisas, os mecanismos cegos e heterogêneos, objetos técnicos, territórios
llisigtá íleos ou existenciais contribuindo para a formação da subjetividade. De outro, as
i ui tas do mundo são recheadas dc imaginário, investidas parcialmente, constituídas pela
Hiniiória. os projetos e o trabalho dos homens” .

261
venta outros caminhos nunca imaginados. É somente a favor do aconte­
cimento, que se trabalha com a subjetivação, que se produz conheci­
mento, que se busca engendrar formas mais criativas de vida. E, como,
então, cartografar a subjetividade?
Para tom ar mais claro o que esta autora entende sobre esta questão e
sobre a cartografia como metodologia de pesquisa, apresentar-se-á a for­
ma como esta se apropriou deste modo de fazer pesquisa para a realização
de sua dissertação de mestrado: “Empresa familiar/família empresarial:
(des)dobramentos da herança” (Denise Mairesse, 2000).11
Esta dissertação surgiu como efeito do encontro entre uma ouvinte e
uma história sobre um grupo empresarial familiar, que tomou o conhecer
e o escrever necessários à produção de novos modos de pensar e entender
o processo de subjetivação da empresa familiar e da família empresarial,
um desdobramento econômico e social que se realiza no tempo, produzin­
do as formas como a herança é esculpida. Por herança, a partir das idéias
de Pierre Bourdieu (1993).12 entende-se os conceitos de capital econômi­
co, cultural, social e simbólico. Toma-se ainda de Gilles Deleuze13 a idéia
de criação e diferença, num diálogo entre estes autores para a construção
de um novo olhar sobre a idéia de repetição, salientando o novo e a vida
entre as diversas realizações da herança. Portanto, não se trata de fazer
uma análise psicopatológica, depurando sintomas ou definindo mais uma
compreensão da dinâmica familiar, trata-se de engendrar um olhar do di­
ferente sobre uma obra que foi, é esculpida na duplicidade do tempo. No
tempo do Cronos, palavra originária do termo grego Chronos, que diz
respeito ao tempo cronológico constituído de presentes que se reincidem
em uma ordem sucessiva e linear, compreendendo os fatos a partir de uma
causalidade inserida num processo evolutivo e, no tempo do Aion, termo
original do grego, tempo do acontecimento. Nesta lógica temporal, o tem­
po está subordinado ao acontecimento, este se atravessa na ordem linear
composta pelo Cronos, configurando uma nova dimensão à temporalidade.
A análise de uma em presa familiar e da família empresarial na sua
relação entre herdeiros e herança parte de seu modo de subjetivação
impondo ao pesquisador um deslocamento para várias áreas do conheci­
mento. Porém, buscou-se delimitar este projeto para a formação do gru-

11M airesse, Denise. Empresa familiar/família empresarial, (des)dobramentos da heran­


ça. 2000 Dissertação de M estrado (M estrado em Psicologia Social e Institucional - U ni­
versidade Federal do Rio Grande do Sul.
12Bourdieu, Pierre, A Propos de la Famille Comme Catégorie Réalisée. Actes de l'Recherche
en sciences sociales, Paris, n. 100, p.32-36, décembre, 1993.
13Deleuze, Gilles. Diferença e repetição. Rio de Janeiro: Graal, 1988.

262
po familiar e da empresa como territórios existenciais que se articulam
entre linhas de fuga, linhas flexíveis e linhas mais duras que compõem
rigidamente as estruturas, como a da linha de montagem capitalística,14
segundo Félix Guattari e Gilles Deleuze a propõem.15 Portanto, a escuta
dos sujeitos bem como as investigações documentais estiveram sujeitas
também a este olhar.
A prática de pesquisa, delineada ainda na etapa do projeto de pesqui­
sa, propôs-se, além dos objetivos temáticos especificados, a possibilitar
aprendizagens e a experimentação de novas formas de se abordar o objeto
de estudo. Isto é, construir modos mais criativos de um fazer científico.
O paradigma norteador desta pesquisa refere-se a uma abordagem
ético-política e estética da produção de conhecimento. Conforme ante­
riormente colocado, um conhecimento que se produz na própria cons­
trução do objeto, compreendendo a implicação do pesquisador entrela­
çado a este, partindo do pressuposto que se está, conjuntamente ao pro­
cesso de análise, produzindo-se subjetividade. Não se está referindo a
uma intervenção no objeto, mas a produção de uma outra coisa que fora
deste olhar não existiria.
Assim, para fins desse estudo, foram contadas histórias a respeito da
vida da família e das em presas que compõem o grupo em presarial
pesquisado, bem como sobre a construção de seu patrimônio realizada por
diversos personagens, em sua maioria os próprios tecedores desta imensa
rede, patchwork Golden D rink no Brasil (pseudônimo da empresa), col­
cha de infinitos retalhos que, ao serem costurados, fazem o mundo em que
muitos homens, mulheres e crianças trabalham, tiram seu sustento, so­
frem e se divertem. Esta história é contada, desde os dias atuais, por seus

Mfélix Guattari acrescenta o sufixo “ístico” à “capitalista” por lhe parecer necessário
criar um termo que possa designar não apenas as sociedades qualificadas como capitalis-
lns, mas também setores do “terceiro mundo” ou do capitalismo periférico, assim como as
economias ditas socialistas dos países do leste, que vivem numa espécie de dependência
ou contradependência do capitalismo. Tais sociedades, segundo Guattari, em nada se di­
ferenciariam do ponto de vista do modo de produção de subjetividade. “Elas funciona-
i iam, segundo uma mesma cartografia do desejo no campo do social. U m a mesma econo­
mia libidinal política” . ( Félix Guattari, 1986, p .15)
" O s territórios (Regina Benevides Duarte Barros, 1994), para Deleuze e Guattari, são
loiinados por linhas abstratas e fluxos de força que se interpenetram. Em um território
podem predominar linhas de fuga, linhas mais flexíveis ou mais duras. A s linhas de fiiga
seguem a lei do desejo, no sentido conceituado pela esquizoanálise, de produção e cria­
ção. conectam-se ao imprevisível, realizam o inesperado. As linhas flexíveis se movi-
mentum operando pequenas transformações. E, enfim, as linhas mais duras, operam re­
m ites dicotomizados por movimentos de horizontalidade e verticalidade, reproduzindo
idaçõ es de hierarquia.

263
funcionários, por membros da família proprietária, da família que lá tra­
balha e por seu principal protagonista, o fundador do grupo.
Mas que histórias são estas? O que significa contar uma história?
Que fala é esta que atravessa o discurso desses sujeitos? A quem se dirige
esta fala? Que tipo de discurso se constitui nestas falas? Todas estas inter­
rogações remetem a autora deste estudo a uma diversidade de “propostas”
teóricas no domínio deste território, que a implicam desde um lugar de
escuta e demanda desta fala, constituindo um campo de forças e de luta
entre vetores que oscilam entre o que se deseja escutar e o que se pede
para falar, isto é, desde que se tome a fala, também, entre outras concep­
ções, como resposta a uma solicitação, um efeito entre a oferta e a deman­
da produzida no pedido pela palavra.
Portanto, este tema demanda em si, a análise do que está implícito no
pedido do contar, na vontade de saber (Michel Foucault, 1996, p. 16)16 do
pesquisador e o tipo de escuta que se faz desta história, isto é, de que
forma se interroga e qual o acolhimento que se dá para este dizer sobre as
histórias de vida e de trabalho de uma família.
A vontade de saber im plica uma vontade de verdade (M ichel
Foucault, 1996, p. 16-18), que atravessa tantos séculos de pesquisa que se
faz da história da humanidade,

[...] por volta do século XVI e do século XVII (na Inglaterra sobretudo)
apareceu uma vontade de saber que, antecipando-se a seus conteúdos atu­
ais, desenhava planos de objetos possíveis, observáveis, mensuráveis,
classificáveis; uma vontade de saber que impunha ao sujeito cognocente
[...] certa posição, certo olhar e certa função [...]; uma vontade de saber que
prescrevia [...] o nível técnico do qual deveriam investir-se os conhecimen­
tos para serem verificáveis e úteis.

A vontade de verdade, se realiza onde o saber atua sobre os outros


discursos, no modo, por exemplo, como é aplicado, “na maneira como a
literatura ocidental teve de buscar apoio durante séculos, no natural, no
verossímil, na sinceridade, na ciência também - em suma, no discurso
verdadeiro” (op. cit, 1996, p. 18).
Neste sentido, a pesquisa histórica tem sido influenciada pela tradi­
ção científica que exigia a objetividade das ciências exatas para vir a ser
considerada ciência. Prevalecia, em seu método, a busca da verdade atra­
vés de comprovação por documentos que registravam indicativos para
que se legitimassem os fatos. A teoria positivista exerceu uma forte influ-

l6Foucault, Michel. A ordem do discurso. São Paulo: Loyola, 1996.

264
ência sobre tal modo de produção científica e, ainda que se esforçasse,
garantia muito pouco a respeito do estatuto de ciência. Desde Descartes
(Hannah Arendt, 1997),17 os sentidos humanos têm sido questionados
enquanto ferramentas de investigação, o que tem contribuído para acres­
centar fortes argumentos que visam eliminar a parcialidade do historiador.
Reconstituem-se os fatos a partir de um complexo conjunto de testemu­
nhos e interpretações críticas sobre textos e documentos. O fato, pois, está
na realidade do historiador que o transporta para o documento, isto é, o
fato é uma construção do historiador (Philippe Ariès, 1992).18
Para Hannah Arendt (1997, p. 89) a história, na época modema, “não
mais se compôs dos feitos e sofrimentos dos homens e não mais contou a
estória de eventos que afetaram a vida dos homens; tomou-se um proces­
so feito pelo homem [...]”. Contudo, mesmo tal concepção, continua a
buscar na origem da história, uma verdade primeira que determina toda a
ação a posteriori, em uma relação de causa-efeito, correspondendo a uma
perspectiva evolucionista que concebe o progresso e o declínio na ordem
do Cronos, do tempo sucessivo e linear.
A verdade é produzida pelo poder e produz poder. É o saber, enquan­
to verdade científica, reconhecido por dispositivos sociais jurídicos, que
rege o funcionamento das instituições específicas de aprendizagem e de
transmissão deste saber que determinam os procedimentos e práticas pos­
síveis de se distinguir o falso do verdadeiro. O discurso do verdadeiro
emerge de um processo de construção e produção de necessidades de cada
sociedade. Cada grupo, cada nação acolhe e faz funcionar determinados
tipos de discursos como verdadeiros ou falsos, estes são produzidos e re­
gulamentados a partir de necessidades políticas e econômicas que exer­
cem múltiplas coerções sobre este discurso e sancionam suas formas de
atuação e legalização de práticas e condutas específicas destinada a
universalização de valores e homogeneização das classes.
O historiador, como cientista da história, intelectual responsável
pela produção do conhecimento científico, ocupa neste sentido uma po­
sição política na economia da verdade, na produção “das regras, segun­
do as quais se distingue o verdadeiro do falso e se atribui ao verdadeiro
efeitos específicos de poder [...]” (Foucault, 1996, p. 13). É do lugar que
ocupa no contexto de quem produz e é produzido a partir dos mesmos
dispositivos que regulamentam as regras de funcionamento dos apare­
lhos sociais como universidade, mídia, exército, etc., que este vai ser
problematizado em torno do estatuto de verdade e do papel que desem-

17Arendt, Hannah. Entre o passado e o futuro. São Paulo: Ed. Perspectiva, 1997.
'* Ariès, Philippe. O tempo da história. Lisboa: Relógio D ’água, 1992.

265
p en h a p a ra a form ação d esta co n ju n tu ra social de ex p ressão e
legitimização de saber-poder.
A vontade de verdade, ainda, está fundamentada na busca de uma
resposta para a mais antiga interrogação do homem, que é objeto da
filosofia e funda todas as religiões: de onde viemos e para onde vamos?
O estudo da genealogia de Foucault se opõe, não à pesquisa histórica em
si, mas ao tipo de dobramento que se realiza sobre esta na busca das
origens, de uma verdade primeira como essência da coisa. E, em tomo
da luta contra a necessidade de uma explicação, uma resposta que funcio­
ne como reguladora de identidade, dispositivo unificador do eu, garan­
tindo seu estatuto de pureza, anterior a tudo que existe e é externo a si,
que Foucault (1979),19 a partir de Nietzsche, reivindica uma outra for­
ma de pesquisa. “O que se encontra no começo histórico das coisas não
é a identidade ainda preservada da origem - é a discórdia das coisas, é o
disparate” (p. 18), o múltiplo, o estrangeiro que habita o ser. Na busca de
uma unidade e de um saber que reconheça o seu lugar, o que se encontra
é, pelo contrário, a infinitude, o diferente, o que se quer negar e destruir
a partir da produção de um lugar de verdade, composto não pelo erro,
mas pela ilusão, “gosta-se de acreditar que as coisas em seu início se
encontravam em estado de perfeição; que elas saíram brilhantes da mão
do criador [...]” ( p. 18).

A NARRATIVA E O IMEMORIAL

Trabalhar sobre a narrativa remete a uma discussão sobre o tempo, o


espaço e a memória imbricados ao próprio ato de contar, sobre o conceito
de invenção e ficção, de história e verdade e sobre as estratégias produzi­
das do que se supõe articular desde esta narrativa.
Michel de Certeau (1998)20 trabalha sobre a narrativa como uma arte
do dizer e do fazer a história diferenciando-a da técnica de descrição, “no
relato não se trata mais de ajustar-se o mais possível a uma “realidade”
[...] e dar credibilidade ao texto pelo “real” que exibe. Ao contrário, a
história narrada cria um espaço de ficção” (p. 153). A narratividade, neste
sentido, supõe uma teoria do relato indissociável de uma teoria das práti­
cas, como sua condição mesma de existência e do modo do tempo vivido
como duração, em que o passado subsiste no presente continuamente en-

l9Foucault, Michel. Microfisica do poder. 12. ed. Rio de Janeiro: Graal, 1979.
20Cearteau, Michel de. A invenção de cotidiano. Rio de Janeiro: Vozes, 1998.

266
gendrando o novo (Cristina Mair Barros Rauter, 1998).21 O discurso pro­
duz efeitos ao querer dizer outra coisa do que aquilo que se diz, exerce sua
estratégia por um desvio pelo passado, recorrendo à memória como uma
de suas táticas geradoras de sentido.

A memória mediatiza transformações espaciais. Segundo o modo do '‘mo­


mento oportuno” (Kairós), ela produz uma ruptura instauradora. Sua estra­
nheza | inquietan-te familiaridade] toma possível uma transgressão da lei
do lugar. Saindo de seus insondáveis e móveis segredos, um “golpe”, mo­
difica a ordem local [...]. [...] o passado voltando, abala os dados de uma
forma hierárquica. (Certeau, 1998, p. 161)

O passado é o objeto maior das narrativas que, a partir de uma ou


outra dimensão da memória, busca seu potencial para realizar-se en­
quanto recordações ou imagens-lembrança. A inteligência produz recor­
tes que introduzem regiões de parada no devir, correspondendo a con­
trações do passado mais ou menos fluidas. Quanto mais fluidas, mais
próxim as estarão de uma dim ensão virtual, da m em ória im em orial
(Rauter, 1998). Somente através da memória pode-se atingir o passado,
e este, não existindo como um antigo presente, só se torna possível como
produção no presente resgatado pelo imemorial. Assim, é somente a par­
tir de hoje que se pode falar sobre o passado e é implicado no presente e
comprometido com o futuro, que se faz valer o passado. Um passado
sempre a se refazer no presente.
A memória fica à espreita, escondida nas sombras das práticas coti­
dianas, que a aciona como força de intervenção. A memória se constrói no
encontro com os acontecimentos, em seu instante ainda virtual, quase pronto
para realizar-se. Assim, a memória consiste num meio de transformar os
lugares. “A memória vive de crer nos possíveis, e de esperá-los, vigilante,
à espreita. Deslocável, móvel, vem de alhures” (Certeau, 1998, p. 163).
O ato de contar resgata a memória para infinitos encontros que se
realizam nas histórias. Por isto o dizer, o contar é uma arte do fazer, do
produzir e do transformar uma realidade que já existe em função do que
outrora foi falado.

Talvez, a memória seja, aliás, apenas essa “rememoração”, ou chamamen­


to pelo outro, cuja impressão sc traçaria como em sobrecarga sobre um

:l Rauter, Cristina Mair Barros. Clínica do esquecimento: construção de uma superH-


cie 1988. Tese de Doutoramento (Doutorado em Psicologia Clínica) - Pontilicia Univer­
sidade Católica de São Paulo.

267
corpo há muito tempo alterado jamais sem o saber. Esta escritura originária
e secreta “sairia” aos poucos, onde fosse atingida pelos toques. [...] é tocada
pelas circunstâncias, como o piano que produz sons aos toques das mãos.
(op. cit., 1998, p. 163)

Deste modo, a dupla contar/escutar vai tecendo uma nova rede, en­
trelaçando pedacinhos de tem po perdidos a um a cadeia tem poral
estabelecida, fixada em datas, horas e lugares, compondo uma história
onde se ressuscitam fantasmas, tomando presentes as ausências. A repeti­
ção deste ato permite compor e recompor a imagem que cada geração tem
das anteriores, aciona-se a reversibilidade do tempo e com este a produ­
ção de práticas e afetos.
Assim, o contar uma história pode remeter o sujeito que fala à busca
de um sentido, de uma compreensão, principalmente quando se é ingenu­
amente indagado sobre este lugar de origem, quando o ouvinte tenta en­
contrar nesta fala sobre a história, uma procedência que também justifi­
que a sua herança transmitida. É nesta via que o pesquisador, ouvinte e
futuro escritor de histórias, pode se encontrar na posição de bloqueador de
sentidos, depara-se aí com o equívoco do mesmo, da perpetuação dos ca­
pitais, da prisão muda do modelo identitário e do seu lugar de agente desta
reprodução do social.
A possibilidade de escuta e acolhimento de outras histórias através
das mesmas palavras que vinham se pronunciando, buscando uma verda­
de homogeneizante, impõe a circulação do sujeito por diferentes disposi­
tivos e circuitos de produção de subjetividades tramadas por entre outras
verdades e certezas, pondo em questão aquelas, através das quais
pretensamente o sujeito vinha se constituindo. Possibilita-se que a fala
saia do lugar de representação, de comunicação intersubjetiva, para ocu­
par um lugar de criação, como um “dispositivo acontecimental” (Luís
Cláudio Figueiredo, 1994, p. 151 ).22 Neste sentido, a própria lógica da
identidade toma-se passível de desconstrução diante da pluralidade de
formas rizomáticas e conexões plugáveis encontradas enquanto canais de
subjetivação. Como efeito destas miscigenações, novos sujeitos constitu­
em novos grupos e subgrupos. Entre outras “verdades”, estes se organi­
zam, muitos instituindo ainda modelos identitários. As intensidades, re­
sultantes da afetação produzida por este processo de produção de diferen­
ças, definem as novas modalidades em reconhecimento. O limite que dis­
tingue a heterogênese como devir de diferença ou modelo de identidade é

22Figueiredo, Luís Cláudio. Escutar, recordar, dizer, encontros heidcggerianos com a


clínica psicanalítica. São Paulo: Educ/Escuta, 1994.

268
dado pelo modo do sujeito se apropriar de sua alteridade. O confrontar-se
consigo mesmo enquanto outro ou outros é bifurcar-se por um caminho
(des)conhecido e escorregadio. É se lançar numa aventura na qual a única
companhia é o si próprio que vai se estranhando a cada passo dado.
Contar uma história pode vir a ser um movimento de desdobramen­
to, deixando vir o “dentro” para “fora”, libertando aquele que se refugia
nos entres das envergaduras, agenciando no sujeito uma nova configura­
ção do ser. Em sua pluralidade, infinitas vozes dialogam disparando um
novo processo, um movimento de devir. Um sujeito mais livre... enquanto
em processo de singularização, em entrelaçamento, junções e disjunções
de si com os outros.
Assim, trabalhar a partir da escuta sobre a narrativa implica em um
“dizer sobre aquilo que o outro diz de sua arte, e não um dizer dessa arte”
(Certeau, 1998, p. 151). “O ouvido apurado sabe discernir no dito aquilo
que aí é marcado de diferente pelo ato de dizê-(lo) aqui e agora, e não se
cansa de prestar atenção a estas habilidades astuciosas do contador”, (p. 166)
E, é neste contexto, que se reconhece um novo modo de análise destas
narrativas enquanto produção do social desde a arte de cartografar.

REGISTRO - ESCRITA

Se o contar e o escutar compõem, constituem redes de tradução em


busca da criação de sentidos, também o registrar e escrever o contado
podem vir a ser problematizados da mesma forma.
A partir de relatos contados por membros desta família e por antigos
funcionários do Grupo Empresarial, foi-se construindo um grande mapa,
inicialmente um rabisco no que já se anunciava a dobradinha empresa
familiar/ família empresarial como problemática a ser analisada. No mapa,
traçou-se a trajetória percorrida por esta família. Esta é constituída por
uma ecologia social e cognitiva que significa e é resignificada por aqueles
que ali passam. O mapa, “quando o próprio objeto é movimento, confun­
de-se com seu próprio objeto” (Deleuze, 1997, p.73),23 no caso, o trajeto
percorrido e os sujeitos que o percorrem. O próprio escrever sobre este
case é se fazer objeto deste mapa, é fazer parte desta trajetória e constituir
esta ecologia, ou seja, estar em processo. Como refere este autor, “escre­
ver é [...] uma passagem de vida, que atravessa o vivivel e o vivido” (p. 11).
Mas o mapa não se limita a se circunscrever a partir de um espaço-tempo

MFigueiredo, Luís Cláudio. Escutar, recordar dizer: encontros heideggcrianos com u


clínica psicanalítica. São Paulo: Educ/Escuta, 1994

269
delimitado; ele é também um mapa de intensidades (p. 77), transformável
em função da constelação afetiva que o/se compõe. Por isto, o mapa é
devir; ler um mapa é cartografá-lo, é apreendê-lo sempre em uma forma
outra, que não aquela que supostamente lhe deu origem, é tomar-se parte
dele. E, justamente, a tarefa do cartógrafo social é a de acompanhar os
movimentos. Perceber entre sons e imagens a composição e decomposi­
ção dos territórios, como e por quais manobras e estratégias se criam no­
vas paisagens. Quais linhas predominam em sua articulação? Das linhas
de fuga às linhas mais duras, qual a relação entre elas? O quanto as linhas
de vida estão capturadas? Qual a força que as mantêm?
O compromisso com a vida é o que consta como cláusula principal
no contrato do cartógrafo/pesquisador. É, somente, a partir deste que se
possibilita a apreensão destas conexões, a escuta dos ruídos e a visão das
sombras. É no suporte à vida que se percebe quais intensidades pedem
passagem, qual o índice de abertura, de devir, de acolhimento a novos
encontros e a novas experiências que permitem a desterritorialização de
campos inférteis, onde o único esboço de vida é o do Mesmo, daquele que
ainda persiste, mesmo na iminência de cair na escuridão. E, no compro­
misso com a vida, é também tarefa do cartógrafo social fazer deste esboço
um desenho, desvendar outras linhas, potencializar novas formas. Assim
refere Fromentim, citado por Deleuze (1997, p.78): “estudei o mapa, não
como geógrafo, mas como pintor. E como os trajetos não são reais, assim
como os devires não são imaginários, na sua reunião existe algo de único,
que só pertence à arte”. Portanto, desde esta proposta, podemos concluir
que cartografar, como um método de pesquisa social, está além do fazer
geográfico, está também no movimento da arte.
Do mesmo modo, o “escrever é um caso de devir” (Deleuze, 1997,
p. 11), uma matéria a se constituir no próprio ato mesmo de sua invenção.
E se fazer sempre um outro da escrita, é compor uma nova paisagem a
partir de novos enunciados, é traduzir em idéias as histórias que se vê e
escuta através da linguagem. Escrever está na ordem do desejo, da paixão
pelo conhecimento e descobrimento de novos horizontes que só a elabora­
ção produzida no próprio ato é capaz de revelar. Não se pode explicar
sobre o escrever, pois este só o entende o escritor, aquele que vive a expe­
riência da transmutação pela arte de reinventar-se na palavra escrita.
Escreveu-se, então, sobre as histórias contadas, ouvidas, cartogra­
fadas. Fez-se sujeito e objeto de análise a trajetória do Grupo Rosen Re­
frescos S. A. (pseudônimo do grupo), a história de uma empresa familiar e
de suas heranças, uma obra esculpida no tempo.
A história escrita nesta dissertação começou no desejo do analista
cartógrafo, em seu estilo de construir e assim interferir nesta paisagem, de

270
deixar-se envolver e emocionar como se envolvem os escritores com seus
personagens. A história de uma família empresarial contada por seus ato­
res/autores e interpretada por uma pesquisadora/cartógrafa... Ficção ou
realidade? Responder-se-ia... o resultado de uma construção, de um traba­
lho realizado junto aos próprios protagonistas que, desde o seu envolvimen­
to, possibilitaram que se desse forma a esses escritos.
Desvencilhar-se de antigas formas, que pareciam as únicas possíveis
dentro de um campo de atuação conhecido, é uma tarefa árdua e que de­
pende de um tempo outro, do tempo da possibilidade, da subjetivação e de
se fazer diferente. Porém, pretendeu-se com a dissertação referida come­
çar a delinear um novo trajeto metodológico, arriscando-se a algumas outras
formas, mesmo que ingenuamente utilizadas. Iniciou-se, então, delinean­
do-se a pesquisa que, diferente de mapeá-la, trata-se de prever o estilo e os
procedimentos que são utilizados para apreender o “objeto”. É capturá-lo
na forma que se reconstruiu, no instante em que se pode vê-lo. Esta forma
única e singular que se monta no momento mesmo de sua apreensão.
A metodologia da pesquisa científica em geral distingue territórios
preexistentes, reconhece e registra as formas. Assim, coordena e assegura a
vTãgèm entre os diversos caminhos possíveis de se percorrer. Porém, a via-
gem que se inicia com o “método cartográfico” é muito mais árdua e cheia
de encruzilhadas; nesta não há o melhor caminho, nem o mais correto, não
existe o verdadeiro, nem o falso, mas se encontra sim, o mais belo, o mais
intenso, o que insiste em se presentificar, o que causa estranheza, temor..., o
que se equivoca, se atrapalha..., o que falha. São pelos desvios que
i i ; ' 1 1 se come-
*

ça a jornada, pelas linhas mal/bem traçadas do desejo que se realiza a carto­


grafia, potencializando vidas em territórios complexos e heterogêneos de
loi ças, que se imiscuem umas às outras num constante jogo de poder e afeto
característicos de qualquer grupo composto por sujeitos.

T ra ta -se f...] de o u v ir as linhas de v irtu a lid a d e que se an u n ciam e se p er­


guntar: [...] Q ue ag enciam entos são p assív eis de tra z ê -lo s à e x istê n cia , re ­
c o m p o r um m undo, re la n ç a r o p ro ce sso ? [...] as esco lh a s são m ú ltip la s c se
fa z e m em fu n çã o do que é m elh o r p a ra a v id a [...] U m a esco lh a é tic a , qu e c
m ais da o rdem d a arte do que do m éto d o : o qu e e la v isa é c ria r fo rm as de
e x istê n c ia , a fav o r do p ro ce sso v ita l; [...]. (R o ln ik , 1996, p .7 )24

Rolnik, Suely Belinha. Novas figuras do caos: mutações da subjetividade contemporâ­


nea Sito Paulo, 1996. Trabalho apresentado em mesa-redonda no III Congresso Interna­
cional Latino Americano de Semiótica na Pontifícia Universidade Católica de SSo Paulo,
<1 ncI 1996.

271
GENITAIS FEMININOS
E OS LUGARES DA DIFERENÇA

P aola B asso M en n a B arreto G om es

A CONSTRUÇÃO CULTURAL DOS GENITAIS

Nas últimas décadas, podemos observar uma multiplicação de cam­


pos de conhecimento e de profissionais das mais variadas áreas que estão
prescrevendo e ditando verdades sobre o corpo; saberes sobre saúde, fun­
cionamento do organismo e sobre a sexualidade são disseminados em di­
versos lugares, destacando-se, entre todos estes, os meios de comunicação.
A mídia, instaurada no século XX como um privilegiado locus de “verda­
des”, centraliza a distribuição de ensinamentos sobre o corpo, sobre o que
é certo e errado em relação a ele e o que devemos fazer para ter saúde e
vivermos “melhor”. Propagador dos mais diversos “ditos”, o discurso mi-
di ático sobre a sexualidade, sempre referendado ao aval dos especialistas,
se intitula “esclarecedor”, com intenção de trazer ao leitor/espectador/con-
sumidor informações verdadeiras e fidedignas. Considerando a mídia como
“dispositivo pedagógico” (Fischer, 1997) envolvido diretamente com a
produção de sentidos e a construção de significados sociais, Rosa Fischer
propõe que este campo seja pesquisado em sua “mínima materialidade”.
A análise do discurso midiático estaria articulada com a “história das ver­
dades” que circulam em nosso tempo.
Conhecer o próprio corpo, incluindo as partes mais íntimas e secre­
tas, implicaria no conhecimento de uma verdade sobre si mesmo. Em re­
vistas e periódicos destinados principalmente ao público feminino, é vei­
culado um amplo material de cunho cientificizante sobre saúde, corpo e
sexualidade. Sempre obedecendo à formatação estilística deste tipo de ve-

1’iKila Basso Menna Barreto Gomes é doutoranda em Educação e pesquisadora na área


dr Educação, mídia visual e subjetividade no Programa de Pós-Graduação em Educaçãc
da I Iniversidade Federal do Rio Grande do Sul

27
ículo, encontramos inúmeros textos, artigos e ilustrações que fazem o lei­
tor/espectador/consumidor ter acesso à informações extraídas da anatomia,
da medicina e de outros saberes afins. Dentro deste contexto, no qual enun­
ciados legitimados pela ciência são difundidos à título de “esclarecimen­
to”, destacarei alguns enunciados sobre os órgãos genitais que tentam mos­
trar e ensinar como é o sexo feminino.
As implicações pedagógicas do imaginário, em especial o imaginá­
rio da cultura de massas, tem sido amplamente discutido por autores vin­
culados aos estudos culturais e a pedagogia crítica, entre outros. A prerro­
gativa comum é de que, além de produzir modos de olhar, o imaginário
dissemina saberes, ensinando “como é” um objeto específico, às vezes
descontruindo algumas noções de “verdade”, e, em alguns casos, sacrali-
zando certas representações. Rose Braidotti, em um dos capítulos de seu
livro Sujetos Nómades, aborda o triunfo das representações visuais a par­
tir de pedagogias onde a “representação tem prioridades sobre o
representado”(p.98), a verdade estabelecida e ensinada pelas imagens so­
brepõe-se sobre percepções singulares de um dado objeto; o que sabemos
sobre nosso corpo inclui muito mais a imagem que construímos sobre ele
do que vivências subjetivas que não se ajustam aos modelos representa-
cionais disponibilizados pela cultura. Dentro deste vasto campo imagéti-
co, território de fronteiras imprecisas, como se representa aquilo que por
muito tempo enunciou-se como impossivel de representação (ou, no mí­
nimo, causa de espanto)? Parto do pressuposto de que as representações
anatômicas do sexo, neste caso as extraídas da mídia, possuem fortes im­
plicações na construção da subjetividade feminina. No discurso pedago-
gizante dos veículos midiáticos, diferente discursos, principalmente o psi-
canalítico, articulam-se para produzir imagens do aparelho reprodutor e da
genitália feminina que constituem significados sobre o sexo feminino e a
existência das mulheres.
A gama de significações acerca dos genitais e do aparelho reprodu­
tor femininos inicia pela multiplicidade de lugares: vagina, grandes e pe­
quenos lábios, vulva... Como designar o sexo de uma mulher? Uma pri­
meira leitura do material impresso em revistas destinadas ao público fe­
minino poderia indicar que nas últimas décadas as publicações tendem a
desconstruir tabus sobre a sexualidade feminina. Embora a representação
cientificizante de cunho pedagógico ocupe espaços bem distintos da ex­
posição pornográfica, o sexo feminino é literalmente “aberto” e visibili-
zado a partir da década de 1970.
Em uma página na internet direcionada ao público adolescente que,
além de vender produtos de higiene íntima, intenciona que as intemautas
aprendam sobre seu corpo e sua saúde (“a melhor maneira de perceber

274
mudanças em seu corpo é conhecê-lo bem”), as meninas são encorajadas
a usar um espelho para examinar seus genitais: “dê uma olhada em si mes­
ma” 1. O texto diz que mesmo que a menina se sinta “meio estranha exami­
nando sua genitália sozinha”, está aprendendo sobre seu próprio corpo e
“não há nada de embaraçoso nisso”, pois é importante para sua saúde (desde
que isto seja um ato privado, como indica a palavra “sozinha”). Ver o pró­
prio sexo e identificar as partes de sua anatomia dentro de uma prática ex­
ploratória individual, ou seja, descartando a possibilidade de jogos sexuais
com parceiros do mesmo sexo ou do outro, é recomendado para as adoles­
centes como exercício de autoconhecimento.
A visão da genitália é uma das principais prerrogativas na constitui­
ção do sujeito da psicanálise, resultando no que Freud chamou “abandono
do Édipo”. Aobtusidade visual dos órgãos femininos está implicada no que
se conhece como “complexo de castração, pois ao tomar o pênis como re­
ferencial e descrever o sexo feminino a partir de sua ausência, a psicanáli­
se expressava a ignorância secular sobre a anatomia sexual das mulheres.
Os meninos abandonam a sua identificação com a mãe na medida em que
percebem visualmente que as meninas ou as mulheres não possuem um
pênis, foram privadas do órgão, o perderam, são “castradas”. É a visão de
um pênis que implicaria na descoberta de “sua inferioridade orgânica”, é a
relutância em aceitar este “desagradável conhecimento” que leva a meni­
na a depreciar as mulheres, incluindo a mãe, que também possui “sua
deficiência”(Freud, 1931, p.266-268).
E sobre o papel da visão no conhecimento dos genitais femininos que
procuro tratar da dimensão política do corpo e dos deslocamentos opera­
dos sobre as subjetividades de nosso tempo. Considerando que o século
XX “assistiu, como parte de um ‘projeto’ acalentado por diferentes cien­
tistas em séculos anteriores, à dissecação do corpo em seus menores deta­
lhes” (Santos, 1999, p. 198), analiso aqui como os ditos midiáticos difun­
dem verdades que são impressas a partir da anatomia dos genitais femini­
nos. Pensando a superfície corporal como uma “complexa montagem de
órgãos” (Braidotti, p.98), mas órgãos desvinculados do organismo bioló­
gico descrito pela ciência, pretendo discutir como as imagens sobre o cor­
po estão construindo saberes sobre o prazer e sobre o exercício da sexuali­
dade para as mulheres de agora.
Partindo das reflexões de Donna Haraway, autores como Santos e
Braidotti chamam a atenção para os intensos deslocamentos operados so­
bre o corpo, citando outros lugares de prazer como o sexo virtual, o uso de

1Capturado no site www.meucorpo.cont.br.


próteses (poderíamos incluir nesta categoria os vibradores e outros “brin­
quedos” sexuais) e a centralidade das imagens como objeto de desejo, en­
tre outros. Rose Braidotti, por exemplo, analisa as tecnologias de reprodu­
ção, comentando que não é mais necessário fazer sexo para se procriar ao
mesmo tempo que o sexo deixou de ser vinculado ao ato reprodutivo.
Essa autora cita Deleuze para referir-se à desterritorialização como mo­
vimento adjacente ao “devir feminino”, não o feminino atrelado ao corpo e à
identidade de gênero, mas o feminino como “marca de um processo geral de
transformação”. Rompendo com as identidades baseadas no falo, o feminino
apresenta um outro referencial, uma espécie de não-identidade que traz a pos­
sibilidade de inventar e cnar sua própria sexualidade, uma via de singulariza-
ção que permite vermos a “mulher como figura de alteridade” (Braidotti, p. 13 5).
Essas reflexões nos levam a redefinições das bases psicanalíticas deste corpo
produzido pulsionalmente, materialização psíquica do devir. Desejantes e/ou
desejados, é preciso que se faça um mapeamento das posições que ocupamos
nos territórios existenciais como sujeitos encorpados e incorporados.

CORPO: UMA ENTIDADE HISTÓRICA

Em uma entrevista so b re i vontade de saber, o primeiro volume de sua


História da Sexualidade, Michel Foucault se refere às mulheres como aque­
las que se “tentou fixar” ao sexual. Partindo da acepção em que a mulher é
vista prioritariamente a partir de seu sexo,2 Foucault nos fala do feminino
historicamente concebido como foco de doença e debilidade, corpo patolo-
gizado no século XIX, o corpo histérico que propulsionou as investigações
da psicanálise3A mulher passa a ser o sintoma do homem: “objeto médico
por excelência”, nas palavras de Foucault. Talvez por não ter explorado o
tema em sua amplitude (o que poderia desviar o curso de seu projeto) acres­
centa que pretendia “fazer a história desta ‘imensa ginecologia’” (Foucault,
1996, p. 23 4). Dada a centralidade que as representações dos genitais femi­
ninos ocupam dentro do processo histórico que constituiu as mulheres como
“sujeitos dominados”, enfocaremos alguns enunciados sobre a sexualidade
feminina com a lente “ginecológica” proposta por Foucault.

2 O termo “sexo” é usado tanto para designar gênero sexual (masculino ou feminino)
quanto os genitais propriamente ditos. Este emprego dúbio delata a relação cultural
estabelecida entre a mulher e seu sexo, contribuindo no paradoxismo atribuído à sua con­
dição: a mulher é mulher porque assim é o seu sexo.
3 As relações entre Foucault e a psicanálise são analisadas no ensaio Entre cuidado e
saber de si, de Joel Birman (ver bibliografia.).

276
A mulher é tomada como “o outro”, e o sexo feminino (dentro do:
regimes simbólicos hegemônicos) é tido como misterioso, obtuso; aqui
lo que não se vê: “os órgãos genitais femininos jamais parecem ser des­
cobertos” (Freud, 1923, p .183-184). Invisível, não é levado em conside­
ração, portanto, excluído da história e jamais ocupando o lugar de sujei­
to do conhecimento. Como objeto de investigação, seu corpo e seu psi
quismo são tomados a partir de sua diferença em relação ao masculinc
dominante. Diferente, traz inscrito a marca da proscrição. Esta marca <
expressada e aprendida através de práticas e de discursos que constituen
o feminino como o lugar deste “outro”. Embora inscritas no corpo bio
lógico a partir das diferenças sexuais, as marcas que definem homens <
mulheres dentro dos gêneros masculino e feminino são uma produçãr
cultural. De modo que, mesmo possuindo órgãos reprodutores femini
nos, não se nasce mulher, mas sim nos tornamos mulheres ou não por
que somos educados para sermos assim.
Tratando o corpo como o protagonista da “história política de uma pro
dução de verdade” (Foucault, 1996, p.230), é preciso abordá-lo como “enti
dade biocultural” (Braidotti, p.90) que fixa modelos identitários. O discurs«
sobre a sexualidade, privilegiado a partir do século X V m com o que Foucaul
denomina sciencia sexualis, toma-se uma espécie de regulador da vida do:
sujeitos, mostrando a historicidade do corpo e como este constitui verdade
sobre os sujeitos. Colonizado pelo dualismo sexual, o corpo é generificado <
conceituado como operador de diferenças, é no corpo que se institui a subor
dinação feminina e a própria condição de “ser mulher”. “Não existe um corpi
da mulher fixo, unívoco, a-histórico”, afirma a feminista francesa Arleen Dal
lery (1997, p. 74), em um artigo no qual defende a importância das mulhere
escreverem sua própria história e seu próprio corpo, buscando uma “outra oi
dem discursiva”, não mais à ordem masculina/patriarcal dominante. Ao ques
tionarem a lógica dualista das categorizações generificadas, feministas com
Joan Scott atentam para a complexidade do processo e para a importância d
perspectiva de Foucault. Desconstruir estigmas e preconceitos sob uma ótic
histórica, implica levar o projeto foucaultiano para dentro dos debates femi
nistas, não ignorando as oposições tradicionais, mas sim analisando os modo
pelos quais se constróem as verdades sobre os gêneros.

O DISPOSITIVO CIENTÍFICO
E A CONSTITUIÇÃO DO FEMININO

Até o presente momento, a perspectiva biomédica, fundada no sei


da racionalidade moderna, é considerada como “a mais correta, a mais ‘e>

27
plicativa’ para falar do corpo como ele realmente o é” (Santos, 1999, p. 194).
Entretanto, autores ligados aos Estudos Culturais salientam que as condi­
ções de produção do conhecimento científico são históricas e estão liga­
das às representações de homem e mulher em uma dada época ou local. A
eleição da ciência médica, em especial a anatomia, para discutir supostas
essencialidades dos corpos femininos e masculinos não é imparcial, visto
que a “ciência tem sido formada por forças sociais” (Schiebinger, 1987,
p.72). Uma visão crítica das “verdades” sobre as mulheres e o feminino
forjadas dentro das disciplinas científicas precisa levar em conta que “a
própria ciência é generifícada” (Fonseca, 1999, p.68), ou seja, é um co­
nhecimento que foi construído prioritariamente por homens a partir de
perspectivas masculinas dentro da cultura patriarcal. Deste modo, a sujei­
ção feminina é justificada por “argumentos pretensamente científicos que
definiram a ‘natureza feminina’, demonstraram a inferioridade intelectual
da mulher e fundamentaram a noção de inelutabilidade de seu destino ‘bio­
lógico’” (Tosi, p.28).
Londa Schiebinger escreve sobre os usos da “ciência como árbitro das
questões sociais” (1987, p.43), para justificar as diferenças entre os sexos.4
A construção de um corpo feminino tido como “incompleto” e inferiori­
zado em relação ao masculino é permeada pela antiga visão de Galeno, que
foi adotada pelo anatomista Vesalius: os órgãos sexuais femininos são des­
critos como imperfeitos, “invertidos e internos” (Schiebinger, 1987, p.48-
49). Até a ascensão do ideal da maternidade (que ocorre somente no final
do século XVIII), o útero, descrito como possuidor de chifres (Schiebin­
ger, 1998, p.227), era um órgão extremamente difamado, ao qual atribuí­
am-se os males inerentes ao corpo feminino. A idéia de que “a mulher, muito
mais que o homem, é determinada pela sua sexualidade” está intimamente
ligada ao preconceito de que as sensações experimentadas pelos órgãos
sexuais femininos “limitam sua capacidade cerebral” (Tosi, p.32). Sobre o
imaginário que circunda a mulher no século XIX, contexto histórico que
favoreceu a emergência da histeria, Maria Rita Kehl observa que “a razão
é convocada a dominar os excessos próprios da natureza, que dotou as
mulheres de uma voracidade sexual que os homens não são capazes de sa­
tisfazer” (Kehl, 1998, p. 74). Identificada com o animal, a mulher é “do­
mesticada” a fim de que sejam apaziguados seus instintos, criando-se tam­
bém uma imagem de mulher infantilizada e, portanto, menos apta para as­
sumir os compromissos e responsabilidades dos homens. Em concomitância

4 Defendendo que a ciência “não é neutra em valores”, a autora também faz uma análise
sobre os significados culturais do seio a partir do term o Mammalia usado na taxinomia de
Lineu (Schiebinger, 1998).

278
com os ideais rousseaunianos de virtude, a mulher é composta como um
ser que precisa ser educado e disciplinado a fim de que possa cumprir do­
cilmente seu papel dentro da família nuclear.
A voracidade atribuída à vagina, órgão “engolidor”, cria o mito do
feminino desprovido de alma, pura matéria bruta, que tal qual a terra, con­
some o que resta do corpo. E sobre a crença de que as mulheres estão atre­
ladas à natureza, que emerge o discurso psicanalítico, no qual as “possibi­
lidades fálicas” relacionadas a uma suposta qualidade masculina de ação e
realização prendem-se “aos limites impostos pelo corpo” (Kehl, 1998,
p.234), território matérico, carnal, feminino por excelência. As crenças pós-
iluministas postergam a noção de feminino identificado com a dor, com a
punição do coito, a castração e o parto (idem, p.248-249). Ao constituir o
feminino como castrado, “Freud ata a mulher ao estado da natureza deter­
minado pela falta real inscrita em seu corpo, a partir daí, supõe um misté­
rio, um silêncio, um vazio” (Kehl, 1998, p.308), de modo que a “mulher é
não-toda e anseia pela Plenitude” (Birman, 1999, p. 193). Apesar dos des­
locamentos introduzidos ao final de sua obra, podemos dizer que o “dis­
curso freudiano construiu uma imagem das mulheres caracterizada pela
passividade, pelo masoquismo e pela inveja do pênis” (idem, p.205).

A FEMINILIDADE E O DISCURSO PSICANALÍTICO

Este “não-significante” para o feminino (“existe masculinidade, mas


não feminilidade”, nos disse Freud em A organização genital infantil), “não
é uma primazia dos órgãos genitais, mas uma primazia do falo” (Freud,
1923, p. 180). A centralidade do pênis na obra do fundador da psicanálise
marca a ausência do pênis (jamais a existência de alguma coisa “outra”)
como fator básico na constituição da sexualidade feminina. O sujeito é
definido por possuir um órgão sexual masculino ou ser castrado. Somen­
te na puberdade é que o sujeito da teoria freudiana estabelece as polarida­
des sexuais de masculino e feminino que determinam os papéis de homem
e mulher na vida social: “a masculinidade combina [os fatores de] sujeito
e posse do pênis; a feminilidade encampa [os de] objeto e passividade. A
vagina agora é valorizada como lugar de abrigo para o pênis; ingressa na
herança do útero” (Freud, 1923, p. 184).
Apesar de reconhecer que “o analista está tão exposto quanto qual­
quer outro a um preconceito relativo ao sexo”, Lacan (1998b, p. 740) en­
dossa a posição chave do falo no desenvolvimento libidinal. Embora La­
can seja enfático em afirmar que o falo “é menos ainda o órgão, pênis ou
clitóris, que ele simboliza” (Lacan, 1998c, p 696), este vem a ser uma “en­

279
tidade imaginária criada pela boa forma de um órgão pregnante” (Na-
sio,1996, p.34), de modo que “o órgão masculino erétil vem a simbolizar
o lugar do gozo” (Lacan, 1998c). Mesmo abstraído, tratado como “opera­
dor teórico fundamental” (Birman, 1999, p. 51) e como estruturante do su­
jeito, a importância do fator anatômico na constituição do falo imaginário
e seu equivalente simbólico é bastante evidente. Descrito como algo que
se cola aos objetos, mas a nenhum objeto específico e por isso é permutá­
vel e ocupa uma espécie de lugar estratégico na subjetividade: o falo-pê-
nis é predestinado a dar corpo ao gozo, ou seja, a simbolizá-lo e tomá-lo
possível de ser abarcado na experiência.
Contraposto ao falo, o feminino é escorregadio, inapreensível, fora
da ordem dos significantes, um outro gozo que abala as certezas do “edifí­
cio fálico. O não-fálico representado pelo genital feminino (menos um)
“castrado, passivo, masoquista” em oposição ao masculino “fálico, ativo,
sádico” (Kehl, 1998, p.241) produz o imaginário do sexo feminino como
“lugar do desconhecido, do etemo mistério” (idem), do não-simbolizável,
daquilo que jamais pode ser apreendido e abarcado pela razão. “A ordem
fálica desconhece a alteridade da mulher. Ela não inclui a mulher como uma
que se organiza diferentemente, mas sim como a que tem a menos, a quem
falta aquilo que se deveria ter. A mulher é faltante, segundo a ordem fáli­
ca” (Kehl, 1996, p.237). Entretanto esta falta, marca da diferença que pro­
duz uma certa imagem da mulher como a transgressora do “pacto civiliza-
tório”, não é prerrogativa dos sujeitos nascidos com vaginas.
Significante do gozo, pênis ou clitóris,5 o falo precisa armar-se (pro­
duzindo sintomas cuja análise vai se ocupar) frente ao perigo de emascu-
lação. Lacan desvincula as identificações imaginarias ou reais do falo do
organismo, passando a entender a castração como marca simbólica da fal­
ta presente no sujeito. No entanto, os órgãos aparecem sempre como “va­
lor de fetiche” onde os investimentos libidinais são depositados, estabele­
cendo comportamentos típicos entre os sexos. É neste contexto que encon­
tramos a insipiência do clitóris, que a partir do feminismo surge como ór­
gão por excelência do prazer, um símbolo de emancipação para as mulhe­
res. A emergência do clitóris como significante possível para o gozo femi­
nino tem aparecido com razoável freqüência na mídia. Um artigo entitula-
do Inveja de que mesmo?,6 publicado em uma revista feminina cujo prin­
cipal marketing é a reportagem de “boa qualidade”, enuncia que “a ciên­
cia descobre cada vez mais semelhanças entre o clitóris e o pênis”. O dis-

5 Em seus ensaios Freud diz que o clitóris é “análogo ao órgão sexual masculino” (1931,
p.262), e que “inicialmente comporta-se exatamente como um pênis” (1924, p.222).
6 Revista Uma, Editora Símbolo, v. 2, n.5, fevereiro 2001, p 90-95.

280
curso em tomo deste órgão institui-se sobre as comparações entre pênis e
clitóris colocadas em evidência nos textos freudianos. As possibilidades
oferecidas pelo funcionamento deste órgão, o prazer independente da fun­
ção procriativa e um gozo que não inclui penetração peniana, não são ex­
plorados na reportagem como fator de independência que as mulheres po­
deriam usufruir em relação ao órgão masculino. Todas as informações so­
bre esta parte peculiar da anatomia feminina, assim como as polêmicas que
o clitóris suscita (a sua extirpação, a “natureza” do orgasmo que proporci­
ona, etc.), sempre remetem a seu suposto equivalente masculino. A prin­
cipal imagem (Fig.l) desta matéria, uma infografia do órgão, ilustra o cli­
tóris com uma forma fálica. O lugar em que foi colocado, se observarmos
o quadril e os pêlos pubianos que fazem o background desta imagem, alu-

Figura 1. Infográfico: N ew ton Verlangieri. Revista Uma, v. 2, n. 5,


Editora Sím bolo, fevereiro 2001, p.90.

2X1
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Figura 2. Fotografia. R einm ann, Paul. Atlas ofhuman anatomy in cross section.
R evista Uma, v 2, n. 5, E ditora Sím bolo, fevereiro 2001, p.94.

de claramente a posição de um pênis em ereção, porém no sentido contrá­


rio, ou seja, para dentro do corpo. Bastante diferente da fotografia do cor­
te tranversal da pélvis retirada de um atualizado atlas de anatomia (Fig.2)
que ilustra os corpos cavernosos7 do clitóris.
Desde os tempos de Freud a ciência anatômica reforça as noções de
que o clitóris funcionaria como um pênis, descrevendo suas partes nos
mesmos termos (glande, prepúcio) utilizados para o órgão masculino. O
clitóris é igual a um pênis?,8 é uma das perguntas de um artigo escrito para
meninas adolescentes: “em certo sentido sim, já que é um órgão que cres­
ce quando estimulado e é muito sensível ao toque. A única função do cli­
tóris é dar prazer ”, respondem os especialistas encarregados das “pergun­
tas sobre o seu corpo que você não tinha pra quem fazer” . O site sobre o
corpo (op. cit. p.5) explica para as meninas (as que estão examinando seus
genitais com um espelho) que “bem na ponta da parte superior, onde os
lábios internos se encontram, há uma haste alongada de um tecido firme,
que se chama clitóris. A parte que você pode ver não é maior do que uma
ervilha, mas a área toda tem muitas terminações nervosas que conferem à
mulher grande prazer durante uma relação sexual”9

7 Os corpos cavernosos, fundamentais na fisiologia da ereção, surgem como parte impor­


tante da anatomia peniana desde os tempos de Vesalius.
8 Revista Capricho, edição 838, 18 de junho de 2000. Editora Abril, p.62.
9 Capturado no site www.meucorpo.com.br, indicado no quadro “para saber mais”, no
final da matéria extraída na revista Capricho.

282
Um certo culto ao clitóris e uma evidente necessidade de encontrá-lo
dentro do ainda obscuro território da genitália feminina (“onde fica o cli­
tóris?” é uma das chamadas da capa da revista Capricho sobre o artigo es­
crito para as adolescentes) trazem à tona a falicidade feminina. Ao infor­
mar que uma pesquisadora australiana, a urologista Helen O ’Connell, ob­
servou em 1998 que o clitóris “se estendia nada menos do que 9 centíme­
tros pélvis adentro”, a reportagem da revista Uma (p.91) procura, sempre
embasada na veracidade da ciência, descrever a anatomia feminina como
detentora da mesma eficácia, embora muito mais complexa, que a mascu­
lina. A insistência freudiana nas conseqüências psíquicas da distinção ana­
tômica entre os genitais, que implicavam na desvantagem feminina, na
medida em que as mulheres eram rebaixadas de valor como resultado da
falta de pênis, agora pode ser desmentida pela ciência, que “está compro­
vando a já antiga suspeita de que a mulher tem um sistema hidráulico igual­
mente eficiente” (idem) ao dos homens.
Mais uma vez, a ciência é o árbitro, não mais para justificar a domi­
nação masculina, mas para corroborá-la a partir de premissas quase idên­
ticas as que colocaram as mulheres em situação de inferioridade por causa
das diferenças anatômicas. Agora, o discurso se contrapõe, é preciso se falar
de corpos iguais para garantirmos a igualdade de condições: “cada vez fica
mais claro que os órgãos sexuais do homem e da mulher funcionam quase
da mesma forma” (p.92), diz a revista. Mesmo assim, o texto não conse­
gue descolar-se da primazia do pênis, sempre usado como referente no que
diz respeito ao corpo da mulher. A vantagem feminina é descrita a partir
da quantidade de sangue que preenche a genitália em estado de excitação:
duas xícaras de cafezinho (80ml) contra o conteúdo de duas cervejas /owg
wecA:(700ml).10 Embora a reportagem afirme que este tipo de “descober­
ta” tenha repercussões mais acadêmicas do que sexuais, o enunciado de
que a compreensão da anatomia ajuda no conhecimento da sexualidade é
endossado através do depoimento de uma sexologista. A separação das
funções do clitóris (prazer) e da vagina (reprodução), embora estejam lon­
ge de reafirmar as prerrogativas freudianas de orgasmo clitoridiano (con­
ceituado como infantil) versus orgasmo vaginal (maduro), colaboram para
manter a idéia de uma feminilidade bipartida entre a falicidade e a obscu­
ridade a-significante de suas partes internas. Em um atlas de anatomia, uma
mesma ilustração onde encontramos o termo “glande do clitóris”, a textu­

10 lí interessante observar que uma das outras reportagens presente nesta edição da revista
Uma ò sobre o consumo de cerveja por mulheres, trazendo comentários sobre marcas,
tipos de cerveja c rituais sociais que envolvem a beberagem.

283
ra dos grandes lábios é apontada como “rugosidades da vagina”11 denotando
signos bastante distintos (a glande lisa e reluzente em contraponto ao teci­
do instável e rugoso que leva ao território vaginal) para designar as dife­
renças anatômicas entre as partes da genitália.
A sexualidade feminina é sempre descrita a partir de paradoxismos,
não como locus da alteridade, mas marcada sobre as premissas que Freud
aponta sobre o assunto: predisposição àbissexualidade e a inscrição de duas
zonas sexuais: vagina e clitóris (1931). O projeto de Lacan sobre a sexua­
lidade feminina, ao tratar das “vias da libido concedidas à mulher” remete
claramente a diferenciação sexual, e, embora não quisesse cair nos refe­
renciais biológicos, falará desta experiência a partir do ato do coito, defi­
nindo a feminilidade sobre uma “obscuridade quanto ao órgão vaginal”
(Lacan, 1998b, p.736). Descrito em termos de obliqüidade, o sexo femini­
no é portador de uma “fisiologia pouco zelosa” (idem). O desconhecimento
da própria mulher sobre o seu sexo, a invisibilidade imaginária que o re­
cobre e toda a ignorância prescrita sobre o funcionamento de seus órgãos
nos traz a representação da mulher marcada por uma “ferida narcísica”
superada pela maternidade e pelo falicismo inerente a esta experiência,
experimentado como frigidez (enrijecimento do prazer) ou virilidade. Para
Lacan (1998b, p. 73 7), “a natureza do orgasmo vaginal guarda inviolada
as suas trevas” aludindo a Freud (1931, p.262), que nos diz que na infân­
cia “a vagina é virtualmente inexistente” e que “a masturbação está mais
afastada da natureza das mulheres que a dos homens e a solução do pro­
blema poderia ser auxiliada pela reflexão de que a masturbação, pelo me­
nos no clitóris, é uma atividade masculina, e que a eliminação da sexuali­
dade clitoridiana constitui precondição necessária para o desenvolvimen­
to da feminilidade” (Freud, 1925, p. 317). Uma mulher “normal” seria aque­
la que renunciou ao pênis: “com a mudança para a feminilidade, o clitóris
deve, total ou parcialmente, transferir sua sensibilidade, e ao mesmo tem­
po sua importância, para a vagina” (Freud, 1932, p. 146).
A clássica oposição freudiana entre gozo clitoriano e satisfação vagi­
nal envolve constantes descrições do clitóris como “pequeno, diminuto, in­
ferior”. Fadado a “sucumbir” na competição com o pênis, o clitóris é ins­
taurado como substituto do falo na estrutura da falta-a-ser inerente ao fe­
minino. Para a psicanálise, a via normal para a sexualidade feminina im­
plica no abandono do clitóris como fonte de prazer legítima, afinal, as “so­
licitações do clitóris” são tratadas como “autísticas” (Lacan, 1998b, p.738).

11 Ilustração do sistema urogenital. Sobotta. Atlas de anatomia humana, v.2. Buenos Aires:
Panamericana, 1985, p.223.

284
A despossessão fálica ocorrida nos processos identifícatórios com a mãe
faz com que a menina descubra “que seus órgãos genitais são insatisfató­
rios” (Freud, 1925, p.316). As exigências masculinas, assim como seu de­
sejo e seu amor pelo pai ou outras figuras masculinas, implicam na renún­
cia do falo-clitóris, o que de acordo com a psicanalista Maria Rita Kehl,
vem sempre acompanhado de ressentimento contra os homens, aquilo que
se fala em termos de “inveja sem solução” (1998, p. 305). O conhecimento
do pênis impele a menina a afastar-se do modelo masturbatório masculino
(clitoridiano) e a distanciar-se da figura materna, encaminhando-se para a
feminilidade e solidificando suas tendências passivas (volta-se para o pai).
“Ao constatar que seu pequeno pênis (clitóris) nunca há de crescer, a me­
nina vê fracassar sua ilusão de masculinidade e, com isto, seu amor pela
mãe, que lhe parece inferior aos homens em geral” (Kehl, 1998, p.243).
De acordo com esta lógica, o sentimento narcísico ferido da menina a fa­
ria conhecer a humilhação e a inveja do pênis, o que, nas palavras da auto­
ra, justificaria o abandono da masturbação clitoridiana por decepção, não
por recalque (p.245).
“Faz mal se masturbar?” é uma das perguntas impressas no artigo
da revista C apricho}2 Os especialistas anônimos respondem: “Não, des­
de que a manipulação não machuque a vagina” (presume-se que as leito­
ras possuam hímen) e que “é essencial estar com as mãos limpas”, reco­
mendam. Se no imaginário dominante o pênis tem sido visto como “ór­
gão mágico do gozo” (Birman, 1999, p. 191), no material analisado há
uma clara tendência no investimento do poder orgástico do clitóris. Na
contracorrente da psicanálise, as revistas afirmam a verdade estabeleci­
da nos relatórios de sexologia das décadas de 1960 e 1970, que “o tipo
mais comum de orgasmo é o que se consegue estimulando o clitóris” (Ca­
pricho, n.838,p.62). A psicanálise contemporânea reconhece que se fa­
zer mulher é também “cercar de atributos fálicos a marca da falta inscri­
ta em seu corpo, sem ter de necessariamente renunciar a seu ‘outro’ pe­
queno órgão sexual, que não se equipara ao pênis, mas constitui, sim, uma
sexualidade, uma falicidade, um gozo” (Kehl, 1998, p .325). Justificada
pela anatomia e pela fisiologia, a localização do prazer feminino no cli­
tóris nos possibilita perguntar se o gozo vaginal seria uma invenção de
Freud. (Laqueur tf/wd Birman, 1999, p.206).
Para as novas gerações, que cresceram interpeladas pelo imperativo
do sexo, nas quais garotos e garotas são estimulados a encontrarem “cha-

12Um artigo similar, cuja chamada de capa “Conhecer seu corpo: respostas para todas as
perguntas que você tem vergonha de fazer”, publicado nesta revista em setembro de 1994,
é analisado na tese de Rosa Fiseher (ver bibliog ).

285
ves anatômicas” como o clitóris e possíveis “pontos ‘g ’”, os ditos freudia­
nos parecem obsoletos. Se nas últimas décadas a mídia promoveu “cruza­
das” em direção ao orgasmo feminino, ocupando-se com informações que
favorecessem formas de se viver com mais intensidade o prazer sexual, é
porque existem demandas significativas sobre estes assuntos. Um outro
lugar para o feminino vem sendo construído, posições estratégicas em re­
lação ao prazer feminino estão sendo ocupadas sobre novos sistemas sim­
bólicos e as mulheres de hoje já não enquadram-se com tanta facilidade ao
modelo da histérica estudado na emergência da ciência psicanalítica. Ao
lidarmos com os textos de Freud e mesmo os de Lacan, é preciso conside­
rar o contexto da época em que foram produzidos, mesmo que seu impac­
to perdure até os dias de hoje. É necessário retomá-los porque é exatamente
o discurso psicanalítico que propicia as primeiras descontruções das natu-
ralizações sobre o que seja uma mulher e que permitirá as demais digres­
sões feitas sobre os signos arcaicos da feminilidade. A psicanálise rompe
com as demais sexologias na medida em que aborda a sexualidade de modo
polissêmico, privilegiando a pluralidade erótica (economia geral do gozo).

Figura 3. Ilustração. C apturada no site wwww.meucorpo.com.br.

286
Apesar de enfatizar a importância do falo, é esta discursividade que deslo­
ca a “primazia da genitália” através do diagnóstico de que a satisfação do
desejo é mediada pelos mais diferentes objetos, o que permite “múltiplos
registros de corporiedade” (Birman, 1999, p. 160).
No referido artigo da revista Capricho, a miscelânea de informações
sobre o corpo é encabeçada por um quadro sobre a vulva (p.62), o primei­
ro e maior da reportagem, ilustrado com uma foto de página inteira de um
ventre nu e esguio (p.63), cuja imagem central são pêlos pubianos espes­
sos e aparados na forma de um biquíni (Fig.3). Na parte inferior desta ilus­
tração há uma faixa escrita no estilo manuscrito: “A masturbação não alte­
ra a forma da vulva”. Em tomo das linhas que margeiam esse quadro, as
palavras “perseguida, xereca, vulva”, são impressas na vertical, e “periquita,
xoxota, xana, perereca”, escritas invertidas, na linha de base. Uma flecha
aponta para uma observação escrita com letras imitando manuscritos: ’’es­
tes são sinônimos populares da vulva”, que de acordo com o texto, é uma
parte do corpo difere que de uma mulher para a outra: “há mulheres que
têm pequenos lábios maiores, outras menores”, assim como “existem mu­
lheres com musculatura forte, que contraem mais a vagina”.
Apesar da matéria apresentar um tom ousado (sua chamada na capa
da revista é “sem vergonha”), os nomes populares da genitália, pouco pro­
nunciados publicamente, cercados de tabus, estão camuflados nas linhas
que margeiam o texto. O desenho que ilustra as partes da vulva (Fig. 4) a

monte de Vénus

vagina
pequenos lábios
grandes lábios

Figura 4.

287
abstrai totalmente, desfigurando o que deveria ser o clitóris, indicado como
o vértice de uma forma que se parece com uma gota e que na imagem defi­
ne os limites entre grandes e pequenos lábios. No texto, as meninas apren­
dem que a maneira mais fácil de se atingir um orgasmo é através do clitó­
ris, proferido como lugar exclusivo de prazer, mas que no entanto, não é
figurado na imagem que tem a função de localizá-lo, tal qual é prometido
na capa da revista. Uma ilustração mais verossímil da vulva (Fig.5) acom­
panha as informações sobre os órgãos genitais externos em uma página da
internet (op.cit. n. 1), uma sugestão de Capricho para as leitoras que que­
rem “saber mais”. Somente em um veículo menos acessível e mais difícil
de ser manipulado do que uma revista, a genitália pode ser visualizada além
do emaranhado de pêlos púbicos e do recôndito dos grandes lábios. Con-

clitóris
orificio
urinário
abertura
da vagina
lábios internos
m enores

lábios externos
m aiores

anus

288
tudo, nunca será uma imagem fotográfica (que traria conotações pornográ­
ficas, não pedagógicas) que mostrará os “mistérios” da anatomia femini­
na. As diferenças íntimas entre uma mulher e outra, que só poderiam ser
mostradas por fotografias comparativas, tendem a permanecer insondáveis,
visto que apenas a si mesma é recomendável que a menina examine.
De uma maneira ou de outra, o material de cunho pedagógico sobre a
sexualidade é formulado dentro dos limites do que é informação científi­
ca, cujos objetivos são a saúde, o exercício do prazer dentro do que é con­
siderado saudável e o aprimoramento pessoal que o conhecimento de seu
corpo, juntamente com a exploração das possibilidades “normais” de pra­
zer, podem proporcionar. No site recomendado para as adolescentes, a vulva
é definida como área que protege a entrada da uretra e da vagina. Mesmo
que este tipo de material seja visto como “esclarecedor”, em todos os ca­
sos analisados há uma tendência a zelar a seriedade dos preceitos científi­
cos, evitando qualquer alusão ao que possa ser considerado perverso ou
mesmo pornográfico. Designar a vulva como território de proteção é fazer
entender que tudo o que está por trás dos grandes lábios precisa ser res­
guardado, subtendendo-se que a fragilidade das mucosas e a delicadeza
legada às partes íntimas femininas não prestam-se à exposição, e, que se a
natureza se encarregou de escondê-las é porque não deveriam ser mostra­
das. Em tomo destes enunciados inscrevem-se significações que remon­
tam ao tabu da virgindade, à castidade, à fidelidade exigida para as espo­
sas e ainda à santificação da maternidade.
Uma redução calcada na psicanálise, mas pensada por um viés estri­
tamente feminista, nos permitiria dizer que a dominação masculina se dá
por recalque frente ao mito da voracidade vaginal, representado no amplo
imaginário que circunda o que se conhece por “grande mãe fálica”, a an-
tropofágica fêmea devoradora. O medo da castração frente ao poder ater­
rador investido na genitália feminina seria a mola propulsora das práticas
masculinas que assujeitam a mulher à lei patriarcal. O registro ameaçador
da feminilidade, simbolizado na mãe primordial e seu caos irrepresentá-
vel, causa horror e desamparo ao lançar no abismo da noite sem fim as cer­
tezas rígidas da ordem fálica. A onipotência do falo é posta em xeque, não
há lugar para a razão neste mundo em que não se conhecem palavras, onde
nada discemível se apresenta, nada se fala e tudo o que acontece é a des­
truição da “falácia do falo” . A identificação com o falo é necessária para
atenuar a angústia da castração, o medo que todos sentimos daquela zona
sem nenhuma referência, sem possibilidade de ancoragem, onde não exis­
te um bastão ao qual possamos nos segurar. Transitar por este território de
loucura, sem deixar diluir-se na indefinição de suas fronteiras movediças,
só é permitido a quem trouxer consigo o cajado das incertezas, um “ou­

289
tro” falo, inscrito no registro da feminilidade e não na ordem simbólica
masculina dominante.
Para Maria Rita Kehl, é por serem detentoras deste falo, e não serem
tão perseguidas pela ameaça da castração, que as mulheres teriam muita
mais coragem de entregarem-se, de se atirarem nas regiões abissais da pas-
sionalidade, pois assumem quase sem medo o risco da dor na obtenção do
prazer. O “a mais” feminino que levou Tirésias à cegueira só é conhecido
por aqueles que se permitem transitar dentro deste outro registro, sem te­
mer a face apotropaica, o excesso fálico na profusão ofídia da cabeça de
Medusa. “A única diferença fundamental entre um homem e uma mulher
é que esta também é mulher”, nos diz a psicanalista (Kehl, 1998, p.325).
De uma forma simplista, pensa-se que acuados perante a este “a mais”, os
homens teriam produzido a mulher como aquela “a menos”, castrada e di­
minuída: “o que revela o mito e parece oculto pela interpretação freudiana
é o fato da ‘castração’ da mulher ser o resultado de uma violência imposta
pelo primeiro herói” (Doumoulié, p.623). Se a falta do pênis é associada a
uma punição (Freud,1923, p. 182), a mulher tomou-se vítima do ato cas­
trador porque ousou algo que os que ainda possuem o falo (e temem per­
dê-lo) não conseguem imaginar exatamente o que seja.

A CRIAÇÃO DA ANATOMIA DO INVISÍVEL

Caracterizada por artifícios, conhecida como “mascarada” na lingua­


gem psicanalítica, a feminilidade é vista como truque, um engodo para obter
o filho-falo, revestindo-se a mulher de atributos que a objetificam. Salto
alto, unhas vermelhas, maquiagem, jóias, batom: os signos ditos “femini­
nos” trazem a ilusão falicista com que se investe a mulher-objeto, corpo
fálico do desejo. Repensar as estereotipias simbólicas que envolvem a fe­
minilidade requer uma entrada neste universo “rugoso” onde as fantasio­
sas construções do falo perdem sua solidez. A constatação dos limites da
subjetividade fálica, constituída dentro das edificações da civilização pa­
triarcal, nos conduz a um impasse teórico, aquém das palavras convoca­
das pelo falo. Este impasse é a hesitação por não se saber como prosse­
guirmos sem a ancoragem dos signos que conhecemos, pois não há lingua­
gem discemível para iluminar o incerto deste caminho.
Joel Birman nos fala das últimas digressões de Freud sobre este assun­
to, nas quais a feminilidade, “registro sexual caracterizado pela ausência do
falo” (Birman, 1999, p. 51), surge como algo inerente tanto aos homens quanto
às mulheres, situada para além das fronteiras estabelecidas pela ordem fáli­
ca. (p. 105). Lembrando as diferenças conceituais entre o “registro da femi­

290
nilidade “ e “sexualidade feminina”, o autor salienta a importância desta “for­
ma” no processo da análise, pois somente o registro da feminilidade “per­
mite derrubar a falicidade mortífera das mulheres e dos homens” (Birman,
p.214). “Freud concebeu a feminilidade como a forma primordial da sexua­
lidade, na qual o falo não regularia mais a produção do erotismo” (Birman,
p.53), mas sim uma zona além do caos pulsional, talvez o reencontro para­
disíaco com a mãe, a experiência única e singular do sujeito. Na medida em
que a singularidade desta experiência não comporta os signos compartilha­
dos pela cultura, é nela que encontramos a chave da hetereogenidade que abre
as portas para novas formas de subjetivação. Para o autor, “a feminilidade
implica a singularidade dos sujeitos e suas escolhas específicas, bem distan­
tes da homogeneidade abrangente da postura fálica,” sendo “o correlato de
uma postura heterogênea que marca a diferença de um sujeito em relação a
qualquer outro” (Birman, 1999, p. 10).
A necessidade de não-signos na descontrução das falácias do falo sur­
gem com algumas proposições do próprio Freud, quando este afirma que
“a masculinidade e feminilidade puras permanecem sendo construções te­
óricas de conteúdo incerto” (1925, p.320). São os conceitos psicanalíticos
que possibilitam “relativizar“ a sexuação dos sujeitos e as representações
generificadas (Kehl, 1998, p.257), pois a libido não tem “sexo”. Em sua
conferência sobre Feminilidade (1932), Freud ressalta a bissexualidade,
abrindo caminho para todas as teonas que lidarão com os conceitos de corpo
poroso, pulsional, uma entidade em aberto colada às descontinuidades do
sujeito contemporâneo.
Se, o que constitui a masculinidade ou a feminilidade “foge do alcance
da anatomia” (Freud, 1932, p. 141), não haveria um motivo plausível para
a teoria freudiana ter sido intensamente marcada pelas diferenças anatô­
micas entre os sexos. Para os autores do paradigma ético-estético, “trata-
se sempre de retomar à unidade, à identidade da pessoa ou do objeto su­
postamente perdido” (Deleuze e Guattari, 1995, p.41), de modo que a re­
ferência fálica, restritiva, jamais é abandonada. Guattari vai fazer a crítica
ao reducionismo psicanalítico na medida em que a teoria freudiana igno­
rou as multidões, dizendo que, ao invés da efervescência coletiva, Freud
“só viu um buraco, indivíduo domesticado” (idem, p. 51). A hetereogênese
defendida dentro deste paradigma envolveria uma ruptura a^significantc,
entretanto, Deleuze e Guattari propõem um novo significante (haveria um
modo possível de escaparmos?), um significante como código que tenta
se capturar, máquina de múltiplas engrenagens, não mais o encadeamento
regido por elos que se ligam um ao outro. Acima de tudo, a ruptura impli­
caria na dissolução da duplicidade inerente ao encadeamento, o que cria­
ria uma outra ordem, caósmica, não mais linear, não fálica.

291
Com a dissolução das relações biunívocas, inerentes às distinções freu­
dianas e às cadeias signifícantes do modelo lacaniano, inauguram-se mo­
dos de codificação muito diversos, cujas conexões heterogêneas não po­
dem ser inscritas sobre estruturas arraigadas aos modelos tradicionais, como
por exemplo, as categorias de masculino e feminino. A proposta ético-es-
tética trouxe a idéia do plurissexual, o pensamento “pós-gêneros” (Brai-
dotti, p. 137) que não intenciona categorizar, mas sim trabalhar sobre outra
lógica, anti-edípica e não-reducionista, procurando registros diferentes
daqueles moldados pelas distinções anatômicas nas quais fundamentou-se
o modelo psicanalítico. Foi inventado o “corpo sem órgãos”, CsO, um corpo
além da anatomia e da fisiologia, corpo de devir cuja “dissolução do orgâ­
nico” pertence a grande mãe caósmica, a terra que nutre rizomas. Cons­
truído sobre práticas, o CsO faz circular as novas intensidades, imprimin­
do órgãos que se criam e se desfazem. Os tecidos destes órgãos descrevem
superfícies a serem cartografadas, territórios cujas intensidades desbrava­
mos para constantemente se estar recriando este corpo.
O CsO define as formas com que se expressam as subjetividades plu­
rais e polifônicas; os sujeitos passam a ser compreendidos como entidades
moleculares articuladas em células/grupos, coletividades em movimento
interagindo através das mais variadas conexões, reagrupando-se e refazen­
do-se no fluxo do devir. Ao pensar a subjetivação como “processualidade
em aberto” (Fonseca, 1999, p.65), Tânia Galli Fonseca trata as recompo­
sições da corporiedade como advindas do aprendizado de vários devires,
mutações frenéticas e moleculares dentro da qual nos constituímos, não
mais a partir dos velhos modelos, mas sim através de processos que utili­
zem vias de singularização.
Para Foucault, o que aqui se entende como viabilização estratégica
de singularidades, envolveria a desgenitalização do sexual e a ruptura com
os dispositivos implementados pelas sexologias e pela psicanálise, as ciên­
cias do sexo. A criação de uma ars erótica própria calcava-se na busca do
prazer assexual presente em práticas ditas “desvinlizantes”, que visam “uma
economia dos prazeres de natureza não genital” (Ortega, 1999, p. 148).
Sobre o descentramento do sexo, Francisco Ortega, em um ensaio intitu­
lado “Resistência sexual”, nos fala de como Foucault associa a genitaliza-
ção ao dispositivo da sexualidade, cuja visão atrelada à reprodução estaria
no cerne da scientia sexualis (1999, p. 146). Sobre as práticas sadomaso-
quistas em Foucault, o autor explica que “a alternativa foucaultiana é uma
maneira elitista de utilizar o corpo ativamente contra o dispositivo da se­
xualidade” (p. 149), a fim de romper com as normas da sociedade ociden­
tal, que considera o sexo (no duplo sentido do termo) como código máxi­
mo do prazer. O gozo canalizado para o genital seria demasiadamente li­

292
mitado, pois “impede a imaginação da capacidade do corpo de experimentar
prazer’” . A proposta de Foucault envolvia “fabricar outras formas de pra­
zer, de relações de coexistência, de laços, de amores, de intensidades” (Fou­
cault, 1996, p.235), o que seria “uma forma de romper com um dualismo e
um gnosticismo tradicional que apreende a dor como algo negativo e o
prazer como positivo” (Ortega, 1999, p. 150).
O perigo da virilização assexuada advinda deste tipo de prática é le­
vantado por Rose Braidotti ao comentar o debate feminista sobre Deleuze:
“o além do sexo” corre o risco de apresentar uma ilusória simetria entre os
gêneros e ser responsável pela homogeneização das mulheres a partir do
modelo masculino de androginia. Atenuadas as diferenças, as lutas históri­
cas e as reinvidicações feministas que enfatizam a diferença na busca pela
igualdade, perdem sua posição estratégica no que tange a deixar de mostrar
as dissimetrias das relações de poder. Embora Deleuze e Guattari proponham
a dissolução das identidades baseadas na lógica falicista e privilegiem o de­
vir feminino como forma de alteridade, a crítica feminista alega que a cons­
trução do CsO, marcada pela dispersão e pela fluidez, recai no registro de
feminilidade psicanalítica. Não levando em conta que é a feminilidade, tal
qual é concebida dentro da psicanálise, que permite a descontrução dos mo­
delos enrijecidos nas categorias duais, o CsO é visto como apaziguador do
“controle político sobre o corpo e a sexualidade”. De um outro lado, os de­
fensores e as defensoras deste paradigma entendem que não se trata de ig­
norar as assimetrias entre os sexos, mas sim de lidar com outra ordem, fora
das categorias generificadas e do imperativo fálico. Sob o argumento de que
a ênfase no feminino é restritiva e remete sempre ao masculino, portanto, à
lógica dualista, o CsO é construído com anatomias inimagináveis, sem gê­
nero ou genitálias passíveis de classificação.
A autora conclui que, apoiadas em uma ordem simbólica própria, as
sustentações feministas são fálicas, e, somente articulando a crítica do po­
der nos discursos com “a afirmação de formas alternativas de subjetivida­
de” (Braidotti, p. 143) que este pensamento é capaz de operar como possi­
bilidade de existência. Sobre uma “multiplicidade de subjetividades sexua-
das” que podem se dar as descontruções dos modos falocêntricos de pen­
samento e a criação de uma lógica rizomática (molecular), que não se re­
duz à centralismos (molares); é no polimorfismo molecular que uma “di­
ferença diferente” se faz existir; uma diferença estabelecida na diversida­
de e no pluralismo dos devires. Neste fluxo, o devir-mulher é “um dos de­
vires possíveis e, ao mesmo tempo, o único através do qual todos os ou­
tros devires devem transitar, como que por necessidade” (Braidotti, p. 139).
Como única saída, a feminilidade é a porta que se abre para fora do edi­
fício do falo, uma outra possibilidade, algo “a mais”. Evitar o feminino é ne­

293
gar as incertezas e iludir-se com o absolutismo de certas verdades. Não há
alteridade sem engano, a porta pode abrir-se para um abismo e somente se
possuirmos a capacidade de voar é que poderemos ser salvos. Mas, se não
passarmos para o outro lado jamais teremos a chance de encontrar o paraíso,
o lugar onde pode-se relaxar, libertos das ameaças do falo, de suas investi­
das violentas e do medo da castração. Sem a linguagem, espada cortante para
ferir, o feminino nos faz sentir o inominável, este lugar longe da Lei, anteri­
or a todo tabu. Contudo, o feminino apenas deixará de ser identificado com
o perigo na medida em que o sujeito possui a garantia de que, se cair no abis­
mo, terá os instrumentos necessários para não ser dilacerado na queda. A im­
possibilidade de se conceber uma entrada no feminino sem os instrumentos
fálicos necessários, faz com que precisemos “nos acercar de sua lógica por
outro ângulo”, interrogando-o “através daquilo que o impossibilita: a lingua­
gem” (Escolástica, 1995, p. 199). O corpo sem órgãos permite a criação de
dispositivos que nos façam flutuar ao invés de sermos violentamente atira­
dos ao chão. Trata-se de uma outra linguagem, não mais restrita à rigidez
mortífera do pênis ereto, mas expressa no movimento pulsional causado pelo
falo, um falo que é um pouco menos o cadáver no fundo do abismo e muito
mais a erva flutuando de acordo com o vento.
Entender o órgão feminino como multiplicidade de instâncias anatômi­
cas rescreve a genitália, que deixa de ser apenas uma cavidade para receber o
pênis, fazendo com que o sexo feminino não seja, necessariamente, comple­
mentar ao masculino. Possuindo uma ordem própria, a feminilidade consti-
tui-se a partir de referências que prescindem àquelas que outrora fundaram os
dualismos tradicionais. Rescrever o feminino é inseri-lo nesta outra ordem, nesta
outra possibilidade de gozo, em outras propriedades de prazer: “não tem coisa
mais revolucionária do que o prazer, o prazer é subversivo”.13 Endossando as
proposições de Dallery (1997, p. 10), é preciso que as mulheres falem desta
outra ordem, enunciando seu corpo a partir de registros extraídos a partir da­
quilo que lhe é inerente: prazer clitoridiano, penetração vaginal, concepção,
gestação, parto, maternidade, lactação. É através da singularidade de suas ex­
periências que as mulheres podem reinventar o feminino, fazendo sentir os
efeitos políticos de se escrever o corpo de modo que as polissemias femininas,
plenamente inscritas em seu sexo, passem a ressigmficar a vida das mulheres.
Somos sexo por natureza? Muito bem, sejamos sexo, mas em sua sin­
gularidade e especificidade irredutíveis. Tiremos disto as conseqüências e
reinventemos nosso próprio tipo de existência, política, econômica, cultu­
ra [..]. (Foucault, 1996, p.234).

13Colocação feita pela professora Marta Julia Lopes, no dia 19/set de 2000, na disciplina
Gênero e Lógica da Diferença, UFRGS.

294
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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11925], In: Obras Completas, v.XIX. Rio de Janeiro: Imago, 1976. p.309-320.
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Imago, 1974. p.259-279.

29Í
O ESPECTADOR E O FILME:
EFEITOS ESPECIAIS DO INCONSCIENTE

P aulo F onseca

O passado tem um terror, um fascínio e uma beleza que trans­


cendem tudo mais.
Pauline K ael1

A tela é uma espécie de abismo, no fundo do qual o rellexo das


imagens provoca, m ais que o olhar, a visão.
Jerome Prieur2

Pretendo abordar aqui o entendimento de que a experiência cinema­


tográfica constitui-se dos dois participantes, o espectador e o filme, cada
um dela fazendo parte, de forma intercambiável, como sujeito e objeto. Por
um lado, o espectador vê o filme e o examina e tenta traduzi-lo, formulan­
do hipóteses explicativas do ocultado, a partir das leituras que lhe são pos­
síveis. O filme, por sua vez, vai possibilitar leituras distintas em distintas
épocas, ao serem consideradas as diferentes perspectivas tanto histórico-
sociais, quanto as do próprio sujeito.
Sabemos que o cinema é influenciado pelas engrenagens de sua épo­
ca mas também que ele próprio as constitui, em sua trama de múltiplas co­
nexões. Nesse sentido, pode-se afirmar que o cinema também lê o espec­
tador, à medida que o espelha e o molda, levando em conta a série de variá­
veis e contingenciamentos culturais, políticos, religiosos, morais... Nesses
termos, entendemos que o filme, assim como o espectador, é um produtc
especular que diz razão aos seus contextos. E, fora deles, perde muito dt
sua vitalidade como duplo espelho, no sentido reversível de reflexo de alg<

Paulo Fonseca é psicanalista, membro efetivo da Sociedade Psicanalítica de Porto Alcgn


1 Kael, Pauline. Criando Kane e outros ensaios. Rio de Janeiro/São Paulo: Ed. Recor<
2000.
’ Prieur, Jerôme. O espectador noturno. Os escritores e o cinema. Rio de Janeiro: No’
Fronteira, 1995.

2'
no qual esse mesmo algo se pode refletir. E o espectador e o cinema man­
tém esse tipo de diálogo, de forma constante.
Em termos psicanalíticos, a tal nos referimos quando empregamos as
noções de identificação e mecanismos de projeção e introjeção, que estão
presentes e constituem relações de objeto, como as que se estabelecem entre
o filme e o espectador. Assim, esse último coloca partes de si mesmo no
filme a que assiste, para logo reintrojetar tais partes, junto com aspectos
do filme modificados pelo que nele foi colocado, em uma interação rápida
que se repete de forma persistente.
Por sua vez, igualmente, o filme coloca no espectador (projeta) men­
sagens que veiculam significados, por meio de estímulos de imagens e sons,
assim o influenciando. E, ao recolher deste (introjeção) elementos para vir
a configurar modelos de identificação, o filme é também influenciado pelo
espectador. Essas trocas, quando intensas, inscrevem-se em um ordenamen­
to psíquico pré-reflexivo que apaga aspectos de memória e consciência e
instala o espectador em um ambiente onírico, dotado de apelos irresistí­
veis que potencializam a produção inconsciente.
Mas é importante fazer registro de que o filme só tem poderes para
impor a um espectador seus significados, caso se estabeleça uma conexão,
um “diálogo” entre ambos. Assim, por exemplo, os denominados “efeitos
especiais” dos filmes atuais o mais das vezes atrapalham os especiais efei­
tos de comunicação que o cinema é capaz de estabelecer com o especta-
dor-sonhante. Os sons ruidosos de explosões e desmoronamentos, as ima­
gens de fogo, os abalos de subwoofers os mantém despertos, em estado de
alerta, distanciados, pois, desse estado de suspensão temporária, como um
pré-sono, capaz de conduzi-los ao entendimento dos signos que lhes estão
sendo propostos.
Pensando bem, não estou apontando nada muito diferente da clássi­
ca “atenção flutuante” que Freud preconizava como estado complementar
útil para captar as livres associações inconscientes e a elas dar significado,
no contexto do aqui e agora da situação analítica. Isto é, valido para aque­
la dupla, naquele lugar, naquele momento. Assim, por exemplo, quando o
analista, utilizando sua contratransferência para entendimento das notifi­
cações primordialmente transferenciais do paciente, possibilita, por meio
de uma interpretação, que uma compreensão se instale, ao assim fazer tam­
bém possibilita um avanço no processo analítico. Nessas condições, e a
partir daí, fica capacitada uma construção nova e gratificante para ambos.
Igualmente no cinema são criadas condições para que se configure
uma certa dissociação no espectador. Por um lado, é propiciado, ao seu ego
vivencial, que ele possa alcançar gratificações alucinatórias de teor primi­
tivo, psicótico, em uma experiência que lhe mobiliza sensações, impulsos,

300
fantasias, desejos e defesas como tentativas de elaboração de angústias
primordiais.
Por outro lado, esse vôo de imaginação regressiva é facultado por­
que pautado por um ego crítico e observador que, sob a forma de uma fan­
tasia de controle, lhe fomece uma tranquilização por manter, em algum
nível, a noção de que o filme tem um início, um meio e um fim e que, ao
acender das luzes, a realidade extema voltará a se reinstalar, com seu sé­
quito de vinculações de distanciamento e crítica. E as sensações, os afe­
tos, os temores e desejos perturbadores poderão voltar a se acalmar e, de
novo, muitos deles, poderão voltar a ser negados... Até a próxima sessão.
Quando se pensa, em termos psicanalíticos, sobre cinema, uma equi­
valência referida com freqüência consiste em visualizá-lo como estrutura
que permite impressões e entendimentos como os de um sonho, em que se
presentificam conteúdos manifestos e latentes. A montagem das cenas no
cinema, na mesma medida em que é entendida, em concordância com Pu-
dovkin (diretor russo e importante teórico do cinema mudo), como a lei
fundamental da arte cinematográfica, revela o parentesco com a edição
censurada que o conteúdo manifesto dos sonhos propõe. Amheim,3 inclu­
sive utiliza uma expressão que muito se aproxima da célebre de Freud de
que o sonho é o caminho real do inconsciente: “a montagem poderia ser
pensada como o caminho real da arte cinematográfica”.
Sabemos que, como nos sonhos, o cinema nos proporciona vôos ima­
ginários e a (re)criação de um território mágico da infância inicial, expres­
são potencial de mundos a serem concretizados e que dá vazão a impulsos,
corponfica temores e gratificações e os metaboliza de forma fantasiada.
Inclusive para o estudioso de cinema Stanley Cavell, seguindo a te­
oria dos sonhos de Freud, o que constitui o “objeto filmico” é o que lem­
bramos do filme, aí estando incluídos os nossos lapsos de memória, as
substituições e equívocos de seqüência... isto é, a narrativa que fazemos
do filme, da qual nossa memória se apropriou, é que foi transformada em
um objeto.
Sabemos que o cinema convida a identificações e, para tanto, pro­
põe movimentos regressivos e os conseqüentes mecanismos primitivos
de projeção e introjeção. Com ojá referi em outro texto4, ocorre uma iden­
tificação essencial com a câmera, como um olhar que tudo pode perce­
ber e que pode voar no espaço e no tempo, autorizando que de tudo pos-

' Rudolf Amheim, Film as Art, Berkeley/Los Angeles/London, Iniversity of California


nias, 1984, p.87.
1 Paulo Fonseca. O masculino e o feminino no cinema, ontem e hoje. In: Revista de Psica-
//.///vv as Sociedade Psicanaliticade PortoAlegre / S P P A - v.5, n.2 (set. 1998), p.201-217.
samos nos aproximar, em close, e que de tudo possamos participar, na
fantasia. Nessas condições, podemos identificar-nos com os atores em
seus aspectos exibicionistas, ao mesmo tempo que, como platéia, nos
constituímos como voyeurs.
Roland Barthes5 comenta que ao olharmos um instantâneo fotográ­
fico, vemos uma presença “que esteve lá” configurando “uma ilógica con­
junção do aqui e então”, isto é, uma discrepante categonzação de espa-
ço-tempo: lugar presente, mas tempo passado. No cinema, ao contrário,
a impressão de realidade é proporcionada pela presença do movimento,
que traz profundidade, dimensão e volume e, ao assim fazer, sugere vida.
Por liberar um mecanismo de participação emocional e perceptiva no es­
pectador, provoca uma impressão de realidade atual, o que resulta em ele
ser absorvido não por um “esteve lá” mas por um sentido de “lá está” ou
“aqui estou” .
Olhando, atentos, para o retângulo luminoso movimentando-se lá à
frente, vislumbramos, em preto e branco, os “deuses e deusas” reencama-
ções dos objetos mais significativos da época inicial de nossa existência,
executarem passos de uma dança estilizada, que evocam movimentos si­
nuosos e sensuais ... O cinema possibilita, em última análise, a visão de
corpos em movimento, objetos parciais (um olhar, um sorriso, um deta­
lhe...) e a angulação com que são expostos nos remetem, em um nível in­
consciente, à nossa curiosidade antiga e ao desejo de adentrar, quem sabe,
no quarto e ver a cena primária e dela participar.
No meu entender, a famosa crítica de cinema Pauline Kael6 alude a
essa curiosidade infantil quando assinala que “a era de ouro do cinema de
todo mundo é o período de sua primeira ida ao cinema e pouco antes - o
que perderam ou não tiveram permissão de ver”.
E é dessa conjugação de, por um lado, um formato onírico como ma­
lha estruturante e, por outro, essa proposta imagética de identificações e
movimentos capazes de vencer barreiras de interdição, que o cinema al­
cança o seu significado, sua magia sedutora e o seu alcance universal:
Somos, então, todos voyeurs e participamos todos das lutas dos gla­
diadores no Coliseu, dos enfrentamentos de nós, heróis, com os monstros
de nós mesmos. E lá estamos, atiramos granadas e por elas somos atingi­
dos, choramos as separações, rimos as quedas e saudamos, emocionados,
os encontros. Envolvidos em luz e sombra, e músicas e silêncio, protesta-

5Roland Barthes, apiid Christian Metz, Film Language. A semiotcs o f the Cinema, Chica­
go: The University Press, 1992, p.5.
6 Pauline Kael, Criando Kane e outros ensaios. Rio de Janeiro: São Paulo: Ed. Record,
2000. p. 100.

302
mos contra invasões e deploramos a solidão. Somos os agentes cruéis e,
expatriados, as vítimas do desamparo.
As imagens enormes na tela, por suas proporções, reeditam escalas
infantis de observação e assim somos reduzidos, em um turbilhão regres­
sivo, a buscar significados em gestos e expressões, com uma fome e sede
incontidas de algo que não lembramos.
E olhando as imagens e nelas mergulhando, em algumas vezes, sem
uma nitidez definida e, sim, um contorno enevoado, algo pode, atrás da né­
voa, “dizer-se” sem palavras. E lembranças são evocadas, como ecos recor­
rentes da memória, fugazes e fragmentárias, mas únicas em sua individuali­
dade indizível: o que, mesmo, sou levado a buscar? O que, mesmo, está me
buscando? Um contato, quem sabe ... talvez um sorriso ... aquele olhar?
Voltando à consideração que fiz anteriormente, ao referir-me ao es­
tado de pré-sono que pode possibilitar a interação do espectador com o fil­
me.7 Uma outra imagem útil para ilustrar essa condição é sugerida pela
dupla ausência/presença.
O espectador, inicialmente ausente (uma “tela branca” diria Freud,
em sua famosa metáfora), encontra-se com o filme e sua presença ou, mais
precisamente, suas “presenças”, no plural, já que são vários os seus estí­
mulos - contrastes de luz e sombra, imagens e espaços e sons e silên­
cios... dirigem-se à tela disponível do espectador e a preenchem e o po­
voam. E ele passa a dispor de uma presença que o filme lhe concede, que
o filme lhe projeta.
E mais: o espectador também é ativado, é tensionado e é “mexido”
(expressão freqüente para referir essa experiência). E surgem, então, evo­
cações e associações que se liberam e rumam ao facho luminoso da proje­
ção e o interceptam e o desviam (Woody Allen materializa essa experiên­
cia e a desdobra, por um tempo, em A rosa púrpura do Cairo). E essa via
dupla de trocas perceptivas e de fantasias e de ritmos segue até que o filme
passe, ele agora, à ausência. E o espectador fica enriquecido pelas presen-
tificações de mais do que estava presente, de início, no filme.
Mas quero frisar um outro aspecto: o de que a promessa do cinema é
a de um mundo sempre possível de repetir. Que, apesar das angústias a que
convida, vale o ingresso pelo reencontro e pelo tempo ainda disponível para
sinapses da memória. E a promessa de imagens sempre jovens e que, mes­
mo assim, se renovam e nas quais a velhice é feita de giz e de rugas pinta­
das, qual bigode de Groucho Marx.

7 Fonseca, Paulo. O espectador e o filme: efeitos especiais do inconsciente. In: Jornal do


Centro de Estudos Luís Guedes. Depto.de Psiquiatria e Medicina Legal da UFRGS/I los-
pital de Clinicas de POA. Outubro/2000, n.44.

303
M ovimentos reprisados sem pre os m esm os...iguais os
olhares...idênticos os convites...mas sempre tão inéditos ! Do tipo: “desta
vez percebi o que não havia notado antes [...]”.
A característica reiterada, presente nas crianças, de ouvir as m es­
mas histórias e da mesma maneira, com as mesmas palavras, atentas às
entonações previstas ou pré-ouvidas, também está no cinema e constitui
apelo a ela dirigido, em todos nós. Nos filmes estão preservados os tex­
tos, os gestos, as expressões e os detalhes que, uma vez percebidos pela
primeira vez, levam muitos a vê-los novamente para que se apossem des­
sas percepções e captem outras novas que lhes tenham escapado. Até que
as falas sejam antecipadas e os movimentos e as reações não mais sur­
presas. E tudo faz sentido. A vida, no cinema, tem um início, um meio e
um fim. E caso este último lhes desagrade, ou aguardam a seqüência (que
depois, muitas vezes, declinam de assistir para não macular a “perfeição”
do original, tanto mais idealizado quanto mais distante), ou até que o fil­
me, uma vez incorporado como objeto internalizado, não precisem mais
revê-lo pois até dele irão lembrar melhor caso não o virem de novo... E
assim, os filmes são capazes de significar, para muitos, refúgios de gra­
tificações controladas que apontam para evitações fóbicas - o cinema
como um anestésico e como veículo de buscas românticas à distância.
Nesses casos, a vida de realidade externa assume tonalidades opacas de
decepção se comparadas com o colorido atribuído aos filmes enquanto
modelos das expectativas. A possibilidade próxima é evitada com racio­
nalizações de desagrado e insuficiência, enquanto o adiamento tom a-se
recurso de um encontro ideal, cada vez mais distante. Por vezes até pode
remeter à crença religiosa de que o paraíso será atingido em outra vida,
caso entendamos, como Jerome Prieur (1995), que o paraíso é apenas
outro nome para a nostalgia.
E é tranquilizador para muitos viver uma vida em que o fim dos ro­
teiros é relativo, já que o podem recapturar no cinema (ou mesmo o rebo-
binar em vídeo...). E lá está, na aparência intacto, o mesmo início. E lá es­
tão objetos que não lhes exigem reparação. E lá estão as divas permanen­
tes. Como Garbos que desejam ficar sozinhas mas recusam o envelhecer.
Musas de um ideal de juventude perpétua, que se eclipsam para que a rea­
lidade do passar do tempo, que elas próprias constatam, não seja partilha­
da, pois iria abalar a ilusão por elas e com elas construída de que o tempo
desapareceu e foi substituído pela eternidade. Pois só na tela, mágicas,
conseguem seu desejo de ficarem cristalizadas, com a iluminação bonita e
vantajosa (também a afetiva, do nosso olhar) que delas procura fixar o an­
seio aquele de lá ficarem, preservadas. Ao mesmo tempo que, como refle­
xos, suas imagens ocultam ausências particulares para cada um.

304
E na platéia (“out there in the dark como no discurso de Swan-
son), extasiados, saudamos as deusas da memória de um tempo ainda sem
vozes e de um mundo de cores ausentes, de esguias lembranças e enge­
nhos de estranhos lugares. E qual antepassados, essas imagens revisitam
espaços não mais existentes e reconhecemos, com olhos de assombro e
em névoa de lágrimas, suas presenças. E escutamos, emocionados, um
comentário em sussurro para nós mesmos, que nos revela, por fortuna e
infortúnio, que sonhadores, sabemos estar despertos: “que jovem era ela...
e que bela...!”
N essa configuração, o suposto controle não é gratificado tão somen­
te pela narrativa e pelos personagens, nem tampouco pelos aspectos reco­
nhecidos em nós mesmos que neles estão registrados. Possuem, ainda, o
adicional de antecipar os rumos de vida de muitos dos modelos evocados
bem como dos atores que os interpretam. Por exemplo, ao assistirmos na
atualidade um filme produzido em décadas passadas, dispomos, como es­
pectadores, de informações outras, provenientes de períodos ulteriores,
tanto no que se refere aos acontecimentos históricos nele registrados, quanto
ao que tenha acontecido com este ou aquele intérprete.
E isso fomece uma ilusão de permanência sobre os acontecimentos
que virão, um fantasiado comando sobre o futuro e suas mortes e suas per­
das e seus lutos. E assim, rever o filme também comporta a função antál-
gica de volatilizar os temores do que está por vir. E a repetição assume uma
defesa antecipada, como dique preventivo de estímulos novos que poderi­
am provocar dores desconhecidas ou, pior ainda, reatualizar aquelas que
nos marcaram e das quais apenas recebemos visitas em sonhos ocasionais.
(E que seguem dores incômodas exatamente por ainda nos revelarem an­
fitriões desajeitados, que nos bastidores da sofisticação encenada do ma­
nejo dos talheres e dos cristais, ainda não aprenderam a olhar o relógio de
forma descuidada sem que fique denunciado o anseio pela despedida...).
Em última análise, o que tememos é o já conhecido, potencialmente
capaz de assumir reedições de novos formatos e intensidades renovadas e
que, uma vez evitadas, mais aprisionam, propondo o círculo vicioso de um
metabolismo indigesto de angústias.
Mas, ao final, como uma desintoxicação súbita ... o corte. A música
se avoluma e acendem-se as luzes e voltamos, incógnitos, à claridade do
dia e aos seus odores e aos seus ritmos. A melodia do filme nos acompa­
nha por um tempo, mas logo é vencida pelos ruídos da tarde e nos abando­
na. A rua parece, de início, vir de longe, de um tempo precário e artificial
e, um tanto sem jeito, caminhamos, sentindo falta do conforto, mais do que
do colo da poltrona, da visão temporária de temas tão mais empolgantes
que a nossa vida.

305
Mas, pensando bem, quem sabe usando o registro atemporal e o de­
vaneio do filme, quão maior, quão absurdamente maior seria a emoção se
fosse possível sair do cinema simplesmente e andar distraído, parando em
vitrines... viajarjuntoàjanelade ônibus e descer... na casa passada. E abrir
a porta com a chave readquirida sem espailto, e contar para ausentes de um
tempo vivido, coisas corriqueiras, já contadas. Quem sabe até que deveri­
am ir assistir ao filme tal, que é muito bom ...
E poder tirar os sapatos e, não mais grisalho, indagar, displicente e
sem consciência, para a mãe atarefada de uma época distante - “O que
vamos ter para o jantar?”

306
CARTOGRAFANDO A ONDA TEEN

P atrícia G enro R obinson

E ssa idéia de que a verdade não é algo preexistente, a ser


descoberto, m as que deve ser criado em cada domínio, é evi­
dente nas ciências, por exemplo. A té na física, não há verda­
de que não suponha algum sistema simbólico, m esm o que
sejam só coordenadas. N ão existe verdade que não “falseie”
idéias preestabelecidas. Dizer “a verdade é uma criação” im ­
plica que a produção da verdade passa por uma série de ope­
rações que consistem em trabalhar um a m atéria, um a série de
falsificações no sentido literal. M eu trabalho com Guattari:
cada um é falsário do outro, o que quer dizer que cada um
com preende à sua m aneira a noção proposta pelo outro. For­
m a-se um a série refletida, de dois termos. N ão está descarta­
da um a série de vários termos, ou séries com plicadas, com
bifurcações. Essas potências do falso é que vão produzir o
verdadeiro, é isso os intercessores...
Deleuze

A cartografia como método de pesquisa da subjetividade foi o cami­


nho por onde trabalhei na minha dissertação de mestrado - “Cartografan­
do a onda teerí\ Este artigo pretende desenvolver a teia conceituai através
da qual o método transita, na possibilidade de investigação da subjetivida­
de contemporânea, e neste caso específico - o universo teen.
Busco, fundamentalmente, na genealogia de Foucault recursos teóricos
de possíveis trajetos que explicitem a cartografia via questões colocadas pela
genealogia. A idéia parte de Deleuze (1991) que chama Foucault de cartógra­
fo, quando escreve sobre sua fase genealógica Assim sendo, autonzo-me a fazer
destes autores ferramentas, já que ambas as perspectivas de mapear o real im­
primem em mim um jeito maquínico e processual de incrementar a operação

Patrícia Genro Robinson é psicóloga do setor de Recursos Humanos do Govemo do


Estado do Rio Grande do Sul onde desenvolve projetos na área de saúde do trabalhador. 1i
mestre em Psicologia Social pela P1JC/RS.

307
investigativa. Traçar, costurar, viajar com as multiplicidades. Enxergar os di­
ferentes ângulos, as paisagens que o mundo teen tem me oferecido.
Preliminarmente, procuro mostrar, através da genealogia de Foucault
(1995), em que lugar se encontram as interfaces do real, questionando a ver­
dade moral. Busco, a todo momento, costurar as teias dos conceitos da ge­
nealogia1e da cartografia. Com o intuito de adentrar nas entrelinhas dos con­
ceitos, tento descobrir espaços de equivalência potencializadora de ambas
as idéias. Na construção deste mosaico conceituai, acabei encontrando-me
com os roteiros de viagem do cartógrafo encarnado por Rolnik (1989).
Foucault (1995), no texto “Nietzsche, a genealogia e a história”, recusa
a pesquisa de origem (Urspnmg), segundo a qual é possível descobrir a essên­
cia exata das coisas, tirar os véus e as máscaras e encontrar sua verdade abso­
luta. A genealogia “marca a singularidade dos acontecimentos, fora de toda
finalidade monótona” (Foucault, 1995 p. 18).2Ao contrário da metafísica, Fou­
cault chega à conclusão de que nada subjaz às aparências, tampouco no come­
ço está o essencial, a perfeição de todas as coisas. O genealogista não pretende
ir em direção à profundidade, pois não é ali que a verdade se encontra, mas na
superfície aparente dos acontecimentos. “Foucault reconhece que os signifi­
cados profundos, escondidos, os pontos inacessíveis da verdade, os interiores
obscuros da consciência são puros artifícios” (Dreyfus, Rabinow, 1995, p. 119).
Em relação à verdade, Foucault (1995) cita Nietzsche quando este afir­
ma que a verdade não aparece quando lhe arrancamos o véu. Para Foucault
a verdade é: “uma espécie de erro que tem ao seu favor o fato de não poder
ser refutada, sem dúvida porque o longo cozimento da história a tomou inal­
terável” (Foucault, 1995, p. 19). A verdade é o efeito das relações de poder
de uma sociedade que estabelece um conjunto de regras, ou como refere o
autor, uma “economia política” de verdade que permite regulamentar o
regime da verdade, enunciados considerados falsos ou verdadeiros apoia­
dos por um discurso científico e por instituições que a reconhecem. As­
sim, admite-se que o poder produz saber, não no sentido de identificação
direta ou de uma relação simplesmente causa-efeito. A genealogia, entre­
tanto, mostra as vicissitudes e a concretude da relação poder-saber, reco­
nhece as múltiplas interfaces da verdade. Ou melhor, “fíccionaliza-se a
história a partir de uma realidade política que a tom a verdadeira, e fíccio­
naliza-se uma política que ainda não existe, a partir de uma verdade histó­
rica” (Foucault apud Dreyfus, Rabinow, 1995, p.223).

1Foucault usa a genealogia como um método para pesquisar e conceber a história. O autor
contrapõe a história tradicional à historia efetiva. Da mesma forma, tento usufruir das
relações entre cartografia e genealogia, tento aproxim ar história e subjetividade.
2Ibíd., p. 18.

308
A partir da compreensão de história elaborada por Foucault, me autorizo
a relacioná-la com a subjetividade, pois da mesma forma que a história tradi­
cional busca no passado o entendimento dos acontecimentos do presente e vis­
lumbra previsões do futuro, as psicologias dinâmicas também se apegam na
idéia de que o sujeito é resultado de um passado - sua vida pregressa. Assim, a
subjetividade se reduz a um inconsciente determinado por experiências infan­
tis que são protótipos dos modos de relação no presente, da mesma forma que
a história tradicional preestabelece uma noção de sujeito-estrutura, suficiente­
mente rígida, que aponta para uma previsibilidade de diagnóstico.
Portanto, a genealogia não almeja dar conta de uma possível totali­
dade ou de uma síntese daquilo que foi realmente. “Trata-se de fazer a his­
tória do passado nos term os do presente... fazer a história do
presente”(Foucault, 1987, p.32). A genealogia percorre os contornos das
descontinuidades, as rupturas que não levam, obrigatoriamente, a lugares
de prosperidade.
A genealogia é definida, segundo Foucault (1995), pelas expressões
Herkimft (proveniência) e Entestehung (emergência).
Herkimft é proveniência. Significa pesquisar não apenas as conflu-
ências, as similitudes, mas decifrar a sutil articulação da rede complexa dos
elementos singulares, já que a história se encontra na nebulosidade das mul-
tidimensões do real. Isto quer dizer que a proveniência não é um passado
sólido, original, como uma única e absoluta proveniência. Mas a tarefa é
buscar as múltiplas proveniências, fragmentando e expondo sua heteroge­
neidade; ou melhor, como ela processou a atualidade histórica no contex­
to da dispersão e do acaso.
Conforme Foucault (1995), a proveniência se efetua no corpo, no sis­
tema nervoso, no humor, é nele que se passam os acontecimentos do pas­
sado, onde são gerados os desejos e se experimentam os erros. Os aconte­
cimentos se inscrevem na superfície do corpo. “A genealogia, como análi­
se das proveniências, está portanto no ponto de articulação do corpo com
a história” (Foucault, 1995, p.22).
A partir da afirmação de que o corpo é o lugar privilegiado, onde se
inscreve a história concretamente, permito-me fazer mais uma conexão com
a subjetividade. A fase genealógica de Foucault precede a ética, que é a fase
em que Foucault desenvolve os modos de subjetivação. A subjetivação, ex­
plicada pelo entendimento deleuzeano,3 se produz num campo de força,

' Vale ressaltar que a singular interpretação de Deleuze sobre a obra de Foucault é consi­
derada bastante polêmica segundo alguns foucaultianos. Deleuze, Gilles. Conversações.
Rio de Janeiro: Editora 34, 1992.
Ibid.

309
que é a força de si consigo mesma, curvando a força sobre si, transpondo a
linha de força e fazendo as dobras e redobras. O mais profundo é a pele, “a
superfície que não se opõe à profundidade mas à interpretação” (De-
leuze, 1992, p. 109), ou seja, é o resultado de um processo que seria o de
debruçar-se na curvatura e na dobra da linha de resistência. Isto rompe com
as noções de dentro e fora. Dentro, significando totalização ou síntese da
dicotomia: o interior do psiquismo, fantasias inconscientes. Fora, a infra-
estrutura econômica e superestrutura ideológica.
Também Rolnik (1995) enfatiza a subjetividade como uma dobra na
pele ilusória. Nesta pele ilusória que contorna o corpo, se dá concretamente
o processo de subjetivação. Portanto, é no corpo, efetivamente, que se vive
e se atravessam as forças que criam modos de existência possíveis.
Entestehimg é a emergência. A emergência é resultado de um com­
plexo jogo produzido por forças e fluxos e, portanto, sua análise consiste
em desmascarar as forças e as vontades implicadas.
Em suma, a proveniência, ao contrário da origem, é o campo de fo r-
ça-cenário, onde se produz o acontecimento,4 é a emergência como acon­
tecimento, o atual.
Vemos, no processo proveniência-emergência, uma equivalência da
noção de dispositivo. Conforme Foucault (1995), o dispositivo é compos­
to por uma rede articulada de elementos heterogêneos que podem garantir
a máscara de uma prática, bem como levar a uma nova interpretação desta
prática na direção de um outro campo de racionalidade. O dispositivo, por­
tanto, está sempre colocado no jogo das forças, no interstício estratégico
das relações de poder.
Deleuze (1991) potencializa o pensamento foucaultiano ao conside­
rar o dispositivo como um emaranhado de linhas, que diferem em relação
a sua natureza, seguem variações de direção. Linhas de sedimentação e li­
nhas de fissura. Neste sentido, o autor (Deleuze, Pamet, 1980) reconhece:

Desemaranhar as linhas de um dispositivo é em cada caso levantar um


mapa, cartografar’, percorrer terras desconhecidas, e isso é o que Foucault
chama o ‘trabalho no terreno’. Deve-se instalar nas linhas mesmas, que o
atravessam e o arrastam, de norte ao sul, de oeste ou em diagonal (p. 115).

4Ouso incluir a noção de acontecimento no sentido deleuziano: a produção de subjetivi­


dade que é inevitavelm ente atravessada pela tem poralidade, os acontecim entos são
constitutivos desta produção de subjetividade enquanto atuais, afirmando a todo momen­
to a diferença.
5O grifo é meu.

310
O que são essas linhas? Segundo Deleuze (1980), os indivíduos e
os grupos são feitos de linhas. Linhas de segmentaridade dura que estão
no plano molar e trabalham com segmentos que operam com máquinas
binárias: sexo, homem-mulher, classe social, negro-branco, criança-adul-
to; operam por identidade. Segmentos sobrecodificados por agenciamen­
tos de uma máquina abstrata (aparelho de Estado) que fixa o código e o
território, implicam dispositivo de poder. H á outras linhas que não so-
brecodifícam, são mutantes, constituem devires, blocos, marcam contí­
nuos de intensidade (platôs), conjunções de fluxos, são linhas molecula­
res que se atravessam entre os segmentos fluxos de desterritorialização.
Deleuze (1980) ressalta que o agenciamento inclui, não apenas linhas de
segmentaridade dura, como linhas de fuga moleculares. Ou seja, não exis­
te dualismo entre as máquinas abstratas segmentárias e as de fuga, uma
age sobre a outra, não em oposição, nem mesmo em complementarida­
de, mas em imanência (Deleuze, 1980).
“O que nós denominamos de diversas maneiras - esquizoanálise, mi-
cropolítica, pragmática, rizomática, cartografia6- não tem outro objeto que
o estudo destas linhas, nos grupos, ou nos indivíduos, sempre há vários rit­
mos, várias velocidades” (Deleuze, 1980, p .142-143)
A partir daí, estou tentando costurar a idéia de que o método genea­
lógico se atravessa na perspectiva do método cartográfico, podendo auxi-
liar-me na explicitação dos pressupostos de minha cartografia.
Poderíamos pensar que a cartografia é rizomática,7 conecta a hete­
rogeneidade, de forma que não depende de uma lógica binária, faz a ar­
ticulação com diferentes pontos de seus traços de diversas naturezas de
cadeias, tais como: biológicas, econômicas, políticas. O rizoma não con­
duz à totalização, tampouco ao uno que se transforma em múltiplo, mas
a multidimensões que caminham em direções mutantes. É composto de
linhas (segmentárias e de fugas), percorre a multiplicidade transversal que
se metamorfoseia no desterritorializar e no reterritorializar. O rizoma tem
este princípio da cartografia. “É uma questão de método” Deleuze, Guat-
tarri, 1995, p. 23).
A partir da explanação destes conceitos, portanto, penso na possibi­
lidade de uma aproximação da cartografia com a genealogia, já que carto­
grafar passa por percorrer linhas, surfar no fluxo de intensidades, contor­

6O grifo é meu.
7Um termo originário da botânica, que pretende desconstruir a relação binária, dicotômica.
A partir deste conceito Deleuze e G uattan apontam para uma subjetividade que não gira
em tomo de um eixo central, pois estes eixos são abertos, transformam-se a todo momen­
to, conectam-se, arranjam-se com múltiplos dispositivos, inclusive heterogêneos.

311
nar as superfícies irregulares, mapear campos de força, desestabilizar in­
terpretações das representações. Senão ainda, fazer desse desafio, constante
criação de sentido (Rolnik, 1989).

Aliás, entender, para o cartógrafo, não tem nada a ver com explicar e muito
menos com revelar,8 Para ele não há nada em cima - céus da transcendência -
, nem embaixo - brumas da essência e por todos os lados, são intensidades
buscando expressão. E o que ele quer é mergulhar na geografia dos afetos e, ao
mesmo tempo, inventar pontes para sua travessia: pontes de linguagem, (p.67)

Neste parágrafo e através de sua legenda de referência bibliográfica,


Rolnik (1989) demonstra que Foucault devora Nietzsche. Esta forma de en­
tender o cartógrafo, de fazer a cartografia como modo de investigação, bus­
cando no método genealógico uma sustentação, está também presente na au­
tora, ao explicitar sua estratégia de apropriação-invenção metodológica.
Conforme Lopes (1996), a cartografia é um transmétodo capaz de ma­
pear uma multiplicidade e captar sua singularidade. Como se fora desbra­
var os trajetos transversais dos devires, transitar na trilha do rizoma, numa
operação permanente de ir além da captura moral (bom, verdadeiro) ou
apreender o mapa em decalque. Deleuze e Guattari (1995) sublinham que
transformar o mapa em decalque é não enxergar as múltiplas entradas e as
linhas de fuga, é sim voltar “ao mesmo.” O decalque organiza, estabiliza,
neutraliza as multiplicidades. A cartografia tem o princípio do mimetismo:
“É sempre o imitador que cria o seu modelo e o atrai.” (p.23)
O cartógrafo inventa, cria trajetos, sua bússola é processualidade com
o múltiplo, o encontro com as redes de agenciamentos, e com a conexão
de devires.
Ao sentar com os personagens de minha cartografia, me deixo inva­
dir pelo devir-teen-em-mim, na idéia de “deixar rolar”, “entrar na onda”.
Como um entrosamento de devires “sacar qual é”, como bem expressa um
entrevistado: “Bah! Cara, tu sacô a lançada!”9
Este personagem fala do quanto o desafio constante de viver trans­
versalmente a relação entre a “pinta” e o cartógrafo é uma máquina produ­
tiva de sentidos, que vai definindo e redefinindo a relação a todo momen­
to, incessantemente. Um vôo no fluxo que está no plano invisível, dos afe­
tos, vivendo no corpo, o corpo sem órgãos,10os movimentos de desterrito-

8O grifo é meu.
9Fala de um entrevistado.
10Rolnik (1989) usa um termo equivalente: o corpo vibrátil O corpo que percebe as inten­
sidades, que se permite atravessar pela linhas de fuga.

312
rialização e reterritorialização da subjetividade. “ É o grau de intimidade
que cada um se permite, a cada momento com caráter finito ilimitado, que
o desejo imprime na condição humana desejante e seus medos ... Seu cri­
tério tem como pressuposto seu princípio” (Rolnik, 1989, p. 70).
Rolnik (1989) enfatiza os princípios do cartógrafo que são: extramo-
ral, político e ético.
Extramoral, porque o cartógrafo nada tem a ver com normatividade,
julgamento, ou interpretação, mas com o antiprincípio que o obriga a es­
tar em permanente mutação de princípio. O critério ético do cartógrafo
deve-se ao fato de que sua análise do desejo e das linhas de fuga dos terri­
tórios mutantes está longe de sustentar valores, mas pretende criar territó­
rios de existência que sustente “a vida em seu movimento de expansão”
(Rolnik, 1989, p. 74).
Rolnik (1993), num texto em que trata da perspectiva ética/ estética/
política do trabalho acadêmico, ressalta que o rigor" ético nada tem a ver
com um conjunto de regras e sistemas de verdades da ordem moralista, mas
com a escuta da diferença que gera, em nós, estados inéditos que produ­
zem marcas e gênese de devires. Rigor estético, porque o pensamento é
um campo de criação que se dá no compartilhar das intensidades do invi­
sível como uma obra de arte. “Político,12 porque este rigor é o de uma luta
contra as forças, em nós, que obstruem as nascentes do devir” (p.245).
Percebo que o cartógrafo exige do pesquisador um devir-artista, já
que ele vive no seu corpo os processos (de) outros (devires) de subjetiva-
ção e escolhe, diante de milhares de possibilidades, uma forma singular
de tradução e expressão das linhas que percorrem a subjetividade, impri­
mindo um ritmo, um tom na melodia da existência.
Rajchman (1996) com enta:

A imperceptibilidade ou indizibilidade das singularidades não é, portanto,


o que está oculto, alienado ou reprimido, e sua análise não é a procura de
uma entidade nem de uma fala constitutiva É uma arte das superfícies, uma
arte de deslocamento, [..] que se desloca através das conjunturas comple­
xas. Seguir singularidades é deslocar constantemente a questão do “é” pela
questão do “e”. Pensar as singularidades é dizer que há acontecimento no
pensamento (p. 192).

110 sentido dado ao rigor é mais como posição ontológica do que metodológica, erudita
ou intelectual (Rolnik, 1989).
I2Q grifo é meu
A estratégia cartográfica é a de compor com os devires, negociar com
a alteridade, deixar-se afetar pela diferença, usufruindo da potência do de­
vir. Navegar num mundo da aventura.
Nessa aventura, Guattari (1992) apresenta o paradigma estético como
alternativa ao paradigma científico, sistêmico e estruturalista. Ao abordar
seu objeto, o paradigma científico coloca “entre parênteses a dimensão de
criatividade específica, de posicionalidade ontológica singular” (p. 31).
No presente trabalho, não pretendo fazer generalizações da forma
como o fazem os paradigmas científicos, mas sim buscar singularidades e
operar no sentido de entender a vida como uma obra de arte, sob dois prin­
cipais aspectos. O primeiro refere-se à perspectiva de afirmação da vida e
da existência, ou seja, aos agenciamentos no processo de subjetivação e
ao movimento do desejo os quais escapam da consciência, da racionalida­
de, articulam-se criativamente na produção da heterogênese; isto recusa a
linearidade ou a sobredeterminação. O segundo diz respeito a entender o
conhecimento como criacionista e autopoiético.13
O paradigma estético é também ético, pois os agenciamentos de enun­
ciação em sua essência criacionista são capazes de ser vias de resistência aos
devires fascistas e alternativas à produção de subjetividade capitalística.14
Em briagada com o arsenal teórico que tentei desenvolver, neste
capítulo, ao me relacionar com os dados e a forma como o real vem-se
apresentando, utilizei como principal instrumento de minha cartogra­
fia, o movimento de atração e repulsa do desejo e as vicissitudes daí
criadas. Um trajeto, no mínimo exótico, que expõe a diferença como
componente fundamental. O único rigor que se estabelece é o rigor éti­
co ,'5 no qual a escuta e o olhar não pretendem capturar os discursos, as
imagens, normatizá-los, patologizá-los, tampouco transformá-los numa
análise ideológica, mas sim peg a r carona na potencialização que a di­
versidade detona.
Deleuze (1992) nos lembra que a vida é uma obra de arte, já que as
regras da produção da existência são facultativas, regras que são éticas e

13Guattari usa esse termo emprestado dos biólogos, Francisco Varela e Humberto Maturana,
que significa autoproduçâo, ou seja os movimentos da produção do conhecimento e da
subjetividade são maquínicos, se constituem, auto-engendrando-se, existencializando-se
singularmente.
14Conforme Guattari, o Capitalismo M undial Integrado (capitalismo e socialismo buro­
crático) produz, com o um a grande m áq u in a, um a subjetividade serializad a que
sobrecodifica as relações sociais afetivas, econômicas, nos meios intelectual, cultural,
urbano, agrário. Pois é esta produção capitalística da subjetividade que garante a força do
controle social coletivo (Guattari, 1986).
15A idéia de rigor ético é de Suely Rolnik. (Rolnik, 1989).

314
não morais (regras coercitivas) e consequentemente estéticas, porque cons
tituem estilos de vida, modos de existência, o que significa uma invenção
de modos de vida.
Ou como melhor define Guattari (1992):

O novo paradigma subverte a pseudo-unidade do mundo de valores


capitalísticos, uma vez que abre a possibilidade de recuperar a pluralidade,
a multiplicidade do mundo. Só isto é que permite recuperar a dimensão
ética. Só a partir do reconhecimento da alteridade é que a ética é possível.
E isto requer um reconhecimento da complexidade do universo, tanto cm
nível dos regimes políticos, como dos territórios existenciais e da vida
afetiva, (p.31)

Da mesma forma, o autor enfatiza o quanto a processualidade da cri­


ação tem implicações ético-políticas:

O novo paradigma estético tem implicações ético-políticas porque quem


fala em criação, fala em responsabilidade da instância criadora em relação
à coisa criada, em inflexão de estado de coisas, em bifurcação para além dc
esquemas pré-estabelecidos e aqui, mais uma vez, em consideração do des­
tino da alteridade em suas modalidades extremas. Mas essa escolha ética
não mais emana de uma enunciação transcendente, de um código ou dc um
deus único e todo-poderoso. A própria gênese da enunciação encontra-sc
tomada pelo movimento de criação, processual. Isto é bem nítido no caso
da enunciação científica, que tem sempre uma cabeça múltipla: cabeça
individual, é claro, mas também cabeça coletiva, cabeça institucional, ca­
beça maquínica com os dispositivos experimentais, a informática com os
bancos de dados e a inteligência artificial, (p. 137)

Afirma também que o paradigm a estético tem uma relação de ima­


nência entre sua complexidade e o caos, o que o autor chama de caos-
mose. o universo de valor entra como elemento de complexifícação, pro­
duzindo linhas de fuga e outros sistem as de referência; isto remete à
dimensão autopoiética: “trata-se de uma auto-afirmação ontológica em
uma relação de captação de totalidade e de diferenciação ao mesmo tem­
po” (p.30).
Como já foi teoricamente explorado, a cartografia pretende rastrear
a multiplicidade dos agenciamentos que compõem a subjetividade contem­
porânea. Toma-se imprescindível, portanto considerar a pluralidade dos dis­
positivos de construção investigativa, como mídia, programas de televi­
são, filmes, reportagens, músicas, bem como entrevistas e observações, já

315
que estes permitiram viajar na complexidade das linhas invisíveis de fuga
e as linhas sobrecodifícantes dos modos de subjetivação.
As observações foram acontecidas em lugares freqüentados pelos ado­
lescentes, como bares, shoppings centers, parques, shows etc.
Os entrevistados foram sugeridos por pessoas próximas e/ou por es­
colha da pesquisadora. As perguntas giraram em tomo de como eles (ado­
lescentes) vivem e se percebem na contemporaneidade. Não havia um ro­
teiro preestabelecido de questões a serem respondidas, entretanto formu­
lei uma qnestão-dispositivo para o desenrolar da conversa: “Como é vivi­
do o teu cotidiano?” A partir daí, me deixava maquinar pelo desejo, pela
curiosidade, pelos desassossegos criados na relação, permitindo-me afe­
tar pela diferença que ali estava sendo apostada. Questionei algumas idéias,
atravessei-me em outras, garantindo a processualidade da transversalida-
de. Tanto as entrevistas como as observações tinham o intuito de me apro­
ximar intimamente do ambiente teen, numa relação que foi marcada por
uma análise da implicação, mergulhando, deixando-me misturar e produ­
zir nesta hibridação que a diferença proporcionou.
Neste trabalho, apareceram alguns personagens cujas falas protago­
nizaram a trama de uma história contemporânea, e como tais não deverão
ser vislumbrados enquanto indivíduos. Eles individualizam-se em algum
momento, no entanto, consideramos que sua produção é polifônica e cole­
tiva. Então, foram captados na dimensão de seus agenciamentos, ou seja,
dosplugs que estes personagens estão fazendo com o cosmos e que confi­
guram o cenário subjetivo atual.
A partir deste universo de produções, a cartografia é analisar disposi­
tivos, percorrendo terras desconhecidas, adentrando no inusitado e deixan-
do-se atravessar de corpo e língua (Rolnik, 1989), permitindo que o im­
pensado invada o pensamento e experimente a sua potência, arriscando-se
a si mesmo, e, assim, modificando as paisagens da produção de subjetivi­
dade do universo teen.
Este texto foi construído tentando passar com clareza para o leitor as
fundamentações teóricas nas quais me inspirei, sempre acompanhadas de
intensidades captadas pelo cartógrafo, as imagens, os sons, os fragmentos
de fala, “restos humanos” (ou não), que estão misturados na dissertação.
As vezes, foram apresentadas através de cenas e, outra vezes, diluídas e
menos explícitas, mas operadas pelo cartógrafo; espero que se tenha feito
presente no imaginário do leitor.
Finalizo este artigo com um esclarecimento bastante elucidativo de
Deleuze (1997).

Uma concepção cartográfica é muito distinta da concepção arqueológica


da psicanálise. Esta última vincula profundamente o inconsciente à memó-

316
ria; é uma concepção memorial, comemorativa ou monumental, que incide
sobre as pessoas ou objetos, sendo os meios apenas terrenos capazes de
conservá-lo, identificá-lo, autenticá-lo. Desse ponto de vista, a super-posi-
ção das camadas é necessariamente atravessada por uma flecha que vai de
cima para baixo, trata-se sempre de afundar-se. Os mapas, ao contrário, sc
superpõem de tal maneira que cada um encontra no seguinte remanejamento,
em vez de encontrar nos precedentes uma origem: um mapa a outro, não sc
trata de buscar uma origem, mas uma avaliação dos deslocamentos. Cada
mapa é uma redistribuição de impasses e aberturas, de limiares e clausuras,
que necessariamente vai de baixo para cima. Não é só uma inversão de
sentido, mas uma diferença da natureza: o inconsciente não lida com pes­
soas e objetos, mas com trajetos e devires [...]. (p. 75)

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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DELEUZE, Gilles. Foucault. 2. ed. São Paulo: Brasiliense, 1991.
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GUATTARI, Félix. Caosmose: um novo paradigma estético. Rio de Janeiro: Ed. 34,
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. Guerra dos gêneros & guerra aos gêneros. 1995, (mimeo.).
. Pensamento, corpo e devir: uma perspectiva ético/estético/política. Cader­
nos de Subjetividade: Núcleo dc Estudos e Pesquisas da Subjetividade do Progra-

317
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2, 1993.
RAJCHMAN, Jonh. Lógica do sentido, ética do acontecimento. Cadernos de Subje­
tividade: Núcleo de Estudos e Pesquisas da Subjetividade do Programa de Estudos
Prós-Graduados em Psicologia Clínica da PUCSP, São Paulo, num. esp., 1996.
SALA DE AULA EM REDE:
DE QUANDO A AUTORIA
SE (DES)DOBRA EM IN(TER)VENÇÃO

M argarete A xt
J o sé Ricardo K reutz

Para ambos, Margarete e José Ricardo, registrar pela escrita uma


experiência é sempre outra experiência, uma experiência que interfere na
realidade, pela interpretação, mantendo ou instaurando perspectivas; mas
também uma experiência que remete à criação de um novo elemento - o
TEXTO - dobrando e desdobrando em possíveis autorias. Sendo efeito de

M argarete Axt é professora titular da Faculdade de Educação da Universidade Federal


do Rio Grande do Sul, Programas de Pós-Graduação em Educação e em Informática na
Educação; coordenadora do Laboratório de Pesquisas e Estudos em Linguagem Interação
e Cognição (LELIC/FACED/UFRGS); pesquisadora do CNPq e com o apoio, também,
das Pró-Reitorias de Pesquisa e de Pós-Graduação da UFRGS, desenvolve e coordena,
em parceria com outros pesquisadores, os projetos PRO-VIA: Programa Comunidades
Virtuais de A prendizagem - avaliação das novas tecnologias, efeitos e m odos de
subjetivaçâo; CIVITAS: Cidades virtuais com tecnologias digitais para aprendizagem e
sim ulação; CONSTRUTEIAS: estudos e criação em hiperm idia - construções com
tecnologias digitais para interação, aprendizagem e simulação. Suas publicações, nos úl­
timos anos, concentram-se nas suas investigações no âm bito dos ambientes virtuais,
concernindo os espaços de docência, das aprendizagens, da construção de conhecimento
e da produção de sentido em contexto de autoria, com vistas à captura dos processos e dos
mecanismos de criação. Tem textos publicados (como única autora e em co-autoria) em
periódicos como Educação & Realidade (UFRGS, 1997); Educação, Subjetividade &
Poder (UFRGS, 1998); Revista de Ciências Humanas (UFSC, 1999); Informática na
Educação: teoria & prática (UFRGS, 2000); Interface: comunicação, saúde, educação
(UNESP, 1999,2001).
Josc Ricardo Kreutz é psicólogo graduado pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos,
mestrando em Psicologia Social e Institucional - UFRGS na linha de pesquisa “ Subjetivi-
dades contemporâneas, discursos e sintomas sociais”, membro do grupo “Modos de tra­
balhar, modos de subjetivar”, colaborador do projeto de pesquisa e intervenção em ambien­
tes de rede - CONSTRUTEIAS - do PPG da Educação - UFRGS.

319
pura interpretação, ele próprio, o texto, só faz sentido em devir, quando
exposto a outras interpretações, ou seja quando interferido pelo seu fruidor
em novas condições de produção, pelo seu leitor em interação, com-ele-
posto, com-posto, posto-com-ele-o-texto, com-o-texto, contexto: o texto e
seu contexto, com tudo o que o compõe, autor-leitor-condições-de-produ-
ção; não apenas signos, mas mistura de signos e corpos, agenciamentos
maquínicos e de enunciação...
Em decorrência, convidamos o leitor a pensar o texto composto com
o seu contexto - p o r analogia às instalações artísticas audiomusicais ou
visuais em espaços tridimensionais, verdadeiros “monumentos” concre­
tos de realidades interferidas-interpretadas - como uma instalação, mas
não apenas como artefato concreto no espaço tridimensional: como uma
instalação, sim, mas enquanto tempo; e como uma instalação do tempo no
espaço, sim, mas no espaço social.
Em outras palavras, convidamos o leitor a pensar texto e contexto -
p o r exemplo, os muitos textos escritos p o r alunas em uma disciplina de
curso de g ra d u a ç ã o n o s fóruns de discussão da sala de aid a em rede -
como uma “instalação do tempo no sociaF,2 com a sua multiplicidade de
interfaces.
Colocada assim, nossa pretensão será então fazer com que o leitor expe­
rimente o que vamos chamar de instalação contínua no ambiente de rede da
sala de aula. Por que instalação contínua? Porque uma instalação do tempo
neste espaço social da sala de aula, em que pese a sua organização em forma
de ambiente, acoplando elementos físicos, humanos e simbólicos, será feita
também - e continuamente - de processos interpretativos, interferindo/inter­
vindo nas estruturas de realidade simbólica, estas sendo modificadas pela in­
tervenção daqueles, através de textos: mudam as estruturas simbólicas, m