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A CONSPIRAÇÃO DOS ALFAIATES

ROTEIRO: Aninha Franco, Cleise Mendes e Paulo Dourado.


TEXTO: Aninha Franco e Cleise Mendes.
COMPOSIÇÕES: Cacau Celuque, Tom Tavares e Aninha Franco.

Nota sobre o texto e a encenação

O espetáculo A Conspiração dos Alfaiates fez parte de uma conspiração cultural


promovida pelo teatro e patrocinada pela Fundação Cultural do Estado da Bahia. Tratava-
se de, partindo de um episódio da história da Bahia, reencontrar uma linguagem de teatro
popular em que “popular” não fosse sinônimo de tosco, improvisado, simplório. Por isso, o
investimento numa montagem elaborada, desde o texto - um drama de feição épico-lírica
que conjuga diálogos, narrações, poemas e canções - até a encenação, rica em efeitos
visuais e sonoros, e destinada a apresentação em praças públicas ou amplos espaços abertos
tais como ginásios, galpões, anfiteatros, entre outros.
Para tramar esta versão do levante ocorrido na Bahia em 1798 - um dos
momentos da curiosa história das sedições baianas que antecederam a Independência, os
dados obtidos em registros e documentos foram usados com ampla liberdade na criação
dramática: produziram-se deslocamentos, divisões e fusões de personagens e características,
subordinando-as ao objetivo maior de informar e divertir o público.

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PERSONAGENS:

LUIZ GONZAGA - Luiz Gonzaga das Virgens e Veiga tinha 33 anos durante a
conspiração. Era pardo, forro, solteiro, soldado granadeiro do primeiro regimento
de linha da Província da Bahia. Desertou três vezes da milícia e, na terceira, foi
submetido a Conselho de Guerra. Foi preso em 24.08.1798. A prisão de Luiz
Gonzaga precipitou os acontecimentos, porque os outros rebeldes, temendo que
ele falasse demais na prisão, armaram uma estratégia suicida de atacar a cadeia
onde Gonzaga estava preso para soltá-lo e, como precisavam de muita gente,
começaram a convidar desconhecidos para o ataque. Foi enforcado na Praça da
Piedade em 8. 11. 1799.

JOÃO DE DEUS- João de Deus do Nascimento nasceu em Cachoeira, filho de


parda forra e branco. Era casado, pai de cinco filhos, alfaiate, e apontado nos
autos da devassa como “insolente, atrevido e despojado, pronto para toda a ação
má.” Não era muito querido dos poderosos. Foi preso na reunião do Campo do
Dique (26. 08. 1798) e posto em “segredo”. Foi enforcado na Praça da Piedade
em 8. 11. 1799.

MANUEL FAUSTINO - Manuel Faustino dos Santos Lira tinha 16 anos, durante a
conspiração. Nascido escravo de Antônio Francisco de Pinho, em Sto. Amaro da
Purificação, era mulato, alfaiate e foi entregue à Justiça pelo seu ex-senhor.
Morava no Terreiro de Jesus, casa de seus senhores. Sabia ler e escrever. Foi
preso em 16. 09. 1798 e enforcado na Praça da Piedade em 1799.

LUCAS DANTAS - Lucas Dantas de Amorim Torres era pardo, livre, solteiro e,
segundo alguns historiadores, menor de idade. Segundo outros, tinha entre 23 e
24 anos de idade. Foi ferido durante a prisão e negou qualquer envolvimento com
a conspiração, apesar de apontado como seu líder. Preso em 15. 09. 1798 e
enforcado na Praça da Piedade em 08. 11. 1799.

NARRADOR - Como a intenção era fazer um espetáculo didático, para as ruas, o


Narrador incumbiu-se de ligar os fatos históricos e explicar os pontos obscuros.

RAINHA DE PORTUGAL - À época da conspiração, reinava sobre Portugal e


colônias, inclusive o Brasil, Dona Maria I, cognominada A Piedosa e depois, A
Louca, porque, realmente, enlouqueceu, sendo substituída no trono por seu filho,
D. João VI.

TIRADENTES - Joaquim José da Silva Xavier, apelidado Tiradentes, líder da


Inconfidência Mineira, que aconteceu no Estado de Minas Gerais, poucos anos
antes da Conspiração dos Alfaiates.

GOVERNADOR DA BAHIA - À época, Dom Fernando José de Portugal. Tido


como ponderado e justo, dentro da medida do possível, chegou a ser nomeado
líder da “nova república dos iguais”, pelos conspiradores.

SILVÉRIO DOS REIS - O traidor da Inconfidência Mineira.


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VISCONDE DE BARBACENA - GOVERNADOR de Minas Gerais à época da
Inconfidência Mineira.

DOMINGOS DA SILVA LISBOA - Escrevente de ofício da cidade da Bahia, preso


logo que os papéis sediciosos apareceram nas ruas.

PRIOR DO CARMO - Prior do Convento do Carmo, que encontra um boletim


sedicioso no Convento, e alerta o GOVERNADOR de que Domingos da Silva
Lisboa, o escrevente de ofício da cidade, não pode ser o autor dos boletins,
porque estava preso quando do aparecimento do último deles.

CORO (FORMADO POR HOMENS E MULHERES DO POVO) - Foram utilizados


na montagem original cinco homens e cinco mulheres.

TRAIDORES, CRIADO, FEITOR, INQUISIDORES e SOLDADOS - Os três


Joaquins que traíram os conspiradores, os inquisidores da cena da execração ao
livro, o criado do Governador, o feitor e o escravo da cena 06 e soldados.

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CENÁRIO

Duas torres elevam-se sobre o palco: uma delas, tradicional, é ocupada pela
Rainha de Portugal. Em outra, tropical, com coqueiro e rede, está o Governador
da Bahia. De uma a outra ponta delas, grandes telões pintados mostram a cidade
do final do século XVIII ou, a depender da situação, o brasão do Brasil Colonial,
reproduções de quadros famosos etc.

CENA 01 - A EXECUÇÃO DE TIRADENTES.


Telão: Paródia à obra de Delacroix.

NARRADOR - Nós estamos aqui para contar uma história verdadeira sobre
homens nascidos na Bahia, como nós, que foram enforcados na Praça da
Piedade, onde hoje vocês namoram, riem e comem pipocas. Esses homens,
Lucas Dantas, Luiz Gonzaga, Manuel Faustino e João de Deus, todos muito
pobres, pretenderam separar a colônia do Brasil do Reino de Portugal.
Pretenderam também proclamar a república e acabar com a escravidão mais de
cem anos antes que isso acontecesse. Eles queriam um país onde houvesse
liberdade, igualdade e fraternidade e por isso foram enforcados, deixando seus
exemplos para o ensinamento de nossa aprendizagem e de nosso orgulho.
Pouco antes deles em Minas Gerais, Tiradentes tentou o mesmo e teve a mesma
sorte. Hoje nós estamos aqui para contar a história da conspiração dos alfaiates
Lucas Dantas, João de Deus, Luiz Gonzaga e Manuel Faustino, que aconteceu
em dias do século dezoito, onde havia chuva e sol, como agora. A diferença é
que o Brasil não era uma república, mas uma colônia do Reino de Portugal, e
todos os brasileiros precisavam sustentar com os seus trabalhos e obedecer com
as suas cabeças aquilo que os reis portugueses exigiam.

Povo cantando na Praça. Entram os coletores de impostos: um anão negro,


preso por uma coleira é guiado por um militar, passa um saco onde os
transeuntes depositam tudo: dinheiro, jóias etc. O anão e o militar são seguidos
por um aristocrata que, vestido em uma caravela, como se fosse uma burrinha,
dança elegante em torno dos coletores. O aristocrata enrola as pontas do bigode
e faz, com o polegar e o indicador, o gesto típico de quem pede dinheiro. Os três
movimentam-se muito rápido, entrando e saindo de cena durante a canção. O
povo vai ficando impaciente até que expulsa os coletores.

HOMENS E MULHERES DO POVO (Cantando) - Entra dia, mais dia, haja chuva
ou garoa/ e o Brasil manda tudo o que faz pra Lisboa. / Entra ano e sai ano, céu
marrom, céu de anil, Portugal leva o ouro que produz o Brasil. / Entra hora e sai
hora, tempo bom, tempo mau, lá se vai mais um barco, cheio pra Portugal. / De
minuto a minuto, com calor ou com frio, Portugal vai juntando o que vem do
Brasil. / De segundo a segundo, mais um barco de proa que abandona o Rio com
destino a Lisboa./ Basta!

Música trágica que permanecerá durante toda a cena.

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NARRADOR - Estamos em 1792 e o Alferes Joaquim José‚ da Silva Xavier, o
Tiradentes, ainda não é um herói, mas um bandido, um marginal. Ele foi o líder
dos subversivos que pretenderam acabar com a exploração de Portugal sobre o
Brasil, que já durava trezentos anos.

HOMENS E MULHERES DO POVO - (Homens) Tiradentes está preso há três


anos. (Mulheres) Foi torturado para confessar os seus crimes. (Homens) Seus
companheiros de conspiração foram mandados para a África, mas ele é indigno
da real clemência. (Mulheres) Vai morrer enforcado e seu corpo será
esquartejado. Sua cabeça vai apodrecer na rua. (Todos) Hoje é o dia 21, dia 21
de abril de 1792. Dia da execução de Tiradentes. E o governo colonial fez desse
dia uma data festiva.

NARRADOR - “Portanto Portugal condena o réu‚ Joaquim José da Silva Xavier,


alferes da tropa paga da capitania de Minas, que com baraço e pregão seja
conduzido pelas ruas ao lugar da forca e nela morra de morte natural, para
sempre!”

Cresce a música. Sons de matracas. Entra um cortejo fúnebre. Mulheres com


mantos negros trazem a cabeça de Tiradentes, um incensório, um vaso de barro
com flores brancas e uma candeia acesa. Param as matracas e o cortejo.

HOMENS DO POVO - “Todos os Regimentos formam um triângulo regular, de


costas para o centro, onde altíssima forca se levanta a mais de vinte degraus. “

Música. Matracas. Mulheres depositam a cabeça de Tiradentes sobre um


pequeno praticável e arrumam as flores, a candeia e o incenso como num altar.
Entram homens do povo carregando quatro varas com caveiras no topo, duas
pernas e seis braços pendurados, que são colocados nos cantos do palco.

NARRADOR - E que depois de morto lhe seja cortada a cabeça e levada a Vila
Rica, aonde em lugar mais público seja pregada em poste alto, até‚ que o tempo
a consuma.

MULHERES DO POVO - “Nas janelas mulheres e crianças, ricamente vestidas.


Os homens estão nas ruas, em seus cavalos, fogosos, a pé‚ por toda parte !”

Tiradentes entra sozinho com a roupa da execução e lentamente atravessa o


proscênio‚ olhando para o público.

NARRADOR - Declaram ao réu infame e infames seus filhos e netos, e seus


bens serão confiscados pela câmara real.

HOMENS DO POVO - A tropa traja uniforme, um uniforme de gala. Os cavalos


têm as crinas enlaçadas de fitas cor de rosa e ferraduras de prata.

NARRADOR - E a casa em que vivia em Vila Rica seja arrasada e salgada, e que
lá nada mais se edifique.

HOMENS E MULHERES DO POVO - O soar dos clarins, o rufar dos tambores, o


trotar dos cavalos, o tinir das armas!

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NARRADOR - E no mesmo chão onde está esta casa, se levantará um padrão
pelo qual se conserve em memória a infâmia desse abominável réu.

Tiradentes sai.

HOMENS E MULHERES DO POVO - O carrasco negro entrou na cadeia. Ele vai


vestir no criminoso a roupa alva da execução(...) São oito horas do dia 21 abril
de 1792.

Sai o telão, uma paródia do quadro A Liberdade, de Delacroix. Fundo branco.


Dissolve-se o coro. Todos discutem acaloradamente. Gongo. Todos congelam.

RAINHA DE PORTUGAL - Eu estou no trono por uma determinação divina. Deus


ordenou que eu cuidasse de seus rebanhos de homens, mulheres e crianças, de
brancos, mulatos e negros. (Volta a discussão generalizada. Gongo. Congelam).
É necessário que cada um de vós saiba aquilo que é preciso fazer, mas quando
um de vós não souber, eu devo, por ordem de Deus, ensiná-lo, e o meu
ensinamento e o vosso aprendizado não tem limite menor que a morte.
(Discussão mais acalorada ainda. Gongo. Congelam.). Por isso mando matar o
alferes Joaquim José‚ da Silva Xavier, alcunhado Tiradentes, que desafiou as leis
terrenas e divinas quando tentou por meios criminosos, separar as terras do
Brasil do domínio português.

Todos na frente do palácio do Governador. Coreografia com gestos de ”fora!”,


“saia!”.

VISCONDE DE BARBACENA - A mão do Onipotente que regula o justo e feliz


governo de Sua Majestade acaba de defender este País da sua ruína e perdição
total, de um gravíssimo estrago irreparável. Tenho a glória de dar parte à Vossa
Majestade da completa vitória com que se acha rebatido o atrevimento de alguns
perversos homens e o infame sistema de sua maldade.

No telão branco projeta-se, ao fundo, em “teatro de sombra”, o enforcamento de


Tiradentes. Música forte. Findo o enforcamento, sai o cortejo fúnebre: varas com
caveiras, incenso, matracas, candeia, flores, etc. Do lado oposto a Silvério dos
Reis, entra o corpo de Tiradentes, carregado, sem a cabeça. Alguém coloca a
cabeça que estava no palco no corpo decapitado e ajoelhado. Feito o truque,
Tiradentes revive.

SILVÉRIO DOS REIS - Um dia, no futuro, todos lembrarão do nome de Joaquim


Silvério dos Reis, aquele que impediu que criminosos, loucos, regicidas,
separassem a colônia do Brasil da Coroa de Portugal. Um dia, no futuro, todos
lembrarão de mim, Joaquim Silvério dos Reis, o visionário que soube que o Brasil
não conseguiria sobreviver sem Portugal, e impediu com presteza que tal loucura
acontecesse.

Para a música trágica. Música grandiosa.

TIRADENTES - A quem pertence o futuro, esse buraco no escuro? Será de reis e


rainhas como dizem as ladainhas? Ou será da rebeldia, a que se tolhe e se adia
mas nunca deixa de vir? A quem pertence o futuro, esse buraco no escuro que eu
vejo claro, daqui? / Eu vejo um dia esse dia sendo mais comemorado do que
hoje, esse dia que estou vivendo, passado. Desfiles, tropas, bandeiras pelo vinte
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e um de abril, e essa luta fracassada emocionando o Brasil. / E o meu pescoço
na forca, demonstrando o quanto é louca a razão da humanidade, porque todos
os heróis morreram como bandidos, lutando por liberdade.

CENA 02: ODE À SEDIÇÃO

Telão: casario colonial da Bahia. Durante as canções desta cena, os atores


realizarão coreografias de reuniões revolucionárias, destacando-se em cada uma
a liderança do alfaiate a ser apresentado em seguida.

HOMENS E MULHERES DO POVO (Cantando) - Sim, é preciso morrer, quando


viver é ruim, quando nos tiram o poder de sonhar é preciso fazer o motim. / Pra
que viver por viver? Vida de gosto chinfrim! Ah, essa fome na mão, essa
desunião, essa angústia sem fim. / Sim, é preciso matar, quando viver é ruim, ah
essa dor de querer, essa dor de não ter fabricando o estopim.

NARRADOR - Agora, prestem muita atenção, este é Lucas Dantas de Amorim


Torres. Pardo, livre, solteiro e muito jovem. Sabe ler e escrever, e mora ali, na
Rua do Paço, onde promove reuniões com outros jovens para discutir a abolição
da escravatura, a igualdade entre brancos, pardos e negros e a instauração da
República.

LUCAS DANTAS - Precisamos fazer uma guerra civil para que não mais se
distinga cor branca, parda e preta, para que sejamos todos felizes, sem exceção
de pessoa, para que não estejamos sujeitos a sofrer de um homem tolo, que nos
governe, porque só nos governarão aqueles que tiverem juízo e capacidade para
comandar homens, seja ele de que nação for, ficando o povo em governo
democrático e absoluto.

HOMENS E MULHERES DO POVO - (Cantando) A vida é curta e começa onde


terminam os mortais e onde são diferentes aqueles que nascem iguais. / Não
podem ser diferentes aqueles que nascem iguais, nem nas terras da Bahia,
tampouco em Minas Gerais. / Se nunca são diferentes aqueles que nascem
iguais, por que em terras baianas? Por que em Minas Gerais? / Por que um dia
em Palmares? E por que no Maranhão? Por que no chão de Canudos? Por que
em pleno sertão? / Enquanto houver diferenças entre os que nascem iguais, a
vida será difícil e os dias serão mortais.

NARRADOR - Este outro é João de Deus do Nascimento, um mulato que nasceu


em Cachoeira, filho de uma parda que era escrava e comprou sua liberdade, e de
um branco. É casado e pai de cinco filhos. Comenta-se que ele é um alfaiate
insolente, atrevido e despojado, tendo sido repreendido severamente outro dia
porque foi procurado por um rico senhor de engenho em sua tenda de trabalho e
para demonstrar a sua insolência, permaneceu sentado, como se estivesse
diante de um negro.

JOÃO DE DEUS - Eu sou muito capaz para tudo mas já me considero perdido,
carregado de querelas. Tenho seiscentos mil réis guardados e com eles quero ir
para Angola. É difícil morar numa terra onde a cor de um homem é mais
importante do que o seu trabalho.
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HOMENS E MULHERES DO POVO - (Cantando) As pernas nasceram logo, o
ódio veio mais tarde quando as pernas descobriram que andar sem futuro arde. /
Os braços chegaram cedo e o ódio chegou no instante em que viu que mais
fizesse nunca seria o bastante. / A cabeça veio cedo, ódio tardou a chegar, mas
chegou disposto a tudo, até morrer e matar.

NARRADOR - Este é Manuel Faustino dos Santos Lira, tem 16 anos e era
escravo de Antônio Francisco de Pinho até outro dia, mas conseguiu juntar
dinheiro para comprar sua liberdade. É um mulato bem aprumado e alfaiate de
ofício. Mora no Terreiro de Jesus e sabe ler e escrever, participando das reuniões
onde se fala muito da liberdade e da igualdade entre brancos, pardos e negros.
Apesar de ter nascido escravo, fala da liberdade com sabedoria.

MANUEL FAUSTINO - Homens, o tempo é chegado para nossa ressurreição. A


França está cada vez mais exaltada, as nações do mundo têm seus olhos fixos
na França e os reis têm medo. A rainha de Portugal tem medo, o rei da Inglaterra
tem medo, o rei da Prússia está preso pelo seu próprio povo. O dia da nossa
revolução, da nossa liberdade, da nossa igualdade está para chegar.

MULHER DO POVO - (Cantando) A liberdade é uma mulher de ombros largos e


risada escandalosa que mete medo aos tiranos e com o povo é carinhosa. /
Quando a fome e a desgraça tornam a vida um tormento, é ela quem vai na
frente, é ela quem faz o momento. / É ela quem fala em vida pra assustar os
tiranos. É ela quem fala em morte, é ela quem faz os planos.

NARRADOR - E por último, nós temos Luiz Gonzaga das Virgens, que tem 33
anos, é pardo e também comprou sua liberdade. É solteiro e soldado granadeiro
do primeiro regimento de linha desta Praça. Já desertou três vezes da milícia e
recentemente foi submetido ao Conselho de Guerra. Sabe ler e escrever e tem
uma letra muito bonita, com que escreve cartas e mais cartas, falando de
igualdade, que são enviadas à Rainha.

LUIZ GONZAGA - Queremos a república para respirar livremente, porque


vivemos sufocados. Porque somos pardos não temos direito a nada, e com a
República haverá igualdade para todos.

HOMENS DO POVO - (Cantando) Liberdade, liberdade, igualdade, igualdade,


fraternidade. Liberdade, liberdade, igualdade, igualdade, fraternidade.

CENA 03: A CIDADE DO SALVADOR EM 1798.

(Atabaques, ponto de candomblé. Mulheres avançam com jarras, água de cheiro


e pólvora queimada e preparam o ambiente. Entra a “mãe de santo” e arreia um
ebó. O Narrador interrompe o ritual).

NARRADOR - Estas mulheres e alguns milhares de homens e mulheres vivem na


Bahia de mil e setecentos, que não é muito diferente da de hoje. É menor e
portanto os fuxicos correm mais rápidos. Possui muito mais negros do que
brancos e mulatos, e negros escravos, portanto a discriminação contra eles é
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muito maior do que a de hoje. Seus governantes são escolhidos por Portugal e
portanto a vida é muito mais dura do que agora. (Amanhece. Entra o povo para
realizar os seus trabalhos ao som lento de um samba. Entra um grupo animado
sambando, bebendo e cantando) - Eu disse que a vida era muito mais dura do
que hoje! (Os homens e mulheres dizem Ah! e voltam ao samba. Gongo.).

RAINHA - Senhor Governador, ordeno que toda habitação com mais de cinco
negros fugidos seja considerada um quilombo e destruída imediatamente. Seu
líder deve ser condenado à morte e seus seguidores açoitados, antes de
devolvidos aos seus donos. Exijo que essa ordem se cumpra com rigor! Rigor, Sr.
Governador.

(Volta o samba, animado. O grupo canta).

HOMEM DO POVO - (Cantando) A Bahia inconfidente/ murmura em ruas e


becos,/ de São Pedro a Soledade,/ da Preguiça a Jequitaia,/ da alta à baixa
cidade./

HOMEM DO POVO - (Cantando) Finda o século XVIII/ e a Bahia branca e negra,/


parda, mulata, trigueira,/ pede justiça e igualdade/ em cada esquina e ladeira./

HOMEM DO POVO - (Cantando) Tem a praça do Palácio,/ o Terreiro de Jesus/ e


a Nova da Piedade,/ mas a gente pede espaço/ pra ensaiar fraternidade./

HOMEM DO POVO - (Cantando) Enquanto o povo cochicha/ e espera que a


sorte mude,/ cresce o bairro de São Bento,/ Sto. Antônio Além do Carmo,/ cresce
Desterro e Saúde./

HOMEM DO POVO - (Cantando) Tem escravos, sapateiros,/ a Bahia dos


mascates,/ artesãos, cabeleireiros,/ padres, pedreiros, soldados,/ negociantes
e ... alfaiates!/

HOMEM DO POVO - (Cantando) Menos de vinte mil brancos,/ e negros, quarenta


mil,/ incluindo a mulatada/ que arma pirraça e arruaça/ na Colônia do Brasil./

(Gongo. Os homens e mulheres do povo trabalham entediados e indolentes)

RAINHA - Senhor Governador, soube por novas denúncias de Homens Bons e


Honrados, súditos fiéis desta Coroa, que esta cidade está vivendo em completo
desmando e contra todas as conveniências. Negros de ambos os sexos
promovem batuques nas ruas, que degeneram em pancadaria, matando-se as
vezes uns aos outros, para grande prejuízo de seus senhores. Isto é um desafio
intolerável à ordem e aos bons costumes. Exijo que o Senhor tome uma atitude
imediata, com rigor, Senhor Governador.

(Estoura uma briga violenta entre os homens, com golpes de capoeira. Quando
a mulher do povo começa a falar, a briga congela.)

MULHER DO POVO 1- Bocas, buchichos, bilhetes,/ o beijo, o banzo, o batuque,/


bispos, beatos, blasfêmias,/ as conversas cavernosas,/ cavando caos e castigo,/
cartas, cárceres, carrascos,/ cruzes, quilombos, capoeira,/ denúncias,
depoimentos,/ devassas e desventuras,/ a danação do degredo.// E a liberdade
tecendo/ o fio de sua renda:/ navegar é preciso/ que se aprenda.//
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MULHER DO POVO 2 - (Retorna a briga. Congela com a fala de outra mulher do
povo.) Filetes de ferimentos, ferros, feitores, fidalgos, afã de fazer feitiço, garras,
garrotes, gadanhos, galhofas e galicismos, o gosto das gargalhadas, o gozo, o
guizo, a gandaia, a justiça justaposta, gerando jeito, jeitinho, e gente jeremiando.
E a liberdade tecendo o fio de sua renda : navegar é preciso que se aprenda.

MULHER DO POVO 3 - (Retorna a briga. Congela a fala de outra mulher do


povo.) Lágrimas lavam as leis/ e as legiões de lacaios,/ os livros em labaredas,/ a
luz, o lume, a legenda,/ iluminismos letais.../ Masmorras, mortes, miséria,/
meirinhos, maçons, muzenza,/ o Nordeste, a novembrada,/ Napoleão e novelas,/
novidades e novenas.// E a liberdade tecendo/ o fio de sua renda:/ navegar é
preciso/ que se aprenda.//

MULHER DO POVO 4 - (Retorna a briga. Dessa vez alguém é baleado.


Congelam e outra mulher do povo fala) Os póstumos patriotas,/ padres, peões,
parasitas,/ os poderes paralelos,/ réus, rebeldes renitentes,/ raças, revoltas,
revides,/ o real e a realeza, os sambas e as assembléias,/ selos, sigilos,
segredos,/ a sedição e seus sonhos,/ o sangue e o suor descendo.// E a
liberdade tecendo/ o fio de sua renda:/ navegar é preciso/ que se aprenda.//

MULHER DO POVO 5- (O baleado cai morto e é levado para o fundo do palco.


Uma mulher do povo diz o último texto) Traidores e titulares, o trono, a taxa, o
tributo, o tronco, a tortura, a tropa, velas, vasos e vitrais, os vassalos e os
valentes, a vida a vazar das veias, o xodó e o xingamento, zona, zunzum,
zombaria, o zumbir da zurzidela, zoeiras, zangas e zelos. // E a liberdade tecendo
o fio de sua renda:/ navegar é preciso que se aprenda./ Bahia tem letras cinco
que são B A H I A.//

Volta o samba. Todos dançam animadamente. Gongo. Durante o texto da rainha,


com indolência e tédio, homens e mulheres recolhem instrumentos de trabalho e,
aos poucos, saem de cena. Findo o texto da rainha, o morto revive e sai
correndo.

RAINHA - Senhor Governador, ainda me chegam denúncias de Homens Bons e


Honrados, súditos fiéis desta Coroa, que noventa e cinco por cento das pessoas
que são vistas na cidade são negros e negras, completamente nus, com exceção
das partes que o pudor manda cobrir, de modo que esta cidade parece uma nova
Guiné. É de imenso perigo para os seus habitantes honestos que todos eles
pertençam a uma mesma nação, ou a nações amigas entre si. Portanto ordeno
que as importações de escravos africanos para as cidades desta Colônia,
separem os negros de uma mesma nação. Espero que não cheguem aos ouvidos
da Rainha novas denúncias sobre esses fatos e exijo que o Senhor cumpra essa
ordem com rigor, Senhor Governador.

CENA 04 : O JOGO DA CONSPIRAÇÃO

Telão : parede de uma casa antiga. João de Deus e Manoel Faustino jogam. Luiz
Gonzaga escreve carta e Lucas Dantas lê.

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NARRADOR : A Rainha de Portugal, Dona Maria I, proibiu através de um édito
real, que era a sua forma de fazer a lei, que se imprimisse livros no Brasil. Mas
os livros chegavam através dos barcos, livros franceses cheios de idéias novas
sobre liberdade, igualdade e fraternidade, idéias que já haviam mudado os
destinos da Europa. Esses livros caíram nas cabeças dos jovens que vocês vêm
ali lendo, escrevendo e jogando e caíram de tal maneira, que por esses livros,
eles acabarão perdendo as cabeças.

MANUEL FAUSTINO – Ei, Gonzaga, que é que vocês estão fazendo aí que não
vêm jogar ?

LUIZ GONZAGA - Estou escrevendo uma carta ao Governador.

JOÃO DE DEUS - Outra vez?

LUIZ GONZAGA - Ele vai ter que me ouvir. Não vou ficar a vida toda trabalhando
e vendo os brancos subirem de posto, enquanto eu me dano.

LUCAS DANTAS - Isso não adianta. O que resolve é a revolução pra fazer a
nossa terra livre.

MANUEL FAUSTINO - Lucas Dantas está certo. Só está faltando é mais gente
pra revolta ir adiante.

JOÃO DE DEUS - Deixem disso e venham jogar que é melhor.

LUCAS DANTAS - (Lendo) Ouçam isto: Vous savez tous, dignes répresentants
de la Nation...

MANUEL FAUSTINO - Em francês não....

LUCAS DANTAS - (Continuando) ... que em qualquer estado que o homem


nasça, ele é dono e senhor de seu pensamento e de sua vontade...

LUIZ GONZAGA - (Repetindo as palavras, fascinado) ... que em qualquer estado


que o homem nasça, ele é dono e senhor de seu pensamento e de sua vontade...
Era isso que eu precisava dizer ao Governador. Ouçam isto (Lê a carta que
estava escrevendo.): Eu, Luiz Gonzaga das Virgens, soldado do primeiro
regimento e quarta companhia de granadeiros, recorro a V. Exa. com a seguinte
súplica ...

JOÃO DE DEUS - Súplica? Por que é que nós temos de suplicar?

LUIZ GONZAGA - Calma, João de Deus, espere. Você vai ver o que vem depois.

LUCAS DANTAS - Esperar o que? Nós estamos esperando desde 1500 ...

MANUEL FAUSTINO - Isso de carta é bobagem. Nós vamos “suplicar” é de arma


na mão...

JOÃO DE DEUS – Boa, Manuel Faustino! Vamos escrever nossa “súplica” com
sangue...

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MANUEL FAUSTINO - Vocês vêm ou não vêm jogar?

LUIZ GONZAGA - (Desistindo dos dois e falando com Lucas Dantas). Escute:
Nós, homens pardos, recrutados e admitidos ao corpo das tropas pagas, tendo
todos os deveres de trabalho e lealdade da profissão militar, e expondo nossas
vidas pelo bem da Real Coroa...

LUCAS DANTAS - (Interrompendo) Pelo bem da Real Coroa não! Pelo bem da
nossa pátria!

LUIZ GONZAGA - Eu não posso escrever isso !

MANUEL FAUSTINO - Ora, então não escreva nada e venha jogar...

LUIZ GONZAGA - (Continuando) ...e sendo nós, homens pardos, da mesma


massa e sensibilidade dos outros indivíduos brancos da sociedade civil e militar,
sem outra diferença que a cor da pele, o que é apenas acidente da natureza ou
fenômeno do céu...

LUCAS DANTAS - Essa é demais! A cor da sua pele é acidente?

JOÃO DE DEUS - (Jogando, mas prestando atenção a conversa) É por isso que
é preciso fazer um levante, pra todo mundo ser feliz e não ficar se desculpando
por não ser branco...

LUIZ GONZAGA - Isso é só para chegar ao principal... (Lendo): sendo assim os


ditos homens de cor, iguais aos homens brancos tanto na substância material
como também na espiritual...

LUCAS DANTAS - Isto de religião é peta, é mentira, devemos todos ser


humanos, iguais, livres de subordinação...

LUIZ GONZAGA - (Continuando) Apesar disso, nós, homens pardos, somos


obrigados a militar por muitos anos, até perder as forças, a saúde e a própria
vida, sem descanso e sem prêmio, e sem ter o mínimo acesso à graduação e a
um posto mais alto.

JOÃO DE DEUS - Fale dos impostos: a sisa, a quinta, a vintena, a capitação, a


dizima e a redízima...

MANUEL FAUSTINO - Um dia vão deixar de sugar o nosso trabalho e o nosso


sangue. Isso eu garanto!

LUIZ GONZAGA - (Continuando) Este vosso humilde suplicante...

JOÃO DE DEUS - Lá vem ele outra vez suplicando...

LUIZ GONZAGA - É um indivíduo da classe dos referidos desgraçados e tem a


mágoa inconsolável de ver subir aos altos postos aqueles que nada mais têm
senão a cor branca...

MANUEL FAUSTINO (Rindo) - Mágoa inconsolável. Isso parece carta de viúva...

12
LUIZ GONZAGA - ...Visto que V.Exa. tem sido chamado de piedoso, se bem que
só para os homens brancos que militam...

LUCAS DANTAS - Essa eu gostei. Piedoso só para os homens brancos...

LUIZ GONZAGA - ...recorro como desamparado à vossa piedade, para que se


digne conceder-me o posto de ajudante do quarto regimento e espero receber a
vossa memorável mercê. Pronto. O que acham? (Todos riem e discutem. Black
out.)

CENA 05 : A EXECRAÇÃO DO LIVRO

Entram figuras portando tochas e uma cruz em chamas. Entra a rainha,


gigantesca. Música, fumaça. As figuras estão vestidas com mortalhas e capuzes
brancos (citação da Ku Klux Klan), como inquisidores.

RAINHA - E por este édito real, por mim assinado, proíbo que se imprima
qualquer tipo de livro na Colônia do Brasil, e que achadas máquinas de
impressão, sejam destruídas, seus donos presos e premiados os delatores com
15 mil réis, pagos por este governo.

Sob a saia enorme da rainha saem inúmeras figuras encapuzadas e com


mortalhas. Todos recebem tochas e cantam. Durante a canção, realizam o ritual
da queima de livros no palco, fazendo uma grande fogueira acompanhada de
uma coreografia grotesca, cercada de fumaça e iluminação sinistra.

HOMENS E MULHERES DO POVO - A terra era quadrada e havia sangue azul, o


norte estava ao norte e o sul estava ao sul, o mundo era de poucos, no máximo
de seis, era uma caixa branca, usada pelos reis. / Então eles vieram de todos os
cantos e trouxeram o espanto./ Vamos queimar os livros, vamos lascar e destruir,
os livros querem mudar o mundo, e ele pode ruir. / O escravo nascia escravo e
senhor o senhor, ninguém mudava essa ordem, nem o Deus criador. Muitos
trabalhavam e poucos recebiam, poucos mandavam e muitos cumpriam. Então
eles surgiram de tantos lugares e invadiram os lares. / Vamos queimar os livros,
vamos rasgar e destruir, os livros querem mudar o mundo e ele pode ruir. / Sejam
escritos em português, sejam escritos em alemão, sejam escritos em japonês,
eles dirão, eles dirão : Liberdade, Igualdade, Fraternidade, Revolução... / Vamos
queimar os livros, vamos rasgar e destruir, os livros querem mudar o mundo e ele
pode ruir.

INQUISIDOR - Oh! maldito o que recheia/ de livros a mão alheia/ e faz o povo
pensar./ O livro caindo n'alma/ é praga - que tira a calma,/ tormenta que
encrespa o mar! / Quem do diabo tem medo,/ não faz de um livro segredo/, nem
faz da leitura um vício./ Imprensa é tinta perversa,/ que gera tola conversa,/ gera
bagunça e comício./

INQUISIDOR - Por isso, manda a Rainha/ - Majestade Sereníssima - /que o povo


viva sereno,/ longe de toda a notícia,/ longe de toda a malícia/ da imprensa e do
seu veneno./

RAINHA - Está proibida a escrita/ e a leitura que advém,/ pra que aqui não se
repitam/ horrores de muito além./

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INQUISIDOR - Vamos arrombar as portas/ e começar a limpeza./ As estantes são
culpadas/ e o tinteiro sobre a mesa./ Já conspiram as gavetas/ secretas/ e
também os escaninhos/ daninhos.

INQUISIDOR - Joguem tudo na sarjeta,/ hoje o livro é o grande réu, queimem


tudo, tudo, tudo ! O desespero do mundo principia no papel.

Findo o ritual, saem com suas danças, gritando palavras de ordem contra os
livros.

CENA 06 : DISTRIBUIÇÃO DOS PAPÉIS SEDICIOSOS

RAINHA (Já sobre a torre, no trono) - Senhor Governador, por este alvará real
extingo o ofício de ourives na Colônia do Brasil. Ordeno também que sejam
destruídas todas as fábricas de tecidos de algodão, linho, lã e seda que aí
existam e que sejam presos aqueles que contra a minha determinação ainda
estejam plantando fumo na Colônia, para com ele exercer o tráfico ilegal de
escravos.

(Música de suspense)

NARRADOR : Hoje é o dia 12 de agosto de 1798 e algumas ruas da cidade de


São Salvador estão diferentes. A Rua de Baixo, a Praça do Palácio, o muro do
Hospício da Palma e até as igrejas da Piedade e da Lapa estão repletas de
papéis escritos que poucos podem ler, porque quase ninguém sabe ler nesta
cidade. Que dizem esses papéis?

HOMENS E MULHERES DO POVO: Falam de liberdade, justiça e igualdade


entre brancos, pardos e negros.

NARRADOR : É uma coisa muito estranha. Não há quem compre papel em


Salvador. Os estoques de papel que chegam de Portugal passam meses mofando
nas lojas. Quem terá sido o louco que os comprou, escreveu e espalhou pela
cidade?

(Durante a cena, em paralelo aos textos e canção, um escravo preso ao tronco é


chicoteado e desenvolve-se um conflito em torno dos alfaiates, que distribuem
panfletos aos transeuntes que assistem ao espancamento.)

HOMENS E MULHERES DO POVO (Cantam) - As ruas cheias de escritos/


escritos pelo diabo,/ que com sua mão mais negra/ disseminou o pecado. / Há
papeis na Piedade, há papéis no Pelourinho, na porta de cada casa, no vão de
cada caminho. Que dizem tantos papéis/ escritos por Satanás? Falam de coisas
sagradas/ como liberdade e paz. / Que dizem tantos papéis/ escritos pelo Satã?
Prometem noites melhores/ nos dias de amanhã. / Que dizem tantas mentiras/
espalhadas na cidade? / Não sabem se são mentiras,/ não sabem se são
verdades.

NARRADOR - A cidade está confusa. As pessoas querem saber o que está


escrito nos papéis, mas elas não sabem ler. O Governador, que sabe ler, já
colocou a Polícia atrás dos escritores. Enquanto isso, eles sonham.
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LUCAS DANTAS - A vida é grande e dá pra todo mundo,/ pretos e brancos, juiz
e mascate,/ e eles não querem dividir a vida./ Que disparate!/ Todos têm braços
que façam a comida,/ todos precisam de um bom alfaiate,/ mas eles acham que
os pardos são bichos./ Que disparate!/ Dentro da noite que eles criaram,/ eu vejo
o dia depois do combate,/ a igualdade de brancos e negros!/ Que disparate!

LUIZ GONZAGA - A palavra liberdade/ é bem comprida,/ entra em rua, sai em


beco, ganha a avenida.../

JOÃO DE DEUS - A palavra liberdade/ é uma navalha,/ por afluentes de sangue


logo se espalha...

LUIZ GONZAGA - A palavra liberdade/ nem me incomoda,/ entra século e sai


século,/ não sai de moda...

JOÃO DE DEUS - A palavra liberdade/ não é comício,/ só sabe dela quem tem/ o
puro vício./

LUIZ GONZAGA - A palavra liberdade/ é uma colcha de retalho./ Cada povo dá


um ponto/ neste agasalho.

JOÃO DE DEUS - A palavra liberdade/ dita em francês,/ no ouvido se traduz:/ é a


nossa vez. /

LUIZ GONZAGA - A palavra liberdade/ não tem segredo,/ mas lhe vestem sete
véus/ de puro medo./

JOÃO DE DEUS - A palavra liberdade/ é velha e nova./ A cada dia que nasce‚/ é
posta à prova./

LUIZ GONZAGA - A palavra liberdade/ é uma palavra/ e como toda palavra,/ seu
selo grava./

JOÃO DE DEUS - A palavra liberdade,/ lugar comum,/ ou não pertence a


ninguém,/ ou a cada um. /

MANUEL FAUSTINO - Eu vejo outra Bahia/ me acenando do futuro,/ um povo


que dança e canta/ e tantas cores mistura,/ numa só bandeira branca./ Não sei
que bandeira é essa,/ mas um nome eu vejo escrito,/ uma legenda completa.../
Não pode ser a Bahia,/ não a madrasta dos filhos,/ nem a mãe dos estrangeiros,/
como já disse o poeta.../ Meu Deus! que bandeira é essa/ erguida acima das
forcas,/ que sete vezes setenta/ espalharam nos caminhos?/ E que palavra
mantém,/ e que palavra sustenta,/ para além de cadafalsos,/ açoites e
pelourinhos?/ Fra-ter-ni-da-de! É o nome/ que eu vejo escrito em verde-limo/ dos
telhados ancestrais./ Fraternidade se lê/ em brancas batas de renda,/ em ouro e
dendê,/ neste sol que sempre espraia,/ a palavra está escrita/ - Bahia -/ na roda
da tua saia./

CENA 07 : INSTAURAÇÃO DO INQUÉRITO


(Telão : Brasão do Brasil colonial)

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RAINHA - Senhor Governador, chegaram aqui notícias trágicas e estarrecedoras.
Um bando de mulatos alfaiates, só por saberem ler e escrever, têm espalhado
ideias de igualdade entre as diversas raças da Colônia e proclamam fazer
revolução, independência e até democracia! Qual a causa, Sr. Governador, da
indisciplina e insubordinação em que está mergulhada esta cidade? A razão - é
preciso que vos diga - é a falta de rigor, a frouxidão de quem governa esta
Capitania!

GOVERNADOR - Posso assegurar-vos que não é a frouxidão deste governo a


causa de pequenas e poucas desordens envolvendo negros e mulatos, nesta
terra, selvagem e primitiva. Confiai que hei de esmagar com mão de ferro o
atrevimento desta corja infame!

Durante toda a cena, a ação transcorre paralelamente em vários planos: o


palácio do Governador, casa de Domingos da Silva Lisboa, casa de Luiz
Gonzaga, prisão e praça pública.

NARRADOR - Prenderam um tal de Domingos da Silva Lisboa. São tão poucos


os que sabem escrever nesta cidade, que pegaram o escrevente de ofício. Mas
eles vão acabar descobrindo que outros sabem, além dele. Vão vasculhar todas
as casas e prender todo aquele que souber escrever. Não pouparão homens nem
mulheres, negros, pardos ou brancos. Por ordem de Dona Maria I, Rainha de
Portugal e da Colônia do Brasil, o Governador da Bahia, Dom Fernando José de
Portugal, determina que não fique lugar que não seja investigado, em busca dos
rebeldes.

GOVERNADOR - Prendemos Domingos da Silva Lisboa. São poucos os que


sabem escrever nesta cidade. Vasculhem todas as casas e prendam todos
aqueles que souberem escrever. Não poupem homens nem mulheres, negros,
pardos ou brancos. Por ordem de Dona Maria I, Rainha de Portugal e desta
Colônia do Brasil, eu, seu mais humilde servidor, Dom Fernando José de
Portugal, determino que não fique nenhuma casa que não seja investigada, em
busca dos miseráveis rebeldes.

Soldados armados prendem Domingos da Silva Lisboa, que fica no palco durante
toda a cena. Homens e mulheres do povo entram e acompanham impotentes a
prisão. Interferem aqui e ali, repetindo e caricaturando trechos do diálogo do
Governador com o Prior do Carmo.

PRIOR DO CARMO - (Chegando) Sr. Governador, a coisa é grave! Cada dia um


sinal de rebeldia! Conspiradores novos aparecem, até entre pessoas de
importância! E agora, dizem, têm até um hino!

GOVERNADOR - Um hino?! Era o que faltava! Mas a que ponto chegaram!


Abomináveis franceses! Só pode ser essa praga que aporta em nossas praias!

PRIOR DO CARMO - E agora, veja, Senhor Governador, ainda mais papéis‚! A


letra é semelhante à dos primeiros, mas seu recheio é mais audacioso!

GOVERNADOR - O que dizem ainda esses fanáticos? Que novas liberdades


cometeram?

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PRIOR DO CARMO - (Lendo) O povo republicano bahiense houve por bem
eleger V. Exa. cidadão presidente do Supremo Tribunal Republicano e
Democrático, e dirigente da revolução.

GOVERNADOR - Cidadão? Presidente? Tribunal? Mas afinal, que quer isto


dizer?

PRIOR DO CARMO - Só quer dizer, Sr. Governador, que eles lhe passaram o
comando, que nomeiam Fernando Portugal, Supremo Presidente da Baderna!

GOVERNADOR - Serão punidos com o maior rigor os réus infames deste infame
pleito!

PRIOR DO CARMO - Não é pleito, Sr. Governador, eles ordenam sua liderança !

GOVERNADOR - É o prêmio que recebo por ter sido compreensivo, equilibrado


e justo !

PRIOR DO CARMO - E agora se complica a situação, porque não pode ser Silva
Lisboa o autor dos papéis sediciosos. O homem está preso. Outro foi o miserável
escrevinhador. Mas quem?

SOLDADO (que torturava Domingos da Silva Lisboa) - Quem escreveu os papéis


subversivos foi Luiz Gonzaga das Virgens.

GOVERNADOR - Então, mande soltar Domingos da Silva Lisboa.

NARRADOR - O Governador da Bahia está apavorado. A Rainha de Portugal já


disse que ele é frouxo e ele respondeu que não era. Agora, ele tem que tomar
uma decisão séria.

GOVERNADOR - O que a cidade cobiça?

HOMENS E MULHERES DO POVO - Justiça.

GOVERNADOR - O que mais falta lhe faz?

HOMENS E MULHERES DO POVO - A paz.

GOVERNADOR - O que murmura a cidade?

HOMENS E MULHERES DO POVO - Igualdade.

GOVERNADOR - Já não pode Portugal governar esta cidade, que o que ela
quer é anormal: justiça, paz e igualdade.

GOVERNADOR - Por que o povo assim pensa?

HOMENS E MULHERES DO POVO - Imprensa!

GOVERNADOR - Qual a razão desta loucura?

HOMENS E MULHERES DO POVO - Leitura!


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GOVERNADOR - Por que a cidade se agita?

HOMENS E MULHERES DO POVO - Escrita.

GOVERNADOR - O fim do mundo anuncia/ esta trindade maldita!/ Nossa ruína


tem nome : imprensa, leitura e escrita./ A prova do malefício / que trazem leitura e
escrita/ para a paz do cidadão,/ é um grupinho de alfaiates/ fazendo a
conspiração!/ (Para os soldados) Prendam Luiz Gonzaga das Virgens.

Soldados armados prendem Luiz Gonzaga das Virgens, que é atado, como num
pelourinho, à sua escrivaninha.

LUCAS DANTAS - Prenderam Luiz Gonzaga! É chegada a hora e o povo, com


certeza, nos apoiará . Vamos tomar o palácio e proclamar a república!

JOÃO DE DEUS - Não, vamos saquear as casas de comércio e incitar os


escravos a matar os seus senhores!

MANUEL FAUSTINO - Devemos reunir todos os rebeldes e discutir o que fazer.


Não podemos decidir sozinhos.

JOÃO DE DEUS - Vamos encontrar o Tenente Hermógenes, Cypriano Barata, o


Prof. Aragão, talvez eles tenham outros planos.

NARRADOR - Luiz Gonzaga das Virgens foi preso em casa, cheio de papéis
escritos. Aliás, só tinha papel na casa dele. O miserável não possuía mais nada.

HOMENS E MULHERES DO POVO - Onde estão os planos que ano sobre ano
foram preparados?/ Onde está o chefe que há de ser o chefe no instante
chegado? / Onde estão as armas que Luiz Gonzaga disse que existiam?/ Onde
estão as tropas, navios franceses que um dia viriam? / Onde estão os padres,
muitos militares que ajudarão ? / Onde está a pólvora, a espingarda nova, o
sabre e o canhão? / Onde estão os homens, escravos e livres, que haverão de
lutar? / Onde está o povo que quer liberdade, por Deus, onde está ?/

CENA 08 : A DELAÇÃO DOS JOAQUINS

RAINHA - Senhor Governador, investigue-se a denúncia de que nesta Colônia


os padres estão enriquecendo e andam até realizando banquetes de carne em
plena Sexta-feira da Paixão, dando vivas à França e à Liberdade.

CRIADO - Sr. Governador, está aqui o Sr. Joaquim.

TRAIDOR UM - Depois que prenderam o alfaiate Luiz Gonzaga, um amigo dele,


um tal de João de Deus, me revelou que está em andamento uma revolução que
há de matar os brancos, saquear as casas de comércio e separar o Brasil de
Portugal. Vai haver uma reunião deles hoje, no Campo do Dique.

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GOVERNADOR - Pois bem, Joaquim, vá até lá e me traga notícias de todos que
lá estiverem!

NARRADOR – Os rebeldes estão marcando uma grande reunião no Dique do


Tororó. Eles pretendem invadir a cadeia e soltar Luiz Gonzaga. Eles sabem que
quando Luiz Gonzaga for torturado, vai entregar todo mundo e todos serão
presos. Como vocês podem ver, a história não muda, porque os homens não
mudam, nem os que prendem e batem, nem os que são presos e apanham.

CRIADO - Sr. Governador, está aqui o Sr. Joaquim.

TRAIDOR DOIS - Eles estão esperando ajuda dos franceses. São amigos dos
franceses. Parece que vêm dois navios de lá, com muitas armas, e um deles me
garantiu que o próprio Napoleão Bonaparte está interessado na vitória dos
pardos do Brasil.

GOVERNADOR - Pois bem, Joaquim, vá até lá e me traga notícias de todos que


lá estiverem!

NARRADOR - Toda a revolta tem um traidor. Essa tem três e os três se chamam
Joaquim! Parece piada, mas é verdade. Cada um desses Joaquins vai ganhar
alguma coisa levando os rebeldes para a forca. Dinheiro, patente e o nome na
história.

CRIADO - Sr. Governador, está aqui o Sr. Joaquim.

TRAIDOR TRÊS - Parece que são muitos e vão se reunir hoje no Campo do
Dique pra discutir o que devem fazer. São milhares de escravos e gente de
consideração, padres, militares graduados, brancos, todos misturados com gente
de cor. Uma coisa verdadeiramente abominável.

GOVERNADOR - Pois bem, Joaquim, vá até lá e me traga notícias de todos que


lá estiverem!

MULHER DO POVO - Do pó viemos e vamos/ retornar ao mesmo pólen,/ mas


entre a vinda, que é vida/ e a ida, que é pura sorte,/ o céu e a terra se movem./
Do mesmo pó Joaquim/ se faz herói e traidor/ se faz o algoz e o réu/ com o
fermento do ideal/ ou um cálice de fel.

MULHER DO POVO - Ai, quem me ensina a cartilha,/ dessa escrita em linhas


tortas,/ se é tanto lobo e cordeiro/ ganindo nas mesmas portas?/ Lá um dia em
Vila Rica/ aconteceu um Joaquim/ que era Silvério e dos Reis./ Se mais Reis ou
mais Silvério‚/ ninguém me conta o segredo/ nem me desata o mistério.

MULHER DO POVO - Se numa carta perversa/ Joaquim entregou à morte/ outro


Joaquim de nome,/ este era diverso homem/ e tinha sorte diversa./ Por trinta
moedas sempre/ um Joaquim pode vender/ outro Joaquim qualquer/ sem olhar se
ele é José‚/ ou da Silva Xavier.

MULHER DO POVO - Ai, quem me ensina o segredo/ de aprender a soletrar/ nas


linhas tortas da história/ que desaguam neste mar?/ Na Bahia, como tudo tem
que ser muito e de sobra,/ no ofício de delação/ não bastou um só Joaquim/ que
pusesse mãos à obra.
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MULHER DO POVO - Nossos loucos alfaiates/ num jogo de três a quatro/
pelejaram com a traição,/ e Joaquim era mato./ Tinha um Joaquim José‚/ e outro
José Joaquim/ e um só Joaquim havia/ três craques da delação/ na cidade da
Bahia.

MULHER DO POVO - Ai, quem me ensina a tortura/ desta roda que não para,/
subindo nome e renome/ baixando açoite na cara?/ É o nome que faz o corpo/ na
forca dependurado?/ E o braço que estende o laço/ com o mesmo nome é
tratado?

MULHER DO POVO - Se o nome não faz o homem/ sim os medos que o


consomem/ até a luta ter fim,/ um segredo se murmura/ e a voz ao pó se mistura:/
o que é um nome, Joaquim?

GOVERNADOR - (Para o criado) Mande chamar o Tenente Hermógenes de


Aguilar Pantoja, do corpo de Milícia dos Brancos. Diga a ele pra se disfarçar hoje
de noite e se meter entre os criminosos, no Campo do Dique. Prenda-os, todos.
Não quero que um só consiga fugir. Quero-os vivos, mas se for difícil conservá-
los vivos, quero-os mortos.

CENA 09: A REUNIÃO NO CAMPO DO DIQUE


(Telão : Casario com janelas)

LUCAS DANTAS - É preciso avisar a todos da reunião no Campo do Dique. Que


ninguém chegue atrasado. Que levem as armas que tiverem em casa.

JOÃO DE DEUS - Eu convidei alguns oficiais das Milícias dos Brancos e dos
Mulatos.

MANUEL FAUSTINO - Avisou aos escravos? Nós precisamos de muita gente e


gente desesperada por liberdade.

LUCAS DANTAS - Alguns mulatos estão dispostos a nos ajudar e alguns negros
também estão interessados em nossas idéias.

JOÃO DE DEUS - O Governador mandou o Tenente Hermógenes nos vigiar e ele


aderiu à nossa causa.

MANUEL FAUSTINO - Aquele branco metido a coisa. Eu não sei se nós devemos
confiar nele.

LUCAS DANTAS - Existem momentos em que nós devemos confiar nas pessoas,
mesmo com a certeza de que vamos ser enganados.

JOÃO DE DEUS - Não me fale em traição. Se alguém nos trair, todos


morreremos.

LUCAS DANTAS - Não nos cabe pensar no porquê, nós devemos fazer. Temos
de invadir a cadeia e soltar Luiz Gonzaga, temos de proclamar a República e por
um homem decente no governo. Temos que dar as mesmas condições de
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trabalho e de honra a pretos, pardos e brancos. Alguém tem que fazer isso. Que
sejamos nós!

JOÃO DE DEUS - Daqui a pouco vai chegar mais gente!

MANUEL FAUSTINO - Precisamos ter cuidado. Temos que começar logo esta
reunião!

Durante a canção, os atores realizarão a coreografia da prisão dos alfaiates e


demais rebeldes, durante a reunião do Campo do Dique.

HOMENS E MULHERES DO POVO (Cantam) - Devagar, devagar, liberdade não


veio, igualdade, onde está? Quem virá, quem virá? Lucas Dantas, Cypriano
Barata, Sacramento, Aragão, olha os passos trincando no mato, quem chegou? é
um irmão. / Devagar, devagar, liberdade mandou avisar que não vem, quem virá?
Se Gonzaga está preso apanhando, se Gonzaga está preso falando, quem de
nós cairá ? / É preciso invadir a cadeia, gela o sangue que corre nas veias, olha
os passos trincando nos matos, joaquins andam em busca dos fatos. / Devagar,
devagar, igualdade mandou avisar que não vem, quem virá? Assobios zunindo no
mato avisando a chegada dos ratos. Quem de nós morrerá? Devagar, devagar,
esperança mandou avisar que não vem, quem virá? Traidor não tem cara, nem
nome, traição não tem sede, nem fome. Corram todos! (Tiros, correria.)

CENA 10 : FIM DA CONSPIRAÇÃO

NARRADOR - Hoje é o dia 25 de agosto de 1798, dia em que se acabam os


sonhos de liberdade, igualdade e fraternidade de Luiz Gonzaga, Lucas Dantas,
Manuel Faustino, João de Deus e alguns outros.

HOMENS E MULHERES DO POVO - Alguns foram presos no Campo do Dique e


a Milícia está nas ruas procurando os outros. Os presos fazem outros presos. A
tortura não deixa ninguém de boca fechada.

GOVERNADOR - Majestade, usando do rigor e da ligeireza que o vosso reinado


exige de mim, já tenho presos os cabeças de uma sedição pretendida nesta
cidade da Bahia, em algumas coisas parecida com a de Vila Rica, que levou
Tiradentes à forca.

RAINHA - (Triste) A Colônia do Brasil já não é a mesma depois que se descobriu


ouro nas terras de Minas Gerais. Enquanto se ganhava dinheiro plantando cana-
de-açúcar, ela era dócil. Eu podia escolher a quem dar as terras e quem podia
plantá-las. Mas o ouro encontrado nas entranhas das minas pode ser tirado por
qualquer um, e assim eu perdi o controle dos meus súditos. Fernando José de
Portugal, eu ordeno que com o máximo rigor sejam punidos todos aqueles que
estiverem envolvidos nesses atos criminosos.

CENA 11 : O JULGAMENTO

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Durante toda a cena do julgamento, o coro permanece no palco reagindo às
falas, ora como se fossem presos, ora como se fossem pessoas do povo.

GOVERNADOR - Quem é este? O líder da rebelião?

LUCAS DANTAS - Eu sou um homem. E para descobrir que sou um homem


precisei estar aqui diante de V. Excelência, que é a minha morte. Muitas vezes
eu me perguntei: eu sou um macaco? Se me espancavam, me prendiam, me
davam ordens e eu cumpria sem discutir, eu bem que podia ser um macaco. Mas
pra saber que os macacos não falam, sofrem calados, eu precisei falar e soube
que não era um macaco. Outras vezes eu me perguntava: eu sou um rato?
Porque como os ratos, eu comia o resto dos que comiam bem e vivia no esgoto
dos que viviam bem, e fedia. Mas os ratos não reagem, morrem calados porque
gostam do esgoto. Eu nunca gostei e tratei de dizer isso a outros que também
não gostavam, e hoje, por essas e outras, acabei descobrindo que sou um
homem, o que levou V. Excelência a me prender.

RAINHA - Um louco. Chamem o médico da Cadeia. Eu não quero condenar a


morte um homem doente, um homem que já pensou que podia ser um rato ou um
macaco e que hoje tem tanta certeza que é um homem, apenas porque vai
morrer.

GOVERNADOR - Quem é o líder de vocês? Quem? Responda satisfatoriamente


e a Rainha, Dona Maria I, A Piedosa, terá compaixão e clemência.

MANUEL FAUSTINO - Os nossos líderes, doutor Governador, são o Sr.


Hermógenes Pantoja, Tenente da Milícia dos Brancos, o cirurgião Cypriano
Barata e o Prof. Muniz de Aragão. Foi através deles que eu soube dos franceses
e das suas idéias.

RAINHA - Eu não posso acreditar que homens da consideração de um Tenente


do Corpo de Milícias dos Brancos, que um professor de grego e um cirurgião,
proprietário de engenhos de açúcar, tenham se metido nesta coisa vergonhosa.
No entanto, por vias das dúvidas, prendam o Tenente Hermógenes por seis
meses, como punição por não ter ele prendido os rebeldes quando podia.

GOVERNADOR - E o que pretendiam vocês? Acharam por acaso que


conseguiriam alguma coisa com estes atos ridículos?

JOÃO DE DEUS - Nós estávamos cansados de querer, doutor. Querer é uma


coisa que cansa. Desde que eu nasci que eu queria liberdade. Quando eu cresci
mais um pouco, eu quis igualdade. Depois eu aprendi o que significa
fraternidade, e quis também. Quando nós cansamos de querer, precisamos fazer,
e então nós fizemos.

RAINHA - Nunca passou pela imaginação da Rainha de Portugal que os seus


súditos pudessem querer, e mais, pudessem cansar de querer, e mais ainda,
pudessem fazer. Escravos, negros que não pensam, a ouvir histórias torpes de
igualdade. Não, eles não sabem o que fizeram e por isso não devem morrer.
Entretanto, como há o perigo de que um dia possam pensar neste incidente
miserável, metam-nos a ferros e soltem-nos nas costas da África, em território
que não esteja sob o domínio da Coroa Portuguesa, para que nunca mais a
Colônia do Brasil saiba de qualquer um deles.
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GOVERNADOR - E quantos são vocês? Quem mais, além desses 48 que foram
presos?

LUIZ GONZAGA - Nós somos tantos que todo o papel desta cadeia não pode
nos conter. Nós somos quase todos. Os que estão famintos, os que morrem de
muito trabalho e pouca comida, os que vão para o açoite, os que têm filhos e
pensam: o que será deles e dos filhos deles e dos netos dos filhos deles, se
existem leis que dizem que os brancos por serem brancos podem tudo, e os
pardos e os negros, por serem pardos e negros, não podem nada. Eu pedi à
Rainha cem vezes. Escrevi cem cartas dizendo que era pardo por um acidente
da natureza, mas que era bom e que podia fazer tudo que um branco podia. Ela
não me ouviu. Ninguém me ouviu. Aí eu resolvi que seria ouvido de qualquer
maneira. Este é o tamanho de um homem, doutor. Quando ele precisa ser ouvido,
ele faz de tudo para ser ouvido.

RAINHA - Celerados! Não sabem que Deus criou a terra e a água e as separou,
os pássaros e as serpentes e os separou, os bons e os maus e os separou, os
brancos e os pretos e os separou. Eles não podem ter a minha misericórdia e,
como líderes desta sedição, serão enforcados.

CENA 12 : A CAMINHO DA FORCA

Saem os quatro alfaiates, em mortalhas brancas, e cruzam o proscênio, numa


alusão à passagem de Tiradentes na primeira cena. Os alfaiates realizam gestos
trágicos durante o cortejo, dirigidos ao público e ao Coro. Abre-se o telão e
aparecem as quatro forcas. A cena deve ter um forte apelo emocional. No final da
canção, os alfaiates vão para a forca e morrem.

HOMENS E MULHERES DO POVO (Cantando) - Do fim da Misericórdia/ ao


início da Piedade/ senhores e seus escravos/ correm a ver os enforcados,/ que
rumam a um outro caminho,/ ainda que seja tarde./ Misericórdia, misericórdia,/
Piedade, piedade. / Por sob as roupas de morte/ um só coração que arde/ em
quatro peitos libertos/ do jugo da liberdade,/ que assassina e ressuscita,/ ainda
que seja tarde. / Misericórdia, misericórdia, Piedade, piedade. / Ninguém sabe o
que eles pensam/ se é que pensam os enforcados/ dentro de suas cabeças/ que
cometeram o pecado/ de alterar a história/ de brancos, pretos e pardos. /
Misericórdia, misericórdia,/ Piedade, piedade.

NARRADOR - Estamos em 8 de novembro de 1799 e os alfaiates Lucas Dantas,


João de Deus, Manuel Faustino e Luiz Gonzaga ainda não são heróis, mas
bandidos, miseráveis marginais, que ousaram fazer reuniões subversivas,
pretendendo separar o Brasil de Portugal, libertar os escravos e proclamar uma
república onde pardos, brancos e negros tivessem os mesmos direitos.

HOMENS E MULHERES DO POVO - (Mulheres) Eles estão presos há muitos


meses. Foram torturados para confessar os seus crimes. (Homens) Seus
companheiros de conspiração, os negros, foram mandados para a África, os
brancos, condenados a seis meses de prisão. (Todos) Mas eles são indignos da
real clemência. Vão morrer enforcados. Seus corpos serão esquartejados, suas

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cabeças vão apodrecer nas ruas. Hoje é o dia 8 de novembro de 1799, dia das
execuções dos Alfaiates. E o governo português fez desse dia uma data festiva.

(Durante as falas seguintes, os alfaiates serão retirados das forcas pelos Homens
e Mulheres do Povo e deitados em 4 pequenos praticáveis ,colocados no
proscênio.)

RAINHA - Portanto, condeno os réus Lucas Dantas de Amorim Torres, Luiz


Gonzaga das Virgens, João de Deus do Nascimento e Manuel Faustino dos
Santos Lira...

RAINHA e GOVERNADOR (Juntos ) - ...pardos, alfaiates, livres e pobres...

GOVERNADOR - ...que com baraço e pregão sejam conduzidos pelas ruas ao


lugar da forca, e nela morram de morte natural, para sempre.

NARRADOR - E que depois de mortos lhes sejam cortadas as cabeças e levadas


à rua da Misericórdia, onde em lugar mais público sejam pregadas em poste alto,
até que o tempo as consuma.

RAINHA - Declaro aos réus infames e infames seus filhos e netos.

(Os corpos são cobertos com grandes panos negros. São trazidos incensórios e
vasos de barro, com flores brancas.)

NARRADOR - E como não possuem bem algum, nada existe para desapropriar
em nome do Fisco ou da Câmara Real.

GOVERNADOR - Mas que em algum lugar se levante um padrão pelo qual se


conserve em memória a infâmia desses abomináveis réus.

HOMENS E MULHERES DO POVO - Oito de novembro de 1799. Lucas Dantas,


João de Deus, Luiz Gonzaga e Manuel Faustino estão tranqüilos.

GOVERNADOR - Tenho a glória de dar parte à Vossa Majestade da completa


vitória contra os alfaiates revoltosos. Nesta oportunidade, venho solicitar de
Vossa Majestade Sereníssima, o honroso título de Marquês de Aguillar, bem
como minha nomeação para Vice-Rei da Colônia do Brasil! Viva a Rainha!

RAINHA (Música com acento sacro) - Eu, Dona Maria I, A Piedosa, Rainha de
Portugal e de todas as suas Colônias da Índia, da África e da América, ordeno
que o mundo jamais seja diferente, que existam sempre os ricos e os pobres, os
pretos, os pardos e os brancos, os bons e os maus, e que estejam todos sob o
domínio da Coroa Portuguesa. Que os bons, os pacíficos, os obedientes sejam
premiados e que os maus sejam castigados com a morte e depois da morte com
o fogo do inferno. Eu, Dona Maria I, A Louca, Rainha de Portugal e de todas as
suas Colônias da Índia, da África e da América, ordeno e determino que seja
sempre assim, assim para todo o sempre.

CENA 13 : ODE À CIDADANIA


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Música forte, em crescendo, durante toda a cena. Os atores realizam um
movimento direcionado para cima. Grandes efeitos de luz com arcos voltaicos,
fumaça. O coro ergue lentamente os braços. Na terceira estrofe, os alfaiates
mortos começam a mover-se (usando velho truque circense). Os corpos levitam e
saem dos praticáveis. Alguns atores sobem nos praticáveis, braços para cima. A
composição deve lembrar um monumento. Findo o texto, os corpos dos alfaiates
“voando” aproximam-se do proscênio. Música de clímax. Corpos voltam à posição
vertical. Os alfaiates “revivem”.

HOMENS E MULHERES DO POVO - Um homem não é um rato/ mesmo que viva


de restos,/ mesmo que more no esgoto,/ mesmo que feda a dejetos. / Um homem
não é um homem/ quando ele vive de restos,/ quando ele mora no esgoto,/
quando ele fede e dejetos. / Se os ratos morrem calados,/ os homens sabem
falar./ Se os ratos gostam do esgoto,/ os homens preferem um lar. / Um homem
não é um verme/ mesmo que coma do lixo,/ mesmo que cale e obedeça,/ mesmo
que passe por bicho./ O homem é igual ao verme/ quando ele come no lixo,/
quando ele cala e obedece,/ quando ele aceita ser bicho. / Os vermes vivem
calados,/ os homens sabem falar./ Os vermes não tem ouvidos,/ os homens
podem pensar. / Um homem não é um homem/ senão tranqüilo com a vida,/ amor,
trabalho e respeito,/ dever, direito e comida. / (Silêncio) Basta!

Fim

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