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Morfossintaxe AULA 2

Joseli Maria da Silva


Raquel Araújo
José Ferrari Neto

INSTITUTO FEDERAL DE
EDUCAÇÃO, CIÊNCIA E TECNOLOGIA
PARAÍBA

As Classes de Palavras

1 OBJETIVOS DA APRENDIZAGEM

„„ Apresentar o conceito de classe de palavra;


„„ Mostrar a importância de se classificarem
as palavras de uma língua;
„„ Explicitar a evolução histórica da classificação
das palavras em português;
„„ Discutir questões acerca da classificação atual;
„„ Explicar algumas propostas alternativas
sobre as classes de palavras;
„„ Descrever as classes de palavras atualmente
aceitas em português.
As Classes de Palavras

2 COMEÇANDO A HISTÓRIA

Na aula passada, basicamente vimos que a linguagem estrutura-se em torno de


dois planos: o plano da expressão e o plano do conteúdo. O primeiro diz respeito
às diferentes formas pelas quais a linguagem pode se manifestar. Já o segundo
refere-se aos sentidos e significados que são veiculados pela linguagem. Como
não há expressão sem conteúdo, isto é, formas linguísticas destituídas de
significação, nem conteúdo sem expressão, ou seja, sentidos não vinculados a
uma forma, só é possível estudar a linguagem situando a análise da estrutura
linguística em um dos dois planos, ou na inter-relação entre eles. Portanto, um
estudo sobre a linguagem começa com a determinação das diversas unidades
linguísticas básicas que podem veicular um dado sentido – em outras palavras,
se inicia com a depreensão, a partir do sistema total, das unidades que podem
constituir formas linguísticas.

Mas vimos também, em outras disciplinas deste nosso curso, que as unidades
da linguagem se organizam em níveis distintos, os quais de início são analisados
separadamente. Assim, as unidades fônicas (sonoras) são analisadas no nível
fonético-fonológico, as unidades lexicais no nível morfológico, as sintagmáticas
no nível sintático, as semânticas no nível semântico e as interacionais no nível
pragmático. Para cada um desses níveis há uma disciplina linguística a ele
especialmente dedicada: a Fonologia estuda o nível sonoro, a Morfologia o nível
lexical, a Sintaxe o nível sintagmático-frasal, a Semântica o nível semântico e a
Pragmática o nível interacional. Uma das primeiras preocupações de cada uma
dessas disciplinas linguísticas é a de explicitar as características e propriedades
das unidades básicas de seu respectivo nível, determinando dessa forma as suas
funções dentro de seu nível e suas relações com os demais níveis.

Isso é possível porque, no sistema da linguagem humana, as unidades de um


nível inferior podem se combinar para formar as unidades de um nível superior,
por meio de processo chamado articulação, já estudado em nossa aula passada.
As unidades da Fonologia (os fonemas) se combinam para constituir as unidades
da Morfologia (os morfemas) e esses, por sua vez, se combinam para formar
os sintagmas, que são as unidades da Sintaxe, e assim sucessivamente. Como
se vê, há uma relação entre os diversos níveis, o que justifica a existência de
disciplinas voltadas para o estudo dessas relações, como a Morfofonologia e a
Morfossintaxe, que é a disciplina que estamos vendo agora. A nossa disciplina,
por conseguinte, concentra-se justamente no estudo de como as unidades da
Morfologia se relacionam com a Sintaxe, procurando caracterizar que propriedades

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significativas e funcionais possuem as unidades morfológicas e como essas


características se fazem presentes no nível sintagmático.

PRAGMÁTICA

SEMÂNTICA

SINTAXE

MORFOLOGIA

FONOLOGIA

FONÉTICA

Figura 1

Conforme visto na disciplina de Morfologia, as unidades do nível morfológico


são, de forma mais geral, os morfemas e as palavras. Como esses são muito
numerosos, fica um pouco difícil um estudo de cada um deles isoladamente. Pense:
é viável um estudo de cada morfema e de cada palavra isoladamente? Isso seria
muito trabalhoso e antieconômico !!! É preciso buscar modos mais eficientes de
se estudar esses elementos então. Uma forma de se contornar essa dificuldade
é classificar essas unidades, isto é, distribuí-las em classes de acordo com suas
propriedades comuns. Parte dessa tarefa já foi feita em Morfologia, quando
se estudaram os tipos de morfemas (raízes e radicais, afixos, desinências, etc.),
mas, para a Morfossintaxe, é preciso também fazer o mesmo com as palavras,
classificando-as de modo a poder se investigar a maneira como elas podem
funcionar nos sintagmas. É o que vamos ver a seguir.

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As Classes de Palavras

3 TECENDO CONHECIMENTO

3.1 O Conceito de Classe:

Inicialmente, vamos apresentar e discutir alguns conceitos de classe:

„„ “classe é um conjunto de elementos linguísticos com uma


propriedade essencial em comum” (Mattoso Câmara, 1977)

„„ “uma classe será definida como o conjunto de unidades


que têm as mesmas possibilidades de aparecer num dado
 CLASSE  ponto do enunciado”(Dubois, 1978)

„„ “uma classe é um conjunto (não necessariamente finito) de


formas linguísticas” (Perini, 1985)

„„ “classe é uma propriedade que se atribui a um elemento


fora de contexto “(Perini, 1995)

Conforme se percebe, uma ideia comum que percorre todas as definições acima
é que os elementos linguísticos, isto é, as formas linguísticas, podem compartilhar
propriedades comuns. E são justamente essas propriedades que tornam possível
a formação de classes pelas quais se podem distribuir as unidades da linguagem.
A questão central das classes é, dessa forma, a determinação das propriedades
comuns a serem levadas em conta na classificação. Em outras palavras, trata-se
de especificar quais são os critérios mediante os quais se podem fazer uma
classificação das formas linguísticas. Para o caso das palavras, quais seriam esses
critérios?

Mas uma outra pergunta importante surge ao se analisar a questão da classificação


das palavras: por que se deve classificá-las ? Já vimos anteriormente que classificar
as palavras permite uma maior facilidade em seu estudo, mas será que somente
isso justifica uma classificação? Será que existem outras razões para assim
se proceder?

Classificar as palavras constitui-se em uma tarefa bastante conveniente do


ponto de vista descritivo. Afinal, a partir dessa classificação, pode-se estabelecer
generalizações muito úteis para o estudo das características e propriedades das
palavras, conforme já discutido aqui. Porém, há mais um dado relevante para
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essa questão. A existência das classes de palavras é uma realidade intuitivamente


sentida pelos falantes de uma língua. Considere, por exemplo, um falante nativo
do português. Esse falante seria capaz de perceber, ainda que de forma intuitiva,
que a sentença O exército destruiu a cidade é uma frase possível em sua língua,
ao passo que O exército destruição (d)a cidade, não o é. Em termos linguísticos,
pode-se dizer a intuição do falante “sente” que, apesar de possuírem significados
básicos idênticos, as palavras destruir e destruição apresentam propriedades
funcionais e significativas diferentes, razão pela qual se distribuem de maneira
distinta na estruturação da frase. Tal fato evidencia uma realidade psicológica das
classes de palavras, visto que destruir e destruição, tendo propriedades diferentes,
certamente pertencem a classes diferentes também.

Apesar de ser conveniente, a determinação das classes tem sido um ponto de


bastante controvérsia entre os estudiosos da linguagem. A resposta para a
questão Quais os critérios pelos quais se deve classificar as palavras? tem suscitado
grandes e acalorados debates. E isso desde muito tempo !! Afinal, já desde a
Antiguidade Clássica que se discute como classificar as palavras de uma língua.
Vejamos a seguir um pouco da história dessa questão.

3.2 Evolução histórica da Classificação das Palavras:


dos gregos à Gramática Tradicional

De acordo com alguns linguistas (AZEREDO, 2000; NEVES, 2002), o início da


discussão acerca da classificação das palavras deu-se no trabalho de alguns
filósofos gregos, passando em seguida para os estudos de gramáticos e filólogos
também de origem grega. A difusão dessas ideias foi possível a partir das obras
de intelectuais romanos que tomaram contato com elas e as espalharam por todo
o Império Romano. O filósofo grego Platão, por exemplo, dividiu o discurso, por
ele intuído como uma expressão do pensamento, em duas unidades básicas:
ónoma (nome) e rhéma (verbo). Por sua vez, Aristóteles, também filósofo e
também grego, acrescentou a essa divisão os syndesmoi (partículas). Gramáticos
estóicos introduziram a distinção entre classes variáveis e classes invariáveis, até
que, por volta dos fins do segundo século a.C., Dionísio Trácio formulou uma
teoria das partes do discurso, que ele distribuía em oito categorias: nome, verbo,
pronome, particípio, artigo, advérbio, preposição e conjunção. Foi um trabalho
tão bem feito que a classificação por ele proposta está presente, com ligeiras
modificações, na gramática tradicional dos nossos dias.

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As Classes de Palavras

Figura 2 Platão Figura 3 Aristóteles

De Dionísio Trácio, a classificação de palavras passou à descrição da gramática


do latim, em especial a partir do trabalho de outro ilustre estudioso, o romano
Varrão (116-23 a.c.) e daí chegou à nossa gramática tradicional. A classificação de
Varrão introduziu os conceitos de classe variável e de classe invariável, também
adotada em nossas gramáticas. Sua proposta de classificação continha as
seguintes classes: nome, verbo, particípio, advérbio e conjunção. Combinando-se
as propostas de Dionísio e de Varrão, e aplicando-as ao português, chega-se ao
quadro de classificação adotado pela gramática tradicional, já incluindo as classes
dos numerais e das interjeições, não previstas pelos gregos nem pelos latinos:

CLASSES VARIÁVEIS CLASSES INVARIÁVEIS


substantivo advérbio
artigo preposição
adjetivo conjunção
numeral interjeição
pronome
verbo

Apesar de aplicar-se facilmente a muitas palavras, e de serem um ótimo ponto


de partida para o estudo da classificação das palavras, a proposta de Dionísio,
assim como a da gramática tradicional, nela baseada, contém muitas falhas.
Isso ocorreu porque, além de serem pensados exclusivamente para a língua
grega, os critérios por ele adotados são heterogêneos e pouco rigorosos. Quase
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sempre o critério é exclusivamente semântico, o que pode anular a diferença


entre classes. Por exemplo, a definição de verbo nos diz que eles são a classe que
indica ação. Ora, sob esse critério a palavra corrida deveria ser classificada como
um verbo, apesar de a sentença O atleta corrida uma maratona nas Olimpíadas
ser completamente agramatical !!! O mesmo se diz da palavra beleza, que é um
substantivo, mas, pela definição proposta por Dionísio (e aceita por grande
parte dos gramáticos tradicionais) deveria ser um adjetivo, já que indica uma
qualidade. Você consegue imaginar uma frase como A beleza música contagiou
a todos, ao invés de A bela música contagiou a todos?

Os problemas vão bem além de se usar o critério semântico na classificação. Muitas


outras questões surgem da classificação atualmente usada em nossas escolas.
Por exemplo, como ficam as interjeições ? De que forma se pode considerar ai !
ui ! atchim ! como palavras, se elas não podem figurar em nenhuma posição na
frase (você consegue imaginar uma frase como O atchim respingou em todos na
sala?). E a diferença entre numerais, adjetivos e artigos ? Por que considerar os
numerais uma classe à parte, quando o comportamento deles é semelhante aos
artigos e aos adjetivos (ambos sempre ligados a um substantivo)? Os advérbios
sempre se ligam a verbos? Vejam essas frases e concluam por si mesmo se tal
afirmação é verdadeira:

„„ O Paulo provavelmente vai viajar

„„ Provavelmente o Paulo vai viajar


AGORA DANOU-SE!
TUDO O QUE APRENDI
NA ESCOLA SOBRE
CLASSES DE PALAVRAS
ESTÁ ERRADO!!!

Figura 4

Na verdade, dadas as limitações da teoria gramatical vigente à época de Dionísio


e de Varrão, é possível afirmar que ambos fizeram um belo trabalho. O mesmo
se diz dos gramáticos tradicionais que adaptaram os ensinamentos de ambos
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As Classes de Palavras

os estudiosos ao português, numa proposta que vigorou por muitos anos.


Mas a evolução dos estudos sobre a linguagem mostrou a necessidade de
uma classificação que melhor evidenciasse a estrutura e o funcionamento da
linguagem. Daí que várias propostas surgiram, procurando adotar critérios mais
precisos sobre a classificação. Veremos algumas dessas propostas a seguir.

3.3 Novas Propostas de Classificação -


Estruturalismo e Gerativismo:

De acordo com a concepção estruturalista, as palavras de uma língua apresentam


semelhanças de forma, de significado e de função, daí poderem ser agrupadas ou
classificadas levando em conta três critérios: o formal ou mórfico, o semântico e
o funcional. O critério formal ou mórfico baseia-se nas características morfológicas
da palavra, como sua estrutura e a sua flexão; o semântico baseia-se no seu modo
de significação (extralinguístico e intralinguístico), e o funcional baseia-se na
função ou papel que ela desempenha nos sintagmas. É com base nesses critérios
(em todos ou em alguns deles) que devem ser classificadas as palavras. Os três
critérios, como apontou Basílio (1991), podem ser mais adequados para lidar
com certo tipo de palavra: por exemplo: morfologia para verbos, sintaxe para
adjetivos e semântica para substantivos. Mas é preciso conjugar os três critérios
para alcançar descrições mais abrangentes.

Segundo o linguista brasileiro Mattoso Câmara, o critério semântico não deve


ser observado isoladamente, como acontece na gramática tradicional. Para ele, o
critério semântico e o critério mórfico associam-se de forma muito estreita, pois
o vocábulo é uma unidade de forma e de sentido. “O sentido não é qualquer coisa
de independente, ou, mais particularmente, não é apenas um conceito; conjuga-se
a uma forma. O termo ‘sentido’ só pode ser entendido com o auxílio do conceito de
‘forma’.” (Mattoso Câmara, 1970). Por outro lado, os critérios mórfico e funcional
estão também intimamente relacionados, pois a forma depende da função que
a palavra desempenha na frase, das relações de regência e concordância que se
estabelecem. Assim, por meio da combinação de todos esses critérios, Mattoso
elabora a sua proposta, que aparece ilustrada no quadro a seguir:

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CRITÉRIO CRITÉRIO CRITÉRIO FUNCIONAL


FORMAL SEMÂNTICO
Substantivo Adjetivo Advérbio

Núcleo do
Determinantes modificador
Nome sintagma
do nome do verbo
nominal

Variáveis Verbo Núcleo do sintagma verbal

Núcleo do
Determinantes modificador
Pronome sintagma
do nome do verbo
nominal

Subordinativos Coordenativos
Invariáveis Conectivos
(de orações e palavras) (de orações)

Elaborada com base nos pressupostos estruturalistas, a proposta de classificação


das palavras de Mattoso Câmara determina hierarquias e sub-hierarquias: classes
maiores e classes menores. As classes maiores são determinadas pela conjugação
dos critérios morfológico e semântico, também dita morfossemântica. São quatro
grandes classes: nome, pronome, verbo e conectivo. Os três primeiros variáveis
e o último, invariável (a alomorfia de certos nomes invariáveis é desprezada para
essa análise). De acordo com o critério formal (mórfico) o verbo se distingue do
nome por sua morfologia (tempo, modo, aspecto, número e pessoa), já que
o nome possui flexões distintas (no caso, de gênero e de número). No critério
semântico, o nome designa seres, coisas e suas respectivas qualidades, o verbo
designa processos e ações, e o pronome se distingue do verbo e do nome pelo
significado (referencial, quando se refere às pessoas do discurso, como é o caso
dos pronomes pessoais, e dêitico, quando têm valor situacional ou anafórico,
como é o caso dos pronomes demonstrativos e possessivos). Na frase, nomes,
pronomes, verbos e conectivos apresentam comportamentos diferenciados,
conforme a função que exercem nos sintagmas: núcleo, determinante ou
modificador. Para dar conta dessas diferenças funcionais, Mattoso Câmara lança
mão de um critério sintático-funcional, pelo qual o nome que exerce a função de
núcleo do sintagma é um substantivo, o que atua como determinante do nome
seria um adjetivo, e os nomes modificadores do verbo seriam classificados como
advérbios. Já os pronomes que exercem a função de núcleo seriam pronomes
substantivos, os que fossem determinantes do nome seriam pronomes adjetivos,
e os modificadores do verbo seriam pronomes adverbiais. Entre os conectivos,
Mattoso opõe os que ligam apenas orações (os conectivos coordenativos) e os
que ligam orações (conjunções) e palavras (preposições), ambos englobados na
categoria dos conectivos subordinativos.

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As Classes de Palavras

Mattoso Câmara influenciou toda uma geração de linguistas, o que mostra


bem a importância de sua proposta. Mas ela também não ficou imune às
críticas. Azeredo (2000) apresentou as seguintes críticas ao mestre Mattoso: (1)
há certos nomes que só funcionam como núcleo e nunca como determinantes
(povo, festa, livro); (2) há certos nomes que só funcionam como determinantes
e nunca como núcleo (fluvial, límpido). E não se sabe por que essa exclusividade
acontece. A distinção entre preposição e conjunção é muito superficial, e não
daria conta de casos onde a conjunção “e” coordena palavras, e não apenas
orações; e casos onde a preposição “para” relaciona orações (adverbiais finais), por
exemplo. Por essa razão, preposições e conjunções deveriam se reanalisados como
conectivos subordinativos e conectivos coordenativos, havendo uma distribuição
regular, mas não absolutamente regular de preposições no segundo grupo e de
conjunções no primeiro. Azeredo (2000) trata também do artigo definido como
uma especialização sintática dos pronomes demonstrativos (o, a(-s)). Os artigos
possuem todas as propriedades morfológicas dos pronomes demonstrativos
(homônimos e gênero, número). Os artigos se opõem à sua ausência ou aos
indefinidos, que são uma especialização dos numerais (um, + plural e feminino).
“Comprei os sapatos” x “sapatos” e “uns sapatos”. Por fim, Azeredo aponta que
Mattoso não fez referências aos numerais em sua proposta (posteriormente,
Mattoso os definiu como nomes (núcleo ou modificador, determinante)).

Uma proposta não-estruturalista foi sugerida por Noam Chomsky em sua


gramática gerativo-transformacional. De acordo com a sua ideia, as classes de
palavras seriam determinadas a partir da combinação de um conjunto de traços
(propriedades) a partir das propriedades lexicais de um dado item que são
relevantes para a sintaxe. Assim, se o vocábulo atribui casos (funções sintáticas)
e marcam papel temático (ou seja, designam uma função semântica a um nome),
receberia o traço [+V], característica fundamental dos Verbos (V); se receber
caso e interpretação temática, receberia o traço [+N], característica fundamental
dos Nomes (N). A partir daí cria-se o conjunto [ + ou -], e se obtêm as quatro
classes fundamentais do léxico: Nomes [+ N, -V], Verbo [-N, +V], Adjetivos [+N,
+V] e Preposição [-N, -V]. Essa proposta é muito interessante, pois apresenta as
classes naturais, as que partilham mais de uma propriedade (nomes e adjetivos,
(adjetivos e verbos, os quais podem funcionar como predicado, e são idênticos
na forma de particípio). Mas é voltada radicalmente para sintaxe, logo retira da
discussão muitos aspectos importantes (distribuição morfológica e semântica).

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Exercitando

Observe a letra da canção “Balada do Louco”, de Arnaldo Baptista, e tente


classificar as palavras destacadas, primeiro seguindo a proposta tradicional,
depois de acordo com a proposta de Mattoso Câmara. Procure, após a tarefa,
refletir sobre as semelhanças e diferenças entre as duas propostas:

Dizem que sou louco por pensar assim


Se eu sou muito louco por eu ser feliz
Mas louco é quem me diz
E não é feliz, não é feliz

Se eles são bonitos, sou Alain Delon


Se eles são famosos, sou Napoleão
Mas louco é quem me diz
E não é feliz, não é feliz

Eu juro que é melhor


Não ser o normal
Se eu posso pensar que Deus sou eu

Se eles têm três carros, eu posso voar


Se eles rezam muito, eu já estou no céu
Mas louco é quem me diz
E não é feliz, não é feliz

Eu juro que é melhor


Não ser o normal
Se eu posso pensar que Deus sou eu

Sim, sou muito louco, não vou me curar


Já não sou o único que encontrou a paz
Mas louco é quem me diz
E não é feliz, eu sou feliz

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As Classes de Palavras

4 APROFUNDANDO SEU CONHECIMENTO

Visite o site:
àà http://portaldoprofessor.mec.gov.br/fichaTecnicaAula.html?aula=37910

E veja a interessante proposta pedagógica ali desenvolvida para o ensino e


aprendizagem das classes de palavras. Você, além de aprender mais sobre esse
tema, pode ainda pensar em adaptá-la de acordo com as suas necessidades
pedagógicas, ou seja, criar atividades a partir da ideia ali desenvolvida.

Além do site recomendado acima, você pode


ler a obra “Estrutura da Língua Portuguesa”,
de Joaquim Mattoso Câmara Jr., que é uma
referência clássica nos estudos linguísticos
do Brasil. Por meio dessa leitura, você terá
condições de ter uma visão mais crítica
da classificação dos elementos da língua
portuguesa, sob o viés estruturalista.
Figura 5

5 TROCANDO EM MIÚDOS

A principal dificuldade na questão da classificação das palavras não está na análise


do problema, mas sim no próprio fenômeno. As palavras possuem propriedades
mórficas, funcionais e semânticas simultaneamente, e, em alguns casos, certos
aspectos saltam mais aos olhos (por exemplo, a especificidade mórfica do verbo
em relação às outras classes, o caráter eminentemente sintático dos adjetivos em
relação ao substantivo, o valor semântico dêitico dos pronomes, em oposição
ao valor referencial dos nomes, etc.). Essas dificuldades devem ser levadas em
conta na análise, mas devem ser organizadas e relativizadas. Nesse sentido, a
proposta de Mattoso Câmara parece ser muito boa e precisaria de mais algumas
ampliações (para dar conta de críticas, como a de Azeredo). A língua é um
fenômeno complexo, mas, em certas áreas, é bastante rígida e regular, passível
de descrição exaustiva, matematicamente orientada ou mesmo formal, noutras
áreas apresenta maleabilidade estrutural, constante demarcação, delimitações
imprecisas, variações, em todos os níveis da gramática. A pesquisa deve assumir
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AULA 2

essas duas dimensões do fenômeno. No trabalho didático, a escola básica deve


partir de nossa tradição, apresentar as classes, dividir os critérios, apontar os
melhores critérios para certas classes. O ensino médio já permite a crítica mais forte
à tradição, apontando suas incongruências. O ambiente universitário é adequado
para apresentar a proposta de Mattoso Câmara, que, de fato, não é radical em
relação à classificação tradicional, e apenas elimina a sua heterogeneidade e
assistematicidade. Propostas mais ousadas podem ser apresentadas também,
como o desenrolar dos estudos.

6 AUTOAVALIANDO

Após aprender um pouco sobre as propostas de classificação das palavras de


Mattoso Câmara e a da gramática tradicional, você pode levantar algumas
questões, tais como:

Estou apto a apontar alguns prós e contras de ambas as sugestões de classificação


das palavras?

7 PRATICANDO

Elabore um plano de aula em que você, sendo o professor, tem de explicar as


noções de substantivo, adjetivo, pronome e verbo, primeiro seguindo a proposta
tradicional e depois conforme a sugestão de Mattoso Câmara. Imagine que a sua
turma está no primeiro ano do Ensino Médio. Crie exemplos e sugira exercícios
e atividades para essa turma.

Para elaborar um plano de aula adequado, não se esqueça de resgatar as noções


discutidas na disciplina Didática e Metodologia do Ensino da Língua Portuguesa.

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As Classes de Palavras

REFERÊNCIAS

AZEREDO, José Carlos de. Fundamentos de Gramática do Português. Rio de


Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2000.

AZEREDO, José Carlos de. Iniciação à Sintaxe do Português. Rio de Janeiro:


Jorge Zahar Editor, 1999.

MATTOSO CÂMARA, Joaquim. Estrutura da Língua Portuguesa. Petrópolis:


Editora Vozes, 1970.

NEVES, Maria Helena de Moura. A Gramática: História, Teoria e Análise, Ensino.


São Paulo: Editora UNESP, 2002.

VIEIRA, Sílvia Rodrigues; BRANDÃO, Sílvia Figueiredo. Ensino de Gramática:


Descrição e Uso. São Paulo: Editora Contexto, 2007.

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