Você está na página 1de 6

PONTIFÍCIA UNIVERSITÀ LATERANENSE

FACULDADE CLARETIANA DE TEOLOGIA


STUDIUM THEOLOGICUM

ELINAEL OLIVEIRA DE ARAÚJO

RESENHA CRÍTICA DO FILME


HOMENS E DEUSES

CURITIBA
2017
ELINAEL OLIVEIRA DE ARAÚJO

RESENHA CRÍTICA DO FILME


HOMENS E DEUSES

Trabalho apresentado ao curso de Teologia do


Studium Theologicum – Faculdade Claretiana
de Teologia da Pontifícia Università
Lateranense como requisitos de horas
complementares de Atividades Acadêmicos
Científico Cultural, tendo como orientador Prof.
Padre Valdinei de Jesus Ribeiro.

CURITIBA
2017
SINOPSE
Homens e Deuses
Um grupo de monges trapistas vive entre a população muçulmana em um lugar
da Argélia. Como o país está mergulhado em uma guerra civil, os religiosos
terão que decidir se permanecerão entre a comunidade empobrecida ou fugirão
dos terroristas.
Data de lançamento: 8 de setembro de 2010 (Suíça)
Direção: Xavier Beauvois
Edição: Marie-Julie Maille
Prêmios: Grand Prix, César de Melhor Filme, MAIS
Roteiro: Xavier Beauvois, Étienne Comar

INTRODUÇÃO
Na noite do dia 26 de março de 1996, sete monges do mosteiro trapista
de Tibhirine, na Argélia, foram sequestrados por milicianos do GIA (Grupo
Islâmico Armado). No contexto, de um lado o governo corrupto que cancelou as
eleições de 1991 e colocou na ilegalidade grupos de oposição, e de outro, grupos
armados islâmicos que optaram pela via do terrorismo. Entre ambos, e vivendo
como sempre viveram na cordilheira do Atlas, nove monges trapistas.

ANÁLISE DO FILME
“Homens e deuses” descreve os acontecimentos que antecederam o
sequestro e que terminariam com a decapitação dos sete monges, em maio de
1996. Não se trata de um filme de entretenimento ou mesmo interessado em
discutir o problema político argelino. Talvez esteja mais próximo daquilo que o
público acostumado ao cinema americano chame de “um filme muito lento”. E
ainda que o seja, é também um filme belíssimo; nem tanto pelas imagens, mas
principalmente por muitas de suas cenas e diálogos.
Talvez em nossa memória e experiência pessoais exista um modo de ver
o mundo – e também ver alguns filmes – que nos impede de perceber
significados tão profundos quanto os que são sugeridos pelo filme. Como em
outros casos, de grandes filmes que nos deixam profundamente perturbados, as
imagens e cenas mais comoventes de “Homens e deuses” retornam alguns dias
depois de termos visto.
Desde o Natal de 1993 que os monges de Tibhirine sabiam que poderiam
ser mortos. Mesmo tendo sido encorajados pelo abade geral da Ordem a
deixarem o país e recebido oferecimento de proteção militar do governo argelino,
preferiram ficar. De certa forma, o próprio filme gira em torno dessa renúncia,
que ao mesmo tempo significa uma aceitação profunda da fé que professavam,
do amor pelas pessoas da região, do lugar que escolheram para viver essas
escolhas até o fim de seus dias. Inexistindo ainda, na escolha que fizeram,
qualquer intenção de se transformarem em mártires, por saberem perfeitamente
a extravagância que existiria num desejo de serem mártires.
Assim, o filme conta a história de uma escolha e de um desfecho que
todos já sabem. Antes do fim, muitos deles pensam em sair, sentem medo,
discutem sobre o que deveriam fazer. Sentem que perderam sua fé, novamente
a buscam onde já não possuem esperanças de reencontrá-la, e a reencontram
quando já se imaginavam cansados demais.
O filme reproduz com enorme fidelidade a rotina do mosteiro e os próprios
acontecimentos. Entre outros recursos, cartas escritas pelos monges durante o
período serviram de referência para a construção do roteiro. Talvez o próprio
título do filme ilustre a angustiante escolha que tinham diante de si, entre sua fé
e a quase certeza de que morreriam e, ao mesmo tempo, seu amor à vida. Uma
escolha que seria muito mais fácil de ser feita se fossem “deuses”, perfeitos em
suas convicções e em sua fé. Como homens, que tão somente pretendiam
estarem mais próximos de Deus, a escolha que fizeram implicava medo, dúvidas
e desespero. Certamente reside aí a grandeza de seus atos; de em sua condição
de homens, limitados e imperfeitos, terem aceitado integralmente a escolha que
fizeram.

COMENTÁRIO
Ainda que frequentemente “Homens e deuses” seja interpretado como
uma espécie de denúncia contra a intolerância, as questões colocadas ao longo
de suas mais de duas horas de duração vão bem além. Possibilidade que parece
ser sugerida durante todo o filme. Em vários e belos momentos, seus
personagens tentam explicar, com ou sem palavras, aquilo que os move e
justifica seu afastamento do mundo exterior. Numa das cenas mais significativas,
sem qualquer diálogo, bebem vinho e dividem sua felicidade por estarem juntos,
mesmo sabendo que, muito provavelmente, irão morrer. Trata-se, de certa
forma, como dirão muitos, de um despropósito, de uma luta contra a própria
natureza humana. Em certo sentido sim, considerando a luta que a maioria dos
indivíduos trava “a favor da natureza”, tentando juntar para si mesmos o quanto
podem de bens, conforto e riqueza. Mas talvez seja o caso de pensarmos sobre
isso como sendo de fato um problema maior que os outros, e do quanto nossos
próprios sentidos e nossa imperfeita natureza podem nos enganar.
REFERÊNCIA
Filme Homens e Deuses

Interesses relacionados