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O rige n s e e vo lu çõe s da s ciên cia s e d a p esqu isa


Filó sof o s e cien t ist a s a o lo ng o da hist ó ria da civiliza ção

S U M Á R I O D A S E G U N D A PA R T E
2 ORIGENS E EVOLUÇÕES DAS CIÊNCIAS E DA PESQUISA................................6
2.1 Origem da Filosofia................................................................................................11
2.2 Origens das Ciências Atreladas à Origem e Evolução da Sociedade...................20
2.3 Revoluções Científicas..........................................................................................40
2.4 Filósofos e “Cientistas” - Pesquisadores da Antiguidade......................................43
2.4.1 Thales / Tales (θαλες, Thalễs): 624 – 546 a.C.?.................................................46
2.4.2 Anaximandro: 610 / 609 – 545 / 546 a.C............................................................49
2.4.3 Anaxímenes: 585 - 528 a.C................................................................................51
2.4.4 Pitágoras (do grego Πυθαγόρας): 571/70 a 497/96 a.C.....................................52
2.4.5 Heráclito (540 /550 - 470 / 480? a.C...................................................................55
2.4.6 Parmênides: 515 ou 530 – 440 ou 460 a. C.?....................................................57
2.4.7 Zenón: 495 - 430 a.C..........................................................................................58
2.4.8 Sócrates: 469 / 470 - 399 a.C.............................................................................58
2.4.9 Demócrito / Democritus: 460 a 370 a.C..............................................................63
2.4.10 Hipócrates: em grego antigo, Ἱπποκράτης; 460 – 377 / 379, a.C....................64
2.4.11 Platão (Aristócles) (427 / 428 – 347 /348 a.C...................................................68
2.4.12 Aristóteles: em grego Αριστοτέλης (384 - 322 a.C.).........................................72
2.4.13 Epicuro (341 a 270 a.C.....................................................................................81
2.4.14 Euclides (330 a 260 / 270 a.C.)........................................................................82
2.4.15 Erasístrato / Erasistratus de Chios / de Iulis: 330 / 304? – 250 a.C.................84
2.4.17 Arquimedes (em grego Ἀρχιμήδης): 287 a 212 a.C.........................................85
2.4.18 Erastóstenes / Ερατοσθένης: 276 – 285 ? a 194 a.C.......................................86
2.4.19 Sêneca (Lucius Annaeus): 4 a.C a 65 d.C.......................................................87
2.4.20 Galeno (Claudius): 130 – 200...........................................................................88
2.5 Filósofos e “Cientistas” da Idade Média................................................................91
2.5.1 Robert Grosseteste: 1168 a 1253.......................................................................95
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Fundamentos da pesquisa
Volume 1

2.5.2 Alberto Magno / Alberto de Colônia ou Santo Alberto Magno: 1193-1280.........96


2.5.3 Roger Bacon: 1214-1294....................................................................................96
2.5.4 Tomás de Aquino: 1225 / 1227-1274..................................................................98
2.5.5 John Duns Scot: 1265/1266-1308......................................................................99
2.5.6 William de Occam / Guilherme de Ockham: 1285 – 1350...............................100
2.5.7 Jean Buridan 1300-1358...................................................................................102
2.5.8 Nicole d'Oresme / Nicolas de Oresme: 1323-1382..........................................103
2.6 Filósofos e Cientistas da Idade Moderna............................................................104
2.6.1 Nicolau Copérnico / Mikolaj Kopernik: 1473 – 1543.........................................105
2.6.2 Tycho Brahe: 1546 – 1601................................................................................107
2.6.3 Francis Bacon: 1561 – 1626.............................................................................107
2.6.4 Galileu Galilei: 1564 – 1642..............................................................................112
2.6.5 Giovano Domenico Campanella (Frei Tommaso; dominicano):1568 – 1639...115
2.6.6 Johannes Kepler: 1571 – 1630.........................................................................116
2.6.7 William Harvey: 1578 – 1657............................................................................117
2.6.8 Thomas Hobbes: 1588 – 1679..........................................................................118
2.6.9 René du Perron Descartes / Renato Cartesius: 1596 – 1650..........................121
2.6.10 Pierre de Fermat: 1601 – 1665.......................................................................126
2.6..11 Blaise Pascal: 1623 – 1662............................................................................127
2.6.12 John Locke: 1632 – 1704................................................................................128
2.6.13 Baruch Spinoza: 1632 – 1677........................................................................132
2.6.14 Isaac Newton: 1642 -1727..............................................................................134
2.6.15 Gottfried Wilhelm Leibniz: 1646 – 1716..........................................................137
2.6.16 George Berkeley: 1685 / 1753........................................................................140
2.6.17 François-Marie Arouet Le Jeune (Voltaire): 1694 – 1778...............................142
2.6.18 Charles-Louis de Secondat, barão de la Brède et de Montesquieu: 1699 1755
....................................................................................................................................144
2.6.19 Leonhard Euler: 1707 – 1783.........................................................................146
2.6.20 David Hume: 1711 - 1776...............................................................................147
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2.6.21 Jean-Jaque Rousseau: 1712 – 1778..............................................................151


2.6.22 Denis Diderot: 1713-84...................................................................................153
2.6.23 Jean le Rond D’Alembert:1717 - 1783............................................................154
2.6.24 Adam Smith: 1723 – 1790...............................................................................155
2.6.25 Emmanuel (Immanuel) Kant: 1724 – 1804.....................................................158
2.6.26 Jeremy Bentham: 1748 – 1832.......................................................................162
2.6.27 Pierre-Simon Laplace / Marqués de…:1749-1827.........................................164
2.6.28 Thomas Robert Malthus: 1766 - 1834............................................................165
2.6.29 Jean Baptiste Joseph Fourier: 1768 – 1830...................................................166
2.6.30 Georg Wilhelm Friedrich Hegel: 1770 – 1831................................................166
2.6.31 David Ricardo: 1772 – 1823...........................................................................168
2.6.32 Friedrich Wilhelm Joseph Schelling: 1775 – 1854..........................................170
2.6.33 Johann Carl Friedrich Gauss: 1777 – 1855....................................................170
2.6.34 Arthur Schopenhauer: 1788 – 1860................................................................172
2.7 Filósofos e Cientistas da Idade Contemporânea.................................................176
2.7.1 John Frederick William Herschel: 1792 - 1871.................................................177
2.7.2 William Whewell: 1794 /95 – 1866....................................................................180
2.7.3 August Comte (Isidore-Auguste-Marie-François Xavier Comte): 1798 – 1857 181
2.7.4 John Stuart Mill: 1806 - 1873............................................................................183
2.7.5 Claude Bernard: 1813 – 1878...........................................................................186
2.7.6 Karl Wilhelm Theodor Weierstrass: 1815 – 1897.............................................187
2.7.7 Karl Heinrich Marx: 1818 - 1883.......................................................................188
2.7.8 Louis Pasteur: 1822 – 1895..............................................................................191
2.7.9 James Clerk Maxwell: 1831 – 1879..................................................................200
2.7.10 William Stanley Jevons: 1835 – 1882.............................................................200
2.7.11 Ernst Mach: 1838 – 1916................................................................................201
2.7.12 Charles Sanders Peirce: 1839 – 1941............................................................203
2.7.13 William James: 1842 – 1910...........................................................................207
2.7.14 Georg (Morris Cohen) Brandes: 1842 – 1927................................................208
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Fundamentos da pesquisa
Volume 1

2.7.15 Friedrich Wilhelm Nietzsche: 1844 – 1900.....................................................209


2.7.16 Francis Herbert Bradley: 1846 – 1924............................................................211
2.7.17 Tomas Alva Edison: 1847 – 1931....................................................................211
2.7.18 Friedrich Ludwing Gottlob Frege: 1848 – 1925..............................................212
2.7.19 Santiago Ramón y Cajal: 1852 – 1934...........................................................213
2.7.20 Jules Henri Poincaré: 1854 – 1912.................................................................214
2.7.21 Sigismund Schlomo Freud: 1856 – 1939.......................................................215
2.7.22 Karl Pearson: 1857 – 1936.............................................................................217
2.7.23 Émile Durkheim: 1858 – 1917........................................................................217
2.7.24 John Dewey: 1859-1952.................................................................................221
2.7.25 Henri-Louis Bergson: 1859-1941....................................................................224
2.7.26 Edmundo Husserl: 1859 – 1938.....................................................................227
2.7.27 Pierre Maurice Marie Duhem: 1861 – 1916....................................................230
2.7.28 Emil Maximillian Weber: 1864 – 1920............................................................232
2.7.29 Bertrand Arthur William Russell: 1872 – 1970................................................234
2.7.30 William Sealey Gosset (Student, pseudônimo): 1876 – 1937........................236
2.7.31 Albert Einstein: 1879 – 1955...........................................................................237
2.7.32 Joseph Alois Schumpeter: 1883 – 1950.........................................................240
2.7.33 John Maynard Keynes: 1883 – 1946..............................................................242
2.7.34 Gaston Bachelard: 1884 – 1962.....................................................................244
2.7.35 Gyorgy (Georg) Lukács: 1885 – 1971............................................................246
2.7.36 Ludwing Wittgenstein: 1889 - 1951................................................................247
2.7.37 Ronald Aylmer Fisher: 1890-1962..................................................................248
2.7.38 Rudolf Carnap: 1891 – 1970...........................................................................249
2.7.39 Alexandre Koyré : 1892 - 1964.......................................................................255
2.7.40 Jean Piaget: 1896 – 1980...............................................................................256
2.7.41 Werner Karl Heisenberg: 1901 – 1976...........................................................260
2.7.42 Henri Lefebvre: 1901 – 1991..........................................................................261
2.7.43 Karl Raimund Popper: 1902 – 1994...............................................................262
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2.7.44 Talcott Parsons: 1902 – 1979.........................................................................269


2.7.45 Andrei Nikolaievitch Kolmogorov: 1903 - 1987...............................................270
2.7.46 Jean-Paul Sartre: 1905 - 1980........................................................................271
2.7.47 Willard van Orman Quine: 1908 – 2000.........................................................273
2.7.48 Robert King Merton: 1910 - 2003...................................................................277
2.7.49 Ilya Prigogine: 1916 - 2003.............................................................................278
2.7.50 Louis Althusser: 1918 – 1990.........................................................................282
2.7.51 Mario Bunge: 1919-........................................................................................282
2.7.52 Russell Lincoln Ackoff: 1919 -.....................................................................287
2.7.53 Thomas Samuel Kuhn: 1922 – 1996..............................................................290
2.7.54 Imre Lakatos: 1922 – 1974.............................................................................297
2.7.55 Paul Karl Feyerabend: 1924 – 1994...............................................................299
2.7.56 Michel Foucault: 1926 - 1984.........................................................................300
2.7.57 Jurgen Habermas: 1929 -...............................................................................301
2.7.58 Jacques Derrida: 1930- 2004.........................................................................306
2.7.59 Fritjof Capra: 1939 -........................................................................................308
2.7.60 Bruno Latour: 1947 -.......................................................................................310
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Fundamentos da pesquisa
Volume 1

2 ORIGENS E EVOLUÇÕES DAS CIÊNCIAS E DA PESQUISA

A
origem e a evolução da pesquisa e de seus métodos estão associadas, mais do que associadas,
unificadas e concentradas nas mesmas fontes de dados - informações e com os mesmos
pensadores responsáveis pela origem, evolução e desenvolvimento das ciências.
As ciências, por sua vez, têm suas origens e evoluções, com estreitos e diretos relacionamentos,
muitas vezes, confundimentos em grande parte da história, em especial da história anterior à revolução
científica, com as origens e evoluções da sociedade e da filosofia (do grego Φιλοσοφία: philos - que
ama + sophia – sabedoria, que ama a sabedoria) ou, modernamente, da investigação crítica e
racional de princípios fundamentais.
Foram estreitos relacionamento e confundimentos verificados até a revolução científica, no
século XVII, quando as ciências iniciaram sua “independência”, em certo sentido, da filosofia. Dessa
forma aceita e entendida, para compreender a origem e evolução da pesquisa e seus métodos é preciso
ter o entendimento de fatos importantes nas histórias das ciências e na evolução da filosofia e da
sociedade.
Que fatos podem ser destacados nessas histórias? As revoluções científicas são partes desses
fatos (sintetizadas neste livro); a separação e independência das ciências da filosofia; e as
interdependências das ciências com a filosofia.
A separação ou independência das ciências da filosofia, no início, teve formas próprias de
abordagens da realidade por um lado (o das ciências) e outro (a filosofia), com o surgimento das
chamadas ciências particulares, tais como: a física, a astronomia, a química, a biologia, a sociologia e a
economia, com delimitações em seus campos.
No caso das ciências, em particular das ciências modernas, essa independência da filosofia teve
início com método experimental. Entretanto, essa separação não foi (não tem sido e, possivelmente, não
será) definitiva nem igualmente aplicada para todos os casos ou em todas as áreas do conhecimento.
O tratamento empírico adscrito ao domínio das ciências não atinge o conhecimento filosófico
que, segundo Kant, é racional a partir de conceitos. Entretanto, se as ciências compreendem, também,
conhecimentos racionais elaborados a partir de conceitos, então essa separação não foi (não tem sido e,
possivelmente, não será) definitiva ou total nem igualmente aplicada em qualquer situação e/ou em
todas as áreas do conhecimento. São os casos, por exemplos, de ciências que conservam estreitas
relações e interdependências com a filosofia, tais como: as disciplinas da filosofia lógica, ética, teoria
do conhecimento e a epistemologia, entre outras, com importantes funções no conhecimento, seja ele
científico ou não.
Em outro sentido, conforme Habermas (1990) e dentro do fundamentalismo da teoria do
conhecimento, citando a Kant (Crítica da razão pura), a filosofia indica às ciências o seu lugar e
define limites do que pode ser objeto de experimentação: o caso da biotecnologia em seres humanos,
em que a pesquisa é “limitada” (vale dizer, disciplinada) por normas e critérios da ética da investigação
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científica em humanos. Para Habermas, mais do que indicar o lugar e definir limites, a filosofia é o
guardião da racionalidade e interprete das ciências.
Independente da discussão acerca da independência entre as ciências e a filosofia há casos
frequentes em que as ciências conservam estreitas relações e interdependências com a filosofia, tais
como:
a) No direito; este caso é considerado, entre outros, por Habermas, na filosofia da práxis: entender
o homem é, em parte, entender o direito diante do qual se torna possível a convivência humana;
nessa convivência há questões morais e éticas do campo da filosofia.
b) Na sociologia em que, segundo Weber, a compreensão de fenômenos históricos e sociais, a
reflexão sobre o método das ciências e os problemas metodológicos como produtos de
inumeráveis variáveis culturais não podem estar desvinculados da autonomia lógica e teórica,
porém, não submetida a entidades metafísicas do espírito do povo.
c) Na economia que, de acordo com Adam Smith, a explicação básica para a lógica dos fenômenos
coletivos; a ordem social como emergência que harmoniza o caos potencial de interesses
individuais e o traduz em bem-estar social.
Outras áreas das ciências e pesquisa modernas como a biotecnologia e a conservação de recursos
naturais encontram suportes explícitos na filosofia em assuntos como os de ética (p, ex., bioética) e
responsabilidade, apenas para citar dois casos.
Para se entender a origem e evolução da pesquisa e seus métodos, dadas as identificações e
associações entre ciência, pesquisa e filosofia é preciso ter o entendimento da origem e evolução das
ciências, da sociedade e da filosofia. Tal inter-relacionamento ou engrenagem (Figura 1) se da, a partir
da sociedade e, em particular, da origem e evolução da filosofia.
O filósofo era o sábio que refletia sobre todos os saberes de sua época. Esses saberes, ainda em
tempos modernos, são considerados desejos ou necessidades de conhecer e se apresentam como um dos
elementos essenciais do ser humano. Entretanto, esse desejo, no início, era tido como um dom
preternatural, um presente de Deus, segundo a perspectiva judaico-cristã (GALLIAN, 2005).
O inter-relacionamento ou engrenagem compreende, além da sociedade como fonte da filosofia,
a sociedade e a filosofia como fontes e referências das ciências, conforme se ilustra na Figura 1.
Da sociedade quando passou a considerar, de forma gradativa, as ciências e seus resultados como
fatores de desenvolvimento e de mudanças sociais e culturais, econômicas e em sistemas produtivos e
organizacionais, entre outros, ajustando e/ou substituindo procedimentos, técnicas e modos de fazer,
inclusive (em muitos casos), auxiliando atividades bélicas, contrariando, por vezes, os atores das
ciências e pesquisas.
A sociedade ao ser impulsionada, nos últimos séculos, por revoluções tecnológicas como as
protagonizadas pela eletricidade com múltiplos benefícios sociais; pelo motor de combustão (explosão)
interna, ao transformar energia de reação química em energia mecânica; pela síntese de produtos
químicos a partir de outros produtos básicos; pela tecnologia da informação e comunicação que vem
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Fundamentos da pesquisa
Volume 1

aproximando e integrando setores e atores; pela biotecnologia com seus múltiplos benefícios em quase
todos os setores (...), colocou a ciência em lugar de destaque que é preciso (re)avaliar para não perder
ou desviar seu potencial e efetico papel de transformação e bem-estar social.

SOCIEDADE: Busca
Explicações: fenômenos, fatos (...)
Previsões de eventos para (...)
Soluções: saúde, alimentação (...)

“Tecidos” de ideias para auxiliar


Novas formas de pensar: lógica
Pesquisa do conhecimento (...)
Filosofia analítica: Carnap
Filosofia das ciências: Kuhn,
Lakatos, Bachelard (...)
FILOSOFIA

CIÊNCIA
Conjunto organizado de conhecimentos,
relativo a determinada área do saber, com
determinadas características (...), obtido
com um método especial (...).
Seu caminho: a P E S Q U I S A

Figura 1 Inter-relações – engrenagens – sociedade, filosofia e ciência

Concomitante ou como resultado dessa conquista e destaque, a sociedade precisou compreender


como as ciências, pelo seus caminhos da pesquisa, realizam suas tarefas, entre outras, as de testar
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(aceitar ou rejeitar) teorias, descobrir, inventar e adaptar soluções; tarefas como as de difundi-las na
forma de tecnologias e serviços para inovações e de informações científicas para novos conhecimentos.
São os resultados das ciência e pesquisa como forças (a serem disciplinadas) do desenvolvimento.
Por sua vez, essa conquista e reconhecimento das ciências na sociedade, representam desafios de
comunidades, entre outras as de cientistas e pesquisadores para assegurar a sustentação social da
investigação. Qual é o suporte social para as ciências? A sociedade, o meio ambiente, entre outros
alvos, querer o que as ciências podem gerar – disponibilizar porque esses alvos foram consultados e
tidos em consideração e porque as ciências e pesquisa geram/adaptam e disponibilizam o que esses
alvos possam adotar com sustentabilidade em várias dimensões em evidências pela consulta e interação
com a sociedade, com o meio ambiente.
Destaca Lauda et. al. (1994; adequado ao texto) que uma cultura que se orgulha de sua
capacidade de auto-exame crítico deve ter em alta conta, na sua agenda intelectual, o estudo sistemático
dos processos de mudança e invenção de teoria na ciência com aplicação, racionalidade e utilidade -
benefícios.
O destaque das ciências e pesquisa na sociedade pode ter sua base em propósitos práticos como
os de financiar, orientar - controlar a direção e o “progresso” das ciências e de aprovar, com a adoção e
difusão, seus resultados pelos efeitos positivos social e ambientalmente sustentáveis. Podem ser
propósitos intelectuais, como os de determinar a natureza e o escopo do conhecimento humano. Em
ambos os casos, segundo Lauda et. al. (op. cit.) “há excelentes razões para [a sociedade moderna] tentar
examinar a dinâmica das ciências”. Isto, a despeito de não se ter um quadro geral confirmado de como
as ciências funcionam, nem de como uma teoria científica mereça seu assentimento, com divergência
não apenas na sociedade, mas dentro da comunidade científica. Em muitos casos, essa diversidade tem
um efeito positivo.
A evolução, em ritmos cada vez mais acelerados, das ciências, sob influência da sociedade (às
vezes, sob pressão e/ou “determinação” de um poder político, religioso, econômico etc.) ocorreu, no
início, segundo Lewis (1982; complementado), a reboque de técnicas existentes, de acordo com
evidências históricas da Antiguidade. São exemplos os Egípcios com suas grandes construções e
projetos e os gregos, com invenções e aplicações em diversos campos. Mas tarde, outras pressões, entre
outras, as da indústria, determinarão parte do direcionamento das ciências e pesquisas para atendê-las
em suas necessidades de crescimento. Nesses casos, foram resultados nem sempre com benefícios
sociais e ambientais.
As relações das ciências e pesquisas com a sociedade são, em geral, complexas, tanto em suas
vias de execução (p.ex., as de financiamentos) como nos casos das ciências e pesquisas para a
sociedade através da tecnologia (p.ex., as de fisuão e adoção de resultados). São complexas, também, as
relações da sociedade com as ciências e pesquisas: possíveis origens sociais de ideias científicas e
temas de pesquisas e dos impactos de fatos sociais como os culturais e históricos em comunidades
científicas, em centros de pesquisas.
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Fundamentos da pesquisa
Volume 1

As relações entre as ciências e pesquisas com a sociedade se têm intensificado, diversificado e,


por vezes, desviados (da complexidade intrínseca para a confusão da complicação) com perdas,
inclusive de direcionamentos, ao se estabelecerem complicados inter-relacionamentos como os que se
observam na globalização, em mudanças econômicas e ambientais e em ajustes e modificações sociais,
entre outras.
São observações com impactos sobre as ciências e pesquisas, não apenas em seus procedimentos
de desenvoluções, mas para direcioná-las, - em seus rumos e políticas gerais, e para gerar
conhecimentos que possam atender necessidades globais, exigindo abordagens transdisciplinares.
Deveriam ser abordagens integráveis e sustentáveis em várias dimensões. Deveriam ser relações com
efeitos positivos, tanto para a sociedade e o meio ambiente como para as ciências, se não fossem pelos
desvios que perturbam e imprimem viés nessas relações.
Ao longo da história registram-se relaçõesentres as ciências e pesquisas com a filosofia, com o
poder religioso e político e com o Estado, às vezes favoráveis às ciências; outras, contrárias à evolução
científica quando se identificam interesses “pressumivelmente” afetados negativamente pelas ciências
e, portanto, sob controle para reduzi-los ou eliminá-los. A parte que segue sintetiza algumas dessas
relações.
Da filosofia, do filósofo da antiguidade que refletia sobre todos os saberes como desejos e
necessidades de conhecer, determinando, nas ciências e pesquisas, posturas objetivas diante de fatos e
como resultado dialético de confrontos entre mitos que evoluíram por narrativas transmitidas de uma a
outras gerações, porém, em função dessas posturas e resultado, com contestações e novas ideias ou
concepções. Foram as evidências de processos evolutivos nessas relações que determinaram mudanças.
É importante destacar a relação das ciências com a filosofia porque estuda o conhecimento que
compreende a investigação, a análise e discussão do fato ou fenômeno, a formação (tecido) de novos
conhecimentos e a reflexão de situações gerais e abstratas. São situações que, nas ciências, são
reduzidas para serem desenvolvidas, pela pesquisa, em processos de construções de novos
conhecimentos formados a partir de resultados científicos.
No início, com base em inquietações que sapareceram na busca de explicações e com o auxílio
de procedimentos e experimentos das ciências, surgiram as hipóteses e o exercício da razão para
organizar padrões de pensamentos na formulação de teorias agregadas ao conhecimento.
N processo histórico de formação do tecido das ciências, segundo Wikipédia (2006h;
complementado), o conhecimento científico, por sua própria natureza, tornou-se “susceptível às
descobertas de novas ferramentas [procedimentos, técnicas, métodos etc.] que aprimoraram o campo de
sua observação [da realidade, com o registro no dado] e manipulação de elementos observacionais. Isto,
em última análise, implicou tanto a ampliação, quanto o questionamento de tais conhecimentos”. Nesse
contexto a filosofia, não apenas se relacionou com as ciências, mas surgiu e se colocou como a mãe de
todas as ciências.
Séculos mais tarde Popper (1993), em artigo A natureza dos problemas filosóficos e suas
raízes na ciência, apresentou a tese de que os mais importantes problemas filosóficos, em toda a
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história da filosofia, foram motivados por preocupações ligadas às ciências, tendo sua mais importante
exemplificação no realismo científico: a existência de recursos cognitivos para legitimar uma teoria
científica que transcende o nível de percepção do cientista e pesquisador. Enfatizou o caráter
irredutivelmente conjetural de todo conhecimento científico não como episteme (certeza), mas como
doxa (opinião, com base). Leis, teorias e conhecimentos científicos são sempre hipóteses que se tornam
científicas ao serem falseáveis. Dessa forma, o progresso da ciência seria constantes conjeturas e
refutações de substituições de hipóteses falseadas por melhores hipóteses não-falseadas, porém sempre
colocadas no campo de serem falseáveis, de serem testadas e com possibilidade de rejeição.
Trata-se de um comportamento normal do cientista e pesquisador, do “bom” profissional das
ciências, ao questionar, com sentido e lógica, com fundamentos e objetividade, a “veracidade” e a
aceitação de resultados alcançados, nos limites do rigor científico, e das possibilidades de tradução
desses conhecimentos acumulados no início de um novo milênio para uma sociedade da informação,
conhecimento e comunicação com carências e inseguranças que questionam tais limites.
O pesquisador, ao ser questionado pelo cliente acerca da validade – aplicabilidade do resultado
gerado com rigor científico, deverá ampliar (adequar, ajustar etc.) esse rigor para, no contexto da teoria
sinergética, buscar novas explicações, novas soluções que atendem novas realidades, obsdervando os
mesmos fatos e objetos, mas com novas perspectivas e novos fundamentos e métodos.
Nesse processo, segundo Capra, o “velho” que se rejeita é descartado e o novo que
provisoriamente possa ser aceito é introduzido: ambos os movimentos estão de acordo com as
exigências do tempo, em que os problemas são facetas de uma mesma crise; crise que exige um novo
paradigma e uma nova visão da realidade com novos pensamentos.
As informações anteriores apresentam um conceito básico, o da ciência, que, segundo
Aristóteles em suas obras Matafísica e Analíticos (Organon), define-se como o necessário, universal
e certo; um conhecimento que deve satisfazer alguns critérios. 1



Na próxima seção se apresentam aspectos gerais da origem da filosofia com tendência para
vinculá-la à história das ciências compreendendo, também, fatores sociais, em estreitas
interdependências e engrenagens (Figura 1), em que a direção desses componentes determina ou
influência a direção das ciências e, como efeito direto, da pesquisa.

2.1 Origem da Filosofia


Qual é a origem da filosofia? Essa prática teórica, porém não científica, que tem o todo por
objeto, a razão por meio e a sabedoria por fim, surgiu no período em que o homem começou a refletir
sobre o funcionamento da vida e do universo, a se organizar socialmente para viver melhor e a buscar
uma solução, ao pensar melhor, sobre as questões da existência humana, com a investigação crítica.
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Fundamentos da pesquisa
Volume 1

Foram preocupações, - do objeto, do meio e do fim, indagações e interesses da filosofia, segundo


Chauí (2000), procedentes da Grécia, a partir da fase arcaica, do século VII ao século V, a.C., ou dos
sete sábios (ver nota de rodapé 11), quando os gregos criaram cidades como Atenas, Esparta, Tebas,
Megara e Samos, entre outras. Nessas cidades predominava a economia urbana baseada no artesanato e
no comércio.
Nas indicações, - as de origem da filosofia na Grécia Antiga, há pressupostos e informações que
são não apenas questionáveis por “outros historiadores das ciências”, mas que apresentam possíveis
omissões e prováveis faltas de reconhecimento e de originalidade. Alguns exemplos dessas faltas, reais
ou presumidas de originalidades, são:
a) O sistema pitagórico: formado por conceitos como o número é o Princípio de todas as coisas, a
essência do Universo criado e a existência do ser. Tais conceitos seriam derivados da sabedoria
milenar da China.
b) O eleata; um sistema lógico-filosófico, atribuído a Parmênides de Eléia e Zenão de Eléia. Nele,
os argumentos eram rigorosos: tanto o objeto como o critério de conhecimento passaria a ser o
mesmo. Um pensamento puro, uma noção de unidade absoluta (desprovida de multiplicidade: se
o ser não fosse único, mas múltiplo, então, cada ser seria ele mesmo e não os outros. Dessa
forma, cada ser é e não é ao mesmo tempo, algo absurdo), imobilidade e completude.
Nessa unidade, o critério de conhecimento é o próprio pensamento que é abstrato, livre e
autônomo, um pensamento que cria suas próprias regras e tem sua lógica interna (...). Esses
poucos exemplo, dentre muitos outros conceitos do sistema da Escola Eleata, teriam sua origem
na Índia.
c) O heraclitiano, da Escola Itálica de Éfeso. No lastro de preocupações, nessa Escola, o
conhecimento da realidade é considerado como um fluxo contínuo e mudanças perpétuas de seres.
O dia se torna noite, o verão se torna outono, o novo fica velho, o quente esfria, o úmido seca:
tudo se transforma no seu contrário.
A realidade é a harmonia de contrários, que não cessam de se transformar uns nos outros, mas, se
tudo não cessa de se transformar, como explicar que a percepção ofereça as coisas como se
fossem estáveis, duradouras e permanentes? (...) nisso estaria a diferença entre o conhecimento
dos sentidos, uma imagem de estabilidade, e o conhecimento que alcança o pensamento, uma
verdade como mudança contínua.
Esses, entre muitos outros conceitos da Escola Itálica de Éfeso, do heraclitiano, teriam sua
origem na Pérsia.
d) Os conhecimentos de Empédocles, médico, filósofo, legislador e idealizador do mundo
constituído por quatro elementos (água, ar, fogo e terra) e de Anaxágoras, filósofo, astrônomo,
físico, matemáticos, idealizador de que não se pode generalizar nenhuma realidade nova e que,
portanto, tudo existe desde sempre; toda substância é composta por partículas que explicam a
pluralidade.
17

O rige n s e e vo lu çõe s da s ciên cia s e d a p esqu isa


Filó sof o s e cien t ist a s a o lo ng o da hist ó ria da civiliza ção

Eram conceitos e conhecimentos de Empédocles que teriam suas origens em Egito e na sabedoria
judaica.
“Outros historiadores” indicam, também, datas (anteriores), locais e autores diferentes, bem
como ideias sem equivalentes evidências às encontradas na cosmologia da Grécia antiga. Seriam
sabedorias como a chinesa, hindu e arábica, entre outras, com traços filosóficos diferenciáveis e com
aparentes menores influencias sobre a cultura ocidental européia e sobre fundamentos lógicos da
racionalidade, da ética e das ciências na cultura ocidental.
Tais questionamentos, possíveis omissões e diferenças da Grécia antiga com outras civilizações,
são propositadamente omitidas, sem um motivo forte de exclusão (apenas por simplificação), nesta
obra.
Considera-se que parte do rumo da civilização ocidental, da lógica e raciocínio das ciências e
seus métodos modernos tiveram suas fontes, originais ou não, no pensamento da Grécia antiga que
testemunhou o surgimento de uma nova perspectiva cognitiva, como resultado de reflexões, em
propostas orientadas para buscar o conhecimento pelo próprio conhecimento, por curiosidade e/ou por
amor à sabedoria.
Essas primeiras ideias, nos séculos VII e VI a.C., tomaram a forma de um novo modo de pensar
e de refletir sobre os saberes disponíveis, desmistificando-os: seria o nascimento da filosofia com
interpretações desacralizadas de mitos da época.
Na antiguidade o homem começou a refletir sobre o funcionamento da vida e do universo e a se
organizar e buscar soluções sobre as questões da existência humana. Tais preocupações, indagações e
interesses presentes no nascimento da filosofia, confundiam-se com as ciências, tendo seus “melhores
traços e evidências” em cidades gregas da Ásia Menos, segundo Chauí (2000).
Para muitos historiadores a filosofia, entendida como a aspiração à superação, o amor à
sabedoria e o respeito pelo saber, pelo conhecimento que é racional, lógico e sistemático da realidade
natural e humana, suas causas e transformações e do próprio pensamento, nasceu em pequenas
comunidades. Eram as polis (ou cidades – estados, localizadas entre a Jônia, Ásia Menor da
Grécia antiga e o sul da Itália.
Naquelas cidades, - as polis, como resultado de sucessivas invasões e suas influencias sobre
essas comunidades na região, teve início a filosofia por interpretações dessacrilizadas de mitos
cosmogônicos de religiões da época. Tais mitos foram segundo Platão e Aristóteles, a matéria-prima
de reflexões de filósofos como os miletianos Tales, Anaximandro e Anaxágoras.
As primeiras ideias que surgiram nos séculos VII e VI a.C. com essas interpretações, tomaram
forma de um novo modo de pensar e de refletir sobre os saberes disponíveis, mediante a
desmistificação: início da filosofia. Isso não significa nem deve ser interpretado como o fato de que
outros povos, tão antigos, ou mais antigos quanto os gregos, não tivessem suas próprias filosofias e não
houvessem desenvolvido seus pensamentos, reflexões e formas de pensar, por vezes, peculiares e de
conhecer a natureza e seus fenômenos, com características diferenciáveis das registradas naquelas
cidades – estados. Entretanto, essas outras formas de pensar e reflexionar, diferentes ou não das
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Fundamentos da pesquisa
Volume 1

registradas - vivenciadas na Grécia antiga, não são consideradas na resenha histórico – evolutiva da
filosofia e das ciências que se apresenta neste livro.
É importante destacar, no início do texto, que apesar da ruptura das duas formas de abordagens
da realidade, a filosófica e a científica, a filosofia continua com a visão de conjunto, do total, com o
relacionamento do parcial, objeto de especialização das ciências; e como uma reflexão crítica a respeito
dos fundamentos do conhecimento científico e do agir e se posicionar do cientista e pesquisador.
Esse agir e posicionamento devem ter fundamentos na ética: no pensamento filosófico do
comportamento moral, do problema moral e do juízo moral: com moral, baseado em normas, princípios
e valores que são aceitos de forma livre e consciente para regular o comportamento individual e social
(HUISMAN e VERGEZ, 1976). Fundamentos na responsabilidade: com o cliente, com a sociedade,
com o meio ambiente, com a organização, com o governo etc. Fundamentos em valores sociais e
morais, culturais e históricos, entre outros relacionados ou que venham a se relacionar com a
investigação com suporte na filosofia.
A parte que segue aborda, de forma sintética, aspectos iniciais do processo histórico das ciências
e sua estreita relação com a filosofia.



Nas fases da Grécia clássica, nos séculos V e IV a.C., a filosofia experimentou seu máximo
desenvolvimento, com alguns destaques.
Na época helênica, com a desenvolução da democracia e da vida intelectual e artística, a
filosofia teve grandes períodos como o socrático com a investigação de questões humanas éticas,
políticas e técnicas, e o sistêmico, com a reunião e sistematização do saber cosmológico e
antropológico (CHAUÌ, 2000; complementado).
O surgimento da filosofia na Grécia antiga, a do período clássico, com o início do
desenvolvimento cultural e científico nas polis, foi favorecido por diversas situações, circunstâncias ou
fatos históricos, destacando-se, sem detalhes, os seguintes:
a) As viagens marítimas que procuravam dos deuses e seres fabulosos explicações dos fatos, dos
fenômenos e das coisas que ocorriam.
A frustração de navegantes ao não encontrarem tais explicações e a própria desmistificação
desses seres passaram a exigir “outras” explicações que o mito, os deuses e os seres fabulosos
não podiam oferecer com base na realidade, com poder de convicção e sentido global, harmônico
e de inter-relação entre todas as coisas apreensíveis pelo pensamento.
É oportuno observar, de acordo com Gutiérrez (2002), que desde a origem do pensamento, a
ideia do global, da harmonia e da inter-relação das coisas, dos elementos de um todo tem estado
sempre presente na mente de filósofos sendo essas ideias, para os orientais, tão antigas quanto
eles mesmos.
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O rige n s e e vo lu çõe s da s ciên cia s e d a p esqu isa


Filó sof o s e cien t ist a s a o lo ng o da hist ó ria da civiliza ção

Para os ocidentais, essas ideias foram orientadas pelo corte aristotélico preferencialmente
analítico, com profundidade das partes e dificuldades para encaixá-las, bem como para entender
como interagem e essas partes formam uma unidade, um sistema. Tais dificuldades, as do
entendimento sistêmico, ainda perduram e se manifestam pela visão reducionista, como reflexo
de orientações e ações de ensino e pesquisa, em que o foco é o objeto e o enfoque é o disciplinar
(merológico).
b) A invenção do calendário, uma forma de medir o “tempo” segundo estações do ano, dos dias, de
um período como o lunar, das horas etc., foi outro fator importante no surgimento da filosofia.
Dessa invenção, destaca-se: o ano tropical devido à revolução da Terra em torno do Sol com
relação ao equinócio vernal (a referência é de 365, 2422 dias solares ou 365 dias, 5 horas, 48
minutos e 46 segundos). Outro destaque é o calendário egípcio, com início da enchente anual do
rio Nilo e duração de 360 dias e, depois, um dia a mais a cada 4 anos (Ptolomeu, em 238 a.C.).
Com essa invenção se revelou uma nova capacidade de abstração como algo natural e não como
um poder divino incompreensível. Posteriormente, a abstração foi do fator tempo civil, medido
de 12 horas e do tempo universal ou tempo civil de Greenwich.
c) A invenção da moeda, no século VIII a.C. Foi a cunhagem de moeda, que possibilitou uma forma
de troca alternativa à realizada através de coisas concretas trocadas por semelhantes. Essa
possibilidade colocou o meio de troca abstrata feita com base no cálculo de valores semelhantes
de coisas diferentes: foi a revelação de uma nova capacidade de abstração e generalização
facilitadas pela moeda.
A invenção da moeda se deu pelas moedas em ouro e prata, condicionador de seu valor como,
p.ex., o “tosão de ouro” de carneiro do rei de Aliates, da Lídia. Foi a primeira moeda com
monograma de representação de um Estado, para facilitar os negócios de venda e compra,
pagamentos e cobranças de impostos, entre outros, tendo como referências conceitos abstratos e
generalizáveis de um valor semelhante-equivalente aplicado para coisas diferentes como as
envolvidas nas transações, no comércio.
d) O surgimento da vida urbana e com ela o desenvolvimento e predomínio de atividades como as
do comércio com uma nova classe, os comerciantes.
Essa classe precisava do poder e prestígio para enfrentar às classes dominantes. Outra classe foi a
do artesanato com as técnicas de fabricação, diminuindo o prestígio de famílias da aristocracia
proprietária de terras, por quem e para quem os mitos foram criados.
Tais surgimentos tiveram impactos, pelo patrocínio e estímulo às artes, entre outros, para criar
um ambiente favorável ao desenvolvimento da filosofia.
e) A invenção do alfabeto que, a semelhança do surgimento do calendário e da moeda, revelou a
capacidade de abstração e de generalização ao evidenciar o sentido de ideias, substituindo a
representação de figuras, imagens e ideogramas pela escrita com base no alfabeto de sons.
20

Fundamentos da pesquisa
Volume 1

A primeira referência escrita do alfabeto foi a Fenícia e sua migração para a Grécia apareceu no
5º. livro de Histórias escrito por Herodotus / Heródoto. 2
A invenção fenícia dos 22 signos do alfabeto fonético de Biblos, em 2.000 a.C., mudou a história
da civilização e determinou, gradativamente, o desaparecimento de escritas conhecidas na época,
tais como a cuneiforme da Mesopotâmia e a hieroglífica do Egito.
O alfabeto de Biblos, com menor número de letras ou signos que o alfabeto moderno, permitiu
maior precisão e mais clareza nas ideias a difundir, ampliando o poder de comunicação ao
permitir descrever sentimentos, analisar pensamentos (...), supondo-se que não apenas se
representavam imagens das coisas, mas, as ideias acerca delas: o que se pensa se transcreve pelo
símbolo fonético. Essa possibilidade, para outras escritas, não poderia ser feita com certas
fidelidade e perspectivas de permanecer no futuro.
O alfabeto é a obra-prima do poder de abstração do espírito humano que facilitou comunicar a
reflexão e incentivou a filosofia, as ciências, a organização e os sistemas sociais.
Com a invenção do alfabeto foi possível ter informações apresentadas em tábuas escritas, entre
os séculos XIV e início do XII a.C. Partes dessas tabuas foram encontradas pelos fenícios na
cidade de Ougarit (Ugarito ‫)اوگاریت‬, dispostas em camadas que correspondem ao início da
Idade do Bronze, com vestígios de instalações utilizadas na produção de azeite (HISTÒRIA,
2005), além de cartas, contratos, textos literários mitológicos e religiosos como é o caso de a
Bíblia Cananéia, com histórias como as de Daniel, Jô, Noé, entre outras. (O ALFABETO, 2005).
f) A invenção da política com a introdução de ideias como a lei expressão da vontade de uma
coletividade humana que decide por si mesma, o que é melhor para ela e que tipo de relação
interna prefere.
A legislação que regulou a polis serviu de referência e modelo para a filosofia propor aspectos
legislados, regulados e ordenados do mundo com o racional.
Com a invenção da política se teve o surgimento de um espaço público e nele, o aparecimento do
discurso. Do discurso entendido como afirmações articuladas de uma forma coerente e lógica da
palavra, como sendo o direito do cidadão para emitir suas opiniões, discuti-las com outros,
persuadi-los e tomar decisões.
O espaço criado pela política e seus desdobramentos foram contrários às informações -
orientações do mito, do sobrenatural e oculto, contribuindo para a valorização do decidir fazer ou
não alguma “coisa”, valorizar o ser humano, seu pensamento e para criar condições do
surgimento do discurso filosófico, do pensamento filosófico.
Com a política, ao estimular o pensamento e o discurso, procurou-se, ao contrário do pensamento
do mítico e sobrenatural, a ideia de um pensamento ensinado, transmitido e discutido. A ideia de
um pensamento que todos pudessem compreender e discutir, que todos pudessem comunicar e
transmitir. Tais ideias, conceitos e práticas foram fundamentais para a filosofia e seu
desenvolvimento.
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É importante notar que a preocupação do homem em compreender a realidade em seu entorno, de


encontrar explicações “racionais” dessa realidade e de saber as coisas como e por que conhecer (...) tem
sido permanente e um atributo comum de quase todas as culturas na história da humanidade.
Nessas preocupações comuns para todos os povos sobre o que conhecer se destacam três tipos de
relações:
a) Homem – natureza básica para entender os diversos tipos de relações variáveis no tempo, no
espaço e com as culturas ao longo da história: de harmonia e equilíbrio em alguns casos como os
de certas culturas tradicionais e de utilitarismo imediato e depredação, de oposição, da natureza,
em outras, inclusive de culturas modernas (...), passando por explicações pré-socráticas com
fundamentos na lógica racional.
b) Homem – sociedade; em abordagens como as dos sofistas que destacaram questões como a de
como conhecer, indicando um modo de pensar antropológico; o conhecimento do homem
somente ocorre no contexto da comunidade humana (Sócrates) e quem conhece a verdade é o
que pode governar os destinos da sociedade (Platão), entre outras ideias da antiguidade.
c) Homem a homem – Criador / DEUS com diferentes concepções míticas, religiosas, filosóficas
(...), cada uma com suas explicações sobre a origem, o sentido da vida e o destino ou
transcendência.
Em função das respostas de cada uma dessas relações e de seus desdobramentos sobre o que
conhecer, diferenciaram-se vários tipos de conhecimentos como os da magia, da filosofia e da teologia,
evoluindo conforme situações e circunstâncias locais e de cada povo.
A frustração de navegantes ao não encontrarem explicações nos mitos acerca da realidade; as
invenções do calendário e da moeda evidenciando capacidades de abstração do homem; o surgimento
da vida urbana que debilitou classes sociais dominantes; a invenção do alfabeto que revelou, também, a
capacidade de abstração e possibilitou evidenciar o sentido de ideias; e a invenção da política com
novos conceitos são, entre outros, fatos precursores ou aliados às ciências. Foram fatos e condições
favoráveis ao desenvolvimento humano que determinaram características importantes do pensamento
filosófico.
O nascimento do pensamento filosófico na vontade de uma comunidade escolher seu destino,
entre outros acontecimentos e circunstância, com as condições favoráveis anteriormente relacionadas,
determinaram características importantes do pensamento filosófico que, com as devidas adaptações, por
vezes mudanças, perduraram ao longo da história e evolução do conhecimento e tiveram significativas
influencias e sustentações no pensamento filosófico moderno.
No início, - no nascimento do pensamento filosófico, as características principais, na forma de
tendências e exigências, desse pensamento foram:
a) A tendência à racionalidade, à razão e somente a razão com seus princípios e regras, como
critério de explicação das coisas (mais informação em Kant).
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Fundamentos da pesquisa
Volume 1

Para reflexão. Depois de transcorridas mais de dois mil anos, determinadas


explicações de intervenções na natureza, algumas tecnológicas aplicadas e
que afetam o meio ambiente em suas funções e fontes produtivas de
excedentes econômicos, mutilam a racionalidade do bem-comum e pretendem
“justificar” suas intervenções economicistas e imediatistas com sofismáveis
argumentações contrárias à racionalidade e à análise lógica social.

b) A tendência a oferecer respostas conclusivas a partir de uma proposta de um problema submetido


à análise, à crítica, à discussão e à demonstração, com a rejeição de respostas sem antes terem
sido “provadas” / testadas e aceitas (ou rejeitadas), racionalmente.
A tendência de respostas conclusivas tem sido projetada no pensamento crítico de tal maneira que
a filosofia, nem sempre conforme o saber científico, dirige uma análise crítica aos princípios,
teorias e hipóteses, ao revisá-las e considerar as razões de justificação de afirmações, de
respostas.
Essas respostas e afirmações são susceptíveis de reflexão e revisão, como aporte da filosofia. É
um elemento da filosofia que foi comunicado às ciências quando, em um de seus postulados,
colocam-se as teorias científicas como sendo falseáveis e susceptíveis de teste e revisão.

Para reflexão: Há, também, um motivo de reflexão com relação às respostas


“conclusivas” virtuais e sem evidências reais, em fatos, na virada para o novo
milênio, quando se pretende impor “respostas” discutéiveis e/ou que não se
sustentam em necessárias inferências de análises consistentes com bases em
dados “consistidos”, possíveis de serem obtidos e em evidências, sintetizados
e analisados para se terem “outras” possíveis respostas.

c) A exigência de o pensamento filosófico apresentar suas regras de funcionamento: justificar as


ideias com base em regras universais.
d) A recusa de explicações preestabelecidas: para cada problema era necessário investigar e
encontrar uma solução própria.
Quando aplicada à ciência, a recusa de explicações preestabelecidas se relaciona, em parte, à
discutida neutralidade da ciência: apenas focada no que é objetivo e na isenção de subjetividade
na aplicação de métodos e na obtenção de resultados da pesquisa com esses métodos. No campo
filosófico é um tema controverso.
e) A tendência à generalização: uma explicação pode ter validade para outras coisas diferentes
(locais, situações, condições, períodos, clientes etc.) porque o pensamento, acima de percepções
sensoriais, descobre semelhanças e identidades que possibilitam estebelecer generalizações.
As tendências que caracterizaram o pensamento filosófico associadas às condições que
favoreceram o surgimento da filosofia, da ciência e da pesquisa, aplicam-se, em variáveis níveis e
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circunstâncias, às ciências e à pesquisa, além de incitar à reflexão acerca de relações entre filosofia e
ciências, sociedade e ciências, filosofia – sociedade e ciências.
São tendências consistentes com os três meios (instrumentos) disponíveis pelo homem para
buscar e/ou aumentar o “domínio” (vale dizer, o conhecimento para a conservação e manejo racionais e
sustentáveis) sobre a natureza: a percepção (em um extremo), a intuição (no meio) e a lógica (no outro
extremo), com variantes (evoluções, ajustes – adaptações, mudanças etc.) que se acussam na evolução
das ciências enos métodos científicos.
Para se ter uma referência, inicial e simplles, à necessária reflexão entre filosofia e ciências se
apresentam, a seguir, elementos do histórico das ciências. Não se trata de uma introdução da história
das ciências, mas de dados esparsos compilados de vários autores citados, sem se ter uma referência de
história das ciências.
Isto porque, à despeito de se terem obras conhecidas de filósofos da Antiguidade e dos períodos
medieval e moderno, com descrições genealógicas de informações e procedimentos científicos, a
história das ciências se organizou como disciplina apenas no final do século XIX e início do século XX,
quando foi institucionalizada em comunidades como as de cientistas – pesquisadores, historiadores e
filósofos, amadurecendo os esforços empreendidos por academias (p.ex., a Royal Society of London e a
Academia Francesa; GUSDORF, 1988), preocupadas de cuidarem tanto de suas memórias quanto do
papel que elas deveriam desempenhar.
Os dados históricos de sábios da Antiguidade foram transmitidos por compiladores que, de forma
sistêmica, dedicaram-se a recolher, classificar, ordenar (...) ideias de filósofos: os doxógrafos. Os
resultados correspondem a escritos didáticos com informações e procedimentos “científicos” em cursos
naquelas épocas, tais como as primeiras compilações de matemática (aritmética e geometria),
astronomia, medicina, agricultura (...) feitas no período helenístico e, depois, por bizantinos, judeus,
árabes (...); compiladores da Idade Média Ocidental etc.
São escritos que possibilitaram conservar e transmitir parte dos resultados das ciências e seus
métodos da Antiguidade até os tempos contemporâneos, muitos deles não escritos pelos próprios
sábios, mas por seus discípulos.

2.2 Origens das Ciências Atreladas à Origem e Evolução da Sociedade


As origens dos esforços para obter e sistematizar os conhecimentos científicos, - das ciências, da
investigação e de seus métodos, remontam-se ao homem primitivo, à pré-história, que o homem, à
“semelhança” do animal, esteve rodeado e pressionado por “coisas” e fenômenos de um meio hostil e
por circunstancias e condições, muita delas desfavoráveis.
Mas, enquanto o animal se submetia à natureza ou ela se adaptava em processos evolutivos
coevoluindo com os animais, o homem procurou conhecê-la, discernir sobre os seus fenômenos e usar
os seus recursos, adaptando-se às circunstâncias ou modificando-as, quando possível. Era a necessidade
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Fundamentos da pesquisa
Volume 1

de se acertar com o meio ambiente sem, contudo, ficar alheio às adaptações e, por força natural, aos
ajustes e à evolução “imposta” por mudanças desse meio.
Sob tais circunstâncias e contornos, o homem primitivo abandonou, de maneira gradativa, sua
vida nômade há mais de dez mil anos e começou a se organizar em comunidades. Com elas, surgiram
as primeiras civilizações na Mesopotâmia (sumérios e babilônicos), no Egito, na China e na Índia, entre
outros povos e civilizações. Foram longos processos de aprendizagens e de transições de um estado
para outro, em que se desenvolveram e aperfeiçoaram atividades como as agrícolas, pecuárias e de
organização social, entre outras, afeiçoadas ao lugar de residência, às condições e circunstâncias do
meio.
Em tais processos de aprendizagem o homem começou a construir e utilizar utensílios e
instrumentos para dominar forças da natureza e obter benefícios dos recursos desse meio,
diferenciando-se dos outros animais por uma característica singular: a preocupação e interesse pelo
conhecimento.
Foram preocupações e interesses comuns para todos os povos da antiguidade, ainda que com
destaques e orientações de saberes e de formas de pensar, decidir (...) diferentes entre ums e outros
povos como, p.ex., entre os egípcios, a trigonometria; entre os romanos, a hidráulica; entre os indianos
e muçulmanos, a matemática e a astronomia; e entre os gregos a geometria, a mecânica, a astronomia, a
acústica e a lógica e raciocínio (...) como bases na formação do conhecimento.
Não é contraditório, como se mostra aparetemente, considerar os conceitos de prehistória e
ciência, dado que prehistória não implica barbarismo nem ciência suficiência nem humanismo, mas um
estado que identifica a evolução de um povo com importantes ensinamentos.
Esse é os propósitos da síntese histórica na formação do profissional da pesquisa para que possa
entender como os gregos, p.ex., desenvolvveram a intuição, um tipo de reflexão a considerar que,
segundo Matallo (2000), possibilitou gerar teorias sobre a natureza e desvincular o saber racional do
saber mítico.
No início da história da civilização, da origem das ciências, cada estágio do cultivo de plantas, da
domesticação de animais, da organização social (legal e institucional), econômica e política
representou, segundo Bronowski (1992; complementado), inovações técnicas e invenções com
fundamentos em “princípios científicos”, em métodos e rudimentos tecnológicos que permitiram
aproximações contínuas da realidade.
A busca e aproximação é um processo permanente, mediante modelos mentais, para
compreender melhor a realidade. Por causa da melhoria da compreensão e do pensar apareceram as
primeiras técnicas (tecnologias) na produção de tijolos, na arte da vidraria e metalurgia e em atividades
produtivas, de organização e de comércio. O crescimento do comércio estimulou, por sua vez, a
pilhagem, as técnicas de guerra, a navegação com a construção de barcos a vela.
Para prever períodos de cheias dos rios e de plantio e colheita surgiram a astronomia, a
matemática e o calendário. Uma lição é: as “necessidades” têm estimulado sobremaneira à criatividade
em todos os tempos.
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O crescimento de cidades trouxe novos desafios como os de abastecê-las de água (surgiram a


engenharia hidráulica, os sistemas de aquedutos e esgotos) e alimentos (a irrigação de terras e a
colheita, transporte, armazenamento de alimentos).
Desses primeiros tempos há vestígios de obras e fatos (p.ex., monumentos), de escritos (p.ex., os
de caracteres cuneiformes na Mesopotâmia, no século XXXIV a.C) e de registros (p.ex., pinturas e
gravuras rupestres gravadas em abrigos, cavernas ou em superfícies livres, porém, protegidas: período
Paleolítico), ainda que incompletos ou com apenas mínimas partes, do registro de culturas em povos
como os da Mesopotâmia, Árabes, Índia, China e em povos da América pré-colombina, além do Egito.
Nos egipcios, seus conhecimentos eram, sobretudo, os de natureza prática, conforme se ilustra
em relevos de tumbas egípcias, de 1.400 a.C, mostrando o desenvolvimento da geometria e matemática,
com aplicações em medições de campos, cálculo de impostos e produção agrícola de grãos; alheios as
preocupações teóricas dos helenos, os egípcio consideravem as ciências como meios para realizações
práticas: sua química, p.ex., consistia na arte de obter ou elaborar essenciais e farmacopéias; sua
bilogia, confundida com a arte da medicina, era para a procura de propriedades curativas de plantas, -
eram háveis cirugiões, conforme mostram os papiros de Edwuon Smith: exame, diagnóstico e cura
de aproximadamente 50 enfermidades (PAPP, 1995).
Das civilizações primitivas se têm registros de tecnologias em atividades como a cerâmica
(aproximadamente 7.000 a.C.), a metalurgia de cobre (aproximadamente 4.000 a.C.); a roda para
veículos de transporte; a canoa (aproximadamente 3.500 a.C.) para o transporte e a tecelagem
(aproximadamente 3.000 a.C) para vestimentas e enfeites. As metalurgias de bronze (p.ex., arte egéia:
cicládica, minóica e micênica), de ferro (artes celtas e etruscas; WIKIPÉDIA, 2006 b) e de aço são de
aproximadamente 3.000, 1.500 e 1.200 a.C., respectivamente.
As construções de grandes pirâmides no Egito foram feitas em torno 2.600 a.C. e pressupõem
“avançados” conhecimentos científicos em distintas áreas do saber em “engenharia”, matemática,
geometria etc. Esses saberes se manifestaram, também, nas primeiras observações astronômicas, nas
primitivas caracterizações de sustâncias químicas, na identificação de sintomas de doenças e em tábuas
numéricas matemáticas, segundo consta em escritas cuneiformes da Mesopotâmia, com datas em torno
de 2.000 a.C. Outro exemplo de saberes é o da fermentação de substâncias para fins de consumo
humano, entre 1.800 a 1.550 a.C. (LLOYD, 1973; complementado).
Têm-se informações, em registros de papiros, 3 de um saber em áreas como a matemática
(operações e unidades de medidas), geometria, calendários e medicina: tratamento de feridas como,
p.ex., relatos de 48 casos de cirurgias clínicas e de ferimentos de guerra com exames, diagnósticos e
tratamentos. Também há registros da agricultura e atividades relacionadas, com suas técnicas de
irrigação, domesticação de animais, preparação e preservação de alimentos. Um fato a destacar no
início das ciências é o da escrita que surgiu em torno de 3.550 a.C (LLOYD, op.cit.).
Segundo History of Scientific Method (2005), a história desse método é nseparável das histórias
da ciência, da filosofia e da sociedade, com suas raízes em Imhotep (2.600, a.C), tido como o autor do
papiro de hieróglifos encontrado em Tebas, Egito, conhecido como papiros de Edwin Smith. Esses
26

Fundamentos da pesquisa
Volume 1

documentos, - os papiros, representam a primeira evidência de referências específicas escritas de


aspectos neuroquirúrgicos da antiguidade. Essas áreas do conhecimento contêm casos descritos em três
modalidades: ações de tratamento; intentos terapêuticos; e medidas profiláticas. Apresenta 48 casos
traumáticos do crânio (clínico-cirúrgicos) com descrições (p.ex., circunvoluções cerebrais, pulsações,
meningites e líquido craniano) e ordenamentos sistemáticos, além de mostrar 11 casos de fraturas e
primeiros registros de câncer de mama (WAGNER, MARTIN e BLAND, 1996).
Em povos orientais foram desenvolvidos saberes essencialmente religiosos misturados com
mitologias (de origem divina) e tradições. Constituíam os patrimônios cultural, social (...) de castas
sacerdotais que tinham a preocupação de transmitir a sabedoria em sua pureza, destacando-se, nesses
povos orientais, filósofos como Buda 4 e Confúcio. 5 Estes, a semelhança de Sócrates e de Jesus
Cristo, entre outros, não deixaram suas obras (em alguns casos, nenhuma obra) escritas assinadas, mas
suas ideias e exemplos de amor à verdade e à humanidade permaneceram, com maior ou menor
número de detalhes e descrições, pelos registros de discípulos.
Todas as manifestações dos saberes e de adaptações às circunstâncias representaram sistemas de
relações entre objetos - contornos e percepções, atenções e estados de consciências orientadas para
buscar um novo conhecimento que o ser humano não o identifica apenas pelas sensações ou por
manifestações imediatas, mas, pelas reflexões, pelas experiências e pelos saberes acumulados.
Desse modo surgiram crenças e valores que acompanharam e se transformaram em função de
pressões de ações com incertezas e de insatisfações quanto às explicações das “coisas” e os desajustes
(desacordos) com o contorno, no decorrer dos tempos (HEGENBERG, 1976; complementado). Eram
explicações para pautar as adaptações ao meio, organizá-las e aprender a utilizar os recursos desse
meio; um fim utilitarista do saber. Mas a busca do saber teve (e terá) outras motivações.
A busca do saber para se ter uma “melhor” explicação das “coisas”, da informação do
conhecimento, do dado da informação (...) tem sido permanente e com motivações constantes. Basta
citar uns poucos exemplos relativamente recentes: os descontentamentos e as motivações de cientistas
e filósofos com relação à explicação mecanicista subjacente nas teorias materialistas da mente e à
física newtoniana no estudo de fenômenos físicos. Por causa desses descontentamentos surgiram novas
explicações como as que têm alicerces em relações e estruturas sistêmicas.
O paradigma da física newtoniana, que culminou na filosofia kantiana, já não era suficiente para
responder a algumas das questões complexas do desenvolvimento de ciências, como as biológicas e do
comportamento social. Nos paradigma dominante, os cientistas identificaram lacunas que lhes
permitiram concepções orgânicas e passaram a olhar a realidade a partir dessa perspectiva. Como
decorrência, passou-se observá-la como organização complexa em constante mudança. Tratava-se de
uma organização com notáveis interdependências entre as partes e com interações dessas partes com o
todo.
As características do paradigma newtoniano são qualidades fundamentais inexistentes no
paradigma cartesiano. Neste, as partes de um sistema seriam independentes e autônomas, sem vínculo
relacional, isto é, sem conexões entre os elementos, na formação e manutenção do todo. Mas, antes de
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O rige n s e e vo lu çõe s da s ciên cia s e d a p esqu isa


Filó sof o s e cien t ist a s a o lo ng o da hist ó ria da civiliza ção

se atingir essa fase de um processo de evolução das ciências e sua filosofia foram diversas as
concepções e motivações da busca de “saberes” e de explicações anteriores dos fatos da realidade,
exemplificando-se uma motivação não-utilitarista ou de aplicação material.
Foram os gregos da antiguidade “possivelmente” os primeiros a buscar o saber não
necessariamente com um fim prático, mas, como um desejo e vontade de conhecer o por quê? e o para
que? de tudo o que se pudesse pensar, definindo as bases essenciais da mentalidade e do conhecimento
científico como algo abstrato, generalizável e baseado em princípios. Algo que pudesse ser testado,
não-esotérico, organizado e coerente, sujeito à correção, à experimentação e até “matematicamente”
sedimentado, porém, não como um reultado acabado e indiscutível de “algo”, mas um produto de
processos que têm sido determinados, influenciados e/ou alterados ao longo da história.
Eram elementos da ciência da natureza com fundamentos diferentes do mito e da religião que
começaram com os primeiros filósofos – cientistas com base em observações. É claro que esses
primeiros passos em direção à ciência não poderiam revelar todas as características do conhecimento
científico. Desse começo do conhecimento científico se exemplifica a ideia de Tales de Mileto que,
apesar de acreditar em deuses, sua resposta quanto à origem ou princípio das coisas não podia ser
mítica; deveria ser algo que por todos pudesse ser diretamente observado na natureza: a água. A
explicação de tudo surgir da água, ainda que não científica à luz da ciência moderna, não estava
baseada em entidades míticas.
Outros filósofos – cientistas como Anaximandro, Heráclito, Pitágoras e Parmênides deram
suas contribuições para as ciências. Demócrito defendeu que tudo quanto existia era composto de
pequeníssimas partículas indivisíveis, unidas entre si de diferentes formas, e que na realidade nada mais
havia do que átomos e o vazio onde eles se deslocavam. Foi o primeiro filósofo naturalista em não
acreditar em deuses e propor que a natureza tinha as suas próprias leis: couve às ciências descobrí-las,
um processo ainda em curso.
Apesar das limitações de recursos materiais e tecnológicos para desenvolverem as ciências,
foram pensadores como Aristóteles, Arquimedes e Erastóstenes grandes “cientistas” que trouxeram
contribuições às ciências, iniciadas como uma atividade organizada na cidade de Alexandria, cidade
fundada por Alexandre o Grande, em 331 a.C., situada ao norte de Egito e oeste do delta do rio Nilo,
às margens do Mar Mediterrâneo.
Essa cidade se constituiu no centro cultural (pesquisa, ciência...), comercial, financeiro e
industrial do mundo helênico e foi sede da mais importante biblioteca da antiguidade fundada por
Ptolomeu e organizada por Demétrio de Falero. Naquela biblioteca, reuniam-se filósofos,
matemáticos e pensadores em diversas áreas para a construção de novos conhecimentos e das ciências.
As mesmas “forças”, motivações (...) que deram origem às ciências e determinaram a sua
natureza, deram origem e fundamentou, também, a pesquisa como o caminho da ciência, como um
processo histórico e evolutivo para se ter o conhecimento adquirido prático com base em descobertas,
invenções, explicações e predições úteis de fatos, fenômenos e coisas. Alguns autores admitem a
obtenção de certos conhecimentos como sendo revelados.
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Fundamentos da pesquisa
Volume 1

A origem e evolução da pesquisa colocaram as descobertas, invenções, explicações, predições


(...) para fins práticos e/ou teóricos, em similares meios de observação, de análises e de classificações
dos conhecimentos religiosos para explicar a natureza de o próprio ser e seu aproveitamento espiritual;
acrescentando-se, mais tarde, a experimentação com a noção de que tudo o que era científico devia se
apoiar nela. Essa noção teria influencia ou impacto no pesquisador como a do compromisso de se
mostrar fiel ao método científico contendo a experimentação como indispensável procedimento que
explicariam a natureza de o próprio ser e o aproveitamento - crescimento espiritual.
Os processos de descobertas, invenções (...) para fins práticos foi complementado, mais tarde,
com a experimentação com a ideia de que tudo o que era científico devia se apoiar nela. Essa ideia teria
influenciado ou impactado o pesquisador, assummindo o compromisso de se mostrar fiel ao método
científico contendo a experimentação como processo indispensável.

Para reflexão. Quando o pesquisador conhece e se baseia no método


científico, na observação (o começo da ciência), na experimentação (depois),
não significa, conforme acreditam os empiristas e positivistas, que está
bloqueando seu raciocínio e criatividade. Pelo contrário, esse método, com
observações, experimentações (...), quando bem entendido e aplicado é um
auxiliador e potencializador da criatividade do cientista – pesquisados e não o
substituto dessas faculdades. Tampouco é aceitável a tese de que novas ideias
surgem apenas da experimentação. Novas ideias podem ser os resultados de o
livre pensar, da imaginação, da criatividade, do “acaso” (...), sendo por vezes,
na primeira oportunidade do surgimento, vistas como ideias absurdas pelos
“outros”.

Alguns autores admitem a obtenção de certos conhecimentos como sendo revelados; é o caso dos
conhecimentos religiosos para explicar a natureza de o próprio ser e do crescimento - evolução
espiritual; em outros casos, a revelação para se ter explicações psicofísicas de telecinesia em
fenômenos como os de levitação e de potencialidades fluídicas humanas com “pressupostas”
capacidades como as de cura.
Em relatos antigos como os da Bíblia, em livros mesopotâmicos, em poemas épicos, em escritos
etnográficos (...), estabeleceram-se, em alguns deles, distinções entre conhecimentos revelados e
conhecimentos transmitidos por tradições históricas e justificados apenas por observações empíricas e
pelo “bom-senso” (PORTER, 1999), além de análises e classificações. É o caso de, p.ex., remédios e
poções extraídas de certas plantas para o tratamento de doenças comuns, descobertas por lógicas
deduções ou por “acaso”. Essas duas formas de conhecimentos, os revelados e os transmitidos, além de
terem fontes de dados e procedimentos diferenciados, não eram equilibrados e um deles tinha
privilégios que favoreciam à revelação (JAEGER, 1995).
Desde os tempos primitivos, com os filósofos gregos, quando a ciência, como resultado da
investigação, teve um novo status, os conhecimentos adquiridos serviram não apenas como
29

O rige n s e e vo lu çõe s da s ciên cia s e d a p esqu isa


Filó sof o s e cien t ist a s a o lo ng o da hist ó ria da civiliza ção

instrumento de progresso, mas, de humanização ao procurar o bem-estar social, inicialmente


restringido, na medida em que se internalizavam dimensões como a ética e social.
Os primeiros beneficiários da nova perspectiva da ciência foram, de acordo com Jaeger (op.
cit.), os filósofos – cientistas helênicos e latinos, com destaque para Aristóteles, sistematizador do
método científico e os sábios no contexto de conquistas alexandrinas projetadas (pesquisa aplicada).
O legado de conhecimentos científicos greco-romano foi estabelecido como um paradigma para
as civilizações que emergiram após esse período como, p.ex., a muçulmana e a ocidental, fazendo parte
de processos evolutivos (dinâmica) da ciência.
De acordo com Bruckhardt (1990), a dinâmica de desenvolvimento daquelas civilizações se
encarregou de gerar o movimento dialético de crítica e de superação do paradigma clássico-escolástico
de ciência, agindo de várias formas. Por um lado, mediante fatores exógenos, como a expansão
geográfica e comercial, a semelhança do ocorrido nos períodos helenístico e romano e, por outro,
fatores endógenos, como o avanço da análise crítica das fontes a partir da confrontação das diversas
versões e traduções, assim como da confrontação destas com a própria realidade.

Para reflexão. Depois de mais de dois milênios, parece que a internalização


de conceitos éticos, morais (...) no avanço da ciência e do conhecimento
científico não foram suficientes para aplicar os resultados da pesquisa no
bem-estar do homem, uma vez que conhecimentos científicos têm servido
como instrumentos de destruição humana, do meio ambiente (...) e de
marginalização – exclusão social. Isto, por ocasião do uso indevido e/ou do
viés socialmente (economicamente, ecologicamente...) indesejável da
criatividade do cientista - pesquisador e/ou do incentivo financeiro às
atividades “destrutivas”; um incentivo que deveria ser aplicado na pesquisa
para o progresso e bem-estar social, mas, que se tem orientado, por vezes, por
outros interesses e objetivos.

A internalização na ciência e na pesquisa – tecnologia de dimensões como: a social, a cultural, a


econômica, a meio ambiente (...) e de critérios como os éticos, precaução (...) não é (nem será) um
processo concluído ou definitivo que possa limitar o uso indevido e/ou o viés indesejável do
conhecimento científico e de suas aplicações tecnológicas.
Nesse processo há sempre desafios e novos problemas a considerar, não apenas na formação do
profissional (desafios para a ciência modelo) para prepará-lo, conforme exigências - possibilidades da
realidade em que se espera atuara e, mas na ciência processo, no exercício da investigação ao buscar
explicações, soluções (...). Problemas e desafios no “controle da natureza” (vale dizer, na conservação
e manejo) para descobrir novos fatos e resultados como instrumentos de progresso e bem-estar social.
Parte dos desafios e dos problemas para tornar o conhecimento (ciência e tecnologia) fator de
progresso está na prospectiva tecnológica, na necessidade de criar formas de observação –
30

Fundamentos da pesquisa
Volume 1

interpretação da dinâmica social [econômica, ambiental...] capaz, segundo Martinez (1994), de integrar
rupturas, saltos qualitativos e inter-relações, além da simples visão técnica.
No contexto da realidade brasileira o profundo sentido estratégico da ciência e tecnologia tem
seu principal desafio para: adequar-se à realidade de profundas e extensas dimensões territoriais, como
é o caso do Brasil; atender a diversidade de ambientes e recursos naturais (p.ex., da biodiversidade);
consultar condições sociais, culturais e econômicas variáveis; e definir a participação da ciência e
pesquisa na política e na economia mundiais.
À internalização de princípios como os do “bem-agir” de uma “nova ética” integrada ao devir
humano, centrada no conhecimento, na lógica da racionalidade e na sustentabilidade, acrescentam-se
novos problemas como os de conhecer a natureza (o suficiente) para valorizá-la e valorizar seus
recursos, ambientes, estruturas, funções, potencialidades (...) para conservá-los com o adequado
manejo integrado. Esse mesmo conhecimento leva à classificação do meio ambiente e à proteção e
preservação de fontes e ciclos, à parcimônia no “uso racional” de “excedentes” (...) na ausência de
meios tecnológicos “seguros” para “garantir” o uso sustentável, vale dizer, a conservação da natureza e
seus recursos.
Esta deveria ser uma inquietação importante e destacada a considerar na formação do
profissional pesquisador, bem como uma preocupação constante da organização e dos envolvidos na
pesquisa (p.ex., clientes, pesquisador, financiador, indústria, mercados, sociedade etc.) em conservação
para o desenvolvimento sustentado.
Tal preocupação tem fundamentos na história e na evolução do pensamento científico e se torna
cada vez mais importante com o crescimento de externalidades negativas tecnológicas e pecuniárias.
Por outro lado, essa história e evolução em seus fundamentos são oportunidades para refletir acerca do
conhecimento que se tem, que poderia / deveria se ter e de que como melhorá-lo ou adequá-lo às
circunstâncias e às exigências de cada caso, período, local, comunidade, oportunidade (...).
Mazursky (2005; complementado), ao tratar aspectos históricos da ciência e suas relações com a
filosofia e a sociedade em um contexto geral, considerou que “todas as formas de saber humano
estiveram reunidas em duas modalidades de discursos: a do mito e a do senso comum”.
O discurso do senso comum primitivo era o uso prático e imediato da linguagem, enquanto que o
discurso do mito, especializado e com conteúdo estruturado que, posteriormente se diferenciaria para
dar origens à religião, à arte, à ciência e à filosofia, era para explicar o mundo e dar sentido à vida. O
autor (MAZURSKY op. cit.) destacou a Grécia Antiga como a raiz da cultura européia e da cultura que
se generalizou no Ocidente.
Nas polis o discurso da filosofia ganhou autonomia e preferência em relação ao mito e ao senso
comum, com postulados que perduraram por séculos como os de “ordem, harmonia e equilíbrios das
forças que regem o mundo”, derrubando crenças do senso comum como a do mundo regido por forças
arbitrárias e caprichosas.
Do mito restaram as narrativas de grandes poetas épicos como fontes de inspiração das artes
clássica e, posteriormente, renascentista. Mais tarde o mito fui substituído pelo logos que na filosofia
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O rige n s e e vo lu çõe s da s ciên cia s e d a p esqu isa


Filó sof o s e cien t ist a s a o lo ng o da hist ó ria da civiliza ção

Grega era a razão colocada como o princípio constituinte e controlador do universo e sendo expresso
pela fala, como uma abstração da intuição racional do filósofo o que resultava socialmente acessível.
Dessa forma, os filósofos realizaram os primeiros trabalhos científicos com base em observações
empíricas explicitamente racionais, objetivas e universais (MAZURSKY, op. cit.; complementado).
Tais atributos são elementos, alguns persistentes, em atividades da ciência e pesquisa e que é preciso
destacar com os devidos ajustes, mudanças e complementações ou revisões.
Os interesses dos filósofos nos mais variados campos científicos, dividiam-se em dois: no estudo
da natureza e no estudo de assuntos de ética e política (humano), sendo que o ideal de harmonia, de
equilíbrio e de equidade, tanto em assuntos humanas como em explicação da natureza, presidia a visão
do mundo, com uma tendência para todo encontrar seu lugar mais justo e mais adequado
(MAZURSKY, op. cit.; complementado).
Entender a origem e evolução da pesquisa passa e, por vezes, confunde-se com a origem e
evolução da filosofia no tratamento da ciência, da filosofia da ciência, ao se ocupar de ideias e não de
conceitos restritos, com elementos básicos da própria história do desenvolvimento científico. Essa
filosofia, segundo Quintanilla (1987), ocupa-se da análise e fundamentação das ciências consideradas
como formas de conhecimento.
A importância (mais do que isso, a relação – complementação) da história da ciência e da
filosofia da ciência pode ser sintetizada pro uma frase de Lakatos, inspirada em Kant, “a filosofia da
ciência sem a história da ciência é cega; a história da ciência sem a filosofia é vazia”.
A lição dessa relação- complementação pode ser colocada em perspectivas, tanto internalista
(análise filosófica como as de pressupostos e fundamentos das ciências) de análises e compreensão das
ciências, desde dentro, a partir de problemas e constituição – desenvolvimento específico, como
externalista (análise sociológica) ao buscar caracterizá-la com base no exame de suas relações com o
meio externo. Uma referência para este tema se encontra em The origins of modern science
(BUTTERFIELD, 1985).
Uma síntese de aspectos históricos, da evolução do pensamento científico e, em especial, de
pontos destacados da filosofia da ciência e suas contribuições (poucos exemplos) às ciências é um
ponto de partida para a reflexão e compreensãom da importância da história e filosofia das ciências
para a pesquisa. Esclarece-se que que em descobertas, invenções (...) interferem, com frequência,
fatores não-científicos (p.ex., te elógicos, religiosos), não-racionais (...) considerados apenas na
historiografia moderna das ciências.
A atitude da maioris dos escritores da primeira metade do século XX desprezava elementos não-
científicos no surgimento e evolução de teorias científicas, dificultando o pleno entendimento do
processo de criação das ciências (THORNDIKE, 1923-1958). Expressava que “nenhum escritor
medieval, seja de ciência ou de magia, pode ser entendido por si próprio, mas precisa ser avaliado com
respeito ao seu ambiente e antecedente” se o que se quer é uma visão abrangente da evolução das ideias
científicas.
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Fundamentos da pesquisa
Volume 1

Para isso é precissodescrever como essas ideias surgiram e progrediram em diferentes cultutras e
sociedades. Thorndike (op. cit.) exemplifica dois casos famosos limitados em seus entendimentos por
omissões nas narrativas: a influência da alquimia sobre Newton, na concepção da ideia de gravitação, e
sobre Kekulé, ao imaginar a estrutura da molécula de benzeno.
A importância da “história” da ciência e da filosofia das ciências para a educação científica de
qualidade e com resultados esperados com efetividade tem sido destacada na literatura, entre outros,
por Mattews (1998). Esse autor afirma que a aprendizagem da prática científica precisa ser
complementada pelas aprendizagens sobre as ciências (natureza das ciências) e sobre a história e
filosofia das ciências, importantes tanto para pesquisadores como para professores.
Os professores precisam pelo menos de três competências: o conhecimento e a apreciação da
ciência que ensinam; a compreensão da história e da filosofia das ciências; e alguma teoria que
proporcione uma base racional no processo de ensino.
O contexto da pesquisa científica não se limita a um ambiente “neutro” de um laboratório, de um
campo experimental, de um ambiente fechado de investigação (...), mas compreende inúmeros fatores e
circunstâncias abertas e com interações com o meio interno, tais como: a diversidade de pessoas e de
conflitos e interesses compreendidos pela investigação; a questão legal e ética cada vez mais complexa
em suas relações com as invações; as relações ambíguas, difusas (...) entre as ciências e os interesses da
comunidade científica, dos financiadores das ciências e da tecnologia com o meio ambiente. Tudos
esses processos compreendem aspectos históricos e sociais.
À filosofia das ciências caberia mostrar não que a ciência existe, mas, que ela existe com as
características do conhecimento científico, entre outras as de lógica e racionalidade: certa legitimação e
diferenciação do conhecimento científico dos demais conhecimentos.

Para reflexão. A complexidade de ambientes, de interesses, de atores (...)


pressupõe habilidades – competências do pesquisador para gerir e tomar
decisões; pressupõe, antes de tudo, reflexão e análise crítica para combinar
interesses por vezes conflitantes e com base em processos históricos, culturais
(...). Parte dessas reflexões é obtida da leitura atenta da história das ciências e
da filosofia das ciências.

Esse é um dos propósitos da primeira parte do livro que trata da origem e evolução das ciências e
da pesquisa para entender o desenvolvimento científico, ao se admitir que a garantia desse
conhecimento esteve associada à forma de uso – aplicação e à resposta da ciência, pela sua utilidade,
em cada período.
A ciência, um sistema complexo, organizado, sistematizado (...) de conhecimentos e de
compreensões de fatos e fenômenos naturais, tem sido definida de várias formas e para diferentes
propósitos, com variações, ênfases ou destaques ao longo da história das ciências. As que seguem são
exemplos dessas definições.
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O rige n s e e vo lu çõe s da s ciên cia s e d a p esqu isa


Filó sof o s e cien t ist a s a o lo ng o da hist ó ria da civiliza ção

A ciência é formada por instituições ou sistemas sociais em que atuam determinados atores, os
cientistas e pesquisadores, sob enfoques disciplinares, com frequência, integrados, para desenvolver
estudos sistemáticos e racionais baseados em métodos adequados à natureza com objetivos
determinados: conhecer e compreender as coisas. Por esse método auxiliador à criatividade do cientista
e pesquisador, buscam-se ou se descobrem leis explicativas gerais que estabelecem conexões entre
fatos e fenômenos pelas quias se antecipam ações, reações, comportamentos, respostas (...), em
esquemas “modelados”, tais como:
a) se for feito isto (...) como, p.ex., a estruturação rígida de uma organização, a centralização na
tomada de decisões sem intencionalidade e controle para produzir efeitos diferentes mediante
diversas manipulações ou a aplicação de uma determinada dose em um experimento científico,
portanto, com a “manipulação” deliberada e controlada de produtos e ambientes experimentais (...)
b) então acontecerá (provavelmente) aquilo, p.ex., a insatisfação dos membros dessa estruturação
rígida; as dificuldades de compartilhar a tomada de decisões na gestão (...); ou determinadas
respostas, conforme evidências em pesquisas semelhantes e tidas como referências à aplicação de
uma dose (...).
Em outro contexto, o conceito ciência é o de um conjunto estruturado de aquisições (de
conhecimentos atentos e aprofundados de alguma coisa) sistemáticas e de formas de conhecimentos
científicos (episteme) que refletem relações entre a realidade e o ente pensante, com
determinados propósitos ou objetivos; um modo, com métodos especiais, de conhecer a realidade e a
“verdade”, ambas baseadas em fatos (observação, experimentação, verificação, inferência lógica etc.),
em evidências.
Tais métodos e seus resultados são: claros pelas suas evidências; precisos, porém, não
definitivos; verificáveis com técnicas confiáveis; sistemáticos, ao compreender partes de um sistema;
gerais, ao não se limitar a um caso; explicativos; preditivos; abertos (...) possibilitam tecer um
conhecimento científico que é objetivo, racional e refutável, entre outras características diferenciadoras
desse conhecimento dos demais conhecimentos.
Os objetivos das ciências poderão ser melhorias da qualidade de vida (um fim utilitário) e/ou
melhorias de “estados” como o intelectual (, eidos; ideia), moral (pístis; crença, fé),
imaginativo (, eikones) e dialético (, dianóia), entre outros. Para atingir esses
objetivos, a ciência precisa de um método, de uma lógica de raciocínio e de uma referência para se
avaliar e decidir sobre questões de aplicação ou utilidade, éticas, morais (...) compreendidas em, p.ex.,
investigações biotecnológicas que afetam (possam afetar), de maneira negativa, o homem e seu meio.
No sentido da ciência como conhecimento (episte), encontra-se uma estreita e direta relação de
interesses com a filosofia: a filosofia da ciência.
A filosofia, por sua vez, está intimamente relacionada à epistemologia e à ontologia para buscar
explicações sobre a natureza de afirmações e conceitos científicos universais que compreendem
aspectos específicos.
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Fundamentos da pesquisa
Volume 1

a) Definir processos como os utilizados na geração / adaptação e na disponibilização / difusão de


resultados da pesquisa, da ciência com elementos epistêmicos e ontológicos.
b) Explicar e predizer, através da tecnologia, o “domínio” da natureza: seu entendimento,
estruturação, funcionamento e possibilidades de aproveitar seus recursos mediante a sua
conservação.
c) Definir os meios e determinar a validade do que se cria ou gera / adapta, do que testado e se
mostra “seguro” e adequado para ser tranferido.
d) Formular e aplicar, com critérios, os métodos das ciências, da pesquisa, conforme sejam a
realidade alvo, as condições, os recursos e os objetivos.
e) Fundamentar a argumentação na inferência e conclusão: parte da sistematização das ciências.
f) Analisar as implicações de métodos e modelos científicos para os interessados, para a sociedade e
para as ciências (FILOSOFIA DA CIÊNCIA; 2006), constituindo-se em uma visão relativamente
moderna, porém sem unanimidade (ALBORNOZ, 1994), que resultou da evolução e da história
das ciências.
Apesar da estreita e direta relação entre filosofia e ciência, é necessário esclarecer que os
objetivos e alguns procedimentos e métodos de uma e outra são diferentes. Ambas, - a filosofia e as
ciências, como atividades intelectuais, têm objetivos determinados dos quais se ocupam, p.ex., as
ciências positivas, em atividades como a biologia, dos seres vivos: como são; a astronomia, dos corpos
celestes: como estão organizados; a economia, de atividades de produção, distribuição, consumo; de
explicação e previsão dessas atividades; da sociologia, dos grupos sociais, por vezes, como eles são, ao
observar as características do sujeito e as relações entre grupos, sem a preocupação de mudar (...). Em
outros casos, os objetivos poderão ser no campo das ciências normativas como, p.ex., com ações e
intervenções que se espera gerem mudanças de comportamento: como elas deveriam ser.
O objetivo da filosofia não é algo particular ou algo dado pela experiência, ainda que a
considere, porém, sem se limitar a ela. A filosofia busca as causas últimas das coisas, segundo
Aristóteles; o estudo do que existe enquanto inteligível; a obtenção de conhecimentos válidos
(veracidade), sem que sejam necessariamente aplicados ou que tragam consequências práticas, tais
como os resultados de conhecimentos verificáveis ou hipóteses científicas.
A filosofia, entendida como uma prática teórica (mas, não científica), que tem o todo por
objetivo (não é um saber a mais, mas, uma reflexão sobre os saberes); a razão por instrumento; e a
sabedoria por finalidade, com o propósito de pensar “melhor” para viver melhor, sem a pretensão de
querer ensinar a pensar.
Isto, porque, pensar é um atributo da evolução e um “estado” do homem que não pode ser
ensinado, ainda que possa ser estimulado e seja o ensinamento do pensar questionador (por vezes
crítico; excetuando os períodos em que a filosofia se prestou ao dogmatismo, ao obscurantismo...). O
pensar não é uma capacidade exclusiva e privilegiada de alguém, ainda que seja variável de pessoa para
pessoa e, em alguns, mais desenvolvido, objetivo, eficaz (...) em algumas pessoas.
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O rige n s e e vo lu çõe s da s ciên cia s e d a p esqu isa


Filó sof o s e cien t ist a s a o lo ng o da hist ó ria da civiliza ção

O pensar melhor para viver melhor, finalidade da filosofia (o pensar para buscar o sentido em sua
dupla acepção: significado e direção), é uma das finalidades da pesquisa tecnológica para o
desenvolvimento ao levar a teoria à prática, ao refletir nos fundamentos da teoria para aplicá-la na
realidade e ao proceder, conforme o método científico, para gerar / adaptar – disponibilizar / difundir os
meios (informações) de novos conhecimentos, de inovações (tecnologias), de mudanças de atitudes
(...). São resultados desejáveis compreendidos no desenvolvimento, seja para explicar como é (ciência
positiva) ou para definir como deve ser (ciência normativa).

Para reflexão. A pesquisa tecnológica baseada na ciência (na reflexão


científica, na filosofia da ciência levada à prática) para dar credibilidade
(“verdade científica”) a seus resultados tecnológicos (as inovações e aos
novos conhecimentos) e às técnicas que, em geral, são anteriores às ciências,
bem como o desenvolvimento de inovação tecnológica, compreende:

a) A pesquisa básica com o objetivo de adquirir conhecimentos quanto à compreensão de novos


fenômenos para o desenvolvimento de produtos, processos e sistemas.
b) A pesquisa aplicada com o objetivo de adquirir novos conhecimentos ou aprimoramento de
produtos, processos e sistemas.
c) O desenvolvimento experimental para a comprovação ou a demonstração da viabilidade técnica
ou funcional de novos produtos, processos, sistemas e serviços, segundo consta no Decreto n o.
5.798, de 7 de jun. de 2006. Esse Decreto regulamenta os incentivos fiscais às atividades de
pesquisa tecnológica e desenvolvimento de inovação tecnológica entendida como “novo produto
ou processo de fabricação, bem como a agregação de novas funcionalidades ou características ao
produto ou processo que implique melhorias incrementais e os impactos de ganhos da qualidade
ou produtividade, com efeitos na maior competitividade no mercado” (BRASIL, 2006).

Para reflexão. A pesquisa científica desenvolvida com base no método


científico adequado à realidade representa o aspecto dinâmico da ciência,
conforme a evolução - atualização desse método e se alicerça em
fundamentos da lógica, para ter o exercício da razão (o raciocínio) através do
qual se se procura alcançar o entendimento de um ato e/ou fato; formulam-se
novas ideias e se elaboram juízos; deduz-se algo a partir de uma ou mais
premissas para se terem conclusões consistentes de um resultado com fins
práticos, porém de abrangência limitada em função de limitações de recursos.
A pesquisa científica desenvolvida com base na ética para ter a ação
responsável e sustentada na evidência, sem juízos a priori, isto é, com
afirmações que exprimem raciocínios baseados em argumentos que tem
suporte na experiência. A pesquisa científica desenvolvida com base na
abstração para compreender o problema de maior relevância inserido em um
contexto sistêmico e, com frequência, complexo.
36

Fundamentos da pesquisa
Volume 1

Para reflexão. O método científico ao auxiliar a o como “fazer uma


investigação com conceitos, critérios, procedimentos, técnicas e métodos de
“pensar” na lógica para se atingir a compreensão de um problema
(oportunidade com o propósito de explicá-lo, solucioná-lo (aproveitá-la),
confere credibilidade à ciência e possibilita a reprodução da pesquisa com
validação na observação e experimentação.

Credibilidade da ciência significa confiabilidade na descoberta, na invenção, na adaptação (...)


científica de uma explicação sobre si mesmo ou sobre a realidade, de uma solução ou do
aproveitamento de uma oportunidade. Significa que o conhecimento científico, apesar de ser
provisório, falível, testável-verificável, (...) é crível.
Uma definição de ciência que relacione, de maneira direta e significativa, o conhecimento
científico com um resultado da investigação científica (KÖCHE, 2000), poderia ser: um conjunto
organizado de atitudes (p.ex., agir racionalmente ao escolher e melhorar uma ação dentro de um
conjunto viável: KUHN, 1978; complementado) e de atividades racionais (p.ex., as que se utilizam
para observar e descrever, para inferir e interpretar, para formular hipóteses e testá-las, para avaliar,
escolher e aplicar técnicas e modelos) orientadas para o sistemático conhecimento de um objeto
limitado e com propósito determinado. São atividades (processos) e resultados em contínuo
aprimoramento e capazes de serem submetidas às rigorosas verificações pela aplicação criteriosa da
metodologia científica.
A aproximação ciência - pesquisa não ocorre apenas em vínculos como os de causa (p.ex., dados
e informações da pesquisa) e efeitos (novos conhecimentos científicos a partir desses dados que, pela
análise e inferência, possibilitam gerar as informações dos novos conhecimentos), mas, também, pela
natureza de atitudes e de atividades e pelos processos mentais e racionais que a pesquisa e a ciência
adotam. Tanto a pesquisa como a ciência submete à verificação seus resultados de hipóteses e de
teorias.
O ponto comum mais importante entre pesquisa e ciência é o método científico. A pesquisa
caracteriza o problema (obtenção de dados: observação, experimentação etc.) e o trata (teste, análise e
inferência etc.) com base em procedimentos científicos desse método e com fundamentos teóricos como
os da indução – dedução, empirismo, racionalismos etc.
A ciência submete à verificação suas teorias com base nesse método e conceitos da filosofia na
reprodução de objetos na mente humana. A pesquisa cresce com o desenvolvimento da ciência e seu
método, enquanto a ciência se legitima e avança com informações que a investigação gera e para ela
disponibiliza.
Tanto a origem como o propósito da ciência é tema controvertido. Para uns, a origem se relaciona
a um fenômeno social e humano complexo e variável: o desejo humano de conhecer, de explicar,
entender, prevenir, prognosticar etc. Conhecer para ter explicações: é o conhecer com base em
observações (verificação empírica; o destaque da pesquisa) e indagar com base no raciocínio (lógica: o
destaque da teoria), na intuição e na criatividade, na mente humana. Para outros, essa origem se
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O rige n s e e vo lu çõe s da s ciên cia s e d a p esqu isa


Filó sof o s e cien t ist a s a o lo ng o da hist ó ria da civiliza ção

encontra na religião ou na filosofia, estabelecendo-se interdependências para compreender a realidade e


o lugar do homem como agente do conhecimento (SKLAR, 2003; complementado).
O desejo de conhecer a realidade se orientou para o entendimento de relações entre o homem e a
natureza, bem como para o entendimento do próprio ser humano a partir de suas limitadas faculdades:
sentidos, inteligência e vontade. Nessa orientação, a ciência foi adotando “princípios” para a percepção
de fatos e a avaliação cética de variáveis (poucas) em cada estudo, tentando explicar “coisas” similares
como a essência e origem do universo e da vida, sem, contudo, para os exemplos citados, conseguir
respostas satisfatórias com suas explicações.
Menos controvertida é a natureza da ciência em seus aspectos lógicos e técnicos, isto é, em seus
métodos de raciocínio e inferência e pelos seus processos de manipulação das “coisas” indagadas e das
condições em que ocorre a pesquisa, tais como: frequência, persistência, desagregação - agregação,
comparação e aproveitamento (FERRARI, 1982; p. 3).
A origem da ciência se encontra, em parte (GUTIÉRREZ, 2002; complementado):
a) Em um conjunto de apreensões sensoriais motivadas, com frequência, pela curiosidade e pelo
desejo de saber e descobrir, entre outras motivações do homem em seu permanente anseio de
conhecer as causas e princípios das coisas.
b) Em discorreres, rudimentar ou não, como tentativas de explicações das coisas; as primeiras
tentativas foram atribuídas às ações diretas de deuses ou às forças mágicas controláveis, entre
outras formas, por sacrifícios de sacerdotes (período préfilosófico).
c) Na busca de soluções para o atendimento às necessidades básicas e como instintos de
sobrevivência do homem.
No início as soluções tinham implícitas submissões às forças desconhecidas. Com as frustrações
de não respostas e com as inquietações, surgiram outras formas de procura as fontes de soluções.
Dessa inquietação nasceu a filosofia.
Decorre, também, como um desejo de encontrar as explicações de fenômenos nas coisas e não
em causas alheias a elas: é o conceito physis expressando o sentido e significado às coisas e de
logos, tornando-as compreensíveis (unidade e harmonia) e expressáveis (período pré-socrático
de Anaximandro, Heráclito, Demócrito etc.).
A evolução de meios na busca de explicações e soluções e pelo desejo de saber, de conhecer, de
descobrir o como e o por que das coisas levaram o homem à pesquisa, à ciência, orientando-o, ao longo
da história. Essa orientação se fazia (se faz) por perguntas para ter novos conhecimentos e explicações
de fatos, fenômenos, objetos, comportamentos (...).
A partir dessas apreensões, discorreres, buscas e desejos de compreender o mundo em povos
como os babilônicos, egípcios e americanos pré-colombianos, entre outros, foram orientados por
perguntas na constante busca da “verdades”, tais como: Porque é que chove, ou por que chove mais
em uma época que em outra, em um local mais do que em outro? O que é o trovão, o relâmpago, o
vento? Por que causas, forças, razões (...) crescem as ervas (...), brotam os frutos de (...), / existem os
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Fundamentos da pesquisa
Volume 1

montes (...)? Por que voam os pássaros? Por que razão se tem fome, sede e adoecem. / morrem as
pessoas? Qual é causa da sucessão dia e noite? Das estações do ano? O que são as estrelas? entre
muitas, outras perguntas.
As respostas às perguntas poderiam ser científicas (p.ex., em épocas mais recentes), baseadas em
processos de um método especial aplicado às observações especiais, ou não (épocas mais remotas). Em
ausência de respostas com base em processos racionais, sistêmicos, testáveis (...) e com poder de
convicção outras respostas, possíveis em cada época conforme o nível de entendimento, de evolução
dos povos, como as de ordens religiosas e míticas, não explicativas com base no raciocínio e em mitos,
na religião.
São “explicações” que, apesar de não serem satisfatórias em outras épocas ou para outros povos
e culturas, não podem ser interpretadas como sendo respostas de menor importância. Eram as
“melhores” explicações da época e para aqueles povos, para aquelas culturas. Foram os conhecimentos
históricos e biologicamente primitivos de um saber motivado por algo externo (a necessidade de
controle, de sobrevivência...) à atividade cognitiva, isto é, onde se realiza a representação do objeto
pelo sujeito.
Na pré-história o homem teve experiências segundo as suas peculiares concepções dos fatos, dos
fenômenos, das relações e comportamentos da natureza. Aqueles fatos e comportamentos além da
capacidade de assimilação do homem primitivo eram relegados ao campo do mistério, da religião, da
vontade / capricho dos deuses. Dessa forma, a ignorância do homem tinha suporte em entes
sobrenaturais encarregados de ajudar ou de castigar, segundo as condições de ocorrência do fato.
Apesar desse conformismo, o homem continuou discernindo e obtendo suas experiências,
observando com curiosidade e analisando racionalmente, em um processo de aprendizagem e melhoria
permanentes até, em determinado momento da evolução, relacionar, consciente ou inconscientemente,
fatos pela causalidade, pela evidência na observação de uns serem causas e outros efeitos. Naquele
momento da história da ciência surgiu o primeiro método “científico”, a intuição de causalidade
alcançada de maneira empírica.
Mas, antes desse surgimento, o processo de explicação de fatos por entes superiores, pela
curiosidade humana de cada época e por causas míticas, foi prolongado, com “verdades populares” que
atribuíam importância às coisas. Essas “verdades”, com frequência, passaram a se constituírem códigos
de conduta moral, de comportamento e de manifestações socioculturais.
O mito não deve ser entendido como uma manifestação falsa, ilusória e de um ídolo, como às
vezes se admite, quando tenta “explicar” a realidade, ainda não justificada pela razão e pelo estudo
objetivo do fato analisado com critérios científicos.
O entendimento como uma manifestação dessa forma é uma concepção reduzida do mito,
inclusive com certo preconceito quando se desqualifica o desejo de dominação, implícito no mito, para
afugentar o medo e a insegurança, sem obedecer à lógica ou quando essa expressão é atribuída aos
povos primitivos e às pessoas menos instruídas de uma sociedade.
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O rige n s e e vo lu çõe s da s ciên cia s e d a p esqu isa


Filó sof o s e cien t ist a s a o lo ng o da hist ó ria da civiliza ção

O mito pode ser visto como uma narrativa ou representação de um fato heróico com um fundo
de verdade, porém, com aportes do imaginário coletivo; pode ser compreendido como um relato
simbólico que passa de geração para geração dentro de um grupo, que narra e “explica” a origem de
certos fenômenos, acidentes, instituições, costumes sociais ou, ainda, uma exposição alegórica de uma
ideia, doutrina ou teoria filosófica.
Essa narrativa, relato ou exposição alegórica compreende valores sociais e morais, por vezes
questionáveis, porém decisivos para entender o comportamento de grupos sociais, com seus mitos, em
determinadas épocas, inclusive de povos e culturas modernas.
O mito não é uma mentira, pois é verdadeiro para quem o vive e passa a se constituir a primeira
atribuição do sentido da realidade, sobre o qual age a afetividade e a imaginação. Tampouco é uma
ilusão uma vez que o mito tem sua racionalidade, ainda que não seja lógica, quando trabalha com a
fantasia, com o imaginário coletivo. Não se trata de um ídolo, mesmo existindo uma relação entre o
mito e o ídolo. O mito é de um conteúdo maior; é o caso da figura do Super-homem que representa um
ídolo, porém sua história é mítica quando traduz momentos de fracasso no ser humano e, por outro
lado, tem sucesso; constitui-se a imagem da incapacidade do pleno sucesso, sem frustração
(MEUNIER, 1976; complementado).
O mito, em todos os tempos e culturas dos povos, tem sido e continua sendo um componente
indissociável da vida humana. Isso porque o homem, tanto dos tempos moderno como dos antigos, não
é só razão, mas, também, afetividade e emoção; são sentimentos que, com variáveis dosagens, são
colocados na compreensão da realidade.
Quando a razão e a lógica não são suficientes para se ter a compreensão necessária ou
satisfatória de um fato ou fenômeno, apela-se ao sobrenatural, ao mítico para descrevê-la, com certa
“coerência” em manifestações de passagens sociais e culturais como as do nascimento, casamento,
morte e infância - adolescência.
O mito não tem a função de explicar, com coerência, consistência ou evidência, o fato da
realidade, mas, a de “acomodar situações” e até tranquilizar aflições que decorrem da ignorância ou da
falta de uma referência adequada em relação ao fato.
Em outro sentido e para determinados campos do saber, o mito pode ser uma fonte de
informações valiosas para a ciência, pela riqueza de informações das mesmas e pela possibilidade de
compreender raízes de desejos, manifestações e interpretações, implícitas no mito. É o caso, p.ex., do
complexo de Édipo, um dos principais descobrimentos da psicanálise feito por Freud com base no
mito grego de Édipo. Esse complexo se verifica quando a criança atinge o período sexual fálico, na
segunda infância, dá-se conta da diferença de sexos e tende a fixar a sua atenção libidinosa em pessoas
do sexo oposto, no ambiente familiar (WIKIPÉDIA, 2005b).
A própria ciência pode, indevidamente, invadir e até se constituir ou identificar com um mito
quando por determinadas circunstâncias (omitidas), o cientista acredita que a ciência possa ser
desenvolvida à margem da sociedade e de seus interesses; que a solução cientifica - tecnológica seja
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Fundamentos da pesquisa
Volume 1

suficiente para resolver todos os problemas do desenvolvimento, do bem-estar social; e que a ciência
mantenha total objetividade e neutralidade, entre outras crenças e mitos.
Acreditar na total objetividade e neutralidade da ciência “mito” não se relaciona com uma das
proposições centrais da ciência “normal”: a objetividade e neutralidade da observação: a observação
pode e deve ser feita sem qualquer antecipação especulativa e sem diretriz teórica preconcebida que
possa induzir o cientista; a mente do pesquisador deve estar “limpa” de ideias e influências; não deve
ter nada em vista, a não ser a observação pura e evidente.
Deve-se adiantar, sem entrar em detalhes, que o mito, enquanto processo vivo de compreensão
da realidade surge como uma verdade de ordem sobrenatural. Portanto, não se trata de uma verdade
científica, de uma verdade filosófica (...), com fundamentos em explicações racionais, com coerências
lógicas e com “garantias” de testes – prova de argumentações, entre outras exigências a que se submete
o fato, a observação, a hipótese, a teoria (...) da ciência.
A verdade do mito é intuitiva ou percebida de maneira espontânea (KURY, 1990), sem exigência
da comprovação em evidências ou observações, nem de causa para um efeito, mas, apenas pela
simultaneidade de fatos como no caso de, p.ex., a estrela Sírus se levantar, em certo dia, um pouco
antes do nascente; a esse fato, segue-se a semeadura do trigo nas margens do rio Nilo; ao terminá-la, as
águas crescerão e o trigo germinará.
Na intuição e por definição, tem-se o ato de pressentir ou de ver um fato de maneira diferente
daquela normalmente visto pela maioria das pessoas.
O mito é a adesão de um fato, objeto (...) às crenças como nos casos de, p.ex., as origens de
técnicas, em que o mito de Prometeu roubou o fogo dos deuses para dá-lo aos homens, seus
protegidos, os mortais; de instrumentos como, p.ex., a enxada, o anzol, a lança e espada; e da proteção
e origem do ser humano como, p.ex., o mito de Pandora “aquele que possui todos os dons”:
características boas e más nas almas dos animais, colocadas no peito do homem com vida, sentido
espiritual e sabedoria, para socorrê-lo; era o animal nobre e espiritual criado por “aquele que prevê”, o
Prometeu, de argila, águas (...), à imagem dos deuses; tais imagens arquetípicas e míticas estão
ligadas, segundo alguns pesquisadores (entre outros, ALVES, 2005), à psicologia analítica,
constituindo-se, como no caso do mito de Édipo, fonte de informações.
O mito é uma pré-reflexão de emoções e afetividades com tal força que é capaz de se estender na
realidade vivida, àquela que é objeto de estudo, no conhecimento, e não apenas no campo religioso,
porém, sem a evidência racional e reflexiva característica da verdade científica, do conhecimento
científico.
O desenvolvimento da cultura humana, os valores dessa cultura e os saberes tradicionais,
aspectos em foco da ciência e objetos de pesquisa, misturam-se, em muitos casos, com o mito. Dessa
forma, ao resgatar essas culturas e ao evidenciar e potencializar os valores de saberes tradicionais, a
pesquisa poderá levar aspectos míticos, alguns substituídos por informações e conhecimentos técnicos,
com novos valores ou com valores agregados aos saberes tradicionais; essa é parte da essência do
conceito de pesquisa e desenvolvimento.
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O rige n s e e vo lu çõe s da s ciên cia s e d a p esqu isa


Filó sof o s e cien t ist a s a o lo ng o da hist ó ria da civiliza ção

Os desafios que cientistas, pesquisadores, políticos e gestores da investigação, financiadores da


pesquisa (...) enfrentam são numerosos e complexos em diversas dimensões. Uma dessas dimensões é
de orientação ou enfoque com (re)definições de conceitos. Nesse sentido e como exemplo, menciona-
se a necessidade de se redefinir o conceito de razão herdado do iluminismo e do positivismo
(WIKIPÉDIA, 2005a) dos séculos XVIII e XIX, quando passadas e esgotadas as tentativas
(re)sistematizadoras do século XX, com os neo empirismo, positivismo e racionalismo, entre outros. A
consideração de outras percepções da inteligência, além do universo racional matemático, na
construção da nova teoria do conhecimento, tem sido um dado significativo desse processo de
transformação.
Os métodos tradicionais de se fazer ciência continuam auxiliando o pesquisador, mas é
necessário insistir e fortalecer o desenvolvimento e valoração da criatividade e empenho do ator da
ciência fluxo, orientando seus resultados não apenas como instrumento de progresso, mas, em especial
de humanização, na medida em que requer, de forma inalienável, o resgate de dimensões como a ética.
A historia das ciências caberia mostrar como os cientistas e pesquisadores construíram,
culturalemnte e ao longo do tempo, as formas de ver - observar, de ler e registrar, de analisar e
interpretar – inferir e de narrar e se relacionar com a natureza; de como se relacionavam e organizavam
para o exercício da investigação, com notáveis exemplos.
É o caso, na antiguidade, da biblioteca de Alexandria, onde várias correntes de ideias se
cruzavam em um intercâmbio fecundo, com influências, apropriações, empréstimos etc., no
desenvolvimento de variados conhecimentos.
Na Idade Média, esses intercâmbios se acentuaram, mas foi a invenção da imprensa que mais
contribuiu e levou a sua intensificação permitindo, a partir do século XXVII, que as obras científicas
foram lidas por considerável número de pessoas e fossem estabelecidas frequentes correspondências
entre autores. Fundaram-se academias científicas e se publicaram periódicos como o Journal dês
Scanvans, Philosophical Transactions (...) que permitiu identificar, com relativa facilidade,
cientistas e pesquisadores.
No século XVIII se fundou a Encyclopédie com pensadores como Diderot e D´Alembert –
genealogia das ciências - (BUTTERFIELD, 1985; complementado).
Os narradores de fatos históricos das ciências, os compiladores, consideravam apenas os fatos de
maior importância, segundo suas perspectivas, dispensados aqueles que julgavam sem interesse. É o
caso, p.ex. da História da química, escrita pore Partington (1965), em que o autor trata com desprezo
a alquimia por não lhe merecer atenção. Apenas descobrimentos, técnicas e procedimentos dos
alquimistas foram levados em consideração, sem menção de disquisições sobre a matéria, suas
transformações e propriedades. Isso, à despeito de que em aproximadamente dois milênios a alquímica
ocupou posição fundamental, em diferentes culturas e civilizações, como a explicações essenciais dos
fenômenos de transformação da matéria.
O paradigma mudou com o surgimento da química e o abandono da alquimia. Entretanto, é
função do historiador da ciência investigar os vários paradigmas, mesmo aqueles superados, assim
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Fundamentos da pesquisa
Volume 1

como o processo de superação, de transição de um paradigma para outro. Isso não aconteceu, em
muitos casos, em narrativas históricas das ciências.
Com o surgimento da ciência moderna se tevê a preocupação de cuidar da história das ciências.
Com essa preocupação surgiram filósofos das ciências como F. Bacon. A importância da história para
esse pensador pode se compreendida pelas frases: “a verdade é filha do tempo” e a “(...) a necessidade
de uma história exata do saber, contendo as antiguidades e as origens das ciências (...), as invenções, as
tradições, os diversos tipos de preparação e organização; os momentos de expansão, as oposições, as
decadências, depressões e esquecimentos; com as suas causas e possibilidades (...) que dizem respeito
ao saber (...)”. Destacou o valor da história no desenvolvimento do conhecimento e elaborou um
esboço dessa história como uma pedagogia da ciência, uma tomada de consciência da experiência
adquirida pelas gerações anteriores.
Mas não foi apenas a história da ciência que teve seu reconhecimento recente. O próprio conceito
- sentido moderno da ciência teve sua origem, segundo Herrnshaw, citado por Gauer (1996), apenas no
início do século XIX. Porém, o conceito é muito mais antigo, tanto quanto sua história e as histórias da
sociedade e da filosofia.
As civilizações orientais chinesas, hindus (...) e as do Meio Ocidente tinham empreendimentos
da ciência e fundamentos científicos. Contudo, repetindo, foram os gregos os que assentaram as bases
da mentalidade científica e definiram conceitos como os de abstrato, generalizável (...) com base em
princípios de evidências, de testes (...). Tais bases e conceitos, apesar de limitados, foram essenciais
para provocarem mudanças e revoluções na evolução das ciências. Dessas revoluções se trata, de forma
simples e informática, na próxima seção.

2.3 Revoluções Científicas


Na “história” das ciências se têm diversas e variáveis teorias (descrições) sobre as revoluções,
em diferentes campos, tais como o político, com impactos nas ciências; o sociocultural, com interações
e desdobramentos nas ciências; e o econômico – industrial, com efeitos nas ciências: financiamento de
suas atividades e aplicação de seus resultados através da tecnologia; além do próprio conceito de
revoluções científicas.
São revoluções definidas como fases de progresso das ciências, com substituições, abruptas ou
graduais, de um conjunto de bases (suposições) diretivas por outro; de paradigmas tradicionais por
novos paradigmas durante as transições de uma época para outra. As quedas de paradigmas em cada
transição de uma época para outra, assinalaram períodos de crises e deram lugar às revoluções
científicas.
O debate a respeito das características da revolução científica é amplo, complexo e comporta
grande número de conceitos e definições. Entretanto, o que se aprese é uma síntese elaborada com base
de numerosos e diferentes pontos de vista, um deles é o de Koyré (1961; ver seção Alexandre
Koyré). Esse autor afirma que a revolução científica representa o abandono, pelo pensamento
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O rige n s e e vo lu çõe s da s ciên cia s e d a p esqu isa


Filó sof o s e cien t ist a s a o lo ng o da hist ó ria da civiliza ção

científico, de ideias baseadas em conceitos de valor, tais como perfeição, harmonia, significado e
objetivo, substituindo-as por um universo indefinido e até mesmo infinito, mantido coeso pela
identidade de seus componentes e leis fundamentais. Todos os componenete, nesse universo, são
colocados no mesmo nível de ser.
Outro conceito de revolução científica a ser destacado é o de Kuhn (1978) que o formulou com
base, entre outras ideias, na rejeição de transformação linear, em favor da ideia de revolução, com
sentido parecido ao de revolução política: quando se atinge o momento de uma revolução política, os
recursos disponíveis para resolver os problemas dentro do sistema político se esgotam e, pela
necessidade de transformar esse sistema, é preciso recorrer a meios externos à política como os de
persuasão e o da força – violência.
De forma parecida, quando se esgotam os recursos internos da ciência normal, é necessário
transformar o próprio paradigma que orienta as pesquisas, recorrendo a argumentos externos à ciência.
No período de “competição” entre paradigmas, estabelecem-se discussões de “surdos” a ponto de não
ser possível demonstrar que um paradigma é melhor que outro. É uma situação de não entendimento
não pode perpetuar-se. O autor define condições e estabelece conceitos para a se efetivar a transição, a
revolução científica, sintetizados na seção Thomas Samuel Kuhn.
Conforme diversos autores, a ideia da revolução científica como um fenômeno apenas europeu,
livre de influências externas, não é sustentável. Basta considerar os elementos levados à Europa
durante os períodos de navegações e ocupações de terras na América, na África e na Ásia, carregados
de conhecimentos provenientes de povos e culturas diversas, de lugares e tipos de naturezas diferentes.
Foram elementos que mudaram (ou que contribuíramn para a mudança) a mentalidade européia
herdada da Idade Média e sua visão de mundo.
Perante essa nova realidade era difícil resistir às contestações e reavaliações. Se a realidade do
mundo era tão diferente, como confiar em doutrinas enunciadas por quem ignorava tanta diversidade?
A resenha “histórica” que se apresenta não considera, apesar de relevantes, as influencias externas nas
revoluções científicas. Apenas se destaca o fato de serem revoluções ocorridas periodicamente, ao
longo da histeria das ciências, indicando-se como exemplos dessas revoluções:
a) Na antiguidade, o tratamento matemático na descrição dos movimentos dos planetas, iniciado e
sedimentado, para a época, pelos babilônicos e, depois (um novo paradigma), aperfeiçoado pelos
gregos. O sistema de classificação de seres vivos, introduzido por Aristóteles e, posteriormente,
aperfeiçoado por outros (outros paradigmas).
b) No período contemporâneo, a informática, na “sociedade conhecimento” e a nanotecnologia não
limitada apenas a conhecer a matéria em suas formas e funções elementares de átomos e
moléculas; de interações e organização (...), mas, a tomar decisões em qualquer escala e ter
acesso nas menores grandezas de milionésimos de milímetros para entender leis da natureza.
A mais importante revolução científica teve início com as descobertas de Galileu e Kepler, entre
outros pensadores do século XVII, quando a ciência, até então atrelada à filosofia, iniciou a sua
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Fundamentos da pesquisa
Volume 1

“independência” e passou a ser um conhecimento mais estruturado e prático (WIKIPÉDIA, 2006;


RONAN e ZAHAR, 1987; complementado).
As causas principais que provocaram a revolução científica dos séculos XVI e XVII, a partir de
Galileu e Kepler, tida como a maior de todas as revoluções por ter modificado a estrutura, a forma e a
função da ciência a ser repensada em relação à nova sociedade, não foram isoladas ou somente por
motivos próprios, além de sua indeterminação histórica em que se deu, com sua origem em fatos
anteriores. Essa colocação foi destacada por Williams e Williams (xxxc).
Para entender essa revolução ampla e complexa é preciso entender os elementos que a
precederam e, depois, para ela contribuíram, bem como as interações e suportes em conceitos vigentes
na época. Isto, porque, tão importante quanto, p.ex., entender o Estudo anatômico sobre o
movimento do coração e do sangue nos animais, de Harwey, o Diálogo sobre os dois maiores
sistemas, de Galileu, a Harmonices mundi, de Kepler etc., é preciso entender a época ou período em
que ocorreram, suas transformações e os meios que possibilitaram aos cientistas elaborarem seus
trabalhos; as atitudes e novos comportamentos frente aos antigos e novos conceitos, às antigas e
modernas filosofias (...) que vieram a influenciar ou determinar essa revolução.
Sem detalhes e apenas relacionando grandes grupos, apresentam-se, a seguir, as principais causas
da revolução científica dos séculos XVI e XVII, sintetizadas com base em informações de várias fontes
(WIKIPÉDIA, 2006; RONAM e ZAHAR, 1987; KOYRÉ, 1961; GUSDORF, 1988):
a) O renascimento cultural que trouxe como uma de suas características, o humanismo: a pregação
do senso crítico e a maior atenção às necessidades humanas, ao contrário do teocentrismo (crença
que considera Deus como o centro de tudo) da Idade Média.
A exigência de maior senso crítico permitiu observar mais atentamente os fenômenos naturais.
Com isso, registrouse crescente interesse pela observação por diferentes motivos como, p.ex., o
preconceito da magia natural e o desenvolvimento e auge da matemática.
O grande interesse e intensa busca que acompanhou o Renascimento pelos textos clássicos como
p.ex., a Geografia de Ptolemeu, o De rerum natura, de Lucrécio, o De medicina, de Celso
(...), entre outros.
O interesse por novas teorias como a do ímpeto que procurava explicar como um movimento
continuava, mesmo cessando a causa que lhe deu origem.
b) A invenção da imprensa (ver nota de rodapé 25) que, naquele período, teve papel fundamental na
revolução científica, além de minimizar erros de interpretações e cópias que deturpavam as
traduções de textos, possibilitou a impressão de textos em língua vernácula com uma maior
divulgação de material se comparado aos escritos em latim, de acesso limitado.
A invenção da imprensa de caracteres móveis pode ser considerada a origem da comunicação de
massas ao constituir o primeiro procedimento de disseminação de informações a partir de uma
única fonte para um alvo numeroso e disperso.
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O rige n s e e vo lu çõe s da s ciên cia s e d a p esqu isa


Filó sof o s e cien t ist a s a o lo ng o da hist ó ria da civiliza ção

c) A reforma religiosa com reformistas que pregavam, entre outras ideias, uma forma de existência
de Deus através de descobertas científicas e, por isso, tais práticas cientificas foram incentivadas.
d) O hermetismo; ao pregar ideias quase mágicas, mas que exaltava a matematização do universo
encorajou o desenvolvimento e uso da matemática para relacionar grandezas e demonstrar
verdades essenciais. O desenvolvimento e difusão da matemática criaram um “ambiente propício
para o desenvolvimento de um método científico mais rigoroso, crítico e que modificou a forma de
fazer ciência” (WIKIPÉDIA, 2006).
Segundo Koyré (1961), a revolução científica representou o abandono, pelo pensamento
científico, de ideias baseadas no conceito de valor, como perfeição, harmonia, significado e objetivo,
substituindo-os por um universo indefinido (e até infinito) mantido pela identidade de seus
componentes e por suas leis.



No texto a seguir se apresentam traços históricos da origem e evolução da ciência seguida da


origem e evolução da pesquisa, com ênfase em aspectos relacionados com o conhecimento científico e
os métodos de investigação. Apresentam-se, também alguns resultados (exemplos) científicos de
filósofos cientistas e de pesquisadores, com elementos gerais do pensamento filosófico de cada autor;
essa apresentação se inicia com dados biográficos e a relação das principais obras de cada pensador.
Não se trata de uma síntese da história da ciência nem da filosofia da ciência, mas, apenas
informações esparsas, suficientes para despertar a curiosidade do leitor que, se interessado em
determinado assunto ou autor, deverá buscar as obras pertinentes de história da ciência e de filosofia
da ciência para maiores informações e detalhes. O texto relaciona algumas referências para essa
pesquisa bibliográfica e documental.
Os pontos destacados nos traços históricos da origem e evolução se relacionam diretamente com
aspectos considerados no livro e se referem à evolução do pensamento científico e à evolução de
procedimentos do método científico, apresentados como incitações à reflexão crítica e ao
desenvolvimento do pensar crítico e criativo, habilidades necessárias do “bom” pesquisador.

2.4 Filósofos e “Cientistas” - Pesquisadores da Antiguidade


Wells (1968) descreve elementos da filosofia do pensamento primitivo, do homem no período
6,0 a 7,0 mil anos a.C.; elementos condicionados ao desenvolvimento da linguagem, instrumento do
pensamento ao registrá-lo, fixá-lo e intrumentá-lo possibilitando passar de ideias simplas para as
complexas. Sem esse desenvolvimento não haveria pensamento acima da experiência imediata.
Com o desenvolvimento da linguagem associado ao medo e à esperança, entre outros, surgiram
sentimentos como os de sinistro, de perigo e de evitar. Sobre tais sentimentos o homem primitivo
começou a trabalhar, sistematizando-os e conservando-os na sua mente.
46

Fundamentos da pesquisa
Volume 1

Conforme se desenvolvia a linguagem surgiram experiências e opiniões que pareciam dar força e
poder. Nesse contexto surgiu o duplo caráter no espírito humano: o de esconder e quardar e o de dizer,
contrastar e impressionar. A cada faze do desenvolvimento da linguagem correspondeu a possibilidade
de criar e intensificar tradições de tabus, restrições e ceremônias.
Com o surgimento de vida pastoril, dar-se-ia um considerával aumento dessas práticas. O homem
neolítico era nômade, mas diferente do homem primitivo que vivia da sismples busca, durante o dia, de
alimentos.
Com a atividade pastoril, foi obrigado a ter um senso de direção e de posição; vigiava o seu
rebanho e o sol durante o dia e as estrelas à noite, o ajudavam a dirigir as suas migrações; depois,
percebeu que as estrelas eram guias mais fixas do que o sol. A agricultura lhe permitiu buscar e
aprofundaro senso de estação; com ela começou a acertar o mês lunar como o ano solar.
Por outro lado, o homem neolítico começou a contar suas posses acumuladas; a usar varas
marcadas com sinais para indicar os númeroos e relacionar sobre a triangularidade de três, quadratura
de quatro etc., observando que algumas quantidades como doze, eram fáceis de dividir, enquanto outras
como treze, impossíveis. Provavelmente começou a contar o tempo pelo relógio de luas cheias e novas.
A contagem mais primitiva registrada na história é a das luas e gerações (WELLS, op. cit.).
A capacidade de dizer e contar coisas aumentou com o vocabulário e assim a simples fantasias,
as habilidades fetichistas e os tabus do homem paleotítico começaram a ser manipulados e
transformados: começou a contar histórias e surgiu a mentalidade tribal e com ela a tradição.
O homem peleolítico, muito mais livre, artista e selvagem do que o homem neolítico que
chegava à prescrição e à educação desde a infância para fazer ou não fazer coisas: ter mais palavras e a
atender mais as palavras: aumentar a capacidade mental; as palavras do homem paleolítico eram,
sobretudo, nomes, enquanto que no homem neolítico, estimulava-se a faculdade de pensar sobre certo
número de coisas, tecendo, com a linguagem, redes com combinações mais largas e eficientes.Foram
grandes e significativas as transformações do homem com a agricultura, através de milênios
entrecortados de flutuações e interrupções (WELLS, op. cit.).
É possível que a primeira civilização tenha surgido na Mesopotâmia, onde, em torno de 3.500
a.C., os sumérios (sumerianos) desenvolveram as primeiras bases para seus empreendimentos culturais,
orientados de acordo com a visão de mundo da época; orientados para a sobrevivência em formas como
a de linguagem e caça; de fundação, conquista nômade e refinamentos, característicos da região do
Tigre e Eufrates de assombrosa fertilidade. Foram os sumerianos o primeiro povo a construir cidades e
fundar uma civilização, com uma escrita, gravada em grés ou barro, pela qual se lhes decifrou a língua.
Naquela região e época acreditava-se, p.ex., que a dor seria uma forma de punição; que as
doenças diagnosticadas e prognosticadas por adivinhações resultariam de interferências de deuses ou de
demônios no ser humano; e que a cura (p.ex., com resinas, temperos e extratos de plantas como a
papoula (Papaver rhoeaus), com propriedades narcóticas e da qual se extrai o ópio) poderia ser
proporcionada por orações, exorcismos (praticados por sacerdotes) e sacrifícios oferecidos aos deuses
(TEIXEIRA e OKADA, 2006; p. 17).
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Na Babilônia, as ciências eram consideradas parte da religião e os “médicos” interagiam com os


deuses. Essa civilização antiga considerava-se o coração o centro das sensações e sede da inteligência;
o fígado, a sede das emoções; o útero, a sede da compaixão; e o estômago, a sede da astúcia.
(TEIXEIRA e OKADA, op. cit.). Desenvolvera a sua civilização, a sua escrita e a sua navegação por
um período três vezes mais longo que o que medeia o começo da era cristã e os tempos atuais; depois,
lentamente, foram cedendo e desapareceram ante os povos semíticos.
Nas Sagradas Escrituras há possíveis referências dessa civilização, quando se associa a
construção de uma grande torre de tijolos, em Nipur, ao deus principal El0lil (Enlil), com a lenda da
Torre de Babel.
No Egito antigo, acreditava-se que havia no corpo uma grande rede de vasos (Metu) que
veicularia a respiração e as sensações para o coração; acreditavam que as sensações dolorosas não
relacionadas aos ferimentos eram causadas pelos deuses ou pelos espíritos dos mortos que emergiriam
das trevas penetrando ao corpo pelas narinas e orelhas; por esse motivo, ocluíam os orifícios do nariz e
das orelhas de seus mortos, para evitar que os espíritos do mal penetrassem em seu interior e fossem
afetados para a reencarnação (TEIXEIRA e OKADA, op. cit).
O entendimento do processo da pesquisa passa pelo pensamento reflexivo, com a consequente
quebra da unidade do mito e com o surgimento da filosofia, da ciência, da pesquisa para explicar,
auxiliar, entender (...) fatos e fenômenos. Essa quebra ou passagem da consciência mítica para a
consciência filosófica e, depois, para o pensamento científico teve início na antiguidade em várias
partes do mundo: Ásia, Médio Oriente e América pré-colombiana.
Muitos estudos filosóficos da antiguidade tinham a preocupação de descrever certa genealogia de
conhecimentos e fazer compilações de ideais, com referências aos seus antecessores, registrando-as e
classificando-as. É o caso das descrições “científicas” (históricas) de matemática, escrita por Eudemo 6
e de medicina escrita por Menon na forma de descrições em que se misturavam conhecimentos míticos,
religiosos, filosóficos e “científicos”, com sentido didático, e onde a filosofia e a medicina eram muito
íntimas e fecundas (CORNFORD, 1989).
Tanto a ciência como a filosofia, tem os mesmos propósitos: a busca da racionalização do mundo
e a tentativa de substituir o mito como fonte de explicação, por vezes coexistido com o conhecimento
científico. Essa coexistência, segundo o sentido da antropologia filosófica, dá-se como se fosse uma
força moral concentrada em problemas do bem e do mal de uma religião monoteísta e onde a natureza é
abordada pelo lado racional, o da ciência, e não mais pelo lado emocional. Assim, o divino deixa de ser
mágico para se constituir poder de justiça com sentido ético.
No início, a investigação era uma mistura entre a filosofia (considerações gerais) e a ciência
(fatos observados, formulação de hipóteses etc.), conforme se deduz de análises de obras pré-socráticas
(SKLAR, 2005), sendo o filósofo o sábio que indagava todos os setores. Neste sentido, p.ex., os
filósofos Tales de Mileto e Pitágoras eram, também, geômetras; Aristóteles investigava física e
astronomia e Platão, na ordem do saber, estipulou o começo por conhecer a imperfeição da opinião
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Fundamentos da pesquisa
Volume 1

(doxa), depois se alcançaria um grau mais avançado das ciências (episteme) para só, então, atingir o
nível mais alto do saber filosófico.
Ao longo da história, com variáveis desdobramentos e influências, pode-se observar que as
ciências se constituíram numa atividade importante do desenvolvimento humano; no entanto, até o
século XVII, essa atividade teve pouca relevância para a vida. Diversos fatores entre outros, estruturas
sociais, econômicas e de poder contribuirão par a elitização do saber.
Considera-se o início da filosofia ocidental, no século VI a.C. na cidade de Mileto, Ásia Menor e
ponto de encontro entre o Oriente e Ocidente, com os primeiros filósofos milesianos Thales,
Anaximandro e Anaxímenes.
A síntese que segue destaca alguns aspectos, poucos, do nascimento da filosofia, em particular de
filósofos das ciências da Grécia Antiga (e de áreas de influências: Ásia menor e sul da Itália) dos
períodos arcaicos (séc. VIII a VI a.C.) e clássico (séc. V a IV a.C.).
Em outros povos e culturas, tais como China, Índia, Babilônia, Egito, América etc., houve,
também, consideráveis contribuições à filosofia e às ciências e tecnologias, ao método científico, sendo
propositadamente omitidas da síntese que segue, aceitando-se que que a filosofia ocidental tenha sido
einfluenciada por filósofos da Grécia Antiga; por filósofos iniciados no sécula VI a.C., em Mileto,
cidade no litoral jônico da Ásia Menor.
A síntese foi elaborada com base em pesquisa documental (CHAUI, 1998 e 2002; OS
PENSADORES: PRÉ-SOCRÁTICOS; FILOSOFIA DA CIÊNCIA, 2005; LLOYD, 1973;
COLLINSON, 2004; MARITAIN, 2001 e obras dos próprios pensadores relacionados na síntese, entre
outras fontes citadas no texto).

2.4.1 Thales / Tales (θαλες, Thalễs): 624 – 546 a.C.?


O Thales, originário, com controvérsias, da cidade grega de Mileto. 7 É tido como uma referência
(pai da filosofia, sábio ou sofos, em grega) e o primeiro pré-socrático filósofo e cientista (matemático e
astrônomo) de ascendência fenícia (segundo Heródoto, veio de uma das mais ilustres famílias, Tálidas,
da Fenícia, e se fez cidadão “Tales de Mileto”). Possivelmente viajou a Egito onde realizou estudos de
astronomia, geometria e práticas relacionadas à medição e manejo do solo e da água. De acordo com
Heródoto, ele previu um aclipse solar em 585 a.C. A Thales é atribuída a explicação lógica para a
ocorrência de eclipses. Conseguiu estabelecer, com precisão, a altura das pirâmides, medindo apenas a
sombra que projetavam em determinada hora do dia.
Nada deixou escrito, exceto a Astronomia náutica (segundo Simplício, citado por
ENCICLOPÉDIA...) e suas “teorias” e pensamentos são conhecidos por intermédio de Aristóteles,
Diógenes, Laércio, Heródoto, Teofrasto e Simplício, entre outros; um olhar e entender daqueles
que transmitiam seus ensinamentos. É considerado um dos sete sábios 8 da Grécia Antiga
(ENCICLOPÉDIA SIMPÓZIO, 2005).
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Filó sof o s e cien t ist a s a o lo ng o da hist ó ria da civiliza ção

Tales de Mileto foi o fundador da Escola Jônica, a primeira escola filosófica grega que orientou o
pensamento para procurar o princípio básico do universo, a matéria-prima de que eram constituídas as
coisas. Essa orientação era feita com base na racionalidade, portanto, sem recorrer à explicação mítica:
elaboro um conjunto de proposições que, apesar de não apresentarem numa sequência lógica estrita ou
correta, estavam, ainda assim, relacionadas umas coim as outras de modo dedutivo, método requerido
numa pova geométrica (COLLINSON, 2004; p. 9).
Segundo Aristóteles, Thales, junto com seus discípulos Anaximandro e Anaxímenes, foi o
primeiro filósofo proponente de um sistema da natureza desenvolvido em torno do elemento
fundamental, a água: todas as coisas têm sua origem na água e a própria Terra flutuava nela (antiga
crença agípcia, parte da tradição homérica), uma pespectiva que foi discutida por Aristóteles, tersentos
anos depois, em sua Metafísica.
A segunda grande afirmação de Thales sobre a natureza do universo foi a de que todas as coisas
estão cheias de deuses, sem se ter um claro significado, porém a sua acepção mais comum é a de que
algum tipo de força vital permeia o mundo, que todas as coisas são de alguma forma animadas,
constituindo parte de um ínico conjunto, de uma vitalidade unificadora.
Thales tinha como principais características: a observação cuidadosa da natureza
(filósofo da natureza: poderia parecer mais uma teoria das ciências do que uma filosofia, mas seu
conteúdo filosófico e importância, foram elucidados por Nietsche) e o uso da razão para
explicá-la e para buscar uma substância universal, o princípio primordial (o arché,
em grego, do qual tudo deriva, identificado na água) que comporia todos os
objetos do universo; ainda que simplista ou insatisfatória, pela primeira vez,
busca-se uma solução racional desligada do mítico-fantástico.
Tales de Mileto foi, também, astrônomo, matemático, professor, comerciante e, possivelmente,
político. A ele é atribuída a criação da federação de cidades jônicas para a defesa contra o império Persa
e a obra O guia de navegação pelas estrelas. Seus principais discípulos foram Anaxímenes e
Anaximandro.
Possivelmente Tales de Mileto viajou ao Egito, conviveu com sacerdotes de Mênfis (o mais
importante centro urbano do Egito; capital dos reinos Antigo e Médio) e Eliópolis (destacado centro
religioso do culto solar do Egito) e estudou astronomia (segundo Heródoto, previu um eclipse solar, no
ano 585 a.C.), geometria (seus conhecimentos lhe permitiram conduzir navios e medir as pirâmides;
agrimensura e construções), manejo do solo e água (canais; tratou de assuntos como, p.ex., explicar as
inundações do rio Nilo, com base na tese de que os ventos sopravam contra o Egito e isso elevaria o
nível das águas) e “filosofia” (descrição e análise racional do mundo, sem explicações mitológicas)
(ENCICLOPÉDIA SIMPÓZIO, op. cit.).
Dizia Tales que o princípio de todas as coisas era algo que por todos podia ser observado na
natureza: a água: physis / natureza ou substância primeira, como princípio da unidade material; desse
princípio surgia todo, o movimento e a vida; seria a fonte originária e o processo de surgimento: o que
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Fundamentos da pesquisa
Volume 1

veio primeiro. Observou que esse elemento, a água, tudo fazia crescer e viver, enquanto que a sua falta
provocava a morte. Verificou que a água podia ser encontrada em diferentes estados.
Foi o introdutor na Grécia da matemática oriental por ele desenvolvida e aperfeiçoada e de mitos
cosmogônicos, em especial provenientes do Egito, aos quais deu um sentido racional. Dedicou-se à
matemática (p.ex., dele permanece o teorema de Tales: quando duas linhas retas se cortam, os ângulos
contrários pelo vértice são iguais) e estabeleceu os primeiros postulados da geometria. Estudou as retas
e os ângulos e fez demonstrações formais e rigorosas sobre a geometria do círculo e do triângulo
isósceles. A ele se atribui o cálculo da altura de uma pirâmide baseado no comprimento de sua sombra,
em determinado horário do dia e a demonstração de como medir a distância de um navio que se
encontra no mar.
Atribui-se a Tales a primeira medição exata do tempo com o relógio solar (gnômon) e a
construção de calendários astronômicos (parapegmas) com informações meteorológicas, sendo o
primeiro astrônomo a explicar o eclipse de sol. Um dos aspectos fundamentais de Tales era a
possibilidade de reformulação e correção de teses propostas, permitindo, assim, progredir e serem
repensadas e até substituídas visões do mundo, com base racional.
Em estas como em outras proposições, desafiava a aqueles que conhecessem suas ideias a
demonstrar que não tinha razão, com vontade de discuti-las racionalmente. Seu desprendimento pela
riqueza se mostra na frase: Tendo-lhe um discípulo perguntado, qual o preço do seu ensino, respondeu:
“reconhece aquele que te ensinou, e o terás pagado”.
Exaltou os valores conforme seu tempo, atribuindo-se a ele frases, tais como:

“Eu dou graças à Fortuna, por três coisas: ser membro da espécie humana e não uma besta; ser
homem e não mulher; ser grego e não bárbaro".

"Tendo-lhe perguntado um adúltero, se podia jurar não ter cometido adultério, contestou: Não é
pior o falso juramento, que o adultério?"

"Perguntou-se lhe, O que é o mais difícil? Respondeu, conhecer-se a si mesmo! E o que é mais
fácil? Dar conselhos! E o mais agradável? Ter êxito! Que coisas têm visto mais extraordinárias?
Que um tirano chegasse à velhice. Qual é o melhor meio para levar uma vida pura e virtuosa?
Evitar o que se afeia nos outros!. Qual é o homem feliz? Aquele que tem o corpo são, o espírito
culto e a fortuna suficiente. Qual é a mais doce consolação do infeliz? Ver o inimigo mais infeliz do
que ele" (ENCICLOPÉDIA SIMPÓZIO, op. cit.).

Sob a influência e no lastro de Tales de Mileto surgiram na Grécia outros pensadores e se deu
início a uma tradição que gradualmente se afastou de concepções míticas na explicação de fenômenos
naturais. Alguns desses filósofos são apresentados a seguir.
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2.4.2 Anaximandro: 610 / 609 – 545 / 546 a.C.


Anaximandro era natural de Mileto, discípulo e sucessor, nas ideias, de Tales, segundo Teofrasto,
discípulo de Aristóteles, mas, pouco se sabe das relações pessoais entre ambos. As informações
biográficas (escasses) são de Platão, Aristóteles, Teofrasto e, depois, repetidas em relatos
doxográficos. É o primeiro filósofo de quem resta fragmentos de sua obra. É conhecido como segundo
filósofo da escola Jônica. Foi geógrafo, matemático, astrônomo, antropólogo e político.
Os doxográficos indicam que Anaximandro escreveu Sobre a natureza, primeira obra de
filosofia (lâmina de rolo de papiro), com maior número de detalhes e, portanto, de forma mais completa
do que a obra de Tales. Nessa obra, podem-se destacar dois interesses: o primeiro, um histórico
orientado para resolver a questão da variedade dos seres naturais; o segundo, sistêmico, com base no
problema do infinito.
O pressuposto geral da hipótese era a de que somente um princípio infinito, sem determinações
particulares, poderia exercer a função de substrato básico, do primeiro elemento de base de todos os
seres onde tudo se faz. Tal substrato não poderia ser um ser existente constatado pela experiência, algo
como a água, o ar, o fogo ou a Terra. São elementos que contêm propriedades contrárias entre si, razão
pela qual uns não se poderiam fazer dos outros; a água, p.ex., privilegia alguns caracteres, enquanto que
o ar, outros. Tampouco a morte, que nunca poderia ser total, seria explicada pelo infinito, porque a esse
infinito tudo retornaria ao perder qualquer de suas formas pela ação de forças contrárias
(ENCICLOPÉDIA SIMPÓZIO, op. cit.).
Apesar da escassez de informações sobre sua vida e obra, são-lhes atribuídas notáveis
contribuições científicas, entre outras:
a) instrumentos de medida do tempo e a construção de indicadores de horas para assinalar os
solstícios e equinócios (quadrante solar);
b) a distância entre as estrelas e o cálculo de suas magnitudes (iniciador da astronomia na Grécia);
c) o primeiro mapa de contornos da Terra e do mar,- primeiro mapa do mundo habitado;
d) a construção de uma esfera celeste;
e) foi historicamente o primeiro a expor a teoria da evolução dos animai; dizia: o homem e as
espécies precedem de um ser marinho escamoso comum. Foi responsável por formular a primeira
teoria cosmológica sobre a origem e formação do mundo.
Anaximandro considerava que a Terra tem a forma de um disco e que a essência do universo era
definida como um conjunto indeterminado contendo os contrários. Sugeriu que a primeira coisa não era
uma substância específica, mas, algo indefinido, que ele chamou de Ilimitado. Todo nascimento é
separação dos contrários, toda morte é reunião. O mundo surge de duas grandes injustiças: a primeira,
da cisão dos opostos que fere a unidade do princípio; a segunda, da luta entre os princípios, onde
sempre um deles quer tomar o lugar do outro para poder existir: o mundo é constituído de contrários,
que se auto-excluem o tempo todo.
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Fundamentos da pesquisa
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Anaximandro acreditava que o princípio de tudo é algo infinito, tanto no sentido quantitativo,
quanto no sentido qualitativo, uma substância primordial, o ápeíron, algo insurgido e imortal; algo sutil
que era ao mesmo tempo o fim das coisas e a razão porque se movia conforme as leis. Esse princípio
que se suponha era sutil, insurgido (...), sem fronteira nem limite ou definição, substituiu o princípio da
água proposto por Tales. Sua preocupação estava orientada para os comos e os porquês das coisas: no
nascimento do mundo de uma semente de quente e frio se separou do Ilimitado e a partir disso uma
bola de fogo girou no ar em torno da Terra, como o casco de uma árvore. Acreditava que o tempo era o
"juiz" que permitia que ora existisse um, ora existisse outro.
As coisas se encontrariam em constante movimento e o que nascia do infinito a ele retornaria na
morte, existindo certo balanço ou estado de justiça, possivelmente por meio de interações entre
oposições cósmicas de quente e frio, de seco e úmido.
O problema ontológico do infinito iniciado com Anaximandro foi tratado ao longo da história e
da filosofia das ciências.
Perante algumas de suas afirmativas (p.ex., nada se explicaria exaustivamente no campo limitado
do finito, sem uma redução ao infinito; o problema estaria na multiplicidade; e esta, como se explicaria,
senão pela a unidade? o finito se prenderia à multiplicidade; e como se explicaria o finito e toda a sua
multiplicidade, senão pelo infinito?) e dos objetivos (saber, se o infinito é possível e como deve ser
entendido para que seja possível) de sua teoria como explicadora da formação da diversidade das
coisas, abriu-se a questão das mudanças em si mesmas, tendo no hilemorfismo de Aristóteles (isto é, os
corpos constituídos pelos quatro elementos de Empédocles, - fogo, ar, água e terra, mas
acrescentando-lhes matéria e forma, imaginando, com essa teoria, explicar as mudanças substanciais
das coisas: aplicação aos corpos da teoria do ato e potência), uma formulação particular. Kant
apresentou outra solução ao problema ontológico do infinito (ENCICLOPÉDIA SIMPÓZIO, op. cit.).

2.4.3 Anaxímenes: 585 - 528 a.C.


Nascido em Mileto. Foi discípulo de Anaximandro (segundo Diógenes Laerte, em sua obra
Vidas de filósofos famosos: séc. III a.C.) e deu continuidade à ciência e à filosofia em curso, embora
discirdando de seu mestere Anaximandro: acreditava que o componente básico que mantinha todas as
coisas juntas era o ar e que todas as coisas eram ar denso ou rarefeito. É considerado o terceiro filósofo
da escola jônica. De sua obra restam apenas três reduzidos fragmentos, escritos em língua jônica, com
simplicidade e sobriedade; são escritos citados por Plutarco e Aécio.
Em sua obra, Sobre a Natureza, em estilo de prosa, afirmava: “como nossa alma, o ar, nos
mantém unido e nos controla, assim faz o vento [o hálito] e o ar guarda o mundo inteiro”; “o primeiro
princípio é o ar infinito, a partir do qual se geram as coisas atuais, passada e futuras, ou deuses e as
coisas divinas”
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Divergiu de Tales, proponente da água e de Anaximandro, com a proposta do infinito,


repetindo, ao definir o ar como elemento fundamental da natureza, de cuja complexidade se formaria
todas as coisas, e no qual todas elas seriam decompostas.
A ideia fundamental de Anaxímenes continua a mesma dos predecessores: tudo se formaria a
partir de um elemento primeiro, primeiro princípio entre os corpos simples, um elemento capaz de
subsistir por si só e que seria, portanto, divino. O ar não seria, todavia, finito como a água de Tales,
mas um princípio infinito, indeterminado e pela sua crescente densificação formaria todas as coisas;
pela rarefação, tudo reverteria ao estado anterior, infinito e invisível.
Acreditava nas formas do ar: enquanto ele permanece na máxima homogeneidade, seria não-
perceptível pela vista; mas, perceptível pelo calor, pela umidade e pelo movimento; estaria sempre em
movimento, porque ele não poderia mudar aqueles que se movem, se ele mesmo não estivesse em
movimento; mostrar-se-ia diferente, quando sutil e quando densificado; quando se adensa naquilo que
é mais sutil, faz-se fogo; o vento, de outra parte, é o ar em adensação; do ar em compressão se formaria
a nuvem; mais densificado ainda, formar-se-ia a água; mais ainda, a terra e com a maior compressão, a
pedra; seria infinito em tamanho, determinado em qualidade e capaz de tudo fazer nascer por meio da
condensação e rarefação do ar (ENCICLOPÉDIA SIMPÓZIO, op. cit.).
Quanto ao método, Anaxímenes recorria mais ao senso-comum do que a mitologia, porque esse
senso estava fundamentado na observação dos processos naturais. Voltou-se às evidências empíricas ao
considerar o ar como o princípio de tudo, por suas propriedades de flexibilidade e transformabilidade
de, p.ex., água pela condensação e fogo pela rarefação, pela sua importância biológica: respira-se o ar,
sem o qual não se vive; a alma como um sopro de ar e a partir dele, o espírito; “tudo acontece sem a
mudança da substância mesma do ar” por densificações e rarefações.
Como os outros filósofos milesianos, Anaxímenes contribui para o desenvolvimento da filosofia
ocidental e do pensamento científico baseado na razão, para a mudança do mito pela razão, como um
processo gradativo. Dedicou-se especialmente à meteorologia. Foi o primeiro a afirmar que a Lua
recebe sua luz do Sol. Explicava a ocorrência de terremotos ao levar em consideração às variações
entre as condições secas e úmidas na Terra.
Os antigos consideravam Anaxímenes a figura principal da escola de Mileto, conservando de seu
mestre Anaximandro a ideia de que o princípio do universo é indeterminado (infinito); este princípio,
como o afirmara Tales, é observável. Contrário ao seu mestre considerava que tudo provém do ar e a
ele retorna.
Os milesianos têm sido considerados por historiadores da ciência cientistas por observarem o
mundo e desenvolverem suas teorias com base em observações, mas, também têm sido considerados
filósofos, porque não apenas orientaram seu pensamento para terem explicações de como o mundo era,
mas, de como veio a existir; portanto, não pretendiam somente descrever os fenômenos e si descobrir
sua razão última.
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Fundamentos da pesquisa
Volume 1

Depois da escola jônica fundada por Tales de Mileto e que deu origem à filosofia da Grécia
antiga, seguiu, pela ordem cronológica, a escola pitagórica ou escola itálica fundada por Pitágoras de
Samos.

2.4.4 Pitágoras (do grego Πυθαγόρας): 571/70 a 497/96 a.C.


Um dos sete sábios da Grécia antiga: matemático e místico. Nascido, provavelmente, em Samos,
uma ilha grega do mar Egeu, junto à costa da Jônia continental – Turquia. Mas, sua origem é
controvertida e envolvida pelo legendário, o que torna difícil separar nela o histórico do fantástico. Para
alguns historiadores, era egípcio, para outros, sírio de Tiro ou, ainda, nascido em uma ilha do Mar
Tirreno. Sua biografia e obra contêm episódios lendários que mostram o alto apreço e influência que ele
tinha em sua época.
Para alguns historiadores, nada escreveu (registros diretos) e suas ideiascomo pensador místico,
filósofo (a ele se atribui esse conceito), matemático, geômetra (...) foram registradas por seus discípulos
(entre outros, Archytas no sul de Itália e Philolaos e Lysis em Thebas), sem nenhuma razão ou
evidência para se negar que o pensamento da Escola de Crotona tivesse a sua oriegem no que ele
ensinava. Para alguns historiadores, escreveu, entre outras obras, os tratados Sobre a educação,
Sobre a política e Sobre a natureza; poemas sobre a Alma, a Piedade e Helotal. Os
Mandamentos e Sentenças de ouro da qual se citam, para uma reflexão, os seguintes trechos:

Honra antes que nada aos Deuses imortais, na ordem que lhes foi assinalada pela lei. Respeita o
juramento. Honra também a teu pai e a tua mãe e a teus parentes próximos. Honra logo aos heróis
glorificados; venera assim mesmo aos Gênios terrestres, cumprindo tudo aquilo que é conforme às
leis. Entre os demais homens, toma por amigo aquele que se destaca na virtude. Cede sempre às
palavras de brandura e às atividades salutares.
Não chegues nunca, por uma culpa leve, a aborrecer o teu amigo, quando isto te for possível; porque
o possível reside próximo do necessário. Saiba que estas coisas são assim, e acostuma-te a dominar
estas outras, a gula primeiramente, e o sonho, a luxúria e o arrebatamento.
Jamais cometas ação alguma de que possas envergonhar-te; nem com outro, nem tu particularmente;
e, mais que nada, respeita-te a ti mesmo. Pratica logo a justiça em atos e em palavras.
Não te acostumes a proceder sem reflexão em coisa alguma, por pequena que esta seja. Mas recorda
que todos os homens estão destinados a morrer; e chega a saber por igual adquirir e perder os bens
da fortuna.
A respeito de todos os males que tem de sofrer os homens por obras dos augustos fados do Destino,
aceita-os como sorte que tens merecido; sobreleva-os com mansidão e não te molestes por isso.
Convém te pôr-lhes remédio, na medida em que esteja em tuas mãos fazê-lo; mas pensa bem nisto.
Que o Destino evita às gentes de bem a maior parte destes males.
Multidões de discursos, mesquinhos ou generosos, caem ante os homens; não os acolhas com
admiração, mas tão pouco te permitas desviar-te deles, porém se te advertes que dizem algo de falso,
sobreleva-o com paciência e mansidão.
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O rige n s e e vo lu çõe s da s ciên cia s e d a p esqu isa


Filó sof o s e cien t ist a s a o lo ng o da hist ó ria da civiliza ção

Quanto ao que te vou dizer, observa-o em toda a circunstancia: jamais alguém, nem com suas
palavras nem com sua suas ações, possa induzir-te a que profiras ou faças coisa alguma que para ti
não seja útil; reflete antes de agir, para que não leves a cabo coisas insensatas, já que é próprio dos
desditados proferir ou fazer coisas insensatas. Não faças nunca, portanto, coisa alguma de que possas
ter depois lugar a te afligir. Jamais empreendas coisa que não conheças; senão deverás aprender;
tudo aquilo que é preciso que saibas, com o que viverás a mais ditosa vida. Não deves descurar da
saúde de teu corpo, antes com medida conceder-lhe a bebida, o alimento, o exercício; e chamo
medida a aquilo que; jamais possa prejudicar-te.
Acostuma-te a uma existência decorosa, singela, e guarda-te de fazer tudo aquilo que possa atrair-te
invejas. Não faças gastos inúteis, como fazem os que ignoram em que consiste o formoso. Tão
pouco sejas avaro: excelente é em tudo a justa medida.
Jamais tomes a teu cargo empresa que possa prejudicar-te, e reflita antes de obrar; não permitas ao
doce sonho que se deslize sob teus olhos, antes que hajas examinado cada uma das ações de tua
jornada. Em que falte? Que fiz? Que omiti do que deveria fazer? Principia a recorrer tuas ações pela
primeira de todas, e logo se achares haver cometido culpas, admoesta-te; mas, se houveres agido
bem, regozija-te. Que omiti do que deveria fazer?
Com ordem e com tempo, encontra-se o segredo de fazer tudo e tudo fazer bem.
Ajuda a teu semelhante a levantar sua carga, mas, não a carregá-la.
O que fala, semeia, o que escuta, recolhe.
Pensem o que quiserem de ti; faz aquilo que te parece justo.
Educai as crianças e não será necessário punir os homens.
Esforça-te para pôr em prática estes preceitos, medita-os; é preciso que ponhas amor neles e eles te
porão sobre a pista da virtude divina.
Não comeces a tomar sobre ti nenhuma empresa, sem pedir aos Deuses que a terminem bem.
Quando todos estes preceitos te forem familiares, conhecerás a constituição dos Deuses imortais e
dos homens mortais; saberás até que pontos diferem entre si as coisas e até que pontos se reúnem.
Conhecerás, assim mesmo, na medida da justiça, que a Natureza é em tudo semelhante a si mesma;
de sorte que não esperarás o inesperado, e nada estará já oculto para ti. Saberás igualmente que os
homens escolhem por si mesmos e livremente os males; míseros, deles!, não sabem ver nem
entender os bens que tem junto de si.

Pitágoras, depois de viajar pela Pérsia, Gália, Creta, Egito (...), fundou e liderou em Cróton,
(Crotona), na Magna Grécia (sul da Itália), onde viveu a maior parte de sua vida, uma instituição que se
dedicou à prática religiosa e ao estudo: ciência, ética e política, composta por sábios, seus discípulos:
escola pitagórica. Essa instituição transformou a vida política da cidade de Crotona e por isso mesmo
progrediu, mas, ao se tornar excessivamente aristocrática e teocrática, provocou uma reação popular e a
dispersão de seus membros. Naquela escola se fazia a análise de um objeto qualquer como, p.ex., um
cubo, cujas partes estariam compostas de planos; estes, por linhas e as linhas por pontos, dispostos
numa relação precisa que seja a mesma para todas as formas semelhantes ao cubo.
Acreditava na reencarnação da alma (metempsicose) e aparentemente conversava com alguns
animais, afirmando reconhecer neles a alma de um amigo falecido. Considerava o saber como o
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Fundamentos da pesquisa
Volume 1

principal instrumento da purificação religiosa: “só amando a sabedoria podemos nos colocar em
sintonia com a harmonia do universo”.
A escola Jônica fundada por Tales de Mileto, e que deu origem à filosofia grega, foi seguida pela
escola pitagórica, fundada por Pitágoras, destacada e diferenciada da Jônica, pelo racionalismo: o
sujeito seria a fonte de representações que constituiriam o conhecimento, sem ser limitado ao
conhecimento empírico, ao conhecimento que não tratava de conceitos puramente racionais. Isto,
porque, o racionalismo pitagórico compreendia noções, tais como as de espaço, tempo, lugar, ação,
espírito, essência e existência em elementos não empíricos. A ciência dos números era a base da
filosofia pitagórica que representava não apenas a harmonia e regularidade, mas o próprio princípio das
coisas.
A escola pitagórica, sob profunda influência mítica (esotérica; Pitágoras era místico, além de
matemático), tinha o foco e interesse pelos números e pelo estudo de suas propriedades; conceitos
como a soma de pares e ímpares e de opostos de limitado e ilimitado, expressavam as relações que se
encontravam em permanentes processos de mutações, criando a teoria da harmonia das esferas.
Acreditava-se, nessa escola, que o cosmo era regido por relações matemáticas e aos números
eram atribuídos significados míticos e religiosos; portanto, que o fundamento e causa de cada coisa,
residia no número, tendo uma dimensão especial, um ente intermediário entre a aritmética e a
geometria.
O que Pitágoras ensinava aos seus pares na escola por ele fundada ninguém pode dizer com
certeza, pois se estabeleceu como norma observar profundo silêncio. Entretanto, são conhecidas
algumas ideias como, p.ex., a aceitação do conceito universal da alma ser imortal; da alma que migraria
para o corpo de outras criaturas vivas, conforme registro de Dicearco, discípulo de Aristóteles.
Se a alma é imortal e se ela migra entre pessoas e outros tipos de criaturas vivas, então algo deve
permanecer. Daí se segue que, p.ex., ao matar e comer um animal poder-se-ia estar matando a nossa
própria espécie. Por conta disso, os pitagóricos desenvolveram prescrições relativas ao abate de
animais, bem como proibições destinadas a manter a pureza da alma (COLLISON, 2004).
Pitágoras reduziu o acorde musical a uma proposição matemática e, desse modo, chegou à ideia
de que “os números são o princípio, a fonte e a raiz de todas as coisas”. Da racional concepção de que
tudo era determinado segundo relações numéricas, passava-se a visão fantástica do número como
essências das coisas. Descobriu vários resultados matemáticos importantes, alguns perduram, tais como
o teorema de Pitágoras da geometria. A tábua de multiplicação de dupla entrada. Essa tábua podia
representar as ideias contraditórias; estava composta por dez princípios que governariam as atividades
humanas; esses princípios eram: o limitado e ilimitado, o ímpar e o par, o uno e o múltiplo, à direita e a
esquerda, o macho e a fêmea, o repouso e o movimento, o reto e o curo, a luz e a escuridão, o bem o e
mal e o quadrado e o retangular, descritos por Aristóteles. A tábua podia-se adaptar a qualquer lei de
composição.
Seus estudos matemáticos de Pitágoras eram de valor o que mostra como a ciência e a religião
estavam misturadas nos primeiros tempos. Segundo relato de Aristóteles, os números definidos foram
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atribuídos às coisas, como no caso, p.ex., do casamento representado pelo número cinco, resultado da
soma de três, o primeiro número masculino, e de dois, o primeiro número feminino. Os números
representariam, também, as formas das coisas: o um seria um ponto, o dois, uma linha; o três, uma
superfície;e o quatro, um sólido.
Pitágoras também estimulou o desenvolvimento de outras ciências; é o caso, p.ex., de seu
discípulo, o “médico” Alcmleton, estimulado a e estudar os órgãos dos sentidos; este, por dissecções
anatômicas, demonstrou que era o cérebro e não o coração o centro das sensações e da razão
(TEIXEIRA E OKADA, 2006; p. 19).

2.4.5 Heráclito (540 /550 - 470 / 480? a.C.


Nascido em Efeso, Jônia (Turquia). É considerado por muitos historiadores como o mais
eminente pré-socrático. Pai da dialética por formular o problema da unidade permanente do Ser (o Ser
é o Um, o primeiro elemento do princípio da dialética) diante da pluralidade das coisas particulares e
transitórias, isto é, da compreensão da multiplicidade do real. Acreditava na constante transformação
dos seres, em que tudo estaria em movimento e em acreditar nos sentidos; nada é, mas tudo está sendo
e o mundo é de contrastes
Mas, ao contrário de outros pré-socráticos, ele não rejeitou as contradições e buscou compreendê-
las nas mudanças, no devir (o segundo elemento do princípio da dialética). Foi o filósofo da evolução;
em consequência dessa ideia, todas as coisas são diferenciações produzidas pela discórdia ou pela
guerra de um princípio único em movimento, que ele imaginou na forma do fogo etéreo, vivo e divino.
Considerou o movimento como o movimento do Ser que afeta sua própria essência, e não como o
movimento no Ser. O movimento do cosmo como sendo um fluxo contínuo que não é “matematizável”.
Mostrou desprezo pelas massas e pelos princípios democráticos, mesmo morando em Éfeso,
colônia ateniense, mantendo-se distante da atividade política, em isolamento e oposição ao resto da
cidade. Esse comportamento, - altivo (desprezava a plebe e antigis poetas, contra os filósofos de seu
tempo e a religião), misantrópico e melancólico, proverbial em toda a Antiguidade. Esse caráter aparece
em seus escritos, em máximas como:

“um só homem vale por dez mil, se for o melhor”;


“todos têm o logos (pensamento, razão, inteligência... que governa o mundo), mas só os despertos,
os filósofos, o sabem”
“não nos banhamos duas vezes no mesmo rio”, “tudo flui, nada permanece” (...)

O comportamento de isolamento, de desprezo e de distanciamento da atividade política de


Heráclito foi evidenciado até em suas ações como a estranha forma com a qual, aos 60 anos de idade,
conforme narra a tradição, decidiu matar-se, sendo devorado por cães em praça pública de Éfeso e
coberto de esterco.
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Fundamentos da pesquisa
Volume 1

Heráclito estabeleceu sua filosofia na base de que o universo é uma eterna transformação, onde
os contrários buscam o equilíbrio a ser iniciado por: só o ser é e por ser é verdadeiro; contudo, a
verdade do ser é o devir, um princípio. Todas as coisas mudam sem cessar, e o que se tem em um
determinado momento pode ser diferente do que foi há pouco e do que será depois; dessa forma, não é
possível ser estático. O ser é múltiplo e constituído de oposições internas.
O que mantém o fluxo do movimento não é o simples aparecimento de novos seres, mas, sim a
luta dos contrários, de opostos ideais (a lógica pura) e reais (filosofia da natureza 9), cuja síntese é a
harmonia com sua unidade no infinito.
A harmonia é o absoluto devir, a permanente transformação que permite que cada partícula e
cada ser sejam diferentes de outros, não de qualquer outro absoluto, mas, de seu outro; assim, cada um
é conforme o outro esteja consigo, no conceito.
A essência da harmonia, da qual faz parte não apenas a diferença, mas o surgir e o desaparecer
(...) foi a base da sentença de Heráclito: o não ser é, por isso é o não-ser, por isso é o ser: a verdade da
identidade de ambos no princípio do devir, da mutação ou vir-a-ser. Dessa forma, os opostos são
atributos do mesmo objeto como, p.ex., o mel é doce (para os sãos) e amargo (para os que sofrem de
icterícia), possibilitando ligar o ser e o não-ser ao mesmo objeto. O equilíbrio de opostos seria a razão
universal (logos), a lei fixa que regeriam os planos cósmicos e humanos com base na harmonia
universal.
Heráclito concebeu o próprio absoluto como um processo, como a própria dialética, um princípio
tanto exterior (um raciocínio de cá para lá e não a essência da “coisa”) como imanente do objeto
(contemplação do sujeito). A intuição dessa lógica dialética, dois milênios mais tarde, foi elaborada por
Hegel e Marx, no século XIX.
Do princípio lógico ou universal de Heráclito se têm frases como: o ser não é mais que o não-ser,
nem é menos, portanto, o ser e nada é o mesmo e a essência de tudo é a mudança; o verdadeiro é
apenas uma unidade dos opostos; o entendimento que se tem é abstrato, isto é, do ser que é; tudo flui,
nada persiste, nem permanece o mesmo; segundo Platão, Heráclito: comparou as coisas com a
corrente de um rio - que não se pode entrar duas vezes na mesma corrente; tudo é devir; significa que
“não há um sujeito estável e permanente, idêntico a si mesmo”. Esse devir é o princípio, na expressão:
"O ser é tão pouco como o não-ser; o devir é e também não é".
As determinações opostas estão ligadas numa unidade; nela se tem o ser e, também, o não-ser;
dela faz parte não apenas o surgir, mas, também o desaparecer.

2.4.6 Parmênides: 515 ou 530 – 440 ou 460 a. C.?


Nascido em Eléia, ao sul da Magna Grécia. Foi o primeiro pensador a discutir assuntos relativos
ao Ser e a possibilidade de conhecê-lo, com posições opostas as de Heráclito ao negar o testemunho
dos sentidos e declarar que no mundo não há mudanças nem multiplicidade; a mudança, o movimento,
o vir-a-ser, bem como a diversidade das coisas, são apenas aparências; não se deve confiar nos
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Filó sof o s e cien t ist a s a o lo ng o da hist ó ria da civiliza ção

sentidos, pois o que se observa como as árvores crescem, os rios correm etc., mudanças que são ilusões
dos sentidos; a essência é uma, imutável que nega o movimento, sendo a razão a única forma de se
chegar à verdade, ao conhecimento.
Ideias, como a identidade absoluta do Ser, foram apresentadas em seu poema Sobre a Natureza
mediante o conhecimento do que seria verdadeiro, racional e universal: a alétheia, isto é, o não-
esquecido, o não-oculto, o visível aos olhos do corpo e do espírito, o verdadeiro, a manifestação do que
é ou existe tal como é.
Esse é o pensamento da filosofia da Escola Eleática, da filosofia de Parmênides, com ideias mais
metafísicas do que científica. Nessa Escola e filosofia, o caminho que é possível seguir, pela razão,
para atingir o Ser é Uno, indivisível, imutável e intemporal.
Para atingir o Ser, segundo Parmênides, seria necessário desvencilhar-se dos sentidos, pois o
verdadeiro não pode ser percebido pelo campo sensorial do conhecimento sensível, pela via da opinião
e dos sentidos os quais trazem apenas ilusões. O verdadeiro, nesse contexto, é fruto do pensado e da
razão; é o conhecimento racional; essa é a via da verdade e por essa via se deve transitar para conhecer
a verdade. Assim, segundo Parmênides, o “Ser que é pensado e que é verdadeiro existe, pois só é
possível pensar sobre algo que tem existência e pode ser nomeado, dito e persuadido; fora desse
caminho, pela opinião, o homem se afasta do verdadeiro”.
A opinião era outro caminho; o caminho do não-ser, do nada, do inominável e impensado, do que
deve ser rejeitado. O não-ser é o que se capta do campo sensorial com apenas ilusões; é o campo da
doxa, isto é, crença; relativo ao conhecimento que se sustenta em certeza injustificada; opinião;
conceito dogmatizado que não permite dúvida da incerteza, oposto a alethéia, ao Ser, à vida da
verdade, da razão, do indivisível, imutável e intemporal. Seria nessa rota que se deveria caminhar,
concluindo: "O Ser é e o não ser não é" (contrária à máxima de Heráclito), sendo esta a máxima que
deveria nortear todas as discussões ulteriores sobre o Ser.

2.4.7 Zenón: 495 - 430 a.C.


Nascido em Elea, Lucania, Itália. Continuo o pensamento de Parmênides. Especializou-se e é
conhecido por seus paradoxos (produziu cerca de 40 paradoxos); afirmava que para ir de um ponto a
outro primeiro se tinha que percorrer a metade do caminho; para percorrer a outra metade, primeiro se
teria que percorrer a metade da distância restante, mais um quarto do caminho; para percorrer o resto
do caminho, era necessário percorrer a metade do caminho restante, mais um oitavo e assim por diante;
dessa forma, nunca se atingiria o ponto final.
Outra versão do paradoxo é a da corrida entre Aquiles e uma tartaruga, parecida à de Esopo
(corrida entre uma lebre e uma tartaruga, o mais famoso dos paradoxos de Zenón), mas, com “moral”
diferente.
Um dos argumentos de Zenón contrários à pluralidade é o seguinte: um continuum como um
segmento de tempo pode ser subdividido em partes menores; esse processo de subdivisão pode se
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Fundamentos da pesquisa
Volume 1

estendido até o infinito ou não; caso ele possa continuar, ter-se-ia um número infinito de partes
compondo um segmento finito de tempo; caso não, ter-se-ia um segmento de tempo que não poderia
ser dividido; ambas alternativas seriam inaceitáveis: como pode um número infinito de subdivisões
estar compreendido em um segmento finito de tempo? Ou como poderia existir um segmento de tempo
indivisível?
Acreditava que o universo é uma unidade homogênea e que, portanto, não poderia existir o
espaço formado por elementos descontínuos. Demonstrava o absurdo da tese segundo a qual as
magnitudes constam de uma infinidade de pontos descontínuos; a soma dos mesmos deveria ser tão
pequena que não existiria uma magnitude; a segunda tese é a de que as magnitudes compostas de uma
infinidade de pontos contínuos, com determinadas magnitudes, de tal forma que a soma dos mesmos
poderia ser infinitamente grande.
Inventou a demonstração do absurdo, a partir de argumentações do adversário tomadas como
hipóteses e que mediante hábeis deduções conduziria o adversário a aceitar a tese da contradição. Seus
principais argumentos eram os contras da pluralidade como estrutura do real; da validade do espaço; da
realidade do movimento e da realidade do transcorrer do tempo. Os sofismas de Zenón são traços que
se conservam do pensamento infinitesimal, desenvolvido muitos séculos depois por Leibniz.

2.4.8 Sócrates: 469 / 470 - 399 a.C.


Nasceu e morreu em Atenas governada por Pericles no esplendor da sua glória; condenado a
morte (a beber cicuta, - Coniun maculata, fazendo-o com serenidade, após a última discussão com seus
discípulos sobre a imortalidade da alma; suas últimas palavras foram: “lembrai-vos que devemos um
galo a Asclépio”). Morreu com 71 anos de idade, pela acusação de ateísmo, corrupção de jovens e pelo
papel de consciência crítica e insistência de perguntas embaraçosas.
Desde sua juventude tinha o hábito de debater e dialogar com as pessoas de sua cidade,
engajando-se em muitos debates públicos, em especial com os sofistas sábios versados no
conhecimento prático e oratória e, ao contrário de seus predecessores, não fundou uma escola,
preferindo realizar seu trabalho em locais públicos como praças e ginásios, ensinando com a força do
exemplo, tanto no modo de viver quanto no de morrer. Nada escreveu e as informações que se tem
foram, em especial, apresentadas pelos seus discípulos Xenofonte e, em particular, Platão
influenciado por ele, desenvolvendo as ideias do mestre ao ponto de tornar-se difícil estabelecer limites
de onde termina o pensamento de um e começa o de outro. Contudo, certas ideias básicas, um método
(destaque para o elenchuis, refutação ou elucidação e questionamento de crenas edo modo de estabelcer
a verdade e revelar inconsistências) e uma abordagem específica são atribuídos a Sócrates
(COLLINSON, 2004).
É considerado o pai da tradição filosófica ocidental e sua filosofia refletiu o ideal do homem
grego de sua época, dedicado a sua cidade e obediente às suas leis, ainda que comprometesse a sua
vida: “é preferível morrer a ter a lei da polis descumprida”.
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Sócrates foi quem valorizou a descoberta do homem feita pelos sofistas, orientando-o para os
valores universais, segundo o pensamento grego. Postulou a dúvida metódica como princípio do
método, sintetizado como: nada deve ser considerado certo sem antes passar pelo tribunal da razão;
seria "o meio de se passar de uma verdade de ordem espontânea para uma verdade de ordem reflexiva;
de uma verdade natural, para uma verdade científica". Como amigo da verdade e inconformado com as
inverdades de seu tempo praticou uma filosofia investigativa e reflexiva. Acreditava que a
incapacidade para encontrar respostas completas e adequadas aos problemas não era justificativa para
se conformar com a ignorância ou se limitar ao aparente.
Acreditava que o objeto da ciência não era o sensível, particular e o indivíduo que passa; devia
ser algo inteligível, o conceito que se exprime pela definição. Tal conceito seria obtido por um
processo dialético, a indução, consistente em comparar vários indivíduos da mesma espécie, eliminar-
lhes as diferenças individuais, as qualidades mutáveis e reter-lhes os elementos comuns, estáveis e
permanentes a natureza e essência da coisa. Dessa forma, a indução socrática não teria o caráter
demonstrativo que se tem no moderno processo lógico, que vai do fenômeno à lei, do particular ao
geral (...), mas seria um meio de generalização, que remonta o indivíduo à noção universal.
Enquanto os filósofos pré-Socráticos, os naturalistas, procuravam responder o que era natureza
ou o fundamento último das coisas, Sócrates, procurou a resposta em o que era a natureza ou a
realidade última do homem. Sua resposta era: a alma - psyché, porque seria a alma que distinguiria o
homem de qualquer outra coisa, dando-lhe, em virtude de sua história, uma personalidade única. Pela
psyché era possível entender a condição: racional, inteligente e ética, isto é, a consciência e a
personalidade intelectual e moral do homem. “Relacionava a busca da verdade com a busca do
conhecimento: o agir mal é não saber”.
Defendia que os detentores do conhecimento deveriam compartilhá-lo gratuitamente com as
outras pessoas, pois o saber é recebido gratuitamente e dessa forma não deveria ser trocado por
dinheiro. A busca da verdade, a busca do conhecimento era uma questão ética a ser orientada para uma
vida melhor. Seu interesse profundo e persistente estava voltado para as questões éticas e humanas às
quais dedicou seus esforços após a resposta do Oráculo de Delfos ao pronunciamento de Xenofonte,
no sentido de que nenhum homem vivo era mais sábio que Sócrates. Após disso se viu compelido,
segundo Platão em sua obra Apologia, a “persudir cada homem de que podia olhar para si mesmo e
procurar a virtude e a sabedoria antes de olhar para seus interesses pessoais, e olhar para o Estado antes
de olhar para os interesses do Estado; e esta deve ser a ordem a observar pelo homem” (COLLINSON,
op. cit.).
Enquanto os sofistas sustentavam que todo era relativo; o conhecimento era da própria
elaboração do homem; as opiniões mudam de indivíduo para indivíduo; “o homem era a medida de
todas as coisas”; Sócrates afirmava que existiam princípios absolutos, verdades eternas, leis morais
imutáveis e iguais para todos e que a vida humana merecia e devia ser vivida em obediência a tais
valores éticos. Para tal propósito, acreditava que “a filosofia não ensina a verdade, mas ajuda ao
indivíduo a descobri-la; não oferece soluções, mas apenas é um método para raciocinar a partir de si
mesmo; a verdade é uma conquista pessoal”.
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Fundamentos da pesquisa
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A incitação à introspecção, segundo Sócrates, era uma atitude permanente e podia ser sintetizada
no lema do conhecimento e padrão de vida do sábio: conhece-te a ti mesmo, máxima de vida e
manifestação para que a pessoa tivesse consciência de sua ignorância e um estímulo / oportunidade de
se aperfeiçoar na busca da sabedoria; bem como para pensar o bem viver que era o desejo da ciência
mediante a prática da virtude: sua tese: “não é possível conhecer algo sem reconhecer a própria
ignorância sendo a presunção de saber o maior obstáculo ao descobrimento: o ignorante supõe saber
tudo, enquanto que o sábio sabe que não sabe, admite que não saiba. Outra máxima que orientou sua
vida foi: “A perfeição moral consiste em nos elevar acima das fraquezas da natureza, em resistir aos
apetites orgânicos e tornar a alma senhora do corpo (...)”; nesse contexto seria necessário sacrificar os
interesses e os prazeres ao dever moral. Aristóteles escreveu que duas coisas podem seguramente ser
atribuídas a Sócrates: o raciocínio por indução e a definição de universais. Xenofonte, em Memórias
de Sócrates, relacionou conceitos (universais), tais como: o que é pio e ímpio; honorável e vil; justo e
injusto, sabedoria e ignorância, coragem e covardia e Estado e comunidade política, entre outros
(COLLINSON, op. cit.).
Sócrates foi o fundador tanto da ciência em geral, associando o conceito conhecimento ao de
virtude (ignorância ao de vicio) como, em particular, da ciência moral, mediante os conceitos de ética
e ação racional. Apesar da ênfase na filosofia moral, as discussões socráticas foram esclarecendo tanto
questões formais do conhecimento (lógica) como da validade de seu conteúdo (gnosiológico, ramo da
filosofia que se preocupa com a validade do conhecimento de forma mais abstrata do que a
epistemologia, em função do sujeito cognoscente; COMTE-SPONVILLE, 2003, p. 267). É mais
abstrata que a epistemologia (trata menos o conhecimento e mais as ciências em particular).
Defendeu a validade do conhecimento não feita com simples afirmação dogmática, mas, com a
prática do pensamento crítico, seguida do exercício da dúvida metódica sintetizada na frase sei que
nada sei, consagrada, depois, por Descartes. Foram discussões que levaram ao conceito de ciência
como um conhecimento voltado para o mundo humano e espiritual, com fins práticos (úteis) e morais
(felicidade).
O fundamento do método socrático para a prática da ciência partia do contínuo fluxo das coisas e
da variabilidade das impressões sensitivas de indivíduos em constantes transformações: seriam os fatos
da realidade objetos da ciência. Contudo e, apesar da impossibilidade de se ter um saber absoluto e
objetivo desses fatos e do ceticismo com respeito à cosmologia e à metafísica, admitiu que a única
ciência possível e útil fosse a ciência da prática dirigida para valores universais. Isso significava que o
agir e o conhecer humano, os objetos da ciência, deveriam estar baseados em normas objetivas e
transcendentes à experiência.
Definia o objeto da ciência como algo que não era sensível, nem particular e individual, mas, o
que fosse inteligível, um conceito ou ideia geral que se exprimiria na definição e se obteria por um
processo dialético. Esse processo seria a indução; um método (processo) de generalização que levaria o
indivíduo (o singular) à noção universal, capaz de gerar um resultado único, possível e com finalidade
prática e moral (bem-estar) de valor universal. O processo da indução compreenderia e diferenciaria
relações entre os dados para descobrir elementos comuns sem, contudo, examinar normas formais que
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regem esse processo. Coube aos modernos filósofos como Locke e S. Mill o desenvolvimento
(complementação) desse conceito, da indução.
É importante destacar que a análise de casos particulares para atingir um conhecimento geral
(processo indutivo), a crítica desse conhecimento e a elaboração do conceito definição (seus elementos
e como chegar a ela) representaram grande avanço no campo da metodologia de investigação.
No método socrático a discussão se desenvolvia em duas fases ou tempos: a ironia (que em grego
tem o sentido de perguntar) e a maiêutica (em grego significa arte de dar a luz; no contexto em que
Sócrates a utilizou possivelmente fosse uma homenagem a Fenáreta, sua mãe, que era parteira; seu pai
foi o escultor Sofronisco). A ironia ou dúvida fictícia e metódica consistia em perguntar, fingindo
desconhecer o assunto (aparente humildade de ignorância) até levar o interlocutor a contradição, refutar
a tese contrária e preparar a tese verdadeira. A maiêutica era um processo em que cada qual,
devidamente orientado, devia encontrar a verdade mediante suas próprias forças. Consistia em levar o
interlocutor a descobrir paulatinamente o conhecimento sobre o objeto de discussão, na suposição de
que as ideias existem, são inatas. Seria necessário apenas fazer recordá-las, despertar os conhecimentos
virtualmente possuídos. Neste sentido, nada seria ensinado ou transmitido, mas, apenas se ajudaria à
pessoa para obter de se opiniões próprias e limpas de falsos valores, acreditando que o verdadeiro
conhecimento deve vir de dentro (gerado e parido, engenhosa obstetrícia do espírito, segundo alguns
historiadores) e ser capaz de revelar o verdadeiro discernimento, de acordo com a consciência. Dessa
forma, o professor só podia orientar e esclarecer dúvidas, conduzindo o processo de aprendizagem, um
processo interno e tanto mais eficaz quanto maior for o interesse de aprender, de modificar o
comportamento pela aprendizagem.
Sócrates, por meio de perguntas, estaria destruindo o saber constituído, para depois reconstruí-lo
na procura da definição, do conceito. Posteriormente, seu discípulo Platão, o aperfeiçoaria e
transformaria em dialética.
A indução e a dedução desenvolvidas por Sócrates (há controvérsias acerca dessa origem)
fortaleceram à lógica, não apenas para estabelecer a distinção entre esses conceitos, mas, para associá-
los no silogismo 10. (há, também, controvérsias acerca da origem desse processo). Dessa forma, o
argumento que procedia de fatos isolados e sem organização, passou a ter origem em fatos semelhantes
e organizados. Foram os primeiros sinais ou suportes de uma argumentação ordenada.
A essência da doutrina filosófica socrática buscava, com base no seu método da ironia e
maiêutica, despojarem a pessoa da suas falsas ilusões de saber. Tinha como lema, repetindo: conhece-
te a ti mesmo, uma incitação à introspecção e à conscientização acerca da ignorância, o ápice da
sabedoria, que é o desejo da ciência mediante a virtude e que se constituiu um princípio de sua vida de
sábio e virtuoso, pois o objetivo constante de Sócrates era aprender a viver virtuosamente,
argumentando que cada pessoas buscava o próprio bem, podendo-se enganar ou ingnorar no que
consistia esse bem; ao buscar somente o bem, descobriria-se que este não poderai causar mal: todo
comportamento ilegal ou imoral é um errop e o conhecimento é a virtude. Outro lema, complemento ou
alternativa do primeiro, era: só sei que nada sei, pressuposto de seu método. Acreditava que com a
sabedoria do reconhecimento da própria ignorância se tinha um ponto de partida para procurar o saber.
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Fundamentos da pesquisa
Volume 1

Isto, por sua vez, debilitaria a vaidade e permitiria, assim, que a pessoa estivesse mais livre de falsas
crenças e mais susceptível a extrair a verdade lógica que estava dentro de sua psyché.
O conceito, o juízo e o raciocínio, considerados dentro de um enfoque formal, são assuntos da
lógica que foram desenvolvidos, em parte, por Sócrates. Um conceito implica sempre abstração;
também poderá ser o resultado de um raciocínio indutivo. Abstraídos os indivíduos, resta a essência
dos mesmos; então, a essência passa a ser o conteúdo de um conceito universal obtido por indução.
Mas, o conceito não expressa apenas a essência da coisa, aquilo que a define, mas, as sua própria
definição.
O conceito é complementado com as ideais reais, universais, segundo o pensamento de Platão,
bem como inspirado nos números reais da escola de Pitágoras e nos argumentos de Heráclito sobre a
verdade para a persuasão de que todas as coisas são sensíveis e que estão em um fluxo perpétuo. Dessa
forma, se há ciência e conhecimento de qualquer coisa, devem existir outras realidades, além das
coisas sensíveis; seriam realidades estáveis, porque não há ciência daquilo que se encontra em
perpétuo movimento.
As finalidades do diálogo socrático (período antropológico, quando a filosofia tratava questões
humanas: a ética, a política etc.) eram a catarse (purificação; segundo Aristóteles, era a purgação de
paixões por meio da arte que permitia a expansão em objetos fictícios; o método catártico como sendo
terapêutica psicanalítica; consiste em livrar o sujeito de suas perturbações, quer mediante revogação à
consciência da ideia cujo recalque as produziu, quer mediante a ab-reação) e a educação para o
autoconhecimento, acreditando que ensinar o homem é cuidar de sua própria alma.
Autoconfiante no que falava e acreditava com poder para mudar a opinião dos ouvintes e a
“dele”, mediante a retórica. O ponto de partida para o diálogo era o mesmo para todos: saber que não
sabia. Acreditava que as ideias fluíam mais facilmente nos diálogos do que na escrita.
A parte culminante da filosofia socrática é a moral em que ensina a bem pensar para bem viver
como o único meio para alcançar a felicidade ou a semelhança com Deus, fim supremo do homem,
mediante a prática da virtude. Essa prática que se dá e é motivada pela sua utilidade, é adquirida com a
sabedoria.
Considerou a moral como o fim da filosofia; no entanto, para atingir esse fim, era necessário
conhecê-la. Para construir uma ética era necessária uma teoria; mas, se o fim da filosofia é prático, o
prático depende, por sua vez, do teórico; isto, porque o homem tanto opera (prático) quanto conhece
(ciência), associando à moral no lema: virtuoso é o sábio, malvado, o ignorante. Nessa frase aparecem
vários conceitos que foram tratados por Sócrates, tais como ética, bem / bem-estar, e utilitarismo,
entre outros.
Sócrates é considerado o fundador da ética, um padrão do ser humano, de bom cidadão,
moralmente rígido sem radicalismo nem ascetivismo. A ética é do direito natural, como uma
propriedade que surge da natureza e se exprime no fundamento de normas positivas, acreditando que
na análise e operações das coisas, nenhum homem pode senão querer o bem e mesmo quando quer o
mal, procura-o na suposição de buscar um bem. Neste sentido a ética é finalística (teleológica,
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O rige n s e e vo lu çõe s da s ciên cia s e d a p esqu isa


Filó sof o s e cien t ist a s a o lo ng o da hist ó ria da civiliza ção

conservada por mais de dois milênios, até Kant) e toda a finalidade, como norma, tem como propósito
último a felicidade. O utilitarismo decorre da ética da felicidade: as coisas são úteis na medida em que
produzem a felicidade e são medidas pelo útil; o mal ocorre na ação que prejudica a felicidade e
conduz ao interesse pessoal.
Sócrates reconheceu, acima de leis mutáveis, a existência de uma lei natural, universal e fonte
primária de todo direito positivo, do direito formado pelo conjunto da legislação vigente em
determinada sociedade, nação ou estado, que contém regras de conduta e de organização coativamente
impostas, bem como expressão da vontade divina promulgada pela voz interna da consciência de cada
um. No balanço de valores hierarquizados estabeleceu, no nível inferir, as vantagens exteriores de
saúde, beleza, riqueza (...), seguidas dos prazeres do corpo e da sensibilidade ligados aos sentidos. A
seguir colocou a liberdade de paixões e instintos, submetendo-os à razão. No topo dessa escala colocou
a sabedoria e as virtudes suficientes para tornar o homem feliz.

2.4.9 Demócrito / Democritus: 460 a 370 a.C.


Nascido em Abdera na Tracia, como Protágoras. Escritor prolífico, porém, pouco conhecidos
(apenas fragmentos de sua obra). Contemporâneo de Sócrates, contudo, é considerado pré-socrático,
por ser seu pensamento influenciado pela physis. Deu grande importância às questões do
comportamento, a semelhança dos sofistas, bem como ao conhecimento.
Defendeu que tudo quanto existia era composto de pequeníssimas partículas indivisíveis (átomo;
a = negação e tomo = divisível), unidas entre si de diferentes formas, e que na realidade nada mais
havia do que os átomos (entidades físicas concretas / conceito matemático racionalista que eliminariam
as incongruências de Pitágoras) e o vazio onde eles se deslocavam. Essas ideias do atomismo foram
respostas às questões geradas pelas ideias da Escola Eleática, onse se argumentava que a realidade era
uma, inteira, imutável, incriada e ilimitada, sendo o não-ser impossível. Foi o primeiro grande filósofo
naturalista que achava não existiam deuses e que a natureza tinha as suas próprias leis. Calcolou as
consequências do atomismo ao considerar que todas as coisas consistem fundamentalmente de átomos
que se vovem no vazio e que o senso de percepção e o pensamento são explicáveis ao tomar como
referência o atomismo: diferentes formas, interações e uniões de átomos; os átomos da alma e do fogo
seriam esféricos sendo os mais móveis e penetrantes, sem explicar como poderaim se combinar para
compor a mente.
Tal vez a maior contribuição de Demócrito para a ciência não esteja na teoria dos átomos e do
vazio, nem no seu sistema cosmológico (período pré-socrático, quando a filosofia tratava da origem do
mundo e as causas das transformações na natureza), sob a influência de Anaxágoras, mas, na
preocupação para encontrar respostas a Parmênides: a negação da importância da ciência na sua época
e a necessidade de resgatá-la.
Segundo Teixeira e Okada (2006; p. 19), Demócrito aplicou “a sua teoria atômica à dor: a dor
resultaria da invasão do corpo por partículas em estado anormal de agitação, do qual resultaria
anormalidade na harmonia dos átomos”. Em sua teoria do conhecimento baseada na avaliação
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Fundamentos da pesquisa
Volume 1

mecânica da sensação e no suposto da alma ser composta por átomos como qualquer outra coisa,
acreditava que a sensação deveria consistir no impacto dos átomos externos sobre os átomos da alma.
Nesse caso, os órgãos dos sentidos seriam passagens (póroi ou poros) através dos quais os átomos
externos se introduziriam no corpo para gerar as sensações. No contexto teórico do conhecimento,
segundo Demócrito, os objetos da visão não são exatamente as coisas que se percebem, mas, apenas as
imagens (deíkela, eidôla) que os corpos emitem (emanações ou aporroai) constantemente.
Afirmava que por convenção (nómo) "há o doce e o amargo; há o quente e o frio; por
convenção”, porém, o que existe na realidade são os átomos e o vazio (etee). Pelo sentido, dizia, "não
se conhece nada de certo, mas, somente alguma coisa que muda de acordo com a disposição do corpo e
das coisas que nele penetram ou lhe opõem resistência”. Dessa forma, concluía: “na se pode conhecer
verdade da realidade (...), pois a verdade jaz num abismo”.
A concepção de Demócrito sobre o comportamento está baseada em proposições, tais como: “a
boa disposição ou bem-estar” “a felicidade não reside em rebanhos, nem em ouro”; “a alma é a moradia
do dáimon” (um aspecto da espiritualidade de Sócrates; a experiência de uma presença divina dentro de
si); “o melhor para o homem é levar a vida com o máximo de alegria e o mínimo de aborrecimentos” ;
“quem escolhe os bens da alma, escolhe os mais divinos; quem escolhe os bens do tabernáculo (isto é,
do corpo), escolhe os humanos”.

2.4.10 Hipócrates: em grego antigo, Ἱπποκράτης; 460 – 377 / 379, a.C.


Nascido na ilha de Cós (líder da Escola de Cós), Grécia. Segundo a tradição, ele pertencia a
asclepíade ou membro de uma espécie de corporação de médicos ligados por laços familiares ou
profissionais que ensinava medicina mediante pagamento; família que durante várias gerações
praticara os cuidados em saúde, rejeitando, porém, a superstição e as práticas mágicas nesses cuidados.
Era visto como “parente” de Esculapio, deus grego da medicina (RIBEIRO, Jr. 2003).
É indicado, em primeiro lugar, no marco inicial da medicina, separando-a da religião, da magia e
da filosofia: afastou a ideia de causas sobrenaturais para as doenças que passaram a ser interpretadas
como fenômenos naturais resultantes de condições biológicas do homem e se duas interações comk o
meio ambiente; é considerado o pae da medicina. Destacou a importância da observação clínica para o
diagnóstico e o prognóstico e estabeleceu normas para a anmnese e o exame físico do paciente,
descrevendo, com base em observações clinicas, várias doenças e condições patológicas.
É considerado o principal responsável pelo combate eficaz a uma epidemia de peste em Atenas,
ao perceber a importância de se incinerar todo o material infectado como forma de se prevenir a
doença. Em suas obras aparecem descrições clínicas pelas quais se podem diagnosticar doenças.
Muitos de seus comentários nos Aforismos são ainda válidos.
A visão integradora de Hipócrates permeou toda a sua obra, cujos textos mais conhecidos são
Aforismos e Juramento.
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A saúde, para ele, é resultado da harmonia entre os quatro humores [sangue, muco, bile amarela
e bile negra; a dor seria sentida quando um desses humores estivesse em déficit ou em excesso
(discrasia); TEIXEIRA E OKADA, 2006; p. 19] presentes no corpo humano e os quatro elementos
fundamentais (calor, frio, umidade e secura), bem como da interação da pessoa com o meio,
destacando quatro fatores: higiene, dieta, exercícios físicos e clima, além de outras circunstâncias a
serem levadas em consideração na avaliação da saúde.
Acreditava que o adoecimento obedecia a três estágios facilmente reconhecíveis por um
observador atento: degeneração (desequilíbrio) dos humores, cocção e crise. Conforme as quantidades
relativas presentes no corpo desses humores ter-se-iam estados de equilíbrio (eucrásia) ou de doenças e
dor (discrasia).
Em sua época caracterizada pela divisão em classes sociais uma delas as dos escravos
desprovidos de direitos, fez surgir regras como a do respeito pela vida humana seja ela de homens
livres, escravos, mulheres ou crianças.
Notabilizou-se, sobretudo, por defender a causalidade natural das doenças, escrevendo em A
doença sagrada:

“nenhuma doença é mais humana ou mais divina que as outras; todas têm uma causa natural”, rejeitando,
dessa forma, as concepções sobrenaturais ao afirmar: “o homem é uma parte do Cosmo e só a natureza
pode preservar e curar os seus males”.

ParaHipócrates, saúde significava o estado perfeito de harmonia das forças, seu completo
equilíbrio. Afirmava que o corpo é um todo harmonioso e cujas partes se mantêm numa dependência
mútua e onde os atos são solidários uns com os outros, comunicando-se. Dizia: “e xiste uma força
vital curativa com a qual o médico tem de contar”. Afinal, “não é o médico quem cura doenças: ele
deve ser o seu intérprete”.
Hipócrates não dava importância à classificação das doenças, levando muito mais em conta a
pessoa e seu contexto, seu meio ambiente. Quanto à terapia, era parco no uso de medicamentos,
interferindo somente nos momentos considerados necessários, quando a natureza o indicar. Ficou
muito conhecido no seu tempo por sua honestidade científica e na relação com os pacientes e seus
familiares, insistindo na necessidade de se trabalhar com a verdade e de se fazer a leitura do
prognóstico do estado de saúde. Com tais postulados de vida e a prática dos mesmos foram
estabelecidas as bases da ética nas relações entre médicos, entre médico e discípulos e entre médicos e
pacientes.
Hipócrates de Cós é o autor do juramento do médico. 11 Criticou o simplismo (além da
superstição) de fatores apontados como as causa de mortes e doenças defendendo que as doenças
tinham causas naturais. Acreditava que o cérebro era a sede da mente e, em relação a isso, escreveu:

Deveria ser sabido que ele é a fonte do nosso prazer, alegria, riso e diversão, assim como nosso
pesar, dor, ansiedade e lágrimas, e nenhum outro que não o cérebro. É, especificamente, o órgão que
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Fundamentos da pesquisa
Volume 1

nos habilita a pensar, ver e ouvir, a distinguir o feio do belo, o mau do bom, o prazer do desprazer. É
o cérebro também que é a sede da loucura e do delírio, dos medos e sustos que nos tomam, muitas
vezes à noite, mas ás vezes também de dia; é onde jaz a causa da insônia e do sonambulismo, dos
pensamentos que não ocorrerão, deveres esquecidos e excentricidades.

A obra de Hipócrates foi reunida por seus discípulos no Corpus hippocraticum / Coleção
Hipocrática, considerada como a enciclopédia médica da Antiguidade, composto por 72 livros
(diversos tratados) dos quais sete tratam de ética (Juramento, Lei, Da arte, Da antiga medicina,
Da conduta honrada, Dos preceitos e Do médico). Esta obra é considerada entre as primeiras que
abordam a medicina como ciência natural e experimental, separando-a da filosofia, da especulação
abstrata para colocá-la na trilha do estudo racional: recooreu à razão para avaliar dados extraídos da
experiência e estebleceu passos a serem seguidos, tais como: descobrir os sintomas ou sinais da
doença; depois, o diagnóstico ou identificação da moléstia; em seguida, a terapia ou os meios de cuar.
Propunha exercícios respioratórios, ginástica, dietas, massagens e sangrias, entre outros, como métodos
de tratamentos.
Na Coleção Hipocrática, além de definições de quatro humores, dos quatro elementos
fundamentais e dos fatores de interações do homem com o meio, considerou o cérebro como uma
glândula capaz de secretar muco para regular o calor humano e centro do pensamento, das sensações.
Estabeleceu o conceito de doença como um processo natural, sendo algumas intratáveis. Fundamentou
a racionalização da interpretação dos sintomas, valorizando o relato do doente. A cura seria baseada em
modelos físicos como, p.ex., substâncias como o mecon, possivelmente a base de ópio, e não o meio
espiritual. Entre as obras mais importantes do Corpus hippocraticum mencionam-se:
Aforismos, composto de sete seções; centrado no homem e atento à observação da natureza; o
primeiro aforismo na maxima latina de ars longa vita brevis observa que a vida é curta para
que aprender toda sua arte; em outro aforismo, afirma que as moléstias causadas por
vrepleção se curam por bdepleção e viceversa: cura pelo opostos, servido de base para definir
outros aforismos.
A doença Sagrada; um tratado sobre a epilepsia em que revela o conhecimento dominante de
anatomia na Grecia Antiga; indicada que a causa era a falta de ar que afetava o cérebro e as
extremidades através das veias.
As Articulações; descreveu o uso do chamado banco pipocrático para o mtratam,ento de
luxações
Tratado do prognóstico; o médico apenas poderá predizer a evolução de uma doença mediante
a observação de um número suficiente de casos.
O tratado dos ares, das águas e dos lugares; apontava os fenômenos climáticos e
geográficos como propiciadores de moléstias; no invés de atribuir uma origem divina às
doenças, definiu as suas causas ambientais; sugeriu que considerações como clima, água e
situação de um lugar em que os ventos fossem favoráveis seriam elementos para avaliar o
estado de saúde geral de uma população.
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Regime nas Doenças Agudas; enfatizava a importância da dieta e do estilo de vida do


paciente no estado de saúde e convalescência.
Outras obras importantes: Das Úlceras. Das Fístulas. Das Hemorróidas. Das
hemorróides. Epidemias. Da Cirurgia. Das Fraturas. Dos Instrumentos de Redução.
Dos Ferimentos na Cabeça. Da medicina antiga. Juramento e Lei.
Nos 72 livros do Corpus hippocraticum há aforismos (alguns com valores aproximados aos
atualizados), prognósticos, descrições clínicas de doenças como malária, pneumonia e tuberculoses e
epidemias relacionadas com fatores climáticos, raciais e dietéticos, de notáveis valores não apenas
históricos, mas, capazes de fundamentar a prática e forma de compreender o organismo humano,
incluindo a personalidade, na teoria dos quatro humores corporais que, segundo Hipócrates, eram:
sangue, fleuma, bílis amarela e bílis negra.
O Corpus hippocraticum não deixou de ser lido desde sua constituição e alguns livros que
integram essa copiosa coleção só deixaram de ser adotados como manuais pelos cursos de medicina de
todo o mundo ocidental a partir do domínio da perspectiva cientificista do século XIX.
O positivismo, em grande parte das manifestações intelectuais daquela época, encontrou no
Corpus hippocraticum um respaldo para algumas de suas ideias, além de trazê-lo para a discussão,
resgatando-o do universo das preleções técnicas, onde não mais cabia.
A partir de releituras atentas de Corpus hippocraticum se abriram novas perspectivas para a
história da ciência, e, por conseguinte, para a história do pensamento ocidental; essa contribuição,
desde Aristóteles, foi negligenciada, sendo que o Corpus ultrapassava o que dali poderia se valer à
medicina.
A ideia de que havia uma medicina pré-hipocrática apoiada no raciocínio e na observação,
paralela aos rituais de curandeiros, opõe o phármakon 12 à epaioidé, isto é, a mistura de raciocínios e
observações com rituais curandeirísticos (medicina pré-hipocrática; por ex. o Asu, curandeiro
especializado em remédios de plantas e com procedimentos terapêuticos empíricos, com a lavagem, a
bandagem e a imobilização), além de suscitar uma questão acerca do caráter fundador da medicina
hipocrática.
Nos textos de Hipócrates aparecem, além do conceito de enfermidade como desequilíbrio de
humores líquidos, outros conceitos como os de tratamento de infecções feito com o bisturi e a
cauterização, auxiliado por plantas medicinais; o ar puro; e a boa alimentação, entre muitos outros.
Da obra de Hipócrates se destaca o método hipocrático que se estrutura a partir da coleta de
dados na história do homem e pelo exame de seu corpo, utilizando-se a visão, a audição, o tato, o
olfato e o paladar, foram, portanto, a observação e a experiência, os traços de método de Cós.
É aceito que os princípios gerais da homeopatia, utilizados por Hahneumann, 13 foram
enunciados por Hipócrates, em se método (método hipocrático) sintetizado em quatro pontos, assim:
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Fundamentos da pesquisa
Volume 1

a) observar; grande parte da “arte médica” consiste na capacidade de observação feita sem nenhum
tipo de preconceito ou julgamento, com atenção e aberto aos relatos, explícitos e implícitos, do
paciente;
b) estudar o doente e não a doença; este princípio assentou as bases da holística; para a
compreensão da saúde / enfermidade não se divide a pessoa em sistemas ou órgãos, mas, avalia-
se em sua totalidade sintética;
c) avaliação com honestidade e devida atenção à leitura prognostica de causas do problema;
c) ajudar a natureza; a função precípua do médico é auxiliar as forças naturais do corpo para
conseguir a harmonia, a saúde.
Hipócrates foi, também, o primeiro a descrever formas alternativas de abordar a terapia, com
base em princípios, tais como:
a) Similia similibus curantur; semelhantes são curados por semelhantes, base terapêutica da
homeopatia.
b) Contraria contrariis curantur; contrários são curados por contrários, sendo este um princípio
seguido por Galeno que estabeleceu as bases da alopatia.
Exemplos de aforismos de Hipócrates são: “todo acontece conforme a natureza”; “a cura está
ligada ao tempo e às vezes, às circunstancias”; “para os males extremos, só são eficazes os remédios
intensivo”; “que seu remédio seja seu alimento, e que seu alimento seja seu remédio”; “a vida é breve,
a ocasião fugaz, a experiência é vacilante e o julgamento é difícil”; “ha verdadeiramenta duas coisas
diferentes: saber e crer que se sabe; a ciência consite em saber; em cre que se sabe reside a ignorância”.

2.4.11 Platão (Aristócles) (427 / 428 – 347 /348 a.C.


Nascido em Atenas, de família aristocrática, filho de Aristo (descendente do rei Codro, fundador
da cidade) e Perictona (descendente do reformador Sólon; CHAUI, 2002). Escritor prolífico no estilo
de diálogos. Foi o mais assíduo e fiel discípulo de Sócrates. Fundou uma escola de filosofia nos
jardins de seu amigo Academus. Seu método de investigação foi a dialética, com o sentido de conferir
e se entender com alguém; o ponto de partida de sua pesquisa filosófica foi a maiéutica socrática.
As obras de Platão podem ser compreendidas em três períodos: juventude, maturidade e velhice.
Do período da juventude se tem as seguintes obras:
Apologia de Sócrates: defesa de Sócrates no julgamento do tribunal de Atenas.
Críton: elogio à moral socrática.
Cármides: sobre a prudência.
Crátilo: sobre a linguagem.
Eutidemo: contra a erística.
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Eutifron: sobre a piedade.


Górgias: sobre a retórica como falácia.
Hípias menor: sobre a falsidade.
Hípias maior: sobre a beleza.
Íon: sobre a Ilíada ou os poetas.
Laquês: sobre a coragem.
Lisi: sobre a amizade.
Menexeno: sátira contra a retórica.
Mênon: sobre a virtude e o saber.
Protágoras: sobre o ensino da virtude.
Do período da maturidade de Platão são as obras:
Banquete: sobre o amor.
Fédon: sobre a imortalidade da alma; desenvolveu, a partir da noção de que o homem está em
permanente contato com dois tipos de realidade, a inteligível (concreta, permanente e imutável) e a
sensível (realidades dependentes e que afetam os sentidos), as hipótoses que fundamentaram o diálogo
de Fédon e que garantem as possibilidades de conhecimento e fornecem uma inteligibilidade relativa
aos fenômenos: teoria das ideias ou teoria das formas (WIKIPÉDIA, 2006e). Fedro: sobre a
linguagem e a retórica.
A República, obra em que Platão descreveu o diálogo (Politéia) de Sócrates ao pesquisar a
natureza da justiça e da injustiça, em nove livros; dessa obra, a primeira e significativa referência de
vida harmônica e fraterna para dominar o caos da realidade que passou a se constituir uma matriz
fecunda de inspiração, ilustram-se uns poucos pontos.
A educação (paideia) seria o ponto de partida e principal instrumento de seleção e avaliação de
aptidões de cada um; nessa matéria e como metáfora da educação e modelo de educação, apresentou o
Mito da caverna, 14 onde o conhecimento humano seria dividido em várias etapas, assim: o senso
comum, opinião (, doxa); a imaginação (, eikones); a crença, fé (, pístis); o
conhecimento científico, ciência (, episteme); o conhecimento dialético (,
dianóia); e a ideia (, eidos) ou a criação de um novo termo para alcançar a verdade; este recurso,
junto o doxa ou a sinação de um sentido filosófico a um termo usual da lingiuagem, eram os meios
para estabelecer a sistemática epistemológica e a forma de elevar o pensamento físico para as ideias,
não como entidade do pensamento, mas como essência do real (MARITAIN, 2001).
Para Platão, existe uma linha divisória entre o que é o verdadeiro saber e o senso comum; seria a
passagem da  (opinião, conjectura; um conhecimento subjetivo e possível, sem prova) para a
 (episteme; conhecimento “certo” ou que pode ser provado, empírica ou racionalmente,
isento de dúvida)
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Fundamentos da pesquisa
Volume 1

Outros temas abordados em A República foram: A alma humana (psikê) composta de três partes
(apetite, coragem e razão). A justiça (dikê) como a distribuição equânime da igualdade, porém
reconhecendo em cada seu valor na sociedade segundo a natureza das coisas. Propriedade e família
destacando os conflitos devidos às diferenças de classes rivais indicando, para a sociedade ideal, suprir
as desigualdades entre cidadãos.
Do período da velhice de Platão são destacadas as obras (CHAUI, 2005):
Crítias: considerada uma obra inacabada; nela delineou um estado agrário como ideal.
Filebo: sobre o prazer.
Leis: sobre o ideal político.
Político: sobre a monarquia.
Sofista: contra os sofistas.
Timeu: sobre a natureza física e cosmologia.
O ponto de partida da filosofia de Platão foi o conceito, o objeto da ciência, segundo Sócrates.
Esse objeto foi desenvolvido ao relacioná-lo com a realidade, até chegar à teoria das ideias.
Platão não buscava a verdadeira essência da forma física como o fazia Demócrito e seus
seguidores, mas a essência das coisas, em algo estável, nas verdadeiras causas. A essência do
conhecimento não poderia estar na essência das coisas que são corruptíveis, que variam (...). A verdade
deve ser buscada em algo superior, além do físico (no matefísico). Essa busca racional seria
comtemplativa, buscar a verdade no interior. Dessa forma, o conhecimento seria o conhecimento do
próprio homem e com fins morais: levá-lo à bondade e à felicidade; o autoconhecimento seria árduo e
metódico (WIKIPÉDIA, 2006e).
Vários problemas atormentaram os filósofos gregos em geral e, em particular, a Platão, um deles
era o fluxo da natureza, onde se verificaram que muitas coisas estão em mudanças constantes: as
estações se sucedem, as sementes se transformam em árvores, os planetas e estrelas percorrem o céu
noturno (...). Mas, como seria possível explicar os fenômenos naturais, se eles estão em permanentes
mudanças?
Como o mundo estava em constantes mudanças, parecia que não poderia ser objeto de
conhecimento científico. Entre os conceitos universais, imutáveis, necessários e eternos de Sócrates e
o mundo que é individual, contingente e transitório de Heráclito deveria existir, além do fenomenal,
outro mundo de realidades, com os mesmos atributos dos conceitos subjetivos. Esse mundo era o das
ideias.
Segundo Platão, a ciência era objetiva e a realidade correspondia ao conhecimento científico;
mas, entre elas existiam conflitos, pois, de um lado se tinha o indivíduo transitório e contingente; do
outro, os conceitos que eram universais e perenes. Imaginava que deveria existir outro mundo, o das
ideias, as quais não poderiam representar simples formas abstratas do pensamento, mas, realidades
objetivas mediante os atributos dos conceitos; as coisas percebidas (aparências, reflexos, cópias etc.)
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não poderiam constituir a verdadeira realidade contida na ideia eterna, única e imutável. A teoria das
ideias se aproxima à teoria do conhecimento e a uma concepção do mundo.
Uma das preocupações de Platão foi distinguir a verdadeira ciência e conhecimento científico da
simples opinião ou crença. Não se tratava de representações intelectuais e formas abstratas do
pensamento, mas, de realidades objetivas de que as coisas visíveis seriam apenas cópias; assim, p.ex., a
ideia de homem era abstrata, perfeita e universal, enquanto que os indivíduos seriam transitórios e
defeituosos.
Conhecer as ideias seria o mesmo que conhecer a verdade última, já que elas seriam os modelos
ou as causas de objetos sensíveis. Como tal, só se poderia falar de ciência acerca das ideias e estas não
poderiam residir nas coisas. Procurar a razão de ser das coisas obrigava a ir para além delas, ascender à
outra realidade distinta e superior: a filosófica com um fim prático e moral realizado intelectualmente,
mediante a especulação e o conhecimento ampliado da ciência.
Nesse contexto, a ciência não pode ser de objetos que rodeiam o ser humano e são observados
com os sentidos, mas, algo constante. Esse algo é de ideias com uma teoria central das formas, o mundo
das ideias com arquétipos imutáveis por causa da perfeição e estabilidade das formas, além do mundo
físico.
O sistema metafísico de Platão centraliza-se e culmina no mundo das ideias (o ser), contraposto
ao mundo da matéria (o não-ser). Entre esses mundos e como mediadores se encontram o Demiurgo
(divindade ou força criativa que deu forma ao mundo material; no gnosticismo, uma divindade
subordinada à Divindade suprema, algumas vezes considerada como o criador do mal) que plasma o
caos da matéria no modelo das ideias e as almas, uma comunicação do movimento e a vida, da ordem e
harmonia.
Diversamente de Sócrates que limitava a pesquisa ao campo antropológico e moral, Platão
estende a indagação ao campo metafísico e cosmológico. Ambos partem do conhecimento empírico,
sensível e da opinião para chegar ao conhecimento intelectual, conceptual, universal e imutável, com
uma diferença: a gnosiologia platônica tem caráter científico e filosófico.
Platão divide o mundo em duas partes com seus correspondentes níveis de conhecimentos. O
primeiro é o mundo das ideias; um mundo constante e real, associado ao conhecimento, derivado da
razão e não de experiências; um conhecimento intelectual universal e imutável. O segundo é o mundo
físico, onde o fluxo é permanente e a realidade é relativa, associada à opinião; nele, o conhecimento é
sensível, particular, mutável e relativo, embora verdadeiro, porém sem saber o que é, portanto, incapaz
de explicar o conhecimento intelectual, de entender um dever-ser e de compreender valores como os de
beleza, verdade e bondade afetivamente presentes no espírito.
Pelo conhecimento intelectual, o terceiro nível, sabe-se como as coisas estão e são porque devem
ser assim; é o conhecimento das coisas pelas causas; é a relação entre o conceito e a realidade da
ciência objetiva. Pelo conhecimento sensível se sabe como as coisas estão sem saber por que o estão,
podendo-se cair no erro sem saber quando.
74

Fundamentos da pesquisa
Volume 1

Platão valorizou as formas de debates e de conversação para alcançar o conhecimento: as pessoas


deveriam descobrir as coisas superando os problemas; a educação deveria desenvolver o homem (e a
mulher) moral, intelectual e fisicamente.
Os elementos da doutrina de Platão, o platonismo, como uma síntese de conceitos que marcaram
a diferença do aristotelismo, podem ser agrupados, segudo do Dicionário de Filodofia de Nicola
Abbagnano (1998), em:
a) A doutrina de ideias, segundo a qual são objeto de conhecimento científico entidades ou valores
que têm um status diferente do das coisas naturais, caracterizadas pela unidade e mutabilidade: é
o conceito de ideia; com base nele, o conhecimento sensível que aborda as coisas na sua
multiplicidade e mutabilidade, não tem valor de verdade e podem obstar na aquisição do
conhecimento autêntico.
b) A doutrina de superioridade da sabedoria sobre o saber, do objeto político da filosofia, com a
meta de realização da justiça nas relações humanas: é o conceito de sabedoria.
c) A doutrina dilética como procedimento científico, como método mediante o qual a investigação
consegue reconhecer uma única ideia, para depois dividi-la em suas articulações específicas: é o
conceito de dialética.

2.4.12 Aristóteles: em grego Αριστοτέλης (384 - 322 a.C.)


Nascido em Estagira (Stagiro), Calcídica, norte de Grécia, na corte de Macedônia. Estudou na
academia de Platão da qual foi membro durante 20 anos; fundou o Liceu (Escola Peripatética), uma
instituição dedicada à pesquisa especulativa e às ciências (lógica e epistemologia). Foi o filósofo
logicista e o cientista com maior influência no aperfeiçoamento - evolução da cultura ocidental.
Destacou-se com suas reflexões originais econsistentes que acabaram por configurar um modo de
pensar estendido por muitos séculos.
Aristóteles se destacou em diversas e muitas áreas dos conhecimentos, tais como: ética, lógica,
biologia, fisiologia, zoologia, história natural, metafísica e política, entre outras, além de criar
disciplinas científicas como a taxonomia biológica, cosmologia, meteorologia, dinâmica e hidrostática.
As contribuições que se destacam neste livro se limitam a pontos de poucas áreas do
conhecimento. Uma dessas áreas é a lógica formal, por ele concebida como um nstrumento, uma
propedêutica para as ciências e para o conhecimento que tem base no silogismo, no raciocínio
formalmente estruturado; nesse raciocínio se supõem certas premissas colocadas previamente para se
ter uma conclusão necessária. A origem dessa lógica se relaciona com a análise da força de convicção
do discurso com os argumentos de convencimento. Foi o primeiro filósofo da ciência criando a
disciplina de analisar problemas que se relacionavam com explicações científicas (LOSSE, 1972, p.
15).
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O rige n s e e vo lu çõe s da s ciên cia s e d a p esqu isa


Filó sof o s e cien t ist a s a o lo ng o da hist ó ria da civiliza ção

Arsitóteles foi um dos mais importantes pensadores que buscava o saber pelo saber, conforme se
verifica em suas obras, a Metafífica (na introdução). Em seguida apresenta e estabelece a distinção
entre três tipos de saberes: por experiências sensoriais diretas limitados aos objetos e eventos
individuais para reponder a que é; o técnico que compreende leis gerais e se orienta para responder o
como é; e o teórico ou conhecimento que se orientar para responder o por que e entra no campo da
ciência; afirmando, no cap. 2 de sua oba, Metafísica:

“Aquele que é mais exato e mais capaz de ensinar as causas é mais sábio, em todas as áreas do
conhecimento. E quanto às ciências, igualmente, aquilo que é desejável por si mesmo e com vistas
apenas ao conhecimento é mais próprio da sabedoria do que aquilo que é desejável com vistas aos
seus resultados” [com vistas à aplicação, à tecnologia].

O pensamento de Aristóteles culminou o processo iniciado por Tales de Mileto, entre outros
pensadores e foi orientado para rever e para corrigir falha, bem como para considerar imperfeições dos
filósofos anteriores, com novos procedimentos e proposições, determinando ou influenciando o
caminho do pensamento científico.
A lógica de Aristóteles tinha um objetivo metodológico. Tratava-se de mostrar o caminho correto
para a investigação, o conhecimento e a demonstração científica. O método científico assentava-se nas
seguintes fases:
a) a observação de fenômenos particulares; seriam as observações de como se sucederiam certos
fenômenos, da existência de propriedades (...),
b) a intuição dos princípios gerais (universais) a que os mesmos fenômenos obedeceriam; pela
indução, serão traduzidos em princípios explicativos;
c) dos princípios explicativos, a partir deles das causas dos fenômenos particulares, retornariam aos
fenômenos pela dedução.
Aristóteles considerava a investigação científica como a passagem (progressão) de observações
para princípios gerais, com retorno às observações. Nesse processo acreditava que o cientista deve
inferir (induzir) princípios explicativos a partir de fenômenos a serem explicados e, depois, deduzir
enunciados dos fenômenos com base em premissas compostas por esses princípios, conforme se indica
a seguir (LOSEE, op. cit.):

indução

a
Observações b Princípios explicativos
c
dedução
76

Fundamentos da pesquisa
Volume 1

Estava convencido que se esses princípios gerais fossem adequadamente formulados, e as suas
consequências corretamente deduzidas, as explicações só poderiam ser verdadeiras. Dessa forma, a
explicação científica seria uma transição do conhecimento de um fenômeno ou fato (a) até o
conhecimento de suas razões (c) compreendendo os métodos indutivos e dedutivos, depois de passarem
por princípios explicativos (b).
Quais foram as contribuições em áreas de conhecimentos como a ética, a lógica, a metafísica, a
biologia, a física e a política? No campo da lógica, foram múltiplas as contribuições de Aristóteles para
a criação e desenvolvimento, tais como: a separação da validade formal do pensamento e do discurso
da sua verdade material; a identificação dos conceitos básicos da lógica; a introdução de letras mudas
para denotar os termos; e a criação de termos fundamentais, tais como: “válido", "não válido",
"contraditório", "universal", "particular" (...) para analisar a lógica do discurso.
No sistema aristotélico, a ética é uma ciência menos exata na medida em que se ocupa de um
assunto que pode ser modificado, sem ser essencial e imutável, mas, obtido por ações repetidas,
disposições adquiridas ou hábitos que constituem as virtudes e os vícios passíveis de modificação. O
objetivo, na ética, era o de garantir ou possibilitar a conquista da felicidade.
A partir de disposições naturais e particulares, conforme fossem o caráter e a moral da pessoa, as
disposições seriam modificadas para que pudessem se ajustar à razão; essas disposições, em geral,
estariam afastadas do meio-termo. Dessa forma, algumas pessoas poderão ser muito tímidas, outras
muito audaciosas.
A virtude é o meio-termo e o vício se dá ou na falta ou no excesso de tais disposições, realizada
sempre no âmbito humano. Destaca a virtude especulativa ou intelectual, que pertence apenas a alguns
que, fora da vida moral, buscam o conhecimento pelo conhecimento: são os filósofos.
O estudo de condições em que se pode afirmar que um dado raciocínio é correto (válido), foi
desenvolvido por filósofos como Parmênides e Platão, mas foi Aristóteles quem o sistematizou e
definiu a lógica; foi o primeiro a enunciar os princípios a que deveriam obedecer ao discurso coerente;
tais princípios acabaram por serem consagrados na seguinte formulação:
a). Princípio da Identidade, sintetizado pela seguinte expressão: A é A; uma proposição tautológica
necessariamente verdadeira que pressupõe, como condição necessária, a existência de dois
elementos em sua forma reflexiva; este princípio indica o que as coisas são como p.ex., “um
pesquisador é um pesquisador”; uma vez definido o conceito de certa maneira, essa definição
deve permanecer constante ao longo do raciocínio.
b) Princípio da Não Contradição, sintetizado por: nada pode ser A e não A; A é A ou o que é. A é A
e é impossível que seja, ao mesmo tempo e na mesma relação, não-A. Este princípio indica que
nada pode ser e não ser ao mesmo tempo sob o mesmo aspecto, como, p.ex., em uma proposição
afirmar que o pesquisador é não pesquisador.
c) Princípio do Terceiro Excluído, sintetizado por: tudo é A ou não A; A é x ou é y sem uma terceira
possibilidade de ser; uma coisa ou é, ou não é, e não pode ser e não ser ao mesmo tempo e na
mesma relação; estre princípio define a decisão de um dilema: ou isto ou aquilo, mas não isto e
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O rige n s e e vo lu çõe s da s ciên cia s e d a p esqu isa


Filó sof o s e cien t ist a s a o lo ng o da hist ó ria da civiliza ção

aquilo. Afirma que as coisas e ideias contraditórias são impensáveis e impossíveis. Exemplo em
um teste de múlktipla escolha se escolhe entre duas opções: os está certo ou erstá errado.
O sistema lógico aristotélico, com esses princípios, tornou-se a base de estudos de lógica, de
investigação, da ciência (...) até o século XIX, quando esses princípios forma “complementados” (um
deles é o princípio da razão suficiente) para se definir uma base de princípios racionais utilizada na
pesquisa, conforme se apresenta e ilustra neste livro, no parate referente à metodologia de pesquisa.
A lógica, segundo Aristóteles, é um tipo de ferramenta geral para estudo e aquisição de
conhecimentos de todos os tipos, com base em:
a) o pressuposto de que o pensamento é essencialmente uma combinação de elementos, em que uns
conduzem à descoberta de outros;
b) o estudo das operações mentais deve atender apenas às formas como se realizam essas
combinações, sem considerar o conteúdo material dos elementos.
c) as operações mentais válidas (corretas) são aquelas em que estes elementos são utilizados de
forma rigorosa e em uma sequência precisa.
d) as operações mentais por mais complexas que sejam, resultam sempre da combinação de
conceitos em juízos, e a combinação destes, em raciocínios, sendo desse modo, que se ascende, a
partir do conhecido, ao desconhecido.
Seus escritos sobre o assunto são conhecidos como Organum / Organon, instrumento ou
ferramenta de pensamento, depois, denominado lógica; compreendem escritos sobre a teoria pela qual
os objetos são classificados de acordo com o que se pode dizer significativamente acerca deles.
Esse instrumento compreende regras do pensamento correto de modo a garantir o rigor da
demonstração, da conclusão, com sua característica básica, o silogismo como “um discurso no qual,
dada certa premissa, extrai-se uma conclusão consequente e necessária, por médio das premissas
dadas”. O Organon está dividido nas seguintes partes:
 Categorias; teoria dos tipos de objetos classificados;
 Tópicos: orientações de dialética ou de discussão;
 Refutações dos Sofistas. Interpretação: sobre os juízos.
 Primeiros Analíticos: silogismo em geral.
 Segundos Analíticos: demonstração.
Aristóteles considerava que todos os argumentos poderiam ser reduzidos à forma de um
silogismo, a um argumento pelo qual, a partir de um antecedente com premissas que se “ligam” a um
terceiro, poder-se-ia concluir um consequente em que se relacionam os termos antecedentes.
“Um discurso no qual, dada certa premissa, extrai-se uma conclusão consequente e necessária,
por médio das premissas dadas”.
78

Fundamentos da pesquisa
Volume 1

Essa ideia, ainda que não necessariamente verdadeira, é útil na avaliação de argumentos,
apresentada e ilustrada na parte que segue:

Todos os homens são mortais


(todo homem é racional)
Premissa maior (antecedente). A classe
Todas as pesquisas são processos racionais
que possui maior extensão.
(toda pesquisa é um processo
racional)
João Ninguém é homem Premissa menor (antecedente). A
A descoberta de (...) foi o resultado de pesquisa: classe que possui menor extensão.

Dessa forma, o silogismo aristotélico consiste em três proposições, duas das quais são premissas
e a outra, a conclusão de um argumento. São exemplos de silogismos:

Conclusão (consequente). O termo menor é


(logo) João Ninguém é mortal. aquele que está na premissa menor e é o
(logo) a descoberta de (...) foi um sujeito da conclusão; o termo maior é aquele
processo racional que está na premissa maior e é o predicado da
conclusão.

Na conclusão o termo menor está incluído no termo maior. O termo do médio está nas duas
premissas, mas não na conclusão.
Para que um argumento silogístico seja válido deve obedecer a um conjunto de regras intuitivas.
Essas regras exemplificadas são:
a) Possuir apenas (silogismo completo) três termos: o menor, o do médio e o maior, em que o termo
menor é ligado ao termo maior pelo termo do médio. Quatro ou mais termos poderão não
permitir obter uma conclusão silogística, conforme se ilustra com o seguinte exemplo:

O cão ladra. Premissa maior

Aquele grupo de estrela é o cão. Premissa menor


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O rige n s e e vo lu çõe s da s ciên cia s e d a p esqu isa


Filó sof o s e cien t ist a s a o lo ng o da hist ó ria da civiliza ção

(logo) aquele grupo de estrela ladra. Conclusão

Este silogismo, com aparentemente três termos, têm, de fato, quatro termos. Na premissa maior, o
termo “cão” foi tomado com sentido diferente (um animal), com extensão diferente do
considerado na premissa menor (o cão como um nome de estrela), trazendo como efeito a
incorreção da conclusão.
b) Os termos (os designativos de classes) maior e menor não devem ter maior extensão na
conclusão do que nas premissas. Dessa forma, se uma das classes for considerada, numa das
premissas, em apenas uma parte de sua extensão, enquanto que na conclusão, em toda a sua
extensão, tem-se uma falácia ao passar indevidamente de uma parte (indicada na premissa) para o
todo (indicado na conclusão).
A identificação da extensão do sujeito, em proposições aristotélicas, é relativamente fácil porque
vêm indicadas por quantificadores. Assim, nas proposições: “todo homem é mortal” e “toda
pesquisa é um processo racional” os termos sujeitos “homem” e “pesquisa”
são considerados partes de proposições universais (PU), enquanto que
“algum homem é casado” e “alguma pesquisa não é racional” os termos
“homem” e “pesquisa” tem sentido particular de proposições particulares
(PP).
O predicado é considerado particular em proposições afirmativas como “toda pesquisa é um
processo racional” e “alguma pesquisa é racional”; é considerado universal em proposições
negativas como “nenhuma pesquisa é racional” e “alguma pesquisa não é racional”. Com base
nesses conceitos se formula a regra da extensão do predicado que permite verificar a aplicação
da segunda regra em um dado silogismo. A regra de extensão é definida como:

Proposição afirmativa, quando o predicado é considerado particular.

Proposição negativa, quando o predicado é universal.

A aplicação da regra de extensão do predicado na segunda regra de


avaliação de um silogismo é ilustrada com o seguinte exemplo:

Todos os ditadores (PU) estão predeterminados a desaparecerem (PP)

Ora, nenhum democrata (PU) é ditador (PU).

Logo, nenhum democrata (PU ) está predeterminado a desaparecer (PU).

c) Como síntese: os termos maior e menor não devem ter maiores extensões na conclusão do que
nas premissas; o termo médio não deve aparecer na conclusão e deve ser considerado
universalmente ao menos uma vez; de duas premissas negativas ou de duas premissas
particulares nada se conclui; a conclusão segue à menor premissa; e as duas premissas forem
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Fundamentos da pesquisa
Volume 1

sentenças afirmativas, a conclusão não pode ser negativa. Se as premissas de um silogismo forem
verdadeiras e se a formulação ou modelo for válido, então a conclusão será verdadeira. Assim, o
silogismo válido que possui premissas verdadeiras constitui, portanto, uma prova daquilo que as
suas conclusões afirmam.
As etapas do processo indutivo aristotélico partem do pressuposto de que toda coisa particular é
composta de matéria e forma; a matéria é o que permite que um particular seja individual e único; a
forma é o que permite que um particular seja membro de uma classe de coisas similares.
Especificar a forma de um particular, segundo o processo indutivo aristotélico, é especificar as
propriedades que compartilha com outros particulares.
As generalizações das formas se obtêm da experiência sensível por meio da indução,
considerando dois tipos de proposições que partilham as características de proceder dos enunciados
particulares para os enunciados gerais. O primeiro tipo, o da indução, corresponde a enumeração
simples, base para a generalização, conforme se sintetiza a seguir (LOSEE, 1972):

Premissa Conclusão

O observado como O que se pressupõe que é verdadeiro da


verdadeiro de vários espécie a que pertencem os indivíduos
indivíduos O que se pressupõe que é verdadeiro do
Generalização
O observado como gênero e das espécies
verdadeiro de várias
espécies

Em um argumento indutivo por enumeração simples, as premissas e a conclusão possuem os


mesmos termos descritivos, conforme se ilustra:

a1 tem a propriedade P
a2 tem a propriedade P
....
an tem a propriedade P
 Todos os a têm a propriedade P

O segundo tipo de indução é o da intuição direta obtida dos princípios gerais, relacionadas, em
parte, com a capacidade de perceber o que é essencial nos dados da experiência, do que é sensível,
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Filó sof o s e cien t ist a s a o lo ng o da hist ó ria da civiliza ção

como no exemplo, de observações do brilho da Lua quando ela se encontra de frente ao Sol; a
conclusão é o de que a Lua brilha porque reflete a luz solar (LOSEE, op. cit.).
As etapas do processo dedutivo aristotélico utilizado, também, na investigação científica, com as
generalizações a partir de induções utilizadas como premissas para se terem as deduções de enunciados
sobre as observações iniciais.
Aristóteles, no processo dedutivo, estabeleceu uma restrição importante acerca dos tipos de
enunciados que podem aparecer como premissas e conclusões. Essa restrição diz respeito à enunciados
que compreendam uma classe (representada pelo símbolo P) incluída em outra (símbolo Q), com os
seguintes possíveis tipos (LOSEE, op. cit.):

TIPO ENUNCIADO RELAÇÃO

A Todos os P são Q P está totalmente incluído em Q

E Nenhum P é Q P está totalmente excluído de Q

I Alguns P estão em Q P está parcialmente incluído em Q

O Alguns P não são Q P está parcialmente excluído de Q

O silogismo como o paradigma da demonstração científica foi ilustrado com os seguintes


enunciados simbólicos ordenados (LOSEE, op. cit.):

Todos os M são P
Todos os S são M
 Todos os S são P

Aristóteles relacionou dez predicados ou categorias diferentes que constituem as dez maneiras
diferentes pelas qual o sujeito, no exemplo acima, todos os homens, pode se relacionar com o
predicado, no mesmo exemplo, são mortais, da mesma premissa; a proposição todos os homens são
mortais pertence à categoria de qualidade, enquanto que a proposição João Ninguém é homem
pertence à categoria de substância; diz que João Ninguém é. Outras categorias são as de: quantidade,
relação, lugar, tempo, posição, estado, ação e passividade. A questão que recebeu um tratamento mais
detalhado ou que foi mais discutida por Aristóteles foi: qual é o sujeito – substância?
Aristóteles, em uma de suas obras, a Metafísica, inicia o texto com a seguinte afirmação: por
natureza todo homem deseja conhecer (ou todos os homens, por natureza, desejam conhecer; observe-
se que o que conhecer: a realidade a ser explicada e como conhecer são questões que acompanham a
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Fundamentos da pesquisa
Volume 1

história da humaniodade) em seguida traça, em um texto analiticamente preciso, a distinção entre três
tipos de saberes, assim:
a) O conhecimento por experiências sensoriais e diretas, restritas aos objetos e eventos, com o
propósito de responder o que é.
b) O conhecimento técnico que compreende leis gerais e se orienta para responder o como é.
c) O conhecimento teórico, de domínio da ciência, orientado para buscar as causas e princípios dos
fenômenos e responder o porquê é.
Aponta Aristóteles em sua obra Metafísica que a pessoa que é mais exata e capaz de ensinar as
causas é mais sábia. Quanto à ciência, afirmava que aquilo que é desejável por si mesmo e com vista
ao conhecimento é mais próprio da sabedoria do que aquilo que é desejável pelos seus resultados.
O cultivo do saber pelo saber é um dos elementos mais importantes da cultura ocidental, da
metafísica aristotélica, para a ciência, para o conhecimento universal e certo dos fenômenos naturais,
dos números, das figuras geométricas etc., a ser buscado sem preocupações práticas. Esse ideal de
universalização e certeza se expressa por um método de investigação, com certo rigor. Um método
baseado na observação cuidadosa, controlada e sistemática, quanto possível, submetida ao crivo da
razão. Por esse método seria possível distinguir disciplinas científicas das disciplinas não-científicas ou
pseudocientíficas. Era uma visão diferente da apresentada por Platão, em que a ciência se fazia na
contemplação dos universais.
Deve-se acrescentar que a ideia de certeza na ciência (episteme), de infalibilidade da verdade
científica, foi modificada pela análise epistemológica empirista de Locke, cética de Hume e conjetural
de Popper (CHALMERS, 1982). Popper sugeriu entender o conhecimento científico como opinião
(doxa) em lugar de algo com certeza (episteme), indicando que as leis e teorias mesmas as mais
robustas, são, sempre hipóteses que poderão ser científicas se rejeitáveis pela experiência:
falseabilidade.
Segundo Aristóteles, a lógica é um instrumento, uma propedêutica para as ciências e para o
conhecimento, baseada no silogismo. Trata-se do raciocínio formalmente estruturado que supõe certas
premissas devidamente dispostas para que haja uma conclusão necessária; parte-se de uma premissa
universal (necessária, inerente, de ocorrência na maioria das vezes etc.) para outra particular; neste
sentido, o silogismo é contrário à indução que parte do particular para o universal.
Aristóteles denominou filosofia primeira ao que é conhecido como metafísica, a ciência que se
ocupa com as realidades, além do plano físico de fácil e imediata apreensão sensorial (conhecimento
por experiência). O conceito de metafísica aristotélica é complexo e considerado, em alguns casos,
como a indagação de causas e princípios; em outros, como a investigação do ser enquanto ser, a
substância; em alguns casos é tido com a ciência que investiga Deus e a substância supra-sensível
dessa investigação.
Nas diversas definições de metafísica, além da distinção dos tipos (ou etapas) do conhecimento,
aparecem vários conceitos como os de ato e potência, matéria e forma, substância e acidente e causas
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em vários “níveis”, tais como: causa material: aquilo do qual é feita alguma coisa; causa formal: a
coisa mesma; causa motora: aquilo que da origem ao processo em que a coisa surge; e causa final:
aquilo para o qual a coisas é feita.
A concepção aristotélica de física parte do movimento, elucidando-o nas análises dos conceitos
de crescimento, alteração e mudança. A teoria do ato e potência, com implicações metafísicas, é o
fundamento do sistema. Ato e potência relacionam-se com o movimento enquanto que a matéria e
forma com a ausência de movimento.
A biologia aristotélica é a ciência da vida e situa-se no âmbito da física ao estar centrada na
relação entre o ato e a potência. Teve seu início na zoologia, levando-se em conta o sentido etimológico
da palavra.
É de Aristóteles a primeira divisão do reino animal e a primeira teoria criteriosa sobre a origem
da vida com a formulação da hipótese de geração espontânea, superando a explicação religiosa e
mística (mítica) até então predominantes; essa teoria dominou os meios científicos por quase dois anos,
até a experimentação de Pasteur, em 1864, que provou que a vida surge a partir de outra forma de
vida semelhante.
Segundo o princípio da geração espontânea ou abiogênese de Aristóteles, alguns seres vivos se
desenvolvem a partir da matéria inorgânica em contato com um princípio vital, ou princípio ativo; essa
teoria começou a ser testada por Redi 15.
Em 1759 Wolff 16 lançou a teoria epigênese, com base no estudo do desenvolvimento de
embriões. Mais foi o químico e biologista francês Pasteur, após uma série de experiências, que
demonstrou não existir no ar ou nos alimentos qualquer princípio ativo capaz de gerar vida
espontaneamente. Abre caminho, com essa demonstração, para a biogênese, segundo a qual a vida se
origina de outro ser vivo preexistente (HALL, 1975).
Na filosofia de Aristóteles a política é o desdobramento da ética em que tanto a ética como a
política compõe a unidade de filosofia prática. Enquanto a ética se preocupa com a felicidade
individual do homem, a política se preocupa com a felicidade coletiva da pólis e, desse modo, a
política tem como tarefa investigar e descobrir quais são as formas de governo e as instituições capazes
de assegurar a felicidade coletiva dentro de uma constituição do estado.
Em termos gerais, os princípios e fundamentos da doutrina de Aristóteles, o aristotelismo que
passaram à tradição filosófica ou que inspiraram movimentos conexos como os da escola peripatética, o
aristotelismo medieval e o aristotelismo do renascimentos, podem ser sintetizados, confome dados do
Dicionário de Filodofia de Nicola Abbagnano (1998), em:
a) A importância atribuída por Aristóteles à natureza e o valor e a dignidade das indagações;
enquanto Platão pensava que tais indagações só poderaim atingir um graus de probabilidade
inferior ao conhecimento científico, Aristóteles considerava que nada há na natureza tão
insignificante que não valha a pena ser estudado: em todos os casos, o verdadeiro objeto da
pesquisa é a substância das coisas: esse é o sentido conceitual de sunstância.
84

Fundamentos da pesquisa
Volume 1

b) Os conceitos de metafísica como filosofia primeira e teoria da substância, assim


comofundamento da enciclopédia completam as ciências: é o sentido de metafísica.
c) A doutrina das quatro causas (formal, material, eficiente e final), doutrina do movimento, com
passagem da potência ao ato, que permite a interpretação de toda de toda a realidade natural.
d) A teologia com seu conceito do primeiro motor e do ato puro.
e) A doutrina da essência substancial ou necessária como base da teoria do conhecimento e da
lógica, compreendendo conceitos como os de alma, essência e ser.
f) A ijmportâncvia atribuída à lógica como instrumento básico de todo conhecimento científico.
As várias correntes do pensamento, ao longo da história, reportam-se a alguns desses
fundamentos como metafísica teológica, na Escola Medieval; como naturalismo, no Renascimento; ou
como espiritualismo, em algumas interpretações modernas.

2.4.13 Epicuro (341 a 270 a.C.


Nascido em Samos. Considerava a tarefa da filosofia como a de mostrar os meios para atingir a
felicidade. A busca da felicidade baseada na razão e no amor, sob o conhecimento filosófico, excluindo
qualquer explicação metafísica.
Pregava a imperturbabilidade e a serenidade diante das adversidades, tanto pessoais quanto
sociais; contudo, não como se fosse a participação em um processo coletivo de busca de bem e justiça,
segundo Platão, mas, como um esforço individual tendo em mente os prazeres vividos. Dessa forma, a
memória teria um papel fundamental dentro dessa ética, não só como possibilidade de reviver os
momentos felizes, mas, também de preservar o saber adquirido através da filosofia e,
consequentemente, a liberdade dela advinda. Daí a importância de manter acesa a sabedoria,
principalmente através da amizade que se cria pelo diálogo verdadeiro e a convivência harmoniosa.
Estes são, entre outros, aspectos doutrinários da Escola Filosófica Epícurista, fundada por Epicuro,
destacando-se, dentre suas características, a preocupação de subordinar a pesquisa filosófica à
exigência de garantir a tranqüilidade do espírito. As principais características dessa Escola, segundo o
Dicionário de Filodofia de Nicola Abbagnano (1998), são:

a) O princípio segundo o qual a sensação é os critérios da verdade e do bem, este último


identificado com o prazer: é o conceito do sensacionismo.

b) O preincipio do atomismo com que Epiocuro explicava a formação e a transformação das coisas
por meio da união dos átomos da alma.

c) O princípio do semiateismo, pelo qual Epicuro acrediotava na existência dos deusase, porém sem
nenhum papel na formação e governo do mundo.
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De conformidade com o pensamento de Epicuro o homem é infeliz por temer aos deuses e pelo
medo do futuro ao “sentir” a morte como algo inevitável. Diz que a filosofia não é pura a reflexão
sobre a morte, porque ela existe [é inevitável] enquanto se vive e não existirá após a morte. Ao afirmar
que “não há nada a temer quanto à morte” queria dizer que não se deve temer o que não está presente e
como ausente não se pode sentir; sofrer ao esperá-la constitui um erro e a causa da perda de serenidade.
Com base em que todo bem e todo mal reside na sensação e de que a morte é privação dela,
chega a noção correta da morte como o nada que torna alegre o fato da vida ser concluída com a morte,
não lhe atribuindo um tempo infinito, mas, subtraindo-lhe o desejo da imortalidade.
Não há nada de terrível na vida para quem tenha compreendido que não há nada de terrível na
morte. Ao afirmar que “pode-se alcançar a felicidade” expressava a vocação do homem para ter uma
vida feliz: não sofrer no corpo, não ter a alma perturbada, eis a fórmula epicurista da felicidade, sendo
preciso transformar o tempo de vida em tempo de felicidade. Acreditava na felicidade que flui de
dentro e, portanto, é construída a partir de um processo de libertação interior que exclui o medo e a dor
da vida.
A lógica epicurista subsidia sua ética na recordação do prazer; é com a sensação do prazer que se
pode retornar ao presente pela memória, isto é, o prazer resgatado no tempo para ser vivenciado em um
momento de dor. Em sua lógica concluía “nada provém do nada nem se reduz ao nada”.
Foi herdeiro da tradição atomística de Demócrito, afirmando que os átomos, com suas
qualidades intrínsecas à forma, peso e grandeza, são os únicos elementos de que se pode ter certeza,
explicando a múltipla variedade das coisas e do seu devir, pela combinação dos mesmos; estes, com
tais novidades, possibilitam as mudanças de uma ética não determinista. Em sua teoria do
conhecimento faz da evidência um fator de verdade e a fonte de todo saber, supondo que apenas o juízo
e raciocínio são os que podem errar.
Na carta e saudação de Epicuro a Meneceu afirma que sempre é tempo de filosofar: quem é
jovem não espere para fazer filosofia; quem é velho não se canse disso; com efeito, ninguém é imaturo
nem superado em relação à saúde da alma; por isso, ambos devem fazer filosofia para que, apesar de
envelhecido, permaneça sempre jovem por causa do passado ou para se sentir jovem e velho ao mesmo
tempoDessa forma, conclui, não há porque temer o futuro.

2.4.14 Euclides (330 a 260 / 270 a.C.)


Nascido na Síria e estudou em Atenas (na Academia de Platão), sendo professor na Escola de
Alexandria (Museum), no Egito, durante o reinado de Ptolomeu I. Essa Escola foi o principal centro de
cultura mundial no período do séc. III a.C. até IV d.C. Naquele centro, fundou a sua própria escola de
matemática, com seus trabalhos preservados ao serem traduzidos para o árabe e depois para o latim.
Foi um dos primeiros geômetras e reconhecido matemático da Grécia Classica
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Fundamentos da pesquisa
Volume 1

A Alexandria, desde o seu tempo (recém fundada a cidade) até à invasão dos Mouros, foi a sede
da ciência matemática; sua famosa biblioteca continha praticamente todo o saber (vale dizer, o registro
de todo o conhecimento) da antiguidade.
Euclides, considerado o pai da geometria (essa ciência nasceu, provavelmente no antigo Egito,
com as medições de terras, esse é o significado da palavra grega e geometrein, geo = terra e metrein =
medida, periodicamente inundadas pelo rio Nilo), foi um típico homem da ciência dedicado à
especulação pelo gosto de saber. Ocupava-se com astronomia e geometria, mas, de forma diferente dos
egípcios e babilônicos, desligado de preocupações religiosas e voltado para as questões teóricas.
De sua obra resta menos da metade, com destaque para os treze livros dos Elementos de
geometria / Stoicheia ( Nessa obra se têm
informações de geometria (9 livros de geometria plana e sólida), aritmética, álgebra e teoria dos
números e teoremas fundamentais da aritmética. O primeiro livro de Elementos (...) contém 23
definições; os quatro seguintes, proposições de geometria plana; os dois que seguem teorias das
proporções e sua aplicação às magnitudes geométricas; os livros VII a IX tratam da teoria dos números,
da divisibilidade dos fatores primos e das proporções geométricas e aritméticas; o livro X, trata dos
números irracionais; os últimos três, referem-se à geometria do espaço.
Em geral em Elementos de geometriaa não foram oferecidas explicações preliminares, nem
observações de esclarecimentos para situar seu conteúdo em algum contexto histórico ou matemático.
A obra se inicia com uma definição: “o ponto é o que não tem parte"; “uma retaé um comprimento sem
largura”; “uma superfície é o que tem apenascomprimento e largura” e prossegue numa constante
apresentação de 465 proposições até a geometria do espaço, compreendendo arranjos sistemáticos de
descobertas anteriores, baseando-se em axiomas, definições e teoremas provados um após o outro. Um
exemplo dessa contribuição são as cinco proposições geométricas que formula nos postulados: “dado
dois pontos, há uma superfície de reta que os une”; “um segmento de reta pode ser prolongado
indefinidamente para construir uma reta”; “dados um ponto qualquer e uma distância qualquer, pode-se
construir um círculo de centro nequele ponto e com raio igual à distância dada”; “todos os ângulos
retos são iguais”; e “se uma linha retacortar duas outras retas de modo que a soma dos ângulos internos
de um mesmo lado seja menor do que dois retos, então essas duas retas, quando sificientemente
prolongadas, cruzam-se do mesmo lado em que estão esses dois ângulos”: postulado de Euclides. Os
três conceitos e os cinco postulados servem de base à geometria euclidiana.
Esta obra, uma das obras mais difundidas da história como texto básico e referência de geometria
e matemática, segue o método axiomático como padrão para a argumentação científica que, apesar de
algumas deficiências lógicas (segundo critérios e padrões modernos, em especial, no livro VII),
passaram despercebidas por mais de dois milênios, apesar de seu conteúdo consistente e valioso.
É oportuno citar que se o valor de um trabalho científico for medido pelo tempo que ele se
mantém válido ou consistente, então, os Elementos de geometria de Euclides, deveria ser
considerado um dos trabalhos mais valiosos da história da ciência. Desse trabalho se destacam, sob o
enfoque metodológico, além de seu método axiológico, dois aspectos: o sintético indutivo que permite
percorrer (inferir) do conhecido até o desconhecido mediante passos lógicos; e o analítico dedutivo,
87

O rige n s e e vo lu çõe s da s ciên cia s e d a p esqu isa


Filó sof o s e cien t ist a s a o lo ng o da hist ó ria da civiliza ção

em que se busca o desconhecido e se trabalha na sua direção com base no conhecido, também, pela via
ou fundamentação lógica.
Muitos outros textos lhe são atribuídos a Euclides, dos quais se conhecem alguns títulos, tais como:
Divisões de superfícies.
Data: com aplicações da álgebra à geometria numa linguagem geométrica.
Tratado sobre harmonia.
A Divisão: com aproximadamente 36 proposições relativas à divisão de configurações planas.
Os Dados: um manual de tabelas, servindo como guia de resolução de problemas, com relações
entre medidas lineares e angulares num círculo dado.
Óptica: estudo da perspectiva desenvolvida com base em teoria contrária à proposta por Aristóteles,
segundo a qual é o olho que envia os raios que vão até o objeto que se vê, e não o inverso.
Os fenômenos (celestes): discorrer sobre a geometria esférica para utilização na astronomia.
Porismos: um dos mais lamentáveis desaparecimentos com possíveis aproximações à Geometria
Analítica.

2.4.15 Erasístrato / Erasistratus de Chios / de Iulis: 330 / 304? – 250 a.C.


Nascido em Iulis, ilha de Cós (Zea / Tzia; mar Egeu). Médico grego do período Ptolemaico e
fundador de uma famosa escola de anatomia, em Alexandria. Diferente do Heróphilo que se dedicou a
estudos anatômicos, ele estudou a função dos órgãos, sendo considerado o pai da fisiologia. Acreditava
que a profilaxia era mais importante que a terapia, em concordância com prevenir é melhor que curar.
Ao contrário de Aristóteles, Erasístrato considerou o cérebro como a sede da inteligência, em
lugar do coração, descrevendo a anatomia do cérebro (origem de todos os nervos) e do cerebelo e
ventrículos (discriminação entre os hemisférios cerebrais), mostrando a importância das cavidades do
coração. A estrutura do olho tornou-se melhor conhecida após suas dessecações e estudos sobre a
anatomia do globo ocular e sua inervação, reconhecendo que eram os nervos e não as artérias que
produziam os movimentos voluntários.
Estabeleceu a diferença entre os nervos motores e os nervos sensitivos, desenhando-os – mapas
do curso das veias, suas divisões, subdivisões (...), fazendo o mesmo com o sistema nervoso.
Acreditava que os nervos (não estariam cheios de ar; pneuma, mas, uma substância como o tutano da
espinha) transportavam humores nervosos a partir do cérebro e que as artérias transmitiam humores
animais, produzidos pelo coração, a partir do ar, com origem nos pulmões. Diferenciou os sistemas
vasculares sistêmicos e pulmonares e descreveu as veias, artérias e válvulas do coração. Descobriu a
cirrose.
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Fundamentos da pesquisa
Volume 1

Dentre suas experimentações (exemplos) se relacionam: os pneumáticos, de importância na


fisiologia e a demonstração de como o vácuo parcial exercia determinada atração sobre os líquidos e
como os líquidos podiam exercer atração do ar, além de experimentos em fisiologia atribuídos a ele.

2.4.16 Herófilo (Heróphilo) de Calcedônia: 325 / 335 – 270 / 280 a.C.


Médico grego nascido em Alexandria e fundador da Escola de Medicina naquela cidade
considerada o centro médico de maior importância na história da humanidade. Estudou anatomia e é
tido como o pai da anatomia devido as experiência pioneira na dissecação de cadáveres. Analisou /
descreveu o olho humano, o fígado, as glândulas salivares, o pâncreas, as meninges e os órgãos
genitais.
Escreveu um ratado de medicina de vários volumes. Uma de suas descobertas mais notáveis foi a
natureza dos nervos e do cérebro como órgão central do sistema nervoso. Estudioso de Hipócrates e
escreveu um tratado sobre o método hipocrático.
Muitas descobertas da anatomia foram realizadas na Alexandria, atribuídas a Herófilo e
Erasístrato, os primeiros a realizarem dissecações humanas de modo sistemático; tais disscações
foram proibidas a partir do ano 150 a.C, por razões éticas e religiosas. No século II, Galeno dissecou
quase tudo, macacos e porcos, aplicando depois os resultados obtidos na anatomia humana, quase
sempre de forma correta.
Herófilo escreveu um tratado de vários volumes (não conservado) que fazia descrições de órgãos
humanos como cérebros, olho, fígado, glândulas salivares, pâncreas e órgãos genitais, além de
reconhecimento da natureza dos nervos e do cérebro como a base da mente e o órgão central nervoso e
sensitivo.

2.4.17 Arquimedes (em grego Ἀρχιμήδης): 287 a 212 a.C.


Nascido em Siracusa, Sicília (Magna Grécia). Foi o maior cientista e matemático da antiguidade;
segundo Galileu, é o único cientista grego no sentido moderno da palavra. Buscava explicações
racionais para os diferentes fenômenos observados, procurando aplicar a ciência à vida. Incorporou a
indução, conforme a tradição do método dedutivo e axiomático de seus antecessores, conferindo-lhe a
demonstração de axiomas, novos elementos de verificação: o experimento; os axiomas e a teoria
retornam aos seus pontos de origens, combinando teoria e prática. Entre suas contribuições se têm
princípios ou elementos básicos da estática, que é a parte da mecânica que trata do equilíbrio das
forças, sendo desconhecida dos antigos o estudo dos movimentos dos corpos sob a ação de forças: a
dinâmica.
Ao contribuir para o avanço dos conhecimentos científicos de Pitágoras, Tales e Euclides,
entre outros, trouxe importantes descobertas e inventos que perduram.
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O rige n s e e vo lu çõe s da s ciên cia s e d a p esqu isa


Filó sof o s e cien t ist a s a o lo ng o da hist ó ria da civiliza ção

Entre suas obras, na área matemática, destacam-se: Da esfera e do cilindro. A medida do


círculo. Dos esferóides e dos conóides. Das linhas espirais. Na área mecânica: Do equilíbrio
dos planos e dos corpos flutuantes. Outras obras, com achados importantes, são: A quadratura da
parábola e O Método.
Na hidrostática, o princípio de Arquimedes (todo o corpo submergido num fluido experimenta
um impulso de baixo para cima igual ao peso do fluído que desloca) é a mais importante descoberta
com grande contribuição no estudo das ciências físicas; a mecânica dos fluídos em repouso ou em
movimento é fundamental em campos diversos como a aeronáutica, engenharia química, civil e
industrial e oceanografia, entre outras.
Arquimedes foi um grande físico, engenheiro e técnico genial: inventava e fabricava aparelhos
destinados às suas próprias pesquisas e criava, inclusive, máquinas de guerra temíveis por sua eficácia
(catapulta e um sistema de espelhos). É considerado o precursor do método experimental nas ciências
fisico-matemáticas, bem como, dois mil anos antes de Newton, o precursor do cálculo diferencial e
integral., com seus estudos áreas e volumes de figuras sólidas e sobre áreas de figuras planas;
demonstrou que o volume de uma esfera equivale a dois terços do volume do cilindro que a
circunscreve.
Os principais achados pertencem à aritmética, à mecânica e à hidrostática foram: determinou a
relação da circunferência com o diâmetro (o número pi, , 3,1415...), a quadratura da parábola e as
propriedades das espirais. Em mecânica, definiu a lei da alavanca e foi considerado o inventor da polia
composta.
Atribui-se a Arquimedes a invenção do parafuso sem fim, espiral ou parafuso de Arquimedes
para elevar a água por meio de um tubo enrolado em hélice à volta de um cilindro giratório sobre o seu
eixo; diversas combinações de roldanas para levantar pesos (teoria da alavanca simples: demonstrou
que um pequeno peso situado a certa distância do ponto de apoio da alavanca pode contrabalançar um
peso maior situado mais perto, sendo assim peso e distância inversamente proporcionais resumida
numa frase célebre: “dai-me um ponto de apoio e levantarei a Terra”); a roda dentada, guindastes
mecânicos, lentes para incendiar (...).

2.4.18 Erastóstenes / Ερατοσθένης: 276 – 285 ? a 194 a.C.


Nascido em Cirene, Líbia. Estudou na escola de Platão, em Atena e em Alexandria. Amigo de
Arquimedes. Passou a maior parte de sua vida ativa em Alexandria, onde foi bibliotecário-chefe e
esteve cercado por milhares de manuscritos, quase tudo o que a sabedoria antiga produzira sobre
matemática, astronomia, mecânica, medicina (...). Nessa função teve a oportunidade e o deleite
permanente de oganizar e classificar assuntos contidos em rolos de papiro com escritos de Platão,
Aristóteles, Zenão, Euclides, Homero, Demóstenes, Isócrates, Xenofonte, Píndaro, Tucidides
e Safo, entre muitos outros. Nessa relação de obras se destaca a Septuagint, os 70 manuscritos que
continham a tradução do Pentateuco, o Antigo Testamento hebraico para o grego, feito por 72 sábios
judeus convidados por Ptolomeu Filadelfo.
90

Fundamentos da pesquisa
Volume 1

Erastóstenes, matemático e geografia, foi o primeiro a adotar a palavra geografia científica como
sendo a descrição da Terra, em sua obra Geographika: três volumes (história / predecessores,
geografia física e geografia política da qual se têm apenas fragmentos): suas descrições geográficas
eram acompanhadas de cartas geográficas. Escreveu, também, filosofia, história, astronomia e
matemática, sendo considerado o primeiro matemático da Antiguidade.
Entre as contribuições de Erastóstenes se destacam: a esfericidade da Terra e a medição, com
relativa precisão, o cálculo da circunferência (360º.); do diâmetro da Terra (12.630 km; o diâmetro
polar correto é de 12.700 km), sob o pressuposto de que a Terra era redonda e os raios solares
paralelos, utilizando informações de Euclides; a obliquidade de um eclipse (23º. 51´ 19´´); o intervalo
entre os trópicos (...).

2.4.19 Sêneca (Lucius Annaeus): 4 a.C a 65 d.C.


Nascido em Córdoba, Espanha (na época pertencente ao Império Romano). Filósofo latino
formado na escola estóica (considerado modelo) e como tal fez, em sua obra, a apologia ao ascetismo e
à renúncia aos bens terrenos. Um a destacar da especulação de Sêneca e onde é mais original é na
psicologia, na sondagem das vozes interiores da alma humana e na capacidade de captar e interpretar o
sentimento interior de divino.
A produção literária e filosófica de Sêneca, tido como modelo do pensador estóico durante o
Renascimento com suas oito obras de tragédias, inspirou o desenvolvimento da tragédia na Europa.
Sua maior contribuição foi, porém, no campo da moral, com suas obras consideradas as máximas da
filosofia estóica (problema moral).
Nas Cartas Morais se misturam elementos epicuristas, com ideias estóicas, reflexões sobre
literatura, observações pessoais e críticas satíricas dos vícios comuns da época, com doze ensaios, dos
quais se destacam: Sobre a brevidade da Vida. Vida feliz. Tratado sobre a clemência: a
conjuração de Catili. Dos Benefícios.
Sobre a tranquilidade da alma: sobre o ócio; ensinamentos sobre a importância da reflexão
interior e do afastamento de emoções carregadas de vícios e ambições pelo poder e pelos bens
materiais; só desse modo é possível viver e alcançar o aprimoramento espiritual em harmonia
com a natureza.
Da obra moral de Sêneca são ilustrados alguns pensamentos que incitam à uma profunda reflexão
em todos os campos:
Apressa-te a viver bem e pensa que cada dia é, por si só, uma vida.
Devemos contar cada dia como uma vida separada.
Foges em companhia de ti próprio: é de alma que precisas de mudar, não de clima.
Sentir solidão não é estar só, é estar vazio.
Os males de que foges estão em ti.
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O rige n s e e vo lu çõe s da s ciên cia s e d a p esqu isa


Filó sof o s e cien t ist a s a o lo ng o da hist ó ria da civiliza ção

Há pessoas que não param de se atormentar com a lembrança de coisas passadas; outras se afligem
pelos males que virão. É tudo absurdo, pois o que já aconteceu não nos afeta mais e o futuro ainda
não nos toca...
O homem vive preocupado em viver muito e não em viver bem, quando na realidade não depende
dele o viver muito, mas sim o viver bem.
Se vives de acordo com as leis da natureza, nunca serás pobre; se vives de acordo com as opiniões
alheias, nunca serás rico.
Se o que tens te parece insuficiente, então, mesmo que possuas o mundo, ainda assim se sentirás na
miséria.
O amor não se define; sente-se.
Onde quer que haja um ser humano, há uma oportunidade para o bem.
O prêmio de uma boa ação é tê-la praticado.
A virtude é difícil de se manifestar, precisa de alguém para orientá-la e dirigi-la. Mas os vícios são
aprendidos sem mestre.
Ninguém escreve em seu caderno de notas os favores recebidos.
Deixarás de temer quando deixares de ter esperança.
Se um homem não sabe a que porto se dirige, nenhum vento lhe será favorável.
A parte mais importante do progresso é o desejo de progredir.
Se um grande homem cair, mesmo depois da queda, ele continua grande.
Nunca a fortuna põe um homem em tal altura que não precise de um amigo.
Longo é o caminho ensinado pela teoria, curto e eficaz o do exemplo.
Feliz é quem está contente com a sua sorte atual, seja ela qual for, e ama o que tem.
Grande parte do progresso está na vontade de progredir.
Poucos acertaram antes de errar.
Não é porque as coisas são difíceis que não nos arriscamos; é porque não nos arriscamos que elas se
tornam difíceis.
Só uma coisa que sabemos: é que não sabemos nada.
Do homem eminente podemos aprender, mesmo quando se mantém em silêncio.

Em sua obra as Questões naturais, Sêneca tratou de aspectos científicos ao expor a física
estóica vinculada aos problemas éticos; é uma abordagem de fenômenos naturais em que se mistura a
ética com a física.

2.4.20 Galeno (Claudius): 130 – 200


Nascido em Pérgamo, Itália, onde iniciou seus estudos de filosofia e medicina, complementados
em Alexandria, onde, além de medicina e matemática, estudou filosofi; era monoteísta e considerava o
corpo apenas como instrumento da alma. Em Roma, onde desenvolveu intensa atividade clínica,
experimentou com animais e escreveu, foi médico de vários imperadores.
A maior parte das obras de Galeno se perdeu, mas, têm-se informações que investigou anatomia,
fisiologia, patologia, sintomatologia e terapêutica, sendo o primeiro pesquisador em fisiologia. Uma de
92

Fundamentos da pesquisa
Volume 1

suas experiências famosas em medicina foi a demonstração de que as artérias conduzem sangue e não
ar, conforme se acreditava na época. Fez a diferenciação de ossos com e sem cavidade medular.
Pesquisou a cavidade craniana e o sistema muscular. Ao investigar os nervos do crânio reconheceu os
nervos raquidianos, os cervicais, os recorrentes e uma parte do sistema simpático.
Foi o primeiro a demonstrar, baseado em experimentos, que o rim é um órgão excretor de urina.
Apesar dos erros de Galeno, descobertos, entre outros, por Harvey, foi o médico que maior e mais
duradoura influência exerceu sobre a medicina, sendo sua obra muito valorizada ao mesmo tempo
pelos hebreus, cristãos e muçulmanos durante a Idade Média, permanecendo quase que dogmática e
intocável até a Renascença.
Calcula-se que tenha escrito cerca de 400 livros sobre vários assuntos, 70 dos quais sobre
medicina. Parte de seus manuscritos se perdeu em um incêndio no Templo da Paz, em Roma, onde os
mesmos se encontravam.



Um fato da Idade Antiga, 300 a.C. que deve ser destacado pela sua importância nas ciências, na
história das ciências, ainda que sem registro contemporâneo, é o Museu de Alexandria ou Escola de
Alexandria, um centro de estudo de filosofia, artes, ciências e pesquisa, fundado por Euclides, no
século III a.C. Alexandria (cidade fundada por Alexandro o Grande) foi a primeira instituição
científica organizada e financiada pelo Estado com infra-estrutura para a prática das ciências. Aquela
instituição formal de pesquisa, tal vez a primeira da humanidade, com informações de que chegou a
reunir mais de 700 mil rolos de papiro, aproximadamente 100 a 125 mil livros compreendia
laboratórios, observatórios, jardins botânico e zoológico, salas de anatomia, departamentos para
pesquisa e ensino e residências para estudantes.
Nesse Museu foi criada a primeira biblioteca pública destruída no ano 642 (646), Ali atuaram, em
diferentes épocas, pensadores, tais como: Arquimedes, Aristarco de Samos, o primeiro a anunciar
que a Terra gira ao redor do Sol; Erastóstenes, o primeiro a mediar a circunferência da Terra;
Euclides que escreveu a geometria ainda utilizada; Hisparco de Nicéia, o primeiro a medir o ano solar
com uma precisão de 6,5 minutos; e Herácçlito de Taranto, entre muitos outros que atuaram em
campos como a matemática, astronomia, filosofia e medicina. (CHASSOT, 2005; complementado).
Não se discute, nestas Orientações para elaborar um projeto de pesquisa (...),
a validade das contribuições de ideias, conceitos, princípios e formulações de pensadores da Idade
Antiga à ciência ou a correspondência da ciência antiga com a ciência moderna, afirmando-se,
contudo, de que tais contribuições foram significativas e algumas delas perduram. O leitor interessado
no tema poderá consultar, entre outros autores, a Lindberg (1992).
Os filósofos cientistas relacionados acima dão uma ideia da origem e evolução da ciência na
Idade Antiga, restrita ao pensamento grego, com suas principais características, tais como: estar ligada
à filosofia; ser qualitativa, com argumentação baseada na análise de propriedades intrínsecas; em geral,
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Filó sof o s e cien t ist a s a o lo ng o da hist ó ria da civiliza ção

não ser experimental; sua natureza contemplativa ao buscar o saber pelo saber e não pela aplicação; e a
ciência estar baseada numa concepção estática.
Quanto aos métodos que utilizaram para satisfazer a necessidade de saber, o homem da Idade
Antiga tinha suas experiências e conhecimentos segundo as concepções particulares da natureza,
atribuindo-lhes significados míticos, religiosos (...) quando os fatos estiverem fora de uma compreensão
racional e “científica”: a ignorância. A ignorância esteve associada à existência de entes sobrenaturais
que poderiam ajudar ao homem ou castigá-lo, segundo a condição em que ocorresse o fenômeno. Dessa
forma, a necessidade de compreensão ficou relegada à vontade e capricho dos deuses.
Contudo, o homem prosseguiu aplicando o discernimento a sua experiência com base na
observação e na curiosidade, bem como no desejo de saber até a análise e raciocínio na
experimentação. Nesse processo, consciente ou não, surgiu a ideia de causalidade, o primeiro traço de
um método. Deve-se observar que esse traço, segundo Poincaré, autor das conjeturas (SMALE, 1961)
perdura: “o homem moderno tem utilizado a relação causa e efeito do mesmo modo como o homem da
antiguidade usava os deuses, isto é, para ordenar o universo. Isto não ocorria apenas porque se tratava
do sistema mais verdadeiro, mas porque era o mais conveniente”.
Os primeiros pré-socráticos da escola Jônica apresentaram outras características de um método: a
observação cuidadosa da natureza, o uso da razão para explicá-la e buscar uma causa universal que
compõe todas as coisas. Com tal atitude metódica Tales de Mileto estabeleceu sua ideia de causalidade
na da água como primeira substância.
Anaximandro substitui o princípio da água pelo apeíron para explicar a unidade do mundo,
enquanto que Pitágoras e Parmênides estabeleceram o método com base na essência dos números.
Demócrito estabeleceu a multiplicidade de unidades, o átomo como entidade física, enquanto que
Sócrates postulou a dúvida metódica como base em seu método: nada é certo sem antes ser submetido
ao tribunal da razão. Platão estabeleceu como princípio, que as percepções são aparências e o que
importa são as ideias que sustentam a verdade.
Aristóteles definiu o método do silogismo, baseado em premissas, para buscar o conhecimento,
sendo o ser o objeto da ciência, extraído da realidade sensível pela abstração. Essa busca se fazia de
maneira diferente, segundo Euclides, ao postular seu método de experimentos mentais. Diferente foi,
também, a proposta metodológica de Arquimedes com o seu método, baseado na indução, dedução e
axioma de seus antecessores, da experimentação real. Todas foram contribuições mais ou menos
valiosas no processo de formulação de um método científico para a investigação como, p.ex., as
influências de Sócrates e Aristóteles sob pensadores de Idade Média e de Heráclito precursor de
Bérgson, na Idade Moderna.
A explicação da dualidade da natureza foi, entre muitas outras, uma preocupação na filosofia
ocidental. Em tal sentido, Parmênides e Zenão, da Escola Eleática, afirmavam a imutabilidade do ser
e a realidade estática, enquanto que Heráclito de Éfeso julgava a realidade ser apenas um devenir, um
movimento, um processo de mudança. Essa contribuição na forma de contradição no campo filosófico
de pensadores gregos, sintetizada na inconsistência da simultaneidade da dupla realidade da flecha
94

Fundamentos da pesquisa
Volume 1

estática e da flecha em movimento com aceitação da estática por Parmênides e Zenão e em


movimento por Heráclito, foi precursora, entre outras, da física moderna em aspectos como as teorias
corpuscular e ondulatória da luz.



No texto que segue se apresenta uma síntese de aspectos históricos do conhecimento e da


ciência na Idade Média ou medieval, como sendo o período que seguiu a Idade Antiga e foi
predecessor da Idade Moderna, com um longo período sem informações.
O período considerado com uns poucos pensadores está compreendido entre o fim do Império
Romano, em 476 d.C., até a queda do Império Romano do Oriente, em 1.453 d.C. ou a queda de
Constantinopla, em 1475, ou, ainda, a Reforma Protestante, no século XVI. Desse período se
destacam alguns pensadores e suas contribuições às ciências e seus métodos, como parte da história e
evolução das mesmas, ainda no campo da filosofia da ciência, mas, neste caso, com submissão à
religião e ao domínio da Igreja.

2.5 Filósofos e “Cientistas” da Idade Média


Na Idade Média a Igreja Católica serviu de referência para quase todas as ideias discutidas
naquela época, sem a participação da população, uma vez que tais discussões ocorriam, com
frequência, em mosteiros de ordens religiosas que tinham, sem acesso à população, os documentos
“científicos”.
As atividades dos mosteiros eram para cultivar a teologia, a filosofia, a literatura e o estudo de
fenômenos naturais sempre sob a ótica religiosa. Mas, ao lado do conhecimento religioso se tinha outra
vertente de conhecimento produzido por livres-pensadores da natureza, alquimistas, magos,
“experimentadores” (...) que, isolados ou em grupos procuram desvendar o oculto das aparências.
As ciências, encontravam-se sob forte pressão e domínio da autoridade da Igreja que impunha
sua doutrina como verdade sem discussões; do mesmo modos, alguns escritores antigos como
Aristóteles, gozavam de tratamento semelhante.
A ciência, no início dessa Idade, produziu poucas descobertas e escassos estudos objetivos da
natureza e do universo físico (a chamada filosofia natural). Isso, pelo fato das ciências (os documentos
científicos) estarem inseridas em um contexto sociocultural e econômico de dominação pela Igreja,
caracterizado por:
a) Fatores culturais não favoráveis ou, pelos menos, confusos e de insegurança: a sociedade era
estática com pouca mobilidade, além de ser hierarquizada. A nobreza feudal era detentora de terras
e arrecadava imposto dos camponeses. O clero tinha grande poder ao ser responsável pela
proteção espiritual da sociedade.
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O homem instruído desses séculos era, com frequência, um clérigo, para quem o estudo da
natureza fazia parte de sua escolaridade, mas, desenvolvida em um ambiente dominado pela fé,
pela religião, a escolástica: misto de teologia cristão e filosofia grega (platônica, pela influência de
santo Agostinho, depois aristotélica), de lógica e de argumentação de autoridade.
b) Grande dificuldade que minaram a produção intelectual: educação para poucos (filhos dos
nobres) e marcada pela influência da Igreja Católica, com orientações para táticas de guerra em
função do interesse, as Cruzadas entre católicos e muçulmanos, por cerca de dois séculos. Estas,
com traços econômicos, contribuíram para o renascimento urbano e comercial.
c) Consideráveis perdas do acesso aos tratados científicos da antiguidade clássica (período do séc.,
VIII a.C. até a queda do Império romano, no séc. V, no início do período medieval).
As características das ciências grego-latinas se mantiveram, em parte, mas, as ciências e a
filosofia foram submetidas aos dogmas religiosos e a prática da investigação deixou de ser livre.
Perderam-se o interesse e as orientações para buscarem os conhecimentos na própria natureza,
vinculando-os aos interesses religiosos e à subordinação da revelação, pois a razão humana devia se
submeter ao testemunho da fé.
O domínio da religião, da Igreja Católica, não foi apenas no científico, mas, também no social,
econômico, artístico e cultural e até em campos como o político. Com o poder adquirido, uma das
principais preocupações passou a ser a de conservá-lo. No campo das ciências, “decretava-se que as
suas verdades não estavam sujeitas à crítica e quem se atrevesse sequer a discuti-las teria de se
confrontar com os guardiões em terra da verdade divina”. A Igreja, temendo perder sua autoridade,
reprimia toda ideia que pudesse traçar novos caminhos para as ciências, impedindo seus livres
desenvolvimentos. Mesmo assim, houve cientistas que ousaram
O que se registrou na Idade Média Antiga, no campo das ciências, foi a compilação resumida e
até deturpadas, favorecida por textos truncados, de documentos traduzidos ao latim, contendo
(expressando) o sentido da vontade divina e, portanto, o sentido da natureza criada. A orientação para
buscar o conhecimento científico da filosofia natural, em geral, feita por clérigos, esteve atrelada às
Sagradas Escrituras; compreender a natureza consistia, no fundo, em interpretar a vontade de Deus.
Essa orientação foi sintetizada na frase de santo Agostinho: “aquilo que a verdade descobrir não pode
contrariar aos livros sagrados, quer do Antigo quer do Novo Testamento” da Bíblia.
Dentro da Idade Média é possível considerar vários períodos e fontes ou fatores de influencias
para as ciências, entre outros os de origem latina e grega (bizantino) com poucas contribuições e
apenas com alguns desdobramentos da sabedoria antiga.
A influência da ciência oriental (China e Índia) foi significativa, com épocas de esplendor,
embora de forma não sustentada ou contínua. Da China foram notáveis as contribuições em métodos
matemáticos e geométricos e, em especial, em inovações práticas como a fabricação do papel e da
pólvora, o uso da imprensa e o emprego da bússola na navegação. Da Índia, as contribuições foram em
formulações numéricas (indo-arábigas) e para a moderna trigonometria. Outras influências às ciências,
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Fundamentos da pesquisa
Volume 1

foram de origem muçulmana e de culturas americanas como as dos Astecas, Incas e Mayas que, p.ex.,
descobriram e empregaram o zero em seus cálculos de astronomia.
No final do séc. VIII houve uma primeira tentativa de reerguimento da cultura ocidental, da vida
política e da econômica, com destaque para uma reforma da educação proposta por Carlos Magno
(747 a 814): o projeto de desenvolvimento escolar contemplava reviver o saber clássico pelo estudo
baseado nas sete artes liberais, compreendidas em duas estruturas; o trivium: gramática, retórica e
dialética e o quadrivium: aritmética, geometria, astronomia e música, em arranjos monacais (escolas de
mosteiros), catedrais (escolas de bispados) e palatinos (cortes). Essa reforma na educação ajudou à
preparação do Renascimento.
A primeira fase da Idade Média (Idade Média Antiga) se estendeu até o século XII quando surgiu
o Renascimento (Idade Média Clássica), em que se renovou o interesse pela investigação da natureza,
sendo favorecida pela redescoberta de textos antigos por eruditos bizantinos os quais tiveram que
buscar refúgio no ocidente, em especial em Itália, alimentando o interesse de acadêmicos europeus pelo
clássico.
A Idade Média Clássica foi um período áureo, o da escolástica, 17 (do lat. scholasticus, com o
significado de professor das artes liberais, neste caso trivium e quadrivium, o doscente de filosofia ou
teologia na escola do convento, da catedral...), por vezes tomado como sinônimo da filosofia medieval.
Entre as características do método escolástico se destaca o processo de aprendizagem realizado
em três fases: a lectio, leção magistral; a disputatio, a discussão em todos os níveis da informação; e
opúsculo ou conclusões dogmáticas. O lema era: não entender para acreditar, mas, acreditar para
entender, mediante o conhecimento, o estudo. A ênfase na lógica com base no empirismo 18 para
entender a natureza como um sistema coerente de leis que poderiam ser explicadas pela razão. Isso
representou o início da ruptura da visão teocêntrica na explicação das ciências naturais e relativa perda
do rigor da filosofia nessas explicações.
Concomitantemente novos conceitos e atividades passaram a serem considerados, tais como o da
dignidade humana e o florescimento das artes. Começou a surgir, por parte de pensadores, a
necessidade de dar um fundamento teórico, ou racional, à fé cristã, no suposto de que era preciso
demonstrar as verdades da fé; demonstrar que a fé não contradiz a razão e vice-versa.
Se na Idade Média Antiga se dizia que era preciso crer para compreender, na Idade Média
Clássica (Revolução Industrial da Idade Média: 1100 a 1300) a ideia era a de compreender para crer: a
fé revela a verdade, a razão demonstra-a. Dessa forma, fé e razão conduziriam uma à outra. Foi essa a
posição de um dos mais destacados de todos os filósofos cristãos, S. Tomás de Aquino, ao dar ao
cristianismo todo um suporte filosófico com base em conceitos da filosofia aristotélica, filosofia que
passou a ser cristianizada, após ser estudada e comentada nas escolas católicas.
Tanto os conceitos metafísicos de Aristóteles, entre outros, o de que tudo quanto existe tem uma
causa primeira e um fim último, como a sua cosmologia (geocentrismo, reformulado por Ptolomeu)
foram utilizados e adaptados à doutrina cristã. Esses fundamentos sábios medievais se orientaram para
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O rige n s e e vo lu çõe s da s ciên cia s e d a p esqu isa


Filó sof o s e cien t ist a s a o lo ng o da hist ó ria da civiliza ção

a busca de explicações de fatos e fenômenos do universo com importantes avanços em áreas como a
metodologia científica e a física, entre outras.
No campo intelectual é importante registrar, com destaque nestas Orientações para
elaborar um projeto de pesquisa (...), a fundação das primeiras universidades medievais,
como as de Bolonha (1088), Paris (1150), Oxford (1167) e mais de setenta instituições até o ano 1500.
Essas universidades foram pontos de partida para a universidade contemporânea.
Naquelas universidades, desenvolviam-se, também, pesquisa e o debate. Algumas inovações
contemporâneas são daquela época, tais como o relógio mecânico que transformaram a noção do tempo
na cidade, os óculos (microscópio e telescópio), em 1285, a prensa móvel, em 1448, técnicas agrícola,
melhorias em carroças e carruagens, moinhos de água e a invenção da caravela na expansão do
comércio marítimo, entre outras.
As conquistas da Idade Média Clássica foram repentinamente interrompidas, no séc. XIV / 1348,
pela peste negra ou peste bubônica 19 que, segundo historiadores, acabou com aproximadamente um
terço da população européia, seguida, por um século, de novas pragas e outros desastres, todos com
efeitos negativos sobre a ciência e cultura.
Há um aspecto que não pode ser omitido, quando se trata da ciência na Idade Média: é a
alquimia. Era uma prática muito frequente na época, exercida no anonimato (foi uma forma de
proteção de seus praticantes esotéricos), com certo mistério e fanatismo próprios ao espírito medieval
impregnado de simbolismo; com essas práticas se pretendia decifrar as maravilhas da natureza, não
apenas para penetrar nos seus segredos, mas, para manipulá-los e transformar, p.ex., metais vis em
metais preciosos.
Os historiadores registram o desconhecimento de contribuições importantes da Idade Média à
ciência sendo, de forma incorreta, rotulada Idade das Trevas ou associada a expressões como
barbarismo, escuridão, noite de mil anos etc. Contudo, conforme aponta Losee (1997), contribuições
como o método de falsificação de Grosseteste e as controvérsias sobre verdades necessárias, são,
entre muitas outras, valiosas e interessantes do pensamento medieval. Nesta síntese há que destacar
dois fatos: o nascimento e multiplicação das universidades como centros de ensino e pesquisa e as
primeiras sementes da metodologia científica contemporânea, destacada na relação de filósofos
cientistas da ciência medieval.
A parte que segue relaciona alguns pensadores destacados da escolástica, com indicações de
contribuições à ciência.

2.5.1 Robert Grosseteste: 1168 a 1253


Nascido em Suffolk, Inglaterra. Bispo de Lincoln e fundador da Escola Franciscana de Oxford.
(vinculada à Igreja). Pensador destacado do movimento intelectual inglês, adepto a Platão, tido como o
fundador do pensamento científico na Universidade de Oxford da qual foi professor tendo como aluno
R. Bacon. Foi notável seu interesse em assuntos como som, astronomia, geometria e óptica.
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Fundamentos da pesquisa
Volume 1

Grosseteste afirmava que a experimentação usada para verificar uma teoria e testar suas
consequências deveria ser conduzida pela matemática e levar à compreensão do mundo mediante
elementos matemáticos. Explicava a estrutura do cosmos, relacionando a luz e sua energia como a base
de toda causalidade; por essa razão, as leis da óptica serviam de fundamento a todas as interpretações
da natureza; a luz seria a primeira forma de matéria-prima criada que daria origem às três dimensões
no espaço.
Foi o primeiro escolástico a entender a visão de Aristóteles do método duplo para o pensamento
científico, sintetizado em: a generalização de observações particulares para uma lei universal e, depois,
o caminho inverso, de leis universais para a previsão de situações particulares que ele denominou
método da resolução e composição.
As principais obras de Grosseteste, nas ciências e na filosofia da ciência, foram: De sphera, em
que o autor tratou diversos temas. De accessione et recessione maris / Marés e movimento das
ondas
De lineis, angulis et figuris / Sobre linhas, ângulos e figuras, com abordagens sobre a
lógica matemática aplicada às ciências naturais. Nesta obra e Sobre refração e reflexão de raios,
afirmava que não apenas a visão e a luz, mas todo agente natural enviava suas “virtudes” aos objetos,
afetando a agindo sobre os sentidos e sobre a matéria ao longo de linhas geométricas.
Na Metodologia da pesquisa científica Grosseteste, baseado em reflexões de textos
aristotélicos, afirmava que a ciência começava com a experiência dos fenômenos e tinha como
propósito de encontrar as causas desses fenômenos. Pelo seu método, o primeiro passo era tentar
descobrir as possíveis causas, os agentes causais para os fenômenos vividos; o próximo passo seria
separar o agente causal em seus princípios componentes; depois, com base numa suposição admissível
(a hipótese), o fenômeno observado deveria ser reconstruído a partir de seus princípios; finalmente a
própria hipótese deveria ser testada e validada (ou rejeitada) pela observação. Esse procedimento,
precursor do método científico moderno, continha a base de toda a ciência experimental.

2.5.2 Alberto Magno / Alberto de Colônia ou Santo Alberto Magno: 1193-


1280
Nascido em Bollsdãdt, Baviera, Alemanha. Foi, além de frade dominicano, o maior filósofo e
teólogo alemão da Idade Média (para alguns historiadores, um dos maiores sábios de todos os tempos:
Doutor Universal). Físico, químico, astrônomo, meteorologista, mineralogista, zoólogo e botânico,
além de filósofo que preparou o caminho do aristotelismo para Santo Tomás. O principal representante
da tradição filosófica da ordem religiosa católica Dominicana; famoso por sua defesa da coexistência
pacífica da ciência com a religião. Introduziu a ciência grega e árabe nas universidades medievais, sem
duvidar de Aristóteles. Em uma de suas frases famosas, afirmou: a ciência não consiste em ratificar o
que outros disseram, mas em buscar as causas dos fenômenos. Tomás de Aquino foi seu aluno.
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Filó sof o s e cien t ist a s a o lo ng o da hist ó ria da civiliza ção

O método de estudo de Alberto Magno se conformava aos procedimentos utilizados na


universidade: construir a exposição do texto desenvolvendo o seu sentido literal; depois, tomando
recuo, instituir questões dotadas de argumentos pro e contra a propósito de passagens mais difíceis.
Esse método é tido como um modelo de diálogo entre todas as disciplinas, interpretando a necessidade
de uma perspectiva dialógica para ter a arquitetura e estrutura da cultura; esse é o sentido da
interdisciplinaridade e contra o reducionismo. O talento de S. Alberto foi o da interdisciplinaridade,
num tempo em que o saber era departamentalizado.
Afirmava, entre outras, que: a fé religiosa não é o pólo oposto do saber científico; é outro saber;
o trabalho cristão é fundamentalmente projetivo, constrói-se em torno da aceitação do risco e, portanto
do risco radical marcado pelo interdito; a fidelidade há de ser criativa, não cadastral, como a que rege o
dia a dia das paróquias ou dos conventos; as projeções que se possam fazer não escapam ao erro, à falta
e ao pecado, mas, a forma de projeção sobre o futuro chama-se "caridade"; e de pouco vale a questão
como explicar, vale mais a questão de como dizê-lo.

2.5.3 Roger Bacon: 1214-1294


Nascido em Iichester, Inglaterra. Estudou nas universidades de Oxford e Paris. Foi discípulo de
Grosseteste e é tido como precursor do espírito científico do pensamento moderno por defender,
entre outros conceitos, a importância da matemática na fundamentação da ciência natural e valorizar o
papel da experiência na ciência (CHÂQTELET, 1983). Foi influenciado por Alhazen, 20 precursor–
criador do “método científico” baseado em experimentação. Contribuiu em importantes áreas do
conhecimento como mecânica, filosofia, geografia e, em especial, ótica. Teve visões de como seria o
mundo no futuro com barcos sem remadores, submarinos, automóveis, aviões (...). Tais “curiosidades”
levariam o homem a dominar o mundo e o futuro (HEER, 1968).
R. Bacon ingressou a Ordem dos Franciscanos e foi um dos mais famosos frades de seu tempo.
Viveu um período de grande influxo da cultura muçulmana na Europa sendo influenciado por ela.
Defendeu a ideia de que a autoridade religiosa não devia ser seguida acriticamente. Criticou os
procedimentos metodológicos utilizados pelo clero e colocou como principal fonte do conhecimento os
Livros Sagrados, diferentes das vertentes da época extremamente valorizadas.
As principais obras de R. Bacon foram: Opus majus, a única obra completa. Opus minus.
Opus tertium. Essas obras, se houvessem sido concluídas, deveriam constituir a enciclopédia do saber
(CHÂQTELET, op. cit.).
R. Bacon é considerado um dos pensadores mais importantes da escolástica tardia com notáveis
contribuições de pesquisa que lhe valeram o cognome de Doctor Mirabilis / Doutor admirável. É
considerado como um precursor do empirismo moderno: defendia o experimento como forma de
validação do conhecimento nas ciências naturais.
Foi propagador do conceito de leis da natureza e fez notáveis contribuições científicas em áreas
como filosofia, mecânica, geografia e, em especial, ótica; outras áreas foram, também, objetos de
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Fundamentos da pesquisa
Volume 1

estudos, tais como a matemática e as línguas. Propôs a reforma do calendário; fez experiências de
óptica e de propagação da força; anteviu as propriedades das lentes convexas, que poderiam se
transformar em telescópio ou microscópio; as consequências práticas do uso da pólvora; os navios de
propulsão mecânica e a possibilidade de vôo de engenhos mais pesados que o ar.
Com seus trabalhos, baseado em observações, acreditava que a ciência poderia resolver todos os
problemas do homem. Dedicou-se a estudos nos quais introduziu a observação e a experimentação
como fundamentos do conhecimento natural, avançando além de seu tutor Grosseteste.
Descreveu um estado do método científico, com detalhes para que outros [pesquisadores]
pudessem reproduzir seus experimentos e testar os resultados, como um ciclo repetido de observação
da natureza, de formulação de hipóteses, de experimentação e da necessidade de verificação
independente. Para uns foi o iniciador do método de experimentação científica desenvolvido pelo
chanceler F. Bacon (séc. XVI); para outros, o monge foi o verdadeiro mestre e o chancelar seu
discípulo.
Segundo Jolivet (1990), R. Bacon, além de procurar aplicar o método matemático à ciência da
natureza, fez diversas tentativas para torná-la experimental, em especial, no campo da óptica,
argumentando que ver com seus próprios olhos não seria incompatível com a fé, sem conseguir
demover as desconfianças medievais por qualquer tipo de experimentação.

2.5.4 Tomás de Aquino: 1225 / 1227-1274


Nascido no castelo de Roca-Sica / Rocassecca, perto da cidade de Aquino, Nápoles, Itália; de
família nobre (seu pai foi o Conde Aquino). Foi aluno de Alberto Magno na Abadia Beneditina de
Monte Cassino e estudou na Universidade de Nápoles; foi professo da Universidade de Paris; frade
dominicano. Estudou filosofia, teologia, lógica, retórica, aritmética, geometria, gramática, música,
astronomia (...) e era dotado de profunda religiosidade e extraordinário talento especulativo.

Foi professo da Universidade de Paris. Foi frade dominicano e interessado pela alquimia; sobre
esse assunto escreveu a Aurora consurgnes. Foi o maior expoente da escolástica, a filosofia
medieval, protagonista da conciliação entre os valores da fé com os valores da razão numa abordagem
aristotélica. Afirmava: a fé supera a razão, porém, não pode haver oposição entre elas; a verdade da fé
cristã ultrapassa a capacidade da razão, porém, os princípios naturais da razão não podem estar em
oposição a essa verdade.
Os princípios lógicos têm caráter intuitivo e Deus não pode ter dotado o homem de princípios
lógicos falsos. O pensamento racional coloca o homem de acordo com a sabedoria divina. Criado por
Deus, a mente humana é capaz de conhecer a verdade.
A maior contribuição de São Tomás para a ciência foi a integração do aristotelismo à tradição
escolástica, na forma de sustentação do pensamento Cristiano e da reflexão teológica.
As principais obras de Tomás de Aquino são:
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Suma contra os gentis em que voltou contra os não cristãos; discute assunto sobre a natureza e os
trabalhos de Deus, a sabedoria humana e a felicidade, a compatibilidade da fé com a razão.
Summa theologiae / Suma teológica composta por três partes; nela tratou, na forma de perguntas
e respostas, com a questão da razão e da revelação vistos como caminhos para o conhecimento de
Deus, oferecendo provas; analisou Sua natureza e propriedades e discutiu a relação intelecto
humano e deidade.
Cinco caminhos que conduzem a Deus. Provavelmente Tomas de Aquino seja mais conhecido
pela sua obra. Em sua obra colocava que não entendia a existência de Deus pudesse ser auto-
evidente, oferecendo provas nessa obra.
Escreveu inúmeras Questões sobre a verdade, a alma, o mal e a beatitude.
Opúsculos filosóficos; toda sua produção se caracterizou pela claridade expositiva e por sua
articulação metodológica de conceitos e argumentos; foi responsável.
Tomás de Aquino analisou a natureza do argumento com base no fundamento de um axioma
implícito: não há ordem no mundo material sem um princípio inteligente transcendente. Para que essa
proposição tenha a força pretendida deve necessariamente excluir que qualquer princípio de
organização se dê ao acaso (a matéria se auto-organizar casualmente). Fosse possível a auto-
organização, sua conclusão de que existe um ser que a ordena não teria a validade lógica necessária
porque haveria, pelo menos, a possibilidade lógica de que a organização observada se desse de forma
casual pela própria matéria.
Dessa forma, estar-se-ia dispensando a necessidade de um princípio inteligente. Mas, sem essa
demonstração de impossibilidade, já se tem um ponto como certo que constitui a segunda objeção
levantada contra a possibilidade da existência de Deus: a de que existe uma natureza autônoma.
Afirmava que o que se pode fazer com menos não se deve fazer com mais, então, por que excluir, logo
de início, a auto-organização inerente à matéria? A resposta à segunda objeção é reafirmar sua quinta
via: “na natureza, operando para um fim determinado, sob a direção de um agente superior, é
necessário que as coisas feitas por ela ainda se reduzam a Deus como à causa primeira”.
Tomás de Aquino postulou que um argumento tem sucesso em convencer alguém de sua
conclusão apenas se a pessoa, de início em dúvida, pudesse ser levada pelo argumento a acreditar em
sua conclusão. Esse acreditar deve ser o resultado daquilo que lhe for apresentado pelas premissas, as
quais devem, por sua vez, fornecer base sustentável para se acreditar na conclusão demonstrada. Dessa
forma, quem estiver em dúvida sobre a conclusão, estaria também em dúvida a respeito das premissas.
O que o argumento precisa demonstrar é que as coisas na natureza agem propositadamente em
direção a um fim e que, por si, elas são incapazes de realizá-lo. Dessa forma, para um epicurista que
considera a natureza apenas uma conformação temporária e casual dos átomos, tal argumento não faria
sentido.
Tomas de Aquino acentuou a diferença entre a filosofia, que estuda todas as coisas pelas últimas
causas à luz da razão e a teologia, ciência de Deus, que a estuda as coisas à luz da revelação.
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Fundamentos da pesquisa
Volume 1

Considerou que o conhecimento tem a primazia sobre a ação, pois nada pode ser amado se ante não for
conhecido e defendia a liberdade da vontade humana (livre arbítrio) para aderir ao bem ou ao mal,
conforme a responsabilidade moral de quem decide.

2.5.5 John Duns Scot: 1265/1266-1308


Nascido em Maxton ou próximo de Duns, Escócia. Formado nos ambientes acadêmicos de
Oxford e Paris, sendo, posteriormente, professor em teologia. Membro da Ordem Franciscana e teólogo
da tradição escolástica, com textos filosóficos profundos, originais e críticos, baseado na teologia
filosófica de Tomás de Aquino. Conhecido como Doutor Sutil, pelo reconhecimento de seu raciocínio
perspicaz e de seu discernimento minucioso.
As principais obras de Duns Scot são: Opus parisiensis / Obra de Paris.
Obra de Oxford, com comentários sempre expostos de modo dialético, isto é, com avaliação do
alcance de seus argumentos a favor e contra pontos de vista.
Opus oxoniensis / Ordinatio; sua obra mais importante.
Scot teve uma posição alternativa à de Tomas de Aquino em relação à razão e a fé; as verdades
da fé não poderiam ser compreendidas pela razão; dessa forma, a filosofia, deveria se afastar da
teologia e adquirir autonomia. Divergiu de doutrinas platônica e aristotélica, quanto à valorização do
indivíduo, tanto do ponto de vista metafísico, ao estabelecer a inteligibilidade como uma propriedade
do singular, quanto do ponto de vista ético, ao defender o livre-arbítrio; afirmava que o indivíduo é
inteligível em virtude do seu caráter formal individualizado, a acceidade ou aquilo que faz do
indivíduo o que ele é, um princípio formal e individualizador: socrateidade, aristoteidade (...); mediante
essa univocidade do ser estabeleceu a metafísica como a ciência suprema.
Entre as contribuições de Scot para a história da filosofia se encontram o conceito de estidade
(haecceitas) e a valorização da experiência e distancia como preocupações exclusivistas da filosofia
com as essências universais e transcendentais.

2.5.6 William de Occam / Guilherme de Ockham: 1285 – 1350


Nascido em Ockham, próximo de Guildford, em Surre, Londres, Inglaterra. Foi o mais influente
filósofo do séc. XIV e o representante mais eminente da escola nominalista 21 (séc. XI e XII). Ingressou
na ordem Franciscana (foi frade), estudou na Universidade de Oxford e ensinou filosofia e
matemáticas. Defendeu o poder leigo e a racionalidade, antecipando-se as tendências de secularidade
dos tempos modernos. É conhecido como o Doutor Invencível. Foi um empirista radical que sustentava
que os objetos individuais dos sentidos constituíam uma única realidade.
William de Occam foi um lógico e o autor do nominalismo, uma das principais tendências
filosóficas medievais, segundo a qual as ideias gerais, como gêneros e espécies, não passam de simples
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nomes, sem realidades fora do espírito ou da mente; as únicas realidades seriam os indivíduos e os
objetos considerados individualmente. A tese central do nominalismo é a não-existência de conceitos
abstratos e universais, mas, apenas de termos ou nomes com o sentido de designar indivíduos revelados
pela experiência. Nesse contexto, argumentava que não se poderia chegar a uma verdade teológica
utilizando-se meios racionais.
Occam rejeitou a explicação do conhecimento pela doutrina iluminista (S. Agostino) ou pela
inspiração platônica (Tomás de Aquino) na abstração, na essência, de origem aristotélica. A
individualidade do sujeito e a particularidade do objeto não podem ser omitidas do conhecimento.
Ofereceu uma explicação baseada na intuição sensível que permitiria entrar em contato direto com a
realidade individual e concreta: é a tese do nominalismo.
A intuição não é a captação direta por parte do sujeito de uma essência, de uma ideia platônica,
mas, a relação direta do sujeito que conhece com o objeto que é conhecido, algo presente e garantido
pelo que é imediato, pela presencia da “coisa”. Assim, o conhecimento é algo que se oferece de modo
direto e imediato e não o resultado da elaboração do entendimento que culminaria no conceito, de uma
abstração; isto, porque o universal não é real e o conhecimento se dá pela presencia de uma coisa e/ou
causa imediata que é real. Sua doutrina nominalista, junto com a navalha de Occam, faz parte e reforça
o argumento de que somente coisas individuais são reais.
Dessa forma, não considerava a necessidade de justificar o uso de termos gerais ou universais
como mulher, fogo (...) como referentes às formas ou essências, as quais possuem um modo especial de
existir, distinto da existência de mulheres, de fogos (...) particulares. Sua navalha extirparia o
pressuposto da existência real das formas ou essências. Isto, porque a universalidade que a essência
necessita para se justificar não estará na universalidade que é apenas propriedade de certo nome ou
signo.
Para Occam os conceitos não podem representar essências que não tem presencias nem
existências reais; são apenas sinais de natureza linguística, formados a partir da experiência, por
generalizações. Os conceitos seriam de dois tipos: os naturais concebidos pela mente, por palavras
mentais e os convencionais ditos e escritos que não serião essências.
No prólogo de seus comentários sobre a as Sentenças de Lombardo, Occam estabeleceu dois
tipos de conhecimentos, o intuitivo: de uma consciência imediata, tanto objetos dos sentidos como de
atividade mentais em manifestações como revelação e verdades auto-evidentes, e o conhecimento
abstrato, proveniente do conhecimento intuitivo, não sendo baseado em fatos, mas sim em proposições.
Um dos fundamentos do método científico é a chamada Navalha de Occam ou Lei da
parcimônia, um dos fundamentos do reducionismo na ciência, sintetizado pela expressão: se há várias
explicações igualmente válidas para um fato, então, deve-se escolher a mais simples, isto, porque a
natureza é por si mesma econômica.
Esse princípio, - o da Navalha de Occam ou Lei da parcimônia, diz respeito, nas explicações de
fenômenos, que não se deve exagerar as complexidades das teorias: “entia non multiplicanda praeter
necessitateum”.
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Fundamentos da pesquisa
Volume 1

A essência dessa lei pode ser considerada empirista por defender a necessidade de
experimentação como fonte do conhecimento.
A Navalha de Ockham estabeleceu, entre outras proposições, as seguintes:
a) É desnecessário fazer com mais o que se pode fazer com menos. Na pesquisa com qualidade,
racionalidade e efetividade em seus resultados o princípio pode ser interpretado como planejar e
buscar apenas as informações necessárias para se atingir determinados propósitos. O excesso de
dados, explicações (...) traz ineficiência e poderá ocultar explicações valiosas.
b) O essencial não deve ser multiplicado sem necessidade. Na pesquisa pode ser visto como
complicar situações por vezes complexas, tornando-as inexplicáveis. Neste sentido, Occam
expressou ideias interessantes, tais como: “há certo receio (...) de que algumas coisas não são
feitas para serem conhecidas e algumas inquirições são muito perigosas (...); todas as pesquisas
acarretam elementos de risco (...); o melhor meio de evitar abusos e incompreensões é tornar a
sociedade cientificamente informada a fim de que compreenda as implicações de tais
investigações”.
c) Quando existem várias formas, igualmente válida, para explicar um mesmo fato, a mais certa é
a mais simples. Nesta proposição é necessário diferenciar simples de simplismo em que fatores
essenciais são eliminados. Estabelecer o simples não deve ser interpretado como a diminuição da
variedade nem a redução da entidade até torná-la inadequada, simplista. Tampouco deve ser
colocado no outro extremo, o da complexidade, em que o real é um todo indissociável contraposto
à causalidade, em atrito com o conhecimento que só poderia ser obtido pelo uso da razão pura.
Há autores que consideram o princípio da parcimônia como um princípio ontológico ao acreditar
que a natureza não faria de forma complicada o que pudesse fazer de forma simples; era, em parte, uma
tese de Grosseteste. Outros acreditam que se trata de certa tendência simplificadora quando se
prefere explicar as coisas de uma forma simples, com a evidência de que teorias simples conseguem,
muitas vezes, explicar fenômenos aparentemente complexos.
Qualquer que seja sua explicação, ela deve estar presente na atividade do pesquisador para
eliminar exageros, supérfluos e complexidades desnecessárias.

2.5.7 Jean Buridan 1300-1358


Nascido em Béthune, França. Estudou na Universidade de Paris e foi influenciado pela filosofia
escolástica de William de Occam. Foi filósofo e religioso occamista moderado. Embora tenha sido um
dos mais famosos e influentes filósofos da Idade Média Tardia, com ideias modernas, encontra-se entre
os pensadores menos conhecido. Foi contra a física aristotélica que partia do princípio de que a ciência
devia recorrer à fé nas questões que ultrapassassem a razão. Participou da escola terminista, movimento
filosófico e científico dominante nas universidades da época, com a criação de novas ideias
epistemológicas na física e na astronomia.
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Uma das contribuições mais significativas de Buridan, com base nos movimentos dos astros, foi
a formulação e popularização da teoria do impetus, a semelhança da hipótese / teoria de Occam, que
explicava o movimento de projéteis e objetos em queda livre: “quando o arqueiro lança a sua flecha, ele
imprime-lhe certo impetus proporcional ao seu volume, à sua densidade e à velocidade...; se o impetus
não fosse diminuído e destruído por alguma força contrária, que a ele resistisse ou então por algo que
inclinasse o móvel para um movimento diferente, o impetus duraria indefinidamente”. Essa ideia foi
precursora da dinâmica de Galileu e do princípio da inércia de Newton. Para o tomismo aristotélico os
astros eram movidos por uma inteligência divina que, segundo Buridan, não havia necessidade dessa
inteligência.

2.5.8 Nicole d'Oresme / Nicolas de Oresme: 1323-1382


Nascido em Normandy, França. Foi um gênio e provavelmente o pensador mais original do séc.
XIV. Foi economista, matemático, físico, astrônomo, psicólogo, teólogo, e musicólogo e um dos
principais propagadores das ciências modernas. Entre as suas contribuições científicas se tem: a
invenção da geometria coordenada, antes de Descartes e os trabalhos com séries infinitas. Propôs o
uso de um gráfico para representar uma magnitude variável que dependesse de outra. Escreveu
Questiones super libros Aristotelis de anima, um tratado sobre a natureza da luz, da reflexão da luz
e de sua velocidade.
Nicole d'Oresme demonstrou que as razões propostas pela física aristotélica acerca do
movimento da Terra (teoria da Terra estacionária) não eram válidas e invocou o argumento da
simplicidade (Navalha de Occam) em favor da teoria de que é a Terra que se move, e não os corpos
celestiais. No geral, o argumento a favor do movimento terrestre é mais explícito e mais claro do que o
que foi dado séculos depois por Copérnico. Descobriu a curvatura da luz através da refração
atmosférica.
A partir do século XIV o pensamento escolástico, de inspiração no idealismo de Platão e no
realismo de Aristóteles, sob o autoritarismo religioso e com suas consequência para a ciência ao adotar
posturas dogmáticas, contrárias à reflexão e à aceitação de afirmações contidas em textos religiosos,
impediram ou dificultaram as inovações científicas.
Por outro lado, tentativas contrárias ao magister dixit... (o mestre disse...) se faziam sentir em
julgamento pelo Santo Ofício, pela Inquisição, que, repetindo, tornavam difíceis os avanços das
ciências. Naquele ambiente aparecem sinais de questionamentos do protestantismo e de “abalos” contra
a fé e a revelação, tais como: o poder da razão e o antropocentrismo ou a negação do referencial
transcendente que atribuía ao ser humano a posição nuclear em relação a todo, o ser humano como eixo
ou finalidade última, em oposição ao Teocentrismo (Deus como centro de tudo).
Tais questionamentos e abalos abriram espaços e oportunidades para um novo período, o da
ciência na Idade Moderna.
106

Fundamentos da pesquisa
Volume 1

Esse mesmo pensamento, em outro sentido, estimulou as artes; para os escolásticos da Idade
Média, a arte era uma virtude do intelecto prático, um hábito de ordem intelectual que imprimia ideias à
matéria; algo com “aquilo cuja visão agrada” (Tomás de Aquino), aquilo cujos requisitos seriam a
proporção ou harmonia, a integridade ou unidade e a clareza ou luminosidade.

____________0____________

Entre os muitos aspectos que a Idade Média trouxe e deixou, além de um grande e inigualável
acervo de obras de arte, um é destacado nestas Orientações para elaborar um projeto de
pesquisa (...):
(...) a lógica moderna com novos fundamentos da matemática; novas teorias de lógicas
não-clássicas, baseadas em linguagens mais ricas em formas de expressão, com novos princípios e
semânticas distintas. Da Idade e seus pensadores que herdou tais contribuições à ciência, trata-se na
próxima seção.

2.6 Filósofos e Cientistas da Idade Moderna


Não é clara a definição de quando terminou a Idade Média e quando começou a Idade Moderna;
há, contudo, uma data que é considerada por historiadores como referência simbólica da passagem de
uma idade para a outra. Essa data é o ano 1453 que marcou a queda do Império Romano do Oriente.
Em torno dessa data se registraram fatos da passagem de uma para outra idade, tais como, descobertas
do Renascimento que marcaram um novo pensamento e um novo saber não mais contemplativo
baseado em conceitos e princípios, mas, em um saber científico derivado da própria realidade
observada e submetido à experimentação, com resultados voltados para essa mesma realidade.
Adiantando-se à data dessa passagem houve, também, fatores ocorridos na chamada Idade
Média Tardia, os quais se manifestaram por algum tempo, mas que permitiram o começo de definições
de alianças entre a ciência da teoria com a técnica da realidade.
Nesse período surgiu o nascimento da ciência moderna com valiosas contribuições de Galileu,
auxiliado / complementado por F. Bacon, Kepler, Newton e Copérnico, entre outros, rompendo com
a tradição do mundo inconteste, de realidades baseadas em dogmas. Foram atividades e contribuições
inicialmente praticadas de formas dispersas - isoladas, entregues às responsabilidades de instituições
acadêmicas, as academias (p.ex., A Royal Society of London, fundada em 1660 e a Academia Francesa
fundada em 1666), que cuidavam, entre outros propósitos, para que cada sábio conservasse o seu lugar.
Nesta síntese é destacada a importância da transição da Idade Média para a Idade Moderna, com
ênfase em contribuições importantes de movimentos intelectuais que, no século XV, preconizaram a
recuperação dos valores e modelos da Antiguidade greco-romana, contrapondo-os à tradição medieval
ou adaptando-os a ela. Dentre esses movimentos se destaca o Renascentismo. Nele, renovaram-se não
apenas as artes plásticas, a arquitetura e as letras, mas, também, a organização política e econômica da
sociedade. Naquele período Johannes Gutenberg, 22 inventou a imprensa de tipos móveis que
107

O rige n s e e vo lu çõe s da s ciên cia s e d a p esqu isa


Filó sof o s e cien t ist a s a o lo ng o da hist ó ria da civiliza ção

permitiu a leitura de autores – filósofos, como os gregos. A divulgação por esse meio de comunicação -
informativa foi feita, em parte, pelos estudiosos migrantes para o Ocidente, após a captura de
Constantinopla pelos turcos. Outro fato importante que deve ser destacado foi a descoberta da América,
com suas civilizações.
Na astronomia, o Renascimento teve sua principal contribuição com as obras de Galileu, dando
início a uma nova forma de estudar e de compreender a natureza em dois sentidos:
a) Em primeiro lugar, buscou-se a autonomia da ciência, desligando-a da teologia e da tradição
aristotélica, conforme consta na obra de Galileu Diálogo dos grandes sistemas.
b) Em segundo lugar, aplicou-se um novo método, o método experimental adequado a realidade
para chegar ao conhecimento científico, com um resultado diferente daquele encontrado na
ciência tradicional.
Com relação ao método experimental, Galileu afirmava que ao cientista só se devia exigir que
provasse o que afirma. (...), a começar pelas experiências sensatas e pelas demonstrações
indispensáveis, conforme constam em sua obra As duas novas ciências.
As contribuições filosóficas e matemáticas de Galileu deram e matemático à ciência uma nova
linguagem, a linguagem do rigor, a linguagem matemática.
A parte que segue apresenta uma síntese de algumas contribuições de grandes pensadores na
ciência, no período moderno, buscando definir uma linha de evolução do pensamento científico e do
método de investigação, com exemplos, poucos, de descobertas e invenções ocorridas naquele período
da história da ciência.

2.6.1 Nicolau Copérnico / Mikolaj Kopernik: 1473 – 1543


Nascido em Torun, Polônia, em família de mercadores e funcionários que dava grande
importância à educação. Foi influenciado pelo Renascentismo e beneficiado pela Igreja Católica por
ser monge. Estudou nas Universidades de Cracóvia e Bolonha. Doutor em direito canônico, “médico”,
matemático e astrônomo, autor da Teoria Heliocêntrica, vale dizer, heliostática.
Copérnico é considerado o fundador da astronomia moderna por ser o primeiro a concluir que os
planetas e o Sol não se movem ao redor da Terra (HAWKING, 2005), apesar de especulações de um
universo heliocêntrico desde a época de Aristarco. 23
Copérnico construiu uma torre de observação e com instrumentos astronômicos, tais como
compassos, quadrantes, paralácticos e astrolábios, iniciou a exploração do universo 24 observando o
Sol, a Lua e as estrelas. Tais observações e estudos lhe permitiram escrever De hypothesibus
motuum coelestium a se constittuis commentariolus / Comentário sobre as teorias dos
movimentos dos corpos celestes a partir de seu arranjo, sem ser publicada.
Essa foi primeira tentativa, segundo Hawking (op. cit.), de propor uma teoria astronômica na
qual a Terra se move e o Sol permanece em repouso, sendo o centro do sistema solar e das órbitas dos
108

Fundamentos da pesquisa
Volume 1

planetas que giram em seu entorno. Inicialmente suas ideais foram apresentadas na forma de hipóteses
como explicações preliminares e orientadoras de pesquisa, dada a sua insatisfação com as explicações
aristotélico-ptolemaicas. Pensava que o centro da Terra não era o centro do universo, mas, apenas o
centro da órbita da Lua, acreditando que perturbações nos movimentos observados dos planetas eram
resultados da rotação da Terra ao redor de seu eixo e de seu movimento orbital.
O padre, astrônomo e matemático Copérnico continuou trabalhando, em sigilo, corrigindo e
expandindo seu texto Comentário (...) com resultados, anos depois, apresentados na sua obra De
revolutionibus orbitum coelestium / Sobre as revoluções das esferas celestes, onde a teoria
heliocêntrica foi colocada de forma científica e não apenas como uma hipótese; mas, também, naquela
oportunidade se negou a publicá-la, dado o risco de ser condenado pela Igreja e por reconhecer a
necessidade de revisão e de verificação de suas observações. A obra Sobre as revoluções (...) gerou
intensos debates, por décadas, e ataques como, p.ex., de teólogos protestantes ao sustentar que o
heliocentrismo contrariava a Bíblia.
Após 20 anos de escrita Sobre as revoluções (...) o frade dominicano Giordano Bruno
acrescentou a ideia do Universo infinito sendo, por isso, condenou a morte pela Inquisição.
Copérnico debilitado, semiparalítico e frustrado (era um cientista perfeicionista impedido de se
expressar e trabalhar com liberdade) confiou o manuscrito De revolutionibus (...) a seu aluno George
Rheticus; este, sob pressão “facilitou” que o manuscrito caísse em mãos do teólogo luterano Andréas
Osiander o qual introduziu mudanças no texto (p.ex., apresentando a teoria como uma hipótese) sendo,
anos depois, publicado; um exemplar da obra, sem o conhecimento das mudanças, chegou às mãos de
Copérnico em seu leito de morte.
Segundo a teoria heliostática, o Sol é o centro do sistema solar e das órbitas dos planetas que
giram em torno dele; o movimento da rotação da Terra sobre seu próprio eixo é o que dá origem a
sucessão de dias e noites. Foi o primeiro a posicionar, de maneira correta, Vênus e Mercúrio (mais
próximos do Sol e com movimentos mais rápidos), estabelecendo a ordem e distância dos planetas
conhecidos.
Na comprovação dessa teoria criou, para a física experimental, um novo método, o método
experimental, com a concepção matemática da natureza, uma ideia defendida pelos pitagóricos, mas,
com novas contribuições, hipóteses e alteração de várias teorias astronômicas dos gregos.

2.6.2 Tycho Brahe: 1546 – 1601


Nascido em Knudstrup, Dinamarca. Destacou-se como astrônomo ao descobrir erros de predição
das Tabelas Alfonsinas, 25 sendo o primeiro astrônomo em calibrar e checar a precisão de seus
instrumentos periodicamente, a maioria por sextantes e quadrantes de grandes dimensões, bem como
por corrigir as observações por refração atmosférica e instituir, por primeira vez, observações diárias
(ROGERS, 1960).
109

O rige n s e e vo lu çõe s da s ciên cia s e d a p esqu isa


Filó sof o s e cien t ist a s a o lo ng o da hist ó ria da civiliza ção

Brahe realizou observações regulares e mais acuradas das posições dos planetas, mostrando que
as trajetórias descritas por Ptolomeu eram apenas grosseiros roteiros dessas trajetórias. Por tudo isso,
ficou famoso por ter coletado os mais precisos dados astronômicos até aquela época. Sem acreditar no
modelo heliocêntrico proposto por Copérnico e utilizando seus dados, propus um novo modelo
geocêntrico do universo que se tornou popular.
Coube a seu discípulo e assistente Kepler, alguns anos mais tarde e utilizando as mesmas
observações, porém, com novas orientações, não apenas comprovar o modelo heliocêntrico, mas,
estabelecer princípios das três Leis de Kepler do movimento planetário. Afirmava que os fatos não são
suficientes por si mesmo; fatos e medidas precisam ser interpretados pelo pesquisador que realiza um
experimento, sem viés ou sem influência estranha à ciência e seu método, para se gerar um
conhecimento científico. 26
Brahe publicou o Mundi aetherei recentioribus phaenomenis / Sobre o novo fenômeno
no mundo etéreo, sobre observações de um cometa demonstrando que se movia entre as esferas dos
planetas, e, portanto, que o céu não era imutável e as esferas cristalinas, como concebidas na tradição
greco-cristã, não eram entes físicos. Junto com Kepler, seu ajudante, e Galileu deram mais realismo ao
método hipotético.

2.6.3 Francis Bacon: 1561 – 1626


Nascido em Londres. Estudou na Universidade de Cambridge quando não apenas descobriu
como também adquiriu aversão ao pensamento de Aristóteles. Ao mesmo tempo percebeu as
mudanças; dizia: “a técnica mudará o mundo”. Começou como político e jurista.
É considerado o precursor do método científico moderno, não pelos resultados empíricos de seus
trabalhos, mas, pela montagem que fez do método para fazer pesquisa científica, sem ser um cientista
(era advogado) e por ter apontado erros como os de generalizações precipitadas e observações difusas
– fragmentárias.
O propósito de sua obra consistia em promover o progresso sistemático do conhecimento, de tal
forma que as aplicações das ciências permitissem aumentar o bem-estar e eliminar os conflitos e
sofrimentos; era simultaneamente um objetivo cognitivo (ação crítica de combate às doutrinas
dominantes), ético (destruição de hábitos mentais) e político (falta de poder para dar origem às
transformações).
O método científico, segundo F. Bacon, devia compreender:
a) a observação;
b) a experimentação, de tal forma que outros pesquisadores pudessem repeti-la;
c) a formulação de hipótese, com base na observação e experimentação e com a aplicação do teste;
d) a formulação de generalizações e leis.
110

Fundamentos da pesquisa
Volume 1

A principal obra de F. Bacon deveria ser a Instauratio magna scientiarum / Grande


restauração científica, proposta para compreender uma série de tratados (seis) que, partindo do
estado em que se encontrava a ciência da época, acabaria por apresentar um novo método de
investigação para superar e substituir o método de Aristóteles. Mas, apenas terminou dois, deixando
esboços e fragmentos dos demais tratados.
Os dois tratados concluídos, de conteúdos de pesquisas gnosiológicas, críticas e metodológicas
como bases lógicas da nova ciência, da filosofia da ciência, foram: De dignitate et argumentis
scientiarum. Novum organum scientiarum.
O método da ciência deveria ser um método apoiado na experimentação e na observação; a
descoberta de fatos (...) depende da observação e da experimentação guiadas pelo raciocínio indutivo.
Na acepção baconiana, o conhecimento científico resulta da observação atenta e cuidadosa da
realidade, compreendendo uma “parceria” equilibrada entre o intelecto, exigindo neutralidade,
portanto, passivo diante do que se observa, e os sentidos, exigindo receptores fidedignos. Eram os
meios para se chegar à verdade; sem haver criação e apenas constatação. Na indução científica
recomendava a “descrição pormenorizada dos fatos e a tabulação para o registro das observações feitas
experimentalmente”.
Apontava a verdadeira indução como àquela com a qual se podem buscar as formas e certa
determinação (atributos) interna que condiciona a diferenciação da natureza das coisas. A investigação
das formas é a investigação dos vínculos essenciais e lógicos da realidade. Ao afirmava que a “verdade
é filha do tempo” aceitava a tomada de consciência do valor da história no desenvolvimento científico.
Acrescentava:

posso afirmar (...) que temos necessidade de uma história exata do saber, contendo a origem das
ciências, as invenções, as tradições, os diversos tipos de preparação e organização, os períodos de
expansão, oposição e decadência (...) com as suas causas e possibilidades de todos os
acontecimentos que dizem respeito ao saber.

F. Bacon elaborou um esboço da história da ciência, das artes e das técnicas, extensiva a todas
as regiões do mundo e a todos os períodos da história. Destacou a experiência (iniciador do empirismo)
e o método dedutivo de tal forma que o transcendente e a razão acabaram relegados a planos
secundários. Apontam os historiadores que faltou a consciência crítica do empirismo, conquistada, aos
poucos, pelos seus sucessores e discípulos até Hume.
No começo da obra Instauratio magna scientiarum, F. Bacon apresentou a classificação geral
das disciplinas humanas, baseada no respectivo predomínio das três faculdades que precedem à
organização do saber: a memória, a fantasia e a razão. A classificação não era baseada no objeto do
conhecimento, e sim no sujeito que conhece, compreendendo a História tanto civil quanto natural, que
registra (memória) os dados de fato; a poesia com elaboração imaginativa desses dados; e a ciência ou
filosofia, o conhecimento racional de Deus, do homem e da natureza.
111

O rige n s e e vo lu çõe s da s ciên cia s e d a p esqu isa


Filó sof o s e cien t ist a s a o lo ng o da hist ó ria da civiliza ção

F. Bacon destacou em sua obra Novum organum que o que interessa a ciência não é seus
princípios comuns, e sim a ciência da natureza. Dessa forma, o Novum (...) deveria conter as regras
para a construção dessa ciência, reivindicando o método indutivo com um novo sentido. Tal método,
segundo Aristóteles e Tomás de Aquino, entre outros predecessores, foi reconhecido como único
procedimento para se ter o conhecimento humano, mas, com o interesse maior nas causas do que na
experiência, portanto, com um conteúdo mais metafísico do que científico.
Na obra o Novum organum que F. Bacon previa com 130 seções agrupadas em seis partes,
desenvolveu a primeira teoria moderna do método científico, mediante etapas essenciais. O objetivo
desse método era o de se constituir uma nova maneira de estudar os fenômenos naturais mediante a
descoberta de fatos que não depende de raciocínio silogístico aristotélico, mas, sim da observação e da
experimentação dispostas conforme regras do raciocínio indutivo. O conhecimento “verdadeiro” seria
o resultado da concordância e da variação dos fenômenos que, se devidamente observados,
apresentariam as suas causas reais.
Na primeira parte, Partitiones scientiarum, apresentaria diversos saberes científicos existentes,
relativos à natureza (astronomia, meteorologia, geografia, mineralogia, vegetais e animais), ao homem
(anatomia, fisiologia, poder e estruturas sociais) e a ação do homem sobre a natureza (medicina,
química, artes visuais, sentidos, emoções, faculdades intelectuais, arquitectura, transporte, imprensa,
agricultura, navegação e aritmética, entre outras), com indicações de deficiências e sugestões de
soluções.
A segunda parte, De interpretatione natura, seria uma nova e fecunda metodologia, a lógica
indutiva; essa metodologia permitiria ampliar o campo do que se sabe, não por generalizações
falaciosas, mas por procedimentos inventivos capazes de permitir uma exploração ativa do universo e
da diversidade dos seres que o habitam.
A terceira parte, Phaenomena Universi, seria uma colecção de fatos e acontecimentos de todos
os campos da experiência para se constituir um "Alfabeto do Universo" que deveria funcionar como
base de aplicação do novo método.
A quarta e quinta partes, Scala intelectus e Prodomi sive anticipationes philosophiae
secundae, ofereceriam exemplos bem sucedidos da aplicação, respectivamente, do novo método
inventivo e dos métodos antigos.
A sexta parte seria a Philosophia secunda sive scientia activa, incompleta e inconcluída.
No aforismo 36 do Novum organum, atribui tanto a superioridade explicativa da ciência quanto
sua eficácia praxiológica, ao fato de serem cuidadosas e rigorosas as observações dos fenômenos,
indicando que a observação desponta como a garantia de não se projetar uma racionalidade que não
pertence à ordem da inteligibilidade do objeto de investigação. Afirmava que só a razão não tem
capacidade preditiva, adquirindo-a quando se combina com a observação.
O verdadeiro método da indução científica compreenderia uma parte negativa ou crítica e uma
parte positiva ou construtiva. A parte negativa consistiria, em alertar a mente contra os erros comuns
(observação sem valor) na busca do conhecimento científico. Neste caso, a observação com valor nem
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Fundamentos da pesquisa
Volume 1

sempre seria fácil de obter; poderia ser prejudicada por falhas no nível de percepção, bem como por
preconceitos que introduzirião visões deformadas. Dessa forma, estariam sendo identificados vários
tipos de fontes tipológicas de ilusões cognitivas, tais como os ídolos:
a) da tribo (idola tribus): são os erros que ocorrem por conta das deficiências do próprio espírito
humano que se revelam pela facilidade com que se generaliza com base nos casos favoráveis e
se rejeita com base em casos desfavoráveis; são erros inerentes à natureza humana, à própria
tribo; são os erros do homem de não saber o por que das coisas;
b) da caverna (idola specus); uma alegoria à caverna de Platão; são os erros que resultam da própria
educação e de pressões como as dos costumes;
c) da vida pública (idola fori); erros vinculados à linguagem e ao mau uso que se faz;
d) da autoridade (idola theatri); são erros que decorrem da subordinação à autoridade ou de escolas
filosóficas, que substituem o mundo real por um mundo fantástico, por um jogo cênico.
A parte positiva ou construtiva do método indutivo corresponderia à verdadeira interpretação da
natureza com base em princípios imanentes.Seriam as causas e leis certas dos fenômenos (as chamadas
formas da natureza) associadas às ações e ordens da natureza. Tratava-se de fenômenos experimentais
objeto da física como, p.ex., a luz, o calor e o peso.
A pesquisa estaria baseada na passagem (explicação...) das naturezas às formas; da presença de
um atributo à ausência do mesmo em um objeto; dos fenômenos às essências (...). Compreenderia a
descrição pormenorizada de fatos observados, confrontados com três tabuas que disciplinariam o
método indutivo. São as tabulae baconiana de investigação, com suas duas formas: as experiências
vagas ou noções quando o investigador atua por acaso e as experiências escrituradas, quando o
pesquisador informado observa metodicamente e faz experimentos. Essas tábuas constituiriam o
núcleo do método sobre as quais F. Bacon estabeleceu a epistemologia da ciência (epistemologia
tradicional) ao defini-la como: “a ciência parte da observação e só, em seguida, procedendo
cautelosamente, chega às teorias”.
Nas tabuas baconianas são considerados três estados. A primeira tábua de investigação é a de
presença, afirmação ou verificação de uma ocorrência positiva; a causa (forma) dos fenômenos,
procurada com base na presença nessa tabela. F. Bacon reconheceu que não é fácil se ter tábuas
completas e isolar as naturezas simples que coloque em evidência a causa; assim, para destacar a causa
e as leis das formas da natureza seria necessário estabelecer hipóteses testadas pela experimentação
com base no maior número possível de exemplos em que aparece um dado fenômeno, enumerar os
casos que mais se assemelhem e os casos em que o fenômeno não aparece.
A segunda tábua baconiana consiste na ausência, negação ou verificação de que o fenômeno
não ocorre; era a tábua responsável pelo controle de situações nas quais as formas pesquisadas se
revelariam ausentes.
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O rige n s e e vo lu çõe s da s ciên cia s e d a p esqu isa


Filó sof o s e cien t ist a s a o lo ng o da hist ó ria da civiliza ção

A terceira tábua é a das graduações ou comparações, que consistiria na anotação dos diferentes
graus de variação ocorrida no fenômeno para descobrir possíveis correlações entre as modificações; era
a tábua responsável pelo registro das variações que as referidas formas manifestam.
Com as tábuas seria possível eliminar causas que não se relacionam com o efeito ou com o
fenômeno ou objeto analisado e, pelos registros da presença e de variações seria possível chegar à
verdadeira causa do mesmo. Estas tábuas não apenas dariam suporte ao método indutivo, mas,
permitiriam fazer uma distinção entre a experiência vaga ou noções recolhidas ao acaso e a
experiência escriturada ou observação metódica e passível de verificações empíricas.
No método de F. Bacon a observação é considerada como o único meio para se combater a
especulação vazia. Trata-se do recurso necessário para garantir a autenticidade do conhecimento e a
condição praxiológica (teoria epistemológica), isto é, a condição que estuda as ações, comportamentos
e leis humanas como conclusões operacionais da ciência, supondo-se que não seria possível
transformar a racionalidade funcional de alguma coisa sem dispor de um conhecimento baseado na
observação de sua “conduta” ou natureza. Observar é, em consequência, tanto um procedimento de
garantia da autêntica epistêmica quanto uma atividade rastreadora que fundamenta ao projeto
praxiológico de controle instrumentalizador da natureza.
Dessa forma, o autêntico conhecimento só é possível quando o homem se dedica à observação
[criteriosa] dos fatos, registrando-os [com auxílio de instrumentos] de modo à de eles derivarem as leis
que os explicam: um trabalho empírico-analítico na medida em que implica o acompanhamento
cuidadoso des fatos, percebendo sua natureza para, a partir daí, inferir as possíveis constatações sob a
forma de leis; sem uma metodologia adequada pouca utilidade teria a observação e o raciocínio e em
nada contribuiriam para o progresso da ciência.
Um aspecto que deve ser destacado, entre as contribuições de F. Bacon à ciência e pela
pertinência com o texto, diz respeito à integração de esforços, quando conclui que o conhecimento
pode ser frutífero somente se a tecnologia e a filosofia estiverem unidas; em lugar do debate de
pormenores de matéria e forma, de especulação da metafísica (...), os cientistas deveriam observar a
natureza [observar e registrar o fato de valor], esboçar conclusões com base na indução e
experimentação e empregar ferramentas aplicáveis [convenientes, adequadas] para testá-las. São as
comunidades, em vez de gênios isolados, as responsáveis pelo progresso científico. Contudo, os
historiadores apontam como falha, o menosprezo pela ciência especulativa e a pouca importância da
hipótese na pesquisa. Afirmava Bacon que todo conhecimento se deriva da observação e
experimentação e que a suposição de leis uniformes de um mundo essencialmente caótico poderá
distorcer a percepção.

2.6.4 Galileu Galilei: 1564 – 1642


Nascido em Pisa, Itália. Começou seus estudos em um mosteiro florentino. Estudou na
Universidade de Pisa medicina e filosofia aristotélica. Foi músico, matemático (inspirado em
Arquimedes), astrônomo e físico. É considerado o criador do método experimental; na introdução ao
114

Fundamentos da pesquisa
Volume 1

método científico ressaltava o valor da experimentação como o mais importante procedimento a ser
seguido nas ciências naturais; dizia: “não basta acompanhar os fatos, é necessário modificá-los para
entender como acontecem”.
A maior contribuição à metodologia científica foi a integração das investigações teórica e
experimental em um todo único sem que, ao colocar o experimento como base do conhecimento
científico, menosprezasse o papel da teoria. Outra notável contribuição foi a introdução da matemática
na prática da investigação científica.
Galileu, em sua obra Diálogos sobre os dois máximos sistemas do Mundo: copernicano
e ptolomaico defendeu o sistema heliocêntrico que motivou um longo processo contra ele em
tribunais da Inquisição, obrigando-o a abdicar de suas ideias, conforme consta na confissão que foi
obrigado a redigir:

Eu Galileu Galilei, filho do falecido Galelei de Florenza, com 70 anos de idade, julgado
pessoalmente por esta corte, e ajoelhado diante de vós, Eminentíssimo e Reverendíssimos Cardeais,
Inquisidores-Gerais de toda a República Cristã (...), após receber a admonição da Igreja Católica,
abandono inteiramente a opinião falsa segundo a qual o Sol é o centro do universo e imóvel, e Terra
não é o centro do universo e que ela se move, a dita falsa doutrina, na qual não devo crer, defender
ou ensinar sob qualquer forma, seja verbalmente ou por escrito (...), adjuro, de todo coração e com
verdadeira fé detesto a amaldiçôo os supraditos erros e heresias, e todo e qualquer erro em geral que
seja contrário à Igreja Católica (...).

Após alguns anos de silencio pelo receio de represálias da Igreja, publicou, mas não em seu
nome, o Saggiatore / O ExPerimenta; nessa obra apresentou uma exposição dos princípios que
devem regular o raciocínio científico e o processo experimental, defendendo o ceticismo do
pesquisador perante as afirmações. Além disso, esboçou uma teoria que alcançou notável importância
na história do pensamento humano: há uma diferença, na natureza, entre as qualidades primárias, tais
como posição, número, formato e movimento dos corpos e as qualidades secundárias, tais como cores,
cheiros e gostos que existiriam apenas na consciência do observador.
Depois, Galileu publicou, com seu estilo claro e incisivo: Dialogo sopra i due massimi
sistemi del mondo: Tolemaico.
Coperniano / Diálogos sobre os dois máximos sistemas do Mundo: coperniicano e
ptolomaico, obra que causariam sua condenação como pessoa não grata para a Igreja e daria origem
ao processo de sua condenação sob a acusação de heresia à prisão perpétua. Essa obra foi escrita sob a
forma de um diálogo entre três pessoas que confrontavam as cosmologias de Ptolomeu e Aristóteles
com a de Copérnico, destruindo metodicamente os argumentos tradicionais. Nela, desafiava o edito
contra a propagação da teoria heliocêntrica de Copérnico.
Nessa fase de sua vida se voltou para o estudo da mecânica dos movimentos dos corpos,
chegando a conclusões opostas às de Aristóteles que afirmava que todo movimento, para poder se
manter, pressupõe a ação contínua e permanente de uma força; Galileu, com uma visão diferente,
115

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concluiu, após várias observações, que os corpos sempre se mantêm tanto em movimento retilíneo e
uniforme como em repouso, a menos que haja uma força ou forças para impedi-lo; nascia, assim, o
princípio da inércia, que Newton usaria depois na construção de sua teoria.
Galileu estudou a queda dos corpos, concluindo, também em oposição a Aristóteles, que os
corpos leves, longe de caírem mais lentamente do que os pesados, como se afirmava, fazem-no com a
mesma velocidade. Ao mostrar como essa queda ocorre em Diálogos sobre as duas novas
ciências, a apresentou como uma relação de proporcionalidade entre o espaço percorrido e o tempo,
reafirmando a importância do método experimental para a ciência; nesse método, formulada uma
hipótese, o cientista a evidencia pela realização de experimentos e, somente então, parte para as
elaborações teóricas. Tais ideias foram referências da mecânica moderna.
Na especulação no campo da mecânica, a simples observação não era suficiente para se obter o
princípio da inércia. Esse princípio não poderia repousar apenas na realização de um ou mais testes.
Galileu recorreu às "experiências em pensamento". Com efeito, qualquer tentativa de demonstrar
experimentalmente o princípio da inércia estará, de antemão, condenada ao fracasso, pois ele ocorre
literalmente apenas em condições ideais. No mundo real, o atrito sempre se faz sentir. A experiência
em si serve apenas para constatar a validade do princípio, pois, com uma progressiva redução do atrito,
a “bola percorre”.
A grande contribuição de Galileu à ciência (apenas uma amostra) esteve na criação da ciência do
movimento, com duas novas ciências: a estática e a dinâmica. Além do novo método de análise e de
verificação, a "cinemática" geral implicava um novo conceito de movimento tão revolucionário quanto
à nova cosmologia. O movimento era uma espécie de mudança, a mudança de lugar (física
aristotélica), devida a uma causa, sendo que no repouso não existe essa causa (estado natural de um
corpo); o movimento seria uma mudança repetida e, de acordo com o princípio de causalidade,
exigiria a ação constante de causas (influxo permanente de energia, no contexto moderno).
Sendo que o movimento exige causas e o repouso é a sua própria causa, Galileu considerou que
existe um estado de movimento equivalente ao estado de repouso. Dessa forma, o movimento deixou
de ser uma mudança e a continuação do movimento não seria mudança repetida, mas, retenção de um
estado. O que requer uma “causa” é a passagem do repouso ao movimento e do movimento ao repouso.
Nesse contexto, o movimento seria definido por velocidade e direção, sendo o movimento
retilíneo uniforme o mais simples de todos; nele, define-se cada um dos vetores por coordenadas de
espaço e de tempo, combinadas na aritmética geometrizada. Dessa forma, um dado movimento em
certo momento seria definido por determinadas quantidades representadas por essas coordenadas.
Assim, seria a mudança nesta quantidade que constituiria uma mudança no movimento. Mudança de
velocidade e de direção indica uma ação de uma força adicional à força que mantém o movimento
retilíneo. Estas, entre outras, foram inferências e conclusões de Galileu contra as aparências, contra as
percepções sensoriais, em que o corpo para se a força impulsionadora cessar.
Também como exemplos se relacionam alguns inventos, conceitos e descobertas de Galileu, tais
como: o pêndulo e outros instrumentos usados para medir o tempo com precisão; os conceitos de
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Fundamentos da pesquisa
Volume 1

aceleração, utilizado na física moderna e de fricção da inércia com relação aos objetos em
movimento; os componentes da força e outros precursores da formulação das leis do movimento de
Newton; as bússolas magnéticas, termômetros, telescópios e lentes especiais; descobriu que a Via
Láctea está composta por milhares de estrelas e que o Universo não é fixo nem imutável.
O método de investigação proposto por Galileu pode ser sintetizado:
a) a partir de dados da investigação e de experimentos iniciais se cria o modelo ideal que será
implantado;
b) mediante repetições de experimentos se obtém valores médios [das variáveis em estudo] tendo
em conta as correções e os fatores de perturbação;
c) os valores obtidos de experimentos repetidos são as referências para formular hipóteses
matemáticas a serem testadas; são as bases da inferência feita mediante raciocínios lógicos;
d) as consequências [das inferências] serão testadas por outros experimentos como forma de
confirmação indireta da hipótese adotada.

2.6.5 Giovano Domenico Campanella (Frei Tommaso; dominicano):1568


– 1639
Nascido em Stilo, na Calábria, Itália. Estudou filosofia e teologia em convento dominicano,
suspeito de heresia, desde cedo, pelo interesse pela magia e astrologia, temas de pensadores do
Renascimento, aliado ao seu natural anseio de renovação social e política. Foi influenciado por ideias
de Bernardino Telésio (1509 – 1588) antiaristotélico de Cosenza, Nápoles, Itália, que defendiam: todo
conhecimento é sensação e a inteligência é, portanto, uma coleção de dados isolados proporcionados
pelos sentidos; a natureza devia ser explicada com seus próprios princípios e não através dos conceitos
Aristotélicos ou da magia. Conhecer a natureza com a própria natureza o que seria possível ao homem
que souber observá-la. Conhecer é sentir, porém o sentir não garante a objetividade do conhecer. A
consciência não é senão sensação. A atividade física e atividade espiritual não diferem: o intelecto é um
dos sentidos, apenas mais sutil. A alma é material dilatada pelo prazer e contraída pela dor. Não nega a
realidade que ultrapassa a natureza, que é Deus, mas, além da alma material o homem tem uma alma
espiritual, que lhe permitiria intuir (não se trata mais de sentir) o além-sensível e o eterno. Nessa alma
está o fundamento do mundo moral, porque nela está a liberdade que eleva o homem acima do jogo
mecânico das forças físicas. Foi o primeiro filósofo moderno a estabelecer a dúvida universal como
ponto de partida de todo pensar verdadeiro, a consciência de si como critério de certeza, antecipando-
se a Descartes: a dúvida pode cair somente sobre os conhecimentos derivados, sensus additus; mas,
estes pressupõem sempre a consciência (entendida por ele como um sentimento de si mesmo)
modificada, aquela consciência da realidade, sensus indictus ou inato, da qual não pode haver dúvida.
Em sua primeira obra a Filosofia demonstrada pelos sentidos, defende teses de Telésio com
a preocupação de uma aproximação empírica dos problemas filosóficos. A partir dessa obra, seus
117

O rige n s e e vo lu çõe s da s ciên cia s e d a p esqu isa


Filó sof o s e cien t ist a s a o lo ng o da hist ó ria da civiliza ção

escritos salientam a necessidade da experiência como base para a filosofia: o sujeito com a consciência
pela via do sentir (sensciente) sente primeiro a se mesmo e depois o calor.
Entre as principais obras de Campanella se destaca A cidade do Sol; escrita no cárcere, com
certa orientação da República de Platão. Trata-se de uma proposta urbanística na ilha de Taprobana
(Sri Lanka), com sete círculos sobrepostos, cada um com uma antena para captar as influencias astrais
positivas dos sete planetas; com quatro portas voltadas para os pontos cardeais. No alto da cidade se
encontraria um templo redondo, reproduzindo a esfericidade cósmica. Essa estrutura propiciaria um
ambiente que pudesse ajudar aos homens a se tornarem melhores. Cabe destacar, nessa cidade ideal,
sem hierarquias e na qual todos trabalhariam e as várias funções seriam adequadamente repartidas, um
método de ensino para todas as crianças com especificações.
Em Apologia de Galileu Campanella defendeu o sistema de Copérnico e a separação das
passagens das Escrituras e a natureza para o conhecimento do Criador. Em sua aproximação animística,
neoplatônica e astrológica, do Criador, argumentou que a verdade sobre a natureza não está revelada
nas Escrituras e pedia liberdade de pensamento na especulação filosófica.
Outras obras de Campanella são: Do sentido das coisas e da magia e Metafísica e
monarquia de Espanha.

2.6.6 Johannes Kepler: 1571 – 1630


Nascido em Weil der Statdt, Alemanha. Estudou teologia e filosofia, matemática, astronomia
(Universidade de Tubinge), grego, hebreu (...). Era obcecado por medir e por essa obsessão chegou a
calcular o período de sua própria gestação: 224 dias, 9 horas e 53 minutos (nasceu prematuro). A
semelhança de Copérnico seu inspirador, foi profundamente religioso, considerando que seu dever
cristão era compreender o próprio universo criado por Deus (HAWKING, 2005).
Kepler integrou as descobertas de Copérnico e Brahe, estabelecendo bases definitivas tanto
para a teoria heliocêntrica quanto para a física desenvolvida por Newton. É reconhecido na ciência por
ter descoberto as três leis dos movimentos planetários que transformaram a descrição geral do Sol e
dos planetas de Copérnico em uma formulação matemática. Com base em descobertas dos sólidos de
Pitágoras (apenas cinco sólidos apenas podem ser construídos a partir das figuras geométricas
regulares), viu uma explicação (aplicação) do sistema de planetas, segundo a qual somente seis
planetas poderiam existir (Mercúrio, Vênus, Terra, Marte, Júpiter e Saturno) com cinco espaços, não
uniformes, entre si. As teorias geométricas das órbitas e as distâncias dos planetas lhe inspiraram a
escrever Mysterium cosmographicum / Mistérios do cosmos, enviando cópias a Galileu (urgindo-o
a crer e se manifestar, sem resposta) e Brahe (impressionado). No resto de sua vida foi obcecado por
obter uma prova matemática de seus Mistérios (...).
Apesar de os poliedros de Kepler e suas premissas serem impraticáveis e estarem erradas, às
conclusões foram precisas e decisivas no curso da ciência moderna. Como secretário de Brahe e diante
de sua repentina morte, teve a oportunidade de “usurpar” as observações de 30 anos do astrônomo
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Fundamentos da pesquisa
Volume 1

dinamarquês, interpretando-as no seu livro Tábuas rudolfianas. Apesar de comparativamente suas


pesquisas em outros campos terem menor importância se comparadas com as de astronomia, as
contribuições em seu livro Diótica mudaram o rumo da ótica (HAWKING, op. cit.).
No primeiro modelo cosmológico de Kepler, em lugar de sete planetas geocêntricos, apenas
apareciam seis, sendo que a Lua era um satélite da Terra. Nessa síntese são destacadas as Leis de
Kepler apresentadas em sua obra Nova astronomia. Sua primeira é a Lei dos Eclipses, segunda a qual
os planetas se movem através de elipses com o Sol em um dos focos; a Terra, cumprindo a sua
trajetória elíptica, está mais próxima do Sol em janeiro e mais distante dele em julho. Sua segunda, a
Lei das Áreas Iguais, os planetas varrem áreas iguais em períodos iguais (HAWKING, op. cit.).
Desiludido de sua vida particular Kepler reorientou o foco de sua pesquisa que era das tábuas e
astronomia para uma visão cósmica, poética, filosófica, teológica e mística do mundo, escrevendo, com
essa orientação, uma série sob o título Harmonice mundiale / Harmonias do mundo (cinco livros).
Nela, incluiu a sua terceira lei que, 70 anos mais tarde, inspirou a Newton para buscar e encontrar
explicações do por que os planetas orbitavam.
Kepler, em sua terceira lei, estabeleceu que os cubos das distancias médias entre os planetas e o
Sol são proporcionais aos quadrados de seus períodos de revolução, uma explicação bem dentro de seu
estilo de medir. Fez trabalhos importantes em ótica; descobriu dois poliedros regulares, a fórmula par a
encontrar o volume de sólidos e foi o primeiro a dar um tratamento matemático à esfera e na natureza
dos logaritmos. Considerou que Deus tinha feito o universo conforme um plano matemático e que um
método baseado na matemática seria seguro para alcançar a verdade sobre o mundo (HAWKING, op.
cit.).
Sua última obra Somnium seu astronomia lunari / Sonhamdo com a Lua, de ficção
científica, que mostrava outro aspecto do pensamento kepleriano.

2.6.7 William Harvey: 1578 – 1657


Nascido em Folkestone, Inglaterra. Médico e professor de anatomia e cirurgia do Royal College.
Harvey descobriu, ao contrário do que afirmava Galeno, que o sangue não fluía e refluía no
mesmo vaso, seguindo apenas numa única direção, seja ela do coração para os tecidos, pelas artérias,
ou no sentido inverso, nas veias, com base em suas próprias observações e em observações de André
Cesalpino, botânico 27 e médico. Experimentalmente demonstrou que o sangue circulava no corpo e
que o coração é uma bomba que mantém esse líquido em constante movimento pelas artérias,
distribuindo-o até os tecidos e trazendo-o de voltando ao coração pelas veias.
Observou as pulsações do coração e interpretou a sístole como uma contração e a diástole como
uma dilatação das cavidades cardíacas. Verificou que as válvulas cardíacas e as veias impediam o
refluxo do sangue e o obrigava a seguir uma única direção. No percurso, durante a circulação do
sangue, desenvolvem-se uma série de funções que antes dessa descoberta ou eram ignoradas ou
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O rige n s e e vo lu çõe s da s ciên cia s e d a p esqu isa


Filó sof o s e cien t ist a s a o lo ng o da hist ó ria da civiliza ção

adquiriram explicações que não se ajustavam no mesmo contexto à realidade. Essas descobertas
substituíram velas teorias do médico grego Galeno.
Apesar da oposição dos doutores da época, suas ideias foram aceitas e divulgadas por
Descartes, influenciando-o na composição da quinta parte de Discurso do método e em sua obra As
Paixões da alma. A teoria da circulação sanguínea de Harvey foi publicada na sua obra A propósito
dos movimentos do coração e do sangue.

2.6.8 Thomas Hobbes: 1588 – 1679


Nascido em Westport, Malmesburry, Londres. Político inglês fundador da filosofia moral.
Estudou na Universidade de Oxford. Influenciou Adam Smith e Jeremy Bentham. Foi secretário do
empirista F. Bacon. Sob a influencia de Galileu e com o descobrimento dos Elementos (geometria)
de Euclides, clarificou as ideias filosóficas como qualquer “coisa” que poderia ser demonstrada em
termos positivos: as regras e a infalibilidade da razão.
Com tais, Hobbes fundamentou a formulação de sua própria metodologia para especificar a fonte
do conhecimento: essa metodologia é o empirismo racionalista, aplicando-o na ciência política e na
análise de fatos sociais.
O empirismo gerou conceitos de uma ordem sistematizada: o nominalismo e permitiu fazer
construções lógicas da realidade da natureza humana, com um duplo sentido: o analítico ao partir de
elementos para as definições da realidade e o sintético ao derivar dessas definições processos.
A transformação de conceitos e seus conhecimentos ecléticos apareceram em sua primeira obra
Elementos do direito, natural e político que, dados os acontecimentos políticos da época, foi
obrigado a se retirar (exilar) para a França. Depois publicou Política sobre o cidadão, coincidindo
com a guerra civil inglesa e o período da Commonwealth.
Hobbes, em sua obra Uma curta abordagem a respeito dos primeiros princípios, apresentou
uma trilogia filosófica com a seguinte divisão:
a) De Corpore; demonstrou que os fenômenos físicos são explicáveis em termos de movimento.
b) De Homine; tratou do movimento compreendido no conhecimento e no apetite humano.
c) De Cive; a organização social. Ao comparar o Estado a um relógio mecânico, mostrou as
características de sua metodologia; dizia:

Conhece-se melhor uma coisa através dos elementos de que ela se constitui. Assim como não é
possível saber, em um relógio ou outra máquina mais complexa, qual é a função de uma parte se ele
não for desmontado e separadamente examinado o desenho e o movimento, tampouco é possível
conhecer a cidade. É necessário compreender a condição da natureza humana, com o uso de quais
meios ela é capaz ou incapaz de dar corpo à cidade, de que modo hão de se ajustar entre si os homens
se querem alcançar a união.
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Fundamentos da pesquisa
Volume 1

O desdobramento de conceitos básicos de Hobbes está contido no livro Elementos da lei


natural e política, parte I. sobre o homem (a natureza humana) e parte II sobre a cidadania (De
corpore político), contendo sua doutrina. Essa doutrina foi posteriormente desenvolvida e constituída
base de sua obra-prima O Leviatã (ou Matéria, forma e poder da comunidade eclesiástica e
civil), um nome, de origem na Bíblia, dado ao seu estado totalitário, submetendo, apesar de prudentes
reservas, o poder religioso ao poder político.
Na obra o Leviatã Hobbes partiu do princípio de que os homens são egoístas (este seria o motor
da atividade econômica individual) e que o mundo não poderia satisfazer todas as suas necessidades.
Acreditava que no estado natural; este é um conceito básico, o status naturae, não como sendo um fato
histórico, mas, hipotético dentro de sua teoria; afirmava que sem o Estado ou forma primitiva ou com o
Estado mediante um contrato social, porém, sem a existência da sociedade civil, ocorreria a
competição entre os homens: a guerra de todos contra todos, pela riqueza, pela segurança e pela glória.
A luta se daria porque cada homem perseguiria racionalmente os seus próprios interesses. Nesta
obra tratou problemas econômicos, tais como: o valor, o dinheiro, a população e a fazenda pública.
Acreditava que o comércio era uma lei natural, porém, o Estado deveria intervir para que não houvesse
ociosos ou para evitar o excesso de gastos dos súbditos.
A consequência desse estado seria a ameaça da manutenção da humanidade; a igualdade dos
homens no estado da natureza é a igualdade do medo (medo recíproco), de um destruir o outro e
quando a vida de todos está ameaçada; nem o mais forte poderá estar seguro, pois o mais fraco é livre
para usar de todos os artifícios para garantir seu desejo e sua vida: “instinto de conservação”, porém
guiado pela razão, com a segurança de que os outros farão o mesmo. Como controlar essa situação?
Para justificar a necessidade do Estado Soberano e responder à pergunta, formulou a metodologia da
teoria no estudo da ciência política. Nessa teoria se insere a solução à questão.
Segundo a teoria hipotética de Hobbes, realista em relação ao homem e não pessimista, segundo
Welzel (1977), a solução não seria possível com base na moral nem na justiça (no estado natural moral
e justiça não fazem sentido). Restava buscar a paz, se for possível, ou utilizar a guerra para alcançá-la;
tal busca que poderia ocorrer mediante um contrato social racional e de aceitação de acordos, um
contrato que possibilite passar do estado natural para o Estado Civil que é a criação da lei natural pela
razão.
A aceitação deveria ser consistente com os interesses das partes envolvidas. Assim, para se
estabelecer esse contrato seria necessário definir mecanismos para obrigar, a todos, ao cumprimento de
acordos. Para isso, alguém devia ser “credenciado”, o soberano (indivíduo ou assembléia eleita ou
outra forma de governo, o Leviatã), capaz de punir a quem quebrasse acordos do contrato.
A essência da soberania, do absolutismo, consistiria em ter o poder suficiente para manter a paz.
A partir desse soberano, do Leviatã, existiria justiça pela aceitação do acordo e as promessas do
contrato passariam a serem respeitadas por todos. Com o contrato social cada indivíduo teria razão
para ser justo, pois o soberano asseguraria que infratores fossem convenientemente punidos.
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Qual é o conteúdo metodológico no estudo da política de Hobbes apresentado em sua obra o


Leviatã? Esse processo ocorre mediante uma adequada imposição de nomes e por um método ordenado
de relacionar esses nomes, seguido de silogismos, que são conexões de uma asserção com outra, até se
ter todas as possíveis consequências de nomes referentes aos assuntos considerados. Por esse método
se teria a ciência:

O conhecimento das consequências e a dependência [inter-relação] de um fato em relação a outro,


pelo que, a partir daquilo que se conhece e se sabe fazer, poderá se saber como fazer qualquer outra
coisa [semelhante] quando se quiser ou, também, em outra ocasião; isso, porque é visto como as
coisas acontecem, devido a que causas se têm os efeitos.

Quanto ao conhecimento, Hobbes é empirista, com conceitos, tais como: a origem de todo
conhecimento é a sensação, o princípio original do conhecimento dos próprios princípios: a
imaginação é um agrupamento inédito de fragmentos de sensação e a memória nada mais é do que o
reflexo de antigas sensações. Contudo acreditava na possibilidade de uma lógica pura e racional, em
um raciocínio demonstrativo rigoroso, ao lado de uma indução empírica de aproximação entre a
experiência passada, sem prova decisiva, para o que se passará no futuro, sem outro fundamento que
não fosse a associação de ideias, the trayan of imagination.
A filosofia de Hobbes é materialista e mecanicista. Assim como a percepção é explicada
mecanicamente a partir das excitações transmitidas pelo cérebro, a moral se reduz ao interesse e à
paixão. Na fonte de todos os valores, há o endeavour, em inglês, e conatus, em latim (encontrado
também em Spinoza), isto é, o instinto de conservação ou de afirmação e de crescimento de si próprio;
esforço próprio a todos os seres para unir-se ao que lhes agrada e fugir do que lhes desagrada. É a
partis desses fundamentos elabora sua justificação do despotismo: no absolutismo da época, apoiado na
teologia, ao justificar o poder absoluto do soberano, descobre-lhe uma origem natural. Para ele, o
direito, em todos os casos, reduz-se à força, com dois estado na história.
O estado natural, em que o poder de cada um é medido por seu poder real; cada um tem
exatamente tanto de direito quanto de força e todos só pensam na própria conservação e nos interesses;
o homem, por natureza, procura ultrapassar todos os seus semelhantes: ele não busca apenas a
satisfação de suas necessidades naturais, mas, sobretudo as alegrias da vaidade: Homo homini lupus, /
o homem é o lobo do homem; Bellum omnium contra omnes, é a guerra de todos contra todos.
O outro é estado político. O homem não possui instinto social, não é sociável por natureza, mas,
tendo que estabelecer a paz e a segurança deverá renunciar ao direito absoluto que tem sobre todas as
coisas. Isto só será possível quando cada um abdicar de seus direitos absolutos em favor de um
soberano que, ao herdar os direitos de todos, terá um poder absoluto, sem que se configure a
intervenção de uma exigência moral. Simplesmente o medo é maior do que a vaidade e os homens
concordam em transmitir todo o seu poder a um soberano, sem compromisso em relação a seus súditos.
Seu direito não tem outro limite que seu poder e sua vontade. No estado de sociedade, como no de
natureza, a força é a única medida do direito. No estado social, o monopólio da força pertence ao
soberano.
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Fundamentos da pesquisa
Volume 1

2.6.9 René du Perron Descartes / Renato Cartesius: 1596 – 1650


Nascido em La Haye, Touraine, França. Estudou em colégio jesuíta e apesar de ter privilégios e
apreço de seus professores se declarou, em sua obra o Discours de la méthode pour bien conduire
sa raison et chercher la verité dans les sciences / Discurso sobre o método, decepcionado
com o ensino e com o método utilizado. Afirmava que a filosofia escolástica não conduziria a nenhuma
verdade indiscutível. Em geral, esse posicionamento, responsável poruma profunda mudança da
mentalidade do homem do século XVII, caracterizou-se pela separação entre a razão e a fé, pela
substituição da autoridade da Igreja pela ciência e pala afirmação do poder criativo.
Descartes é considerado o primeiro filósofo moderno, precursor do iluminismo e a ele se
atribuem notáveis contribuições às ciências como, p.ex., a de seu método científico, o método
cartesiano, afastado, quanto possível, do subjetivismo e à filosofia, uma delas foi a síntese entre a
física que se orientava para o materialismo e determinismo, lado científico, e a metafísica com uma
ontologia espiritualista, lado religioso, acreditando manter a unidade dessas duas reivindicações em
conflitos, sendo possível a separação entre a razão e a fé, com a substituição da autoridade da Igreja
pela ciência. Acreditava, também, no poder criativo do cientista e considerava que só o rigor
matemático na ciência poderia dar frutos; daí o nome de mathesis universalis a seu projeto de
unificação das ciências, do método universal com seus três componentes inseparáveis e suas quatro
regras básicas (regras de ouro): a enumeração (sem especificar o meio de observar, sendo esta uma
crítica Leibniz ao método), a análise, a síntese e a evidência; e o método da descoberta matemática
confundido com o método do pensamento racional.
Segundo Descartes, a visão escolástica da ciência composta por ciências particulares
diferenciadas pelos seus objetos e graus de certezas de seus princípios e conclusões, não poderia ser
aceitável. Considerava que se tratava de apenas uma ciência fundada na unidade da razão humana,
deslocando o problema da certeza (segundo ele, o critério da verdade) para uma questão de método: o
que importa é como organizar o funcionamento da razão para guiar o conhecimento das coisas.
Deslocou a ênfase do objeto, dado pela ciência tradicional, para o sujeito ou razão que conhece: a
revolução cartesiana. Segundo suas concepções, seria um método capaz de estabelecer uma nova
explicação da realidade, um guia das operações do espírito e, simultaneamente, uma condição da boa
utilização do espírito. Afirmava que na procura da verdade se tinham duas vias: a razão e a intuição –
dedução. O que importava era como organizar o funcionamento da razão, orientando-a para o
conhecimento de todas as coisas.
Descartes entendia por intuição a apreensão rápida e imediata da simplicidade de uma
evidência; algo como uma visão que a razão tem das ideias claras, sem precisar relacioná-las para as
apreender com certeza; seria a fonte primordial do conhecimento, já que através dela o homem capta os
princípios em que se fundamenta a ciência, sem recorrer a processos intermediários. É pela intuição,
segundo Descartes, que se atinge a simplicidade e a clareza das primeiras verdades ou princípios não
dependentes da experiência sensível. A intuição cartesiana é um ato de inteligência pura, diferente da
percepção sensível, que nasce exclusivamente da luz da razão e é nela que se fundamenta a regra da
evidência ao captar a clareza e a distinção.
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Filó sof o s e cien t ist a s a o lo ng o da hist ó ria da civiliza ção

A revolução cartesiana representou uma mudança no processo de analisar os objetos do


conhecimento, orientando-o para a análise do conhecimento dos objetos. Essa revolução foi o iniciou
da moderna teoria do conhecimento, da teoria que compreende os problemas do conhecimento e se
preocupa em estudá-los sob várias perspectivas, tais como: a gnosiológica: essência ou natureza,
validade - limites e formas com as quais se reveste o conhecimento; a epistemológica: origem, natureza
e limites do conhecimento; e a metodológica ou estudo dos métodos para guiar a investigação da
verdade, com duas divisões: a lógica formal: estudo do pensamento correto e a lógica dialética: estudo
das condições subjetivas-objetivas do conhecimento da realidade par buscar a verdade objetiva).
O pensamento de Descartes se caracterizou, segundo Japiassú (1991), pelos seguintes conceitos
sintetizados e apresentados a seguir:
a) A redução da matéria à extensão: a única propriedade da matéria é a extensão que, por sua vez,
está constituída por comprimento, largura e profundidade.
b) A sistematicidade da física devida à unidade de seu objeto, o mundo; essa unidade, por sua vez,
significa que a matéria de todos os objetos visíveis e invisíveis, de todos os fenômennos, é
sempre idêntica.
c) A homogeneidade da matéria restrita ao espaço (em especial da extensão) em suas dimensões,
bem como a sistematicidade da física devida a unidade do objeto.
d) A física tem sua inspiração metafísica, porém sem estar ligada a ela; essa inspiração confere à
ciência e à moral seus fundamentos.
e) O corpo humano (os animais) é como uma máquina composta por peças, por engrenagens e por
movimentos (...), em que cada parte tem propriedades específicas e inerentes, sem capacidade de
pensar porque essas partes não agem autonomamente. Nessa estruturação nadanada poderia ser
mais exato que a matemática.
A hipótese de Descartes era a de que o universo, o ser humano e a natureza teriam suas
constituições análogos as de um relógio suíço. Porém, trouxe grande polêmica e admiração por
explicar algo que, até então, se revelava como misterioso e divino essa ideia.
O relógio simbolizava a ordem do universo com movimentos previsíveis; para saber como
funcionava seria suficiente desmontá-lo; da mesma forma, para compreender a natureza, bastava
descobrir como funcionam suas partes: reducionismo e determinismo.
Tal hipótese foi aceita, com admiração, por alguns cientistas da época, porém, houve objeções e
polêmicas ao buscar explicar algo que, até então, se revelava como misterioso e divino; o homem
feito à imagem e a semelhança de Deus (...), uma vez despido dessa maneira, teria nas mãos a
chave para desvendar o enigma da existência; dessa forma o racionalismo conquistaria um de
seus maiores trunfos.
f) O ceticismo metodológico (método cartesiano) em que, entre outros conceitos, “duvida-se de
cada ideia que possa ser duvidada” e “só se possa dizer que existe aquilo que possa ser provado”,
124

Fundamentos da pesquisa
Volume 1

contrário do pensamento dos gregos antigos e dos escolásticos que acreditavam que “as coisas
existem porque precisam existir ou porque assim devem ser”.
Uma das primeiras obras de Descartes foi a Regulae ad directionem ingenii / Regras para
a direção do espírito. Nela, defendeu a ideia fundamental de que a unidade do espírito humano,
qualquer que seja a diversidade dos objetos da pesquisa, deve permitir a invenção [aplicação] de um
método universal. Depois publicou três resumos de obras científicas: A dióptrica, Os meteoros e A
geometria.
Em sua obra, o Discurso sobre o método, inspirada no rigor da matemática (a certeza
cartesiana é matemática) e com longas cadeias de razões, prova a existência de Deus e o primado da
alma sobre o corpo. Nessa obra afirmou que a análise matemática dos antigos (geometria) e a álgebra
dos modernos, além de apenas compreenderem coisas abstratas e sem uso, estavam (a análise)
limitadas às considerações das figuras sem uma ação fácil sobre o entendimento; e a álgebra, por estar
sujeita às regras e números, tornava-se uma arte confusa e obscura que ofuscava o espírito, em lugar de
cultivá-lo. Por isso “me obrigo a pensar na necessidade de buscar outro método que, tendo a vantagem
dos três [além da análise e da álgebra, referia-se à lógica], superasse tais inconvenientes”.
A ideia de integrar as três abordagens surgiu na obra Regras (...) quando se referiu a uma
matemática universal. Essa ideia provocou perseguições e acusações como as de ser ateu e um cidadão
perigoso à segurança do Estado.
A ideia central do Discurso (...) é a essência do racionalismo sendo o arauto dessa concepção.
Anos depois escreveu Meditações metafísicas, sua obra-prima, onde ofereceu respostas às objeções
de seu pensamento. Mais tarde publicou uma espécie de manual cartesiano: Os Princípios de
filosofia; sua última obra foi o Tratado das paixões.
Descartes admirava os geômetras gregos e os da Escola de Alexandria flexibilizando seus
conceitos como, p.ex., o da rigidez euclidiana, e introduzindo a dimensão tempo nas considerações
espaciais dos gregos; dizia: “dai-me espaço e movimento e os darei um mundo”. Três séculos mais
tarde, Einstein inverteu a frase: “sem um mundo não há movimento nem espaço”, demonstrando que a
ciência é um perpétuo fluir; as leis científicas mudam.
Destaca-se, nesta síntese, a ideia geral da obra o Discurso sobre o método, em que Descartes
apresentou um novo método de investigação científica. O método cartesiano foi uma proposta de
organizar o pensamento para se chegar ao meio mais adequado de conhecer e controlar a natureza; essa
era uma inquietação no final do período do Renascimento.
A proposta de Descartes, diferente da de F. Bacon (método indutivo e resultado de contínuas
experimentações) era baseado no método dedutivo capaz de possibilitar a aquisição do conhecimento
mediante a elaboração lógica de hipótese e a busca de sua confirmação ou negação. Seu método
consistia em subdividir o problema nas menores peças possíveis para, a partir desse nível desagregado,
perceber as relações entre elas. Esse é o fundamento do processo analítico-reducionista.
Os cuidados básicos do método na resolução de um problema eram evitar a precipitação e os
preconceitos; apenas as ideias claras e distintas deveriam ser aceitas como verdadeiras: acolher como
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Filó sof o s e cien t ist a s a o lo ng o da hist ó ria da civiliza ção

verdadeira exclusivamente a conclusão que não deixe dúvidas; se houver dúvida, a conclusão deverá
ser rejeitada.
O método de Descartes seria universal tendo como lógica, não formas de silogismos, mas, regras
para guiar a razão necessária na investigação e descobertas de verdades, com as seguintes regras e seus
três componentes inseparáveis:
a) A primeira regra é a evidência: não admitir uma coisa como verdadeira se não for reconhecida
evidentemente como tal. Significa evitar toda "precipitação" e toda "prevenção" (preconceitos) e
só ter por verdadeiro o que for claro e distinto, isto é, aquilo da qual não se tenha a menor
indecisão; “é a evidencia que salta aos olhos, é o que não se pode duvidar, apesar de todos os
esforços nesse sentido, é o que resiste a todos os assaltos da dúvida, apesar de todos os resíduos; é
o resultado do espírito crítico”.
b) A segunda regra é a análise de dificuldades (problemas) da investigação; consiste em dividir
cada uma das dificuldades em tantas partes quantas forem possíveis; dividir todos os problemas
em tantas partes quantas sejam necessárias para resolvê-los adequadamente; não aceitar que um
todo possa ser compreensível como uma totalidade orgânica que supera a simples soma de suas
partes constituintes; negligenciava o sistema e destacava a inter-relação lógica das partes como
base para a compreensão do todo; essa ênfase analítica levou a fragmentação característica da
especialização.
c) A terceira regra é a síntese: ordenar os pensamentos, começando pelos objetos mais simples e
mais fáceis de conhecer para, aos poucos, ascender, como que por meio de degraus, aos objetos
mais complexos; é a regra de (re)agrupar as unidades estudadas em um todo, da ordem do
raciocínio a iniciar com os elementos ou partes mais simples e de fácil compreensão para, de
maneira gradativa, ascender no conhecimento do mais complexo.
d) A quarta regra é a dos desmembramentos [e integrações] tão complexos (...) a ponto de estar
certo de nada ter omitido; é a enumeração ou relação completa, concisa e geral para se ter a
“segurança” de que todas as conclusões e princípios foram utilizados para manter a ordem do
pensamento; realizar revisões periódicas de maneira cuidadosa.
e) Os componentes do método são: todo problema científico se reduz a um problema formulado em
termos matemáticos; todo problema matemático se reduz a um problema algébrico; e todo
problema algébrico se reduz à solução de uma única equação.
Parte do sucesso do método cartesiano se deveu ao fato de não afirmar a independência da razão
nem rejeitar qualquer autoridade, religiosa ou política, bem como a de ser um método racionalista: a
evidência cartesiana não é sensível (os sentidos podem enganar e as percepções podem ser confusas e
obscuras) nem empírico puro, mas, de ideias. As ideias da razão são claras e distintas, percebidas
diretamente, no início, pela intuição.
A dedução se limita a transmitir, ao longo de raciocínios em cadeias, a evidência intuitiva das
"naturezas simples". Entende por dedução a razão para encontrar verdades necessárias a partir de
outras já conhecidas com certeza; era uma operação intelectual que se realizava como operação
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Fundamentos da pesquisa
Volume 1

intermediária, possibilitando o progresso sucessivo na aquisição do conhecimento; uma operação que


conduziria a razão do simples para o complexo.
Outro aspecto a destacar do pensamento de Descartes contido em Meditações metafísicas e
relacionado com a metafísica e a ciência, é o da dúvida como meio de raciocínio, com outro alcance ou
significado que não o da dúvida da cientista. Trata-se de uma duvida voluntária e metódica, radical e
sistemática, desde que se possa encontrar um argumento, por mais frágil que ele seja, ou o menor
motivo para justificá-la. Dessa forma cética em relação às verdades sem garantias de certeza, os
instrumentos da dúvida nada mais seriam do que auxiliares psicológicos e instrumentos de um exército
espiritual; a suspensão de juízo sobre objetos, mas, não de suas essências: não afirmar nem negar a
verdade de uma ideia, enquanto ela não for submetida a teste.
Descartes sugeriu começar com dívidas moderadas que argumentos céticos, assim consideradas
as variações virtuais, as dúvidas de crenças falsas e habituais, as alienações, as possibilidades de estar
sonhando, as paranóias, as fantasias etc. Observou: “os meus sentidos por vezes enganam-me e é
prudente nunca confiar completamente naqueles que nos enganam uma vez que seja”. Apontava que a
dúvida pode aumentar certas crenças. Por vezes, duvidar de alguma coisa poderá torna mais susceptível
outra. A ideia é a de que duvidar de alguma coisa não leva necessariamente a acreditar em outra, mas,
poderá facilitar ou torná-la possível como, p.ex., duvidar de que a vida evolui da matéria inorgânica
poderá predispor de que a vida foi criada por Deus. Na dúvida há, também, um argumento cético
(argumento cartesiano).
Duvidar dos sentidos, das próprias evidências científicas e das verdades matemáticas (...), desde
que se tenha um argumento, uma “justificativa” por mínima que seja; daí, resolveu adotar uma posição
cética em relação a todo conhecimento que não lhe ofereça uma garantia total de certeza; era uma
suspensão de juízo da existência do objeto: não afirmar nem negar a verdade de uma ideia, enquanto
não for submetida a um exame.
A dúvida cartesiana continha dois momentos: o reconhecimento do caráter incerto e
problemático do conhecimento; e a decisão de suspender o assentimento desse conhecimento
considerado, provisoriamente falso.
As características da dúvida cartesiana podem ser agrupadas como: metódica e voluntária
enquanto o conhecimento não for fundamentado; excessiva ou exagerada, pois não estaria limitada a
suspender o juízo, mas rejeitar como falso todo conhecimento que tiver suspeita de erro; radical, ao se
estender a todos os níveis e domínios do conhecimento, excetuado normas religiosas e morais; e
metafísica, ao admitir a existência de um “gênio maligno” que se diverte dos erros.
Havia algo, porém, segundo Descartes, do qual não se podia duvidar, mesmo que se tivessem
razões ou argumentos: era a certeza de que eu penso, do sujeito que nega e rejeita; para duvidar que
pensa é preciso que pense e portanto, que exista. Nenhum objeto do pensamento resistiria à dúvida;
contudo, o próprio ato de duvidar seria indubitável. "Penso (cogito), logo existo (ergo sum)”, não
como um raciocínio, apesar das palavras logo, do ergo; mas, como algo intuitivo, metafísico e
matemático.
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Outro aspecto a destacar de Descartes é o relativo a gênese das ideias; nesse sentido considerava
três tipos: ideais inatas que existem na própria razão; as ideais adventícias, originárias dos sentidos; e
as ideais facticias, que resultam da imaginação, da capacidade de inventar.

2.6.10 Pierre de Fermat: 1601 – 1665


Nascido Beaumont-de-Lomagne, França. Estudou na Universidade de Toulouse. Matemático
(considerado por Pascal como o maior matemático de seu tempo), jurista e cientista. Nada publicou em
vida, apesar de ter escrito muito (foi seu filho Clément Samuel quem editou a maior parte de sua obra)
e nem fez qualquer exposição sistemática de suas descobertas e de seus métodos. Sua obra a
Aritmética de Diofante foi uma compilação de cartas e anotações de margens de livros.
A semelhança de Descartes, seu contemporâneo, Fermat tinha admiração pelos pensadores
gregos e pelos geômetras da Escola da Alexandria, conferindo flexibilidade à rigidez euclidiana e
introduzindo a noção do tempo nas considerações espaciais dos gregos; fiel a eles parte de suas
proposições para simplificá-las e apresentá-las de forma clara. Como diferenças com Descartes que
preferia a verdade à beleza (era celibato), viajar, a guerra, a elegância no vestir (...), Fermat preferia a
beleza sobre verdade (era casado), o sedentarismo, sua posição de magistrado e era descuidado em sua
apresentação (...).
A obra de Fermat estabeleceu uma ponte entre o abstrato e o concreto utilizando a matemática
desmistificada. No mesmo ano (1637) em que Descartes escreveu a Geometria, uma concepção
universal da ciência, orientada para o automatismo da matemática, independente das figuras
geométricas, Fermat escreveu Isagoge (sem publicá-la), de igual conteúdo técnico, porém, com
orientação distinta: a álgebra como auxílio do estudo das figuras objetos da geometria.
Fermat, apesar de considerar a matemática como um desafio (passatempo, segundo alguns
historiadores) para resolver problemas, suas contribuições perspassaram várias gerações pelo valor,
precisão e importância de seu legado em diversas áreas, tais como: o cálculo geométrico e
infinitesimal; a teoria dos números, sendo considerado o criador da moderna teoria dos números
(teorema de Fermat) “adiantando-se” a sucessores como Euler e Lagrange; a teoria da probabilidade
(sob a influencia de Pascal e com ele, determinou as regras essenciais da probabilidade); o método de
tangentes; e os cálculos para estimar áreas de parábolas e hipérboles na determinação do centro de
massas de vários corpos.
Outras contribuições de Farmat foram: a entronização de eixos perpendiculares, a descoberta das
equações da reta e da circunferência, e as equações mais simples de elipses, parábolas e hipérboles são
importantes. Por mérito, as coordenadas cartesianas deviam denominar-se “coordenadas fermatianas”.
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Fundamentos da pesquisa
Volume 1

2.6..11 Blaise Pascal: 1623 – 1662


Nascido em Clermont-Ferrand, França. Gênio não apenas em matemática, mas, em outras áreas
da ciência. Destacado filósofo da ciência e componente do iluminismo. Aos 17 anos de idade,
descobriu e publicou teoremas em geometria projetiva que foram fundamentais para o
desenvolvimento tecnológico futuro da aviação. Aos 19 anos inventou a maquina aritmética (A
Pascalina) para ajudar a seu pai no seu trabalho de coletor de imposto. Aos 23 anos, com base em
experiências de Torricelli 28 referente à pressão atmosférica, fez a experiência do vácuo (Nouvelles
expériences sur le vide / Novas experiências sobre o vácuo), provando que os efeitos atribuídos
ao vácuo eram resultantes do peso do ar. Mais tarde se interessou por problemas matemáticos
relacionados aos jogos de dados de onde formulou o cálculo das probabilidades ( Aleae goemetria /
Geometria do acaso), com vários resultados sendo o Triangulo de Pascal, um deles. Outro trabalho
científico foi o Tratado sobre as potências numéricas, em que abordou a questão dos elementos
infinitamente pequenos. Convertido à religião, dedicou-se à filosofia e escreveu Memorial, obra
mística, os Colóquios com o Senhor de Saci Sobre Epicteto e Montaigne e as Províncias de
conteúdo apologético; nelas se encontram suas maiores contribuições de reflexões filosóficas e
teológicas impregnadas do espírito geométrico que exprimiram, com eloquência, a ansiedade que
agitava a sua alma.
Os trabalhos científicos de Pascal propiciaram saltos significativos na ciência, especialmente na
matemática e na física. Na física contribuiu na hidrostática com sua obra Prefácio ao tratado sobre o
vácuo; nessa obra separou a ciência da tradição e dividiu o conhecimento humano em dois tipos:
a) baseado na autoridade e tradição, sendo seu melhor exemplo a teologia;
b) baseado na experiência e na razão sendo a física um modelo.
Indicou que o campo em que a autoridade tem a força principal, é o da teologia, pois ela é
inseparável da verdade e somente pela autoridade, conhece-se a verdade: “de modo que para obter
certeza plena nas matérias mais incompreensíveis para a razão, basta mostrar que estão nos livros
sagrados (...)”. O mesmo não ocorre nas matérias tratadas pelos sentidos e o raciocínio, em que a
autoridade é inútil e onde a razão tem seu domínio; razão, por um lado e a autoridade, pelo outro, tem
seus campos delimitados.
Pascal afirmava: "independentemente da força que tenha a antiguidade [a tradição, a autoridade],
a verdade deve sempre prevalecer, mesmo que recentemente descoberta, já que a verdade é sempre
mais antiga do que qualquer opinião que se tenha sobre ela: seria ignorar sua natureza, pensar que ela
tenha começado a existir no momento em que ela começou a ser conhecida". Com essas ideias,
interpretou os resultados obtidos de seus experimentos sem os preconceitos da época. Em uma de suas
experiências teve comprovação (montanha de Puy-de Dome e na torre de Saint-Jacques) de que o
equilíbrio da coluna de mercúrio era devido à pressão atmosférica e que a altura dessa coluna variava
com a altitude do lugar, enunciado: “O acréscimo da pressão em um ponto de um líquido em
equilíbrio, transmite-se integralmente a todos os pontos deste líquido”, com diversas aplicações, entre
outras em máquinas hidráulicas.
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Pascal separou a ciência do ser humano e não aceitou o “matematicismo” proposto por
Descartes, sendo contrário ao racionalismo e à especulação lógica, clara e precisa como reducionismo
da realidade humana da maioria dos filósofos sob a influencia de Descartes.
Pascal se posicionou contra os conceitos de Descartes, admitindo, em sua obra Pensamentos,
que existem razões que a própria razão desconhece; Nessa obra, em essência uma crítica a Descartes,
Pascal, revela naturalidades e verdades das vicissitudes e considerour que a ciência e a técnica sempre
ficarão aquém da realidade humana. Afirmava que a riqueza humana consiste em aprofundar em
aspectos individuais e sociais de conformidade com o real, sem esgotar o diálogo consigo e com os
outros. Ao final teve a ideia de escrever uma Apologia da religião Cristão, projeto que não teve a
oportunidade de realizar pela morte prematura, a idade de 39 anos.

2.6.12 John Locke: 1632 – 1704


Nascido em Wrington, Inglaterra. Estudou ciências naturais e medicina na Universidade de
Oxford. Precursor do associacionismo, ou princípio de que o pensamento consiste em associar ideias,
derivadas da experiência, conforme as leis da frequência, do recente e da vivacidade: quanto mais
frequentes, recentes e vividas sejam duas ideias relacionadas, mais provável será o fato da apresentação
de uma delas à mente, a outra acompanha. O conceito de associacionismo influenciou a escola do
behaviorismo. De acordo com o associacionismo, as novas ideias são formadas a partir de velhas ideias
por um processo de tentativas e erros. Esta é uma das teorias da criatividade 29 (KNELLER, 1972; p.
39).
Considerado filósofo empirista por abrir espaço para a ciência junto à filosofia, valorizando a
experiência como fonte de conhecimento. Destacou-se pela teoria das ideias e pelo seu postulado da
legitimidade da propriedade como da base da liberdade humana na sua teoria social e política (“todo
homem tem uma propriedade que é sua própria pessoa” e o governo existe para proteger esse direito).
Em sua vida podem ser destacados períodos, tais como: o de missão diplomática, médico e conselheiro
político, período na França e exílio na Holanda. Nesta resenha, destaca-se um aspecto de sua filosofia
relativo à teoria do conhecimento.
As principais obras de Locke foram: o Tratado do governo civil; onde apresentou Ensaio
sobre o intelecto humano, com ideias acerca dos Pensamentos sobre a educação, adotando uma
atitude racionalista moderada, em relação à religião (tolerância), por ser fundamentada na razão.
Mostrou-se interessado pelos problemas pedagógicos, com uma parte passiva (todos nascem
ignorantes, iguais e dotados de razão) e, ao mesmo tempo, uma parte ativa, enquanto o intelecto (a
partir da experiência, elaboram-se as ideias simples).
Locke admitia que todos têm temperamentos diferentes que devem ser desenvolvidos de
conformidade com as peculiaridades de cada um, presumindo que a educação individual não excluísse
a formação e educação social. Com elas se ampliaria e enriqueceria a própria personalidade.
Considerou muito importante a ação do educador, mas, era imprescindível a colaboração do discípulo
por se tratar da formação do intelecto (mediante a moral) e da razão (formação de seres conscientes,
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Fundamentos da pesquisa
Volume 1

livres e senhores de si mesmos) que é autônoma. Portanto, para ele, a educação deveria ser formativa
(incluindo a educação física como o meio de domínio de se mesmo), desenvolvendo o intelecto, e não
[apenas] uma educação informativa, erudita e mnemônica.
O pensamento gnosiológico de Locke se caracterizou pela negação de ideias inatas à razão;
considerava que a mente é como uma tábua rasa, como uma página em branco, em que nada está
escrito. Uma das preocupações de Locke, em sua teoria do conhecimento, foi “combater” a existência
de ideias inatas na mente humana, preconizada por Descartes. Para ele, a mente humana era como uma
folha em branco, como uma tabua rasa, em que nada estaria escrito que receberia impressões através
dos sentidos a partir das experiências do indivíduo, sem trazer consigo, do nascimento, quaisquer
ideias como a de extensão e perfeição, entre outras, como pretendia Descartes. Caberia à experiência
gravar na mente as ideias. Portanto, todo o conhecimento procederia da experiência, pois só seria
possível conhecer aquilo que está dentro dos limites dela. Pelo seu pensamento nominalista seria
impossível a ciência verdadeira da natureza, tida como o conhecimento de leis universais e necessárias;
mesmo definida em termos de probabilidade: a ciência seria útil enquanto for prática.
Locke tentou demonstrar que os poderes do homem são muito limitados para construir sistemas
metafísicos, mas, por outro lado, criticava a noção corrente segundo a qual o homem nascia com
determinado conhecimento sob a forma de ideias inatas. Ele julgou, a semelhança de Bacon, que a
finalidade da filosofia devia ser prática, mas, contrário a Bacon que a considerava para conhecer a
natureza e dominá-la, Locke sustentava que esse fim era essencialmente moral: a filosofia devia
proporcionar uma norma racional para a vida do homem; da mesma forma que os predecessores
empiristas, ele sentiu a necessidade de investigar o conhecimento humano. Na sua gnosiologia a tarefa
seria encontrar um critério de verdade, sem partir do ser e sim do pensamento, com apenas ideias
(representações), excluindo as ideias de princípios que delas se formam.
Em sua obra Ensaio sobre o entendimento humano,manifestou:

"Somente são imagináveis as qualidades que afetam aos sentidos.(...) e si a humanidade houvesse
sido dotada de tão somente quatro sentidos, então, as qualidades que são o objeto do quinto sentido
estariam tão afastadas de nossa noticia, de nossa imaginação e de nossa concepção, como podem
estar agora as que poderiam pertencer a um sexto, sétimo ou oitavo sentidos (...) que talvez existam
em outras criaturas. (...). Todas as ideias vêm ou da experiência de sensação ou de experiência de
reflexão” (itálico ausente na fonte).

Com relação às ideias da experiência de sensação, manifestou:

“Em primeiro lugar, nossos sentidos, que têm trato com objetos sensíveis particulares, transmitem
respectivas e distintas percepções de coisas à mente, segundo os variados modos em que esses
objetos os afetam, e é assim como chegamos a possuir essas ideias que temos do amarelo, do
branco, do calor, do frio, do macio, do duro, do amargo, do doce, e de todas aquelas que chamamos
qualidades sensíveis: isso é o mecanismo de geração das ideias de sensação (...). E como a
extensão, a forma, o número e o movimento de corpos de grandeza observável podem perceber-se a
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distancia por meio da vista, é evidente que alguns corpos individualmente imperceptíveis devem vir
deles aos olhos, e desse modo comunicam ao cérebro algum movimento que produz essas ideias que
temos em nós acerca de tais objetos".

Locke utiliza o termo ideia com um significado amplo que incluía todos os diferentes modos da
experiência e de consciência: representação e imagem, percepção (cópias das coisas da realidade
exterior), conceito ou noção e sentimento, entre outros.
Na análise da correspondência entre a realidade exterior (observada: experiência) e as ideias
provenientes dos sentidos (internalizadas: reflexão) estabeleceu diferenças entre as qualidades
primárias, objetivas e pertencentes inteiramente ao objeto como, p.ex., extensão, forma e número e as
qualidades secundárias, subjetivas que dependem do observador ou objetivas apenas em suas causas,
como, p.ex., a cor e o sabor. Estabeleceu a classificação de ideias de qualidades primárias: as
concebidas por influencias direta do objeto e que são internamente inseparáveis dele, algo que está no
corpo, tais como solidez, forma, extensão, mobilidades; e as ideias de qualidade secundárias que
dependem das primárias; não correspondem aos atributos dos objetos mesmos, mas correspondem a
poderes que os objetos têm de produzirem indiretamente diversasa sensações, como as de cor, gosto,
cheiro.
Com relação às ideias da experiência dereflexão Locke manifestou que a mente não tem ideias
inatas, mas faculdades inatas: a mente percebe, lembra, e combina as ideias que lhe chegam do mundo
exterior, além de desejar, deliberar, e querer (...), constituindo-se em atividades mentais que são elas
próprias a fonte de nova classe de ideias.
Conforme Lockie, as ideias de reflexão podem ser agrupadas em:
a) Memória ou habilidade de chamar uma ideia ausente de volta à consciência.
b) Retenção ou habilidade de manter um pensamento na consciência.
c) Discernimento ou habilidade de reconhecer diferenças entre as coisas.
d) Comparação ou habilidade de reconhecer as semelhanças entre as coisas.
e) Composição ou habilidade de construir novas ideias tomando como material outras ideias.
f) Abstração ou habilidade de distinguir princípios de relações abstratas (p.ex. provas matemáticas)
os quais permenecem por trás de outras ideias e assim criar uma ideia geral.
Dessa forma, a experiência tem duplo sentido; em “observações” que podem provir tanto de
sensibilidade de objetos externos (sensação) quanto das operações internas da mente (reflexão), com
duas possíveis classes: ideias simples que podem ser dintinguidas em diferentes grupos como são,
p.ex., quente, frio, preto, branso etc.; e ideais complexas que resultam de procedimentos e
entendimentos como os de repetição, comparação, união (...) de ideais simples.
Locke admitia que todos têm temperamentos diferentes que devem ser desenvolvidos de
conformidade com as peculiaridades de cada um, presumindo que a educação individual não excluísse
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Fundamentos da pesquisa
Volume 1

a formação e educação social; mas, com elas se ampliaria e enriqueceria a própria personalidade.
Considerou muito importante a ação do educador, porém, era imprescindível a colaboração do
discípulo por se tratar da formação do intelecto (mediante a moral) e da razão (formação de seres
conscientes, livres e senhores de si mesmos) que é autônoma. Portanto, para Locke, a educação deveria
ser formativa (incluindo a educação física como o meio de domínio de se mesmo), desenvolvendo o
intelecto, e não [apenas] uma educação informativa, erudita e mnemônica.
Outro aspecto do pensamento de Locke que é preciso destacar nesta síntese é o relativo ao
associacionismo, sendo o precursos desse pensamento nas ciências.
Trata-se do princípio de que o pensamento consiste em associar ideias, derivadas da experiência
(e da reflexão), conforme as leis da frequência, da recência (do mais recente) e da vivacidade: quanto
mais frequentes, recentes e vividas sejam duas ideias relacionadas, mais provável será o fato de que a
apresentação de uma delas à mente, a outra a acompanha. (KNELLER, 1972; p. 39; complementado).
De acordo com o associacionismo, as novas ideias são formadas a partir de velhas ideias,
mediante um processo de tentativas e erros, por meio de combinação de idéais até que seja encontrado
um arranjo, uma nova ideia, que possa resolver a situação. Dessa forma, o pensamento criador de um
pesquisador na busca de uma solução, seria a ativação de conexões mentais contínuas até o surgimento
de certa combinação “aceitável”. Um aspecto positivo da explicação da criatividade seria o de que
quanto mais associaççoes tenha uma pessoa, mais ideias terá a sua disposição e mais criativo será seu
pensamento.
É oportuno indicar, conforme críticas de Kneller (op. cit.) que dificilmente o associacionismo se
adapta aos fatos da criatividade uma vez que, conforme o associacionismo, novos pensamentos (novas
ideis) foram obtidos do contexto de ideias anteriores e se combinaram para formar uma ideia original.
Tal pensamento ignora conexões estabelecidas e cria as suas próprias. Não seria fácil atribuir as ideias
criativas a conexões entre ideias derivadas de experiência pregressa, uma vez numa criança
relativamente incriativa experiências semelhantes podem deixar de produzir uma única ideia original.
Seria de esperar que a confiança nas associações passadas produzisse, em lugar de originalidade,
respostas comuns e previsíveis.

2.6.13 Baruch Spinoza: 1632 – 1677


Nascido em Amsterdã, Holanda. Família de origem espanhola que teve que sair da Espanha dada
a sua ascendência judaica. Estudou religião, filosofia, matemática, física, probabilidade, medicina,
química (...). Viveu na Idade de Ouro da história da Holanda, com um alto padrão de qualidade
marcado pela simplicidade 30 e respeito social. Sob várias influencias, disputas dentro da própria
comunidade judaica (...), aceitou um naturalismo puro e a negação das Sagradas Escrituras, afirmando
que a Bíblia não dava nenhum apoio à intolerância religiosa ou para a intervenção do clero em assuntos
civis e políticos; que os milagres eram eventos mal interpretados e exagerados para ter um maior efeito
moral e que a especulação científica era consistente com tudo o que é importante na Bíblia.
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Spinoza negou o Deus revelado na Bíblia, substituindo-o por um Deus-natureza manifesto por
leis naturais. Suas ideias, naquele ambiente de diversas tendências e contradições religiosas, foram
apresentadas em Tractatus de Deo et homine et jusque felicitate / Tratado sobre Deus, o
homem e sua felicidade que originou a sua expulsão e isolamento da comunidade judaica, afetando-
o em seus negócios de comercio. Depois escreveu:
Tractatus de intellectus emendatione / Tratado sobre o melhoramento do intelecto.
Renati dês cartes principiorum philosophiae – Cogitata tetaphysica / Princípios de filosofia
– Pensamentos metafísicos; sua única obra assinada e publicada durante sua vida.
Ética dividida em quatro partes, assim: A respeito de Deus; A natureza e origem do espírito
humano. A natureza e origem das emoções; e a Escravidão humana ou a Força das
emoções.
Poder do conhecimento ou a Liberdade humana. Essas obras foram orientadas para a
contestação do dualismo cartesiano.
Tractatus theologico-politicus / Tratado teoloógico-político; nessa publicação, “sem autoria
declarada”, mostrava que não apenas a liberdade de filosofia era compatível com a piedade
religiosa e com a paz do Estado, mas que cercear essa liberdade era destruir a paz pública e
inclusive a própria piedade. Nessa obra exigia a participação do povo no Estado e a cooperação
regular do povo com a aristocracia, além de expor os dogmas de uma fé comum.
Tractatus de intellectus e mendatione / Tradado do intelecto e das meditações. Epistolae /
Cartas.
Compendium grammatitices lenguae hebrae / Compêndio de gramática da língua
hebráica.
Dentro dos diversos aspectos destacáveis do pensamento filosófico de Spinoza dois são
considerados; O primeiro é o da teoria do conhecimento. Era uma resposta ao dualismo da filosofia de
Descartes; afirmava que seria impossível explicar a relação entre Deus e o mundo ou entre o espírito e
o corpo; acreditava na existência de um sentido no qual a definição de um objeto pode ser correta ou
incorreta, confiável ou não ao deixar clara a possibilidade ou a necessidade da existência do objeto
definido. Era necessário considerar cada aspecto da realidade, do objeto e deveria existir toda
possibilidade logicamente coerente.
Estava convencido de que cada aspecto da realidade era necessário e que toda possibilidade
logicamente coerente deveria existir. Assim, seria possível demonstrar a metafísica dedutivamente,
mediante uma série de teoremas derivados, etapa por etapa, de consequências necessárias a partir de
premissas auto-evidentes e em termos auto-explicativos ou definidos com uma correção
inquestionável. Entretanto, o método poderá garantir conclusões verdadeiras somente se os axiomas
forem verdadeiros e as definições corretas.
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Fundamentos da pesquisa
Volume 1

Spinoza recomendava que fosse feita uma cuidadosa distinção entre as várias formas do
conhecimento e que apenas se confiasse na melhor delas. Fazia a seguinte classificação de
conhecimentos:
a) O primeiro era o conhecimento do “ouvir dizer”, sem a percepção criteriosa.
b) O segundo era o conhecimento de uma experiência, de um resultado empírico (depreciativo), por
impressões do que costuma dar certo, porém, sem formulação científica de testes experimentais;
esse conhecimento era inadequado.
c) O terceiro, era o conhecimento obtido pela dedução imediata ou pelo raciocínio, sendo superior
aos outros, mas sujeito a possível de refutação pela experiência direta: era o conhecimento da
razão.
d) O quarto era o conhecimento mais elevado proveniente da dedução imediata; o método utilizado
era o dedutivo proposto por racionalistas como Descartes e Leiobniz: só a razão é capaz de levar
ao conhecimento verdadeiro que decorre de princípios a priori evidentes e irrecusáveis; a
valorização da razão enquanto instrumento de conhecimento com base na percepção direta; era o
tipo de conhecimento da intuição adequado ao conhecimento de objetos individuais.
Acreditava que nenhum objeto pode ser isolado do resto da natureza; portanto, não se pode
afirmar a verdade total sobre ele, uma vez que isso envolveria a natureza inteira; era o conhecimento
“opinião ou imaginação”. Se, no entanto, como acontece na terceira forma de conhecimento, a
consciência é dirigida somente para aquelas propriedades que todos os objetos têm em comum, não
haverá a distorção que ocorre na experiência dos sentidos. Por esse caminho Spinoza dava conta da
possibilidade do conhecimento da razão a priori na geometria, na física geral e na psicologia geral.
O segundo aspecto a relacionar da filosofia de Spinoza é o da educação sendo determinística e
estóica. Considerava que as ações dos homens são determinadas pelas suas lembranças e que a
sociedade devia formar os cidadãos manipulando suas esperanças e receios, para alcançar certa dose de
ordem social e de cooperação. Afirmava, quer as ações sejam livres ou não, as motivações ainda serão
a esperança e o medo.
Aqueles que considerassem todas as coisas como determinadas não se poderiam queixar, ainda
que pudessem resistir; pois perceberiam as coisas sob certa luz de eternidade e compreenderiam que
suas desventuras não seriam resultados do acaso, mas, teria alguma justificativa na eterna sequência e
estrutura do mundo. Com esse espírito se esqueceriam dos prazeres caprichosos da paixão para a
elevada serenidade da contemplação, onde todas as coisas seriam partes da ordem e do
desenvolvimento eternos.
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O rige n s e e vo lu çõe s da s ciên cia s e d a p esqu isa


Filó sof o s e cien t ist a s a o lo ng o da hist ó ria da civiliza ção

2.6.14 Isaac Newton: 1642 -1727


Nascido em Woolsthorpe, Lincolnshire, Inglaterra no mesmo ano em que Galileu morreu.
Estudou na Universidade de Cambridge filosofia, matemática e geometria analítica, sendo influenciado
por Copérnico, Galileu e Kepler, entre outros. O cientista mais conhecido como físico e matemático.
Newton é considerado o fundador da mecânica clássica e um dos precursores do iluminismo 31 ou
do movimento cultural que se desenvolveu na Inglaterra, França e Holanda, no século XVII e XVIII,
com ideais como as de liberdade política e econômica, precursoras de grandes movimentos.
Antes de completar os 25 anos de idade Newton iniciou várias revoluções como as da
matemática, da óptica, da física e da astronomia. É tido como o pai do estudo do cálculo infinitesimal,
da mecânica, do movimento planetário e da teoria da luz. Conquistou seu lugar na história da ciência
ao formular a força gravitacional e ao definir as leis do movimento e da atração. Tais leis constam em
sua obra Philosophiae naturalis principia mathematica / Princípios matemáticos da filosofia
natural (HAWKING, 2005). Lançou, “junto” com Leibniz, a base do cálculo diferencial e integral.
Construiu o primeiro telescópio de reflexão e foi o primeiro a observar o espectro visível da
decomposição da luz solar ao incidir sobre uma das fases de um prisma triangular transparente,
atravessando-o e se projetando sobre um meio branco.
Na obra Princípios (...) se destacam regras do método como o da simplicidade (“não se hão de
admitir mais causas das coisas naturais do que as que sejam verdadeiras e, ao mesmo tempo, bastem
para explicar os fenômenos de tudo”), uniformidade, dedução e indução. Afirmava que o método de
análise na matemática e na filosofia natural sempre deve preceder ao método da síntese. O método
consistia em realizar experimentos e registrar as observações, analisá-las e obter conclusões gerais,
sem rejeitá-las, a menos que a rejeição fosse sustentada pelos próprios dados do experimento ou
informações provenientes de verdades.
A obra De methodis serierum et fluxionum foi seu primeiro trabalho científico sobre a luz e a
cor; no Philosophical transactions of the Royal Society tratou de teorias da luz e da cor. A
Opticks foi um dos trabalhos mais importante sobre a mecânica celeste. Em Teoria da gravitação
universal apresentou novas versões de três leis do movimento, a descoberta da lei da força centrípeta
sobre um corpo em órbita circular. Trouxe significativas contribuições para a nova física e sua
aplicação à astronomia, com suas leis gerais.
A principal obra de Newton foi a Philosophiae (...) / Princípios (...), em três volumes. O livro I
de física teórica é considerado o trabalho mais importante na história da ciência. O livro II é,
basicamente, um tratado sobre a mecânica dos fluídos. No livro III (Sistema do Mundo) ele mostrou
como a lei gravitacional pode explicar os movimentos dos seis planetas conhecidos, de luas, cometas
(...).
Em Philosophiae (...) / Princípios (...) enunciou a lei da gravitação universal, generalizando e
ampliando as constatações de Kepler; tratou sobre física, astronomia e mecânica, temas como p.ex., lei
dos movimentos, movimentos dos corpos em meios resistentes, vibrações isotérmicas, velocidade do
som, densidade do ar, queda dos corpos na atmosfera e pressão atmosférica. Outras contribuições
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Fundamentos da pesquisa
Volume 1

foram em campos como os de colisões, pêndulos, projeteis, fricção do ar, hidrostática e propagação de
ondas. Essa obra foi reconhecida como o livro científico mais importante.
Publicou Arithmetica universalis, livro-texto sobre identidades matemáticas, análise e
geometria.
Outras obras de Newton foram: De analysis per aequations numero terminorum infinitas.
Methodus fluxionum et serierum infinitorum sobre séries e calculo.
Entre suas grandes contribuições à ciência se tem a lei da gravitação, a decomposição da luz
solar no espectro e os anéis coloridos das lâminas delgadas, com consequências que se estendem por
todo o campo científico, abrindo a porta à ciência moderna. Ao firmar o princípio da gravitação
universal, Newton eliminou a dependência da ação divina e influenciou profundamente o pensamento
filosófico do século XVIII.
Os princípios matemáticos da filosofia natural podem ser sintetizados como segue:
a) As leis do movimento (livro I: Princípios...), que deram uma explicação completa ao movimento
e à forma como as forças atuam, sintetizadas como segue:
a.1) Primeira lei: todo corpo continua em seu estado de repouso ou de movimento uniforme em
linha reta, a menos que seja forçado a mudar esse estado por forças que atuam nele. A inércia:
em ausência de forças externas, um objeto em repouso permanece em repouso e um objeto em
movimento permanece em movimento, ficando em movimento retilíneo e com velocidade
constante; é a propriedade do corpo de resistir à mudança cuja medida é o momentum definido
como proporcional à sua velocidade. (HAWKING, 2005).
a.2) Segunda lei: a alteração do movimento é sempre proporcional à força motriz aplicada e
ocorre na direção da linha reta da força aplicada. A força que relaciona a mudança de
velocidade do objeto com a força aplicada sobre ele; a força líquida aplicada a um objeto é
igual à massa do objeto multiplicado pela aceleração, na mesma direção, causada ao corpo por
essa força (HAWKING, op. cit.).
a.3) Terceira lei: para cada ação há uma reação igual e contrária (as ações mutuas de dois corpos
um no outro são sempre iguais e em direções contrárias), com diversos corolários. A ação e
reação podem explicar o movimento dos planetas em torno do Sol, assumindo a hipótese de
uma força dirigida ao Sol que produz uma aceleração capaz de forçar a velocidade do planeta a
mudar de direção continuamente, baseada no movimento da Lua em torno da Terra. Nela,
combina-se sua lei de aceleração centrípeta às leis de Kepler da aceleração em órbitas
circulares e à lei de aceleração do holandês Christiaan Huygens (HAWKING, op. cit.).
A ideia dos movimentos absoluto e relativo, sua diferenciação e síntese de suas leis, é o
movimento verdadeiro ou absoluto que não pode ser criado ou modificado, exceto pela ação de
forças, mas, o movimento relativo pode ser criado ou modificado sem essas ações de forças.
b) Regras (método de investigação) para o estuda da física.
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Filó sof o s e cien t ist a s a o lo ng o da hist ó ria da civiliza ção

b.1) Primeira regra. Não admitir mais causas para os fenômenos naturais do que aquelas
verdadeiras e suficientes para explicá-los; pro isso, diz-se que a natureza não faz nada em vão,
e mais terá sido feito em vão quando menos útil for; essa proposição remete à simplicidade e à
evitar causas supérfluas.
b.2) Segunda regra. Aos mesmos fenômenos naturais, devem-se, na medida do possível, atribuir
as mesmas causas.
b.3) Terceira regra. As qualidades dos corpos que não são susceptíveis de aumento nem
diminuição e que pertencem a todos os corpos com os quais se podem realizar experiências,
devem ser consideradas qualidades universais.
b.4) Quarta regra. Na filosofia experimental as proposições obtidas por indução dos fenômenos
quando contrariadas as hipóteses, devem ser consideradas exatas (muito próximas), até que se
apresente outro fenômeno mediante o qual estas proposições possam ser confirmadas ou
rejeitadas.
A metodologia de investigação de Newton pode ser sintetizada pelos seguintes passos:
a) A observação da realidade e a experimentação cuidadosa de seu comportamento, feitas
mediante induções gerais com o propósito de estabelecer uma lei ou hipótese.
b) Uma vez enunciada essa lei ou hipótese geral se aplica para uma situação particular,
deduzindo-se matematicamente o comportamento dos objetos da realidade em cada caso.
c) Os dados são testados mediante procedimentos dedutivos, com base nos dados de observações
e experimentações e as proposições iniciais de leis ou hipóteses.
d) O procedimento se repete um considerável número de vezes particulares e se os resultados são
coerentes, se aceita a hipótese até descobrir um caso de rejeição.

2.6.15 Gottfried Wilhelm Leibniz: 1646 – 1716


Nascido em Leipzig, Alemanha. Dedicou-se a filosofia, a matemática e a política, entre outras
atividades. É considerado um dos criadores da geologia, devido à riqueza de suas observações, além de
suas contribuições tecnológicas como, p.ex., a invenção de uma bomba de água para melhorar a
exploração de minas e de um processo de dessalinização da água; sugeriu meios de aumentar a
produção de tecidos; propôs um processo de dessalinização da água; fez descrições de fósseis;
procurou, por meio de monumentos e de vestígios linguísticos, a origem das migrações dos povos, a
origem e progresso da ciência, da ética e política.
Dentre suas obras se destacam: Sobre a Arte Combinatória. Monadologia. Discurso de
Metafísica. Novos Ensaios Sobre o Entendimento Humano. Sobre a Origem Radical das
Coisas. O que é Ideia. Cálculo diferencial e integral. Característica universal.
Correspondência com Arnauld. Correspondência com Clarke. Sobre o verdadeiro método em
filosofia e teologia. Sobre as noções de direito e de justiça. Ensaio de teodicéia.
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Fundamentos da pesquisa
Volume 1

Considerações sobre o princípio da vida, sobre a sabedoria, sobre a liberdade e


correspondência com Padre Bosses.
Foram numerosas, diversificadas e consideráveis as contribuições, tanto científicas como
tecnológicas. No campo da matemática Leibniz aperfeiçou o sistema de numeração binário, base da
moderna computação e propôs as bases da topologia geral moderna. Em sua obra o Novo methodus
pro maximis et minimis apresentou uma exposição (descoberta) do cálculo diferencial. Criou, com
Isaac Newton, o cálculo infinitesimal, uma ferramenta para o cálculo diferencial. No campo da
geometria, o cálculo infinitesimal, integral e diferencial, toma o ponto simplesmente como uma
circunferência de raio infinitamente pequeno, a curva como um pedaço de circunferência de raio finito
e constante e a reta um pedaço de circunferência de raio infinitamente longo.
Leibniz, na área política, escreveu O Mais Cristão Deus da Guerra, em que expôs seus
pensamentos a respeito da guerra com a Hungria. Na área filosófica, aperfeiçoou seu sistema
metafísico buscando uma noção de causa universal de todo ser, tentando chegar a um ponto de partida
que reduzisse o raciocínio a uma álgebra do pensamento. Em sua obra, Meditações sobre o
conhecimento, a verdade e as ideias, definiu sua teoria do conhecimento. Depois escreveu
Discours de métaphysique seguido de Breve demonstração do memorável erro de Descartes
e outros, sobre a Lei da Natureza, concluindo sua filosofia monadologia. Expôs uma parte de sua
teoria dinâmica do movimento no Système nouveau, onde tratava do relacionamento de substancias
e da harmonia preestabelecida entre a alma e o corpo. Em Sobre a origem das coisas, tentou provar
que a origem última das coisas não pode ser outra senão Deus.
O pensamento de Leibniz, contido em suas obras, quase todas escritas em francês ou latim, foi
ortodoxo e otimista, com grande amplitude de suas ideias e princípios fundamentais da filosofia,
incluindo a verdade; os mundos possíveis; o princípio de razão suficiente, isto é, a razão sem a qual
nada ocorre sem uma razão que ele tentou reduzir a um sistema simbólico formal, uma álgebra ou
cálculo do pensamento; nesse contexto, as controvérsias seriam acertadas por meio desse sistema. O
princípio da harmonia pré-estabelecida, sintetizado por: Deus construiu o universo de tal modo que os
fatos mentais e físicos ocorrem simultaneamente; e o princípio de não contradição: uma proposição da
qual se pode derivar uma contradição é falsa.
Na teoria do conhecimento de Leibniz, com fundamentos no racionalismo cartesiano e no
finalismo aristotélico, apresentou princípios de concepção da realidade e da ética com implicações
políticas; um deles é o princípio da razão: consiste em submeter toda e qualquer explicação ou
demonstração a duas exigências: a primeira (inata) é a da não-contradição ou razão necessária daquilo
que é explicado ou demonstrado; a essa exigência correspondem às verdades da razão; são verdades
necessárias e tem a razão em si mesma; são evidentes a priori (não dependente da experiência nem dos
sentidos). A segunda exigência é a razão suficiente de existência das coisas; são as verdades dos fatos,
contingentes, sem que se justifiquem a priori, mas, atestadas a posteriori, portanto, dependente dos
sentidos e da experiência, tal como afirmava Kant; dentro dessa exigência se têm as verdades
científicas. Desse modo, o princípio da razão, com suas duas exigências, afirma que uma coisa só pode
existir necessariamente se, além de não ser contraditória, houver uma causa que a faça existir.
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Para Leibniz, além da causa eficiente (matemática e mecânica) que produz as coisas segundo o
princípio de razão com suas duas exigências (a não-contradição e a suficiência), há, também, nessa
produção, uma causa final (dinâmica e moral). O fim da produção das coisas é a vontade justa, boa e
perfeita de Deus que assim o deseja. Trata-se do finalismo que é sustentado pelo princípio do melhor.
Outros princípios do conhecimento, além dos princípios da razão e do melhor, foram os da
continuidade e do indiscernível; pelo princípio da continuidade afirmava que não existem
descontinuidades na hierarquia dos seres; pelo princípio do indiscernível, afirmava que não há no
universo dois seres idênticos e que as diferenças são intrínsecas de naturezas numéricas, espaciais ou
temporais; cada ser é em si diferente de qualquer outro; a diferença é de essência e se manifesta no
plano visível das coisas.
Dos princípios do conhecimento Leibniz passou para os fundamentos da monadologia,
entendida como a formulação teórica dinâmica que substitui a energia cinética pela conservação do
movimento como uma força viva com capacidade de agir e não como uma força física; com energia e
vigor e não como uma maquina; com a concepção do mundo oposta à geométrica e mecânica
cartesiana.
A partir da ideia de matéria como atividade chega à ideia do universo composto por unidades de
força, as mônadas, noção fundamental de sua metafísica. A mônada compreende em si toda a realidade
e nada lhe pode vir de fora. Dessa forma, tudo o que acontece no mundo está incluído na sua essência,
a mônada, e, por conseguinte, é uma noção completa. Essa unidade de força se caracteriza pela
percepção ou capacidade de representar ou espelhar as coisas do universo; pela apercepção ou
capacidade espiritual do autor se apresentar (a consciência); pela apetição ou tendência de cada
mônada fugir da dor e desejar o prazer, passando de uma percepção para outra; e pela expressão como
sendo um poder interno.
As mônadas são indivisíveis e, portanto, inextensas, porque a extensão é sempre divisível;
simples e incorruptíveis. Tudo o que acontece à mônada brota do seu próprio ser, das suas
possibilidades internas, sem intervenção exterior.
Quanto à metodologia de investigação, um aspecto que se destaca nesta síntese, seguindo
Leibniz, o problema consiste em buscar um método exato para combinar (inter-relacionar) as ideias; o
objetivo desse método seria o de estabelecer, mediante ideias elementares, um “alfabeto” lógico em
que todas as noções compostas acerca da realidade estejam reduzidas a noções simples. Para ele, a
fundamentação da ciência não estava apenas nos juízos, mas, também, nas definições de conceitos
básicos; assegurava que todas as verdades podem ser classificadas em verdades da razão e verdades
dos fatos.

O nível de fundamentação de uma hipótese está determinado pelo seu nível de probabilidade,
sendo mais provável a hipótese quanto mais simples seja; quanto maior seja o número de fenômenos
que possa explicar um fenômeno, um fato (...) com o menor número de postulados e axiomas; e quanto
melhor permite prever novos fenômenos ou explicar novos experimentos, exceto os não conhecidos.
140

Fundamentos da pesquisa
Volume 1

2.6.16 George Berkeley: 1685 / 1753


Nascido em Kilkeney (Dysert Castle), Irlanda. Estudou no Trinity College) e filosofia sendo
influenciado por Locke. De formação eclesiástica; foi bispo anglicano de Clovne e empirista de acordo
com a tradição britânica; como tal construiu a teoria da percepção visual da distância, na qual
indicações [atributos do objeto visto] procedem do contexto que compreende os objetos. Acreditava
que a afirmação de Locke de que as ideias representam alguma coisa diferente delas eram incoerentes;
se apenas se conhecem as ideias não faria sentido dizer que elas são representações. Afirmava: só se
conhecem as ideias como fruto de percepções das coisas, sem que existam duas realidades, as coisas e
as ideais (BERKELEY, 2006).
Segundo Cobra (1997), Berkeley negava que fique alguma coisa se tirar do objeto todas as suas
qualidades, tanto primárias como extensão e consistência, quanto secundárias como cores e sons, tidas
como produto dos sentidos. Se as qualidades dos corpos dependem da mente, então não se podem
atribuir aos corpos mesmos a atividade de causar sensações; essas causas e impressões procederiam de
Deus: o que se pensa ser um corpo não tem existência real, mas são apenas impressões na mente. Esta
ideia é contrária à de I. Kant: um material é causa do conhecimento sensível e está investido de
qualidades percebidas; os corpos existem ainda que desconhecidos.
Berkeley acreditava que “a única existência dos objetos é a ideia que se tem deles: existir é ser
percebido; as coisas só existiam como objetos da consciência. A existência do mundo como realidade
coerente e regular estaria garantida por Deus, mente suprema, onde tudo se produz e ordena”.
Destacou-se, também, como um filósofo da ciência ao estabelecer as bases do instrumentalismo
contemporâneo. Buscou no empirismo a base epistemológica para atingir seu objetivo de fundamentar
o instrumentalismo. (OS PENSADORES. 1973; COLLINSON, 2005; complementado).
Entre as obras de Berkeley se destacam:
Ensaio sobre a nova teoria da visão; apresentou seu princípio: ser é ser percebido; seu
propósito era mostrar como são percebidas, pela vista, as coisas com influencias pela distancia, o valor
e a situação; como outros filósofos, parace supor que o toque [a proximidade] fornece o acesso
imediato ao mundo e que a distância a percepção é outra. Tratado sobre os princípios do conhecimento
humano, sua obra mais importante e influente; nela aceita o empirismo de Locke, porém não admite o
conhecimento derivado de dados da experiência caminho para o abstrato de substância material;
afirmava que essa substância não poderia ser conhecida; o que se poderia conhecer seriam as
qualidades reveladas durante a percepção.
Três diálogos entre Hylas e Philonus, em que explicou as concepções filosóficas propostas
na obra anterior (Tratado sobre os princípios...). Reflexões e pesquisas filosóficas relativas às virtudes
da água de alcatrão e diversos outros tem, as conexões entre si e originadas um do outro.
O analista, onde criticou o cálculo diferencial e integral de Newton em sua obra Uma defesa do
livre pensamento em matemática.
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O pensamento filosófico de Berkeley estava orientado para a inexistência da matéria.


Assegurava que todos os objetos percebidos e tomados como existentes no mundo exterior são simples
coleções de ideias presentes na mente. Escreveu:

(...) algumas verdades são tão próximas e óbvias para a mente que se precisa apenas abrir os olhos
para vê-la (...), isto é importante para o entendimento no mundo; (...) não existe qualquer substância
sem a mente, sendo a existência percebida ou conhecida; consequentemente, enquanto não sejam
percebidas, ou elas não existem na mente (...) ou apenas existem na mente de qualquer espírito
eterno (...).

O conceito do mundo externo apenas produzido pela mente é o idealismo, entendido, além da
concepção trivial, como o fato de ter ideias em relação ao problema do ser. Afirma que o ser é idêntico
à ideia do mesmo: o ser existe somente como manifestação ou produto do pensamento. É uma das
respostas à pergunta fundamental da filosofia: o que é o ser; a outra resposta clássica a esta pergunta é
o realismo.
O idealismo surgiu como consequência da desconfiança em relação aos dados colhidos com base
em orientações dos sentidos, como possibilidade de um conhecimento válido que se contrapõe ao
materialismo para o qual toda realidade tem sempre caráter material. O idealismo tem como traço
característico e ponto de partida para a reflexão o eu, visto como a alma, o espírito ou a mente; a ideia
ou o pensamento é o elemento primordial, com duas concepções: uma ontológica (do ser) e outra do
conhecimento (gnoseológica).
Entre outros filósofos do idealismo se tem Platão: no idealismo platônico o ser em sua pureza e
perfeição não está na realidade (...). Os objetos são captados pelos sentidos e são cópias imperfeitas.
Nesse contexto se têm:
a) Locke: a possibilidade de só se conhecerem ideias, objetos subjetivos e exclusivos da mente.
b) Kant: idealismo crítico na teoria do conhecimento com base no fenomenismo; idealismo
transcendental, em que o intelecto humano não pode chegar a conhecer a coisa em si, a essência.
c) Hegel: idealismo absoluto: as formas de pensar seriam, também, as formas de ser: o que é
racional é real e o que é real é racional.
d) Schelling: panteísmo de idealismo transcendental pela identificação entre sujeito e objeto.
e) Cohen: idealismo objetivo: o pensamento é idêntico ao ser e tudo que é real é racional.
Qual foi a época e ambiente em que viveu Berkeley? Nos primeiros anos do século XVIII, as
concepções dominantes estavam baseadas na “nova ciência”, chamada “nova filosofia”; exemplos de
algumas dessas concepções são: o universo material seria átomo ou corpúsculo em sua estrutura e
mecânico em sua operacionalização; o mundo funcionaria com base em conceitos, tais como: massa,
forma, tamanho e movimento na forma de qualidades primárias da matéria. Outras qualidades, as
secundárias (segundo Locke), seriam: gosto, cores, temperatura (...), atribuídas às coisas, porém
ausentes delas; eram atributos percebidos através dos sentidos até formar, na mente, as ideias. As
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Fundamentos da pesquisa
Volume 1

conclusões de Berkeley eram diferentes às de Locke, não admitindo a diferenciação de qualidades


primárias e secundárias.

2.6.17 François-Marie Arouet Le Jeune (Voltaire): 1694 – 1778


Nascido em Paris. Estudou em colégio jesuíta Poeta, ensaísta, dramaturgo, filósofo e historiador.
Foi expoente do humanismo iluminista. Quando jovem foi preso, acusado de ser o autor de um panfleto
político, na Bastilha (concluiu sua obra Henriade e esboçou a Oedipe no estilo literário de tragédia)
decide adotar o nome de Voltaire; durante o exílio na Inglaterra foi influenciado pelas liberdades de
expressão, de tolerância religiosa e de racionalidade; isso determinou sua luta constante contra o
fanatismo, a intolerância e o abuso de poder e, particularmente, contra o poder eclesiástico.
Algumas das obras de Voltaire, caracterizadas pela leveza da linguagem, são:
Três anos mais tarde de seu retorno de Inglaterra publicou: Brutus. Eriphyle. Zaire. La Mort de
César. Adelaide.
Datam da mesma época as seguintes obras:
Lettres philosophiques ou Lettres anglaises em que exaltou o sistema liberal inglês,
condenou o despotismo e provocou grande escândalo, sendo, por isso, obrigado a se refugiar. Aí se
entregou ao estudo das ciências e escreveu os: Eléments de la Philosophie de Newton. Alzire.
L'Enfant prodigue. Mahomet. Mérope. Discours sur l'Homme Mahomet; entre outras.
Voltou a Paris, já conhecido - famoso e com glória em toda a Europa e, depois, escreveu:
Candide. Histoire de la Russie sous Pierre le Grand. Histoire du parlement, além de numerosas
peças para o teatro.
A filosofia prática de Voltaire não considera a presença de Deus (a intervenção divina) nos
assuntos humanos, denunciando o providencialismo em sua obra o Cândido. Porém, não era ateu;
acreditava que a organização do mundo, sua finalidade interna, só se explicava pela existência de um
Criador inteligente; um Deus criador do universo, do qual é a causa e o princípio; considerava que nada
sabíamos desse Criador do mundo, pois ele nunca se poderia ter revelado sob a forma sobrenatural em
que acreditam os Judeus, os Cristãos e os Muçulmanos. Deus apenas se podia manifestar através da
natureza e das leis naturais.
Considerava absurda a possibilidade de mudar os acontecimentos e influenciar Deus pela oração,
pois o mundo era controlado por leis imutáveis. Afirmava que a cegueira e a ignorância faziam com
que os homens se perseguissem e matassem uns aos outros, em nome da religião. Para ele o
esclarecimento e a razão acabariam por vencer, desde que se conseguisse explicar os novos conceitos e
ideias do Iluminismo de uma forma simples e compreensível por todos.
Com relação às ideias dominantes de sua época, Voltaire tomou posição como, p.ex., ao divergir
de Montesquieu sobre o direito dos povos à guerra; não percebeu oposição entre uma sociedade
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alienante e um indivíduo oprimido, ideia defendida por Rousseau, mas, crê em um sentimento
universal e inato da justiça, que deve ser observado em leis da sociedade.
Considerava que a vida em comum exige uma convenção, um contrato social, necessário para
preservar o interesse de cada um, sendo que o instinto e a razão levariam o homem a respeitar e
promover esse contrato. O propósito da moral era ensinar os princípios da convivência. O trabalho
possibilitaria que o homem tivesse domínio de seu destino, melhorando as sua condição mediante a
ciência e a técnica e proporcionando beleza à vida através da arte.
Voltaire acreditava na ordem do mundo como tendo uma finalidade providencial; dessa forma, a
estrutura geográfica da terra e as espécies vivas eram fixas; em nome desse finalismo estático, rejeitava
as ideias evolucionistas que, na época, começam a se difundir; portanto, recusava-se a crer nos fósseis
de animais marinhos descobertos nas montanhas e em admitir que as montanhas outrora estivessem
submersas; ao aceitá-las seria negar a estabilidade e a finalidade da ordem providencial do mundo.

2.6.18 Charles-Louis de Secondat, barão de la Brède et de Montesquieu:


1699 1755
Nascido perto de Bordéus, no castelo de Brède. França. Escritor e filósofo da história e do
direito constitucional; humanista e cético, porém, com o otimismo característico do século XVIII,
acreditando na possibilidade de solução dos problemas da vida pública. Livre-pensador em assuntos
religioso e apreciador de prazeres da vida; esse foi seu pensamento em seu primeiro livro Lettres
persanes / Cartas persas, cartas imaginárias de pessoa estranha que teria visitado a França, de
conteúdo espirituoso e irreverente que relativizou valores de uma civilização pela comparação com os
de outra, constituindo-se manual do iluminismo. A base de seu pensamento é historicista, sendo
considerado o fundador, entre outros, da filosofia da história. Célebre pela sua teoria da separação dos
três poderes
O humanismo de Montesquieu, influenciado por Maquiavel, encontra-se no fundamento de sua
obra Considérations sur lês causes de la grandeur des romains et de leur décadence /
Considerações sobre a causa da grandeza dos romanos e de sua decadência. Nessa obra
apresentou as causas da grandeza e da decadência das nações e explicou o curso da história por meio
de fatos naturais (p.ex., clima e situação geográfica, antecipando o positivismo científico), econômicos
e políticos (p.ex., amplitude de domínios).
Na obra De l’esprit des lois / O espírito das leis volumosa, dividida em seis partes (livros),
inspirada em Locke e em estudo das instituições inglesas, Montesquieu elaborou conceitos sobre
formas de governo (teoria política) e o exercício da autoridade política. Esses conceitos, contrários ao
pessimismo (ceticismo), tornaram-se bases doutrinárias da ciência política; era o resgate por meio de
instituições políticas adequadas.
Considerou que cada uma das três formas possíveis de governo seria animada por um princípio,
assim: a democracia seria baseada na virtude; a soberania nas mãos de todos, democracia ou de
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Fundamentos da pesquisa
Volume 1

alguns, aristocracia; a monarquia nas mãos de um só, segundo leis positivas e com alicerce na honra; e
o despotismo, soberania nas mãos de um só, segundo o arbítrio deste e com base no medo. Ao rejeitar
este último sistema de governo e acreditar que a democracia só seria viável em repúblicas de pequenas
dimensões territoriais se decide em favor da monarquia constitucional.
Montesquieu elaborou a teoria da separação dos poderes, em que a autoridade política seria
exercida pelos poderes executivo, legislativo e judiciário, cada um independente e fiscal um do outro.
Seria essa a melhor garantia da liberdade dos cidadãos e, ao mesmo tempo, da eficiência das
instituições políticas. A parte que segue apresenta algumas ideias:

As leis escritas ou não, que governam os povos, não são fruto do capricho ou do arbítrio de quem
legisla; ao contrário, decorrem da realidade social e da história concreta própria ao povo
considerado. Não existem leis justas ou injustas. O que existe são leis mais ou menos adequadas a
um determinado povo e a uma determinada circunstância de época ou lugar. É necessário estabelecer
a relação das leis com as sociedades, ou ainda, com o espírito dessas.

O que Montesquieu descreve como espírito geral de uma sociedade aparece como o resultado de
causas físicas [naturais], de causas morais como costumes e religião e de máximas de um governo [isto
é, da natureza; daquilo que faz um governo ser o que é e o princípio que determina o seu movimento]
ou, segundo Aron (...) a identidade nacional sintetizando esse espírito geral.
Ao buscar as relações que as leis têm com a natureza e o princípio de cada governo Montesquieu
desenvolveu uma teoria de governo com ideias do constitucionalismo. Conforme essa teoria, a
autoridade seria distribuída por meios legais, de modo a evitar o arbítrio e a violência, orientada para o
exercício da democracia e para a melhor definição da separação dos poderes em Executivo, Judiciário
e Legislativo. Essas ideias influenciaram os constitucionalistas da época, dos Estados Unidos, em
particular. As funções dos poderes seriam:
a) O Poder Executivo seria exercido por um rei, com direito de veto sobre as decisões do
parlamento.
b) O Poder Judiciário não seria único, porque os nobres não poderiam ser julgados por tribunais
populares, mas só por tribunais de nobres; dessa forma não defendia a igualdade de todos
perante a lei.
c) O Poder Legislativo seria convocado pelo executivo e deveria ser separado em duas casas: o
corpo dos comuns, composto pelos representantes do povo, e o corpo dos nobres, formado por
nobres, hereditário e com a faculdade de vetar as decisões do corpo dos comuns. Essas duas
casas teriam assembléias e deliberações separadas, assim como interesses e opiniões
independentes.
Refletindo sobre o abuso do poder real, Montesquieu conclui que “só o poder freia o poder”, daí
a necessidade de cada poder fosse autônomo e constituído por pessoas e grupos diferentes.
145

O rige n s e e vo lu çõe s da s ciên cia s e d a p esqu isa


Filó sof o s e cien t ist a s a o lo ng o da hist ó ria da civiliza ção

As teorias de Montesquieu exerceram profunda influência no pensamento político moderno.


Inspiraram a Declaração dos direitos do homem e do cidadão, durante a revolução francesa, e a
constituição dos Estados Unidos, em que foi substituída a monarquia constitucional pelo
presidencialismo. Com o fim do absolutismo, diversos países europeus adotaram a monarquia
constitucional.
A maioria das constituições das nações do Ocidente adotou o princípio da separação dos poderes
e em muitas dessas nações vigora o presidencialismo ao estilo norte-americano.
Um aspecto que se destaca do pensamento de Montesquieu é a pertinência das observações, no
estudo científico, e a preocupação com o método aplicado em seu trabalho, que prenunciam uma
análise sociológica e influenciaram pesquisadores.

2.6.19 Leonhard Euler: 1707 – 1783


Nascido em Basiléia, Suíça. Ministro protestante. Estudou na Universidade de Basiléia. Foi
professor de física e matemática na Academia de São Petersburgo e pesquisou em medicina. Foi um
dos mais prolíficos pensadores (matemáticos) de todos os tempos; 32 os 866 livros e artigos, a maioria
no final de sua vida quando já estava cego, representaram aproximadamente um terço de todas as
pesquisas em matemática, teorias físicas e engenharia mecânica, publicados entre 1726 e 1800; a
Academia de Ciências de São Petersburgo continuou a publicar trabalhos novos até 50 anos depois de
sua morte.
Legou à posteridade um grande número de trabalhos sobre as mais diversas áreas, da engenharia
à mecânica, da ótica à astronomia, da música à matemática; equações diferenciais, cálculo de
variações, geometria, teoria dos números, cartografia, mecânica de sólidos, mecânica de fluidos,
mecânica celeste, óptica, hidráulica, construção de navios, artilharia, teoria da música, etc. Foi um dos
criadores da moderna análise matemática apresentada em sua obra (quatro volumes) Introduction in
analysis infinitum / Introdução na análise infinita, trabalhando com logaritmos positivos. Escreveu
livros didáticos.
Em matemática pura, Euler harmonizou o cálculo diferencial de Leibniz ao método de Newton
(criadores de métodos básicos) na análise matemática para tratar processos dinâmicos, em sua obra
Institutiones calculi differtialis mediante substituições de diferenciação. Na obra Institutiones
cauculi integralis, investigou integrais expressas como funções elementares, duplas, ordinárias e
parciais; refinou a noção de função, introduzindo a notação f(x); criou notações matemáticas comuns,
incluindo o número “e” (número de Euler; um número irracional e transcendente) como base de
logaritmo; com a descoberta do método dos logaritmos possibilitou prever as marés e as fases da Lua
com aplicações na navegação e na solução do problema de Basel ao encontrar uma forma fechada para
a soma de séries infinitas; o número “i” para a raiz quadrada de -1; a constante  de Euler, relacionada
a séries infinitas com um limite; as conexões da função zeta com séries de números primos; o método
minimax; o número pi ; funções especiais e introdução as funções transcendentais beta e gamma etc.
146

Fundamentos da pesquisa
Volume 1

Publicou, entre muitas obras, Mechanica, onde tratou da análise matemática de dinâmica newtoniana
e Letters to a Princess of Germany / Cartas a uma Princesa da Alemanha (3 volumes).
Euler trabalhou nas origens do cálculo de variações; foi um pioneiro no campo da topologia,
com notáveis contribuições para a teoria do número (fundamento do cálculo com, p.ex., teorema do
número primo e a lei da reciprocidade biquadrática) como uma ciência, Na análise do infinito incluiu
novos campos como equações diferenciais, o cálculo de variações e a mecânica racional. Em Física,
articulou a dinâmica Newtoniana e colocou a fundação de mecânica analítica, especialmente na sua
Teoria dos Movimentos de Corpos Rígidos.
Pesquisou a mecânica contínua e a cinética de gases com base em modelos moleculares. Estudos
a determinação da órbita de cometas e planetas baseadas em poucas observações e as considerações
sobre suas naturezas (mecânica celeste e teoria lunar), trabalhos dos mais impressionantes e pelos quais
ganhos vários prêmios da Academia de Ciências de Paris; os métodos de cálculo da paralaxe do Sol; a
teoria da refração (...). Realizou pesquisas fundamentais em elasticidade, acústica, teoria de onda de luz
e hidromecânica de navios, entre outras.

2.6.20 David Hume: 1711 - 1776


Nascido em Edimburgo, Escócia, Inglaterra. Muito jovem e sob a influência de filósofos como
Cícero, Virgílio e Horácio, esboçou sua obra o Tratado da natureza humana, com severas críticas
à metafísica tradicional. Ao ser admitido na Universidade de Edimburgo, na idade de 12 anos,
descobriu “uma insuperável aversão por tudo, exceto pela investigação filosófica e pelos estudos
clássicos”. Revisou o princípio da causalidade, reduzindo-o à ideia de uma sucessão de fenômenos sem
prova lógica; dessa forma, o empirismo conduziria ao ceticismo, uma vez que o conhecimento, o
efeito, deixa de ser certeza para passar a apenas provável ou plausível.
A filosofia de Hume exerceu grande influencia no desenvolvimento do pensamento ocidental, a
partir da segunda metade do século XVIII. Foi, essencialmente, uma filosofia cética, que nasceu de
princípios empiristas como, p.ex., “nada está na mente que antes não estivesse nos sentidos”,
contrapondo-se aos racionalistas.
Hume sustentava que o ser humano não era justificado pelos conhecimentos de Deus nem da
alma e tampouco dos valores morais, mas, pela investigação da natureza e pelo entendimento humano,
afirmando que “não há nenhuma questão de importância cuja resolução não seja incluída na ciência do
homem”. Nesse processo de investigação, seu método estaria na “experiência e na observação”.
Afirmava: “(...) devemos nos esforçar para tornar todos os nossos princípios os mais universais
possíveis, rastreando os nossos experimentos (...)”.
Sua primeira obra filosófica e, provavelmente, a mais importante foi o Tratado da natureza
humana, publicado anonimamente, quando Hume tinha 23 anos de idade. Esta obra que, na opinião do
autor, “já nasceu morta para a imprensa” o influenciou para escrever livros curtos e acessíveis ao
público. Nessa obra, introduziu o método de raciocínio experimental nas ciências morais, entendendo
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O rige n s e e vo lu çõe s da s ciên cia s e d a p esqu isa


Filó sof o s e cien t ist a s a o lo ng o da hist ó ria da civiliza ção

que a análise psicológica partia do princípio de que as ideias eram cópias das impressões (sensações e
reflexões: emoções e paixões) e de dados empíricos (dados imediatos da consciência, segundo
Bergson; ou intuição originária, vivida, segundo a fenomenologia). Examinou os meios pelos qual o
homem percebe o mundo, través de dois tipos de percepções diferenciadas pelo grau de vivacidade e
pela força com que atinge a mente. Essas percepções, segundo o autor, eram as impressões, isto é,
“todas as nossas sensações, paixões e emoções assim que fazem suas primeira aparição na alma”; são
as apreensões imediatas da realidade exterior; e as ideias que “são as imagens indistintas destas
[impressões] no pensamento e na reflexão”; são as representações tal como se encontram armazenadas
na memória, mais fracas e menos vividas do que as impressões.
Enunciou no Tratado da (...), também, importantes conceitos sobre a forma de falar, quando
assim se expressou:

(...) todos os objetos da razão ou da investigação podem dividir-se em dois: relações de ideias [toda
afirmação que é intuitivamente demonstrável, como na geometria, álgebra, aritmética] e questões de
fatos [não são determinadas do mesmo modo que no caso anterior; apenas como possibilidade].

Acreditava que as impressões (mais vividas) e as ideias (retidas na memória na ordem em que
elas ocorrem, sendo reorganizadas pela imaginação) podem ser tanto simples quanto complexas, sendo
que todas as ideias simples são derivadas de impressões simples. As impressões causam ideias, porém
as ideias não causam impressões. Era a não justificativa lógica da indução, ainda que se verifique certa
justificativa pragmática; significa fazer induções porque, mesmo que não tenham justificativa lógica,
em geral dão certo.
Hume depois escreveu Ensaios morais, políticos e literários. Neles, defendeu a ideia de tudo
o que o homem sabe procede da experiência. Mostrou que um fenômeno se repetia ou seguia muitas
vezes a um outro, mas sem dizer nem indicar que sempre seria desse modo. Um saber dos sentidos
mostrando como as coisas acontecem e não a impossibilidade de acontecerem de outras maneiras,
ainda que tais coisas ocorressem em um grande número de vezes da mesma forma.
Mais tarde publicou os Diálogos sobre a religião natural, a História da Inglaterra e
Ensaios filosóficos sobre o entendimento humano (com o título definitivo Investigação sobre
o entendimento humano) em que tratou do significado das impressões dos sentidos e da lógica da
investigação e apresentou seu método de raciocínio experimental nas ciências morais, com máximas
como:

(...) todo evento possui uma causa (...);(...) nada há em qualquer objeto, considerado em si
mesmo, que não possa oferecer uma razão para obter uma conclusão além dele e mesmo após a
observação da frequente conjunção de objetos, não temos razão para extrair qualquer inferência
relativa a qualquer objeto, além daqueles com os quais temos tido experiências (...)
148

Fundamentos da pesquisa
Volume 1

Explicava todos os efeitos com base nas causas mais simples (...). Nessa linha de pensamento
afirmava: “não podemos seguir além das experiências e qualquer hipótese que simule a descoberta de
uma qualidade original (...) deveria ser rejeitada” (COLLINSON, 2004: p. 140).
Na obra Investigação sobre (...) tratou de conexões entre causas e efeito, sem que tais
conexões fossem necessariamente utilizadas nas relações de ideias nem na formação das mesmas
provenientes da observação. Afirmava que a necessidade pela qual se imputa um efeito sucedendo a
uma causa não fazia parte do modo como as coisas são, mas, estava na mente e era parte de operações
mentais. Todo o que se observa estaria conectado a determinado evento, porém, nada garantiria a
continuidade dessa conexão.
Como contribuição à economia (exemplos de apenas algumas delas) Hume analisou as forças da
economia, concentrando-as em dois fatores: o lucro e a acumulação. Aconselhou que se deviam adotar
medidas de redistribuição para não eliminar o estímulo individual que era imprescindível para o
funcionamento de um sistema econômico.
Criticou as teorias mercantilistas 33 e fisiocráticas 34 de seu tempo, bem como as atitudes dos
terratenentes da época por não contribuírem no aumento de riqueza nacional. Em suas obras aparecem,
também, temas e fundamentos econômicos, tais como: teorias monetária, de juro, de política fiscal e
de comércio internacional.
Diversas e importantes foram as contribuições de Hume à ciência em geral e, em particular, ao
método científico, destacando-se, nesta síntese, umas poucas delas. Além das indicadas anteriormente,
outra é relacionada com o pensamento (enfoque) sistêmico na referência da unidade, o que se infere
quando Hume assim se manifestava:

Olha o mundo ao redor, contemplai o seu todo e cada parte dele, vós descobrireis que ele nada mais é
que uma grande máquina subdividida em um número infinito de máquinas menores (....); todas elas,
mesmo suas partes mais diminutas, se ajustam umas as outras com precisão tal que arrebata todos os
homens que as contemplam. A curiosa adaptação dos meios aos fins, em toda a natureza, assemelha-se
exatamente aos produtos da invenção, da inteligência e da sabedoria humana, embora com maior
perfeição. Portanto, desde que os efeitos se pareçam entre si, somos levados a inferir, segundo as
regras da analogia, que as causas também se pareçam, e que o Criador da natureza é de algum modo
similar a mente do homem, ainda que dotado de faculdades muito maiores, proporcionais à grandeza
do trabalho que [Ele] executou.

Hume evidenciou a necessidade do enfoque sistêmico, sendo que um grande número de


pesquisas científicas modernas estaria confirmando essa proposta e a necessidade desse enfoque em
nova perspectiva.
Outra contribuição importante de Hume à ciência foi a revisão (crítica) do conceito de
causalidade que ampliou a história da teoria da indução. O empirismo estaria, nessa revisão, dando
lugar ao ceticismo para explicar o valor da causalidade. Acreditava que em nome desse princípio e
com frequência, afirma-se mais do que se observa, ultrapassando a experiência imediata: as mesmas
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Filó sof o s e cien t ist a s a o lo ng o da hist ó ria da civiliza ção

causas estariam produzindo os mesmos efeitos. Tudo raciocínio experimental, pelo qual do presente se
conclui o futuro se baseia nesse princípio. Afirmava que “de fato, não existe, na ideia da causalidade,
senão o peso de meu hábito e da minha expectativa”; “não existe nenhuma impressão autêntica da
causalidade; o que acontece é que eu acredito na causalidade (...)”, é um conceito que se baseia em
hábitos e associações de ideias
O princípio da causalidade 35 seria reduzido à ideia de uma sucessão de fenômenos, sem prova
lógica de se ter uma relação de causa e efeito. Anotava o que se observa nos acontecimentos e
fenômenos é uma sucessão constante de fatos, de fenômenos (...) e a partir dela, tem-se a suposição de
que sempre será assim. Mas, não é possível passar, com certeza, dessa representação empírica para a
ideia de uma conexão necessária. Nesse contexto, o empirismo e o espírito humano estariam
desempenhando papéis passivos no processo do conhecimento e onde se estaria valorizando a
influência das impressões do exterior, sendo que a mente apenas registraria dados da experiência. A
razão estaria direcionada para a realidade que a rodeia e só dela seria possível ter conhecimentos: essa
foi a virada para o ceticismo na crítica da causalidade.
Os fatos de, p.ex., uma pessoa ter observado que muitas folhas caírem (...), de o Sol nascer (...),
não são suficientes para que possa concluir que todas as folhas cairão e que o Sol nascerá no dia
seguinte, pois não são fatos empíricos. Tampouco, pela experiência, é possível formular juízos
universais, mas, apenas juízos particulares. Contudo, admitia que esse era o proceder do raciocínio por
indução. Tais são as leis científicas apoiadas nesse raciocínio ou inferência. A única possibilidade de se
admitirem esses fatos seria pressupor que a natureza se comportaria de maneira regular: seria o
princípio da uniformidade da natureza, apoiado na observação repetida dos mesmos fatos e
fenômenos. Dessa forma se teria um raciocínio que seria circular, em que a indução só poderá
funcionar se antes for estabelecido o princípio da uniformidade. Este, por sua vez, seria definido por
meio do raciocínio indutivo. Portanto, a insistência nessa argumentação não seria lógica, mas, apenas
psicológica em função do resultado de um hábito, de observar muitas vezes a mesma “coisa”. Tal é a
essência da crítica da lógica indutiva, baseada na crença e não na lógica (consistente) de um raciocínio.
Na visão de Hume, a causalidade é enigmática porque, com base nesse princípio e de maneira
constante, ultrapassa-se à experiência imediata. Por exemplo, com base no princípio de que as mesmas
causas produzem os mesmos efeitos, afirmar que sempre se terá um mesmo resultado seria uma
conclusão que estaria ultrapassando o objeto. A causalidade não é objetiva, pois nem sempre as
mesmas causas produzem os mesmos efeitos; neste caso, a certeza deve ser substituída pela
probabilidade e plausibilidade de ocorrência.
Todo raciocínio experimental pelo qual do presente se conclui algo no futuro, baseia-se no
princípio da causalidade no suposto do princípio da uniformidade. Daí a conclusão de que o
conhecimento que produz verdades universais e necessárias não é logicamente possível. Essa foi sua
posição cética (absoluta) sintetizada em: “não existe, na ideia de causalidade, senão o peso do hábito e
da expectativa” sem fundamento racional. Essa ideia foi explorada por Kant, em a Crítica da razão
pura, para encontrar uma resposta ao problema do ceticismo de Hume que, ao abolir a causalidade,
estabeleceu a suspeita na ciência experimental e no conhecimento com ilusões da imaginação e do
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Fundamentos da pesquisa
Volume 1

hábito, bem como na própria unidade do eu apresentada como uma evidência, mas que não passaria de
ilusória.
Hume foi o filósofo mais importante no século XVIII, um filósofo empirista cético, com seu
pensamento sob as influencias de Berkeley, porém, sem aceitar dele apenas a crítica material, mas,
estendendo-a ao espiritual e de Locke, sem suas percepções sobre as representações. Foi contrário ao
conceito de alma de Descartes.
Segundo Hume, o eu não é simples nem fixo, mas, um feixe de sensações e de conteúdos de
consciência, uma soma de instantes que se encontra em permanente fluxo de rápidas sucessões. As
representações do eu, fruto da imaginação, seriam divididas em duas: as representações dos sentidos
(impressões ou sensações) e as representações de autopercepção.
A percepção pura, o sentir, o primeiro contato com o mundo (...) seriam apenas impressões. Mais
tarde, pela representação, o sujeito formaria a ideia. Dessa forma, a ideia seria um reflexo da
impressão, uma cópia e até uma deturpação da percepção bruta. Um exemplo de impressão seria a
noção simples de como perceber, p.ex., a tristeza, enquanto que a ideia seria p.ex., o conceito de um
anjo. Mediante as ideias se criam imagens que não existem no mundo material.
Tal é o conceito de empirismo psicológico, cuja consequência é o empirismo lógico. Neste, uma
palavra só é significativa se tiver um correspondente sentido na realidade; portanto, no uso nominal
seria necessário se ter uma base empírica. Todas as ideias válidas (o próprio conhecimento) têm
fundamentos na impressão (e nas relações entre as ideias, como as de associações, sendo que a
abstração não existiria).
As verdades dos princípios matemáticos são irrefutáveis e fazem parte de objetivos da razão, de
relações de ideias como p.ex., o fato de um triângulo ter em seus ângulos internos sempre a soma de
dois ângulos retos ou de ter sempre três ângulos (definição). A relação de ideias remete apenas à
própria razão humana que definem as relações de certo modo: um valor assertório, porque assim é,
com validade universal, mas, não seria analítico (assim tem que ser). As deduções lógicas existem por
demonstração. O infinitamente pequeno não tem sentido, pois depende do ponto de vista, e quando este
muda, o antigo desaparece.

2.6.21 Jean-Jaque Rousseau: 1712 – 1778


Nasce em Genebra, Suíça, porém de família francesa. É considerado o representante mais radical
do iluminismo e um dos ideólogos da Revolução Francesa. Em sua obra Discurso sobre a origem da
desigualdade entre os homens, no capítulo do Contrato social, afirmava que “o homem nasce
livre e por toda parte encontra-se acorrentado”; nasce bom e sem vícios, o “bom selvagem”, mas é
pervertido pela sociedade civilizada, não apenas pelo governo despótico, mas pelo governo legítimo.
Seu conceito central é o de liberdade, sendo que toda a sua teoria se voltou para assegurá-la para todos,
não apenas ao remover os impedimentos, mas como a liberdade positiva, de participação na atividade
de legislar de prol de um bem comum como a forma de vigorar a liberdade.
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Filó sof o s e cien t ist a s a o lo ng o da hist ó ria da civiliza ção

No Contrato social, Rousseau investigou os princípios subjacentes à liberdade considerando


como “os homens são” e as “leis como podem ser”; estabeleceu uma analogia da estrutura da sociedade
com a estrutura da família. Alguns princípios apresentados nesse Contrato são: a força não cria o
direito; apenas se obedece ao direito legítimo; o contrato estabelecido entre o governo e o povo implica
em direitos e deveres recíprocos; são os cidadãos em associação que constituem o poder soberano e,
portanto, os que determinam a legislação; “cada um de nós põe em comum sua pessoa e todo o seu
poder sob a direção suprema da vontade geral, e recebemos, enquanto corpo, cada membro como parte
indivisível do todo”.
A obra mais conhecida de Rousseau, O Contrato social, é de conteúdo teórico-político, com
defesa do um Estado, baseado na democracia voltada para o bem comum e para a vontade geral. É o
primeiro a atribuir soberania ao povo. Pregou a liberdade, igualdade e fraternidade, lema assumido
pela Revolução Francesa. Nessa obra expressou suas opiniões sobre o governo e os direitos dos
cidadãos.
Segundo Rousseau, os homens, ao permitirem [a continuidade] o estado de natureza,
estabeleceram entre si um contrato ou pacto, através do qual todos seriam iguais perante as leis. O
Estado, isto é, a comunidade politicamente organizada, e o governo, isto é, o agente executivo do
Estado que deve realizar a vontade geral, nascidos do contrato entre os homens, deverão se submeter às
leis que deveriam ser aprovadas pelo voto direto da maioria dos cidadãos.
O soberano constituído por esse contrato deveria ser o povo unido que dita a vontade geral, cuja
expressão é a lei, afirmando, neste sentido: "toda lei que o povo em pessoa não tenha ratificado é nula;
não é uma lei.". Diferenciou entre “o desejo de todos” ou a totalidade dos desejos dos indivíduos e “a
vontade geral” obtida somente quando cada cidadão refletisse sobre o que geraria o bem geral; um bem
que deveria ser não apenas geral em sua origem, mas, geral em sua aplicação: “aquilo que generalize a
vontade [visto como o] interesse comum que os une (...) de modo que o soberano conhece unicamente
o corpo da nação e não distingue nenhum dos que a compõem”.
Sustentava que a vontade geral seria sempre correta, sem que isso significasse que as
deliberações do povo estivessem sempre corretas, mas que quando cada cidadão estivesse
adequadamente informado e deliberasse racionalmente tendo em vista o bem comum, então as
conclusões seriam corretas. Admitia que a vontade geral fosse a acumulação e satisfação de liberdade,
ao ser livremente estabelecido o contrato. Questionou como o povo no seu conjunto, ainda que bem
intencionado, poderia determinar a vontade geral; como “uma multidão cega, que frequentemente não
sabe o que deseja porque raramente sabe o que lhe convém, cumpriria (...) a tão grande e tão difícil
tarefa quanto à de um sistema de legislação?” Essa seria a função do legislador, um conceito polêmico
em sua época.
Para Rousseau, a soberania era um conceito moral, uma abstração racional que fundamentaria a
igualdade e a liberdade do povo por ela compreendido, capaz de transformar a liberdade natural em
liberdade civil, através da qual o povo se expressa.
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Fundamentos da pesquisa
Volume 1

Rousseau escreveu, também, romance, como a Júlia ou a Nova Heloísa, com grande sucesso;
tratados sobre música e uma ópera como O Adivinho da aldeia. Suas ideias causaram polêmicas com
outros pensadores e com as autoridades francesas que provocaram sua saída do país e exílio na
Inglaterra.
Em sua obra Emílio, um ensaio pedagógico sob a forma de romance, Rousseau traçou linhas
gerais a serem seguidas para fazer da criança, sob o pressuposto da bondade natural do homem, um
adulto bom como um processo natural de maturação. Colocava como objetivos da educação o
desenvolvimento das potencialidades naturais, devendo ser progressivo, de tal forma que cada estágio
do processo pedagógico fosse adaptado às necessidades individuais, dentro dos interesses próprios da
criança. A primeira etapa, nesse processo, deveria ser dedicada ao aperfeiçoamento dos órgãos dos
sentidos já que as necessidades iniciais da criança são principalmente físicas; ela é incapaz de
abstrações e deveria ser orientada no sentido do conhecimento do mundo através do contato com as
próprias coisas.
A educação deveria ser livre da tirania das opiniões humanas, possibilitando a criança, por si
mesma, e sem nenhum esforço especial, identificar-se com as necessidades de sua vida imediata e
torna-se auto-suficiente. Era necessário, porém, prepará-la para o futuro. Caberia ao educador reter
puro esse grande potencial (evitar a excitação precoce da imaginação porque poderia se tornar fonte de
infelicidade) e intacta essa energia até o momento propício. Para Rousseau, tanto os processos
educativos, quanto as relações sociais deveriam partir de um princípio básico: a liberdade como direito
e dever.

2.6.22 Denis Diderot: 1713-84


Nascido em Langres, França. Foi um dos mais importantes pensadores modernos da filosofia
(símbolo do iluminismo, além de ser representante do racionalismo e um dos idélogos da Revolução
Francesa), da política, da literatura, da arte e do pensamento científico. Estudou com os jesuítas e
inicou a carreira eclasiastica. Estudo artes, leis, literatura, filosofia e matemática. Em sua primeira obra
Lettres sur les aveugles à l’usage de ceux qui voient resumiu a evolução do seu pensamento
desde o deísmo até o cepticismo e materialismo. Sua grande obra foi a edição da Encyclopédie (1750
– 1772), com empenho e entusiasmo, à despeito de alguma oposição da Igreja Católica. Com essa obra
todo o conhecimento científico, artístico e filosófico de seu tempo passou a estar disponível para o
público sendo fonte de inspiração da Enciclopédia Britânica.
A Encyclopédie compreendia vários assuntos que Diderot solicitou fossem tratados por diversos
pensadores como Montesquieu, Rousseau, Voltaire e D´Alembert, entre outros pensadores; a ele
couve escrever história da filosofia, artes, ofícios e outros temas apresentados nessa Encyclopédie.
Escreveu romances como A religiosa, O sobrinho de Romeau, Jacques e o Fatalista, além de
numerosos artigos de crítica da arte, sendo um dos primeiros autores que fizeram da literatura um
ofício.
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Filó sof o s e cien t ist a s a o lo ng o da hist ó ria da civiliza ção

Preocupou-se com a natureza do homem, sua condição, os problemas morais e o sentido do


destino, situando-se em um contexto humano total, tanto emocional como racional. Seu pensamento
sobre a nobreza e o clero se exprime na frase: "O homem só será livre quando o último déspota for
estrangulado com as entranhas do último padre". Outras frases que definem seu pensamento:
É fácil criticar corretamente; e difícil executar mediocremente.
A ignorância não fica tão distante da verdade quanto o preconceito
Não existe nada tão raro como um homem inteiramente mau, a não ser talvez um homem
inteiramente bom.
Devem exigir que eu procure a verdade, não que a encontre.
Aquele que de algum modo condena o seu semelhante à felicidade - é feliz.
A voz da consciência e da honra é bem fraca quando as tripas gritam.
É tão arriscado acreditar em tudo como não acreditar em nada.
Só se recorre à injuria quando faltam as provas.
O consentimento dos homens reunidos em sociedade é o fundamento do poder. Aquele que só se
estabelece pela força, só pela força pode subsistir.

Diderot, junto com Leibniz, Kant, Montesquieu, Rousseau e Voltaire, ajudou a formar o
ambiente de mudança de mentalidade, propício para o avanço das ciências modernas em uma crescente
especialização; isso contribuiu para o desenvolvimento das indústrias e, em outro sentido, para que a
sociedade ocidental passasse a respeitar os direitos civis dos indivíduos; neste sentido, suas hipóteses,
teorias e manifestações, em meio a convulsões políticas que agitavam Europa, serviram de inspiração
para as reivindicações maiores por liberdade de ação e de pensamento.

2.6.23 Jean le Rond D’Alembert:1717 - 1783


Nascido em Paris. Estudou teologia, direito, matemática e física. Amplas instruções em direito,
medicina, ciências e matemática. A apresentação do artigo Mémoire sur le calcul integral / Memória
sobre o cálculo integral na Académie des Sciences, marcou o início da sua carreira em matemática.
Mais tarde foi nomeado membro da Académie des Sciences e, depois, foi nomeado membro da
Académie Française, sendo eleito secretário perpétuo. Durante toda a sua vida participou ativamente
nas duas Academias, contribuindo com diversas publicações.
Entre as contribuições de D’Alembert na matemática se citam: derivadas parciais sendo pioneiro
de suas aplicações na física; equações diferenciais ordinárias; teoria das funções com a descrição da
derivada como limite de razões incrementais; noção de limite (pioneiro); critério para a convergência
de série e demonstração de teoremas fundamentais da álgebra. Deixou contribuições na teoria das
probabilidades. Suas pesquisas em física revolucionaram a mecânica racional e foram básicas para a
dinâmica. Em sua obra o Tratado de dinâmica enunciou princípios como “as ações e reações internas
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Fundamentos da pesquisa
Volume 1

de um sistema de corpos rígidos em movimento estão em equilíbrio”. Outra obra importante foi
Ensaio sobre os Elementos de Filosofia. Dirigiu com Diderot, a Enciclopedia. Amigo de Euler e
Voltaire, entre outros filósofos que influenciaram na Revolução Francesa.
As suas pesquisas no campo da mecânica e da astronomia representaram fundamental
contribuição para o avanço da ciência. Na Encyclopédie foi responsável pela redação de diversos
artigos e pela elaboração do prefácio; na introdução, escreveu:

(...) só se citam fatos, só se comparam experiências, só se imaginam métodos para excitar o gênio a
abrir-se a caminhos ignorados e a avançar para novas descobertas, vendo como primeiro passo àquele
com que os grandes homens acabaram os seus caminhos. Foi também o propósito que nos
propusemos, aliando ao princípio das ciências e das artes liberais, a história da sua origem e dos seus
sucessivos progressos”. “Não se encontrará nesta obra (...) nem a genealogia das grandes casas, mas a
genealogia das ciências, mais preciosa para quem sabe pensar; (...) nem os conquistadores que
desolaram a terra, mas os gênios imortais que esclareceram; nem, por fim, uma multidão de soberanos
que a história deveria ter proscrito. O próprio nome dos príncipes e dos grandes não tem o direito de
se encontrar na Enciclopédia senão pelo bem que fizeram às ciências; porque a Enciclopédia deve
tudo aos talentos, nada aos títulos, e porque ela é a história do espírito humano, e não a vaidade dos
homens.

Escreveu em Prospectus a ordem enciclopédica dos conhecimentos:


Consiste reuni-los no mais pequeno espaço possível e, por assim dizer, em colocar o filósofo acima
desse vasto labirinto num ponto de vista suficientemente elevado para que ele possa aperceber em
simultâneo as principais ciências e artes; ver num relance os objectos das suas especulações e as
operações que pode fazer sobre esses objectos; distinguir os ramos gerais dos conhecimentos
humanos, os pontos que os separam e os unem e entrever mesmo algumas estradas secretas que os
aproximam. É uma espécie de mapamundo que deve mostrar os principais países, a sua posição e
dependência mútua, o caminho em linha recta que vai de um a outro; caminho frequentemente
obstruído por mil obstáculos que não se deixam conhecer pelos habitantes e viajantes de cada país e
que só em cartas particulares muito detalhadas poderiam ser mostrados (...) são os diferentes artigos
da Encyclopédie e a Árvore ou Sistema figurado será o mapamundo.

Depois de uma ruptura com Diderot, d'Alembert dedicou-se às Letras e às Artes.

2.6.24 Adam Smith: 1723 – 1790


Nascido em Kircaldy, Fifeshire, Escócia. Filósofo e economista. Estudou nas Universidades de
Glasgow e Oxford. Seu pensamento foi influenciado, inicialmente, por seu professor Francis
Hutcheson, teórico protestante da filosofia do direito natural; depois teve a influencia de por Hume,
Voltaire, Quesnay e Turgo, entre outros pensadores. Suas ideias tiveram relação (influencias) nas
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O rige n s e e vo lu çõe s da s ciên cia s e d a p esqu isa


Filó sof o s e cien t ist a s a o lo ng o da hist ó ria da civiliza ção

revoluções que ocorreram durante a vida: a americana, em que os franceses ajudaram aos americanos
na guerra de independência e a francesa, em que triunfaram as ideias dos enciclopedistas. Segundo
Keynes, A. Smith foi o economista ideal, devido à forma como combinou o raciocínio abstrato-
dedutivo com o raciocínio histórico-dedutivo revelado em sua obra para justificar a visão abstrato-
dedutiva da economia (BLAUG, 1993; p. 119).
A primeira obra de Smith foi a The theory of moral sentiments / Teoria dos sentimentos
morais, como parte de um projeto que compreenderia a filosofia moral e os princípios de economia e
de política econômica base de sua principal obra A riqueza das nações. Na The theory (...)
descreveu os princípios da natureza humana que, como Hume e outros filósofos da sua época, eram
tidos como sendo universais e imutáveis.
A partir desses princípios se teriam explicações e previsões das relações sociais e do
comportamento do homem, de “o homem interior”, no “sentido moral” para que a sua criação supere o
sei comportamento predador de sua natureza; é o homem que forma juízos morais, é interesseiro e,
simultaneamente, é egoísta e altruístas, levado, com frequência, “por uma mão invisível sem que o
saiba, sem que tenha essa intenção, a promover o interesse da sociedade". Nessa obra Smith mostrou a
sua capacidade de argumentação, fluência e persuasão.
O homem é guiado por paixões e ao mesmo tempo auto-regulado pela sua habilidade de
raciocinar e, também, pela sua simpatia; a dualidade paixão – raciocínio tanto leva o homem a lutar
contra seu semelhante quanto a mitigar as lutas e a buscar o bem comum.
A obra An inquiry into the nature and causes of the wealth of nations / Uma investigação
sobre a Natureza e as Causas da Riqueza das Nações, em dois volumes; é um tratado claro e
organizado de argumentos e ideias fisiocráticas, de conteúdo mais filosófico – social do que econômico
que, apesar de ser considerada a primeira grande obra de economia política, é pouco original; foram
ideias de precursores ingleses como William Petty e Dudley North; para outros historiadores, foi a
continuação da Teoria dos sentimentos morais. Contudo, trata-se de sua obra prima, onde Smith
considerou vários problemas, entre outros:
a) as desigualdades; podiam ser vistas como incentivos ao trabalho e ao enriquecimento, cuja
solução seria o progresso econômico; nele apresenta sua teoria da mão invisível;
b) o Estado com suas funções de manutenção da segurança, administração da justiça e instituição –
manutenção de certas instituições públicas;
c) a melhoria da educação integrando o ensino particular com o público;
d) a teoria do valor ao reconhecer que o processo de produção, em todas as sociedades, pode ser
reduzido a uma série de esforços;
e) a repartição do rendimento compreendendo salários, lucros e rendas, entre outros.
Smith abordou em sua obra a Riqueza das nações, a luta interior entre a paixão e o
expectador imparcial ao longo da evolução da sociedade. Com relação a essa evolução, foi o primeiro
filósofo a conceber uma organização dinâmica da sociedade, no sentido de evolução, para um bem-
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Fundamentos da pesquisa
Volume 1

estar coletivo sempre maior; essa ideia evoluiu, no século XIX, para o utilitarismo, isto é, para a teoria
desenvolvida na filosofia liberal inglesa, em especial, por Bentham e Stuart Mill, que consideraram a
boa ação ou a boa regra de conduta caracterizável pela utilidade e pelo prazer que podem proporcionar
a uma pessoa e, por extensão, à coletividade, na suposição de uma complementaridade entre a
satisfação pessoal e satisfação coletiva. No contexto da ciência e contrário ao ideal do conhecimento
desinteressado, o utilitarismo afirma que o valor da ciência se encontra na quantidade de aplicações
práticas que possa ter o conhecimento; é a utilidade imediata que prova a verdade de uma teoria
científica e lhe confere valor. Os conhecimentos são obtidos para resolver problemas e estes
determinam não apenas o aparecimento de uma ciência, mas, sua transformação no decorrer do tempo
(CHAUI, 2000).
Conforme Smith, o utilitarismo seria favorecido pela própria natureza humana que se inclinaria
para a troca comercial e apresentaria o desejo de melhoria susceptível de orientação pela razão.
Com relação à luta, Smith apresentou quatro estágios de organização da sociedade, nos quais a
história se desdobraria, caso não houvesse guerra, escassez de recursos ou deliberada intervenção do
governo. Esses estágios são:
a) o original ou dos caçadores, com escassa propriedade e, como efeito, escassa administração
regular de justiça;
b) a agricultura nômade com organização social, instituição da propriedade privada com
manutenção e garantia pela lei;
c) a fazenda ou latifúndio feudal, com novas instituições como o salário determinado em um
mercado;
d) o estágio da independência comercial de liberdade em que atua a mão invisível capaz de levar a
ação ambiciosa e egoísta a criar o bem-estar coletivo; isto, porque havendo, liberdade, o lucro
dependerá da livre concorrência.
Vários conceitos, no desdobramento da Teoria dos sentimentos morais, poderiam ser
destacados, tais como livre concorrência, divisão do trabalho, melhoria na educação e crescimento
econômico; são conceitos básicos da teoria econômica clássica que propositadamente são omitidos
desta síntese.
Smith acreditava que a natureza é o melhor guia do homem. A Providência (Deus) dispôs as
coisas de tal forma que se os homens forem deixados livres para buscar seus próprios e legítimos
interesses, eles agirão naturalmente em favor do melhor para a sociedade e as pessoas, tendo ou não
intenção se ajudarão umas às outras; mesmo os mais gananciosos levaram resultados favoráveis para
todos: esse é o trabalho da mão invisível da Providência. Esse trabalho é tão bem feito que, concluiu
Smith, “é uma tolice os governos se intrometerem na produção e no comércio: em síntese é a tese do
laissez faire”. Tal doutrina poderia funcionar bem em uma economia em expansão, relativamente livre
e forte, como a da Inglaterra, na época de Smith; mas, não funcionaria tão bem em uma economia de
recessão, em país em desenvolvimento ou quando o nível de desemprego for alto.
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No contexto filosófico, Smith foi um filósofo iluminista modelo: recusava o dogmatismo


(corrente filosófica fundamentada apenas na vontade, também chamada voluntarismo, sem base nos
raciocínios e na razão humana, sendo por isso, oposta à crítica enraizada na liberdade de pensamento e
na razão) e confiava na ciência e na racionalidade crítica do questionamento filosófico. Contudo era
realista; especulativo e ao mesmo tempo prático; e respeitador do passado com visão no progresso e
dedicado à grande descoberta.

2.6.25 Emmanuel (Immanuel) Kant: 1724 – 1804


Nasceu, estudou, lecionou e morreu em Konigsberg (Kaliningrado), Prúsia. Estudou na
Universidade de Konigsberg da qual foi professor de lógica e matemática. De vida austera e regular.
Sofreu duas influencias contraditórias: a do pietismo, de sua mãe e de vários de seus mestres, de
natureza protestante luterana, com tendência mística e pessimista e do racionalismo de Leibniz. Foi
influenciado, também, pelas ideias de Hume que o despertou do dogmático e de Russeuau que o
sensibilizou em relação ao poder interior da consciência moral. Tem sido considerado, ao lado de
Platão e Aristóteles, como um dos filósofos mais influentes da cultura ocidental, pela profundidade e
originalidade de seu pensamento.
Kant foi o idealizador da revolução mais importante dos últimos séculos, no campo da filosofia
das ciências, ao propor a separação profunda e insuperável entre o conhecimento empírico (a lógica, a
epistemologia, a filosofia crítica) e o conhecimento filosófico, tratando de estabelecer as condições e
possibilidade de cada um deles. Afirmava que a observação empírica, as utilizações da lógica
matemática e da razão (conhecimento empírico) obedeciam a uma estrutura geral de relacionamento
entre a percepção e a observação que poderia ser estabelecida e servir de base para todo o
conhecimento científico futuro: um conhecimento das aparências dos fenômenos. As verdades morais e
religiosas (conhecimento filosófico) só poderiam ser obtidas por outra via, a da razão prática, que teria
como ponto de partida uma atitude ética do homem em relação a si próprio e a seus semelhantes.
A crítica de Hume sobre a causalidade de Leibniz levou Kant ao criticismo. Uma concepção
filosófica não apenas para estudar e refletir resultados da experiência, mas, para examinar e julgar
possibilidades do pensamento, do conhecimento, da razão em seus limites e da experiência humana em
relação ao conhecimento, entre outras. Considerou que a priori só se tinha a forma, o procedimento de
organização do conhecimento, de sua estrutura, sendo que a formação do pensamento pressupunha
unidade de forma e de conteúdo. Nesse processo, ao estudar o conhecimento científico, destacou a
primazia da síntese sobre a análise, relevando a interação como a verdadeira causa de todas as
mudanças na natureza.
Kant considerou que o racionalismo dogmático dava muita ênfase aos elementos a priori do
conhecimento e que o empirismo de Hume era exagerado quando reduzia todo o conhecimento a
elementos empíricos ou a posteriori. Admitiu que o conhecimento tivesse origem na experiência sem
que dependesse unicamente dela. Sua proposta era revisar (criticar) o conhecimento ao determinar
quanto dele deve ser consignado aos fatores a priori (fatores estritamente racionais) e quantos deles
158

Fundamentos da pesquisa
Volume 1

devido aos fatores, a posterior, resultantes (indutivamente) de experiências. Considerou ilegítimo


atribuir ao mundo sensível princípios universais como, p.ex., o da causalidade: não fazer da relação
causal um nexo ontológico, mas uma conexão entre as coisas enquanto objetos da experiência.
Afirmava em sua obra Crítica da razão pura: “se, porém, todo o conhecimento se inicia com a
experiência isso não prova que todo ele derive da experiência”. Propôs a revolução copernicana da
gnoseologia, quando, ao defender a concepção heliocêntrica, deslocou o foco ou a tensão da filosofia
do objeto gnoseológico para o sujeito; fez a inversão da metodologia: determinar os objetos a partir de
princípios formais do sujeito, em lugar de ser o conhecimento a regular-se pelos objetos.
Segundo Kant, toda ciência racional deve possuir, também, princípios gerais a priori,
independentes das contingências e circunstâncias externas; desse modo, os princípios dedutivos seriam
faculdades do entendimento humano sendo necessário determinar de que maneira intervêm no processo
cognitivo. Na revisão (crítica) afirmou que o propósito da filosofia era responder a: o que eu sei? o que
devo fazer? e o que devo esperar? As respostas a segunda e a terceira questões dependeriam da
resposta à primeira; o dever (o que devo fazer) e o destino (o que devo esperar) só poderiam ser
determinados depois do estudo do conhecimento humano (o que eu sei). Reconhecia a justeza da
reivindicação dos empiristas quanto à experiência ser a origem de todas as crenças, porém, não aceitou
a conclusão cética de que essas mesmas crenças não pudessem ser justificadas.
A primeira obra importante de Kant foi o Ensaio sobre o mal radical, sobre o estudo do
problema do mal, introduzindo na filosofia a noção de grandeza negativa. Nesse ensaio, opõe-se ao
otimismo de Leibniz, herdeiro do otimismo dos escolásticos. Argumentou que o mal não é a simples
privação do bem, mas, um objeto positivo de uma liberdade malfazeja.
Depois publicou a Dissertação, em que distinguiu o conhecimento sensível, o que compreende
as instituições sensíveis, do conhecimento inteligível que trata das ideias metafísicas; nessas ideias
considerou a seguinte questão: que é que existe? Seu pensamento foi orientado para conciliar as
principais correntes de fins do século XVIII propondo renomeações e reclassificações de conceitos da
metafísica com uma visão e teorias novas; entre outras:
a) O realismo oposto ao idealismo. No realismo os objetos do conhecimento são intuídos,
apreendidos e vistos como eles são, independentes da mente. Conhecer é encontrar a essência que,
complementada pela substância, permite o conhecimento pleno da realidade. No idealismo, ao
contrário, as coisas existem conforme a mente, por ideias ou através delas. O idealismo
epistemológico sustenta que no processo de conhecimento, os objetos da mente estão
condicionados pela sua perceptibilidade.
b) O racionalismo oposto ao empirismo. O racionalismo tem a razão como suprema fonte e teste do
conhecimento. Sustentava que a realidade tem uma estrutura lógica inerente e que existia uma
classe de verdade que podia ser intuída diretamente, além do alcance da percepção sensível. O
empirismo, oposto ao racionalismo, sustentava que todo conhecimento se deriva e precisava ser
testado pela experiência sensível. Dessa forma, o empirismo negaria a metafísica que trata do
conhecimento, além das coisas apreendidas pelos sentidos, pela experiência, pelo raciocínio, pela
razão.
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Quais foram os novos conceitos e teorias tratados por Kant para dar uma nova explicação ao
conhecimento? A seguir se apresentam ideias, conceitos e teorias, insuficientes para compreender o
pensamento kantiano, mas, suficientes como ilustrativas e para incitar à pesquisa na literatura
pertinente.
Os conceitos renomeados e reclassificados por Kant foram os relativos às proposições ou juízos
no campo metafísico, mediante uma visão e teoria nova do conhecimento. Essa proposição ou juízo
consiste em um sujeito lógico, do qual se diz algo, e em um predicado que é aquilo que se diz desse
sujeito, seguindo a tradição aristotélica.
Os juízos kantianos podem ser analíticos quando se toma parte do sujeito como predicado, sem
referência imediata a experiência, como é o caso de: a casa branca é casa. Tais juízos são sempre
verdadeiros (Leibniz os chamou de verdades de razão) e universais, independentes de tempo e lugar,
porque expressam algo necessário e inescapável (óbvio ou tautológico). São juízos a priori (segundo
Kant, razão pura é razão a priori, intuição pura é intuição a priori, independentes de experiência), uma
vez que os nexos entre eles são percebidos sem o auxílio da experiência. Esse tipo de juízo não permite
o avanço do conhecimento porque é baseado apenas no princípio da identidade.
Outros tipos de proposições ou juízos são os sintéticos, isto é, aqueles onde não seria possível
chegar a verdade pela análise de proposições. Estes juízos resultam da combinação (síntese) de fatos,
de dados, de experiências; são juízos a posteriori. Neles se junta o conceito expresso pelo predicado ao
conceito do sujeito como no exemplo, as ondas eletromagnéticas produzem no humano a sensação do
calor e igualmente dilatam os corpos, em que todas as proposições resultantes de experiências são
sintéticas. Na explicação kantiana da verdade científica há ideias de Hume (p.ex., negação da
causalidade) e de Leibniz (p.ex., princípios da contradição e da razão ou causa suficiente /
causalidade).
A obra Dissertação foi seguida por grandes obras com o criticismo kantiano: a Crítica da
razão pura, um estudo sobre os limites do conhecimento, em que explicou porque as metafísicas são
voltadas ao fracasso e porque a razão humana é impotente para conhecer o fundo das coisas;
apresentou a sua tese de ser possível fazer juízos sintéticos a priori (é a posição conhecida como
transcendentalismo) com a introdução de um novo conceito: a intuição sensível, mediante o qual o ato
do conhecimento (observação e experiência) se faz segundo juízos sintéticos que são, também, a priori.
Nesse conceito se incluiriam todas as formas de intuições racionais, não apenas a de causa-e-efeito,
mas, as de qualidade, quantidade, modalidade etc., possibilitando, assim, um novo conhecimento como
sendo o resultado de verdades sintéticas, por via da intuição sensível. Com essa tese corrigia a Leibniz:
o princípio de causa-e-efeito como a priori e não analítico; corrigia, também, a Hume, em que o juízo
causal era sintético, porém, não exclusivamente empírico, a posteriori. Na Crítica da razão pura
articulou uma ampla variedade de temas tão diferentes quanto filosofia da religião, moral, arte, história
e ciência, em particular, epistemologia e metafísica.
A moral kantiana foi exposta em obras como: o Fundamento da metafísica dos costumes e a
Crítica da razão prática. Na obra Crítica do juízo tratou de conceitos como os de beleza, arte e
finalidade, buscando a passagem do mundo da natureza, submetido à necessidade, para o mundo moral
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Fundamentos da pesquisa
Volume 1

onde reinaria a liberdade. Pelas suas ideias apresentadas na obra A religião nos limites da simples
razão, foi proibido de escrever e lecionar sobre temas religiosos por determinado período, dada a
forma de ensino não ortodoxo de religião baseado no racionalismo mais do que na revelação, enquanto
súdito do imperador Frederico-Guillerme II. Após o advento de Frederico, não hesitou em tratar de
novo, em sua obra o Conflito das faculdades, o tema religioso, considerando o problema das relações
entre a religião natural e a religião revelada. Outras importantes obras foram: A doutrina do direito, A
doutrina da virtude e seu Ensaio filosófico sobre a paz perpétua.
Um aspecto de interesse na história da ciência tratado por Kant é o relativo à análise reflexiva
compreendida em seu método a crítica, aproximando a ciência à metafísica. Em essência, seu método
consistia em ir à origem do conhecimento para torná-lo legítimo, sem duvidar de verdades da física
como as de Newton ou de verdades de valores de regras morais (...) necessárias. As questões eram
sobre que fundamentos se tinham essas verdades e em que condições eram racionalmente justificadas.
Nesse contexto, surgiram novos conceitos e teorias como, p.ex., a dos juízos verdadeiros, isto é, os
juízos necessários e universais, juízos a priori.
Segundo Kant, eram a priori os elementos do conhecimento, tais como: intuições, conceitos e
juízos, independentes da experiência. Assim, p.ex., a proposição todos os corpos são extensos ou um
triângulo é uma figura de três ângulos ou, ainda, a soma de seus ângulos equivale a dois ângulos retos
seriam afirmações necessárias e universalmente verdadeiras. Os juízos a priori seriam universais e
necessários, sem que a priori significassem que fossem inatos. Rejeitou a ideia de todo conhecimento
ser inato; a priori existiriam corpos ou não; por definição era um triângulo ou não.
Em sua obra a Crítica da razão pura Kant verificou que o conhecimento científico se referia
aos fatos observáveis que se apresentavam de uma forma universal e necessária. Dessa forma as
verdades científicas serão juízos sintéticos a priori; sintéticos porque não dependeriam da análise de
conceitos; a priori porque não se fundamentariam em experiências empíricas, mas, nas formas a priori
do entendimento que os tornariam necessários e universais; seriam verdades que não dependeriam da
experiência.
Acerca da verdade, afirmava se ter um conhecimento que é a posteriori, quando só seria possível
obtê-lo mediante a experiência. A primeira vista, pareceria que os juízos a priori fossem juízos
analíticos, isto é, juízos cujos predicados estariam contidos no sujeito. Em compensação, os juízos
sintéticos, aqueles cujos atributos enriqueceriam o sujeito seriam a posteriori, sem nada ter de
necessário, como no exemplo este livro é interessante. Não se trata de uma proposição necessária (o
livro poderá não ser interessante para alguém) nem universal (todos os livros não seriam interessantes).
Kant indicou enigmas porque se tinham juízos que poderiam ser, ao mesmo tempo, sintéticos e a priori,
como era o exemplo do triângulo, um juízo a priori, ao acrescentar algo ao conceito geométrico que
passaria a ser um juízo sintético quando se especifica o valor da soma; estaria se acrescentando algo ao
conceito, sem necessidade de se ter a constatação experimental ou de medir.
A maneira como se forma o conhecimento com suas características de necessário e universal
depende do sujeito que conhece. Ao explicitar o caráter necessário e universal das leis científicas, Kant
tornou-as intersubjetivas, uma vez que dependeriam da capacidade humana de conhecer e não do
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mundo em si. Dessa forma, quando um cientista afirma que nenhum objeto pode viajar mais depressa
do que a luz, estará formulando uma proposição que é necessária e universal, que se refere não à
natureza íntima do mundo, mas, ao modo como se apresenta ao conhecimento humano; com essa
concepção, abriam-se as portas ao idealismo.
Para Kant, o entendimento não se limita a receber o que os sentidos captam do exterior. O
entendimento é ativo e contém as formas a priori que independem da experiência às quais todos os
dados empíricos se teriam que submeter. Nas formas a priori do entendimento se encontram a
necessidade e universalidade do conhecimento: essa é a explicação do problema apresentado por
Hume.
Outro exemplo da originalidade da filosofia de Kant pode ser encontrado em sua observação ao
conceito de causalidade; Hume tinha assinalado que: “cada evento tem uma causa”; isto não é
necessariamente verdadeiro: se x for a causa de y não é dedutível do conceito de x, nem esta
observação seria derivada simples e diretamente da experiência; todas as experiência poderá informar
que y segue regularmente x, mas, não que ele o faça necessariamente deste modo; significa que não
existiria qualquer justificativa para se ter uma conclusão geral pelo qual todos os eventos possuem
causa.

2.6.26 Jeremy Bentham: 1748 – 1832


Nascido em Londres. Foi educado em Westminster School e no Quuen´s College, em Oxford.
Filósofo social (utilitarista), economista e legislador - jurista (político ativista e reformista). Amigo e
influenciado por James Mill e seu filho John Stuart Mill. Foi o idealizador do panoptismo
(observador total e tomador integral do poder disciplinador da vida; contido em sua obra Panóptico);
fundador do utilitarismo, teoria ética que responde todas as questões acerca do que fazer, do que
admirar e do como viver, em termos de maximização da utilidade e da felicidade, com base no
princípio: “a maior felicidade para o meio número”, como fundamento da moral e da legislação
(COLLINSON, 2004; p.163). Foi defensor dos “direitos dos animais”.
Sua primeira obra foi Commentaries on the laws of England. / Um fragmento sobre o
governo contendo críticas as teorias do direito conservador. Nessa obra, Bentham introduziu a
distinção entre a maximização de utilidade individual (cálculo hedônico, base de todas as atividades
humanas como altruísmo, ascetismo, amor, dever, desejo de liberdade, obediência da lei, fé etc.) com
fundamento de sua teoria positivista do comportamento e a maximização da utilidade agregada
(cálculo social: a soma das utilidades individuais) com base da teoria normativa de organização social.
Acreditava que as ações seriam julgadas com base em resultados materiais.
Ao definir a utilidade Bentham enfatizou a necessidade de se terem pesos iguais: nenhuma
utilidade de uma pessoa poderá ser maior do que a de outra. Insistiu que o indivíduo é o melhor juiz de
sua própria felicidade, com mecanismos para evitar a interferência do governo; entretanto, quando a
ação de um indivíduo afeta a felicidade de outro, é necessário dispor de procedimentos para melhorar a
utilidade agregada, admitindo a intervenção do Estado com obrigações como:
162

Fundamentos da pesquisa
Volume 1

a) Não permitir que as pessoas tenham necessidades (...); significa garantir um nível mínimo renda
para a subsistência e assegurar a segurança para todos.
b) Encorajar o aumento tanto da produção como da população, ainda que com aparente
inconsistência: se a riqueza for constante, então um aumento da população significaria diminuição
da riqueza para cada um; contudo, pelo princípio da utilidade marginal, maior população, porém
pobre, teria uma utilidade agregada maior que uma população menor e rica.
c) Pelo mesmo principio da utilidade marginal, um R$1 extra para uma pessoa rica terá menor
utilidade que um R$1 para uma pessoa pobre; portanto, a distribuição de renda para “uniformizar”
utilidades é desejável, sendo que a perda de utilidade que um rico experimentasse com uma
unidade a menos é mais que compensada pelo ganho de utilidade de um pobre com essa mesma
unidade; nesse sentido, poderia se ter um imposto progressivo.
Sob a influencia da Adam Smith, Bentham publicou Defence of usury / Defesa da usura, com
consideráveis considerações e ideais sobre esse assunto. Mais tarde publicou sua principal obra,
Introduction to the principles of morals / Uma investigação aos princípios da moral e da
legislação, onde lançou a base da teoria do utilitarismo quantificado com base em sete critérios:
intensidade, duração, certeza, proximidade, fecundidade, pureza e extensão. Dentro dessa teoria se
citam como exemplos ilustrativos, algumas ideias, tais como:

A natureza colocou o gênero humano sob o domínio de dois senhores soberanos: a dor e o prazer.
Somente a eles compete apontar o que devemos fazer, bem como determinar o que na realidade
faremos. Ao trono desses dois senhores está vinculada, por uma parte, a norma que distingue o
que é reto do que é errado, e, por outra, a cadeia das causas e dos efeitos.(...).

O princípio de utilidade reconhece essa sujeição e a coloca como fundamento desse sistema, cujo
objetivo consiste em construir o edifício da felicidade através da razão e da lei. Os sistemas que
tentam questionar este princípio são meras palavras e não uma atitude razoável, capricho e não
razão, obscuridade e não luz.(...).

Por princípio de utilidade, entende-se aquele princípio que aprova ou desaprova qualquer ação,
segundo a tendência que tem a aumentar ou a diminuir a felicidade da pessoa cujo interesse está
em jogo, (...), segundo a tendência de promover ou de comprometer a referida felicidade.

Digo qualquer ação, com o que tenciono dizer que isto vale não somente para qualquer ação do
indivíduo particular, mas, também de qualquer ato ou medida de governo.

A maior felicidade para o maior número [de pessoas] é o fundamento da moral e da legislação.

Uma lei pode ser boa ou má, dependendo de se ela contribui para aumentar a felicidade da
população ou não.
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2.6.27 Pierre-Simon Laplace / Marqués de…:1749-1827


Nascido em Beaumont-en-Auge, Província de Normandia, França. Estudou na Escola Militar de
sua cidade natal. Com a influencia de D´Alembert que reconheceu seu talento foi professor de
matemático na Academia Militar de Paris; depois desse reconhecimento ocupou cargos políticos de
importância (ministro do interior de Napoleão, vice-presidente do Senado, membro da Academia
Francesa). Foi matemático, astrônomo e físico. Viveu em uma época conturbada (Revolução Francesa),
porém, sob a influencia do iluminismo, a valorização da razão, a busca da liberdade e igualdade (...)
conforme as ideias de Locke, Adam Smith, Rousseau, Voltaire e Kant, entre outros, com notáveis
contribuições à matemática e à filosofia. Tais ideias deram origem a ideologia liberal – democrática a
adequar-se, mais tarde, a uma nova ordem social e econômica do capitalismo. Sua modéstia pode ser
sintetizada na sua última frase: “O conhecimento que temos das coisas é pequeno, na verdade, quando
comparado com a imensidão daquilo em que ainda somos ignorantes".
Laplace foi um dos mais influentes cientistas franceses da história com notáveis contribuições
para a ciência e a filosofia que o tornaram célebre e imortal; é considerado o fundador da moderna
teoria das probabilidades. Publicou:
Théorie analytique des probabilités / Teoria analítica das probabilidades, uma obra
referência; nela, definiu a probabilidade como o número de vezes em que um dado acontecimento pode
ocorrer, dividido pelo número total dos casos que podem acontecer, considerando-se que estes têm
possibilidades iguais de acontecer.
A vida e as contribuições de Laplace à ciência podem ser divididas em quatro períodos. No
primeiro, de formação e consolidação de seu estilo e filosofia estabeleceu técnicas de pesquisa em
áreas como a probabilidade e mecânica celestial. No segundo período iniciou a pesquisa na física que,
junto com Lavoisier, definiu a teoria do calor. No terceiro período, dedicou-se a preparação do sistema
métrico. O quarto período representou a culminação e declínio, com contribuições na física como,
p.ex., ação capilar, ótica corpuscular e velocidade do som. Naquele período de pesquisas e descobertas
publicou diversas obras, entre outras Traité de mécanique celeste / Tratado da mecânica celeste,
onde apresentou uma explanação matemática, com base na teoria da gravitação, dos movimentos dos
planetas do sistema solar.
Em Exposition du système du monde / Exposição do sistema mundial, apresentou sua
hipótese nebular pela qual considerava a origem do sistema solar como resultado de uma contração e
resfriamento de uma grande nuvem de gás incandescente. Em Théorie analytique des probabilités /
Tratado analítico das probabilidades abordou aspectos da probabilística. Com Laplace, duas
disciplinas, o cálculo das probabilidades e a estatística, fundiram-se, sendo responsáveis pelo impulso
teórico, compreendendo a teoria dos erros e o desenvolvimento do método dos mínimos quadrados,
entre outros conceitos. Dele são: a equação diferencial de Laplace, utilizada para definir fluxos como
os de eletricidade e fluidos não-compreesíveis; Estudos sobre a teoria do calor, junto com Lavoisier,
para medir a quantidade de calor no processo de fusão; a velocidade do som e a transformação de
Laplace.
164

Fundamentos da pesquisa
Volume 1

2.6.28 Thomas Robert Malthus: 1766 - 1834


Nascido em Rookery, condado de Surrey, Inglaterra. Estudou em Jesus College da Universidade
de Cambridge (matemática, latim, grego e formação religiosa) e foi ordenado sacerdote da Igreja
Anglicana. Lecionou economia política em Haileybury e viveu como um modesto vigário rural. Foi o
fundador da economia política e o precursor da demografia. Ganhou celebridade com a teoria exposta
em Essay of the Principle of Population / Um ensaio sobre o princípio da população, elaborada
de acordo com as estatísticas da época, com a ideia ou relação (teoria) com o conceito de seleção
natural, por procedimentos semelhantes aos expostos por C. Darwin. Sua hipótese, com grande
influencia em diversos cientistas com Darwin, era: uma população cresce a um ritmo superior à
produção de alimentos; ao atingir níveis insustentáveis seriam desencadeados processos de auto-
extermínios, sobrevivendo apenas os mais fortes. Como axioma se tem: a população, quando não
controlada, cresce à taxa geométrica, enquanto a produção alimentícia cresce, quando cresce, à taxa
aritmética; essa ideia preocupou a muitos que anteviam desastres.
As principais obras de Malthus foram: Principles of political economy. The measure of
value stated and illustrated. Tooke on high and low prices. Political economy (Rev. Quaterly). A
summary view of the principle of population (Rev. Quaterly). Definitions in political economy.
Segundo Malthus, a produção de alimentos crescia em progressão aritmética e a população em
progressão geométrica, duplicando-se cada 25 anos, gerando fome e miséria das grandes massas. A
natureza corrigiria essa desproporção por meio das guerras e epidemias, que reduziriam a população;
recomendava ao governo antecipar-se à natureza negando assistência social às populações,
especialmente hospitais e asilos. Às populações, aconselhava a abstinência sexual como forma de
diminuir os índices de natalidade.

2.6.29 Jean Baptiste Joseph Fourier: 1768 – 1830


Nascido em Auxerre, França. Matemático, físico professor iniciador de pesquisas em séries (de
Fourier: um novo tipo de desenvolvimento em série, diferente do método de Taylor, por empregar
funções periódicas em vez de potências) e suas aplicação aos problemas de condução do calor.
A principal obra de Fourier foi a Theorie analytique de la chaleur / Teoria analítica do
calor, onde deu início aos estudos de propagação do calor por meio de diversas substâncias; as
fórmulas que descrevem esse o fluxo são conhecidas como transformações de Fourier e permanecem
válidas, com aplicações em muitas áreas da matemática, ciência e engenharia; são equações de
derivadas parciais que permitem obter a solução usando o desenvolvimento em série das funções
trigonométricas contínuas (com muitas aplicações em sistemas lineares, ótica, teoria da probabilidade,
física quântica e análise de sina etc.) e discretas (com menos aplicações). A essência da transformação
de Fourier é decompor um sinal como uma soma de senóides de diferentes frequências.
A Fourier se atribui a observação, durante a Revolução Francesa. e pela primeira vez, do efeito
estufa. Concebia a Terra como uma estufa gigante viabilizando a vida de plantas e animais.
165

O rige n s e e vo lu çõe s da s ciên cia s e d a p esqu isa


Filó sof o s e cien t ist a s a o lo ng o da hist ó ria da civiliza ção

Acompanhou a Napoleão no Egito, onde desenvolveu estudos de estudos de arqueologia, tornando-se


especialista em egiptologia.

2.6.30 Georg Wilhelm Friedrich Hegel: 1770 – 1831


Nascido em Stuttgart, Alemanha. Estudou no seminário da igreja protestante de Wurttemberg e
na Universidade de Tubingen. Lecionou nas universidades de Berna e Frankfurt. Tem sido considerado
o maior representante do idealismo filosófico do sécula XIX (o último filósofo clássico). Sua filosofia
foi uma tentativa de considerar o universo como um todo sistêmico, com base no monismo (um tema
único) espiritual na qual a diferenciação era essencial. Acreditava que somente mediante a experiência
se podia alcançar a identidade e objeto do pensamento; uma identidade na qual o pensar alcança a
inteligibilidade progressiva que era o seu objetivo. Sua filosofia revela influencias de Spinoza, Kant,
o Novo Testamento e Schelling, entre outros pensadores. Viveu no período da Revolução Francesa e
foi sensível aos problemas religiosos, sociais, econômicos e políticos de sua época.
Hegel apresentou o crescimento da ciência como um processo natural do desenvolvimento
conforme suas próprias leis internas. O estímulo e a força desse desenvolvimento seriam as
contradições internas do conceito. Foi o autor de um esquema dialético no qual o que existe de lógico,
natural, humano e divino, oscila perpetuamente de uma tese para uma antítese, e de volta para uma
síntese mais rica; é a dialética do conhecimento consistente na revelação, na descoberta e na superação
das contradições. Essa dialética estaria compreendida na lógica interna do desenvolvimento do
conhecimento.
Conforme o senso comum, a oposição entre o que era verdadeiro e falso, como sendo fixa, foi
rejeitada por Hegel, admitindo uma ou outra posição, sem conceber essa diferença ou o
desenvolvimento progressivo da verdade. Para ele, a diversidade significava contradição: “o broto
desaparece na eclosão da flor (...), aquela é refutada por esta”. Essa era a essência da dialética
hegeliana, formas que não só se distinguem, mas, são incompatíveis, porém, necessárias.
A primeira e a mais importante das obras maiores foi a Phänomenologie des geistes /
Fenomenologia do espírito ou Fenomenologia da mente. Nessa obra apresentou a base do
idealismo monista e explicou, para poucos entendedores, como se originava a mente a partir da
consciência, passando pela autoconsciência, pela razão, pelo espírito (...) para alcançar o
conhecimento, com a crença de que havia apenas uma substância pensante ou mental. Sua teoria de
verdade estaria nesse contexto quando assegurava que “o real é o que é racional e que a verdade é a
totalidade”. Realidade e verdade constituiriam um sistema completo em que todas as proposições
estariam relacionadas racional e coerentemente e onde contradições aparentes das proposições das
partes estariam resolvidas. A totalidade estaria em mudança contínua e seu desenvolvimento ocorreria
por um processo dialético, isto é, mediante a argumentação.
Um ponto de partida das ideias hegelianas foi o fato de que o homem não seria somente espírito,
mas, também carne [matéria] e que a Igreja e o Estado, a adoração e a vida, a piedade e a virtude, a
ação espiritual e mundana (...) não poderiam se sintetizar em só uma coisa. Daí surgiu seu pensamento
166

Fundamentos da pesquisa
Volume 1

de uma síntese de pólos opostos, na qual as contradições fossem sintetizadas. As contradições no nível
científico seriam inevitáveis, mas, o pensamento como uma atividade da razão podia elevar-se e
resolver tais contradições.
Na dialética hegeliana o desenvolvimento se daria em três estágios definidos: a tese, com uma
posição particular, uma afirmação ou uma situação dada; a antítese, com uma posição contrária ou
oposição à tese; e a síntese, com elementos das duas posições anteriores apresentando um resultado,
uma situação nova ou uma nova tese.
Esse sistema trabalharia, sempre com a rejeição do que não era racional e com a incorporação do
que seria racional. A introdução desse sistema, a dialética, foi feita para compreender a história da
filosofia, da ciência, da arte, da política e da religião. Tratava-se de um modo esquemático de
explicação da realidade, baseado em oposições e em choques entre situações diversas ou opostas;
diferentemente do método causal em que se estabeleciam relações de causa e efeito entre os fatos, na
dialética se buscavam elementos conflitantes, entre dois ou mais fatos, para explicar uma nova situação
decorrente dos conflitos. O método dialético era uma progressão na qual cada movimento sucessivo
surgia como solução das contradições inerentes ao movimento anterior.
Outras obras escritas por Hegel foram:
Encyklopädie der philosophischen Wissenschaften im Grundrisse / Enciclopédia das
ciências filosóficas em resumo, dividida em três partes componentes do sistema da ciência;
essas partes eram: a lógica, a natureza e o espírito com o método de expressão dialética.
Wissenschaft der Logik / Ciência da Lógica, e os Naturrecht und Staatswissenschaft im
Grundrisse / Fundamentos do direito natural e da ciência política. Em geral, são textos de
estilos difíceis e de conexões entre as ideias nem sempre claras.
Filosofia da história, onde desenvolveu uma teoria baseada na visão do Estado como a
realidade do progresso da mente na direção da unidade com a razão. Esse Estado, enquanto unidade,
incorporaria a liberdade objetiva e a paixão subjetiva, constituindo-se, assim, uma organização racional
da liberdade. Nesse contexto, identificou quatro tipos de membros do Estado: o cidadão, passivo em
relação às leis e sem consciência de liberdade pessoal ou civil; a pessoa consciente e ativa; o herói,
cuja vontade de liberdade pessoal estaria em harmonia com os grandes movimentos; e a vitima cujos
desejos e interesses pessoas raramente se relacionariam.

2.6.31 David Ricardo: 1772 – 1823


Nascido em Londres. Influenciado pelo ambiente “prático” dos negócios (filho de comerciante
de origem judaica), pelas ideias (pensamento econômico) de Adam Smith e pela primeira revolução
industrial da Inglaterra que modificou a relação social (artesãos transformados em proletários devido à
concentração de fatores e ao avanço técnico, entre outros) mostrou preocupação e interesse por
fenômenos como o desemprego e suas consequências: a miséria e alta taxa de mortalidade. É
considerado, junto com Adam Smith e Thomas Malthus, um dos fundadores da escola clássica da
167

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Filó sof o s e cien t ist a s a o lo ng o da hist ó ria da civiliza ção

economia política, com influencia nos adeptos das duas principais escolas do pensamento econômico,
o marxismo e o marginalismo keynesiano. Suas ideais permeiam e sustentam o debate de problemas
teóricos da economia em assuntos como teoria do valor, repartição de renda, comércio internacional e
sistema monetário, entre outros.
Algumas das obras de David Ricardo são: The high price of bullion. A proof of the
Depreciation of Bank Notes / O alto preço do ouro. Uma prova da depreciação das notas
bancárias. Essay on the influence of a low price of corn on the profits of stock / Ensaio sobre
a influência de um baixo preço do trigo sobre os lucros do capital. On the Principles of
political economy and taxation / Princípios da economia política e tributação. On Protection in
Agricultura / Proteção da agricultura.
A partir dos estudos de economia política, e da observação dos problemas decorrentes do
processo de industrialização, David Ricardo centrou a sua análise na distribuição, ao criar a teoria
valor-preço com o interesse pela relação de troca entre as mercadorias. Constatou, ainda, que esse valor
incidia diretamente sobre os salários dos trabalhadores, e sintetizou a lei férrea dos salários: a
existência de um salário mínimo para o trabalhador viver com dignidade. Segundo alguns especialistas,
essas ideias serviram como justificativa para a manutenção da exploração dos industriais sobre os
trabalhadores.
A contribuição de David Ricardo pode ser sintetizada pela suas teorias da população e da renda
numa doutrina geral do valor e da distribuição. A determinação das leis que regem a distribuição do
produto é o problema primordial da economia política, deslocando assim, o foco da economia para o
problema da distribuição. Formulou, com clareza, o princípio básico de sua teoria do valor, entendendo
que o valor dos bens depende da quantidade de trabalho necessária a sua obtenção ou pela sua
escassez. Analisou questões relacionadas com afirmações, tais como: as diferentes qualidades do
trabalho podem ser reduzidas a um só tipo homogêneo; o capital pode ser considerado como trabalho
acumulado; a diferente proporção entre capital fixo e circulante, ou a diferente amplidão do período de
produção levantam problemas.
Ao utilizar a teoria da renda (a renda econômica pura do modelo clássico da economia) David
Ricardo propôs um modelo que representava a evolução do cultivo das terras de um país; a ocupação
da terra começava com as de melhor qualidade e vai se deslocando para as de menor qualidade, de
acordo com a pressão exercida pelo aumento da população. Os salários sempre se mantêm em nível de
subsistência e os lucros são iguais aos da última parcela (marginal) utilizada para cultivar. A evolução
das rendas no tempo seria: os salários reais mantêm-se, os lucros diminuem e a renda da terra aumenta,
alcançando-se, no futuro, o estado estacionário.
Das contribuições há que se destacar a sua teoria das vantagens comparativas, parte essencial da
teoria do comércio internacional. Por ela, demonstrou que duas nações podem beneficiar-se do
comércio livre, mesmo que uma nação seja menos eficiente na produção de todos os tipos de bens do
que o seu parceiro comercial. A equivalência é outra teoria importante; é um argumento que sugere que
em certas circunstâncias, a escolha entre financiar as despesas através de impostos ou através do déficit
não terá efeito na economia. Analisou também a natureza da renda da terra.
168

Fundamentos da pesquisa
Volume 1

2.6.32 Friedrich Wilhelm Joseph Schelling: 1775 – 1854


Nascido em Leonberg, Alemanha. Alcançou cedo a maturidade intelectual: com apenas 15 anos
entrou para o Seminário Teológico de Tubinga, com graduação em filosofia e doutorado em teologia. A
carreira acadêmica foi, também, rápida; depois de estudar matemática e ciências em Leipzing e
Dresden, tornou-se professor. Filósofo idealista, com um pensamento que se desenvolveu em torno da
ideia de natureza, que marcou o clímax da filosofia alemã clássica, após Kant. Preocupado em
demonstrar erros do kantismo, para o qual a liberdade e Deus constituíam a coisa última, o absoluto, e
da filosofia de Hegel, para quem o absoluto era um sistema que é lógico e universal, e que rege o
mundo, a história, os produtos da humanidade e o homem mesmo.
As principais obras de Schelling são:
Ideias para uma filosofia da natureza; afirma que existe um princípio unitário, subordinado à
natureza inorgânica e à natureza orgânica. A ideia de uma filosofia da natureza é o de uma
ciência necessária do saber; a inteligência é produtiva de dois modos: cega e inconsciente (p.ex.,
na intuição) ou livre e consciente (na criação); a filosofia ultrapassa essa antítese na medida em
que tenta identificar o núcleo comum às duas formas de inteligência, da atividade inconsciente (a
natureza) com igual origem da atividade consciente (máxima, do gênio).
Outras obras: Da alma do mundo. Sistema do idealismo transcendental. Bruno ou do
Principio divino e natureza das coisas. Investigações filosóficas sobre a essência da
liberdade humana
Para Schelling o absoluto é uma matriz única da qual se diversificam todos os seres, em tudo
quanto é e quanto existe, uma fundamental identidade. Todas as coisas, por diferentes que pareçam,
vistas de certo ponto, vêm fundir-se na matriz idêntica de todo ser que é o absoluto. A realidade é uma
evolução que se manifesta por etapas sucessivas. Passa de natureza inorgânica, a natureza orgânica, e
desta a espirito. No fenômeno da vida a natureza está unida com algum elemento espiritual. Também
na natureza inorgânica está presente o espírito, imprimindo ordem aos átomos, como nos cristais.

2.6.33 Johann Carl Friedrich Gauss: 1777 – 1855


Nascido em Brunswick (Braunschweig), Alemanha. Estudou nas Universidades de Göttingen e
Helmstedt. Impressionou matemáticos da época como Euler e Lagrange e foi o primeiro a provar o
“teorema de ouro” da matemática, a lei da reciprocidade do quadrado. Outras contribuições foram à lei
de Gauss da distribuição normal e a teoria dos erros de observação. Seu diário científico é um dos
mais valiosos documentos da história da matemática com notáveis contribuições à geometria e para a
aplicação da teoria newtoniana de atração e eletromagnetismo. Inventou o heliótropo (espelho solar
para marcar pontos de triangulação em levantamentos topográficos e estudos geodésicos), diversos
instrumentos (astronomia) e o telégrafo elétrico. Também desenvolveu trabalhos em ótica, mecânica,
física, línguas, botânica, mineralogia (...). Conhecido como o príncipe da matemática e para muitos
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Filó sof o s e cien t ist a s a o lo ng o da hist ó ria da civiliza ção

historiadores o maior gênio da história matemática, com prodigiosa memória. Para ele a ciência era
uma simples recreação.
As primeiras obras de Gauss foram: Disquisitiones arithmeticae / Discussões aritméticas.
Theoria motus corporum coelestium em conicis de sectionibus ambientium de Solem /
Teoria do movimento dos corpos celestiais girando a volta do Sol, sendo considera como a
mais importante de suas obras, com uma exaustiva explanação da determinação das órbitas dos
planetas e cometas. Essa obra é dividida em dois volumes; no primeiro, Gauss discutiu equações
diferenciais, seções cônicas, órbitas elípticas (...) aplicadas nesses movimentos, enquanto que no
segundo volume, na parte principal, mostrou como calcular e refinar a estimação da órbita de um
planeta; nessas obras apresentou o método dos mínimos quadrados para o ajustamento de erros
de observações.
Disquisitiones generales circa seriem infinitam, um tratamento rigoroso de série e uma
introdução da função hipergeométrica.
Methodus nova integralium valores per approximationem inveniendi, Bestimmung der
Genauigkeit der Beobachtungen, uma discussão sobre estatísticas (aos 18 anos de idade
inventou o método dos mínimos quadrados utilizado para relacionar ciência e natureza na análise
de causa - e - efeito).
Theoria attractionis corporum sphaeroidicorum ellipticorum homogeneorum methodus
nova tractata.
Seu trabalho posterior foi inspirado em problemas geodésicos (forma e grandeza da Terra ou de
uma parte de sua superfície) e com orientação para a teoria potencial de Gauss que foi de grande
importância na física. Sua obra Theoria combinationis observationum erroribus minimis
obnoxiae com seu suplemento, foi dedicada a estatística matemática.
Depois, seu interesse foi voltado para a geometria não-euclidiana (geometria diferencial) com
vários documentos publicados sobre esse assunto. Sobre o magnetismo escreveu: Intensitas vis
magneticae terrestris ad mensuram absolutam revocata. Allgemeine Theorie des
Erdmagnetismus.
Allgemeine Lehrsätze in Beziehung auf die im verkehrten Verhältnisse des Quadrats der
Entfernung wirkenden Anziehungs und Abstossungskräfte, com teorias do magnetismo,
medidas absolutas de forças magnéticas e definição empírica do magnetismo terrestre.
Em sua obra A Allgemeine theorie mostrou que só pode haver dois pólos no globo, provando
um importante teorema sobre a intensidade da componente horizontal da força magnética junto com o
ângulo de inclinação; nessa prova usou a equação de Laplace.
170

Fundamentos da pesquisa
Volume 1

2.6.34 Arthur Schopenhauer: 1788 – 1860


Nascido em Gdansk (Danzig), Polônia. Estudou filosofia e letras na Universidade de Berlin.
Amigo de Goethe. 36 Pertencente às correntes irracionalista e romântica; introduziu o Budismo e a
filosofia indiana na metafísica alemã. Foi considerado o filósofo obcecado pela vontade ao sustentar
que o conjunto dos fenômenos era uma manifestação da vontade. A vontade era o fundamento de todas
as coisas e caso esta fosse abolida, então o mundo, sem vontade, seria abolido; esse foi o tema
dominante em seus escritos. Estabeleceu como princípio metafísico um poder maldoso, cego e
irracional (foi o primeiro a criar uma filosofia baseada no irracionalismo sistemático, seguida, em
parte, por Bergson e Nietzshe, entre outros).
A filosofia de Schopenhauer parte de interpretações de alguns pressupostos da filosofia de Kant
considerado, por ele, como o filósofo mais original e importante da história do pensamento. Dentre as
concepções de Kant uma, segundo ele, destacava-se; era o fenômeno. Sobre o fenômeno fundamentou
a ideia de que o mundo não passaria de uma representação com dois pólos inseparáveis: por um lado, o
objeto constituído pelas dimensões espaço e tempo e pela causalidade; pelo outro, a consciência
subjetiva, porém, sem alcançar a realidade não fenomênica, conforme era a ideia de Kant.
Para Schopenhauer, o homem ao tomar consciência de si mesmo, seria movido por aspirações e
paixões consubstanciadas na vontade. Este seria o princípio (a quarta raiz de sua obra Sobre a
quádrupla ...) norteador da vida voltada para conhecer a natureza.
A vontade, no entanto, não se manifestaria como um princípio racional, mas, como um impulso
cego e irracional que levaria à preservação e onde a consciência seria apenas uma superfície. A vontade
seria algo infinito, uno, indivisível, muitas vezes sem meta nem finalidade, sendo insaciável; por isso,
estaria gerando dor, tédio. Afirmava: viver é sofrer. Portanto, a vontade infinita seria a responsável pela
característica da insaciabilidade, sendo então algo conflituoso que geraria dor e sofrimento ao homem.
Dentro dessa concepção pessimista, o prazer seria só uma supressão momentânea da realidade.
Considerava a história como somente a repetição de fatos, sem acrescentar nada ao homem.
Um aspecto da filosofia de Schopenhauer que se destaca é o relativo ao princípio de razão
suficiente. Em termos gerais, os princípios fundamentais do pensamento, enquanto faculdades do
raciocínio, seriam definidas em três níveis: a identidade, a não-contradição e o terceiro excluído.
Outro princípio, pouco conhecido para a lógica, é o da razão suficiente, sintetizado em: nada é
sem razão. Este princípio foi proposto por Leibniz e desenvolvido por Schopenhauer em suas obras
Sobre a quádrupla raiz do princípio da razão suficiente e O mundo como vontade vontade e
representação, relacionado com os outros princípios.
O princípio da razão suficiente se relaciona com a concepção do mundo como vontade e como
representação quando Schopenhauer afirmava: “no conhecimento a consciência, apresentando-se como
sensibilidades externa e interna (receptividade), entendimento e razão, decompõem-se em sujeito e
objeto (...)”. Afirmava, todas as representações são objetos do sujeito e todos os objetos do sujeito são
nossas representações (...). Existe uma relação submetida a uma norma e pela forma, dada a priori, em
171

O rige n s e e vo lu çõe s da s ciên cia s e d a p esqu isa


Filó sof o s e cien t ist a s a o lo ng o da hist ó ria da civiliza ção

virtude da qual nada de existente por si nem de independente (...), pode tornar-se objeto: é o princípio
da razão suficiente” (SCHOPENHAUER, 1983).
No princípio da razão suficiente Schopenhauer distinguiu quatro formas sintetizadas no Quadro
1.

Quadro 1 Síntese das formas que definem a razão suficiente de Schopenhauer


Sujeito Objeto Princípio

Representações sensíveis, completas, imediatas, empíricas e


Entendimento Devir
intuitivas.

Sensibilidade Formas a priori da intuição: espaço e tempo Ser

Representações abstratas: conceitos (representações de


Razão Conhecer
representações)

Consciência Sujeito de vontade Agir

Segundo Schopenhauer, o princípio da razão suficiente encontra na lógica o elo com o


conhecimento. A razão permite formar e ligar conceitos para formar juízos, isto é, para raciocinar,
definindo-se, dessa forma, o princípio da razão suficiente do conhecimento. A síntese seria o de que
tudo tem uma razão e onde a verdade de um juízo estaria em sua razão, associando diferentes razões de
juízo aos tipos de verdade, conforme se sintetiza nas seguintes frases:
um juízo e uma verdade lógica;
uma representação sensível e uma verdade empírica;
uma intuição pura e a verdade transcendental.
Com a relação das razões de juízo se teriam as condições formais de todo pensamento como
verdade metalógica com seus quatro princípios repetindo, de identidade, de contradição, do terceiro
excluído e de razão suficiente do conhecimento.
As principais obras de Schopenhauer foram: O mundo como vontade e representação
(Buddenbrooks). Nesta obra, apesar de sua limitada aceitação pelo píblico, desempenhou um papel
decisivo no se pensamento e baseio hipóteses como as relações existentes entre gênio e loucura.
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Fundamentos da pesquisa
Volume 1

Sobre a quádrupla raiz do princípio da razão suficiente que foi a sua tese e passou a ser o
trabalho mais conhecido, sendo a referência de leitura, segundo ele, para compreender o seu
pensamento. Nessa obra, argumentou que existiam quatro razões ou explicações para tudo:
a) as razões de mudanças físicas: tem como referência o princípio da causalidade para se ter o
conhecimento;
b) as razões de conexões entre conceitos, com base na razão ou lógica;
c) as razões das verdades matemáticas, tendo como base a pura intuição sensível do espaço e do
tempo; e
d) as razões de nós mesmos, enquanto sujeitos cuja vontade teria como referência as leis da
motivação, sendo esta quarta raiz, referente à vontade, de especial significado para o
desenvolvimento de sua filosofia; afirmava que alguém, sujeito de conhecimento, poderia se
reconhecer a si mesmo como um sujeito de vontade (COLLINSON, 2004; p. 173 – 174).
A metafísica do amor sexual (...), peça central do sistema chopenhaurino, com intuições geniais.
Considerava que a vontade, que é essência do mundo, tem o seu foco no impulso sexual; esse
impulso, com exceção de Platão, elevou-se a dignidade metafísica, influenciado pensadores como
Freud: o impulso sexual é a raiz inconsciente do comportamento humano; a suposição freudiana
da preponderação do irracional e inconsciente sobre o racional e consciente foi a base da
metafísica de Schopenhauer.
Outras obras foram: Sobre a visão e as cores, escrita por sugestões de Goethe.
Sobre a vontade da natureza. Os dois princípios fundamentais da ética. Parerga e
paralipomena, conjunto de ensaios que o tornaram mais conhecido.



O período da história da ciência e da filosofia da ciência que correspondeu à Idade


Contemporânea teve início na Revolução Francesa, entre 1789 a 1799, estimulada pelas ideias
iluministas e com o apoio popular, quando a burguesia se voltou contra os privilégios da nobreza e do
clero. Foram fatos que marcaram a ruptura radical com o passado, iniciados em nome da libertação de
um povo oprimido e submetidos à desigualdade civil e à profunda crise econômica. Nessa fase,
destaca-se o Período do Terror, entre 1793 a 1794, quando se radicalizou a revolução sob o comando de
Robespierre, com execuções em massas, inclusive do próprio Robespierre.
A Idade Contemporânea foi caracterizada pela corrente filosófica do iluminismo herdeiro do
humanismo e com elementos do racionalismo e do empirismo. Nessa Idade foram destacadas e
exaltadas a importância da razão e criada uma exagerada e otimista expectativa sobre a ciência. As
ideias do iluminismo sobre Deus, a razão, a natureza e o homem foram cristalizadas numa cosmovisão
responsável por avanços revolucionários na arte, na filosofia e na ciência. Acreditava-se, conforme
essas correntes, que as ciências, com suas novas descobertas, seriam suficientes para sempre solucionar
173

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os problemas e que a civilização progrediria com novos conhecimentos. Nesse contexto, a ciência que
substituiu o lugar ocupado pela religião, junto com a tecnologia, mudaria o mundo, possibilitando
significativas melhorias sem limites para o desenvolvimento. Ainda dentro dessa corrente, foram
produzidas as primeiras teorias modernas sobre a ética, entre outras disciplinas.
A avaliação, com otimismo, do poder e das realizações da razão criadas pelo iluminismo e a
crença na possibilidade de reorganizar a sociedades segundo princípios racionais e sem aceitar a ideia
da evolução ser determinada pelo passado, apesar de não ignorar a história, foram resultados
(expectativas) que perduraram até as duas grandes guerras mundiais, no século XX, quando veio o
ceticismo.
Ao final da Idade Moderna foram estabelecidos fundamentos da ciência com os de Hume e
Kant; começaram a desaparecer as dúvidas com a física newtoniana em relação ao mecanicismo e
determinismo da natureza; foram postulados fundamentos do método experimental e se deu início à
caracterização de novos problemas, tais como os do conhecimento, dos fatos científicos verdadeiros e
universais, da indução – dedução e da inferência lógica, entre outros.
No campo da lógica e durante a Idade Contemporânea foram desenvolvidos novos conceitos de
lógicas não clássicas (HAACK, 1974), tanto complementares como alternativas ou lógicas
heterodoxas. Com as lógicas complementares se ampliou o escopo da lógica clássica; dentro dessas
lógicas se relacionam:
a) as lógicas modais, com operadores modais de possibilidades e necessidades;
b) as lógicas deônticas com operadores deônticos como proibido, permitido, indiferente e
obrigatório;
c) as lógicas de tempo; as lógicas epistêmicas; e as lógicas imperativas, entre outras.
Com as lógicas heterodoxas se substituiu a lógica clássica em algumas áreas do saber, tais como
as lógicas não-reflexivas que se aplica na física quântica, onde não é válida a lei reflexiva da
identidade; e as lógicas para-completas, em que não é válido o princípio do terceiro excluído (lógicas
intuicionistas e lógicas polivalentes), entre outras.
Deve-se observar que o desenvolvimento das lógicas não clássicas facilitou ou abriu campos em
várias áreas de pesquisa e propiciou importantes soluções de problemas de matemática, física, ciências
da computação / teoria da informação, inteligência artificial etc. (p.ex., programação em lógica;
PRIEST, ROUTLEY e NORMAM, 1989) e ética, como é o caso da lógica par-consistente que admite
crenças inconsistentes, lógicas doxásticas e teorias das probabilidades.
A parte que segue sintetiza aspectos gerais da história e da filosofia da ciência, com novos
conceitos como o da investigação do conhecimento científico e da prática da ciência; e de como se
desenvolvem, avaliam e combinam as teorias científicas; destacam-se algumas contribuições de
cientistas da Idade Contemporânea.
174

Fundamentos da pesquisa
Volume 1

2.7 Filósofos e Cientistas da Idade Contemporânea


No século XIX, o ritmo do desenvolvimento científico e tecnológico experimentou notável
crescimento com implicações sociais, econômicas e políticas. Nessa Idade foi atribuída à ciência, com
suas descobertas, invenção (...), o papel de transformações sociais, em um número crescente e
diversificado de divisões para oferecer explicações e novas soluções. Concomitantemente com a
divisão da ciência e sua complexidade, a religião foi perdendo sua força no domínio do conhecimento
científico.
Foi nesse contexto do ritmo de desenvolvimento científico e tecnológico, da importância das
ciências apoiada na razão para explicar todas as coisas e da perda de poder da religião que surgiram
novas correntes filosóficas como as do iluminismo e do positivismo.
O iluminismo (esclarecimento) foi um movimento intelectual (John Locke, David Hume,
Adam Smith, Immanuel Kant, entre outros) que enfatizava a razão e a ciência como formas de
explicar o universo, com grande dinâmica em países protestantes, porém, gradual, nos países católicos.
Retratou o ambiente nos séculos XVII, XVIII (século das luzes) e XIX em que se acreditava nas
possibilidades da razão: a razão e a ciência como formas de explicar o universo; um pensamento
herdeiro da tradição do Renascimento e do Humanismo.
Na Idade Média, a humanidade encontrou refúgio na fé, porém os medievais permaneceram em
condições precárias e sem possibilidade de se transformarem em “sujeitos”. Com o iluminismo, com as
luzes modernas, teve-se um novo estatuto para o homem e com ele, eleva-se a razão, destacada em
frases como as de Voltaire: “tremei, tremei, é chagada ao povo a idade da razão” “esmagai o infame”
etc. Sequem-se revoluções como a Francesa e a Industrial.
O positivismo, epistemologia que surgiu com Augusto August Comte e John Stuart Mill.
Conforme o positivismo, a ciência era considerada como o estado de desenvolvimento do
conhecimento humano que superava, quer o estado das primitivas concepções mítico-religiosas de
intervenções sobrenaturais, quer a substituição desses seres por forças abstratas. Comte, ao propor essa
nova corrente, pensava ter descoberto uma lei fundamental do desenvolvimento do conhecimento em
qualquer domínio. Por conta dessa lei as principais concepções passariam por três estados sucessivos:
a) o estado teológico ou fictício, com seu método teológico para a pesquisa da natureza íntima e
para determinar as causas primeiras e finais dos fenômenos;
c) o estado metafísico ou abstrato, com seu método metafísico, uma modificação do primeiro, em
que os agentes sobrenaturais serão substituídos por forças abstratas inerentes ao ser;
d) o estado científico com seu método positivo do conhecimento, reconhecendo-se a
impossibilidade de se terem soluções absolutas. Esse estado e seu método seriam orientados para
a descoberta pelo uso combinado do raciocínio e da observação; para a explicação de fatos
reduzidos em seus elementos reais; tal redução seria feita mediante ligações que se estabeleceriam
entre os diversos fenômenos particulares e alguns gerais.
175

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Outro aspecto geral a destacar da Idade Contemporânea é o relativo ao conhecimento que de


concepções escolásticas e nominalistas (da Idade Média), racionalistas (Descartes), empiristas
(Hume: a experiência e Lock: a crença) e criticistas (Kant: o conhecimento a priori de uma herança
iluminista da razão) se passaria para um novo iluminismo (Habermas: a razão crítica dos limites, de
princípios éticos, de vínculos e construções na raiz social).
Os cientistas de novas teorias do conhecimento, de novas formas e conceitos do método
científicos, de descobertas e invenções científicas, de novas relações das ciências com a natureza e o
homem (...) são sintetizados na relação de alguns desses construtores que se apresenta a seguir.

2.7.1 John Frederick William Herschel: 1792 - 1871


Nascido em Hanôver, Alemanha. Músico, matemático e astrônomo: descobriu o planeta Urano e
o movimento intrínseco do Sol no espaço; os primeiros conhecimentos sobre a constituição das
galáxias, a radiação e as propriedades do infravermelho na luz do Sol. Fez pesquisas, também, em
química sobre a luz e a fotografia utilizando por primeira vez os termos positivo e negativo. Foi
membro da Royal Society.
Destaca-se, dentre as contribuições de Herschel ao método científico, seu entendimento por
indução como sendo um processo de classificação sucessiva de objetos e fatos individuais, com os
mesmos critérios. A metodologia indutiva do conhecimento acerca das leis da natureza compreendia
uma séria de regras baseadas em relações entre causas e ações (efeitos).
As principais obras de Herschel foram: A preliminary discourse on the study of natural
philosophy. Popular lectures on scientific subjects. Outlines of astronomy. Cape
observations, identificou cerca de 69.000 estrelas. On the investigation of the orbits of the double
star; dissertação sobre estrelas duplas. Essays from the Edinburgh and Quarterly Reviews. A
treatise on astronomy. Manual of meteorology.
Um aspecto que se destaca da obra de Herschel é o relativo às contribuições à filosofia da
natureza esboçando a sua genealogia e perfil; escreveu: “interrogou-se sobre a natureza e da indução e
propôs uma teoria sobre ela (...); evidencio o papel da intersubjetividade na constituição da
objetividade científica”. “Insiste na importância da pesquisa desinteiriçada, inclusiva na perspectiva de
um utilitarismo bem compreendido, sendo suficiente considerar a história da ciência para ver como
foram das especulações aparentemente mais inúteis que saíram as aplicações mais importantes”; cita
como exemplos os devaneios [aparentes] de especulações da geometria antiga, de Kepler (...), do
pêndulo de Boyle ou de pesquisas alquímicas (...). Contudo, foram dessas especulações que resultaram
os conhecimentos do movimento elíptico dos planetas, da lei gravitacional, das maravilhas da química
(...). Compartia a ideia de Comte segundo a qual a imaginação é a professora da razão (ANDEL,
FAGOT-LARGEAULT E SAINT-SERNIN, 2005; p. 35-36).
O pesquisador (o filósofo Herschel) da natureza para trazer à luz os processos deve mergulhar
“no coração das trevas”, apontando que, mesmo sendo o objetivo do filósofo descobrir suas operações,
176

Fundamentos da pesquisa
Volume 1

a via que leva a esse objetivo é permeada de dificuldades. Essa via “o conduz para fora dos caminhos
batidos e dos usos ordinários”, apesar de ter seus fundamentos na realidade. Não acredita que o espírito
[do pesquisador] possa ter uma visão indutivistas dos processos da natureza, mas, só tem dela uma
abordagem indireta, pela colocação à prova empírica de suas teorias, sem que nada possa garantir, a
priori, a uniformidade da natureza nem a invariância de suas leis.
Afirmava Herschel que a verdade de uma teoria não se prova, apenas pode ser atestada de
maneira indireta, por ocasião de sua aplicabilidade bem-sucedida, sendo que um conjunto de
conformações empíricas particulares não se transforma em uma verdade universal validade. Nesse
processo, considerava que ainda o gênio científico só percebe enigmas onde os outros vêem evidências
e formula questões [de orientação] onde os outros só constatam fatos; os “princípios da ciência são
como tesouros escondidos sob as evidências mais ordinárias”. Apontava:

(...) é preciso [que tenha] um certo hábito de abstração, uma certa penetração de espírito (...), crê no
valor dos princípios (...) escondidos nos fatos; é preciso treinamento (...) e aptidão para desenvolvê-
los e evidenciá-los, formulá-los em termos explícitos e fazê-los servir para a explicação de outros
fatos menos familiares ou para a realização de um objetivo útil [bem como para evitar] se precipitar
sobre seu objeto, a subestimar os meios sobreestimando a finalidade; ao fixar demais o objeto (...)
perder de vista a riqueza e diversidade dos pontos de vista que se apresentam nos dois lados da
estrada. (ANDEL, FAGOT-LARGEAULT E SAINT-SERNIN, op. cit.; p. 39):

Em sua obra A preliminary discourse (...) afirmava que no espírito não estava espontaneamente
preparado para perceber a realidade como ela é e que, portanto, havia necessidade da investigação,
apresentando uma fenomenologia do conhecimento individual e coletivo. A natural philosopher,
habituado a discernir a ação [efeito] das causas gerais e a ilustração das leis gerais (...) encontrará
objetos de esclarecimento de algum princípio e lhe comunicará uma impressão de harmonia e ordem
(...); muitas questões poderão surgir e com elas, muitos temas para a pesquisa, mantendo desperta suas
faculdades.
Conceituou a pesquisa científica como sendo de natureza intersubjetiva, com uma definição de
“laço dos espíritos” da qual deriva a definição da ciência: “a ciência é o conhecimento de muitos,
assimilado e organizado com ordem e método, de modo a se tornar acessível a um só”.
Apontava que o conhecimento devia ser de muitos, conforme se indica a seguir (ANDEL,
FAGOT-LARGEAULT E SAINT-SERNIN, op. cit.; p. 41):

(...) o conhecimento, ao contrário da alimentação, não se destrói pelo uso. O uso o aumenta e
aperfeiçoa. Ele não ganha (...) mais certeza, mas, ganha mais autoridade e em duração provável,
quando um assentimento universal o confirma. Não há corpo de conhecimento que seja
suficientemente completo para não receber um crescimento ou suficientemente isento de erros para
não receber correções, quando ele passa por milhões de espíritos. Os que admiram (...) o
conhecimento (...) devem desejar que seus elementos se tornem acessíveis a todos, ainda que só
fosse pelo seguinte motivo: é assim que estes serão escrutados da maneira mais profunda, que suas
177

O rige n s e e vo lu çõe s da s ciên cia s e d a p esqu isa


Filó sof o s e cien t ist a s a o lo ng o da hist ó ria da civiliza ção

consequências serão tiradas da maneira mais eficaz e que eles adquirirão a dutibilidade e plasticidade
que apenas a pressão dos espíritos pode conferir.

A intuição para Herschel é a subida para os axiomas (processo subjetivo e objetivo ao desdobrar
a ação do espírito quando revela a arquitetura das coisas) da natureza a partir dos fatos (reflexo do
real) e o processo inverso de retorno para os fatos particulares a partir dos axiomas; esse processo do
método da ciência apresenta duas fases: um caminho para aqueles que fazem a ciência e um
movimento inerente à natureza; são dois aspectos que não são separáveis nem disjuntos de um
processo legítimo e onde o erro não tem lugar; quando há um erro é do pesquisador, do
encaminhamento do espírito e não da natureza; para minimizá-lo, invoca-se a experiência, como
fundamento da pesquisa, porém, antes dessa invocação é necessário abandonar os preconceitos: “a
busca de verdade consiste em discernir e trazer à luz, local e sem premeditação, um elo de longa
concatenação das verdades físicas” (ANDEL, FAGOT-LARGEAULT E SAINT-SERNIN, op. cit.; p.
52).

2.7.2 William Whewell: 1794 /95 – 1866


Nascido em Lancaster, Inglaterra. Estudou na Universidade de Cambridge, onde, foi, também,
professor de mineralogia e de moral filosófica. Conhecido como o filósofo da descoberta científica
(empirista) com base na consideração de que a lógica indutivista era a lógica do descobrimento,
considerando seu trabalho uma continuação da obra de Bacon. Foi o primeiro a utilizar a palavra
cientista em sua obra com a conotação de profissão e “instituição” com normas, regras e valores, bem
como do conceito de consiliência, literalmente um salto conjunto do conhecimento, pela ligação de
fatos com a teoria baseada em fatos, em todas as disciplinas, para criar uma base comum de
explicação; a consiliência de induções ocorre quando uma indução, obtida de uma classe de fatos,
coincide com uma indução obtida de outra classe diferente. Sistematizou a reflexão filosófica.
Em sua obra clássica History of the inductive sciences afirmava que o objetivo da ciência
“consistia, sobretudo em desenvolver uma compreensão filosófica das ciências e não entendê-las no
seu contexto histórico (...); sustentava que a história é a única fonte admissível para todo o
conhecimento filosófico da ciência”.
Entre as obras de Whewell, destacam-se: Elementary treatise on mechanics / Tratado
elementar de mecânica. Astronomy and general physics considered with reference to natural
theology / Astronomía e física geral em relación com a teologia natural. History of the
inductive sciences / Historia das ciências indutivas. Hermann und Dorothea / Hermann e
Dorotea. The history of scientific ideas / História das ideias científicas.
Na obra o Novum organon renovatum / Novo órgão renovado; considerou que os passos
para a descoberta científica são predeterminados pelo método indutivo mediante três etapas: a
classificação dos elementos do conhecimento pela análise mediante a explicação de concepções e
decomposição dos fatos; a coligação dos fatos, precedida de seleção de ideias, construção de
178

Fundamentos da pesquisa
Volume 1

concepções e determinação de magnitudes; e a verificação das coalizões mediante predições,


consiliência e simplificação; são conceitos apresentados em sua obra Philosophy of discovery /
Filosofia da descoberta.
Whewell considerou que o processo de indução pode ser comparado ao movimento do
pensamento que vai do fato à lei, do empírico ao teórico geral. Nesse sentido, toda a ciência
experimental seria indutivista ao sustentar que a base da hipótese do raciocínio dedutivista se manifesta
como uma conclusão do processo indutivo; os fatos especiais obtidos de testes (rigorosas verificações)
e que fundamentam as conclusões da indução são o resultado de inferências dedutivas.
Ao propor a formulação de hipóteses como uma arte da mente que inventa, imagina e cria estaria
desligando-a do método. Na sua proposta de hipóteses para explicar fatos observados e delas deduzir
consequências que possam ser submetidas a testes, aceitando-as ou rejeitando-as (lógica da descoberta
científica), aproximou-se à ideia do método hipotético-dedutivo de Popper.
A explicação da ciência, segundo Whewell, é uma atividade racional. O significado de
racionalidade da ciência está associado, tradicionalmente, à capacidade de discernir propriedades,
estabelecer relações e construir argumentos de defesa das ideais, exibindo uma dupla dimensão: um
exercício cognitivo (razão) e um resultado da ação da razão que perpassa essa faculdade. C onsiste na
compreensão do significado dos fatos e conceitos, nas razões da sustentação de crenças e expectativas,
de causas e (...). Trata-se de uma conceituação rica, complexa e flexível de explicação científica em
que se conjugam, antes de se oporem, procedimentos indutivos que levam à descoberta de leis, e
procedimentos dedutivos que permitem verificar (aceitar ou rejeitar), pelo teste, essas leis ou hipóteses.
As leis descobertas (hipóteses aceitas) serão premissas dos argumentos dedutivos; o próprio
princípio da indução seria a premissa maior de todos os argumentos que na explicação de um fato,
exibiria uma estrutura dedutiva. Critérios e procedimentos científicos compreenderiam fatores, entre
outros: imaginação; hábitos mentais; conjeturas aceitáveis; sagacidade na definição de problemas e
elaboração das hipóteses; curso da investigação regido por, entre outros, valores da comunidade
científica, importância do tratamento de exceções e reconhecimento da “infestação” teórica da
evidência. Whewell enfatiza o papel das discussões e dos embates de visões na construção da
racionalidade científica.
Um aspecto que se destaca do pensamento de Whewell, em relação à racionalidade científica, é
o fato de os significados não serem limitados apenas a desdobrar respostas de o quê, o como ou o
porquê dos fatos, mas, o saber perguntar, gerar padrões de perguntas e respostas, conjeturar. A
explicação não se restringe à compreender o significado dos fatos em diferentes níveis de generalidade,
dos processos ou mesmo de suposições explicativas, mas, compreende ou elucidar conceitos (dizer o
que é), tratar de dificuldades e objeções e explicitar procedimentos. Explicar é dar razões, sem,
contudo, limitar-se às razões lógicas e empíricas; devem compreender crenças e hábitos mentais como
razões. Daí porque a sua concepção da ciência seja mista; proposições empíricas que conforme se vão
clarificando passam a ser necessárias e cognoscíveis.
179

O rige n s e e vo lu çõe s da s ciên cia s e d a p esqu isa


Filó sof o s e cien t ist a s a o lo ng o da hist ó ria da civiliza ção

2.7.3 August Comte (Isidore-Auguste-Marie-François Xavier Comte):


1798 – 1857
Nascido em Montpellier, França. Estudo na Escola Politécnica de Paris, da qual foi expulso dois
anos depois, por liderar um movimento de protesto. Viveu um período em que o desenvolvimento
científico e tecnológico experimentou notável crescimento, sendo a ciência, diversificada ao longo do
século XIX, responsável por invenções que impulsionaram as transformações na sociedade. Foi
discípulo de Claude-Henri de Rouvrot, conde de Saint-Simon, um dos teóricos franceses do
socialismo utópico, orientando-o para o estudo das ciências sociais; dele recebeu ideias básicas como:
os fenômenos sociais, como os físicos obedecem a leis; e a de que todo conhecimento científico e
filosófico deve ter por finalidade o aperfeiçoamento moral e político do homem.
O ambiente em que viveu Comte era de confiança em relação à ciência, na medida em que
explicava e solucionava cada vez mais problemas e ganhava domínios que eram da religião. Isso deu
lugar a certo culto a ciência, o cientificismo, a transformação da ciência em ideologia, com a ideia de
que o mecanicismo 37 da ciência todo podia explicar e compreender. Foi nesse contexto que surgiu uma
nova filosofia, o positivismo, com a sua obra o Curso de filosofia positiva, em seis volumes. Outras
obras são Sistema de Política Positiva, 4 volumes, Discurso sobre o Espírito positivo e
Catecismo Positivista. O positivismo considerava a ciência como o estado de desenvolvimento do
conhecimento humano que superou tanto o estado primitivo de concepções míticas e religiosas com
intervenções de seres sobrenaturais como a substituição desses seres por forças abstratas. Com essas
novas ideias, acreditava ter descoberto uma lei fundamental em que as principais concepções passariam
sempre por três estados sucessivos com seus correspondentes métodos diferenciados. Esses estados
eram:
a) O teológico ou fictício, com seu método teológico; é o ponto de partida, com pesquisas na
natureza íntima do ser, nas causas primeiras e finais de todos os fenômenos.
b) O metafísico ou abstrato com seu método metafísico como uma fase de transição; nessa fase, os
agentes sobrenaturais são substituídos por forças abstratas inerentes aos diversos seres; são forças
concebidas como capazes de gerarem todos os fenômenos.
c) O científico com seu método positivo; é o método que se aplica em um estado fixo, o da ciência;
corresponde ao estado positivo do conhecimento, um estado definitivo. O ser humano, ao
reconhecer que é impossível obter o absoluto e de que não se tem sucesso na procura de origens e
destinos do universo, de causas profundas das coisas, dedica-se à descoberta pelo uso bem
combinado do raciocínio e da observação de leis e suas relações que não variam de sucessão e de
similitude.
Dois critérios (aspectos) se destacam nesse método, o histórico e o sistemático. Outras ciências
antes do estudo social, segundo Comte, haviam atingido a positividade, tais como: a matemática,
a astronomia, a física, a química e a biologia. Assim como nestas ciências, em sua nova ciência
chamada física social (depois a Sociologia), Comte usaria da observação, da experimentação, da
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Fundamentos da pesquisa
Volume 1

comparação, da classificação e da filiação histórica como método para a obtenção de dados reais.
Em sua visão, os fenômenos sociais, assim como na física, obedeceriam a leis gerais.
Comte apresentou, no início, uma classificação das ciências, mas, depois e de maneira diferente,
as ciências seriam reduzidas à física, inclusiva a mais recente, a sociologia (física social). Dessa
forma se teriam físicas celeste, terrestre, orgânica e social nas quais se encontrariam as grandes
categorias de fenômenos: astronômicos, químicos, fisiológicos e sociais.
A filosofia positivista de Comte, uma forma de captar e justificar o sentimento da época, negava
que a explicação de fenômenos naturais e sociais tivesse um só princípio. Nessa filosofia se
eliminariam a consideração de causas dos fenômenos atribuídas a Deus ou a natureza (causas mais
profundas), voltando-se para a pesquisa de leis, vista como relações constantes entre fenômenos
observáveis.
Um pressuposto básico do positivismo é o de que há uma regularidade no funcionamento da
natureza e de que ao homem cabe descobrir, com exatidão, as leis naturais invariáveis, às quais estão
submetidos todos os fenômenos. Essas leis deveriam traduzir, com rigor, as condições em que
determinados fatos se gerariam. Isso seria possível de ocorrência mediante a observação e estudo das
relações entre os fenômenos. Nesse processo, as mesmas causas produziriam sempre os mesmos
efeitos, sem lugar na natureza para a improvisação: isso é o determinismo da ciência tradicional (a que
atende aos pressupostos da perspectiva cartesiana), uma consequência do mecanicismo moderno, com
notáveis defensores, entre outros Laplace.
A visão positivista de Comte provocou reações e movimentos antipositivistas, tais como: o
romantismo (movimentos intelectuais que, a partir do final do século XVIII, determinou o domínio do
sentimento sobre a razão e da imaginação sobre a análise crítica) e o irracionalismo (atitude ou
corrente filosófica que sustentava que o fundamento do conhecimento ou os valores da conduta
humana não são tributários da razão ou escapam, total ou parcialmente, à razão; seria a razão que
perdeu o rumo, sustentado em o ceticismo em que a verdade e o conhecimento não existem, mas
apenas se têm pontos de vistas e o relativismo, em que a verdade e o conhecimento existem, mas cada
época, cada cultura e mesmo cada indivíduo, tem a sua verdade e o seu conhecimento: tudo pode ser
verdade, dependendo do contexto). Tratava-se de algo inexplicável que definiria ou influenciaria um
novo perfil da filosofia européia no século XX.
Em quanto o positivismo exaltava a ciência, o romantismo e irracionalismo a deploravam. Pode-
se dizer que o conhecimento positivo tem como fundamento "ver para prever" e onde a previsão
científica caracteriza esse pensamento. O espírito positivista, segundo Comte, tem a ciência como
investigação do real. No social e no político, o positivismo passaria o poder espiritual para o controle
do cientista.
181

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Filó sof o s e cien t ist a s a o lo ng o da hist ó ria da civiliza ção

2.7.4 John Stuart Mill: 1806 - 1873


Nascido em Londres. Filho de filósofo e historiador, considerado superdotado e com dificuldades
de relacionamento social. Foi um dos filósofos e economista ingleses mais influentes do século XIX;
defensor do utilitarismo, com ideias liberais, porém, preocupado por questões sociais (defendia a
liberdade sindical, o cooperativismo....). Sua principal obra foi Princípios de economia política com
algumas de suas aplicações à filosofia social, a mais completa síntese da teoria econômica de seu
tempo. As maiores contribuições à ciência se encontram na lógica, na psicologia, no direito e, em
especial, na economia e, em particular, no método científico. Procurou combinar o utilitarismo com o
socialismo para atingir o altruísmo como uma forma de superar o egoísmo. Suas ideias de utilitarismo,
mais amplas do que as de Bentham, serviram de base e foram aperfeiçoadas pelos primeiros
economistas utilitaristas como Jevons, Menger 38, Walras 39 e, com especial destaque pelas suas
contribuições básicas, Marshall, 40 expoente da Escola Neoclássica. A escola neoclássica ou
marginalista dominou o pensamento econômico por quase 50 anos, entre 1870 e a Primeira Guerra
Mundial; seus fundamentos eram: a teoria subjetiva do valor da utilidade marginal, a negação da teoria
do valor do trabalho e uma força reguladora, a concorrência, da atividade econômica, capaz de
estabelecer o equilíbrio entre a produção e o consumo.
S. Mill pode ser considerado um autor de transição entre o pensamento econômico antigo que
enfatizava a produção da riqueza e o pensamento econômico moderno ligado à distribuição da riqueza.
Considerava que as leis da produção não dependem do regime econômico-social em vigor, mas de leis
da distribuição; daí surgiu a conclusão de que no capitalismo é possível se ter uma distribuição justa,
sem o indissolúvel nexo entre produção e distribuição. Suas ideias econômicas refletiam a influencia
de vários pensadores mostrando, em sua evolução, algumas contradições; por conta disso, segundo
alguns historiadores, pode ser considerado um liberal clássico; para outros, um pré-socialista.
Na filosofia S. Mill foi um empirista orientado para gerar um sistema de conhecimentos
empíricos que pudessem ser utilizados tanto nas questões sociais e morais como nas ciências. Para tal
fim começou por resgatar a doutrina das suas reminiscências cépticas humanas. A principal discussão
acerca dos fundamentos do conhecimento e da inferência está na sua obra System of logic, cujos seis
livros tratam da inferência dedutiva em geral, do conhecimento matemático, da indução, da
observação, da abstração e classificação, das falácias e das ciências sociais, políticas e morais. A
indução foi definida como “a operação de descoberta e de prova de proposições gerais” afirmando que
se as observações forem corretas, então “uma lógica completa das ciências será também completa dos
assuntos práticos”.
Afirmava que o mesmo método [indutivo] era eficaz não só para a pesquisa científica em suas
tarefas de descobertas, provas e, em especial, justificativas (explícita quando diz: “procedimentos para
testar hipóteses e supostas relações causais”), mas, para tomada de decisões em assuntos práticos. Em
System of logic apresentou quatro métodos indutivos e outro da combinação de dois desses métodos;
os métodos são: o da concordância; o da diferença; o dos resíduos; o da variação concomitante; e da
combinação da concordância e da diferença. Considerou que esses cinco métodos tinham apenas um
princípio, o da uniformidade da natureza ou da causação universal: “a proposição de que o curso da
182

Fundamentos da pesquisa
Volume 1

natureza é uniforme”; este é o princípio fundamental da indução com sua implicação ou suposto de o
futuro ser como o passado, mas com restrições compreendidas na proposição geral: a indução está
baseada no princípio da uniformidade e este último baseado na indução. Trata-se de uma proposição
que Mill desdobrou em duas:
a) todo evento tem de possuir uma causa, isto é, não há efeito sem causa; e
b) as causas semelhantes produzem (e sempre produziram) feitos semelhantes.
Seria incoerente aceitar a proposição “b” sem aceitar a proposição “a”, porém é coerente aceitar
“a” e rejeitar “b”; esta distinção é oportuna na consideração de pensamentos como os de Kant e
Hume; no pensamento de Mill a proposição “b” segue naturalmente “a” e a completa, pois as
proposições são indissociáveis na formulação do princípio.
A distinção que Mill estabeleceu entre conotação e denotação e entre o geral e o singular (...),
influenciou a semântica de Frege. Em sua obra Examination of Sir William Hamilton's philosophy
apresentou a indução como um fundamento da metodologia de descoberta de leis causais e a
epistemologia naturalizada; afirmou que a tentativa de compreender as operações mentais seria o
resultado da ação de leis conhecidas sobre os dados da experiência.
Sustentava que a indução era um processo mental com o qual se pode deduzir algo que é
conhecido e verídico em um caso particular ou em certos casos, sendo verídico em todos os casos
semelhantes. Elaborou a descrição clássica dos métodos da indução científica feita conforma a tradição
de Bacon; esses métodos são: os de semelhança ou concordância, os de diferenças, os de semelhança e
diferença e os de resíduos.
O pensamento indutivista clássico Bacon – Mill predominou no século XIX. Nele, colocava-se
em primeiro plano da metodologia da análise de teste e fundamentação da tese na forma de uma
hipótese. Essa hipótese era confrontada tanto com os fatos (dados) empíricos conhecidos (passado -
presente) como com fatos que seriam definidos posteriormente (pressuposto de evolução da hipótese
em termos de probabilidade) para explicar e prever. O método da fundamentação das generalizações
teóricas, adotadas como hipóteses com o auxílio da dedução de consequências empíricas comprovadas
é o método hipotético – dedutivo.
Na ética, S. Mill é conhecido, em especial pelas suas obras Utilitarianism / Utilitarismo e on
liberty / Ensaio sobre a Liberdade, clássicos do seu gênero pela sua combinação de hedonismo com
distinções de qualidade entre os prazeres, bem como pela mistura entre elementos de utilitarismo dos
atos e utilitarismo das regras. Da Liberdade é a defesa clássica do princípio da liberdade de
pensamento e de discussão, argumentando que o "único fim pelo qual a humanidade está autorizada,
individual ou coletivamente, a interferir na liberdade de ação de qualquer um dos seus é a sua própria
proteção".
Outras obras importantes que S. Mill escreveu foram Essays on some unsettled questions of
political economy, com clara influencia de David Ricardo e Principles of political economy /
Princípios de economia política em que começou a defender a propriedade provada (agricultores
irlandeses). Nessa obra afirmava que o ideal de desenvolvimento final vai além da democracia (...); o
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O rige n s e e vo lu çõe s da s ciên cia s e d a p esqu isa


Filó sof o s e cien t ist a s a o lo ng o da hist ó ria da civiliza ção

problema social do futuro será o de como reunir a maior liberdade individual de ação com a
propriedade comum das matérias-primas e dar uma participação igualitária de todos nos benefícios do
trabalho associado. Na tentativa de conciliar as ideias socialistas com os seus fundamentos utilitaristas
usou uma relação entre a religião e a moral na qual admitiu que o aperfeiçoamento intelectual do
homem servisse de base ao desenvolvimento social; essa relação de ecletismo do qual Mill é o melhor
intérprete,deu origem a principal crítica de Marx: isso é prova inconteste de ingenuidade numa
tentativa de "conciliação dos inconciliáveis".

2.7.5 Claude Bernard: 1813 – 1878


Nascido em Saint-Luliem, Rhône, França. Sucessor de Magendie 41 Suas pesquisas /
experimentos compreendiam áreas como a fisiologia da digestão, o metabolismo e a neurociência; na
medicina experimental recomendava Galileu, Bacon e Descartes. Responsável por uma descoberta
revolucionária do entendimento dos princípios fundamentais da vida orgânica, é o conceito de
homeostase ou da estabilidade controlada do ambiente interno; esse ambiente é composto pelas células
e os tecidos. Propôs: a fixidez do ambiente interno é a condição para a vida livre.
Bernard descobriu a correlação entre a atividade nervosa e o controle do meio interno mediante o
metabolismo, a circulação e a respiração; cem anos depois, deu origem à cibernética. Destaca-se pelo
método e pelas invenções de técnicas e aparelhos utilizados em fisiologia; dizia: “o laboratório é o
templo da ciência médica”, considerando o hospital como o vestíbulo da medicina científica, como o
primeiro campo de observação em que deve entrar o médico (SABBATINI, 2006).
Entre as obras de Bernard se destacam:
Introduction à l´étude de la medicine expérmentale / Introdução aos estudos da
medicina experimental. Nesta obra se sugere, pela primeira vez, o método experimental em suas três
fases: a observação, a hipótese e a experimentação. Relacionou causas observadas às experimentações
metódicas, gerando regras da ciência experimental: é a dialética entre o cientista que propõe questões à
natureza para, em seguida, mediante experimentos bem conduzidos, obter respostas capazes de
explicar como os processos ocorrem; em consequência, as experiências seriam fundamentais em
evidências empíricas e a matemática, em evidências intelectuais. Dizia que a lição dos fatos, durante a
pesquisa, são as observações que poderão modificar o raciocínio. Afirmava:
a) Para o estudo de um dado parâmetro no organismo, as outras variáveis deveriam permanecer
constantes; dessa forma estabeleceu um princípio da pesquisa experimental moderna; a base
metodológica de Bernard é central na teoria e prática da biomedicina.
b) A experimentação animal é um direito integral e absoluto. “O fisiologista não é um homem do
mundo, é um sábio, é um homem que está empenhado e absorto por uma ideia científica que
prossegue. Não ouve o grito dos animais, nem vê o sangue que escorre. Só vê a sua vida e só
repara nos organismos que lhe escondem problemas que ele quer descobrir".
184

Fundamentos da pesquisa
Volume 1

Os princípios da medicina experimental por Bernard estabelecidos se baseavam em dois


pressupostos: toda ciência biomédica vem do laboratório e todo experimento laboratorial
biomédico é legítimo. É o experimento realizado em animais estabelecendo, assim, o paradigma
da biomedicina moderna: o elemento central é a experimentação no animal intacto e não apenas
em partes onde as diferenças entre as espécies podem ser ignoradas por entender que as causas
dos fenômenos biológicos são comuns, enquanto que os meios de se produzir o fenômeno podem
ser diferentes; enfatiza a importância do método reducionista, sem que exista um modelo ideal,
mas um modelo disponível mais apropriado.
c) "O sábio só deve preocupar-se com a opinião dos sábios que o compreende e só tirar regras de
conduta da sua própria consciência".
Segundo Ramos (2005), foi a partir do século XIX, com a aplicação do método científico à
medicina, com os paradigmas de Bernard no campo individual e da Universidade de Berlim no
institucional, que a investigação passou a ser à base do desenvolvimento médico e no foco dos que
procuravam fazer acertar o ensino da profissão com as novas perspectivas da medicina científica.
Leçons de Pathologie expérimentale / Lições de patologia experimental com a aplicação do
método experimental na medicina

2.7.6 Karl Wilhelm Theodor Weierstrass: 1815 – 1897


Nascido em Ostenfelde, Alemanha. Tentou separar o cálculo da geometria com base em apenas o
conceito de números; nesse conceito definiu o número irracional independentemente de limite; a
conclusão foi a existência de um limite de urna sequência convergente tomando a própria sequência
como o limite para definir o número irracional: tratava-se de uma sequência ordenada de um agregado
de racionais.
Foram notáveis as contribuições de Weierstrass não só para a definição do número real, mas,
também para um melhor conceito de limites, compreendendo raciocínio e lógica em formulações
axiomático-dedutivas (p.ex., no teorema de Weierstrass e de Bolzano-Weiesrtrass: teorema das
sucessões monótonas e limitadas: funções contínuas em conjuntos compactos: toda função real
contínua definida em um subconjunto compacto atine seus valores máximo e mínimo) da teoria
(propriedades de Weierstrass) de espaços abstratos para as funções contínuas de valor real.
Entre as contribuições de Weierstrass à ciência são ilustradas duas; a definição moderna de limite
dado por é: Uma funcão “ f “ possui um limite “ l “ no ponto “ a “ quando, dado qualquer  > 0, pode-
se encontrar um  > 0, tal que, se |x − a| < , então |f(x) − l| < ; e o problema de consistência do
sistema de axiomas para os números reais, mediante a teoria dos números irracionais aplicada em
muitos casos.
185

O rige n s e e vo lu çõe s da s ciên cia s e d a p esqu isa


Filó sof o s e cien t ist a s a o lo ng o da hist ó ria da civiliza ção

2.7.7 Karl Heinrich Marx: 1818 - 1883


Nascido em Trier (Treves), Alemanha. Com sua tese Sobre as diferenças da filosofia da
natureza de Demócrito e Epicuro, doutoro-se em direito pela Universidade de Iena. Foi economista
(do sistema capitalista), filósofo (da tecnologia) e socialista / sociólogo (um dos fundadores da
sociologia) de singular genialidade, influencia e humanismo, sob a influência da primeira crise do
capitalismo industrial (década de 1830) e a consequente crise política de 1848. Exerceu grande
impacto, não apenas no movimento operário mundial, mas, na própria sociedade, a ponto de ser difícil
analisá-la sem fazer referencia de sua contribuição em questões como o processo de coisificação,
mecanização e alienação / exploração do homem pelo homem (ARON, 1974).
No inicio de sua vida, tentou seguir a carreira acadêmica na Universidade de Bonn, mas, sem
êxito por ser considerado um teólogo progressista e ousado. Frustrado, dedicou-se ao jornalismo e pela
força intelectual de seus escritos terminou por incomodar e provocar os ânimos da burguesia
latifundiária tradicional da Prússia; por força do trabalho jornalístico abordou, pela primeira vez, temas
econômicos ao analisar a ruína de vinhedos e questões relativas ao robô de lenha praticado por
camponeses. Em Paris, apesar de contar com a ajuda de seu sempre amigo e colaborador Engels, mais
uma vez, pela ousadia e impacto de suas ideias, terminou mal; nesse período ocorreu a adesão ao
socialismo; entrou em contato com o movimento operário amadurecido e com revolucionários. Em
Londres passou por toda classe de dificuldades sendo auxiliado, de novo, pelo seu amigo Engels.
Marx dedicou-se ao estudo profundo de economia política, da sociologia e da história; a partir de
1844, juntamente com Engels, dedicou-se à fundamentação teórica do socialismo com o resultado de
Manuscritos econômico-filosóficos de 1844, abordando o problema da alienação: o homem
alienado não é mais o indivíduo entregue a um sonho religioso ou especulativo, mas o homem de uma
sociedade desumanizada e com fundamento na propriedade privada. Depois escreveu a Miséria da
filosofia, uma resposta ao socialismo utópico de Proudhon, 42 autor de Filosofia da miséria, e onde
as questões econômicas receberam um tratamento especial, incorporando a teoria ricardiana do valor
do trabalho (o salário que o trabalhador recebe é igual ao custo de produção).
A contribuição de Marx à metodologia, apenas exemplificando o caso da pesquisa em economia
política, tem como referência o pressuposto dos economistas do século XVII: todo é vivo: a população,
a nação, o Estado etc. No entanto, pela análise, descobrem-se relações gerais abstratas, tais como a
divisão do trabalho, do dinheiro, do valor etc. Uma vez determinados e analisados esses fatores
começam a surgir os sistemas econômicos que partem de noções simples como são: o trabalho, a
divisão do trabalho e a necessidade de valor de troca (...) até chegar ao Estado, á troca entre nações, ao
mercado mundial (...).
Para Marx, este é o método científico correto: o concreto é concreto porque é síntese de
múltiplas determinações e, por isso, é a unidade do diverso: trata-se do processo de síntese de seu
método científico, como sendo um resultado e não como um ponto de partida, embora reconheça seja
um ponto de partida da intuição (a representação é volatilizada numa determinação abstrata) e
representação (a determinação abstrata leva à reprodução do concreto pela via do pensamento,
contrário à ideia de Hegel: ilusão de conceber o real como resultado do pensamento).
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Fundamentos da pesquisa
Volume 1

A filosofia marxista (inclui as ideias de Engel e Lenin) acabou com a oposição do princípio da
gnoseologia à ontologia, da doutrina do conhecimento à doutrina da existência. Considerou o método
da ciência sob a perspectiva da dialética materialista como um método universal do conhecimento
porque ele é o reflexo no raciocínio teórico de leis gerais do desenvolvimento.
Suas principais obras foram: Manuscritos econômico-filosóficos; um conjunto de textos
escritos sob a influencia de economistas como Adam Smith, J. B. Say e David Ricardo. A
Sagrada Família. A ideologia alemão, escrito junto com Engels. A Miséria da filosofia é uma obra
polêmica.
O Manifesto do Partido Comunista foi escrito junto com Engels, considerado um dos tratados
políticos de maior influência. No Manifesto (...), os autores sugerem um curso de ação para uma
revolução proletária e formas como o proletariado se organizar como classe social capaz de
reverter sua precária situação; traz críticas ao modo de produção capitalista e na forma como a
sociedade se estruturou; foi uma crítica ao capitalismo e à economia política como origem do
pensamento socialista marxista.
O Capital, publicado em três partes; a primeira, trata de mercadoria e dinheiro, tais como: os dois
fatores de mercadorias: valor-de-uso e valor-de-troca; o duplo caráter do trabalho e as formas do
valor; a segunda parte, após sua morte e publicada por Engels, trata da transformação do dinheiro
em capital; e a terceira parte trata da produção de mais - valia.
Contribuição à crítica da economia política. O marxismo tem seus fundamentos nesta obra e no
O Capital; depois recebeu contribuições, em especial de Lênin, líder e teórico da Revolução
Russa, em O imperialismo, etapa superior do capitalismo.
A teoria econômica marxista explica, com a metodologia marxista, como o modo de produção
capitalista gera a acumulação contínua de capital pela forma como ocorre a produção das mercadorias.
A produção resulta da combinação de fatores de produção e do trabalho humano, sendo que a
quantidade de trabalho socialmente necessária para produzir um bem é o que determinaria seu valor. A
expansão do capital, um fator de produção, seria explicada porque o trabalho produz um valor superior
ao do salário; a diferença entre o valor produzido (de venda do produto) e o salário pago (custo de
produção) ao trabalhados é a mais-valia: é o conceito central da teoria marxista, considerado a fonte
dos lucros e da acumulação capitalista.
Nesse conceito há duas formas, a mais-valia absoluta (aumento proporcional com o aumento do
número de horas da jornada de trabalho, mantendo-se constante o salário pago) e a mais-valia relativa
(dá-se com o aumento da produtividade, com a racionalização do processo produtivo e com o
aperfeiçoamento tecnológico; acrescentando que o uso de máquinas cada vez mais produtivas elimina
periodicamente parte da força de trabalho).
A filosofia de Marx, o materialismo 43 dialético, é baseada, na parte que corresponde ao
materialismo, em Demócrito e Epicuro e, na parte da dialética, em Heráclito, para superar a dialética
do idealismo, isto é, as limitações da doutrina filosófica que nega a realidade individual das coisas
distintas do eu, admitindo a ideia de Hegel. Entretanto, ao adotar a dialética hegeliana, substitui o devir
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das ideias, o espírito humano dessa dialética pelo progresso material e econômico. Ao final, o
materialismo dialético sustentava que o capitalismo (afirmação) provoca o proletariado (negação) e
essa contradição podia ser superada no futuro pela negação da negação, isto é, pela sociedade sem
classes.
Outro aspecto fundamental da filosofia marxista, compreendendo aspectos metodológicos, é a
interpretação do homem no contexto do materialismo histórico; é a aplicação ao estudo da evolução
histórica do homem, explicada pela análise de acontecimentos materiais - econômicos e tecnológicos.
Essa análise se inicia com o estudo das necessidades humanas na história que, na busca da satisfação,
luta contra a natureza e nela descobre como ser produtivo; com essa descoberta passa a ter consciência
de si, da realidade e a perceber que "a história é o processo de criação do homem pelo trabalho
humano".
Para Marx, a finalidade da história não é apenas interpretar os fatos, mas, transformar a
sociedade, uma vez que a história é a transformação da natureza humana. É na sociedade que se faz a
história para dar respostas aos problemas concretos; por isso, a história deve centrar-se nas análises dos
modos de produção existentes em cada etapa do desenvolvimento. Nesse processo, introduziu
conceitos básicos, entre eles, o conflito humano ou a luta de classe resultado das desigualdades
econômicas. Na análise de conflitos destaca o ponto chave de desigualdades da sociedade industrial
moderna, junto com o modo e a forma ideológica de manipular as ideias para que não seja percebido o
vínculo entre poder econômico, o poder político e sua influência na qualidade de vida de todos: a
alienação política e cultural.
Um ponto a destacar na ideologia marxista é o da dialética, influenciado por Hegel, mas, com
inversão de sua concepção; enquanto Hegel, entre outros pensadores de sua época, postulava a crença
no absoluto de um estado, das ideias, Marx colocou a produção material como a base da sociedade de
uma época histórica criadora da subjetividade. Afirmava, não é o conhecimento espiritual, as ideias,
que mudam a existência e a vida social, mas, o contrário, com a atividade prática, com a produção, o
corpo social transforma a sua subjetividade. Contudo, a relação da produção prática e material não
seria determinística nem reducionista como poderia parecer. Existe uma relação dialética entre essas
duas entidades. No materialismo dialético se associa o materialismo ao conceito de uma dialética 44
visto como a luta entre ideias opostas sobre diversas formas de forças sociais.
A dialética marxista postula que as leis do pensamento correspondem às leis da realidade
(pensamento e realidade a um só tempo, compreendendo a contradição), sendo que a matéria e seu
conteúdo histórico ditam a dialética. A contradição dialética não é apenas contradição externa, mas
unidade das contradições e de elemento de identidade, definida como: “dialética é a ciência que mostra
como as contradições podem ser idênticas, como passam uma na outra, mostrando também porque a
razão não deve tomar essas contradições como coisas mortas (...), mas, como coisas vivas, móveis,
lutando uma contra a outra (...)", sendo que as situações contraditórias são tidas na história com suas
parcelas de verdade e de erro, sem se misturar.
Os elementos do método dialético são: a tese, afirmação ou situação inicial, proposição
intelectual; a antítese, oposição à tese ou recurso para enfatizar conceitos envolvidos, às vezes
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Fundamentos da pesquisa
Volume 1

relacionado com o paradoxo; do conflito entre tese e antítese surgiria a síntese, uma nova situação com
elementos resultantes desse embate. A dinâmica: tese, antítese e síntese, expressavam a contundência
da dialética, mostrando que todo é o resultado de lutas de ideias e forças que gera, na síntese, a
realidade.
Com base na interpretação da história e da sociedade burguesa Marx definiu bases
metodológicas e epistemológicas da pesquisa: o método materialismo histórico-dialético de inegável
valor para a compreensão da realidade histórica. Seu ponto de partida era, sempre, o real, um fato
concreto, para elaborar um conhecimento que depois seria inserido na realidade para observar (testar)
as relações e conexões que haviam sido elaboradas. Dessa forma, para compreender um fato social
seria necessário entender as bases em que os sujeitos estariam inseridos e como se produziriam suas
consciências (atuações, decisões...), bem como levar em consideração fatores como a luta de classe, a
dominação e a alienação associadas ao fato correspondente.

2.7.8 Louis Pasteur: 1822 – 1895


Nascido em Dole, Jura, França. Iniciou seus estudos em Arbois e Besançon, transferindo-se,
depois, para a Escola Normal Superior. Foi professor de química em Estrasburgo e Paris. Expôs a
teoria germinal das enfermidades infecciosas, segundo a qual toda enfermidade infecciosa tem sua
etiologia num micróbio com capacidade de propagar-se; o combate à doença deve ser feito pelo
combate ao micróbio, à causa. A criatividade do pesquisador funciona e é mais eficientemente,
aplicada – útil, quando ele conhece o problema; conhecer o problema da investigação é compreender
suas causas e não apenas seus sintomas, o ambiente em que ocorre e evolui a doença, seus efeitos (...).
Dentre os pensamentos do Pasteur dois são destacados: “É indispensável que as aplicações dos
descobrimentos científicos se façam de acordo com normas morais” e “há ciência e há aplicações da
ciência; essas duas formas de atividades estão unidas como a árvore ao fruto”. Isso pode ser traduzido
como desenvolver a pesquisa em bases intelectuais (teóricas científicas), técnicas (pragmáticas),
operacionais (aplicáveis) e ético-morais, ao evidenciar e realizar uma missão social: aplicar o
conhecimento e a inovação ao bem-estar material e espiritual do homem; fazer que as informações e
tecnologias atinjam rapidamente o maior número de beneficiários; e contribuir para fins como os
pacíficos, de inclusão social, de geração de emprego e de melhorias na condição de vida.
Pasteur, em especial, rejeitou a ocorrência da abiogênese ou geração espontânea aristotélica.
Contra o argumento de Needham sobre a destruição do princípio ativo durante a fervura Pasteur
experimentou sua hipótese da biogênese com frascos de “pescoço de cisne” que permitiam a entrada do
ar e, ao mesmo tempo, minimizava a entrada de outros micróbios por via aérea; dessa forma
demonstrou que a fervura, em si, não tirava a capacidade dos líquidos de manterem a vida, bastaria que
organismos fossem introduzidos.
Mais tarde, com esporos de bactérias em membranas resistentes ao calor, demonstrou
experimentalmente que apenas a exposição prolongada ao calor seco, tostador, era um processo
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eficiente de esterilização. A refutação da geração espontânea. Continua por se provar o contrário como
uma hipótese como: é possível que a vida surja espontaneamente de matéria sem vida.
A aceitação de uma das hipóteses experimentais de Pasteur foi a origem da teoria de que todos
os organismos surgem apenas de organismos vivos pré-existentes: a lei de biogênese. Essa lei não se
refere à origem química da vida, a biopoeise.
De certa forma, muitas outras teorias e hipóteses tiveram base nas descobertas de Pasteur, um
dos fundadores da biologia moderna. Alguns exemplos delas para exemplificar o desenvolvimento da
ciência são: a hipótese de Oparin – Haldane: em ambiente aquoso, os compostos orgânicos sofrem
reações em níveis crescentes de complexidade molecular responsáveis por agregados colóides; a
hipótese de Urey-Miller: os agregados colóides em diversas condições atmosféricas são responsáveis
pela origem de aminoácidos e outros “tijolos” básicos da vida; a hipótese de Sidney Fox: os “tijolos”
básicos da vida se juntam por simples aquecimento dando origem as protenóides como são moléculas
polipeptídicas; a subsequente hipótese: os aminoácidos e pequenos peptídeos podem formar
membranas esféricas fechadas, microesferas capazes de absorver moléculas presentes no seu ambiente
e formar estruturas maiores na forma de protuberâncias que podem se separar e crescer
individualmente; e as hipóteses de Manfred Eigen (...), de Sol Spiegelman (...), de Tomas Gol (...) e de
Caim – Smith (...), entre outras.
Outro exemplo notável de uma sequência de hipótese e teorias científicas se encontra no campo
da genética, ilustrado na ordem histórica em que eventos ocorreram (MATTE, 2005; complementado):
1859. Darwin 45 publicou o livro A Origem das Espécies, em que estabeleceu sua teoria: as
espécies se modificam pela ação seletiva do ambiente sobre as variações existentes na população.
Anos mais tarde publicou Observações acerca de uma classificação étnica dos idiotas
onde afirmava que os traços mongolóides presentes em indivíduos com Síndrome de Down eram
produto de uma degeneração que determinava o surgimento de características típicas de raças
inferiores.
1865. Mendel, 46 formulou a Lei da Transmissão dos Caracteres Hereditários, após a realização e
análise experimentos de hibridação com ervilhas-de-cheiro (Lathyrus sp), cultivadas em seu
jardim. Os resultados passaram despercebidos pela comunidade científica, por aproximadamente
30 anos, ofuscados pela atenção à teoria da seleção natural de Darwin. Somente em 1900, três
cientistas trabalhando independentemente, o holandês Hugo de Vries, o alemão Carl Correns e
o austríaco Erich von Tscheermack, reconheceram as descobertas de Mendel: a transmissão de
características hereditárias era feita por meio de fatores presentes nos gametos, os genes: leis de
Mendel, sustentadas pela matemática na lei da segregação, (lei da variação independente). Não
existe herança por combinação pois os caracteres permanecem diferenciados e intactos.
1871. Friedrich Miescher (1844 – 1895; médico suíço, um dos primeiros a trabalhar com química
dos tecidos e composição dos leucocitos). Descobriu a nucleína, presente em espermatozóide de
salmão, substância que compõe o núcleo das células, o DNA, porém ainda não visto como
portador da informação genética.
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Fundamentos da pesquisa
Volume 1

1879. Flemming denomina cromatina o material corável do núcleo da célula. É composta em


grande parte de DNA, mas não se conhece sua estrutura química. A cromatina de Flemming e a
nucleína de Miescher tem a mesma estrutura.
1883. Galton se dedica ao estudo da hereditariedade biológica e cria o termo eugenia e Weissman
demonstra a separação entre plasma somático e germinativo.
1889. Altmann estabelece a natureza química do DNA: são ácidos nucléicos.
1892. Weismann, primeiro no núcleo, e posteriormente T. Boveri e W. Sutton (1903) no
cromossomo, os que individualizaram os elementos responsáveis pela transmissão hereditária,
que em 1909, W. Johansen chamará gene.
1908. Godfrey Harold, matemático inglês e Wilhelm Weinberg, médico alemão, publicaram o
teorema fundamental da genética de populações: o teorema / princípio de Equilíbrio de Hardy-
Weinberg; é a base da genética de populações: afirma que, em uma população mendeliana, dentro
de determinadas condições, as frequências alélicas permanecerão constantes ao passar das
gerações; independente de um de um gene ser raro ou frequente, sua frequência permanecerá a
mesma com relação aos outros desde que essas condições sejam mantidas; aparentemente ou por
intuição, poder-se-ia supor que alelos raros se tornariam cada vez mais raros e que alelos
frequentes aumentassem cada vez mais sua frequência, simplesmente por já serem raros ou
comuns, mas, o princípio de Hardy-Weinberg demonstra matematicamente que isso não ocorre.
1920. R. Fuelgen demonstraram que os genes são agrupados nos cromossomos, mas o DNA não é
visto como veículo da transmissão hereditária.
1928. G. D. Karpechenko, genetista russo produziu a primeira planta poliplóide de maneira
artificial cruzando rabanete (Raphanis) e couve (Brassica), dando a uma nova espécie, a
Raphanobrassica, que era estéril. A nova “espécie” apresentava a raiz da couve e as folhas de
rabanete; mais tarde conseguiu, por meio de duplicação genética e a partir da segunda geração,
que a “rabanacouve” fosse fértil. Foi a primeira hibridação intergenética que deu origem a uma
nova espécie.
1929. P.A. Levene demonstra que em todas as células animais e vegetais está presente DNA
(ácido desoxirribinucléico) ou RNA (ácido ribonucléico), contribuindo para o conhecimento da
composição química do DNA.
1931. S. Wright desenvolve uma teoria evolutiva ampla que compreendia seleção,
endocruzamento, fluxo gênico e derivação genética.
1942. E. Mayr elucida a natureza da variação geográfica e da especiação.
1944. O. T. Avery, C. McLeod e M. McCarty, trabalhando com o princípio de transformação de
Pneumoccocus demonstraram que o responsável pelo componente hereditário é o DNA.
1946. M. Delbruck demonstrou a existência de recombinação em vírus.
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1949. L. Pauling e H. Itano identificaram uma alteração na hemoglobina, detectada por uma
diferença na sua mobilidade eletroforética, como a causa subjacente da anemia falciforme.
1951. M. Wilkins e R. Franklin determinaram a constante cristalográfica e interpretaram as
imagens de difração obtidas com cristais de DNA.
1952. M. Chase e A. Hershley demonstraram experimentalmente que o DNA transmitia as
características hereditárias.
1953. J. Watson e F. Crick definiram a estrutura de dupla hélice do DNA: o ácido
desoxirribonucléico, como sendo a base molecular da hereditariedade, indispensável para a
síntese de proteínas.
1956. Tijo e Lavan demonstraram que o número correto de cromossomos da espécie humana é 46.
1957. F. Crick formulou o "dogma central" de uma nova teoria dos processos vitais: DNA à RNA à
proteína.
1958. A. Kornberg isolou a DNA polimerase, enzima responsável pela duplicação do DNA de
Escherichia coli.
1959. J. Lejeune determinou a causa genética da Síndrome de Down, um cromossomo 21 extra.
1961. F. Jacob e J. Monod decifraram os mecanismos de regulação gênica em procariotos.
M. Lyon propôs que a compensação de dose nas fêmeas humanas era obtida pela inativação de
um dos cromossomos X, conhecido como corpúsculo de Barr.
L. Hayflick estabeleceu que células normais em cultura possuíssem uma capacidade finita de
divisões, cerca de 50: Limite de Hayflick com implicações em processos como os de
envelhecimento.
1964. M. Nirenberg, R. Holley e G. Khorana, decifraram o código genético, a linguagem que
permitiu ao DNA produzir uma proteína.
Zuckerkandl e Pauling propusseram a existência de um relógio molécula: a taxa de evolução
molecular é constante no tempo. Isto possibilitou a utilização da análise de proteínas para
determinar as épocas de divergência entre as espécies e reconstruir a filogenia dos organismos.
1967. A. Wilson e V. Sarich, mediante a comparação da estrutura de certas proteínas sanguíneas,
estimaram que humanos, chimpanzés e gorilas divergiram a partir de um ancestral comum há 5
milhões de anos.
1968. F. Anderson teorizou a possibilidade de combater as doenças hereditárias introduzindo no
organismo o gene correto ou substituindo aquele defeituoso, uma antecipação da terapia gênica,
tese / artigo que o New England Journal of Medicine se recosou a publicar.
M. Kimura lançou a teoria neutralista da evolução: a maior parte das mutações não tem efeitos
deletérios significativos e, portanto, não estão sujeitas a ação da seleção natural.
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Fundamentos da pesquisa
Volume 1

1969. Edelman determinou pela primeira vez a sequência de aminoácidos de uma proteína, a
Imunoglobulina G.
1970. G. Khorana sintetizou quimicamente e construiu o primeiro gene.
D. Baltimore descobriu a existência da transcriptase reversa, capaz de transformar RNA em
DNA.
P. Ramsey defendeu a cirurgia genética para eliminar deficiências genéticas, mas, posiciono-se
contra o uso de tecnologias reprodutivas.
1971. P. Berg, W. Gilbert e F. Sander por seus estudos sobre sequenciamento de DNA,
levantaram o primeiro alarme sobre a manipulação genética e suspenderam seus experimentos; o
resultado foi a criação de um comitê de especialistas para avaliar os valores e riscos da
manipulação genética.
1972. Surgiu o DNA recombinante: P. Berg utilizou pela primeira vez enzimas de restrição para
cortar e reunir pedaços de DNA de espécies diversas.
N. Eldredge e S. J. Gould sugeriram que a evolução ocorre aos saltos e não de maneira linear,
numa teoria conhecida como Equilíbrio Pontuado.
1973. A.M. Olovnikov, cientista russo, propus uma teoria de envelhecimento associada a perda de
telômeros, observando que as células perdem a extremidade dos cromossomos a cada ciclo de
replicação.
S. Cohen, A.Y. Chang, H. Boyer e R.B. Helling desenvolveram a técnica de manipulação
genética: a chave biológica para cortar e reunir o DNA seriam as enzimas de restrição, usadas
como bisturi. As bactérias servirem para multiplicar os pedaços ou o pedaço obtido com as
enzimas.
S. Cohen e A.Y. Chang realizaram um experimento com o qual superavam uma barreira
biológica ao introduzirem uma molécula de DNA de sapo na bactéria E. coli que começava a
produzir, não obstante a distância evolutiva, o gene estranho. A possibilidade de utilizar a técnica
para inserir genes de vírus tumorais em E. coli e verificar como exercem seus efeitos
cancerígenos suscitou o temor entre os cientistas de que a bactéria possa transformar-se em um
organismo.
1975. W. Gilbert, F. Sanger e A. Maxim desenvolveram uma técnica que permitiu determinar a
exata sequência das bases que compõe o gene e ler o código genético.
Gurdon demonstrou o desenvolvimento de uma larva a partir de um núcleo de sapo adulto.
1976. Varmus e Bishop revelam a existência de oncogenes, genes dormentes capazes de causar
câncer. Clonagem (isolamento) do primeiro gene humano, o gene da beta-globina.
1977. S. Weismann identificou a mutação genética responsável pela anemia falciforme: o
primeiro gene defeituoso a ser decodificado e clonado.
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A E. coli foi utilizada para clonar por primeira vez um hormônio humano, a somatostatina, pela
Genentech. Sanger descreveu a sequência completa de um DNA viral.
R. Roberts e P. Sharp descobriram independentemente os íntrons, sequências intervenientes
que interrompem os genes dos organismos eucariotos.
Foi feita a localização de um gene humano por hibridização molecular.
O gene da alfa-globina é localizado utilizando sondas construídas a partir de beta-globina.
1978. Com o DNA recombinante a Genentech clonou e sintetizou, em bactérias manipuladas em
laboratórios, a insulina humana, sendo, quatro anos depois, comercializada.
Foi construída a primeira biblioteca genômica humana, com clonagem de DNA humano em
vetores.
Foram utilizados métodos moleculares (RFLP e Southern) para diagnóstico pré-natal de Anemia
Falciforme.
1979. Genentech clona o gene do hormônio de crescimento humano.
L. Shettles publicou Diploid nuclear replacement in mature human ova with cleavage, em
que relatou a transferência in vitro do núcleo de uma espermatogônia para um oócito maduro que
foi mantido até o estágio de mórula, estágio pré-implantação.
1980. M. Cline, oncologista americano, inseriu na medula óssea de dois doentes com talassemia
genes de hemoglobina manipulados para corrigir o defeito gênico, “violando” (quebra de
paradigma), com isso, várias regras de pesquisa com seu protocolo.
Prusiner sugeriu a existência de proteínas infectantes (prions), aceitas 15 anos depois como
sendo responsáveis pela Encefalopatia espongiforme Bovina (Síndrome da Vaca Louca) e pelo
Kuru e Doença de Creutzfeld-Jacob em humanos.
1981. S. Anderson publicou a sequência completa do DNA mitocondrial humano.
1982. R. Palmiter e R. Brinster, realizaram o primeiro experimento de manipulação genética a
partir de células germinais animais: o gene para hormônio de crescimento de rato (Rattus spp)
foi inserido em camundongos (Mus musculus), gerando um animal de dimensões gigantes. Essa
técnica permitiu produzir cobaias transgênicos para estudar doenças do homem.
J. Kemp e T. Hall transferiram um gene de feijão (Phaseolus vulgaris L.) em um girassol
(Helianthus sp. ) e obtiveram um híbrido que eles chamaram de "sunbean"; nesse experimento
foi utilizado, como veículo, a bactéria Agrobacterium thumefaciens.
Foi produzida a primeira droga de DNA recombinante (insulina humana) comercializada.
1983. A. Jeffreys descobriu que o material genético de um indivíduo continha sequências únicas
de nucleotídeos, os elementos que compõe o DNA. Quando a amostra de DNA foi "digerida" por
uma enzima e separada em um gel, se formou uma série de bandas segundo um padrão que
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Fundamentos da pesquisa
Volume 1

mudava de uma pessoa para outra, produzindo uma impressão genética que podia ser utilizada
para a identificação de indivíduos.
Foi feita a primeira localização de um locus autossômico relacionado com uma doença e cujo
gene e proteína são desconhecidos: Doença de Huntington no cromossomo 4.
Foi descoberto o gene do Retinoblastoma e formulado o conceito de anti-oncogene (genes
supressores de tumor).
1984. Nasceu na Inglaterra um híbrido entre cabra e ovelha, obtido a partir da justaposição de
embriões desses dois animais.
1985. McGrath e Solter desenvolveram a técnica de transferência nuclear de embriões de
mamíferos.
No braço longo do cromossoma 7 foi localizado o gene da Fibrose Cística, uma doença genética
devido a um erro protéico que apresentava um alto nível de heterozigotos na população
caucasóide.
Foi feito o primeiro diagnóstico pré-natal, por RFLP, de uma doença cujo gene e a proteína são
desconhecidos: Distrofia Muscular de Duchenne.
K. Mullis desenvolveu o método de PCR (Reação em Cadeia da Polimerase).
Pela primeira vez é aceito um teste de DNA para determinar uma identidade em uma instância
judiciária.
1986. Willadsen demonstrou o desenvolvimento de uma ovelha adulta a partir de um núcleo de
embrião de oito células.
1987. Nasceu em Harvard, nos EUA, o oncomouse, o camundongo manipulado geneticamente para
que tivesse uma maior suscetibilidade ao câncer, importante modelo animal para a pesquisa.
Cresceu nos EUA a primeira planta de tomate (Solanum lycupersicum) manipulado Greider e
Blackburn descobriram a telomerase, enzima responsável pelo alongamento dos cromossomos
do protozoário Tetrahymena após cada divisão celular. Dois anos depois a mesma enzima é
caracterizada no homem e torna-se fundamental nos estudos de câncer e de envelhecimento.
1988. É lançado nos EUA o Projeto Genoma Humano, patrocinado pelo NIH (National Institutue
of Health) e DOE (Department of Energy), com a proposta de mapear o patrimônio genético do
homem.
Paralelamente surgiu um organismo de coordenação internacional chamado HUGO (Human
Genome Organization) para sintonizar o trabalho e recolher em um banco de dados centralizado,
o Genome Database, o conhecimento adquirido.
1989. L. Tsui e F. Collins identificaram e decifraram o gene da Fibrose Cística, uma das cerca de
5000 anomalias genéticas conhecidas.
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Filó sof o s e cien t ist a s a o lo ng o da hist ó ria da civiliza ção

1990. É posto em prática o diagnóstico pré-natal e a pré-implantação no embrião concebido com


fertilização in vitro.
French Anderson realizou, pela primeira vez, o tratamento de uma doença genética, deficiência
de Adenosina Deaminase (ADA), por terapia gênica.
Foi descrito o primeiro retrotransposon humano.
Foram descobertas as mutações instáveis: repetições de trinucleotídeos que variam de tamanho
entre as gerações.
Surgiu a possibilidade de diagnóstico preditivo para doenças de início tardio como Doença de
Huntington e Distrofia Muscular de Becker.
1991. Nos EUA o Congresso inicia o exame de um projeto de lei dedicado à preservação das
informações concernentes ao genoma humano (Human Genome Privacy Act): é proibido difundir
informações genéticas sem o prévio consentimento escrito dos interessados. A exceção é feita em
situações de emergência médica ou questões criminais.
Foi lançado por Cavalli-Sforza e outros geneticistas o Projeto da Diversidade do Genoma
Humano, que pretende estudar e preservar a herança genética de populações humanas. Seus
objetivos relacionam-se a estudos sobre as origens humanas e movimento de populações pré-
históricas, adaptação a doenças e antropologia forense.
1992. Surgiram modelos animais para Fibrose Cística, criados por knock-out.
Um menino calabrês com deficiência de Adenosina Deaminase (ADA) foi submetido pela
primeira vez na Europa à terapia gênica.
Foram gerados pela técnica de manipulação genética os primeiros porcos transgênicos para obter
órgãos para transplantar no homem (xenotransplante).
J. Hall e R. Stillman conseguiram a clonagem de embriões humanos a partir da divisão de um
óvulo fecundado mas interrompiram o processo em sua fase inicial.
Blau descobriu que núcleos de células não musuculares passam a produzir proteínas de músculo
quando colocados em citoplasma de célula muscular.
1994. A indústria biotecnólogica Calgene obteve do FDA a permissão de colocar no mercado
tomates manipulados geneticamente, cujo processo de maturação foi retardado pela
biotecnologia.
Uma equipe belga anunciou conseguido fazer nascer a partir de um casal de portadores Fibrose
Cística um menino portador sadio da doença.
A fecundação foi feita com microinjeção de espermatozóide no ovócito e com diagnóstico de
pré-implantação do embrião.
M. Skolnick isolou o gene BRCA1, envolvido no câncer de mama e ovário. Iniciam nos EUA as
primeiras testagens seguidas por "mastectomias preventivas".
196

Fundamentos da pesquisa
Volume 1

1995. Foi publicada a sequência completa do primeiro organismo de vida livre, a sequência do
Hemophilus influenzae, com 1743 genes e 1,8 milhões de pares de bases.
1996. Foram conhecidos 6300 genes humanos (5 a 10% do total estimado), a metade deles
relacionados as doenças. Foram lançados testes genéticos com potencial para detectar doenças
genéticas em 42%.
1998. O físico americano R. Seed, pioneiro na transferência de embriões, anunciava que pretendia
clonar seres humanos utilizando a técnica desenvolvida na Escócia.
J. Shay e W. Wright publicaram um trabalho em cultura de células. (...)

2.7.9 James Clerk Maxwell: 1831 – 1879


Nascido em Edimburgo, Inglaterra. Estudo em Edimburgo e no Trinity College, matemática.
A maior contribuição de Maxwell para a ciência foi a de ter estabelecido bases para a unificação
de fenômenos, até sua época, consideradas isoladamente, os óticos dos eletromagnéticos, categorizados
em domínios independentes e com explicações em teorias distintas. Suas pesquisas em
eletromagnetismo receberam influencias de Faraday, no que se refere à transmissão eletromagnética,
de Thomson, no que diz às analogias formais (heurística) entre domínios diferentes de fenômenos
com são a eletrostática e a propagação do calor, e de matemática aplicada às concepções de Faraday.
Em suas pesquisas, o que se destaca neste livro, é o aspecto metodológico: relacionar
experimentalmente aspectos físicos a conceitos / teorias matemáticas, utilizando o método de
analogias, num domínio de fenômenos pouco desenvolvido teórica e experimentalmente, evitando-se,
por um lado, a “matematização” (de Lagrange-Fourier) que pudesse inibir a intuição física (de
Laplace) e, por outro lado, a explicação parcial de fenômenos com base em hipóteses com incertezas.
Pelo método de analogia procurou evidenciar a similaridade parcial entre as leis de uma ciência e
as de outra, o que fez cada uma delas ilustrar a outra, tendo como precursor as analogias entre as
equações para a propagação do calor nos sólidos e as equações eletrostáticas de Thomson. Depois
aplicou o método de analogia em experimentos em áreas como eletromagnética, hidrodinâmica e
eletrocinética, sem ter a pretensão, segundo sua manifestação, de desvendar relações de causalidade,
mas de dar certa concretude ao formalismo matemático, de outro modo, abstrato.
Em outros experimentos físicos, introduziu hipóteses mecânicas, fora do contexto analógico,
para examinar os fenômenos magnéticos, de um ponto de vista mecânico, e determinar movimentos
capazes de se reproduzirem experimentalmente.
Maxwell afirmava que uma ação que se transmite de forma contínua (p.ex., a corrente elétrica
em condutores) pressupõe um meio que a suporte, diferenciado, nesse processo, três níveis ontológicos
componentes de sua teoria; esses níveis são: o estado mecânico que compreende o meio; a causa desse
estado (movimento); e o mecanismo articulador dos supostos movimentos no meio, com valores
epistemológicos distintos a sua teoria quando se refere o cada um desses níveis. Define várias hipóteses
197

O rige n s e e vo lu çõe s da s ciên cia s e d a p esqu isa


Filó sof o s e cien t ist a s a o lo ng o da hist ó ria da civiliza ção

com relação aos elementos do meio não se encontrarem em equilíbrio, com o surgimento de forças
mecânicas sobre corpos magnetizados e sobre os corpos que transportam correntes elétricas; os testes
dessas hipóteses lhe permitiram gerar estados de tensão e explicar causas.

2.7.10 William Stanley Jevons: 1835 – 1882


Nascido em Liverpool, Inglaterra. Estudou lógica, filosofia moral, botânica e economia. Foi um
dos fundadores da economia neoclássica (os outros fundadores foram Menger e Walras), sendo seu
pensamento influenciado pelo utilitarismo. Dentre dessa teoria são numerosos os conceitos; exemplos
deles são: a taxa de juro é determinada pela produtividade marginal do capital; os agentes econômicos
não interagem apenas trocando bens, mas, transferindo males; tales males provocam divergências entre
custos privados e sociais que lema à ineficiente alocação de recursos.
Entre suas contribuições se destacam: o desenvolvimento da teoria da utilidade marginal como
parte básica para se entender o comportamento do consumidor e conceitos importantes da metodologia
de pesquisa contidos em sua obra The principles of science / Princípios da ciência, tais como os de
lógica, argumentação, probabilidade, dedução e indução. Uma parte dessa obra, livro IV, Introductive
investigation, trata da prática científica, com exemplos da física, apesar de Jevons não ser físico e nem
desenvolver pesquisas em áreas próximas 47, mas, trouxe notáveis aportes em procedimentos
experimentais e teóricos da física.
A obra The principles (...) é uma referência de análise sistêmica embasada na prática científica.
Nessa obra, Jevons afirmava que o pesquisador – cientista não devia seguir o método indutivo
baconiano, já que o simples acúmulo de fatos era improdutivo. Argumentava que a pesquisa
experimental, a partir de um problema, era baseada em teorias ou hipóteses e em analogias, mas,
admitindo que a descoberta de um novo fato científico não estaria isenta de acidentes ou acasos,
citando exemplos como os da Galvani. 48 É importante considerar o conceito de analogia e seu papel
na descoberta científica.
Introduziu uma nova notação mais compacta pra representar classes, facilitando, assim, a
construção de expressões lógicas e notações de ideais; em sua obra Pure logic / Lógica pura, critica a
álgebra da de George Boole (1815 – 1846), considerando que o simbolismo matemático é, pelo
menos, não essencial; o sistema, restaurado em sua devida simplicidade, pode ser inferido sem que a
lógica seja parte da matemática. Esboçou um conceito hipotético-dedutivo do procedimento científico
com base na confirmação empírica, com os seguintes passos: formulação de uma lei geral a partir de
uma hipótese; deduções das consequências dessa lei; e comparação dessas consequências com o que é
observado.
Em sua Obra The coal question / A questão do carbono, observou que o consumo de carvão
aumentou depois da introdução da máquina de vapor, por James Watt, que utilizava carvão,
aumentando a eficiência desse recurso: é o paradoxo de Jevons.
198

Fundamentos da pesquisa
Volume 1

2.7.11 Ernst Mach: 1838 – 1916


Nascido em Chrlice, Áustria. Estudou e foi professor (matemática, física, filosofia e história de
ciência indutiva) nas Universidades de Viena, Graz e Charles de Praga. Foi filósofo, físico e
matemático que se destacou, principalmente, no campo da mecânica. Um dos primeiros a sustentar
pontos de vistas filosóficos em relação à física, em sua obra Die mechanik in ihrer entwicklung
historisch-kritisch dargestellt / A Mecânica, relato crítico e histórico do seu desenvolvimento.
Mostrou interesse por assuntos epistemológicos, conforme se observa em sua produção científica: The
scence of mechanics, The analysis of sensations e Popular scientif lectures. Era um positivista
minucioso, com conceitos que a maioria dos cientistas modernas compartilha, um deles é o de que na
ciência não há declaração admissível, a menos que ela seja empiricamente comprovada.
Mach, em seus trabalhos e com uma posição positivista lógica, considerou que o conhecimento,
em todas as suas manifestações, é um fenômeno biológico e parte da história do homem. Destacou-se
como físico, filósofo e psicólogo, com importantes contribuições (na forma de princípios) na ótica,
acústica, mecânica e dinâmica ondulatória.
Influenciado pela s teorias de Charles Darwin entendeu o conhecimento como um processo
contínuo de ajuste do pensamento com a realidade e dos pensamentos entre si, sem aceitar, a priori,
verdades eternas, mas, aquelas sujeitas à experiência. A ideia era: “todo o conhecimento é uma
organização conceitual com base em dados obtidos da experiência sensorial ou da observação”.
Considerou que o espaço e o tempo absolutos e parte da mecânica newtoniana eram traços de uma
etapa científica superada.
Einstein recebeu grande influencia de Mach e o cita como precursor, junto com Newton, Lorentz,
Plank e Maxwell, de aspectos que levariam à formulação da teoria da relatividade.
As leis naturais, segundo Mach, devem ser formuladas como relações funcionais, como
sensações, porém, sem o sentido de ilusão; tudo o que se pode conhecer da realidade seria a soma de
sensações observáveis; essas relações podem ser as de continuidade, coloração, dureza e extensão,
entre outras.
As coisas que parecem ser complexos de qualidades são relativamente constantes e homogêneas.
Os enunciados científicos, sobre essas coisas, são enunciados empiricamente verificáveis (por
observações do real, variáveis de acordo com os contextos) ou traduzíveis para uma linguagem
específica, de complexos de sensações. São enunciados que obedecem a princípios, tais como: as
únicas proposições genuínas (estritamente verdadeiras), são as verificáveis pelo método científico; as
supostas proposições de ética, metafísica e teologia não são verificáveis e, portanto, não são
estritamente significativas [de conteúdo científico]; as proposições de lógica e matemática são
significativas com verdades que resultam da análise e não de experiências; e o propósito da filosofia
não é para se ocupar da metafísica ou de outras atividades afins.
Uma descoberta a se destacada foi a do fenômeno fisiológico (bandas de Mach) que consiste na
tendência da vista identificar como brilhante e escuro as faixas que se encontram nos limites de áreas
fortemente iluminadas. Encabeçou estudos sobre a percepção cinética, a sensação associada ao
199

O rige n s e e vo lu çõe s da s ciên cia s e d a p esqu isa


Filó sof o s e cien t ist a s a o lo ng o da hist ó ria da civiliza ção

movimento e a aceleração; depois desenvolveu técnicas de ótica e fotografia, de medição e propagação


de ondas acústicas e sobre aerodinâmica para velocidade superior a do sonido descobrindo o cone de
Mach: uma onda de pressão de forma cônica que parte dos corpos em movimento que se move a
velocidade superior a do sonido; a relação entre a velocidade de um corpo e a velocidade de um sonido
é no número de Mach.
Mach introduziu e modificou conceitos de Newton no campo da mecânica, um deles foi a
rejeição do espaço absoluto como um conceito abstrato de valor universal para dar sustentação às leis
da dinâmica, proposição que parecia não-rejeitável, mas que, Max, dois séculos depois, ao introduzir
um princípio com implicações físicas e cosmológicas o modificou e estabeleceu bases da mecânica
eisteniana.
O princípio de Mach abordou o problema da inércia e pode ser sintetizado como: a massa
inercial não é uma característica intrínseca, mas, deve-se à ação de outras e inumeráveis massas do
universo; é um fundo de massas distantes do universo que permite estabelecer uma relação com a
inércia de um determinado objeto; é a partir desse fundo que se estabelecem relações com as forças de
inércia que experimento um determinado objeto: um objeto que gira no universo devido a sua inércia,
requer uma força que o acelere constantemente para o centro do giro, sem explicar, contudo, como
estrelas distantes contribuem na inércia observada; coube a Einstein explicar essa relação na lei
gravitacional.
Outra contribuição importante de Mach à ciência consta em uma de suas principais obras The
Science of Mechanics Os mecanismos da ciência, onde analisou não apenas uma tendência, mas
a necessidade de economizar esforços e maximizar a aplicação do conhecimento, dada a brevidade da
vida. Aponta a necessidade, em primeiro lugar, de conhecer as experiências já realizadas, não perdendo
tempo em repeti-las, mas, avançar como base nesse “estado do conhecimento”. Nessa economia da
ciência há interessantes aspectos que se relacionam com o método de pesquisa que poderão ser
aplicadas às mais diversas circunstâncias e realidades.

2.7.12 Charles Sanders Peirce: 1839 – 1941


Nascido em Cambridge, Massachussets, Estados Unidos da América. Estudou física e
matemática na Universidade de Harvard (ali criou um grupo, o Clube Metafísico, em que a maioria dos
membros era cientista) e química em Lawrence Scientific School. Lecionou na Universidade de John
Hopkins. Foi um filósofo e cientista excêntrico e solitário que estudou quase todos os tipos de ciências
de sua época, tais como: astronomia, linguística, filologia, história, psicologia experimental, entre
outras. É considerado como o mais original dos pensadores da América do Norte.
Foi o criador do pragmatismo, por ele descrito como “um método para determinar os
significados de palavras difíceis em campos filosóficos como o da lógica simbólica (lógica como
semiótica), ética, metafísica, estética, religião e outras concepções abstratas”. A doutrina filosófica, o
pragmatismo, fundada por ele, seria: “uma atitude, uma orientação fora de qualquer teoria particular,
200

Fundamentos da pesquisa
Volume 1

que consiste em desviar o olhar de tudo o que é causa primeira, primeiro princípio, categoria, suposta
necessidade, voltando-o para os resultados, para as consequências”.
A concepção da lógica como semiótica de Pierce é mais ampla do que a tradicional concepção de
ciência dos signos, a semiótica como processo de raciocinar estabelecendo, de certa forma, posições
antipositivistas e libertárias.
O entendimento do conceito semiótico e de suas posições lógicas está baseado, em parte, na
classificação da linguagem das ciências das descobertas, das heurísticas, sintetizado no Quadro 2.
Os estudos que precedem as ciências normativas no sistema proposto por Pierce, não fazem
nada para afetar a realidade, enquanto os seguintes, os das ciências normativas, começando com
metafísica e incluindo as ciências especiais e as artes práticas, são progressivamente direcionados no
sentido de entendimento e da alteração da realidade em vários sentidos.
É na ciência normativa que se examina criticamente os fins que guiam as interações com o
mundo, inclusive a ação de conhecê-lo. Dessa forma, questões de significação precedem não apenas a
ação, mas também a maior parte das questões de fato (carregado de significado), exceto, as questões
mais gerais em relação ao fato formal que diz respeito às relações matemáticas, e aquelas que dizem
respeito à estrutura da experiência que são levantadas na fenomenologia.
Cada uma das ciências normativas (isto é, da ciência das leis da conformidade das coisas com os
fins), aborda um modo particular de interação com o mundo, conforme é sintetizado na última linha
das ciências heurísticas do quadro anterior; a estética, p.ex., considera aquelas coisas cujos fins devem
incorporar qualidades de sentimento; a ética, aquelas cujos fins situam-se na ação; e a lógica, aquelas
cujo fim é representar algo, com clara interdepência entre as três ciências noramtivas.

Quadro 2 Síntese do conceito semiótico de Pierce baseado na heurística


I Ciências heuristicas a) Classe: matemática.
a.1) Subclasses: matemática da lógica; matemática das séries discretas; e
matemáticas das séries contínuas e pseudocontínuas.
A matemática e a lógica matemática aparecem como a primeira grande divisão;
concebe a matemática como a investigação puramente hipotética de que conclusões
seguem-se de postulados adotados arbitrariamente
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Filó sof o s e cien t ist a s a o lo ng o da hist ó ria da civiliza ção

b) Classe: filosofia ou cenoscopia.


b.1) Subclasse: categoria, fenomenologia ou faneroscopia.
b.2) Subclasse: ciências normativas.
b.2.1) Ordens: estética, ética e lógica.
b.3) Subclasse: metafísica.
b.3.1) Ordens: metafísica geral ou ontologia; metafísica psíquica ou religião;
metafísica física.
A primeira ciência normativa é a estética ou ciência dos ideais; seu propósito é
formular um conceito do summum bonum, aquilo que é admirável por si mesmo. A
segunda ciência normativa é a prática, a investigação na natureza da ação certa e
errada. A última das ciências normativas é a lógica ou semiótica, que investiga os
princípios da representação da verdade.

c) Ciências Especiais ou Idioscopia


c.1) Ciências Físicas
c.2) Ciências Psíquica

Objeto de investigação: Objeto de conhecimento


Estética → Qualidade de sentimento  O inerentemente admirável
Prática → Qualidade de Ação  O certo e o errado na conduta
Lógica → Qualidade de representação  Verdade e Falsidade no pensamento

II Ciências de Revisão

III Ciências Práticas

Na classificação (heurística), as ciências mais gerais fornecem princípios às ciências específicas


que, por sua vez, estas fornecem dados e informações às ciências gerais.
O princípio [do pragmatismo] é a forma mediante o qual o significado de algo é determinado
pelo conjunto de disposições para agir que tal coisa produz. Esse significado só é possível na relação
com o homem, uma vez que procede da experiência.
A corrente principal do pragmatismo foi desenvolvida por Pierce a partir de uma de suas
máximas: “Concebemos o objeto de nossas concepções considerando os efeitos que podem ser
concebíveis como susceptíveis de alcance prático”. “Assim sendo, nossa concepção desses efeitos
equivale ao conjunto de nossa concepção do objeto”. (COLLINSON, 2005; p. 196).
202

Fundamentos da pesquisa
Volume 1

Trouxe importantes contribuições para a lógica simbólica, para a metodologia científica e para a
semiótica.
A descrição de Pierce para o pragmatismo é, com frequência, não bem compreendida; seu
método requer que aquilo que é considerado como suporte prático de um conceito e os seus efeitos,
possam ser expressadas em uma sentença condicional. Afirmava:

(...) voltamos ao que é tangível e concebível, como a raiz de toda a distinção real do pensamento,
não importando quão sutil ela possa ser; não existindo qualquer distinção de significado tão bom
quanto qualquer diferença possível de prática (...); (...) o pragmatismo é um método de verificação
dos significados, não de todas as ideias, mas (...) de conceitos e argumentos concernentes, dos quais
os fatos objetivos possam depender.

Para Peirce, o mundo é de um permanente devenir com o seu significado em constantes


mudanças e com verdades no futuro, o que fez de seu pragmatismo um empirismo. Acreditava que o
conhecimento é fruto de pesquisa com o ponto de partida na dúvida dividida a um momento de
conflito; a solução possibilitaria, ao final, o estabelecimento de crenças e hábitos de ação com o retorno
a um estado de homeostase.
Dessa forma, conhecer seria descobrir o hábito do outro, sua conduta regular, para, a partir daí,
planejar a própria conduta diante de algo. Mesmo assim, haveria sempre um momento em que a dúvida
ressurgiria e com ela faz-se necessária à busca de novas crenças. Assim, o que se tem a impressão de
conhecer não está acabado, e por isso, ele considerava que tudo o que se sabe é sobre aquilo que ainda
não aconteceu. Tem-se uma forma de saber preditivo do desenrolar de algo, baseada na sua
regularidade de manifestação, mas, sem segurança da verdade no seu futuro, no seu devir.
Na formação das convicções, Pierce examinou três categorias mentais, sem possibilidades de
erros, denominadas:
a) método da tenacidade, típico daquele que obstinadamente se recusa a discutir as próprias
crenças; como a avestruz esconde a cabeça para não ver o perigo, o homem também procura
evitar a evidência contrária às suas tradições; é incapaz de manter as suas posições na prática;
b) método da autoridade; aquele que realiza o acordo social proibindo as opiniões que são
contrárias às normas; é um método de superioridade mental e moral em relação ao método da
tenacidade; entretanto, nenhuma instituição poderá assumir a terefa de regular as opiniões em
todas as matérias;
c) método metafísico, com base na razão, mas que produz sistemas teóricos incontroláveis; trata-se
de um método intelectual e respeitável em relação aos anteriores, mas sua falência foi manifesta.
Acreditava que o método científico, apesar de abdicar definir a realidade, seleciona as opiniões
segundo critérios objetivos; a tese é: existem coisas reais cujas características são independentes das
opiniões que se formam a seu respeito; a realidade influi nos sentidos segundo leis regulares e nas
relações com os objetos são utilizadas as leis da percepção, verificando, com o raciocínio, como as
203

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Filó sof o s e cien t ist a s a o lo ng o da hist ó ria da civiliza ção

coisas são; toda pessoa que tiver experiências e raciocínio o bastante, será capaz de ter uma conclusão
verdadeira (NICOLA, 2005; p. 244).
Na obra The Fixation of Belief Pierce concluí que o método científico é o único capaz de
formular hipóteses e as submeter às verificações, com bases nas suas consequências. Identificou na
ciência três diferentes modos de raciocínio:
a) A indução, que considera um argumento generalizado, o que possibilita a formação de hábitos.
b) A dedução que considera um argumento necessário, um raciocínio que não pode partir de
premissas verdadeiras chegando a resultados falsos.
c) A abdução o fato de levantar hipóteses que possibilitam o surgimento de uma teoria de onde é
possível deduzir consequências observáveis. A abdução é o princípio da descoberta, da
possibilidade de decifrar o mundo; compreende a ciência enquanto um processo de desvendar
permanente, sem se chegar à verdade total das coisas; a ciência apenas anuncia alguns aspectos
dessas verdades.
A fenomenologia encontra na abdução o aspecto do indeterminado, a disposição de olhar para as
coisas da maneira como elas aparecem naquele instante único. Isto permite dizer apenas de algumas
facetas de algo, não sendo possível dizê-la como um todo.
Formulou sua própria teoria fenomenológica classificando os fenômenos em três categorias:
a) primeiridade, que considera o acaso, a experiência imediata;
b) segundidade, que considera a existência, a reação imediata; e
c) a tercieridade, que considera a lei, o pensamento mediativo.
Essas categorias da fenomenologia seria o esqueleto através do qual a realidade pode aparecer, e
ainda, compõem a lógica que sustenta sua concepção metafísica.

2.7.13 William James: 1842 – 1910


Nascido em Nova Iorque, Estados Unidos. Frequentou escolas na Suíça, Alemanha, França e
Inglaterra, interessado, em especial, em ciências naturais. Estudou medicina na Universidade de
Harvard; ali lecionou fisiologia, psicologia e filosofia. Em 1865, realizou uma expedição ao Brasil,
onde ficou doente com varíola. É considerado, ao lado de Peirce que expunha a ideia de fazer ciência,
baseado e com ênfase em valores cognitivos (epistêmica): vontade de aprender, um dos fundadores do
pragmatismo.
No cerne do pensamento pragmático de James estava a aceitação da pluralidade, do fluxo e da
indefinição de todas as coisas, aliada a uma perspectiva simples e de senso comum direcionada para
todos os aspectos da experiência comum. Esse pensamento estaria orientado, ao fazer ciência, com
ênfase, no lado científico, em valores éticos e morais: teoria da vontade de crer. Seu pragmatismo
científico era diferente do pragmatismo de Pierce.
204

Fundamentos da pesquisa
Volume 1

Acreditava que os longos debates de pesquisadores e cientistas sobre valores cognitivos da


pesquisa acabavam gerando entraves à própria ciência, em especial na investigação em psicologia,
onde as discussões sobre teorias predominavam sobre a análise de fatos. Escreveu vários livros que
influenciaram à ciência, em particular a ciência nascente da psicologia humana, sobre temas como as
variedades de experiências (religiosas), do misticismo e do pragmatismo; do funcionamento cerebral
até o êxtase do religioso e da percepção até a mediunidade psíquica. Concentrou-se na compreensão e
explicação de unidades básicas do pensamento estabelecendo conceitos básicos como os de
pensamento, atenção, hábitos e racionalidade.
O pragmatismo de James possui uma notável relação com a filosofia da ciência. Essa relação, em
suas obras Pragmatism & the meaning of truth / Prgamatismo e o significado da verdade e
Philosophical conceptions and practical results / Concepção filosófica e resultados práticos,
não é tão clara nem explicita dada a notoriedade dos assuntos tratados mais existenciais como crenças
religiosas, com aparentemente poucas considerações sobre a ciência; algo como um pragmatismo
existencialista, preocupado com experiências como são as religiosas não consideradas pela ciência.
Em outras obras como The principles of psychology / Os princípios da psicologia e
Psychology: briefer course / Psicologia; um curso apresentou temas como o pluralismo
metodológico e consequências práticas do conhecimento científico; essa obra é considerada sua maior
e mais famosa. Em geral, nos escritos psicológicos exercitou o pragmatismo científico de claro
conteúdo científico. Um exemplo disso se encontra no tratamento da introspecção na investigação em
psicologia, sem considerá-lo infalível, como Brentano que o julgava ser um resultado infalível por ser
um estado mental da consciência sendo garantia de um dado da análise; ou, pelo outro lado, considerá-
lo como um resultado errado quando Comte, entre outros, acreditava que a observação estava estaria
contaminada por emoções e sentimentos. Eram posições extremas de um debate metodológico de
investigação. Publicou outras obras como Um universo plural, onde discutiu os trabalhos de Hegel, e
Bérgson, entre outros.
James sustentava a validade do método da introspecção, mas sem conceder-lhe o caráter de
certeza absoluta e irrefutável. Afirmava que o sectarismo deveria ser substituído por uma visão crítica
acerca das falhas inerentes a todos os métodos. Acreditava que:

Não precisamos antecipar nossos futuros detalhes próprios, mas apenas estabelecer nossa conclusão
geral de que introspecção é difícil e falível; e que a dificuldade é simplesmente aquela que acontece
a qualquer tipo de observação [...]. A única salvaguarda está no consenso final de nosso adicional
conhecimento sobre a questão, com perspectivas posteriores corrigindo às anteriores, até que ao cabo
a harmonia de um sistema consistente seja alcançada (JAMES, 1983).

2.7.14 Georg (Morris Cohen) Brandes: 1842 – 1927


Nascido em Copenhague, Dinamarca. Estudou na Universidade de Copenhague. Escreveu, junto
com E. Morris, An introduction to logic and systematic method / Uma introdução à lógica e
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sistemática do método; nessa obra afirmavam que não era possível dar um passo à frente em
pesquisa, a menos que se tivesse em mente uma possível solução do problema objeto de investigação,
uma sugestão capaz de explicar a dificuldade, as causas que originam o problema. Aspectos básicos da
relação lógica – método científico são apresentados em Metodologia.
Essas “sugestões”, com base em fundamentos teóricos e observações da realidade, ganham o
status de hipóteses, no momento em que são traduzidas em proposições claras, com capacidade para
nortear a pesquisa. A hipótese, se verificada, poderá ser acerca de uma possível solução, de um objetivo
(...). Cohen e Nagel, em sua obra, defendem a ideia de que uma pesquisa é iniciada a partir da
existência de um problema; perante o problema, o pesquisador deve adotar certa posição de ceticismo
e, simultaneamente, formular hipóteses, não de qualquer forma, mas, as que se coadunem com a
realidade observada e registrada nos dados. Os dados da realidade e uma teoria de suporte aplicável ao
caso devem possibilitar testar a hipótese.
Brandes / Cohen acreditava que se uma ideia funciona, ela é uma ideia verdadeira e na medida
em que faz diferença para a vida, é detentora de significado. Verdade, para ele, não é um valor
absoluto, fixo e imutável, independente da cognição humana, mas algo que é inventado ou criado pelos
sentidos e que se encontra intimamente conectado com a vontade, porque o que é verdade se
transforma no que é bom. Sua preocupação final era com a moral.

2.7.15 Friedrich Wilhelm Nietzsche: 1844 – 1900


Nascido em Röcken, Leipzing, Alemanha. De família protestante (Luterana). Estudo na
Universidade de Leipzing teologia, filosofia e filologia. Sob a influencia de Schopenhauer foi atraído
pelo ateísmo e pelo significado metafísico atribuído a música. Em sua primeira obra O nascimento
da tragédia mostrou a influencia de Schopenhauer e Richard Wagner (músico). Com sua obra
Humano, demasiado humano, rompeu com seus amigos e se afastou da filosofia de Schupenhauer
e de Wagner; sua tese era de que “o homem é o criador dos valores, mas esquece sua própria criação e
vê neles algo de transcendente, de eterno e verdadeiro, quando os valores não são mais do que algo
humano, demasiado humano. Depois publicou: O andarilho e sua sombra e Aurora, com a qual se
empenhou numa luta contra a moral da auto-renúncia. Assim falou Zaratustra. Para além de bem
e mal. Crepúsculo dos ídolos. Ecce homo. O Anticristo.
Vontade de potência. Na obra O eterno retorno defendeu a tese de que o mundo passa
indefinidamente pela alternância da criação e da destruição, da alegria e do sofrimento, do bem e do
mal.
A contribuição de Nietzsche a filosofia moderna foi mediante aforismos (arte de interpretar e a
coisa a ser interpretada) e poemas (a arte de avaliar e a própria coisa a ser avaliada), com uma nova
concepção; não se trata de buscar o ideal de um conhecimento verdadeiro, mas sim de interpretar (fixar
o sentido, parcial e fragmentário, de um fenômeno) e avaliar (determinar o valor hierárquico desse
sentido, totalizando os fragmentos, sem atenuar ou suprir a pluralidade). Concebeu o método filológico
206

Fundamentos da pesquisa
Volume 1

como um método crítico a se constituir no nível da patologia, ao procurar fazer aquilo que se gostaria
estivesse mudo.
Nietzsche foi um dos primeiros filósofos a afirmar a multiplicidade da vida e do mundo, com
uma postura crítica da científica. Foi o primeiro crítico do positivismo em um momento em que essa
corrente dominava Europa e o Novo Mundo. Era o domínio de um positivismo lógico que no século
XX daria sustentação ao Círculo de Viena (ver nota de rodapé 6) com grande influência sobre a
comunidade científica.
Para Nietzsche, a ciência deveria tratar da vida humana, acreditando que o conhecimento só faria
sentido quando tratasse dessa vida. Daí sua proposta de uma Gaia ciência, de um saber não perdido na
irrefletida ideia do saber pelo saber dos filósofos da antiguidade.
Na perspectiva crítica do filósofo alemão, a ciência nem torna o homem mais íntimo de Deus,
nem possibilita um conhecimento útil e inocente acima de qualquer suspeita. Ao contrário, a ciência
responde a interesses e a ideia do saber afasta o homem do homem, muitas vezes estando a serviço da
extinção de vidas humanas. O saber pelo saber, que compartimenta o mundo para saber cada vez mais
sobre cada vez menos, não atende aos interesses humanos. Nessas ideias se têm críticas da
disciplinaridade da ciência, da especialização do saber, que são omitidas.
Na obra A gaia da ciência, Nietzsche entre os verbetes e provérbios apresentados em rima, são
citados uns poucos para uma reflexão (NIETZSCHE, s.d):
a) Do objetivo da ciência (seção 12 do Livro primeiro). “Com que estão! Será o objetivo da ciência
dar ao homem a maior quantidade de prazer e a menor quantidade de desprazer possível? Mas,
como chegará a isso, se o prazer e o desprazer estão tão intimamente ligados que aquele que quer
saborear um deles ao máximo é forçado a provar ao máximo os outros, se o que quer chegar a
´felicidade celeste´ também deve se preparar para a ´angustiais mortais´? Tal vez seja assim! Os
estóicos, pelos menos, eram desta opinião e mostravam seu espírito de coerência pedindo o menor
prazer possível à vida para ter o mínimo desprazer, quando proclamada a máxima “o homem mais
feliz é o mais virtuoso (...)”. Ainda é possível a escolha: ou o menor desprazer possível, digamos a
ausência de sofrimento (no fundo os socialistas e os políticos de todo partido nunca deviam,
honestamente, propor a seus partidários) ou o maior desprazer possível como juro de aumento da
quantidade de prazeres e alegrias (...). É correto que com a ciência se pode proporcionar um ou
outro objetivo, sendo tal vez mais conhecida por privar o homem de suas alegrias (...). Porém,
nada impede também que se descubra nela a grande dispensadora de dores (...)”.
b) A questão da compreensão (seção 381 do Livro quinto). “Deseja-se não apenas ser compreendido
quando se escreve como também não ser bem compreendido. Não é objeção contra um livro
quando existe alguém que o julga incompreensível: talvez fizesse parte das intenções do autor o
não ser compreendido por qualquer. Todo espírito distinto escolhe assim seus ouvintes quando
deseja se comunicar; escolhendo-os, previne-se contra os outros (...)”.
207

O rige n s e e vo lu çõe s da s ciên cia s e d a p esqu isa


Filó sof o s e cien t ist a s a o lo ng o da hist ó ria da civiliza ção

c) Outros verbetes importantes e oportunos apresentados no Livro terceiros são: A origem do


conhecimento (seção 110); Causa e efeito (seção 112). O conhecimento é mais um meio (seção
123).

2.7.16 Francis Herbert Bradley: 1846 – 1924


Nascido em Chaphma, Londres, Inglaterra. Estudou em Oxford e Meron College. É considerado
o mais proeminente dos filósofos do idealismo britânico; esse idealismo postulava, de modo geral, uma
visão hegeliana para qual todas as coisas existem como resultado da mente; essa teoria foi
desenvolvida com base em conceitos como absoluto e totalidade para se referir à totalidade indivisível
da mente. Afirmava que o absoluto não pode ser pensado, mas, pode ser conhecido naquilo em que é
possível se ter uma ideia “de uma experiência absoluta na qual os fenômenos distintos estão
mergulhados”. Suas obras tratam assuntos principalmente de ética, lógica e metafísica.
Bradley escreveu The Principles of Logic / Princípios de Lógica, assentada na crítica da
abordagem empirista da lógica; nessa obra argumenta que o juízo não consiste numa conexão
psicológica de ideias, mas, na referência de uma ideia ou conteúdo ideal com a realidade; rejeitou a
perspectiva empirista pela qual o significado de uma ideia é, de alguma forma, limitado no seu
conteúdo; sustentava que o significado não é uma propriedade da ideia, mas, algo dado no seu uso: o
simbolismo; é crítico ao método indutivo de Mill.
Acreditava que o conhecimento se fundamenta mais em elementos universais do que em
elementos particulares; é somente pela teoria ou princípio universal de algum tipo que particulares
podem ser legitimamente agrupados. Na obra Appearance and Reality / Aparência e realidade
elaborou sua tese da crítica da lógica, não apenas para avançar na análise lógica, mas, para apoiar sua
tese metafísica.

2.7.17 Tomas Alva Edison: 1847 – 1931


Nascido em Milan, Estados Unidos da América. Considerado o maior inventor, com mais de
1.090 patentes, entre elas as mais úteis e práticas, com destaque para o telégrafo impressor e
quadroplez, o microfone de carbono (gramofone), câmara (quintógrafo), o projetor (quintoscópio) para
filmes animados (cinetoscópio), o quintofonógrafo, a pilha alcalina e, em particular, a lâmpada
elétrica / filamento de tungstênio, incandescente, (para a iluminação elétrica com distribuição).
Edison desde criança demonstrou poder de observação e curiosidades, sendo um dos primeiros
inventores a aplicar os princípios da produção em massa ao processo de invenção. Para os iniciados na
pesquisa é oportuna a frase: não há substituto para o trabalho duro e o êxito de uma tarefa depende de
5% de inspiração (2% de genialidade) e 95% de transpiração (98% de esforço).
208

Fundamentos da pesquisa
Volume 1

2.7.18 Friedrich Ludwing Gottlob Frege: 1848 – 1925


Nascido em Weismar, Alemanha. Estudou e lecionou durante 30 anos na Universidade de Jena.
Trabalhou na fronteira entre a filosofia e a matemática, sendo considerado um dos criadores da lógica
matemática e reconhecido como pela fundamentação da moderna filosofia da linguagem. Similares
atribuições são endereçadas a Bertrand Russell.
Suas principais obras foram: Begriffsschrift / Ideografia (Notação conceitual), onde se
apresenta, por primeira vez, um sistema matemático lógico moderno, com a estrutura de enunciados
lógicos e suas relações (cálculo dos predicados). Die Grundlagen der arithmetik / Os
Fundamentos da aritmética, obra prima filosófica. Grundgesetze der arithmetik / Leis básicas
da Aritmética, em que expunha um sistema lógico criticado por B. Russell (o paradoxo de Russell).
Sobre o sentido e a referência, apresentou um paradoxo envolvendo semântica, epistemologia e
uma solução; o paradoxo envolve sinônimo e a possibilidade de se desconhecer a relação de sinonímia,
conforme se ilustra com os seguintes exemplos obtidos da mesma obra: os nomes Cícero e Túlio
designam a mesma pessoa, o filósofo e orador romano; todavia as frases Cícero é Cícero e Cícero é
Túlio não tem o mesmo valor cognitivo; no primeiro caso expressa a identidade de uma coisa consigo
mesma (lei de Leibniz); no outro, é informativo; uma pessoa que descobre que Cícero é Túlio não
estará descobrindo uma identidade. São duas frases com diferenças informativas.
A solução consiste em articular o significado dos designadores em dois elementos: o sentido e a
referência; os nomes Cícero e Túlio têm a mesma referência, porém, não têm o mesmo sentido ou valor
cognitivo; portanto quando se diz que Cícero é Túlio não se está dizendo algo trivial, mas, algo que é
informativo.
Foi um dos fundadores da moderna lógica simbólica utilizada na “redução” da matemática
apresentada por símbolos. Suas principais contribuições à ciência, apresentadas, entre outras, na sua
obra Begriffsschrift, foram: o método de analisar a lógica de asserções com múltiplas generalizações
por meio de qualificadores e variáveis ligadas; e a integração de unidades lógicas como a lógica de
asserções hipotéticas e a lógica de acepções categóricas em um único sistema mediante a análise de
quantificadores. A apresentação de seu sistema lógico foi feita com rigor e clareza conceitual,
estabelecendo distinções entre as regras de inferência e os axiomas como asserções. Foi a partir dessas
contribuições que se conhecem propriedades de sistemas formais, tais como completude e
incompletude, a decidibilidade e indecibilidade etc., estendida em muitas direções: lógica modal,
lógica multivaluada e lógica temporal, entre outras.
Na formulação de processos lógicos de investigação Frege utilizou pressupostos filosóficos sobre
a natureza e o papel da lógica; sua ideia era mostrar que a matemática é puramente lógica, usando-a
para esclarecer a matemática: linguagem lógico-formal e linguagem natural defeituosa por conter
expressões imprecisas e permitir formar expressões sem valor; esta posição é compartilhada por
Russell, Carnap e Quine, entre outros filósofos da ciência.
Ao contrário de pensadores como Aristóteles e Boole que procuravam identificar formas
válidas de argumentos e de leis do pensamento, a preocupação de Frege era a sistematização do
209

O rige n s e e vo lu çõe s da s ciên cia s e d a p esqu isa


Filó sof o s e cien t ist a s a o lo ng o da hist ó ria da civiliza ção

raciocínio matemático, uma caracterização precisa de uma demonstração matemática. Para isso,
formalizou as regras de demonstração, começando por regras simples; o resultado final foi a lógica de
predicados.

2.7.19 Santiago Ramón y Cajal: 1852 – 1934


Nascido em Madrid, Espanha. Estudou medicina na Escola Médica de Zaragoza. Diretor do
Laboratório de Investigações Biológicas. Pesquisou a estrutura fina do sistema nervoso central
utilizando uma técnica de coloração (cromato de prata) histológica descobrindo a estrutura de
neurônios lidados entre sei por ligações especiais, as sinapses elétricas (doutrina do neurônio).
As principais publicações de Ramón y Cajal foram: Manual de histología normal y técnica
micrográfica. Elementos de histología. Manual de anatomía. Patológica general. Les
nouvelles idées sur la fine anatomie des centres nerveux. Textura del sistema nervioso del
hombre y de los vertebrados. Recuerdos de mi vida: mi infancia y juventud. La psicología de
los artistas. Cuentos de vacaciones. Recuerdos de mi vida: Historia de mi labor científica,
entre outras.
Cajal definiu como regras para a investigação científica: a independência mental (de juízo), a
curiosidade e a perseverança no estudo, gosto pela originalidade, certa dose pela “paixão pela glória”,
entre outras. Afirmava que o êxito em qualquer empreendimento decorre de um grande esforço
trabalhando uma boa ideia e que não existem pesquisas esgotadas, mas, pesquisadores cansados. A
dedicação do tempo [necessário] à observação de objetos [alvos da pesquisa], à teilura atenciosa da
literatura pertinentes, seguida da confrontação com os dados coletados são modos der agir
fundamentais. Tal dedicação precisa ser acompanhada por uma atitude de inquirição sobre os objetos e
sobre os conhecimentos já disponíveis sobre os mesmos no foco da investigação.

2.7.20 Jules Henri Poincaré: 1854 – 1912


Nascido em Nancy, França. Estudou na Escola Politécnica e na Escola Superior de Minas onde
cursou ciências matemáticas. Foi professor da Universidade de Paris. Desenvolveu o conceito de
funções automórficas, que usou para resolver equações diferenciais lineares de segunda ordem com
coeficientes algébricos. No campo da matemática aplicada estudou diversos problemas em áreas como
as de ótica, eletricidade, capilaridade, elasticidade, termodinâmica, mecânica quântica e teoria da
relatividade restrita, entre outras. Foi o primeiro a considerar a possibilidade de o caos em um sistema
determinista, precursor da dinâmica caótica. Publicou mais de 500 trabalhos entre livros e artigos, além
de obras didáticas.
As contribuições de Poincaré para a matemática foram de grande importância em áreas como:
teoria das funções, teoria de números, equações diferenciais e topologia. Uma das contribuições a
destacar é o desenvolvimento da geometria não-euclidiana com a existência de um espaço diferente ao
tradicional de Euclides; as noções de reta, plano e distância num espaço não-euclidiano de Poincaré
210

Fundamentos da pesquisa
Volume 1

eram diferentes às euclidianas e não podiam ser observadas diretamente. Essa ideia demorou a ser
aceita entre os matemáticos e só foi considerada por Bernhard Riemann: a existência de um espaço
que precede os postulados de Euclides. Nesse espaço foram desenvolvidas as funções automórficas
(funções fuckianas).
Além de desenvolver teorias em funções abeliannas e geometria algébrica, Poincaré contribuiu
no desenvolvimento da álgebra para resolução de problemas de análise e nos estudos de Lie sobre
grupos. Teve contribuições, também, na eletricidade, eletromagnetismo e movimento do elétron. A
associação de espaço não-euclidiano com o eletromagnetismo e mecânica celeste é, segundo alguns
historiadores, princípio básico da relatividade: considerar um espaço não-euclidiano, em que a
curvatura é importante e modifica a distância entre dois pontos; em um plano, o espaço é euclidiano, a
curvatura é nula; em uma esfera, é positiva e em um espaço hiperbólico, é negativa. Essas ideais
básicas foram apresentadas em Principles of mathematical physics / Princípios de matemática
física antes de Einstein publicar seu trabalho sobra a relatividade.
Dentre as obras de Poincaré se destacam: Analysis situs, um tratado sistemático sobre
topologia. Léçons de mécanique céleste / Lições de mecânica celeste.
Les méthodes nouvelles da mécanique céleste / Os novos métodos da mecânica
celeste, com equações que solucionaram o problema de três corpos; as equações foram usadas no
estudo de soluções periódicas, quando as massas de dois corpos são muito pequenas se comparadas
com a de um terceiro, o que acontece no caso do sistema solar.
Escreveu várias obras de divulgação científica, com destaque para a trilogia sobre a filosofia da
ciência: La science et l’hipothèse / Ciência e hipótese. Nessa obra discorreu sobre o espaço e a
geometria não-euclidiana. Acreditava que considerar uma ciência válida apenas se for passível de
experimentação. Considerou a existência do tempo como a quarta dimensão; este é um dos
fundamentos da teoria da relatividade de Einstein.
Na obra Science et méthode / Ciência e método considerou que o método científico não
pode desprezar a intuição; ela atua como ponto de partida para construir um sistema que reproduz
todas as situações; nesse contexto, a ciência é um sistema de relações.
Na obra La valeur de la science / O valor da ciência; entendia que esse valor estava nas
relações que a objetividade deve buscar; seria inútil procurá-lo nos seres considerados como isolados
uns dos outros.
A própria faculdade de invenção, segundo Poincaré, era a intuição; em geral, à intuição
compete prover os objetos, sendo diferente da evidência; tem a função de revelar a verdade
independente da razão discursiva. Considerou, além da intuição sensível ou apenas a percepção por
meio dos sentidos, a existência de uma forma de intuição que permite o domínio de objetos ideais.
Acreditava que a intuição era uma faculdade do espírito com a sua função basicamente heurística.
Afirmava que era pela intuição que se descobria e inventava; entendia a invenção como o
processo de selecionar (portanto, era necessário supor a existência de um princípio seletivo:
inconsciente ou parcialmente inconsciente), de combinação particular (supor uma função avaliadora:
211

O rige n s e e vo lu çõe s da s ciên cia s e d a p esqu isa


Filó sof o s e cien t ist a s a o lo ng o da hist ó ria da civiliza ção

inconsciente) dada por um insight criativo; enquanto que era pela lógica que se justificava a criação ou
invenção. A intuição era transversal nas atividades do sujeito cognoscente; dessa forma, estava presente
na percepção, no entendimento, na imaginação criadora e na razão. No entendimento intuitivo
realizava sínteses originais baseadas, com frequência, em analogias e em induções. Como subsidiária
da razão, a intuição podia sintetizar em um único momento, todos os momentos de uma cadeia
dedutiva.
Afirmava que "o homem moderno tem utilizado a relação de causa e efeito do mesmo modo
como o homem da antiguidade usava os deuses, isto é, para ordenar o universo. Isto não ocorria apenas
porque se tratava do sistema mais verdadeiro, mas porque era o mais conveniente”. Em outras questões
pensava que “o ser humano se fez mais amigo dele mesmo do que da verdade, alienando-se devido a
sua covardia e criando justificativas próprias para sua artificialidade perante o mundo que o cerca”.

2.7.21 Sigismund Schlomo Freud: 1856 – 1939


Nascido em Freiberg / Pribor, Áustria. Estudou humanidades e medicina na Universidade de
Viena. Foi um judeu inclinado à especulação que depois substitui pelo empirismo; interessado pela
histeria com o método de hipnose revolucionou o estudo do comportamento humano: o ser humano é
movido pelo inconsciente. Mais tarde, com interesse pelo inconsciente e influenciado por Leibniz,
deixou a hipnose e adotou a associação livre (apenas conversando) base da psicanálise. O nazismo, em
1936, queimou toda a sua obra o que ele considerou como uma evolução, pois em épocas mais
distantes, queimado teria sido o autor. Contribuiu para explicar a criatividade (outra explicação; ver
notas de rodapés 37 e 108).
Para Freud, a criatividade se origina por conflitos dentro do inconsciente, o Id; mais cedo ou
mais tarde, o inconsciente produz uma solução para o conflito; se a solução for ego-sintônica (reforça
uma atividade pretendida pelo ego ou parte consciente da personalidade), então se terá um resultado
criativo; se ao contrário, a solução for contra o ego, ter-se-á uma solução rejeitada ou surgirá uma
neurose; dessa forma, neurose e criatividade teriam a mesma fonte: o conflito no inconsciente.
Freud, ao perceber a importância da observação, abandonou o estudo teórico e começou a
trabalhar no hospital principal de Viena, onde observou que os médicos se recusavam tratar certos tipos
de doenças ou certos pacientes (histéricos, p.ex.) se recusavam a seguir o tratamento. A partir dessas
observações iniciou estudos sobre neuroses apresentando suas primeiras conclusões em um Círculo de
Medico em Viena. Ridicularizado pelos seus colegas e apenas com o apoio do médico – amigo Breuer
que utilizava a hipnose prosseguiu suas pesquisas, até formular suas teorias, entre outras:
a) o trauma: fatos traumáticos levados pela lembrança para serem descarregados e eliminados
(método catártico); a própria divisão entre consciente e inconsciente era causada por um trauma; o
abuso sexual de um adulto, p.ex. primeira experiência, seria traumática; outro exemplo foi a
teoria da sedução que contrariava outras teorias acadêmicas;
212

Fundamentos da pesquisa
Volume 1

b) a transferência: o relacionamento amoroso paciente e profissional, depois foi apresentado como


sedução ou complexo de Edipo como resultado de um efeito patológico de reminiscências da
violência sexual imposta: relação de estupro sexual com o estuprador;
c) a psicanálise: método de investigação e prática profissional caracterizada por um conjunto de
conhecimentos sistematizados sobre o funcionamento da vida psíquica, mediante o qual se
revelam relações inconscientes; processos misteriosos do psiquismo e suas regiões obscuras
(fantasias, sonhos, esquecimentos, interioridade humana etc.) foram colocados como problemas
científicos a serem tratados pela psicanálise, tendo como objetivo ajudar a libertar o analisado
(p.ex., neuróticos e histéricos) de suas barreiras inconscientes, mediante a interpretação da
transferência e da resistência; o método básico é a interpretação dessa transferência e resistência
pela análise da livre associação.
Entre as grandes contribuições de Freud à ciência se têm novos conceitos a partir de conceitos
aceitos na época como os de consciente, pré-consciente e inconsciente para os de:
a) O Id; todo o herdado, os instintos ligados na constituição somática com expressão psíquica:
estrutura da personalidade; as leis lógicas do pensamento não se aplicam ao Id.
b) O Ego: parte do aparelho psíquico em contato com a realidade, desenvolvido a partir do Id
conforme a pessoa toma consciência de sua própria identidade, vai aprendendo e aplicando; sua
função é de proteção: garantir a saúde, segurança e proteção.
c) O Superego: última estrutura da personalidade que se desenvolve a partir do ego e que atua como
um juiz ou censor sobre as atividades e pensamentos do Ego; no Superego se guardam os códigos
morais, os modelos de conduta e os parâmetros da inibição da personalidade.
Identificou como obstáculos ao crescimento a ansiedade provocada por um aumento, esperado
ou previsto, real ou imaginado, e tensões ou desprazeres, quando é grande a ameaça ao corpo, exigindo
mecanismos de defesa; as causas da ansiedade poderão ser as perdas de um objeto desejado, de amor,
de identidade ou de auto-estima. Os mecanismos de defesa psicológica são: a repressão, a negação, a
racionalização, a formação reativa e o isolamento, entre outros.

2.7.22 Karl Pearson: 1857 – 1936


Nascido em Londres. Estudou nas universidades de Cambridge, Heidelberg e Berlin. No início
estudou a evolução de Darwin na qual aplicou métodos estatísticos aos problemas biológicos de
evolução e hereditabilidade. Fundou a revista Biometrika. É conhecido como o criador da estatística
aplicada. Escreveu um conjunto de 18 artigos reunidos em Mathematical contribution to the theory
evolution com importantes contribuições na teoria da análise de regressão, correlação, teste de
hipóteses de qui-quadrado, 2, base da estatística de pequenas amostras de populações normais.
Outra obra importante, também como uma coleção de artigos, foi a Karl Pearson early
statistical papers, em que, entre outras contribuições, apresentou a educação científica, gráficos
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estatísticos e coeficientes estatísticos em abordagens matemáticos estatísticos. Fez com que a


estatística fosse reconhecida como uma disciplina autônoma. Criou o método dos momentos e o
sistema de curvas de frequência usadas para a descrição matemática de fenômenos naturais.

2.7.23 Émile Durkheim: 1858 – 1917


Nascido em Épinal, França. Formado em filosofia; estudou ciências sociais e foi influenciado
pelo iluminismo, um dos movimentos do século XVIII, herdeiro do positivismo; esse movimento
enfatizava a razão e a ciência como formas de explicar o universo. Para entender o método proposto
pelo iluminismo é necessário situá-lo em seu tempo e entender as forças dominantes da lei do
progresso, com a tarefa para cientista de examinar atos e fatos numa análise isenta de falsas evidencias.
Durkheim, consistente com a lei do progresso, apresentou um novo método de estudo da
sociologia, com base em ideias embrionárias de Comte, quer de forma contrapositiva, quer não,
constituindo-a como disciplina científica. À sociologia delimitou seu objeto de estudo, o fato social,
além de proporciona-lhe um método próprio (objetivo – comparativo), um objetivo institucional
(explicação das instituições sociais) e uma finalidade (manutenção da organicidade social).
Parte dos fundamentos do método da sociologia foi o resultado da reorganização e integração de
conceitos endereçados para buscar a explicação de fatos com base em evidências. A crítica e a
contestação de certas tendências intelectuais faziam parte desse método, para possibilitar uma análise e
interpretação do todo, do geral em uma visão sistêmica. Por outro lado, possibilitou estabelecer um elo
entre o passado, o presente e o futuro das ciências sociais.
Entre as obras de Durkheim se destacam: Da divisão do trabalho social, as formas
elementares da vida religiosa e As regras do método sociológico em que propus a sua a teoria
do fato social, demonstrando a existência de uma sociologia objetiva e científica, com os fatos sociais
como “coisas” que exercem uma coerção sobre os indivíduos.
Para Durkheim, a sociedade não é apenas a justaposição de consciências particulares, de ações
individuais e de sentimentos pessoais que possam ser misturados ou reduzidos - sintetizados por
associações, combinações ou fusões, ainda que o todo social seja composto pela soma dessas partes,
mas, nesse todo, há, também, fontes (origens) e fenômenos que dizem respeito ao sistema diretamente
e não às partes.
Afirmava que a sociedade é mais do que a soma ou a justaposição dos indivíduos que dela fazem
parte. É uma força surgida dos sentimentos imanentes à sua constituição compreendendo a sua gênese
somente quando considerado o todo e sua evolução e não apenas as partes individualmente em um
determinado período. Portanto, essa constituição, a sociedade, não poderia ser reduzida à simples união
de indivíduos, de consciências, ações ou sentimentos particulares em um determinado período, mas,
deveria compreender a “colaboração” de indivíduos de gerações anteriores que, de uma forma histórica
ou não, definiram o contexto social no presente caracterizado por fatos sociais.
214

Fundamentos da pesquisa
Volume 1

O fato social é um conceito central no método de estudo da sociologia; esse fato é definido por
Durkheim como todo o modo de agir, permanente ou não, que possa exercer alguma forma de coerção
externa ao indivíduo ou ainda que, por apresentar existência própria e independente das manifestações
individuais, possa ter um sentido geral para a sociedade. Esse modo é criado a partir da maneira como a
sociedade percebe a si mesma e à realidade ao seu redor e explicado pelos efeitos sociais que produz.
A primeira regra para a observação dos fatos sociais é considerá-los como coisas; isso implica
afastar sistematicamente de preconceitos e influencias fora do campo científico; definir previamente as
coisas por meio de caracteres exteriores comuns; considerá-las independentemente de suas
manifestações individuais, da maneira objetiva. Estes fatos poderiam ser agrupados como normais ou
patológicos.
O normal, conforme Durkheim, é aquilo ao mesmo tempo obrigatório para a pessoa e superior a
ela, o que significa que a sociedade e a consciência coletiva são entidades morais, antes mesmo de
terem existências tangíveis; tal preponderância da sociedade sobre o indivíduo deve permitir a
realização deste, sempre que a pessoa consiga se integrar a essa estrutura. Implícito na normalidade
está a solidariedade 49 variável conforme o desenvolvimento da sociedade. A solidariedade social é a
responsável pela coesão que surge entre os indivíduos e os mantém em sociedade, lutando contra as
ameaças externas; nesse contexto, há duas consciências: uma individual e a outra comum a todos, da
sociedade que age e vive em cada um.
Consistente com a solidariedade, segundo Durkhein, tem-se o fato da norma moral tornar-se
norma jurídica, para se definirem regras de cooperação e troca dos que participam do trabalho coletivo.
A partir do normal se conceitualiza e analisa o que é patológico. As sociedades modernas são doentes
porque sofrem de anomia, isto é, o estado da sociedade caracterizada pela desintegração das normas
que regem a conduta humana e asseguram a ordem social e porque estão submetidas a mudanças
abruptas sem o tempo necessário para que o conhecimento coletivo possa definir a regulamentação
adequada.
As relações sociais, no método de Durkheim, apresentadas em As Regras do método
sociológico, não são consideradas como sendo inseridas em um processo histórico, mas, como fatos
sociais de fenômenos naturais, desligados de sujeitos conscientes; seriam fatos que obedecem às leis
naturais. Assim, o fenômeno social se reduz a um fato desvinculado do sujeito. Esse conceito é oposto
à posição de Weber, outro clássico da sociologia, para o qual a objetividade do social só pode ser
apreendida por ações individuais.
Como características a destacar (princípios) ou regras do método sociológico de Durkheim se
têm as seguintes:
a) um método que é exclusivamente sociológico e objetivo, independente de qualquer filosofia,
destinado para descobrir a verdade na objetividade social, inclusive os valores compreendidos
nessa objetividade, independente de vontades e consciências;
b) um método que é dominado pela ideia de que os fatos sociais, somente explicados por outro(s)
fato(s) social(is), são coisas que pertencem ao reino da natureza, são coisas sociais que devem ser
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tratados com o desapego ao reconhecimento de que os “fenômenos” sociais tem existência


objetiva, possibilitando, assim, que possam ser estudados por métodos de observação objetiva.
Deve acrescentar para o melhor entendimento do método sociológico, que o traço mais
importante de uma "coisa" é não ser maleável ou plástica à vontade do observador, do pesquisador. A
ciência empírica deve vencer os preconceitos e ilusões das ideias acerca da natureza dos fatos sociais,
ainda que não sejam visíveis como objetos físicos, antes que a própria conduta social possa ser
examinada cientificamente.
Na proposta da teoria do fato social Durkheim (DURKHEIM, 1960) parte de duas questões sobre
as relações entre os indivíduos e a sociedade para formular seu método: como pode um conjunto de
indivíduos se constituir em uma sociedade? e como esse conjunto consegue obter consenso para a
convivência? Ao responder essas questões coloca duas formas de solidariedade:
a) A mecânica ou pré-capitalista, onde os indivíduos se identificam e reconhecem através da
família, com os mesmos sentimentos, da religião com as mesmas crenças e da tradição e costumes
com os mesmos valores e onde há coerência social porque ainda os indivíduos não se
diferenciaram.
Observou que o conjunto de crenças e de sentimentos comuns entre os membros de uma mesma
sociedade, forma um sistema determinado que tenha sua vida própria; é a consciência coletiva ou
comum. Nas sociedades dominadas pela solidariedade mecânica a consciência coletiva
compreende a maioria dos membros.
b) A orgânica ou capitalista, onde os indivíduos diferentes, necessários e sem vínculos como os de
natureza familiar ou religiosa, tornam-se interdependentes para garantia a união social.
Nas sociedades dominadas pela solidariedade orgânica há uma redução da consciência coletiva
porque os indivíduos são diferenciados.
O indivíduo de maneira isolada não é um elemento adequado de estudo da sociologia e da
compreensão do conceito fato social. Esse fato está intrinsecamente relacionado aos processos
culturais e aos hábitos e costumes coletivos de um grupo ou da sociedade que, além de conferir
unidade e identidade ao grupo, serve de controle e parâmetro às atividades individuais; estas, em
princípio, não devem causar desarmonia no corpo social.
O fato social deve pertencer ao histórico coletivo e se relacionar à maneira coletiva de pensar,
sentir e agir, sendo estes fatores ideológicos do coletivo, sem conflitos e com a coexistência possível de
diversas ideologias diferentes, para o caso de sociedades complexas ou de pluralidade cultural. Nestas,
quando surge o conflito, a ideologia dominante dissemina um falso ambiente de estabilidade, de
igualdade e de permanente harmonia, mascarando realidades sociais. Se insuficiente essa
disseminação, tem-se outras formas de coerção como a da força policial.
O que importa para o estudo sociológico é a inserção dos indivíduos em um contexto de uma
realidade social objetiva que ao encontrar-se por cima dele, caracteriza-se por ser grupal, coletiva. Esse
fato é defendido por Durkheim quando diz que as sociedades têm prioridades histórica e lógica sobre
216

Fundamentos da pesquisa
Volume 1

os indivíduos. A prioridade lógica estaria sustentada porque se a solidariedade mecânica precede a


solidariedade orgânica, não se pode explicar a diferenciação social a partir dos indivíduos, pois a
consciência de individualidade não poderá existir antes da solidariedade orgânica e da divisão do
trabalho social. Por isso é que os fenômenos individuais devem ser explicados a partir da coletividade e
não a coletividade pelos fenômenos individuais.
Durkheim foi um dos pioneiros na análise dos fatores coercitivos que levam o indivíduo, desde
jovem, a se moldar segundo os parâmetros historicamente impostos pelo grupo social que o
compreende. Essa estruturação do indivíduo segundo padrões preestabelecidos e exteriores, perpassa
pelo psicológico, pelo moral, pelos hábitos e costumes, pelo comportamento e pela cultura, como um,
em certo sentido, ponto, inconsciente, porém, suficiente para possibilitar o maior ou menor
engajamento e comprometimento do indivíduo nos processos coletivos que permeiam as atividades
sociais. É nesse contexto que surge o interesse em analisar a maneira pela qual o meio social, mediante
a coerção e educação, contribui para regular, controlar e moldar o comportamento individual, tornando
os processos coletivos aparentemente harmônicos e estáveis (DURKHEIN, 1960).

2.7.24 John Dewey: 1859-1952


Nascido em Burlington, Estados Unidos. Estudou nas Universidades de Vermont e John
Hopkins. Iniciou suas pesquisas (investigação - experiência em educação que permitiram escrever A
escola e a sociedade) na Universidade de Chicago. Filósofo pragmático (instrumentalista) e
explícito na necessidade de transformação pela educação, conhecido como filósofo da educação;
preocupado com questões, tais como: a capacidade de pensar do aluno, a preparação para questionar a
realidade; combinar teoria e prática; e se posicionar perante o problema para resolvê-lo. Coube a
Dewey formular “o método da inteligência” para caracterizar os conceitos de razão e experiência.
Dewey deixou extensa obra, com destaque para as seguintes: Psychology / Psicologia. My
pedagogic creed / Meu Credo Pedagógico. Psychology and Pedagogic method / Psicologia e
Método Pedagógico. The School and Society / A Escola e a sociedade. How we think / Como
pensamos. Democracy and education / Democracia e educação. Reconstrucion in
philosophy / Reconstrução na filosofia. Human nature and conduct / Natureza humana e
conduta. Philosophy and civilization / Filosofia e civilização. Art as experience / A arte como
experiência.
Logic, the teory of inquiry / Lógica, a teoria da investigação. Freedom and culture /
Liberdade e cultura. Problems of men / Problemas dos homens.
O filósofo Dewey tornou-se um dos maiores pedagogos americanos, contribuindo para a
divulgação dos princípios do que se chamou Escola Nova.
No início do século XX ele assumiu a direção do Departamento de Filosofia da Universidade de
Colúmbia, em New York, onde permaneceu até retirar-se do ensino. A partir de primeira guerra
mundial, interessou-se pelos problemas políticos e sociais. Lecionou filosofia e educação na
217

O rige n s e e vo lu çõe s da s ciên cia s e d a p esqu isa


Filó sof o s e cien t ist a s a o lo ng o da hist ó ria da civiliza ção

universidade de Pequim, China; elaborou um projeto de reforma educacional para a Turquia e durante
visitas a México, Japão e URSS estudou os problemas da educação nesses países.
Dewey não aceitava a educação pela instrução conforme era a proposta por Herbart. 50 Criticou a
educação tradicional, principalmente no que se refere à ênfase dada para: a) intelectualismo ou a
redutibilidade de tudo no Universo a elementos intelectuais, até mesmo categorias de fatos
considerados pela maioria dos filósofos como irredutíveis à inteligência (p.ex., os sentimentos e a
vontade), entendidos, em última análise, como fenômenos intelectuais confusos; e b) a memorização
ou o conjunto de operações metódicas que auxiliam a fixação (conservação e fixação e retenção) de
informações na memória; de aquisição mnemônica voluntária; que auxiliam a fixação de
conhecimentos na memória.
Para Dewey, o conhecimento é uma atividade orientada que não tem um fim em si mesmo, mas,
que está dirigida para a experiência. As ideias são hipóteses de ação e são verdadeiras quando
funcionam como orientadoras dessa ação.
A educação tem como finalidade, segundo Dewey, propiciar à criança condições para que resolva
por si própria os seus problemas; isso é contrário às tradicionais ideias de formar a criança de acordo
com modelos prévios, ou mesmo orientá-la para um porvir. Tendo o conceito de experiência como fator
central de seus pressupostos, chega à conclusão de que a escola não pode ser uma preparação para a
vida, mas sim, a própria vida.
Assim, para Dewey, a vida-experiência e a aprendizagem estão unidas, de tal forma que a função
da escola se encontra em possibilitar uma reconstrução permanente feita pela criança, da experiência.
A educação progressiva está no crescimento constante da vida, na medida em que o conteúdo da
experiência vai aumentado, assim como o controle que se pode exercer sobre ela. É importante que o
educador descubra os verdadeiros interesses da criança, para apoiar-se nesses interesses, pois para ele,
o esforço e disciplina, são produtos do interesse e somente com base nesse interesse a experiência
adquiriria um verdadeiro valor educativo.
Dewey atribui grande valor às atividades manuais, pois apresentariam situações problemas
concretas para serem resolvidas, considerando ainda, que o trabalho desenvolve o espírito de
comunidade. A divisão de tarefas entre os participantes, estimularia a cooperação e a consequente
criação de um espírito social.
Dewey concebia que o espírito de iniciativa e a independência levam à autonomia e ao
autogoverno. Estas seriam virtudes de uma sociedade democrática, em oposição ao ensino tradicional
que valoriza a obediência. A educação, para ele, é uma necessidade social, os indivíduos precisam ser
educados para que possam assegurar a continuidade social, transmitindo crenças, ideias e
“conhecimentos”. Ele não defendia o ensino profissionalizante, mas considerava a escola voltada aos
reais interesses dos alunos, valorizando sua curiosidade natural.
De acordo com os ideais da democracia, Dewey, vê na escola o instrumento ideal para estender a
todos, os seus benefícios, tendo a educação uma função democratizadora ao igualar as oportunidades.
218

Fundamentos da pesquisa
Volume 1

Essa concepção é responsável pelo otimismo pedagógico da escola nova criticado pelos teóricos das
correntes crítico-reprodutivistas. 51
O processo de ensino - aprendizagem estaria baseado, segundo Dewey, na compreensão de que o
saber é constituído por conhecimentos e vivências que se inter-relacionam de forma dinâmica; os
alunos e professor com experiências próprias aproveitadas no processo; o professor com sua uma visão
sintética de conteúdos; os alunos com sua visão sincrética; isso tornaria a experiência, de experimentar
e de provar, um ponto central na formação do conhecimento, mais do que os conteúdos formais; a
aprendizagem essencialmente coletiva, assim como seria coletiva a produção do conhecimento.
Um aspecto (ponto chave) a destacar nas ideais de Dewey é necessidade de estreitar a relação
entre teoria e prática ao acreditar que as hipóteses teóricas só têm sentido no dia-a-dia. Outro ponto-
chave de sua teoria é a crença de que o conhecimento é construído de consensos que, por sua vez,
resultam de discussões coletivas. “O aprendizado se dá quando se compartilham experiências e isso só
é possível num ambiente democrático, onde não haja barreiras ao intercâmbio de ideias”.
Seu grande mérito foi ter sido um dos primeiros a chamar a atenção para a capacidade de pensar
do aluno. 52 Acreditava que para o sucesso do processo educativo bastava um grupo se comunicar e
trocar ideias, sentimentos e experiências sobre as situações práticas do dia-a-dia. Ao mesmo tempo,
reconhecia que, à medida que as sociedades foram ficando complexas, a distância entre adultos e
crianças se ampliou. Ensinou argumentando que o aprendizado se dá quando os alunos são colocados
diante de problemas reais. A educação é “uma constante reconstrução da experiência, de forma a dar-
lhe cada vez mais sentido e a habilitar as novas gerações a responder aos desafios da sociedade”.
Educar, portanto, seria mais do que reproduzir conhecimentos, seria incentivar o desejo de
desenvolvimento contínuo, preparar pessoas para transformar algo.
Outro aspecto pertinente a ser destacado é o relativo à investigação dinâmica. Afirmava que não
havia investigação que não envolvesse alguma mudança nas condições do ambiente; o conhecimento
tanto como a ação, seria interativo. Afirmava; “a interação é um traço universal da existência natural;
ao admitir que conhecer seja algo que ocorre na natureza, então se segue como um truísmo: o conhecer
é um ato observável, accessível e aberto à experiência”. O conhecimento não seria o acesso à realidade
existente, porém escondida, mas a determinação ativa do que era mal determinado. Assim, o
conhecimento seria uma atividade de assegurar e gerar certezas e não de entendê-las.
Dewey desloca a ênfase da realidade (o que) que se pode observar para o método (o como) pelo
qual se interage, muda tanto o sujeito quanto o objeto e se transformam as coisas em eventos e
relações.
Os princípios lógicos são avaliados por suas consequências e são selecionados como princípios
provados pela evolução da investigação para serem confiáveis em função da capacidade de realizarem
conexões e inferências úteis.
219

O rige n s e e vo lu çõe s da s ciên cia s e d a p esqu isa


Filó sof o s e cien t ist a s a o lo ng o da hist ó ria da civiliza ção

2.7.25 Henri-Louis Bergson: 1859-1941


Nascido em Paris, de origem judaico-polonês. Estudou e lecionou filosofia na Escola Normal
Superior. Prêmio Nobel de Literatura. Sua filosofia, no sentido mais amplo, é uma exaltação à vida. A
evolução de seu pensamento se situa entre a intenção de se libertar de o racionalismo (o conhecimento
deve ser logicamente necessário, de um determinado modo e não de outro, universalmente válido e
admitido por todos os sujeitos) e o cientificismo, de interesse pela vida e com força criadora do
espírito.
A filosofia bergsoniana tem como ponto de partida duas fontes de conhecimento: a intuição
(corrente filosófica, o intuicionismo), descrita como um procedimento alógico que atinge a realidade
com mais autenticidade que a simples razão, quando age o homem sapiens; e a razão ou inteligência,
peculiar a ciência, que, diferentemente à intuição, atua sobre a realidade com base em elementos
conhecidos e inter-relacionados, apenas pelas suas relações extrínsecas, como acontece na ciência
experimental (positivismo) quando age o homem faber.
A filosofia de Bérgson é construída sobre quatro conceitos fundamentais sintetizados a seguir:
a) A intuição ou capacidade que permite perceber o objeto e seu dinamismo; é o ponto de partida e
primeiro instante do conhecimento, da ação cognitiva; é o método que permite conhecer a
realidade do eu que permanece no tempo, que flui e que vive.
b) A duração (durée, representação da exterioridade, algo que se modifica) ou devir alcançada pela
intuição; com a integração desses conceitos se tem a intuição da duração para representar uma
duração heterogênea e qualitativa, diferente ao conceito dominante em sua época de uma realidade
homogênea e divisível em partes distintas entre si por apenas ocuparem posições diferentes (a
ideia positivista científica). Ao examinar os dados da consciência constatou que não são
homogêneos, não se repetem de modo idêntico.
As fases da consciência são momentos heterogêneos compenetrados reciprocamente e não
alinhamentos simples e irreversíveis. Trata-se de uma sucessão rica e diversificada, caracterizada
não apenas pelos dados da consciência e da vida, mas, pelos dados da realidade; é a posição
dualista: da interioridade da consciência se passa à exterioridade da matéria, estabelecendo-se uma
relação entre a matéria e o espírito. Se a realidade é vida, para estudá-la é preciso se ter um
método que permita se aproximar a ela, sem submetê-la a pressão, a distorção nem a abstração;
esse método é a intuição.
c) A memória como o elo entre o material e o espiritual. Nessa relação o espírito busca na matéria
as percepções que são puramente materiais, ações e reflexos da matéria e que, portanto, não
existem isoladamente, ao se mostrar a existência de uma “coisa”; essa busca é desenvolvida na
forma de ações, que é a liberdade. A memória é mobilidade criativa identificada com o durée,
capaz de trazer ao presente todas as lembranças. A lembrança é a ação do espírito de perceber, de
lembrar, sendo a memória responsável de trabalhar no presente as lembranças ao formar os objetos
materiais e revelar, na organização [projeção] dos mesmos o futuro.
220

Fundamentos da pesquisa
Volume 1

Assim, Bérgson mostrou que o durée é dinamismo e algo que mostra transformação capaz de cria o
novo; esse novo proporciona a ação livre e criativa.. Dessa forma, tanto a lembrança como a
percepção não existe isoladamente. A matéria como imagem, é certa existência que aparece
através da visão, existe por si mesmo, tem atualidade e potência. Dentre dos conjuntos de imagens
há um que é mais bem conhecida, o corpo; ele ocupa um lugar especial por ser o centro da ação,
substrato da vida espiritual e por ser através dele que se percebe o mundo. Na obra A evolução
criadora propõe que a durée está nas coisas, responsável não apenas pelo ato livre criativo, mas,
pelo processo de evolução; daí porque Bérgson seja considerado o filósofo da evolução científica,
de um universo em contínua evolução, com novas formas.
Tanto em Essai sur les données immédiates de la conscience / Ensaio sobre os dados
imediatos da consciência, como na Matière et mémoire, essai sur la relation du corps à
l'esprit / Matéria e memória, ensaios sobre a relação do corpo com o espírito, Bergson
abordou o problema da inserção do espírito no mundo material.
Postulou que o passado se conserva íntegro na memória e que o cérebro apenas filtra as
lembranças que são úteis às ações do presente. Afirmava que o tempo da filosofia positivista não
tem duração e, por isso, não é possível relacionar com o tempo real, aquele que é atestado pela
consciência e que tem como característica essencial à duração. Dessa forma, o positivismo, em
relação ao tempo, seria insustentável porque os dados imediatos da consciência não se revelariam
de forma intermitente, mas, são dados contínuos e extensos. Nesse contexto, o tempo seria a
sucessão de estados de consciência, portanto, essencialmente duráveis, não sendo possível reduzi-
lo ao espaço nem considerá-lo um processo divisível, mas si em contínuo enriquecimento.
d) O impulso vital, o devir, categoria suprema das coisas; (élan; força e energia que atuam sobre a
matéria; potência inventiva e criativa; impulso de vida), é outro nome dado a durée. A evolução
criadora tem como ponto de partida a realidade com energia, fonte da qual emanam todas as
coisas. O impulso vital não é substância, mas, força que produz, por evolução, novas e melhores
formas; pela marcha evolutiva nascem linhas divergentes: a ascendente (vida que se faz) e a
descendente (matéria, realidade que se desfaz).
Em seu estado primitivo era a vida vegetativa e a vida animal, com o instinto adormecido; com a
evolução, desenvolveu-se o instinto (animais) e a inteligência (homem) que se elevou até a
consciência e a liberdade; contudo, persiste o instinto, como faculdade de apreender a essência das
coisas reais e a inteligência que conhece somente relações conceituais.
Bergson considerou que era necessário juntar o instinto e a inteligência na faculdade cognitiva e
na metafísica, manifestas na intuição, na razão, porém, sem atividade reflexiva. Em sua obra As
duas fontes da moral e da religião, considerou que a criatividade e a espiritualidade tendo
dimensões biológicas são, também, forças para poderão elevar a natureza em níveis mais
complexos de comportamento moral; quanto à moral, sua ideia é a de que ela não tem fundamento
na razão, apenas um instrumento de ordenamento, mesmo que a moral seja necessária para
constituir a ordem ética; dessa forma, a moral agiria em dois pólos: moral de pressão (limite
inferior) para garantir a coesão social, preservar a vida e os interesses das pessoas e moral no
221

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Filó sof o s e cien t ist a s a o lo ng o da hist ó ria da civiliza ção

limite superior, aberta para a liberdade com dois momentos: ética fechada (moral da razão
imutável, com base na ideia da sanção temporal: obedece às leis) e ética aberta (moral da
liberdade, do amor..., em movimento e com tendência para o progresso)
E a evolução de seu pensamento situa-se entre a intenção de libertar-se do racionalismo e
cientificismo do fim do século XIX e um interesse pela vida e a força criadora do espírito.
A intuição da duração heterogênea e qualitativa (durée) tinha uma concepção positivista e
científica, na época de Bergson, semelhante ao conceito de espaço; via-se nela, uma realidade
homogênea, divisível em partes, distintas entre si somente por ocuparem uma posição diferente: o
passado era considerado diferente do presente e do futuro apenas por ser anterior a ambos.
Essa concepção do tempo, segundo Bergson, era insustentável, testando-a com base em dados
imediatos da consciência que revelam algo contínuo, extenso e heterogêneo: nenhum estado da
consciência se repete de forma idêntica; poderão ser fases momentâneas; se o tempo for a sucessão de
estados de consciência, então, a duração não pode ser reduzida ao espaço, mas, será um processo em
contínuo enriquecimento, não é divisível e que caracteriza não só dados da consciência, mas, toda a
realidade, a vida, sem princípio constitutivo suprema.
O método para estudar a realidade, sem submetê-la a pressão, é a intuição ou a capacidade de
perceber um objeto e seu dinamismo; de conhecer pelo menos a realidade do eu que permanece no
tempo, flui e vive. Esse método foi aplicado para resolver problemas da teoria do conhecimento que,
segundo Bérgson, recebeu três soluções clássicas: o dualismo, o kantismo e o idealismo, as três com a
falsa afirmação de que percepção e a memória são especulativas, independentes da ação.
A obra Matéria e memória (...) tem um fundamento na durée, representação da exterioridade,
algo que se modifica e que mantém contato com a interioridade (dualismo); da interioridade da
consciência (memória que é elo entre a matéria e o espírito) passa a aceitar uma exterioridade (matéria
como imagem de uma visão), tentando fazer uma relação da matéria com o espírito, com base na
ordem material, sob os conceitos de imagem e percepção; na ordem espiritual, com base na memória
como elo entre o material e o espiritual.
Em Le rire / O riso, Bergson procurou determinar os processos de fabricação do cômico,
localizando-os no encontro da inteligência de quem ri com a eventual postura de um ser vivo que se
comporta como autômato. Na obra L'Évolution créatrice / A evolução criadora, a mais importante,
estabeleceu que a duração é o tempo específico de tudo aquilo que existe, seja espírito ou matéria, sem
se submeter às injunções da finalidade nem às rotas mecânicas, por ser espontaneidade pura ou impulso
vital.
A duração, por ser incapaz de apreensão pelo raciocínio analítico, só pode ser captada pela
intuição, uma “espécie de simpatia intelectual pela qual nos transportamos ao interior de um objeto
para coincidir com aquilo que ele tem de único e, por conseguinte, de inexprimível”. A última de suas
obras foi Les deux sources de la morale et de la religion / As duas fontes da moral e da
religião, onde confrontou duas morais, definidoras de dois tipos de sociedade: a moral fechada, que
emana das imposições sociais, forçando a pessoa ao automatismo e à rotina até esmagá-la; e a moral
222

Fundamentos da pesquisa
Volume 1

aberta, representada pelos místicos que escapam às pressões externas e, por sua capacidade geradora
de vida, tornam-se participantes da obra da criação.

2.7.26 Edmundo Husserl: 1859 – 1938


Nascido Prossnitz (Moravia), República Checa, de origem judaica. Estudou física, matemática,
astronomia e filosofia nas universidades de Leipzig, Berlim e Viena. Por não ser comprometido com
nenhum credo em particular respeitou toda crença religiosa autêntica. Começou sua carreira com
trabalhos matemáticos, com a publicação do primeiro volume de Philosophie der arithmetik /
Filosofia da aritmética.
Todo o seu pensamento filosófico foi desenvolvido como professor (universidades de Halle,
Goettingen e Friburgo de Brisgóvia) nos campos da matemática e da lógica sendo a sua maior
contribuição a elaboração rigorosa e sistemática do método fenomenológico. Tal método não seria uma
síntese a priori, segundo a proposta de Kant, mas, o estudo do objeto da forma como ele se manifesta
na realidade pura e livre de qualquer mistura. Com a utilização desse método estudou o conhecimento
refutando a doutrina gnosiológica imanentista do empirismo, do empiriocriticismo (isto é, a soma de
impressões e sensações subjetivas de que resulta o valor da ciência) e do cartesianismo, mostrando que
o conhecimento tem caráter intencional separado de aspectos psicológicos. Não se tratava de doutrina,
mas de um método geral que ao abordar o problema da consciência se constituiria em uma linha
filosófica fecunda do século XX, a escola fenomenológica. O principal expoente dessa escola foi
Heidegger. 53
Os fenômenos, segundo Husserl, produzem-se na consciência mediante uma série de esboços
sucessivos. Em tais esboços, a consciência é o elemento não variável que dá sentido ao conhecimento.
Demonstrou a elaboração das significações de idealidades lógico-matemáticas, considerando que a
lógica e a matemática precisam começar com uma análise da experiência que se encontra antes de tudo
pensamento formal; isso estaria sustentado em concepções empiristas de John Locke, George Berkeley,
David Hume e John Stuart Mill. Ao final tentou a construção de uma filosofia da vida e da percepção.
Após várias frustrações, exclusão da universidade com a chegada ao poder de Adolf Hitler e enfermo,
manifestou seu desejo de morrer de um modo digno de um filósofo: “Eu vivi como um filósofo (...) e
quero morrer como um filósofo".
Husserl acreditava que os filósofos complicavam a teoria do conhecimento, em lugar de
considerarem, com objetividade, o fenômeno da consciência (determinada pela intencionalidade), da
forma como é experimentado pelo homem. O interesse do filósofo deveria se concentrar no que se
passa na experiência de consciência mediante uma descrição precisa do fenômeno; daí a denominação
de fenomenologia à sua teoria; uma teoria que devia ser uma ciência puramente descritiva, para,
depois, passar a ser uma teoria transcendental à experiência, portanto, além do método cientifico.
Entendia que as teorias do conhecimento de Descartes e Kant tinham defeitos incorrigíveis
como o da incerteza do que aparece na consciência correspondesse ao real. Nessas teorias se têm
apenas pressuposições de que aquilo que estava na consciência guardava alguma relação com os
223

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Filó sof o s e cien t ist a s a o lo ng o da hist ó ria da civiliza ção

correspondentes objetos do mundo exterior. Acreditava que a filosofia devia ficar livre dessas
suposições e que pensar o mundo somente poderia ser feito depois de bem examinada a matéria no
campo da consciência.
Na opinião de Husserl não era proveitoso à discussão de uma teoria do conhecimento sem antes
examinar a matéria, uma vez que o que teria existência verdadeira e assegurada seriam os fatos da
consciência. Assim, qualquer problema filosófico tradicional deveria ser examinado após sua completa
descrição fenomenológica: criar uma época para a questão em exame; seria o detalhamento da
apreensão da realidade como um fenômeno da consciência, isto é, a redução transcendental para tornar
o conhecimento preciso, objetivo e analítico, como uma simples experiência da consciência. A redução
teria início no estudo das ideias (a essência das coisas: a redução eidética para os filósofos antigos)
para depois descrever o Eu. Com isso, pretendia chegar a uma metodologia para a filosofia que
garantisse a certeza e, assim, corrigir os defeitos de teorias do conhecimento.
A parte que segue apresenta alguns pontos da evolução e sequência do pensamento de Husserl
como asuntos para uma atenta e profunda reflexão.
Em uma de suas primeiras obras (tese) Uber den Begriff der Zahl: Psychologische Analysen
/ Sobre o conceito de número: análise psicológica, Husserl mostrou a transição da pesquisa
matemática para a reflexão psicológica de conceitos, sendo depois desenvolvida como base de outras
obras. O fundamento filosófico para a lógica e a matemática começa, segundo Husserl, com a análise
da experiência que precede todo pensamento formal. Seriam as ideias empiristas de John Locke,
David Hume e John S. Mill.
A terminologia da lógica e semântica derivada da tradição empirista, levou-o às concepções
apresentadas em sua obra Logische Untersuchungen / Investigações lógicas; nessa obra dirigiu a
atenção para os fundamentos da lógica mostrando o método de análise fenomenológico como uma
ciência filosófica universal. Essa nova visão representou um sério golpe ao positivismo e nominalismo
dominantes no século XIX. Simultaneamente, sem método, com destaque de conteúdos e essências do
objeto, contribuiu para o pensamento antikentiano.
Para Husserl, o objeto percebido da realidade é tema que se coloca na consciência quando esta se
volta para o fato da realidade. É esta percepção externa que se torna assunto para a reflexão e perante a
qual poderá se afirmar a existência do objeto. É o retorno às coisas mesmas, à essência (eidós) como
uma construção que resulta de um ato intencional da consciência. Do ponto de vista metodológico,
representa a redução e análise (eidética e busca do eidós, da essência), o Eu e, depois, a compreensão
das relações entre as pessoas.
O princípio básico do método é a redução fenomenológica, (a eidética), procurada com a
experiência básica da consciência. Tal redução seria, também, uma reflexão acerca das funções pelas
quais o essencial se torna consciente. Nesse caso a redução revelaria o Eu em que todas as coisas têm
sentido. Essa foi a virada da fenomenologia para um novo estilo de filosofia transcendental
apresentada na obra Ideen zu einer reinen Phänomenologie und phänomenologischen
Philosophie / Ideias: introdução geral à fenomenologia pura com a pretensão de se constituir em
224

Fundamentos da pesquisa
Volume 1

um manual para seus estudantes. Entretanto, a maior parte de seus alunos considerou essa filosofia um
retrocesso e o movimento fenomenológico se desfez. Com isso, complicou-se sua permanência na
atividade como professor em Göttingen.
Da obra Ideias: introdução (...), são destacados alguns conceitos (NICOLA, 2005; p.456 –
461):
a) não existem limites à capacidade de duvidar, ao responder do que se pode duvidar? e é possível
iltrapassar os próprios preconceitos? A tentativa de duvidar entra no campo da completa
liberdade do indivíduo: duvidar de tudo e de qualquer coisa, mesmo com certezas, com base em
evidência adequada;
b) a fenomenologia é uma proposta de uma dúvida sistemática (suspender os juízos sobre os
fenômenos, as crenças ingênuas, porém, sem excluir a existência de uma verdade) em relação a
teses específicas, sem interesse na dúvida universal (como proposta por Descartes);
c) é preciso lutar contra a predisposição que leva a considerar os resultados dos processos como
descrições objetivas do mundo e os conteúdos ordinários da mente como verdades óbvias; ao
contrário, deve-se assumir uma atitude fenomenológica, desinibida, desinteressada e crítica, em
primeiro lugar em relação aos hábitos mentais;
d) a crise da ciência não é interior às disciplinas incontestáveis em suas teorias individuais, mas diz
respeito ao significado geral, à sua capacidade de se dirigir ao ser humano e sua espiritualidade,
de responder as suas questões sempre relativas aos significados, não aos fatos; dessa forma a
redução da história a uma sucessão de eventos contatáveis pela abordagem científica (com a
exclusão de fatores de subjetividade) acaba por ocultar o seu sentido profundo e leva à perda de
significado desses eventos; uma nova ciência deveria estudar a espiritualidade segundo os seus
princípios, inclusive, a subjetividade.
O recomeço da atividade filosófica de Husserl se deu na Universidade de Freiburg com um novo
programa de trabalho apresentado na obra Die reine Phänomenologie, ihr Forschungsgebiet und
ihre Methode / Fenomenologia pura, sua área de pesquisa e seu método. Partia da tese da
fenomenologia, com seu método de redução, como sendo o caminho para a realização da autonomia
ética do homem, para a justificação da vida. Ao desenvolver essa tese continuou elucidando a relação
entre a análise psicológica e a análise fenomenológica da consciência e sua pesquisa, quanto ao
embasamento da lógica. O resultado dessas elucidações foi a obra Formale und transzendentale
Logik: Versuch einer Kritik der logischen Vernunft / Lógica formal e transcendental.
As palestras de Husserl (p.ex., em universidades como as de Londres, Amsterdã e Paris /
Sorbone, Praga) foram aproveitadas para uma nova apresentação da fenomenologia, sob o título
Méditations cartésiennes / Meditações cartesianas. Na Sociedade Cultural em Viena apresentou a
palestra (repetida em outros locais) Die Philosophie in der Krisis der europäischen Menschheit /
A filosofia na crise da humanidade européia da qual surgiu sua última obra Die Krisis der
europäischen Wissenschaften und die transzendentale Phänomenologie: Eine Einleitung in
225

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die phänomenologische Philosophie / A crise da ciência européia e a fenomenologia


transcendental: uma abordagem da filosofia fenomenológica.

2.7.27 Pierre Maurice Marie Duhem: 1861 – 1916


Nascido em Paris, França. É tido como um filósofo da ciência, responsável pro uma revolução
na história da ciência ao redescobrir importantes desenvolvimentos mecânicos da Idade Média, com
numerosas evidências históricas consolidadas por Voltaire e consolidadas por Kant. Em sua obra Lês
origines de la estatique / A origem da estática e na Révue das questions scientifiques / Jornal
das questões científicas revelou aspectos do estudo sistemático da história da ciência e ficou
surpreso com a redescoberta da estática medieval; assim se expressou: “antes de chegar ao tratado
fundamental de estática produzido (...) por Jordanus de Nemore é necessário juntar os numerosos
fragmentos espalhados de manuscritos (...) sobre a ciência do equilíbrio compostos em Alexandria”.
O interesse de Duhen se concentrava na física e matemática, em particular, na termodinâmica,
hidrodinâmica, eletricidades, mecânica e matemática química. Considerava a mecânica como um caso
particular da teoria geral do espaço. Em sua obra Ètude sur Leonard de Vinci / Estudo sobre
Leonardo da Vinci, chama a atenção sobre numerosas e acertadas correções da mecânica aristotélica,
da queda livre e do movimento dos projéteis apresentado, por primeira vez, o tratado cinemático do
movimento uniforme e uniformemente disforme (aceleração ou retardo) descobertos no século XIV.
Daí passou a sustentar sua tese de continuidade do desenvolvimento da ciência composta por
duas partes: a primeira indicada por “as condenações de 1277 54 marcaram a origem da ciência
moderna, a ruptura decisiva com Aristóteles e o começo de novas e imaginativas cosmologias (...); a
segunda parte: “os desenvolvimentos do século XIV, que se seguiram à condenação, permitiram o
nascimento de novos conceitos fundamentais para o desenvolvimento da mecânica” como o do impetus
de Buridan como sendo a teoria da inércia, com a concepção moderna do movimento; Oresme ser o
fundador da geometria analítica com seu sistema de representação gráfica e o precursor de Copérnico
por sua discussão do movimento de rotação da Terra (3º. vol. de sua obra Ètude sur (...)).
Duhem, antes de empreender a reconstrução histórica da ciência na Idade Média, desenvolveu
concepções filosóficas fundamentais sobre o objeto da teoria física e dos métodos teóricos e
experimentais da física; essas concepções foram apresentadas (publicadas) em quatro ensaios, 55 cuja
síntese pode ser: as teorias físicas não são explicações metafísicas que revelam as causas do fenômeno,
mas, apenas meios de classificar e coordenar as leis de sucessão do fenômeno mediante representações
simbólica e econômica dessas leis (DUHEN, 1989).
Além da contribuição à história da ciência e às redescobertas científicas medievais, Duhem
trouxe importantes contribuições ao método científico. Nesse campo, sua ideia central era a de que no
processo de investigação o significado de um enunciado reside na inserção do mesmo em um conjunto
mais amplo de enunciados. Assim, enunciados isolados nada significam. Se nada significam, tais
enunciados não poderão se constituir referências ou pontos de partidas para a derivação de
consequências empíricas passíveis de teste. Essa ideia serviu de base para Hume, com sua visão
226

Fundamentos da pesquisa
Volume 1

indutivista do conhecimento e a concepção de causalidade subjacente a essa visão, criticar e condenar


os livros de metafísica.
Dois séculos mais tarde, Quine fez o mesmo em relação aos livros-textos de metodologia
científica de pesquisa, com a ideia da inferência científica baseada no teste simplistas de enunciado de
prova sintetizado por: se P, então Q; não Q, logo não P, com status canônico. Tais enunciados,
amplamente utilizados por Durkheim e Weber, são aplicados em estudos sociais, apesar das críticas
de holismo de Duhen-Quine.
Duhen sustentava que a concepção do trabalho científico 56 era a de produzir representação
simbólica arbitrária (por ser matemática) e aplicada (por ser contingente) para se ter uma classificação
e ordenação econômica de leis obtidas pela observação regular de sucessão dos fenômenos físicos. Esta
ideia dá sustentação a sua tese de continuidade do desenvolvimento histórico e a reconstrução histórica
da ciência medieval; dessa forma, p.ex., a mecânica galileana desenvolvida com observância do
método instrumentalista é a continuidade da mecânica medieval.

2.7.28 Emil Maximillian Weber: 1864 – 1920


Nascido em Erfurt, Alemanha. Estudou em Göttingen e Berlim. Com formação em economia,
história, direito e filosofia trouxe para a sociologia uma rica e complexa perspectiva sobre a vida
social. É considerado, junto com Karl Marx, Vilfredo Pareto e Émile Durkheim, um dos modernos
fundadores da sociologia como disciplina e da perspectiva funcionalista, em particular; é conhecido,
em especial, pelo seu trabalho da sociologia da religião. Com base no positivismo de Saint-Simon e
Comte, definiu a sociologia como uma maneira sistemática de pensar, diferente da tendência de
reduzir os fenômenos sociais a experiências e características dos indivíduos.
Dentre as obras de Weber se tem: A ética protestante e o espírito do capitalismo, um ensaio
sobre as religiões e a influência dos seus seguidores. Metodologia das ciências sociais, onde
considerou os problemas metodológicos frente às dificuldades do trabalho do pesquisador. Sociologia
da religião. Economia e sociedade. História econômica geral. Teoria da organização
econômica e social.
Ética protestante e o espírito do capitalismo, ensaio fundamental sobre as religiões e a
afluência dos seus seguidores, tendo como referência a situação econômica da Alemanha no início do
século XX.
Excetuando alguns poucos trabalhos precursores como os de Montesquieu, o estudo científico
dos fatos sociais, com métodos diferentes dos utilizados pelas ciências naturais e o sucesso das
transformações da revolução industrial, começaram a se constituir a meados do século XIX. Contrário
às posições de pesquisadores que procuravam conhecer cientificamente os fatos sociais pelo caminho
metodológico apontado por Galileu e outros, surgiram outros cientistas afirmando que as
peculiaridades do fato humano com, p.ex., as diferenças entre a experiência externa (fatos naturais,
227

O rige n s e e vo lu çõe s da s ciên cia s e d a p esqu isa


Filó sof o s e cien t ist a s a o lo ng o da hist ó ria da civiliza ção

observações sensíveis, dados quantitativos etc.) e a experiência interna (introspectiva, intuição,


descrições qualitativas etc.) exigia uma metodologia própria.
Weber foi o primeiro responsável pelas discussões sobre o uso do método de pesquisa nas
ciências sociais, incluindo aspectos como os de objetividade e neutralidade de valor. Concebeu o
objeto da sociologia como a captação da relação de sentido da ação humana. Nessa captação, conhecer
um fenômeno social significa extrair o conteúdo simbólico de ações que o configuram. Entendeu por
ação aquela cujo sentido pensado pelo sujeito é referido ao comportamento dos outros; tal ação
orientaria o seu comportamento. Dessa forma colocado o problema não será possível explicá-lo como o
resultado de um relacionamento de causas e efeitos, mas compreendê-lo como um fato carregado de
sentido, como algo que aponta para outros fatos e somente em função dos quais poderia ser conhecido
o fato social em toda a sua amplitude (WEBER, 1979; 2003).
O método compreensivo de Weber aplicado no estudo sociológico consistia em entender o
sentido contido nas ações de um indivíduo e não apenas o fato exterior dessas mesmas ações; assim,
p.ex., a ação de uma pessoa dar a outra um pedaço de papel seria irrelevante para a pesquisa social;
somente quando se tenha conhecimento de o por que e o significado do que ocorreu com esse fato
(p.ex., o pedaço de papel é um cheque para pagar uma dívida) é que se teria uma ação carregada de
sentido, de significado social. Isso ocorre na medida em que as duas pessoas atribuem a esse pedaço de
papel uma função, a de servir como meio de pagamento, e essa função é socialmente reconhecida
(WEBER, op. cit.).
A captação de sentido de uma ação humana não poderia ser realizada por meio, exclusivamente,
dos procedimentos metodológicos das ciências naturais, embora a observação de um fato seja essencial
para o pesquisador social. Essa observação [e registro] é fundamental tanto para as ciências naturais
como para as sociais; significa que esses fenômenos obedecem a uma regularidade causal com a
mesma referência ou esquema lógico de prova. Entretanto, o mesmo não ocorre com a formulação de
leis.
Com as leis sociais, estabelecem-se relações causais prováveis segundo as quais a determinados
processos devem seguir-se, ou ocorrerem simultaneamente, outros, possibilitando construções de
comportamentos com sentido geral. São os tipos ideais ou primeiros níveis de generalizações 57 de
conceitos abstratos relativos às exigências lógicas da prova, aplicáveis aos casos particulares. O
conceito de tipo ideal corresponde a um processo de conceituação que abstrai de fenômenos concretos
o que existe de particular, constituindo-se, assim, um conceito individualizante, um “conceito histórico
concreto”: retrato do fenômeno concreto aquilo que ele tem de geral, as uniformidades e regularidades
observadas em diferentes fenômenos de uma mesma classe (WEBER, op. cit.).
A análise da teoria weberiana, como ciência e método científico, tem como ponto de partida
quatro tipos de ações:
a) a ação racional com relação a um objetivo determinado por expectativas no comportamento
tanto do objeto da realidade exterior como de outras pessoas que utilizam essas expectativas para
alcançarem suas próprias finalidades; é uma ação concreta que tem um fim específico como, p.ex.,
228

Fundamentos da pesquisa
Volume 1

o pesquisador que gera uma tecnologia para controlar a praga (...) que afeta à produção de (...),
sob a perspectiva social dessa tecnologia;
b) a ação com relação a um valor definido em base a determinados valores como são os éticos,
estéticos e religiosos condicionadores de conduta; a pessoa age aceitando os riscos não para obter
determinado resultado exterior, mas, para permanecer fiel aos seus valores, crenças, princípios
(...); é o caso, p.ex., do comandante que afunda com o seu navio;
c) a ação afetiva determinada por um estado de consciência, um sentimento, uma reação emocional
(...) em determinadas circunstâncias e não motivada por um objetivo determinado ou um sistema
de valor, como é o caso do pai que “castiga ou corrige” o seu filho quando age mal; esta ação
produz relação entre pessoas; e
d) a ação tradicional ditada por hábitos, costumes, crenças (...) transformadas numa segunda
natureza para agir conforme a tradição, produzindo relação entre as pessoas.

2.7.29 Bertrand Arthur William Russell: 1872 – 1970


Nascido em Ravenscroff, Gales, Inglaterra. Estudo filosofia na Universidade de Cambridge. Foi
um dos mais importantes e influentes filósofos, matemáticos e lógicos do início do século XX, em
especial, no Grupo (Círculo) de Viena. Foi destacado e influente matemático (especial empenho para
levar a matemática até as ciências biológicas), filósofo (popularizador da filosofia com viés lógico-
matemático) e lógico (segundo Russel, aquilo que deflui de análise de proposições, aplicada em teoria
dos números e redução da matemática à lógica), com importante atuação política liberal e ativista –
pacifista. Foi considerado respeitável “profeta” da vida racional e da criatividade. Ganhador do Prêmio
Nobel de Literatura. Seus conceitos ajudaram à filosofia analítica.
Da volumosa obra de Russell, destacam-se: Introdução à filosofia matemática. The
Principles of Mathematics. On Denoting um clássico artigo.
The problem of philosophy, em que defende que nem todo conhecimento é derivado de
experiências: não se deriva da experiência uma proposição matemática, nem o princípio da indução.
Knowledge by Acquaintance and Knowledge by Descriptions. The Philosophy of Logical
Atomism conferências.
The principles of mathematics (Principia Mathematica) /Os princípios de matemática. em
três volumes (co-autoria com o A. N. Whithead), contendo importantes contribuições no projeto
logicista de Russell – Whitehead. Aparece, nesta obra, entre muitos outros conceitos, o de que
“todas as verdades matemáticas, não apenas as da aritmética (...), poderiam ser deduzidas a partir
de umas poucas verdades lógicas e todos os conceitos matemáticos seriam reduzidos a uns
poucos conceitos lógicos primitivos”. Outros exemplos é o paradoxo de Russell, em que
procurou limitar os paradoxos e orientar a teoria para as chamadas descrições definidas mediante
reconstruções lógicas (...), com estruturas do tipo: o tal é qual; nesse contexto, aponta que a
análise lógica precisa de frases declarativas com proposições gerais, como, p.ex., o presidente do
229

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Brasil e a cachorra branca de olhos negros e rabo curto; contrariamente à aparência, a primeira
frase não expressa proposição singular, mas, uma proposição geral.
Analysis of matter, em que defende que o empirismo precisa ser complementado com alguns
postulados, caso se deseje uma filosofia adequada da ciência, formulando alguns desses princípios
como os da quase permanência e da própria indução. A tese logicista de fundamentação da
matemática.
Em The principles (...), Russell admitia que frases descritivas se referissem a entidades reais; a
frase a cachorra branca de olhos negros e rabo curto, transforma-se, no caso de uma sentença geral,
em: existe um e um só objeto tal que ele é a cachorra (...). Se esse objeto existe com tais atributos,
então a descrição é definida (certa) e aponta para o mesmo. Poderão existir outras cachorras com
outros atributos e a descrição passaria a ser imprópria ou indefinida (falsa). Poderá ocorrer, também,
que a cachorra com essa descrição não exista e, neste caso, a descrição é vazia.
Essa é a essência da teoria dos tipos lógicos ilustrada com o exemplo da cachorra, com vários
níveis linguísticos, sintetizados, com dois exemplos, nas seguintes estruturas simbólicas: uma classe
“A” é de tipo mais elevado que o tipo dos elementos de ”A” (classe de uma entidade vs. tipo de
elementos da mesma entidade); para qualquer enunciado “B”, em relação a outro enunciado “C” que
for de tipo mais elevado (entidades diferentes). Tais frases não terão significados lógicos quando
houver confusão de tipos, mesmo que os enunciados sintaticamente estejam formulados de maneiras
corretas, conforme se ilustra no próximo parágrafo.
Na proposição y é mortal, em que a variável y poderia ser substituída (âmbito de significância
ou tipo de função) por uma constante (p.ex., uma pessoa), transformando-a em proposição verdadeira;
deve ser uma entidade particular com sentido, mesmo que a proposição seja falsa; exemplos: uma
entidade particular é mortal; sem sentido como no caso uma classe de homem ou a humanidade é
mortal; concluindo que a função deve ser sempre do tipo mais elevado do que o dos argumentos
(exemplo acima: “A”). Ao substituir a função por outras constantes (p.ex., uma pedra), a definição
passaria a ser falsa. Ainda, na substituição da variável y por algumas constantes a tornarão sem
significado. Esse raciocínio levou a Russel a transformar a dicotomia: verdadeiro – falso de S. Mill,
numa tricotomia: os enunciado podem ser: verdadeiros, falsos e sem significado.
Russell estudou a análise anterior para outras expressões como as dos nomes próprios ordinários
que poderiam ser abreviações de descrições definidas na mente quando usados tais nomes; assim, p.ex.,
Aristóteles seria uma abreviação de uma descrição como "o maior discípulo de Platão". Em estreita
harmonia com essas teses lógicas desenvolveu algumas teses da teoria do conhecimento, em particular,
a distinção entre conhecimento direto e conhecimento por descrição.
O conhecimento que se tem acerca de um atributo como, p.ex., a técnica utilizada é apropriada
para o cliente (...); é uma proposição particular que poderia ser transformada numa frase como: a
técnica é apropriada. Os conhecimentos que se têm dos números e de suas relações numéricas como,
p.ex., 2 é maior que 1, envolvem conceitos lógicos, e não os conhecimentos diretos dos números.
Russell formulou a relação entre essas duas formas de conhecimento na seguinte frase (Princípio de
230

Fundamentos da pesquisa
Volume 1

Russell): todo o conhecimento envolve a relação direta do sujeito cognoscente com alguma entidade,
mesmo que esse conhecimento seja somente por descrição.
Na obra The problems of philosophy, Russel analisa as coisas asseverando que se tem
conhecimento não de objetos físicos, mas, de dados sensoriais, sendo a existência do objeto físico uma
hipótese cuja aceitabilidade depende da capacidade de simplificar a explicação / significado da
observação no dado sensorial, com fundamentos cartesianos: procuram-se pontos sem dúvidas para se
ter um conhecimento sensorial; entretanto, existe um conhecimento universal quando se tem um dado
sensorial que é atribuído como posterior a outro, tem-se um conhecimento de um universal,
correspondente a relação posterior; porém, não se tem conhecimento do objeto físico que precisa ser
inferido a partir de dados sensoriais.
Um aspecto que deve ser destacado nesta síntese é o relativo à indução. Para Russell, trata-se de
um princípio (método) que é incoerente porque não se têm motivos para esperar que o futuro seja
semelhante ao passado; por outro lado, não se tem como estabelecer que o princípio da indução se
justifique a partir da experiência, além de não ter base matemática. Mas, vê-se na contingência de
aceitar uma conclusão sem pleno fundamento; isto, porque o conhecimento com base em resultado de
experimento foi obtido na crença (crença que a experiência não poderá aceitar ou rejeitar) que tem
raízes na experiência.

2.7.30 William Sealey Gosset (Student, pseudônimo): 1876 – 1937


Educado em Cantenburry, Inglaterra. Estudou química, matemática e estatística em New College,
Oxford e Winchester. Bem relacionado com Karl Pearson. Seu trabalho foi ignorado e só redescoberto
por Fisher.
Gosset como químico começou a fazer experiências relacionadas com o controle da qualidade,
aplicando a distribuição normal, encontrando dificuldades na utilização da lei do erro em amostras
pequenas; para solucionar os problemas desenvolveu o teste t de Student baseado na distribuição de
probabilidade t; a distribuição t é uma distribuição de probabilidade teórica, semelhante à distribuição
normal reduzida, diferenciando-se pela introdução de um parâmetro chamado grau de liberdade
(PEARSON, 1990).
Entre os trabalhos publicados por Gosset se destacam: The application of the law of error to
the work of the Brewery. On the error of counting with hæmacytometer, Biometrika, v. 5, n. 3.
Probable error of a correlation coefficient, Biometrika, v. 6, n. 2/3. The distribution of the
means of samples which are not drawn at random, Biometrika, v. 7, n. 1/2. An experimental
determination of the probable error of Dr Spearman's correlation coefficients, Biometrika, v.
13, n. 2/3. Student’s Collected Papers. London: Biometrika Office.
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2.7.31 Albert Einstein: 1879 – 1955


Nascido em Ulm, Alemanha. No Luitpold Gymnasium desenvolveu seu sentido crítico com
relação à autoridade, traço que, segundo Hawking (2005), lhe foi útil como cientista cético. Estudou na
Escola Politécnica de Zurique.
Einstein, com relação à inteligência afirmava:

Algo só é impossível até que alguém duvide e prove o contrário. A maioria de nós prefere olhar para
fora e não para dentro de si mesmo.

Nenhum problema pode ser resolvido pelo mesmo estado de consciência que o criou. É preciso ir
mais longe. Eu penso várias vezes e nada descubro. Deixo de pensar, mergulho em um grande silêncio
e a verdade me é revelada.

Às vezes me pergunto porque eu fui o único a desenvolver a teoria da relatividade. A razão, acho, é
que um adulto normal nunca pára pra pensar nos problemas de espaço e tempo. Essas são coisas que
só as crianças pensam. Mas como meu desenvolvimento intelectual foi retardado, como resultado eu
comecei a me perguntar sobre espaço e tempo somente quando cresci.

Eu sou suficientemente artista para desenhar livremente na minha imaginação. Imaginação é mais
importante que conhecimento. O conhecimento é limitado. A imaginação dá a volta ao mundo."

Com relação à ciência (e a religião) afirmava:

Nenhuma experimentação, por mais intensa e precisa que seja, pode provar minhas ideias; um único
experimento, todavia, pode demonstrar que estou errado.

Ciência sem religião é manca. Religião sem ciência é cega.

A ciência nos afasta de Deus, mas a ciência pura nos aproxima de um criador.

Algo que aprendi em uma longa vida: toda nossa ciência, medida contra a realidade, é primitiva e
infantil - e ainda assim, é a coisa mais preciosa que temos.

O espírito científico, fortemente armado com seu método, não existe sem a religiosidade cósmica. Ela
se distingue da crença das multidões ingênuas que consideram Deus um ser de quem esperam
bondade e do qual temem castigo; um sentimento exaltado semelhante aos laços do filho com o pai;
um ser com quem também estabelece relações pessoais, por respeitosas que sejam.

Como é possível que a matemática, sendo afinal um produto do pensamento humano, que é
independente da experiência, seja tão admiravelmente apropriada para os objetos da realidade? Será
que a razão humana é, sem recurso à experiência, meramente pelo pensamento, capaz de sondar as
propriedades das coisas reais? Em minha opinião a resposta a esta pergunta é em poucas palavras: na
medida em que as leis da matemática referem-se à realidade, elas não são exatas; e, na medida em que
elas são exatas, não se referem à realidade.
232

Fundamentos da pesquisa
Volume 1

A religiosidade do sábio consiste em espantar-se, em extasiar-se diante da harmonia das leis da


natureza, revelando uma inteligência tão superior que todos os pensamentos humanos e todo seu
engenho não podem desvendar, diante dela, a não ser seu nada irrisório. Este sentimento desenvolve a
regra dominante de sua vida, de sua coragem, na medida em que supera a servidão dos desejos
egoístas. Indubitavelmente, este sentimento se compara àquele que animou os espíritos criadores
religiosos em todos os tempos.

Triste época!. É mais fácil desintegrar um átomo que um preconceito.

Acredito no Deus de Spinoza, que se revela por si mesmo na harmonia de tudo o que existe, e não no
Deus que se interessa pela sorte e pelas ações dos homens”. “(...), minha religiosidade [religião
cósmica] consiste em uma humilde admiração pelo espírito infinitamente superior que se revela no
pouco que nós, com nossa fraca e transitória compreensão, podemos entender da realidade. (Religião
e ciência, parte de seu livro Como vejo o mundo).

Com relação à vida, Einstein acreditava em:

A vida não dá nem empresta, não se comove nem se apiada. Tudo quanto ela faz é retribuir e
transferir aquilo que nós lhe oferecemos.

A vida é como jogar uma bola na parede. Se for jogada uma bola azul, ela voltará azul, se for jogada
uma bola verde, ela voltará verde, se a bola for jogada fraca, ela voltará fraca, se a bola for jogada
com força, ela voltará com força. Por isso, nunca jogue uma bola na vida de forma que você não
esteja pronto a recebê-la.

O ser humano vivencia a si mesmo, seus pensamentos, como algo separado do resto do universo -
numa espécie de ilusão de ótica de sua consciência. Essa ilusão é um tipo de prisão que nos restringe
aos nossos desejos pessoais, conceitos e ao afeto apenas pelas pessoas mais próximas. Nossa
principal tarefa é a de nos livrarmos dessa prisão, ampliando o nosso círculo de compaixão, para que
ele abranja todos os seres vivos e toda a natureza em sua beleza. Ninguém conseguirá atingir
completamente este objetivo, mas lutar pela sua realização já é por si só parte de nossa liberação e o
alicerce de nossa segurança interior.

A investigação científica se baseia na ideia de que tudo o que ocorre está determinado pelas leis da
natureza; por esta razão, um investigador científico dificilmente se verá inclinado a crer que os
acontecimentos possam ser influenciados pela oração, ou por um desejo dirigido a um ser
sobrenatural.

Antes de morrer: Quero partir quando quiser. É de mau gosto prolongar a vida artificialmente; já dei
o meu contributo, é tempo de partir. Fá-lo-ei elegantemente.

Os primeiros trabalhos de Einstein, com apenas 26 anos de idade, revolucionaram as bases da


ciência moderna, com mudanças nos princípios absolutos de Newton; esses trabalhos foram
submetidos para publicação na revista alemã Annalen der Physik / Anais da física. O primeiro
artigo, Sobre uma visão heurística da produção e transformação da luz, com base na teoria do
233

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quantum de Max Planck, explicou o efeito fotoelétrico, o quanta da luz com suficiente energia,
segundo o qual para cada elétron emitido é utilizada uma quantidade de energia específica (o quanta
pode extrair elétrons nos corpos em que batem), contradizendo a teoria ondulatória da luz de equações
de Maxwell; esse efeito quântico foi a base para grande parte do desenvolvimento posterior da
mecânica quântica.
Em seu segundo artigo, Sobre uma nova determinação das dimensões moleculares
(dissertação de doutorado), Einstein tratou sobre o movimento browniano, um fenômeno descrito pelo
botânico Robert Brown após o seu estudo do movimento errático do pólen suspenso em um fluido,
apresentado como uma evidência experimental da existência dos átomos, substituindo a ideia do átomo
como apenas um conceito útil; na experimentação relacionou as grandezas estatísticas desse
movimento com o comportamento dos átomos, determinando o número deles através de um
microscópio; esse movimento seria causado pela pelas colisões entre átomos e moléculas.
No terceiro artigo estabeleceu o princípio da equivalência de energia e de massa; naquele ensaio
teórico Sobre a eletrodinâmica dos corpos em movimento sem comentários nem citação
bibliográfico, Einstein em apenas 9.000 palavras e em cinco semanas, introduziu os conceitos teóricos
da teoria da relatividade restrita (especial) ao estabelecer uma relação detalhada entre os conceitos de
tempo, distância, massa e energia, omitindo a força gravitacional. Nessa relação teve como suporte
dois axiomas: um de Galileu: as leis da natureza são as mesmas para todos os observadores que se
movem a uma velocidade constante relativamente uns aos outros; o outro axioma foi o de que a
velocidade da luz é a mesma para todos os observadores.
No quarto artigo Einstein apresentou uma dedução teórica derivada dos axiomas da relatividade;
era a relação entre massa e energia mediante uma equação: a energia é equivalente à massa
multiplicado pelo quadrado da velocidade da luz cujo significado pode não ser facilmente apreendido,
mas cujo resultado foi comprovado com a explosão da bomba atômica. Essa equação permitiu explicar
como foi a explosão de energia pura, o Big-bang (singularidade do início do universo cerca de 15
bilhões de anos atrás; HAWKING, 2002) que poderia ter dado origem à matéria, bem como constatar
que uma quantidade mínima de matéria tem o potencial de fornecer uma enorme quantidade de energia
pela divisão do átomo, pela fissão nuclear.A natureza do espaço e do tempo sempre foram enigmas
para os filósofos da ciência; com Einstein se começou a entender o espaço-tempo, diz que:

Se a teoria da relatividade especial ou restrita mudou (...) os conceitos de tempo e masanece sempre
similar e imutável´; o espaço newtoniano é euclidiano, infinito e ilimitado (...), sua estrutura é
independente da matéria que o ocupa; nele todos os corpos gravitam uns em direção aos outros sem ter
efeito na estrutura do espaço. Em contraste, a teoria da relatividade geral afirma que não apenas a
massa gravitacional de um corpo age em outro corpo, mas, também influencia a estrutura do espaço.

Na teoria da relatividade geral ou a teoria do espaço-tempo curvo, foi confirmada na África


Ocidental quando foi observada uma pequena deflexão da luz por ocasião da passagem perto do Sol
durante um eclipse; foi uma evidência de que o tempo e o espaço são deformáveis (HAWKING, 2002;
p.21).
234

Fundamentos da pesquisa
Volume 1

Einstein considerava que na formação do profissional se devia prioritariamente desenvolver a


“capacidade geral para o pensamento e julgamento independentes” em contraste com a aquisição de
conhecimentos particulares: “Se uma pessoa domina o que é fundamental no seu assunto e aprendeu a
pensar e a trabalhar de forma independente, ele seguramente encontrará o seu caminho e além do mais
será capaz de se adaptar melhor ao progresso e as mudanças do que a pessoa cujo treino consistiu
principalmente em adquirir conhecimentos detalhados.”
No que diz respeito às metodologias de ensino, Einstein afirmava: “As personalidades não são
formadas por aquilo que é ouvido e dito, mas pelo trabalho e a atividade. Assim, o método mais
importante de educação devia consistir na atividade efetiva (...), válido tanto nas primeiras tentativas de
escrever como na tese de doutoramento (...), na análise e interpretação (...), na resolução de um
problema (...)”.
Einstein também refletiu sobre o papel da matemática na ciência e no ensino; afirmava:

Uma razão pela qual a matemática goza de estima especial, acima de todas as outras ciências, é que
as suas proposições são certas e indisputáveis, enquanto que as das outras ciências são até certo
ponto discutíveis e em perigos constantes de serem descartadas por fatos acabados de descobrir.
Apesar disto, o investigador em outras de ciências não precisaria invejar o matemático se as
proposições da matemática se referissem aos objetos da nossa mera imaginação, e não a objetos da
realidade (...). Existe outra razão para a alta reputação da matemática (...) é a matemática que fornece
às ciências exatas naturais certa medida de certeza, que não poderiam atingir sem a matemática (...).

Essa simbiose entre o abstrato e o real, com o real a precisar do abstrato para a sua melhor
compreensão e o abstrato a ir buscar a sua razão de ser e inspiração no real, deveria permear o ensino
da matemática.

2.7.32 Joseph Alois Schumpeter: 1883 – 1950


Nascido Triesch, República Checa. Estudou na Universidade de Viena; lecionou na Universidade
de Graz (Áustria) e Harvard (Estados Unidos). Um dos mais influentes economistas com suas teses
consideradas referências na evolução do capitalismo e para o entendimento de mudanças tecnológicas
(inovação com suas vertentes), econômicas e sociais.
Suas principais obras de Schumpeter foram:
A natureza e a essência da economia política, escrita durante a juventude.
Teoria do desenvolvimento econômico, escrita, também, durante sua juventude. Nesta obra
apresentou as principais teses sobre a dinâmica da economia capitalista utilizando a teoria do
equilíbrio; sustentou que o equilíbrio walrasiano é indispensável para evidenciar as relações de um
sistema econômico; para tanto, o Estado em que vigora a propriedade privada, a divisão do
trabalho e a livre iniciativa tenderão para o equilíbrio geral entre os agentes econômicos.
235

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Por desenvolvimento entendia as mudanças internas da vida econômica “..., é um fenômeno


distinto e estranho ao que pode ser observada no fluxo circular ou na tendência para o equilíbrio, uma
mudança espontânea e descontínua nos canais do fluxo, perturbação do equilíbrio, que altera e desloca
para sempre o estado de equilíbrio previamente existente”.
Na segunda fase de sua vida, destacam-se: Ciclos econômicos, com algumas ideias da primeira
fase (Teorias...), mas, aprofundadas ou com mudanças de enfoque como, p.ex., as do empresário
inovador para o processo de inovação. Capitalismo, socialismo e democracia. História da análise
econômica.
Schumpeter acreditava que a economia se desenvolvia em ciclos, com períodos de grande
prosperidade e investimentos intercalados de forma natural com períodos de estagnação e retração do
mercado; nesse contexto, a Grande Depressão norte americana, p.ex., foi apenas um período de
retração dentro da sucessão do ciclo econômico.
Relacionado com a tecnologia, como um efeito, tem-se a inovação, Para Schumpeter, as
inovações se caracterizam pela introdução de novas combinações ou por mudanças nas funções de
produção; essas mudanças podem ser classificadas como:
a) a introdução de um novo bem ou de uma nova qualidade de um bem;
b) a introdução de um novo método de produção, isto é, de um método ainda não verificado pela
experiência naquele ramo produtivo em que tal introdução é realizada e que não decorre
necessariamente de qualquer descoberta científica, mas que pode simplesmente consistir em um
novo método de tratar comercialmente uma mercadoria;
c) a abertura de um novo mercado, de um mercado em que o ramo particular da indústria de
transformação do país em questão não tenha ainda entrado, quer tenha esse mercado existido
antes ou não;
d) a conquista de uma nova fonte de oferta de matérias-primas ou de bens semi-manufaturados,
independente do fato de que essa fonte já existia ou teve que ser criada;
e) o estabelecimento de uma nova organização de qualquer indústria, como a criação ou a ruptura
de uma posição de monopólio.
Apesar de o sistema capitalista ser movido por inovações, Schumpeter ressalta a lógica
econômica como prevalecendo sobre a lógica tecnológica; afirmava que “(...) o ótimo econômico e o
perfeito tecnológico não precisam divergir, no entanto o fazem com frequência, não apenas por causa
da ignorância e da indolência, mas, porque métodos que são tecnologicamente inferiores ainda podem
ser os que melhor se ajustam às condições econômicas dadas".

2.7.33 John Maynard Keynes: 1883 – 1946


Nascido em Cambridge, Inglaterra. Estudo na Universidade de Cambridge matemática, filosofia
e humanidades e, após o ensino formal, economia. Sua vida foi marcada pelo desempenho, com
236

Fundamentos da pesquisa
Volume 1

sucesso, de inúmeras atividades, tais como: homem de negócio, funcionário público, assessor, diretor
de banco, protetor das artes, professor de economia e acima de tudo, autor de uma fecunda e influente
obra em teoria econômica, com destaque para A teoria geral do emprego, do juro e da moeda. De sua
fecunda produção apenas se relacionam alguns pontos dispersos relativos aos fundamentos da
metodologia.
Keynes acreditava, com base em constatações e estudos comparativos econômicos, que a
instabilidade econômica era atribuída à incerteza, à insegurança, às dificuldades monetárias e
financeiras, ao desenvolvimento de atividades especulativas e de entesouramento (...) constituindo-se
entrave ao processo econômico equilibrado, a produção e ao emprego. Os fundamentos metodológicos
de tais constatações no funcionamento da economia capitalista eram teoricamente, conhecidos no
plano da construção teórica, porém, menos no plano epistemológica.
A visão atomística e orgânica na metodologia econômica apareceu em sua obra Treatise on
money, onde Keynes analisou as forças que levavam a expansão ou a contração da produção,
combinando a teoria quantitativa (abordagem de problemas macroeconômicos) com as teorias de valor
e de distribuição (abordagem de problemas microeconômicos) encontrando dificuldades.
Keynes indica a necessidade de uma nova abordagem em que variáveis nominais (moeda e
ativos financeiros) afetam as variáveis reais (investimento, produção e emprego) e onde surgem
aspectos macro e micro (relações como investimento – poupança) com uma nova função da moeda;
essa abordagem aparece em A teoria geral do emprego (...). Nessa obra apresenta uma teoria do
equilíbrio estacionário e uma teoria do equilíbrio móvel e onde, dada as condições em que operam as
firmas com quantidades de recursos fixos e condições constantes, as preocupações com a moeda são
dispensáveis. Porém, quando se analisa o emprego como um todo, faz-se necessário uma teoria
monetária da produção e do emprego.
A lógica de diferenciar as formas atomísticas (aditivas) e orgânicas (não-aditivas) da
organização estrutural na economia se revelam no paradoxo da poupança, na ineficácia da política de
reduzir salários pressupondo que não terão efeitos na procura e no motivo especulativo da procura de
moeda sobre a taxa de juro, entre outras variáveis.
Os conceitos de probabilidade nos problemas do método científico foram tratados por Keynes,
tendo como precursor Marshall (todos os métodos tem lugar na pesquisa em economia: “a ciência
econômica não é mais do que o funcionamento do sentido comum auxiliado pela aplicação da análise
organizada e do raciocínio: Principios de economia) e seu pai J. Neville Keynes”.
Discordava da ideia de que a investigação econômica devia começar e concluir com a
observação e que o método dedutivo deveria ser apoiado no método indutivo; tais métodos foram
evitados; em lugar deles, acreditava que “era necessário, primeiro, determinar quais são as forças em
operação e as leias de as sustentam (...), depois inferir como consequência das forças e leis e
finalmente, fazer as comparações, validações (...); a teoria, primeiro propõe e logo, com o auxílio da
estatística, confirmam” (A teoria geral do emprego (...)).
237

O rige n s e e vo lu çõe s da s ciên cia s e d a p esqu isa


Filó sof o s e cien t ist a s a o lo ng o da hist ó ria da civiliza ção

A habilidade analítica da Teoria geral do emprego (...), em seu aspecto metodológico, seria a
de explicar, em nível mais alto de abstração, as forças que determinam rendimento e emprego em
determinado momento do tempo com a coexistência, em cada momento, das decisões baseadas em
expectativas de curto e longo prazo.
Nessa explicação, segundo Keyne, se tinha o conceito de que a teoria econômica era
basicamente uma ciência moral e não uma ciência natural. Uma ciência moral que utiliza juizos de
valor, introspecção, expectativas, incertezas etc., e onde uma fórmula quantitativa destruiria sua
utilidade como instrumento do pensamento; a teoria econômica mais como um método, uma técnica
de pensar (...), do que uma doutrina.
Keynes partia da ideia de que o conhecimento de uma proposição oferecida pela evidência era
usada para derivar conhecimentos pelo argumento de proposições não observáveis, na base de uma
relação lógica existente entre a primeira e a segunda. Se a primeira proposição é indutiva a segunda
derivada pode ser dedutiva, com o que o conhecimento verdadeiro dependeria do valor da crença
racional atribuída e associada as primeiras premissas. A aplicação deste método da sentido e valor à
teoria econômica e permitiria descobrir o poder heurístico de seu método quando comparado com o
método dedutivo do equilíbrio. O modelo lógico-probabilistico keynesiano é baseado no método
indutivo com suporte dedutivo o que significa uma base em juízos prováveis para construir teorias.
Para associar o conhecimento (a probabilidade de se obter) com a incerteza, Keynes utilizou e
diferenciou a lógica formal (conjunto de regras para oi correto raciocínio) e a lógica humana (análise
de certos hábitos mentais pelos quais a mente utiliza a informação dada pela percepção).

2.7.34 Gaston Bachelard: 1884 – 1962


Nascido em Bar-sur-Aube, França. Foi filósofo e poeta que estudou as ciências e a filosofia com
foco em questões referentes à filosofia da ciência. Seus primeiros ensaios foram sobre o conhecimento
aproximado e evolução de um problema de física: a propagação térmica dos sólidos. Foi professo de
Dijon e Sourbonne.
A revolução científica (sistemas, tendências...) com novas concepções epistemológicas
históricas, a partir da crítica à ideia da razão absoluta, encontra em Bachelard bases para retirar a ideia,
presente em sua época, de que o saber construído pelo passado era fácil e provisório e que a verdade
era sempre filha do tempo. Era a ideia de uma razão imutável e absoluta que impunha o racionalismo
da razão dinâmica com o saber científico aparecendo como um processo incessantemente reformado
(BRUNSCHVICG, 1951).
Segundo Japiassú (1976), a obra bachelardiana pode ser dividida, sob o enfoque didático em
duas fases: a fase diurna relativa a epistemologia e história das ciências, com destaque para as obras: e
nouvel espirit scientifique / O novo espírito científico: sua obra capital; nela, orientou o espírito
para o concreto com a ampliação do alcance da razão. La formation de l´espirit scietifique / A
formação do espírito científico. Le rationalisme appliqué / O racionalismo aplicado.
238

Fundamentos da pesquisa
Volume 1

Materialismo Racional; e a fase noctura ou faceta do âmbito da imaginação poética, dos sonhos (...),
em que destacam as obras: A psicanálise do fogo. A água e os sonhos. O ar e os sonhos. A
terra e os devaneios da vontade. A poética do espaço.
A obra “diurna” bachelardiana se insere no contexto da revolução científica promovida, em
parte, pela Teoria da Relatividade de Einstein. Foi orientada para definir o significado epistemológico
da ciência que rompeu com as ciências anteriores e trouxe uma nova metodologia não mais empirista,
porém com um sentido filosófico compatível com a nova ciência. É a partir desses objetivos que
Bachelard formulou suas principais proposições para a filosofia da ciência, em termos de: a
historicidade da epistemologia e a relatividade do objetivo que resume a nova ciência relativista
divorciada das concepções epistemológicas e metodológicas anteriores. Em sua obra Conhecimento
comum e conhecimento científico (BACHELARD, 19720) afirmava:

(...) tentamos chamar a atenção dos filósofos para o caráter específico do pensamento e do trabalho da
ciência moderna e onde parece cada vez mais evidente (...), que o espírito científico contemporâneo
não pode ser colocado em continuidade com o simples bom senso (...); o novo espírito científico se
encontra em ruptura, com o senso comum (...); significa uma distinção entre o universo em que se
localizam as opiniões, os preconceitos, o senso comum e o universo das ciências

Na análise de revoluções científicas contemporâneas, Bachelard mostrou a profunda


descontinuidade em todos os níveis; em relação ao conteúdo, mediante retificações de teorias,
apresentação de novas explicações (...); em relação à razão, com mudança de princípios, conforme a
ciência se renove e mudanças de métodos assimilados pela razão para dar vigor à ciência, estimulando
seu dinamismo.
O novo espírito científico se encontra, segundo Bachelard, em descontinuidade com o senso
comum; rejeita a ideia de continuidade epistemológica e estabelece a diferença entre ciência e senso
comum como apenas uma diferença de profundidade, portanto, continuidade epistemológica.
O conhecimento ao longo da história não pode ser avaliado em termos de acúmulos, mas, em
termos de rupturas e de retificações do saber em um processo dialético pelo qual o conhecimento
científico é construído mediante constantes análises e retificações de erros anteriores.
A filosofia das ciências deve progredir conforme se verificam os avanços científicos, realizados
de maneira constante, com revisões e ajustes em suas concepções: “todo [novo] conhecimento é
polemico e antes de se constituir deve destruir [modificar, retificar...] as construções passadas e abrir
lugar às novas construções”; esse seria o movimento dialético da tarefa da nova epistemologia,
segundo citação apresentada por Japiassú (1976).
A superação do empirismo, no processo da nova epistemologia, dar-se-ia pelo racionalismo, uma
vez que a postura epistemológica do cientista não poderia ser satisfeita com aproximações empiristas,
mas, por um novo espírito científico como primado da realização sobre a realidade. As experiências
não seriam feitas em vazios teóricos, mas, com alicerces em realizações teóricas por excelência. Dessa
forma, o cientista não se aproximaria ao objeto de estudo baseado [apenas] nos sentidos, na experiência
239

O rige n s e e vo lu çõe s da s ciên cia s e d a p esqu isa


Filó sof o s e cien t ist a s a o lo ng o da hist ó ria da civiliza ção

comum e si com sustentação na teoria. Isso significa que o método da ciência não poderia ser direto e
imediato, mas si indireto e mediado pela razão. O vetor epistemológico segue o percurso do racional
para o real. Este racionalismo tem um sentido próprio que é a preocupação constante com a aplicação:
o racionalismo aplicado com um traço básico do novo espírito científico, um elo (dialética) entre a
experiência e a teoria (BACHELARD, 1977).
Afirmava Bachelard que a ciência é a expressão de um racionalismo que trabalha no pormenor,
ao reconhecer que seria muito mais fácil desfazer as formulações imprecisas num campo restrito do
saber, conforme consta em sua principal obra Le nouvel espirit scientifique / A formação do
espírito científico. Nessa obra descreveu em detalhes o trabalho da razão, mostrando que surge a
descontinuidade no interior de cada noção. Ao analisar a constituição das geometrias não-euclidianas e
da teoria da relatividade mostrou como surgiram essas teorias pela negação de princípios tidos como
absolutos pela ciência anterior.
O caráter de simplicidade não foi, inicialmente aceito, mas, ao introduzir em suas definições
determinações experimentais Bachelard mostrou que suas ideias não eram apenas teóricas, mas,
tinham, também, sustentação experimental. Assim, o racionalismo científico contemporâneo seria um
racionalismo aplicado, com dois sentidos: um teórico e o outro técnico, sendo essa bicerteza
fundamental para fazer da ciência um pensamento vivo e em constante renovação.
Outro ponto a destacar da metodologia científica bachelardina apresentado na sua obra A
formação do espírito científico é o relativo aos obstáculos epistemológicos; são considerações
básicas para o desenvolvimento do conhecimento no âmbito da pesquisa, com proposta de psicanálise
do conhecimento. O progresso é analisado com base em condições internas por via psicológica do
pensamento científico: imagem, forma geométrica, forma abstrata. É na superação dos obstáculos que
reside o sucesso de uma pesquisa científica, porém, é preciso que o cientista os reconheça. Entre os
empecilhos do desenvolvimento do conhecimento se destacam:
a) o obstáculo da realidade: deixar-se levar pelo visível, pelo empirismo; o pesquisador, ao olhar
seu objeto de estudo pode incorrer no perigo de se deixar levar pelo que lhe é visível, dando a
este um estatuto de verdade que ele não tem; para Bachelard, "diante do mistério do real, a alma
não pode, por decreto, tornar-se ingênua; é impossível anular, de um só golpe, todos os
conhecimentos habituais; diante do real, aquilo que cremos saber com clareza ofusca o que
deveríamos saber".
b) o obstáculo do senso comum: relaciona-se especificamente com a dificuldade com a qual se
depara o pesquisador em separar o seu conhecimento comum, suas opiniões, seus preconceitos,
as avaliações relacionadas à sua posição social e econômica, etc., do conhecimento teórico,
científico, que deve estar comprometido com a busca da verdade, baseada em leis gerais, em
conceitos e não em preconceitos.para a superação do primeiro, aponta que a realidade a ser
estudada deve passar pelo crivo de uma teoria rigorosa; a realidade não responde por si mesma,
mas, mediante questões com fundamentação teórica, pressupondo-se um equilíbrio entre a teoria
e a prática.
240

Fundamentos da pesquisa
Volume 1

2.7.35 Gyorgy (Georg) Lukács: 1885 – 1971


Nascido em Budapeste, Hungria. Estudou nas universidades de Budapeste, Berlin e Heidelberg.
Influenciado por Kierkegaard 58 e Marx.
Dos diversos aspectos da filosofia de Lukács apenas uns poucos são relacionados, com ideias
ilustrativas e pontuais: o desenvolvimento da sociedade e o método - conhecimento científico.
O desenvolvimento da sociedade foi entendido por Luckács como sendo um processo unitário,
isto é, algo que não se pode determinar em apenas uma fase da vida social sem que seus efeitos sejam
observados sobre todas as outras. Esse processo estaria associado ao conceito de cultura, de classes
dominantes (...).
Outro aspecto que se relaciona é o relativo à produção do conhecimento; essa produção, segundo
Lukács, ocorre a partir de condições objetivas presentes na vida e nos desafios impostos por ela que
resultam de relações complexas objetivadas na dinâmica social; o conhecimento produzido pelo sujeito
terá o limite determinado pelo contexto que compreende tanto o sujeto cognoscente como a realidade a
ser conhecida, independente do sujeito que a investiga. Ali se tem a relação entre subjetividade e
objetividade, marcadas pela presença do sujeito que conhece e do objeto a ser conhecido. As
abordagens desses dois conceitos, na história e filosofia da ciência, foram tratadas em diversas
perspectivas como, p.ex., racionalista, idealista, subjetivista, relativista etc. e numa visão empirista,
naturalista e materialista. Essa relação subjetividade – objetividade é tratada pelo método marxista com
aparente superação do dualismo entre sujeito e objeto, entre consciência e realidade objetiva (...), na
construção do conhecimento.
O ponto de partida do pensamento de Lukács são conceitos apresentados por Marx em sua obra
O método da economia política como um processo de apreensão e conhecimento da realidade; para
Marx, o método era um instrumento de medição utilizado pelo sujeito para conhecer o objeto ou uma
parte do real a ser investigado. Para Lukács, o método não era critério de verdade, pois a verdade
estaria na própria objetividade do real (LESSA, 2001). No processo de construção do conhecimento
seria necessária uma abordagem genética da complexidade do objeto real mediante a descoberta
histórica; conhecer o objeto de investigação significaria conhecer, também, o processo histórico; nesse
conhecimento critica a metodologia por se recusarem deduções de estruturas, de ordenamentos de
categorias (...).

2.7.36 Ludwing Wittgenstein: 1889 - 1951


Nascido em Viena, Áustria, de origem judaica e vitima de perseguição nazista. Estudou na
Universidade de Manchester, em princípio para se dedicar à aeronáutica (período em que desenhou o
motor a reação), mas, pela influencia de seu professor Bertrand Russell, em Cambridge, abandonou
os problemas da técnica, orientando-se para os fundamentos da matemática e da filosofia. Durante o
período dramático da Primeira Guerra Mundial (prisioneiro pelos italianos), escreveu Tractatus
logico-philosophicus / Tratado lógico-filosófico (a única obra publicada em vida). Após sua
241

O rige n s e e vo lu çõe s da s ciên cia s e d a p esqu isa


Filó sof o s e cien t ist a s a o lo ng o da hist ó ria da civiliza ção

libertação e despojando-se de sua herdada fortuna, tornou-se professor de uma modesta escola primária
de província e, depois, foi jardineiro. Retornou à filosofia, na Universidade de Cambridge, quando
escreveu Investigações Lógicas. Por muitos historiadores é considerado o filósofo mais importante do
século XX.
A filosofia de Wittgenstein pode ser dividida em dois grandes períodos relacionados com suas
obras. São duas concepções filosóficas diferentes. O primeiro período correspondeu ao Tratado
lógico-filosófico e foi dominado pela linguagem e os seus limites. A revolução na lógica matemática
oferecia uma perspectiva de criação de uma ciência dos significados. A lógica prometia aliar a razão ao
significado de frases e textos; da filosofia às demonstrações de geometria, da história ao direito. A ideia
era reduzir essas disciplinas aos seus elementos lógicos para, em seguida, mostrar como as partes se
conectavam umas às outras, em uma linguagem ideal, a fim de compor todos os possíveis significados.
Na época de estudante de engenharia e como aluno de Bertrand Russell (influenciado pela obra
Principia matematica) foi tentado a reduzir a matemática à lógica; em sua obra Tractatus logico-
philosophicus procurou eliminar parte dos problemas da filosofia devidos às imperfeições da
linguagem, estabelecendo limites para aquilo que faz sentido dizer e aquilo que é destituído de sentido
afirmar. A realidade se revela nos fatos limitados pela linguagem e, segundo Wittgenstein, essa
linguagem apresenta diversos tópicos como são os de estrutura lógica da linguagem; o isomorfismo
entre a linguagem e a realidade, a totalidade de fatos, não de coisas; 59 a linguagem com sentido, como
sendo um conjunto de proposições; e a filosofia como uma atividade de análise da linguagem.
Wittgenstein se identificou com as suas Investigações lógicas (conjunto de conferências
ditadas em Cambridge), destacando-se, nele, também, a sua grande influencia sobre a filosofia analítica
e sobre o Círculo de Viena, ao qual não pertenceu.
Em Investigações filosóficas Wittgenstein ofereceu um novo ponto de vista ao cientista: o
significado das palavras não depende daquilo a que elas se referem, mas de como elas são usadas.
A linguagem é um tipo de jogo, um conjunto de peças (palavras) que são usadas de acordo com
um conjunto de regras (convenções linguísticas 60).
O mundo é construído a partir de proposições, ou proposições potenciais que recaem menos no
que as afirmações significam do que em como elas se desenvolvem dentro de um contexto e um
conjunto de regras. Daí segue-se que o conhecimento não consiste em descobrir (ou inventar) a
realidade que se fala, mas sim em estudar o modo como a fala funciona; neste contexto, os métodos da
lógica pura não podem dar conta dos problemas filosóficos.

2.7.37 Ronald Aylmer Fisher: 1890-1962


Estudou na Universidade de Cambridge astronomia, onde fundou a Statiscal Laboratory da
Estação Agronômica de Rothamsted. A contribuição para a estatística moderna é a mais importante e
decisiva de todas. Apresentou os princípios de planejamento de experimentos, introduzindo os
242

Fundamentos da pesquisa
Volume 1

conceitos de aleatorização e da análise da variância. Interessou-se pela teoria da evolução, sobretudo


em genética e foi a partir desse tema que se interessou pela estatística.
Fisher estabeleceu a estrutura da moderna estatística analítica mediante o conceito da
verossimilhança. Seu livro Statistical Methods for Research Workers foi muito importante para
familiarizar o pesquisador com as aplicações práticas dos métodos estatísticos e, também, para criar a
mentalidade estatística entre a nova geração de cientistas.
Os trabalhos de Fisher encontram-se dispersos em numerosas revistas, mas suas contribuições
mais importantes foram reunidas em Contributions to Mathematical Statistics.

2.7.38 Rudolf Carnap: 1891 – 1970


Nascido em Ronsdorf / Wuppertal, Alemanha. Estudou nas universidades de Friburgo-in-
Breisgau e Iena. Foi aluno Gottlob Frege, um dos maiores lógicos de seu tempo, com quem estudou
matemática, lógica e ciências físicas. Foi professor das universidades de Viena e Praga, na Europa e de
Chicago, Harvard, Princeton e Los Angeles, nos Estados Unidos. Um dos filósofos mais influentes do
Círculo de Viena (ver nota de rodapé 6), defensor do positivismo lógico. Buscou relacionar a
linguagem da matemática com as ciências em geral, unindo o empirismo com a lógica matemática.
Preocupado e estudioso dos problemas da linguagem, mostrou especial interesse pelas línguas
artificiais e defendeu a utilização do esperanto (língua internacional inventada em 1887, na Polônia,
por Zamenhof) e da interlíngua. Defendeu a abordagem de assuntos técnicos expressos em linguagens
elaboradas com base no simbolismo lógico com estruturas e interpretações definidas por normas
sintáticas e semânticas.
O neopositivismo 61 da Carnap é empírico (antimetafísico), com ideias de Kant e proposições de
experiências e analíticas: é o empirismo lógico. Um dos princípios desse empirismo é a desintegração
do sintético a priori. Todos os juízos podem ser divididos em: analíticos a priori e sintéticos a
posteriori; os juízos sintéticos a priori não existem.
Procurou construir um sistema formal de lógica indutiva em torno de um conceito central: a
credibilidade (ou a probabilidade) que é possível atribuir a uma hipótese. Acreditava que as sensações
seriam as únicas fontes de conhecimento captando por dados isolados, porém coordenados e
generalizados pela indução.
A parte que segue sintetiza pontos principais do positivismo lógico, obtidos de Coletânea de
textos de Carnap e Schlicck, com informações sobre o Círculo de Viena (ver nota de rodapé 6):
a) Uma proposição tem sentido apenas quando é empiricamente verificável (substituído, mais tarde,
por confirmável); dessa forma, a verificabilidade / confirmabilidade seria o processo para dar
significado a uma proposição.
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O rige n s e e vo lu çõe s da s ciên cia s e d a p esqu isa


Filó sof o s e cien t ist a s a o lo ng o da hist ó ria da civiliza ção

b) O significado de um enunciado está no fato de expressar um estado de coisas concevívéies, não


necessariamente existentes; os enunciado podem ser significativos (falsos ou verdadeiros) ou
não-significativo.
c) A ciência deve fazer previsões a serem testadas; se verificadas empiricamente, serão aceitas; se
falseadas, rejeitadas; as proposições que não possam ser submetidas a testes não serão
científicas.
d) Os fatos são sempre certos, mas as afirmações sobre eles poderão carecer de certezas; se
pudessem ser reproduzidos de forma exata, serão corretos. Os fatos de as proposições
representam o início das ciências, sem que isso signifique que os conceitos científicos sejam
necessariamente redutíveis, mas, deverá existir uma relação lógica entre fatos e conceitos.
e) Conhecer a maneira de verificar uma proposição não é uma questão adicional ou suplementar ao
seu sentido ou de compreensão verbal e lógica ou, ainda, uma nova exigência para se averiguar
seu sentido e inteligibilidade, mas é algo essencial e que com ela se identifica.
f) A proposição, para ter sentido, precisa ser verificável, sem que necessariamente ocorra (isto é,
sem que seja verificada), sem tentar vários métodos de verificação, mas se apenas um deles for
satisfatório, então a proposição terá sentido. Assim, a verificabilidade significa a possibilidade
de verificação, sendo de natureza lógica e não empírica.
g) Se uma proposição não tiver sentido, mas não compreender uma impossibilidade lógica, então
poderá ser verdadeira. Para os positivistas lógicos, a proposição “Deus é fonte infinita de amor”,
não teria sentido porque não poderia ser verificada, ainda que a fonte fosse finita, porem, não
compreende uma impossibilidade lógica, podendo ser, portanto, verdadeira; para os
neopositivista, tal sentença não é errada porque não quer dizer nada. A proposição “Os rios
correm para cima” tem sentido, mas, é falsa; enquanto que as proposições “O experimento a ser
planejado teve bons resultados” e “A observação de amanha gerou uma informação”, ao
representar impossibilidade lógica, será destituída de sentido e por não descrever fatos será falsa.
h) So pode ser real o que o cientista considera como real em seu âmbito, isto é, fora da metafísica.
i) O empirismo lógico ao não negar a existência de uma realidade transcendental, não poderia ser
materialista nem ateu; mas, negar o transcendental, uma posição sem sentido, seria tomar uma
posição metafísica tanto quanto afirmá-la (posição metafísica).
j) Se um enunciado for fundamentado em base de experiências passadas, porém sem possibilidades
de ser testado, então não se terá a mesma confiança nele como se teria em um enunciado
testável.
k) Ao entender verificação (confiabilidade) como o estabelecimento definitivo e final da verdade,
então, nenhum enunciado sintético pode ser verificado (confirmado); apenas poderá se confirmar
cada vez mais.
244

Fundamentos da pesquisa
Volume 1

l) Não são adequadas as primeiras ideias positivistas defendidas pelo Círculo de Viena de que toda
sentença da linguagem científica podia ser traduzida em sentença de percepção, nem a tese do
fisicalismo (toda linguagem científica dudesse ser reduzida à linguagem da física) justificada.
m) Não existem mistérios insondáveis no universo; as fronteiras do conhecimento são sempre
empíricas e ultrapassáveis.
n) A verdade não é o fruto da coerência entre diferentes proposições; a teoria da coerênciam é falsa.
A verdade é a correspondência aos fatos.
As contribuições de Carnap à filosofia das ciências incluem estudos sobre as propriedades
formais dos sistemas linguísticos, a definição de conceitos científicos e a estrutura das teorias
científicas, além de ter desenvolvido uma lógica indutiva para estimar o nível de confirmação como
uma relação entre hipóteses e enunciados que se referem à experiência (LOSSE, 1972; p. 186).
A filosofia, segundo Carnap, trata do estudo da síntese lógica de enunciados científicos, de
termos da linguagem científica, descendo aos detalhes como os de testabilidade e confirmabilidade das
proposições. Uma teoria científica é um sistema axiomático interpretado que compreende uma
linguagem formal (incluindo termos lógicos e não-lógicos) e uma série de conjuntos, tais como: os
axiomas lógico-matemáticos e as regras de inferência. Os axiomas não-lógicos expressam a parte
empírica da teoria. Os de postulados de significados definem as declarações dos significados dos
termos não-lógicos (verdades analíticas da teoria). As regras de correspondências dão interpretação
empírica à teoria.
Entre as obras de Carnap, destacam-se as seguintes: a) Der logische aufbau der welt / A
construção lógica do mundo ou A estrutura lógica do mundo. Nessa obra desenvolveu uma
versão formal e rigorosa do empirismo utilizando os termos científicos
fenomenalistas. 62 O sistema formal estaria fundado em um único predicado
primitivo agrupado em dois (diádico ou par). Tal predicado é satisfeito se dois
indivíduos "assemelham-se" um ao outro.
Inicialmente argumentou que um juízo tem significado somente se todo termo não-lógico
é explicitamente definível por meio de uma linguagem fenomênica restrita. Mais tarde compreendeu
que essa tese era insustentável pelo fato da linguagem fenomênica ser pobre para definir conceitos
físicos, entre outras razões.
Na obra Logische syntax der sprache / Sintaxe lógica da Língua apresentou uma
linguagem formal para expressar a matemática clássica e as teorias científicas, propondo, entre outros
conceitos, uma nova regra de inferência (regra ômega ou regra de Carnap). Definiu a noção de
consequência lógica nos seguintes termos: um juízo Q (proposição; ver Metodologia) é uma
consequência lógica de um conjunto P de juízos se e somente se há uma prova de Q baseada no
conjunto P (uso da regra ômega na prova).
Outro conceito a destacar nessa Sintaxe lógica (...) é o da demonstração; a definição é: “um
juízo Q é demonstrável por um conjunto P de juízos se e somente se há uma prova de Q baseada no
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Filó sof o s e cien t ist a s a o lo ng o da hist ó ria da civiliza ção

conjunto P”. Nessa mesma obra definiu vários tipos de juízos, tais como (utiliza-se a mesma
simbologia):
a) um juízo é verdadeiro-L se e somente se for uma consequência lógica do conjunto vazio de
juízos;
b) um juízo é falso-L se e somente se todos os juízos forem uma consequência lógica dele;
c) um juízo é analítico se e somente se for verdadeiro-L ou falso-L; definiu o juízo analítico como o
determinado logicamente e onde suas verdades dependem das regras lógicas de inferências, sendo
independente da experiência; isto significa que os juízos analíticos são a priori, ao contrário dos
juízos sintéticos que são a posteriori, pois não são logicamente determinados;
d) um juízo é sintético se e somente se não for analítico.
Em Logical foundations of probability / O fundamento lógico da probabilidade a
probabilidade foi definida de várias formas como, p.ex., a interpretação clássica: a razão entre
resultados favoráveis e resultados esperados; a interpretação axiomática: o que quer que satisfaça os
axiomas da teoria da probabilidade; o de frequência: a probabilidade de um evento em uma sequência
de eventos como o limite da frequência relativa daquele evento.
A probabilidade de um juízo é o grau de confirmação que a evidência empírica dá ao juízo; a
probabilidade de um juízo, com relação a um dado corpo de evidência, é uma relação lógica entre o
juízo e a evidência; dessa forma, é preciso construir uma lógica indutiva, isto é, um método
matemático para analisar a confiabilidade de uma hipótese; uma lógica que estude a relação entre os
juízos e a evidência.
A Logische Syntax der Schprache / Sintaxe lógica da linguagem foi ampliada na tradução
inglesa Testability and meaning / Testabilidade e significação. Nessa obra, Carnap apresentou
definições parecidas às anteriores. Primeiro definiu a noção de verdadeiro-L (um juízo é verdadeiro-L
se sua verdade depender das regras semântica) e depois a noção de falso-L (um juízo é falso se sua
negação for verdadeira-L). Um juízo é determinado-L se for verdadeiro-L ou falso-L. Juízos analíticos
são determinados, enquanto que juízos sintéticos não são determinados. Um juízo é analítico se e
somente for logicamente verdadeiro; será autocontraditório se e somente se for logicamente falso; caso
contrário o juízo é sintético; nesta definição, usou a noção de verdadeiro e falso no sentido semântico.
Em Testability and meaning, Carnap deu uma explicação do princípio de verificabilidade,
segundo o qual um juízo sintético é provido de significado somente se ele é verificável; nesse princípio
considerou, inicialmente, que todos os termos deviam ser redutíveis, por meio de definições ou
sentenças de redução, para a linguagem observacional. Essa redução foi criticada por Popper e,
posteriormente, reconheceu com insustentável tal tese em sua obra o Caráter metodológico dos
conceitos teóricos, onde apresentou um novo conceito.
O significado de um termo torna-se um conceito relativo: um termo tem significado com relação
a uma dada teoria e uma dada linguagem; dessa forma, o significado de um conceito depende da teoria
na qual o conceito é usado; isso é importante na teoria do empirismo. Reconheceu que alguns termos
246

Fundamentos da pesquisa
Volume 1

teóricos não podem ser reduzidos à linguagem observacional: eles adquirem um significado empírico
pelas ligações com outros termos teóricos que são redutíveis. Além disso, admitiu que o princípio do
operacionalismo 63 era muito restrito.
Entre os conceitos significado e necessidade, Carnap estabeleceu em sua Lógica modal e
filosofia da linguagem interessantes relações entre propriedades modais como necessário
(simbolizado por N) e impossível (de uma proposição ou juízo, simbolizado por p) com as
propriedades lógicas dos juízos como verdadeiro-L, falso-L. analítico e sintético. Algumas dessas
propriedades são:

Np (p é necessário): verdadeiro-L, analítico; necessariamente p:> verdadeiro se e somente


se p for logicamente verdadeiro.
N p (p é impossível): falso-L, contraditório.
N p &  N p: (p é contingente): factual, sintético.
 Np (p não é necessário): não-verdadeiro-L.
 N  p (p é possível): não-falso-L (possivelmente p)
N p V N p : (p não é contingente): determinado-L, não-sintético.

As propriedades modais podem ser definidas por meio de propriedades lógicas do juízo.
Em sua obra Fundamentos filosóficos da física definiu a linguagem como um conjunto de
símbolos (na linguagem científica, esses símbolos são lógicos e não-lógicos) e de regras (entre outras,
as de sintaxe) que determinam a sequência dos símbolos.
O conjunto de termos lógicos compreende, segundo Carnap, tanto os símbolos lógicos, conetivos
e quantificadores como os símbolos matemáticos (p.ex., ‘+’, ‘x’, ‘derivadas’, ‘integral’, etc.).
Os símbolos não-lógicos denotam entidades físicas (p.ex., ‘azul’, ‘frio’ ...), propriedades (p.ex.,
‘caro’, ‘campo eletromagnético’, ‘útil’...) ou relações (p.ex., ‘mais quente que’, menos aproximado do
que).
Os termos não-lógicos são divididos em observacionais e teóricos.
As fórmulas são divididas em juízos lógicos, sem termos não-lógicos; juízos observacionais, sem
termos teóricos; juízos estritamente teóricos; e regras de correspondência as quais contém tanto termos
observacionais como teóricos.
A classificação desses juízos na linguagem científica é sintetizada no Quadro 3.
Carnap definiu alguns tipos de juízos, tais como:
a) um juízo é verdadeiro se e somente se, for uma cpnsequência lógica do conjunto vazio de juízos;
b) um juízo é falso se e somente se, todos os juízos forem uma consequência lógica dele;
247

O rige n s e e vo lu çõe s da s ciên cia s e d a p esqu isa


Filó sof o s e cien t ist a s a o lo ng o da hist ó ria da civiliza ção

c) um juízo é analítico se e somente se for verdadeiro ou for falso; são juízos determinados
logicamente: sua verdade depende das regras lógicas de inferências e independe da experiência
d) um juízo é sintético se e somente se não for analítico.

Quadro 3 Classificação dos juízos na linguagem científica, seguindo Carnap.


TIPOS DE TIPOS DE TERMOS TERMOS
LINGUAGENS JUÍZOS OBSERVACIONAIS TEÓRICOS

Observacional
Juízos lógicos Sim Não
(lei empírica: lida com objetos ou
propriedades observadas ou
Juízos
medidas para explicar e prever Sim Não
observacionais.
fatos)

Teórico
Juízos puramente
(lei teórica; lida com objetos ou Não Sim
teóricos
propriedades que não podem ser
medidas, mas que se podem
inferir a partir de observações;
não são generalizações indutivas, Regras de
Sim Sim
mas hipóteses além da correspondência
experiência)

Em sua obra Testabilidade e significação, Carnap considerou dois problemas principais na


teoria do conhecimento: as questões de significado, ao tentar responder: em que condições uma
sentença tem significado no sentido cognitivo e factual; e as questões de verificação, para responder
como se conhece alguma coisa e como se pode encontrar se uma sentença é verdadeira ou falsa.
Outras obras de Carnap se destacam as seguintes: Der raum. einbeitrag zur
wissenschaftslehre / Uma contribuição à teoria da ciência. Physikalische Begriffsbildung /
Conceptualização fisicalista. Der logische aufbau der welt. versuch einerkonstitutionstheorie
der begriffe / Ensaio de uma teoria de constituição dos conceitos. Scheinprobleme in der
philosophie. das fremdpsychische und der realismusstreit / Problemas aparentes em
filosofia / O psíquico alheio e a discussão em torno do realismo. Abriss der Logistik, mit
besonderer Berucksichtung der Relationstheorie und ihrer Anwendungen / Exposição da
logística, com especial consideração da teoria da relação e de suas aplicações. Die aufgabe
der wissenschaftslogik / O tema da lógica da ciência. Foundations of logic and mathematics /
248

Fundamentos da pesquisa
Volume 1

Fundamento da lógica e da matemática. Studies in semânticas / Estudos de semântica.


Formalization of logic / Formalização da lógica. Meaning and necessity / Significado e
necessidade. A study in semantics and modal logic / Sobre lógica indutiva. The continuum of
the inductive methods / O contínuo dos métodos indutivos.
Um dos aspectos mais importantes do empirismo lógico apresentado na obra A estrutura lógica
do mundo, refere-se aos conceitos “significado” e “verificabilidade”. Segundo o princípio de
verificabilidade, um juízo sintético é provido de significado somente se ele é verificável.

2.7.39 Alexandre Koyré : 1892 - 1964


Nascido em Taganrog. Filósofo francês de origem russa que escreveu sobre a história da ciência
e a filosofia da ciência. Estudo Em Göttingen, influenciado por Husserl. Suas principais obras foram:
Études galiléennes / Estudos galilaicos; Koyré considerou que o pensamento científico
jamais esteve completamente separado do pensamento filosófico. As grandes revoluções científicas
sempre foram determinadas por alterações ou mudanças de concepções filosóficas. O pensamento
científico (ciências físicas) não foi desenvolvido no vácuo, mas, encontra-se no interior de ideias, de
princípios fundamentais e de evidências axiomáticas que são habitualmente consideradas como partes
integrantes da filosofia. Para ele, o conceito de revolução científica 64 está impresso na investigação
contemporânea.
Introduction à la lecture de Platon / Introdução à leitura de Platão.
From the closed world to the infinite universe / Do mundo fechado ao universo infinito.
Considerações sobre Descartes
Koyré colocou as ciências no centro da história intelectual da civilização; nesse centro há,
também, uma dimensão sociológica e política e não apenas filosófica. Considerava que a evolução do
pensamento científico é regida por uma lógica interna sobre a qual as circunstâncias exteriores atuam
no sentido de retardá-la ou de lhe criar um clima propício para o seu avanço, não tendo, contudo a
possibilidade de lhe modificar a direção, pois não exercem nenhuma influência sobre o próprio
conteúdo das teorias científicas; este seria o resultando unicamente de um jogo entre a razão e a
natureza.

2.7.40 Jean Piaget: 1896 – 1980


Nascido em Neuchâtel, Suíça. Estudou biologia e filosofia na Universidade de Neuchâtel,
demonstrando desde muito cedo, a sua capacidade de observação, com importantes contribuições à
neurologia, psicologia e, em especial, pedagogia. Com suas teoria tentou explicar como se desenvolve
a inteligência: aepistemologia genética ou estudo dos mecanismos do aumento do conhecimento e da
249

O rige n s e e vo lu çõe s da s ciên cia s e d a p esqu isa


Filó sof o s e cien t ist a s a o lo ng o da hist ó ria da civiliza ção

psicologia do conhecimento (teoria cognitiva) com base em comprovações científicas. Lecionou em


várias universidades européias.
A extensa obra compreende 70 livros e mais de 400 artigos; sua primeira obra foi A linguagem
e o pensamento da criança; depois, com base em observações /experimentos, publicou O
nascimento da inteligência da criança e A construção de o real na criança. Uma de suas obras
mais importantes foi a Introdução à Epistemologia Genética em Para onde vai a educação? Em
que abreu novos caminhos à pedagogia, com contribuições para o professor ao oferecer uma visão do
ensino de ciências e apontar caminhos para o futuro; nele, o autor apresenta uma síntese do
construtivismo, de seu método científico nas tarefas de ensinar e aprender, afirmando a necessidade do
caráter interdisciplinar.
Para Piaget, a inteligência [faculdade de conhecer e compreender, de aprender e conceber...,
distintiva entre o homem e o animal] é o mecanismo de adaptação a uma situação nova que implica a
construção contínua de novas estruturas. O comportamento não é um atributo inato dos seres vivos
nem o resultado de condicionamentos, mas, si de interações entre os indivíduos e seus meios (mundo
exterior). Esses conceitos fazem parte da teoria epistemológica, o interacionista. Conforme essa teoria
e para o caso da inteligência, quanto mais complexa for a interação mais inteligente será o indivíduo.
Os indivíduos se desenvolvem intelectualmente a partir de exercícios e estímulos do meio que os
cercam; equivale a dizer que a inteligência humana é exercitada, buscando um aperfeiçoamento de
potencialidades que evoluem desde o nível mais primitivo caracterizado por trocas bioquímicas até o
nível de trocas simbólicas (CHIABAI, 1990; Lima 1980), mais complexas ou abstratas.
As teorias piagetianas abrem campo de estudo não somente para a psicologia do
desenvolvimento, mas, também para a sociologia e para a antropologia, além de fundamentar a
metodologia baseada em descobertas do indivíduo. Nesse contexto, segundo Piaget (1976, 1978), o
problema epistemológico, ao nível de interação sujeito - objeto constitui-se na “dialética que resolve
todos os conflitos nascidos de teorias como associacionistas, empiristas, genéticas sem estrutura,
estruturalistas sem gênese (...) e permite seguir fases sucessivas da construção progressiva do
conhecimento".
Se o difusor de tecnologia refletir sobre o pensamento de Piaget de que não existe um novo
conhecimento em ausência de um conhecimento anterior para poder assimilá-lo e transformá-lo, com
implicações nos dois pólos da atividade inteligente: assimilação e acomodação, então, reconhecerá a
importância do saber tradicional do cliente e a inefetividade de novas informações quando esse saber
é desprezado ou subconsiderado no processo de um novo conhecimento. As novas informações serão
assimiladas pelo cliente alvo da pesquisa na medida em que internalize em seu ambiente toda a
informação da experiência ou da estruturação por incorporação da realidade exterior às formas devidas
à atividade do sujeito. Haverá acomodação na medida em que a estrutura [processos, fazeres etc.] se
modifique.
A adaptação intelectual constitui-se, dessa forma, segundo Piaget, em um “equilíbrio progressivo
entre um mecanismo assimilador e uma acomodação complementar”. Afirmava que “não existe
estrutura sem gênese, nem gênese sem estrutura”, sendo, portanto, a estrutura de maturação do
250

Fundamentos da pesquisa
Volume 1

indivíduo um processo genético; daí, porque o indivíduo só poderia receber uma determinada
informação e a incorporá-la [aprendizagem] se estiver preparado para recebê-la, isto é, se puder agir
sobre o objeto do conhecimento para inseri-la em seu sistema de relações. Esse objeto de conhecimento
é o resultado da pesquisa que foi preparado com base na realidade – possibilidade do cliente, sua
cultura e visão.
Piaget (1978) pesquisou período em que se ocorre o desenvolvimento da inteligência em etapas
sucessivas, com complexidades crescentes, encadeadas umas às outras (construtivismo sequencial e
integrativo), assim:
a) o período sensório – motor (ausência da função semiótica), até os dois anos de idade,
caracterizado por percepções (símbolos) e ações (motor) de uma inteligência prática / empírica,
exploração não verbal e aprendizagem pela experiência;
b) o período simbólico (pré-operacional) até os 7 anos de idade, com a função semiótica e
surgimento da linguagem, do desenho, da imitação, da dramatização, da formação de imagens
mentais etc.;
d) o período intuitivo, os porquês, dos 4 aos 7 anos de idade, concentrado em seu próprio ponto de
vista e com a manifestação de desejos de explicação dos fenômenos, distinção entre a fantasia e o
real;
e) período operário concreto, dos 7 aos 12 anos de idade, em que se consolidam conceitos como os
de números, substância, volume, peso etc., organização social, compreensão de regras e
compromissos; e realização normal de operações lógicas próprias do raciocínio.
A parte que segue, pela pertinência com Orientações para elaborar um projeto de
pesquisa (...), sintetiza aspectos do método de descoberta, na prática do ensino (PIAGET, 1972):
a) A análise da demonstração: o método da descoberta, baseado em procedimento indutivo para,
em seguida deduzir; a segunda característica é a definição de possibilidades de erro; a terceira é a
participação do aluno com base no conceito de que o conhecimento é construído a partir da ação
do sujeito sobre o objeto (método ativo).
b) Os fundamentos do método; seus fundamentos se encontram na epistemologia genética, com
destaque de estruturas mentais; nesses fundamentos apresenta conceitos como os de operações e
geração do conhecimento.
c) Pesquisa baseada em estruturas, em aspectos importantes selecionados da realidade objeto de
estudo e explorados em termos de suas relações com outros aspectos da realidade; as estruturas
se constituem uma totalidade, com leis próprias independentes de características particulares dos
seus elementos; consistem em um sistema de operações de transformações e com um conjunto de
combinações internas que não geram produtos fora da estrutura.


251

O rige n s e e vo lu çõe s da s ciên cia s e d a p esqu isa


Filó sof o s e cien t ist a s a o lo ng o da hist ó ria da civiliza ção

A relação de filósofos das ciências que segue apresenta alguns pensadores nascidos no século
XX. Um século que não foi apenas de promessas do desenvolvimento da humanidade, mas, também,
um período que trouxe as maiores guerras, as mais graves ameaças à convivência com a insegurança e
estado de terror que esvaziaram as promessas de uma sociedade perfeita, do progresso tecnológico e
tecno-científico, socialmente distribuído e para o bem-estar social. Nesse século, ainda prosseguiu a
retórica de que a ciência e a tecnologia ocupariam um lugar de destaque, porém com constatações, ao
longo desse século, de exclusão social, de persistência da miséria, de concentração de riquezas, de
degradação ambiental (...).
Parte da comunidade científica, no início do século XX, notou que, diferentemente da noção de
conhecimento da realidade vigente até essa época, a possibilidade de se ter um conhecimento que fosse
absoluto, universal e perene era insustentável, pelo fato da estrutura do universo ser dinâmica e
instável. Nesse contexo Heisenberg formulou o princípio da incerteza: sempre que se decide observar
um aspecto da realidade necessariamente se negligenciam outros, o que significa, no caso específico da
física quântica, p.ex., a impossibilidade de se conhecer simultaneamente a velocidade e a posição de
uma determinada partícula subatômica. Dessa forma, percebeu-se que eventualmente não se poderaim
fazer interpretações objetivas de fenômenos da natureza, uma vez que em suas estruturas fundamentais,
as relações de de seus componentes apresentariam caracteristicamente dinâmicas e indeterminadas;
portanto, as descrições não poderiam ser precisas e objetivas, mas, apenas, probabilísticas e
indeterminadas.
Com o reconhecimento de que os processos de relações dos componentes da matéria são
indeterminados e probabilísticos, os postulados do determinismo e materialidade do mundo físico,
deram lugar à instabilidade e imprevisibilidade. Alguns efeitos desses novos conceitos foram na
objetividade da observação (postulando-se a necessidade de interação natural entre oobservador e o
objeto de estudo), na mensuração do fato (aceitando-se como convencional e consensual) e no
determinismo (sem fundamentação térico-prática: o caos) da realidade.
O filósofo – pesquisador com interesse e se preocupa em ir, segundo Husserl, “as próprias
coisas”, não pode ignorar os desafios especulativos na aplicação pragmática de uma solução de algo
material que é indeterminado e probabilístico; no estudo do caos que renovou o determinismo; com o
abalo da confiança no formalismo, segundo Gödel; na descoberta da diferenciação celular que
fragilizou o que se acreditava era a identidade – individualidade, com imposições de reflexões
ontológico-biológicas; e em observações neuropsicológicas, em relações corpo – mente, entre muitos
outros aspectos e desafios das ciências.
Esse pesquisador deve estar preparado para tratar, no fim desse século, a explosão da outros
assuntos que o desafiam. Não poderá ignorar tendências como as de automação com o uso intensivo e
“democratizável” da informática (p.ex., da comunicação permanente e instantânea) e da robótica, do
aumento da produtividade e da qualidade (...) de processos e resultados que definem sustentabilidade.
O pesquisador moderno deve estar preparado para tratar a explosiva desarmonia - desequilíbrio
entre um desabrochar da pesquisa técnico-científica, com contribuições como as do milho, soja (...)
transgênicos e animais clonados com novas funções; benefícios e utilidades sociais, como as do
252

Fundamentos da pesquisa
Volume 1

desvendamento de códigos genéticos (...); e com as preocupações da sociedade em relação à ciência e


as “imposições” de responsabilidade – comprometimento e éticas.
Deve estar preparado para enfrentar novos e grandes desafios como os da produção,
conservação (renovação, substituição...) da energia; a preservação de “estados”, fontes, ciclos (...) do
meio ambiente e seu conhecimento, valorização e internalização na conservação; o aumento na
produção de alimentos com base em critérios de sustentabilidade social, ambiental, econômica (...).
Deve estar preparado para enfrentar os desafios na busca de soluções de problemas emergentes como
os da desertificação e mudanças climáticas.
Um fato novo é a “aparente” falta de correspondência entre o progresso tecnológico e os
avanços morais, a perda do status do conhecimento científico desviado para fortalecer ou para criar
novas vantagens competitivas por vezes com exclusões. O investigador deve estar preparado para o
que se tem com certeza: não confiar no que é exterior à consciência e, segundo Sarte, não é mais
possível à ideia de abstração como um valor universal: o pós-modernismo. O que existe são homens
singulares e os valores para cada um se definem segundo circunstâncias: observar essas circunstâncias
numa análise de perspectivas no contexto histórico: o passado se “projeta” sobre o futuro e, apesar de
não o determinar, condiciona-o.
Com a complexidade da realidade cresce a especialização com o abandono da ideia de
unificação da realidade e com o surgimento de dimensões do pós-modernismo como as da
globalização, terrorismo, profundas desigualdades de distribuição de riquezas, desafios para o
desenvolvimento (...). No campo da investigação, o conhecimento científico passa a ser formalizado e
objetivado para a comunicação, para a difusão (...) a para a educação tecnológica. É no contexto de
incertezas e mudanças, de tendência e cenários prospectivos e de integrações-parcerias que se perfila a
ciência, a tecnociência e seu método científico. 65
É para essa nova realidade que se deve preparar o profissional da pesquisa como um sujeito
criativo, responsável e comprometido, capaz de fazer ciência dentro de um coletivo. As lições dos
filósofos da ciência no século XX são importantes para uma reflexão, nessa preparação, e para
responder sobre: o objeto a ser conhecido, a realidade, o cliente e seu ambiente; o sujeito do
conhecimento, a filosofia da ciência; os processos cognitivos.
O novo saber científico que inclui a teoria da relatividade e a mecânica ondulatória parecia
ameaçar a base do materialismo, mas, outras descobertas no domínio da bioquímica, da física e da
psicologia fisiológica, assim como tecnologias como a informática as quais tornaram mais plausíveis
as concepções do materialismo e levaram ao ressurgimento do in