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A Reflexão Filosófica - 16/03/2007

O que é a Filosofia?

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Ao ouvirmos a palavra “filosofia” imaginamos, muitas vezes, estar diante de um conjunto


de teorias sem sentido, sem relação com o cotidiano. Alguns dirão: “A filosofia é coisa de
louco” ou “é coisa de gente que não tem mais nada o que fazer”. Estaria mesmo a filosofia
distante do cotidiano? Seriam os filósofos seres lunáticos preocupados com coisas
absurdas? O que teríamos a ver com a filosofia?

Começaremos a examinar o cotidiano como nos propõe Marilena Chauí, em seu livro
“Convite à Filosofia”: Em nossa vida cotidiana, afirmamos, negamos, aceitamos ou
recusamos coisas, pessoas ou situações. Fazemos perguntas como” que horas são ou
que dia é hoje?“.

Esta pergunta sustenta uma crença: a crença que o tempo existe e pode ser medido.Assim
como afirmações do tipo “A professora foi injusta” traz em si a crença em nossa idéia de
justiça. No entanto, nunca paramos para indagar o que entendemos por “tempo” ou
“justiça”. Acostumados com o cotidiano, deixamos nossas idéias e crenças sem
fundamentação e vamos aceitando o mundo como se ele fosse óbvio em si mesmo.

A Filosofia começa quando nos propomos a investigar o mundo, o homem e seus valores.
Assim, afirma Marilena Chauí, a primeira resposta à pergunta “O que é Filosofia?”, poderia
ser: A decisão de não aceitar como óbvias e evidentes as coisas, as idéias, os fatos, os
valores de nossa existência cotidiana; jamais aceitá-las sem antes haver investigado.

Para que Filosofia?

Essa é uma pergunta bastante comum quando a Filosofia aparece na escola. Mas não
vemos ninguém perguntar para que Matemática, Biologia ou Educação Física! A não ser
quando não atingimos o conceito desejado nestas disciplinas. Mas todo mundo acha
natural perguntar para que Filosofia!

Talvez porque achamos o Filósofo um ser estranho, com a cabeça no mundo da lua,
dizendo coisas que ninguém entende. “Papo cabeça” demais que não serve para nada.
“Não servir para nada” é uma afirmação que merece ser analisada.

O que serve em nossa sociedade é aquilo que tem uma utilidade imediata, visível e muito
prática. Quando nos pedem para ler ou pesquisar, logo perguntamos: o que vamos ganhar
com isso? Por isso ninguém duvida da utilidade das Ciências, pois aí estão os
computadores, os medicamentos, etc.

O que nós não sabemos é que as Ciências


pretendem ser conhecimentos verdadeiros,
baseados em procedimentos racionais e rigorosos.
Verdade, pensamento, procedimentos especiais
para conhecer os fatos, relação entre teoria e
prática: tudo isso não é Ciência, são questões
filosóficas.
O trabalho das Ciências pressupõe, como condição, o trabalho com a Filosofia. Não é à
toa que os grandes cientistas se debruçaram sobre as questões filosóficas. Por exemplo,
se você já ouviu falar em produto cartesiano, conhece também a relação da Matemática
Moderna com a Filosofia de Descartes? Se já ouviu falar em Teorema de Pitágoras, sabe
que para o Filósofo grego o mundo é expressão dos números e que o triângulo
representaria a harmonia de todas as coisas?

Você estaria se perguntando: Que coisa doida é essa? Isso significa que a culpa de eu ter
que estudar o Teorema de Pitágoras é da tal Filosofia? Calma aí... Você não é tão normal
quanto parece...

Que tal viajar na aula de Filosofia e se imaginar diante de uma bela cachoeira ou ainda
estar sentado em seu sofá assistindo um desses programas de ecologia. De repente, você
se pergunta: como pode tudo estar tão encaixado em seu devido lugar? Como tudo
começou? O que mantém as coisas em ordem e ao mesmo tempo em mudança?

Essa era a pergunta que Pitágoras e outros filósofos fizeram e obtiveram diferentes
respostas. Algumas inusitadas, como a de Demócrito que supunha uma partícula
indivisível como princípio de todas as coisas. A afirmação de Demócrito provocou a
curiosidade de muitas pessoas e estimulou pesquisas. Embora saibamos, hoje, que o
átomo é divisível, o que seria da energia atômica sem Demócrito?

Algumas pessoas afirmam que a Filosofia é a Ciência com a qual e sem a qual o mundo
permanece tal e qual. Bobagem! A Filosofia não é Ciência, pelo menos não como
entendemos a Ciência hoje. Mas, por exemplo, a Química, essa coisa fabulosa que
permitiu produzir sandalinhas de plástico e outras coisas mais, surge da tentativa dos
Filósofos Renascentistas de relacionar as partes ao todo, utilizando-se da Astrologia e da
Alquimia. E a Física, responsável pelos motores potentes e pela aerodinâmica dos carros,
surge da busca de uma explicação para a phisis - palavra grega que compreende a
natureza em movimento e permanência.

As Ciências estão, de alguma forma, relacionadas à Filosofia porque o objeto da Filosofia


é a própria reflexão, o retorno do pensamento a si mesmo para indagar o que são as
coisas. O que é a Ciência, a Arte, o mundo, o homem, enfim, o que somos nós, como
pensamos? Mas... para quê isso?

Observemos o que diz o Filósofo e Educador Matthew Lipman:

Para mim, a coisa mais interessante do mundo é o


pensamento. Eu sei que uma porção de coisas
também são muito importantes e maravilhosas,
como a eletricidade, o magnetismo e a força da
gravidade. Mas, embora a gente compreenda essas
coisas, elas não podem nos compreender. Portanto,
o pensamento deve ser uma coisa muito especial.
Se pensamos sobre a eletricidade, podemos
compreendê-la melhor, mas quando pensamos
sobre o pensar, parece que compreendemos melhor
a nós mesmos.

Ora, você pode agora estar em um dilema pensando se quer ficar na festa com o cara ou a
garota mais bonita da escola ou com aquela que nem é tão bonita, mas é uma ótima
companhia. Você terá que voltar o pensamento para si mesmo, perguntando o que
significa mais para você: uma boa companhia ou a beleza?

Não importa qual a sua resposta. O que importa é o processo de reflexão que o conduziu a
esta pergunta. É provável que você nem chegue a uma resposta e fique na festa com
quem aparecer primeiro. Existe também a possibilidade de você se lamentar por um bom
tempinho pela sua atitude. O desfecho desses dilemas é variado, mas o processo de
reflexão é bastante comum em várias situações.

Mas, cuidado! Não se julgue um Filósofo porque alguma vez na vida, você já fez essas
perguntas. A Reflexão Filosófica não é qualquer reflexão, ela tem suas exigências.
Dermeval Saviani aponta três exigências para que possamos caracterizar uma reflexão
como filosófica.

A primeira é a radicalidade. Já ouvimos falar em esportes radicais ou atitudes radicais.


Os esportes radicais são aqueles praticados por pessoas que gostam de superar os limites
e vão além dos outros. Por exemplo, várias pessoas dirigem, algumas bem, outras nem
tanto. Algumas correm com seus automóveis, mas o automobilismo busca superar os
limites do piloto e do automóvel, desafiando a velocidade. O mesmo poderia ser dito sobre
a radicalidade da reflexão filosófica. Voltemos ao exemplo anterior: Ao se perguntar se fica
com a garota mais bonita ou com a que é boa companhia, você estende sua reflexão
buscando seus fundamentos, buscando superar os limites, buscando as raízes de sua
forma de pensar e se pergunta: O que é, afinal das contas, beleza? O que é uma boa
companhia? O que é bom ou mal?

A segunda exigência de uma reflexão filosófica é a sistematização. Se nos


perguntarmos o que é sistema, veremos que se trata de um conjunto de dados
coerentemente organizados e relacionados de tal forma, que tudo parece estar ligado a
tudo. Isto pode ser mais facilmente compreendido se pensarmos, por exemplo, na
computação. O mesmo se pode afirmar sobre a reflexão filosófica, é preciso que as idéias
tenham relações umas com as outras, que não sejam contraditórias ou incoerentes, que se
mostrem bem fundamentadas. Isso significa que “a filosofia trabalha com enunciados
precisos e rigorosos, opera com idéias e conceitos obtidos por procedimentos de
demonstração e prova, exige fundamentação racional do que é enunciado e pensado.
Somente assim a reflexão filosófica pode fazer com que nossa experiência cotidiana,
nossas crenças e opiniões alcancem uma visão crítica de si mesma. Não se trata de dizer
“eu acho que”, mas de poder afirmar “eu penso que”.

E a terceira exigência da reflexão filosófica é a abrangência. A reflexão filosófica, como


dizia Hegel, é como a coruja de Minerva que alça seu vôo ao entardecer. Alçar vôo
significa ver de uma forma mais ampla. Olhar aquilo que não foi olhado no todo, mas só
nas partes. A Filosofia alça vôo ao entardecer, pois sendo um procedimento de
investigação sistemático e crítico, só pode analisar os fatos quando estes já aconteceram.

Isso significa que o trabalho do Filósofo é sempre atrasado? Não! Essa é a concepção de
um Filósofo sobre a Filosofia. A busca da radicalidade, da sistematicidade e da
abrangência nos coloca diante de uma multiplicidade de teorias e visões. Teorias que não
são apenas opiniões que aparecem em programas de auditório no estilo “você decide”,
mas que podem nos auxiliar a pensar na forma de como pensamos.

Nos pergunta, finalmente, Marilena Chauí: A Filosofia é útil ou inútil? Sua resposta é bom
início para uma reflexão filosófica: O primeiro passo para respondermos esta pergunta
seria considerarmos o que é útil ou inútil. Se útil for obter fama ou dinheiro, a Filosofia
reivindica o direito de ser inútil, mas se útil for descobrir o sentido de nossa existência, de
nossos valores, de nossa cultura não há e nem pode haver saber mais útil que a Filosofia.

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