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Universidade Federal da Bahia

Instituto de Matemática
MATA06 - Cálculo E

Aplicações do Teorema do Resı́duo

Discentes:
Evelyn Cristina Barbosa Pereira,
Gabriel Matheus Conceição Medeiros Nunes
Júlia Carvalho de Souza
Thayná Campos Lima de Oliveira

Professor orientador: Edson Alberto Coayla Teran

Julho
2018
Universidade Federal da Bahia
Instituto de Matemática
MATA06 - Cálculo E

Aplicações do Teorema do Resı́duo

Atividade para a disciplina de Cálculo E (MATA06)


da Universidade Federal da Bahia, como requisito
parcial para avaliação dos discentes.

Discentes:
Evelyn Cristina Barbosa Pereira
Gabriel Matheus Conceição Medeiros Nunes
Júlia Carvalho de Souza
Thayná Campos Lima de Oliveira

Professor orientador: Edson Alberto Coayla Teran

Julho
2018
Conteúdo
1 Introdução 1

2 O Teorema 2
2.1 Teorema dos Resı́duos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 2

3 Aplicações da Teoria dos Resı́duos 6


3.1 Integrais Impróprias de Funções Racionais . . . . . . . . . . . 6
3.2 Integrais Envolvendo Funções Trigonométricas . . . . . . . . . 8

Referências Bibliográficas 12
1 Introdução
Este trabalho apresenta um estudo sobre aplicações do Teorema dos
Resı́duos no cálculo de integrais reais, relacionando a teoria de funções de
uma variável complexa com a teoria de funções de uma variável real.
No estudo de integrais de funções complexas, o nome resı́duo foi intro-
duzido em 1826 por Augustin Louis Cauchy (mais conhecido como Cauchy),
para expressar a diferença das integrais de uma função sobre dois caminhos
com as mesmas extremidades delimitando uma região onde a única singula-
ridade é um pólo da função. As integrais sobre caminhos fechados de funções
analı́ticas num conjunto de pontos isolados onde têm pólos, puderam ser cal-
culadas por simples soma de resı́duos. Esta possibilidade foi estabelecida por
Cauchy em 1826, no então chamado Teorema do Resı́duo. Este teorema tem
uma vasta gama de aplicações. O seu desenvolvimento inicial confundiu-se
com o próprio desenvolvimento de áreas de aplicação, tais como: Cartografia,
hidrodinâmica, aerodinâmica, elasticidade, eletrostática, eletromagnetı́smo e
processos de difusão em quı́mica e em biologia.

1
2 O Teorema
Na matemática, mais especificamente na parte de análise complexa, o
resı́duo é um número complexo proporcional à integral de de contorno de
uma função meromorfa ao longo de um caminho que inclui uma das suas sin-
gularidades, onde uma função meromórfica é uma função que é holomórfica
em todo D exceto para um conjunto discreto de pontos isolados, que são
pólos da função. Intuitivamente, uma função meromórfica é uma relação de
duas funções bem comportadas (holomórficas).
Maisgeralmente,
os resı́duos podem ser calculados para qualquer função

f: C \ ak k → C isto é holomórfico, exceto nos pontos discretos ak k
mesmo que alguns deles sejam singularidades essenciais.
Os resı́duos podem ser computados com bastante facilidade e, uma vez
conhecidos, permitem a determinação de integrais de contorno geral através
do teorema do resı́duo.

2.1 Teorema dos Resı́duos


O teorema do resı́duo diz que a integral curvilı́nea de uma função ao longo
de uma curva fechada, que envolve um número finito de pontos singulares
isolados, pode ser obtida somando os resı́duos da função nestes pontos sin-
gulares e multiplicando por 2πi.
Seja C um caminho fechado tal que uma função f é analı́tica sobre C e no
interior de C exceto num número finito de pontos singulares z0 . Seja C um
caminho fechado tal que uma função f é analı́tica sobre C e no interior de C
exceto num número finito de pontos singulares z0 , z1 , . . . , zn interiores a
C. Então:
Z
f (z)dz = 2πi[(res.f )(z0 ) + (res.f )(z1 ) + ... +(res.f )(zn )],
c

onde a integral é calculada no sentido positivo ao longo de C.


Antes de demonstrarmos esse teorema, iremos enunciar o Teorema de
Cauchy e a Série de Laurent, os quais serão necessários para o desenvolvi-
mento da demonstração do Teorema.

Teorema de Cauchy Seja C um caminho fechado e seja Cj um número


finito (j = 1, 2, . . . , n) de caminhos fechados contidos no interior de C,
tais que os interiores de Cj não tenham pontos em comum. Seja R a região
fechada consistindo de todos os pontos de C e dos pontos interiores a C,

2
exceto os pontos interiores a cada Cj , e seja B a fronteira orientada de R,
consistindo de C e de todos os Cj , orientados de modo a deixarem os pontos
de R à esquerda de B. Então, se f (z) é analı́tica em R,
Z
f (z)dz = 0
B

A figura abaixo ilustra a região descrita no teorema.

Série de Laurent Seja f uma função analı́tica numa região anular


r< |z - z0 |<R. Então para todo z nessa região f (z) é representada por uma
série de potências positivas e negativas de (z-z0 ) ,
∞ ∞
X X bn
f (z) = an (z - z0 ) +
n=0 n=1
(z − z0 )n

onde
Z
1 f (ξ)dξ
an = n=(0,1,2...)
2πi C (ξ − z0 )−n+1
Z
1 f (ξ)dξ
bn = n=(1,2...)
2πi C (ξ − z0 )−n+1

sendo C um contorno fechado totalmente contido em r < |z - z0 |< R, envol-


vendo z0 uma vez no sentido positivo. A série é chamada Série de Laurent.

Demonstração: Para mostrar o teorema, vamos considerar caminhos


Cj (0 ≤ j ≤ n) fechados orientados positivamente. Os caminhos Cj são
traçados em torno de cada um dos pontos singulares zj , de forma que cada
caminho Cj esteja inteiramente contido em C.
Os caminhos Cj , juntamente com o caminho C, formam a fronteira de
uma região fechada multiplamente conexa em que f é analı́tica.

3
Logo, pelo Teorema de Cauchy, temos:
Z Z Z Z
f (z)dz - f (z)dz - f (z)dz - ... - f (z)dz = 0
C C0 C1 Cn
equivale a
Z Z Z Z
f (z)dz = f (z)dz + f (z)dz + ... + f (z)dz.
C C0 C1 Cn
Como f é analı́tica no interior de C e sobre Cj , exceto no próprio ponto zj ,
então as hipóteses do Teorema 3.2 são satisfeitas, assim,
Z
1
(res.f )(zj )= f (z)dz,
2πi Cj
ou seja,
Z
f (z)dz = 2πi(res.f )(zj ), 0≤j≤n.
Cj

Portanto,
Z
f (z)dz = 2πi[(res.f )(z0 ) + (res.f )(z1 ) + ... + (res.f )(zn )].
C
Logo, o teorema está demonstrado.
Apresentaremos a seguir resultados que nos auxiliarão a calcular o resı́duo
de f em determinado ponto singular. Note que se for singularidade removı́vel
de f então res(f, a) = 0, visto que os coeficientes bn da série de Laurent desta
função serão iguais a zero para n ≥ 1.
Além disso, é importante mencionar que, se a é singularidade essencial
de f então não dispomos de procedimentos para o cálculo de res(f, a), e este
deve ser calculado via série de Laurent. Porém, se a é um polo dispomos
da proposição a seguir (que será de muita utilidade no cálculo de algumas
integrais reais por meio do Teorema dos Resı́duos.

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Proposição. Seja f uma função holomorfa no anel A(a, 0, ρ).

(i) Se a é um polo de ordem 1 de f , então res(f, a) = lim (z − a) f (z).


z→a
(ii) Se a é um polo de ordem k ¿ 1 de f , considere a função g(z) = (z −a)k
f (z) e então
g k−1 (a)
res(f, a) = .
(k − 1)!

Demonstração. (i) A série de Laurent de f no anel A(a, 0, ρ) é dada


por

res(f, a) X
f (z) = + an (z − a)n .
z−a n=0


X
Assim sendo, (z − a) f (z) = res(f, a) + an (z − a)n+1 e então lim (z − a)
z→a
n=0
f (z) = res(f, a).
(ii) A série de Laurent de f no anel A(a, 0, ρ) é dada por

bk bk−1 res(f, a) X
f (z) = + + ... + + an (z − a)n .
(z − a)k (z − a)k−1 z−a n=0

Multiplicando por (z − a)k obtemos



X
k−1
g(z) = bk + bk−1 (z − a) + ... + res(f, a) (z − a) + an (z − a)n+k .
n=0

Observe que g é holomorfa no disco D(a, ρ) e, portanto, a expressão acima é


sua série de Taylor de centro em a. Mas então o coeficiente de (z − a)k−1 é
g k−1 (a)
precisamente .
(k − 1)!
Atente-se para o fato de que o procedimento descrito no item (ii) da pro-
posição anterior para a determinação do resı́duo de f em a será conveniente
caso essa função seja “manejável” e, além disso, a ordem k não seja alta,
pois, como já observado, devemos calcular a derivada de uma função que é
definida pelo produto de duas outras, o que pode não ser tão simples caso
esses “requisitos” não sejam satisfeitos.
Com isso em mãos, enunciaremos a seguir exemplos do emprego do Teo-
rema dos Resı́duos por meio de uma aplicação notável no campo real.

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3 Aplicações da Teoria dos Resı́duos
3.1 Integrais Impróprias de Funções Racionais
As integrais impróprias de funções racionais são integrais do tipo:
Z ∞
p(x)
dx
−∞ q(x)
onde p e q são polinômios sem fator comum. Sabendo os zeros de q(x), po-
demos calcular esta integral utilizando a teoria dos resı́duos. Supomos que
q(x) não possui raı́zes reais.

Obs: Caso houvesse raı́zes reais, q(x) teria um fator (x − x0 )k , k ∈ N,


que
Z x0 tornaria o integrando infinito no ponto x0 , de tal forma que a integral
p(x)
dx, com a sendo uma constante real qualquer, não convergiria.
a q(x)

Outra condição para que a integral exista é de que o grau de q(x) seja
maior do que o grau de p(x), no mı́nimo duas unidades.

Exemplo: Calculemos a integral:


Z ∞ Z ∞
1 1 1
dx = dx
0 x2 + 1 2 −∞ x2 + 1

O termo a direita representa uma integração ao longo do eixo real da


função complexa :

1 1 1
f (z) = =
z2 +1 z +iz −i

Esta função possui polos de ordem 1 nos pontos z = i e z = −i.


Seja Cr o semicı́rculo de um cı́rculo |z| = R, onde R > 1.

6
Figura 1: Semicı́rculo do cı́rculo |z| = R

Integrando f ao longo da fronteira da região semicircular, no sentido anti-


horário, temos

Z R Z
f (x)dx + Rf (z)dz = 2πires(f, i)
−R C

pela Teoria dos Resı́duos. Assim, temos:

1 1
res(f, i) = , que quando z = i resulta em
z+i 2i
Portanto, quando R > 1, temos:

Z R Z
1 1
2
dx = π − dz
−R x +1 CR z2 +1

7
Mas |z| = R quando z está sobre CR, e

|z 2 + 1| ≥ |z 2 | − 1R2 − 1

Consequentemente,

Z
1 1 πR
| dz| ≤ 2 |dz| = 2
CR z2 +1 z +1 R −1

e esta quantidade tende para zero quando R tende para o infinito. Assim,

Z R
1
lim dx = π
R→∞ −R x2 +1
Logo,
Z ∞
1 1 π
dx =
2 −∞ x2 +1 2

3.2 Integrais Envolvendo Funções Trigonométricas


Um outro tipo de integrais reais que podem ser calculadas por resı́duos,
são integrais definidas da forma:
Z 2π
F (sen(θ), cos(θ)dθ
0

onde F é um quociente de polinômios de sen(θ) e cos(θ). Usando a trans-


formação z = eiθ , teremos:
(z − z −1 ) (z + z −1 )
sen(θ) = ; cos(θ) =
(2i) (2)

dz = ieiθ dθ, ou seja, dz = izdθ

A integral passa a representar a integral curvilı́nea de uma função racional


de z ao longo do cı́rculo unitário e, assim, basta calcular a integral complexa.

1 Exemplo: Calculemos a seguinte integral:

8
Z 2π

0 2 + sen2 (θ)
(z − z −1 ) dθ
Fazendo sen(θ) = e , temos:
(2i) iz

Z 2π Z
dθ dz
= −1 , onde C é o cı́rculo |z| = 1
0 2 + sen2 (θ) c 2 + ( z−z2i )2 iz
Z Z
1 dz 1 dz
= 2 −2 = −8+z 2 −2+z −2
i c 2 + ( z −2−z
4
)z i c ( −4
)z

−4
Z
dz
= , multiplicando o numerador e denominador por z
i c (z 2 − 10 + z −2 )z

−4 −4
Z Z
zdz zdz
= 2 −2 2
=
i c (z − 10 + z )z i c z − 10z 2 + 1
4

O integrando tem polos simples nos pontos:

√ √ √ √
q q q q
z0 = 5 − 2 6 , z1 = − 5 − 2 6, z2 = 5 + 2 6 e z3 = − 5 + 2 6

q |z| = 1, os q
Como C é o cı́rculo únicos pontos singulares do integrando no
√ √
interior de C são 5 − 2 6 e − 5 − 2 6, logo, os resı́duos são:

−1 −1
(res.f )(z0 ) = √ e (res.f )(z1 ) = √
8 6 8 6
Logo,

−4 −4
Z
zdz
= [2πi(res.f )(z0 ) + 2πi(res.f )(z1 )]
i c z4 2
− 10z + 1 i

−1 1 −2 2π
= −8π[ √ − √ ] = −8π( √ ) = √
8 6 8 6 8 6 6

9
Portanto,

Z 2π
dθ 2π
2
=√
0 2 + sen (θ) 6

Figura 2: Polos do exemplo

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Conclusão
O teorema dos residuos tem algumas aplicações, como: Soma de séries e
cálculo de integrais reais. O foco maior deste trabalho foi dado na parte do
cálculo de integrais reais.
O cálculo de integrais reais utilizando o teorema dos resı́duos pode ser
visto em três casos: 1) Integrais dimpróprias de funções racionais; 2) In-
tegrais improprias envolvendo funções trigonométricas;3) Integrais definidas
de funções trigonométricas. Esses três casos são frequentemente vistos nos
cálculos A, B, C, D e E das universidades. Utilizando o método comum
de desenvolver integrais (por partes ou substituição) demanda tempo, o que
muitas vezes o discente não tem. Por isso, para otimizar e dimnuir a chance
de erro, a utilização do Teorema dos Resı́duos é importante.

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Referências Bibliográficas
[1] https://repositorio.ufsc.br/bitstream/handle/123456789/96550/Daynitti.pdf?
sequence=1Aplicações do Teorema do Resı́duo escrito por Daynitti Ventura de Jesus

[2] http://coral.ufsm.br/beltrame/arquivos/disciplinas/graduacao_sinais_sistemas/
Cap02_Aula03_Variavel_Complexa_Residuos_Polos.pdfConceitos de Matemática de Variável
Complexa

[3] http://www.cesadufs.com.br/ORBI/public/uploadCatalago/19155416022012Vari%
C3%A1veis_Complexas_13.pdf Aplicação do Teorema dos Resı́duos - Centro de Educação
Superior à Distância - UFS

[4] http://mtm.ufsc.br/~azeredo/calculos/Dcalculo/xE/IntCom/IntCom.html Aplicação


do Teorema dos Resı́duos - Aldrovando Azeredo - UFSC

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