Você está na página 1de 11

ENCONTROS – ANO 13 – Número 25 – 2º semestre de 2015

A Escravidão no Brasil e Formas de Resistência Negra

Aline Camacho de Andrade Veras1

Resumo
Este artigo aborda as relações entre escravos e senhores na sociedade colonial
luso americana, a partir das quais pretendemos analisar diferentes vertentes
sobre esse relacionamento, ou seja, como este se processava em diferentes
situações e se havia ou não resistência dos escravos quanto ao sistema. Para
isso, utilizaremos alguns historiadores como base, entre eles João José Reis e
Eduardo Silva que discutem a resistência escrava. Além de Ciro Flamarion
Cardoso, Maria Yedda Linhares, Francisco Carlos e Jacob Gorender que
apresentam interpretações sobre a brecha camponesa.
Palavras-chave: Escravidão – Resistência Escrava – Brecha Camponesa.

1 Professora da SME-RJ. Pós-graduanda em História do Brasil pela IUPERJ. Especialista em


Profissionais da Escola e Práticas Curriculares pela UFF. Graduação em Pedagogia na UERJ e
em História na UNIGRANRIO.

DEPARTAMENTO DE HISTÓRIA DO COLÉGIO PEDRO II – RIO DE JANEIRO

83
ENCONTROS – ANO 13 – Número 25 – 2º semestre de 2015

I - Introdução

A escravidão se iniciou muito antes da chegada dos europeus na África.

Desde o século VII as guerras de conquista comandadas pelos califas abasteciam

os mercados do Oriente e os brancos eram os mais procurados. Os muçulmanos

ricos formavam seus haréns com meninas e eunucos (que eram castrados ao

chegarem às terras) e eram provenientes principalmente da Espanha.

O tráfico humano era algo muito comum, mas que adquiriu formato e

organização diferenciada, em função das especificidades de cada tempo e

localização. A partir do final do século VII as tropas muçulmanas iniciaram seus

ataques ao Saara ocidental e no século XI começaram a atuar cruzando o

deserto. Contudo, essas expedições transaarianas tiveram impacto limitado, o

tráfico negreiro organizou-se de forma pacífica e os muçulmanos comandavam as

rotas comerciais africanas.

Até o século XVI, o tráfico negreiro foi monopólio muçulmano e, no fim da

Idade Média, esse monopólio foi ameaçado quando as caravelas portuguesas

iniciaram o reconhecimento do litoral africano. Os portugueses se engajaram no

tráfico de escravos primeiro, por meio de contratos ou concessões reais, no qual o

comércio era feito a partir de feitorias no litoral da África ocidental. Os escravos

eram trocados por mercadorias diversas (armas, munições, fumo, aguardente e

outros). A partir do século XIX, os cativos passaram a ser vendidos com

pagamento feito em dinheiro, sendo que em algumas regiões o sistema de

escambo era mantido.


DEPARTAMENTO DE HISTÓRIA DO COLÉGIO PEDRO II – RIO DE JANEIRO

84
ENCONTROS – ANO 13 – Número 25 – 2º semestre de 2015

Conseguir as mercadorias apropriadas para as negociações em cada

região da África não era tarefa simples e embora os traficantes fossem

reconhecidos, nem sempre cumpriam a lei. Como muitos pontos da Costa

africana encontravam-se sob o domínio de Coroas europeias, esses traficantes

deveriam pagar os direitos alfandegários, mas a insatisfação com os impostos

geravam tentativas de burlar as autoridades locais ou favorecia a busca de locais

que não fossem dominados por uma Coroa, mas por soberanos africanos, e

assim faziam o contrabando.

II - A escravidão no Brasil

Por muito tempo, a historiografia definiu a escravidão a partir de uma visão

positivista, que não considerava a abertura para negociações entre senhores e

escravos e/ou enfatizava as práticas de violência que resultavam na acomodação

da população negra. De fato, a escravidão foi muito tenebrosa, mas não foi uma

relação de uma única via, na qual o senhor mandava e o escravo obedecia.

Muitos estudos historiográficos têm revelado novas vertentes para a escravidão

negra na América portuguesa.

Podemos verificar através do tema citado que os escravos passam a ser

agentes da história. Neste novo pensar, o escravo participa ativamente do

processo histórico no qual estava inserido, deixando de ser um agente passivo,

conforme uma vertente da historiografia sempre enfatizou. Além de abandonar o

estigma de passivo, abandona também o rótulo de agressivo e rebelde. Assim, os

escravos passam a ser entendidos como indivíduos que estavam envolvidos em


DEPARTAMENTO DE HISTÓRIA DO COLÉGIO PEDRO II – RIO DE JANEIRO

85
ENCONTROS – ANO 13 – Número 25 – 2º semestre de 2015

negociações, que visavam uma sobrevivência um pouco menos sofrida em busca

de benefícios que variavam desde a aquisição de terras até a própria liberdade.

Os cativos resistiram, sim! Essa resistência não era apenas vinculada à

violência, havia também resistência num sentido mais ideológico, isto é, era uma

negociação verbalizada, como a brecha camponesa; um jogo de interesses que

beneficiava os dois lados, tanto os escravos quanto os senhores.

Nos locais onde a vigilância era exacerbada havia pouco entusiasmo dos

trabalhadores escravos tanto para aplicar novas técnicas de trabalho ou mesmo

para melhorá-las. Sendo assim, produziam menos, mesmo com as plantações de

café seguindo a linha de maior declive dos morros para facilitar a vigilância, de

acordo com os historiadores.

Os senhores de engenho utilizavam algumas técnicas para combater

possíveis rebeliões. Uma dessas formas de combate era utilizar pequenos grupos

de trabalhadores porque a ideia era de que assim o serviço renderia muito mais.

No caso de grupos maiores de escravos trabalhando juntos havia a necessidade

de um feitor para fazer a vigilância e assim evitar que algo acontecesse. A religião

também era utilizada pelos senhores como tentativa de evitar rebeliões e a tática

aplicada nesse caso era dar direito aos escravos de usufruírem do domingo e dos

dias santos, para conhecer e seguir a doutrina cristã. Podemos perceber na

prática como essas questões se concretizavam através do livro escrito pelo Barão

de Pati de Alferes a seu filho:

O escravo deve ter o domingo e o dia santo, ouvir a missa se


houver na fazenda, saber a doutrina cristã, confessar-se
anualmente: é isto um freio que os sujeita, muito principalmente se
o confessor sabe cumprir o seu dever, e os exorta para terem

DEPARTAMENTO DE HISTÓRIA DO COLÉGIO PEDRO II – RIO DE JANEIRO

86
ENCONTROS – ANO 13 – Número 25 – 2º semestre de 2015

moralidade, bons costumes, e obediência cega a seus senhores, e


a quem os governa (REIS e SILVA, 2009, p.28).

Outro mecanismo utilizado pelos senhores para manutenção da disciplina

escrava foi a “brecha camponesa”, que tinha como objetivo ceder uma parte da

terra para o escravo para que o próprio pudesse utilizá-la, além da folga semanal,

pois seria neste dia específico que o escravo teria para trabalhar em sua terra e,

com isso, a quantidade de gêneros alimentícios aumentava para a população

escrava.

Em relação à “brecha camponesa” há várias interpretações na

historiografia. Além de um entendimento de que a “brecha camponesa” está

voltada para a manutenção da disciplina, como comentamos anteriormente, o

debate entre Ciro Cardoso e Jacob Gorender é um grande exemplo dessa

discussão.

Para Ciro Cardoso (1979), os senhores de engenho concediam lotes de

terra, tempo para que os escravos cultivassem (geralmente os sábados, pois

domingos e dias santos eram dias de assistir a missa) e raramente enviavam

feitores para vigiar os cativos. É importante ressaltar que tanto o tempo concedido

aos escravos para o cultivo de sua própria agricultura era bastante variável, assim

como o limite da extensão dos terrenos. Além disso, os escravos participavam do

abastecimento local com a venda de alimentos. Isto propiciava a oportunidade de

o escravo acumular algum dinheiro.

Jacob Gorender (1985) critica Ciro Cardoso porque considera inapropriado

o conceito de “brecha camponesa”. Para esse autor não existiu nenhuma brecha,

é um equívoco; muito menos existia um setor camponês diferenciado da


DEPARTAMENTO DE HISTÓRIA DO COLÉGIO PEDRO II – RIO DE JANEIRO

87
ENCONTROS – ANO 13 – Número 25 – 2º semestre de 2015

plantation. Portanto, o escravo que cultivava em seu próprio terreno estava

sempre submetido às mesmas relações e condições de produção e ao mesmo

dono.

A outra vertente engloba autores como Maria Yedda Linhares e Francisco

Carlos Teixeira (1981) que apontam a brecha camponesa como uma conquista do

escravo, e foi conseguida através de sua astúcia em resistir e, por muitas vezes,

ceder, tendo em vista os benefícios que algumas situações poderiam lhe trazer

para sobreviver de uma maneira menos angustiante. Os autores em questão

defendem a ideia de que tal tema, ou seja, a questão da subsistência e da

formação de mercados internos no período colonial não é muito abordado por boa

parte dos historiadores brasileiros.

Para Maria Yedda Linhares e Francisco Teixeira da Silva (1981, p.135) a

brecha camponesa se delimita em

três formas de produção dedicadas ao abastecimento do mercado


interno: a brecha camponesa, constituindo um proto campesinato,
os lavradores diretamente subordinados aos senhores de
engenho; e os pequenos produtores do Agreste e do Sertão, além,
é claro, da pecuária.

Sendo assim, os referidos historiadores observam que a prática camponesa

dentro do sistema escravista não está ligada apenas a momentos específicos.

Porque a prática camponesa provavelmente se desenvolveu como atividade de

subsistência, produzindo excedentes para a propriedade monocultura e para os

centros urbanos. Nesse sentido, eles concordam com Ciro Flamarion, quando

este aborda a brecha camponesa.

DEPARTAMENTO DE HISTÓRIA DO COLÉGIO PEDRO II – RIO DE JANEIRO

88
ENCONTROS – ANO 13 – Número 25 – 2º semestre de 2015

No caso em pauta, é importante ressaltar o quanto a brecha camponesa

era fundamental para o abastecimento interno da colônia, pois com a garantia dos

escravos terem um dia na semana para cuidarem de suas próprias terras é que

era possível fornecer o excedente para sustentar as colônias da metrópole, tropas

e seus navios.

As medidas adotadas na brecha camponesa não serviam apenas para a

subsistência dos escravos, mas incluíam também a exportação, sendo que os

produtos cultivados pelos negros não deveriam ser vendidos a terceiros, mas sim

ao seu senhor que deveria pagar a quantia corretamente e com valores razoáveis,

a fim de impedir extravios. Isto nos revela que a economia escrava não se limitava

apenas à brecha camponesa, pois podemos perceber que em alguns casos a

remuneração ocorria.

O espaço de economia própria servia para que os escravos


adquirissem tabaco, comida de regalo, uma roupinha melhor para
mulher e filhos, etc. Mas, no Rio de Janeiro do século XIX, sua
motivação principal parece ter sido o que apontamos como válvula
de escape para as pressões do sistema: a ilusão de propriedade
distrai da escravidão e prende, mais do que uma vigilância feroz e
dispendiosa, o escravo à fazenda. “Distrai”, ao mesmo tempo, o
senhor do seu papel social, tornando-o mais humano aos seus
próprios olhos. Estas suas roças, e o produto que delas tiram, faz-
lhes adquirir certo amor ao país, distraí-los um pouco da
escravidão, e entreter com esse seu pequeno direito de
propriedade (REIS e SILVA, 2009, p.31).

Logo, é possível perceber que o sistema escravista era visto por muitos

senhores como algo a ser “negociado” com seus escravos, pois a partir do

momento em que era oferecido algo diferenciado das chibatadas, a outra parte

deveria confiança, gratidão e respeito. Sendo assim, um senhor “severo, justiceiro

e humano”, não facilitava para que seus escravos fossem revoltados.

DEPARTAMENTO DE HISTÓRIA DO COLÉGIO PEDRO II – RIO DE JANEIRO

89
ENCONTROS – ANO 13 – Número 25 – 2º semestre de 2015

Outras medidas eram adotadas nas fazendas de café para livrar o local de

desordens causadas pela população negra. Muitos locais dispunham de técnicas

ideológicas e não apelavam diretamente para a força, sendo assim, promoviam

momentos de divertimento para os escravos evitando conflitos, revoltas e

insatisfação. Segundo Reis e Silva (2009, p.29):

Quem se diverte não conspira; promover por todos os meios o


desenvolvimento das ideias religiosas; e, finalmente, permitir que
os escravos tenham roças e se liguem ao solo pelo amor da
prosperidade; o escravo que possui nem foge, nem faz desordens.

Podemos perceber em diversos momentos que a escravidão se dava

muitas vezes através de negociações, pois como o senhor não queria rebelião em

sua fazenda encontrava uma maneira de ludibriar seus escravos com “regalias”.

Por sua vez, os escravos buscavam alguma oportunidade de estabelecer o

mínimo de conforto na situação em que se encontravam para si e sua família.

Após terem sido tirados a força de sua terra para trabalhar em uma outra

desconhecida e em condições precárias, os negros enxergavam nessas brechas

uma maneira menos desprezível de sobreviver.

A escravidão era uma guerra constante, na qual cada parte teria que

vencer uma batalha diária. A todo instante os senhores buscavam alternativas

para sanar possíveis insatisfações dos escravos e assim evitar rebeliões. E os

escravos, então, deveriam agir com inteligência e criatividade, pois a vantagem

dos senhores era muito maior dentro do sistema escravista. Muitas revoltas foram

organizadas com habilidade e, mesmo quando derrotadas, tinham alcançado

alguns objetivos, principalmente no que diz respeito ao medo dos senhores de

novas rebeliões; o que gerava um clima bastante propício para negociações.

DEPARTAMENTO DE HISTÓRIA DO COLÉGIO PEDRO II – RIO DE JANEIRO

90
ENCONTROS – ANO 13 – Número 25 – 2º semestre de 2015

Os escravos com astúcia conseguiam encontrar brechas no sistema

escravocrata e conseguiam tirar proveito disso. Podemos perceber essa

abordagem através da iniciativa dos escravos solicitando o cumprimento de leis,

como o exemplo de duas negras.

Uma entrou com uma ação contra sua dona, pois esta queria
ficar com as economias de sua escrava e com isso impedir
que comprasse sua liberdade e a outra lutava por liberdade
conseguindo comprovar que tinha sido importada após a Lei
de 1831. (REIS e SILVA, 2009, p.18).

Outro caso bastante interessante citado por Reis e Silva (2009) é o de uma

mulher e sua filha que de forma ilícita utilizaram recursos para conseguir a

almejada liberdade, pois se apossaram de documentos pertencentes ao de duas

libertas homônimas que já haviam falecido.

Os fazendeiros também temiam separar seus escravos, pois isso poderia

acarretar muitos prejuízos, tais como revoltas e arruaças. Portanto, caso algo

acontecesse, seria conveniente castigá-los com chibatadas e esse tipo de castigo

poderia levar o escravo à morte e, portanto, à perda de capital. Evitar a separação

de famílias também colaborava com a inexistência de fugas, assim como os bons

tratos também desempenhavam papel importante.

Por isso, de acordo com Reis e Silva (2009, p. 16),

os escravos e os senhores manipulam e transigem no


sentido de obter a colaboração um do outro; buscam – cada
qual com seus objetivos, recursos e estratégias – ‘os modos
de passar a vida’ como notou Antonil.

DEPARTAMENTO DE HISTÓRIA DO COLÉGIO PEDRO II – RIO DE JANEIRO

91
ENCONTROS – ANO 13 – Número 25 – 2º semestre de 2015

III - Considerações Finais

A partir das considerações elaboradas, podemos analisar que tanto o

senhor quanto o escravo buscaram modos diferentes de sobreviver no âmbito da

sociedade escravocrata.

Além disso, é possível verificar que, embora a escravidão tenha sido sem

questionamentos um ato irreparável de violência contra muitas vidas, os escravos

ainda assim conseguiram perseverar em suas atitudes criativas e inteligentes,

buscar seus direitos e viver de uma forma um pouco menos “mutilada”. Suas

raízes identitárias, seja na família, na cultura e na religião (embora não tenhamos

comentado), se faziam presentes, pois essa continuidade era motivo de luta, de

originalidade diante de momentos em que “camuflar” a cultura era necessário.

Por tudo isso, a imagem de passivo do escravo não se associa mais a

certas interpretações da historiografia a respeito dos escravos. O ato de ceder,

negociar e resistir eram constantes, assim como a luta pela liberdade.

Referências
CARDOSO, Ciro Flamarion S. A brecha camponesa no sistema escravista. In:
Agricultura, escravidão e capitalismo. Petrópolis: Vozes, 1979, pp.133-154.
FREIRE, Jonis. Para além da partilha: divisão e manutenção de famílias escravas
(Minas Gerais, século XIX). História UNISINOS, v. 15(1), p. 23-30, 2011.
GORENDER, Jacob. O escravismo colonial. 4. ed. ampl. São Paulo: Ática,
1985.
LINHARES, Maria Yedda; TEIXEIRA DA SILVA, Francisco Carlos. História da
agricultura brasileira: combates e controvérsias. São Paulo: Brasiliense, 1981.
REIS, João José; Silva, Eduardo. Negociação e conflito: a resistência negra no
Brasil escravista. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.
.

DEPARTAMENTO DE HISTÓRIA DO COLÉGIO PEDRO II – RIO DE JANEIRO

92
ENCONTROS – ANO 13 – Número 25 – 2º semestre de 2015

THE SLAVERY IN BRAZIL AND THE FORMS OF BLACK


RESISTANCE

Abstract: The present article addresses the relationship among slaves and
masters within the Luso-American society, relying on historiographical approaches
that had emerged from the debate of this theme. Its main purpose is to analyse
certain aspects concerning this relationship, such as how it has shaped in different
historical situations and if there was black resistance or not against the system.
The author is based on the important discussions made by Brazilian historians. On
the one hand, João José Reis and Eduardo Silva have discussed the forms of
resistance created by oppressed black people. On the other hand, Ciro Flamarion
Cardoso, Maria Yedda Linhares, Francisco Carlos and Jacob Gorender have
offered a discussion of the so-called peasant breach within the scope of slave
system.
Keywords: Slavery − Slave Resistance − Peasant Breach – Historiography.

Recebido em: 04/11/2015.


Aprovado em: 25/11/2015.

DEPARTAMENTO DE HISTÓRIA DO COLÉGIO PEDRO II – RIO DE JANEIRO

93