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A Residência Médica e o SUS: distorções e propostas de soluções.

Criada no final do século XIX, a Residência Médica (RM) chegou ao Brasil nos
anos 40, e no Nordeste em 1958, onde o primeiro programa foi implantado no Hospital
das Clínicas da UFBA. Embora outras pós-graduações tenham surgido, a RM continua
sendo mundialmente a mais importante forma de especialização médica (Tavares-Neto,
2009).
Inicialmente elitizada, a RM ampliou-se, abrangendo desde áreas gerais até as
altamente especializadas. Com o vertiginoso aumento do conhecimento e das
competências exigidos para o exercício da Medicina; e com as deficiências dos cursos
de graduação, a RM tornou-se passagem obrigatória antes da plena prática profissional.
Os concursos de RM passaram a ter mais importância para os estudantes que a
formação, e o internato deixou de ser encarado como etapa fundamental de treinamento,
para ser visto como um “impedimento” à preparação para os processos seletivos. A
ampliação da RMs, essencialmente financiadas pelo setor público (SUS), mesmo
quando inseridas em serviços privados, faz com que hoje os candidatos disputem mais
os serviços do que as vagas. Áreas como Pediatria e Nefrologia permanecem sem
ocupar todas as vagas oferecidas. Será importante fazer a transição das atuais provas de
seleção, para a adoção de um sistema que valorize também a avaliação processual dos
candidatos ao longo de sua formação acadêmica, sem cair no subjetivismo das
entrevistas nem nas custosas fórmulas importadas de provas com simulações práticas.
Os programas de RM, com a ampliação, passaram a ser forma de utilização de
mão de obra barata e sem direitos trabalhistas, nas instituições privadas e públicas. As
décadas de 70 e 80 foram marcadas por lutas dos Médicos Residentes (MR) por direitos
trabalhistas mínimos, como piso salarial, definição de jornada de trabalho, e licença-
maternidade. Essas lutas culminaram com a constituição da Comissão Nacional de RM
ligada ao MEC, e na promulgação de leis que regulam o sistema de RM (Presidência da
República, 1977).
A regulamentação, por essas leis, da formação preliminar em áreas gerais, antes
das especializadas, fez com que essas grandes áreas passassem a ser vistas por muitos
apenas como uma etapa de menor valor. Se as conquistas trabalhistas foram necessárias
para a valorização da RM, por outro lado, criaram conflitos entre treinamento e
trabalho. Vista como um emprego provisório, a RM perde em aprendizado vivencial, e
joga para um futuro imprevisto a aquisição de competências, já postergada no internato.
A quebra da dedicação exclusiva, sem dúvida necessária para a sobrevivência
dos MR, fez com que muitos jovens se dividam entre a RM e plantões externos, com
sobrecarga de trabalho, reduzindo a presença nos serviços. Não é incomum que MRs
recusem plantões da RM sob alegação de falta de supervisão adequada, enquanto dão
plantões externos “selvagens” de emergência, sozinhos. As reduções “informais” de
carga horária da RM, longe de resolver essa sobrecarga, só aumentam os vínculos
externos. Esses aspectos são problemas hoje discutidos em vários países. É necessário
rever as condições para permanência nos locais de treinamento, incluindo melhoria da
remuneração profissional e da supervisão. (Lypson, Hamstra et al., 2009).
A despeito do maciço financiamento pelo SUS, os egressos da RM não
necessariamente retornam a serviços públicos ao término da especialização. A fixação
dos médicos no setor público ao fim da RM depende de vários fatores, como
remuneração, condições de trabalho e valorização profissional. Entretanto, mesmo em
áreas onde o SUS remunera bem, a carência de especialistas nos serviços públicos faz
com que os gestores questionem a manutenção de programas de RM e redefinam áreas
estratégicas para sua implementação (SEGTS/SeSu, 2009).
O descompromisso das RMs para com as necessidades do SUS torna inevitável
o questionamento do financiamento público, ameaçando essa forma de pós-graduação.
Repensar os programas, valorizando atividades nos níveis primários e secundários de
atenção; fortalecer o acesso à atenção especializada através dos sistemas de regulação;
valorizar a referência e contra-referência, e a continuidade de cuidados através da
atenção domiciliar e dos programas de saúde da família, bem como inserir as RMs nos
programas de capacitação profissional do SUS, são estratégias essenciais para a
sobrevivência das RMs.
A valorização das RMs passa inegavelmente pelo reconhecimento e qualificação
dos preceptores, muitos dos quais ocupam mais do que seu tempo profissional com a
supervisão de internos e residentes, sem obrigação de fazê-lo. Nem sempre essa vocação
pedagógica é reconhecida; e muitos preceptores, sem titulação de mestrado ou
doutorado, não têm disponibilidade para se submeter às pós-graduações acadêmicas.
As escolas médicas não valorizam essa experiência pedagógica nos concursos
para professores, pois os critérios de aprovação terminam por pontuar mais a produção
científica dos candidatos. Por outro lado, sem formação em metodologia científica,
dificilmente os preceptores de RM poderão produzir reflexões críticas sobre seus
campos de atuação, importantes para as tarefas de supervisão da formação abrangente
prevista nas Diretrizes Curriculares Nacionais para o Ensino Médico. (Ministerio da
Educação, 2001).
Nesse contexto, a iniciativa da Faculdade de Medicina da Bahia (UFBA) de criar
um Mestrado Profissional para a formação de Preceptores de RM no Estado da Bahia
vem preencher importante lacuna. O curso, que tem como objetivo capacitar preceptores
com formação científica e pedagógica para supervisionar o treinamento de MR e
internos, terá atividades presenciais quinzenais aos fins de semana, com duração de dois
anos, e atividades de educação à distância. Os trabalhos finais de conclusão deverão
enfocar aspectos das áreas profissionais dos preceptores, nos serviços onde atuam. A
titulação conferida tem o mesmo valor de um mestrado acadêmico na prestação de
concursos e na valorização profissional.
O projeto conta com o clarividente apoio da Secretaria Estadual de Saúde e da
Escola Estadual de Saúde Publica, que, empenhados na valorização do corpo de
preceptores, se comprometeram com o financiamento. A meta inicial é a titulação de
quarenta preceptores em dois anos, com processo seletivo inicial previsto para o
segundo semestre de 2010.

Referências:

BRASIL- MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO. RESOLUÇÃO CNE/CES Nº 4, DE 7 DE


NOVEMBRO DE 2001. Brasilia- DF, 2001.

BRASIL- PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA. DECRETO N.º 80.281 DE 5 DE


SETEMBRO DE 1977. Brasilia- DF, 1977.

BRASIL- Secretaria de Gestão do Trabalho e da Educação em Saúde


(SGTES/MS) e Secretaria de Educação Superior do MEC (SESu/MEC.
Programa Nacional de Apoio à Formação de Médicos especialistas em Áreas
Estratégicas para o SUS - Pró-Residência. Brasília-DF, 2009

LYPSON, M. L. et al. Is the Accreditation Council for Graduate Medical


Education a Suitable Proxy for Resident Unions? Academic Medicine [S.I.], v.
84, p. 296-300, 2009.

TAVARES-NETO, J. MESTRADO PROFISSIONALIZANTE EM CIÊNCIAS MÉDICAS


(MCMed), PARA OS PRECEPTORES DE PROGRAMAS DE RESIDÊNCIA MÉDICA
DO ESTADO DA BAHIA(Projeto).
UFBA, Faculdade de Medicina da Bahia. Versão preliminar aprovada pela
Congregação da Faculdade de Medicina . 3a versão. Salvador-Bahia:
Congregação da FMB, 2009.