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CADERNO DOS GRUPOS DE ESTUDOS SERVIÇO SOCIAL E PSICOLOGIA
CADERNO DOS
GRUPOS DE
ESTUDOS
SERVIÇO SOCIAL
E
PSICOLOGIA
TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO ESCOLA JUDICIAL DOS SERVIDORES - EJUS Em

TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO ESCOLA JUDICIAL DOS SERVIDORES - EJUS

ESTADO DE SÃO PAULO ESCOLA JUDICIAL DOS SERVIDORES - EJUS Em caso de reprodução total ou

Em caso de reprodução total ou parcial do conteúdo deste Caderno, a fonte deverá ser citada.

Os artigos representam o posicionamento de seus autores, não o do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo nem o da Escola Judicial dos Servidores.

TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO ESCOLA JUDICIAL DOS SERVIDORES - EJUS TRIBUNAL

TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO ESCOLA JUDICIAL DOS SERVIDORES - EJUS

ESTADO DE SÃO PAULO ESCOLA JUDICIAL DOS SERVIDORES - EJUS TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE

TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO

Presidente Desembargador PAULO DIMAS DE BELLIS MASCARETTI

ESCOLA JUDICIAL DOS SERVIDORES EJUS

Diretor Desembargador ANTONIO CARLOS VILLEN

CADERNO DOS GRUPOS DE ESTUDOS

Serviço Social e Psicologia Judiciários

Número 14

SÃO PAULO

2017

TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO ESCOLA JUDICIAL DOS SERVIDORES - EJUS Sumário

TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO ESCOLA JUDICIAL DOS SERVIDORES - EJUS

Sumário

DE SÃO PAULO ESCOLA JUDICIAL DOS SERVIDORES - EJUS Sumário POLÍTICA DE ACOLHIMENTO INSTITUCIONAL E O

POLÍTICA DE ACOLHIMENTO INSTITUCIONAL E O ADOLESCENTE ACOLHIDO: DESAFIOS DA

ATUAÇÃO PROFISSIONAL

 

13

Introdução

 

15

1 - Sobre a história e legislação do acolhimento institucional no Brasil

 

15

2 - Questões contemporâneas em relação ao acolhimento institucional

22

3 - O adolescente acolhido: desafios comuns às instituições de acolhimento

 

24

4 - Conclusão

 

28

Referências

30

REFLEXÕES SOBRE A BUSCA ATIVA

 

33

Introdução

 

35

1 - Definição de “busca ativa”

 

36

2 - Palestrantes convidadas

36

3 - Busca ativa e o Poder Judiciário

39

4 - Reflexões

 

43

5 - Conclusão

47

Referências

50

OS

DESAFIOS

DA

COLOCAÇÃO

EM

FAMÍLIA

SUBSTITUTA:

A

ESCUTA

DE

CRIANÇAS

E

ADOLESCENTES

 

51

Introdução

54

1 - Os desafios da colocação em família substituta

 

55

2 - A importância da escuta da criança e do adolescente

 

59

3 - O serviço de acolhimento institucional de crianças e adolescentes enquanto espaço de real

acolhida

65

4

- Considerações finais

68

Referências

69

EXPERIÊNCIAS EXITOSAS NO ATENDIMENTO AO ADOLESCENTE EM CONFLITO COM A LEI NA

71

EXECUÇÃO DA MEDIDA DE INTERNAÇÃO

TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO ESCOLA JUDICIAL DOS SERVIDORES - EJUS 1

TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO ESCOLA JUDICIAL DOS SERVIDORES - EJUS

ESTADO DE SÃO PAULO ESCOLA JUDICIAL DOS SERVIDORES - EJUS 1 - A atual conjuntura brasileira

1 - A atual conjuntura brasileira e as perspectivas de políticas públicas para a juventude

77

2 - Violência e juventude

81

3 - Reflexões sobre práticas exitosas

83

4 - Considerações finais: as possibilidades das ações nas unidades de internação da Fundação Casa

na cidade de São Paulo

86

Referências

89

GUARDA COMPARTILHADA NOS CASOS ALTAMENTE LITIGIOSOS, ENTRE O IDEAL E O POSSÍVEL:

UM CAMINHO EM CONSTRUÇÃO

90

 

Introdução

92

1 - O tempo em que vivemos: declínio do patriarcado e a guarda compartilhada

94

2 - O sentido do compartilhamento da guarda

97

2.1 - As representações sociais (im)possibilitando o compartilhamento da guarda

99

2.2 - A guarda compartilhada nos casos litigiosos: argumentações contrárias e favoráveis

102

2.3 - A guarda compartilhada nos casos de denúncias de situações de violência

108

2.4 - Guarda compartilhada como ferramenta contra a alienação parental

110

3 - Criminalização das relações familiares: esse é o caminho de pacificação?

113

4 - Atuação dos setores técnicos

116

4.1

- A particularidade de cada caso

122

4.1.1 - Caso 01: a rigidez das representações paterna suscitando conflitos

123

4.1.2 - Caso 02: a doença como justificativa para exclusão do outro

124

4.2 - Incentivo

aos métodos alternativos de resolução de

conflitos: círculos restaurativos,

mediação e oficina de parentalidade

126

5

- Considerações finais

130

Referências

135

OFENSIVA NEOLIBERAL: IMPACTOS PARA QUEM ATENDE E PARA QUEM É ATENDIDO NO SETOR

TÉCNICO DE SERVIÇO SOCIAL E PSICOLOGIA DO TRIBUNAL DE JUSTIÇA DE SÃO PAULO

137

Introdução

140

1 - Você olhou bem para ela?”: preconceitos

142

2 - Vocês não sabem de nada”: famílias

146

3 - “É mais fácil gostar dele (

)

Ele não dá trabalho”: neoliberalismo

154

4 - Considerações finais

161

TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO ESCOLA JUDICIAL DOS SERVIDORES - EJUS A

TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO ESCOLA JUDICIAL DOS SERVIDORES - EJUS

ESTADO DE SÃO PAULO ESCOLA JUDICIAL DOS SERVIDORES - EJUS A ANÁLISE DE CONJUNTURA COMO UM

A ANÁLISE DE CONJUNTURA COMO UM ELEMENTO CONSTITUTIVO DO ESTUDO SOCIAL

166

Introdução

168

1 - Elementos para a análise de conjuntura

168

2 - Um olhar crítico sobre a realidade

170

3 -A desproteção social e o discurso da culpabilização

176

4 - Algumas reflexões sobre o desmonte do sistema de garantia de direitos

181

5 - O estudo social numa perspectiva histórico-crítica

182

6 - Considerações finais

186

Referências

189

DISCUSSÃO ACERCA DE PARÂMETROS PARA SE CONSIDERAR UMA FAMÍLIA SUFICIENTEMENTE

BOA PARA CUIDAR DE SUA PROLE

191

 

Introdução

193

1 -A família como questão social no Brasil

193

2 Um olhar sobre as famílias brasileiras

194

2.1

- Quadro atual das famílias no brasil

196

3 O lugar da família na política social

197

4 Família e constitucionalidade

199

5 Subjetividades produzidas nos processos de “adoção pronta”: a família afetuosa e a mãe

 

desnaturada

204

6 - Família suficientemente boa segundo Winnicott

206

7 - Conclusão

209

Referências

210

JUSTIÇA RESTAURATIVA: VIVENCIANDO A METODOLOGIA DO PROCESSO CIRCULAR

212

 

Introdução

214

1

- Elementos estruturais e o fluxo do processo circular

216

1.1 - Cerimônia de abertura

219

1.2 - Apresentação / check-in

219

1.3 - Construção de valores e diretrizes

220

1.4 - Contação de histórias: a importância de contar histórias

222

1.5 - Atividade principal do círculo / perguntas norteadoras

223

1.6 - Check-out e cerimônia de encerramento

225

Referências TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO ESCOLA JUDICIAL DOS SERVIDORES - EJUS

Referências

TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO ESCOLA JUDICIAL DOS SERVIDORES - EJUS

ESTADO DE SÃO PAULO ESCOLA JUDICIAL DOS SERVIDORES - EJUS 228 PARTICULARIDADES DA REALIDADE SOCIAL DOS

228

PARTICULARIDADES DA REALIDADE SOCIAL DOS SUJEITOS DOS ESTUDOS SOCIAIS: A

DESIGUALDADE DAS RELAÇÕES DE GÊNERO COMO INDICATIVO PARA A FUNDAMENTAÇÃO

TEÓRICA NAS DEMANDAS DA JUSTIÇA DE FAMÍLIA

229

Introdução

232

1- Apresentação e análise dos dados obtidos na pesquisa de laudos/relatórios sociais realizada

pelo grupo em 2017

235

 

Gráfico 1

237

Gráfico 2

238

2.1

- Breves apontamentos sobre a demanda de interdição e curatela

238

2.2 - Particularidades das crianças e adolescentes sujeitos do estudo social dos processos

relacionados a guarda: no melhor interesse da primeira infância

240

Gráfico 3

244

2.3 - A centralidade da mulher nos cuidados das crianças e adolescentes

246

2.4 - Dados socioeconômicos dos pais e mães requerentes/requerido(a)s a guarda do(a)s filho(a)s

 

250

3

Conclusão

253

Referências

253

ASPECTOS DA EVOLUÇÃO DA FAMÍLIA E SEUS REFLEXOS NOS CONFLITOS FAMILIARES

JUDICIALIZADOS

258

 

Introdução

260

1

- Breve percurso histórico sobre a infância e as famílias

261

1.1

- Mas e a realidade brasileira? Como a família evoluiu?

262

2

- Os avós, os pais e suas crianças

264

2.1

- Mas por que alguns avós se conceituam mais “competentes” que seus filhos?

265

2.2

- Mas e quem são as crianças de hoje que avós e pais precisam lidar, seja através do litígio ou

não?

267

2.3

- Se estes adultos não estão conseguindo ser suficientemente protetivos, qual o papel do

Estado com estas famílias?

268

3 - A prática profissional: observações e recomendações

268

4 - Conclusão

272

TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO ESCOLA JUDICIAL DOS SERVIDORES - EJUS VIOLÊNCIA

TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO ESCOLA JUDICIAL DOS SERVIDORES - EJUS

ESTADO DE SÃO PAULO ESCOLA JUDICIAL DOS SERVIDORES - EJUS VIOLÊNCIA DE GÊNERO 275 Introdução 277

VIOLÊNCIA DE GÊNERO

275

Introdução

277

1 - Violência e violência de gênero

279

2 - Conjuntura atual e as relações de gênero

284

3 - Diversidade sexual e a expansão da proteção de gênero prevista na legislação

288

4 - Apontamentos psicanalíticos em casos de violência

291

5

- Conclusão

299

Referências

301

304

ESTUDO SOCIAL E AVALIAÇÃO PSICOLÓGICA NO JUDICIÁRIO NO ÂMBITO DA CURATELA Introdução

306

1

- Normatizações das questões relativas à curatela/interdição

306

1.1

Evolução histórica do conceito de curatela/interdição

306

2 - Definições de curatela e tutela / interdição

310

3 - A avaliação psicológica na atuação nos processos de curatela

311

4 - Estudo social nos processos de interdição

313

5

- Conclusão

316

Referências

318

ACOLHIMENTO INSTITUCIONAL DE ADOLESCENTES: MEDIDAS DE PROTEÇÃO OU PUNIÇÃO? . 320

 

Introdução

323

1 - Capítulo I Adolescência e fatores de risco para o acolhimento institucional

325

2 - Capítulo II - Vínculos afetivos e o acolhimento institucional de crianças e adolescentes

329

3

- Capítulo III - Estudo de caso

334

Caso 1

334

Caso 2

336

Caso 3

338

Caso 4

340

Caso 5

341

Caso 6

343

Caso 7

348

3.1

- Considerações sobre os estudos de caso

349

4

- Conclusão

351

TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO ESCOLA JUDICIAL DOS SERVIDORES - EJUS O

TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO ESCOLA JUDICIAL DOS SERVIDORES - EJUS

ESTADO DE SÃO PAULO ESCOLA JUDICIAL DOS SERVIDORES - EJUS O ENVELHECIMENTO POPULACIONAL, OS REFLEXOS NA

O ENVELHECIMENTO POPULACIONAL, OS REFLEXOS NA JUDICIALIZAÇÃO DOS CONFLITOS E A

INTERFACE COM A ATUAÇÃO DOS SETORES INTERPROFISSIONAIS

354

 

Introdução

357

1 - O Estatuto do Idoso

358

2 - Negligência e violência contra o idoso

360

3 - Política de proteção social ao idoso

362

4 - Demandas do setor técnico que envolvem o idoso

365

4.1 - Idosos como eequerentes de guarda de crianças e adolescentes

365

4.2 - Interdição, curatela e decisão apoiada

368

5

- Conclusão

373

Referências

375

COMPETÊNCIAS E CAPACIDADES PARENTAIS: UM OLHAR SOB EXEMPLOS VIVENCIADOS NO

COTIDIANO DO SETOR INTERPROFISSIONAL DO JUDICIÁRIO

378

Introdução

380

1 - Um olhar para as situações moldadas no cotidiano

382

2 - Considerações finais

389

Referências

390

REFLEXÕES SOBRE O DIVÓRCIO DESTRUTIVO E SUAS IMPLICAÇÕES NA PRÁTICA PROFISSIONAL DE ASSISTENTES SOCIAIS E PSICÓLOGOS DO TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO . 391

Introdução

393

1 - Considerações sobre o referencial teórico

395

2 - Considerações sobre o método e metodologias

398

3 - Considerações sobre os conjuntos de resultados

400

4 - Considerações finais

403

Referências

405

FAMÍLIAS: SIGNIFICÂNCIAS, CONFIGURAÇÕES E FUNÇÕES

406

Introdução

408

1 - Família: conceito e linhas históricas sobre sua dinâmica e funções

409

2 - Família: transformações econômicas e sociais

414

TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO ESCOLA JUDICIAL DOS SERVIDORES - EJUS 4

TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO ESCOLA JUDICIAL DOS SERVIDORES - EJUS

ESTADO DE SÃO PAULO ESCOLA JUDICIAL DOS SERVIDORES - EJUS 4 - Marcos regulatórios da Política

4 - Marcos regulatórios da Política de Assistência Social

418

5 - Família e proteção: realidade socioterritorial e articulação com as redes de serviços

420

6 - Considerações finais

423

Referências

424

JUSTIÇA DA INFÂNCIA E JUVENTUDE: PREVENÇÃO, REDE SOCIAL E PAPEL DO JUDICIÁRIO COMO

FOMENTADOR DA REDE

428

 

Introdução

430

1 - Conceituando risco e vulnerabilidade social

431

2 - Sistema de garantia de direitos

433

3.1 - Varas Especializadas e a Doutrina de Proteção Integral

435

3.2 - Conceito de território na Política de Assistência Social

436

4

- Conclusão

437

Referências

438

A DISPUTA NAS VARAS DE FAMÍLIA: AS DIFICULDADES DE CONVIVÊNCIA FAMILIAR E OS

PROCEDIMENTOS TÉCNICOS NA CONDUÇÃO DO ESTUDO PSICOSSOCIAL

439

Introdução

441

1 - O cenário do divórcio: a ventilação dos afetos

442

2 - A desconstrução técnica de motivos frequentemente utilizados no pleito de impedimento de

convivência familiar

445

3

- Estratégias para garantia de convivência familiar

450

Referências

454

A CONSTRUÇÃO DAS PRÁTICAS DO ASSISTENTE SOCIAL E DO PSICÓLOGO NO JUDICIÁRIO:

DESAFIOS E PERSPECTIVAS

455

 

Introdução

457

1

- Histórico da inserção do assistente social e do psicólogo no Tribunal de Justiça de São Paulo

 

458

2.1- A natureza do trabalho do assistente social e psicólogo no setor técnico do Tribunal de Justiça

do estado de São Paulo

463

3 - O grupo e sua importância para a construção da subjetividade e autonomia do indivíduo

 

465

4 - Conclusão

470

TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO ESCOLA JUDICIAL DOS SERVIDORES - EJUS O

TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO ESCOLA JUDICIAL DOS SERVIDORES - EJUS

ESTADO DE SÃO PAULO ESCOLA JUDICIAL DOS SERVIDORES - EJUS O PERCURSO DA CONCRETIZAÇÃO DA ADOÇÃO:

O PERCURSO DA CONCRETIZAÇÃO DA ADOÇÃO: DA HABILITAÇÃO DOS PRETENDENTES À

CONSTRUÇÃO DOS LAÇOS DE FILIAÇÃO ADOTIVA

474

Introdução

476

1

- Habilitação

478

1.1

- Avaliação

478

1.1.1

- Avaliação social

478

1.1.2 - Avaliação psicológica

481

2

- Preparação

484

2.1 - Em relação aos pretendentes

484

2.2 - Em relação aos adotandos

488

3 - Aproximação

490

4 - Estágio de convivência

495

5 - Considerações finais

502

Referências

505

A ÉTICA PROFISSIONAL NA RELAÇÃO ENTRE PERITO E ASSISTENTE TÉCNICO

508

Introdução

510

1 - Relação perito/assistente técnico a partir do cpc: os embates éticos e as normativas das

511

2 - As varas de Famílias e Sucessões como palco de litígios e o fenômeno da alienação parental517

3 - Litígios nas varas de Família: a importância dos saberes profissionais à serviço da garantia de

profissões

direitos de crianças e adolescentes

522

4

- Saberes interdisciplinares: com a palavra o Direito

524

4.1 - Exercício dos direitos civis e legitimação do Poder Judiciário na ordem democrática

525

4.2 - Analogia entre garantia do exercício dos direitos civis no Poder Judiciário e do controle social

capitalista

das políticas sociais

529

4.3

- Especificidade da perícia judicial envolvendo assistentes sociais e psicólogos

530

5

- Considerações finais

534

 

Referências

537

TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO ESCOLA JUDICIAL DOS SERVIDORES - EJUS FAMÍLIA

TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO ESCOLA JUDICIAL DOS SERVIDORES - EJUS

ESTADO DE SÃO PAULO ESCOLA JUDICIAL DOS SERVIDORES - EJUS FAMÍLIA NA CONTEMPORANEIDADE: PRINCIPAIS CONCEITOS ,

FAMÍLIA NA CONTEMPORANEIDADE: PRINCIPAIS CONCEITOS, PROBLEMÁTICAS E PERSPECTIVAS

 

540

Introdução

543

1 - Conjugalidade, parentalidade e coparentalidade

543

2 - Parentalidade nas varas de família

547

3 - Multiparentalidade e paternidade socioafetiva

549

4 - Famílias negligentes e parentalidade

555

5 - Parentalidade na adoção

559

6 - Homoparentalidade e adoção

561

7 - Considerações finais

563

Referências

565

DO DEPOIMENTO SEM DANO À LEI DA ESCUTA/DEPOIMENTO ESPECIAL (LEI Nº 13.431/2017):

IMPLICAÇÕES PARA A PRÁTICA PROFISSIONAL DE PSICÓLOGOS E ASSISTENTES SOCIAIS

JUDICIÁRIOS

569

Introdução

571

1 - Breve histórico do depoimento sem dano/depoimento especial

572

2 - Lutas das categorias

575

2. 1 - Conselho Federal de Psicologia

575

2.2 - Conselho Federal de Serviço Social

577

2.3 - Associação dos assistentes sociais e psicólogos do tj/sp (aasptj-sp)

579

3 - A prática do depoimento especial e sua implantação no brasil

581

4 - Considerações finais

587

Referências

592

TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO ESCOLA JUDICIAL DOS SERVIDORES - EJUS POLÍTICA

TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO ESCOLA JUDICIAL DOS SERVIDORES - EJUS

ESTADO DE SÃO PAULO ESCOLA JUDICIAL DOS SERVIDORES - EJUS POLÍTICA DE ACOLHIMENTO INSTITUCIONAL E O

POLÍTICA DE ACOLHIMENTO INSTITUCIONAL E O ADOLESCENTE ACOLHIDO:

DESAFIOS DA ATUAÇÃO PROFISSIONAL

GRUPO DE ESTUDOS DA CAPITAL

“ACOLHIMENTO INSTITUCIONAL E FAMILIAR”

TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO

2017

COORDENAÇÃO TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO ESCOLA JUDICIAL DOS SERVIDORES - EJUS

COORDENAÇÃO

TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO ESCOLA JUDICIAL DOS SERVIDORES - EJUS

ESTADO DE SÃO PAULO ESCOLA JUDICIAL DOS SERVIDORES - EJUS Haroldo Tuyoshi Sato – Psicólogo Judiciário

Haroldo Tuyoshi Sato Psicólogo Judiciário Comarca de Sorocaba Alba dos Prazeres de Andrade Assistente Social Judiciário Comarca de Várzea Paulista

AUTORES

Andrea dos Anjos Pereira da Silva Amantéa Assistente Social Judiciário Comarca de Caçapava Elen Tavares de Sá Assistente Social Judiciário Comarca de Jundiaí Jackeline Ferreira dos Santos Psicóloga Judiciário Comarca de Pindamonhangaba Marina Tomé Teixeira Assistente Social Judiciária Comarca de Mairiporã Milena da Silva Mano Psicóloga Judiciário Vara Especial da Infância e Juventude Paula Antonia Pansa Brumatti Assistente Social Judiciário Foro Regional VII Itaquera Selma Terezinha Monteiro da Silva Assistente Social Judiciário Vara da Infância e Juventude Central Sueli de Andrade Camara Assistente Social Judiciário Comarca de Carapicuíba Valquíria Gomes de Moraes Assistente Social Judiciário Comarca de Tremembé

INTRODUÇÃO TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO ESCOLA JUDICIAL DOS SERVIDORES - EJUS

INTRODUÇÃO

TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO ESCOLA JUDICIAL DOS SERVIDORES - EJUS

ESTADO DE SÃO PAULO ESCOLA JUDICIAL DOS SERVIDORES - EJUS O Grupo de Estudos sobre Acolhimento

O Grupo de Estudos sobre Acolhimento Institucional optou, neste ano,

pela discussão de dois temas específicos, o primeiro relacionado à história/legislação sobre o acolhimento institucional no Brasil e o segundo, relacionado ao adolescente em acolhimento institucional, devido à importância destes dois temas para a prática profissional. Neste sentido, a sistemática adotada pelo Grupo de Estudos foi a de escolher textos que norteassem a discussão destes temas. Nesta linha, optamos por fazer uma síntese das contribuições dos textos e das discussões do grupo.

1 - SOBRE A HISTÓRIA E LEGISLAÇÃO DO ACOLHIMENTO INSTITUCIONAL NO BRASIL

Para a reflexão sobre este tema, os seguintes textos foram lidos e debatidos: “A roda dos expostos e a criança abandonada na história do Brasil”

(MACHADO, 2009), “O Código Mello Mattos e seus reflexos na legislação posterior” (AZEVEDO, s. d.), “Estatuto da Criança e do Adolescente (BRASIL, 1990) ”, “Orientações Técnicas sobre Serviços de Acolhimento” (BRASIL, 2009) “Fios da Vida: crianças abrigadas hoje adultas diante de seus prontuários” (SCHRITZMEYER, 2015).

O tema História do Acolhimento Institucional no Brasil fez com que

estudássemos texto de Machado (2009) que trata do acolhimento de crianças no Brasil Colônia, realizado através de duas principais maneiras, a da recepção das crianças pela roda dos expostos ou através do pagamento, por parte das Câmaras

Municipais de amas de leite encarregadas de criar as crianças.

A primeira forma de acolher as crianças abandonadas, a roda dos

expostos, foi um mecanismo criado na Europa Medieval, para evitar o abandono de crianças em situações que oferecessem perigo a estas. A roda dos expostos foi criada, durante a Idade Média, em instituições religiosas de caridade, dado que era hábito dos pais entregarem as crianças nas rodas dos conventos e monastérios, com o objetivo delas terem boa educação.

TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO ESCOLA JUDICIAL DOS SERVIDORES - EJUS É

TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO ESCOLA JUDICIAL DOS SERVIDORES - EJUS

ESTADO DE SÃO PAULO ESCOLA JUDICIAL DOS SERVIDORES - EJUS É interessante notar a incidência, ainda

É interessante notar a incidência, ainda na contemporaneidade, do fato dos conventos e monastérios serem instituições totais, como apontou Goffman (1989), e de

o fato de que boa parte das instituições de acolhimento de crianças e adolescentes no

Brasil, ainda hoje, serem constituídas por instituições religiosas, preservando, também

o viés caritativo destes serviços. O texto de Machado aponta que as grandes cidades brasileiras, como Salvador, Rio de Janeiro e São Paulo, receberam as rodas de expostos. A autora ressalta o fato de que, em comunidades menores, o abandono de crianças era em número inferior, possivelmente por um sentimento comunitário maior nestas cidades. Em essas localidades, geralmente, as Câmaras Municipais custeavam amas de leite para o cuidado dos infantes. Um dos profissionais do grupo, que trabalhou com uma população advinda da zona rural do Nordeste, constatou que em comunidades rurais são muito fortes os laços de solidariedade, fazendo com que o instituto da adoção ou da guarda informal seja muito frequente e considerado natural. Nas grandes cidades, depois que as crianças atingiam certa idade, mesmo as que tinham sido expostas, estas eram encaminhadas às amas de leite. Outra opção, segundo Machado (2009), era que as crianças fossem encaminhadas como aprendizes a instituições que, muitas vezes, eram criadas para sua profissionalização. O cotidiano nestas instituições, porém, era árduo, fazendo com que muitas crianças, principalmente os meninos, falecessem pela crueza dos trabalhos e falta de cuidados básicos, inclusive o alimentar. Cabe ressaltar que, naqueles tempos, culpabilizava-se as mães pelo abandono das crianças, movimento que encontramos, inclusive, na atualidade. Como exemplo, podemos apontar situações ainda presentes no cotidiano profissional do Judiciário paulista em que podem ser observadas ações de destituição do poder familiar, em algumas comarcas, onde apenas a mãe é colocada como requerida, esquecendo-se de incluir o pai no polo passivo. Verificamos, através das leituras dos textos, que apesar das rodas de expostos terem existido no Brasil, até a década de 1950, sendo nosso país o último do mundo a aboli-las, esta forma de acolhimento institucional foi sendo gradualmente substituída por outras, como orfanatos mantidos por instituições de caridade/filantrópicas ou por órgãos oficiais (AZEVEDO, s. d.). Este autor ressalta que esta transição tem como marco a criação da Casa Maternal Mello Mattos, no

TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO ESCOLA JUDICIAL DOS SERVIDORES - EJUS ano

TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO ESCOLA JUDICIAL DOS SERVIDORES - EJUS

ESTADO DE SÃO PAULO ESCOLA JUDICIAL DOS SERVIDORES - EJUS ano de 1924, pelo primeiro Juiz

ano de 1924, pelo primeiro Juiz de Menores brasileiro, José Cândido de Albuquerque Mello Mattos, com capacidade para 200 crianças e adolescentes, em situação que se considerava como “abandono físico ou moral”, no qual o Estado Brasileiro começa a ter uma atuação mais determinada em relação à questão da infância e adolescência abandonada. Por outro lado, O Código Mello Mattos acompanhou uma tendência mundial, surgida nos EUA e na Europa, nos fins do Século XIX, com o nascimento do direito dos menores. Até esta época, no Ocidente, as crianças e adolescentes eram considerados como propriedade dos pais, chefe incontestável da família, tendência esta advinda da tradição milenar dos povos indo-europeus, portanto, totalmente sujeitos ao seu poder, como coloca a historiadora francesa Elizabeth Badinter (1985, p. 28-29) em seu clássico livro “Um amor conquistado: o mito do amor materno”:

Por mais longe que remontemos na história da família ocidental, deparamos com o poder paterno que acompanha sempre a autoridade marital. A acreditar nos historiadores e nos juristas, essa dupla autoridade teria sua origem remota na índia. Nos textos sagrados dos Vedas, Árias, Bramanas e Sutras, a família é considerada como um grupo religioso do qual o pai é o chefe. Como tal, ele tem funções essencialmente judiciárias: encarregado de velar pela boa conduta dos membros do grupo familiar (mulheres e crianças), é o único responsável pelas ações destes frente à sociedade global. Seu poderio exprime-se portanto, em primeiro lugar, por um direito absoluto de julgar e punir. Os poderes do chefe de família, magistrado doméstico, reapresentam-se quase inalterados em toda a Antiguidade, embora atenuados na sociedade grega e acentuados entre os romanos. Cidadã de Atenas ou de Roma, a mulher tinha durante toda a sua vida, uma condição jurídica de menor, pouco diferente da condição de seus filhos.

Verificamos que, em Roma, as 12 tábuas, precursoras do direito romano, concediam ao pai, chefe absoluto da família o direito de decidir pela vida ou morte do filho, inclusive podendo matá-lo, caso assim sentisse necessário, conforme coloca Madeira (2007, p. 135):

Quanto ao célebre ius vitae aec necis (IV.2), admitia-se que o paterfamilias tivesse a oportunidade de matar seus filii se

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ESTADO DE SÃO PAULO ESCOLA JUDICIAL DOS SERVIDORES - EJUS considerasse oportuno. É bem verdade que

considerasse oportuno. É bem verdade que tal poder foi, na prática, limitado pelo sentimento religioso e pela consciência social.

A lei romana coloca, então, o poder quase absoluto do pai, único representante do pátrio poder, patria potestas, que tem o direito sobre a vida e morte, ius vitae aec necis, de seus filhos, filii. Apesar, de que com o advento do Cristianismo e sua mensagem de amor, os atos de violência contra os filhos, que já vinham ser moderados pela lei romana, passassem a ser mais condenados socialmente, como coloca Badinter (1985, p. 30).

Nessa alta Idade Média, o poder paterno atenuou-se progressivamente, com maior ou menor rapidez, segundo consideremos o Norte (direito consuetudinário) ou o Sul da França (direito romano). E se, no século XIII, no Sul da França, o pai ainda pode matar o filho sem sofrer consequências sérias, o poder paterno é no entanto moderado pela mãe e pelas instituições, que se imiscuem cada vez mais no governo da família.

Badinter (1985) coloca que, mesmo na França da Idade Moderna, o pátrio poder continuava a ser quase que absoluto, pela razão da autoridade ser o princípio que fundamentava o Estado e a Sociedade, lembrando que esta foi a época do absolutismo político. A autora aponta que o tratamento da criança começa a ser melhorado em algumas esferas da sociedade a partir da publicação do “Emílio”, do filósofo Jean Jacques Rousseau, obra que contraria o pensamento vigente até então, dando certo status à criança, como portadora de virtudes. O descaso e o uso da criança como propriedade, contudo, continuaram a ser norma em vários grupos sociais, como o conhecido caso da criança nova- iorquina, Mary Ann, de 9 anos, ocorrido nos fins do século XIX, a qual era regularmente explorada e espancada pelos pais. Os exagerados maus tratos que a criança recebeu de seus pais motivou a Sociedade Protetora dos Animais de Nova Iorque a interferir judicialmente em favor da menina, alegando que ela deveria ser protegida, a partir das leis de defesa dos animais, pois se tratava também de um, como coloca Saraiva (apud AZEVEDO, s.d., pp. 5-6):

) (

sociedade podia defender um cavalo, um cachorro, um gato ou uma

vaca, evidentemente poderia defender uma criança. Pois bem. Um

O fato é que chegou-se ao consenso de que se aquela

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ESTADO DE SÃO PAULO ESCOLA JUDICIAL DOS SERVIDORES - EJUS grupo da sociedade protetora dos animais

grupo da sociedade protetora dos animais de Nova York entrou na Justiça com ação de defesa da criança. A partir daí surgiu uma entidade até hoje existente chamada Save The Children of World. Essa ONG criada no final do século XIX teve grande influência no surgimento do Direito de Menores, no início do século XX, ou seja, o Direito Tutelar. Os menores, considerados bens de família, passaram a ser objeto de proteção do Estado. Com isso, surgiram as grandes legislações para menores. Nos primeiros 20 anos do século XX apareceram códigos de menores em todo o mundo.

Frente a esta tradição que colocava a criança e o adolescente como uma propriedade parental, a qual o Estado e a Justiça não poderiam intervir, surgiram as modernas legislações que romperam com tais costumes. No Brasil, a primeira legislação específica, que trata do Direito das Crianças, surge em 1927, com o Código Mello Mattos (SARAIVA, apud AZEVEDO, s. d.). O Código Mello Mattos surgiu como uma forma do Estado e da Justiça intervir em relação às crianças e aos adolescentes em situação de exposição, abandono ou infração, ou seja, em situação irregular perante ao Código. Ele não previa intervenções em relação a crianças e adolescentes que estivessem em situação regular junto a seus pais. Para estas crianças e adolescentes em situação irregular, a lei facultava o Juiz de Menores que as acolhesse institucionalmente, visando à recolocação em novas famílias, principalmente das crianças e adolescentes expostos e abandonados, mas esta política fracassou. Os menores expostos e abandonados acabaram sendo colocados junto com menores infratores (que na época eram adolescentes maiores de 14 anos que cometiam crimes e contravenções) e, muitas vezes, saiam dessas instituições somente ao completarem a maioridade. Esta situação perdurou no Código de Menores de 1979, com as crianças e adolescentes acolhidos nas FEBEM’s. Azevedo (s. d.) aponta que o Código Mello Mattos atribuía amplos poderes aos Juízes de Menores para internarem crianças e adolescentes em situação irregular, a partir de suas convicções, sem a devida proteção legal dos mesmos. Os Juízes de Menores também detinham o poder de, a partir de suas convicções, designar quaisquer pessoas para serem guardiões das crianças e adolescentes.

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ESTADO DE SÃO PAULO ESCOLA JUDICIAL DOS SERVIDORES - EJUS Azevedo (s. d.) relata que o

Azevedo (s. d.) relata que o Código Mello Mattos perdurou por 42 anos, entre 1927 e 1979, sendo substituído pelo Código de Menores, gestado no período final da Ditadura Militar. Este Código manteve, em grande parte o poder normativo do Juiz, além de retirar alguns direitos do adolescente infrator, podendo estender, automaticamente, a pena por crime cometido na adolescência para a idade adulta. O acolhimento de menores ficou pautado nos Códigos Mello Mattos e de Menores na proteção da sociedade do risco dos adolescentes infratores e das crianças expostas e abandonadas que eram consideradas, potencialmente, futuras infratoras.

O texto “Fios da Vida” (SCHRITZMEYER, 2015) aponta para esta realidade, que é muito recente em nossa História, em que, no Regime Militar foram criadas as FEBEM’s, nas quais as crianças abandonadas conviviam com adolescentes infratores. A autora descreve sua pesquisa realizada por meio de acesso a prontuários de pessoas que moraram nas FEBEM´S e buscaram por algum motivo esses documentos. A antropóloga percebe que os profissionais que atuavam nos casos costumavam ressaltar as dificuldades das crianças/adolescentes rotulando-as de forma negativa, consequentemente estigmatizando-as para a vida social.

Em discussão no Grupo de Estudos, refletimos sobre nossa atuação profissional e, entendemos que, quando vislumbramos apenas as fragilidades tanto dos sujeitos como de suas famílias, tendemos a manter a institucionalização como a única saída para essas crianças e adolescentes. Em contraponto, em 1990, surge o Estatuto da Criança e do Adolescente, pautado na Doutrina de Proteção Integral da Criança e do Adolescente. Pela primeira vez, a criança passa a não ser simples objeto do direito, mas sim um sujeito de direitos. Esta legislação, por sua vez, retira o poder normativo dos Juízes das Varas de Infância e Juventude, obrigando, a seguirem os procedimentos legais tanto para o acolhimento institucional como para recolocação da criança/adolescente na família de origem ou em família substituta. O Estatuto da Criança e do Adolescente também contraria os Códigos anteriores, apontando o acolhimento, no caso da criança e adolescente a serem protegidos, como medida emergencial, excepcional e provisória, não devendo durar mais de dois anos, e realizado em instituições que seguem um ordenamento que

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ESTADO DE SÃO PAULO ESCOLA JUDICIAL DOS SERVIDORES - EJUS tenta reproduzir condições mais próximas de

tenta reproduzir condições mais próximas de uma convivência familiar e comunitária. No caso do adolescente infrator a medida socioeducativa de internação deve ser a última a ser aplicada.

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ACOLHIMENTO INSTITUCIONAL

QUESTÕES

CONTEMPORÂNEAS

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EM

RELAÇÃO

INSTITUCIONAL QUESTÕES CONTEMPORÂNEAS - EM RELAÇÃO AO Mediante a trajetória para alcance dos direitos da

AO

Mediante a trajetória para alcance dos direitos da criança e do adolescente, entendemos ser relevante apontar algumas questões contemporâneas quanto ao acolhimento institucional que adquiriu normativas específicas a partir do ECA (BRASIL, 1990). Para debate e reflexão do grupo de estudos, sobre este tema foram lidos os textos “Acolhimento de crianças em situação de abandono, violência e rupturas”, de Rossetti-Ferreira et al. (2012) e Famílias e medida de proteção abrigo - realidade social, sentimentos, anseios e perspectivas, de Fávero, Clemente e Giacomini (2009). Rossetti-Ferreira et al. (2012) apontam para a tendência de invisibilidade da questão de dificuldade da aprendizagem escolar de crianças e adolescentes acolhidos. Evidencia o silenciamento das crianças quanto à impossibilidade de se manifestarem ou de serem ouvidas no contexto da instituição de acolhimento e na instituição escolar. Assim, destaca a necessidade de que os profissionais da equipe do serviço de acolhimento tenham preparo adequado para acolher as necessidades das crianças. Outra questão que merece ênfase é a presença de indícios de que a rotina institucional não privilegia a manutenção ou desenvolvimento de vínculos afetivos entre os grupos de irmãos, o que indica a necessidade de revisão das concepções e práticas relacionadas ao acolhimento de grupo de irmãos. Ainda há cidades do interior do Estado em que o acolhimento ocorre em casas divididas por sexo (feminino e masculino) desconsiderando o vínculo familiar. É evidente também que a rede social das crianças e adolescentes é composta, principalmente, por pessoas do serviço de acolhimento, insinuando que conseguem estabelecer relações neste contexto: apoio emocional, brincadeira e proteção, pelas crianças e, cuidados, atividades diárias e educação, pelos adultos. Para Rossetti-Ferreira et al. (2012) a questão da “invisibilidade” da família de origem se salienta na medida em que se percebe a ausência de informações sobre as famílias biológicas, mostrando “a fragilidade da posição desses protagonistas nos processos, e uma ‘generalização’ dos problemas por elas apresentados sob categorias nebulosas como ‘negligência’, ‘pobreza, ‘drogadição’,

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ESTADO DE SÃO PAULO ESCOLA JUDICIAL DOS SERVIDORES - EJUS ‘doença mental’” (p.395). Tal situação remete

‘doença mental’” (p.395). Tal situação remete a necessidade de uma percepção mais crítica quanto à ausência, insuficiência ou dificuldade de acesso a políticas públicas de trabalho, moradia, saúde e educação, que alcancem as famílias nos momentos de dificuldade. Fávero, Vitalle e Baptista (2008) elucidam que é presente uma insuficiência de conhecimentos atualizados a respeito dessas famílias. Tal fato tem provocado um discurso que tende a homogeneizar a realidade, sem considerar as tensões presentes nos vários planos de suas relações. No plano do acolhimento institucional, deve-se refletir sobre a possibilidade de “(re)violação” dos direitos da criança quando acolhidas, pois como alerta Rossetti-Ferreira et al. (2012), há a tendência de negligenciar a escuta de crianças e adolescentes acolhidos. Assim, o destino “vai sendo traçado, frequentemente, sem o seu conhecimento e participação. Desta forma, a criança desconhece as razões de estar onde está, por quanto tempo permanecerá naquela situação e o que irá acontecer com ela” (ROSSETTI-FERREIRA et al., 2012, p.396). Além disto, as crianças têm seus vínculos afetivos fragilizados de diferentes formas, como a ausência de ações que estimulem a manutenção e reconstrução de vínculos afetivos com as famílias, uma vez que em razão do acolhimento muitas das crianças e adolescentes desvinculam-se de suas famílias de origem e, em virtude da idade ou longo tempo de acolhimento, as quais, geralmente, não são inseridos em famílias substitutas. Nesta conjuntura, consequentemente, vão permanecendo sem referências socioemocionais, imprescindíveis para apoio e conquista de autonomia. Outro fator, discutido pelo grupo, que piora este quadro é o reduzido número de educadores qualificados, a sobrecarga de funções, que acarreta prejuízo na qualidade da relação entre trabalhadores e crianças. Ressalta-se também, a dificuldade em incluir as crianças e adolescentes na comunidade, em especial na escola, em virtude do preconceito e isolamento a que estão sujeitos.

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ESTADO DE SÃO PAULO ESCOLA JUDICIAL DOS SERVIDORES - EJUS 3 - O ADOLESCENTE ACOLHIDO: DESAFIOS

3 - O ADOLESCENTE ACOLHIDO: DESAFIOS COMUNS ÀS INSTITUIÇÕES DE ACOLHIMENTO

Após a discussão sobre a história/legislação do Acolhimento Institucional no país, focamos em questões relativas à aplicação dessa medida de proteção a adolescentes devido à percepção comum de ser este um assunto desafiador. Como subsídio para reflexão e discussão do tema pelo Grupo de Estudos, foram lidos os textos “Adolescência: da cena familiar à cena social’ (ROSA, 2002) e “Os Intratáveis:

o exílio do adolescente do laço social pelas noções de periculosidade e

irrecuperalidade (ROSA e VICENTIM, 2010) O Estatuto da Criança e do Adolescente prioriza o acolhimento familiar ao institucional quando se faz necessário o afastamento da família de origem. Entretanto, constatamos que são raros os municípios que o implantaram. Registramos que, entre os participantes desse grupo de estudos, houve o

relato de apenas uma Comarca em que o Executivo Municipal implantou programa

de Acolhimento Familiar incluindo adolescentes no mesmo. Isto marcou uma grande

diferenciação deste Programa de Acolhimento Familiar, pois, no pequeno universo

de municípios brasileiros que implantaram este tipo de programa, o acolhimento é

direcionado principalmente para bebês e crianças entre 0 a 3 anos de idade. Em que pese à importância deste tipo de acolhimento para a primeira infância, haja vista que, em alguns serviços de acolhimento, os bebês ficam subestimulados e recebem poucos cuidados, o ECA preconiza o acolhimento familiar para todas as faixas etárias, como é regra em outros países. Neste sentido,

o programa deste Executivo Municipal, que estimulou o cuidado de famílias

acolhedoras mesmo para o caso de adolescentes, mostra um diferencial que pode

se tornar possível na realidade de outros municípios.

Mesmo diante do subinvestimento financeiro da prefeitura em relação a estas famílias, bastante inferior ao custo de uma criança ou adolescente em instituição, a experiência de acolhimento familiar com adolescentes foi exitoso em muitos sentidos. Vale esclarecer que no Brasil, as famílias acolhedoras são pessoas voluntárias (recebem somente uma ajuda de custo), e que, mesmo quando no

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ESTADO DE SÃO PAULO ESCOLA JUDICIAL DOS SERVIDORES - EJUS serviço não há um limitador de

serviço não há um limitador de idade, são as próprias famílias que estabelecem a faixa etária daquele que aceitam acolher em sua residência. Curiosamente, esses perfis de idade se assemelham com o preferido de pretendentes a adoção, o que compreendemos ser em decorrência do senso comum de que a criança “pequena” (até 06 anos de idade) requer manejo menos complicado. Ainda com base na experiência dos participantes do grupo, verificamos que, há alguns anos, os adolescentes acolhidos em instituições eram principalmente aqueles que foram acolhidos quando crianças e cresceram naquele lugar. Estes, como quaisquer outros adolescentes, questionam regras e quebram acordos, contudo, entendemos que, por serem conhecidos e já vinculados à instituição, conseguem alcançar maior compreensão das equipes e auxílio em suas demandas, o que eventualmente pode não ocorrer com um adolescente que acabou de chegar ao serviço.

Podemos dizer que dificilmente acontecia o acolhimento de adolescentes na faixa etária dos 15 aos 17 anos, salvo quando acompanhado de irmãos menores. E, mesmo quando em grupo de irmãos, seus hábitos e comportamentos eram questionados e, havendo relatos de uso de qualquer droga ilícita, sob a alegação de que um usuário de drogas poderia colocar em risco os demais acolhidos, o acesso à medida de proteção era frequentemente negado. Observamos que este quadro vem mudando lentamente em meio de incertezas e conflitos. Não sabemos ao certo a que se deve tal mudança, mas pensamos que, talvez, seja reflexo de uma possível assimilação tardia dos preceitos do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) de que o adolescente também necessita de proteção não apenas a criança mesmo quando eles estão prestes a completar a maioridade, trazem à tona o já conhecido abandono que vivem os adolescentes na periferia. Salientamos aqui que a experiência e estudos revelam que, quando tratamos de acolhimento institucional, estamos falando principalmente de adolescentes advindos de famílias pobres, abandonadas pelo Poder Estatal no suprimento de suas necessidades básicas em suas comunidades. Outro ponto a se considerar é a fragilização da instituição familiar, que vem perdendo poder em relação aos seus membros, em especial aos adolescentes, fazendo com que estes se coloquem em constantes situações de vulnerabilidade e risco. Tal fragilização não acontece por acaso, mas é oriunda de um perverso

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ESTADO DE SÃO PAULO ESCOLA JUDICIAL DOS SERVIDORES - EJUS mecanismo social que impele os pais

mecanismo social que impele os pais ou responsáveis a buscarem colocação no mercado de trabalho e outras estratégias de sobrevivência sem o devido acesso as políticas públicas de qualidade, como educação em período integral, entre outros direitos. Como Rosa (2002, p. 4) afirma

a diferença nas classes sociais significa diferentes direitos

quanto à saúde, educação, direitos, profissão etc (

a suspensão de um lugar de gozo viável, o jovem pode colar-se a identidades imaginárias que podem incluí-lo, buscando um modo de existência no desejo do Outro para, a partir dela, agir questão central da adolescência.”

Sem suportar

) (

).

Tanto na capital, quanto no interior e no litoral ouvimos sobre bairros inteiros tomados pelo crime organizado que coopta crianças e adolescentes para serem seus trabalhadores. Acompanhado disso estão: a disseminação do uso de drogas lícitas e ilícitas, a banalização da violência, a erotização precoce, o consumismo exacerbado, a descontinuidade nos estudos, entre outros fenômenos, presentes na sociedade atual, porém fortemente atuantes nesses recantos, decorrentes da omissão do Estado frente a essas populações. Há Comarcas vivenciando pedidos de acolhimento institucional por parte dos próprios adolescentes que, por medo das possíveis consequências do envolvimento no meio ilícito (cerceamento da liberdade, agressões físicas por parte de traficantes e policiais, cobrança de dívidas e risco de morte) e também em alguns casos por estarem em situação de rua, alegam conhecerem seu direito a moradia e proteção, acessando o Conselho Tutelar. Todavia, ao serem acolhidos, iniciam-se os conflitos com a instituição que geralmente englobam a convivência com os outros acolhidos, além do descumprimento de regras/horários, e, em algumas situações, porte e uso de drogas dentro e fora da instituição, desrespeito ao corpo e aos pertences dos outros e reivindicação por mais autonomia. O trabalho dos técnicos dos Serviços de Acolhimento junto a um adolescente recém-chegado deve considerar as especificidades do período da adolescência, porém, não se ater a apenas isso, evitando o risco da generalização. É importante conhecer sua história de vida e suas aspirações, dando voz a ele e

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ESTADO DE SÃO PAULO ESCOLA JUDICIAL DOS SERVIDORES - EJUS ofertando um trabalho individualizado, buscando formar

ofertando um trabalho individualizado, buscando formar o vínculo de confiança e respeito com os educadores e técnicos. Sem dúvidas, este não é um trabalho fácil e exige envolvimento de toda a rede. Quando falamos de rede, incluímos o Poder Judiciário, Ministério Público, Defensoria Pública, Sistema de Saúde, Educação, representantes das Comunidades, entre outros atores.

4 - CONCLUSÃO TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO ESCOLA JUDICIAL DOS SERVIDORES

4 - CONCLUSÃO

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ESTADO DE SÃO PAULO ESCOLA JUDICIAL DOS SERVIDORES - EJUS Diante das discussões, notamos os avanços

Diante das discussões, notamos os avanços em termos de legislação e normativas e também quanto às práticas nos serviços de acolhimento, porém, ainda é possível perceber a incidência de ações desvinculadas da proposta legal, as quais, por vezes, espelham padrões históricos, como o predomínio massivo do acolhimento institucional ao invés do acolhimento familiar e a continuidade de práticas institucionais que levam ao desempoderamento e dependência das crianças e dos adolescentes às instituições. Vimos que, passamos do paradigma da autoridade absoluta da família sobre as crianças/adolescentes para a fragilização desta, prejudicando sua autonomia e o cumprimento das responsabilidades inerentes ao Poder Familiar.

O posicionamento dos técnicos do judiciário é sempre delicado, já que, é

construído a partir do histórico das demandas sociais e psicológicas que ressaltam a impotência e a dificuldade do núcleo familiar, porém, este está arraigado na questão

social e, olhando para ele precisamos visualizar não apenas o que está aparente, mas desvelar as possibilidades de superação, o que só é possível com o trabalho em rede.

Ainda convivemos com a incompletude dos órgãos, instituições e

serviços, principalmente para atender o público adolescente, seja ele acolhido ou em conflito com a lei. Observamos poucas alternativas de incentivo e a oferta poucas vezes considera as aspirações específicas desse adolescente, priorizando práticas muito mais voltadas ao público infantil ou ao público adulto.

A questão se agrava quando falamos de adolescentes que não tiveram

uma educação efetiva. A desistência escolar é recorrente, o que pode ser resultado

de não satisfação de necessidades essenciais tais como alimentação e vestimenta, problemas familiares, deficiência intelectual, violências, falta de atrativos no ambiente escolar entre outros aspectos, prejudicando suas perspectivas futuras.

É preciso que se criem alternativas a educação formal, ampliar espaços

culturais, de esportes, lazer, programas de acesso à cidade, atendimento terapêutico individual e familiar, dentre outros. Embora, constatamos que a atual conjuntura

social e política do país tem caminhado contrária a esse tipo de oferta. Entendemos, assim, ser este um momento delicado para nossa atuação, uma vez que a rede está

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ESTADO DE SÃO PAULO ESCOLA JUDICIAL DOS SERVIDORES - EJUS cada vez mais enxuta e vemos

cada vez mais enxuta e vemos que o “poder paralelo” vem ganhando mais espaço, atuando no lugar do Estado. À guisa de conclusão, notamos que o percurso de estudo sobre a história dos direitos de crianças e adolescentes e de seu acolhimento familiar ou institucional, forneceram subsídios para a discussão do atendimento atual em instituições de acolhimento, além da discussão sobre a temática cada vez mais urgente do acolhimento de adolescentes. Notamos que esta discussão trouxe novos fundamentos para a prática dos profissionais que participaram do Grupo de Estudos, além de que desejamos que esta reflexão possa ser aproveitada por outros técnicos do Judiciário.

REFERÊNCIAS TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO ESCOLA JUDICIAL DOS SERVIDORES - EJUS

REFERÊNCIAS

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ESTADO DE SÃO PAULO ESCOLA JUDICIAL DOS SERVIDORES - EJUS SCHRITZMEYER, Ana Lúcia Pastore. Fios da

SCHRITZMEYER, Ana Lúcia Pastore. Fios da vida: crianças abrigadas, hoje adultas, diante de seus prontuários. In Vivência: revista de antropologia, nº 46, 93-212, Natal,

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ESTADO DE SÃO PAULO ESCOLA JUDICIAL DOS SERVIDORES - EJUS REFLEXÕES SOBRE A BUSCA ATIVA GRUPO

REFLEXÕES SOBRE A BUSCA ATIVA

GRUPO DE ESTUDOS DA CAPITAL “ADOÇÃO I”

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COORDENAÇÃO TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO ESCOLA JUDICIAL DOS SERVIDORES - EJUS

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Simone Trevisan de Góes Psicóloga Judiciário FR. I Santana Marina Corcovia Assistente Social Judiciário Vara Central

AUTORES

Aline Cristina Carta Psicóloga Judiciário Comarca de Santa Fé do Sul Ana Cláudia Sarpi Chiodo Psicóloga Judiciário FR. IV Lapa Ana Paula Duarte Xavier Tutia Psicóloga Judiciário Comarca de Santo André Aparecida Regina Signori Dantas Assistente Social Judiciário Comarca de Santa Fé do Sul Daize Pereira dos Santos Oliveira Assistente Social Judiciário Vara Central Elizangela Sanches Dias Assistente Social Judiciário Comarca de Jales Fabiana Aparecida de Oliveira Assistente Social Judiciário Comarca de Miracatu Gessylea Matiole Assistente Social Judiciário Comarca de Aparecida Giovani Diniz Santos Psicólogo Judiciário Comarca de São José dos Campos Gisele Xavier Marques Verniz Assistente Social Judiciário Comarca de São Carlos Leila Zanella Assistente Social Judiciário FR Ipiranga Márcia Domingues Moraes Silva Assistente Social Judiciário Comarca de Sorocaba Meire Obata Matsuo Psicóloga Judiciário Vara Central Mônica Aparecida Mota Vale Assistente Social Judiciário FD Arujá Patricia Martin Beraldo Assistente Social Judiciário FD de Louveira Roberta Bechelli Duarte Migliaresi Psicóloga Judiciário Comarca de Itanhaém Sarita Erika Yamazaki Psicóloga Judiciário FR. VI Penha de França Silvia Vilela da Costa Assistente Social Judiciário Comarca de Santa Fé do Sul Simone Aparecida dos Santos- Psicóloga Judiciário Comarca de Caraguatatuba Vanessa Teixeira de Oliveira Assistente Social Judiciário Comarca de São José dos Campos Viviane Cristina de Souza Caroli Assistente Social Judiciário Comarca de Sorocaba

INTRODUÇÃO TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO ESCOLA JUDICIAL DOS SERVIDORES - EJUS

INTRODUÇÃO

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ESTADO DE SÃO PAULO ESCOLA JUDICIAL DOS SERVIDORES - EJUS O GEA I começou o ano

O GEA I começou o ano com uma inquietação: o uso das redes sociais/internet nas questões relacionadas à adoção. Observamos que são cada vez mais frequentes as publicações referentes ao tema, desde grupos de apoio on line, oferta de crianças/adolescentes, os próprios adolescentes que procuram uma família. Verificamos muitas ações positivas, como a divulgação e troca de experiências, contudo, questionamos os limites para o uso desta ferramenta. Quando começamos discutir essas questões, abriu-se um leque de possibilidades de discussão, com uma abrangência enorme do que poderíamos relacionar entre as redes sociais/internet e a adoção. Desta forma, a partir das nossas conversas iniciais, buscamos focar em um tema, extraído desta gama de possibilidades e também bastante polêmico: a busca ativa. Termo bastante utilizado atualmente para as pesquisas fora do Cadastro Nacional de adoção, mas que ainda não existe como um dispositivo legal. Uma vez definido o tema, verificamos a pouca literatura a respeito, tendo em vista ser algo ainda recente no panorama nacional. Assim, inicialmente buscamos contatar pessoas que atuam diretamente na área para ampliarmos a discussão. Participaram como palestrantes em nossos encontros a Dra. Dora Martins, Juíza de Segundo Grau do Tribunal de Justiça de São Paulo, a Dra. Mônica Gonzaga Arnoni, Juíza do Tribunal de Justiça de São Paulo e a Sra. Monica Natale, presidente do Grupo de Apoio à Adoção de São Paulo. Cada uma com uma visão sobre o tema como veremos ao longo de nosso trabalho. Procuramos entender o significado de Busca Ativa e as razões da sua utilização em detrimento dos cadastros já existentes, estudar os aspectos legais e apresentar sugestões.

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1 - DEFINIÇÃO DE “BUSCA ATIVA”

DOS SERVIDORES - EJUS 1 - DEFINIÇÃO DE “BUSCA ATIVA” Busca Ativa é todo tipo de

Busca Ativa é todo tipo de ação que proporcione à criança e ao adolescente institucionalizados uma possível família e a posterior concretização da adoção, para aqueles com características específicas que usualmente gerem maior dificuldade para encontrar pretendentes no Cadastro Nacional de Adoção, por exemplo: idade, irmãos, problemas de saúde e deficiências.

A procura incessante por pretendentes faz com que a busca ativa possa ter várias formas de acontecer, inclusive formas nada convencionais de se encontrar possíveis adotantes, como por exemplo, a apresentação de crianças e adolescentes em jogos de futebol. As mais comuns envolvem exposição dos acolhidos nos diversos tipos de mídia existentes. A exposição da história de vida é justificada com o argumento de que é necessário proporcionar a visibilidade para essas crianças e adolescentes.

Em que pese as inúmeras dificuldades enfrentadas no atendimento à criança e ao adolescente nas instituições de acolhimento, a justificativa para a Busca Ativa é garantir o direito à convivência familiar.

2 - PALESTRANTES CONVIDADAS

Durante o ano, o Grupo de Estudos - Adoção I contou com a presença de palestrantes com conhecimento teórico e atuação profissional no tema escolhido, dentre elas as Juízas de Direito do Tribunal de Justiça de São Paulo, Dra. Dora Martins, Juíza auxiliar em 2º grau e Dra. Mônica Gonzaga Arnoni, Juíza de Direito secretária da CEJAI. Seguem abaixo as contribuições que se destacaram. Os discursos de ambas as palestrantes foram uníssonos em diversos pontos, como ao afirmarem que a Busca Ativa é uma realidade nova que deve ser tratada com cautela, a fim de não reforçar seu lado “não técnico”.

TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO ESCOLA JUDICIAL DOS SERVIDORES - EJUS Ainda

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ESTADO DE SÃO PAULO ESCOLA JUDICIAL DOS SERVIDORES - EJUS Ainda em conformidade, ponderaram que o

Ainda em conformidade, ponderaram que o surgimento de novos meios para a busca de pretendentes à adoção pode ser um revelador de que as vias tradicionais, inclusive a utilização do CNA, não estejam funcionando apropriadamente, o que ensejaria a necessidade de modernização e revisão de posturas com olhar técnico e cuidadoso. Advertiram sobre a dificuldade em se controlar possíveis efeitos de uma exposição midiática de crianças e adolescentes em situação de acolhimento institucional, como nas campanhas promovidas por times de futebol nos estádios, exposição em intervalos comerciais na TV, entre outras. Segundo a fala das palestrantes, esse tipo de campanha pode trazer uma sensibilização passageira que escape ao controle do trabalho judiciário. Ambas mencionaram diversas problemáticas do trabalho judicial na área da infância e juventude, considerando as diferentes realidades do estado e do país, discorrendo sobre falta de capacitação, estrutura e outras dificuldades encontradas pelos trabalhadores da área, o que pode refletir diretamente no trabalho com adoção.

Dra. Dora, em especial, enfatizou a importância do trabalho em equipe para que os objetivos sejam alcançados. A referida Juíza falou também sobre a necessidade dos operadores da justiça da infância e juventude criarem estratégias de trabalho in loco com os pretendentes cadastrados ao invés de utilizarem recursos midiáticos abertos. Dra. Dora concluiu sua fala frisando a importância de se pensar em estratégias que promovam a busca ativa dentro dos limites legais e do judiciário. Apresentou como sugestão começar a se pensar na criação de uma rede de comunicação entre os técnicos a fim de se promover busca ativa dentro dos parâmetros judiciários. Dra. Mônica destacou que a realidade das crianças e adolescentes em condições de serem adotadas não corresponde ao perfil comumente apresentado pelos pretendentes, assim, a busca ativa representaria uma forma de viabilizar a possibilidade de adoção para estas crianças e adolescentes. No entanto, em sua visão, o procedimento só deveria ser utilizado como último recurso, depois de esgotadas as vias previstas no âmbito legal, como consulta aos Cadastros Nacional e Estadual e, inclusive, procedimentos para adoção Internacional.

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ESTADO DE SÃO PAULO ESCOLA JUDICIAL DOS SERVIDORES - EJUS Nesse sentido, apontou para o fato

Nesse sentido, apontou para o fato de ainda não existir regulamentação que defina os parâmetros e critérios para se colocar em prática a Busca Ativa, embora existam Estados que já deliberaram a respeito e estão promovendo encontros. Citou exemplo do Rio de Janeiro, que possui o projeto De Braços Abertos, existente há 10 anos, cujo objetivo é chamar pessoas habilitadas que os setores técnicos considerem que podem ampliar o perfil, assim promovem reuniões verificando a possibilidade dessa alteração e depois encontros entre pretendentes e as crianças e adolescentes. Por fim, falou sobre projetos do próprio TJSP, visando melhorar as formas de buscas para adoções, o que em tese, tornaria desnecessária a busca ativa fora dos parâmetros legais, como o desenvolvimento de cadastro interno. Informou que o projeto foi criado pelo STI e seria testado e implantado até o mês de outubro de 2017. O grupo contou também com a participação de Mônica Natale, presidente do GAASP (Grupo de Apoio à Adoção de São Paulo), a qual teceu considerações sobre o funcionamento dos grupos de apoio à adoção, principalmente o que ela representa. Informou que o GAASP tem parceria com a Vara Central de São Paulo e que, atualmente, atende somente os habilitados do Fórum João Mendes. Segundo ela, o referido grupo só realiza busca ativa quando esta é solicitada por equipe técnica da Vara ou pela autoridade judiciária, por meio de ofício ou e-mail institucional. Ressaltou que a busca ativa deve ser necessariamente para crianças e adolescentes de difícil colocação e que cada grupo de apoio deve indicar somente membros de seu próprio grupo que já estejam habilitados pela Vara. Apontou que, durante a indicação, caso identifiquem mais de uma pessoa ou casal para a criança/adolescente costumam relacionar o perfil destes pretendentes a fim de que a própria Vara possa avaliar quem é mais indicado para iniciar a aproximação. Referiu que a ANGAAD (Associação Nacional dos Grupos de Apoio à Adoção) já tem proposta de normatização dos grupos de apoio, destacando que todos os grupos deverão realizar o acompanhamento da pré-adoção e da pós- adoção, sendo que os que ainda não realizam deverão implementar os procedimentos. Além disso, todos os grupos de apoio deverão estar inscritos na

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ESTADO DE SÃO PAULO ESCOLA JUDICIAL DOS SERVIDORES - EJUS ANGAAD para poderem firmar parceria com

ANGAAD para poderem firmar parceria com as Varas da Infância e Juventude, e, assim, se responsabilizarem por ações na realização das buscas ativas. Citou que o GAASP mantém cadastro de pretendentes, facilitando a localização de casais ou pessoas para o perfil solicitado, pois realizam o acompanhamento dos frequentadores do grupo, os quais, por vezes, acabam comentando a intenção de alteração do perfil pretendido. Segundo afirmou, os grupos formados pela ANGAAD e GAASP em aplicativos de comunicação, como “Whatsapp”, não possuem entre seus membros pretendentes à adoção, participando somente assistentes sociais e psicólogos judiciários, juízes, promotores e presidentes ou coordenadores de grupos de apoio. Apresentou como preocupação, recente aumento do número de devoluções de crianças e adolescentes, apontando que tal fato seria de responsabilidade conjunta: equipe técnica das Varas da Infância e Juventude, habilitados e grupos de apoio, o que ensejaria revisão de posturas e trabalho dos diversos segmentos.

3 - BUSCA ATIVA E O PODER JUDICIÁRIO

O Cadastro Nacional de Adoção (CNA) foi implantado pela Resolução n.º 54, de 29 de abril de 2008, com o objetivo de instrumentalizar as Varas da Infância e Juventude na condução dos procedimentos de adoção em todo o país. Esse instrumento amplia as possibilidades de consulta aos pretendentes cadastrados, facilitando, assim, a adoção de crianças e adolescentes em qualquer Comarca.

O CNA contém informações básicas do perfil das crianças e adolescentes a serem adotados no sistema e realiza o cruzamento dos dados cadastrados com o dos pretendentes à adoção que seja compatível com o perfil registrado. No entanto, as informações no sistema precisam ser alimentadas e atualizadas com frequência pelas Comarcas e apesar de ser um instrumento muito útil encontramos dificuldades na atualização desses dados, o que pode estar relacionado à capacitação dos seus operadores, bem como a ausência de padronização do uso.

No CNA, a premissa é constar somente crianças com processos de

destituição familiar concluída. Algumas vezes, esta ação ocorreria apenas quando

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ESTADO DE SÃO PAULO ESCOLA JUDICIAL DOS SERVIDORES - EJUS há pretendentes para tais, ou seja,

há pretendentes para tais, ou seja, o ajuizamento da Ação de Destituição do Poder

Familiar ocorre apenas após a consulta quanto à existência de pretendentes.

Diante desse quadro e da desatualização de dados dos habilitados, surge

a atuação dos Grupos de Apoio na busca ativa de habilitados para

crianças/adolescentes mais velhas e grupos de irmãos denominados de “difícil colocação”. Com isso, os grupos de apoio à adoção justificariam sua atuação como forma de auxílio ao Judiciário na efetivação da garantia do direito constitucional de toda criança e adolescente de viver em uma família.

A busca ativa nos processos de adoção parte do pressuposto de que os pretendentes habilitados no CNA, com o passar do tempo, mudam o perfil da criança pretendida e em sua maioria esta alteração não é informada nos processos. Observa-se que as Varas não são informadas do real/atual perfil dos pretendentes e as atualizações não ocorrem no CNA.

Os grupos de Apoio à Adoção estão cada vez mais atuantes na busca ativa de pretendentes para criança e adolescente, porém até o momento não existe regulamentação jurídica dessa prática. Eles defendem que a busca ativa é necessária, pois os habilitados participam de reuniões e, ao trocarem experiências,

decidem ampliar o perfil inicial. Por outro lado, existem tentativas de aprimorar as regras relacionadas à adoção. A chamada Nova Lei da Adoção” (12.010/09) modificou o Estatuto da Criança e do Adolescente. Este instrumento jurídico trouxe inovações para o instituto da adoção com o objetivo de garantir o melhor interesse

da criança e do adolescente. Apesar de estabelecer um limite de dois anos,

atualmente os tribunais não dispõem de estatísticas que contabilizem o tempo médio

de permanência nas casas de acolhimento, seja para retorno à família biológica,

seja para inserção em família substituta.

Um dos pontos de destaque é a regulamentação do tempo de permanência das crianças e adolescentes nas instituições de acolhimento, que não deve se prolongar por mais de 2 anos, salvo comprovada sua necessidade. A intenção era evitar que um acolhimento extenso diminuísse as chances de colocação em famílias substitutas, visto que a grande maioria dos pretendentes cadastrados buscam “crianças pequenas”.

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ESTADO DE SÃO PAULO ESCOLA JUDICIAL DOS SERVIDORES - EJUS Os dados compilados em 2016 indicam

Os dados compilados em 2016 indicam que o número de pretendentes cadastrados é significativamente maior do que o número de crianças e adolescentes disponíveis para adoção. Se utilizarmos um raciocínio direto, considerando o Estado de São Paulo, teríamos em média seis (6) pretendentes para cada criança e adolescente cadastrado. Desta forma, todas as crianças e adolescentes teriam, em tese, seis chances de encontrar uma família. Porém, nossa realidade envolve um intrincado conjunto de fatores que contribuem para a longa permanência de crianças e adolescentes em situação de acolhimento. Esses dados nos conduzem à conclusão de que as características (idade, sexo, condições de saúde e familiares, entre outros) de nossas crianças e adolescentes disponíveis são relativamente distantes das características desejadas pelos pretendentes. Os caminhos da adoção em nosso país são marcados por direções quase opostas: de um lado, o filho idealizado pelos pretendentes; de outro, crianças e adolescentes reais que se acumulam nas instituições de acolhimento. A lei 12.010/09 também propõe outras ações com vistas ao incentivo à adoção, como a preparação psicossocial e jurídica dos indivíduos que pretendem ingressar com a adoção e a criação dos cadastros nacional e estadual. O artigo 197 do ECA prevê que tal preparação deve promover a orientação e estímulo à adoção inter-racial, de crianças maiores ou de adolescentes, com necessidades específicas de saúde ou com deficiências e de grupos de irmãos”. Além disso, o ECA, em seus artigos 86 e 87, descreve as políticas de atendimento dos direitos da criança e do adolescente; particularmente, o artigo 87 aponta que deverão ser implementados:

VI - políticas e programas destinados a prevenir ou abreviar o

período de afastamento do convívio familiar e a garantir o efetivo exercício do direito à convivência familiar de crianças e

adolescentes;

VII - campanhas de estímulo ao acolhimento sob forma de guarda de

crianças e adolescentes afastados do convívio familiar e à adoção, especificamente inter-racial, de crianças maiores ou de adolescentes, com necessidades específicas de saúde ou com deficiências e de grupos de irmãos.

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ESTADO DE SÃO PAULO ESCOLA JUDICIAL DOS SERVIDORES - EJUS Todas estas ações devem estar em

Todas estas ações devem estar em consonância com os direitos previstos. Nesse sentido, o ECA propõe em seu artigo 100: V - privacidade: a

promoção dos direitos e proteção da criança e do adolescente deve ser efetuada no respeito pela intimidade, direito à imagem e reserva da sua vida privada”.

A lei é bem clara sobre o direito à convivência familiar e comunitária de

crianças e adolescentes. Porém, apesar de todos esses esforços, como anteriormente apontado, vivencia-se uma grande discrepância entre o perfil desejado pelos adotantes e a real disponibilidade de crianças e adolescentes aptos

a serem adotados. Frente a tal contexto, vários tribunais (TJ-RJ, TJ-MG, TJ-PE, TJ- RS) têm implementado campanhas com a intenção de dar visibilidade a essas crianças e adolescentes.

O Tribunal de Justiça de São Paulo lançou no dia 12/10/2017 a campanha

“Adote um Boa Noite”, acompanhando um movimento recente de outros tribunais que visam estimular as adoções tardias. Tais ações utilizam grandes meios de comunicação a fim de possibilitar visibilidade para crianças e adolescentes de difícil colocação. Este contexto nos conduz a uma reflexão sobre as ações que a Justiça tem implementado com vistas a garantir o direito desses indivíduos à convivência familiar.

Além dessas ações, vale citar o projeto de Lei da Câmara nº 101 2017 que foi encaminhado em 01/11/2017 para sanção presidencial. Tal projeto dispõe sobre adoção alterando a legislação vigente sobre o tema. Dentre as propostas, pode-se destacar a sugestão de promover a celeridade do procedimento de destituição do poder familiar, bem como a celeridade processual. Propõe que a reavaliação psicossocial de crianças e adolescentes acolhidos ocorra trimestralmente; que a permanência na instituição de acolhimento não ultrapasse 18 meses (exceto nos casos de melhor interesse da criança e adolescente); que sejam cadastrados para adoção as crianças e recém-nascidos não procurados por suas famílias no prazo máximo de 30 dias a partir da data do acolhimento. Este projeto propõe também a regulamentação de ações como apadrinhamento afetivo e entrega voluntária. Apesar de prever a participação de grupos de apoio, devidamente formalizados, em cursos preparatórios para adoção, o projeto de lei não faz referência a possível parceria para o procedimento de busca ativa e também não faz nenhuma referência a tal ação.

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ESTADO DE SÃO PAULO ESCOLA JUDICIAL DOS SERVIDORES - EJUS Vale ressaltar que em presidencial. 22

Vale ressaltar que em presidencial.

22

de novembro de 2017 houve a sanção

4 - REFLEXÕES

Antes de iniciarmos as explanações referentes às propostas e sugestões do grupo de trabalho em busca de alternativas para a realização da adoção tardia, em detrimento à realização desmedida da chamada busca ativa, temos que considerar que o Poder Público já viabilizou através de normas e dispositivos legais atividades de estímulo à referida adoção, também conhecida como “adoções necessárias”. O curso preparatório à adoção instituído pela Lei 12.010/2009 é uma das formas de promover a reflexão dos pretendentes quanto ao real perfil das crianças e adolescentes disponíveis à adoção no Brasil; em comparação com a expectativa dos mesmos, que geralmente trata-se do interesse por apenas uma criança, em sua maioria do sexo feminino, de idade até três anos, saudável e de cor branca. O curso além de abordar aspectos jurídicos, psicológicos e sociais, visa também esclarecer aos pretendentes sobre a divergência entre os números de habilitados no Cadastro Nacional de Adoção, e o de crianças/adolescentes que se encontram disponíveis para serem adotados. A reflexão sobre o porquê de a conta não fecharé essencial para orientá-los quanto à expectativa e a realidade, além de promover o estímulo à adoção inter-racial, de crianças maiores ou adolescentes, com necessidades específicas de saúde ou com deficiências e de grupos de irmãos, conforme a lei acima referida. A Lei 12.955/2014 é outro dispositivo legal, que trata de parte do número de crianças/adolescentes considerados de “difícil colocação”, conferindo prioridade na tramitação dos processos em que o adotando apresentar deficiência ou doença crônica.

Podemos citar ainda o Provimento CG nº 36/2014, que além de abordar a prioridade da ação de adoção e de destituição do poder familiar e fazer menção aos cursos preparatórios à adoção, regulamenta os programas de apadrinhamento

TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO ESCOLA JUDICIAL DOS SERVIDORES - EJUS afetivo

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ESTADO DE SÃO PAULO ESCOLA JUDICIAL DOS SERVIDORES - EJUS afetivo como meio de viabilizar a

afetivo como meio de viabilizar a convivência familiar e comunitária às crianças e adolescentes de difícil colocação em famílias substitutas. Ainda no sentido de estabelecer ações que contribuam para adoção tivemos no ano de 2015 campanhas de esclarecimento sobre a entrega voluntária, que veio acompanhada da cartilha “Política de Atenção à Gestante – apoio profissional para uma decisão amadurecida sobre permanecer ou não com a criança”.

O fundamento das instituições de acolhimento é a proteção integral de crianças/adolescentes em caráter provisório e excepcional. Contudo, parte destes supera o tempo de permanência exigido por lei, seja pela morosidade em transitar em julgado os processos de Destituição do Poder familiar ou pelo desencontro do perfil escolhido pelos pretendentes à adoção. São comumente qualificados como “inadotáveis”, em razão de estarem na fase da adolescência, ou pertencerem a grupos de irmãos, ou serem portadores de HIV e/ou apresentarem necessidades especiais.

Em contrapartida a maioria dos habilitados à adoção está à espera do filho idealizado, para satisfazer todas as suas necessidades e expectativas, características que não condizem com o perfil das crianças/adolescentes disponíveis para adoção. O projeto de Apadrinhamento afetivo estimulado pelo TJSP aparece como promotor de resiliência junto aos acolhidos que estavam em situação de risco e vulnerabilidade social, assim também como viés para uma nova configuração familiar que representa uma ressignificação dos vínculos afetivos de origem. Os cadastros de adoção implantados em meados do ano 2000, com a finalidade de formar um banco de dados com informações tanto das crianças e adolescentes disponíveis à adoção quanto dos habilitados, possibilitam a busca de acordo com o perfil desejado, mas não têm se mostrado como ferramenta eficaz. Faz-se necessário admitir que a falta de atualização do CNA tem tornado as buscas ineficientes. A proposta, neste sentido, é a de que os profissionais responsáveis pela alimentação desses possam se comprometer em realizar constantes atualizações, para que seja uma plataforma que auxilie efetivamente o encontro de família para as crianças e adolescentes.

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ESTADO DE SÃO PAULO ESCOLA JUDICIAL DOS SERVIDORES - EJUS Há informações de reuniões em andamento

Há informações de reuniões em andamento promovidas pelo CNJ que implantarão modificações no CNA no que concerne ao software a ser utilizado, ao mecanismo de busca, a outros conteúdos a serem inseridos como relatórios técnicos, fotos e desenhos. Pondera-se que seria importante a inclusão de

profissionais dos setores técnicos nessas reuniões bem como que estejam previstas

a capacitação para utilização desse novo programa a fim de se evitar, por exemplo, múltiplos entendimentos quanto a que tipo de ocorrências devem ser incluídas. Outra questão apontada é a importância dos habilitados providenciarem

junto as suas Varas a alteração correspondente ao perfil pretendido. Verifica-se que, com o passar do tempo, a ansiedade da espera e a participação em grupos de apoio

à adoção amadurecem a ideia pela aceitação de um perfil diferenciado daquele que

fora inicialmente apontado ao técnico, contudo, não são orientados a informarem esta alteração à Vara de referência, contribuindo para a desatualização do CNA, prejudicando o cruzamento dos dados de possíveis pretendentes às “adoções necessárias” e formando, aparentemente, um cadastro paralelo restrito aos grupos de apoio à adoção. A criação de mecanismos, ferramentas e novas tecnologias é um expediente utilizado pelos grupos de apoio à adoção através do recurso chamado “busca ativa” e também por alguns tribunais que se utilizam de vídeos, fotos, e programas de televisão entre algumas alternativas. Polêmicas à parte, conclui-se que a utilização de imagem ou foto de criança ou adolescente em grupo fechado do TJSP servirá para dar visibilidade àqueles que estão à espera de adoção, especialmente nos casos de adoção tardia ou até mesmo grupo de irmãos. Já se encontram em andamento experiência de apresentar as crianças e adolescentes com determinação para colocação em família substituta aos casais habilitados que são chamados para a reavaliação bienal ou a pretendentes que tenham perfil aproximado ao das crianças e adolescentes reais. De forma criteriosa e respeitando o ser em desenvolvimento, essa disponibilização da imagem de criança/adolescente aos pretendentes à adoção, deve estar em consonância com a Constituição Federal de 1988 em seu artigo 5º, inciso X, e também com o Estatuto da Criança e Adolescente que protege e resguarda a honra e imagem da pessoa e igualmente a sua identidade. Destarte, o acesso à informação através da imagem vem carecer da manifestação dos técnicos

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ESTADO DE SÃO PAULO ESCOLA JUDICIAL DOS SERVIDORES - EJUS (assistentes sociais e psicólogos judiciários) e

(assistentes sociais e psicólogos judiciários) e de autorização judicial, além da permissão dos principais envolvidos (crianças/adolescentes). Outro recurso a ser utilizado é o “ telegram”, aplicativo que permitirá aos usuários uma ágil troca de mensagens escritas, voz e imagens. A formação de um grupo fechado com os técnicos do TJSP pode propiciar uma rede de comunicação a fim de promover uma busca ativa dentro dos parâmetros judiciários, trazendo a possibilidade de funcionar como um disparador na localização de pretendentes às crianças/adolescentes considerados como de “difícil colocação”. Por fim, considerando-se que as modalidades de efetivação da busca ativa é tema que tem recebido grande atenção recentemente, constata-se a ausência de estudos, publicações científicas e dados que permitam aprofundar a discussão e melhor definir posicionamento à questão. Assim, além de considerar de fundamental importância a realização de pesquisas abarcando os vários aspectos relacionados ao tema da Adoção em especial aqueles que ainda carecem de um olhar mais atento como: o acompanhamento longitudinal das adoções, as devoluções, as adoções efetivadas com casais que mudaram o perfil desejado inicial; entende-se ser necessário incentivar os estudos com as adoções por busca ativa e com as novas intervenções e modalidades facilitadoras das adoções necessárias. Tendo conhecimento, por exemplo, que o “Projeto Família – um direito de toda criança e adolescente” implementado pelo Tribunal de Justiça do Estado de Pernambuco já conta com 09 anos de existência, pondera-se a necessidade de transformar resultados dessa prática em dados de pesquisa e produção científica. Não há publicação de estudos enfocando, por exemplo, a relação das práticas da busca ativa previstas no projeto com a percepção no aumento de devoluções ou com os efeitos psíquicos nas crianças/adolescentes que tiveram suas imagens divulgadas e não foram adotados, dentre outros temas relevantes. Nessa esteira, acredita-se ser pertinente que haja incentivo institucional para o estabelecimento de parcerias entre as instituições judiciárias e as acadêmicas objetivando o estímulo à produção científica neste tema de tão grande relevância que é a Adoção e subtemas correlatos.

5 - CONCLUSÃO TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO ESCOLA JUDICIAL DOS SERVIDORES

5 - CONCLUSÃO

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ESTADO DE SÃO PAULO ESCOLA JUDICIAL DOS SERVIDORES - EJUS Diante da conjuntura exposta ao longo

Diante da conjuntura exposta ao longo do texto e da complexidade envolvida na colocação de algumas crianças e adolescentes, tornou-se necessária a busca de alternativas que impeçam a violação dos direitos dos acolhidos institucionalmente de viver em família.

Ressaltamos ainda a premissa da proteção integral detalhada no Estatuto da Criança e do Adolescente, onde está contemplada a importância da família natural/extensa e modalidades de colocação em família substituta.

Recentes alterações no ECA reforçaram, por meio de implantação e implementação de políticas públicas, garantir o que preconiza o Plano Nacional de Convivência Familiar e Comunitária PNCFC). Este traz no seu bojo o empoderamento da família por meio do fortalecimento da rede de proteção social, permitindo que ela seja capaz de cumprir seu papel protetivo. Contudo, esta medida também tem novas regulamentações, garantindo atendimento mais humanizado, por meio da construção de PIA-Plano Individual de Atendimento e redução nos prazos processuais da Ação de Destituição do Poder Familiar e para a realização das audiências concentradas. Neste sentido, as famílias de origem têm sido chamadas para a responsabilidade com seus filhos, sendo incluídas em dispositivos oficiais públicos ou das organizações da sociedade civil, priorizando a manutenção das crianças e adolescentes em sua família, até que se esgote esta possibilidade.

Do contrário, resta a alternativa de garantir a convivência familiar por meio da colocação em família substituta, utilizando o cadastro de pretendentes habilitados para a adoção. Contudo, das crianças e adolescentes disponíveis, resta um passivo humano de difícil colocação por suas próprias características (crianças e adolescentes com mais idade, grupo de irmãos, diferentes problemas de saúde e deficiências, entre outros). Esta população permanece nas instituições de acolhimento, sem perspectiva da modalidade tradicional de adoção.

TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO ESCOLA JUDICIAL DOS SERVIDORES - EJUS Como

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ESTADO DE SÃO PAULO ESCOLA JUDICIAL DOS SERVIDORES - EJUS Como alternativa, encontramos diversas frentes de

Como alternativa, encontramos diversas frentes de trabalho pautado na “busca ativa”, que subentende uma atitude proativa prevista no PNCFC com diferentes formatos, utilizando na maioria das vezes recursos midiático, como a divulgação em sites de relacionamento virtual ou em jogos de futebol transmitidos pela televisão por exemplo, para agilizar a comunicação e acelerar o processo de adoção. Entretanto, paralelo a esta nova forma de trabalho, há dúvidas em relação à motivação provocada pelo apelo midiático, nem sempre em consonância com a adequada e sustentável para a adoção. Percebemos que esta forma de mobilização para incentivo das adoções consideradas difíceis, desperta no público sentimentos diversos, podendo incitar uma atitude impulsiva pela adoção, comovidos pelas histórias de vida e condição de excluídos destas crianças e adolescentes. No entanto, a ideia nem sempre se sustenta diante da convivência diária, onde se expressam as adversidades tão distintas e as necessidades peculiares dos envolvidos. Para além da preparação dos pretendentes, garantida pela legislação vigente, há que se ter disponibilidade para lidar com questões emocionais que podem surgir também em relação aos que são adotados, o que nem sempre é esperado ou encontra disponibilidade interna dos pretendentes para trabalhar tais questões. A questão não é o uso da tecnologia e da mídia, tão pouco de quem é a competência primeira, Estado ou sociedade civil. Talvez a questão seja ética, a forma como a mídia é utilizada e a interpretação da legislação quando estes não contemplam a proteção integral das crianças/adolescentes em detrimento de outros interesses.

Em nome da garantia do direito à convivência familiar, não podemos ignorar os demais direitos contemplados no artigo 4º do ECA. Outro aspecto a ser aprofundado é a utilização do Cadastro de Pretendentes à Adoção promovendo, por vezes, drásticas alterações no perfil inicial dos pretendentes, motivadas pela comoção frente à situação fática destas crianças e adolescentes, sentimentos que podem ter “prazo de validade” por serem circunstanciais.

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ESTADO DE SÃO PAULO ESCOLA JUDICIAL DOS SERVIDORES - EJUS Observamos que são necessárias algumas diretrizes

Observamos que são necessárias algumas diretrizes básicas para serem seguidas quando se trata de utilizar a Busca Ativa como instrumento para auxiliar a adoção das crianças/adolescentes de difícil colocação, entre elas:

1) A obrigatoriedade de todos os pretendentes terem passado pelo processo de avaliação técnica e posteriormente terem sido habilitados pelo Juízo da sua Comarca de origem; 2) O acompanhamento cuidadoso e regular do período de aproximação presencial e posteriormente do estágio de convivência, com tempo suficiente para maturação e construção dessa relação filial; 3) A mediação do encontro entre os pretendentes à adoção e possível adotando pelos técnicos da Vara da Infância e Juventude, bem como sua devida autorização pelo Juiz da Comarca. Concluindo, sem concluir, com mais uma provocação: para atender o melhor interesse desta população institucionalizada, a bandeira de frente tem que ser a da adoção? Ou podemos iluminar também os projetos de sucesso com apadrinhamento financeiro e afetivo e guarda subsidiada com estímulo a oportunizar que esta população construa relações de referência independente de se transformar em futura filiação? Tendo em vista esta lacuna, surge o questionamento quanto a insistir na garantia do direito à convivência familiar por meio exclusivamente da adoção. Neste sentido, encontramos amparo no artigo 87, VII do ECA, onde trata da política de atendimento, mencionando campanhas de estímulo ao acolhimento sob forma de guarda. Outras alternativas seriam intensificar os projetos de apadrinhamento afetivo e financeiro, ou a intensificação da participação comunitária como uma forma de possibilitar a vinculação com pessoas fora do ambiente institucional.

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ESTADO DE SÃO PAULO ESCOLA JUDICIAL DOS SERVIDORES - EJUS REFERÊNCIAS BRASIL. Lei 8.069 – Estatuto

REFERÊNCIAS

BRASIL. Lei 8.069 Estatuto da Criança e do Adolescente. Brasília, 1990.

BRASIL. Lei 12010, de 03 de Agosto de 2009. Dispõe sobre adoção. Brasília, DF,

2009.

BRASILIA, DF. Camara dos Deputados. Projeto de lei nº 101 2017. Dispõe sobre adoção e altera a Lei nº 8.069, de 13 de julho de 1990 (Estatuto da Criança e do Adolescente), a Consolidação das Leis do Trabalho, aprovada pelo Decreto-Lei nº 5.452, de 1º de maio de 1943, e a Lei nº 10.406, de 10 de janeiro de 2002 (Código Civil). Disponível em: http://www25.senado.leg.br/web/atividade/materias/-

Digiácomo, Murilo José; Digiácomo, Ildeara de Amorim. Estatuto da Criança e do Adolescente anotado e interpretado. Ministério Público do Estado do Paraná. Centro de Apoio operacional das promotorias da criança e do adolescente. 2013. 6ª edição Fariello, Luiza. Estratégia de adoção: pais para crianças e não crianças para os pais.

Agência CNJ de

notícias, 2017. Disponível em:

KNOPMAN, E. B. Busca Ativa da Adoção/ Quando a Espera Passiva é Violação de Direitos. In: Ladvocat, (org.) Guia da Adoção No Jurídico, no Social, no Psicológico e na Família. São Paulo: Roca, 2014, p. 231-240.

MDS/SAS Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome; Secretaria Especial dos Direitos Humanos. Plano Nacional de Promoção, Proteção e Defesa dos Direito de Crianças e Adolescentes à Convivência Familiar e Comunitária. Brasília, 2006.

Tribunal de Justiça do Pernambuco. Coordenadoria da Infância e Juventude. Infância e Juventude. Cadastros do CNJ: A experiência prática do TJ PE. Disponível em: http://www.cnj.jus.br/cnanovo/publico/ManualCNA.pdf

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ESTADO DE SÃO PAULO ESCOLA JUDICIAL DOS SERVIDORES - EJUS OS DESAFIOS DA COLOCAÇÃO EM FAMÍLIA

OS DESAFIOS DA COLOCAÇÃO EM FAMÍLIA SUBSTITUTA: A ESCUTA DE CRIANÇAS E ADOLESCENTES

GRUPO DE ESTUDOS DA CAPITAL “ADOÇÃO II”

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2017

COORDENAÇÃO TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO ESCOLA JUDICIAL DOS SERVIDORES - EJUS

COORDENAÇÃO

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ESTADO DE SÃO PAULO ESCOLA JUDICIAL DOS SERVIDORES - EJUS Paula Puertas Beltrame – Psicóloga Judiciário

Paula Puertas Beltrame Psicóloga Judiciário Comarca de São José dos Campos

Thabata Dapena Ribeiro Assistente Social Judiciário Comarca de Jacareí

AUTORES

Alberta Emília Dolores de Góes Assistente Social Judiciário Comarca de Itapecerica da Serra Ana Paula Hachich de Souza - Psicóloga Judiciário Comarca de São Vicente Ana Roberta Prado Montanher Psicóloga Judiciário Comarca de Bauru Andrea de Carvalho Psicóloga Judiciário Comarca de Miracatu Cristiane Calvo Psicóloga Judiciário Comarca de São José do Rio Preto Cristina Rodrigues Rosa Bento Augusto Psicóloga Judiciário Fórum Regional do Ipiranga Débora Nunes de Oliveira Assistente Social Judiciário Comarca de Embu das Artes Elaine de Camargo Meira Assistente Social Judiciário Comarca de São Miguel Paulista Elisângela Fraga Ferreira Psicóloga Judiciário Comarca de Jundiaí Gracielle Feitosa de Loiola Cardoso Assistente Social Judiciário Comarca de Vargem Grande Paulista Graziele Galindo do Vale Psicóloga Judiciário Comarca de Indaiatuba Jéssica de Moura Peixoto Assistente Social Judiciário Comarca de Ribeirão Preto Juliana da Conceição Velloso Psicóloga Judiciário Comarca de Mogi das Cruzes Kátia Aparecida Cordeiro dos Santos Assistente Social Judiciário Comarca de São José do Rio Preto Luiza Gabriella Dias de Araújo Assistente Social Judiciário Comarca de Mogi das Cruzes

TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO ESCOLA JUDICIAL DOS SERVIDORES - EJUS Maria

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ESTADO DE SÃO PAULO ESCOLA JUDICIAL DOS SERVIDORES - EJUS Maria Rosa Cavalcante – Assistente Social

Maria Rosa Cavalcante Assistente Social Judiciário Fórum Regional VII - Itaquera Renata Dias Galan Sommerman Psicóloga Judiciário Foro Regional Penha de França Rodrigo Gonzales de Oliveira Psicólogo Judiciário Comarca de Itanhaém Rute de Toledo Moraes Psicóloga Judiciário Comarca de São José dos Campos Sabrina Renata de Andrade Assistente Social Judiciário Comarca de São Carlos Silvia Videira Zaparoli Psicóloga Judiciário Comarca de Sorocaba

INTRODUÇÃO TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO ESCOLA JUDICIAL DOS SERVIDORES - EJUS

INTRODUÇÃO

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ESTADO DE SÃO PAULO ESCOLA JUDICIAL DOS SERVIDORES - EJUS Durante o ano de 2017 dedicamo-nos

Durante o ano de 2017 dedicamo-nos a estudar os “desafios da colocação em família substituta”, elegendo como subtema central a escuta de crianças e adolescentes. Importante esclarecer que a eleição desse tema ocorreu mediante uma caminhada de reflexão e discussão. Inicialmente eram muitas as propostas sobre o assunto a ser aprofundado, fato compreensível e justificável em razão da significativa diversidade de questões relevantes e inquietantes que permeiam a adoção. No segundo encontro optamos por aprofundar a discussão acerca dos desafios da colocação de criança e adolescente em família substituta. Nesse momento, deparamo-nos com a multiplicidade do tema, constatando, a priori, que o assunto poderia ser abordado sob vários ângulos. Isso porque os desafios existentes se relacionam tanto a aspectos objetivos quanto subjetivos: a avaliação e preparação dos pretendentes, o perfil da criança ou adolescente desejado, a escuta e preparação das crianças e adolescentes, o trabalho dos serviços de acolhimento com as crianças e adolescentes disponíveis à adoção, as devoluções, a aproximação (o momento do encontro), as orientações e o acompanhamento do estágio de convivência, as facilidades e dificuldades com as ferramentas e sistemas (Cadastro Nacional de Adoção), etc. Observamos, também, que os desafios para a colocação em família substituta são constitutivos da própria complexidade da demanda, uma vez que o sucesso da integração familiar perpassa por momentos de encontros e desencontros entre adotados e adotantes. Não obstante, consideramos que o momento da colocação é precedido por uma fase de preparação e avaliação importantes para todos os sujeitos envolvidos, tendo em vista que é dotada de um universo singular de significados objetivos e subjetivos que permeiam suas expectativas, seus medos, fantasias, preconceitos, experiências, conhecimento, os quais não são integralmente perceptíveis num primeiro momento, mas que são gradativamente apresentados e compreendidos por meio da definição de papéis e construção dos vínculos de afinidade e afetividade. Após a leitura de textos que tratavam da temática eleita, entendemos conveniente afunilar ainda mais o objeto de estudo, quando então elegemos a

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ESTADO DE SÃO PAULO ESCOLA JUDICIAL DOS SERVIDORES - EJUS “escuta da criança e do adolescente”

“escuta da criança e do adolescente” como subtema, assunto que merece reflexão dada a sua recorrência em nosso cotidiano e sua importância vital no que se refere a uma atuação que pretende garantir direitos. Partimos, assim, em busca de subsídios literários para nosso debate e reflexão. Vale esclarecer que a metodologia utilizada ficou restrita à leitura e discussão. Isso porque durante o ano corrente nosso Grupo de Estudos não conseguiu cumprir o cronograma original: duas reuniões não puderam ser realizadas em razão da ocorrência da “Greve Geral”. Apesar da compreensão e da solidariedade ao movimento que se justifica em razão do contexto de desmonte de direitos que vivenciamos, é fato que essas duas ausências impactaram o desempenho do Grupo, tornando-se necessário adequar as atividades à quantidade diminuída de encontros que efetivamente foram realizados. Ademais, restou inviável a utilização de metodologia diferenciada, como a participação de um convidado para debater conosco o assunto, face à inexistência de tempo hábil para os procedimentos necessários. Nesse sentido, vale destacar o compromisso e engajamento dos participantes, que se valeram da criatividade para superar as adversidades. Diante do contexto apresentado, buscamos produzir um material que traduzisse nosso esforço e que pudesse contribuir para a reflexão sobre o tema escolhido. O texto que segue está dividido em três partes que apareceram com recorrência na bibliografia consultada e em nossas discussões. Iniciaremos abordando os desafios da colocação em família substituta. No segundo item, traremos considerações a respeito da escuta da criança e do adolescente. Já no terceiro, serão feitas considerações a respeito do Serviço de Acolhimento enquanto espaço de real acolhida, encerrando com as considerações finais.

1 - OS DESAFIOS DA COLOCAÇÃO EM FAMÍLIA SUBSTITUTA

A convivência familiar e comunitária é um direito fundamental de crianças e adolescentes garantido pela Constituição Federal (artigo 227) e pelo Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). Em seu artigo 19, o ECA estabelece que toda

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ESTADO DE SÃO PAULO ESCOLA JUDICIAL DOS SERVIDORES - EJUS criança e adolescente tem direito a

criança e adolescente tem direito a ser criado e educado por sua família e, na falta desta, por família substituta. Lembramos que a colocação em família substituta é uma medida jurídica aplicada nos casos em que não é possível o retorno de crianças e adolescentes à sua família natural. Das modalidades de colocação em família substituta, a adoção é o último recurso e, conforme prevê o ECA no artigo 39, § 1º, constitui medida excepcional e irrevogável, à qual se deve recorrer apenas quando esgotadas as possibilidades de manutenção de crianças e adolescentes na família natural ou extensa, visto que representa a ruptura definitiva de vínculos construídos entre crianças e adolescentes e sua família biológica. Neste contexto, constituir vínculos numa nova configuração forma a base dos desafios inerentes à colocação de crianças e adolescentes em família substituta, na modalidade de adoção, apresentados cotidianamente na prática profissional das equipes técnicas das Varas da Infância e Juventude do Tribunal de Justiça de São Paulo.

Dentre as diferentes percepções acerca do tema, destacamos aspectos objetivos e subjetivos que envolvem o trabalho profissional na adoção: a avaliação psicológica e social, a preparação dos pretendentes, o perfil da criança ou adolescente pretendido, a escuta e preparação das crianças e adolescentes, o trabalho dos serviços de acolhimento com crianças e adolescentes disponíveis à adoção, a aproximação entre adotantes e adotados, as orientações e acompanhamento no estágio de convivência e até mesmo os casos que envolvem a “devolução” de crianças e adolescentes. Consideramos de extrema importância a fase que precede o momento da colocação da criança ou adolescente em família substituta; é nessa etapa de preparação e avaliação que podem ser observados diversos aspectos objetivos e subjetivos relacionados às fantasias, preconceitos, medos e expectativas, sendo fundamental que sejam aprofundados à medida em que os vínculos e os papéis vão se construindo e sendo definidos. Segundo Faleiros e Moraes (2014, p. 30), o vínculo é uma relação particular com o objeto desejado.

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ESTADO DE SÃO PAULO ESCOLA JUDICIAL DOS SERVIDORES - EJUS Falar de vínculo afetivo é falar

Falar de vínculo afetivo é falar de um tipo particular de relação com outrem. De uma dinâmica em contínuo movimento que funciona acionada ou movida por emoções, sentimentos, motivações psicológicas, envolvendo o desejante e o desejado e o reconhecimento do querer-se.

Diante da subjetividade que envolve a vinculação afetiva, identificamos no processo de avaliação dos pretendentes, tanto no âmbito do Serviço Social quanto Psicologia, a manifestação de um discurso racionalizado, ou seja, pouco reflexivo quanto aos aspectos que envolvem as reais motivações da adoção, condições estas que vão sendo acessadas e abordadas ao longo da avaliação. Consideramos um avanço no processo de adoção a inclusão de etapa de preparação psicossocial e jurídica, conforme o art. 50 do ECA. Tal normativa, cuja nova redação foi dada pela Lei n.º 12.010/09, favorece o contato com a realidade das crianças e adolescentes disponíveis à adoção, contribuindo para o rompimento dos mitos que envolvem esse cenário. Destacamos que os desafios da colocação em família substituta são constitutivos da própria complexidade da demanda, visto que o êxito da integração familiar depende de diversificados aspectos, característicos da vinculação socioafetiva, ou seja, de momentos de encontros e desencontros entre adotantes e adotados numa fase delicada de aproximação. Outro aspecto importante está relacionado à idealização da criança desejada. Se, por um lado, a idealização é inerente ao processo da adoção, por outro, precisa ser elaborada para a aceitação da criança real, tal como ela se apresenta.

Faz-se necessário estar atento às demandas trazidas pelos pretendentes para que a avaliação potencialize espaço de reflexão sobre as motivações para a concretização da adoção, tais como: tentativas sem êxito de técnicas de reprodução assistida, sensação de fracasso, motivação altruísta, indiferenciação da filiação biológica e adotiva, entre outros. É importante considerar que todos os envolvidos (criança ou adolescente, pretendentes e técnicos) trazem suas histórias e experiências, cada um com sua perspectiva do processo da adoção. Neste contexto, um desafio emergente a ser enfrentado se refere às campanhas de incentivos à adoção tardia promovidas com apoio do CNJ em

TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO ESCOLA JUDICIAL DOS SERVIDORES - EJUS diferentes

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ESTADO DE SÃO PAULO ESCOLA JUDICIAL DOS SERVIDORES - EJUS diferentes estados da federação. Acreditamos que

diferentes estados da federação. Acreditamos que tais práticas precisam ser vistas com criticidade e ressalvas, considerando que a adoção deve ser fruto de uma decisão amadurecida, e não resultado de sensibilização e apelo emocional. Nestas situações, onde não se prevê um período de preparação dos postulantes, as consequências, de eventual dano, serão apresentadas durante a evolução de uma tentativa de aproximação, o que poderá gerar frustação na constituição de novos laços socioafetivos, responsabilizando crianças e adolescentes pelo fracasso. Salientamos que a promoção de adoção nestes moldes poderá trazer sérios prejuízos às crianças e adolescentes (principais interessados). Isso não significa que as adoções tardias não devam ser incentivadas, porém deve-se ter cautela e buscar estratégias que não exponham as crianças e adolescentes, respeitando-as enquanto sujeitos de direitos. Outra questão premente se refere ao lugar de relevância que a escuta de crianças e adolescentes ocupa neste processo de colocação em família substituta, bem como na indefinição a respeito de quem seria essa atribuição: do serviço de acolhimento, do judiciário ou dos demais atores da rede. Quanto a este aspecto, não existe consenso nas diversas comarcas do estado. Em contrapartida aos desafios encontrados, existem indicadores que podem contribuir para a efetivação da adoção de forma exitosa. Um deles é o apoio da família extensa dos pretendentes no processo da adoção. Outro seria a rede de atendimento, tanto na preparação da criança como no acompanhamento pós- adoção. A recepção e acolhimento pelos familiares em relação à criança ou adolescente e aos adotantes podem ser fundamentais em alguns casos e a rede de serviços também contribui, principalmente na atenção psicológica mais direcionada às crianças e adolescentes sob medida de acolhimento e em processo de adoção. A preparação psicossocial e jurídica dos pretendentes, se realizada com qualidade e de forma a proporcionar reflexão, também é um espaço que pode favorecer o processo de adoção, que se caracteriza por ser um ato cercado de incompreensões que, se não trabalhadas, poderão se revelar negativamente nas relações cotidianas entre adotantes e adotados. É de conhecimento que, em algumas comarcas, tal procedimento ainda não foi sequer implementado.

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ADOLESCENTE

A

IMPORTÂNCIA

-

DA

ESCUTA

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CRIANÇA

- EJUS 2 ADOLESCENTE A IMPORTÂNCIA - DA ESCUTA DA CRIANÇA E DO Apenas em 1990,

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Apenas em 1990, a partir da aprovação do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), previu-se alguma possibilidade de ouvir crianças e adolescentes acerca dos seus interesses e das decisões a seu respeito. Posteriormente, com as alterações ocorridas no ECA a partir da Lei n.º 12.010/09, houve uma especificação dessa escuta considerando as peculiaridades do desenvolvimento infanto-juvenil e a participação de especialistas que atuam nessa área.

O §1º do art. 28 do Estatuto sempre determinou que, havendo possibilidade, a criança ou o adolescente deve ser ouvido e sua opinião considerada, nos procedimentos de colocação em família substituta. Contudo, a alteração legislativa detalhou essa prerrogativa conferida à criança ou adolescente, explicando que a colheita de sua opinião deve ser feita por equipe interprofissional, e sempre respeitando seu estágio de desenvolvimento e grau de compreensão sobre as implicações da medida de colocação em família substituta. (ROSSATO et al, 2014, p. 179)

Convém esclarecermos que a escuta de crianças e adolescentes é também uma diretriz preconizada por normativa internacional:

] [

12 da Convenção dos Direitos da Criança. No dispositivo da norma internacional de direitos humanos fica determinado que os Estados devem assegurar à criança que estiver capacitada a formular seus próprios juízos, o direito de expressar suas opiniões livremente sobre todos os assuntos relacionados a si, levando-se devidamente em consideração essas opiniões, em função de sua idade e maturidade. (ROSSATO et al, 2014, p. 179 )

impende ressaltar que o Estatuto alinha-se perfeitamente ao art.

A redação atual do artigo 28 do ECA, § 1º, dispõe que:

Sempre que possível, a criança ou o adolescente será previamente ouvido por equipe interprofissional, respeitado seu estágio de desenvolvimento e grau de compreensão sobre as implicações da medida, e terá sua opinião devidamente considerada. (BRASIL,

1990)

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ESTADO DE SÃO PAULO ESCOLA JUDICIAL DOS SERVIDORES - EJUS Dessa forma, tem-se que crianças e

Dessa forma, tem-se que crianças e adolescentes devem ser ouvidos sempre que decisões a seu respeito tiverem de ser empreendidas, sendo imprescindível a escuta, tanto no que se refere ao acolhimento institucional (ao longo da processualidade da institucionalização), quanto ao seu desejo, preparo, aproximação e colocação em família substituta. Ressalta-se, assim, a importância de crianças e adolescentes serem ouvidos, opinarem sobre a sua situação e terem sua opinião considerada. Nesse processo, é fundamental que a criança possa compreender desde o início a finalidade da medida protetiva, que pode ser sentida, em muitos casos, como uma violência. Segundo Bernardi (2014, p. 204):

É com a manutenção de um diálogo permanente com a criança e o adolescente acolhidos, considerando suas particularidades, potencialidades, facilidades e dificuldades, que, juntos, podem recuperar a história de vida deles, ressignificar suas experiências e possibilitar sua participação em decisões que dizem respeito a seu destino, considerando a linguagem apropriada para sua idade e maturidade.

Textos legais, como o ECA e o Plano Nacional de Proteção, Promoção e Defesa do Direito à Convivência Familiar e Comunitária (PNCFC), preconizam que todas as decisões a respeito de crianças e adolescentes em serviços de acolhimento devem ser compartilhadas com estes.

Sendo a criança e o adolescente sujeito de direitos, é necessário reconhecer suas habilidades, competências, interesses e necessidades específicas, ouvindo-os e incentivando-os inclusive por meio de espaços de participação nas políticas públicas à busca compartilhada de soluções para as questões que lhes são próprias. (BRASIL, 2006, p.66)

Neste sentido, o Plano Individual de Atendimento (PIA) é o instrumento que tem a função de garantir a direcionalidade do projeto a ser desenvolvido a partir principalmente da escuta do acolhido e também de sua família.

A elaboração do Plano de Atendimento Individual e Familiar deve envolver uma escuta qualificada da criança, do adolescente e de sua família, bem como de pessoas que lhes sejam significativas em seu convívio, de modo a compreender a dinâmica familiar e as relações

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ESTADO DE SÃO PAULO ESCOLA JUDICIAL DOS SERVIDORES - EJUS estabelecidas com o contexto. É necessário

estabelecidas com o contexto. É necessário que a criança, o adolescente e as famílias tenham papel ativo nesse processo e possam, junto aos técnicos e demais integrantes da rede, pensar nos caminhos possíveis para a superação das situações de risco e de violação de direitos, participando da definição dos encaminhamentos, intervenções e procedimentos que possam contribuir para o atendimento de suas demandas. Orientações técnicas: Serviços de Acolhimento para Crianças e Adolescentes (CONANDA,CNAS, 2009, p. 29)

Assim, é imprescindível escutar as crianças e adolescentes, pois a colocação em família substituta é uma medida que resultará em profundas mudanças em suas vidas. Importante demarcar que falamos de um tipo específico de escuta: aquela que considera e reitera a criança e o adolescente enquanto sujeitos de direitos. Nessa perspectiva, conveniente a reflexão trazida por Lewgoy e Silveira (2007, p.

240):

Escutar implica ouvir; contudo, a recíproca não é verdadeira. Quem escuta ouve; mas quem ouve não necessariamente escuta. Daí o dito popular: “Entrou por um ouvido e saiu pelo outro”. Ouvir é uma capacidade biológica que não exige esforço do nosso cérebro, enquanto escutar decreta trabalho intelectual, pois após ouvir há que se interpretar, avaliar, analisar e ter uma atitude ativa.

Especificamente sobre a escuta de crianças e adolescentes que serão encaminhados à adoção, Bernardi (2015, p. 226) alerta que:

Trabalhar com crianças e adolescentes disponíveis para a adoção diz respeito a ouvi-los sobre si mesmos, sobre sua história pessoal e familiar; implica uma postura de escuta respeitosa, cuidadosa, atenta, que permita à criança e ao adolescente a livre expressão de suas visões para um projeto de vida pessoal e único; visa ouvi-los sobre seus desejos, seus medos, fantasias e questões sobre a possibilidade de viverem a experiência da adoção; buscar com eles como lidam com os rompimentos de vínculos vividos com sua família de origem, da possível separação dos companheiros do abrigo e, principalmente, suas possibilidades para construção de novos laços parentais; mais do que buscar o que lhes falta, urge encontrar com eles a possibilidade que têm de efetivar seus talentos e anseios de vida.

TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO ESCOLA JUDICIAL DOS SERVIDORES - EJUS A

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ESTADO DE SÃO PAULO ESCOLA JUDICIAL DOS SERVIDORES - EJUS A autora traz ainda importante reflexão

A autora traz ainda importante reflexão sobre a escuta de crianças pequenas, pontuando que:

Para respeitar o direito das crianças pequenas de serem ouvidas é necessário que os adultos estejam preparados para escutar as suas opiniões da maneira mais adequada: mediante a música, o movimento, a dança, a narração de contos, os jogos de regras, a pintura e a fotografia, assim como através do diálogo convencional. (BERNARDI, 2015, p. 226)

A história de vida e a carga cultural das crianças e adolescentes precisam ser respeitadas. Escutar uma criança é também estar atento às expressões não verbais de modo a garantir seus direitos. Segundo Bernardi, há um espaço reduzido de expressão dos desejos das crianças e adolescentes nas Varas da Infância e Juventude. Embora exista previsão legal, observamos que, no cotidiano, o trabalho desenvolvido junto às crianças e adolescentes institucionalizados não lhes garante necessariamente o direito de serem escutados. Por exemplo: na processualidade da adoção, enquanto os pretendentes possuem uma série de quesitos para escolher o perfil em relação ao filho desejado, nem sempre a criança ou adolescente pode, ou é chamado, a se manifestar acerca da família que gostaria de ter. Assim, temos que a escuta, em geral, privilegia o adulto adotante e não a criança e adolescente. Em uma cultura adultocêntrica, torna-se relevante pontuarmos que a importância investida na fala da criança e do adolescente está relacionada à concepção que os profissionais têm a respeito de infância. Nesse sentido, não é incomum a criança e o adolescente serem considerados imaturos e incapazes, sem autorização para expressarem sua opinião, sendo hierarquizado o lugar do adulto como o detentor do poder.

Muitas são as maneiras de se trabalhar com a criança, visando à sua colocação em família substituta para fins de adoção. Contudo, como um adulto aborda e se relaciona com as crianças de seu convívio e a opção dos profissionais por este ou aquele modelo de intervenção são determinados, de um jeito ou de outro, pelas representações conscientes e inconscientes acerca da infância e da subjetividade infantil. (PAIVA, 2014, p. 333)

TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO ESCOLA JUDICIAL DOS SERVIDORES - EJUS Não

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ESTADO DE SÃO PAULO ESCOLA JUDICIAL DOS SERVIDORES - EJUS Não obstante, é difícil para os

Não obstante, é difícil para os técnicos lidarem com a expressão dos sentimentos das crianças e adolescentes, por exemplo, quando esses últimos

manifestam o desejo de não serem adotados. Até mesmo o luto vivenciado pela criança ou adolescente em decorrência da separação de sua família de origem não

é valorizado, havendo uma desconsideração quanto ao tempo necessário para a elaboração das perdas e rompimento de vínculos.

Os próprios profissionais da Psicologia e Serviço Social, tanto das Varas

da Infância e Juventude como dos Serviços de Acolhimento, de certa maneira compartilham da impotência vivida pelas crianças e adolescentes, vez que a voz dos profissionais também não é ouvida em muitas situações. As tênues fronteiras entre o tempo da lei e o tempo de cada pessoa envolvida nos processos nos levam a conviver com a angústia de acolhidos que não conseguem compreender ou suportar

a espera por definições para suas vidas.

A escuta das crianças e adolescentes pode assumir diferentes

direcionamentos dependendo do tipo de processo judicial. No que se refere às situações que envolvem disputas de guarda, a fala das crianças e adolescentes vem sendo bastante solicitada e valorizada. No entanto, aqueles que cumprem medidas socioeducativas e os que se encontram acolhidos institucionalmente não parecem ter sua voz tão requisitada e considerada.

Com essa prática, entendemos que é mantida a dicotomia da infância que aporta ao judiciário, ou seja, a “infância em perigo”, que deve indicar quem são seus algozes, e a “infância perigosa” que, por se constituir em uma ameaça social, não deve se expressar (Donzelot, 1986, p.92). No primeiro caso, temos pais calados e crianças que falam, ou cujos desejos devem decidir questões jurídicas em nome de seus direitos. No segundo grupo, vozes caladas, sem eco, cujos pais, na maior parte das vezes, também já foram calados pelo aparelho de Estado, no qual o som de suas vozes não possui volume suficiente para se fazer valer, ou quem sabe, argüir sobre os direitos de suas crianças, retirando-as das amarras do Estado. (BRITO et al, 2006, p. 72)

Também é notória a valorização da fala das crianças e adolescentes em situações referentes à violência sexual. Assunto em pauta e que recentemente recebeu disciplinamento legal foi a Escuta Especializada e Depoimento Especial, onde a fala está ligada diretamente à produção de provas. Trata-se de metodologia

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ESTADO DE SÃO PAULO ESCOLA JUDICIAL DOS SERVIDORES - EJUS que não se propõe a escutar

que não se propõe a escutar o que aquela criança tem a dizer, mas apenas a ouvi- la, buscando conduzi-la a falar sobre determinado assunto. Observamos que no âmbito das Varas da Infância e Juventude a escuta da criança e adolescente ainda está em processo de construção e consideramos que deve envolver todos os atores que atuam com esse público, especialmente quando se trata de crianças e adolescentes que estão em medida protetiva. Ademais, as famílias de origem também devem ser escutadas, o que nem sempre ocorre: vários são os fatores que concorrem para essa situação. Um deles se relaciona à perspectiva sob a qual família é vista: tal como na lida com crianças e adolescentes, a concepção do profissional (leia-se especificidade técnica e consequentes compromissos éticos-políticos) também influencia a visão sobre o tema.

Outrossim, além de questões subjetivas, é importante pontuarmos os entraves objetivos, como a insuficiência e precariedade dos serviços públicos. É realidade majoritária que os equipamentos de saúde, educação, assistência social e demais políticas públicas não estão estruturados conforme previsto na legislação correlata. Nessa esteira, nós, assistentes sociais e psicólogos do judiciário, também enfrentamos precariedades cotidianas e de várias modalidades para o desempenho da função.

Compreendemos que, para que crianças e adolescentes ocupem o lugar de sujeito diante da situação vivenciada e possam ter um espaço de escuta e acolhida para expressar seus desejos, medos e fantasias, é necessário que o profissional reflita sobre suas concepções de infância e que esteja preparado técnica e eticamente para verdadeiramente escutar aquela criança ou adolescente.

consideramos importante estarmos atentos às sinalizações da

criança do que ela pode ou deseja fazer com sua história, de que

maneira se relaciona com ela. Deseja falar, se calar, esquecer, fabular? Só podemos nos relacionar de forma respeitosa e não invasiva se somos capazes de escutar a criança. (SOUZA et al,

2016)

] [

Não obstante, para que o trabalho seja efetivo, é necessário que todos os envolvidos estejam alinhados a essa concepção, destacando-se a necessária

TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO ESCOLA JUDICIAL DOS SERVIDORES - EJUS articulação

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ESTADO DE SÃO PAULO ESCOLA JUDICIAL DOS SERVIDORES - EJUS articulação entre a equipe do serviço

articulação entre a equipe do serviço de acolhimento e a do Judiciário desde o início

do acolhimento, o que implica em uma postura ética.

3 - O SERVIÇO DE ACOLHIMENTO INSTITUCIONAL DE CRIANÇAS E ADOLESCENTES ENQUANTO ESPAÇO DE REAL ACOLHIDA

A colocação em família substituta engloba vários elementos que são

intrínsecos, dentre eles o acolhimento institucional.

Bernardi (2014) faz um retrospecto bastante rico sobre acolhimento

institucional e familiar, trazendo dados de pesquisas de crianças e adolescentes

acolhidos institucionalmente no Brasil, contextualizando esta realidade.

A autora pontua que as mudanças implementadas desde a criação do

Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) até a Lei Nacional da Adoção de 2009

buscaram direcionar as ações de proteção da infância e da família, redefinindo

prioridades. Na teoria, os serviços de acolhimento passaram a ter a reintegração

familiar como um de seus objetivos, preservando os vínculos existentes.

Embora a legislação indique que questões socioeconômicas não devem

motivar o acolhimento institucional, o que se observa na prática é que as famílias

atendidas pelos serviços de acolhimento acabam sendo responsabilizadas por suas

dificuldades e são vistas com descrédito, não sendo devidamente levada em

consideração a precariedade das políticas públicas.

Em alguns casos, famílias que se encontram em situação de

vulnerabilidade social podem compreender a medida de acolhimento institucional

como uma forma de garantir a subsistência básica dos filhos, bem como de resolver

dificuldades de relacionamento e conflitos familiares. Isso pode ser explicado

considerando resquícios históricos de uma época na qual a institucionalização era

tida como alternativa melhor que a própria família.

Durante longos períodos da história brasileira a institucionalização foi tida

como principal meio de educar e proteger, sobretudo, para as crianças e

adolescentes oriundos de famílias pobres. Havia uma cultura de institucionalização

com grandes instituições totais, atendimento massificado e de longa permanência.

Espaços isolados da sociedade, onde realizavam todas as atividades coletivamente,

sem respeito às necessidades e individualidades. A instituição era o lugar para onde

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ESTADO DE SÃO PAULO ESCOLA JUDICIAL DOS SERVIDORES - EJUS se levava o filho na perspectiva

se levava o filho na perspectiva de que ele tivesse uma realidade futura diferente da que teria caso permanecesse sob os cuidados de sua família de origem (Cardoso,

2017).

Foi com o advento do Estatuto da Criança e do Adolescente que a cultura da institucionalização começou a ser combatida, priorizando a convivência familiar e comunitária e reconhecendo a família enquanto grupo fundamental e ambiente mais propício ao desenvolvimento de seus membros. No entanto, a realidade atual aponta um grande número de acolhimentos de crianças e adolescentes realizados devido à situação de “negligência familiar”. Diante do fato, é necessário refletir a respeito deste conceito, visto que engloba visões subjetivas e culturais. O último levantamento nacional de Crianças e Adolescentes em Serviço de Acolhimento - 2010, realizado pelo Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome (MDS) em parceria com a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), apontou a negligência como a causa mais frequente de acolhimento. Dentre os acolhidos, observou-se a predominância de meninos pardos e negros e com idades entre 6 a 11 anos - perfil este que dificilmente é aceito pelos pretendentes à adoção, dos quais 92,7% desejam crianças de até 5 anos (CNJ, 2013). Diante da ausência de políticas públicas efetivas, muitas vezes a adoção é vista como uma resolução mágica de todos os problemas, enquanto deveria ser uma medida excepcional, destinada a situações muito específicas. Além disso, analisando os dados mencionados, constatamos que as chances de adoção são remotas para muitas das crianças e adolescentes acolhidos. Assim, independentemente do encaminhamento tomado, no serviço de acolhimento os potenciais das crianças e adolescentes podem e devem ser desenvolvidos. Neste sentido, deve-se estar atento para não se assumir um discurso extremista, seja pela supervalorização da adoção seja pela desvalorização do acolhimento, podendo este último, do nosso ponto de vista, ser entendido como um lugar de promoção de autonomia, reparação e desenvolvimento, ainda que possua caráter provisório. O serviço de acolhimento deve ser o local onde as crianças e os adolescentes conseguem se sentir fortalecidos, sendo, muitas vezes, o único espaço em que podem receber cuidados e afeto. Souza et al (2016, p. 42), fundamentada nos apontamentos de Winnicott, concebe o serviço de acolhimento como:

TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO ESCOLA JUDICIAL DOS SERVIDORES - EJUS Um

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ESTADO DE SÃO PAULO ESCOLA JUDICIAL DOS SERVIDORES - EJUS Um lugar de cuidado e não

Um lugar de cuidado e não de abandono, capaz de promover experiências fundantes e reparatórias no psiquismo da criança. Quando a família, por algum motivo, não pode oferecer estas condições, outros adultos podem ocupar o lugar de atenção e cuidado, desde que possam investir e envolver-se com a criança.

Entretanto, ainda hoje, o serviço de acolhimento é considerado como um lugar de desamparo e insegurança. Tal fato, além de motivar desligamentos equivocados e precipitados, pois há falta de profissionais com qualificação e em número suficiente para atender à demanda, acrescido à pressão pelo cumprimento de prazos, dificulta a realização de uma avaliação aprofundada. Em muitas ocasiões a atuação dos envolvidos tem como foco o desacolhimento e não as reais necessidades da criança e da família da qual faz parte. Nesse contexto, consideramos importante valorizar o educador do serviço de acolhimento, profissional que raramente é ouvido, por vezes até negligenciado pelos diferentes atores da rede de proteção, incluindo-se o Poder Judiciário. Há mais investimento na adoção do que nos serviços ofertados. Fato contraditório, considerando que o Brasil conta com um aparato legal que propõe planejamento de ações integradas visando a garantir o direito à convivência familiar e comunitária e compreende a importância da melhoria da qualidade dos serviços de acolhimento em todo o Brasil, tais como: o Plano Nacional de Promoção, Proteção e Defesa do Direito à Convivência Familiar e Comunitária e o documento de Orientações Técnicas: Serviço de Acolhimento de Crianças e Adolescentes. Diante disso tudo, Souza et al (2016) nos convidam a uma reflexão: até que ponto algo que deve ser provisório (medida protetiva de acolhimento) não pode ser de qualidade. O caráter de brevidade atribuído por vezes se mostra como uma contradição nos cuidados oferecidos (muitas vezes por falta de esclarecimento e conhecimento sobre vinculação e cuidados na infância). Nesse sentido, as autoras, baseadas nas ideias de Marin (1999), concluem que:

Os abrigos podem propiciar boas condições para as crianças se desenvolverem. Para isso os profissionais deveriam relativizar o modelo de família como único possível, bem como precisariam lidar com o desamparo dessas crianças e com o deles próprios. Assim, poderiam valorizar o seu lugar de educador e oferecer à criança

TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO ESCOLA JUDICIAL DOS SERVIDORES - EJUS possibilidades

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ESTADO DE SÃO PAULO ESCOLA JUDICIAL DOS SERVIDORES - EJUS possibilidades de entrar em contato com

possibilidades de entrar em contato com sua história, elaborar suas experiências e se abrir para outras perspectivas de futuro.

Ressaltamos, neste sentido, a importância do trabalho executado pela equipe técnica do serviço de acolhimento junto às crianças, adolescentes e famílias. Tais profissionais, muitas vezes, não conseguem efetivar um trabalho técnico de qualidade porque se encontram sobrecarregados, realizando funções que extrapolam suas atribuições. Há que se considerar também que tais profissionais são submetidos a elevado índice de rotatividade em função das precárias condições de trabalho e baixos salários.

4 - CONSIDERAÇÕES FINAIS

São muitos os desafios encontrados na colocação de crianças e adolescentes em família substituta, dada a complexidade intrínseca ao processo de adoção. Muitos também são os desafios dos profissionais que lidam diariamente com esta temática, ainda mais no contexto atual de importantes mudanças nas leis vigentes, as quais, muitas vezes, têm se encaminhado no sentido contrário ao da valorização da escuta de crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade. A compreensão da diferença entre ouvir (e suas variantes encontradas em oitivas e depoimentos, por exemplo) e escutar (base de atuação do psicólogo e do assistente social no contexto judiciário) se coloca como essencial para a construção do lugar que é dado à criança e ao adolescente, bem como à sua família de origem e aos pretendentes à adoção. Escutar, no sentido ampliado do termo, todos os atores envolvidos na colocação em família substituta (crianças e adolescentes, família de origem, profissionais das instituições de acolhimento, pretendentes à adoção, entre outros) se coloca ao mesmo tempo como desafio e condição para a realização de um trabalho engajado e efetivo, com vistas à garantia de direitos.

REFERÊNCIAS: TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO ESCOLA JUDICIAL DOS SERVIDORES - EJUS

REFERÊNCIAS:

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TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO ESCOLA JUDICIAL DOS SERVIDORES - EJUS EXPERIÊNCIAS

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ESTADO DE SÃO PAULO ESCOLA JUDICIAL DOS SERVIDORES - EJUS EXPERIÊNCIAS EXITOSAS NO ATENDIMENTO AO ADOLESCENTE

EXPERIÊNCIAS EXITOSAS NO ATENDIMENTO AO ADOLESCENTE EM CONFLITO COM A LEI NA EXECUÇÃO DA MEDIDA DE INTERNAÇÃO

GRUPO DE ESTUDOS DA CAPITAL

ADOLESCENTE EM CONFLITO COM A LEI

TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO

2017

COORDENAÇÃO TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO ESCOLA JUDICIAL DOS SERVIDORES - EJUS

COORDENAÇÃO

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ESTADO DE SÃO PAULO ESCOLA JUDICIAL DOS SERVIDORES - EJUS Elaine Cristina Major Pavanelo – Assistente

Elaine Cristina Major Pavanelo Assistente Social Judiciário Varas Especiais da Infância e Juventude

AUTORAS

Fernanda Caldas de Azevedo Assistente Social Judiciário Varas Especiais da

Infância e Juventude

Iara Dourado Nogueira Giotto Assistente Social Judiciário Comarca de Amparo

Inês Aparecida do Nascimento Sztybe Assistente Social Judiciário da Vara da

Infância e Juventude do Fórum Regional de São Miguel

Josiane Biondo Assistente Social Judiciário Varas Especiais da Infância e

Juventude

Maria Gorette Fernandes Assistente Social Judiciário Comarca de Itariri

Natália Teodoro Pimentel Assistente Social Judiciário Varas Especiais da

Infância e Juventude

Nêmora Suely Melo Fernandes Psicóloga Judiciário Comarca de Casa Branca

INTRODUÇÃO TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO ESCOLA JUDICIAL DOS SERVIDORES - EJUS

INTRODUÇÃO

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ESTADO DE SÃO PAULO ESCOLA JUDICIAL DOS SERVIDORES - EJUS O Grupo de Estudos Adolescente em

O Grupo de Estudos Adolescente em Conflito com a Lei objetiva a partir de encontros mensais, com temas anuais, debater assuntos correlatos ao seu nome. No ano de 2017 o Grupo foi composto por assistentes sociais e psicóloga 1 das seguintes comarcas: Amparo, Itariri, Caconde, Casa Branca, São Caetano do Sul e Capital. No caso da Capital, que possui 12 Fóruns Regionais 2 , temos representantes do Fórum de São Miguel e do Fórum das Varas Especiais da Infância e da Juventude/Brás. Este último centraliza todos os processos de apuração de ato infracional e execução de medidas socioeducativas na cidade de São Paulo, bem como de outros municípios, no caso de adolescentes internados(as) em Unidades da Fundação Centro de Atendimento Socioeducativo ao Adolescente (Fundação CASA) localizadas na capital. Pertinente esclarecer que a Fundação CASA em São Paulo é de gestão pública estadual e responsável pelo desenvolvimento das medidas socioeducativas restritivas de liberdade 3 , enquanto as medidas de meio aberto 4 são de responsabilidade do município 5 . Na proposta de estudo do presente ano, o grupo refletiu e debateu sobre práticas exitosas na socioeducação. Para tanto, dedicou-se a leituras de artigos

1 Cabe salientar que algumas dessas trabalhadoras, anterior a vinculação ao Tribunal de Justiça, tiveram experiência profissional vinculada à Fundação CASA e que no decorrer da discussão anual, pontuaram a diferença de olhares quando, como trabalhadora, encontram-se no Executivo e em outro momento no Judiciário e o quanto essas discussões se complementam, salientando a importância da relação entre os Poderes Públicos.

2

Disponível em:

http://www.tjsp.jus.br/Download/PrimeiraInstancia/FolhetosInformativos/Capital/FolhetoForunsCentrais eRegionais.pdf. Acesso: 12/10/2017.

3

Medidas de Semiliberdade (Artigo 120 do ECA) e Internação (Artigos 121 ao 125 do ECA).

4 Medidas de liberdade assistida (Artigo 118 e 119 do ECA) e Prestação de Serviços à Comunidade (Artigo 117 do ECA).

O Decreto-Lei nº 200 de 25 de Fevereiro de 1967 que implantou a Reforma Administrativa Federal traz a diferença entre Administração Direta (artigo 4º - I) e Administração Indireta (artigo 4º - II a d). A Constituição Federal de 1988 em seu artigo 175 reafirma a possibilidade da gestão indireta através de licitação. Ainda determina que a competência da União se restrinja à coordenação nacional e à formulação de regras gerais do atendimento, enquanto os Estados, o Distrito Federal e os Municípios deverão gerenciar, coordenar e executar programas de atendimento no âmbito de suas competências. Aproximando-se do nosso objeto de estudo, o ECA traz em seu artigo 88 a municipalização do atendimento como uma das diretrizes da política de atendimento.

5

TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO ESCOLA JUDICIAL DOS SERVIDORES - EJUS científicos

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ESTADO DE SÃO PAULO ESCOLA JUDICIAL DOS SERVIDORES - EJUS científicos que compartilhassem diferentes experiências de

científicos que compartilhassem diferentes experiências de trabalho, mas sempre alinhadas ao Paradigma da Proteção Integral 6 . A relevância do tema do ano de 2017 se coloca na percepção de que “a abundância de experiências negativas em relação às exitosas no contexto

pode reforçar algumas concepções que relacionam o

comportamento infrator a um alto padrão de repetição e estabilidade” (COSTA, 2005), o que nos convida à análise crítica da realidade. Da mesma forma, esta construção mobilizou o grupo especialmente por dois aspectos. O primeiro, o atual contexto de retração dos direitos que ao se alinhar a já falha percepção de abandono da fase da adolescência, se comparada com a infância, aponta desafios e mais, nos incitam à criação de alternativas críticas e

garantistas. Secundariamente, mas não menos importante, por este grupo tratar-se de sujeitos-trabalhadoras que se percebem comprometidas com a contínua necessidade da qualificação profissional a partir das demandas identificadas no cotidiano de trabalho. Assim, para conceituar o que vem a ser uma prática exitosa partimos de dois procedimentos metodológicos. O primeiro, tendo em vista que algumas integrantes do Grupo trabalham diretamente com adolescentes que cometeram ato infracional, estas puderam observar empiricamente no decorrer das entrevistas realizadas, as referências positivas realizadas pelos (as) adolescentes a projetos desenvolvidos na Fundação CASA.

Este movimento permitiu tanto a identificação destes Projetos quanto vislumbrou a possibilidade de estabelecer contato com a instituição a fim de acessar maiores informações.

socioeducativo, (

)

6 É a segunda fase de tratamento destinado às crianças e adolescentes no Brasil, de forma tardia a partir da Constituição Federal de 1988 em seu artigo 227, que é complementado pelo ECA em seu artigo 4º que traz o dever da família, da sociedade e do Estado no assegurar à criança, ao adolescente e ao(a) jovem direitos por meio de políticas de promoção e de defesa. Importante salientar que há uma diferença temporal entre a visão normativa e a visão sociocultural, que não caminham na mesma velocidade levando às mudanças de paradigma.

TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO ESCOLA JUDICIAL DOS SERVIDORES - EJUS Nesta

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ESTADO DE SÃO PAULO ESCOLA JUDICIAL DOS SERVIDORES - EJUS Nesta tentativa, enfrentamos a questão burocrática

Nesta tentativa, enfrentamos a questão burocrática que não permitiu o acesso a informações tanto via telefone quanto por meio de ofício, autorizado pelo Tribunal de Justiça/SP, com identificação e intenções do Grupo. Diante do insucesso, houve motivação à busca por meio de sítios públicos destes Projetos. Assim, nos detivemos especialmente em três atividades Projeto Guri, Projeto Yam e Associação Águia, que serão abordados no decorrer desta produção. Trata-se de ações que possuem cunho pedagógico não exigidas pelos parâmetros legais e, normalmente, realizadas por organizações da sociedade civil, remuneradas ou não, externas à instituição. Essa percepção não se coloca como um estímulo à desresponsabilização estatal, mas ao contrário, aponta a possibilidade, a partir da identificação de necessidades que configuram demandas para ampliação e/ou novas políticas públicas que alcancem os (as) adolescentes, colaborando diretamente com seus processos de reflexão e responsabilização retrospectiva (atos praticados) e prospectiva (planos de vida). O (a) adolescente, portanto, é reconhecido também por sua potência. O conceito de responsabilização abordado no artigo encontra-se fundamentado em Souza (2016). Aliado a isso, como segundo procedimento metodológico, realizamos uma dinâmica grupal na qual cada profissional pôde refletir sobre a questão disparadora - Quais aspectos envolvem uma condução ideal de medida socioeducativa? Os aspectos mais abordados são a seguir apresentados estatisticamente:

32% políticas públicas fortalecidas incluindo aqui Programa de Egresso e Envolvimento do (a) adolescente e de sua família no decorrer do cumprimento da medida socioeducativa compreendendo seus protagonismos; 12% envolvimento do (a) adolescente, da família, da equipe técnica e dos serviços da rede; 24% traz a escuta do (a) adolescente abarcando a sua narrativa ao apresentar e reconstruir sua história de vida e este aspecto se relaciona com acolhimento e escuta de qualidade; permitir que o (a) adolescente não reflita somente sobre o ato, mas também sobre seus planos futuros e a importância de uma equipe técnica qualificada e comprometida com o paradigma da Proteção Integral e por fim, em menor proporção, com

TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO ESCOLA JUDICIAL DOS SERVIDORES - EJUS 4%

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ESTADO DE SÃO PAULO ESCOLA JUDICIAL DOS SERVIDORES - EJUS 4% aparece a construção coletiva das

4% aparece a construção coletiva das regras no decorrer do cumprimento da medida de internação; colaboração na construção da compreensão crítica da sociedade por parte do (a) adolescente; identificar as dificuldades e as potencialidades do (a) adolescente; desenvolver a confiança do (a) adolescente nos

atores/instituições envolvidos no processo de socioeducação; ambiente físico adequado; criatividade; respeitar o (a) adolescente desconstruindo o estigma do (a) infrator (a) e reavaliar a própria concepção de medida socioeducativa.

A partir desse levantamento, o grupo se debruçou sobre discussões de

artigos que conceituassem práticas exitosas. Assim, para fins desta produção, conceitua-se práticas exitosas a partir de Teixeira (2003 apud Costa, 2007).

Assim, o artigo em questão, foi organizado em quatro etapas que dialogam

entre si.

O primeiro – “Análise da atual conjuntura brasileira e perspectivas de

políticas públicas para a juventude” referencia o panorama sócio-político brasileiro

determinando a realidade e as possibilidades para o(s)(a)(s) adolescente(s) em conflito com a lei e suas famílias.

O segundo – “Violência e Juventude” aborda a questão da violência de

forma histórica e estrutural, relacionando-se com a institucionalização do(a) adolescente e seu processo de responsabilização.

O terceiro – “Reflexões sobre práticas exitosas” discute à luz dos elementos

como autonomia, fortalecimento de vínculos e projeto de vida, aspectos primordiais

nas medidas socioeducativas para o fomento de ações de proteção com redução de fatores de risco.

O quarto – “Considerações Finais: As possibilidades das ações nas

unidades de internação da Fundação CASA na cidade de São Paulo” abordará os três projetos acima citados, identificados pelos(as) próprios(as) adolescentes atendidos no espaço sociocupacional do Judiciário. Cabe salientar que essa produção trata-se de um “aperitivo” sobre a temática, na tentativa de angariação de forças e parceiros de luta para o cotidiano de trabalho que se enfrenta, exercitando a cidadania de todos os atores envolvidos.

TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO ESCOLA JUDICIAL DOS SERVIDORES - EJUS 1

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ESTADO DE SÃO PAULO ESCOLA JUDICIAL DOS SERVIDORES - EJUS 1 - A ATUAL CONJUNTURA BRASILEIRA

1 - A ATUAL CONJUNTURA BRASILEIRA E AS PERSPECTIVAS DE POLÍTICAS PÚBLICAS PARA A JUVENTUDE

A análise conjuntural torna-se relevante para a particularização do recorte deste estudo, pois relaciona aspectos micro ao contexto macrossocial, reafirmando que para se entender a totalidade, todas as partes, em constante movimento de reconstrução, conformam a realidade social. Entende-se por conjuntura as relações postas a partir da constituição da estrutura, esta última, determinante para o entendimento da lógica dos acontecimentos sociais permeados pelas alianças políticas pensadas para um projeto societário específico que atenda aos interesses dos grupos dominantes e que serão parâmetros para as relações sociais. Assim, a conjuntura política influencia diretamente na garantia dos direitos, na continuidade ou retrocesso das conquistas históricas, fruto de lutas da classe trabalhadora. O Conselho Federal de Serviço Social (CFESS) manifesta publicamente 7 uma importante análise da atual conjuntura brasileira e o posicionamento desta categoria profissional que vem resistindo aos desmando do atual governo neoliberal que demonstra uma direção política em defesa de interesses distintos daqueles da classe trabalhadora. O Conselho reconhece os retrocessos sociais em curso de uma política perversa que aprofunda os processos de exploração da classe trabalhadora com o apoio do Estado. Os pacotes e medidas provisórias que vêm sendo adotados em especial os de caráter social, ampliando a parceria do Estado com a iniciativa privada, sob os pretextos tecnicistas e economicistas de equilíbrio das contas públicas, subtrai direitos político-sociais e precariza as condições de vida da classe trabalhadora impondo gritantes retrocessos. O aprofundamento da dilapidação da Seguridade Social, a destruição da lógica do direito social, os quais estão se materializando ao longo do atual governo com o aval do Poder Executivo em um Congresso cuja corrupção vem sendo denunciada e mostrada à sociedade, repleto de aparatos repressores e por um

7 Disponível em: http://www.cfess.org.br/visualizar/noticia/cod/1268 - Em tempos desiguais, não temeremos! O Serviço Social brasileiro e o contexto de Retrocessos. Acesso em 28/09/2017 às 10h15 min.

TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO ESCOLA JUDICIAL DOS SERVIDORES - EJUS legado

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ESTADO DE SÃO PAULO ESCOLA JUDICIAL DOS SERVIDORES - EJUS legado clientelista aristocrático da sociedade brasileira,

legado clientelista aristocrático da sociedade brasileira, ameaçando direitos sociais e humanos conquistados historicamente pelo povo brasileiro. Na mesma direção, o Conselho Federal de Psicologia (CFP) divulgou nota 8 acerca do momento da conjuntura política e social brasileira, reconhecendo violações e desrespeitos às instituições democráticas, se posicionando em defesa do Estado Democrático de Direito para a promoção da dignidade dos cidadãos brasileiros, em uma sociedade pautada em valores éticos que promovam a justiça social.

Trata-se de um contexto que acirra as desigualdades sociais e explora a população economicamente desfavorecida. Um sistema que criminaliza e desconsidera direitos civis básicos, julgando pública e prematuramente a população empobrecida, mostrando a face de um Estado policialesco, apoiado por uma mídia tendenciosa e ligada a interesses políticos sensacionalistas e distantes de projetos democráticos que engendram comportamentos de rivalidade, animosidade e ódio entre segmentos da sociedade. Por fim, defendem a necessidade de solidariedade aos direitos dos atores sociais que sofrem discriminações de variadas formas em prol da construção de uma sociedade que consolide e respeite os Direitos Humanos. Segundo Leonardo Isaac Yarochewsky 9 , jurista brasileiro, “estamos vivendo um período de crise entre os poderes da República” com inúmeras desavenças internas, incertezas quanto ao futuro da “democracia” brasileira, haja vista que a teia de escândalos políticos e as ações neoliberais de governo remetem- nos a um tempo de Estado de exceção a fundamentais direitos constitucionais, ferindo a credibilidade dos três Poderes constituídos. Nesse contexto reafirmamos que o Estado de exceção sempre foi imposto e vivenciado pelas minorias e ainda mais, pelas minorias periféricas brasileiras. Mesmo não sendo objeto deste artigo, essa passagem nos leva a refletir sobre qual Democracia a história do Brasil se assentou.

8 Disponível em: http://site.cfp.org.br/nota-do-cfp-sobre-o-atual-momento-da-conjuntura-politica-e- social-brasileira/. Acesso: 28/09/17 às 09h47. 9 Disponível em: http://justificando.cartacapital.com.br/2016/12/15/juristas-comentam-atual-conjuntura- politica-no-brasil/ Acesso em: 27/07/2017 às 17h30 min.

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ESTADO DE SÃO PAULO ESCOLA JUDICIAL DOS SERVIDORES - EJUS Nessa direção, Rocha (2016) 1 0

Nessa direção, Rocha (2016) 10 aponta que há uma preocupação de diversos segmentos da sociedade, para que os direitos fundamentais conquistados em 1988, não sejam esquecidos a pretexto de se enfrentar um grave problema como a corrupção. Considerando este contexto e aproximando do objeto de estudo posto neste artigo, constatamos que há um ambiente propício para a retomada da aprovação da proposta da redução da maioridade penal. Realizando uma breve retomada histórica, no ano de 2003, o tema da redução da maioridade penal voltou com força devido à conjuntura de crimes com alto índice de violência praticados por adolescentes (a mídia deu destaque ao "caso Champinha") e de rebeliões recorrentes na antiga FEBEM (principalmente no ano de 2005). Já em 2015, a Câmara dos Deputados aprovou a Proposta de Emenda Constitucional nº 171/1993, que defende a redução da maioridade penal de 18 para 16 anos, no caso de crimes hediondos, homicídio doloso e lesão corporal seguida de morte. A votação ocorreu entre os dias 1º e 2 de julho. A Câmara primeiro rejeitou essa emenda; em nova sessão, aprovou-a em primeira votação. O texto ainda será votado em segundo turno na Câmara e, caso aprovado, no Senado. Essa discussão reafirma o hiato que existe entre a Justiça dos inimputáveis e imputáveis na sociedade brasileira, confirmando a importância da discussão sobre a socioeducação e mais, das próprias políticas públicas que subsidiam os direitos dos sujeitos em sociedade. Desta forma, complementar à socioeducação, as políticas públicas se colocam na direção de um contexto de proteção, que de forma ampliada pode (não sozinha) afastar adolescentes da necessidade socioeducativa. Ao mesmo tempo a socioeducação aliada a um trabalho de rede que articule políticas públicas setoriais, pode colaborar na redução do índice de reincidência infracional juvenil. Assim, a ideia de políticas públicas está associada a um conjunto de ações articuladas com recursos próprios (financeiros e humanos), que envolve uma dimensão temporal (duração) e alguma capacidade de impacto. É também preciso considerar que as decisões envolvendo a implementação de políticas públicas são amplamente produto de conflitos em torno do destino de recursos e bens públicos limitados, ocupando um espectro amplo de negociações e de formação de

10 Disponível em: http://justificando.cartacapital.com.br/2016/12/15/juristas-comentam-atual- conjuntura-politica-no-brasil/ Acesso em: 27/07/2017 às 17h30 min.

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ESTADO DE SÃO PAULO ESCOLA JUDICIAL DOS SERVIDORES - EJUS consenso, mesmo que provisórios. Ela não

consenso, mesmo que provisórios. Ela não se reduz à implantação de serviços, pois engloba projetos de natureza ético-política e compreende níveis diversos de relações entre o Estado e a sociedade civil na sua constituição. No Brasil, compreendendo a adolescência a partir da própria Constituição Federal de 1988 e os aparatos legais que na sequência se colocam como uma conquista recente, podemos observar uma discrepância a partir da dificuldade de implementação daquilo que as bases legais preveem, mantendo-se os olhares ainda distantes da própria adolescência e juventude, denotando a ausência de serviços e instituições voltadas para a demanda desta faixa etária. Mesmo com toda esta dificuldade identificada, aponta-se que esse cenário passa a se alterar no final dos anos de 1990 e início da década atual. Iniciativas públicas são observadas, algumas envolvendo parcerias com instituições da sociedade civil e as várias instâncias do Poder Executivo são mobilizadas. No Brasil, ainda se observa ausência de estudos de como foram concebidas as políticas públicas no século XX destinadas aos jovens, reiterando algumas das orientações latino-americanas que foram determinadas pelos problemas de exclusão dos (as) jovens da sociedade e os desafios de como facilitar- lhes processos de transição e integração ao mundo adulto (Abad, 2002 apud Sposito e Carrano, 2003). O descaso para com os direitos essenciais ao desenvolvimento básico da nossa juventude reafirma importante descaso com as vidas de jovens e famílias vulnerabilizadas. Violências sucessivas se instalam em seus cotidianos e a banalização da violência paralela ao desfoque das questões primordiais aos avanços garantistas continua vitimizando gerações e promovendo retrocessos históricos.

No caso das ações que envolvem a juventude, dois aspectos importantes precisam ser levados em conta. De um lado, a ideia de que qualquer ação destinada aos(às) jovens exprime parte das representações normativas correntes que determinada sociedade constrói. Por outro lado, a conformação das ações e programas públicos não sofre apenas os efeitos de concepção, mas pode, ao contrário, provocar modulações nas imagens dominantes que a sociedade constrói sobre seus sujeitos jovens. Assim as políticas de juventude não seriam apenas o

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ESTADO DE SÃO PAULO ESCOLA JUDICIAL DOS SERVIDORES - EJUS retrato passivo de formas dominantes de

retrato passivo de formas dominantes de conceber a condição juvenil, mas poderiam agir, ativamente, na produção de novas representações. As representações normativas, embora focadas nos jovens, não incidem sobre eles isoladamente. Elas tratam, sobretudo, de universos relacionais: jovens e mundo adulto, este último marcado pelo poder exercido nas instituições, nas quais as possibilidades de interação, de conflito e de solidariedade também se destacam. Este quadro requer que todos os atores sociais participem ativamente e resistam de maneira representativo-coletiva, como forma de enfrentamento aos desmandos e sucateamento das políticas públicas voltadas para a adolescência e a juventude que entendemos ser imprescindíveis às possibilidades de garantia dos direitos, inclusive àquelas em conflito com a lei.

2 - VIOLÊNCIA E JUVENTUDE

A violência acompanha as relações sociais desde tempos imemoriais, mas a cada época histórica ela se manifesta de formas e circunstâncias diferentes. Apesar da constância das diversas formas de violência e dependendo do contexto histórico, até certa naturalização, definir violência é um trabalho complexo. Assim, abordar a temática em questão se colocou como um desafio ao grupo, tendo em vista que dependendo do prisma, o (a) adolescente pode ser aquele que produz a violência (atos infracionais), mas por outro lado, considerando o contexto social abordado anteriormente, ele pode ser violentado por esta. Neste sentido Oliveira (2001 apud Ferrão, Santos, Dias 2016, p. 355) aponta que as estatísticas não corroboram com a ideia de serem os(as) adolescentes os(as) principais responsáveis pelo aumento de violência urbana, revelando que crianças e adolescentes são em maior número vítimas de violência do que autores de atos infracionais. Assis e Constantino (2003 apud COSTA, 2005, [s.p]) observam que a década de 1990 consistiu num grande investimento da comunidade acadêmica em trabalhos sobre violência, infância e adolescência, com especial atenção à infração juvenil. Período que corresponde às mais significativas mudanças nacionais em termos de normativas e leis, orientando mudanças no atendimento ao (à) adolescente em conflito com a lei.

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ESTADO DE SÃO PAULO ESCOLA JUDICIAL DOS SERVIDORES - EJUS Todavia o que se observa são

Todavia o que se observa são as dificuldades de mudança de paradigmas entre legislações e aparatos institucionais, que traduz “abundâncias de experiências negativas em relação às exitosas no contexto socioeducativo, o que pode reforçar algumas concepções que relacionam comportamento infrator a um alto padrão de repetição” (COSTA, 2005 apud FERRÃO, SANTOS e DIAS, 2016, p. 355). Assim, o progresso obtido no tocante às ações voltadas aos jovens envolvidos com a prática infracional no Brasil é bastante restrito, o que confere à questão um tom de prevalência e persistência de experiências negativas. Levantamento oficial IPEA/MJ-DCA (2002) aponta que a medida socioeducativa privativa de liberdade revela um quadro plural que traz a concomitância tanto de dimensões baseadas na atual proposta socioeducativa quanto na própria reprodução das antigas FEBEM’s. Nesta mesma direção, no dia 21/02/2017 foi realizada a vídeo conferência organizada pelo Grupo de Trabalho Adolescente Infrator do Tribunal de Justiça de São Paulo na qual o juiz Dr. Reinaldo Cintra expôs sobre a realidade impactante apurada nas visitas efetuadas para conhecimento das Unidades de Internação no País. Como parte da pesquisa realizada pelo Conselho Nacional de Justiça observou-se expressões de inexistência de equipe técnica ou ausência de capacitação, uma prática baseada “tranca e couro” (sic), inclusive apurando também a existência de “70 adolescentes sem processos” (sic).

Esse contexto reafirma o quadro de desrespeito aos direitos humanos e a não garantia do direito à vida, saúde, liberdade, dignidade, convivência familiar e comunitária, educação, esporte e lazer, indo na direção contrária da Doutrina de Proteção Integral, conforme prevê a Constituição de 1988 Art. 227 e o ECA (Lei 8069/90). Revela-se, ainda nas discussões técnicas realizadas através das interfaces institucionais, o sentimento de impotência que acompanha os profissionais no desempenho de suas funções junto a socioeducação, apontando inclusive os próprios limites institucionais que fortalecem o sofrimento ético-políticos destes. Valemo-nos das informações públicas e consideramos importante destacar que segundo o Boletim Estatístico Semanal da Fundação CASA, em 24/11/2017, existiam 9.229 adolescentes e jovens em programas de atendimento dessa instituição em todo o estado de São Paulo sendo eles: Atendimento inicial; Internação Provisória; Internação; Internação Sanção; Internação Sanção nas UIPs;

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ESTADO DE SÃO PAULO ESCOLA JUDICIAL DOS SERVIDORES - EJUS Protetiva; e Semiliberdade 1 1 .

Protetiva; e Semiliberdade 11 . Os dados apontam a importância de que os programas voltados para a redução do envolvimento com crime e violência sejam compreensivos e direcionados para redução dos fatores de risco e aumento dos fatores de proteção (COSTA, 2007), contemplados pela interseção e complementação entre as políticas públicas. A precariedade da rede socioassistencial e das políticas públicas se reflete no aumento exponencial da violência, as medidas socioeducativas que deveriam ser preventivas e excepcionais quando estas não fossem suficientes tomam uma proporção de imensidão. Dar conta de uma prática profissional que permita uma transformação de fato prescinde de uma rede de serviços articulada e eficiente.

3 - REFLEXÕES SOBRE PRÁTICAS EXITOSAS

A realidade social revela uma série de contradições, incongruências, exclusões e violações de direitos que refletem na vida dos cidadãos, muito especialmente dos (as) adolescentes, os (as) quais são sujeitos em condição peculiar de desenvolvimento em um mundo permeado por valores neoliberais e de consumo extremo. Quando o (a) adolescente infringe as normas e o regramento jurídico

da sociedade, há uma tendência em responsabilizá-lo, sem analisar profundamente

o contexto sociocultural, político e econômico no qual está inserido. Esse é um

grande equívoco, pois, as causas que levam ao conflito com a lei são múltiplas, complementares e históricas. Nesse cenário, devem atuar a família, a sociedade e o

Estado como corresponsáveis nesse enfrentamento. A ocorrência de atos infracionais tem ocupado amplo espaço na mídia

e nas discussões acadêmicas, sendo importante que a sociedade de uma maneira

geral também se aproprie dessa questão e pense alternativas criativas de intervenção e prevenção dessa problemática. Nessa perspectiva alinhando ao estudo deste ano, serão ressaltadas as práticas exitosas desenvolvidas junto aos (às) adolescentes em conflito com a lei,

11 Ressalta-se que esse número está concentrado na medida de internação: 7.267 adolescentes e jovens.

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ESTADO DE SÃO PAULO ESCOLA JUDICIAL DOS SERVIDORES - EJUS conceituadas a partir do potencial que

conceituadas a partir do potencial que tem uma ação na promoção da proteção ao desenvolvimento integral destes. Ainda que raras estas práticas vêm ocorrendo em diversos estados do país, inclusive em São Paulo. Tais ações remetem à possibilidade do contexto socioeducativo instituir-se enquanto locus de experiências bem sucedidas e com resultados positivos como, por exemplo, o aumento da autoestima do(a) jovem, da sua autonomia, do seu protagonismo, da sua responsabilização individual e coletiva, do reconhecimento de habilidades pessoais e sociais, além do fortalecimento dos vínculos afetivos, do autocuidado e da elaboração de projetos de vida realizáveis com o apoio da família e da rede de proteção socioassistencial. Um dos desafios que se estabelece em relação às medidas socioeducativas, é que as ações técnicas não sejam pontuais, isoladas, passageiras e descoladas de um projeto transformador e educativo. É necessário, portanto, que sejam planejadas, executadas, avaliadas e aprimoradas. Caso sejam exitosas, devem ser divulgadas, compartilhadas, debatidas e complementadas. Teixeira (2003 apud Costa, 2007) sinaliza que as boas experiências na aplicação de medida socioeducativa derivam de um adequado plano de atendimento que considere os fatores de risco presentes, os recursos disponíveis e fatores de proteção a serem promovidos, o que sinaliza a importância da elaboração do Plano Individual de Atendimento (PIA) do(a) adolescente.

O PIA caracteriza-se como um instrumento de planejamento, registro e

gestão das atividades pensadas e construídas com a participação do(a) jovem e da sua família. Esse Plano só pode ser elaborado a partir do Diagnóstico Polidimensional que defina as necessidades, dificuldades, potencialidades e capacidades desses(as) jovens, o que particulariza esse processo. São, então, definidas metas, ações, atividades individuais e coletivas, internas e externas, as quais devem ser avaliadas pela equipe multiprofissional de referência, com possibilidade de serem revistas, alteradas, complementadas e ampliadas de acordo com a demanda dos(as) adolescentes e dos seus familiares.

O Sistema Nacional de Atendimento Socioeducativo (SINASE) prevê não

só a elaboração e acompanhamento do PIA, mas a construção e execução do Plano Político Pedagógico (PPP) das entidades e programas que executam a medida. O PPP é uma ferramenta fundamental para assegurar o compromisso, a participação e

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ESTADO DE SÃO PAULO ESCOLA JUDICIAL DOS SERVIDORES - EJUS a corresponsabilidade de toda comunidade socioeducativa

a corresponsabilidade de toda comunidade socioeducativa com as práticas desenvolvidas junto ao (à) adolescente em conflito com a lei.

Considerando o princípio da incompletude institucional, não são apenas

os profissionais da equipe de referência da Fundação CASA que devem se envolver

com o PPP, mas os atores dos diversos órgãos que compõem o Sistema de Garantia de Direitos (Sistema Único da Assistência Social, Sistema Único de Saúde, Sistema de Justiça, Secretarias de Educação, Cultura, Esportes e Lazer, do Trabalho e Emprego, Conselhos de Direito etc.). Essa articulação é necessária para pensar a proposta socioeducativa como uma construção coletiva e que também pressupõe medidas preventivas, de proteção e de acompanhamento do egresso, como está previsto no SINASE. As medidas socioeducativas para além da dimensão pedagógica trazem a dimensão da responsabilização do (a) adolescente. A partir de SOUZA (2016) trabalha-se três dimensões da responsabilidade: 1- no âmbito jurídico, 2 no contexto da execução e 3 a responsabilização subjetiva. A primeira refere-se ao cumprimento de uma sanção na perspectiva legal, lógica universal que rege o cumprimento da medida. A segunda traz um processo de responsabilização referente a um discurso comportamental associado à relação com a sociedade. A terceira marca “a possibilidade do (a) adolescente responder por seu ato infracional de maneira única, implicando em [seu] (re)posicionamento frente a sua vida, suas escolhas, pois, trata da sua relação do mal estar com a sociedade” (p. 172).

Aliado a este processo de responsabilização, além do (a) adolescente e

do Estado, já abordados, identificamos a importância do fortalecimento de vínculos

com pelo menos um adulto significativo para este(a) adolescente (COSTA, 2007). A autora aponta a importância de o processo socioeducativo auxiliar os(as) adolescentes no estabelecimento de relações socioafetivas dotadas de mais qualidade. Sendo a instituição muitas vezes a fonte de apoio social mais próxima e organizada na vida do(a) jovem pode portanto, favorecer uma vinculação mais positiva entre o(a) adolescente e seus familiares, pares e comunidade. A partir deste debate, no próximo item apresentaremos experiências identificadas como exitosas a partir das falas dos (as) adolescentes que cumprem

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ESTADO DE SÃO PAULO ESCOLA JUDICIAL DOS SERVIDORES - EJUS medida socioeducativa na cidade de São

medida socioeducativa na cidade de São Paulo e passam pelo contato com a Equipe Técnica do Judiciário.

4 - CONSIDERAÇÕES FINAIS: AS POSSIBILIDADES DAS AÇÕES NAS UNIDADES DE INTERNAÇÃO DA FUNDAÇÃO CASA NA CIDADE DE SÃO PAULO

Com base nos pressupostos estabelecidos pelo ECA e pelo SINASE, é direito de toda criança e adolescente incluído aqueles que cumprem medida socioeducativa o acesso à educação, cultura, esporte e lazer. Desse modo, toda e qualquer instituição responsável pela execução de medidas socioeducativas deve conter um Plano Político-Pedagógico (PPP), que orientará o atendimento aos (às) adolescentes. A partir de um diagnóstico da realidade do Centro de Atendimento, do perfil dos (as) adolescentes, famílias e do território, o Plano deve estabelecer diretrizes de trabalho capazes de suprir as demandas do público atendido e promover o processo socioeducativo em conformidade com o SINASE. Dentre os eixos de trabalho no curso da medida socioeducativa, destacamos como um dos mais importantes o eixo pedagógico, responsável não apenas pela educação formal, mas também pelas atividades culturais e esportivas. Assim o que definimos até então como práticas exitosas, mencionamos nesse tópico alguns projetos oferecidos em centros de internação da Fundação CASA. Tais experiências são entendidas como exitosas a partir do discurso dos (as) próprios (as) adolescentes, que verbalizam sobre as atividades realizadas ao longo da medida internação, durante o atendimento com a Equipe Técnica Judiciária. Podemos afirmar, então, que se trata de uma constatação empírica, uma vez que parte da verbalização do próprio público alvo e da escuta dos técnicos (assistentes sociais e psicólogos). O critério empírico utilizado advém dos entraves burocráticos e da dificuldade de comunicação com a direção da Fundação CASA para o acesso às informações, conforme já abordado. A partir disto, os Projetos que ganham relevância são:

Projeto Guri: funciona por meio de convênio com a Fundação CASA, compõe a grade regular da área pedagógica em todos os Centros e oferece cursos

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ESTADO DE SÃO PAULO ESCOLA JUDICIAL DOS SERVIDORES - EJUS de musicalização (percussão, instrumental, composição

de musicalização (percussão, instrumental, composição de músicas etc.). Segundo consta, é considerado o maior programa sociocultural brasileiro, sendo mantido pela Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo. Tem por objetivo atender crianças e adolescentes, entre 6 e 18 anos, oferecendo cursos de iniciação musical, luteria, canto coral, tecnologia em música, instrumentos de cordas dedilhadas, cordas friccionadas, sopros, teclados e percussão. Possui quase 400 polos em todo o estado, incluindo os polos da Fundação CASA. - Projeto Yam: é um projeto voluntário, idealizado pelo Prof. Dr. A. Cesar Deveza Silva, que oferece aulas de yoga na Fundação CASA; as turmas são compostas por adolescentes e até mesmo funcionários. Tem por objetivo oportunizar aos adolescentes e funcionários participantes o “contato com os princípios e práticas do Yoga, promovendo alívio das tensões físicas e psíquicas, melhorando a qualidade de vida e aumentando as possibilidades de desenvolvimento do potencial humano”. Atualmente, o projeto alcança apenas dois centros de internação, o CASA Bela Vista e Nova Vida, localizados no complexo da Vila Maria. - Associação Águia: é uma organização sem fins lucrativos, que iniciou seus trabalhos em 1999, à princípio com a proposta de auxiliar crianças e adolescentes em situação de rua. Atualmente, o projeto se dedica a atender apenas adolescentes, com idades entre 15 e 19 anos, em cumprimento de medida socioeducativa na Fundação CASA. O projeto visa oferecer oficinas de psicodrama baseada nos princípios da Justiça Restaurativa. Além das oficinas (12 no total), o projeto busca oferecer também “aconselhamento individual e acompanhamento ao (à) adolescente e sua família por pelo menos dois anos após a desinternação para ajudar com cursos profissionais e emprego ou em qualquer outro tipo de acompanhamento que eles e sua família precisem”. Os projetos citados podem ser considerados exitosos à medida que têm uma repercussão positiva entre os (as) adolescentes que participaram e porque contribuem significativamente no processo de socioeducação. A participação nessas atividades e a troca que existe entre educandos e educadores contribui muitas vezes para a ressignificação de experiências vividas e para a ampliação do repertório cultural, dando novos sentidos às histórias de vida dos (as) adolescentes. Trata-se de um trabalho realizado na contramão do viés meramente moral e disciplinador, dando espaço a concepções críticas e progressistas acerca da

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ESTADO DE SÃO PAULO ESCOLA JUDICIAL DOS SERVIDORES - EJUS adolescência, do ato infracional e da

adolescência, do ato infracional e da intervenção técnica neste contexto, evitando práticas excludentes e aprisionantes (COSTA, 2005). Por outro lado, as experiências exitosas não dependem apenas da qualidade das atividades oferecidas ou do esforço individual dos educadores e educandos. Resultados positivos são possíveis a partir do alinhamento do conjunto dos atores envolvidos na medida socioeducativa, que perpassa os professores, educadores, equipe técnica e de segurança, além do real envolvimento da instituição executora, do Sistema de Justiça como um todo e da sociedade civil. Em última instância, a contribuição e os reflexos positivos de uma medida socioeducativa de internação aqueles que se sobressaem à experiência inevitavelmente negativa da privação de liberdade podem ser melhor percebidos no retorno à convivência familiar e comunitária, reafirmando a importância da dimensão da liberdade para as relações sociais. A medida socioeducativa é com frequência entendida tão somente como uma forma de evitar que o (a) adolescente reincida em novas práticas infracionais, no entanto, o ato de delinquir por vezes está associado a um ato de insurgência contra a gama de violência a que esses adolescentes e suas famílias são submetidos em seus processos de socialização. Ainda, segundo Costa (2005) deve- se considerar que o envolvimento infracional expressa, antes de tudo, uma situação de risco, de vulnerabilidade em diversos aspectos da vida, de modo que, para além da responsabilização, para ser entendida como “exitosa”, a medida socioeducativa deve oferecer condições para a superação destes riscos. Em suma, compreender que os (as) adolescentes são pessoas em desenvolvimento e, portanto, ofertar-lhes possibilidades de exercício de cidadania com políticas públicas que garantam o atendimento de suas necessidades deve ser um compromisso reconhecido por toda a sociedade.

REFERÊNCIAS TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO ESCOLA JUDICIAL DOS SERVIDORES - EJUS

REFERÊNCIAS

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ESTADO DE SÃO PAULO ESCOLA JUDICIAL DOS SERVIDORES - EJUS BRASIL, IPEA/MJ-DCA. Mapeamento nacional das Unidades

BRASIL, IPEA/MJ-DCA. Mapeamento nacional das Unidades de Execução de medida de privação de liberdade. 2002.

COSTA, Cláudia Regina Brandão Sampaio Fernandes da. É possível construir novos caminhos? Da necessidade de ampliação do olhar na busca de experiências bem-sucedidas no contexto socioeducativo. Estudos e Pesquisas em Psicologia, UERJ, RJ, ANO 5, N. 2, 2º semestre de 2005 [digital].

SPOSITO, Marília Pontes e CARRANO, Paulo César Rodrigues. Juventude e Políticas Públicas no Brasil. Trabalho apresentado na 26ª Reunião Anual do ANPEd Poços de Caldas/MG, 5 a 8/out/2003.

FERRÃO, Iara da Silva; SANTOS, Samara Silva dos e DIAS, Ana Cristina Garcia. Psicologia e práticas restaurativas na socioeducação: relatos de experiências. Psicologia: Ciência e Profissão, abr-jun 2016, vol. 36, nº 2, p. 354 e 363.

FUNDAÇÃO CASA. Boletim Estatístico Semanal. Disponível em:

http://www.fundacaocasa.sp.gov.br/View.aspx?title=boletim-

estat%C3%ADstico&d=79, acesso 06/12/2017 às 11:35h

COSTA, Cláudia Regina Brandão Sampaio Fernandes da. Contexto Socioeducativo e a Promoção de Proteção a Adolescentes em Cumprimento de Medida Judicial de Internação no Amazonas. Tese apresentada com vistas à obtenção do título de Doutor em Ciências na área de Saúde Pública. Orientadora: Prof.ª Dr.ª Simone Gonçalves de Assis Rio de Janeiro, Junho de 2007 [2.4 Experiências exitosas no atendimento ao adolescente autor de ato infracional]

TEIXEIRA, MLT. As histórias de Ana e Ivan: boas experiências em liberdade assistida. São Paulo: Fundação Abrinq; 2003.

ASSOCIAÇÃO ÁGUIA. Página Inicial. Disponível em: http://associacaoaguia.org.br

Acesso em: 17/11/2017 às 14h.

YAM. Conheça o projeto. Disponível em: http://www.projetoyam.com.br. Acesso em:

17/11/2017 às 14h.

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ESTADO DE SÃO PAULO ESCOLA JUDICIAL DOS SERVIDORES - EJUS GUARDA COMPARTILHADA NOS CASOS ALTAMENTE LITIGIOSOS,

GUARDA COMPARTILHADA NOS CASOS ALTAMENTE LITIGIOSOS, ENTRE O IDEAL E O POSSÍVEL: UM CAMINHO EM CONSTRUÇÃO

GRUPO DE ESTUDOS DA CAPITAL “CASOS ALTAMENTE LITIGIOSOS”

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COORDENAÇÃO TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO ESCOLA JUDICIAL DOS SERVIDORES - EJUS

COORDENAÇÃO

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ESTADO DE SÃO PAULO ESCOLA JUDICIAL DOS SERVIDORES - EJUS Glausa de Oliveira Munduruca – Psicóloga

Glausa de Oliveira Munduruca Psicóloga Judiciário Comarca de Barra Bonita Maria Isabel Strong Assistente Social Judiciário Fórum Regional XI de Pinheiros

AUTORES

Ana Maria Iria Leite de Ávila Camargo Assistente Social Judiciário Comarca de Miracatu Andreza Cristina Oliveira da Silva Calixto Assistente Social Judiciário Comarca de Campinas Claudia Belardo Colatrella Psicóloga Judiciário Comarca de São Vicente Egli Maria Micheski Psicóloga Judiciário Comarca de Registro Erica Fragoso Pacca Assistente Social Judiciário Comarca de Juquiá Jaqueline Fernanda Verônica de Jesus Assistente Social Judiciário Comarca de Taubaté Kherley Dacylane Val Lima Psicóloga Judiciário Comarca de São José dos Campos Letícia Cortes de Souza Psicóloga Judiciário Comarca de Taubaté Lucy Vianna Alcebíades Assistente Social Judiciário Comarca de Guarujá Márcia Aparecida Thomé Garcia Psicóloga Judiciário Comarca de Botucatu Paula Melissa Cunha Tosta Psicóloga Judiciário Comarca de Jacareí Rosangela Maria Lenharo Assistente Social Judiciário Comarca de Ibitinga Rosenilda Maria da Silva Psicóloga Judiciário Comarca de Mogi das Cruzes Rosibel Maria de Moraes Assistente Social Judiciário Comarca de Agudos Sueli Aparecida Correa Psicóloga Judiciário Comarca de Sorocaba Talita Afonso Chaves Psicóloga Judiciário Comarca de Guarujá

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INTRODUÇÃO