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BIBLIOTECA VIRTUAL DE CIÊNCIAS HUMANAS

A ESCOLA DE MINAS DE
OURO PRETO:
O PESO DA GLÓRIA

José Murilo de Carvalho


José Murilo de Carvalho

A Escola de Minas de Ouro


Preto: o peso da glória

Rio de Janeiro
2010
SUMÁRIO:
Esta publicação é parte da Biblioteca Virtual de Ciências Humanas do Centro
Edelstein de Pesquisas Sociais – www.bvce.org LISTA DE TABELAS: ......................................................................... 1
PREFÁCIO À PRIMEIRA EDIÇÃO.................................................... 2
Copyright © 2010, José Murilo de Carvalho PREFÁCIO À SEGUNDA EDIÇÃO.................................................... 4
Copyright © 2010 desta edição on-line: Centro Edelstein de Pesquisas Sociais
APRESENTAÇÃO................................................................................ 5
Ano da última edição: 2002
Francisco Iglésias
INTRODUÇÃO................................................................................... 10

Nenhuma parte desta publicação pode ser reproduzida ou transmitida por


qualquer meio de comunicação para uso comercial sem a permissão escrita PARTE 1: SUBIDA AOS CÉUS
dos proprietários dos direitos autorais. A publicação ou partes dela podem ser CRIAÇÃO E CONSOLIDAÇÃO ............................................................ 14
reproduzidas para propósito não-comercial na medida em que a origem da
publicação, assim como seus autores, seja reconhecida. Antecedentes........................................................................................ 15
Criação................................................................................................. 33

ISBN 978-85-7982-005-2
A Consolidação: Pedras no Caminho .................................................. 45

PARTE 2: NAS ALTURAS


IMPACTO ............................................................................................. 81
O Espírito de Gorceix.......................................................................... 82
Destino dos Ex-Alunos........................................................................ 93
Centro Edelstein de Pesquisas Sociais
www.centroedelstein.org.br Impacto .............................................................................................. 103
Rua Visconde de Pirajá, 330/1205
Ipanema – Rio de Janeiro – RJ
CEP: 22410-000. Brasil PARTE 3: DESCIDA AOS INFERNOS
Contato: bvce@centroedelstein.org.br
CREPÚSCULO ................................................................................... 130
Entre 1939 e 1976.............................................................................. 131
Sintomas e Causas do Declínio ......................................................... 145
Morte Digna ou Vida Nova? ............................................................. 165

CONCLUSÃO................................................................................... 172

I I
FONTES E BIBLIOGRAFIA............................................................178 LISTA DE TABELAS:
FONTES PRIMÁRIAS......................................................................178
BIBLIOGRAFIA ...............................................................................186 1. Matrícula em Coimbra, por Cursos – 1772/1773 ............................ 17
APÊNDICE........................................................................................194 2. Tipo de Formação dos Ministros, por Períodos – 1822/1889.......... 30
3. Frequência de Alunos por Cursos – 1876/1909............................... 54
4. Candidatos Inscritos e Aprovados – 1897/1906 .............................. 55
5. Engenheiros Formados pela Politécnica e pela Escola de Minas, por
Quinquênios – 1875/1922.................................................................... 68
6. Salários dos Empregados das Escolas Superiores – 1878
(em mil-réis) ........................................................................................ 71
7. Gastos Orçamentários com a Politécnica, a Escola de Minas e o Museu
Nacional – 1875/1889.......................................................................... 73
8. Tempo de Permanência dos Professores de Fora ............................ 91
9. Tempo de Serviço e Local de Formação dos Professores – 1911 ... 92
10. Ocupação dos Graduados por Períodos – 1878/1931 .................... 95
11. Ocupação dos Engenheiros da Escola de Minas – 1934/1945....... 98
12. Ocupação dos Engenheiros de Minas – 1934/1945....................... 99
13. Origem Geográfica dos Engenheiros da Escola de Minas – 1878/
1931 ................................................................................................... 102
14. Publicações de Geologia, Mineralogia e Paleontologia – 1850/
1909 ................................................................................................... 105
15. Número de Candidatos, Vagas e Matrículas na Escola de Minas –
1966/1975 .......................................................................................... 138
16. Matrícula e Pré-Opção por Cursos .............................................. 140
17. Qualificação e Regime de Trabalho do Corpo Docente – 1974 .. 141
18. Anos de Docência na Escola – 1974............................................ 142
19. Local de Residência dos Professores, por Departamentos –
1974 ................................................................................................... 144

II 1
PREFÁCIO À PRIMEIRA EDIÇÃO Márcio Quintão Moreno, da Universidade Federal de Minas Gerais,
Octávio Elisio Alves de Brito, presidente da METAMIG. No Rio de
Janeiro, beneficiei-me de sugestões dos ex-alunos Glycon de Paiva
Este trabalho foi escrito a pedido do Prof. Simon Schwartzman, Teixeira e Amaro Lanari Jr., bem como do Prof. Othon Henry
coordenador do Programa de Estudos sobre o Impacto da Ciência e Leonardos.
Tecnologia no Desenvolvimento Nacional, da FINEP, e financiado com
recursos desse órgão. O Prof. Francisco Iglésias sugeriu ideias e fontes de pesquisa,
evitou erros mais grosseiros que poderia ter cometido em minhas
A coleta de dados foi realizada em Ouro Preto, Belo Horizonte e incursões históricas e revisou, ainda, o texto final.
Rio de Janeiro, com a assistência competente das historiadoras Maria
Virgínia F. Schettino, Zuleica Rocha e Maria Regina G. B. Kleinsorge. É, no entanto, minha a responsabilidade pelo trabalho.
Nos passos iniciais da pesquisa contei com sugestões de José Pelúcio
Ferreira, José Israel Vargas, John Milne A. Forman e Simon
Schwartzman.
O trabalho só se tornou possível graças à total colaboração que
recebi dos professores e funcionários da Escola de Minas de Ouro Preto,
desde seu diretor na época, José Campos Machado Alvim, até o
funcionário Geraldo Pinto da Rocha, que serve à Escola há 33 anos,
passando pelo secretário Alencar Amaral e pelas bibliotecárias. Em
Belo Horizonte, contei com a boa vontade do Diretor do Arquivo
Público Mineiro, Prof. Francisco de Assis Andrade, e de seus
funcionários.
Igualmente importante foi a cooperação daqueles que procurei
para entrevistas pessoais. Na Escola de Minas, além do Diretor, devo
especial ajuda ao Prof. Cristiano Barbosa da Silva, que me deu acesso á
parte de seu material sobre a história da instituição, inclusive aos
documentos provenientes do Arquivo Nacional. Outros professores que
prestaram informações e discutiram problemas da Escola foram: Moacir
do Amaral Lisboa, Walter José von Kruger, José Jaime Rodrigues
Branco e José Pedro Xavier da Veiga.
Sobre a Universidade Federal de Ouro Preto, ouvi o reitor
Theódulo Pereira. O Secretário da Fundação Gorceix, José Ramos Dias,
além de dar informações sobre as atividades da Fundação, colocou a
meu dispor seus serviços de reprodução gráfica.
Em Belo Horizonte, entrevistei os ex-alunos Francisco de
Magalhães Gomes, ex-diretor do Instituto de Pesquisas Radioativas da
Universidade Federal de Minas Gerais, Manuel Teixeira da Costa e
2 3
PREFÁCIO À SEGUNDA EDIÇÃO APRESENTAÇÃO

Esgotada há muito tempo a primeira edição deste livro, surgiu a Duas instituições de ensino têm importância decisiva na vida de
possibilidade de reedição pela Editora UFMG. Como sempre acontece Minas Gerais: o Caraça e a Escola de Minas de Ouro Preto. Elas
nesses casos, o Autor se perguntou se devia ou não atualizar o texto. A realizaram, em certa época, trabalho expressivo em matéria de
favor da atualização, pesava o fato de já se terem passado 22 anos. educação, valendo pelo que foi feito no preparo de pessoal e pelo acento
Nesse intervalo, tanto a Escola de Minas de Ouro Preto, objeto direto do de originalidade dado à vida da área. Daí o seu relevo, justificativo de
estudo, como a Fundação Oswaldo Cruz, utilizada como marco atenções. Mais que simples escolas, são unidades formadoras de
comparativo, passaram por mudanças que convinha incorporar na determinada marca regional. Seu estudo se impõe e pode contribuir para
análise. Contra a atualização, militava o fato de que ela haveria esclarecimento da realidade tanto como as notas políticas ou
seguramente de requerer pesquisa nova de não pequena monta. Para econômicas. E ele vem sendo feito, como se vê pelas obras dedicadas à
tanto, faltava-me tempo e faltava-me, sobretudo, a segurança de que, fixação de trajetórias de escolas e cursos, reveladoras de algo mais que
caso voltasse ao tema, adotaria o mesmo esquema de análise. Mudado resultado de aulas, ou de centros de investigação.
este, mudaria o livro e não haveria reedição. Decidi manter o texto
A Escola de Minas vem de ser objeto de bem elaborado livro, pelo
original. A solução pode ser criticada por ser fácil. Mas isso não impede
sociólogo e cientista político José Murilo de Carvalho, A Escola de Minas de
que seja correta.
Ouro Preto – o peso da glória. Nele, mais uma vez se evidenciam suas
Mantido o conteúdo, não me pareceu aceitável a forma. Ao reler qualidades de pesquisador, já afirmadas antes, em tese de doutorado, na
o texto, achei-o tosco e pedregoso. Por ocasião da primeira edição, Universidade de Stanford, sobre as elites políticas na construção do Estado
Francisco Iglésias já chamara a atenção para as deficiências do estilo. no Brasil imperial (Califórnia, 1974)1.O pesquisador fez levantamento tão
Ele próprio fizera uma primeira limpeza, eliminando repetições, completo quanto possível do material indispensável à compreensão de seu
demonstrativos, artigos indefinidos, impropriedades, deselegâncias. tema e o elabora com metodologia severa, de pronunciada conotação
Mas restou muita ganga a ser separada do ouro, muita escória a ser histórica. Com o domínio de instrumental teórico e fina acuidade, pôde
eliminada do ferro. Transformado em mineiro da palavra e metalurgista realizar interpretação dos elementos obtidos, de modo que os temas são
da frase, voltei à bateia e ao forno, na expectativa de conseguir produto convenientemente explicados em análises que se afirmam pela abrangência e
mais refinado. Ainda restará o que purificar, mas acredito que Francisco profundidade.
Iglésias, onde estiver, se sentirá menos desconfortável com o novo
Assim é este livro. O Autor dividiu-o em três partes: criação e
texto. Tornei também mais precisas as indicações de fontes. Nessa
consolidação da Escola, seu impacto, dificuldades e declínio. Na
tarefa contei com a colaboração de Maria de Fátima Moraes Argon para
primeira, os antecedentes da iniciativa, a personalidade do fundador, o
a documentação existente no Arquivo Histórico do Museu Imperial, e
ato de fundação, os embaraços até que a ideia se consolidasse; na
de Marcello Basile para a parte guardada no Arquivo Nacional. A
segunda, a peculiaridade da promoção, o destino dos ex-alunos e o
ambos meus agradecimentos. A Iglésias, que me honrou com a
papel da Escola no desenvolvimento econômico, na política e na
apresentação da primeira edição, dedico esta segunda, em homenagem
política mineral; na terceira, como as dificuldades levam ao crepúsculo,
não menos comovida por ser póstuma.

1
A mais recente edição da tese foi feita pelas Editoras UFRJ/Relume Dumará em 1996 sob o
título A construção da ordem: a elite política imperial e Teatro de sombras: a política
imperial. (N.E)

4 5
com os sintomas de decadência e suas causas convenientemente da produção intelectual estrangeira, e pede a Auguste Daubrée
apontadas, bem como a alternativa possível ante o dilema de morte orientação quanto às riquezas minerais, convidando-o a vir ao Brasil.
digna ou vida nova. A sólida arquitetura do trabalho permite ao Autor Daubrée não aceita, mas indica pessoa capaz de realizar trabalho de
escrever a conclusão de modo objetivo, pois desenvolveu o esforço em vulto. A indicação não podia ser mais feliz, pois Claude Henri Gorceix
busca de um resultado. É interessante, assim, acompanhar a iniciativa possuía alto preparo e capacidade de direção. Ele escolheu o local e
em todas as vicissitudes, da criação à atualidade. indicou as linhas básicas do estabelecimento; trabalhou até 1891, como
seu primeiro diretor, executando tarefa meritória.
Como esclarece, “dificilmente se poderia dizer que havia uma
demanda efetiva por geólogos e engenheiros de minas na economia Teve dificuldade de todo tipo, como a insuficiência de recursos
exportadora e escravocrata de 1876. A criação da Escola foi, antes de de Ouro Preto, a campanha de políticos inimigos e a rivalidade da
tudo, um ato de vontade política orientado em boa parte por motivos de Escola Politécnica do Rio de Janeiro; se conseguiu sobrepor-se a tudo
natureza antes ideológica do que econômica”. De fato, a criação àquela foi pela proteção permanente de D. Pedro II, que o sustentou na defesa
altura se explica como decisão política: o país tinha economia de suas ideias e práticas.
eminentemente agrícola, pesando pouco a atividade industrial, muito
As atividades da Escola eram rigidamente traçadas, com tempo
incipiente. Ensino do gênero oferecido pela Escola, no entanto, era
integral de professores e alunos. O ensino era eminentemente objetivo, e
solicitado pela Província de Minas, como se vê pela insistência na ideia
a pesquisa cultivada de forma ainda desconhecida no Brasil. Criou-se,
desde bem antes.
assim, um estilo de trabalho, com a formação severa de quadro docente
A solução para o declínio econômico em que se debatia era e preparo técnico dos estudantes. Ao fim de poucos anos começam os
apontada, por vezes, na indústria mineral, já pelos administradores efeitos positivos: diplomados ocupam posições relevantes no ensino,
portugueses, como em 1780; e, depois, por encarregados pelo governo repartições públicas e empresas particulares; da investigação de
de estudar a realidade, que visitam a Província no fim do século XVIII e professores e alunos resulta bom conhecimento da realidade mineral da
início do seguinte. Brasileiros e portugueses são incumbidos de cursos Província, como resultam, ainda, contribuições para a ciência no país.
técnicos em grandes centros europeus, com vistas à elevação Poucos estabelecimentos de ensino tiveram, como a Escola de Minas de
econômica, como decorrência da mentalidade ilustrada, crente na Ouro Preto, impacto na vida social, econômica e científica: ela criou um
contribuição da ciência para o bom desempenho da política, existente estilo, um padrão de trabalho.
em Portugal desde a reforma pombalina da Universidade de Coimbra, e
As dificuldades aumentaram, e Gorceix preferiu voltar a seu país,
que se mantém mesmo depois da queda do ministro, na conhecida ação
em 1981. Com a República, faltou a proteção de D. Pedro II; vários
da chamada Viradeira. A favor de uma orientação mais técnica que
professores eram políticos e ocuparam postos no Executivo e no
humanística do ensino se empenham os reformadores.
Legislativo do Estado de Minas; a capital se transferiria para Belo
Daí e de razões regionalistas a ideia de uma escola de minas na Horizonte. Se antes era possível à Escola superar as dificuldades, às
Província central, como se vê nos debates da Assembléia Constituinte vezes adaptando-se com concessões não-desfiguradoras de suas
em 1823. O curso então proposto será criado em lei da Regência, em características, tem agora de vencer os embaraços do meio, o
1832, mas não terá pronta execução; será reclamado diversas vezes, até isolamento de Ouro Preto, a falta de professores qualificados.
ser repetido em lei de 1875, posta em prática no ano seguinte. O êxito se
Em 1931, a Escola passa para o Ministério da Educação, como
deverá em grande parte aos favores de D. Pedro II: é ele que, em
órgão da Universidade do Brasil, do Rio de Janeiro. A discussão sobre
viagem à Europa no início da década de setenta, entra em contato com
qual a melhor forma de sobreviver é frequente: se no Ministério da
membros da Academia de Ciências de Paris, pelo culto que sempre teve
Educação, no da Agricultura, ou no das Minas e Energia; como escola
6 7
técnica isolada ou como parte de uma universidade, se unida à de caracterizar cada momento. As fontes esclarecedoras são consultadas
Viçosa ou à de Minas Gerais, de Belo Horizonte. Em 1960, é desligada em pesquisas nos arquivos. A secretaria da Escola, as atas da
da Universidade do Brasil, voltando a ser apenas Escola de Minas de congregação, testemunhos de professores, alunos, autoridades — todos
Ouro Preto. Temerosa da ligação com Viçosa ou Belo Horizonte, são ouvidos, no escrito que ficou ou nas entrevistas com elementos que
empenha-se em passar a ser Universidade de Ouro Preto, o que podem ser encontrados. As fontes são inteligentemente usadas; o Autor
consegue em 1969, sob a forma de fundação de direito público. Após sabe construir a narrativa com segurança, em harmoniosa coerência
algumas dúvidas, o Estatuto de 1972, baseado na Universidade de entre os capítulos. Daí o valor do presente estudo: retrato fiel de uma
Brasília, transforma a Fundação Escola de Minas em Universidade instituição, do que ela é e do que foi em diferentes momentos.
Federal de Ouro Preto. Vários problemas precisam ser vencidos, Caracteriza-se, assim, o significado da Escola de Minas de Ouro Preto
acumulados já de muitos anos; as críticas se sucedem, não só de fora como órgão de ensino e de pesquisa, sua contribuição para a sociedade
como também partindo da própria congregação, sobretudo depois de e a economia de Minas Gerais e do Brasil; para a ciência, como atitude
1939, quando se agravam as questões. ou maior conhecimento de mineração e geologia. A Escola terá
contribuído para uma linha nacionalista na política mineral brasileira,
O Autor sumaria as críticas nos seguintes pontos, convenientemente
como se nota das posições de seus ex-alunos na maior parte dos
esclarecidos no texto: a Escola se fechou sobre si mesma; o ensino
pronunciamentos.
massificou-se e tornou-se mais teórico; o tempo integral passa a exceção;
sente-se a falta do bafejo do poder (amplo no Império, raro depois, como na Estudos monográficos do gênero permitem aprofundar quanto se
gestão do ministro da Educação Clóvis Salgado, no governo Kubitschek); a conhece da história intelectual brasileira. Espera-se por outros, pois há
perda do sentido de criatividade. São sintomas facilmente identificáveis de diversas instituições de ensino, investigação científica ou associações de
declínio, para o qual se apontam fatores externos e internos, como perda da especialistas — a Escola de Direito de São Paulo, a Academia Brasileira de
autonomia, reformas do ensino, descaso das autoridades, condições físicas, Ciências, a Sociedade Brasileira de Física, por exemplo — que exigem
insuficiência salarial, Universidade de Ouro Preto (sua interferência nos estudo, pela produção realizada e seus impactos, no plano nacional ou nos
negócios da Escola), isolamento geográfico e cultural, excessivo inbreeding diversos planos regionais.
do corpo docente, culto da tradição, atividade da Associação dos Ex-alunos,
A história do Brasil será melhor conhecida quando se escreverem
estrutura dos cursos e dos currículos.
monografias sobre unidades como o Jardim Botânico, o Museu
Ante a crise, coloca-se a alternativa: morte digna ou vida nova? Nacional, a Escola Militar, o Observatório Astronômico, a Escola
Como se vê, há dificuldades e há consciência de embaraços, hesitando Politécnica, o Instituto Agronômico de Campinas, o Museu Goeldi, o
os responsáveis — a congregação ou o serviço federal — ante o Instituto Butantã, a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, o
caminho a adotar. O certo, como está na conclusão de José Murilo de Departamento Nacional de Produção Mineral, a Universidade de São
Carvalho, é que só um pensamento superior, com vistas a fazer que a Paulo e de vários Estados, já de alguns anos, ou as Universidade de
Escola retome a sua grandeza, terá sentido, pois de nada adiantam Brasília e de Campinas, entre experiências recentes. A trajetória de
providências tímidas, parciais. A conclusão é otimista: para uma volta a instituições culturais tem muito a dizer. O desenvolvimento da atividade
Gorceix, “não seria preciso hoje buscar outro Gorceix na França ou em científica, em seus avanços, estagnações e recuos, é interessante e útil,
qualquer outro lugar. Já existem muitos Gorceix no Brasil, capazes de pelo que esclarece ou pelo muito que dá, como se vê nesta contribuição
enfrentar com êxito a tarefa.” segura e inteligente de José Murilo de Carvalho, modelo a ser seguido.
É essa trajetória, da criação à crise atual, que o livro estuda. De Francisco Iglésias
maneira segura, pois o Autor acerta na escolha do essencial para

8 9
INTRODUÇÃO instituições contribuíram poderosamente para colocar a geologia e a
pesquisa biológica no ponto de passagem do que Basalla chama de
ciência colonial para a ciência nacional, isto é, da ciência feita
Este estudo pretende ser uma história institucional da Escola de totalmente na dependência de pesquisadores e centros externos para a
Minas de Ouro Preto, que, em 1976, completou cem anos de ciência realizada em instituições nacionais por pesquisadores
existência1. Pretende ainda fornecer elementos para a discussão dos nacionais1. Como esse processo se prolongou no Brasil por muito
problemas que afetam a Escola, dentro da perspectiva mais ampla da tempo, podendo-se dizer que em vários campos ainda não se completou,
história das instituições de ensino e pesquisa no Brasil. o estudo das causas do êxito, ou fracasso, da experiência adquire
Já surgem estudos sobre tais instituições, alguns com importantes interesse que ultrapassa as fronteiras das duas instituições.
contribuições, como o de Nancy Stepan sobre o Instituto Oswaldo O exame da implantação da Escola de Minas, mais ainda do que
Cruz2. A Escola de Minas difere um pouco desse Instituto que é, o do surgimento do Instituto Oswaldo Cruz chama a atenção para um
sobretudo, um órgão de pesquisa. Com o correr do tempo, ela se foi ponto que distingue países como o Brasil de outros, como os Estados
transformando em instituição quase que exclusivamente de ensino. No Unidos, no que se refere à criação de instituições científicas. Neste
entanto, por sua orientação original, pela prática de seus anos iniciais e último país, por exemplo, a introdução de escolas técnicas, ou mesmo
mesmo pela natureza de seu ensino, deve ser considerada instituição das ciências naturais, nas universidades se deu após ter havido
fundamental para a implantação no Brasil da ciência geológica, da considerável desenvolvimento tecnológico independente da ciência,
mineralogia, da metalurgia e do desenvolvimento tecnológico nessas incentivado e financiado por industriais interessados em seus possíveis
áreas. Além disso, foi fator importante na implantação do espírito benefícios2. Embora houvesse nos Estados Unidos a mesma resistência
científico, graças à valorização da pesquisa empírica, feita na contramão das universidades tradicionais em aceitar as escolas de engenharia e o
da tradição livresca predominante no país. A ênfase que sempre deu às ensino de ciências, lá essas escolas e esse ensino surgiram em função do
ciências básicas, a matemática, a física, a química, impediu que a que se poderia chamar de demanda social por seus produtos. No Brasil,
preocupação com a aplicação prática dos ensinamentos transformasse os sobretudo no caso da Escola de Minas, tal não se deu. Dificilmente se
ex-alunos em simples técnicos ou tecnólogos. Vários deles, os mais poderia dizer que havia demanda por geólogos e engenheiros de minas
inclinados ao estudo, se dedicaram à pesquisa científica e constituíram a na economia exportadora e escravocrata de 1876. A criação da Escola
primeira geração de geólogos brasileiros. foi, antes de tudo, um ato de vontade política, orientado em boa parte
Como no caso do Instituto Oswaldo Cruz, a Escola foi também por motivos de natureza antes ideológica do que econômica. Embora os
exemplo da transplantação, com êxito, do que havia de melhor na efeitos deste voluntarismo tenham sido limitados por restrições
ciência européia da época em seu campo de conhecimento3. As duas econômicas, não há dúvida de que eles se fizeram sentir com nitidez e
exerceram impacto sobre o próprio desenvolvimento econômico e
1
O nome da Escola variou ao longo das transformações por que passou. Para maior tecnológico do país.
simplicidade, usei neste trabalho os nomes de Escola de Minas de Ouro Preto, Escola de Ao lado das razões do êxito das instituições, não menos
Minas, ou, simplesmente, Escola.
2
Ver STEPAN. Gênese e evolução da ciência brasileira: Oswaldo Cruz e a política de importante é estudar as causas de sua decadência. Como o Instituto
investigação científica e médica. Sobre Manguinhos, ver também FONSECA FILHO. A Oswaldo Cruz e quase todas as outras instituições brasileiras de
Escola de Manguinhos. Contribuição para o estudo do desenvolvimento da medicina pesquisa, a Escola de Minas conheceu, e conhece ao celebrar o
experimental no Brasil. Tomo II.
3
Outra instituição importante em nossa história científica, e que está a pedir um estudo, é o
1
Museu Nacional que foi durante o século XIX, por muito tempo, um dos refúgios da Ver BASALLA. Science, v. 156, p. 611-622.
2
pesquisa no Brasil. Ver STRUIK. Yankee science in the making, sobretudo p. 421-444.

10 11
centenário de sua criação, uma fase de decadência. Sua sobrevivência estabelecidos por Gorceix. O debate só poderá ser benéfico para a
foi mais prolongada do que a daquele Instituto porque, tendo-se instituição.
transformado quase que exclusivamente em instituição de ensino, era-
Seja como for, comigo ficam, ao término do trabalho, ao lado da
lhe mais fácil resistir aos fatores de desgaste e ocultar os sintomas da
admiração por um cientista francês dedicado à ciência e ao Brasil, o
decadência. Uma escola medíocre pode sobreviver indefinidamente, ou
respeito pela dedicação com que serviram à sua obra os professores da
quase, mas não assim uma instituição de pesquisa.
Escola de Minas e a esperança de que, de algum modo, o esplendor
O trabalho divide-se em três partes. A primeira é dedicada ao antigo possa ser restaurado.
estudo das circunstâncias em que foi criada a Escola, das razões da
implantação, dos obstáculos que teve de vencer e dos fatores de êxito. A
segunda trata de seu espírito, ou etos, e de seu impacto na ciência, na
tecnologia, na economia e na política. A terceira discute sua situação
nos últimos anos, a natureza e as causas do declínio, e algumas
possíveis opções de renovação. Esta divisão, que atende à necessidade
de discutir os problemas que me pareceram mais importantes, fez com
que o trabalho se concentrasse sobretudo nas fases mais antiga e mais
recente: os períodos que vão de 1876 a 1893 e de 1939 a 1976,
aproximadamente. Os fatos relevantes do período intermediário são, no
entanto, mencionados e analisados.
As principais fontes primárias utilizadas foram, para as duas
primeiras partes, a correspondência de Gorceix com o Imperador, com
os ministros do Império e com os presidentes da Província de Minas
Gerais, além de seus relatórios anuais e dos relatórios dos ministros.
Para a terceira parte, servi-me, sobretudo, das atas da Congregação e de
entrevistas.
Antes de iniciar a exposição, dirijo uma palavra especial aos
professores, sobretudo aos da geração mais antiga, que ainda carregam
todo o peso da tradição, vários dos quais se dispuseram com grande
generosidade a discutir comigo os problemas da Escola. Este trabalho,
em sua última parte, contém diagnósticos que lhes parecerão injustos, se
não equivocados. Só posso dizer-lhes que os resultados a que cheguei
foram fruto de lição que faz parte do espírito que Gorceix pretendeu
introduzir, ou seja, só concluí após cuidadoso levantamento de dados
em várias fontes, inclusive depoimentos de professores. Se, apesar
disso, as análises e conclusões forem consideradas incorretas, o
caminho está aberto para revisões e correções. Só espero que, ao ser
contestado, se o for, o seja dentro dos mesmos padrões de trabalho

12 13
Nesta parte analiso os antecedentes da Escola, isto é, os fatores
que condicionaram sua criação; a própria criação, com ênfase na
personalidade do criador e na organização inicial; e a consolidação a
despeito dos obstáculos enfrentados nos anos heróicos, sobretudo os
provenientes da situação do ensino no país, do mercado de trabalho e
das injunções políticas.

ANTECEDENTES

Ao estudar a Escola de Minas, é importante tomar sua criação


como problema e não como dado. Por que foi criada? Por que uma
escola de minas em 1876? Por que não simplesmente uma outra escola
de engenharia civil em Minas ou mesmo uma escola de direito? Havia
pessoas ou grupos que lutavam por uma escola de minas? Havia a
percepção de que uma escola de minas seria fundamental ou
simplesmente importante para resolver problemas econômicos ou
sociais do país ou da Província de Minas? Estavam, por fim, as finanças
públicas em condições de arcar com os custos de uma escola de cuja
utilidade não se tinha muita certeza? As perguntas são importantes para
PARTE 1: SUBIDA AOS CÉUS o entendimento correto da criação e da evolução da Escola1.
Entre as possíveis razões para a criação oficial de um
CRIAÇÃO E CONSOLIDAÇÃO estabelecimento de ensino dessa natureza, podem ser apontadas as de
natureza cultural ou ideológica e as de natureza social
ou econômica. A Escola poderia ter sido criada porque havia no
Brasil uma tradição de ensino na área da geologia e da mineralogia;
porque havia um consenso entre os grupos dirigentes quanto ao valor da
ciência natural. Ou poderia ter sido criada porque, na época, a economia
estava enfrentando problemas para cuja solução o ensino da geologia,
da mineralogia e da metalurgia poderia contribuir. Ou poderia ter sido
criada pelas duas razões.

IDEOLOGIA E ECONOMIA
Para responder à pergunta sobre as possíveis origens culturais e
ideológicas será necessário examinar alguns aspectos da tradição

1
Glycon de Paiva me fez algumas dessas perguntas em entrevista pessoal.

14 15
cultural do país. A primeira reação de quem conhece um pouco dessa Tabela 1
tradição será apontar para os efeitos do Iluminismo, introduzido em Matrícula em Coimbra, por Cursos – 1772/1773
Portugal pela reforma da Universidade de Coimbra, promovida por
ANOS
Pombal em 1772, um século antes da criação da Escola de Minas. CURSOS
Apesar da distância no tempo, convém examinar se esses efeitos 1772 1773
perduraram o suficiente no Brasil para constituir tradição capaz de ter Direito
influenciado a criação da Escola. 360 531
(Civil e Canônico)
A reforma pombalina, como se sabe, mudou radicalmente os Teologia 14
métodos e o conteúdo da educação coimbrã, anteriormente controlada 14 62
pelos jesuítas. A ênfase do ensino deslocou-se da teologia e do direito Medicina
civil e canônico para a história natural, a botânica, a mineralogia, a 5 162
Matemática
química, a física, a matemática. Apesar de ter sido severamente 78
prejudicada pela reação, chamada de Viradeira, que se seguiu à queda Filosofia
de Pombal, a reforma produziu um dedicado grupo de cientistas. Muitos TOTAL 393 833
desses cientistas eram brasileiros que atuaram no país a partir da última
Fonte – BRAGA. História da Universidade de Coimbra, p.
década do século XVIII e estavam ainda presentes à época da 465-527. Os dados para 1772 não estão completos. Para uma
Independência. Entre seus principais representantes estavam José discussão do impacto da reforma sobre a elite política
Bonifácio de Andrada e Silva e Manuel Ferreira da Câmara Bitencourt. brasileira ver CARVALHO. A construção da ordem e Teatro
O impacto da reforma sobre a matrícula de estudantes por cursos na de sombras, p. 55-82.
Universidade de Coimbra pode ser visualizado na Tabela 1. Segundo dados calculados por Maria Odila da Silva Dias, nos
vinte anos que se seguiram à reforma da Universidade, 430 brasileiros
lá se formaram em ciências, e apenas 262 em humanidades, sobretudo
direito2. Lembre-se, em relação à Tabela 1, que o que na época se
entendia por filosofia era antes história natural, física, química,
mineralogia, isto é, ciências da natureza.
Desta geração de cientistas, muitos, sobretudo os brasileiros,
foram enviados ao Brasil para estudar suas riquezas vegetais e minerais.
Tinham instruções para mandar relatórios a Portugal, com sugestões
sobre aproveitamentos que pudessem ser úteis às combalidas finanças
do Reino. Pombal foi o primeiro a enviá-los à colônia, em busca de
riquezas exploráveis3. Uma consequência disso foi que a primeira
atividade científica exercida no país foi realizada por brasileiros, o que
contrasta com o modelo geral de implantação da ciência moderna em
colônias européias. Essa implantação se iniciou, em geral, pela

2
Ver DIAS. Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, n. 278, p. 116.
3
Para um modelo de implantação da ciência ocidental, ver BASALLA. Science.

16 17
atividade de cientistas, a maioria botânicos e mineralogistas, ou Câmara fora nomeado Intendente Geral das Minas na Capitania de
naturalistas, como eram chamados, pertencentes aos países Minas Gerais e no Serro Frio6.
colonizadores que buscavam nas colônias riquezas exploráveis. Em
A pedido de D. Rodrigo, o naturalista mineiro José Vieira Couto,
Minas Gerais, pela concentração de recursos e de explorações minerais,
residente em Diamantina, escreveu, em 1799, uma Memória, em que
houve também urna concentração desses cientistas. Ao fim do período
sugeria a implantação de grandes usinas de produção de ferro, além da
colonial, havia 34 deles ocupando postos públicos na Capitania. A
construção de estradas para o escoamento da produção. Segundo
liderança da Inconfidência contou com a presença de alguns deles, que
Calógeras, essa Memória foi o documento básico por trás da política
viam exatamente nas riquezas locais uma justificativa para a
siderúrgica de D. João. Já anteriormente, governadores portugueses da
independência. Como era de esperar, ao tirarem tal conclusão, os
Capitania haviam sugerido medidas para a melhoria da mineração do
cientistas perderam o apreço do governo colonial e sentiram o peso de
ouro e para a implantação de fábricas de ferro. A Exposição sobre o
sua coerção4.
estado de decadência da Capitania de Minas Gerais, escrita em 1780
O auge da atuação dos cientistas verificou-se durante o governo pelo governador D. Rodrigo José de Menezes, sugeria a criação de uma
do Conde de Linhares, D. Rodrigo de Souza Coutinho, que se estendeu fábrica de ferro, pelo Estado ou por particulares, por razões estratégicas
de 1796 a 1812. Na área que mais nos interessa, D. Rodrigo, secundado e econômicas. Segundo o Governador, o ferro era excessivamente caro
por José Bonifácio e Manuel Ferreira da Câmara, tomou várias medidas em Minas porque todo ele era comprado aos suecos, hamburgueses e
de importância. A primeira foi enviar esses dois cientistas em longa biscainhos. Em caso de guerra na Europa, haveria total interrupção da
viagem de estudos, de quase dez anos, por vários países da Europa. importação, paralisação da mineração do ouro e grandes perdas para a
Levaram consigo cuidadosas instruções no sentido de se especializarem Coroa7.
na teoria e na prática da mineralogia e da siderurgia5. No início do
O próprio José Vieira Couto escreveu, em 1801, outra Memória
século XIX, os dois já eram os responsáveis pela política mineralógica
em que também fala da decadência total das minas: “tudo são ruirias,
do reino, em Portugal e no Brasil. José Bonifácio, além de dirigir a
tudo despovoação”, devido ao alto preço do ferro, da roupa e dos
cadeira de mineralogia, para ele criada na Universidade de Coimbra, era
alimentos, sujeitos à importação e a altos impostos. Mas desta vez
o Intendente Geral das Minas e Metais do Reino. Manuel Ferreira da
preferiu sugerir, como solução para a crise, medidas fiscais e a
promoção da agricultura8.
4
Vítima pouco conhecida da perseguição aos inconfidentes foi José de Sá Bittencourt, irmão
de Manuel Ferreira da Câmara Bittencourt. Em memória dedicada a José Bonifácio, escrita Outro produto típico da Ilustração foi o bispo Azeredo Coutinho,
logo após a Independência, José de Sá conta seus planos de cientista no Brasil: “Quando ex-senhor de engenho. O bispo escreveu, em 1804, um livro sobre o
deixei a Universidade, abrasado de um ardente desejo de ser útil à minha pátria, comprei estado das minas do Brasil em que repetia e desenvolvia as discussões
livros, todos os vasos de vidro próprios para o estabelecimento de um laboratório, todos os anteriores. Aparecem de novo as convicções iluministas quanto ao
reagentes e máquinas que me eram necessárias para pôr em exercício o meu gênio, fazer a
escola aos patrícios que dela quisessem utilizar.” Mas veio a denúncia de Silvério dos Reis e poder da ciência sobre as “artes” e a preocupação com o que se
“homens inocentes nada temiam; mas porque uns diziam que sabia fundir o ferro, outros que chamaria hoje de desenvolvimento econômico. O próprio livro é
era da sua arte a manipulação do salitre e o fabrico de pólvora, operações das suas
faculdades, foram logo suspeitos de inconfidência”. José de Sá conseguiu escapar para a
6
Bahia, onde foi preso, trazido a Minas, julgado e absolvido. Mas achou mais seguro voltar à Sobre a política siderúrgica na época, ver BARBOSA. Digesto Econômico, n. 144, p. 151-
Bahia, onde reside há muitos anos, “não dando exercício algum a minha faculdade, e não 161. Sobre Manuel Ferreira da Câmara, ver MENDONÇA. O Intendente Câmara.
7
querendo mesmo ser por ela conhecido, uma vez que era um crime o apelido de naturalista”. Citado em CALÓGERAS. As minas do Brasil e sua legislação, p. 48-53.
8
Ver CÂMARA. Revista do Arquivo Público Mineiro, ano II, fasc. 4, v. 2, p. 599-609. COUTO. Memória sobre as minas da Capitania de Minas Gerais, escrita em 1801 pelo
5
As instruções acham-se reproduzidas em FALCÃO (Org.). Obras científicas, políticas e Dr. ... Nessa memória, Vieira Couto julga serem de chumbo as grandes jazidas de ferro de
sociais deJosé Bonifácio de Anclrada e Silva, p. 169-170. Minas, o que não depõe muito em favor de sua ciência.

18 19
dedicado à “Ciência do Governo e a esta ciência que se ocupa interpretação de Maria Odila, a preocupação básica dos ilustrados era
essencialmente da prosperidade do Estado, da Felicidade dos Povos e “integrar o Brasil na cultura ocidental traduzindo, aprendendo e,
dos verdadeiros meios de a procurar”9. No exame da situação das minas, sobretudo, tentando aplicar”. Não foi por outro motivo que eles foram
denunciava sua decadência, em boa parte devida à escassez do ferro, enviados à Europa, aos Estados Unidos, às Antilhas para observar,
que era o elemento que mais pesava nos custos da mineração. Um anotar e depois adaptar ao Brasil e a Portugal, ou mesmo tentar soluções
quintal (60 kg) de ferro, segundo ele, custava na metrópole 3.800 réis e originais12.
em Minas 19.200 réis. Como o ferro vem de fora, “o mineiro português
Na área do ensino da mineralogia deve-se notar a criação, em
não faz mais do que trabalhar para o sueco e para o biscainho10.
1810, do Real Gabinete de Mineralogia do Rio de Janeiro, destinado a
Como remédio, Azeredo Coutinho sugeria a exploração de outros administrar as 3.500 amostras da chamada Coleção Werner, trazida para
minerais que não o ouro. Mas para isto seria necessário conhecimento o Rio pelo Príncipe Regente. Para dirigir o Gabinete foi contratado o
da mineralogia para “os saber distinguir e extrair das suas minas”. E Barão de Eschwege, aluno de Werner, o primeiro sistematizador da
perguntava-se como fazer progressos se nas serranias de Minas não mineralogia. Eschwege já trabalhara para o governo em Portugal em
havia estabelecimentos metalúrgicos. O gabinete foi transferido em 1811 para
um só homem inteligente na mineralogia? Logo, é absolutamente
a Academia Militar e foi incorporado ao Museu Nacional em 1818. O
necessário que se estabeleçam escolas de mineralogia nas praças próprio Museu, outra instituição que se destacou durante o século XIX
principais das Capitanias e especialmente na de São Paulo, Minas na pesquisa científica, fora criado com a finalidade de “propagar os
11
Gerais, Goiás, Cuiabá, Mato Grosso . conhecimentos e estudos das ciências naturais no Brasil”. Nele foi
criada uma Seção de Mineralogia e Geologia que, juntamente com uma
É também da época de Pombal a criação da Academia Cientifica cadeira na Escola Militar, foram os únicos instrumentos de ensino e
do Rio de Janeiro, que durou de 1772 a 1779, seguida pela da Sociedade pesquisa dessa ciência até a criação da Politécnica e da Escola de
Literária, que sobreviveu de 1786 a 1794. Ambas dedicavam-se a Minas, na década de 70.
estudos práticos de agricultura, promoviam culturas novas,
incentivavam produtores. D. Rodrigo mandou publicar e distribuir os 11 No que se refere a medidas de política mineral, o primeiro
volumes do Fazendeiro do Brasil, coletânea de instruções práticas aos documento importante, após o alvará de 1795 que liberou a produção de
agricultores, organizada pelo botânico Frei Mariano da Conceição ferro em Minas, foi outro alvará de 1803, cuja redação teria sofrido
Veloso. influência de Manuel Ferreira da Câmara. Seu objeto foi a criação da
Real Junta Administrativa de Mineração e Moedagem na Capitania de
Nos primeiros anos do século XIX, sobretudo durante o governo Minas Gerais. Entre as medidas que a Junta deveria tomar a fim de
de D. Rodrigo, prevaleceu entre a elite governante portuguesa, com a melhorar a situação das minas e, portanto, do erário régio, incluía-se “o
franca colaboração de muitos cientistas brasileiros, uma forte estabelecimento de escolas mineralógicas e metalúrgicas, semelhantes
mentalidade iluminista, caracterizada pela fé no poder da ciência e pela às de Freyberg e Schemnitz, de que têm resultado àqueles países tão
preocupação pragmática de aplicar os conhecimentos científicos a bem grandes e assinaladas vantagens”13. O alvará de 1803 criou ainda o
da “prosperidade do Estado e da felicidade dos Povos”, no dizer de
Azeredo Coutinho. Na prática, mais a bem daquela do que desta. Na

9 12
COUTINHO. Discurso sobre o estado atual das minas do Brasil, p. 3. DIAS. Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, p. 134.
10 13
COUTINHO. Discurso sobre o estado atual das minas do Brasil, p. 2. A desigualdade nos O alvará encontra-se no Arquivo Nacional, Códice 952, v. 46. A citação está na página 3.
preços do ferro no Brasil e na Europa seria salientada por Gorceix, 70 anos mais tarde. Sobre a influência de Manuel Ferreira da Câmara em sua elaboração, ver MENDONÇA.
11
COUTINHO. Discurso sobre o estado atual das minas do Brasil, p. 33. Ênfase de JMC. Revista da Escola de Minas, v. XXII, n. 6, p. 279.

20 21
cargo de Intendente Geral das Minas, para o qual D. Rodrigo nomeou utilizado. Tal presença fora uma das principais causas das constantes
logo a seguir Manuel Ferreira da Câmara. dificuldades lã encontradas para a redução do minério.
Ainda no período de D. Rodrigo verificaram-se as primeiras Uma carta régia de 1808, assinada por D. Rodrigo, encarregou
tentativas de implantar no país a indústria siderúrgica. Antes, só Manuel Ferreira da Câmara de construir uma usina estatal de ferro no
houvera os frustrados esforços de Afonso Sardinha, feitos em Sorocaba morro do Gaspar Soares, em Minas Gerais. Câmara tentou pela primeira
no século XVI. Pombal tentara retornar as experiências de Sorocaba, vez no Brasil a redução do minério pelo método indireto de altos-
tendo instruído nesse sentido o governador D. Luiz Antônio de Souza. fornos. Aparentemente, a tentativa não foi muito bem-sucedida, tendo
Apesar dos esforços oficiais, não foi à frente o empreendimento. seu alto-forno produzido apenas 300 arrobas de fonte. Câmara construiu
Segundo o Governador, “tudo isto se malogra pela pouca experiência do então fornos suecos com o auxilio do técnico alemão SchÉ5newolf,
Mestre e pela falta de pessoas hábeis e curiosas, pois me não tem sido cedido de má vontade por Eschwege. Foi provavelmente o ferro
possível descobrir sujeitos que, aplicando-se, conseguissem o produzido nesses fornos que em 1815 foi transportado em caravana para
descobrimento deste segredo”, diz ele em carta de 1769 ao Conde de o arraial do Tijuco em meio a grandes festividades em homenagem ao
Oeiras, futuro Marquês de Pombal. O que mais valia ao Governador era Intendente. Voltando Schõnewolf à Alemanha, o empreendimento foi
a “rude inteligência de um negro” que tirava melhores fundições que o abandonado, e em 1830 já quase nada existia em Gaspar Soares16.
Mestre14. Das tentativas da época de D. Rodrigo, duas foram oficiais, a
A tentativa de maior êxito foi a de Eschwege em Congonhas do
de Ipanema e a de Gaspar Soares, e uma particular, embora com o apoio
Campo. Optando por empresa particular, encorajada por D. Rodrigo e
público, a de Congonhas do Campo.
com a participação acionária do governador da Capitania, D. Francisco
Para Ipanema, foram trazidos, em 1810, técnicos suecos, de Assis Mascarenhas, Eschwege deu rápido inicio aos trabalhos, numa
dirigidos por Hedberg. A experiência fracassou devido à incompetência corrida para produzir ferro antes de Ipanema e de Gaspar Soares.
dos suecos. Só em 1814, já sob a direção de Varnhagen, é que Escolhendo o método direto, Eschwege adaptou o processo dos
começaram a surgir resultados. Varnhagen construiu dois altos-fornos cadinhos trazido pelos escravos, aperfeiçoando-o pela introdução de
que em 1818 produziram fonte em condições industriais. A história da uma trompa hidráulica para injeção de ar no forno. Calógeras considera
fábrica de ferro de Ipanema atravessou todo o século XIX, com altos e esta inovação uma verdadeira revolução tecnológica, que rapidamente
baixos. Fechada em 1860, foi reaberta por ocasião da Guerra do se espalhou por Minas Gerais. A força hidráulica foi também usada para
Paraguai. Em 1895, foi fechada em definitivo por causa dos grandes movimentar os martelos ou malhos usados para a expulsão das escórias.
prejuízos em que incorria. Segundo Calógeras, nos oito últimos Antes trabalhava-se com foles e martelos manuais de muito baixo
exercícios antes de ser fechada, a fábrica dera prejuízo de mais ou rendimento. Em 1812, conseguindo bater Câmara, Eschwege produziu
menos 750 contos de reis15. À época de seu fechamento, graças a ferro em seus fornos, para o que contou com a preciosa colaboração de
análises feitas na Escola de Minas e estudos de especialistas, Schi5newolf, depois requisitado por Câmara.
evidenciara-se a presença de titânio e fósforo no minério por ela

16
Sigo aqui principalmente CALÓGERAS. As minas do Brasil e sua legislação. O autor não
tem boa imagem da competência de Câmara como metalurgista, ao passo que a tem muito
14
Citado em CALÓGERAS. As minas do Brasil e sua legislação, p. 43. O segredo a que se boa de Eschwege. Os dois, aliás, mantinham constante competição, cada qual tentando
refere é o “conhecimento do ponto em que se deve queimar a pedra para a boa produção do provar sua maior habilidade na produção do ferro. As festas do Tijuco, por ocasião da
ferro”. chegada das primeiras barras de ferro de Gaspar Soares, em 1815, duraram quatro dias. Sua
15
Sobre a experiência de Ipanema, ver CALÓGERAS. As minas do Brasil e sua legislação. descrição, transcrita do INVESTIGADOR português, foi publicada na Revista do Arquivo
Ver também DUPRÉ. Anais da Escola de Minas de Ouro Preto, n. 4, p. 51-90. Público Mineiro, ano 7, v. 7, fasc. 1/2, p. 13-21.

22 23
Um depoimento de José de Sá Bitencourt fala da rápida difusão não foi captado pelo taquígrafo, de modo que só nos restou a emenda
da técnica da trompa hidráulica, cuja introdução, em Minas Gerais, ele que dizia:
atribui ao irmão. Diz ele: “todo aquele que pode levantar a sua trompa a Que haverá na Província de Minas Gerais uma academia
fabrica”, e mais adiante: montanistica, na qual se ensinarão as seguintes doutrinas: 1ª. a
Não se pode meter mais a ridículo aos fabricantes de ferro da Europa química em geral; 2ª. a docimasia e metalurgia; 3ª. a mineralogia
do que o que vi no Sítio do Campeble onde um crioulo alfaiate tinha compreendendo a orictognosia, a geognosia e a teoria dos filões e
uma pequena trompa muito malconstruída, com o cano condutor do mais formações metálicas; 4ª. a geometria e trigonometria, como os
ar para a fornalha de embaúba, com tubo que introduzia o ar no primeiros elementos do cálculo, aplicando todos estes conhecimentos
algaraviz da forja de taquara e, deste modo, fazia o seu ferro muito à geometria subterrânea, à mecânica e à hidráulica; 5ª. a arte de
bom a quem comprei oito arrobas .
17 edificar as minas com segurança; 6ª. a agricultura e a arte
18
veterinária .
A última experiência feita no período colonial, já após a morte de
D. Rodrigo, se deveu a um particular, aparentemente sem nenhuma A Constituinte foi dissolvida e nada se fez. Quando da discussão
ligação com o governo. Trata-se da iniciativa de João Antônio de da criação dos cursos jurídicos em 1827, ninguém mais se lembrou da
Monlevade, “grande mineralógico, grande químico, além de outros academia montanística. Somente no Conselho Geral da Província de
conhecimentos de física, matemática e literatura”, no dizer de José de Minas — em parte por não ter sido a Província, uma das mais
Sá Bitencourt. Monlevade chegou a Minas em 1817, onde construiu um importantes do Império, aquinhoada com um curso superior —
alto-forno em Caeté e, posteriormente, uma forja catalã. Esses continuou a discussão em torno do assunto. As discussões, que
estabelecimentos desapareceram após sua morte, surgindo em seu lugar contaram com a participação decisiva de Bernardo Pereira de
uma forja do tipo italiano que também influenciou outras fundições. Até Vasconcelos, resultaram num projeto que foi aprovado pela Assembléia
o último quartel do século, predominou em Minas o método dos Geral Legislativa e transformado em lei em 1832. Essa lei é considerada
cadinhos, reformado por Eschwege, e o método italiano. Nenhuma outra o documento oficial de criação da Escola de Minas de Ouro Preto,
inovação foi feita por iniciativa oficial ou particular. efetivada 43 anos depois19. (Ver Apêndice)

A Independência trouxe preocupações políticas imediatas para o A justificativa do Conselho Geral para o projeto de lei ainda
novo governo. Apesar da participação nos acontecimentos, pelo menos refletia as preocupações do período anterior com o estado de decadência
no início, de dois mineralogistas e cientistas, José Bonifácio e seu irmão das minas e com a necessidade de desenvolver a ciência e a técnica
Martim Francisco, outras eram as prioridades. O próprio José Bonifácio como solução para o problema. Dizia ela:
se dedicou em tempo integral à construção do novo país, deixando de Considerando que a arte das minas consiste em muitos
lado a pesquisa científica. As duas últimas manifestações em favor do conhecimentos científicos e especialmente em mineralogia, química
desenvolvimento do ensino técnico na área de mineralogia se deram na e mecânica, e convencido de que o estado estacionário da mineração
Assembléia Constituinte de 1823 e no Conselho da Província de Minas
em 1832. 18
ANAIS DO CONGRESSO NACIONAL. Assembléia Constituinte, 1823, t. VI, p. 134. O
Na Constituinte, ao ser discutida a criação de universidades, ponto mais discutido pelos constituintes foi a localização das universidades ou escolas. No
esforço de levar para sua província o benefício, os constituintes recorriam a argumentos
Manuel Ferreira da Câmara apresentou emenda que previa o notáveis. Um deputado pela Paraíba apontou como razão para instalar a universidade em sua
estabelecimento, em Minas, de uma escola mineralógica. Seu discurso terra o fato de lá não haver nem mesmo um teatro que pudesse distrair os estudantes.
19
Ver COLEÇÃO DE LEIS DO IMPÉRIO DO BRASIL, 1832, p. 98-100. Ver também os
RELATÓRIOS DO CONSELHO GERAL DA PROVÍNCIA, 1830, p. 102-103 e de 1832, p.
17
CÂMARA. Revista do Arquivo Público Mineiro, p. 607. 116-117; e VEIGA. Ephemerides mineiras (1664/ 1884), v. I, p. 189-190.

24 25
nesta Província provém da falta de conhecimentos destas ciências, alternativas econômicas para o Reino. A essas medidas se juntaram
das quais, no porvir, poderá ela tirar urna fonte perene de riqueza, por outras, como a criação de companhias de comércio, a tentativa de
isto que as suas montanhas encerram incalculáveis produtos do reino desenvolver a siderurgia, o combate aos jesuítas e à nobreza, a luta
20
mineral, os quais se acham hoje desprezados, resolveu etc . contra o domínio inglês. A preocupação com a aplicação dos
A organização dada por Gorceix à Escola de Minas, conhecimentos, tão em evidência entre os cientistas da época, tinha um
intencionalmente ou não, apresentava várias semelhanças com as alvo muito claro e era, certamente, motivada pelos interesses da
indicações da lei de 1832, que previa um curso preparatório, exame de economia portuguesa. Como boa parte das receitas do Reino provinha
entrada, curso de quatro anos, ano letivo de setembro a maio, com da extração do ouro, nada mais razoável do que a direção dos esforços
quatro meses para excursões e trabalhos práticos, e a contratação de dos cientistas para as possibilidades de revitalizar a mineração ou
professores estrangeiros para as cadeiras novas. Quase tudo isso se encontrar para ela um substituto. A própria crise na mineração do ouro,
concretizou na Escola de Minas. conforme o relatório já citado de D. Rodrigo José de Menezes, chamava
a atenção para a necessidade de introduzir a siderurgia, a fim de
Salvas algumas menções esporádicas nas mensagens dos baratear os custos da atividade. É possível que a preocupação tenha
presidentes da Província pedindo sua efetivação, a lei de 1832 foi a pesado na decisão de enviar José Bonifácio e Manuel Ferreira da
última manifestação importante antes da criação da Escola em 187521. Câmara à Europa para se especializarem em mineralogia e metalurgia.
Na prática, cessaram também os esforços oficiais para implantar a Certamente, pesou nas medidas concretas tomadas no Brasil em relação
siderurgia. O ensino de mineralogia reduziu-se à cadeira da Escola à siderurgia. Até a Independência, a situação não melhorara para
Militar — que servia para fornecer os diretores de Ipanema, todos Portugal, pois não melhorara para os produtos básicos da colônia mais
militares —, e a pesquisa limitou-se aos poucos trabalhos da Seção de rica. O ouro continuava minguando e os preços do açúcar não eram
Mineralogia e Geologia do Museu Nacional. Teriam mudado os homens bons. Continuava, por isso, a busca de alternativas que os líderes mais
ou teria mudado o país? influenciados pelo espírito ilustrado acreditavam poder vir da aplicação
Mudaram os dois. É preciso não esquecer que a reforma do conhecimento científico.
pombalina do ensino era parte de um esforço mais amplo de reerguer a Poder-se-ia perguntar aqui pelas razões do fracasso das
economia portuguesa, em grandes dificuldades por causa da decadência iniciativas siderúrgicas da época, urna vez que estavam presentes a
das minas de ouro, das flutuações nos preços do açúcar e da demanda econômica e a convicção da necessidade de uma abordagem
dependência em relação à Inglaterra22. A ênfase na ciência natural, na técnica do problema. As causas são várias. Podem citar-se o curto
botânica, na mineralogia; os relatórios pedidos aos governadores; as tempo de experiências (apenas uma década), dificuldades que as
memórias solicitadas aos cientistas; as medidas práticas de difusão do próprias ciência e técnica de então não poderiam resolver, como as da
conhecimento técnico via sociedades científicas e publicação de livros qualidade do minério de Ipanema; problemas de técnica produtiva (a
do tipo Fazendeiro do Brasil; tudo isto tinha a finalidade de encontrar opção por pequenos fornos e pelo método direto adotada por Eschwege,
por exemplo, parece que seria a mais acertada para a época, em
20
Citado em OLINTO. Anais da Escola de Minas, n. 7, p. 32-34. comparação com os altos-fornos tentados por Câmara); a própria
21
Ver, por exemplo, o relatório apresentado ao Presidente Francisco Diogo Pereira de incompetência técnica das pessoas envolvidas; e problemas econômicos
Vasconcelos, em 1855, pelo vice-diretor da Instrução Política, Antônio Ribeiro Bhering, em
que é dito que, urna vez acalmadas as dissensões internas, e estando crescendo as receitas
derivados da dificuldade de competir com o produto europeu mais
públicas, era hora de dar a Minas o que outras províncias já tinham obtido: uma Academia. barato. De qualquer modo, como vimos algo restou de importante em
In: RELATÓRIO DO PRESIDENTE DA PROVÍNCIA, 1855, p. 5. Ipanema e nas dezenas de pequenas forjas espalhadas por Minas Gerais
22
Sobre as razões econômicas das políticas pombalinas, ver, por exemplo, CARNAXIDE. O que, bem ou mal, contribuíram para reduzir a dependência da
Brasil na administração pombalina (economia e política externa).

26 27
importação do ferro e serviram de base para os desenvolvimentos do teria sobrevivido até fundir-se com a corrente positivista do último
final do século, já com nova técnica e urna economia em transformação. quartel do século, que retomou a bandeira ilustrada do cientificismo e
do pragmatismo24.
Seja como for, a situação predominante à época da Independência
sofreu grandes mudanças que afetaram a demanda por medidas A tese é duvidosa. Roque Spencer Maciel de Barros exagera ao
econômicas na área mineira e metalúrgica e a oferta de conhecimentos considerar a renovação intelectual, que teve início ao redor de 1870,
nestas áreas e na área das ciências naturais em geral. como a ilustração brasileira, réplica do Iluminismo europeu do século
XVIII. Ele se esquece do Iluminismo de fins do século XVIII e
Quanto ao primeiro ponto, o processo da Independência e,
começos do século XIX, estudado por Maria Odila. Mas os dois
posteriormente, as lutas políticas da Regência não permitiam maior
movimentos foram distintos, sem a continuidade entre um e outro,
atenção ao desenvolvimento de urna alternativa econômica que se tinha
pretendida por Maria Odila. Uma indicação da ruptura é a ausência de
mostrado custosa e de resultado duvidoso pelas experiências iniciais.
cientistas no período intermediário e, portanto, de produção científica.
Além disso, os orçamentos na época eram deficitários. O início do
Segundo Reinado trouxe redução dos conflitos internos e folga no A ausência era inevitável, uma vez que a educação superior
orçamento, graças à diminuição dos gastos com as forças armadas. implantada pelo Império não era de molde a formar cientistas. O
Parecia que o país entraria num período de certa tranquilidade. Mas predomínio era das escolas de direito, mais próximas da Coimbra pré-
nesse momento a alternativa econômica tão procurada desde Pombal pombalina. As escolas de medicina, dada a natureza de seu ensino, só
fazia sua entrada triunfal no país: o café assumia o primeiro lugar na excepcionalmente poderiam produzir cientistas. E foi, de fato,
pauta de exportação. Ele já conquistara a Província do Rio de Janeiro, necessário surgir o Instituto Oswaldo Cruz para iniciar a pesquisa
sede do governo e terra de alguns dos principais políticos responsáveis biológica em escala significativa. Restava a Escola Militar,
pela reação centralizadora que deu base ao Segundo Reinado. Nem posteriormente Escola Central, como o único centro de treinamento
mesmo um homem ligado à mineração, autor do projeto que levou à lei científico nas ciências exatas, na engenharia e nas ciências naturais. No
de 1832 e autor também, ou inspirador, das principais leis da entanto, a Escola Militar tinha pouca influência fora do Exército, e só
centralização, Bernardo Pereira de Vasconcelos, se lembrou mais de raramente seus ex-alunos atingiam posição de importância política,
tentar promover o ensino ou a prática da mineralogia e da siderurgia23. como foi o caso do Visconde do Rio Branco. Como instituição de
Nas próximas décadas, o destino do país estaria ligado à economia do pesquisa propriamente dita, restava apenas o Museu Nacional. No
café. entanto, o Museu passou também por um longo período de estagnação
e, somente após o início da nova ilustração, com a incorporação de
Paralelamente a essa transformação, mudaram também os
vários pesquisadores estrangeiros, é que recobrou dinamismo. Na área
homens. A geração ilustrada desapareceu ao final do Primeiro Reinado.
geológica e mineralógica, por exemplo, o único pesquisador a se
Houve um grande lapso de tempo até que outra geração, chamada por
salientar foi o Barão de Capanema, que trabalhava na Seção de
alguns também de ilustrada, dominasse o cenário cultural do país. Há
Mineralogia e Geologia do Museu e lecionava na Escola Central. A
quem discorde dessa afirmação. Maria Odila, por exemplo, sustenta ter
grande obra de geologia até a criação da Comissão Geológica do
havido uma continuidade do Iluminismo, Segundo Reinado adentro,
Império continuou sendo o Pluto brasiliensis, de Eschwege, publicada
através da Sociedade Auxiliadora da Indústria Nacional, criada em
em 183325.
1827, e da publicação d’O auxiliador da indústria nacional. A ilustração

23 24
A pouca atenção do governo de Minas à indústria siderúrgica é mostrada em IGLÉSIAS. DIAS. Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, p. 163.
25
Política econômica do governo provincial mineiro (1835-1889), p. 90-118. Ver, sobre o tema, LEINZ. A Geologia e a Paleontologia no Brasil, p. 243-263.

28 29
A descontinuidade pode ser verificada também na formação dos engenharia de “pontes e calçadas”. Tais necessidades eram inicialmente
políticos da época. A Tabela 2 indica a formação dos ministros de supridas pela Escola Militar, posteriormente pela Escola Central. O
Estado. Vê-se que a geração de políticos da independência ainda incluía aumento da demanda de engenheiros civis levou à transformação da
um bom número de cientistas remanescentes da reforma pombalina. Seu Escola Central em Politécnica, em 1874. A agronomia só veio mais
número é reforçado pela substancial presença de militares, na sua tarde. Em Minas Gerais, os únicos estabelecimentos que requeriam
maioria formados no Colégio dos Nobres, instituição criada por Pombal engenheiros não civis eram as minerações pertencentes a estrangeiros,
em 1761 para treinar os filhos da nobreza, também com muita ênfase especialmente ingleses, que não utilizavam técnicos brasileiros. A
em ciências exatas e naturais. Contando também os militares, pode-se produção de ferro se dava em umas 75 pequenas fábricas, que
ver que quase a metade dos ministros do Primeiro Reinado tinha utilizavam cadinhos ou forjas italianas, sem capital para ampliar a
formação em ciências, a outra metade, em direito. Em contraste, no produção e introduzir novas técnicas26. Era esse, simplificadamente, o
último período, de 1871 a 1889, os civis formados em ciências tinham panorama da oferta e da demanda de tecnologia no Brasil em torno de
desaparecido totalmente. Restavam apenas os militares, mas em número 1870. Quase o oposto daquele verificado no início do século.
bem menor e certamente com formação menos apurada do que a do
Colégio dos Nobres. O mesmo quadro poderia ser obtido para senadores SINAIS DE MUDANÇA
do Império.
O quadro apresentado acima levaria a crer na inexistência de
Tabela 2 qualquer motivação, ideológica, cultural ou econômica, para a criação
Tipo de Formação dos Ministros, por Períodos – 1822/1889 da Escola de Minas. Não é bem assim. No mundo das ideias, algumas
FORMAÇÃO mudanças já se faziam sentir, sobretudo no que se refere aos estudos
PERÍODOS TOTAL geológicos. O fato mais importante talvez tenha sido a visita de Agassiz
1822/31 1831/40 1840/53 1853/71 1871/89 acompanhando a expedição Thayer em 1865. A fama desse sábio
Direito 51,29 56,67 85,00 77,09 85,73 72,50 despertou interesse pelas pesquisas geológicas, sobretudo por parte do
Ciências Imperador, conhecido entusiasta da ciência, não obstante as observações
20,51 13,33 5,00 2,08 0,00 7,00 desairosas feitas pelo próprio Agassiz em relação aos cientistas
Exatas
Militar 28,20 20,01 10,00 18,75 7,93 16,50 brasileiros e aos brasileiros em geral.

Medicina 0,00 6,66 0,00 2,08 6,34 3,50 O mais importante da expedição, no entanto, foi a presença de
0,00 Frederick Hartt, geólogo de Cornell, que regressou ao Brasil em 1870
Religiosa 0,00 3,33 0,00 0,00 0,50 com a primeira expedição Morgan, para continuar os estudos iniciados
TOTAL 100,00 100,00 100,00 100,00 100,00 100,00 em 1865. Hartt voltou ainda outra vez e foi encarregado, em 1875, de
(N=30) (N=20) (N-48) (N=63) (N=200) organizar a Comissão Geológica do Império. A Comissão foi extinta
(N=39)
dois anos depois pelo recém-empossado gabinete liberal, cujo
Fonte – CARVALHO. A construção da ordem, p. 4.
presidente, o visconde de Sinimbu, se recusou a receber Hartt para
Tudo indica, portanto, que houve corte entre um período e outro. discutir o assunto. A razão apresentada para a extinção foi a escassez de
A geração ilustrada desapareceu e foi substituída por magistrados e
advogados. A economia passou a girar em torno do café, inclusive a de
26
Minas Gerais. O tipo de formação técnica exigido por essa economia Existem várias descrições da situação da indústria do ferro em Minas por essa época,
algumas já feitas por professores e alunos da Escola de Minas. Ver, por exemplo, SENA.
restringia-se à engenharia civil e militar e à agronomia. Na área civil, Anais da Escola de Minas, n.1, p. 106-143; OLIVEIRA. Anais da Escola de Minas, n. 5 e 6,
precisava-se de construtores de estradas de ferro e da clássica p. 157-112, p. 14-81; THIRÉ. L’industrie du fer dans la Province de Minas Gerais.

30 31
recursos. Hartt morreu em 1876, no Rio de Janeiro, de febre amarela. ecletismo católico no pensamento foram elementos importantes para o
Apesar da curta existência, a Comissão reuniu um grupo de excelentes renascimento científico. A ação prática dos ilustrados foi, no entanto,
geólogos, quase todos estrangeiros. Os mais importantes foram Orville limitada por sua visão equivocada sobre a maneira de promover as
A. Derby, John Casper Branner e R. Rathbun. Desses pesquisadores reformas. Insistiram na faculdade livre, na frequência livre e na livre-
sairia a maior parte da produção cientifica brasileira na área da geologia docência. As medidas foram úteis para quebrar a rigidez anterior, elas
até o final do século, realizada, sobretudo, no Museu Nacional. não produziram os efeitos desejados. A retirada do poder público do
ensino, uma reivindicação dos positivistas, se efetivada, seria desastrosa
A extinção da Comissão indica que os governantes não
nas circunstâncias em que se achava o país. Na pesquisa científica, foi
valorizavam os estudos geológicos ao ponto de comprometer recursos
exatamente o apoio governamental que garantiu o que de bom se fez29.
orçamentários para sua promoção. No entanto, algo estava, de fato,
Quanto à frequência livre, ela foi um dos inimigos que Gorceix teve de
mudando no país, conforme registrou Derby em precioso documento
enfrentar para preservar o tipo de ensino que desejava implantar em
escrito em 1883. Segundo o norte- americano, “os últimos 10 ou 15
Ouro Preto.
anos testemunharam um notável despertar no Brasil para a importância
da pesquisa cientifica”27. Tratava-se, para ele, de nova era, da qual os A atmosfera de renovação pode ter afetado a decisão de criar a
brasileiros não pareciam estar ainda bem conscientes e da qual a criação Escola, mas essa última foi, ela própria, um capítulo importante do
da Escola de Minas era parte importante. Em sua opinião, as causas da renascimento. A situação do ensino e da pesquisa no país, como se verá
renovação eram o aumento das comunicações com outros países, as adiante, foi um dos principais obstáculos à implantação de uma
novas energias geradas pela Guerra do Paraguai, a visita de Agassiz e, instituição renovadora como queria Gorceix que fosse a sua.
sobretudo, as visitas do Imperador aos Estados Unidos e à Europa.
Foi nessa conjuntura de pequena demanda social pela engenharia
Nessas viagens, o Imperador entrara em contato com cientistas e
de minas e metalúrgica, de interesse apenas incipiente pelos estudos
instituições de pesquisa e regressara com “noção mais clara sobre o que
científicos, centrado, sobretudo, no Imperador, que Gorceix foi
devia ser encorajado e promovido em seu próprio país”28.
convidado para criar no Brasil o que ele quis chamar no início de uma
A reforma do Museu Nacional e do Observatório Nacional, a “Escola de Mineiros”.
criação da Escola de Minas e da Politécnica, as tentativas de reforma
das Escolas de Medicina e mesmo pesquisas feitas por particulares em CRIAÇÃO
seus laboratórios eram os principais indicadores da renovação em
andamento. A iniciativa foi toda de D. Pedro II. Em viagem à Europa, entre
maio de 1871 e março de 1872, o Imperador entrou em contato com
A mudança foi reforçada pelo movimento que Roque Spencer
Auguste Daubrée, seu colega na Academia de Ciências de Paris e
chamou de ilustração brasileira e que, segundo ele, teria tido início em
diretor da Escola de Minas, também de Paris. Pediu-lhe um documento
torno de 1868 e duraria até a Primeira Guerra. Os líderes dessa
sobre a melhor maneira de conhecer e explorar as riquezas minerais no
ilustração estavam preocupados com problemas de natureza mais
Brasil. Daubrée sugeriu a elaboração da carta geológica e o ensino da
filosófica do que científica. Mas sua preocupação com a renovação do
geologia por professores estrangeiros ou por brasileiros treinados no
ensino, a nova confiança no valor da ciência e a quebra do domínio do
exterior. De volta ao país, em carta pessoal de 6 de julho de 1872,
27
enviada por intermédio do ministro do Império, João Alfredo Correa de
DERBY. Science, v. 1, n. 8, p. 211. A autoria do artigo por Derby foi estabelecida por Oliveira, um pernambucano formado em direito, o Imperador convidou
GONSALVES (Org.). Orville Derby’s studies ou the Paleontology of Brazil: selection and
coordination of this geologist’s out of print and rare works, p. 154.
28 29
DERBY. Science, p. 212. Ver BARROS. A ilustração brasileira e a ideia de universidade, passim.

32 33
Daubrée a visitar o Brasil. Com a visita, disse na carta, “não somente o Achille Delesse, que era também professor da Escola de Minas de Paris
país ganhará com o maior aproveitamento de suas minas; as ciências e, como Daubrée, membro da Academia de Ciências, foi nomeado
naturais, em geral, dela receberão forte impulso”. E traindo talvez sua agregé-préparateur de geologia e mineralogia na Escola Normal. Nessa
maior preocupação com a ciência do que com a economia, acrescentou: Escola ele fora aluno de Pasteur, sobre quem fizera muito boa
“Embora simples amador, sabeis que lhes dedico [às ciências naturais] impressão, como indica a citação acima31. Dois anos depois, seu espírito
afeição30. de aventura foi satisfeito com a ida para a Escola Francesa de Atenas,
para onde eram anualmente enviados os melhores entre os diplomados
Daubrée, recém-nomeado diretor da Escola de Minas de Paris,
pela Escola Normal,
não quis abandonar o posto. Ofereceu, em compensação, seus serviços
no sentido de procurar alguém que pudesse encarregar-se da tarefa. Mas Na Grécia, dedicou-se principalmente ao estudo do vulcanismo.
só em 29 de dezembro de 1873 conseguiu anunciar que “uma das Em 1870, voltou à França para lutar na guerra contra a Prússia, mas
pessoas que poderiam convir encontra-se momentaneamente na Grécia, regressou logo à Grécia, onde retomou o estudo do vulcão Nisiros, que
onde faz muito boas observações”. Em 28 de março de 1874, de volta dera sinais de erupção. Em 1874, voltou à França e publicou várias
da Grécia, Gorceix assinou em Paris o contrato para organizar no Rio de memórias nos Anais da Escola Normal e nos Anais de Química e Física
Janeiro o ensino da mineralogia e da geologia, com o salário de de Paris. Foi então que recebeu o convite para vir ao Brasil e o aceitou.
8:000$000 anuais. Em fins de julho de 1874 chegou ao Rio, com 32
A estada na Grécia serviu para revelar seu temperamento
anos incompletos.
arrebatado, sua resistência física e seu entusiasmo pelo trabalho. Um
historiador da Escola Francesa de Atenas deixou dele essas impressões:
CLAUDE HENRI GORCEIX “Uma figura curiosa... Henri Gorceix deveria ter vivido à época do
O melhor da seção de física: muito fogo e zelo. Diretório e deveria ter participado da expedição ao Egito. Ele nasceu
para observar a natureza sob o troar dos canhões.” Tal espírito se reflete
Pasteur na carta que escreveu ao irmão antes de viajar para o Brasil, pedindo-
lhe que lhe remetesse o fuzil de viagem: “Ele voltou do fundo da cratera
É consensual entre os estudiosos da Escola da Minas, e entre os do Nisiros; ele retornará a salvo do Brasil!” E acrescentou uma das
que de alguma forma a conheceram, a opinião de que ela em grande poucas confissões mais íntimas que deixou escapar em sua
parte foi Gorceix, tanto pela organização que ele lhe deu, como, correspondência: “Sonhei com um pouco de glória, com um pouco de
sobretudo, pelo espírito que lhe imprimiu. É importante então dar uma barulho ao meu redor: carrego o peso do meu orgulho!”32. Esse jovem
ideia, mesmo que ligeira, de quem era esse cientista e da formação que entusiasmado pelo trabalho e pela ciência, cujo temperamento os
trouxe para o Brasil. brasileiros considerariam rude, chegou ao Brasil em 1874 para dar
Filho de pequenos proprietários rurais, Gorceix ficou órfão de pai início a uma tarefa que lhe consumiria 17 dos anos mais produtivos da
aos 9 anos de idade. Com auxílio de uma bolsa do governo (este fato vida.
teve influência na organização da Escola), frequentou o Liceu de
Limoges e, ainda com a bolsa, entrou para a Escola Normal Superior de
Paris em 1863, na seção de ciências. Licenciou-se em ciências físicas e 31
Ver LISBOA. Revista da Escola de Minas, ano XIII, n. 4, p. 19. Ver também sobre
matemáticas em 1866. No ano seguinte, por sugestão de seu professor
Gorceix e a criação da Escola: GORCEIX. Revista da Escola de Minas (daqui para a frente
REM), v. XX, n. 5, p. 1-6; MORAES. REM, ano XIX, n. 2 a 6, p. IX a XXVI; LIMA. D.
30
A carta vem reproduzida em LIMA. D. Pedro II e Gorceix. A fundação da Escola de Pedro II e Gorceix, p. 23-26.
32
Minas de Ouro Preto, p. 247. LISBOA. REM, p. 9-21.

34 35
Sua formação científica era sólida e possuía já boa experiência de Gorceix também trabalhou na Itália com Fouquet, continuador de Des
trabalho de campo. Daubrée o chama de “jovem sábio”. A Escola Cloiseaux no campo da física mineral e um dos iniciadores da
Normal em que se formou fora criada pela Convenção em 1794 e, junto petrologia.
com a Politécnica, renovara o ensino na França, além de ter sido
A geologia vivia na França um período de grande dinamismo.
o estabelecimento de ensino superior que exerceu maior influência na Alguns cientistas franceses começavam a desafiar o neptunismo de
formação sistemática das elites intelectuais francesas até 1903, Werner e a teoria das crateras de levantamento de von Bush, os dois
quando se transformou na Escola Pedagógica de Paris. Quando alemães que tinham dominado o pensamento geológico francês até a
Gorceix a cursou, de 1863 a 1866, ela se encontrava no apogeu da segunda metade do século XIX. Entre os contestadores dessas teorias,
33
eficiência e reputação . estavam Fouquet, com quem Gorceix trabalhou na Itália, numa rápida
O ensino era gratuito e os alunos do primeiro ano (100 vagas) fugida da Grécia, Delesse, professor de Gorceix na Escola Normal, e
eram selecionados entre os melhores egressos dos liceus. Os bacharéis Daubrée, muito chegado a Delesse e amigo também de Gorceix.
dos liceus, candidatos a ingressar na Escola Normal, tinham que se Arrojado Lisboa conclui sua análise da formação de Gorceix
submeter a aulas de reforço em matemática e outras ciências, antes de dizendo que, ao chegar ao Brasil, era ele “um completo químico e
tentar o concurso. Os cursos duravam três anos. Uma série era dedicada mineralogista, e um consumado geólogo, colaborador da mais adiantada
às letras, outra às ciências físicas e matemáticas. De seus bancos saíram ciência de seu tempo”34.
nomes como Victor Cousin, Pasteur, Lemoine, Levasseur, Georges
Dumas, Henri Bergson, Pierre Dénis, Langevin, Picarei, Halévy e
A CRIAÇÃO DA ESCOLA
outros. Na época de Gorceix, a instituição possuía excelentes
laboratórios, onde trabalhavam Pasteur, Delesse, Saint-Claire Deville Logo após sua chegada, em julho de 1874, Gorceix partiu,
entre outros. Igualmente seletiva era a Escola Francesa de Atenas, que acompanhado por Ladislau Neto, diretor do Museu Nacional, para uma
só recrutava os melhores professores entre os de menos de 30 anos, para excursão ao Rio Grande do Sul, não se sabe bem por quê. De volta ao
um estágio de dois a três anos de aperfeiçoamento e pesquisa. Rio de Janeiro, começou a organizar um laboratório de mineralogia e
geologia, tarefa para a qual contou com o auxílio de um dos futuros
Acrescente-se que a França da época de Gorceix estava na
professores da Escola de Minas e seu sucessor na direção, Archias
fronteira da ciência em algumas áreas básicas. O próprio Gorceix era
Eurípedes da Rocha Medrado.
ligado por parentesco ao químico Gay-Lussac. O laboratório de química
orgânica da Escola Normal, quando Gorceix a cursou, era dirigido por Só em fins de 1874 foi enviado a Minas Gerais pelo ministro do
Pasteur, o de química inorgânica seria logo depois dirigido por Saint- Império, para escolher um local para a instalação de uma escola de
Claire Deville, os dois maiores químicos da França de então. Gorceix minas. Em julho de 1875, submeteu ao governo o relatório indicando o
trouxe para o Brasil o que de melhor havia na química européia do local e sugerindo o regulamento do estabelecimento. Esse relatório
momento. Também em física sua formação era excelente. Foi aluno de contém suas ideias básicas sobre o que se deveria fazer. Pode-se dizer
Des Cloiseaux, um dos pioneiros do que seria a petrologia, que até 1891, quando, por razões políticas, teve que abandonar o país,
desenvolvida depois pelo alemão Rosenbuch. Segundo Arrojado ele nada mais fez do que defender as ideias nele expostas, cedendo
Lisboa, que me serve de fonte nessa parte, Gonzaga de Campos quando necessário, mas insistindo sempre nos princípios fundamentais.
reconheceu no ensino de Gorceix, em Ouro Preto, a clarividência em
preparar os alunos para o futuro uso das técnicas microscópicas.

33 34
MORAES. REM, p. X. LISBOA. REM, p. 29.

36 37
Partindo da necessidade do controle do Estado sobre as riquezas que, em primeiro lugar, havia ignorância do que fosse o ensino de Saint-
minerais e da importância do desenvolvimento da mineração e da Étienne. Em segundo lugar, não era absolutamente essa sua intenção.
metalurgia, o futuro diretor colocou como objetivo básico da instituição Queria formar engenheiros de minas e não apenas técnicos ou “mestres
a ser criada mineiros”36.
fornecer administradores para a exploração das minas e para as Além desses dois modelos, Gorceix tinha diante de si,
empresas metalúrgicas e engenheiros empregados pelo Estado nas inevitavelmente, o exemplo da Escola Normal, pelo menos para a parte
diversas províncias do Império para se encarregarem das explorações referente aos métodos de ensino. Segundo Arrojado Lisboa, “a prática e
35
geológicas e da fiscalização dos trabalhos de mineração . os métodos de ensino introduzido em Ouro Preto vieram da Escola
Para atingir o objetivo, ele dispunha de dois modelos de Normal Superior e não de Saint-Étienne”37. Quanto ao conteúdo do
organização, a Escola de Minas de Paris e a Escola de Minas de Saint- ensino, com a evolução da Escola e a introdução de mais anos de
Étienne. A primeira tinha um curso de três anos de duração e dava estudo, certos traços da Escola de Minas de Paris se fizeram notar
formação básica mais sólida. Recrutava os alunos de um curso anexo também, no sentido de que foi sempre dada ênfase especial às matérias
que mantinha e dentre os melhores ex-alunos da Escola Politécnica. básicas, a matemática, a física e a química. É um traço que ainda hoje
Formava “não apenas engenheiros, mas homens capazes de resolver marca a instituição.
problemas pertencentes ao domínio das ciências físicas e matemáticas”. Essa filosofia concretizou-se em dispositivos que se chocavam
A Escola de Minas de Saint-Êtienne, criada em 1817, formava os alunos com a prática vigente no país e foram motivos de resistências e críticas.
em dois anos e fornecia, no que se refere à matemática e à física, as Os mais importantes eram os seguintes:
partes “indispensáveis para tratar das questões de mecânica de
máquinas, de metalurgia e de exploração”. Essa formação básica era 1 – curso de dois anos, com dez meses de aulas, iniciando em
suficientemente sólida para permitir, aos que assim o desejassem, agosto e terminando em junho; os dois meses restantes seriam
dedicar-se à pesquisa puramente científica. Na verdade, segundo empregados em excursões e trabalhos práticos;
Gorceix, muitos dos ex-alunos de Saint-Étienne se tornaram cientistas 2 – tempo integral para professores e alunos, com aproveitamento
ilustres. inclusive de sábados e domingos;
Tendo em vista as circunstâncias brasileiras, a opção foi feita 3 – seleção dos alunos por concurso e um sistema de exames
pelo modelo de Saint-Étienne. Era mais fácil de implantar e daria frequentes durante o ano;
resultados mais rapidamente, isto é, forneceria logo engenheiros para
desenvolver a indústria mineradora. A preocupação prática refletia-se 4 – limitação do número de alunos a dez por turma;
no nome que sugeria para a escola, École des Mineurs, Escola de 5 – boa remuneração para professores;
Mineiros, e era certamente uma reação ao caráter livresco que detectara
no ensino brasileiro. A mesma preocupação levou a algumas 6 – intensa prática de laboratório e viagens de estudos;
interpretações equivocadas de suas ideias. Quando alguns adversários 7 – bolsas de estudos para os estudantes pobres e prêmios de
da Escola insistiram em que ela devia formar apenas fiscais de minas e viagem à Europa ou aos Estados Unidos para os melhores alunos, a fim
mestres ferreiros, como a Escola de Saint-Etienne, Gorceix respondeu de se aperfeiçoarem em escolas e estabelecimentos mineiros e
metalúrgicos;
35
H. Gorceix, “Rapport sur l’organization d’une école des mines dans Ia Province de Minas
Gerais”. Arquivo Nacional (AN), 1E3177, pasta “Observação do Visconde do Rio Branco 36
In: RELATÓRIO DO MINISTRO DO IMPÉRIO, 1878, Anexo B, p. 13.
37
sobre o regulamento da Escola dos Mineiros”, p. 184. LISBOA. REM, p. 31.

38 39
8 – contratação pelo Estado dos que melhor aproveitassem a A Congregação da Politécnica nomeou uma comissão composta
viagem de aperfeiçoamento; dos professores José de Saldanha, Miguel Antônio da Silva e Joaquim
Duarte Murtinho, para dar parecer. Aprovado integralmente pela
9 – ensino gratuito.
Congregação, o parecer já antecipava a rivalidade que iria acompanhar
Completando o relatório, Gorceix sugeriu a cidade de Ouro Preto a história das duas escolas por um longo tempo, exigindo por vezes a
para a sede da Escola, com base na ideia de que urna escola técnica e intervenção pessoal do Imperador em favor da Escola de Minas. As
prática não precisava localizar-se em centros de civilização. Ela devia, objeções principais do parecer se referiam aos seguintes pontos:
antes, estabelecer-se em centros industriais e mineiros, para os quais
1 – não havia necessidade de assinatura do ministro nos diplomas
forneceria engenheiros. Tal proximidade permitiria que aos estudos
dos engenheiros da Escola de Minas, pois os diplomas das outras
teóricos se aliassem demonstrações práticas. Exemplos desse tipo de
escolas eram assinados apenas pelos diretores (Gorceix fizera a
escola podiam ser encontrados, ainda segundo Gorceix, em Freyberg, na
reivindicação por se tratar de instituição nova e de um diretor
Alemanha, e em Saint-Etienne. Ouro Preto, além das riquezas minerais,
desconhecido);
encontrava-se no centro de grande número de pequenas fábricas de
ferro, que poderiam constituir a futura riqueza da Província. Esperava 2 – a Escola de Ouro Preto devia limitar-se a formar homens
que fosse uma glória da escola dar nova vida a essa indústria. Em outra “puramente práticos” e não “engenheiros de vasta ciência como soem
oportunidade, justificando a escolha de Ouro Preto, afirmou que na ser os que saem das Faculdades do Império”;
cidade, se o professor quisesse falar de veieiros, em vez de os desenhar
3 – o concurso para admissão podia ser substituído por exames
no quadro, abriria a janela e os apontaria com o dedo38.
perante as Comissões de Instrução Pública das Províncias;
O projeto inicial foi enviado a Daubrée, que o aprovou
4 – o ano letivo devia durar sete meses, de abril a outubro;
plenamente, fazendo o mesmo com o relatório. Foi também enviado à
Congregação da Escola Politécnica, ao engenheiro Francisco Pereira 5 – os salários das outras escolas do Império deviam ser
Passos e ao Visconde do Rio Branco, diretor interino, para comentários. equiparados aos pedidos para a Escola de Ouro Preto40.
A decisão de criar a escola, no entanto, a essa altura, já estava tornada. Pereira Passos observou que:
O ofício do ministro do Império, José Bento da Cunha Figueiredo, que
encaminhou o projeto de Gorceix ao diretor interino da Politécnica, 1 – como consequência da criação da Escola, deveria ser fechado
dizia: “Tendo o Governo Imperial resolvido criar uma Escola de o curso de engenharia de minas criado na Escola Politécnica em 1874;
Mineiros na Província de Minas Gerais (...) foi incumbido o professor 2 – não deveria haver limitação do número de alunos a 10 por
Henrique Gorceix de organizar os respectivos planos e orçamentos.”39. turma;
A lei orçamentária para 1875/1876 já incluíra urna verba de 60 contos
de réis para a instalação. A autorização legislativa já teria sido dada pela 3 – não havia necessidade de duplo exame de admissão (Gorceix,
lei de 1832. Faltava apenas o decreto de criação que viria em novembro além do exame perante professores da Escola, pedira outro preliminar
de 1875. nas províncias para uma primeira seleção);
4 – não se devia dar bolsa de estudo a alunos pobres;

38 40
In: RELATÓRIO DO MINISTRO DO IMPÉRIO, 1878, Anexo B, p. 13. “PARECER sobre o projeto do professor Henrique Gorceix, relativo à criação de uma
39
OFÍCIO do ministro do Império, José Bento da Cunha Figueiredo, ao diretor interino da escola de minas na Província de Minas Gerais”, de 27 de agosto de 1875. AN, 1E3 177, doc.
Escola Politécnica, em 19 de agosto de 1875. AN. 1E3 177. 23.

40 41
5 – não se deviam enviar recém-formados ao exterior, mas exigir, Com relação à proposta de Pereira Passos de acabar com o curso
primeiro, experiência no Brasil; de minas da Politécnica, opina que essa Escola deveria copiar
exatamente seu modelo francês e tornar-se uma instituição de ensino
6 – os salários dos professores eram muito altos;
teórico geral. As escolas técnicas, como a de Ouro Preto, deveriam ser
7 – o Estado não devia ser obrigado a contratar engenheiros da espalhadas pelo país de acordo com as exigências locais. A pensão para
Escola41. alunos pobres era, segundo ele, uma medida de justiça “que não gostaria
Rio Branco manifestou-se fortemente contrário à limitação do nem mesmo de defender”, e ai pensava certamente no fato de que
número de alunos. Só o número dos alunos pobres deveria ser limitado, também fora bolsista do governo. Quanto aos salários (ele pedira 8
por causa das pensões. Disse que devia ser eliminado o concurso de contos anuais, Pereira reduzira para 6), diz que mesmo por 8 contos não
admissão e adotado o sistema das outras escolas superiores, que seria fácil achar bons professores. Em documentos posteriores,
aceitavam todos os que fossem aprovados nos exames preparatórios do defenderia os salários altos, dizendo que, para uma escola nova como a
ensino secundário. O Estado não deveria ser obrigado a contratar. Para de Ouro Preto, a qualidade dos professores era fundamental. Os de
ele, também os dez meses de aulas eram excessivos42. geologia, mineralogia e exploração de minas teriam provavelmente que
vir do exterior, o que tornaria mais difícil o recrutamento. Além disso,
Consegui localizar as respostas de Gorceix às observações de seria exigido tempo integral dos professores. Em Ouro Preto não seria
Pereira Passos e da Congregação. Nelas, ele repete o que estava no possível complementar salários com outros empregos. Em certa ocasião,
relatório inicial, aduzindo novos argumentos para defender seus pontos recusou um professor porque ele seria, ao mesmo tempo, diretor geral
de vista. No que se refere aos comentários da Congregação, responde de obras públicas da Província. Finalmente, diz ele, o programa de Ouro
que a ideia básica desse colegiado parecia ser Preto prevê uma carga didática para cada professor equivalente a umas
não rejeitar a criação de uma escola de minas em Ouro Preto, mas três cadeiras nas outras escolas, sendo, portanto, o salário muito
reduzir seu papel à formação de mestres operários, ou criar para o razoável e talvez até relativamente mais baixo em relação ao trabalho
diretor dificuldades tão grandes no recrutamento de alunos e de exigido44.
funcionários que fosse impossível para um homem superá-las por
43 No regulamento definitivo, promulgado pelo decreto de 6 de
mais dotado que fosse de boa vontade e energia .
novembro de 1875, o diretor teve confirmados os principais pontos de
Defende especialmente a necessidade do concurso, cuja seu projeto. As únicas mudanças referiam-se a itens que implicavam
eliminação seria fatal. Sem ele não haveria maneira de garantir a gastos e apenas atenuavam os dispositivos originais. As bolsas de
entrada de bons alunos e predominaria a mediocridade. Se o concurso é estudos, chamadas de pensões, o envio de alunos ao exterior e a
contra os hábitos do país, pergunta, será isto razão para eliminá-lo? contratação de engenheiros pelo Estado deixaram de ser obrigação para
se tornarem opção. O governo poderia dar as bolsas etc. O resto
permaneceu conforme queria Gorceix, mudando-se o nome, que em vez
de Escola de Mineiros ficou sendo Escola de Minas45. Tal força de um
41
F. P. Passos. “Criação de uma escola de minas em Ouro Preto – Projeto do professor estrangeiro recém-chegado ao país, capaz de derrotar opiniões de um
Henrique Gorceix”, parecer de 9 de agosto de 1875. AN, 1E3 177, doc. 26. homem como o Visconde do Rio Branco, que acabara de presidir o
42
Visconde do Rio Branco. “Regulamento da Escola de Mineiros na Província de Minas
Gerais”, parecer de 30 de outubro de 1875. AN, 1E3 177, pasta “Observação do Visconde do
44
Rio Branco sobre o regulamento da Escola dos Mineiros”. In: RELATÓRIO DO MINISTRO DO IMPÉRIO, 1878, p. 14. Também ofício ao ministro
43
H. GORCEIX. École des Mineurs d’Ouro Preto. Réponse aux modifications proposés do Império em 25 de agosto de 1883. AN, IE3 127, pasta 4.
pour les conditions d’admission et les réglements de cette École. AN, 1E3 177, doc. 27, p. 45
“O Regimento acha-se reproduzido em A Escola de Minas, 1876/1966. Ouro Preto: Escola
77v. Federal de Ouro Preto, 1966. p. 15-21.

42 43
ministério de mais longa duração e dos de maior prestígio do Império e A CONSOLIDAÇÃO: PEDRAS NO CAMINHO
que era o diretor nomeado da Escola Politécnica, só pode ser explicada
pelo fato de contar com o pleno apoio do Imperador. Os primeiros vinte anos de vida foram atribulados. A iniciativa
As aulas tiveram início em outubro de 1876, após grandes era atacada de vários lados e não foram raras às vezes em que a extinção
dificuldades para conseguir alunos. O primeiro prazo para inscrição da Escola foi proposta, até mesmo no parlamento. Gorceix teve que
encerrou-se sem que nenhum candidato se apresentasse. Gorceix lutar constantemente para manter sua obra viva e fiel ao espírito
atribuiu o fato à resistência ao método novo de seleção, promovida por original. Conseguiu mantê-la viva, embora com alguns arranhões no
pessoas interessadas em mostrar sua inutilidade. Pediu, então, ao projeto que para ela sonhara. Para isto contou, sobretudo, com o apoio
ministro do Império que tomasse providências, dizendo que em certos de Pedro II e um pouco mais tarde com o da Província de Minas Gerais,
casos era justificável que o Estado forçasse os jovens a seguir uma embora por este último tenha tido que pagar um preço alto.
carreira para a qual seus interesses bem compreendidos e os do Estado As dificuldades tiveram a ver, sobretudo, com o sempre pequeno
os deveriam levar espontaneamente46. Em segunda chamada, número de alunos. No período de Gorceix, nunca foi necessário recorrer
apresentaram-se sete alunos da Politécnica, e foram escolhidos quatro. à limitação de 10 estudantes por turma porque o número de candidatos
Dadas as circunstâncias, é mesmo possível que, de acordo com os aprovados ficou sempre abaixo desse número. Em seus relatórios ao
conselhos de Gorceix, tivesse havido algum “convencimento” desses ministro do Império, o diretor menciona como principais razões, reais
alunos, ou alguma barganha. O fato é que, logo depois, três deles ou supostas, para o pequeno número de alunos, as seguintes:
pediram pensão do governo para fazer o curso em Ouro Preto, alegando
- o rigor do concurso de admissão, que eliminava muitos
falta de recursos.
candidatos;
Apoiando os pedidos, Gorceix escreveu ao ministro urna carta
- a dificuldade que tinham os candidatos em se prepararem para o
que revela como fora marcado pelo fato de ter estudado com pensão do
concurso, dada a situação do ensino no país;
governo. Ele se oferece para pagar de seu bolso metade das pensões se o
ministro concordasse em pagar a outra metade. E concluiu a carta: - as incertezas quanto à sobrevivência da Escola, geradas pelos
Educado na Escola Normal Superior de Paris em condições análogas,
frequentes ataques que sofria;
contraí com meu país uma dívida que pagarei de bom grado ao Brasil - as dificuldades que encontravam os ex-alunos em achar
onde tenho a honra de estar a serviço da ciência que meus mestres me emprego em que aplicar seus conhecimentos;
47
ensinaram a amar, seja qual for o país em que a tenha de servir .
- finalmente, o isolamento de Ouro Preto, que afastava alunos e
Com a bolsa, estudou na escola, entre muitos outros, Luiz Felipe professores48.
Gonzaga de Campos. Bastava esse fato para justificar o dinheiro gasto.
Tais dificuldades levaram a adaptações constantes, que
continuaram mesmo após a saída de Gorceix. Pode-se, no entanto, dizer
que a organização básica ficou estabelecida em 1875 e foi consolidada
em 1893. A partir daí, até 1931, quando a Escola foi incorporada à

46
Carta ao ministro, em 10 de abril de 1876. AN, 1E3 265, pasta “Escola de Minas. 1876. 48
“Ver, principalmente, o relatório incluído no RELATÓRIO DO PRESIDENTE DA
Ofícios”, doc. 10. PROVÍNCIA DE MINAS GERAIS, 1879, p. 38-41; o relatório incluído no RELATÓRIO
47
“Carta ao ministro, em 22 de setembro de 1876. AN, 1E3 265, pasta “Escola de Minas. DO MINISTRO DO IMPÉRIO, 1884, Anexo B, p. 13-18; e o Relatório de 5 de março de
1876. Ofícios”, p. 3. 1880. AN, 1E3 126, pasta 1.

44 45
49
do passado.

DERBY. Science, p. 212.


os políticos e, sobretudo, com o Imperador.

O ENSINO DAS CIÊNCIAS NO PAÍS E NA ESCOLA DE MINAS

caracterizado por quase total ausência de investigação”49. Mesmo nas

grandes, por causa de velhos defeitos difíceis de eliminar, como a


do país, Derby reconhecia que “o que passava por ciência no Brasil era
Universidade do Rio de Janeiro, as modificações foram de pequena

segundo Derby, era exatamente ser nova e ter começado sem esse peso
renovar o pessoal docente. Uma das vantagens da Escola de Minas,
instituições que estavam sendo renovadas, como as escolas de medicina,
Embora descortinasse sinais de renovação no panorama científico
recrutamento de alunos e o mercado de trabalho, e os custos da Escola.
de ensino predominante no país e aquele que Gorceix quis implantar, o
As principais razões das dificuldades foram o conflito entre o tipo
discutidas a seguir naquilo que têm a ver com as dificuldades apontadas.
resumo das transformações até 1931. As mais importantes serão

rigidez administrativa, a excessiva centralização, a dificuldade em


a Politécnica, o Colégio Pedro II, as dificuldades encontradas eram
Corno fator de êxito, deve-se apontar o relacionamento de Gorceix com
monta e não atingiram pontos fundamentais. O quadro seguinte dá um

46
Receio que o ensino secundário será por muito tempo o escolho de naufrágio do
ensino superior no Brasil.

Gorceix

Modificações Sofridas pela Escola de Minas – 1875/1931

DATA Regulamento Anos de Anos de Total


reparatório superior de Títulos concedidos Vinculação administrativa
anos

1875 1° - 2 2 Engenheiro de Minas Ministério do Império

1877 1° 1 2 2 Engenheiro de Minas Ministério do Império

1880* 1° 2 2 5 Engenheiro de Minas Ministério do Império

1882** 2° 2 3 5 Engenheiro de Minas Ministério do Império

1885 Agrimensor, Engenheiro de Minas com


3 3 3 6 Ministério do Império
regalias de civil

1891*** Agrimensor (4 anos),


Bacharel em Ciências, Engenheiro de Ministério dos Negócios da Instrução
4° 4 3(4) 7(8)
Minas (7 anos), Engenheiro Civil (8 Pública, Correios e Telégrafos
anos)

1893 Ministério da Justiça e Negócios


5° 3 3 6 Engenheiro de Minas e Civil
Interiores
Agrimensor, Engenheiro Geógrafo,
1901 Ministério da Justiça e Negócios
6° 3 3 6 Engenheiro Industrial, Engenheiro de
Interiores
Minas e Civil
1910 Agrimensor, Engenheiro Geógrafo,
Ministério da Agricultura, Indústria e
7° 3 3 6 Engenheiro Industrial, Engenheiro de
Comércio
Minas e Civil
Agrimensor, Engenheiro Geógrafo,
1920 Ministério da Agricultura, Indústria e
8° 3 3 6 Químico Industrial, Engenheiro de
Comércio
Minas e Civil
1931 Universidade do Rio de Janeiro –
9° - - 6 Engenheiro de Minas e Civil
Ministério da Educação e Saúde

* É concedido aos ex-alunos o direito de concorrer às cadeiras da Escola Politécnica.


** É introduzida a cadeira de Estradas de Ferro, Resistência de Materiais e Construção.
47

***O regulamento de 1891 corresponde à reforma feita por Benjamim Constant que não chegou a ser implementada. Gorceix se opunha
a várias de suas disposições.
formação. Gorceix menciona exemplos de examinadores que faziam os
A ausência de educação científica no país vinha das escolas
examinados dizerem que o logaritmo de 0 era -1 e outros disparates.52
primária e secundária e culminava no ensino superior. Os depoimentos
Além disso, havia os recursos especiais, como as “cartas de empenho”,
da época são unânimes em apontar a insuficiência numérica e a total
o “pistolão”, ou a procura de bancas examinadoras reconhecidamente
ausência de ensino científico na educação secundária brasileira. Basta
mais tolerantes. O Dr. João Martins Teixeira, por exemplo, relata que a
citar o conhecido parecer de 1882, de que foi relator Rui Barbosa,
banca da Província do Espírito Santo era das mais populares, pois não
referente à reforma do ensino intentada por Leôncio de Carvalho em
havia quem de lá voltasse sem uma aprovação, nem que fosse por um
1779. Falando dos liceus, diz o relatório: “O vício essencial dessa
simplesmente53.
espécie de instrução, entre nós, está em ser, até hoje, quase
exclusivamente literária”50. Segue afirmando que o pouco de ciência Uma vez dentro das faculdades de medicina ou direito, as coisas
que se ensina baseia-se na decoração e na repetição e não no não melhoravam muito. O ensino do direito causava a seguinte
desenvolvimento da capacidade de pensar e analisar. O ensino do liceu impressão a Tavares Belfort em 1873:
destina-se apenas a preparar o aluno para ser aprovado no exame final e Confessamo-lo com franqueza e profundo pesar, os estudos silo entre
obter ingresso nas escolas superiores, que recebem, assim, candidatos nós nulos, inexatos ou raros; as lições são continuadamente
totalmente despreparados para os altos estudos acadêmicos. As desprezadas ou não seguidas; as dissertações e trabalhos acadêmicos
faculdades vão, então, produzir doutores incapazes de ver a natureza são feitos por outrem, em vez de o serem pelos próprios
presente, mas capazes de sustentar com todas as pompas da retórica “as individualmente falando; finalmente, os graus são conferidos depois
hipóteses mais inverificáveis sobre a existência do incognoscível”. de provas tão fáceis que não merecem o nome de exames: a carta do
Assim se forma um povo de “palradores e ideólogos”51. Era o palrador bacharel em Ciências Sociais e Jurídicas é apenas um título que se
Rui Barbosa quem escrevia isto... adquire depois de certo tempo, sem estudo, sem trabalho e que se traz
54
efetivamente sem glória, porque nada custou a alcançar .
O parecer concluía que a reforma do ensino deveria ter como
princípio vital “a introdução da ciência no âmago da instrução popular”. A situação era a mesma nas faculdades de medicina do Rio de
Janeiro e da Bahia. Nesta última, por exemplo, só em 1882 descobriram
A admissão às escolas superiores era feita com base nos exames que uma cadeira de clínica de partos, criada em 1854, não tinha sido
preparatórios realizados perante as Comissões de Instrução Pública das introduzida.
Províncias. As matérias dos exames eram as ensinadas no secundário.
Uma vez aprovado, o aluno simplesmente requeria a matrícula no A tal tipo de ensino correspondia, como não podia deixar de ser,
estabelecimento de ensino superior, pagando as taxas requeridas. Quase uma total ausência de prática de laboratório e de pesquisa. Os
todo o ensino dos liceus era voltado para a aprovação nesses exames. professores não passavam de repetidores de compêndios. Da faculdade
Mesmo assim, muitos achavam mais seguro recorrer a repetidores de Medicina do Rio disse um de seus professores em 1878: “O ensino
particulares, precursores dos atuais cursinhos de vestibular. Na da fisiologia experimental ainda não foi tentado nesta Escola: têm-se
expressão de Gorceix, não havia formação, mas “fabricação” de alunos formado aqui centos de doutores que nem viram uma experiência
para o fim específico que era o exame. Apesar da fabricação, a
aprovação nos exames preparatórios não era garantia alguma da
qualidade dos aprovados. Muitos examinadores tinham péssima 52
RELATÓRIO DE HENRI GORCEIX de 21 de fevereiro de 1881. AN, 1E3 126, pasta 2,
p. 5.
53
Citado em BARROS. A ilustração brasileira e a ideia de universidade, p. 202-203. Roque
50
ANAIS DO CONGRESSO NACIONAL. Câmara dos Deputados, 1882, v. III, p. 9. Spencer faz uma análise geral do ensino no Império nas páginas 199-216.
51 54
ANAIS DO CONGRESSO NACIONAL. Câmara dos Deputados, v. III, p.9. BARROS. A ilustração brasileira e a ideia de universidade, p. 207.

48 49
fisiológica55. Raros eram também os professores que se dedicavam em instituição, Gorceix via no ensino secundário consequências de maior
tempo integral ao magistério. Os salários baixos os obrigavam a alcance: “É mais que tempo”, diz ele, “de fazê-las (as ciências) entrar
procurar outros empregos na prática profissional, na política ou em nos programas de ensino primário e secundário, sob pena de se verem,
outra área qualquer. indefinidamente, os estudos de botânica, geologia e mineralogia
aplicadas ao solo do país executados unicamente por naturalistas
Gorceix fizera e faria observações muito próximas das do parecer
estrangeiros”57.
apresentado por Rui Barbosa. É mesmo possível que o relator se tenha
inspirado nas observações do mestre francês. Preocupado em criar uma Além do conteúdo do ensino, havia ainda o não menos sério
escola cujo ensino fosse comparável ao das melhores de França, problema do método utilizado, que era, aliás, o mesmo do ensino
Gorceix percebeu desde o início que um dos principais problemas a superior. O método era o ensino oral. Dele diz Gorceix: “Dirigindo-se
serem enfrentados era o recrutamento de alunos. Segundo observou, no unicamente à memória, paralisa o desenvolvimento da inteligência,
Brasil somente a Politécnica, a Escola Militar e a Academia da Marinha ensina-se o aluno a discorrer com acerto, mas não se lhe ensina a pensar
tinham condições de preparar candidatos para o concurso de admissão à e refletir.” Tal ensino é “nulo e desastroso para o país”. O ensino
Escola de Minas. Nem o Colégio Pedro II podia fazê-lo secundário “será por muito tempo, eu o receio, o escolho de naufrágio
satisfatoriamente. do ensino superior no Brasil”58.
Em Minas Gerais, o conteúdo do ensino secundário era quase Apesar da precariedade do ensino da ciência, havia no país uma
todo voltado para as humanidades. De ciências, só se ensinavam corrente de pensamento abertamente contrária a sua melhoria.
aritmética elementar, álgebra até equações de primeiro grau e geometria Representantes dessa corrente combateram a Escola de Minas no
plana. Como prova da precariedade do ensino secundário mineiro, cita o Parlamento, usando o argumento da anticiência. Roque Spencer Maciel
exemplo do seminário do Caraça, considerado a melhor escola da de Barros intitula essa corrente de “católico-conservadora”, e afirma
Província e uma das melhores do Império. Ora, diz Gorceix, “os que ela tirava sua inspiração do Syllabus de Pio IX (1864) e do Concílio
Lazaristas [administradores do Caraça] certamente não brilham na do Vaticano de 1870. Seu principal representante na Câmara era
França no campo da instrução e certamente não enviam ao exterior seus Andrade Figueira, que era também ferrenho escravocrata. Esse
melhores quadros, pois têm que lutar no país contra nossa deputado propôs mais de uma vez a extinção da Escola de Minas,
Universidade”56. embora não usasse sempre o argumento ideológico. Em discurso de
1882, na Câmara, criticou a Politécnica e a Escola de Minas por serem
Em descompasso com tal tipo de ensino, o ingresso na Escola de
“viveiros de positivistas e de materialistas”59.
Minas exigia aprovação em aritmética, geometria elementar, incluindo
agrimensura, geometria analítica, álgebra até equações do segundo grau, Em 1874, o deputado mineiro Felício dos Santos se referia na
trigonometria, geometria descritiva, física elementar, química dos Câmara a duas escolas contrárias ao ensino das ciências naturais. Uma
metalóides; botânica e zoologia, desenho linear e de imitação, francês, delas, diz espirituosamente e referindo-se a Andrade Figueira, é
inglês ou alemão. Era evidente a impossibilidade de recrutar alunos representada aqui por inteligência superior e talento brilhantíssimo,
diretamente do secundário. Além de trazer problemas sérios para sua mas que, iluminada por uma fé religiosa demais ascética, anda
apavorada com essas novidades.., essas biologias. Tal escola
55
Depoimento do Prof. Cláudio Velho da Mota Maia, em BARROS. A ilustração brasileira
57
e a ideia de universidade, p. 214. Ver também, sobre o assunto, ALMEIDA JÚNIOR. In: RELATÓRIO DO MINISTRO DO IMPÉRIO, 1884, Anexo B, p. 17.
58
Revista Brasileira de Estudos Pedagógicos, v. XV, n. 41, p. 5-42. In: RELATÓRIO DO PRESIDENTE DA PROVÍNCIA DE MINAS GERAIS, 1879, p.
56
Carta ao ministro, em 5 de fevereiro de 1880. AN, 1E3 126, pasta 1, p. 166v. Ver também 39.
59
MOURÃO. O ensino em Minas Gerais no tempo do Império. Citado em BARROS. A ilustração brasileira e a ideia de Universidade, p. 59.

50 51
considera a ciência moderna como irreligiosa e aterra-se com o seu A influência do curso preparatório na frequência de alunos pode
desenvolvimento60. ser vista na Tabela 3.
A outra era a dos “econômicos míopes” que achavam prematuro Apesar de algumas dificuldades em relação aos dados da Tabela
e um luxo o ensino de especializações no país. 3 (explicadas na nota 63), é possível identificar o sério problema do
A tais objeções, Gorceix, que era católico, não dava muita número de alunos e a importância dos cursos preparatórios e anexos. A
importância, embora às vezes as mencionasse em seus relatórios. introdução do preparatório de um ano em 1877, aumentado para dois
Respondendo a Andrade Figueira, por exemplo, diz: “Deixo de lado a anos em 1880, dobrou o número de alunos do curso de especialização.
acusação de materialismo feita a nosso ensino; ela se dirige a todos os O aumento, após 1885, se deve à transformação do preparatório no
estudos verdadeiramente científicos e o autor de tais ataques denuncia curso geral de três anos. Houve ainda substancial aumento na matrícula
todo tipo de progresso”61. quando, no início da República, o Estado de Minas decidiu financiar um
curso anexo, semelhante ao antigo preparatório. Esse anexo durou até
A situação do ensino secundário era ameaça real. A Escola de 1897, quando a capital foi transferida para Belo Horizonte. Sua
Minas não poderia ficar dependendo de candidatos da Politécnica e das extinção, acompanhada da mudança da capital, resultou em queda
escolas militares. Para sanar o mal, o diretor insistia, já em 1876, na constante do número de alunos matriculados, cujo ponto mais baixo, o
criação de um curso preparatório para os futuros candidatos. Em 1877, de 23 nos seis anos do curso, foi atingido em 1907/1908. Somente após
o preparatório começou a funcionar com a duração de um ano. A 1911, com o restabelecimento do anexo, é que o número de alunos
duração foi sendo aumentada, até atingir três anos em 1885. As cadeiras voltou novamente a subir, como se verá mais adiante.
eram aquelas exigidas no concurso de admissão que não eram
oferecidas no curso secundário.
Além de introduzir o preparatório, Gorceix fez sempre questão de
manter o concurso de admissão, contra a opinião de quase todos,
mesmo de pessoas simpáticas a sua obra. Parecer de um funcionário do
Ministério do Império sobre a introdução do curso preparatório, por
exemplo, concorda com a medida por ser a única capaz de habilitar
candidatos à matrícula, mas acrescenta falando dos candidatos: “Se o
concurso de admissão, de cuja utilidade ainda não me pude convencer,
os não afugentar, como creio afugentará.”62. A manutenção do exame
foi vitória pessoal de Gorceix, que o considerava condição
indispensável à preservação da qualidade do ensino.

60
ANAIS DO CONGRESSO NACIONAL. Câmara dos Deputados, 1884, Apêndice, v. V,
p. 248. (ênfase de FS).
61
Carta ao ministro, em 27 de abril de 1882. AN, 1E3 127, pasta 3, p. 30-31v.
62
PARECER de Campos de Medeiros, em 2 de maio de 1876. AN, 1E3 265, pasta “Escola
de Minas. 1876. Ofícios”. O parecer encontra-se ao final de um documento assinado por
Cândido Rosa.

52 53
Tabela 3 os candidatos admitidos ao preparatório e geral, menos ainda os que
Frequência de Alunos por Cursos – 1876/1909 passavam ao curso superior. Dados fornecidos por Costa Sena, quando
CURSOS diretor, reproduzidos em Relatório do Ministro da Justiça e Negócios
Interiores, mostram a que estado ficou reduzida a Escola após a
ANOS extinção do anexo em 1897 e após a mudança da capital no mesmo ano
Superior ou Geral ou
Especialização Fundamental
Total Preparatório Anexo Ouvintes (Tabela 4).
Tabela 4
1876/1877 4 - 4 - - - Candidatos Inscritos e Aprovados – 1897/1906
1878/1879 7 - 7 15 - - ANO INSCRITOS APROVADOS
- - -
1880/1881 13 13 32 1897 33 13
1882/1883 14 - 14 32 - -
1898 36 2
1884/1885 12 - 12 27 - -
- 1899 22 6
1886/1887 11 40 51 - 16
- - 11 1900 10 5
1888/1889 11 48 59
72 - - 1901 9 6
1890/1891 15 87 16
27 - - 1902 9 5
1892/1893 40 67 96
1895/1896 20 49 69 - 22 78 1903 7 7
1897/1898 21 40 61 - 39 63 1904 7 7
22 20 - - -
1899/1900 42 2
1905 6
1903/1904 14 14 28 - - -
1906 3 1
10 27 - - -
1905/1906 17
- TOTAL 142 54
1907/1908 9 14 23 - -
Fonte – Relatório do Ministro da Justiça e Negócios
Fonte – Relatórios dos ministros, do diretor da Escola de Interiores, p. 94-95, 1907.
63
Minas e dos presidentes da Província e do Estado .
No mesmo relatório, Costa Sena mostra o alto índice de
A grande redução no número de alunos verificada entre o reprovação no primeiro ano do curso fundamental. Dos 55 novos alunos
preparatório e o curso de especialização e entre o curso geral e o ingressados no primeiro ano, entre 1897 e 1906, apenas 24 foram
superior revela o rigor dos exames de ingresso na Escola. Eram poucos aprovados sem terem que repetir o ano64. O dado indica que nem
mesmo o rigor da seleção garantia que os aprovados estivessem
63
Esses dados não podem ser considerados de precisão absoluta. Foram retirados dos preparados para seguir os cursos. A conclusão de Costa Sena é que se
relatórios de Gorceix, dos ministros e dos presidentes da Província. Há às vezes pequenas
divergências, principalmente no que se refere aos ouvintes. Em alguns casos, eles são
64
incluídos como alunos, em outros não. Procurei incluir na tabela os anos que apresentavam 1n: RELATÓRIO DO MINISTRO DA JUSTIÇA E NEGÓCIOS INTERIORES, 1907, v.
menos dúvidas. I, p. 95-96.

54 55
fazia necessário o restabelecimento do curso preparatório, ou então No Brasil, a demanda social não existia. A promoção da ciência
voltar ao sistema de 1885, que previa o ensino de matemáticas tinha que ser obra quase que exclusiva do governo. Seu progresso,
elementares no primeiro ano do curso fundamental. portanto, tinha que ser muito mais lento67.
Em 1906, o ensino secundário no país, apesar das reformas por
que passara, ainda continuava tão inadequado no que se refere à QUE FAZER COM UM ENGENHEIRO DE MINAS?
educação técnica e cientifica como em 1876. Conclui Costa Sena sua ... a triste necessidade de modificar profundamente o plano
avaliação: “Querer assentar o estudo das disciplinas da Escola de Minas
sobre o das matemáticas elementares, como é geralmente feito nos primitivo adotado para os estudos nesta Escola.
ginásios, é tentar construir muralhas de granito sobre alicerces de
argila.”65. Gorceix tentou implantar em Ouro Preto um ensino Gorceix
radicalmente diferente do que se praticava no país, tanto no conteúdo
como, sobretudo, nos métodos e no espírito que o animava. Se era difícil recrutar alunos, não o era menos empregar ex-
alunos. O segundo maior problema foi o da colocação dos poucos que
Lembre-se, a propósito, que as dificuldades de introdução da terminavam o curso. Ele foi a principal causa de algumas das mais
educação científica não eram privilégio do Brasil ou de países hoje ditos importantes modificações introduzidas na Escola ainda no período de
subdesenvolvidos. A história do desenvolvimento da ciência mostra que Gorceix. Em 1880, o diretor conseguiu que os exames de matemática do
nos países com grande tradição universitária, corno a Inglaterra, a preparatório fossem válidos para as outras escolas superiores do
França e os Estados Unidos, boa parte da resistência à adoção do ensino Império. Vitória ainda mais importante, conseguida depois de muita
das ciências veio das próprias universidades. Só por volta da metade do luta, foi que os engenheiros da Escola de Minas pudessem concorrer às
século XIX, por exemplo, é que foram introduzidas escolas científicas cadeiras da Politécnica do Rio que tivessem conteúdo equivalente. Em
em Harvard e Yale. E só se estabeleceu definitivamente o ensino das 1882, o curso especial foi aumentado de um ano para a introdução de
ciências com a criação do Massachussets Institute of Technology em uma cadeira de estradas de ferro, resistência de materiais e construção,
1865, 10 anos apenas antes da fundação da Escola de Minas. A grande primeiro passo em direção à engenharia civil. Em 1885, na
diferença entre Brasil e Estados Unidos é que o ensino técnico- transformação mais radical, o curso todo passou para seis anos e os
científico foi introduzido lá com o apoio decisivo de industriais que engenheiros formados ganharam os direitos e regalias de engenheiros
percebiam sua necessidade para treinar mão-de-obra especializada e civis. Finalmente, em 1893, o título concedido passou a ser o de
para desenvolver novas tecnologias. Por trás da descoberta da lâmpada engenheiros de minas e civis. Estava mudada a escola de mineiros
elétrica de Edison, por exemplo, existia uma companhia montada com planejada em 1875. Tratava-se agora de uma escola de engenharia de
capitais fornecidos por homens de negócios de olho nos lucros que a minas e civil, que fornecia engenheiros, sobretudo, para as estradas de
descoberta pudesse gerar66.

65
In: RELATÓRIO DO MINISTRO DA JUSTIÇA E NEGÓCIOS INTERIORES, 1907, v. natureza foi rapidamente absorvido pelas universidades, sobretudo a de Gõttingen, criada em
1, p. 97-98. 1736. Na segunda metade do século XIX, esse pais já assumia a liderança da ciência
66
Sobre o assunto, ver BERNAL. Science and industry in the nineteenth century. Também mundial, sob o impulso das universidades e da indústria. Lá, pela primeira vez, se deu em
STRUIK. Yankee science in the making; e HABAKKUK. American and British technology grande escala a aliança da ciência e da tecnologia no desenvolvimento da indústria química.
in the nineteenth century. A educação nos Estados Unidos na metade do século XIX era, no Fora a Alemanha, segundo Bernal, todos os outros países centrais da Europa lutaram durante
dizer de Struik, um “anacronismo absurdo”, tendo em vista a evolução da economia e da todo o século pela implantação da ciência nos estabelecimentos tradicionais de educação.
67
tecnologia (p. 424). Como no Brasil, a única escola que lá produzia bons engenheiros era a Sobre o fracasso das tentativas de implantação do ensino técnico em Minas Gerais, ver
academia militar de West Point. A exceção era a Alemanha, onde o ensino das ciências da IGLÉSIAS. Política econômica do governo provincial mineiro (1835/1889), p. 137-152.

56 57
ferro e a construção civil. Foi tarefa das mais difíceis salvar a Escola da de exportação. O Estado deveria evitar, no entanto, conceder privilégios
extinção e, ao mesmo tempo, preservar algo de sua identidade. de exploração ou de fabricação, pois isso desencorajaria outros
empreendedores.
Segundo o próprio Gorceix, três eram as principais fontes de
emprego para os engenheiros de minas: a indústria privada, as escolas O mercado acadêmico para os ex-alunos se limitava à
superiores, as comissões científicas do governo68. Politécnica, ao Museu Nacional e ao Colégio Pedro II. No entanto,
também aí as coisas não andavam bem. Escrevendo em 1884, Gorceix
No que se refere à indústria metalúrgica, além do estabelecimento
comenta que no Museu havia uma vaga aberta há mais de ano sem ser
oficial de Ipanema, havia as dezenas de pequenas fábricas particulares
posta a concurso. No Pedro II, havia uma cadeira de História Natural
em Minas Gerais, que utilizavam técnicas rudimentares sob a
que pertencia a um professor de outra faculdade. Quanto à Politécnica,
responsabilidade de práticos. A precariedade dessas instalações podia
foi urna verdadeira batalha conseguir que os ex-alunos tivessem o
ser avaliada, segundo Gorceix, pelo fato de uma arroba (15 kg) de ferro
direito de concorrer ao ensino de suas cadeiras. Vale à pena relatar esse
custar 2$500 a 3$500 réis nos arredores de Ouro Preto, chegando a 8
exemplo típico, e lamentável, de rivalidade e ciúmes institucionais.
mil-réis em lugares mais afastados, ao passo que na Europa ela custava
de 700 a 800 reis. E isto apesar de ser o minério de Minas de melhor A luta começou em fins de 1879, quando Gonzaga de Campos, a
qualidade e a mão-de-obra mais barata. Dessa situação, alguns conselho de Gorceix, tentou inscrever-se em concurso na Politécnica. A
concluíam a total inutilidade da Escola de Minas, uma vez que não inscrição não foi aceita sob a alegação de que o diploma de engenheiro
havia lugar para engenheiros metalúrgicos nas pequenas fábricas. que Gonzaga possuía não era suficiente. Gorceix, então, escreveu
Gorceix inverteu o argumento. Exatamente por estar a indústria diretamente ao Imperador, expondo a difícil situação dos ex-alunos. No
siderúrgica em tão precária situação, era necessário quebrar o círculo Museu, não conseguiam emprego. Em Ipanema, o emprego existente
vicioso pela introdução de melhores técnicas de produção, o que iria provavelmente ser dado a um engenheiro civil (na realidade, a
poderia ser feito a partir do esforço da Escola e de seus engenheiros. A pedido de Gorceix, o emprego de vice-diretor foi dado a Leandro
simples substituição da técnica de cadinhos pelo sistema catalão, por Dupré, ex-aluno da primeira turma). Títulos de doutor in absentia de
exemplo, aliada a substituição de covas por medas no fabrico do carvão universidades estrangeiras eram aceitos para nomeação de professores
e a melhoria no mecanismo das rodas propulsoras dos malhos poderiam em outras escolas (referia-se à Politécnica), mas o título de Ouro Preto
reduzir à metade o custo da produção do ferro. não servia nem para entrar no concurso. E queixava-se: “Parece que
desde o início golpearam a Escola de Ouro Preto com o ostracismo!”69.
Quanto às empresas de mineração, a maioria delas estava em
mãos de estrangeiros que empregavam engenheiros também No começo de 1880, escreveu ao ministro do Império protestando
estrangeiros. As poucas em mãos de nacionais se encontravam na contra a medida da Politécnica e afirmando que não acreditava existir
mesma situação dos estabelecimentos siderúrgicos no que toca ao atraso “no país profissional que melhor possa preencher estas funções” do que
tecnológico. Os engenheiros de minas poderiam ter aí também um papel Gonzaga de Campos. A formação que recebera em Ouro Preto o tornava
importante. Bastaria que, tanto no caso das minerações como no dos plenamente capaz de exercer o cargo. Como o governo não tem
estabelecimentos siderúrgicos, o Estado apoiasse as empresas com empregado os ex-alunos, o magistério se tornara a única ocupação
medidas como garantia de capitais, tarifas especiais, isenção de direitos aberta para eles. Seria essa, inclusive, uma boa oportunidade para
divulgarem os métodos de ensino e o espírito de pesquisa que tinham
68
Ver, sobretudo, o Relatório de 5 de março de 1880. AN, 1E3 126, pasta 1. Ver também os
Relatórios de 1879, In: RELATÓRIO DO PRESIDENTE DA PROVÍNCIA DE MINAS
69
GERAIS, 1879, p. 39-40; e de 1884, In: RELATÓRIO DO MINISTRO DO IMPÉRIO, Carta ao Imperador, em 12 de dezembro de 1879. AN, 1E3 126, pasta “Minas Gerais.
1884, sobretudo p. 13-18. Escola de Minas de Ouro Preto. 1879. Ofícios”, p. 100.

58 59
aprendido em Ouro Preto. A atitude da Politécnica era apenas mais uma para a carta geológica, poder-se-ia retomar a tarefa em escala mais
tentativa de aniquilar seus esforços70. modesta. Módica subvenção da Assembléia mineira, por exemplo, seria
suficiente para criar pequena comissão que, com a ajuda do “ilustre
Em fevereiro de 1880, voltou a escrever ao ministro e se viu
geólogo Orville Derby”, na parte da paleontologia, traria resultados
obrigado a fazer comentários pessoais sobre alguns professores da
seguros. E os ex-alunos encontrariam aí boa oportunidade de serem
Politécnica. Essa Escola, segundo ele, tinha um professor com título
úteis. Quando quase todos os países, inclusive da América do Sul, se
fictício de universidade alemã que nunca frequentara; tinha um lente
preocupam em fazer suas cartas geológicas, diz Gorceix, não se entende
substituto de biologia egresso de uma escola de agricultura da França
como o Brasil não dê a devida importância ao assunto.
que formava bons administradores de fazendas, mas nunca biólogos. E
desabafou dizendo que, diante desses fatos, podia entender a atitude dos Outra possibilidade de aproveitar os engenheiros no serviço
professores da Politécnica em relação aos ex-alunos da Escola de público seria nos cargos de guardas-mores de minas e de inspetores de
Minas: “Eles têm medo da luz!”71. terrenos diamantíferos. Os atuais guardas e inspetores “ignoram
totalmente as noções mais simples das ciências de que teriam
A luta do diretor deu resultado. Decreto de 1880 deu aos ex-
necessidade” e são, por isso, inúteis ao Estado e prejudiciais aos
alunos o direito de concorrer às cadeiras da Politécnica cujo ensino
particulares. Como não há legislação de minas que estabeleça
fosse semelhante ao das cadeiras oferecidas em Ouro Preto. Mas, em
claramente o direito da nação sobre o subsolo, a ação desses
1881, a disputa ainda continuava. Apesar do decreto, a escola rival, em
funcionários despreparados se torna ainda mais indesejável.
claro gesto de má vontade, nomeara uma comissão para examinar se o
ensino da Escola de Minas equivalia ao seu. Gorceix teve novamente Apesar dessas possibilidades, Gorceix verificava em 1884 que
que apelar ao ministro, pedindo o fim do que chamou de “monopólios exceto o ajudante do diretor da fábrica de ferro de Ipanema e três
medievais”. Argumentou que o ensino da Escola de Minas, no que se funcionários da Escola de Minas de Ouro Preto, de 17 engenheiros
referia à mineralogia e à geologia, as cadeiras a que Gonzaga queria formados por esta Escola, nenhum foi ainda empregado pelo
concorrer, por ser mais especializado, só poderia ser mais completo do governo, nem conseguiu obter uma comissão, mesmo que modesta .
74

que o ensino mais generalizante da Politécnica72.


A dificuldade de obter emprego, aliada aos problemas do
Gonzaga de Campos não entrou para a Politécnica e não consta recrutamento, reduzia o número de alunos, colocando a sobrevivência
que qualquer engenheiro da Escola de Minas tenha sido admitido como da Escola em risco. Percebendo o perigo, Gorceix foi levado a admitir
professor daquele estabelecimento. modificações no plano original. Já em 1880, mencionava, em relatório
Na administração pública havia algumas possibilidades de ao presidente da Província, a necessidade de acrescentar um ano ao
empregar proveitosamente os engenheiros de minas. Mas, segundo curso superior para introduzir uma cadeira de caminhos de ferro e
Gorceix, “depois da supressão da Comissão da Carta Geológica de construção de pontes e canais. A modificação foi efetivada em 1882,
Império, o Estado não tem mais empregos para lhes dar”73. No entanto, quando foi acrescentada a cadeira de estradas de ferro, resistência de
acrescenta, sem ser necessário ressuscitar o plano grandioso de Hartt materiais e construção, e aumentada para três anos a duração do curso
superior.
70
Carta ao ministro, em 13 de janeiro de 1880. AN, 1E3 126, pasta 1, p. 106. O diretor tentou justificar a mudança alegando não estar querendo
71
Carta ao ministro, em 5 de fevereiro de 1880. AN, 1E3 126, pasta 1, p. 1125v. O professor fazer concorrência à Politécnica, mas apenas procurando dar a seus
acusado de possuir título fictício era, provavelmente, Antônio Ennes de Souza.
72
Carta ao ministro, em 3 de março de 1881. AN, 1E3 126, pasta 2, p. 2.
alunos algumas noções de construção de estradas de ferro, a fim de
73
RELATÓRIO DE HENRI GORCEIX de 5 de março de 1880. AN, 1E3 126, pasta 1, p.
74
139. In: RELATÓRIO DO MINISTRO DO IMPÉRIO, 1884, Anexo B, p. 14.

60 61
habilitá-los a construir pequenos ramais porventura exigidos pela A próxima mudança, e a mais radical, não parece ter sido de
exploração de minas. Além disso, segundo ele, ninguém poderia afirmar iniciativa de Gorceix. Veio do presidente de Minas, Antônio Gonçalves
que seria dispensável para um engenheiro de minas “conhecer a Chaves, que contou com o apoio, na Câmara, dos deputados mineiros,
resistência dos materiais, saber construir uma estrada, uma ponte, um sobretudo de Felício dos Santos e Afonso Celso Jr., além da do próprio
muro de arrimo”. Os professores se dispunham a assumir os encargos Visconde de Ouro Preto. Em seu Relatório de 1884, Chaves fez a defesa
do ano e da cadeira adicionais, sem que houvesse necessidade de novas da Escola que, “na opinião dos competentes, figura como o principal
contratações ou de aumento de salários75. estabelecimento de instrução técnica do país” e propôs sua expansão
mediante a introdução de um curso de engenharia civi176. A Província
Embora os argumentos apresentados fossem plausíveis, o próprio
de Minas cobriria as despesas adicionais do novo curso, calculadas em
Gorceix não ignorava, e o confessaria mais tarde, que a razão
torno de 30 contos. A ideia foi submetida a Gorceix, que apresentou um
fundamental da mudança não era melhorar a formação dos engenheiros
plano de expansão. O plano é interessante por extrapolar o problema da
de minas. Era abrir para esses engenheiros outros mercados de trabalho.
Escola de Minas, incluindo ideias para um sistema de educação
Não foi por acaso que a nova cadeira incluía a construção de estradas de
científica e técnica no país77.
ferro. As estradas de ferro eram então o maior mercado para
engenheiros no país. Gorceix defende a ideia de descentralização científica, “tão
necessária para o Brasil na ordem política como do ponto de vista
75
Carta ao ministro, em 27 de abril de 1882. AN, 1E3 127, pasta 3, p. 31 e 32v. Nessa carta
econômico”. Nos grandes centros deveriam estar as escolas de ciências,
há uma nota de desânimo. A modificação nos cursos o deixara encarregado de cinco cadeiras letras, direito, medicina. As escolas técnicas deveriam ser disseminadas
além da direção. Queixa-se: “Minhas forças não suportam mais e em breve me obrigarão a por todo o Império, de acordo com as necessidades regionais. Além
deixar o país.” Acrescenta que pelo trabalho que faz não lhe será difícil encontrar em disso, era contra as escolas polivalentes do tipo da Escola Central de
qualquer lugar remuneração superior à que recebe. Chega a colocar o ministro à vontade Artes e Manufaturas de Paris, copiada pela Politécnica do Rio. O tempo
para demiti-lo, se assim o desejar. Já fizera, anteriormente, ameaças de renúncia. Tratava-se,
provavelmente, de tática de pressão para conseguir as medidas solicitadas. Dessa vez, no dos enciclopédicos, diz ele, já passou. Só concordara em introduzir a
entanto, transparece um real desânimo diante das dificuldades encontradas a cada passo. A cadeira de Estradas de Ferro, Resistência de Materiais e Construção por
manifestação de tais sentimentos soa algo estranha, tendo em vista os fatos verificados causa do problema do mercado de trabalho que impedia o aumento do
durante sua recente visita à França. Seu antigo professor, Delesse, antes de morrer — o que número de alunos, num momento em que a baixa frequência era o
se deu em 1881 — manifestara o desejo de que Gorceix o substituísse na Escola Normal
Superior. O Diretor foi tomado por grandes dúvidas. Sentia-se tentado a regressar à França,
cavalo de batalha de seus inimigos78.
pois isso beneficiaria sua carreira científica. De outro lado, muitos laços já o prendiam a Continua dizendo que o interesse da Província o levava a
Ouro Preto onde gostaria de completar a obra que vinha, com tantas dificuldades,
construindo. Ao chegar à França, em outubro de 1881, verificou que era o único candidato
reestudar o problema. Mas não concorda em transformar a Escola em
apresentado ao Ministro para substituir Delesse. Mas, por razões que não explicita, retirou a algo semelhante à Politécnica, que formasse vários tipos de
candidatura e anunciou a decisão de regressar ao Brasil. Ver Cartas ao Imperador, de 16 de engenheiros. Sugere que apenas se desdobre a cadeira criada em 1882,
junho de 1880 e 15 de outubro de 1881. Arquivo Histórico do Museu Imperial (AHMI), separando a parte referente a estradas de ferro e dando-lhe maior
POB, Maço 184, doc. 8385 e Maço 186, doc. 8455. É possível que a manifestação de desenvolvimento. Os engenheiros assim formados continuariam a ser
desânimo logo ao regressar ao Brasil reflita certo arrependimento pela decisão tomada. De
qualquer modo, a opção — que pensava definitiva — pelo Brasil se daria apenas em 1885,
76
quando se casou com uma sobrinha de Bernardo Guimarães, Constança da Silva Guimarães. RELATÓRIO DO PRESIDENTE DA PROVÍNCIA DE MINAS GERAIS, 1884, p. 30.
77
Confessa, então: “Hesitei por muito tempo durante vários anos, mas seria impossível deixar O relatório de Gorceix está incluído no RELATÓRIO DO PRESIDENTE DA
o Brasil agora, mesmo se o quisesse.” Ver Cartas ao Imperador, de 10 de abril de 1884 e 25 PROVÍNCIA DE MINAS GERAIS, citado na nota anterior, p. 33-46, e é datado de 19 de
de junho de 1885. AHMI, POB, Maço 192, doc. 8723, e Maço 193, doc. 8802. A maio de 1884.
78
correspondência de Gorceix com o Imperador, guardada no Arquivo Histórico do Museu RELATÓRIO DO PRESIDENTE DA PROVÍNCIA DE MINAS GERAIS, 1884, p. 31-
Imperial, foi publicada por Margarida Rosa de Lima em seu livro D. Pedro II e Gorceix. 36.

62 63
engenheiros de minas, mas com as prerrogativas dos engenheiros civis. reforçar o caráter de escola técnica de minas, que deve ter a Escola de
Seria, no entanto, mais útil, se a Província se dispusesse a apoiar a Ouro Preto.
elaboração da carta geológica, pela qual vinha lutando desde que
No relatório de 1886, volta ao tema. Reconhece que a reforma irá
chegou ao Brasil. Com o auxílio de Derby, e uma verba anual de 20
minorar o problema da oferta de alunos, mas ela envolve também o
contos, poder-se-ia completar uma carta, embora simples, no prazo de
perigo de descaracterizar a Escola. Preferiria que o dinheiro da
cinco anos79. A lei de 1885, que implantou a mudança, ficou aquém do
Província fosse gasto em reforçar a parte básica do curso geral e para a
que pedira o presidente, mas foi além do que sugerira Gorceix. Em
elaboração da carta topográfica e geológica de Minas. Se a isto se
substituição aos cursos preparatório e especial, foram criados os cursos
aliasse a criação de um corpo de engenheiros do Estado e uma
geral e superior, cada qual com três anos de duração. Aos que
legislação adequada, não só se daria emprego aos engenheiros de minas
completassem o 2º ano geral se daria o título de agrimensor. Quem
como também se contribuiria poderosamente para o desenvolvimento da
terminasse os seis anos teria o título de engenheiro de minas com
mineração 83. No ano seguinte, em relatório ao presidente da Província,
regalias e direitos de engenheiro civil. Foi também criada a
insiste no mesmo ponto. A reforma deve ser provisória até se resolver o
Congregação da Escola, medida que pôs fim à fase de poder absoluto do
problema da colocação dos ex-alunos. A Escola deve ser um instituto de
diretor.
formação de engenheiros de minas e geólogos. Insiste também na
Gorceix nunca se conformou com a mudança, contrariamente ao elaboração da carta geológica e anuncia que Orville Derby já iniciou a
que se tem afirmado80. Em várias ocasiões, queixou-se de que tinha sido de São Paulo, com a colaboração de dois engenheiros de Ouro Preto84.
forçado pelas circunstâncias a distorcer as finalidades básicas da
Mas Gorceix não veria, como ninguém até hoje viu, a volta da
Escola81. Diante da lei mineira, declara ao ministro lastimar ter sido
Escola a seu objetivo inicial. A reforma de 1893 consolidou a de 1885,
colocado na posição de aceitar a mudança ou renunciar ao auxílio da
transformando os ex-alunos em engenheiros de minas e civis. Em 1901,
Província. Vê-se na “triste necessidade (...) de modificar profundamente
houve nova ampliação de títulos: quem terminasse o 2º ano fundamental
o plano primitivo adotado para os estudos nesta escola”82. E acrescenta:
teria o título de agrimensor; quem terminasse o 3º, o de engenheiro
“De concessão em concessão, cheguei a admitir mesmo a maior parte
geógrafo; quem terminasse o 2º ano superior, o de engenheiro industrial.
das matérias que compreendem os programas dos cursos de engenharia
A reforma de 1920 eliminou o título de engenheiro industrial e
civil da Escola Politécnica, salvo a hidráulica agrícola e os portos
introduziu o curso de química industrial, com duração de três anos. Em
marítimos.” Só pode agora aguardar melhores condições para voltar a
1931, voltou-se ao título de engenheiro de minas e civil de 1893. Em
79 1946, o título passou a ser de engenheiro de minas, metalúrgico e civil,
RELATÓRIO DO PRESIDENTE DA PROVÍNCIA DE MINAS GERAIS, 1884, p. 42.
Gorceix cita Derby frequentemente em sua correspondência e em seus relatórios. Parece que
formato que durou até 1957, quando foram feitas outras modificações e
uma verdadeira amizade se desenvolveu entre os dois cientistas. Luciano Jacques de Moraes, introduzido o curso de geologia.
em artigo já citado, menciona a existência de uma substancial correspondência entre os dois.
Gorceix sempre se referia a Derby com respeito por sua competência, sobretudo na área da O problema do número de alunos talvez não preocupasse muito a
paleontologia. Gorceix, pessoalmente85. Mas era o alvo predileto de seus inimigos. Em
80
Ver, por exemplo, afirmação nesse sentido em A Escola de Minas, 1876/ 1966, p. 35. Nos
debates havidos após 1939, frequentemente se afirmava o apoio incondicional de Gorceix a
83
essa reforma. RELATÓRIO de 15 de fevereiro de 1886. AN, 1E3 128, doc. 314, sobretudo p. 4-6.
81 84
Quem parece ter apoiado sem restrições a reforma foi Arthur Thiré. Ver, por exemplo, o In: RELATÓRIO DO PRESIDENTE DA PROVÍNCIA DE MINAS GERAIS, 1887,
relatório que enviou ao ministro, como diretor interino, em 1884, que está incluído no Anexo 30, p. 8. Ver também Carta ao Imperador, de 9 de maio de 1885. AHMI, POB, Maço
RELATÓRIO DO MINISTRO DO IMPÉRIO, 1885, Anexo B, p. 7-8. 193, doc. 8802.
82
Carta ao ministro, em 22 de maio de 1885. AN, 1E3 128, pasta “Últimos papéis”, doc. 256, 85
Em um de seus relatórios, Gorceix critica os que querem avaliar os benefícios da Escola
p. 1 e 2. pelo número de pergaminhos que distribui, “número que se podia multiplicar sem nenhuma

64 65
1877, Andrade Figueira propôs na Câmara a extinção da Escola com inspiração do então presidente da Província, o pernambucano José
base nesse argumento, entre outros86. Em 1879, emenda do Senado Alfredo Correia de Oliveira, o mesmo que fora o porta-voz do convite a
também propôs a extinção pelo mesmo motivo. O número reduzido era Gorceix para vir ao Brasil e que era um constante interessado nos
um fato que não se podia ocultar. A Tabela 5 fornece o número de problemas relativos a levantamentos geológicos, à mineração e à
formados pela Escola de Minas em comparação com os da Escola siderurgia. A comissão empregou alguns engenheiros de Ouro Preto,
Politécnica, de 1875 a 1922. mas decaiu após a saída de Derby em 1904. Minas criou sua comissão
logo após a Proclamação da República, mas a extinguiu poucos anos
Pode-se ver que os limites desejados por Gorceix para a matrícula
depois alegando falta de recursos.
de estudantes, dez por turma, só foram ligeiramente ultrapassados no
quinquênio de 1918 a 1922, quando se formou uma média de mais de
dez alunos por ano. É grande o contraste com a Politécnica. Basta
observar que só no último quinquênio esse estabelecimento formou
mais engenheiros civis do que os engenheiros de minas e civis formados
pela Escola de Minas em todo o período. Mas, mesmo no caso da
Politécnica, verifica-se que somente o curso de engenharia civil é que
teve maior procura. O de minas sofreu a concorrência do curso de Ouro
Preto e foi extinto antes do fim do século. O de engenharia industrial
vegetou até ser reavivado a partir de 1916. O de engenheiros mecânicos
e eletricistas também não conseguia atrair muitos candidatos. Em Ouro
Preto, o curso de químicos industriais, criado pelo regulamento de 1920,
foi extinto em 1927 por falta de candidatos.
Como vimos, parte da explicação para o pequeno número de
alunos se deve à dificuldade em obter candidatos habilitados, que, por
sua vez, dependia muito da existência ou não de um curso anexo
preparatório. Mas, como mostra o exemplo da Politécnica, e como
veremos adiante ao examinar o destino dos alunos formados em
engenharia de minas e civil, havia uma real limitação do mercado para
engenheiros de minas e metalúrgicos e para geólogos. Só a engenharia
civil oferecia razoáveis possibilidades de emprego. Nem o Estado
Imperial, nem a Província de Minas, estavam dispostos àquela altura a
adotar um programa de criação forçada de empregos para mineiros e
geólogos, como sugerido por Gorceix. Somente a Província de São
Paulo decidiu criar, em 1886, uma Comissão Geográfica. Mas o fez por

vantagem para o país”. In: RELATÓRIO DO MINISTRO DO IMPÉRIO, 1844, Anexo B, p.


13.
86
Ver ANAIS DO CONGRESSO NACIONAL. Câmara dos Deputados, 1877, Tomo V, p.
108-109.

66 67
Tabela 5
Engenheiros Formados pela Politécnica e pela Escola de Minas, por Quinquênios – 1875/1922

ANO POLITÉCNICA ESCOLA DE MINAS

Engenheiros Engenheiros Engenheiros Engenheiros Engenheiros de Químicos


TOTAL TOTAL
de Minas Industriais Civis Mecânicos Minas e Civis Industriais

1875/1877 1 1 77 - 79 - - -
1878/1882 4 2 189 - 195 21 - 21
1883/1887 1 4 151 - 156 7 - 7
1888/1892 1 5 124 - 130 14 - 14
1893/1897 - 2 191 - 193 42 - 42
1898/1902 1 - 162 - 163 34 - 34
1903/1907 - 2 66 - 68 21 - 21
1908/1912 - 1 58 - 59 15 - 15
1913/1917 - 13 159 8 180 40 - 40
1918/1922 - 24 353 12 398 79 3 81
TOTAL 8 54 1.540 20 1.622 272 3 275
Fonte – A Escola de Minas, 1876/1966 e Jubileu da Escola Politécnica do Rio de Janeiro, 1874/1924.
Observação: A Politécnica formou seus primeiros engenheiros em 1875, e a Escola de Minas em 1878.
Não estão incluídos os bacharéis em ciências físicas e matemáticas, os bacharéis em ciências físicas e

68
naturais, os engenheiros agrônomos e os geógrafos formados pela Politécnica. Também não estão
incluídos os geógrafos e agrimensores formados pela Escola de Minas. A maioria destes títulos era
obtida a meio caminho dos títulos incluídos na tabela.
e a siderurgia.

engenheiros civis, bons geólogos e bons metalurgistas.


Não há evidência de que, entre os políticos mineiros que circulavam na

É um cumprimento à Escola de Minas o fato de ter sido capaz,


apesar do curso misto que teve que adotar, de produzir bons
Corte, houvesse convicção profunda da necessidade de uma escola
É provável que, sem a ampliação do curso e sem a inclusão da

houvesse mesmo a convicção da necessidade de dinamizar a mineração


Província. Em pleno vigor da economia cafeeira, é possível que não
Reinado, fora afinal atendida e não se queria deixar que fracassasse.
Minas. A velha reivindicação provincial, não satisfeita no Primeiro
motivado pela preocupação de preservar uma escola superior de minas.
engenharia civil, a Escola de Minas tivesse cerrado suas portas. A

Ele originou-se do interesse de preservar uma escola superior em


inicial provavelmente a salvou da extinção. Mas o gesto não foi

técnica de minas e metalurgia e de sua importância para a economia da


intervenção do governo da Província obrigando-a a alterar o projeto

69
Segundo dizia o decreto de criação da Escola, “os vencimentos
OS CUSTOS DA ESCOLA DE MINAS acham-se calculados no máximo possível, em consequência dos
Estes [os econômicos míopes] levantam um balanço comercial contratos dos professores estrangeiros”. Os vencimentos desses
professores eram de 12 contos anuais para o diretor que, além da
com esses dados exclusivamente [de custos] e concluem que administração, se encarregava do ensino de física, química, mineralogia
e geologia; de 10 contos para o professor de exploração de minas e
tal ensino é um luxo, uma prodigalidade incompatível com o orçamento do Brasil. metalurgia; de 8 contos para o professor de mecânica e construção.
Outros professores e os funcionários também ganhavam mais do que
Felício dos Santos.
seus equivalentes em outras escolas. Assim, os repetidores de Ouro
Preto recebiam 4 contos, quase o mesmo que ganhavam os lentes da
Dada a inexistência de convicção da necessidade de criação de
Politécnica e os catedráticos das faculdades de direito, 4 contos e 800
urna escola de minas, ou da implantação do ensino técnico em geral, o
mil-réis. Os diretores das faculdades de direito recebiam 6 contos.
problema dos custos tornava-se decisivo, sobretudo se se leva em conta
que o país não se achava em situação financeira confortável. No Tabela 6
quinquênio de 1865 a 1870, a Guerra do Paraguai elevara os gastos do Salários dos Empregados das Escolas Superiores –
governo central ao dobro da receita; o déficit orçamentário persistiu até 1878 (em mil-réis)
o final do Império87. Além disso, a tradição imperial nunca tinha sido de Nº de Total de Salários Média Salarial
grandes investimentos na área social (educação, saúde, obras públicas). ESCOLAS
Empregados Anuais Anual
De 1875 até 1889, esses investimentos nunca excederam a 7% do Escola de Minas 8 48:200$ 6:000$
orçamento. Dentro da rubrica de gastos sociais, as despesas com
educação e cultura não representavam mais do que uns 30%. Nessas Politécnica 74 248:873$ 3:364$
circunstâncias, era de se esperar uma batalha renhida em torno da Faculdades de direito 82 230:895$ 2:817$
alocação de verbas orçamentárias. E, de fato, os principais ataques à
Escola surgiram por ocasião das discussões do orçamento. Ela própria Faculdades de 100 278:800$ 2:790$
fora criada por uma emenda ao orçamento de 1875/1876. medicina
Fonte – Diretoria Geral de Estatística. Relatório de trabalhos
Os dados referentes aos gastos da Escola, no entanto, mostram estatísticos. Rio de janeiro: Tipografia Nacional, 1878.
que dificilmente poderia ter sido implantada com maior economia. O Observação: Não estão incluídos os serventes, cujos
que dava impressão de alto custo eram os vencimentos elevados, vencimentos eram incorporados na verba de material.
sobretudo os dos professores estrangeiros. Eles já tinham provocado a Gorceix, como diretor, recebia 12 contos, quantia equivalente ao
reação inicial de Pereira Passos, que os achava excessivos. Como era vencimento de um ministro de Estado, o mais alto do serviço público.
reduzido o número de professores, os altos vencimentos faziam com Só o diretor da Estrada de Ferro D. Pedro II recebia mais, 18 contos
que a média salarial se colocasse bem acima da de outras escolas anuais. A situação chegava a ser embaraçosa para o próprio Gorceix,
superiores, despertando ciúmes, sobretudo na Politécnica. A Tabela 6 que estava consciente dos possíveis ressentimentos de professores de
fornece as médias salariais. outras escolas ou mesmo de professores brasileiros de Ouro Preto. Em
carta ao ministro, datada de 15 de fevereiro de 1886, diz ele: “A
assinatura de contratos anuais com lentes estrangeiros tornou-se para
87
Ver, por exemplo, CARVALHO. A construção da ordem e Teatro de sombras, p. 244, mim cada vez mais penosa e acarreta dificuldades que de minha parte
393.

70 71
grandemente lastimo.” Sugere ao ministro permitir, aos que assim o Tabela 7
desejassem, servir nas mesmas condições dos professores brasileiros. Gastos Orçamentários com a Politécnica,
No ano seguinte, em carta de 20 de março, volta ao assunto e diz que os a Escola de Minas e o Museu Nacional – 1875/1889
vencimentos mais altos das três cadeiras principais se deviam à GASTOS
necessidade inicial de contratar seus professores no estrangeiro. No ANO
momento, já acha viável equipará-los aos dos lentes catedráticos, que na Politécnica Escola de Minas Museu Nacional
época eram de 6 contos. 1875/1876 265:455$ 43:146$ 41:309$
O diretor justificava os salários altos com dois argumentos. Em 1876/1877 294:643$ 67:235$ 57:072$
primeiro lugar, havia necessidade inicial de contratar professores
estrangeiros, devido à falta de pessoal qualificado em disponibilidade 1877/1878 319:202$ 60:690$ 58:169$
no país. Ele havia tentado, logo no inicio, levar para Ouro Preto um
1878/1879 291:193$ 63:478$ 60:457$
professor estrangeiro da Politécnica, mas o Imperador lhe pedira que
não o fizesse para não prejudicar o ensino naquela Escola. Além disto, 1879/1880 279:043$ 69:652$ 61:158$
como argumentara com Pereira Passos, mesmo no caso de existirem
professores brasileiros competentes, por exemplo, para a cadeira de 1880/1881* 306:189$ 73:800$ 57:200$
mecânica e construção, não seria fácil levá-los do Rio de Janeiro, onde 1881/1882* 310:989$ 73:800$ 70:000$
provavelmente estariam, para Ouro Preto, mesmo por 8 contos.
1882/1883* 319:829$ 86:000$ 76:360$
A melhor justificativa era certamente a da carga de trabalho a que
estariam sujeitos os professores. O próprio Gorceix, além da direção, 1889 270:093$ 100:604$ (sem if.)
ensinava quatro cadeiras. Os outros acumulavam frequentemente mais Fonte – Tabela de orçamento e despesa de diversas verbas do
de uma cadeira, sobretudo à medida que o curso se foi ampliando com o Ministério do Império. Aizais do Parlamento, Câmara dos
aumento de anos e de matérias. Essa acumulação era em parte devida à Deputados, 1882, v. VI, Apêndice.
dificuldade de encontrar professores, mas era também uma estratégia * Os dados de 1880 a 1883 se referem aos gastos previstos.
para evitar maiores gastos. A acumulação de cadeiras podia fazer-se No período coberto pela Tabela 7, o curso passou de dois para
mediante simples gratificação adicional ao professor. Além disso, era seis anos; de quatro alunos para cerca de 60; de quatro professores para
um jeito a mais de aumentar os vencimentos dos professores, sobretudo mais de 10. Ao mesmo tempo, os gastos, tomando-se por base a dotação
dos repetidores. Dai que, embora os vencimentos fossem altos, o custo inicial de 60 contos, aumentaram aproximadamente 65%. Não houve
global de instalação e funcionamento da Escola não o era. A Tabela 7 praticamente aumento algum de gastos para o governo central, uma vez
compara esses custos com os da Politécnica e do Museu Nacional. que os custos da mudança de 1885, quando foram introduzidos o
sistema de seis anos e a engenharia civil, foram cobertos pela Província
de Minas. Dos 100 contos gastos em 1889, por exemplo, 24 foram
pagos pela Província, tendo o governo central despendido 76 contos,
apenas 10 a mais do que gastara em 1876/1877. A Província de Minas
colaborava com a Escola desde 1881, quando votou verbas para bolsas
de estudos e para explorações geológicas. Em 1884, foi votada urna
verba anual de 30 contos para permitir a introdução da engenharia civil.

72 73
Assim, os “econômicos míopes” da expressão de Felício dos e manter os melhores quadros, inclusive os formados por ela própria. Só
Santos, que mediam a produtividade dos investimentos no ensino os abnegados entre os melhores ex-alunos, ou os que tinham em Ouro
estritamente em termos de números de alunos e número de diplomados, Preto outra fonte de renda, é que permaneciam. O problema da
viam seus argumentos para destruir a Escola bastante enfraquecidos88. residência em Ouro Preto acabou sendo o estopim da primeira grande
No entanto, é realmente de se perguntar se, sem a intervenção da crise interna verificada em 1939. Crise que, de uma forma ou de outra,
Província, a Escola teria tido condições de sobreviver. Por vontade do permanece até os dias de hoje.
Parlamento, teria provavelmente cerrado as portas.
As diferenças entre os vencimentos de seus professores e os de GORCEIX E A POLÍTICA
lentes de outras escolas superiores foram desaparecendo aos poucos, Sem vós, Senhor, este eu é um zero!
sobretudo a partir da República. Já na década de 1890, começou a haver
dificuldade de recrutamento de professores, especialmente de Gorceix
substitutos. Os relatórios de 1894 a 1896, por exemplo, mencionam o
fato de não estarem preenchidas cinco das sete vagas de professores Já foi por várias vezes mencionado o papel fundamental
substitutos por falta de candidatos. As duas vagas preenchidas o tinham representado por D. Pedro II na instalação e consolidação da Escola de
sido interinamente. Minas. Pode-se dizer que sem esse apoio ela não teria sido criada e, se
criada, não teria sobrevivido, assim como não sobreviveu a Comissão
Segundo o diretor, “esse fato é certamente devido à exígua Geológica do Império, criada no mesmo ano e extinta por motivos de
remuneração que percebem os lentes e, particularmente, os economia.
substitutos”89. E acrescenta urna observação que indica grande
transformação no mercado de trabalho para os ex-alunos: ao saírem do A partir da chegada de Gorceix ao Brasil, o aval do Imperador à
curso, estes já recebem salários melhores do que os dos substitutos, às Escola transformou-se em apoio pessoal a ele, a seus planos e ideais.
vezes mesmo que os dos lentes. “Em consequência”, diz o diretor, “a Desenvolveu-se entre o Imperador e o diretor da Escola de Minas uma
Escola brevemente não poderá mais incorporar seus melhores alunos ao relação de verdadeira amizade, baseada em admiração mútua. O
corpo docente, como até agora tem feito”. Imperador e a Imperatriz foram os padrinhos de batismo da filha de
Gorceix, nascida em 1886, e por isto nomeada Thérèse Pierrete. A
A última observação é de grande importância. O perigo apontado amizade estendeu-se aos outros membros da família imperial, sobretudo
em boa parte se concretizou. As sucessivas transformações por que ao príncipe D. Pedro Augusto, um entusiasta da geologia e da
passou a instituição durante o período republicano foram consequência mineralogia. Em 1875, quando mal acabara de chegar ao país, o mestre
da crescente tentativa de centralizar o controle do ensino superior. O francês foi recebido em palácio para participar de serões com a presença
processo culminou em 1931 com a criação do Ministério da Educação e do Imperador e da Imperatriz. É possível que esse relacionamento
Saúde e com a incorporação da Escola à Universidade do Rio de Janeiro pessoal tenha tido algo a ver com os diferentes destinos da Escola de
e a equiparação dos vencimentos de seus professores aos daquela Minas e da Comissão Geológica, pois não consta que Haat tivesse
Universidade. A permanência em Ouro Preto perdeu todo o atrativo acesso fácil ao Imperador. Não consta também que Derby fosse amigo
salarial que tinha no início, a Escola foi perdendo a capacidade de atrair de D. Pedro. A diferença talvez se devesse à maior admiração do
Imperador pela cultura francesa e por seus representantes. D. Pedro era
88
ANAIS DO CONGRESSO NACIONAL. Câmara dos Deputados, 1884, Apêndice, v. V, membro da Academia de Ciências de Paris, contribuíra monetariamente
p. 248. para a criação do Instituto Pasteur e correspondia-se com vários
89
In: RELATÓRIO DO MINISTRO DA JUSTIÇA E NEGÓCIOS INTERIORES, 1895, p.
169.
intelectuais e cientistas franceses. Tentou, inclusive, por várias vezes,

74 75
por intermédio de Gorceix e Daubrée, trazer Pasteur ao Brasil para mostrar seu reconhecimento “ao melhor e ao mais ilustre dos Soberanos
estudar a febre amarela90. do Mundo”93. Por duas vezes, o Imperador visitou a Escola de Minas,
tendo lá assistido a aulas de Gorceix e de outros professores94.
A correspondência ativa e passiva de Gorceix com o chefe de
Estado não deixa a menor dúvida quanto ao enorme peso da mão O apoio imperial era amplamente conhecido e, em função dele,
imperial na história da Escola de Ouro Preto. O Diretor apelava segundo relata Cristiano Barbosa da Silva, atual professor da Escola e
sistematicamente para a ajuda imperial toda vez que algum obstáculo de filho de Augusto Barbosa, deu-se desde logo a Gorceix o apelido de
maior vulto se lhe antepunha, e raramente ela lhe faltava. Em casos Moloch, significando o grande poder de que gozava95. Um episódio na
mais sérios, ameaçava renunciar, sabendo com certeza que o Imperador assembléia provincial, verificado em 1877, sugere a dimensão desse
não admitiria a hipótese. Já na primeira carta que escreve ao monarca, poder. Um secretário da Escola, nomeado por razões políticas, em 1876,
em 5 de janeiro de 1876, pede a interferência imperial para apressar a fora eleito deputado provincial e conseguira do presidente da Província
publicação dos regulamentos e do concurso, a fim de poder dar a nomeação de um interino sem consultar Gorceix. Este, segundo versão
andamento à seleção de professores e alunos. E afirma que a de um deputado da oposição, ao encontrar o nomeado, lhe teria
concretização de sua obra não poderia “jamais avançar um só passo sem perguntado o que lã fazia. Sabedor de que era o novo secretário,
a ajuda de Vossa Majestade”91. Afirmações de igual teor são frequentes respondera que não aceitava nomeações de presidente de Província, que
na correspondência. Quando do conflito com a Politécnica a propósito na Escola mandavam ele e o Imperador, que, finalmente, o novo
da aceitação da inscrição de Gonzaga de Campos, Gorceix recorre ao secretário poderia retirar-se. A oposição explorou o episódio
Imperador em carta datada de 12 de novembro de 1879, em que afirma: politicamente dizendo que a honra de Minas tinha sido espezinhada e
“Meus alunos só têm a mim para advogar sua causa e sem vós, Senhor, exigiu do presidente a suspensão do diretor. Nesse ponto da discussão,
este eu é um zero!” Em relatório ao presidente da Província, em 1880, um dos deputados, Afonso Pena, disse encerrando o assunto: “Consta
discutindo a necessidade de introduzir as novas cadeiras de estradas de que o diretor da Escola é amigo pessoal do Imperador, e eis aí a
ferro, diz que não falara no assunto antes por receio de provocar explicação de tudo.”96.
maiores resistências do que as que já despertara. E acrescenta:
Gorceix contava com esse apoio e sobre ele baseava sua ação.
A Escola, com efeito, que só tinha um protetor que jamais faltou-lhe, Sua abundante correspondência com os ministros do Império, no
era atacada por quase todos, via sua existência ameaçada, como que período de 1875 a 1879, os anos difíceis de instalação da Escola, está
sujeita ao vaivém da sorte, quer pela administração, quer por uma ou cheia de pedidos, reclamações, justificativas, exigências e mesmo
92
outra das duas amaras .
A admiração pelo Imperador está expressa em carta de 4 de julho 93
Carta existente no Museu Gorceix da Escola de Minas, consultada por gentileza do Prof.
de 1882, enviada a Augusto Barbosa da Silva, na qual insiste na Cristiano Barbosa da Silva. A importância do apoio do Imperador foi reconhecida
aceitação da pensão que D. Pedro lhe oferecia para estudar na Europa. publicamente por Gorceix, pela última vez, no capítulo por ele escrito para a obra de Santa-
Anna Néry, Le Brésil en 1889, intitulado “Minéralogie”. Diz aí que “nenhum outro
Os benefícios adquiridos no estágio permitiriam a Augusto Barbosa
estabelecimento de ensino superior deve tanto a Sua Majestade o Imperador”. Diz ainda que
os esforços do organizador da Escola teriam sido vãos se não contasse desde o início com a
“proteção, auxílio e socorro” do Imperador. Ver GORCEIX, Minéralogie, p. 104.
90 94
A correspondência de D. Pedro com Gorceix sobre a vinda de Pasteur ao Brasil está Ver “Diário da viagem do Imperador a Minas (1881)”. Anuário do Museu Imperial, v.
reproduzida em GORCEIX. REM. Ver também carta de Daubrée a D. Pedro, de 30 de XVIII, p. 67-118, em que Pedro II comenta a primeira visita. A segunda se deu em 1889.
95
novembro de 1884. AHMI, POB, Maço 191, doc. 8712. Ver SILVA. Jornal do Brasil, p. 35.
91 96
AHMI, POB, Maço 176, doc. 8056. ANAIS DA ASSEMBLÉIA PROVINCIAL DE MINAS GERAIS, 1877, p. 162. Gorceix
92
In: RELATÓRIO DO PRESIDENTE DA PROVÍNCIA DE MINAS GERAIS, 1880, p. dá sua versão do incidente e nega ter usado o nome do Imperador em carta a este, de 29 de
15. setembro de 1877. AHMI, POB, Maço 178, doc. 8146.

76 77
veladas ameaças de renúncia, caso não fosse atendido. Nunca se dirigia Detestando a política, como detestava, Gorceix acabou deixando
a membros dos partidos políticos ou do Parlamento. Seus interlocutores a Escola por causa da política que lá entrara devido a fatores sobre os
eram os ministros do Império, os presidentes da Província, após esta ter quais não tinha como influir. Já antes da República, era forte em Ouro
iniciado o auxílio financeiro e, em último caso, o Imperador. Os Preto o movimento republicano, sobretudo entre professores e alunos.
pareceres dos funcionários do ministério do Império e os despachos do Republicanos históricos e membros do partido eram os professores
ministro, apostos aos ofícios em que Gorceix solicitava medidas do Leônidas Damázio, Archias Eurípedes da Rocha Medrado, Antônio
poder executivo, sucediam-se em questões de dias, indicando eficiência Olinto, Domingos da Rocha, Domingos Porto, Bernardino Augusto de
e rapidez nada comum na burocracia brasileira. Um único caso de má Lima. Mas a política partidária não entrou na Escola enquanto durou o
vontade burocrática veio do delegado da Tesouraria Geral em Ouro Império. Mesmo republicanos, no depoimento de Arrojado Lisboa,
Preto. O episódio motivou reclamações irritadas de Gorceix, e o “mestres e discípulos prestavam o mesmo culto de admiração ao
problema foi resolvido também com rapidez, não se sabe se pela monarca, em quem viam o maior, senão o único, protetor da Escola, e
transferência do funcionário ou por simples advertência do ministro97. reconheciam o valor do apoio incondicional que ele dava a Gorceix”100.
A par dessa política de só se relacionar com o executivo central, As coisas mudaram após a proclamação da República. Antônio
Gorceix tinha como princípio fundamental não permitir que a política Olinto foi nomeado presidente interino do Estado e, logo após, nada
partidária interferisse nos assuntos da Escola. O caso já mencionado do menos do que seis professores foram eleitos para a Constituinte federal
secretário o irritara profundamente porque o funcionário anterior já fora ou para a Constituinte mineira. Houve atritos entre os professores
nomeado por empenho do ministro do Império. A propósito do assunto, republicanos, tendo sido Medrado e Damázio excluídos dos arranjos
ele escreveu ao ministro: “No Brasil, como na França, creio que um políticos da nova situação. Medrado chegou a ser preso. Nessa agitação,
estabelecimento corno a Escola de Minas deve permanecer permanecia entre os republicanos alguma desconfiança com relação a
completamente afastado de todas as lutas partidárias. Fiz desta regra Gorceix devido a sua amizade com o Imperador deposto. Em carta a
uma lei.” E ameaçou renunciar caso se repetissem tais fatos: “Nessas Derby, o diretor se queixa de tentativas de afastá-lo do cargo, geradas
condições, Senhor Conselheiro, não me será possível continuar a dirigir por ambições políticas de professores e de alunos101. Não se vendo mais
a obra que me foi confiada; meu cansaço é bem grande98. Em 1886, o em condições de exercer suas funções, pediu demissão em 1891, depois
incidente se repetiu, agora por ocasião do concurso para contratação de de já ter estado de licença de abril a outubro de 1890.
professor de legislação de minas. Dois candidatos inscritos eram
As atas da Congregação da época não trazem uma só linha sobre
políticos militantes e, segundo Gorceix, incompetentes, uma
a saída do criador da Escola e seu diretor por 15 anos. Consta apenas na
combinação para ele intolerável. Acontece que, dadas as vinculações
tradição oral que os alunos da Escola de Minas e de Farmácia fizeram
políticas, nenhuma banca examinadora teria coragem de os julgar
um abaixo-assinado solicitando que ele desistisse de seu pedido.
isentamente. O diretor recorreu, então, ao Imperador, pediu a suspensão
do concurso e a nomeação interina de Bernardino Augusto de Lima, o Foi sem dúvida uma saída amarga para quem dedicara o melhor
que foi feito99. de sua vida à causa da Escola. A amargura transparece no fato de que,
embora regressasse a Minas duas vezes, uma em 1896 para organizar
escolas agrícolas que não tiveram êxito, e outra em 1904 para rever
97 parentes de sua mulher, não mais voltou a visitar sua obra. Mesmo na
Ver, por exemplo, Cartas do ministro, em 3 e 7 de fevereiro de 1877. AN, 1E3 265, pasta
“Minas Gerais. Escola de Minas de Ouro Preto. 1877. Ofícios”, docs. 6 e 7.
98
Carta ao ministro, em 7 de setembro de 1877. AN, 1E3 265, pasta “Minas Gerais. Escola 100
LISBOA. REM, p. 35-36.
101
de Minas de Ouro Preto. 1877. Ofícios”, p. 2 e 4. A carta é mencionada em MORAES. REM, p. XXIII. O conflito também é mencionado
99
Carta de 19 de setembro de 1886. AHMI, POB, Maço 196, doc. 8889. em ESCOLA DE MINAS. Notícia histórica sobre a Escola de Minas, p. 14.

78 79
França, para onde regressou, o “ex-jovem sábio”, cheio de fogo e de
zelo, nunca mais se dedicou à ciência e ao ensino, atividades que
sempre o tinham apaixonado. Voltou-se para a exploração rural,
regressando às origens, na pacata comuna de Bujaleuf, da qual foi
também prefeito. Durante a Primeira Guerra, ele se agitou pela última
vez, já quase cego, na defesa da pátria. Morreu em 1919, aos 77 anos102.
Quanto à Escola, perdido o apoio do Imperador, passou a
depender da influência política de seus próprios ex-alunos, que com a
República ocuparam vários postos legislativos e executivos. Após 1930,
no entanto, saindo Minas do centro do poder federal, o apoio foi
escasseando, fato que contribuiu para a lenta erosão da obra de Gorceix.

PARTE 2: NAS ALTURAS

IMPACTO

102
Sobre o fim da vida de Gorceix, ver GORCEIX. REM, p. 5.

80 81
Analisadas a criação e a consolidação da Escola, cabe perguntar possível submeter os alunos a um trabalho com base ao mesmo tempo
pelo impacto que teve sobre três campos de atividade: o que lhe era teórica e prática”1. Os novos métodos e o novo estilo de trabalho
diretamente vinculado, isto é, o ensino, a ciência e a tecnologia; o que a ficaram conhecidos na Escola como “o espírito de Gorceix”. A seguir,
ela se ligava de maneira indireta, mas explicita, como a mineração e a busco identificar as características fundamentais desse espírito.
siderurgia; um terceiro que, apesar de se localizar fora do raio previsto
de sua ação, terminou por constituir uma das principais contribuições ÊNFASE NA CRIATIVIDADE E NA PESQUISA
dos ex-alunos, qual seja, a política mineral. Embora reconhecidamente
difícil, a tentativa de avaliação do impacto da decisão de criar Em oposição ao ensino memorizante que predominava nas
instituições de ensino e pesquisa é útil como orientação para outras escolas brasileiras, Gorceix fazia questão de insistir na compreensão e
decisões semelhantes. no desenvolvimento da criatividade e do espírito de investigação. Os
alunos eram submetidos a constantes exames para verificação de
No caso da Escola de Minas, instituição criada mais por aprendizado e deles se exigiam intensos trabalhos práticos de
voluntarismo político do que por exigências sociais, a avaliação se torna laboratório. Havia dias da semana especialmente destinados a esses
ainda mais relevante para fornecer indicações sobre o alcance e limite trabalhos. As excursões eram constantes, umas mais curtas, realizadas
desse tipo de decisão. Em outras palavras, a avaliação pode permitir nas manhãs de domingo ao redor de Ouro Preto, outras mais longas, até
tirar conclusões sobre vários pontos importantes, como o sentido de se a fábrica de Ipanema em São Paulo, feitas durante o período de férias.
tentar manipular a educação como variável estratégica no processo de Para as excursões mais longas, os alunos levavam, quando não
desenvolvimento econômico; a importância de métodos pedagógicos e acompanhados de professores, instruções pormenorizadas sobre onde ir,
formatos institucionais; e a relação entre formação profissional e o que observar, que material coletar, com quem falar2.
mercado de trabalho.
Gorceix preocupava-se sobremaneira com a tendência à retórica
Examino em primeiro lugar o novo espírito de ensino e trabalho vazia que detectava nas escolas brasileiras. Daí insistir na combinação
implantado por Gorceix; a seguir, apresento um panorama da produção do ensino teórico com a prática, com os estudos dos fatos e dos
e atuação dos ex-alunos; por fim, analiso a influência da Escola no fenômenos, como diz no prefácio ao primeiro número dos Anais da
ensino, na ciência, na economia e na política. Escola. No mesmo prefácio, diz ainda: “O tempo das discussões frívolas
sobre palavras e teorias, simples especulações do espírito, legadas pela
O ESPÍRITO DE GORCEIX Idade Média, das quais há muito o velho mundo desembaraçou- se, já
passou.” As teorias poderiam ser desenvolvidas, mas somente após
É absolutamente preciso estudar os fatos, observar fenômenos. cuidadoso estudo da realidade. Era preciso trabalhar cum mente et
malleo, com a cabeça e com o martelo. No discurso de inauguração,
Gorceix afirmou que “as minas, os estabelecimentos metalúrgicos serão os
melhores livros de nossa biblioteca”3.
Em contraposição à precariedade do conteúdo do ensino
científico e técnico predominante no país à época, e à inadequação dos
métodos utilizados nesse ensino, Gorceix tentou implantar em Ouro
Preto um conteúdo e um método novos. Como diz em carta ao
Imperador, sua intenção era introduzir o estudo da geologia e da 1
Citado em SILVA. Estado de Minas, p. 1. 2ª seção.
2
mineralogia, “mas também criar um estabelecimento onde estas ciências As instruções de Gorceix à primeira turma de alunos, em 1877, estão reproduzidas em A
pudessem ser ensinadas com os métodos de meus mestres e onde fosse ESCOLA DE MINAS 1876/1966, p. 22-25.
3
O discurso está reproduzido em A ESCOLA DE MINAS 1876/1966. A citação está à p. 15.

82 83
Tal orientação se fazia sentir no ambiente da Escola. Segundo preparatório insistiram em fazer uso da frequência livre. Um ex-aluno
depoimento do deputado Felício dos Santos, que a visitou várias vezes, do curso superior, Crispiniano Tavares, que nunca contara com as
não havia ali o domínio dos compêndios, simpatias de Gorceix, aproveitou-se da polêmica para combater os
não ouvi a entonação oratória dos professores; achei os alunos
regulamentos da casa, estendendo os ataques aos professores
sempre trabalhando. Alguns, trajando aventais, dirigiam as forjas, estrangeiros e à “autocracia” do diretor5. Mas a campanha,
outros os fornos de reverbero, uns extraíam de linhitos excelente gás aparentemente, não teve maiores consequências.
4
de iluminação, outros analisavam minerais .
ENSINO INDIVIDUALIZADO
O novo estilo era parte da mudança que Derby percebera em
1883 e que, segundo ele, se caracterizava pela substituição do estudo O pequeno número de estudantes e a dedicação exclusiva
dos livros pelo estudo da natureza. permitiam o contato frequente entre professor e aluno, na sala de aula,
nos laboratórios, nas excursões. Os exames eram realizados num tête-à-
TEMPO INTEGRAL PARA PROFESSORES E ALUNOS tête entre o professor e o aluno e só terminavam quando o primeiro se
julgava esclarecido sobre o nível de conhecimento do estudante.
Contrastando com a prática vigente nos estabelecimentos de Arrojado Lisboa menciona que, em certa ocasião, Archias Medrado
ensino superior do país, em que o professor frequentemente possuía examinou um aluno por mais de três horas e, não satisfeito, mandou-o
outro ou outros empregos e permanecia na escola o tempo justo para dar voltar no dia seguinte, terminando por reprová-lo. Era proverbial a
suas aulas, o professor de Ouro Preto, a começar pelo diretor, ficava na estreita vigilância que Gorceix exercia sobre todos. Verificava as notas
Escola das 8 horas da manhã às 5 horas da tarde, além de acompanhar de cada aluno, chamava a seu escritório os que não iam bem, comentava
os alunos nas pequenas excursões de domingo e nas longas excursões nos corredores as boas e más notas6.
das férias. O diretor não admitia como professor quem não tivesse
condições de se dedicar ao trabalho em tempo integral. A dedicação dos PREOCUPAÇÃO COM A REALIDADE BRASILEIRA
professores pode ser avaliada por informação constante do relatório de
1883. Até aquela data, sete anos após a abertura do curso, nenhum dos A preocupação com a realidade econômica brasileira e,
professores faltara a uma aula sequer, um recorde no Brasil, não sobretudo, mineira, foi outra constante na atuação de Gorceix. A tarefa
igualado antes e certamente nem mesmo depois. fundamental da Escola deveria ser o levantamento das riquezas de
Minas e do país e a promoção de seu aproveitamento através da
O mesmo rigor se aplicava aos alunos, dos quais se exigia mineração e da siderurgia. Solicitou com insistência recursos para
frequência integral às aulas. Nesse ponto, Gorceix teve problemas com iniciar, com o auxílio de Derby, a carta geológica de Minas. Tentou
a reforma Leôncio de Carvalho, de 1879, que introduziu a frequência atrair capitais franceses para a mineração e alimentava o plano de
livre. Combateu vigorosamente a liberdade dada aos alunos de envolver a Escola na implantação de uma usina siderúrgica utilizando
frequentar ou não as aulas. Julgava que deveria haver liberdade de altos-fornos a carvão vegetal. A preocupação que hoje chamaríamos de
ensinar, mas de aprender só poderia haver obrigação. Conseguiu, com desenvolvimentista, as excursões pelo interior, e o próprio ambiente da
apoio do Imperador, que a reforma não fosse aplicada em seu cidade de Ouro Preto, impregnado de história, contribuíram para incutir
estabelecimento, mas não sem aborrecimentos. Os alunos do
5
Carta ao Imperador, de 1º de janeiro de 1883. AHMI, POB, Maço 190, doc. 8628.
4 6
Ver discurso do deputado Felício dos Santos na sessão do dia 30 de junho de 1884, em O episódio é relatado em LISBOA. REM, p. 33. As cartas de Gorceix ao Imperador estão
ANAIS DO CONGRESSO NACIONAL. Câmara dos Deputados, 1884, Apêndice, v. V, p. cheias de comentários sobre o desenvolvimento de cada aluno, principalmente nos anos
250. iniciais.

84 85
nos ex-alunos um forte sentimento nacionalista, que se manifestou mais ilustrada do começo do século e o movimento positivista das últimas
tarde nos conflitos em torno da política mineral. décadas. Ora, a Escola de Minas, um dos principais representantes da
nova atitude, ficou totalmente imune a essa corrente de pensamento.
A influência de Ouro Preto foi grande também em outros
Gorceix era católico, e seus principais colaboradores eram materialistas,
aspectos. Seu ambiente acanhado favorecia a concentração nos estudos
evolucionistas, livres pensadores, mas não positivistas, como relembra
(a Escola era o lugar mais divertido da cidade) e o contato entre alunos
Arrojado Lisboa. Djalma Guimarães vincula o pensamento de Gorceix
e entre professores e alunos. Ainda segundo o precioso depoimento de
ao cartesianismo, devido a sua preocupação com a clareza, a
Arrojado Lisboa, os estudantes passavam o dia todo na Escola. Ao final
racionalidade, o exame dos fatos, a ausência de preconceitos científicos.
do dia, regressavam a suas repúblicas, onde retomavam os estudos lã
Segundo Djalma, Costa Sena teria sido, quanto a esse ponto, o melhor
pelas 7 ou 8 horas da noite. Diz o depoimento: “A vida do estudante de
continuador de Gorceix. A preocupação prática dos estudos e a
Ouro Preto tinha seu ambiente próprio, era muito mais afetiva e pelo
desconfiança em relação a teorizações fáceis devem ter constituído um
menos tão intelectual quanto a vida do estudante de nossas Faculdades
antídoto eficaz contra as influências positivistas, tendo em vista,
nas grandes cidades7. Esse ambiente favorecia o desenvolvimento de
sobretudo, que no Brasil predominou o positivismo ortodoxo, voltado
um espírito, uma mentalidade característicos que acompanhavam os ex-
mais para especulações filosóficas do que para a pesquisa científica8.
alunos pelo resto de suas vidas.
Alguns dos métodos introduzidos por Gorceix podem parecer
Os resultados da orientação e dos métodos não se fizeram
hoje quase policialescos e pode-se perguntar se, mesmo na época, não
esperar. Das excursões dos alunos da primeira turma já resultaram dois
causavam revolta entre alunos e professores. Quanto aos últimos, há o
trabalhos que Gorceix conseguiu publicar nos Anais do Museu
testemunho de Arrojado Lisboa, que diz ter havido “uma perfeita
Nacional. A prova mais decisiva da eficácia dos novos métodos de
identidade de vistas entre o diretor e os professores”.9 A afirmação não
ensino é o fato de que a Escola conseguiu formar, quando o curso ainda
é de todo verdadeira. Houve, na verdade, alguns atritos. Já se fez
durava apenas dois anos, pesquisadores como Francisco de Paula
menção às diatribes de Crispiniano Tavares contra a “autocracia” do
Oliveira, Costa Sena e, sobretudo, Luiz Felipe Gonzaga de Campos. No
diretor. Archias Medrado e Antônio Ennes de Souza, este professor da
caso desse último, o resultado foi mais admirável, pois, segundo
Politécnica, foram os principais instigadores de uma greve de alunos em
Gorceix, Gonzaga era “muito inteligente, infelizmente pouco
1883, de que se falará a seguir. Mais tarde, Arthur Thiré, seguido de
trabalhador”. Quando hoje se discute se o mestrado tem condições de
Domingos da Silva Porto e Domingos José da Rocha, criaram
formar pesquisadores completos, não deixa de ser melancólica a
dificuldades para Gorceix10.Houve ainda atritos após a proclamação da
lembrança de que a Escola de Minas já os formava em dois anos de
República que contribuíram para o afastamento definitivo do criador da
graduação.
Escola. Parece, no entanto, que, embora os regulamentos fossem às
Cabe aqui um pequeno parêntese sobre história intelectual. Ao vezes mencionados, a razão principal por trás desses conflitos, poucos,
contrário de outras escolas técnicas brasileiras, sobretudo da Escola
Militar, da Politécnica e mesmo da Faculdade de Medicina do Rio, o 8
Sobre este ponto, ver LISBOA. REM, p. 35; e GUIMARÃES. REM, ano XVII, n. 4, p. VII-
positivismo não teve influência em Ouro Preto. O fato é particularmente VIII. Ver também GOMES. REM, ano IX, n. 7, p. 279-280. Exemplo curioso da influência
estranho por ser essa filosofia geralmente associada à mudança de negativa do positivismo na ciência é o de um professor de eletricidade da antiga
Universidade de Minas Gerais, formado na Politécnica do Rio, que não acreditava em
atitude em relação ao estudo das ciências. Vimos, por exemplo, que
eletromagnetismo e análise espectral, pois, segundo o Mestre, não era possível conhecer a
Maria Odila tenta estabelecer uma continuidade entre a geração estrutura das estrelas.
9
LISBOA. REM, p. 34.
10
Ver Cartas ao Imperador, de 15 de agosto e de 10 de dezembro de 1886. AHMI, POB,
7
LISBOA. REM, p.34. Maço 196, doc. 8889.

86 87
aliás, para um período de 15 anos, eram disputas de poder e não a aproveitamento em termos de aprendizado e do desenvolvimento do
filosofia de ensino adotada ou mesmo os métodos pedagógicos. Os espírito de investigação.
regulamentos não foram modificados após a saída do “ditador”.
Para criar e manter seu “espírito”, Gorceix foi extremamente
No que se refere aos alunos, há notícia de apenas uma greve em cuidadoso na seleção do corpo docente. Enquanto não pode contar com
1883. A causa foi um incidente quase jocoso entre alunos do os ex-alunos, recorreu de preferência a professores franceses ou a
preparatório e o professor Arthur Thiré. Segundo Gorceix, os professores brasileiros que já conhecia e que sabia não iriam destoar de
instigadores do movimento teriam sido os professores Archias Medrado suas orientações. O ajustamento a seu estilo de trabalho era um critério
e Ennes de Souza, que teriam transformado o incidente em campanha importante, ao lado da qualificação, para a contratação de um professor.
contra os professores estrangeiros e contra o regulamento. Archias lhe Exemplo disso foram as negociações para substituir Arthur Thiré
teria confessado a participação e se desculpado. Ennes, aparentemente, quando este pediu demissão em 1887. A dificuldade maior em contratar
desejava o posto de diretor. A situação deteriorou-se a ponto de Gorceix um substituto no Brasil, supondo-se que existisse pessoa qualificada,
pedir demissão do cargo ao ministro do Império e sugerir a substituição estava em que
total dos professores estrangeiros por brasileiros, reconhecendo também os métodos seguidos no ensino da Escola de Minas de Ouro Preto, e
que seu caráter e suas “maneiras bruscas” poderiam ser uma das causas o espírito que anima o seu corpo docente, são totalmente diferentes
das dificuldades. A demissão não foi aceita e, por interferência do dos que prevaleceram até hoje em outros estabelecimentos de
presidente da Província, Antônio Gonçalves Chaves, do deputado instrução superior do Pais e são eles os elementos de sucesso do
Felício dos Santos e de Calógeras, os alunos voltaram às aulas, e a nosso ensino que fazem hoje afluir alunos de todos os pontos do
situação se acalmou11. Como se vê, a greve teve mais a ver com Brasil. Em todos os nossos cursos reina uma harmonia de ideias que
disputas de poder entre professores do que com revolta de alunos. dão ao nosso ensino uma homogeneidade que faz sua força e seu
12
Quando Gorceix regressou da Europa, em 1890, os alunos o valor .
presentearam com uma placa de ouro; quando pediu demissão em 1891 Do grupo de professores que ensinou até o final do século pode-
eles, juntamente com os da Escola de Farmácia, fizeram um abaixo- se dizer que foi todo ele escolhido a dedo por Gorceix. Os franceses
assinado solicitando que voltasse atrás em sua decisão. Armand de Bovet, Arthur Thiré e Paul Ferrancl, formados na
A pouca reação a regime tão rigoroso e tão destoante das práticas Polytéchnique e na Escola de Minas de Paris, foram escolhidos com a
nacionais só se pode explicar pelo fato de que, o diretor, ao mesmo ajuda de ex-professores e amigos de Gorceix na França, sobretudo
tempo, que exigia trabalho duro, fornecia liderança intelectual. Acima e Daubrée, Delesse e Des Cloiseaux. Dos brasileiros, a grande maioria era
além da rigidez das normas, percebia-se a existência de um objetivo que composta de ex-alunos. As exceções eram os preparadores que
era valorizado por todos. Ao rigor das normas, correspondia um real ajudaram Gorceix a iniciar o curso em 1876: Archias Medrado,
Leônidas Botelho Damázio, Francisco van Erven e Bernarclino de
Lima. Medrado já era conhecido de Gorceix, pois o auxiliara na
11
O incidente se deu com o professor Arthur Thiré. Um aluno do preparatório atirara água
de uma sala de aula e acidentalmente atingira o professor que invadiu a sala e atirou bacia e
12
bilha pela janela. Os alunos se sentiram ofendidos e entraram em greve, exigindo reparação. Cartas ao ministro do Império, em 20 de julho e 26 de maio de 1887. AN, 1E3 129, pasta
O episódio é relatado por Gorceix em: RELATORIO DO MINISTRO DO IMPERIO, de 8, docs. 401 e 392. Gorceix insiste na importância de ter ex-alunos como professores no
1884, Anexo B, p. 5-6. Ver também Carta ao Imperador, de 24 de dezembro de 1888. capítulo já mencionado que escreveu para Le Brésil en 1889, organizado por Santa-Anna
AHMI, POB, Maço 198, doc. 9010. Margarida Rosa de Lima data a carta de 24 de dezembro Néry. No capítulo, afirma ainda: “Eles (os professores) estão imbuídos das mesmas ideias,
de 1883, o que é plausível, uma vez que o incidente se deu nesse ano. Ver LIMA. D. Pedro seguem os mesmos métodos, de sorte que o resultado é idêntico ao que seria alcançado se o
II e Gorceix, nota 233, p. 97. Ver também carta de 29 de fevereiro de 1884. AHMI, POB, mesmo professor acompanhasse os alunos durante toda a sua permanência na Escola.” Ver
Maço 192, doc. 8723. GORCEIX. Minéralogie, p. 96.

88 89
montagem do laboratório mineralógico do Rio. Era bacharel pela Escola Tabela 8
Central. Van Erven, que acabou sendo o substituto de Thiré, ajudara Tempo de Permanência dos Professores de Fora
Gorceix na organização da Escola. Damázio foi escolhido por concurso, ANOS
e a contratação de Bernardino de Lima foi solicitada diretamente ao Professores
Imperador. 1876 1878 1880 1882 1885 1887 1891 1895 1900 1910 1912

A Tabela 8 mostra o tempo de permanência dos professores que


contribuíram para a criação e consolidação da Escola. Gorceix
O núcleo central, formado por Gorceix, Medrado e Damãzio,
forneceu a principal base de continuidade. Damázio lecionou 36 anos.
Dos outros, o que ficou menos tempo foi De Bovet, cuja permanência, DeBovet
mesmo assim, foi de seis anos. A estabilidade dos professores, ao lado
da cuidadosa seleção, foi certamente outro fator importante na criação e
manutenção de um estilo homogêneo de trabalho. L.
Damásio

A.
Medrado

A. Thiré

P. Ferrand

F. van
Erven

Nota: Não está incluído no quadro o francês Ferdinand


Victor Langlet que ensinou apenas dois meses, em 1878.

Quando Gorceix saiu, todos os outros professores eram ex-


alunos. A única exceção era Bernardino de Lima, formado pela Escola
de Direito de São Paulo, que lecionava legislação de minas, uma cadeira
de menor importância. Em 1893, dos 14 professores, 9 já eram ex-
alunos. Com a introdução da endogenia, incentivada pelo próprio

90 91
Gorceix, aumentou também a estabilidade do corpo docente, como No entanto, cumprida a tarefa inicial de criar e manter um estilo
indica a Tabela 9. de ensino e trabalho novo no país, a endogenia passou a ter efeitos
seguramente não desejados pelo fundador. O “espírito de Gorceix” foi
Tabela 9
perdendo a flexibilidade e a criatividade que eram seu apanágio. Aos
Tempo de Serviço e Local de Formação dos Professores – 1911
poucos, foi sendo substituído por um culto ao passado que era sua
Adjuntos Formados na
TEMPO DE própria negação. Enquanto durou, no entanto, deu provas de grande
Escola
SERVIÇO Lentes Total vitalidade de que são testemunho os frutos que produziu.
(ANOS)
DESTINO DOS EX-ALUNOS
25 e 9 - 9 8
mais O problema do mercado de trabalho marcou os anos iniciais e
2 - 2 2 forçou a modificação do projeto original da Escola. Cabe agora
15 a 24 examinar, com a ajuda dos dados disponíveis, até que ponto as
alegações de falta de mercado para engenheiros de minas, metalurgistas
10 a 14 5 4 9 9 e geólogos correspondiam à realidade e quais eram, de fato, os
_ empregos disponíveis para os ex-alunos. Na medida do possível, serão
menos de 5 3 3 3 também apontadas as mudanças verificadas no mercado de trabalho ao
longo do tempo.
TOTAL
16 7 23 22 A Tabela 10 fornece dados sobre a ocupação dos ex-alunos
formados entre 1878 e 1931. Antes de analisar a tabela, no entanto, é
Fonte – Almanak do pessoal do Ministério da Agricultura, preciso alertar que os dados devem ser tomados como aproximação.
Indústria e Comércio, p. 240-244, 1911. Uma das principais características da carreira dos ex-alunos, sobretudo
no início, era a diversidade e instabilidade da ocupação.
O quadro indica estabilidade muito grande. Mais da metade dos
Frequentemente, a mesma pessoa ocupava vários empregos simultâneos
lentes ensinavam há pelo menos 25 anos. Além disso, a endogenia era
ou sucessivos. Nessas circunstâncias, não é fácil definir a ocupação
quase total. Somente um professor não era formado na Escola, Leônidas
principal. Para enfrentar o problema, foi adotado o critério de tomar
Damázio. Pode-se imaginar os efeitos da estabilidade e da endogenia
como ocupação principal aquela que apresentasse maior duração ou
sobre a manutenção e o reforço da tradição. Recorde-se, por exemplo,
estabilidade. Quem começou, por exemplo, a carreira como engenheiro
que Domingos Fleury da Rocha, diretor em 1956, 70 anos após a
de estrada de ferro e depois montou uma firma de engenharia foi
fundação, ainda fora aluno de Damázio, um dos fundadores. Ou que
classificado na última. Dificuldades à parte, não é provável que os
Joaquim Maia, professor atual, ainda foi aluno de Augusto Barbosa da
dados da tabela levem a grandes distorções, sobretudo porque em boa
Silva, um dos alunos prediletos de Gorceix13.

Pedro Xavier da Veiga; Alberto e João Lucas Mazoni; Gastão e José Carlos Ferreira Gomes;
13
Desenvolveram-se, em alguns casos, verdadeiras dinastias de professores, com filhos Domingos José e Domingos Fleury da Rocha. Ou de irmãos, como os Barbosa da Silva;
seguindo os pais, sobrinhos aos tios etc. Entre essas dinastias estão as de Augusto Barbosa Cristovão e Lúcio dos Santos; Alcides e Emídio Ferreira da Silva. A ligação familiar mais
da Silva, que teve três filhos professores; a dos Magalhães Gomes (Carlos Thomas, Henrique curiosa foi a de Gorceix, Calógeras e Paul Ferrand. Os três se casaram com filhas do
Alberto Augusto, Paulo Francisco); a dos Alves de Brito (Fausto, Reinaldo, Sérgio, Otávio desembargador Joaquim Caetano da Silva Guimarães. O desembargador foi também o avô
Elisio). Os casos de pais e filhos são frequentes. Basta citar Clodomiro de Almeida e José de Djalma Guimarães.

92 93
mercado de trabalho para engenheiros, inclusive a do próprio Gorceix.
parte confirmam a percepção dos contemporâneos sobre o problema do

94
Tabela 10
Ocupação dos Graduados por Períodos – 1878/1931

OCUPAÇÃO 1878/85 1886/93 1894/1901 1902/11 1912/20 1921/31 TOTAL

E. Ferro 2 3 11 14 15 16 61

Ensino 9 10 16 6 17 26 84

Governo 1 8 12 10 19 25 75

SGMB/DNPM* e Comissões 2 1 – 1 10 27 41
Geográficas
Empresas de Engenharia – 1 1 – 3 16 21

Empresas de Mineração e 1 – 3 5 10 16 35
Metalurgia

Indústrias – 1 2 2 3 4 12
Política e outras 2 1 – – 3 1 7

Sem informação 7 3 13 13 – 12 38

TOTAL 24 28 58 58 80 143 374

*Serviço Geológico e Mineralógico do Brasil/Departamento Nacional de Produção Mineral. Fonte – A Escola de


Minas, 1876/1966. EFMOP: Ouro Preto, 1966.
Observação: Os períodos foram divididos de acordo com as principais reformas do regulamento: as de 1885,
95

1893, 1901, 1911, 1920 e 1931.


Pode-se dizer que, até o fim do século, a quase única ocupação
No início, a ocupação quase única para os ex-alunos era o ensino,
dos engenheiros de Ouro Preto, fora do ensino, foi a engenharia civil. E
mais precisamente o ensino na Escola. A seguir, vieram os empregos no
era uma engenharia civil de tipo enciclopédico, no sentido original do
serviço público, nas províncias, ou estados, e no governo central, ou
termo civil, isto é, não- militar. Esse era o tipo de engenheiro mais
federal, geralmente na área da engenharia civil. Esses empregos eram,
solicitado por uma economia ainda pouco diversificada15. Em tal
na maioria, os de diretores de obras públicas, englobando saneamento,
mercado, os engenheiros de Ouro Preto ficavam prejudicados devido à
construção de estradas, obras contra as secas, fiscalização de obras e
existência de fortes traços de especialização em sua formação. Um
outros. O terceiro grande empregador eram as estradas de ferro,
engenheiro da Politécnica estava melhor aparelhado para enfrentar o
sobretudo a de Pedro II, posteriormente Central do Brasil. A
mercado, pelo menos se se leva em conta apenas a variedade de
importância das estradas de ferro na Tabela está seguramente sub-
cadeiras frequentadas. Foi mais uma prova da qualidade do ensino da
avaliada, porque muitas vezes o emprego de engenheiro ferroviário era
Escola de Minas o fato de ter, mesmo assim, conseguido formar
apenas um primeiro passo na carreira, até que se pudesse conseguir
excelentes engenheiros civis, como Saturnino de Brito, Arrojado
outra colocação, não tendo sido, portanto, computado, tendo em vista o
Lisboa, Lourenço Baeta Neves e outros.
critério estabelecido.
A carreira de Francisco de Paula Oliveira, aluno da primeira
As três áreas dominaram o mercado de trabalho até o final do
turma e primeiro geólogo formado no Brasil, fornece boa ilustração das
século. Foram poucos os ex-alunos que se dedicaram a ocupações
dificuldades encontradas pelos que tentavam aplicar seus
típicas de engenheiros de minas, metalurgistas ou geólogos. Tais
conhecimentos de engenharia de minas e metalúrgica ou de geologia.
empregos eram disponíveis apenas em algumas comissões geográficas
Francisco de Paula iniciou como preparador de mineralogia e repetidor
provinciais ou estaduais. Um ou outro se aventurava em alguma
de química e física. Dois anos depois, tentou montar uma forja catalã
companhia de mineração, mas com escasso êxito. A área privada era
em Abaeté, influenciado sem dúvida pela opinião de Gorceix sobre as
também pouco desenvolvida, mesmo em Minas Gerais. As maiores
vantagens desse processo sobre o dos cadinhos. A experiência durou
minerações eram de propriedade inglesa e, nelas, engenheiro brasileiro
apenas três anos. A seguir, dirigiu algumas minerações particulares, até
não tinha vez. Gorceix teve que intervir para que, pela primeira vez, um
ser aproveitado por Derby na Comissão Geográfica de São Paulo. De lá,
engenheiro brasileiro, Francisco de Paula Oliveira, fosse contratado, em
passou pelo Museu Nacional, pela Comissão de Construção de Belo
1884, pela Companhia de Morro Velho. A construção de Belo
Horizonte, pelo serviço público do Estado do Rio, pela Comissão
Horizonte deu oportunidade de emprego para ex-alunos, mas por
White, pela Comissão do Planalto Central. Finalmente, terminou a
período curto e de modo limitado. Por razões políticas, Afonso Pena,
carreira como geólogo do Serviço Geológico e Mineralógico do Brasil,
presidente do Estado, excluiu os mineiros da Comissão Técnica criada
do qual seu filho, Euzébio de Oliveira, também ex-aluno de Ouro Preto,
em 1892 para planejar e construir a cidade. A presidência da Comissão
seria diretor.
foi dada a Aarão Reis, ex-aluno da Escola Central e professor da
Politécnica. Só em 1895, é que Bias Fortes deu força aos mineiros. A No início do século, as mudanças no mercado de trabalho
crise econômica que perdurou de 1898 a 1905 contribuiu também para continuavam lentas. O governo de Campos Sales concentrou-se no
reduzir o volume de obras e, portanto, a oferta de empregos14. combate ao encilhamento e na contenção de gastos. O de Rodrigues
Alves, já em fase de recuperação econômica, orientou os investimentos
para a reforma urbana e sanitária do Rio de Janeiro, mercado fechado
para ex- alunos de Ouro Preto. Foi a partir de 1910 que se fizeram sentir
14
Ver a respeito ADELMAN. Urban planning and reality in republican Brazil: Belo
15
Horizonte, 1890-1930, p. 30-68. Sobre esse tipo de engenheiro ver BRITO FILHO. REM, ano XVI, n. 6, p. 45-50.

96 97
transformações maiores, acentuadas após a guerra. As duas mudanças empregada ainda em órgãos públicos, sobretudo no Departamento
mais importantes, do ponto de vista dos cursos da Escola, foram a Nacional de Produção Mineral, substituto do antigo SGMB, e no
criação do Serviço Geológico e Mineralógico do Brasil, em 1907, e o Conselho Nacional do Petróleo, como mostra a Tabela 12, também
incentivo a empresas de mineração e siderurgia, iniciado em 1910, em organizada por Victor Dequech.
parte por influência de ex-alunos. No período 1912/1920 já se vêem
Na realidade, provavelmente só os incluídos na categoria “outras”
vários ex-alunos trabalhando no SGMB e em empresas de mineração e
exerciam a profissão de engenheiros de minas. Os que trabalhavam no
siderurgia. Os empregos no SGMB foram quase todos preenchidos por
DNPM e no CNP deviam ser geólogos. O fato, no entanto, não muda a
ex-alunos. Empresas particulares de engenharia passaram também a
situação no que se refere à Escola de Minas, pois a geologia era também
oferecer alternativas de emprego. A mudança refletia modificações na
uma de suas áreas de especialização. E vê-se, então, que, após 70 anos,
economia e na orientação do governo federal, que decidiu, agora
o Estado ainda continuava sendo um dos principais empregadores dos
definitivamente, criar uma comissão geológica e lhe dar o necessário
engenheiros de minas e geólogos, do mesmo modo que, mais tarde, as
apoio.
grandes siderúrgicas estatais seriam as principais empregadoras dos
Dados para o período 1934/1945 indicam a continuidade das engenheiros metalúrgicos.
modificações iniciadas a partir de 1910, embora ainda permaneça certa
Tabela 12
limitação de mercado para metalurgistas e a engenharia civil ainda seja
Ocupação dos Engenheiros de Minas – 1934/1945
uma garantia para os que não se encaixavam na engenharia de minas e
na geologia (Tabela 11). OCUPAÇÃO Inicial 1945 Diferenças
Tabela 11
Ocupação dos Engenheiros DNPM 27 19 -8
da Escola de Minas – 1934/1945
CNP 18 13 -5
OCUPAÇÃO Inicial % 1945 % Diferença %

Outras 21 16 -5
Minas 66 58 48 42 -18

Metalurgia 22 19 22 19 00 TOTAL 66 48 -18

Civil 26 23 44 39 +18 Fonte – DEQUECH. A profissão de engenheiros de minas no


Brasil. Revista da Escola de Minas, p. 648.

TOTAL 114 100 114 100 A origem geográfica dos alunos também é relevante para a
avaliação do impacto da Escola. O projeto inicial visava criar um
estabelecimento que tivesse alcance nacional, e esse objetivo nunca foi
Fonte – DEQUECH, Victor. A profissão de engenheiros de
minas no Brasil. Revista da Escola de Minas, ano XI, n. 3, p. alterado. A reforma de 1946 refletiu essa preocupação ao introduzir o
647, jul. 1946. nome de Escola Nacional de Minas e Metalurgia. De fato, tendo sido
fechado o curso de engenharia de minas da Politécnica, somente na
Essa tabela mostra que foram os engenheiros de minas os únicos década de 30 é que surgiram outros cursos de engenharia de minas e
a desertarem em direção à engenharia civil. A maior parte deles estava
98 99
metalurgia. Até então, somente a Escola de Minas formava engenheiros atividades. É o caso, por exemplo, dos cearenses, Rômulo Fonseca,
nessas áreas. Não havia também cursos de geologia, de modo que a diretor de 1964 a 1968, e Odorico Rodrigues de Albuquerque. Ou dos
formação de Ouro Preto era a que mais se aproximava da gaúchos, Gastão Gomes, diretor de 1931 a 1943, e Joaquim Maia.
especialização. Distinguiram-se ainda como empresários os gaúchos Pedro,
Demóstenes e Mário Álvaro Rache, e, sobretudo, Américo Renné
No entanto, muitas dificuldades se colocavam no caminho da
Gianetti, que foi prefeito de Belo Horizonte.
pretensão nacionalizante. A mais séria era a localização geográfica. Era
perfeitamente compreensível que alguém abandonasse o Ceará ou o Rio
Grande do Sul para estudar num centro importante como o Recife, Rio
de Janeiro ou São Paulo, onde as facilidades e os atrativos eram
maiores. O mesmo não se dava com Ouro Preto, uma cidade interiorana,
de acesso difícil, com problemas de alojamento e sem atrativo algum. A
única atração de Ouro Preto, além do fato de somente lá haver cursos de
metalurgia, minas e geologia, era a fama da boa qualidade de seu ensino
e as bolsas de estudo que, até 1931, ainda eram distribuídas a alunos
que não pudessem sustentar-se com recursos próprios. Os dados sobre a
origem dos alunos até 1931 apresentam, no entanto, alguns padrões
curiosos.
Há substancial participação de estudantes de outras províncias até
o final do Império. Nesse período, os alunos de Minas não passavam de
50% do total. Mas a outra metade vinha quase que exclusivamente do
Rio de Janeiro, devido ao fato de ser a Politécnica a principal
fornecedora de candidatos. A partir da República e da mudança da
capital de Minas para Belo Horizonte, há progressiva predominância de
alunos originários do próprio Estado, que atinge um máximo de 80% no
período que vai de 1912 a 1920. Ao mesmo tempo, há redução de
cariocas e fluminenses e maior dispersão entre os Estados, com
presença marcante de São Paulo, Rio Grande do Sul e Ceará. É provável
que o significativo número de alunos de São Paulo se deva à
proximidade geográfica e ao desenvolvimento econômico do Estado.
Uma economia mais complexa aumentava a demanda por cursos
superiores e abria perspectivas para novas especializações. Nos casos do
Rio Grande do Sul e Ceará, só me ocorre como explicação o fato de
serem dois Estados relativamente importantes em termos econômicos e
populacionais que no Império não tinham escolas superiores e na
República não tinham escolas superiores técnicas. Alguns cearenses e
gaúchos se tornaram importantes figuras dentro da Escola, como
professores e diretores, além de se salientarem também em outras
100 101
Tabela 13 Cariocas e paulistas tendiam a regressar a seus Estados após a
Origem Geográfica dos Engenheiros formatura ou a entrar no circuito da administração federal, como foi o
da Escola de Minas – 1878/1931 caso de João Pandiá Calógeras, José Pires do Rio, Morais Rego,
PERÍODOS Arrojado Lisboa, Saturnino de Brito, multiplicando desse modo o
ORIGEM 1878/ 1886/ 1894/ 1902/ 1912/ 1921/ impacto da Escola. Mas, de modo geral, o recrutamento fora de Minas,
TOTAL por sua paulatina redução, não parece ter sido dos principais fatores do
1885 1893 1901 1911 1920 1931
MG 12 13 38 27 63 104 257
impacto. A razão mais importante da ampliação geográfica da
influência dos ex-alunos talvez tenha sido sua conhecida disposição de
Rio/DF 7 11 8 2 6 13 47 trabalhar em lugares remotos e de empreender longas e exaustivas
RS 3 4 3 3 4 17 excursões, no início em lombo de burro, na prática da profissão. Trata-
SP 5 4 1 5 15
se de mais uma herança do espírito de trabalho e pesquisa implantado
por Gorceix e da localização interiorana de Ouro Preto.
CE 1 7 12
MT 1 - 4 IMPACTO
MA 1 3 4
Avaliar impactos é difícil, porque muitas vezes o importante não
Exterior - 1 4 são números, mas dimensões mais sutis, de difícil mensuração, como
BA 1 1 2 liderança intelectual, influência política, formato institucional. Não é
fácil chegar a acordo sobre o peso real que possa ter tido determinada
ES 1 - 2
pessoa, ideia ou instituição. Como era de se esperar, há divergência na
PN - 2 avaliação do impacto da Escola de Minas: ex-alunos e amigos tendem a
GO - 1 2 exagerá-lo, pessoas estranhas, ou, mais ainda, inimigas, tendem a
diminuí-lo. Avaliação equilibrada exige muita informação, boa
AL - 2 2
capacidade analítica e bom senso, qualidades que não estou seguro de
AM - - 1 possuir.
PA - 1 1 O que farei a seguir é aproveitar avaliações já realizadas por
PB 1 1 outros, dar-lhes alguma sistematização e acrescentar observações
críticas. Para maior facilidade de exposição, o exame do impacto será
PE 1 1
dividido em três campos: o da ciência, ensino e tecnologia; o da
TOTAL 24 28 59 42 77 144 374 economia; e o da política.
DISTRIBUIÇÃO RELATIVA (%)
A ESCOLA DE MINAS E O DESENVOLVIMENTO CIENTÍFICO
Minas 50 46 64 64 80 72 68
Outros Aspecto mais importante aqui é certamente o que se refere ao
Estados 50 54 36 36 20 28 32 progresso dos estudos de geologia e mineralogia feitos no Brasil por
TOTAL 100 100 100 100 100 100 100 brasileiros. A partir de 1876, até mais ou menos 1930, a produção
geológica e mineralógica devida a brasileiros foi quase toda oriunda de
Fonte – A Escola de Minas, 1876/1966, passim. ex-alunos de Ouro Preto. Uma bibliografia da geologia, mineralogia e
102 103
paleontologia do Brasil, organizada por John Casper Branner e Barbosa. O grupo que trabalha no Rio Grande do Sul é todo ele de ex-
publicada em 1909 no Bulletin of the Geological Society of America, alunos17.
demonstra esse ponto com clareza.
Tabela 14
Foram incluídos na Tabela 14 os autores com dez títulos ou mais, Publicações de Geologia, Mineralogia e Paleontologia – 1850/1909
divididos entre brasileiros e estrangeiros16. Apesar de a produção
Autores Estrangeiros Nº Autores Brasileiros Nº
brasileira ser ainda constrangedoramente escassa em relação à
estrangeira, uma primeira geração de brasileiros começava a surgir, Louis Agassiz 26 Capanema 13
formada quase que exclusivamente por ex-alunos de Ouro Preto (só
Capanema não pertencia a esse grupo). Antes da geração de Ouro Preto, Orville Derby 108 Francisco de Paula Oliveira 20
a produção brasileira era esparsa e escassa, limitando-se a um ou outro
diretor da Seção de Mineralogia e Geologia do Museu Nacional e à Henry Gorceix 53 Costa Sena 20
cadeira de Geologia e Mineralogia da Escola Central, às vezes a mesma
pessoa. Os Anais da Escola de Minas começaram a publicar, partir de John C. Branner 49 Antônio Olinto 10
1881, os primeiros trabalhos do grupo, liderado por Gorceix. O
Arquivos do Museu Nacional da época dava vazão, sobretudo, à E. Hussak 40 Gonzaga de Campos 13
produção de pesquisadores estrangeiros que lá trabalhavam sob a Charles F. Hartt 37 Arrojado Lisboa 11
liderança de Frederick Hartt, e depois de Orville A. Derby.
H. von Ihering 16
Outros levantamentos dos estudos de geologia, mineralogia e
paleontologia no Brasil também reconhecem o papel fundamental F. Katzer 25
exercido pela Escola e seus ex-alunos. Uma avaliação insuspeita, por ter
sido escrita por ex-aluno da Escola Politécnica, velha rival da Escola de R. Rathbun 11
Minas, é a de Othon H. Leonardos. Entre os nomes que esse autor julga
importante mencionar na mineralogia e petrologia até mais ou menos TOTAL 365 87
1940, a grande maioria é constituída de ex-alunos de Ouro Preto. O que
ele estranhamente chama de “o grupo moderno do Rio de Janeiro”, que Fonte – BRANNER, John Casper. A Bibliography of the
Geology, Mineralogy and Paleontology of Brazil. Bulletin of
girou principalmente em torno do SGMB e do DNPM, é composto de the Geological Society of America, 22, p. 1-132, 1909.
19 ex-alunos e de apenas 16 formados no exterior ou em outra escola
brasileira. O “grupo de Minas”, organizado em torno do Instituto de Viktor Leinz, aglutinador de novo grupo de geólogos em São
Tecnologia Industrial e da Divisão de Fomento Mineral, sob a liderança Paulo, expressa opinião semelhante na revisão que faz da literatura
de Djalma Guimarães, compõe-se quase totalmente de ex-alunos. Na geológica, podendo dizer-se o mesmo da avaliação de José Veríssimo
formação do novo grupo de São Paulo há a contribuição de egressos de da Costa Pereira no que se refere à geografia18. A única apreciação que
Ouro Preto, como Luiz Flores Morais Rego, Otávio Barbosa, Alceu destoa é a de Aziz Ab Sáber. Esse autor reconhece em um parágrafo que
a Escola formou a primeira geração de geólogos brasileiros, mas, logo a

17
LEONARDOS. A mineralogia e a petrologia no Brasil, v. I, p. 265-313.
16 18
Uma sequência dessa bibliografia foi feita por LISBOA. Anais da Escola de Minas de Ver LEINZ. A Geologia e a Paleontologia no Brasil, v. I, p. 244-261; e, no mesmo
Ouro Preto, n. 8 e 9. volume, PEREIRA. A Geografia no Brasil, p. 315-412.

104 105
seguir, busca claramente valorizar pesquisadores de outros centros, do a introduzir, Gorceix ainda conseguiu manter um sistema de ensino que
Museu Nacional, da antiga Escola Central, da Politécnica e, sobretudo, permitia formar engenheiros bem preparados na área de minas,
autores norte-americanos19. Em parte, a discordância pode ser explicada metalurgia e geologia. No caso da geologia, sobretudo, a formação em
pelo fato de o autor se referir apenas ao século XIX, quando a melhor e Ouro Preto foi fundamental no sentido de incutir nos alunos o espírito e
maior produção de Ouro Preto ainda era incipiente. Mesmo assim, ele a disposição para a pesquisa de campo.
não inclui a criação da Escola de Minas entre o que chama de iniciativas
Tal espírito e disposição se revelaram sobretudo no âmbito do
básicas na área da geologia no século passado, atitude que só pode ser
SGMB, dirigido inicialmente por Derby. Após a morte do norte-
atribuída a má vontade.
ameriano, verificada em 1915, o Serviço foi dirigido por Gonzaga de
A apreciação de Aziz Ab Sáber destoa da dos próprios Campos e, em 1925, por Euzébio de Oliveira, passando às mãos de
americanos, a quem tanto admira. Orville Derby, ao organizar a Domingos Fleury da Rocha, outro ex-aluno de Ouro Preto, em 1933,
Comissão Geográfica de São Paulo, em 1886, levou consigo três ex- quando se transformou em DNPM. Os engenheiros desse órgão
alunos: Francisco de Paula Oliveira, Gonzaga de Campos e Teodoro salientavam-se pela disposição de enfrentar os incômodos de palmilhar
Sampaio. Os dois primeiros, e mais o filho de Francisco de Paula, o país, fosse na região mineratória do centro, fosse nos campos
Euzébio de Oliveira, estiveram com ele também na organização do carboníferos do Sul, fosse na área das secas no Nordeste. Depois deles,
SGMB. Em sua revisão do estado da ciência no Brasil, já citada, Derby Agassiz não teria mais razão de mencionar como uma das causas do
afirma: atraso da ciência experimental no Brasil a ojeriza pelo trabalho manual.
No momento, o Museu e o Observatório nacionais no Rio e a Escola Se foi importante o grande número de ex-alunos que ingressou no
de Minas em Ouro Preto são os principais centros de atividade SGMB e no DNPM, mais importante ainda talvez tenha sido a
científica. A última, sendo um estabelecimento comparativamente orientação imprimida ao SGMB por Gonzaga de Campos, quando
novo, distante das tendências centralizadoras da capital, organizado assumiu sua direção. Derby era acima de tudo um cientista, um
segundo modelos europeus, e controlado por um corpo de
paleontólogo. Sua preocupação era a “investigação estrutural,
competentes especialistas franceses, escapou de muitos dos vícios de
20 petrográfica e paleontológica, de preferência ao estudo da geologia
organização das instituições mais antigas .
econômica e da mineralogia”22. Gonzaga de Campos, nas trilhas de
E John Casper Branner menciona, em 1919, no Bulletin da Gorceix, instaurou filosofia totalmente nova, voltada para o estudo dos
Geological Society, a fundação da Escola como um “passo da maior recursos minerais e de fontes de energia para o desenvolvimento
importância para a engenharia e a geologia”, e acrescenta que “alguns econômico. Criou no SGMB a Seção de Forças Hidráulicas e a Estação
dos mais capazes engenheiros brasileiros e, com poucas exceções, todos Experimental de Combustíveis e Minérios. Mandou Euzébio de Oliveira
os seus geólogos e engenheiros de minas formaram-se nessa Escola”21. pesquisar petróleo em Alagoas e Fleury da Rocha estudar a
A predominância, entre os geólogos, dos egressos da Escola de possibilidade de obtenção de coque metalúrgico como carvão
Minas era de se esperar, tendo em vista que, após o fechamento do nacional23. Impulsionou, ao mesmo tempo, estudos sobre siderurgia e
curso de engenharia de minas da Politécnica, em 1899, somente em eletrometalurgia, sobre indústrias de cimento e químicas. Essa visão
Ouro Preto se formavam alunos com algum treinamento em geologia. O
importante, no entanto, é que, apesar das modificações que foi obrigado 22
Ver BRITO FILHO. REM, p. 48. Sobre Gonzaga de Campos, ver também PAIVA. Meio
século de engenharia. Discurso no aniversário da Escola, p. 7-8.
19 23
Ver SÁBER. O Estado de S. Paulo. Suplemento do Centenário, p. 13. Alguns resultados desses trabalhos estão em ROCHA. Anais da Escola de Minas de Ouro
20
DERBY. Science, p. 213. Preto, n. 19, p. 37-68; e OLIVEIRA. Anais da Escola de Minas de Ouro Preto, n. 5, p. 105-
21
BRANNER. Bulletin of the Geological Society of America, v. 30, p. 263. 116.

106 107
desenvolvimentista passou a orientar a ação do órgão e se transmitiu ao ele se preocupava em primeiro lugar com a possibilidade de fazer
DNPM e a suas várias seções. A obra de Gonzaga de Campos é das que, pesquisa. Ia para onde pudesse levar seu microscópio25.
como diz Glycon de Paiva, sentem-se mais pelas consequências que
Em Ouro Preto, com a saída de Gorceix e com a crescente
pelos escritos.
dificuldade de atrair e manter os melhores alunos, a atividade de
Ponto importante a notar é que a maior produção científica dos pesquisa foi aos poucos mirrando, e o ensino foi absorvendo quase todo
ex-alunos foi feita fora da Escola, após a criação do SGMB. Parece que o tempo e a energia dos professores. Depois de Costa Sena e dos
foi nessa instituição, no DNPM, no Instituto de Tecnologia Industrial de trabalhos iniciais de Antônio Olinto, poucos nomes se salientaram, até
Minas Gerais e em outros órgãos do governo que se refugiaram os 1931, na área da pesquisa científica. Os Anais da Escola tiveram sua
melhores pesquisadores para executar seu trabalho. Tal foi o caso, entre publicação interrompida durante toda a primeira década republicana. Só
outros, de Gonzaga de Campos, de Francisco de Paula Oliveira, de foi retomada em 1902, sob a administração de Costa Sena, tendo sido
Euzébio de Oliveira, de Fleury da Rocha, de Arrojado Lisboa, de paralisada novamente de 1925 a 1931. Entre 1902 e 1925, quando
Luciano Jacques de Morais, de Pedro de Moura, de Avelino de Oliveira, foram publicados 17 números, o professor que mais apareceu com
de Morais Rego, de Glycon de Paiva e, mais recentemente, de Djaima trabalhos na área de mineralogia foi Costa Sena. Vários dos principais
Guimarães, talvez a maior vocação de cientista produzida na Escola. colaboradores não eram professores: Arrojado Lisboa, Euzébio de
Isso sem esquecer o talento de pesquisador que foi José Carneiro Felipe, Oliveira, Francisco de Paula Oliveira, Morais Rego e E. Hussak.
levado para a seção de química do Instituto Oswaldo Cruz. O próprio
A maior contribuição da Escola no período foi na área da
Fleury da Rocha, que foi o primeiro diretor do DNPM, além de ter sido
tecnologia. Com o auxílio do Ministério da Viação, Augusto Barbosa da
duas vezes diretor da Escola, reconhece nesse órgão e no antigo SGMB
Silva conseguiu projetar e construir um forno elétrico para a produção
uma complementação, um centro de especialização e treinamento
de ferro manganês26. Durante a Primeira Guerra Mundial, o forno foi
avançado para os ex-alunos de Ouro Preto24.
dos principais fornecedores da Central do Brasil. O próprio Augusto
A produção científica em órgãos como o SGMB e o DNPM ainda Barbosa foi convidado a ir para os Estados Unidos desenvolver seus
poderia ter sido maior se o trabalho de importantes pesquisadores não estudos, não o tendo feito por falta de permissão do governo brasileiro.
ficasse muitas vezes prejudicado por tarefas burocráticas e políticas. No Outro ex-aluno, que como Augusto Barbosa ganhara prêmio de viagem
caso de Gonzaga de Campos, boa parte do seu tempo era gasto no ao exterior, também explorou as possibilidades da eletrossiderurgia,
Congresso, tentando convencer parlamentares da necessidade das sem aparentemente ter passado à fase de construção do forno. Trata-se
iniciativas que propunha. No DNPM, Fleury da Rocha prestou sua de Alceu Soares de Lelis Ferreira. As experiências de Augusto Barbosa
melhor contribuição na elaboração da política mineral, incorporada no não foram além do forno experimental.
Código de Minas, no Código de Águas, na legislação do petróleo. Um
Outro destaque na área tecnológica foi Alberto Augusto
contraste com a atuação de Derby, que produziu muito como cientista
Magalhães Gomes. Emygdio Ferreira da Silva Jr. resume assim sua
mas que não teve quase influência alguma na política econômica e
contribuição:
mineral, tanto na Comissão Geológica e Geográfica de São Paulo, onde
se desentendeu com o governo, como no SGMB. Djalma Guimarães Sob sua inspiração e segundo projeto seu, construiu-se o primeiro par
parece ter conseguido combinar melhor do que Derby a atuação política de aparelhos Cowper no Brasil, os da usina Burnier; o forno nº 2 da
e a pesquisa. Mesmo assim, conforme afirmou um seu colega e amigo, 25
Entrevista com o Prof. Manuel Teixeira da Costa. Ver, também, do mesmo professor, “A
obra de Djalma Guimarães”. REM, v. XXXI, n. 3, p. 6-8.
26
Para uma descrição das primeiras experiências com o forno, ver A
24
Ver ROCHA. Discurso de agradecimento reproduzido na REM, v. XX, n. 2, p. 58. ELETROMETALURGIA do ferro no Brasil. Jornal do Comércio, p. 2.

108 109
usina Esperança, moderno, de funcionamento perfeito, é também de de Engenharia do Pará, de Goiás, do Ceará, e na Escola de Agricultura
sua autoria; a primitiva instalação de Sabará foi feita sob sua de Piracicaba.
orientação, a usina Gorceix, com projeto para a instalação de dois
fornos, é ainda outro exemplo da sua competência nos domínios da
27 A ESCOLA DE MINAS E O DESENVOLVIMENTO ECONÔMICO
prática .
Será, espero, um dos títulos de glória dos engenheiros da escola dar nova vida a
Embora não se pudesse esperar da Escola de Minas uma essa indústria [do ferro].
produção científica da qualidade e quantidade da do Instituto Oswaldo
Cruz, que era formado só de pesquisadores selecionados, dedicados em Gorceix
tempo integral a seu trabalho, parece que algo se perdeu da orientação
inicial de Gorceix no que se refere ao papel da pesquisa. A carga A citação acima, tirada do discurso pronunciado por Gorceix na
didática já era pesada ao tempo do fundador, mas mesmo assim ele e sessão de inauguração em 1876, deixa claro que sua preocupação não
seus colegas, inclusive brasileiros, encontravam tempo para desenvolver era apenas formar engenheiros, mas influir profundamente no
pesquisas, e essas eram parte importante do ensino. Aos poucos, o conhecimento e no desenvolvimento das riquezas naturais de Minas e
ensino foi se tornando quase absoluto com prejuízo da pesquisa e, do país. Entre essas riquezas, a que lhe parecia de maior futuro
naturalmente, embora isso talvez não tenha sido percebido, em prejuízo econômico, para Minas pelo menos, era a do ferro, sem excluir, no
do próprio ensino. entanto, a possibilidade de recuperar com melhor técnica as tradicionais
Mesmo assim, a qualidade do ensino, pelo menos até 1931, era minerações de ouro e diamantes.
suficiente para produzir os pesquisadores e técnicos que forneceram o O impacto na área industrial se fez sentir de maneira menos
material humano que iria possibilitar os estudos feitos no SGMB, no perceptível e mais lenta do que no ensino e na pesquisa. Aqui não
DNPM e na Inspetoria Federal de Obras Contra as Secas. Na ausência bastava que o Estado criasse comissões e empregasse os engenheiros
dessa reserva de pessoal capacitado, o atraso brasileiro nas áreas da para que os resultados aparecessem. Pesavam muito mais as limitações
pesquisa geológica e de recursos naturais teria sido muito mais difícil de de ordem econômica. A grande siderurgia no Brasil só surgiu no
superar no momento em que, finalmente, se decidiu atacar de frente o começo da década de 40 do século XX, o mesmo acontecendo com os
problema. Mais ainda, a própria decisão de enfrentar o problema se grandes projetos de mineração. E isso graças às circunstâncias
deveu em boa parte à influência do grupo de Ouro Preto. extraordinárias de antes e durante a Guerra, que facilitaram ao governo
Note-se, por fim, a colaboração de ex-alunos na criação de várias a obtenção de financiamento. No entanto, houve tentativas, de parte da
escolas técnicas, sobretudo de engenharia. Quase todas as escolas Escola e de seus engenheiros, de dinamizar a siderurgia através da ação
técnicas de Minas contaram com os engenheiros de Ouro Preto entre direta ou de políticas de incentivo.
seus fundadores. Tal é o caso das escolas de Engenharia de Belo Dentro da Escola, os três professores de metalurgia e exploração
Horizonte, Juiz de Fora e Itajubá e da atual Universidade Federal de de minas, Bovet, Ferrand e Thiré, fizeram estudos sobre a indústria
Viçosa. Fora de Minas, a contribuição se fez sentir na criação de escolas siderúrgica e propuseram medidas para melhorá-la. Os mesmos
professores, com o incentivo de Gorceix, estiveram envolvidos em
tentativas de projetar e construir um alto-forno a carvão vegetal, sob o
27 patrocínio da Escola. Gorceix, em uma de suas cartas ao Imperador, fala
Amaro Lanari refere-se à fundação dessa empresa em Escola de Minas, palavras de
devoção e amizade, discurso no 83ª aniversário, 1959. Sobre a obra de Alberto Augusto
em entregar a Paul Ferrand a direção do “grande estabelecimento
Magalhães Gomes como projetista de altos-fornos, ver seu necrológico em SILVA Jr. Anais metalúrgico de cuja organização o Sr. Conselheiro João Alfredo quer a
da Escola de Minas de Ouro Preto, n. 25, p. I-III, 1934.

110 111
toda força que eu me encarregue”28. As tentativas não tiveram êxito. produção. A fábrica passou ao filho Joseph-Albert Gerspacher, que a
Gorceix insistiu também com Augusto Barbosa no sentido de que vendeu ao banqueiro Queiroz Júnior. Sob o nome do último, existe até
fizesse estágio em Audincourt para se familiarizar com os altos-fornos a hoje.
carvão vegetal que considerava os mais adequados para Minas Gerais.
Joseph-Albert construiu, depois, vários altos-fornos em Minas
Foi, no entanto, o sogro de Augusto Barbosa quem construiu esses
Gerais, como os da usina Wigg, em Miguel Burnier, e no Estado do
fornos, como se verá, enquanto o genro se dedicava à montagem de um
Rio, como os da usina da Saudade, em Barra Mansa. Vários
forno elétrico.
engenheiros da Escola empregaram-se nessas usinas, embora os
A Escola oferecia assistência a pequenos produtores de ferro e a projetos fossem provavelmente do desenho de Joseph-Albert.
pequenos mineradores, no intuito de auxiliá-los a introduzir
A contribuição mais substancial dos ex-alunos verificou-se na
modificações tecnológicas que melhorassem a produtividade. No
criação da Companhia Siderúrgica Mineira, em Sabará, em 1917. Essa
relatório de 1881, Bovet diz que “todos que se dedicam ao fabrico do
companhia foi criada por Amaro Lanari, Cristiano Guimarães e Gil
ferro se acham hoje dispostos a adotar nossos processos”. E espera que
Guatimosin, todos ex-alunos. O perfil e o projeto do alto-forno foram
o exemplo dos ex-alunos faça “completa revolução” nas técnicas
calculados na Escola, por Alberto Magalhães Gomes, e a construção foi
rudimentares utilizadas em Minas29. Os laboratórios da Escola
supervisionada pelos diretores. A produção, iniciada em 1919, foi de 25
forneciam análises de minérios de toda espécie a quem solicitasse. A
toneladas de gusa por dia, na época o maior alto-forno da América
correspondência de Gorceix indica ainda que pessoas interessadas em
Latina31. Em 1921, a Companhia se uniu à ARBED, transformando-se
investir em projetos de mineração recorriam a seus conselhos
na Cia. Siderúrgica Belgo-Mineira, hoje a maior siderúrgica a carvão
profissionais. Não há informação sobre os resultados dessa atividade de
vegetal no mundo, desmentindo muitos técnicos da época, inclusive F.
assistência. O mais provável é que tenham sido modestos, devido às
Labouriau, que não acreditavam no carvão vegetal como combustível
dificuldades de natureza econômica enfrentadas pelas pequenas
para siderúrgicas de grande porte.
fábricas. Do forno elétrico já se disse que não foi industrializado.
A Belgo-Mineira sempre contou com a colaboração de
Passando para a atuação de ex-alunos, a primeira iniciativa de
engenheiros da Escola de Minas, embora um grande impulso a suas
que se tem notícia foi a de Francisco de Paula Oliveira, que montou,
atividades tenha sido dado também pela chegada ao Brasil, em 1927, do
entre 1880 e 1883, uma forja catalã em Abaeté, na qual chegou a
engenheiro Luís Ensch, que participou ativamente dos planos de
produzir ferro de boa qualidade. O primeiro alto-forno construído em
expansão da empresa na década de 30. A Belgo começou a produzir aço
Minas após a Independência, no entanto, só teve vinculação indireta
em 1938, em sua nova usina de Monlevade, e instalou a primeira
com a Escola de Minas. Trata-se da usina Esperança, construída em
laminação em 1940. Por essa época, dominava a produção de aço, pois
Itabirito pelo “mestre de forjas” Jean-Albert Gerspacher, ex-diretor da
era responsável por 85.000 das 141.000 toneladas que se produziam no
usina de Audincourt na França, onde estagiara Augusto Barbosa da
Brasil.
Silva. Gerspacher chegou ao Brasil em 1887, a convite de Gorceix e por
sugestão de Augusto Barbosa30. Em 1891, o alto-forno iniciou a

31
28 Ver SILVA. Revista do Serviço Público, ano VIII, v. VI, n. 2; e BAER. Siderurgia e
Ver Carta ao Imperador, de 1º de outubro de 1882. AHMI, POB, Maço 187, doc. 8490. desenvolvimento brasileiro, p. 86. Sobre a siderurgia no Brasil e a contribuição da Escola de
29
RELATÓRIO DE GORCEIX, de 19 de junho de 1881. AN, 1E3 126, pasta 2, p. 327. Minas, ver também BAETA. Revista da UFMG, n. 17, p. 68-84; PIMENTA. Implantação da
30
O interesse de Augusto Barbosa em sugerir a vinda de Gerspacher foi mais do que grande siderurgia em Minas Gerais; PELAEZ. Revista Brasileira de Economia, v. 24, n. 2,
científico, como ficou demonstrado quando se casou com a filha do “maître de forges”. p. 191-217; OLIVEIRA. Anais da Escola de Minas de Ouro Preto, n. 5 e 6, p. 57-112, 14-
Sobre Gerspacher, ver SILVA. Jornal do Brasil, p. 35. 81; RIO. O nosso problema siderúrgico.

112 113
Ex-alunos também tentaram montar uma eletrossiderúrgica em se construir uma usina a carvão de madeira em Minas Gerais. Como
Juiz de Fora, desconhecendo-se os resultados do empreendimento. consequência, a Escola foi marginalizada na criação de Volta Redonda,
Fundaram, ainda, uma Cia. Eletro-Metalúrgica em Ribeirão Preto. embora fosse cordial seu relacionamento com o negociador e construtor
Mário Álvaro Rache e José Jorge da Silva, ex-alunos, construíram um da usina, o então Major Edmundo de Macedo Soares, engenheiro pela
alto-forno perto de Lafaiete para 50 toneladas. Euvaldo Lodi e José da Escola Militar, com especialização em metalurgia na França. Quando os
Silva Brandão, dois ex-alunos, construíram um alto-forno em Caeté e brasileiros assumiram o controle da fábrica em 1947, foram, sobretudo,
criaram, em 1931, a Companhia Ferro Brasileiro. Mário Rache fora engenheiros militares que o fizeram, formados em metalurgia pelo
gerente de uma empresa de mineração de Carlos Wigg e também próprio Exército. Só aos poucos é que os engenheiros da Escola foram
gerente da usina Queiroz Júnior, antiga Esperança. Seu irmão, Pedro sendo admitidos à CSN, chegando a postos de direção. Em 1946, José
Rache, participou intensamente das lutas da Itabira Iron na década de 30 A. Alves de Souza e Américo Renné Giannetti foram nomeados para o
e ajudou a fundar, com Percival Farquhar, a Acesita, em 1944. Euvaldo Conselho Consultivo da empresa, merecendo da Congregação um
Lodi foi industrial de grande projeção e presidente de várias empresas telegrama de congratulações por serem os primeiros ex-alunos a terem
de mineração e siderurgia. nela voz de direção.
Entre 1900 e 1940, a produção de gusa no Brasil passou de 2.000 O peso de razões políticas no caso da CSN pode ser aferido pelo
toneladas, em um alto-forno (Esperança), para 185.000 toneladas, em fato de que na Vale do Rio Doce, criada logo depois com a
19 altos-fornos. Embora ainda modesta, a produção de 1940 satisfazia expropriação das reservas de Itabira, os engenheiros da Escola
totalmente o consumo interno. A produção de aço em lingotes nesse participaram desde o início, inclusive em postos de direção. A presença
ano, de 141.000 toneladas, também quase cobria o consumo, que era de deles foi hegemônica em todas as grandes empresas siderúrgicas de
147.000 toneladas. No progresso feito, grande parcela se deve à Minas, exceto na única com capital totalmente estrangeiro, a
contribuição técnica e empresarial dos engenheiros de Ouro Preto32. Mannesmann. Da criação da Acesita participou um industrial ex-aluno,
Pedro Rache, velho aliado de Farquhar. Da criação da Usiminas,
A participação da Escola no planejamento e construção de Volta
participaram ativamente vários ex-alunos que na época dirigiam a
Redonda, no início da década de 40, não foi grande, devido a fatores de
Sociedade Mineira de Engenheiros e a Associação Comercial de Minas.
natureza política. O primeiro deles foi que os militares passaram a
A Alumínio Minas Gerais S/A foi criada por Américo Renné Giannetti,
tomar cada vez mais a iniciativa na área siderúrgica, por razões de
que foi também um dos renovadores da administração pública em
segurança nacional, deslocando-se o assunto do Ministério da
Minas. A presidência da Açominas também foi entregue a um
Agricultura e Obras Públicas, ao qual sempre fora afeto, para os
engenheiro de Ouro Preto.
ministérios militares, sobretudo o do Exército. Além disso, houve um
afastamento de Minas das decisões políticas nacionais. Na década de Na mineração, os progressos foram mais modestos, embora não
30, não seria mais possível o que aconteceu em 1920 quando a oposição desprezíveis. A primeira turma de alunos a excursionar pelo interior já
do presidente do Estado, Artur Bemardes, foi suficiente para fazer voltara entusiasmada com a possibilidade de desenvolver explorações
abortar o contrato assinado pelo governo federal com a Itabira Iron. minerais. Vários ex-alunos de fato se envolveram nessas explorações.
Finalmente, a posição predominante na Escola de Minas e nas Em suas viagens à França, Gorceix tentou convencer companhias
associações de classe do estado, em que atuavam os ex-alunos, era a de francesas a investir em projetos de mineração, sobretudo do diamante,
que era objeto predileto de seus estudos. Chegou a imaginar o Brasil
32
competindo com o Cabo na produção diamantífera, mediante um
Sobre o problema siderúrgico na década de 1930, ver WIRTH. The politics of Brazilian
development, 1930/1954, p. 71-89. Sobre a participação da engenharia brasileira na
empreendimento que aliaria capitais franceses aos conhecimentos
construção da Companhia Siderúrgica Nacional, ver SILVA. REM, ano IX, n. 7, p. 281-296.

114 115
técnicos desenvolvidos em sua Escola33. Armand de Bovet e Arthur A ESCOLA DE MINAS, A POLÍTICA E A POLÍTICA MINERAL
Thiré também se meteram em explorações de ouro e diamantes. Ambos Uma última dimensão da influência, e não a menos importante, é
foram diretores da Societé des Mines d’Or de Faria, em Sabará, de a que se refere à política em geral e à política mineral em particular.
propriedade francesa. Bovet dirigiu ainda mineração de diamantes em Quanto à política em geral, a pergunta a ser feita é se a formação na
Diamantina, de capital franco-brasileiro. Mas o grande projeto de Escola de Minas apresentava alguma característica que marcasse a ação
mineração só foi mesmo implantado em 1942, com a criação da Vale do dos ex-alunos. Quanto à política mineral, trata-se de perguntar até que
Rio Doce, cujo primeiro diretor foi Israel Pinheiro, um ex-aluno. ponto, e de que modo, os ex-alunos interferiram em sua formulação.
Na área da siderurgia e mineração, portanto, apesar dos Sendo a última pergunta de mais fácil resposta, concentro nela a
constrangimentos existentes, o que se fez no Brasil foi, em boa parte, atenção, fornecendo, ao final, algumas indicações sobre a primeira.
graças à contribuição dos ex-alunos como técnicos apenas, ou como A influência dos professores e alunos na política mineral do
técnicos e empresários. governo provincial ou estadual e do governo federal se fez sentir desde
Foram até aqui mencionadas apenas as atividades didáticas, o início. Antes da criação da Escola, era praticamente nula a atenção
científicas, técnicas e empresariais mais diretamente ligadas às áreas da que o governo provincial dava às atividades mineratórias, conforme
mineração, da metalurgia e da geologia. atesta estudo de Francisco Iglésias. Até 1873, o governo só tinha
concedido três privilégios de invenção na área da mineração34. A
Mas, como indica a Tabela 10, grande parte da atividade dos ex-
presença da Escola trouxe alguma mudança neste cenário35. As três leis
alunos até 1930 se deu na área da engenharia civil, onde vários se decretadas após 1873 sofreram, de alguma maneira, sua influência.
salientaram. É possível encontrá-los em praticamente todas as estradas
de ferro do país, do Acre ao Rio Grande do Sul, sem falar no próprio A primeira se referia à garantia de juros concedida a João
Departamento Nacional de Estradas de Ferro. Encontramo-los nos Monlevade em 1879 para construir um alto-forno. Na discussão do
programas de luta contra a seca no Nordeste, e dirigindo obras de projeto de lei na Assembleia, Gorceix foi citado pelos defensores da
saneamento, abastecimento d’água e construção de estradas em necessidade de se apoiar a indústria siderúrgica. Em 1882, votou-se
inúmeros municípios. Vemo-los, também, na direção de companhias de outra garantia de juros para a exploração de uma jazida argentífera pelo
eletricidade, de cimento, de tecidos, de refinarias de petróleo, de ex-aluno Crispiniano Tavares. Finalmente, ainda em 1882, aprovou-se
bancos, de firmas particulares de engenharia. Estão na direção do um projeto de lei, proposto pelo ex-aluno e professor Costa Sena,
Departamento Nacional do Café, do Instituto do Açúcar e do Álcool, do também deputado provincial, que abria verba para financiar a
Conselho Nacional do Petróleo, da Inspetoria de Obras Contra as Secas. transformação de cadinhos em forjas catalãs. Esse projeto era
consequência direta das ideias de Gorceix, que defendia essa
Nos trabalhos da engenharia civil, tanto quanto nos da engenharia
transformação como primeiro passo para a modernização da indústria
de minas e da geologia, manifesta-se a vocação desbravadora que siderúrgica. A lei permitia a Gorceix contratar mestres na Europa para
levava os engenheiros de Ouro Preto a se aventurarem por todos os
introduzir a modificação.
quadrantes do país, fugindo da concentração das grandes cidades e
conferindo a sua atividade um caráter nitidamente nacional.
34
Ver IGLÉSIAS. Política econômica do governo provincial mineiro (1835/ 1889), p. 95.
Ver também a compilação LEIS da Província de Minas Gerais se referindo à mineração e à
indústria. Anais da Escola de Minas de Ouro Preto, n. 3, p. 239-250.
35
IGLÉSIAS. Política econômica do governo provincial mineiro (1835/1889); e ANAIS
33
Ver Carta ao Imperador, de 5 de maio de 1881. AHMI, POB, Maço 186, doc. 8455. DA ASSEMBLEIA PROVINCIAL DE MINAS GERAIS, 1879, p. 578- 581, 218-220.

116 117
A posição de Gorceix, defendida na Assembleia provincial por exploração que frequentemente eram concedidos por razões políticas ou
Costa Sena, era idêntica à de Eschwege, exposta 70 anos antes. Mas não de maneira a tornar o empreendimento inviável, tal a natureza das
havia consenso dentro da Escola quanto a essa política. Arthur Thiré exigências feitas. Sugeria, como solução, a criação de Conselhos de
achava que somente a introdução de altos-fornos resolveria o problema Minas junto a cada presidente de Provincia37. O projeto de lei não foi
siderúrgico de Minas. Forjas catalãs eram um processo por demais adiante.
primitivo e ineficiente para dar resultados satisfatórios. Devia-se
Logo após a proclamação da República, vemos outro professor
começar, segundo ele, por um pequeno alto-forno a carvão de madeira,
envolvido com o problema da legislação mineira. A Constituição de
com capacidade de 10 toneladas por dia, e uma unidade de refino. As
1891, no que se refere à propriedade das minas, como em quase tudo,
pequenas usinas não sofreriam com isso, porque poderiam transformar-
copiou o sistema norte-americano da acessão, pelo qual o dono da mina
se em unidades de refino do gusa produzido no alto-forno. Além de
era o dono da terra em que ela se achava. Ou, como dizia o artigo 22,
fornecerem mercado para o alto-forno, elas teriam mais lucro, pois o
parágrafo 17: “As minas pertencem aos proprietários do solo, salvas as
refino seria mais fácil e mais barato do que a produção direta do ferro36.
limitações que forem estabelecidas por lei a bem da exploração deste
Havia maior acordo entre Gorceix e Thiré sobre qual deveria ser ramo de indústria.” Isto significava mudança importante em relação à
a política do governo em relação à indústria siderúrgica. Em geral, eram legislação imperial, que adotava o chamado sistema domanial, pelo qual
contrários à concessão de privilégios de exploração ou fabricação. Thiré a propriedade das minas era da nação38. Antônio Olinto dos Santos
era mesmo contra os sistemas de garantia de juros. Mas ambos achavam Pires, professor da Escola, e Serzedelo Correia apresentaram na Câmara
necessária a interferência do Estado, que devia se dar, sobretudo, projeto que procurava estabelecer um sistema intermediário entre o
mediante a garantia de mercado e de preços, na visão de Thiré, e na domanial e o de acessão. Separavam a propriedade da terra da
garantia de capitais, tarifas especiais nas estradas de ferro, isenção de propriedade das minas, tendo a última que ser legitimada
direitos de exportação, segundo Gorceix. separadamente. A lavra e exploração das minas só poderiam ser feitas
com permissão do governo39. Os esforços dos dois deputados não
O privilégio e a garantia de juros, segundo os dois professores,
levaram a modificação da legislação.
resultariam em bloqueio de outras iniciativas, no primeiro caso, e em
excessivo controle do Estado sobre o empresário e exagerados gastos A próxima tentativa de modificar a lei de propriedade das minas
para o Tesouro, no segundo. O fato, no entanto, de ambos admitirem a veio em 1910, por iniciativa de Gonzaga de Campos. Como primeiro
interferência do Estado para contrabalançar efeitos que vinham, em boa engenheiro do SGMB e representante do Ministério da Agricultura,
medida, da competição do ferro mais barato da Europa, já indicava, da Gonzaga de Campos apresentou à Comissão de Leis de Minas, criada
parte dos dois franceses, uma percepção lúcida dos problemas pelo Ministério do Interior, longo projeto sobre o assunto. Nele também
econômicos enfrentados por países como o Brasil.
No âmbito nacional, desde 1880 já se pensava na elaboração de 37
Ver Cartas ao Imperador, de 1º de março e 3 de setembro de 1880 e 9 de abril de 1882.
uma lei de minas. Gorceix, que sempre insistira na necessidade dessa AHMI, POB, Maço 184, doc. 8385 e Maço 187, doc. 8490.
lei, consultado pelo ministro da Agricultura, Comércio e Obras 38
Havia no Império alguma incerteza quanto ao tipo de legislação que de fato prevalecia.
Públicas, ofereceu emendas ao projeto e manteve contatos com Um decreto de 1829 dava ao dono da terra a propriedade das minas nela existentes, mas,
segundo Calógeras, os atos oficiais aplicavam o conceito da propriedade nacional, que teria
Conselheiros de Estado sobre o assunto. Preocupava-se, sobretudo, em
substituído o da propriedade régia vigente na Colônia. O Conselho de Estado confirmou essa
que fossem criadas autoridades competentes para julgar os pedidos de interpretação em 1866. Faltava, no entanto, um código que sistematizasse e uniformizasse a
legislação. Gorceix várias vezes chamou a atenção para esse ponto.
39
CONGRESSO NACIONAL. Anais da Câmara dos Deputados, 1891, v. I, p. 487-495 e v.
36
Ver THIRÉ. L’industrie du fer dans la Province de Minas Gerais. IV, p. 293-299.

118 119
separava a propriedade das minas da propriedade do solo. A mina podia aluno Israel Pinheiro da Silva foi dos que lutaram contra a tendência ao
ser registrada e colocada sob a tutela do governo, que podia também regime de acessão.
desapropriá-la40. O projeto foi ao Congresso, onde foi nomeada
A atuação dos ex-alunos foi intensa, embora nem sempre
comissão própria, que apresentou substitutivo, redigido por outro ex-
homogênea, na política de incentivo a empresas de mineração e
aluno, João Pandiá Calógeras, um dos melhores conhecedores do
metalurgia. A partir de 1910, com as concessões feitas a Carlos da
problema da legislação mineira no Brasil41. O substitutivo, que
Costa Wigg e Trajano de Medeiros, teve início uma série de medidas da
aperfeiçoava o projeto de Gonzaga de Campos, foi transformado em lei,
mesma natureza referentes a diversos projetos, que culminou com o
em 1915, com a assinatura do próprio Calógeras, então ministro da
contrato da Itabira Iron, em 1920. Tratava-se, em parte, de uma
Agricultura42.
“indústria da concessão”, já amplamente praticada em relação às
Finalmente, em 1934, foi publicado o Código de Minas e o estradas de ferro, e dela pouca coisa resultou de concreto. Mas as
Código de Águas, que tiveram como principal redator Domingos Fleury concessões indicavam mudança de mentalidade no sentido de maior
da Rocha, então diretor do DNPM, firmemente apoiado pelo ministro consciência da necessidade da implantação da siderurgia. A Guerra
Juarez Távora e pelos deputados federais Furtado de Menezes e contribuíra para essa consciência ao introduzir no debate razões de
Euvaldo Lodi43. O Código de 1934, o primeiro que o país teve, reduzia segurança nacional.
os direitos do proprietário da terra à preferência para a concessão de
A participação dos ex-alunos verificou-se, sobretudo, no caso do
licença para a lavra das minas porventura nela existentes. As minas
contrato da Itabira Iron, motivo de 20 anos de debates, às vezes
desconhecidas na época da publicação do Código foram declaradas de
violentos. No início do conflito, dois ex-alunos lideravam os lados
propriedade nacional44. A criação do Conselho Nacional de Petróleo foi
opostos: a favor do contrato, tendo sido um dos responsáveis por sua
também sugestão de Fleury, bem como quase toda a legislação
feitura, estava José Pires do Rio, ministro da Viação e Obras Públicas
petrolífera da época, inclusive o imposto único sobre combustíveis.
de Epitácio Pessoa; ferrenhamente contra, colocava-se Clodomiro de
Fleury foi vice-presidente do CNP de 1938 a 1944.
Oliveira, Secretário da Agricultura do presidente de Minas Gerais, Artur
Com relação ao Código de Minas, a Congregação manifestou-se Bernardes. Tudo indica, no entanto, que a opinião dominante entre os
em 1944, em telegrama ao presidente da República, protestando contra ex-alunos e dentro da Escola era a favor de Clodomiro, embora talvez
a anunciada revisão do dispositivo referente à propriedade pública do não com o ardor que este punha na disputa. Clodomiro era, na época,
subsolo (ata de 15 de março de 1944). Na Constituinte de 1946, o ex- professor da Escola e foi depois diretor de 1930 a 1931. Em 1924, o
Centro Acadêmico o convidou para falar sobre sua luta contra a Itabira,
em claro gesto de simpatia por sua posição. Outros ex-alunos de
40
O projeto de Gonzaga está incluído no RELATÓRIO DO MINISTRO DA prestígio, como Gonzaga de Campos e Eleury da Rocha, se
AGRICULTURA, INDÚSTRIA E COMÉRCIO, 1910, p. 157-190. manifestaram favoráveis às posições do governo mineiro.
41
Ver CONGRESSO NACIONAL. Anais da Câmara dos Deputados, 1916, v. X, p. 37-129.
Calógeras credenciara-se como especialista no problema da legislação de minas no Brasil Ao chegar à presidência da República, Artur Bernardes tratou de
por seu monumental parecer apresentado à Comissão Especial de Minas da Câmara, depois elaborar um projeto alternativo ao da Itabira que, em consequência da
publicado como livro sob o título As minas do Brasil e sua legislação, em três volumes. oposição contra ele levantada, tivera seu registro negado pelo Tribunal
42
Ver COLEÇÃO DE LEIS DA REPÚBLICA DOS ESTADOS UNIDOS DO BRASIL,
de Contas. Para tal fim, nomeou uma comissão que elaborou o que seria
1915, v. I, p. 192-209.
43
Ver depoimento de ROCHA. Anais da Escola de Minas de Ouro Preto, n. 26, p. 119. Ver o primeiro esboço de um plano siderúrgico nacional. Na comissão teve
também SOUZA. REM, ano XI, n. 5, p. 27-30. papel importante o próprio Clodomiro de Oliveira, tendo sido
44
COLEÇÃO DE LEIS DA REPÚBLICA DOS ESTADOS UNIDOS DO BRASIL, 1934, consultados também outros professores da Escola, engenheiros e
v. IV, P parte, p. 655-679.

120 121
industriais. O trabalho da comissão forneceu as bases para uma lei projeto da Itabira. Pedro Rache era amigo de Farquhar, a quem se ligou
votada pelo Congresso e sancionada por Artur Bernardes em 1924. mais tarde para criar a Acesita. O parecer, seguindo as ideias do relator,
Entre muitos outros dispositivos, a lei previa a construção de três usinas era favorável ao contrato, mesmo que este não incluísse a obrigação de
siderúrgicas, com a produção de 50.000 toneladas de aço cada uma. construir uma usina siderúrgica, ponto que tinha sido a origem principal
Uma seria localizada no vale do Rio Doce e utilizaria energia elétrica e de toda a discussão. O parecer era igualmente um protesto contra a
carvão vegetal, outra em Santa Catarina e a terceira no vale do intervenção do Estado na economia, refletindo a posição de grupos
Paraopeba, ambas a carvão mineral. privados fortemente representados no Conselho: “Consideramos um
erro o Estado industrial e negociante”46.
A lei sofreu a oposição de Ferdinand Labouriau, ex-aluno e
professor da Escola Politécnica do Rio, um dos maiores adversários de O relatório provocou várias reações. O projeto Itabira tinha
Clodomiro de Oliveira e defensor do projeto Itabira. Para Labouriau, as muitos inimigos: o Exército, a Escola de Minas, os pequenos produtores
usinas propostas eram antieconômicas e seriam deficitárias. de gusa, os outros proprietários estrangeiros de jazidas, os grupos
Eletrossiderurgia, segundo ele, só servia para aços especiais, e carvão ligados ao carvão de Santa Catarina e Rio Grande do Sul, um irmão de
vegetal não era aplicável à grande siderurgia. Só um grande projeto, Oswaldo Aranha, representante dos interesses da Krupp no Brasil.
com coque estrangeiro, seria economicamente viável. Labouriau Getúlio Vargas teve que descartar o relatório e procurar melhores
atribuía as conclusões da comissão à influência de Clodomiro, cujas conselhos. Após muitas peripécias, envolvendo a política nacional e
ideias se baseariam nas seguintes falsidades: o perigo do esgotamento internacional, chegou-se, por fim, à solução da Companhia Siderúrgica
das reservas minerais do Brasil e a prevenção contra o capital Nacional.
estrangeiro e a exportação de minérios. E concluía que a solução
Após ser dado a público o relatório, a Congregação da Escola,
proposta era “poesia siderúrgica”, fruto de “jacobinismo pretensioso”.
por proposta de Francisco Magalhães Gomes, enviou a Getúlio Vargas
Liberal ortodoxo, não concordava com a exigência feita na lei de que o
um telegrama em que apelava
contratado fosse brasileiro, nem com a opção por ela aberta a que o
Estado construísse algumas das usinas propostas45. no sentido ter problema exportação minério de ferro e siderurgia uma
solução genuinamente nacional. Manifesta a V. Exa. que considera
Não cabe aqui uma história da luta em torno da Itabira Iron, que contrato Itabira como prejudicial interesses país e que é dever dos
só terminou em 1942, com a expropriação de suas reservas e a criação brasileiros fazer com que uma riqueza tão considerável como
da Vale do Rio Doce. Mas cabe indicar a participação da Escola na fase minérios de ferro nosso solo seja aproveitada ou exportada para
final da luta, em que ficou mareada a continuidade com a posição melhoria nossa economia, nossas estradas e defesa nacional e não
nacionalista de Clodomiro de Oliveira, e a defesa de certas soluções para beneficiar quase exclusivamente uma empresa estrangeira (ata
técnicas para a siderurgia, que muitos não aceitavam, mas que por fim de 3 de agosto de 1938).
se mostraram viáveis. No mesmo ano, a Sociedade Mineira dos Engenheiros entregou
Nos últimos combates, houve outro ex-aluno do lado oposto. O ao ministro da Guerra, general Mendonça Lima, longo relatório
relatório do Conselho Técnico de Economia e Finanças do Ministério da elaborado por seu Conselho Técnico intitulado “Siderurgia nacional e
Fazenda, publicado em 1938 e relatado pelo ex-aluno e industrial Pedro exportação do minério de ferro”, elaborado por Francisco de Magalhães
Demóstenes Rache, representou o último apoio de importância ao Gomes e assinado por mais dez engenheiros, dos quais seis formados

45 46
Ver LABOURIAU. O nosso problema siderúrgico, p. 76 passim. A posição de Clodomiro Ver MINISTÉRIO DA FAZENDA. Conselho Técnico de Economia e Finanças. A grande
de Oliveira está em A concessão Itabira Iron e Problema siderúrgico. Sobre Farquhar, ver siderurgia e a exportação de minério de ferro brasileiro em larga escala. Ver também, a
GAULD. The last titan. Percival Farquhar, American entrepreneur in Latin America. respeito, WIRTH. The politics of Brazilian development.

122 123
em Ouro Preto. O relatório insistia na oposição ao projeto Itabira, campanha contra a Itabira Iron. Mas agora eram novos tempos, e a
citando Clodomiro de Oliveira e a tradição da Escola e do Estado de Hanna acabou vencendo, aliada ao grupo Antunes, mediante a criação
Minas em defender os interesses nacionais. Propunha a criação de uma da MBR, que faz hoje exatamente o que pretendia a Itabira, com o
empresa nacional a carvão vegetal e acusava Labouriau de ter difundido agravante de usar os trens da Central do Brasil, prejudicando o
o preconceito contra o uso desse combustível. A usina de Monlevade, transporte de passageiros, e de destruir a paisagem da capital mineira.
da BelgoMineira, já demonstrara a viabilidade do uso de carvão vegetal De positivo da última campanha resultou a Metamig, empresa hoje
em siderúrgicas de maior porte. O relatório propunha, ainda, a dirigida por um ex-aluno.
localização da usina no Rio Doce, citando opiniões favoráveis de
Pode-se dizer que a participação da Escola e dos ex-alunos teve
Euzébio de Oliveira e Gonzaga de Campos. Finalmente, defendia a
caráter nacionalista, sobretudo quando se tratava do problema do
planificação e a intervenção do Estado na economia, em mais uma
minério de ferro. Esse caráter se acentuava à medida que a pessoa
divergência com o relatório do Conselho Técnico e com as posições de
estivesse mais estreitamente ligada à Escola, o que leva a pensar que
Labouriau47.
parte do nacionalismo era antes uma questão de localismo, ou de defesa
A Revista Mineira de Engenharia foi obrigada pela censura dos interesses do Estado e não da nação. O localismo se tornou mais
estadonovista a restringir a circulação do número especial em que nítido em conflitos posteriores sobre a localização de usinas
divulgou o relatório. A decisão sobre o problema já estava sendo siderúrgicas, como nos casos da Cosipa e da Usiminas. Os ex-alunos
tomada pela Comissão Executiva do Plano Siderúrgico, e “o ambiente atuaram, então, sobretudo, por intermédio da Sociedade Mineira de
político e militar então reinante era de hostilidade à pretensão dos Engenheiros, da Associação Comercial e da Federação das Indústrias,
mineiros”48. Da Comissão Executiva não participava nenhum representando já interesses econômicos mais articulados. Amaro Lanari
representante da Escola ou mesmo do Estado de Minas. Volta Redonda Jr., Gil Guatimosin e Demerval Pimenta, ex-alunos, participaram do
foi escolhida como local da usina, o carvão mineral foi adotado como grupo executivo escolhido para negociar com os japoneses a criação da
combustível, o financiamento veio do Eximbank, e o projeto foi Usiminas. Amaro Lanari Jr. foi por longo tempo presidente dessa
entregue à firma norte-americana MacKee. siderúrgica. A Usiminas foi a empresa que manteve contatos mais
estreitos com a Escola, concretizados na contratação de engenheiros e
A última manifestação de cunho nacionalista partiu dos alunos do
de pesquisas.
curso de geologia, implantado em 1957. Esses alunos criaram, em 1959,
a Sociedade de Intercâmbio Cultural e Estudos Geológicos (SICEG) No entanto, a vitória nesse caso se deveu ao fato de que, pela
que, em sua primeira Semana de Estudos, já debatia o problema do ferro primeira vez após 1926, havia um mineiro na Presidência da República,
e do manganês em Minas, combatendo as pretensões da Hanna Juscelino Kubitschek, outro no Ministério da Fazenda, José Maria
Corporation. Dessa luta, e do grupo que dela participou, saiu a Alkmin, e o filho de um ex-aluno e secretário da Escola no BNDE,
inspiração para a campanha do início da década de 60 em torno do Lucas Lopes. Essa situação favorável era comum na República Velha.
slogan criado por Artur Bernardes: “Minério não dá duas safras.” A Basta lembrar o número de ex-alunos que foram ministros entre 1910 e
campanha teve o apoio do então governador Magalhães Pinto, mas foi 1926. Francisco Sá foi ministro de Nilo Peçanha de 1909 a 1910 e
interrompida após o golpe de 1964. Era, em parte, uma reedição da ministro da Viação de Artur Bernardes de 1922 a 1926. Cal& geras foi
ministro da Agricultura de Wenceslau Braz de 1914 a 1915, ministro da
47
Fazenda do mesmo presidente de 1915 a 1917, ministro da Guerra de
Ver SIDERURGIA nacional e exportação de minério de ferro. Revista Mineira de Epitácio Pessoa de 1919 a 1922. Pires do Rio foi ministro da Viação de
Engenharia, n. 7, p. 3-51. Ver, no mesmo número, o discurso de Francisco Magalhães
Gomes por ocasião da entrega do relatório do Ministro Mendonça Lima, p. 1-3.
Epitácio de 1919 a 1922. Um admirador da Escola, Miguel Calmon, foi
48
Ver PIMENTA. Implantação da grande siderurgia em Minas Gerais, p. 25.

124 125
ministro da Viação de Afonso Pena de 1906 a 1909 e ministro da problemas de desenvolvimento econômico, sobretudo quando este é
Agricultura de Artur Bernardes de 1922 a 1926. visto pela perspectiva do aproveitamento de recursos naturais, do que os
bacharéis formados nas Escolas de Direito. A observação vale
A partir da década de 30, o Estado de Minas perdeu poder no
principalmente para o período anterior à introdução dos cursos de
governo federal, a influência da Escola só se podia fazer sentir mediante
Economia nas universidades e antes da generalização dos cursos de
os órgãos técnicos do governo federal. O DNPM foi por muito tempo
Engenharia. Os políticos egressos da Escola eram geralmente guindados
dirigido por ex-alunos. Após a morte de Derby, o SGMB foi chefiado
a postos públicos por sua competência técnica e não por influências
por Gonzaga de Campos e depois por Euzébio de Oliveira. Fleury de
eleitorais, e por isso se preocupavam menos com patronagem política e
Oliveira assumiu a direção quando o Serviço foi transformado em
mais com programas de governo.
DNPM, em 1933, sendo sucedido por Luciano Jacques de Morais.
Avelino de Oliveira foi outro diretor do Departamento. Na direção de O exemplo mais claro desse tipo de político é, sem dúvida, João
divisões e seções do DNPM também estiveram muitos ex-alunos, como Pandiá Calógeras. Deputado federal em várias legislaturas, graças à
Glycon de Paiva, Paulino Franco de Carvalho, Evaristo Pena Scorza, decisão do Partido Republicano Mineiro de incluí-lo nas chapas,
Djalma Guimarães. O CNP teve como vice-presidentes Fleury de ministro de várias pastas (foi o único ministro civil da pasta da Guerra
Oliveira e Avelino de Oliveira, e nele trabalharam também Pedro de na República), foi sempre um estudioso de problemas nacionais,
Moura e Irnack do Amaral, que foi presidente da Petrobrãs. No preocupou-se sempre com o desenvolvimento econômico e a eficiência
Conselho Nacional de Minas e Metalurgia, criado em 1940, a Escola administrativa. Daí, provavelmente, o ostracismo a que foi submetido
possuía um representante permanente49. No Conselho Federal de desde 1922 até sua morte, em 1934, época de intensa movimentação
Comércio Exterior, o principal órgão de assessoria do governo no política. Dele, disse Azevedo Amaral que estava à frente de seu tempo.
Estado Novo, esteve por longo tempo José Antônio Alves de Souza, Djalma Guimarães considerava-o exemplo típico do despertar de nova
sempre preocupado com os destinos da Escola, e também Américo mentalidade entre os políticos brasileiros no início do século, devido ao
Renné Giannetti. treinamento recebido na Escola de Minas51.
A diversificação desses órgãos e o aumento do número de pessoal Exemplos semelhantes são os de Costa Sena, ao discutir na
qualificado egresso de outras escolas, sobretudo a partir do fim da Assembleia de Minas a necessidade de promover a indústria
década de 30, reduziram ainda mais a influência da Escola, embora a siderúrgica; de Antônio Olinto, ao debater na Câmara a lei de minas e
bem organizada Associação de Ex-alunos ainda a mantenha mais forte ao dirigir o serviço de obras contra as secas; de José Pires do Rio,
do que a de qualquer outra instituição. ministro e grande estudioso do problema siderúrgico; de Clodomiro de
Oliveira, com a mesma preocupação, embora em campo oposto; de
Com referência a possíveis diferenças na orientação e no estilo
Francisco de Sá; de Israel Pinheiro da Silva, primeiro diretor da Vale do
político, seria necessário examinar em maior profundidade do que é
Rio Doce e construtor de Brasília; de Américo Renné Gianetti, o
possível fazer aqui a carreira dos políticos formados em Ouro Preto50.
precursor do planejamento público em Minas Gerais. Além de outros
No entanto, é possível examinar alguns casos mais notórios. Os
que trabalharam dentro das fronteiras estaduais, como Amaro Lanari,
políticos oriundos de Ouro Preto exibem maior preocupação com
Demerval José Pimenta, Alfredo Baeta Neves, Alcides Lins.
49
A representação não estava prevista na criação do órgão. A Congregação protestou contra
o fato e foi rapidamente atendida por Getúlio Vargas (atas de 23 de outubro e 13 de
novembro de 1940).
50 51
Para uma lista de ex-alunos que se salientaram na política, ver LISBOA. REM, ano Ver GUIMARÃES. Digesto Econômico, ano XXVI, n. 214, p. 8; e LANARI JR. Digesto
XXXVI, v. XXVII, n. 3, p. 1-6. Separata. Econômico, ano XXVI, n. 214, p. 16-27.

126 127
Pode-se perguntar se a orientação distinta desses políticos não se do estrato burocrático superior que iriam povoar as comissões técnicas,
devia simplesmente ao treinamento técnico recebido e não ao fato de principais centros de formação da política econômica na década de 3053.
terem estudado em Ouro Preto. Já no Império, Rio Branco, formado
A penetração desses técnicos no interior do Estado, durante a
pela Escola Militar, dera uma orientação mais “desenvolvimentista” à
Primeira República, foi muito facilitada pelo fato de alguns deles terem
sua ação política. Também é possível que o simples fato de estudar
também ocupado cargos eletivos. É esclarecedor o contraste com os
geologia e mineralogia, independentemente da Escola, tenha sido fator
militares. A ação renovadora dos militares no campo da política
importante na presença da preocupação com o desenvolvimento dos
econômica foi prejudicada pela ênfase que deram aos aspectos político-
recursos naturais, embora ela estivesse ausente no caso de Derby. Nada
filosóficos do positivismo e pela necessidade de lutar por parcela maior
disso exclui o fato de que era parte essencial do espírito de Gorceix a
de poder dentro do Estado. Os engenheiros de Ouro Preto não eram
preocupação em traduzir os conhecimentos científicos em políticas de
positivistas e não tinham nenhuma organização ou partido em que se
desenvolvimento e que essa preocupação foi passada aos alunos.
apoiar para fazer valer suas ideias. Daí que, em vez da contestação
Os egressos estavam conscientes da influência do espírito de aberta, o caminho mais indicado para eles era a infiltração pacífica do
Gorceix. Djalma Guimarães era um dos que percebiam a diferença nos aparato estatal. Após 1930, quando o Exército se implanta solidamente
políticos formados na Escola em relação aos bacharéis e literatos. Em no centro do poder, os engenheiros e os militares rebeldes se viram lado
conferência por ocasião do centenário do nascimento de Calógeras, a lado na luta pela defesa e pela exploração dos recursos naturais. O
afirmou: ministro e “tenente” Juarez Távora foi o grande esteio de Domingos
É provável que os ex-alunos da Escola de Minas tenham exercido
Fleury da Rocha, sobretudo na elaboração e aprovação do Código de
influência de vulto nos dois primeiros decênios deste século, dentro Minas. Começava a ser construída a ponte entre militares e a incipiente
de um ambiente político não preparado para o debate de assuntos que tecnocracia civil que adquiriria tão grande importância mais tarde.
exigiam conhecimentos científicos e tecnológicos. Calógeras, Pires A influência da Escola de Minas na área do ensino, da tecnologia,
do Rio, Francisco de Sá e outros eminentes ex-alunos desta Escola
da economia e da política foi muito grande relativamente ao número de
ingressaram no cenário político dos país armados de conhecimentos
objetivos dos recursos naturais e condições de meio físico de um ex-alunos, se a compararmos, por exemplo, com a da Politécnica. A
continente que estava sendo vasculhado por outros técnicos saídos Politécnica, sem dúvida, forneceu, também, elementos de valor, tanto na
52
dos bancos escolares do mesmo instituto de ensino superior . área da ciência como da política, mas, proporcionalmente, o impacto da
Escola de Minas foi muito maior. A conclusão pode ser polêmica se a
Em recente tese de doutoramento, Luciano Martins atribui aos qualidade do ensino da Escola de Minas, responsável por seu maior
engenheiros da Escola de Minas o primeiro desafio feito aos bacharéis impacto, for creditada, como em parte deve ser, ao pequeno número de
na área da política econômica (na área puramente política o desafio teria alunos. Mas não há por que não se perguntar sobre a possibilidade de
vindo dos militares). Esses engenheiros se teriam infiltrado na obter os mesmos resultados num modelo escolar menos seletivo.
burocracia do Estado, sobretudo via SGMB, utilizando, pela primeira
vez no Brasil independente, o domínio do conhecimento técnico como
recurso político. Foram, ainda segundo Luciano Martins, os pioneiros

53
Ver MARTINS. Politique et développement économique: structures de pouvoir et système
52
GUIMARÃES. Digesto Econômico, ano XXVI, n. 214, p. 8. de décisions au Brésil, 1930/1964, p. 77-85, 196-230.

128 129
Há pouca divergência quanto ao caráter inovador da Escola em
matéria de ensino e à grande contribuição ao desenvolvimento da
geologia, da mineralogia, da metalurgia e mesmo da engenharia civil.
Também não se discute a influência de seus ex-alunos na formulação e
implementação da política de aproveitamento dos recursos minerais do
país. Mas, em contrapartida, há, igualmente, quase consenso, mesmo
entre os professores, de que a instituição se encontra, hoje, em situação,
se não de crise, pelo menos de necessidade de grandes reformas. A
divergência, hoje, não é sobre a necessidade ou não de reformas, mas
sobre o tipo de reforma que se deve implementar. E o tipo de reforma
depende, naturalmente, do diagnóstico que se faça dos males que a
afligem. Isto é, depende de que fatores sejam identificados como
causadores da presente condição.
Começo a discussão apresentando breve relato da evolução da
Escola entre 1939 a 1976, com ênfase nos conflitos internos que diziam
respeito diretamente à percepção de que algo andava errado. Resumo a
seguir os principais problemas e as causas que lhes são atribuídas.
Finalmente, discuto algumas das alternativas propostas como solução da
crise.
PARTE 3: DESCIDA AOS INFERNOS
ENTRE 1939 E 1976
CREPÚSCULO
O ano de 1939 foi escolhido como data inicial do período de
dificuldades porque foi quando surgiu o primeiro conflito grave desde a
proclamação da República. Uma das razões do conflito foi o
questionamento da qualidade do ensino, feito pela primeira vez pelos
próprios professores.
O incidente foi, aparentemente, provocado pelo prefeito de Ouro
Preto, que enviou telegrama ao ministro da Educação e Saúde
protestando contra o fato de alguns professores não residirem em Ouro
Preto, mas em Belo Horizonte. Na reação, os professores abriram o
debate sobre a conveniência da permanência da Escola em Ouro Preto.
Em reunião da Congregação de 12 de abril de 1939, o professor Alberto
Mazoni de Andrade leu importante memorial que resumia a opinião dos
mudancistas. O documento era dirigido ao ministro da Educação e
Saúde e defendia a necessidade da saída de Ouro Preto. Foi aprovado
em reunião de 12 de abril de 1939, com o voto favorável de onze
130 131
professores e contrário de oito, tendo comparecido vinte dos vinte e dois Somente a nomeação de Fleury da Rocha como diretor, em 1945,
membros da Congregação1. O debate, no entanto, apenas começara com possibilitou um arrefecimento dos ânimos. Fleury estivera afastado da
essa votação. Ele perseguiu as reuniões da Congregação durante toda a Escola desde o início da década de 30 e era nome de prestígio,
década de 40, e levou à queda do diretor Gastão Gomes, amigo de respeitado pelos dois grupos em conflito.
Getúlio Vargas, que se indispusera totalmente como grupo mudancista.
Como possível solução para o impasse, Alves de Souza já
A prolongada luta envolveu o reitor da Universidade do Brasil, o sugerira em 1942 a transformação da Escola em instituto- modelo,
ministro da Educação e Saúde e o próprio presidente da República. Ao vinculado ao novo Ministério de Minas e Energia, cuja criação fora
ataque dos mudancistas, os ouro-pretanos responderam por intermédio proposta no CNMM pelo coronel Bernardino Correa de Mattos Neto,
do diretor Gastão Gomes, com medidas de caráter político e legal. Pelo nesse mesmo ano. A ideia da escola- modelo retomava algumas
lado político, Gastão conseguiu de Getúlio Vargas uma verba para características introduzidas por Gorceix: limitação do número de
construir, em Ouro Preto, um Parque Metalúrgico que servisse de alunos, ensino gratuito e bolsa de estudos, dedicação integral e melhores
instrumento de melhoria do ensino. Na parte legal, conseguiu-se a salários para os professores, envio dos melhores alunos ao exterior. E
proibição de aulas do mesmo professor em dias consecutivos, sob a acrescentava outras: a construção de novos prédios, novos laboratórios,
alegação de que tal prática não era didaticamente aconselhável. Na instalações industriais experimentais, vila universitária. Consultada, a
realidade, buscava-se simplesmente evitar que os mudancistas Congregação aprovou a agregação ao novo ministério, pois considerava
pudessem dividir seu tempo útil entre Belo Horizonte e Ouro Preto. Os a vinculação à Universidade do Brasil uma das causas dos males que
professores que moravam em Belo Horizonte, sendo obrigados a apenas afligiam a Escola (ata de 19 de novembro de 1942).
18 horas semanais de trabalho em Ouro Preto, passavam metade da
A ideia da escola-modelo evoluiu dentro do próprio CNMM para
semana trabalhando na Capital, geralmente na Universidade de Minas
a de uma Universidade Técnica a ser construída em Ouro Preto. A nova
Gerais.
proposta foi incluída no projeto de criação do Ministério de Minas e
O conflito ganhou repercussão nacional depois da criação do Energia, redigido pelo coronel Bernardino Correa de Mattos Neto e
Conselho Nacional de Minas e Metalurgia (CNMM). Após protestar aprovado pelo CNMM. A sugestão foi adotada pelo Conselho Federal
contra sua exclusão do Conselho, a Escola conseguiu nele um lugar de Comércio Exterior, ao qual Alves de Souza também pertencia, e
permanente. Dele também fazia parte o ex-aluno Antônio José Alves de aprovada por Getúlio Vargas em 11 de setembro de 19453. A
Souza, que, em declaração de voto de 1943, levou o conflito ao Universidade Técnica incluiria cursos de engenharia de minas,
conhecimento do presidente da República, agravando ainda mais a metalurgia, civil, químico-industrial e mecânico-elétrica; teria
situação. Nem a saída de Gastão Gomes da diretoria, em 1943, acalmou autonomia administrativa e financeira dentro do novo ministério,
os ânimos2. Seu substituto, José Barbosa da Silva, também ouro-pretano dedicação exclusiva para professores, bolsas para alunos e obrigação de
convicto, não era de molde a facilitar acordos com os mudancistas. estágio de professores no exterior. O DASP se encarregaria da
transformação. Foi alocada uma verba anual de Cr$ 6.000.000,00 pelo
1 período de cinco anos.
Todas as informações sobre as atividades da Congregação foram retiradas das respectivas
atas. Para simplificar as citações, darei apenas, entre parênteses, a data da reunião.
2
As relações amistosas entre o diretor Gastão Gomes e Getúlio Vargas datavam da época em
que o último esteve estudando em Ouro Preto. Nas complicações em que lá se meteu, o
3
futuro presidente ficou devendo alguns favores a Gastão. Na luta entre os dois grupos de Para o projeto, ver MATTOS NETO. Revista de Mineração e Metalurgia, v. VIII, n. 44, p.
professores, é possível mesmo que tenha havido um ingrediente de oposição política ao 101-134. A exposição de motivos e o projeto aprovado pelo CFCE e pelo presidente da
Estado Novo, embora as Atas da Congregação nunca o mencione. Mas há referências República podem ser encontrados no Diário Oficial, de 27 de setembro de 1945, Seção I, p.
elogiosas ao regime por parte de alguns professores ouro-pretanos. 15.363-15.365.

132 133
Na Congregação, os ouro-pretanos apoiaram a ideia, ao passo que Ventos favoráveis voltaram a soprar durante o governo de
os mudancistas, por uma questão de coerência, tomaram posição Juscelino Kubitschek, que tinha no Ministério da Educação Clóvis
contrária. Se Ouro Preto não tinha condições de abrigar uma escola Salgado, decidido amigo da Escola. Na gestão desse ministro foi
técnica, como poderia abrigar uma universidade técnica? Emídio localizado em Ouro Preto, em 1957, um dos cursos de geologia
Ferreira opinou que seria mais barato ampliar o curso de metalurgia já patrocinados pela Campanha de For-mação de Geólogos (CAGE) e
existente em Belo Horizonte. Francisco Magalhães Gomes achou a criado, no ano seguinte, o Instituto de Mineração e Metalurgia. Esse
proposta demagógica, pois nunca conseguira obter sequer um Instituto vinha acompanhado de ambicioso plano de dinamização do
laboratório decente de física e um assistente (atas de 17 de novembro e ensino e da pesquisa científica e tecnológica que incluía a implantação
6 de dezembro de 1945). da pós-graduação e a contratação de professores estrangeiros. Foi
votada uma dotação de 20 milhões de cruzeiros para 1958, estando
O fim do Estado Novo e a deposição de Getúlio impediram a
previstos mais 50 milhões para 1959. Contatos foram feitos com o
criação do Ministério e da Universidade Técnica. Na Congregação,
Institute de Recherches Siderurgiques (IRSID) da França, por
comentou-se que o decreto de criação da Universidade teria sido
intermédio de Amaro Lanari Jr., e com a Pennsylvania State University.
assinado pelo presidente em exercício, José Linhares, mas o novo
Um professor de cada uma destas instituições foi enviado a Ouro Preto
ministro da Educação e Saúde, Leitão da Cunha, teria sustado sua
para acompanhar a criação do Instituto.
divulgação na Hora do Brasil e conseguido sua anulação (ata de 15 de
maio de 1946). A Assembleia Constituinte também aprovou indicação Por essa mesma época, em 1960, foi criada a Fundação Gorceix,
no sentido de se criar a Universidade. A Congregação enviou sugerida por Amaro Lanari Jr. no discurso de aniversário de 1959. A
telegramas de apoio a seu presidente, ao ministro da Educação e ao Fundação tinha por objetivo desenvolver a pesquisa e fornecer bolsas e
presidente da República (ata de 11 de setembro de 1946). Mas, de novo, assistência aos alunos, bem como alojamento para alunos e professores.
nada foi feito. No discurso de 1959, Lanari Jr. relacionou um número impressionante
de indústrias em que trabalhavam ex-alunos e que poderiam contribuir
Em 1953, durante o segundo governo Vargas, falou-se
para o patrimônio da Fundação. De imediato, comprometeu-se, em
novamente na criação do Ministério de Minas e Energia, e voltou-se a
nome de sua própria indústria, a Lanari S. A., a doar um milhão de
discutir a criação da Universidade e sua incorporação ao ministério. A
cruzeiros por ano. A ideia teve apoio imediato de Kubitschek, do
Congregação debateu longamente a questão. Mas, dessa vez,
ministro Clóvis Salgado e de Lucas Lopes, presidente do BNDE. Ao ser
provavelmente devido à menor confiança que tinha em sua capacidade
criada a Fundação, no ano seguinte, havia compromissos de doação por
de influir sobre a nova situação, houve receio de que o governo
parte das empresas no montante de Cr$488.058.000,00, a ser
atendesse à demanda de desligamento da Universidade do Brasil sem
incorporado em cinco anos. A quantia equivalia na época a US$2,7
que se fizesse a transferência para o novo ministério. Nessa hipótese, a
milhões, muito dinheiro para os parâmetros brasileiros4.
Escola ficaria ainda mais isolada e mais dependente do Ministério da
Educação. A emenda sairia pior que o soneto, no sentir da Congregação. Aproveitando o ambiente político favorável, o novo diretor,
O Ministério da Educação era, na época, sabidamente contrário à Salathiel Torres, voltou a discutir o desligamento da Universidade do
transferência para o Ministério de Minas e Energia. O voto na Brasil, mas sem falar mais na incorporação ao Ministério das Minas e
Congregação foi, então, contrário à criação da Universidade Técnica e à
transformação da Escola em instituto isolado (ata de 8 de outubro de 4
1953). O ministério foi criado e nada mudou em Ouro Preto. Sobre a criação da Fundação Gorceix, ver o número especial da REM de abril de 1960. O
número inclui o discurso em que Amaro Lanari sugeriu a criação, as pessoas e empresas que
apoiariam a ideia, e os estatutos. Ver também o folheto FUNDAÇÃO GORCEIX. Ouro
Preto: Es.n.1, 1963, editado pela própria Fundação.

134 135
Energia. Uma comissão nomeada pela Congregação mostrou-se aprovou apressadamente uma proposta de criação da Universidade de
favorável ao desligamento, desde que ele significasse a recuperação da Ouro Preto (ata de 10 de outubro de 1968). No ano seguinte, com o
antiga autonomia, condição para manter a tradição de ensino criada por apoio de Rondon Pacheco, chefe da Casa Civil de Costa e Silva, foi
Gorceix. criada a Universidade de Ouro Preto, sob a forma de fundação de direito
público. Seguiu-se um período de dúvidas quanto à organização da nova
A proposta de desligamento foi aprovada na Congregação, com
instituição, encerrado em 1972, quando foi aprovado novo estatuto
apenas dois votos contrários e uma abstenção (ata de 22 de agosto de
baseado no da Universidade de Brasília. A Fundação foi transformada
1958). Com o apoio do presidente da República, do ministro da
em Universidade Federal de Ouro Preto.
Educação e do próprio reitor da Universidade do Brasil, Pedro Calmon,
a Escola foi oficialmente desligada da Universidade em 1960, com o Os professores arrependeram-se rapidamente de ter apoiado a
nome de Escola de Minas de Ouro Preto e com autonomia nova entidade. A nomeação do primeiro reitor, Orlando de Carvalho,
administrativa, financeira, didática e disciplinar. Os novos estatutos antigo reitor da Universidade de Minas Gerais, gerou os primeiros
introduziram a divisão em quatro cursos: engenharia de minas, atritos. A Congregação reagiu fortemente contra as medidas propostas
engenharia metalúrgica, engenharia civil e geologia, com duração de pelo reitor e foi com júbilo que recebeu a notícia de sua renúncia e da
cinco anos cada um. A divisão subsiste até hoje. nomeação de um ex-aluno para substituí-lo.
Inaugurou-se uma fase de entusiasmo e de esperanças de Continuaram, no entanto, confusas as relações entre a instituição
renovação. A antiga disputa entre mudancistas e ouro-pretanos e a Universidade, que era composta de apenas duas escolas, a de Minas
desaparecera com a proibição de acumulação de cargos. Boa parte dos e a de Farmácia. Planos e tentativas de criar novas escolas foram sendo
mudancistas tinha optado pela Universidade de Minas Gerais, e o sucessivamente engavetados. A reitoria está localizada até hoje no
problema deixara de ser discutido, embora muitos ainda estivessem prédio da Escola de Minas, da qual depende em grande parte para
convencidos da inadequação de Ouro Preto como sede. As medidas funciona-mento. No momento, é dirigida por um reitor nomeado pro
tomadas durante o governo Kubitschek, sobretudo a criação do Instituto tempore. Em 1974, a incerteza sobre a nova situação tinha chegado ao
de Mineração e Metalurgia e a autonomia, faziam com que o problema ponto de a Congregação decidir não mais deliberar até que se
passasse a segundo plano diante da perspectiva de um renascimento que esclarecesse sua própria posição no novo arranjo institucional. O
levantasse a instituição à altura de seus melhores dias. estatuto de 1972, quase imposto pelo MEC, não mencionava a
Congregação como órgão universitário (ata de 12 de outubro de 1974).
Aos poucos, no entanto, o entusiasmo foi esfriando. O Instituto
O Conselho Diretor da Universidade decidiu, em 1975, que a
não produziu os resultados esperados, os professores estrangeiros
Congregação funcionaria como órgão provisório até que novo
regressaram a seus países, houve dificuldades em contratar pessoal
regimento fosse aprovado.
brasileiro devido a problemas salariais. A Fundação Gorceix continuou
agindo, mas teve seu patrimônio rapidamente dilapidado pela inflação e A situação, nos últimos dez anos, da demanda de alunos e do
nem sempre encontrava boa acolhida por parte da Escola, que ressentia número de vagas pode ser vista na Tabela 15.
a interferência em seus assuntos.
Alguns dos problemas anteriores desapareceram, como é o caso
Já nessa atmosfera de desânimo, voltou a ser agitado, em 1968, o da escassez de candidatos. Problema sério na época de Gorceix
problema da situação jurídica. Legislação da época mandava que os continuou grave até pelo menos o início dos anos 50. Quando surgiu o
institutos federais de ensino fossem incorporados às universidades já conflito de 1939, as estatísticas apresentadas pelos mudancistas
existentes. Com receio de ser incorporada à Universidade Federal de indicavam um contínuo declínio na matrícula a partir do início da
Minas Gerais ou à Universidade Federal de Viçosa, a Congregação década de 30. Mas o recente aumento generalizado na demanda por
136 137
vagas no ensino superior mudou a situação. Desde 1966, tem havido A solução do problema da demanda veio, assim, criar novos
pelo menos dois candidatos para cada vaga, número esse mais que problemas, alguns comuns a outras universidades, como a questão do
duplicado a partir de 1974. A matrícula também tem crescido, embora espaço físico e das instalações, outros mais específicos, como o fim do
em proporção bem menor. Se não cresceu mais, foi por resistência da rigoroso exame de seleção. Esses dois problemas são os bodes
Congregação, baseada na defesa da política de Gorceix de aceitar expiatórios prediletos usados pelos professores para justificar as
poucos alunos e nas reais dificuldades existentes em termos de espaço e dificuldades atuais. Argumenta-se que o vestibular classificatório
laboratórios para acomodar mais alunos. Outro fator de aumento da aprova candidatos despreparados para seguir o curso, provoca o
matrícula foi a lei de 1973 que obrigou as escolas superiores a aumento do número de alunos nas turmas, torna impossível o ensino
preencherem as vagas. Esse dispositivo, consubstanciado no vestibular personalizado e o uso frequente e intensivo dos laboratórios. Não é
classificatório, contou com grande oposição da Congregação, cuja possível, afirma-se, lidar com uma turma de 80 como se lidava com
tradição era de grande seletividade nos exames de admissão. Foi, uma de 10. A consequência é que o ensino da Escola passa a não se
sobretudo, em função do vestibular classificatório que a matrícula em distinguir mais do de outra escola de engenharia qualquer.
1976 subiu para 824 alunos, quase dobrando o número de 1972.
O problema de turmas grandes é agravado pela persistência, se
Tabela 15 não pelo aumento, das reprovações. O excedente interno tornou-se uma
Número de Candidatos, Vagas e Matrículas na Escola de Minas – das maiores dores de cabeça da atual diretoria. Dados do já citado
1966/1975 diagnóstico feito pela Fundação João Pinheiro, que, ao lado das
Candidatos/ entrevistas pessoais, é a principal fonte para a descrição da situação
ANO Candidatos Vagas Matrículas
Vagas atual, confirmam este ponto. Dos 179 estudantes matriculados no 1º ano
1966 299 150 1,9 293 básico em 1972, por exemplo, apenas 64, ou seja, 36% matricularam-se
em 1973 no segundo ano básico. Em 1974, os dois anos básicos
1967 350 150 2,3 372
totalizavam 63% dos alunos, o resto distribuindo-se pelos três anos de
1968 235 150 1,5 444 especialização dos quatro cursos. Esses últimos anos ainda não foram
1969 304 150 2,0 462 atingidos pelo aumento de matrícula, pois o total de alunos para cada
um dos cursos raramente excede o número de 20 por ano.
1970 363 150 2,4 452
1971 373 150 2,4 434 Outra informação importante para a discussão sobre possíveis
reformas refere-se à distribuição de alunos pelos quatro cursos (Tabela
1972 300 150 2,4 492 16).
1973 403 170 2,0 601
Levando-se em conta que o curso de especialização em
1974* 1.073 200 5,3 601 engenharia civil possui um ano a mais do que os outros, pode-se
1975 1.040 200 5,2 - concluir que a distribuição atual de alunos pelas especializações não é
Fonte – UFOP . Plano de estruturação e implantação.
muito desequilibrada, embora a engenharia de minas seja um pouco
Diagnóstico da Fundação João Pinheiro, 1975. p. 15-17. menos procurada. O exame das pré-opções, em 1975, mostra uma queda
*A partir de 1974 houve dois vestibulares, um no início do acentuada na demanda por engenharia civil, e maior demanda por
primeiro semestre, outro no início do segundo, dai o grande metalurgia e geologia, vindo a engenharia de minas em terceiro lugar. A
aumento no número de candidatos. Na verdade, muitos dos demanda por engenharia geológica é predominante entre candidatos de
candidatos podem ter feito os dois concursos, sendo contados
duas vezes.

138 139
outros Estados. Assim, por exemplo, 53% dos candidatos de São Paulo A eliminação da especialidade é que estaria totalmente dentro de
fizeram opção por essa especialidade. suas ideias sobre o que deveria ser a Escola de Minas. Entre os fatores
que também militam em favor da medida está o fato de ser a engenharia
Tabela 16
civil a mais prejudicada pela localização em Ouro Preto. O diagnóstico
Matrícula e Pré-Opção por Cursos
da Fundação João Pinheiro verificou também que os laboratórios menos
Matrícula, Primeira pré- bem aparelhados são os desse curso.
CURSOS % %
1974 opção,1975
O mesmo diagnóstico traz informações úteis sobre a qualificação
e o regime de trabalho dos professores em 1974 (Tabela 17).
Minas 36 16,8 84 18,8
Embora não permitam avaliação substantiva, os dados indicam,
Metalurgia 58 27,1 150 33,7 no entanto, um baixo nível de qualificação dos professores. No caso dos
doutores, é preciso levar ainda em conta que a maioria deles fez
Geologia 44 20,6 20,6 30,7 concurso na própria instituição, sem ter frequentado cursos de pós-
graduação no país ou no exterior. A Escola também não tem sido capaz
Civil 76 35,5 35,5 16,8 de atrair os jovens mestres que já se formam no país (em Belo
Horizonte mesmo existe um mestrado em engenharia metalúrgica).
TOTAL 214 100,0 100,0 100,0 Uma escola com 80% de seu corpo docente com apenas curso de
graduação certamente não está qualificada para ser um instituto-modelo.
Fonte – UFOP. Plano de estruturação, p. 32.

A distribuição das pré-opções tem a ver com a oferta dos cursos Tabela 17
de engenharia no país, além de refletir problemas do mercado de Qualificação e Regime de Trabalho do Corpo Docente – 1974
trabalho. Segundo dados do Departamento de Assuntos Universitários Regime de
QUALIFICAÇÃO Nº % Nº %
Trabalho
do MEC para 1972, o curso de engenharia geológica de Ouro Preto era
o único existente no país com cinco anos de duração. Existiam, no Só Graduação 84 77,8 T-12 55 51,0
entanto, 14 cursos de engenharia metalúrgica e cinco de engenharia de
minas. De engenharia civil, havia 63 cursos. Só em Minas Gerais, havia Especialização 3 2,8 T-24 9 8,3
sete cursos de engenharia civil, três de metalúrgica e dois de minas5.
Os dados indicam que a sugestão, frequentemente feita nos Mestrado 4 3,7 T-40 6 5,5
últimos anos, no sentido de se abandonar a engenharia civil em
benefício de uma concentração nas outras três especialidades não traria Doutorado 17 15,7 DE 38 35,2
grandes problemas. A sugestão é geral-mente combatida pelos
professores, alguns julgando defender assim as ideias de Gorceix. Mas TOTAL 108 100,0 108 100,0
vimos que Gorceix só aceitou a introdução da engenharia civil forçado
Fonte – UFOP. Plano de estruturação, p. 51-53.
pelas circunstâncias.
Quanto ao regime de trabalho, há um razoável, embora
insuficiente, número de professores em dedicação exclusiva. Mas existe
5
Citados em UNIVERSIDADE FEDERAL DE OURO PRETO. Plano de estruturação e grande vazio no que se refere aos professores em 40 e 24 horas. Os
implantação. Diagnóstico, p. 81.

140 141
dados não indicam que tipo de professor está em dedicação exclusiva modificações. As entrevistas cobriram principalmente a velha geração e
para a Escola de Minas isolada-mente. Mas para a Universidade como não permitem tirar conclusões sobre o novo grupo.
um todo, incluindo a Escola de Farmácia, verifica-se que a maior parte
Um dado útil seria a indicação do local de formação dos novos
dos doutores estão em regime de 12 horas. Aqui também seriam
professores atuais. Mas não foi possível obtê-lo. Dados para 1970,
necessárias mudanças profundas para melhorar a situação do ensino e
cobrindo todo o corpo docente desde o início da Escola, ainda indicam
da pesquisa.
um grande índice de endogenia. Dos 180 professores que até aquela
Outro dado relevante é o da idade dos professores. O diagnóstico época tinham ensinado na Escola, nada menos do que 136, ou 70%,
indica um momento de mudança de gerações. Ao mesmo tempo em que tinham sido formados lá mesmo. A Universidade Federal de Minas
há um número substancial de professores com mais de 50 anos (23%), Gerais comparecia com 23, ou 13%6. É possível que a nova geração de
existe também um grande número com menos de 30 anos (30%) e entre professores, sobretudo os admitidos após a introdução do vestibular
30 e 40 anos (37%). Mas há uma grande falha na coorte entre 40 e 50 classificatório em 1973, contenha proporção maior de ex-alunos da
anos (9%). A falha pode ser melhor observada com a ajuda dos dados UFMG. Isto significaria uma redução da endogenia e um possível
sobre o número de anos de docência (Tabela 18). enfraquecimento da tradição e maior abertura para as transformações.
Mas essa geração precisará ainda de algum tempo para atingir posições
Tabela 18
de poder. Nos próximos anos, com a gradual aposentadoria do pequeno
Anos de Docência na Escola – 1974
grupo mais velho, o poder passará para os professores entre 39 e 40
ANOS Nº %
anos de idade, com mais ou menos 10 anos de magistério, sobre cujas
Até 3 anos 52 48,1 características e modo de pensar não tenho muita informação.
De 4 a 6 24 23,3
Finalmente, vale à pena examinar os dados sobre o local de
De 7 a 9 23 21,5 residência dos professores (Tabela 19).
Subtotal 99 91,9 A primeira revelação da tabela é que, em 1974, um substancial
De 10 a 20 – – número de professores morava em Belo Horizonte (33%) e um pequeno
número em cidades próximas de Ouro Preto, como Mariana e Itabirito
Mais de 20 9 8,1 (4%). Mesmo assim, é surpreendente o número de residentes em Ouro
TOTAL 108 100,0 Preto (63%). Se 51% dos professores estavam em regime de 12 horas e
apenas 33% moravam em Belo Horizonte, a conclusão é que vários
Fonte – UFOP. Plano de estruturação, p. 58.
professores em regime de 12 horas moravam em Ouro Preto.
Quase 50% dos professores estão em início de carreira. Além
disso, há um vazio na geração intermediária entre 10 e 20 anos de
experiência. Finalmente, há um pequeno número de antigos professores
com mais de 20 anos, representantes da velha geração, que ainda foram
alunos de alunos de Gorceix. É a velha guarda das tradições, presa
nostalgicamente à reminiscência das glórias do passado. É de se esperar,
e isso é um receio entre os mais velhos, que a nova geração esteja muito
menos presa a tradições e muito mais aberta à introdução de
6
Ver LISBOA. REM, v. XXVIII, n. 3, p. 2. Separata.

142 143
Tabela 19 seguir, mas já sem maioria, vêm os departamentos de mineração e de
Local de Residência dos Professores, por Departamentos – 1974 ciências sociais e econômicas. Nos demais departamentos, sobretudo
DEPARTAMENTOS nos das áreas básicas (matemática, química e física), a grande maioria é
LOCAL DE C. de residentes em Ouro Preto. Esse dado vem novamente sugerir que a
RESIDÊNCIA Meta- Mine- Geo- Eng. Tecn. Fís. Mate- Soc. eliminação dos cursos não previstos inicialmente poderia ser feita hoje e
TOTAL
lurgia ração logia Civil Fund. Quím. mática E ter mesmo efeito benéfico. A época sonhada por Gorceix em que o
Econ. mercado de trabalho permitiria manter uma escola só de mineração,
Ouro Preto 6 4 16 2 10 13 11 6 68 metalurgia e geologia certamente já chegou. Mas, de qualquer modo, o
Belo 3 4 6 9 4 1 4 5 36
problema de residência é hoje muito menos importante do que em 1939,
Horizonte
Outros 1 1 – 2 – – – – 4 quando foi levantado com tanta virulência. Naquela época a viagem de
TOTAL 10 9 22 13 14 14 15 11 108 trem de Belo Horizonte a Ouro Preto levava 6 horas. Hoje, os 90 km de
Fonte – UFOR Plano de estruturação, p. 59. asfalto não consomem muito mais tempo do que para se ir, com trânsito
lento, da Barra da Tijuca no Rio de Janeiro à ilha do Fundão, onde se
Poder-se-ia perguntar, então, como faziam para sobreviver com localiza a UFRJ.
salário correspondente a 12 horas de trabalho. Ouro Preto não possui
alternativas de emprego: foi sempre esse o cavalo de batalha dos que SINTOMAS E CAUSAS DO DECLÍNIO
advogavam a transferência. Os empregos existentes são controlados
pelos professores mais velhos. Localizam-se principalmente na Escola Uma sonolência soturna e mofada.
Técnica Federal, criada em 1942 e dirigida por José Barbosa da Silva, a
partir de 1946, quando acabara de deixar a direção da Escola de Minas. Odorico de Albuquerque
Atual-mente, os salários da Escola Técnica são às vezes melhores do
que os da Universidade. Outros empregos disponíveis estão na Alcan, Ao longo do período 1939-1976, houve, em vários momentos,
em Saramenha, e em ginásios públicos ou particulares, muitos deles manifestações dentro e fora da Escola denunciando que algo estava
criados pelos próprios professores. Como todas essas instituições são errado, embora nem sempre se apontasse com precisão o que
antigas, criadas por iniciativa dos professores mais velhos, a maioria exatamente não andava bem. Igualmente e concomitantemente, se
dos empregos que oferecem deve ser também controlada por esse apontavam fatores que seriam responsáveis pelos males diagnosticados.
grupo. É possível, no entanto, que com as ampliações da Escola Técnica A lista das causas era grande e variava de acordo com a posição de
Federal, que já em 1966 contava com 318 alunos, alguns dos quem as apresentava. Defensores da Escola tendiam a apontar causas
professores de 12 horas, residentes em Ouro Preto, tenham lá uma externas, críticos preferiam indicar fatores internos.
possibilidade de complementar seus magros salários7.
Antes de inventariar as causas, convém notar que já antes de
Outro aspecto interessante da Tabela 19 é a distribuição de 1939 houvera manifestações externas à Escola que sugeriam o início de
residência de acordo com os departamentos a que pertencem os inflexão para baixo na curva de sua evolução. A primeira apareceu na
professores. Nota-se, por exemplo, confirmando os argumentos dos mensagem que Epitácio Pessoa enviou ao Congresso em 1921. Dizia a
mudancistas da década de 40, que é no departamento de engenharia mensagem sobre a Escola:
civil onde predominam os professores residentes em Belo Horizonte. A
“O fato, porém, de viver longe dos centros de cultura e dos
7
grandes meios industriais explica naturalmente o estar decaindo, de
Sobre a Escola Técnica Federal, ver ESCOLA Técnica Federal de Ouro Preto, satélite da
Escola de Minas. REM, v. XXV, n. 3, p. 149-150.

144 145
certo tempo a esta parte, do seu florescimento primitivo.”8. A estocada que militam contra a vida da Escola. A cidade precisa de silêncio e paz,
pode ter sido consequência dos atritos do governo Epitácio Pessoa, a Escola precisa do fervilhar das indústrias e das técnicas.
sobretudo de seu ministro Pires do Rio, com Clodomiro de Oliveira. No
A localização em Ouro Preto, segundo o memorial, é, sobretudo,
entanto, Gonzaga de Campos, que era partidário das posições do
nociva ao curso de engenharia civil (do qual Mazoni era professor). Mas
governo mineiro, e que na época era diretor do DNPM e muito chegado
a parte técnica do ensino, em geral, se vê prejudicada, pois a atividade
ao ministro Simões Lopes, já manifestara também a preocupação com
metalúrgica já se deslocou para a região próxima de Sabará. Gorceix
os efeitos da localização da Escola sobre a qualidade do ensino: “Ou o
estava certo ao escolher Ouro Preto, mas mudaram as circunstâncias, e
governo melhora o meio ou a Escola de Minas deve sair”, teria dito. O
os próprios critérios usados por ele para escolher a cidade e levariam
problema da localização, identificado aí como causa do declínio,
agora a escolher outra localização. O mal principal causado pela
acompanhou sempre a história da instituição.
localização em Ouro Preto é a dificuldade de recrutar professores e
Outra menção à queda da qualidade do ensino se deve ao ministro alunos. No primeiro caso, há cadeiras que ficam vagas pela falta de
Francisco Campos e foi inserida em sua justificativa da incorporação da candidatos para preenchê-las. A solução sempre adotada era a da
Escola à Universidade do Rio de Janeiro, em 1931. Disse ele: “Escola acumulação de cadeiras pelo mesmo professor. Mas a acumulação está
de notórias tradições científicas e didáticas, o isolamento em que se agora proibida. Além disso, a instituição da livre-docência não tinha
encontra tem contribuído grandemente para que não venha mantendo no condições de prosperar em Ouro Preto, pela falta de outras
mesmo alto nível a reputação de seu ensino9. Novamente se oportunidades de trabalho que pudessem suplementar os salários. Caso
responsabiliza o isolamento pela queda do nível do ensino. Mas, como se efetive a medida de obrigar os professores a viverem em Ouro Preto,
na mensagem de Epitácio, não se especifica em que aspecto estaria o prevê o memorial, ou ficarão sem preenchimento as vagas, ou serão
ensino decaindo. recrutados candidatos incompetentes, com consequências desastrosas
para o ensino.
Foi, no entanto, o memorial apresentado à Congregação, em
1939, por Alberto Mazoni, que formulou pela primeira vez de maneira O memorial faz também um histórico do movimento em favor da
sistemática o problema do declínio. Dada sua importância e sua pouca transferência. A primeira manifestação da ideia é de 1894. Nesse ano,
divulgação, merece ser resumido. tendo em vista a próxima transferência da capital para Belo Horizonte, o
governo de Floriano Peixoto baixou um decreto, assinado por Fernando
O ponto central do memorial é a necessidade de separar a Escola
Lobo, determinando a transferência para Barbacena. Houve reação de
de Minas da cidade de Ouro Preto. Pelo espírito que as anima, as duas
ex-alunos eleitos deputados, sobretudo de Antônio Olinto. A
são incompatíveis. A cidade é berço de tradições, volta-se para o
Congregação foi consultada e votou contra a mudança, em reunião de
passado e a ele deve se manter fiel. À Escola, pelo contrário, não cabe a
23 de janeiro de 1895, pela estreita margem de oito votos a cinco. O
guarda do passado, mas do futuro e para este deve projetar-se.
diretor, Archias Euripedes da Rocha Medrado, votou pela mudança. A
“Contagiar-se da alma da cidade é o mal de que cumpre fugir10. As
principal resistência parecia ser contra a transferência para Barbacena e
condições necessárias para a conservação da cidade são exatamente as
não contra a transferência em si11. Na justificação de seu voto favorável

8 11
Ver “Mensagem apresentada ao Congresso Nacional em 03/05/1921”, em Epitácio Pessoa, É possível que injunções da política republicana tenham influenciado a tentativa de
Mensagem ao Congresso, p. 317. mudança para Barbacena. O ministro que assinou o decreto era da Zona da Mata de Minas.
9
Reproduzido em: A MUDANÇA DA SEDE DA ESCOLA NACIONAL DE MINAS E Os mesmos conflitos políticos que levaram à mudança da capital podem ter atuado na
METALURGIA DA UNIVERSIDADE DO BRASIL — Memorial apresentado à tentativa de tirar a Escola de Ouro Preto. Acrescente-se ainda o fato de ter Archias Medrado
Congregação, p. 19-20. se indisposto com outros professores republicanos, ou vice-versa, o que justificaria
10
Ibidem. p. 8. entendimentos seus com Floriano Peixoto no sentido da transferência. Para as discussões no

146 147
à mu-dança para Belo Horizonte, Domingos Porto diz que, com a Alves de Souza, em sua declaração de voto enviada ao presidente
mudança da capital, o centro cultural de Minas — uma das razões da República, afirmara que a Escola, após meio século de brilhantes
usadas por Gorceix para escolher Ouro Preto -- também se deslocaria realizações, estava “perdendo sua alta eficiência e, consequentemente,
para a nova sede do governo. Além disso, Belo Horizonte está tão bem sua excepcional reputação” (ata de 18 de maio de 1943). Em carta a um
situada do ponto de vista da existência de minas e fábricas de ferro professor, ele atribuíra o descrédito às divergências entre os membros
como Ouro Preto, e é mais favorável do ponto de vista da engenharia da Congregação e afirmara: “Choca horrivelmente o crescimento rápido
civil, que não tem aplicação na antiga capital. Ouro Preto irá decair com do descrédito [da Congregação] no conceito público.”
a mudança da capital, e o governo terá provavelmente que fechar a
Ante a reação da Congregação, negando que houvesse declínio,
Escola por falta de alunos (ata de 19 de fevereiro de 1895).
ele volta a repetir as críticas, acrescentando que a eficiência de uma
O novo governo de Prudente de Morais sustou a transferência. escola se mede pela respeitabilidade da Congregação, pelo ambiente de
Mas em 1910, o ministro do recém-criado Ministério da Agricultura, trabalho e pela eficiência dos profissionais diplomados. Os dois
Indústria e Comércio, Pedro de Toledo, enviou telegrama à primeiros itens, segundo ele, não se verificavam em Ouro Preto, devido
Congregação pedindo opinião sobre a conveniência de transferir a às divergências na Congregação, sobretudo entre o diretor e o grupo
Escola para Belo Horizonte (ata de 22 de março de 1910). Dessa vez, mudancista.
seis votos foram contra e apenas três a favor. Um dos votos a favor foi
Outras manifestações se seguiram. No projeto de criação do
de Augusto Barbosa da Silva, o construtor do forno elétrico, que o
Ministério de Minas e Energia, de 1945, Bernardino Correa de Mattos
justificou dizendo que em Belo Horizonte seria mais fácil recrutar
Neto dizia que “o que se reclama para a Escola de Ouro Preto é
professores e alunos; que Belo Horizonte não era inferior a Ouro Preto
reformar-lhe os métodos, a estrutura, o ambiente, imprimindo-lhe feição
em nenhum aspecto referente ao ensino técnico, sendo superior em
nova, proporcionando-lhe meios novos12. Fracassada a criação da
alguns, sobretudo na parte da engenharia civil; e, finalmente, que em
Universidade Técnica, veio o novo regimento de 1946, seguindo a
Belo Horizonte a Escola estaria mais perto do centro de poder e teria
reforma da Universidade do Brasil. Na discussão desse regimento,
melhores condições de obter as medidas que lhe interessassem (ata de
Moacir Lisboa, também convicto ouro-pretano, insistiu em medidas que
28 de março de 1910). O assunto, no entanto, foi novamente esquecido.
modificassem o ambiente de Ouro Preto, responsável, segundo ele, pela
Costa Sena, o diretor na época, era contrário à mudança, e seu prestígio
estagnação. Tentando especificar, disse que a estagnação podia ser
como cientista e político era suficiente para a fazer abortar.
verificada pelo lento desaparecimento do convívio entre os professores,
Os argumentos do memorial em favor da transferência são mais do intercâmbio com os alunos, pela interrupção da publicação dos Anais
ou menos os mesmos utilizados em 1894 e 1910. Em 1939, porém, já se (ata de 2 de maio de 1946). Uma comissão foi nomeada pela
percebiam como reais os problemas que antes se imaginavam prováveis. Congregação e apresentou, seis meses depois, as medidas que se
Mas não havia ainda clara identificação dos pontos em que estaria deveriam tomar em relação a Ouro Preto para melhorar as condições da
havendo decadência. Havia, sim, um sentimento generalizado, mesmo Escola. As medidas incluíam melhoria dos serviços públicos,
entre o grupo ouro-pretano, de que a Escola perdera o antigo dinamismo construção de praça de esportes, de campo de aviação, de residências
e entrara em período de estagnação. No dizer de um dos mais convictos para professores e alunos e outras (ata de 28 de novembro de 1946).
ouro-pretanos, Odorico de Albuquerque, sentia-se “sonolência sotuma e
Em 1949, é um editorial da Revista da Escola de Minas, dirigida
mofada” (ata de 12 de abril de 1939).
pelos alunos, que chama a atenção para a decadência. Comentando o

Congresso sobre a mudança, ver OLINTO. Anais da Escola de Minas de Ouro Preto, n. 7, p.
12
9-111. MATTOS NETO. Revista de Mineração e Metalurgia, p. 132.

148 149
fato de se ter realizado o 3º Congresso Nacional de Geologia na Bahia, competidores. Parte do que se chama decadência poderia, nessa
sem que a Escola tivesse mandado um só representante e nem tivesse hipótese, ser vista como ausência de evolução e de acompanhamento
dele tomado conhecimento, o editorialista, aluno do 6º ano, verifica que dos progressos científicos, tecnológicos e didáticos. No entanto, é
“a Escola está perdendo a destacada posição conquistada pelos que nos possível argumentar que o declínio em relação ao que existia antes não
precederam”13. Ela foi pioneira da eletrossiderurgia, diz o editorial, mas foi apenas relativo, mas também absoluto. Ele se revelaria
agora, “por mais que procuremos, não somos capazes de citar uma principalmente nos seguintes pontos.
pesquisa, um trabalho ou estudo que viesse colaborar na solução de
algum problema relacionado com a Metalurgia no Brasil14. A ESCOLA FECHOU-SE SOBRE SI MESMA
Apesar de todas as medidas tomadas no período, como a criação Em seus primeiros anos, graças à presença dos professores
do Parque Metalúrgico e posteriormente do Instituto de Mineração e franceses, ao envio de recém-formados ao exterior, à existência de boa
Siderurgia, da separação da Universidade do Brasil, da implantação da biblioteca, à constante participação em congressos e exposições, a
Universidade de Ouro Preto, todas elas solicitadas ou apoiadas pela Escola se mantinha a par do que se passava na área da ciência e da
Congregação, nenhum progresso real se notou e permaneceu o técnica em centros avançados. Após a saída dos franceses (o último
sentimento de que o declínio persistia. Escrevendo em 1974, o mesmo morreu em 1895), só muito recentemente, com a criação do Instituto de
Moacir Lisboa, que falava em estagnação em 1946, comenta que “a Mineração e Metalurgia, é que se tentou novamente atrair professores
cultura dos professores e dos alunos, de modo geral, e em relação ao visitantes. Mesmo assim, a instituição não foi mais capaz de os
desenvolvimento científico-tecnológico, está progressivamente conservar, assim como não manteve os que para lá foram por ocasião da
decaindo15. implantação dos cursos da CAGE. Consta que, por essa época, um
Analistas externos insistiam, e insistem, nos mesmos pontos. professor norte-americano teria dito que não seria possível colocar um
Glycon de Paiva, por exemplo, diz que a Escola já cumpriu sua missão conterrâneo em Ouro Preto por falta de condições de ensino e
e agora é tempo de se pensar em outras maneiras de organizá-la16. pesquisa18. Os pesquisadores franceses do IRSID também
Amaro Lanari Jr. afirma que ela estagnou e precisa de profunda permaneceram pouco tempo no Instituto de Mineração e Metalurgia,
reformulação17. Há insatisfação geral, entre professores, ex-alunos, retirando-se para seu país ou para outras instituições brasileiras. O
alunos, simples observadores. Alguns dos antigos professores chegam a matemático italiano, Achille Bassi, tentou criar um instituto de
desejar que a Escola acabe de uma vez. Assim, pelo menos, ainda pesquisas matemáticas, mas não obteve o apoio de que necessitava. Foi
morreria com alguma dignidade. desenvolver suas pesquisas na Universidade de São Carlos19.

A decadência pode ser em parte um problema de perspectiva. O O sistema de enviar alunos recém-formados ao exterior foi
que era inovação e grande progresso no Brasil de 1876 pode estar hoje extinto pela reforma Francisco Campos, em 1931. Embora tivesse
totalmente ultrapassado. A Escola foi, durante muito tempo, a única funcionado com irregularidade, foi responsável pelo envio de vários
instituição em sua área de especialização, sem ter que enfrentar engenheiros à França, como Augusto Barbosa, cuja bolsa foi financiada
por D. Pedro II, José Pires do Rio, Gastão Gomes, José Barbosa da
Silva, Armando Bretas Bhering e outros. Há tentativas recentes de
13
LÚCIO. REM, ano XIV, n. 4, p. 3. enviar jovens professores para realizar pós-graduação no exterior. Mas,
14
Idem. como no caso dos professores estrangeiros, esses pós- graduados, ao
15
LISBOA. Discurso pronunciado na sessão comemorativa do 97º aniversário da fundação
da Escola de Minas. Ouro Preto, p. 3.
16 18
PAIVA. Estado de Minas. Edição Especial, p. 3; e entrevista. Informação prestada pelo Prof. Othon Henry Leonardos, em entrevista.
17 19
LANARI JR. Jornal do Brasil. Suplemento Especial; e entrevista. Sobre as oportunidades perdidas, ver VEIGA. Estado de Minas.

150 151
regressarem, tendem a abandonar a Escola em busca de instituições O estilo inicial de Gorceix só seria possível hoje em cursos de
onde o ambiente é mais favorável ao trabalho, ou mais compensador pós-graduação. No entanto, a pós-graduação tem sido um dos fracassos
financeiramente. Os poucos que permanecem não têm influência da Escola. Em 1972, foi criada uma pós- graduação em Metalurgia, com
suficiente para liderar reformas do ensino e da pesquisa. o auxílio da Fundação Gorceix e do Instituto Costa Sena. O último
enviara vários ex-alunos ao exterior para especialização. O curso pouco
Desde o final da década de 20, a Escola deixou de se preocupar
durou e, por várias razões, os professores, em sua maioria, abandonaram
com participação em congressos e exposições. Antes, sua presença era
a Escola para assumir postos em outras universidades ou em órgãos
frequente, sobretudo no período de Costa Sena como diretor. Recebeu
como a Siderbras, que ofereciam melhores salários. Seja qual for a
várias medalhas em exposições internacionais. Após 1930, tem apenas
origem do fracasso da pós-graduação, externa ou interna, o fato é que
servido de sede para congressos. Vimos a queixa dos alunos de 1949 em
em Belo Horizonte já existe um promissor mestrado em engenharia
relação ao desinteresse pelo 3º Congresso Nacional de Geologia20.
metalúrgica21.
Consta que um conhecido professor teria dito, no regresso de viagem
aos Estados Unidos, que lá nada vira de novo em matéria de ensino e
pesquisa. O TEMPO INTEGRAL TORNOU-SE EXCEÇÃO

A biblioteca também, segundo depoimento de quem a Outro aspecto básico da organização original era a dedicação
administrou por longos anos, José Pedro Xavier da Veiga, foi perdendo total de professores e alunos à tarefa acadêmica. Seria irrealista, nas
o contato com o exterior devido à redução e interrupção de assinaturas circunstâncias brasileiras atuais, acreditar que fosse possível existir hoje
de revistas técnicas. A interrupção da publicação dos Anais significou uma escola de graduação cujos professores estivessem todos em
grande perda em termos de atualização bibliográfica. Um simples dedicação exclusiva. Mas é também ilusório achar que possa haver
exemplar dos Anais correspondia a centenas de publicações enviadas ensino de boa qualidade sem um número razoável de docentes bem
em permuta de todas as partes. qualificados em tempo integral. À medida que a Escola se foi
expandindo a proporção de docentes em dedicação exclusiva se foi
reduzindo. Hoje, com mais da metade dos professores em regime de 12
O ENSINO MASSIFICOU-SE E TORNOU-SE TEÓRICO
horas, mesmo que o tamanho das turmas o permitisse, não seria possível
A partir dos aumentos de matrícula dos anos mais recentes, o o acompanhamento de perto dos alunos.
ensino perdeu a característica individualizada introduzida por Gorceix.
Paradoxalmente, onde melhor se preservou a tradição foi na
Não é mais possível ao professor acompanhar o aluno desde o início até
dedicação integral dos alunos. As bolsas de estudo foram extintas por
o final do curso, nas aulas, nos laboratórios, nas excursões práticas.
Francisco Campos, mas desde 1961 a Fundação Gorceix vem
Paralelamente, a insistência no aprendizado teórico-prático, típica de
desenvolvendo amplo programa de bolsas de alimentação e de estudo
Gorceix, se tornou cada vez menos viável. O estudante tem muito
para alunos carentes. Em 1976, em torno de 20% dos alunos recebiam
menos oportunidades de usar laboratórios, as excursões se limitam a
bolsas de estudo ou de alimentação, ou ambas22. Além disso, o
uma visita anual à Usiminas, os estágios não existem em número
acanhado ambiente de Ouro Preto, que não mudou muito nos últimos
suficiente para todos.
cem anos, e o sistema de repúblicas estudantis que, longe de decair,

20 21
Para o levantamento da participação da Escola em conferências e congressos, ver Sobre a pós-graduação, ver: LANARI JR. REM, ano XXXVI, v. XXX, n. 3, p. 28-29. Ver
LISBOA. Discurso pronunciado na sessão comemorativa do 97º aniversário da fundação da também, do mesmo autor, o discurso de aniversário em 1967, em LANARI JR. REM, v.
Escola de Minas, p. 14-16. Para uma relação de prêmios conseguidos, ver 60º XXVI, n. 2, p. 94-99.
22
ANIVERSÁRIO da Escola de Minas. REM, ano I, n. 5 e 6, p. 173-176. Entrevista com José Ramos Dias, secretário da Fundação Gorceix.

152 153
continua crescendo, tornam os alunos seguramente mais dedicados aos incorporação ao ministério, no entanto, a Escola se tornou apenas um
estudos do que o de outras universidades localizadas em centros estabelecimento a mais, entre centenas de outros, a serem financiados e
maiores23. O fato é reconhecido mesmo pelos críticos. Desde a década supervisionados. Enquanto pertencera ao Ministério da Agricultura,
de 1940, os alunos se transformaram no componente mais dinâmico da Comércio e Indústria era filha única, além de ter vários de seus ex-
Escola. São eles que publicam a Revista da Escola de Minas, hoje o alunos em postos importantes dentro do ministério, como na chefia do
único veículo de divulgação dos trabalhos científicos. Deles também foi SGMB. Além disso, por pertencer a um ministério não especializado na
a iniciativa de criar a Sociedade de Intercâmbio Cultural e Estudos área de educação, a Escola desfrutava de toda a liberdade para
Geológicos (SICEG), que até hoje mantém suas atividades. estabelecer seu regime interno, administrativo e didático. No Ministério
da Educação e Saúde, depois da Educação e Cultura, tal liberdade foi
NÃO HÁ MAIS O BAFEJO DO PODER desaparecendo ao compasso das sucessivas leis de reforma do ensino
decretadas após 1931.
O apoio incondicional do governo, dirigido pela vontade
imperial, foi fator decisivo nos primeiros anos. Foi ele que permitiu a Após a saída de Gastão Gomes, em 1943, só houve real
adoção e manutenção de todas as medidas responsáveis pelo êxito, disposição de ajuda por parte do governo federal durante o governo
destoantes embora da prática brasileira. Algumas das medidas Kubitschek, quando Clóvis Salgado ocupava o Ministério da Educação.
implicavam privilégios que desagradavam a outras escolas e A incorporação ao Ministério das Minas e Energia, quando este foi
provocavam resistências e inimizades. Durante a República Velha, a criado, poderia ter sido medida salvadora, se acompanhada de outras
grande participação dos professores na política, inclusive em postos capazes de renovar o corpo docente, o ensino e a pesquisa. Algumas das
ministeriais, e o prestigio de Costa Sena e Augusto Barbosa, permitiram melhores escolas técnicas brasileiras até hoje pertencem a outros
a manutenção, embora já algo enfraquecida, da atitude favorável das ministérios e talvez em parte por isso, sejam boas. Tal é o caso, por
autoridades governamentais. A situação sofreu a primeira alteração exemplo, do Instituto de Tecnologia da Aeronáutica e do Instituto
séria com a reforma de 1931, que resultou na incorporação à Militar de Engenharia, do Exército. O mesmo pode ser dito de institutos
Universidade do Rio de Janeiro e ao Ministério da Educação e Saúde. de ensino e pesquisa vinculados ao CNPq, como o Instituto de
Matemática Pura e Aplicada, o Instituto de Pesquisas da Amazônia,
O maior mal não veio da incorporação à Universidade do Rio de entre outros. Mas o que não se conseguiu então, certamente não se
Janeiro, mas ao novo ministério. É certo que, do ponto de vista conseguirá hoje. A própria situação de declínio da Escola estabeleceu
administrativo e didático, a vinculação à Universidade trouxe alguns uma relação de suspeita mútua entre ela e os órgãos do Ministério da
males a que a Congregação frequentemente se referia, sobretudo Educação. Formou-se o círculo vicioso pelo qual a primeira atribui à
durante as lutas pelo desligamento (ata de 31 de dezembro de 1959). omissão e à ação negativa do segundo a causa de seus males; o
Mas os males atribuídos à Universidade eram consequência das novas ministério, por sua vez, não se dispõe a auxiliar por não acreditar na
leis de ensino decretadas pelo ministro Francisco Campos. Entre elas eficácia de qualquer ajuda sem mudança profunda nas estruturas da
figuravam, por exemplo, a eliminação dos substitutos, o fim das bolsas Escola.
de estudo e das viagens ao exterior e a proibição do concurso, ao final
do curso geral, para ingresso no curso especial. Como consequência da
PERDEU-SE O ESPÍRITO DE CRIATIVIDADE

23
O desenvolvimento da criatividade era a base da pedagogia de
Sobre a vida hoje nas “repúblicas”, ver reportagem IMPÉRIO das Repúblicas. Estado de Gorceix. A criatividade, desenvolvida nas salas de aula e nos
Minas, p. 10-11. Edição especial comemorativa do centenário da Escola de Minas. Algumas
opiniões de alunos sobre a situação atual estão registradas na reportagem DECADÊNCIA laboratórios, deveria frutificar nas pesquisas, nas publicações, nos
marca centenário da escola pioneira de Minas. Jornal do Brasil. 1º Caderno, p. 24. desenvolvimentos tecnológicos. Apesar da enorme carga administrativa
154 155
e de ensino, os professores da primeira fase pesquisavam e publicavam própria Usiminas. Atualmente, o Instituto mal sobrevive com dois
seus trabalhos no Brasil e, no caso dos estrangeiros, também na França. pesquisadores, cada um dirigindo um projeto24.
Graças a esse espírito, a Escola foi colocada por Derby, já em 1883,
Dentro da Escola são pouquíssimos os projetos de pesquisa em
entre os três principais estabelecimentos científicos do país. Mas,
andamento, limitando-se a atividade a poucos professores25. Os
lentamente, a pesquisa se foi atrofiando devido à saída de muitos dos
laboratórios, geralmente bem equipados, são subutilizados. Há
melhores pesquisadores e à fetichização dos métodos de ensino. A
professores que se queixam de que não há recursos e apoio para
situação chegou ao ponto de um professor ter reagido ao esforço da
pesquisas, mas nunca se dirigiram aos órgãos de fomento, outra
Fundação Gorceix no sentido de retomar o fomento à pesquisa
consequência do isola-mento. Não existe agressividade em buscar fora
caracterizando-o de “sonhos de pesquisa científica” que só serviam para
da Casa e fora do Ministério da Educação os recursos necessários para
ajudar professores estrangeiros a fazer suas teses de doutoramento com
custear pesquisas e suplementar salários. Se a pesquisa tecnológica
gastos astronômicos (ata de 4 de março de 1964).
esbarra frequentemente no desinteresse das empresas, mesmo estatais,
Houve outras tentativas de desenvolver a pesquisa no período resta ainda o recurso a órgãos como o BNDE e a FINEP, como resta o
posterior a 1939. A primeira delas foi a criação do Parque Metalúrgico CNPq para a área da pesquisa científica, básica ou orientada. Há
na década de 1940. O Parque foi construído sob a supervisão dos recursos disponíveis, sobretudo dentro das prioridades do Plano
professores José Barbosa da Silva e José Carlos Ferreira Gomes. Mas Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico26.
nunca chegou a funcionar regularmente. Problemas de custos de
Independentemente da existência de fatores que dificultam a
manutenção e de burocracia fizeram com que permanecesse a maior
atividade de pesquisa, já se vinha há algum tempo perdendo algo
parte do tempo inativo, como inativo se acha desde 1963. Pensou-se em
fundamental do “espírito de Gorceix”: a ênfase na investigação e na
arrendá-lo a empresas particulares, mas a ideia também não foi adiante.
criatividade científicas. Em relação ao ensino, aos programas e cargas
A criação do Instituto de Mineração e Metalurgia foi outra tentativa
horárias, pode-se dizer que ainda são satisfatórios, tanto na parte
fracassada.
especializada como, sobretudo, na parte básica. Alguns observadores
Deve-se mencionar ainda a criação do Instituto Costa Sena, pela acham mesmo que é excessiva a carga horária de aulas, em particular na
Fundação Gorceix, cuja finalidade era promover a pesquisa em estreita matemática. Mas a pesada carga de trabalho que se exige dos alunos e o
colaboração com as indústrias, sobretudo na área da metalurgia. O
Instituto iniciou suas atividades em 1964, e em 1969 já contava com 24
sete pesquisadores por ele mesmo enviados para treinamento no Entrevistas com José Ramos Dias e com o Prof. Walter José von Kruger, presidente da
Fundação Gorceix. Sobre o Instituto, ver o informativo FUNDAÇÃO GORCEIX. REM, v.
exterior. Três tinham completado o doutorado na França e quatro XXVII, n. 4.
possuíam especialização no IRSID. Alguns trabalhos importantes foram 25
Ver, por exemplo, UNIVERSIDADE FEDERAL DE OURO PRETO. Relatório de
desenvolvidos, citando-se como o de maior repercussão o da redução do atividades de 1975, p. 74-78. Há uma pesquisa contratada com a Petrobrás, na área da
consumo de lingoteiras na Usiminas a quase a metade, o que permitiu mineração, e duas (Usiminas e Acesita Florestal), na área de metalurgia, com intermediação
economia de 2 milhões de cruzeiros. Mais alguns trabalhos foram feitos, da Fundação Gorceix.
26
A respeito da dificuldade em introduzir tecnologia nacional, mesmo nas empresas estatais,
sobretudo na Usiminas. O desinteresse de outras empresas em adotar as ver ALVES; FORD. O comportamento tecnológico das empresas estatais; e CARVALHO.
inovações ou em contratar novas pesquisas fez, no entanto, que o grupo Revista das Finanças Públicas, ano XXXIX, p. 9-49, número especial. Ilustração prática
inicial abandonasse a Escola, a maioria tendo sido absorvida pela dessa dificuldade é fornecida pela própria inovação introduzida na Usiminas graças às
pesquisas do Instituto Costa Sena. Não se conseguiu vender o resultado para nenhuma outra
empresa, inclusive a CSN e a Cosipa. Argumentava-se que a inovação tinha sido
desenvolvida em outra empresa e que não interessava copiar de uma competidora
(depoimento do Prof. Walter José von Kruger).

156 157
rigor que ainda existe em matéria de verificação de aprendizado não são O DESCASO DAS AUTORIDADES
hoje acompanhados da liderança intelectual que lhes dava sentido e Não existe mais o carinho de antes para com o estabelecimento.
produtividade. Os métodos transformaram-se em fetiche. Apesar de Não há verbas para as melhorias propostas. Chega a haver mesmo
todo o rigor de Gorceix, e mesmo de sua rudeza; os alunos fizeram um desrespeito formal, como no caso da nomeação, em 1973, pelo ministro
abaixo-assinado em 1891 pedindo que não renunciasse. Em contraste, Jarbas Passarinho, de um diretor que não constava sequer na lista
após 1940, as atas da Congregação estão repletas de reclamações de enviada ao ministério.
alunos contra a excessiva rigidez didática, havendo casos de greves e
pedidos de afastamento de professores. A perda de liderança certamente
A FALTA DE CONDIÇÕES FÍSICAS
tem a ver com a redução da atividade de pesquisa dos professores.
Este ponto se refere ao espaço físico e às condições de
Esses pontos resumem o que se tem chamado de decadência. É
alojamento e de vida dos professores e alunos.
possível que o resumo tenha carregado um pouco nos aspectos
negativos. A Escola ainda forma bons profissionais. Embora já se
A INSUFICIÊNCIA SALARIAL
compare desfavoravelmente com outras escolas na área, certamente
ainda mantém um nível de ensino satisfatório. Mas é inevitável que, ao Os salários vigentes não permitem atrair e manter bons
se avaliá-la hoje, se levem em conta os parâmetros por ela mesma professores e pesquisadores brasileiros ou estrangeiros, como o tem
criados no passado. Tal procedimento, antes de ser injustiça, é demonstrado a experiência.
homenagem.
Identificados os sintomas de declínio, cabe relacionar as causas. A UNIVERSIDADE FEDERAL DE OURO PRETO
Dentro da Escola, há tendência em apontar causas externas. As mais Pedida pelos professores como alternativa à incorporação à
importantes são as seguintes: Universidade Federal de Viçosa ou à Universidade Federal de Minas
Gerais, a Universidade Federal de Ouro Preto é hoje vista como uma
A PERDA DA AUTONOMIA interferência externa a mais, sem a contrapartida de qualquer benefício.
Teria acontecido em 1931, com incorporação ao Ministério da A Universidade tem sido antes um peso, pois embora seja em boa parte
Educação e Saúde. As consequências, segundo a visão da Escola, já ainda uma ficção, ocupa espaço físico da Escola e, sobretudo,
foram discutidas e podem resumir-se na paulatina destruição das estabelece normas e planos que afetam sua vida.
características administrativas e pedagógicas que fizeram a grandeza da Há algo de verdade nessas alegações. Mas os fatores apontados
instituição. estão presentes em todas as escolas superiores federais submetidas ao
Ministério da Educação, não são privilégio da Escola de Minas. Todas
AS REFORMAS DO ENSINO essas escolas estão sujeitas à política do Ministério; devem submeter-se
à legislação do ensino superior, com vestibular e tudo; têm que adotar
Alguns professores dividem a história da Escola em antes e
os mesmos níveis salariais para seus professores; muitas apresentam
depois da Lei de Diretrizes e Bases. A obrigação de preencher as vagas,
sérios problemas de espaço físico e estão com as obras dos campi
incluída nessa lei, aliada ao vestibular classificatório e de múltipla
paralisadas ou avançando lentamente, por falta de verbas; todas estão
escolha, introduzido um pouco mais tarde, teria enchido a Escola de
sujeitas ao descaso das autoridades. O importante é perguntar por que
alunos despreparados, tornando impossível a manutenção do ensino de
muitas delas, embora enfrentando problemas semelhantes, conseguem
alto nível.

158 159
desenvolver seu ensino, sua pesquisa e sua extensão, ao passo que a A ATUAÇÃO DA ASSOCIAÇÃO DOS EX-ALUNOS
Escola de Minas não consegue. Da parte da Escola, a atuação dos ex-alunos é vista como
Entre as causas de ordem interna, geralmente, mencionadas por positiva, tanto no que se refere à preservação das tradições como ao
observadores externos, estão as seguintes: apoio em momentos de dificuldade, embora se ache também que o
interesse deles é muitas vezes mais sentimental do que qualquer outra
O ISOLAMENTO GEOGRÁFICO coisa. Mas para alguns observadores externos, a Associação atua
frequentemente como obstáculo à reforma, bloqueando medidas que
A localização em Ouro Preto impede a contratação de bons julga descaracterizadoras da instituição.
professores e a atração de mais alunos. Impede também a comunicação
com outros centros e o desenvolvimento de um ensino de melhor
A ESTRUTURA DE CURSOS E A COMPOSIÇÃO DO CURRÍCULO
qualidade.
Esse ponto é controverso. Em relação ao currículo, por exemplo,
O ISOLAMENTO CULTURAL alguns acham excessiva a carga horária de aulas, muito acima do
requerido pelo Conselho Federal de Educação. O programa de
Para alguns, esse isolamento é simples consequência do matemática, sobretudo, seria pretensioso. Mas há os que vêem na maior
isolamento geográfico, mas, para outros, que não vêem no último um carga didática, sobretudo nas áreas básicas, um dos aspectos a
obstáculo sério, ele é distinto, e vincula-se mais à mentalidade que preservar. Igualmente há discordância quanto ao tipo de cursos. Alguns
domina o corpo docente. A Escola encapsulou-se, fechou-se sobre si defendem a volta à ideia original de Gorceix e à eliminação da
mesma e não acompanhou a evolução da ciência, do ensino e do próprio engenharia civil, cujo ensino fica prejudicado em Ouro Preto. Outros
país. acham que se deveria voltar à estrutura antiga do curso geral de seis
anos, que formava engenheiros de minas, metalúrgicos e civis.
A EXCESSIVA ENDOGENIA DO CORPO DOCENTE
As causas têm peso diferente. A questão da localização
Se no início a endogenia se justificava e foi útil para estabelecer geográfica que, tempos atrás, poderia ser importante, hoje já não parece
uma nova tradição de ensino e pesquisa, com o passar do tempo tão decisiva. A transferência, quando foi pela primeira vez discutida, em
começou a pesar negativamente e se tornou fator de conservação e de 1894, poderia sem dúvida ter evitado problemas posteriores. Mas hoje a
resistência a iniciativas renovadoras. localização não é obstáculo sério, exceto para o curso de engenharia
civil. Um bom número de professores ainda mora em Ouro Preto, e a
O ESPIRITO DE TRADIÇÃO viagem a Belo Horizonte é rápida. Para o estudo de matérias básicas, a
A melhor formulação dessa crítica está na comparação entre a localização em Ouro Preto pode ser até favorável. O problema de
Escola e a cidade feita no memorial de 1939. O culto da tradição volta- residências para professores e alunos é perfeitamente solúvel, uma vez
se contra seu próprio objeto, que é o “espírito de Gorceix”. O fundador que se decida alocar recursos nesse sentido. A atual localização
afirmava que não queria fazer obra acabada, mas algo que fosse sendo favorece também a descentralização do ensino, descongestionando a
aperfeiçoado e adaptado, à medida que as circunstâncias o exigissem. A excessiva demanda sobre as Universidades Federal de Minas Gerais e
flexibilidade era característica básica de seu espírito. Em contraste, a Católica, em Belo Horizonte.
rigidez passou a marcar a atitude e a ação dos cultores desse espírito. O Outro ponto duvidoso é o referente ao peso dado às disciplinas
culto da tradição também limita a capacidade de autocrítica e de básicas. A questão só pode ser resolvida em função da alternativa que
aceitação de críticas de outros. for adotada para os cursos. Algumas propostas, como se verá, sugerem
160 161
que a Escola se dedique totalmente ao ensino dessas matérias. Se, ao Existe em Ouro Preto, desde 1839, uma escola superior de
contrário, ela deve principalmente formar técnicos, não há por que Farmácia que nunca se salientou nacionalmente, que não consta ter
manter a ênfase. O aprofundamento nas áreas básicas, nessa hipótese, produzido um pesquisador de importância ou um tecnólogo de valor.
seria deixada aos cursos de pós-graduação. No entanto, assim como a Escola de Minas produziu bons matemáticos,
bons químicos, bons geólogos, ao lado de bons engenheiros, o mesmo
Também não faz sentido voltar ao sistema antigo de seis anos,
se poderia esperar da Escola de Farmácia, que também ensinava
nem parece que seu abandono tenha tido qualquer coisa a ver com o
disciplinas básicas como física, química e botânica, além das
declínio. O abandono do curso enciclopédico foi uma exigência da
especializadas. O método, a organização, a filosofia e os salários da
especialização do mercado de trabalho do engenheiro de hoje e nada
Escola de Minas fizeram a diferença.
leva a crer que ela vá mudar. Na mesma linha de argumento, a
introdução da engenharia civil, se foi um recurso salvador, certamente Em 1922, foi criada uma Escola Superior de Agricultura e
reduziu a profundidade do treinamento nas outras áreas. Hoje, já não Veterinária em Viçosa, pequena cidade do sul de Minas, distante 200
haveria razões poderosas para manter o curso. km de Belo Horizonte e 400 km do Rio de Janeiro. A Escola,
inaugurada em 1926, foi criada pelo presidente de Minas, Artur
Quanto à atuação da Associação dos Ex-alunos, não se pode
Bernardes, para beneficiar sua terra natal. Para organizá-la, foi
negar que ela tenha sido útil, sobretudo quando atua via Fundação
convidado o professor americano Peter Henry Rolfs, do Florida
Gorceix. É conhecida também a ação de ex- alunos em facilitar a
Agricultural College. Num paralelo curioso com o caso de Gorceix, foi
colocação dos recém-formados nas empresas que dirigem ou em que
convidado em primeiro lugar o organizador da Escola Superior de
trabalham. Os críticos referem-se à existência de uma pequena máfia,
Agricultura Luís de Queiroz, de Piracicaba, Eugene Davenport. Por se
cujos membros se protegem mutuamente. Em grande parte, porém, a
julgar já muito idoso para a tarefa, Davenport sugeriu Rolfs. Este, com
vinculação dos ex-alunos com a Escola é de natureza sentimental.
o auxílio de um ex-aluno de Ouro Preto, Astolfo da Silveira, e de
Muitos deles se limitam a cultivar as lembranças de seus tempos de
Arduíno Bolivar, iniciou a construção, tomando como modelo os
Ouro Preto, de sua “república”, e a tentar preservar o que deles resta.
Landgrant Colleges que revolucionaram o ensino técnico na área
Esse saudosismo é que pode constituir obstáculo a que percebam com
agrícola nos fins do século XIX nos Estados Unidos.
maior lucidez as necessidades da Escola e insistam em medidas inúteis,
se não prejudiciais. Dado o forte esprit de corps que até hoje cultivam, e O estabelecimento iniciou modestamente seu curso de agricultura
dado o fato de que muitos deles ocupam posições importantes na em 1929, com nove alunos, e o de veterinária, em 1932, com oito
indústria e em órgãos públicos, poderiam constituir importante ponto de alunos. Transformado em Universidade Rural de Minas Gerais, em
apoio para a reforma. Mas a maioria se tem limitado aos melosos 1948, e federalizado em 1969, com o nome de Universidade Federal de
discursos do 12 de outubro, com as indefectíveis referências ao “espírito Viçosa, é hoje um exemplo de dinamismo na área do ensino, da
sagrado de Gorceix”, à “família da Escola de Minas”, às “gloriosas pesquisa e da extensão. Em 1961, a Universidade deu início, pela
tradições da Casa de Gorceix”, à “mística que envolva a Escola de primeira vez no Brasil, à pós-graduação em ciências agrárias, em
Minas”, e outras preciosidades semelhantes. convênio com a Universidade de Purdue. Já formou mais de 500
mestres e alguns doutores. Em 1976, funcionavam 12 cursos de
As causas internas, não comuns a outras universidades e que
mestrado e quatro de doutorado. Seu corpo docente, nesse mesmo ano,
parecem ter tido maior peso no declínio, são a endogenia, o isolamento
incluía 67 doutores, a maioria com curso no exterior, 120 mestres, a
cultural e o culto da tradição, todas de alguma forma relacionadas entre
maior parte formada por ela mesma, e 112 bacharéis. É flagrante o
si. Para ilustrar o ponto, cabe rápida comparação da Escola de Minas
contraste com Ouro Preto.
com dois outros estabelecimentos de ensino de Minas Gerais.

162 163
Na área da pesquisa, a Universidade Federal de Viçosa tem-se MORTE DIGNA OU VIDA NOVA?
salientado no estudo de novas variedades de sementes de milho, soja,
feijão, arroz, tomate. Possui convênios com instituições estrangeiras e Desde 1942, logo após o conflito entre professores, vêm sendo
brasileiras para promover pesquisas conjuntas. Com a Universidade apresentadas alternativas de reforma. Mais recente-mente, o
Federal de Minas Gerais possui um projeto na área de tecnologia de Departamento de Assuntos Universitários do Ministério da Educação
alimentos à base de soja. A partir da ação de um de seus ex-alunos, foi solicitou um estudo da situação para fundamentar medidas de reforma.
criada a empresa Agroceres, que produz 40% do milho híbrido no país, Listo a seguir algumas das principais alternativas apresentadas,
sendo que algumas das variedades, como o Opaco-2, foram acompanhadas de alguns comentários.
desenvolvidas em Viçosa. Na extensão, vem organizando, desde 1929, a
Semana do Fazendeiro, tradicional encontro em que novas técnicas e MORTE DIGNA
novos métodos agrícolas são comunicados e demonstrados a dezenas de
agricultores e pecuaristas. Mantém cursos de extensão e treinamento em É a solução preferida por alguns dos antigos professores.
convênio com órgãos do governo, com a Cibrazem e outros. Publica, Segundo dizem, antes que a herança de Gorceix seja total-mente
ainda, duas revistas técnicas27. deturpada, é melhor que se acabe com ela de uma vez. Permaneceria,
pelo menos, a imagem de uma obra excepcional, posto que perecível.
A Escola de Viçosa, instalada em local ainda mais isolado do que
Ouro Preto, com o apoio único do governo estadual, e sofrendo hoje as A alternativa está por demais presa à perspectiva dos que a
mesmas consequências derivadas da vinculação ao Ministério da propõem. Não se pode duvidar da sinceridade de pessoas que, afinal,
Educação, foi capaz, mediante contato externo permanente, nacional e dedicaram toda a sua vida à Escola. Mas o destino da instituição não
internacional, de manter e de incrementar o dinamismo inicial. Se não pode estar preso à perspectiva de uma geração de professores. A
teve no início o mesmo impacto que teve a Escola de Minas, foi porque alternativa não se justifica do ponto de vista do ensino superior do país,
já existiam bons cursos de agricultura quando foi criada e por causa da nem do próprio espírito de Gorceix. O ensino é escasso para a demanda
menor ênfase de seu ensino em matérias básicas. Após a introdução da existente, e as especializações ensinadas em Ouro Preto são
pós-graduação, no entanto, essa deficiência poderá ser recuperada, e a fundamentais para o desenvolvimento econômico de qualquer país,
pesquisa terá melhores condições de se desenvolver. A palavra declínio sobretudo no que se refere à engenharia de minas, metalurgia e
é desconhecida em Viçosa. geologia. E a fidelidade ao espírito do fundador exige, antes, uma
grande flexibilidade em adaptar-se às novas circunstâncias, a fim de
Encapsulando-se para defender um patrimônio que era rico, a manter sua própria essência, que é o amor ao trabalho, a pesquisa
Escola de Minas cortou a comunicação com as fontes de que se criativa e a preocupação em ser útil ao desenvolvimento nacional. O
alimentava. Será necessário que ela retorne os contatos para reconstruir cerne do espírito de Gorceix pode ser preservado em arranjos
o patrimônio, agora sob novas formas e de acordo com os novos institucionais distintos do original.
tempos.
“STATUS QUO”
Embora não proposta abertamente por ninguém, essa alternativa é
viável e na prática é a que está sendo implementada. Significa deixar
que as coisas andem por si mesmas, introduzindo uma ou outra pequena
27
Sobre a Universidade Federal de Viçosa, em seu cinquentenário, ver MOURA. Estado de
Minas, p. 6-7. 1º Caderno; e REPORTAGENS sobre a Universidade de Viçosa. Jornal do
Brasil, p. 14-15. 1° Caderno. Ver também PEREIRA. Estado de Minas, 2ª seção, p. 1.

164 165
modificação na organização curricular, no vestibular, no espaço físico, FUSÃO
nos laboratórios, e assim por diante28. Tendo em vista que em seus sete anos de existência a
Constitui, sem dúvida, o caminho mais fácil e também o Universidade Federal de Ouro Preto ainda não definiu sequer um
aparentemente mais barato (pelo menos na visão dos “econômicos projeto de estruturação dos cursos e escolas que a comporiam, alguns
míopes” de Felício dos Santos). A Escola continuaria formando seus voltam à velha ideia de vincular a Escola de Minas à Universidade
engenheiros, provavelmente com eficiência decrescente em relação a Federal de Viçosa ou à Universidade Federal de Minas Gerais. A fusão
outras escolas, e se estabilizaria como medíocre escola de engenharia. poderia ser acompanhada ou não de mudanças nos cursos oferecidos. A
Mas escolas medíocres não são nunca alternativas aceitáveis, muito ideia básica da sugestão é abrir a Escola para influências de fora, a fim
menos em se tratando de uma instituição que já foi símbolo do combate de reintroduzir nela o dinamismo perdido.
à mediocridade. A longo prazo, os custos dessa alternativa em termos A alternativa encontraria apoio externo, mas enfrentaria oposição
de benefícios para o país serão muito mais altos do que os exigidos por ferrenha internamente. A Universidade Federal de Ouro Preto foi criada
um eventual programa de reforma radical. exatamente para evitar a vinculação a Viçosa ou a Belo Horizonte. O
desencanto que a nova Universidade provocou não será suficiente para
UNIVERSIDADE TÉCNICA convencer os professores mais antigos da conveniência de aceitar nova
Foi a proposta apresentada em 1944 por Alves de Souza e vinculação que considerarão pior por envolver instituições sobre as
Bernardino Correa de Mattos Neto. Difere da solução da atual quais teriam menor influência do que sobre a Universidade Federal de
Universidade Federal de Ouro Preto por se concentrar apenas na área da Ouro Preto. Será, provavelmente, necessário ainda algum tempo até que
engenharia e por deslocar a universidade para o Ministério das Minas e a nova geração de professores predomine, a fim de que tal
Energia. Alguns planos para a atual Universidade, embora transformação seja possível sem muitos traumas.
aparentemente engavetados, prevêem ampla variedade de cursos, A alternativa da fusão pode, no entanto, ter modalidades que a
inclusive nas áreas de ciências humanas e artes. tornem mais palatável. Poderia, por exemplo, tomar a forma de um
A localização de uma universidade fora do Ministério da campus da Universidade Federal de Minas Gerais, com administração
Educação parece ter hoje poucas possibilidades de implementação, autônoma, que incluiria a Escola de Farmácia. Uma total autonomia, no
embora pudesse ser uma boa ideia. A viabilidade seria ainda menor em entanto, derrotaria os propósitos da alternativa, de vez que permitiria a
se tratando de instituição polivalente que incluísse engenharia civil, continuação do isolamento anterior, e impediria possíveis impactos
elétrica e química, como queria o projeto de 1944. Mas é duvidoso que positivos vindos da Universidade incorporadora.
a própria introdução da polivalência seja aconselhada para Ouro Preto.
Já vimos as dificuldades com a engenharia civil. Além disso, uma “CATEDRAL DO ENSINO”
grande ampliação do número de cursos poderá colocar pressões O mais elaborado plano de reestruturação foi redigido em 1959
excessivas sobre a cidade, mesmo com a construção do campus no por Edward Steidle, Decano do College of Mineral Industries, da
morro do Cruzeiro. Universidade Estadual da Pensilvânia. A proposta foi apresentada
durante o período de euforia correspondente à gestão de Clóvis Salgado
no Ministério da Educação, e ligava-se aos planos de criação do
28
Instituto de Mineração e Metalurgia. O autor do plano desce a
São desse tipo, por exemplo, as modificações sugeridas no Relatório preliminar da
Comissão de Ensino de Engenharia, publicado pelo DAU em 1973. Os resultados estão
pormenores como orçamento e conteúdo de disciplinas a serem
reproduzidos em UFOP, Plano de estruturação, p. 80-87. ensinadas.
166 167
Descontadas algumas sugestões um tanto ridículas, como a de similares, daí a necessidade de repensar sua missão. A alternativa
chamar o prédio de pesquisas a ser construído de “Catedral D. Pedro II apresentada baseia-se no modelo da École Polytéchnique de Paris,
do Ensino”, o projeto revive a ideia inicial de Alves de Souza sobre a criada pela Convenção em 1794. Seria criado algo semelhante a um
escola-modelo de minas e metalurgia. Steidle, com fraqueza por títulos instituto de ciências básicas, onde por três anos se ensinariam
grandiloquentes, propõe a criação de um Instituto Brasileiro de Ciências matemática, química, física e história natural. Não seria fornecido
Geológicas e Tecnologia Mineral. O Instituto ocuparia, sem a diploma, apenas o certificado de “Antigo Aluno da Escola de Minas de
desfigurar, toda a Praça Tiradentes e teria ainda um prédio de pesquisas, Ouro Preto”. Os antigos alunos completariam a parte de especialização
a ser construído ao lado da Igreja do Carmo29. Teria três departamentos: em outras escolas de engenharia, podendo completá-la em Ouro Preto
Ciências Geológicas, Engenharia Mineral e Tecnologia Mineral. Os os que se destinassem a engenharia de minas e geologia. O número de
cursos de graduação teriam cinco anos, com dois anos adicionais para o vagas seria limitado a 75, e os alunos seriam rigorosamente
doutorado. O curso de engenharia civil seria eliminado e seria dada selecionados entre os melhores colocados nos vestibulares de
ênfase a certas especialidades, como a geologia do petróleo e a engenharia do país e receberiam bolsas do governo.
mineralogia do urânio. O Instituto seria organizado em estilo Administrativamente, a Escola seria transformada em instituto
americano, teria equipamentos modernos, professores qualificados e autônomo ligado ao governo federal30.
bem pagos.
A proposta, como a anterior, tem a vantagem de ser ambiciosa, de
A proposta seria uma das possíveis “soluções fortes”. Exigiria, no ser uma solução forte. Possui vários aspectos positivos e algumas
entanto, grande aplicação de recursos, contratação maciça de grandes dificuldades práticas. Entre os primeiros, está o de fortalecer o
professores, renovação e ampliação dos laboratórios, um programa que sempre foi tradição da Escola de Minas: a ênfase no ensino das
intensivo de treinamento pós-graduado do atual quadro docente, matérias básicas. Para isso, a localização em Ouro Preto, além de não
reavaliação dos currículos e dos métodos de ensino. Para resolver o oferecer obstáculos, pode ser até benéfica. E não deve haver dúvida
problema salarial e da flexibilidade exigida pela nova instituição, o quanto ao impacto que tal tipo de ensino poderia ter na for-mação de
ideal seria que o Instituto fosse localizado dentro do Ministério de excelentes engenheiros e na preparação de futuros pesquisadores, tanto
Minas e Energia, que teria nele também o principal centro para na área básica como na aplicada.
treinamento de seus quadros e para as pesquisas de maior interesse para
As dificuldades seriam, sobretudo, de ordem política. Uma escola
o país. Na impossibilidade dessa incorporação, poder-se-ia fazer do
de elite já encontrava dificuldades no século XIX, hoje seria quase
Instituto uma Fundação com recursos do governo e de empresas
invendável, tendo em vista tanto a política governamental de expansão
públicas e privadas na área de mine-ração, metalurgia e geologia.
de vagas no ensino superior, como a reação dos próprios candidatos. Na
prática, poderia surgir também uma infinidade de pequenos problemas
“POLYTÉCHNIQUE” burocráticos com a incorporação dos “antigos alunos” às escolas de
Apresentada em várias ocasiões por Glycon de Paiva, seria outra especialização. As criticas poderiam, no entanto, ser atenuadas com
“solução forte”. Segundo esse ex-aluno, a Escola já cumpriu sua missão pequenas mudanças na proposta. O próprio Glycon sugere a
de formar a primeira geração de geólogos, de engenheiros de minas e manutenção de um curso de especialização em geologia e engenharia de
metalurgistas do país, sem falar em sua contribuição na área da minas. Esse curso poderia ser ampliado para abranger também a pós-
engenharia civil. Hoje não tem mais condições de competir com suas graduação, o que combinaria muito bem com o treinamento intensivo

29 30
A praça Tiradentes passaria a chamar-se, graças ao mau gosto de Steidle, “Quadrângulo A formulação mais recente dessa proposta está em PAIVA. Estado de Minas, p. 3. Para
Tiradentes de Minas”. Ver STEIDLE. REM, p. 23-64. Número Especial. um comentário crítico, ver VEIGA. Estado de Minas, de 12 nov. 1976.

168 169
nas áreas básicas e elevaria o total de alunos para cerca de 500. Mas as Federal de Ouro Preto. Há hoje uma desconfiança mútua que bloqueia
dificuldades de implementação da proposta ainda seriam maiores do qualquer possibilidade de ação eficaz. Apenas para exemplificar,
que as que se podem prever para a solução anterior. Ela tem também a quando foi sugerido pelo DAU, em 1974, que se eliminasse o curso de
desvantagem de misturar uma opção pelo ensino básico com outra pela engenharia civil, houve violenta reação na Congregação, que considerou
especialização, o que não acontece com a anterior. o ato uma intromissão. A própria reitoria da UFOP foi criticada por não
discutir antes o problema com a Congregação (ata de 6 de junho de
Outras propostas apresentadas se enquadram, de um modo ou de
1974). Sem diálogo e trabalho conjunto, só um ato de força que
outro, nas aqui relacionadas. Tal é o caso, por exemplo, das de Amaro
fechasse o estabelecimento para recomeçar do zero poderia realizar uma
Lanari Jr., que insistem na introdução da pós-graduação, no
reforma profunda. Além das dúvidas sobre a eficácia do método, não
desvinculamento da Universidade do Ministério da Educação, e na
creio que alguém no país possa hoje defender soluções desse tipo.
adoção de modelos norte- americanos em substituição aos franceses31.
Em terceiro lugar, qualquer solução que se tente deverá buscar as
Não pretendo recomendar qualquer alternativa. Tal
raízes da estagnação. As raízes estão no isolamento a que a Escola se
recomendação exigiria um exame mais profundo dos problemas do
condenou, na fetichização dos métodos de ensino e na submissão aos
ensino da engenharia no país, tarefa que excede minha competência. O
fantasmas do passado. A compatibilização desse requisito com o
exame já foi, aliás, objeto de estudo de uma comissão do Departamento
anterior será o teste de fogo da reforma.
de Assuntos Universitários (DAU) em 1973. Mas, no que toca à Escola
de Minas, a comissão limitou-se a sugestões do tipo “solução fraca”. Finalmente, é preciso pensar grande. Se a ideia é fazer algo que
Creio que se deveria pensar também em soluções fortes e mais possa recuperar a excelência da Escola de Minas, deve-se aproveitar a
imaginativas. Registro alguns pontos que me parecem importantes e que oportunidade para tentar soluções inovadoras, como foi inovadora a
deveriam ser levados em conta na discussão da reforma. decisão que a criou. É o mínimo que se deve à Escola pelos serviços
prestados ao país. As soluções medíocres, que não levem a vida nova,
Em primeiro lugar, é preciso aprender com o passado. Os últimos
talvez sejam mesmo preferíveis a morte digna.
45 anos têm demonstrado que soluções tímidas, soluções de forma, ou
soluções de emergência, não têm dado resultado. A Escola nesse
período pertenceu à Universidade do Brasil, foi instituição autônoma, e
pertence hoje à Universidade Federal de Ouro Preto. As mudanças em
nada ajudaram a resolver os problemas. Tampouco ajudou a criação do
Parque Metalúrgico, do Instituto de Mineração e Metalurgia, do curso
de pós-graduação e do curso de geologia. Os três primeiros fracassaram,
o último apenas ampliou o ensino de disciplina já antes ensinada.
Em segundo lugar, é necessário adotar táticas mais adequadas
para encaminhar os problemas da reforma. A história dos últimos anos
mostra também, com exceção apenas dos anos do Governo Kubitschek,
que tem havido total falta de diálogo entre a Escola e os órgãos
responsáveis pela educação no país, inclusive a própria Universidade

31
Ver o já citado artigo de LANARI JR. A Escola do meu tempo e entrevista. Ver também
LANARI JR. REM, v. XXII, n. 5, p. 213-219.

170 171
CONCLUSÃO fábricas de ferro mantinham a mesma escala e as mesmas técnicas
primitivas introduzidas por Eschwege no começo do século XIX. Os
governos de Minas também se tinham rendido aos encantos dos
Se está correta a interpretação que acabo de expor, algumas cafezais.
conclusões podem ser tiradas referentes à história das instituições
científicas no Brasil e à sociologia e à política da educação. Limitar-me- A criação da Escola de Minas foi, assim, primordialmente, um
ei a dois pontos. ato de vontade política. Talvez nem mesmo se possa dizer, como
pensava Derby, que foi ato de uma vontade política clarividente, capaz
O primeiro diz respeito às relações entre educação e sociedade. O de vislumbrar as possíveis consequências, a longo prazo, da formação
estudo chama a atenção para as limitações de uma abordagem de mineiros, metalurgistas e geólogos. Pode ter sido, em boa parte, fruto
funcional-mecanicista da educação. Quem partisse da hipótese de que a da convicção pessoal do Imperador a respeito do valor da ciência em si
educação reflete, rigidamente, necessidades de ordem econômica e e de sua vaidade de membro da Academia de Ciências de Paris e
social não teria condições de entender a criação da Escola de Minas. A admirador da cultura francesa.
economia brasileira de 1875 não pedia engenheiros de minas,
metalurgistas e geólogos. Estávamos em pleno ciclo cafeeiro. Os A Escola de Minas, ao ser criada e durante seu primeiro decênio
técnicos exigidos por essa economia eram engenheiros civis de existência, tinha poucos amigos e fartos inimigos. Tinha poucos
construtores de estradas de ferro e diretores de obras públicas, alunos que, ao se formarem, não encontravam emprego. No Congresso,
engenheiros agrônomos e, pode-se acrescentar, engenheiros sanitaristas consideravam-na um luxo injustificado para um orçamento nacional
para debelar a peste e a febre amarela que dificultavam a vinda de modesto. Católicos acusavam-na de ser viveiro de materialistas. Outras
imigrantes. Nesse sentido, é mais correto dizer que o café precisava escolas procuravam sabotar seus esforços. Não fosse pelo constante
mais de Oswaldo Cruz do que de Gorceix, mais da Politécnica do que apoio imperial, teria tido provavelmente o mesmo destino de sua co-
da Escola de Minas. São Paulo fundou na última década do século XIX irmã, a Comissão Geológica do Império, criada também em 1875 e
o Instituto Bacteriológico, o Instituto Agronômico e a Escola vítima de mortalidade infantil dois anos depois. Quando a Província de
Politécnica. Pode-se argumentar que criou também a Comissão Minas Gerais veio em seu auxílio, cobrou-lhe alto preço, que implicava
Geográfica e Geológica, um pouco antes. Mas a Comissão foi criada o reconhecimento da inviabilidade do projeto inicial de uma escola
por intervenção de um pernambucano então presidente da Província, o exclusiva de mineiros.
mesmo que convidara Gorceix, em nome do Imperador, para organizar Navegando, no entanto, contra a corrente, a Escola produziu, até
a Escola de Minas. A iniciativa talvez tenha sido antes fruto da 1930, a primeira geração de geólogos brasileiros; os primeiros
convicção pessoal de João Alfredo do que de exigência da economia projetistas de altos-fornos depois do Intendente Câmara, e um pioneiro
provincial. A dependência quase total da Comissão em relação a Derby do desenho, da construção e da operação de fornos elétricos; muitos
e seu declínio, após a saída deste em 1904, reforçam a interpretação. O vasculhadores de nossas terras em busca de recursos minerais; diretores
mesmo João Alfredo, aliás, tentou criar Comissão semelhante em Minas e técnicos do Serviço Geológico; os primeiros industriais da siderurgia;
Gerais no final do Império. os renovadores da Inspetoria de Obras Contra as Secas; diretores de
Nem mesmo Minas Gerais, sede da febril atividade dos cientistas estradas de ferro, secretários e ministros de Estado. Quase todos os ex-
ilustrados em busca de alternativas para a economia colonial nos fins do alunos eram dominados pela preocupação de explorar e desenvolver os
século XVIII e começos do século XIX, se preocupava com suas recursos naturais do país, de escapar das amarras da economia colonial
riquezas minerais e com sua indústria metalúrgica. Suas minas mais mono- cultora e exportadora, de defender os interesses nacionais, de
importantes estavam nas mãos de capitais e engenheiros ingleses, suas promover o desenvolvimento econômico. Certamente, a plena expansão

172 173
das atividades desse grupo de engenheiros, e de outros com formação da Universidade de São Paulo, e em outras instituições, tem-se
semelhante, dependia de transformações da economia. Mas eles foram mostrado produtivo, em contraste com a prática atual, sobretudo nos
elementos ativos dessa mesma transformação ao fornecer capacitação cursos de pós-graduação, de se trazerem visitantes para períodos de um
científica, técnica e empresarial e visão política adequada aos novos a dois anos, ou menos, que pouco aproveita aos programas, embora
tempos. possa aproveitar bastante aos visitantes.
O segundo ponto refere-se à história das instituições científicas. Um fator de natureza interna que distinguiu as duas instituições e
A história da Escola de Minas permite estabelecer alguns paralelos com teve impacto distinto em seu êxito e declínio foi a distribuição das
a de Manguinhos, como interpretada por Nancy Stepan e Olympio da atividades entre ensino e pesquisa. Manguinhos era fundamentalmente
Fonseca Filho, no que se refere às condições de êxito e às causas de uma instituição de pesquisa. O curso de microbiologia, introduzido em
declínio de instituições de ciência em países como o Brasil. 1909, era destinado à formação de seus próprios pesquisadores. A
Escola da Minas era, em primeiro lugar, uma instituição de ensino,
Quanto ao êxito, fator fundamental em ambos os casos, foi o
embora a concepção desse ensino envolvesse, necessariamente, a
decisivo apoio político recebido. O que Pedro II representou para
pratica da pesquisa. Em consequência dessa distinção, Manguinhos
Gorceix, Rodrigues Alves foi para Oswaldo Cruz. A diferença é que o
brilhou mais pelas pesquisas que realizou, e Ouro Preto, pelo pessoal
segundo tinha por trás de seu apoio o interesse da economia cafeeira e a
que formou. Manguinhos marcou definitivamente a pesquisa biológica
própria necessidade pública de acabar com as endemias. Mesmo assim,
no país, seu impacto foi mais profundo, embora mais restrito. Ouro
Oswaldo Cruz teve que apressar os planos de ampliação e
Preto, graças a seus ex-alunos, exerceu influência mais diversificada,
institucionalização de sua obra antes da posse do novo presidente, a fim
embora talvez menos profunda, com exceção da área de geologia que
de garanti-la contra possíveis modificações na orientação
marcou também intensamente.
governamental.
Pode-se também dizer que as duas instituições decaíram, pelo
Outro fator de êxito em ambas as instituições foi a autonomia
menos em parte, devido à perda de equilíbrio entre ensino e pesquisa.
concedida aos que por elas eram responsáveis, a fim de que
Manguinhos, passada a fase dos êxitos retumbantes de suas pesquisas e
administrassem os recursos como melhor lhes parecesse. Tanto a Escola
campanhas, e desaparecida a segunda geração de pesquisadores, deixou
de Minas como Manguinhos faziam suas próprias normas, recrutavam
de se renovar, reduziu a produção e foi perdendo o apoio político de que
seu pessoal, decidiam suas atividades. Ambas sofreram rudes golpes ao
gozava. A Escola de Minas foi, aos poucos, abandonando a pesquisa em
serem incorporadas ao Ministério da Educação e Saúde e se
favor do ensino e acabou extraindo desse sua substância criadora,
emaranharem no cipoal de burocracia de que o Ministério é fonte
também, aproximadamente, ao final da segunda geração de professores.
inesgotável.
A Escola escapou da crise mais aguda que atingiu Manguinhos porque,
Em ambas houve, também, um inteligente aproveitamento do como instituição de ensino, podia conservar mais facilmente a aparência
auxílio externo, embora de forma distinta. Manguinhos baseou-se em de vitalidade e justificar melhor sua existência e suas necessidades de
pesquisadores nacionais já formados no exterior ou que para lá foram verbas. Caricaturando, pode-se dizer que em um caso a falta de ensino
enviados. Tais são os casos de Oswaldo Cruz, Adolfo Lutz, Rocha matou os pesquisadores, no outro a falta de pesquisa matou os
Lima, Artur Neiva, Henrique Aragão. A Escola de Minas trouxe professores.
estrangeiros para longa permanência, o que permitiu a formação de uma
Os dois pontos são pertinentes para a discussão das possíveis
geração de brasileiros para substituí-los, além de mandar também
alternativas para a Escola de Minas. Quanto ao primeiro, deve-se
alguns de seus diplomados ao exterior. Esse sistema, repetido na
concluir que cálculos de “econômicos míopes” não deveriam
Politécnica de São Paulo, na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras
174 175
predominar na discussão. Hoje já não se pode negar, como se fazia há instrumentos de viabilização da pesquisa e da extensão, do contato com
cem anos, a necessidade e a importância da formação de geólogos, de a indústria, e da manutenção de bons professores e pesquisadores.
engenheiros de minas e metalurgistas, pois a própria economia do país
No caso de opção por solução inovadora, será, provavelmente,
está a clamar por estas especializações. Mas o “econômico míope” de
necessário retirar a Escola de Minas da órbita do Ministério da
nossos dias se apresenta sob nova roupagem. Ele pode querer que um
Educação, vinculando-a a outro ministério, ou constituindo-a em órgão
estabelecimento do tipo da Escola de Minas se volte para o atendimento
autônomo sob a forma de fundação ou de outro arranjo qualquer. Não
de necessidades imediatas da economia, que treine profissionais capazes
há, aliás, por que colocar sob as asas do Ministério da Educação tudo
apenas de manejar sondas de petróleo ou operar reatores nucleares.
que diga respeito ao ensino. Muito mais lógico e mais produtivo seria,
Felizmente, hoje já não é indispensável o eventual interesse de por exemplo, colocar uma escola de minas dentro de um ministério de
um governante no desenvolvimento da ciência para fugir à miopia e minas, a cujas necessidades deverá, principalmente, atender. Os
planejar instituições científicas que possam gerar efeitos a curto e longo institutos militares de ensino e pesquisa funcionam muito bem fora do
prazos. Existem estudos e técnicas para prever necessidades futuras de Ministério da Educação e não há por que outras escolas técnicas
energia e de recursos naturais, capazes de orientar esse planejamento também não o possam fazer. É verdade que uma opção
em direções criadoras. E existem também abundantes estudos que organizacionalmente inovadora não poderá por si só restituir à Escola
apontam a dependência tecnológica como sério obstáculo ao de Minas seu antigo esplendor. Mas será uma condição necessária para
desenvolvimento. Uma visão inovadora, hoje, deverá ser capaz de que possa retomar o contato com o exterior, contratar bons professores,
calcular benefícios e custos dentro dessa perspectiva mais ampla e mais atrair pesquisas do governo e da indústria, e renovar assim seu próprio
complexa. A educação, no caso da Escola de Minas, foi fator de corpo docente e seus métodos de ensino, numa volta ao que foi o
transformação. Não há razão que a impeça de voltar a exercer esse espírito original de Gorceix.
papel, a não ser a incapacidade de pensar grande.
E para isto não seria preciso, hoje, buscar outro Gorceix na
Quanto ao segundo ponto, viu-se que a intervenção do Estado foi França ou em qualquer outro lugar. Já existem muitos Gorceix no
fundamental para o surgimento e o êxito inicial da Escola de Minas e de Brasil, capazes de enfrentar com êxito a tarefa.
Manguinhos. Tal intervenção permanece crucial. Mas viu-se ainda que,
em parte, ela também se tornou responsável pelo declínio das
instituições que ajudou a criar. Abstraindo dos fatores de ordem interna
que contribuíram para o declínio, parece certo que a ânsia
centralizadora que se apossou do governo após 1930, pela ação do
Ministério da Educação e Saúde e do DASP, ao lado de aspectos
positivos, gerou altos custos. A camisa-de-força dentro da qual vivem as
universidades federais em termos de política salarial, de regime didático
e de normas administrativas e contábeis, dificilmente favorece a
manutenção, e muito menos o surgimento de instituições dinâmicas de
ensino e pesquisa. As áreas dinâmicas hoje o são apesar dessas
limitações e dependem, sobretudo, de órgãos externos ao ministério,
como o BNDE, que foi o grande impulsionador da moderna pós-
graduação no país, a FINEP e o CNPq, ou de entidades paralelas como
as fundações universitárias que surgem por todos os lados como
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192 193
estudos preparatórios: 1º na Língua Francesa, 2º em Desenho, 3º em
APÊNDICE: Geometria e Trigonometria retilínea, 4º em Aritmética e Álgebra
elementar.
DECRETO – DE 3 DE OUTUBRO DE 1832. Art. 6º O assento do Curso Mineralógico, e das cadeiras de
Cria um Curso de Estudos Mineralógicos na Província de Minas estudos preparatórios, do Gabinete, ou Museu Mineralógico, modelos
Gerais. de máquinas, e da Biblioteca, será onde o Presidente em Conselho
marcar.
A Regência, em nome do Imperador o Senhor D. Pedro II, há por
bem sancionar, e mandar que se execute a seguinte Resolução da Art. 7º O Diretor dos estudos, e o conservador do Gabinete serão
Assembléia Geral Legislativa, tomada sobre outra do Conselho Geral da eleitos pela maioria de votos de entre os Lentes.
Província de Minas Gerais: Art. 8ªº Os Professores do Curso Mineralógico, além das demais
Art. 1º Haverá, na Província de Minas Gerais, um Curso de obrigações, terão as seguintes:
Estudos Mineralógicos, compreendendo as seguintes cadeiras: 1ª de
§1º Visitar as lavras, fábricas e oficinas, nos meses de junho,
Mecânica e Estática; 2" de Mineralogia, Geologia, e as noções mais
gerais de Física; 3ª de Química Elementar, e Docimasia; 4ª de julho e agosto, especialmente aquelas, cujos Diretores assim
Exploração, extração das minas, e trabalhos montanísticos. Além destas requererem; levando consigo aqueles alunos, que quiserem acompanhá-
haverão as de estudos preparatórios. los, para receberem lições práticas.

Art. 2º O Curso de Estudos Mineralógicos será de quatro anos; o § 2º Levantar os planos das lavras mais notáveis, desenhar as
curso disciplinar de cada uma das matérias será de oito meses desde 20 máquinas e fornalhas, que visitarem; e descrever os processos, que nelas
de setembro até 20 de maio. Os quatro meses restantes do ano serão se empregarem.
empregados nas viagens, e trabalhos práticos em conformidade com o Art. 9º Enquanto a Congregação dos Lentes não organizar os
art. 82. estatutos, que por este artigo se lhe incumbe, para serem submetidos à
Art. 3º As cadeiras de Geometria, e Desenho, já criadas por Lei, aprovação do Conselho Geral; interinamente o Presidente, em
serão essencialmente destinadas aos estudos preparatórios das Ciências Conselho, dará as regras para o regime interno do Curso Mineralógico.
Montanísticas e Mineralógicas; elevando-se a 500$ o ordenado da Art. 10º Os graus e postos dos alunos Engenheiros serão
cadeira de Geometria, e a 400$ o da de Desenho. regulados por uma Resolução subsequente; assim também os
Art. 4º As cadeiras já criadas serão providas em conformidade da vencimentos que deverão ter.
Lei de sua criação. Quanto às demais cadeiras, o Presidente, em Art. 11º Haverão, onde for estabelecido o curso, os seguintes
Conselho, por esta vez somente, terá livre escolha dos Professores; e ela estabelecimentos, os quais serão fornecidos pela Tesouraria Provincial:
poderá recair em estrangeiros, que reúnam conhecimentos práticos e 1º Uma biblioteca, contendo todas aquelas obras elementares
teóricos, sendo engajados por oito anos somente. Os provimentos necessárias para o ensino das Ciências Mineralógicas; 2º Um Gabinete,
posteriores serão por concurso, perante o Presidente, em Conselho, com ou Museu Mineralógico composto em ponto pequeno de minerais
assistência da Congregação dos Lentes. comprados na Europa, o qual se deverá enriquecer sucessivamente por
Art. 5º Nenhum aluno se matriculará no Curso de Estudos aquisições feitas em todo o Império; 3º Um Laboratório Químico,
Mineralógicos, sem que preceda exame, e seja aprovado nos seguintes composto de tal sorte, que contenha todos os instrumentos e utensílios

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necessários para o seu trabalho; e assim também alguns instrumentos de
Física.
Art. 12º A Tesouraria Provincial fornecerá casas para as aulas, e
para os demais estabelecimentos constantes do art. 11.
Art. 13º Ficam revogadas as Leis, Resoluções e Ordens em
contrário.
Nicolau Pereira de Campos Vergueiro, Ministro e Secretário de
Estado dos Negócios do Império, o tenha assim entendido, e faça
executar com os despachos necessários. Palácio do Rio de Janeiro em
três de outubro de mil oitocentos trinta e dois, undécimo da
Independência e do Império.
FRANCISCO DE LIMA E SILVA.
JOSÉ DA COSTA CARVALHO.
JOÃO BRAULIO MONIZ.

Nicolau Pereira de Campos Vergueiro.

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