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Apontamentos para o exame nacional 2007 Filosofia 10º/ 11º anos

Lógica Silogística (Aristotélica)

que se ocupa apenas da validade dedutiva de um certo tipo de argumentos, os chamados «silogismos».

As quatro formas lógicas: A, E, I, O

Na lógica aristotélica reconhecem-se apenas proposições que tenham uma de quatro formas lógicas:1.

Todos os A são B.2. Nenhum A é B.3. Alguns A são B.4.Alguns A não são B.

Estas proposições são classificadas como se segue:

 «Todos os A são B» são as de tipo A ou universais afirmativas.

 «Nenhum A é B» são as de tipo E ou universais negativas.

 «Alguns A são B» são as de tipo I ou particulares afirmativas.

 «Alguns A não são B» são as de tipo O ou particulares negativas.

As proposições destes tipos incluem sempre dois termos. O termo sujeito é aquele que ocupa o lugar de

A. O termo predicado é aquele que ocupa o lugar de B. E diz-se que um juízo é a atribuição de um termo

predicado a um termo sujeito, segundo a estrutura «S é P» (Sujeito é Predicado). Por exemplo, o termo

sujeito em «Todos os animais são seres vivos» é «animais» e o termo predicado é «seres vivos».

A classificação das proposições

� A classificação das proposições realiza-se tendo em conta dois fatores: a quantidade e a qualidade. A

quantidade refere-se à extensão do termo sujeito da proposição.

� A proposição é universal quando abrange a totalidade da extensão do termo sujeito.

Exemplos: Todos os lisboetas são portugueses. – Tipo A

Nenhum alentejano é lisboeta. – Tipo E

� Uma proposição é particular quando abrange apenas uma parte da extensão do termo sujeito.

Exemplos: Alguns comerciantes são honestos. – Tipo I

Alguns alunos não são estudiosos. – Tipo O

� A qualidade de uma proposição refere-se ao seu caráter afirmativo ou negativo.

As proposições podem ser afirmativas (as de tipo A e de tipo I) ou negativas (as de tipo E e de tipo O).

A forma canónica das proposições

� Nem sempre as proposições aparecem na sua forma canónica. Por exemplo, a frase «Há homens

mortais» exprime uma proposição de tipo I, mas não está na forma canónica. De modo a colocá-la na

forma canónica das proposições de tipo I («Alguns A são B»), teríamos de a exprimir através da frase

«Alguns homens são mortais».

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� A tabela que se segue mostra algumas formas de exprimir proposições de tipo A, E, I O, indicando a

sua transformação na forma canónica.

Teoria do silogismo

� Um silogismo é uma forma particular de raciocínio (argumento) dedutivo, constituída por três

proposições categóricas (que afirmar ou negam algo de forma absoluta e incondicional): duas premissas e

uma conclusão

Todos os portugueses são sábios.


Todos os minhotos são portugueses.
Logo, Todos os minhotos são sábios.

� Além de terem duas premissas e unicamente proposições de uma das quatro formas silogísticas, os

silogismos têm de obedecer a uma certa configuração:

 O termo maior é o termo predicado da conclusão e ocorre uma única vez na primeira premissa
(premissa maior).
 O termo menor é o termo sujeito da conclusão e ocorre uma única vez na segunda premissa
(premissa menor).
 O termo médio é o termo que surge em ambas as premissas, mas não na conclusão.

Assim,

Premissa maior Todo o homem é racional


Termo Médio
Premissa menor Nenhum animal é racional
Conclusão Nenhum animal é homem

Termo Menor -Hugo Araújo- Termo Maior


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Na forma silogística este argumento teria de ser apresentado do seguinte modo:

Nenhum dogmático é crítico. (Premissa maior.)


Todos os filósofos são críticos. (Premissa menor.)
Logo, nenhum filósofo é dogmático. (Conclusão.)

� Os silogismos têm uma dada forma lógica. Para compreendermos melhor a noção de forma lógica

vamos comparar dois silogismos:

1. 2.
Todos os anfíbios são vertebrados. Todos os portugueses são europeus.
Todas as rãs são anfíbios. Todos os vimaranenses são portugueses.
Logo, todas as rãs são vertebrados. Logo, todos vimaranenses são europeus.

 Mas têm exatamente a mesma forma lógica. Essa forma é a seguinte:

Todos os A são B.
Todos os C são A.
Logo, todos os C são B.

� Obteremos os argumentos 1 e 2 se substituirmos «A», «B» e «C» pelos termos apropriados. É

importante distinguir o conteúdo dos argumentos da sua forma lógica, porque a validade dedutiva

depende exclusivamente da forma lógica. Ou seja, para determinar se um argumento é dedutivamente

válido, podemos ignorar o seu conteúdo e examinar apenas a sua forma. Os argumentos 1 e 2 têm uma

forma silogística válida, mas outros têm formas inválidas. Assim, podemos dizer o seguinte:

 A forma lógica de um argumento é a sua estrutura relevante para a validade dedutiva.

Regras do silogismo válido

� Um silogismo é válido se, e apenas se, satisfaz todas as regras da validade silogística.

As regras da validade silogística distribuem-se por dois grupos: as regras para termos

(três regras) e as regras para proposições (quatro regras). Comecemos com as regras para termos:

Regra 1: Um silogismo tem de ter exatamente três termos: termo maior, menor e médio.

Por vezes, um silogismo tem «disfarçadamente» mais de três termos, quando um dos termos é ambíguo e

está a ser usado com dois significados diferentes:

As margaridas são flores


Algumas mulheres são Margaridas.
Logo, algumas mulheres são flores.

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� Neste caso, o termo «margaridas» é usado em dois sentidos diferentes (valendo por dois termos): no

sentido de nome de flor e de nome próprio de algumas mulheres.

Assim, o silogismo não é válido porque tem quatro e não três termos.

Regra 2: O termo médio tem de estar distribuído pelo menos uma vez.

 Um termo está distribuído quando refere todos os membros da classe.

� Por exemplo, na afirmação «todos os cães são carnívoros», o termo «cães» está distribuído pois

estamos a referir-nos a todos os cães. Mas o termo «carnívoros» não está distribuído já que não estamos a

referir-nos a todos os carnívoros. Podemos concluir que nas proposições de tipo A o termo sujeito está

distribuído mas o termo predicado não.

Para sabermos se, numa das proposições reconhecidas pela lógica aristotélica, o termo sujeito ou o termo

predicado estão distribuídos basta reter o seguinte:

 O termo sujeito só está distribuído nas proposições universais.

 O termo predicado só está distribuído nas proposições negativas.

A distribuição dos termos pode representar-se na seguinte tabela:

Vejamos o seguinte exemplo:

Todos os romances são obras literárias.


Todos os poemas são obras literárias.
Logo, todos os poemas são romances.

� Este silogismo é inválido, porque o termo médio «obras literárias», nunca está distribuído, pois em
ambas as premissas é predicado numa proposição de tipo A.

Regra 3: Se um termo ocorre distribuído na conclusão, tem de estar distribuído nas premissas.

Os espanhóis são ibéricos.


Os portugueses não são espanhóis.
Logo, os portugueses não são ibéricos.

� O argumento anterior é um silogismo inválido porque o termo «ibéricos» está distribuído na conclusão,

mas não na premissa.

Consideremos agora as regras para as proposições:

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Regra 4: Nenhuma conclusão se segue de duas premissas negativas.

Nenhum crocodilo tem guelras.


Nenhum crocodilo é um peixe.
Logo, alguns peixes não têm guelras.

� Este argumento é inválido porque tem duas premissas negativas.

Regra 5: Nenhuma conclusão se segue de duas premissas particulares.

Alguns jovens são homens.


Alguns jovens são mulheres.
Logo, algumas mulheres são homens.

� Este silogismo é inválido porque tem duas premissas particulares.

Regra 6: Se as duas premissas forem afirmativas, a conclusão não pode ser negativa.

Todos os melros são animais.


Alguns pássaros são melros.
Logo, alguns pássaros não são animais.

� Este argumento é inválido já que a conclusão é negativa, mas as premissas são afirmativas.

Regra 7: A conclusão tem de seguir a parte ou premissa mais fraca. A parte mais fraca é a negativa

e/ou a particular. Se uma premissa for negativa, a conclusão tem de ser negativa; se uma premissa

for particular, a conclusão tem de ser particular. Se houver uma premissa particular e outra

negativa, a conclusão será particular e negativa.

Todos os atenienses são gregos.


Alguns atenienses são filósofos.
Logo, todos os filósofos são gregos.

� Este silogismo é inválido porque a conclusão é universal, mas uma das premissas é particular.

� Convém nunca esquecer que na lógica aristotélica não se pode usar classes vazias. Assim, quaisquer

argumentos que contenham termos como «lobisomens», «mulheres com mais de 10 metros de altura»,

«marcianos», etc., não podem ser analisados recorrendo à lógica aristotélica. Nos casos em que não

sabemos se uma classe é vazia ou não (como a classe dos extraterrestres inteligentes) também não

podemos usar a lógica aristotélica. Caso usemos classes vazias, a lógica aristotélica apresenta resultados

errados. Consideremos o seguinte silogismo:

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Todos os portugueses são ibéricos.


Todos os marcianos são portugueses.
Logo, há marcianos ibéricos.

� O silogismo anterior, válido segundo a teoria do silogismo, é de facto inválido. A verdade da universal

afirmativa «Todos os marcianos são portugueses» não nos obriga a concluir que alguma vez tenham

existido seres da classe dos marcianos. Deste modo, temos um silogismo constituído por premissas

verdadeiras e conclusão falsa – o que contraria a noção de validade dedutiva.

Figuras do Silogismo

Silogismo da 1ª figura

O termo médio é o sujeito da premissa maior e predicado da premissa menor.

Ex: Todo o homem é mortal – SUJEITO na premissa maior

Ora Sócrates é homem – PREDICADO na premissa menor

Logo, Sócrates é mortal.

Silogismo da 2ª figura

O termo médio é predicado em ambas as premissas.

Ex: Nenhum americano é europeu – PREDICADO na premissa maior

Todo o francês é europeu – PREDICADO na premissa menor

Nenhum francês é americano.

Silogismo da 3ª figura

O termo médio é sujeito em ambas as premissas.

Ex: Todo o filósofo é sábio – SUJEITO na premissa maior

Todo o filósofo é homem – SUJEITO na premissa menor

Algum homem é sábio.

Silogismo da 4ª figura

O termo médio é predicado da premissa maior e sujeito da menor.

Ex: Nenhum europeu é canadiano – PREDICADO na premissa maior

Todo o canadiano é norte-americano – SUJEITO na premissa menor

Algum norte-americano não é europeu.

Formas válidas do silogismo

Esquema das figuras e modos validos do silogismo:

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Formas válidas do silogismo


Modos
1ª Figura AAA AII EAE EIO
2ª Figura AEE AOO EAE EIO
3ª Figura AAI AII EAO EIO IAI OAO
4ª Figura AAI AEE EAO EIO IAI

III. Racionalidade Argumentativa e Filosofia


1. Argumentação e lógica formal 1.3. Principais Falácias
Falácias silogísticas

� Uma falácia é um argumento mau que parece bom.

Existem quatro falácias associadas às regras de validade silogística para termos e que são as seguintes:

1. Falácia dos quatro termos: falácia que ocorre quando um silogismo tem mais de três termos,

geralmente «disfarçadamente» (por exemplo, um dos termos é ambíguo).

2. Falácia do médio não distribuído: esta falácia ocorre num silogismo cujo termo médio não está

distribuído.

3. Falácia da ilícita maior: ocorre num silogismo quando o termo maior está distribuído na conclusão

mas não na premissa.

4. Falácia da ilícita menor: ocorre num silogismo quando o termo menor está distribuído na conclusão

mas não na premissa.

III. Racionalidade Argumentativa e Filosofia


2. Argumentação e retórica 2.1. O domínio do discurso argumentativo: a procura de adesão do
auditório
Demonstração e argumentação

Comparemos os seguintes argumentos:

1) Se o Mar Mediterrâneo for água, é H2O.


O Mar Mediterrâneo é água.
Logo, é H2O.
2) Se os animais não têm deveres, não têm direitos.
Os animais não têm deveres.
Logo, não têm direitos.

Ambos os argumentos são dedutivamente válidos; logo, é impossível, em qualquer dos casos, que as

premissas sejam verdadeiras e a conclusão falsa.

Contudo, as premissas dos dois argumentos são muito diferentes. No argumento 1, trata-se de verdades

estabelecidas, que ninguém põe em causa. Mas a primeira premissa do argumento 2 é muitíssimo

disputável. Até pode ser verdadeira, mas não é uma verdade solidamente estabelecida e amplamente

reconhecida como tal.

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Aristóteles chama «demonstração» ao primeiro tipo de argumentos dedutivos, e «dedução dialética» ao

segundo:

� Uma demonstração é um argumento dedutivo válido cujas premissas são verdades estabelecidas e

indisputáveis.

� Uma dedução dialética é um argumento dedutivo válido cujas premissas são plausíveis mas não são

verdades estabelecidas e indisputáveis.

Quando temos uma demonstração, no sentido de Aristóteles, nada mais há para discutir: a conclusão é

«constringente», ou seja, estamos racionalmente constrangidos a aceitar a conclusão.

O mesmo não acontece no argumento 2. É perfeitamente racional não aceitar a conclusão desse

argumento — basta recusar a primeira premissa, que é muitíssimo discutível, ainda que seja uma «opinião

respeitável».

Isto, por sua vez, significa que esses argumentos não são conclusivos.

Por exemplo, uma pessoa poderia disputar o argumento 2 defendendo com outros argumentos que a

primeira premissa é falsa. A esta troca de argumentos chama-se argumentação.

� A argumentação é uma sequência de argumentos.

Em conclusão:

Argumentação
 Utiliza a retórica e a dialética;
 É pessoal, dirige-se a indivíduos para obter a sua adesão;
 É necessariamente situada, já que o orador depende do auditório;
 Persuadir outrem exige: reconhecê-lo como interlocutor, agir sobre ele intelectualmente e não pela
força, tem de ter em conta as reações para adaptar o discurso;
 Não é um monólogo mas um diálogo;
 Pretende um efeito imediato ou, no mínimo, predispor a uma ação eventual;
 Utiliza uma linguagem natural que pode levar a equívocos;
 Ao pretender a adesão a uma tese por parte do auditório, torna-se variável, daí que a intensidade da
adesão possa ser acrescida;
 O valor e a quantidade de uma argumentação não pode medir-se unicamente pelos resultados,
depende igualmente da qualidade do auditório que se ganha pelo discurso.
Demonstração
 É um cálculo formal;
 Diz respeito à verdade de uma conclusão a partir das premissas com que necessariamente se
relaciona;
 A prova demonstrativa é impessoal;
 A sua validade depende das deduções efetuadas;

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 É insulado do contexto;
 É impessoal
 Utiliza uma linguagem artificial;
 A sua linguagem, porque é formal, não conduz a equívocos;
 A verdade é uma propriedade da proposição e daí que não haja variação de intensidade.
Nota: complementam-se no discurso argumentativo.

O auditório e as premissas

� O auditório são as pessoas com quem estamos a falar, ou para quem estamos a escrever.

� O estado cognitivo de um auditório é o conjunto de conhecimentos e crenças ou convicções que o

auditório tem.

O argumento não tem em conta o estado cognitivo do auditório porque a sua conclusão é mais evidente e

menos disputável, para qualquer pessoa, do que as suas premissas. Mesmo partindo da hipótese de que

as premissas do argumento são verdadeiras, o argumento é mau porque as premissas não são mais

plausíveis, seja para quem for, do que a conclusão. Diz-se, assim, que o argumento é fraco ou não é bom

porque as suas premissas não são mais evidentes ou mais plausíveis do que a sua conclusão.

� Um argumento bom ou forte é um argumento sólido cujas premissas são mais plausíveis do que a sua

conclusão.

� Um argumento mau ou fraco é um argumento que não é sólido ou cujas premissas não são mais

plausíveis do que a sua conclusão.

� A plausibilidade das proposições é relativa ao estado cognitivo dos auditórios.

Por exemplo:

Se o Papa defende que não devemos tomar a pílula, não devemos tomar a pílula.
O Papa defende que não devemos tomar a pílula.
Logo, não devemos tomar a pílula.
A segunda premissa é uma verdade estabelecida. Mas a primeira é disputável.

� A solidez de um argumento é independente do estado cognitivo do auditório; nem a validade nem a

verdade dependem do que as pessoas pensam. Mas a força ou plausibilidade de um argumento é relativa

aos estados cognitivos das pessoas: depende do que as pessoas pensam que é verdade, aceitável ou

plausível.

� A um argumento fraco chama-se também «inferência não informativa» ou «inferência irrelevante».

Assim, uma inferência como «Está a chover; logo, está a chover», apesar de válida, não é informativa. E

uma inferência que parte de proposições menos plausíveis do que a conclusão é irrelevante.

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Em conclusão:
Lógica Formal/Dedutiva/Demonstrativa:
- Objetivo: estudo da validade dos argumentos segundo a sua forma;
- Distingue argumentos válidos de inválidos;
- Há uma relação de necessidade entre as premissas e conclusão. Se a forma do argumento é válida e se
as suas premissas são verdadeiras, a conclusão tem de ser verdadeira;
- Um argumento sólido (válido com premissas verdadeiras) não pode ser refutado;
- O estudo da validade prescinde de referências ao conteúdo das proposições e ao contexto da
argumentação (na qual um orador tenta persuadir um auditório);
- Procura argumentos válidos, mas sobretudo sólidos (com premissas verdadeiras)
- As regras derivam de sistemas formais.
Lógica Informal/Indutiva/Argumentativa:
- Objetivo: estudo dos argumentos fortes (argumentos que, apesar de inválidos, dão algum sustento à
conclusão) e dos seus graus;
- Distingue graus de força dos argumentos;
- Um argumento forte com premissas verdadeiras justifica, mas não garante a verdade da conclusão;
- A conclusão do argumento forte é apenas provável ou plausível. Está sempre aberta a possibilidade de
ser refutada;
- O estudo da força dos argumentos não prescinde de referências ao conteúdo das proposições e ao
contexto da argumentação (em que um orador tenta persuadir um auditório);
- Procura a adesão do auditório, mas sobretudo no discurso argumentativo filosófico, preocupa-se com a
questão da verdade para lá da adesão;
- As regras não derivam de sistemas formais e pode haver argumentos com a mesma forma e graus de
força diferentes.
Ethos, pathos e logos

� Na sua obra sobre a retórica, Aristóteles distinguiu três formas de argumentação:

1. A argumentação baseada no caráter (ethos) do orador; (ligação ao auditório)

O orador deve ser uma pessoa:

 Integra Não basta uma pessoa possuir

 Honesta
estas características, mas deve
mostrar que as possui.
 Responsável

� Para conquistar a confiança do público e, consequentemente, obter a crença do público no seu discurso.

� Segundo Aristóteles, o orador necessita de dar a impressão de uma pessoa que integra 3 características

essenciais:

Racionalidade – pois só uma pessoa de raciocínio desenvolvido é capaz de descobrir soluções ideais para

os problemas dos cidadãos;

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Excelência e benevolência – estas devem associar-se à razão para mostrar que o orador não deturpa os

acontecimentos, não tem ideias reservadas ou segundas intenções, nem se dispõe a enganar os ouvintes.

2. A argumentação baseada no estado emocional (pathos) do auditório; (ligação ao auditório)

� Refere-se às emoções despertadas nos ouvintes, pelo orador.

� É o modo como o orador provoca a adesão (entoação, repetições, figuras de estilo, gestos, questões

para refletir, suspensões frásicas…)

3. A argumentação baseada no argumento (logos) propriamente dito. (elemento mais racional)

� Refere-se àquilo que é dito, ao discurso argumentativo, aos argumentos que o orador utiliza na defesa

das opiniões.

� É o aspeto mais desenvolvido por Aristóteles (segundo ele, é o que deve prevalecer num discurso).

III. Racionalidade Argumentativa e Filosofia


2. Argumentação e retórica 2.2. O discurso argumentativo: principais tipos de argumentos e
falácias informais
Argumentos e falácias informais

� A diferença fundamental entre os argumentos informais e os formais é esta: nos argumentos formais, a

validade depende exclusivamente da sua forma lógica, ao passo que nos informais a sua validade não

depende exclusivamente da sua forma lógica.

Fala-se por vezes de argumentos dedutivos ou de dedução e de argumentos não dedutivos (que incluem

a indução).

� A diferença fundamental entre os argumentos dedutivos e os não dedutivos é a seguinte: Num

argumento dedutivo válido é impossível as suas premissas serem verdadeiras e a sua conclusão falsa. Mas

nos argumentos não dedutivos válidos não é impossível as suas premissas serem verdadeiras e a sua

conclusão falsa; é apenas muito improvável.

� Assim, um argumento dedutivo válido com premissas verdadeiras garante a verdade da sua conclusão.

Mas um argumento não dedutivo válido com premissas verdadeiras torna provável, mas não garante, a

verdade da sua conclusão.

� Todos os argumentos não dedutivos são informais.

� Alguns argumentos dedutivos são informais, mas outros são formais. Os argumentos dedutivos que

estudámos no Capítulo “Distinção validade/verdade” são formais.

Argumentos não dedutivos

� Vamos estudar brevemente os seguintes tipos de argumentos não dedutivos:

1. Induções;

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2. Argumentos por analogia;

3. Argumentos de autoridade.

� Geralmente usa-se o termo «indução» para falar de dois tipos diferentes de argumentos: as

generalizações e as previsões. Uma generalização é um argumento do seguinte género:

Todos os corvos observados até hoje são pretos.


Logo, todos os corvos são pretos.

� Para que uma generalização seja válida tem de obedecer a algumas regras. A falácia da generalização

precipitada ocorre quando os casos em que nos apoiamos não são representativos.

� Numa previsão as premissas baseiam-se no passado e a conclusão é um caso particular. Por exemplo:

Todos os corvos observados até hoje são pretos.


Logo, o próximo corvo que observarmos será preto.

� Num argumento por analogia pretende-se concluir que algo é de certo modo porque esse algo é

análogo a outra coisa que é desse modo. Por exemplo:

Os filósofos são como os cientistas.


Os cientistas procuram compreender melhor o mundo.
Logo, os filósofos procuram compreender melhor o mundo.

� Não se deve confundir os argumentos por analogia com as analogias propriamente ditas. Uma analogia

é apenas uma semelhança entre coisas; os argumentos por analogia baseiam-se nesta desejada

semelhança, mas não são, eles mesmos, analogias. Como se pode ver, nos argumentos por analogia uma

das premissas é uma analogia.

Vejamos outro argumento por analogia:

O mundo é como uma casa.


Todas as casas têm um arquiteto.
Logo, o mundo também tem um Arquiteto — Deus.

� Este argumento é problemático, pois a analogia entre casas e o mundo não é mais plausível do que a

própria conclusão. Um argumento por analogia tem de se basear numa analogia mais plausível do que a

hipótese de a conclusão ser verdadeira. Contesta-se um argumento por analogia tentando mostrar que há

diferenças entre as duas coisas comparadas que derrotam a conclusão.

� A falácia da falsa analogia ocorre quando há diferenças entre as duas coisas comparadas que derrotam

a conclusão.

� Num argumento de autoridade usa-se a opinião de um especialista, como no exemplo seguinte:

Hegel disse que a realidade é espiritual.

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Logo, a realidade é espiritual.

� Para que um argumento de autoridade seja bom é necessário que o especialista ou especialistas

invocados sejam realmente especialistas da matéria em causa e que os outros especialistas não discordem

dele. Por isso, em filosofia os argumentos de autoridade são quase sempre falaciosos, dado que os

filósofos discordam quase sempre uns dos outros relativamente a questões substanciais. Só podemos usar

argumentos de autoridade em filosofia caso os outros filósofos, quanto à questão em causa, não

discordem do filósofo que estamos a invocar.

� Chama-se entimema a um argumento em que uma ou mais premissas não foram explicitamente

apresentadas. Tentar encontrar as premissas ocultas do nosso pensamento é uma parte importante da

discussão filosófica.

Em conclusão:
Diferença fundamental entre os argumentos formais e informais:
Nos argumentos formais, a validade depende exclusivamente da sua forma lógica, enquanto que nos
argumentos informais a sua validade não depende exclusivamente da sua forma.
Dedução/Indução:
Dedução e indução são procedimentos racionais que nos levam do já conhecido ao ainda não conhecido,
isto é, permitem que adquiramos conhecimentos novos graças a conhecimentos já adquiridos.
Dedução:
- raciocínio com base formal que, se for válido, o é pela sua forma, e se as suas premissas forem
verdadeiras, a conclusão também o é necessariamente, porque esta se segue necessariamente delas
- parte-se de uma verdade já conhecida para demonstrar que ela se aplica a todos os casos particulares
iguais. Por isso também se diz que a dedução vai do geral ao particular ou do universal ao individual
- ponto de partida: ideia verdadeira ou teoria verdadeira
- costuma-se representar a dedução pela seguinte fórmula:
Todos os A são B (definição ou teoria geral);
x é A (caso particular);
Portanto, x é B (dedução).
Ex.:
Todos os homens (A) são mortais (B);
Sócrates (x) é homem (A);
Portanto, Sócrates (x) é mortal (B).

- A razão oferece regras especiais para realizar uma dedução e, se tais regras não forem respeitadas, a
dedução será considerada inválida.

Indução:
- raciocínio lógica e formalmente inválido (sendo a sua fundamentação um problema clássico da
filosofia)

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- partimos de casos particulares iguais ou semelhantes e procuramos a lei geral, a definição geral ou a
teoria geral que explica e subordina todos esses casos particulares.
- a verdade das premissas não garante a verdade da conclusão, mas tão só esta pode ser dita provável ou
plausível
- a sua aceitação depende do grau de força do argumento
- pode haver argumentos com formas idênticas e força argumentativa diferente
Ex.:
1 – Todos os cães que eu vi são mamíferos.
Logo, todos os cães são mamíferos.
2 – Todos os cães que eu vi foi em Portugal.
Logo, todos os cães estão em Portugal.
- pode ter premissas singulares, particulares (“Alguns”) ou gerais (“Todos”)
- o âmbito e extensão da conclusão é sempre maior que o das premissas
- pode ser encarado de duas perspetivas: generalização e previsão
- a razão também oferece um conjunto de regras precisas para guiar a indução; se tais regras não forem
respeitadas, a indução será considerada falsa.

Generalização:
Consiste em atribuir a todos os casos possíveis de certo tipo aquilo que se verificou em alguns casos
desse tipo. A generalização justifica, portanto, uma conclusão universal a partir de premissas menos
gerais. As premissas são menos abrangentes que a conclusão.
Ex.:
Todos os corvos observados até hoje são pretos.
Logo, todos os corvos são pretos.
A generalização não garante a verdade da conclusão, pois a conclusão é mais geral do que a premissa. Só
podemos considerá-la muito provável.

Regras:
 A amostra deve ser relevante.
 A relação entre o conteúdo das premissas e o conteúdo da conclusão deve ser representativa de toda a
classe.
- a amostra deve representar toda a classe e não apenas algumas das suas espécies
- a conclusão não pode esquecer aspetos significativos e já conhecidos da classe
 A amostra deve ser ampla.
- Quanto maior for a amostra observada, mais forte o argumento será
 Não omitir informação relevante
- Um argumento, mesmo sendo baseado numa amostra grande e relevante, será mau se omitir
informação relevante.
Consequências:
 Devemos avaliar uma generalização, tendo em conta o conjunto do nosso conhecimento.

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 A generalização deve ser rejeitada se já forem conhecidos contraexemplos

Falácias:
 Falácia da generalização precipitada ou amostra insuficiente:
Ocorre quando os casos em que nos apoiamos não são representativos, ou seja, baseia-se num número
muito limitado de casos.
É uma violação da regra: a amostra deve ser ampla

 Falácia da amostra tendenciosa:


Uma amostra é tendenciosa ou parcial e, por isso, de fraca relevância, se não abranger as variedades de
objetos ou situações a que se aplica a sua conclusão.
Mesmo sendo muito grande, uma amostra pode ser tendenciosa ou parcial.

Previsão:
As premissas baseiam-se no passado e a conclusão é um caso particular.
Ex.:
Todos os corvos observados até hoje são pretos.
Logo, o próximo corvo que observarmos será preto.

Diferença fundamental entre os argumentos dedutivos e não dedutivos:

Num argumento dedutivo válido é impossível que as suas premissas sejam verdadeiras e a conclusão
falsa. Num argumento não dedutivo válido não é impossível que as suas premissas sejam verdadeiras e a
conclusão falsa; é apenas muito improvável. Assim, um argumento dedutivo válido com premissas
verdadeiras garante a verdade da sua conclusão, enquanto que um argumento não dedutivo válido com
premissas verdadeiras torna provável, mas não garante, a verdade da sua conclusão. Todos os argumentos
não dedutivos são informais.

Algumas falácias informais

� As falácias formais são erros de raciocínio que resultam exclusivamente da forma lógica. As falácias

informais são erros de raciocínio que não resultam exclusivamente da forma lógica. O número de falácias

informais é muito elevado. Vamos estudar brevemente algumas das mais comuns.

� A falácia do falso dilema está associada a argumentos baseados em disjunções (afirmações da forma

«P ou Q»). Por exemplo:

As verdades são relativas ou absolutas.


É falso que sejam absolutas.
Logo, são relativas.

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Este argumento é dedutivamente válido, mas esconde uma falácia: a primeira premissa é um falso dilema,

pois não esgota todas as possibilidades.

Sem dúvida que além de as verdades serem relativas ou absolutas há outras possibilidades: talvez algumas

verdades sejam relativas e outras não.

� A falácia do apelo à ignorância ocorre sempre que confundimos as coisas e pensamos que a

inexistência de prova é prova de inexistência:

Nunca ninguém provou que há extraterrestres.


Logo, não há extraterrestres.

Como é evidente, do facto de nunca se ter provado que há extraterrestres nada se segue: não se segue que

há nem que não há extraterrestres. Uma forma menos óbvia de cometer esta falácia é a seguinte:

Os filósofos nunca conseguiram provar que Deus existe nem que não existe.
Logo, não se pode provar que Deus existe nem que não existe.

Devia ser óbvio que se trata de uma falácia. Na véspera da descoberta da cura da tuberculose as pessoas

também poderiam ter dito que era impossível curar a tuberculose, com o mesmo tipo de argumento.

Poderão existir outros argumentos a favor da ideia de que é impossível provar que Deus existe ou que não

existe. Mas este é falacioso.

� A falácia da petição de princípio ocorre sempre que se admite nas premissas o que se deseja concluir.

O caso mais óbvio é a mera repetição:

Deus existe.
Logo, Deus existe.

Este tipo de argumento é sempre falacioso, apesar de dedutivamente válido, dado que a premissa nunca é

mais plausível do que a conclusão.

Normalmente, esta falácia não é formulada de forma tão evidente. Em vez disso, a premissa falaciosa

surge disfarçada com variações gramaticais da conclusão ou misturada com outras premissas:

Tudo o que a Bíblia diz é verdade porque a


Bíblia foi escrita por Deus.
A Bíblia diz que Deus existe.
Logo, Deus existe.

Chama-se também «raciocínio circular» à petição de princípio.

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� A falácia de apelo à força, é o argumento que recorre a forças de ameaça como meio de fazer aceitar

uma afirmação:

Quando as autoridades de trânsito depois de terem esgotado os demais recursos persuasivos para levar os
condutores a não ultrapassarem os limites de velocidade estabelecidos, lhes recordam que as multas a
pagar pelas infrações são elevadas. (ex: opressão psicológica, ameaças)
� A falácia do apelo à misericórdia (argumentum ad misercordiam) consiste habitualmente em tentar

convencer alguém a fazer algo com base no estado lastimoso do autor do argumento. O argumento é

falacioso quando o estado lastimoso do autor do argumento não tem qualquer relevância relativamente ao

que está em causa. Por exemplo:

Eu estudei desalmadamente durante as duas últimas semanas.


Logo, o professor deve dar-me uma boa nota.

Este argumento é um apelo ilegítimo à misericórdia porque as notas são atribuídas não em função do

esforço do estudante mas sim dos resultados, tal como numa prova desportiva.

� A falácia de ad hominem é uma falácia contra a pessoa, sendo o argumento que pretende mostrar que

uma afirmação é falsa atacando e desacreditando a pessoa que a emite.

O Roberto disse que amanhã não há aulas, mas de certeza que há porque ele é mal criado e um grande
preguiçoso.
� A falácia Post hoc, consite em ver uma relação de sequencia causal (causa/efeito) onde só existe uma

relação temporal.

Francisco diz: - Acho que hoje me vai correr mal o teste de Filosofia.
Ana diz: - Porquê?
Francisco diz: - Porque fui ao futebol e o meu clube perder.

III. Racionalidade Argumentativa e Filosofia

3. Argumentação e Filosofia

3.1. Filosofia, retórica e democracia

A Pólis grega

� A Grécia antiga possuía um regime político em que o governo e a administração pública se

encontravam nas mãos dos cidadãos. No entanto, o conceito de cidadão não era tão vasto como hoje em

dia, sendo que apenas um décimo da população era considerado cidadão. Para se obter o estatuto de

cidadão não se podia ser mulher, escravo ou meteco, e tinha que se obedecer a um conjunto de regras.

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Nessa sociedade fazer parte da vida política era uma espécie de obrigação para qualquer cidadão. Todos

os cidadãos reuniam-se em assembleia popular para decidirem por eles mesmos os assuntos públicos. A

retórica era assim um instrumento fundamental na democracia negra, na medida em que permitia aos

cidadãos apresentarem, esclarecer e resolver os problemas.

A democracia grega apresenta-se como uma base para as democracias atuais, embora com algumas

diferenças significativas. Podemos assim estabelecer as igualdades e diferenças destas duas democracias.

Ao contrário do que acontece atualmente:

 A democracia grega era uma democracia direta;


 Os escravos eram a base da economia e eram deixados à margem da vida político, evitando-se assim
antagonismos de classes;
 Não existia qualquer diferença entre governantes e governados;
 A vida pessoal dos cidadãos e a sua vida política estavam estritamente ligadas.

Tal como hoje em dia:

 A argumentação racional, logos, era a chave da autoridade, sendo que quem exercia o poder político
necessitava sempre apresentar razões aceitáveis;
 Existia uma relação intrínseca entre cidadania e participação,
 Havia a submissão à lei e não a uma pessoa;
 Dava-se grande importância à educação cívica e solidariedade.

A disputa entre filósofos e retores

� Ao longo da história, a convivência entre retores e filósofos nem sempre foi fácil, lutando ambos pela

prioridade na formação dos cidadãos gregos.

A retórica foi descoberta pelos gregos como forma democrática de resolver os problemas da cidade.

A via da filosofia

� Parménides e Platão tinham uma abordagem ontológica da retórica (ontos=ser). Consideravam que a

única via para a verdade era o ser.

Parménides segue a via abstrata da reflexão pura. Investe e confia no poder que a razão tem de, por si só,

especular e atingir a verdade das coisas.

Indiferente à política, desvalorizava as opiniões humanas e ignorava a importância de se chegar a

consensos e o poder convincente da palavra.

A via da retórica

� Górgias e Demócrito, sofistas, tinham uma abordagem antropológica da retórica (antrophos = homem).

Consideravam que a única via para a verdade era a investigação pela argumentação interpessoal.

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Nesta altura a retórica é vista como uma prática ajustada às necessidades do tempo.

Os sofistas apareceram no final do séc. V a.C., numa época em que a vida democrática reclamava a

participação dos cidadãos que se mostrassem aptos a fazê-lo. Vinham de vários pontos da Grécia ou até

do estrangeiro, apresentando tendência para relativizar os hábitos e instituições atenienses e para pôr em

causa a autoridade das tradições enraizadas.

� Os sofistas são pois um conjunto de livres-pensadores que se propõem a ensinar a arte da política e as

qualidades que os homens devem possuir para serem bons cidadãos. Andam de cidade em cidade

proporcionando aos jovens que desejam alargar os seus horizontes intelectuais uma aprendizagem

eficiente, habilitando-os para o ingresso na vida política. Voltavam-se para a formação prática dos

homens, tentando torná-los bons cidadãos e políticos eficientes, ensinando temas relativos à moral,

política, economia, retórica e filosofia.

� Os sofistas põem de lado a procura da verdade em si mesma para insistirem na arte de expor,

argumentar e convencer. A verdade torna-se assim subjetiva e relativa a cada um. A insistência neste

subjetivismo e relativismo fomenta a liberdade intelectual que leva as pessoas a questionar os conceitos e

valores do passado e, simultaneamente, a estabelecer novos tipos de crenças e ideais. A retórica apresenta-

se assim como um poderosa técnica de persuasão.

No entanto, este reduzir o caráter absoluto e universal da verdade a meras opiniões relativas, faz com que

os sofistas comecem a ser expulsos do grupo dos filósofos. Apesar de tudo, hoje em dia considera-se que

o mérito dos sofistas reside na sua reflexão centrada no homem, formação cultural do homem, vocação

pedagógica, radicalidade argumentativa, desenvolvimentos da eloquência e questionamento da tradição.

A retórica, serva da filosofia

� Com Platão a retórica sujeita-se ao papel de escrava da filosofia. Este vê na retórica uma forma de

manipular as técnicas argumentativas, postas ao serviço de interesses particulares, desrespeitando a

verdade.

Platão opõe-se o verdadeiro conhecimento, procurado pelo filósofo, ao pseudo- saber da retórica sofista,

que através do recurso à lisonja da palavra, negligencia a verdade.

� Apesar de tudo, Platão serve-se da dialética, atribuindo-lhe efeitos persuasivos para banir a contradição

dos interlocutores, e da retórica, utilizando como método de comunicação e explicação da verdade. A

retórica platónica está assim ao serviço da verdade e não das opiniões humanas, como a retórica sofista.

A retórica ao lado de outros saberes

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Apontamentos para o exame nacional 2007 Filosofia 10º/ 11º anos

� A retórica não é tida só como a arte de bem falar, mas também como a teoria dessa mesma arte.

Aristóteles classifica os saberes em t rês grupos, de acordo com a sua finalidade:

 Ciências Teoréticas, saber explicar (atual conhecimento científico):


-Metafísica, Teologia, Física, Geometria e Astronomia
 Ciências Práticas, saber agir (atuais campos da ação humana):
-Ética, Economia e Política
 Ciências Poiéticas, saber fazer (ligados à produção e técnica):
-Poiética, Dialética, Retórica, Medicina, Música, Ginástica, Estatuária

O conhecimento e explicação do mundo, e a ação ou prática humana têm métodos e meios de prova

específicos. Nas ciências teoréticas utiliza-se a intuição para a dedução lógica de afirmações, e nas

ciências práticas usa-se a retórica. Sendo assim, o campo da ação não se pode reger por verdades

científicas demonstráveis, recorrendo-se a raciocínios dialéticos e discursos retóricos para se

comprovarem as opiniões.

Retórica e oratória

� Após a morte de Platão e Aristóteles dá-se na Grécia uma decadência política e social que se reflete na

filosofia. Esta abandona os grandes problemas teóricos e passa a centrar-se na reflexão sobre os

problemas relativos ao bem-estar e felicidade das pessoas.

� Com a decadência política e social dos gregos e a sua anexação ao Império Romano, a retórica passa a

ser cultivada como oratória, a arte de bem orar e discursar, sendo utilizada pela sua organização formal e

recursos estilísticos que embelezam o discurso.

� Esta orientação da retórica confere-lhe um sentido negativo, na medida em que o discurso retórico

prima pela beleza e forma em detrimento da riqueza do conteúdo.

Na idade moderna, com o privilégio do modelo demonstrativo lógico-matemático, há o desprezo pelo que

é tratado a nível das opiniões humanas.

Retórica e Democracia na atualidade

� Uma vez que na democracia todos os homens devem tomar parte ativa na resolução dos problemas

postos pela vida em comum, a argumentação é t ida como o processo mais favorável à descoberta de

soluções. A retórica torna-se num modelo de resolução das questões prioritárias e a argumentação

apresenta os seguintes aspetos formativo. Repudia o dogmatismo, opõe-se à aceitação de verdades únicas,

promove o exercício do diálogo, valoriza a racionalidade inter subjetiva e instiga ao dever da

participação.

Em conclusão:

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Há uma ligação natural entre o nascimento da filosofia e um clima social e político que favorecia a
discussão pública de ideias. Contudo, ao longo da história, tanto a filosofia como as ciências foram
cultivadas em regimes contrários à liberdade de estudo e pensamento.

� Os especialistas em retórica, os retóricos ou retores, eram professores que ensinavam os jovens gregos
a discursar em público: formavam oradores.

Platão e Aristóteles acusavam os retóricos, a que chamavam sofistas, de desonestidade intelectual.


Acusavam-nos de desprezar a razão e a ética, ensinando a manipular a opinião pública consoante fosse
mais conveniente.

III. Racionalidade Argumentativa e Filosofia

3. Argumentação e Filosofia

3.2. Persuasão e manipulação ou os dois usos da retórica

Persuasão e Manipulação ou os dois usos da retórica

� A retórica pode ser utilizada devida ou indevidamente, sendo considerados o bom e o mau uso da

retórica.

� O bom uso da retórica consiste em permitir ao auditório decidir por ele mesmo de um modo consciente

e crítico. Está relacionado com a persuasão.

� O mau uso da retórica é quando o auditório não é deixado a decidir livremente, mas sim em função dos

interesses do orador. Está relacionado com a manipulação.

Persuasão

� Persuadir consiste em convencer alguém a aceitar ou a decidir-se por algo sem que isso implique a

diminuição das suas aptidões cognitivas ou comportamentais. O objetivo da persuasão é apenas provocar

a adesão, apelando a fatores racionais e emocionais.

� Na persuasão pressupõe-se que quem é persuadido conhece o objeto sobre o qual incide a

argumentação, está a par de todas as soluções possíveis sobre as quais é chamado a optar e está consciente

das consequências positivas e negativas decorrentes de cada uma das escolhas.

� A aceitação de uma doutrina passa, por vezes, não só por aquilo que consideramos verdadeiro mas

também pelo que é do nosso agrado. Para isso, o orador serve-se do logos, ethos e pathos. Apoia-se na

força dos seus argumentos logos, na credibilidade da sua pessoa ethos, e nos sentimentos que desperta ao

auditório pathos.

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� O fenómeno da persuasão dá-se por 6 etapas, que no seu conjunto formam um todo indivisível:

Receção e compreensão da mensagem:

1. Exposição à mensagem: é necessário que a pessoa tenha contacto com a mensagem, que pode ser

apresentada numa conferência, revista,

televisão,...

2. Atenção à mensagem: a atenção é seletiva. Não basta ser exposto à mensagem para que ele capte a

nossa atenção.

3. Compreensão da mensagem: cada pessoa extrai e constrói significações da mensagem que lhe são

próprias.

4. Aceitação ou rejeição: a pessoa elabora um juízo em termos de acordo ou desacordo com as propostas

e, eventualmente, pode mudar de atitude.

Aceitação da mensagem:

5. Persistência da mudança: Se a mensagem provocar uma nova atitude esta deve permanecer, para que
se verifique se se efetuou realmente a persuasão.
6. Ação: a nova atitude concretiza-se através de novos comportamentos baseados na nova opinião.
Manipulação

� Manipular é o uso indevido da argumentação com o intuito de levar os interlocutores a aderir

involuntariamente às propostas do orador. Na manipulação existe uma intenção deliberada de desvalorizar

os fatores racionais, apelando a uma adesão emocional. O próprio discurso é baseado em falácias, onde é

patente a intenção de confundir o auditório.

� Do ponto de vista filosófico, manipular corresponde ao uso abusivo da retórica, onde o orador, munido

de ideia que não apresenta a discussão, concentra os seus esforços no desenvolvimento de técnicas

adequadas à sua imposição. Faz dos seus pontos de vista autênticos dogmas.

� A relação entre o orador e o auditório não é de igualdade mas sim de domínio.

� Para melhor perceber a manipulação há que definir corretamente os conceitos de erro, mentira e

engano:

Erro: o erro é factual. Errar é dizer uma falsidade sem se ter consciência disso, é estar-se convencido de

que a nossa afirmação é verdadeira. Deve-se ao desconhecimento ou incapacidade, mas não nunca a má-

fé. Não constitui assim manipulação.

Mentira: a mentira é psicológica. Mentir consiste em dizer uma falsidade com intenção de tal. Implica

má-fé e é uma tentativa de manipulação.

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Engano: o engano é psicológico e factual. Enganar pressupõe mentir e que essa mentira seja aceite pelo

auditório, ou seja, ele adire à falsidade apresentada. O engano já pressupõe manipulação.

Princípios éticos da retórica

� A participação correta na atividade argumentativa pressupõe que se age de boa fé. Para isso deve

respeitar-se certos princípios que foram sendo enunciados por diversos filósofos ao longo da história:

Princípio da cooperação: todos os participantes devem comprometer-se a respeitar os objetivos ou

finalidades comuns do diálogo, evitando intervenções que se afastem dessa direção.

Princípio da quantidade: todos devem contribuir com informações necessárias ao andamento do

diálogo, não omitindo possíveis informações úteis mas evitando a apresentação de informações

excessivas.

Princípio da qualidade: as informações apresentadas devem ser fundamentadas e os participantes devem

ser sinceros quanto aos argumentos que apresentam.

Princípio da precisão: nenhum interveniente pode distorcer as afirmações feitas pelos outros,

deformando-lhes o sentido.

Princípio da coerência: os participantes devem manter-se fiéis aos pontos de vista que apresentam,

rejeitando qualquer tipo de informações contraditórias.

Princípio do modo: os intervenientes devem expor claramente os seus pontos de vista, evitando

discursos ambíguos, longos e desordenados que confundam o que se pretende dizer.

Princípio da livre expressão: os participantes não podem impedir a opinião ou o questionamento de

pontos de vista expressos por qualquer outro interveniente da discussão.

Princípio da prova: todos os intervenientes são obrigados a fundamentar as afirmações que fazem se isso

assim lhes for exigido.

Em conclusão:
� Persuadir alguém é fazer essa pessoa mudar de ideias.

� A persuasão irracional ou manipulação é um tipo de argumentação que viola a autonomia das pessoas
e procura impedi-las de pensar.
� A persuasão racional é um tipo de argumentação que respeita a autonomia das pessoas e se dirige à
sua inteligência.
Na persuasão irracional procura-se fechar o debate; por contraste, a persuasão racional é um convite ao
debate e à reflexão. Na persuasão racional argumentamos para chegar à verdade das coisas,
independentemente de saber quem «ganha» o debate; na persuasão irracional discute-se para «ganhar» o
debate, independentemente de saber de que lado está a verdade.

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III. Racionalidade Argumentativa e Filosofia

3. Argumentação e Filosofia

3.3. Argumentação, verdade e ser

� Platão afirma que há dois usos distintos da retórica, um bom e um mau uso e se o bom uso consiste em

usar a capacidade persuasiva do discurso para dizer o que é verdade. Temos que perguntar: o que é a

verdade? Haverá uma verdade?

� São diferentes as perspetivas assumidas pelos sofistas e por Platão.

� O pressuposto de que Platão parte é que há de facto uma verdade e que ela é a expressão de uma

realidade imutável e perfeita – o mundo do ser – de que a realidade que continuamente captamos através

dos nossos sentidos e da experiência quotidiana é apenas um reflexo ou uma cópia. Para Platão existe

uma verdade universal e absoluta a respeito de cada assunto, quando o nosso discurso traduz

adequadamente essa realidade ideal. Neste contexto a retórica só será legítima quando o orador colocar a

sua capacidade oratória ao serviço da descoberta e da partilha do conhecimento dessa verdade universal.

� Os sofistas, pelo contrário, partem do pressuposto de que, pelo menos no que se refere aos valores

morais e políticos, não existe “verdade” segura e unívoca; existem unicamente opiniões e argumentos

mais ou menos convincentes. Assim sendo, o dever e direito de quem está convencido da qualidade da sua

perspetiva são usar uma argumentação convincente para conquistar a aceitação das outras pessoas. Para

os sofistas a “verdade filosófica” é múltipla pois, sendo humana nunca é certa senão para aquele que a

possui e enuncia e para os que nela acreditam.

� Estas questões da natureza da realidade e da possibilidade ou impossibilidade de a conhecermos tal

como ela é, tem interessado os filósofos desde os gregos e continua em aberto e a suscitar inúmeras

discussões e diferentes perspetivas de resposta. As questões de saber o que é «verdade» ou o

«conhecimento da realidade» não estão ainda resolvidas e continuam a desafiar a capacidade racional e

argumentativa dos filósofos e de todos nós.

Se qualquer filósofo:

 Aspira a partilha a verdade em que acredita, a torná-la acessível e admitida pelas outras pessoas, se

possível por todos os seres humanos (auditório universal);

 Não pode impor as suas ideias aos outros nem pela força ou pela violência;

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 Então ele não pode pôr de lado a retórica, pois o que ele pode fazer é por interpretações, isto é,

opiniões ou teses, e usar a argumentação para justificar essas opiniões, procurando persuadir o seu

auditório da verdade dessas teses ou, pelo menos, da sua razoabilidade.

� A retórica é um instrumento indispensável para justificar as nossas opiniões e permitir o

esclarecimento mútuo das pessoas que honesta e sinceramente procuram a verdade e o verdadeiro

conhecimento da realidade ou do ser. Ela permitirá, a todos os que possuem curiosidade e desejo de

aceder à verdade, uma averiguação conjunta do conhecimento no pressuposto de que a verdade tem de

ser reconhecida por todos (universalmente) com base num acordo inter subjetivo.

� Claro que nada nos garante que a habilidade retórica não seja usada para manipular e enganar.

Porém, contra esse perigo, o melhor remédio é, justamente, a posse de um apurado sentido crítico e de

uma capacidade argumentativa que nos permita conhecer os meios para nos defendermos de qualquer

tipo de manipulação: “a capacidade de decompor os raciocínios, analisar as intenções e o alcance dos

discursos, ponderar a pertinência dos argumentos, de modo a podermos assumir uma posição crítica,

esclarecida e ativa face seja a que discurso for”.

Em conclusão:
� Se o estudo for livre e as capacidades críticas das pessoas forem estimuladas e bem-vindas, os
argumentos falaciosos, por mais atraentes que sejam, acabarão por ser denunciados, no processo de
avaliação crítica de ideias.
� Se o estudo for iniciático, se os estudantes e os professores forem encorajados a seguir Gurus e
Mestres, mas não a pensar por si, quaisquer ideias serão aceites como Verdades Absolutas, dado que
ninguém terá coragem de as criticar — por mais que os argumentos que as sustentam sejam maus.

IV. O conhecimento e a racionalidade cientifica e tecnológica

1. Descrição e interpretação da atividade cognoscitiva

1.1. Estrutura do ato de conhecer

Tipos de conhecimento

Que tipos de conhecimento há? Saber tocar piano, por exemplo, não é como saber que os pianos têm

teclas. Nesta secção, vamos distinguir alguns tipos de conhecimento.

Saber andar de bicicleta é diferente de saber que andar de bicicleta é saudável. Mas existe algo em

comum entre estes tipos de conhecimento: nos dois casos há um sujeito (que conhece) e um objeto (o

que é conhecido).

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Por exemplo:

a. O João sabe andar de bicicleta.


b. O João sabe que andar de bicicleta é saudável.

Ambas as frases exprimem uma relação de conhecimento entre o João e as coisas que ele sabe. No

primeiro caso, o objeto de conhecimento é andar de bicicleta; no segundo, a ideia de que andar de

bicicleta é saudável. Diz-se que o João é o sujeito do conhecimento ou o agente cognitivo. Por vezes, o

objeto e o sujeito de conhecimento coincidem, pois o João também sabe que ele próprio existe, por

exemplo, ou que se chama «João».

Mas que tipo de coisas sabemos? Vejamos os seguintes exemplos:

1. O João sabe andar de bicicleta.


2. O João conhece Luís Figo.

Reparemos nos objetos do conhecimento do João. Em 1, o objeto do conhecimento é uma atividade

(andar de bicicleta). Este é o tipo de conhecimento a que os filósofos chamam «saber-fazer».

Saber andar de bicicleta não é como conhecer Luís Figo. O objeto de conhecimento no caso 2 é um objeto

concreto (Luís Figo) e em 1 é uma atividade. Além disso, conhecer Luís Figo é ter algum tipo de contacto

direto com ele, conhecê-lo pessoalmente. Podemos saber muitas coisas sobre Luís Figo, mas se não o

conhecermos pessoalmente não dizemos que o conhecemos. O mesmo acontece com o conhecimento de

uma cidade, por exemplo. Podemos saber muitas coisas sobre Paris, mas se nunca lá fomos, não dizemos

que conhecemos Paris. A este tipo de conhecimento que temos quando conhecemos uma pessoa, uma

cidade, etc., chama-se conhecimento por contacto.

Alguns filósofos, como Bertrand Russell, defendem que não conhecemos realmente por contacto uma

cidade ou uma pessoa, mas apenas as sensações que temos de uma cidade ou de uma pessoa. Contudo,

hoje em dia, os filósofos usam a noção de conhecimento por contacto num sentido menos restrito.

Vejamos mais alguns exemplos:

3. O João sabe que Luís Figo é um jogador de futebol.


4. O João sabe que Londres é uma cidade.

Os filósofos chamam «saber-que» ao tipo de conhecimento expresso em 3 e 4. No caso do saber-fazer, o

objeto do conhecimento é uma atividade. No caso do conhecimento por contacto, o objeto é uma pessoa

ou lugar (um objeto concreto). No caso do saber-que, o objeto do conhecimento é uma proposição. Como

vimos no uma proposição é aquilo que é expresso por uma frase declarativa.

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Quando dizemos que o João sabe que Londres é uma cidade, o que o João sabe é que a proposição

expressa pela frase que está depois da palavra «que» («Londres é uma cidade») é verdadeira. Por outras

palavras, saber que Londres é uma cidade ou que Luís Figo é um jogador de futebol é saber que é verdade

que Londres é uma cidade ou que Luís Figo é um jogador de futebol.

A este tipo de conhecimento também se chama «conhecimento de verdades» ou «conhecimento

proposicional», pois o seu objeto é uma proposição verdadeira.

Praticamente tudo aquilo que aprendemos na escola é do tipo saber-que.

Aprendemos que qualquer número multiplicado por zero dá zero, que D. Afonso Henriques foi o primeiro

rei de Portugal, que o Sol é uma estrela, que Portugal fica no continente europeu, etc. Praticamente todo

o nosso conhecimento científico, histórico, matemático, literário, etc. é deste tipo.

Não é portanto de estranhar que os filósofos tenham centrado a sua atenção nesta noção de conhecimento.

Por este motivo, iremos também centrar a nossa atenção neste tipo de conhecimento.

A definição de conhecimento

Conhecimento e crença

Para responder à questão de saber o que é o conhecimento temos de refletir sobre as coisas que

conhecemos para identificarmos o que há de comum entre elas. A primeira coisa que podemos constatar é

que o conhecimento é uma relação entre o sujeito do conhecimento e o objeto do conhecimento.

Uma crença (ou convicção ou opinião) é também uma relação entre o sujeito que tem a crença e o objeto

dessa crença. Por «crença» os filósofos não querem dizer unicamente a fé religiosa, mas sim qualquer tipo

de convicção que uma pessoa possa ter. Por exemplo, podemos acreditar que Aristóteles foi um filósofo,

ou podemos acreditar que a Terra é maior do que a Lua.

Dado que tanto a crença como o conhecimento relacionam um agente cognitivo com uma proposição, que

relações existem entre a crença e o conhecimento?

Muitos filósofos defendem que todo o conhecimento envolve uma crença.

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Por outras palavras, quando sabemos algo, acreditamos nesse algo. Uma razão para dizer isto é que as

afirmações do género das seguintes são contraditórias, num certo sentido:

Sei que a Terra é redonda, mas não acredito nisso.


Não acredito em bruxas, mas que as há, há!

Estas afirmações são contraditórias num certo sentido porque não parece possível saber algo sem

acreditar no que se sabe. Assim, diz-se que a crença é uma condição necessária para o conhecimento:

sem crença não há conhecimento.

� G é uma condição necessária para F quando tudo o que é F é G.

� G é uma condição suficiente para F quando tudo o que é G é F.

Por exemplo, viver em Portugal é uma condição necessária para viver em Lisboa porque todas as pessoas

que vivem em Lisboa vivem em Portugal. E viver em Portugal é uma condição suficiente para viver na

Europa porque todas as pessoas que vivem em Portugal vivem na Europa.

Eis então aquilo que descobrimos até agora acerca da natureza do conhecimento:

� A crença é uma condição necessária para o conhecimento.

Por exemplo, se o João souber que a neve é branca, então acredita que a neve é branca. Mas será a crença

uma condição suficiente para o conhecimento? Evidentemente que não, dado que as pessoas podem

acreditar em coisas que não podem saber, nomeadamente falsidades. Uma pessoa pode acreditar que

existem fadas, por exemplo, mas não pode saber que existem fadas porque não há fadas.

� A crença não é uma condição suficiente para o conhecimento.

Como a crença é uma condição necessária mas não suficiente para o conhecimento, a crença e o

conhecimento não são equivalentes.

� Saber e acreditar são coisas distintas.

Ao tentar definir uma coisa, procuramos as condições necessárias e suficientes dessa coisa. Se tivermos

descoberto uma condição necessária mas não suficiente, continuamos a procurar outras condições

necessárias porque em muitos casos um conjunto de condições necessárias acaba por ser uma condição

suficiente.

Por exemplo, uma condição necessária para ser um ser humano é ser um hominídeo. Mas não é uma

condição suficiente, dado que muitos hominídeos não são seres humanos. Outra condição necessária para

ser um ser humano é ser racional; mas também não é suficiente, dado que poderão existir seres racionais

extraterrestres, por exemplo, e eles não serão seres humanos. Mas se juntarmos as duas condições

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necessárias, obtemos uma condição suficiente, pois basta ser racional e um hominídeo para ser um ser

humano.

É isso que iremos fazer em relação à definição de conhecimento. Dado que ser uma crença é uma

condição necessária mas não suficiente de conhecimento, vamos ver se haverá outras condições

necessárias para o conhecimento que em conjunto sejam uma condição suficiente.

Conhecimento e verdade

Vimos que a crença é necessária para o conhecimento, mas não suficiente.

Será que há outras condições necessárias para o conhecimento?

Alguns termos da linguagem são factivos. Por exemplo, o termo «ver» é factivo. Isto quer dizer que se o

João viu a Maria na praia, a Maria estava efetivamente na praia. Se a Maria não estava na praia, o João

não a viu lá — apenas pensou que a viu lá, mas enganou-se.

O mesmo acontece com o conhecimento. Se o João sabe que a Maria está na praia, a Maria está na praia.

Se a Maria não está na praia, o João não pode saber que a Maria está na praia — pode pensar,

erradamente, que a Maria está na praia, mas isso será apenas uma crença falsa. Como é óbvio, nenhuma

crença falsa pode ser conhecimento, mesmo que a pessoa que tem essa crença pense, erradamente, que é

conhecimento.

� O conhecimento é factivo, ou seja, não se pode conhecer falsidades.

Dizer que não se pode conhecer falsidades não é o mesmo que dizer que não se pode saber que algo é

falso. As duas coisas são distintas. Vejamos os seguintes exemplos:

1. A Mariana sabe que é falso que o céu é verde.


2. A Mariana sabe que o céu é verde.

1 e 2 são muito diferentes. O exemplo 1 não viola a factividade do conhecimento. Mas a afirmação 2

viola a factividade do conhecimento: a Mariana não pode saber que o céu é verde, pois o céu não é verde.

Dizer que o conhecimento é factivo é apenas dizer que sem verdade não há conhecimento.

� A verdade é uma condição necessária para o conhecimento.

Não se deve confundir as seguintes duas coisas: pensar que se sabe algo e saber realmente algo. Se de

facto soubermos algo, então temos a garantia de que isso que sabemos é verdade. Mas podemos pensar

que sabemos algo sem o sabermos de facto. Por exemplo, no tempo de Ptolomeu pensava-se que a Terra

estava imóvel no centro do universo. E as pessoas estavam tão seguras disso que pensavam que sabiam

que a Terra estava imóvel no centro do universo.

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Contudo, mais tarde descobriu-se que essas pessoas estavam enganadas: elas não sabiam tal coisa, apenas

pensavam que sabiam. Claro que quando hoje pensamos que sabemos que essas pessoas estavam

enganadas, podemos também estar enganados.

Será que basta que uma crença seja verdadeira para ser conhecimento?

Por outras palavras, será que uma crença verdadeira é suficiente para o conhecimento?

Vejamos o seguinte diálogo:

Catarina: Acabei de jogar no totoloto, e algo me diz que é desta que vou ganhar.
João: Espero que sim!
Alguns dias depois...
Catarina: João, ganhei o totoloto! Não te disse que sabia que ia ganhar o totoloto?
João: Parabéns Catarina! Mas como podias saber tal coisa? Não quererás antes dizer que tinhas uma forte
convicção de que ias ganhar?
Catarina: Bom, saber, saber, não sabia. Mas achava que sim, e a verdade é que isso acabou por se
verificar.
João: Mas isso só quer dizer que tinhas uma crença verdadeira. Mas será que tinhas de facto
conhecimento? Sabias mesmo que ias ganhar o totoloto? É que se soubesses, não precisavas de estar com
esperança nisso, e nem sequer precisavas de verificar os números do sorteio.
Catarina: Como assim?
João: Por exemplo, se sabes quando nasceste, não precisas de consultar o teu bilhete de identidade para
verificar o ano. Do mesmo modo, se soubesses que ias ganhar o totoloto, não precisavas verificar que
números saíram: já sabias que números eram esses.
Catarina: Sim, tens razão: o facto de as nossas crenças se revelarem verdadeiras não implica que
tivéssemos conhecimento prévio dessas coisas.

Do facto de a crença da Catarina se ter revelado verdadeira não se segue que ela soubesse que ia ganhar o

totoloto. Crenças que por acaso se revelam verdadeiras não são conhecimento. O conhecimento não pode

ser obtido ao acaso.

Vejamos outro exemplo: Imagine-se que a professora de matemática do

João lhe perguntava qual a raiz quadrada de quatro. Imagine-se que ele achava que era dois, mas não

tinha a certeza. Será que ele sabia qual é raiz quadrada de quatro, ou será que ele apenas teve sorte ao

acertar na resposta? Para haver conhecimento uma pessoa não pode apenas ter sorte em acreditar no que é

efetivamente verdade; tem de haver algo mais que distinga o conhecimento da mera crença verdadeira.

Para haver conhecimento, aquilo em que acreditamos tem de ser verdade, mas podemos acreditar em

coisas verdadeiras sem saber realmente que são verdadeiras.

Portanto, nem todas as crenças verdadeiras são conhecimento. Por outras palavras:

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� A crença verdadeira não é suficiente para o conhecimento.

Conhecimento e justificação

Platão foi um dos primeiros filósofos a distinguir a crença do conhecimento. O Teeteto é um dos seus

diálogos mais importantes. É nele que se encontra a definição clássica de conhecimento, que vamos agora

estudar.

Sócrates: Diz-me, então, qual a melhor definição que poderíamos dar de conhecimento, para não nos
contradizermos?
[...]
Teeteto: A de que a crença verdadeira é conhecimento? Certamente que a crença verdadeira é infalível e
tudo o que dela resulta é belo e bom.
[...]
Sócrates: O problema não exige um estudo prolongado, pois há uma profissão que mostra bem como a
crença verdadeira não é conhecimento.
Teeteto: Como é possível? Que profissão é essa?
Sócrates: A desses modelos de sabedoria a que se dá o nome de oradores e advogados. Tais indivíduos,
com a sua arte, produzem convicção, não ensinando mas fazendo as pessoas acreditar no que quer que
seja que eles queiram que elas acreditem. Ou julgas tu que há mestres tão habilidosos que, no pouco
tempo concebido pela clepsidra sejam capazes de ensinar devidamente a verdade acerca de um roubo ou
qualquer outro crime a ouvintes que não foram testemunhas do crime?
Teeteto: Não creio, de forma nenhuma. Eles não fazem senão persuadi-los.
Sócrates: Mas para ti persuadir alguém não será levá-lo a acreditar em algo?
Teeteto: Sem dúvida.
Sócrates: Então, quando há juízes que se acham justamente persuadidos de factos que só uma testemunha
ocular, e mais ninguém, pode saber, não é verdade que, ao julgarem esses factos por ouvir dizer, depois de
terem formado deles uma crença verdadeira, pronunciam um juízo desprovido de conhecimento, embora
tendo uma convicção justa, se deram uma sentença correta?
Teeteto: Com certeza.
Sócrates: Mas, meu amigo, se a crença verdadeira e o conhecimento fossem a mesma coisa, nunca o
melhor dos juízes teria uma crença verdadeira sem conhecimento. A verdade, porém, é que se trata de
duas coisas distintas.
Teeteto: Eu mesmo já ouvi alguém fazer essa distinção, Sócrates; tinha-me esquecido dela, mas voltei a
lembrar-me. Dizia essa pessoa que a crença verdadeira acompanhada de razão (logos) é conhecimento e
que desprovida de razão (logos), a crença está fora do conhecimento [...].
Platão, Teeteto, 201a-c.

Aquilo que Platão designa por «logos» é o que tradicionalmente se passou a designar «justificação».

Assim, além de verdadeira, diz-nos Platão, a crença tem de ser justificada, para que possa haver

conhecimento. Mas o que significa isto?

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Vimos que o facto de alguém ter uma crença verdadeira não significa que tenha conhecimento. Por

exemplo, do facto de a crença do António de que vai passar de ano ser verdadeira não se segue que ele

saiba realmente que vai passar de ano. Mas se, além de possuir uma crença verdadeira, o António tiver

razões que suportem a sua crença, ele sabe-o. Por exemplo, se ele acreditar que vai passar de ano porque

tem boas notas a todas as disciplinas, então a sua crença verdadeira não é mero fruto do acaso, mas está

justificada por boas razões: a sua crença é conhecimento. Eis, portanto, a terceira condição para o

conhecimento:

� A justificação é uma condição necessária para o conhecimento.

Mas será a crença justificada suficiente para o conhecimento? Se acreditarmos em algo justificadamente,

teremos a garantia de que sabemos esse algo? Se pensarmos em Ptolomeu, vemos que ter uma justificação

para acreditar numa coisa não significa que se tenha conhecimento dessa coisa. Ptolomeu tinha boas

justificações para pensar que a Terra estava parada no centro do universo. Mas não sabia que a Terra

estava parada no centro do universo.

Como vimos diferentes pessoas estão em diferentes estados cognitivos. No estado cognitivo em que se

encontrava Ptolomeu, havia justificação para pensar que a Terra estava parada no centro do universo. Mas

os estados cognitivos das pessoas não são perfeitos e por isso as pessoas podem ter justificação para

acreditar em falsidades.

Por exemplo, antes de na Europa se descobrir a Austrália, todos os cisnes conhecidos na Europa eram

brancos. Os europeus tinham por isso uma justificação para pensar que todos os cisnes do mundo eram

brancos.

Mas depois descobriu-se cisnes negros na Austrália. Logo, podemos ter crenças justificadas sem ter

conhecimento.

Por outras palavras:

� A crença justificada não é suficiente para o conhecimento.

Note-se que para que a crença de alguém esteja justificada não é necessário que essa pessoa saiba

justificar a sua crença. Isso seria absurdo, dado que a justificação mais profunda para pensar que está uma

árvore à minha frente inclui complexos mecanismos da visão que a maior parte das pessoas desconhece. E

mesmo para justificar a crença de que todos os corvos são negros muitas pessoas serão incapazes de

articular explicitamente um argumento indutivo.

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A crença de alguém pode estar justificada sem que essa pessoa a consiga justificar explicitamente. O que

importa é que a sua crença esteja justificada e não que ela saiba justificar explicitamente a sua crença.

Vejamos mais um exemplo: o Pedro é uma criança de 7 anos e tem uma crença justificada de que o irmão

está a beber leite com chocolate. Mas o Pedro não consegue justificar explicitamente a sua crença. O que

importa é que há uma justificação que legitima a crença do Pedro: nomeadamente, o Pedro está

justificado a acreditar que o irmão está a beber leite com chocolate porque está a vê-lo beber leite com

chocolate e nada há de errado com a sua visão.

Vimos até agora três condições necessárias para algo ser conhecimento: ser uma crença, ser verdadeira e

ser justificada. E vimos também que, separadamente, nenhuma dessas condições era suficiente. Mas se

juntarmos as três condições, obtemos a seguinte definição de conhecimento, em que S é uma pessoa

qualquer:

S sabe que P se, e só se,


a. S acredita que P.
b. P é verdadeira.
c. Há uma justificação para S acreditar que P.

Esta é a definição tradicional de conhecimento. Uma condição necessária e suficiente para ter

conhecimento é ter uma crença verdadeira justificada.

Apesar de, separadamente, nenhuma das condições ser suficiente para o conhecimento, tomadas

conjuntamente parecem suficientes. Se alguém tiver uma crença, se essa crença for verdadeira e se além

disso essa crença estiver justificada, parece impossível que essa pessoa não tenha conhecimento.

Conhecimento e crença verdadeira justificada

A definição tradicional de conhecimento foi aceite durante mais de dois mil anos tendo sido disputada em

1963 pelo filósofo americano Edmund Gettier (n. 1927). Gettier forneceu um conjunto de

contraexemplos que mostram que podemos ter uma crença verdadeira justificada sem que essa crença seja

conhecimento. Vejamos então o tipo de contraexemplos em causa.

Imaginemos que o João vai a uma festa onde se encontrava a Ana.

Imaginemos ainda o seguinte:

1. O João acredita que a Ana tem a A Arte de Pensar na mochila.

Imaginemos também que a crença do João está justificada. Por exemplo, suponhamos que a Ana lhe tinha

dito que ia levar o manual para a festa porque a Rita lho tinha pedido emprestado. Portanto, o João não só

acredita que a Ana tem A Arte de Pensar na Mochila como a sua crença está justificada:

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2. A crença do João de que a Ana tem a A Arte de Pensar na mochila está justificada.

Até aqui tudo bem. Agora vem a parte substancial do argumento:

Imaginemos que a Rita tinha telefonado à Ana para lhe dizer que afinal já não precisava que ela lhe

emprestasse o manual. Suponhamos agora que o António tinha encontrado a Ana antes da festa e lhe tinha

pedido para levar o manual para a festa para tirar umas dúvidas com ela. Portanto, a Ana tinha de facto A

Arte de Pensar na mochila, mas não o tinha por causa da Rita, mas por causa do António.

3. A Ana tem A Arte de Pensar na mochila.

Isto significa que, dado 1, 2 e 3, o João tem uma crença verdadeira justificada. E, logo, de acordo com a

definição tradicional de conhecimento, o João sabe que a Ana tem A Arte de Pensar na mochila. Mas será

que o João sabe tal coisa?

Não! O João não pode saber tal coisa. Aquilo que justifica a crença do João não é o levou Ana a levar A

Arte de Pensar para a festa. É por mera sorte que a crença do João é verdadeira. Por outras palavras, a

razão pela qual o João acredita que a Ana tem A Arte de Pensar na mochila não é a razão que levou a Ana

a levar o manual para a festa.

Assim, temos um caso em que alguém tem uma crença verdadeira justificada mas em que essa crença não

constitui conhecimento. E isto contradiz a definição tradicional de conhecimento. Logo, a definição

tradicional de conhecimento está errada. Ou seja:

� A crença verdadeira justificada não é suficiente para o conhecimento.

Há muitas propostas de solução do problema levantado pelos contraexemplos de Gettier. Em geral, todas

aceitam os méritos da definição tradicional de conhecimento, e procuram apenas fortalecer a noção de

justificação, para bloquear os contra exemplos. Mas este é um tema para um estudo mais aprofundado.

Em conclusão:
Que tipos de conhecimento há?
O que é o conhecimento?
� A crença é uma condição necessária para o conhecimento.
� O conhecimento é factivo, ou seja, não se pode conhecer falsidades.
� A verdade é uma condição necessária para o conhecimento.


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Objeções: Os contraexemplos de Gettier. Estes mostram que podemos ter uma justificação para acreditar
em algo verdadeiro sem que esse algo seja conhecimento.

Conhecimento a priori e a posteriori

Quais são as fontes ou origens do conhecimento? Aparentemente, a fonte do nosso conhecimento de que 2

+ 2 = 4 é diferente da fonte do conhecimento de que a neve é branca. Para sabermos que 2 + 2 = 4 basta

pensarmos sobre isso. Mas para sabermos que a neve é branca temos de ver neve. Isto significa que a

justificação do nosso conhecimento de que 2 + 2 = 4 é diferente da justificação do nosso conhecimento de

que a neve é branca.

No primeiro caso, parece que estamos justificados a acreditar que 2 + 2 = 4 pelo pensamento apenas, ou

pela razão. No segundo caso, estamos justificados a acreditar que a neve é branca pela experiência, ou

através dos nossos sentidos.

Dá-se tradicionalmente os nomes de «conhecimento a priori» e «conhecimento a posteriori» ou

«conhecimento empírico» a estes dois tipos de conhecimento:

� Um sujeito sabe que P a priori se, e só se, sabe que P pelo pensamento apenas.

� Um sujeito sabe que P a posteriori se, e só se, sabe que P através da experiência.

A distinção entre conhecimento a priori e a posteriori encontra-se implícita em muito filósofos, mas foi

com Immanuel Kant (1724-1804) que se tornou mais clara:

[…] designaremos, doravante por juízos a priori, não aqueles que não dependem desta ou daquela
experiência, mas aqueles em que se verifica absoluta independência de toda e qualquer experiência. A
estes opõem-se o conhecimento empírico, o qual é conhecimento apenas possível a posteriori, isto é,
através da experiência.
Immanuel Kant, Crítica da Razão Pura, 1787, B2-B3.

Vejamos agora o seguinte caso:

1. Um objeto totalmente azul não é vermelho.

Não precisamos de recorrer à experiência para saber que 1 é verdade: basta pensar. Mas o próprio

conceito de azul, de vermelho e de cor teve de ser adquirido pela experiência, vendo cores. Apesar de

adquirirmos o conceito de azul e vermelho pela experiência, não precisamos de recorrer à experiência

para saber que um objeto todo azul não pode ser vermelho. A partir do momento em que temos os

conceitos de azul, vermelho e cor, sabemos que 1 é verdadeira. Possuir os conceitos necessários não é

mais do que um pré-requisito para o nosso conhecimento proposicional. Mas apesar de possuirmos os

conceitos de céu e de azul, não é possível saber que o céu é azul sem olhar para o céu.

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Tal como há conhecimento a priori e conhecimento a posteriori, também há argumentos a priori e

argumentos a posteriori.

� Um argumento é a posteriori se, e só se, pelo menos uma das sua premissas é a posteriori.

� Um argumento é a priori se, e só se, todas as suas premissas são a priori.

Em conclusão:
� Um sujeito sabe que P a priori se, e só se, sabe que P pelo pensamento apenas.
� Um sujeito sabe que P a posteriori se, e só se, sabe que P através da experiência.

� Um argumento é a priori se, e só se, todas as suas premissas são a priori.


� Um argumento é a posteriori se, e só se, pelo menos uma das suas premissas for a posteriori.

� Conhecemos algo inferencialmente quando conhecemos através de argumentos ou razões.


� Conhecemos algo não inferencialmente quando conhecemos diretamente (por exemplo, através dos
sentidos).

IV. O conhecimento e a racionalidade cientifica e tecnológica

1. Descrição e interpretação da atividade cognoscitiva

1.2. Análise comparativa de duas teorias explicativas do conhecimento

Estrutura do ato de Conhecer

“A perceção através dos sentidos não depende exclusivamente dos atributos fisiológicos imediatos do
olho ou do ouvido. Depende, sim, de um contexto muito mais vasto, que envolve a disposição global do
indivíduo. No caso da visão isso foi investigado segundo numerosas e diferentes perspetivas, tendo os
cientistas demonstrado que a visão requer o movimento ativo tanto do corpo como da mente. A perceção
visual é, portanto, um ato intencional e não passivo.
Um exemplo claro de como a visão opera sempre num contexto vasto e geral é o da pessoa que nasceu
cega e, mediante uma operação, adquire subitamente a capacidade de ver. Em tais circunstâncias, a visão
clara não é um processo instantâneo, porque tanto o paciente como o médico têm de realizar um árduo
trabalho, até que a confusão de impressões visuais desprovidas de significado possa ser integrada numa
“visão” verdadeira. Este trabalho implica, entre outras coisas, a exploração dos efeitos dos movimentos
do corpo nas experiências visuais ainda frescas e a aprendizagem do relacionamento das impressões
visuais de um objeto com as sensações tácteis que foram previamente associadas a ele. Em particular, o
que o paciente aprendeu por outras vias afeta fortemente o que ele vê. A disposição global da mente para
apreender objetos por vias particulares desempenha um papel no ato de selecionar e de dar forma ao que é
visto.
Estas conclusões são confirmadas pela análise neurológica do sistema nervoso. Para se ver algo em
absoluto, o lho tem de se lançar em movimentos rápidos que o ajudam a extrair da cena alguns elementos

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de informação. Sabe-se que o modo pelo qual estes elementos se integram depois numa imagem global,
conscientemente percebida, depende em grande parte dos conhecimentos e hipóteses gerais, por parte de
quem vê, acerca da natureza da realidade. Diversas experiências incisivas revelaram que o fluxo de
informação proveniente dos níveis cerebrais elevados para as áreas de formação de imagens excede, na
realidade, a quantidade de informação que chega dos olhos. Isto é, aquilo que se “vê” resulta tanto dos
conhecimentos previamente adquiridos como dos dados visuais acabados de receber.
A perceção dos sentidos é, portanto, fortemente determinada pela disposição total da mente e do corpo.
Mas, por sua vez, esta disposição relaciona-se, de maneira significativa com a cultura geral e a estrutura
social. Do mesmo modo, a perceção através da mente é também governada por todos estes fatores. Por
exemplo, um grupo de pessoas a passear numa floresta vê e responde de maneira diversa ao ambiente. O
lenhador vê a floresta como uma fonte de madeira, o artista como algo digno de ser pintado, o caçador
como um esconderijo para a caça.
Em cada caso, o bosque e as suas árvores individuais são percebidos de modo muito diferente, na
dependência da formação e expectativas dos passeantes.”
David Bohm e David Peat

A experiência do conhecimento é comum a todos os seres humanos. Mas, afinal, o que é conhecer?

Quem é que conhece? O que é que se conhece? Como se conhece?

No texto encontramos tentativas de resposta para estas questões. Todos os seres vivos são dotados de

sentidos, isto é, de órgãos que lhes permitem captar, interpretar esses sinais e responder-lhes

adequadamente. O conhecimento faz parte dos mecanismos de sobrevivência e adaptação ao meio.

No homem o processo de conhecer não é muito diferente dos outros animais mas atinge níveis de maior

complexidade, permitindo alcançar conhecimentos abstratos, pensar a realidade e manipulá-la.

O que é que nos diz o texto? (vejamos uma perspetiva a respeito do conhecimento, talvez a mais vulgar e

mais fácil de entender, a partir da análise do texto)

1. Afirma que o conhecimento é possível dependendo, em primeiro lugar, da estrutura fisiológica dos

nossos sentidos – das sensações. Os nossos sentidos recebem e dão significado a determinados estímulos,

ignorando outros. Todo o conhecimento tem origem ou constitui-se a partir da sensação.

2. As sensações, ou dados dos sentidos, são interpretado por cada indivíduo - o sujeito do conhecimento.

Esta interpretação implica uma organização das sensações num todo significativo que é o conhecimento

percetivo. Assim, o conhecimento percetivo traduz um primeiro nível de apreensão da realidade. Esta

apreensão permite reproduzir na mente do sujeito a realidade em si mesma.

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3. O conhecimento percetivo implica um sujeito (aquele que conhece) e um objeto (aquilo que é

conhecido e representado na mente). O sujeito, através dos sentidos, apreende um conjunto de dados a

que confere significado, construindo assim uma representação mental ou objeto (em sentido

gnoseológico).

4. O objeto construído pelo sujeito não é uma mera soma dos dados sensoriais apreendidos num dado

momento; como se diz no texto “aquilo que se vê resulta tanto dos conhecimentos previamente adquiridos

como dos dados visuais acabados de receber”. Quer isto dizer que o sujeito que conhece atribui um

significado aos dados recebidos em função da sua própria estrutura, das experiências já vividas, dos

conhecimentos anteriormente adquiridos, dos interesses pessoais, etc.

5. São todos estes fatores (fatores de significação percetiva) que explicam que cada sujeito possa ter uma

visão diferente da mesma realidade.

O ser humano não se limita a conhecer perceptivamente a realidade, desta forma imediata e vivencial.

Também somo capazes de pensar sobre o vivido, elaborando conhecimentos abstratos que provêm

justamente da capacidade de refletir sobre o que percecionamos. Assim, construímos leis gerais e teorias

acerca da realidade. Com base neste conhecimento abstrato e racional, elaboramos modelos explicativos e

interpretativos da realidade.

É este nível racional do conhecimento, que é especificamente humano, que tornou possível a construção

da ciência e da filosofia e a evolução tecnológica.

Para alguns autores, há uma estrutura invariante no sujeito que determina a construção, a configuração e o

sentido do objeto. Para outros autores, esta estrutura da mente que conhece (sujeito gnoseológico) vai-se

constituindo ao longo da vida a partir das características biológicas.

Para outros ainda, é o objeto que determina a sua própria representação, reservando para o sujeito o papel

de mero recetor considerando o conhecimento como uma tomada de consciência das determinações do

objeto.

Em conclusão, conhecer é construir representações mentais da realidade; é o sujeito que conhece; aquilo

que é conhecido é o objeto. Por objeto de conhecimento não se entende a realidade em si mesma mas a

sua representação na consciência. O processo de construção do conhecimento exige capacidade de

captação sensorial dos dados, capacidade de interpretação e de organização e capacidade de elaboração

racional, no sentido de constituir conceitos, leis gerais e teorias explicativas acerca da realidade

(conhecimento racional).

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Análise Comparativa de duas Teorias Explicativas do Conhecimento

� Ao longo da história da filosofia houve várias tentativas para explicar o modo como o homem conhece

e as coisas (tipos de objetos) que é capaz de conhecer; os filósofos também se preocuparam com o

alcance, os limites e a validade desse conhecimento.

� Desde o inicio que os filósofos se perguntam: qual a origem ou fundamento do conhecimento? Até

onde podemos conhecer? Podemos conhecer tudo ou há limites e limitações do conhecimento?

Conhecemos a realidade tal como é em si mesma ou o nosso conhecimento é à nossa medida, moldado

pelo modo como o sujeito é constituído?

� Estas questões expressam preocupações de natureza gnosiológica e são constantes ao longo da história

da filosofia. O modo como se tem respondido a estas questões conduziu à existência de múltiplas teorias

explicativas do conhecimento: empirismo, racionalismo, apriorismo, construtivismo, positivismo,

idealismo, materialismo, dogmatismo, ceticismo, relativismo…

� Vamos explorar apenas duas dessas perspetivas: racionalismo e empirismo.

O racionalismo cartesiano

Da dúvida ao cogito

Assim, porque os nossos sentidos nos enganam algumas vezes, quis supor que nada há que seja tal como
eles o fazem imaginar. E, porque há homens que se enganam ao raciocinar, até nos mais simples temas de
geometria, e neles cometem paralogismos, rejeitei como falsas, visto estar sujeito a enganar-me como
qualquer outro todas as razoes de que até então me servia nas demonstrações. Finalmente, considerando
que os pensamentos que temos quando acordados nos podem ocorrer também quando dormimos, se que
neste caso nenhum seja verdadeiro, resolvi supor que tudo o que até então encontrara acolhimento no meu
espírito não era mais verdadeiro que as ilusões dos meus sonhos.
Mas, logo em seguida, notei que, enquanto assim queria pensar que tudo era falso, eu, que assim o
pensava, necessariamente era alguma coisa. E notando que esta verdade – eu penso, logo existo, era tão
firme e tão certa que todas as extravagantes suposições dos céticos seriam impotentes para a abalar,
julguei que podia aceitar, sem escrúpulo, para primeiro princípio da filosofia que procurava.
Depois, examinando atentamente que coisa eu era, e vendo que podia supor que não tinha corpo e que não
havia qualquer mundo ou qualquer lugar onde eu existisse; mas que, apesar disso, não podia admitir que
não existia; e que antes, pelo contrario, por isso mesmo que pensava, ao duvidar da verdade das outras
coisas, tinha de admitir como muito evidente muito certo que existia; ao passo que bastava que tivesse
deixado de pensar para não ter já nenhuma razão para crer que existia, ainda que tudo o que tinha
imaginado fosse verdadeiro; por isso, compreendi que era uma substância, cuja essência ou natureza é
apenas o pensamento, que para existir não tem necessidade de nenhum lugar nem depende de nenhuma
coisa material. De maneira que esse eu, isto é, a alma pela qual sou o que sou, é inteiramente distinta do

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corpo, mais fácil mesmo de conhecer que este, o qual, embora não existisse, não impediria que ela fosse o
que é.
Depois disso, considerei duma maneira geral o que é indispensável a uma proposição para ser verdadeira
e certa; porque, como acabava de encontrar uma com esses requisitos, pensei que devia saber também em
que consiste essa certeza. E tendo notado que nada há no que eu penso, logo existo, que me garanta que
digo a verdade, a não ser que vejo muito claramente que, para pensar, é preciso existir, julguei que podia
admitir como regra geral que é verdadeiro tudo aquilo que concebemos muito claramente e muito
distintamente; havendo apenas alguma dificuldade em notar quais são as coisas que concebemos
distintamente.
René Descartes, Discurso do Método

� O texto foi escrito por um filósofo francês do século XVII que se dedicou ao estudo dos problemas do

conhecimento e construiu um sistema de índole racionalista. Vivia-se então numa época de crise e de

incerteza que se refletia nas posições céticas adotadas pelos contemporâneos de Descartes. Ora Descartes

tinha uma formação matemática e desejava garantir a existência de um conhecimento verdadeiro.

No texto, extraído do Discurso do Método, uma das suas obras mais divulgadas:

1. Começa precisamente por levantar o problema da dúvida em três domínios fundamentais:

 Dúvida acerca do conhecimento sensorial;

 Dúvida acerca da capacidade da razão humana;

 Dúvida quanto á possibilidade de distinguir sonho de realidade.

2. Refere a decisão de não aceitar nada como verdadeiro ate encontrar uma verdade que resista a toda e

qualquer dúvida (um conhecimento indubitável).

� Esta atitude de Descartes é uma forma de garantir a validade absoluta de um conhecimento capaz de

resistir à dúvida mais exagerada. Por isso se considera que a dúvida cartesiana é metódica, universal

(abrange todos os conhecimentos) e voluntária.

3. Enuncia a primeira verdade a que Descartes chegou: o cogito ou a existência de um ser pensante

(penso, logo existo).

� Esta primeira verdade vai ser aceite por Descartes que sobre ela assentará o seu sistema filosófico.

Trata-se de uma verdade de natureza puramente racional, ou seja, que depende unicamente do uso da

razão humana e na sua descoberta não foi necessária a contribuição dos sentidos. A existência do cogito é

a primeira informação segura a que Descartes chegou depois de deliberadamente ter posto tudo em dúvida

e encerra o sujeito que conhece em si mesmo, reduzindo-o a ser “uma coisa que pensa” (res cogitans).

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Duvida ainda da existência dos outros seres humanos e das coisas materiais, incluindo o seu próprio

corpo.

� O objetivo cartesiano de alcançar a verdade começa a cumprir-se no momento da dúvida, no momento

em que se rompe com o sensível e com o conhecimento até então constituído e se procura a verdade na

própria razão.

4. Seguidamente o texto de Descartes define a natureza do cogito afirmando a sua independência em

relação ao corpo e a sua natureza de puro pensamento.

Contrariamente ao nosso conhecimento vulgar que nos leva a acreditar mais facilmente na existência das

coisas e do corpo do que na existência da mente, Descartes conclui que o conhecimento desta é mais

acessível e é anterior ao conhecimento das coisas corpóreas; o corpo não faz parte da mente e é de outra

natureza.

5. Apresenta, finalmente, o critério de verdade válido para Descartes. Serão aceites como verdadeiras

unicamente aquelas ideias que se apresentem à razão como sendo claras e distintas, características que

Descartes encontra na apreensão intuitiva e racional da ideia do cogito. A apreensão do cogito fornece o

critério de verdade das ideias.

� Como verificamos Descartes parte da dúvida e alcança uma primeira verdade por via unicamente

racional. Neste momento da construção do sistema cartesiano Descartes só admite a existência de um eu

cuja natureza se resume a produzir pensamento. Será que existe alguma coisa fora e para além do seu eu?

Como vai conseguir sair para fora do cogito e demonstrar a existência da realidade material?

� Descartes não pode basear-se nos sentidos uma vez que os excluíra como fonte fiável de conhecimento.

Só lhe resta refletir sobre si mesmo e procurar na mente, no cogito, a possibilidade de provar a existência

de algo para além do seu próprio pensamento. O que é que esta reflexão lhe vai permitir descobrir?

Diferentes tipos de ideias: ideias que “nasceram comigo” (ideias inatas); outras que vieram de fora (ideias

adventícias); outras que foram feitas e inventadas por mim (ideias factícias).

� Ao examinar a natureza das ideias, Descartes valoriza as que são inatas e entre elas descobre a ideia de

Deus como ser perfeito e como o homem é um ser imperfeito, que não pode por si só criar a ideia de

perfeição, esta ideia é inata e só pode ter origem no próprio Deus que a colocou na nossa mente. Esta

ideia ao fazer-nos conceber Deus como um ser perfeito, incapaz de nos enganar, passa a ser garantia de

que o conhecimento construído pela razão é verdadeiro. Assim, alem da existência do cogito, Descartes

passa a admitir a existência de Deus e a existência do mundo.

� No texto que se segue podemos avaliar a importância da perspetiva racionalista:

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O racionalismo

A posição epistemológica vê no pensamento, na razão, a fonte principal do conhecimento humano chama-


se racionalismo. Segundo ele, o conhecimento só merece na realidade este nome quando é logicamente
necessário e universalmente válido. Quando a nossa razão julga que uma coisa tem que ser assim e não
pode ser de outro modo, que tem de ser assim, portanto, sempre e em todas as partes, então, e só então,
nos encontramos ante um verdadeiro conhecimento, na opinião dos racionalistas. (…) Uma forma
determinada do conhecimento serviu evidentemente de modelo à interpretação racionalista do
conhecimento. Não é difícil dizer qual é: é o conhecimento matemático. Este é, com efeito, um
conhecimento predominantemente conceptual e dedutivo. (…) O pensamento impera com absoluta
independência de toda a experiência, seguindo somente as suas próprias leis. Todos os juízos que formula
distinguem-se, além disso, pelas características da necessidade lógica e da validade universal. (…) O
racionalismo alcançou maior importância na Idade Moderna em Descartes. Segundo ele são inatos um
certo número de conceitos, justamente os mais importantes, os conceitos fundamentais do conhecimento.
Estes conceitos não procedem da experiência, mas representam um património originário da razão. (È a
teoria das ideias inatas).
(…)
O mérito do racionalismo consiste em ter visto e feito sobressair o significado do fator racional no
conhecimento humano mas é exclusivista ao fazer do pensamento a fonte única ou própria do
conhecimento. Além disso, o racionalismo deriva de princípios formais proposições materiais; deduz de
meros conceitos conhecimentos. (Penso na intenção de derivar do conceito de Deus a sua existência; ou
de definir, partindo do conceito de substancia a essência da alma). Apresenta assim um espírito dogmático
que provocou reações opostas como, por exemplo, o empirismo

Como se pode concluir:

1. O racionalismo toma a razão como única fonte de conhecimento.

2. Pressupõe a existência de ideias inatas, descobertas por intuição racional, de conhecimento das

quais deduz todos os outros conhecimentos que devem ser logicamente necessários e

universalmente válidos.

3. Para conferir ao conhecimento esse caráter de universalidade e necessidade, toma a matemática

como modelo a seguir para todos os tipos de conhecimento.

4. Rejeita a experiência como fonte de conhecimento por considerar que ela é enganadora e conduz a

conhecimentos particulares e contingentes (por oposição à universalidade e necessidade próprias

do conhecimento racional construído a partir do modelo matemático do conhecimento).

5. Apesar de ter sido importante a valorização da razão como fonte de conhecimento, os racionalistas

têm tendência para um certo exclusivismo (apenas admitindo uma única fonte de conhecimento) e

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dogmatismo (ao considerar a possibilidade de construirmos um conhecimento absolutamente

verdadeiro e ao derivar as ideias a existência das coisas).

O empirismo

� O empirismo opõe ao racionalismo a tese de que todo o conhecimento, incluindo o mais geral e

abstrato, tem origem e deriva da experiência. A razão não contém nenhum princípio ou ideia que não

derive da experiência, ou seja, não há ideias inatas.

A origem do conhecimento

Podemos, pois, dividir todas as perceções da mente em duas classes ou tipos, que se distinguem pelos
seus diferentes graus de força e de vivacidade. As menos intensas e vivas são comummente designadas
pensamentos ou ideias. Ao outro tipo (…) chamemos-lhe impressões (…). Pelo termo impressão significo
todas as nossas perceções mais vivas, quando ouvimos, vemos, sentimos, amamos, odiamos, desejamos
ou queremos. E as impressões distinguem-se das ideias, que são as impressões menos intensas, das quais
somos conscientes quando refletimos sobre qualquer das sensações ou movimentos acima mencionados.
D. Hume, Investigação sobre o entendimento humano

� Assim sendo todas as nossas ideias têm que encontrar uma impressão que lhes corresponda e só é

possível a existência de um conhecimento verdadeiro do que é observável, todos os conhecimentos que

ultrapassem o observável são abusivos ou ilusórios.

� A indução é uma operação da mente que faz parte de factos observáveis e alcança um conhecimento

mais geral; esta é a única operação da razão que permite superar o particular e o contingente mas que, ao

fazê-lo, só pode alcançar um conhecimento provável. Podemos encontrar, num empirista do século XX,

Bertrand Russell, um exemplo disto mesmo: “O homem que regularmente alimenta o frango acaba por

um dia lhe torcer o pescoço, mostrando quão útil seria ao frango lançar-se a teorias de maior subtileza

acerca das uniformidades do universo” (B. Russell, Os Problemas da filosofia, pág. 109)

� A verdade é, para o empirismo, a confrontação dos juízos com os factos observáveis que traduzem. Os

juízos universais obtidos por indução não podem ser confrontados com os factos, uma vez que a

observação nunca permite verificar todos os casos, pelo que a sua verdade não é necessária nem

universal.

� Os princípios que, para os racionalistas, estão contidos na razão humana não existem para os empiristas

que têm dificuldade em explicar, por exemplo, a existência de um nexo causal necessário entre dois

fenómenos que acontecem um depois do outro.

O empirismo de David Hume

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“Para os empiristas como David Hume, todos os nossos conhecimentos provêm da experiência e a razão
não possui princípios inatos anteriores à experiência.
Mas é preciso, então, explicar porque a todo o momento o nosso espírito se projeta além da experiência
imediata. Ao colocarmos leite no fogo, por exemplo, dizemos: o leite vai ferver. A todo o momento, nós
fazemos previsões análogas e os nossos juízos excedem a “esfera restrita dos nossos sentidos”. Se
tomamos a experiência, o dado, por guia único, temos o direito de dizer “o leite ferve” no momento em
que o vemos ferver, mas nada nos autoriza anteciparmo-nos ao curso das coisas, a exceder o que nos é
dado no momento e a fazer previsões do tipo: o leite vai ferver.
Se prevemos alguma coisa, é porque vamos além da experiência presente, em nome de um princípio da
razão: o princípio de causalidade. O aquecimento é a causa da ebulição; supomos, entre aquecimento e
ebulição, uma relação necessária de tal modo que, ao aquecermos o leite, possamos prever que ele vai
ferver passados alguns instantes. É pelo facto de admitirmos esta relação necessária que pensamos que o
aquecimento necessariamente produzirá a ebulição, que ultrapassamos audaciosamente a experiência
presente: o leite vai ferver.
Portanto, David Hume, para justificar o seu empirismo integral, depara-se com um problema difícil. É-lhe
necessário demonstrar que os próprios princípios da razão, por exemplo, o princípio de causalidade,
provêm da experiência.
À primeira vista, não se depreende como o princípio de causalidade pode ter origem na experiência.
É certo que verificamos que o leite ferve, após ter sido levado ao fogo. Comprovamos que ele aquece e
depois ferve. Mas não podemos afirmar que ele ferve porque foi aquecido. É verdade que diariamente
podemos fazer a mesma comprovação. O aquecimento é sempre seguido de ebulição. Mas o que
verificamos é uma “conjunção constante” e não uma “conexão necessária”, não vemos a ação causal, o
“porquê”. (...)
E, no entanto, não nos limitamos a dizer que os acontecimentos se sucedem, mas afirmamos que eles se
produzem e se determinam uns aos outros, que existem causas e efeitos. Qual será, então, a origem do
princípio de causalidade?
Hume explica-o a partir do hábito e da associação de ideias. Porque esperamos ver a água a ferver quando
a aquecemos? É porque, responde Hume, aquecimento e ebulição sempre estiveram associados na nossa
experiência passada. Formou-se um hábito deste modo. Quando levamos um líquido ao fogo aguardamos
a ebulição porque a nossa experiência passada habituou-nos a isto. Ao dizermos que o leite vai ferver,
tiramos “uma conclusão que excede, no futuro, os casos passados” de que já tivemos experiência; é que a
imaginação, irresistivelmente arrastada pela força do hábito, passa de um acontecimento dado àquele de
ordinário o acompanha. Assim, o passado impulsiona a imaginação que, “como uma galera acionada
pelos remos, desliza sem necessidade de novo impulso”. A experiência passada orienta a imaginação e
esta, adestrada pelo hábito, projeta-a sobre o acontecimento que está para vir, quando em face do
aquecimento. O leite vai ferver. Ao afirmar isto, aparentamos ultrapassar a experiência, mas o que
fazemos na realidade é seguir uma tendência criada pelo hábito.
Somente o hábito nos faz imaginar uma ligação necessária entre o aquecimento e a dilatação.
Tal explicação é puramente psicológica e não traz à ideia de causalidade qualquer garantia objetiva; por
outras palavras, Hume explica porque acreditamos na causalidade, mas não mostra a razão pela qual

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acreditamos. Ele mostra porque esperamos irresistivelmente que se produza a ebulição, quando assistimos
ao aquecimento. Mas não demonstra que temos razão em fazê-lo, não justifica logicamente a nossa
expectativa. Teoricamente, diz ele, poderia acontecer que o leite não fervesse. Pois nada prova que a
experiência de amanhã confirmará a de ontem e a de hoje. Teoricamente, nada prova que o leite levado ao
fogo não se congelará!
Efetivamente, segundo a teoria de Hume, não podemos falar de causas e efeitos, mas apenas de factos
que, na nossa experiência passada, se sucederam uns aos outros. Consequentemente, se o princípio de
causalidade é apenas um resumo dos nossos hábitos, ele poderá ser desmentido pela experiência futura.
Em rigor, ele não passa de uma ilusão explicável pela psicologia do hábito e da expectativa. Não estamos
mais certos de coisa alguma e o empirismo de Hume desemboca num verdadeiro ceticismo.”
Huisman & Vergez, O conhecimento

� Podemos agora inventariar as seguintes ideias:

1. Para o empirismo a origem do conhecimento é a experiência.

2. Na razão não existe nada que não tenha a sua origem nas impressões.

3. Todo o conhecimento absolutamente verdadeiro tem como limite o observável.

4. Como todos os nossos conhecimentos gerais partem da experiência que nos dá sempre um

conhecimento do particular, é o processo indutivo de inferência que permite alcançar conhecimento

universal. Como há uma generalização a todos os casos daquilo que foi observado apenas em parte,

não temos garantia lógica de que as verdades gerais sejam necessárias e universais. Assim, todo o

conhecimento universal é apenas uma probabilidade não sendo impossível que se venha a revelar

falso no confronto com a observação de novos dados (experiências futuras).

5. Com base na observação e na experiência apenas podemos afirmar que dois fenómenos se sucedem

habitualmente um ao outro. Por isso, Hume conclui ser impossível afirmar que exista uma relação

necessária de causa efeito entre esses dois fenómenos, isto é, nega a existência do princípio de

causalidade por não haver uma impressão que lhe corresponda.

6. Do mesmo modo que retira fundamento lógico ao princípio de causalidade, David Hume também

exclui do âmbito do conhecimento verdadeiro (justificado logicamente) a afirmação de objetos que

não sejam dados na experiência, de Deus, por exemplo.

7. Ao negar o caráter de verdade aos conhecimentos gerais e ao estabelecer a experiência como única

fonte do conhecimento, o empirismo estabelece limites ao conhecimento, desembocando num

ceticismo. O ceticismo é uma posição gnoseológica acerca da validade e do alcance do nosso

conhecimento que dúvida da possibilidade da razão humana construir um conhecimento verdadeiro.

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Em conclusão:
Descartes:

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Objetivo  Reformar os princípios do conhecimento (pretende reformar o conhecimento (criar novos


métodos que se querem científicos)
� Como?
 Procurando um princípio evidente incondicionado
 Deste decorre o conhecimento de tudo o mais, mas não reciprocamente
Método  Dúvida (metódica)
� Como se chega a algo evidente?  Duvidando
� Na dúvida como método rumo à evidência (racional):
 Considera falso o que for, por mínimo, duvidoso (e obviamente o que for falso);
 Considera enganador aquilo que alguma vez nos enganou.
Características da dúvida cartesiana:
 metódica  é apenas um método para chegar a algo evidente;
 provisória  porque apenas corresponde a uma suspensão temporária dos conhecimentos;
 hiperbólica  porque há uma análise radical e total dos conhecimentos possíveis (excessiva).
� Na época de Descartes surge a ciência moderna.
A dúvida aplica-se a:
 conhecimento sensível
A dúvida vai aplicar-se, em primeiro lugar, às informações dos sentidos. Os sentidos enganam-nos
algumas vezes. Aplicando o principio hiperbólico que orienta a aplicação da dúvida: se devemos
considerar enganador aquilo que alguma vez nos enganou, então os sentidos não merecem qualquer
confiança.
 existência do mundo
Descartes põe em causa outros dos fundamentos essenciais do saber tradicional: a convicção ou crença
imediata na existência das realidades físicas ou sensíveis. Mas como encontrar uma razão para duvidar
daquilo que parece ser tão evidente? Como duvidar da existência das realidades sensíveis ou corpóreas?
Descartes inventa um argumento engenhoso que se baseia na impossibilidade de encontra um critério
absolutamente convincente que nos permita distinguir o sonho da realidade. Há acontecimentos que,
vividos durante o sonho, são vividos com tanta intensidade como quando estamos acordados.
Se assim é, não havendo uma maneira clara de diferenciar o sonho da realidade, pode surgir a suspeita de
que aquilo que consideramos real não passe de um sonho. Deste modo, posso supor que os
acontecimentos e as coisas que julgo reais nada mais são do que figurantes de um sonho. Basta esta
suspeita, basta esta mínima dúvida, para transformar os acontecimentos e as coisas que eu julgava
absolutamente reais em realidades meramente imaginárias: todas as coisas sensíveis podem não passar de
realidades que só existem em sonho (incluindo o meu corpo).
Se os sonhos são ilusórios por que é que o mundo exterior não é também?  põe em causa a existência do
mundo.
 conhecimento das matemáticas e existência de Deus como um ser bom e não enganador
As matemáticas são produtos da atividade do entendimento e por isso constituem a dimensão dos objetos
inteligíveis. Sendo estas realidades inteligíveis consideradas as mais evidentes, se as pudermos pôr em
causa, todos os outros produtos do entendimento serão postos em dúvida. A estratégia é simples e sempre

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a mesma: devemos encontrar um motivo, uma razão, um argumento, para suspeitar, por muito pouco que
seja, da validade dos conhecimentos matemáticos. Se essa suspeita, essa dúvida, for possível, esses
conhecimentos serão considerados falsos, como manda o princípio hiperbólico que rege o exercício da
dúvida.
O argumento que vai abalar a confiança depositada nas noções e demonstrações matemáticas baseia-se
numa hipótese ou numa suposição: a de que Deus, que supostamente me criou, criando ao mesmo tempo
o meu entendimento, sendo um ser omnipotente, pode fazer tudo, mesmo criar o meu entendimento, ao
depositar nele as verdades matemáticas, pode tê-lo criado “virado do avesso” sem disso me informar. Por
outras palavras, logo à partida, o meu entendimento pode estar radicalmente pervertido, tomando como
verdadeiro o que é falso e por falso o que é verdadeiro.
Enquanto a hipótese de Deus enganar não for rejeitada, não podemos ter a certeza de que as mais
elementares “verdades” matemáticas são realmente verdadeiras. Se isso vale para as “verdades” mais
elementares e simples, mais se aplica ainda às mais complexas.
� Parece que chegamos ao ceticismo radical, em que não há um princípio racional no mundo para chegar
à primeira verdade:
 Se há dúvidas, há alguém que duvida
 Se alguém que dúvida, alguém pensa (não pode duvidar que é o sujeito da dúvida)
 Se pensa, tem consciência de si enquanto ser que pensa
 Logo, há um 1º princípio indubitável e evidente

O “eu” que pensa é a primeira evidência racional
EU PENSO, LOGO EXISTO  1ª verdade epistemológica
(sou um ser que pensa)

Cogito, Ergo Sum (latim)  Penso logo sou


� No plano ontológico, Descartes começa por duvidar de tudo quanto existe, para ver se há alguma
verdade clara e distinta que se apresente ao espírito com evidência tal que não possa ser negada
(intuição). O método é racionalista porque a evidência de que Descartes parte não é, de modo algum, a
evidência sensível e empírica. Os sentidos enganam-nos, as suas indicações são confusas e obscuras, só as
ideias da razão são claras e distintas. O ato da razão que percebe diretamente os primeiros princípios é a
intuição. A dedução limita-se a veicular, ao longo das belas cadeias da razão, a evidência intuitiva das
"naturezas simples". A dedução nada mais é do que uma intuição continuada.
� A dúvida de Descartes é hiperbólica e metódica. “Existe, porém, uma coisa de que não posso duvidar,
mesmo que o demónio me queira sempre enganar. Mesmo que tudo o que penso seja falso, resta a certeza
de que eu penso. Nenhum objeto de pensamento resiste à dúvida, mas o próprio ato de duvidar é
indubitável. "Penso, logo existo.” Não é um raciocínio (apesar do logo) mas uma intuição.
� Assim, a primeira verdade cartesiana é o cogito (“penso, logo existo”) em que conclui que existe
enquanto substância pensante. Mas é preciso garantir a o fundamento da existência do homem. O
fundamento ontológico é Deus, que garante a nossa existência e a própria veracidade da sua existência.

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Esta é a prova ou argumento ontológico ao qual se segue um apelo ao raciocínio categórico-


demonstrativo.
� No plano ontológico, Descartes começa por pôr em dúvida o plano dos conhecimentos. O cogito é a
garantia da evidência das coisas, mas Deus é o fundamento epistemológico que garante a veracidade dos
nossos conhecimentos.
� Nos “Princípios da Filosofia”, Descartes deteta a ideia de “um ser omnisciente, todo-poderoso e
extremamente perfeito”. Após ter chegado à verdade do Cogito, conclui que existe em nós a ideia de um
“Ser todo perfeito”, e não podendo ser o homem, como ser imperfeito que é, a causa desta ideia, afirma
que o Ser que é causa desta ideia deve ter mais perfeição do que a sua representação (a Ideia). Logo, Deus
existe porque existe em nós a sua ideia. Este é o argumento da causalidade ou princípio de adequação
causal.
� Descartes, considera, assim, que só um ser perfeito pode ter posto em nós, seres imperfeitos, esta ideia
de perfeição, pois o efeito não pode ser maior do que a causa. Deus é a causa das ideias inatas que
colocou no homem.
O “eu” (alma) ≠ Corpo
(substância imaterial e racional) (substância material)
� Esta verdade, “Eu penso, logo, existo”, vai ser o critério ou o modelo de toda e qualquer verdade ou
evidência posterior.
 Sujeito que pensa  subjetividade
(o saber tem que ser objetivo se não não passa de uma crença, e a definição de crença é
insuficiente)
 É preciso um princípio objetivo, que garanta a validade dos conhecimentos e a existência dos
objetos fora do sujeito
 Se duvido, sou imperfeito
(se não tivéssemos em nós a ideia de perfeição, não sabíamos que éramos imperfeitos)
� Porquê? Porque duvidar é ser menos perfeito do que ser sabedor
 Só sei que sou imperfeito por referência à ideia de perfeição que possuímos.
Como é que tenho a ideia de perfeição?
� Não pode ter sido criada por mim porque do menos perfeito não pode surgir o mais perfeito. Logo, a
ideia de perfeição foi-me colocada por um ser mais perfeito (o mais perfeito)  DEUS
Deus  a perfeição absoluta tem de ser a causa da minha ideia de perfeição
Logo, Deus existe.
� Características de um ser perfeito:
 Omnisciente
 Omnipotente
 Existência necessária e eterna  não é apenas possível, é necessário
A existência de Deus é necessária porque, para um ser ser perfeito tem que existir, logo, a
existência necessária tem que ser atribuída ao perfeito
Ordem do conhecer ≠ Ordem do ser
� Ordem do conhecer:

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1ª Verdade  “Eu” penso


2ª Verdade  “Deus como existência necessária”
� Ordem do ser:
1ª Verdade  Deus  existente necessário
2ª Verdade  Eu penso  existência possível
� Objetos correspondentes às outras ideias inatas (evidentes)
� Se Deus existe, está refutada a hipótese de Deus enganador
� Temos ideias inatas (nascem connosco, são a marca de Deus)
 “Deus”
 “Eu” – Alma
 Verdades da matemática, geometria, ideia de causalidade

As ideias evidentes, claras e distintas puramente racionais

O que conhecemos do mundo são as suas características racionais
O que é que garante a objetividade/validade deste conhecimento?
� Deus é a primeira verdade metafísica, é a fonte, origem ou raiz do conhecimento. Ele garante a
objetividade, certeza e evidencia dos conhecimentos racionais, assim como a sua validade universal.
� Garante a correspondência permanente entre as nossas ideias e os objetos a que correspondem,
independentes de nós.
� Garante a existência continuada do mundo, mesmo depois de não pensarmos nele

David Hume:
� Origem do conhecimento  experiência sensível imediata (é daqui que deriva todo o nosso
conhecimento)
(não há ideias inatas, porque tudo o que conhecemos no mundo é baseado no
contacto/experiência sensível)

� Perceções:
 Impressões  sensações que temos ao observar um objeto; emoções; extraímos de um contacto mais
imediato  são a base em que assenta todo o conhecimento (por contacto)

Aparência

Perceções:
 Ideias  são imagens mais fracas das impressões, pois são resultados das impressões; marcas deixadas
pelas impressões, uma vez estas desaparecidas; representação/cópia da impressão

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As ideias são mais fracas que as impressões (a diferença entre impressões e ideias é
simplesmente de grau e não de natureza)

Corre o risco de ser errada qualquer proposição que enunciemos acerca do que a experiência
imediata nos leva realmente a conhecer

Perceções (elementos do conhecimento):


� Impressões
 simples
 complexas
� Ideias
 simples
 complexas

Proposições:
 “Estou a ter uma sensação de castanho” 
 “A mesa é castanha”  (supõe-se que a mesa tem uma existência independente de nós)
 Não quer dizer que a mesa seja castanha ou até mesmo que ela exista

� Porque pessoas diferentes e o mesmo sujeito têm perspetivas diferentes sobre o suposto mesmo objeto
 sensações (cor, som,forma)

que não é garantido por elas  não há razão para que uma das perspetivas seja mais correta do que outra
Conhecimento proposicional (remete para as perceções):
 Conhecimento de ideias:
� Não é preciso recorrer à experiência sensível para saber se algo é verdade ou não; basta recorrer à razão
Ex.: “O triângulo tem 3 lados” (proposição analítica  predicado faz análise do sujeito)
 Verdades de razão (a razão fundamenta a afirmação  sendo uma verdade de
razão a sua contraditória é falsa (Ex.: “O triângulo não tem 3 lados”))
� A razão opera naquilo que é baseado na experiência (só se adquirem ideias das impressões)

� Não há necessidade de recorrer à experiência para avaliar a verdade da proposição
� Partimos da experiência sensível para ter as ideias; mas existem certos conceitos que, quando falamos
deles, não é preciso recorrer à experiência para avaliar a sua verdade
 O conhecimento de ideias não diz nada de novo sobre o mundo

 Conhecimento de factos:
� São proposições cujo valor de verdade tem que ser analisado pela experiência
Ex.: “O martelo é pesado” (proposição sintética  o predicado acrescenta algo ao sujeito)

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� Só pelos conhecimentos de facto podemos acrescentar algum conhecimento do mundo


 permite ter algum conhecimento do mundo

A experiência não nos dá um conhecimento universal

� Todo o conhecimento de factos (conhecimento empírico) é meramente provável, se entendido que a
experiência não fornece universalidade e que o contrário de uma verdade de facto é sempre logicamente
possível)
Hume  o problema da causalidade:
Conhecimento (origem):
� Impressão sensível  Ideia  Conhecimento
1- Tacada na bola A (impressão sensível)
2- Acompanhamento do trajeto da bola A (impressão sensível)
3- Bola A toca em B
4- Bola B desloca-se
 Após a sucessão de impressões podemos concluir:
A causa B  De que impressão sensível resulta a causa?
Não há impressão sensível de causa  há uma sucessão de movimentos
� Há uma relação necessária entre A e B, de modo a que, sempre que surge A, esperamos que B lhe
suceda
Causa:
� Há uma causa quando um objeto sucede a outro e entendemos que isso acontece de forma necessária
Sempre acontecerá  o futuro assemelha-se ao passado
Como adquirimos a ideia de causa?
� Há uma conexão necessária entre dois ou mais eventos

� Problema:
 Não há nenhuma impressão sensível da qual derive a ideia de causa
Contudo, observamos:
a) a contiguidade espacial (espaço onde a bola A toca na bola B)
ESPAÇO
b) sucessão temporal (A sempre anterior a B)
TEMPO
c) conjunção constante e regular entre A e B (quando surge A e B, A desloca-se e toca em B, que
se desloca)

Chamamos causa ai que precede e efeito ao que sucede
> Da observação desta constante conjunção como formamos a ideia de causa?

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a) haverá algum poder concreto na causa que fez com que o efeito lhe suceda? Talvez, mas não o
podemos observar (pois só vemos a impressão sensível e não conhecemos a verdadeira natureza das
coisas)
 Vemos só o movimento e não o que está por trás deste
b) a memória só nos dá informação sobre os acontecimentos particulares que recordamos
Só a memória por si, não nos diz nada em relação ao futuro (só em relação ao passado)
c) Não é contraditório, dedutivamente, que B não suceda a A
d) Indutivamente, não podemos afirmar que o futuro será como o passado utilizando o raciocínio
indutivo porque este assume que o futuro será como o passado. Seria dizer que o futuro será como o
passado, porque no passado o futuro era como o passado.
 A ideia de causa não deriva da observação de algo nos fenómenos, mas do desenvolvimento de
um costume ou de um hábito mental (desenvolvemos o hábito de esperar que B aconteça mal vemos A
acontecer)

1ª 2ª 3ª
n
   
  

= = =
=
� Nada muda nos fenómenos; muda aquilo que nós pensamos que vemos (ao observar repetidamente os
fenómenos muda a nossa mente, que vai criando a ideia de causalidade)
� Surge um novo sentimento ou emoção que a mente cria por ela mesma  imaginação  impressão
interna

Como surge a ideia de causa?


Resulta de uma impressão interna ou de reflexão, a partir da repetição observada cuja base é a
imaginação.

Desenvolvimento do hábito ou costume mental que está relacionado com a ideia de causa
� Qual é para Hume a impressão original de onde surge a ideia de causalidade?
Impressão original  imaginação
� Porque não pode a noção de causalidade ser considerada conhecimento? Qual é então o seu estatuto?
 Não é um produto da razão
 Não resulta de uma impressão sensível
Estatuto da noção de causalidade  ficção da imaginação
� O conceito de causa não é adquirido empiricamente pois não há uma impressão sensível responsável
pela ideia de causa. A nossa imaginação devido à observação da conjunção regular e repetida entre os
fenómenos formula um sentimento interno responsável pela ideia de causalidade.

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� Segundo Hume a causalidade e a necessidade existem mais na mente do que nas coisas porque:
 Não temos maneira de saber o que acontece na realidade
 Não temos a ideia de causa
 A ideia de causa é produto da nossa mente porque não temos acesso à essência das coisas
 Vemos os fenómenos apenas no seu exterior/movimento
� Será que o conhecimento é possível? Este é um dos problemas centrais da epistemologia.
� Os céticos consideram que não, argumentando da seguinte maneira:
1. Se há conhecimento, as nossas crenças estão justificadas.
2. Mas as nossas crenças não estão justificadas.
3. Logo, não há conhecimento.
� Este argumento é válido e a primeira premissa é geralmente aceite como verdadeira.
� Se a segunda premissa for verdadeira, então a conclusão também terá de o ser. Nesse caso, os céticos
estão certos.
� Mas por que razão dizem os céticos que as nossas crenças não estão justificadas?
� Há um argumento que os céticos apresentam precisamente para mostrar isso. É o argumento da
regressão infinita da justificação:
1. Toda a justificação se infere de outras crenças.
2. Se toda a justificação se infere de outras crenças, então dá-se uma regressão infinita.
3. Se há uma regressão infinita, as nossas crenças não estão justificadas.
4. Logo, as nossas crenças não estão justificadas.
� Este argumento também é válido. Mas será sólido?
� A primeira premissa diz que justificamos umas crenças a partir de outras crenças.
� Mas se é assim, diz-se na segunda premissa, o processo de justificação não tem fim, recuando
sucessivamente de umas crenças para outras.
� Nesse caso, as nossas justificações serão sempre insuficientes, sugere-se na terceira premissa.
� Existirá alguma falha no argumento da regressão infinita da justificação ou os céticos têm mesmo
razão?
� Fundacionistas e coerentistas acham que os céticos estão errados, mas por razões opostas.

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ORIGEM/FUNDAMENTO VALIDADE (ALCANCE/LIMITES) POSSIBILIDADE

 O fundamento é a razão há qual se atribui um poder superior, o qual, aliado


a um método adequado permitirá o conhecimento do todo (ciência);
 Parte de princípios evidentes, claros e distintos, de onde se deduzem,
necessariamente, todas as verdades sobre o mundo, segundo o rigor das
 Dogmatismo  crença de que se pode obter
matemáticas;  O saber tem uma validade
Racionalismo  Desvaloriza por completo o papel da sensibilidade, porque os sentidos são UNIVERSAL
saber certo, seguro e absoluto sobre a
realidade
confusos;
 O conhecimento sensível é considerado enganador. Por isso, as
representações da razão são as mais certas, e as únicas que podem conduzir
ao conhecimento logicamente necessário e universalmente válido.

 O fundamento do conhecimento é a experiência sensível, que fornece o


material básico (ideias e impressões);
 A razão opera intelectualmente, mas opera apenas sobre aquilo que a
experiência fornece, pois não tem um poder absoluto;  Ceticismo:
 A base do conhecimento não é segura, certa e indubitável, chega apenas a > Radical  não é possível qualquer tipo de
conhecimentos prováveis;  O saber tem uma validade relativa e conhecimento.
Empirismo > Remete para  indução limitada ao que se pode conhecer > Moderada (Hume)  não é possível
 causalidade empiricamente conhecer toda a realidade nem sequer ter
 Os empiristas negam a existência de ideias inatas; conhecimentos firmes e seguros, justificados
 A mente está vazia antes de receber qualquer tipo de informação racionalmente.
proveniente dos sentidos. Todo o conhecimento sobre as coisas, mesmo
aquele em que se elabora leis universais, provém da experiência, por isso
mesmo, só é válido dentro dos limites do observável.

Modelos explicativos do conhecimento:

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IV. O conhecimento e a racionalidade cientifica e tecnológica

2. Estatuto do conhecimento cientifico

2.1. Conhecimento vulgar e conhecimento cientifico

Conhecimento vulgar e Conhecimento científico

“O que tenho a dizer sobre a ciência pode ser formulado, muito abreviadamente, do seguinte modo: a
ciência não é a digestão dos dados sensoriais que recebemos através dos nossos olhos, ouvidos, etc., e que
combinamos de um modo ou de outro, que ligamos através de associações e depois transformamos em
teorias. A ciência é constituída por teorias, que são obra nossa. Nós fabricamos as teorias, saímos com
elas pelo mundo, analisamos o mundo ativamente e vemos qual a informação que podemos extrair,
arrancar do mundo. O universo não nos dá qualquer informação se não partirmos para ele com esta
atitude interrogativa: nós perguntamos ao universo se esta ou aquela teoria é verdadeira ou falsa.”
Karl Popper

� O texto de Popper refere-se a um tipo particular de conhecimento: a ciência. Chama a atenção para o

facto de o cientista não poder partir da observação vulgar para elaborar as teorias. Estas têm de resultar da

imaginação criador do cientista e só num segundo momento é que se processa a sua validação empírica. A

atitude do cientista é sempre ativa e de interrogação da realidade procurando que ela responda às questões

teóricas de modo a permitir concluir se a teoria é verdadeira ou falsa.

� Além da ciência há também o conhecimento vulgar ou senso comum. Vamos agora caracterizar cada

um destes níveis de conhecimento:

O Senso Comum

“O senso comum é um diabinho que tem mau aspeto. A tirania que exerce sobre o nosso juízo é
dissimulada, discreta e anónima. Regularmente diverte-se a enganar-nos. É verdade que a nossa
ingenuidade tem poucas desculpas. Numerosos filósofos puseram-nos na defensiva contra as
insuficiências do senso comum, revelando a sua natureza demasiado rudimentar e denunciando os seus
estratagemas. (...)
Desde o poema de Parménides (século V antes da nossa era), (...) que a opinião comum é submetida a
julgamento e pesadamente condenada: “nada há nela que seja verdadeiro ou digno de crédito”, foi assim
um dos primeiros a dizer que é preciso não acreditar demasiado nas crenças; a opinião não é a verdade e
os nossos sentidos estão repletos de inexatidões. (...)
O senso comum é necessariamente insidioso. Ninguém lhe escapa completamente. É aliás o que o define.
Certamente seria ridículo negar que o senso comum nos é quotidianamente de uma grande utilidade
prática. Aliás a vida corrente encarrega-se de chamar à ordem quem dele seja desprovido, por vezes com
uma certa crueza. Ele tem também uma utilidade funcional que nos é essencial. Que seria da atividade do
pensamento se não tivéssemos, à partida, uma pequena provisão de preconceitos para alimentar? Que

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faria o nosso cérebro se não tivesse grão para moer? Sem dúvida, nada de grandioso, mas é forços
reconhecer que o domínio de validade do senso comum é muito limitado.”
Etienne Klein

� Quais são então as características do senso comum? Podemos defini-lo como o modo comum, corrente

e espontâneo de conhecer adquirido na nossa vivência quotidiana. Permite ao homem resolver os

problemas com que se depara no dia a dia, adaptar-se o sobreviver. Características:

� Resulta de experiências pessoais e é influenciado pela cultura sendo transmitido de pais para filhos. É

um conhecimento empírico e superficial que depende da experiência quotidiana. Conforma-se com a

aparência, com aquilo que se pode comprovar observando sensorialmente as coisas.

✓ É ametódico, assistemático e fragmentário. Adquire-se sem o haver procurado ou estudado, sem a


aplicação de um método e sem reflexão.
✓ É um conhecimento ingénuo porque não é crítico, não problematiza nem questiona.
✓ É um conhecimento subjetivo, depende do sujeito que conhece, é uma mera opinião particular.
� Segundo alguns autores, o conhecimento científico pode partir do senso comum criticado e, segundo

outros, tem mesmo de operar uma rutura pois são duas formas de conhecer totalmente distintas podendo o

senso comum constituir-se como um obstáculo ao desenvolvimento da ciência. A ciência é um conjunto

de teorias construídas para compreender e explicar a realidade. Que características deve ter este

conhecimento para ser considerado válido?

Características da Ciência

“O enorme prestígio da ciência explica-se facilmente: deve-se à própria natureza da inteligibilidade


científica. Efetivamente, no seio do desejo de verdade e de certeza que obceca o nosso espírito, há como
uma tripla exigência, um triplo voto, a que a ciência positiva consegue responder de um modo
surpreendente. Em primeiro lugar, uma exigência de objetividade: precisamos de um saber objetivo, que
alcance as coisas tal como são e não como gostaríamos que fossem (...), dizendo de outro modo, o saber
verdadeiro ultrapassa a opinião. O que quer dizer que se pretende universal: que é a segunda exigência de
que falámos. Precisamos de um saber universalmente válido, capaz de criar o acordo entre os espíritos,
suscetível de ser verificado e controlado por outrem. Ao que se acrescenta, em terceiro lugar, uma
exigência de clareza e racionalidade. O espírito humano não se contente com a simples constatação, com
um armazenar e amontoar de dados. A sua intenção última é clarificar os factos, é captar o seu “como” e o
seu “porquê”, é explicar e compreender. Compreender é sempre, de uma certa maneira, considerar em
conjunto, descortinar relações, reduzir a diversidade de dados à unidade de uma ideia ou de uma lei, ou de
um simples sistema de ideias e de leis logicamente coerente; em resumo, é sempre introduzir a ordem,
unidade, clareza intelígível, na infinita complexidade dos acontecimentos que compõem o universo”.
Dondeyenne

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� Contrariamente ao senso comum, a ciência procura compreender e explicar a realidade, como se diz no

texto, o “como” e o “porquê” dos factos através da construção de leis, princípios e teorias que devem ser

objetivas, isto é, capazes de dizer adequadamente como as coisas que acontecem e serem válidas para

todos; deve ainda ser um conhecimento claro e racional, construído através de um método rigoroso e

adequado ao seu objeto, constituindo um sistema de conhecimentos coerente e articulado.

Em conclusão:
Ciência  atividade desenvolvida pela comunidade científica, num dado contexto histórico, em
laboratórios de universidades e outros centros de investigação.
� Elabora teorias ou hipóteses para explicar de forma racional/justificada/provada experimentalmente e
objetiva os fenómenos que estuda. (a ciência deve eliminar tudo aquilo que é subjetivo)
� É uma construção do homem  Resulta da sua imaginação para pensar respostas.
 Objeto: encontrar respostas para questões sobre o ser humano e o mundo, através do uso de métodos
de prova e de justificação que sejam racionais, objetivos e públicos.
 Resultados: leis e teorias. Estas teorias ou leis podem sempre sofrer revisão uma vez que não são
incontestáveis, ou seja, dogmas. A ciência não cria verdades absolutas ou teorias definitivas.
 Leis científicas: hipóteses que não foram desmentidas por facto algum. São proposições gerais
(válidas para todos os casos do mesmo género) que descrevem e explicam por que algo acontece.
Elas apenas verificam a ocorrência dos factos, analisando as causas e os efeitos relacionados com o
evento. Se uma lei científica é verdadeira, então nada no universo lhe desobedece. São, por isso,
universais. As leis científicas não são, contudo, verdadeiras; são sempre suscetíveis de revisão, pois a
ciência baseia-se no pensamento crítico. Por vezes, as leis científicas não são verdadeiras, mas são as
maias adequadas para o fenómeno.

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 Teorias científicas: conjuntos organizados e sistemáticos de leis que explicam um determinado tipo
de fenómenos. Na Ciência, uma teoria é o ponto máximo a que pode chegar uma hipótese. Se uma
proposição se tornou uma teoria, é explica suficientemente um fenómeno e, nas tentativas de falseá-
la, não foi possível refutá-la.
O que torna científica uma teoria ou uma lei?
1.Uma teoria é científica se, não negada pelos factos, tem valor explicativo e preditivo, isto é, permite
predizer novos fenómenos e factos dando conta deles.
2.Tem de ser testável. Deve ser possível confirmá-la ou refutá-la. (se não for testável será, por exemplo,
metafísica)

Senso comum:
Conhecimento relativamente superficial e acentuadamente prático que é partilhado por uma certa cultura
e transmitido de forma acrítica, de geração em geração, ou seja, este tipo de conhecimento está
estreitamente ligado às atividades quotidianas, resultando de generalizações que se baseiam na
experiência e na prática.
� Como se formam as crenças, técnicas e costumes característicos do senso comum?
1. experiência pessoal
2. por meio de testemunho dos outros
� Uma pessoa transmite-nos uma coisa  confiando no seu testemunho, podemos beneficiar das
observações e generalizações empíricas por eles realizadas  tradição  transmissão
3. popularização dos conhecimentos científicos
� Através dos meios de comunicação muitos conhecimentos científicos podem incorporar-se no
conhecimento comum, formando-se assim, conhecimentos mais ou menos vagos sobre genética,
astronomia, etc.
� Características do senso comum:
1. Caráter relativamente acrítico  o senso comum tende a aceitar a correção dos conhecimentos tal qual
como foram transmitidos.
2. Predomínio da descrição sobre a explicação  é próprio do senso comum indicar ou descrever o que
acontece e não o motivo por que acontece ou então as explicações oferecidas são incompletas e por vezes
fantasiosas.
3. Falta de sistematização  os seus conteúdos não estão relacionados entre si, não formam um conjunto
organizado e coerente.
4. É um conhecimento essencialmente prático, tratando principalmente de como temos de agir, o que
fazer para construir algo, que regras de comportamento devemos cumprir na relação com os outros.

IV. O conhecimento e a racionalidade cientifica e tecnológica

2. Estatuto do conhecimento cientifico

2.2. Ciência e construção – validade e verificalidade das hipóteses

Podem as hipóteses científicas ser verificadas

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� Na sua tentativa de explicar e prever alguns aspetos daquilo que acontece no mundo, os cientistas

formulam hipóteses, isto é, proposições e teorias que talvez sejam verdadeiras. (As teorias, aliás,

consistem em várias proposições organizadas sistematicamente.) Para avaliar uma hipótese

cientificamente, é preciso recorrer à observação ou experiência. E uma hipótese pode ser «validada» ou

«invalidada» pela experiência — ou, como se costuma dizer para evitar confusões com a noção de

«validade» que encontramos na lógica, pode ser confirmada ou refutada pela observação.

Método Cientifico

Indução

� A ciência utiliza o raciocínio indutivo

� Parte-se da observação de uma característica em casos particulares e generaliza-se concluindo-se que

todos os casos desse tipo têm a característica observada.

� Por que há indução na ciência?

 Ex.: Síndroma de Down

Os pacientes com Sindroma de Down têm um cromossoma a mais. Chegou-se a esta conclusão porque os

geneticistas examinaram um vasto número de pacientes com Síndroma de Down e verificaram que todos

eles tinham um cromossoma a mais.

 Ex.: Teoria de Newton – Teoria da gravitação

Observou apenas alguns corpos e inferiu que acontecia em todos os corpos.

� Análise de David Hume sobre a indução:

 “Será que o Sol se vai levantar amanhã?”

 Diremos que sim, porque até agora o Sol sempre apareceu no horizonte

 baseado no passado, diremos que o futuro será igual ao passado

� Hume dirá que não tem fundamentação/sustentação  o facto de ter nascido no passado não quer dizer

que irá nascer amanhã (nada nos garante que o futuro será como o passado).

� Por que acreditamos tão firmemente que será assim?

� Porque acreditamos que o futuro será como o passado, isto é, que a natureza se comporta sempre do

mesmo modo.

 Princípio da Uniformidade da Natureza  Segundo este princípio, a natureza

terá princípios uniformes (foi e sempre será)  a natureza comporta-se sempre da mesma maneira

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Não é válido porque é baseado na indução


Não serve de justificação para o raciocínio indutivo (só tivemos experiência de casos particulares)

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� Se a experiência não pode justificar a nossa crença na indução será que a nossa razão o consegue?
 Existe um princípio racional à priori que prove que os raciocínios indutivos são
válidos?
Não  Conclusão: Não há nenhum princípio racional nem empírico seguro que
fundamente o conhecimento baseado na indução.

Situação  Não há nada que justifique a indução

Problema fundamental  não tem fundamentação lógica

� As observações empíricas são pensadas como se não houvesse nada por trás. Só havia indução se a

mente fosse uma “tábua-rasa”.

Método Hipotético-Dedutivo

Uma das primeiras perspetivas sobre o método foi a de Francis Bacon, no século XVII, que teorizou o

método científico partindo da ideia de que não haveria ciência sem observação, uma vez que esta era o

próprio ponto de partida tanto para a formulação das teorias como para a sua verificação posterior. Assim

se deu origem a uma perspetiva sobre o método científico de inspiração empirista e que podemos resumir

nas seguintes regras:

1. Observação

Uma observação torna-se problemática quando revela as fragilidades de uma teoria, quando a contradiz,

isto é, põe em causa a sua capacidade explicativa  vai contra o que acontece numa teoria prévia

Ex.:

1. Em 1643, os encarregados do serviço de abastecimento de água em Florença foram surpreendidos por

um facto inesperado. Ao usarem uma bomba construída para extraírem água de uma cisterna sucedeu que,

enquanto se mantinha a cisterna a nível de certo modo elevado, a água saía abundantemente. Contudo, ao

descer a cisterna a um nível de 10,33 m, a água deixava de subir no interior da bomba vazia.

Contraria a teoria de Aristóteles: “a natureza tem horror ao vazio”

Surge então uma hipótese  Pressão atmosférica

2. Lavoisier  observa que o chumbo depois de queimado pesa mais do que o chumbo inicial

Trata-se de um facto polémico porque, segundo um dos químicos da época, a combustão de um corpo

metálico faz com que seja libertada uma substância chamada “flogístico”.

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Surge uma hipótese  existência do oxigénio  a combustão de um corpo implica a fixação do oxigénio do

ar e, por isso, o corpo fica mais pesado.

Esta observação problemática nunca é pura/ingénua; enquadra-se sempre numa teoria prévia

2. Formulação de hipóteses;

Hipótese  enunciado que se propõe como base para explicar por que motivo ou como se produz um

fenómeno ou um conjunto de fenómenos interligados

É necessário explicar por que motivo ou como se produz um fenómeno ou um conjunto de fenómenos

interligados

Podemos usar a indução na ciência, mas na formulação de hipóteses a indução não desempenha um papel

fundamental  a indução não tem caráter explicativo

Para formular a hipótese é preciso pensar  papel importante da imaginação/criatividade do cientista, mais

do que a observação empírica (observação mais imediata)

Atualmente, pensa-se que o papel da experiência na formulação das hipóteses é bem menor do que os

filósofos empiristas julgavam  a ideia de que a experiência é muito importante para clarificar o

conhecimento científico é algo que não é assim tão claro e nítido.

Para explicar os fenómenos são utilizadas suposições, analogias, imaginação

 Capacidade criativa e inteligência do cientista na formulação de hipóteses

3. Verificação experimental das hipóteses;

Uma vez estabelecida provisoriamente a hipótese, o passo imediatamente seguinte consiste em deduzir

dela determinadas consequências.

A dedução de consequências tem a ver com a necessidade de testar teorias. As consequências são testadas

para averiguar o grau explicativo da hipótese.

Quanto mais abrangente, maior será o número de consequências e maior probabilidade terá em ser falsa

A hipótese pode ser rejeitada se as consequências não passarem no teste

Umas passam, outras são refutadas

 Se são refutadas arranja-se outra teoria para que as consequências passem todas no teste

 rejeita-se a teoria na sua totalidade (a teoria é defendida como uma totalidade)

4. Lei (caso as hipóteses sejam verificadas).

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A teoria passa os testes e é aceite  a teoria foi verificada/aceite/confirmada, mas não podemos dizer que é

verdadeira porque ela pode vir a ser refutada

 A teoria não passa os testes e é refutada

 reformula-se essa mesma teoria

 formula-se uma nova teoria

Verificabilidade  ideia de que é possível tentar provar que uma teoria é verdadeira

Como é claro, neste tipo de método valoriza-se a indução como a operação da razão que permite passar de

um certo número de casos observado para uma lei universal.

Outras perspetivas sobre o método científico valorizavam a dedução. Nestas se inclui o pensamento de

Descartes que, ao considerar as ideias como produção da razão sem necessidade da contribuição dos

sentidos, defende poder deduzir das ideias todos os outros conhecimentos.

Com o aparecimento da física de Galileu (um pouco antes de Descartes), surge uma nova forma de

conceber o método científico, valorizando o papel da hipótese e da dedução matemática das

consequências da hipótese. Dá-se grande relevância à teorização que deve preceder a formulação da

hipótese e ao caráter teórico da própria hipótese. Realça-se o caráter ideal e abstrato da lei científica.

“As leis da física galilaica são, com efeito, leis “abstratas”, que sem mais não têm validade para os corpos
reais. Sem dúvida que respeitam a uma realidade; mas essa realidade não é a experiência quotidiana; é
uma realidade ideal e abstrata. Nós não precisamos que nos lembrem isto; estamos demasiado habituados
a essa abstração. Precisamos até do contrário: de que nos recordem que o mundo ideal da física
matemática não é, para falar verdade, o mundo real.”
A. Koyré

O papel da observação em ciência é então criticado e suplantado pelo da teorização que deu origem a uma

nova perspetiva sobre este tipo de conhecimento e sobre o método da sua construção.

Podemos então considerar que a ciência contemporânea, na sequência da proposta originariamente

apresentada por Galileu, inclina-se mais para considerar que o método indutivo não permite alcançar as

finalidades que a ciência pretende atingir e propõe, em alternativa, aquilo que se pode designar por

método hipotético-dedutivo. Este, como vimos no texto anterior, considera não se poder partir da

observação empírica mas de um facto problema surgido no seio de uma teoria.

Assim, podemos dizer que o método hipotético-dedutivo contém os seguintes momentos:

1. Formulação de um problema;

2. Enunciação de uma hipótese;

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3. Dedução das consequências a partir da hipótese;

4. Verificação da hipótese;

5. Refutação ou confirmação da hipótese.

Em conclusão:
O modelo nomológico-dedutivo

� As explicações científicas de acontecimentos são argumentos dedutivamente válidos cuja conclusão é


o explanandum e cujas premissas são o explanans.
� O explanans de uma explicação científica indica pelo menos uma regularidade ou lei da natureza e
pelo menos uma proposição que descreve condições iniciais.

� Explicar um acontecimento é mostrar que, em virtude de certas regularidades ou leis da natureza, este
tinha de ocorrer dada a realização de certas condições iniciais.
� Explicar uma lei é deduzi-la de leis mais gerais.
O modelo estatístico-indutivo
� Explicar um acontecimento é mostrar que, em virtude de certas regularidades ou leis, este tinha uma
probabilidade elevada de ocorrer dada a realização de certas condições iniciais.
(Pelo menos uma das regularidades ou leis tem uma caráter estatístico.)

O Falsificacionismo de Karl Popper

Método falsificacionista  o cientista deve tentar refutar a sua teoria e não tentar confirmá-la porque por

mais vezes que a teoria passe no teste não pode ser considerada verdade.

Contra a verificabilidade

Partimos de hipóteses/teorias/conjeturas

 A hipótese ou teoria é sempre universal  explica como a natureza/mundo se comporta agora, no

passado e no futuro (para sempre) mas como o confronto com a experiência ou verificação é um caso

particular, não nos diz que será válida para sempre

 Como não podem ser verificadas, implicaria que se observassem todos os casos

particulares passados, presentes e futuros, o que é impossível.

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É universal mas cada experiência/teste é sempre realizada num espaço e tempo particulares, ou seja,

qualquer verificação é particular

Como não sabemos como o Mundo é, formulamos hipóteses para chegar à verdade, mas nunca temos a

certeza de que é verdadeira

 Sendo a hipótese universal, nunca há verificação universal

Não podemos querer dizer que uma teoria é verdadeira (nem provavelmente verdadeira)  só podemos

dizer que é falsa

Verificabilidade

TC

C Falácia da afirmação do consequente  o esquema da verificabilidade é falacioso

Logo, T

Proposta  Falsificabilidade  possibilidade de mostrar que uma hipótese é falsa

TC
NC Modus Tolens
Logo, NT

Devemos sempre tentar refutar a hipótese


 Se não podemos refutar uma teoria  Teoria não refutada  Corroborada
(maior espírito crítico pois procura-se os erros da sua teoria  procura-se mostrar que a sua teoria
é uma má teoria)

Segundo Popper não há verificabilidade

Consequências da falsificabilidade

a) Altera a relação ciência/verdade de uma teoria

Nunca se pode dizer que uma teoria é verdadeira:

 ou e falsa

 ou é corroborada

O cientista já não deve procurar a verdade da teoria mas sim tentar falsificá-la. Só pode dizer que uma

teoria é falsa. Se uma teoria resiste aos testes, diz-se-á corroborada (ainda não refutada), mas nunca

verdadeira nem possivelmente verdadeira.

b) Permite distinguir teorias científicas de não científicas (critério de demarcação de ciência/não ciência)

Porque uma teoria só é científica se for falsificável (“testável experimentalmente”)

Como é que a ciência progride?

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A ciência desenvolve-se/avança segundo conjeturas para resolver problemas e refutações ou por

ensaio/tentativa e erro  quando mostramos que as nossas teorias não são assim tão boas  formulação de

novas teorias ou melhoramento

 por ensaio e erro (conjeturas e refutações)

Quando há uma refutação a ciência avança

Quanto mais as teorias resistirem, mais fortes são, mas não temos a certeza que seja verdadeira e que

corresponda à realidade

A ciência parte de problemas  os problemas exigem respostas hipotéticas (teorias)

Devemos procurar erros na nossa teoria

Qual o papel do erro na ciência?

É aprender para evoluir, o que só é possível com uma atitude crítica (a atitude crítica é essencial na

ciência segundo Popper, porque só conseguimos encontrar erros se assumirmos uma atitude crítica)

Como é que Popper caracteriza a ciência quanto à verdade?

A ciência avança numa crescente e progressiva aproximação à verdade/crescente objetividade

O cientista procura falsificar

As teorias que não são falsificadas são corroboradas (não há diferentes níveis)

Ex.:
Teoria de Newton
Segundo Newton, a órbita de Mercúrio deveria comportar-se de certo modo, mas foi verificado que a
órbita era outra
Problema: Desvio na órbita do planeta Mercúrio

Teoria de Einstein
O problema é resolvido pela teoria de Einstein (que a teoria de Newton não explicava)
Ao ser resolvido o problema podemos dizer que a ciência avança numa crescente e progressiva
aproximação à verdade?  É preciso que a teoria de Einstein resolva o problema que a teoria de Newton
não explicava e que explique tudo o que a teoria de Newton já explicava

Como pode evoluir a ciência se ela avança apenas pela negativa?

 crescente aproximação da realidade

 crescente aproximação da objetividade no mundo

As novas teorias têm que dar conta dos erros que a outra dava e tem que explicar o que a antiga já

explicava

 só assim há um progresso em relação à verdade

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Alarga o campo do conhecimento em relação ao mundo  mais objetivo

Aproximação à verdade  maior objetividade (melhor representação do mundo)

Não acrescenta por mera acumulação  acrescenta através de uma perspetiva crítica

Crítica à indução:

Não há indução porque não há observação pura  toda a observação tem por trás sempre uma

expectativa/perspetiva/teoria/hipótese

Temos sempre alguma carga que nasce connosco que vai condicionar a maneira como nos relacionamos

com o mundo.

Na ciência sobrevivem as teorias mais aptas

Acontece desde o plano mais básico (biológico) até à ciência. A ciência, como os indivíduos, partem de

problemas.

O indivíduo adapta-se biologicamente, de forma crescente ao mundo, e a ciência aproxima-se gradual e

progressivamente à verdade  tentativa e erro (há sempre uma tentativa de adaptação ao mundo. Só se

aprende se se errar).

A primeira teoria é quando nascemos (carga biológica com que nascemos)

Ciência  modo mais elaborado de nos relacionarmos com o mundo. Funciona em continuidade com uma

visão pré-científica do mundo

Há medida que se aproxima da verdade vai tendo uma visão mais objetiva do mundo (a ciência)

Por que há relação entre a verificação e lógica indutiva?

Indução:

 Observação empírica (pura)  generalização

 Quantas mais observações parece mais verdadeira a conclusão  confirma a generalização

 É sempre inconclusivo  pode ser sempre refutado

Método hipotético-dedutivo

 Hipótese  Consequências  experimentação (observação conforme a hipótese prevê) 

confirmar/verificar

O que há de comum?

É a ideia de que a experiência é que dita a última palavra sobre a verdade ou validade das hipóteses

Assim sendo:

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Apontamentos para o exame nacional 2007 Filosofia 10º/ 11º anos

Em

conclusão:
� Uma teoria do método científico procura responder às seguintes questões:
1) Qual é o ponto de partida das teorias científicas?
2) Como se chega à formulação das teorias científicas?
3) O que se faz às teorias científicas depois de terem sido formuladas?

Objeções ao indutivismo
� Não é possível registar e classificar factos empíricos sem atender a qualquer perspetiva teórica.
� As leis científicas que dizem respeito ao inobservável não podem resultar de simples generalizações
indutivas baseadas na observação.

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Objeções ao falsificacionismo
� Muitas vezes os cientistas trabalham sobretudo com o objetivo de confirmar as teorias e continuam a
defendê-las mesmo quando as previsões empíricas delas deduzidas não ocorreram.
� Não é fácil refutar conclusivamente uma teoria. Dado que as previsões empíricas são deduzidas de um
vasto conjunto de hipóteses, se estas fracassarem podemos apenas concluir que pelo menos uma dessas
hipóteses (que pode nem pertencer à teoria) é falsa.

IV. O conhecimento e a racionalidade cientifica e tecnológica

2. Estatuto do conhecimento cientifico

2.3. A racionalidade cientifica e a questão da objetividade

� Possibilidade do que seja o mundo  confrontada com a crítica e experimentação para chegar à

realidade e objetividade  corresponde à eliminação de todos os elementos subjetivos (pela negativa);

corresponde a uma representação do mundo que corresponda ao que as coisas são, à realidade (pela

positiva)

� O cientista tem que afastar tudo o que é sonho/devaneio (texto de Jacob)

� Objetividade na ciência  depende dos meios (tecnológicos, por exemplo)

 A objetividade é mutável, mas é a finalidade da ciência

� A ciência é objetiva  critério para a objetividade: é formulada em linguagem matemática e rigorosa (a

linguagem matemática é universal)

� A ciência será um processo de desenvolvimento contínuo (em que a nova teoria prolonga a anterior) ou

descontínuo (em que a nova teoria não é comparável com a anterior)

� A objetividade absoluta é ideia apenas, tal como uma ciência acabada

 Questão: não estará a realidade sempre para lá da representação que a ciência constrói?

Problema: há continuidade/descontinuidade na ciência?

A perspetiva de Kuhn sobre a objetividade da ciência

� Perspetiva descontinuista do desenvolvimento da ciência

� A atividade científica tem 3 conceitos fundamentais:

 paradigma

 ciência normal e ciência extraordinária

 revolução científica

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� Tem uma visão mais realista

Os cientistas investigam baseados no paradigma

O paradigma é uma visão do mundo que engloba:

 a teoria dominante

 princípios filosóficos

 conceção metodológica

 procedimentos técnicos, etc.

Ciência normal:

� Período de vigência de um paradigma  período em que os cientistas investigam segundo o que diz o

paradigma

� Durante este período podem surgir anomalias  começam a haver desvios no que a teoria devia dar

conta

 Se não houverem muitas há uma desvalorização dessas mesmas anomalias (1ª reação)

 Quando há anomalias em grande número entra-se num período de crise/momentos

críticos


Instabilidade na prática científica  conflito/ausência de consenso

Período de ciência extraordinária

Ciência extraordinária  Quando os cientistas se apercebem que é necessário outro tipo de respostas

� O paradigma utilizado começa a ser posto em causa, mas ainda não há um novo modelo; esse modelo

vai ser formulado no período de ciência extraordinária

 Revolução científica  passagem de um paradigma para outro

� Paradigma 1 é substituído pelo paradigma 2

� O paradigma 2 não possui as mesmas características que o paradigma 1  os pressupostos vão ser

completamente diferentes  baseado em princípios diferentes

P1 e P2 são incomensuráveis  não podem ser comparados porque partem de pressupostos completamente

diferentes


Surgimento da descontinuidade (incomensurabilidade)

Consequências:
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 cai-se numa perspetiva relativista (as respostas que um paradigma dá são relativas a esse mesmo

paradigma)

� O paradigma 2 não é melhor que o paradigma 1; é apenas diferente

 a ciência não procura a verdade

 a realidade depende do paradigma vigente

 o conceito de objetividade é muito matizado (muito relativo)

� Critérios para a aceitação de um paradigma:


 capacidade para explicar factos polémicos persistentes

 utilidade na resolução de problemas

 realização de previsões adequadas

 aura e prestígio dos cientistas que inventam uma nova teoria e a defendem

O conceito de objetividade acaba por se diluir em parte porque alguns dos critérios são subjetivos

� Kuhn  esquema complexo mas mais próximo da realidade

Em conclusão
O modelo da evolução da ciência de Thomas Kuhn
� No período da pré-ciência várias escolas rivais discutem incessantemente os fundamentos da
disciplina em questão.
� Esse período termina quando uma teoria bem sucedida institui um paradigma.

� Instituído um paradigma, inicia-se um período de ciência normal.


� A ciência normal é uma atividade de resolução de enigmas, tanto teóricos como experimentais,
governada pelas leis, regras e princípios do paradigma.
� Durante este período surgem anomalias. Uma anomalia é um enigma, teórico ou experimental, que não
encontra solução no âmbito do paradigma vigente.
� Devido à acumulação de anomalias, irrompe uma crise: a confiança num paradigma é abalada.
� Surge assim um período de ciência extraordinária, marcado pela contestação do paradigma e pela
procura de alternativas.

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� Ocorre uma revolução científica quando o paradigma é substituído por um novo paradigma, à luz do
qual se retoma a atividade da ciência normal.
� Os paradigmas são incomensuráveis. A incomensurabilidade dos paradigmas é a impossibilidade de
compará-los objetivamente de maneira a concluir que um é melhor do que o outro.
� Assim, a ciência não progride em direção à verdade.

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