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Amostragem Georreferenciada
André F. Colaço¹; José P. Molin²
¹ Eng. Agrônomo, MSc, Doutoran-
A amostragem georeferenciada, verificar o status nutricional de
do em Engenharia de Sistemas
Agrícolas (USP-ESALQ); especialmente a amostragem de uma cultura (por meio de amos-
² Prof. Dr. Associado III, coorde- solo, se tornou uma das principais tras de tecido vegetal), para esti-
nador do Laboratório de Agricul-
tura de Precisão (USP-ESALQ).
ferramentas utilizadas na Agricul- mar a incidência de doenças ou
tura de Precisão (AP) praticada pragas (amostragem da ocorrên-
Quem somos? atualmente no Brasil. Essa técnica cia em pontos ao longo dos ta-
O LAP, oficializado em 2008, visa gerar mapas de atributos do lhões), etc.
é um laboratório dentro da solo e com isso orientar aplicações Dentro das aplicações em AP,
USP-ESALQ dedicado ao de fertilizantes e corretivos de solo a amostragem representa uma
estudo da Agricultura de Pre- em taxas variáveis, ou seja, de das principais formas de levanta-
cisão, envolvendo infraestru- acordo com as demandas locais mento de dados do campo, for-
tura e pessoas em torno do evidenciadas pelos mapas. O pre- necendo informações essenciais
tema. sente texto busca abordar concei- para a posterior aplicação dos
Quais os objetivos? tos envolvidos na amostragem ge- insumos. Ela tem como objetivo,
Oferecer infraestrutura e am- orreferenciada, com foco especial não só caracterizar a condição
biente de trabalho para as para amostragem de solo, dada da lavoura para certo parâmetro,
atividades e projetos relacio- sua importância no contexto atual mas também estimar a distribui-
nados ao estudo da variabili- da AP. ção espacial do atributo, ou seja,
dade espacial das lavouras e A amostragem é um procedi- determinar o quanto ele varia
das tecnologias embarcadas mento que visa caracterizar um dentro do talhão. Para tanto, a
nos veículos e máquinas agrí- todo a partir da avaliação de ape- amostragem passa por duas al-
colas. nas uma pequena porção repre- terações principais em relação
Onde estamos localizados? sentativa do mesmo. Nas ativida- àquela utilizada nas práticas
O LAP está sediado junto ao des agrícolas, esse é um processo convencionais. A primeira se re-
Departamento de Engenharia imprescindível para o levantamen- fere à quantidade de amostras,
de Biossistemas da USP- to de parâmetros da lavoura, uma que deve ser significativamente
ESALQ, em Piracicaba-SP. vez que avaliar um campo de pro- maior. Em segundo, ela deve ser
dução em sua totalidade é normal- georreferenciada, ou seja, deve
mente uma tarefa inviável econô- ter a sua posição conhecida no
mica ou tecnicamente. A amostra- espaço , o que permite o mapea-
gem é empregada comumente na mento daquele ou daqueles atri-
avaliação da fertilidade do solo (a butos. Os demais procedimentos
partir de amostras de solo), para da amostragem, por exemplo,
Amostragem Georreferenciada - André F. Colaço; José P. Molin

profundidade da coleta de solo, folha seleciona- campo em polígonos regulares (quadrados ou


da para amostras de tecido, deve seguir, na me- hexágonos, por exemplo). Dentro de cada polí-
dida do possível, as prescrições estabelecidas gono é gerado um ponto amostral. Este pode
para a coleta de amostras já utilizadas na prática estar localizado no centro ou aleatoriamente no
convencional.
seu interior (Figura 1). As coordenadas dos pon-
Existem basicamente dois métodos para a
tos são então transferidas para um receptor
amostragem georreferenciada no contexto da
GNSS de navegação que guiará a equipe de co-
AP, cada um deles com algumas variações. O
leta até cada local de amostragem. Ao redor de
primeiro denomina-se amostragem em grade,
cada ponto georreferenciado são coletadas su-
que por sua vez, apresenta dois tipos, a amos-
bamostras. Orienta-se que elas sejam retiradas
tragem por ponto ou por célula. Em ambos, os
dentro de um raio em torno do ponto equiva-
locais de amostragem são distribuídos sistemati-
lente ao erro de posicionamento do receptor de
camente, de maneira a cobrir todo o talhão. O
GNSS utilizado, por exemplo, 3 a 5 m para um
segundo método é a amostragem direcionada,
receptor de navegação comum. Com essa práti-
onde os locais de coleta são atribuídos de acor-
ca, pretende-se diluir o erro do receptor para a
do com mapas de outros fatores, como mapas
representação do ponto amostral. A quantidade
de produtividade, por exemplo, que indicam re-
de subamostras varia dependendo do fator
giões que demandam investigação por amostra-
amostrado. Quanto maior o número de suba-
gem.
mostras menor será o erro amostral, porém mai-
or será o tempo demandado para o trabalho e
Amostragem em grade por ponto consequentemente, maior o custo. Tem sido co-
mum a coleta em torno de 8 a 12 subamostras
A amostragem de solo em grade por ponto é
por ponto para a amostragem de solo. As suba-
o procedimento de investigação que mais se po-
mostras são então homogeneizadas gerando
pularizou no Brasil, especialmente pela ação de
uma amostra composta. Posteriormente, os re-
empresas prestadoras de consultoria e serviços
sultados laboratoriais de cada amostra são vin-
em AP. Nessa técnica, uma grade regular virtual
culados às respectivas coordenadas. Para gera-
é gerada sobre o talhão por meio de um sistema
ção do mapa final é realizada a interpolação dos
de informação geográfica (SIG), dividindo o

Figura 1: Alocação de pontos no centro (a) e aleatoriamente (b) dentro dos polígonos da grade

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Figura 2: Geração do mapa de fertilidade por meio da interpolação de dados obtidos por amostragem em grade

dados, que estima valores em locais não amos- grades amostrais. Muitas vezes, é notada a utili-
trados, preenchendo assim toda a superfície do zação de grades pouco densas, na ordem de três
mapa (Figura 2). a cinco hectares por amostra (0,3 a 0,2 pontos
Um fator importante para o planejamento da por hectare), o que não é recomendado, visto
que normalmente análises geoestatísticas indi-
amostragem por ponto, e talvez uma das per-
cam densidades em torno de uma amostra por
guntas mais frequentes entre os praticantes da
hectare ou mais.
amostragem em AP, é a densidade amostral, ou
seja, a quantidade de pontos amostrais por uni- Amostragem em grade por célula
dade de área. A densidade amostral afeta direta-
mente a qualidade do mapa final gerado a partir
da amostragem. De maneira geral, quanto maior Para a amostragem em grade por célula, o
a quantidade de pontos, melhor é a representa- campo é dividido em subáreas, não necessaria-
ção da área, porém mais cara e laboriosa fica a mente regulares, denominadas células. Ao con-
trário da amostragem por ponto, nesse caso as
coleta e a análise das amostras. Idealmente,
subamostras serão coletadas ao longo de toda a
busca-se a menor densidade amostral possível,
área de cada célula. É esperado que a quantida-
porém sem prejudicar a qualidade do produto
de de subamostras seja maior que aquela men-
final. cionada para a amostragem por ponto, uma vez
O que limita a redução da densidade é a inter- que a área que se pretende cobrir é muito mai-
polação dos dados, pois quanto maior a distân- or. Após a homogeinização das subamostras,
cia entre os pontos, pior é a estimativa de valo- uma amostra composta é gerada e o resultado
res no espaço entre eles. Sendo assim, a distân- de sua análise é atribuído a toda a área da célu-
cia entre amostras, não deve exceder um limite la, e não mais ao ponto amostral como anterior-
aceitável para uma interpolação adequada. A mente. Para geração do mapa final não é neces-
maneira mais consolidada para se definir tal dis- sária, tampouco recomendada, a interpolação, já
tância é por meio da geoestatística, que aponta que não existem lacunas no espaço que exijam
a distância entre pontos a partir da qual não estimação de valores. Para a plotagem e visuali-
existe mais semelhança entre eles. A partir daí, a zação final basta gerar um gradiente de cores de
estimação de valores pela interpolação é preju- acordo com os valores obtidos em cada célula
dicada. Poucos praticantes da amostragem ge- (Figura 3).
orreferenciada efetivamente aplicam análises
geoestatísticas para definir as dimensões das

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Amostragem Georreferenciada - André F. Colaço; José P. Molin

Figura 3: Mapa de fertilidade obtido por amostragem em grade por célula

Nota-se que para essa metodologia não há dos da área, buscando investigar locais específi-
preocupação em relação à densidade amostral, cos no talhão.
uma vez que não é aplicada a interpolação. De Para definir os pontos de amostragem é reco-
fato, a amostragem por célula é uma alternativa mendado o uso de mapas de produtividade, ín-
para aqueles que pretendem realizar amostra- dice de vegetação (como o NDVI), relevo, mapas
gem em grade, porém consideram muito alta a de tipo de solo, textura ou condutividade elétri-
quantidade de amostras exigida no método por ca do solo.
pontos. Esses mapas podem evidenciar regiões que
necessitam investigação, por exemplo, áreas de
baixa produtividade ou baixo índice de vegeta-
Amostragem direcionada
ção (Figura 4). No caso de sistemas que empre-
gam unidades de gestão diferenciada (UGD), o
Na amostragem direcionada, não existe uma direcionamento da amostragem será realizado
disposição regular dos locais de amostragem. com base nas UGDs, ou seja, uma amostra com-
Eles são escolhidos com base em mapas já obti- posta por unidade.
A amostragem direcionada é recomendada
para sistemas de produção mais amadurecidos
em AP, já que se exige histórico de dados sobre
a área.

Equipamentos para amostragem de


solo

Como a quantidade de amostras coletadas


em AP é significativamente maior do que na
prática convencional, é natural que os sistemas
de coleta evoluíssem para ferramentas mais prá-
ticas e ágeis (Figura 5 e 6). Embora se deva con-
siderar que os amostradores convencionais tam-
bém podem ser utilizados. Os sistemas de amos-
tragem de solo são normalmente compostos por
uma fonte de potência, um elemento sacador e
em alguns casos um veículo para transporte. Co-
Figura 4: Amostragem direcionada com base em ma- mo fonte de potência tem-se principalmente
pa de produtividade motores de combustão interna, que são autôno-

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forme e, portanto podem ser caracterizados por


meio de mapas. A amostragem nesses casos po-
de seguir as mesmas metodologias menciona-
das anteriormente (em grade ou direcionada).
Os procedimentos de amostragem como a con-
tagem de insetos ou observação de patógenos,
por exemplo, devem seguir as mesmas reco-
mendações já estabelecidas para esse tipo de
levantamento. O maior gargalo para a amostra-
gem georreferenciada de atributos fitossanitá-
rios está muitas vezes na falta de metodologias
ou estudos sobre o comportamento espacial da
praga ou doença a ser investigada. Se uma de-
terminada praga apresentar alta capacidade de
Figura 5: Amostrador hidráulico automatizado monta- movimentação, a sua ocorrência durante a
do em quadriciclo amostragem pode não ser a mesma da observa-
da no momento do controle.
mos, os motores elétricos, que necessitam de
alimentação externa, ou os hidráulicos, que se
utilizam do sistema hidráulico do trator, do veí-
culo ou de um motor e bomba hidráulica exter-
nos. Como elemento sacador, têm-se os trados
de rosca, caneca ou holandês e caladores ou
sondas. Os mais comuns em sistemas mecaniza-
dos de amostragem são os trados de rosca e ca-
ladores. Como veículos, tem sido comum a utili-
zação de quadriciclos, caminhonetes, utilitários
ou o próprio trator.

Amostragem georreferenciada de
pragas e doenças

Embora a amostragem de solo seja a mais


comum, outros fatores também podem ser in-
vestigados por meio de amostragem georrefe-
renciada com o intuito de subsidiar tratamentos
localizados.
Figura 6: Amostrador manual com motor de com-
Normalmente, a incidência de pragas e doen-
bustão interna
ças em uma lavoura não ocorre de maneira uni-

Contato:
Laboratório de Agricultura de Precisão
Departamento de Engenharia de Biossistemas Visite nosso site:
Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz”
Universidade de São Paulo
www.agriculturadeprecisao.org.br
Av. Pádua Dias, 11 - CEP 13418-900
Piracicaba - SP

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