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A RELAÇÃO ENTRE O CONSUMO E O USO DE ARTIGOS ESPORTIVOS

OFICIAIS PELA TORCIDA FEMININA DO CEARÁ SPORTING CLUB

Bruna Erika Costa Bringel


Universidade Federal do Ceará - UFC
brunacbringel@hotmail.com

Orientadora: Profa. Dra. Francisca R. N. Mendes


Universidade Federal do Ceará- UFC
franciscarnmendes@gmail.com

RESUMO

A presença da torcida feminina no futebol é um fenômeno crescente nos últimos anos. Entretanto,
apesar de serem potenciais consumidoras de produtos relacionados ao seu time de preferência, o uso de
artigos futebolísticos ainda é muito limitado fora do ambiente esportivo. Tendo como objeto de estudo
compreender com que frequência as mulheres torcedoras de times de futebol, no caso, do Ceará Sporting
Club, consomem produtos oficiais do time. Através de uma pesquisa quantitativa, aplicada por intermédio
de um questionário, se propôs a compreender a maneira com que este consumo ocorre, chegando-se ao
entendimento de que o uso destes produtos poderia ser maior, desde que tivesse atenção maior a este
segmento da torcida, criando peças que apelem esteticamente e fisicamente ao público feminino.

Palavras-chave: Mulher e Futebol. Ceará Sporting Club. Consumo e uso.

ABSTRACT

The presence of female fans in football is a growing phenomenon in recent years. However, despite
being potential consumers of products related to their team of preference, the use of football articles is still
very limited outside the sporting environment. The purpose of this study is to understand how often women
football fans, in the case of Ceará Sporting Club, consume official products of the team. Through a
qualitative research, applied through a questionnaire, it was proposed to understand the way in which this
consumption occurs, arriving at the understanding that the use of these products could be greater, since it
had greater attention to this segment of the crowd , creating pieces that appeal aesthetically and physically
to the female audience.

Keywords: Woman and Soccer. Ceará Sporting Club. Consumption and use.

INTRODUÇÃO

Desde pequenos somos treinados a seguir determinados conceitos que nos são
impostos por nossa sociedade, conforme Luire (1991), a distinção de roupas segundo o
sexo se inicia com o enxoval de bebê, berço e móveis rosados para as meninas e azuis
para os meninos. Essa distinção permanece na vida adulta e se o azul passou a ser mais
frequente nos guarda-roupas femininos, o rosa ainda é algo mais raro no vestuário
masculino.
Ainda de acordo com Luire (1991), um propósito básico do vestuário é, portanto,
distinguir os homens das mulheres. Os gêneros seriam diferenciados pelo uso específicos
de algumas peças, como por exemplo, o uso de um vestido por uma mulher e um smoking
por um homem.

Essas diferenças de gênero também são presentes em outros padrões como


cozinhar ser “coisa de mulher” e futebol “de homem”. Mas até que ponto nos dias de hoje
o futebol ainda é considerado uma exclusividade masculina?

Segundo Bambirra (2010), o futebol é um dos meios pela qual a identidade


brasileira se expressa, portanto, não podemos restringi-lo ao universo masculino. A
presença de mulheres em estádios, por exemplo, é algo bastante comum atualmente, Costa
(2006), afirma que nunca na história do futebol a participação das mulheres foi tão grande
e significativa, e conclui posteriormente que a proliferação de alguns produtos criados
para uso específico do público feminino demonstra que o interesse das mulheres pelo
futebol só faz crescer nos últimos anos.
Com o intuito de trazer a pesquisa para o âmbito local, foi analisado o
comportamento das torcedoras do Ceará Sporting Club. O time fundado na capital
cearense, em 1914, é apontado em seu livro comemorativo 100 anos de paixão, como o
detentor da maior torcida do Estado de acordo com Institutos de pesquisa como o
Datafolha e Ibope.
A partir da observação do aumento da torcida feminina, presente em estádios
ou em outros ambientes futebolísticos surgiu o interesse de relacionar o tema com o
vestuário das mulheres. Segundo Luire (1991) escolher roupas, em casa ou na loja, é nos
definir e descrever, a partir de tal afirmação surge o interesse de analisar de que forma
essas torcedoras se expressam ao utilizar, ou não, os uniformes do clube.
Analisar a relação entre o consumo de camisas de uniformes e produtos
oficiais do Ceará Sporting Club e o uso das mesmas peças no cotidiano dessas torcedoras,
buscando entender até onde a moda e suas tendências influenciam na utilização, ou não,
dessas peças fora do contexto esportivo.
A obtenção de dados para a pesquisa que embasa o presente estudo, se deu através
de questionário, desenvolvido a partir de uma abordagem quantitativa, recebendo esta
classificação por ter seus resultados quantificados, centrando-se, assim, na objetividade,
como esclarece Fonseca (2002, p. 20).
O questionário foi aplicado com cinquenta e uma clientes da loja oficial do Ceará
Sporting Club, do período de 21 a 28 de maio de 2018, através de um formulário online,
em que as perguntas buscaram compreender os hábitos destas consumidoras, bem como
suas insatisfações em relação aos produtos vendidos na loja, além de informações básicas,
como faixa etária e renda.
Quanto ao objetivo, a pesquisa foi de caráter descritivo, com pesquisas
bibliográfica e documental, em livros, revistas, artigos e sites que abordem o assunto,
compreendendo a relação entre as torcedoras, o consumo e o uso de produtos oficiais do
Ceará. De acordo com Sá-Silva, Almeida e Guindan (2009), tanto a pesquisa documental
como a pesquisa bibliográfica têm o documento como objeto de investigação. No entanto,
o conceito de documento ultrapassa a ideia de textos escritos e/ou impressos.
A pesquisa bibliográfica de acordo com Sá-Silva, Almeida e Guindan (2009),
remete para as contribuições de diferentes autores sobre o tema, atentando para asfontes
secundárias, a mesmafora realizada através de publicações que remetiam ao tema
estudado.
Em questionário aplicado as torcedoras do clube cearense, clientes da loja
Sou Mais, constatamos que as mesmas, em sua maioria, utilizam os produtos apenas em
jogos ou eventos esportivos. Os principais fatores apontados para o uso em ocasiões tão
específicas são a falta de modelagens que valorizem mais o corpo feminino, assim como
a escassez de peças mais diferenciadas e bonitas, segundo o gosto das consumidoras.
De acordo com Luire (1991), nessa cultura, assim como em muitas outras,
determinadas peças de roupas são tabus para certas pessoas, com isso buscamos
compreender também se camisas de times ainda são vistas como artigos masculinos,
sendo, teoricamente, impróprias ao vestuário casual das mulheres.
O presente estudo inicia com uma abordagem sobre moda, vestuário e uniforme,
relacionando estes três tópicos e mostrando seu ponto de interseção, introduzindo ao
universo da moda esportiva no nicho do futebol cearense. Em seguida, é abordada a
história dos uniformes do Ceará Esporte Club, sua simbologia e influência na torcida. Por
fim, e explanada a relação entre o consumo e o uso dos artigos pela torcida feminina do
time, trazendo os dados obtidos através da pesquisa e suas implicações diretas.

2 MODA, VESTUÁRIO E UNIFORME


Não devemos confundir moda e vestuário, apesar dos mesmos estarem ligados,
segundo Sant’Anna (2009) o vestuário proporciona o exercício da moda, e esta atua no
campo do imaginário, dos significantes; é parte integrante da cultura. O corpo é o suporte
da roupa, podendo a mesma possuir diversos significados.

As roupas, por serem signos que carregam em si uma série de significados


atrelados à beleza, à juventude, è feminilidade ou masculinidade, à riqueza e
distinção social ou à marginalidade, à alegria ou tristeza etc., imprimem ao seu
portador uma escolha diária de posicionamento no conjunto maior das teias de
significados compostos como cultura. (SANT’ANNA, 2009, p. 76).

O sistema de moda seria a própria dinâmica que produziu a modernidade, afirma


Sant’Anna (2009). A moda além de apontar gostos de determinados grupos, também
busca uma distinção social dos demais. Carvalhal (2014) nos aponta que moda é
expressão e todas nossas escolhas (de forma consciente ou inconsciente) são coerentes
com quem somos (ou gostaríamos de ser), mesmo as mais impulsivas.
Segundo Carvalhal (2016) a moda pode nos ajudar (com ela), pois o que nos atrai
sinceramente é o reflexo do nosso interior, o autor ainda afirma que, quando nos atraímos
ou sentimos afinidade por alguma coisa é porque os valores que sentimos presentes ali
são mais claros neles do que em nossa mente. A moda é uma extensão do corpo e ao usar
a moda para olhar pra dentro de nós mesmo, podemos retomar partes de nossa
personalidade.
A roupa é o principal recurso ao qual se recorre quando se tenta expressar algo,
por meio de uma comunicação não-verbal, para Carvalhal (2014), moda é expressão, é
arte, e só se atribui a ela a característica de futilidade, quando dela o indivíduo se torna
“escravo”, caso contrário, quando a moda é consumida, também é consumida identidade,
a busca por personalidade e o eu interior são exercitadas nesse momento. O modo como
o indivíduo se veste, funciona como uma forma de atalho aos olhos do observador para
identificar quem o outro é, os objetos consumidos expressam algo sobre o consumidor.
A roupa é um acúmulo de dados. A moda é o resultado das experiências por que
passamos, bem montadas e organizadas, contadas não necessariamente através
de frases, até porque tem coisas que são difíceis de expressar em palavras (ou
não cabem numa camiseta). (CARVALHAL, 2016, p. 85).

Entre as peças do vestuário, observamos a presença de uniformes. Segundo Luire


(1991) o uniforme é com frequência, consciente e deliberadamente simbólico, onde no
caso de times de futebol, por exemplo, segue padrões de funcionalidade e
representatividade para os jogadores dos clubes.
Trazendo para o âmbito futebolístico, o uniforme apesar de seguir o padrão de
camisa, calção, meiões e chuteiras, no caso de jogadores, possui especificidades que
variam de acordo com os clubes, alterando, por exemplo, detalhes como golas e cores,
fazendo com que cada equipe possua uma característica que traga destaque e
diferenciação dos demais.

Identifica aquele que o veste como membro de algum grupo e muitas vezes o
situa em uma hierarquia; às vezes, fornece informação sobre suas realizações,
assim como os distintivos de mérito e os galões de batalhas de um general.
(LUIRE, 1991, p. 34).

Outro exemplo é o uso de uniformes por torcedoras de futebol, tornando-se uma


forma de expressar qual time as mesmas torcem, simbolizando também seu afeto do por
tal clube, assim como a representação de alegria e comemoração, com o uso de tais peças
mediantes a vitórias e títulos conquistados pelo time escolhido.

3 A ROUPA E A EMOÇÃO
A motivação, ou seja, o conjunto de “atividades nas quais nos engajamos em
direção a um objetivo” (GADE, 1980), pode ser estimulada através de fatores fisiológicos,
classificados como necessidades primárias, e fatores psicossociais, geralmente
classificados como necessidades secundárias.
Sentir fome é uma necessidade biológica, fazer um regime de emagrecimento
ou entrar numa greve de fome por motivos políticos são necessidades
psicossociais. Se, por um lado, estamos preocupados com o nosso bem-estar
físico, por outro, deixamos este aspecto físico de lado, preterindo-o em função
de um bem-estar psicossocial quando nos sentimos felizes por estarmos na
moda ou por ajudarmos a uma causa, tanto ou talvez mais felizes do que se
tivéssemos nos alimentado e saciado a fome. (GADE, 1980, pág. 24).
A partir do momento que se compreende estas necessidades primárias e
secundárias, fisiológicas e psicossociais, é possível determinar como o produto deve ser
projetado a fim de que tenha a estética e a funcionalidade necessárias para passar a
imagem certa ao tipo de público que se quer motivar. Por exemplo: quando uma marca
de veículos automobilísticos, que tem como público alvo a família, fabrica um automóvel
que possui um design que transmita segurança e demonstre espaço em sua estética,
utilizando em sua propaganda uma voz masculina e firme com os dizeres “freios rápidos,
seguros e suaves” (GADE, 1980), ela apela para a segurança e a estabilidade procuradas
pelo seu público alvo, gerando a necessidade de bem-estar familiar, que será alcançada
ao comprar o veículo, recorrendo, assim, ao aspecto emocional.
No exemplo citado acima, foram usados artifícios sensoriais como ferramentas
para garantir que as motivações percebidas fariam seu papel emocional, afetando os
indivíduos de forma que todo este conjunto fosse passível de memorização.

A emoção chama nossa atenção por meio dos sentidos, que então influenciam
nosso processo decisório. As marcas que criam uma conexão emocional com
os consumidores são muito mais fortes do que aquelas que não o fazem – é
simples (e complicado) assim. (LINDSTROM, 2012, pág. 4).

Tais artifícios, como a estética do automóvel, que desperta segurança e conforto


através do sentido visual; os “freios rápidos, seguros e suaves”, bem como o espaço
interno do veículo, que despertam conforto através do sentido tátil de quem o conduzirá;
e até a voz masculina e firme, que desperta segurança e estabilidade através do sentido
auditivo, são instrumentos fundamentais para estabelecer uma ligação mais instantânea e
íntima com os consumidores, podendo alcançar de forma mais eficaz os objetivos do
design emocional aplicado ao produto.
Desde os primórdios do design, diversos fatores são levados em conta de acordo
com o objetivo de um produto. Uma funcionalidade mais objetiva ou mais complexa, uma
estética mais simples ou mais profusa, tudo depende de como este produto deve se
comunicar com o seu consumidor.

Simplificando um pouco, alguns funcionalistas raciocinaram que se a melhor


e mais bonita cadeira fosse também a mais eficiente e mais barata de se
fabricar, não haveria mais sentido em produzir cadeiras melhores e outras
piores. (CARDOSO, 2000, pág. 155).

Com o advento da informação rápida existente atualmente, e a quantidade


excessiva de informações recebidas pelos indivíduos todos os dias, os designers precisam
se ater a novos métodos de criação e comunicação se quiserem ultrapassar os limites do
funcional e do estético, e criar uma ligação cada vez mais direta com seu consumidor,
podendo o fazer através do design emocional.
4 HISTÓRIA DOS UNIFORMES DO CEARÁ SPORTING CLUB
Fundado em 1914, o Rio Branco, inicialmente com as cores roxo e branco,
mudando as mesmas para preto e branco, em virtude da dificuldade de conseguir
uniformes nessas cores. Segundo o livro comemorativo do clube 100 anos de paixão, com
a mudança do nome para Ceará Sporting Club, a partir do 1º aniversário, o escudo do time
passou a ser composto pelas iniciais “CSC” e sete listras alternadas em preto e branco.
Cores essas que até hoje são marcas registradas do clube alvinegro.
Segundo Luire (1991), assim como o branco sugere inocência, o preto sugere
sofisticação.
Três das cores mais comuns e importantes no vestuário – preto, branco e cinza
– não são propriamente cores, mas representações da ausência ou presença de
luz. Todas, especialmente as duas primeiras, estão bastante carregadas de
significados convencionais. (LUIRE, 1991, p. 197).

Ao longo de sua história o clube cearense possuiu seis escudos, com a última
alteração realizada em 2003, possuindo cinco listras alternadas em preto e branco, cinco
estrelas brancas, o número 1914 e o nome Ceará na diagonal. Segundo 100 anos de paixão
(2014), o atual escudo do alvinegro é o símbolo das conquistas da história recente do
Ceará.

As listras, em geral, possuem significados e simbolismos, podendo ser utilizadas


como forma de se expressar algo. Luire (1991) afirma que:

As listras, por exemplo, frequentemente parecem expressar um esforço


organizado, um desejo ou capacidade de “seguir a linha” apresentada por si
mesmo ou por outros. Por associação, podem sugerir segurança e retidão.
(LUIRE, 1991, p. 218).

Relacionando esse conceito de listras com o meio esportivo, observamos aspectos


presentes no futebol, como a relação do esforço organizado através de jogadores e a
questão da segurança em campo.
As listras presentes no uniforme do possuem grande representatividade para o
time alvinegro, estando sempre presentes em seu primeiro uniforme oficial de cada
temporada.

Mais que uma camisa, as listras alvinegras marcaram a história do Ceará. Mais
grossas ou mais finas, acompanhadas de gola redonda, polo, em vê. Houve
pequenas variações no manto ao longo de um século, suficientes para deixa-lo
sempre mais bonito. A camisa nº 2, branca, teve mudanças mais significativas.
Além disso, o time já teve modelos cinza, preto e lilás. (100 ANOS DE PAIXÃO,
2014, p. 186).
O time geralmente apresenta dois uniformes oficiais por ano, o primeiro sempre
com listras alvinegras verticais, ocorrendo variação apenas na espessura e quantidade de
linhas. O segundo uniforme, tem a predominância do branco, possuindo detalhes pretos,
do mais variados, não perdendo sua essência alvinegra.
Ao fim de cada temporada, é lançado um terceiro uniforme que foge do padrão
dos dois primeiros, com variação de cores e detalhes, como por exemplo, o terceiro
uniforme de 2014 em homenagem ao centenário do clube, nas cores preto e cinza escuro
e número dourado, assim como o terceiro uniforme de 2015 na cor roxa e com gola polo,
fazendo alusão ao Rio Branco.

5 O CONSUMO DE ARTIGOS FUTEBOLÍSTICOS PELAS TORCEDORAS DO


CEARÁ

A cada dia que passa o futebol conquista cada vez mais as mulheres e
consequentemente aumenta com isso o mercado consumidor de artigos relacionados aos
clubes, de acordo com Salgueiro e Melo (2014):

As mulheres ao compartilhar as arenas esportivas com os homens começam a


inserir suas próprias ideias, que se concretizam nas praticas sociais pela interação
entre gêneros, consumo de mercadorias e pelo compartilhamento de novos
valores que devem ser absorvidos pelas empresas que administram os negócios.
(SALGUEIRO e MELO, 2014, p 07)

A representação feminina no consumo de artigos esportivos é algo crescente,


tendo em vista o aumento de torcedoras de futebol, portanto, deve existir uma
preocupação na fabricação de peças para esse público específico, buscando atender as
necessidades e expectativas das torcedoras.
Segundo entrevista concedida por Carla Ambrósio, uma das organizadoras do 1º
Encontro Nacional de Mulheres de Arquibancada, ao site Esportudo 1 , o evento, que
ocorreu no Museu do Futebol, no estádio Pacaembu, em São Paulo, em 2017, busca
mudanças no cenário esportivo, promovendo a conscientização que futebol também é
coisa “de mulher”.

1 Mulheres de arquibancada: a torcida feminina nos estádios de futebol. Brasil, 2018. Disponível em:
<http://www.esportudo.com/mulheres-de-arquibancada-a-torcida-feminina-nos-estadios-de-futebol>.
Acesso em: 04 de abril de 2018.
Ainda segundo a entrevista, Carla afirma que as mulheres querem a liberdade e o
direito de ser apaixonadas pelos seus times, sem questionamento, tendo com isso, seus
espaços respeitados.
Cada vez mais, as pessoas têm se juntado em volta de afinidades, interesses
comuns, gostos, vontades e crenças, que vão muito além dos requisitos de segmentação
usados antigamente, é o que afirma Carvalhal (2014).
Segundo Salgueiro e Melo (2014) a moda é caracterizada pela frequente
renovação dos produtos dirigidos ao público feminino, o que permite a manifestação e
variação das representações que as consumidoras fazem de si mesmas por meio dos
produtos e serviços. Renovação essa, que gera desejo de obtenção, aumentando
consequentemente o consumo.
O Ceará Sporting Club possui uma loja oficial, a Sou Mais, onde torcedoras
podem encontrar artigos variados, segundo Fernandes (2013):

A Sou Mais firmou sua imagem no mercado por ser uma marca registrada do
Ceará Sporting Club, um dos maiores clubes do Estado Nordestino, por se tratar
de uma loja com bastantes variedades e modelos. Além de possuir estratégias
para um bom atendimento e relacionamento com o cliente. (FERNANDES,
2013, p. 33).

A diversidade de produtos aumenta o consumo e consequentemente uso de artigos


esportivos por mulheres. Carvalhal (2014) afirma que o consumo se dá a partir de outro
núcleo de personalidade, o do consumidor, num processo que passa por sentimentos de
diferenciação, interrogação ou complementação.
De acordo com Salgueiro e Melo (2014) as torcedoras parecem incorporar um
modelo de conduta que supera o próprio hábito institucional das áreas esportivas,
dissipando o consumo dos produtos futebolísticos para além das fronteiras do futebol, ou
seja, a relação de uso desses artigos no cotidiano das torcedoras, não se limitando, por
exemplo, a usa-las em idas aos estádios, fazendo com que tais peças passem a fazer parte
do vestuário casual das mulheres.
É preciso que a marca delimite e conheça bem quem é seu público-alvo, pois só
assim será capaz de desencadear na consumidora uma relação afetiva, ponto primordial
para a geração de desejo, e futuramente, a possível fidelização, não somente ao produto,
mas a todo o significado que envolverá consumi-lo e consumir a identidade da marca, que
no caso está diretamente vinculada do clube cearense. Cobra explica:
Mais preocupado com o “ser” do que com o “ter”, o novo consumidor é mais
responsável com relação ao meio ambiente e consigo mesmo. Ele se expressa
não pela posse de bens, mas principalmente pela riqueza de valores interiores.
Assim, quanto mais a empresa conhece acerca de seus clientes, melhor ela pode
equalizar suas ações para que seus produtos sejam mais reconhecidos e
valorizados.
O valor pode emergir do próprio produto ou da experiência de consumo do
cliente (COBRA, 2007, p. 62).

6 DISCUSSÕES E RESULTADOS

A análise de dados foi feita através das respostas obtidas no questionário, em


contrapartida com as informações obtidas nas pesquisas bibliográfica e documental, em
livros, revistas, artigos e sites que tratem do assunto abordado neste estudo, para a
obtenção de resultado mais precisos.
Segundo Carvalhal (2016) é preciso criar produtos autênticos e diferentes, com
bastante significado (intenção), algo observado ao longo das respostas, mostrando que as
consumidoras também querem tendências nas peças, e não apenas a essência dos
produtos, construindo uma identidade própria, fazendo parte do propósito da moda.
Obtivemos cinquenta e uma respostas de clientes da loja Sou Mais, a loja oficial
do Ceará Sporting Club, que consomem e usam tais artigos do time, e foi possível
observar que na maioria das vezes as peças são utilizadas apenas em estádios ou eventos
esportivos, como mostram os gráficos 3, 4 e 5 a seguir.

Figura 3
Quando questionadas sobre em quais ocasiões as clientes utilizavam os produtos
adquiridos na loja Sou Mais, 49% disse utilizar em dias de jogos ou eventos do club,
caracterizando-se a maioria, seguido por 43,1% que disse usar apenas no estádio, 19,6%
que disse utilizar no cotidiano como qualquer outra peça, e 15,7% que disse utilizar em
momentos de lazer. Baseado nos resultados, é possível observar que a maioria das
torcedoras não utiliza os produtos adquiridos no cotidiano, deixando apenas para dias
relacionados a jogos ou eventos do clube.

Figura 4

Quando questionadas sobre o que as desmotivava a usar as peças, 62,7%


respondeu que a falta de opção de peças diferenciadas era o que as desmotivava a utilizá-
las, caracterizando a maioria, seguido por 51% que disse que as modelagens não
valorizam o corpo, 41,2% disse ter medo da violência entre torcidas, e 41,2% disse ter
medo de sofrer preconceito e/ou machismo. Baseado nos resultados, é possível observar
que a maioria das torcedoras é desmotivada a usar estas peças por falta de produtos
diferenciados e que deem a devida atenção ao público feminino. A fim de superar isto, a
loja Sou Mais poderia trabalhar desenvolvendo artigos que sejam esteticamente
apelativos a este público, bem como fazendo a utilização de modelagens que sejam
voltadas para mulheres, valorizando seu tipo físico e formas.

Figura 5
Quando questionadas sobre o que as torcedoras mudariam na estética destes
produtos, 78,4% respondeu que mudaria as modelagens, tornando-as diferenciadas do que
é encontrado hoje na loja, caracterizando a maioria, seguido por 70,6% que disse que
aplicaria estampas mais modernas em comparação às estampas encontradas hoje nos
produtos da loja, 60,8% disse que faria a inserção de figuras ou frases engraçadas,
quebrando um pouco o caráter sério e tradicional dos produtos atuais, e 60,8% disse que
faria o uso de frases empoderadas, reiterando o caráter de que as mulheres desejam ser
vistas como membros equiparáveis aos homens dentro da torcida de futebol, quebrando
quaisquer estereótipos que ainda se fazem presentes dentro do futebol.
Assim, baseado nos resultados, é possível inferir que aspectos básicos da roupa,
como a modelagem e a estampa são fundamentais para o estímulo ao aumento da
identificação e do consumo dos produtos da loja Sou Mais pela torcida feminina;
observação que é suportada pelas respostas obtidas nos questionamentos anteriores.
Os resultados apresentados são fontes do questionário aplicado às torcedoras.
Segundo Carvalhal (2016) é preciso entender as necessidades e desejos das pessoas para
satisfazê-los; uma técnica que pode contribuir bastante para um maior engajamento
comercial por parte das torcedoras, já que entender a motivação por trás dos hábitos de
consumo de alguém é uma ferramenta muito utilizada atualmente, como mencionado ao
longo do artigo.
Assim, através das respostas obtidas, observamos que a ausência de modelagens
mais diferenciadas ou que valorizem mais o corpo feminino, assim como estampas mais
modernas refletem na pouca utilização dos artigos no cotidiano das consumidoras; fato
que poderia ser facilmente solucionado, não só por tratar-se de um artigo que há muito
tempo não sofre inovação nestes aspectos, o que geraria um interesse imediato a partir do
momento em que fosse modificado para atender as necessidades e desejos do público
feminino, mas por se tratar de um produto cujo significado transcende o valor estético da
peça, já que representa a paixão e emoção sentidas pelo time, evocando a motivação
necessária para o engajamento da consumidora final, que atualmente adquire o produto
não pensando em seu valor estético ou funcional, mas por se sentir incluída e representada
dentro da simbologia que aquela peça carrega.
É o momento oportuno para mudar, Carvalhal (2016) aponta que existem grandes
forças atuando na alteração do comportamento e consumo, o mesmo afirma que é preciso
estar disposto a entender de fato a real necessidade do seu público para satisfazê-la, isso
seria um fator crucial para a expansão do uso dessas peças consumidas.
Portanto, podemos concluir que se as consumidoras da loja Sou Mais adquirem os
produtos mesmo sem estes atenderem suas expectativas em termos de estética e
funcionalidade, por estes representarem um sentimento que transcende sua forma física,
e se comunicarem diretamente com os sentimentos envolvidos ao torcer por um time, elas
passariam a se engajar cada vez mais, a participar de forma mais ativa e a levar os
produtos adquiridos na loja para além dos cenários de jogo, caso estes levassem em
consideração os gostos pessoais das consumidoras, dando autonomia à torcida feminina
dentro de um ambiente ainda masculinizado.
Ao fabricar um produto desta forma, pensando no que emociona as torcedoras, as
“peças criam um vínculo emotivo e de pertencimento tão intrínseco que estas peças
permanecem em uso por muito mais tempo do que as peças compradas em lojas fast
fashion (...)” (PEREIRA, 2013, pág. 6). Perceber como estas peças se ligam à
consumidora para satisfazer suas necessidades materiais e simbólicas é a estratégia
necessária para a forma de se construir uma base sólida de torcedoras-consumidoras.

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