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A Different

Blue

~A Novel ~
By Amy Harmon
Sinopse
Blue Echohawk não sabe quem é. Ela não sabe seu nome verdadeiro ou
quando nasceu. Abandonada aos dois anos de idade foi criada por um
vagabundo, ela não frequentou a escola até que tivesse dez anos de idade. Aos
dezenove anos, quando a maioria das pessoas de sua idade está frequentando a
faculdade ou seguindo em frente com a vida, ela está apenas no último ano do
ensino médio. Sem mãe, nem pai, nem fé, nem futuro, Blue Echohawk é uma
aluna difícil, para dizer o mínimo. Resistente, dura e abertamente sexy, ela é o
oposto completo do jovem professor britânico que decide que está pronto para o
desafio, e coloca a encrenqueira sob sua asa.

Esta é a história de um joão-ninguém que se torna alguém. É a história de


uma amizade improvável, onde promove a esperança de cura e a redenção se
torna amor. Mas a queda no amor pode ser difícil quando você não sabe quem
você é. Apaixonar-se por pessoas que sabem exatamente quem são, é o que
torna impossível de se retribuir.
Para Mamãe e Papai

Por causa de vocês,

Eu sempre soube quem sou.


Prólogo

Agosto 1993

O calor era sufocante, e a menina estava jogada no banco de trás. Seu


rosto estava corado e o cobertor que ela estava deitada em cima tinha se
amontoado, deixando sua bochecha ficar contra o assento de plástico. Ela
dormia aparentemente despreocupada. Ela era muito resistente para uma
garota pequena. Não chorou muito, não se queixou. Sua mãe abriu toda a janela,
que não que ajudou muito, mas o sol estava se pondo e já não batia contra o
carro. A escuridão foi um alívio, mesmo que ainda fosse mais de 38 graus lá
fora, mas ele tornava menos visível. O ar-condicionado funcionava bem, desde
que o carro estivesse em movimento, mas elas estavam paradas em um pedaço
de sombra insignificante observando a caminhonete por duas horas, esperando
o homem sair.

A mulher atrás do volante mordia suas unhas pensando se deveria ou não


desistir. O que ela diria a ele? Mas ela precisava de ajuda. O dinheiro que ela
tinha tirado de sua mãe não tinha durado muito tempo. Os pais de Ethan
tinham dado $2.000, mas com o combustível, motéis e comida, acabou mais
rápido do que ela teria acreditado. Então, ela tinha feito algumas coisas ao longo
do caminho das quais não se orgulhava, mas pensava que fez o que tinha que
fazer. Ela tinha uma criança agora. Ela tinha que cuidar dela, mesmo que isso
significasse sexo por dinheiro ou favores. Ou drogas, uma pequena voz
sussurrou dentro de sua cabeça. Ela empurrou o pensamento longe, sabendo
que não ia durar muito tempo. Ela precisava de outra dose.

Ela havia chegado tão longe. Ela não podia acreditar que tinha terminado
aqui, não tão longe de casa. Há poucas horas. E ela atravessou até o outro lado
do país e voltou com nada para mostrar.
De repente, ele estava lá, andando de volta para a caminhonete. Ele tirou
as chaves do bolso e tentou abrir a porta do passageiro. Ele foi recebido por um
cão cinza e preto desalinhado que estava dormindo embaixo do veículo
esperando, como ela, para que o homem retornasse a sua caminhonete. O
cachorro circulou as pernas do homem quando ele mexeu na maçaneta de um
lado para o outro. Ela ouviu o homem amaldiçoando baixinho.

— Coisa maldita. Vou ter que substituir a maçaneta.

O homem conseguiu abrir a porta do passageiro e o cão pulou para o


banco, seguro do seu lugar no mundo. O homem fechou a porta atrás do cão e
mexeu a maçaneta mais uma vez. O homem não a viu olhando para ele. Apenas
caminhou ao redor na frente de sua caminhonete, subiu ao volante e acelerou,
saindo do espaço de estacionamento que ele tinha ocupado durante as últimas
horas. Seus olhos deslizaram por cima dela enquanto ele roncava passando sem
parar, não hesitando. Isso não foi apenas típico? Nem mesmo um segundo
olhar. Nem mesmo um segundo pensamento. A raiva brotou dentro dela, que
estava cansada de ser olhada por cima, ignorada, rejeitada.

Ela ligou o seu carro e começou a segui-lo, mantendo-se longe o


suficiente para que ele não ficasse desconfiado. Mas por que iria? Ele nem sabia
que ela existia. Isso a fazia invisível, não é? Ela iria segui-lo durante toda a noite
se fosse preciso.

05 de agosto de 1993

A chamada veio antes das quatro horas da tarde, e o policial Moody não
estava com disposição para isso. Seu turno estava prestes a terminar, mas ele
disse que iria responder a esse chamado e entrou no estacionamento do
Stowaway1. Se o nome era um indicador, apenas os passageiros clandestinos
iriam ficar no motel imundo. Porta-malas de um carro velho de um viajante com
a cabeça cutucando para fora da tampa sibilou no calor da tarde. Oficial Moody
vivia em Reno todos os seus 28 anos, e ele sabia tão bem quanto qualquer um
que querer descanso e uma boa noite de sono não era à razão para as pessoas
frequentarem o Stowaway. Ele ouviu o barulho de uma ambulância.
Obviamente, o funcionário da recepção tinha feito mais de uma chamada. Ele
tinha a barriga doendo durante toda à tarde. Droga de burritos2. Ele havia os
devorado alegremente ao meio-dia, carregado com queijo, guacamole, carne de
porco desfiada, creme de leite, e pimentões verdes, mas ele estava pagando por
isso agora. Realmente precisava ir para casa. Desesperadamente esperava que o
funcionário da recepção estivesse errado sobre o hóspede em um quarto no
andar de cima e ele poderia encerrar as coisas rapidamente e terminar o dia.

Mas o funcionário da recepção não estava errado. A mulher estava morta.


Sem erros. Era agosto, e ela provavelmente tinha sido fechada no quarto 246
por 48 horas. Agosto em Reno, Nevada estava quente e seco. E o corpo fedia. Os
burritos ameaçaram o oficial Moody, sem tocar em nada, fez uma retirada
apressada, dizendo aos paramédicos que eles não seriam necessários, correndo
pelas escadas. Seu supervisor teria sua cabeça se ele os deixasse pisar em todo o
cenário. Ele fechou a porta do quarto 246 atrás dele e disse a recepcionista
curiosa que a polícia estaria por todo o local e que precisam de sua ajuda. Então
chamou seu supervisor.

— Martinez? Temos uma mulher, obviamente morta. Eu já assegurei a


cena. Os paramédicos foram barrados . Solicito assistência.

Uma hora depois, o técnico da cena do crime estava tirando fotos, a


polícia apurando a área, questionando todos os hóspedes, todas as empresas nas
proximidades, todos os funcionários. Detetive Andy Martinez, supervisor oficial
de Moody, tinha requisitado a câmera de vigilância. Milagre dos milagres,
realmente havia uma no Stowaway. O legista foi chamado e estava a caminho.

1Stowaway – Passageiros clandestinos


2 Burrito é um célebre prato tradicional da culinária do México consistindo de uma tortilla de farinha
geralmente recheada com carne
Quando questionada, a funcionária da recepção alegou que o quarto não
havia sido alugado porque o ar condicionado estava quebrado. Ninguém tinha
entrado dentro ou saído do quarto por mais de dois dias. Um técnico foi
agendado, mas reparar o ar condicionado não era uma grande prioridade.
Ninguém sabia como a mulher tinha ficado no quarto do hotel, mas ela
definitivamente não tinha assinado e usado um cartão de crédito para pagar por
sua estadia. E não tinha nenhuma identificação com ela. Infelizmente, para a
investigação, a mulher foi morta por dois dias ou mais, e o hotel não atraia
estadias longas. O Stowaway ficava localizado ao lado da rodovia, nos arredores
da cidade e quem poderia ter visto ou ouvido qualquer coisa na noite em que ela
morreu, já não estava no motel.

Quando o Oficial Moody finalmente chegou em casa às oito horas da


noite, ele não se sentia melhor do que antes, e ainda não tinham feito uma
identificação da mulher encontrada morta somente com a roupa no corpo para
orientar a investigação. Moody tinha um mau pressentimento sobre a coisa
toda, e achava que não tinha nada a ver com os burritos.

06 de agosto de 1993

— Teve sorte de fazer uma identificação? — O Oficial Moody não foi capaz
de tirar a mulher de sua cabeça. Incomodou-o a noite toda. Não era o caso dele.
Patrulheiros não dirigem investigações. Mas Martinez era o seu supervisor e
estava disposto a compartilhar, principalmente quando o caso parecia estar
chegando a um fim rápido.

— O legista tirou impressões dela — Detetive Martinez respondeu.

— Ah, sim? Alguma coisa?


— Sim. Ela tem alguns antecedentes, principalmente relacionados com
drogas. Tenho um nome, um endereço antigo. Acabou de fazer 19 anos. 3 de
agosto foi o aniversário dela, na verdade — Detetive Martinez fez uma careta.

— Você quer dizer que ela morreu no seu aniversário?

— Isso é o que o legista diz.

— Overdose de drogas? — Oficial Moody não sabia se iria conseguir uma


resposta. Detetive Martinez poderia ficar calado.

— Isso é o que nós pensamos. Mas quando o médico legista virou a parte
de trás de sua cabeça estava esmagada.

— Ah, inferno — Oficial Moody gemeu. Agora eles estavam procurando


por um assassino, também.

— Não sabemos se foi à droga ou o ferimento na cabeça que acabou com


ela, mas alguém tentou fazer o trabalho. Parecia que ela tinha tomado um pouco
de tudo, já que tinha uma parafernália na cena do crime. Ela provavelmente
tinha porcaria suficiente para uma equipe de líder de torcida — Martinez foi
sincero.

— Equipe de líder de torcida? — Moody riu um pouco.

— Sim. Ela era uma líder de torcida em uma pequena escola no sul de
Utah. Está no relatório policial. Ela aparentemente compartilhou alguns ecstasy
com suas companheiras de equipe e foi presa acusada de posse. A única razão
por não estar presa era porque ela era menor de idade e foi seu primeiro delito.
E estava compartilhando, não vendendo. Nós falamos o básico com as
autoridades locais de lá. Eles vão avisar a família.

— Você conseguiu algo com a fita de vigilância?

— Sim. Tão simples quanto pode ser. Temos a sua caminhada da


recepção a meia-noite e subindo pela janela da recepção, na área do escritório. A
recepcionista afirma que ela geralmente tranca tudo até quando tem que se
afastar da mesa, mas ela teve dor de estômago e correu para o banheiro sem
trancas as coisas — O Oficial Moody pensou brevemente na sua luta com os
burritos enquanto Martinez continuava.

— A câmera mostra a menina mexendo em volta e pegando uma chave.


Eles ainda usam as chaves de verdade, sabe. Eles não usam cartões-chave no
Stowaway. A recepcionista diz que a chave foi removida e reservada por causa
dos problemas do ar condicionado. Havia uma ordem de serviço com a chave. A
menina não era boba. Ela pegou a chave sabendo que provavelmente poderia
descansar no quarto para a noite e ninguém saberia. E isso não é tudo. A câmera
mostra o seu carro chegando ao motel com ela e sair uma hora mais tarde com
um homem ao volante. Despachamos um alerta do carro.

— Isso é ótimo. Parece que você tem praticamente finalizado, então —


Moody suspirou aliviado.

— Sim. Parece que vamos ser capazes de encerrar em breve — Detetive


Martinez concordou.

7 de agosto de 1993

— Tudo bem. Ouça — Detetive Martinez levantou as mãos e acenou para


que todos ficassem em silêncio esta manhã. — Temos notícias por parte das
autoridades no sul de Utah que a mulher encontrada morta no Stowaway na
última sexta-feira, 5 de agosto, foi relatado que tem uma filha de dois anos de
idade. Você tem uma descrição e uma foto da mulher na sua frente. Neste
momento, não tivemos nenhuma indicação de que uma criança estava com ela
nas horas que antecederam a sua morte. Não havia nenhum sinal de uma
criança no vídeo de vigilância, nem qualquer sinal de que a criança já tinha
estado no quarto do motel. A família da falecida não viram a mulher ou a
criança em mais de um ano, por isso não temos como saber em que ponto a
mulher e seu filho se separaram.

— A mídia foi contatada. Também notificamos aos órgãos competentes,


bem como inseridas essas informações no NCIS3. Precisamos começar a
examinar a área novamente com o folheto. Vamos pegar a imagem dessa mulher
o mais rápido que pudermos. Veja se alguém se lembra de ver essa mulher e se
ela tinha uma criança com ela. Não temos fotos atuais da criança, mas a avó
deu-nos uma descrição básica. Acreditam que a criança tenha o cabelo escuro e
olhos azuis. Etnia: Nativo Americano, embora acreditem que o pai da criança
seja branco, o que pode explicar os olhos azuis. A mãe foi morta há cinco dias, e
todos nós sabemos como passageira a clientela no Motel é. Perdemos um tempo
precioso e precisamos trabalhar rápido. Vamos lá pessoal.

3 NCIS – National Criminal Intelligence Service – Departamento de investigação do governo norte

americano.
Capítulo Um

Atrevida
Setembro 2010

O sinal tocou há dez minutos, mas eu não estava muito preocupada na


verdade, na realidade eu não me importava, então por que iria me preocupar?
De qualquer maneira, o primeiro dia de aula era inútil. A maioria dos
professores não marca atrasos no primeiro dia ou grita com você na frente da
classe. Era o último período do dia, e minha mente já havia deixado o prédio e
fugido para fora no deserto e para as montanhas em busca de formas e
silhuetas. Podia sentir a madeira sob minhas mãos. Relutantemente, forcei
minha mente de volta para o meu corpo e endireitei os ombros para que
pudesse fazer uma boa impressão quando entrei na sala de aula, que
normalmente era o meu objetivo. Em parte, porque eu gostava da atenção, mas
principalmente porque eu sabia que se as pessoas fossem intimidadas por mim,
elas me deixariam em paz. Os professores me deixavam sozinha, meninas
excessivamente amigáveis que queriam ser BFF me deixavam sozinha, mas os
caras geralmente estavam ao meu dispor, quando queria um deles.

Eu joguei os meus cabelos pretos longos para trás quando entrei na sala.
Meus olhos estavam maquiados e meu jeans estava tão apertado que sentar era
altamente desconfortável, embora eu tivesse aperfeiçoado a arte de me abaixar
sem que me aperte... Demais. Estralei meus chicletes e levantei uma
sobrancelha com desdém quando procurei um lugar vazio. Todos os olhos se
viraram para mim enquanto eu passava pelo corredor central, e parei no banco
bem da frente, exatamente no centro. Droga. Atrasar tinha o seu lado negativo.
Levei meu tempo tirando minha jaqueta e largando minha bolsa no chão. Eu
não tinha sequer olhado na direção do novo professor, cuja voz se silenciou para
observar minha chegada. Algumas pessoas riram da minha exposição
indiferente, e eu atirei um sorriso venenoso na direção geral do riso. Ele parou.
Finalmente, deslizei para o meu lugar e levantei os olhos para a frente da sala de
aula, suspirando profundamente e alto.

— Continue — Falei, mexendo no meu cabelo.

“Sr. Wilson”, estava escrito na lousa em letras maiúsculas. Meus olhos se


encontraram com os dele. Ele estava olhando para mim com a testa franzida e
um ligeiro sorriso. O cabelo escuro precisando de um corte enrolava-se acima
das orelhas e caía sobre a testa. Parecia que ele tinha tentado domá-lo deixando-
o respeitável, mas o grande amontoado de cabelo no alto da cabeça, obviamente,
se rebelado em algum momento durante o seu primeiro dia no colégio de
Boulder. Levantei minhas sobrancelhas com espanto e me esforcei para não
bufar alto. Ele parecia um aluno. Na verdade, se ele não tivesse uma gravata
atada às pressas sobre uma camisa azul com uma calça cáqui, eu teria pensado
que ele era meio que um auxiliar de professor.

— Olá — Disse ele educadamente. Ele tinha um sotaque britânico. O que


um cara com um sotaque britânico veio fazer na cidade de Boulder, Nevada?
Seu tom de voz era quente e amigável, e parecia despreocupado pelo meu
desrespeito proposital. Então ele olhou para o papel que estava em um suporte
de partitura à sua direita.

— Você deve ser Blue Echohawk... — Sua voz sumiu um pouco e sua
expressão era de surpresa. O nome costumava confundir as pessoas. Meus
cabelos são escuros, e meus olhos muito azuis. Eu realmente não me parecia
uma índia.

— E você deve ser o Sr. Wilson — Retruquei.

O riso saiu. O Sr. Wilson sorriu. — Sou. Como eu estava dizendo a seus
colegas de classe, você pode me chamar de Wilson. Exceto quando está atrasada
ou é desrespeitosa, nesse caso eu apreciaria o senhor — Completou suavemente.
— Bem, nesse caso, acho que seria melhor ficar com o Sr. Wilson então.
Porque costumo me atrasar, e estou sempre desrespeitando — Sorri de volta
docemente.

Sr. Wilson deu de ombros. — Vamos ver — Ele olhou para mim por um
segundo. Seus olhos cinzentos o fizeram parecer um pouco triste, como um
daqueles cães com o olhar líquido e a expressão longa. Ele não me parecia um
barril de risadas. Suspirei de novo. Sabia que não queria estar nessa classe. A
história era o meu assunto menos favorito, História Europeia parecia quase tão
ruim quanto se poderia conseguir.

— A literatura é o meu assunto favorito — Os olhos do Sr. Wilson


deixaram meu rosto quando ele lançou uma introdução da aula. Ele disse a
palavra literatura com apenas três sílabas. Lite-ra-tura. Mexi-me em uma
posição confortável na maior parte e olhei irritada para o jovem professor.

— Você pode se perguntar, então, por que estou ensinando história.

Eu achava que ninguém se importava o suficiente para perguntar, mas


estávamos todos um pouco fascinados com seu sotaque. Ele continuou.

— Remove as duas primeiras letras da história da palavra. Agora o que é


que escreve?

— História — Alguém ansioso pra caralho soltou atrás de mim.

— Exatamente — Sr. Wilson assentiu sabiamente. — E isso é o que a


história é. Uma história. É a história de alguém. Quando menino, descobri que
eu seria muito melhor lendo um livro do que ouvindo uma palestra. Literatura
faz história ganhar vida. É talvez a descrição mais precisa da história,
especialmente a literatura que foi escrita no período retratado na história. Meu
trabalho este ano é lhes apresentar história que abra sua mente para um mundo
mais amplo - uma história colorida - e ajudar você a ver as conexões com sua
própria vida. Prometo não ser muito chato se vocês prometerem tentar ouvir e
aprender.
— Quantos anos você tem? — A voz de uma menina ecoou
animadamente.

— Você fala como Harry Potter — Um cara resmungou da parte de trás da


sala. Houve alguns risos, e as orelhas do Sr. Wilson ficaram vermelhas, onde
elas apareciam por baixo do cabelo enrolado ao redor delas. Ele ignorou a
pergunta e o comentário, e começou a distribuir folhas de papel. Houve alguns
gemidos. Papel significava trabalho.

— Olhem a folha na sua frente — Sr. Wilson instruiu, quando terminou a


distribuição das folhas. Ele caminhou até a frente da sala de aula e encostou-se à
lousa, cruzando os braços. Ele nos olhou por alguns segundos, para garantir que
estávamos todos com ele. — Está em branco. Nada foi escrito na página. É uma
folha limpa. Mais ou menos como o resto de sua vida. Em branco, desconhecida,
não escrita. Mas todos têm uma história, não é?

Alguns alunos balançaram a cabeça concordando. Olhei para o relógio.


Meia hora até que eu pudesse tirar esse jeans.

— Vocês todos têm uma história. Foi escrita até este ponto, neste exato
momento quero saber dessa história. Quero conhecer a história de VOCÊS.
Quero que vocês saibam disso. Para o resto do tempo da aula quero que vocês
me contem suas histórias, não se preocupem em ser perfeita, não me importo
com as palavras ou frases com erros ortográficos Esse não é o meu propósito. Só
quero um relato honesto - tudo que vocês estão dispostos a divulgar. Vou
recolher no final da aula.

As cadeiras rasparam, zíperes foram puxados se abrindo em busca de


canetas, e as queixas foram resmungadas enquanto eu olhava para o papel.
Corri meus dedos para baixo, imaginando que eu podia sentir as linhas que
corriam em listras azuis horizontais. A sensação do papel me acalmava, e eu
pensei que era um desperdício preenchê-lo com rabiscos e marcas. Coloquei
minha cabeça para baixo sobre a mesa, em cima do papel, e fechei os olhos,
respirando fundo. O papel cheirava limpo, com apenas um toque de serragem.
Deixei minha mente permanecer na fragrância, imaginando que o papel
embaixo da minha bochecha era uma das minhas esculturas, imaginando que
estava esfregando as mãos ao longo das curvas e sulcos que tinha lixado,
camada sobre camada, descobrindo a beleza debaixo da casca. Seria uma pena
estragar isso. Assim como era uma vergonha arruinar uma perfeita folha de
papel. Sentei e olhei para a página intocada na minha frente. Não queria contar
a minha história. Jimmy disse que realmente entendia que você tinha de
conhecer sua história. Mas ele tinha falado sobre um pássaro no momento.

Jimmy amava aves. Se a marcenaria era o seu dom, observação de aves


era o seu hobby. Ele tinha binóculos, e costumava caminhar para um ponto alto,
onde podia observar e documentar o que via. Ele dizia que as aves eram
mensageiras e que se você as olhasse bem de perto, poderia distinguir todos os
tipos de coisas. Mudança dos ventos, tempestades se aproximando, o cair das
temperaturas. Poderia até mesmo prever se havia perigo por perto.

Quando eu era pequena, era difícil ficar quieta. Na verdade, ainda é.


Observar é difícil para mim, por isso, Jimmy começou a me deixar para trás
quando eu tinha idade suficiente para permanecer no acampamento sozinha.
Era muito mais receptiva a escultura em madeira porque isso era mais físico.

Deveria ter sete ou oito anos na primeira vez que vi Jimmy muito
animado sobre um observar aves. Estávamos no sul de Utah, e me lembro de
onde estávamos, porque Jimmy comentou sobre isso.

— O que ele está fazendo por estas bandas? — Ele estava maravilhado,
com os olhos fixos em um pinheiro insignificante. Eu tinha seguido o seu olhar
para um pequeno pássaro preto empoleirado em um galho fino na metade da
parte de cima de uma árvore. Jimmy pegou seu binóculo e eu ainda fiquei vendo
o passarinho. Não via nada de especial nisso. Era apenas um pássaro. Suas
penas eram pretas sólidas sem flashes de cores para chamar a atenção ou
marcas brilhantes para admirar.

— Sim, tudo bem esse é um Eurasian Blackbird. Não há melros nativos da


América do Norte. Não como esse cara. Ele é, na verdade, um melro — Jimmy se
virou, com a voz em sussurro quando olhou através de seus binóculos. — Ele fez
um longo caminho de casa, ou então escapou de algum lugar.
Sussurrei também, não querendo assustá-lo, e Jimmy achou que era
especial.

— Onde é que melros geralmente vivem?

— Europa, Ásia, Norte da África — Jimmy murmurou observando o


pássaro de bico laranja. — Você pode encontrá-los na Austrália e Nova Zelândia
também.

— Como você sabe que é ele?

— Porque as fêmeas não têm as penas pretas brilhantes. Elas não são tão
bonitas.

Os pequenos olhos amarelos olharam para baixo, para nós, plenamente


consciente de que estávamos assistindo. Sem aviso, o pássaro voou para longe.
Jimmy o observou ir, e seguiu através do binóculo, até que ele estava além da
sua visão.

— Suas asas eram tão negras quanto seu cabelo — Jimmy comentou se
virando da direção do pássaro que tinha animado a nossa manhã. — Talvez seja
isso que você é... Um pequeno melro longe de casa.

Olhei para nosso acampamento que estava nas árvores. — Nós não
estamos muito longe de casa, Jimmy — Eu disse confusa. A casa era onde
qualquer lugar que Jimmy estava.

— Os melros não são considerados má sorte como corvos, gralhas e


outras aves que são pretas. Mas não desistem dos seus segredos facilmente. Eles
querem que nós o compreendamos. Temos que conquistar sua sabedoria.

— Como é que vamos conquistá-lo? — Enruguei meu nariz para ele,


perplexa.

— Temos que aprender a sua história.


— Mas ele é um pássaro. Como podemos aprender a história dele? Ele
não pode falar — Eu era literal da forma que todas as crianças são. Eu teria
realmente gostado se o melro pudesse me contar sua história. Gostaria de
mantê-lo como animal de estimação, então ele poderia me contar histórias
durante todo o dia. Eu implorava pelas histórias de Jimmy.

— Primeiro você tem que realmente querer saber — Jimmy olhou para
mim. — Então você tem que observar. Você tem que ouvir. E depois de um
tempo, você vai conhecê-lo. Você vai começar a entendê-lo. E ele vai dizer-lhe a
sua história.

Peguei um lápis e girei em torno de meus dedos, escrevi: Era uma Vez
na parte superior da minha folha, apenas para dar uma de convencida. Sorri
para a linha. Como se a minha história fosse um conto de fadas. Meu sorriso
desapareceu.

Era uma vez... Havia uma pequena melra — Escrevi. Olhei

para a página. ... Empurrada para fora do ninho, não desejada.

Imagens vieram na minha cabeça. Longos cabelos escuros. Uma boca


tensa. Isso era tudo que eu conseguia me lembrar de minha mãe. Troquei a boca
tensa por um sorriso no rosto suavemente. Um rosto completamente diferente.
O rosto de Jimmy. Aquele rosto trouxe uma pontada de dor. Mudei a minha
visão interior para as suas mãos. Mãos morenas movendo o formão através da
viga pesada. Rebarbas de madeira estavam empilhadas no chão a seus pés onde
eu estava sentada, observando-as cair. As rebarbas caíam ao redor da minha
cabeça, e eu fechei meus olhos e imaginei que eram pequenos duendes que
vinham brincar comigo. Estas eram às coisas que eu gostava de me lembrar. A
lembrança da primeira vez que ele segurou minha pequena mão e me ajudou a
tirar a casca pesada de um toco antigo apareceu em minha mente como um
amigo bem-vindo. Ele estava falando em voz baixa sobre a imagem abaixo da
superfície. Enquanto ouvia a lembrança de sua voz, deixei minha mente viajar
de volta através do deserto e para as montanhas, lembrando a garra retorcida de
algaroba4 que eu tinha encontrado no dia anterior. Ela era tão pesada que tive
que arrastá-la para a minha caminhonete e içá-la um lado de cada vez, para a
carroceria. Meus dedos coçaram para descascar a pele carbonizada e ver o que
estava por baixo. Tive um pressentimento sobre isso. A figura estava se
formando na minha cabeça. Bati meus pés e enrolei os dedos contra o papel,
sonhando com o que eu poderia criar.

O sinal tocou. O nível de ruído na sala aumentou como se um interruptor


tivesse sido ligado e eu voltei do meu devaneio e olhei para a minha página.
Minha história patética esperando por embelezamento.

— Entreguem suas folhas e, por favor, verifiquem se o nome está no


cabeçalho! Não posso dar crédito para a sua história, se não sei que é sua!

A sala estava vazia em cerca de dez segundos. Sr. Wilson lutou para
alinhar a pilha de papéis que foi empurrada em suas mãos quando os estudantes
exuberantemente desocuparam sua sala de aula, ansiosos para outras coisas. O
primeiro dia de aula terminou oficialmente. Ele me observou ainda sentada e
limpou a garganta um pouco.

— Senhorita... Um... Echohawk?

Eu estava distraída e estendi a mão para o meu papel. Amassei em uma


bola e joguei no lixo debaixo do quadro branco. Não chegou a cair dentro da
lixeira, mas não o recuperei. Em vez disso, peguei minha bolsa e a jaqueta, que
era completamente desnecessária no calor de 40 graus que me esperava do lado
de fora da escola. Não olhei para o meu novo professor quando caminhei para o
fundo da sala e joguei minha bolsa por cima do meu ombro.

— Mais tarde, Wilson — Falei e nem mesmo virei a cabeça.

4 Algaroba - é uma árvore da família das leguminosas.


Manny estava me esperando na minha caminhonete quando cheguei ao
estacionamento dos estudantes, e vê-lo ali me fez gemer. Manuel Jorge Rivas-
Olivares, também conhecido como Manny, vivia em meu complexo de
apartamentos. Ele e sua irmã tinham me adotado. Eles eram como gatos vadios
que ficavam perto da sua porta e miavam por dias a fio, até que você finalmente
desistia e os alimentava. E quando você finalmente os alimentasse, tudo estava
acabado. Eles eram oficialmente seus gatos.

Assim foi com Manny e Graciela. Eles andavam sempre por perto até que
finalmente tive pena deles. Agora eles achavam que pertenciam a mim, e eu não
sabia como fazê-los ir embora. Manny tinha dezesseis anos e Graciela tinha
quatorze. Ambos eram magros e de traços finos, e eram incrivelmente doces e
irritantes como os gatos.

Havia um ônibus que ia para o complexo, e eu tinha certeza que a mãe de


Manny sabia de tudo e até mesmo ajudou a conseguir para que Manny e
Graciela pudessem usá-lo. Realmente pensei que este ano seria diferente agora
que Graciela estava na nona série e estaria no ônibus do ensino médio também.
Mas não. Manny estava me esperando com um grande sorriso e uma braçada de
livros.

— Ei, Blue! Como foi seu primeiro dia? Grande ano, chica5! Aposto que
você vai ser a rainha do baile deste ano. A menina mais bonita da escola deve ser
a rainha do baile, e você é definitivamente a garota mais bonita! — Muito doce,
muito chato. Manny falava a mil por hora com um leve sotaque latino-
americano e apenas uma sugestão de uma língua presa, que poderia ter sido o
sotaque, mas era mais provável ser apenas Manny.

— Ei, Manny. O que aconteceu com o ônibus?

O sorriso de Manny escorregou um pouco e me senti mal por perguntar.


Ele acenou com as mãos para a minha pergunta e deu de ombros.

— Eu sei, eu sei. Disse para Glória que iria pegar o ônibus, e tenho certeza
que Graciela pegou... Mas queria ir para casa com você no primeiro dia. Você viu

5 Chica – menina em espanhol.


o novo professor de história? Tive aula no primeiro período, e posso dizer que
ele vai ser o melhor professor que eu já tive... E o mais bonito também!

Manny tinha começado recentemente a chamar sua mãe de Gloria. Eu


não tinha certeza do que se tratava, também considerei dizer que ele poderia
querer reconsiderar em chamar o Sr. Wilson de bonito, presumi que era de
quem ele estava falando. Eu não achava que havia dois professores de história.

— Eu amei seu sotaque. Eu quase não ouvi nada do que ele disse todo o
tempo! — Manny deslizou delicadamente no lado do passageiro, quando eu abri
a minha caminhonete. Eu me preocupava com o garoto. Ele era mais feminino
do que eu.

— O que ele está fazendo em Boulder? Ivy e Gabby tem certeza de que ele
é, tipo, o MI-6 6ou algo assim — Manny teve dezenas de namoradas. Na verdade,
todas as meninas o amavam porque ele era muito inofensivo e divertido, o que
me fez pensar novamente o por que dele não andar de ônibus. Não era como se
ele não tivesse amigos.

— O que diabos é MI-6? — resmungo, tentando manobrar através do


esmagamento de veículos que saiam da escola, pisei nos freios quando alguém
me cortou e depois ele ergueu o dedo do meio para fora da janela, como se fosse
eu que tivesse entrado na frente dele. Manny esticou o braço e bateu na buzina.

— Manny! Pare! Estou dirigindo, ok? — Ordenei, batendo em sua mão.


Ele nem sequer tirou.

— Você não sabe o que é MI-6? Maldito James Bond? Chica, você precisa
sair mais!

— O que alguém do MI -6 estaria fazendo na escola em Boulder? — Eu ri.

— Sei lá, mas ele é britânico, é gostoso e é jovem — Manny pontuou com
seus dedos graciosos. — O que mais poderia ser?

6 O MI6 (oficialmente designado Secret Intelligence Service ou SIS) é o serviço britânico de informações
(ou de inteligência).
— Você realmente acha que ele é gostoso? — Questionei.

— Oh, definitivamente. Numa espécie de bibliotecário muito travesso.

— Oh, doente, Manny. Isso só funciona quando é bibliotecária.

— Tudo bem, professor impertinente então. Ele tem olhos sexy e cachos
desleixados, e os antebraços são muito bem desenvolvidos. Ele é um gostoso
disfarçado. Totalmente MI-6. Você tem que trabalhar esta noite? — Manny
pulou para um novo assunto, tendo claramente comprovado que o novo Sr.
Wilson deveria ser um espião.

— É segunda-feira. Segunda significa trabalho, Manny — Sabia que ele


estava pescando para opor-se. — Pare de alimentar os gatinhos — Me lembrei
com firmeza.

— Eu poderia me certificar de ir por algumas quesadillas7 de Bev agora,


sou um mexicano faminto — Manny colocou sotaque na palavra. Ele só se
referia a sua etnia quando falava sobre comida. — Espero que Glória tenha se
lembrado de ir às compras antes de sair para o trabalho. Caso contrário, eu e
minha irmãzinha estaremos comendo Ramen8 novamente — Manny suspirou
tristemente.

A irmãzinha era um exagero, mas eu me vi amolecendo. Manny era o


homem da casa, e isso significava prover à Graciela, o que fazia com gosto,
mesmo significando me pedir para proporcionar. Eu trabalhava no Bev's Cafe
várias noites por semana, e sem exceção, trazia para casa o jantar para Manny e
Graciela pelo menos uma vez por semana.

— Tudo bem, vou levar para você e Gracie algumas quesadillas. Mas esta
é a última vez Manny, descontam no meu salário — Repreendi. Manny sorriu
brilhantemente para mim e bateu palmas como Oprah faz quando está animada.

7 Quesadilla é uma comida típica mexicana feita com tortillas recheada de queijo e grelhadas para fundir o
queijo.
8 Ramen ou lamen é um macarrão instantâneo.
— Eu verei se o meu tio tem mais algaroba para você — Manny prometeu,
e eu balancei a cabeça e estendi a mão para um aperto de mãos.

— Fechado.

Sal, o tio de Manny trabalhava com uma equipe de serviço florestal. Eles
frequentemente roçavam e limpavam o matagal impedindo que a algaroba
invadissem as fazendas de propriedade do governo. A última vez que Sal veio, eu
tive madeira suficiente por dois meses. Eu babava com o pensamento.

— É claro que isso significa que você vai ficar me devendo, chica —
Manny sugeriu inocentemente. — Jantares por pelo menos um mês, as
segundas-feiras, ok?

Sorri com as suas habilidades de negociação. Ele já me devia dois meses


de segundas-feiras. Mas nós dois sabíamos que eu concordaria. Eu sempre
concordava.
Capítulo Dois

Casca de ovo
Outubro 2010

Talvez tenham sido as histórias que me atraiu. Cada dia era uma nova
história. E, muitas vezes, as histórias eram sobre mulheres na história, ou
contada pelo ponto de vista delas. Talvez fosse apenas óbvio o amor que Sr.
Wilson tinha pelo assunto que ensinava. Talvez fosse simplesmente seu sotaque
legal e sua juventude. Todo o corpo estudantil tentava imitá-lo. Meninas se
aglomeraram ao redor dele, e os meninos o observavam fascinados, como se um
rockstar tivesse descido em nosso meio. Ele era o assunto da escola
instantaneamente amado, porque era uma novidade - e uma novidade muito
atraente, se você gostasse do cabelo um pouco indisciplinado, olhos cinzentos e
sotaque britânico, eu dizia a mim mesma que não gostava. Ele definitivamente
não era o meu tipo. Ainda assim, eu me vi olhando para a frente durante a
minha última aula do dia com impaciência, e era, provavelmente, mais
contraditório do que teria sido de outra forma, simplesmente porque eu estava
intrigada com o seu fascínio.

Sr. Wilson tinha passado um mês inteiro com os gregos antigos.


Tínhamos discutido batalhas épicas, pensadores profundos, arquitetura e arte,
mas hoje Wilson estava detalhando os diferentes deuses e que cada um
representava. Era realmente muito fascinante, eu tinha que admitir, mas
incrivelmente irrelevante, me ofereci esta observação, é claro.

— Esta não é exatamente a história — Eu apontei.

— Os mitos podem não ser um fato histórico, mas há o fato de que os


gregos acreditavam neles — Wilson respondeu pacientemente. — Você tem que
entender que os deuses gregos são uma parte intrínseca da mitologia grega.
Nossa introdução aos antigos deuses gregos pode ser rastreada todo o caminho
de volta aos escritos de Homero na Ilíada e na Odisseia. Muitos estudiosos
acreditam que os mitos foram, na verdade, influenciados pela cultura micênica
que existia na Grécia entre 1700 e 1100 AC. Há também evidências de que o
início da mitologia grega pode ser rastreado até as antigas culturas do Oriente
Médio da Mesopotâmia e Anatólia, por causa das semelhanças entre a mitologia
desses meios de culturas antigas do Oriente Médio e os gregos antigos.

Todos olharam para ele. O que ele tinha dito era tão claro como lama. Ele
parecia tomar nota das nossas expressões. — Hein?

— Os gregos tinham um deus para explicar tudo — Wilson não estava


prestes a ser desencorajado, e aprofundou em seu argumento. — O nascer do
sol, o pôr do sol, suas tragédias e seus triunfos eram todos ligados à existência
desses deuses. De muitas maneiras, seus deuses trouxeram sentido a um mundo
sem sentido. O estranho formato de uma rocha poderia ser considerado um
Deus disfarçado de pedra, ou uma árvore extraordinariamente grande, poderia
ser um deus disfarçado também. E aquela árvore seria adorada por medo de que
o Deus iria retaliar. Havia deuses em toda parte, e tudo poderia ser usado como
prova de sua existência. Guerras foram iniciadas em nomes dos deuses, oráculos
foram consultados e seus conselhos atendidos, mesmo sendo prejudiciais,
estranhos ou bizarros. Até mesmo os ventos da tempestade foram
personificados. Eles foram pensados para serem harpias - mulheres aladas que
arrebatavam as coisas, assim como o vento, para nunca mais ser visto
novamente. Tempestade, ventos e o tempo que vinha com eles foram atribuídos
a essas criaturas aladas.

— Eu pensei que uma harpia era apenas uma palavra antiquada para
bruxa — Um garoto cheio de espinhas chamado Bart respondeu. Eu estava
pensando a mesma coisa, mas estava feliz por alguém ter decidido falar.

— Nas primeiras versões do mito grego, harpias eram descritas como


criaturas com lindos cabelos, como lindas mulheres com asas. Isso mudou ao
longo do tempo, e na mitologia romana elas foram descritas como bestas com
rostos horríveis, com garras e até bicos. Mulheres pássaros, horríveis e
desagradáveis. Essa imagem tem persistido ao longo do tempo. Dante descreveu
o sétimo inferno em seu Inferno como um lugar onde harpias viviam na floresta
e atormentavam os que foram enviados para lá — Wilson começou a recitar o
poema, aparentemente, a partir da memória.

Das Harpias o bando aqui pousava.

Que expeliram de Strófade os Troianos,

Vaticinando o mal, que os aguardava.

Asas têm largas, colo e rosto humanos,

Garras nos pés, plumoso e ventre enorme,

Soam na selva os uivos seus insanos.

— Vejo que você tem um lindo poema memorizado — Eu disse


sarcasticamente, embora estivesse perplexa na maior parte. Wilson caiu na
gargalhada, com o rosto sério transformado pela ação. Eu até esbocei um
sorriso. Pelo menos o cara poderia rir de si mesmo. Uau! Falar sobre um NERD.
Quem citava Dante à vontade? E com aquele sotaque britânico conservador eu
tinha certeza que ele ia dizer: — É elementar, senhorita Echohawk — Cada vez
que eu fizesse uma pergunta. Ele ainda estava sorrindo quando ele continuou.

— Para responder à sua pergunta, senhorita Echohawk, o que


acreditamos afeta o nosso mundo de uma maneira muito real. O que nós
acreditamos afeta nossas escolhas, nossas ações, e posteriormente, as nossas
vidas. Os gregos acreditavam em seus deuses, e esta crença afetaram todo o
resto. A história é escrita de acordo com o que os homens acreditam se é ou não
é verdade. Como o escritor de sua própria história, o que você acredita
influencia os caminhos que toma. Você acredita em algo que pode ser um mito?
Eu não estou falando sobre as crenças religiosas por si só. Estou falando de
coisas que você disse a si mesma, ou coisas que lhe disseram por tanto tempo
que você acabou assumindo que são verdadeiras.

Sr. Wilson se virou e pegou uma pilha de papéis. Ele começou a passá-los
enquanto falava.

— Eu quero que você pense sobre isso. E se o que você acredita de si


mesma ou como se sua vida é simplesmente um mito que está prendendo-a?

Sr. Wilson colocou uma folha amassada de papel na minha mesa e seguiu
em frente sem comentários, era minha história pessoal. A história que eu tinha
jogado em direção a lata de lixo no primeiro dia de aula. Havia sido pressionada
e alisada, mas continha os sinais de ter sido descartada, nunca mais seria a
mesma. Nenhuma quantidade de prensagem e alisamento iria disfarçar o fato
de que tinha sido resgatada do lixo.

Era uma vez... Havia uma pequena melra, empurrada

do ninho. Indesejada.

Adicionei uma palavra. Descartada, li isso para mim mesma.

Era uma vez... Havia uma pequena melra, empurrada

do ninho. Indesejada. Descartada.

Assim como lixo. E nenhuma quantidade de fingimento de que eu não era


lixo, me faria outra coisa. Garotas como eu mereciam as suas reputações. Eu
cultivava a minha. Acho que eu poderia culpar a minha educação, mas não
estava em mim, inventar desculpas para me eximir. Eu gostava de meninas e
meninos como eu. Ou pelo menos eles gostavam do meu jeito. Acho que eu
estaria mentindo se dissesse que gostavam de mim, isso eu guardava para mim
mesma. Eles não conheciam essa garota. Mas isso é parte do fascínio. Cultivei
minha aparência, também. Eu tinha o cabelo sexy, e sempre usava minhas
calças jeans muito apertadas e minhas camisas confortáveis e minha
maquiagem nos olhos forte. E quando estava sendo beijada ou tocada, me sentia
poderosa e querida. Sabia do que algumas pessoas me chamavam, sabia dos
sussurros por trás das mãos. Sabia o que os meninos falavam de mim. Diziam
que eu era uma vadia. Fingir que não estava acreditando seria uma mentira. Um
mito, como os gregos com seus deuses tolos.

Jimmy tinha me chamado de pássaro azul. Era um apelido. Mas eu não


tinha qualquer semelhança com um pássaro azul... Doce, brilhante, feliz. Eu era
mais como uma harpia moderna. A mulher-pássaro. Um monstro equipada com
garras tortas e afiadas. Mexeu comigo, e eu poderia carregá-lo para o
submundo, punir e atormentá-lo infinitamente. Talvez não fosse minha culpa
que eu era desse jeito. Cheryl me levou quando eu tinha uns onze anos, e não
tinha muita prática com criança. Seu estilo de vida não era propício para a
maternidade. Ela era ausente a maior parte do tempo, mas ela era boa. Quando
eu era mais jovem, ela se certificava que eu comia e que tivesse minha própria
cama.

Morávamos em um apartamento de dois quartos em um complexo na


periferia da cidade de Boulder, 20 minutos das luzes brilhantes de Las Vegas.
Cheryl era uma dealer9 no Golden Goblet Hotel Cassino em Las Vegas, e ela
passava os dias dormindo e as noites cercado por jogadores e fumaça de cigarro,
o que lhe convinha muito bem. Ela geralmente tinha um namorado. Quanto
mais velha ficava, mais decadente sua escolha entre os homens se tornou.
Quanto mais velha eu ficava, mais interessados em mim se tornavam. Isso
deixava a relação tensa. Sabia que assim que me formasse estaria sozinha,
porque o dinheiro para o meus cuidados tinha parado aos dezoito anos, e eu
tinha feito dezenove em agosto. Era apenas uma questão de tempo.

Quando a aula acabou, amassei meu papel e joguei de volta no lixo, onde
pertencia. Sr. Wilson me viu fazer isso, mas não me importei. Tanto Manny e
Graciela estavam sentados atrás na parte de trás da minha caminhonete
conversando com grupo de amigas de Manny quando cheguei ao
estacionamento. Eu simplesmente suspirei. Primeiro Manny, agora Graciela.
Estava me tornando a motorista. Eles estavam todos rindo e conversando, e

9 Dealer – também são conhecidos como crupiês, são profissionais de cassinos ou salas de jogos que são

responsáveis pelo manejo da mesa do jogo, controle das apostas e também por manter a integridade da
disputa e fidelidade às regras. quem distribui as cartas nas mesas de jogos de baralhos.
minha cabeça imediatamente começou a doer. Uma das meninas chamou por
um punhado de rapazes que se reuniam em volta de um vintage Camaro
amarelo.

— Brandon! Quem você vai levar ao baile? Eu ainda preciso de um


encontro, sabe!

As meninas ao seu redor riram, e Brandon olhou para ver quem estava
propondo a ele. Brandon era o irmão mais novo de um cara que eu saia de vez
em quando. Mason era musculoso e moreno, Brandon era magro e loiro, mas
ambos eram muito bonitos. Mason tinha se formado três anos antes, e Brandon
estava no último ano, como eu. Eu era mais velha que todos os caras da minha
idade, embora pudesse reconhecer boa aparência, ficava entediada com eles
com muita facilidade e não fazia disso um segredo. Que era provavelmente por
isso que eu NÃO seria coroada Rainha do Baile, apesar de grandes esperanças
das maquinações de Manny.

— Desculpe Sasha. Convidei Brooke semana passada. Nós


definitivamente precisamos sair algum dia — Brandon sorriu, e eu me lembrei
de como atraente Mason era quando estava sendo gentil. Talvez fosse hora de
ligar para Mason. Fazia um tempo.

— Esse carro é seriamente quente, Brandon — Manny gritou, sua voz


elevou acima dos seus amigos.

— Uh, obrigado, cara — Brandon fez uma careta, e seus amigos desviaram
sem jeito. Estremeci por Brandon e Manny.

— Manny, Gracie, vamos embora — Abri a porta da minha caminhonete,


esperando os vadios da parte traseira se dispersassem quando eu a ligasse. Eu vi
pelo espelho retrovisor quando todos os amigos de Manny deram-lhe abraços e
fizeram prometer enviar mensagens. Gracie parecia paralisada por Brandon e
seus amigos, e quando todos dispersaram, ela ainda estava olhando fixamente.
Manny puxou-a, fazendo-a sair do seu devaneio, e os dois pularam no meu lado.
Graciela tinha um olhar confuso em seu rosto, mas Manny estava fazendo
beicinho.
— Eu acho que Brandon não gosta de mim — Ele meditou, olhando para
mim, esperando que eu respondesse.

— Brandon é muito gostoso — Graciela suspirou.

Amaldiçoei ironicamente. Maravilhoso. Brandon é muuuuito velho para


Graciela, e eu não estava falando apenas da idade. Graciela era pequena e
bonita, mas era imatura, tanto física como emocionalmente. E ela era do tipo
que vivia no seu mundo. Uma coisa boa era que ela tinha Manny. Caso
contrário, ela poderia apenas passear em um agradável nevoeiro. Tanto Manny
como Graciela não se abalaram com a minha linguagem, continuando como se
não estivessem me ouvindo.

— Na verdade — Manny bufou. — Eu acho que nenhum dos amigos de


Brandon gosta de mim, também. E eu sou tão bom! — Manny parecia
genuinamente confuso.

— Você acha que Brandon gosta de mim, Manny? — Gracie ponderou


sonhadora.

Manny e eu ignoramos. Decidi que talvez fosse hora de dar um pequeno


conselho a Manny.

— Eu acho que talvez os caras estejam confusos em como tratá-lo,


Manny. Você é um cara, mas sai exclusivamente com as meninas, você usa base
nas unhas e delineador, e você carrega uma bolsa...

— É apenas uma bolsa de flanela!

— Tudo bem! Quantos caras carregam bolsas com cores do arco-íris?

— É apenas uma bolsa colorida!

— Tudo bem. Tudo bem. Esqueça a bolsa. Você comenta abertamente


sobre o quão gostoso é este ou aquele cara... Incluindo Wilson, e na próxima
respiração você está flertando com a líder de torcida. Você é gay? Você é hetero?
O quê?
Manny parecia atordoado, então olhou para mim com a boca aberta.

— Eu sou Manny! — Manny falou de volta, cruzando os braços. — Isso é o


que eu sou. Eu sou Manny! Não sei por que não posso elogiar um cara bonito e
uma menina bonita! Todo mundo precisa de um reforço positivo, Blue. Não
faria mal lhe dar um pouco de vez em quando!

Bati minha cabeça contra o volante, frustrada pela minha incapacidade


óbvia de me comunicar, me perguntando se talvez ele fosse o único na escola
que não tinha medo de ser ele mesmo. Talvez o resto de nós que precisasse nos
descobrir.

— Você está certo, Manny. E acredite em mim, não mudaria um fio de


cabelo na cabeça. Eu só estava tentando explicar por que algumas pessoas
podem ter dificuldade para se relacionar.

— Você quer dizer por que algumas pessoas podem ter dificuldade em
aceitar — Manny amuou, olhando para fora da janela.

— Sim. Isso também — Suspirei e comecei a subir na minha


caminhonete. Manny me perdoou cerca de dez segundos depois que subi e
tagarelou o resto do caminho para casa. Manny não podia ficar com raiva, a não
ser, é claro, se alguém mexesse com Graciela. Então toda a razão o deixava, e
sua mãe brincava que ele se tornava uma fúria chihuahua. Só vi isso acontecer
algumas vezes, mas foi o suficiente para me fazer nunca mais querer ver um
chihuahua. Aparentemente, desde que eu iria apenas apontar seus defeitos, fui
imediatamente perdoada e de volta em suas boas graças com apenas um
grunhido.

Quando cheguei em casa, o calor dentro do apartamento me fez sentir


nas profundezas do inferno. Não cheirava muito bem, cigarros velhos e cerveja
derramada misturadas com 32 graus de calor de outubro não era uma
combinação agradável. A porta do quarto de Cheryl estava fechada. Gostaria de
saber como conseguia dormir no calor e suspirei quando esvaziei os cinzeiros e
limpei a cerveja derramada sobre a mesa de café. Cheryl, obviamente tinha
companhia. Um jeans masculino estava em uma pilha amassada, um sutiã e
camisa preta de trabalho de Cheryl estavam jogados ao lado deles. Bom. Quanto
mais cedo eu saísse de lá, melhor. Tirei meu jeans e coloquei um short e um top
e puxei meu cabelo em um rabo de cavalo desleixado. Enfiando meus pés em
chinelos, deixei o apartamento dez minutos depois de eu ter chegado.

Aluguei uma sala de depósito atrás do complexo por 50 dólares por mês.
Tinha energia e luminosidade, e era a minha pequena oficina. Tinha duas mesas
de trabalho, formado a partir de cavaletes e longas folhas de madeira
compensada. Eu tinha um grande dremel10, vários tamanhos de martelos e
talhadeiras, limas e amoladores, e um ventilador oscilante que movia o ar
quente e a serragem em círculos preguiçosos. Projetos em vários estágios
estavam em uma pilha de descarte para peças concluídas sinuosas, arte
reluzente decorada dentro do espaço. Eu tinha encontrado um galho grosso,
retorcido de Mesquite11 em minhas viagens no dia anterior, e estava ansiosa
para ver como era sob as camadas da casca espinhosa que eu ainda tinha que
retirar. A maioria das pessoas que trabalhavam com madeira gostava de usar
madeiras macias, porque elas eram fáceis de esculpir e talhar, fáceis de moldar
em sua própria criação. Ninguém esculpia com mesquite, algaroba ou zimbro12.
A madeira era muito dura. Os fazendeiros no oeste consideravam mesquite uma
erva daninha. Você não poderia usar uma faca afiada para moldá-la, isso era
certo. Eu tive que usar um grande cinzel e um martelo para retirar a casca.
Quando a madeira era desnudada, eu costumava passar uma grande parte do
tempo apenas olhando para ela antes de fazer alguma coisa. Tinha aprendido
isso com Jimmy.

Jimmy Echohawk foi um homem calmo, tranquilo, a ponto de não falar


por dias seguidos. Era incrível que eu tinha todas as habilidades de linguagem
quando vim morar com Cheryl. Obrigada, PBS13. Quando eu tinha dois anos de
idade, minha mãe - pelo menos nós presumimos que era ela - me deixou no
banco da frente de sua caminhonete e foi embora. Não me lembro de quase

10 Dremel é uma marca de ferramentas


11 Mesquite é uma planta leguminosa do gênero Prosopis encontrada no norte do México e Estados Unidos
da Fronteira Estados Unidos-México no Texas até o sudoeste do Kansas e do sudeste da Califórnia.
12 Zimbro é um arbusto perene da família das cupressáceas que, geralmente, não atinge mais de 1 metro de

altura.
13 PBS - Public Broadcasting Service é uma rede de televisão estadunidense de caráter educativo-cultural,

em contraponto às grandes redes comerciais que operam no país. Possui em sua programação
documentários, telejornais e programas educativos.
nada da minha mãe, somente de cabelos escuros e um cobertor azul. Jimmy era
um índio Pawnee e tinha muito pouco que pudesse chamar de seu. Ele tinha
uma velha caminhonete e um trailer de acampamento que puxava atrás dele e
era onde vivíamos. Nunca ficávamos em um lugar por muito tempo, e nunca
tínhamos companhia, exceto um ao outro. Ele dizia que tinha família em uma
reserva em Oklahoma, mas nunca conheci nenhum deles. Ele me ensinou a
esculpir, e sua habilidade me salvou, tanto financeira quanto emocionalmente.
Perdia-me nisso agora, trabalhando até as primeiras horas da manhã, quando
eu sabia que Cheryl teria ido para o trabalho, juntamente com o seu homem
misterioso e o apartamento estaria vazio.
Capítulo Três

Azul Celeste
— Quando Júlio César atravessou o Rubicão, ele sabia o que significava —
Sr. Wilson estava olhando para todos nós melancolicamente, como se Júlio
César fosse seu caseiro e ele tivesse acabado de cruzar o cubo mágico ontem. Eu
suspirei e joguei meu cabelo para trás, curvando ainda mais no meu lugar.

— Foi considerado traição trazer um exército permanente na Itália. Os


senadores de Roma foram intimidados pelo poder de César e sua popularidade.
Eles queriam controlá-lo, ver se era bom, se ele estava ganhando batalhas para
Roma, conquistando as tribos celtas e germânicas, mas não queriam que ele se
tornasse muito rico ou muito popular, e isso era exatamente o que estava
acontecendo. Adicione a isso às próprias ambições políticas de Júlio César, e
você tem uma receita para o desastre... Ou pelo menos, a guerra civil.

Sr. Wilson andou pelo corredor, e eu notei com surpresa que ele parecia
ter a atenção dos meus colegas. Eles estavam observando atentamente,
esperando o que ele iria dizer em seguida. Ele não usou notas, leu um livro ou
manual. Ele só falou como se estivesse relatando os destaques de um filme
ótimo.

— César tinha alguns amigos em lugares altos. Ele bisbilhotava,


sussurrava nos ouvidos de alguns e descaradamente tentou influenciar o
Senado. Mas o Senado não queria fazer parte disso. Disseram para César
desmantelar o exército e renunciar o seu cargo, ou corria o risco de se tornar um
“inimigo do Estado”. Nós usamos o mesmo termo hoje no governo dos EUA.
Basicamente, significa que o governo considera culpado de crimes contra o seu
país. Considerando as pessoas que vendem segredos nacionais, espionagem
para outro país, esse tipo de coisa, “inimigos do Estado”. Bem 007 sem o
glamour ou as acrobacias incríveis ou as competentes Bond girls.
Encontrei-me sorrindo como o resto da classe, e fiquei maravilhada que
tinha esquecido por um momento que eu não gostava do Sr. Wilson.

— Além disso, você pode imaginar o que esse rótulo faria para alguém?
Alguns argumentam que tal rótulo é usado como uma ferramenta política - uma
ferramenta para reprimir ou intimidar. Você acusa alguém de ser um traidor de
seu país, um “inimigo do Estado” e a vida dela acaba. É como acusar alguém de
ser um molestador de crianças. Não foi diferente na Roma Antiga. Portanto,
temos Júlio César, ambicioso, irritado que está sendo dito para ele que não pode
liderar mais o seu exército, e basicamente, ser ameaçado com rótulos feios e
traição.

— Resumindo, ele traz seu exército às margens do Rubicão, que não


existe hoje, então ninguém sabe realmente se ele foi apenas um pequeno
córrego ou um rio substancial, e ele fica ali, pensando. Ele diz a seus homens.
“Nós ainda podemos recuar. Não é tarde demais, mas assim que passarmos essa
ponte, teremos que lutar”.

— Você disse que ele era rico, certo? Por que ele não pegou o dinheiro e
foi embora, para o inferno com o Senado, fugiu com o exército, conquistou as
pessoas, qualquer coisa. Eles não gostavam dele, tudo bem. Qual foi o ponto? O
que ele tinha que provar? — Me encontrei fazendo a pergunta antes mesmo que
percebesse que estava dizendo as palavras em voz alta. Senti o calor do
constrangimento viajando até minhas bochechas. Eu nunca perguntava em sala
de aula.

O Sr. Wilson não agiu como se estivesse surpreso por eu estar


participando, e respondeu imediatamente. — Ele era rico, e era poderoso. Ele
poderia ter se retirado para a Gália, vivido coberto de luxo e ser alimentado por
uvas o resto de sua vida — Todo mundo riu. Eu fiz uma cara feia. Sr. Wilson
parou em frente a minha mesa e olhou para mim interrogativamente.

— Por que você acha que ele levou seu exército para Roma, Blue?

— Porque ele era um maldito exibicionista e queria ser rei — Respondi de


imediato, tentando imitar o sotaque. A classe explodiu em gargalhadas, mais
uma vez. — E porque ele não gostava de ser usado ou controlado — Terminei
mais calmamente, sem o sotaque.

— Eu acho que você está certa em ambas as respostas — Sr. Wilson


afastou-se, incluindo o resto da turma na conversa. — Acaba que Júlio César
pegou um trompete e correu para a ponte. Ele parecia uma explosão de
trombeta, e gritou... Citando: “Vamos onde os presságios dos deuses e os crimes
de nossos inimigos nos chamar! A sorte está lançada”. O que vocês acham que
isso significa? A sorte está lançada.

A sala de aula ficou em silêncio. É claro que havia alunos que sabiam a
resposta, mas, por costume, ninguém levantou a mão.

— A ação está feita, o ganso está cozido, o leite está derramado, sua cama
está feita — Eu zumbia com uma voz muito entediada.

— Sim — Wilson ignorou o meu tom. — Está nas mãos do destino. Ele
atravessou o Rubicão e não havia como voltar atrás. Nós todos sabemos o que
eventualmente aconteceu com Júlio César, certo? — Não, nós não sabemos. Eu
sim, mas estava cansada de ser uma aluna estrela.

— Júlio foi assassinado - um assassinato conspirado com a ajuda do seu


amigo. Shakespeare escreveu uma peça perversa chamada Júlio César, a qual
atribuo a vocês a leitura e serão testados nesta sexta-feira — Comecei a gemer,
mas Wilson apenas sorriu. — Eu disse a vocês, literatura conta a história muito
melhor do que os livros didáticos, e é infinitamente mais agradável aprender
dessa maneira. Parem de choramingar. Vocês vão me agradecer um dia —
Choramingar? Essa era uma coisa que eu não tinha ouvido antes.

— Então, Júlio César cruza o Rubicão, apressando-se para o seu destino.


E era um destino tanto glorioso como trágico. Ele alcançou o auge do poder, e
no final, descobriu que o poder era uma ilusão.

— Então, isso nos leva a rodada três, as pessoas. Sintam-se livres para
adicionar as páginas que precisarem. Esta é a atribuição que começou no
primeiro dia de aula. E isso só vai continuar crescendo. Vocês escreveram
algumas de suas histórias, pelo menos em termos gerais. Agora quero que vocês
escrevam sobre um momento de suas vidas. Um momento em que a sorte foi
lançada, onde cruzaram o Rubicão metafórico e vocês não poderiam voltar. Eu
quero que vocês me digam sobre suas formações ou o que transformaram vocês.
Talvez tenha sido algo que estava além do seu controle, algo que aconteceu com
você, ou talvez fosse uma decisão que você tomou. Para melhor ou pior, como
isso afetou o rumo da sua história?

Um a um, Wilson começou a entregar os papéis aos meus colegas de


classe, fazendo um comentário aqui ou ali. Suspirei, lembrando-me de como eu
tinha jogado a minha folha no lixo. Mais uma vez. A sala de aula ficou em
silêncio quando as pessoas começaram a trabalhar. Arranquei uma folha de
papel do caderno e me preparei para começar de novo. Wilson de repente estava
em pé em frente a minha mesa, que infelizmente, tinha permanecido bem na
primeira fila, uma vez que ele já nos tinha atribuído os lugares que havíamos
“escolhido” no primeiro dia de aula.

Ele colocou uma folha de papel na minha mesa. Olhei para ele, surpresa.
Meus olhos subiram para os dele e, então voltei para o meu papel. Era o papel
que eu tinha jogado fora. Duas vezes. Ele deve tê-lo recuperado depois que eu
saí da sala naquele dia. Ele estava alisado e pressionado de novo, como se ele
tivesse colocado no meio de um livro pesado. Minhas palavras olharam para
mim, quase zombando.

— Não há nenhum sentido em fugir do passado. Não podemos jogá-lo


fora ou fingir que não aconteceu, senhorita Echohawk. Mas talvez possamos
aprender alguma coisa com ele. Você tem uma história interessante, e eu
gostaria que me contasse mais — Ele se virou para ir embora.

— Parece um pouco injusto para mim — Deixei escapar, e imediatamente


desejei que tivesse mantido minha boca fechada, quando trinta pares de olhos se
concentraram em mim.

Wilson ergueu as sobrancelhas, inclinou a cabeça curiosamente e cruzou


os braços.
— O que você quer dizer? — Ele perguntou. Eu esperava que ele ficasse
com o rosto vermelho ou me expulsasse. Isso era o que normalmente acontecia
nas minhas outras aulas quando eu não conseguia manter meus comentários
petulantes para mim mesma.

Dei de ombros e estalei o chiclete que não deveria estar mastigando. —


Você nos pede para descobrir tudo, escrever os nossos pequenos segredos, os
nossos momentos mais baixos, mas não vejo você compartilhar nada pessoal
com a gente. Talvez eu não queira que você saiba a minha história.

A classe estava em silêncio. Extremamente em silêncio. Parecia que todos


estavam segurando a respiração, esperando para ver se Blue Echohawk tinha
finalmente ido longe demais. Quando Wilson não explodiu, mas apenas me
olhou como uma coruja durante vários segundos, a tensão diminuiu um pouco.

— Tudo bem. Justo o suficiente — Wilson concordou em silêncio. — Mas


eu sou o professor, que por definição, significa que eu ensino e você aprende,
por isso as coisas não vão ser necessariamente justas, porque temos diferentes
papéis. E por questão de tempo, não vou passar o período de aula falando de
mim.

— Que tal vinte perguntas? — Alguém falou da parte de trás da sala.

— Ou girar a garrafa — Alguém gritou, e algumas pessoas riram.

— Vou lhes dizer uma coisa. Darei a vocês uma breve linha do tempo,
assim como vocês têm feito para mim, e então vou contar o meu momento de
virada. De acordo? Dessa forma, a senhorita Echohawk pode ter certeza de que
tudo é justo — Ele piscou para mim, e eu resisti à vontade de enfiar a língua
para fora. Os professores não deveriam ser jovens e bonitos. De alguma forma,
isso realmente me irritava. Eu apenas levantei uma sobrancelha com desdém e
olhei para longe.

— Eu nasci em Manchester, Inglaterra. Tenho duas irmãs mais velhas.


Uma irmã ainda vive na Inglaterra, assim como a minha mãe. Minha irmã mais
velha, Tiffa, vive em Las Vegas, que, aliás, foi o que me trouxe aqui. Tenho vinte
e dois anos de idade. Terminei o que chamamos de ensino fundamental, quando
eu tinha quinze anos, que suponho é o equivalente a se formar no colegial muito
cedo.

— Uau! Então você é muito inteligente, não é? — Esta brilhante dedução


foi oferecida por uma garota com uma voz de Marilyn Monroe que usava
canetas brilhantes e escrevia cada letra de seu nome em uma cor diferente,
cercado de corações e estrelas. Eu a tinha apelidado de Sparkles.

Eu bufei alto. Wilson me lançou um olhar, e eu decidi que era


provavelmente hora de calar a boca.

— Nós nos mudamos para os Estados Unidos quando tinha dezesseis


anos para que eu pudesse frequentar a universidade mais cedo, o que
simplesmente não é possível na Inglaterra. Minha mãe é Inglesa, mas o meu pai
era americano. Ele era médico e tinha uma posição no Instituto do Câncer
Huntsman em Utah. Formei-me na universidade, quando eu tinha dezenove
anos, e foi quando tive o meu momento de virada. Meu pai morreu. Ele queria
que eu fosse um médico como ele - na verdade, quatro gerações de homens da
minha família foram médicos. Mas eu estava uma bagunça depois que ele
morreu e decidi ir para outra direção. Passei dois anos na África pelo Peace Corp
ensinando inglês. Então descobri que eu realmente gostava de ensinar.

— Você deveria ter sido um médico — Sparkles falou ofegante. — Eles


ganham mais dinheiro. E você ficaria bonito de jaleco — Ela riu em sua mão.

— Obrigado, Chrissy — Wilson suspirou e balançou a cabeça, irritado.


Então isso era o seu nome. Não era muito melhor do que Sparkles.

— Este é o primeiro ano que ensino aqui nos Estados Unidos. Simples
assim — Wilson olhou para o relógio. — Minha vida em dois minutos. Agora é
vez de vocês. Vocês têm o resto da aula.

Olhei para o meu papel. A vida de Wilson era uma linha pura de eventos e
realizações. Então, ele era inteligente. Isso era bastante óbvio. E era legal. E era
bonito. Veio de uma boa família. Tudo isso... Agradável. Tão diferente da minha
própria história. Eu tive um momento decisivo? Um momento em que tudo
mudou? Eu tive realmente alguns. Mas houve um momento em que o mundo
girou, e quando se fixou, era uma garota diferente.

Eu estava morando com Cheryl por cerca de três anos, e nesse tempo não
houve nenhuma notícia de Jimmy. A equipe de busca e salvamento de Nevada
tinha eventualmente suspendido o esforço de busca, depois de serem incapazes
de encontrar qualquer vestígio dele. Não houve protestos, nem conhecimento do
público para o seu desaparecimento, sem exigências que a busca continuasse.
Ele era um desconhecido. Apenas um homem que significava o mundo para
uma menina.

Durante esses três anos, tentei meu melhor para não desistir dele. Não
nas primeiras semanas, quando minha assistente social me disse que eles
tinham que levar o meu cachorro, Icas. Não quando, semana após semana, não
havia nenhum sinal de Jimmy. Não quando Cheryl fumava sem parar no
apartamento, e eu tive que ir para a escola cheiro ruim, meu cabelo e roupas
fedendo a cigarro, sem amigos e desnorteada, e estranha aos meus próprios
olhos e aos olhos dos meus colegas. Eu não estava disposta a admitir que Jimmy
sumiu por pura vontade, e teimosamente mantive meus olhos em frente e me fiz
forte.

Se não fosse a provocação ocasional, eu teria gostado da escola. Gostava


de estar perto de outras crianças, e o almoço na escola parecia uma festa diária,
após anos comendo em um fogão de acampamento. Eu gostava de ter mais
livros à minha disposição. Meus professores disseram que eu era inteligente, e
trabalhava duro tentando recuperar, sabendo o quão orgulhoso Jimmy ficaria
quando eu mostrasse a ele os livros que eu poderia ler e as histórias que eu tinha
escrito. Anotei todas as histórias que ele tinha me dito, todas as coisas que eram
importantes para ele, e portanto, importantes para mim. E esperei.

Um dia eu cheguei em casa para encontrar minha assistente social e ela


estava me esperando do lado de fora. Ela me disse que tinham encontrado o
meu pai. Ela e Cheryl, ambas viraram para mim quando me aproximei do
apartamento. Cheryl estava soltando enormes anéis de fumaça, e me lembro de
ter maravilhado com o seu “talento” antes de ver a expressão em seu rosto, a
aparência tensa ao redor dos olhos e a boca virada para baixo da assistente
social. Então eu soube. Um caminhante tinha escalado em volta de uma fenda, e
tinha visto algo abaixo, algo entalado profundamente no fundo da fenda, e de
certa forma protegido contra os elementos e os animais que certamente teriam
espalhado seus restos mortais. O alpinista pensou que pareciam restos
humanos. Ele havia chamado às autoridades que enviaram uma equipe. Os
restos mortais de Jimmy foram trazidos alguns dias depois. Ele havia caído de
uma altura significativa. A queda o matou, ou ele foi incapaz de escalar para fora
da fenda? Sua carteira estava no bolso da calça, era como se soubesse que era
ele. Mistério resolvido. Esperança frustrada.

Depois que a assistente social se foi, fui para o meu quarto e deitei na
minha cama. Olhei ao redor, eu sempre o mantive arrumado e impessoal. Eu
nunca o tinha considerado o meu quarto. Era a casa de Cheryl, e eu estava
ficando com Cheryl. Ainda tinha a serpente que eu estava trabalhando no dia
que Jimmy desapareceu. Eu tinha guardado as peças que ainda não tinha
vendido ou concluído e foram empurradas no canto, juntando poeira. As
ferramentas foram empurradas debaixo da minha cama. E isso foi tudo o que
restou da vida de Jimmy Echohawk, e tudo o que restava da minha vida... Antes.
Escuridão desceu sobre o apartamento e eu ainda estava deitada, olhando para o
teto e a marca de infiltração marrom que vagamente se assemelhava a um
elefante pesado. Eu tinha chamado a marca de Dolores e até falava com ela
periodicamente. Enquanto eu olhava, Dolores começou a diluir-se e crescer,
como uma daquelas coisas esponjosas que se expandem quando você coloca na
água. Levei um momento para perceber que estava chorando, que não era
Dolores que estava flutuando para longe, era eu. Flutuando, flutuando, longe.

Algo deslizou pela minha bochecha e espirrou no meu braço e isso me


balançou, olhei para baixo, surpresa, que meus braços emolduravam na página
que Wilson tinha posicionado na minha frente. Eu abaixei minha cabeça e
peguei minha bolsa disfarçadamente, limpando a umidade do meu rosto. Peguei
meu espelho compacto para verificar se minha maquiagem dos olhos tinham
deixado riscas reveladoras. Que diabos tinha acontecido comigo? Chorando na
aula de história? Joguei a minha bolsa para baixo e agarrei meu lápis,
determinada a acabar com isso.

Era uma vez, havia uma pequena melra, empurrada do

ninho, indesejada. Descartada. Então, um falcão a

encontrou, mergulhou e a carregou voando acima, dando-

lhe uma casa em seu ninho, e ensinou-a a voar. Mas um dia o

Falcão não voltou para casa, e a pequena melra estava

sozinha de novo, indesejada. Ela queria voar para longe.

Eu parei de escrever, recordando. Esperei até que Cheryl saísse para o


trabalho e depois fui para o banheiro encher a banheira. Tirei minhas roupas e
afundei embaixo da superfície, recusando a pensar em Cheryl me encontrando,
me vendo nua. Meu corpo começou a mudar e mostrar sinais de maturidade, e o
pensamento de que ninguém visse minhas partes íntimas era quase o suficiente
para me fazer mudar de ideia sobre o que eu estava determinada a fazer. Eu
forcei minha mente a ir além do banheiro minúsculo com a pintura descascada e
linóleo sujo. Desejei voar como o falcão que eu tinha visto no dia que Jimmy
desapareceu. Ele tinha vindo para o acampamento e ficou em um galho do
pinheiro logo acima da minha cabeça. Eu tinha segurado minha respiração,
observando enquanto ele me olhava. Eu não ousei me mover. Jimmy tinha me
dito que falcões eram mensageiros especiais. Perguntei-me qual era a
mensagem que ele estava me trazendo. Agora eu sabia. Ele estava me dizendo
que Jimmy tinha ido embora. Meus pulmões gritavam, exigindo que eu
levantasse meu rosto da água do banho, mas ignorei a dor. Eu iria flutuar como
a estrela donzela da minha história favorita. Estava iria derivar no mundo do
céu e dançar com as outras estrelas donzelas. Talvez visse Jimmy novamente.
De repente, eu estava sendo retirada da água pelos cabelos e jogada no
chão do banheiro. Minhas costas estavam sendo golpeadas repetidamente. Tossi
e balbuciei, de volta para a terra.

— Que diabos, garota? Você quase me matou de susto! O que você está
tentando fazer? Você adormeceu ai dentro? Santo inferno! Pensei que estivesse
morta! — O namorado de Cheryl, Donnie estava agachado ao meu lado. De
repente, seus olhos estavam em todos os lugares e ele parou de falar. Eu puxei
as pernas para cima me cobrindo quando deslizei entre o vaso sanitário e a pia
barata. Ele me observou ir.

— Você está bem? — Ele chegou mais perto.

— Saia, Donnie — Pedi, mas a tosse que me assolava enfraqueceu a


minha ordem.

— Apenas tentando ajudá-la, garota — Donnie estava olhando para o


comprimento das minhas pernas molhadas, que era tudo o que podia ver no
momento. Mas ele tinha visto tudo quando me tirou da banheira. Fiz-me tão
pequena quanto possível, o meu cabelo preto longo grudado em mim, em
aglomerados fibrosos, proporcionando pouca cobertura.

— Vamos lá, menina — Donnie disse. — Você acha que estou interessado
em suas pernas magras? Idiota! Você parece com um pequeno pássaro afogado
— Ele se levantou pegou uma toalha e entregou para mim, saindo do banheiro
com um profundo suspiro, uma indicação de quão ridícula ele pensou que eu
era. Eu me enrolei na toalha, mas fiquei pressionada no canto. De repente
estava cansada demais para me mover. Estava cansada demais para ainda ter
medo de Donnie.

Eu o ouvi falando com alguém. Talvez ele tivesse chamado Cheryl. Ela
não ficaria satisfeita. Eles teriam de chamá-la para fora do cassino. Eu estava
proibida de ligar para ela no trabalho. Inclinei minha cabeça contra o armário e
fechei os olhos. Gostaria de dormir aqui. Esperaria Donnie sair, e então eu iria
voltar na banheira onde estava quente e eu poderia flutuar mais uma vez.
O sinal tocou. Joguei meu lápis para baixo com gratidão e peguei minha
bolsa, abandonando a atribuição como se estivesse me queimando.

— Basta deixar os seus papéis em suas mesas. Eu vou recolher! — Wilson


falou, evitando ter trinta páginas empurradas para ele ao mesmo tempo.

Ele pegou os papéis restantes em silêncio e parou quando veio até a mesa
onde eu estava sentada. Eu o observei ler a linha que eu havia escrito. Ele olhou
para mim, com uma pergunta em seu rosto.

— Você não escreve muito.

— Não há muito a dizer.

— De alguma forma eu duvido disso — Wilson olhou de volta para o papel


e estudou o que eu tinha escrito. — O que você escreveu soa quase como um...
Uma lenda ou algo assim. Isso me faz pensar em seu nome quando li isso. Você
fez isso intencionalmente?

— Echohawk era o nome do homem que me criou. Eu não sei qual é o


meu nome.

Pensei que a afirmação ousada o faria recuar. Deixando-o desconfortável.


Olhei para baixo e esperei que ele respondesse ou ignorasse.

— Meu primeiro nome é Darcy.

Risos balbuciaram do meu peito na aleatoriedade da sua resposta, e ele


sorriu comigo, então o gelo quebrou entre nós.

— Eu odeio. Então, todo mundo só me chama de Wilson... Exceto minha


mãe e minhas irmãs. Às vezes acho que não saberem o meu nome é uma bênção.

Eu relaxei um pouco, recostando-me na minha mesa. — Então, por que


ela o nomeou de Darcy? Soa bastante Barbie Malibu para mim — Foi a vez de
Wilson bufar.
— Minha mãe adora literatura clássica. Ela é extremamente antiquada.
Jane Austen e Mr. Darcy são os seus favoritos.

Eu sabia muito pouco sobre a literatura clássica, então esperei.

— Olhe, senhorita Echohawk...

— Ugh! Pare com isso! — Eu gemi. — Meu nome é Blue. Você parece
como um velho com uma pequena gravata, quando fala assim! Tenho dezenove
anos, talvez vinte. Você não é muito mais velho do que eu então... Apenas...
Pare!

— O que quer dizer, talvez vinte? — Wilson levantou uma sobrancelha


questionando.

— Bem... Não sei exatamente quando nasci - então acho que eu já poderia
ter vinte — Jimmy e eu tínhamos comemorado meu aniversário todos os anos
no dia em que minha mãe me abandonou. Ele estava certo de que eu tinha cerca
de dois anos de idade na época. Mas não tinha nenhuma maneira de saber
quantos anos eu realmente tinha. Quando eu finalmente fui matriculada na
escola, eles tinham me colocado no grau abaixo da minha idade estimada
porque eu tinha muito que recuperar.

— Você... Não sabe o seu nome... E não sabe quando nasceu? — Os olhos
de Wilson estavam arregalados, quase incrédulos.

— Escrever a história um pouco desafiador, não é? — Eu zombei com


raiva de novo.

Wilson parecia completamente atordoado, e eu senti uma onda de poder


por eu tê-lo tirado do seu pedestal.

— Sim... Eu acho que sim — Ele sussurrou.

Passei por ele e me dirigi para a porta. Quando eu estava no meio do


corredor, joguei um olhar por cima do ombro. Wilson estava na porta de sua
sala de aula, com as mãos enfiadas nos bolsos, me olhando ir embora.
Capítulo Quatro

Pedra
Não fui à escola até aproximadamente dez anos de idade. Jimmy
Echohawk não ficava em um lugar por tempo suficiente para a escola ser uma
opção. Eu não tinha certidão de nascimento, não tinha registro de imunização,
nem endereço permanente. E ele estava com medo, embora eu não tivesse
conhecimento disso na época.

Ele tinha feito seu melhor para mim, da única maneira que conhecia.
Quando eu ainda era pequena, ele fez vários brinquedos de restos de madeira
que ele tinha que sobraram de seus projetos. Algumas das minhas lembranças
mais antigas eram vê-lo trabalhar muito. Isso me fascinava, a forma como a
madeira se enrugava e enrolava quando ele a transformava. Ele sempre parecia
saber como o resultado final seria, como se ele pudesse ver o que havia por
baixo das camadas da casca, como se a madeira estivesse guiando-o,
direcionando suas mãos em movimentos suaves. E então ele parava e se sentava
ao meu lado, olhando para a escultura inacabada, olhando por muito tempo,
como se o trabalho continuasse em sua cabeça, em um lugar que eu já não era
capaz de observar. Ele ganhava a vida vendendo suas artes e esculturas em lojas
turísticas e até mesmo algumas galerias de classe alta com peças de artistas
locais e artes do sudoeste. Ele tinha cultivado uma relação com vários
proprietários de lojas em todo o Ocidente, e gostávamos de viajar entre lojas,
levando uma vida difícil com o dinheiro que ele fazia. Não era muito. Mas eu
nunca estava com fome, nunca estava com frio, e não me lembro de alguma vez
ser realmente infeliz.

Eu não conhecia nada diferente disso, então não era especialmente


sozinha, e eu fui criada no silêncio, então eu não sentia necessidade de
preenchê-lo nas poucas vezes que fui deixada sozinha. Houve momentos em que
Jimmy me deixava por várias horas, como se precisasse de descanso das
restrições que a paternidade tinha colocado em cima dele. Mas ele sempre
voltava. Até o dia em que ele não o fez.

Vivíamos principalmente nos climas mais quentes - Arizona, Nevada,


Utah e partes do Sul da Califórnia. Simplesmente deixava a vida ficar mais fácil.
Mas naquele dia estava muito quente. Jimmy tinha saído no início da manhã
com algumas palavras que estaria de volta mais tarde. Ele havia saído a pé,
deixando a caminhonete queimando no sol ao lado do trailer. Tínhamos um cão
chamado Icas, que na linguagem Pawnee14 significava tartaruga. Icas era lento,
cego e dormia a maior parte do tempo, de modo que o nome era apropriado.
Icas foi com Jimmy naquela manhã, eu fiquei magoada e incomodada.
Normalmente os dois me deixavam para trás, embora Icas parecesse relutante
em ir, e Jimmy teve que assobiar para ele duas vezes. Tentei ficar ocupada, tanto
quanto uma menina de dez ou onze anos de idade, pode, sem jogos de vídeo,
cabo ou uma alma para conversar ou brincar. Eu tinha meus próprios projetos, e
Jimmy era generoso com suas ferramentas.

Passei a manhã lixando um pequeno ramo que eu tinha formado em


curva, com uma sinuosidade semelhante a uma cobra. Jimmy tinha me dito que
era bom o suficiente para que ele achava que poderia vendê-lo. Essa era a minha
primeira e eu trabalhava com afinco na sombra da cobertura irregular que se
estendia a três metros da porta do trailler, proporcionando sombra abençoada
no calor de 43 graus. Estávamos acampados na base de Mount Charleston, a
oeste de Las Vegas. Jimmy queria mais mogno da montanha, uma árvore perene
rasteira que não parecia em nada com a madeira escura e rica que a maioria das
pessoas associava ao mogno. Madeira de mogno da montanha era da cor
marrom-avermelhada e dura, como a maioria das madeiras que Jimmy
trabalhava quando estava esculpindo.

O dia se arrastou. Eu estava acostumada a ficar sozinha, mas estava com


medo naquele dia. A noite chegou e Jimmy não retornou. Abri novamente um
feijão enlatado, aqueci no pequeno fogão do trailer, e espalhei em algumas
tortillas que tinha feito no dia anterior. Obriguei-me a comer, porque era algo

14Pawnee também conhecidos como Paneassa, Pari ou Pariki, é uma tribo nativa norte-americana, que
atualmente vive no estado de Nebraska e no norte do estado de Kansas.
para fazer, mas eu me encontrei chorando e engolindo minha comida em grande
quantidade, porque o meu nariz estava entupido e eu não conseguia respirar e
mastigar ao mesmo tempo.

Houve outro momento em que Jimmy ficou fora a noite toda. Ele tinha
voltado para casa agindo de forma estranha e tropeçando. Ele tinha caído em
sua cama e dormido o dia inteiro. Tinha pensado que ele estava doente e tinha
colocado um pano frio na sua cabeça, só que ele me empurrou, me dizendo que
estava bem, apenas bêbado. Eu não sabia o que significava bêbado. Perguntei
quando ele finalmente acordou. Ele estava envergonhado e pediu desculpas,
dizendo-me que álcool fazia os homens maus e mulheres baratas.

Eu pensei sobre o que ele disse por um longo tempo.

— Pode fazer as mulheres serem más também? — Perguntei a Jimmy


inesperadamente.

— Huh? — Ele resmungou, sem entender.

— O álcool. Você disse que faz os homens maus e as mulheres mais


baratas. Ele pode fazer as mulheres ruins também? — Eu não sabia o que
significava barata, mas sabia o que significava ser mau e queria saber se o álcool
foi parte do problema da minha mãe.

— Claro. Mau e barato são iguais — Jimmy concordou.

Eu estava confortada por esse pensamento. Pensei que a minha mãe


tinha deixado eu e Jimmy, porque eu tinha feito algo errado. Talvez eu tivesse
chorado muito ou queria as coisas que ela não podia me dar. Mas talvez ela
tivesse bebido álcool e tenha ficado má. Se o álcool a deixou má, então talvez
não fosse eu, afinal.

Adormeci naquela noite, mas dormi irrequieta mesmo que eu pegasse no


sono, tentando não chorar, dizendo a mim mesma que era o álcool de novo,
apesar de eu não acreditar. Acordei na manhã seguinte, o calor penetrando no
trailer me puxando de sonhos em que eu não estava sozinha. Eu levantei
rapidamente, empurrando meus pés em meus chinelos e tropeçando para fora
na luz do sol ofuscante. Corri em torno do nosso local de acampamento à
procura de qualquer indício de que Jimmy havia retornado enquanto eu dormia.

— Jimmy! — Gritei. — Jimmy! — Eu sabia que ele não tinha voltado, mas
me consolei chamando por ele e olhando em lugares ultrajantes onde ele não
poderia possivelmente estar. Um gemido abafado me fez correr ao redor do
trailer em júbilo, esperando ver Jimmy e Icas se aproximando da direção que
eles tinham saído no dia anterior. Em vez disso, eu vi Icas, há vários metros de
distância, mancando com sua cabeça baixa e sua língua praticamente se
arrastando no chão. Não havia nenhum sinal de Jimmy. Corri até ele e peguei
em meus braços, chorando e agradecendo que ele estava aqui. Eu não era uma
menina grande, e cambaleei um pouco sob o seu peso, mas não estava disposta a
deixá-lo ir. Deitei desajeitadamente na sombra da cobertura e corri para a tigela,
colocando água morna em seu prato e instando-o a beber. Ele levantou a cabeça
e tentou beber de uma posição de bruços. Ele conseguiu espirrar um pouco de
água na boca, mas não bebeu com o entusiasmo que se esperaria de um cão tão
claramente com a necessidade de água. Ele tentou se levantar, mas agora que
estava para baixo, não conseguia encontrar forças para se levantar a seus pés.
Eu tentei apoiá-lo enquanto ele tentava beber novamente.

— Onde está o Jimmy, Icas? — Eu questionei quando seu corpo tremia e


ele caiu no chão. Ele olhou para mim tristemente e fechou os olhos. Ele gemeu
pateticamente e depois ficou em silêncio. Várias vezes ao longo do dia pensei
que Icas estava morto. Ele estava tão quieto que eu tinha que chegar perto e
verificar para ver se ele estava respirando. Eu não conseguia acordá-lo para
comer ou beber.

Esperei por mais dois dias. A água do tanque do trailer estava quase no
fim. Eu ainda tinha comida. Jimmy e eu éramos econômicos, e havia se passado
poucas semanas da viagem para a loja. Mas estávamos frequentemente em
movimento, e estávamos aqui neste local por uma semana antes de Jimmy
desaparecer. O que finalmente me forçou a buscar ajuda foi Icas. Ele comeu um
pouco e bebeu um pouco mais, mas ele estava apático e gemia baixinho, quando
estava consciente, como se soubesse algo que ele não era capaz de comunicar.
Na manhã do terceiro dia, eu peguei o cachorro e coloquei na caminhonete.
Então subi atrás do volante, realizando manobras no assento, colocando-o para
frente quanto poderia. Deixei para Jimmy um bilhete sobre a pequena mesa da
cozinha. Se ele voltasse, eu não queria que ele pensasse que eu tinha fugido e
levado todas as suas ferramentas. No ousaria deixá-los para trás. Se alguma
coisa acontecesse ao longo de nosso acampamento, eu sabia que a fechadura da
porta não manteria ninguém de fora, se as ferramentas fossem tiradas, não
haveria mais escultura. Sem esculturas, significava sem comida.

Havia uma nota de vinte dólares no cinzeiro. Parecia um monte de


dinheiro para uma criança. Eu sabia como conduzir a caminhonete, mas eu me
esforçava para ver por cima do volante. Peguei o travesseiro do banco que ficava
dobrado na minha cama estreita toda noite. Sentada em cima dele me dava a
altura suficiente para ver a estrada além do volante. Uma vez que eu estava fora
do canyon tranquilo que eu tinha permanecido, por pouco não sai colidindo com
vários carros. Minha experiência de dirigir não se estendia à condução entre
outros veículos. Não sabia onde estava indo, mas percebi que se eu parasse em
qualquer posto de gasolina e falasse que meu cachorro estava doente e meu pai
estava ausente, alguém poderia ajudar.

Consegui manter a caminhonete indo a uma linha reta, mas não demorou
muito até eu começar a ver as casas surgirem em manchas cada vez maiores e
luzes azuis e vermelhas piscando estavam atrás de mim. Eu não sabia o que
fazer. Então continuei dirigindo. Tentei empurrar o pedal do acelerador com
mais força, pensando que talvez eu pudesse acelerar e fugir. Isso não funcionou
muito bem. Além disso, a caminhonete começou a sacudir da mesma forma
como sempre fazia quando Jimmy tentava empurrá-la para ir mais rápida. Eu
desacelerei e pensei que talvez se eu fosse realmente devagar o carro da polícia
fosse apenas passar por mim. Diminuí a velocidade e o carro da polícia veio ao
meu lado. O homem atrás do volante olhou irritado e acenou para mim com o
seu braço, como se estivesse me dizendo para correr mais. Eu fugi e ele veio
para uma parada roncando. Outro carro com luzes piscando veio acelerando em
minha direção.
Gritei, agora convencida de que eu tinha cometido um erro terrível. Icas
nem sequer se mexeu. Eu o confortei de qualquer forma. — Está tudo bem,
rapaz, está tudo bem. Sou apenas uma criança. Eu acho que não vou para a
prisão — Não tinha certeza disso, mas disse assim mesmo. Não havia razão para
deixar Icas preocupado.

Minha porta foi aberta e o policial que estava acenando freneticamente


para encostar estava ali, com as pernas e braços abertos, fazendo-o parecer
muito grande e muito assustador.

— Oi — Sorri nervosa. Doçura normalmente ajudava com Jimmy.

— Preciso que você saia da caminhonete, Senhorita — O oficial tinha


músculos pulando para fora de suas mangas e um belo rosto emoldurado em
cabelos loiro escuro, cuidadosamente penteados e fora do seu rosto.

— Eu prefiro não deixar o meu cão, senhor — Respondi e não movi um


músculo. — Ele morde estranhos. E você é um estranho. Eu não quero que você
seja mordido — Icas parecia um saco de feijão com cabeça de cão, pendendo
sobre o banco. Ninguém ia ser mordido, infelizmente. Cutuquei-o em
frustração. — Icas?

O policial olhou para Icas e depois de volta para mim. — Eu acho que vou
ficar bem. Por favor, saia da caminhonete, senhorita.

— O que vai fazer comigo? — Perguntei, olhando para baixo. — Você nem
sequer pediu minha carteira de motorista — Sabia que isso era o que os policiais
deveriam fazer. Jimmy foi multado cerca de um ano atrás, porque a
caminhonete tinha um farol quebrado, e a primeira coisa que o policial pediu foi
sua carteira de motorista.

— Quantos anos você tem, garota? — O oficial suspirou.

— Idade suficiente para dirigir... Provavelmente — Eu disse, tentando


soar convincente.
Outro policial juntou-se ao primeiro um pouco atrás da porta aberta do
lado do motorista. Ele era alto e muito magro, e sua cabeça era careca no topo.
O sol brilhava nela como vidro, e eu desviei o olhar estremecendo. Eu disse que
era por isso que os meus olhos estavam molhados e ardendo.

— Plates e Vin disseram que o veículo pertence a um James Echohawk.

Com a menção do nome de Jimmy, meu coração balançou e o sofrimento


em meus olhos se intensificou. A umidade escapou e começou a deslizar pelo
meu rosto. Limpei a lágrima e tentei fingir que era o calor.

— Droga! Com certeza é um dia quente! Olhe para mim, suando por todo
o lugar.

— Qual é seu nome, garota? — O policial magro tinha uma voz profunda
totalmente em desacordo com a sua aparência. Ele quase parecia um sapo.

— Blue — Respondi com a minha arrogância desaparecendo


rapidamente.

— Blue?

— Sim. Blue... Echohawk — Resmunguei. Meus lábios tremiam.

— Tudo bem, uh, Blue. Seu pai sabe que você está com a sua
caminhonete?

— Eu não consigo encontrá-lo.

Os policiais se entreolharam e depois olharam de volta para mim.

— O que você quer dizer?

— Eu não consigo encontrá-lo — Repeti com raiva. — Estamos


acampados, e ele disse que estaria de volta. Icas voltou para casa, mas ele não.
Ele esteve fora por muitos dias e Icas está agindo como se estivesse doente e a
água está quase acabando no tanque, e estou com medo que ele não vá voltar.
— Icas é o cão, certo? — O policial de cabelo loiro escuro apontou para
Icas, que ainda não tinha sequer aberto os olhos.

— Sim — Sussurrei, tentando desesperadamente não chorar. Dizendo as


palavras em voz alta se tornou real e terrível. Jimmy estava desaparecido. Ele se
foi. O aconteceria comigo? Eu era uma criança. Eu não conseguia evitar de me
preocupar com o que aconteceria comigo e igualmente terrível era a
preocupação com Jimmy.

Eles pediram para sair da caminhonete, mas na última hora me lembrei


da mochila que eu tinha guardado as ferramentas. Corri de volta para a
caminhonete e puxei para fora do banco da frente. Era pesada e eu acabei
arrastando atrás de mim. O policial musculoso tinha levantado Icas do lado do
passageiro, e estava olhando para ele com a testa franzida. Ele olhou para mim
como se quisesse falar, pensou melhor, e o colocou suavemente no chão na parte
de trás de seu carro-patrulha.

— O que no mundo... — O policial magro, cujo nome eu lembrei era


Izzard - como o lagarto sem a L - tentou levantar a mochila e não colocou peso
suficiente no seu esforço. — O que você tem aqui?

— Ferramentas — Respondi. — E não vou soltar.

— Okaaaaay — Ele falou, olhando para o outro policial.

— Vamos. Basta colocá-los de volta aqui com o cão assassino.

Os dois riram como se fosse um grande jogo engraçado. Eu parei e olhei


para eles, olhando de um homem para o outro, empurrando meu queixo para
cima, desafiando-os a continuar. Surpreendentemente, suas risadas morreram,
e Izzard colocou as ferramentas ao lado de Icas.

Eu estava na frente do carro com o Sr. Músculos, também conhecido


como policial Bowles, e policial Izzard seguiu atrás de nós. Oficial Bowles pelo
rádio passou uma mensagem para alguém, falando sobre o veículo e alguns
números que eu não entendia. Era obviamente um código para “o que eu faço
com essa garota louca?”.

Eu fui capaz de mostrar-lhes onde estava nosso trailer. Ele estava na


parte de trás das montanhas. Eu não tinha virado à direita ou à esquerda
descendo do canyon, porque estava com medo de não me lembrar de como
voltar. Mas Jimmy não tinha milagrosamente voltado na minha ausência.
Minha nota estava sobre a mesa onde eu a havia deixado.

Eles acabaram chamando alguns rapazes de busca e salvamento. Isso


soou bem para mim - busca e salvamento - e eu me senti esperançosa pela
primeira vez em dias. Pediram-me uma descrição do meu pai. Eu disse que ele
não era tão alto quanto Izzard, mas era, provavelmente, um pouco mais alto do
que o oficial Bowles, não tão “pesado”. Oficial Izzard achou engraçado que eu
chamei oficial Bowles de pesado. Oficial Bowles e eu simplesmente o ignoramos.
Eu disse a eles que ele tinha cabelo preto e cinza e que sempre usava duas
tranças. Quando os lembrei de que o seu nome era Jimmy, pedi para eles
fazerem o favor de encontrá-lo e tive que parar de falar por medo de que eu iria
chorar. Jimmy nunca chorou então eu também não chorava.

Eles fizeram uma varredura. Eles procuraram por cerca de uma semana.
Eu fiquei em uma casa onde havia outras seis crianças. Os pais eram bons, e eu
comi pizza pela primeira vez. Fui à igreja três domingos consecutivos e cantava
canções sobre um cara chamado Jesus, que eu apreciei. Eu perguntei à senhora
que nos levou para cantar se ela conhecia as músicas de Willie Nelson. Ela não
conhecia. Provavelmente foi bom que ela não conhecia. Cantando canções de
Willie poderia me fazer sentir a falta de Jimmy. A casa onde eu fiquei era um
orfanato, uma casa para as crianças que não têm outro lugar para ir. E essa era
eu. Eu não tinha outro lugar para ir. Eu fui interrogada por uma assistente
social, tentando descobrir quem eu era. Eu não sabia que Jimmy não era meu
pai naquele momento. Ele nunca me explicou isso. Aparentemente, a minha
identidade era um mistério.
— Você pode me dizer alguma coisa sobre a sua mãe? — A assistente
social me perguntou. A pergunta era gentil, mas eu não estava enganada em
pensar que não tinha que responder isso.

— Ela está morta — Eu sabia muito.

— Você se lembra do nome dela?

Eu tinha perguntado uma vez a Jimmy o nome da minha mãe. Ele disse
que não sabia. Ele disse que eu a tinha chamado de Mama, como a maioria das
crianças de dois anos faz. Parecia inacreditável. Mas eu era apenas uma criança
acolhida e sem levantas suspeitas. Jimmy tinha uma pequena TV preto e branco
com duas antenas que eu assistia no trailer. Ela pegava a estação PBS local. Essa
era a minha exposição ao mundo exterior. Vila Sésamo, Arthur15, e o Antiques
Roadshow16. Eu não entendia a natureza das relações entre homens e mulheres.
Eu não sabia nada sobre bebês. Os bebês nasciam entregues por cegonhas, e
compradas nos hospitais. Eu não tinha noção de que meu pai não sabia o nome
da minha mãe, era muito estranho.

— Eu liguei para a mãe dela.

Os olhos da senhora piscaram e ela tinha um olhar malvado no rosto.

— Você sabe que não foi isso que eu quis dizer. Certamente seu pai sabia
o nome dela e teria dito.

— Não. Ele não falou. Ele não a conhecia muito bem. Ela só me deixou
com ele um dia e partiu. Então ela morreu.

— Então, eles nunca foram casados?

— Não.

15 Arthur é uma série para televisão feita especialmente para as crianças. É uma produção canadense e
norte-americana, sucesso no mundo inteiro, produzida desde 1996.
16 Antiques Roadshow é um programa de televisão britânico no qual avaliadores de antiguidades viajam

para várias regiões do Reino Unido (e, ocasionalmente, em outros países) para avaliar antiguidades
trazidas pela população local. Ele está em funcionamento desde 1979. Há também versões internacionais
do programa.
— Por que você o chama de Jimmy e não de pai?

— Eu não sei. Acho que ele não era o tipo de pai. Às vezes eu o chamava
de pai. Mas, na maioria das vezes era apenas Jimmy.

— Você conhece a sua tia?

— Eu tenho uma tia?

— Cheryl Sheevers. É o seu endereço listado nas informações de seu pai.


Ela é meia-irmã de seu pai.

— Cheryl? — Recordações apareceram. Um apartamento. Estivemos lá


algumas vezes. Nunca fiquei muito tempo. Geralmente esperava na
caminhonete. A única vez que eu tinha visto Cheryl, eu estava doente. Jimmy
estava preocupado e me levou para o apartamento dela. Ela me deu um
remédio... Antibióticos, ela os tinha.

— Eu não a conheço muito bem — Falei.

A senhora suspirou e deitou sua caneta. Ela correu os dedos pelos


cabelos. Ela precisava parar de fazer isso. Seu cabelo estava todo confuso e
começou a ficar em pé. Eu quase ofereci para trançá-lo para ela. Eu era uma boa
em fazer tranças. Mas eu achava que ela não deixaria, por isso fiquei quieta.

— Sem certidão de nascimento, sem registro de vacinas... Não há


registros escolares... O que eu devo fazer? É como um maldito bebê Moises17, eu
juro — A senhora estava resmungando para si mesma, a mesma forma que
Jimmy fazia às vezes, quando ele estava fazendo uma lista para a loja.

Eu disse a assistente social que Jimmy tinha uma família em uma reserva
em Oklahoma, mas que eles não me conheciam. Acontece que eu estava certa.
Os serviços sociais os encontraram. Eles não sabiam nada sobre mim e não
queriam nada comigo. Isso foi bom para mim. Oklahoma era muito longe, e eu
precisava estar por perto quando encontrassem Jimmy. Os policiais
entrevistaram Cheryl. Ela me disse mais tarde que “a pressionaram”. Cheryl
17 Moises – Referência a Moises (bíblia) que foi abandonado no rio Nilo.
vivia na cidade de Boulder, não muito longe de onde eu estava hospedada no lar
de adoção. E por incrível que pareça, Cheryl disse que iria me levar.

O nome dela não era Echohawk, era Sheevers, mas acho que isso não
importava. Ela realmente não parecia com Jimmy, também. Sua pele não era
tão morena e tinha o cabelo tingido em vários tons de loiro. Usava tanta
maquiagem que era difícil dizer como ela realmente era sob as camadas. A
primeira vez que a encontrei, eu olhava para ela, tentando ver o “verdadeiro”
rosto dela. Assim como Jimmy tinha me ensinado a ver a madeira, imaginando
algo bonito sob o exterior duro. Era mais fácil fazer com a madeira, lamento
dizer. Os policiais me deixaram ficar com as ferramentas de Jimmy, mas eles
levaram Icas para um abrigo de animais. Eles disseram que ele seria atendido
por um veterinário, mas eu estava com muito medo que Icas não poderia ser
curado. Ele estava quebrado para sempre. Senti-me quebrada também, mas
ninguém poderia dizer.
Capítulo Cinco

Internacional
— Quando os antigos romanos conquistariam um lugar novo ou um novo
povo, eles iriam deixar a língua e os costumes intactos - até mesmo deixariam as
pessoas conquistadas decidirem por si mesmos, na maioria dos casos, quem
nomeariam como governador para manter um ponto de apoio na região —
Wilson encostou-se ao quadro branco enquanto falava, sua postura relaxada,
com as mãos entrelaçadas vagamente.

— Isto foi parte do que fez Roma tão bem sucedida. Eles não tentaram
obrigar todos romanos quando já estavam conquistando-os. Quando fui para a
África com o Peace Corp, uma mulher que trabalhou com o Corp disse algo para
mim que muitas vezes tenho pensado desde então. Ela me disse que “A África
não vai se adaptar a você. Você vai ter de se adaptar a África”. Isso é verdade
para onde quer que vá, seja escola, ou seja, no mundo mais amplo.

— Quando me mudei para os Estados Unidos aos dezesseis anos, tive


meus olhos abertos para as diferenças na nossa língua, e tive que adaptar na
América. Eu não poderia esperar que as pessoas me entendessem ou dar um
desconto para as diferenças em nossa língua e cultura. Os americanos podem
falar Inglês, mas existem sotaques regionais e frases, grafias diferentes, uma
terminologia diferente para quase tudo. Lembro-me da primeira vez em que eu
perguntei a alguém no campus se eles tinham uma fag. Foi uma coisa boa que eu
não apanhei. Em Blighty, um fag é um cigarro, e eu estava passando por uma
fase em que eu gostava de fumar. Eu achava que isso me fazia parecer mais
velho e sofisticado.

— O que é Blighty? — Alguém perguntou em meio a risadinhas que


irrompeu quando Wilson disse fag.
— Blighty é um apelido para a Grã-Bretanha. Temos apelidos e frases que
não faria absolutamente nenhum sentido para nenhum de vocês. Na verdade,
você pode precisar de um tradutor por um tempo, se você viver em Londres por
qualquer período de tempo, como eu fiz quando cheguei aqui. Felizmente, tive
uns companheiros que cuidavam de mim na Uni. Tive anos para me tornar
americanizado, mas acho que os velhos hábitos custam a morrer, então pensei
que você gostaria de ouvir algumas gírias britânicas. Assim, se eu escorregar e
disser algo instável, você terá uma ideia do que estou me referindo.

— Por exemplo, na Grã-Bretanha chamamos de uma garota atraente de


um belo passarinho. Funciona para os caras também. Vocês podem dizer que é
um cara atraente ou um pássaro atraente. Também diríamos delicioso - que
suponho que venha da palavra esplêndido. O alimento é delicioso, cochilos são
deliciosos, os livros são deliciosos. Essa é a ideia. E se gostam de algo dizemos
isso. Se vocês virem e gostarem de um pássaro delicioso, vocês podem tentar
conversar ou flertar com ela. Se eu chamar de pateta, estaria chamando você de
idiota ou imbecil. Se eu dissesse que você parece inteligente, estaria me
referindo a sua roupa, não a sua inteligência. Se você é ridículo ou caduco ou
excêntrico isso significa que você está louco. E se alguém está contrariado ou
aborrecido na Inglaterra, isso significa que eles estão fartos ou com raiva. Não
chateado, lembre-se, o que significa bêbado. Nós não dizemos sujeira ou lixo,
dizemos escombros. E, claro, nós xingamos diferente, embora adotamos muitos
palavrões que suas mães se oporiam.

— Você diz bloody18, bugger19 e blast20, certo? — Alguém falou no fundo


da sala.

— Entre outras coisas — Wilson tentou manter uma expressão séria


quando continuou.

— Nós não “ligamos” para os nossos amigos íntimos ao telefone, nós


tocamos ou soamos. Nós também não temos capotas e porta malas em nossos

18 Bloody – no inglês americano seria sangrento, na no britânico seria um advérbio usado para dar ênfase
a alguma coisa.
19 Bugger – no inglês americano seria sodomita, e no britânico indesejado
20 Blast - no inglês americano também pode significar um barato, o máximo, e no britânico explosão,

explosivo.
carros, temos gorros e mala de carro. Não temos bares, temos pubs. Não temos
vácuos, temos aspiradores, e uma sombrinha é um guarda-chuva. Que, por
sinal, você deve ter na Inglaterra. É fria e molhada. Depois de passar dois anos
na África, o pensamento de voltar para Manchester não era atraente. Eu
descobri que amava o sol em grandes doses. Então, embora eu sempre me
considere inglês, acho que nunca mais vou morar na Inglaterra.

— Conte-nos um pouco mais! — Chrissy deu uma risadinha.

— Bem, se algo é as ou brilhante isso significa que é legal ou incrível —


Acrescentou Wilson. — Se eu estivesse em Londres, eu poderia cumprimentá-lo,
dizendo: “Tudo bem?” E você iria responder com “Tudo bem?” Basicamente,
significa “Como vai?” ou “Olá, como você está?” e não exige uma resposta.

Imediatamente, toda a turma começou a perguntar uns aos outros “Tudo


bem?” com sotaque britânico terrível, e o Sr. Wilson continuou por cima do
caos, erguendo a voz um pouco para conter a classe de volta.

— Se algo é esquisito ou instável, isso significa que ele não está certo, ou
parece duvidoso. Sua pontuação mais recente no seu teste pode me parecer um
pouco instável se todos os seus exames anteriores falharam.

— Em Yorkshire, se alguém diz que você não ganha nada por nada, eles
iriam dizer, você não entende coisa nenhuma... Ou você recebe o que você paga.
Se eu disser para você chivvy isso significa que eu quero que você se apresse, e
se eu disser para você se livrar, isso significa que eu quero que você se perca. Se
alguém é fraco eles são estúpidos, se algo é embotado é chato. Uma facada não é
embotada, sua mente é. É sem corte, para consegui-lo certo — Wilson sorriu
para os rostos extasiados de trinta alunos, rapidamente tomando notas de gírias
britânicas. Era como se os Beatles tivessem invadido os Estados Unidos mais
uma vez. Eu sabia que iria ouvir “chivvy” e “ela é um pássaro bonito” nos
corredores pelo resto do ano.

Wilson estava apenas se aquecendo. — Se você transar alguém, isso


significa que você arrasou-a. Se algo é canja isso significa que é uma coisa fácil,
ou é realmente fácil. Se você disser que deixou cair um erro, isso significa que
você fez algo vergonhoso. Como perguntar a uma mulher se ela é imprestável,
que significa grávida, para descobrir o que ela está apenas um pouco gorda.

A classe estava histérica agora, e isso era tudo que eu podia fazer para
não rir com eles. Era como um idioma diferente. Wilson era muito diferente de
todos os garotos que eu já tinha conhecido. E não era só o jeito que ele falava.
Era ele. Sua luz e sua intensidade. E eu o odiava por isso. Revirei os olhos, gemi
e rosnei quando ele me pediu para participar. Ele manteve a calma, o que me
deixou ainda mais “descontente”.

Minha irritação só aumentou à medida que Wilson começou a introduzir


um “visitante especial”, uma garota loira chamada Pamela, que apresentou um
power point sobre arquitetura romana de sua viagem recente. Seu sobrenome
era Sheffield - como nos Sheffield Estates - um popular hotel em Las Vegas, que
foi projetado para se parecer com uma propriedade Inglesa. Sua família tinha
aparentemente construído o hotel, que ainda tinha o sobrenome dela.
Aparentemente, eles tinham hotéis em toda a Europa. Pamela disse-nos que
tinha se formado em hotelaria internacional e viajado para todos os diferentes
hotéis de propriedade da sua família, um dos quais era perto do Coliseu, em
Roma. Ela parecia exatamente como a princesa Diana quando falava, era
elegante e glamorosa e dizia as palavras como “abominável” e “brilhante.”
Wilson apresentou como sua “amiga de infância” mas ela olhava para ele como
se ela fosse sua namorada. Fazia mais sentido que ele estava no Boulder City, se
sua namorada trabalhasse para o Sheffield States.

Pamela zumbia sobre este ou aquele exemplo impressionante de engenho


Romano, e eu desprezava a sua beleza tranquila, seu conhecimento do mundo, o
seu óbvio conforto consigo mesma e com o seu lugar no universo, e eu a
provocava um pouco durante a apresentação. Era fácil ver por que Wilson iria
gostar dela. Ela falava a sua linguagem, afinal. Ela tinha juventude, beleza,
sucesso e status.

Em outros tempos, ela e Wilson teriam sido os conquistadores Romanos,


e eu gostaria de ter sido uma líder de uma tribo selvagem que atacaram Roma.
Como Wilson os tinha chamado? Havia vários. Os Visigodos, os Godos, os
Francos e os Vândalos. Ou talvez eu seja um Hun. A namorada de Átila. Poderia
usar um osso no meu cabelo e montar em um elefante.

No final, as tribos invadiram Roma, saqueando e queimando toda a área.


Isso me agradou em algum nível. Os azarões se levantando e vencendo os
conquistadores. Mas se eu fosse completamente honesta comigo mesma, não
queria conquistar Wilson. Eu só queria sua atenção. E teria isso das maneiras
mais detestáveis. Ele geralmente era um bom garoto sobre isso, até o dia que
Pamela veio e ele me manteve depois da aula.

— Senhorita Echohawk - espere um minuto.

Eu gemi, recuando perto da porta onde eu estava a poucos passos de


fazer a minha saída. Tive alguns sorrisos de alguns outros alunos quando eles
desocuparam a sala. Todos sabiam que eu estava em apuros.

— Eu pensei que nós já tivéssemos discutido a coisa de senhorita


Echohawk — Rosnei para ele, quando a sala estava vazia à nossa volta.

Wilson começou a reunir os papéis espalhados na mesa, empurrando e


alisando-os enquanto os pegava. Ele não me disse nada, mas havia uma
profunda ruga entre as sobrancelhas. Ele parecia um pouco... Bravo - a definição
americana.

— Eu perdi alguma coisa? — Sua voz era suave, e quando ele finalmente
olhou para mim seus olhos estavam preocupados.

Joguei meu cabelo e mudei o meu peso, estalando o quadril do jeito que
as garotas fazem quando somos repreendidas. — O que você quer dizer?

— Por que você está tão irritada?

Sua pergunta me pegou de surpresa, e eu ri um pouco. — Isso não é


irritação — Eu sorri. — Essa sou eu. Acostume-se com isso.

— Eu realmente preferiria não — Ele respondeu suavemente, mas não


sorriu. E senti uma pontada de algo perto de remorso. Eu sufoquei a sensação
imediatamente. Mudei o meu peso novamente e desviei o olhar, comunicando
que tinha acabado essa conversa.

— Posso ir agora? — Perguntei bruscamente.

Ele me ignorou. — Você não gosta de mim. E está tudo bem. Eu tive
professores que eu não me conectava muito na escola. Mas você está
constantemente à procura de uma discussão... E eu não tenho certeza se
entendo o porquê. Você foi rude com a senhorita Sheffield hoje, e fiquei
constrangido por você e por ela.

— Pessoas como a senhorita Sheffield precisam ganhar um momento


difícil de vez em quando. É bom para ela. Isso vai fortalecê-la, ajudar a crescer o
pelo em seu peito e desenvolver um pouco de músculo — Eu sorri.

— O que quer dizer, pessoas como a senhorita Sheffield?

— Vamos lá, Wilson! — Eu gemi. — Você sabe exatamente o que quero


dizer. Você já reparou todos os pequenos grupos, todas as pequenas panelinhas
em sua própria sala de aula? Aqui temos os atletas — Eu caminhei para o
agrupamento de mesas na fileira de trás. — Aqui temos os pompons e as rainhas
do baile — Apontei enquanto passeava. — Os nerds geralmente se reúnem aqui.
A garota vadia – Que seria eu. – Senta-se aqui. E os restante que não têm ideia
de quem ou o que são, preenche todos os lugares do meio. Talvez você não
reconheça essas pequenas divisões, porque pessoas como você e a Miss Sheffield
tem o seu próprio status. Pessoas como você não tem um grupo, porque flutua
acima dos grupos. Você é da Inglaterra. Você deve saber tudo sobre a estrutura
de classe, certo?

— O que no mundo que você está falando? — Wilson gritou em frustração


e sua óbvia irritação apenas me motivou.

— Jimmy, o homem que me criou, me contou uma história uma vez — Eu


expliquei. — Isso vai junto com a coisa toda tribal que temos falado. Romanos
contra Godos, e contra os Visigodos que está contra todos os outros. É a razão
pela qual as pessoas lutam. É uma lenda indígena que seu avô lhe contou. Ele
disse que Tabuts, o lobo Wise, decidiu esculpir muitas pessoas diferentes com
galhos. Diferentes formas, tamanhos, cores. Ele esculpiu todos eles. Então o
lobo Wise colocou todas as pessoas que criou em um grande saco. Ele planejou
espalhar por toda a terra de maneira uniforme, para que cada pessoa que criou
tivesse um bom lugar para viver, muito espaço, muita comida e muita paz.

— Mas Tabuts tinha um irmão mais novo chamado Shinangwav.


Shinangwav, o coiote, era muito travesso e gostava de causar problemas.
Quando Tabuts, o lobo wise, não estava olhando, Shinangwav fez um buraco no
saco. Assim, quando o lobo Wise tentou espalhar, em vez de todo mundo
começar seu próprio espaço, o povo caiu em grupos.

Wilson ficou muito quieto, seus olhos cinzentos focados no meu rosto, e
eu percebi que tinha sua atenção agora, querendo ou não.

— Isso explica porque as pessoas lutam, disse Jimmy. Eles não têm
espaço suficiente, ou talvez alguém tenha caído em um pedaço de terra melhor,
e todos nós queremos a terra ou bens que outra pessoa tem - simplesmente por
questão de sorte. Então, nós lutamos. Você e Pamela são o mesmo tipo de
pessoas. Você é do mesmo grupo — Terminei, desafiando.

— O que é que isso quer dizer, Blue? — Wilson não era desafiador. Ele
parecia chateado, magoado mesmo.

Dei de ombros, cansada, minha raiva crepitando como um balão furado.


Wilson era um homem inteligente. Não era exatamente difícil decifrar o que
significado disso.

— Mas, se somos todos esculpidos pelo mesmo lobo Wise — Wilson


insistiu, usando a história para fazer seu ponto. — Por que importa aonde nós
fomos espalhados?

— Porque tantas pessoas sofrem, enquanto outras parecem tê-lo tão


fáceis. E não faz muito mais sentido para mim do que a lenda indígena.
— Então você está com raiva pelo local que você foi espalhada. E você
está com raiva de mim - e Pamela também - porque crescemos do outro lado do
oceano em uma vida de lazer e privilégio.

A maneira como ele resumiu, me fez parecer preconceituosa. Mas eu


meio que era, talvez isso fosse justo. Dei de ombros e suspirei, e Wilson apertou
as mãos na frente dele, com os olhos sérios.

— Nenhum de nós pode evitar o lugar onde fomos espalhados, Blue. Mas
nenhum de nós tem que permanecer onde fomos espalhados. Por que você não
se concentra mais para onde está indo e menos de onde veio? Por que você não
se concentra mais no que a faz brilhante e menos no que a deixa com raiva? Está
faltando um elemento chave para a história. Talvez a moral da lenda seja que
somos todos esculpidos, criados e formados por uma mão de mestre. Talvez
todos nós fôssemos obras de arte.

Eu gemi. — Em seguida, você vai me dizer para ser eu mesma e todos vão
me amar, certo?

— Amar pode ser uma palavra muito forte — Wilson respondeu


inexpressivo. Eu ri.

— Estou falando sério! — Argumentei, rindo de mim mesma. —Todas as


coisas que as pessoas dizem sobre apenas ser você mesmo são completa...

— Lixo?

— Sim. Ser você mesmo só funciona se você não for ruim. Se você for
ruim, definitivamente não seja você mesmo.

Foi à vez de Wilson suspirar, mas eu poderia dizer que ele tinha me
perdoado e meu coração amoleceu um pouco.

— E aquele poema “Não Sou Ninguém” que você citou outro dia? Eu acho
que provavelmente é mais preciso.
— O poema de Dickinson? — Wilson parecia absolutamente radiante que
eu me lembrava. E então ele recitou, as sobrancelhas levantadas como se tivesse
certeza que eu não poderia estar me referindo a Dickinson.

Não sou Ninguém! Quem é você?

Ninguém — Também?

Então somos um par?

Não conte! Podem espalhar!

Balancei a cabeça. — Sim. Esse mesmo. Acho que o velho Dick e eu


teríamos sido bons amigos, porque eu sou definitivamente um ninguém
também.

— O velho Dick é, na verdade é Emily Dickinson — Os lábios de Wilson


contraíram. Eu sabia muito bem quem havia escrito o poema, mas gostei de
fazê-lo rir.

— A beleza desse poema é que todo mundo pode se relacionar, porque


todos nós sentimos como se não fossemos ninguém. Todos nós sentimos que
estamos do lado de fora, olhando para dentro. Nós todos nos sentimos
dispersos. Mas acho que é essa consciência que realmente nos faz alguém. E
você é definitivamente alguém, Blue. Pode não ser uma obra de arte, mas é
definitivamente uma parte do trabalho.
Capítulo Seis

Pavão
Novembro chegou inesperadamente, e a luz do sol mudou e suavizou. O
calor do deserto tornou-se silencioso e suave, embora Vegas e Boulder City
tivesse mais palmeiras do que folhas se transformando, o outono era um belo
descanso. Mason começou a vir com mais frequência, enquanto eu estava na
parte de trás da sua bicicleta atravessando o deserto, estar com ele era algo que
eu gostava. Quando o passeio terminava, quando a nossa paixão tinha
consumido, quando estávamos respirando com dificuldade, desejo saciado, não
tínhamos nada a dizer. Eu estava sempre ansiosa para ir embora ou para ele ir.
Eu nunca fingi amá-lo ou querer alguma coisa dele, e ele parecia satisfeito com o
que eu estava disposta a lhe dar.

Eu acho que era por isso que me surpreendeu quando seu irmão Brandon
apareceu do nada em uma noite de quinta-feira. Manny e Graciela estavam no
meu apartamento assistindo American Idol, o programa favorito de Manny.
Manny estava convencido de que ele era um cantor melhor do que quase todos
os concorrentes, e demonstrava sua habilidade em intervalos comerciais, de pé
no sofá com sua mão fechada ao redor de um microfone invisível. Ele não era
ruim, e o que lhe faltava em talento, ele compensava com personalidade.
Normalmente Graciela era sua maior fã, mas ela estava nervosa e ficava olhando
para o telefone dela e andando para lá e para cá.

Graciela estava me dando nos nervos ultimamente. Ela tinha começado a


alisar seus cabelos pretos encaracolados para que eles ficassem soltos em suas
costas e jogava seu cabelo ao lado, para que sua longa franja escondesse seu
olho esquerdo. Assim como o meu. Quando o ano letivo começou, a única
maquiagem que ela usava era brilho labial e rímel. Mas isso tinha mudado,
também. Seu delineador era grosso e preto, seus cílios enrolados e pintados, sua
sombra escura esfumaçada. O jeans estava apertado, suas camisas justas, e ela
ainda encontrou um par de botas de cano alto tamanho 5. Ela pesava talvez 40
quilos e não tinha quadris ou seios, e as roupas e maquiagem a faziam parecer
como se ela estivesse vestida para o Halloween. Não foi difícil descobrir que ela
estava tentando me imitar, mas ela parecia ridícula, e pela primeira, vez eu me
perguntava se talvez eu também fosse.

Quando a campainha tocou, Graciela saltou do sofá e correu para o


banheiro, gritando como se Justin Bieber estivesse na porta.

— O que no mundo acontece com ela? — Eu resmunguei, irritada.

— Devem ser hormônios — Manny suspirou, como se soubesse tudo


sobre os hormônios femininos.

— Ah, sim? É por isso que ela se tornou uma miniatura minha?
Hormônios? — Andei até a porta e a abri, pensando que os vizinhos tinham
cansado de ouvir Manny cantar a plenos pulmões e estavam vindos para
reclamar.

Brandon Bates e dois de seus amigos estavam na minha porta,


combinando sorrisos em seus rostos.

— Ei, Blue — Brandon sorriu com seus olhos em meu top e o short de
algodão que eu tinha trocado depois do trabalho. Seus amigos pareciam
igualmente interessados na minha roupa.

Fiquei surpresa, e por um segundo eu não sabia bem o que dizer.

— Uh, oi, Brandon. O que vocês estão fazendo aqui? — A minha saudação
não era exatamente acolhedora, mas Brandon passou pela pequena abertura
como se eu tivesse acabado de lhe convidar para entrar. Eu me rendi com a
surpresa quando ele entrou no apartamento como se fosse dono do lugar, Cory e
Matt em seus calcanhares. Todos eles sentaram confortáveis no sofá, os olhos na
TV, como se fossem ficar por algum tempo. Manny era todo sorrisos e felizes
comprimentos, contente que Brandon Bates estava aqui para assistir o seu
programa favorito com ele. Graciela escapuliu para fora do banheiro, abraçando
as paredes como um filhote de cachorro tímido e sentou no braço do sofá mais
próximo a Brandon.

— Oi, Brandon — Ela ronronou, com os olhos colados ao rosto dele e a


respiração superficial.

O comportamento nervoso de Gracie, de repente fez sentido. Ela sabia


que eles estavam vindo. O que ela estava pensando? Que todos iriamos sair? A
forma como os olhos dela se agarraram a Brandon, deixou seus sentimentos
bastante óbvios. Mas eu sabia que Brandon não estava interessado em Gracie.
Graças a Deus. Na verdade, ele flertava e era sugestivo comigo em várias
ocasiões, e eu queria saber até que ponto Mason veria o seu irmão como uma
possível ameaça.

— Então, Blue — Brandon falou, após alguns minutos. — Estava


pensando que você e eu poderíamos dar uma volta ou algo assim. Cory e Matt
poderão servir de babás se você quiser sair.

Manny bufou de indignação com o termo babá, e as sobrancelhas de Cory


subiram, indicando que não era o que ele tinha planejado.

— Brandon — Matt avisou.

— Brandon — Graciela chorou, como se Brandon a tivesse esbofeteado.


Então, ela me lançou um olhar com tanto veneno que eu dei alguns passos para
trás.

— Será que Mason sabe que você está aqui, Brandon? — Eu disse sem
rodeios.

— Mason disse que você e ele têm um acordo, e não um relacionamento,


então duvido que ele se importe — Brandon sorriu para mim como se fosse o
meu dia de sorte. Gracie olhou com raiva para mim como se eu tivesse roubado
sua alma gêmea. Era hora para enviar todos para casa.

— Realmente, Brandon? — Murmurei. — Não me lembro de você fazer


parte desse acordo, então acho que vou passar esse passeio. E olha a hora!
Droga, minha tia vai estar em casa logo — Era uma mentira, mas Brandon não
sabia disso.

— Garotos, é melhor que saiam — Eu abri a porta e olhei para eles com
uma sobrancelha levantada em expectativa. Matt e Cory foram obedientes, mas
Brandon parecia um pouco irritado. Ele foi mais lento para sair e eu pensei por
um minuto que eu poderia ter problema em mãos.

— Eu vou lhe acompanhar, Brandon — Graciela ronronou e se colocou de


pé ao lado dele. Os instintos fraternos de Manny finalmente entraram em ação,
e ele se levantou brutalmente e agarrou Graciela pela mão.

— Vamos lá, Gracie. Precisamos ir também — Gracie puxou a mão dela, e


os olhos de Manny brilharam. Ele cuspiu algo intenso em espanhol e Gracie
rosnou de volta para ele como um gato encurralado, mas ela o deixou puxá-la do
apartamento.

— Eu vou lhe enviar mensagem, ok, Brandon? — Gracie falou por cima do
ombro, e os amigos de Brandon riram quando Manny lançou outro discurso
enquanto os barulhos dos seus passos desapareciam. Brandon e seus amigos os
seguiram e eu soltei um pequeno suspiro de alívio.

Brandon disse algo baixinho e as risadinhas se tornaram roncos e


sugestões manhosas. Eles empurravam um ao outro enquanto se dirigiram para
a calçada, indo para longe do meu apartamento.

— Ei, Brandon — Eu falei atrás deles. — Fique longe de Gracie, por favor.

— Gracie não é em quem estou interessado, Blue — Brandon falou de


volta. — Me avise quando estiver pronta para dar esse passeio, tudo bem?

Eu fechei a porta em resposta.


— Joana d’Arc nasceu em 1412, em uma pequena aldeia no leste da
França. Sua família era pobre, e eles viveram em uma região que foi devastada
por conflitos. Três anos depois do nascimento de Joana, o rei da Inglaterra
Henrique V invadiu a França e derrotaram os franceses em Agincourt, deixando
o país muito dividido — As mãos de Wilson estavam enfiadas nos bolsos, os
olhos sérios enquanto observava a sua classe.

— Em documentos de sobreviventes, Joana foi descrita como se


assemelhasse uma mera “pastorinha.” Mas para mim ela foi uma das pessoas
mais fascinantes da história. Aos treze anos, ela começou a ter visões de
natureza religiosa ou espiritual. Ela descreveu-as como admoestações para ser
boa ou piedosa, para ir à igreja. Muito simples, tanto quanto visões poderiam
ser — Wilson sorriu com um flash rápido de dentes brancos alinhados, uma
concessão para o fato de que as visões não eram nada comuns ou simples — Não
foi até que ela estava mais perto de 16 anos de idade, quando as visões
mudaram. Ela começou a receber instruções específicas para “ir à França”.
Então ela obedeceu.

— Joana d’Arc tinha dezesseis anos quando solicitou por Charles de


Ponthieu, herdeiro assediado ao trono, e disse-lhe que tinha sido enviada por
Deus para ajudá-lo. Você pode imaginar uma menina nos dias de hoje ir até o
Presidente dos Estados Unidos dizendo que ela foi enviada por Deus para ajudá-
lo? Afirmo que isso não foi menos dramático para a jovem Joana solicitar um
rei. O fato de que lhe foi concedida a entrada é notável. Ela foi efetivamente
duas vezes antes que, finalmente, fosse bem sucedida. Mas, eventualmente,
Joana foi capaz de convencer Charles que ela foi enviada por Deus,
retransmitindo uma oração que ele havia feito recentemente perguntando a
Deus se ele era o herdeiro legítimo do trono, e se não fosse, que ele sofresse e
não o seu povo. Ela disse que Deus o tinha ouvido, e que ele era de fato o Rei
legítimo.

— Ela enviou uma carta para os ingleses, dizendo-lhes que o Rei do Céu e
filho de Maria, Jesus Cristo, apoiou a reivindicação de Charles ao trono francês
e que eles deveriam voltar para a Inglaterra. Foi dado a ela também, o controle
sobre um exército e permissão para levá-los para a batalha. Uma camponesa de
dezessete anos de idade! — Wilson olhou ao redor da sala para a sua plateia,
muitos dos quais tinham dezessete anos de idade.

— Joana tornou-se uma líder quase mítica entre aqueles que lutaram
contra o governo inglês. As pessoas estavam maravilhados com a sua sabedoria,
conhecimento e maturidade espiritual. Ela deu-lhes algo em que acreditar e algo
para lutar. Dentro de um ano, Joana d'Arc havia liderado o exército francês as
vitórias em Orleans, Patay e Troyes. Muitas outras cidades também foram
liberadas do controle inglês, possibilitando a coroação do rei Charles VII, em
julho de 1429. No entanto, um ano depois, Joana foi capturada e vendida para
os Ingleses.

— Os Ingleses e membros do clero francês decidiram colocá-la em


julgamento por bruxaria. Sempre que queriam pôr fim a uma mulher naqueles
dias, eles simplesmente acusavam de ser uma bruxa. Vocês verão essa acusação
sendo feita a mulheres fortes ao longo da história. Inicialmente, o julgamento
foi realizado em público, mas as respostas de Joana em sua própria defesa eram
muito mais nítidas e mais astutas do que os seus promotores jamais poderiam
ter imaginado. Ela, na verdade, ganhou apoio e simpatia entre os ouvintes. Seus
acusadores não poderiam ter isso, então seu julgamento foi feito privado.

— Claro, ela foi considerada culpada e condenada a queimar na fogueira.


Dizem que quando ela estava amarrada à estaca, ela perdoou seus acusadores e
pediu-lhes para orar por ela. Muitos ingleses choraram sua morte, convencidos
de que eles tinham queimado uma santa. Temos uma grande quantidade de
documentação da vida de Joana d' Arc. Mas eu acho que uma coisa que ela disse
é particularmente reveladora sobre seu caráter e suas convicções. Ela disse que
“a vida é tudo o que temos e vivemos como acreditamos em vivê-la. Mas
sacrificar o que você é e viver sem crença, é um destino pior do que a morte".

— A última vez que trabalhamos em nossa história pessoal, escrevemos


sobre as falsas crenças que podemos ter - crenças que podem ser mitos. Hoje
quero que vocês escrevam sobre o outro lado da moeda. Quais as crenças que os
mantem seguindo em frente? Quais as crenças que os definem?

Era uma vez, havia uma pequena melra, empurrada do

ninho, indesejada. Descartada. Então, um falcão a

encontrou, mergulhou e a carregou voando acima, dando-

lhe uma casa em seu ninho, e ensinou-a a voar. Mas um dia o

Falcão não voltou para casa, e a pequena melra estava

sozinha de novo, indesejada. Ela queria voar para longe. Mas

quando ela olhou para fora, subiu na borda do ninho e

olhou através do céu percebeu quão pequenas e fracas suas

asas eram. O céu era tão grande. E qualquer outro lugar era

tão longe. Ela se sentia encurralada. Ela podia voar, mas

para onde iria?

Eu tinha parado de tentar jogar fora o meu papel. Mas eu o odiava mais a
cada vez que eu o via. Eu não sou ninguém! Quem é você? E minha mente
viajou de volta para aquele terrível dia. O dia em que eu tinha me tornado,
ninguém.

Eu fui fraca, e eu fui pequena. A lembrança se levantou como uma nuvem


negra. Acho que eu tinha adormecido enroscada entre a pia e o vaso sanitário
porque a próxima coisa que me lembrava, era que Donnie estava de volta. Ele
puxou minhas pernas, me arrastando para fora do meu esconderijo com pouco
esforço. Eu tinha gritado, chutado e corri para a porta. O chão estava molhado e
eu escorreguei, e Donnie deslizou, agitando seus braços enquanto tentava dar
um passo atrás de mim. Corri para o meu quarto com Donnie nos meus
calcanhares. Terror me sufocou, e eu não conseguia gritar. Bati a porta, tranquei
e tentei entrar debaixo da cama, mas era muito perto do chão e minha cabeça
não cabia. Não havia onde me esconder. Donnie estava empurrando a porta.
Estiquei-me até a gaveta e puxei uma camiseta grande, colocando sobre minha
cabeça e peguei a cobra de madeira que estava em cima de minha cômoda.

— Só quero ter certeza de que está bem, Blue — Donnie mentiu. Eu já


tinha visto o rosto dele quando olhou para mim, e eu sabia que ele estava
mentindo. Então a porta bateu contra a parede ao lado, e Donnie foi entrando
por ela. O boom me fez pular e eu deixei cair à cobra.

— Você está louca? — Donnie gritou. Estendeu as mãos na frente dele


como se tivesse encurralando um animal selvagem. Ele se movia para mim
lentamente com as palmas das mãos para cima.

— Conversei com Cheryl. Ela disse que você recebeu uma notícia ruim
hoje. Você tem que ser forte, garota. Vou ficar com você até ela chegar em casa,
certo? Apenas vá em frente e suba na cama. Seus lábios estão azuis.

Inclinei-me e peguei minha cobra, segurando na borda da minha


camiseta para ela não subir e revelar a nudez abaixo. O peso da madeira lisa em
minhas mãos me fez sentir bem. Donnie parou de se mover.

— Eu não vou machucá-la, Blue. Estou aqui apenas para me certificar de


que está tudo bem, ok?

Virei-me e corri para minha cama, mergulhei e puxei o cobertor até meu
queixo. Agarrei a cobra debaixo das cobertas. Eu vi a aproximação de Donnie.
Ele relaxou se sentando na beirada da cama, se inclinou em direção a minha
mesa de cabeceira e apagou o abajur. Eu gritei. A luz imediatamente voltou.

— Pare com isso! — Ele gritou.

— Deixe a luz acesa — Eu ofegava.

— Ok, ok — Ele respondeu rapidamente. — Só vou me sentar aqui até


você pegar no sono.
Eu me virei para do lado da parede, de costas para Donnie, apertando os
olhos fechados e me enrolando e girando a cobra muito tempo, que estava
ficando quente no meu aperto. A madeira era assim, quente e suave. Jimmy
disse que era porque a madeira uma vez foi uma coisa viva. Senti uma mão no
meu cabelo e endureci, abrindo meus olhos.

— Quando eu era pequeno, minha mãe costumava esfregar minhas costas


às vezes, para me ajudar a adormecer — A voz de Donnie era suave. — Eu
poderia esfregar suas costas, assim — Sua mão moveu no meu ombro. Ele
cuidadosamente moveu em pequenos círculos na parte de cima das minhas
costas. Foi bom. Eu não disse nada, minha atenção estava voltada para os
círculos e a mão que viajava indo e voltando.

Finalmente caí no sono com as ministrações suaves contra minhas costas.


Donnie tinha me confortado e me acalmou com seu toque. Eu estava precisando
muito de conforto. Quando Cheryl chegou em casa ela despertou a nós dois.
Donnie tinha adormecido na cadeira ao lado da minha cama. Cheryl o chutou
para fora e tomou seu lugar na cadeira, acendendo um cigarro e apertando as
mãos.

— Donnie me disse que acha que você tentou se matar hoje à noite. Por
que você faria uma coisa dessas?

Eu não respondi. Eu não queria morrer. Não exatamente. Só queria ver


Jimmy novamente.

— Eu quero ver meu pai novamente.

Cheryl me olhou com a boca franzida ao redor do seu cigarro. Ela parecia
estar pensando no que eu tinha dito, pesando isso em sua mente. Ela finalmente
suspirou e apagou o cigarro na base do abajur, espalhando cinzas sobre minha
mesa de cabeceira.

— Você sabe que ele não é seu pai, certo? Quero dizer. Ele era como um
pai. Mas ele não era o seu pai.
Sentei na minha cama e olhei para ela, odiando, perguntando por que ela
estaria dizendo essas coisas horríveis para mim, especialmente hoje, de todos os
dias.

— Não me olhe assim. Não estou tentando machuca-la. Você só tem que
saber o que está acontecendo. Jimmy me disse que estava comendo em uma
parada de caminhões em Reno, um lugar onde ele vendia algumas de suas
esculturas. Ele disse que você estava dormindo, simplesmente uma coisa
pequenina, pouco mais que um bebê, toda amontoada em uma mesa de canto, à
espera de sua mãe, que estava jogando caça-níqueis. Ele disse que não conhecia
a quem você pertencia. Você se lembra de Jimmy. Não gritaria por ajuda mesmo
se suas roupas estivessem em chamas. Ele sentou-se ali com você, lhe deu um
pouco do seu jantar. Ele disse que você não chorou e não parecia com medo
dele. Ficou com você por um bom tempo, até mesmo talhou uma boneca para
você — Cheryl acendeu outro cigarro e inalou profundamente. Ela assentiu com
a cabeça em direção a minha cômoda. — É aquela. A que você tem aí.

Comecei a balançar a cabeça, negando a sua história, negando-lhe a


capacidade de levá-lo para longe de mim, da maneira que ela parecia ter a
intenção de fazer. Mas ela insistiu e eu, impotente, escutei.

— Ele disse que apenas a observava e você engoliu as batatas fritas que
ele ofereceu. Sua mãe finalmente voltou. Jimmy disse que tinha certeza de que
ela estaria com raiva que ele estava sentado lá com você. Mas ele disse que ela
parecia nervosa, aquele nervosismo o surpreendeu mais do que qualquer coisa.

— Na manhã seguinte, ele a encontrou dentro da sua caminhonete. Ele


disse que a maçaneta do lado do passageiro estava quebrada e ele não conseguia
trancar, ficando mais fácil para ela entrar. As janelas estavam abertas alguns
centímetros e você estava deitada no banco da frente. Felizmente, era bem no
início da manhã quando ele a encontrou. Jimmy disse que estava quente e sua
mãe foi uma tola por deixá-la dentro da cabine de uma caminhonete, mesmo
com as janelas meio abertas. Mas talvez ela estivesse exausta ou drogada. Você
tinha uma mochila recheada com algumas roupas e a bonequinha que ele tinha
esculpido. Por que ela a deixou lá, ele não sabia. Talvez ela pensasse que seria
bom para você. Talvez não houvesse mais ninguém e ela estava desesperada.
Mas, obviamente, ela o seguiu e, em algum momento durante a noite deixou
você lá. Ele voltou para a parada de caminhões onde ela tinha visto pela
primeira vez você e sua mãe. Mas ela não estava lá, e ele estava com medo de
fazer perguntas, não querendo chamar a atenção para si.

— Assim, o idiota a manteve. Ele primeira coisa que ele deveria ter feito,
seria ir para a polícia. Depois de alguns dias, a polícia apareceu e fez algumas
perguntas ao gerente de parada de caminhões. O gerente era amigo de Jimmy,
então ele perguntou do que se tratava. Aparentemente, o corpo de uma mulher
havia sido encontrado em um hotel local. Eles imprimiram algumas fotos da sua
carteira de motorista e tinha deixado uma lá com o gerente para colocar na
parada de caminhões. Um daqueles panfletos “Se-você-tiver-qualquer-
informações-ligue-para-este-número” que a polícia às vezes faz. Era sua mãe.
Quando Jimmy viu, ele assustou até a morte, e seguiu em frente e a levou com
ele. Eu não sei por que ele não deixou você lá ou foi à polícia. Mas ele não o fez.
Ele não confiava na polícia. Provavelmente pensou que iria ser culpado por algo
que não tinha nada a ver com ele. Ele nem sabia o seu nome. Ele disse que você
só ficava dizendo Blue, Blue, Blue. Então, foi assim que ele a chamou. Meio que
ele se apegou, eu acho.

— Até onde eu sei, ninguém nunca veio procurar por você. Seu rosto não
estava em uma caixa de leite ou algo assim. Três anos atrás, quando Jimmy
desapareceu, eu pensei que isso tivesse acabado. Eu sabia que alguém ia
descobrir que você não era dele e eles me jogariam na cadeia por não contar
sobre ele. Então, eu só disse a eles que era sua filha, até onde eu sabia. Não
pressionaram muito. Jimmy não tinha um registro nem nada e você disse que
ele era seu pai. Foi por isso que eu a peguei, senti que tinha que manter meu
olho em você por causa dele e para o meu próprio. E você era uma boa menina.
Espero que continue a ser uma boa menina. Não faça mais merda como você fez
esta noite. A última coisa que preciso é de uma garota morta na minha frente.
Ao longo dos próximos meses, Donnie vinha mais quando Cheryl estava
no trabalho. Ele sempre foi bom para mim. Sempre ofereceu conforto. Uma
carícia, um breve toque, migalhas para o passarinho com fome. Cheryl deixou-o
eventualmente, talvez sentindo que ele gostava de mim um pouco mais do que
deveria. E fiquei aliviada, reconhecendo que suas atenções não eram
inteiramente apropriadas. Mas eu aprendi algo de Donnie. Eu aprendi que uma
menina bonita poderia ser confortada. O conforto físico é um conforto que pode
ser passageiro, mas isso iria me preencher temporariamente e tirar a minha
solidão.

Joana d'Arc disse que sacrificar quem você é e viver sem crença era um
destino pior que a morte. Eu tinha vivido com esperança por três anos.
Esperança de que Jimmy iria voltar para mim. Naquela noite, a esperança
morreu, assim como a minha autoestima. Eu não sacrifiquei quem eu era, não
exatamente. Isso foi arrancado de mim. Jimmy foi um pequeno melro que teve
uma morte lenta e dolorosa. Em seu lugar eu construí um pássaro chamativo,
colorido, um pássaro azul. Um espalhafatoso e repulsivo pavão com penas
brilhantes, que o vestia para chamar a atenção para a sua beleza em todos os
momentos, e que almejava afeição. Mas tudo era apenas um disfarce brilhante.
Capítulo Sete

Majestoso
Gloria Olivares, a mãe de Manny e Gracie, nunca estava em casa. Não era
porque ela era uma mãe ruim. Não era porque ela não amava seus filhos. Era
porque mantê-los significava trabalhar sem parar. A mulher era magrinha e
teria 1,50 metros se ficasse na ponta dos pés, e dia sim, dia não ela trabalhava 18
horas por dia. Ela era camareira no mesmo hotel onde Cheryl era dealer, mas
também trabalhava como empregada doméstica para uma família rica em
Boulder City. Eu não sabia se ela estava legalmente nos EUA ou se tinha ainda
família no México. Ela tinha um irmão, Sal, que tinha fornecido madeira para
mim uma vez ou duas, mas Manny e Gracie nunca falaram do pai, e certamente
não havia dinheiro entrando de outra fonte.

Gloria levava muito a sério a sua responsabilidade para com os filhos.


Eles eram impecáveis, alimentados e eram agasalhados, mas suas opções eram
limitadas, e ela tinha que deixá-los sozinhos. Não era um grande problema já
agora que eles eram adolescentes, mas Manny disse que foi babá de Gracie
desde que ela tinha cinco anos de idade. Talvez fosse esse o motivo que Manny
se considerava a mãe de sua irmã mais nova, mesmo que eles tivessem apenas
dois anos de diferença. Talvez fosse esse o que a transformação de Graciela
deixou Manny tão agitado como um viciado em crack necessitando de uma
correção.

A insolência e a atitude de Gracie deixou Manny andando de um lado


para o outro, exigindo que ela saísse do seu quarto, quando eu levei o jantar na
véspera de Natal. Bev tinha mandado para casa um pouco de tudo, desde o café,
que normalmente para Manny já seria o paraíso. Mas Gracie alegou que ela não
estava com fome e declarou que ela não queria “comer com uma vagabunda”.
Graciela foi totalmente desagradável comigo desde que Brandon tinha
aparecido na minha casa há mais de um mês. Infelizmente, quanto menos
interesse Brandon mostrava, mais Gracie se tornava agressiva e determinada.

Dei de ombros, desejei a Manny um feriado feliz e voltei para o meu


apartamento. Graciela poderia não querer “comer com uma vagabunda”, mas
ela estava mais do que disposta a pegar uma carona comigo depois da escola
todos os dias só para que ela pudesse ver Brandon no estacionamento. E ela
ainda copiava cuidadosamente o jeito que eu usava o meu cabelo, maquiagem e
imitava o meu estilo, até o jeito que eu virava as mangas e abotoava minhas
camisas. Então, ela não queria comer com uma vagabunda, mas aparentemente,
queria se parecer com uma. Eu realmente senti falta da velha Gracie sonhadora,
e se ela não parasse logo com isso, Manny ia desmoronar, e eu ficaria chateada.

— Elizabeth, a primeira, era a filha de um rei. O rei Henrique VIII, para


ser mais preciso. Soa bem não é mesmo? Ser uma princesa? Riqueza, poder,
adulação. Brilhante, não? Mas lembre-se do ditado “nunca julgue um livro pela
capa?” Vou acrescentar a isso. Nunca julgue a história somente pelos fatos
contados. Levante a cobertura brilhante e alcance a verdadeira história por
baixo. A mãe de Elizabeth foi Ana Bolena. Alguém sabe alguma coisa sobre ela?
— Wilson examinou o mar de rostos extasiados, mas sem as mãos se erguerem.

— A irmã de Ana Bolena, Maria foi amante do rei Henrique, um deles,


pelo menos. Mas Ana queria mais, e ela acreditava que poderia conseguir mais.
Ela planejou e usou o cérebro para chamar a atenção de Henrique e fisgá-lo. Por
sete anos, Henrique tentou se divorciar da rainha para que ele pudesse se casar
com Ana. Como ela fez isso? Como é que ela não só manteve Henrique
interessado, mas disposto a mover céus e terra para tê-la? Ela não era
considerada bonita. O padrão de beleza para o tempo era o cabelo loiro, olhos
azuis, pele clara - como sua irmã Maria. Então, como ela fez isso? — Wilson fez
uma pausa para efeito. — Ela manteve o homem com fome! — A classe explodiu
em gargalhadas, entendendo o que Wilson estava se referindo.

— Eventualmente, quando Henrique não conseguia que a Igreja da


Inglaterra dissolvesse seu casamento com a rainha, ele cortou seus laços com a
igreja, e se casou com Ana de qualquer maneira. Chocante! A igreja tinha um
incrível poder naqueles dias, mesmo sobre um rei.

— Ahhhh! — Suspiraram algumas meninas.

— Isso é tão romântico — Chrissy suspirou, batendo os olhos de vaca para


Wilson.

— Oh, sim, muito romântico. Uma história de amor brilhante... Até você
descobrir que três anos depois de Ana conseguir se casar com o Rei, ela foi
acusada de bruxaria, incesto, blasfêmia e conspirar contra a coroa. Então ela foi
decapitada.

— Eles cortaram sua cabeça?! Isso é tão rude! — Chrissy estava


indignada.

— Ela falhou em produzir um herdeiro do sexo masculino — Continuou


Wilson. — Ela teve Elizabeth, mas isso não contava. Alguns dizem que Ana tinha
muito poder político. Sabemos que ela não era tola. Ela foi desacreditada e
capturada, e Henrique deixou que isso acontecesse.

— Ele obviamente não estava mais com fome — Eu acrescentei


causticamente.

As orelhas de Wilson ficaram rosa, o que me agradou profundamente.

— Obviamente — Acrescentou secamente com sua voz traindo seu


desconforto. — O que nos traz de volta ao nosso pensamento original. As coisas
raramente são o que parecem. Qual é a verdade por baixo da superfície, sob os
fatos aparentes? Pensem agora sobre suas vidas...
Entendi aonde Wilson queria chegar e coloquei minha testa para baixo na
mesa, deixando meu cabelo esconder meu rosto. Sabia aonde isso ia. As nossas
histórias pessoais. Por que ele estava fazendo isso? Qual era o ponto? Fiquei
assim com a minha cabeça contra a mesa quando Wilson terminou sua palestra
e os sons dos papéis sendo passados e lápis sendo apontados, substituindo seu
suave sotaque britânico.

— Blue?

Eu não me movi.

— Você está doente?

— Não — Resmunguei, sentando e tirando o meu cabelo do rosto. Olhei


para ele quando peguei o papel que estendeu para mim. Ele agiu como se
quisesse falar, pensou melhor e retirou-se para sua mesa. Eu o observei ir,
desejando que eu ousasse dizer-lhe que eu não faria a tarefa. Não poderia fazê-
la. Meu pequeno parágrafo triste parecia ilegível na página enrugada. Um
garrancho, como pegadas de galinha. Isso é o que eu era. Uma galinha, bicando
nada, gritando e agitando minhas penas para me fazer parecer forte, para
manter as pessoas à distância.

Era uma vez, havia uma pequena melra, empurrada do

ninho, indesejada. Descartada. Então, um falcão a

encontrou, mergulhou e a carregou voando acima, dando-

lhe uma casa em seu ninho, e ensinou-a a voar. Mas um dia o

Falcão não voltou para casa, e a pequena melra estava

sozinha de novo, indesejada. Ela queria voar para longe. Mas

quando ela olhou para fora, subiu na borda do ninho e

olhou através do céu percebeu quão pequenas e fracas suas

asas eram. O céu era tão grande. E qualquer outro lugar era
tão longe. Ela se sentia encurralada. Ela podia voar, mas

para onde iria?

Eu adicionei novas linhas a minha história e parei, batendo o lápis contra


a página, como pequenas sementes para a galinha bicar. Talvez essa fosse a
verdade sob a superfície. Eu estava com medo. Estava apavorada que a minha
história terminaria tragicamente. Como a pobre Ana Bolena. Ela traçou,
planejou e se tornou rainha, só para ser descartada. Havia essa palavra de novo.
A vida que ela tinha construído foi tirada dela de uma só vez, e o homem que
deveria tê-la amado a abandonou ao destino.

Eu nunca tinha me considerado uma galinha. Nos meus sonhos eu era o


cisne, o pássaro que se tornou belo e admirado. O pássaro que provou que todos
estavam errados. Perguntei uma vez a Jimmy por que ele me deu um sobrenome
de pássaro. Jimmy respondia minhas perguntas. Ele me disse que eu era
anormalmente resistente e principalmente não era afetada pela ausência de
minha mãe. Eu não tinha chorado ou reclamado, e era muito falante, quase ao
ponto de deixar louco um homem que tinha vivido com pouca companhia. Ele
nunca perdeu a paciência comigo, embora às vezes, simplesmente se recusava a
responder, e eu acabava tagarelando para mim mesma.

Mas, desta vem em particular, ele estava de bom humor para contar
histórias. Ele explicou como os gaviões eram símbolos de proteção e força, e que
por causa disso ele sempre era orgulhoso do seu sobrenome. Ele me disse que
muitas tribos nativas americanas tinham variações de algumas histórias sobre
animais, mas a sua favorita era uma história de Arapaho sobre uma garota que
subiu para o céu.

O nome dela era Sapana, uma bela garota que amava os pássaros da
floresta. Um dia, Sapana estava fora recolhendo lenha quando viu um falcão que
estava na base de uma árvore. Um grande espinho de porco-espinho preso em
seu peito. A menina acalmou o pássaro e retirou o espinho, liberando o pássaro
para voar para longe. Em seguida, a menina viu um grande porco-espinho
parado no tronco de uma árvore. — Foi você, você é uma coisa má! Você feriu
aquele pobre pássaro — Ela queria pegar o porco-espinho ruim e tirar os
espinhos para que ele não fizesse mal a outro pássaro.

Sapana o perseguiu, mas o porco-espinho foi muito rápido e ele subiu na


árvore. A menina subiu atrás dele, mas nunca conseguia alcançá-lo. Cada vez
mais alto o porco-espinho subia, e a árvore só se estendia cada vez mais alta no
céu. De repente, Sapana viu uma superfície plana, lisa sobre sua cabeça. Ele
estava brilhando, e quando ela estendeu a mão para tocá-lo, ela percebeu que
era o céu. De repente, viu-se de pé em um círculo de tendas. A árvore tinha
desaparecido e o porco-espinho tinha se transformado em um homem velho e
feio. Sapana estava com medo e tentou fugir, mas ela não sabia como voltar para
casa. O homem porco-espinho disse: — Eu tenho observado você. Você é muito
bonita e trabalha muito duro. Nós trabalhamos muito duro no mundo do céu.
Você vai ser minha mulher — Sapana não queria ser a esposa do homem porco-
espinho, mas ela não sabia mais o que fazer. Ela estava presa.

Sapana sentia falta do verde e o marrom da floresta e desejava voltar para


sua família. Todo dia o velho trazia peles de búfalo para raspar e esticar e fazer
roupas. Quando não havia peles para esticar, ela iria cavar nabos. O homem
porco-espinho disse a ela para não cavar muito fundo, mas um dia a menina
estava sonhando com sua casa na floresta e não prestou atenção para a
profundidade que estava cavando. Quando puxou o grande nabo do chão, ela viu
uma luz brilhando através do buraco. Quando olhou para dentro do buraco, ela
podia ver as manchas de terra verde lá embaixo. Agora ela sabia como voltar
para casa! Ela rolou o enorme nabo de volta no buraco para que o homem
porco-espinho não visse o que ela tinha descoberto.

Todo dia Sapana pegava os restos dos tendões das peles de búfalo e os
amarrava juntos. Eventualmente, ela tinha uma corda muito longa que poderia
usar para descer de volta para a Terra. Ela amarrou a corda a uma árvore
próxima e rolou o nabo da terra. Descendo através das nuvens, ela viu que as
manchas verdes ficavam cada vez mais perto, mas ela ainda estava no alto do
céu. De repente, Sapana sentiu puxarem a corda e olhou para cima para ver o
homem porco-espinho olhando para ela através do buraco no céu. — Suba de
novo ou vou desamarrar a corda da árvore e você vai cair! — Ele rugiu. Mas
Sapana não iria subir de volta. De repente, a corda se soltou e ela estava caindo
através do ar. Então, algo voou por baixo dela, e ela se estabeleceu na parte de
trás de um grande falcão. Era o falcão que Sapana tinha ajudado na floresta no
dia em que ela tinha perseguido o porco-espinho. Ele voou para a terra com ela
em suas costas. A família de Sapana ficou muito feliz em vê-la. Desde então, eles
deixavam pedaços de carne de búfalo para o falcão e outras aves de rapina,
como um símbolo de sua gratidão pela proteção e o retorno de Sapana.

— Você é como o falcão que salvou Sapana! — Gritei encantada com a


história. — Gostaria que meu nome fosse Sapana! Então eu seria Sapana
Echohawk!

Jimmy sorriu para mim. Mas ele parecia triste, e murmurou: — Às vezes
me sinto mais como o homem porco-espinho do que como falcão.

Não entendi o que ele quis dizer e ri ruidosamente de sua piada. — Icas é
o homem porco-espinho — Eu disse, apontando para o cão preguiçoso com a
pelagem felpuda. Icas levantou a cabeça e olhou para mim, como se soubesse o
que estávamos falando. Ele bufou e se afastou, como se tivesse ofendido com a
comparação. Então Jimmy e eu rimos e a conversa foi esquecida.

Era uma vez, havia uma pequena melra, empurrada do

ninho, indesejada. Descartada. Então, um falcão a

encontrou, mergulhou e a carregou voando acima, dando-

lhe uma casa em seu ninho, e ensinou-a a voar. Mas um dia o

Falcão não voltou para casa, e a pequena melra estava

sozinha de novo, indesejada. Ela queria voar para longe. Mas

quando ela olhou para fora, subiu na borda do ninho e

olhou através do céu percebeu quão pequenas e fracas suas

asas eram. O céu era tão grande. E qualquer outro lugar era
tão longe. Ela se sentia encurralada. Ela podia voar, mas

para onde iria?

Estava com medo... Porque ela sabia que não era um

falcão.

— Jimmy?

O trailer estava escuro ao meu redor, e eu escutei para ver se conseguia


ouvir sons, se Jimmy ainda estava dormindo. A chuva estava investindo
contra nós e dava para sentir em todos os lados, o pequeno trailer balançava
um pouco com a chuva e o vento.

— Jimmy — Eu disse mais alto.

— Humm? — Sua resposta foi imediata desta vez, como se ele também
estivesse ouvindo no escuro.

— Minha mãe se parecia comigo?

Jimmy não respondeu de imediato, e eu me perguntei se ele iria entreter


com essa conversa no meio da noite.

— Ela tinha o cabelo escuro como você — Ele respondeu calmamente. —


E ela me lembrou de alguém que eu conhecia.

Ele não disse mais nada, e eu esperei em silêncio, esperando migalhas.

— Isso é tudo? — Eu disse finalmente, com impaciência.


— Ela realmente não se parecia com você — Ele suspirou. — Ela se
parecia mais comigo.

— Huh? — Eu não tinha esperado que a resposta fosse essa.

— Ela era nativa, como eu — Ele resmungou. — Seus olhos e cabelos


eram pretos, e sua pele era muito mais morena do que a sua.

— Ela era Pawnee?

— Eu não sei qual tribo sua mãe pertencia.

— Mas eu ainda sou Pawnee? — Eu persisti. — Porque você é Pawnee?

Jimmy resmungou. Eu não tinha reconhecido o seu desconforto por essa


pergunta. Eu não tinha percebido o que ele não estava me dizendo.

Jimmy suspirou. — Vá dormir, Blue.


Capítulo Oito

Arma de Metal
Quando ouvi o primeiro tiro pensei que eram fogos de artifícios que
tinham estalado e chiado em todo o bairro na véspera de ano novo. Isso me
assustou, mas não me ocorreu de ter medo. O estacionamento em volta do meu
complexo de apartamentos estava iluminado nos últimos dois dias com os
moradores soltando rojões e spinners21, crianças correndo com estrelinhas, e
estava quase acostumando com o som. Fechei o meu armário e fui em direção a
minha sétima aula quando outro tiro foi disparado.

Em seguida, os alunos estavam gritando e as pessoas explodindo que


alguém tinha uma arma. Eu virei o corredor no caminho para a sala do Sr.
Wilson e vi Manny, com o braço erguido como a Estátua da Liberdade, com a
sua mão agarrada ao redor de uma arma. Ele estava atirando para o teto e
caminhando em direção à porta de Wilson exigindo saber onde Brandon Bates
estava. O horror me atingiu como um trem desgovernado. Brandon estava na
minha aula de História Europeia na sala do Sr. Wilson. Deixei meus livros e
corri atrás de Manny, gritando.

— Manny! Manny, pare! — Gritei. Manny nem sequer virou a cabeça. Ele
continuou andando e atirando. Três tiros e depois quatro. Ele entrou na sala de
aula de Wilson e fechou a porta atrás de si. Um tiro ecoou mais uma vez. Eu voei
pela porta segundos depois, esperando pelo pior. Sr. Wilson estava na frente de
Manny, uma mão estendida em direção a ele. Manny tinha a arma apontada
para a testa de Wilson e estava exigindo saber onde Brandon estava. Os alunos
estavam chorando e se juntando debaixo de suas mesas. Eu não vi nenhum
sangue, nem corpos e nenhum sinal de Brandon Bates. O alívio me deu
coragem. Fui atrás de Manny, de frente para Wilson, embora os olhos de Wilson

21Spinners – um aro adicionado ao pneu que gira quando o carro está parado e faz com que as pessoas
continuam olhando, pensando que estão vendo coisas.
nunca deixassem o rosto de Manny ou a arma apontada para sua testa, a mão
dele me fez sinal para manter distância. Eu me movi para Wilson, dando a
Manny um amplo espaço para não assustá-lo, falando baixinho.

— Manny. Você não quer machucar Wilson. Você gosta dele, lembra?
Você disse que ele é o melhor professor que você já teve — Os olhos de Manny
oscilavam loucamente para mim e depois se concentraram em Wilson mais uma
vez. Ele estava respirando com dificuldade e suando muito, e suas mãos
tremiam violentamente. Eu estava com medo que ele, acidentalmente, puxasse o
gatilho. A essa distância, ele não erraria Wilson.

— Fique longe, Blue! Ele está protegendo Brandon! Todo mundo se


abaixe! — Manny gritou, acenando com a arma em todas as direções. — Eu vou
estourar a cabeça dele, eu juro — Ele gaguejou as palavras tão em desacordo
com a sua voz jovem que eu quase ri. Mas não era engraçado. Nada disso era
engraçado.

Eu continuei andando e Wilson balançou a cabeça furiosamente,


querendo que eu ficasse quieta. Mas eu continuei me movendo. Minhas pernas
pareciam pesar 400 quilos e não conseguia sentir minhas mãos. Eu estava
completamente paralisada pelo medo. Mas não tinha medo de Manny. Tinha
um medo terrível por ele.

— Manny. Dê-me a arma, querido. Nenhum de nós está protegendo


Brandon — Olhei para os alunos agachados, rezando para que Brandon não
estivesse na sala. Vários estudantes levantaram suas cabeças, procurando por
Brandon também, mas ninguém falou.

— Ele não está aqui, Manny — Wilson ofereceu, sua voz tão calma como
se ele estivesse apenas dando outra palestra. — Eu não estou protegendo-o.
Estou protegendo você, entende isso? Sua irmã precisa de você, e se você atirar
em Brandon ou em qualquer outra pessoa, você irá para a prisão por muito
tempo.

— Mas ela tem apenas quatorze anos! E ele enviou as imagens para todos!
Ela pensou que ele gostasse dela. Disse-lhe para enviar algumas fotos e, em
seguida, enviou para todos! Ela tentou se matar, e agora vou matá-lo! — Manny
gritou, curvando-se para olhar por baixo das mesas, certo de que eles estavam
escondendo Brandon.

— E ele vai ter que responder por isso, Manny — Eu o acalmava, agora
que estava mais perto dele. Wilson estendeu a mão e agarrou meu braço, me
puxando em direção a ele. Ele tentou me empurrar para suas costas, mas dei de
ombros fora de seu alcance, mantendo-me entre ele e Manny. Eu sabia que
Manny não iria atirar em mim. Manny havia apontado novamente a arma em
direção a Wilson, mas agora eu estava no caminho.

— Há foto de você também, Blue! Você sabia? Gabby me mostrou esta


manhã. Toda a maldita escola a viu! — Manny gaguejou com seu rosto uma
máscara quebrada.

Eu tentava me tranquilizar que isso não poderia ser verdade, a mesma


humilhação atordoada entupiu minha garganta e se espalhou através dos meus
membros, como veneno de cobra. Mantive o meu braço estendido, esperando
que Manny cedesse e me entregasse a arma.

— Se for esse o caso, então blue não deveria estar com a arma? — Wilson
respondeu suavemente. Os olhos de Manny saltaram para Wilson, um olhar
chocado em seu rosto. Então ele olhou para mim, e eu mexia os dedos,
indicando que ele deveria entregá-la. Ele pareceu considerar o que Wilson disse.

Então Manny riu. Foi apenas um ligeiro sorriso, mas o som ricocheteou
ao redor da sala com outro tiro. Eu queria cobrir minha cabeça, mas o soluço
tornou-se uma gargalhada, e a gargalhada uma risada cheia de ondas que se
transformou em soluços.

De repente, Manny pareceu perder a sua convicção, e seu braço ficou


frouxo, a arma pendurada em seus dedos. Ele enterrou o queixo no peito e
deixou os soluços ultrapassá-lo. Wilson contornou e pegou Manny em seus
braços, puxando-o mais perto enquanto minhas mãos se fecharam ao redor da
arma. Manny deixou levá-la sem protesto, e eu recuei devagar, um passo de
cada vez, enquanto eu observava Manny soluçar no peito de Wilson. Mas uma
vez que eu tinha a arma, não sabia o que fazer com ela. Eu não queria colocá-la
para baixo, e não podia dar a Wilson. Seus braços estavam ao redor de um
Manny inconsolável, mais para mantê-lo contido, eu acho que também para
oferecer conforto, embora Manny não precise saber disso.

— Você sabe como esvaziar a arma? — Wilson me perguntou em voz


baixa.

Eu balancei a cabeça. Jimmy tinha me ensinado. Rapidamente tirei as


balas enquanto Wilson se dirigiu à classe, muitos dos quais tinham começado a
se levantar de onde eles haviam encolhido embaixo de suas mesas.

— Alunos - preciso que todos saiam calmamente da sala de aula. Andem,


não corram. Quando vocês saírem para o corredor, não parem. Saiam da escola.
Estou supondo que a ajuda já está a caminho. Tudo vai ficar bem. Blue fica aqui
comigo. Você não pode sair para o corredor com a arma, e eu não posso tirá-la
de você agora. Vamos esperar aqui até que cheguem os reforços.

Por reforços, sabia o que Wilson falava, significava a polícia, mas estava
tentando não alarmar Manny que tinha claramente se desfeito, e era uma
bagunça, tremendo em seus braços.

Meus colegas se embaralharam para a porta, atirando-se quando


irromperam pelo corredor. O corredor estava silencioso e vazio, como se as
aulas estivessem acontecendo atrás das portas fechadas. Mas eu sabia que havia
professores que tentavam manter seus alunos seguros, encolhidos e
aterrorizados por trás dessas portas, chorando, rezando, esperando não ouvirem
mais tiros, implorando por socorro, ligando para o 911. Talvez todos tivessem
corrido para as saídas quando Manny começou a disparar contra as luzes.
Talvez houvesse uma equipe da SWAT subindo as escadas naquele momento.
Tudo o que eu sabia, era que quando a polícia chegasse, o meu pequeno amigo
estaria saindo algemado, e não voltaria para a escola. Nunca mais.

— Coloque a arma e as balas na minha mesa, Blue. Você não vai querer
estar segurando isso quando as autoridades chegarem — Wilson instruiu,
chamando a minha atenção de volta para a sala de aula, agora vazia e a arma na
minha mão.

Eu fiz como Wilson pediu, e enquanto me movia em direção a ele


novamente, seus olhos encontraram os meus e eu vi o terror do que tinha
acabado de acontecer estampado por todo o seu rosto jovem. Era como se, agora
que o perigo tinha passado, ele estava repassando todo o evento em sua cabeça,
com cenas de bônus e possíveis cortes sangrentos. Então quando eu me
perguntava por que não estava tremendo, minhas pernas não me seguravam
mais, eu oscilei, agarrando em uma mesa para me abaixar.

E, em seguida, a sala estava cheia de policiais gritando instruções e


fazendo perguntas. Wilson respondeu-lhes tudo em rápida sucessão, apontando
a arma e transmitindo o que havia acontecido em sua sala de aula. Wilson e eu
fomos deixados de lado quando Manny foi cercado, contido e levado da escola. E
então os braços de Wilson estavam ao meu redor, me segurando ferozmente
quando me agarrei a ele em troca. A frente de sua camisa estava molhada das
lágrimas de Manny, e eu podia sentir seu coração batendo violentamente contra
minha bochecha. O cheiro de sabão picante e balas de menta que eram
exclusivamente Wilson estavam acompanhados pelo aroma acentuado do seu
medo, e por alguns minutos nenhum de nós foi capaz de falar. Quando ele
finalmente falou, sua voz estava rouca com sentimento.

— Você está maluca? — Ele repreendeu seus lábios contra meu cabelo,
suas palavras suprimidas e seu sotaque pronunciado. — Você tem mais coragem
do que qualquer garota que eu já conheci. Por que, em nome de Deus não se
escondeu como qualquer outro aluno com metade de um cérebro!

Agarrei-me a ele, tremendo. A adrenalina que tinha me mantido de pé


tinha me abandonado. — Ele é meu amigo. E os amigos não deixam amigos...
Atiram... Sobre outros amigos — Brinquei com a minha voz trêmula, apesar da
minha falsa arrogância. Wilson riu, o som quase vertiginoso e cheio de alívio.
Juntei-me a ele, rindo porque tínhamos encarado a morte de frente e vivemos
para contar a história, rindo porque eu não queria chorar.
Wilson e eu respondemos as perguntas juntos, e então fomos
interrogados novamente separados, e também todos os alunos presentes na sala
de aula e nos corredores desde a hora em que Manny entrou na escola. Tinha
certeza de que Manny também foi questionado extensivamente, embora
rumores abundassem que ele estava sem responder e atualmente em
observação. Descobri mais tarde que foi chamado a SWAT, e ambulâncias e
equipes de emergência já estavam se reunindo em volta da escola no momento
que a classe que estava tendo aula de História Europeia no sétimo período
irrompeu pela porta principal do colégio.

A maioria dos estudantes foi rapidamente evacuado pelos professores e


administradores, quando o drama se desenrolava na sala de aula do Sr. Wilson,
e quando seus alunos tinham fugido do prédio, levando consigo a notícia de que
Manny foi desarmado, a polícia simplesmente alcançou o local, entrando
rapidamente no prédio. Somente quinze minutos se passaram desde o primeiro
tiro em uma luz fluorescente, até quando Manny foi levado em custódia. Parecia
uma eternidade.

As pessoas diziam que Wilson e eu éramos heróis. Havia câmaras locais


em todos os lugares, bem como alguma cobertura nacional do tiroteio na escola
que tinha terminado sem derramamento de sangue. Fui elogiada pelo diretor
Beckstead pessoalmente, que foi surreal para ambos, com certeza. As poucas
vezes que eu estava em sua mira no passado não foram por comportamento
heroico, para dizer o mínimo. Sr. Wilson e eu fomos perseguidos durante
semanas pela mídia. Mas eu não queria falar com ninguém sobre Manny, e eu
recusei todas as entrevistas. Só queria meu amigo de volta, e todos os policiais e
as entrevistas só me faziam pensar em Jimmy e da última vez que eu tinha
perdido alguém que me importava. Até pensei que eu vi o policial Bowles, o
oficial que tinha me puxado na caminhonete de Jimmy uma vez, há muito
tempo atrás. Ele estava falando com um grupo de pais quando eu saí da escola
naquele dia terrível. Disse a mim mesma que não podia ser ele. E então e se
fosse? Não tinha nada para dizer a ele.

Passou um mês desde que Manny tinha perdido a cabeça. Um mês desde
que eu tive uma pausa da loucura que se seguiu. Um mês de intensa
infelicidade, um mês de desespero para a família Olivares. Eles tinham liberado
Manny, enquanto aguardavam uma espécie de audiência, e Gloria pegou os
filhos e fugiu. Eu não sabia onde eles estavam, e duvidava que fosse vê-los
novamente. Um mês horrível. E então liguei para Mason. Era o meu padrão. Eu
não namorava. Eu não saia. Eu fazia sexo.

Mason estava feliz pela por isso, como sempre. Eu gostava da aparência
de Mason, e gostava da sensação de estar embaixo dele. Mas eu não gostava
especialmente de Mason. Eu não analisava o porquê de não gostar dele, ou
mesmo se isso devia ser levado em consideração. E então, quando eu o
encontrei à minha espera depois da escola parado em sua Harley com os braços
cruzados para que eu pudesse ver as tatuagens em seus bíceps sarados, deixei
meu carro no estacionamento da escola e pulei na traseira da moto. Pendurei
minha bolsa passando por minha cabeça e coloquei meus braços ao redor de sua
cintura enquanto a moto rugia, saindo. Mason adorava andar de moto e à tarde
de janeiro estava fria, mas o sol do deserto implacável trespassava. Nós
andamos pela estrada por mais de uma hora, atingindo a represa Hoovere e o
nosso sinuoso caminho de volta, quando o inverno começou a reivindicar a luz,
empurrando de volta o sol, que recuou cedo demais. Eu não tinha prendido os
meus cabelos, então o vento chicoteava meus fios em uma massa negra hostil
batendo em meu rosto de uma forma que limpa e punitiva, que parecia ser a
minha intenção.

Mason vivia acima da garagem de seus pais em um apartamento que era


acessado por um pequeno conjunto de escadas que nivelava a uma plataforma
ali. Subimos para o apartamento dele, com as bochechas ardendo e vermelhas
pelo sangue bombeando e revigorado pelo passeio no frio. Eu não queria esperar
por conversa mole ou flertes preliminares; eu nunca esperava. Nós caímos sobre
sua cama desarrumada sem dizer uma palavra, e eu desliguei o meu coração
ansioso e minha cabeça nervosa enquanto o anoitecer descia para mais uma
noite, outra fusão sem sentido, outra tentativa de encontrar-me enquanto eu me
entregava.

Acordei horas mais tarde com uma cama vazia. Música e vozes
sangravam através da fina parede que separava o quarto e banheiro de Mason
do resto do espaço. Vesti minhas roupas, colocando o meu jeans que eu
desprezava, mas continuava vestindo dia após dia. Eu estava morrendo de fome
e esperava que Mason e quem mais estivesse lá fora, houvesse encomendado
pizza que eu poderia roubar. Meu cabelo estava um emaranhado impossível,
meus olhos uma bagunça de círculos pretos, eu passei 20 minutos no banheiro
certificando-me que a companhia de Mason não poderia fazer insinuações
desagradáveis sobre as atividades da noite.

Terminei no banheiro e, por força do hábito, apaguei a luz quando fui


para o outro lado. Eu fiz o meu caminho cuidadosamente ao redor da cama,
pisando em todas as roupas e sapatos espalhados. O interruptor de luz para o
quarto estava na porta da frente, mas o banheiro era do outro lado, fazendo com
o caminho um local confuso e traiçoeiro para as minhas botas de salto alto. Fui
até a porta que me separava de algo quente e queijo e estava quase perto do
interruptor, quando ouvi a porta de fora abrir e Mason saudar seu irmão com
um: — E aí, mano?

Eu não tinha visto ou falado com Brandon Bates desde antes do tiroteio.
E não queria. Ele não estava na escola naquela tarde, mas eu o culpava
inteiramente pelos os eventos que ocorreram. Encolhi-me na porta do quarto,
com fome e indecisa, quando ouvi alguém oferecer uma saudação também.

— Ei, Brandon? Alguém tentou fazê-lo sair ultimamente? — Era Colby, de


todos os amigos de Mason esse era o meu menos favorito. Ele era feio, mau e
estúpido. Uma ameaça tripla. E parecia bêbado, o que era um mau presságio
para a noite. Eu o evitava sempre que possível. Parecia que esta noite não seria
possível.

— Ainda não, Colb, mas a noite é uma criança — Brandon brincou,


sempre amigável.

— Mason disse que você tem algumas fotos da pequena senhorita em seu
telefone — Colby falou. — Eles não confiscaram, não é?

Mesmo que Graciela tivesse enviado para Brandon suas fotos nuas, Colby
estava sendo acusado de solicitar e distribuir essas fotos e o boato era que seus
pais estavam lutando com unhas e dentes para sua absolvição. Mas todo mundo
sabia o que ele tinha feito.

— Cale a boca, Colby, seu idiota — Mason latiu, mas o seu latido não
parecia muito firme e eu suspirei, já prevendo o desenrolar disso. Eu iria voltar
caminhando para a minha caminhonete, ainda estacionada na escola. Ele e
Colby, obviamente, tinham a noite preparada. Lotes de álcool e episódios
intermináveis de Ultimate Fighter.

— O quê? Eu vi aquela foto que você tem de Blue! Agora aquela menina
tem um corpo do caralho - sabe o que estou dizendo - não como a pequena do
nono ano22! — Colby gargalhou.

Meu coração derrapou para uma parada brusca.

Mason xingou e jogou algo, suas palavras perdida em uma discussão


óbvia, quando algo caiu e obscenidades voaram com vários objetos duros.

— Ela está no quarto ao lado, Colby, você é um maldito idiota! — Mason


falou, Colby e Brandon começaram a rir, obviamente, não estavam preocupados
sobre o fato de que eu pudesse ouvi-los discutindo o meu corpo ou o fato de que
Mason tinha tirado uma foto do dito corpo, sem o meu conhecimento ou
consentimento.

22 Ele faz referência a Blue ter idade para cursar ano posterior.
— Cara, eu vi isso também! — Brandon uivou. — A escola inteira viu. Na
verdade, acho que aquela pequena mexicana viu isso no meu celular. Facilitou
muito para convencê-la de que todas as garotas mais quentes me enviavam
fotos.

— Cale a boca! — Mason murmurou, seus sussurros tão audíveis quanto


Brandon e Colby rindo. — O que diabos vocês dois estavam procurando no meu
telefone? Blue ainda não sabe que eu tirei!

Eu tropecei de volta para o banheiro, sem vontade de ouvir mais. Meu


estômago revirou, e a fome que eu tinha rosnou para mim momentos antes de
se transformar em uma marrenta azeda, e eu me perguntava se eu ia passar mal.
Graciela tinha visto uma foto minha nua no telefone de Brandon. Manny tinha
me dito. Mas eu tinha me convencido de que era apenas a emoção, apenas um
discurso retórico louco, somente para me atingir para estar do lado dele, e o que
ele entendia como justiça. Eu não disse nada à polícia sobre o que Manny tinha
alegado. Até onde eu sabia, ninguém mais tinha notícia de nenhum dos dois.

Lembrei-me da noite que Graciela tinha ficado muito irritada comigo. A


noite que Manny e eu tínhamos rolado os olhos e brincado sobre meninas
hormonais e as suas paixões. E, de repente, tudo fez sentido. Graciela me
observava e me idolatrava. E eu a tinha traído. Ela pensou que eu tinha enviado
as fotos a Brandon, um garoto que eu sabia que ela gostava. Um garoto que
todos pareciam gravitar para ele, e por um momento, ela foi aquecida pelas
luzes das atenções dele. E então ela tinha feito isso também.

Meus olhos estavam secos, mas meu peito arfava, em um esforço para
conter um grito lancinante e seco, que atingiu ao redor do meu coração e minha
garganta ficou obstruída pela culpa.

— Eu não sabia! — Implorei a minha consciência por absolvição. Mason


tinha tirado essa foto minha sem o meu conhecimento, e seu irmão tinha
conseguido se apossar dela.

— Eu não sabia — Eu disse desesperadamente, e desta vez a minha voz


ecoou no banheiro imundo onde eu me encolhia. Olhei em volta para as roupas
sujas, a cortina de chuveiro pendurada, o ranço do vaso sanitário e da pia. O que
eu estava fazendo aqui? O que eu tinha feito? Eu escolhi estar aqui! E eu tinha
escolhido estar nessa situação com Mason. Eu não sabia sobre a foto. Mas eu
não era inocente, também.

Minhas ações provocaram uma cadeia de eventos. Uma menina confusa


com fome de afeto que fez uma escolha terrível. Eu estava falando sobre
Graciela ou de mim? Eu me enfrentei no espelho e imediatamente desviei o
olhar. Minhas ações, mesmo inadvertidas, tinham dado inicio a escolha de
Graciela e por sua vez, a resposta de Manny. Manny, que parecia amar o mundo
inteiro e, ainda mais impressionante, ele se gostava. Eu não sou ninguém. Quem
é você?

— Eu sou Manny — Ele disse, como se isso fosse suficiente. E por que não
era? Porque apesar da boa intensão do desejo de ser apenas você mesma, como
era mesmo possível, se não sabia quem VOCÊ era? Manny parecia saber, mas
ele era tão sensível, como todos nós, as influências de um mundo em que as
pessoas agem sem pensar, vivendo sem consciência, e julgando sem
entendimento.

Peguei minha bolsa e me dirigi de volta pelo quarto. Deveria pedir o


telefone de Mason e apagar a foto, ameaçando ir à polícia? Deveria jogar as
coisas, gritar e dizer que ele era um bastardo doente e que eu nunca mais queria
vê-lo? Será que adiantaria alguma coisa? O segredo já foi revelado, por assim
dizer. A foto já estava circulando. E talvez isso fosse justiça.

Eu caminhei através da sala de estar e coloquei a minha jaqueta. Colby


cuspiu um olá feliz e Brandon parecia desconfortável. Mason estava em silêncio
enquanto eu me dirigia para a porta. Ele deveria saber que eu o tinha ouvido
falar.

— Não vá, Blue — Disse ele enquanto eu caminhava para fora. Mas ele
não veio atrás de mim.
Capítulo Nove

Escuridão
Minha caminhonete estava sozinha na parte de cima do estacionamento.
As luzes do estacionamento fizeram pequenas poças alaranjadas no chão, e eu
caminhei para a minha caminhonete, grata que a noite estava quase no fim.
Meus pés doíam. As botas de salto alto que faziam minhas pernas parecerem
mais longas machucavam meus dedos e me faziam mancar os últimos passos.
Procurei as chaves na minha bolsa e abri a porta. Ela guinchou alto quando eu a
abri, fazendo-me saltar um pouco, embora eu já tivesse ouvido o ranger mais de
mil vezes antes. Deslizei para dentro da cabine, fechei a porta e enfiei as chaves
na ignição.

Clique, clique, clique, clique.

— Oh, não! Agora não, por favor, agora não! — Eu lamentei. Tentei
novamente. Apenas a série de rápidos cliques pequenos. As luzes nem sequer
ligaram. A bateria estava morta. Eu disse uma palavra muito grosseira e bati no
volante, fazendo o beep misericordioso da buzina. Considerei dormir no banco
da frente. Minha casa estava a quilômetros de distância, e eu estava usando
sapatos impossivelmente altos, ridículos. Levaria horas a pé para casa. Cheryl
estava no trabalho, de modo que ela não poderia vir me buscar. Mas se eu
ficasse aqui, teria pela frente o mesmo dilema na parte da manhã, e eu poderia
ser presa andando para casa com a maquiagem de guaxinim e cabelo bagunçado
em plena luz do dia.

Mason viria me buscar. Ele provavelmente iria responder ao primeiro


toque. Empurrei o pensamento da minha cabeça. Eu não ligaria para Mason
Bates nunca mais. Isso me deixava com apenas uma opção. Saí da minha
caminhonete e comecei a andar, minha raiva alimentando os meus passos.
Atravessei o estacionamento e contornei a escola em direção a casa – na direção
oposta que eu tinha vindo. Um carro que eu não tinha notado quando cheguei
estava estacionado no lado dos professores, mais perto da escola e das portas de
entrada. Era o Subaru prata que eu tinha visto o Sr. Wilson dirigindo pela
cidade. Se fosse dele, era porque estava na escola, e poderia me dar uma carona
- ou melhor ainda, ajudaria com a minha caminhonete. Eu tinha os cabos.
Talvez ele tivesse deixado suas chaves nele, e eu poderia apenas “emprestar” o
seu carro, dirigir até a minha caminhonete, conseguir dar a partida no meu
carro, trazer o seu carro de volta sem que ele nunca soubesse.

Testei a porta do lado do motorista. Sem sorte. Eu testei todas as portas,


só para ter certeza. Poderia bater na porta da escola, a mais próxima de onde ele
estava estacionado. Mas sua sala era subindo as escadas e no final do corredor
no segundo andar. A probabilidade de ele me ouvir batendo era muito pequena.
Mas eu conhecia outro acesso à escola. Minha ferramenta tinha quebrado no
verão passado e por cerca de um mês eu não tinha o dinheiro para substituí-la.
Mas a oficina de marcenaria na escola tinha uma que fiz bom uso muitas vezes.
Eu tinha trocado uma peça de metal da fechadura da porta da oficina, deixando
o suficiente para que qualquer chave abrisse a porta. Se ninguém tivesse
descoberto nos sete meses desde então, eu seria capaz de entrar. Eu poderia
ficar em apuros, mas poderia dizer que a porta estava destrancada. De qualquer
maneira, eu duvidava que Wilson fosse bisbilhotar.

Minha maré de azar tirou umas pequenas férias, porque as chaves do


carro virou facilmente a fechadura da porta da oficina. Eu entrei e rastejei
através das passagens familiares. O cheiro da escola - desinfetante, almoço
escolar e perfume barato - era estranhamente reconfortante. Gostaria de saber
como eu iria abordar Wilson, sem assustá-lo. Quando me aproximei da escada
que levava ao segundo andar, ouvi algo que me fez parar bruscamente. Eu
escutei e meu coração batia como um tambor, o que deixou difícil determinar o
que era o som. Prendi a respiração e me esforcei a ouvir. Violino? Era estranho.
O psicopata de Hitchcock passou pela minha cabeça. “REE! REE! REE! REE!”
Eu tremia. Violinos eram assustadores.

O som me fez subir as escadas, seguindo as notas filiformes. Quando


cheguei ao segundo andar, o corredor estava escuro e a luz da sala de aula de
Wilson chamou minha atenção. Era a única claridade em toda a escola, criando
um foco de luz sobre o homem lá dentro. Wilson estava delineado pela estrutura
de sua porta, um retângulo brilhante no fim do corredor sombrio. Eu andei em
direção a ele, me mantendo perto da parede no caso dele olhar para cima. Mas a
luz que o iluminava também o cegava. Eu duvidava que ele fosse me ver, mesmo
que olhasse diretamente para mim.

Ele estava enrolado com um instrumento. Eu não sabia o nome disso. Era
muito maior do que um violino - tão grande que estava apoiado no chão e ele
estava sentado atrás dele. E a música que estava fazendo não era assustadora.
Era dolorosamente linda. Era penetrante, mas doce. Poderosa, mas simples.
Seus olhos estavam fechados e sua cabeça estava inclinada, como se ele orasse
enquanto tocava. As mangas da camisa estavam arregaçadas e seu corpo se
movia com o arco, como um guerreiro cansado. Então pensei em Manny. Como
Manny tinha observado os antebraços de Wilson e assisti ao jogo dos músculos
sob a pele lisa, puxando e empurrando, persuadindo a música suave das cordas
sombrias.

Eu queria revelar minha presença, para assustá-lo. Queria rir, para


zombar dele, para dizer algo sarcástico como eu costumava fazer. Eu queria
odiá-lo, porque ele era lindo de uma forma que eu nunca seria.

Mas não me mexi. Eu não disse nada. Eu só ouvia. Por quanto tempo, não
sei. E enquanto eu continuava a ouvir, meu coração começou a doer com um
sentimento que eu não tinha como nomear. Meu coração parecia inchado no
meu peito. Levei minha mão ao peito, como se eu pudesse fazê-lo parar.

Mas com cada nota tocada por Wilson, o sentimento crescia. Não era
tristeza e não era dor. Não era desespero ou mesmo remorso. Parecia mais...
Gratidão. Senti amor. Imediatamente rejeitei as palavras que tinham surgido
em minha mente. Gratidão por quê? Por uma vida que nunca foi gentil? Pela
felicidade que eu raramente tinha conhecido? Pelo prazer que tinha sido fugaz e
deixou um gosto desesperado de culpa e ódio?

Fechei os olhos, tentando resistir à sensação, mas meu coração estava


com fome disso, insaciável. O sentimento curativo se espalhou pelos meus
braços e pernas, quente e líquido. E a culpa e o ódio escaparam, empurrados
para fora pela gratidão por eu estar viva e por poder sentir isso ao ouvir a
música. Estava cheia com uma doçura indescritível, diferente de tudo que eu já
tinha sentido antes.

Deslizei para baixo contra a parede até que eu estava sentada no chão frio
de linóleo. Eu inclinei minha cabeça pesada contra os meus joelhos, deixando as
cordas tocadas por Wilson desatarem os nós da minha alma e me libertar dos
fardos que eu arrastava como latas e correntes imundas, mesmo que fosse por
um momento.

E se houvesse uma maneira de deixá-los ir para sempre? E se eu pudesse


ser diferente? E se a vida pudesse ser diferente? E se eu pudesse ser alguém? Eu
tinha pouca esperança. Mas havia algo na música que sussurrava possibilidades
e dava vida a um sonho muito particular. Wilson tocava desconhecendo a faísca
que tinha acendido dentro de mim.

A melodia de repente mudou, e a música tocada por Wilson foi a que


suscitou uma lembrança. Eu não conhecia as palavras. Mas era algo sobre a
graça. E então as palavras vieram à minha mente, como se tivessem sido
sussurradas em meu ouvido. “Sublime graça! Como é doce o som, que salvou
um miserável como eu...”

Eu não sabia o que era graça, mas talvez soasse como música. Talvez isso
fosse o que eu estava sentindo. Como era doce o som. Incrivelmente doce. Como
era doce o som que salvou uma miserável como eu. Uma miserável é a mesma
coisa que uma cadela? Ou uma vadia? A minha vida era uma evidência que nem
tudo poderia ser salvo. Não era uma evidência de amor - sem o amor de
ninguém.

Minha cabeça rejeitou firmemente a ideia. A graça não iria me salvar.


Mas, no cantinho negligenciado do meu coração recém-despertado pela música,
de repente eu acreditava que pudesse. Eu acreditei que poderia.

— Deus? — Sussurrei, dizendo o nome de quem nunca tinha falado,


exceto em palavrões, nem sequer uma vez. Mas eu tinha cantado o seu nome
uma vez, há muito tempo. Senti o nome doce na minha língua, e eu
experimentei novamente. — Deus?

Eu esperei. A música me estimulou a seguir em frente.

— Deus? Eu sou feia por dentro. E não é minha culpa. Você sabe que não
é. Eu assumo a responsabilidade por parte dela, mas você tem que assumir a sua
parte, também. Ninguém me salvou. Ninguém deu à mínima. Ninguém veio ao
meu resgate — Engoli seco, sentindo a dor na garganta, deixando-a machucada
para engolir, mas era a dor que estive engolindo por muito tempo, e forcei para
baixo. — Então, estou pedindo para você agora. Você pode tirá-la? Pode tirar a
feiura?

Algo se quebrou dentro de mim e eu gemi, incapaz de segurar isso.


Vergonha quente encharcada me inundou por dentro em ondas de dor
esmagadoras. Tentei falar, mas a quantidade era demais. E então engasguei ao
final do meu pedido.

— Deus? Se você me ama... Leve isso embora. Por favor. Estou pedindo
para você levar isso embora. Não quero me sentir assim — Deitei minha cabeça
nos meus braços e deixei as lágrimas me consumirem. Eu nunca tinha chorado
assim. Eu temia que se eu abrisse as comportas, acabaria me afogando. Mas
quando as ondas caíram em cima de mim, não fui consumida, fui varrida,
lavada, a minha alma foi coberta com um alívio abençoado. A esperança cresceu
dentro de mim como uma boia. E com a esperança, veio à paz. E a paz acalmou
as águas e a tempestade, até que eu me sentei consumida, sangrada e acabada.

A luz floresceu em cima, iluminando o corredor onde eu me encolhia.


Levantei-me, pegando minha bolsa e virando as costas para o homem andando
na minha direção.

— Blue? — A voz de Wilson estava hesitante, quase incrédula. Pelo menos


ele não falou senhorita Echohawk.

— O que você está fazendo aqui?


Continuei de costas para ele enquanto tentava remover a evidência do
que eu acabado de fazer. Esfreguei freneticamente meu rosto, esperando não
estar tão destruída como eu me sentia. Eu mantive meu rosto virado quando ele
se aproximou.

— A bateria da minha caminhonete acabou. Estou parada no


estacionamento. Vi seu carro aqui e queria saber se poderia ajudar — Eu disse
baixinho, ainda sem fazer contato visual. Mantive meus olhos fixos no chão.

— Está tudo bem? — Ele perguntou gentilmente.

— Sim — Eu disse. E eu estava. Milagrosamente, estava.

Um lenço de tecido branco apareceu debaixo do meu nariz.

— Um lenço! Quantos anos você tem, oitenta e cinco?

— Humph! Tenho vinte e dois anos, como você bem sabe. Simplesmente
fui criado adequadamente, a moda antiga, por uma mulher inglesa que me
ensinou a sempre carregar um lenço. Aposto que você está feliz por ela ter feito
isso.

Eu estava. Mas não queria admitir isso. O tecido parecia acetinado contra
meus olhos inchados e lágrimas nas bochechas. Isso tinha um cheiro divino...
Como pinho, lavanda e sabão, e de repente, usando o seu lenço me senti
incrivelmente íntima. Procurei algo para dizer. — Esta é a mesma mulher que
chamou você de Darcy?

A risada de Wilson foi suave. — Essa mesma.

— Posso ficar com isso? Eu vou lavá-lo e devolvê-lo. Vou até passar, como
sua mãe faz — Eu diabo em mim tinha que dizer isso.

— Ah, Blue. Aí está você. Pensei por um momento que você tivesse sido
arrancada do corpo por uma garota humana real - aquela que não têm um
grande prazer em insultar o professor de história — Ele sorriu para mim, e eu
desviei o olhar conscientemente. — Deixe-me pegar minhas coisas. Eu terminei
aqui.

— O quê? Você vai sair tão cedo? A escola só terminou oito horas atrás —
Brinquei, tentando mais uma vez ser normal. Ele não respondeu, mas estava de
volta momentos depois, seu instrumento pendurado em suas costas. Ele apertou
o interruptor de luz no final do corredor e descemos as escadas em silêncio.

— Como foi que você entrou? — Ele perguntou e logo em seguida


balançou a cabeça e acenou com a pergunta. — Não importa. Eu realmente não
quero saber. No entanto, se na segunda-feira eu achar as paredes pintadas com
tinta spray, vou saber para quem apontar o dedo.

— Pintura não é meu forte — Funguei ofendida.

— Ah, é mesmo? O que exatamente é o seu forte? — Ele fechou a porta


atrás de nós quando saímos para a noite.

— Madeira — Respondi, perguntando por que eu estava lhe dizendo.


Deveria tê-lo deixado pensar que eu era uma artista de graffiti. Quem se
importava. “Você” uma pequena voz zombou suavemente. E eu me importava.

— O que exatamente você faz com a madeira?

— Esculturas.

— Pessoas, ursos, totens, o quê?

— Totens?! — Eu não conseguia acreditar. — Isso é suposto ser uma


espécie de golpe à minha etnia?

— Sua etnia? Pensei que você tivesse dito que não era nativo-americana.

— Eu não sei que diabos eu sou, mas isso ainda soou como um golpe,
Sherlock!

— Por que você não sabe quem você é, Blue? Você nunca tentou
descobrir? Talvez isso a deixe menos hostil! — Wilson parecia frustrado. Ele
andou na minha frente, quase falando sozinho. — Absolutamente impossível!
Ter uma conversa com você é como tentar conversar com uma cobra! Você é
vulnerável e chorosa em um momento, e sibilante e atacando no outro. Eu
sinceramente não sei como chegar até você, ou até mesmo se quero! Só disse
totens porque eles são geralmente esculpidos em madeira, tudo bem? — Ele se
virou e olhou para mim.

— Você fica rabugento quando passa da hora de dormir, não é? — Eu


murmurei.

— Viu? — Ele reclamou, jogando as mãos para cima. — Lá vai você de


novo — Ele parou no carro, com as mãos nos quadris. — Eu sei que você é
incrivelmente brilhante, porque quando não está sendo uma espertinha, seus
comentários em sala de aula são muito perspicazes, e quando você ESTÁ sendo
espertinha você é espirituosa, inteligente e me faz rir, mesmo quando eu quero
bater em você. Eu sei que você é viciada em adrenalina ou tem mais coragem do
que qualquer um que eu já conheci, e sabe como descarregar uma arma. Sei que
você foi criada por um homem com o nome Echohawk. Sei que não sabe quando
é seu verdadeiro aniversário. Eu sei que você não tem planos de ir para a
universidade quando se formar. Sei que gosta de ser a palhaça da turma,
fazendo-me o alvo de suas piadas.

Ele contava nos dedos. — Isso são oito coisas. Ah, e você consegue
esculpir algo de madeira. Provavelmente NÃO totens, já que parece provocar
uma reação ruim em você. Então, nove, ou talvez dez se contarmos ser uma
esperta — Ele colocou as mãos de volta em seus quadris. — Eu realmente
gostaria de saber mais. Não quero saber sobre o pássaro pequeno que foi
empurrado do ninho. Gostaria de saber algo sobre a Blue — Ele cutucou no
centro do meu peito, forte, quando ele disse “Blue”.

— É uma parábola — Eu gemi, esfregando o local que ele apontou com


seu dedo comprido. — Meu pai - Jimmy - costumava dizer que eu era como um
melro pequeno, longe de casa.

— Onze coisas. Veja? Não é tão difícil.


— Você é bonitinho quando está bravo — Eu queria irritá-lo, mas acabou
soando como um flerte, com se fosse algo que Sparkles e Chrissy diriam. Senti-
me estúpida e lancei um olhar para ele. Felizmente, ele apenas revirou os olhos.
Engraçado como você pode dizer que alguém está revirando os olhos, mesmo
quando está escuro e você mal consegue vê-los.

Wilson colocou as mãos nos bolsos, sentindo cada um. Em seguida, ele
tentou suas portas do carro. Poderia ter dito a ele que estavam todas trancadas,
mas sabiamente permaneci em silêncio. Supunha que seriam doze coisas: eu
poderia ser sábia.

— Droga — Ele pressionou o rosto contra a janela do carro, com as mãos


protegendo os olhos dos dois lados. — Merda!

— Você tem uma boca suja, Sr. Wilson — Repreendi, tentando não rir. —
Não está explodindo como dizer a palavra com F na Inglaterra?

— O quê? Não! Droga, merda e inferno são bastante dóceis... Como


maldição.

— E droga? Isso soa absolutamente profano — Realmente não, mas eu


descobri que estava me divertindo. — Logo você vai dizer caralho! Não acho que
o diretor Beckstead aprovaria.

— Minhas chaves estão na ignição — Wilson gemeu, me ignorando. Ele


endireitou e olhou para mim com sobriedade. — Estamos caminhando, Blue, a
menos que você esteja disposta a admitir que tenha certas habilidades...
Quebrando e invadindo, talvez?

— Eu não preciso de habilidades para quebrar e invadir. Eu só preciso de


ferramentas - e não tenho nenhuma comigo — Respondi sem rodeios. — Nós
poderíamos enfiar seu grande violino pela janela do carro.

— Sempre uma espertalhona — Wilson virou-se e começou a caminhar


em direção à estrada.
— Eu vivo cerca de seis quilômetros e meio de distância naquela direção
— Informei, mancando atrás dele.

— Ah, bom. Eu vivo nove e meio. Isso significa que por pelo menos três
quilômetros, não vou ter que ouvir você zombar de mim — Wilson resmungou.

Comecei a rir. Ele realmente estava irritado.


Capítulo Dez

Cobalto
Caminhamos por vários minutos apenas com o clic clack das minhas
botas de salto alto para quebrar o silêncio.

— Você nunca vai fazer seis quilômetros e meio nesses sapatos —


Comentou Wilson pessimista.

— Eu vou porque tenho que fazer — Retruquei com calma.

— Uma garota durona, hein?

— Você tem alguma dúvida?

— Nenhuma. Embora as lágrimas dessa noite tenham me deixado


questionando. O que foi aquilo?

— Redenção — O escuro fez a verdade sair mais fácil. Wilson parou de


andar. Eu não.

— Você nunca vai fazer nove quilômetros e meio com esse violino nas
costas — Eu o imitei, mudando de assunto.

— Vou porque tenho que fazer — Ele zombou. — E é um violoncelo, sua


tola — Seus passos largos tinham me alcançado de novo em segundos.

— Não diga tola. Você soa malditamente ridículo.

— Tudo bem, então. Não diga malditamente. Americanos soam tolos


quando dizem malditamente. O sotaque é todo errado.

Silêncio.
— O que você quer dizer com redenção?

Suspirei. Sabia que ele iria voltar a isso. Seis quilômetros e meio era
muito tempo para fugir dele, então pensei por um momento, perguntando como
eu poderia colocar em palavras sem dizer a ele do que eu precisava me redimir.

— Alguma vez você já rezou? — Arrisquei.

— Claro — Wilson acenou com a cabeça como se não fosse grande coisa.
Ele provavelmente rezava de manhã e a noite.

— Bem. Eu nunca rezei. Não até esta noite.

— E então? — Wilson cutucou.

— Me senti... Bem.

Senti os olhos de Wilson em mim no escuro. Caminhamos em síncope


por várias respirações.

— Normalmente, a redenção implica resgate - ser salvo. Do que você


estava sendo salva? — Ele perguntou com a sua voz cuidadosamente neutra.

— Fealdade.

A mão de Wilson disparou, puxando-me para parar. Ele procurou meu


rosto, como se estivesse tentando vislumbrar o significado por trás das minhas
palavras. — Você é muitas coisas, Blue Echohawk, eu posso até citar doze — Ele
sorriu um pouco. — Mas feia não é uma delas.

Suas palavras me fizeram sentir engraçada por dentro. Fiquei surpresa


por elas. Tinha assumido que ele nunca tinha notado meu físico. Eu não sabia se
eu queria. Só balancei a cabeça e ele encolheu os ombros e começou a andar de
novo, respondendo a ele quando segui.

— Eu tive um monte de coisas horríveis na minha vida, Wilson.


Ultimamente o feio vem sendo mais do que posso suportar.
Retomamos nossa marcha constante pelas ruas calma. Boulder City
estava incrivelmente tranquila. Se Vegas era a cidade que nunca dormia, então
Boulder foi feita para isso. Ela dormia como um bêbado em uma cama de penas.

— Tudo bem. Então, faltam mais dois. Estamos no quatorze. Você teve
uma vida horrível, mas não é feia. E você gosta de rezar nos corredores escuros
no meio da noite.

— Sim. Sou fascinante. E agora já são quinze.

— Eu pensei que depois do tiroteio, a escola seria o último lugar que você
gostaria de ir para a oração... Ou redenção.

— Eu realmente não escolhi o local, Wilson. Eu fiquei presa. Mas se Deus


é real, então é igualmente real na escola como é na igreja. E se ele não é... Bem,
então, talvez, minhas lágrimas foram para Manny e todo o resto dos
desajustados perdidos que andam por esses corredores sozinhos e poderiam
precisar de um pequeno resgate.

— Eu nunca fui desde a infância jamais semelhante aos outros. Nunca vi


as coisas como os outros as viam. Nunca logrei apaziguar minhas paixões na
fonte comum... — Wilson murmurou.

Olhei para ele com expectativa.

— Sozinho de Edgar Allan Poe. Desajustado. Solitário. Poeta.

Eu deveria saber. Eu gostaria de conhecer as linhas que ele citou para que
eu pudesse continuar o poema de onde ele parou. Mas eu não conhecia e não
podia, por isso, o silêncio reinou mais uma vez.

— Então me diga por que você não sabe quando nasceu — Disse Wilson,
abandonando Poe.

— Você gosta de cutucar as cicatrizes? — Eu revidei.

— O quê? Por quê?


— Porque você continua cutucando a minha, e isso meio que dói —
Lamentei, esperando que meus apelos patéticos de “ai” acabassem com o
interrogatório.

— Oh, bem, então. Sim. Acho que amo mexer nas cicatrizes. Fale-me
sobre isso. Temos ainda quase cinco quilômetros a percorrer.

Suspirei pesadamente, indicando a ele que não era da sua conta. Mas eu
continuei a lhe dizer, de qualquer maneira. — Minha mãe me abandonou
quando eu tinha por volta de dois anos. Nós não sabemos exatamente quantos
anos eu tinha. Ela me deixou na caminhonete de Jimmy Echohawk e foi
embora. Ele não a conhecia, e eu não tinha idade suficiente para dizer-lhe
qualquer coisa. Ele não sabia o que fazer comigo, mas tinha medo que, de
alguma forma, ele estivesse envolvido em algum tipo de crime ou de que alguém
pensasse que ele tinha me sequestrado. Então, ele foi embora. Levou-me com
ele. Ele não era exatamente convencional. Ele vagava por aí, fazia esculturas
para viver, vendia a diferentes lojas turísticas e algumas galerias. E foi assim que
vivemos os próximos oito anos. Ele morreu quando eu tinha dez ou onze anos.
Mais uma vez, eu não tenho nenhuma ideia quantos anos eu realmente tenho, e
acabei com Cheryl, que é meia-irmã de Jimmy.

— Ninguém sabia quem eu era ou de onde vim, e eu pensava que Jimmy


fosse meu pai. Cheryl não me disse isso por uns três anos. Não havia registro,
então, com a ajuda dos tribunais, eles me deram uma certidão de nascimento,
um número de segurança social, e eu sou oficialmente Blue Echohawk, nascida
em 02 de agosto, que foi o dia que Jimmy me encontrou e era o dia em que
comemorávamos meu aniversário. Os serviços sociais pensavam que eu tinha
uns dez anos, que era mais ou menos o que Jimmy e eu achávamos. Então, eles
estimaram que eu tivesse nascido em 1991. Então lá vai. Estou com dezenove
anos... Talvez até vinte anos nessa altura, quem sabe. Um pouco velha para o
último ano no colegial, mas hey! Talvez seja por isso que sou tão inteligente e
madura — Eu sorri.

— Muito — Disse Wilson suavemente. Ele parecia estar processando meu


conto improvável, absorvendo em sua cabeça, dissecando. — Meu aniversário é
11 de agosto, o que me faz três anos mais velho do que você, quase no mesmo dia
— Ele olhou para mim. — Acho que é um pouco bobo para mim, chamá-la de
senhorita Echohawk.

— Não me importo tanto assim, Darcy — Eu sorri inocente, docemente


mesmo. Ele bufou com meu comentário. A verdade era que eu não me
importava. Quando ele dizia “senhorita Echohawk” daquele jeito arrogante, isso
me fazia sentir como se eu tivesse um upgrade ou uma transformação. Senhorita
Echohawk soava como alguém que eu gostaria de me tornar. Alguém sofisticada
e elegante, alguém que eu poderia aspirar. Alguém muito diferente de mim.

Meu celular vibrou contra meu quadril, e eu puxei para fora do meu bolso
apertado. Era Mason. Considerei não atendê-lo, mas pensei nos quilômetros
que eu e Wilson ainda tínhamos que caminhar.

— Mason?

— Blue. Baby... Onde está você? — Oh, cara. Ele parecia tão bêbado. —
Vim fui a sua procura. Você está com raiva de mim? Estamos na sua
caminhonete, mas você não está aqui. Você não está aqui, certo? — De repente,
ele parecia duvidoso, como se eu fosse saltar para fora em algum lugar.

— Minha bateria morreu. Estou voltando para casa, Mason, ao longo da


Adams. Quem está com você? — Esperava que alguém menos embriagado.

— Ela está com Adam — Eu ouvi Mason dizer isso a alguém, e o telefone
parecia ter caído. Alguém amaldiçoou e o telefone parecia ter sido empurrado de
um lado para outro.

— Quem é Adam, Blue? Foi por isso que você saiu tão cedo, sua vadia! —
A voz de Colby soava para mim. Ele deu uma gargalhada estridente, e segurei o
telefone longe do meu ouvido. Eu tinha certeza que Wilson podia ouvir a
conversa, a voz de Colby era tão alta.

— Estou na Adams... Na rua, Colby — Eu disse tão claramente quanto


poderia.
A ligação caiu. Incrível.

— Bem. Podemos ser salvos — Eu disse taciturna. — Mas talvez não. E


pode ser melhor se nós não formos.

— Eu percebi — Wilson balançou a cabeça. — Este dia foi para o livro dos
recordes.

Não demorou muito para que as luzes nos prendessem em seu brilho, e
nos virássemos para o veículo que se aproximava. Puxei o braço de Wilson. Não
queria que ele fosse atropelado pela equipe de resgate.

Era a caminhonete de Mason, e ele estava dirigindo. Colby estava


pendurado para fora da janela do passageiro como um grande cão, com a língua
batendo e tudo.

— Ei, Adam! Você conseguiu um pedaço de bunda também? — Colby riu,


e eu senti o nojo enrolar em minha barriga. Nojo de mim, e nojo do garoto que
pensou que poderia falar de mim como se eu fosse lixo.

— Estes são seus companheiros? — Perguntou Wilson rigidamente,


içando seu violoncelo mais para cima nas costas.

Balancei a cabeça uma vez rapidamente, muito humilhada para olhar


para ele.

— Entre, Blue — Mason gritou do outro lado. Colby abriu a porta e


acenou para mim. Fiquei na calçada.

— Esses garotos estão completamente bêbados — Disse Wilson cansado.


— Eu não reconheço nenhum deles. Eles não estão em nenhuma das minhas
aulas.

— Eles já se formaram. Mason tem a mesma idade que você. Colby é um


ano mais novo — Ambos tinham saído da escola há anos. Infelizmente, nenhum
dos dois havia se mudado para além do campo de futebol, onde ambos haviam
se destacado.
— Você precisa me deixar dirigir, Mason. Ok? — Eu sabia que se falasse
agressivo, ele iria embora, era preferível eu dirigir para eles neste momento, já
que não deveriam estar dirigindo.

— Claro baby. Você pode sentar no meu colo. Vou deixar você dirigir. Sei
que você gosta de pegar no câmbio! — Mason gritou, o tempo todo olhando para
Wilson como se quisesse bater nele.

Comecei a andar. Eles poderiam sofrer um acidente e pegar fogo. Mason


gritou para parar e saiu da caminhonete, cambaleando atrás de mim. A
caminhonete parou. Aparentemente, Mason não tinha colocado em ponto morto
antes de decidir me perseguir.

Wilson estava em cima de Mason em um flash, e com um soco rápido, a


cabeça de Mason rolou sobre seus ombros e afundou em uma pilha com Wilson
lutando para sustentar seu peso.

— Puta merda! — Colby estava meio fora da caminhonete, uma perna


dentro, uma perna no chão. — O que você fez para ele, Adam?

— A porra do meu nome não é Adam! — Wilson rosnou. — Agora venha


me ajudar a tirar o seu companheiro estúpido... Fodido... Do caralho, ou como
você o chama — Wilson aparentemente, teve o suficiente. Eu não tinha ideia do
que ele fez para dominar Mason. Mas fiquei agradecida.

Corri para o lado dele, ajudando-o a arrastar Mason para onde Colby
estava congelado em um estupor embriagado. Abri a porta traseira, e
conseguimos rolar Mason para a caçamba. Infelizmente, mesmo com Mason
inconsciente na parte de trás, eu tinha que sentar esmagada entre Colby e
Wilson, que surpreendentemente sabia como dirigir um veículo com câmbio
manual. Colby correu o braço ao longo da parte de trás do meu banco,
descansando a mão possessiva no meu ombro. Eu lhe dei uma cotovelada na
lateral e me movi para perto de Wilson tanto quanto pude, ficando com o
câmbio muito próximo. O braço direito de Wilson pressionava contra mim e ele
fazia uma careta cada vez que trocava de marcha, como se odiasse me tocar.
Dane-se. Eu não sentaria perto de Colby.
Voltamos para a escola e Colby ficou emburrado em silêncio enquanto
fazíamos a minha caminhonete funcionar. Até que ele decidiu passar mal, ou
seja, vomitou em todo o lado do passageiro da caminhonete de Mason. Wilson
só cerrou os dentes e voltou para a cabine, abrindo sua janela com movimentos
irritados.

— Vou seguir você até a casa de Mason — Ele falou como se toda a
confusão fosse culpa minha. Dirigi na frente com minha caminhonete,
mantendo Wilson no meu espelho retrovisor. Quando chegamos, içamos Mason
para fora caminhonete e pelo porão da casa de seus pais. De forma alguma que
nós conseguiríamos carregar Mason pelas escadas até seu apartamento em cima
da garagem. Ele pesava cerca de 90 quilos, e isso tudo era peso morto. Nós o
jogamos no sofá e seus braços caíram teatralmente.

— Será que ele vai ficar bem? — Eu observei seu peito subir.

Wilson bateu as bochechas de Mason bruscamente.

— Mason? Mason? Vamos amigo. Sua garota está preocupada que eu


matei você — Mason gemeu e empurrou as mãos de Wilson.

— Está vendo? Ele está ótimo. Nenhum dano feito — Wilson marchou
para fora da casa. Colby caiu em uma poltrona reclinável e fechou os olhos. A
diversão tinha terminado. Eu puxei o porão fechando atrás de mim e corri atrás
de Wilson. Ele levantou seu violoncelo da parte traseira da caminhonete de
Mason.

— As chaves estão no painel, mas eu tranquei as portas. Será melhor se


ele não tiver outra chave. Estou esperando que isso o atrase se ele e seu amigo
decidirem resgatar mais alguém hoje à noite, ou, melhor ainda, ir atrás de você
— Ele me encarou furiosamente e colocou seu violoncelo na minha
caminhonete. Subiu no lado do passageiro, e eu deslizei atrás do volante, com
raiva porque ele estava irritado. Sai da entrada da casa de Mason com meu
temperamento queimando com o guincho dos meus pneus.
— Não é minha culpa que você trancou SUAS chaves no SEU carro. Isso
não tem nada a ver comigo.

— Por favor, me leve para casa. Eu cheiro a cerveja, pizza e vômito. #16 -
Blue tem péssimo gosto para amizades.

— Todos os britânicos ficam miseráveis a meia-noite, ou é só você? E o


que você fez lá atrás, afinal? Você é um professor da escola e toca violoncelo!
Você é o mais nerd que eu conheço. Você não deveria saber Kung Fu.

Wilson fez uma careta para mim, aparentemente, não apreciando o


comentário nerd.

— Eu honestamente não sei o que eu fiz. Foi pura sorte. Eu só atingi seu
queixo. Ele desceu — Nós dois estávamos em silêncio, contemplando as
probabilidades. — Isso foi incrível pra caralho.

Assustada com a sua admissão, minha cabeça girou e meus olhos


encontraram os dele. Eu não sei quem começou a rir primeiro. Talvez fosse eu,
talvez tenha sido ele, mas em poucos segundos estávamos sibilando e
gargalhando. Mal conseguia dirigir de tanto que eu estava rindo. E isso foi
incrível pra caralho.

Acabei levando Wilson à sua casa para pegar as chaves reserva e depois
voltamos para a escola, para ele pegar o carro. Ele morava em uma grande casa
antiga que estava sendo reformada. A maioria das casas mais novas na área de
Las Vegas era de estuque, e seria difícil encontrar algumas casas que eram de
tijolos. Mas em Boulder City as coisas não faziam sentido, tinha casas mais
antigas do que mais novas e menos planejamento comunitário.

Algumas estruturas mais antigas ainda dominavam Buchanan Street,


onde ficava sua casa. A casa de Wilson era incluída em uma lista da sociedade
histórica, até que com a falta de fundos ficou impossível de mantê-la. Wilson me
disse que era um lixo quando ele tinha comprado um ano atrás. Eu informei a
ele que ainda era, sorrindo para tirar a ferroada das minhas palavras. Mas eu
conseguia ver como era atraente.
Ela era enorme, feita de tijolo vermelho em um estilo que parecia mais
adequado para um campus universitário do Leste do que em um bairro de uma
pequena cidade do deserto. Wilson disse que tudo na Inglaterra era antigo e não
era com 70 anos de idade, como esta casa, mas centenas e centenas de anos de
idade. Ele não queria viver em uma casa onde não havia nenhuma história, e sua
casa tinha tanta história como você encontraria em uma cidade do Oeste. Eu
deveria ter imaginado isso.

Quando caminhamos até os degraus da frente, notei que ele tinha


colocado uma pequena placa na porta, daquelas com letras douradas que
normalmente indicavam o endereço da casa. Ali estava escrito Pemberley. Isso
era tudo.

— Você nomeou a sua casa de Pemberley? — O nome era familiar, mas eu


não conseguia me lembrar de onde.

— É uma pequena piada — Ele suspirou. — Minhas irmãs acharam que


seria engraçado. Elas fizeram isso e Tiffa me surpreendeu no meu aniversário.
Eu continuo dizendo a mim mesmo que eu vou tirar isso, mas... — Sua voz
desapareceu e eu deixei isso pra lá. Eu jogaria Pemberley no Google quando
tivesse a chance, só para ficar por dentro na brincadeira.

Uma grande quantidade de trabalho foi feita no interior. As portas da


frente se abriam em um hall de entrada dominada por um grande conjunto de
escadas que se curvaram para o segundo andar. Era lindo, mas achava que foi a
madeira escura e pesada que me conquistou. Os pisos combinavam com o
enorme corrimão de mogno que curvava graciosamente até o segundo andar,
onde se transformava em um balaústre grosso que fazia um grande círculo
abaixo do teto arqueado.

Havia dois quartos completamente acabados, um no segundo andar e


outro no nível principal. Outro ainda estava em construção, que deveria ser
concluído em breve, de acordo com Wilson. O apartamento térreo era ocupado
por uma senhora de idade que Wilson parecia ter bastante afeição. Eu não a
encontrei. Era meia-noite, depois de tudo. Wilson morava no outro. Eu estava
curiosa para ver como eram suas acomodações, mas fiquei para trás, me
perguntando se ele gostaria que eu ficasse para fora. Ele era meu professor, e
quase tudo o que tinha acontecido naquela noite poderia custar o seu emprego,
ou pelo menos deixá-lo em apuros, embora fosse uma vítima inocente nesse
caso.

Ele parecia aliviado que eu não entrei, mas deixou a porta aberta. Eu
conseguia ver que o piso de madeira escura se estendida em seu quarto, que ele
chamou de “flat.” As paredes eram pintadas com um verde claro. Duas gravuras
emolduradas de mulheres africanas carregando tigelas em suas cabeças estavam
penduradas no longo corredor que conduzia para o resto do espaço. Bonito. Eu
não sabia o que estava esperando. Talvez prateleiras e prateleiras de livros, e
uma poltrona de veludo com encosto alto na qual Wilson pudesse fumar um
cachimbo, vestindo um blazer smoking vermelha durante a leitura de grandes
livros empoeirados.

Ele trocou seu violoncelo por um segundo conjunto de chaves e uma


camiseta limpa e jeans. Ele não estava sujo de vômito, mas insistia que ele
cheirava a isso. Eu nunca o tinha visto em outra coisa além de calça social e
camisas. A camiseta era de um azul suave confortável e seu jeans era desbotado,
embora parecesse caro. Ele não tinha comprado na Hot Topic. Por que ele
parecia ter muito dinheiro mesmo quando se estava com jeans e camiseta?

— Calça23 bonita — Eu comentei quando ele se aproximou de mim na


porta.

— UH-huh? — Wilson gaguejou. E então sorriu. — Oh, uh. Obrigado.


Você quer dizer minha calça.

— Calça?

— Sim. As calça é roupas íntimas, veja. Pensei que... Um. Não importa.

— Roupa íntima? Você chama calça de roupa íntima?

23 No original a palavra usada foi pants que no inglês americano significa calças, já no britânico seria roupa

íntima (cueca, calcinha)


— Vamos, vamos? — Ele fez uma careta, ignorando a pergunta e fechando
a porta atrás de si. Ele parecia tão diferente, e eu tentei não olhar. Ele era...
Gostoso. Ugh! Revirei os olhos para mim e entrei de volta na minha
caminhonete, me sentindo triste de repente. Passei a viagem de volta até o carro
dele em contemplação silêncio, querendo que Wilson não se intrometesse nisso
até chegarmos à escola.

Antes que ele saísse, olhou para mim sério, os olhos cinzentos cansados
na insignificante sombra desencadeada por sua porta aberta. Então ele estendeu
a mão e apertou a minha, dando-lhe uma breve agitada.

— Aqui está a redenção. Vejo você na segunda-feira, Blue — E ele saiu da


minha caminhonete e saltou para seu Subaru. Abriu facilmente e deu um
pequeno aceno.

— Aqui está a redenção — Eu repeti para mim mesma, na esperança de


que tal coisa existisse.
Capítulo Onze

Tiffany
O Beverly's Cafe ficava na Rua Arizona, no centro de Boulder City, um
restaurante remodelado na parte antiga da cidade, fundada em 1930, quando
Hoover Dam estava sendo construída. Boulder City era uma cidade planejada,
com os serviços básicos necessários e foi totalmente construída pelo governo
dos EUA para abrigar os trabalhadores da barragem após a Grande Depressão.
Ela tinha ainda a maior parte das estruturas originais, juntamente com um hotel
interessante, não muito longe de Bev, que foi construído nos primeiros dias.
Boulder City era uma mistura estranha de grande cidade com coisas
descartáveis e as tradições do Velho Oeste que fazia a maioria das pessoas
coçarem a cabeça. Não era muito longe de Las Vegas - mas o jogo é ilegal. Ela
mantinha o apelo de comunidade cidade pequena que Vegas não poderia se
gabar.

Eu conhecia Beverly, a dona do café, desde os meus dias com Jimmy. Ela
tinha uma pequena loja de presentes no café que era preenchida com a arte do
sudoeste, pinturas, cerâmica, cactos e várias antiguidades. Ela pegava o trabalho
de Jimmy em comissão, e parecia que Jimmy sempre gostou dela. Jimmy tinha
mantido minha existência bastante discreta, mas Beverly era gentil com ele e
boa para mim. Ele confiava nela e era um dos lugares onde deixamos baixar um
pouco a guarda. Eu tinha comido muitas vezes nas grandes mesas de couro
vermelho.

Há alguns anos atrás, quando eu tinha idade suficiente para dirigir e dar
a volta sozinha, eu me aproximei de Beverley procurando um trabalho. Ela era
uma mulher acima do peso, agradavelmente roliça, com cabelo vermelho e um
jeito acolhedor. Sua risada era tão grande quanto seus seios, o que era bastante
impressionante, e ela era tão popular com seus clientes como seus milk-shakes e
cheeseburgers duplos com jalepenos eram. Ela não tinha me reconhecido até
que eu disse a ela o meu nome. Em seguida, o queixo caiu e ela saiu de trás da
caixa registradora, me abraçando com força. Foi a mais genuína expressão de
preocupação que alguém tinha me mostrado uma vez... Desde que... Sempre.

— O que aconteceu com vocês dois, Blue? Jimmy me deixou com cinco
esculturas, e eu vendi todas elas, mas ele nunca mais voltou. Eu tive pessoas que
queriam o seu trabalho, pedindo por isso. No começo fiquei confusa, me
perguntando se eu tinha feito alguma coisa errada. Mas eu tinha dinheiro para
entregar a ele. Certamente ele teria voltado para pegar o dinheiro. E então eu
comecei a me preocupar. Passaram-se pelo menos cinco anos, não é?

— Seis — Eu a corrigi.

Beverly me contratou naquele mesmo dia, e eu trabalhava para ela desde


então. Ela nunca disse nada sobre a minha aparência ou o meu gosto por
homens. Se ela achava que a minha maquiagem era um pouco demais ou meu
uniforme apertado, ela também nunca disse. Eu trabalhava duro, e era
confiável, então ela me deixou ficar. Ela até me deu o dinheiro da venda de
esculturas de Jimmy seis anos atrás.

— Está aqui tirando os meus vinte por cento, além de seis anos de juros —
Ela havia dito o assunto com naturalidade. — E se você tiver mais de suas
esculturas, vou pegá-las.

Foram quinhentos dólares. Eu tinha usado para comprar ferramentas e


garantir o aluguel do depósito atrás do apartamento. E eu tinha começado a
esculpir de verdade. Não brincava mais como tinha feito desde que Jimmy
morreu. Eu ataquei a arte com uma ferocidade que eu não sabia que era capaz.
Algumas das minhas esculturas eram horríveis. Algumas não eram. E eu fui
ficando melhor. Eu separei algumas esculturas de Jimmy, e terminei as que ele
não teve a chance de completar. Então, vendi tudo com o seu nome - o meu
nome também, Echohawk - e quando foi tudo dito e feito, eu tinha feito mais $
500. Com isso e o valor da poupança de um ano, eu comprei a minha pequena
caminhonete. Ela era surrada e tinha 100.000 milhas rodada. Mas funcionava e
me dava o transporte que eu precisava para ampliar minhas captações de
madeira.
Eu tinha praticado em cada tronco de árvore que conseguia pegar em
minhas mãos, mas não era como se houvesse vastos bosques ao meu redor. Eu
vivia em um deserto. Felizmente, Boulder City ficava acima na base das colinas
com algaroba crescendo em abundância suficiente para que eu pudesse recolher
e, praticamente escolher o que eu queria. Eu fiquei muito boa em usar um
motosserra. Ninguém se preocupava com as algaroba raquíticas de qualquer
maneira. E eu tinha que admitir, cortá-la era terapêutico de uma forma muito
visceral. Depois de um ano de conseguir um emprego no café, eu tinha vendido
algumas das minhas peças e tinha mais ou menos dez peças que revestiam as
prateleiras da pequena loja de Beverly em todos os momentos. Três anos depois,
eu tinha um pé de meia de milhares de dólares.

Eu estava trabalhando quinta-feira a noite no horário do jantar, quando o


Sr. Wilson entrou no café com uma mulher bonita com um grande casaco de
pele. Seu cabelo era uma massa de cachos loiros presos no alto da cabeça, e ela
usava pequenos diamantes em suas orelhas, bem como saltos agulha pretos e
meia arrastão. Ela parecia que estava vindo de algum lugar muito chique ou era
uma daquelas mulheres que nunca se cansam de se arrumar. O casaco de pele
era tão fora de lugar com a decoração do café, que eu me encontrei tentando não
rir quando me aproximei de sua mesa para anotar os pedidos. Ela encolheu os
ombros tirando seu casaco e sorriu para mim brilhantemente, quando eu
perguntei se poderia trazer-lhes algo para beber.

— Estou com tanta sede! Eu vou querer uma jarra cheia de água, querida
e bastante nachos, se os tiver só para começar — Ela cantarolou com um sotaque
acentuado. Ela era britânica também. Olhei do Wilson para a mulher e vice-
versa.

— Olá, Blue — Wilson sorriu para mim educadamente. — Blue é uma das
minhas alunas, Tiffa — Ele ofereceu, me apresentando para a mulher em frente
a ele.

As sobrancelhas de Tiffa dispararam em descrença quando ela mais uma


vez me deu uma rápida olhada em mim. Eu tive a sensação de que ela não
achava que eu me parecia uma estudante. Sua mão se estendeu rapidamente e
eu aceitei hesitante.

— Você é a garota que pegou a arma do pobre rapaz? Wilson me falou


tudo sobre você! Que belo nome! Sou Tiffa Snook, sou a irmã de Darcy, er, Sr.
Wilson. Você vai ter que me dizer o que pedir! Eu poderia comer um unicórnio e
limpar meus dentes com seu chifre! Estou absolutamente faminta — Tiffa
despejou tudo isso em cerca de dois segundos, e eu encontrei-me gostando dela,
apesar do seu casaco de pele. Se ela não tivesse mencionado o vínculo familiar,
eu teria pensado que Darcy gostava de mulheres mais velhas.

— Tiffa está sempre morrendo de fome — Wilson acrescentou secamente


e Tiffa bufou, jogando o guardanapo nele. Mas ela riu e deu de ombros,
admitindo o ponto.

— É verdade. Eu vou ter que correr por horas para tirar esses nachos, mas
não me importo. Então me diga Blue, o que devemos pedir?

Sugeri várias coisas, me perguntando o tempo todo em que Tiffa Snook


trabalhava se ela usava meia arrastão e um casaco de pele para comer no café.
Eu conseguia vê-la correndo na esteira com salto alto e coberta com uma roupa
e ginastica de pele. Ela era tão magra como um palito e muito alta, e exalava
energia. Ela provavelmente precisava comer um cavalo - ou um unicórnio -
apenas para alimentar seu nível de energia.

Eu encontrei-me observando Wilson e sua irmã durante toda a sua


refeição, e não foi só porque eu era sua garçonete. Eles pareciam desfrutar da
companhia um do outro, e suas risadas frequentemente enchiam sua mesa.
Parecia ser Tiffa a falar a maior parte do tempo, seus gestos e movimentos das
mãos acentuando tudo o que ela dizia, mas Wilson tinha rido
descontroladamente mais de uma vez. Quando eles finalmente sinalizaram que
queriam a conta, Tiffa estendeu sua mão pegando a minha mão, como se
fôssemos velhas amigas. Era tudo que eu podia fazer para não puxar de volta.
— Blue! Você tem que resolver isso para nós! Darcy aqui diz que você
sabe alguma coisa sobre esculturas. Há algumas esculturas fabulosas que vi ali
na loja. Você não sabe nada sobre elas, não é?

Eu passei mal com a súbita autoconsciência e por um minuto eu não


sabia como responder.

— Uh, o que você gostaria de saber? — Eu perguntei com cautela.

— Darcy diz que seu nome está gravado na base de todos. Eu disse a ele
que não poderia ser. Sem ofensa amor, mas elas são experientes, se isso faz
algum sentido.

— Elas são minhas — Eu disparei. — Se isso é tudo o que precisa, aqui


está sua conta. Você pode pagar no caixa. Obrigada por terem vindo — Corri
para longe sem fôlego, e invadi a cozinha como se alguém estivesse atrás de
mim. Eu encontrei-me realmente à procura de algum lugar para me esconder,
como se Wilson e sua irmã fossem realmente me perseguir e me atacar,
jogando-me no chão. Depois de um minuto de covardia, eu criei coragem
suficiente para espiar pelas portas giratórias que separa a cozinha da sala de
jantar.

Eles andando pela loja de presentes, parando ao lado de várias das


minhas peças. Tiffa correu os dedos ao longo de uma delas, comentando com
Wilson, embora eu não conseguisse ouvir o que ela dizia. Fiquei impressionada
com a minha autoconsciência mais uma vez, o horror e euforia guerreando no
meu peito. Afastei-me, não querendo ver mais. Era perto da hora de fechar, e o
café estava quase vazio, então consegui me esconder na cozinha, fazendo meus
deveres para encerramento e esperando que eles saíssem.

Cerca de meia hora mais tarde, Jocelyn, a gerente do turno da noite, veio
irrompeu pelas portas duplas da cozinha, com o rosto envolto com sorrisos.

— Oh meu Deus! Oh meu Deus, Blue! Sabe aquela senhora naquele


agradável casaco de pele? Ela acabou de comprar todas as suas esculturas. Cada
uma delas! Ela pagou tudo com seu cartão de crédito e disse que iria enviar uma
caminhonete para buscá-los na parte da manhã. Você acabou de ganhar mais ou
menos US $ 1000 dólares! Havia dez delas! Eu estava andando atrás dela com
uma calculadora e nós somamos todas elas, mais ela acrescentou uma gorjeta de
US $ 200 para você, porque disse que elas eram “pateticamente
subvalorizadas!” — Ela balançou os dedos, indicando citações.

— Ela comprou todas elas? — Eu rangia.

— Todas, exceto uma, e isso foi porque o cara com que ela estava insistiu
que queria!

— Qual?

— Todas elas!

— Não, quero dizer, qual era o que o cara quis?

— A mais próxima da saída. Venha aqui! Vou mostrar-lhe onde estava.


Ele levou com ele.

Ela gritou como uma menina e se virou, correndo da cozinha quando eu


corri atrás dela. Eu estava meio surpresa com seu óbvio entusiasmo para
comigo.

— Não! Estava aí! — Jocelyn apontou para um grande espaço vazio em


uma prateleira alta. — Ela tinha um título engraçado... The Arch? Sim! Acho que
era isso.

Wilson tinha levado “The Arch”. Senti uma vibração por ele ter
reconhecido pelo que era. Eu tinha encontrado um pedaço de algaroba que
escondia uma curva em sua linha. Lentamente, eu tinha cortado a madeira,
formando a sugestão de uma mulher de joelhos, costas curvadas como um gato,
profundamente curvada em adoração ou subserviência. O corpo dela formava
um arco, esticando os braços para além de uma cabeça que quase beijava o chão
com as mãos que se fecharam em punhos cerrados em súplica. Tal como
acontecia com todas as minhas peças, era completamente abstrata, a sugestão
de uma mulher, simplesmente isso, uma sugestão, uma possibilidade. Alguns
podem simplesmente ver a madeira altamente polida, moldada em linhas longas
e depressões provocantes. Mas quando eu a havia esculpido, tudo o que eu
conseguia ver era Joana. Tudo o que eu conseguia ouvir eram as suas palavras.
“Viver sem crença é um destino pior que a morte”. Minha Joana d' Arc. E foi
isso que Wilson tinha comprado.

Cerca de uma semana depois, eu entrei na sala de aula de Wilson e parei


tão de repente, que as pessoas que estavam andando atrás de mim colidiram
como dominós humanos, criando um pequeno engarrafamento na porta. Fui
empurrada e meus colegas se queixaram descontentes fazendo seus caminhos
ao redor da minha forma inerte. Minha escultura estava colocada em uma mesa
no centro da sala. Wilson estava junto à sua mesa, falando com um aluno. Olhei,
desejando que ele olhasse para cima, para explicar qual era seu jogo. Mas ele
não o fez.

Eu fiz meu caminho lentamente para a minha mesa, na frente e ao centro,


colocando-me em frente escultura que eu tinha criado com minhas próprias
mãos. Eu não tinha que olhar para as longas linhas ou madeira reluzente para
saber onde eu tinha corrigido um furo ou cortado mais fundo do que eu havia
planejado. Eu poderia fechar os olhos e lembrar-me de como eu me sentia ao
formar a sugestão de curvas femininas arqueando como o contorno do mapa da
França nas costas da escultura.

— Blue? — Wilson falou de onde estava parado em sua mesa. Eu virei


minha cabeça lentamente e olhei para ele. Eu não achei que a expressão no meu
rosto era especialmente amigável. Ele não reagiu ao meu olhar penetrando e
calmamente me fez um pedido. — Venha aqui, por favor.

Aproximei-me com cuidado e parei na frente da sua mesa, com os braços


cruzados.
— Eu quero que você fale para a classe sobre a sua escultura.

— Por quê?

— Porque é brilhante.

— E? — Eu ignorei o prazer que inundou meu peito em seu


pronunciamento.

— Você chamou a de “The Arc”. Por quê?

— Eu estava com fome... Pensando sobre McDonalds, sabe?

— Hmm. Eu vejo. Como nos arcos dourados — Um pequeno sorriso se


contorceu nos cantos da sua boca. — Você não escreveu mais do que um
parágrafo na sua história pessoal. Talvez existam outras maneiras de
compartilhar quem você é. Eu pensei que talvez essa peça fosse sobre Joana
d'Arc, o que tornaria especialmente relevante. Considere-a um crédito extra...
Que, francamente, é o que você precisa.

Eu considerei responder com a famosa frase “Francamente, meu querido,


eu não dou a mínima”. Mas isso não era verdade. Eu me importava. Em um
pequeno canto do meu coração, o pensamento de falar sobre a minha escultura
me enchia de alegria. Mas o resto do meu coração estava apavorado.

— O que você quer que eu diga? — Eu sussurrei com o pânico escorrendo


para fora e arruinando a minha postura de garota durona.

Os olhos de Wilson suavizaram, e ele se inclinou para mim do outro lado


da mesa. — Que tal se eu lhe fizer algumas perguntas e você as responde. Eu vou
entrevistá-la. Então você não terá que pensar em coisas para dizer.

— Você não vai me perguntar qualquer coisa pessoal... Sobre o meu nome
ou meu pai... Ou qualquer coisa assim, vai?

— Não, Blue. Eu não vou. As perguntas serão sobre a escultura. Sobre o


seu dom incomum. Porque, Blue, o seu trabalho é brilhante. Tiffa e eu ficamos
fascinados. Ela não consegue parar de falar sobre você. De fato — Wilson enfiou
a mão no bolso da camisa e tirou um cartão. — Tiffa pediu que eu lhe desse isso.

Era um cartão preto brilhante com letras douradas. Tiffany W. Snook -


The Sheffield era tudo o que dizia. Um número de telefone e uma conta de e-
mail enfeitando o canto direito. Corri meus dedos sobre as letras gravadas e, em
seguida, olhei para ele com desconfiança.

— A Sheffield é o grande hotel na extremidade sul que se parece com uma


propriedade Inglesa, certo? Aquela em que sua amiga trabalha?

— Tiffa é curadora, tanto para o museu de arte como para a galeria. Ela
comprou nove de suas peças na sexta à noite. Você sabia? Ela teria comprado
dez, mas pedi-lhe para me deixar ter apenas uma.

— Eu sabia que ela havia comprado. Apesar de não saber por que. Eu
ainda não estou certa do que faço.

— Ela quer colocar algumas de suas peças na galeria e ver como vão. O
Sheffield vai dividir se elas venderem. Mas ela vai dar-lhe o que restar, menos a
parte que ela já pagou.

— Mas ela comprou. Ela pode fazer o que quiser com elas.

Wilson balançou a cabeça. — Ligue para ela, Blue. Se você não fizer isso,
ela vai caçá-la. Ela é muito persistente. Agora, a classe está esperando.

Os alunos atrás de mim não estavam esperando. Eles estavam


ruidosamente aproveitando o fato de que a aula não tinha começado, mas eu
não discuti com ele. Voltei para o meu lugar, me perguntando quanto tempo
levaria até que Wilson me envergonhasse. Não demorou muito.

— Muitos de vocês estão provavelmente se perguntando sobre esta


escultura deslumbrante — Eu gostaria que ele desistisse das descrições ridículas
e me encolhi um pouco. Ele se virou em direção a um rapaz que estava sentado à
minha direita chamado Owen Morgan.
— Owen, você pode ler a palavra esculpida aqui na base da escultura?

Owen levantou-se e se abaixou para que pudesse ver a palavra que


Wilson estava apontando.

— Echohawk — Owen leu. — Echohawk? — Ele repetiu com uma inflexão


surpresa. Owen virou a cabeça para mim, as sobrancelhas levantadas em
dúvida. Eu realmente não gostava muito de Wilson naquele momento.

— Sim. Echohawk. Esta peça é chamada de “The Arc” e foi esculpida por
Blue Echohawk. Blue concordou em responder algumas perguntas sobre seu
trabalho. Pensei que todos iriam se interessar.

Levantei-me e me movi ao lado de Wilson, mas mantive meus olhos


focados na escultura, de modo que eu não teria que fazer contato visual com
ninguém na sala. A classe tinha ficado em silêncio atordoado. Wilson começou
perguntando algumas coisas básicas sobre ferramentas e diferentes tipos de
madeira. Eu respondi facilmente, sem embelezar e encontrei-me relaxando com
cada questão.

— Por que você esculpe?

— Meu... Pai... Ensinou-me. Eu cresci observando-o trabalhar com


madeira. Ele fazia coisas bonitas. Entalhar me faz sentir perto dele — Fiz uma
pausa, reunindo meus pensamentos. — Meu pai disse que escultura requer olhar
para além do que é óbvio, para o que é possível.

Wilson acenou com a cabeça como se entendesse, mas Chrissy se


intrometeu da primeira fila.

— O que você quer dizer?— Ela perguntou, com a expressão forçada


quando inclinou a cabeça para o lado, como se estivesse tentando descobrir o
que ela estava olhando.

— Bem... Pegando esta escultura, por exemplo — Eu expliquei. — Era


apenas um enorme pedaço de algaroba. Quando eu comecei, não era nada
bonito. Na verdade, isso era feio e pesado e foi um pé no saco para entrar na
minha caminhonete.

Todos riram, eu estremeci e murmurei um pedido de desculpas pela


minha linguagem.

— Então nos diga sobre esta escultura, em particular — Wilson ignorou o


riso e continuou reorientar a classe. — Você chamou de “The Arch”. Que eu
achei fascinante.

— Eu acho que, se algo está realmente na minha mente... Ele tende a sair
pelas minhas mãos. Por alguma razão, eu não conseguia tirar a história de
Joana d'Arc da minha cabeça. Ela me atraía — Eu confessei, inclinando um
olhar para Wilson, esperando que ele não achasse que eu estava bajulá-lo. — Ela
me inspirou. Talvez fosse por ela ser jovem. Ou corajosa. Talvez fosse porque ela
era forte em um momento em que as mulheres não eram especialmente
valorizadas por sua força. Mas ela não era apenas forte... Ela era... Boa — Eu
terminei timidamente. Eu estava com medo de que todo mundo fosse rir de
novo, sabendo que “boa” não era algo que já tinha sido aplicada a mim.

A classe tinha ficado quieta. Os meninos que geralmente batiam na


minha bunda e faziam sugestões lascivas estavam olhando para mim com
expressões confusas. Danny Apo, um garoto polinésio gostoso que eu tinha
transado uma ou duas vezes, estava inclinado para a frente em sua cadeira, suas
sobrancelhas negras baixadas sobre os olhos igualmente negros. Ele ficou
olhando de mim para a escultura e depois de volta novamente. O silêncio era
irritante, e eu olhei para Wilson, na esperança de que ele fosse preenchê-lo com
outra pergunta.

— Você disse que escultura é ver o que é possível. Como você sabia por
onde começar? — Ele tocou a inclinação graciosa de madeira, correndo seu
longo dedo sobre a cabeça curvada de Joana.

— Havia um pedaço de tronco que tinha uma ligeira curva. Algumas


partes da madeira tinham apodrecido, e quando eu tirei tudo, consegui a ver um
ângulo interessante que imitava a curva. Eu continuei a cortar, criando o arco.
Para mim, parecia a coluna de uma mulher... Como uma mulher orando — Meus
olhos dispararam para Wilson, imaginando se as minhas palavras trouxeram à
sua mente a noite que ele havia me descoberto no corredor escuro. Seus olhos
encontraram os meus por breves instantes e em seguida, foram reorientados
para a escultura.

— Uma coisa que notei, quando vi todo o seu trabalho em conjunto, foi
que cada peça é muito original - como se a inspiração por trás de cada uma fosse
diferente.

Eu balancei a cabeça. — Todas elas contam uma história diferente.

— Ahhh. Ouviram isso classe? — Wilson sorriu amplamente. — E eu nem


sequer disse a Blue para falar isso. Todo mundo tem uma história. Cada coisa
tem uma história. Eu disse a vocês.

A classe riu e reviraram os olhos, mas eles tinham a intenção de discutir e


suas atenções permaneceram em mim. Uma sensação estranha tomou conta de
mim, enquanto eu olhava para os rostos das pessoas que eu conhecia há muitos
anos. As pessoas que eu conhecia, mas nunca realmente as conheci. Pessoas que
eu tinha muitas vezes ignorados, e que tinham me ignorado. E fiquei
impressionada com o pensamento de que elas estavam me vendo pela primeira
vez.

— É uma questão de perspectiva — Eu disse hesitante, dando voz à minha


súbita revelação. — Eu não sei o quanto você vê quando olha para isso — Eu
balancei a cabeça em direção minha escultura. — Eu não posso controlar o que
você vê, ou como interpreta o que vê mais do que posso controlar o que pensa de
mim.

— Essa é a beleza da arte — Wilson sugeriu calmamente. — Todo mundo


tem sua própria interpretação.

Eu balancei a cabeça, olhando para o mar de rostos. — Para mim, esta


escultura conta a história de Joana d' Arc. E ao contar a sua história... Eu acho
que devo contar a minha própria, em algum grau.
— Obrigado, Blue — Wilson murmurou e eu rastejei para o meu lugar,
aliviada por ter acabado, o calor de tanta atenção pesando na minha pele.

A sala ficou abafada por um instante mais, e então meus colegas


começaram a bater palmas. As palmas eram modestas e não abalaram a sala em
aplausos estrondosos, mas para mim, foi um momento que não esquecerei
enquanto viver.

Descobriu-se que Pemberley era o nome da casa do Sr. Darcy de Jane


Austen de Orgulho e Preconceito. Essa era a piada interna. Tiffa tinha chamado
a casa de Wilson de Pemberley para provocá-lo sobre o seu nome. Isso me fez
gostar ainda mais dela. E o meu respeito para ela não tinha nada a ver com o
fato de que ela parecia amar minhas esculturas, embora, isso certamente não
doía.

Liguei para o número do cartão que Wilson me deu e apreciei os dez


minutos de elogios efusivos em um inglês muito bom. Tiffa estava convencida de
que ela poderia vender tudo o que tinha comprado no café e a preços
significativamente mais elevados. Ela me fez prometer que eu continuaria
esculpindo e também que um contrato seria enviado para eu assinar. O Sheffield
pegaria uma parte do que seria vendido em sua galeria, que incluiria o
percentual de Tiffa, mas eu ficaria o resto. E se as peças fossem vendidas com os
preços que Tiffa tinha certeza de venderia, minha porcentagem ainda seria
substancialmente maior do que antes. E a exposição seria impagável. Eu tinha
que continuar me beliscando no decorrer da conversa, mas quando acabou, eu
estava convencida de que o esforço para me tornar um Blue diferente, fez a
minha sorte mudar também.

Naquela noite, sexta-feira, em vez de esculpir, eu assisti todas as versões


de Orgulho e Preconceito que eu poderia ter em minhas mãos. Quando Cheryl
arrastou-se em casa do trabalho, oito horas depois, eu ainda estava sentada no
sofá olhando para a televisão com os créditos rolando. O sotaque inglês tinha
deixado muito fácil substituir Wilson para cada representação de Sr. Darcy. Ele
até tinha os olhos tristes do ator que interpretava ao lado de Keira Knightley. Eu
encontrei-me vendo-o em cada cena, irritada com ele, chorando por ele, meio
apaixonada por ele quando tudo foi dito e feito.

— O que você está assistindo? — Cheryl resmungou, observando Colin


Firth passar pela tela do menu uma e outra vez, esperando que eu apertasse o
play.

— Orgulho e Preconceito — Eu respondi, ressentindo da intrusão de


Cheryl no meu brilho pós-Darcy.

— Para a escola?

— Não. Eu quero.

— Você está se sentindo bem? — Cheryl olhou para mim. Eu acho que não
poderia culpá-la. As minhas preferências geralmente se voltaram para The
Transporter e velhos filmes Duro de Matar.

— Eu estava com vontade de algo diferente — Eu disse, não cordialmente.

— Sim, acho que sim — Cheryl olhou desconfiada para a tela. — Eu nunca
me importei para essas coisas esnobes. Talvez fosse, porque naqueles dias, seria
eu a esfregar as panelas na cozinha. Inferno, garota. Você e eu teríamos sido as
meninas que o duque perseguiu na cozinha! — Cheryl riu para si mesma. —
Definitivamente não somos material para duquesa, isso é certo — Cheryl olhou
para mim. — Claro que sendo nativas, significa que não estamos em qualquer
lugar perto da Inglaterra, certo? Eles não poderiam nos ter nem mesmo
esfregando as panelas.

Eu apontei o controle remoto para a tela e Sr. Darcy desapareceu. Eu


puxei meu travesseiro sobre meu rosto e esperei até que Cheryl entrasse em seu
quarto. Ela tinha arruinado oito horas perfeitas de fingimento, em dez
segundos. E pior ainda, ela me lembrou de que “Eu não era material para
duquesa”.

Eu entrei no meu quarto me defendendo mentalmente. Era


perfeitamente aceitável ter uma paixão por um personagem fictício. A maioria
das mulheres tinha! Cheryl, com toda a sua insistência em me dar um choque de
realidade, tinha uma coisa por vampiros, para o inferno com isso!

Mas esse não era o problema, e no fundo, eu era muito honesta para
negar. Era perfeitamente possível ter uma queda pelo fictício Sr. Darcy, mas não
era aceitável ter uma coisa para o real. E eu tinha uma coisa para meu jovem
professor de história. Sem dúvida alguma.
Capítulo Doze

Encouraçada
O teste deu positivo. Fiz vários outros ao longo dos próximos dias, até que
eu não podia mais me convencer de que todos os resultados estavam errados.
Eu estava grávida. De pelo menos oito semanas pelos meus cálculos. Eu tinha
dormido com Mason na noite em que Wilson e eu ficamos presos na escola, e eu
o tinha evitado desde então. Ele ligou e mandou uma mensagem, mas tirando as
mensagens iradas no meu correio de voz, fazendo insinuações sobre “Adam” ele
se manteve longe. Ele provavelmente sentia-se culpado sobre a foto, mas eu
realmente esperava que seguisse em frente, porque eu tinha seguido.

Eu tinha seguido em frente, mas a vida tinha me arremessado de volta. E


fiquei arrasada. Eu perdi uma semana de escola, ligava dizendo que estava
doente para não trabalhar, e dormia constantemente, incapaz de encarar a
verdade. A náusea que me obrigava a enfrentar a possibilidade de que eu
poderia estar com problemas, em primeiro lugar, desceu sobre mim com força
total, deixando mais fácil me chafurdar e esconder. Cheryl estava na maior parte
do tempo alheia, mas depois de uma semana sem sair de casa, eu sabia que teria
que me “recuperar” ou correria o risco de ter que explicar para Cheryl o que
havia algo de errado comigo. Eu não estava preparada para essa conversa ainda,
então eu me recompus, voltei para a escola e retomei meus turnos normais no
café. Mas o conhecimento era como um pedaço doloroso tentando trabalhar o
seu caminho para fora, constantemente ali, logo abaixo da superfície, impossível
de escapar, impossível de erradicar, e em pouco tempo, impossível de ignorar.
Nós tínhamos falado sobre a Inquisição Espanhola por uma semana, e a
correlação entre a inquisição e as caças as bruxas foi o monólogo de Wilson para
começar o dia.

— Nós pensamos em bruxaria como um fenômeno principalmente


medieval, mas cerca de 100 mil pessoas foram julgadas por bruxaria entre os
séculos XV e XVIII. Desses julgados, aproximadamente 60.000 foram
executados. Queimados na fogueira, mais frequentemente do que não. 75% dos
executados eram mulheres. Por que os números desproporcionais? Bem, mulher
são mais suscetíveis à influência do diabo — As sobrancelhas de Wilson
ergueram-se quando as meninas na classe imediatamente tiveram problemas
com a sua declaração.

— O quê? — Ele levantou as mãos em sinal de protesto simulado. — Tudo


começou com Adão e Eva, não é? Pelo menos essa era a lógica da igreja durante
todo o período medieval e os próximos. Muitas das mulheres que foram
acusadas eram pobres e idosas. As mulheres também trabalhavam como
parteiras e curandeiras. Elas eram as únicas que cozinhavam e cuidavam dos
outros, então a ideia delas cozinharem uma poção ou veneno ou lançar um
feitiço era um rótulo mais fácil de colocar em uma mulher do que em um
homem. Homens resolviam as coisas com os punhos, mas as mulheres eram
menos físicas e mais verbais, talvez mais propensas a darem uma bronca que
poderia ser interpretada como maldição de uma bruxa. Acho interessante que
na história tudo que era preciso fazer era simplesmente desacreditar uma
mulher para rotulá-la como bruxa. Como é que vamos desacreditar uma mulher
hoje?

A classe olhou para Wilson, sem entender. E então isso clicou.

— Você a rotula de puta — Eu ofereci com ousadia.

A classe engasgou, como era costume, quando alguém deixava um termo


ruim voar. Embora Wilson não tenha vacilado. Ele só olhou para mim
pensativo.
— Sim. Muitas vezes a mesma coisa. Vamos comparar. Ao longo da
história, as mulheres foram definidas pela beleza. Seu valor era ligado ao seu
rosto, não é? Então quando uma mulher envelhece e sua beleza desvanece, o
que acontece com o seu valor?

A classe estava acompanhando agora.

— Seu valor diminui, mas e sobre a sua liberdade? De certa forma, uma
mulher que não é mais bela, não compete pela mão do homem mais rico ou
mais é elegível e pode ter menos a perder. Uma velha de cinquenta anos em
1500 poderia não ter tanto medo de falar o que pensava como uma menina de
quinze anos que sente a pressão para se casar, e casar bem. Dessa forma, a
mulher menos atraente pode ser mais livre, mais independente, do que a
menina bonita.

— Hoje em dia, as mulheres ainda são julgadas de acordo com seus


atributos físicos, mais ainda do que os homens. Mas os tempos mudaram, e as
mulheres não necessariamente precisam de homens para cuidar delas. As
mulheres hoje têm menos a perder por falar seus pensamentos, e chamar
alguém de bruxa é bastante ineficaz. Então, nós usamos as mesmas táticas que
foram usadas há muito tempo, apenas palavras diferentes. Acho interessante,
porém, que o rótulo usado para desacreditar uma mulher forte e independente
só mudou a escrita.

A classe riu, e Wilson sorriu com a gente antes de ele seguiu em frente.

— O que nos leva ao nosso projeto de final de ano. O rótulo que você usa?
Por que você usa isso? Muitos de vocês são adolescentes e estarão movendo-se
para o mundo maior. Você não tem que continuar usando o rótulo que usou.
Você vai escolher arrastá-lo junto com você e vesti-lo em seus novos círculos, ou
vai escolher lançá-lo e fazer um novo nome para si mesmo? — Wilson olhou
para os rostos atentos que o cercavam.

— Infelizmente, na escola, e muitas vezes na vida, somos definidos pelos


nossos piores momentos. Pense sobre Manny — A sala ficou em silêncio com a
contemplação, e Wilson fez uma pausa, como se a memória fosse difícil para ele
também.

— Mas para a maioria de nós, fazemos pequenas escolhas, pequenos atos,


pequenos momentos que compõem as nossas vidas, dia após dia. E se você olhar
para isso dessa forma, os rótulos são muito imprecisos. Nós todos temos que
usar mil rótulos com mil descrições diferentes para descrever a nós mesmos
honestamente — Wilson caminhou até sua mesa. — Aqui. Pegue um e passe o
restante para trás. Vá em frente — Wilson entregou uma pilha de páginas
brancas pesadas para a primeira pessoa em cada fila. Cada página tinha cerca de
vinte rótulos sobre ele. Eu peguei uma página e entreguei o resto para o garoto
atrás de mim.

— Se eu lhes dissesse para descolar cada etiqueta e colá-la em si mesmos


e, em seguida, caminhar pela sala e deixar diversas pessoas escreverem algo
sobre você - apenas uma palavra, como bruxa, por exemplo - no rótulo, o que
você acha que escreveriam? Devemos tentar isso?

Eu senti um o pavor inundar a minha barriga como cera quente. Houve


um mal-estar geral na sala de aula, e as pessoas começaram a resmungar e
murmurar sob suas respirações.

— Não gostam dessa ideia, não é? Sorte de vocês que eu não gosto disso.
Para começar, as pessoas ou seriam muito boas ou muito brutais - e teríamos
muito pouca honestidade. Em segundo lugar, embora IMPORTE o que os outros
pensam de você... Sim, eu disse isso, isso, importe — Wilson fez uma pausa para
se certificar de que estávamos ouvindo. — Nós todos gostamos de jogar fora
esses clichês fofinhos, mas em um sentido do negócio, no sentido de
relacionamento, em um sentido no mundo real, isso IMPORTA — Ele enfatizou
“importe” e olhou para todos nós novamente.

— Embora isso seja importante, não interessa tanto quanto o que nós
pensamos de nós mesmos, porque, como discutimos no inicio do ano, nossas
crenças afetam nossas vidas de maneiras muito reais. Elas afetam a nossa
história. Assim. Então, eu quero que VOCÊ se rotule. Vinte rótulos. Seja o mais
honesto possível. Cada rótulo deve ser uma palavra - duas no máximo. Faça-o
pequeno. As etiquetas são apenas isso... Pequenas e implacáveis, não são?

Wilson abriu uma enorme caixa de canetas pretas e começou a entregar


uma para cada aluno da classe. Marcador permanente. Bom. Eu vi como todo
mundo ficou ocupado ao meu redor. Chrissy se absteve do marcador pelas suas
canetas gel e ficou ocupada escrevendo palavras como “incrível” e “bonita” em
seus rótulos. Fiquei tentada a escrever CHUTE-ME em um de meus rótulos e
pregar em sua bunda. Então eu ia escrever VÁ PARA O INFERNO sobre o resto
deles e pregá-los um por um na testa de Wilson. Ele era tão irritante! Como
alguém que eu gostava poderia me deixar tão irritada?

A imagem de Wilson com rótulos na testa me fez sorrir por um segundo.


Mas só por um segundo. Esta atribuição era seriamente confusa e degradante.
Olhei para os pequenos quadrados brancos na minha frente, apenas me
esperando para dizer como isso seria. O que eu colocaria? Grávida?
Ligeiramente grávida? Isso se qualificaria. Duas palavras, certo? Ou que tal
Vadia? Talvez... PERDEDORA? Que tal ferrada? Acabada? Fundo do poço?
Game Over? A palavra que me veio a cabeça em seguida me fez estremecer.
Mãe. Oh, inferno não.

— Eu não posso fazer isso! — Eu disse em voz alta, enfaticamente.

Todo mundo olhou para mim com as canetas paradas e bocas abertas. E
eu realmente não tinha falado sobre o trabalho. Mas eu descobri que não
conseguia fazer isso também. Eu não faria isso.

— Blue? — Wilson questionou em voz baixa.

— Eu não vou fazer isso.

— Por que não? — Sua voz era tão suave, muito suave. Eu gostaria que ele
gritasse de volta.

— Porque é errado... E é... Estúpido!

— Por quê?
— Porque é incrivelmente pessoal! É por isso! — Eu joguei minhas mãos
no ar e empurrei os rótulos para o chão. — Eu poderia mentir e escrever um
monte de palavras que não significam nada, palavras que não acredito, mas
então qual seria o ponto? Então, não vou fazer isso.

Wilson encostou-se ao quadro negro e olhou para mim com as mãos


levemente entrelaçadas.

— Então você está me dizendo é que se recusa a se rotular. Certo?

Eu olhava para ele com frieza.

— Você se recusa a se rotular? — Ele perguntou novamente. — Porque se


esse é o caso, então acabou de passar neste pequeno teste com louvor — Um
protesto foi iniciado ao meu redor, os alunos se sentindo como se tivessem
recebido a pior parte porque eles tinham feito o que foi pedido. Wilson
simplesmente ignorou e continuou. — Eu quero que vocês joguem os rótulos á
distância. Descole-os, rasgue-os, rabisque-os, jogue-os no lixo.

Senti o calor de o confronto deixar meu rosto e meu coração retomar um


ritmo mais normal. Wilson desviou o olhar, mas eu sabia que ele ainda estava
falando para mim, especialmente para mim.

— Nós escrevemos nossas histórias ao longo dos anos. Mas agora eu


quero que vocês pensem sobre o futuro. Se vocês previrem o futuro com base no
seu passado, como será o futuro? E se vocês não gostarem da direção que estão
indo, que rótulo que vocês precisam jogar? Quais dessas palavras que vocês
escreveram para se descreverem devem ser abandonadas? Todas elas? Qual o
rótulo que vocês desejam para si? Como vocês se rotulam se as etiquetas não
foram baseadas no que vocês pensavam de si, mas o que vocês queriam para si?
— Wilson pegou uma pilha de pastas. Uma por um começou a passá-las.

— Eu tenho organizado todas as páginas dos seus históricos nestas


pastas. Tudo o que tenho escrito desde o primeiro dia. Esta é a última página
das suas histórias pessoais. Agora. Escrevam o seu futuro. Escrevam o que vocês
querem. Retirem as etiquetas.
Era uma vez, havia uma pequena melra, empurrada do

ninho, indesejada. Descartada. Então, um falcão a

encontrou, mergulhou e a carregou voando acima, dando-

lhe uma casa em seu ninho, e ensinou-a a voar. Mas um dia o

Falcão não voltou para casa, e a pequena melra estava

sozinha de novo, indesejada. Ela queria voar para longe. Mas

quando ela olhou para fora, subiu na borda do ninho e

olhou através do céu percebeu quão pequenas e fracas suas

asas eram. O céu era tão grande. E qualquer outro lugar era

tão longe. Ela se sentia encurralada. Ela podia voar, mas

para onde iria?

Estava com medo... Porque ela sabia que não era um

falcão. E ela não era um cisne, um belo pássaro. Ela não era

uma águia, digna de admiração. Ela era uma pequena

melra.

Ela se encolheu no ninho escondendo a cabeça debaixo

de suas asas, desejando ser resgatada. Mas ninguém veio. A

pequena melra sabia que podia ser fraca, e podia ser

pequena, mas não tinha escolha. Ela tinha que tentar. Ela

iria voar para longe e nunca olhar para trás. Com um

profundo suspiro, ela abriu as asas e se empurrou para dentro

do grande céu azul. Por um minuto ela voou constante e

crescente, mas então ela olhou para baixo. O chão abaixo se

levantou rapidamente para encontrá-la enquanto ela

entrava em pânico, e girou em direção a terra.


Imaginei o pássaro oscilando à beira do ninho, tentando voar, em
seguida, caindo e batendo no concreto abaixo. Uma vez eu tinha visto um ovo
que tinha caído de um ninho em um pinheiro enorme perto do nosso complexo
de apartamentos. Um filhote de pássaro, parcialmente formado, tinha ficado na
casca rachada.

Eu joguei meu lápis para baixo e levantei-me da minha mesa, respirando


com dificuldade, sentindo-me como se fosse quebrar também, e a parte cortadas
de Blue chovesse sobre a sala em uma exibição horrível. Peguei minha bolsa e
corri para a porta, precisando sair. Ouvi Wilson chamar atrás de mim, me
dizendo para esperar. Mas eu corri para a saída e não olhei para trás. Eu não
podia voar para longe. Esse era o retrocesso. O pequeno pássaro na história já
não era eu. Minha história agora era sobre alguém completamente diferente.

Eu tinha ido a Planned Parenthood24 antes. Eu tinha conseguido o


controle de natalidade ali, embora a última rodada tivesse, obviamente, falhado
comigo. Eu pesquisei todos os controles de natalidade possíveis e as razões que
podem falhar. Talvez fossem os antibióticos que eu tinha tomado após o Natal,
ou o fato de que eu tinha inexplicavelmente tomado uma pílula extra e nenhum
dia a mais, ou seja, eu tinha perdido uma em algum lugar. Seja qual for à razão,
o teste ainda foi positivo, e eu ainda não havia tido um período.

Eu tinha ligado dias antes e marcado uma consulta para depois da escola
- apesar de ficar sem aula tivesse me dado tempo suficiente para chegar lá com
tempo de sobra. A senhora na recepção era prosaica se não amigável. Eu
preenchi um formulário médico, respondi a algumas perguntas, e em seguida,

24Planned Parenthood - ONG que dá principalmente informações educacionais para as pessoas. Fornece a
pílula, Pílula do dia seguinte, contracepção de emergência , testes de HIV, gravidez , aborto e
aconselhamento.
sentei-me em uma cadeira de metal, com uma almofada preta e virei às páginas
em uma revista cheia de “mulheres mais bonitas do mundo”. Eu me perguntei se
alguma delas já tinha ido para a Planned Parenthood. Seus rostos me
encaravam das páginas brilhantes, resplandecendo em suas coloridas plumas.
Sentia-me pequena, fria e feia, como um pássaro com penas molhadas. Chega de
pássaros! Eu empurrei o pensamento longe e virei à página.

Eu me perguntei se minha mãe tinha vindo para um lugar como este,


quando ela estava grávida de mim. O pensamento de repente parou. Eu nasci no
início dos anos noventa. Muito pouco mudou nos últimos vinte anos, certo?
Teria sido muito fácil para ela fazer um aborto, quanto era para mim. Então por
que não tinha feito? Do pouco que eu sabia sobre ela, meu nascimento não era
conveniente para ela. Eu definitivamente não era desejada. Talvez ela
simplesmente soubesse de mim tarde demais. Ou talvez ela tivesse a esperança
de me usar fazer o seu namorado voltar com ela, amá-la, cuidar dela. Quem
diria? Eu com certeza não.

— Blue? — Meu nome foi chamado, um grande ponto no fim, como


sempre era o caso quando alguém lia o meu nome. As pessoas estavam sempre
tendo a certeza de que estavam se confundindo. Peguei minha bolsa e caminhei
até a porta, onde a enfermeira estava de pé me esperando juntar a ela. Sem
mesmo esperar que a porta se fechasse atrás de nós balançando, ela me
informou que iriam precisar de uma amostra de urina e me entregou um copo.

— Quando estiver pronto, escreva seu nome no rótulo, anexe-o a sua


amostra, e entregue diretamente para mim. Vamos testar para a gravidez e
doenças sexualmente transmissíveis. Você terá seu resultado de gravidez hoje,
mas os resultados de DST vão demorar mais tempo — Ela me levou para o
banheiro e esperou até que eu entrei e fechei a porta. Eu olhei para o rótulo que
eu deveria anexar ao copo. Havia um lugar para o meu nome e uma local para o
horário, temperatura e data da amostra, que eu assumi que seria concluído
depois que eu terminasse a inspeção. A palestra de Wilson dos rótulos encheu
minha cabeça.
... E se vocês não gostarem da direção que estão indo, que rótulo que
precisam jogar? Quais dessas palavras que vocês escreveram para se
descreverem devem ser abandonadas?

Eu ia colocar meu nome em um copo de urina. Eles iriam me dizer que eu


estava grávida. Em seguida, iriam me aconselhar em abortar a gravidez, porque,
era por isso que eu estava aqui. Logo, eu seria capaz de retirar metaforicamente
o rótulo de “grávida”, rabiscar isso, jogá-lo fora e terminar. Já não seria
verdadeira. E eu gostaria de ser capaz de mudar a direção que eu estava indo.
Etiqueta abandonada. Assim como minha mãe tinha me abandonado.

Revirei os olhos para a comparação que meu cérebro excessivamente


emocional tinha imediatamente pulado para fazer. Não era a mesma coisa.
Abandonar um filho e abandonar uma gravidez. Eu disse-me que os dois não
eram sequer comparáveis. Corri e consegui a amostra, rabisquei meu nome no
rótulo e tapei o copo quente que me fez muito consciente de que eu
provavelmente precisava beber mais água, e muito envergonhada que a
enfermeira estaria pensando a mesma coisa.

— Parabéns.

O teste não tinha levado muito tempo. Eu me perguntei se eles usaram o


mesmo teste que eu tinha usado dez vezes em casa.

— Parabéns?

— Sim. Você está grávida. Parabéns — Disse a enfermeira, inexpressiva.


Eu não sabia o que dizer. Parabéns parecia a palavra completamente
errada, considerando que eu fui aconselhada sobre os serviços de aborto ao
telefone quando eu tinha marcado a minha consulta. Mas eu não detectei a
zombaria. Esta era, obviamente, apenas a resposta padrão, ou segura... Eu
supunha.

— Eu vejo que você tem conversado com.. — Ela olhou para sua
prancheta. — Uh, Sheila... Sobre suas opções?

Sheila era a menina no telefone quando eu tinha ligado para uma


consulta. Ela era boa. Eu fiquei grata por ter alguém com quem conversar.
Desejei que Sheila fosse à pessoa comigo agora. Esta enfermeira era assim...
Seca com seus parabéns enlatados. Eu precisava pensar.

— Sheila está aqui?

— Uhhhh... Não — Disse a enfermeira, claramente confusa com a minha


pergunta. Então ela suspirou. — Você terá que marcar outra consulta para o seu
procedimento, se é isso que decidiu fazer.

— Posso ter o meu xixi de volta, por favor? — Eu interrompi de repente


desesperada, querendo sair.

— O q... Que?

— Eu só preciso, quero dizer, não quero o meu xixi colado com o meu
nome nele. Posso tê-lo, por favor?

A enfermeira olhou para mim como se eu fosse louca. Em seguida, ela


tentou me tranquilizar. — Tudo é completamente confidencial. Você entende
isso, certo?

— Eu quero ir agora. Pode me dar o meu xixi?

A enfermeira levantou-se, abriu a porta com seus olhos correndo de um


lado para o outro como se estivesse procurando algo para me imobilizar.
—E não há tal coisa completamente confidencial! — Eu sai um pouco
para fora da sala com a bolsa na mão, em uma missão para encontrar minha
amostra etiquetada. De repente, senti como se minha vida tivesse reduzido a
esse rótulo, ao meu nome em uma etiqueta branca, pressionada em uma
amostra de urina. Eu estava cruzando o Rubicão. Era isso. E esse rótulo era tudo
que eu conseguia pensar.

A enfermeira parecia abalada, mas não discutiu comigo. Ela me entregou


o meu frasco e suas mãos tremiam. Peguei-o e corri, como uma ladra em uma
loja de conveniência, esperando que ninguém pudesse me identificar, sabendo
que a probabilidade de me safar era quase nula, sabendo que meu problema
tinha acabado dez vezes pior. No entanto, como o ladrão, eu me sentia
empolgada em adrenalina, com a decisão que eu tinha feito. Eufórica com o
poder que eu tive de jogar a minha vida direto para o brejo... Ou proteger a vida,
independentemente da forma como você olhava para isso. Falando jogar, eu
ainda segurava a amostra de urina perto do meu peito. Eu coloquei no painel de
instrumentos na minha caminhonete e olhei para o meu nome sob a luz do teto.

Blue Echohawk. Data: 29 de março de 2012; Horário: 17h30min. Fora do


interior do meu carro, já estava escuro. Em Vegas no inverno, o sol se punha por
volta das cinco horas. Estava completamente escuro agora. Olhei para o meu
nome novamente. Pensei nas palavras de Cheryl para mim no dia terrível
quando o afogamento parecia ser uma alternativa mais palatável do que viver
sem Jimmy.

Ele nem sabia o seu nome. Ele disse que você só ficava dizendo Blue,
Blue, Blue. Então, foi assim que ele a chamou. Meio que ele se apegou, eu acho.

Blue Echohawk não era o meu nome. Não realmente. Talvez eu tivesse
sido nomeada Brittney, Jessica ou Heather. Talvez Ashley, Kate ou Chrissy,
Deus me livre. Eu não sou ninguém. Quem é você? O poema me provocou. De
repente, me incomodava que eu poderia ter um filho, e que a criança não saberia
o nome de sua mãe também. O ciclo continuaria. Eu puxei a etiqueta adesiva da
amostra e enfiei na minha camisa com a necessidade de declarar quem eu era,
apenas para a minha própria mente. Então eu joguei o copo para fora da janela e
pedi ao Karma para perdoar-me, sabendo que era nojento e que eu estaria
pisando em coco de cachorro ou vômito em breve, porque o universo iria exigir
retribuição em espécie.
Capítulo Treze

Pálida
Eu me encontrei em frente da casa de Wilson. Havia restos de construção
empilhados ao lado, e parecia que o telhado foi refeito. A luz resplandecia de
todas as janelas e as largas escadas da frente estavam iluminadas pelo brilho
suave da luz em forma de uma lanterna de bronze antiga que estava pendurada
ao lado da porta. Saí, sem saber o que diabos estava fazendo, mas desesperada
por companhia. Por razões de segurança. Eu não sabia mais para onde ir. Mason
deveria saber, mas eu não falaria a ele esta noite.

Havia um pequeno interfone na porta e a placa que dizia Pemberley. O


intercomunicador era novo. Apertei-o uma vez, perguntando-me se o alarme
soou dentro da casa. Apertei-o mais uma vez, e a voz de Wilson veio pelo alto-
falante, parecendo ridiculamente como um mordomo Inglês narigudo. Era um
complemento tão perfeito para a casa, que se eu tivesse em qualquer outro
estado de espírito, teria rido histericamente.

— É Blue Echohawk. Posso falar com você... Por um minuto... Por favor?
Eu não preciso entrar. Eu vou esperar aqui fora... Nos degraus.

— Blue? Você está bem? O que aconteceu na escola? — A preocupação era


evidente mesmo através do intercomunicador, e eu mordi meus lábios para
conter um soluço. Sacudi-me vivamente. Eu não iria soluçar.

— Eu estou bem. Eu só preciso... Falar com alguém.

— Eu vou descer.

Eu me afundei no degrau, esperando, querendo saber o que eu ia dizer.


Eu não diria a ele que estava grávida, eu tinha certeza disso. Então, por que eu
estava aqui? O soluço rebelou-se novamente, e eu gemi, desejando que soubesse
como falar, sem ficar completamente desfeita como fiz no corredor escuro da
escola ouvindo Wilson tocar, dois meses antes.

A porta se abriu atrás de mim, e ele se sentou ao meu lado nos degraus.
Ele estava de calça jeans e uma camiseta de novo, e eu fracamente desejei que
ele não estivesse. Seus pés estavam descalços e eu desviei o olhar, de repente
dominada pelo desespero. Eu precisava de um adulto - uma figura de autoridade
- para me tranquilizar, para me dizer que tudo iria ficar bem. Wilson de jeans e
pés descalços apenas parecia outro garoto sem resposta alguma. Como Mason
ou Colby, como um garoto que não teria a menor ideia do que fazer se ele
estivesse no meu lugar. Gostaria de saber se os seus pés estavam congelando e
decidi que precisava chegar ao ponto.

— Lembra quando você nos contou sobre Júlio César atravessando o


Rubicão? — Eu disparei.

Wilson estendeu a mão e tocou meu queixo, virando meu rosto em sua
direção.

— Você parece knackered.

Eu girei meu queixo, deixando-o livre e afastei sua mão. Eu descansei


minha cabeça em meus joelhos.

— Blue?

— Não, eu não estou exausta, ou knickered25, ou seja, lá o que isso


signifique.

— Knackered significa exausto, knickered significa algo totalmente


diferente, mas sou grato por você não saber — Disse Wilson secamente. Eu fiz
uma nota para descobrir o que knickered significava.

— Então... Júlio César, hein? Você precisava falar comigo sobre Julius
Caeser?

25 Knickered - esfregar calcinha suja no rosto.


— Você disse que ele sabia que quando cruzasse o rio que não seria capaz
de voltar, certo? — Eu incitei.

— Sim?

— Bem, se você atravessou o Rubicão... E não sabia que era o Rubicão. O


que, então?

— Eu suponho que nós estamos falando hipoteticamente.

— Sim! Eu errei! Eu não posso corrigir isso, não posso voltar, e não tenho
nenhuma ideia da porcaria que vou fazer — O soluço quebrou em mim mais
uma vez, e eu cobri o rosto, recuperando o controle quase imediatamente.

— Ah, Blue. Isso não pode ser tão ruim assim, pode?

Eu não respondi, porque exigiria dizer-lhe como realmente era ruim.

— Ninguém morreu — Ainda não. Eu empurrei a culpa para longe. —


Nenhuma lei foi violada, não estou com um bigode crescendo de repente, não
tenho câncer terminal, e não vou ficar surda ou cega, então sim, acho que as
coisas poderiam ser piores.

Wilson se aproximou e gentilmente tirou uma mecha de cabelo dos meus


olhos. — Você vai me dizer qual é o problema?

Engoli em seco, lutando pela compostura. — Eu tentei mudar, Wilson.


Lembra quando falamos sobre a redenção? Naquela noite, meu carro não
pegava, naquela noite fomos resgatados por Larry e Curly26?

Wilson sorriu e acenou com a cabeça, colocando meu cabelo atrás da


minha orelha. Eu tentei não estremecer quando seus dedos tocaram minha pele.
Ele estava tentando me consolar, e eu fui receptiva, desejando poder colocar
minha cabeça em seu ombro enquanto eu desabafava. Ele puxou sua mão para
trás, esperando que eu continuasse.

26 Larry and Curly – personagens dos filmes Os Três Patetas, comédia americana dos anos de 1930 a 1970.
— Aquela noite... Algo aconteceu comigo. Algo que eu nunca senti antes.
Eu estava com o coração partido e triste por dentro. E orei. Eu clamei por amor,
nem mesmo sabendo que o amor era o que eu pedi. Eu precisava sentir-me
amada, e isso simplesmente... Derramou sobre mim. Sem compromissos, sem
ultimatos, sem promessas necessárias. Apenas foi me dado livremente. Tudo o
que eu tinha a fazer era pedir. E eu estava... Mudando por isso. Naquele
momento, eu senti-me... Curada — Eu olhei para ele, desejando que me
entendesse. Ele parecia absorto com o que eu estava dizendo, e me senti
encorajada a continuar.

— Não me entenda mal. Isso não deixou tudo perfeito. Minhas


dificuldades não foram sequer levadas. Minhas fraquezas não foram
subitamente transformadas em pontos fortes, mas as lutas não eram diferentes.
Minha tristeza milagrosamente não se tornou alegria... Mas mesmo assim, me
senti curada — As palavras derramaram de mim, palavras que descreviam um
sentimento que eu tinha refletido repetidamente naquela noite. — Era como se
as rachaduras fossem preenchidas, e as pedras em volta do meu coração foram
desmanteladas e varridas. E eu me senti... Completa.

Wilson olhou para mim, com a boca ligeiramente aberta. Ele balançou a
cabeça como se quisesse limpá-la e esfregou a parte de trás do seu pescoço como
se não soubesse o que dizer. Eu me perguntava se eu tinha feito algum sentido,
ou se ele começaria a insistir novamente que eu estava exausta.

— Essa é possivelmente, a coisa mais linda que eu já ouvi.

Foi a minha vez de olhar para ele. Seus olhos refletiam os meus até que
eu me virei, envergonhada com o elogio que vi ali. Senti seus olhos no meu
rosto, pensando claramente no que eu disse. Depois de um minuto, ele voltou a
falar.

— Então você teve essa experiência incrível. Você chama isso de


redenção. Obviamente, você pensou muito sobre isso... E agora está convencida
de que você já errou muito, então? Você não pode ser resgatada de novo?
Eu não tinha pensado nisso dessa forma. — Não é isso... Não realmente.
Acho que só acreditei que eu tinha ido além do meu velho eu. E agora... Acho
que não posso escapar dos erros que cometi.

— Então, a redenção não a salvará da consequência?

— Não. Ela não o fará — Eu sussurrei. E era isso. A redenção não me


salvou da consequência. E eu me senti traída. Eu senti que o amor que foi
derramado sobre mim havia sido retirado antes que eu tivesse a chance de
provar que eu era digna dele.

— E agora?

— É por isso que estou aqui, Wilson. Eu não sei o que é agora.

— E eu não posso aconselhá-la, já que você não me diz qual é o problema


— Wilson falou suavemente.

Quando eu não respondi, ele suspirou, e nós paramos, olhando para o


nada na rua com os nossos pensamentos cheios de coisas que poderíamos dizer,
mas não dissemos nada.

— Às vezes não há resgate — Concluí, aceitando o que estava na minha


frente. Eu ainda não sabia o que eu faria. Mas eu conseguiria. De algum modo.

Wilson apoiou o queixo nas mãos e me olhou pensativo. — Quando meu


pai morreu, eu fiquei perdido. Havia tanta coisa que eu me arrependi em nosso
relacionamento, e já era tarde demais para corrigir isso. Entrei para Peace Corp
- principalmente porque o meu pai me disse que eu não duraria um dia - e
passei dois anos na África trabalhando para caramba, vivendo em condições
muito primitivas. Muitos dias eu queria ser resgatado da África. Eu queria ir
para casa e viver com a minha mãe e ser cuidado. Mas no final, a África me
salvou. Eu aprendi muito sobre mim mesmo. Eu amadureci - descobri o que
queria fazer com a minha vida. Às vezes, as coisas das quais queremos ser
resgatado podem salvar-nos.

— Talvez.
— Vai ficar tudo bem, Blue?

Eu olhei para ele e tentei sorrir. Ele estava tão sério. Eu me perguntei se
ele era menos sério quando seu pai estava vivo. De alguma forma eu duvidava.
Ele era como Beverly chamava Mensch. Uma velha alma.

— Obrigada por falar comigo. Cheryl não é boa com a conversa pesada.

— Você tentou Mason ou Colby? Eles parecem bem adequados para


resolver os problemas do mundo.

Eu ri, o riso aliviando o aperto no meu peito.

— Eu a fiz rir! Brilhante! Eu sou bom.

— Sim, Wilson, você é bom. Um pouco bom demais para o gosto de Blue
Echohawk. Mas nós já sabíamos disso.

Wilson concordou, agindo como se o meu comentário fosse num tom de


brincadeira. Então ele se levantou, me puxando para ficar em pé depois dele. Ele
me acompanhou até meu carro, me colocou lá dentro, e beliscou minha
bochecha, como se eu tivesse cinco anos e ele cento e cinco.

— Seis semanas, Echohawk, e o mundo será seu.

Eu apenas dei de ombros e acenei, esse mundo pesando nos meus


ombros e mais longe do meu alcance do que nunca.

A graduação foi realizada em uma manhã no final de maio no campo de


futebol. Isso significava abundância de lugares nas arquibancadas duras para a
família e amigos, e temperaturas relativamente suportáveis. Digo relativamente
porque eram 32 graus às dez horas. Eu estava extremamente enjoada e o calor
não ajudou. Eu considerei ir embora, mas queria o meu momento. Eu queria
usar o meu capelo e a beca, receber meu diploma e silenciosamente dar um
foda-se para todos os inimigos que rolaram os olhos quando entrei, por
pensarem que eu iria sair antes do fim do segundo ano. Mas eu tinha terminado.
Mal tinha acabado, mas eu tinha. Infelizmente, acabei correndo para o banheiro
minutos antes de nós fazermos fila para a nossa entrada. Eu vomitei o pouco
que estava na minha barriga e tentei respirar através dos tremores secundários
com o meu estômago exigente e rolando como um mar revolto.

Levantei-me, lavei minha boca, e procurei na minha bolsa os biscoitos


que eu levava em todos os lugares que eu ia. Eu estava com quase quatro meses.
A mal estar da manhã não deveria aliviar nesse momento? Eu comi um biscoito,
bebi um pouco de água da torneira - tentando não saber quanto de cloro
continha - e arrumei a maquiagem onde meu delineador manchou e deixou
manchas negras debaixo dos meus olhos. Então eu coloquei um brilho labial,
refiz meu sorriso desdenhoso e caminhei de volta para o refeitório, onde todos
os alunos estariam reunidos, somente para descobrir que eles haviam entrado
sem mim. Eu me afundei em uma mesa de almoço e comecei a refletir sobre por
que a minha vida tinha ficado tão ruim. Havia um nó na garganta que colidia
com a dor em meu coração. Eu não poderia ir lá fora agora. Eu tinha perdido
isso.

— Blue?

Eu pulei completamente tomada de surpresa, e levantei a cabeça de onde


eu a tinha embalado em minhas mãos.

Sr. Wilson estava cerca de três metros de distância, com a mão preparada
para o interruptor de luz perto da porta mais próxima de onde eu estava
sentada. Ele usava sua habitual camisa listrada e calça social, mas tinha deixado
à gravata em casa. A maioria dos professores tinha um papel na graduação,
estavam recolhendo capelos e becas, misturando-se com os pais e alunos, ou
verificando os retardatários. Parecia que Wilson estava no comando deste
último. Eu me endireitei e olhei para ele, chateada que ele tinha me encontrado
vulnerável novamente.
— Você está... Tudo bem? Você pode perder a entrada. Todo mundo está
no campo.

— Sim. Eu tenho que ir — O nó na garganta dobrou de tamanho, e eu


olhei desdenhosa para Wilson. Levantei-me e tirei meu capelo e joguei-o sobre a
mesa. Comecei a puxar minha beca sobre a minha cabeça, revelando o short cor
de rosa e camiseta branca que vestia por baixo. Nós deveríamos usar vestidos
sob nossos mantos, mas quem ia ver?

— Espere! — Wilson gritou, e começou a se mover em minha direção com


sua mão esticada. — Não é tarde demais. Você ainda pode fazer isso.

Eu também tinha me levantado rapidamente, e o lugar rodou ao meu


redor. Ohh, por favor, não! A náusea se abateu sobre mim e eu percebi que não
conseguiria chegar ao banheiro desta vez. Jogando minha beca de lado, corri
voando pela porta, passando por Wilson e vomitando na lata de lixo as bolachas
e água que eu tinha acabado de consumir. Senti as mãos nos meus cabelos,
puxando-o para trás do meu rosto e queria empurrar Wilson para longe... Oh,
por favor, não... Mas eu estava muito ocupada, trêmula e ofegante para seguir
em frente. Eu finalmente ganhei o domínio sobre meu estômago e desejei
desesperadamente por algo para limpar minha boca. Quase imediatamente, um
quadrado de pano dobrado apareceu na minha linha de visão. Peguei-o das
mãos de Wilson agradecida. Era a segunda vez que eu tinha usado um de seus
lenços. Eu não tinha lhe devolvido o outro lenço. Eu tinha lavado e passado, mas
eu sabia que cheirava a fumaça de cigarro e eu tinha vergonha de devolvê-lo. Eu
me endireitei, e a mão de Wilson soltou meu cabelo quando ele se afastou de
mim.

Ele se virou e saiu rapidamente, somente para voltar em menos de um


minuto depois com um copo de papel com água gelada. — Com os
cumprimentos da sala dos professores.

Bebi a água, grata - mas novamente - recusando-me a olhar para ele.

— Se você acha que pode, deve colocar sua beca e sair para o campo. Você
não perdeu nada importante.
— Ha! Eu não vou andar pro aí sozinha.

— Eu vou com você. Sem problema algum. Quando estiver sentada, o


embaraço vai acabar, e no final você estará feliz que não perdeu sua própria
formatura.

Olhei para o meu capelo e a beca melancolicamente. Wilson deve ter visto
minha hesitação e me pressionou ainda mais. — Vamos. Você gosta de fazer
grandes entradas, lembra?

Eu sorri um pouco, mas o sorriso caiu enquanto eu considerava a


probabilidade de que eu não faria isso na cerimônia sem necessidade de fazer
outra corrida para o vaso sanitário.

— Eu não posso fazer isso.

— Claro que pode — Wilson pegou meu capelo, a beca e estendeu-os para
mim com um olhar encorajador no rosto. Ele me lembrou de um cão
implorando por uma volta no quarteirão com seus grandes olhos com cílios
espessos e longos implorando, então sua boca ficou um pouco menor em uma
súplica.

— Eu não posso fazer isso — Eu repeti com mais força.

— É preciso — Disse Wilson muito vigorosamente. — Eu entendo que


você está se sentindo embaraçada...

— Eu não estou embaraçada, o que quer que isso signifique! Estou


grávida! — Eu sussurrei, interrompendo-o. O rosto de Wilson caiu, como se eu
tivesse acabado de dizer que estava tendo um caso com o príncipe William. O
caroço estava de volta, e eu senti um ardor nos meus olhos que me levou a
piscar rapidamente e cerrar os dentes.

— Eu vejo — Disse Wilson em voz baixa, e suas mãos caíram para os


lados, o meu capelo e beca ainda estavam em sua mão. Uma expressão estranha
roubou suas feições, como se ele estivesse colocando tudo junto, seu maxilar
ficou tenso enquanto seu olhar ficou bloqueado no meu rosto. Eu queria olhar
para longe, mas o orgulho manteve meu olhar firme e beligerante.

Peguei o capelo e a beca dele e me virei, sentindo-me subitamente muito


tímida de shorts curto de Daisy Dukes27 e minha camiseta fina, como se a minha
escolha de roupa minúscula ressaltasse minha confissão humilhante. De repente
eu me desprezava e não queria nada mais do que ficar longe de Darcy Wilson - o
professor, a única pessoa que parecia dar a mínima para mim. Ele tinha se
tornado um amigo, e percebi naquele momento que eu tinha provavelmente o
desapontado. Eu comecei a ir embora. A sua voz era insistente atrás de mim.

— Eu não quis ir ao funeral do meu pai.

Eu me virei, confusa. — O q-quê?

— Eu não quis ir ao funeral do meu pai — Ele caminhou na minha direção


até que estava a minha frente.

— Por quê?

Wilson deu de ombros e balançou a cabeça. — Achava que era


responsável por sua morte. À noite em que morreu, tivemos uma briga enorme e
eu saí. Eu não queria ir para a faculdade de medicina; ele achava que eu estava
sendo um tolo. Foi a única vez que eu tinha discutido com meu pai. Mais tarde
naquela noite, ele teve um ataque cardíaco fulminante em seu carro no
estacionamento do hospital. Ele havia sido chamado para o hospital, mas nunca
teve a chance de passar pelas portas. Eles poderiam tê-lo salvo se ele tivesse
feito isso.

— Naturalmente, eu me culpava pelo ataque cardíaco. Fiquei arrasado e


culpado... Então eu não fui — Wilson parou de falar e olhou para suas mãos,
como se elas tivessem as respostas que ele ainda procurava. — Minha mãe
implorou e suplicou. Ela me disse que eu iria me arrepender de não ir, para o
resto da minha vida — Ele olhou para mim. — Ela estava certa.

27Daisy Dukes – Ela faz referência ao personagem Daisy Duke da série americana The Dukes of Hazzard
que usava shorts extremamente curtos.
Olhei para as minhas próprias mãos, sabendo exatamente o que ele
estava tentando dizer.

— Os momentos não voltam, Blue. Você não quer passar a vida inteira
pensando naqueles momentos que não aproveitou, sobre as coisas que você
deveria ter feito, mas estavam com muito medo de fazer.

— É apenas uma cerimônia estúpida — Eu protestei.

— Não. É mais do que isso, porque significa alguma coisa para você. É
algo que você ganhou e ninguém pode tirar de você. Esta viagem não foi fácil
para você, e você merece este momento, talvez mais do que qualquer estudante
lá fora — Wilson apontou para o campo de futebol que havia além das paredes
do refeitório.

— Ninguém vai sentir falta de mim. Eu não tenho ninguém lá fora


esperando para me ver andar pelo palco.

— Eu estarei lá, vou bater palmas, berrar e gritar o seu nome.

— Se você fizer isso, vou chutar o seu traseiro! — Eu respondi


horrorizada.

Wilson riu. — Aí esta a garota que eu conheço — Ele apontou para o meu
capelo e a beca. — Vamos.

Por fim, acabei participando de minha cerimônia de formatura. Acabou


que eu não tinha perdido muito. Saí para o campo com Wilson ao meu lado. Eu
me mantive com firmeza e não me apressei, e eu fiz o meu caminho para o meu
lugar vazio sem vacilar, embora cabeças girassem à direita e à esquerda. Wilson
sentou-se com a fila de professores e fiel à sua palavra, assobiou e gritou quando
o meu nome foi chamado. Tinha que admitir que eu meio que gostava dele, e os
meus colegas de classe e os outros professores riram, provavelmente pensando
em Wilson batendo palmas, porque ele estava feliz por se livrar de mim. Eu
tentei não sorrir, mas, apesar dos meus melhores esforços, no último minuto,
um enorme sorriso dividiu meu rosto.
Capítulo Quatorze

Índigo
Passei tão pouco tempo no apartamento possível. Ele cheirava a cigarros,
e embora eu tentasse manter minha porta fechada do resto do apartamento e as
janelas abertas do meu quarto em todos os momentos, maio em Las Vegas era
quente e meu quarto era insuportável. Minha pequena oficina na parte de trás
do complexo era muito quente, mas eu tinha o ar fresco e os meus projetos para
me distrair. Eu estava perdida na minha mais recente criação - esculpindo e
lixando, trabalhando duro - quando um carro apareceu fora da porta de metal
deslizante. Eu me virei para ver Wilson descer do seu Subaru cinza e bater a
porta atrás de si. Eu saí para a luz do sol, protegendo os olhos enquanto ele se
aproximava.

— Sua tia disse que eu iria encontrá-la aqui fora — Ele ofereceu isso em
forma de cumprimento.

— Ela abriu a porta? Uau. Milagres nunca cessam — Ela estava dormindo
no sofá quando eu saí. Eu tentei não puxar a minha blusa vermelha e meu short
jeans desfiado. Minha barriga tinha começado a ficar redonda, mas não estava
perceptível na minha roupa. Eu olhei para os meus chinelos e enrolei os dedos
dos pés pintados. Eu tinha tomado banho e raspado minhas pernas, mas meu
cabelo ainda estava molhado quando eu tinha fui para fora, e eu tinha puxado-o
em um rabo de cavalo alto para manter os fios molhados do meu pescoço. Eu
ainda não tinha me olhado no espelho. Eu não sabia o que me incomodou mais:
Wilson vendo-me assim ou o fato de que eu me importava que Wilson estivesse
me vendo assim. Ele havia parado de andar e estava olhando para mim. Eu me
encolhi e em seguida fiquei na defensiva.

— Por que você está me olhando desse jeito?


Wilson estava com as mãos enfiadas nos bolsos e suas sobrancelhas
baixaram zombeteiramente sobre seu olhar sombrio.

— Você está diferente.

— Bem, sim! — Eu zombei conscientemente. — Eu pareço uma porcaria.


Sem maquiagem, meu cabelo não está penteado, e estou usando essas roupas
imprestáveis.

— Imprestáveis? — As sobrancelhas de Wilson dispararam.

— Sim, você sabe. Baratas e desprezíveis são imprestáveis.

— Eu vejo — Wilson assentiu sabiamente. — Como desconfortável,


apenas... Imprestável — Ele inclinou a cabeça ligeiramente. — Combina com
você.

— Imprestável combina comigo? — Eu tentei não ser ferida. — Obrigada,


Sr. Darcy! — Eu disse no meu sotaque belle do sul e bati meus cílios. — Você é
tão romântico como o seu xará.

— Natural combina com você. Você usa muita maquiagem — Wilson deu
de ombros e virou-se.

— Uma garota não pode usar muita sombra azul nos olhos — Eu brinquei,
tentando fingir que não ligava para o que ele disse ou pensasse. Passei a mão no
meu cabelo, sentindo os fios embaraçados e o rabo de cavalo descentrado.

— Diga-me o que você está fazendo — Wilson se moveu para ficar ao meu
lado. Ele estendeu um dedo e seguiu um sulco que se alargou em um espaço oco.

— Eu nunca tenho certeza do que estou fazendo — Respondi


honestamente.

— Então, como você saberá quando terminar isso? — Wilson sorriu.

— Essa é sempre a questão. Quando parar. Eu costumo começar a ter


uma ideia do formato enquanto trabalho. Isso raramente vem a mim antes. A
inspiração vem através da ação — Eu mordi meu lábio em concentração. — Será
que isso faz sentido?

Wilson assentiu. — Se eu olhar de soslaio quase se parece com um


violoncelo que foi derretido e puxado... Como caramelo.

Eu não disse a ele que eu ficava vendo um violoncelo também. Parecia


muito pessoal, como se fosse mais uma vez apresentar os sentimentos que
tinham levantado dentro de mim, quando eu o ouvi, pela primeira vez, tocar
naquela noite no ensino médio, à noite em que eu tinha jurado mudar.

— O que é isso? — Wilson indicou um pequeno buraco circular na


superfície agora suave da madeira.

— Um buraco vazado.

— Você vai lixá-lo?

Eu balancei minha cabeça. — Provavelmente não. Eu só vou preenchê-lo


com um pouco de massa de vidraceiro. O problema de corrigir um problema é
que às vezes você descobre dois.

— O que você quer dizer?

— Bem, esse é relativamente um pequeno buraco vazado, certo?

Ele acenou com a cabeça.

— Se eu começar a lixá-lo, o buraco pode ampliar e desviar para uma


nova direção, criando um problema muito maior ou, no mínimo, um buraco
muito maior. Não existe tal coisa como perfeito, e honestamente, se a madeira
fosse perfeita, não seria tão bonita. De qualquer maneira, eu me lembro de
alguém me dizendo que “perfeito era chato”.

— Você estava ouvindo! — Wilson sorriu novamente.

— Eu normalmente ouço — Eu respondi sem pensar e, em seguida,


preocupada que eu poderia ter dado alguma coisa.
— Como você está hoje? — Os olhos de Wilson ficaram sérios quando ele
mudou de assunto.

Eu parei de esculpir e flexionei os músculos. — Duros como pregos — Eu


disse secamente, não querendo falar sobre o que eu sabia que ele estava se
referindo. Eu havia passado cerca de uma hora me sentindo absolutamente
horrível, inclinada no vaso sanitário do apartamento. Mas eu tinha conseguido
manter cerca de dez bolachas, e o ar fresco do lado de fora estava me fazendo
bem. Eu me perguntei novamente quanto tempo seria capaz de ficar no
apartamento cheio de fumaça. Não era bom para mim, e definitivamente não
era bom para o bebê dentro de mim. Meu estômago deu um nó imediatamente,
e me perguntei brevemente se parte da minha contínua e interminável náusea
era simplesmente o velho medo.

— Será que sua tia saber sobre a gravidez? — Ok, agora Wilson estava
sendo contundente.

— Não — Eu respondi brevemente.

— Você já foi ver um médico?

— Ainda não — Eu não estava fazendo contato visual. Eu não achava que
a minha viagem a Planned Parenthood contava. Seu silêncio me fez sentir como
culpada. Afastei-me da minha escultura e suspirei alto. — Eu tenho uma
consulta com alguém da Saúde e Serviços Humanos. Eu serei capaz de conseguir
algum tipo de assistência médica, e eles vão me dizer onde eu posso ir para ver
um médico, ok?

— Bom — Wilson respondeu logo, balançando a cabeça. — Você sabe que


vai ter de parar de fumar também, certo?

— Eu não fumo! — Era como se Wilson tivesse ouvido meus pensamentos


momentos antes.

Wilson levantou uma sobrancelha em descrença, e sorriu para mim,


esperando por uma explicação.
— Eu não fumo, Wilson! Eu moro com alguém que fuma como uma
chaminé. Então eu cheiro como um cinzeiro o tempo todo. Eu não posso limpar
meu cheiro, mas obrigada por notar.

Wilson tinha perdido seu sorriso duvidoso, e suspirou fazendo um som.


— Eu sinto muito, Blue. Eu sou muito bom em dar um fora. Eu não tenho uma
boca grande, mas de alguma forma eu consigo enfiar meus pés pelas mãos com
bastante frequência.

Dei de ombros, ignorando. Ele me viu trabalhar por um tempo, mas


parecia preocupado, e eu me perguntava por que ele ainda estava aqui.

— Bem, isso resolve tudo... — Ele murmurou para si mesmo. Então me


disse: — Você já pensou em comprar uma casa própria?

— Só a cada segundo de cada dia — Eu respondi ironicamente, não


olhando para cima da linha que estava surgindo, mudando meu violoncelo em
uma sinfonia completa. A curva sugeria som e movimento e uma continuidade
que eu não poderia colocar em palavras, mas que de alguma forma, era
transmitida na linha da madeira. Assim acontecia - a beleza surgiria quase por
acidente e eu tinha que deixá-la me levar para onde queria que eu fosse. Então,
muitas vezes, eu sentia como se minhas mãos e coração soubessem de algo que
eu não sabia e eu entregava a arte para eles.

— Você pode fazer uma pausa? Eu quero mostrar uma coisa que pode lhe
interessar.

Mordi meus lábios, perguntando se eu iria perder o fio de inspiração se


saísse. Estava quase pronto; eu poderia ir. Eu balancei a cabeça para Wilson.

— Deixe-me correr lá dentro e me trocar.

— Você está bem. Vamos. Não vai demorar muito.

Eu puxei o meu rabo de cavalo, retirando o elástico. Corri meus dedos


pelo meu cabelo e decidi que não importava. Em instantes, minhas ferramentas
estavam arrumadas e a oficina trancada. Corri para dentro e peguei minha
bolsa, passando uma escova no meu cabelo enquanto eu colocava uma camiseta
um pouco menos curta.

— Um cara com um sotaque engraçado veio procurando por você —


Cheryl murmurou do sofá. — Parecia o professor de Buffy, A Caça Vampiros.
Mas ele era muito mais jovem - e bonito também. Fazendo sucesso, certo? —
Cheryl tinha uma coisa por Spike da série Buffy, A Caça Vampiros. Ela tinha
todas as temporadas e assistia obsessivamente sempre que estava sem
namorado. Isso a fazia acreditar que seu cara perfeito ainda estava lá fora -
imortal, sugadores de sangue, e estranhamente atraente. Comparando Wilson
com qualquer membro do elenco é um grande elogio. Saí sem comentar.

Wilson abriu a porta do passageiro para mim, e eu consegui não dizer


algo sarcástico ou dizer que ele me fez lembrar um pouco de um jovem Giles28.
Nós paramos em frente a sua casa, e comentei sobre a melhoria da aparência do
exterior.

— Inicialmente, eu concentrei toda a minha atenção no interior, mas uma


vez que os três apartamentos foram concluídos, eu voltei minha atenção para o
exterior. No mês passado ficou pronto o novo telhado e foram colocadas novas
janelas. Reformamos os degraus e colocamos pedras na calçada. Os paisagistas
vieram e limparam o quintal também. A velha menina teve uma reforma
completa, na verdade.

Ele subiu os degraus e abriu a porta. Eu o segui tranquilamente. Como


seria ter dinheiro para promover uma reforma como ele fez com a “a velha
garota”? Claro que ele ainda tinha trabalho a fazer. Era provavelmente uma dor
de cabeça lidar com prestadores de serviços e construção. Eu não poderia
imaginá-los todos juntos. Mas como seria ser capaz de fazer o que quer...
Razoavelmente? Eu me perguntava aleatoriamente se eu estava no novo projeto
de Wilson. Talvez ele me fizesse uma transformação.

28 Giles – personagem da série de televisão americana Buffy A Caça Vampiros.


— Isso é o que eu quero lhe mostrar — Ele me levou a uma porta para
fora do hall de entrada que eu não tinha notado a última vez que estive aqui.
Estava parcialmente escondida atrás das escadas.

— Você vê como dividimos a casa em dois apartamentos no andar de


cima, mas só há um aqui embaixo? É porque quando a casa foi construída, a
escadaria foi ligeiramente deslocada para a direita. Isso fez com que todos os
cômodos deste lado da casa fossem menores. Meus cômodos ficam um pouco
em cima da garagem, por isso ainda tenho muito espaço. Mas aqui as coisas são
muito apertadas. Eu pensei que talvez em algum momento eu pudesse viver
aqui e deixar o meu apartamento, mas eu não posso ficar em pé no chuveiro -
você verá por que - e, honestamente, eu gosto do meu apartamento lá de cima.
Eu também pensei que poderia deixá-lo para um empregado faz tudo sortudo.
Mas acabou por ser eu esse faz-tudo, o que torna mais fácil justificar que eu
continue no meu apartamento e estou economizando dinheiro em não contratar
ninguém.

Enquanto ele falava nós andávamos para dentro do pequeno


apartamento. O espaço tinha os mesmos pisos de madeira do hall de entrada, e
as paredes foram pintadas. Uma pequena porta de entrada se abria em uma
pequena sala de estar, que Wilson chamou de “longe”, rodeado por uma cozinha
completa com uma pia de aço inoxidável, um frigobar preto, fogão e um balcão
estreito preto. Era tudo novo, brilhante e cheirava a madeira e tinta nova. Um
quarto e banheiro, muito novo e muito pequeno, completava o minúsculo
apartamento. Eu entrei no chuveiro e vi o que Wilson tinha falado.

— O trabalho do duto atravessa aqui. Foi a nossa única opção. O teto tem
menos de dois metros acima do chuveiro, o que não será um problema para
você, a menos que goste de tomar banho naquelas botas ridiculamente altas que
gosta de usar.

— Eu não posso pagar esse lugar, Wilson. É pequeno, mas é muito bom.
Eu trabalho no café, estou grávida e não há espaço para esculpir, o que significa
que a minha situação financeira provavelmente não vai melhorar se eu viver
aqui.
— Você pode pagá-lo, confie em mim. E a melhor parte? Vamos. Eu vou
lhe mostrar — Ele estava na porta do banheiro e de volta na cozinha em cerca de
dez passos.

— Essa porta aqui? Não é uma despensa. Ela leva para o porão. Eu pensei
que se isso seria o apartamento do faz-tudo, ele precisaria de fácil acesso, por
isso não cobrimos a porta original quando desenhamos a planta. Eu lavo a
minha roupa lá em baixo. O aquecedor de água e fornalha estão lá em baixo,
junto com todas as caixas de fusíveis, etc. Há uma entrada exterior também,
para que eu possa acessá-la sem perambular através de seu apartamento. E é
enorme. Há bastante espaço para você guardar suas compras. Pode ficar um
pouco frio no inverno, mas poderíamos colocar um pequeno aquecedor. E no
verão vai ser o melhor lugar na casa.

Segui-o descendo as escadas, tentando não ficar animada, dizendo a mim


mesma que era uma má ideia. O porão não tinha muito para ver. As paredes de
concreto e piso, facilmente 770 metros quadrados de espaço quase. Havia
algumas bugigangas nas extremidades e uma velha máquina de lavar e secar
roupas empurradas contra a parede mais distante, mas isso era tudo. O fato de
que a casa tinha um porão era notável. Os porões em Las Vegas eram tão
escassos como casas de alvenaria. Tinha luzes do teto, e energia elétrica para as
minhas ferramentas elétricas. Seria mais do que suficiente para o que eu
precisava.

— Há um mobiliário antigo que estava na casa quando eu comprei o lugar


— Wilson empurrou as lonas de vários itens no canto mais distante. — Você
pode ficar a vontade e pegar o que precisar e a lavadora e secadora estão todas
funcionando. Você poderia vir aqui e lavar sua roupa, também.

— Quanto, Wilson? — Eu exigi, interrompendo sua lista de amenidades.


— Quanto por mês?

Ele considerou, inclinando a cabeça para o lado como se tivesse que


pensar muito.
— É pequeno, e eu não posso alugá-lo para um homem adulto. Ele se
sentiria como Gulliver vivendo com os liliputianos. Eu tinha realmente decidido
deixá-lo vazio e deixar minha mãe usá-lo quando viesse visitar. Mas ela é muito
esnobe, de modo que, provavelmente não vai funcionar.

— Quanto, Wilson?

— Provavelmente quatrocentos por mês — Ele me olhou. — Mas eu vou


ajudar na manutenção para deixar isso mais justo.

Quatrocentos era ridiculamente barato, e ele sabia disso. O aluguel do


apartamento de Cheryl era de US $ 900 por mês e era mergulhado no mal
cheiro, e só incluía água e esgoto. Gás e energia eram separados. Eu sabia disso
por que houve momentos em que eu tive que pagar a conta de energia com o
meu salário do café.

— Por que você está fazendo isso por mim? — Eu exigi, enfiando as mãos
nos bolsos da minha bermuda rasgada.

Wilson suspirou. — Eu realmente não estou fazendo nada, Blue. Os US $


400 são mais do que suficiente, de verdade. Vai ser bom para a Sra. Darwin ter
outra mulher no prédio também. Meu novo inquilino é um homem. Dessa
forma, se ela precisar de ajuda com qualquer coisa... Feminina... Então você vai
estar aqui. É perfeito, realmente — Ele estava apenas me enrolando.

— Qualquer coisa do sexo feminino? Como o quê?

— Bem, eu não sei. Pequenas coisas de diferentes tipos... Uh, coisas


femininas que eu não seria capaz de ajudá-la com isso.

— Eu vejo — Eu disse, tentando não rir. Euforia estava borbulhando no


meu peito, e eu queria fazer uma dança de celebração em todo o porão. Eu iria
fazer isso. Eu iria me mudar sozinha para um perfeito e pequeno apartamento.
Sem cigarros, sem Cheryl, sem garrafas de cerveja e sem ter que evitar tropeçar
em homens suados. Eu iria sair.
Capítulo Quinze

Reluzente
Eu encontrei uma mesa e duas cadeiras, um sofá de dois lugares com
uma cadeira combinando, e uma estrutura da cama que nós trouxemos do
porão. Wilson insistiu em limpar o sofá e a cadeira à vapor. Ele inventou uma
desculpa sobre a Sra. Darwin já ter agendado alguém para vir limpar algumas
coisas dela, mas a Sra. Darwin parecia completamente ignorante do fato quando
eu mencionei a ela no dia que a limpeza à vapor chegou. Wilson também
produziu milagrosamente um colchão novo de molas duplas que, segundo ele,
também estava no porão, embora eu não tivesse visto.

Eu o presenteei com um cheque de seiscentos dólares no dia seguinte e


disse-lhe que era para os extras, porque não podia arcar com tudo e não estava
aceitando brindes. Eu carreguei as minhas ferramentas, cancelei minha locação
do espaço do depósito, e recolhi os meus poucos pertences de Cheryl. Foi
provavelmente o dia mais fácil da mudança. Cheryl estava um pouco surpresa,
mas não especialmente emotiva. Ela parecia um pouco preocupada de que não
pudesse conseguir pagar todas as contas do mês, mas estava pensando em
possíveis colegas para vir morar no momento em que eu saí. Eu me perguntava
se iria vê-la novamente. Eu escrevi o meu novo endereço e disse a ela que se
precisasse de mim era só me procurar. Ela balançou a cabeça, respondendo: —
Você também — E isso foi tudo.

Havia uma enorme lixeira na borda do complexo, não muito longe de


onde minha caminhonete estava estacionada. Olhei para os sacos de lixo cheios
com as minhas roupas, e depois de novo para o lixo. Logo eu não iria caber na
maioria das minhas coisas, e todas elas fediam como o apartamento de Cheryl.
Eu não queria levá-las para a minha nova casa. Eu queria jogá-las para o alto,
deixando-as pousar em uma pilha fedorenta em cima de todos os outros lixos.
Tiffa me ligou alguns dias antes e me disse que tinha vendido mais três das
minhas peças. Juntas, as peças tinham valido mil dólares. Eu poderia comprar
roupas novas, se eu fosse econômica. Tiffa disse que iria levar o cheque para a
casa de Wilson quando eu estivesse me mudado. Ela parecia ter todos os
detalhes sobre a minha grande mudança, isso tanto me surpreendeu, como me
agradou. Eu gostei ser mencionada nas conversas de Wilson.

Peguei minhas botas e os sapatos do saco, bem como algumas outras


coisas que eu queria, e empilhei-os no banco do passageiro. Eu não poderia
substituir tudo. Em seguida, com grande prazer, eu joguei todas as outras peças
de roupa que eu tinha.

A melhor coisa sobre o meu apartamento era a abertura no teto. Se eu


ficasse embaixo, eu podia ouvir Wilson tocando seu violoncelo. Eu não sei por
que o som viajava sem interferências, mas uma vez que descobri isso, eu
reclinava a poltrona debaixo da saída de ar no centro da minha pequena sala de
estar, e sentava-me no escuro toda noite, balançando e ouvindo quando a
música de Wilson sussurrava através das ripas de metal sobre mim, envolvendo-
me em doçura. Ele teria rido de me ver ali com eu rosto virado para cima e um
sorriso nos lábios, enquanto ele fazia as cordas cantarem sem palavras. Ele
tocava uma melodia especial todas as noites, e eu gostava de esperar por isso,
suspirando com satisfação quando a melodia familiar encontrava seu caminho
até mim. Eu não sabia o nome. Eu nunca tinha ouvido isso antes, mas cada vez
que ele tocava, eu sentia como se tivesse finalmente voltando para casa.

As semanas seguintes da minha mudança foram as mais felizes que já


tinha vivido. Eu fui aos brechós e vendas de garagem para mobiliar a minha
nova casa e encher meu armário novo, e meu guarda-roupa passou por uma
transformação drástica. Lá se foram as calças legging apertadas e baixas e
camisetas curtas. Lá se foram os shorts curtos e tops de malha. Descobri que
gostava de cores - muitas - e os vestidos eram mais legais em Nevada do que até
mesmo shorts, por isso a maioria das minhas compras eram vestidos em tons
alegres e tecidos frescos, com a vantagem adicional de que havia espaço para a
minha barriga em expansão.

Minha casa se tornou meu refúgio, um paraíso, e eu me beliscava toda vez


que eu voltava. Nem mesmo o medo do que o futuro me traria escurecia meu
prazer no meu novo lugar. Se eu visse algum brechó algo que eu podia pagar, eu
comprava, e isso me fazia feliz. O resultado foi um vaso amarelo brilhante com
um trincado nele, uma manta cor maçã verde no meu sofá que estava cercado
por almofadas decorativas vermelhas e amarelas que a Sra. Darwin não queria
mais. Pratos com diferentes combinações em cores brilhantes e tapetes soltos
para combinar, enchiam os armários e cobriam o chão.

Eu lixei a mesa e cadeiras do porão e os pintei de vermelho. Então eu


coloquei três vasilhas de vidro com tampas de madeira no centro e enchi um
com cinnamon bears29 de canelas vermelhas, uma com skitlles30, e um com
chocolate kisses31. E ninguém comia além de mim. Eu encontrei um relógio cuco
com um pássaro azul que chilreava na hora e um suporte bronze de livros em
formato de Júlio César por cinco dólares em uma venda de brechó. Os suportes
de livros me fizeram rir e pensar em Wilson, então eu os comprei. Eu mesma
construí uma estante de livros - trabalhar com madeira tem suas vantagens mais
práticas - pintei de maçã verde para combinar com o meu piso, e a enchi com
todos os livros que eu tinha e todos os livros que Jimmy tinha possuído. Meus
dois Césares guardava-os firmes, mantendo-os alinhados como soldados
obedientes. Minha serpente de madeira e uma escultura que Jimmy e eu
tínhamos feito juntos estava sobre ela, junto com o presente de inauguração que
Wilson tinha me surpreendido.

Eu tinha voltado para casa após meu primeiro grande dia de compras
para encontrar um pacote pequeno do lado de fora da minha porta. Tinha uma
nota anexada e BLUE escrito em todo o envelope em negrito. Abri a porta e
joguei minhas sacolas na entrada, incapaz de conter minha curiosidade.

29 cinnamon bears – marca de doce em formato de urso.


30 Skitlles – marca de doces – balas, gomas.
31 chocolate kisses - é uma marca de chocolate fabricado pela The Hershey Empresa . Os pequenos pedaços

do chocolate tem uma forma distinta, comumente descrito como lágrimas de fundo chato.
Abri o pacote de primeiro - eu não consegui evitar. O cartão poderia
esperar. Dentro estava um pequeno melro de porcelana com olhos azuis
brilhantes. Era delicado e bem feito, com detalhamentos finos e penas escuras.
De pé na palma da minha mão, tinha talvez, dez centímetros de altura da cabeça
aos pés. Coloquei-o cuidadosamente em minha bancada e rasguei o cartão com
o meu nome.

Blue,

Você nunca terminou a sua história. A melra precisava

de um lugar seguro para pousar. Espero que ela o tenha

encontrado. Parabéns pelo seu novo ninho.

Wilson

Minha história pessoal, a que eu tinha tentado e falhado miseravelmente


escrever, estava incluída com o bilhete. Li-a, mais uma vez, observando o jeito
que eu a tinha deixado, com a melra caindo em direção à terra, incapaz de se
endireitar.

Era uma vez, havia uma pequena melra, empurrada do

ninho, indesejada. Descartada. Então, um falcão a

encontrou, mergulhou e a carregou voando acima, dando-

lhe uma casa em seu ninho, e ensinou-a a voar. Mas um dia o

Falcão não voltou para casa, e a pequena melra estava

sozinha de novo, indesejada. Ela queria voar para longe. Mas


quando ela olhou para fora, subiu na borda do ninho e

olhou através do céu percebeu quão pequenas e fracas suas

asas eram. O céu era tão grande. E qualquer outro lugar era

tão longe. Ela se sentia encurralada. Ela podia voar, mas

para onde iria?

Estava com medo... Porque ela sabia que não era um

falcão. E ela não era um cisne, um belo pássaro. Ela não era

uma águia, digna de admiração. Ela era uma pequena

melra.

Ela se encolheu no ninho escondendo a cabeça debaixo

de suas asas, desejando ser resgatada. Mas ninguém veio. A

pequena melra sabia que podia ser fraca, e podia ser

pequena, mas não tinha escolha. Ela tinha que tentar. Ela

iria voar para longe e nunca olhar para trás. Com um

profundo suspiro, ela abriu as asas e se empurrou para dentro

do grande céu azul. Por um minuto ela voou constante e

crescente, mas então ela olhou para baixo. O chão abaixo se

levantou rapidamente para encontrá-la enquanto ela

entrava em pânico, e girou em direção a terra.

Eu procurei na minha bolsa e encontrei uma caneta. Sentada à mesa, eu


adicionei mais algumas linhas.

No último minuto, o pássaro olhou para cima, fixando

os olhos no horizonte. Quando ela levantou a cabeça e


endireitou suas asas, começou a voar em vez de cair com o

vento sob ela, levando-a de volta para o céu.

Era ridículo e brega. Mas eu me senti melhor por ter escrito isso. Não foi
um final exatamente, mas talvez fosse um novo começo. Então eu dobrei a carta
de Wilson e minha história e coloquei-os em uma cópia do Inferno de Dante,
que eu sabia que nunca iria ler, mas que sempre me fazia pensar em harpias e
história, aflição e esperança.

Nas semanas que se seguiram, estava suspensa em uma atemporalidade


feliz. O nascimento do meu bebê ainda estava distante, então eu poderia
empurrar os pensamentos de maternidade para longe, mesmo quando comecei
as visitas regulares ao médico, não tendo tomado nenhuma decisão além da
aceitação. Eu tinha aceitado que eu não estaria interrompendo a minha
gravidez. Eu faria o parto. Eu tinha essa responsabilidade. Reivindiquei isso. Eu
estava vivendo em minha própria casa, trabalhando no café, e vendendo minhas
esculturas. E estava feliz. Além disso, eu simplesmente não sabia de mais nada.

Quando Tiffa vendeu mais quatro de minhas esculturas, eu parei de


colocá-las no café, simplesmente porque eu não podia atender às demandas de
ambos, e Tiffa poderia vendê-las por muito mais. Pedi desculpas a Beverly,
explicando o meu dilema.

— Isso é maravilhoso, Blue! — Disse ela com firmeza, descansando a mão


no meu braço. — Você não tem nada que se desculpar! Não peça desculpas pelo
sucesso! Você está louca? Eu poderia ter que batê-la na cabeça, garota! — Ela
me apertou com força, e em seguida, puxou-me para o seu escritório, fechando a
porta atrás de nós.
— Eu encontrei um rolo de filme quando estava limpando alguns
armários velhos no outro dia. Eu o tinha guardado. Eu tenho algo para você —
Ela puxou um quadro de 8 x 10 da sacola plástica do Walmart e me entregou. —
Eu acho que você vai gostar disso.

Fiquei olhando para uma foto de Jimmy e eu, nossos olhos vesgos contra
o sol, o café como pano de fundo e Icas aos nossos pés. Apreciei isso sem
palavras.

— Eu tinha acabado de comprar uma nova câmera e fui tirar fotos de


todos os meus clientes habituais naquele dia. Havia fotos de Dooby e Wayne
tomando seu café da manhã, da mesma forma que fizeram durante os últimos
trinta anos. Barb e Shelly eram minhas garçonetes naquela época, também. Eu
tenho uma bonita delas de avental fazendo companhia para Joey na cozinha.
Barb está ficando gorda. Assim como eu — Bev acariciou a barriga com tristeza.
— Eu esqueci que ela costumava ser uma figura muito bonita. Não lhe mostrei
as fotos. Pensei que poderia deprimi-la. Eu não sei por que isso não aconteceu,
mas você me conhece, sempre me movendo a mil por hora.

Beverly bateu no vidro, apontando para um Jimmy sem sorrir. — Ele


virou-se naquele dia, do nada, isso era a forma como sempre foi com Jimmy. Eu
tive sorte, eu acho. Eu pedi-lhe para posar para uma foto. Você estava tão
bonita, sorridente e emocionada ao tirar uma foto. Lembro-me de pensar que
Jimmy era um velho rabugento. Ele não estava entusiasmado com a foto, e
mesmo assim não falou muito. Ele só me fez prometer que eu não iria exibi-lo
no café. Pelo menos ele colocou o braço em volta de você. É fácil ver que vocês
pertenciam um ao outro - apenas duas ervilhas engraçadas em uma vagem você
e seu pai, hein — Suas palavras eram como uma bofetada, especialmente porque
eram muito sinceras.

— Você acha? — Eu sussurrei ao redor das memórias engasgadas em


minha garganta. — Você acha que nós pertencíamos um ao outro, Bev?

— Não há dúvida sobre isso, querida — Declarou Bev, balançando a


cabeça enquanto falava. Consegui sorrir, apertar a imagem contra o meu peito.
Eu nunca tinha compartilhado o fato de que Jimmy não era meu pai com
Beverly. Na verdade, a única pessoa que sabia, além de Cheryl, era Wilson. A
compreensão me atingiu. Eu disse coisas a Wilson que nunca tinha dito a outra
alma.

Bev pigarreou e ajeitou a blusa. Eu poderia dizer que ela queria dizer algo
mais, e eu esperei quase certa que ela tivesse percebido as mudanças na minha
pessoa.

— Você está mudando, Blue — Suas palavras ecoaram meus pensamentos


quase literalmente, e eu apertei ainda mais a imagem, me protegendo
mentalmente do desconforto sobre o tema.

— Você suavizou um pouco e isso fica bem em você. E eu não estou


falando sobre o peso que está em você — Ela me olhou incisivamente, fazendo
uma pausa para efeito, me mostrando que ela estava ao meu lado. — Eu estou
falando da sua linguagem, sua aparência e seu gosto por homens. Estou falando
sobre esse seu amigo bonito Sean Connery. Eu espero que você possa mantê-lo
por perto. E espero que você diga a ele sobre o bebê, porque estou supondo que
não é dele.

— Não é. Nós não somos nada. Quero dizer... Não estamos em um


relacionamento assim — Eu gaguejei. — Mas sim, ele sabe. Ele tem sido um bom
amigo — Mas Bev estava mais certa do que eu queria admitir. Alguma coisa
estava acontecendo comigo, e que tinha tudo a ver com Darcy Wilson.

— Isso é bom, então — Bev assentiu para si mesma e ajeitou alguns


papéis em sua mesa. — Eu sou sua amiga também, Blue. Eu estive onde você
está, sabe. Eu era ainda mais jovem do que você. E eu consegui fazer isso
completamente. Você vai fazer também.

— Obrigada. Bev. Pela foto, e... Todo o resto — Eu me virei para ir


embora, mas ela me parou com uma pergunta.

— Você vai ficar com o bebê, Blue?


— Será que você ficou com o seu? — Eu perguntei, não querendo
responder.

— Sim... Eu fiquei. Eu me casei com o pai do bebê, tive meu filho, e me


divorciei um ano depois. Eu eduquei o meu filho sozinha e foi difícil. Eu não vou
mentir.

— Alguma vez você se arrependeu?

— Arrepender de ter meu filho? Não. Mas de engravidar? Casar? Claro.


Mas não há nenhuma maneira de evitar o arrependimento. Não deixe ninguém
lhe dizer diferente. O arrependimento é tempero da vida. Não importa o que
você escolher, sempre vai se perguntar se deveria ter feito diferentes. Eu não
necessariamente escolhi errado. Eu só escolhi. E eu vivi com a minha escolha,
tempero e tudo. Eu gosto de pensar que dei ao meu garoto a melhor vida que eu
poderia, mesmo que eu não fosse perfeita — Bev deu de ombros e encontrou
meus olhos de forma constante.

— Conhecendo você, tenho certeza que isso é verdade, Bev — Eu disse


com sinceridade.

— Eu espero que sim, Blue.


Capítulo Dezesseis

Velha Glória
— Mas o quarto de julho é um feriado americano — Eu franzi meu nariz
para Wilson. — O que diabos faz um grupo de britânicos celebrando o Dia da
Independência?

— Quem você acha que celebra mais quando criança sai, os pais ou a
criança? A Inglaterra ficou feliz por todos vocês, confie em mim. Nós fizemos
uma festa quando a América declarou sua independência. Bravo! Agora vão e
não nos importamos se ficam ou não! — Wilson rosnou.

— Eu não acredito. Será que a guerra revolucionária lembra alguma coisa,


Sr. Professor?

— Tudo bem, então. Na verdade, minha mãe está na cidade, junto com
Alice e Peter e os meus três sobrinhos. É também um maldito dia quente para
churrasco, o apartamento de Tiffa tem uma vista incrível da avenida - por isso
os fogos de artifício serão ótimos - e o melhor de tudo, há uma piscina na
cobertura.

Estávamos tendo uma média de 47 graus durante toda à semana. Quente


nem sequer começava a descrever isso. O pensamento de uma piscina era quase
maravilhoso demais para contemplar. Então eu pensei em como ficaria em um
maiô e senti meu entusiasmo declinar.

— Então, por que você está me perguntando? Onde está Pamela? — Eu


estava orgulhosa de quão inocente a conversação soou.

— Eu estou perguntando porque você me informou que estaria buscando


madeira, que está entediada, sentindo calor e irritada — Isso era certamente
verdade. Wilson tinha descido ao porão para lavar algumas roupas e encontrou-
me olhando para a minha mesa de trabalho tristemente vazia, tentando não
derreter no piso de concreto. Eu tinha recentemente negligenciado minhas
expedições de coleta de madeira. O calor combinado com a gravidez me fez uma
covarde absoluta. Agora eu estava pagando por isso. Um dia inteiro a toa e nada
de esculpir.

— E Pamela está na Europa — Acrescentou Wilson, colocando uma carga


de suas roupas na secadora. Era claro que ela estava. Pessoas como Pamela
viajam por toda a Europa com seus amigos. Mas se Pamela tinha ido embora...

— Ok — Eu concordei. — Vamos ao churrasco!

A mãe de Wilson não se parecia em nada com ele. Ela era loira, magra e
se parecia muito com um aristocrata inglesa. Ela parecia ficar em casa com um
chapéu de abas largas assistindo a uma partida de polo e dizendo “boa jogada!”
Eu podia ver uma semelhança com Tiffa em sua figura esbelta e grandes olhos
azuis, e Alice parecia exatamente como ela, apenas menos serena. A falta de
serenidade pode ter sido o resultado dos três meninos de cabelos vermelhos que
saltavam ao redor dela, sobre ela, debaixo dela. Alice parecia exausta e irritada
onde sua mãe parecia fresca como um pepino. Gostaria de saber se Wilson se
parecia com seu pai. Se não fosse pelos cabelos cacheados de Tiffa, eu poderia
pensar que ele era o produto de um tórrido romance. O pensamento me fez rir
silenciosamente. Joanne Wilson não teve affairs tórridos, eu quase apostaria
minha vida nisso. Mas ela era louca por Wilson, não havia dúvida sobre isso. Ela
segurava a mão dele enquanto eles conversavam, se pendurava em cada palavra
que ele dizia e dava um tapinha em sua bochecha inúmeras vezes.

Eu fiquei para trás, desajeitada no ambiente íntimo da família, e passei a


maior parte do meu tempo na piscina brincando com as crianças, jogando anéis
no fundo várias vezes, para que pudessem recuperá-los como cachorros
incansáveis. Tiffa se juntou a mim depois de um tempo, e as crianças se
amontoaram ansiosamente, pequenos corpos molhados lutando para se
agarrarem enquanto ela ria e mergulhava - várias vezes. Fiquei surpresa com
seu jogo físico e o afeto óbvio que ela tinha por seus sobrinhos. Eu, de repente,
me perguntei por que ela não tinha filhos. Ela parecia muito mais adequada
para a maternidade do que a pobre Alice, que tomava uma bebida alcoólica em
uma cadeira perto da piscina e gritava cada vez que um dos meninos jogava
água demais. O que tinha a mulher estava pensando tendo três filhos, um após o
outro? Talvez, como eu, ela não tivesse pensado muito.

Tiffa conheceu e se casou com Jack, um garoto nativo de Las Vegas,


quando ele estava completando sua residência no Instituto do Câncer, seu pai
havia deixado a Inglaterra para trabalhar. Ela poderia ter ficado na Inglaterra,
quando seus pais e Wilson se mudaram para os Estados Unidos. Alice era
casada nesse tempo e permaneceu na Inglaterra. Mas em vez disso, Tiffa tinha
aceitado um emprego em uma pequena galeria de arte no Upper East Side de
Salt Lake City, ansiosa para ficar perto de sua família e ganhar novas
experiências. Ela e Jack se casaram em uma questão de seis meses. E seis anos
depois, eles ainda estavam obviamente apaixonados. Eles haviam se mudado
para Las Vegas quando Jack tinha recebido uma posição permanente na
oncologia no Hospital Desert Springs, e Tiffa foi contratada como curadora para
o Sheffield.

Meus olhos giraram para Jack, bronzeado e bonitão em uma polo azul
claro e bermuda de brim cáqui, trabalhando no churrasco como um fodão
homem americano. O marido de Alice, Peter não estava contribuindo muito com
o churrasco, mas estava perto de Jack, ouvindo falar e rindo de algo que Jack
dizia. Os dois homens em nada se pareciam, mas eu tinha gostado deles
imediatamente.

Peter era sobrinho de um conde - fiquei espantada ao descobrir que ainda


havia aristocratas e tal, na Inglaterra - e segundo Tiffa, mais ricos do que a
rainha. Eu não sabia o que os aristocratas faziam, mas, aparentemente, quando
a sua riqueza rivaliza com a da realeza, há um monte para gerenciar, e Peter era
declaradamente bom. Talvez isso fosse o que atraiu Alice, embora tivesse outras
qualidades que o tornaram querido para mim. Ele era despretensioso, enquanto
Alice era glamorosa, tranquilo enquanto Alice repreendia, e gentil, enquanto
Alice parecia rude. Seu sorriso era tímido e seu jeito despretensioso. O seu
cabelo era vermelho como os de sua prole. Eu sinceramente esperava que eles
estivessem todos usando protetor solar. Eu era naturalmente morena, e mesmo
assim usava fator 50.

Eu sai da piscina e caminhei rapidamente para onde eu tinha tirado meu


vestido. Eu tinha feito Wilson parar em uma Target no caminho, e tinha
comprado uma peça enfadonha azul que atraia tão pouca atenção quanto
possível. Eu não queria vestir o biquíni preto que havia sobrevivido à pilha de
lixo há seis semanas. De alguma forma, gravidez e biquíni de amarrar não me
atraia. Algumas mulheres gostavam, eu supunha. Para mim, apenas parecia
brega, como aquelas horríveis fotos do facebook onde as mulheres grávidas
tinham seus maridos beijando suas barrigas sem jeito. Eu estava com cinco
meses a minha barriga era um pequeno monte, mas em comparação do jeito que
eu era, parecia gigantesca. Eu me perguntava se ele seria plano de novo.

Wilson e sua mãe ainda estavam sentados nas cadeiras sob o guarda-sol
azul listrado em sérias discussões desde que tínhamos chegado. Wilson tinha
me apresentado à sua mãe como uma “amiga e inquilina” e não tinha enfeitado
isso. Joanne Wilson parecia aceitar o meu status, embora tivesse erguido as
sobrancelhas um pouco e perguntado sobre Pamela quando pensou que eu não
estava escutando. Aparentemente, Joanne tinha uma boa amizade com os pais
de Pamela.

Eu tentei ficar distante deles quando sai da piscina, mas quando Joanne
parou de falar no meio da frase, eu sabia que não havia escondido a minha
barriga bem o suficiente. Eu puxei meu vestido de verão sobre minha cabeça e
tentei fingir que não tinha notado a pausa reveladora. Ela retomou sua conversa
a meia batida depois, como se nunca tivesse parado, mas quando eu roubei uma
espiada em Wilson, ele estava olhando para mim com uma expressão
indecifrável no rosto. Ele não tinha compreendido mal a reação dela também.
— Tiffa? Estes bifes estão prontos, baby. Vamos comer — Jack gritou para
sua esposa, que estava gargalhando como uma bruxa, o menor dos ruivos em
sua cabeça, os outros dois esguichando água com uma arma em suas costas.

— Vamos jantar lá dentro, vamos? — Alice falou de sob seu guarda-sol. —


Eu não posso suportar este calor por tanto tempo.

— Nós podemos fazer as duas coisas — Tiffa respondeu saindo da piscina


sem abrir mão do macaquinho nas costas. — Eu organizei tudo no apartamento.
Jack vai trazer os bifes. Quem quiser pode voltar aqui e comer ou ficar lá dentro
de casa, onde achar melhor.

Jack e Tiffa também tinham convidado vários amigos próximos para a


reunião, que foi um alívio para mim. Com o grupo maior torna-se mais fácil ser
discreta. Quase todos fizeram o seu caminho descendo as escadas circulares que
ligavam o telhado para Jack e o apartamento de Tiffa. Todas as coberturas,
como Tiffa se referiu a eles, tinham escadas privadas que levavam à piscina e
jardins. Eu tentei não pensar no valor do custo de um lugar desses e maravilhar-
me novamente com as diferenças entre Wilson e eu. Ele havia recebido a
herança quando completou vinte e um, o que lhe permitiu comprar a mansão
antiga em Boulder City. Eu não tinha ideia do quanto recebeu. Sinceramente,
não queria saber, mas da forma como Tiffa falou, foram milhões. O que pode
explicar o pequeno suspiro que Joanne Wilson deu quando viu a minha barriga.
Milhões de dólares? Milhões de razões pelas quais ela gostaria que alguém como
eu ficasse longe de Wilson. Eu entendia, realmente entendia, mas não diminuiu
o constrangimento que eu senti pelo resto da tarde.

O sol de verão do final da tarde trouxe um alívio e uma trégua do sol do


deserto. Quando o sol se pôs em Las Vegas, o calor não era apenas suportável,
era lindo. Eu até gostei da maneira como cheirava, como se o sol tivesse
arrancado toda a sujeira e os oásis do deserto fosse lavada no fogo. Indescritível,
até você respirá-lo. Eu acho que não era qualquer lugar no mundo que cheirava
como Vegas.

A festa voltou para a cobertura com o pôr do sol, e eu me deliciava com o


calor ao anoitecer, um chá doce gelado na mão e os olhos no céu, esperando que
os fogos de artifício começassem. Wilson ficava ao meu lado de vez em durante a
noite, e nenhum de nós comentou sobre o constrangimento anterior junto à
piscina. Joanne Wilson era gentil e educada sempre que as circunstâncias
exigiam, mas eu a peguei me olhando várias vezes ao longo da noite.

À medida que a hora dos fogos se aproximava, eu caminhei de volta para


baixo da escada para mais uma viagem para o banheiro - amaldiçoei minha
bexiga grávida! - quando ouvi Wilson e sua mãe conversando na cozinha de
Tiffa. As escadas da piscina terminavam em uma área de azulejos - uma grande
jacuzzi e uma sauna logo à esquerda, uma lavanderia e um grande banheiro com
um enorme chuveiro à direita. Em frente, através de um grande arco de pedra
estava à cozinha, eu não podia ver Wilson ou a sua mãe, mas era impossível não
ouvi-los, especialmente quando eu era um papel tão proeminente na conversa.
Fiquei imóvel ao pé da escada, ouvindo quando Wilson negou qualquer
sentimento especial por mim. Sua mãe parecia horrorizada que ele iria me levar
para sair onde muitos diriam que eu era sua namorada.

— Darcy. Você não pode estar namorando uma menina que está grávida,
querido.

— Eu não estou namorando com ela, mãe. Blue é minha amiga, e mora no
meu prédio - isso é tudo. Eu estou apenas ajudando-a um pouco. Eu a convidei
por amizade.

— E que nome é esse? Blue? Soa como algo que Gwyneth Paltrow iria
escolher.

— Mãe — Wilson suspirou. — Eu poderia dizer o mesmo sobre Darcy.

— Darcy é um nome clássico — Joanne Wilson rosnou, mas deixou o


assunto e retomou seu argumento original. — É uma pena que a gravidez seja
tão fácil para aqueles que não querem e, em seguida, difícil para aquelas que
estão desesperadas para serem mães.

— Eu não ouço Tiffa reclamando — Wilson respondeu, suspirando.


— Não? É por isso que ela sempre tem Henry em seus braços, embora ele
tenha três anos de idade e mais do que capaz de andar? É por isso que eu a
peguei observando Blue com o seu coração quebrado?

— Isso não é culpa de Blue.

— O que ela vai fazer com o seu bebê? — Joanne perguntou. — Onde está
o pai?

— Tenho certeza que ela planeja mantê-lo. O pai não parece estar em
cena, não que seja da minha conta ou da sua, mamãe.

— É indecoroso, Darcy. Você pensaria que ela está um pouco embaraçada


por acompanhá-lo aqui em sua condição — Eu senti sua desaprovação me
espetar da minha cabeça até minhas unhas vermelhas dos pés. Eu me
perguntava por que ela estava levando a minha presença de maneira tão
pessoal. Eu não sabia que Tiffa queria ter filhos e não era capaz de tê-los. Fiquei
imaginando agora se era realmente difícil para ela me ter por perto. O
pensamento fez meu peito doer. Eu gostava e admirava Tiffa Snook. Ela era uma
das pessoas mais bonitas e mais genuínas que já conheci. Eu me perguntava se
era fingimento ou se ela se sentia da mesma maneira que sua mãe.

Eu escorreguei para o banheiro para evitar ouvir mais, sabendo que só


faria me sentir pior. Eu tinha dinheiro suficiente para pegar um táxi, e embora
provavelmente fosse covarde, eu não voltaria para a cobertura ou em qualquer
lugar perto de Joanne Wilson, ou qualquer um dos Wilson.

Eu não havia pedido para vir. Eu não estava apaixonada por Wilson ou
fingia uma relação ou um status que não existia. Eu não tinha agido de forma
“indecorosa”, seja lá o que queria dizer. Eu usei o banheiro, lavei as mãos e
levantei meus ombros enquanto abria a porta. Joanne Wilson atravessou o arco
quando saiu, e um flash de desgosto cruzou seu rosto antes dela continuar a
subir as escadas até a cobertura.

Eu estava no hall de entrada congelada com indecisão. Fiquei tentada a


sair e só enviar a Wilson um texto e dizer a ele que eu estava cansada e não
queria ficaria mais. Mas o meu telefone estava na minha bolsa, e minha bolsa
ainda estava na cobertura ao lado da cadeira que eu tinha ficado na maior parte
da noite.

— Blue — Tiffa estava descendo as escadas com um Henry dormindo em


seus braços. — Será que nós o cansamos muito, peixinho? Você não é o único —
Henry ainda estava com seus brinquedos de natação, e sua cabeça era um
borrão despenteado de vermelho, descansando em seu ombro. Ela acariciou-o
distraidamente.

— Eu pensei em colocar Henry na cama. Eu acho que ele encerrou sua


noite. Gavin e Aiden ainda estão acordados, embora Aiden esteja começando a
se queixar e esfregar os olhos. Eu acho que não levar muito tempo antes que ele
fique desmaiado também.

— Estou um pouco cansada, eu acho — Dei a desculpa que ela ofereceu. —


Eu acho que vou pegar a minha bolsa e chamar um táxi para que Wilson não
tenha ir ainda.

— Darcy não vai querer isso. Além disso, acho que ele está ansioso em ir
para casa. Ele estava procurando por você — Tiffa atravessou o arco em direção
a uma parte do apartamento que eu ainda não tinha visto. Ela me chamou por
cima do ombro. — Venha comigo enquanto eu arrumo Henry. Eu não cheguei a
conversar com você hoje. Suas peças estão vendendo tão bem que precisamos
começar a planejar estratégias para estabelecer uma presença maior - mais
peças, peças maiores — Tiffa falava enquanto caminhava, e eu a segui
obedientemente, adiando a minha partida.

Tiffa colocou o menino para baixo e o deitou na cama, morto para o


mundo. Ele estava completamente mole quando Tiffa tirou o calção de banho.
Quando ela sentou-o para colocar seu pijama, ele sacudia e oscilava, embriagado
de sono. Nós duas rimos, Tiffa o guiou de volta contra os travesseiros, beijou-o e
puxou uma coberta fina sobre seu pequeno corpo.

— Boa noite, doce garoto — Ela sussurrou enquanto olhava para ele.
Senti-me como uma intrusa, uma voyeur, observando-a enquanto olhava
para ele.

— Tiffa?

— Hmm?

— Estou grávida. Você sabia?

— Sim, Blue. Eu sei — Ela disse suavemente.

— Será que Wilson lhe disse?

— Ele me disse quando se mudou para o pequeno apartamento no andar


de baixo — O quarto estava a meia luz e nós falávamos em voz baixa, a fim de
não perturbar Henry, mas nenhuma de nós se mexeu, um reconhecimento
silencioso de que a conversa tinha se tornado íntima.

— Ouvi a sua mãe e Wilson falando — Eu disse suavemente.

Tiffa inclinou a cabeça curiosamente, esperando.

— Sua mãe estava chateada.

— Oh, não — Tiffa gemeu baixinho, seus ombros caindo. — O que ela
disse?

— Ela disse a Wilson que não deveria ter me trazido aqui. Isso era difícil
para você — Eu queria pedir desculpas, mas minha raiva persistente de Joanne
Wilson me manteve em silêncio. Eu não tinha tentado fazer mal a ninguém.

— Oh, mamãe. Ela pode ser tão imbecil... E antiquada com isso. Agora
vejo por que Wilson faz questão de ir embora. Ela provavelmente destruiu o
coitado — Tiffa estendeu a mão e apertou a minha mão.

— Eu sinto muito, Blue. Embora eu desesperadamente quisesse ter uma


barriga igual a sua, você é bem-vinda em minha casa, com meu irmão, a
qualquer hora.
— Você está tentando engravidar? — Eu perguntei esperando que não
fosse muito pessoal.

— Jack e eu nunca usamos o contraceptivo e desfrutamos muito um do


outro, se você sabe o que quero dizer. Eu pensei que eu teria vários pequenos
Jackie mordendo nossos tornozelos — Tiffa fez uma pausa e olhou para Henry
novamente. — Há alguns anos atrás, Jack e eu fomos a um especialista. Ele disse
que as chances são quase nulas... E nada favorece. Mas eu sou uma otimista, e
continuo dizendo a mim mesma que ainda pode acontecer. Eu só tenho trinta e
dois. Minha mãe teve dificuldades para engravidar e ainda assim, conseguiu
duas vezes.

— Alguma vez você já pensou em adoção? — As palavras saíram da minha


boca, e meu coração começou a acelerar. Eu sabia o que diria a seguir, e isso me
aterrorizava, mesmo quando senti uma súbita inspiração repousar em mim.

Tiffa deve ter sentido minha emoção elevada, porque ela se virou para
mim com um olhar interrogativo em seus olhos azuis.

— Sim — Ela respondeu lentamente, soltando a palavra enquanto seus


olhos procuravam o meu rosto. Todas as noites eu me deitava, considerando as
opções, combatendo as inseguranças, pesando opções, parecendo se unir neste
exato momento. Olhei de volta, ansiosa para me comunicar. Precisando que ela
entendesse.

— Minha mãe me abandonou quando eu tinha dois anos de idade — As


palavras saíram com a força do Niágara, e o menino na cama se mexeu, embora
eu não tivesse levantado a minha voz. — Eu quero que o meu filho tenha uma
vida diferente da que eu tive. Eu quero que ela... Ou ele, seja esperado,
comemorado... Ac... Acalentado — Eu gaguejei, parando para pressionar minhas
mãos no meu coração galopante. Eu ia dizer isso. Eu ia fazer a Tiffa Snook uma
oferta que agitou meu interior. Ela apertou as mãos em seu próprio coração e os
seus olhos estavam tão grande como luas gêmeas.

— Eu gostaria que você e Jack adotassem o meu bebê.


Capítulo Dezessete

Evasiva
Wilson estava tranquilo quando nós dirigimos de volta a Boulder City, e
eu estava muito preocupada em confessar que tinha ouvido a conversa com sua
mãe. Eu estava muito atordoada com esperança dele se importar já que tinha
me descartado como um capricho, nada mais. Eu tinha ido à casa de Tiffa no
quatro de julho esperando nada além de fogos de artifício, cachorros quentes, e
um longo mergulho. Eu tinha ido embora com uma possível família para o meu
filho que ainda não nasceu. E embora minha cabeça nadasse e meus
pensamentos corressem freneticamente, eu senti algo certo ressoando dentro de
mim por essa primeira noite longa e os dias seguintes.

Tiffa e eu concordamos que deveríamos pesar a decisão e não dizer nada


a ninguém até que tivesse falado com Jack e consultado um advogado.
Nenhuma de nós tinha ideia alguma das etapas legais necessárias a serem feitas,
mas Tiffa pensou que poderia conseguir algumas respostas do irmão de Jack,
que era advogado. Suas mãos tremiam quando ela me abraçou e seus olhos
estavam arregalados de espanto, provavelmente pela virada que sua vida tinha
dado de repente. A esperança nos olhos dela deveria espelhar a minha, e embora
ela me pedisse para pensar seriamente sobre a minha escolha ao longo dos
próximos dias, eu sabia que não mudaria de ideia.

Tiffa, Jack e eu nos encontramos com o irmão de Jack, que nos conduziu
através do processo. Não era terrivelmente complicado: Jack e Tiffa pagariam
minhas despesas médicas, o que eu precisaria reembolsar se mudasse de ideia
dentro de um determinado tempo. E, claro, o pai deveria que ser notificado,
teria que assinar abrindo mão dos seus direitos. O pensamento fez meu
estômago dar cãibras de pavor. Não era que eu achei que Mason gostaria de ser
pai e criar a criança. Mas ele era territorial, e eu podia vê-lo causando problemas
apenas por ser encrenqueiro.
E então Tiffa disse à sua família. A mãe de Tiffa, Alice, Peter e as crianças
estavam voando de volta para Manchester na parte da manhã, por isso Tiffa
convidou Wilson para jantar para que ela pudesse dar a notícia, enquanto eles
ainda estavam juntos. Ela me convidou também, mas eu recusei, grata que a
mudança do horário de trabalho no café me deu uma desculpa para ficar longe.
Estranha não começaria a descrever a situação. E eu realmente não queria falar
sobre a adoção e outras coisas com Joanne Wilson. Gostaria de saber se o
constrangimento se estenderia até o meu relacionamento com Wilson, e eu
passei uma noite tensa no trabalho, deixando cair os pratos e atendendo mal.
Eram nove horas exatas quando sai e voltei para casa, cansada e deprimida por
receber e entregar pedidos e energia nervosa. Wilson estava sentado nos
degraus da frente de Pemberley quando eu marchei até a calçada.

Sentei-me ao lado dele e tentei descansar minha cabeça cansada nos


joelhos, o que eu tinha feito mil vezes antes, mas minha barriga em
desenvolvimento deixou impossível. Na última semana ela havia crescido tanto,
que constantemente estava me surpreendendo e atrapalhando, disfarçadamente
isso tinha ficado cada vez mais difícil. Então, eu só estava sentada com as mãos
no meu colo e olhando para a rua escura, lembrei-me do momento, alguns
meses atrás, quando eu estava tão perdida e tinha aparecido na casa de Wilson
procurando por orientação. Tínhamos nos sentado exatamente dessa forma, os
nossos olhos para o exterior, as pernas quase se tocando, tranquilos e
contemplativos.

— Tiffa e Jack podem ser as pessoas mais felizes do planeta neste


momento — Wilson murmurou, olhando para mim por alguns instantes. —No
entanto, minha mãe não está muito atrás. Ela estava cantando uma comovente
versão “God Save the King” quando eu saí.

— God Save the King? — Eu gaguejei, surpresa.

— É a única música que ela conhece todas as palavras... E,


aparentemente, sentiu vontade de cantar.

Eu ri e nós voltamos a ficar em silêncio.


— Você tem certeza sobre tudo isso, Blue?

— Não — Eu ri com tristeza. — Eu decidi que certeza é um luxo que nunca


vou ser capaz de suportar. Mas estou tão certa como uma garçonete de vinte
anos de idade poderia estar. E o fato de Tiffa e Jack estarem tão felizes me deixa
quase certa.

— Muitas mulheres mais jovens do que você, e com muito menos talento,
criam os filhos sozinha todos os dias.

— E algumas delas, provavelmente, fazem um trabalho muito bom,


também — Eu admiti, tentando não deixar os seus comentários me
incomodarem. — Algumas não — Meus olhos se encontraram com os dele
desafiadoramente, e eu esperei, me perguntando se ele iria me pressionar ainda
mais. Ele examinou a minha expressão e, em seguida, desviou o olhar. Eu queria
que ele entendesse e precisava desesperadamente da sua validação, então me
virei para a única coisa que eu sabia que ele iria entender.

— Houve um poema que você citou uma vez, de Edgar Allan Poe. Você se
lembra? — Eu memorizei depois daquela noite. Talvez tenha feito me sentir
mais perto dele conhecer algo que ele sabia, compartilhar algo que ele amava,
mas as palavras tinham falado comigo em um nível muito primitivo, até mesmo
me assombrando. Era a minha vida, ela se resumia em poucas linhas de rima.

Wilson começou a citar as linhas iniciais, uma pergunta em sua


expressão. Quando ele fez, eu disse as palavras com ele, recitando-as. Suas
sobrancelhas subiram, em cada palavra, e eu poderia dizer que eu o havia
surpreendido pela minha maestria.

Não fui, na infância, como os outros

e nunca vi como outros viam.

Minhas paixões eu não podia


tirar de fonte igual à deles;

e era outra a origem da tristeza,

e era outro o canto, que acordava

o coração para a alegria.

Wilson ficou parado, encarando-me à luz sombria que derramava ao


redor do nosso poleiro de concreto.

— É a próxima parte que não consigo tirar da minha cabeça — Arrisquei,


mantendo o seu olhar. — Você sabe o que vem depois?

Wilson acenou com a cabeça, mas não citou as linhas. Ele só esperou que
eu continuasse. Então, falei-as, entregando cada linha da maneira que
interpretei.

Tudo o que amei, amei sozinho.

Assim, na minha infância, na alba

da tormentosa vida, ergueu-se,

no bem, no mal, de cada abismo,

a encadear-me, o meu mistério.

Havia mais, mas era esta linha que ressoava e eu juntei meus
pensamentos, querendo ser entendida.

— O mistério da minha vida me une ainda, Wilson. Você me disse uma


vez que não podemos evitar onde fomos espalhados. Nascemos em quaisquer
circunstâncias e nenhum de nós tem qualquer controle sobre isso. Mas posso
garantir que esse bebê não será espalhado como eu fui. Eu não tenho nada para
dar a não ser eu mesma, e se algo vier a acontecer comigo, meu bebê não teria
mais ninguém. Não posso garantir à essa criança uma vida feliz, mas posso ter
certeza que ela não amará sozinha. Eu a quero sob camadas de amor. Mãe, pai e
avós e tias e tios e primos. Eu quero que ela tenha família ao seu redor para que
não haja mistério e medo de estar sozinha ou abandonada... Ou espalhada.

Wilson balançou a cabeça novamente, mas seu rosto estava preocupado e


seus olhos cinzentos melancólicos. Ele se inclinou e beijou minha testa, e eu
senti o cheiro de menta e creme pós-barba, tive que me segurar contra o desejo
de inspirar profundamente, para puxar o cheiro dele ao meu redor como um
cobertor quente. Eu senti a sua inquietude, como se ele não concordasse com
tudo o que eu tinha dito, mas não queria ferir meus sentimentos. Eu me
perguntava se era o fato de que ele seria um tio para o meu filho, o filho de Tiffa.
Ele seria uma das camadas de amor que eu estava tão cuidadosamente
construindo.

— Então, o que vem depois, Blue? Para onde vamos a partir daqui? — Eu
não sabia ao que ele se referia exatamente, por isso aceitei isso literalmente.

— Amanhã eu tenho que dizer a Mason.

— Bem, veja quem está aqui. Não conseguiu ficar longe, certo? — Mason
sussurrou, olhando para mim de sua porta aberta. Sua silhueta estava
aparecendo à luz de seu pequeno apartamento em cima da garagem. Eu liguei
para ele, dizendo-lhe que eu estava aqui fora e precisava falar com ele. Ele bateu
o telefone com força e começou a descer as escadas com sua arrogância
pronunciada. Ele, obviamente, pensou que eu queria fazer algo mais do que
falar. Eu segurei minha bolsa na minha frente, não querendo que ele tivesse um
deslumbre até que eu estivesse pronta. Eu ouvi uma porta bater. Wilson virou a
esquina. Eu lhe disse tanto para ficar no carro.

— Onde diabos você esteve, Blue? — Mason chegou ao pé da escada, ao


mesmo tempo em que Wilson chegou a meu lado. Os olhos de Mason desviaram
para Wilson e um olhar sombrio passou sobre suas feições. — Pensei que você
me trocaria por esse viadinho arrogante?

— Estou grávida, Mason. É seu — Eu joguei, não querendo conversar. Eu


precisava disso o mais rápido possível. Movi a minha bolsa para o lado para que
ele pudesse dar uma boa olhada na minha barriga.

Os olhos de Mason desviaram para minha barriga e de volta ao meu


rosto. Eu conseguia esconder a gravidez se eu usasse a roupa certa. Eu estava
usando uma camiseta justa com calça capri slim, então não havia dúvida.

— Oh, isso é ótimo! — Mason gritou, passando as mãos pelos cabelos, e


eu imediatamente me senti mal por ele. Eu não o culpava por estar indignado.
Era um grande golpe, e eu sabia exatamente como ele se sentia; eu me senti da
mesma forma há vários meses. Ele apontou para mim, com o dedo apenas a
centímetros do meu rosto.

— Você aparece aqui depois de quase seis meses e joga isso em mim? De
jeito nenhum. Uh uh! Eu não acredito.

— Não acredita o que, Mason? — Eu o desafiei. Temperei minha simpatia


com a necessidade de resolver o que eu tinha vindo fazer.

— Como eu sei que o garoto é meu, Blue? Eu, com certeza, não fui o seu
primeiro, e definitivamente não o último. Se bem me lembro, Adam aqui estava
em cena nessa mesma época — Mason olhou para Wilson amargamente. Wilson
apenas balançou a cabeça e cruzou os braços. A coisa de Adam simplesmente
não foi embora. Não adiantava tentar negar ou explicar qualquer coisa.
Dei de ombros, não discutindo. Era melhor se Mason duvidasse de mim.
Ele faria menos barulho. Entreguei-lhe a intimação que o irmão de Jack tinha
preparado.

— Eu não vim aqui para criar problemas, Mason. Eu não vim aqui para
discutir. Eu quero dar o bebê para adoção. Isso explica a rescisão de direitos.
Você precisa aparecer no tribunal nesta data, assinar na linha pontilhada, e está
terminado. Você nunca mais terá que me ver ou a minha barriga.

Mason olhou para a papelada e por um minuto eu pensei que ele iria
rasgá-la em dois.

— Eu tenho que pensar. Eu não posso fazer isso assim — Ele fez uma
careta, jogando o papel de lado. Ele caiu no chão, e todos nós olhamos para ele,
esperando que alguém fizesse uma jogada. Depois de um segundo, me abaixei
para pegá-las.

— Eu entendo — Eu disse a doçura escorrendo de minha voz. — Você


definitivamente vai querer fazer isso. Porque se essa adoção não der certo, vou
abrir um processo de paternidade e pedir pensão alimentícia — Eu mantive meu
rosto neutro e os olhos inocentemente arregalados.

Mason amaldiçoou e Wilson reprimiu um sorriso. Ele me deu um polegar


para cima em seus braços cruzados. Seu sorriso desapareceu quando Mason
começou a me chamar de puta vadia.

— Cuidado camarada — Ele rosnou e Mason olhou com cautela,


provavelmente recordando do kung fu do seu último encontro.

— Vocês não vão receber um maldito centavo meu, Blue.

— Apareça na quinta-feira e eu nunca vou fazer isso — Eu apertei o papel


contra o peito, segurando-o até que ele estendeu a mão e agarrou-o, amassando-
o na mão. — Vejo você quinta-feira.

Eu me virei e fui embora, não olhando para trás para ver se Mason
observava ou se Wilson me seguia. Eu deslizei para o banco do passageiro do
Subaru de Wilson e me atrapalhei para pôr meu cinto de segurança com a
necessidade de me sentir segura, precisando tranquilizar-me que eu estava a
salvo. Segura da ira de Mason? De sua sensação palpável de traição? Talvez. Eu
só sabia que sentia medo e inexplicavelmente triste. Wilson subiu ao meu lado e
ligou o carro. Minhas mãos tremiam tanto que o fecho escorregou e ricocheteou
de volta contra a janela, batendo no vidro com um estrondo revoltante. Wilson
inclinou-se e puxou o cinto de segurança através de mim e travou sem
comentários, mas senti os olhos dele no meu rosto enquanto ele se afastava do
meio-fio.

— Você está tremendo. Você está bem?

Eu balancei a cabeça, tentando engolir a vergonha que encheu minha


boca, me deixando com dificuldades para falar.

Eu podia sentir seus olhos em mim, estudando meu perfil, tentando ver
por baixo da minha máscara. Eu gostaria que ele deixasse isso para lá.

— Você o ama? — A simpatia foi tão inesperada que eu ri, um latido duro
que mantinha pouca semelhança com alegria.

— Não! — Isso foi fácil. — Eu estou envergonhada. O amor não tem nada
a ver com isso. Nunca foi isso.

— Deixa isso mais fácil... Não amá-lo?

Eu ponderei isso por um momento e depois assenti. — Sim. Deixa. Estou


feliz por ele não se oferecer para me fazer uma mulher honesta.

Wilson sorriu ironicamente. — Sim... É isso — Ele ligou o rádio e The


Killers estava tocando na noite de Vegas com “Miss Atomic Bomb” fazendo
vibrar o painel. Eu pensei que a conversa tivesse acabado quando Wilson
estendeu a mão e apertou o botão, silenciando a música.

— E se ele tivesse?

— Se o quê? Me pedido para casar com ele? Caia na real, Wilson.


— Então, será que você quereria manter seu bebê?

— E nós poderíamos ser uma família feliz? — Eu guinchei, incrédula. — É


ruim o suficiente para que o bebê tenha o nosso DNA combinado. Ele não
merece ser educado por nós, também.

— Ahh, Blue. Você não seria uma mãe ruim.

— Eu me pergunto se isso é o que alguém disse à minha mãe quando ela


descobriu que estava grávida de mim.

Wilson balançou a cabeça com a surpresa evidente em seu rosto bonito.


Eu dei de ombros, fingindo indiferença. Eu não sabia se eu seria uma mãe ruim.
Eu não sabia se eu seria uma boa mãe. Mas eu sabia que não seria uma boa mãe
como Tiffa Snook, não, de qualquer maneira. E esse era o ponto principal.

Quinta-feira veio. Eu tinha dormido mal durante toda a semana,


preocupada que Mason iria aparecer com os seus pais e que eles iriam pedir a
custódia de meu filho quando nascesse. Se isso acontecesse, eu manteria o meu
bebê. Dá-lo a Tiffa e Jack era uma coisa. Mas para Mason e seus pais era outra.
Então Mason estava desacompanhado no tribunal quando cheguei na quinta de
manhã. Ele era adulto e não precisava de permissão para o que estava prestes a
fazer. Eu me perguntava se ele tinha dito a seus pais. Ele usava uma gravata e
uma expressão de estado de choque e eu me senti mal mais uma vez.

Quando o juiz perguntou-lhe, certificando-se de que ele entendeu os seus


direitos, bem como os direitos que ele estava cedendo, ele acenou com a cabeça
e, em seguida, olhou para mim. Eu não sentia mais raiva. Ele parecia atordoado.
Com o tabelião olhando, ele assinou os documentos, e Tiffa e Jack se abraçaram
com força, como se também estivessem com medo dele voltar atrás. Senti-me
fraca com alívio e me esforcei para conter uma inundação repentina de emoção.
Assim que o processo foi terminado, eu encontrei Mason. Eu devia isso a ele.

— Obrigada, Mason — Eu disse em voz baixa, estendendo minha mão.

Mason lentamente pegou a minha mão estendida na sua. — Por que você
não me contou antes, Blue? Eu sei que nós nunca fomos sérios, mas eu... Eu
queria ser.

Foi a minha vez de ficar chocada. — Você queria? — Eu nunca pensei que
Mason gostasse de mim além do sexo. Ocorreu-me, então, que a minha baixa
opinião de mim mesma pode ter me cegado aos seus verdadeiros sentimentos.

— Eu sei que posso ser um idiota. Eu bebo muito, digo coisas que não
deveria e fico nervoso muito fácil. Mas você poderia ter me contado.

— Eu deveria ter feito isso — Eu aquiesci. Ficamos sem jeito, olhando


para todos os lugares, menos um para o outro.

— É melhor assim, Mason — Sugeri suavemente. Ele olhou para mim e


balançou a cabeça em seguida.

— Sim. Eu sei. Mas talvez um dia você vá me dar outra chance.

Não. Eu não faria isso. Mason era parte de um passado que eu não queria
repetir. Mas eu assenti não me comprometendo, grata que havia paz entre nós.

— Cuide-se, Blue.

— Você também, Mason — Eu me virei e fiz meu caminho até a porta.


Mason gritou atrás de mim, e sua voz parecia muito alta no tribunal quase vazio.

— Eu nunca imaginei você com um cara igual a Adam.

Virei-me e dei de ombros. — Nem eu, Mason. Talvez isso seja parte do
problema.
Capítulo Dezoito

Neon
— Por que a sua poltrona está no meio da sala?

— Eu gosto de me sentar debaixo da saída de ar.

— Você está com frio? Não tenha vergonha de aumentar o termostato.


Este espaço não é exatamente muito grande para aquecer.

— Wilson. É agosto, em Nevada. Eu não estou com frio.

— Então... Porque é que a poltrona está no meio da sala? — Wilson


insistiu.

— Eu gosto de ouvir você tocar à noite — Eu admiti facilmente para


minha surpresa. Eu não tinha planejado lhe dizer. — O som viaja através da
saída de ar.

— Você gosta de me ouvir tocar? — Wilson parecia chocado.

— Claro — Eu disse calmamente, encolhendo os ombros como se não


fosse grande coisa. — É muito bom — Bom era um eufemismo. — Eu continuo
querendo que você toque alguma coisa de Willie — Eu provoquei.

Wilson olhou cabisbaixo. — Willie?

— Sim, Willie — Eu insisti, tentando não rir. — Willie Nelson é um dos


maiores compositores de todos os tempos.

— Huh — Disse Wilson, coçando a cabeça. — Eu acho que não estou


familiarizado com o seu... Trabalho.
Ele parecia tão desconcertado que eu não conseguia me conter e comecei
a rir. — Willie Nelson é um cantor de música country - um clássico. Jimmy
amava. Na verdade, Jimmy meio que era parecido com ele, apenas a pele mais
escura e um pescoço menor. Jimmy usava tranças e bandana, e tinha todos os
álbuns que Willie tinha lançado. Nós ouvíamos as músicas várias vezes — Eu
realmente não sentia vontade de rir mais e de repente mudei de assunto.

— Há uma canção que você toca, que eu particularmente gosto —


Arrisquei.

— Sério? Cante uma parte.

— Eu não consigo cantar, dançar ou recitar poesia, Wilson.

— Só uma parte, então eu saberei que música você gosta.

Limpei a garganta, comprimi meus olhos fechados e tentei pensar na


melodia. Estava na minha cabeça, como uma corrente de água fria. Linda. Eu
tentei um par de notas e ganhando confiança, cantarolei um pouco mais, ainda
com os olhos fechados. Eu me senti muito satisfeita comigo mesma e abri um
olho para ver como o meu cantarolar havia sido recebido.

O rosto de Wilson estava vermelho e ele estava tremendo de tanto rir. —


Eu não tenho a menor ideia de qual a música que você está cantarolando, amor.
Talvez você poderia cantarolar mais algumas partes até que eu perceba qual é.

— Seu... Idiota! — Eu esbravejei, batendo nele enquanto ele ria mais


ainda. — Eu disse que não conseguia cantar! Pare com isso!

— Não... Realmente, foi brilhante — Ele ofegou, afastando-se. Desisti com


uma bufada e comecei a arrastar minha poltrona do meio da sala, indicando que
eu ouviria mais, agora que isso tinha saído e me envergonhado.

— Vamos lá, sinto muito. Aqui. Eu vou cantarolar para que você ria de
mim — Ele puxou a cadeira de volta, diretamente debaixo da saída de ar. —
Sente-se aqui e coloque os pés para cima — Ele me empurrou gentilmente na
poltrona e levantou meus pés para que eles estivessem apoiados no descanso de
pés da poltrona. — Melhor ainda, vou correr lá em cima buscar o meu violoncelo
e trazê-lo para baixo para tocar para você.

— Não estou interessada — Eu menti. O pensamento dele tocando seu


violoncelo para mim me fez sentir um pouco sem fôlego e tonta. Felizmente, ele
apenas riu e correu para fora do meu apartamento. Eu podia ouvi-lo voando
pelas escadas e o estrondo da sua porta acima de mim. Em poucos minutos ele
estava de volta, carregando o enorme estojo do violoncelo. Ele agarrou uma das
minhas cadeiras da cozinha sem braços, sentou-se na minha frente e tirou seu
violoncelo preto brilhante. Ele começou a afinar e apertar as cordas enquanto eu
observava, tentando esconder a minha expectativa.

— Perfeito — Aparentemente satisfeito, ele começou a correr o seu arco


sobre as cordas, encontrando uma melodia. Seus olhos encontraram os meus. —
Quando você ouvi-la, me diga.

— Por que você não apenas toca... Do jeito que faz quando está sozinho.
Eu vou apenas ouvir — Eu desisti de qualquer pretensão de não estar
interessada.

— Você quer que eu pratique? — Ele parou de tocar de repente.

— Sim. Basta fazer o que você faz todas as noites.

— Eu pratico por pelo menos uma hora na maioria das noites — Foi
falado como um desafio e eu respondi imediatamente.

— Eu sei — E eu sabia, muito bem. — Mas diga-me os nomes conforme


você segue, então quando eu ouvir você praticar a partir de agora, vou saber o
que está tocando. Será educacional — Acrescentei, sabendo que iria fazê-lo rir.
Ele riu. — Eu sou tudo sobre educação, você sabe.

— Sim, muito. A menina que mal podia esperar para chegar a minha aula
todos os dias, muito ansiosa para ouvir e aprender.

Se ele soubesse. Mas ele apenas sorriu para mim e ergueu as mãos para
tocar mais uma vez. Ele precisava de um corte de cabelo novo. Um cacho
castanho deslizou em seus olhos, e ele com impaciência empurrou-o de volta.
Ele inclinou a cabeça para o lado como se o violoncelo que ele segurava fosse
uma amante, sussurrando um segredo. O arco deslizou sobre as cordas, e ele
começou uma melodia. O som era tão doce e sensual - os tons baixos, tremendo
e misturando um ao outro - que eu quase suspirei alto. A música encheu a sala e
empurrou contra meu coração, exigindo entrar.

— Você conhece essa? — Ele perguntou enquanto tocava.

— Mary Had a Little Lamb32?

— Sempre atrevida, não é? — Ele suspirou, mas um sorriso pairou ao


redor dos seus lábios e as pálpebras caíram fechadas conforme ele continuava a
tocar. Observei-o, seus cílios compridos contra seu rosto sua bochecha, o
maxilar definido enfatizado pela leve sombra de barba por fazer. Seu rosto
estava sereno, perdido na música que ele estava criando. E eu fiquei
maravilhada que ele havia se tornado meu amigo. Eu me perguntei se havia
outros homens como ele. Homens que amavam a história, carregavam lenços e
abriam as portas para garotas... Até mesmo para as garotas como eu. Eu não
conhecia ninguém como ele. Eu me perguntei novamente sobre Pamela e se ele
estava apaixonado por ela.

— Isto é Brahms — Seus olhos se abriram, focando novamente em meu


rosto. Eu balancei a cabeça e mergulhei de volta no devaneio. Uma canção
sangrava para outra, e eu permiti que meus olhos se fechassem enquanto eu
ouvia. Eu me sentia pesada com a paz e o bem-estar, e me enrolei mais
profundamente na poltrona.

E então eu senti uma pancada. Oomph! Eu olhei para baixo maravilhada,


perplexa com a cutucada contra meu abdômen. A sensação veio novamente e eu
ofeguei.

— Wilson! Wilson venha aqui! O bebê... Está... Dançando!

32 Mary Had a Little Lamb - ("Maria tinha um carneirinho") é uma música para
crianças estadunidense do século XIX, cuja letra é atribuída a Sarah Josepha Hale.
Wilson estava ao meu lado de joelhos, quase antes que as palavras
saíssem da minha boca. Ele estendeu a mão para mim, e eu apertei a mão dele à
minha barriga, orientando-o para o movimento. Eu sentia o bebê se mover
muitas vezes, mas não como agora.

— Aqui! Aqui! Sente isso? — Os olhos de Wilson estavam grandes como


pires. Nós dois seguramos nossas respirações e esperamos. Uma cotovelada e
um chute.

— Ouch! — Eu ri. — Você tem que ter sentido isso! — Wilson moveu a
outra mão para cima da minha barriga com mais firmeza e apoiou sua bochecha
contra mim, escutando. Durante vários segundos, sua cabeça estava embalada
em mim, cachos escuros inclinados sobre minha barriga e eu resisti ao impulso
de correr minha mão pelo seu cabelo. O bebê então parou e, no entanto, Wilson
parecia relutante em se afastar.

— Foi à música — Eu sussurrei, na esperança de mantê-lo perto, só por


um minuto a mais. — Você estava tocando a música que gostamos.

Wilson olhou para mim e nossos rostos estavam tão perto, teria sido
muito fácil me inclinar para ele. Muito fácil... E completamente impossível. Ele
parecia surpreso com a minha proximidade e imediatamente se afastou.

— Essa era a música? — Um sorriso iluminou seu rosto.

— Sim. Qual era? — Eu perguntei

— Bob Dylan.

— O quê? — Eu lamentei. — Eu pensei que fosse Beethoven ou algo


assim. Agora eu sei que sou um lixo branco.

Wilson bateu-me na cabeça com o seu arco. — É chamada de “Make You


Feel My Love”. É uma das minhas canções favoritas. Eu há embelezo um pouco,
mas é Dylan, definitivamente não é Mozart. A letra é brilhante. Ouça. — Wilson
cantou baixinho enquanto tocava. Sua voz era muito intensa quando o
violoncelo gemeu.
— É claro — Eu disse acidamente.

— O quê? — Wilson parou, assustado.

— Você pode cantar. Você tem uma voz linda. Eu não posso fingir que
você é um merda. Porque não pode ser ruim em alguma coisa? É tão injusto.

— Você claramente não me viu tentar esculpir algo complexo e belo de


um toco de árvore — Disse Wilson secamente e começou a tocar novamente.
Retomei a ouvir, mas a música fez meus dedos coçarem para esculpir.

— Se você praticar no porão todas as noites, eu poderia ouvi-lo enquanto


esculpo. Então, gostaria de fazer esculturas que parecessem seus sons musicais.
Nós poderíamos fazer milhões juntos. Você seria a minha musa, Wilson. Os
homens podem ser musas?

Wilson sorriu, mas seus olhos novamente usavam aquele olhar sem foco,
como se seu poder de ver fosse absorvido por sua necessidade de ouvir. Fechei
os olhos também, deixando-me afastar em um mar de som. Acordei horas
depois no silêncio. Minha manta cor maçã verde estava dobrada ao meu redor e
Wilson e seu violoncelo mágico tinham ido embora.

Desde que me mudei para Pemberley, eu tinha adotado o hábito de


caminhar para o trabalho. Isso economizava dinheiro do combustível e fornecia
um pouco de exercício, mas como me aproximava do final do meu oitavo mês, o
calor, mesmo em meados de outubro, era quase suficiente para me fazer dirigir.
Mas eu nunca dirigia às segundas-feiras. Era à noite em que Wilson descia e
comia no café. Quando meu turno terminava, eu sempre me juntava a ele, e
caminhávamos para casa juntos.
Uma vez, apenas de passagem, eu disse a ele como eu costumava levar
para Manny e Gracie o jantar nas noites de segunda-feira então elas eram
sempre um pouco tristes para mim. Depois disso, Wilson começou aparecer no
café nas segundas-feiras à noite. Tentei não ler qualquer coisa em suas ações.
Ele era bom para mim, gentil e atencioso, e eu dizia a mim mesma que era
apenas quem ele era. Eu nunca questionei o tempo que passava comigo, nunca
comentei sobre isso, nunca chamei a atenção para isso. Eu me preocupava que
se eu fizesse, ele poderia parar.

Meu turno normalmente terminava às sete, e Wilson entrou naquela


segunda-feira, às sete em ponto. Ele ainda usava calça social e uma camisa azul
clara, enrolada na altura dos cotovelos. Era seu traje padrão da escola. Bev
piscou para ele e mandou-me ir em frente, mostrando-me o relógio. Então me
juntei a ele para um sanduíche e um copo de limonada, suspirando enquanto eu
mexia meus dedos dos pés e revirava meus ombros rígidos.

Bev assegurou-se de serviu à Wilson seu pedido padrão, tomate, queijo


grelhado com batatas fritas, embora Bev sempre as chamasse de chips, como se
para fazer Wilson se sentir em casa. Ele agradeceu e disse que tudo parecia
absolutamente “delicioso”. Ela riu como Chrissy costumava fazer na aula de
história. Era tudo que eu podia fazer para não rir bem alto.

— Acho que Bev tem uma queda por você, Wilson. Eu sei que você
provavelmente está acostumado com isso agora. Você não tem um fã clube na
escola? O clube “I Heart Wilson” ou algo assim?

— Ha, ha, Blue. Eu nunca fui totalmente popular com as garotas.

— Wilson. Não seja idiota. Você era tudo que Manny conseguia falar
durante todo o primeiro mês de aula.

— Manny não é uma garota — Comentou suavemente.

Eu ri. — É verdade. Mas acho que eu era a única que não estava seguindo-
o com a minha língua de fora. Era nojento. Agora até mesmo Bev se juntou ao
clube. Eu vi um adesivo em seu carro que dizia A bunda britânica me deixa
louca.

Wilson engasgou com a boca cheia de comida, rindo, e pegou sua


limonada para ajudar a descer. Eu adorava fazê-lo rir, mesmo que fosse
perigoso para a sua saúde.

Wilson se recuperou e balançou a cabeça, negando a minha afirmação de


que ele era popular com as garotas. — Eu sempre fui o nerd da orquestra - que
os americanos chamam... Geeks da banda? Eu me dava melhor com meus
professores do que com meus colegas. Eu era o garoto magricela com óculos e
pés grandes que sabia todas as respostas em sala de aula e que se oferecia para
limpar os quadros depois da aula.

— As crianças realmente fazem isso? — Eu o interrompi, incrédula.

Wilson apenas revirou os olhos para mim e continuou. — Eu não era


nenhum ímã de garotas, especialmente com garotas como você... Por isso o fato
de que você não se impressionou comigo no ano passado, bem, isso não mudou.
E isso sempre foi bom para mim. Meninas nunca estavam no topo da minha
lista de prioridades. Não me entenda mal, eu observei as garotas como você,
mas não gostava de garotas especialmente como você. E garotas como você
nunca notam caras como eu.

— O quê? As vadias horríveis, você quer dizer? — Eu disse isso


suavemente, fingindo que estava brincando. Eu não estava. Suas palavras
arderam, mas “garotas como eu” se adaptavam com as mudanças.

— Não, Blue — Ele balançou a cabeça, exasperado. — Não foi isso que eu
quis dizer. Garotas lindas, duronas, que cresceram muito rápido e que
comeriam caras como eu e os cuspiriam de volta.

— Sim. Como eu disse. As vadias horríveis — Eu empurrei o meu prato e


bebi ruidosamente, indicando tinha acabado. Levantei-me, comunicando o fim
da nossa conversa e o fim da nossa “refeição aconchegante”. Wilson apenas
olhou para mim, e eu poderia dizer que eu o tinha deixado com raiva. Muito
ruim. Eu sorri para ele lentamente, com sarcasmo, mostrando muitos dentes. O
que foi uma conversa alegre, de repente, tinha assumido um tom diferente. Ele
passou as mãos pelos cabelos e empurrou o prato também. Ele jogou algumas
notas sobre a mesa e se levantou. Ele caminhou em direção ao caixa, longe de
mim, me dispensando. Então pagou por ambas as refeições e saiu do café.
Acenei para Beverly, que me soprou um pequeno beijo.

— Vejo você amanhã, Blue. Diga a Wilson que eu disse adeus.

Wilson estava me esperando do lado de fora com as mãos enfiadas nos


bolsos e o rosto inclinado em direção ao pôr do sol. Uma das minhas coisas
favoritas sobre o deserto era o pôr do sol. O céu sob as colinas mais baixas ao
oeste emitia ondulações rosa e roxo para o céu ao cair da noite. Talvez fosse
porque não havia nada para obscurecer a visão - Las Vegas se localizava no vale,
e Boulder City ficava mais alta, no sudeste, ao redor da curva das colinas do
leste - mas o pôr do sol nunca deixou de me mover e lembrar-me do tempo com
Jimmy, quando eu não era tão dura, quando não tinha que ter crescido tão
rápido. Wilson não falou quando me aproximei e começamos a caminhar em
silêncio. O meu aumento de tamanho me obrigava a gingar, mas Wilson
ajustava seu passo conforme caminhamos para casa.

— Por que você faz isso? — Wilson eventualmente disparou. Eu sabia que
ele estava pensando feito um louco.

— Fazer o quê?

— Assumir o pior. Colocar palavras na minha boca, chamar-se de nomes,


tudo isso. Por quê?

Eu pensei por um minuto, perguntando como eu poderia fazer alguém


como Wilson entender como era ser uma “garota como eu”.

— A primeira vez que fiz sexo eu tinha quatorze anos, Wilson. Eu


necessariamente não queria, mas foi. Ele era um menino mais velho, e eu
gostava de sua atenção. Ele tinha dezenove anos, e eu era uma presa fácil — Eu
dei de ombros. — Eu tive sexo muitas vezes desde então. Algumas pessoas
podem dizer que isso me faz uma puta, e o fato de que não peço desculpas por
isso pode me qualificar como uma. Chamar-me de vadia horrível é leve, se você
olhar para isso dessa forma. Eu não estou orgulhosa disso - e estou tentando
mudar - mas é a verdade, e não estou realmente interessada em dar desculpas
para mim.

Wilson tinha parado de andar e estava olhando para mim. — Quatorze!


Isso não foi sexo. Foi estupro, Blue.

— Sim, Wilson. De muitas maneiras, isso foi.

— Droga! — Wilson sussurrou incrédulo. — Eu malditamente não


acredito nisso! — Então ele gritou: — Droga! — Desta vez disse tão alto, que
algumas pessoas que atravessam a rua pararam e olharam. Uma mulher estava
dirigindo seu carro com a janela abaixada quando ele gritou, e ela franziu o
cenho para nós. A pobre mulher pensou que Wilson estava gritando com ela.

— Deixe-me adivinhar, nada aconteceu com ele? Certo? — Wilson virou


para mim como se eu estivesse furiosa com ele. Eu sabia que não estava. Na
verdade, a raiva de Wilson era incrivelmente válida. Descobri que lhe dizer não
me afligia e, pela primeira vez, a lembrança não fez meu interior tremer.

— O que você quer dizer? Claro que não. Eu disse a Cheryl, ela se
certificou que eu tomasse a pílula, e eu... Superei.

— Aaah! — Wilson gritou de novo, chutando uma pedra e a fazendo voar.


Ele resmungou e xingou, parecia incapaz de falar racionalmente, então eu
caminhei ao lado dele, esperando-o. Depois de um alguns quarteirões, ele
estendeu a mão e pegou a minha mão na sua. Eu nunca tinha segurado a mão de
um garoto enquanto caminhava ao lado dele. A mão de Wilson era muito maior
do que a minha, e ele a engolia, me fazendo sentir delicada e querida. Era
incrivelmente... Sexy. Se eu não tivesse extremamente grávida, se eu não tivesse
acabado de confessar meu passado feio, eu poderia ter feito um movimento em
Wilson logo em seguida. Eu poderia ter pegado seu maravilhoso rosto em
minhas mãos e o beijado até que nos enrolássemos um ao redor do outro no
meio da calçada.
Eu ri silenciosamente de mim mesma e afastei o pensamento. Eu tinha
certeza que Wilson iria correr gritando para as montanhas, se eu alguma vez
fizesse uma jogada nele. Essa não era a natureza da nossa relação. Essa
definitivamente não era a natureza dos seus sentimentos por mim. Além disso,
com a barriga gigante do jeito que estava, aproximar poderia ser impossível.
Caminhamos até o pôr do sol desaparecer e o crepúsculo ofuscou nosso ponto
de vista. As luzes da rua começaram a piscar quando nos aproximávamos de
Pemberley.

— Faça um pedido! — Eu gritei, puxando a mão de Wilson. — Depressa!


Antes que todas as luzes se acendam! — Na área de Vegas, o céu noturno sempre
tinha um tom alaranjado. O neon e a vida noturna juntos deixavam quase
impossível ver as estrelas. Então, eu tinha criado minha própria variação do
pedido para as estrelas. Eu pedia para a iluminação pública em vez disso.

Eu apertei meus olhos fechados e agarrei a mão de Wilson, encorajando-o


a fazer o mesmo. Corri mentalmente através de uma ladainha de desejos, alguns
deles os mesmos pedidos que sempre fazia - riquezas, fama, nunca ter que
raspar minhas pernas novamente - mas havia novos, também. Estalei meus
olhos abertos para ver se os tinha adquirido antes da última rua acender. O
último zumbiu e brilhou enquanto eu observava.

— Incrível! — Eu bati meu quadril no de Wilson. — Esses pedidos estão


definitivamente se tornando realidade.

— Eu não posso continuar, Blue — Disse Wilson suavemente. — Estou


sempre cambaleando com você. Então quando eu acho que sei tudo o que há
para saber, você revela algo que absolutamente me arrebata. Eu não sei como
você sobreviveu, Echohawk. Eu realmente não sei. O fato de que você ainda está
fazendo piadas e desejando para postes é um pequeno milagre — Wilson
estendeu a mão como se fosse tocar meu rosto, mas a deixou cair no último
segundo. — Lembra-se da vez na sala de aula quando eu perguntei-lhe por que
você estava tão brava?

Eu me lembrava. Eu tinha sido uma pirralha. Eu balancei a cabeça.


— Eu pensei que tivesse tudo calculado para mostrar que você não era tão
importante como achava. E então eu descobri por que você estava tendo
dificuldades em escrever a sua história pessoal. Eu me senti como um idiota
total.

Eu ri e fiz um gesto de vitória com a mão livre. — Esse era o objetivo,


Wilson. Faça o professor sentir pena de você. Isso realmente ajuda a classe.

Wilson só olhou para mim e eu poderia dizer que ele não estava
acreditando. Ele começou a subir os degraus para a casa, soltando minha mão e
pegando suas chaves.

— Para constar, Blue, eu não acho que você seja uma vadia horrível —
Disse sobriamente, e eu quase ri da maneira como essas palavras soaram saindo
de sua boca. — Admito que quando você entrou na minha classe no primeiro
dia, eu pensei exatamente isso de você. Mas você me surpreendeu. Há muito
mais em você do aquilo que aparenta.

— Há muito mais na maioria das pessoas do que aparenta, Wilson.


Infelizmente, muitas vezes não é boa coisa. É uma coisa assustadora, coisa
dolorosa. Você sabe tanta coisa assustadora e dolorosa sobre mim, que é uma
maravilha que ainda esteja por perto. Você me prendeu muito bem desde o
início, eu diria. No entanto, está errado sobre uma coisa. As meninas como eu
notam caras como você. Nós apenas não achamos que merecemos.

Wilson deixou as chaves caírem imediatamente. Eu gemi por dentro e


gostaria de ter mantido minha boca fechada. Ele se inclinou, pegou as chaves e
depois de várias tentativas, destrancou a porta de entrada e abriu-a. Ele esperou
até que eu entrasse e depois me seguiu para dentro, fechando a porta atrás de
nós. Sempre um cavalheiro, ele parou do lado de fora do meu apartamento. Ele
parecia estar procurando as palavras certas e pela primeira vez eu não o
provoquei ou tentei ser engraçada. Eu só esperei, me sentindo um pouco
desesperada por ele saber aqueles meus segredos mais obscuros e parecia estar
lutando com eles.
Ele encontrou sua voz finalmente, e fixou seus olhos melancólicos em um
ponto além de mim, como se ele estivesse relutante em encontrar o meu olhar.

— Eu continuo desejando que você tivesse uma vida melhor... Uma vida
diferente. Mas uma vida diferente teria feito você uma Blue diferente — Então
ele olhou para mim. — E essa seria a maior tragédia de todas — Com uma
pequena sombra de um sorriso, ele levantou a minha mão aos lábios - Mr. Darcy
até o fim - e, em seguida, virou-se e subiu as escadas. Naquela noite eu fiquei
sentada no escuro esperando que Wilson tocasse. Mas não havia cordas para me
amarrar em nós de seda. Gostaria de saber se Pamela, a loira bonita com pele
perolada e dentes perfeitos, estava com ele. Talvez por isso não houvesse
música. Eu acho que deveria ser grata que não havia gemidos e declarações de
amor que vinham através da saída de ar. Estremeci com o pensamento e o bebê
chutou, fazendo-me recuperar o fôlego e levantar a camisa para que eu pudesse
ver a minha barriga. Era tão estranho... E tão legal. Minha barriga revirou,
levantando e baixando como uma onda do mar.

— Nenhuma música ainda, docinho. Wilson está se escondendo de nós.


Eu cantaria, mas prometo que é pior do que nenhuma música. Minha barriga
revirou de novo, e eu me aliviei em uma posição diferente, tentando ficar
confortável, tentando apreciar o desconforto. Não seria por muito tempo.
Momentos como estes estavam desaparecendo. Eu os senti escorregarem
conforme os dias iam passando, e os dias passados foram se acumulando.
Eventualmente, esse momento iria se juntar aos outros. E finalmente o amanhã
viria e meu bebê nasceria. E eu seria apenas Blue novamente.

Eu estava cansada, e meus olhos ficaram pesados . Em algum lugar entre


a vigília e o sono, a memória brilhou para a superfície, e eu assisti isso como um
sonho passando como uma reprise na velha TV.

— Jimmy, que tal encontrar uma nova mãe? — Eu tinha me arrastado


para cima de uma árvore com galhos baixos pendurados e subi até que eu
estava deitada no galho acima de Jimmy. Suas mãos deslizaram ao longo do
pedaço retorcido de cedro que ele estava descascando.
— Por quê? — Jimmy respondeu depois de alguns segundos.

— Você não gostaria que tivéssemos uma mãe? — Eu perguntei,


apreciando a paisagem de cima. Isso me dava uma visão interessante da
cabeça grisalha de Jimmy. Eu deixei cair uma pinha em cima dele, que quicou
em sua cabeça sem causar danos. Ele nem mesmo a esmagou.

— Eu tive uma mãe — Ele resmungou.

— Mas eu não! E eu quero uma! — Mais duas pinhas acertaram o alvo.

— Coloque um avental em Icas — Jimmy pegou seu chapéu e o colocou,


a sua resposta para barrar as pinhas.

— Icas fede e tem beijos piegas. Mamãe não tem a respiração de um cão
— Eu dobrei meu joelho sobre o galho e balancei um braço e uma perna.
Descendo, eu arranquei o chapéu de Jimmy de sua cabeça. — Talvez Bev possa
ser a nossa nova mãe. Ela gosta de você e gosta de mim, e faz realmente bons
sanduíches de queijo — Eu coloquei o chapéu de Jimmy em minha cabeça e
desci para o chão, realmente não me importando com a sensação de alfinetes e
agulhas em meus pés quando eu atingi na terra.

— Eu acho que gosto das coisas do jeito que estão, Blue.

— Sim. Eu acho — Peguei um pedaço menor de cedro, um martelo e uma


lâmina e comecei a tirar a casca, imitando os movimentos constantes de meu
pai.

— Talvez pudéssemos adotar um bebê — Eu sugeri.

A lâmina de Jimmy mordeu profundamente na madeira e ele


amaldiçoou sob sua respiração... Algo sobre o inferno congelar de novo.

— Eu seria uma boa mãe, eu acho — Eu disse séria, assinalando minhas


realizações. — Gostaria de compartilhar minha cama com ela. Eu poderia
ensiná-la a engatinhar. Eu, obviamente, sei como andar, de modo que não
seria um problema. No entanto, você teria que trocar as fraldas. Ou talvez a
gente pudesse ensiná-la a fazer cocô lá fora, como Icas.

— Hmmm — Jimmy suspirou, me afastando.

— Eu poderia ser a mamãe, você poderia ser o vovô. Gostaria de ser um


vovô, Jimmy?

Jimmy parou de esculpir, as mãos caindo para os lados. Ele olhou para
mim com sobriedade, e me espantei com as linhas profundas ao redor da sua
boca que eu realmente não tinha notado antes. Jimmy já meio que parecia um
vovô.

Melodias musicais encontraram o seu caminho através da saída de ar e


me balancei sonolenta, a lembrança / sonho ainda pairava no ar como uma
sugestão de perfume. Eu tinha avós em algum lugar. Minha mãe deveria ter
alguma família. E se não, o que aconteceu com a família do meu pai? Será que
eles sabiam que eu existia? Será que tinham procurado por mim?

Eu estava no escuro ouvindo Wilson tocando as canções que eu, agora,


tinha nomes para elas. Eu poderia identificar muitas delas nas primeiras notas.
No entanto, eu poderia passar pelo meu avô – até mesmo pelo meu próprio pai!
- amanhã e não reconhecê-lo. Meu bebê mexeu dentro de mim novamente. Um
dia meu bebê iria querer saber, não importava o quanto ele ou ela estivessem
envoltos em amor e família. Algum dia ele ou ela precisaria saber. E isso
significava que eu tinha que descobrir.
Capítulo Dezenove

Página em Branco
O recinto cheirava como seria de esperar de uma delegacia. Cheirava
autoridade. A café, água de colônia, uma pitada de água sanitária e eletrônicos...
Você conhece o cheiro. No entanto, eu não senti o cheiro de donuts. Eu achei
que a coisa de polícia e donuts era apenas um estereótipo. Mais rótulos.

Aproximei-me da recepção, ocupada por uma mulher enorme, com um


coque apertado e uma sugestão de bigode. Sua aparência não incentivava a
contar um segredo.

— Posso ajudar? — Sua voz era um completo contraste com sua


aparência. Era doce e amável, e me fez lembrar Betty White33. Eu me senti
melhor quase que imediatamente.

— Eu não sei se você pode me ajudar, mas talvez possa me orientar.


Gostaria de saber se existe um policial aqui com o sobrenome de Bowles? Acho
que ele se lembrará de mim. Trata-se de um caso de pessoa desaparecida com o
qual esteve envolvido cerca de dez anos atrás.

— Nós temos um detetive Bowles. Será que você gostaria que eu visse se
ele está no local?

Bowles não era um nome extremamente incomum, e eu sabia que havia


uma chance de que não fosse o mesmo cara, mas acenei de qualquer maneira.
Era um começo.

— Eu poderia saber o seu nome, por favor?

33 Betty White- Betty Marion White é uma apresentadora, atriz, comediante e escritora americana,
premiada com sete Emmys durante sua carreira.
— Blue Echohawk — Isso tornaria mais simples. Se Detetive Bowles não
reconhecesse meu nome, não seria o mesmo oficial que eu tinha conhecido.

A mulher que engoliu Betty White falou docemente em seu fone de


ouvido, obviamente tentando localizar Detetive Bowles. Eu desviei o olhar,
dando uma olhada ao redor. Este edifício era muito mais velho do que a
delegacia de polícia que tinham me levado em 2001. Aquela delegacia ficava em
Las Vegas em algum lugar e era completamente nova. Tinha cheiro de tinta nova
e serragem, que na época foi muito reconfortante. Para mim, o cheiro da
serragem foi, provavelmente, o equivalente a cookies com gotas de chocolate
quente fora do forno.

— Blue Echohawk? — Virei-me quando um homem musculoso, de meia-


idade se aproximou. Ele era familiar e eu resisti à vontade de virar e correr
quando meu coração começou a bater. Será que eu ficaria em apuros por não ter
apresentado esta informação antes? Será que Cheryl ficaria? Um sorriso
apareceu em seu rosto quando a surpresa o fez rir e estender sua a mão em
saudação.

— Eu serei amaldiçoado. Quando todas as coisas aconteceram na escola


em janeiro passado, eu queria entrar em contato e dizer olá e avisá-la como eu
estava orgulhoso de você, mas pensei que talvez você estivesse sobrecarregada
com todo o falatório e atenção da mídia na época.

— Eu pensei que o vi naquele dia. É por isso que estou aqui. Eu achei que
você tinha que estar trabalhando aqui em Boulder City agora e - eu sei que isso é
um pouco estranho - acho que você pode ser capaz de me ajudar. Eu não estou
em apuros! — Corri para adicionar e ele sorriu de novo. Ele parecia
genuinamente feliz em me ver.

— Eu sabia que não poderia haver duas Blue Echohawk no mundo, mas
admito, eu ainda a imaginava com dez anos de idade — Ele olhou para a minha
barriga saliente em surpresa. — E você vai ser mãe em breve, pelo que parece! —
Minha mão escorregou para a minha barriga, sem jeito. Eu balancei a cabeça e
agarrei a mão que ele estendeu em minha direção, sacudindo-a com firmeza
antes de soltá-la.
— Candy? — Detetive Bowles dirigiu sua pergunta para a senhora
atenciosa na recepção. — Será que a sala D está disponível?

Doce?? Oh, pobre mulher. Ela precisava de um nome forte para


acompanhar aquele quase bigode.

Candy sorriu e acenou com a cabeça, o tempo todo falando em seu fone
de ouvido.

— Por aqui — Detetive Bowles começou a caminhar. — Posso chamá-la de


Blue?

— Claro. Do que eu o chamo?

— Detetive... Ou Andy está bem, também.

Ele me levou para uma pequena sala e puxou uma cadeira. Eu me


perguntei se eles usavam estas salas para interrogar assassinos e membros de
gangues. Estranhamente, tinha me sentido muito mais nervosa no Planned
Parenthood.

— Então fale comigo. O que a traz para mim depois de todo esse tempo?
— O Detetive Bowles cruzou os bíceps protuberantes sobre o peito e recostou-se
na cadeira.

— O corpo de meu pai foi encontrado três anos depois de ter


desaparecido. Eu não sei se você sabia disso. Foi-me dito pelo meu assistente
social e eu não sei o que aconteceu ao término de suas coisas... O que
exatamente a polícia fez. Eu estou supondo que foi documentado e o caso foi
encerrado em algum momento? — Eu não sabia se estava usando a terminologia
correta. Como a maioria das pessoas, eu tinha visto alguns programas policiais.
Eu me sentia um pouco tola tentando soar como se tivesse alguma ideia do que
estava falando.

— Eu sabia, na verdade. Sinto muito pela sua perda — Detetive Bowles


inclinou a cabeça, sabendo que havia mais por vir.
— Min... Tia... — Minha voz sumiu. Ela não era minha tia, mas por causa
da história eu precisava mantê-la simples, mas honesta. Eu ajustei isso
ligeiramente. — Uh... A mulher que me acolheu me disse algo naquela época que
eu não acho que a polícia soubesse. Eu não sabia... Você sabe — Eu não estava
fazendo nenhum sentido.

Detetive Bowles apenas esperou.

— Eu não quero deixá-la em apuros. Ela deveria ter falado... Mas tinha
suas razões, eu acho.

— Você quer um advogado — Perguntou o detetive Bowles suavemente.


Eu olhei para ele em confusão.

— N... Acho que não. Eu não cometi um crime. Eu era uma criança.
Nunca me ocorreu que eu poderia ir à polícia com o que ela me disse. E estou
esperando que isso não seja sobre Cheryl Sheevers ou qualquer outra pessoa.
Trata-se de mim. Estou tentando descobrir quem era minha mãe.

— Se bem me lembro, ninguém parecia saber quem era sua mãe, correto?

Eu balancei a cabeça. — Mas depois que o corpo de Jimmy Echohawk foi


encontrado, Cheryl me disse que ele não era meu pai.

Detetive Bowles estava sentado um pouco mais reto. Eu definitivamente


tinha a sua atenção. — Como é que ela sabia disso?

— Ela me disse que Jimmy parou para passar a noite em uma parada de
caminhões em Reno. Sentou-se em uma grande mesa no restaurante para ter
algo para comer, e cerca de vinte minutos em sua refeição uma menininha
sentou-se em frente a ele. Ela havia estado aparentemente dormindo do outro
lado desta grande mesa redonda, e ele ainda não a tinha visto lá. Ele ofereceu a
menininha suas batatas fritas. Ela não chorou, mas estava com fome e comeu
tudo o que ele lhe deu. Ele acabou ficando sentado ali com ela, esperando que
alguém a reclamasse — Eu olhei para Detetive Bowles cujos olhos tinham ficado
maiores, saltando para a conclusão óbvia.
— Você teria que conhecer Jimmy. Ele definitivamente caminhava em um
ritmo diferente. Ele não viveu como as outras pessoas viviam, e definitivamente
não respondeu da forma que alguém teria respondido. Ele era gentil, mas
também era reservado... E muito... Calmo e... E despretensioso. Eu só posso
imaginá-lo, olhando ao redor, tentando descobrir o que no mundo fazer com
esta criança, mas não dizendo uma palavra. Eu juro, ele não teria falado em uma
sala de emergência se tivesse um machado em sua cabeça.

Andy Moody assentiu, ouvindo e me encorajando.

Fiz uma pausa, a lembrança pronta nos limites da minha mente... Mas
ainda nebulosa. Eu realmente não sabia se era uma lembrança verdadeira ou se
eu havia apenas imaginado tantas vezes que parecia dessa forma. — De qualquer
forma, eventualmente, uma mulher veio até a menininha. Jimmy pensou que
talvez a menina estivesse perdida e sentada na mesa sozinha. Mas da forma
como a mulher agiu, ela tinha colocado a menininha na mesa de propósito, e a
deixado dormir enquanto ela saia e jogava bilhar.

Detetive Bowles balançou a cabeça em descrença. — E essa menininha


era você.

— Sim — Eu disse com franqueza. Eu continuei a dizer-lhe o que Cheryl


tinha me dito, sobre a crença de Jimmy que a minha mãe o tinha seguido de
volta ao seu trailer e sobre a porta do lado do passageiro quebrada. Eu disse a
ele como fui encontrada na manhã seguinte, como Jimmy tinha me
reconhecido, e como não sabia o que fazer. — Poucos dias depois, a polícia
apareceu na parada de caminhões, mostrando um panfleto com o rosto da
mulher nele, perguntando sobre uma criança. O proprietário da parada de
caminhões, que tinha comprado algumas esculturas de Jimmy e foi bastante
simpático com ele, disse-lhe que a mulher tinha aparecido morta no hotel local.
Os policiais tinham vindo, porque a mulher estava usando uma camiseta com o
logotipo da parada de caminhões. Foi então que Jimmy seguiu em frente e me
levou com ele.

Por este ponto, o detetive Bowles estava rabiscando freneticamente, seus


olhos lançando-se do seu papel para o meu rosto enquanto eu falava.
— Em resumo, minha mãe me abandonou em uma parada de caminhões
em Reno. Ela apareceu morta em um hotel na região alguns dias depois. Com
essa informação, eu me perguntava se você poderia descobrir quem era ela.

Detetive Bowles olhou para mim, seu maxilar pulsando e piscando


rapidamente. Ele não tinha uma boa cara de blefe. — Você sabe
aproximadamente quando isso teria sido?

— Agosto. Eu sempre achei que meu aniversário era 02 de agosto. Mas


como Jimmy saberia quando meu aniversário era? Eu acho que ele marcou o
meu aniversário no dia em que minha mãe me abandonou. Eu não posso ter
certeza disso, mas é o meu melhor palpite. Cheryl disse que ela pensou que eu
tivesse dois anos, quando tudo isso aconteceu. Deveria ser em 1992 ou 1993.
Isso ajuda?

— Sim. Isso ajuda. Agosto de 92 ou 93. Quarto de hotel. Criança


desaparecida. Camiseta com o logotipo da parada de caminhões. O que mais
você pode me dar? Qualquer coisa?

— Ela era jovem... Talvez mais jovem do que sou agora — O pensamento
me ocorreu muitas vezes nos últimos meses. — Ela era nativa americana, como
Jimmy. Eu acho que poderia ser uma das razões por ter me deixado com ele —
Talvez eu estivesse me enganando. Mas era algo para me agarrar.

— Eu vou fazer algumas ligações. Este caso foi, obviamente, nunca


resolvido, porque nunca encontramos você, não é? O departamento de Reno
terá que procurar nos arquivos, fazer um pouco de pesquisa, pode levar alguns
dias, mas vamos descobrir quem sua mãe era, Blue.

— E descobrir quem eu sou.

Detetive Bowles olhou para mim e, em seguida, balançou a cabeça


lentamente, como se a compreensão fosse impressionante. — Sim. Você, pobre
garota. E descobriremos quem você é, também.
— Eu estou indo para Reno.

— Reno?

— Reno, Nevada — Wilson era britânico. Talvez ele não soubesse onde
era Reno. — É em Nevada, mais para o Norte. Trata-se de uma viagem de oito
horas. Eu posso voar, mas estou longe demais para que isso seja seguro. Eu nem
mesmo sei que eles me deixariam voar.

— Por que Reno?

— Eu fui ao departamento de polícia na segunda-feira.

Os olhos de Wilson se arregalaram e ele estava muito quieto.

— Eu disse a eles tudo o que sabia... Sobre mim, sobre a minha mãe...
Sobre Jimmy — Eu me senti estranhamente com vontade de chorar. Eu não me
sentia assim quando falei com o Detetive Bowles na segunda-feira. Mas ele tinha
me ligado de volta esta manhã. E estava animado. Eu tive a sensação de que a
vida que eu estava tentando construir para mim seria desfeita mais uma vez.

— O Detetive com quem eu falei... Ele disse que houve uma mulher que
foi encontrada morta em um quarto de hotel em Reno, em 1993. Esta mulher,
aparentemente, tinha um filho. A criança nunca foi encontrada. Os detalhes
correspondem com o que me disse Cheryl. Eles querem que eu vá para Reno dar
uma amostra de DNA e ver se eu sou a criança desaparecida.

— Eles serão capazes de lhe dizer isso? — Wilson soou tão surpreso
quanto eu.

— Não imediatamente. Aparentemente, quando perceberam que havia


uma criança desaparecida, eles colheram uma amostra de DNA da mulher e está
em algum banco de dados nacional.
— Em quanto tempo eles vão saber?

— Meses. Não é como na TV, eu acho. Detetive Bowles disse que ele já
teve que esperar um ano pelos resultados de DNA, mas acha que isso será uma
prioridade, por isso não deve demorar muito.

Wilson bufou. — Bem, quanto mais cedo você chegar lá e dar-lhes uma
amostra, mais cedo você vai saber, certo?

— Sim — Eu me sentia enjoada.

— Eu vou com você.

— Você vai? — Fiquei surpresa e estranhamente tocada.

— Você não pode ir sozinha. Não quando você está no final.

— Eu tenho duas semanas.

Wilson acenou para longe e pegou rapidamente o celular, fazendo


arranjos para um substituto para a quinta-feira e sexta-feira, bem como reservas
em um hotel de Reno, tudo em questão de minutos.

— Você disse à Tiffa? — Ele fez uma pausa com o telefone na mão,
olhando para mim. — Ela vai querer saber.

Liguei para Tiffa e, como se viu, Tiffa não só queria saber, ela queria vir.
Ela realmente não queria que eu fosse, mas Wilson só balançou a cabeça e
pegou o telefone de mim.

— Ela tem que ir, Tiff. Ela precisa — Então Tiffa decidiu que a melhor
coisa a fazer era simplesmente ir junto. Jack estaria em Reno para uma
convenção médica no sábado e domingo de qualquer maneira, e ela tinha se
debatido em se juntar a ele. Ela iria apenas voltar alguns dias mais cedo para
que pudesse estar comigo. O status mamãe bebê estava ficando um pouco velho,
eu disse a mim mesma irritada. Eu fui muito independente por tanto tempo, me
sentia estranha precisando comunicar minhas idas e vindas para alguém.
Secretamente, porém, eu estava emocionada que ela se importava tanto.

— Viagem rodoviária! — Ela gritou vindo através da minha porta, duas


horas depois com a mala na mão, óculos de sol e usando um daqueles grandes
chapéus que de praia. Ela parecia pronta para um dia em um iate. Eu ri e
permiti que ela me puxasse para um grande abraço com um beijo na minha
barriga e um bem minha bochecha. Eu sempre pensei que os ingleses deveriam
ser menos efusivos, menos demonstrativos que os americanos. Isso
definitivamente não era verdade onde Tiffa estava em causa.

— Nós vamos de Mercedes! Eu não vou apertar essas longas pernas na


parte de trás do Subaru, Darcy!

— Tudo bem. Mas eu vou dirigindo e você ainda está sentando na parte
de trás — Disse Wilson agradavelmente.

— Por favor! Eu só vou me sentar e relaxar, talvez ler, talvez cochilar um


pouco.

Ela não leu uma palavra. Ou acomodou-se. E ela definitivamente não


cochilou... Que eu aprendi que significava dormir. Ela conversou, riu e brincou.
E eu aprendi algumas coisas sobre Wilson.

— Será que Darcy lhe disse como ele queria seguir os passos de St.
Patrick?

— Tiffa... Por favor, você pode apenas dormir? — Wilson gemeu, soando
um pouco como um de seus alunos.

— Alice tinha acabado de completar dezoito anos - terminando a escola,


querendo umas férias emocionantes. Eu nem estava morando em casa. Eu tinha
vinte e dois anos e trabalhava em uma pequena galeria de arte em Londres, mas
todo ano, tínhamos um feriado familiar. Gostávamos de ir a algum lugar por
umas semanas, geralmente em algum lugar ensolarado e quente, onde o papai
poderia descansar um pouco. Alice e eu queríamos ir para o sul da França, e
meu pai também. No entanto, o pequeno Darcy estava obcecado com essa ideia.
Ele queria ir para a Irlanda - frio, molhado, e VENTAVA como Manchester
nessa época do ano. Por quê? Porque o rapaz precoce tinha acabado de ler um
livro sobre Saint Patrick. Mamãe, é claro, pensou que era maravilhoso, e todos
nós acabamos perambulando por uma maldita colina com botas sloshy, lendo
panfletos.

Eu ri e lancei uma olhada ao pobre Wilson. — St. Patrick era fascinante —


Ele deu de ombros, sorrindo.

— Oh, Caramba! Aqui vamos nós! — Tiffa gemeu teatralmente.

— Ele foi sequestrado da sua casa aos quatorze anos, acorrentado,


colocado em um barco e mantido como escravo na Irlanda até que ele tinha 20
anos de idade. Em seguida, ele conseguiu atravessar a Irlanda, entrar em um
barco com nada mais do que as roupas do corpo e retornou para a Inglaterra,
um milagre em si. Sua família estava muito feliz com seu retorno. A família de
Patrick era rica e educada, e Patrick teria tido uma vida confortável. Mas ele não
conseguia tirar a Irlanda da sua cabeça. Ele sonhava com isso. Em seus sonhos,
ele alegou que Deus lhe disse para voltar para a Irlanda para servir as pessoas de
lá. Ele voltou... E acabou por servir as pessoas na Irlanda para o resto de sua
vida! — Wilson balançou a cabeça com fascinação, como se a ainda considerasse
a história.

Pensei que St. Patrick era apenas um duende irlandês. Eu nunca tinha
pensado nele como uma pessoa de verdade. Ou um santo de verdade. Era
apenas um feriado.

— Então, quantos anos você tinha quando descobriu St. Patrick? — Eu


provoquei.

— Doze! Ele tinha malditos doze anos! — Tiffa gritou do banco de trás,
fazendo todos rirem. — Quando Darcy nasceu ele estava usando uma pequena
gravata borboleta e suspensórios.

— Suspensórios? — Eu ri.
— Suspensórios — Wilson forneceu secamente.

— Ele sempre foi um nerd absoluto — Tiffa gargalhou. — Isso, minha


querida Blue, é por isso que ele é brilhante. E maravilhoso.

— Não tente ser boa para mim agora, Tiff — Wilson sorriu, encontrando
seu olhar pelo espelho retrovisor.

— Tudo bem. Eu não vou. Você sabia que ele ia ser um médico, Blue?

— Tiffa! — Wilson gemeu.

— Sim... Na verdade. Eu sabia disso — Eu dei um tapinha no ombro de


Wilson.

— Ele não foi feito para isso. Ele seria completamente miserável. Papai
viu o quão brilhante era Darcy e só assumiu que significava que ele deveria ser
um “homem da medicina” como ele era, e seu pai antes dele e seu avô. Mas
Darcy era brilhante em todos os caminhos que não tinham nada a ver com
ciência, não é amor?

Wilson apenas suspirou e balançou a cabeça.

— Darcy sempre teve o nariz em um livro. Ele usava palavras enormes e


as usava corretamente... Pelo menos eu acho que ele o fazia. Ele amava a
história, a literatura, a poesia.

— Você já o ouviu citar Dante? — Eu interrompi.

Os olhos de Wilson dispararam aos meus.

— O que era aquele poema encantador que você compartilhou conosco...


Sobre harpias? — Eu questionei.

Wilson riu da lembrança e citou as linhas obedientemente.

Tiffa gemeu: — Isso é horrível!


— Eu achava assim, também — Eu ri. — No entanto, não conseguia
esquecê-lo. Acabei esculpindo “Bird Woman” como resultado.

— Foi isso que inspirou “Bird Woman”? — Perguntou Wilson com a


perplexidade colorindo sua voz.

— Suas aulas de história pareciam encontrar seu caminho em minhas


esculturas mais frequentemente do que parecia.

— Quantas? Quantas esculturas foram inspiradas pelas minhas aulas de


história?

— Contando “The Arc”? — Contei-as na minha cabeça. — Dez. Tiffa


comprou algumas delas na primeira vez que ela foi ao café.

Tiffa e Wilson pareciam atordoados, e o carro estava tranquilo pela


primeira vez desde que tínhamos partido. Eu me mexia desconfortavelmente,
não sabendo o que o silêncio significava.

— Blue! — Eu deveria saber que Tiffa encontraria a língua antes. — Blue,


eu tenho que ver todas elas. Devemos fazer algo grande, uma grande exposição
com todas as peças juntas. Seria brilhante!

Minhas bochechas coraram e eu olhei para as minhas mãos, não


querendo ficar animada sobre algo que ainda não tinha acontecido. — Algumas
delas eu vendi no café, mas você está convidada a ver o resto.

— Darcy pode morrer um homem feliz agora — Tiffa adicionou depois de


um momento. — Seu ensino tem inspirado arte — Ela inclinou-se, levantou
sobre o banco e beijou o rosto de Wilson com estalo dos seus lábios.

— Na verdade. Pela primeira vez, Tiffa está absolutamente certa. Isso


poderia ser o melhor elogio que alguém já me fez — Wilson sorriu para mim. O
calor me inundou e o bebê chutou em resposta.

— Eu vi isso! O bebê chutou! — Tiffa ainda estava pendurada sobre o


banco da frente e colocou as mãos contra a minha barriga, um olhar de intenso
êxtase em seu rosto. O bebê rolou e cutucou mais algumas vezes, induzindo Tiffa
a guinchar de prazer.

Pelo resto do caminho nós conversamos, ouvimos música - eu os


apresentei para Willie Nelson - e se revezaram dirigindo e cochilando. Mas eu
não conseguia tirar a imagem de um jovem Darcy Wilson da minha cabeça, se
arrastando sobre montes irlandeses em busca de um santo que viveu muitas
centenas de anos antes. Era fácil ver como um menino como esse poderia ir para
a África por dois anos ou trocar a medicina por algo mais simples e menos
glamoroso. Foi mais difícil ver como um garoto como esse, tão inspirado por um
santo, poderia ser atraído por uma pecadora como eu.
Capítulo Vinte

Nevasca
O processo foi incrivelmente fácil. Encontrei-me com um detetive Moody,
que foi o oficial que respondia pelo caso há mais de 18 anos atrás. Ele era careca,
por opção ou necessidade, eu não tinha certeza. Ele estava em seus quarenta e
poucos anos, mas parecia cansado, como se tivesse uma vida longa até o
momento. Ele parecia em boa forma e magro com calça cáqui, uma camisa e um
coldre de ombro que parecia tão confortável como todo o resto que ele usava.

— Eu não posso lhe dar mais detalhes do caso. Ainda não. Você entende
que se não for à filha desta mulher, não tem direito à informação. Nem o seu
nome, o nome de sua filha, os detalhes de sua morte, nada... Você entende? — O
Detetive Moody era apologético e firme. — Mas se você é quem pensa que é,
quando tivermos a confirmação do DNA, nós lhe daremos tudo o que temos. Eu
tenho que dizer, eu espero como o inferno que você seja aquela menina. Isso me
incomodou por muitos anos, posso dizer isso. Seria um final feliz para um caso
muito triste — Detetive Moody sorri para mim, seus olhos castanhos sóbrios e
sinceros.

Fui enviada para o laboratório, e foi-me dado um grande cotonete e


disseram para esfregá-lo contra o interior da minha bochecha. E foi isso. Oito
horas no carro para um cotonete bucal. O Detetive me disse que iria apressar
isso, e esperava tê-lo de volta em três ou quatro meses.

— Nestas coisas tudo depende do resultado. No entanto, há casos


prioritários. E estas taxas praticamente elevam. Seria muito emocionante para
nós ver a resolução disso. E nós queremos isso para você também.

Resolução. Redenção. Minha vida tinha começado a circular ao redor


desses temas recorrentes. Agora nós podemos adicionar Reno. Isso era mais
uma coisa nova. Outro “R” para adicionar à lista.
Ficamos a noite em Reno, Tiffa e eu em um quarto, Wilson em outro.
Tiffa colocou os braços em volta de mim quando saímos da delegacia de polícia e
me manteve perto no jantar, ocasionalmente esfregando minhas costas ou
batendo no meu lado, como se, pela primeira vez, ela não tivesse palavras.
Nenhum de nós tinha. A coisa toda era mais estranha que a ficção, e as
ramificações afetavam não só a mim, mas o meu filho que nasceria e a mulher
que seria sua mãe. Foi só quando nos instalamos no quarto escuro, que o longo
dia foi abandonado, os sons da noite de Reno excluídos por pesadas cortinas e
carpetes grossos, que eu enfrentei os medos que tinham se agarrado com o
reconhecimento desde que eu falei com o detetive Bowles na segunda-feira.

— Tiffa? — Eu disse suavemente.

— Hmm? — Sua voz estava sonolenta, como se eu a tivesse pego um


pouco antes de cair no sono.

— E se ela foi um monstro... Uma pessoa terrível?

— O quê? — Tiffa estava um pouco mais acordada agora, como se sentisse


a minha agitação.

— Isso pode ser transmitido? Será que fica em nossos genes?

— Amor. Você vai ter que me perdoar. Eu não tenho ideia do que você
está falando — Tiffa sentou-se e estendeu a mão para o abajur.

— Não! Por favor, deixe-o desligado. É mais fácil falar no escuro — Eu


implorei com a necessidade do quarto sombrio entre nós.

Tiffa deixou cair sua mão, mas ficou em pé. Eu podia sentir que ela estava
olhando para mim, deixando que seus olhos se ajustassem no escuro. Eu fiquei
virada para o meu lado, olhando para a parede, o peso da minha barriga apoiada
pelo colchão grosso.

— Você estará adotando o bebê. Você diz que não se importa se é uma
menina ou menino. Você não se importa se o bebê é de pele morena ou clara. E
eu acredito em você. Mas e se o bebê for... Descendente de uma pessoa fraca,
egoísta, má?

— Você não é nenhuma dessas coisas.

Pensei por um momento. — Não todo o tempo. Mas às vezes eu sou fraca.
Às vezes sou egoísta. Eu não acho que sou má... Mas não sou necessariamente
boa, também.

— Você é muito mais forte do que eu. Você é incrivelmente altruísta. E eu


não acho que o mal reside com o forte e o altruísta — Tiffa disse suavemente.
Eu achava que não funcionava dessa maneira.

— Mas a minha mãe... O que ela fez foi ruim.

— Deixando-a com um estranho?

— Sim. E seu sangue corre nas veias deste bebê. Você está disposta a
correr esse risco?

— Absolutamente. Mas não acho que nenhum risco, amor. Jack tem
diabetes. Você sabia? É transmissível. Nunca pensei em não ter filhos só porque
a criança pode ter a mesma doença. Eu tinha dentes horríveis. Felizmente, o
aparelho me deixou com uma beleza arrebatadora — Havia riso em sua voz. —
Mas e se não houvesse tal coisa e meu filho estivesse condenado a dentes de
cavalo?

— Nenhuma dessas coisas se compara — Eu protestei, precisando que ela


entendesse. Tiffa se sentou na cama atrás de mim e começou a alisar meu
cabelo. Ela seria uma mãe fabulosa. Era tudo que eu poderia fazer para não me
enrolar nela e deixá-la me acalmar. Mas, claro que eu não fiz. Eu estava tensa,
tentando não ser tão suscetível a um carinho. Ela acariciava o meu cabelo
enquanto falava.

— Nós não sabemos que tipo de vida a sua mãe teve. Nós não sabemos
quais eram seus motivos. Mas olhe para você. Você é brilhante! E isso é o
suficiente para mim, Blue. E se a minha mãe tivesse optado por não adotar
Darcy? Ela nunca conheceu sua mãe biológica ou pai. Ela não sabia nada sobre
eles, exceto os seus nomes. Mas ela amava Darcy, talvez isso fosse o melhor de
tudo, e ele era um completo desconhecido. Seu pai poderia ter sido um
assassino em série, até onde sabemos.

— Wilson foi adotado? — Eu estava tão atordoada, as palavras saíram


como um grito. A ajuda calmante de Tiffa vacilou junto com meu coração. Ela
deitou-se na cama ao meu lado, enrolando-se contra as minhas costas, e voltou
a acariciar meu cabelo.

— Sim! Ele não lhe disse? Mamãe e papai tentaram ter outro filho por
anos. Eles adotaram Darcy quando ele tinha apenas alguns dias de vida. Foi
organizado através de nossa igreja.

— N... Ele não me disse — Minha voz falhou e eu limpei minha garganta
para disfarçar meu espanto.

— Ele visitou seus pais quando completou dezoito anos. Sua mãe era
jovem, como você, quando ficou grávida. Ela é casada agora com vários filhos.
Ela estava feliz em vê-lo, feliz que ele tinha acabado bem. Seu pai era um
policial, em Belfast. Ele e Wilson se deram bem. Eu acho que eles ainda se falam
de vez em quando. Jenny Woodrow e Bert Wheatley, acho que são seus nomes.
Eu não consigo lembrar o nome de solteira de Jenny.

Eu estava no escuro, meus pensamentos girando como cata-ventos em


uma tempestade. E um furacão estava se formando. Senti-me traída. Wilson foi
adotado. Adotado! E ele não tinha dito nada. Nenhuma palavra de sabedoria ou
incentivo quando Tiffa e eu tínhamos comunicado a notícia para a família.
Nenhum comentário “a adoção é uma coisa maravilhosa, olhe para mim”. Ele
permaneceu em silêncio; sem revelar nada.

Tiffa estava aparentemente sem saber da minha tormenta. Ela não disse
nada por alguns minutos, e em pouco tempo ouvi sua respiração mudar e eu
sabia que ela tinha caído no sono deitada ao meu lado. Meus quadris doíam.
Minhas costas estavam me matando todos os dias, meus tornozelos estavam
inchados e eu estava muito desconfortável, muito grávida e muito irritada
demais para dormir.

Redenção, resolução, revelações. As palavras com “r” só ficavam se


acumulando. Reno estava cheio de segredos. Eu estava pronta para ir para casa.

Jack voou para Reno na sexta-feira para a conferência médica e Tiffa


ficou com ele, mandando eu e Wilson de volta em sua Mercedes. Eles iriam voar
para casa no domingo à noite, o que significava que eu estava presa no tornado
com Wilson durante oito longas horas. As revelações estavam zumbindo na
minha cabeça como abelhas furiosas, ameaçando se soltar e atacar Wilson com
uma barragem de ardor. Sentei-me em silêncio com raiva, dando respostas
curtas a todas as perguntas sem olhar para ele e sem rir. Ele parecia
desconcertado, mas eu tentei ser cada vez mais e mais cruel que eu poderia, até
que finalmente o empurrei longe demais e ele saiu da estrada aparentemente
interminável para uma área de descanso. Parando o carro em um
estacionamento, ele se virou para mim e jogou as mãos no ar.

— O que está errado com você, Blue? Eu fiz alguma coisa? Você está com
dor? Pelo amor de Deus! Qual é o problema?

— Você foi adotado! — Eu gritei e prontamente irrompi em uma espécie


de lágrimas que esguicharam fora dos seus olhos, como uma mangueira fazendo
meu nariz escorrer. Peguei a caixa de lenços, mas Wilson estava lá com seu
lenço maldito, limpando meu rosto e me calando como um velho senil.

— Tiffa tem uma boca malditamente grande.

— Ela não tinha ideia de que você não tinha me dito! Por que você não me
disse, Wilson?
— Será que a ajudaria? — Wilson limpou meus olhos com seu olhar
penetrante e testa enrugada em consternação.

Eu com raiva, então empurrei suas mãos, abrindo a porta e tirando meu
corpo desajeitado de dentro do carro, furiosa de uma forma que nunca estive
antes.

Minhas costas estavam pegando fogo, meu pescoço estava dolorido e meu
coração doía como se tivesse sido arrastado atrás do carro. Eu caminhei em
direção aos banheiros, precisando de espaço e, francamente, com a necessidade
de fazer xixi. Eu estava grávida de nove meses.

Eu usei o banheiro e lavei as mãos, tentando conter as lágrimas de raiva


que não paravam. Eu segurei uma toalha de papel molhado frio no meu rosto e
enxuguei o rímel. Parecia miserável. Até o meu nariz estava inchado. Eu olhei
para os meus tornozelos e tentei não chorar. Eu costumava ser quente... E
costumava ser magra. E costumava confiar em Wilson. As lágrimas escorriam de
novo, e eu segurei a toalha em meus olhos, desejando que elas parassem.

— Você está bem, querida? — Uma pequena de voz falou à minha direita.
Uma mulher de idade, que mal alcançava meu ombro ficou olhando para mim
com uma expressão gravada em seus lábios finos. Rugas margeavam sua boca
como pernas de uma centopeia. Seu cabelo grisalho estava em pequenos cachos
arrumado sobre sua cabeça, e ela usava um lenço sobre eles, supostamente para
proteger seu cabelo do vento, que estava do lado de fora. Eu tinha trazido à
tempestade comigo, aparentemente.

— Seu marido me pediu para checá-la. Ele está preocupado com você.

Eu não a corrigi. Era evidente que eu precisava ter um marido, já que eu


estava obviamente prestes a ter um filho, e realmente não queria explicar quem
era Wilson. Segui-a para fora e vi Wilson conversando com um homem
igualmente velho. Quando eles me viram, o velho deu um tapinha no ombro de
Wilson e assentiu com conhecimento de causa. Em seguida, ele ofereceu seu
braço para a senhora, e eles foram em direção ao carro deles, abraçados contra o
vento, que tinha começado a se enfurecer.
— Eu sinto muito, Blue — Wilson teve que levantar a voz para ser ouvido
e seus cachos escuros chicotearam sua cabeça.

— Por que você não me contou? Eu não entendo! Deitei na cama a noite
toda pensando nisso. E eu não consigo pensar em uma explicação plausível —
Meu cabelo voava para minha boca e ao meu redor como cobras da Medusa,
mas eu não voltaria para o carro... Não até que eu tivesse uma resposta.

— Eu não queria influenciar a sua decisão — Wilson gritou: — Eu tive


uma ótima vida. Pais maravilhosos. E os meus pais nunca esconderam a
verdade de mim. Eu cresci sabendo que eles haviam me adotado. Mas eu não
consigo lhe dizer que não me incomodou, porque incomodou! Muitas vezes me
perguntei sobre a mulher que não me quis e sobre o homem que não queria
nenhum de nós.

Senti suas palavras como um chute no estômago, e passei meus braços


em volta da minha barriga, segurando a vida dentro de mim, protegendo-a dele.
Ele estremeceu, mas continuou falando, gritando contra o vento.

— Eu não queria que os meus sentimentos a influenciasse, você pode


entender isso?

— Você acha que não quero esse bebê? Você acha que estou dando-o,
porque não quero?

Os olhos de Wilson procuraram os meus, e uma miríade de emoções


cruzaram seu rosto enquanto ele lutava por palavras que não eram fáceis dizer.

— Quando você me disse que tinha decidido não manter seu bebê, eu
pensei que você estava cometendo um erro. No entanto, como eu poderia dizer
uma maldita coisa? Minha irmã está nas nuvens de tanta alegria. E você parecia
estar em paz com a sua escolha.

O vento gemia e o céu escureceu. Wilson se aproximou de mim, mas eu


me afastei, deixando o vento uivar e puxar-me. Pareceu apropriado.
— Minha mãe não me deu para adoção, Wilson. Mas ela deveria ter feito
isso. Deveria ter feito!

Wilson fixou as pernas contra o vento e enfiou as mãos nos bolsos.

— Ela não me amava o suficiente para desistir de mim. Eu não vou


estragar a vida deste bebê só porque preciso de alguém para amar.

O trovão rolou e um relâmpago fez Wilson se aproximar de mim


novamente. Desta vez eu não fui rápida o suficiente, e ele passou um braço em
volta de mim, me puxando em direção ao carro. A chuva nos atingiu quando
fechamos nossas portas, e estávamos rodeados por cinza e a chuva era tão
pesada, que o mundo era líquido além das janelas.

A Mercedes ronronou à vida e o calor subiu dos nossos pés, aquecendo os


bancos abaixo de nós. Mas Wilson não retomou a nossa viagem. Ainda havia
muito a dizer.

— Eu não tive a intenção de esconder isso — Ele apelou com seus olhos
cinzentos suplicando para mim. Eu desviei o olhar, não querendo ouvir. Mas ele
era insistente, e virou meu queixo em direção a ele, exigindo que eu o ouvisse. —
Eu não falei quando deveria ter falado. Nunca pareceu adequado ou oportuno. E
então já era tarde demais. E honestamente, o fato de que eu fui adotado é
irrelevante, Blue.

— Irrelevante? Como você pode dizer isso? — Eu chorei, puxando meu


queixo de seu alcance. Como se as opiniões de Wilson já tivessem sido
irrelevantes para mim. Ele tinha se tornado a coisa mais importante na minha
vida. Redenção, resolução, revelação e agora relevância. Eu enfiei minhas mãos
no meu cabelo. — Eu tenho cegamente tentado descobrir as coisas. Estou a
poucos dias de dar à luz, e você acha que a sua própria adoção não é relevante?
Sua perspectiva poderia ter mudado tudo.

— Exatamente. Mas em vez disso, você tomou suas próprias conclusões,


você fez suas próprias decisões e é assim que deve ser.
— Mas você disse que eu estava cometendo um erro — Eu sussurrei,
tentando não chorar. Eu procurei a raiva que eu tinha sentido, mas ela tinha
explodido em algum lugar entre o banheiro e o carro, e eu não conseguia chamá-
la de volta.

Wilson se esticou e segurou minhas mãos nas dele, virando-se para mim,
tanto quanto o volante permitiria.

— Blue, toda esta experiência tem sido uma revelação para mim.

Tentei não recitar todas as palavras com R na minha cabeça enquanto ele
continuava.

— Eu, como todo ser humano, precisava saber quem eu era. Meus pais
entenderam e, ao contrário do que você lidou, não havia segredos na minha
vida. Eu sabia de tudo... Exceto o porquê. Eu nunca entendi por que minha mãe
biológica fez essa escolha. Eu sempre achei que se alguém realmente me
amasse, eles nunca me dariam. Vendo você passar por tudo isso, eu acho que
finalmente entendi que isso não é necessariamente verdade.

Meus olhos estavam grudados em nossas mãos entrelaçadas, nossos


dedos lado a lado. Eu não conseguia olhar para ele. Não quando as palavras que
ele disse eram tão intensamente pessoais, que o brilho da verdade machucava
meus olhos. Wilson continuou, com a voz embargada pela emoção.

— Amar alguém significa colocar suas necessidades acima do sua própria.


Não importa o quê. De alguma forma, você descobriu isso. Eu serei amaldiçoado
se sei como, mas você fez. Então, não. Eu não acho que você está cometendo um
erro, Blue. Acho que você é malditamente incrível. E quando eu chegar em casa,
Jenny Woodrow vai receber uma ligação. Ela merece um pequeno
agradecimento - finalmente - por me amar e me deixar ir.

Nós ficamos em silêncio por várias respirações, deixando a emoção vazar


com as nossas mãos entrelaçadas e o calor circulando o interior do carro e
embaçando as janelas.
— O que o velho homem disse? — Eu questionei baixinho.

— Ele me disse para não me preocupar. Ele disse: “As mulheres choram.
Se ela está chorando por você, ainda te ama” — Wilson tentou imitar a voz
trêmula do velho homem. Ele olhou para mim e sorriu, brincando. — Ele disse
que eu só devo me preocupar quando você parar.

Eu não consegui sorrir de volta e rapidamente desviei o olhar. Eu era a


única que deveria me preocupar. Não porque eu tinha parado de chorar, mas
porque tinha começado, em primeiro lugar. O velho tinha descoberto tudo.

Tentamos esperar a chuva passar, mas nunca parava. Nós voltamos para
estrada só para lutar com chuva e neve por aproximadamente três horas. Neve
em Boulder City era quase desconhecida, mas estávamos numa longa estrada ao
norte da área de Las Vegas, e neve em Reno era comum. No entanto, em
outubro a neve não era. Minha ansiedade crescia à medida que a viagem
prolongava. Eu não queria lamentar ou preocupar Wilson, mas minhas costas e
baixo ventre estavam doendo constantemente desde que tínhamos parado na
área de descanso. Talvez fosse o estresse da viagem ou todas as palavras com R
derramando sem alívio, ou talvez fosse simplesmente a hora. Duas semanas
antes não era realmente considerado prematuro. Era considerada a gestação
completa. E eu tinha uma suspeita de que estava em trabalho de parto.

— Eu vou sair da estrada onde posso encontrar um hotel. Nós ainda


temos três horas, talvez mais a esta velocidade, e eu já tive o suficiente — Wilson
suspirou, apertando os olhos para distinguir os sinais de trânsito.

— Nós temos que continuar — Eu insisti, agarrando o apoio de braço


quando uma onda de pressão apareceu na minha parte inferior do corpo.
— Por quê? — Wilson não olhou para mim, ele estava tão concentrado na
estrada.

— Porque eu realmente não quero ter um bebê em um Super 8 Motel.

— Droga! — A cabeça de Wilson virou em minha direção com os olhos


arregalados de horror.

— Eu não estou em nenhuma dor. Não realmente. É apenas


desconfortável. E isso vem acontecendo por cerca de três horas. Basta continuar
dirigindo e nós vamos ficar bem.

Às três horas seguintes foram as mais longas três horas de minha vida - a
de Wilson também, eu supus. Ele estava branco ao redor dos lábios, e seu rosto
estava abatido no momento em que vimos às luzes de Vegas manchadas como
um derramamento de óleo além do para-brisa, um arco-íris suave em um mar
de preto. Eu tinha cronometrado minhas contrações, e elas tinham ficado
constantes e cada vez mais dolorosas em cerca de cinco minutos de intervalo. Eu
não tinha ideia do que isso significava, ou o quão longe eu teria que ir. Mas nós
dois estávamos cansados demais para ir para casa e esperar que isso piorasse.
Chegar ao hospital era muito bom. Algumas estradas estavam com a água até o
joelho e a chuva não estava parando.

Entramos no estacionamento, Wilson saiu e a minha porta foi aberta


antes que eu pudesse tirar meu cinto de segurança. Juntos, fomos para a
maternidade, dando um pequeno suspiro de alívio que tínhamos conseguido
fazer isso. As visões de nascimentos em estrada foram nossas companheiras
constantes durante três longas horas. Eu tinha certeza de que foi um alívio para
Wilson me entregar para a animada enfermeira loira que escorria competência.
Ela me acomodou em uma sala, me deu um vestido e me disse que estaria de
volta em instantes.

Wilson virou-se e caminhou em direção à porta. Pânico borbulhava em


meu peito enquanto eu o via sair. O meu medo me deixou corajosa.
— Você vai ficar comigo? — As palavras saíram em uma confusão e meu
rosto ficou quente de vergonha por eu tê-las até mesmo pronunciado. Mas eu
tinha e não queria tomá-las de volta. Ele permaneceu congelado no lugar com a
mão ainda descansando na maçaneta da porta.

— Por favor — Eu não sei se ele ouviu o apelo final, e eu tive que fechar
meus olhos para que não visse sua resposta. Eu estava com medo de vê-lo se
encolher, ver seus olhos se afastarem, ouvi-lo dar desculpas.

A cama se moveu e eu abri meus olhos para vê-lo sentado ao meu lado.
Suas sobrancelhas estavam juntas e seus olhos cinzentos cheios de apreensão.
Mas ele não se inquietou ou se encolheu e seus olhos seguraram os meus.

— Tem certeza?

— Eu não posso fazer isso sozinha, Wilson. Eu não pediria... Mas... Eu


não... Tenho mais ninguém — Eu mordi meu lábio, reprimindo a vontade de
pedir descaradamente. Seu rosto suavizou e a preocupação em seus olhos
desapareceu.

— Então vou ficar — Ele deslizou sua mão na minha e segurou-a com
força. A mão dele era grande e suave com as pontas dos dedos calejados. Meu
alívio foi tão intenso, que eu não poderia responder imediatamente por medo
que perdesse a compostura. Eu passei as minhas duas mãos ao redor da dele e
apertando em gratidão. Depois de várias respirações profundas, eu sussurrei
meus agradecimentos quando outra onda de pressão e dor construiu dentro de
mim.
Capítulo Vinte e Um

Melhor Amigo
Minha enfermeira entrava e saía. Wilson fazia questão de sentar-se à
cabeceira da cama, tentando desesperadamente manter o pudor, tanto quanto
possível. Ele manteve os olhos no meu rosto quando ela me examinou e disse
que eu estava com cinco centímetros, em seguida, seis e, em seguida, seis e
meio. E então, o progresso estagnou.

— Você quer se levantar e caminhar um pouco? Às vezes ajuda — A


enfermeira sugeriu depois de uma hora olhando o relógio e contando contrações
sem melhora. Eu não queria andar. Eu queria dormir. Eu queria cancelar tudo.

— Vamos lá, Blue. Eu vou ajudá-la. Apoie-se em mim — Wilson me


ajudou a me sentar e, com a ajuda da enfermeira coloquei outro vestido do
hospital ao redor das minhas costas como um manto, amarrando os cordões na
frente para não mostrar meu traseiro enquanto passeava. E nós andamos, para
cima e para baixo pelos corredores, os meus pés nos chinelos se arrastando
penosamente ao lado de Wilson. Quando a dor era muito grande para mover e
minhas pernas tremiam com o esforço de me manter na posição vertical, Wilson
prendia seus braços em volta de mim e puxava minha testa em seu peito,
falando baixinho como se em pé abraçando-o fosse a coisa mais natural do
mundo. E foi. Minhas mãos seguravam seus braços enquanto eu tremia e gemia,
então eu sussurrava minha gratidão a ele de novo e de novo. Quando a dor
aliviava e recuperava o fôlego que retomava nossos passos vacilantes mais uma
vez, e quando eu estava desesperada por distração das ondas implacáveis , eu
cutucava Wilson.
— Conte-me uma história, Wilson. Pode até ser um longo, chato e
empoeirado tome34 inglês.

— Wow! Tome. Aprendeu uma palavra nova, Echohawk? — Wilson


passou os braços em volta de mim quando cai contra ele.

— Eu acho que você me ensinou, Sr. Dicionário — Eu tentei não


choramingar quando a dor passou por mim.

— Que tal Lord of the Flies?

— Que tal você me mata agora? — Rangi meus dentes cerrados contra o
ataque apreciativo da tática de diversão de Wilson, se não pela sua escolha de
histórias.

A risada de Wilson soou estrondosa no peito contra minha bochecha. —


Hmm. Muito realista e deprimente, certo? Vamos ver... Tomes empoeirados...
Como Ivanhoe?

— Ivan quem? Parece pornô russo — Eu brinquei cansada. Wilson riu


novamente, um gemido balbuciado. Ele estava praticamente me carregando
neste momento e parecia quase tão exausto como eu me sentia.

— E se eu lhe disser uma — Eu me ofereci quando a dor diminuiu, e eu


me afastei do círculo dos seus braços. — É a minha história favorita. Eu
costumava implorar para Jimmy para contá-la para mim.

— Tudo bem. Vamos voltar para o seu quarto e ver se toda essa
caminhada fez bem.

— Esta é a história de Waupee...

— Whoopee?

— Muito engraçado, Wilson. Tudo bem. Eu não vou usar o seu nome
indígena. Esta é a história de White Hawk, o grande caçador e da Star Maiden.

34 tome - livro, especialmente um grande, pesado, um acadêmico


Um dia, White Hawk estava caçando na mata e encontrou um estranho círculo
em uma clareira. Ele se escondeu na borda da clareira, observando, se
perguntando o que fez as marcas estranhas.

— Ahhh. Agora vou descobrir a origem dos círculos de cultura — Wilson


interrompeu mais uma vez.

— Hey! Sou eu quem faz as piadas. Fique quieto. Eu tenho que contar-lhe
esta história enquanto posso falar — Eu dei-lhe um longo olhar, e ele fez o
movimento de fechar os lábios. — Depois de um tempo, White Hawk viu uma
grande cesta de palha descendo do céu. Doze belas garotas saíram e começaram
a dançar na clareira. Enquanto White Hawk as observava, percebeu que todas as
meninas eram adoráveis, mas a mais bonita era a mais nova e White Hawk se
apaixonou imediatamente por ela. Ele saiu correndo, tentando alcançá-la, mas
as meninas gritaram e subiram de volta para a cesta, que subiu alto no céu até
que desapareceu nas estrelas. Isso aconteceu mais três vezes. White Hawk não
conseguia comer ou dormir. Tudo o que podia fazer era pensar na jovem estrela
que ele havia se apaixonado.

— Finalmente, ele arquitetou um plano. Ele se transformou em um rato


— Eu estendi braço e coloquei minha mão sobre a boca de Wilson, quando ele
começou a falar. — Ele tinha poderes, ok? — Wilson balançou a cabeça, mas
seus olhos brilhavam de alegria. Tínhamos voltado para o meu quarto de
hospital e Wilson ajudou-me a ficar sentada na beira da cama. Eu fiquei parada,
segurando-o quando eu senti meu interior começar a tensionar lentamente e ir
piorando até que eu estava segurando as lágrimas. Eu tentei falar com ele,
agarrando-me aos braços de Wilson quando a pressão tornou-se quase
insuportável.

— Ele... Esperou — Eu ofegava, falando em pequenos suspiros. — Até que


as irmãs estelares... Desceram do céu novamente. Ele sabia... Que não... Teriam
medo de um pequeno rato.

— Claro que não. As mulheres adoram ratos — Wilson retrucou


agradavelmente, e eu ri e gemi, tentando continuar. Wilson alisou meu cabelo
para trás do meu rosto, seguindo-o pelas minhas costas em traços firmes
quando eu pressionei meu rosto contra ele, tentando escapar da dor que era só
minha para suportar. Mas ele não me interrompeu novamente quando contei a
história aos trancos e suspiros.

— Quando as irmãs da cesta desceram e começaram a dançar... White


Hawk... Foi se aproximando cada vez mais... Das mais jovens, até que ele estava
bem... Ao lado dela. Então, ele se transformou... De volta para um homem e
pegou-a em seus braços — A dor começou a diminuir em intervalos, e eu dei
várias respirações longas, desapertando minhas mãos dos braços de Wilson. O
homem ia ter algumas contusões graves quando tudo isso acabasse.

— As outras irmãs gritaram e pularam na cesta, que subiu para o céu,


deixando a mais jovem para trás. A estrela donzela chorou, mas White Hawk
enxugou suas lágrimas e disse-lhe que iria amá-la e cuidar dela. Ele disse a ela
que a vida na Terra era maravilhosa e ela seria feliz com ele.

Parei de falar quando a enfermeira entrou no quarto, empurrando a


cortina com uma investida de sua mão.

— Tudo bem, querida. Vamos ver como você está — Eu olhei para Wilson
quando me deitei na cama. Ele sentou-se no banquinho ao lado da cama e se
inclinou para mim, ignorando a enfermeira e o desconforto da intimidade que
eu tinha forçado em cima dele. Seu rosto estava a centímetros do meu quando
ele novamente pegou minha mão e encontrou meu olhar.

— Você está se progredindo. Está com sete. Vamos ver se conseguimos o


anestesista para lhe dar algum alívio...

As luzes piscaram, e de repente houve uma interrupção do som e a


escuridão foi completa. A enfermeira praguejou baixinho.

As luzes voltaram com um zumbido e nós expiramos em uníssono.

— O hospital tem geradores. Não se preocupe — A enfermeira tentou nos


acalmar, mas seus olhos se voltaram para a porta, e eu poderia dizer que ela
estava se perguntando o que mais a noite traria. — Isso deve ser por causa da
tempestade — Ela voltou a sair pela porta com promessas voltar logo.

Pensei em Tiffa em um aeroporto em Reno e imediatamente afastei o


pensamento. Ela viria, ela iria fazer isso. Haveria alguém para segurar o meu
bebê. Alguém tinha que segurá-lo. Eu não seria capaz de fazê-lo. O pensamento
congelou minhas veias e pavor se agrupou no meu peito. Tiffa e Jack precisavam
estar aqui, prontos, com os braços abertos para receber o meu filho e levá-lo
imediatamente para longe.

A dor tirou o pensamento da minha cabeça, a miséria mais imediata


estava tirando a minha atenção dos pensamentos de Tiffa e meu filho. Vinte
minutos se passaram, então, mais vinte. A enfermeira não retornou nem o
anestesista. Então a dor atingiu foi aumentando. Ondas gigantes em cascata
ameaçaram me rasgar ao meio. Eu me contorcia em agonia e agarrei Wilson,
desesperada por alívio.

— Diga-me o que posso fazer, Blue. Diga-me o que fazer — Wilson insistia
calmamente. Eu tinha ficado em silêncio, minha energia e foco estavam atraídos
para a estreita picada de agulha da luz, pega no ciclo aparentemente
interminável de dor e perdão, incapaz de encontrar palavras. Eu só balancei a
cabeça e agarrei a sua mão. Ele amaldiçoou violentamente e se levantou da
minha cama com um idiota, seu banco arrastando ruidosamente pelo chão. Ele
soltou os meus dedos de sua mão, e eu choramingava de consternação quando
ele se virou em direção à porta. Ele atravessou o quarto em passos largos, e
abriu a porta. Então eu o ouvi com sua voz elevada, exigindo assistência em
termos muito, muito grosseiros. Eu estava tão orgulhosa e ridiculamente tocada
que quase ri, mas a risada ficou presa na minha garganta, e em vez disso, eu
gritei. Meu corpo tremia e a pressão nas minhas pernas era avassaladora. A
necessidade de empurrar era tão intensa que eu agi sem pensar. Gritei de novo,
e minha porta se abriu, com Wilson e uma bagunça de cabelo selvagem,
juntamente com uma enfermeira horrorizada vieram voando para o quarto.
— O médico está a caminho! O médico está a caminho! — A enfermeira
balbuciou com seus olhos se alargando quando ela se posicionou entre as
minhas pernas. — Não empurre!

Wilson estava instantaneamente ao meu lado, e eu virei meu rosto para


ele, mais uma vez, incapaz de parar as ondas de pressão que visava expulsar
meu filho. A porta bateu novamente quando a enfermeira saiu do quarto e
gritou no corredor por reforços. De repente eu estava cercada - outra
enfermeira, um médico e alguém se movia com uma incubadora móvel.

— Blue? — A voz do médico parecia muito longe, e eu lutava para me


concentrar em seu rosto. Olhos castanhos encontraram os meus enquanto eu
me abatia impotente. — É hora de empurrar, Blue. Não vai demorar muito até
que seu bebê esteja aqui.

Meu bebê? O bebê de Tiffa. Eu balancei minha cabeça. Tiffa não estava
aqui ainda. Eu me concentrei mais uma vez, empurrando através da dor. Em
seguida, novamente. E mais uma vez. E mais uma vez. Eu não sei quanto tempo
empurrei e supliquei a Deus para que isso acabasse. Eu perdi a conta na neblina
de dor e exaustão.

— Só mais um pouco, Blue — O médico pediu. Mas eu estava muito


cansada. Eu achava que não poderia fazer isso de novo. Doía muito. Eu queria
flutuar.

— Eu não posso — Eu resmunguei. Eu não podia. Eu não faria isso.

— Você é a pessoa mais corajosa que eu conheço, Blue — Wilson


sussurrou em meu cabelo. Suas mãos embalaram meu rosto. — Eu já lhe disse o
quão linda eu você é? Você está quase lá. Vou ajudá-la. Segure-se em mim. Vai
dar tudo certo.

— Wilson?

— Sim?
— Se eu vê-la... Não sei se vou ser capaz de deixá-la ir. Eu tenho medo
que se eu segurar meu bebê, não serei capaz de deixá-la ir — As lágrimas
corriam pelo meu rosto, e eu não tinha forças para segurá-las.

Wilson passou os braços em volta de mim enquanto a agonia dentro de


mim se levantava e gritava.

— Vamos lá, Blue! — O médico foi insistente. — Aqui vamos nós! Mais
uma vez.

E de alguma forma eu fiz. De alguma forma, eu consegui. Um último


esforço desesperado, o impulso final e o alívio imediato quando o bebê foi
retirado livremente. Os braços de Wilson caíram, e ele se levantou quando o
quarto irrompeu em exclamação animada. Uma menina. Ela estava aqui,
agitando os braços, cabelo preto molhado e grudado em sua pequena cabeça, os
olhos arregalados. Ela gritou de indignação, um grito de guerra digno da batalha
que tinha sido travada e vencida. E eu a peguei.

Naquele momento ela era minha. A enfermeira a deitou no meu peito e


minhas mãos estavam lá para abraçá-la. O mundo ao meu redor caiu. O tempo
parou, e eu a apreciava. Sentia-me simultaneamente tonta com poder e
incrivelmente fraca, enquanto eu olhava para a minha pequena filha. Ela piscou
para mim, os olhos borrados e inchados, a boca em movimento, fazendo sons
tristes que rasgaram meu coração. Terror cresceu dentro de mim, me cegando, e
por um instante pensei em fugir do quarto, correndo freneticamente pelos
longos corredores e para a tempestade com a minha filha em meus braços para
escapar da promessa que eu tinha feito. Eu a amava. Insanamente e
completamente. Eu a amava. Eu balancei minha cabeça, descontrolada com o
tormento, doente de medo, em busca de Wilson. Ele estava apenas alguns
metros de distância, com as mãos enfiadas nos bolsos, o rosto desfigurado, e seu
cabelo caindo sobre a testa. Seus olhos encontraram os meus, e eu vi que ele
estava chorando. E, em seguida, a enfermeira a pegou e levou para longe -
simples assim - e o momento se foi. O tempo retomou a sua velocidade normal,
de forma competente e sem impedimentos por minha devastação. Eu caí para
trás contra os travesseiros, atordoada e deixei o mundo correr sem mim.
Foram poucos minutos antes que o quarto esvaziasse e eu ficasse sozinha,
os resíduos do parto foram limpos de forma eficiente. Wilson havia saído para o
corredor para ligar para Tiffa, as enfermeiras tinham levado o bebê para algum
lugar desconhecido para medir e dar banho, o médico tinha impecavelmente
terminado seu trabalho, removeu as luvas e me parabenizou pelo trabalho bem
feito. E agora eu não era mais novidade. E isso tinha acabado.

Eu fui transferida para um quarto de recuperação, me ajudaram a entrar


no chuveiro e sem cerimônia me colocaram de volta na cama. Ninguém me
perguntou se eu gostaria de ver o meu bebê. Wilson tinha ficado comigo por um
tempo, mas, quando era evidente que eu estava em boas mãos, ele decidiu
correr para casa, tomar um banho e colocar roupas limpas também. A chuva
finalmente parou. O aviso de enchente foi suspenso, mas o nível mais baixo do
hospital teve que ser evacuado por causa das inundações - o que causou o caos
em todo o resto do hospital. Minhas enfermeiras se desculparam por eu ter sido
negligenciada durante o meu trabalho. A equipe era menor, devido às
dificuldades de chegar ao hospital no meio da tempestade e a inundação tinha
atrapalhado muito.

Jack e Tiffa foram incapazes de chegar em casa. A tempestade que causou


inundações em Las Vegas causou uma nevasca em Reno com a enorme
tempestade que se estendia desde uma extremidade do estado para a outra. O
aeroporto de Reno foi fechado pela nevasca, e os voos não foram programados
para retomar até de manhã. Consegui comer e estava cochilando quando Wilson
retornou. As luzes estavam apagadas no meu quarto, mas não estava realmente
escuro. O meu quarto tinha uma “bela vista” do estacionamento e os postes de
amarelo-alaranjados abaixo lançavam um brilho reluzente no meu quarto
escuro. Wilson tentou se sentar discretamente na cadeira de canto, mas a
cadeira rangeu alto e ele amaldiçoou baixinho.
— Você não precisava voltar — Minha voz soou áspera e errada para os
meus próprios ouvidos, rouca, como se eu tivesse gritado por horas.

Wilson afundou-se na cadeira de balanço barulhenta, apoiando os


cotovelos nos joelhos e o queixo nas mãos. Eu já tinha o visto fazer isso antes, e
isso trouxe uma súbita onda de ternura tão intensa que eu engasguei.

— Está doendo? — Ele perguntou baixinho, interpretando mal o som.

— Não — Eu sussurrei. Era uma mentira, mas no momento, a verdade era


muito complicada.

— Acordei você?

— Não — Eu repeti. O silêncio ampliava os sons no quarto e além dos


corredores. Rodas rangendo e sons de tênis esmagando o chão de linóleo
chiavam pelo corredor. Uma enfermeira entrou no quarto do outro lado do hall
com um alegre “Como estamos fazendo?” e eu encontrei-me ouvindo os sons
que eu não poderia ouvir. Esforçando-me para ouvir o choro de um bebê. Minha
mente viajou pelo corredor e berçário, onde a criança deitada não reclamava.

— Será que você a segurou — Eu perguntei de repente. Wilson se


endireitou na cadeira, e seus olhos procuraram o meu rosto em busca de pistas
com a luz turva do quarto.

— Não — Era a sua vez de responder. Mais uma vez, silêncio.

— Ela está sozinha, Wilson.

Ele não discutiu que Tiffa estava a caminho ou que o meu bebê estava
sendo cuidado e provavelmente dormindo. Em vez disso, ele se levantou e se
aproximou da cama. Eu estava enrolada de lado, de frente para ele, e ele se
agachou para que seus olhos estivessem no mesmo nível que os meus.
Estudamos um ao outro em silêncio. E então ele ergueu a mão e colocou-a
suavemente contra minha bochecha. Um simples gesto. Mas foi a minha ruína.
Eu fechei os olhos e chorei, bloqueando seus olhos cinzentos tempestuosos com
o entendimento, compaixão. Eventualmente, eu o senti se deitar ao meu lado na
cama estreita e envolver seus braços em volta de mim, me puxando contra ele.
Ocasionalmente, ele acariciava meus cabelos ou falava baixinho, mas não fez
nenhum comentário da minha intensa tristeza encharcando o travesseiro sob a
minha cabeça.

Uma enfermeira entrou no quarto uma vez, deu a volta e foi direto para
fora. Wilson não fez nenhuma tentativa de se mover ou se retirar para a cadeira
no canto.

— Você não me disse o fim da história — Ele murmurou bem mais tarde.

— Hmm?

— O caçador e a menina estrela? Será que eles viveram felizes para


sempre?

— Oh — Eu me lembrei, sonolenta. — N... Não exatamente. Ela ficou com


ele e tiveram um filho. Eles ficaram felizes, mas a menina começou a sentir falta
das estrelas — Fiz uma pausa, lutando contra a letargia que estava caindo sobre
mim. Eu continuei com a minha voz desaparecendo com cada palavra. — Ela
queria ver sua família. Então ela teceu uma grande cesta e recolheu presentes
para a sua família, coisas da terra que você não poderia encontrar no céu. Ela
colocou a cesta no círculo mágico, colocou os presentes e seu filho dentro, então
entrou na cesta. Em seguida, ela cantou uma música fazendo a cesta subir para
o céu. White Hawk ouviu a música e correu para a clareira, mas era tarde
demais. Sua esposa e filho tinham ido embora — Senti-me derivar para o sono, a
exaustão atrapalhando meus pensamentos, dificultando a fala. Eu não tinha
certeza se sonhei ou se Wilson realmente falou.

— Essa história é uma merda — Wilson sussurrou sonolento no meu


ouvido. Eu sorri, mas estava longe demais para responder.
Capítulo Vinte e Dois

Cinzento
Tiffa e Jack chegaram ao hospital por volta das de cinco horas do dia
seguinte. Wilson tinha se mudado para a cadeira em algum momento enquanto
eu dormia e tinha recebido uma ligação avisando-nos que eles haviam chegado.
Ele saiu para encontrá-los quando minha enfermeira entrou para olhar meu
gráfico e tirar a minha pressão arterial. Eu estava ansiosa para sair do hospital e
estava vestida, esperando para ter alta, quando ouvi um leve bater. Tiffa enfiou a
cabeça pela porta do hospital e me chamou.

— Podemos entrar, Blue?

Eu respondi que sim e ela e Jack entraram no quarto de mãos dadas.


Tiffa tinha tirado o cabelo de seu rosto em um coque, mas de alguma forma ela
ainda conseguiu parecer chique. Jack parecia cansado. Eles ficaram no
aeroporto a maior parte da noite e toda a manhã, esperando os voos retomarem.
Mas eles estavam com um grande sorriso, e Tiffa estava praticamente vibrava.
Sem aviso, ela me puxou para os seus braços e imediatamente começou a
chorar. Jack passou os braços ao nosso redor e começou a fungar. Eu senti a
emoção inchar no meu peito e subir na minha garganta até que engolir era
impossível. Eu fiquei tão imóvel quanto podia, como se o movimento fosse
desalojar o meu controle. Eu recitei o alfabeto de trás para a frente na minha
cabeça “Z, Y, X, W, V, U, T...” focando meus olhos além de Tiffa e Jack. Wilson
estava perto da porta. Meus olhos fixaram nos dele e imediatamente se
afastaram. “J, H, I, L, M, E...” eu recitava em silêncio. Mas os meus esforços de
distração não me impediu de ouvir sinceros agradecimentos dela.

— Ela é linda, Blue. Ela é absolutamente linda. Eu posso ver você nela... E
isso me deixa muito feliz — Tiffa sussurrou entre soluços. — Obrigada, Blue.
Eu tive que me afastar. Para a minha própria sobrevivência, eu tive que
me afastar. Eles me deixaram ir, mas Tiffa apertou minhas mãos nas dela. Ela
parecia despreocupada com o fato de que as lágrimas ainda escorriam pelo seu
rosto. Fiquei maravilhada com a sua capacidade de chorar sem vergonha ou
constrangimento.

— Vamos chamá-la de Melody. Era o nome da mãe de Jack e eu sempre


gostei — Os olhos de Tiffa deslocaram-se para Jack, que acenou para ela com
um movimento de sua cabeça. — Mas gostaríamos de colocar o seu nome do
meio de Blue, se estiver tudo bem para você.

Melody Blue. Era um nome bonito. Eu balancei a cabeça, apenas um


pequeno movimento, eu não confiava em mim para falar. Então eu assenti
novamente, um pouco mais forte e sorri o melhor que pude. Eu fui puxada de
volta para os braços de Tiffa, que me apertou ferozmente enquanto sussurrava
uma promessa no meu ouvido.

— Você me deu algo que eu nunca teria pedido para você, e prometo que
vou ser a melhor mãe que puder. Eu não vou ser perfeita. Mas eu a amo com
todo o meu coração, e serei perfeita nisso. Quando ela tiver idade suficiente, vou
dizer-lhe tudo sobre você. Vou dizer- lhe como você era forte e como a amava.

Um gemido escapou de minha garganta, e eu estremeci impotente, então


não fui capaz de segurar a tristeza ondulante que inundou a minha boca e foi
transmitida pelos meus olhos, me deixando sem expressão. Os braços de Jack
estavam de volta ao nosso redor e ficamos assim por um tempo muito longo,
apoiando uns aos outros, quando a gratidão e tristeza se encontraram e se
fundiram, e laços silenciosos foram forjados. Eu encontrei-me oferecendo uma
oração pela primeira vez. Uma oração para o Grande Espírito que Jimmy tinha
acreditado. Uma oração ao Deus que criou a vida e deixou isso crescer em mim.
Uma oração para a criança que nunca iria me chamar de mãe e pela mulher que
ela faria isso. E orei para que tirasse a minha dor, e se Ele não pudesse fazer
isso, então, por favor, retirasse o meu amor? Porque a dor e o amor estavam tão
entrelaçados que eu não conseguia ter um sem o outro. Talvez se eu não tivesse
amor, não doeria tanto. Senti os braços de Wilson suportando meu peso,
quando Tiffa e Jack finalmente me soltaram e deram um passo para trás.

Quando recebi alta do hospital, Wilson me levou para casa, me ajudou na


cama e ficou comigo durante a noite mais uma vez. Nenhuma vez ele reclamou
ou ofereceu palavras vazias ou chavões. Ele esteve lá quando eu mais precisei
dele. E eu inclinei-me sobre ele, provavelmente mais do que deveria. Eu não me
deixei pensar ou questionar. Eu me permiti ser cuidada e me proibi refletir.

Nos dias que se seguiram, Wilson me dava cada vez mais espaço, e caiu
em um padrão que lembrava os dias e as semanas que antecederam o
nascimento de Melody. Voltei a trabalhar no café quase que imediatamente e
comecei a esculpir novamente. De outra forma, passar por isso seria muito mais
difícil. Imediatamente após o nascimento de Melody, apertei meus seios da
maneira que as enfermeiras me mostraram, mas doía e vazava, e eu acordava
ensopada com os lençóis molhados com leite e minha camisola grudada em
mim. Tomar banho era quase doloroso, meu corpo parecia estranho, e eu não
podia suportar olhar no espelho e ver os seios inchados que foram feitos para
alimentar, a barriga que ficava a cada dia mais plana e os braços que desejava
segurar o que já não era mais minha. De vez em quando eu esquecia e acariciava
minha barriga, só para lembrar que o inchaço que permanecia não era uma
criança, mas um útero vazio. Eu era jovem e ativa, então meu corpo se
recuperava rapidamente. Logo, a única lembrança que eu teria que ela foi uma
parte minha, seriam as estrias fracas que marcaram minha pele. Estas marcas
tornaram-se bonitas para mim. Preciosas.

Do mesmo modo, eu me encontrei disposta a lixar as imperfeições em um


pedaço de zimbro que eu estava moldando. As cicatrizes na madeira eram como
as marcas na minha pele e eu encontrei-me continuamente rastreando-as, como
se removê-las significasse uma vontade de esquecer. Eu acabei ampliando-as,
por isso, as linhas divergentes tornaram-se cânions e recessos sombrios, e os
ramos graciosamente alongados ficaram torcidos e torturados, como os punhos
cerrados de mãos vazias.
Wilson veio me visitar no porão uma noite enquanto eu trabalhava na
escultura, se sentando em um balde virado, observando sem comentários.

— Como você acha que deveria chamá-la? — Ele perguntou depois de um


longo silêncio.

Dei de ombros. Eu não tinha chegado tão longe. Eu olhei para ela pela
primeira vez. — Como você acha que eu devo chamá-la?

Ele olhou para mim, então, a tristeza em seus olhos cinza tinham me feito
desviar imediatamente, encolhendo pela compaixão que eu vi lá.

— Loss35 — Ele sussurrou. Fingi não ouvir. Ele ficou por mais uma hora,
vendo-me trabalhar. Eu nem sequer o ouvi sair.

A vida voltou ao normal em incrementos dolorosos, tão normal como


sempre foi. Eu trabalhava, esculpia, comia e dormia. Tiffa ligava com frequência
para me verificar e oferecia detalhes sobre o bebê só se eu perguntasse a ela. Ela
era cuidadosa, mas felizmente subjugada em suas descrições. Cada vez que eu
era capaz de ouvir um pouco mais, embora a primeira vez que ouvi o choro de
Melody através do receptor, tive que terminar a ligação imediatamente. Passei o
resto da noite no meu quarto, convencida de que o meu coração foi oficialmente
quebrado e nenhuma quantidade de tempo e nenhuma quantidade de lágrimas
jamais aliviariam a dor.

Mas o tempo e as lágrimas provaram ser melhores tônicos do que eu teria


pensado. Eu tinha passado a minha vida inteira negando a dor, mantendo-a
para trás como se fosse algo a ser evitado a todo custo. Jimmy era tão contido, e
eu tinha adotado seu estoicismo. Talvez fossem os hormônios ou uma resposta
puramente biológica, talvez tenha sido o fato de que eu tinha rogado a Deus que
eu conhecia muito pouco em como tirar a dor, mas nos dias que se seguiram ao

35 Loss – Perda em inglês.


nascimento de Melody, eu descobri que me foi dada a capacidade de chorar. E
no choro havia poder. O poder da cura, o poder de liberar a dor e deixar ir, o
poder de suportar o amor e se apoiar. E conforme as semanas se tornavam
meses, eu chorava menos e sorria mais. E a paz se tornou uma companheira
mais frequente.

Mas, quando a paz e a aceitação se tornaram minhas amigas, Wilson


começou a se afastar. No começo eu era quase grata, simplesmente porque eu
era uma companhia horrível. Mas quando comecei a me curar, comecei a sentir
falta do meu amigo e ele era quase ausente. Eu me perguntava se ele sentia que
o seu trabalho tinha terminado. Talvez com Melody sendo entregue, assim foi
com ele.

Pouco antes do Natal, eu tive uns dias de folga do trabalho e fui a uma
grande expedição de caça a madeira. Fui para o Arizona, cheguei ao sul de Utah,
e circulei de volta para Las Vegas com a caminhonete cheia de zimbro, mogno
da montanha e mais algaroba do que eu poderia esculpir nos domingos do mês.
As fortes chuvas e inundações de meses atrás havia movido a madeira de um
lugar mais alto, enchendo os vales e tornando-se bastante fácil encontrar o que
eu estava procurando. Infelizmente, eu tive que deixar algumas partes mais
pesadas para trás, porque, embora eu tivesse aperfeiçoado o uso das alavancas,
polias e rampas, algumas partes exigiam mais do que uma mulher e suas
ferramentas poderiam fazer. Quando planejei a viagem, eu esperava que
pudesse ser capaz de convencer Wilson a ir comigo. Com o feriado de Natal, ele
teria um tempo de folga. Eu achava ele estava obviamente tentando ficar longe
de mim, então eu não me incomodei.

Quando eu cheguei na segunda-feira à noite, suja e cansada, imunda, com


contusões, roupas rasgadas e um dedo do pé latejante, cortesia de um tronco
que foi embora, eu não estava com disposição para quaisquer interações com
Pamela e Wilson. Infelizmente, eles pararam na casa enquanto eu estava
tentando descarregar a minha caminhonete na entrada do porão. Pamela estava
vestindo uma saia branca com tênis e uma camiseta sem manga justa, com o
cabelo puxado para trás em um rabo de cavalo. Ela estremeceu quando Wilson
pulou na traseira da minha caminhonete e começou a me ajudar a descarregar.
Ela dançou no local por cerca de dois minutos, pulando de um pé para o outro.

— Darcy, estou congelando. Vamos para dentro, vamos? — Ela reclamou,


e depois sorriu para Wilson, quando ele fez uma pausa para olhar para ela.

— Vá em frente, Pam. Está muito frio aqui fora. Eu vou ajudar Blue a
guardar no porão.

Pamela fez uma pequena careta com os olhos incertos demorando em


mim. Ela não queria deixar Wilson, eu poderia dizer. As mulheres têm um
sentido sobre essas coisas. Havia alguma coisa acontecendo entre Wilson e eu. E
ela sabia disso. Eu apenas dei de ombros. Não era problema meu.

— Realmente, Pammy. Vá para o meu apartamento. Eu estarei lá em


apenas um minuto. Não há motivo nenhum para você ficar no frio — Wilson
insistiu.

Não estava realmente muito frio, apesar de que dezembro no deserto


poderia ser surpreendentemente cortante. Mas achei que se eu estivesse usando
pouca roupa em vez de calça de brim, luvas de trabalho e uma camisa de flanela,
eu poderia sentir frio também. Eu não sabia por que Pamela estava preocupada.
Meu cabelo era um ninho de rato. Na verdade, eu tinha certeza que estava
ostentando alguns galhos. Meu nariz estava vermelho, meu rosto arranhado e eu
não chamaria a atenção de ninguém, incluindo Wilson. Pamela deve ter chegado
à mesma conclusão, porque ela me deu um longo olhar, dizendo que iria ligar o
“televisor” um pouco.

— Pammy? — Eu zombei, rolando uma parte de 1,5 metros de uma árvore


que tinha arrasado a minha rampa improvisada.

— Quando éramos pequenos, todos a chamavam de Pammy. Isso desliza


de vez em quando.

Eu bufei, não tendo nada a dizer, mas me sentindo desdenhosa de


qualquer maneira.
— Por que você saiu sem dizer a ninguém onde estava indo, Blue? —
Wilson disse por cima do ombro enquanto descia a rampa, fazendo
malabarismos com uma braçada de zimbro. Ele começou a descer as escadas
para o porão, e eu pensei que ele não precisava de uma resposta ou que achava
que não receberia nenhuma. Ele galopou de volta segundos depois e voltou a
falar como se ele não tivesse saído.

— Eu nem sabia que você tinha saído até ontem de manhã. Então eu
comecei a me preocupar.

— Eu não sai sem dizer nada a ninguém. Eu só não disse a você — Eu


respondi logo. — Esta é a última parte, mas é mais pesada do que o inferno. Vá
para o outro lado, está bem? — Eu me movi, mudando de assunto. Eu não
queria justificar a minha ausência. Era ele quem estava me ignorando e não o
contrário.

Wilson segurou o final de dois pesados galhos emaranhados que eu


estava lutando para içar. Dois galhos separados haviam crescido de duas árvores
diferentes, que vinham crescendo lado a lado, e os ramos tinham se sobreposto,
envolvendo um em volta do outro, os galhos menores enrolados e entrelaçados.
O galho de uma árvore foi danificado e foi dividido em sua base. Se não tivesse
se enrolado no galho da outra árvore teria descido por conta própria. Eu tive que
subir em ambas as árvores para cortar cada galho, serrando o que não foi
dividido e cortando as poucas ligações irregulares. Tinha me custado um buraco
na calça jeans e um longo arranhão na minha bochecha direita, mas valeria a
pena no final.

As imagens dos galhos fundidos eram convincentes e sugestivas de algo


inato de cada coração humano - a necessidade de tocar, a necessidade de
conectar - e eu sabia exatamente como ficaria quando eu terminasse. Quando eu
o tinha visto pela primeira vez, ansiava por algo que tinha me negado desde que
eu saí da garagem do apartamento de Mason um ano atrás. Mas não era o
contato físico que eu ansiava. Não inteiramente. Era a proximidade, a ligação.
Mas o pensamento de uma época quando eu tinha uma necessidade física, em
detrimento de uma emocional não funcionou por mais tempo. E assim eu fiquei
com a dor e nenhuma ideia de como acalmar isso.

Wilson e eu balançávamos descendo as escadas, de frente para o outro


através dos troncos, arbustos e casca espinhosa. Eu liderei o caminho,
colocando suavemente no chão perto da bancada, e ele seguiu o exemplo e
voltou limpando as mãos na bermuda e tênis branco. Ele tinha seiva em sua
camisa azul clara e marcas sujas em sua bermuda onde tinha limpado as mãos.
Gostaria de saber se Pammy iria querer que ele se trocasse. O pensamento me
fez inexplicavelmente triste e eu peguei um cinzel e martelo. Eu queria começar
a remover as cascas, galhos e folhas imediatamente. Talvez eu pudesse trabalhar
a dor a distância, o focar na necessidade e o desejo, me arranhar em algo
produtivo, algo bonito, algo que não me deixaria vazia no final.

— Posso deixar minha caminhonete onde está? — Eu perguntei a Wilson,


atacando a casca com os meus olhos nos ramos.

— As chaves estão lá dentro?

Bati meus bolsos e gemi. — Sim. Estão. Deixa para lá. Eu vou movê-la e
trancá-la.

— Eu faço isso. Eu já vi esse olhar antes. Blue está na zona — Comentou


Wilson ironicamente, se virou e saiu sem dizer mais nada.

Eu trabalhei freneticamente por várias horas, descascando e cortando,


lixando e raspando, até meus galhos abraçados estarem nus no concreto.
Minhas mãos estavam em carne viva e minhas costas gritaram quando eu voltei
a tomar um fôlego. Eu tinha tirado minha camisa de flanela em algum momento
no decorrer da noite por causa do meu trabalho, e estava me sentindo com calor
e também tinha o pequeno aquecedor explodindo no canto que Wilson insistiu
que eu usasse. Eu prendi meu cabelo em uma trança desleixada para mantê-lo
fora do meu rosto e fora da lixadeira. Ele tinha crescido tanto, que a trança
continuava caindo sobre o meu ombro esquerdo como uma videira pesada. Eu
estava pensando em cortá-lo quando ouvi um arranhão na chave da fechadura e
a porta do porão se abriu com uma corrente de ar frio. Wilson fechou a porta
atrás dele, tremendo um pouco da explosão de inverno. Ele usava uma camiseta
e jeans de cintura baixa, as que eu tinha tentado não notar a primeira vez que eu
o vi usando. Minhas chaves estavam em sua mão, e uma expressão irritada fez
um vinco entre seus olhos cinzentos.

— É meia-noite, Blue. Você já esteve aqui trabalhando sem parar por


cinco horas.

— E?

— E... É meia-noite!

— Tudo bem, vovó.

A carranca entre as sobrancelhas de Wilson se aprofundou. Ele diminuiu


a distância entre nós com seus olhos se dando conta da minha aparência
desleixada.

— Você sumiu por três dias e estou supondo que quase não dormiu o
tempo todo que esteve fora, mas aqui está você, como se estivesse trabalhando
com prazo ou algo assim. Seu jeans está rasgado, você estava mancando mais
cedo, e seu rosto está arranhado — Wilson argumentou. Ele correu um dedo
pelo arranhão irritado em minha bochecha. Estendi a mão para empurrar a
dele, mas ele capturou minha mão e virou-a, correndo os dedos sobre a palma,
abrindo meus dedos, observando os calos e os arranhões que eu tinha adquirido
nos últimos dias. Arrepios subiram em meus braços e fizeram cócegas na minha
garganta. Eu tremi e a puxei. Agachei-me ao lado de meu projeto e voltei a lixar.

— Então por que você não me contou?

— Hmm? — Eu não parei de trabalhar.

— Você disse que não saiu sem dizer a ninguém onde estava indo. Você só
não me falou. Por quê?
— Você está me evitando por um tempo, Wilson. Deu-me a impressão de
que não estaria se preocupando com a minha ausência — Minhas palavras eram
bruscas e eu, corajosamente, sustentei o olhar.

Wilson acenou com a cabeça, puxando o lábio inferior em sua boca,


pensando na minha acusação. Mas ele não negou que ficou propositalmente
longe.

— Eu pensei que talvez você e eu precisássemos de alguma distância.


Foram apenas dois meses desde que Melody nasceu. Nosso... Relacionamento...
Avançou em algumas experiências muito intensas — Wilson formava as palavras
com cuidado, fazendo uma pausa entre os pensamentos. Eu não gostei que ele
estivesse tão deliberado. Parecia paternalista. Mas ele continuou no mesmo
tom, falando precisa e lentamente.

— Eu pensei que talvez você precisasse de algum tempo e algum...


Espaço. Sem drama, sem... Eu... Ou qualquer outra pessoa. Apenas espaço —
Wilson olhou para mim atentamente, o olhar cinza sóbrio e firme. Eu soltei as
minhas ferramentas e me levantei, colocando espaço - a coisa era que Wilson
estava tão convencido que eu precisava - entre nós. Eu tremi, congelando, agora
que eu tinha abrandado o ritmo. O frio do piso de concreto que tinha subido
através das solas dos meus pés, e a minha calça jeans rasgada e camiseta de
alças finas eram subitamente insuficientes para afastar isso. Virei às costas para
Wilson e aproximei as minhas mãos no aquecedor, tentando puxar o calor para
meus dedos rígidos e braços.

— Você se lembra da história que Jimmy me contou? Aquela sobre


Tabuts o lobo sábio e seu irmão Shinangwav, o coiote? — Joguei-lhe um olhar
interrogativo sobre o meu ombro.

— Aquela sobre a pessoa esculpida em galhos? A que você me disse na


escola sobre a estrutura socioeconômica injusta em todo o mundo? — A boca de
Wilson franzia ironicamente, e ele caminhou em minha direção, agarrando
minha camisa de flanela do chão onde eu a tinha descartado. Ele colocou-a em
volta dos meus ombros, e depois cruzou os braços em volta de mim, apoiando o
queixo na minha cabeça. Seu calor me fez sentir tão bem, tão certo, que eu
fechei os olhos contra isso, contra ele e a facilidade com que ele me segurava,
como se eu fosse sua irmã ou uma prima favorita. Eu não sentia nada fraternal
por Wilson. E era tão bom seus braços em volta de mim, que não havia dor no
prazer.

— Quando eu era criança, essa história nunca fez qualquer sentido para
mim. Por que as pessoas querem ficar sozinhas? — O tom melancólico da minha
voz foi revelador e os braços de Wilson apertaram ao meu redor. Eu mantive
meus olhos fechados, um cansaço repentino rastejando em meus músculos e
membros com o calor que me rodeava.

— Eu pensei que Shinangwav era o irmão mais esperto. Ele sabia que as
pessoas gostavam de ficar em grupos. Eu importunei Jimmy constantemente
por uma mãe, uma irmã ou alguns amigos. Um lobo sábio deve saber que as
pessoas preferem ficar próximas.

Wilson virou-me em seus braços e alisou os cachos de cabelo de meu


rosto. Eu queria manter meus olhos fechados, com medo de que se os abrisse
quando estávamos tão perto, eles iriam me entregar. Mas a proximidade e
continuando a mantê-los fechados pareciam expectantes, como se eu estivesse
esperando que ele beijasse meus lábios, então eu os abri e levantei-os, cansada.

— Às vezes sinto como se eu fosse um daqueles que foi deixado dentro do


saco, enquanto todo mundo estava caindo em grupos — Eu sussurrei.

Seus olhos eram tão cinza à luz insignificante do canto escuro que
pareciam ardósia em um dilúvio. Seu rosto era um estudo de concentração e
empatia, como se cada palavra que eu disse fosse de muita importância. Era
essa expressão, essa intensidade que havia me desgastado, e me conquistado,
aula de história após aula de história, dia após dia, e ele nem sabia que eu era
dele.

— Eu diria que é uma reação bastante compreensível depois de carregar


uma criança por nove meses... E se separar dela — A voz de Wilson era gentil, e
ele beijou minha testa castamente, ofensivamente. Mas eu não queria sua
simpatia. E eu definitivamente não queria espaço. Eu o queria. Eu não queria
que ele beijasse minha testa. Eu queria beijar sua boca. Eu queria beijá-lo com
as minhas mãos em punhos em seu cabelo e meu corpo envolto ao redor dele.
Eu queria confessar meus sentimentos e demonstrar minha devoção. E se eu
não saísse naquele momento, poderia fazer algo que talvez me afastasse dele
para sempre. Eu me afastei quase freneticamente, com medo de mim, com
medo por mim. Wilson deixou-me ir imediatamente.

— Algumas pessoas estão destinadas a ficar sozinha. Jimmy parecia ser


uma dessas pessoas. Talvez eu também seja, gostando ou não.

Wilson não respondeu quando eu me virei e caminhei até a minha mesa


de trabalho. Eu peguei as chaves e me dirigi para as escadas que levavam ao
meu apartamento. Nenhum de nós ofereceu palavras de despedida e a distância
entre nós foi restabelecida como se eu nunca tivesse estado em seus braços.
Capítulo Vinte e Três

Alice
Eu tinha recusado Ação de Graças, Natal e todas as armadilhas de
feriados, mas quando Tiffa ligou e me pediu para ir à festa anual de Ano Novo e
disse-me que sua mãe estaria cuidando dos meninos de Alice e Melody em outro
lugar, eu cedi. Eu disse a mim mesma que não tinha nada a ver com o fato de
que ela tinha arranjado que Wilson fosse meu par porque Pamela estava na
Inglaterra para o Ano Novo.

Imaginei uma festa elegante com uma orquestra ao vivo e vestido de


cocktail e saltos. Mas Tiffa me surpreendeu, dizendo: — Vista algo confortável!
E colorido! Temos um concurso de quem pode usar mais cores, e nós, Wilsons
gostamos de festas de Ano Novo extravagantes. Não use nada que irá mostrar
sua calcinha ao se curvar para o caso de acabarmos fazendo o jogo do saco
marrom. Alice se queixa todo ano, mas não seria Ano Novo sem isso.

Pensei que eu estava bastante colorida de jeans skinny pink e um top azul
brilhante de lantejoulas. Eu até tinha brincos de penas roxas em minhas orelhas
e anexadas ao meu cabelo, sombra brilhante nos olhos e lábios vermelhos, mas
Tiffa tinha me batido facilmente com leggings tingida, uma camisa listrada-
neon ofuscante, plataformas de salto alto de laranja, e uma peruca de palhaço
arco-íris. Wilson ainda entrou no espírito com uma camisa que não era azul,
cinza ou preta. Era de manga comprida com um longo decote em v em um suave
verde claro. Não muito forte, mas pelo menos ele tentou. Ele usava calça jeans
preta e botas pretas e parecia muito um professor liberal.

Não era uma grande festa - talvez trinta pessoas - mas todos pareciam se
conhecer bem. Havia dez ou doze casais, além de Tiffa e Jack, Alice e Peter, e
Wilson e eu. A maioria dos outros eram sócios britânicos de Tiffa da The
Sheffield. Eu esperava que todos eles fossem beber seu champanhe com o
mindinho levantado, considerando como adequado soava na conversa. Mas eles
eram todos muito ruidosos e fáceis de lidar, especialmente depois de algumas
bebidas.

A noite começou com um jogo chamado Ha Há Ha - que foi como Tiffa


chamou. Cada integrante da festa tinha ganhado uma pulseira, que foi feita de
um rolo de adesivos em todas as cores diferentes. O objetivo era fazer as pessoas
rirem usando um grande falso “ha ha há”. Se você fosse bem sucedida em fazer a
pessoa rir, essa pessoa tinha que recompensá-lo com um beijo e um adesivo. Se
uma garota fizesse outra garota rir, ela poderia dar-lhe um beijo molhado, ou
escolher um garoto para essa menina beijar ou vice-versa. O campeão do Ha Ha
Ha era determinado no final da noite pelo número de adesivos acumulados, bem
como quantos ainda tivesse em seu bracelete. Fiquei aliviada ao ver que os
beijos eram todos amigáveis nos lábios e nas bochechas com muitos “Feliz Ano
Novo!” eram lançados. Ninguém parecia tirar vantagem e dar um beijo molhado
em um alguém sem vontade. A maioria das pessoas tinha a intenção de
colecionar adesivos. O jogo continuou durante toda a noite, mesmo quando
outros jogos foram sendo feitos e eu me tornei um pouco mais de um alvo,
porque os Ha Ha Ha dirigidos à mim não eram terrivelmente engraçados, e eu
ainda tinha que perder um adesivo... Ou dar um beijo. Tiffa e Wilson
continuaram indo de um lado para o outro com as outras pessoas, tentando
fazer com que o outro perder - ocasionalmente quebrando em gargalhadas que
eram prontamente recompensadas com um beijo na testa, seguido por uma
etiqueta. Tiffa rapidamente parecia ter varíola com seu rosto muito pontilhado
de adesivos. Alice era tão irritante com o Ha Ha Ha que as pessoas riam e se
encolhiam, quando davam seus vários beijos e adesivos também.

Eu não sei o que eu esperava de uma festa de Ano Novo com um monte
de ingleses, mas não era Ha Ha Ha, e definitivamente não era o jogo do saco
marrom. O jogo do saco marrom consistia em ficar de pé sobre uma perna,
como um guindaste, inclinando-se sem tocar no chão ou o saco, levantando o
saco do chão usando apenas a boca. A cada rodada, alguns centímetros seriam
cortados do saco marrom até que houvesse apenas uma borda fina restante do
saco. Alice acabou ficando com o nariz sangrando quando o cara a colocou no
chão. Tiffa era como Giselle36, facilmente dobrando-se ao meio e mergulhando o
saco do chão como se fosse um movimento de dança que ela dominava há
muitos anos. Jack estava fora após a primeira rodada. O marido de Alice, Peter,
soltava gases toda vez que fazia uma tentativa do saco, ficando envergonhado, e
dizendo: “Pardon me’s” quase que mais engraçado do que os barulhos
constantes. Wilson atacou o jogo do saco marrom com uma concentração
obstinada que suas irmãs diziam ser como ele fazia com todos os jogos, mas
estava fora do seu alcance depois de duas ou três rodadas.

Aparentemente, o jogo do saco marrom era uma tradição da família de


Wilson e não uma tradição Inglesa. Foi o falecido Dr. Wilson que apresentou o
jogo para seus filhos, e eles tinham jogado durante todo o tempo que qualquer
um deles conseguia se lembrar. Fazia pouco mais de dois meses desde que eu
tive um bebê, e eu poderia facilmente ter implorado, alegando que não estava
pronta para um jogo tão físico. Mas eu não queria despertar a curiosidade de
outras pessoas ou convidá-las a fazer perguntas, e se juntar a isso o meu
desagrado por álcool era uma verdadeira vantagem, o meu saldo ainda estava
intacto quando todo mundo estava oscilando. A rodada final foi entre Tiffa e eu,
e ela estava falando bobagens, soando como Scary Spice37, quando deslizou para
a vitória.

— Ha ha ha! — Ela me disse, nariz com nariz, seus olhos cruzaram


comicamente, quando admitiu a vitória. Essa Tiffa era uma grande contradição
da Tiffa-the-Art-Connoisseur que eu ri e afastei-a.

— Você riu! Você riu do meu ha ha ha! — Tiffa gritou e pulou em volta
agitando as mãos no ar. — Dê-me um adesivo, Blue Echohawk! Você sucumbiu
à minha inteligência! Agora preciso designar alguém para beijar você e beijar
bem! Wilson! Pronto para um beijo, amor!

Ninguém realmente prestou muita atenção para o olhar congelado no


rosto de Wilson. Nós estávamos lá juntos, como um casal, por assim dizer. Os
convidados de Tiffa estavam mais entretidos por seu regozijo do que pelo fato de

36 Giselle- a autora faz referência ao balé Giselle do compositor de ópera francês Adolphe Adam.
37 Scary Spice – Pseudônimo de Melanie B, integrante da banda britânica Spice Girls.
que Wilson havia se levantado e estava se aproximando de mim com a intenção
de oferecer um beijo.

Alice, no entanto, estava assistindo com alegria quando Wilson se


inclinou e pressionou seus lábios nos meus em um beijo que foi principalmente
ar e antes que eu tivesse a chance de me preparar.

— Oh, Caramba! Isso foi patético, Darcy! O que nós temos, cinco? — Alice
gemeu alto. — Essa festa toda é patética! Eu não vi um beijo de verdade a noite
toda! Todos esses selinhos, adesivos e a porra do jogo do saco marrom.
Maldição! — Alice pigarreou alto. Ela sentou-se e apontou para um cara de boa
aparência cercado pela maioria das mulheres quando o jogo do Ha Ha Ha
começou.

— Justin! Você não é casado, e está absolutamente delicioso. Você daria


um beijo de verdade na Blue, fazendo o favor? — Alice estava um pouquinho
bêbada, eu suspeitava. O homem chamado Justin olhou para mim com
interesse.

— Agora, Peter e eu poderíamos mostrar-lhe como se faz, não


poderíamos Peter? — Alice deu uma cotovelada em seu marido, que tinha
adormecido depois de ter falhado no jogo do saco marrom. Ele respondeu com
um pequeno ronco silencioso. Alice empurrou-o em indignação. — Maldição!
Bufando e roncando! Que romance! Ajude-me, Justin!

— Ajude-nos todos, Justin! — Tiffa acrescentou enfaticamente,


empurrando Justin para a frente. Todo mundo começou a rir, todos, menos
Wilson, que estava tenso ao meu lado, seus olhos focados no Justin bonitão que
tinha decidido dar a Alice o que ela queria e estava vindo em minha direção.

Wilson se virou para mim de repente, as suas mãos seguraram o meu


rosto, seus dedos deslizando em meu cabelo. Com seus olhos nos meus, ele
abaixou a cabeça e roçou os lábios contra a minha boca, uma vez e novamente,
como se tivesse medo que Alice começasse a puxar um coro de “Droga” se ele se
afastasse. Seus lábios eram firmes e suaves e sua respiração fez cócegas em
meus lábios. Meu coração batia forte na minha garganta e minha mente gritou
para mim, pedindo-me para arquivar todos os detalhes do evento que eu tinha
sonhado, mas nunca ousei esperar. Wilson estava me beijando!

E então eu não conseguia pensar em nada. Seus lábios estavam mais


insistentes, suas mãos me puxando para a frente, para ele, quando sua boca se
movia contra a minha, e depois a minha abrindo os lábios suavemente com sua
língua buscando a entrada. E eu deixei-a entrar, então seus braços estavam ao
meu redor, e o beijo tornou-se algo mais. Não era um jogo, não era um show, era
nosso e a sala ao nosso redor não existia.

Nós nos separamos com um suspiro compartilhado. A sala irrompeu em


gritos e aplausos enquanto Alice pulava e ria como uma menina prestes a sentar
no colo do Papai Noel.

— Isso foi lindo! Darcy! Se você não fosse meu irmão mais novo eu
entraria na fila! Peter! Acorda homem! — Alice chamou seu marido cansado que
tinha perdido todo o espetáculo.

Tiffa estava olhando para nós com um pequeno sorriso em seus lábios,
como se soubesse disso o tempo todo. A mão de Wilson deslizou pelo meu braço
e capturou meus dedos em um aperto. Suas orelhas estavam vermelhas, mas ele
não falou. Ele segurou minha mão pelo resto da noite, e eu jurei que meu
coração tinha inchado. Eu estava ofegante, emocionada e ansiosa para ficar
sozinha, e excitada para explorar este novo acontecimento.

Quando a meia-noite se aproximava, Tiffa ligou a televisão e repassou


chocalhos e confetes. Aparentemente, outra tradição britânica era assistir o Big
Ben bater doze vezes que Tiffa tinha gravado, quando na verdade já tinha
realmente ocorrido em Londres, ela fez que todos se sentissem como se
estivessem em casa... Na Inglaterra. Eu não me importava de trocar a Times
Square pelo Big Ben. Ou desistir de rapazes americanos por um professor nerd
Inglês. No momento, eu estava completamente encantada com todas as coisas
britânicas.

Nós contamos e, em seguida, vimos quando o grande relógio saudou o


Ano Novo em nosso canto do mundo. Gritos de “Feliz Ano Novo!”, abraços,
aplausos e festas barulhentas irromperam pela sala. Tiffa e Jack tinham
lágrimas em seus rostos enquanto se beijavam e se abraçavam, obviamente, pelo
ano que tiveram e os anos que estavam por vir. E eu tinha ajudado a dar-lhes
isso. Virei-me para Wilson, com um sorriso, mas ele desviou o olhar,
observando a sala irromper sem unir-se a celebração.

— Vamos — Disse ele de repente. — Está pronta? Eu quero ir embora.


Vamos fugir. Eu ligo para Tiffa de manhã e a agradeço pela festa.

— Oh, ok — Eu concordei e ele me empurrou para a porta. Pegou nossos


casacos e estava tentando escapar quando Tiffa correu para nós, chamando-nos
para esperar. Wilson fez uma careta, e eu me perguntei por que ele estava com
tanta pressa para sair de repente.

— Darcy, espere! Não leve Blue para longe ainda! Os fogos de artifício são
inacreditáveis daqui de cima. Você perdeu-os no quarto de julho também! E nós
não coroamos o campeão do Ha Ha Ha! — Ela caiu sobre nós, envolvendo os
braços ao redor dos nossos ombros.

— Eu acho que Justin está embriagado, Tif — A voz de Wilson soou


estranha, e um olhar passou entre irmão e irmã, que fez o meu peito ficar
apertado e meu rosto queimar.

— Eu vejo — Disse Tiffa suavemente. Eu queria ir embora. Ela se


inclinou, beijou meu rosto e apertou minha mão. — Obrigada por ter vindo,
Blue. Jack e eu a consideramos parte da nossa família e sempre será. Quando
estiver pronta, você deve ver Melody. Seria bom para todos nós, eu acho — Seus
olhos foram para Wilson e de volta para mim. — Feliz Ano Novo, Amores.

Descemos para a garagem em silêncio, o elevador surpreendentemente


estava lotado, considerando o fato de que era apenas meia-noite e a maioria das
festas estavam em pleno andamento. Eu pressionei minhas costas em Wilson
conforme em cada andar mais ocupantes apareciam, todos descendo. Wilson
manteve sua mão na minha e vi quando os números marcavam. Meu humor
desceu tão rapidamente quando me perguntei se a viagem para casa seria cheia
de desculpas por um beijo que me iluminou como o Quatro de Julho... Ou
véspera de Ano Novo, para ser mais exata. Tiffa estava certa. Os fogos de
artifício de sua varanda teriam sido inacreditáveis. Eu gostaria de ter ficado para
vê-los, para compartilhar mais um beijo quando as cores enchessem o ar antes
que realidade varresse a magia para longe.

Vegas era uma cidade de festa e as multidões eram pesadas, tornando a


caminhada longe do prédio de Tiffa lenta com as pessoas alinhadas que pulavam
de um hotel para o outro, absorvendo as luzes brilhantes, infinita comida e
glamour de uma cidade que se adaptava para celebrações extremas. Felizmente,
o Sheffield ficava na extremidade sul da Strip de Las Vegas, ficando mais fácil
passar as interseções mais grossas quando subimos indo para o anel viário à
leste, em direção a Boulder City. Wilson tinha ficado quieto enquanto
manobrava através da multidão de tráfego e pessoas, mas quando a cidade e
suas luzes ficavam atrás de nós, o silêncio era mais do que eu podia aguentar,
então eu decidi fazer pouco caso da coisa toda.

— Você beija como uma mulher velha, Wilson.

O carro desviou violentamente, balançando-nos um pouco quando


Wilson praguejou e endireitou o veículo, com a cabeça girando entre mim e a
estrada.

— Droga! — Wilson balbuciou, depois riu e gemeu, passando a mão pelo


rosto em agitação óbvia. — Bem, você não.

Meu coração acelerou e meu estômago caiu com suas palavras. — Então
qual é o problema?

— Esse é o problema.

— Bem, se você me beijou e me fez sentir como beijar uma das Golden
Girls38, tudo estaria bem no mundo? Porque isso foi o que senti e me sinto bem,
enquanto você, obviamente, não.

38The Golden Girls foi uma sitcom de grande êxito popular da NBC, exibida de 1985 a 1992 e que teve
como protagonistas as atrizes Beatrice Arthur, Betty White, Rue McClanahan e Estelle Getty.
— The Golden Girls? — Wilson obviamente não assistia reprises
americanas.

— Bem... Talvez nenhuma delas. Talvez... O príncipe Charles — Eu


provoquei.

— Mas não Camilla? Por favor, me diga que não foi como beijar Camilla
— Insistiu.

Eu ri. Pobre Camilla. — Estava beijando como a Victoria Beckham? — Eu


retruquei. — Tiffa me disse que você tinha uma grande queda por ela quando
tinha sete anos.

— Oh, sim. Já que eu sei exatamente como é beijar Victoria Beckham.

— Será que você pensou em Victoria Beckham quando me beijou? Isso é


quase tão bom.

— Não, Blue. Eu não. Infelizmente, eu estava muito consciente de quem


estava beijando e por que não deveria estar beijando-a.

Minhas tentativas para evitar o exame sério do “beijo” obviamente


falhou. Wilson manteve os olhos para a frente todo o caminho de casa, e eu
sufoquei o impulso de pedir-lhe para explicar, para justificar sua rejeição
contundente. Se ele estava lutando com seus sentimentos por mim, ele teria que
entendê-los. Recusei-me a alimentar o seu pesar - ou até mesmo discutir com
ele. Fiquei em silêncio sepulcral pelo restante da viagem. Ele parou em frente de
casa e colocou o carro no estacionamento, girou a chave e virando-se para mim
ao mesmo tempo.

— Eu cruzei muitas linhas com você tantas vezes. Eu era seu professor,
pelo amor de Deus! Minha irmã adotou seu filho! É tudo tão complicado, e eu
não quero fazer as coisas mais confusas do que já são. A amizade que temos, os
momentos incrivelmente íntimos que nós compartilhamos, o fato de que você é
a minha inquilina... Eu posso racionalizar tudo isso. Posso justificar tudo...
Contanto que não haja romance. Hoje à noite, quando eu a beijei, eu cruzei a
linha de amigo, professor, conselheiro, maldita figura paterna — Ele cuspiu esta
última linha para fora, claramente revoltado — Para algo completamente
diferente, e eu lhe devo um pedido de desculpas. Eu não sei o que estava
pensando, deixando Alice manipular-me dessa maneira.

— Figura paterna! Puta que pariu! — Eu fiquei horrorizada. — É assim


que você vê o nosso relacionamento? Eca, Wilson! — Eu saí do carro e subi os
degraus, não esperando por Wilson. Eu realmente não queria matá-lo, mas
nesse momento, estrangulá-lo não teria sido um exagero. Eu o ouvi atrás de
mim, e eu virei para ele quando nós subimos as escadas da frente.

— Para registro, Wilson. Você era meu professor. Uma vez! Você se
tornou meu amigo. Eu não sou uma criança e não sou sua aluna. Eu sou uma
mulher adulta, nem mesmo três anos mais jovem do que você. Você não só beija
como uma velha retrógada como está agindo como uma! Beijar você não era
grande coisa! Não era inadequado, foi um jogo bobo de festa. Se liga!

Eu me orgulhava de minha honestidade e aqui estava eu, mentindo


através dos meus dentes. A verdade era que o beijo foi um grande negócio. E
Wilson definitivamente não beijava como uma mulher velha. Mas ele não
receberia essa verdade. Não agora. Não depois de ter arruinado tudo.

Seus olhos estavam na minha boca, e eu poderia dizer que ele estava
lutando uma batalha interna entre suas proezas de beijar-me ou deixar-se
acalmar sua consciência culpada. Ele realmente não poderia ter as duas coisas.
Ou o beijo foi um negócio muito grande e nós estávamos em um relacionamento
totalmente diferente do que ele estava pronto para admitir, ou o beijo foi apenas
um jogo entre amigos e ele poderia continuar fingindo que tudo era simples e
ele era apenas o bom cara se preocupava com Blue Echohawk.

Ele se aproximou de mim, movendo-se de forma deliberada. Parou logo


abaixo de mim, assim eu estava apenas um degrau acima dele. Nossos olhos
estavam agora no mesmo nível, assim como nossas bocas.

— Não foi grande coisa — Ele disse suavemente.


— Só um jogo bobo — Eu respondi, muito calmamente.

— Então, por que eu quero fazer isso de novo?

Meu coração estava batendo tão forte que ecoou na minha cabeça.

— Talvez você só precise me provar que você não é uma mulher velha?

— Ah... Provavelmente seja isso. Eu só preciso lhe mostrar que eu sou de


fato um homem, capaz de entregar um beijo que não vá fazer você pensar em
agulhas de crochê e meias largas.

— E o pó de talco e dentaduras.

A boca de Wilson estava há um fôlego. — Deve ser isso.

Meus olhos se fecharam enquanto ele mordiscava meu lábio inferior e,


depois o superior. Em seguida, ele separou meus lábios com sua língua, me
provando suavemente. Sua língua encontrou a minha e ficamos apenas com
nossas bocas se tocando, apenas nossas bocas se movendo. Por vários minutos
permanecemos desta forma, nossos corpos centímetros de distância, nossas
mãos aos nossos lados, completamente focados no encontro dos nossos lábios.
O beijo era lento, doce, lânguido, como um gato que se estende ao sol.

E então tudo terminou. Eu me segurei ainda - esperando, desejando - sua


boca encontrar a minha novamente. Mas isso não aconteceu. Meus olhos se
abriram sem vontade de enfrentar o fim de um beijo verdadeiramente
impressionante. Wilson estava me observando, um pequeno sorriso em seus
lábios.

— Tome isso, Camilla — Ele sussurrou. Sem outra palavra, ele me evitou,
subiu as escadas e abriu a porta. Ele segurou-a aberta, esperando eu me virar e
juntar a ele. Meus membros estavam lentos e eu não conseguia manter meus
olhos abertos. O céu da minha boca estava tão sensível que era como se eu
tivesse comido manteiga de amendoim enquanto estava inconsciente.

Wilson me acompanhou até a porta e sussurrou: — Boa noite Blue.


Eu não respondi. Eu só o observei a subir as escadas para o seu
apartamento, me perguntando como ele tinha conseguido a última palavra,
depois de tudo.

Wilson voltou a me evitar pelo próximo mês. Talvez ele estivesse


ocupado, talvez o novo semestre o fizesse trabalhar até tarde. Várias noites eu
ouvi seus passos no apartamento por cima de mim depois das nove horas. A
vida de um professor era ingrata, eu supunha. Mas eu suspeitava que tivesse
mais a ver com o beijo no Ano Novo e ficar longe de mim, do que um aumento
de horário de trabalho. E, claro, Pamela.

Pamela estava de volta da Inglaterra, insinuando de volta para a vida de


Wilson, devorando seu tempo livre. Eles iam ao cinema, saiam para jantar, e
ainda jogaram tênis no fim de semana. Eu nunca tinha sequer segurado uma
raquete de tênis. Acho que nós não jogaríamos em duplas. Além disso, eu não
tinha exatamente um parceiro. Eu não poderia imaginar Bev sendo muito boa
no tênis, e além de Wilson e Tiffa, ela era minha melhor amiga. E isso era
simplesmente triste.
Capítulo Vinte e Quatro

Iridescente
E, então o laboratório ligou.

Eu tinha trabalhado sete turnos de oito horas no café, e quando eu não


estava no café, estava no porão, chafurdando em todo o espaço que me foi dado.
Wilson ficou longe. A única ligação que eu sentia com ele era à noite, quando me
sentava debaixo da saída de ar para ouvi-lo tocar seu violoncelo. Eu já havia
tentado afastar-me até mesmo disso, simplesmente porque a música ironizava o
meu desejo e me fazia sentir crua e rejeitada. Mas noite após noite, encontrei-
me com o meu rosto virado, me torturando com o som, amaldiçoando Wilson e
seu espaço.

Não era que eu tivesse me esquecido dos resultados pendentes do teste de


DNA. Eu não tinha. Mas eu não os aguardava ansiosamente. Então, quando veio
a ligação, eu não estava preparada.

— Blue Echohawk?

— Sim. Sou Blue.

— Aqui é Heidi Morgan do laboratório forense em Reno. Nós temos os


resultados.

Meu coração realmente doía de tanto bater forte.

— Tudo bem — Meus lábios estavam dormentes e duas palavras simples


eram tudo que eu poderia formar.

— Nós temos a combinação, Blue. Gostaríamos que você retornasse para


Reno.
— Ok — Eu repeti. Eles tinham uma combinação. Eles sabiam quem eu
era. — Eu... Eu preciso de um segundo para pensar. Vou ter que sair do trabalho
e comprar uma passagem de avião... E E... Eu preciso pensar — Eu gaguejei,
parecendo ridícula mesmo para os meus próprios ouvidos.

— Absolutamente — Heidi Morgan respondeu calorosamente. — Avise-


nos quando você tiver isso organizado. Tenho estado em contato com o detetive
Moody e o sargento Martinez. Todo mundo está muito animado, Blue. Esse tipo
de coisa não acontece com muita frequência.

Eu prometi que entraria em contato e desliguei o telefone, caindo para a


minha velha cadeira onde ela descansava embaixo da saída de ar, esperando
mais uma sinfonia tarde da noite. Tentei acalmar o meu coração acelerado e
respirar através do nervosismo que me fazia roer as unhas e bater os pés contra
o chão. Eu precisava contar a alguém. Eu precisava contar a Wilson. Mas ele não
estava em casa, e eu estava com raiva dele. Sem parar para me convencer do
contrário, peguei as chaves e sai pela porta. Eu veria Tiffa.

O prédio de Tiffa tinha um porteiro, e eu supunha que era bom porque


ele avisou Tiffa que eu estava subindo, dando-lhe tempo para se recompor
diante da minha visita surpreendente. Mas ela atendeu a porta imediatamente e
me puxou para dentro da casa com um forte abraço e um sorriso largo.

— Blue! Sua idiota! Por que você não me disse que estava vindo? Eu teria
o almoço e champanhe para comemorar! E eu gostaria de saber para ter a
oportunidade de trocar a minha blusa! Melody cospe em mim por todos os
lados. Ela cospe de tudo, estou avisado. Pelo menos eu poderia ter trocado as
fraldas para que ela pudesse fazer uma boa primeira impressão! Agora você vai
ter que aturar-nos como estamos - fedorentas e com fome! — Tiffa flutuava ao
meu redor como uma brisa suave e eu relaxei imediatamente, deixando-a me
puxar em direção ao quarto.

O quarto de Melody parecia um jardim com borboletas e pássaros


esvoaçantes nas paredes e empoleirados nos ramos de árvores florescendo. Um
esquilo enfiava a cabeça de um buraco no tronco, e uma família de coelhos
pulava ao longo da parede acima do carpete verde claro macio. O teto era um
céu azul, salpicado de gordas nuvens brancas e um bando de pequenos gansos
voando em formação de V. Uma velha coruja sábia olhava para baixo de um
galho que se estendia acima do berço, que estava envolto em espuma do mar
coberto de verde, salpicada de pequenas flores cor de rosa, como uma pequena
colina na primavera. Havia bichos de pelúcia saídos do filme Bambi alinhando
as bordas do quarto, e uma gigante cadeira de balanço branca repleta de
almofadas em forma de flor no canto.

Era absolutamente encantador. Toda menina deveria ter um quarto


assim. Mas foi o bebê no berço que prendeu minha atenção. Ela borbulhava e
chutava as pernas rechonchudas. O cabelo preto que tinha ao nascer se
transformou em um marrom mais claro, e ela facilmente dobrou de tamanho.
Eu só a tinha visto por alguns segundos, mas esses segundos estavam
arquivados no meu cérebro. Este bebê parecia muito diferente da imagem na
minha cabeça. Mas seus olhos eram azuis. Ela sorriu e balançou os braços e
pernas e eu me vi sorrindo de volta, piscando com os olhos que de repente se
encheram de lágrimas. O pesar que eu temia que eu tivesse, foi o que me
manteve afastada e não caiu em cima de mim como eu pensava que seria. As
lágrimas nos meus olhos eram mais como alívio de dor e eu me agarrei à mão de
Tiffa, grata por ela de uma forma que eu nunca seria capaz de colocar em
palavras.

— Ela é... Assim... Assim... — Eu gaguejei

— Perfeita — Concluiu Tiffa, seus próprios olhos brilhando de lágrimas


quando ela colocou os braços ao meu redor e me apertou ferozmente. —
Perfeita. Fraldas sujas e tudo. Deixe-me trocá-la para que você possa segurá-la.
Em três meses, Tiffa tornou-se uma profissional, mudou a fralda com as
mãos hábeis e limpando-a, enquanto ela balbuciava e conversava com Melody,
cujos olhos ficaram apontados para seu rosto. Tiffa deixou-me colocar o talco no
bumbum rosa enrugado de Melody, e nós duas espirramos ruidosamente
quando eu me aproximei um pouco mais.

Tiffa riu. — Você faz isso apenas como Jack. Ele diz que você nunca pode
colocar muito talco. Quando papai está de plantão, Melody desprende um pouco
de talco perfumado toda vez que ela chuta.

Tiffa pegou Melody e a colocou em meus braços.

— Aqui. Você balança a pequenina enquanto eu pego a mamadeira —


Tiffa bateu no meu rosto, deu um beijo no cabelo esvoaçante de Melody, e foi
para fora do quarto antes que eu pudesse protestar. Sentei-me com firmeza na
ponta da cadeira de balanço. Sem contar os poucos segundos após o nascimento
de Melody, eu nunca tinha segurado um bebê. Tentei não segurá-la muito
frouxo ou muito apertado, mas seu rosto se enrugou insatisfeito e seu lábio
inferior se projetou para fora, como se estivesse se preparando para uivar.

— Ok, ok. Você não gosta dessa posição. Podemos ajustar! — Corri para
segurá-la de modo que a cabeça balançava acima do meu ombro, uma das
minhas mãos em sua parte inferior e a outra pressionada contra suas costas. Ela
prontamente agarrou a minha bochecha e começou a chupar freneticamente. Eu
gritei, afastando-me e ela voltou-se ao meu nariz.

— Tiffa! Ajuda! Ela pegou o meu nariz! — Eu ri, tentando despregar da


pequena sugadora de sangue. Ela imediatamente começou a chorar, e eu virei-a
de modo que ela estava virada para fora, com a cabeça no meu peito. Eu pulei
um pouco e caminhei pelo quarto, conversando com ela do jeito Tiffa tinha feito.

— Ah, olha, Melody. Há alguns coelhos do bebê! Pequenos coelhos


cinzentos da cor dos olhos do tio Wilson — Eu me parei abruptamente. De onde
tinha vindo isso? Mudei-me para outras características interessantes do quarto.
— Oh, garoto! — Eu continuei no meu tom meloso. — Há um pequeno esquilo.
Ele está olhando para Melody. Ele vê você, Melody!
Melody parou de chorar, e assim eu continuei indo, caminhando ao redor
do quarto com ela saltando em meus braços. — É melhor aquele pequeno
esquilo tomar cuidado! Sr. Coruja está observando-o, e corujas gostam de
devorar esquilos! — Mordi o lábio. Talvez tenha sido assustador. Tentei
novamente.

— As corujas são os únicos pássaros que pode ver a cor azul. Você sabia
Melody?

— Sério? — Tiffa entrou no quarto, sacudindo uma mamadeira


rapidamente em sua mão direita. — Isso é verdade?

— Sim. Quer dizer, eu acho que é. Jimmy, meu pai, amava os pássaros, e
ele sabia todos os tipos de coisas interessantes aleatórias. Eu provavelmente já
esqueci mais do que ele me disse, mas isso era uma piada entre nós. Eu achava
ingenuamente que, por causa das corujas serem os únicos pássaros que podiam
ver a cor azul que eu devia ser invisível para todos os outros pássaros.

Tiffa sorriu: — Porque você era BLUE.

— Sim. Eu pensei que era incrível.

— Invisibilidade viria a calhar, não é? — Tiffa me entregou a mamadeira,


mas eu implorei para não.

— Você faz isso, por favor! Ela está com fome, e eu não quero fazê-la
chorar novamente. Ela tentou fazer sair leite do meu nariz.

Tiffa riu, pegou Melody dos meus braços, e estabeleceu-se na cadeira de


balanço. Melody começou a sugar forte. Tiffa e eu a observávamos com os olhos
colados ao rosto feliz, às bochechas entrando e saindo em êxtase com o
conteúdo que a agradava facilmente.

— Falando de invisibilidade — Disse Tiffa calmamente, sem levantar os


olhos do rosto de Melody. — Estou um pouco surpresa ao vê-la. Feliz - mas
surpresa. O que está acontecendo, Blue?
— O laboratório ligou hoje. Eles disseram que têm uma combinação. Eles
sabem quem eu sou, Tiffa. Eles sabem quem é a minha mãe. Eles me pediram
para ir a Reno.

— Ohhhh, Blue — Tiffa soltou as palavras em um longo suspiro. Seu olhar


estava cheio de compaixão e senti um nó na minha garganta. Engoli em seco e
tentei rir.

— Eu espero que eu não a tenha assustado vindo aqui de olhos


arregalados e em pânico. Eu só precisava contar a alguém. E eu pensei em
Melody e como preciso dessas respostas para o bem dela, mesmo que às vezes
eu preferiria nunca saber.

— Estou tão feliz que você veio. Era hora. E você não estava com os olhos
arregalados e em pânico. Você está sempre tão calma, Blue Echohawk. Eu leio as
pessoas muito bem, mas você é sempre tão autossuficiente, tão reservada. E
aquele ditado? Águas paradas são profundas? Dessa forma, você e Darcy são tão
parecidos — Quando eu não comentei, Tiffa apenas balançou a cabeça,
exasperada, como se meu silêncio provasse seu ponto.

— Ele veio aqui ontem, sabe — Disse Tiffa casualmente. — Acho que ele
está apaixonado.

Meu coração caiu aos meus pés. Meu rosto deve ter registrado o meu
sofrimento, porque Tiffa parou de balançar bruscamente.

— O quê? Blue, o que foi que eu disse?

— Nada — Eu menti, balançando a cabeça. — Eu percebi isso.

Tiffa inclinou a cabeça para o lado, confusa. — Percebeu o quê?

— Que ele está apaixonado — Respondi categoricamente. Eu me sentia


mal.
— Ele está apaixonado por Melody! — Tiffa gritou e balançou a cabeça,
incrédula. — Você deveria ter visto seu rosto. De quem você acha que eu estava
falando? Pamela?

Olhei para os meus pés, sem vontade de responder.

— Blue. O que no mundo está acontecendo com vocês dois? Eu pensei


que depois do Ano Novo vocês finalmente admitiram ter sentimentos um pelo
outro. É tão óbvio! Perguntei a Wilson sobre você ontem e ele agiu de modo
indiferente. Eu não sabia o que fazer com ele.

— Sim. Wilson deve ser uma raça rara de ave. Definitivamente não uma
coruja porque eu me tornei completamente invisível.

— Oh, querida — Tiffa suspirou. — Meu irmão é filho da minha mãe.


Talvez não biologicamente, mas em todos os outros sentidos. Seu senso de
decoro é positivamente arcaico. Eu estou surpresa que ele permitiu-se ficar mais
próximo de você como ele tem feito. E aquele beijo? Alice e eu estávamos
cantando sobre isso por dias.

Eu mantive meu rosto para baixo, desconfortável com a reviravolta da


conversa, mas Tiffa ficava balançando e falando. — O meu irmão precisa de um
empurrão. Com certeza funcionou na frente de Justin. Talvez seja hora de você
abrir suas asas e forçá-lo a fazer uma escolha — Pensou, acariciando as costas de
Melody. A mamadeira estava longe e Melody estava roncando suavemente com
o leite escorrendo do canto de sua boca em forma de arco.

— Tenho trabalhando em algo, mas eu não queria lhe dizer até que fosse
coisa certa. Eu tinha um artista programado para ser parte de uma exposição no
Sheffield no próximo sábado à noite. Ele decidiu que queria renegociar o seu
contrato e acabou saindo. Acontece que acho que sua arte vai bem com toda a
exposição. Na verdade, acho que o seu trabalho vai se destacar. Eu mantive a
“Bird Woman” e algumas outras peças, simplesmente porque elas exigem um
certo tipo de público. Acho que seremos capazes de vender “Bird Woman” por
5.000 dólares na exposição, quando ela poderia ficar meses na galeria.
Engoli em seco e amaldiçoei sob a minha respiração. Tiffa apenas piscou
para mim. — Isso é uma pechincha, querida. Algum dia o seu trabalho vai
vender por muito mais, eu garanto. Bird Woman - Rubicon - Witch - e aquele
que você chama de “Armor” são as únicas peças que me restam. Todas aquelas
serão impressionante, mas eu preciso de mais. O que você concluiu?

Eu tinha esculpido uma chamada “The Saint”. Era St. Patrick


imortalizado em madeira, embora o homem curvado com o cajado dê a
impressão de um pastor caminhando ao redor das chamas ondulando, e poderia
facilmente se confundido com algo totalmente diferente. Aquela que Wilson
tinha chamado de “Loss” e estava no porão também, coberta por um lençol ao
lado da minha bancada, então eu não teria que vê-la. Poderia ser o meu melhor
trabalho, mas machucava olhar para ela. E havia várias outras, incluindo os
ramos entrelaçados que eu tinha freneticamente me perdido por um mês.

— Eu posso chegar a dez.

— Então está certo. Traga-me as peças, e vou fazer isso acontecer. E Blue?
Não diga a Darcy. Será nossa pequena surpresa.

Eu terminei meu turno no café na quinta-feira à noite e fui para casa com
a minha mente na exposição de sábado, nas esculturas que eu tinha montado e
na ligação para Reno que eu ainda não tinha feito. Eles deveriam pensar que eu
estava louca. Detetive Moody deixou duas mensagens no meu correio de voz e
eu recebi outra de Heidi Morgan do laboratório. Disse a mim mesma que depois
da exposição eu os ligaria.

Uma grande parte da minha indecisão era Wilson. Eu tinha


compartilhado essa viagem com ele, e no último mês eu mal o tinha visto. Ele se
tornou meu melhor amigo, e eu sentia sua falta desesperadamente, e estava
brava com ele por ter se afastado. Eu tinha decidido que “espaço” era apenas
mais um desses slogans “não é você, sou eu” que as pessoas usam quando
querem terminar um relacionamento. Mas as amizades não deveriam acabar.
Eu desejei que nunca tivesse compartilhado aquele maldito beijo. Wilson não foi
o mesmo desde então. Eu estava em pé na frente da minha porta do
apartamento, lendo meu e-mail, quando ouvi a porta de Wilson abrir e fechar
acima de mim. Eu fiquei tensa, ouvindo seus passos perto do topo da escada, e
depois fiz uma careta quando ouvi a voz de Pamela perguntar-lhe sobre a
exposição no The Sheffield, no sábado.

— Eu vi os ingressos. Você ia me surpreender? É surpresa do Dia dos


Namorados? — Pamela brincou e seu tom de flerte me fez querer correr até a
escada e atirá-la sobre o balaústre. Ela não deve ter percebido minha intenção
assassina, porque ela continuou falando direito.

— Podemos jantar com os meus pais antes. Eles vão ficar no hotel até a
próxima semana — Eu tinha esquecido sobre a conexão de Pamela com o hotel.
Tiffa disse que a família Sheffield não era mais a única proprietária do hotel,
além do dinheiro, o hotel ainda tinha o nome de Sheffield.

Pamela e Wilson chegaram ao pé da escada e eu furtivamente fui para


trás, esperando que eles não me vissem. Eu deveria ter ido para o meu
apartamento e fechado porta. Agora era tarde demais para fazê-lo sem alertá-los
da minha presença. Então eu fiquei congelada, observando Pamela com os
braços em volta do pescoço de Wilson ficando na ponta dos pés para colocar um
rápido beijo nos lábios. Eu desviei o olhar. Eu deveria ter visto, deveria ter
reconhecido que ela era a garota da sua vida. E eu era a vizinha. O projeto. A
fantasia? Eu não tinha ideia do que eu era para Wilson.

— Vejo você no sábado? — Perguntou Pamela.

Eu não ouvi a resposta de Wilson, eu estava muito ocupada


desbloqueando minha porta. Eu decidi que não me importava se eles sabiam
que eu estava lá. Eu fechei a porta atrás de mim. Quando ouvi uma batida suave
alguns minutos mais tarde, considerei ignorá-la. Só podia ser Wilson, e isso só
me fazia sentir pior. Mas eu era apenas uma garota. E o cara que eu gostava
estava do outro lado da porta. Então abri.

— Oi — Eu disse alegremente, como se não estivesse completamente


afetada pelo o que eu tinha acabado de ver. Wilson não parecia com um homem
que acabou de apreciar um beijo de boa noite. Ele parecia um pouco irritado. E
um pouco estressado. Tentei não ler qualquer coisa nele.

— Oi — Ele respondeu suavemente. — Posso falar com você por um


minuto?

— Claro. Mi casa es su casa... Literalmente — Virei-me e caminhei para


minha casa, sentindo-o em minhas costas. — Será que Camilla simplesmente foi
embora? — Eu perguntei incisivamente. Quando Wilson não respondeu, eu
olhei para ele questionando.

— Camilla? — Ele sorriu, cruzando os braços. — Você me perguntou se


Camilla acabou de sair.

— Foi isso o que eu disse? — Eu fiz uma careta.

— Sim. Você chamou Pamela de Camilla.

— Hmmm. Ato falho — Eu murmurei um pouco envergonhada. Não foi


minha culpa. Eu estava pensando em beijos e ultimamente, me fez pensar em
Camilla... E The Golden Girls.

A escultura que eu tinha trabalhado na última vez que conversamos


estava na minha mesa da cozinha, e Wilson parou ao lado dela abruptamente.
Ele estudou-a atentamente, virando-a de um lado para outro, mas eu estava
distraída, sabendo que qualquer menção de Camilla o lembraria de o que havia
acontecido entre nós mais de um mês atrás.

— Diga-me o que você vê quando olha para esta escultura — Wilson pediu
depois de um tempo, seus olhos itinerantes para baixo das linhas sensuais do
mogno manchado. Sua mão traçava os contornos com reverência.
Eu tinha desbastado o peso dos galhos, criando depressões, nervos e
modelado a sugestão de amantes abraçados, mantendo a inocência natural e
simplicidade dos galhos. Os galhos eram de mogno da montanha, a madeira um
marrom avermelhado natural. Eu tinha esfregado várias aplicações da mancha
preta em um galho e brilhava como um gato selvagem preto, os tons dourados
avermelhados fundiam com a mancha escura, de modo que o preto parecia que
estava em silhueta na luz solar. Não apliquei nenhuma mancha no outro galho,
mas havia simplesmente desbastado e camuflado a madeira vermelha de
dourado até que brilhavam como âmbar. O efeito era que os dois membros da
escultura pareciam ser diferentes da madeira, galhos de dois tipos diferentes de
árvores. O resultado era uma declaração própria.

Eu desviei o olhar. Senti-me quente e com raiva e meu peito estava


apertado com um sentimento que Wilson sempre pareceu agitar em mim.

— Eu prefiro não dizer.

— Por quê? — Wilson parecia realmente confuso com a minha recusa,


desde que eu era geralmente ansiosa para discutir minhas esculturas com ele.

— Por que você quer a minha explicação? O que você vê quando olha para
ela? — Eu disse irritada. Wilson retirou a mão da escultura e agarrou a minha
trança, onde pairava sobre meu ombro. Ele puxou-a suavemente, envolvendo ao
redor de sua mão, como ele fazia.

— O que há de errado?

— Nada há de errado. Estou preocupada — Eu protestei. — E a minha


arte não é sobre o que eu vejo. É sobre o que eu sinto. E agora eu realmente não
quero discutir o que sinto — Tentei puxar meu cabelo livre de sua mão, mas ele
acabou apertando mais, puxando-me para ele.

— Eu vejo membros, amor e luxúria — Wilson afirmou categoricamente.


Eu parei de resistir e meus olhos se levantaram para os dele. O olhar de Wilson
era largo e franco, mas seu maxilar estava tenso, como se soubesse que ele
estava cruzando essa linha invisível que ele tinha traçado sozinho.
— Eu não estou surpresa que você vê essas coisas — Eu disse suavemente.

— Por quê? — Seus olhos eram intensos, e de repente eu estava furiosa.


Eu estava apaixonada por Wilson, não havia dúvida sobre isso, mas não
brincaria, e com certeza não ia jogar beijinho no rosto dez minutos depois de
Pamela sair.

— Você acabou de passar a noite com Pamela — Eu lembrei-lhe


docemente. — Ela é uma mulher bonita.

Seus olhos brilharam e ele deixou minha trança cair, virando-se para a
escultura. Eu poderia dizer que ele estava contando mentalmente até dez. Se eu
o deixei com raiva, era culpa dele. O que ele achou que eu faria? Envolver-me-ia
ao redor dele depois que ele ignorou-me de vez durante meses? Eu não era
aquela garota. Mas talvez ele pensasse que eu fosse. Eu respirei fundo várias
vezes e ignorei a tensão que fervia entre nós. Era espessa o suficiente para cortar
e servir com uma grande dose de negação. Ele deu vários passos, com as mãos
em punhos em seu cabelo, colocando alguma distância entre nós.

Eu mantive minha posição, esperando que ele fizesse o próximo


movimento. Eu não tinha ideia do que eu estava fazendo aqui. E ele não parecia
saber também. Quando ele olhou para mim novamente, a boca estava tensa em
uma linha sombria, e os seus olhos tinham um tom de súplica, como se ele
precisasse me convencer de alguma coisa.

— Você disse que a sua arte é sobre o que você sente, não o que vê. Eu
disse o que eu vejo. Agora me diga o que você sente — Ele exigiu.

— O que estamos falando, Wilson? — Eu revidei. Eu andei em direção a


ele, com as mãos enfiadas nos bolsos. — Estamos falando sobre a escultura? —
Ele me olhava quando eu me aproximei, mas não parei até os nossos dedos dos
pés estavam quase se tocando.

— Se nós estamos falando sobre a escultura, tudo bem. Vejo desejo,


pertencimento e amor, sem espaço — Eu disse as palavras como se eu fosse um
guia de um museu de arte, com ênfase na palavra espaço. — O que eu sinto?
Bem, isso é fácil. Estive no trabalho o dia todo. Estou cansada, Wilson. E estou
com fome. E não gosto de Pamela. Fim. Isso é o que eu sinto. E você?

Wilson olhou para mim como se quisesse me sacudir até que meus dentes
batessem. Então, ele apenas balançou a cabeça e caminhou até a porta. — Peço
desculpas por ter perguntado, Blue — Ele suspirou. Parecia cansado e resignado,
como um daqueles pais de TV apenas tentando tolerar sua filha em idade
adolescente. — Boa noite, Blue.

Eu estava muito confusa até mesmo para responder. Ele saiu do meu
apartamento sem outra palavra.
Capítulo Vinte e Cinco

Elétrica
Passei um tempo ridiculamente longo enrolando meu cabelo. Quando
terminei, ele ficou caído em ondas escuras brilhantes nas minhas costas. Tomei
muito cuidado aplicar uma maquiagem dramática39, mais do que eu tinha usado
em meses. Eu pensei que era adequado para um artista em sua primeira
exposição. Eu tinha reservado um vestido de cocktail que destacasse os meus
olhos, e o azul elétrico era exatamente do mesmo tom. Não foi muito caro, mas
eu estava cruzando os dedos para que não parecesse barato. Tinha mangas
curtas e um decote alto, mas as costas tinham um decote baixo, quase até a
minha cintura. Ele deslizava por minhas curvas, sem ser muito apertado ou
sugestivo, e terminava um pouco acima do joelho. Eu encontrei um par de
sandálias de salto alto para corresponder. Pensei que eu parecia muito bem e
gritei um pouco quando estava pronta. Pareci adulta e sedutora, mas sofisticada
também, como Tiffa. Esperei perto da minha porta apenas para ouvir Wilson
deixar seu apartamento. Se ele e Pamela fossem sair para jantar com seus pais,
ele sairia em breve. Eu não tive que esperar muito tempo. Wilson saiu do seu
apartamento e começou a descer as escadas exatamente às 18h30min.

Eu calmamente tranquei a porta e caminhei em direção à porta da frente,


assim como eu planejei, atingindo o pé da escada antes de Wilson. Ele estava
olhando seu telefone, mas quando ouviu o clique de meus saltos, ele olhou para
cima e seus olhos se arregalaram. Eu tentei não sorrir. Eu queria
desesperadamente ver essa reação. Ele poderia pensar em mim o tempo todo
quando estivesse com Pamela. Eu esperava que ele tivesse um tempo horrível.
Seus olhos viajaram para cima e para baixo no comprimento do meu corpo e
pareciam ficar presos nas minhas pernas. Era tudo que eu podia fazer para não
rir. Limpei a garganta em seu lugar. Agarrado a meus olhos, ele me encarou.

39 maquiagem dramática – É uma tendência popular que dá a seus olhos aparência de "olhos de gato",

"olhos esfumaçados", "olha sedutor".


Espere. Não era isso que eu queria. Corando, gaguejando, elogios - tudo isso que
eu queria. Olhares furiosos não faziam parte do plano.

— Aonde você vai? — Sua voz soou engraçada. Quase com raiva.

— Sair — Eu disse levemente.

— Eu vejo — A expressão de Wilson era indecifrável. — Esse vestido é um


pouco curto.

— Sério? — Eu ri, incrédula. Eu olhei para a bainha que realmente não


era muito curta. — E por que exatamente você se importa quão curta é o meu
vestido?

— Eu não me importo — Wilson respondeu bruscamente. Ele


definitivamente se importava. Talvez ele estivesse com ciúmes. Isso foi uma
coisa boa. Uma coisa muito boa. Dei de ombros e passei por ele em direção à
porta. Meu cabelo deslizava contra a pele nua de minhas costas. Wilson
amaldiçoou.

— Droga! Então, vai começar de novo, não é? — Wilson falou


bruscamente atrás de mim. Eu congelei. A dor me perfurou, e eu girei para ele.
Seu rosto era como granito, os olhos de gelo, seu maxilar tenso. Seus braços
estavam cruzados e sua postura era larga, quase como se estivesse preparando-
se para o meu retorno.

— O que quer dizer, Wilson? O que eu estou começando de novo? — Eu


mantive minha voz baixa e contida, mas por dentro eu estava tremendo.

— Você sabe exatamente o que quero dizer, Blue — Sua voz era dura e as
suas palavras cortadas.

— Oh, entendo — Eu sussurrei. E eu entendia. Estava escrito em todo o


seu rosto. Repulsa. Ele não via uma mulher glamorosa indo para uma exposição
elegante. Ele via uma adolescente de mau gosto com um passado sórdido, toda
vestida para uma noite na esquina.
— Estou voltando ao minha forma de puta. Deve ser isso — Eu levantei
uma sobrancelha fina com desdém e segurei-a lá, esperando que ele me
corrigisse. Ele apenas olhou para trás e ficou em silêncio.

Eu girei em desgosto e puxei a porta da frente aberta.

— Blue!

Eu não me virei, mas fiz uma pausa, esperando por um pedido de


desculpas.

— Eu não vou assistir você se destruir. Se este é o caminho que você quer
ir, não vou atrás de você — A voz de Wilson era dura, quase irreconhecível.

Eu balancei a cabeça, incapaz de falar. De onde veio isso? O que eu tinha


feito para fazê-lo todo parental e hipócrita comigo? Eu queria gritar para ele,
arranhar-lhe os olhos, e dizer-lhe o quão idiota que ele estava sendo. Mas eu não
queria ser mais aquela garota. Apesar do que ele pensava, eu não era mais
aquela garota. Então eu me virei e nivelei meu olhar nele.

— Eu digo o mesmo... Huh?

Eu me virei e saí do prédio, minha coluna rígida, mas meu queixo


tremendo. Se ele me viu sair, eu não sabia. Eu olhei nem para a direita nem para
a esquerda, mas fui embora olhando para a frente. Eu não chorei. Eu não
amaldiçoei. Eu só dirigia impassível até ao hotel.

Tiffa tinha me dito para ir para estacionamento com manobrista e eu fiz,


recusando-me a ser constrangida pela minha velha caminhonete. Saí dela como
se eu fosse à realeza e deixei cair minhas chaves na mão do manobrista com um
comentário para me certificar de que ele não “arranharia meu bebê”. O homem
era bom em seu trabalho e nem sequer pestanejou. Fiquei grata por sua
habilidade de esconder seus verdadeiros sentimentos e jurei que hoje eu iria
esconder os meus muito bem. Era um talento que eu tinha deixado ficar
enferrujado.
Eu abri a porta e perguntei a primeira pessoa que parecia ser funcionário
que vi, onde eu poderia encontrar a exposição de arte. Ele me dirigiu para os
elevadores e me instruiu a sair da galeria, marcado com um L ao lado do botão.
Pânico borbulhava em meu peito, e por um momento pensei em ir embora.
Apenas batendo os saltos, me dirigi para a porta. Eu cerrei os dentes e entrei no
elevador, junto com várias outras pessoas em traje formal. Olhei para mim
mesma no espelho, tentando não ver o que Wilson tinha visto. Meu prazer com
a minha aparência foi esmagada em minúsculos fragmentos ferozes. Meu
reflexo olhava-me desafiadoramente. Meus olhos pareciam muito grandes no
meu rosto e o rosa do meu rosto sumiu pela a alegria que eu não sentia mais. O
que eu estava pensando?

Tiffa me recebeu logo que eu saí do elevador. A sala além era suave, com
iluminação estratégica e a arte cuidadosamente colocada. Uma enorme pintura
de um rosto chorando ficava no centro do palco. As lágrimas eram tão realistas
que a umidade brilhava nas luzes.

— Blue! Você está maravilhosa! Sensacional! Onde está Darcy? — Tiffa


olhou além de mim para as portas do elevador que estavam firmemente
fechadas. — Ele vai morrer quando vir as suas peças em exposição! Eu mal
posso esperar! — Ela gritou femininamente e eu senti uma onda intensa de
afeição por mim. Mas, como a maré, a onda de amor foi arrancada de volta para
o mar da minha decepção quando os meus pensamentos estavam focados
novamente em Wilson.

— Eu não disse a ele.

— Sim, amor, eu sei. Eu convidei-o! — Tiffa sussurrou teatralmente. — Eu


disse que ele tinha que vir esta noite. Eu disse que havia uma nova e brilhante
artista cujo trabalho ele tinha que ver. Enviei-lhe ingressos e tudo. Ele estragou
isso, então?

Você poderia dizer isso. Eu me sentia muito estragada. — Eu não sei


quais são os planos de Wilson — Minha voz soou plana e fria, e as sobrancelhas
de Tiffa dispararam. Não era bem verdade, mas eu não elucidei.
— Hmm — Seus olhos vasculharam meu rosto. Ela apertou os lábios
vermelhos na contemplação. — Ele é bom em estragar as coisas — Foi tudo que
ela disse isso. Então ela enrolou seu braço no meu e me puxou para a frente. —
Venha ver como organizamos as suas peças. Elas estão de tirar o fôlego, Blue. Eu
já tenho uma enorme quantidade de pessoas perguntando por elas. Você já é um
sucesso — Eu me deixei ser puxada e prometi esquecer Wilson e a maneira como
ele tinha olhado para mim. Eu era “um sucesso”. Tiffa disse isso, e eu faria o
meu melhor para aproveitar o momento que era surreal.

“Bird Woman” preenchia um canto inteiro. Ela estava elevada em uma


plataforma preta. A iluminação acima transformou a madeira em líquido
dourado. Por um momento, eu vi a escultura como os outros o fariam, e minha
respiração ficou presa na garganta. Havia apenas uma sugestão de uma mulher
na curvatura dramática de madeira e a sugestão de asas estendidas. Esta era a
razão pela qual eu odiava colocar títulos em minhas esculturas; o título era
limitador. Eu não queria fazer isso. Eu queria que as pessoas interpretassem o
que elas viam, sem minha influência.

Algumas pessoas estavam ao redor dela, estudando-a, virando a cabeça


de um lado para isso. Meu coração batia tão forte que eu pensei que iria abalar a
sala e seu precioso conteúdo. Tiffa deslizou em direção ao homem que parecia
mais apaixonado pela mulher envolta em madeira. Ela estendeu a mão e tocou
graciosamente a manga do homem.

— Sr. Wayne, esta é a artista — Ela deslizou a outra mão para a minha. Sr.
Wayne virou-se para nós. Seu cabelo grisalho estava penteado para trás de seu
rosto. Era um rosto interessante, mais adequado para um mafioso que um
conhecedor de arte. Ele era poderosamente construído, e seu smoking preto
caía-lhe bem. Ele pareceu surpreso com a introdução, e sua boca se curvou
enquanto seu olhar encontrava o meu.

— Eu a quero — Disse ele sem rodeios, sua voz tão acentuada como Tiffa.
Ele deveria trabalhar na Sheffield, também. Senti calor inundar meu rosto, e
Tiffa riu, aquele som de cachoeira tilintando quando disse: — Você é tão
maravilhoso - Eu adoro você.
— E você pode tê-la. A escultura, digo — Tiffa respondeu com um brilho
malicioso. — Esta é Blue Echohawk — Ela disse meu nome como se eu fosse
alguém muito importante. Eu tentei não rir. Eu coloquei uma expressão de
pedra. Essa era a expressão que fazia quando eu não tinha ideia de como
responder.

— Seu trabalho é lindo. Mas o mais importante, é fascinante. Encontro-


me perdendo nele. É assim que eu sei que quero alguma coisa — Sr. Wayne
levantou o copo de líquido claro que ele estava bebendo e virou-o pensativo. —
Eu quase não vinha hoje. Mas Tiffa pode ser bastante insistente.

— Sr. Wayne é um dos proprietários do The Sheffield, Blue — Disse Tiffa


simplesmente. Tentei não tremer. Tiffa voltou-se para o Sr. Wayne. Eu me
perguntei brevemente se seu primeiro nome era Bruce. Parecia que ele poderia
ter um Batmovel escondido no telhado.

Tiffa continuou: — As peças de Echohawk vão valer uma fortuna um dia.


O The Sheffield marcou um grande ponto no mundo da arte hoje à noite — Tiffa
escorria confiança. Eu me sentia tentada a colocar minha mão sobre sua boca.

— Eu concordo — Sr. Wayne inclinou a cabeça para o lado. — Muito bem,


Tiffa — Ele estendeu a mão para mim. — Você poderia me mostrar suas outras
peças?

Tiffa nem hesitou. — Isso é uma ideia brilhante. Eu estarei por perto,
Blue — Então ela saiu, indo para outro casal, sem uma segunda olhada. Sr.
Wayne cheirava caro. Ele enfiou minha mão pelo seu braço, a maneira que
Wilson fez algumas vezes, e nos movemos para a minha próxima escultura.
Talvez fosse uma coisa britânica, o modo cortês. Ou talvez fosse algo que
homens ricos e educados faziam. Eu tinha muito pouca experiência com ambas
as situações. Eu movia ao lado dele e tentei pensar em algo inteligente para
dizer. Minha mente corria em círculos estonteantes enquanto eu tateava
desesperadamente por alguma coisa - qualquer coisa - para conversar. De
repente, percebi que o Sr. Wayne não estava à espera de comentários
espirituosos, estava absorto na escultura a frente dele. — Eu acho que mudei de
ideia. Eu quero esta ao invés daquela — Eu notei a escultura na minha frente
pela primeira vez. “Loss” se curvava diante de mim em repouso angustiado. Eu
queria me afastar. Eu estava aliviada quando Tiffa tinha enviado a caminhonete
para buscá-la. Eu não respondi, mas olhei para além dela, esperando que o Sr.
Wayne seguisse em frente.

— É quase doloroso olhar — Ele murmurou. Senti-o olhar para mim, e eu


levei os meus olhos para os dele. — Ah, há uma história aqui, eu posso dizer —
Ele sorriu. Sorri também, mas me senti forçada. Eu sabia que deveria contar a
ele sobre a peça, vendê-la, vender a mim mesma. Mas eu não conseguia. Eu não
tinha ideia de como fazer isso. Um silêncio constrangedor se seguiu. Ele
finalmente falou e nós dois nos salvamos.

— Alguém me disse uma vez que, para criar uma verdadeira arte você
deve estar disposto a sangrar e deixar que os outros assistam — Eu me sentia
um pouco exposta e de repente queria derreter-me nas sombras da sala onde
poderia observar sem ser observada.

— Está sofrendo em cada linha. É simplesmente... Maravilhosa — Sua voz


era suave, e me repreendi em silêncio. Aqui estava eu no braço de alguém que
poderia ser extremamente útil para minha carreira e eu queria fugir.

— Então ela é sua — Eu respondi, de repente. — É o meu presente para


você, para lhe agradecer por esta oportunidade.

— Oh, não — Ele balançou a cabeça grisalha enfaticamente. — Não. Vou


comprar esta escultura. Obrigado, mas um tremendo preço foi gasto com a
criação desta peça, e não deve ser dada de graça — Sua voz era ao mesmo tempo
terna e amável.

Meu coração bateu dolorosamente e emoção subiu no meu peito. —


Obrigada — Foi tudo o que consegui. E seguimos em frente.

A noite continuou um borrão de roupas caras e louvor inebriante. Eu


esqueci a minha dor no prazer de atenção e movia de um patrono efusivo para o
outro, Tiffa sempre por perto. No fim da noite, Tiffa parou e acenou para
alguém do outro lado da sala.
— Ele veio amor. Você ainda está irritada com ele? Devo mantê-lo
afastado para que você possa fazê-lo sofrer? — Minha cabeça disparou
encontrando “ele” em pé na frente do rosto chorando que acolhia os recém-
chegados na galeria. Wilson parecia pressionado e apropriado em seu smoking
preto. Alto, bonito, com o cabelo penteado para trás, apenas uma onda à vista.
Eu gostaria de poder correr meus dedos por ele e despenteá-lo em cachos
flexíveis. Afastei-me imediatamente. Ele tinha visto o aceno de Tiffa e estava
levantando a mão em resposta quando me viu ao lado dela. Sua mão congelou
no meio do aceno.

— E ele trouxe aquela vaca idiota com ele — Tiffa gemeu. — O que há com
o meu irmãozinho? Seu gosto por mulheres é medonho. Bem, agora sabemos o
que ele fez com o outro ingresso. Ele é definitivamente estúpido — Ela
murmurou a última parte em voz baixa. Eu não tinha certeza ao que ela se
referiu. Pamela não era exatamente uma vaca. Ou um cachorro. Ou qualquer
coisa remotamente atraente, tanto quanto eu queria que ela fosse.

— Estou indo embora agora, Tiffa. Eu já conversei o suficiente? — Eu


disse brilhantemente, já me afastando.

— Não! Blue! O que no mundo está acontecendo com você e meu irmão
idiota? Esta é sua grande noite!

— E tem sido incrível. Mas não quero falar com Wilson agora. Tivemos
um momento muito tenso antes de eu vir esta noite. Eu não estou pronta para
estar em qualquer lugar perto dele.

— Senhorita Echohawk! — Sr. Wayne se aproximou da minha direita, um


pequeno homem asiático andando ao lado dele. — Senhorita Echohawk — Sr.
Wayne estendeu a mão para apresentação. — Este é o Sr. Yin Chen — O
homenzinho inclinou-se ligeiramente. — Ele está intrigado com o seu trabalho.
Ele implorou por uma apresentação.

Ao meu lado, Tiffa estava praticamente vibrando. Este deveria ser alguém
importante. Qual era o nome dele? De repente eu senti como se o topo da minha
cabeça fosse estalar e flutuar como um balão de hélio. Deveria me curvar
também? Tiffa o fez. Então eu a copiei.

— Prazer em conhecê-lo — Eu murmurei, sem noção.

— Sr. Chen está especialmente interessado na que você já intitulou


“Cello” — Sr. Wayne sorriu para o Sr. Chen com indulgência.

Sr. Chen! Era isso. Não era muito difícil lembrar. Do canto do meu olho,
eu vi Wilson se aproximando com Pamela em seu braço. Eu pisei no pé de Tiffa,
provavelmente mais violentamente do que se justificava. Tiffa engasgou um
pouco e moveu-se para envolver o Sr. Chang (?) na conversa. Virei-me para o Sr.
Wayne, e ele baixou a cabeça discretamente e murmurou baixinho no meu
ouvido, me puxando de lado, o que foi bom para mim, pois me afastou de
Wilson.

— Sr. Chen (Chen!) é um magnata Bei Jing - um dos patronos que nós
gostamos de cuidar muito bem quando está na cidade. Ele observa cada detalhe
da arte. Se ele gostar do seu trabalho e pensar que você é a próxima grande
coisa, ele vai mover céus e terra para comprar tantas peças quanto puder.

— Será que ele vai comprar todas elas? — Eu perguntei, tentando não
guinchar como uma criança.

— Infelizmente para o Sr. Chen, todas elas foram vendidas — Sr. Wayne
sorriu para mim.

— Todas elas! — Eu sussurrei atordoada.

— Sim. Todas elas.


O smoking de Wilson estava arremessado por cima do corrimão e sua
gravata estava solta, pendurada em uma onda cansada. Alguns botões estavam
abertos e ele estava caído na escada, os cotovelos sobre os joelhos, as mãos
cruzadas na sua frente. Eu o observei através do vidro da porta da frente, por
um momento, imaginando o que ele poderia dizer que me faria perdoá-lo. Ele
tinha revelado demais, e eu não poderia tirar suas palavras da minha cabeça.
Elas piscavam em neon, movimentando-se continuamente em meu cérebro.

Eu tinha sido felicitada, elogiada, mesmo adorada naquela noite. Mas


eram as palavras de Wilson que enchiam minha cabeça. O Bei Jing Mogul cujo
nome não conseguia lembrar-me encomendou-me cinco peças separadas e tinha
me presenteado com um cheque de US $ 5.000. E receberia outro cheque no
mesmo valor quando as esculturas fossem concluídas, e o The Sheffied me
deixou ficar com toda a comissão. A noite foi um sucesso e eu poderia ver um
futuro pela frente. Um sucesso que eu ainda não tinha ousado sonhar. Mas meu
coração doía no meu peito, e eu tinha me sentido mal toda a noite por causa de
Wilson.

Ele parou quando eu abri a porta da frente. Coloquei as chaves na minha


bolsa e me dirigi para o meu apartamento, eu não o reconheceria. Eu tinha
dirigido pela cidade por horas depois de sair da exposição. Pela primeira vez
desde que me mudei, eu não queria ir para casa, para Pemberley.

— Blue.

Eu tive que procurar as chaves de novo da minha porta. Calma. Minhas


mãos tremiam, e eu olhei para baixo procurando-as. Eu não me abalaria! Eu não
lhe mostraria fraqueza.

— Blue — Foi apenas um sussurro, e eu vacilei contra o tremor em meus


membros e a quebra do meu coração. E então ele estava ao meu lado, com a
cabeça inclinada sobre a minha. Eu mantive minha cabeça baixa, olhando para a
fechadura da minha porta.

— Eu estava preocupado com você.


— Por quê? — Falei calmamente. A chave deslizou na fechadura, e eu girei
a maçaneta com gratidão. — Tiffa não lhe disse? Eu era a prostituta de luxo
contratada para o evento. Eles me contrataram para manter o Sr. Ying Yang feliz
— Eu golpeei meus cílios para ele, não realmente olhando quando empurrei a
porta aberta e entrei no meu apartamento.

Wilson empurrou-me como se eu fosse correr dele. E então me apertou


contra a parede, batendo a porta atrás de nós tão forte que a minha foto e de
Jimmy balançou e caiu, batendo no chão. Minha cabeça estava presa entre suas
mãos, e ele se inclinou para mim com seus lábios tremendo.

— Pare. Pare com isso. Não é engraçado, Blue. É doentio. Isso me faz
querer caçar o maldito Sr. Chen, qualquer que seja o diabos do seu nom...

— Não foi isso que você pensou quando saí hoje à noite? — Eu
interrompi. — Que eu estava à caça?

— Por que você não me contou? — Ele engasgou com incredulidade. — Eu


estava tão malditamente orgulhoso. Foi brilhante. Tudo isso. E você não me
disse. Você me deixou como um idiota completo.

— Eu não contei a você? Eu estava toda arrumada e você... Você me


insultou e disse que eu parecia uma... Uma puta — Eu me empurrei contra ele,
empurrei-o com raiva, precisando respirar, não querendo quebrar na frente
dele. Mas ele não se afastou, em vez disso suas mãos caíram para enquadrar
meu rosto, forçando-me a olhar para o dele. Eu desviei o olhar imediatamente,
em tom desafiador.

— Eu estava com medo — Eu observei sua boca e tentei me concentrar no


que ele me havia me dito antes. Eu me lembrei da sua repulsa, o seu desdém.
Mas seus lábios estavam tão perto. Ele estava tão perto. Seu hálito cheirava doce
e eu senti um tremor no fundo do meu ventre.

— Eu estava com medo, Blue — Ele repetiu insistente. — Você já passou


por tanta coisa. E sou meio louco por você. Eu não acho que você está pronta
para o que eu sinto.
Meu coração bateu a um impasse e minha respiração parou. E, em
seguida... Seus lábios roçaram os meus. Devagar, com ternura. Mal estavam lá.
Ele falou de novo, suas palavras fizeram cócegas em minha boca. Segurei a parte
de trás de sua camisa, torci o tecido, desesperadamente tentando não perder a
cabeça.

— Eu tentei dar-lhe tempo. E então eu vi você hoje à noite. Você estava


toda arrumada, pronta para sair, incrivelmente bonita, confiante e forte. E eu
pensei que tivesse perdido você de uma vez por todas.

Eu conseguia sentir seu coração batendo no seu peito, e o meu correndo


para se juntar a cadência. E então sua boca se fechou sobre a minha novamente.
Não hesitante, não sussurrando. E eu também me sentia perdida.
Completamente. Era um beijo há muito tempo negado. Perguntando, abrindo,
reivindicando. E a sala girou quando eu me agarrei a ele. Minhas mãos se
moviam sobre o comprimento de suas costas, puxando-o para mim, precisando
de mais.

Seus braços passaram em volta de mim e me levantaram para ele,


abrindo sua boca na minha, exigindo entrada. Ele tinha gosto de alcaçuz e flocos
de neve. Simultaneamente proibido e familiar. Quente e frio. Pecaminoso e
seguro.

Sua boca deixou a minha e colocou beijos em minhas pálpebras,


bochechas, meu pescoço e suas mãos agarraram meus quadris
desesperadamente, esmagando o tecido em suas mãos, como se ele se
ressentisse da barreira. Eu senti como se estivesse pegando uma onda,
montando a crista, e eu não conseguia chegar perto o suficiente para ele. Então,
ele me levantou, envolvi minhas pernas em volta de sua cintura, quando ele
reivindicou minha boca novamente, engolindo o meu nome quando falou contra
os meus lábios.

— Blue, eu preciso tanto de você. Quero muito você.

E o seu rosto rosa apareceu na minha mente... A maneira como ele tinha
me olhado quando me disse que não iria atrás de mim “nesse caminho”. Eu me
afastei ofegante com as minhas pernas ainda bloqueadas ao redor dele, com os
seus braços apoiados ao redor do meu corpo.

— Você me quer, Wilson? Você me quer? Ou você me ama? — As palavras


correram para fora de mim, e os seus olhos estavam carregados de paixão, seus
lábios à fôlego, em busca dos meus novamente, como se ele não tivesse
registrado a pergunta. Afastei-me ainda mais, negando a mim mesma, negando-
lhe. Ele franziu o cenho e mordiscou meus lábios, puxando minha cabeça para
ele, exigindo mais. Eu resisti, mesmo que o meu corpo tremia com a
necessidade. Soltei minhas pernas de sua cintura, deixando meus pés
encontrarem o chão. Alisei minha saia para baixo, agradecida que minhas
pernas me mantiveram. Se eu não parasse agora, não teria força para dizer não.
E hoje eu tinha que dizer não.

Wilson parecia atordoado, como se toda a razão o tivesse deixado.

— Blue?

— Eu vi como você olhou para mim esta noite. Você estava revoltado.
Você olhou para mim como se eu fosse... Barata — Eu respirei fundo. — Mas eu
não sou mais aquela garota. E então você precisa ir. Por favor — Minha voz não
era forte, mas firme. Wilson parecia atordoado. Ele passou a mão ao longo da
parte de trás do seu pescoço, confusão e remorso guerreando em seus olhos.

Movi-me para além dele e abri a porta. Eu esperei ao lado dela com o
meu coração na garganta.

— Por favor, Wilson — Eu supliquei. Ele moveu-se como se não soubesse


mais o que fazer, entrando lentamente no foyer passando pela minha porta
como um homem que acabava de sofrer um choque terrível. Fechei a porta atrás
dele e esperei com meu ouvido pressionado contra ela, até que ouvi os passos
dele se afastarem. Eles pisaram pesadamente sobre as escadas. Eu tranquei a
porta e ajoelhei-me, recuperando a imagem que tinha caído no chão. O rosto de
Jimmy olhava para mim, mas era o meu próprio que me atraiu. Uma menina
com tranças longas, mais longas que a de Jimmy. Eu tinha perdido meus dois
dentes da frente, e sorria alegremente, rindo para a câmera com toda a minha
glória desdentada. Jimmy não sorria, mas seu braço estava envolto ao meu
redor e eu me agarrava a ele tão naturalmente como ele à mim. Como se eu
fosse preciosa. Como se eu fosse amada.

Havia uma rachadura no vidro. Pendurei a imagem de volta de qualquer


maneira, endireitando-a cuidadosamente. A rachadura separava a parte de cima
de nossos corpos da parte inferior. Felizmente, o quadro não foi danificado.
Estávamos ainda todo debaixo da cicatriz irregular. Parei, considerando. Eu
estava cheia de cicatrizes, mas não estava quebrada. Sob minhas feridas eu
ainda estava inteira. Sob minhas inseguranças, debaixo da minha dor, debaixo
da minha luta, por baixo de tudo, eu ainda estava inteira.

Eu diminuí as luzes e retirei o meu vestido na contemplação silenciosa. E,


em seguida, acima de minha cabeça, a música começou. Fui até a sala e levantei
meu rosto para a saída de ar, escutando. Wilson sintonizava e apertava as
cordas, deslizando e tocando. E, quando ouvi, fiquei cheia de admiração. Willie
Nelson. Wilson estava tocando Willie Nelson. “You Were Always on my Mind”
nunca soou tão doce. Era como se tivesse sido escrita para o violoncelo, embora
eu duvidasse que a maioria das pessoas sequer reconhecesse Willie Nelson no
arranjo de Wilson. Tocou-a várias vezes antes de parar, como se a necessidade
de se certificar de que eu ouvi. E então tudo ficou tranquilo acima de mim.
Capítulo Vinte e Seis

Leve
Acordei com alguém batendo na minha porta na manhã seguinte. Eu
havia passado toda a noite inquieta, com desejo e amor, cansada com a dúvida,
me perguntando se eu deveria ter aceitado o que Wilson estava oferecendo de
forma clara.

— Blue! Blue! Abra! Eu preciso falar com você!

— Puta merda! — Eu gemi, deslizando para fora da cama e colocando um


sutiã, um jeans e uma camiseta com Wilson continuando a bater.

Abri a porta, deixando-o entrar, mas imediatamente retirei-me para o


banheiro. Ele me seguiu, e eu rapidamente fechei a porta na cara dele. Eu usei o
banheiro, escovei os dentes e cabelo, e retirei toda a maquiagem da noite
anterior. Wilson ainda estava esperando do lado de fora da porta do banheiro
quando eu abri. Ele pegou no meu rosto limpo, os olhos demorando em minha
boca. Sem dizer uma palavra, ele deslizou seus braços ao redor de mim e
enterrou o rosto no meu cabelo. Engoli em seco, isso me pegou completamente
de surpresa. Ele apenas me segurava mais apertado.

— Eu acho que é hora de acabar com isso — Ele sussurrou contra meu
cabelo.

Eu tentei me afastar dele, rejeitá-lo antes que ele me rejeitasse. Era mais
fácil dessa maneira. Mas ele apertou seus braços e me acalmou com sons de
shhhing.

— Shh, Blue. Basta ouvir.


Eu me mantive muito rígida, tentando não me distrair com seu cheiro,
com a sensação dos braços ao meu redor, seus lábios em meus cabelos, pelo meu
desejo de mantê-lo ali.

— Acabar? — Eu finalmente respondi.

— Esse negócio de não saber.

— O que você não sabe, Wilson?

— Eu sei muito mais do que costumava saber, Blue. Que número nós
estamos agora? Eu já perdi a conta. Quais eram eles? Eu sei que você é
brilhante. Você é linda. Você é incrivelmente corajosa. Você tem senso de
humor. Você esculpe obras de arte inacreditáveis ... Não totens — Eu relaxei
contra ele, sorrindo em seu peito. — Você tem gosto ruim para parceiros...
Embora desde que eu me incluo entre eles, eu poderia ter que alterar isso.

— Tiffa diz que você tem péssimo gosto para mulheres, talvez nós
estejamos quites — Eu interrompi.

— Eu não tenho péssimo gosto para mulheres. Eu sou louco por você, não
é?

— Você é?

— Sim, Blue. Eu sou. Estou completamente apaixonado por você.

O sentimento que surgiu em mim era uma mistura de confusão e dúvida.

— E quanto a Pamela?

— Ela beija como uma velha — Disse ele em voz baixa.

Eu ri com o meu coração imediatamente mais leve.

— Eu disse a ela na noite passada que estava apaixonado por você. O


engraçado é que eu acho que ela já sabia.
Eu enrolei minhas mãos em sua camisa e respirei fundo, esperando o
machado cair, porque eu podia sentir que ele tinha muito mais a dizer. Ele fez
uma pausa, talvez se perguntando se eu gostaria de declarar meus sentimentos
também. Quando eu permaneci em silêncio, ele suspirou e voltou a falar.

— Mas esta é onde entra a parte de não saber, não tenho nenhuma ideia
de como você se sente sobre mim. Um minuto, eu tenho certeza que você sente o
mesmo. O próximo você está me dizendo que é apenas um jogo idiota. Um
minuto, estou dizendo a você que estou perdido sem você. O próximo você está
me dizendo para cair fora.

— Então é isso que você não sabe? Você não sabe como me sinto sobre
você? — Eu quase ri, era tão óbvio. — Não sou eu que está namorando alguém,
Wilson. Eu não estou convencida de que não é apropriado ficar comigo. Não sou
eu que tenho lutado a cada passo do caminho.

— Isso ainda não é uma resposta, Blue. Como você se sente sobre mim? —
Sua voz era insistente, e suas mãos estavam em meus ombros agora, me
afastando para que ele pudesse ver meu rosto. Eu não conseguia responder. Não
porque não sabia, mas porque eu sabia.

— Posso mostrar a você algo? — Eu disse de repente. Wilson deixou cair


às mãos em frustração e virou-se, passando a mão pelo cabelo.

— Por favor. Pode ajudar-me a explicar. Eu não sou tão boa com as
palavras como você é, Wilson.

Eu me inclinei para a frente e agarrei sua mão, puxando-o atrás de mim


enquanto caminhava pela casa. Ele seguiu, mas eu podia ver que eu ia machucá-
lo por não responder sua pergunta. Puxei-o através da porta na minha cozinha,
que levava ao porão, e desci as escadas, não liberando sua mão até chegarmos a
minha bancada.

Eu apontei para o meu mais recente trabalho em andamento. — Este era


o enorme pedaço de madeira que você me ajudou a arrastar há algum tempo
atrás. Você me perguntou se eu iria fazer uma réplica em tamanho natural do
Tiranossauro Rex, lembra?

— E é isso? — Wilson olhou incrédulo para a escultura que ainda era


grande, uma das maiores esculturas que já fiz - mas quando nós a arrastamos e
era grande demais para colocá-la na mesa de trabalho, nós tivemos que usar o
carrinho para colocá-la na casa. Deveria pesar 100 quilos. Desde aquele dia, eu
tinha esculpido o suficiente para eu mesma içá-lo para cima da mesa. Eu
apontei para as grandes seções de madeira que eu tinha cortado, criando uma
escalada, estrutura circular, quase como uma escada circular construída para
fadas em um vale arborizado. Ela seria a minha primeira escultura para o Sr.
Chen. — Você vê como a escultura foi criada através da remoção de madeira?
Como quase removi mais do que mantive?

Wilson acenou com a cabeça, vendo meus dedos roçarem ao longo dos
vales e sombras que eu tinha criado.

— Não é apenas sobre o que está ai, mas o que não está. Você entendeu?
— Eu tropecei um pouco sobre as minhas palavras, sabendo o que eu estava
tentando dizer e não sabendo se eu estava realmente dizendo.

— Eu acho que sim. O espaço cria a silhueta, a dimensão, à forma...


Certo?

Eu sorri para ele, emocionada que ele entendeu. Ele sorriu de volta, tão
docemente, tão carinhosamente, que por um minuto eu não consegui encontrar
a minha respiração, e me mexi para recuperar a minha linha de pensamento.

— É exatamente isso — Eu balancei a cabeça com os meus olhos focando


novamente na escultura à minha frente. — Jimmy me ensinou que quando você
esculpe, é o espaço negativo que cria linha, perspectiva e beleza. Espaço
negativo é o lugar onde a madeira é esculpida, criando aberturas que por sua vez
criam forma — Fiz uma pausa e respirei fundo, sabendo que isso era algo que eu
tinha que dizer. Se eu amava Wilson - e eu sabia que amava - teria que fazê-lo
entender algo sobre mim que não era fácil de entender. Isso faria me amar
muito. Eu tinha que avisá-lo. Eu me virei para encará-lo e encontrei o seu olhar,
suplicando sem artifícios ou pedido de desculpas.

— Às vezes eu sinto que tenho um enorme e escancarado buraco do meu


queixo até a minha cintura, um espaço negativo aberto que a vida acabou
esculpindo. Mas não é bonito, Wilson. Às vezes sinto que é vazio e escuro... E...
E nenhuma quantidade de lixa ou tinta irá transformá-lo em algo que não é. Eu
tenho medo que se eu deixar você me amar, seu amor será engolido por esse
buraco e por sua vez, você será engolido por ele.

Wilson tocou minha bochecha, ouvindo o que eu estava dizendo, suas


sobrancelhas baixaram se concentrando durante um olhar cinza compassivo.

— Mas isso não é realmente com você, Blue — Disse ele suavemente. —
Você não pode controlar quem você ama... Você não pode deixar alguém amar
você mais do que pode fazer alguém amar você — Ele embalou meu rosto entre
as mãos. Eu estendi a mão e segurei seus pulsos, presos entre a necessidade de
agarrá-lo e afastá-lo, mesmo que fosse apenas para me salvar do que ele me
fazia sentir.

— Então, você está com medo de me deixar amar você, porque tem medo
que você tem um buraco que não pode ser preenchido... Por nenhuma
quantidade de amor. Mas a minha pergunta para você é, mais uma vez, você me
ama?

Eu me preparei e acenei com a cabeça, fechando os olhos contra o seu


olhar, incapaz de dizer o que precisava dizer com os olhos, tão cheios de
esperança, fixados no meu rosto.

— Eu nunca senti por ninguém o que sinto por você — Eu confessei


rapidamente. — Eu não posso imaginar que o que estou sentindo que não seja
amor. Mas “eu te amo” não é adequado para expressar isso — Eu mergulhei de
cabeça balbuciando. — Eu quero desesperadamente que você me ame. Eu
preciso que você me ame - mas não quero precisar disso, e estou com medo de
que preciso muito disso.
Os lábios de Wilson dançaram com os meus, e ele me tranquilizava entre
beijos, professando sua própria necessidade. Suas mãos alisaram meu cabelo, os
lábios traçaram minhas pálpebras e os cantos dos meus lábios enquanto ele
continuava a sussurrar todas as razões, uma após a outra, por isso que ele me
amava. Quando suas palavras tornaram-se poesia, Como Eu Amo Você? Deixe-
me Contar as Diversas Formas, eu suspirei e ele capturou o som com um beijo.
Quando as lágrimas inundaram os meus olhos e escorriam pelo meu rosto, ele
seguiu-as com a boca e as prendia entre nossos lábios. Quando eu sussurrei seu
nome, ele provou seu sabor e sorveu-a até que eu estava tonta com sua atenção e
me enrolei ao redor dele como uma criança assustada.

Mas eu não estava com medo. Eu estava gloriosamente efervescente, sem


peso e livre. Leve. E embora nós tivéssemos passado o dia no meu apartamento
em ataques felizes de beijar e tocar, intercalados com conversas tranquilas e
silêncios sonolentos, entrelaçados como cobras preguiçosas, por algum
conhecimento tácito, não fizemos amor. E era tudo novo para mim, romance e
prazer, beijar por beijar, e não como um meio para um fim, mas como uma
experiência em si.

Eu nunca tinha segurado alguém ou ficado abraçado sem ter como


finalidade o sexo. Eu nunca tinha corrido minhas mãos nas costas de um
homem ou entrelaçado minhas mãos nas suas enquanto beijava minha boca
sem a minha mente ser consumida com o que vinha em seguida. Com Wilson,
não era sobre o que vinha depois, mas o que estava acontecendo agora. Tocar
não foi orquestrado ou coreografado para cumprir os requisitos das
preliminares. Era um evento próprio. E foi eroticamente casto, sensível e
revelador.

Foi a ultima sessão de amasso, do tipo que eu imaginava acontecer em


casas de adolescentes em toda a América. Onde cada toque era roubado, cada
beijo uma conquista, a cada momento uma corrida contra o toque de recolher.
Era o tipo de beijo proibido porque a mãe e o pai estavam sentados lá em cima e
a descoberta era iminente, era a roupa ficava onde estava e paixões se
enfureciam e beijar assumia uma intensidade própria, simplesmente porque ir
mais longe não era uma opção. No momento em que o sol da tarde encheu
minha sala de estar, meus lábios estavam machucados e bonitos, e meu rosto
estava um pouco machucado de aninhar e acariciar no pescoço de Wilson e de
ser tocada em troca. Passamos um tempo sem compromisso, saciados sem
sacrifício, completa e totalmente envolvidos no amor. E foi delicioso.

A sombra de uma perfeita noite de domingo encheu meu apartamento


antes que qualquer um de nós fizesse qualquer tentativa de falar do futuro.
Tínhamos invadido meu armário e descobrimos o que eu já sabia... Havia pouca
comida em minha cozinha. Acabamos pedindo comida chinesa e esperamos
ansiosamente por sua chegada, nos distraindo da fome com cinnamon bears e o
jogo de confissão.

— Fui eu que retirei as tampas de todos os seus.

— Sério? Foi você quem os substituiu no dia seguinte, também?

— Sim. Eu me senti mal. Eu não sei o que deu em mim. Fiquei tentando
chamar sua atenção nas formas mais desagradáveis, como um daqueles
meninos esquisitos no playground que atira pedras nas meninas que eles
gostam.

— Então, posso assumir que foi você que colocou uma foto suja no meu
retroprojetor para que quando eu ligasse todos os alunos teriam o pacote
completo?

— Culpada.

— E o bloqueio que de repente apareceu no case do meu violoncelo?

— Sim. Isso fui eu também. Foi só um pouquinho. E eu coloquei a chave


no bolso do casaco.
— Sim... Foi um pouco estranho. Pena que demorei dois dias tentando
serrar a maldita coisa antes que eu a encontrei.

— Eu queria a sua atenção, eu acho.

Wilson bufou e balançou a cabeça. — Você está brincando? Você entrou


na minha classe com a calça mais apertada que eu já vi, botas de salto alto de
motociclista, o cabelo selvagem. Cabelo de Snogging. Você tinha a minha
atenção desde o início.

Corei, meio satisfeita, meio envergonhada. — Cabelo de Snogging?

Wilson sorriu como um homem que sabe que está agradando sua mulher.
— Snogging é o que nós passamos o dia todo fazendo, amor. Significa beijando...
Muito. Após essa primeira semana ou mais de aula, eu estava convencido de que
tinha escolhido a profissão errada. Eu estava completamente deprimido, e era
tudo culpa sua. Eu tinha certeza de que teria que pedir-lhe para se transferir
para outra classe, porque eu sabia que estava em apuros. Na verdade, desde que
estamos confessando coisas... Eu fui pedir ao conselheiro para pegar seus
registros para mim. Foi depois do dia em que eu falei com você depois da aula,
depois de toda a “Eu não sei quem eu sou”.

— Não foi legal — Eu disse, magoada.

— Sim, querida. Eu sei — Ele disse baixinho e deixou cair um longo beijo
na minha boca carrancuda. E, então, enroscou-se em mim, esquecendo
completamente a discussão até a campainha tocar e nós puxar, rindo um pouco
quando nós fizemos.

— A comida está chegou! — Nós dois corremos para a porta.

Só depois que tínhamos escavado o frango com caju e a carne de porco


agridoce que eu voltei de novo para a sua confissão.

— Então você pesquisou meus registros... E o que achou?


Wilson engoliu em seco e deu um grande gole de leite. — Eu não sabia
com o que eu estava lidando. Você era um caso difícil, Echohawk. Você sabia
que há um registro policial em seu arquivo?

Eu congelei, minha colher deu uma pausa entre a boca e a tigela. — O


quê?

— Quando o corpo do seu pai foi encontrado reabriram o seu caso - ou o


pouco que alguém conhecia. Houve alguns esforços para descobrir quem era sua
mãe por razões óbvias. Seu pai estava oficialmente morto, e alguém pensou que
era importante fazer mais uma tentativa de localizar sua mãe. Não havia muito
no arquivo. Eu não sei por que a escola ainda tinha uma cópia, exceto que você
era responsabilidade do estado, pelo menos você foi até dezoito anos. Tinha o
nome de um funcionário no arquivo. Eu anotei isso não sei por quê. Talvez fosse
o nome estranho, Izzard. Isso lembra alguma coisa?

Eu balancei a cabeça, retomando a minha refeição. — Ele era um dos


oficiais que, inicialmente, me encontrou, por assim dizer, depois que meu pai
desapareceu — Comemos em silêncio. — Eles me ligaram. O laboratório, em
Reno? Eles ligaram. Os resultados ficaram prontos.

Wilson olhou para mim e o garfo parou no caminho para sua boca, me
incitando a continuar.

— Eles querem que eu volte. Eles disseram que têm uma combinação.
Eles vão mostrar-me tudo. Eu soube há duas semanas. Uma parte minha quer
entrar no carro agora e ir para Reno. Uma parte mal pode esperar. Mas a outra
parte, a parte que pertence a Jimmy? Essa parte não quer saber. Ele era tudo o
que eu tinha, e não quero deixá-lo ir. Eu não quero saber uma coisa que vai
mudar o que eu sinto por ele, que vai mudar a nossa história.

Eu pensei em como esse pequeno ato de bondade para uma menina com
fome trouxe o destino à porta de Jimmy Echohawk e como ele pagou seu Karma
com compaixão e arte de uma forma única. Um pequeno ato e ele se abriu ao
desespero de uma mãe e encontrou-se em uma posição onde ele se tornou
responsável por uma criança que ficou ainda mais sozinha no mundo do que ele.
— E eu me preocupo que o que eu descobrir vai ser feio e... Assustador.
Estou realmente cansada do feio, como você bem sabe. Vai doer. Vai me rasgar.
E eu estou cansada disso também. Que tipo de mulher faz o que ela fez? Que
tipo de mãe? Uma grande parte minha não quer saber quem ela é ou nada sobre
ela.

Nós ficamos em silêncio com as minhas palavras no rodeando como


grafite nas paredes, inevitáveis e gritantes, destruindo a paz que esteve entre
nós. Wilson largou o garfo e apoiou o queixo em suas mãos.

— Você não acha que é hora de colocar um fim a isso? — As mesmas


palavras de antes com um contexto totalmente diferente.

— Um fim em quê? — Eu disse a minha linha.

— Neste negócio de ficar sem saber — Repetiu em voz baixa, segurando


meu olhar.

Eu sabia o que ele queria dizer e não precisava ouvi-lo dizer isso.

— Vamos tirar uns dias de folga. Eu tenho alguns dias de folga para pegar
e Beverly vai entender.

— E o que vamos fazer?

— Nós acharemos sua mãe. E encontraremos a Blue.


Capítulo Vinte e Sete

Gelo
Nós voamos desta vez. Nenhuma viagem longa de estrada, oito horas de
estrada ida e volta. Eu não estava mais grávida e sob ordens médicas para não
voar. Wilson disse que dirigindo levaria muito tempo, e não havia nenhuma
razão para nos torturar. Acho que ele estava mais ansioso para chegar lá do que
eu. Eu oscilava entre ansiedade e náuseas.

Fizemos contato com o laboratório e o Detetive Moody, e dissemos a eles


que estávamos indo. Detetive Moody ofereceu nos encontrar no aeroporto, o
que me surpreendeu. Eu não achava que isso era um procedimento padrão e
disse isso. Ele ficou em silêncio por um momento e depois respondeu com sua
voz cheia de emoção. — Na minha linha de trabalho, não há muitos finais felizes.
Então, muitas pessoas sofrem, muitas pessoas estão perdidas... E nós nunca as
encontramos. Para mim, este é um negócio muito grande. Todo o departamento
está bastante animado. O chefe disse que é uma ótima história de interesse
humano, e nós temos uma ligação do Reno Review ansioso para uma entrevista.
Vamos deixá-la decidir se isso é algo que você está interessada. Eu liguei para o
detetive Bowles por cortesia profissional, e o avisei que temos o resultado do
teste. Ele estava muito animado também.

Eu não disse nada, não querendo esvaziar o seu entusiasmo genuíno, mas
eu sabia que não estaria falando com nenhum repórter. Como uma criança com
um presente há muito esperado, eu não estava pronta para desembrulhar a
minha história e imediatamente passá-la como se tivesse pouco valor. Havia um
tempo para compartilhar e um tempo para saborear. Eu precisava manter a
minha história, examiná-la, compreendê-la. Então, talvez, um dia, quando não
fosse tão fresca e crua, quando um pouco do brilho e novidade tivesse
desgastada, quando eu entendesse não apenas o que, mas por que... Talvez
então eu estaria disposta a compartilhar. Mas não agora.
Las Vegas já tinha abraçado a primavera, mas Reno estava frio. Wilson e
eu amontoamos em nossos casacos, despreparados para a explosão de ar de
inverno que nós encontramos enquanto caminhamos para o nosso carro
alugado. Nós recusamos a escolta da polícia, decidindo que seria necessário
irmos com o nosso próprio carro, embora não ficaríamos em Reno por muito
tempo. As respostas estavam lá esperando por nós. Não haveria a busca. Minha
vida, minha história, seria colocada para fora diante de mim como um roteiro de
filme... Completo com cenas de crime e descrições de personagens. E, como um
roteiro de filme, nada parecia real. Pelo menos, não até que paramos no
departamento de polícia. De repente, era necessária uma ação. As câmeras
estavam rolando, e eu não sabia as minhas falas. Eu estava com medo do palco,
dos estranhos na plateia, das cenas que eu não tinha estudado e não poderia
preparar. E acima de tudo, eu não queria que Wilson me visse no centro das
atenções mais uma vez, a luz pouco lisonjeira, o enredo trágico, violento e
deprimente.

— Você está pronta, Blue?

Não. Não! — Sim — Eu sussurrei, mentindo, mas não vendo nenhuma


maneira de contornar isso. Mas eu não conseguia me mover. Wilson saiu do
carro e deu a volta até a minha porta. Ele a abriu e estendeu a mão. Quando eu
não a peguei, ele se inclinou e me olhou atentamente.

— Blue?

— Eu não quero que você entre. Você sabe demais, Wilson!

Ele deu um beijo na minha testa. — Sim. Eu sei centenas de coisas. Eu


acho que nós já discutimos isso... Muito recentemente, na verdade.

— E se eles nos disserem algo que muda a maneira como você se sente
por mim?

— O que eles poderiam, eventualmente, dizer que mudaria o que eu sinto


por você? Você tinha dois anos de idade quando sua mãe a deixou. Você acha
que eles vão nos dizer que você era uma pequena traficante de drogas? Do
mundo mais jovem? Uma assassina, talvez? Ou... Oh não! Um rapaz. Talvez
você seja realmente um menino. Isso seria difícil de ajustar-se, eu confesso.

Risos borbulharam dentro de mim como um balão amarelo, e eu me


agarrei a esse lampejo de brilho que Wilson sempre parecia inspirar em mim.
Eu enterrei meu rosto na curva entre o seu pescoço e o ombro, respirando o
cheiro que era Wilson. Conforto, desafio, e esperança, todos enrolados em um
aroma limpo.

— Blue. Tudo o que nós aprendermos só me fará amar mais você. Você
está certa. Eu sei muito. E porque eu sei, não há nada que alguém possa dizer
que vai me fazer duvidar de você ou o que eu sinto por você.

— Ok — Eu sussurrei, e beijei seu pescoço logo acima da gola do casaco.


Ele estremeceu e passou os braços em volta de mim.

— Ok — Ele repetiu, com um sorriso em sua voz. — Vamos.

Eu conheci o sargento Martinez, que foi o detetive responsável pelo caso


há dezoito anos, juntamente com vários outros que desapareceram no fundo
quase tão rapidamente quanto eles foram introduzidos. Heidi Morgan, do
laboratório criminal do Estado também esteve presente, e ela, o sargento
Martinez, e o detetive Moody começaram a levar-nos para uma sala onde um
arquivo grande estava à espera no centro da mesa. Sentamos em um banco ao
redor do arquivo e Heidi Morgan adicionou um arquivo próprio. Sem alarde, a
reunião começou.

Heidi passou por uma explicação de DNA e DNA marcador. Ela me


mostrou um gráfico comparando o meu DNA ao DNA da mulher que era minha
mãe. Alguns dos breves panoramas era a mesma informação que foi
compartilhada comigo quando foi colhido o meu DNA meses atrás, só que desta
vez eles tinham os resultados para me falar.

Heidi olhou para mim e sorriu. — Temos certeza de que você é realmente
a filha biológica de uma mulher chamada Winona Hidalgo.

— Esse era o nome dela? — Eu repeti-o, apenas para testar o seu impacto.
— Winona Hidalgo — Eu pensei que talvez fosse encontrar uma série de
lembranças, que eu iria sentir alguma coisa quando ouvisse. Mas era estranho
para mim, banal como o nome de Heidi Morgan ou Andy Martinez. Era como se
eu nunca tinha ouvido antes.

Foi à vez do sargento Martinez tomar o centro do palco. Ele virou o


grande arquivo aberto, e Wilson pegou minha mão debaixo da mesa. Agarrei-me
a ele, sem fôlego.

— Winona Hidalgo foi encontrada morta no Stowaway Motel em 5 de


agosto de 1993. No momento da sua morte, ela tinha dezenove anos de idade.
Na verdade, ela tinha acabado de completar dezenove anos em agosto, três dias
antes.

— Ela foi assassinada? — Eu engasguei. Eu não sabia o que eu esperava,


mas não era um assassinato.

— Encontramos muitos apetrechos na cena do crime, e exames de sangue


constataram drogas em seu sistema, mas sua bolsa e seu carro estavam faltando,
e havia contusões na parte de trás de sua cabeça. Aparentemente, a senhorita
Hidalgo tinha ganhado cerca de cinco mil dólares dos slots40 em uma parada de
caminhões local uns dias antes, e no momento da sua morte, ela tinha um
pequeno e agradável maço de dinheiros em cima dela. O dinheiro acabou
matando-a. Pelo exame toxicológico, parece que ela estava muito drogada e indo
para a segunda rodada. O traficante decidiu que era presa fácil, tomou a bolsa
dela e bateu a cabeça no criado-mudo. Não havia muitas evidências de luta, e
nós não tínhamos testemunhas. Mas nós fomos capazes de conseguir uma
imagem de uma câmera de segurança com seu carro deixando o local, com uma

40 slot – jogo de cassino.


imagem decente do motorista. O caso foi bastante dividido e insuficiente. Até
que descobrimos pela família que havia uma criança desaparecida. É aí que o
caso atingiu um impasse. Você tinha literalmente desaparecido no ar.

— Esta é uma foto dela, tirada dos seus registros de carteira de motorista,
o que a coloca com cerca de dezesseis nesta foto — Detetive Martinez deslizou
uma foto 8X10 de uma menina sorridente do outro lado da mesa, e quando eu
deixei meus olhos se concentrarem em seu rosto, eu me vi ali. Wilson prendeu a
respiração ao meu lado e sua mão apertou a minha.

— Ela se parece com você, Blue — Ele sussurrou. — Os olhos são


diferentes, e você tem a pele mais clara... Mas o sorriso e o cabelo... É você.

— Sim. Percebemos isso logo também, e como o resultado era bastante


confiante quando nos encontramos com você em outubro, tínhamos encontrado
a menina de Winona. É claro que não podia dizer nada no momento — Detetive
Moody abriu um largo sorriso, e eu tentei sorrir de volta.

A descrição da carteira de motorista de Winona Hidalgo dizia que seu


cabelo era preto e seus olhos castanhos. Sua etnia foi listada como nativo
americano. Ela media 1,62 e 53 quilos. Eu era mais alta que ela, mas muito
magra. Eu não conseguia tirar os olhos dela. Ela não parecia má. Ela apenas
parecia jovem.

— Inicialmente, tivemos a notificação de morte feita por aplicação da lei


local, mas quando a busca pelo filho, uh... Quando a pesquisa paralisou, o
detetive Moody e eu fomos visitar a família pessoalmente.

— Eu tenho família? — A agitação no meu estômago voltou com uma


vingança quando senti que a pequena identidade que eu tinha estava sendo
arrancada das minhas mãos.

— Você tem uma avó, Stella Hidalgo, que é mãe de Winona. Você e sua
mãe viveram com ela até Winona sair com você quando você tinha apenas dois
anos de idade. Stella Hidalgo vive em Utah, na reserva indígena Paiute.
Entramos em contato com ela e ela está ansiosa para vê-la.
— Será que a minha avó sabe quem é meu pai?

— Sim. Seu pai biológico é um homem com o nome de Ethan Jacobsen —


Outra foto foi tirada do arquivo e entregue a mim. Um garoto com cabelos loiros
espetados e olhos azuis brilhantes olhava para fora, sem sorrir. Seus ombros
eram largos e quadrados sob uma camisa vermelha com um número branco 13
exibido orgulhosamente em seu peito. Parecia uma foto de anuário, do tipo que
tiram de cada jogador de futebol, onde todos os caras tentam parecer maiores e
mais malvados do que realmente eram.

— Eu vi essa expressão antes — Wilson murmurou, e quando meus olhos


encontraram os dele, havia ternura em seu olhar. — Eu vi no primeiro dia em
que encontrei você. Interpretei esse olhar como “cai fora”.

A sala ficou em silêncio enquanto todos pareciam sentir que eu precisava


de um minuto para me recuperar emocionalmente. Eventualmente, o detetive
Martinez voltou a falar.

— De acordo com Ethan Jacobsen e Stella Hidalgo, Ethan não queria


nada com Winona quando ela lhe contou sobre sua gravidez. Sua família está no
registro alegando que pediu a ela para dar o bebê para adoção. Eles deram a
Winona algum dinheiro quando você estava com dezoito meses de idade, que
Stella Hidalgo confirmou, mas Winona deixou área pouco depois e nenhum
deles jamais a viu ou você novamente.

— Ethan Jacobsen é casado e tem filhos agora, mas ele nos deu uma
amostra de DNA quando Winona foi encontrada morta e você foi declarada
desaparecida. Seu DNA também foi carregado em NCIS, e tivemos uma
comparação com o seu também.

Heidi Morgan interrompeu. — DNA de Ethan Jacobsen também foi


confirmado correspondendo com o seu, foi por isso que nos levou um pouco
mais tempo do que eu prometi para conseguir os resultados de volta.

Detetive Moody falou novamente, e seus olhos estavam sérios e o seu


sorriso desaparecido. — Como cortesia, Blue, Jacobsen também foi contatado, e
ele foi informado de que você foi localizada. Ele estava muito abalado,
compreensivelmente. Ele nos deu a sua informação de contato e endereço atual,
mas disse que qualquer contato virá de você.

Eu balancei a cabeça, minha cabeça girando. Eu sabia os nomes dos meus


pais. Eu sabia quem era. Eu tinha uma avó. Ela queria me ver. Havia apenas
mais uma coisa.

— Qual é o meu nome?

Detetive Martinez engoliu, e os olhos do Detetive Moody se encheram de


lágrimas. Ambos pareciam tão sobrecarregados no momento como eu.

— O nome em sua certidão de nascimento é Savana Hidalgo — Disse o


detetive Martinez com voz rouca.

— Savana — Wilson e eu respiramos juntos, e era a minha vez de ser


tomada pela emoção.

— Savana? Apenas Jimmy verdadeiramente iria apreciar a ironia — As


palavras tremiam em meus lábios.

Wilson inclinou a cabeça em questão. Eu expliquei as palavras pegando


na minha garganta enquanto as lágrimas derramavam sobre meu rosto. —
Quando eu era mais jovem, eu fingia que meu nome era Sapana - muito perto do
nome Savana. Sapana é uma garota em uma história nativa americana que sobe
para o céu e é resgatada por um falcão. Eu sempre dizia a Jimmy, que por causa
de seu nome ele era o falcão e eu Sapana. Ele sempre alegou que ele era mais
parecido com o homem porco-espinho. Eu nunca entendi o que ele quis dizer.
Eu pensei que ele estava apenas sendo engraçado. Olhando para trás, ele
provavelmente sentia culpa por não ir à polícia. Eu acho que isso deveria ter
pesado sobre ele. Mas eu não me arrependo — Eu olhei de uma pessoa para a
outra, meus olhos descansando em Wilson no final. — Ele era um bom pai. Ele
não machucou a minha mãe ou me sequestrou...
— Você estava preocupada que ele tivesse feito isso? — Wilson
interrompeu suavemente.

— Às vezes. Mas, então, eu me lembrava de Jimmy e como ele era. É


como você disse, Wilson. Eu sabia muito para duvidar dele. Eu não vou me
ressentir por ele ter escolhido me manter com ele. Nunca. Eu sei que pode ser
difícil entender, mas é assim que eu me sinto.

Eu não era a única que precisava de um minuto para me recompor, e


fizemos uma breve pausa para enxugar os olhos antes que o detetive Martinez
continuasse.

— Você nasceu no dia 28 de outubro de 1990.

— Dois dias antes do aniversário de Melody — Comentei, tocada mais


uma vez.

— 28 de outubro também foi o dia em que apresentou uma amostra de


DNA para descobrir quem você era — Heidi Morgan ofereceu. — Interessante
como as coisas formam um círculo completo.

— Tenho vinte e um — Fiquei maravilhada, e como a maioria dos jovens,


eu estava contente que eu era mais velha do que pensava.

— Mas sua carteira de motorista ainda diz que tem vinte anos, por isso
não vamos para um pub ou cassinos esta noite — Brincou Wilson, fazendo todo
mundo rir e aliviar um pouco da pressão emocional que tinha crescido na sala.

— Você está convidada a olhar tudo no arquivo. Porém, há fotos da cena


do crime, e coisas que você pode preferir não ver. As fotos estão nos envelopes.
Tudo o que sabemos está no arquivo. Vamos deixá-la sozinha por um tempo, se
você quiser. Informações de contato da sua avó estão aí, bem como do seu pai.
Sua avó ainda vive na reserva, mas seu pai está em Cedar City, Utah que não é
tão longe de lá.

Wilson e eu passamos uma hora derramando sobre o conteúdo do


arquivo, tentando conseguir um quadro mais completo da garota que foi a
minha mãe. Não havia muito a aprender. A única coisa que me surpreendeu foi
que, quando o carro da minha mãe foi recuperado, tinha um cobertor azul no
banco de trás. Ele foi descrito como tendo grandes elefantes azuis em um fundo
azul claro e foi claramente projetado para uma criança. Uma imagem de que
havia marcado como evidência de uma possível cena de crime secundário.

— Blue — A palavra surgiu de dentro de mim como uma lasca de


reconhecimento insinuando seu caminho para a superfície.

— Eu chamava esse cobertor de “blue”.

— O quê? — Wilson olhou para a foto que eu estava olhando.

— Esse era o meu cobertor.

— Você o chamou de blue?

— Sim. Como é que eu me lembro do cobertor, mas não me lembro dela,


Wilson? — Minha voz era firme, mas senti meu coração inchado e maltratado, e
eu não sabia o quanto mais poderia segurar. Eu empurrei o arquivo para longe e
fiquei de pé, andando pelo quarto até que Wilson estava perto e me puxou para
os seus braços. Suas mãos acariciaram meu cabelo enquanto falava.

— Não é tão difícil de entender, amor. Eu tinha um cachorro de pelúcia


que minha mãe teve que arrancar das minhas mãos, porque era muito sujo e
desgastado. Ele tinha sido lavado uma centena de vezes, apesar da etiqueta de
advertência severa em sua bunda, que prometia que iria se desintegrar. Chester
está, literalmente, em cada foto minha quando criança. Eu era extremamente
ligado, para dizer o mínimo. Talvez fosse assim para você com o seu cobertor.

— Jimmy disse que eu ficava dizendo blue... — As peças do quebra-cabeça


se encaixaram e eu parei no meio da frase.

— Jimmy disse que eu não parava de dizer “blue” — Eu repeti. — Então


foi assim que ele me chamou.
— Foi assim que você conseguiu seu nome? — Wilson estava incrédulo
com o entendimento surgindo em seu rosto bonito.

— Sim... E todo o tempo, eu só queria o meu cobertor. Você pensaria que


ela teria deixado isso comigo, envolvendo-o ao meu redor quando ela me deixou
em um banco da frente. Que ela saberia que teria medo, o quanto eu precisaria
desse maldito cobertor — Eu me afastei, lutando para sair dos braços de Wilson,
desesperada para respirar. Mas o meu peito estava tão apertado que eu não
conseguia inalar. Senti-me rachar, as fissuras se espalhando à velocidade da luz
através do gelo fino que eu tinha andado por toda a minha vida. E então eu
estava submersa em tristeza, consumida por ela. Eu lutei para respirar, lutei
para subir à superfície. Mas não eu não conseguia controlar os meus pés, e eu
estava afundando rapidamente.

— Você já teve o bastante por hoje, Blue — Wilson me segurou contra ele
e abriu a porta, sinalizando para alguém além da porta.

— Ela teve tudo o que precisava — Eu o ouvi dizer, e alguém de repente


estava ali ao meu lado. Minha visão ficou turva e escuridão se fechou, então
senti que fui colocada a uma cadeira, e minha cabeça forçada entre as minhas
pernas.

— Respire, Blue. Vamos, baby. Respire fundo — Wilson cantava no meu


ouvido. Minha cabeça clareou um pouco, e o gelo em minhas veias começou a
descongelar devagar. Uma respiração, em seguida, várias outras. Quando minha
visão clareou eu tinha apenas um pedido.

— Eu quero ir para casa, Wilson. Eu não quero saber de mais nada.

— Saímos da delegacia com uma cópia do arquivo. Wilson insistiu que eu


levasse, bem como as informações de contato das pessoas que compartilhavam
o meu sangue, mas nunca tinham compartilhado minha vida. Eu queria jogar o
arquivo para fora da janela enquanto nós dirigíamos e deixar as páginas
derramarem por toda a estrada na noite de Reno, uma centena de páginas de
uma vida trágica jogada contra o vento, para que pudessem ser esquecidas e
nunca se reunissem novamente.

Nós comemos num drive-thru, muito cansados e fracos para deixar o


carro ou até mesmo conversar. Mas minha casa estava a oito horas de distância
e nosso voo não sairia até às 8 da manhã seguinte, então nós encontramos um
hotel e pagamos um quarto por uma noite. Wilson não me perguntou se eu
queria o meu. Eu não queria. Mas havia duas camas de casal no quarto, e logo
que chegamos eu escovei os dentes, tirei minha calça jeans, e me arrastei para
uma, prontamente adormecendo.

Sonhei com sequencias de caracteres de recortes de boneca de papel com


o rosto e os cobertores da minha mãe em todas as cores além do azul. Sonhei
que eu ainda estava na escola, caminhando por corredores intermináveis, à
procura de Wilson, mas em vez disso, encontrei dezenas de crianças que não
sabiam seus nomes. Eu acordei com lágrimas no rosto e o terror se contorcendo
em minha barriga, convencida de que Wilson havia deixado Reno enquanto eu
dormia. Mas ele ainda estava lá na cama ao lado da minha, seus longos braços
em volta do travesseiro, com o cabelo despenteado fazendo um contraste escuro
contra os lençóis brancos. O luar derramando sobre ele, e eu o observei dormir
por um longo tempo, memorizando o contorno do seu maxilar, os longos cílios
contra suas bochechas magras, observando seus lábios enquanto ele suspirava
em seu sono.

Então, sem me dar tempo para considerar minhas ações, eu penetrei em


sua cama e me enrolei ao redor dele, descansando minha cabeça contra suas
costas, passando os braços em volta do seu tronco. Eu queria selá-lo em mim,
fundir a minha pele na dele, para tranquilizar-me que ele era realmente meu. Eu
pressionei meus lábios contra suas costas e deslizei as mãos sob sua camiseta,
apertando minhas mãos contra seu abdômen liso, acariciando para cima, para o
seu peito. Senti que ele estava acordado, então ele se virou para mim e seu rosto
caiu nas sombras enquanto mantinha-se acima de mim. O luar delineava-o em
branco, e quando eu o alcancei e toquei seu rosto, ele ficou perfeitamente
imóvel, deixando-me traçar suas feições com a ponta dos dedos, deixando-me
levantar e dar beijos em todo o seu maxilar, em suas pálpebras fechadas e,
finalmente, contra seus lábios. Então, sem uma palavra, ele me pressionou
contra os travesseiros e capturou minhas mãos nas dele. Minha respiração ficou
presa com a expectativa quando ele me puxou firmemente contra seu peito,
prendendo minhas mãos entre nós.

Mas ele não beijou a minha boca ou passou suas mãos ao longo de minha
pele. Ele não sussurrou palavras de amor ou de desejo. Em vez disso, ele colocou
minha cabeça sob o seu queixo e me envolveu em seus braços tão firmes que eu
mal podia me mover, e ele não me soltou. Fiquei surpresa, atordoada,
esperando que ele soltasse seu aperto, esperando que suas mãos me tocassem,
que o seu corpo se movesse contra o meu. Mas seus braços ficaram fechados ao
meu redor com a respiração dele se mantendo estável, e seu corpo ainda imóvel.
E ali, no círculo dos seus braços, segura tão ferozmente que não havia espaço
para duvidar dele ou temer sua perda, eu adormeci.
Capítulo Vinte e Oito

Doloroso
Quando acordei na manhã seguinte, Wilson já estava de pé, de banho
tomado e barba feita, mas seus olhos estavam cansados , e eu me perguntava se
me segurar toda a noite tinha cobrado o seu preço. E eu estava um pouco
envergonhada que fui rejeitada, mesmo sendo tão suave quanto a sua recusa foi.
Ele não agiu estranho ou desconfortável, então eu afastei meus sentimentos
feridos e corri para o chuveiro e um rápido café da manhã para que pudéssemos
fazer nosso voo para casa. Eu estava preocupada e quieta, Wilson estava
introspectivo e melancólico, e no momento em que nos arrastamos pelas portas
do Pemberley, estávamos precisando de nossos cantos separados com o peso
das últimas 24 horas pairando como uma nuvem negra. Wilson levou minha
mochila para o meu apartamento e fez uma pausa antes de ir para o seu.

— Blue. Eu sei que você está exausta. Estou absolutamente cansado, e


não fui eu que tive seu mundo virado de cabeça para baixo repetidas vezes ao
longo dos últimos meses. Mas você precisa ver isso até o fim — Ele suplicou.

— Eu sei, Wilson.

— Você quer que eu ligue? Pode ficar mais fácil dar o próximo passo.

— Isso é ser fraco? — Eu perguntei, realmente querendo deixá-lo fazer


isso, mas não querendo fazer a coisa fácil se isso significasse que eu era uma
covarde.

— Isso é delegar, amor. É garantir que será feito sem se confundir.

— Então, sim. Por favor. E eu vou estar pronta quando ela estiver.
Descobriu-se que Stella Aguilar era mais forte do que eu, porque ela
estava pronta imediatamente. Então Wilson e eu fomos para St. George, Utah,
na manhã seguinte, em sua Subaru. Ambos tivemos uma sólida doze horas de
sono em nossas camas... Separadamente, o que me preocupou um pouco,
principalmente porque eu não sabia o que fazer com ele. Wilson era um tipo
completamente diferente de cara que eu estava acostumada. Ele era um
cavalheiro em um mundo de maçons41 e Colbys42. E eu estava com muito medo
de que o fato de que eu não era uma lady seria um problema.

— Diga- me como é — Eu implorei, meus pensamentos se estreitaram


sobre a tarefa que eu tinha pela frente.

— Como é que é? — Wilson respondeu, com os olhos na estrada.

— Encontrar seus pais biológicos pela primeira vez. O que você disse?
Tiffa disse que você fez isso sozinho. Isso, obviamente, foi o mais corajoso do
que eu. Eu não acho que poderia fazer isso sozinha.

— As circunstâncias são completamente diferentes, Blue. Nunca acredite


que você não é corajosa. Você é o pássaro mais forte que eu conheço, e isso,
amor, é um elogio. Eu tinha dezoito anos quando conheci meus pais biológicos.
Minha mãe tinha mantido contato com eles ao longo dos anos para que um dia
eu pudesse fazer isso. Ela pensou que poderia chegar um momento em que seria
importante para mim. Meu pai foi contra. Ele achou que era desnecessário, e
estava certo de que seria uma distração. Eu estava há um semestre para me
formar, e tinha me enterrado na escola, isso era minha cara, tenho que
confessar. Eu tinha conseguido encaixar quatro anos de faculdade em dois anos
e meio, mantendo-me num cronograma que meu pai e eu tínhamos traçado.
Meu pai era um homem incrivelmente impulsionado, e eu pensei que ser um
homem significava ser como ele. Mas era intervalo de semestre, e eu estava
inquieto e irritado, e, francamente, eu era um barril de pólvora prestes a

41 Maçons - Maçonaria, é uma sociedade discreta e por essa característica, entende-se que se trata de ação
reservada e que interessa exclusivamente àqueles que dela participam.
42 The Colbys - foi uma novela em horário nobre americano, que foi originalmente exibido na ABC a partir

de 20 de novembro de 1985 a 26 de março de 1987.


explodir. Então eu voei para a Inglaterra e fiquei com Alice. E eu os procurei —
Wilson terminou levianamente, como se não tivesse sido nada demais. — Minha
mãe e eu pensávamos que poderíamos manter em segredo de papai. Má ideia.
Mas isso é outra história.

— E como foi? — Eu cutuquei.

— Foi terrível — Ele respondeu prontamente. — E esclarecedor e... Muito


confuso.

Eu não tinha ideia do que dizer a isso, então eu só esperei, observando


seus pensamentos aparecerem em seu rosto. Ele meditou por um momento,
perdido na lembrança.

— Quando eu conheci o meu pai biológico minha primeira impressão foi


de que ele era um pouco vagabundo — Ele meditou. — Depois de algumas horas
conversando com ele, andando por aí, vendo seu bairro, encontrando seus
companheiros, comecei a vê-lo um pouco diferente. Fomos a um pub onde ele
gostava de ter uma bebida após o turno, um lugar chamado Wally, onde todos
pareciam conhecê-lo e gostar dele. Bert é um tira.

— Um tira?

— Um policial. Isso parecia tão em desacordo com sua personalidade. Ele


é incrivelmente jovial e de espírito livre. Eu sempre pensei que policiais fossem
do tipo forte e silencioso.

— Talvez mais como o seu pai?

— Sim! Como John Wilson. Focado, duro, sério. E Bert Wheatley era
tudo, menos sério ou focado. Ele disse que era um policial, porque amava o seu
bairro. Ele gostava de estar com as pessoas e, quando era um menino, sempre
quis dirigir um carro com luzes e uma sirene — Wilson riu e balançou a cabeça.
— Isso foi o que ele disse! Eu me lembro de pensar o quão maluco que ele era —
Wilson olhou para mim como se eu estivesse indo para repreendê-lo por sua
opinião. Eu só fiquei quieta.
— Mas eu notei outras coisas. Bert parecia muito contente. Era muito
divertido estar com ele — Wilson riu novamente, mas seu riso era de dor. —
Dessa maneira, ele era muito diferente do meu pai, também. John Wilson nunca
estava satisfeito - raramente feliz - e não era exatamente prazeroso estar com ele
na maior parte do tempo — Wilson balançou a cabeça e de repente mudou de
assunto.

— O nome da minha mãe biológica é Jenny. Ela nunca se casou com Bert,
obviamente. Ela se casou com um encanador chamado Gunnar Woodrow.
Gunnar o encanador — Wilson disse que como o Gunna Plumma, e eu tentei não
rir silenciosamente. Eu tinha chegado ao ponto em que eu nem notava seu
sotaque... A maior parte do tempo.

— Ela e Gunnar têm cinco filhos, e sua casa é como um jardim zoológico.
Eu fiquei por uma ou duas horas, até que Gunnar chegou em casa do trabalho, e
em seguida, Jenny e eu saímos e fomos tomar chá na esquina onde poderíamos
conversar sem que as pestinhas nos interrompesse.

— Você gosta dela?

— Muito. Ela é adorável. Ama livros e história, gosta de citar poesia.

— Parece você.

Wilson assentiu. — Nós temos muita coisa em comum, isso me


emocionou, devo dizer. Nós conversamos sobre tudo. Ela perguntou-me todas
as coisas que as mães estão interessadas: meus desejos e sonhos, e se eu tinha
uma namorada. Eu lhe disse que não tinha tempo para as meninas. Eu disse a
ela que a história e os livros eram os únicos amores na minha vida até agora.
Nós conversamos sobre a escola, e ela me perguntou quais eram meus planos
para o futuro. Eu divagava do meu plano de dez anos, envolvendo pós-
graduação da Faculdade de Medicina, e trabalhar com o meu pai. Ela parecia
um pouco surpresa por meus objetivos de carreira e disse: “Mas e os amores em
sua vida?”.
— Ela estava preocupada com sua vida amorosa? Você tinha apenas
dezoito anos — Eu protestei, ridiculamente grata que ele não tinha um passado
como o meu.

— Não. Ela não estava preocupada com a minha vida amorosa. Ela estava
preocupada com os “amores na minha vida” — Wilson repetiu. — História e
livros.

— Oh! — Respondi com a compreensão.

— Encontrar meus pais havia me feito questionar pela primeira vez na


história. De repente eu me perguntava se realmente queria ser médico. Eu me
peguei pensando sobre o que me faria feliz. Eu pensei sobre luzes e sirenes — Os
lábios de Wilson se ergueram, uma sugestão de um sorriso. — Eu pensei sobre
como eu queria compartilhar tudo o que aprendi com quem quisesse ouvir. Na
verdade, eu deixava os meus pais e minhas irmãs loucos, constantemente
recitando este ou aquele fato histórico.

— St. Patrick?

— St. Patrick, Alexandre o Grande, Leônidas, o rei Arthur, Napoleão


Bonaparte, e tantos outros.

— Então, sendo um médico perdeu um pouco de seu brilho.

— Isso nunca teve nenhum brilho, e quando percebi isso, eu disse ao meu
pai que não iria para a faculdade de medicina. Eu tinha mantido minha boca
fechada até a formatura, calmamente fazendo planos diferentes, enquanto meu
pai continuava a traçar o meu futuro. Eu lhe disse que queria ensinar, esperava
que em um dia em uma universidade. Eu lhe disse que queria escrever e
palestrar, eventualmente, conseguir meu doutorado em história. Ele descobriu
que eu tive contato com meus pais biológicos e culpou a minha mudança de
comportamento na minha viagem. Ele estava furioso comigo e com minha mãe.
Nós brigamos, gritamos, eu saí de casa, e meu pai foi chamado para o hospital, e
eu nunca mais o vi vivo. Você já ouviu essa parte da história — Wilson suspirou
profundamente e passou a mão pelo cabelo.
— E foi isso que você quis dizer quando falou que conhecer seus pais
biológicos foi terrível... Porque definiu tantas outras coisas em movimento?

— Não. Embora, eu acho que poderia ser interpretado dessa forma. Foi
terrível, porque eu estava tão incrivelmente confuso e perdido. Dois sentimentos
que nunca tinha sentido antes, nunca. Eu sei, eu vivi uma vida protegida, não é?
— Wilson deu de ombros. — Eu conheci duas pessoas que eram muito diferentes
das pessoas que me criaram. Nem melhor, nem pior. Apenas diferente. E isso
não é uma ofensa contra a minha mãe e meu pai. Eles eram bons pais, e me
amavam. Mas o meu mundo foi abalado. Por um lado, eu estava muito confuso
sobre do porquê de Jenny e Bert não terem dado certo por minha causa. Se me
manter significava tão pouco para eles que me deram para um médico rico e sua
esposa e continuaram suas vidas alegremente, lavando as mãos?

Estremeci, sabendo intelectualmente que isso não era sobre mim. Mas
havia culpa do mesmo jeito. Gostaria de saber se Melody iria me fazer a mesma
pergunta um dia. Wilson continuou.

— Por outro lado, de repente eu percebi que eu não queria as coisas que
eu sempre pensei querer. Eu queria fazer coisas que me deixavam feliz, e queria
certa quantidade de liberdade que eu nunca tinha experimentado. E eu sabia
que significava tomar um caminho muito diferente do que eu tinha estado.

— Eu posso entender isso — Eu sussurrei.

— Sim. Eu sei — Os olhos de Wilson encontraram os meus, e havia um


calor lá que fez meu coração deslizar lentamente dentro do meu peito. Como ele
conseguia olhar para mim dessa maneira e me segurar durante toda a noite sem
um único beijo?

— A última semana na Inglaterra, eu deixei Manchester e tomei um


ônibus para Londres. Alice é muito menos protetora comigo do que o resto da
minha família. Ela meio que deu de ombros e disse: “Divirta-se, não se mate, e
certifique-se que você esteja de volta aqui em uma semana para pegar seu voo
para casa”. Encontrei-me com alguns companheiros de escola, e passei a
semana completamente bêbado, fazendo coisas que fico um pouco
envergonhado para contar.

— Como o quê? — Eu disse meio horrorizada, meio emocionada que


Wilson poderia não ser completamente limpo, depois de tudo.

— Eu estava absolutamente desesperado por companhia. Eu perdi minha


virgindade, e não me lembro de muito. E não parei por aí. Noite após noite,
clube após clube, menina após menina, e me senti pior com a semana passando.
Fiquei tentando restaurar meu equilíbrio, fazendo coisas que só me deixava
tonto. Será que isso faz sentido?

Eu balancei a cabeça, sabendo exatamente o que ele quis dizer.


Compreendi atordoada.

— Um dos meus companheiros acabou me levando de volta para


Manchester. Ele fez com que eu estivesse em um avião e de volta para os
Estados Unidos. E ao longo dos próximos seis meses, eu consegui parar o giro
na minha cabeça e encontrar o equilíbrio novamente na maior parte. Mas em
vários aspectos, estar com você através de sua jornada, tem sido uma jornada
para mim, também. E eu entendo meus pais - os dois - muito melhor agora.

Nós dirigimos sem falar por um longo tempo. Então eu perguntei-lhe o


que estava me incomodando desde que acordei sozinha na manhã anterior.

— Wilson? O que aconteceu em Reno? Quero dizer... Eu pensei que você


fosse querer... Quero dizer, você não é atraído por mim? — Eu senti como se
estivesse pedindo ao quarterback para me levar ao baile, e meus joelhos
tremiam. Wilson riu bem alto. E eu me encolhi, tentando não cair no meu lugar
e cobrir o meu rosto para esconder a minha rejeição. Wilson deve ter visto a
humilhação em minha expressão, e com um guincho de freios e algumas
mudanças ilegais de faixa, estava desviando para o lado da estrada, com perigo e
tudo mais. Então ele se virou para mim, balançando a cabeça como se não
pudesse acreditar que eu não entendia.
— Blue. Se isso fosse simplesmente sobre a atração, você e eu nunca
teríamos deixado Reno. Nós ainda estaríamos naquele quarto de hotel de
merda, nus, pedindo serviço de quarto... Ou, mais provavelmente, pizza de baixo
da porta. Mas para mim, com você, o sexo não é o objetivo. Você entende isso?

Eu balancei minha cabeça. Não. Eu totalmente não entendia isso.

— Quando você subiu na minha cama, em Reno, tudo que eu conseguia


pensar era como eu me sentia em Londres, na terrível semana, quando eu tinha
tido mais sexo do que qualquer garoto adolescente poderia sonhar. E como eu
me sentia destruído no final de tudo. Eu não queria que a nossa primeira vez
fosse assim para você. Você estava emocionalmente abalada em Reno, assim
como eu estava em Londres, e você precisava de mim. Mas você não precisa de
mim dessa maneira. Algum dia... Espero que seja em breve - porque eu vou
entrar em combustão, se tiver que passar uma noite como essa novamente -
você vai me querer porque me ama, não porque está perdida, não porque está
desesperada, não porque está com medo. E esse é o objetivo.

— Mas, Wilson. Eu amo você — Eu insisti.

— E eu te amo... Mais ardentemente — Ele respondeu, torcendo meu


cabelo em suas mãos e me puxando em direção a ele.

— Orgulho e Preconceito?

— Como você sabe? — Ele sorriu.

— Eu tenho uma coisa para o Sr. Darcy.

Em resposta, o próprio Darcy capturou minha boca com a dele, e me


mostrou o quão ardentemente que ele se importava.
Capítulo Vinte e Nove

Verdade
Se não tivesse sido um caminhão diesel nos explodindo com sua buzina e
sacudindo a Subaru enquanto voava, poderíamos ter chegado muito tarde para
o nosso compromisso com a minha avó. Encontramos a casa de Stella Hidalgo,
nos arredores da Reserva Indígena Shivwits depois de um pequeno retrocesso, e
uma consulta no fiel Garmin43 de Wilson, que não parecia funcionar bem,
especialmente quando se tratava de reservas indígenas, ou Utah. Eu só tinha ido
para a área de St. George uma vez antes em uma viagem escolar, mas lembrei-
me das rochas vermelhas e os planaltos salientes delineados contra o céu azul e
areia do deserto. Era tão duro e inóspito como era bonito, e eu me perguntei
brevemente como os meus antepassados tinham sobrevivido na área em
centenas e centenas de anos antes de conveniências modernas. A água era
escassa, a comida deveria ter sido ainda mais escassa, e plantar alguma coisa
teria sido quase impossível.

Nós fomos até a casa de Stella Hidalgo, observando os caminhantes e as


casas brancas com tapume e persianas vermelhas com a necessidade de uma
pintura. Era bonito e limpo, mas sem adornos, e o pátio era mantido simples
com pedras do deserto e árvores de Joshua. Nós saímos do carro em um silêncio
tão pesado que eu conseguia ouvir meu coração batendo como um tambor
velho. Stella Hidalgo abriu a porta antes de chegarmos aos degraus da frente.

Ela era uma mulher franzina de estatura mediana. Ela provavelmente


estava perto de sessenta anos, embora tivesse uma beleza atemporal que fazia a
estimativa difícil. Sua pele não tinha rugas, e seu cabelo tinha traços de prata em
meio ao preto. Usava-o solto, repartido para um lado e cortado na altura dos
ombros. Ela usava uma camisa branca solta e calça branca, a pele morena
dourada era um contraste contra a roupa clara. Ela tinha sandálias brancas nos

43 Garmin (GPS) é uma empresa multinacional e fabricante de equipamentos de navegação.


pés e pedras turquesa em suas orelhas e ao redor de seus pulsos e pescoço. Ela
tinha a aparência de uma mulher que sabia como apresentar-se ao mundo e era
confiante com o que via no espelho. Ela nos convidou e a única indicação de que
ela estava tão nervosa quanto eu, foi o tremor em sua mão quando ela nos
chamou para frente.

— A polícia me disse muito pouco sobre sua vida — A voz de Stella


Hidalgo era suave e culta quando falou. — Na verdade, quando o detetive
Martinez me ligou na semana passada e me disse que tinha um exame de DNA,
ele teve o cuidado de explicar porque você é uma adulta legalmente com o
direito à privacidade e eles poderiam incentivá-la, mas em última análise, seria
a sua escolha se deveria ou não fazer contato comigo. Ele nem sequer me disse o
seu nome. Eu não sei como chamá-la.

— Você pode me chamar de Blue — Eu estendi a mão e ela apertou-a na


sua. Eu nunca seria Savana Hidalgo ou Savana Jacobsen... Ou qualquer outra
coisa. Eu era Blue Echohawk, e isso não mudaria.

— Combina com você — Ela sorriu timidamente. — Por favor, me chame


de Stella — Seus olhos se voltaram para Wilson, à espera de uma introdução.

— Olá. Sou Darcy Wilson, mas todos me chamam de Wilson. E estou


apaixonado pela Blue — Wilson também estendeu a mão, e Winona mostrou as
covinhas, completamente encantada a partir da palavra “olá”.

— Que bom! — Ela riu, e eu amei Wilson mais naquele momento do que
eu tinha já amado uma única alma. Graças ao charme de Wilson, as mãos de
Stella pareciam firmes quando ela nos indicou sua pequena casa e nos convidou
para sentarmos em um sofá coberto com um cobertor multicolorido em frente a
duas cadeiras marrons. Vários prêmios enquadrados estavam pendurados ao
longo das paredes, junto com uma imagem que eu podia jurar que era Jimmy
Carter com uma mulher que era mais provável que era a minha avó com seus
trinta anos. Eu não sei o que esperava quando o sargento Martinez me disse que
Stella Hidalgo vivia em uma reserva, mas não foi nada disso. Algumas fotos
foram colocadas no manto, e um grande tapete de estilo indiano cobria o chão
de madeira. Eu não sabia nada sobre os índios Paiute - seus costumes, sua
história, seu estilo de vida. Seria algo que eu esperava que esta mulher pudesse
me ensinar sobre mim mesma. Algum dia.

Os olhos de Stella continuaram à deriva para o meu rosto, como se ela


não pudesse acreditar que eu estava lá. Deixei-a olhar bem. No momento em
que estava além de surreal, e eu tinha me perguntado como deveríamos parecer
olhando uma para a outra em silêncio, com o relógio correndo a medida que
tentávamos absorver mais de 18 anos para o presente.

Conversamos um pouco por alguns minutos, discutindo a nossa viagem


para Reno e nosso caminho até St. George, mas logo a conversa virou-se para
minha mãe. Tive a nítida sensação de que a minha avó precisava de mim para
compreender a filha. Talvez porque ela ainda estava lutando para entendê-la
bem.

— Winnie era cheia de personalidade, e gostava de ser o centro das


atenções, o que normalmente conseguiu ser aqui em casa e na escola. Meus pais
a adoravam, e ela sempre teve muitos amigos. Amava ser líder de torcida e era
muito popular, especialmente com os meninos. Eu sempre fui exatamente o
oposto. Eu era muito tímida perto de meninos... Nunca conseguia descobrir o
que dizer — Stella fez uma pausa, e eu desejei que ela não tivesse me dito que
minha mãe era popular com os meninos. Fez-me preocupar mais uma vez que
éramos iguais, e eu não queria ser nada parecida com ela. Meus sentimentos de
desespero aprofundaram quando Stella tocou na gravidez inesperada de sua
filha.

— Ficar grávida foi difícil para ela, como seria para qualquer garota de
dezesseis anos de idade. Quando Ethan não queria ter nada a ver com ela ou
com o bebê, ela ficou desapontada... Não queria sair do seu quarto, chorou
muito. Sua gravidez foi miserável, e depois que você nasceu ela estava
inconsolável. O médico disse que era depressão pós-parto e passaria com o
tempo, então ela ficou menos deprimida, mas muito irritada, e eu cuidava de
você a maior parte do tempo. Você era um bebê doce, uma coisinha tão calma.
Você quase nunca se mexia. Isso tornou mais fácil para Winnie a ignorá-la, eu
acho. Para mim, era muito mais fácil para amá-la. Contanto que você tivesse o
seu cobertor, você ficava contente.

— Era azul? Com elefantes nele?

— Sim! É... Era! — Stella gaguejou, surpresa. — Você se lembra? — Os


lábios de minha avó tremiam, e ela apertou os dedos para reprimir a emoção
que era evidente em cada linha de seu rosto.

Eu balancei a cabeça, de repente, incapaz de falar.

— Winnie odiava — A voz de Stella vacilou e ela limpou sua garganta. —


Ela disse que azul era para meninos. Mas eu escolhi porque você tinha olhos
azuis. Seus olhos eram tão marcantes. Em outros aspectos, você parecia Nativo,
a não ser talvez, por não ser tão morena. Seus olhos foram o que finalmente
convenceu a família de Ethan que você era dele. Sua família deu a Winona
algum dinheiro quando você tinha quase dois anos de idade. Ela pegou o
dinheiro que tinham dado a ela, roubou todo o dinheiro na minha conta
poupança, bem como o meu carro e pegou a estrada. Infelizmente, ela não a
deixou para trás. Eu sempre me arrependi de não ter entrado em contato com a
polícia e por que com isso, eles a jogariam na cadeia. Isso poderia ter salvado a
vida dela, e eu nunca teria perdido você.

— Mas ela precisava crescer, e eu pensei que sair da cidade seria bom
para ela. Então eu não denunciei. Eu só... Deixei-a ir. Na verdade, se ela tivesse
apenas me pedido o dinheiro e o carro, eu provavelmente teria dado a ela. Ela
acabou ficando com um amigo em Salt Lake City e encontrou um emprego. A
mãe do amigo dirigia uma creche, e você estava sendo cuidada por pessoas que
eu conhecia e confiava. Eu mantive o controle sobre ela através de seu amigo e
pensei que as coisas estavam indo muito bem. Ela estava lá por cerca de seis
meses, até que abusou da boa vontade. Ela acabou roubando uma grande
quantidade de dinheiro da mãe do amigo. E eles a denunciaram. Depois disso,
eu ouvia falar dela de vez em quando, o suficiente para que eu soubesse que ela
estava bem.
A conversa parou e eu estudava o rosto da minha avó enquanto ela
estudava o meu. Foi Wilson quem finalmente falou.

— O relatório da polícia diz que eles tiveram uma informação de alguém


em Oklahoma que jurou que uma menina que correspondia à descrição de sua
filha foi pega furtando vários itens de uma loja de conveniência. O dono da loja
acabou por não apresentar queixa, porque se sentiu mal pela menina. Ela estava
roubando fraldas e leite. Ele acabou dando-lhe o leite, alguns mantimentos e
fraldas, junto com algum dinheiro. Quando o dono da loja viu a foto dela no
jornal, ele se lembrou de sua filha e sua filhinha e chamou a polícia.

— Oklahoma? — Stella Aguilar parecia atordoada, e balançou a cabeça,


murmurando baixinho. — N... Não é possível.

— A polícia diz que nada aconteceu. Isso só turvou as águas sem lhes dar
qualquer coisa mais para seguir em frente — Eu interrompi. — Eu só notei isso
porque o meu pai - o homem que me criou - tinha família em uma reserva em
Oklahoma. Fiquei imaginando o que no mundo que ela estaria fazendo lá.

— Qual era o nome do seu pai? — A voz de Stella Hidalgo era fraca e havia
um silêncio estranho sobre ela, como se estivesse à espera de uma resposta que
ela já sabia.

— James Echohawk... Eu o chamava de Jimmy.

Stella caiu para trás em sua cadeira, o choque e consternação escritos em


negrito em seu rosto. Ela se levantou abruptamente e saiu correndo da sala,
deixando-nos sem uma palavra.

— Alguma coisa está errada. Você acha que ela conhecia Jimmy? — Eu
sussurrei.

— Com certeza, ela agiu assim quando reconheceu o nome — Wilson


respondeu com um tom sussurrado. Fomos interrompidos por batidas e
resmungos, e levantamos ao mesmo tempo, ansiosos para sair.
— Talvez devêssemos ir — Disse Wilson em voz alta. — Sra. Hidalgo? Nós
não viemos aqui para incomodá-la.

Stella correu de volta para a sala segurando uma caixa.

— Me desculpe, mas preciso que você espere... Por favor. Apenas espere...
Por um minuto — Nós nos sentamos relutantemente, observando Stella quando
ela puxou a tampa da caixa e retirou um álbum de fotos. Freneticamente, ela
folheou as páginas e depois parou.

— Algumas fotos estão faltando. Alguém pegou algumas das fotos! —


Stella passou as páginas, os olhos voando de uma foto para outra. — Aqui. Esta
não é uma foto muito boa... Mas é ele — Ela puxou a foto de baixo da cobertura
de plástico. Obviamente estava ali há muito tempo, e tinha aderido a ao plástico.
Ela puxou e a imagem começou a rasgar. Ela desistiu e entregou o livro para
mim, atravessando o pequeno espaço de joelhos, como se tivesse seis em vez de
sessenta.

— Você reconhece o homem na foto? — Ela exigiu, batendo na página.

Eu olhei para a imagem que tinha um tom ligeiramente amarelado. As


roupas e os carros no fundo datados em algum momento dos anos 70. Um
homem e uma mulher estavam na foto, e por um momento meus olhos estavam
na jovem Stella Hidalgo, magra e sorridente em um vestido vermelho escuro,
seu cabelo caindo sobre o ombro. Ela parecia tanto comigo que a minha cabeça
nadou. Wilson enrijeceu ao meu lado, observando claramente a semelhança
também. Então meu olhar virou-se para o homem de pé ao lado dela, e tempo
cessou seu tique-taque constante.

Jimmy parecia de uma década passada. Seu cabelo era de um preto


escuro e pendurado sobre os ombros de uma parte central. Ele usava jeans e
uma camisa marrom estampada com grandes golas pontudas que eram
populares naquela época. Ele parecia tão jovem e bonito, e embora seus olhos
estivessem voltados para a pessoa tirando a foto, a mão dele estava enrolada ao
redor de Stella, e ela se agarrava ao seu braço com a mão livre.
— Será que Jimmy Echohawk criou você? — Stella exigiu novamente.

Meus olhos foram para os dela, incapaz de compreender o significado do


que eu estava vendo. Eu balancei a cabeça em silêncio.

— Blue? — Wilson questionou completamente confuso.

— O que você está tentando me dizer? O que é isso? — Eu engasguei,


encontrando a minha voz e empurrando o livro em direção a Stella, que ainda se
ajoelhava na minha frente.

— Jimmy Echohawk era o pai de Winona! — Stella gritou: — Ele não era
apenas O... O... Estranho aleatório! — Stella abriu o livro mais uma vez. O seu
choque era tão claramente pronunciado quanto o meu.

— Inferno! — Wilson praguejou ao meu lado, sua maldição soando na


pequena sala de estar que tinha se transformado em uma casa de espelhos.

— Sra. Hidalgo, a senhora precisa começar a falar — Wilson insistiu com


a voz firme e sua mão apertada na minha. — Eu não sei que tipo de jogo que
você acha que isso é...

— Eu não estou brincando, rapaz — Gritou Stella. — Eu não sei o que isso
significa. Tudo que sei é que eu conheci o Jimmy Echohawk quando eu tinha
vinte e um anos de idade. Era 1975. Eu tinha acabado de me formar na
faculdade, e acompanhei meu pai para várias reservas indígenas em toda
Oklahoma — Stella balançava a cabeça enquanto falava, como se não pudesse
acreditar no que estava dizendo.

— Meu pai era um membro de um conselho tribal que estava tentando


obter o status federal devolvido ao povo Paiute. As tribos Paiute tiveram seu
status Federal encerrado em 1950. O que significava a manutenção de nossas
terras e nossos direitos sobre a água - o pouco que tinha - era quase impossível.
Os Paiutes do Sul tinham diminuído para perto da extinção. Fomos a várias
reservas diferentes, além das bandas remanescentes da paiutes tentando
construir o apoio entre outras tribos para a nossa causa.
Minha cabeça estava nadando com o sofrimento do povo Paiute,
infelizmente muito longe na minha lista de coisas que eu-precisava-saber-neste-
minuto.

— Sra. Hidalgo, a senhora precisar adiantar um pouco essa história —


Wilson solicitou.

Stella assentiu, obviamente, sem saber por onde começar ou o que era
ainda relevante.

— Foi amor à primeira vista. Eu era reservada e ele também. No entanto,


ficamos imediatamente confortáveis um com o outro. Nós não estávamos em
Oklahoma há muito tempo, e meu pai não gostava de Jimmy. Ele estava
preocupado que eu estaria me desviando do futuro que tinha planejado — Ela
encolheu os ombros. — Ele estava certo em se preocupar. Eu tinha sonhado em
ser a próxima Sarah Winnemucca, e de repente a única coisa que eu conseguia
pensar era me tornar a Sra. Jimmy Echohawk.

Ao ouvir o nome de Jimmy nos lábios de Stella nesse contexto, foi outro
choque. Eu nem sequer perguntei quem era Sarah Winnemucca. Outro dia,
outra história.

— Nós escrevemos cartas por quase um ano. Até então eu estava


trabalhando para Larry Shivwa, que mais tarde trabalhou na Administração
Carter em Relações Indígenas. — Stella se apressou. — Jimmy queria estar mais
perto de mim. Ele veio para o Oeste... Só para estar perto de mim. Ele era um
entalhador extremamente talentoso. Ele havia recebido algum reconhecimento
nacional por seu trabalho, e começou a vender suas esculturas. Ele estava
guardando para abrir uma loja... — Sua voz diminuiu, e ela parecia relutante em
continuar. Mas o tempo para o silêncio era passado, e eu empurrei-a para
frente.

— Stella? Eu preciso que você me diga o que aconteceu — Eu exigi,


forçando-a a olhar para mim. Seus olhos estavam cheios de pesar e os ombros se
estreitaram com a derrota.
— Jimmy pegou suas economias e comprou uma caminhonete e um
trailer de acampamento. E ele veio aqui. Ele sabia que o meu pai não apoiaria
um casamento nesse momento. Minha carreira estava realmente decolando. E
eu tinha a responsabilidade da minha comunidade. Fui a primeira da minha
família a me formar na faculdade, e uma das primeiras meninas Paiute. Eu
estava preparada para coisas maiores. Assim... Vimos um ao outro pelas costas
dos meus pais. Eu estava irritada com eles. Eu era adulta e Jimmy era um bom
homem nativo. Eu não entendia por que não poderia ter as duas coisas. Mas eu
lhes dei razão no final. E, sinceramente, eu os culpava porque era mais fácil do
que culpar a mim mesma. Eu usei meus pais como desculpa. A verdade é que eu
era ambiciosa, e temia perder a minha ambição. Eu temia tornar-me como a
minha mãe, presa em uma reserva, pobre, sem ser notada, banal.

— O que aconteceu? — Wilson perguntou.

— Jimmy Carter foi eleito presidente em 1976 e eu fui convidada para


voltar e trabalhar em Washington, DC no escritório de assuntos indígenas como
assistente do secretário Shivwa. Meu pai tinha certeza de que seria fundamental
na obtenção da reintegração do status tribal Paiute. Então eu fui. Jimmy nunca
me disse para não ir. Ele me disse que me amava... Mas ele nunca me pediu para
ficar.

— Eu descobri cerca de seis semanas mais tarde que eu estava grávida. Eu


fiquei em Washington DC até que o meu patrão, que era um bom amigo dos
meus pais, chamou-os e me delatou. Nessa época, eu estava grávida de sete
meses, e não era capaz de esconder a minha figura em vestidos e xales de
cintura alta. Eu estava grande demais para voar para casa, então eu fiquei,
mesmo que estivesse envergonhada e meus pais se envergonhassem. Quando
Winnie nasceu, deixei Washington DC e voltei para casa. Mas Jimmy estava
muito longe. E eu orgulhosa demais para encontrá-lo.

— Jimmy não sabia? — Eu sussurrei, devastada pelo homem que me


criou.

— Eu nunca disse a ele.


— Mas então... Como foi... Como é que ele me encontrou? — Eu não tinha
outra conclusão a tirar. De alguma forma, Jimmy tinha me encontrado... E ele
tinha me tirado de minha mãe.

— Eu não sei — Stella sussurrou. — Isso não faz nenhum sentido.

— Winona nunca soube quem era o pai dela? — Wilson perguntou


gentilmente. Ele era o único que parecia capaz de amarrar dois pensamentos
juntos.

— Nós lhe permitimos pensar que meus pais eram seus pais. Eu os
chamava de mamãe e papai, e isso era como ela chamava também, e todos nós
vivíamos juntos quando eu não estava viajando. Minha mãe a educou, enquanto
eu continuei a trabalhar com a ligação para Assuntos Indígenas. E, em 1980, o
presidente Carter assinou a legislação que restaurou o reconhecimento federal
para as tribos e Paiute teve a sua reserva Paiute. Eu gosto de pensar que tenho
algo a ver com isso. Isso fez a bagunça que eu tinha feito da minha vida pessoal
um pouco mais fácil de suportar.

— Mas o que dizer de Jimmy? — Eu sussurrei atordoada que ele poderia


nunca sequer saber que tinha um filho. O Jimmy que eu conhecia tinha vivido
tão simples e teve tão pouco. Eu senti a raiva crescendo em meu peito com esta
mulher que nunca tinha contado a ele sobre sua filha.

— Eu não sabia como encontrá-lo, Blue. Eu deveria ter tentado mais, eu


sei. Mas era uma época diferente. Na década de 1970, você não apenas fazia um
rápido telefonema para uma reserva indígena. Na verdade, dificilmente você
pode fazer isso agora! Eu consegui algum contato com a mãe de Jimmy, mas ela
morreu alguns anos depois de Winona nascer. O irmão de Jimmy disse que não
sabia onde ele estava. Fiquei bastante conflituosa. Eu amava Jimmy, mas eu o
havia trocado por meus sonhos... E eu o perdi. Eu pensei que algum dia iria
encontrá-lo outra vez, e talvez fosse capaz de explicar.

— Talvez Winona quisesse encontrá-lo — Wilson ponderou em voz alta.


— Ela foi vista em Oklahoma. Por que outro motivo ela teria ido para
Oklahoma?
— Mas... Eu não acho que tenha Jimmy voltado. Ela não o teria
encontrado ali — Stella protestou, claramente confusa com tudo isso.

— Mas ela não saberia isso, saberia? Existe alguma maneira que ela
poderia ter descoberto quem era seu pai?

— Meu pai faleceu quando Winnie tinha quinze anos, e minha mãe
morreu no ano seguinte. Suas mortes foram muito difíceis para Winnie. Eu
decidi que era hora de dizer a ela que eu era a sua mãe. Eu pensei que iria fazê-
la se sentir menos sozinha, e não mais ainda. Eu pareço não ter muito bons
instintos com essas coisas, porque ela não lidou com isso também. Ela queria
saber tudo sobre o pai dela... Sobre o porquê de ele não ficar por aqui. Eu tive
que explicar que a culpa foi minha. Mas eu poderia dizer que ela não acreditou
em mim. Mostrei-lhe algumas fotos dele. Eu me pergunto se ela era a pessoa
que as levou — Stella pôs o dedo nos espaços vazios, enquanto continuava com a
sua história.

— Ela começou a dar problemas na escola. Ela teve alguns


desentendimentos com a polícia sobre drogas. Não muito tempo depois que ela
ficou grávida. Todos falavam que seu pai a deixou. E eu pensei que ela tinha
deixado isso para trás, que ela mudou-se para outras preocupações. Nós nunca
falamos sobre seu pai de novo.

Stella Hidalgo começou a colocar o álbum de fotos de volta na caixa


quando ela hesitou e sentiu algo dentro da caixa, puxando vários itens de lá.

— As cartas não estão aqui — Anunciou e olhou para mim. — As cartas se


foram! Eu mantive todas as cartas de Jimmy. Elas estavam aqui. Eu não abri
esta caixa dede que mostrei as fotos a Winona, há mais de vinte anos atrás.

— As cartas teriam lhe dado algumas informações valiosas, incluindo um


endereço de retorno — Wilson respondeu. Stella balançou a cabeça, e ficou em
silêncio enquanto digeria a possibilidade de que Winona tinha ido à procura de
seu pai.
— A última vez que falei com Winnie, ela continuou reclamando sobre os
homens que nunca assumem a responsabilidade... Sobre as injustiças da vida —
A voz de Stella estava pensativa, e sua expressão sugeria que ela estava
examinando a memória. — Eu apenas achei que ela estivesse falando sobre
Ethan. Ela disse que iria enfrentá-lo e fazê-lo responder pelo que tinha feito. Eu
pensei que ela estava falando de Ethan — Stella insistiu mais uma vez, quase
suplicante. — Eu estava com medo. Ela estava com tanta raiva e não falava sobre
isso. Eu mesmo liguei para Ethan e avisei. Eu não gostava de Ethan Jacobsen,
ou seus pais, mas não queria machucá-lo, pelo amor de Winnie, tanto quanto
para o seu próprio.

— Ela não encontrou Jimmy em Oklahoma, mas talvez o irmão de Jimmy


lhe contasse sobre Cheryl — Eu disse, remoendo as possibilidades. Stella franziu
o cenho para mim, claramente confusa.

— Cheryl? Cheryl era um pouco mais jovem do que Jimmy. Ela tinha
apenas doze anos quando Jimmy e eu nos encontramos, e ela não vivia na
reserva. Sua mãe era uma garota branca que teve um caso com o pai de Jimmy.
Eu só sabia sobre ela, porque Jimmy tinha um monte de ressentimentos em
relação a seu pai, e o caso foi uma grande parte disso.

Era difícil imaginar Cheryl aos doze anos. Ela estava em seus quarenta e
tantos anos agora e não gostava muito de sua idade.

— Cheryl vive em Nevada. Ela me levou quando Jimmy morreu — Eu


disse, esperando que a morte de Jimmy não viesse como um choque, mas a
minha avó balançou a cabeça como se soubesse.

— O irmão de Jimmy me enviou uma carta quando encontraram os restos


de Jimmy. Ele nunca mencionou nada sobre você — Disse Stella, entre lágrimas.

— Por que ele faria? Eu nunca conheci nenhum deles. Eles não sabiam
nada sobre mim — Eu expliquei.
Ficamos em silêncio, cada um de nós mentalmente desenrolando o
emaranhado de segredos e suposições que nos havia levado a este ponto da
história.

— Jimmy disse que me encontrou em uma mesa de restaurante. Eu


estava dormindo. Ele esperou comigo até minha mãe voltar. Ele contou a Cheryl
que minha mãe agia estranha, mas ele pensou que era porque ele era um
estranho, sentado com sua filha. Talvez fosse porque ela o tenha reconhecido, e
ele a pegou de surpresa.

— Nós sabemos que Jimmy não prejudicou a sua mãe, Blue. A polícia
encontrou o homem que fez isso — Wilson ofereceu enfaticamente, como se ele
soubesse onde meus pensamentos tinham andado.

— Jimmy nunca teria ferido uma alma — Stella concordou. — Mas eu não
entendo como você acabou com ele.

— Ele disse que eu estava dormindo no banco da frente de sua


caminhonete na manhã seguinte.

— Então foi isso que aconteceu — Disse Stella com firmeza. — Jimmy
Echohawk não era um mentiroso. Winona deve tê-lo seguido e deixou você com
ele. Talvez ela planejasse voltar. Talvez quisesse forçá-lo a reconhecê-la. Talvez
ela estivesse sob efeito de drogas, ou desesperada... — Stella ofereceu desculpa
após desculpa antes que sua voz desaparecesse. Quaisquer que sejam suas
razões, Winona tinha feito isso e ninguém nunca realmente saberia o porquê.

— Jimmy era meu avô — Fiquei maravilhada, de repente chegando à


conclusão de que tinha sido óbvio desde que a minha avó me mostrou uma foto
dele. — Meu nome é realmente Echohawk — E de repente, eu não sentia vontade
de chorar mais. Sentia vontade de rir. Senti vontade de jogar as minhas mãos
para cima e dançar, louvando e rezando. Eu gostaria de poder falar com o
Jimmy. Para dizer a ele que eu o amava. Para dizer a ele o quanto eu sentia por
duvidar dele às vezes. Wilson e Stella estavam me observando, e o maxilar de
Wilson estava tenso e seus olhos brilhavam de emoção. Inclinei-me e o beijei
nos lábios, bem na frente da minha avó. Ela teria que se acostumar com isso.
Então eu olhei para ela e falei diretamente.

— Quando Cheryl me disse que Jimmy não era meu pai, foi o pior dia da
minha vida. Eu o tinha perdido, não só fisicamente, mas em todos os sentidos.
Eu não tinha ideia de quem eu era. Eu me convenci de que não sabia quem ele
era — Fiz uma pausa para encurralar a emoção que queria transbordar. — Mas
ele era meu o tempo todo. E eu era dele.

Stella tinha começado a chorar. Quando eu terminei de falar, ela cobriu o


rosto com as mãos, e um gemido de tal tormento quebrou livre que eu me
ajoelhei na frente dela e fiz algo que nunca teria sido capaz de fazer antes de
Wilson. Ele chorava comigo, me segurava, me apoiava, me empurrava para
frente, e não pedia nada em troca. E porque ele tinha feito isso por mim, eu fui
capaz de colocar meus braços em volta dela. Abracei-a com força, e não queria
deixá-la ir. Eu a senti ceder contra mim, e então ela se agarrava a mim
desesperadamente, chorando, sofrendo por um homem que havia maltratado,
por uma filha que tinha falhado, e por uma neta que ela tinha perdido. Tantos
segredos, tantas escolhas erradas, tanta dor.
Capítulo Trinta

Firmamento
No final, eu fui ver Ethan Jacobsen, também. Eu estava cansada de
segredos, cansada de esqueletos, cansada de não saber. Eu estava tremendo as
teias de aranha e derrubando as pesadas cortinas, deixando a luz brilhar em
uma vida que não tinha sido nada além de cantos escuros. Não foi uma longa
reunião, nem particularmente agradável. Ethan Jacobsen era apenas um cara
normal com uma mulher gorda, um casal de filhos lindos loiros - Saylor e Sadie
- e um cão fedorento. Meu pai parecia em nada com a sua imagem de colegial.
Sua expressão juvenil e seu cabelo loiro espetado foram substituídos por um
sorriso benigno e uma cabeça careca. Ele havia ficado gordo e envelhecido. A
única coisa que o tempo não tinha alterado foram seus olhos azuis. Ele olhava
para mim com aqueles olhos azuis, e eu estava certa de que ele notou que eu
tinha também. Eu tinha certeza que ele notou o meu cabelo preto, pele morena e
a semelhança que eu tinha com uma garota que certa vez ele se preocupou, pelo
menos por um tempo.

Mas ele não me negou. Ele me disse que era meu pai e que gostaria de me
conhecer. Ele me perguntou sobre a minha vida, meus sonhos e meu futuro com
Wilson. Eu respondi vagamente. Ele não ganhou o direito a confidências. Mas
talvez um dia. Eu prometi que entraria em contato. Eu queria ficar e conhecer as
minhas irmãs. Cedar City ficava apenas cerca de três horas de Boulder City, e eu
estava disposta a dirigir. A família tinha tomado uma nova importância para
mim, porque eu tinha uma filha que um dia iria querer todas as respostas. E eu
gostaria de ser capaz de dar a ela. Cada detalhe.
Eu perguntei a minha avó uma vez se valeu a pena... O trabalho que ela
tinha trocado pelo meu avô. Eu não queria machucá-la, mas precisava entender.
Ela desfiou um monte de fatos e detalhes interessantes.

— Bem, em 1984, os Paiutes receberam 4.470 acres de terra espalhados


pelo sudoeste de Utah e um fundo de US $ 2,5 milhões do que podemos chamar
do interesse para o desenvolvimento econômico e os serviços tribais. Nosso
sistema de saúde é muito melhor, bem como as nossas oportunidades de
educação. Temos sido capazes de construir novas casas, abrir e operar algumas
fábricas. Mas temos de continuar lutando por direitos da água, para manter a
nossa terra, para manter nosso povo prosperando. Há sempre trabalho a ser
feito — Ela sorriu, mas suas mãos tremiam, e ela teve dificuldade em olhar em
meus olhos. Depois de um tempo, ela voltou a falar.

— A verdade é que, em um nível pessoal, realmente não valeu a pena,


Blue. Quando está tudo dito e feito há tantas causas nobres, muito trabalho a ser
feito, tanta coisa boa a fazer, mas sacrificar tudo por uma causa que tende a
tornar-se um porta-voz em vez de um amante, um organizador em vez de uma
esposa, uma lutadora em vez de uma mãe. Eu dei tudo em nome de um bem
maior, mas veja quantas pessoas machuquei. Olhe para o efeito em cascata de
pensar que o trabalho da minha vida era mais importante do que as pessoas
nela.

— Eu estive pensando sobre essa história, o que você me disse quando


Melody nasceu — Wilson falou com a testa e lábios franzidos. Ele vinha
praticando seu violoncelo na minha pequena sala de estar, fazia isso todas as
noites, a menos que eu estivesse esculpindo, nesse caso enchia o porão com a
música doce e lixamento. Os dias escutando sob a saída de ar estavam muito
longe.
— Aquela que você disse que era uma droga? — Murmurei, desejando que
ele fosse tocar outra música. Eu estava meio dormindo na minha poltrona, os
tons profundos deixando-me tranquila e sonolenta. Era como um elixir, e eu a
viciada em ambos, o homem e sua música.

— Sim. Foi horrível. E pensar que você evitou Ivanhoe. Qual era o nome
do caçador de novo?

— Waupee. White Hawk.

— Correto. White Hawk amou uma menina estrela, eles estavam felizes
juntos, mas ela decidiu levar seu filho e flutuar para o céu, deixando-o para trás.

— Então, por que você tem pensado sobre isso? — Eu bocejei, concluindo
que ele não ia tocar mais nada até que tivesse falado o que estava incomodando.

— Eu percebi que é a história de Jimmy — Wilson arrancou suas cordas


distraidamente com seus olhos luminosos sem foco, distraído com seus
pensamentos. — Stella flutuou para longe e levou seu filho. Até o nome é
semelhante.

Eu não tinha pensado nisso. Mas Wilson estava certo. Era muito parecido
com a história de Jimmy. Exceto Jimmy não conseguiu um final feliz.

— Mas a jovem estrela voltou a White Hawk, Wilson. Eu não terminei a


história. Seu filho perdeu seu pai, de modo que a donzela estrela voltou para ele.

— Você sabia que Stella significa estrela? — Wilson interrompeu, como se


tivesse acabado de tropeçar no entendimento.

— Não. É?

— Sim. Portanto, temos um falcão e uma estrela. E uma Sapana — Wilson


contou cada nome em seus dedos. — É a sua história — Ele ficou maravilhado.

Eu balancei a cabeça, discordando. — Jimmy nunca recuperou sua


família. O pai da donzela estrela transformou a filha e Waupee e seu filho em
falcões para que eles pudessem voar entre o céu e a terra e ficarem juntos. Mas
nenhum de nós nunca vai estar juntos.

— Mas você voltou para Jimmy, Blue. Você e ele estavam juntos.

— Eu acho que eu voltei — Eu concordei. — Mas não é Sapana nessa


história, amor — Eu sorri para ele com ternura, usando sua própria expressão
de carinho. — Ela tem uma história só dela.

Wilson pousou seu violoncelo e levantou-se, inclinando-se sobre a


cadeira até que pairou apenas alguns centímetros acima de mim com os olhos
cinzentos no azul, sua boca na minha. Ele falou contra os meus lábios.

— É claro que sim... Savana Blue. E é uma história esperando ser


contada.

— Um pouco de melro, empurrada do ninho? — Eu sussurrei, passando


os braços ao redor de seu pescoço.

— Ou colocada lá. É tudo da forma como você conta a história.

— Era uma vez havia um pequeno pássaro que foi colocado em um


ninho. Procurado. Amado. Sem medo, porque sabia que era um falcão, um
pássaro bonito, digno de reverência, merecedor de amor...

Fim
Agradecimentos
Tendo crescido em Utah, eu gosto de explorar a história do povo do meu
Estado natal. Shivwits Paiute Reservation está de fato localizada na área de St.
George of Southern Utah. Larry Shivwa e Stella Hidalgo são personagens
fictícios, como o são todos os personagens da minha história, mas a situação das
pessoas Paiute é factual e histórica.

A história de Waupee e a Star Maiden é uma história Arapaho. O conto de


Tabuts, the Wise Wolfe e the sticks são histórias do povo Paiute. Como muitas
das lendas e histórias indígenas, estas histórias têm grandes lições e significado
para todas as pessoas.

Um grande obrigado por todo o apoio que recebi de pesquisa sobre este
livro. Andy Espinoza, sargento aposentado da PD de Barstow forneceu
informações valiosas sobre procedimento e até mesmo partes de leitura de meu
manuscrito para me certificar de que eu era realista. Quaisquer erros que fiz são
meus. Paul Mangelson, policial experiente, falou-me através das partes do
enredo e até mesmo deu-me ideias para outras novelas. Para a verdadeira Tiffa
Snook, extraordinária blogueira britânica, obrigada por sua opinião sobre todas
as coisas britânicas! Meus sinceros agradecimentos a Steve Bankhead por
passar uma noite me mostrando suas maravilhosas esculturas e responder a
todas as minhas perguntas sobre ferramentas e madeira e inspiração para que
eu pudesse fazer o talento de Blue ganhar vida. Enorme gratidão vai para
Lorraine Wallace, minha ex-professora do ensino médio e amiga que
providenciou a edição maravilhosa e apoio em meus dois últimos romances.
Para minha mãe, obrigada por ser sempre minha primeira leitora, e por fazer as
minhas histórias melhor. E, finalmente, a toda a minha família, amigos,
blogueiros e leitores lá fora, muito obrigada por seu amor, amizade e apoio!

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