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Organizadores:

José Maria Cardoso da Silva


Marcelo Tabarelli
Mônica Tavares da Fonseca
Lívia Vanucci Lins

Biodiversidade da
CAATING A :
áreas e ações prioritárias para a conservação

Ministério do Meio Ambiente

Universidade Federal de Pernambuco, Fundação de Apoio ao Desenvolvimento da UFPE,


Conservation International do Brasil, Fundação Biodiversitas, EMBRAPA Semi-Árido

Brasília, DF
2003

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REPÚBLICA F EDERATIVA DO B RASIL
Presidente: Luiz Inácio Lula da Silva
Vice-Presidente: José Alencar Gomes da Silva

M INISTÉRIO DO M EIO A MBIENTE


Ministro: Maria Osmarina Marina da Silva
Secretário-Executivo: Cláudio Roberto Bertoldo Langone

S ECRETARIA DE B IODIVERSIDADE E F LORESTAS


Secretário: João Paulo Capobianco
Diretor do Programa Nacional de Conservação da Biodiversidade: Paulo Kageyama

PROBIO – Projeto de Conservação e Utilização Sustentável da Diversidade Biológica Brasileira


Gerente: Daniela Oliveira

CONSÓRCIO C OORDENADOR :
Universidade Federal de Pernambuco, Fundação de Apoio ao Desenvolvimento da UFPE,
Conservation International do Brasil, Fundação Biodiversitas, EMBRAPA Semi-Árido

Fotos gentilmente cedidas por:


Adriano Gambarini, André Pessoa, Fábio Olmos, Fundação Biodiversitas,
Gisela Herrmann, Miguel Rodrigues e Zig Koch
Produção Gráfica:
Código Comunicação
Projeto Gráfico e Editoração:
Rafael Vicente Ferreira

APOIO :
Projeto de Conservação e Utilização Sustentável da Diversidade Biológica Brasileira – PROBIO;
Global Environment Facility – GEF;
Banco Mundial – BIRD;
Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico – CNPq;
Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento – PNUD – Projeto BRA 00-021.

Ficha catalográfica elaborada pela Bibliotecária Ana Cristina de Vasconcellos – CRB / 6 - 505

Biodiversidade da caatinga: áreas e ações prioritárias para a


B615 conservação/organizadores: José Maria Cardoso da
Silva, Marcelo Tabarelli, Mônica Tavares da Fonseca, Lívia
Vanucci Lins – Brasília, DF: Ministério do Meio Ambiente:
Universidade Federal de Pernambuco, 2003.
382 p.: il., fots., maps., grafs., tabs.
Este trabalho foi realizado pelo Ministério do Meio Ambiente
em colaboração com a Univ. Fed. de Pernambuco, Fundação
de Apoio ao Desenvolvimento da UFPE, Conservation Interna-
tional do Brasil, Fundação Biodiversitas, Embrapa Semi-Árido.
ISBN: 85-87166-47-6
1. Caatinga. 2. Diversidade biológica. 3. Conservação da
natureza. 4. Meio ambiente. I. Silva, José Maria Cardoso da.
II. Tabarelli, Marcelo. III. Fonseca, Mônica Tavares da. IV. Lins,
Lívia Vanucci.
CDU : 502.74

Ministério do Meio Ambiente - MMA


Centro de Informação e Documentação Luiz Eduardo Magalhães / CID Ambiental
Esplanada dos Ministérios - Bloco B - térreo
70068-900 Brasília-DF
Tel: 55 61 317-1235 - Fax: 55 61 224-5222
e-mail: cid@mma.gov.br - homepage: http://www.mma.gov.br/

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SUMÁRIO

Apresentação .............................................................................................................................................................. 7
Introdução ................................................................................................................................................................... 9
O processo de seleção de áreas e ações prioritárias para a conservação da Caatinga ............................... 11

Parte I - Fatores Abióticos .................................................................................................................................. 15


As paisagens e o processo de degradação do semi-árido nordestino ........................................................... 17
Fatores abióticos: áreas e ações prioritárias para a conservação da Caatinga ................................................. 37

Parte II - Vegetação ............................................................................................................................................... 45


Diagnóstico da vegetação nativa do bioma Caatinga ........................................................................................... 47
Quanto ainda resta da Caatinga? Uma estimativa preliminar ................................................................................ 91
Conhecimento Sobre Plantas Lenhosas da Caatinga: lacunas geográficas e ecológicas ................................ 101
Vegetação: áreas e ações prioritárias para a conservação da Caatinga ............................................................ 113

Parte III - Fauna ....................................................................................................................................................... 133


Invertebrados da Caatinga ........................................................................................................................................ 135
Invertebrados: áreas e ações prioritárias para a conservação da Caatinga ...................................................... 141
Diversidade e conservação dos peixes da Caatinga ............................................................................................ 149
Biota Aquática: áreas e ações prioritárias para a conservação da Caatinga ..................................................... 163
Fauna de répteis e anfíbios das Caatingas .............................................................................................................. 173
Anfíbios e Répteis: áreas e ações prioritárias para a conservação da Caatinga ............................................... 181
As aves da Caatinga .................................................................................................................................................... 189
Aves: áreas e ações prioritárias para a conservação da Caatinga ...................................................................... 251
Diversidade de mamíferos e o estabelecimento de áreas prioritárias para a conservação
do bioma Caatinga ..................................................................................................................................................... 263
Mamíferos: áreas e ações prioritárias para a conservação da Caatinga............................................................. 283

Parte IV - Sócio-Economia e Políticas Públicas para o Desenvolvimento Sustentável ............... 293


As unidades de conservação do bioma Caatinga ................................................................................................ 295
Unidades de conservação: áreas e ações prioritárias para a conservação da Caatinga ................................ 301
Desenvolvimento regional e pressões antrópicas no bioma Caatinga ............................................................... 311
Pressões antrópicas atuais e futuras no bioma Caatinga ....................................................................................... 325
Estratégias para o uso sustentável da biodiversidade no bioma Caatinga ........................................................ 329
Recomendações para o uso sustentável da biodiversidade no bioma Caatinga ............................................ 341

Parte V - Síntese e recomendações.................................................................................................................. 347


Áreas e Ações Prioritárias para a Conservação da Biodiversidade na Caatinga ............................................... 349
Recomendações gerais para políticas públicas ..................................................................................................... 375

Lista geral dos participantes do seminário.............................................................................................................. 381

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Gisela Herrmann

6 Flor de gravatá

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APRESENTAÇÃO

Entre 21 e 26 de maio de 2000, o Ministério do Meio Ambiente apoiou a realização


em Petrolina, Pernambuco, do workshop “Avaliação e Ações Prioritárias para Conservação
da Biodiversidade na Caatinga”, inserido no esforço de ampliação do conhecimento dos
diferentes biomas brasileiros e na indicação de ações e áreas prioritárias para sua
conservação. Esse workshop contou com a participação de 140 pesquisadores que
geraram uma formidável gama de informações sobre o estado de conhecimento e as
lacunas de informação desse bioma, até então possivelmente o mais desconhecido do
país. As conclusões do trabalho foram sintetizadas e publicadas por este Ministério sob a
forma de um sumário executivo e compondo o livro Biodiversidade Brasileira – Avaliação
e Identificação de Áreas e Ações Prioritárias para a Conservação, Utilização Sustentável e
Repartição dos Benefícios da Biodiversidade Brasileira.

Agora o Ministério do Meio Ambiente torna disponível, em sua íntegra, para os


diferentes órgãos governamentais, para as universidades, organizações não governamentais
e o público em geral, os textos específicos que embasaram as indicações de áreas
prioritárias, de ações e de políticas públicas para a conservação da biodiversidade da
Caatinga, geradas previamente e durante o workshop. Estes textos agregam informações
bióticas (flora, invertebrados, biota aquática, répteis e anfíbios, aves e mamíferos) às não
bióticas (estratégias de conservação, fatores abióticos, pressão antrópica e desenvolvimento
regional, e uso sustentável da biodiversidade). A estes foram agregados também os
resultados gerados pela integração e reestruturação dos dados obtidos, os quais foram
trabalhados por grupos interdisciplinares, agrupados por regiões pré-definidas: Maranhão/
Piauí; Ceará; Rio Grande do Norte/Paraíba; Pernambuco/Alagoas; e Sergipe/Bahia/
Minas Gerais. Além dos grupos regionais, foi formado um grupo integrador para combinar
todas as recomendações propostas pelos grupos temáticos em um conjunto único de
propostas de políticas públicas para a conservação da biodiversidade da Caatinga e no
mapa geral de prioridades.

É importante destacar o esforço que resultou na presente publicação, porque,


sobretudo, ela nos revela a riqueza da Caatinga, desmistificando o conceito até então
usual de que este bioma (o único exclusivamente brasileiro e que abrange uma área de
734.478km2), é estéril e pobre em biodiversidade. Na verdade, somente de caatingas são
reconhecidas 12 tipologias diferentes, as quais despertam atenção especial pelos exemplos
fascinantes de adaptação aos hábitats semi-áridos. Estima-se que pelo menos 932 espécies
vegetais foram registradas na região, sendo 318 delas endêmicas. O mesmo acontece
com outros grupos, como o de aves, com 348 espécies registradas, das quais 15 espécies
e 45 subespécies foram identificadas como endêmicas. E, ainda, dos répteis, sendo de
considerável destaque duas áreas de dunas do Médio São Francisco (Campos de dunas
de Xique-Xique e Santo Inácio, e Campos de dunas de Casanova), onde concentram-se

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conjuntos únicos de espécies endêmicas. Por exemplo, das 41 espécies de lagartos e
anfisbenídeos registradas para o conjunto de áreas de dunas, praticamente 40% são
endêmicas. Além disso, quatro gêneros são também exclusivos da área.

Finalmente, gostaria de registrar que todo este trabalho resultou de uma parceria
entre o Ministério do Meio Ambiente, no âmbito do Projeto de Conservação e de Utilização
Sustentável da Diversidade Biológica Brasileira – PROBIO, e o consórcio formado pela
Universidade Federal de Pernambuco, Fundação Biodiversitas, Conservation International
do Brasil e Fundação de Apoio ao Desenvolvimento da Universidade Federal de
Pernambuco, com o apoio da Embrapa Semi-Árido, além da inestimável cooperação
de tantos e tantos pesquisadores que contribuíram com seu saber para que este livro
pudesse ser gerado.

Marina Silva
Ministra do Meio Ambiente

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Zig Koch
INTRODUÇÃO:
A Caatinga ocupa uma área de 734.478km2, e é o único bioma exclusivamente
brasileiro. Isso significa que grande parte do patrimônio biológico dessa região não é
encontrada em nenhum outro lugar do mundo além do Nordeste do Brasil. Essa posição
única entre os biomas brasileiros não foi suficiente para garantir à Caatinga o destaque
que merece. Ao contrário, a Caatinga tem sido sempre colocada em segundo plano quando
se discutem políticas para o estudo e a conservação da biodiversidade do país.

Alguns mitos foram criados em torno da biodiversidade da Caatinga e três deles são
comumente mencionados: 1. é homogênea; 2. sua biota é pobre em espécies e em
endemismos; e, 3. contudo, está ainda pouco alterada. Esses três mitos podem agora ser
considerados superados, pois a Caatinga não é homogênea; é sim extremamente
heterogênea e inclui pelo menos uma centena de diferentes tipos de paisagens únicas.

A biota da Caatinga não é pobre em espécies e em endemismos, pois, apesar de ser


ainda muito mal conhecida, é mais diversa que qualquer outro bioma no mundo, o qual
esteja exposto às mesmas condições de clima e de solo. Enfim: a Caatinga não é pouco
alterada; está entre os biomas brasileiros mais degradados pelo homem.

Promover a conservação da biodiversidade da Caatinga não é uma ação simples,


uma vez que grandes obstáculos precisam ser superados. O primeiro deles é a falta de
um sistema regional eficiente de áreas protegidas, visto nenhum outro bioma brasileiro
ter tão poucas unidades de conservação de proteção integral quanto a Caatinga. O segundo
é a falta de inclusão do componente ambiental nos planos regionais de desenvolvimento.
Assim, as sucessivas ações governamentais para melhorar a qualidade de vida da população
sertaneja contribuíram cada vez mais com a destruição de recursos biológicos. E isso,
por conseguinte, não trouxe nenhum benefício concreto para a população que vive na
Caatinga, haja visto ela continuar apresentando os piores indicadores de qualidade de
vida do Brasil. A combinação de falta de proteção e de perda contínua de recursos
biológicos faz que a extinção seja a norma entre as espécies exclusivas da Caatinga.
A extinção, na natureza, da carismática ararinha-azul (Cyanopsitta spixii), no final do ano
2000, por exemplo, é apenas um entre os milhares de eventos de extinção que devem ter
ocorrido na região nos últimos séculos.

A identificação de áreas e de ações prioritárias tem-se mostrado um valioso instrumento


para conservação e proteção da biodiversidade no Brasil e no mundo. Para construir essa
estratégia foi criado o subprojeto Avaliação e Ações Prioritárias para a Conservação da
Biodiversidade da Caatinga, parte do projeto Conservação e Utilização Sustentável da
Diversidade Biológica Brasileira – PROBIO-MMA. Todos os biomas brasileiros estão sendo
contemplados por esses estudos, em cumprimento às obrigações do país em relação à
Convenção sobre Diversidade Biológica, firmada durante a Conferência das Nações Unidas
sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento – CNUMAD (Rio de Janeiro, 1992).

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Os objetivos específicos desse subprojeto são: 1. consolidar as informações sobre
a diversidade biológica da Caatinga e detectar lacunas de conhecimento; 2. Identificar
áreas e ações prioritárias de conservação, com base em critérios de importância biológica,
de integridade dos ecossistemas e de oportunidades para ações de conservação da
biodiversidade; 3. evidenciar e avaliar alternativas de utilização dos recursos naturais que
possam ser compatíveis com a conservação da biodiversidade; 4. promover movimento
de conscientização e de participação efetiva da sociedade relativo à conservação da
biodiversidade desse bioma.

Tal iniciativa é pioneira, no gênero, para a Caatinga, e fornece, portanto, um primeiro


diagnóstico desse bioma. Ainda que não seja completo, pois alguns dos temas não foram
discutidos de forma aprofundada, esse diagnóstico é certamente suficiente para direcionar
as políticas ambientais da região, bem como para agilizar a execução de medidas essenciais
à garantia de conservação, a longo prazo, da biodiversidade da Caatinga.

O citado subprojeto foi conduzido por meio do consórcio entre a Universidade


Federal de Pernambuco - UFPE (Coordenação-Geral); a Fundação Biodiversitas; a
Conservation International do Brasil; e a Fundação de Apoio ao Desenvolvimento da UFPE.
A esses órgãos se juntou, durante a fase de reunião de trabalho, a EMBRAPA Semi-Árido.
Essa integração de instituições é responsável por todas as etapas de planejamento e de
execução do subprojeto, assim como pelo posterior acompanhamento da implementação
dos resultados. A iniciativa recebeu também o apoio da Secretaria de Meio Ambiente,
Ciência e Tecnologia de Pernambuco; da ADENE (Agência de Desenvolvimento do
Nordeste); da Prefeitura Municipal de Petrolina e da Universidade Federal Rural de
Pernambuco.

Além do mapa síntese contendo as áreas prioritárias indicadas para a conservação


da biodiversidade da Caatinga e das recomendações sugeridas para o uso sustentável
desse bioma, a presente publicação inclui, também, os documentos gerados pelos
coordenadores dos grupos temáticos para subsidiar o trabalho dos mesmos durante o
seminário de consulta (workshop da Caatinga).

O livro está estruturado em cinco partes, de acordo com os grandes temas


abordados: fatores abióticos, vegetação, fauna, desenvolvimento regional e pressões
antrópicas, e síntese e recomendações.

Para cada área temática existem dois capítulos: o primeiro contém o documento
elaborado pelo coordenador e o segundo inclui o mapa com as áreas prioritárias indicadas;
uma breve descrição dessas áreas, contendo, além do seu nível de importância biológica
e da ação recomendada para sua conservação, a sua localização, os hábitats abrangidos,
os elementos utilizados para seu diagnóstico, os fatores de vulnerabilidade e a justificativa
para sua indicação.

José Maria Cardoso da Silva


Universidade Federal de Pernambuco
Conservation International do Brasil

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O processo de
seleção de áreas José Maria Cardoso da Silva

e ações prioritárias para a


Universidade Federal de Pernambuco
Conservation International do Brasil

Marcelo Tabarelli

conservação da Caatinga
Universidade Federal de Pernambuco

Mônica Tavares da Fonseca


Conservation International do Brasil

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André Pessoa
conhecidos regionalmente como brejos,
não foram tratados por já terem sido
discutidos detalhadamente no subprojeto
Mata Atlântica e Campos Sulinos. As
bordas da Caatinga, com os biomas
adjacentes, não são algo simples de ser
traçado, pois caracterizam-se pela
presença de mosaicos complexos de
vegetações distintas. Assim, áreas de
transição foram também incorporadas aos
estudos de forma que complementassem
os resultados dos subprojetos similares
feitos para a Mata Atlântica e Campos
Sulinos, para a Amazônia e para o Cerrado
e o Pantanal.
O subprojeto foi estruturado em
quatro fases:
• preparatória;
• decisória;
• processamento e síntese dos resultados;
• divulgação e acompanhamento da
implementação dos resultados.

Xique-xique
Fase preparatória
Consistiu no levantamento, na
sistematização e no diagnóstico das
informações biológicas e socioeco-
A metodologia utilizada no
nômicas, assim como no levantamento de
subprojeto se baseia no programa de
unidades de conservação, de áreas
workshops regionais da Conservation
alteradas, de estratégias de conservação
International. Consiste basicamente na
(políticas públicas e legislação), de
reunião de um conjunto de informações
práticas de uso sustentável e de fatores
biológicas, sociais e econômicas da região,
físicos. Essas informações, em forma de
que irão subsidiar a definição – fornecida
documentos, de base de dados e de
por um grupo de especialistas de diversas
mapas, foram obtidas a partir de extensa
disciplinas que trabalham de forma
pesquisa bibliográfica e de consulta a
participativa – de áreas e de ações
especialistas. Para cada um dos grupos
prioritárias de conservação.
taxonômicos analisados (flora, inver-
Para esse subprojeto tomou-se tebrados, biota aquática, anfíbios e
como parâmetro de delimitação da répteis, aves e mamíferos) foram
Caatinga toda a região do Nordeste elaborados mapas de conhecimento e de
brasileiro dominada pela vegetação do tipo distribuição de elementos especiais da
‘savana estépica’, conforme constante no biodiversidade, ou seja, de espécies
mapa Vegetação do Brasil (escala endêmicas, raras e ameaçadas de
1:5.000.000) elaborado pelo IBGE. Os extinção, na Caatinga. Além das
enclaves de florestas na Caatinga, informações biológicas, também foram

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mapeados vários fatores ambientais importância, mas ainda pouco co-
(clima, solo, vegetação, áreas alteradas, nhecidas, engloba aquelas áreas
altitude); as unidades de conservação; o aparentemente bem conservadas, as quais
índice de pressão antrópica; e os têm, porém, enormes lacunas no que se
principais eixos de desenvolvimento. refere ao estudo de suas biotas.
As informações compiladas nessa Outros quatro grupos não biológicos
fase, organizadas em relatórios técnicos e – estratégias de conservação; fatores
em mapas, serviram de base para a fase abióticos; pressão antrópica e desen-
seguinte do subprojeto: a decisória. volvimento regional; e uso sustentável da
biodiversidade – reuniram-se ao mesmo
tempo em que os biológicos para discutir
Fase decisória o assunto e propor alternativas bem
específicas.
A reunião de trabalho, etapa
decisória do processo, realizou-se nas O grupo estratégias de conser-
dependências do campus de Pesquisa da vação sugeriu novas áreas para a criação
EMBRAPA Semi-Árido, em Petrolina, de unidades de conservação, com base
Pernambuco, no período de 21 a 26 de em análises de representatividade, de
maio de 2000. O evento contou com a oportunidades e de ações específicas, para
participação de 140 especialistas várias unidades de conservação existentes.
representantes de organizações gover-
O grupo fatores abióticos iden-
namentais e não governamentais, de
tificou áreas de importância para a proteção
instituições de ensino e pesquisa e de
e a manutenção de mananciais e de
empresas.
aqüíferos; áreas sob forte risco de
A dinâmica de trabalho envolveu, desertificação; e áreas sujeitas à exploração
a princípio, a formação de seis grupos mineral.
temáticos biológicos: flora, invertebrados,
O grupo pressão antrópica e
biota aquática, répteis e anfíbios, aves e
desenvolvimento regional evidenciou
mamíferos, os quais discutiram o estado
áreas atualmente submetidas a forte
de conhecimento e as lacunas de
pressão (áreas com alta pressão antrópica)
informação por área temática. Os
e também futuros eixos de pressão.
critérios adotados para a identificação
das áreas prioritárias de cada grupo Finalmente, o grupo uso susten-
foram: a distribuição e riqueza de tável da biodiversidade advertiu sobre
elementos especiais da biodiversidade, e fatores que contribuem e fatores que
a presença de fenômenos biológicos prejudicam o uso sustentável da
únicos, tais como zonas de contato entre biodiversidade da Caatinga, indicando, ao
biotas, áreas de repouso ou invernada de mesmo tempo, os usos mais apropriados
migrantes e de comunidades biológicas dos recursos naturais da região.
especiais. Com o objetivo de facilitar a
As áreas definidas pelos grupos integração dos resultados obtidos, em um
foram então classificadas, de acordo com momento posterior os grupos temáticos
sua importância biológica, em quatro reestruturam-se, por regiões predefinidas,
categorias. Extrema importância, muito em grupos multidisciplinares: Maranhão/
alta importância e alta importância são Piauí; Ceará; Rio Grande do Norte/Paraíba;
categorias representativas de níveis Pernambuco/Alagoas; e Sergipe/ Bahia/
decrescentes de relevância biológica. A Minas Gerais. Cada grupo regional analisou
quarta categoria, áreas de potencial os mapas propostos pelos grupos

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temáticos e organizou as informações em trabalho dos grupos temáticos e
conformidade com o esquema a seguir integradores, bem como os bancos
descrito. temáticos de informações de cada uma das
áreas prioritárias. Foram consolidados
• As áreas foram identificadas e
também todos os documentos e relatórios
classificadas, segundo a relevância
produzidos durante o subprojeto. São
biológica, a partir da análise dos mapas
produtos do subprojeto o mapa, na forma
produzidos pelos grupos temáticos
de pôster, com o mapa-síntese e os mapas
biológicos.
temáticos; um relatório técnico em que são
• A ação prioritária para cada área foi registrados todos os documentos
proposta mediante a análise dos mapas produzidos e os resultados alcançados
de fatores bióticos e de estratégias de durante a execução do subprojeto; uma
conservação. publicação dos mapas de prioridades e das
• A urgência da implementação das principais ações e recomendações para a
ações sugeridas foi identificada por conservação da Caatinga; e a presente
meio do mapa traçado pelo grupo publicação.
pressão antrópica e desenvolvimento
regional.
Divulgação e acompanhamento
Além dos grupos regionais, compôs-
da implementação dos resultados
se também um grupo que integrasse todas
as recomendações dos grupos temáticos Os resultados vêm sendo ampla-
em um conjunto de propostas de políticas mente veiculados nos diversos setores do
públicas para a conservação da governo, no setor privado, no meio
biodiversidade da Caatinga. acadêmico e na sociedade em geral.
A divulgação do andamento e dos resultados
Finalmente, na reunião plenária –
do subprojeto, na íntegra, tal como outras
última fase da reunião de trabalho – foram
informações, estão também disponíveis na
apresentados os resultados dos grupos
Internet: (www.biodiversitas.org/caatinga).
integradores regionais e discutidas as
Para maior eficiência da difusão dos
estratégias de conservação, as
resultados, tanto quanto para a
recomendações de políticas públicas e o
manutenção da interlocução técnica entre
mapa geral de prioridades.
o governo e os diferentes setores
interessados da sociedade, foi formada
uma comissão de acompanhamento.
Processamento e síntese
Pretende-se, dessa maneira, garantir a
dos resultados ampliação da divulgação de informações
Essa etapa do processo com- e a aplicação das recomendações
preendeu a revisão de todos os mapas e resultantes do subprojeto no sentido de
documentos produzidos antes e depois da buscar um envolvimento maior de pessoas,
fase decisória. Foram conferidos e de comunidades e de entidades atuantes
aperfeiçoados os mapas resultantes do na Caatinga.

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Parte I

Fatores Abióticos
As paisagens e o
processo de Iêdo Bezerra Sá

degradação do Pesquisador EMBRAPA Semi-árido

Gilles Robert Riché

semi-árido nordestino
Pesquisador convênio EMBRAPA/ORSTOM

Georges André Fotius


Pesquisador convênio EMBRAPA/ORSTOM

17
Adriano Gambarini

INTRODUÇÃO
O presente capítulo apresenta uma
descrição da diversidade de macro-
paisagens do nordeste brasileiro, com
ênfase na região semi-árida, demonstrando
que, ao invés de ser uma paisagem
monótona e pouco diversificada, o semi-
Cactáceas da Caatinga
árido nordestino é extremamente diverso,
tanto do ponto de vista de seus recursos
naturais como da sua dinâmica social.

Para tal, são apresentadas as etapas


metodológicas principais do Zoneamento
Agroecológico do Nordeste Brasileiro –
ZANE (Silva et al. 1994), um sistema
produzido pela EMBRAPA, que visa
caracterizar e espacializar os diversos
ambientes em função da diversidade dos
recursos naturais e agrossocioeconômicos.
Dentre outras aplicações, esse novo
enfoque pretende fornecer melhor
orientação às ações de planejamento
governamental, resultando, dessa forma,
na racionalização da aplicação dos
investimentos para conservação e
recuperação do meio ambiente.

Além disso, este capítulo apresenta,


a partir dos dados obtidos e organizados
no ZANE, uma estimativa, por sub-região
e por Estado, do processo de degradação
ambiental do semi-árido nordestino.

18
MATERIAIS E MÉTODOS

Diagnóstico do meio natural e agrossocioeconômico

Considerando que as ações de A caracterização das UGs foi


pesquisa e de desenvolvimento rural realizada por meio de critérios de
necessitam da integração das investigações identificação e de agregação. Os critérios
interdisciplinares de natureza agroeco- de identificação, por ordem hierárquica,
lógica e agrossocioeconômica, foi foram determinados segundo a vegetação
desenvolvida e aprimorada uma natural, o relevo e a seqüência dos solos
metodologia de diagnóstico do meio na paisagem. Esses critérios foram
natural e agrossocioeconômico, tendo considerados suficientes para caracterizar
como base a Unidade Geoambiental – UG. o potencial de ocupação do meio
O conceito de UG compreende ambiente. Os critérios de agregação –
realidades diversas, de acordo com as clima, recursos hídricos e quadro
disciplinas contempladas (geografia, agrossocioeconômico – foram utilizados
ecologia, pedologia, etc.), porém aquele para fortalecer a caracterização das UGs.
que melhor se adapta às metas do Considerando a extensão territorial
desenvolvimento rural, define a UG como da região e visando a melhor com-
uma entidade espacializada, na qual o preensão do documento, as UGs foram
substrato (material de origem do solo), a agrupadas em unidades maiores. Para
vegetação natural, o modelado (relevo) e a isso, a região foi dividida em Grandes
natureza e distribuição dos solos na Unidades de Paisagem, baseando-se nas
paisagem constituem um conjunto cuja características morfoestruturais e/ou
variabilidade é mínima, de acordo com a geomorfológicas e geográficas tra-
escala cartográfica. A ausência de dicionalmente utilizadas.
referência quanto às condições climáticas,
deve-se ao fato de que a vegetação natural Na denominação dessas unidades,
foi utilizada como indicador climático, uma procurou-se usar nomes já consagrados,
vez que reflete as condições de que expressam o ambiente de maneira
disponibilidade hídrica do ambiente simples e objetiva, como, por exemplo,
estudado. Depressão Sertaneja, Chapadas Altas,
Chapada Diamantina, Tabuleiros Lito-
As classes de solos e a disposição
râneos, dentre outros.
destas na paisagem constituem a espinha
dorsal da UG. Com efeito, as características A hierarquização das unidades
do solo e sua distribuição, principalmente geoambientais foi realizada a partir das
no contexto do clima semi-árido, são Grandes Unidades de Paisagem,
fundamentais no que diz respeito à ordenadas, preferencialmente, por nível
dinâmica da água (drenagem, retenção, decrescente de altitude e de expressão
resposta ao tipo de chuva, volume de solo geográfica. Por sua vez, as UGs foram
explorado pelo sistema radicular, etc.) e, sequenciadas de acordo com a vegetação
condicionam, em grande parte, a natural, indo das regiões mais úmidas para
introdução de inovações tecnológicas ou as mais secas, e das mais elevadas para as
alterações nos sistemas de produção. mais baixas.

19
Zig Koch
Roteiro de Trabalho
Com a finalidade de caracterizar as
UGs e as Grandes Unidades de Paisagem,
adotou-se um roteiro de trabalho que
permitiu fazer inter-relações entre as várias
informações disponíveis a cerca dos
recursos naturais e agrossocioeco -
nômicos.

Solo e Vegetação
O documento base utilizado para
Serra Branca, Jeremoabo - BA
realização deste trabalho foi o Mapa de Clima
solos do Nordeste, na escala 1:2.000.000, As informações sobre as condições
elaborado pela Coordenadoria Regional pluviais representativas de cada UG foram
Nordeste da Embrapa - SNLCS (1973, obtidas do acervo informatizado de dados
1975a, 1975b,1976a, 1976b, 1977/79, pluviais mensais do Nordeste (SUDENE
1979, 1986a,1986b), e que apresenta uma 1990a, 1990b, 1990c, 1990d, 1990e,
escala compatível com a precisão desejada 1990f, 1990g). Cada uma das unidades foi
para um zoneamento generalizado. caracterizada por um posto pluviométrico
Para descrição das UGs foram representativo, aqui considerado como
consultados, basicamente, os relatórios e sendo aquele que não apresentou valores
mapas da Embrapa - SNLCS referentes aos extremos nas médias pluviais mensais e
levantamentos de solos em nível anuais.
exploratório-reconhecimento dos estados
A visualização da distribuição da
do Nordeste e do norte de Minas Gerais.
chuva foi feita na forma de histograma,
Esses levantamentos contêm muitas
indicando-se, ainda, o tipo climático e o
informações sobre os solos e sobre outros
início e o fim do período chuvoso.
parâmetros do meio natural. Documentos
de sensoriamento remoto, como imagens
Recursos Hídricos
de radar e de satélite, foram também
utilizados em algumas áreas consideradas A estimativa do potencial em
problemáticas. recursos hídricos de cada UG foi realizada
O relevo e os solos associados foram por meio do levantamento de informações
representados em forma de perfis relativas aos recursos hídricos superficiais
morfopedológicos (topossequências), de e sub-superficiais, tendo por base os
modo a oferecer um quadro o mais trabalhos da SUDENE (1969, 1977, 1978a,
representativo possível da UG. A vegetação 1978b, 1978c, 1978d, 1988).
natural, utilizada no primeiro nível para Para a estimativa dos recursos
subdivisão das UGs, corresponde aos hídricos superficiais foram considerados os
grandes ambientes edafoclimáticos do dados disponíveis das vazões médias dos
Nordeste, de acordo com os levantamentos principais rios. Foram também acres-
realizados pela Embrapa - SNLCS, centados outros rios e/ou riachos que
Coordenadoria Nordeste: floresta cortam as UGs, mas cujos dados das
perenifólia, floresta subperenifólia, floresta vazões médias não estão disponíveis.
caducifólia, floresta subcaducifólia, A capacidade máxima de armazenamento
cerrado, caatinga hipoxerófila e caatinga dos açudes públicos foi indicada. Não foi
hiperxerófila. possível incluir a potencialidade dos açudes

20
particulares, que, apesar de terem A apreciação foi qualitativa e procurou-se
capacidade de armazenamento menor agregar a esse aspecto dados quantitativos
quando comparados com os açudes referentes às principais produções e
públicos, ocorrem em maior número atividades, à densidade demográfica e à
(superior a 70.000), e estão espalhados por estrutura fundiária. Esses dados foram
toda a região semi-árida. levantados para os municípios localizados
dentro de cada UG. Como produção
A qualidade da água foi classificada
principal foram considerados aqueles
de acordo Holanda et al. (2001),
produtos com maior abrangência em
considerando-se a concentração em sais
termos de área, dentro dos municípios.
(C) e a taxa relativa de sódio (S), segundo
os níveis abaixo: No cálculo da densidade demo-
(a) Risco de salinização: C1 – baixo; C2 – gráfica, dividiu-se o número de habitantes
médio; C3 – alto; C4 – muito alto. dos municípios localizados dentro de cada
UG pela área total, classificando-se,
(b) Risco de alcalinização: S1 – baixo;
posteriormente, o número de habitantes/
S2 – médio; S3 – alto; S4 – muito alto.
km2 em: < 10 – muito fraca; 10-20 – fraca;
Para a estimativa dos recursos 20-50 – média; 50-100 – forte; > 100 –
hídricos sub-superficiais avaliou-se, para muito forte. Na estrutura fundiária, os
cada UG, o potencial hidrogeológico e foi estabelecimentos foram estratificados em
realizado um inventário sobre os poços três categorias: < 50 hectares; 50-500
existentes (quantidade, profundidade, hectares; > 500 hectares. Foram
vazão e qualidade da água). calculados o percentual das propriedades
e a área ocupada dentro de cada estrato.
Recursos agrossocioeconômicos A distribuição dos estabelecimentos e a
área explorada em relação à condição do
O zoneamento é um instrumento
produtor (proprietário, arrendatário,
utilizado para elaborar um prognóstico
parceiro e ocupante) também foram
capaz de gerir melhor o aproveitamento
levantadas.
dos recursos naturais. Esse aproveitamento
vai depender das potencialidades e
limitações dos recursos naturais, da Organização do mapa
situação de ocupação do espaço e dos O mapa foi elaborado na escala
objetivos e estratégias de agentes sociais. 1:2.000.000, onde os padrões de cores
O segmento de recursos agrossocio- representam as 20 Grandes Unidades de
econômicos caracteriza estes dois últimos Paisagem, que, por sua vez, são divididas
aspectos. em 172 UGs. Estas são delimitadas por
O sistema agrário visa caracterizar as traços simples e identificadas por notação
grandes coerências e características de alfanumérica, onde a letra maiúscula
uma UG. Discorre-se sobre a zona representa a Grande Unidade de Paisagem
cacaueira, a zona da cana, etc. O sistema e o número subscrito, o seqüencial da UG.
de produção, próximo do conceito de
unidade de produção, tenta identificar as
diferentes estruturas de produção de base:
Zoneamento das áreas em
produção, empresas rurais, plantações processo de degradação ambiental
tradicionais e agroindústria. no trópico semi-árido do Brasil
A integração no mercado, que se Com base no diagnóstico ambiental
traduz em nível de intensificação de e agrossocioeconômico da região foi
modernização, foi o critério principal. possível desenvolver um estudo sobre as

21
áreas que se encontram em processo de a grande diversidade de solos que
degradação ambiental no Nordeste semi- ocorrem no TSA, mostrando, con-
árido, evidenciando uma escala de sequentemente, um comportamento
degradação que vai desde as áreas com bastante diferenciado em relação à
baixo nível de degradação até aquelas com susceptibilidade à erosão. A aplicação da
nível severo, com ênfase na porção mais Equação Universal de Perda de Solo
seca, que é o ambiente mais frágil (Sá et (USLE) de Wischmeier (Wischmeier &
al. 1994, Riché et al. 1994a). Esse estudo Smith 1978) permite avaliar a quantidade
visa contribuir com os setores de de terra arrastada por ano em função do
planejamento nos níveis regional, estadual tipo de solo (Tabela 1).
e municipal, como uma nova forma de
Estes dados, associados a resultados
planejamento estratégico para a região.
obtidos por métodos diretos e indiretos da
Os critérios utilizados levam em avaliação da sensibilidade do solo à erosão,
conta as características dos solos e o como grau de floculação, permeabilidade,
impacto do manejo sobre os mesmos. evolução micromorfológica e topografia,
permitem uma classificação da ero-
dibilidade dos solos.
Critérios edáficos
A escala de erodibilidade, segundo
O componente solo constitui-se em (Wischmeier & Smith 1978), é a seguinte:
um dos parâmetros essenciais para o
(a) Erodibilidade baixa - latossolos
diagnóstico da degradação ambiental no
amarelos e vermelho -amarelos,
trópico semi-árido - TSA. Dentre os fatores
podzólicos distróficos, solos litólicos,
associados às alterações ambientais, os
solos aluviais e areias quartzosas;
mais importantes são a susceptibilidade à
erosão e o tipo e a intensidade de (b) Erodibilidade moderada - latossolos
exploração. Esse conjunto determina o vermelhos escuros, rendzinas e
grau de resistência às ações agropastoris regossolos;
predatórias. (c) Erodibilidade alta - podzólicos
O Zoneamento Agroecológico do eutróficos, terras roxas estruturadas,
Nordeste (Silva et al. 1994) tem enfatizado planossolos e solonetz solodizados.

Tabela 1 - Erosão em solos do trópico semi-árido.


(Parcelas padrão de 22,1m de comprimento, declive de 9%, mantidas aradas no sentido do declive)
Erosão Tipos e associações de solos
(t/ha/ano)
AQ LA PV PE TRE CE V BNC RE LI PL SS
Mínimo 0,01 2,5 12,5 2,5 37,5 25,0 12,5 5,0 12,5 25,0 50,0 87,5
Máximo 0,50 25,0 50,0 62,5 87,5 75,0 50,0 62,5 37,5 75,0 100,0 125,0
Média 0,25 13,7 31,2 32,5 62,5 50,0 31,5 33,5 25,0 37,5 75,0 105,0

AQ = Areias quartzosas CE = Cambissolos LI = Litólicos


LA = Latossolos amarelos V = Vertissolos PL = Planossolos
PV = Podzólicos vermelho-amarelo BNC =Bruno não cálcicos SS = Solonetz solodizados
PE = Podzólicos eutróficos RE = Regossolos
TRE =Terras roxas estruturadas

22
Adriano Gambarini
Critérios sobre o grau de manejo e de
intensidade de exploração
A degradação ambiental não só se
manifesta pela sensibilidade do solo à erosão
mas, sobretudo, pelo uso a ele imposto.
As observações de campo e a análise visual
de documentos satelitários demonstram,
nitidamente, que as áreas mais devastadas
comportam solos de alta fertilidade que foram
e/ou estão sendo intensivamente explorados.
Neste contexto, estão incluídos os solos
bruno não cálcicos, sobretudo pelo cultivo
do algodão, os solos podzólicos eutróficos e
similares, pelos cultivos de subsistência e
comerciais, principalmente a mamona, e os
planossolos, que embora sejam solos de
média a baixa fertilidade natural, por terem
textura leve e ocuparem relevos predo-
minantemente planos e suavemente
ondulados, são bastante cultivados, inclusive
com uso de tração animal.

Qualificação da degradação ambiental


O cruzamento dos dados associados
aos critérios acima expostos, estabelecem
uma escala de quatro níveis de degradação
ambiental para o TSA em sua porção mais
seca: baixo, moderado, acentuado e severo
(Sá et al. 1994, Riché et al. 1994b).

Espacialização das áreas atingidas por


degradação ambiental
Utilizando as informações temáticas
e a base cartográfica do Zoneamento
Agroecológico do Nordeste, foi elaborado
um documento gráfico, na escala de
1:2.000.000, das áreas atingidas pela
degradação ambiental. Também foram
quantificadas estas áreas para cada estado
do Nordeste e para o Nordeste como um
todo, assim como a repartição nas micro-
regiões homogêneas do IBGE (1981a,
1981b, 1981c, 1981d, 1981e, 1981f, 1981g,
1981h, 1981i, 1981j, 1982a, 1982b, 1982c,
1982d, 1982e, 1982f), com seus respectivos
municípios, unidades geoambientais e grau
de degradação ambiental.

23
Cultivo de palmas na Caatinga
RESULTADOS E DISCUSSÃO

A diversidade de paisagens mais detalhados têm demonstrado que a


no bioma Caatinga região apresenta uma grande diversidade
de quadros naturais e socioeconômicos.
A geografia convencional divide o
Nordeste brasileiro nas zonas litorânea, A região semi-árida (ou domínio da
agreste e sertão. Estas duas últimas Caatinga) compreende 925.043km2, ou
formam, essencialmente, a região semi- seja, 55,6% do Nordeste brasileiro. Com
árida, abrangendo 70% da área do base na interação entre vegetação e solo, a
Nordeste e 13% do Brasil, e comportando região pode ser dividida nas seguintes zonas:
63% da população nordestina e 18% da domínio da vegetação hiperxerófila (34,3%);
população brasileira. Apesar da idéia da domínio da vegetação hipoxerófila (43,2%);
existência de uma região Nordeste ilhas úmidas (9,0%); e, agreste e área de
castigada por repetidas secas, os estudos transição (13,4%) (Figura 1) e (Tabela 2).

48º 44º 40º 36º

10º

Convenções
Capital
Limite interestadual 14º

Legenda
Domínio da
vegetação hiperxerófila
Domínio da
vegetação hipoxerófila
Agreste e áreas
de trânsição
Ilhas úmidas 18º

Figura 1
0 100
Escala Gráfica
200 300 400 km
Região semi-árida
do Nordeste
Brasileiro

24
As ecorregiões do bioma Caatinga ou Segue uma breve descrição destas
as Grandes Unidades de Paisagem, Grandes Unidades de Paisagem, com suas
conforme estabelece o ZANE (Silva et al. características mais marcantes.
1994), são as seguintes: Chapadas Altas;
Chapada Diamantina; Planalto da
Borborema; Superfícies Retrabalhadas; CHAPADAS ALTAS
Depressão Sertaneja; Superfícies Dis- Com altitude superior a 800 metros,
secadas dos Vales do Gurguéia, Parnaíba, as Chapadas Altas são formadas por platôs
Itapecuru e Tocantins; Bacias Sedimentares; altos e extensos, apresentando encostas
Superfícies Cársticas; Áreas de Dunas íngremes e vales abertos. Têm grande
Continentais; e Maciços e Serras Baixas. extensão no extremo oeste do estado da
Bahia (Gerais) e na região de Pirapora
(MG), com solos profundos e pobres
cobertos por vegetação de cerrado, e
Tabela 2 - Compartimentação ambiental do trópico semi-árido – TSA. cortadas por veredas de rios perenes com
a presença de buritizais nos solos
Vegetação Vegetação Agreste
hidromórficos.
hiperxerófila hipoxerófila Ilhas úmidas e área de Total
transição
De menor expressão, as chapadas do
Área (km 2) 317.608 399.777 83.234 124.424 925.043 Araripe (PE/CE) e da Ibiapaba (CE)
% Nordeste 19,09 24,04 5,00 7,48 55,61 possuem solos profundos de baixa
% TSA 34,33 43,21 9,00 13,45 - fertilidade nos topos, com vegetação
florestal de porte e caducidade variáveis,
em transição para a caatinga. Nas encostas
predominam solos mais férteis sob
A Tabela 3 apresenta as Grandes vegetação natural de caatinga.
Unidades de Paisagem com suas Nessa unidade ocorrem três
respectivas áreas e o quanto representam regimes climáticos relativamente se-
no contexto do Nordeste. melhantes: o primeiro, com maior
predominância, ocorre no oeste da Bahia
e norte de Minas Gerais, com precipitação
média anual superior a 1.000mm e
Tabela 3 - Grandes Unidades de Paisagem do semi-árido. período chuvoso de outubro a abril; o
segundo, na Serra da Ibiapaba (CE),
Grandes Unidades de Paisagem Área (km²) % do Nordeste também com precipitação média anual
superior a 1.000mm e período chuvoso
Depressão Sertaneja 368.216 22,16
de dezembro a junho; e o terceiro, no
Chapadas Altas 147.059 8,84
Planalto da Borborema e na Chapada do
Superfícies Dissecadas dos Vales do
Gurguéia,Parnaíba, Itapecuru e Tocantins 110.782 6,66 Araripe (CE/PE), com precipitação média
Superfícies Retrabalhadas 110.120 6,63 anual de 600 a 900mm e período chuvoso
Chapada Diamantina 91.199 5,48 de dezembro a maio.
Superfícies Cársticas 76.917 4,62 A rede fluvial é formada por rios de
Planalto da Borborema 43.460 2,61 grande potencial hídrico. Importantes
Bacias Sedimentares 40.262 2,42 afluentes do rio São Francisco cortam
Maciços e Serras Baixas 35.439 2,13 essa unidade de oeste para leste,
Áreas de Dunas Continentais 9.846 0,59 sobretudo aqueles localizados nos Gerais,
como os rios Branco, Grande, Corrente,
Formoso e Carinhanha.

25
CHAPADA DIAMANTINA A maior parte do planalto apresenta
vegetação de caatinga hipoxerófila, porém
Essa unidade forma um conjunto
com grandes áreas de caatinga bastante
contínuo de extensos platôs, com altitudes
seca nos Cariris e no Curimataú (PB).
variando de 600 a 1.300 metros. Ocupa
Trechos de florestas perenifólia, subca-
uma faixa de orientação norte-sul, indo do
ducifólia e caducifólia são observados nos
centro da Bahia até o norte de Minas
brejos de altitude dos contrafortes da parte
Gerais. O relevo é geralmente acidentado,
leste do Planalto da Borborema.
porém com grandes superfícies planas de
altitude. Os solos são profundos e muito A região é agreste no seu conjunto,
pobres nos topos dos platôs, e bastante sendo caracterizada por clima seco, muito
rasos e pedregosos nas áreas de relevo quente e semi-árido. A estação chuvosa
acidentado. A vegetação varia bastante, adianta-se para o outono (fevereiro/março)
sendo a maior parte recoberta pela e o período seco inicia-se em junho/julho.
caatinga hipoxerófila, embora em Minas A precipitação média anual varia de 400 a
Gerais predomine o cerrado. Na Bahia, a 650mm. Existem áreas com diferentes
floresta ocupa trechos importantes na microclimas, como no município de Areia
região de Wagner e nos planaltos de Vitória (PB), onde a precipitação média anual é
da Conquista, Poções e Planaltina. superior a 1.300mm e o período chuvoso
estende-se de janeiro a setembro.
Apresenta dois regimes climáticos
distintos: o primeiro ocorre no norte de A área é recortada por rios perenes,
Minas e na região de Seabra (BA), com porém de pequena vazão, como os rios
período chuvoso de altitude (outubro a Paraíba e Capibaribe, além de outros de
abril) e precipitações médias anuais de 700 menor expressão como o Ipojuca e o
a 1.100mm; o segundo ocorre na região Tracunhaém. Os açudes são numerosos,
de Apiramutá (BA), também com período tendo sido levantados um total de 83, e
chuvoso de altitude, mas com são, na sua maioria, de tamanho médio e
precipitações médias mensais superiores pequeno, totalizando uma capacidade de
a 60mm – com médias anuais em torno armazenamento de cerca de 962,4 milhões
de 1.100mm – não havendo período seco de metros cúbicos. O potencial de águas
característico. Esta Grande Unidade de subterrâneas é baixo, com predominância
Paisagem não apresenta rede fluvial de águas salinas.
organizada, destacando-se apenas o rio
Pardo, cuja nascente está localizada na SUPERFÍCIES
parte sul da mesma. RETRABALHADAS
Essa unidade é formada por áreas
PLANALTO DA que têm sofrido retrabalhamento intenso,
BORBOREMA com relevo bastante dissecado e vales
Essa unidade é formada por maciços profundos. Tem grande expressão na
e outeiros altos, com altitudes variando de Bahia, acompanhando a encosta oriental
650 a 1.000 metros. Ocupa uma área em da Chapada Diamantina, com altitude
forma de arco, que se estende do sul de variando de 300 metros, próximo ao litoral,
Alagoas até o Rio Grande do Norte. até 1.000 metros, na região de Brumado.
O relevo é geralmente movimentado, com Os solos são geralmente férteis nas
vales profundos e estreitos. Os solos são encostas e pobres nos topos.
pouco profundos e de fertilidade bastante A vegetação é de floresta subpe-
variada, predominando, no entanto, os renifólia perto do litoral e na encosta do
solos de fertilidade média e alta. planalto de Vitória da Conquista, e de

26
Miguel T. Rodrigues
Dunas do São Francisco, BA

caatinga hipoxerófila na região do rio de Mata, o período chuvoso ocorre de janeiro


Contas, com grandes trechos de floresta a setembro com média anual em torno de
caducifólia no restante da área. Do lado 1.200mm. Na região da bacia do rio de
ocidental da Chapada Diamantina, essa Contas, a precipitação média anual é da
unidade ocupa uma faixa de menor ordem de 650mm, com período chuvoso
extensão na divisa Bahia/Minas Gerais, com de novembro a abril. No norte de Minas
solos férteis e vegetação de caatinga Gerais, o clima é mais ameno, com
hipoxerófila. precipitação média anual em torno de
Ocorre também na região litorânea 850mm e período chuvoso de outubro a
de Alagoas e Pernambuco, com altitude abril.
variando entre 100 e 600 metros. Em O potencial hídrico dessa unidade é
Pernambuco e no norte de Alagoas, é considerado bom, sendo que a área é
formada pelo “mar de morros” que cortada por alguns rios perenes, como os
antecede a chapada da Borborema, com rios Cachoeira e Jequitinhonha, que são
solos pobres e vegetação de floresta os de maior vazão, além de outros de
subperenifólia. Na calha do rio São menor porte, como os rios Paraguaçu e
Francisco e na parte central de Sergipe, Pardo.
predominam solos mais férteis e vegetação
O potencial de águas subterrâneas
de florestas subcaducifólia e caducifólia.
é alto em grande parte da área da unidade,
Os regimes climáticos são diferentes com águas de qualidade regular.
em função da posição geográfica. No
estado da Bahia, em áreas próximas ao
DEPRESSÃO SERTANEJA
litoral, o clima é quente e chuvoso, tendo
o mês mais seco precipitação média Trata-se de paisagem típica do semi-
mensal superior a 60mm e média anual em árido nordestino, caracterizada por uma
torno de 1.500mm. Na região da Zona da superfície de pediplanação bastante

27
monótona, com relevo predominante- Em parte do sertão central e leste do
mente suave ondulado, e cortada por vales Ceará e nos sertões de Piranhas (PB) e Itaú
estreitos com vertentes dissecadas. (RN), observam-se, em relevo pouco
Elevações redisuais, cristas e/ou outeiros movimentado, solos rasos e pedregosos,
pontuam a linha do horizonte. Esses relevos porém de alta fertilidade natural e com
isolados testemunham os ciclos intensos vegetação de caatinga hiperxerófila.
de erosão que atingiram grande parte do No piemonte do norte do Araripe e
sertão nordestino. nos sertões das encostas das serras da
Em função da baixa pluviosidade, a Ibiapaba e do alto Jaguaribe, predomina
vegetação predominante é a caatinga relevo bastante movimentado, com solos
hipoxerófila nas área menos secas, e a medianamente profundos e de alta
caatinga hiperxerófila nas áreas de seca fertilidade natural. A vegetação é de
mais acentuada. caatinga hipoxerófila com grande
ocorrência de caatinga hiperxerófila nas
Essa Grande Unidade de Paisagem
divisas do Rio Grande do Norte, Paraíba e
ocupa grande parte do estado do Ceará e
Ceará.
grandes trechos nos estados do Rio Grande
do Norte, Paraíba e Pernambuco. Na Bahia, Nas regiões de Quixadá, General
chega até Feira de Santana e, a leste, ocupa Sampaio, sudeste de Santa Quitéria e
toda calha do rio São Francisco, até a Crateús (CE), sertão centro-norte do Rio
região de Pirapora (MG). Grande do Norte e parte do litoral norte do
Ceará, são observados, em relevo pouco
Na Depressão São-franciscana, ao
movimentado, solos bastante erodidos,
sul do lago de Sobradinho, predominam
rasos e sujeitos a salinização. A vegetação
os solos arenosos, profundos e de baixa
é de caatinga hiperxerófila e rala, passando
fertilidade natural, com vegetação de
a predominar os carnaubais próximos ao
caatinga hipoxerófila e trechos de floresta
litoral do Ceará. No agreste de Riachuelo
caducifólia em Santa Maria da Vitória e
(RN) a vegetação é de caatinga hipoxerófila.
Bom Jesus da Lapa (BA).
Por toda essa Grande Unidade de
Na região do médio e baixo São
Paisagem estão disseminados grandes
Francisco, o relevo é pouco dissecado, com
afloramentos de granitos, em cujos sopés
pequenas elevações residuais disse-
ocorrem solos arenosos. A maior
minadas na paisagem. Os solos são de alta
concentração desses afloramentos
fertilidade natural, mas geralmente são
localiza-se nos sertões de Pernambuco e
cascalhentos e muito susceptíveis à erosão,
da Bahia.
e a vegetação é de caatinga muito seca
(hiperxerófila). O clima dessa unidade é quente,
semi-árido e apresenta dois períodos
Na região de Petrolina (PE), margem chuvosos distintos: o primeiro, em maior
esquerda do rio São Francisco, predo- proporção, ocorre na região mais seca
minam solos mais profundos de fertilidade (sertão), com período chuvoso de outubro
natural baixa e também com vegetação de a abril; e o segundo ocorre na região de
caatinga hiperxerófila. clima mais ameno (agreste), com período
No sertão central da Bahia e nos sertões chuvoso de janeiro a junho. De modo geral,
de Alagoas e Sergipe o modelado é pouco a precipitação média anual de toda a área
dissecado, com ocorrência de solos rasos, que é da ordem de 500 a 800mm.
apresentam problemas de salinidade. O rio São Francisco e seus afluentes,
A vegetação é de caatinga hipoxerófila, com além de outros rios de menor importância,
trechos de floresta caducifólia. cortam praticamente toda a unidade. Assim

28
o potencial hídrico da área é elevado nas O potencial hídrico dessa unidade é
áreas marginais do rio São Francisco e seus alto. Os rios Parnaíba, Itapecuru e
afluentes perenes, e dos rios que formam Tocantins, que constituem a espinha dorsal
outras bacias menores (Jaguaribe, Pinhão, dessa unidade, são rios perenes e de vazão
Açu, Paraguaçu, etc.). elevada, e a estes juntam-se rios de menor
O potencial hidrogeológico é baixo expressão, também perenes, como o
na maior parte da área da unidade. Gurguéia e outros importantes afluentes
Informações indicam que alguns poços dos rios Itapecuru, Tocantins e Parnaíba.
têm profundidade média de 60 metros e O potencial das águas subterrâneas
vazão de 1,3 litros por segundo, sendo as é geralmente alto, com água de boa
águas carregadas de sais, na maioria dos qualidade. Entretanto, em alguns casos, o
casos. potencial mostrou-se baixo, com águas
carregadas de sais.
SUPERFÍCIES DISSECADAS
DOS VALES DO GURGUÉIA, BACIAS SEDIMENTARES
PARNAÍBA, ITAPECURU E
Essa unidade ocupa uma faixa de
TOCANTINS
orientação sul-norte, de Salvador até a
Essa unidade incorpora áreas calha do rio São Francisco, tomando o
dissecadas acompanhando os vales do rumo nordeste já em Pernambuco, além
Gurguéia, do médio e baixo Parnaíba, do de pequenas áreas nos estados do Ceará,
alto e médio Itapecuru e do médio Pernambuco e Sergipe.
Tocantins, com altitudes variando entre
300 e 560 metros. É formada por relevo A bacia do Recôncavo Baiano, com
ondulado associado a áreas rebaixadas relevo ondulado, tem altitude entre 150 e
e, em grande parte, com solos de baixa 300 metros, e solos de baixa fertilidade
fertilidade natural, concrecionários ou natural, exceto pequenas áreas no extremo
não. A vegetação é de mata sub-úmida sul, que são ocupadas por solos férteis
(floresta subperenifólia) com e sem (massapês). A vegetação é de floresta
babaçuais. úmida (perenefólia).

Em trechos relativamente pequenos, A bacia do Tucano é formada por


são observados solos de fertilidade alta, em grandes superfícies aplainadas, em
área de relevo plano, suave ondulado e altitudes que variam de 400 a 600 metros,
ondulado, próximos aos rios Parnaíba e cujo trecho mais conhecido é o Raso da
Gurguéia (aluviões), nos municípios de Catarina. Essas superfícies apresentam
Elesbão Veloso, Esperantina, Miguel Leão, solos profundos, bastantes arenosos e de
Joaquim Pires, Eliseu Martins e Redenção fertilidade natural muito baixa, sob
do Gurguéia (PI), bem como no médio vegetação de caatinga hiperxerófila ou
Tocantins, nos municípios de Porto Franco hipoxerófila. O relevo tabular apresenta-se
e Imperatriz (MA). recortado por entalhes profundos em cujas
baixas encostas encontram-se solos mais
O clima da área da unidade é do tipo
férteis.
chuvoso, com período seco de cinco
meses. As precipitações médias anuais A bacia do Jatobá, em Pernambuco,
variam de 900 a 1.500mm, ocorrendo, no tem relevo suave ondulado com altitudes
estado do Piauí, as mais baixas entre 350 e 700 metros. Observa-se
precipitações médias anuais. Em ambos grande espalhamento de material arenoso
estados, o período chuvoso concentra-se dando origem a solos profundos e muito
de outubro a maio. pobres. Nas vertentes dos vales pre-

29
dominam os solos cascalhentos, porém, A chapada do Apodi (RN) apresenta
mais férteis. A vegetação é de caatinga relevo suave ondulado, com solos profundos
hiperxerófila. ou não, de alta fertilidade natural, sendo a
vegetação de caatinga hiperxerófila.
As “areias” de Mauriti, no Ceará,
têm relevo pouco movimentado, com O chapadão de Irecê (BA) é
solos bastante arenosos e pobres. constituído por um vasto platô, com
A vegetação é de caatinga hipoxerófila, altitudes que variam de 500 a 800 metros.
com trechos de mata seca (floresta Os solos nessa área são de alta fertilidade
caducifólia). natural, sob vegetação de caatinga
Os regimes climáticos são seg- hiperxerófila. Esse platô prolonga-se para
mentados e bastantes distintos em oeste, em área plana de menor altitude
função da localização dessas áreas. (baixio de Irecê), onde aparecem solos
Na região do Recôncavo, o clima é profundos, porém menos férteis, sob
quente e chuvoso, com precipitação vegetação de caatinga hiperxerófila.
média mensal superior a 60mm e média Com altitudes entre 400 e 900
anual de 1.450 a 1.800mm. Nas áreas metros, as áreas dissecadas das encostas
semi-áridas da Bahia (Raso da Catarina), orientais dos Gerais (BA) e da borda
o clima é bastante quente e seco, com ocidental do planalto do São Francisco
média anual das precipitações em torno (MG) apresentam solos de fertilidade alta,
de 650mm e período chuvoso de apesar de serem pouco espessos e
dezembro a julho. Em Pernambuco (bacia suscetíveis à erosão, e vegetação de mata
do Jatobá), o clima é mais seco ainda, seca (floresta caducifólia).
com precipitação média anual em torno
Além dessas três áreas cársticas,
de 450mm e período chuvoso de janeiro
existem outras pequenas áreas de
a abril.
afloramentos de calcário, todas com solos
Esta unidade é cortada por rios de alta fertilidade natural. As mais notáveis
importantes como o Pojuca, o Itapecuru e estão localizadas nas regiões de Juazeiro
o Vaza-Barris, na Bahia, e o Moxotó, em (BA), com vegetação de caatinga hiper-
Pernambuco. xerófila, e de Euclides da Cunha,
Paripiranga, Rio Salitre e Malhada (BA), e
O potencial de água subterrânea é
Pedra Mole (SE), com vegetação de
muito variável em toda a unidade. Foram
caatinga hipoxerófila, além de Itaeté,
analisados 249 poços, que apresentam
Wagner e Utinga (BA), com vegetação de
profundidade média de 45 metros e vazão
floresta caducifólia.
média de 1,6 litros por segundo.
A qualidade da água é, quase sempre, de Em função de sua localização
boa a regular. geográfica, essa unidade apresenta
pequena distinção climática. Assim, na
região norte de Minas Gerais, o período
SUPERFÍCIES CÁRSTICAS chuvoso ocorre de outubro a abril, com
Essa unidade é formada por uma precipitação anual em torno de 1.000mm.
grande faixa descontínua, relacionada a Em Irecê, na Bahia, as chuvas têm início
ocorrência de calcários, que recorta o em novembro, com término em abril, e
Nordeste desde Natal (RN) até Pirapora média anual em torno de 650mm. Na
(MG), constituindo-se, ora em áreas de chapada do Apodi (RN), o clima é mais
chapadas e chapadões, ora em relevo mais seco, com período chuvoso de janeiro a
acidentado. Os solos nessas áreas são de junho (550mm/ano). Nas áreas do sertão
alta fertilidade natural. da Bahia (Curaçá, Juazeiro, etc.) o clima

30
é muito árido, com cerca de 450mm de características hídricas mais favoráveis
chuva por ano ocorrendo entre os meses (veredas). A vegetação é de caatinga
de dezembro a abril. hipoxerófila, com trechos de caatinga
muito seca (hiperxerófila) na região de
Como é típico de áreas calcárias,
Casa Nova.
essa unidade não apresenta rede fluvial or-
ganizada, com exceção de alguns rios O clima é muito quente e semi-árido,
localizados em vales encaixados na região com estação chuvosa de outubro a abril e
de Irecê (rios Verde e Jacaré) e no norte de precipitação média anual em torno de
Minas. 800mm.

ÁREAS DE DUNAS Pequenos e efêmeros riachos


CONTINENTAIS nascem e cortam as áreas dessa unidade,
em direção ao rio São Francisco. Na
Essa unidade forma os “campos de
realidade, as águas provenientes das
dunas” de Casa Nova e Pilão Arcado, na
escassas chuvas e dos riachos constituem
Bahia. São extensas formações de
os únicos recursos hídricos da área.
depósitos eólicos, cuja altura pode
ultrapassar os 100 metros. Os solos, O potencial hidrogeológico é
bastante arenosos, têm fertilidade natural considerado baixo e médio, e é
muito baixa. Nas depressões interdunares inexpressivo o número de poços
observam-se, frequentemente, solos de atualmente existentes.

André Pessoa

Parque Nacional Serra das Confusões - PI

31
MACIÇOS E SERRAS BAIXAS nos sopés e encostas das serras e
maciços. Essas áreas, no entanto,
Com altitude entre 300 e 800 metros,
apresentam período chuvoso de janeiro a
essa unidade ocupa área expressiva nos
maio e precipitação média anual de 700
estados do Ceará, Pernambuco, Paraíba e
a 900mm.
Rio Grande do Norte. É formada por
maciços imponentes que se caracterizam O relevo favorece bastante a
por relevo pouco acidentado, com solos implantação de pequenas barragens.
de alta fertilidade, os quais são bastante Foram levantados 62 açudes com
aproveitados. A vegetação primitiva, hoje capacidade de armazenamento em torno
muito degradada, é variada, podendo ser de 736,2 milhões de metros cúbicos de
de florestas ou de caatingas. água de qualidade regular. O potencial de
água subterrânea é baixo, exceto em
Na Bahia, observam-se serras
pequenas áreas da Bahia, e as águas são
bastante estreitas e compridas, de
geralmente bastante salinas e sódicas.
orientação geral norte-sul, que rompem a
monotonia da vasta planície da Depressão
Sertaneja. É o caso das serras do Estreito
e de Itiúba. Esses relevos são também Características das áreas degradadas
notados em outras regiões do Nordeste, e considerações sobre a dinâmica
como no alto do Jaguaribe, no Ceará, e das comunidades vegetais
nos sertões paraibano e norte-rio -
Segundo os critérios utilizados, a área
grandense. Os solos são geralmente
do trópico semi-árido (TSA) afetada por
pobres e com vegetação predominante de
degradação ambiental é de mais de 20
caatinga.
milhões de hectares, ou seja, cerca de 22%
A área dessa unidade apresenta da área e 12% da região Nordeste (Tabela 4).
distinção climática em função da altitude, Porém, o mais preocupante é que esta área
ou seja, áreas de clima mais ameno nas crítica abrange quase 66% da região mais
cotas mais altas e de clima mais quente seca do TSA.

Tabela 4 - Escala de degradação ambiental e áreas atingidas na região Nordeste.

Níveis de Tipos e Área mais


Sensibilidade Tempo de NE
degradação associações Relevo seca do TSA (%)
à erosão ocupação (%)
ambiental de solos TSA (%)
Severo BNC Suave ondulado, ondulado Forte Longo (algodão) 38,42 12,80 7,15
Acentuado LI Ondulado, forte Muito Forte Recente cultura 10,23 3,40 1,90
ondulado, montanha de subsistência
Moderado PE, Ondulado e forte Moderado Longo 10,21 3,40 1,89
TRE, CE ondulado Cultivo comercial
Médio
Baixo PL Plano e suave ondulado Moderado Pastagem e cultivo 7,07 2,35 1,89
de subsistência
TOTAL (20.364.900 hectares) 65,93 21,95 12,25

BNC = Bruno não cálcicos PE = Podzólicos eutróficos CE = Cambissolos


LI = Litólicos TRE = Terras roxas estruturadas PL = Planossolos

32
Para efeito de simplificação esse ocorrentes são, às vezes, esparsas, em
estudo baseou-se nos tipos de solos função dos desmatamentos seletivos. Sob
predominantes, que são os bruno não a mata residual fechada, o estrato arbustivo
cálcicos, litólicos, podzólicos eutróficos, é inexpressivo, contudo, qualquer tipo de
terras roxas estruturadas, cambissolos e degradação acarreta o aparecimento do
planossolos. marmeleiro-preto, que se torna invasor
quando a cobertura do estrato lenhoso alto
diminui, e ao mesmo tempo, multiplicam-
Áreas de solos bruno não cálcicos se os angicos, as favelas e, principalmente,
As áreas de solos bruno não cálcicos a catingueira-verdadeira.
com relevos ondulado e suave ondulado e
Devido à dificuldade de acesso às
com grau de degradação severo
áreas de solos litólicos em relevos residuais,
representam mais de 38% da área mais
os cultivos tradicionais nessas áreas
seca do TSA. Embora nos dias atuais, haja
provocam riscos muito baixos de
dificuldade de se encontrar remanescentes
degradação ambiental, salvo nas regiões
da vegetação nativa em estágio clímax,
muito povoadas, onde o abandono das
vários são os indícios de que no passado
terras esgotadas das áreas baixas exige a
existia uma mata seca de alto porte,
exploração de novas áreas, trazendo
dominada por baraúnas, aroeiras, pereiros
conseqüências desastrosas, em função dos
e catingueiras-verdadeiras. Num estado de
processos erosivos.
degradação acentuado, esta mata seca
reduziu-se a uma vegetação rala de juremas
sobre uma relva de capim-panasco. Áreas de solos podzólicos eutróficos,
Quando em solos vérticos, observa-se, cambissolos e terras roxas estruturadas
principalmente, uma ocupação maciça de
Essas áreas ocupam cerca de 10%
catingueiras-verdadeiras e pereiros. Em
da região mais seca do TSA e apresentam
condições mais favoráveis, a vegetação é
um grau de degradação moderado. Os
semi-aberta com dominância da
solos possuem características físicas e
catingueira-verdadeira, pinhão, favela-de-
químicas mais favoráveis que os demais,
cachorro e pereiro.
traduzindo -se pela dominância da
catingueira-rasteira no estrato arbustivo
Áreas de solos litólicos (boa drenagem), embora com ocorrência,
às vezes significativa, da catingueira-
As áreas de solos litólicos, em relevo
verdadeira. Via de regra, a cobertura vegetal
ondulado e forte ondulado, ocupam cerca
é densa e bastante diversificada, mesmo
de 10% da zona mais seca do TSA e
onde a degradação ambiental é acentuada
apresentam acentuado grau de
e há predominância do estrato herbáceo.
degradação. Dentre as formações vegetais
Em caso extremo de degradação, a
da caatinga hiperxerófila, a vegetação dos
diversidade florística é dramaticamente
relevos é, de modo geral, a menos
reduzida, chegando-se a ter apenas duas
degradada. Porém, nos solos litólicos dos
espécies.
relevos residuais que apresentam
condições climáticas mais amenas, a
vegetação sofre mais intensamente a ação Áreas de planossolos
dos cultivos.
As áreas de planossolos, em relevo
Nos relevos de rochas cristalinas, plano e suave ondulado, com grau de
desenvolve-se uma mata seca dominada degradação baixo, perfazem cerca de 7%
pelo angico-brabo. As outras espécies da área mais seca do TSA. Por serem solos

33
particularmente desfavoráveis ao Distribuição das áreas com
crescimento das plantas, a caatinga neles degradação ambiental nos estados
instalada apresenta-se bastante rarefeita,
do Nordeste (TSA mais seco)
embora condicionada pela espessura do
horizonte arenoso superficial. No caso de Os estados da Paraíba e do Ceará
horizonte espesso, cultivam-se plantas têm mais da metade das suas áreas com
alimentícias pouco exigentes, em função problemas graves de degradação
da sua fácil trabalhabilidade em sistemas ambiental. Rio Grande do Norte e
de cultivo tradicionais. Sobre os Pernambuco vêm a seguir, com mais de
planossolos, a vegetação de caatinga não 25% das suas áreas atingidas, enquanto os
apresenta plantas lenhosas características, estados de Sergipe, Bahia, Piauí e Alagoas
mas uma forte diminuição do número de apresentam valores inferiores (Tabela 5).
espécies, cujos indivíduos encontram-se É importante destacar que as áreas
bastante espaçados e/ou agrupados em de solos bruno não cálcicos, com
pequenos bosques, com três ou quatro degradação ambiental severa, predominam
espécies básicas. No estrato herbáceo, ao em todos os estados. As áreas com
contrário do que acontece nos outros tipos degradação ambiental moderada alcançam
de caatinga, observa-se uma composição valores baixos no Ceará, Rio Grande do
florística muito diversificada, embora Norte e Paraíba. As áreas de solos litólicos,
fisionomicamente apareçam ciperáceas com degradação ambiental acentuada,
anuais e perenes e, principalmente, um estão bem representadas no estado da
relva contínua de capim-panasco. Paraíba (Tabela 5).

Tabela 5 - Áreas com degradação ambiental nos estados do Nordeste (hectares).

Níveis de Tipos
Rio Grande
degradação associações Alagoas Bahia Ceará Paraíba Pernambuco Piauí Sergipe
do Norte
ambiental de solos

Severo BNC 90.400 2.031.300 4.253.000 2.106.100 2.629.800 588.700 896.200 271.200
3,26% 3,63% 28,98% 37,36% 16,58% 2,34% 16,92% 12,29%

Acentuado LI – 667.300 885.600 692.500 721.100 54.000 141.100 –


1,19% 6,03% 12,28% 7,34% 0,21% 2,66%

Moderado PE, TRE, – 163.200 509.900 298.500 154.400 792.300 265.800 –


CE 0,29% 3,47% 5,29% 1,57% 3,17% 5,01%

Baixo PL – – 2.060.000 429.300 – 61.100 602.100 –


14,03% 8,62% 0,24% 11,35%

Total 90.400 2.861.800 7.708.500 3.526.400 2.505.300 1.496.100 1.905.200 271.200


3,26% 5,11% 52,51% 63,55% 25,49% 5,96% 35,94% 12,29%

BNC = Bruno não cálcicos PE = Podzólicos eutróficos CE = Cambissolos


LI = Litólicos TRE = Terras roxas estruturadas PL = Planossolos

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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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36
Fatores abióticos:
áreas e ações
PARTICIPANTES DO SEMINÁRIO
GRUPO TEMÁTICO `FATORES ABIÓTICOS`

Iêdo Bezerra de Sá

prioritárias para
Coordenação

Aguinaldo Araújo Silva Filho


Carlos Amiro Moreira Pinto

a conservação George André Fotius


Gilles Robert Riché
Hernande Pereira da Silva

da Caatinga Rebert Coelho Correia


Renival Alves de Souza

37
André Pessoa
Parque Nacional Serra das Confusões - PI

A fragilidade do ambiente e o nível Quatro sub-regiões bastante


de pressão antrópica foram os principais preocupantes foram identificadas (Figura 1).
critérios em que se fundamentou a
A primeira corresponde às margens
identificação das áreas prioritárias para a
do rio São Francisco. Essa área foi
conservação concernente aos fatores
explorada intensamente quando da
físicos. A identificação baseou-se na forma
extração de madeira para as caldeiras dos
de utilização agroecológica das áreas, em
barcos a vapor que faziam o transporte
virtude de suas características marcantes
fluvial da região, o que levou a um
quanto a recursos naturais e
empobrecimento da vegetação ribeirinha.
socioeconômicos. Como fontes para a
Isso tem causado desbarrancamento e
tomada de decisão foram utilizados mapas
todo o processo erosivo e de assoreamento
de altitude, de geomorfologia, de solos, de
a ele associado.
clima (principalmente de distribuição das
chuvas), de vegetação natural, e de A segunda corresponde às áreas de
recursos hídricos (tanto superficiais quanto aqüíferos subterrâneos em áreas sedi-
subsuperficiais). No tocante às fontes mentares, os quais são utilizados para suprir
agrossocioeconômicas, as principais o consumo humano ou para irrigação.
variáveis enfocadas foram: a densidade O uso não sustentável, associado aos
demográfica, a estrutura fundiária e os desmatamentos e às queimadas, prejudica
sistemas de produção/exploração usados os setores de recarga, e com isso causa
pelas comunidades. rebaixamento nos níveis piezométricos; o

38
que poderá comprometer seriamente a Finalmente, a quarta sub-região,
acumulação de água num futuro próximo. merecedora de destaque, corresponde às
A terceira sub-região corresponde expressivas zonas sujeitas a processos de
aos locais de atividade de mineração. desertificação, em níveis que vão desde o
Como principal exemplo pode-se citar o moderado até o severo. Nesses locais a
pólo gesseiro da chapada do Araripe que vegetação nativa é alvo permanente de
vem, ao longo dos anos, utilizando-se dos exploração, daí a expressiva degradação
recursos vegetais da caatinga como ambiental. Desses processos decorrem
elemento principal na calcinação da fragilidades econômicas e sociais
gipsita, e provocando a total devastação significativas, as quais são potencializadas
da biota nativa e sua conseqüente pela ocorrência dos repetidos eventos das
exaustão. secas.

Áreas e ações críticas


Desmatamento e queimadas da vegetação nativa
Gestaçaõ e exploração dos recursos naturais
Preservação da vegetação, fauna e flora
Preservação da vegetação, fauna e flora - Recursos hídricos subterrâneos /
Superexploração / Desmatamento e queimadas em zonas de recarga
Proteção aos recursos hídricos / Elevada biodiversidade /
Susceptibilidade a desertificação
Figura 1 Recursos hídricos subterrâneos / Superexploração /
Desmatamento e queimadas em zonas de recarga
Áreas Recursos hídricos superficiais / Desmatamento da vegetação ciliar

prioritárias Recursos hídricos superficiais / Desmatamento da vegetação


ciliar e assoreamento
para Vegetação / Atividades industriais predatórias
conservação Hidrografia

da Caatinga Limite estadual


Limite do bioma caatinga
com base nos
fatores
abióticos

39
1 - MARGENS DO RIO SÃO Justificativa para inclusão: A explotação
FRANCISCO indiscriminada dos aqüíferos subterrâneos
Localização: BA: Curaçá, Glória, Paulo em áreas sedimentares, quer para
Afonso, Rodelas, Abaré, Chorrochó, abastecimento humano ou irrigação, aliada
Juazeiro, Casa Nova, Remanso, Pilão aos desmatamentos e queimadas, vem
Arcado, Itaguaçu da Bahia, Xique-Xique, prejudicando os setores de recarga assim
Barra, Morpará, Sobradinho, Sento Sé, como causando rebaixamento nos níveis
Ibotirama, Paratinga; PE: Petrolina, piezométricos que podem comprometer,
Floresta, Petrolândia, Itacuruba, Cabrobó, seriamente, a acumulação de água no
Belém de São Francisco, Orocó, Santa futuro próximo.
Maria da Boa Vista; AL: Delmiro Gouveia. Aspectos físicos/geográficos: As bacias
Justificativa para inclusão: As margens do sedimentares interiores do Nordeste
rio São Francisco foram, por muitos anos, constituem expressões topográficas bem
exploradas intensamente para extração de definidas com extensão regional a sub-
madeira para as caldeiras dos barcos a regional. Localizam-se nos estados de
vapor que faziam o transporte fluvial da Pernambuco e Bahia. Em Pernambuco
região. A vegetação ribeirinha sofreu e sofre situa-se na porção centro sul do sertão,
um forte empobrecimento de material enquanto na Bahia imediatamente a
lenhoso, sobretudo nas áreas mais nordeste.
adjacentes ao leito do rio. Deste modo,
Pressões antrópicas: Super exploração dos
estas áreas estão contribuindo fortemente
aqüíferos; desmatamento e queimadas no
para o desbarrancamento e todo o
entorno das zonas de recarga; intrusão de
processo erosivo e de assoreamento a ele
agentes patogênicos e contaminação por
associado.
produtos químicos nos lençóis freáticos.
Aspectos físicos/geográficos: A área objeto
Ações recomendadas: Uso sustentável;
de intervenção compreende as margens
investigação científica.
direita e esquerda partindo do município
de Paratinga (BA) até Delmiro Gouveia (AL)
(margem direita) e Paulo Afonso (BA) 3 - AQÜÍFEROS SUBTERRÂNEOS
(margem esquerda). EM BACIAS SEDIMENTARES ÁREA 2
Pressões antrópicas: No passado recente (BELMONTE)
estas áreas foram objeto de exploração Localização: PE: São José do Belmonte.
indiscriminda das margens para atender a
necessidade de material combustível dos Justificativa para inclusão: A explotação
barcos a vapor. No presente a pressão indiscriminada dos aqüíferos subterrâneos
antrópica tem sua maior expressão na em áreas sedimentares, quer para
ampliação dos campos de cultivo, sobretudo abastecimento humano ou irrigação
para a prática da agricultura irrigada. aliados aos desmatamentos e queimadas,
vem prejudicando os setores de recarga
Ações recomendadas: Restauração; uso
assim como causando rebaixamento nos
sustentável.
níveis piezométricos que podem compro-
meter, seriamente, a acumulação de água
2 - AQÜÍFEROS SUBTERRÂNEOS no futuro próximo.
EM BACIAS SEDIMENTARES ÁREA 1 Aspectos físicos/geográficos: As bacias
(TUCANO/JATOBÁ) sedimentares interiores do Nordeste
Localização: AL: Delmiro Gouveia, constituem expressões topográficas bem
Pariconha; BA: Tucano, Euclides da Cunha, definidas com extensão regional a sub-
Quijingue, Canudos, Jeremoabo, Paulo regional. Localizam-se no estado de
Afonso, Glória, Santa Brígida, Rodelas, Pernambuco, zona do sertão, nas seguintes
Canindé do São Francisco; PE: Tacaratu, coordenadas: 7.86139 de Latitude S e
Petrolândia, Inajá. 38.7597 Longitude W.

40
Pressões antrópicas: Super exploração dos piezométricos que podem comprometer,
aqüíferos; desmatamento e queimadas no seriamente, a acumulação de água no
entorno das zonas de recarga; intrusão de futuro próximo.
agentes patogênicos e contaminação por Aspectos físicos/geográficos: As bacias
produtos químicos nos lençóis freáticos. sedimentares interiores do Nordeste
Ações recomendadas: Uso sustentável; constituem expressões topográficas bem
investigação científica. definidas com extensão regional a sub-
regional. Localizam-se no estado do Ceará,
4 - AQÜÍFEROS SUBTERRÂNEOS região do Cariri, nas seguintes coordena-
EM BACIAS SEDIMENTARES ÁREA 3 das: Crato: 7.23417 latitude S e 39.4094
(APODI) longitude W; Juazeiro do Norte: 7.21306
latitude S e 39.3153 longitude W.
Localização: RN: Açu, Mossoró
Pressões antrópicas: Super exploração dos
Justificativa para inclusão: A exploração
aqüíferos; desmatamento e queimadas no
indiscriminada dos aqüíferos subterrâneos
entorno das zonas de recarga; intrusão de
em áreas sedimentares, quer para abaste-
agentes patogênicos e contaminação
cimento humano ou irrigação, aliada aos
produtos químicos nos lençóis freáticos.
desmatamentos e queimadas, vem prejudi-
cando os setores de recarga assim como Ações recomendadas: Uso sustentável;
causando rebaixamento nos níveis piezo- investigação científica.
métricos que podem comprometer, seria-
mente, a acumulação de água no futuro 6 - AQÜÍFEROS SUBTERRÂNEOS
próximo. EM BACIAS SEDIMENTARES ÁREA 5
Aspectos físicos/geográficos: As bacias (PARNAÍBA)
sedimentares interiores do Nordeste Localização: PI: Jaicós, Picos
constituem expressões topográficas bem Justificativa para inclusão: A explotação
definidas com extensão regional a sub- indiscriminada dos aqüíferos subterrâneos
regional. Localizam-se no oeste do estado em áreas sedimentares, quer para
do Rio Grande do Norte, zona do sertão, abastecimento humano ou irrigação, aliada
nas seguintes coordenadas: Açú: 5.57667 aos desmatamentos e queimadas, vem
Lat S e 36.9086 Long W. prejudicando os setores de recarga assim
Pressões antrópicas: Super exploração dos como causando rebaixamento nos níveis
aqüíferos; desmatamento e queimadas no piezométricos que podem comprometer,
entorno das zonas de recarga; intrusão de seriamente, a acumulação de água no
agentes patogênicos e contaminação por futuro próximo.
produtos químicos nos lençóis freáticos. Aspectos físicos/geográficos: As bacias
Ações recomendadas: Uso sustentável; sedimentares interiores do Nordeste
investigação científica. constituem expressões topográficas bem
definidas com extensão regional a sub-
5 - AQÜÍFEROS SUBTERRÂNEOS regional. Localizam-se no Estado do Piauí
EM BACIAS SEDIMENTARES ÁREA 4 borda oriental da província do Parnaíba, nas
(ARARIPE) seguintes coordenadas: Picos: 7.07694
Localização: CE: Barbalha, Missão Velha, latitude S e 41.4669 longitude Wr; Jaicós:
Crato, Juazeiro do Norte. 7.35917 latitude S e 41.1378 longitude W.
Justificativa para inclusão: A explotação Pressões antrópicas: Super exploração dos
indiscriminada dos aqüíferos subterrâneos aqüíferos; desmatamento e queimadas no
em áreas sedimentares, quer para entorno das zonas de recarga; intrusão de
abastecimento humano ou irrigação, aliada agentes patogênicos e contaminação por
aos desmatamentos e queimadas, vem produtos químicos nos lençóis freáticos.
prejudicando os setores de recarga assim Ações recomendadas: Uso sustentável;
como causando rebaixamento nos níveis investigação científica.

41
7 - CAATINGA SETENTRIONAL susceptibilidade à desertificação são fatores
Localização: PE: Buíque, São Joaquim do essenciais para a recuperação deste
Monte, Agrestina, Águas Belas, Alagoinha, manancial.
Venturosa, Tacaimbó, São Caetano, São Aspectos físicos/geográficos: A área objeto
Bento do Una, Sanharó, Sairé, Pesqueira, desta ação compreende o médio e baixo
Pedra, Paranatama, Caruaru, Capoeiras, trecho do rio Parnaíba, localizado na região
Camocim de São Félix, Caetés, Cachoei- limítrofe dos estados do Piauí e Maranhão.
rinha, Brejo da Madre de Deus, Bezerros, Pressões antrópicas: Desmatamento e
Belo Jardim, Altinho. queimadas das matas ciliares; lançamento
Justificativa para inclusão: A referida área de agentes poluidores; assoreamento;
apresenta alto grau de susceptibilidade à gestão inadequada.
desertificação, elevada biodiversidade Ações recomendadas: Uso sustentável;
florística, e tensão ecológica. Devido à forte restauração.
pressão antrópica, é necessária a proteção
aos recursos hídricos da área.
9 - AÇUDE ARARAS
Aspectos físicos/geográficos: A área situa-
se no agreste de Pernambuco, entre os rios Localização: CE: Santana do Acaraú, Coreaú,
Ipanema e Ipojuca. Área de altimetria Moraújo, Uruoca, Granja, Massapê,
variando entre 500 a 800 metros de Monsenhor Tabosa, Tamboril, Catunda, Santa
altitude. Quitéria, Hidrolândia, Nova Russas, Ipueiras,
Ipu, Pires Ferreira, Varjota, Reriutaba, Cariré,
Pressões antrópicas: Desmatamento;
Groaíras, Forquilha, Sobral.
efluentes industriais e domésticos nos
principais recursos hídricos da região; Justificativa para inclusão: Principal
gestão inadequada; crescente densidade reservatório de perenização do rio Acaraú, o
demográfica. Açude Araras se constitui no único manancial
de abastecimento humano, animal e práticas
Ações recomendadas: Restauração; uso
de irrigação do setor oeste do Ceará. Os
sustentável.
conflitos de uso da água, além do lançamento
de efluentes e práticas inadequadas de
8 - RIO PARNAÍBA irrigação, induzem à sua proteção, e o elevado
Localização: MA: Brejo, Santa Quitéria do grau de susceptibilidade à desertificação
Maranhão, Aroiases, Magalhães de constituem-se em fatores essenciais para a
Almeida, São Bernardo; CE: Ibiapina, São recuperação deste manancial.
Benedito, Ubajara, Tinguá, Viçosa do Aspectos físicos/geográficos: O Açude Araras
Ceará; PI: Brasileira, Domingos Mourão, é o principal reservatório do oeste do Ceará
Carnaubal, Cocal, Piracuruca, São José do e perenizador do rio Acaraú, que corre no
Divino, Batalha, Capitão de Campos, sentido sul-norte.
Campo Maior, Alto Longá, Coivaras, Pressões antrópicas: Assoreamento; gestão
Cabeceiras do Piauí, Barras, Esperantina, inadequada.
Joaquim Pires, Buriti dos Lopes, Parnaíba.
Ações recomendadas: Uso sustentável;
Justificativa para inclusão: O desmata- restauração.
mento das matas ciliares, provocado pela
ação do homem no rio Parnaíba, vem
causando assoreamento da sua calha 10 - AÇUDE ORÓS E RIO JAGUARIBE
afetando a navegabilidade, além de Localização: CE: Saboeiro, Aiuaba, Russas,
prejudicar a economia que depende da Jaguaruana, Quixerê, Tabuleiro do Norte,
pesca. O delta do Parnaíba, importante Limoeiro do Norte, Morada Nova, São João
ecossistema, também deve ser preservado do Jaguaribe, Alto Santo, Jaguaretama,
da ação do homem, quer através do Jaguaribara, Icó, Jaguaribe, Quixelô, Orós,
turismo ou da pesca predatória. A proteção Cariús, Iguatu, Jucás, Acopiara, Mombaça,
dos recursos hídricos e o elevado grau de Tauá, Catarina, Antonina do Norte.

42
Justificativa para inclusão: O desmatamento Justificativa para inclusão: O desmatamento
das matas ciliares, provocado pela ação do das matas ciliares, provocado pela ação do
homem no rio Jaguaribe, aliado aos projetos homem no rio Piranhas/Açu, principal
de irrigação mal dimensionados, vem manancial do semi-árido dos estados da
causando assoreamento da sua calha, além Paraíba e Rio Grande do Norte, tem
de prejudicar a economia que depende da provocado o assoreamento e a consequente
pesca. O açude Orós, principal manacial de inundação das margens nos períodos de
perenização deste rio, também deve ser inverno. Principal manancial de recarga da
preservado da ação do homem, quer através Barragem de Açu, maior reservatório do
do turismo ou da pesca predatória. estado do Rio Grande do Norte, será o
A proteção dos recursos hídricos e o elevado principal meio de transporte das águas do
grau de susceptibilidade à desertificação são São Francisco. A proteção dos recursos
fatores essenciais para a recuperação deste hídricos e o elevado grau de susceptibilidade
manancial. à desertificação são fatores essenciais para a
Aspectos físicos/geográficos: O rio recuperação deste manancial.
Jaguaribe é o principal manancial do estado Aspectos físicos/geográficos: O Rio Piranhas/
do Ceará, correndo na direção sul-norte, e, Açu, que corta os estados da Paraíba e Rio
na área selecionada, próximo do limite com Grande do Norte, está localizado no sertão
os estados da Paraíba e Rio Grande do desses estados, portanto inserido comple-
Norte. O Açude Orós, principal agente tamente no semi-árido.
perenizador do Jaguaribe, corresponde o Pressões antrópicas: Desmatamento e
primeiro açude do Estado em volume de queimadas das matas ciliares; lançamento
água, e está situado no município de agentes poluidores; assoreamento; gestão
homônimo. inadequada.
Pressões antrópicas: Desmatamento e Ações recomendadas: Uso sustentável;
queimadas das matas ciliares; lançamento restauração.
de agentes poluidores; assoreamento;
gestão inadequada.
12 - ÁREA DE CARVOEJAMENTO
Ações recomendadas: Uso sustentável; Localização: PE: Arcoverde, Buíque,
restauração. Tupanatinga, Calumbi, Flores, Betânia,
Serra Talhada, Ibimirim, Floresta, Sertânia,
Custódia.
11 - RIO PIRANHAS E AÇU Justificativa para inclusão: Existência de
Localização: PE: Brejo Santo, Barro, Mauriti; grande exploração da vegetação nativa para
PB: Santana de Mangueira, Coremas, Brejo a produção de carvão vegetal, necessitando
da Cruz, Belém do Brejo da Cruz, São João de manejo visando impedir a retirada
do Rio do Peixe, Ibiara, Monte Horebe, predatória.
Conceição, Bonito de Santa Fé, Aguiar, Aspectos físicos/geográficos: A área situa-
Carrapateira, Serra Grande, São José de se no semi-árido pernambucano, limi-
Caiana, São José de Piranhas, Diamante, Boa tando-se pelos municípios de Cruzeiro do
Ventura, Pedra Branca, Itaporanga, Igaracy, Nordeste, Custódia, Sertânia, Floresta,
Santana dos Garrotes, Piancó, São José da Ibimirim e Serra Talhada.
Lagoa Tapada, Nazarezinho, Cajazeiras,
Pressões antrópicas: Exploração irracional
Souza, Emas, Pombal, Paulista, Riacho dos
da vegetação nativa.
Cavalos, São Bento; RN: Serra Negra do
Ação recomendada: Uso sustentável.
Norte, Jardim das Piranhas, São Fernando,
Santana dos Matos, São Rafael, Augusto
Severo, Jucurutu, Paraú, Alto do Rodrigues, 13 - RASO DA CATARINA
Afonso Bezerra, Ipanguaçu, Macau, Localização: BA: Santa Brígida, Glória,
Pendência, Serra do Mel, Areia Branca, Rodelas, Macururé, Jeremoabo, Canudos,
Carnaubais. Paulo Afonso.

43
Justificativa para inclusão: Esta área tem Pressões antrópicas: Zona com poten-
como características gerais uma baixa a cialidade baixa a média, com uma densidade
média potencialidade do ponto de vista da demográfica em torno de 28 hab/km2.
agropecuária. A agricultura restringe-se A pecuária praticada é extensiva com
praticamente a culturas para subsistência atividades agrícolas limitadas. Aproximada-
e o excedente para comercialização em mente 90% das propriedade tem menos de
feiras locais. A inclusão desta área 50 hectares.
depreende-se dela apresentar uma A vegetação nativa é alvo permanente de
vegetação nativa de caatinga arbórea exploração, daí a expressiva degradação
arbustiva, que serve de refúgio para a fauna ambiental.
silvestre e também como uma reserva de
Ações recomendadas: Restauração; uso
muitas espécies vegetais específicas destes
sustentável.
tipos de ambientes.
Aspectos físicos/geográficos: Esta zona
caracteriza-se por clima muito quente com 15 - POLO GESSEIRO
chuvas de outono, com uma precipitação
Localização: PE: Araripina, Ipubi,
média de 600mm. Apresenta superfícies
Trindade, Exu, Ouricuri, Bodocó; PI:
planas cortadas pelos entalhes profundos
Simões.
dos rios Macururé e Vaza Barris. Os solos
predominantes são: areias, bruno não Justificativa para inclusão: As atividades
cálcicos, litólicos e solos aluviais. de mineração constituem-se em
Pressões antrópicas: Zona de ocupação atividades transformadoras do meio
muito fraca, aproximadamente um ambiente. O polo gesseiro do Araripe vem,
habitante por quilômetro quadrado e ao longo dos anos, utilizando-se dos
predominância de médias propriedades recursos vegetais da Caatinga como
(100-200ha). Predomínio absoluto da elemento principal na calcinação da
pecuária extensiva de caprinos e ovinos em gipsita, provocando uma total devastação
sistema de subsistência. da biota nativa e a sua consequente
exaustão. A necessidade de um programa
Ação recomendada: Proteção integral.
adequado de manejo e a restauração da
vegetação são elementos fundamentais
14 - NÚCLEO DE DESERTIFICAÇÃO para a recuperação da área objeto de
intervenção.
Localização: PE: Belém de São Francisco,
Cabrobó, Orocó. Aspectos físicos/geográficos: Esta zona está
Justificativa para inclusão: Já são expressivas caracterizada por superfícies altas, pouco
as áreas sujeitas a processos de desertificação dissecadas, predominantemente planas no
no interior do semi-árido, quer a exploração topo das chapadas, com vertentes
de suas terras estejam sendo feitas em grande íngremes nas bordas. Apresenta clima
ou pequena escala. Em decorrência, resultam quente e semi-árido com estação chuvosa
fragilidades econômicas e sociais con- de verão, com precipitação média de
sideráveis, potencializadas pela ocorrência 930mm. A zona em questão é conhecida
dos repetidos eventos das secas, ne- como Chapada do Araripe.
cessitando providências no campo da gestão Pressões antrópicas: Desmatamento
econômica do meio ambiente. intensivo com remoção quase que
Aspectos físicos/geográficos: Esta zona está completa da vegetação nativa. Atividades
caracterizada por superfícies aplainadas de industriais desordenadas e gestão
relevo suave ondulado com elevações inadequada dos recursos florestais.
residuais. Apresenta um clima quente e semi- Apresenta uma densidade demográfica
árido com estação chuvosa no outono. Está média em torno de 30 hab/km2.
inserida no sertão do Moxotó, no estado de Ações recomendadas: Restauração; uso
Pernambuco. sustentável.

44
Parte II

Vegetação
Ana Maria Giulietti
Universidade Estadual de Feira de Santana

Ana Luiza du Bocage Neta


Empresa Pernambucana de Pesquisa Agropecuária

Antônio Alberto J. F. Castro


Universidade Federal do Piauí

Cíntia F. L. Gamarra-Rojas
Associação Plantas do Nordeste/
Centro Nordestino de Informações sobre Plantas

Everardo V. S. B. Sampaio
Universidade Federal de Pernambuco

Jair Fernandes Virgínio

Diagnóstico
Associação Plantas do Nordeste

Luciano Paganucci de Queiroz


Universidade Estadual de Feira de Santana

da vegetação Maria Angélica Figueiredo


Universidade Federal do Ceará

Maria de Jesus Nogueira Rodal

nativa do bioma
Universidade Federal Rural de Pernambuco

Maria Regina de Vasconcellos Barbosa


Universidade Federal da Paraíba

Caatinga
Raymond M. Harley
Universidade Estadual de Feira de Santana /
Royal Botanical Gardens, Kew

47
Adriano Gambarini
Gravatá

INTRODUÇÃO
Dentre os biomas brasileiros, a (2002) propuseram mudanças no sistema
Caatinga é, provavelmente, o mais des- de Andrade-Lima, analisando as unidades
valorizado e mal conhecido botanicamente. propostas e associando-as ao recente
Esta situação é decorrente de uma crença Zoneamento Agroecológico do Nordeste -
injustificada, e que não deve ser mais ZANE (Silva et al. 1993). Porém, a
aceita, de que a Caatinga é o resultado da diversidade de padrões de vegetação
modificação de uma outra formação detectados, não permitiu, até o momento,
vegetal, estando associada a uma a elaboração de um sistema de classificação
diversidade muito baixa de plantas, sem ideal, persistindo inúmeras questões não
espécies endêmicas e altamente respondidas e lacunas a serem preenchidas.
modificada pelas ações antrópicas. Apesar
A falta de informação sobre locais
de estar, realmente, bastante alterada,
que provavelmente têm grande
especialmente nas terras mais baixas, a
importância científica mas que requerem
Caatinga contém uma grande variedade de
mais pesquisa, foi um dos grandes
tipos vegetacionais, com elevado número
problemas detectados. De particular
de espécies e também remanescentes de
interesse poderiam ser citados os enclaves
vegetação ainda bem preservada, que
de “caatinga” existentes fora do Nordeste
incluem um número expressivo de táxons
e que são classificados em outros tipos
raros e endêmicos.
de vegetação. Poderiam ser destacados:
Quem primeiro reconheceu esta 1) áreas mais ao sul da região da Caatinga,
situação foi Andrade-Lima (1981), que especialmente em Minas Gerais; 2)
publicou uma primeira aproximação para possíveis enclaves de caatinga na
a classificação dos diferentes tipos de Amazônia, onde ocorrem espécies típicas
caatingas, utilizando aspectos fisionô- da caatinga nordestina, como Schinopsis
micos e dados florísticos para caracterizar brasiliensis (baraúna), recentemente
os agrupamentos, destacando, também, referida para a região, provavelmente
a importância de fatores abióticos como associada com áreas rochosas, onde o
clima, especialmente a precipitação, e desenvolvimento de floresta é mais
solo. Para o Workshop de Avaliação e restrito; e 3) áreas dentro da zona de Mata
Ações Prioritárias para a Conservação da Atlântica, como, por exemplo, Pedra Azul,
Biodiversidade da Caatinga, realizado em em Minas Gerais, e Cabo Frio, no Rio de
Petrolina, em 2000, Rodal & Sampaio Janeiro.

48
A água, como um fator limitante na de suas cabeceiras, que geralmente estão
Caatinga, também destaca um ponto muito localizadas fora da zona da Caatinga, por
importante, que é a preservação dos rios exemplo, nos brejos ou florestas montanas
permanentes. Esses rios têm um papel da Borborema, Chapada Diamantina, Serra
essencial, provendo água durante todo o ano, do Araripe, dentre outros. Dessa forma, a
tanto para as espécies da fauna e flora, como conservação dessas florestas torna-se
para as populações que nela residem. A prioritária para a manutenção da principal
conservação de tais rios depende da proteção fonte de água da região da Caatinga.

ESPÉCIES ENDÊMICAS DA CAATINGA


Nas últimas décadas, os biólogos família com grande número de espécies
têm voltado sua atenção para a Caatinga. endêmicas (41) é a Cactaceae, que tem
Em vários dos seus trabalhos, Andrade- sido muito estudada por Taylor & Zappi
Lima (1981,1989) chamou a atenção para (2002). Dessas, várias estão incluídas
a riqueza da flora da Caatinga e destacou como vulneráveis ou em perigo de
os exemplos fascinantes das adaptações extinção.
das plantas aos hábitats semi-áridos. Outras famílias destacam-se pelo
Dessa forma, a Caatinga, tem se número de gêneros endêmicos:
destacado por conter uma grande Scrophulariaceae (3); Malpighiaceae (2);
diversidade de espécies vegetais, muitas Compositae (2). Dentre os gêneros da família
das quais endêmicas ao bioma, e outras Scrophulariaceae, Anamaria e Dizygostemon,
que podem exemplificar relações são exclusivos das margens de lagoas
biogeográficas que ajudam a esclarecer a temporárias do oeste de Pernambuco e limite
dinâmica histórica vegetacional da própria com Piauí e Bahia, e Ameroglossum foi
Caatinga e de todo o leste da América do descrito em 2000, sendo restrito aos vãos dos
Sul. blocos de granito da região de Bonito, PE, e
A lista mais ampla de espécies de também da Paraíba (Castro et al. 2002). A
angiospermas endêmicas da Caatinga família Malpighiacae inclui os gêneros
havia sido elaborada por Prado (1991), que monotípicos Barnebya e Macvaughia, o
relacionou 12 gêneros e 183 espécies primeiro ocorrendo principalmente no Raso
endêmicas, e demonstrou as fortes da Catarina e o segundo recoletado pela
relações florísticas existentes entre esse equipe da Associação Plantas do Nordeste –
bioma e outros tipos vegetacionais da APNE – no mesmo local do material-tipo
América do Sul, especialmente os das áreas (Filadélfia, BA), durante o trabalho de campo
periféricas do Chaco, no Paraguai, Bolívia realizado por ocasião da preparação do
e noroeste da Argentina. material para o Workshop da Caatinga.
Harley (1996), analisando a flora
A realização de novas coletas na região
herbácea das caatingas, mencionou sete
Nordeste e o estudo e identificação dos
gêneros endêmicos, parte deles ligados às
espécimes já depositados nos herbários da
áreas próximas a lagoas temporárias. Para
região, levarão, com certeza, à detecção de
o Workshop da Caatinga, Giulietti et al.
novos táxons endêmicos. Deve-se, também,
(2002) listaram para o bioma, 18 gêneros
enfatizar a recoleta de táxons endêmicos
e 318 espécies endêmicas, pertencentes
restritos, como por exemplo, o gênero
a 42 famílias, incluindo tanto plantas de
Haptocarpum (Capparaceae), só conhecido
áreas arenosas como rochosas (Anexo 1).
do material-tipo coletado nas redondezas de
A família com maior número de espécies
Maracás (BA).
endêmicas (80) é a Leguminosae, que é
também o grupo mais bem representado A análise da flora da Caatinga mostra
nas caatingas (Queiroz 2002). Outra que a maior diversidade está associada às

49
André Pessoa
maiores altitudes, principalmente em áreas
rochosas. Tais condições permitiram,
provavelmente, a formação de uma zona
mais protegida durante as marcantes
oscilações climáticas do Pleistoceno e
Quaternário. Durante os períodos mais
úmidos, é provável que grande parte do
Nordeste do Brasil tenha sido coberto por
diversos tipos de florestas, desde
perenifólias até caducifólias. Tal situação
isolava as espécies não arbóreas nas áreas
mais altas e abertas, com solos rasos e sem
Mandacaru
condições de suportar uma cobertura
arbórea. Porém, durante os períodos mais
secos, as áreas altas com relevo mais
FITOFISIONOMIAS DA CAATINGA
acentuado e rochas expostas captavam
maior umidade atmosférica, tanto sob a Tratar da classificação da vegetação do
forma de neblina como de chuvas. Dessa bioma Caatinga implica em reconhecê-lo
maneira, as vertentes mais protegidas como uma entidade identificável, composta
atuaram com refúgio para as espécies por um conjunto de plantas que a distingue
florestais, como pode ser visto hoje pela dos conjuntos que formam os outros biomas.
presença das florestas de brejo dentro da Isto já implica em uma classificação prévia, a
região de Caatinga. Certamente esses dos biomas, que foi utilizada pelo Ministério
refúgios montanhosos guardam evidências do Meio Ambiente para definir áreas
florísticas das muitas mudanças climáticas prioritárias para conservação da biodiver-
que ocorreram no Nordeste do Brasil, e por sidade brasileira e que corresponde à
extensão em toda a América do Sul. classificação regional utilizada, com alguma
As lagoas ou áreas úmidas tempo- variação, na maioria das classificações prévias
rárias, nas terras mais baixas, representam da vegetação brasileira.
um conjunto de hábitats frágeis dentro da Caatinga é o tipo de vegetação que
Caatinga, ricos em espécies, e até mesmo cobre a maior parte da área com clima semi-
em gêneros, de plantas raras e endêmicas. árido da região Nordeste do Brasil.
Essas são áreas de refúgio para muitas Naturalmente, as plantas não têm
espécies aquáticas, vegetais e animais, e características uniformes nesta vasta área,
desempenham um papel fundamental na mas cada uma destas características, e as
sobrevivência de muitas espécies de peixes, dos fatores ambientais que as afetam, são
aves e mamíferos, que completam seu ciclo distribuídas de tal modo que suas áreas de
de vida associados a esses ambientes. ocorrência têm um grau de sobreposição
Entretanto, tais áreas são também razoável. Isto permite identificar áreas
utilizadas nas atividades da agropecuária nucleares, onde um número maior das
local, constituindo-se em refúgios onde os características consideradas básicas se
animais de criação podem ser reunidos sobrepõem, e áreas marginais, onde esse
quando o período de seca se torna mais número vai diminuindo, até chegar-se aos
intenso. A presença do gado é um fator limites com as áreas onde as características
negativo para o ambiente natural, uma vez das plantas e do meio definem outro tipo
que os animais pisoteiam o solo úmido, de vegetação (bioma). Essa não é uma
destruindo sua estrutura e produzindo forma convencional de identificação de tipos
condições eutróficas, insatisfatórias para os de vegetação, mas é uma forma que tem
organismos nativos. É, portanto, necessário ficado implícita em qualquer um dos
desenvolver estratégias de conservação que sistemas de classificação que tenha tratado
conciliem a prática agropecuária com a da Caatinga. Isso levanta dois problemas: a
proteção às áreas de maior biodiversidade. identificação das características básicas e a

50
seleção de um número mínimo daquelas descontínua de copas); 3) a existência de
consideradas essenciais para permitir o espécies endêmicas a esta área semi-árida
estabelecimento dos limites. Uma análise e outras espécies que ocorrem nessa área
das classificações já feitas permite constatar e em outras áreas secas, mais ou menos
a ausência de características bem definidas, distantes, mas não ocorrem nas áreas mais
o que tem resultado em conflitos de opinião úmidas que fazem limite com o semi-árido.
e imprecisão de conceitos, áreas e limites. Colocadas as questões acima sobre
A falta de informações sobre a flora, a classificação da vegetação do bioma
as características morfofuncionais das Caatinga, optou-se por utilizar a clas-
plantas que a compõem e os fatores sificação proposta por Andrade-Lima
ambientais que condicionam sua (1981) para discutir os dados de florística,
distribuição e abundância, tem sido fisionomia e características do hábitat dessa
substituída pelo conhecimento subjetivo de heterogênea cobertura vegetal. Nesta
alguns poucos estudiosos, com experiência discussão são tratados, principalmente,
suficiente para definir conjuntos coerentes, dados obtidos a partir dos anos 80, quando
mas imprecisamente caracterizados. Uma levantamentos sistemáticos passaram a ser
conseqüência disso é a dificuldade de realizados nos estados do Ceará, Paraíba e
transmissão de seus resultados, visto que Pernambuco.
as classificações resultantes são aceitas
Andrade-Lima (1981) observou que,
mais pela autoridade de quem as propõe
em termos da classificação da vegetação
do que pelos argumentos científicos que
elas encerram. Ainda que não seja uma do domínio das Caatingas, duas questões
forma perfeita de ação, até o momento não são inegavelmente claras: 1) os diferentes
é possível um trabalho isento desse tipos vegetacionais resultam da integração
conhecimento subjetivo. Apesar do avanço clima-solo e o número de combinações e,
do conhecimento que se tem hoje, com conseqüentemente, o número de
mais dados sobre a flora e sua distribuição, comunidades vegetais é muito alto; 2) as
esse ainda não é completo e não permite informações sobre as relações entre
que se prescinda da experiência de campo, vegetação e fatores físicos não são
intraduzível em termos de determinação da suficientemente conhecidas. Assim, o autor
composição florística e características das optou por definir grandes unidades com
plantas e do meio. um ou mais tipos, embora reconheça a
possível existência de um número maior de
Analisando as definições e
unidades e tipos. Essa posição reflete, de
delimitações já feitas sobre a Caatinga, é
modo inequívoco, que sua proposta é a de
possível identificar as características
uma classificação ecológica, onde a
comuns, que podem ser consideradas
vegetação (flora e fisionomia) tem um papel
como um conjunto das características
importante, do que a de uma classificação
básicas da vegetação, a saber: 1) é a
de vegetação propriamente dita.
vegetação que cobre uma área mais ou
Aparentemente, essa opção deveu-se à
menos contínua, submetida a um clima
quente e semi-árido, bordeado por áreas falta de maior conhecimento da vegetação,
de clima mais úmido. Esta área seca está, para assim poder classificá-la.
na sua maior parte, confinada à região Como produto de sua classificação
politicamente definida como Nordeste, e ecológica para o domínio da Caatinga,
uma pequena parte está no norte de Minas aquele autor reconheceu seis unidades,
Gerais, dentro da área definida, cada uma com um ou vários tipos,
politicamente, como polígono das secas; totalizando 12 tipos. As unidades e tipos
2) possui espécies que apresentam adapta- não foram mapeados, em função de
ções à deficiência hídrica (caducifolia, passarem de um para outro de modo
herbáceas anuais, suculência, acúleos e gradual, apesar de muitos deles terem sua
espinhos, predominância de arbustos e área de ocorrência descrita com maior ou
árvores de pequeno porte, cobertura menor precisão.

51
As unidades e tipos propostas por hipoxerófila e hiperxerófila, havendo ainda
Andrade-Lima (1981) para o domínio da anotações quanto ao tipo de vegetação
Caatinga são: denominado de grameal, vegetação com
carnaúba e vegetação mista de caatinga,
Unidade I cerrado e/ou florestas. A subdivisão da
Tipo 1 – Tabebuia-Aspidosperma- vegetação de caatinga, em apenas duas
Astronium-Cavanillesia classes, não permite um detalhamento
maior dos possíveis tipos de caatinga.
Unidade II Por outro lado, a classificação das
Tipo 2 – Astronium-Schinopsis- 20 Grandes Unidades de Paisagem,
Caesalpinia subdivididas em 172 unidades geoambien-
Tipo 3 – Caesalpinia-Spondias- tais, permite o mapeamento do Nordeste
Bursera-Aspidosperma em um número grande de ambientes com
características semelhantes (Tabela 1).
Tipo 4 – Mimosa-Syagrus-
Spondias-Cereus É possível traçar a equivalência
ambiental de algumas unidades geo-
Tipo 6 – Cnidosculus-Bursera-
ambientais com a divisão de tipos de
Caesalpinia
caatinga feita por Andrade-Lima (1981).
Com isto, pode-se quantificar as extensões
Unidade III
desses tipos e, também, localizar nestas
Tipo 5 – Pilosocereus-Poeppigia- unidades geoambientais, as áreas
Dalbergia-Piptadenia protegidas existentes, e identificar a
necessidade do estabelecimento de outras.
Unidade IV
Deve-se ressaltar que as 172
Tipo 7 – Caesalpinia-
unidades não têm, necessariamente, tipos
Aspidosperma-Jatropha
distintos de vegetação, mas sabe-se que
Tipo 8 – Caesalpinia- diferenças ambientais condicionam
Aspidosperma diferenças na composição florística e na
Tipo 9 – Mimosa-Caesalpinia- densidade e porte das populações das
Aristida espécies presentes. Por outro lado,
Tipo 10 – Aspidosperma- algumas das unidades têm partes em
Pilosocereus estados distantes e é possível que tenham
vegetação distinta. Convêm lembrar que
Unidade V a distinção de tipos vegetacionais não foi
Tipo 11 – Calliandra-Pilosocereus um critério usado na diferenciação das
unidades geoambientais. Infelizmente,
Unidade VI falta informação sobre a vegetação para
Tipo 12 – Copenicia-Geoffroea- um melhor embasamento das sub-
Licania divisões.
Vegetação de caatinga estava
Com o objetivo de localizar, no presente em 17 das 20 Grandes Unidades
espaço nordestino, as unidades e tipos de Paisagem e em 105 das 172 unidades
da classificação de Andrade-Lima (1981), geoambientais (Tabela 1), ocupando uma
os mesmos foram comparados com as área de 935 mil km2, sendo 297 mil km2
divisões do Zoneamento Agroecológico do com caatinga hiperxerófila, 247 mil km2
Nordeste (Silva et al. 1994). Nessa última com caatinga hipoxerófila, 169 mil km2 de
classificação, as unidades agroecológicas caatinga mesclada com florestas
foram definidas com uma forte base subperenifólias, subcaducifólias ou
geomorfológica, mas contendo também caducifólias, 110 mil km 2 de caatinga
informações sobre a vegetação. mesclada com cerrado, 101 mil km2 com
A vegetação de caatinga foi dividida em mistura de caatinga, floresta e cerrado e

52
Tabela 1 - Áreas das Grandes Unidades de Paisagem (10 3 km2) e número de Unidades Geoambientais
que primitivamente incluíam vegetação de caatinga (adaptado de Silva et al. 1993).

Estados
Unidades Total
Grande Unidade de Paisagem Geoambientais MA PI CE RN PB PE AL SE BA MG
Chapadas Altas (A) 5 - 3,7 10,7 1,0 0,1 3,3 - - - 8,8 27,5
Chapadas Intermediáriase Baixas (B) 7 - 96,5 2,2 - - - - - 1,3 - 100,0
Chapada Diamantina (C) 4 - - - - - - - - 59,0 - 59,0
Planalto da Borborema (D) 6 - - - 3,2 12,4 15,1 4,1 - - - 34,8
Superfícies Retrabalhadas (E) 4 - - - - - - - - 33,7 5,6 39,3
Depressão Sertaneja (F) 34 - 17,5 77,8 24,5 23,5 54,7 5,0 5,2 137,9 12,6 358,5
Superfícies Dissecadas no PI e MA (G) 5 3,2 16,3 - - - - - - - - 19,5
Superfícies Dissecadas Diversas (H) 3 9,2 24,0 7,3 - 4,7 0,2 2,0 4,1 6,4 - 58,0
Bacias Sedimentares (I) 8 - - 0,7 - - 6,2 - 0,1 24,7 - 31,7
Superfícies Cársticas (J) 11 - - 3,5 11,5 - - - 0,3 37,4 22,4 75,2
Tabuleiros Costeiros (L) 5 - 1,9 16,2 4,4 - - - - - - 22,4
Grandes Áreas Aluviais (N) 3 1,8 0,6 1,9 - - - - - 6,2 6,4 16,8
Dunas Continentais (Q) 2 - - - - - - - - 9,8 - 9,8
Complexo de Campo Maior (R) 1 - 5,4 - - - - - - - - 5,4
Maciços e Serras Altas (S) 2 - - - - - - - - 36,1 1,6 37,7
Maciços e Serras Baixas (T) 3 - - 12,3 1,4 6,9 8,0 - - 6,8 - 35,4
Serrotes, Inselbergues e
Maciços Residuais (U) 2 - 0,5 1,0 0,4 1,4 0,1 0,2 - - - 3,6
Total 105 14,2 166,4 132,5 46,4 49,0 86,6 11,2 9,7 359,4 57,3 934,8

22 mil km2 com caatinga e campos de e norte de Minas Gerais (J1, J2 e J3, 9.130,
altitude. Obviamente, essas são áreas de 3.325 e 9.991km2). Nelas, foram feitos os
ocupação potencial, sendo grande parte levantamentos florísticos e fitossociológicos
delas já desmatadas ou muito antropizadas. de Jaíba e Januária (Vale 1991, Ratter et
Infelizmente, não se dispõe da quan- al. 1978). A primeira área teria os locais
tificação da cobertura vegetal atual nas reservados para conservação no projeto de
unidades geoambientais. irrigação mas, fora esses, não conta com
Segundo Andrade-Lima (1981), a outras áreas protegidas. Andrade-Lima
Unidade I representa uma floresta alta de (1981) observa que Cavanillesia arborea
caatinga, que tem como maior área de (Willdenow) K. Schum. (Bombacaceae) é
distribuição o norte de Minas Gerais e característica dessa unidade, embora
centro-sul da Bahia, geralmente em rochas ocorra em outros tipos de caatinga.
calcárias ou cristalinas do pré-cambriano. Andrade-Lima (1981) sugeriu, sem
São as áreas com maior disponibilidade uma definição mais clara, que poderia
hídrica no conjunto do domínio (índice haver um subtipo dessas caatingas altas
xerotérmico entre 100 e 150). O autor sobre solos do cristalino, na parte leste da
considerou que, embora a fisionomia área das caatingas. É possível que
florestal alta dessa unidade seja distinta da correspondam à transição com as matas
dos demais tipos fisionômicos das outras secas (florestas caducifólias a sub-
unidades de caatinga, as espécies caducifólias), nas áreas denominadas de
dominantes não são muito diferentes. agrestes, em parte do Planalto da
Corresponde às caatingas das superfícies Borborema (Grande Unidade de Paisagem
cársticas, no sul da Bahia (J2, 5.682km2) D) e das Superfícies Dissecadas Diversas

53
(Grande Unidade de Paisagem H). significativa parcela de terrenos na
A Borborema tem uma diversidade depressão sertaneja, os planaltos sedimen-
vegetacional grande, incluindo desde as tares paleozóicos ou mesozóicos também
caatingas baixas dos Cariris Velhos e se destacam por sua extensão (Andrade
Curimataú, na Paraíba (unidades 1977, Moreira 1977). Sua maior área de
geoambientais D5 e D7), até matas muito ocorrência está na bacia sedimentar do
semelhantes às costeiras (definidas como meio norte, na bacia Tucano- Jatobá
Mata Atlântica), e as matas serranas dos (Bahia/Pernambuco) e em outras áreas
brejos de altitude. As caatingas dos Cariris com pequenas dimensões no Ceará, Rio
Velhos foram incluídas por Andrade-Lima Grande do Norte e Paraíba (Souza et al.
na Unidade IV. As unidades geoambientais 1994). Os índices pluviométricos são mais
com caatingas altas, no Planalto da elevados no planalto do Piauí (600 a
Borborema, são D1 (Alagoas, Pernambuco 900mm) e decrescem abaixo de 600mm
e Paraíba, 4.067, 13.173 e 2.119km2), D3 na direção sudoeste até a bacia do Jatobá
(Alagoas, Pernambuco e Paraíba, 1.444, (Souza et al. 1994).
5.694 e 1.595km2) e D4 (Pernambuco, A classificação da vegetação arbus-
1.962km2). Nas Superfícies Dissecadas tiva caducifólia das chapadas sedimentares,
Diversas, elas são H1 (Paraíba, 559km2) e especialmente no Piauí, Ceará, Pernam-
H3 (Bahia a Paraíba, 2.635, 4.147, 2.034, buco e Bahia, tem gerado controvérsias.
88 e 1.776km2). Deve-se ressaltar que No caso da vegetação arbustiva caducifólia
caatingas altas podem ocorrer em várias que recobre o topo do planalto do Ibiapaba,
outras unidades, em locais dispersos, no estado do Ceará, Araújo et al. (1998a,
desde que as condições hídricas sejam um 1998b) observaram que a vegetação de
pouco mais favoráveis, pela precipitação carrasco que ali ocorre é distinta, do ponto
(maior altitude) ou acumulação de água de vista florístico e fisionômico, da caatinga.
(baixios e beiras de rio). Nas Superfícies No caso do Piauí e Pernambuco, autores
Dissecadas Diversas, em Sergipe (H3), como Vasconcelos-Sobrinho (1941), Egler
foram feitos levantamentos fitosso - (1951), Andrade-Lima (1957, 1978) e
ciológicos em Nossa Senhora da Glória e Emperaire (1985) consideraram que a
em Frei Paulo (Souza 1983) e no Planalto vegetação caducifólia que recobre as
da Borborema, em Pernambuco (D1), foi chapadas é um tipo de caatinga, apesar
feito levantamento em Caruaru (Alco- da flora particular, ligada a solos de origem
forado-Filho et al., dados não publicados). sedimentar e altamente arenosos. Para
As matas serranas, em Pernambuco, foram esses autores, a identidade com a caatinga
mais intensamente estudadas quanto à seria confirmada pela presença de
localização e conservação de rema- comunidades vegetais comandadas por
nescentes (Rodal et al. 1998) e quanto à um ambiente climático geral da região
florística (Sales et al. 1998). Nessas áreas semi-árida, isto é, plantas caducifólias e
de agreste, não há unidades de espinhosas.
conservação com vegetação típica de Com relação a essas questões, Rodal
caatinga, estando as existentes cobertas et al. (1999) consideraram que a flora das
com matas (Pedra Talhada, em Alagoas e chapadas sedimentares de Pernambuco
Pernambuco; Brejo dos Cavalos, em representa um conjunto florístico mais
Pernambuco; e Mata do Pau Ferro, na especializado a ambientes com solos
Paraíba). arenosos e profundos, embora essas
A Unidade III apresenta índice espécies também ocorram, com menor
xerotérmico variando entre 150 e 200 e se freqüência, em áreas de caatinga instaladas
constitui de uma floresta baixa de caatinga sobre o cristalino. Lemos (1999),
que ocorre em solos arenosos e profundos estudando uma área com vegetação
da série Cipó e outras geologias caducifólia espinhosa no sudoeste do Piauí,
relacionadas. Do ponto de vista geológico- citou como famílias mais importantes, em
estrutural, apesar do semi-árido apresentar número de espécies, Mimosaceae,

54
Caesalpiniaceae, Euphorbiaceae e com cobertura mais florestal, há o pequeno
Fabaceae, táxons comuns em áreas de Parque Nacional de Ubajara (563 hectares).
caatinga instaladas sobre o cristalino, As Chapadas Intermediárias (B)
embora com espécies distintas. Todavia, ocupam uma grande área do Piauí (B2, B4,
assinalou que a riqueza de Bignoniaceae e B5, B6, B8 e B9, 96.476km2) e extravazam
Myrtaceae da área é incomum para áreas para o Ceará (B4, 2.224km2) e para a Bahia
do cristalino. (B1 e B2, 1.303km2). Possuem caatingas
Das unidades de Andrade-Lima hipoxerófilas, por vezes mescladas a
(1981), a III corresponde razoavelmente cerrado, sobre solos, em geral profundos
bem às Bacias Sedimentares (Grande e bem drenados. Há alguns levantamentos
Unidade de Paisagem I), podendo incluir na área (Emperaire 1985), que conta com
também as Dunas Continentais (Grande o Parque Nacional da Serra da Capivara,
Unidade de Paisagem Q), e parte das uma das maiores unidades de conservação
Chapadas Altas (Grande Unidade de (100.000 hectares) com caatinga.
Paisagem A) e Chapadas Intermediárias As Unidades II e IV, com suas oito
(Grande Unidade de Paisagem B). As
subdivisões (Andrade-Lima 1981),
Bacias Sedimentares com caatinga (I5 a
correspondem à vasta área incluída nas
I12) ocupam 31,7 mil km2, sendo a maior
Grandes Unidades de Paisagem da
parte na Bahia. Elas incluem o Raso da
Depressão Sertaneja (F, 358.537km2), que
Catarina, onde há uma Estação Ecológica,
foi dividida em 34 unidades geoambientais,
com cerca de um mil quilômetros
e a partes das Superfícies Retrabalhadas
quadrados (99.772ha) e onde foi feito um
(E), do Planalto da Borborema (D), das
levantamento florístico preliminar (Guedes
Superfícies Dissecadas Diversas (H), das
1985). As Dunas Continentais (Q1 e Q2),
Superfícies Cársticas (J), dos Maciços e
todas pertencentes à Bahia, têm uma flora
Serras Baixas (T) e dos Serrotes,
com algumas espécies características
Inselbergues e Maciços Residuais (U).
(Queiroz, informação pessoal) e, apesar da
Chama a atenção a ausência quase total
área ocupada não ser grande (9,8 mil km2),
de áreas protegidas oficiais neste espaço
mereceriam uma área protegida. Nelas, a
tão grande e tão típico das caatingas.
ocupação humana é muito baixa, o que
facilitaria a desapropriação da unidade de Segundo Andrade-Lima (1981), a
conservação e o controle da antropização. Unidade II apresenta quatro tipos, variando
de floresta média a baixa de caatinga e uma
As Chapadas Altas ocorrem no
caatinga arbórea aberta, todos em áreas
Araripe (A4 e A5; no Ceará, 5.955km2,
com índice xerotérmico entre 150 e 200, e
Pernambuco, 3.269km2, e Piauí, 630km2)
instalados principalmente em rochas
e na Ibiapaba (A8; Ceará, 3.309km2, Piauí,
3.084km2, e zona CE/PI, 1.391km2). São cristalinas do pré-cambriano. Segundo o
áreas onde misturam-se caatinga e cerrado autor, essa unidade representa a típica
e onde aparece o carrasco, como uma caatinga florestal com um estrato arbóreo
unidade de vegetação distinta, com não muito denso, com altura entre 7 e 15m,
levantamentos feitos por Araújo et al. e presença de estrato herbáceo aberto com
(1998a, 1998b). Também aparece caatinga bromeliáceas e espécies espinhosas.
nas serras de Santana, Portalegre, Martins Observa ainda, que a vegetação dessa
e Cuité (A6), no Rio Grande do Norte unidade tem sido bastante utilizada,
(988km2) e na Paraíba (145km2), associada especialmente para agricultura, extração de
à florestas subperenifólias. A área do madeira e produção de lenha.
Araripe conta com a Floresta Nacional, A maioria dos levantamentos já
uma extensão protegida razoável para os realizados na caatinga de Pernambuco, o
padrões do Nordeste (38.626 hectares) e foram nessa unidade (Drummond et al.
uma Área de Proteção Ambiental, que teria 1982, Tavares et al. 1970, Rodal 1992,
mais de um milhão de hectares. Na Araújo et al. 1995), especialmente na
Ibiapaba, embora localizada numa área floresta média de caatinga e na caatinga

55
arbórea aberta, tipos de difícil separação São caatingas com plantas arbóreas, em
segundo Rodal (1992). geral de porte maior que as da Unidade IV,
Santos et al. (1992) encontraram embora o autor reconheça que, dada sua
uma boa relação entre vegetação extensão, têm variações de altura, den-
(fisionomia-flora) e tipos de solos, sidade e composição. Elas correspondem
confirmando as observações de Andrade- à maior parte das Grandes Unidades de
Lima (1981) sobre a estreita relação entre Paisagem listadas acima, quando começou
vegetação e solo no semi-árido. Rodal a tratar-se das Unidades II e IV (Depressão
(1992) observou que a proximidade Sertaneja, Superfícies Retrabalhadas,
geográfica e a geomorfologia são aspectos Planalto da Borborema, Superfícies
importantes para compreender as Dissecadas Diversas, Superfícies Cársticas,
semelhanças florísticas das caatingas, Maciços e Serras Baixas e Serrotes,
especialmente nessa unidade. O autor Inselbergues e Maciços Residuais). Nesta
indicou que áreas próximas, mas com vasta área, praticamente inexistem áreas
aspectos morfopedológicos distintos, protegidas oficiais. Apenas no sudoeste do
mostraram maior semelhança entre si do Ceará há a pequena Estação Ecológica de
que com outras áreas, e que a flora das Aiuaba (5.000 ou 12.000ha, mas sem
áreas da depressão sertaneja (cristalino) é diploma legal até 1998), no limite com uma
distinta daquela das chapadas extensão da Chapada do Araripe (A4) e com
sedimentares. Com relação às áreas da serras mais baixas (T3), para a qual existe
depressão sertaneja, o oeste de registro de um levantamento (Oliveira et al.
Pernambuco apresenta uma flora de 1988). Os levantamentos florísticos e
caatinga particular, possivelmente fitossociológicos na grande área da
relacionada com a grande mancha de Unidade II, por estarem concentrados em
latossolo vermelho-amarelo que ali ocorre. Pernambuco, não permitem que se
A estreita relação entre a vegetação de indiquem áreas preferenciais para unidades
caatinga e as superfícies interplanálticas da de conservação, com base nos dados das
região semi-árida, apontada por diferentes plantas. Na ausência desses dados, a
autores (Rizzini 1979, Fernandes 1996), recomendação possível é que sejam
deve ser observada com cautela, uma vez representadas, no mínimo, as grandes
que Andrade-Lima (1964, 1981) registrou unidades cobertas por essa vegetação.
a presença de caatinga na chapada do É possível que exista muita diferença na
Apodi e no planalto da Borborema, o qual vegetação dentro de uma grande unidade,
representa a superfície exposta do escudo e há fortes evidências, nos estudos
cristalino. Sem dúvida, a maior parte da florísticos, da presença de algumas
vegetação do planalto da Borborema, espécies em apenas um ou poucos pontos
localizado no semi-árido de Pernambuco, de uma mesma unidade de paisagem.
é constituída por uma caatinga com porte O exemplo mais característico é a distri-
elevado e uma acentuada riqueza florística, buição, de algumas espécies da família
o que possivelmente pode ser explicado Cactaceae, em locais restritos das unidades
pelas menores temperaturas, especial- dos Serrotes, Inselbergues e Maciços
mente noturnas (Jacomine et al. 1973). Residuais (U) e Maciços e Serras Baixas (T)
A localização de dois dos quatro tipos (Taylor & Zappi 2002).
de caatinga da Unidade II não foi definida Assim, recomenda-se o estabele-
(tipos 2 e 3), exceto por constituírem o cimento de unidades de conservação ou
núcleo central do domínio (Andrade-Lima medidas de incentivo à proteção em: 1)
1981). O tipo 4 cobriria parte do centro- Planalto da Borborema (D), em Pernam-
norte da Bahia, região caracterizada pela buco ou na Paraíba. Como toda a área tem
presença do licuri (Syagrus), planta da qual sido intensamente antropizada, a loca-
se explora o óleo dos frutos. O tipo 6 estaria lização depende da existência de vegetação
mais associado ao sudoeste do Ceará, preservada; 2) Superfícies Retrabalhadas,
embora também ocorra em outros locais. na Bahia; 3) Depressão Sertaneja, na parte

56
central do Ceará (F21) e no oeste de pela falta de água, predominando a
Pernambuco (F22); 4) Superfícies pecuária e a extração de lenha. Sugere-se
Dissecadas no vale do Gurguéia (G17) ou a criação de uma unidade de conservação
do Parnaíba (G18). Essas são áreas com nessa área.
vegetação de caatinga mesclada com O tipo de vegetação 9 ocorre no
cerrado e a primeira inclui um dos núcleos Seridó, parte na Paraíba e parte no Rio
de desertificação (Gilbués); 5) Superfícies Grande do Norte, no Planalto da
Dissecadas Diversas, na Paraíba (H4), no Borborema (D2, Rio Grande do Norte,
sertão do Piancó; 6) Superfícies Cársticas, 1.730km 2 e Paraíba, 1.221km 2 ), na
na Bahia, na região de Irecê (J5), e no Rio Depressão Sertaneja (F30, Rio Grande do
Grande do Norte, na Chapada do Apodi Norte, 7.530km2) e em partes dos Maciços
(J12). São áreas de solos calcários, e Serras Baixas (T3, totais no Rio Grande
distintos da maioria dos demais da do Norte de 1.411km2 e na Paraíba de
Caatinga; 7) Tabuleiros Costeiros, no Ceará 6.925km2). É uma área de solos rasos e
(L14, L15 ou L17). Essa área poderia ser pedregosos, vegetação esparsa e baixa,
contígua à de conservação da caatinga com graves riscos de erosão e sinais de
com carnaubais, da Unidade VI; e 8) desertificação, reforçados pela retirada
Maciços e Serras Altas (S3), na Bahia, na intensa de lenha. Em Serra Negra (RN) há
região de Sento Sé a Sobradinho. uma pequena Reserva Biológica (1.100
A Unidade IV ocupa áreas com hectares).
índice xerotérmico variando entre 150 e O tipo 7, dessas caatingas baixas da
300 e apresenta quatro tipos ou Unidade IV, ocorre nas áreas mais secas do
associações (7 a 10), predominantemente, médio São Francisco, sendo típica a do
de porte baixo, muitas vezes de baixa entorno de Petrolina. Ela corresponde às
densidade e pobres em espécies arbustivo- unidades geoambientais F22 (17.914km2
arbóreas. Esses tipos têm uma equivalência em Pernambuco e 3.548km2 na Bahia),
razoavelmente clara com algumas das F29 (13.412 km2 na Bahia) e F30 (16.204
subdivisões da classificação da EMBRAPA km 2 em Pernambuco) da Depressão
(Silva et al. 1993) e dois deles – Cariris Sertaneja, e parte da J7 (5.279km2) das
Velhos e Seridó – têm sido identificados Superfícies Cársticas. Não há unidades de
como grupos distintos de vegetação por conservação oficiais nesta área, mas a
vários autores regionais (Duque 1980). Embrapa Semi-Árido – CPATSA, dentro de
Andrade-Lima (1981) separou, na sua estação, possui área preservada e a
Unidade IV, os tipos de vegetação 8 e 10 CHESF pretendia estabelecer uma área
que ocorrem nos Cariris Velhos, Paraíba. É protegida nos terrenos desapropriados para
uma área onde a precipitação decresce dos a construção da UHE - Xingó.
altos da Borborema, limite com A Unidade V, caracterizada pela
Pernambuco, até os valores mais baixos no associação Calliandra-Pilosocereus
Nordeste, em Cabaceiras, e volta a subir representa um tipo de caatinga arbustiva
em direção ao Brejo Paraibano (H1). A espalhada em pequenas manchas em todo
vegetação é baixa e pobre em espécies semi-árido, especialmente sobre rochas
(Gomes 1979) mas segue o gradiente de metamórficas do pré-cambriano (Andrade-
precipitação e profundidade do solo Lima 1981). Sua presença requer uma
(Sampaio et al. 1981). Nessa área, foram combinação de baixa precipitação (350-
feitos levantamentos fitossociológicos por 400mm), longo período de seca (8 a 9
Gomes (1979) e Lira (1979). Estes tipos meses), e solos pedregosos ou rasos e
correspondem a parte do Planalto da arenosos, em superfície levemente
Borborema (D7, 5987km 2) que inclui ondulada. Calliandra depauperata Benth.
também o Curimataú, às vezes colocado é abundante nas áreas de solo bruno não
como uma área com vegetação especial cálcico litólico do oeste de Pernambuco
(Duque 1980). A ocupação agrícola é baixa, (Santos et al. 1992). As poucas

57
informações apresentadas sobre essa 611km 2 ). Carnaubais também são
unidade não permitem maiores conside- encontrados em Áreas Aluviais do Piauí e
rações. Não é possível identificá-la com Maranhão (N3), porém mais mesclados a
nenhuma unidade geoambiental especí- matas que a caatingas, e na Bahia (F10,
fica, mas ela ocorre dispersa em locais da 21.670km 2 ), na área dominada pelo
Depressão Sertaneja. Para sua preservação, grameal, que não foi incluída na Unidade
pode-se procurar certificar que a VI. Os Aluviões do Baixo Jaguaribe (N2)
associação de plantas que a caracteriza constituem a área mais típica desta
esteja incluída em áreas indicadas para Unidade VI e, portanto, seria importante a
conservação na Depressão Sertaneja. criação de uma área protegida oficial no
A Unidade VI, definida pela local, já que não há nenhuma em toda a
associação Copenicia-Geoffroea-Licania, unidade. As carnaúbas são exploradas para
representa uma floresta ciliar de caatinga extração de cera e a oiticica para extração
que ocorre nos principais rios do semi-árido de óleo, e esse uso não predatório poderia
do Piauí, Ceará e Rio Grande do Norte, em ser mantido na área protegida, talvez com
áreas com solos aluviais e com índices a criação de uma unidade de uso
xerotérmicos variando entre 150 e 200. sustentável. Não existem levantamentos
Sampaio et al. (1987) observaram que tais florísticos e fitossociológicos nessa área, e
áreas praticamente não apresentam mais não se conhece o estado de conservação
vegetação nativa por tratarem-se de local da vegetação associada aos carnaubais.
preferencial para atividades agrícolas no O Zoneamento Agroecológico do
semi-árido. Não existe levantamento Nordeste (Silva et al. 1994) registra a
florístico ou fitossociológico nessas áreas, presença de caatinga em outras grandes
e o único levantamento quantitativo unidades que não se enquadram nas
disponível da floresta ciliar de caatinga foi unidades descritas por Andrade-Lima
feito às margens do rio São Francisco (1981). Em geral, são caatingas mescladas
(Nascimento 1999). É possível que com outros tipos de vegetação.
Andrade-Lima não tenha incluído as O Complexo de Campo Maior (R), no
florestas ciliares daquele rio em função de Piauí, é uma área onde predomina o
suas distintas características florísticas, cerrado mas onde ocorrem espécies de
justificadas pelas diferenças do hábitat, caatinga (R1, 5.435km2), em maior ou
uma vez que as áreas da Unidade VI menor concentração. Essa área inclui o
apresentam vales inundados na época Parque Nacional de Sete Cidades (7.700
chuvosa, ao contrário das do rio São hectares) e foi enquadrada no bioma
Francisco. Embora Andrade-Lima (1981) Cerrado quando da realização do exercício
não apresente uma lista florística para essa de identificação de áreas para conservação
associação, além dos três gêneros deste bioma (Workshop do Cerrado), não
mencionados, algumas espécies devem ser sendo considerada aqui.
as mesmas que também estão presentes A área da Chapada Diamantina (C),
nas florestas ciliares do rio São Francisco, na Bahia e em Minas Gerais também foi
como Copernia prunifera (Miller.) H.E. More incluída no Workshop do Cerrado. Nas suas
(Arecaceae) e Geoffroea spinosa Jacq. encostas pode ocorrer vegetação de
(Fabaceae). caatinga hipoxerófila (Bahia, C7 e C8,
A Unidade VI (Andrade-Lima 1981) 21.715 e 5.872km2) ou suas associações
não corresponde a uma Grande Unidade com cerrado (Minas Gerais, C2,
de Paisagem única mas a partes das 20.524km2) e com campos de altitude
Grandes Áreas Aluviais (N2, no Ceará, (Bahia, 10.902km 2). A área nuclear da
1.865km 2) e aos vales dos Tabuleiros Chapada Diamantina conta com um
Costeiros (L13 a L17; áreas totais no Ceará, Parque Nacional, de grande dimensão para
Piauí e Rio Grande do Norte de 16.153, os padrões do Nordeste (152.000
1.872 e 4.362km2) e de pequena parte da hectares), mas que praticamente não inclui
Depressão Sertaneja, no Piauí (F34, áreas de caatinga.

58
Uma parte do nordeste do Maranhão agricultura, até a produção de cultivares
foi incluída na área tratada no Workshop da transgênicos. Todo esse incremento no
Caatinga. Corresponde aos tabuleiros manuseio do meio ambiente foi
costeiros da unidade geoambiental L12 considerado, entusiasticamente, como
(9.395km2), onde predominam os cerrados, sendo o avanço da civilização, tendo
mesclados a florestas subcaducifólias, com proporcionado marcante crescimento da
presença de babaçuais nos vales. Nessa população humana, da expectativa de vida
área, aparecem algumas espécies que e do conforto da existência.
também ocorrem na caatinga, mas elas não No século XIX, atingiu-se uma fase
formam conjuntos que possam ser na qual a interferência humana se fazia
enquadrados como vegetação de caatinga. presente em todo o mundo, e os países
industrializados já haviam alterado quase

Adriano Gambarini
toda sua extensão territorial, além de terem
afetado significativamente suas colônias e
outros países mais pobres. Surgiu, então,
nos países industrializados, o desejo e a
necessidade de preservação das áreas
naturais mais significativas.
Mais de um século depois, luta-se
pela expansão das áreas protegidas visando
a conservação dos recursos naturais, em
uma queda de braço permanente com a
necessidade de aumento das áreas
produtivas para garantir o crescimento
econômico das populações. Esse conflito
ganhou novos contornos com os
movimentos ecológicos das últimas
décadas que se espalharam por todo o
mundo, e com a preocupação crescente
com a conservação da biodiversidade.
A necessidade de conservação da
biodiversidade tem conseguido ampla
aceitação, em grande parte, devido à
superação do conflito entre preservação e
uso da natureza, que advoga a importância
da proteção atual em nome do benefício
potencial. Essa aceitação ganha mais força
à medida em que a ciência descobre novos
Cabeça-de-frade
usos para plantas e animais até então sem
interesse, e à medida em que as áreas onde
USO DAS PLANTAS DA CAATINGA essas espécies ocorrem vêm sendo
alteradas.
Os seres humanos têm sempre O objetivo desta seção é analisar o
utilizado espécies vegetais na sua uso da vegetação nativa na ampla área que
alimentação. A esse uso mais primordial corresponde à Caatinga. No presente
têm sido acrescidos usos cada vez mais trabalho, considera-se que esse bioma
sofisticados à medida em que o ocupa o semi-árido nordestino e parte do
conhecimento sobre o manejo do norte de Minas Gerais, além de formações
ambiente foi sendo acumulado. Do uso da associadas ou mesclas de caatinga com
madeira para fogo e construção de abrigos, vegetação de outros biomas, em área que
passou-se à seleção de plantas e à inclui o nordeste do Maranhão, cobrindo

59
um total de 1.116 municípios, distribuídos estão disponíveis por unidade política, de
em dez estados. município a estado, passando por micro e
Esta seção está organizada em mesorregião. A distribuição original e atual
quatro partes. Na primeira e segunda, é de cada uma das milhares de espécies
analisada a ocupação do espaço com nativas é quase totalmente desconhecida
agricultura e com pastagens. A terceira e raramente está ligada às unidades
trata da utilização da vegetação nativa para políticas. Assim, a análise do impacto da
produção de lenha e carvão, e a quarta dos agricultura tem de se ater à vegetação
usos das plantas que requerem seleção e nativa como um todo, sem separação por
coleta na vegetação nativa. espécies. A avaliação da área cultivada, por
unidade política, dá uma idéia do que resta
da cobertura vegetal nativa.
Agricultura
Para avaliar o uso do solo com
Quando as comunidades apren-
agricultura, foram utilizados os dados do
deram a propagar algumas das plantas que
censo do IBGE de 1995/1996. Tomaram-
lhes eram mais úteis e a eliminar as que
se as variáveis: 1) soma das áreas plantadas
não lhe interessavam, começaram a ser
com lavouras temporárias, permanentes e
formados campos de vegetação antrópica.
temporárias em descanso, e das áreas
O processo de seleção continua e novas
plantadas com pasto; 2) áreas com pasto
plantas estão sendo incorporadas ao
nativo; 3) áreas com mata nativa; e 4) áreas
sistema agrícola. No entanto, apesar da
totais das propriedades. Além disso, foi
antigüidade desse processo, as plantas
obtida, também do IBGE, a área total dos
usadas na agricultura constituem uma
municípios. Foram calculadas as
fração pequena do total de espécies
proporções das áreas plantadas e nativas
existentes, e algumas poucas espécies
em relação às áreas das propriedades e dos
respondem pela maior parte das áreas
municípios (Tabela 2).
cultivadas no mundo. Nas áreas da
Caatinga, predominam os cultivos de O valor calculado para as áreas
milho, feijão e algodão, além de outras cultivadas em relação às áreas dos
poucas espécies que possuem uma certa municípios deve ser menor do que em
importância econômica, como a relação às áreas das propriedades, pois as
mandioca, mamona e agave. Existe, ainda, propriedades não cobrem todo o
uma multiplicidade de espécies cultivadas município. O fato de haver municípios em
em pequena escala, freqüentemente em que a área das propriedades é maior que a
quintais ou consorciadas aos roçados, cuja área do município (às vezes até o dobro),
produção nem sempre é comercializada, e revela que a base de dados do IBGE possui
que muitas vezes sequer é citada nos falhas. A despeito disso, e sendo essa a
censos e anuários estatísticos. única base de dados disponível, a mesma
As áreas cultivadas reduzem as foi utilizada para a avaliação.
populações das espécies nativas e, tanto Na grande maioria dos casos, as
podem ter apenas um pequeno impacto áreas cultivadas em relação às áreas dos
negativo na diversidade, como também municípios foram menores que as áreas
significar a eliminação de muitas espécies. cultivadas em relação às áreas das
Isso depende da área cuja diversidade está propriedades. Em alguns casos, elas são
sendo considerada, da proporção das áreas muito menores. Isso pode resultar de um
cultivadas e do tamanho e distribuição das levantamento incompleto das proprie-
populações das espécies nativas que estão dades, bem como da presença de grandes
na área total. As áreas individuais cultivadas áreas no município que não pertencem a
ou campos agrícolas (quase sempre propriedades agrícolas. Esse é o caso das
menores que 10km2) formam um agregado capitais incluídas na área da Caatinga
grande e distribuído irregularmente pela (Fortaleza, Teresina e Natal) e pode ocorrer
região. Informações sobre áreas cultivadas com outras cidades com área urbana

60
grande. Poderia também ser o caso de apresentam menos de 10% de área
municípios com áreas pouco ocupadas ou plantada, e a quase totalidade deles, menos
com unidades de conservação. de 30% (Tabela 2). Isso indica a baixa
O cruzamento dos dados com áreas de proporção das áreas das propriedades em
mata e pastos nativos auxilia a esclarecer relação às áreas totais municipais,
o padrão de uso do solo. possivelmente pelo vazio populacional da
Mais da metade dos municípios dos maior parte dos municípios. Como os dois
estados do Piauí e Maranhão possuem estados também apresentaram a maior
menos de 30% de área plantada em relação parte dos municípios com mais de 20% de
à área das propriedades. Já em relação a cobertura de mata nativa, sendo mais de
área dos municípios, mais de 2/3 deles 1/5 dos municípios com mais de 40% de

Tabela 2 - Número e proporção dos municípios da Caatinga, dos diferentes estados, que têm distintas porções de áreas
plantadas, cobertas com matas nativas, pastos nativos ou pastos plantados em relação às áreas das propriedades
ou dos municípios, e também carga animal, produção de carvão e lenha por área de mata e pasto nativos.

Variável AL BA CE MA MG PB PE PI RN SE Total
Número de municípios
Plantada / propriedades ≤ 10% 0 6 8 2 1 12 1 15 18 0 63
Plantada / propriedades ≤ 30% 4 56 97 10 5 84 34 86 92 5 473
Plantada / propriedades ≥ 60% 18 34 4 1 2 9 18 1 9 13 109
Plantada / município ≤ 10% 0 41 35 15 2 23 16 78 35 0 245
Plantada / município ≤ 30% 13 156 157 20 20 115 72 116 121 7 797
Mata / propriedades ≥ 20% 2 121 143 10 20 39 42 91 96 2 566
Mata / propriedades ≥ 40% 0 14 24 5 0 3 20 38 27 0 131
Pasto nativo / propriedades ≥ 40% 17 38 15 1 1 75 29 11 33 17 237
Pasto plantado > pasto nativo 13 102 1 2 20 5 18 9 2 16 188
Pasto plantado / propriedades ≥ 30% 10 72 0 0 15 4 12 0 0 24 137
Pasto plantado / propriedades ≥ 10% 23 198 12 2 24 41 55 13 17 38 423
Animais /pasto nativo e plantado < 1 7 163 35 5 25 79 26 34 59 27 460
Carvão + lenha /mata > 1 20 117 127 14 20 104 73 52 51 26 604
Carvão+lenha/mata+pasto nativo >1 3 67 83 10 19 31 29 25 18 8 293
Total 50 261 184 20 29 154 114 118 144 42 1116
Proporção dos municípios (%)
Plantada / propriedades ≤ 10% 0 2 4 10 3 8 1 13 13 0 6
Plantada / propriedades ≤ 30% 8 21 53 50 17 55 30 73 64 12 42
Plantada / propriedades ≥ 60% 36 13 2 5 7 6 16 1 6 31 10
Plantada / município ≤ 10% 0 16 19 75 7 15 14 66 24 0 22
Plantada / município ≤ 30% 26 60 85 100 69 75 63 98 84 17 71
Mata / propriedades ≥ 20% 4 46 78 50 69 25 37 77 67 5 51
Mata / propriedades ≥ 40% 0 5 13 25 0 2 18 32 19 0 12
Pasto nativo / propriedades ≥ 40% 34 15 8 5 3 49 25 9 23 40 21
Pasto plantado > pasto nativo 26 39 1 10 69 3 16 8 1 38 17
Pasto plantado / propriedades ≥ 30% 20 28 0 0 52 3 11 0 0 57 12
Pasto plantado / propriedades ≥ 10% 46 76 7 10 83 27 48 11 12 90 38
Animais / pasto nativo e plantado < 1 14 62 19 25 86 51 23 29 41 64 41
Carvão + lenha / mata > 1 40 45 69 70 69 68 64 44 35 62 54
Carvão+lenha /mata+pasto nativo > 1 6 26 45 50 66 20 25 21 13 19 26

61
mata, é provável que eles tenham ainda agricultura e os pastos plantados têm pouco
uma boa cobertura de vegetação nativa. O peso, exceto em poucos municípios
Piauí se distingue do Maranhão pelo maior específicos, quase sempre situados nas áreas
número de municípios incluídos na área de de transição para um clima mais úmido.
Caatinga (118 e 20, respectivamente), Quanto à área de mata, a Paraíba diferiu do
tendo, assim, o maior número absoluto de Ceará e Rio Grande do Norte: enquanto só
municípios, entre os estados, com mais de 1/4 dos seus municípios apresenta mais de
40% de cobertura de mata (38). Segundo 20% de cobertura de mata, e quase nenhum
o MMA (1997), em 1991, o Piauí tinha uma mais de 40%, nos outros dois estados, a
enorme área coberta com vegetação nativa maioria dos municípios (cerca de 3/4 e 2/3,
de caatinga e com vegetação mista de respectivamente) tem mais de 20% de
caatinga e cerrado (24 e 13% da área do cobertura de mata.
estado, correspondendo a 61.000 e Os números absolutos de municípios
32.000km2, respectivamente), enquanto o com mais de 40% de mata no Rio Grande
Maranhão tinha, apenas, uma pequena do Norte (27) e no Ceará (24) só foram
área de caatinga (140km2). inferiores aos do Piauí. Na Paraíba, o uso
Alagoas e Sergipe apresentam-se em principal do solo é com pastos nativos, que
situação oposta, pois quase todos os ocuparam mais de 40% das áreas das
municípios possuem mais de 30% de área propriedades em quase a metade dos
cultivada, e cerca de 1/3 deles apresentam municípios. No Rio Grande do Norte essa
mais de 60% de área plantada em relação à mesma proporção somente foi detectada
área das propriedades. O quadro não se em 1/4 dos municípios, e no Ceará em
altera muito calculando a área plantada em apenas 8% dos municípios. Assim, parece
relação à área dos municípios. A proporção que a Paraíba tem poucas áreas de
de municípios com cobertura de mata vegetação nativa que não sejam
acima de 20% foi baixa e acima de 40% foi enquadradas como pastos, o Rio Grande
nula. Já cerca de 1/3 dos municípios tiveram Norte tem uma área maior, enquanto o
mais de 40% de cobertura por pasto nativo. Ceará apresenta a maior área de vegetação
É possível que parte dessas áreas de pasto nativa classificada, pelos proprietários,
nativo corresponda à caatinga com um grau como mata nativa. Os dados do MMA
razoável de preservação. Há evidências disto (1997) confirmam essas posições: entre os
para outros estados (discutido mais adiante). três, em termos absolutos, a Paraíba tinha,
De todo modo, parece mais provável que em 1991, a menor cobertura de caatinga
esses dois estados tenham poucos (33% da área do estado, 18.200km2), o
municípios com áreas significativas de Ceará, a maior (39%, 56.900km2) e o Rio
vegetação nativa. A avaliação do MMA Grande do Norte, uma situação
(1997) é de que eles tinham, em 1991, uma intermediária (47%, 24.700km2). Pode-se
cobertura total de caatinga muito pequena dizer que esses estados ainda têm uma
(< 20% das áreas totais dos estados, 3.500 extensão razoável de caatinga, porém
e 3.800km2, respectivamente). bastante fracionada pelas áreas agrícolas,
Ceará, Paraíba e Rio Grande do Norte e muito utilizada como pasto nativo.
apresentaram entre 2/3 e metade dos Pernambuco apresentou apenas 1/3
municípios com menos de 30% de área dos municípios com menos de 30% de área
cultivada, em relação à área das pro- plantada e 1/6 deles com mais de 60% de
priedades. Considerando a relação área área cultivada, principalmente os da região
plantada/área município, cerca de 4/5 dos mais úmida do agreste. Também, apenas
municípios apresentam valores menores que 1/3 tinha mais de 20% de matas e somente
30% e o quinto restante possui menos de 20 municípios (1/5 do total) com mais de
10%. Nos três estados, municípios com mais 40% de cobertura de matas nativas. E 1/4
de 60% de área plantada representaram dos municípios apresentou mais de 40% de
menos de 6% do total. Pode-se concluir que, pastos nativos. Assim, parece que o Estado
nesses estados núcleo do semi-árido, a tem zonas com características bem distintas:

62
algumas com pouca cobertura vegetal vegetação nativa, mas nem todas as plantas
nativa e outras com cobertura nativa mais nativas são eliminadas desses campos.
significativa, porém utilizada, predomi- Algumas plantas são deixadas quando a
nantemente, como pastos, além de outras vegetação nativa é cortada, outras rebrotam,
onde ainda persiste uma cobertura razoável nascem do banco de sementes do solo ou
de matas nativas. Os dados do MMA (1997) são introduzidas por propágulos vindos das
indicavam uma cobertura com caatinga de vegetações nativas das vizinhanças. A prática
42% da área do estado (43.000km2 ), de deixar árvores nos campos é bastante
principalmente na região do Sertão. freqüente no semi-árido e faz sentido do
A Bahia possui a maior área e o ponto de vista do aproveitamento de
maior número de municípios incluídos, recursos (Menezes & Sampaio 2000). Há
nesse trabalho, como pertencentes ao vários trabalhos sobre as invasoras dos
bioma Caatinga. A situação de uso do solo campos cultivados, geralmente sobre como
é parecida com a de Pernambuco: apenas eliminá-las. Não cabe, aqui, revisá-los,
1/5 dos municípios possuem menos de bastando apenas citar que as informações
30% da área das propriedades cultivadas, que eles contêm podem ser úteis em
enquanto cerca de 2/3 dos municípios estudos sobre a capacidade de dispersão
apresentam menos de 30% da área dessas espécies e sobre o processo de
municipal cultivada. Em apenas 1/8 dos sucessão das áreas em regeneração, já que
municípios baianos mais de 60% da área muitas das invasoras são espécies pioneiras.
das propriedades é cultivada. Cerca de Além da substituição da vegetação nativa, a
metade dos municípios apresenta mais de agricultura tem efeitos sobre os outros
20% de mata nativa, mas a proporção de componentes da biota. Vale a pena
municípios com cobertura de mata mencionar a perda de hábitat para os
superior a 40% foi muito baixa. Municípios animais e as modificações nas populações
com mais de 40% de pastos nativos dos microrganismos do solo e plantas,
somaram apenas 1/6 do total. Como em causadas pela aplicação de pesticidas e
Pernambuco, a área de caatinga do estado fertilizantes, pelo revolvimento do solo e pela
é dividida em muitos padrões distintos de irrigação e drenagem.
uso de solo. O MMA (1997) estimou 21%
da área do estado da Bahia (116.500km2)
com cobertura de caatinga, e um pouco
Pastagem
mais de 40% da área total com vegetação O extrativismo foi perdendo impor-
nativa. Pela dimensão do Estado, a área tância à medida em que as plantas mais
absoluta com caatinga era maior que a de úteis foram sendo incorporadas ao sistema
qualquer outro estado. agrícola, mas ainda é praticado em todo o
A maioria dos poucos municípios do mundo. E isso ocorre por várias razões: 1)
norte de Minas Gerais incluídos nesse algumas plantas são difíceis de se propagar
trabalho apresentou entre 30 e 60% da área artificialmente; 2) o seu uso é limitado; 3)
das propriedades cultivada, e com mais de existe um suprimento, em relação ao uso,
20% de cobertura por matas nativas. Quase abundante e de fácil acesso na vegetação
nenhum município apresentou mais de nativa; 4) há interesse na manutenção de
40% de pasto nativo, confirmando que não áreas de vegetação nativa e alguns usos são
é uma característica da região usar a compatíveis com esta manutenção; e 5) a
vegetação nativa, uma mistura de caatinga vegetação nativa fornece um agregado de
arbórea alta, como pastagem nativa. Os produtos mais rentável que o de culturas
municípios se caracterizam, portanto, pela plantadas. Esse último caso é comum nas
presença generalizada de áreas cultivadas, regiões semi-áridas e nas que têm extensas
intercaladas com resquícios de vegetação pastagens naturais.
nativa. Uma área considerável no semi-
Deve-se ressaltar que as áreas árido é destinada às pastagens,
agrícolas são subtrações das áreas de predominando as pastagens nativas em

63
todos os estados, exceto no norte de Minas As pastagens nativas têm uma
Gerais. Só nesse Estado, a maioria dos diversidade muito maior que as plantadas
municípios tem maior área de pastagem e são uma forma de conciliar o uso e a
plantada que de pastagem nativa (Tabela manutenção da biodiversidade. Entretanto,
2). Em Alagoas e Sergipe, quase 40% dos o uso atual poderia ser melhorado com um
municípios também têm mais pastagem manejo mais adequado. A capacidade
plantada que nativa mas, nos outros suporte da pastagem nativa diminui com a
estados, essa proporção é menor que disponibilidade hídrica e, em geral, é mais
20%. No Ceará, Rio Grande do Norte e baixa que a da pastagem plantada. Isto se
Paraíba essa proporção é muito mais dá pela presença de plantas não forrageiras,
baixa. especialmente as de porte alto. Nas
caatingas mais secas, a proporção de
As pastagens plantadas têm efeito
plantas de porte alto é menor que nas mais
semelhante ao das outras culturas, já
úmidas. Assim, os agrestes e outras áreas
discutido quando se tratou da agricultura,
limítrofes do semi-árido têm mais
e também tendem a ter extensas áreas de
pastagens plantadas, enquanto o núcleo
monocultura ou consorciação de poucas
semi-árido quase não tem plantios de
espécies. Nas pastagens predominam as
forrageiras, exceto nos baixios, vazantes e
gramíneas introduzidas da África,
revenças de açudes.
principalmente dos gêneros Cenchrus,
As pastagens da área de caatinga
Urochloa e Andropogon. Poucas
suportam grandes populações de animais
leguminosas são plantadas, predominando
domésticos, principalmente bovinos,
aquelas introduzidas dos gêneros Prosopis
caprinos e ovinos. Essas pastagens têm
e Leucaena.
capacidade suporte variável, mas
Em Minas Gerais e Sergipe, a maioria proporcional à disponibilidade de água, e
dos municípios tem mais de 30% das áreas em quase todas, a capacidade reco-
das propriedades ocupadas com pastos mendada tende a ser ultrapassada, havendo
plantados, e acima de 4/5 dos municípios uma sobrecarga animal constante.
possuem mais de 10% desses pastos (Tabela Em grande parte da área, os animais
2). São, geralmente, áreas com dispo- alimentam-se não só das pastagens, mas
nibilidade hídrica maior que a do núcleo do também dos restos das culturas e, em
semi-árido. muitos casos, de rações adquiridas fora das
Dentre os outros estados, destacam- propriedades, principalmente na época
se Bahia e Alagoas, com cobertura de pastos seca. Isto justifica, em parte, as lotações altas
encontradas na região.
plantados acima de 30%, além de
Pernambuco, com 10%. Também nesses A lotação foi estimada tomando-se
casos, as pastagens plantadas tendem a o número de animais dos municípios
predominar nos agrestes e outras áreas dividido pela área de pastos, nativos e
limítrofes do semi-árido. plantados. Para a determinação do número
de animais, somaram-se as populações de
Praticamente não existem muni- bovinos, eqüinos, muares e asininos, e as
cípios com mais de 30% da área das de caprinos e ovinos divididas por cinco,
propriedades coberta com pastos para compensar seu menor tamanho e
plantados nos estados do Maranhão, Piauí, menor uso da área. Em muitos municípios
Ceará, Rio Grande do Norte e Paraíba. No essa lotação foi maior do que um animal
Maranhão e em parte do Piauí, isso se deve por hectare, enquanto em áreas de
à baixa intensidade de exploração das caatinga nativa seriam necessários mais de
propriedades. Nos outros três estados, a 10 hectares para suportar um animal
deficiência hídrica e o baixo potencial de durante todo o ano. A capacidade de
produtividade de biomassa não justificam suporte dos pastos plantados tende a ser
o investimento na retirada da vegetação maior que a dos nativos, mas, no semi-
nativa e plantio da pastagem. árido, dificilmente atingiria a um animal por

64
hectare. É paradoxal constatar que nos histórico conhecido, mas que incluem
estados onde há mais pastos plantados e pastoreio anterior.
maior capacidade de produção, a Apesar desses efeitos, muitas das
proporção de municípios com lotação áreas de pasto nativo do semi-árido
abaixo de um animal por hectare é maior. conservam uma boa cobertura de
Isso acontece em Minas Gerais, Sergipe e vegetação nativa. São áreas que não são
Bahia (Tabela 2). Em Alagoas, que também
queimadas e nem roçadas, e onde a ação
tem uma boa proporção de municípios
antrópica limita-se à exploração pecuária
com de mais de 30% de cobertura por
e à eventual coleta de produtos vegetais.
pastos plantados, existe uma grande
Essa situação explica como a cobertura
quantidade de municípios com lotação
vegetal de caatinga verificada nos
acima de um animal por hectare. O excesso
trabalhos do projeto PNUD/FAO/IBAMA,
de lotação fica mais patente na Paraíba e
como o de Pernambuco (1998), é maior
Rio Grande do Norte, que apresentam baixa
do que as áreas consideradas como mata
proporção de pastos plantados e que
nos censos e, em muitos casos, eqüivale
tiveram aproximadamente metade dos
à soma de matas e pastos nativos. Isso
municípios com lotação acima de um
vale para muitas áreas mas não para
animal por hectare. O excesso atinge o
todas, já que muitos pastos nativos
auge em Pernambuco e, especialmente, no
constituem áreas de abandono recente da
Ceará, onde quase não há municípios com
agricultura itinerante e da exploração de
mais de 30% de pastagens plantadas, mas
aproximadamente cerca de 4/5 deles lenha, com corte raso. Até o momento,
apresentam lotação acima de um animal não existe quantificação desses diferentes
por hectare. Os estados do Piauí e tipos de pasto e, freqüentemente, torna-
Maranhão apresentaram situação se difícil separar caatingas empobrecidas
semelhante, com lotações altas apesar das pelo trato indevido de caatingas pobres
baixas proporções de pastos plantados e devido às condições ambientais.
nativos. As espécies nativas consumidas
Essa carga excessiva tem efeitos pelos animais são muitas, incluindo, além
marcantes para as populações de animais das gramíneas (Poaceae) e leguminosas
e plantas nativas. As populações animais (Caesalpinaceae, Fabaceae e Mimosa-
sofrem forte competição e muitas podem ceae), espécies de várias outras famílias.
ser eliminadas. A composição das Não há um levantamento completo para
comunidades vegetais é alterada, pois, a Caatinga, mas os existentes sobre as
enquanto as populações das espécies mais leguminosas da Bahia (Anexo 2) e as
palatáveis, que sofrem uma grande forrageiras nativas do Parnaíba, no Piauí
pressão, tendem a se reduzir, as populações (Anexo 3), dão uma medida de sua
das espécies não consumidas pelos variabilidade. Chama a atenção o fato de
rebanhos podem aumentar bastante. São que esse potencial foi muito pouco
consideradas tanto as espécies herbáceas estudado pelo nordestino, e tem sido mais
quanto as arbustivas e arbóreas que podem fácil importar espécies do que selecionar
ter seus indivíduos jovens consumidos e melhorar as nativas. Há um certo
pelos animais. O pisoteio e a abertura de consenso de que as gramíneas nativas são
trilhas são efeitos adicionais na vegetação. muito inferiores, em potencial produtivo,
Apesar da obviedade desses efeitos, pouco às africanas, mas há muito pouca
tem sido estudado sobre eles no Nordeste. comparação científica e nenhuma
A comparação da composição florística de tentativa de melhoramento das espécies
áreas com e sem exclusão de rebanhos locais. É verdade que elas são pouco
domésticos praticamente não existe. Os visíveis nos campos, exceto as pouco
poucos trabalhos (Silva et al. 1995, palatáveis, mas mesmo quando sua massa
Albuquerque & Bandeira 1995) são aparente é pequena, podem constituir uma
recentes, de curta duração e em áreas sem fração alta da dieta dos animais (Silva

65
1988). Acredita-se que as leguminosas Lenha
nativas têm um grande potencial forrageiro,
A produção de lenha é a mais
mas sua quantificação é incipiente
importante contribuição do extrativismo no
(Tabela 3). Sobre as forrageiras de outras
Nordeste (cerca de R$65 milhões) registrada
famílias, há pouco mais que listagens
nos censos do IBGE, já que os mesmos não
parciais (Anexo 3, como exemplo). Esse é
incluem o valor do pasto nativo (Tabela 4).
um vasto campo de estudo, com
A ela podem ser acrescidas as produções
possibilidade de conciliar o uso e a
de carvão, estacas, moirões, postes e
conservação da biodiversidade, à espera de
madeira, que utilizam a vegetação nativa
maior atenção dos setores governamental
em geral, sem uma coleta específica de
e empresarial.
uma ou poucas espécies de plantas. Em
todas elas, principalmente na produção de
estacas, moirões, postes e madeira, há o
Tabela 3 - Leguminosas da Caatinga selecionadas
reconhecimento das diferenças de
pelo potencial forrageiro
qualidade entre as plantas, mas o
(adaptado de Queiroz 1999).
suprimento maior vem de cortes rasos,
Espécie Nome vulgar com a derrubada geral da vegetação e
Espécies lenhosas seleção posterior. A produção de moirões,
Acacia bahiensis Benth. Jurema-branca postes e madeira é pequena e será
Acacia langsdorfii Benth. Unha-de-gato discutida na seção sobre coletas seletivas.
Albizia polycephala (Benth.) Killip Monzê
A produção de lenha está dispersa
Bauhinia cheilantha (Bong.) Steud. Miroró
em toda a área da Caatinga, sendo maior
Caesalpinia ferrea Mart. ex Tul. Pau-ferro
no Ceará (4,3 milhões de metros cúbicos)
Caesalpinia pyramidalis Tul. Catinga-de-porco
Canavalia dictyota Piper Feijão-de-porco e na Bahia (4,0 milhões), seguidos do Piauí
Cratylia mollis Mart. Ex Benth. Camaratuba (1,4 milhões) e de Pernambuco (1,3
Dioclea grandiflora Mart. Ex Benth. Mucunã milhões), e menor em Sergipe (0,3 milhões)
Mimosa arenosa (Willd.) Poir. Calumbi e Alagoas (0,1 milhões). A Bahia tem,
Mimosa gemmulata Barneby Jurema-cor-de-rosa também, uma grande produção de carvão
Piptadenia moniliformis Benth. Angico-de-bezerro (146 mil toneladas), mas inferior à do norte
Poecilanthe ulei (Harms) de Minas Gerais (176 mil toneladas), apesar
Arroyo & Rudd Carrancudo da diferença do tamanho da área. Os
Senna macranthera (Collad.) demais estados têm produções menores,
H.S.Irwin & Barneby Canjuão variando de 19.130 toneladas, no Piauí, a
Senna rizzinii H.S.Irwin & Barneby Canjuãozinho
560 toneladas, em Sergipe.
Espécies herbáceo-subarbustivas
Aeschynomene mollicula Kunth Carrapicho-amarelo As produções de lenha e carvão tem
Crotalaria holosericea sido decrescentes nos últimos anos. Em
Nees & Mart. Mata-pasto-branco 1980, a produção de lenha era cerca de
Desmanthus virgatus (L.) Willd. Desmanto três vezes maior que a de 1995/1996, e a
Galactia jussiaeana Kunth Feijãozinho-bravo de carvão apenas um pouco maior
Galactia remansoana Harms Feijão-de-rama (Sampaio et al. 1987). Supõe-se que essa
Macroptilium bracteatum tendência continue, e até se acelere, com
(Nees & Mart.) a substituição, cada vez maior, de seu uso
Maréchal & Baudet Feijão-de-rola-rasteiro doméstico pelo gás. O uso industrial não
Macroptilium lathyroides (L.) Urb. Feijão-de-rola
tem um declínio tão previsível, e depende
Macroptilium martii (Benth.)
da presença de indústrias consumidoras.
Maréchal & Baudet Orelha-de-onça
As cerâmicas, olarias, padarias e casas de
Periandra coccinea
(Schrad.) Benth. Jequitirana-vermelha farinha são usuárias tradicionais, e as
Rhynchosia edulis Griseb. Feijão-bravo indústrias de gesso e de cimento, usuárias
Zornia myriadena Benth. Arroiozinho em expansão. É possível que as informa-
ções do censo diminuam os valores reais
de produção, já que há uma proibição

66
em vista da impossibilidade de uma
fiscalização efetiva.
Tabela 4 - Principais produtos do extrativismo nos estados nordestinos, com
Para estimar o impacto da produção
ênfase no semi-árido (em toneladas, exceto quando especificado).
de lenha e carvão sobre a vegetação nativa,
Produto AL BA CE MA PB PE PI RN SE 103 R$ foram somadas suas produções e divididas
Andiroba, semente 2 24 29 171 - 1 43 1 9 72 pela área de mata nativa. A produção de
Angico, casca - 17 0 0 0 16 0 0 - 4 carvão foi transformada em produção de
Babaçu, coco - 2 154 943 - - 139 0 - 115 lenha, admitindo-se que 19m3 de lenha
Babaçu, amêndoa (103 t) - 0 0 114 0 - 7 - - 37.094 forneçam uma tonelada de carvão. Como
Buriti, coco - 668 4 570 - - 3.293 - - 539 parte da lenha no semi-árido pode vir de
Buriti, palha - 8 8 700 - 5 3 - - 61 áreas consideradas pasto nativo, foi feito,
Carnaúba, cera - 1 5.019 138 7 0 350 304 - 2.651 também, o cálculo dividindo -se as
Carnaúba, palha - 3 6.874 667 76 27 4.346 1.116 - 1.741 produções pela soma das áreas de mata e
Carnaúba, pó - 19 3.074 304 7 - 3.305 261 - 6.784
pasto nativos. As diferenças refletem o peso
Carnaúba, óleo - 0 2.315 43 0 - 385 24 - 1.426
do pasto nativo em cada município, mas
Caroá, fibra - 0 195 - - 0 11 - - 16
podem indicar, também, quanto as áreas
Carvão (103 t) 1 157 119 140 6 17 21 3 1 48.330
Estacas (10 6 unidades) 0,1 1,5 10,5 0,9 1,2 1,6 5,4 1,4 0,2 8.906
de pasto estariam contribuindo para a
Lenha (106 m3) 0,1 5,2 4,2 3,0 0,9 1,3 1,9 0,9 0,3 65.475 produção de lenha e carvão. Quanto maior
Licuri, coquilho 2 326 0 1 - - - - - 141 a contribuição, mais degradadas devem ser
Licuri, folha 1 6.439 - - - - - - - 356 as áreas de pasto, do ponto de vista de
Madeira tora (10 3 m3) 17 740 142 489 39 15 117 15 6 17.812 preservação da vegetação nativa.
Mangaba, fruto 5 135 1 - 13 1 1 1.002 545 755 Para simplificar a apresentação, os
Moirões (103 unidades) 1 113 402 264 74 78 109 256 10 937 municípios foram separados em dois
Murici, fruto - 16 33 58 - 14 5 - 0 65 grupos: os que possuem produção de lenha
Oiticica, semente - - 234 - 170 - - 11 - 61 maior que um metro cúbico por hectare e
Ouricuri, coco 5 180 1 - - 68 - - - 66 os com produção menor que um metro
Pequi, fruto - 332 1556 423 - 30 402 - - 485
cúbico por hectare (Tabela 2). Esse é um
Piaçava - 11.395 1 - - 14 - - - 8.643
valor arbitrário e razoavelmente conservador
Pitomba, fruto 14 6 44 40 72 434 15 23 14 143
em termos de capacidade de produção de
Postes (10 3 unidades) - 191 - 36 3 8 540 - 16 701
Taperebá, fruto - 34 100 4 - 19 5 33 - 49 lenha na caatinga. A caatinga produz,
Timbó, cipó - 24 462 3 - 2 419 - - 418 geralmente, de 40 a 100m3/ha (ou estéreo/
Tucum, fibra - - 0 4 - 40 33 - - 10 hectare, como seria mais apropriado), em
Umbu, fruto 35 5.195 14 1 1.812 1.540 120 129 12 1.971 corte raso, ou seja, cortando toda a
Vigas (10 3 unidades) - 35 24 3 216 78 30 - 2 376 vegetação e deixando tocos pouco acima
do solo. Assim, um valor de 1m3/ha deixa,
como média geral municipal, de 40-100
anos de recuperação de cada área antes de
conhecida de corte sem autorização, e essa ser novamente cortada.
raramente é solicitada. Na divisão pela área de mata nativa,
Tradicionalmente a produção de muitos municípios, em cada estado,
lenha era um subproduto da abertura de tiveram valores maiores que 1m3/ha, e
áreas para plantio na agricultura itinerante, alguns, valores bem mais altos que a
mas com o declínio desta, começa a ser produção provável se toda a área de mata
uma atividade independente (MMA 1997). tivesse sido cortada. Seis dos dez estados
Com o aumento da demanda, pode passar analisados tiveram cerca de 60% de seus
a ser uma fonte de renda esporádica em municípios acima do limite, e a menor
áreas onde não existam outras alternativas proporção foi de 35% no Rio Grande do
de exploração rentável. Essa possibilidade Norte. Tais dados podem resultar de falhas
justifica a proposição de planos de manejo na base de dados do IBGE, da contribuição
da vegetação nativa, para orientar os dos pastos plantados e de informação
proprietários. Vale lembrar que a simples equivocada da produção de matas
proibição de corte não resolve o problema, plantadas, mas os municípios com valores

67
anormalmente altos merecem atenção. ausentes e suas plântulas podem não se
Deve-se lembrar que lenha e carvão estabelecer, de forma que a espécie seria
provenientes de matas plantadas são eliminada do local. Não se conhece a
registrados separadamente, nos censos de extensão do problema e nem como a
silvicultura, e não de extrativismo. No eliminação desse indivíduo afetaria a
entanto, muitos municípios tiveram valores distribuição da espécie e a sua área de
bastante baixos, mostrando que sua ocupação total. Dessa forma, muito mais
vegetação nativa permanece sem maior informação é necessária antes que planos
impacto de corte. de manejo apropriados sejam traçados. Por
Considerando as áreas de mata e outro lado, independente da existência de
pasto nativos houve um número bem planos adequados a exploração não
menor de municípios acima da produção cessará, e a extração de lenha e outros
limite (1m3/ha), em quase todos os estados, produtos madeireiros tem grande
exceto Minas Gerais e Maranhão, que importância econômica para as populações
tiveram mais da metade de seus que dela dependem. Por isso, mesmo
municípios, acima desse limite. Metade dos sendo difícil, é necessário se tomar
municípios do Ceará, e menos de 26% dos decisões buscando conciliar o uso e a
municípios no restante dos estados conservação dos recursos biológicos, ainda
também apresentaram valores acima da que sem dispor de informações completas.
produção limite (1m3/ha). A diferença entre
os dois cálculos aponta para uma pressão
grande sobre a vegetação das pastagens Coleta de plantas isoladas
nativas em Alagoas, Sergipe, Paraíba, Diversas plantas são listadas nos
Pernambuco e Rio Grande do Norte. censos do IBGE para os estados
De maneira geral, as proporções não nordestinos, como tendo produtos de
são alarmantes, mas inspiram cuidado, extrativismo. A maioria tem valor baixo e é
principalmente considerando o impacto produzida em uma só parte do semi-árido,
sobre a biodiversidade, que extrapola a preo- muitas vezes de forma mais concentrada
cupação com a renovação da biomassa. A em um único estado. Os produtos que se
produção de lenha e carvão envolve o corte destacam, em toda a região, são o babaçu
raso anual de milhares de hectares, e os (R$37 milhões), carnaúba (12 milhões),
efeitos sobre a biodiversidade não são bem piaçava (R$9 milhões), umbu (R$2
conhecidos, mas alguns podem ser milhões), mangaba (R$0,8 milhão), buriti
avaliados. Muitos animais perdem (R$0,6 milhão), licuri (R$0,5 milhão) e
imediatamente seu hábitat, e a renovação pequi (R$0,5 milhão) (Tabela 4). No
da vegetação leva muitas dezenas de anos, entanto, a maior parte da produção de
ao longo de todo o processo sucessional. babaçu e piaçava está fora da região da
Além disso, muito tempo depois que a Caatinga, o mesmo acontecendo com
biomassa atinge um patamar semelhante partes consideráveis das de mangaba, buriti
ao original, a composição florística ainda é e pequi. Assim, carnaúba, umbu e licuri são
diferente. A regeneração da população de os produtos mais importantes das áreas
algumas espécies na caatinga é muito lenta mais típicas da Caatinga.
(Sampaio et al. 1998), muitas das quais Alguns produtos são originários de
desempenham um papel crítico no extrativismo e também de culturas, pois
fornecimento de alimento aos animais, podem ser coletados da vegetação nativa
através de sua floração e frutificação ou espontânea, e podem também ser
(Machado et al. 1997). Os levantamentos cultivados. O caso típico é o do caju, seja
fitossociológicos têm revelado um número aproveitado como fruto ou castanha. Na
grande de espécies representadas, nos verdade, em muitos casos, a linha divisória
locais amostrados, por um único indivíduo entre extrativismo e cultivo é pouco nítida,
(Sampaio 1996). Tais indivíduos podem não e algumas espécies são referidas como
rebrotar, suas sementes podem estar semi-domésticas ou em vias de

68
domesticação (Giacometti 1993). No óleos fixos; ceras, látex e produtos
processo de coleta é comum haver químicos; fibras; alimentos; óleos
influência do homem na dispersão das essenciais; medicinais; e madeiras.
plantas. Essa influência pode ter vários Há muitos trabalhos dispersos sobre
níveis, até o limite do recolhimento dos o uso de plantas específicas, mas poucos
propágulos e seu cultivo em locais sobre o conjunto dos usos (Sampaio et al.
específicos, que já é a agricultura. Uma 1987). Alguns deles trazem listas de
influência forte pode ser detectada, ainda espécies, mas, geralmente, sem a
hoje, em várias comunidades indígenas, preocupação em localizá-las nas áreas da
através do favorecimento da propagação Caatinga. Seria ideal, portanto, que essas
das plantas úteis nas vizinhanças das suas listas fossem confrontadas com a lista geral
roças ou locais de moradia (Albuquerque da flora da área de caatinga. Entretanto,
1999). É possível que isso tenha ocorrido essa lista não existe ainda, e mesmo as
em áreas de caatinga, antes da colonização listas parciais, como a das lenhosas da
européia, mas não se conhecem Caatinga (Rodal & Melo 1999), são
evidências. Com uma possível exceção para reconhecidamente incompletas, pela
o babaçu e a carnaúba, não parece haver enorme dificuldade de sua elaboração.
aglomerados de plantas úteis no meio da
vegetação nativa que possam ser atribuídos
à intencionalidade humana. Por outro lado, Óleos fixos
ocorre a transferência de plantas nativas As produtoras nativas de óleo têm a
para jardins e quintais, que se constitui em maior expressão comercial no extrativismo
um passo para a agricultura, e o uso muito nordestino, excetuando-se lenha e carvão.
disseminado de várias plantas, ou suas Várias plantas são exploradas: babaçu,
partes, colhidas diretamente das formações pequi, licuri, ouricuri, oiticica e andiroba.
vegetais nativas. Essas plantas podem vir Como já mencionado, o babaçu ocorre
a ser cultivadas, até em larga escala, caso principalmente no Maranhão, fora da área
haja uma demanda maior por seus da Caatinga. A produção nos municípios
produtos. Entretanto, a questão da incluídos como da Caatinga é menor que
demanda não é simples, na medida em que 20% do total. O pequi é uma planta mais
interage com a oferta e o conhecimento característica do cerrado e só aparece em
do potencial de uso. áreas de caatinga quando essa formação
Do ponto de vista da conservação da se mistura à de carrasco ou cerrado, como
vegetação nativa, o incremento do uso pode na Chapada do Araripe (microrregião do
levar a um maior interesse na preservação Cariri), a zona de maior produção no Ceará.
da espécie e da vegetação onde ela ocorre, Há uma produção razoável de pequi no
mas pode também ter o efeito oposto, norte de Minas Gerais, principalmente na
levando a uma coleta excessiva, destruição microrregião de Montes Claros. A andiroba,
da vegetação do entorno durante a coleta e além do pequeno valor de produção, ocorre
ao corte da vegetação nativa para abrir com mais abundância no Maranhão, fora
espaço para o novo cultivo. Cabe às da área da Caatinga.
instituições governamentais controlar o uso As produtoras características da
e regular o incentivo à exploração das Caatinga são o licuri e o ouricuri, palmeiras
espécies nativas. Há, ainda, uma intensa do gênero Syagrus, e a oiticica. O licuri é
controvérsia sobre o uso da biodiversidade explorado quase que exclusivamente na
nativa e quem dela se beneficia, par- Bahia, principalmente nas microrregiões de
ticularmente, quanto às plantas medicinais Jacobina, Itaberaba e Euclides da Cunha.
que podem originar medicamentos com Além da produção de coquilhos, dos quais
faturamentos milionários. se extrai o óleo, as palmeiras produzem cera
O uso das plantas nativas é muito nas folhas. O interesse em um ou outro
diverso, e em termos práticos, pode ser produto tem variado ao longo do tempo, e
dividido pelo tipo de produto fornecido: não são compatíveis porque o corte das

69
folhas leva a uma menor produção de palmente nos rios Jaguaribe, Coreaú,
frutos (Sampaio et al. 1987). Com isso e Acaraú, Parnaíba, Mossoró e Açu. Em
com a influência das secas na frutificação, 1970, a SUDENE estimou que essa planta
as safras de óleo têm sido muito variáveis. cobria uma área de 180 a 250 mil hectares
Ouricuri e licuri são nomes vulgares de (Sampaio et al. 1987), e, como os níveis
espécies que se confundem, sendo o licuri de produção ainda estão em patamar
mais característico na Bahia. O ouricuri é semelhante ao dessa época, estima-se que
explorado quase na mesma área, na Bahia, a área deve ser aproximadamente a
mas também em Pernambuco, mesma. Apesar de existir algum plantio da
principalmente na microrregião de espécie, a maior parte da área é de
Garanhuns, município de Paranatama. vegetação nativa. O tipo de caatinga ao
A oiticica ocorre ao longo das qual está associada é bastante peculiar,
margens de cursos de água do semi-árido devido às condições de inundação de seus
do Ceará, Paraíba e Rio Grande do Norte. locais de ocorrência. Seu uso e
O vale do Jaguaribe é o maior produtor, conservação poderiam ser combinados,
destacando-se a microrregião do médio mas a vegetação associada às carnaubeiras
Jaguaribe. Como as áreas das margens dos não apresenta interesse para os
rios são áreas preferenciais de agricultura, exploradores de cera e, portanto,
as oiticicas são cortadas e, geralmente, não necessitaria de uma proteção especial.
são replantadas ou mesmo deixadas Além da cera de carnaúba, é também
regenerar naturalmente. Desse modo, a extraída cera do licuri. A produção ocorre
produção tem diminuído, sendo que no nas mesmas áreas da produção de óleo,
início da década de 80 atingia 10 mil na Bahia, já descritas acima.
toneladas, já menor que o auge de décadas
A produção de látex e gomas é muito
anteriores (Sampaio et al. 1987), e
baixa no Nordeste, excetuando-se os
atualmente mal chega a 5% desse valor.
plantios de seringueira nas áreas mais
Mesmo assim, a sua exploração ainda
úmidas. Há apenas pequenas extrações de
oferece a oportunidade de combinar
gomas de mangabeira, maniçoba e
extrativismo com conservação da
maçaranduba, que totalizam menos de
vegetação nativa.
uma dezena de toneladas e de alguns
Outras plantas potenciais produtoras milhares de reais, sendo a Bahia o maior
de óleos têm sido listadas para o Nordeste produtor de todas elas. Em tempos
(Sampaio et al. 1987), incluindo pinhão e passados, principalmente quando as
faveleira, que têm boa distribuição no semi- guerras impediram o acesso à borracha da
árido. Estudos recentes ampliam essas Ásia, já houve maior extração de látex de
listas e também se aprofundam nas maniçobas (Manihot spp.). Entretanto, a
características dos óleos das espécies de produtividade é baixa e não chega a pagar
Euphorbiaceae (Silva 1998). Entretanto, a mão-de-obra para coleta, não havendo
sua exploração continua sem despertar perspectiva de maior extrativismo que o
interesse econômico, devido à baixa atual.
produtividade e dificuldade de coleta das
sementes. Ainda que exista um potencial Outros compostos podem ser
de exploração futura, o mesmo é incerto e extraídos das plantas nativas, como
não deverá ser atingido a curto prazo. mucilagens e princípios ativos diversos.
O único que mereceu destaque no último
censo foi a casca do angico, cuja extração
Ceras, látex e produtos químicos concentra-se em Pernambuco (Parna-
A carnaubeira é a grande produtora mirim) e na Bahia (Andorinha), mas já foi
nativa de cera no Nordeste (incluindo palha, bastante disseminada em outras áreas de
pó e óleo) (Tabela 4). A espécie ocorre nos caatinga e de cerrado. O tanino do angico
vales inundáveis dos estados do Ceará, é cada vez menos utilizado na curtição de
Piauí e Rio Grande do Norte, princi- couros, sendo substituído por produtos

70
sintéticos e sais. Por isso, a produção vem entremeiam os cerrados de Barreirinhas e
caindo há décadas, de dezenas de milhares Primeira Cruz.
de toneladas nas décadas de 50-60, a A fibra mais característica da Caatinga
poucos milhares de toneladas no início da é o caroá, produzido principalmente no Ceará
década de 80 (Sampaio et al. 1987), até (município de Ibiapina). Sua produção já foi
apenas algumas dezenas de toneladas no maior, mas foi sendo substituída, primeiro
último censo. pelo agave, e depois pelas fibras sintéticas
Há outras possibilidades de uso (Sampaio et al. 1987). Desde a década de
pouco exploradas no Nordeste. As 80 a produção está estabilizada no patamar
saponinas podem ter vários usos, como as atual. O tucum é produzido em Pernambuco
extraídas comercialmente do joazeiro, que e Piauí, em pequena escala. Não parece que
entram na composição de pasta de dentes. haja potencial, maior que o atual, para
O uso da maioria desses compostos passa exploração futura de produtoras de fibras.
pela identificação e quantificação de sua
presença nas plantas, determinação de uma
forma eficiente e de baixo custo de extração, Alimentos
identificação do potencial de utilização em
Várias partes das plantas podem ser
produtos comerciais, estabelecimento de
utilizadas para alimentação: raízes, túberas,
produção piloto e montagem de estratégias
caules, seiva, folhas, flores, sementes e
de venda. É um processo complexo e
frutos, mas predominam os últimos, que são
demorado que requer pesquisa e
os únicos a constarem na lista dos produtos
investimento de longo prazo, além de que
do extrativismo do Nordeste. Umbu,
sua viabilidade depende de interesse
mangaba, pitomba, murici e taperebá (cajá)
governamental ou de empresas de grande
são os principais. Outros frutos nativos são
porte. Considerando que plantas de regiões
cultivados em escala agrícola e foram
áridas tendem a uma maior produção de
excluídos desse texto, como, principalmente,
compostos secundários do que as de
o caju e, também, o cajá.
regiões mais úmidas, que o potencial de
O umbu é uma fruta típica da
produção dessas plantas é ainda
Caatinga, principalmente da Bahia,
desconhecido e que os produtos extraídos
Pernambuco e Paraíba, e tem um grande
podem ter alto valor, seria interessante
potencial de exploração, com a produção
destinar maior atenção ao tema.
da polpa congelada. As vantagens que esse
sistema oferece são o processamento
Fibras próximo ao local de produção, unidades
As fibras extraídas de plantas nativas processadoras de baixo custo e oferta do
registradas no censo do IBGE de 1995/1996 produto por prazo bem mais longo que o
foram palha de buriti, caroá, tucum e piaçava de produção (o umbuzeiro, como quase
(Tabela 4). Entre elas, a piaçava alcançou o todas as nativas, tem safras de duração
maior valor (R$9 milhões), mas foi quase toda muito curta). Na Bahia, a produção
produzida fora da região da Caatinga, espalha-se pelas mesorregiões Centro-Sul,
especialmente no sul da Bahia. Dos outros Centro-Norte, Nordeste e Vale do São
estados do Nordeste, Pernambuco era o Francisco. Em Pernambuco e Paraíba, a
maior produtor de piaçava, em municípios produção vai do agreste ao sertão.
da região do Agreste, mas em quantidade A produção de mangaba predomina
pouco maior que um milésimo da produção nas áreas costeiras do Rio Grande do Norte
da Bahia. As produções das outras fibras e Sergipe, em locais mais de restinga que
tiveram valores muito baixos, atingindo para de caatinga, embora atinja algumas áreas
todo o Nordeste apenas 61, 16 e 10 mil reais, de caatingas de areia e de cerrado na Bahia.
respectivamente. Entre essas últimas, as Os frutos têm bom valor de mercado e há
palhas de buriti são mais produzidas no plantios comerciais em expansão. O murici
Maranhão, nas áreas dos alagados que ocorre, também, nos locais arenosos

71
próximos à costa (Ceará e Maranhão), mas variabilidade existente. Esse pode ser um
é mais típico dos solos arenosos do interior, processo longo e, por isso, deveria ser
tanto em áreas de cerrado como de iniciado o quanto antes.
caatinga de areia (região do São Francisco:
Glória, BA e Petrolândia, PE). A produção,
Óleos essenciais
que se espalha por quase todos os estados
nordestinos, tem um valor relativamente Muitas são as plantas produtoras de
baixo pela pouca massa comestível dos óleos essenciais no Nordeste (Sampaio et
frutos. A pitomba também tem pouca al. 1987), mas não há exploração registrada
massa comestível, valor unitário baixo e pelo IBGE. Apesar do potencial produtivo
produção disseminada em todos os de algumas plantas ter sido reconhecido há
estados nordestinos. Ela é mais típica de muitos anos, principalmente em estudos no
áreas relativamente úmidas, ocorrendo das Ceará (Craveiro et al. 1981), seu uso não
matas úmidas e secas às caatingas de alcançou dimensão comercial. Os marme-
agreste. O taperebá é uma fruta típica de leiros (Croton spp.) e outras espécies de
áreas úmidas e subúmidas, bem Euphorbiaceae têm quantidades razoáveis
disseminado em todo o Nordeste, só de óleo e algumas têm ampla distribuição
aparecendo na Caatinga quando plantado. em Pernambuco, especialmente no Sertão.
Na Caatinga, o taperebá é explorado nas Espécies de outras famílias também têm
regiões costeiras, de maior precipitação potencial de produção de óleos essenciais
(Fortaleza, Leste Potiguar), nos limites mais (Sampaio et al. 1987), entretanto, não há
úmidos do agreste e nas regiões serranas um uso popular dos óleos essenciais que
e pés de serra do Ceará (Cariri, Baturité) e requerem, para sua obtenção, um processo
do Rio Grande do Norte (Portalegre, São químico sofisticado demais para prática
João do Sabuji) caseira, embora simples para as indústrias.
Sua utilização está, geralmente, ligada à
Naturalmente, muitos outros frutos
indústria de cosméticos e produtos de
são consumidos sem que sua produção seja
limpeza.
registrada. Grande parte deles sequer é
comercializada e é consumida diretamente
pelo coletor ou seus familiares. Alguns são Medicinais
coletados da vegetação nativa e outros dos Há uma vasta literatura regional sobre
quintais das residências, das margens de o uso das plantas na medicina popular, e
cercas, caminhos e cursos d’água e de centenas de espécies são usadas para os
árvores isoladas preservadas no meio dos mais diversos fins. Em Pernambuco, por
campos de cultivo. Não há uma lista das exemplo, um levantamento preliminar, em
espécies frutíferas da Caatinga, mas a lista apenas quatro municípios, listou mais de 400
das frutíferas nordestinas, elaborada por plantas (Victor 1990). Na Bahia, o volumoso
Pinto (1993), deve incluir a maior parte delas, trabalho do SEPLANTEC (1979) cita
embora inclua também espécies que não centenas de espécies. O entendimento do
ocorrem nessa área (Anexo 4). assunto é complicado porque uma mesma
A expansão do cultivo das nativas tem planta pode ser recomendada para cura de
como limitações o desconhecimento do enfermidades diferentes em distintos locais
potencial de mercado e das técnicas de ou até em um mesmo local. Vários grupos
produção em larga escala de fruteiras só na região têm comprovado a ação benéfica
cultivadas para uso doméstico, além do de muitas plantas e, a partir daí, têm atuado
longo prazo entre o plantio e a produção em duas linhas de ação diferentes: alguns
estabilizada para muitas espécies. As têm difundido o uso das plantas com efeito
pequenas quantidades de massa comestível comprovado entre a população, geralmente
e as épocas de frutificação muito curtas são trabalhando com comunidades pobres,
características indesejáveis que podem ser enquanto outros têm tentado a extração dos
melhoradas com um processo de seleção e princípios ativos, como início de um processo
melhoramento genético, aproveitando a de industrialização.

72
O uso popular tradicional, apesar de Piauí, e já existem propriedades na região
amplamente difundido, tem pouco impacto implantando o cultivo desta espécie.
negativo na vegetação nativa pois, O potencial econômico das plantas
geralmente, as quantidades usadas são medicinais pode ser grande, embora seja
pequenas, grande parte do material vem de uma questão complexa. Um novo
plantios domésticos, sendo que para muitas medicamento pode custar milhões de reais
espécies, apenas parte da planta é colhida, mas pode dar um retorno muito maior.
sem eliminá-la, e, quando a colheita envolve A maior parte desse retorno fica com a
a eliminação de plantas, muitos dos indústria farmacêutica, restando pouco
coletores tradicionais têm o cuidado de não para a região de origem da planta, mesmo
esgotar a população. Por outro lado, o uso quando essa passa a ser cultivada na
pode ter um impacto positivo, por aumentar região. Esse desequilíbrio tem provocado
o interesse na preservação de áreas nativas. um amplo movimento de proteção ao uso
A difusão de formas simples de uso da biodiversidade, incluindo debates e
é melhor exemplificada pelo programa tentativa de estabelecimento de legislação
Farmácias Vivas, iniciado na UFCE e hoje em nível, inclusive, internacional.
com abrangência regional (Matos 1999a). Alguns grupos governamentais têm
O Anexo 5 apresenta uma lista das plantas trabalhado na região com o teste de efeitos
selecionadas por esse programa, incluindo e o isolamento de princípios ativos, alguns
algumas nativas. Há outros programas na deles ligados a universidades federais, no
região, geralmente conduzidos por Ceará (Matos 1999b), Alagoas (Sant’Ana et
organizações não governamentais, al. 1999) e Paraíba (Agra 1996). Uma lista,
envolvendo algumas das plantas listadas. sem dúvida incompleta, das plantas
Quase todos recomendam o plantio das testadas ou em teste, está apresentada no
espécies selecionadas, buscando pouco Anexo 6. Como o assunto pode envolver a
afetar a vegetação nativa. obtenção de patentes ou registros de uso,
A extração de princípios ativos, a o conhecimento obtido nem sempre é
fabricação de medicamentos a partir deles amplamente disseminado.
e o teste de seus efeitos diretos e colaterais
é um processo caro, que requer um alto Madeiras e ornamentais
investimento em equipamentos e mão-de- A produção de madeira, exceto para
obra qualificada. Há poucas empresas no fins energéticos (lenha e carvão) e para
Nordeste que investem nesse processo, e obtenção de estacas, é muito baixa nas
a quase totalidade dos novos medica- áreas de caatinga (Tabela 4). A vegetação
mentos vem de multinacionais. Essas típica de caatinga tem poucas árvores com
empresas podem identificar o uso de uma fuste adequado para produção de tábuas,
planta e passar a comprá-la em quan- linhas, vigas, postes, etc. Algumas espécies,
tidades que ameacem sua sobrevivência na como a baraúna, a aroeira e outras
vegetação nativa. Entretanto, os registros madeireiras, são mantidas quando a
desses casos são raros, citando-se o caatinga é cortada para plantio, pelo
exemplo do jaborandi, usado para extração reconhecimento de sua utilidade.
da pilocarpina. O risco não é grande pois, Eventualmente são cortadas, para uma
naturalmente, não interessa às empresas linha de telhado, um eixo de carro de boi
esgotar seu suprimento de matéria prima, ou outra função, apesar da proibição legal
e dessa forma elas procuram cultivar as de corte de baraúna e aroeira, consideradas
plantas que usam. O jaborandi é o único ameaçadas de extinção. A maior produção
produto do extrativismo listado no censo de madeira em toras da Bahia, Maranhão
do IBGE de 1995/1996 para fabricação de e Piauí vem de áreas fora do bioma
medicamento. Sua produção é quase toda Caatinga. Os outros estados têm produção
no Maranhão, fora da Caatinga, esten- muito menor e apenas o Ceará tem uma
dendo-se um pouco para o Cerrado do extração razoável em áreas de caatinga.

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A produção de estacas para cerca é Algumas nativas, pelo seu caráter
bastante disseminada em toda a Caatinga, ornamental, são usadas para arborização de
mas ocorre principalmente no Ceará, onde ruas, praças e jardins, seja pelo porte
são extraídas mais de 10 milhões de (palmeiras, em geral) ou pela floração (ipês e
unidades (Tabela 4). Muitas espécies cássias, por exemplo). Além desse uso, as
contribuem para essa produção, mas o ornamentais nativas têm um mercado restrito
sabiá (Mimosa caesalpiniifolia Benth.), e ainda pouco estudado, como plantas de
pela sua qualidade, vem sendo muito jardins e interiores, e como produtoras de
explorado, reduzindo suas populações flores. Orquídeas e bromélias têm comércio
nativas. Por outro lado, a produção de reconhecido, mas muitos outros tipos de
plantios comerciais começa a tomar o plantas têm potencial de exploração ainda
lugar do extrativismo. Depois do Ceará, o pouco desenvolvido. Não há uma listagem
Piauí é o maior produtor de estacas. das ornamentais nativas ou ocorrentes no
Na Bahia, a pequena produção de muitas Nordeste, e nem estudos sobre seu potencial
áreas, chama a atenção. atual, ou com seleção e melhoramento.

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78
Anexo 1 – Lista das espécies endêmicas da Caatinga, separadas por família (Giulietti et al. 2002).

No Família (número de espécies) / espécie No Família (número de espécies) / espécie


Anacardiaceae (2) Burseraceae (1)
1 Apterokarpos gardneri (Engl.) Rizzini 53 Commiphora leptophloeos (Mart.) J.B.Gillett
2 Spondias tuberosa Arruda Cam. Cactaceae (41)
Annonaceae (3) 54 Arrojadoa rhodantha (Gürke) Britton & Rose
3 Annona vepretorum Mart. 55 Arrojadoa penicillata (Gürke) Britton & Rose
4 Oxandra reticulata Maas 56 Brasilicerus phaeacanthus (Gürke) Backeberg
5 Rollinia leptopetala R.E.Fries 57 Cereus jamacaru DC. spp. jamacaru
Apocynaceae (5) 58 Coleocephalocerus goebelianus (Vaupel) Buining.
6 Allamanda blanchetii A.DC. 59 Discocactus bahiensis Britton & Rose
7 Allamanda puberula A.DC. 60 Espostoopsis dybowskii (Roland-Goss.) Backbg.
8 Aspidosperma cuspa Blake ex Pitt. 61 Harrisia adscendens Britton & Rose
9 Aspidosperma pyrifolium Mart. 62 Melocactus lanssersianus P.J.Braun
10 Aspidosperma riedelii M.Arg. spp. oliganthum (Wood.) Mare-Ferr. 63 Melocactus azureus Buining & Brederoo spp. azureus
64 Melocactus azureus spp. ferreophilus (Buining & Brederoo) N.P.Tayl.
Asclepiadaceae (4)
65 Melocactus bahiensis (Britton & Rose) Luetzelb. spp. bahiensis
11 Matelea roulinioides Agra & Stevens
66 Melocactus conoideus Buining & Brederoo
12 Marsdenia ulei Rothe
67 Melocactus ernestii Vaupel
13 Marsdenia zehntneri Fontella
68 Melocactus glaucescens Buining & Brederoo
14 Ditassa dolichoglossa Schlecht.
69 Melocactus oreas Miq.
Bignoniaceae (12) 70 Melocactus pachyacanthus Buining & Brederoo
15 Adenocalyma marginatum (Cham.) DC. 71 Melocactus salvadorensis Werderm.
16 Anemopaegma athayde Gentry 72 Melocactus zehntneti (Britton & Rose) Luetzelb.
17 Anemopaegma laeve DC. 73 Opuntia inamoena Britton & Rose
18 Arrabidaea bahiensis (Schau) Sandw. & Moldenke 74 Opuntia palmadora Britton & Rose
19 Arrabidaea dispar Bur. ex K.Schum. 75 Pereskia aureiflora Ritter
20 Arrabidaea harleyi A.Gentry 76 Pereskia bahiensis Gürke
21 Fridericia speciosa (Mart.) Mart. 77 Pereskia stenantha Ritter
22 Godmania dardanoi (J.C.Gomes) Gentry 78 Pilosocereus densiareolatus Ritter
23 Melloa quadrivalvis (Jacq.) A.Gentry 79 Pilosocereus floccosus Byles & Rowley spp. quadricostatus (Ritter) Zappi
24 Sparattosperma catingae Gentry 80 Pilosocereus fulvipulvinatus (Buining & Brederoo) Ritter
25 Tabebuia spongiosa Rizzini 81 Pilosocereus glaucochrous (Werderm.) Byles & Rowley
26 Piriadacus erubescens (DC.) Pichon 82 Pilosocereus gounellei (Weber) Byles & Rowley spp. gounellei
Bombacaceae (4) 83 Pilosocereus gounellei (Weber) Byles & Rowley spp. zehntneri (Britton & Rose) Zappi
27 Bombacopsis retusa (Mart.& Zucc.) Robyns 84 Pilosocereus magnificus (Buining & Brederoo) Ritter
28 Ceiba glaziovii K.Schum. ex Chod. & Hassl. 85 Pilosocercus multicostatus Ritter
29 Pseudobombax marginatum (A.St.-Hil.) A.Robyns 86 Pilosocereus pachycladus Ritter spp. pachycladus
30 Pseudobombax simplicifolium A.Robyns 87 Pilosocereus pachycladus Ritter spp. pernambucoensis (Ritter) Zappi
88 Pilosocereus pentaedrophorus (Cels) Byles & Rowley spp. pentaedrophorus
Boraginaceae (8)
89 Pilosocereus pentaedrophorus (Cels) Byles & Rowley spp. robustus Zappi
31 Auxemma glazioviana Taub.
90 Pilosocereus piauhyensis (Gürke) Byles & Rowley
32 Auxemma oncocalyx (Allemão)
91 Pilosocereus tuberculatus (Werderm.) Byles & Rowley
33 Cordia dardani Taroda
92 Pseudoacanthocereus brasiliensis (Britton & Rose) Ritter
34 Cordia globosa (Jacq.) Kunth.
93 Stephanocereus leucostele (Gürke) Berger
35 Cordia leucocephala Moric.
94 Tacinga funalis Britton & Rose
36 Cordia leucomalloides Taroda
37 Cordia longifolia A.DC. Capparaceae (5)
38 Patagonula bahiensis Moric. 95 Capparis cynophallophora L.
96 Capparis flexuosa (L.) L.
Bromeliaceae (14) 97 Capparis jacobinae Moric.
39 Aechmea leucolepis L.B.Sm. 98 Capparis yco Mart.
40 Billbergia euphemiae E.Morren 99 Haptocarpum bahiense Ule
41 Billbergia fosteriana L.B.Sm.
Caricaceae (1)
42 Dyckia elongata Mez.
100 Jacaratia heptaphylla (Sessé & Moç.)
43 Dyckia limae L.B.Sm.
44 Dyckia maracasensis Ule Celastraceae (2)
45 Dyckia pernambucana L.B.Sm. 101 Fraunhofera multiflora Mart.
46 Encholirium spectabile Mart. Ex. Schultes & Schultes f. 102 Maytenus rigida Mart.
47 Hohenbergia catingae Ule Chrysobalanaceae (1)
48 Hohenbergia utriculosa Ule 103 Licania rigida Benth.
49 Neoglaziovia variegata (Arruda) Mez. Combretaceae (3)
50 Orthophytum maracasense L.B.Sm. 104 Combretum monetaria Mart.
51 Orthophytum rubrum L.B.Sm. 105 Combretum pisonioides Taub.
52 Orthophytum saxicola (Ule) L.B.Sm. 106 Combretum rupicola Ridley

79
Anexo 1 – Lista das espécies endêmicas da Caatinga, separadas por família (Giulietti et al. 2002). Continuação

No Família (número de espécies) / espécie N o Família (número de espécies) / espécie


Commelinaceae (1) Leguminosae (80)
107 Dichorisandra glaziovii Taub. 158 Acacia kallunkiae Grimes & Barneby
Compositae (3) 159 Acacia piauhiensis Benth.
108 Argyrovernonia harley K. & R. 160 Aeschynomene martii Benth.
109 Blanchetia heterotricha DC. 161 Arachis pusilla Benth.
110 Telmatophila scolymastrum Mart. 162 Arachis triseminata Krapov. & Gregory
163 Bauhinia cacovia subsp. blanchetiana Wunderlin
Convolvulaceae (11) 164 Blanchetiodendron blanchetii (Benth.) Barneby & Grimes
111 Evolvulus chamaepitys Mart. var. desertorum 165 Caesalpinia calycina Benth.
112 Evolvulus diosmioides Mart. 166 Caesalpinia gardneriana Benth.
113 Evolvulus flexuosus Helwig. 167 Caesalpinia laxiflora Tul.
114 Evolvulus gnaphalioides Moric. 168 Caesalpinia microphylla Mart. ex G.Don
115 Evolvulus speciosus Moric. 169 Caesalpinia pyramidalis Tul. var. pyramidalis
116 Ipomaea brasiliana (Choisy) Meisn. 170 Calliandra aeschynomenoides Benth.
117 Ipomaea decipiens Dammer 171 Calliandra depauperata Benth.
118 Ipomaea franciscana Choisy 172 Calliandra duckei Barneby
119 Ipomaea longistaminea O’Donnell 173 Calliandra imperialis Barneby
120 Ipomaea marsellia Meisn. 174 Calliandra leptopoda Benth.
121 Ipomaea pintoi O’Donnel 175 Calliandra macrocalyx Benth. var. aucta Barneby
Cucurbitaceae (7) 176 Calliandra macrocalyx Benth. var. macrocalyx
122 Apodanthera congestiflora Cogn. 177 Calliandra spinosa Ducke
123 Apodanthera fasciculata Cogn. 178 Calliandra squarrosa Benth.
124 Apodanthera glaziovii Cogn. 179 Calliandra ulei Harms
125 Apodanthera hatschbachii C.Jeffrey 180 Calliandra umbellifera Benth.
126 Apodanthera succulenta C.Jeffrey 181 Chamaecrista belemii (Irwin & Barneby) var. belemii
127 Apodanthera trifoliata Cogn. 182 Chamaecrista belemii var. paludicola (Irwin & Barneby) Irwin & Barneby
183 Chamaecrista brevicalyx (Benth.) Irwin & Barneby var. elliptica (Irwin &
128 Apodanthera villosa C.Jeffrey
Barneby) Irwin & Barneby
Cyperaceae (1) 184 Chamaecrista coradini Barneby
129 Rhynchospora calderana D.A.Simpson 185 Chamaecrista swainsonii (Benth.) Irwin & Barneby
Euphorbiaceae (17) 186 Chloroleucon dumosum (Benth.) G.P.Lewis
130 Cnidoscolus bahiensis (Ule) Pax. & Hoffm. 187 Chloroleucon extortum Barneby & Grimes
131 Cnidoscolus caesifolius (Müll.Arg.) Pax. & Hoffm. 188 Coursetia rostrata Benth.
132 Croton argyrophylloides Müll.Arg. 189 Coursetia vicioides (Nees & Mart.) Benth.
133 Croton campestris St.-Hil. 190 Cratylia mollis Mart. ex Benth.
134 Ditaxis desertorum (Müll.Arg.) Pax. & Hoffm. 191 Crotalaria holosericea Nees & Mart.
135 Ditaxis malpighiacea (Ule) Pax. & Hoffm. 192 Dalbergia catingicola Harms
136 Jatropha mollissima Baill. 193 Dalbergia cearensis Ducke
137 Jatropha mutabilis (Pohl) Baill. 194 Dalbergia decipularis Rizzinni & A.Mattos
138 Jatropha ribifolia Baill. 195 Dioclea marginata Benth.
139 Manihot brachyandra Pax. & Hoffm. 196 Hymenaea eriogyne Benth.
140 Manihot catingae Ule 197 Indigofera blanchetiana Benth.
141 Manihot dichotoma Ule 198 Leucochloron limae Barneby & Grimes
142 Manihot epruinosa Pax. & Hoffm. 199 Mimosa adenophylla Taub. var. armandiana (Rizzini) Barneby
143 Manihot glaziovii Müll.Arg. 200 Mimosa adenophylla var. mitis Barneby
144 Manihot heptaphylla Ule 201 Mimosa brevipinna Benth.
145 Manihot maracasensis Ule 202 Mimosa caesalpiniifolia Benth.
146 Manihot pseudoglaziovii Pax. & Hoffm. 203 Mimosa campicola Harms var. planipes Barneby
204 Mimosa coruscocaesia Barneby
Gramineae (2)
205 Mimosa exalbescens Barneby
147 Neesiochloa barbata (Nees) Pilger 206 Mimosa glaucula Barneby
148 Panicum caatingense Renvoize 207 Mimosa hortensis Barneby
Labiatae (9) 208 Mimosa lepidophora Rizzini
149 Hyptidendron amethystoides (Benth.) Harley 209 Mimosa leptantha Benth.
150 Hyptis calida Mart. ex Benth. 210 Mimosa marröensis Barneby
151 Hyptis leptostachys Epling ssp. caatingae Harley 211 Mimosa mensicola Barneby
152 Hyptis leucocephala Mart. ex Benth. 212 Mimosa misera Benth. var. misera
153 Hyptis martiusii Benth. 213 Mimosa misera var. subnermis (Benth.) Barneby
154 Hyptis pinheiroi Harley 214 Mimosa modesta Mart. var. modesta
155 Hyptis platanifolia Mart. ex Benth. 215 Mimosa modesta Mart. var. ursinoides (Harms) Barneby
156 Hyptis simulans Epling 216 Mimosa niomarlei A.Fernandes
157 Hyptis viaticum Harley 217 Mimosa nothopteris Barneby

80
Anexo 1 – Lista das espécies endêmicas da Caatinga, separadas por família (Giulietti et al. 2002). Continuação

No Família (número de espécies) / espécie No Família (número de espécies) / espécie


Leguminosae (80) Rubiaceae (6)
218 Mimosa ophthalmocentra Benth. 272 Alseis involuta Schum.
219 Mimosa pseudosepiaria Harms 273 Guettarda angelica Mart. ex. Müll.Arg.
220 Mimosa setuligera Harms 274 Guettarda sericea Mull.Arg
221 Mimosa subenervis Benth. 275 Machaonia spinosa Cham.& Schlecht.
222 Mimosa ulbrichiana Harms 276 Randia nitida (H.B.K.) DC.
223 Mimosa xiquexiquensis Barneby 277 Simira gardneriana M.R.Barbosa & A.L.Peixoto
224 Mysanthus uleanus (Harms) G.P.Lewis & A.Delgado Rutaceae (7)
225 Parapiptadenia zehntneri (Harms) M.P.Lima & H.C.de Lima 278 Balfourodendron molle (Miq) Pirani
226 Pterocarpus simplicifolius Barneby Klitgaard. L.P.Queiroz & G.P.Lewis 279 Esenbeckia decidua Pirani
227 Senna acuruensis (Benth.) var. acuruensis 280 Pilocarpus sulcatus Skorupa
228 Senna acuruensis var. caatingae (Harms) Irwin & Barneby 281 Pilocarpus trachylophus Holmes
229 Senna acuruensis var. interjecta Irwin & Barneby 282 Zanthoxylum hamadryadicum Pirani
230 Senna aversiflora (Herb.) Irwin & Barneby 283 Zanthoxylum stelligerum Turcz.
231 Senna gardneri (Benth.) Irwin & Barneby 284 Zanthoxylum syncarpum Tul.
232 Senna harleyi Irwin & Barneby
Sapindaceae (3)
233 Senna martiana (Benth.) Irwin & Barneby
285 Averrhoidium gardnerianum Baill.
234 Senna rizzin Irwin & Barneby
286 Cardiospermum oliveirae Ferruci
235 Stylosanthes bahienses L.’t Mannetje & G.P.Lewis
287 Serjania conradinii Ferruci
236 Zornia echinocarpa (Meissner) Benth.
237 Zornia ulei Harms Scrophulariaceae (10)
Malpighiaceae (4) 288 Anamaria heterophylla (Giulietti & F.C.Souza) F.C.Souza
238 Barnebya harleyi Anderson & Gates 289 Ameroglossum pernambucense Eb.Fischer, S.Vogel & A.Lopes
239 Byrsonima pedunculata W.R.Anderson 290 Angelonia biflora Benth.
240 Macvaughia bahiana W.R.Anderson 291 Angelonia campestris Nees & Mart.
241 Stigmaphyllon harleyi W.R.Anderson 292 Angelonia cornigera Hook f.
293 Bacopa angulata (Benth.) Edwall
Malvaceae (15) 294 Bacopa depressa (Benth.) Edwall
242 Gaya aurea St.-Hil 295 Dizygostemon floribundum Benth. ex Radlk.
243 Gossypium mustelinum Miers ex Watt 296 Dizygostemon angustifolium Giulietti
244 Herissantia crispa (L.) Briz. 297 Monopera micrantha (Benth.) Barringer
245 Herissantia tiubae (K.Schum.) Briz.
246 Pavonia blanchetiana Miq. Solanaceae (2)
247 Pavonia erythrolema Gürke 298 Heteranthia decipiens Needs & Mart.
248 Pavonia glazioviana Gürke 299 Solanum jabrense M.F.Agra
249 Pavonia martii Colla Sterculiaceae (7)
250 Pavonia repens Fryxell 300 Ayenia blanchetiana K.Schum.
251 Pavonia spinistipula Gürke 301 Ayenia erecta Mart. ex K.Schum.
252 Pavonia varians Moric. 302 Ayenia hirta St.-Hil ex Naud.
253 Pavonia zehntneri Ulbr. 303 Helicteris mollis K.Schum.
254 Sida galheirensis Ulbr. 304 Melochia betonicifolia St.-Hil.
255 Wissadula contracta (Link.) R.E.Fries 305 Raylea bahiensis Cristobal
256 Wissadula patens (St.-Hil.) Gürke 306 Waltheria ferruginea St.-Hil.
Molluginaceae (1) Turneraceae (7)
257 Glischrothamnus ulei Pilg. 307 Piriqueta asperifolia Arbo.
Myrtaceae (1) 308 Piriqueta assuruensis Urb.
258 Campomanesia eugenioides var. desertorum (DC.) Landrum 309 Piriqueta carnea Urb.
Palmae (5) 310 Piriqueta densiflora Urb. var. densiflora
259 Attalea seabrensis Glassman 311 Piriqueta dentata Arbo
260 Copernicia prunifera (Mill.) H.E.Moore 312 Piriqueta duarteana (St.-Hil) Urb. var. ulei Urb.
261 Syagrus microphylla Burnet 313 Piriqueta scabrida Urb.
262 Syagrus vagans (Bondar) Hawkes Ulmaceae (1)
263 Syagrus x matafome (Bondar) Glassman 314 Phyllostylon brasiliense Capan.
Polygonaceae (1) Velloziaceae (1)
264 Ruprechtia glauca Meisn. 315 Xerophyta cinerascens Roem. & Schult.
Pontederiaceae (2) Verbenaceae (3)
265 Heteranthera seubertiana Solms 316 Lantana caatingensis Mold.
266 Hydrothrix gardneri Hook. 317 Lippia bahiensis Mold.
Rhamnaceae (5) 318 Lippia gracilis Schauer
267 Alvimiantha tricamerata C.Grey-Wilson
268 Crumenaria decumbens Mart.
269 Rhamnidium molle Reiss.
270 Ziziphus cotinifolia Reiss.
271 Ziziphus joazeiro Mart.

81
Anexo 2 - Leguminosas da caatinga da Bahia (adaptado de Queiroz 1999).
Caesalpiniaceae Caesalpiniaceae (continuação)
Apuleia leiocarpa (Vogel) Macbr. Senna affinis (Benth.) H.S.Irwin & Barneby
Bauhinia acuruana Moric. Senna alata (L.) Roxb.
Bauhinia cacovia Wunderlin subsp. blanchetiana Wunderlin Senna aversiflora (Herb.) H.S.Irwin & Barneby
Bauhinia catingae Harms Senna cana (Nees & Mart.) H.S. Irwin & Barneby var. cana
Bauhinia cheilantha (Bong.) Steud. Senna gardneri (Benth.) H.S.Irwin & Barneby
Bauhinia dumosa Benth. Senna harleyi H.S.Irwin & Barneby
Bauhinia estivana Wunderlin Senna macranthera (Collad.) H.S.Irwin & Barneby
Bauhinia flexuosa Moric. Senna martiana (Benth.) H.S.Irwin & Barneby
Bauhinia forficata Link Senna mucronifera (Benth.) H.S.Irwin & Barneby
Bauhinia harleyi Wunderlin Senna obtusifolia (L.) H.S.Irwin & Barneby
Bauhinia microstachya (Raddi) Macbr. Senna occidentalis (L.) Link
Bauhinia pentandra (Bong.) Vogel ex Steud. Senna pendula (Willd.) H.S.Irwin & Barneby
Bauhinia pulchella Benth. Senna rizzinii H.S.Irwin & Barneby
Bauhinia rufa (Bong.) Steud. Senna spectabilis (DC.) H.S.Irwin & Barneby var. exelsa
Bauhinia trichosepala Wunderlin Senna splendida (Vogel) H.S.Irwin & Barneby
Caesalpinia bracteosa Tul. Senna uniflora (P. Mill.) H.S.Irwin & Barneby
Caesalpinia calycina Benth.
Caesalpinia ferrea Mart. ex Tul. Mimosaceae
Caesalpinia gardneriana Benth. Abarema cochliacarpos (Gomes) Barneby & J.W.Grimes
Caesalpinia laxiflora Tul. Abarema langsdorfii (Benth.) Barneby & J.W.Grimes
Caesalpinia microphylla Mart. Acacia adhaerans Benth.
Caesalpinia pyramidalis Tul. Acacia bahiensis Benth.
Cassia ferruginea (Schrad.) Schrad. ex DC. Acacia farnesiana (L.) Willd.
Cenostigma macrophyllum Tul. Acacia glomerosa Benth.
Chamaecrista absus (L.) H.S.Irwin & Barneby var. absus Acacia kallunkiae J.W.Grimes & Barneby
Chamaecrista acosmifolia (Benth.) H.S.Irwin & Barneby Acacia langsdorfii Benth.
Chamaecrista amiciella H.S.Irwin & Barneby Acacia martii Benth.
Chamaecrista barbata (Nees & Mart.) H.S.Irwin & Barneby Acacia monacantha Willd.
Chamaecrista belemii (H.S.Irwin & Barneby) H.S.Irwin & Barneby Acacia piauhiensis Benth.
Chamaecrista brevicalyx (Benth.) H.S.Irwin & Barneby Acacia polyphylla DC.
Chamaecrista carobinha (H.S.Irwin & Barneby) H.S.Irwin Acacia riparia Kunth
Chamaecrista cuprea H.S.Irwin & Barneby Albizia inundata (Mart.) Barneby & J.W.Grimes
Chamaecrista desvauxii (Collad.) Killip Albizia polycephala (Benth.) Killip
Chamaecrista eitenorum H.S.Irwin & Barneby Anadenanthera colubrina (Vell.) Brenan
Chamaecrista flexuosa (L.) Greene var. flexuosa Anadenanthera peregrina (L.) Speg.
Chamaecrista hispidula (Vahl) H.S.Irwin & Barneby Blanchetiodendron blanchetii (Benth.) Barneby & J.W.Grimes
Chamaecrista jacobinae (Benth) H.S.Irwin & Barneby Calliandra axillaris Benth.
Chamaecrista nictitans (L.) Moench Calliandra depauperata Benth.
Chamaecrista pascuorum (Benth.) H.S.Irwin & Barneby Calliandra leptopoda Benth.
Chamaecrista philippii H.S.Irwin & Barneby Calliandra macrocalyx Harms
Chamaecrista pilosa (L.) Greene Calliandra squarrosa Benth.
Chamaecrista ramosa (Vogel) H.S.Irwin & Barneby Chloroleucon dumosum (Benth.) G.P. Lewis
Chamaecrista repens (Vogel) H.S.Irwin & Barneby Chloroleucon extortum Barneby & J.W.Grimes
Chamaecrista roraimae (Benth) Gleason Chloroleucon foliolosum (Benth.) G.P. Lewis
Chamaecrista rotundifolia (Pers.) Greene Desmanthus virgatus (L.) Willd.
Chamaecrista serpens (L.) Greene Enterolobium contortisiliquum (Vell.) Morong
Chamaecrista supplex (Benth.) Britton & Rose Enterolobium timbouva Mart.
Chamaecrista swainsonii (Benth.) H.S.Irwin & Barneby Leucochloron limae Barneby & J.W.Grimes
Chamaecrista zygophylloides (Taub.) H.S.Irwin & Barneby Mimosa acutistipula Benth.
Copaifera coriacea Mart. Mimosa adenophylla Taub.
Copaifera langsdorffii Desf. Mimosa arenosa (Willd.) Poir.
Copaifera martii Hayne Mimosa bimucronata (DC.) Kuntze
Dictychandra aurantiaca Tul. Mimosa campicola Harms
Goniorrhachis marginata Taub. Mimosa coruscocaesia Barneby
Hymenaea courbaril L. Mimosa exalbescens Barneby
Hymenaea eriogyne Benth. Mimosa gemmulata Barneby
Hymenaea martiana Hayne Mimosa glaucula Barneby
Hymenaea stigonocarpa Mart. ex Hayne Mimosa hexandra Micheli
Hymenaea velutina Ducke Mimosa hirsuticaulis Harms
Martiodendron mediterraneum (Mart. ex Benth.) Koeppen Mimosa hypoglauca Mart. var. hypoglauca
Melanoxylon brauna Schott Mimosa invisa Mart.
Parkinsonia aculeata L. Mimosa irrigua Barneby
Peltogyne confertiflora (Hayne) Benth. Mimosa lewisii Barneby
Peltogyne pauciflora Benth. Mimosa mensicola Barneby
Peltophorum dubium (Spreng.) Taub. Mimosa misera Benth.
Poeppigia procera Presl Mimosa modesta Mart.
Pterogyne nitens Tul. Mimosa morroensis Barneby
Senna acuruensis (Benth.) H.S.Irwin & Barneby Mimosa nothopteris Barneby

82
Anexo 2 - Leguminosas da caatinga da Bahia (adaptado de Queiroz 1999). Continuação

Mimosaceae (continuação) Papilionoideae (continuação)


Mimosa ophtalmocentra Mart. ex Benth Dalbergia catingicola Harms
Mimosa pellita Humb. & Bompl. Ex Willd. Dalbergia cearensis Ducke
Mimosa pithecolobioides Benth. Dalbergia decipularis Rizzini & Matt.
Mimosa pseudosepiaria Harms Dalbergia miscolobium Benth.
Mimosa pudica L. Desmodium barbatum (L.) Benth.
Mimosa quadrivalvis L. var. leptocarpa (DC.) Barneby Dioclea grandiflora Mart. ex Benth.
Mimosa sensitiva L. Dioclea guianensis Benth.
Mimosa setuligera Harms Dioclea lasiophylla Mart. ex Benth.
Mimosa setosa Benth. Var. paludosa (Benth.) Barneby Dioclea marginata Benth.
Mimosa somnianus Humb. & Bompl. Ex Willd. var. somnians Dioclea violacea Mart. ex Benth.
Mimosa subnervis Benth. Discolobium hirtum Benth.
Mimosa tenuiflora (Willd.) Poir. Erythrina velutina Willd.
Mimosa ulbrichiana Harms Galactia jussiaeana Kunth
Mimosa ursina Mart. Galactia remansoana Harms
Mimosa verrucosa Benth. Geoffroea striata (Willd.) Morong
Mimosa xiquexiquensis Barneby Indigofera blanchetiana Benth.
Neptunia plena (L.) Benth. Indigofera microcarpa Desv.
Parapiptadenia blanchetii (Benth.) Vaz & M.P. de Lima Indigofera suffruticosa Mill.
Parapiptadenia zehntneri (Harms) M.P. de Lima & Lima Lonchocarpus araripensis Benth.
Piptadenia irwinii G.P.Lewis var. irwinii Lonchocarpus campestris Benth.
Piptadenia moniliformis Benth. Lonchocarpus sericeus (Poir.) Kunth
Piptadenia obliqua (Pers.) J. F. Macb. Lonchocarpus virgilioides Benth.
Piptadenia stipulacea (Benth.) Ducke Luetzelburgia andrade-limae Lima
Piptadenia viridiflora (Kunth) Benth. Luetzelburgia auriculata (Allemão) Ducke
Pithecellobium diversifolium Benth. Luetzelburgia bahiensis Yakovlev
Plathymenia reticulata Benth. Machaerium acutifolium Vogel
Pseudopiptadenia bahiana G.P.Lewis & M.P.Lima Machaerium angustifolium Vogel
Pseudopiptadenia brenanii G.P.Lewis & M.P.Lima Machaerium leucopteum Vogel
Pseudopiptadenia contorta (DC.) G.P.Lewis & M.P.Lima Machaerium punctatum (Poir.)
Samanea inopinata (Harms) Barneby & J.W.Grimes Macroptilium bracteatum (Nees & Mart.) Maréchal & Baudet
Macroptilium erythroloma (Mart. ex Benth.) Urb.
Papilionoideae Macroptilium gracile (Poepp. ex Benth.) Urb.
Acosmium fallax (Taub.) Yakovlev Macroptilium lazthyroides (L.) Urb.
Aeschynomene elegans Schltdl. & Cham. Macroptilium martii (Benth.) Maréchal & Baudet
Aeschynomene evenia Wright Macroptilium panduratum (Mart. ex Benth.) Maréchal & Baudet
Aeschynomene filosa Mart. ex Benth. Macroptilium sabaraense (Hoehne) V. P. Barbosa-Fereveiro
Aeschynomene histrix Poir. Mysanthus uleanus (Harms) G.P.Lewis & A.Delgado var. uleanus
Aeschynomene martii Benth. Periandra coccinea (Schrad.) Benth.
Aeschynomene viscidula Michx. Platymiscium floribundum Vogel
Amburana cearensis (Allemão ) A.C.Smith Platymiscium pubescens Micheli
Andira anthelmia (Vell.) J.F.Macbr. Platypodium elegans Vogel
Andira fraxinifolia Benth. Poecilanthe subcordata Benth.
Arachis dardanoi Krapov. & W.C.Greg. Poecilanthe ulei (Harms) Arroyo & Rudd
Arachis pusilla Benth. Poiretia punctata (Willd.) Desv.
Arachis sylvestris (A.Chev.) A.Chev. Pterocarpus ternatus Rizzini
Arachis triseminata Krapov. & W.C.Greg. Pterocarpus villosus (Mart. ex Benth.) Benth.
Bocoa mollis (Benth.) Cowan Pterocarpus zehntneri Harms
Camptosema aff. paraguariense (Chodat & Hassl.) Hassl. Pterodon abruptus (Moric.) Benth.
Camptosema pedicellatum Benth. Rhynchosia edulis Griseb.
Camptosema spectabile (Tul.) Burk. Riedeliella graciliflora Harms
Canavalia brasiliensis Mart. Ex Benth. Stylosanthes bahiensis t Mannetje & G.P.Lewis
Canavalia dictyota Piper Stylosanthes capitata Vogel
Centrolobium sclerophyllum Lima sp. nov. Stylosanthes debilis M.B.Ferreira & Souza Costa
Centrosema arenarium Benth. Stylosanthes humilis Kunth
Centrosema brasilianum (L.) Benth. Stylosanthes scabra Vogel
Centrosema virginianum (L.) Benth. Stylosanthes viscosa Sw.
Chaetocalyx blanchetiana (Benth.) Rudd Tephrosia cinerea (L.) Pers.
Chaetocalyx scandens (L.) Urb. Tephrosia purpurea (L.) Pers.
Clitoria stipularis Benth. Vigna candida (Vell.) Maréchal, Mascherpa & Stainier
Coursetia rostrata Benth. Zornia brasiliensis Vogel
Coursetia vicioides (Nees & Mart.) Benth. Zornia echinocarpa (Moric.) Benth.
Cratylia bahiensis L.P.Queiroz Zornia gemella (Willd.) Vogel
Cratylia mollis Mart. ex Benth. Zornia glabra Desv.
Crotalaria bahiensis Windler & Skinner Zornia harmsiana Standley
Crotalaria brachycarpa Benth. Zornia myriadena Benth.
Crotalaria harleyi Windler & Skinner Zornia sericea Moric.
Crotalaria holosericea Nees & Mart. Zornia ulei Harms

83
Anexo 3 - Forrageiras nativas da bacia do Parnaíba (adaptado de Nascimento et al. 1999).
Família / espécie Família / espécie
Acanthaceae Convolvulaceae
Anisacanthus trilobus Lindau Jacquemontia ferruginea Choisy
Ruellia paniculata L. Merremia aegyptia (L.) Urb.

Amaranthaceae Cucurbitaceae
Althernanthera brasiliana (L.) Kuntze Momordica charantia L.
Althernanthera tenella Colla
Amaranthus lividus L. Cyperaceae
Amaranthus spinosus L. Cyperus amabilis Vahl
Blutaparon vermiculare (L.) Mears Cyperus articulatus L.
Froelichia humboldtiana (Roem. & Schult.) Seub. Kyllinga squamulata Vahl
Gomphrena leucocephala Mart. Scleria lacustris Wright
Scleria micrococca Steud.
Asteraceae
Spondias tuberosa Arruda Euphorbiaceae
Spondias sp. Croton compressus Lam.
Acmella uliginosa (Sw.) Cass. Croton glandulosus L.
Aspilia cearensis J.U.Santos Croton heliotropiifolius Kunth
Blainvillea rhomboidea Cass. Croton hirtus L’Her.
Croton mucronifolius Muell. Arg.
Bignoniaceae Croton pedicellatus Kunth
Melanthera latifolia Gardn. Croton sonderianus Muell.- Arg.
Pectis oligocephala (Gardner) Sch.Bip. Manihot caerulescens (Pohl em.) Müll.Arg.
Stilpnopappus pratensis Mart. ex DC. Manihot sp.
Stilpnopappus procumbens Gardner
Stilpnopappus cf. trichospiroides Mart. ex DC. Gentianaceae
Adenocalymma marginatum DC. Schultesia brachyptera Cham.
Adenocalymma sp.
Arrabidaea sp. Labiatae
Tabebuia impetiginosa (Mart. ex DC.) Stand. Hyptis pectinata (L.) Poit.
Tabebuia sp. Hyptis suaveolens (L.) Poit.
Marsypianthes chamaedrys (Vahl) Kuntze
Bixaceae
Caesalpiniaceae
Cochlospermum regium (Mart.) Pilg.
Bauhinia brevipes Vogel
Bauhinia dubia G.Don
Bombacaceae Bauhinia flexuosa Moric.
Pseudobombax sp. Bauhinia glabra Jacq.
Bauhinia cf. membranacea Benth.
Boraginaceae Bauhinia pentandra (Bong.) Vogel ex Steud.
Cordia piauhiensis Fresen. Bauhinia platipetala Burch.
Bauhinia pulchella Benth.
Capparaceae Bauhinia subclavata Benth.
Capparis cynophallophora L. Bauhinia ungulata L.
Cleome spinosa Jacq Bauhinia sp.
Caesalpinia bracteosa Tul.
Chrysobalanaceae Caesalpinia ferrea Mart. ex Tul.
Licania tomentosa (Benth.) Fritsch Caesalpinia cf. gardneriana Benth.
Cenostigma gardnerianum Tul.
Chamaecrista calycioides (Collad.) Greene
Combretaceae
Chamaecrista desvauxii (Collad.) Killip
Combretum leprosum Mart.
Chamaecrista eitenorum H.S.Irwin & Barneby
Terminalia sp.
Chamaecrista rotundifolia (Pers.) Greene
Thiloa glaucocarpa Eichl.
Chamaecrista sp.
Hymenaea courbaril L. var. stilbocarpa
Commelinaceae Martiodendron mediterraneum (Mart. Ex Benth.) Koeppen
Commelina sp. Senna lechriosperma H.S.Irwin & Barneby

84
Anexo 3 - Forrageiras nativas da bacia do Parnaíba (adaptado de Nascimento et al. 1999). Continuação

Família / espécie Família / espécie


Caesalpiniaceae (continuação) Papilionoideae (continuação)
Senna obtusifolia (L.) H.S.Irwin & Barneby Stylosanthes humilis Kunth
Senna occidentalis (L.) Link Swartzia sp.
Senna spectabilis (DC.) H.S.Irwin & Barneby Zornia aff. brasiliensis Vogel
Senna uniflora (P. Mill.) H.S.Irwin & Barneby Zornia cearensis Huber
Senna sp. Zornia cf. gemella (Willd.) Vogel
Zornia cf. latifolia Sm.
Mimosaceae Zornia sericea Moric.
Acacia langsdorfii Benth.
Acacia riparia Kunth Malvaceae
Acacia sp. Malachra fasciata Jacq.
Albizia niopioides (Spruce ex Benth.) Burkart Malvastrum coromandelianum (l.) Garcke
Calliandra sp. Pavonia cancelata (L.f.) Cav.
Desmanthus virgatus (L.) Willd. Sida acuta Burm.f.
Dimorphandra gardneriana Tul. Sida aggregata C.Presl.
Mimosa acutistipula Benth. Sida ?angustissima A.St.-Hil.
Mimosa caesalpiniifolia Benth. Sida ciliaria L.
Mimosa hirsutissima Mart. Sida cordifolia L.
Mimosa quadrivalvis L. var. leptocarpa (DC.) Barneby Sida decumbens A.St.-Hil. & Naudin
Mimosa sensitiva L. Sida rhombifolia L.
Mimosa tenuiflora (Willd.) Poir. Sida spinosa L.
Mimosa ursina Mart.
Mimosa verrucosa Benth. Moringaceae
Mimosa sp. Moringa sp.
Parkia platycephala Benth.
Piptadenia moniliformis Benth. Myrtaceae
Piptadenia stipulacea (Benth.) Ducke Eugenia pucinifolia (Kunth) DC.
Samanea saman (Jacq.) Merr.
Plathymenia sp. Nyctaginaceae
Boerhavia diffusa L.
Papilionoideae
Aeschynomene aff. brasiliana (Poir.) DC. Onagraceae
Aeschynomene evenia Wright Ludwigia hyssopifolia (G.Don) Exell
Aeschynomene paniculata Willd. ex Vogel
Aeschynomene sp. Opiliaceae
Calopogonium mucunoides Desv. Agonandra brasiliensis Benth. & Hook.f.
Calopogonium sp.
Canavalia brasiliensis Mart. ex Benth. Poaceae
Centrosema brasilianum (L.) Benth. Aristida longifolia Trin.
Centrosema coriaceum Benth. Aristida setifolia Kunth
Cratylia argentea (Desv.) Kuntze Axonopus complanatus (Nees. Ex Trin.) Dedecca
Cratylia mollis Mart. ex Benth. Axonopus purpusii Chase
Crotalaria sp. Brachiaria fasciculata (Sw.) Parodi
Desmodium glabrum (Mill.) DC. Brachiaria mollis (Sw.) Parodi
Desmodium incanum (Sw.) DC. Digitaria ciliaris (Retz.) Koell.
Desmodium tortuosum (Sw.) DC. Digitaria filiformis Koell.
Dioclea grandifolia Mart. ex Benth. Digitaria insularis (L.) Mez ex Ekman
Dioclea guianensis Benth. (Benth.) Maxwell Digitaria nuda Schumach.
Dioclea sp. Echinochloa polystachya (Kunth) Hitchc.
Discolobium hirtum Benth. Eleusine indica (L.) Gaertn.
Galactia texana (Scheele) A.Gray Eragrostis ciliaris (L.) R.Br.
Luetzelburgia auriculata (Allemão) Ducke Eragrostis maypurensis (Kunth) Steud.
Macroptilium gracile (Poepp. ex Benth.) Urb. Eragrostis tenella (L.) Roem. & Schult.
Macroptilium longepedunculatum (Mart. ex Benth) Urb. Gymnopogon sp.
Macroptilium lathyroides (L.) Urb. Hymenachne amplexicaulis (Rudge) Nees
Stylosanthes angustifolia Vogel Ichnanthus sp.
Stylosanthes capitata Vogel Lasiacis sorghoidea (Desv.) Hitchc. & Chase

85
Anexo 3 - Forrageiras nativas da bacia do Parnaíba (adaptado de Nascimento et al. 1999).
Continuação

Família / espécie Família / espécie


Poaceae (continuação) Solanaceae
Mesosetum loliiforme (Steud.) Chase Physalis angulata L.
Panicum hirticaule C.Presl. Solanum crinitum Lam.
Panicum laxum Sw.
Panicum pilosum Sw.
Sterculiaceae
Panicum trichoides Sw.
Guazuma ulmifolia Lam.
Paspalum malacophyllum Trin.
Melochia parvifolia HBK.
Paspalum maritimum Trin.
Waltheria albicans Turcz.
Paspalum multicaule Poir.
Waltheria brachypetala Turcz.
Paspalum plicatulum Michx.
Pennisetum polystachyum Schult. Waltheria bracteosa A.St.-Hil. & Naudin
Setaria parviflora (Poir.) Kerguélen Waltheria indica L.
Setaria tenacissima Schrad. ex Schult. Waltheria operculata Rose
Sorgum halepense (L.) Pers. Waltheria petiolata K.Scum.
Steinchisma hians Nash
Streptostachys asperifolia Desv. Tiliaceae
Trachypogon macroglossus Trin. Corchorus hirtus L.
Trachypogon spicatus (L.f.) Kuntze Triumfeta rhomboidea Jacq.
Urochloa mosambicensis (Hack.) Dandy

Rhamnaceae Turneraceae
Ziziphus cotinifolia Reissek Turnera melochioides Cambess.
Turnera subulata sm.
Rubiaceae Turnera ulmifolia L.
Borreria densiflora DC. Turnera sp.
Borreria scabiosoides Cham. & Schltdl.
Borreria sp. Verbenaceae
Chomelia obtusa Cham. & Schltdl. Lippia cf. sidoides Cham.
Diodia radula Cham. & Schltdl. Lippia sp.
Diodia teres Walter Stachytarpheta sp.
Palicourea crocea (Sw.) Roem. & Schult.
Richardia grandiflora (Cham. & Schltdl.) Steud.
Richardia scabra L. Zygophyllaceae
Richardia sp. Kallstroemia tribuloides Wight & Arn.

86
Anexo 4 - Espécies frutíferas do Nordeste (adaptado de Pinto 1993).
Família Espécie Nome vulgar
Anacardiaceae Anacardium humile St. Hil. Cajuí
Anacardium occidentale L. Caju
Anacardium prumilum Cajuí
Spondias dulcis Forst. Cajarana
Spondias lutea L. Cajá
Spondias sp. Cajá-de-macaco
Spondias sp. x S. tuberosa Arr. Cam. Cajá-umbu
Spondias tuberosa Arr. Cam. Imbu, umbu
Annonaceae Annona coriacea Mart. Araticum
Annona crassiflora Mart. Bruto, cabeça-de-negro, marolo
Annona crassifolia Mart. Araticum
Annona glabra L. Araticum-do-brejo, araticum-cortiça, panã
Annona marcgravii Mart. Araticum
Annona salzmannii A.DC Araticum
Annona spinescens Mart. Araticum-de-espinho
Annona vepretorum Mart. Bruteira
Duguetia sp. Pinha-braba
Guatteria vilosissima Mart. Pindaíba
Rollinia aff. laurifolia Schlecht. Pinha-do-campo
Rollinia cf. laurifolia Schlecht. Carapiá
Rollinia exalbida Mart. Pinha-do-campo
Rollinia rugulosa Schlecht. Cortiça
Rollinia sericea R.E.Fries Cortiça
Apocynaceae Couma rigida Muell. Arg. Mucugê
Hancornia speciosa Gomez Mangaba
Lacmellea poussiflora (Kuhlm.) Monachino Chananã
Macoubea guianensis Aubl. Piquiá, pitiá-de-leite
Macoubea sprucei Muell. Arg. Pitiá-de-leite
Arecaceae Bactris acanthocarpa Mart. Mané-veio
Bactris ferruginea Burret Mané-veio
Syagrus coronata (Mart.) Becc. Licuri, ouricuri
Syagrus matafome (bondar) Glassm. Coco-mata-fome
Syagrus oleracea (Mart.) Becc. Catolé
Syagrus olerrupacea (C.Mart.) Becc. Guabiroba
Syagrus schizophylla (C.Mart.) Glassman Ariri
Bombacaceae Bombacopsis glabra (Pasq.) A.Robyns Castanha-do-Maranhão
Pachira sp. Cacau-brabo
Boraginaceae Cordia superba Cham. Baba-de-boi, grão-de-galo
Bromeliaceae Ananas bracteatus Ananás
Cactaceae Brasiliopuntia bahiensis Br. et R. Cumbeba
Brasiliopuntia brasiliensis (Willd.) Berger cumbeba
Caesalpiniaceae Dialium guianense Aubl. Sandw. Jitaí-amarelo
Hymenaea courbaril L. Jatobá
Hymenaea oblongifolia Lee & Lang Jatobá-burundanga
Capparaceae Crataeva tapia L. Trapiá
Caricaceae Carica quercifolia (ST. Hil.) Solms Mamão-de-saruê
Jacaratia dodecaphylla A.DC Mamão-de-veado
Caryocaraceae Caryocar brasiliensis Camb. Piqui-verdadeiro
Caryocar coriaceum Wittm. Piqui-brabo
Caryocar edulis Casar. Piqui-vinagreiro
Chrysobalanaceae Chrysobalanus icaco L. Guairu
Couepia impressa Prance Oiti
Couepia rufa Ducke Oiti-boi
Couepia uiti Benth. Oiti-da-mata
Licania parviflora Benth. Quiri
Licania salzmannii (Hook f.) Fritsch. Oiti-coró
Licania tomentosa (Benth.) Fritsch. Oiti-mirim
Clusiaceae Rheedia brasiliensis (Mart.) Planch. Bacupari
Rheedia macrophylla (Mart.) Pl. & Tr. Bacupari
Fabaceae Geoffroea striata (Willd.) Morong Umarí
Lecythidaceae Lecythis pisonis Comb. Sapucaia
Malpighiaceae Byrsonima stipulacea ª Juss. Murici-branco
Byrsonima verbascifolia Rich. Ex Juss. Murici-de-taboleiro
Melastomataceae Clidemia hirta Don Pixixica
Henriettea succosa (Aubl.) DC. Mundurucu
Mouriri gardneri Triana Puçá-de-porco
Mouriri puca Gardn. Puçá

87
Anexo 4 - Espécies frutíferas do Nordeste (adaptado de Pinto 1993). Continuação

Família Espécie Nome vulgar


Mimosaceae Inga affinis Benth. Ingá-cipó
Inga fagifolia Willd. Ingá-i
Inga marginata Willd. Ingá-mirim
Inga nuda Salz. Ingá-sabão
Inga sessilis (Vell.) Mart. Ingá-ferradura
Inga striata Benth. Ingá-cachão
Moraceae Pouroma cecropiaefolia Mart. Tararanga-preta
Pouroma guianensis Aubl. Tararanga-branca, uva-de-macaco
Pouroma mollis Tréc. Tararanga-vermelha
Myrtaceae Campomanesia guaviroba (DC) Kiarersk Guabiraba, guabiroba
Campomanesia littoralis Legr. Guabiraba
Campomanesia xanthocarpa Berg. Guabiraba, guabiroba
Eugenia brasiliensis Lam. Grumixama
Eugenia conjuncta Amshoff Guabiraba
Eugenia dysenterica DC. Beba, cagaita
Eugenia luschnathiana Berg. Pitomba-da-Bahia
Eugenia rostrifolia Legr. Batinga
Eugenia rotundifolia Cas. Murta-da-praia
Eugenia sp. Cabeludinha, murta-preta, uvaia
Eugenia uniflora L. Pitanga
Gomidesia spectabilis (DC.) Berg. Guamirim-vermelho
Myrcia sp. Cambuí
Myrciaria cauliflora Berg. Jaboticaba
Myrciaria jabuticaba Berg. Jaboticaba
Myrciaria trinciflora Berg. Jaboticaba
Psidium apiculatum Mattos Araçá-ferro
Psidium araca Raddi Araçá-mirim
Psidium cattleyanum Sabine Araçá-manteiga
Psidium guajava L. Goiaba
Psidium hians Mart. Araçá-da-catinga
Psidium incanescens Mart. Araçá
Psidium oligospermum DC. Araçá-de-porco
Psidium pigmaeum Yell. Marangaba
Psidium rubenscens Berg. Araçá
Psidium sp. Araçá-pedra
Psidium warmingianum Kiaersk Araçá-cagão
Olacaceae Ximenia americana L. Ameixa-de-espinho
Passifloraceae Passiflora coerulea L. Maracujá-da-praia
Passiflora edulis Maracujá-de-boi
Passiflora quadrangularis L. Maracujá-açú
Rhamnaceae Ziziphus joazeiro Mart. Joá-de-boi
Rosaceae Rubus erythroclada Mart. Amora-preta
Rubiaceae Alibertia edulis (L.C.Rich) O.A.C.Rich Marmelo-do-mato
Alibertia elliptica (Cham.) Schum. Marmelo-de-cachorro
Genipa americana L. Genipapo
Posoqueria macropus Mart. Carvãozinho
Sapindaceae Talisia esculenta Radlk. Pitomba
Sapotaceae Bumelia obtusifolia Roem. & Schult. Quixaba-da-praia
Bumelia sartorum Mart. Quixaba-preta
Chrysophyllum ebenaceum Mart. Inquirre
Chrysophyllum gonocarpum Mart. Preaca
Chrysophyllum rufum Mart. Fruta-de-pomba
Chrysophyllum sp. Bapeba-preta
Ecclinusa obovata (Mart.) Rich. Bapeba-branca
Ecclinusa ramiflora Mart. Bapeba-branca, acá
Ecclinusa sp. Bapeba-amarela
Manilkara elata (Fr. All) Monach. Abiu, paraju-branco
Manilkara longifolia (DC.) Dub. Paraju-vermelho
Manilkara salzmannii (A.DC.) H.J.Lam. Maçaranduba-da-praia, pichurra
Micropholis gardneriana (A.DC.) Pierre Bacumuxá
Pouteria chrysophylloides (Mart.) Radlk. Maçaranduba
Pouteria laurifolia Radlk. Maçaranduba-verdadeira
Pouteria ramiflora A.DC. João-de-leite,maçapã, maçaranduba
Pouteria rivicoa (Gaertn. f.) Ducke Toroba
Pouteria sp. Abiuzinho, bapeba, macaco-gorema
Solanaceae Myrcia citrifolia (Aubl.) Urb. Cambuí
Myrcia tomentosa (Aubl.) DC. Cambuí
Physalis angulata L. Camapú
Physalis higrophylla Mart. Camapú
Physalis neesiana Sendtn. Camapú
Physalis pubescens L. Camapú

88
Anexo 5 - Plantas do Nordeste selecionadas pelo projeto “Farmácias Vivas”
(Matos 1999a) por sua eficácia e segurança terapêuticas.
Nome vulgar mais Nome científico Propriedade terapêutica Princípio ativo ou grupo de
comum no Nordeste mais evidente substâncias suspeitas de atividade
Acerola Malpighia glabra L. Anti-infeccioso Vitamina C
Açafroa Curcuma longa L. Colagogo, digestivo, anti-PAF Curcumina
Agrião-bravo Acmella uliginosa (Sw.) Cass. Anestésico local Espilantol
Agrião-do-brejo Eclipta alba Hassk. Imuno-estimulante, hepatoprotetor Wedelolactona
Alecrim Rosmarindus officinalis L. Carminativo Óleo essencial (?)
Alecrim da chapada Lippia gracillis HBK Anti-séptico local Óleo essencial, timol
Alecrim de tabuleiro Lippia microphylla Cham. Balsâmico, expectorante Óleo essencial, 1,8-cineol
Alecrim de vaqueiro Lippia aff. gracilis H.B.K. Anti-séptico local Óleo essencial, timol
Alecrim-pimenta Lippia sidoides Cham. Antibacteriano e antifúngico local Óleo essencial, timol
Alfavaca-cravo Ocimum gratissimum L. Anti-séptico bucal Óleo essencial, eugenol
Aroeira Myracrodruon urundeuva Fr.All. Cicatrizante de mucosas, antiúlcera gástrica Taninos, urundeuvinas (?)
Babosa Aloe barbadensis Mill. Cicatrizante da pele, laxante Aloeferon, antraquinônicas, aloinas
Batata-de-purga (amarela) Operculina alata (Ham.) Urban. Laxante, purgativo Resina, jalapina, convolvulina
Batata-de purga (branca) Operculina macrocarapa (L.) Farwel. Laxante, purgativo Resina, jalapina, convolvulina
Boldo do Chile ( * ) Peumus boldus Molina Colagogo Boldina, oleo essencial
Cajazeira Spondias mombin L. Anti-herpético Elagitaninos, geranina
Cajueiro Anacardium occidentale L. Antiinflamatório Epicatequina
Camomila Matricaria chamomila L.) Antiespasmódico Azuleno, bisabolol, spiroeter
Capim-santo Cymbopogon citratus Stapf.) Calmante, amtespasmódico Óleo essencial, citral, mirceno
Chá-do-rio Capraria biflora L. Antimicrobiano local Naftoquinona, biflorina
Chá-preto Thea sinensis Sims. Estimulante, anticolérico Taninos especiais, catequina
Chambá Justicia pectoralis var. stenophylla Leon. Bronco-dilatador Derivados cumarínicos (?)
Confrei Symphytum officinale L. Cicatrizante Alantoína
Colônia Alpinia speciosa Schum. Tranquilizante, Antihipertensivo Óleo essencial (?)
Cumaru Amburana cearensis (Fr. All.) A.C.Smith Broncodilatador, expectorante Derivados cumaríncos (?)
Estramônio Datura stramonium L. Antiespasmódico Alcalóides tropânicos, escopolamina
Estramônio roxo Datura tatula L. Antiespasmódico Alcalóides, escopolamina
Eucalipto medicinal Eucaliptus globulos Lab. Balsâmico, expectorante 1,8-cineol (eucaliptol)
Goiabeira Psidium guajava L. Antidiarrêico Taninos e rutina (?)
Guaco Mikania glomerata Spreng. Broncodilatador Derivados cumarínicos
Hortelã japonesa Mentha arvensis L. Anti-vomitivo, carminativo Óleo essencial, mentol
Hortelã pimenta Mentha x piperita L. Carminativo Óleo essencial, mentol
Hortelã rasteira Mentha x villosa Huds. Antiparasitáro (protozoários) Óxido de piperitenona (?)
Juazeiro Zizyphus joazeiro Mart. Anticárie, anticaspa Saponinas
Macela da terra Egletes viscosa (L.) Less. Estomáquico Ternatina (?)
Macela do reino Tanacetum parthenium (L.) Sch. Bip. Estomáquico PA: partenolidios
Malva santa Plectranthus barbatus Amdr. Antidispéptico, hipossecretor gástrico Óleo essencial (?)
Malvariço Plectranthus amboinicus (Lour.) Spreng. Anti-séptico local (garganta) Timol, mucilagem
Maracujá Passiflora edulis Sims. Calmante Glicosídios (?)
Mastruço Chenopodium ambrosioides L. Anti-séptico local, vermífugo Óleo essencial, ascaridol
Mentrasto Ageratum conyzoides L. Antiinflamatório Desconhecido
Mororó Bauhinia forficata Link. Hipoglicemiante Desconhecido
Moringa Moringa oleifera Lam. Antimicrobiano Pterigospermina
Mostarda Brassica integrifolia O.E. Schultz. Revulsivo alil-senevol, mirosina
Pau d’arco amarelo Tabebuia serratifolia Nich. Antiinflamatório Naftoquinonas, lapachol
Pau d’arco roxo Tabebuia avellanedeae L. Antiinflamatório Naftoquinonas, lapachol
Poejo Mentha pulegium L. Carminativo, emenagogo Óleo essencial, pulegona, mentol
Romã Punica granatum L. Adstringente, tenífugo Taninos, peletierina
Quebra-pedra Phyllanthus niruri L. Antilitíase renal Flavonóides, filantina (?)
Sene ( * ) Senna alexandrina P. Mills. Laxante Antraquinonas, senosídios
Torém ou Imbaúba Cecropia glaziovvi Sneth. Anti-hipertensivo Desconhecido
Vassourinha Scoparia dulcis L. Hipoglicemiante Amelina ou antidiabetina (?)

( * ) comercial

89
Anexo 6 - Plantas medicinais em estudo.
Família Espécie Nome vulgar
Peumus boldus Molina (5) Boldo-do-chile
Plectranthus barbatus Andr. (5) Malva-sete-dor
Acanthaceae Ruelia asperula Lindau (2) Meladinha
Amaranthaceae Gomphrena demissa Mart. (2) Capitãozinho
Anacardiaceae Anacardium occidentale L. (4) Caju
Myracrodruon urundeuva Allemão (2) Aroeira
Annonaceae Annona muricata L. (1) Graviola
Apocynaceae Mandevilla velutina) Woodson (1) Jalapa-do-campo, jalapa-silvestre
Allamanda blanchetii A.DC. (2) Quatro-patacas
Asclepiadaceae Calotropis procera (Aiton) W.T.Aiton (1) Flor-de-seda, ciúme, casulo-de-seda, bombardeira
Asteraceae Ageratum conyzoides L. (1) Mentrasto-roxo, catinga-de-bode, erva-de-são-joão
Artemisia vulgaris L. (5) Anador
Egletes viscosa (L.) Less. (2) Macela
Matricaria chamomilla L. (5) Camomila
Bixaceae Bixa orellana L. (4) Urucum
Boraginaceae Heliotropium indicum L. (4) Crista-de-galo
Caesalpiniaceae Bauhinia sp. (3) Mororó
Caesalpinia ferrea Mart. Ex Tul. (4) Pau-ferro
Chenopodiaceae Chenopodium ambrosioides L. (4) Mastruz
Combretaceae Combretum leprosum Mart. (2) Mofumbo
Crassulaceae Kalanchoe crenata (Andrews) Haw. (1) Prá-tudo, folha-da-costa, folha-grossa
Crysobalanaceae Licania rigida Benth. (2) Oiticica
Euphorbiaceae Cnidoscolus phyllacanthus Pax & K.Hoffm. (2) Favela
Croton campestris A.St.-Hil. (2) Velame
Croton sp. (4) Marmeleiro
Euphorbia milii Des Moul. (1) Coroa-de-cristo
Jatropha elliptica (Pohl.) Mull.Arg. (1) Jalapa
Phyllanthus amarus Schum. & Thonn. (3) Quebra-pedra
Phyllanthus niruri L. (1) Quebra-pedra, arrebenta-pedra
Ricinus communis L. (5) Carrapateira
Gentianaceae Coutoubea spicata Aubl. (1) Genciana-brasileira, cutubea
Labiatae Mentha villosa Huds. (5) Hortelã-da-folha-miúda
Lamiaceae Leonotis nepetifolia (L.) R.Br. (3) Cordão-de-São-Francisco
Lauraceae Cinnamomum zeylanicum Nees (5) Canela-da-Índia
Lilliaceae Aloe vera L. (4) Babosa
Malvaceae Gossypium sp. (4) Algodão
Herissantia tiubae (K.Schum.) Brizicky (2) Mela-bode
Sida galheirensis Ulbr. (2) Ervanço
Mimosaceae Mimosa ophthalmocentra Mart. Ex Benth. (2) Jurema-preta
Myrtaceae Eucalyptus citriodora Hook. (5) Eucalipto
Eugenia uniflora L. (1) Pitangueira-vermelha, pitanga, pitangueira-do-campo
Nyctaginaceae Boerhavia coccinea Mill. (1) Pega-pinto
Olacaceae Ximenia coriacea Engl. (4) Ameixa-brava
Oxalidaceae Averrhoa carambola L. (3) Carambola
Papaveraceae Argemone mexicana L. (1) Cardo-santo
Papilionoideae Amburana cearensis (Allemão) A.C.Sm. (4) (5) Cumaru
Erythrina velutina Willd. (2) Mulungu
Poaceae Cymbopogon citratus (DC.) Stapf. (5) Capim-santo
Punicaceae Punica granatum L. (1) (4) Romanzeira, romeira-da-granada
Rhamnaceae Ziziphus joazeiro Mart. (2) (4) juazeiro
Rubiaceae Coutarea hexandra (Jacq.) K.Schum. (5) Quina-quina
Rutaceae Citrus aurantium L. (5) Laranja
Ruta graveolens L. (5) Arruda
Sapotaceae Bumelia sartorum Mart. (4) Quixaba
Umbeliferae Pimpinella anisum L. (5) Erva-doce
Verbenaceae Lippia alba N.E.Brown ex Britton & Wilson (1) (5) Erva-cidreira
Vitex sp. (3) Jaramataia

90
Quanto ainda
resta da Caatinga? Carlos Henrique Madeiros Castelletti
Universidade Federal de Pernambuco

Uma estimativa
José Maria Cardoso da Silva
Universidade Federal de Pernambuco
Conservation International do Brasil
Marcelo Tabarelli

preliminar
Universidade Federal de Pernambuco
André Maurício Melo Santos
Universidade Federal de Pernambuco

91
Zig Koch
Estrada na Caatinga

INTRODUÇÃO
A Caatinga é uma das maiores e sofrendo um processo intenso de
mais distintas regiões brasileiras (Ferri desertificação devido à substituição da
1980), compreendendo uma área vegetação natural por culturas,
aproximada de 734.478km 2 , o que principalmente através de queimadas. O
representa 70% da região Nordeste e 11% desmatamento e as culturas irrigadas
do território nacional (Bucher 1982). A estão levando à salinização dos solos,
área inclui partes dos estados do Piauí, aumentando ainda mais a evaporação da
Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, água neles contida e, dessa forma,
Pernambuco, Alagoas, Sergipe, Bahia e acelerando o processo de desertificação.
Minas Gerais. De modo geral, a biota da Ainda de acordo com Garda (1996),
Caatinga tem sido descrita na literatura somente a presença da vegetação das
como pobre, com poucas espécies caatingas, adaptada às condições locais,
endêmicas e, portanto, de baixa prioridade tem impedido a transformação do
para conservação. No entanto, estudos Nordeste brasileiro num imenso deserto.
recentes mostram que isso está longe de Apesar das ameaças à sua integridade,
ser verdade (Andrade-Lima 1982, Rodal menos de 2% da Caatinga está protegida
1992, Sampaio 1995, Garda 1996, Silva em unidades de conservação de proteção
& Oren 1997, MMA 2002). A Caatinga integral (Tabarelli & Vicente 2003).
possui um considerável número de Mesmo diante deste quadro alar-
espécies endêmicas, e além disso, a mante, até o momento não há uma
descrição recente de inúmeras espécies estimativa adequada sobre o quanto da
de animais e plantas endêmicas para a região da Caatinga foi alterada pelo
região indica que o conhecimento homem. Uma das razões para essa falta
zoológico e botânico da mesma é, ainda, de informações é a dificuldade técnica
bastante precário. Cita-se o exemplo de para classificar os diferentes tipos de
um estudo sobre o esforço amostral das vegetação de caatinga, assim como
coletas de um grupo de anfíbios, que distinguir as caatingas naturais das
identificou a Caatinga como uma das caatingas muito alteradas pela ação
regiões menos conhecidas em toda a antrópica. O IBGE (1993) identificou quais
América do Sul, possuindo extensas áreas as regiões da Caatinga foram modificadas
sem uma única informação (Heyer 1988). pelas atividades agropecuárias, mas a área
A Caatinga tem sido bastante encontrada pode não corresponder à
modificada pelo homem. Segundo Garda realidade. A questão é que existe uma
(1996), os solos nordestinos estão densa rede de estradas na região que pode

92
ter contribuído para ampliar as áreas
ecologicamente alteradas (Forman 2000).
MATERIAIS E MÉTODOS
A existência de estradas produz efeitos O mapa base utilizado para as
diversos que incluem, por exemplo, análises foi o Mapa de Vegetação do Brasil,
modificações no comportamento dos na escala 1:5.000.000 (IBGE 1993),
animais devido à sua construção e digitalizado na projeção a partir do mapa
manutenção, mortalidade por atropela- impresso, e sobreposto ao mapa com os
mento, alterações na vegetação, facilidade limites do bioma Caatinga. Em uma
de propagação de fogo, alterações no primeira análise, todas as classes de
ambiente químico, modificações no vegetação que foram classificadas pelo
ambiente físico, expansão de espécies IBGE como dominadas por atividades
exóticas e modificações no uso humano da agrícolas foram selecionadas e suas áreas
terra e água (Trombulak & Frissell 2000). calculadas com o uso da extensão
Dessa forma, torna-se importante conhecer Geoprocessing do programa ArcView
e incorporar os efeitos negativos das (ESRI 1998). Essa análise simples gerou a
estradas sobre a biota. primeira estimativa da área alterada no
Como as estradas podem inter- bioma Caatinga.
romper fluxos ecológicos na paisagem, os A segunda análise teve como
efeitos ambientais que elas causam se objetivo estimar o efeito das estradas
estendem muito mais do que simples- sobre a Caatinga. Para isso, um mapa
mente as áreas utilizadas na sua construção com as principais estradas da região foi
e manutenção (Forman 1995). Portanto, digitalizado. Ao longo desse sistema de
para estimar a área de alteração de uma estradas foram feitas simulações
estrada é essencial conhecer a largura da utilizando-se como largura média da
“zona de efeito da estrada” (Forman 2000). “zona de efeito da estrada” as seguintes
Um estudo-piloto realizado em Xingó, uma distâncias: um, três, cinco, sete e dez
região da Caatinga entre os estados de quilômetros. A área total do impacto para
Sergipe e Alagoas, demonstrou que o cada simulação foi calculada e
impacto da estrada se estende em média adicionada à primeira estimativa baseada
por até sete quilômetros (Santos 2000). somente no IB GE (1993). Essas
Essa conclusão foi baseada em análises de simulações foram realizadas com o uso
imagens de satélite da região, a partir da da extensão Xtools do programa ArcView
relação entre a presença das estradas e a (ESRI 1998). O cálculo das áreas foi
distribuição dos remanescentes de realizado com o uso do Script Calc_Area,
vegetação na paisagem. Segundo o autor, que deve ser utilizado com a projeção
a faixa de sete quilômetros ao longo das Equal_Area Cylindrical no programa
estradas continha apenas 10% da cobertura ArcView (ESRI 1998).
vegetal, e os remanescentes de caatinga A diversidade de paisagens da
existentes nessa faixa eram pequenos Caatinga foi estimada pela EMBRAPA
(< 200ha) e isolados, portanto ecologi- (2000) no âmbito do Zoneamento
camente inviáveis. Agroecológico do Nordeste, no qual um
Este capítulo combina a estimativa mapa sintético com a identificação de todas
do IBGE (1993) com uma modelagem as unidades geoambientais da região foi
realizada a partir do trabalho de Santos produzido. Cada unidade geoambiental foi
(2000) para estimar o efeito ecológico do identificada a partir de uma combinação
atual sistema de estradas na região da de informações sobre altitude, expressão
Caatinga. O objetivo é responder às geográfica e tipo de cobertura vegetal
seguintes questões: (a) Qual a área total natural. Essas unidades geoambientais
da Caatinga que já foi alterada pelo foram também agrupadas em Grandes
homem?; (b) O quanto da diversidade de Unidades de Paisagem (EMBRAPA 2000).
paisagens da Caatinga já foi perdida? Para estimar a perda da diversidade de

93
paisagens na Caatinga foi feita a A área de impacto das estradas
sobreposição entre os mapas de adicionada à área estimada pelo IBGE
antropismo resultante das duas análises (1993) como dominada por atividades
anteriores com o mapa de unidades agrícolas aumenta substancialmente de
geoambientais. Utilizando -se dos acordo com a largura adotada para a
comandos Clip e Erase das extensões “zona de efeito da estrada”. Dessa forma,
Xtools e Geoprocessing do programa com a largura de um quilômetro, a área
ArcView (ESRI 1998), foi possível calcular adicionada foi de 21.314km2; com três
o quanto de cada uma dessas unidades foi quilômetros foi de 57.637km2; com cinco
alterado pelas atividades antrópicas. quilômetros foi de 95.232km2; com sete
quilômetros foi de 131.057km2; e com
dez quilômetros foi de 177.779km 2 .
Assim, dependendo da largura da “zona
RESULTADOS de efeito da estrada” adotada, a área
alterada pelo homem na Caatinga varia
Utilizando somente as informações de 223.100km2 (30,4%) a 379.565km2
do IBGE (1993), estimou-se que a área (51,7%).
coberta por atividades agrícolas na região As áreas da Caatinga que não foram
é de 201.786km2, o que corresponde a influenciadas pelas atividades humanas
27,5% da área da Caatinga. Essa área formam um arquipélago, composto por
modificada se estende por praticamente “ilhas” – áreas de vegetação nativa pouco
toda a Caatinga (Figura 1). alteradas – de diferentes tamanhos,

Figura 1
Área coberta por
atividades
agrícolas no bioma
N Caatinga.
(baseado no
0 200 km mapa de
vegetação do
Brasil, IBGE 1993).

94
(Tabela 1). Adotando-se a largura de um
Tabela 1 - Número de ilhas, áreas mínima, máxima e média (em km2), quilômetro foram formadas 243 “ilhas”,
e desvio-padrão, de acordo com a largura adotada para a sendo que 28,4% não ultrapassam 50km2 e
“zona de efeito da estrada”. somente 14 dessas áreas são maiores que
10.000km2 (Figura 2A). Foram encontradas
Número Área Área Área Desvio- 221 “ilhas” para a largura de três
Largura
de ilhas Mínima Máxima Média padrão
quilômetros, sendo 27,1% menores que
1 km 243 0,03 41.212 2.104 4.924
50km2 e 13 áreas maiores que 10.000km2
3 km 221 0,05 32.952 2.150 5.069
(Figura 2B). Com a largura de cinco
5 km 207 0,05 32.306 2.113 4.738
quilômetros existem 207 “ilhas”, das quais
7 km 200 0,02 23.927 2.008 4.052
29% são menores que 50km2 e nove áreas
10 km 172 0,10 22.767 2.063 3.950
ultrapassam 10.000km2 (Figura 2C). Já para
a largura de sete quilômetros são 200 “ilhas”
das quais 30,5% não ultrapassam 50km2 e
cercadas por uma rede complexa de áreas nove são maiores que 10.000km2 (Figura
alteradas. O número de “ilhas” formadas, 2D). Para a largura de maior tamanho, a de
assim como seu tamanho máximo e 10 km, 172 “ilhas” foram encontradas, das
mínimo, variou de acordo com a largura quais 30,23% são menores que 50km2 e 9
adotada para a “zona de efeito da estrada” ultrapassam os 10.000 km2 (Figura 2E).

A B C

Figura 2
Áreas alteradas no
bioma Caatinga.
As regiões em verde
representam as “ilhas”
de vegetação nativa
pouco alterada
identificadas após a
exclusão das áreas
agrícolas e da “zona de N
efeito da estrada” a partir
0 200 km
dos seguintes modelos D E
de largura: A = 1 km,
B = 3 km, C = 5 km,
D = 7 km e E = 10 km.

95
Foram identificadas 135 unidades GUPs perderam entre 21 e 40%, seis entre
geoambientais (UGs) para a área da 41 e 60% e três entre 61 e 80%.
Caatinga, distribuídas em 18 Grandes Para as unidades geoambientais o
Unidades de Paisagem (GUP). Inde- resultado obtido foi o seguinte:
pendentemente da largura adotada para considerando a “zona de efeito da estrada”
a “zona de efeito da estrada” nenhuma com um quilômetro de largura, 77
unidade geoambiental ou Grande Unidade unidades perderam entre 0 e 20% de sua
de Paisagem foi totalmente perdida. área e somente cinco unidades perderam
Entretanto áreas maiores dessas unidades entre 81 e 100% de área (Figura 4). Para a
foram danificadas quanto maior a largura largura de três quilômetros, 61 unidades
da “zona de efeito da estrada” adotada perderam entre 0 e 20% de sua área e
(Figura 3). Adotando-se a largura de um somente cinco unidades ficaram na
quilômetro, sete GUPs perderam entre 0 e categoria de 81 a 100% de perda de área.
20% de sua área, sete GUPs perderam entre Adotando -se a largura de cinco
21 e 40% e quatro de 41 a 60%. Para a quilômetros, 50 unidades perderam entre
largura de três quilômetros, sete GUPs 0 e 20% de área e sete unidades entre 81 e
perderam de 0 a 20% da área, seis 100%. Com a largura de sete quilômetros,
perderam de 21 a 40% e cinco de 41 a 60%. 39 unidades perderam entre 0 e 20%, 26
Com cinco quilômetros de largura, cinco entre 21 e 40%, 30 entre 41 e 60%, 21 entre
GUPs perderam entre 0 a 20% de sua área, 61 e 80% e 13 entre 81 e 100%. E
sete perderam de 21 a 40% e seis entre 41 considerando a largura de dez quilômetros,
e 60%. Adotando-se sete quilômetros de as perdas de área se distribuíram de forma
largura, dez GUPs perderam entre 21 e 40% semelhante entre as cinco categorias, 31
de sua área, seis perderam entre 41 e 60% entre 0 e 20%, 23 entre 21 e 40%, 30 entre
e duas entre 61 e 80%. E para a maior 41 e 60%, 33 entre 61 e 80% e 18 entre 81
largura adotada, dez quilômetros, nove e 100% (Figura 4).

10

8 Lagura da zona de
efeito da estrada
7 10 km
Número de Grandes Unidades de Paisagens

7 km

6 5 km

3 km
5 1 km

1
Figura 3
Distribuição das
Grandes Unidades
0
0 - 20 21 - 40 41 - 60 61 - 80 81 - 100 de Paisagem por
Classe de perda de área (em %) categoria de perda
de vegetação nativa.

96
80

70

Lagura da zona de
60 efeito da estrada
10 km

7 km
Número de Unidades Geoambientais

50
5 km

3 km
40
1 km

30

20

Figura 4
10
Distribuição das
Unidades
Geoambientais 0
por categoria de 0 - 20 21 - 40 41 - 60 61 - 80 81 - 100

perda de Classe de perda de área (em %)


vegetação nativa.

DISCUSSÃO
Independente da estimativa adotada, sete quilômetros como válida para todo o
uma importante parcela do bioma Caatinga bioma da Caatinga, a área total alterada
foi bastante modificada pelas atividades pelo homem na região será de
humanas. Algumas dessas áreas 332.843km2, ou seja, 45,3% da região
previamente ocupadas pela agricultura (Figura 5). Esse valor coloca a Caatinga
possuem grande risco de desertificação, como o terceiro bioma brasileiro mais
exigindo ações urgentes de restauração da modificado pelo homem, sendo
vegetação original (MMA 1998). ultrapassado apenas pela Floresta Atlântica
Certamente, a porcentagem da e pelo Cerrado.
vegetação original da Caatinga alterada por O cruzamento do mapa das 135
atividades antrópicas é superior aos 28% unidades geoambientais da Caatinga
estimados através do mapa produzido pelo com o das áreas alteradas permite
IBGE (1993), e uma análise do impacto observar que a área de nenhuma UG foi
causado pelo sistema de estradas totalmente modificada, mas muitas se
efetivamente adiciona informações encontram em mal estado de conser-
importantes para uma estimativa mais vação. Para qualquer das larguras
acurada. O ponto crítico dessa estimativa adotadas para a “zona de impacto da
está na determinação de uma largura estrada” as unidades geoambientais
média da “zona de impacto da estrada” foram muito fragmentadas e algumas
adequada para a região, pois há poucos foram reduzidas à pequenas áreas.
estudos sobre esse assunto no mundo O número de “ilhas” formadas entre
(Forman 2000). Se adotarmos a largura as áreas alteradas evidencia o quanto a
média da “zona de impacto da estrada” de Caatinga foi fragmentada pela ação

97
Figura 5
Áreas alteradas no
bioma Caatinga.
As áreas alteradas são
compostas pelas
áreas agrícolas e pela
Vias (7km) “zona de efeito da
Áreas não-alteradas estrada” mais provável
Áreas alteradas na região (7 km) ao
longo das principais
rodovias do bioma
Caatinga.

antrópica. A maioria dessas “ilhas” possui desaparecimento de espécies de organismos


menos que 50km2 para qualquer largura endêmicos de algumas dessas unidades
do efeito da estrada (Figura 6). Consi- geoambientais. Bierregaard & Lovejoy Jr.
derando a “zona de efeito da estrada” de (1989) observaram que a composição da
sete quilômetros de largura, somente nove comunidade de aves da Amazônia decrescia
“ilhas” possuem mais de 10.000km2, o drasticamente em fragmentos com menos
que comprova como a região está de dez hectares. Hagan et al. (1996),
fragmentada. estudando o efeito da fragmentação sobre
A fragmentação das unidades as aves, indicaram que algumas espécies
geoambientais, e conseqüente fragmentação sofrem alteração na densidade populacional
de toda a Caatinga, pode levar ao quando os ecossistemas são fragmentados.

98
70

Lagura da zona de
efeito da estrada
60
10 km

7 km

50 5 km

3 km

1 km
Número de “ilhas”

40

Figura 6 30

Distribuição
das “ilhas” de
vegetação 20

nativa que
foram pouco
10
alteradas pelas
atividades
antrópicas por 0
categoria de 0 - 50 50 - 200 200 - 1000 1000 - 10000 10000 -

tamanho, no Tamanho das áreas (em km )


2

bioma Caatinga

Dependendo da espécie, essa variação pode • Novas unidades de conservação devem


ser positiva ou negativa. Esses autores ser criadas no centro das grandes áreas
relataram que os furnarídeos são 37% mais nucleares de vegetação original ainda
abundantes nos fragmentos do que em existentes entre as áreas alteradas. Isso
florestas contínuas. Wiens (1994), garantiria uma proteção maior para essas
estudando a fragmentação do hábitat, áreas e um custo menor de fiscalização
indicou que a diversidade de espécies é (Peres & Terborgh 1995);
reduzida e a composição da comunidade
• Pelo menos uma grande unidade de
alterada em ambientes fragmentados.
conservação, de tamanho apropriado (com
A perda de paisagens tem conse- no mínimo 250.000 hectares de área –
qüências graves para a manutenção da 2.500km2), deve ser criada em cada uma
biodiversidade. Chapin et al. (2000) das “ilhas” de vegetação nativa pouco
afirmam que a mudança na composição alterada. Naturalmente, essas reservas
das paisagens pode afetar o relacio- devem complementar a representatividade
namento entre as espécies, e levar a um ambiental do sistema de unidades de
desequilíbrio ecológico. Os autores conservação atualmente existente (Tabarelli
afirmam também que espécies endêmicas & Vicente 2003).
têm uma maior susceptibilidade à
mudança em seus domínios. Portanto, a • Estratégias devem ser desenvolvidas para
perda de algumas UGs pode levar ao utilizar, de forma eficiente, para fins
desaparecimento de espécies endêmicas econômicos, as áreas do bioma Caatinga
encontradas na Caatinga. já alteradas, evitando assim pressões
sobre áreas ainda pouco alteradas.
Com base no mapa que prediz, de
forma mais realista, a distribuição das áreas • As unidades geoambientais que sofreram
alteradas na região da Caatinga (Figura 5), grande alteração e fragmentação devem
as seguintes recomendações podem ser ter prioridade em estudos futuros sobre
feitas: a diversidade do bioma Caatinga.

99
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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100
Conhecimento
sobre plantas
lenhosas da Caatinga:
lacunas geográficas Marcelo Tabarelli

e ecológicas
Universidade Federal de Pernambuco

Adriano Vicente
Universidade Federal Rural de Pernambuco

101
André Pessoa
Caatinga na estação seca

INTRODUÇÃO
A região da Caatinga abrange uma (Andrade-Lima 1981, Sampaio et al. 1994,
área aproximada de 800.000km2, incluindo Sampaio 1995), entre as quais o solo. O Tipo
partes dos estados do Piauí, Ceará, Rio de solo tem sido considerado um indicador
Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco, da distribuição de plantas lenhosas na
Alagoas, Sergipe, Bahia e Minas Gerais Caatinga (ver Araújo et al. 1999), existindo,
(Ab’Saber 1977). De modo geral, a biota da pelo menos, 40 tipos nesse bioma (IBGE
Caatinga tem sido descrita na literatura 1985).
como pobre, abrigando poucas espécies Estudos recentes (Andrade-Lima
endêmicas e, portanto, de baixo valor para 1981, Rodal 1992, Sampaio 1995, Garda
fins de conservação. 1996, Silva & Oren 1997) sugerem que a
Tal descrição contrasta com a idéia de “baixa riqueza de espécies” pode
diversidade de tipos vegetacionais observada decorrer de um artefato de amostragem. O
nesse ecossistema. Apesar de bem que a literatura indica, na verdade, é que a
delimitada do ponto de vista biogeográfico Caatinga é uma das regiões menos
(Cracraft 1985, Haffer 1985, Rizzini 1997), conhecidas da América do Sul, no que diz
a vegetação de Caatinga está longe de ser respeito à sua biodiversidade (MMA 1998,
homogênea do ponto de vista fisionômico. Silva & Tabarelli 1999). Várias espécies novas
Ferri (1980) reconheceu muitas formas de de animais e plantas têm sido descritas
caatinga, tais como: agreste, carrasco, recentemente para a região, indicando um
sertão, cariri e seridó, as quais variam em conhecimento zoológico e botânico
fisionomia e em composição florística. bastante precário (cf. Silva & Tabarelli 1999).
Veloso et al. (1991) definem como savana Um estudo sobre o esforço amostral das
estépica a vegetação da Caatinga, coletas de um grupo de anfíbios identificou
reconhecendo quatro fisionomias: a savana a Caatinga como uma das regiões menos
estépica florestada, a arborizada, a parque conhecidas em toda a América do Sul, com
e a savana estépica gramíneo-lenhosa. extensas áreas sem uma única informação
Andrade-Lima (1981) divide a Caatinga em sequer (Heyer 1988).
6 tipos e 12 subtipos de vegetação. Em Apesar de insuficientemente co-
geral, esses tipos representam gradientes, nhecida, a Caatinga vem sofrendo alterações
em termos de estrutura física, riqueza e drásticas (MMA 1999). O mapa de vegetação
diversidade de espécies, contribuição relativa produzido pelo Projeto Radambrasil indica
de formas e histórias de vida. Tais gradientes que cerca de 30% desse ecossistema já foi
estão associados às variáveis fisiográficas, drasticamente modificado pelo homem
climáticas e antrópicas dominantes (Castelletti et al. 2000). Esse percentual faz

102
da Caatinga o terceiro bioma brasileiro mais estacional. Em conjunto, essas sete unidades
alterado pelo homem, sendo ultrapassado e o tipo contato savana-floresta estacional (o
pela Floresta Atlântica e pelo Cerrado (cf. qual abriga vegetação do tipo carrasco)
Myers et al. 2000). Apesar das ameaças à cobrem 732.545,08km2 (94,1% da área do
sua integridade, apenas 1,6% da Caatinga polígono). O restante do polígono da Caatinga
está protegida em unidades de conservação é coberto por enclaves de cerrado e áreas de
de proteção integral (Tabarelli et al. 2000). transição entre cerrado e outros tipos florestais.
Esse cenário justifica a necessidade de se
ampliar rapidamente o conhecimento sobre
Distribuição geográfica e ecológica
a distribuição dos organismos e a forma
das coletas e dos estudos
como estão organizados em comunidades
na Caatinga. Informações completas sobre Para avaliar a distribuição geográfica
a distribuição dos organismos são e ecológica das coletas de plantas lenhosas
fundamentais para o entendimento da e dos estudos florísticos e fitossociológicos
evolução, ecologia e conservação de uma na Caatinga foram produzidos e/ou utilizados
biota (Primack 1995). os seguintes mapas digitais na escala de
1:5.000.000: distribuição das localidades
Este estudo procura identificar
com coletas e estudos, distribuição das
lacunas geográficas e ecológicas de
áreas perturbadas na Caatinga, e tipos de
amostragem de plantas lenhosas da
vegetação e de solos da Caatinga.
Caatinga e de estudos que caracterizam a
forma como essas espécies estão Para a produção do mapa de
organizadas em comunidades. Apesar de localidades com coletas e estudos utilizou-
incorporar apenas uma parte da informação se registros de material botânico depositado
disponível sobre as plantas lenhosas desse nos herbários Dárdano de Andrade-Lima
ecossistema, o presente estudo possibilita (Empresa Pernambucana de Pesquisa
detectar padrões importantes sobre como Agropecuária), Geraldo Mariz (Universidade
o conhecimento botânico e ecológico está Federal de Pernambuco), Vasconcelos
espacializado na Caatinga. São feitas Sobrinho (Universidade Federal Rural de
também considerações sobre: (1) questões Pernambuco) e Herbário da Universidade
biogeográficas e ecológicas que têm suas Federal de Sergipe. Foram utilizados
respostas associadas ao preenchimento de registros de plantas de 61 famílias que
lacunas geográficas e ecológicas de ocorrem na Caatinga, sendo que cada
conhecimento; e (2) as principais relações registro de herbário eqüivale a uma coleta
entre conhecimento e conservação da neste trabalho. As informações sobre os
diversidade biológica da Caatinga. estudos realizados na Caatinga foram
obtidas na literatura pertinente.
Como mapa de áreas perturbadas na
MATERIAL E MÉTODOS Caatinga, foi utilizado aquele produzido por
Castelletti et al. (2000). São reconhecidas
como áreas perturbadas aquelas próximas
Distribuição da Caatinga de rodovias ou onde a atividade
Neste trabalho a Caatinga segue os agropecuária é intensa segundo IBGE
limites propostos pelo IBGE (1993), o qual (1993). Os mapas de vegetação e solo foram
publicou um mapa (1:5.000.000) contendo a obtidos através da digitalização dos mapas
distribuição dos tipos vegetacionais no publicados pelo IBGE (1985, 1993). Admite-
território brasileiro. Com base neste mapa, o se que o número de tipos de vegetação
polígono da Caatinga possui uma área de reconhecido é menor do que poderia ser e,
777.915,08km2, onde são encontrados 19 portanto, corre-se o risco de subestimar-se
tipos vegetacionais. Entre esses, sete tipos são a quantidade de tipos existentes na região
de caatinga sensu lato (savana estépica), (ver detalhes em IBGE 1993). Entretanto,
incluindo áreas de contato com atividades esse é o único e melhor mapa disponível no
antrópicas, cerrado (savana) e floresta momento em formato digital.

103
Análise dos dados nossa análise (existem 21 herbários na região
Nordeste, Barbosa & Barbosa 1996). Todavia,
A análise da distribuição geográfica e
a informação disponível é capaz de mostrar
ecológica das coletas de plantas lenhosas e
tendências importantes sobre a distribuição
dos estudos na Caatinga foi feita através do
geográfica e ecológica do esforço de coleta
cruzamento dos mapas digitais utilizando-
(número de registros por área) e da
se as ferramentas Xtools e Script Calc_Area,
caracterização de comunidades de plantas
com a projeção Equal_Area Cylindrical, do
lenhosas na Caatinga (estudos florísticos e
programa Arc View (ESRI 1998). Para
fitossociológicos).
facilitar as análises, o mapa de limites do
bioma foi dividido em quadrículas de 40 x
40km (1.600km2).
Utilizou-se o Teste G (Sokal & Rohlf RESULTADOS
1995) para analisar a distribuição das coletas
e dos estudos em relação à perturbação da
Caatinga, tipo de vegetação e solo. O mesmo
Distribuição geográfica das
teste foi utilizado para analisar a distribuição coletas e dos estudos
das coletas e dos estudos em relação à Foram identificadas 306 localidades
distância da cidade de Recife (0-1000km), na Caatinga para as quais há 3.528
considerado um centro de ensino e pesquisa. coletas, enquanto os 49 estudos
Ressaltamos que a informação utilizada registrados estão distribuídos em 37
nesse artigo não é completa, pois diversas localidades. Os mapas de distribuição e
coleções de plantas não foram incluídas em esforço de coleta de plantas lenhosas

Coleta
Limite da Caatinga Figura 1
Localidades
com coleta
de plantas
0 200 Km N lenhosas na
Caatinga.

104
(Figuras 1 e 2) sugerem a existência de dades dos centros de ensino e pesquisa.
lacunas geográficas de informação e Há menos coletas por unidade de área à
esforço desigual de coleta na região. A medida em que se aumenta a distância em
área na qual não foram registradas coletas relação à cidade do Recife (G = 3042,6,
representa 41,1% da Caatinga, e a área g.l.= 9, P < 0.001) (Figura 3). A maior parte
onde há entre 1 e 10 coletas/1.600km2 das coletas (61%) entre 0 e 1.000km de
representa outros 40%. Dessa forma, distância dessa cidade, encontra-se nos
estima-se que 80% da área da Caatinga 500km mais próximos, os quais
está sub-amostrada (< 10 registros/ representam apenas 25% das áreas de
1.600km 2). As áreas sub-amostradas coleta incluída nessa análise. O mesmo
concentram-se na periferia geográfica do padrão é observado em relação à
bioma. distribuição dos estudos, dos quais
Ao contrário, as áreas melhor 83,3% estão localizados a até 600km de
conhecidas concentram-se nas proximi- distância dessa cidade

Intensidade de coleta
1 - 10
10 - 50
50 - 100
100 - 200
200 - 300

Limite da Caatinga

Figura 2
Distribuição do N
esforço de
0 200 Km
coleta de plantas
lenhosas na
Caatinga.

105
Distribuição ecológica das coletas e dos estudos
A maior parte das coletas (71,8%) e Caatinga menos perturbadas pela ação
dos estudos (81,6%) foi realizada em áreas antrópica são as que apresentam menos
ou regiões consideradas perturbadas, coletas e estudos (G = 1033,9, g.l. =
apesar dessas áreas representarem 45,3% 1, P < 0,001; G = 27,45, g.l. = 1, P <
do bioma (Figura 4). Ou seja, as áreas da 0,001).

40
35 Área
Coleta
Figura 3
30 Estudos
Distribuição relativa da
25 área amostral, das
coletas
% 20 (N = 3.532)
15 e dos estudos
10 (N = 42)
de plantas lenhosas
5
em relação à distância
0 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 da cidade do Recife
Classes de distância (0-1.000km).

Estudos Figura 4
Coletas Distribuição das
Perturbação antrópica
Com pressão coletas e
Sem pressão estudos de
plantas lenhosas
Limite da Caatinga em áreas com e
sem pressão
0 200 Km N antrópica na
Caatinga.

106
A distribuição das coletas e dos
Tabela 1 - Percentual de coletas e estudos nos diferentes tipos estudos é proporcional à área coberta
vegetacionais da Caatinga, com suas respectivas áreas. pelos diferentes tipos vegetacionais (Tabela
Unidades vegetacionais Área % Coletas % Estudos % 1). Todavia, o tipo vegetacional com maior
Savana estépica arborizada 39,2 38,7 (1366) 26,5 (13) número de coletas e de estudos,
Savana estépica-atividades agrícolas 27,3 40,5 (1427) 53,0 (26) corresponde aquele onde a atividade
Contato savana estépica-floresta estacional 16,2 12,3 (436) 4,1 (2) humana é mais marcante (savana estépica-
Savana estépica florestada 6,9 2,6 (94) 8,2 (4)
Contato savana-savana estépica-floresta atividades agrícolas). Para cinco tipos
estacional 4,2 0,1 (4) 0 vegetacionais há menos que 100 coletas
Contato savana-savana estépica 2,3 0,8 (28) 0 e para três tipos não há registros de
Contato savana-floresta estacional 1,5 2,6 (93) 8,2 (4) estudos. Ou seja, 62,5% dos tipos
Savana estépica parque 1,4 2,2 (80) 0
Total 98,9 100 (3528) 100 (49) vegetacionais da Caatinga estão sub-
amostrados, pois possuem poucos
Entre parêntesis está o número absoluto.
registros de plantas (< 100) e poucos
estudos (< 5).
Tabela 2 - Percentual de coletas de plantas lenhosas e de estudos por Dentre os 40 tipos de solo
tipo de solo na Caatinga, com suas respectivas áreas. encontrados na Caatinga, 26 (65%)
Tipos de solo Área % Coletas % Estudos % possuem coletas de plantas lenhosas, mas
Solos bruno não cálcicos 13,7 26,8 (946) 22,4 (11) para apenas 11 (27,5%) há mais de 50
Latossolo vermelho-amarelo distrófico 13,3 5,4 (192) 10,2 (5) coletas registradas. Em apenas nove tipos
Podzólico vermelho-amarelo eutrófico Tb 11,1 14,0 (496) 0,0
Solos litólicos eutróficos 9,2 7,1 (252) 12,6 (6)
de solos (22,5%) foram realizados estudos.
Areias quatzosas distróficas 9,1 3,1 (110) 2,0 (1) Ao contrário do observado para o tipos
Planossolo solódico 8,8 13,0 (461) 8,1 (4) vegetacionais, a distribuição do esforço de
Solos litólicos distróficos 6,9 5,3 (187) 0,0 coleta e dos estudos difere da
Latossolo vermelho-amarelo
distrófico e eutrófico 4,7 2,7 (95) 12,6 (6)
abrangência relativa dos tipos de solo
Regossolo eutrófico 3,9 13,2 (465) 14,2 (7) (G = 1554,42, g.l. = 8, P < 0.001;
Laterita hidromórfica distrófica 3,3 0,05 (2) 0,0 G= 37,1, g.l. = 7, P< 0,001) (Tabela 2).
Solonotez-solodizado 1,7 4,5 (160) 0,0 Alguns tipos, como o regossolo, apesar de
Podzólico vermelho-amarelo distrófico 1,3 0,03 (1) 16,3 (8)
ocupar apenas 3,9% da área da Caatinga,
Outros 13,0 4,6 (161) 2,0 (1)
abriga 13,2% das coletas e 14,2% dos
Entre parêntesis está o número absoluto.
estudos.

DISCUSSÃO
Lacunas geográficas e ecológicas de informação
Os resultados desse estudo sugerem atividades agrícolas) e em sete tipos de solos.
a existência de lacunas geográficas e Isto eqüivale a dizer que o nível de informação
ecológicas em termos de coletas e estudos sobre a ocorrência e forma de organização
sobre comunidades de plantas lenhosas na desse grupo biológico é reduzido ou até
Caatinga. Especificamente, grande parte da mesmo inexistente para 80% da Caatinga.
informação está concentrada na região
central desse bioma, a qual corresponde a Na Caatinga, as lacunas geográficas
áreas sob forte pressão antrópica, e nas e ecológicas estão correlacionadas. As áreas
adjacências dos centros de ensino e pesquisa mais afastadas dos centros de ensino e
(cf. Figura 4). A informação está concentrada, pesquisa (a maioria próxima do litoral),
também, em dois tipos vegetacionais (savana correspondem às regiões ecotonais entre a
estépica arborizada e savana estépica- Caatinga, o Cerrado, as matas secas e os

107
campos ruprestes. São também as regiões distribuição Amazônia-Bahia, representam
onde estão os tipos vegetacionais (os tipos cerca de 7% da flora de plantas lenhosas
contato, sensu Veloso et al. 1991) e muitos (Thomas et al. 1998). Ao norte do rio São
dos solos sub-amostrados. Em vários Francisco, as espécies com padrão de
ecossistemas tropicais, incluindo a Caatinga, distribuição Amazônia-Floresta Atlântica
as regiões ecotonais têm sido caracterizadas ocorrem preferencialmente nas florestas de
como áreas distintas em termos de riqueza, terras baixas, enquanto aquelas oriundas do
composição e organização das sul e sudeste do Brasil ocorrem nas florestas
comunidades vegetais (Araújo et al. 1999, sub-montanas e montanas (Andrade-Lima
Ribeiro 2000). Há evidências de que as 1964, 1966).
regiões ecotonais correspondem, também, Informações sobre riqueza,
às áreas onde os processos de especiação endemismo, distribuição geográfica e
ocorrem com maior freqüência (Smith et al. ecológica de plantas lenhosas da Caatinga
1997). Dessa forma, as lacunas aqui existem de forma preliminar. Gamarra-Rojas
detectadas têm implicações importantes & Sampaio (2002) citam pelo menos 1.102
para o conhecimento e a conservação da espécies lenhosas para a Caatinga. Giulietti
Caatinga. et al. (2002) encontraram 318 espécies
endêmicas a esse bioma, e, por outro lado,
Implicações para o 62 espécies apresentam ampla distribuição
conhecimento da Caatinga nas florestas secas sul-americanas (Prado &
Gibbs 1993). Em alguns grupos, como nas
Conhecimento sobre a distribuição de famílias Cactaceae, Bromeliaceae e
organismos vegetais e a forma com que eles Asteraceae, o índice de endemismo pode
se organizam em comunidades nas biotas ser elevado (Rizzini 1997). Rodal (1992)
é fundamental para entender questões sugere que a Caatinga contém, pelo menos,
como a origem da flora, sua riqueza e seu dois blocos florísticos, norte e sul, separados
nível de endemismo, e a distribuição espacial pelo maciço da Borborema, cada um com
e ecológica das entidades taxonômicas, suas espécies vegetais características e
formas e histórias de vida. endêmicas. Silva & Oren (1997) reconhe-
Sínteses já foram realizadas para ceram, também, duas áreas de diferenciação
alguns biomas brasileiros. Estima-se, por para uma espécie de ave endêmica à
exemplo, que a Floresta Atlântica brasileira Caatinga. Novas sínteses sobre riqueza,
possua 20.000 espécies de plantas endemismos, relações biogeográficas e tipos
vasculares, das quais 8.000 seriam vegetacionais da Caatinga devem surgir à
endêmicas (2,7% das plantas do planeta) medida em que algumas das lacunas
(Myers et al. 2000). Entre 40 e 50% das detectadas nesse estudo forem preenchidas.
espécies lenhosas encontradas em qualquer
trecho dessa floresta são endêmicas à Implicações para a
mesma (Mori et al. 1981, Thomas et al.
1998). São reconhecidos para a Floresta
conservação da Caatinga
Atlântica três centros de endemismos – O conhecimento sobre a distribuição
Pernambuco, sul da Bahia e Rio de Janeiro- dos organismos e das comunidades tem
São Paulo – os quais, acredita-se, implicações importantes para a
representaram áreas de refúgio florestal conservação da diversidade biológica, tais
durante as glaciações do quaternário (Prance como, quantificar e qualificar os efeitos da
1987). Cada um desses centros tem ação antrópica (p. ex. redução de hábitats,
contribuições distintas da flora Amazônica, fragmentação, extração seletiva) sobre a
associadas às ligações entre essas biotas biota, estabelecer estratégias eficientes de
durante o terciário (Prance 1979) e às rotas conservação, atrair entidades financiadoras
de migração através do Cerrado e regiões e programas de conservação e fornecer
litorâneas (Rizzini 1963). No sul da Bahia, por subsídio científico aos formuladores de
exemplo, as espécies com padrão de políticas públicas.

108
Coimbra-Filho & Câmara (1996) ecológicas identificadas nesse estudo, o
lançaram a hipótese que, antes da chegada mapa de áreas prioritárias para a
dos colonizadores europeus, a Caatinga conservação da diversidade poderá sofrer
era, em sua grande parte, composta por modificações. Seleção de áreas prioritárias
florestas secas muita mais desenvolvidas, com base no conhecimento sobre a
em termos estruturais, do que aquelas distribuição da biodiversidade é um método
observadas atualmente. Se a estrutura da extremamente útil (Margules & Pressey
floresta se alterou, também houve 2000). Todavia, se reconhece que na
mudanças na composição das espécies ausência de informações confiáveis as
vegetais, na riqueza dos organismos e na áreas consideradas mais ricas podem ser,
composição das estratégias biológicas na verdade, apenas as áreas melhor
presentes, já que existem relações amostradas (Nelson 1991).
conhecidas entre essas variáveis nas Insuficientemente conhecida, a
florestas secas (Murphy & Lugo 1986, Caatinga permanece ainda hoje fora do
Gentry 1995, Medina 1995). Hipóteses cenário nacional e internacional em termos
como essa, só podem ser cientificamente de prioridades para a conservação da
avaliadas à medida em que áreas diversidade biológica. A Caatinga, por
historicamente bem preservadas da exemplo, não faz parte de nenhum dos
Caatinga forem estudadas. Infelizmente, a grandes projetos de conservação que
distribuição dos estudos realizados até o operam a nível mundial, como a Reserva
momento parece estar concentrada em da Biosfera, The Global Two Hundreds-
áreas ou regiões com longo histórico de Conservation Priorities (World Wildlife
perturbação antrópica. Foundation) e Conserving Biodiversity
Do ponto de vista da conservação, o Hotspots (Conservation International).
estabelecimento de um sistema ou rede de É importante mencionar que entre as
áreas protegidas é um dos mais 25 regiões consideradas como alta
importantes instrumentos ou estratégias prioridade mundial para conservação pela
para garantir a conservação da diversidade Conservation International, cinco são
biológica de uma biota (Margules & Pressey regiões semi-áridas que abrigam 19% das
2000). A eficiência desse instrumento pode plantas vasculares do planeta (Myers et al.
ser medida pelo percentual de espécies 2000).
“capturadas pelo sistema” (represen- O conhecimento científico é uma
tatividade biológica), pela manutenção de condição essencial para o estabelecimento
populações viáveis e por sua capacidade de políticas eficazes de conservação. Ao
de manter processos ecológicos em contrário, conhecimento inadequado é um
diferentes escalas espaciais que garantam aliado perigoso nas mãos de planejadores
resiliência à biota (Noss et al. 1997). interessados em converter áreas naturais
Dessa forma, informações com- em pólos de desenvolvimento econômico.
pletas sobre a distribuição de organismos No Cerrado, por exemplo, um dos alicerces
de uma biota são fundamentais para que das políticas públicas implementadas nesse
o sistema planejado de áreas protegidas bioma nas últimas três décadas, foi a idéia
tenha a máxima representatividade de que sua vegetação era pobre em
biológica. Em um esforço coletivo, mais de espécies endêmicas e, dessa forma, sua
100 pesquisadores identificaram 82 áreas substituição por empreendimentos
prioritárias para a conservação da Caatinga agropecuários traria poucos prejuízos
com base na informação biológica ambientais (Silva 1998). Hoje sabe-se que
disponível (Silva & Tabarelli 2000). Entre o Cerrado é rico em espécies vegetais
essas, 25 (30,5%) foram consideradas endêmicas (Heringer et al. 1977, Rizzini
áreas insuficientemente conhecidas, as 1997) e pode apresentar uma diversidade
quais representam cerca de 20% da área filética de plantas vasculares superior às das
da Caatinga. Com o preenchimento de florestas Atlântica e Amazônica (Gottlieb &
muitas das lacunas geográficas e Borin 1994). Seguramente, um dos

109
motivos do desamparo legal que a Caatinga das plantas lenhosas da Caatinga. Novas
ainda sofre é a crença generalizada de que informações sobre a ocorrência e
esse bioma é pobre e, portanto, pouco distribuição dos organismos são essenciais,
importante. não só para ampliar o entendimento sobre
Em síntese, os resultados desse a diversidade biológica dessa biota, mas
estudo suportam as idéias de que a para sua própria conservação.
Caatinga é um dos biomas brasileiros
menos conhecidos, que sua “baixa riqueza
de espécies” pode ser um artefato de
amostragem e que a distância dos centros Agradecimentos
de ensino e pesquisa é um preditor da Aos curadores dos herbários
distribuição geográfica e ecológica das Dárdano de Andrade-Lima – Empresa
informações sobre plantas lenhosas da Pernambucana de Pesquisa Agropecuária;
Caatinga. A partir das lacunas e tendências Herbário Geraldo Mariz – Universidade
identificadas nesse estudo, novos esforços Federal de Pernambuco, Vasconcelos
de investigação podem ser planejados, com Sobrinho – Universidade Federal Rural de
objetivo de ampliar a representatividade Pernambuco e Herbário da Universidade
geográfica e ecológica do conhecimento Federal de Sergipe.

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111
PARTICIPANTES DO SEMINÁRIO
GRUPO TEMÁTICO ‘FLORA’
Ana Maria Giulietti
Coordenação

Vegetação:
Ana Luiza Du Bocage Neta
Antônio Roberto Lisboa de Paula
Dilosa Carvalho Barbosa
Eliana Nogueira

áreas e ações
Everardo V. S. B. Sampaio
Grécia Cavalcanti da Silva
Isabel Cristina Machado
Jair Fernandes Virgínio

prioritárias para
Leonor Costa Maia
Luciana M. S. Griz
Luciano Paganucci de Queiroz

a conservação
José Luciano Santos Lima
Marcelo Athayde Silva
Maria Angélica Figueiredo
Maria de Jesus Nogueira Rodal

da Caatinga
Maria Mércia Barradas
Maria Regina de Vasconcellos Barbosa
Raymond M. Harley
Sérgio de Miranda Chaves

113
André Pessoa
Caatinga na estação chuvosa

A vegetação do bioma Caatinga é pela presença de muitas espécies raras e


bastante diversificada por incluir, além das endêmicas –, e os refúgios montanhosos,
caatingas, vários outros ambientes de formações rochosas, isolados no
associados. Somente de caatingas são bioma. Os enclaves de caatinga existentes
reconhecidas 12 tipologias diferentes, as fora do Nordeste são provavelmente de
quais despertam atenção especial pelos grande relevância científica, contudo, a
exemplos fascinantes de adaptação aos confirmação disso requer ainda mais
hábitats semi-áridos. Tal situação pode informações. Nesse conjunto se so-
explicar, em parte, a grande diversidade de bressaem as áreas situadas em Minas
espécies vegetais, muitas das quais Gerais.
endêmicas ao bioma. Estima-se que pelo A água, como um fator limitante na
menos 932 espécies foram registradas na Caatinga, ressalta também a necessidade
região, sendo 318 delas endêmicas. de preservação dos rios permanentes, os
Encontram-se endemismos também em quais têm um papel proeminente por
outros níveis taxonômicos, pois vinte prover de água, durante todo o ano, tanto
gêneros de plantas são conhecidos apenas as espécies nativas das caatingas como as
na Caatinga. comunidades locais que lá se estabelecem.
No que se refere à identificação e à Tais rios dependem de estar protegidos em
classificação das áreas prioritárias para a suas cabeceiras, as quais se localizam fora
conservação da flora da Caatinga, da zona da Caatinga, nos brejos ou nas
considerou-se a pluralidade de hábitats que florestas montanas do platô da
refletisse toda a variedade encontrada no Borborema, na chapada Diamantina, na
bioma, selecionando- se, para isso, aqueles serra do Araripe, entre outros locais.
com os mais elevados graus de diversidade A carência de conhecimento sobre
e de endemismo, segundo a adoção dos a flora do bioma reflete-se no elevado
seguintes critérios: 1. existência de pelo número de áreas classificadas como
menos um táxon endêmico à área insuficientemente conhecidas, mas de
proposta; 2. Presença de táxons endêmicos provável importância biológica. Das 53
ao bioma; e 3. ocorrência de fenômenos áreas indicadas, 18 enquadram-se nessa
biológicos especiais. categoria (Figura 1). Para essas áreas é que
Merecedoras de destaque são as deverão voltar-se os esforços de inventário.
lagoas ou áreas úmidas temporárias, nas Do restante, 17 são áreas de extrema
terras mais baixas – as quais formam um importância; 14 de muito alta importância;
conjunto de hábitats frágeis, caracterizado e quatro de alta importância biológica.

114
Importância Biológica
Extrema
Figura 1 Muito alta
Alta
Áreas Informação insuficiente
Limite estadual
prioritárias Limite do bioma caatinga
para
conservação
da flora na
Caatinga
1. Serra das Flores 28. Mirandiba
2. Jaburuna 29. Chapada do Araripe
3. Reserva da Serra das Almas 30. Sertão do Submédio São Francisco
4. Campo de Inselbergs / Serra do Estevão 31. Sudoeste de Pernambuco
5. Carnaubais 32. Xingó
6. Angical 33. Picos
7. Sertão dos Inhamuns 34. Corredor Ecológico Serra da Capivara / Confusões
8. Chapada do Apodi 35. Serras do Sento Sé / Sobradinho / Remanso
9. Vitória da Conquista 36. Raso da Catarina
10. Dunas de São Bento 37. Região de Senhor do Bonfim
11. Pico do Cabugi 38. Delfino / Minas do Mimoso /
12. Serra de Santana Serra do Curral Feio
13. Rochedo de Serra Caiada 39. Dunas do Rio São Francisco
14. Serra de Portalegre 40. Serra do Açuruá / Santo Inácio
15. Mata de Luis Gomes 41. Carste de Irecê
16. Serra Negra 42. Rebordo da Chapada Diamantina
17. Curimataú 43. Ipirá / Serra do Orobó
18. Vale do Rio do Peixe 44. Milagres
19. Serra de Santa Catarina 45. Maracás
20. Monte Horebe 46. Reserva Biológica de Serra Negra
21. São José da Mata 47. Bom Jesus da Lapa / Santa Maria da Vitória
22. Cariri Paraibano 48. Sudoeste da Bahia
23. Serra do Teixeira 49. Calcário do Norte de Minas Gerais
24. Paus Brancos 50. Pedra Azul
25. Vale do Ipojuca 51. Vale do Piancó
26. Buique 52. Serra da Borborema
27. Serra Talhada 53. Itabaiana / Lagarto

115
DESCRIÇÃO DAS ÁREAS PRIORITÁRIAS INDICADAS
1 - SERRA DAS FLORES do Nordeste, endêmica dos setores elevados
Localização: Granja (CE). e tabulares do Planalto da Ibiapaba e da
Chapada do Araripe. Embora se assemelhe
Importância biológica: Extrema.
à caatinga pela caducifolia, apresenta
Hábitats: Caatinga. grande variação florística entre as áreas e
Ação recomendada: Proteção integral. fitodiversidade maior que a caatinga e
Elementos de diagnóstico: Riqueza de semelhante à floresta. Com base em
espécies: média; número médio de trabalhos realizados, no norte do planalto
endemismos; riqueza de espécies raras/ da Ibiapaba, em 1991, existia apenas 5,5%
ameaçadas: média; ocorrência de da cobertura original dessa vegetação que
fenômeno biológico especial; número ocupa uma área extremamente reduzida,
médio de espécies de interesse econômico. apenas 0,48% da região Nordeste.
Vulnerabilidade: Fragilidade intrínseca do Apresenta muitos táxons com problemas de
sistema: média; grau de alteração: médio; determinação taxonômica, possivelmente
pressão antrópica: média (agricultura de espécies novas para a ciência.
subsistência e caça).
Justificativa: Campos extensos de 3 - RESERVA DA SERRA DAS ALMAS
Velloziaceae e Eryocaulaceae ocorrem nas Localização: Crateús (CE).
encostas fraturadas das rochas. São Importância biológica: Alta.
plantas raras e sem registros da ocorrência Hábitats: Caatinga, carrasco e floresta
dessa paisagem para o Nordeste decidual.
setentrional do Brasil. O topo plano e Ação recomendada: Uso sustentável.
arenoso abriga vegetação de campo aberto
Elementos de diagnóstico: Riqueza de
com espécies disjuntas do cerrado, e espécies: alta; alto número de endemis-
vegetação de caatinga em seu entorno com mos; riqueza de espécies raras/ameaçadas:
o gênero endêmico Franhofera. alta; ocorrência de fenômeno biológico
especial; número médio de espécies de
interesse econômico.
2 - JABURUNA
Vulnerabilidade: Fragilidade intrínseca do
Localização: Ubajara, Viçosa do Ceará, sistema: alta; grau de alteração: médio;
Tianguá, Ibiapina, São Benedito, Guara- pressão antrópica: baixa (caça).
ciaba do Norte e Carnaubal (CE). Justificativa: Presença de espécies
Importância biológica: Muito alta. endêmicas da caatinga na região: Rollinia
Hábitats: Carrasco. leptophylla, Arrabidaea dispar, Cordia
leucomalloides, Commiphora lepto-
Ação recomendada: Proteção integral. phleos, Cereus jamacaru, Capparis
Elementos de Diagnóstico: Riqueza de cynophallophora, Jatropha mollissima e
espécies: alta; número médio de ende- Manihot glaziovii. Endemismo genérico:
mismos; riqueza de espécies raras/ Auxemma. Área de alta fragilidade em seus
ameaçadas: média; ocorrência de solos distróficos (latossolo) sobre o
fenômeno biológico especial; número planalto, aceleradamente erodidos, o que
médio de espécies de interesse econômico. tem levado ao extermínio de uma
comunidade vegetal – o carrasco – que
Vulnerabilidade: Fragilidade intrínseca do abriga espécies endêmicas e serve de
sistema: alta; grau de alteração: médio; alimento para a fauna, principalmente aves,
pressão antrópica: alta (agricultura de como a planta de nome popular jacaré
subsistência e caça). (Eugênica desintherica). Área rica em
Justificativa: O carrasco apresenta flora Myrtaceae e Erythoxylaceae cujos frutos
diferente dos demais tipos de vegetação alimentam a fauna.

116
4 - CAMPO DE INSELBERGS/ manter uma área representativa dessas
SERRA DO ESTEVÃO populações que se associam a outras
Localização: Quixeramobim e Quixadá (CE). plantas. Mimosa leptantha é um
endemismo do baixo curso dessa bacia
Importância biológica: Alta.
hidrográfica.
Hábitats: Caatinga.
Ação recomendada: Uso sustentável.
6 - ANGICAL
Elementos de diagnóstico: Ocorrência de
endemismos. Localização: PI: São Miguel do Tapuio,
Pimenteiras e Pio IX; CE: Parambu, Novo
Vulnerabilidade: Grau de alteração: alto.
Oriente e Quiterianópolis.
Justificativa: Vegetação rupestre ainda
Importância biológica: Muito alta.
desconhecida, contendo Bromeliaceae e
Orquidaceae. Apresenta espécies Hábitats: Carrasco e caatinga.
endêmicas como: Ceila glaziovii na Serra Ação recomendada: Proteção integral.
do Estevão – espécie em extinção na Elementos de diagnóstico: Ocorrência de
Caatinga; Auxema onconcalyx – espécie endemismos; presença de espécies raras/
endêmica da Caatinga; Commiphora ameaçadas; ocorrência de fenômeno
leptophleas, Cereus jamacaru, Liconia biológico especial.
rigida, Jotropha mollissima, Ziziphus
Vulnerabilidade: Fragilidade intrínseca do
joazeiro e Sida galhertensis – também
sistema: média; grau de alteração: médio;
endêmicas da Caatinga e presentes nessa
pressão antrópica: alta.
região.
Justificativa: Presença de vegetação de
carrasco sobre o topo plano do planalto.
5 - CARNAUBAIS Este é um tipo de vegetação em extinção.
Localização: Itaiçaba, Limoeiro do Norte, As condições do ambiente físico são
Quixeré, Russas, São João do Jaguaribe, originais e restritas a pequenas manchas,
Tabuleiro do Norte, Jaguaruana e Aracati. que suportam uma vegetação xerófila
(CE). semelhante à caatinga pela caducifolia,
Importância biológica: Extrema. mas totalmente diversa quanto à flora. A
flora abriga espécies da floresta, do cerrado,
Hábitats: Ampla várzea contendo ilhas nos
da caatinga e espécies próprias. A encosta
meandros da drenagem, com carnaubais
abriga uma floresta decidual (mata seca)
e a flora associada a estes ambientes
com espécies em extinção, como a
salinos.
barriguda-da-caatinga (Ceiba glaziovii) e
Ação recomendada: Proteção integral. a tatajuba (Chloroflora tinctoria), espécies
Elementos de diagnóstico: Ocorrência de de látex amarelo usado, no período
endemismos; alta riqueza de espécies raras/ colonial, para tingimento, no Nordeste
ameaçadas. setentrional do Brasil, e hoje quase extintas.
Vulnerabilidade: Fragilidade intrínseca do
sistema: média; grau de alteração: médio;
7 - SERTÃO DOS INHAMUNS
pressão antrópica: alta (agricultura).
Localização: Pedra Branca, Boa Viagem,
Justificativa: As populações de Copernicia
Mombaça, Tauá e Independência (CE).
prunifera ocorrem junto às várzeas ou
terrenos abaciados que possibilitem o Importância biológica: Muito alta.
encharcamento. São endêmicas do Hábitats: Caatingas. Superfície sertaneja
Nordeste do Brasil, especialmente densas contendo inselbergues em estados
no Nordeste setentrional. As áreas por elas avançados de degradação, temperaturas
ocupadas estão paulatinamente sendo elevadas (28ºC média), precipitação média
substituídas por cultivos de alimentos, anual de 550mm, solos em mosaico,
como frutíferas ou cereais. Há variando tanto com relação à profundidade
necessidade de proteger, conservar e quanto à composição química.

117
Ação recomendada: Proteção integral. estado do Ceará e da segunda na Chapada
Elementos de diagnóstico: Riqueza de do Apodi. Espécie endêmica da Chapada
espécies; alto número de endemismos; em Mossoró, Hydrothrix gardneri Hook,
ocorrência de fenômeno biológico especial. planta muito rara. Uma unidade de
conservação na área ordenará o uso e a
Vulnerabilidade: Fragilidade intrínseca do
preservação da flora e fauna. Deve-se
sistema: média; grau de alteração: alto.
incentivar a investigação paleontológica e
Justificativa: A região abriga a vegetação arqueológica e dos recursos naturais nestas
de caatinga arbustiva aberta e arbórea áreas de grande amplitude de espécies
aberta (conforme o substrato), contendo autóctones da região.
população de Cnidosculus phyllacanthus,
espécie endêmica à caatinga, situando-se
em locais especiais em estreita relação com 9 - VITÓRIA DA CONQUISTA
os solos. Essa região abriga, também, Localização: Vitória da Conquista (BA).
árvores da caatinga arbórea, hoje raras Importância biológica: Extrema.
dado o elevado uso e falta de reposição,
Hábitats: Caatinga de altitude, próxima da
além de condições naturais de perda do
cidade.
germoplasma em períodos de seca, como
Myracrodruom urundeuva (aroeira-do- Ação recomendada: Proteção integral.
sertão), Spondias tuberosa (imbu), Elementos de diagnóstico: Riqueza de
Schinopsis blabra (braúna), usadas espécies: média; alto número de endemismos;
economicamente pela população local. Na alta riqueza de espécies raras/ameaçadas.
Serra encontra-se a principal nascente do Vulnerabilidade: Fragilidade intrínseca do
rio Jaguaribe, maior rio do Ceará. sistema: alta; pressão antrópica: alta
(crescimento desordenado da cidade).
8 - CHAPADA DO APODI Justificativa: Espécie endêmica restrita:
Localização: CE: Alto Santo, Quixeré, Melocactus conoideus (Cactaceae),
Limoeiro do Norte e Tabuleiro do Norte; ameaçada de extinção, exclusiva da Serra
RN: Açu, Mossoró, Baraúna, Governador do Periperi, nos arredores de Vitória da
Dix-Sept Rosado e Apodi. Conquista. Segundo Taylor (1991) era
comercializada na Europa e está muito
Importância biológica: Muito alta.
ameaçada pela retirada de cascalho de
Hábitats: Caatinga arbórea e caatinga quartzo. Em 1989 estava praticamente
hiperxerófila. extinta na localidade tipo e a população era
Ação recomendada: Investigação científica. restrita a poucos indivíduos.
Elementos de diagnóstico: Riqueza de
espécies: alta; número médio de 10 - DUNAS DE SÃO BENTO
endemismos; riqueza de espécies raras/
Localização: São Bento do Norte (RN).
ameaçadas: média; ocorrência de
fenômeno biológico especial; alto número Importância biológica: Muito alta.
de espécies de interesse econômico. Hábitats: Caatinga hiperxerófila.
Vulnerabilidade: Fragilidade intrínseca do Ação recomendada: Investigação científica.
sistema: alta; grau de alteração: alto; Elementos de diagnóstico: Riqueza de
pressão antrópica: alta (agricultura, espécies: média; número médio de
desmatamento e agrotóxicos). endemismos; riqueza de espécies raras/
Justificativa: Caatinga arbórea com alta ameaçadas: média; ocorrência de
diversidade no estrato arbustivo e herbáceo. fenômeno biológico especial; número
Contém espécies de Auxemma (gênero médio de espécies de interesse econômico.
endêmico), com apenas duas espécies Vulnerabilidade: Fragilidade intrínseca do
endêmicas para a caatinga (Auxemma sistema: alta; grau de alteração: alto;
oncocalyx e A.glazioviana), com pressão antrópica: alta (desmatamento,
distribuição mais freqüente da primeira no loteamento e pastoreio).

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Justificativa: Pretende-se com a inclusão endemismos; riqueza de espécies raras/
desta área estabelecer critérios que ameaçadas: média; ocorrência de
conduzirão à proteção desse ecossistema. fenômeno biológico especial; alto número
Recomenda-se a criação de uma unidade de espécies de interesse econômico.
de conservação, objetivando proteger a Vulnerabilidade: Fragilidade intrínseca do
integridade da diversidade de espécies. A sistema: alta; grau de alteração: médio;
área funciona como um corredor natural pressão antrópica: média (desmatamento,
de espécies nativas. queimada e agricultura, provocando
erosões).
11 - PICO DO CABUGI Justificativa: A inclusão desta área poderá
Localização: Angicos (RN). favorecer um sistema efetivo para conservação
da biodiversidade dessa caatinga, onde a
Importância biológica: Provável; área
altitude é fator preponderante para o
insuficientemente conhecida.
desenvolvimento das espécies.
Hábitats: Caatinga hiperxerófila.
Ação recomendada: Uso sustentável.
13 - ROCHEDO DE SERRA CAIADA
Elementos de diagnóstico: Riqueza de
Localização: Lagoa de Velhos, Sítio Novo,
espécies: média; número médio de
Tangará e Barcelona (RN).
endemismos; riqueza de espécies raras/
ameaçadas: média; ocorrência de Importância biológica: Provável; área
fenômeno biológico especial; número insuficientemente conhecida.
médio de espécies de interesse econômico. Hábitats: Caatinga hiperxerófila.
Vulnerabilidade: Fragilidade intrínseca do Ação recomendada: Investigação científica.
sistema: alta; grau de alteração: alto; pressão Elementos de diagnóstico: Riqueza de
antrópica: alta (desmatamento, agricultura). espécies: média; número médio de
Justificativa: Preservar a flora e fauna e endemismos; riqueza de espécies raras/
conservar a formação geomorfológica do ameaçadas: média; ocorrência de
Pico do Cabugi e, conseqüentemente, o fenômeno biológico especial; número
ecossistema de Caatinga, que apresenta médio de espécies de interesse econômico.
grande diversidade de espécies. A área está Vulnerabilidade: Fragilidade intrínseca do
sendo impactada pela ação antrópica, sistema: média; grau de alteração: médio;
fragmentando o hábitat de espécies pressão antrópica: alta (desmatamento
endêmicas. A conservação desta área e a para queima de lenha nas cerâmicas).
criação de uma unidade de conservação
Justificativa: Uma unidade de conservação
são recomendáveis. É uma das mais
nesta área disciplinará as intervenções
importantes formações vulcânicas do país.
antrópicas, face ao caráter excepcional
Esta composição geológica é um
dessa formação geológica, podendo ter
patrimônio natural inserido na paisagem da
sido local adequado para hospedar
Caatinga, formando ecossistemas ímpares,
comunidades antigas da região. Esta área
que devem ter sua biodiversidade genética
apresenta uma das mais antigas formações
protegida.
geológicas do mundo, cujas características
ambientais favorecem o endemismo de
12 - SERRA DE SANTANA alguns grupos.
Localização: Santana do Matos (RN).
Importância biológica: Provável; área 14 - SERRA DE PORTALEGRE
insuficientemente conhecida. Localização: Francisco Dantas e Portalegre
Hábitats: Caatinga arbórea. (RN).
Ação recomendada: Uso sustentável. Importância biológica: Provável; área
Elementos de diagnóstico: Riqueza de insuficientemente conhecida..
espécies: média; número médio de Hábitats: Caatinga arbórea.

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Ação recomendada: Investigação científica. Ação recomendada: Investigação científica.
Elementos de diagnóstico: Riqueza de Elementos de diagnóstico: Riqueza de
espécies: média; número médio de espécies: baixa; baixa riqueza de espécies
endemismos; riqueza de espécies raras/ raras/ameaçadas.
ameaçadas: média; ocorrência de Vulnerabilidade: Grau de alteração: alto.
fenômeno biológico especial; número
Justificativa: A vegetação do Seridó é um
médio de espécies de interesse econômico.
tipo especial de caatinga, mais pobre em
Vulnerabilidade: Fragilidade intrínseca do espécies. Na região de Serra Negra existe
sistema: média; grau de alteração: médio; uma única unidade de conservação para
pressão antrópica: média (desmatamento este tipo de caatinga. É uma vegetação
e erosão). arbustiva, com associação de Mimosa,
Justificativa: Proteger bancos genéticos da Caesalpinia e Aristida, única no domínio
flora e fauna da Caatinga. A flora apresenta da Caatinga.
endemismos e a biomassa é considerável
para o ecossistema.
17 – CURIMATAÚ
Localização: PB: Araruna, Cacimba de
15 - MATA DE LUIS GOMES Dentro, Dona Inês e Solânea.
Localização: Luís Gomes (RN). Importância biológica: Provável; área
insuficientemente conhecida.
Importância biológica: Provável; área
insuficientemente conhecida. Hábitats: Caatinga arbustivo-arbórea.
Hábitats: Caatinga arbustiva arbórea. Ação recomendada: Investigação científica.
Ação recomendada: Investigação científica. Elementos de diagnóstico: Riqueza de
espécies: alta; baixo número de
Elementos de diagnóstico: Riqueza de
endemismos; ocorrência de fenômeno
espécies: alta; número médio de
biológico especial.
endemismos; riqueza de espécies raras/
ameaçadas: alta; ocorrência de fenômeno Vulnerabilidade: Grau de alteração: médio;
biológico especial; número médio de pressão antrópica: média (extração de
espécies de interesse econômico. lenha).
Vulnerabilidade: Fragilidade intrínseca do Justificativa: É um tipo de caatinga
sistema: média; grau de alteração: médio; diferente das demais existentes na Paraíba,
pressão antrópica: alta (destruição do sendo que em algumas regiões há uma
ecossistema). formação florestal de transição para as
matas do agreste e as matas do Brejo
Justificativa: Área apropriada para unidade
Paraibano. Presença da espécie endêmica
de conservação e pesquisa científica.
Mimosa borboremae.
Região biologicamente rica, mas
ameaçada, com muitos indicadores de
biodiversidade da flora. Nos limites deste 18 - VALE DO RIO DO PEIXE
município com o estado do Ceará ocorre Localização: Sousa (PB).
uma flora endêmica.
Importância biológica: Muito alta.
Hábitats: Várzeas do rio do Peixe.
16 - SERRA NEGRA Ação recomendada: Proteção integral.
Localização: PB: Riacho dos Cavalos, Elementos de diagnóstico: Riqueza de
Paulista, São Bento e Brejo do Cruz; RN: espécies: alta; ocorrência de fenômeno
Timbaúba dos Batistas, Jardim de Piranhas biológico especial; baixo número de
e Serra Negra do Norte. espécies de interesse econômico.
Importância biológica: Provável; área Vulnerabilidade: Grau de alteração: médio;
insuficientemente conhecida. pressão antrópica: alta (expansão urbana,
Hábitats: Caatinga arbustiva. agricultura, pecuária).

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Justificativa: O vale do rio do Peixe engloba 21- SÃO JOSÉ DA MATA
o Vale dos Dinossauros (ARIE) e ainda Localização: PB: Pocinhos e Campina
apresenta uma vegetação ciliar com Grande.
formações florestais raras na Depressão
Importância biológica: Alta.
Sertaneja. Espécies endêmicas: Guettarda
sericea, Machaonia spinosa e Combretum Hábitats: Planalto da Borborema.
lanceolatum. Ação recomendada: Investigação científica.
Elementos de diagnóstico: Riqueza de
espécies: média; ocorrência de fenômeno
19 - SERRA DE SANTA CATARINA
biológico especial.
Localização: PB: Nazarezinho e São José
da Lagoa Tapada. Vulnerabilidade: Grau de alteração: baixo;
pressão antrópica: alta (proximidade de
Importância biológica: Muito alta.
centro urbano).
Hábitats: Serras baixas na Depressão
Justificativa: Este é provavelmente o
Sertaneja da Paraíba.
último remanescente de vegetação
Ação recomendada: Proteção integral. arbórea de transição entre o Agreste da
Elementos de diagnóstico: Riqueza de Borborema e o Cariri Paraibano. É uma
espécies: alta; média riqueza de espécies área municipal preservada, na qual já
raras/ameaçadas. foram encontradas espécies novas.
Vulnerabilidade: Grau de alteração: baixo; Espécie endêmica: Caesalpinia
pressão antrópica: baixa (pastoreio). gardneriana.
Justificativa: Área única, pelo grau de
preservação e extensão, em meio à
Depressão Sertaneja da Paraíba, com 22 - CARIRI PARAIBANO
vegetação arbórea condicionada pela
Localização: PB: Campina Grande,
posição e altitude. Presença de macaco-
Boqueirão, Cabaceiras, São João do
prego. Espécies endêmicas: Guettarda
Cariri, São José dos Cordeiros e Serra
angelica, Jacaranda sp., Randia nitida e
Branca.
Aspidosperma cuspa.
Importância biológica: Extrema.
Hábitats: Caatinga aberta.
20 - MONTE HOREBE
Ação recomendada: Proteção integral.
Localização: Mauriti (CE) e Monte Horebe
Elementos de diagnóstico: Riqueza de
(PB).
espécies: alta; número médio de
Importância biológica: Provável; área endemismos; ocorrência de fenômeno
insuficientemente conhecida. biológico especial.
Hábitats: Serras baixas.
Vulnerabilidade: Fragilidade intrínseca do
Ação recomendada: Investigação científica. sistema: alta; grau de alteração: médio;
Elementos de diagnóstico: Riqueza de pressão antrópica: alta (extração de lenha,
espécies: alta; ocorrência de fenômeno pastoreio).
biológico especial. Justificativa: Ambiente especial, em
Vulnerabilidade: Grau de alteração: baixo; processo de desertificação, rico em
pressão antrópica: baixa (pastoreio). espécies endêmicas. Apresenta uma
Justificativa: Vegetação arbórea densa e vegetação arbustiva aberta, chegando
arbustiva-arbórea em solo arenoso, com em alguns casos a constituir-se em
um conjunto florístico característico, no caatinga nanificada. Espécies en-
limite da Paraíba com o Ceará. Espécies dêmicas: Rollinia leptopetala, Matelea
endêmicas: Guettarda angelica, Rollinia ro u l i n i o i d e s (endêmica restrita) e
leptopetala e Aspidosperma cuspa. Jatropha ribifolia.

121
23 - SERRA DO TEIXEIRA Importância biológica: Muito alta.
Localização: PB: Água Branca, Imaculada, Justificativa: A estreita relação entre a
Juru, Princesa Isabel e Tavares. vegetação de caatinga e as superfícies
Importância biológica: Extrema. interplanálticas da região semi-árida, a
Hábitats: Serras limítrofes entre Paraíba e chamada Depressão Sertaneja, é apontada
Pernambuco. por diferentes autores (Rizzini 1979,
Fernandes 1996), embora haja registro
Ação recomendada: Proteção integral.
daquela vegetação na chapada do Apodi e
Elementos de diagnóstico: Riqueza de no planalto da Borborema (Andrade-Lima
espécies: alta; alto número de 1964, 1981). Nesse planalto é possível
endemismos; baixo número de espécies de encontrar desde áreas com vegetação
interesse econômico. arbustiva caducifólia espinhosa de baixo
Vulnerabilidade: Grau de alteração: média; porte até florestas ombrófilas densas, a
pressão antrópica: médio; (extração de depender das condições abióticas,
lenha e agricultura). especialmente do relevo, embora, de modo
Justificativa: Serras limítrofes entre Paraíba geral, predomine uma vegetação florestal
e Pernambuco, com uma vegetação de caducifólia espinhosa com porte florestal
caatinga arbórea de serras, com um (caatinga arbórea). Nessas áreas, além da
conjunto florístico distinto da caatinga de presença de táxons comuns em áreas de
áreas planas. Espécies endêmicas: caatinga como Schinopsis brasiliensis
Guettarda sericea, Solanum jabrense Engler (Anacardiaceae), Caesalpinia
(restrita), diversas Bignoniaceae e pyramidalis Tul. e Bahinia cheilanta
Melastomataceae. Stand. (Caesalpiniaceae), todas com porte
mais elevado que nas áreas da Depressão
Sertaneja, podemos encontrar plantas mais
24 - PAUS BRANCOS
comuns em florestas estacionais como
Localização: PB: Manaíra e Santana de Randia nitida (SW.) DC. e Alseis floribunda
Mangueira. Schott (Rubiaceae), Cedrela odorata L.
Importância biológica: Provável; área (Meliaceae), Opuntia brasiliensis (Willd.)
insuficientemente conhecida. Haw (Cactaceae), entre outras. Como
Hábitats: Serras. espécies endêmicas à Caatinga podemos
Ação recomendada: Investigação científica. citar Ceiba glaziovii (Kuntze) K. Schum.
(Bombacaceae) e Cnidoscolus quercifolius
Elementos de diagnóstico: Alta riqueza de
(Euphorbiaceae).
espécies.
Vulnerabilidade: Grau de alteração: alto;
pressão antrópica: média (extração de 26 - BUÍQUE
lenhas para olarias e uso doméstico). Localização: Buíque (PE).
Justificativa: Área ampla com vegetação de Importância biológica: Extrema.
caatinga arbórea densa, floristicamente Ação recomendada: Proteção integral.
pouco conhecida, ocupando uma região Elementos de diagnóstico: Riqueza de
montana no oeste da Paraíba. espécies: alta; alto número de endemis-
mos; riqueza de espécies raras/ameaçadas:
25 - VALE DO IPOJUCA alta; alto número de espécies de interesse
econômico.
Localização: PE: Arcoverde, Pedra,
Venturosa, Alagoinha, Belo Jardim, Vulnerabilidade: Fragilidade intrínseca do
Bezerros, Brejo da Madre de Deus, sistema: alta; grau de alteração: médio;
Cachoeirinha, Capoeiras, Caruaru, pressão antrópica: média (turismo
Jataúba, Pesqueira, Poção, Riacho das ecológico, extrativismo).
Almas, Sanharó, São Bento do Una, São Justificativa: A Chapada de São José,
Caitano e Tacaimbó. situada no município de Buíque, representa

122
um complexo vegetacional com 28 - MIRANDIBA
vegetação caducifólia espinhosa – Localização: Mirandiba (PE).
caatinga – na vertente a sotavento, Importância biológica: Provável; área
vegetação perenifólia – chapada – na insuficientemente conhecida.
encosta a barlavento e vegetação semi-
Ação recomendada: Uso sustentável.
caducifólia espinhosa nas áreas mais
altas e planas da chapada. De um modo Elementos de diagnóstico: Ocorrência de
geral, esses três ambientes têm conjuntos fenômeno biológico especial.
florísticos distintos, porém com algumas Vulnerabilidade: Grau de alteração: médio;
espécies comuns. Além disso, é pressão antrópica: média.
importante salientar que muitas das Justificativa: A região de Mirandiba
espécies desses ambientes eram representa uma chapada sedimentar de
conhecidas apenas nos campos origem cretácea. Segundo Andrade-Lima
rupestres das chapadas e serras da Bahia (1957) essa região, juntamente com os
e Minas Gerais. Táxons representativos: Chapadões do Moxotó e Chapada do
Dasyplyllum sprengelianum (Gardner) Araripe, representa uma unidade ambiental
Cabrera e Paralychnophora reflexo- denominada Chapadões Cretáceos. Na
auriculata (G.M.Barroso) Macleish região, predomina vegetação caducifólia
(Asteraceae); Chamaecrista cytisoides espinhosa com famílias e espécies típicas
(Callad.) Irwin & Barneby (Caesal- de caatinga como Mimosaceae,
piniaceae); Angelonia cornigera Hook F. Euphorbiaceae e Cactaceae, associadas a
(Scrophulariaceae); Ipomea pintoi outras menos comuns como Bignoniaceae
O’Donell e I.marcelia Meissn. (Con- e Myrtaceae. Infelizmente, até o momento,
volvulaceae); Oxandra reticulata Mass não existe um levantamento florístico nessa
(Amonaceae). Outras espécies têm região, mas pelas condições ambientais e
distribuição muito restrita, como Dyckia poucas coletas ali realizadas, pode-se
limae L.B. Sm. (Bromeliaceae), indicar a área como de preservação, dada
Bunchosia pernambucana W.R. An- a particularidade do conjunto florístico
derson (Malpighiaceae) e Euphorbia sp. vegetacional. Espécies: Poeppigia procera
nov. (Euphorbiaceae). (Fabaceae), Piptadenia obliqua (Mi-
mosaceae), Caesalpinia microphylla
(Caesalpiniaceae) e Jatropha mutabilis
27 - SERRA TALHADA (Euphorbiaceae).
Localização: Serra Talhada; (PE).
Importância biológica: Muito alta. 29 - CHAPADA DO ARARIPE
Ação recomendada: Uso sustentável. Localização: PE: Dormentes, Parnamirim,
Elementos de diagnóstico: Ocorrência de Santa Cruz, Ouricuri, Trindade, Araripina,
endemismos; presença de espécies raras/ Ipubi, Bodocó e Exu; CE: Crato, Nova
ameaçadas. Olinda, Potengi, Santana do Cariri, Araripe,
Vulnerabilidade: Grau de alteração: médio; Salitre; PI: Caldeirão Grande do Piauí.
pressão antrópica: média. Importância biológica: Extrema.
Justificativa: Trata-se de uma área com Ação recomendada: Proteção integral.
vegetação arbustivo-arbórea com presença Elementos de diagnóstico: Ocorrência de
de inúmeras espécies como: Rollinia fenômeno biológico especial.
leptopetala (Annonaceae), Pseudobombax Justificativa: Trata-se de um mosaico
marginatum (A.St.Hil.) A. Robyns, vegetacional onde ocorrem manchas de
Helicteres mollis (Sterculiaceae), Harrisia florestas ombrófila e estacional, cerrado,
adscendens Britton & Rose (Cactaceae) e caatinga e carrasco, resultantes da
Encholirium spectabile Mart. Ex Schultes heterogeneidade ambiental, modelada no
& Schultes f. (Bromeliaceae). decorrer de diversos períodos geológicos.

123
Espécies: Anemopaegma athayde Gentry, puberula A. DC., e Dizygostemon
Anemopaegma loreve DC., Jacaranda angustifolium Giulietti.
jasminioides (Thumb.) Sandew, além das
bignoniáceas de importância ornamental.
32 - XINGÓ
Localização: AL: Água Branca, Pariconha,
30 - SERTÃO DO SUBMÉDIO Delmiro Gouveia, Piranhas, Olho d’Água do
SÃO FRANCISCO Casado; BA: Santa Brígida, Glória e Paulo
Afonso; PE: Tacaratu e Petrolândia; SE:
Localização: PE: Cabrobó, Floresta,
Canindé de São Francisco.
Itacuruba, Santa Maria da Boa Vista, Orocó,
Belém de São Francisco; BA: Chorrochó, Importância biológica: Muito alta.
Abaré, Rodelas, Macururé, Curaçá e Ação recomendada: Proteção integral.
Juazeiro. Elementos de diagnóstico: Riqueza de
Importância biológica: Provável; área espécies: alta; número médio de
insuficientemente conhecida. endemismos; ocorrência de fenômeno
Ação recomendada: Uso sustentável. biológico especial; alto número de espécies
de interesse econômico.
Elementos de diagnóstico: Riqueza de
espécies: baixa; ocorrência de fenômeno Vulnerabilidade: Fragilidade intrínseca do
biológico especial e de espécies de sistema: alta; grau de alteração: médio;
interesse econômico. pressão antrópica: média.
Vulnerabilidade: Grau de alteração: alto; Justificativa: Existe uma reserva de 9.000ha
pressão antrópica: alta (agricultura.). conservada pela CHESF, criada antes da
construção da hidrelétrica Xingó,
Justificativa: Área coberta por vegetação
abrangendo parte dos estados de PE, BA,
caducifólia espinhosa de porte baixo e
AL e SE, com remanescentes de caatinga
pouco densa. A flora é ainda pouco
arbórea (12 a 15 metros de altura) nos
conhecida. Com extensas áreas do
platôs e caatingas arbustivas nos cânions.
município de Belém de São Francisco em
Compreende muitas espécies endêmicas
adiantado processo de desertificação.
da Caatinga: Capparis cynophallophora L.;
Capparis jacobinae Moric.; Cobretum
leprosum. Ocorrem extensas áreas
31 - SUDOESTE DE PERNAMBUCO areníticas com flora própria, bem diferente
Localização: Petrolina (PE). das demais áreas cobertas pelo cristalino,
Importância biológica: Extrema. principalmente com populações de
Ação recomendada: Uso sustentável. Asteraceae e Bignoniaceae, nunca
coletadas em outras áreas. Espécies raras
Elementos de diagnóstico: Riqueza de de fungos.
espécies: média; número médio de
endemismos; riqueza de espécies raras/
ameaçadas: média; ocorrência de 33 - PICOS
fenômeno biológico especial; baixo número
Localização: Picos (PI).
de espécies de interesse econômico.
Importância biológica: Provável; área
Vulnerabilidade: Grau de alteração: médio;
insuficientemente conhecida.
pressão antrópica: alta (áreas de irrigação
e agricultura de sequeiro). Ação recomendada: Proteção integral.
Justificativa: Espécies: Calliandra Elementos de diagnóstico: Alto número de
macrocalyx, Calliandra leptopoda, endemismos.
Bombacopsis retusa (Mart. & Zucc.) Justificativa: Próxima à área de limite entre
Robyns, Anamaria heterophylla (Giulietti três biomas, priorizada no Workshop do
& F.C. Souza) F. C. Souza, Pseudobombax Cerrado. Área de ocorrência de algumas
simplicifolium A. Robyns, Allamanda espécies endêmicas.

124
34 - CORREDOR ECOLÓGICO SERRA continuidade física de uma área importante
DA CAPIVARA-CONFUSÕES para a manutenção de um corredor já
Localização: PI: Anísio de Abreu, São existente na Serra da Capivara. Espécies:
Raimundo Nonato, Coronel José Dias, Pavonia piauhiensis, Mimosa caesalpini-
Canto do Buriti, São João do Piauí, São folia e Acacia piauhiensis.
Braz do Piauí e Caracol.
Importância biológica: Extrema. 35 - SERRAS DO SENTO SÉ/
Hábitats: Caatinga e cerrado. SOBRADINHO/REMANSO
Ação recomendada: Proteção integral. Localização: BA: Casa Nova, Pilão Arcado,
Elementos de diagnóstico: Riqueza de Xique-Xique, Sobradinho e Campo Alegre
espécies: alta; alto número de de Lourdes.
endemismos; riqueza de espécies raras/ Importância biológica: Provável; área
ameaçadas: alta; ocorrência de fenômeno insuficientemente conhecida.
biológico especial; número médio de Hábitats: Caatinga sobre rocha e dunas.
espécies de interesse econômico. Ação recomendada: Proteção integral.
Vulnerabilidade: Fragilidade intrínseca do Elementos de diagnóstico: Riqueza de
sistema: baixa; grau de alteração: médio; espécies: alta; alto número de
pressão antrópica: alta (a região da Serra endemismos; alta riqueza de espécies raras/
das Confusões está sem nenhuma ameaçadas.
proteção e fiscalização da caça e retirada
Vulnerabilidade: Fragilidade intrínseca do
de madeira).
sistema: alta; grau de alteração: médio;
Justificativa: 1 - Área de cerrado do PARNA pressão antrópica: média.
Serra das Confusões que não foi
Justificativa: Incidência de táxons endêmicos
contemplada durante o Workshop do
da área: Tabebuia selachidentata
Cerrado. É uma área de transição entre
(Bignoniaceae); Piriqueta scabrida Urb.
Caatinga e Cerrado. Como área ecótone
Espécies endêmicas: Calliandra squarrosa
deve apresentar uma alta riqueza de
Benth. (em apenas duas áreas), Calliandra
espécies, porém não há ainda levantamento
leptopoda, Calliandra macrocalyx var.
florístico nem faunístico. Sabe-se da
macrocalyx, Mimosa setuligera (Legu-
presença do tamanduá-bandeira, e das
minosae); Pavonia glazioviana (Malvaceae);
onças parda e pintada. 2 - Área de Caatinga
Syagrus microphylla (Palmae); Hete-
que comporá parte do Corredor ecológico.
ranthera seubertiana Solms (Ponte-
3 - É importante a criação de um corredor
deriaceae); Apterokarpos gardneri
ecológico interligando os 130.000ha do
(Anacardiaceae); Evolvulus speciosus
PARNA Serra da Capivara e os 500.000ha
Moric., Ipomaea longistaminea (Con-
do PARNA Serra das Confusões. A presença
volvulaceae); Melocactus zehntneri,
do corredor irá possibilitar o aumento do
Melocactus pachyacanthus ssp.
tamanho das populações, e também
pachyacanthus (Cactaceae).
permitirá a passagem de agentes
dispersores de sementes. Espécies: Mimosa
caesalpinifolia, Pilocereus piauhiensis, 36 - RASO DA CATARINA
Pavonia varians. 4 - Todas as 14 espécies
Localização: BA: Santa Brígida, Rodelas,
de plantas citadas pelo CENARGEN (1990)
Paulo Afonso, Jeremoabo, Canudos e Uauá.
que apresentam risco de erosão genética
se encontram no PARNA Serra da Capivara. Importância biológica: Muito alta.
Em uma comparação preliminar entre a lista Hábitats: Caatinga sobre areia e relevo
de espécies endêmicas da Caatinga e a lista plano (tabuleiro) e com afloramentos
de espécies do PARNA Serra da Capivara, rochosos na parte oriental. Vegetação
foi observado que a Serra da Capivara predominantemente arbustiva densa e
apresenta 23 espécies de plantas endêmicas entrelaçada com áreas de caatinga
da Caatinga. 5 - Esta área apresenta a arbórea.

125
Ação recomendada: Proteção integral. ssp bahiensis facispinosus, Espostoopsis
Elementos de diagnóstico: Riqueza de dybowskii (Cactaceae); Neesiochloa
espécies: média; alto número de barbata (Gramineae); Pseudobombax
endemismos; alta riqueza de espécies raras/ simplicifolia (Bombacaceae), Rhamni-
ameaçadas. dium molle (Rhamnaceae).
Vulnerabilidade: Fragilidade intrínseca do
sistema: alta; grau de alteração: médio; 38 - DELFINO/MINAS DO MIMOSO/
pressão antrópica: média. SERRA DO CURRAL FEIO
Justificativa: Incidência de táxons Localização: BA: Campo Formoso (Delfino),
endêmicos da área: Dalbergia caatingicola Sento Sé (Minas do Mimoso) e Umburanas.
(Leguminosae) Espécies endêmicas: Importância biológica: Extrema.
Harpochilus neesianus (Acanthaceae); Hábitats: Caatinga de areia com afloramento
Annona spinescens (Annonaceae); de arenito, e ecótono com transição para
Barnebya harley (Malpighiaceae); Callian- campo rupestre.
dra aeschynomenoides – só conhecida em
Ação recomendada: Proteção integral.
duas localidades, Cratylia mollis,
Pithecolobium diversifolium (Legumino- Elementos de diagnóstico: Riqueza de
sae); Skytanthus hancorniifolius, Allaman- espécies: alta; alto número de endemismos;
da blanchetii (Apocynaceae); Pilosocereus riqueza de espécies raras/ameaçadas: alta;
catingicola (Cactaceae); Crataeva tapia ocorrência de fenômeno biológico especial.
(Capparaceae); Balfourodendron mollis Vulnerabilidade: Fragilidade intrínseca do
(Rutaceae); Cordia sp. (sect. Varronia) sistema: alta; grau de alteração: baixo;
(Boraginaceae). pressão antrópica: baixa.
Justificativa: Incidência de táxons endêmicos
37 - REGIÃO DE SENHOR DO BONFIM da área: Eriope sp. nov., Hyptis pinheiroi,
Hyptis brightonii (Labiatae); Syngonanthus
Localização: BA: Senhor do Bonfim,
harleyi, S. curralensis var. curralensis
Filadélfia, Itiúba, Cansanção e Monte Santo.
(Eriocaulaceae); Chamaecrista brevicalyx
Importância biológica: Extrema. var. elliptica (Leguminosae); Lippia harleyi
Hábitats: Caatingas com solo arenoso a (Verbenaceae). Espécies endêmicas:
pedregoso com cascalho e afloramentos Barnebya harley (Malpighiaceae); Alvimian-
de granito e arenito, e áreas alagadas. tha tricamerata – só conhecida de duas áreas
Algumas áreas de Caatinga árborea bem (Rhamnaceae); Eriope tumidicaulis,
desenvolvidas. Hypenia longicaulis ined. (Labiatae);
Ação recomendada: Proteção integral. Bauhinia harleyi ined. (Leguminosae);
Elementos de diagnóstico: Riqueza de Tamonea juncea (Verbenaceae); Syagrus
espécies: alta; alto número de ende- microphylla (Palmae); Apterokarpos gardneri
mismos; alta riqueza de espécies raras/ (Anarcadiaceae); Pilosocereus gounellei var.
ameaçadas. zehntneri, Pilosocereus tuberculatus (Cacta-
ceae); Piriqueta dentata, Piriqueta
Vulnerabilidade: Fragilidade intrínseca do
asperifolia, Piriqueta carnea (Turneraceae).
sistema: alta; grau de alteração: médio;
pressão antrópica: alta (agricultura,
mineração). 39 - DUNAS DO RIO SÃO FRANCISCO
Justificativa: Incidência de táxons Localização: BA: Barra e Pilão Arcado.
endêmicos da área: Gênero: McVaughia. Importância biológica: Extrema.
Espécie: M. bahiana (Malpighiaceae).
Hábitats: Dunas arenosas com vegetação
Fungo: Glomaceae sp. nov. Espécies
xerófila aberta e moitas.
endêmicas: Senna martiana, Chloro-
leucon extortum (Leguminosae); Penta- Ação recomendada: Proteção integral.
panax warmingiana (Araliaceae); Syagrus Elementos de diagnóstico: Riqueza de
vagans (Palmae); Melocactus bahiensis espécies: alta; alto número de endemismos;

126
riqueza de espécies raras/ameaçadas: alta; 41 - CARSTE DE IRECÊ
ocorrência de fenômeno biológico especial. Localização: BA: Irecê, Jussara, Presidente
Vulnerabilidade: Fragilidade intrínseca do Dutra, São Gabriel, João Dourado, Lapão,
sistema: alta; grau de alteração: baixo; Ibititá, Uibaí, Central e América Dourada.
pressão antrópica: baixa. Importância biológica: Muito alta.
Justificativa: Incidência de táxons endêmicos Hábitats: Caatingas sobre solos calcários,
da área: Pterocarpus simplicifolius argiláceos.
(Leguminosae) – espécie ameaçada; Eugenia
Ação recomendada: Proteção integral.
sp. nov. (Eugeniaceae). Há outras espécies
endêmicas, incluindo várias que ainda são Elementos de diagnóstico: Riqueza de
inéditas para a ciência. Espécies endêmicas: espécies: média; número médio de
Glischrothamnus ulei (Molluginaceae); endemismos; média riqueza de espécies
Pilosocereus tuberculatus (Cactaceae); raras/ameaçadas.
Mimosa xiquexiquensis (Leguminosae). Vulnerabilidade: Fragilidade intrínseca do
sistema: média; grau de alteração: alto;
pressão antrópica: alta (agricultura: cultivo
40 - SERRA DO AÇURUÁ/
intenso).
SANTO INÁCIO
Justificativa: Incidência de táxons
Localização: BA: Gentio de Ouro e Xique-
endêmicos: Melocactus azureus ssp.
Xique.
azureus, Melocactus pachyacanthus ssp.
Importância biológica: Extrema. viridis. Espécies endêmicas à caatinga:
Hábitats: Caatinga arenosa, incluindo Mimosa ophthalmocentra, Cratylia mollis,
serras com afloramento de arenito e zona Mimosa campicola var. planipes
de contato com cerrado; áreas úmidas e (Leguminosae).
lagoas com carnaúba.
Ação recomendada: Proteção integral.
Elementos de diagnóstico: Riqueza de 42 - REBORDO DA CHAPADA
espécies: alta; alto número de DIAMANTINA
endemismos; alta riqueza de espécies raras/ Localização: BA: Itaeté, Mucugê, Lençóis,
ameaçadas. Andaraí, Bonito, Morro do Chapéu, Piatã,
Vulnerabilidade: Fragilidade intrínseca do Abaíra, Rio do Pires, Jussiape, Rio de
sistema: alta; grau de alteração: médio; Contas, Livramento do Brumado e
pressão antrópica: média (gado na área da Paramirim.
lagoa, mineração). Importância biológica: Extrema.
Justificativa: Alta incidência de táxons Hábitats: Caatinga arenosa com transição
endêmicos: Mimosa glaucula (Legumi- para mata seca e mata serrana. Zona de
nosae); Apodanthera succulenta (Cucur- contato com cerrado de altitude e com
bitaceae); Argyrovernonia harleyi áreas úmidas temporárias. Pequenas áreas
(Compositae); Piriqueta assuruensis, de calcário.
Piriqueta densiflora var. densiflora
Ação recomendada: Proteção integral.
(Turneraceae). Espécies endêmicas da
caatinga: Glischrothamnus ulei (Mollugi- Elementos de diagnóstico: Riqueza de
naceae); Chloroleucon extortum, espécies: alta; alto número de
Blanchetiodendron blanchetii, Mimosa endemismos; riqueza de espécies raras/
ulbrichiana (Leguminosae); Hyptis ameaçadas: alta; ocorrência de fenômeno
stachydifolia (Labiatae); Piriqueta carnea biológico especial; número médio de
(Turneraceae); Orbignea brejinhoensis espécies de interesse econômico.
(Palmae) – espécie com pouca coleta; uma Vulnerabilidade: Fragilidade intrínseca do
grande população de Copernicia prunifera sistema: alta; grau de alteração: médio;
(Palmae) na lagoa Itapirica que merece pressão antrópica: média (agricultura,
proteção. mineração, pecuária).

127
Justificativa: Alta incidência de táxons 43 - IPIRÁ/SERRA DO OROBÓ
endêmicos/restritos: Gênero Rayleya Localização: BA: Ipirá, Baixa Grande,
(Sterculiaceae); Euphorbia appariciana Macajuba, Ruy Barbosa e Itaberaba.
Rizz. (Euphorbiaceae); Apodanthera Importância biológica: Extrema.
villosa C. Jeffrey (Cucurbitaceae);
Hábitats: Caatinga arbustiva sobre solos
Prepusa montana (Gentianaceae);
arenosos e pedregosos e afloramentos de
Mimosa mensicola Barneby; Mimosa
rochas sedimentares, associado com áreas
morroensis Barneby; Mimosa subenervis
de transição para mata semidecídua nas
Benth (Leguminosae); Hyptis
altitudes maiores.
leptostachys Epl. subsp. caatingae
Harley (Labiatae); Dichorisandra Ação recomendada: Proteção integral.
gardneri (Commelinaceae); Hyptis Elementos de diagnóstico: Riqueza de
tenuithyrsa Harley ined. (Labiatae); espécies: alta; alto número de endemismos;
Anchietia sp. (Violaceae); Hohenbergia riqueza de espécies raras/ameaçadas:
caatingae Ule var. eximbricata L.B. Sm. média; ocorrência de fenômeno biológico
& Reas (Bromeliaceae); Melocactus especial; número médio de espécies de
bahiensis (Britton & Rose) Lutzelburg interesse econômico.
subsp. bahiensis forma inconcinnus Vulnerabilidade: Fragilidade intrínseca do
Buining & (Brederoo) N.P. Taylor; sistema: alta; grau de alteração: médio;
Harpalyce lanata L.P. Queiroz; Mimosa pressão antrópica: alta (mineração).
crumenarioides L.P.Queiroz (Legumi- Justificativa: Região com importância
nosae); Pilosocereus pentadrophorus hidrológica relacionada com o vale do rio
(Cels) Byles & Rowley ssp. robustus Zappi Paraguaçu, onde as serras fornecem as
(Cactaceae). Espécies endêmicas da fontes de água para as matas de encosta,
caatinga: Apodanthera hatschbachii C. sendo, portanto, imprescindível a
Jeffrey (Cucurbitaceae); Blanchetioden- conservação da vegetação. Alta incidência
dron blanchetti (Benth.) Barneby & de táxons endêmicos/restritos: Gênero
Grimes (Leguminosae); Anamaria novo inédito (V iolaceae); Acacia
heterophylla (Giulietti & Souza) Souza kallunkiae (Leguminosae); Salvia sp. nov.
(Scrophulariaceae); Neesiochloa barbata (Labiatae). Espécies endêmicas da
(Nees) Pilger (Gramineae); Piriqueta caatinga: Blanchetiodendron blanchetti
dentata Arbo (Turneraceae); Piriqueta (Leguminosae); Craniolaria sp.
asperifolia Arbo (Turneraceae); (Pedaliaceae), Ipomaea pintoi O’Donnel
Melocactus oreas Miquel ssp. (Convovulaceae); Melocactus bahiensis
cremnophila (Cactaceae); Melocactus ssp. bahiensis, Melocactus salvadorensis,
glaucescens (Cactaceae); Pilosocereus Melocactus oreas Miq.; Melocacatus
catingicola (Guerke) Byles (Cactaceae); ernestii Vaupel; Piloscereus cantigola
Pilosocereus glaucochrous (Werderm.) (Cactaceae).
Byles & Rowley (Cactaceae) Auxemma
glaziovii (Boraginaceae); Symplocos
hamnifolia (Symplocaceae); Zantho- 44 - MILAGRES
xylum hamadryadicum Pirani (Ruta- Localização: BA: Milagres, Itatim e Iaçu.
ceae); Pilocarpus trachylophus Holmes Importância biológica: Extrema.
(Rutaceae); Apodanthera glaziovii Cogn.
Hábitats: Paisagem formada por grandes
(Cucurbitaceae); Gomphrena desertorum
blocos de rochas gnaissicas isoladas
Mart. var. rhodantha (Moq.) Stuchlik
(inselbergues) rodeados por áreas de
(Amaranthaceae); Diatenopterix gra-
caatinga.
zielae (Sapindaceae), Calliandra
leptopoda Benth., Calliandra spinosa Ação recomendada: Proteção integral.
Ducke (Leguminosae); Orbignya Elementos de diagnóstico: Riqueza de
brejinhoensis (Arecaceae); Syagrus espécies: alta; alto número de endemis-
vagans (Arecaceae). mos; riqueza de espécies raras/ameaçadas:

128
alta; ocorrência de fenômeno biológico 46 - RESERVA BIOLÓGICA
especial. DE SERRA NEGRA
Vulnerabilidade: Fragilidade intrínseca do Localização: PE: Tacaratu, Petrolândia,
sistema: alta; grau de alteração: baixo; Floresta e Inajá.
pressão antrópica: média (retirada de Importância biológica: Extrema.
plantas para venda e agricultura).
Ação recomendada: Proteção integral.
Justificativa: Alta incidência de táxons
Elementos de diagnóstico: Riqueza de
endêmicos/restritos: Euphorbia sp. nov.
espécies: média; número médio de
affin. E. gymnoclada (Euphorbiaceae);
endemismos; riqueza de espécies raras/
Luetzelburgia sp. nov. affin. L. andrade-
ameaçadas: média; ocorrência de
limae (Leguminosae); Maranta zingiberina
fenômeno biológico especial.
L. Anderson (Zingiberaceae); Chamae-
crista belenii. Espécies endêmicas da Vulnerabilidade: Grau de alteração: médio;
Caatinga: Marsdenia caatingae pressão antrópica: média (extração de
(Asclepiadaceae); Melocactus salva- lenha).
dorensis Weberling (Cactaceae); Justificativa: Atualmente a Reserva
Melocactus oreas Miquel ssp. oreas Biológica de Serra Negra abriga uma área
(Cactaceae); Anamaria heterophylla de 1.100ha de floresta ombrófila. Seria
(Scrophulariaceae) – áreas úmidas; interessante ampliar a área desta reserva
Averrhoidium gardneri (Sapindaceae); para assim incluir ambientes de caatinga
Phyllostylon brasiliense (Ulmaceae); sobre sedimentos arenosos, os quais
Syagrus vagans (Bondar) Hawkes representam um ambiente peculiar. Como
(Palmae); Encholirium spectabile espécies endêmicas à área da Caatinga e
(Bromeliaceae). de distribuição restrita àqueles sedimentos
podemos citar: Pavonia glazioviana Gürke
(Malvaceae), Pilosocereus pachycladus,
45 - MARACÁS
Pilosocereus pentaedrophorus, Pilo-
Localização: Maracás (BA). socereus tuberculatus (Cactaceae);
Importância biológica: Provável; área Jatropha mutabilis (Pohl.) Baill. A área
insuficientemente conhecida. proposta compreende a Reserva Biológica
Hábitats: Ecótone entre mata decídua de Serra Negra e seu entorno.
(mata de cipó) e caatinga com
afloramentos rochosos.
47 - BOM JESUS DA LAPA/
Ação recomendada: Investigação científica. SANTA MARIA DA VITÓRIA
Elementos de diagnóstico: Alta riqueza de Localização: BA: Serra Dourada, Bom
espécies. Jesus da Lapa, Sítio do Mato, Serra do
Vulnerabilidade: Fragilidade intrínseca do Ramalho, Santana e Riacho de Santana.
sistema: média; grau de alteração: médio; Importância biológica: Muito alta.
pressão antrópica: alta (agricultura de café
Hábitats: Áreas com predomínio de
nas áreas de mata, pecuária).
caatinga arbórea com afloramentos
Justificativa: Alta incidência de táxons calcários e arenitos, incluindo variados tipos
endêmicos/restritos: Sparattosperma de lagoas temporárias.
catingae Gentry. Espécies endêmicas da
Ação recomendada: Uso sustentável.
Caatinga: Caesalpinia laxiflora
(Leguminosae); Crotalaria holosericea Elementos de diagnóstico: Riqueza de
Nees & Mart. (Leg. Pap.); Melocactus espécies: alta; alto número de ende-
ernestii (Cactaceae); Neesiochloa barbata mismos.
(Gramineae); Blanchetiodendron Vulnerabilidade: Fragilidade intrínseca do
blanchetii (Leg.); Pavonia erythrolema sistema: média; grau de alteração: médio;
(Malvaceae); Diclidanthera sp. pressão antrópica: baixa (próximo de áreas
(Polygalaceae); Syagrus vagans (Palmae). de cultivo de soja, agricultura diversificada

129
e pecuária de gado, práticas especialmente 49 - CALCÁRIO DO
danosas em áreas úmidas). NORTE DE MINAS GERAIS
Justificativa: Incidência de táxons endêmi- Localização: MG: Pedras de Maria da Cruz,
cos/restritos: Apodanthera congestiflora São João da Ponte, Porteirinha, Janaúba,
Cogn. (Cucurbitaceae). Espécies endêmi- Mato Verde, Januária, Montezuma e
cas da Caatinga: Senna gardneri; Varzelândia.
Calliandra leptopoda; Arachis pusilla – Importância biológica: Provável; área
grupo de interesse econômico; Parapi- insuficientemente conhecida.
ptadenia zehntneri; Mimosa exalbescens;
Hábitats: Caatinga sobre calcário bambuí.
Calliandra leptopoda (Leguminosae);
Cavanillesia e Umbellata como espécies
Quiabientia zehntneri (Cactaceae);
marcantes.
Marsdeni zehntneri (Asclepiadaceae);
Talisia sp. (Sapindaceae); Annonna Ação recomendada: Proteção integral.
vepretorum Mart. (Annonaceae); Ipomaea Elementos de diagnóstico: Riqueza de
sp. nov. (Convolvulaceae); Apodanthera espécies: alta; alto número de ende-
glaziovii (Curcubitaceae); Rhamnidium mismos; riqueza de espécies raras/
molle Reiss. (Rhamnaceae); Pilosocereus ameaçadas: alta; ocorrência de fenômeno
gounellei (Weber) Byles & Rowley var. biológico especial.
zehntneri (Britt. & Rose) Zappi, Pilo- Vulnerabilidade: Fragilidade intrínseca do
socereus densiareolatus Ritter (Cactaceae); sistema: alta.
Piriqueta duarteana var. ulei Urb. Justificativa: Espécies endêmicas/restritas:
(Turneraceae); Neesiochloa barbata (Nees) Piranhea securinega (Euphorbiaceae) –
Pilger; Patagonula bahiensis Moricand espécie restrita a Januária. Espécies
(Polygonaceae). endêmicas da Caatinga: Balfourodendron
molle (Rutaceae); Zanthoxylum stelligerum
48 - SUDOESTE DA BAHIA (Rutaceae); Pilosocereus gounellei ssp.
zehntneri; P. pachycladus ssp. pachyladus;
Localização: BA: Caraíbas, Belo Campo,
Crumenaria decubens (Rhamnaceae); P.
Bom Jesus da Serra, Planalto, Poções,
densiareolatus (Cactaceae).
Tremedal, Anagé, Aracatu e Brumado.
Importância biológica: Muito alta.
50 - PEDRA AZUL
Hábitats: Caatinga arbustiva, afloramentos
rochosos de arenito e calcáreo, mata de cipó. Localização: MG: Divisópolis, Cachoeira do
Pajeú, Taiobeiras, Bandeiras, Mato Verde,
Ação recomendada: Uso sustentável.
Pedra Azul, São João do Paraíso, Águas
Elementos de diagnóstico: Riqueza de Vermelhas e Almenara.
espécies: média; número médio de
Importância biológica: Provável; área
endemismos; alta riqueza de espécies raras/
insuficientemente conhecida.
ameaçadas.
Hábitats: Caatinga aberta sobre aflora-
Vulnerabilidade: Fragilidade intrínseca do
mentos gnaissicos com predominância de
sistema: alta; grau de alteração: alto; pressão
cactáceas e bromeliáceas.
antrópica: alta (crescimento desordenado das
principais cidades. Mineração de magnesito Ação recomendada: Investigação científica.
e outros minérios perto do Brumado). Elementos de diagnóstico: Alto número de
endemismos; alta riqueza de espécies raras/
Justificativa: Táxons endêmicos/restritos:
ameaçadas.
Mimosa coruscocaesia (Leguminosae)
Espécies endêmicas da Caatinga: Senna Vulnerabilidade: Fragilidade intrínseca do
harley Irwin & Barneby (Leguminosae); sistema: média; grau de alteração: baixo.
Syagrus vagans (Palmae); Pilosocereus Justificativa: Espécies restritas: Hyptis
catingicola ssp. catingicola (Cactaceae); viaticum (Labiatae) – Pedra Azul; Pilo-
Bauhinia cocoria ssp. blanchetiana socereus magnificus e P. multicostatus
wunderlin. (Cactaceae). Espécies endêmicas da

130
Caatinga: Pavonia zehntneri e P. martii ameaçadas: média; ocorrência de
(Malvaceae); Pilosocereus pentaedrophorus fenômeno biológico especial; número
subesp. robusta; P. floccosus subesp. médio de espécies de interesse econômico.
quadricostatus (Cactaceae); Apodanthera Vulnerabilidade: Grau de alteração: médio;
hatschbachii (Curcubitaceae). pressão antrópica: alta (extração de lenha
para olarias e padarias).
51 - VALE DO PIANCÓ Justificativa: Área de transição entre o
Localização: PB: Santa Teresinha, Catingueira, Planalto da Borborema e a Depressão
Emas, Coremas, Itaporanga e Piancó. Sertaneja, com vegetação arbórea densa e
arbustivo-arbórea em bom estado de
Importância biológica: Provável; área
conservação. Espécies endêmicas:
insuficientemente conhecida.
Hydrohrix gardneri (restrita), Licania
Hábitats: Várzeas e serras. rigida, Pilosocerus gounellei, Godmania
Ação recomendada: Investigação científica. dardanoi, Pilosocerus pachydades.
Elementos de diagnóstico: Baixo número
de espécies de interesse econômico. 53 - ITABAIANA/LAGARTO
Vulnerabilidade: Grau de alteração: alto; Localização: SE: São Domingos, Campo
pressão antrópica: média (extração de do Brito, Itabaiana e Lagarto.
lenha e pecuária). Importância biológica: Provável; área
Justificativa: Vegetação arbustivo-arbórea insuficientemente conhecida.
densa, determinando um ambiente Hábitats: Caatinga com enclave da serra
especial pela influência da maior umidade de Itabaiana.
ocasionada pelo rio Piancó. Área com alta
Ação recomendada: Proteção integral.
concentração de Liconia rigida.
Elementos de diagnóstico: Riqueza de
espécies: média; número médio de
52 - SERRA DA BORBOREMA endemismos; ocorrência de fenômeno
Localização: PB: Patos e São José do Bonfim. biológico especial.
Importância biológica: Alta. Vulnerabilidade: Fragilidade intrínseca do
sistema: média; grau de alteração: médio.
Hábitats: Planalto da Borborema.
Justificativa: Espécie endêmica/restrita:
Ação recomendada: Investigação científica. Actinocephalus dardanoi (Eriocaulaceae)
Elementos de diagnóstico: Riqueza de – alto da serra de Itabaiana. Espécie
espécies: média; número médio de endêmica da Caatinga: Pilosocereus
endemismos; riqueza de espécies raras/ pentaedrophorus.

131
Parte III

Fauna
Invertebrados Carlos Roberto Ferreira Brandão
Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo

da Caatinga Christiane Izume Yamamoto


Estação Ciências, Universidade de São Paulo

135
André Pessoa

Maniçoba

INTRODUÇÃO
Para produzir uma primeira síntese As localidades citadas no banco de
sobre o estado do conhecimento da fauna dados de espécies raras de invertebrados
de invertebrados da Caatinga, foram são as únicas sobre as quais se dispõe de
levantados os especialistas com experiência informação confiável, não significando que
em trabalhos faunísticos com invertebrados não existam outras localidades que
da Caatinga, na sua maioria taxonomistas, também apresentem alto grau de
citados em diversas fontes e indicados por endemismo, como sugerido por alguns
colegas. Entre janeiro e fevereiro de 2000 pesquisadores. As informações obtidas,
foram feitos contatos com esses possíveis para cada grupo de invertebrados, estão
informadores, por meio do envio de relacionadas abaixo.
mensagens eletrônicas.
A essas primeiras informações foram
adicionadas outras obtidas a partir da
consulta à literatura pertinente ao assunto,
ESTADO ATUAL DO CONHECIMENTO
incluindo dados de páginas eletrônicas DA FAUNA DE INVERTEBRADOS DO
(Brandão et al. 1998) e de relatórios
resultantes de diagnósticos recentes (Guedes
BIOMA CAATINGA
1998). Em especial, diversos dados foram
retirados de um relatório ainda não publicado ANELLIDA
(Brandão et al. 2000), resultante de um OLIGOCHAETA
diagnóstico em andamento, sobre o Segundo o Dr. Gilberto Righi (recen-
conhecimento atual a respeito dos temente falecido), não estão registradas
invertebrados das diversas regiões brasileiras, coletas ou quaisquer informações sobre os
patrocinado pelo PNUD/MMA, e de um anelídeos oligoquetos da Caatinga. Apesar
diagnóstico já concluído, e divulgado de não existir nenhuma espécie conhecida
eletronicamente, sobre as principais coleções para a Caatinga, ele estimava a ocorrência
zoológicas brasileiras (Brandão et al. 1998). de 15 a 20 espécies para o bioma. Para a
A grande maioria dos pesquisadores região Nordeste, que foi avaliada como mal
consultados e as informações retiradas da conhecida e com poucas coletas (Brandão
literatura, indicam a Caatinga como o et al. 2000), ele cita cerca de 10 a 20
ambiente menos conhecido para todos os espécies conhecidas, de um total estimado
grupos de invertebrados. de 100 a 200 espécies.

136
ARTHROPODA espécies conhecidas para um total de 60 a
MYRIAPODA 80), e para a região Nordeste como “ruim”
Irene Knysak, do Instituto Butantan, (com uma estimativa de 30 a 40 espécies
classificou como “nenhum” o grau de conhecidas para um total de 60 a 120
coleta e de conhecimento sobre o bioma espécies para a região) (Brandão et al. 2000).
Caatinga, e como “ruim” o grau de coleta Bertani indicou o estudante Marcelo
e de conhecimento sobre a região Nordeste Peres, do Laboratório de Animais
(Brandão et al. 2000). Peçonhentos da Universidade Federal da
Bahia, como possível informador adicional
ARACHNIDA sobre caranguejeiras da Caatinga.
ACARI
O Dr. Gilberto Moraes (com. pess.) OPILIONES
coletou ácaros em Petrolina, PE, centro da Segundo o Dr. Ricardo Pinto da
Caatinga, entre os anos de 1978 e 1988, Rocha, “os opiliões foram muitíssimo mal
tendo formado uma boa coleção de ácaros coletados na Caatinga e nada pode ser dito
da Caatinga e de áreas irrigadas da região. para esse ambiente”.
Essa coleção gerou algumas publicações
sobre ácaros predadores e fitófagos e em INSECTA
parte está depositada no CPATSA (Centro COLLEMBOLA
de Pesquisa do Trópico Semi-árido) da Segundo Douglas Zeppelini não
Embrapa, em Petrolina. Essa instituição existem informações sobre colêmbolos da
também possui uma coleção muito Caatinga. Zeppelini indicou a Dra. Cleide
representativa de insetos da região. Mendonça, do Museu Nacional do Rio de
Janeiro, para mais informações.
ARANEAE
Não existem coletas e informações ODONATA
sobre aranhas da Caatinga. A região O Dr. Alcimar Carvalho, especialista
Nordeste, como um todo, apresenta graus em Odonata, nunca trabalhou em áreas de
de coleta e de conhecimento ruins, segundo caatinga, mas informou que a coleção do
Antônio Brescovit (Brandão et al. 2000). Museu Nacional do Rio de Janeiro abriga
material de muitas coletas em caatingas e
ARANEAE ambientes áridos, sugerindo o nome da
MYGALOMORPHAE Profa. Janira M. Costa para mais
A maior coleção de aranhas informações. O grau de coleta e
Mygalomorphae (Arachnida, Araneae), com conhecimento de Odonata para o bioma
aproximadamente 10.000 espécimes, está Caatinga e região Nordeste foi considerado
depositada no Instituto Butantan, e apenas “ruim”, sem estimativas de riqueza de
entre 0,5% a 1,0% (50 a 100 exemplares) espécies (Brandão et al. 2000).
são provenientes de áreas de caatinga, A Profa. Janira M. Costa, uma das
sendo que parte das espécies ocorre em responsáveis pela coleção entomológica do
remanescentes de mata. A espécie mais Museu Nacional do Rio de Janeiro, menciona
representada é Acanthoscurria natalensis que seria necessário fazer um levantamento
(Theraphosidae), que ocorre também em da coleção de Odonata do Museu, pois a
áreas de cerrado no Nordeste. Segundo maioria dos rótulos não cita o bioma.
Rogério Bertani, pouquíssimos exemplares
de outras famílias (Actinopodidae, Idiopidae ORTHOPTERA
e Dipluridae) estão depositados na coleção A coleção do Museu Nacional do Rio
do Instituto Butantan. de Janeiro possui uma significativa
O grau de coleta e de conhecimento amostragem de gafanhotos da Caatinga,
para a Caatinga foi classificado como devido às expedições periódicas ao norte
“nenhum” (com uma estimativa de 30 a 40 do estado de Minas Gerais e sul da Bahia,

137
realizadas pela equipe do Departamento de COLEOPTERA
Entomologia. Segundo Cristiane Pujol, o CERAMBYCIDAE
Museu possui também coleções de
Segundo Ubirajara Martins de Souza,
Coleoptera e Lepidoptera, entre outras.
do Museu de Zoologia da USP não há
Solicitamos, ainda, informações à informação ou coletas de besouros
Dra. Alba Bentos P., da Universidad del cerambicídeos no bioma Caatinga
Uruguay, que vem trabalhando com a (Brandão et al. 2000). O grau de coleta e
fauna brasileira de Orthoptera e esteve conhecimento sobre a região Nordeste foi
visitando o Museu de Zoologia da USP considerado ruim.
recentemente. Segundo ela, essa coleção
inclui pouquíssimos exemplares coletados
na Caatinga. LEPIDOPTERA
O Dr. Keith Brown possui informação
ISOPTERA sobre os lepidópteros da Caatinga
referentes à região da divisa entre Minas
A curadora de Isoptera do Museu de
Gerais e Bahia, e interior de Pernambuco.
Zoologia da USP, Dra. Eliana M. Cancello,
Entretanto, esse pesquisador acredita que
incluiu material de cupins da Caatinga
essas informações não serão úteis para
coletado em suas viagens ao Nordeste
enriquecer os padrões e recomendações
brasileiro. Atualmente a coleção conta com
para o presente trabalho.
cerca de 1.600 amostras do Nordeste
determinadas até gênero e cerca de 800 O Prof. Vitor Becker informou que,
amostras determinadas até espécie, entre com relação aos lepidópteros, “a Caatinga
cerca de 14.000 amostras de cupins da é a grande lacuna em todas as coleções”.
coleção do Museu de Zoologia. Becker realizou coletas na região de Jequié,
Coletas realizadas na mata de cipó BA, obtendo, segundo ele, resultados
em Mucugê, na Bahia, podem indicar um surpreendentes: uma diversidade baixa,
elevado endemismo da fauna de cupins mas com elevado percentual de
(Cancello 1994). endemismo e de espécies não descritas.
O pesquisador também relata que
O Dr. Adelmar G. Bandeira, da
“O material coletado indica que a fauna
Universidade Federal da Paraíba, informou
está relacionada com aquelas de outras
que “o Nordeste é a região do Brasil que
regiões secas do continente. Algumas das
possui a fauna de cupins menos conhecida,
espécies (não descritas) pertencem a
em virtude dos pouquíssimos estudos
gêneros anteriormente somente (co-
realizados” (Bandeira & Vasconcelos, no
nhecidos) das áreas secas do Golfo do
prelo). Apenas 28 espécies descritas de
México e das Antilhas”.
cupins foram registradas para a região, sem
nenhum registro para o estado de Alagoas,
por exemplo. DIPTERA
O Dr. Dalton de Souza Amorim,
COLEOPTERA da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras
Segundo o Dr. Sergio Vanin, do de Ribeirão Preto/USP, menciona material
Instituto de Biociências da USP (com. pess. coletado na Caatinga, na região de Lajedo,
e Brandão et al. 2000), não há muita PE, que está depositado na coleção
informação específica sobre a fauna de do Departamento de Sistemática e
besouros da Caatinga, que é a menos Ecologia, CCEN/UFPB. Segundo ele,
representada nas coleções. O pesquisador nesse departamento se encontra o
afirma também que seria de grande Dr. Antônio J. Creão-Duarte, que trabalha
importância realizar coletas nesse bioma, com Homoptera e que poderia ter
e que não existe praticamente nada sobre mais informações sobre a fauna da
o Nordeste brasileiro. Caatinga.

138
HYMENOPTERA vespas, estimando entre 80 e 100 as
SPHECIDAE E CRABRONIDAE espécies conhecidas para a região, do total
O Dr. Sérvio Túlio P. Amarante estimado de 200 a 300 espécies.
informou que as coleções de vespas
esfeciformes do Museu de Zoologia da USP FORMICIDAE
contam com poucos exemplares Os dados obtidos por Carlos Brandão
provenientes da Caatinga. Cita o primeiro (Brandão 1995) sobre a fauna de formigas
registro de Heliocausini para a Caatinga da Caatinga, em viagens a seis municípios
(Oeiras, PI), tribo estritamente neotropical, (Canto do Buriti, PI, Itaberaba, BA, Maracás,
considerada até então como restrita ao BA, Oeiras, PI, Santa Rita de Cássia, BA e
Chile, Argentina e Paraguai. Afirma, ainda, Pedra Azul, MG), somando 370 registros e
que “a fauna da Caatinga é quase 243 espécies e os dados obtidos a partir da
certamente a menos conhecida entre as revisão do gênero Cephalotes (Andrade &
de todos os outros domínios no Brasil, ou Baroni Urbani 1999) totalizando 49 registros,
mesmo na América do Sul”. 27 localidades e 15 espécies, foram
incluídos no banco de dados sobre grupos
BETHYLIDAE biológicos do Workshop da Caatinga.
O Dr. Celso Azevedo, da Universidade
Federal do Espírito Santo, tem conheci- APIDAE
mento de apenas seis espécies de O Dr. Celso Feitosa Martins, da
Bethylidae registradas para o bioma Universidade Federal da Paraíba, informou
Caatinga: Anisepyris brasiliensis Evans, de que a coleção da Universidade Federal da
Bonito, PE; Calyozina azurea Evans, de Paraíba possui insetos em geral e,
Pedra Azul, MG; Dissomphalus planus principalmente, abelhas da região do Cariri
Azevedo, Dissomphalus plaumanni Evans, e Seridó, na Paraíba.
Dissomphalus microstictus Evans e Fernando Zanella, também da
Dissomphalus brasiliensis, de Caruaru, Universidade Federal da Paraíba, defendeu
PE. Esse pesquisador afirma que não sua tese de doutoramento pela Faculdade
existem coleções de Bethylidae nem de de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão
parasitóides da Caatinga, e que nunca Preto/USP, sobre o tema “Apifauna da
houve um levantamento completo da fauna Caatinga” (Zanella 1999). A coleção de
de parasitóides em áreas da Caatinga, nem abelhas por ele formada representa cerca
mesmo por naturalistas estrangeiros do de 50% do total de espécies conhecidas
passado. Sugere que “talvez um grupo de para esse bioma, sendo uma das mais
sistematas em insetos pudesse coordenar representativas da apifauna da região, em
um projeto com coletas em diversos pontos conjunto com a coleção do Departamento
da Caatinga, incluindo o agreste, o sertão, de Sistemática e Ecologia da Universidade
etc. Para isso tal coordenador poderia Federal da Paraíba, cujo responsável é o
mobilizar uma equipe e fazer algo como o Dr. Celso Martins.
Biota-SP, só que com os recursos possíveis. Segundo Zanella, outra coleção
Talvez alguma ONG queira financiar”. importante de abelhas da Caatinga, está
depositada no Museu Paraense Emílio Goeldi,
ICHNEUMONOIDEA onde estão os tipos de várias espécies
Segundo a Dra. Angélica Penteado- descritas por Ducke a partir de material
Dias, da Universidade Federal de São coletado no Ceará no início do século.
Carlos, não existe coleta ou informações Os especialistas em abelhas que
sobre os Ichneumonoidea da Caatinga. participaram do Workshop da Caatinga
Avaliação contida no relatório PNUD sugeriram a inclusão, na lista de referências,
(Brandão et al. 2000) indica como ruim, de trabalhos importantes sobre a apifauna
tanto o grau de coleta, quanto o de das caatingas (Ducke 1908, 1911, Camargo
conhecimento sobre a fauna dessas & Moure 1996, Moure 1999).

139
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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Preto, SP. xiii + 162 p. 645.

140
Invertebrados: áreas e
PARTICIPANTES DO SEMINÁRIO
GRUPO TEMÁTICO `INVERTEBRADOS`

Carlos Roberto Ferreira Brandão

ações prioritárias para a


Coordenação

Blandina Felipe Viana


Celso Feitosa Martins

conservação da Caatinga
Christiane Izume Yamamoto
Fernando César Vieira Zanella
Marina Castro

141
André Pessoa
Paisagem da Caatinga

A heterogeneidade ambiental da informações é possível o reconhecimento


caatinga e a singularidade de certos de endemismos e de espécies raras no
ambientes permitem supor a possibilidade bioma, elementos estratégicos para
de a fauna de invertebrados desse bioma proceder a levantamentos dessa
ser riquíssima, com várias espécies natureza.
endêmicas. Entretanto, o aspecto que A escassez de informação se reflete
mais se destaca na análise dos dados nas conclusões deste trabalho, em que
sobre os invertebrados habitantes da 12 das 19 áreas indicadas se enquadram
caatinga é o conhecimento insuficiente na categoria de insuficientemente
que deles se tem. Essa conclusão foi conhecida, mas de provável importância
fornecida por um diagnóstico preliminar biológica (Figura 1). Do restante, três
(cujas bases são os trabalhos publicados, foram consideradas de extrema
os em andamento, os resultados de importância, e quatro de muito alta
diagnósticos prévios e as informações importância.
pessoais de diversos pesquisadores) e
É preciso, pois, aprimorar significa-
confirmada nas discussões entabuladas
tivamente, e o mais rápido possível, o
durante o evento.
conhecimento sobre os invertebrados do
O estabelecimento de áreas bioma Caatinga, sobretudo se se
prioritárias fundamentou-se, então, e reconhece a tendência mundial para a
exclusivamente, em informações sobre os escolha desse grupo de organismos como
grupos mais bem conhecidos, a saber: o indicador de qualidade ambiental, bem
das abelhas, o das formigas e o dos como para monitoramento da bio -
cupins. Nesses, mesmo com carência de diversidade.

142
Importância Biológica
Extrema
Muito alta
Alta
Informação insuficiente
Figura 1 Limite estadual
Limite do bioma Caatinga
Áreas prioritárias
para conservação
dos invertebrados
na Caatinga.
1. Casa Nova 5. Quixadá / Baturité 10. Xingó 15. Mares de Areia
2. Seridó / Serra de Santa 6. Caridade 11. Campina Grande 16. Pedra Azul
Luzia 7. Cariris Novos 12. Oeiras 17. Bacia do Alto São Francisco
3. Cariris Velhos 8. Canto do Buriti 13. Milagres 18. Buique
4. Serra do Martins 9. Raso da Catarina 14. Livramento do Brumado 19. Alagoinhas

DESCRIÇÃO DAS ÁREAS PRIORITÁRIAS INDICADAS


1 - CASA NOVA Vulnerabilidade: Fragilidade intrínseca do
Localização: PI: São Raimundo Nonato, sistema: alta; grau de alteração: médio;
São João do Piauí, Lagoa do Barro do Piauí, pressão antrópica: baixa (de acordo com o
Queimada Nova, Dom Inocêncio e Coronel mapa de pressão antrópica, mas há
José Dias. ocorrência de extração de mel com
Importância biológica: Provável; área destruição do hábitat).
insuficientemente conhecida. Justificativa: A área apresenta espécies
Hábitats: Caatinga. raras de abelhas, como por exemplo:
Ação recomendada: Investigação científica. Euchloropria sp., Heterosarellus sp.,
Elementos de diagnóstico: Riqueza de Rhophitulus sp. (Martins, 1994). Área
espécies: baixa; riqueza de espécies raras/ sujeita à pressão dos meleiros: extrativismo
ameaçadas: média; ocorrência de predatório com destruição de hábitats
fenômeno biológico especial; número (Castro et al., em prep.). Alta susceptibi-
médio de espécies de interesse econômico. lidade à desertificação.

143
2 - SERIDÓ/SERRA DE SANTA LUZIA Justificativa: Presença de espécies
Localização: PB: São José do Sabugi, Santa endêmicas de abelhas, Bicolletes spp
Luzia, Patos. RN: Ipueira, Parelhas, Serra (Coletidae). Comunidade especial em
Negra do Norte, Várzea, Ouro Branco, São caatinga de lajedo. Forte desertificação e
João do Sabugi, Santana do Seridó, Equador, necessidade de recuperação; já inclui duas
São João da Serra, São Mamede, Santa unidades de conservação (RPPNs Fazenda
Teresinha, São José de Espinharas, Junco Almas e Fazenda Santa Clara).
do Seridó.
Importância biológica: Muito alta. 4 - SERRA DO MARTINS
Hábitats: Caatinga. Localização: Martins (RN).
Ação recomendada: Restauração. Importância biológica: Provável; área
insuficientemente conhecida.
Elementos de diagnóstico: Riqueza de
espécies: alta; baixo número de endemis- Hábitats: Caatinga.
mos; riqueza de espécies raras/ameaçadas: Ação recomendada: Investigação científica.
alta; ocorrência de fenômeno biológico Elementos de diagnóstico: Número médio
especial; número médio de espécies de de endemismos; número médio de
interesse econômico. espécies de interesse econômico.
Vulnerabilidade: Fragilidade intrínseca do Vulnerabilidade: Pressão antrópica: média
sistema: alta; grau de alteração: médio; (conforme o mapa).
pressão antrópica: baixa (conforme o
Justificativa: Presença de espécie rara e
mapa. Bem preservada na serra; alterada
endêmica na região do gênero Frieseo-
na planície).
melitta (informação pessoal, F. Zanella;
Justificativa: A área foi escolhida devido à espécimes depositados na Coleção Moure
presença de espécies endêmicas (por em Curitiba, PR).
exemplo, Geotrigona xanthopoda
Camargo & Moure, 1996) e raras (Eufrisea
5 - QUIXADÁ/BATURITÉ
nordestina (Moure, 1999). Presença de
remanescentes de caatinga arbórea densa Localização: CE: Capistrano, Ibaretama,
na serra. Itapiúna, Quixadá, Baturité e Aracoiaba.
Importância biológica: Muito alta.
Hábitats: Caatinga.
3 - CARIRIS VELHOS
Ação recomendada: Investigação científica.
Localização: PB: Congo, Serra Branca, São
José dos Cordeiros, Barra de São Miguel, Elementos de diagnóstico: Média ocor-
Prata, Monteiro, Cabaceiras, Sumé, São rência de endemismos; riqueza de
João do Cariri. espécies raras/ameaçadas: alta; ocor-
rência de fenômeno biológico especial;
Importância biológica: Extrema.
número médio de espécies de interesse
Hábitats: Caatinga. econômico.
Ação recomendada: Proteção integral. Vulnerabilidade: Fragilidade intrínseca do
Elementos de diagnóstico: Riqueza de sistema: alta; grau de alteração: baixo;
espécies: média; médio número de pressão antrópica: baixa (conforme o
endemismos; riqueza de espécies raras/ mapa).
ameaçadas: média; número médio de Justificativa: Espécies endêmicas (por
espécies de interesse econômico. exemplo, Ancyloscelis frieseana Ducke,
Vulnerabilidade: Fragilidade intrínseca do 1908) e raras (por exemplo, Arhysoscelle
sistema: alta; grau de alteração: alto; huberi, Ducke, 1908 e Osirinus
pressão antrópica: baixa (conforme o parvicollis Ducke, 1911). Área de
mapa). inselbergues.

144
6 - CARIDADE endemismos; riqueza de espécies raras/
Localização: Caridade (CE). ameaçadas: baixa; ocorrência de fenômeno
biológico especial.
Importância biológica: Muito alta.
Vulnerabilidade: Fragilidade intrínseca do
Hábitats: Caatinga.
sistema: alta; grau de alteração: médio;
Ação recomendada: Investigação científica. pressão antrópica: baixa (conforme o mapa).
Elementos de diagnóstico: Número médio Justificativa: Ecótono caatinga-cerrado.
de endemismos; riqueza de espécies raras/
ameaçadas: alta; ocorrência de fenômeno
9 - RASO DA CATARINA
biológico especial; número médio de
espécies de interesse econômico. Localização: BA: Euclides da Cunha,
Canudos, Jeremoabo, Glória, Paulo
Vulnerabilidade: Fragilidade intrínseca do
Afonso, Rodelas.
sistema: alta; grau de alteração: baixo;
pressão antrópica: baixa (conforme o Importância biológica: Provável; área
mapa). insuficientemente conhecida.
Justificativa: Presença de espécie endêmica Hábitats: Caatinga.
de abelha (Nomiocolletes cearensis) e Ação recomendada: Proteção integral.
espécies raras (p. ex., Dasyhalonia Elementos de diagnóstico: Ocorrência de
cearensis Ducke, 1911). fenômeno biológico especial.
Vulnerabilidade: Fragilidade intrínseca do
7 - CARIRIS NOVOS sistema: alta; grau de alteração: baixo;
Localização: CE: Araripe, Juazeiro do Norte, pressão antrópica: baixa (conforme o
Crato, Nova Olinda, Caririaçu, Santana do mapa).
Cariri, Barbalha, Missão Velha, Farias Brito Justificativa: Limite sul da distribuição de
e Jardim. PE: Exu e Moreilândia. Melipona subnitida (Castro, dados não
Importância biológica: Provável; área publicados). Ambiente de exceção semi-
insuficientemente conhecida. desértico que deve manter uma fauna
Hábitats: Caatinga. distinta, mas ainda não estudada.
Ação recomendada: Investigação científica.
10 - XINGÓ
Elementos de diagnóstico: número médio
espécies de interesse econômico. Localização: SE: Canindé de São Francisco,
Poço Redondo, Porto da Folha, Gararu. AL:
Vulnerabilidade: Fragilidade intrínseca do
Belo Monte, Pão de Açúcar, Piranhas,
sistema: alta; grau de alteração: alto;
Palestina, Delmiro Gouveia, São José da
pressão antrópica: baixa.
Tapera, Jacaré dos Homens, Olho d’Água
Justificativa: Zona de contato entre biotas. do Casado, Traipu, Monteirópolis. BA: Paulo
Prováveis endemismos ainda não con- Afonso, Santa Brígida, Pedro Alexandre.
firmados.
Importância biológica: Provável; área
insuficientemente conhecida.
8 - CANTO DO BURITI
Hábitats: Caatinga.
Localização: PI: Flores do Piauí, Colônia do
Ação recomendada: Investigação científica.
Piauí, Canto do Buriti, São João do Piauí,
Vulnerabilidade: Fragilidade intrínseca do
Socorro do Piauí, São José do Peixe, Paes
sistema: alta; grau de alteração: alto; pressão
Landim, São Francisco do Piauí.
antrópica: média (conforme o mapa).
Importância biológica: Provável; área
Justificativa: Por mecanismo de compen-
insuficientemente conhecida.
sação pela construção da barragem há
Hábitats: Caatinga. espaço para propor a criação de área de
Ação recomendada: Investigação científica. preservação. Tal fato torna-se ainda mais
Elementos de diagnóstico: Riqueza de importante pelo fato da área estar
espécies: média; baixo número de submetida, na porção sul, a grave processo

145
de desertificação e mostrar de alta a muito Ação recomendada: Investigação científica.
alta susceptibilidade à desertificação. Não Elementos de diagnóstico: Riqueza de
existe conhecimento sobre invertebrados. espécies: alta; número médio de ende-
mismos; riqueza de espécies raras/
11 - CAMPINA GRANDE ameaçadas: média; ocorrência de fenô-
meno biológico especial; número médio
Localização: Campina Grande (PB).
espécies de interesse econômico.
Importância biológica: Provável; área
insuficientemente conhecida. Vulnerabilidade: Fragilidade intrínseca do
sistema: alta; grau de alteração: alto; pressão
Hábitats: Caatinga.
antrópica: média (pressão antrópica mais
Ação recomendada: Investigação científica. forte no sul da área; meleiros destroem o
Elementos de diagnóstico: Ocorrência de hábitat para extrativismo).
fenômeno biológico especial. Justificativa: Área com presença de
Vulnerabilidade: Fragilidade intrínseca do inselbergues. Caatinga arbórea-arbustiva
sistema: alta; grau de alteração: alto; preservada (em parte) e mata ciliar em
pressão antrópica: alta. drenagem intermitente (exceção de Iaçu na
Justificativa: Região sob alta pressão beira do Paraguaçu). Maior riqueza de
antrópica, contendo remanescentes de abelhas registrada na Caatinga (97
mata seca. espécies). Ecótono com Mata Atlântica.

12 - OEIRAS 14 - LIVRAMENTO DO BRUMADO


Localização: PI: Santo Inácio do Piauí, Localização: BA: Caetité, Livramento do
Colônia do Piauí, Santa Cruz do Piauí e Brumado e Lagoa Real.
Oeiras. Importância biológica: Provável; área
Importância biológica: Muito alta. insuficientemente conhecida.
Hábitats: Caatinga. Hábitats: Caatinga.
Ação recomendada: Investigação científica. Ação recomendada: Investigação científica.
Elementos de diagnóstico: Ocorrência de Elementos de diagnóstico: Riqueza de
fenômeno biológico especial. espécies raras/ameaçadas: média;
Vulnerabilidade: Fragilidade intrínseca do ocorrência de fenômeno biológico especial;
sistema: alta; grau de alteração: médio; número médio de espécies de interesse
pressão antrópica: baixa (conforme o mapa). econômico.
Justificativa: Área de tensão ecológica. Vulnerabilidade: Fragilidade intrínseca do
Inventário de formigas indica riqueza sistema: alta; grau de alteração: médio;
relativamente alta, principalmente devido pressão antrópica: baixa (conforme o mapa).
à presença de elementos de cerrado. Justificativa: Primeiro registro da abelha
Existe informação sobre a ocorrência de Epicharis na Caatinga. Ecótono com
vespa esfecídea Heliocausini, até agora só outras formações. Presença de espécies
registrada no Cone Sul da América do Sul raras de abelhas.
(S.T.P. Amarante, informação pessoal no
relatório preliminar do Grupo Temático 15 - MARES DE AREIA
Invertebrados).
Localização: BA: Sento Sé, Itaguaçu da
Bahia, Barra, Xique-Xique, Gentio do Ouro,
13 - MILAGRES Pilão Arcado.
Localização: BA: Maracás, Planaltino, Nova Importância biológica: Extrema.
Itarana, Brejões, Milagres, Itatim, Iaçu, Irajuba. Hábitats: Caatinga.
Importância biológica: Extrema. Ação recomendada: Proteção integral.
Hábitats: Caatinga. Elementos de diagnóstico: Baixa riqueza de

146
espécies; alto número de endemismos; biológico especial; número médio de
riqueza de espécies raras/ameaçadas: alta; espécies de interesse econômico.
ocorrência de fenômeno biológico especial; Vulnerabilidade: Fragilidade intrínseca do
número médio de espécies de interesse sistema: alta; grau de alteração: baixo;
econômico. pressão antrópica: baixa (conforme o mapa).
Vulnerabilidade: Fragilidade intrínseca do Justificativa: Ecótono com o Cerrado.
sistema: alta; grau de alteração: baixo; Ocorrência de endemismo (Paratrigona
pressão antrópica: baixa (informação de incerta Camargo & Moure). Abrange
membros do grupo). gradiente altitudinal de 200 a 1200m e
Justificativa: Comunidade especial com apresenta elevada susceptibilidade à
endemismos, espécies raras e principal sítio desertificação.
de nidificação do meliponíneo predo-
minante na área (Friesomiellita silvestri
languida). 18 - BUIQUE
Localização: Buique (PE).
Importância biológica: Provável; área
16 - PEDRA AZUL
insuficientemente conhecida.
Localização: MG: Almenara, Pedra Azul, Pedra
Hábitats: Caatinga e campos rupestres.
Grande, Divisonópolis. BA: Encruzilhada.
Ação recomendada: Investigação
Importância biológica: Provável; área
científica.
insuficientemente conhecida.
Elementos de diagnóstico: Alto número de
Hábitats: Caatinga.
endemismos; ocorrência de fenômeno
Ação recomendada: Investigação científica. biológico especial.
Elementos de diagnóstico: Riqueza de Vulnerabilidade: Fragilidade intrínseca do
espécies: média; número médio de en- sistema: média; grau de alteração: alto;
demismos; ocorrência de fenômeno pressão antrópica: alta (apesar do mapa,
biológico especial; número médio de existem áreas preservadas).
espécies de interesse econômico.
Justificativa: Espécies possivelmente novas
Vulnerabilidade: Grau de alteração: médio. de gêneros pouco coletados na Caatinga
Justificativa: Talvez a localidade melhor (Tapinotaspis), mais comuns em áreas
conhecida, em termos de insetos em geral, secas da Argentina.
das Caatingas e ecótonos com matas.
Localidades tipo de diversas formigas, 19 - ALAGOINHAS
algumas, talvez, endêmicas.
Localização: Alagoinha (PE).
Importância biológica: Provável; área
17 - BACIA DO ALTO insuficientemente conhecida.
SÃO FRANCISCO Hábitats: Caatinga.
Localização: MG: Januária, Itacarambi, Ação recomendada: Restauração.
Manga, Matias Cardoso, Jaíba, Varzelândia,
Elementos de diagnóstico: Riqueza de
Janaúba, Porteirinha, Mato Verde, Monte
espécies raras/ameaçadas: baixa; ocorrên-
Azul, Espinosa, São João da Ponte, Pedras
cia de fenômeno biológico especial.
de Maria da Cruz. BA: Sebastião Laranjeiras,
Candiba. Vulnerabilidade: Fragilidade intrínseca do
sistema: alta; grau de alteração: alto;
Importância biológica: Provável; área
pressão antrópica: alta.
insuficientemente.
Justificativa: Área onde também foi
Hábitats: Caatinga e cerrado (ecótono).
coletada Ceblurgus longipalpis, único
Ação recomendada: Investigação científica. gênero de abelhas endêmico da
Elementos de diagnóstico: Número médio Caatinga. Nesse ponto a caatinga é
de endemismos; ocorrência de fenômeno diferente da do entorno.

147
Diversidade e
conservação dos
peixes da Caatinga Ricardo Rosa
Universidade Federal da Paraíba

149
Arq. Fundação Biodiversitas
Açude de Cocorobó, Canudos - BA

INTRODUÇÃO
O conhecimento da diversidade e Velhas cujas distribuições se estendem para
taxonomia de peixes de água doce áreas do bioma Caatinga na bacia do rio
neotropicais é ainda incipiente (Menezes São Francisco.
1992, Rosa & Menezes 1996). Para as A Comissão Científica de Exploração,
bacias interiores do Nordeste brasileiro, que constituída pelo Instituto Histórico e
perfazem a maior parte dos ambientes Geográfico Brasileiro, efetuou coletas de peixes
aquáticos do bioma Caatinga, essa de água doce no Ceará, entre os anos de 1859
situação é predominante. Os trabalhos de e 1861. Entretanto, os espécimes oriundos
inventário ictiofaunístico nessa região, desse trabalho não foram adequadamente
apesar de terem sido iniciados no século conservados no Museu Nacional (Braga 1962,
XIX, são ainda escassos e localizados. Paiva & Campos 1995).
A Expedição Thayer, organizada por
Histórico e estado do conhecimento Louis Agassiz, que percorreu o Brasil entre os
Johan von Spix e Karl von Martius, anos de 1865 e 1866, obteve espécimes de
em sua expedição pelo Brasil, coletaram peixes provenientes das bacias dos rios São
espécimes zoológicos durante os anos de Francisco, coletados por Orestes Saint-John
1818 e 1819 em diversas localidades do e John Allen, e Parnaíba, coletados por Orestes
bioma Caatinga, nos estados da Bahia, Saint-John. Esses peixes foram depositados
Pernambuco, Ceará, Piauí e Maranhão no Museum of Comparative Zoology, da
(Papavero 1971, Paiva & Campos 1995). Universidade de Harvard, mas apenas uma
Os peixes obtidos nessa expedição foram pequena parte do material foi trabalhada no
posteriormente trabalhados por Spix e contexto de revisões sistemáticas e serviu para
Agassiz (Selecta genera et species piscium a descrição de novas espécies de peixes do
Brasiliensium, 1829-1831) (Paiva & Nordeste (p. ex. Garman 1913). Com base no
Campos 1995). Todavia, com poucas exame preliminar desse material, Louis Agassiz
exceções, a procedência das espécies apontou a similaridade entre a fauna do
descritas não é indicada com precisão, Nordeste e a da região amazônica (Agassiz &
conforme se constata na publicação Agassiz 1975).
original e em sua tradução (Pethiyagoda & Já no início do século XX, durante o
Kottelat 1998). ano de 1903, Franz Steindachner percorreu
Reinhardt (1851) e Lütken (1875) os rios São Francisco e Parnaíba, de onde
descreveram espécies de peixes do rio das coletou e descreveu diversas espécies de

150
peixes (Steindachner 1906, 1915). John A literatura recente inclui, ainda,
Haseman percorreu o rio São Francisco diversas citações de espécies de peixes para
nos anos de 1907 e 1908, de onde obteve o bioma Caatinga, entre elas, Weitzman
coleções de peixes, encaminhadas para o (1964), Roberts in Menezes (1973), Mees
museu da Universidade de Stanford, na (1974), Garavello (1979), Rosa (1985),
Califórnia. Ainda nesse período, outros Soares (1987), Lucena (1988), Vari (1989,
autores descreveram espécies de peixes do 1991, 1992), Castro (1990), Fink (1993),
Ceará (Ihering 1907, Fowler 1915), Rio Oyakawa (1993), Langeani Neto (1996) e
Grande do Norte (Starks 1913), Bahia Armbuster (1998).
(Ribeiro 1918), da bacia do rio São O quadro atual de conhecimento
Francisco (Ihering 1911, Eigenmann 1914) sobre a diversidade da ictiofauna da
e do rio Itapicurú (Eigenmann & Henn in Caatinga somente poderá ser modificado
Eigenmann 1916, Eigenmann 1917). com a realização de programas de
Ainda na primeira metade do século amostragem nas diversas bacias, e a
XX, tivemos as contribuições de Ribeiro análise do material zoológico obtido no
(1937), que estudou coleções de contexto de novas revisões sistemáticas.
vertebrados do Nordeste e descreveu peixes
da Paraíba e Ceará, e de Fowler (1941), que
descreveu 38 espécies de peixes de água
doce do Piauí, Ceará, Rio Grande do Norte,
Paraíba e Pernambuco. Esse último METODOLOGIA
trabalho, a exemplo de outros sobre a
ictiofauna de água doce do Nordeste, A compilação de espécies de peixes
esbarra em problemas taxonômicos, como da Caatinga incluiu a pesquisa na literatura
identificações errôneas, descrições ina- taxonômica primária e em fontes não
dequadas ou em sinonímia e imprecisões publicadas, como teses, dissertações e
na procedência do material. relatórios. Foram coligidas as informações
Outras dificuldades no estudo da acerca de todas as espécies de peixes de
ictiofauna da Caatinga decorrem dos água doce que ocorrem no bioma, e não
programas de erradicação de piranhas, com apenas daquelas endêmicas, tendo em
ictiocidas, e introdução de espécies vista a dificuldade de estabelecer, de forma
alóctones, conduzidos por órgãos gover- mais segura, todos os endemismos, uma
namentais, que certamente alteraram sua vez que os problemas taxonômicos são
composição com extinções localizadas. frequentes, conforme apontado anterior-
Como exemplo de trabalhos recentes mente. Além disso, diversas espécies
que contribuíram para aumentar o podem estar distribuídas ao longo de rios
conhecimento sobre a diversidade da que cortam a Caatinga, mas cujos cursos
ictiofauna da Caatinga, destacam-se as superior e/ou inferior estão fora do bioma.
contribuições de Costa e colaboradores sobre Deste modo, estão indicados na seção de
os peixes anuais da família Rivulidae, resultados os endemismos para as ecor-
incluindo descrições de espécies e revisões regiões ali definidas, e não propriamente
sistemáticas (Costa 1989, 1995, 1998, Costa para o bioma. Não foram incluídos registros
& Brasil 1990, 1991, 1993, 1994, Costa et de espécies marinhas que penetram o
al. 1996). Outros autores que realizaram curso inferior dos rios costeiros. As
revisões sistemáticas recentes e descreveram sinonímias foram resolvidas, em parte,
espécies de peixes do bioma Caatinga através da literatura, incluindo catálogos
incluem Nijssen & Isbrücker (1976, 1980), (Eschmeyer 1998), revisões recentes (p. ex.
Garavello (1976), Kullander, (1983), Reis Nijssen & Isbücker 1976, Kullander 1983,
(1989), Higuchi et al. (1990), Ploeg (1991), Ploeg 1991, Vari 1989, 1991), teses e
Pinna (1992), Weber (1992), Berkenkamp dissertações não publicadas (p. ex.
(1993), Trajano & Pinna (1996), Schaefer Garavello 1979, Castro 1990) e comu-
(1997) e Ferraris Jr. & Vari (1999). nicações pessoais do Dr. Heraldo A. Britski.

151
Miguel T. Rodrigues
Rio São Francisco

RESULTADOS E DISCUSSÃO
Foram compiladas informações de Ibiapaba, Araripe e Borborema, por
referentes à ocorrência de 240 espécies de vezes drenando áreas de brejos de
peixes distribuídas em 111 gêneros na área altitude, e que cortam áreas de Caatinga
de abrangência do bioma Caatinga. A lista na maior parte de seus cursos;
dessas espécies é apresentada no (3) São Francisco – compreende o rio
Anexo 1, onde além da autoria, são mais longo que corta o bioma, e seus
também indicadas informações zoogeo- afluentes da vertente ocidental, que
gráficas, incluindo a distribuição nas nascem em áreas de cerrado, no
ecorregiões do bioma, os casos de Chapadão Ocidental, e cortam a
endemismos para as mesmas, bem como Caatinga apenas no seu curso inferior,
as espécies introduzidas no bioma. e os afluentes da vertente oriental, que
O bioma Caatinga foi subdividido em nascem na Chapada Diamantina e
quatro ecorregiões aquáticas, como se segue: cortam áreas de caatinga em quase
(1) Maranhão-Piauí – inclui as bacias toda sua extensão;
costeiras do leste do Maranhão e a (4) Bacias do Leste – que inclui os rios
bacia do rio Parnaíba, cujas cabeceiras costeiros à leste da bacia do rio São
encontram-se em áreas de cerrado e Francisco, cujas cabeceiras situam-se
cujo curso médio corta apenas na vertente oriental da Chapada
parcialmente a Caatinga; Diamantina e cujos cursos superior e
(2) Nordeste Médio-Oriental – inclui as médio drenam áreas da Caatinga.
bacias compreendidas entre os rios A riqueza de espécies de peixes nas
Parnaíba e São Francisco, cujas principais bacias, segundo os dados
cabeceiras encontram-se nas chapadas compilados, é apresentada na Tabela 1.

152
A diversidade da bacia do rio São Francisco impossibilitando a obtenção de informa-
foi, possivelmente, subestimada, face à ções sobre aquelas exclusivas do bioma
dificuldade em determinar-se com um Caatinga.
mínimo de precisão, aquelas espécies que A área situada entre as bacias dos
ocorrem no bioma Caatinga. rios São Francisco e Parnaíba (Nordeste
Duas das principais bacias hidro- médio-oriental) apresenta bacias hidro-
gráficas da região, dos rios Parnaíba e São gráficas de médio a pequeno porte, sendo
Francisco, têm maior volume de dados algumas das principais as dos rios
sobre a ocorrência de peixes, mas ainda Capibaribe, Jaguaribe, Ipojuca, Piranhas-
assim, certamente acham-se subamos- Assú e Paraíba. Paiva (1978), comparando
tradas. Os dados compilados sobre a a ictiofauna dessa área às das bacias dos
ictiofauna da bacia do rio Parnaíba rios São Francisco e Parnaíba, deduziu que
apontam a presença de 75 espécies as espécies comuns a essas últimas
nominais, incluídas em 63 gêneros habitaram outrora a área. Segundo ele, ali
representando 25 famílias. Paiva (1978) subsistiram apenas os grupos adapta-
estimou em torno de 80 a 100 espécies tivamente de maior plasticidade e por esta
para a fauna da bacia do Parnaíba, razão não é fácil encontrar endemismos.
ressaltando que a mesma seria de origem Ainda, segundo Paiva (1978), a ictiofauna
quase inteiramente amazônica, depaupe- dessa área estaria representada por cerca
rada e com pouco endemismo. de 50 espécies e para cada sistema
A ictiofauna registrada para o rio São hidrográfico encontraríamos um total entre
Francisco, na área de abrangência do 10 a 20 espécies.
bioma, foi de 116 espécies em 70 gêneros, Os dados reunidos mostram que
merecendo destaque a extraordinária Paiva (1978) estava equivocado em suas
diversidade de peixes anuais da família afirmações, uma vez que foram compiladas
Rivulidae, sem paralelo em outras regiões informações de 81 espécies ocorrendo
(W. Costa, com. pess.), e que atinge 24 nessa área, sendo que 31 são endêmicas.
espécies. Um catálogo da ictiofauna do rio Na bacia do rio Jaguaribe foram registradas
São Francisco (Travassos 1960) apresenta 45 espécies e 34 gêneros, mostrando ser
um total de 139 espécies distribuídas em a mais diversificada dessa área.
88 gêneros para a bacia como um todo.
Todavia, faltam nessa obra indicações das
localidades de ocorrência das espécies,

DIAGNÓSTICO E
Tabela 1 - Riqueza de espécies de peixes nas
bacias hidrográficas do bioma Caatinga, com RECOMENDAÇÕES
base nos dados compilados da literatura.
A situação de conservação dos peixes
Bacia hidrográfica Total de espécies
Acaraú 04 da Caatinga ainda é precariamente
Ceará-mirim 11 conhecida. Apenas quatro espécies que
Choró 12 ocorrem no bioma foram listadas,
Cocó 04 preliminarmente, como ameaçadas por
Curu 03 Rosa & Menezes (1996), porém deve-se
Itapicuru 04 considerar que grande parte da ictiofauna
Jaguaribe 45
Jiqui 10
não foi ainda avaliada.
Paraíba 23 O grau de ameaça sobre a ictiofauna
Parnaíba 75 do bioma, possivelmente, não tem se
Piranhas 24 ampliado de forma significativa desde a
São Francisco 116
primeira metade do século XX, quando se
Vaza Barris 02
intensificou a ocupação humana de áreas
interiores, coincidindo com os programas

153
de construção de açudes e erradicação e 2. Realização de estudos sistemáticos
introdução de espécies. Todavia, deve-se e biogeográficos, nos quais o material obtido
considerar que a ampliação das áreas de nos programas de inventário seja revisado e
ocupação agropecuária e urbana contribui possa alimentar bancos de dados e coleções
grandemente para a redução e degradação sistemáticas; desse modo o conhecimento
dos hábitats disponíveis para os peixes de sobre a diversidade da ictiofauna e suas
água doce. O crescente desmatamento em relações biogeográficas poderá atingir um
áreas de Caatinga atinge as formações de nível desejável;
vegetação ciliar em praticamente todo o 3. Fomento à criação de novas
bioma. Como outros exemplos de unidades de conservação, garantindo que
degradação ambiental, temos os casos de extensões consideráveis de hábitats aquáticos
poluição de cursos d’água por esgotos estejam inseridos nelas, incluindo áreas de
urbanos, agrotóxicos e efluentes industriais. cabeceiras e várzeas;
Os projetos de grandes obras de engenharia,
4. Criação de mecanismos especiais
que incluem o barramento e interligações
de proteção a hábitats particulares, como rios
de rios, são também fatores potencialmente
subterrâneos, poças e lagoas temporárias,
impactantes para a biota aquática.
que muitas vezes abrigam espécies
As seguintes recomendações foram endêmicas;
sugeridas visando ampliar o estado do
5. Fomento à recuperação ambiental
conhecimento sobre a ictiofauna do bioma
de hábitats aquáticos degradados, através de
Caatinga e promover a sua conservação:
programas de despoluição da água e de
1. Promoção de inventários da recomposição de matas ciliares;
ictiofauna nas diversas bacias hidrográficas
6. Fomento à programas de
da região, que em grande parte encontram-
educação ambiental voltados para a
se subamostradas; tais inventários deverão
conservação de hábitats e espécies aquáticas;
basear-se em programas de coleta com a
utilização de técnicas variadas, de modo a 7. Restrição à introdução de espécies
garantir a abrangência da amostragem para alóctones ou exóticas em ambientes
os diversos grupos de peixes e hábitats; as aquáticos naturais sem o embasamento de
áreas prioritárias para inventário devem ser estudos prévios de impacto ambiental;
selecionadas com base nas maiores lacunas 8. Cumprimento da legislação
de conhecimento e no grau de ameaça a que ambiental no que concerne às intervenções
estão submetidas; enquadram-se na primeira em ambientes aquáticos, como na
situação grande parte dos tributários do rio construção de obras de engenharia e na
São Francisco e as bacias do leste do execução de programas de desen-
Maranhão e do rio Parnaíba; enquadram-se volvimento, garantindo-se, desta forma, a
em ambas situações a maioria das bacias manutenção da qualidade e características
costeiras do Ceará até o Recôncavo Baiano; dos hábitats dos peixes.

154
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156
Anexo 1 - Relação das espécies de peixes de água doce que ocorrem no bioma Caatinga

Ecorregiões:
1 - Maranhão-Piauí 2 - Nordeste Médio-Oriental 3 - São Francisco 4 - Bacias do Leste

E – a espécie é possivelmente endêmica da ecorregião ou ecorregiões assinaladas.


F – a espécie ocorre também fora do bioma Caatinga.
I – a espécie foi introduzida em uma ou mais ecorregiões do bioma.
Os pontos de interrogação indicam citações duvidosas.

Espécie e autor Família Distribuição


Acestrorhynchus britskii Menezes, 1969 Acestrorhynchidae 3E
Acestrorhynchus falcatus (Bloch, 1794) Acestrochynchidae 1F
Acestrorhynchus lacustris (Lütken, 1875) Acestrorhynchidae 3F
Aequidens tetramerus (Heckel, 1840) Cichlidae 1F
Ageneiosus brevifilis Valenciennes, 1840 Ageneiosidae 1F
Ageneiosus ucayalensis Castelnau, 1855 Ageneiosidae 1F
Anchoviella vaillanti (Steindachner, 1908) Engraulidae 3E
Ancistrus damasceni (Steindachner, 1907) Loricariidae 1E
Apareiodon davisi Fowler, 1941 Parodontidae 2E
Apareiodon hasemani Eigenmann, 1919 Parodontidae 3E
Apareiodon itapicuruensis Eigenmann & Henn, 1916 Parodontidae 4E
Apareiodon piracicabae (Eigenmann, 1907) Parodontidae 3F
Apistogramma agassizi (Steindachner, 1875) Cichlidae 1F
Apistogramma piauiensis Kullander, 1980 Cichlidae 1E
Apteronotus brasiliensis (Reinhardt, 1852) Apteronotidae 3F
Aspidoras carvalhoi Nijssen & Isbrücker, 1976 Callichthyidae 2E
Aspidoras depinnai Britto, 2000 Callichthyidae 2E
Aspidoras maculosus Nijssen & Isbrücker, 1976 Callichthyidae 4E
Aspidoras menezesi Nijssen & Isbrücker, 1976 Callichthyidae 2E
Aspidoras raimundi (Steindachner, 1907) Callichthyidae 1E
Aspidoras rochai Ihering, 1907 Callichthyidae 2E
Aspidoras spilotus Nijssen & Isbrücker, 1976 Callichthyidae 2E
Aspredo aspredo (Linnaeus, 1758) Aspredinidae 1F
Astronotus ocellatus (Agassiz, 1831) Cichlidae 2, 3 I
Astyanax bimaculatus (Linnaeus, 1758) Characidae 1, 2, 3, 4 F
Astyanax fasciatus (Cuvier, 1819) Characidae 2, 3, 4 F
Auchenipterus menezesi Ferraris & Vari, 1999 Auchenipteridae 1E
Awaous tajasica (Lichtenstein, 1822) Gobiidae 2F
Bergiaria westermanni Lütken, 1874) Pimelodidae 3E
Brachychalcinus parnaibae Reis, 1989 Characidae 1E
Brachyplatystoma filamentosum (Lichteinstein, 1819) Pimelodidae 1F
Brachyplatystoma vaillantii (Valenciennes, 1840) Pimelodidae 1F
Brycon nattereri Günther, 1864 Characidae 3F
Brycon orthotaenia Günther, 1854 Characidae 3E
Bryconamericus victoriae (Steindachner, 1907) Characidae 1E
Bryconops affinis (Günther, 1864) Characidae 3F
Bryconops melanurus (Bloch, 1794) Characidae 1F
Caenotropus labyrinthicu (Kner, 1858) Chilodontidae 1F
Callichthys callichthys Meuschen, 1778 Callichthyidae 1, 2, 3, 4 F
Cephalosilurus fowleri Haseman, 1911 Pseudopimelodidae 3E
Characidium bimaculatum Fowler, 1941 Crenuchidae 2E
Characidium aff. zebra Eigenmann, 1909 Crenuchidae 3F
Cichla monoculus Spix & Agassiz, 1831 Cichlidae 2, 3 I
Cichla ocellaris Bloch & Schneider, 1801 Cichlidae 2I
Cichlasoma orientale Kullander, 1983 Cichlidae 1 (?), 2 E
Cichlasoma sanctifranciscence Kullander 1983 Cichlidae 1 (?), 3 E

157
Anexo 1 - Relação das espécies de peixes de água doce que ocorrem no bioma Caatinga
Continuação

Espécie e autor Família Distribuição


Colossoma macropomum (Cuvier, 1818) Characidae 2I
Compsura heterura Eigenmann, 1915 Characidae 2, 3, 4 E
Conorhynchus conirostris (Valenciennes, 1840) Pimelodidae 3E
Conorhynchus glaber Steindachner, 1876 Pimelodidae 4E
Copionodon orthiocarinatus Pinna, 1992 Trichomycteridae 4E
Copionodon pecten Pinna, 1992 Trichomycteridae 4E
Corydoras garbei Ihering, 1911 Callichthyidae 3E
Corydoras julii Steindachner, 1906 Callichthyidae 1E
Corydoras multimaculatus Steindachner, 1907 Callichthyidae 3E
Corydoras polystictus Regan, 1912 Callichthyidae 3F
Corydoras treitlii Steindachner, 1906 Callichthyidae 1E
Crenicichla menezesi Ploeg, 1991 Cichlidae 1, 2, 4 F
Ctenobrycon hauxwellianus (Cope, 1870) Characidae 1F
Curimata macrops (Eigenmann & Eigenmann, 1889) Curimatidae 1E
Curimatella lepidura (Eigenmann & Eigenmann, 889) Curimatidae 2, 3 E
Cynolebias albipunctatus Costa & Brasil, 1991 Rivulidae 3E
Cynolebias altus Costa, 2001 Rivulidae 3E
Cynolebias attenuatus Costa, 2001 Rivulidae 3E
Cynolebias gibbus Costa, 2001 Rivulidae 3E
Cynolebias gilbertoi Costa, 1998 Rivulidae 3E
Cynolebias itapicuruensis Costa, 2001 Rivulidae 4E
Cynolebias leptocephalus Costa & Brasil, 1993 Rivulidae 3E
Cynolebias microphthalmus Costa & Brasil, 1995 Rivulidae 2E
Cynolebias perforatus Costa & Brasil, 1991 Rivulidae 3E
Cynolebias porosus Steindachner, 1876 Rivulidae 3E
Cynolebias vazabarrisensis Costa, 2001 Rivulidae 4E
Duopalatinus emarginatus (Valenciennes, 1840) Pimelodidae 3E
Eigenmannia microstomus (Reinhardt, 1852) Sternopygidae 3E
Eigenmannia virescens (Valenciennes, 1842) Sternopygidae 1, 2, 3 F
Franciscodoras marmoratus (Lütken, 1874) Doradidae 3E
Galeocharax gulo (Cope, 1864) Characidae 3F
Geophagus brasiliensis (Quoy & Gaimard, 1824) Cichlidae 1, 2, 3, 4 F
Geophagus surinamensis (Bloch, 1791) Cichlidae 1F
Glaphyropoma rodriguesi Pinna, 1992 Trichomycteridae 4E
Glyptoperichthys parnaibae Weber, 1991 Loricariidae 1E
Gymnocorymbus thayeri Eigenmann, 1908 Characidae 1F
Gymnotus carapo Linnaeus, 1758 Gymnotidae 1, 2, 3 F
Hassar afinnis (Steindachner, 1881) Doradidae 1F
Hassar orestis (Steindachner, 1875) Doradidae 1F
Hasemania nana (Lütken, 1875) Characidae 3E
Hemigrammus brevis Ellis, 1911 Characidae 2, 3 E
Hemigrammus marginatus Ellis, 1911 Characidae 2, 3, 4 F
Hemiodus argenteus Pellegrin, 1908 Hemiodontidae 1F
Hemiodus parnaguae Eigenmann & Henn, 1916 Hemiodontidae 1, 2 E
Hemisorubim platyrhynchus (Valenciennes, 1840) Pimelodidae 1F
Hoplerythrinus unitaeniatus (Spix & Agassiz, 1829) Erythrinidae 1, 2, 3, 4 F
Hoplias brasiliensis Spix & Agassiz, 1829 Erythrinidae 4E
Hoplias malabaricus (Bloch, 1794) Erythrinidae 1, 2, 3 F
Hyphessobrycon micropterus (Eigenmann, 1915) Characidae 3E
Hyphessobrycon negodagua Lima & Gerhard, 2001 Characidae 4E
Hyphessobrycon piabinhas Fowler, 1941 Characidae 2E
Hypostomus alatus Castelnau, 1855 Loricariidae 3F
Hypostomus auroguttatus Kner, 1854 Loricariidae 1, 3 F
Hypostomus carvalhoi (Ribeiro, 1937) Loricariidae 2E
Hypostomus commersoni Valenciennes, 1836 Loricariidae 3F
Hypostomus francisci (Lütken, 1874) Loricariidae 3E

158
Anexo 1 - Relação das espécies de peixes de água doce que ocorrem no bioma Caatinga
Continuação

Espécie e autor Família Distribuição


Hypostomus garmani (Regan, 1904) Loricariidae 3F
Hypostomus gomesi (Fowler, 1942) Loricariidae 2E
Hypostomus jaguribensis (Fowler, 1915) Loricariidae 2E
Hypostomus nudiventris (Fowler, 1941) Loricariidae 2E
Hypostomus papariae (Fowler, 1941) Loricariidae 2E
Hypostomus plecostomus (Linnaeus, 1758) Loricariidae 1F
Hypostomus pusarum (Starks, 1913) Loricariidae 2E
Hypostomus wuchereri (Günther, 1864) Loricariidae 3F
Kalyptodoras bahiensis Higuchi, Britski & Garavello,1990 Doradidae 4E
Lasiancistrus genisetiger (Fowler, 1941) Loricariidae 2E
Lasiancistrus papariae (Fowler, 1941) Loricariidae 2E
Leporellus vittatus, (Valenciennes, 1850) Anostomidae 3F
Leporinus friderici (Bloch, 1794) Anostomidae 1F
Leporinus bahiensis Steindachner, 1875 Anostomidae 3E
Leporinus melanopleura Günther, 1864 Anostomidae 2, 3 E
Leporinus obtusidens (Valenciennes, 1847) Anostomidae 2 (I), 3 F
Leporinus piau Fowler, 1941 Anostomidae 1, 2, 3 E
Leporinus reinhardti Lütken, 1874 Anostomidae 3E
Leporinus taeniatus Lütken, 1874 Anostomidae 3E
Limatulichthys punctatus (Regan, 1904) Loricariidae 1F
Lophiosilurus alexandri Steindachner, 1876 Pseudopimelodidae 3E
Loricaria nudiventris Valenciennes, 1840 Loricariidae 3F
Loricaria parnahybae Steindachner, 1907 Loricariidae 1E
Loricariichthys derbyi Fowler, 1915 Loricariidae 1, 2 E
Loricariichthys maculatus (Bloch, 1794) Loricariidae 1F
Megalechis personata (Ranzani, 1841) Callichthyidae 2F
Megalechis thoracata (Valenciennes, 1840) Callichthyidae 1(?), 2 F
Metynnis lippincottianus (Cope,1870) Characidae 1F
Metynnis orbicularis (Steindachner, 1908) Characidae 1F
Metynnis roosevelti Eigenmann, 1915 Characidae 2F
Moenkhausia costae (Steindachner, 1907) Characidae 2, 3 E
Moenkausia dichroura (Kner, 1858) Characidae 1F
Moenkhausia lepidura (Kner, 1859) Characidae 1, 2 F
Moenkhausia sanctaefilomenae Steindachner, 1907) Characidae 1F
Myleus asterias (Müller & Troschel, 1844) Characidae 1F
Mylossoma aureum Spix & Agassiz, 1829 Characidae 1F
Oreochromis cf. niloticus (Linnaeus, 1758) Cichlidae 2I
Orthospinus franciscensis (Eigenmann, 1914) Characidae 3E
Otocinclus hasemani Steindachner, 1915 Loricariidae 1F
Otocinclus xakriaba Schaefer, 1997 Loricariidae 3E
Pachyurus francisci (Cuvier, 1830) Sciaenidae 3E
Pachyurus squamipinnis Agassiz, 1831 Sciaenidae 3E
Parauchenipterus galeatus (Linnaeus, 1766) Auchenipteridae 1, 2, 3, 4 F
Parauchenipterus striatulus (Steindachner, (1877) Auchenipteridae 2, 3 F
Parodon hilarii Reinhardt, 1867 Parodontidae 3E
Parotocinclus bahiensis (Ribeiro, 1918) Loricariidae 4E
Parotocinclus cearensis Garavello, 1976 Loricariidae 2E
Parotocinclus cesarpintoi Garavello, 1976 Loricariidae 2E
Parotocinclus haroldoi Garavello, 1988 Loricariidae 1E
Parotocinclus jimi Garavello, 1976 Loricariidae 4E
Parotocinclus minutus Garavello, 1976 Loricariidae 4E
Parotocinclus spilosoma (Fowler, 1941) Loricariidae 2E
Parotocinclus spilurus (Fowler, 1941) Loricariidae 2E
Phenacogaster calverti (Fowler, 1941) Characidae 2E
Phenacogaster franciscoensis Eigenmann, 1911 Characidae 3E
Piabina argentea Reinhardt, 1867 Characidae 3, 4 F

159
Anexo 1 - Relação das espécies de peixes de água doce que ocorrem no bioma Caatinga Continuação

Espécie e autor Família Distribuição


Pimelodella cristata (Müller & Troschel, 1848) Pimelodidae 1F
Pimelodella dorseyi Fowler, 1941 Pimelodidae 2E
Pimelodella enochi Fowler, 1941 Pimelodidae 2E
Pimelodella gracilis (Valenciennes, 1847) Pimelodidae 2F
Pimelodella itapicuruensis Eigenmann, 1917 Pimelodidae 4E
Pimelodella lateristriga (Müller & Troschel, 1849) Pimelodidae 3F
Pimelodella laurenti Fowler, 1941 Pimelodidae 3E
Pimelodella parnahybae Fowler, 1941 Pimelodidae 1E
Pimelodella vittata (Lütken, 1874) Pimelodidae 3F
Pimelodella witmeri Fowler, 1941 Pimelodidae 2E
Pimelodus blochii (Valenciennes, 1840) Pimelodidae 1F
Pimelodus fur (Lütken, 1874) Pimelodidae 3F
Pimelodus maculatus Lacépède, 1803 Pimelodidae 1, 3 F
Pimelodus ornatus Kner, 1858 Pimelodidae 1F
Plagioscion squamosissimus (Heckel, 1840) Sciaenidae 1, 3 I
Platydoras costatus (Linnaeus, 1758) Doradidae 1F
Poecilia latipinna (Lesueur, 1821) Poeciliidae 3I
Poecilia hollandi (Henn, 1916) Poeciliidae 3F
Poecilia reticulata Peters, 1860 Poeciliidae 1,2I
Poecilia vivípara Bloch & Schneider, 1801 Poeciliidae 2, 3 F
Poptella compressa (Günther, 1864) Characidae 1F
Potamotrygon signata Garman, 1913 Potamotrygonidae 1E
Pristobrycon striolatus Steindachner, 1908 Characidae 2F
Prochilodus argenteus Spix & Agassiz, 1829 Prochilodontidae 3E
Prochilodus brevis Steindachner, 1874 Prochilodontidae 2, 4 E
Prochilodus costatus Valenciennes, 1850 Prochilodontidae 3E
Prochilodus lacustris Steindachner, 1907 Prochilodontidae 1E
Psectrogaster rhomboides Eigenmann & Eigenmann, 1889 Curimatidae 1, 2 E
Psectrogaster saguiru (Fowler, 1941) Curimatidae 2E
Psellogrammus kennedyi Eigenmann & Kennedy, 1903 Characidae 2, 3 F
Pseudauchenipterus flavescens (Eigenmann. & igenmann, 1888) Auchenipteridae 3E
Pseudopimelodus charus (Valenciennes, 1840) Pseudopimelodidae 3E
Pseudoplatystoma coruscans (Spix & Agassiz, 1829) Pimelodidae 3F
Pseudoplatystoma fasciatum (Linnaeus, 1766) Pimelodidae 1F
Pseudotatia parva Mees, 1974 Auchenipteridae 3E
Pterygoplichthys etentaculatus (Agassiz, 1829) Loricariidae 3E
Pygocentrus nattereri (Kner, 1858) Characidae 1, 2 F
Pygocentrus piraya (Cuvier, 1819) Characidae 2, 3 E
Rhamdella papariae Fowler, 1941 Pimelodidae 2E
Rhamdella robinsoni Fowler, 1941 Pimelodidae 3E
Rhamdia quelen (Quoy & Gaimard, 1824) Pimelodidae 1, 2, 3, 4 F
Rhamdia wolfi (Fowler, 1941) Pimelodidae 2E
Rhamphichthys rostratus (Linnaeus, 1766) Rhamphichthyidae 1F
Rhinelepis aspera Spix & Agassiz, 1829 Loricariidae 3E
Rivulus decoratus Costa, 1989 Rivulidae 3E
Roeboides microlepis (Reinhardt, 1851) Characidae 1, 2 F
Roeboides prognathus (Boulenger, 1895) Characidae 1F
Roeboides xenodon (Reinhardt, 1849) Characidae 3E
Salminus hilarii Valenciennes, 1850 Characidae 2, 3 F
Salminus brasiliensis (Cuvier, 1816) Characidae 3E
Schizodon dissimilis (Garman, 1890) Anostomidae 1E
Schizodon fasciatus Spix & Agassiz, 1829 Anostomidae 1, 2 F
Schizodon knerii (Steindachner, 1875) Anostomidae 3E
Serrapinnus heterodon (Eigenmann, 1915) Characidae 1, 2, 3 F
Serrapinnus piaba (Lütken, 1874) Characidae 1, 2, 3 F
Serrapinnus sp (Cheirodon insignis, Starks, 1913) Characidae 2E

160
Anexo 1 - Relação das espécies de peixes de água doce que ocorrem no bioma Caatinga
Continuação

Espécie e autor Família Distribuição


Serrasalmus brandtii Lütken, 1875 Characidae 2, 3 E
Serrasalmus rhombeus (Linnaeus, 1766) Characidae 1, 2 F
Simpsonichthys adornatus Costa, 2000 Rivulidae 3E
Simpsonichthys antenori (Tulipano, 1973) Rivulidae 2E
Simpsonichthys flavicaudatus (Costa & Brasil, 1990) Rivulidae 3E
Simpsonichthys fulminantis Costa & Brasil, 1993 Rivulidae 3E
Simpsonichthys ghisolfii Costa, Cyrino & Nielsen, 1996 Rivulidae 3E
Simpsonichthys hellneri (Berkenkamp, 1993) Rivulidae 3E
Simpsonichthys igneus Costa, 2000 Rivulidae 3E
Simpsonichthys magnificus (Costa & Brasil, 1991) Rivulidae 3E
Simpsonichthys ocellatus Costa, Nielsen & De Luca, 2001 Rivulidae 4E
Simpsonichthys picturatus Costa, 2000 Rivulidae 3E
Simpsonichthys similis Costa & Hellner, 1999 Rivulidae 3E
Simpsonichthys stellatus (Costa & Brasil, 1994) Rivulidae 3E
Sorubim lima (Bloch & Schneider, 1801) Pimelodidae 1F
Steindachnerina elegans (Steindachner, 1874) Curimatidae 3, 4 F
Steindachnerina notonota (Ribeiro, 1937) Curimatidae 1, 2 E
Sternopygus macrurus (Bloch & Schneider, 1801) Sternopygidae 1, 3 F
Synbranchus marmoratus Bloch, 1795 Synbranchidae 1, 2, 3 F
Tetragonopterus argenteus Cuvier, 1816 Characidae 1, 2 F
Tetragonopterus chalceus Spix & Agassiz, 1829 Characidae 3F
Tilapia rendalli (Boulenger, 1897) Cichlidae 3I
Trachelyopterus striatulus (Steindachner, 1877) Auchenipteridae 2,3 E
Trichomycterus itacarambiensis Trajano & Pinna, 1996 Trichomycteridae 3E
Triportheus guentheri (Garman, 1890) Characidae 3E
Triportheus signatus (Garman, 1890) Characidae 1, 2 E

161
Biota aquática: áreas
e ações prioritárias PARTICIPANTES DO SEMINÁRIO
GRUPO TEMÁTICO ‘BIOTA AQUÁTICA’

para a conservação
Ricardo Rosa
Coordenação

Gildo Gomes Filho

da Caatinga
Naércio A Menezes
Oscar Akio Shibatta
Wilson J.E.M. Costa

163
Arq. Fundação Biodiversitas
Açude de Cocorobó, Canudos - BA

Em razão da semi-aridez dominante redução e a degradação de hábitats


na região, e do predomínio de rios disponíveis para os peixes de água doce. O
‘temporários’, era de esperar que a biota crescente desmatamento em áreas de
aquática da caatinga fosse pouco caatinga atinge as formações de vegetação
diversificada, com poucas espécies ciliar em quase todo o bioma. Entre outros
endêmicas e com o predomínio de exemplos de impactos ambientais temos os
espécies generalistas amplamente casos de poluição de cursos d’água por
distribuídas. Tal predisposição foi avaliada esgotos urbanos, por agrotóxicos e por
ao ser confrontada com informações sobre efluentes industriais. Os projetos de grandes
os peixes da região. Esses foram utilizados obras de engenharia, que incluem o
como componentes do grupo indicador da barramento e as interligações de rios, são
biota aquática, pois somente para eles há também fatores que ameaçam bastante a
informação de qualidade. A hipótese de biota aquática.
que a caatinga é pobre em espécies De posse das informações sobre
aquáticas foi rejeitada. A partir das distribuição da ictiofauna procedeu-se à
informações disponíveis foi possível obter indicação de áreas prioritárias para peixes a
dados referentes às 185 espécies de peixes partir da divisão da Caatinga em quatro
do bioma, as quais estão distribuídas em ecorregiões: 1. Maranhão-Piauí; 2. Nordeste
cem gêneros. A maioria (57,3%) dessas médio-oriental; 3. São Francisco; e 4. Bacias
espécies é endêmica. Merece destaque, no do leste. Em cada uma dessas ecorregiões
entanto, o grande número de espécies foram selecionadas áreas prioritárias para
endêmicas de peixes anuais (Família conservação da biota aquática, com base
Rivulidae) encontradas somente ao longo no diagnóstico biológico, o qual inclui a
do médio curso do rio São Francisco. riqueza e o endemismo de espécies; a
O estado de conservação dos peixes presença de espécies possivelmente
da Caatinga é ainda precariamente ameaçadas; e também a ocorrência de
conhecido; de início, apenas quatro espécies fenômenos biológicos especiais.
foram listadas no bioma como ameaçadas Um total de 29 áreas prioritárias foi
de extinção. Deve-se ponderar, porém, que identificado e classificado (Figura 1). Essas
grande parte da ictiofauna não foi ainda áreas estão divididas da seguinte forma:
avaliada. Todavia, é preciso considerar o fato quatro de extrema importância biológica,
de a ampliação de áreas de ocupação três de muito alta importância, seis de alta
agropecuária e urbana contribuir para a importância, e 16 insuficientemente

164
conhecidas, mas de provável importância incipiente e, portanto, ser de extrema
biológica. importância o apoio ao inventário biológico
As indicações de extrema ou de muito da biota aquática da Caatinga, pois muitas
alta importância biológica fundamentaram- bacias hidrográficas permanecem ainda
se na ocorrência de fenômenos biológicos pouco amostradas. Outra valiosa
especiais, tais como a presença de peixes recomendação refere-se à necessidade de
anuais e/ou cavernícolas, a alta diversidade se coibir a introdução de espécies exóticas
filética e a ocorrência de endemismos. em ambientes aquáticos naturais sem o
Esse resultado indica o fato de o devido embasamento de estudos prévios
conhecimento sobre a ictiofauna ser de impacto ambiental.

Importância Biológica
Extrema
Muito alta
Alta
Figura 1 Informação insuficiente

Áreas Hidrografia
Limite estadual
prioritárias para Limite do bioma Caatinga
conservação
de peixes na
Caatinga.
1. Rio Preguiça 9. Rio Choró 17. Rio Capibaribe 25. Itacarambi
2. Rio Preto 10. Baixo Jaguaribe 18. Rio Vaza Barris 26. Guanambi
3. Baixo Parnaíba 11. Rio Salgado 19. Campo Formoso 27. Bom Jesus da Lapa
4. Rio Poti 12. Rio Apodi 20. Rio Itapicuru 28. Ibotirama
5. Rio Coreaú 13. Rio Piranhas 21. Rio Jacuípe 29. Santa Maria da Boa Vista
6. Rio Acaraú 14. Rio Potengi 22. Médio Rio Paraguaçu
7. Rio Aracatiaçu 15. Rio Curimataú 23. Alto Rio Paraguaçu
8. Rio Curu 16. Rio Paraíba do Norte 24. Médio Rio de Contas

165
DESCRIÇÃO DAS ÁREAS PRIORITÁRIAS INDICADAS

1 - RIO PREGUIÇA Importância biológica: Provável; área


Localização: MA: Barreirinhas, Santa Quitéria insuficientemente conhecida.
do Maranhão, Tutóia e São Bernardo. Ação recomendada: Investigação científica.
Importância biológica: Provável; área Justificativa: Área sem dados sobre a
insuficientemente conhecida. diversidade da fauna de peixes, porém com
Ação recomendada: Investigação científica. provável elevada taxa de endemismo por
Justificativa: Bacia hidrográfica isolada com se tratar de região de cabeceiras.
total falta de dados sobre a diversidade de
peixes. 5 - RIO COREAÚ
Localização: CE: Coreaú, Granja, Moraújo
2 - RIO PRETO e Uruoca.
Localização: MA: Anapurus, Buriti, Importância biológica: Provável; área
Chapadinha, Brejo, Santa Quitéria do insuficientemente conhecida.
Maranhão, Mata Roma e Urbano Santos. Ação recomendada: Investigação científica.
Importância biológica: Provável; área Justificativa: Bacia hidrográfica isolada
insuficientemente conhecida. com total falta de dados sobre a
Ação recomendada: Investigação científica. diversidade de peixes.
Justificativa: Rio com total falta de dados
sobre a diversidade de peixes, incluindo 6- RIO ACARAÚ
áreas de cabeceiras.
Localização: CE: Acaraú, Morrinhos,
Santana do Acaraú, Sobral, Bela Cruz,
3 - BAIXO PARNAÍBA Marco, Massapé.
Localização: PI: Buriti dos Lopes, Bom Importância biológica: Provável; área
Princípio do Piauí, Parnaíba e Joaquim Pires. insuficientemente conhecida.
MA: Araioses e Magalhães de Almeida. Ação recomendada: Investigação científica.
Importância biológica: Alta.
Justificativa: Bacia hidrográfica com poucos
Ação recomendada: Investigação científica. dados sobre a diversidade de peixes,
Elementos de diagnóstico: Riqueza de aparente baixo endemismo (apenas uma
espécies: média; número médio de espécie reconhecidamente endêmica).
endemismos; riqueza de espécies raras/
ameaçadas: baixa; número alto de espécies
7 - RIO ARACATIAÇU
de interesse econômico.
Localização: CE: Irauçuba, Sobral, Miraíma,
Vulnerabilidade: Fragilidade intrínseca do
Amontada, Irauçuba e Santana do Acaraú.
sistema: média; grau de alteração: médio;
pressão antrópica: média (área sujeita a Importância biológica Provável; área
desmatamento e atividades agropecuários). insuficientemente conhecida.
Justificativa: Área com espécies de grande Ação recomendada: Investigação científica.
interesse econômico, com presença de Justificativa: Bacia hidrográfica isolada com
algumas espécies endêmicas e riqueza total falta de dados sobre a diversidade
moderada. biológica de peixes.

4 - RIO POTI 8 - RIO CURU


Localização: PI: Passagem Franca do Piauí, Localização: CE: Apuiarés, Itapagé, São
Prata do Piauí, São Félix do Piauí, Santa Cruz Gonçalo do Amarante, São Luís do Curu,
dos Milagres, São Miguel do Tapuio, Alto Umirim, Pentecoste, Tejuçuoca, General
Longá, Beneditinos e São João da Serra. Sampaio e Paramoti.

166
Importância biológica: Provável; área 11 - RIO SALGADO
insuficientemente conhecida. Localização: CE: Aurora, Cedro, Icó, Lavras
Ação recomendada: Investigação científica. da Mangabeira, Caririaçu, Missão Velha,
Elementos de diagnóstico: Baixa riqueza de Abaiara, Milagres, Barro, Umari e Baixio.
espécies. Importância biológica: Alta.
Justificativa: Área com registro de algumas Ação recomendada: Investigação científica.
espécies, mas sem maiores dados sobre a Elementos de diagnóstico: Riqueza de
diversidade biológica de peixes. espécies: baixa; número médio de ende-
mismos; riqueza de espécies raras/amea-
çadas: média; ocorrência de fenômeno
9 - RIO CHORÓ biológico especial.
Localização: CE: Aracoiaba, Redenção, Vulnerabilidade: Fragilidade intrínseca do
Barreira, Chorozinho, Ocara, Baturité, sistema: média.
Capistrano, Itapiúna, Ibaretama e Quixadá. Justificativa: Como região de cabeceiras,
Importância biológica: Provável; área apresenta endemismo relativamente alto.
insuficientemente conhecida. A diversidade é menor em comparação com
Ação recomendada: Investigação científica. o restante da bacia do Rio Jaguaribe, porém
são necessários levantamentos adicionais
Elementos de diagnóstico: Riqueza de
para melhor conhecimento da fauna.
espécies: média; baixo número de ende-
mismos.
12 - RIO APODI
Justificativa: Área com pouca informação
sobre riqueza e endemismo de espécies de Localização: RN: Severiano Melo, Rodolfo
Fernandes, Potiretama, Ererê, São
peixes.
Francisco do Oeste, Francisco Dantas,
Taboleiro Grande, Portalegre, Riacho da
10 - BAIXO JAGUARIBE Cruz, Viçosa, Taboleiro Grande, Itaú,
Localização: CE: Limoeiro do Norte, Umarizal, Apodi, Caraúbas, Felipe Guerra
Tabuleiro do Norte, São João do Jaguaribe, e Governador Dix-Sept Rosado.
Quixeré, Morada Nova, Jaguaruana, Importância biológica: Provável; área
Palhano e Russas. insuficientemente conhecida.
Importância biológica: Muito alta. Ação recomendada: Investigação científica.
Ação recomendada: Investigação científica. Elementos de diagnóstico: Riqueza de
espécies: baixa; baixo número de
Elementos de diagnóstico: Riqueza de
endemismos; baixa riqueza de espécies
espécies: média; número médio de
raras/ameaçadas.
endemismos; riqueza de espécies raras/
Justificativa: Área com algumas espécies
ameaçadas: média; ocorrência de fenô-
conhecidas, mas que necessita de
meno biológico especial; alto número de
levantamentos adicionais para melhor
espécies de interesse econômico.
caracterização da diversidade da ictiofauna.
Vulnerabilidade: Fragilidade intrínseca do
sistema: média. grau de alteração: médio;
pressão antrópica: média (desmatamento 13 - RIO PIRANHAS
e atividades agropecuárias). Localização: PB: Sousa, São João do Rio
do Peixe, Cajazeiras, Carrapateira, São José
Justificativa: São conhecidas 46 espécies
da Lagoa Tapada, Nazarezinho e São José
de peixes na área, algumas das quais são
de Piranhas; CE: Barro.
endêmicas. As atividades de pesca de
subsistência são importantes e existem Importância biológica: Alta.
ambientes especiais, representados Ação recomendada: Investigação científica.
principalmente por poças temporárias Elementos de diagnóstico: Riqueza de
onde predominam espécies anuais. espécies: média; baixo número de

167
endemismos; riqueza de espécies raras/ Importância biológica: Provável; área
ameaçadas: baixa; ocorrência de fenômeno insuficientemente conhecida.
biológico especial; baixo número de Ação recomendada: Investigação científica.
espécies de interesse econômico.
Justificativa: Área sem dados para a
Vulnerabilidade: Fragilidade intrínseca do caracterização da diversidade faunística.
sistema: alta; grau de alteração: baixo;
pressão antrópica: baixa (atividade
agropecuária de subsistência; caça; uso
recreativo). 16 - RIO PARAÍBA DO NORTE
Justificativa: Área com baixa ocupação Localização: PB: Água Branca, Aroeiras,
humana e considerável extensão de matas Cabaceiras, Boqueirão, Barra de São
marginais bem desenvolvidas e conser- Miguel, Natuba, São João do Cariri e
vadas; moderada diversidade de espécies de Umbuzeiro.
peixes, associada à perenização do curso de Importância biológica: Alta.
água; manancial hídrico importante para Ação recomendada: Investigação científica.
manutenção da biota aquática e uso Elementos de diagnóstico: Riqueza de
humano. São conhecidas 24 espécies de espécies: média; baixo número de
peixes da área, número relativamente alto endemismos; ocorrência de fenômeno
em comparação com bacias adjacentes. biológico especial; baixo número de
A região de cabeceiras possivelmente espécies de interesse econômico.
apresenta endemismo. Há duas ou três
Vulnerabilidade: Fragilidade intrínseca do
espécies de interesse econômico.
sistema: alta; grau de alteração: alto;
pressão antrópica: alta (desmatamento,
uso do solo e água para atividades
14 - RIO POTENGI agropecuárias; mineração de areia;
Localização: RN: Ielmo Marinho, Macaíba, substituição da floresta nativa por culturas
Bom Jesus, Senador Elói de Souza, Lagoa exóticas; poluição por esgotos urbanos e
de Velhos, Ruy Barbosa, São Tomé, agrotóxicos).
Santana do Matos, Cerro Corá, Barcelona, Justificativa: Área peculiar com ambientes
São Paulo do Potengi e São Pedro. de cabeceiras de rio, com número razoável
Importância biológica: Provável; área de espécies de peixes comparativamente a
insuficientemente conhecida. áreas adjacentes e presença de espécies
reofílicas. Endemismo baixo mas que pode
Ação recomendada: Investigação científica.
ser maior quando as áreas de cabeceiras
Elementos de diagnóstico: Riqueza de forem mais bem exploradas. O rio Natuba
espécies: baixa; baixo número de é parcialmente margeado e sombreado por
endemismos. remanescentes de floresta úmida de
Justificativa: Área com poucas espécies altitude (brejo de altitude); constitui
conhecidas, quase sem dados sobre a manancial hídrico com significativo aporte
diversidade de peixes. de água para a bacia do rio Paraíba do
Norte.

15 - RIO CURIMATAÚ
Localização: PB: Olivedos, Bananeiras, 17 - RIO CAPIBARIBE
Barra de Santa Rosa, Esperança, Solânia, Localização: PE: Salgadinho, Surubim,
Arara, Borborema, Serraria, Belém, Serra da Vertentes, Taquaritinga do Norte, Caruaru,
Raiz, Pirpirituba, Duas Estradas, Lagoa de Riacho das Almas, Cumaru, Frei
Dentro, Caiçara, Jacaraú, Dona Inês, Miguelinho, Passira e Toritama.
Araruna, Cacimba de Dentro, Areial, Importância biológica: Provável; área
Pocinhos, Remígio e Tacima; RN: Nova Cruz. insuficientemente conhecida.

168
Ação recomendada: Investigação científica. Justificativa: Área cárstica com ocorrência
de cavernas calcárias (incluindo a maior
Elementos de diagnóstico: Riqueza de
do Brasil) contendo corpos d’água
espécies: baixa; ocorrência de fenômeno
freáticos sem conexão direta com a
biológico especial.
drenagem superficial. Fauna cavernícola
Vulnerabilidade: Fragilidade intrínseca do endêmica representada por espécies
sistema: alta; grau de alteração: alto; pressão exclusivamente subterrâneas (troglóbias),
antrópica: alta (desmatamento, poluição de caráter relictual. Destaca-se a
aquática, retirada de água para consumo ocorrência de uma nova espécie de bagre
humano e atividade agropecuária). heptapteríneo troglóbio, gênero Taunayia
Justificativa: Poucos dados para a (em fase de descrição), que constitui caso
caracterização da biodiversidade de peixes. de maior interesse científico pelo alto grau
Presença de brejos de altitude nas regiões de especialização morfológica, ecológica
de cabeceiras. Área profundamente e comportamental, e distribuição disjunta
alterada, com forte pressão antrópica. (a única outra espécie do gênero ocorre
em áreas bem preservadas de Mata
Atlântica no estado de São Paulo). Várias
espécies de invertebrados troglóbios
18 - RIO VAZA BARRIS foram registrados, incluindo os únicos
Localização: BA: Jeremoabo e Canudos. casos de isópodes aquáticos e de insetos
Zygentoma troglóbios no país. As espé-
Importância biológica: Provável; área cies aquáticas apresentam densidades
insuficientemente conhecida. populacionais extremamente baixas,
Ação recomendada: Investigação científica. sendo altamente vulneráveis a eventuais
perturbações.
Elementos de diagnóstico: Riqueza de
espécies: baixa; número médio de
endemismos.
Justificativa: São conhecidas apenas três 20 - RIO ITAPICURU
espécies da área, duas das quais Localização: BA: Morro do Chapéu, Miguel
endêmicas. Os dados são insuficientes para Calmon, Caém, Caldeirão Grande, Itiúba,
a caracterização da diversidade da Capim Grosso, Jacobina, Queimadas,
ictiofauna. Quixabeira, Ponto Novo e Várzea Nova.
Importância biológica: Provável; área
insuficientemente conhecida.
19 - CAMPO FORMOSO Ação recomendada: Investigação científica.
Localização: BA: Campo Formoso e Elementos de diagnóstico: Riqueza de
Mirangaba. espécies: baixa; baixo número de
endemismos; ocorrência de fenômeno
Importância biológica: Alta.
biológico especial; baixo número de
Ação recomendada: Investigação científica. espécies de interesse econômico.
Elementos de diagnóstico: Riqueza de Vulnerabilidade: Grau de alteração: baixo;
espécies: baixa; número médio de pressão antrópica: alta (atividade
endemismos; ocorrência de fenômeno agropecuária).
biológico especial. Justificativa: Poucos dados para a
Vulnerabilidade: Fragilidade intrínseca do caracterização da diversidade da
sistema: alta; grau de alteração: médio; ictiofauna. São conhecidas duas espécies
pressão antrópica: baixa (exploração do endêmicas da área. Região de cabeceiras
lençol freático para o suprimento de com composição faunística distinta da
água). parte baixa.

169
21 - RIO JACUIPE Vulnerabilidade: Fragilidade intrínseca do
Localização: BA: Várzea do Poço, Várzea da sistema: alta; grau de alteração: alto;
Roça, Quixabeira, Capim Grosso, Santaluz, pressão antrópica: média (visitação turística
Gavião, Nova Fátima, Conceição do Coité, sem controle).
Retirolândia, Riachão do Jacuípe, São Justificativa: Ocorrência de fauna
Domingos, São José do Jacuípe, cavernícola endêmica. Região cárstica com
Serrolândia e Capela do Alto Alegre. comunidades de peixes de caverna.
Importância biológica: Provável; área
insuficientemente conhecida.
Ação recomendada: Investigação científica. 24 - MÉDIO RIO DE CONTAS
Justificativa: Sem dados sobre a diversi- Localização: BA: Barra da Estiva, Contendas
dade da fauna de peixes. do Sincorá, Caetanos, Mirante, Jequié,
Iramaia, Manoel Vitorino, Maracás e Tanhaçu.
Importância biológica: Provável; área
22 - MÉDIO RIO PARAGUAÇU insuficientemente conhecida.
Localização: BA: Ipirá, Ruy Barbosa, Ação recomendada: Investigação científica.
Macajuba, Rafael Jambeiro, Itatim, Iaçu, Elementos de diagnóstico: Número médio
Itaberaba, Quixabeira, Ponto Novo e Várzea de endemismos; número médio de
Nova. espécies de interesse econômico.
Importância biológica: Alta. Vulnerabilidade: Grau de alteração: alto;
Ação recomendada: Investigação científica. pressão antrópica: alta (desmatamento,
Elementos de diagnóstico: Riqueza de atividades agropecuárias).
espécies: média; número médio de Justificativa: As poucas coletas realizadas
endemismos; riqueza de espécies raras/ indicam existência de algumas espécies
ameaçadas: média; número médio de endêmicas. São conhecidas espécies de
espécies de interesse econômico. importância comercial exploradas por
Vulnerabilidade: Fragilidade intrínseca do comunidades ribeirinhas.
sistema: alta; grau de alteração: médio;
pressão antrópica: média (desmatamento,
barragens, atividade agropecuária, poluição 25 - ITACARAMBI
aquática). Localização: MG: Itacarambi, Januária,
Justificativa: Área ainda pouco conhecida, Manga e Matias Cardoso.
mas as poucas expedições já realizadas Importância biológica: Extrema.
revelaram fauna abundante, com presença Ação recomendada: Proteção integral.
de algumas espécies endêmicas e de Elementos de diagnóstico: Riqueza de
importância comercial, exploradas pela espécies: alta; alto número de endemis-
população ribeirinha. mos; riqueza de espécies raras/ameaçadas:
alta; ocorrência de fenômeno biológico
especial; alto número de espécies de
23 - ALTO RIO PARAGUAÇU interesse econômico.
Localização: BA: Ibicoara, Iramaia, Barra Vulnerabilidade: Fragilidade intrínseca do
da Estiva, Itaeté, Boa Vista do Tupim, Nova sistema: alta; grau de alteração: médio;
Redenção e Andaraí. pressão antrópica: alta (turismo fora de
Importância biológica: Muito alta. controle, desmatamento e atividades
Ação recomendada: Investigação científica. agropecuárias).
Elementos de diagnóstico: Alto número de Justificativa: Caracterizada pelo elevado
endemismos; riqueza de espécies raras/ número de espécies, grande diversidade filética
ameaçadas: alta; ocorrência de fenômeno e de espécies, presença de espécies
biológico especial. endêmicas e raras. Há comunidades especiais

170
representadas por cavernas onde se diferencia espécies anuais. Várias espécies comerciais
fauna cavernícola e poças temporárias com exploradas regularmente.
presença de espécies anuais.

28 - IBOTIRAMA
26 - GUANAMBI Localização: BA: Barra, Morpará, Xique-
Localização: BA: Guanambi. Xique e Ibotirama.
Importância biológica: Extrema. Importância biológica: Extrema.
Ação recomendada: Proteção integral. Ação recomendada: Proteção integral.
Elementos de diagnóstico: Riqueza de Elementos de diagnóstico: Riqueza de
espécies: alta; alto número de endemis- espécies: alta; alto número de ende-
mos; riqueza de espécies raras/ameaçadas: mismos; riqueza de espécies raras/
alta; ocorrência de fenômeno biológico ameaçadas: alta; ocorrência de fenômeno
especial; número médio de espécies de biológico especial; alto número de espécies
interesse econômico.
de interesse econômico.
Vulnerabilidade: Fragilidade intrínseca do
Vulnerabilidade: Fragilidade intrínseca do
sistema: alta; grau de alteração: alto;
sistema: alta; grau de alteração: médio;
pressão antrópica: alta (ocupação
pressão antrópica: média.
humana, desmatamento e atividades
Justificativa: Alta diversidade tanto em nível
agropecuárias).
de espécie quanto filética. Presença de
Justificativa: Grande diversidade
várias espécies endêmicas e algumas raras,
faunística, com predominância de
bem como de comunidades especiais,
espécies exclusivas em comunidades
principalmente em poças temporárias,
especiais, principalmente poças tem-
onde predominam espécies anuais.
porárias. Várias espécies raras e algumas
exploradas comercialmente.

29 - SANTA MARIA DA BOA VISTA


27 - BOM JESUS DA LAPA Localização: BA: Juazeiro e Curaçá; PE:
Localização: BA: Bom Jesus da Lapa e Petrolina e Santa Maria da Boa Vista.
Paratinga. Importância biológica: Muito alta.
Importância biológica: Extrema. Ação recomendada: Investigação científica.
Ação recomendada: Proteção integral. Elementos de diagnóstico: Riqueza de
Elementos de diagnóstico: Riqueza de espécies: média; número médio de
espécies: alta; alto número de endemis- endemismos; riqueza de espécies raras/
mos; riqueza de espécies raras/ameaçadas: ameaçadas: média; ocorrência de fe-
alta; ocorrência de fenômeno biológico nômeno biológico especial; alto número de
especial; alto número de espécies de espécies de interesse econômico.
interesse econômico. Vulnerabilidade: Fragilidade intrínseca do
Vulnerabilidade: Fragilidade intrínseca do sistema: alta; grau de alteração: alto;
sistema: alta; grau de alteração: alto; pressão antrópica: alta (desmatamento;
pressão antrópica: alta (ocupação humana, atividades agrícolas).
turismo fora de controle, desmatamento e Justificativa: Área com diversidade
atividades agropecuárias). faunística média, com algumas espécies
Justificativa: Grande diversidade faunística endêmicas e poucas raras. Presença de
com elevado número de espécies endêmicas poças temporárias com espécies anuais
e algumas raras. Presença de poças raras. Presença de espécies de interesse
temporárias marginais com predomínio de comercial exploradas regularmente.

171
Fauna de COORDENADOR:
Miguel Trefaut Rodrigues

anfíbios e
Universidade de São Paulo

COLABORADORES:

répteis das
Celso Morato de Carvalho
Diva Maria Borges
Elisa Maria Xavier Freire
Felipe Franco Curcio

Caatingas
Francisco Filho de Oliveira
Hélio Ricardo da Silva
Marianna Botelho de Oliveira Dixo

Fauna 165
INTRODUÇÃO
Entre os principais domínios mor- 150 localidades, verificamos que muito
foclimáticos brasileiros, o das caatingas, poucas contam com coleções repre-
ocupando uma área aproximada de sentativas das comunidades de répteis e
800.000km2 é, de modo geral, um dos anfíbios ali presentes.
mais bem conhecidos quanto à sua fauna No Piauí, Valença, situada em uma
de répteis e anfíbios. Conhecem-se hoje, área de contato com os cerrados, é a
de localidades com a feição característica localidade melhor amostrada, com 19
das caatingas semi-áridas, 44 espécies de espécies de serpentes, 15 de lagartos e
lagartos, 9 espécies de anfisbenídeos, apenas oito de anfíbios. As cinco demais
47 espécies de serpentes, quatro quelônios, amostras nesse Estado, documentam
três crocodilianos, 47 anfíbios anuros e dois apenas a fauna mais generalista, não
gimnofionos (Anexo 1). passando de três espécies de serpentes,
Se considerarmos as ilhas relictuais cinco de lagartos e três de anuros por
de florestas, como os brejos florestados, e localidade.
enclaves de outros tipos de paisagens mais A situação do Ceará é um pouco
mésicas sem a fácie típica das caatingas, melhor se considerarmos a cobertura geral
os números aumentam muito. Abor- do Estado, mas nenhuma localidade está,
daremos aqui apenas a fauna associada a individualmente, tão bem representada em
localidades estritamente caracterizadas coleções como Valença. A melhor
como caatinga. amostragem está na região do Cariri,
Um levantamento preliminar com também uma área de transição com as
base na coleção do Museu de Zoologia da matas e os cerrados. De Arajara
USP, ainda sem incorporar completamente conhecemos dez espécies de serpentes, 12
a coleção de anfíbios ‘Werner Bokermann’, de lagartos e três de anfíbios, e de Santana
mostra que existem espécimes documen- do Carirí, três espécies de serpentes, 12 de
tários de cerca de 150 localidades assim lagartos e dez de anuros. Morro Branco
distribuídas: Piauí, 6; Ceará, 18; Rio (Beberibe) e Coluna, nas imediações de
Grande do Norte, 7; Paraíba, 19; Justiniano Serpa, são as duas outras
Pernambuco, 27; Alagoas, 6 e Bahia, 53 localidades melhor amostradas. A primeira
(Anexo 2). Não há registros de répteis e conta com apenas cinco espécies de
anfíbios para as manchas de caatinga do serpentes e oito de lagartos, e a outra, com
Norte de Minas Gerais. oito espécies de serpentes e 12 de lagartos.
Analisando com mais detalhe a Nenhum anuro está representado nas
amostragem de cada uma destas cerca de coleções daquelas localidades.

166 Parte III


No Rio Grande do Norte, Angicos é com 10 espécies de serpentes, 19 de
a localidade mais bem amostrada, com seis lagartos e 12 de anuros. Essa coleção
espécies de lagartos e oito de anuros, resulta de trabalho empreendido quando
seguida de Maxaranguape com três da instalação de uma usina hidrelétrica e
espécies de serpentes, cinco de lagartos e mostra bem a importância de se aproveitar,
quatro de anuros. Das demais cinco cientificamente, essas oportunidades para
localidades, a melhor amostrada quanto maximizar a representação da diversidade
aos lagartos está representada por quatro biológica local. A Barragem de Itaparica,
espécies, por duas quanto às serpentes e cujas coleções foram pulverizadas e não se
por três quanto aos anuros. encontram no MZUSP, parece ter sido a
Das 19 localidades da Paraíba, localidade melhor amostrada, em relação
Cabaceiras (com cinco espécies de às serpentes, de todo o nordeste conta-
serpentes, 16 de lagartos e quatro de bilizando 27 espécies (Silva Jr. & Sites Jr.
anuros) e Gurinhém (com nove espécies de 1994). Entre lagartos e anfisbenídeos, 21
serpentes, 11 de lagartos e oito de anuros) espécies foram apontadas para essa
são as mais bem amostradas. Coremas e mesma área, da qual não há dados sobre
Junco do Seridó, com nove espécies, são os anuros. De Alagoas, excetuando-se
as localidades melhor representadas quanto Xingó, Quebrângulo é a localidade mais
aos anuros, contudo são mal representadas bem amostrada, com oito espécies de
quanto às serpentes e lagartos (sete e três serpentes, quatro de lagartos e duas de
espécies de serpentes, e cinco e sete anuros.
espécies de lagartos, respectivamente). Sergipe, tradicionalmente, tem sido
Exu é a localidade mais bem um estado mal amostrado. A localidade
amostrada de Pernambuco e de todo o hoje mais bem representada na coleção é
nordeste seco nas coleções do MZUSP. São Areia Branca com três espécies de
dali conhecidas 18 espécies de serpentes, serpentes, sete de lagartos e 13 de anuros.
16 de lagartos e 19 de anfíbios anuros. Ainda assim, parte da área envolve a fauna
Quanto às serpentes, Carnaubeira (com dos ambientes especiais da Serra de
dez espécies) e Agrestina (com seis Itabaiana, como por exemplo, o lagarto
espécies) vêm em seguida a Exu. Dentre Tropidurus hygomi, ali presente, mas
as demais 24 localidades, a mais bem ausente das caatingas típicas. Esses
representada tem três espécies números deverão, provavelmente, aumen-
documentadas na coleção do MZUSP. Com tar em vista de coletas que vêm sendo
os lagartos a situação é um pouco melhor, realizadas na região.
além de Exu, tem-se Agrestina com 10 Finalmente, existem 53 localidades
espécies, Pesqueira com nove, Carnaubeira da Bahia com amostras de répteis e
com oito e várias outras localidades de anfíbios nas coleções do MZUSP. Apenas
onde cinco a sete espécies de lagartos quatro dessas localidades estão repre-
tiveram espécimes testemunhos colecio- sentadas por mais de sete espécies de
nados. A amostragem dos anfíbios é bem serpentes, dez têm mais de sete espécies
menor, e a localidade com o maior número de lagartos e, de apenas seis localidades,
de espécies é Serra dos Cavalos, com nove há coleções representando sete ou mais
espécies. Vale mencionar que Serra dos espécies de anfíbios. As localidades melhor
Cavalos foi incluída pois, embora amostradas estão todas na região das
majoritariamente sua fisionomia seja a de dunas interiores do rio São Francisco, ou
floresta úmida, apresena fácies de caatinga em áreas de transição, como Itiúba.
no entorno. Das outras 25 localidades, a Os comentários acima mostram
melhor representada é Petrolina com claramente o caráter fortuito da maioria das
apenas três espécies de anuros. coleções realizadas. Poucas derivaram de
Das seis localidades de Alagoas, a campanhas de longa duração que
coleção de Xingó é a melhor, contando procuraram maximizar a representação das

Fauna 167
comunidades de répteis e anfíbios do local.
Geralmente representam o interesse do
especialista que visita uma localidade em
uma época propícia para a coleta de um
grupo, mas não para outro. Assim, embora
de modo geral o conhecimento possa hoje
ser considerado adequado, faltam amos-
tragens representativas das comunidades
de répteis e anfíbios dos diversos am-
bientes. Um bom exemplo de uma loca-
lidade bem trabalhada é Exu. A pouca
representatividade de formas subterrâneas,
fossoriais e/ou supostamente raras em
coleções também mostra que há
necessidade de adequação das meto-
dologias de coleta.
Do ponto de vista da cobertura
geográfica, ainda falta muito a fazer. Esta
lacuna é talvez a mais importante a
preencher para podermos definir as áreas
prioritárias para a conservação no domínio O que dizer de outras espécies
das caatingas. As amostragens são ainda conhecidas de uma ou de poucas
tão incipientes que é impossível, salvo localidades, ainda que ocorram em áreas
algumas exceções, falar sobre ende- fisionomicamente caracterizadas como
mismos. caatinga? Entre os lagartos, estariam nessa
A mais importante área de situação, dentre outros, Mabuya agmosti-
endemismo está na região do campo de cha e Phyllopezus periosus; o último o
dunas do rio São Francisco (Rodrigues maior geco brasileiro e descrito poucos anos
1996), caracterizada por gêneros e espécies atrás. Não é cabível, sequer, tecer comen-
que não ocorrem em nenhum outro tipo tários referentes às serpentes ou aos anfíbios
de hábitat na região neotropical. Esta é sem anuros. Somente é possível dizer que, como
dúvida uma área prioritária para a foi mostrado acima, nosso conhecimento
conservação. Contudo, como essa des- sobre as caatingas é tão fragmentário que
coberta é extremamente recente, é muito necessitamos urgentemente de inventários
provável que existam outras áreas, ainda multicisciplinares, utilizando metodologia
inexploradas, com importância histórica, adequada, de modo a amostrar melhor a
ecológica e evolutiva similar. diversidade biológica desse domínio.
Com relação aos lagartos, outros
endemismos ou disjunções do domínio
estão também em regiões com solos
arenosos. Tropidurus hygomi acima
mencionado, embora não seja um animal REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
da caatinga, é um dos exemplos de
disjunção espacial associada à distribuição
RODRIGUES, M.T. 1996. Lizards, snakes, and amphisbaenians
dos solos arenosos. Lagartos como from the Quaternary sand dunes of the middle Rio
Tropidurus cocorobensis, uma espécie de São Francisco, Bahia, Brazil. Journal of Herpetology
Cnemidophorus que ainda está por ser 30(4): 513-523.

descrita e a cobra-cega Amphisbaena SILVA JR., N.J. & J.W. SITES JR. 1995. Patterns of diversity of
Neotropical squamate reptile species with emphasis
arenaria, são exemplos similares de
on the Brazilian Amazon and the conservation
espécies endêmicas, disjuntas e encra- potential of indigenous reserves. Conservation
vadas no domínio das caatingas. Biology 9 (4): 873-901.

168 Parte III


Anexo 1 - Lista de répteis e anfíbios das caatingas.

SQUAMATA SQUAMATA (cont.) ANFÍBIOS


Amphisbaenidae Amphisbaena alba Boidae Boa constrictor Bufonidae Bufo granulosus
Amphisbaena arenaria * Corallus hortulanus Bufo paracnemis
Amphisbaena hastata * Colubridae Apostolepis arenarius Hylidae Corythomantis greeningi
Amphisbaena ignatiana * Apostolepis cearensis Hyla crepitans
Amphisbaena pretrei Apostolepis gaboi Hyla minuta
Amphisbaena vermicularis Apostolepis cf. longicaudata
Amphisbaena sp. nov * Hylidae Hyla microcephala
Apostolepis sp. nov.
Leposternon polystegum Hyla nana
Boiruna sertaneja
Leposternon sp. nov. Hyla raniceps
Chironius carinatus Hyla soaresi
Anguidae Diploglossus lessonae Chironius flavolineatus
Phrynohyas venulosa
Clelia clelia
Teiidae Ameiva ameiva Scinax aurata
Erythrolamprus aesculapii Scinax gr. catharinae
Ameiva sp. nov * Helicops leopardinus
Cnemidophorus ocellifer Scinax eurydice
Leptodeira annulata
Cnemidophorus sp. nov 1 * Scinax oliveirai
Leptophis ahaetulla Scinax pachychrus
Cnemidophorus sp. nov 2 * Liophia almadensis
Cnemidophorus sp. nov 3* Scinax gr. ruber
Liophis dilepis
Tupinambis merianae Scinax x-signatus
Liophis miliaris Trachycephalus atlas
Gymnophthalmidae Anotosaura vanzolinia Liophis mossoroensis
Xenohyla izecksoni
Anotosaura collaris Liopphis poecilogyrus
Calyptommatus leiolepis * Liophis reginae Leptodactylidae Ceratophrys joazeirensis
Calyptommatus nicterus * Liophis viridis Eleutherodactylus ramagii
Calyptommatus sinebrachiatus * Mastigodryas bifossatus Leptodactylus fuscus
Colobosaura mentalis Oxybelis aeneus Leptodactylus labyrinthicus
Colobosauroides cearensis Oxyrhopus trigeminus Leptodactylus latinasus
Colobosauroides carvalhoi Philodryas nattereri Leptodactylus mystaceus
Micrablepharus maximiliani Philodryas olfersi Leptodactylus natalensis
Nothobachia ablephara * Phimophis chui Leptodactylus ocellatus
Procellosaurinus erythrocercus * Phimophis iglesiasi Leptodactylus podicipinus
Procellosaurinus tetradactylus * Phimophis scriptorcibatus Leptodactylus syphax
Psilophthalmus paeminosus * Pseudoboa nigra Leptodactylus troglodytes
Vanzosaura rubricauda Psomophis joberti Odontophrynus carvalhoi
Sibynomorphus mikanii Physalaemus albifrons
Scincidae Mabuya heathi Spilotes pullatus Physalaemus centralis
Mabuya agmosticha * Tantilla melanocephala Physalaemus cicada
Mabuya macrorhyncha Thamnodynastes pallidus Physalaemus cuvieri
Gekkonidae Briba brasiliana Thamnodynastes strigilis Physalaemus gracilis
Coleodactylus meridionalis Waglerophis merremi Physalaemus kroeyeri
Gymnodactylus geckoides Elapidae Micrurus ibiboboca Pleurodema diplolistris
Hemidactylus agrius Micrurus lemniscatus Proceratophrys cristiceps
Hemidactylus mabouia Pseudopaludicola falcipes
Viperidae Bothrops erythromelas Pseudopaludicola mystacalis
Phyllopezus periosus *
Bothrops iglesiasi
Phyllopezus pollicaris Microhylidae Dermatonotus mulleri
Bothrops neuwiedii
Lygodactylus klugei
Crotalus durissus Phyllomedusidae Phyllomedusa bahiana
Iguanidae Iguana iguana Phyllomedusa hypocondrialis
CHELONIA
Polychrotidae Polychrus acutirostris Pipidae Pipa carvalhoi
Enyalius bibroni Kinosternidae Kinosternon scorpioides
Testudinidae Geochelone carbonaria Pseudidae Pseudis paradoxa
Tropiduridae Tropidurus amathites * Chelidae Phrynops geoffroanus Caecilidae Chthonerpeton arii
Tropidurus cocorobensis * Phrynops tuberculatus Siphonops paulensis
Tropidurus divaricatus * Siphonops annulatus
Tropidurus erythrocephalus * CROCODYLIA
Tropidurus hispidus Thyphlonectidae Chthonerpeton arii
Alligatoridae Caiman crocodylus
Tropidurus pinima * Caiman latirostris
Tropidurus psammonastes * Paleosuchus palpebrosus
Tropidurus semitaeniatus *
Typhlopidae Typhlops yonenagae

Leptotyphlopidae Leptotyphlops borapeliotes


Leptotyphlops brasiliensis

*espécies endêmicas ao bioma Caatinga

Fauna 169
Anexo 2 - Número de espécies de répteis e anfíbios da Caatinga, por localidade, nas coleções do Museu de Zoologia da USP.

Estado/ Município Coordenadas Serpentes Lagartos Anfíbios Estado/ Município Coordenadas Serpentes Lagartos Anfíbios
geográficas geográficas

Alagoas Mulungú 0418; 3900 0 2 1


Canoas 0929; 3552 1 0 0 Nova Barra do Tarraxil 0850; 3900 0 4 2
Mangabeiras 0956; 3605 3 0 0 Nova Rodelas 0859; 3848 1 2 0
Maninbu 1010; 3622 4 0 1 Nova Soure 1114; 3829 0 4 0
Maragogí 0901; 3513 3 0 0 Paulo Afonso 0921; 3815 0 3 2
Quebrangulo 0920; 3628 8 4 2 Pilão Arcado 1009; 4226 0 2 0
Xingó 0924; 3758 10 19 12 Planalto Baiano 1440; 4028 0 5 4
Poções 1432; 4022 0 2 1
Bahia Queimadas 1037; 4236 6 13 2
Alagoado 0929; 4121 7 13 0 Raso da Catarina 0942; 3831 1 4 6
As Pedras 1036; 4239 0 4 0 Santana dos Brejos 1259; 4403 0 1 0
Baixa Grande 1157; 4011 1 0 0 Santo Inácio 1106; 4244 8 16 1
Barra 1105; 4309 1 11 0 Seabra 1 0 0
Barragem de Senhor do Bonfim 1027; 4011 5 5 1
Sobradinho 0926; 4048 0 1 0 Tiquara 1028; 4032 1 0 0
Bendengó 0958; 3912 0 1 1 Vacaria 1039; 4237 0 11 1
Buritirama 1043; 4338 3 3 1 Vila Nova 1027; 4011 0 2 0
Caatinga do Moura 1058; 4045 8 8 7 Vitória da Conquista 1451; 4050 1 1 0
Campo Formoso 1501; 4107 0 1 12 Xique-Xique 1050; 4243 0 7 3
Canudos 0953; 3913 0 1 2
Capão do Jucu 1254; 4141 1 0 3 Ceará
Caraíba dos Bragas 0939; 4120 1 4 0 Acaraú 0 1 0
Cocorobó 0953; 3902 0 7 10 Arajara 0721; 3924 10 12 3
Coronel João Sá 1017; 3755 0 3 0 Barbalha 0719; 3917 2 0 0
Curaçá 0859; 3954 0 5 15 Baturité 0423; 3853 5 3 3
Euclides da Cunha 1031; 3901 0 0 1 Chapada do Araripe 0720; 4000 2 3 0
Gameleira 1255; 3836 0 1 0 Chorozinho 0418; 3839 0 1 0
Gentio do Ouro 1106; 4244 0 1 0 Coluna 0402; 3829 8 12 0
Guarajuba 1242; 3806 0 1 0 Crato 0714; 3923 2 3 1
Iaçú 1245; 4013 1 0 0 Icó 0512; 3917 0 1 0
Ibiraba 1048; 4250 10 12 4 Itapipoca 0330; 3934 2 4 1
Igatu 1253; 4129 3 3 1 Itapipoca 0330; 3934 2 2 2
Iramaia 1222; 4122 0 0 1 Lima Campos 0 0 2
Irece 1119; 4152 0 2 0 Maranguape 0401; 3852 3 3 6
Itabela 1634; 3924 1 0 0 Morro Branco 0410; 3806 5 8 0
Itaetê 1259; 4058 1 0 0 Mulungu 0418; 3900 1 6 0
Itiuba 1042; 3951 6 6 13 Pacajús 0411; 3827 7 8 0
Jacobina 1111; 4030 1 7 2 Quixadá 0421; 3838 2 0 0
Jequié 1352; 4006 1 2 5 Santana do Cariri 0711; 3944 3 12 10
Jeremoabo 1004; 3821 3 5 8
Juazeiro 0924; 4030 2 1 0 Paraiba
Manga 1128; 4400 0 4 0 Alagoa Grande 0734; 3520 1 0 0
Maracujá 1050; 4440 2 1 0 Cabaceiras 0730; 3612 5 16 4
Mocajuba 1209; 4027 1 0 0 Caiçara 0626; 3529 2 1 0

170 Parte III


Anexo 2 - Número de espécies de répteis e anfíbios da Caatinga, por localidade, nas coleções do Museu de Zoologia da USP.

Estado/ Município Coordenadas Serpentes Lagartos Anfíbios Estado/ Município Coordenadas Serpentes Lagartos Anfíbios
geográficas geográficas

Campina Grande 0713; 3551 0 2 0 Limoeiro 0752; 3528 0 2 0


Coremas 0701; 3707 7 5 9 Maniçoba 0736; 3945 0 1 0
Cruz do Espírito Santo 0708; 3506 1 0 0 Ouricuri 0753; 4005 0 2 1
Gurinhém 0708; 3527 9 11 8 Pesqueira 0821; 3643 0 9 0
Joazeirinho 0704; 3635 0 2 0 Petrolândia 0905; 3818 0 1 0
Junco do Seridó 0700; 3643 3 7 9 Petrolina 0924; 4030 1 1 3
Mamanguape 0650; 3507 8 4 6 Salgueiro 0804; 3906 0 0 2
Mojeiro de Baixo 0717; 3528 0 2 0 Serra dos Cavalos 0821; 3602 3 0 9
Patos 0702; 3716 1 3 0 Serra Talhada 0759; 3810 1 5 2
Piancó 0710; 3756 0 6 0 Sítio dos Nunes 0802; 3751 0 7 0
Santa Luzia 0662; 3656 0 2 0
São José de Espinharas 0650; 3719 4 8 1 Piauí
São Tomé 0739; 3655 1 0 0 Floriano 0647; 4301 0 1 0
Serra do Teixeira 0712; 3715 1 0 0 Oeiras 0701; 4208 0 1 0
Soledade 0704; 3621 0 3 0 Patos 0702; 3716 0 4 0
Umbuzeiro 0742; 3540 0 4 0 Piripirí 0411; 4145 3 5 3
São Raimundo Nonato 0901; 4242 0 5 0
Pernambuco Valença 0624; 4145 19 15 8
Açude dos Tambores 0821; 3630 0 1 0
Agrestina 0837; 3557 6 10 0
Rio Grande do Norte
Belém do São Francisco 0845; 3858 0 2 0
Angicos 0540; 3636 0 6 8
Bom Conselho 0910; 3641 1 2 3
Ceará- Mirim 0538; 3526 0 0 1
Carnaubeira 0818; 3845 10 8 1
Eduardo Gomes 0 0 1
Caruaru 0816; 3558 0 6 0
Maxaranguape 0530; 3516 3 5 4
Catimbau 0836; 3715 0 2 0
Mossoró 0512; 3731 0 1 1
Cruz de Malta 0815; 4020 1 0 0
Ponta Negra 0557; 3510 0 3 3
Custódia 0807; 3739 0 1 0
Presidente Juscelino 0606; 3542 2 4 0
Encruzilhada 0841; 4007 0 5 0
Exu 0731; 3943 18 16 19
Floresta 0823; 3850 1 1 0 Sergipe
Garanhuns 0854; 3629 0 1 0 Areia Branca 1046; 3719 3 7 13
Ipubi 0739; 4007 0 1 0 Campo do Brito 1045; 3730 4 1 0
Jatobá 0905; 3812 0 1 0 Itaporanda d’Ajuda 1059; 3718 1 0 0
João Alfredo 0752; 3535 0 3 0 Serra de Itabaiana 1042; 3729 1 0 0
Jutaí 0838; 4014 1 0 0 Sirirí 1035; 3708 0 1 0

Fauna 171
172 Parte III
Anfíbios e répteis:
áreas e ações PARTICIPANTES DO SEMINÁRIO
GRUPO TEMÁTICO ‘RÉPTEIS E ANFÍBIOS’

prioritárias para Miguel Trefaut Rodrigues


Coordenação

Celso Morato de Carvalho

a conservação
Diva Maria Borges-Nojosa
Eliza Maria Xavier Freire
Felipe Franco Curcio

da Caatinga
Francisco Filho de Oliveira
Hélio Ricardo da Silva
Marianna Botelho de Oliveira Dixo

181
André Pessoa
Jararaca-da-seca

São conhecidas, em localidades duas áreas de dunas do médio rio São


com feição característica das caatingas Francisco (campos de dunas de Xique-
semi-áridas, 44 espécies de lagartos, Xique e de Santo Inácio, e campos de
nove espécies de anfisbenídeos, 47 de dunas de Casanova), pois nelas con-
serpentes, quatro de quelônios, três de centram-se conjuntos únicos de espécies
crocodilianos, 47 de anfíbios anuros e endêmicas. Por exemplo, das 41 espécies
duas de gimnofionos. Dessas, de lagartos e de anfisbenídeos registradas
aproximadamente 15% são endêmicas. para o conjunto de áreas de dunas
praticamente 40% são endêmicas. Além
Do ponto de vista da cobertura
disso, quatro gêneros são também
geográfica há ainda muito por fazer.
exclusivos da área.
Talvez seja essa a mais importante lacuna
a ser preenchida para que possamos A criação de áreas protegidas foi a
definir as áreas prioritárias para ação recomendada para o Domo de
conservação na Caatinga. As Itabaiana, Estação Ecológica do Xingó,
amostragens são bastante incipientes, o Raso da Catarina e Raso da Glória,
que torna impossível, salvo para grupos Chapada Diamantina, Chapada do
mais bem estudados, como o dos Araripe, serra das Almas, Quixadá/
lagartos e o dos anfisbenídeos, falar em encosta da serra de Baturité, Limoeiro do
endemismos. Norte/Chapada do Apodi, região de
encosta da chapada de Ibiapaba, dunas
As informações sobre a distribuição e contatos com caatinga cerrado e cariris
das espécies de anfíbios e de répteis velhos. Essas áreas estão inseridas em
foram utilizadas para identificar e regiões de elevada diversidade, as quais
classificar áreas prioritárias a serem abrigam importantes extensões de
conservadas. No total foram indicadas caatinga relativamente bem preservadas,
19 áreas, sendo duas delas de extrema com alguns endemismos e com
importância biológica, 12 de muito alta distribuições relictuais. É possível que
importância e cinco de provável estudos futuros venham a reconhecer
importância, mas insuficientemente algumas dessas populações relictuais
conhecidas (Figura 1). como espécies endêmicas das áreas em
Merecedoras de destaque são as que habitam.

182
Importância Biológica
Extrema
Muito alta
Alta
Informação insuficiente
Figura 1 Limite estadual
Limite do bioma Caatinga
Áreas prioritárias
para conservação
de anfíbios e
répteis na Caatinga
1. Campos de Dunas de 7. Chapada do Araripe 13. Aiuaba
Xique-Xique e de Santo Inácio 8. Serra das Almas 14. Estação Ecológica de Seridó
2. Campos de Dunas de Casanova 9. Quixadá / Encosta da Serra de Baturité 15. Cariris Velhos
3. Domo de Itabaiana 10. Limoeiro do Norte / Chapada do Apodi 16. Serra de Jacobina
4. Estação Ecológica do Xingó 11. Encosta da Chapada de Ibiapaba 17. Cabrobó e Ouricuri
5. Raso da Catarina e Raso da Glória 12. Região de Barreirinhas / 18. São Bento do Una
6. Chapada Diamantina Urbano Santos 19. Parque Nacional da Serra da Capivara

DESCRIÇÃO DAS ÁREAS PRIORITÁRIAS INDICADAS


1 - CAMPOS DE DUNAS DE XIQUE- Elementos de diagnóstico: Riqueza de
XIQUE E SANTO INÁCIO espécies: alta; alto número de endemis-
mos; riqueza de espécies raras/ameaçadas:
Localização: BA: Xique-Xique, Pilão Arcado,
alta; ocorrência de fenômeno biológico
Sento Sé, Itaguaçu da Bahia, Gentio do
especial.
Ouro e Barra.
Vulnerabilidade: Fragilidade intrínseca do
Importância biológica: Extrema.
sistema: alta; grau de alteração: alto;
Hábitats: Campos de dunas e campos
pressão antrópica: baixa (retirada de
rupestres. madeira para lenha. Permite mobilização
Ação recomendada: Proteção integral. da areia pelos ventos).

183
Justificativa: Trata-se de um ecossistema Hábitats: Áreas abertas de altitude e matas
ímpar caracterizado por espécies endêmicas de encosta.
que mostram adaptações marcadas para a Ação recomendada: Proteção integral.
vida subterrânea. É a área com maior
Elementos de diagnóstico: Riqueza de
diversidade da Caatinga. As áreas incluídas
espécies: média; número médio de
na margem direita do rio São Francisco
endemismos; riqueza de espécies raras/
abrigam espécies endêmicas, muitas delas
ameaçadas: média; ocorrência de
irmãs das da margem esquerda. A Ilha do
fenômeno biológico especial.
Gado Bravo é outro núcleo de endemismo
com espécies próprias. Vale ressaltar a Vulnerabilidade: Fragilidade intrínseca do
ocorrência de pinturas rupestres não sistema: alta; grau de alteração: alto;
estudadas em toda a área. Espécies pressão antrópica: alta (lavoura).
endêmicas: Calyptommatus leiolepis, C. Justificativa: Área com espécies endêmicas
sinebrachiatus, C. nicterus, Nothobachia de anfíbios; alta diversidade de hábitats;
ablephara, Procellosaurinus erythrocercus, áreas de altitude únicas na região; contato
Psilophtalmus paeminosus, Teopidurus entre mata atlântica/agreste/caatinga;
amathites, T. divaricatus, T. pinima; entre presença de espécies simpátricas;
outras. distribuição relictual de Tropidurus hygomi.

2 - CAMPOS DE DUNAS DE 4 - ESTAÇÃO ECOLÓGICA DO XINGÓ


CASANOVA Localização: AL: Olho d’Água do Casado,
Localização: BA: Casanova e Sento Sé. Piranhas e Delmiro Gouveia; SE: Canindé
Importância biológica: Extrema. de São Francisco; BA: Paulo Afonso.
Importância biológica: Muito alta.
Hábitats: Dunas e afloramentos rochosos
relictuais. Hábitats: Caatinga hiperxerófita arbustivo-
arbórea.
Ação recomendada: Proteção integral.
Ação recomendada: Investigação científica.
Elementos de diagnóstico: Riqueza de
espécies: alta; alto número de endemis- Elementos de diagnóstico: Alta riqueza de
mos; alta riqueza de espécies raras/ espécies.
ameaçadas. Vulnerabilidade: Fragilidade intrínseca do
sistema: alta; grau de alteração: alto;
Vulnerabilidade: Fragilidade intrínseca do
pressão antrópica: alta (construção da
sistema: alta; grau de alteração: baixo;
hidrelétrica de Xingó).
pressão antrópica: baixa (agropecuária e
corte de madeira). Justificativa: Ocorrência de 33 espécies de
lagartos e serpentes, dentre as quais
Justificativa: Área de dunas relictuais com
destacam-se duas espécies de distribuição
inúmeras espécies endêmicas com relação
relictual (Tropidurus cocorobensis e
de parentesco próximas com as do campo
Psilophtalmus paeminosus) e uma espécie
de dunas de Xique-Xique. A área da
nova do gênero Mabuya.
margem direita, ainda inexplorada, pode
revelar mais endemismos. Espécies
endêmicas: Apostolepis arenarius, 5 - RASO DA CATARINA E
Amphisbaena frontalis, Procellosaurinus RASO DA GLÓRIA
tetradactylus; entre outras. Localização: BA: Belém do São Franciso,
Rodelas, Paulo Afonso, Abaré, Chorrochó,
3 - DOMO DE ITABAIANA Macururé, Glória, Floresta, Várzea Nova,
Jacobina e Miguel Calmon.
Localização: SE: Campo do Brito, Macambira,
Itabaiana, Moita Bonita, Malhador e São Importância biológica: Muito alta.
Domingos. Hábitats: Caatinga de solos arenosos.
Importância biológica: Muito alta. Ação recomendada: Uso sustentável.

184
Elementos de diagnóstico: Riqueza de Marcos, Marcolândia e Caldeirão Grande
espécies: média; número médio de do Piauí; PE: Araripina, Bodocó, Exu, Ipubi,
endemismos; riqueza de espécies raras/ Serrita, Simões e Moreilândia.
ameaçadas: média; ocorrência de Importância biológica: Muito alta.
fenômeno biológico especial.
Hábitats: Caatinga, cerrado, carrasco e
Vulnerabilidade: Fragilidade intrínseca do mata úmida.
sistema: baixa; grau de alteração: baixo;
Ação recomendada: Investigação científica.
pressão antrópica: baixa (agropecuária).
Elementos de diagnóstico: Riqueza de
Justificativa: Caatingas abertas e arbóreas espécies: alta; número médio de
do Raso da Catarina e da Glória. Abriga endemismos; riqueza de espécies raras/
espécies endêmicas (Amphisbaena ameaçadas: alta; ocorrência de fenômeno
arenaria) e relictuais (Tropidurus biológico especial.
cocorobensis).
Vulnerabilidade: Grau de alteração: médio;
pressão antrópica: alta (uso sustentável,
6 - CHAPADA DIAMANTINA caça e exploração de fósseis).
Localização: BA: Morro do Chapéu, Justificativa: Área com alta diversidade,
Cafarnaum, Utinga, Bonito, Mulungu do ocorrendo várias espécies de anfíbios e
Morro, Iraquara, Lençóis, Wagner, Ruy lepidossauros, incluindo um caso de
Barbosa, Lajedinho, Mucugê, Andaraí, endemismo (Mabuya arajara). A região
Itaeté, Nova Redenção, Ibicoara e da Chapada do Araripe abrange zonas de
Palmeiras. contato entre biotas necessitando de
Importância biológica: Muito alta. levantamentos mais abrangentes. Região
com expressivos sítios fossilíferos.
Hábitats: Campos rupestres e caatingas.
Abrange áreas protegidas (APA, FLONA
Ação recomendada: Uso sustentável. e RPPN).
Elementos de diagnóstico: Riqueza de
espécies: alta; número médio de
endemismos; média riqueza de espécies 8 - SERRA DAS ALMAS
raras/ameaçadas. Localização: CE: Crateús, Ipueiras,
Vulnerabilidade: Fragilidade intrínseca do Ipaporanga e Poranga; PI: Pedro II, Buriti
sistema: média; grau de alteração: baixo; dos Montes e São Miguel do Tapuio; Zona
pressão antrópica: baixa (garimpos e de Conflito (entre MA e PI).
agropecuária). Importância biológica: Muito alta.
Justificativa: Área que inclui as caatingas Hábitats: Caatinga, mata seca e carrasco.
de altitude e seus contatos transicionais
Ação recomendada: Proteção integral.
com os campos rupestres. Há inúmeras
espécies endêmicas de lagartos e anuros. Elementos de diagnóstico: Riqueza de
Já existe um parque nacional na área. Há espécies: alta; riqueza de espécies raras/
uma nova espécie do gênero Gymno- ameaçadas: alta; ocorrência de fenômeno
dactylus provavelmente endêmica da biológico especial.
região, onde também ocorre a espécie Vulnerabilidade: Fragilidade intrínseca do
Tropidurus erythrocephalus. sistema: alta; grau de alteração: alto;
pressão antrópica: alta (desmatamento).
Justificativa: Área com alta diversidade,
7 - CHAPADA DO ARARIPE contendo várias espécies de lagartos,
Localização: CE: Araripe, Santana do Cariri, serpentes e anfíbios interessantes. Os
Juazeiro do Norte, Barbalha, Missão Velha, resultados de um levantamento preliminar
Abaiara, Crato, Jardim, Porteiras, Nova indicam novos registros para a região,
Olinda, Potengi, Salitre e Campos Sales; inclusive o jácaré-de-papo -amarelo
PI: Alegrete do Piauí, Fronteiras, Padre (Caiman latirostris).

185
Miguel T. Rodrigues
Calango

9 - QUIXADÁ/ENCOSTA DA SERRA Importância biológica: Muito alta.


DE BATURITÉ Hábitats: Caatinga arbórea e caatinga
Localização: CE: Quixeramobim, Paramoti, arbustiva.
Canindé, Quixadá, Banabuiú, Choró, Itatira, Ação recomendada: Proteção integral.
Itapiúna, Capistrano, Baturité, Aratuba, Elementos de diagnóstico - Riqueza de
Caridade, Madalena, Mulungu e Gua- espécies: alta; número médio de endemismos;
ramiranga. riqueza de espécies raras/ameaçadas: alta;
Importância biológica: Muito alta. ocorrência de fenômeno biológico especial.
Hábitats: Caatinga. Vulnerabilidade: Grau de alteração: alta;
Ação recomendada: Investigação científica. pressão antrópica: alta (exploração de
Vulnerabilidade: Grau de alteração: médio; madeira e caça).
pressão antrópica: média (desmatamento Justificativa: Área com alta diversidade
e caça). indicada pelos levantamentos realizados na
Justificativa: Região com zonas de contato Chapada do Apodi (22 espécies de serpentes)
entre o domínio de caatinga circundante e a e na região do rio Jaguaribe, que apresenta
floresta úmida de altitude da Serra de um caso de endemismo (Chithonerpeton
Baturité. Área de influência para a fauna arii). Zona de contato entre biotas.
podendo abrigar grande parte das espécies
ombrófilas e endêmicas (p. ex. Colobo-
11 - ENCOSTA DA
sauroides cearensis), além de conservar
CHAPADA DE IBIAPABA
populações relictuais de Enyalius bibroni.
Também inclui uma interessante área com Localização: CE: Freicheirinha, Mucambo,
provável potencial faunístico. Graça, Granja, Reriutaba, Viçosa do Ceará,
Moraújo, Tianguá, Ibiapina, Ubajara,
Coreaú, Cariré, Pacujá, Varjota, Pires
10 - LIMOEIRO DO NORTE/
Ferreira, Ipu, Hidrolândia, Ipueiras, Croatá,
CHAPADA DO APODI
Guaraciaba do Norte, São Benedito e
Localização: CE: Tabuleiro do Norte, Sobral.
Limoeiro do Norte, Russas, Alto Santo,
Importância biológica: Muito alta.
São João do Jaguaribe, Morada Nova,
Quixeré, Jaguaruana, Palhano, Alto Santo Hábitats: Mata de transição, caatinga
e Itaiçaba; RN: Apodi, Governador Dix- arbórea e caatinga arbustiva.
Sept Rosado e Baraúna. Ação recomendada: Proteção integral.

186
Elementos de diagnóstico - Riqueza de 14 - ESTAÇÃO ECOLÓGICA
espécies: alta; baixo número de endemismos; DE SERIDÓ
riqueza de espécies raras/ameaçadas: média; Localização: RN: Serra Negra do Norte,
ocorrência de fenômeno biológico especial. Santana do Seridó, São João do Sabugi,
Vulnerabilidade: Grau de alteração: médio; São José do Seridó, Jardim do Seridó,
pressão antrópica: alta (exploração de Ouro Branco, Várzea, Caicó, Ipueira e
madeira, caça e agricultura). Timbaúba dos Batistas; PB: Santa Luzia,
Justificativa: Zona de contato entre o Patos, Malta, São José de Espinharas, São
domínio da caatinga circundante e a Mamede, São José do Sabugi, Paulista,
floresta úmida de altitude. Área de Santa Teresinha, Condado, São Bento e
influência para a fauna, podendo abrigar Vista Serrana.
grande parte das espécies endêmicas Importância biológica: Provável; área
(Colobosauroides cearensis) e populações insuficientemente conhecida.
isoladas (Enyalius bibroni). Hábitats: Caatiga arbustiva e arbórea.
Ação recomendada: Investigação científica.
12 - BARREIRINHAS/ Elementos de diagnóstico: Riqueza de
URBANO SANTOS espécies: média; média riqueza de espécies
raras/ameaçadas.
Localização: MA: Barreirinhas, Urbano
Santos, Santa Quitéria do Maranhão, São Vulnerabilidade: Grau de alteração: médio.
Bernardo e Tutóia. Justificativa: Ocorrência de 18 espécies de
Importância biológica: Muito alta. lagartos, entre as quais, um de distribuição
relictual (Tropidurus cocorobensis).
Hábitats: Dunas, caatinga e cerrado.
Ação recomendada: Proteção integral.
Elementos de diagnóstico: Riqueza de 15 - CARIRIS VELHOS
espécies: média; número médio de Localização: PB: Congo, São João do
endemismos; média riqueza de espécies Cariri, Sumé, Cabaceiras, Boqueirão, Serra
raras/ameaçadas. Branca, Barra de São Miguel, Umbuzeiro,
Vulnerabilidade: Fragilidade intrínseca do Aroeiras, São João do Cariri e Camalaú.
sistema: Média. Grau de alteração: Média. Importância biológica: Muito alta.
Justificativa: Contato entre dunas dos lençóis Hábitats: Caatinga.
maranhenses e enclaves de cerrados em Ação recomendada: Uso sustentável.
contato com a caatinga. Elementos de diagnóstico: Riqueza de
espécies: média; baixa riqueza de espécies
raras/ameaçadas.
13 - AIUABA
Vulnerabilidade: Fragilidade intrínseca do
Localização: CE: Aneiróz, Catarina, Aiuaba,
sistema: média; grau de alteração: médio;
Saboeiro, Jucás, Antonina do Norte e
pressão antrópica: média (agricultura).
Tarrafas.
Justificativa: Área de alta diversidade de
Importância biológica: Provável; área
espécies com algumas delas relictuais ou
insuficientemente conhecida.
endêmicas. Destacam-se os lagartos
Hábitats: Caatinga. Phyllopezus periosus, Mabuia agmosticha
Ação recomendada: Proteção integral. e Anotosaura vanzolinia.
Vulnerabilidade: Fragilidade intrínseca do
sistema: média; grau de alteração: médio;
pressão antrópica: baixa (exploração de 16 - SERRA DE JACOBINA
madeira para lenha e caça). Localização: BA: Várzea Nova, Jacobina,
Justificativa: A área já apresenta uma Miguel Calmon e Morro do Chapéu.
unidade de conservação, porém nada se Importância biológica: provável; área
conhece sobre a ocorrência da fauna e insuficientemente conhecida.
flora; em especial da herpetofauna. Hábitats: Caatingas e florestas relictuais.

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Ação recomendada: Investigação científica. Importância biológica: Provável; área
Vulnerabilidade: Fragilidade intrínseca do insuficientemente conhecida.
sistema: alta; grau de alteração: médio; Hábitats: Caatinga/agreste.
pressão antrópica: média (exploração de Ação recomendada: Investigação científica.
madeira). Justificativa: A área está localizada no
Justificativa: Inclui caatingas e florestas de contato entre o agreste e a caatinga. Foi
baixada e altitude pouco ou nada incluída por ser pouco conhecida e para
conhecidas. Sabe-se de pelo menos uma cobrir o espaço entre as áreas propostas
espécie de lagarto, Anotosaura collaris, para conservação e estudo. A situação de
que deve ocorrer na área e da qual só se contato poderá resolver alguns problemas
conhece o tipo. de distribuição de répteis e anfíbios.

17 - CABROBÓ E OURICURI
19 - PARQUE NACIONAL DA
Localização: PE: Ouricuri, Cabrobó, Santa SERRA DA CAPIVARA
Maria da Boa Vista, Santa Cruz,
Localização: PI: Canto do Buriti, São
Parnamirim, Terra Nova, Orocó e Salgueiro.
Raimundo Nonato, Coronel José Dias, São
Importância biológica: provável; área João do Piauí e Dom Inocêncio.
insuficientemente conhecida.
Importância biológica: Muito alta.
Hábitats: Caatinga.
Hábitats: Caatinga arbustiva e arbórea.
Ação recomendada: Investigação científica.
Ação recomendada: Proteção integral.
Justificativa: Região sem informações
Elementos de diagnóstico: Riqueza de
sobre a herpetofauna, situada entre áreas
espécies: alta; riqueza de espécies raras/
com maiores informações sobre a
ameaçadas: média; ocorrência de
distribuição de aníbios e répteis. Pode vir a
fenômeno biológico especial.
apresentar interessantes problemas de
simpatria. Vulnerabilidade: Fragilidade intrínseca do
sistema: alta; grau de alteração: médio;
pressão antrópica: alta (agropecuária).
18 - SÃO BENTO DO UNA Justificativa: Populações relictuais de
Localização: PE: Alagoinha, São Bento lagartos do gênero Enyalius, elevada
do Una, Caetés, Capoeiras, Pesqueira, diversidade de anfíbios e répteis e
Venturosa, Pedra e Buíque. população relictual de Caiman crocodylus.

188
As aves da Caatinga -
uma análise histórica
do conhecimento Comitê Brasileiro
Comitê
José Fernando
José
Brasileiro de
Fernando Pacheco
de Registros
Pacheco
Registros Ornitológicos
Ornitológicos

189

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Fábio Olmos
Bacurauzinho-da-caatinga

INTRODUÇÃO
“Examinando-se as cartas que ocorrem num bioma, numa província,
geográficas do Brasil em que enfim em qualquer região delimitada por
estejam assinaladas os roteiros algum parâmetro geográfico, ecológico ou
dos principais naturalistas e político. A partir desse conjunto inicial,
colecionadores de material outros aspectos acessórios, mas não menos
interessantes a uma análise biogeográfica,
zoológico, verifica-se,
podem ser acrescentados. O regime de
desde logo, que o Nordeste foi
permanência das espécies componentes de
sistematicamente evitado....”
uma avifauna (p.ex.: residentes o ano inteiro,
Manuscrito de Rodolpho von Ihering visitantes sazonais ou ocasionais) exige a
(1883-1939)
avaliação de dados levantados minima-
mente por cerca de um ano.
Existem diversas maneiras de avaliar
O que aparentemente pode ser
a avifauna de um bioma. As mais
interpretado como elementar, primário ou
elementares podem procurar estabelecer o
básico pode encerrar complexidades não
conjunto principal das espécies ocorrentes,
aparentes. Dificuldades de identificação,
as espécies endêmicas, as quase endêmicas
falhas, polêmicas e dissensões na inter-
e as mais características, a distribuição geral
pretação dos dados primários podem
das espécies pelo bioma e a associação
entremear o processo do conhecimento
destas com os principais hábitats existentes.
dessas informações. Bolsistas de iniciação
Em etapas posteriores se pode buscar um
científica, estudantes em geral da
refinamento dessa avaliação, integrar dados
ornitologia, podem, hoje, com orientação
de outras áreas do conhecimento relativas
adequada, acessar uma grande quantidade
ao bioma ou às espécies componentes e
de fontes de informação (melhor
por fim analisar aspectos biogeográficos
depuradas) que permite traçar um quadro
dessa avifauna.
bastante abrangente da avifauna que
O mais elementar dos estudos de ocorre em várias regiões do Brasil. Essa
uma avifauna é aquele que busca determinar relativa facilidade atual contrasta com as
quais são as espécies que a constituem. dificuldades de acesso à informação e a
Uma relação sumária e descritiva das aves escassez de obras sintéticas do passado.

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Naturalmente, quanto mais recuar ao Em compasso com a própria história
passado maior será esse contraste. de ocupação e colonização, não é
É verdadeiro que as análises de surpreendente que a avifauna da Mata
composição da avifauna procedidas Atlântica tenha sido a primeira a ser
recentemente esbarram na dificuldade de explorada no Brasil. Com a abertura dos
comparar seus resultados com a portos às nações amigas, em janeiro de
composição original, entendendo esta 1808, diversas expedições de viajantes-
como aquela existente antes dos principais naturalistas estrangeiros iniciaram suas
processos de degradação ambiental. Não investigações científicas, realizadas num
existem trabalhos faunísticos repre- primeiro esforço justamente pelas regiões
sentativos para muitas localidades litorâneas (Pinto 1979). O Rio de Janeiro e
brasileiras que tenham sido executados há São Paulo foram, por toda a fase pioneira,
mais de 100 anos. Quando existem, esses os Estados mais trabalhados. Os estados
dados podem ser dificilmente comparáveis da Bahia e do Rio de Janeiro, mesmo antes
devido à incompatibilidade dos métodos desse ciclo de expedições, contribuíram
empregados. como principais centros exportadores de
material de história natural da América do
Essas dificuldades aliadas ao Sul (Berlioz 1959).
processo dificultoso de resgate e
O século XIX fora encerrado sem
reinterpretação das informações históricas
deixar bem delineado o que seria “uma
impediram algumas comparações
avifauna própria da Caatinga”. A maior
desejáveis entre a composição do presente
parte do conhecimento das aves
e do passado, embora em alguns casos
nordestinas estava concentrada na Mata
essas fossem viáveis em certa medida.
Atlântica, sobretudo nas numerosíssimas
No Brasil, a distribuição geográfica menções “em aberto” (sem menção de
das aves começou a ser estabelecida com localidade específica) para a Bahia ou nos
o acúmulo de informações advindas dos notáveis resultados do Príncipe Maximiliano
inúmeros trabalhos faunísticos pioneiros. de Wied-Neuwied para este mesmo Estado.
Os primeiros catálogos de distribuição das Uma combinação de certos registros
aves brasileiras foram produzidos por resgatados do período do Brasil-Holandês,
Burmeister (1855-56), Pelzeln (1868-71), daqueles reunidos pelo naturalista britânico
Goeldi (1894-1900), Ihering & Ihering William Forbes (1881) e de material
(1907) e Snethlage (1914). O mais taxidermizado de origem comercial
importante autor da matéria na primeira proveniente de Pernambuco e Ceará,
metade do século XX, responsável pelo divulgados especialmente no Catalogue of
delineamento essencial da distribuição e da birds of British Museum (27 volumes,
taxonomia das aves na região neotropical, 1874-1898), completava quase tudo o que
foi incontestavelmente C. E. Hellmayr, se podia reunir da composição da avifauna
através especialmente do seu monumental nordestina.
Catalogue of Birds of the Americas, Até a estruturação significativa das
publicado em 15 volumes entre 1918-1949 coleções ornitológicas dos principais
(Haffer 1974: 29). Foram marcos museus brasileiros no início do século XX,
importantíssimos da ornitologia brasileira a grande maioria dos dados sobre a
neste aspecto, os Catálogos de Aves do avifauna brasileira esteve dependente da
Brasil de Olivério Pinto (1938, 1944), utéis atividade de naturalistas estrangeiros. Estas
até hoje. Utilizando-se de dados coleções aqui sediadas no Museu Nacional
precipuamente levantados até a década de do Rio de Janeiro (MNRJ) e Museu Paulista
1950, destaca-se, como obra referencial (MZUSP) promoveram, através das muitas
sintética, a lista de espécies da América do expedições a diversos pontos do país,
Sul, com ênfase na distribuição, de Meyer incluindo-se as primeiras investigações
de Schauensee (1966). científicas brasileiras ao interior árido

191

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Zig Koch
Arara-azul-de-lear

nordestino, um gradativo e melhor colecionadores; mas, sobretudo, contribuir


conhecimento da distribuição das aves no reconhecimento das relevâncias e
brasileiras. Entretanto, apenas as importância relativa das várias iniciativas de
coleções seriadas do Museu Paulista, hoje estudo naturalístico no processo secular de
Museu de Zoologia da Universidade de inventário qualitativo da avifauna da
São Paulo (MZUSP), serviram efetiva- Caatinga: dos primórdios da colonização
mente ao propósito de um melhor ao final da década de 1950.
conhecimento da distribuição, devido à É planejado aqui, em suma,
divulgação, em seu tempo, das loca- aprofundar questões históricas de
lidades de coleta, através das obras e dos interesse da ornitologia do bioma da
numerosos artigos de Olivério Pinto Caatinga, em especial a discussão dos
(apud Pinto 1945, Nomura 1984). tópicos que interferem no processo
Pretende-se neste estudo demons- compilatório dos registros de ocorrência
trar que o desenvolvimento do conhe- e no estabelecimento das distribuições
cimento ‘elementar’ da avifauna da geográficas. E como objetivo secundário,
Caatinga tardou quando comparado a discutir os contextos associados às
outros biomas brasileiros, mas foi diversas iniciativas pioneiras de exploração
complexo e repleto de personagens; que e reconhecimento da avifauna, de maneira
esteve muitas vezes à margem dos avanços a permitir a criação de uma base sólida
experimentados pela ornitologia brasileira, que fundamente as futuras análises
mesmo que de forma recorrente tenha regionais de caráter biogeográfico,
despertado o interesse de naturalistas e faunístico e conservacionista.

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MATERIAL E MÉTODOS

Tornar o simples complicado é fácil; b) Foram relacionados e descritos os


difícil mesmo é tornar simples o principais resultados ornitológicos das
complicado... expedições à Caatinga empreendidas
Charles Mingus (1922-1979) pelos naturalistas durante o grande
ciclo das expedições científicas;
c) Foram levantados e reunidos os
Tratando-se de um ensaio que
principais resultados das iniciativas de
pretende abordar o processo cumulativo
pesquisa fundamentadas, sobretudo,
do conhecimento qualitativo da avifauna
em coleta de exemplares, efetuadas até
vinculada ao bioma Caatinga, o método 1958, que sucederam o ‘grande ciclo’
primordial utilizado foi a abrangente e complementaram o conhecimento
pesquisa bibliográfica e seu estudo crítico. da avifauna;
Para este estudo, o bioma Caatinga d) Foi avaliado o papel dessas três
foi delimitado a partir das informações diferentes etapas de reconhecimento
encontradas nas obras de Andrade-Lima no estabelecimento de uma avifauna
(1982), EMBRAPA (1993), IBGE (1993) e endêmica ou característica do bioma
Sampaio (1995). A Caatinga, dessa Caatinga.
maneira, compreende uma área apro-
O ano de 1958 foi estabelecido como
ximada de 734.478km2, incluindo partes
data limite para apreciação das iniciativas
dos estados do Piauí, Ceará, Rio Grande
apresentadas neste estudo, porque encerra
do Norte, Paraíba, Pernambuco, Alagoas,
o período principal da atividade coletora de
Sergipe, Bahia e Minas Gerais. Assim, esse
espécimes da avifauna no bioma.
bioma é dominado por um dos poucos
Foi conferida especial atenção à
tipos de vegetação cuja distribuição está
descrição de novos táxons realizada a partir
totalmente restrita ao Brasil (Ferri 1980).
de material ornitológico coletado na área
Adicionalmente, as áreas de de influência da Caatinga.
transição entre a Caatinga e o Cerrado
Uma compilação suplementar dos
(apud IBGE 1993), presentes na drenagem
registros disponíveis na literatura, de 1958
do rio São Francisco, no norte de Minas
até dezembro de 2000, para espécies
Gerais (Pirapora como limite meridional),
coletadas ou observadas em algum setor
noroeste da Bahia, sul do Piauí e leste do
da Caatinga, foi procedida com o propósito
Maranhão foram igualmente consideradas
de subsidiar eventuais e futuras com-
no presente estudo; conquanto, a avifauna
parações com o período aqui investigado.
da Caatinga (mesmo a endêmica) se
Registros das poucas espécies associadas
extende até essas porções.
exclusivamente aos enclaves de ambientes
De forma detalhada, a fim de reunir de exceção (brejo nordestino, campo
subsídios acerca das numerosas iniciativas rupestre, cerrado) não foram consideradas
pioneiras de inventário e seus impactos no na produção da lista geral de aves da
avanço do conhecimento, foram utilizados Caatinga, mas encontram-se citados no
os seguintes procedimentos de pesquisa corpo do trabalho com a devida ressalva
bibliográfica: quando julgados relevantes.
a) Foram recuperadas, nas obras dos Uma lista geral (Anexo 1) foi con-
cronistas e missionários (e respectivas cebida de maneira a fornecer os primeiros
fontes de apoio), as informações registros estaduais de cada espécie; isto é,
acerca da avifauna que poderiam ser os primeiros registros de aves nesses
associadas ao bioma Caatinga; estados em ambiente sob o domínio da

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Caatinga. A Bahia foi o único estado a ser e todo o conhecimento reunido, era uma
subdivido em três regiões distintas. Esta mera amostragem dos pássaros “mais
subdivisão (nordeste, região centro- notáveis por sua plumagem, canto e
ocidental e sudeste da Bahia) corresponde hábitos”, no dizer dos cronistas. No máximo
aos padrões gerais verificáveis de é possível conjecturar, através de um penoso
distribuição das aves na Caatinga. A resgate de informações, sobre a avifauna do
experiência acumulada do autor sobre a Nordeste dos primeiros séculos de
avifauna da Caatinga, resultante da colonização. Mesmo que o registro mais
participação em diversas expedições recuado da palavra tupi “caatinga” seja
científicas realizadas ao interior do datado de 1584 (Cunha 1978, 1982), por
Nordeste, teve utilidade em eventuais juízos ter sido utilizado em uma das narrativas do
de valor e/ou considerações marginais missionário Fernão Cardim (a rigor
acerca de dados presentes na bibliografia. publicado 263 longos anos após), apenas
na segunda metade do século XIX uma
aproximação biogeográfica foi iniciada.
Isso não impediu que algumas aves
A AVIFAUNA DA CAATINGA ANTES típicas da Caatinga fossem descritas ainda
DA ABERTURA DOS PORTOS no século XVIII (Rhea americana, Cariama
cristata, Nystalus maculatus e Icterus
jamacaii) e que algumas associações entre
Até o advento da “abertura dos
certas aves e os sertões nordestinos fossem
portos às nações amigas”, medida
feitas pelos cronistas pioneiros. Também
coincidente com a chegada de D. João VI
concorreu para isso, uma invasão
e a corte portuguesa ao Brasil, em 1808, o
prematura do litoral por certos elementos
Brasil era por vezes referido como terra
(quiçá privativos) da avifauna do interior
ignota, tal o grau de desconhecimento do
mais seco, motivados pela maior estreiteza
seu território. A abertura dos portos, e a
da faixa litorânea de Mata Atlântica úmida
permissão para que viajantes estrangeiros
no Nordeste e o desmatamento
aqui aportassem, possibilitou que o
generalizado provocado pelo ciclo da cana-
conhecimento científico de nossas riquezas
de-açúcar, iniciado ainda no século XVI
naturais experimentasse um crescimento
(Sick & Teixeira 1979, Coimbra-Filho &
fabuloso naquele século. Até aquela
Câmara 1996). Não pode ser esquecido,
ocasião, o conhecimento de nossa
ainda, o intenso comércio de aves para
natureza se baseava primordialmente no
cativeiro e alimentação realizado entre o
livro Historia Naturalis Brasiliae, de 1648
sertão e o litoral.
(Marcgrave 1942), derivado da experiência
dos holandeses no Nordeste, onde o No século XVI e começo do XVII, as
astrônomo Georg Marcgrave (1610-1644) informações sobre uma fauna privativa do
foi figura de relevo. Antes da abertura dos interior do Brasil sequer haviam sido
portos, o conhecimento sobre nossas aves, esboçadas. As regiões brasileiras melhor
com exceção daquelas descritas por conhecidas, inclusive do ponto de vista
Linnaeus e seguidores com base nos faunístico, compreendiam a ilha de São
relatos de Marcgrave, era pequeno, difuso Luiz e imediações, as faixas litorâneas entre
e proveniente de material levado à Europa a Paraíba e o Recôncavo Baiano e entre a
como “peça exótica” por navegantes. Tudo baía de Guanabara e o litoral de Santos
que se sabia a respeito da proveniência (Pinto 1979, Paiva 1986, 1995, Nomura
dessas peles era “Brasil”, quando não era 1996a, 1996b).
“América” ou “Novo Mundo”. O relato da avifauna autóctone por
Até a década de 1820, a associação vários cronistas e missionários que
de um grupo de aves com o bioma da residiram no litoral oriental do Nordeste ou
Caatinga era impensada, pois mal se apenas o visitaram durante os três
conheciam as aves que ocorriam no Brasil, primeiros séculos da colonização (p.ex.,

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Anchieta, Gandavo, Souza, Cardim e naturalistas do Renascimento e o dos
Brandão) teve impacto quase nulo sobre a homens cultos seus contemporâneos”.
zoologia formal (Pinto 1979). Retrato disso Considerando este contexto temporal, no
é que dentre todas as obras desse longo qual esses cronistas pioneiros viveram, é fácil
período, apenas Marcgrave, e, em muito entender como suas observações podem
menor escala, seu colega Piso, tiveram suas parecer aos olhos do cientista moderno,
obras consultadas por Linnaeus e pouco precisas, infantis, fantasiosas, cheias
seguidores para a descrição formal das de credulidade e impregnadas de erros
espécies animais e vegetais (veja Tabelas elementares. Não se poderia esperar muito
1, 2 e 3). Este último publicou, de homens sem uma formação de
possivelmente, o primeiro tratado de naturalista, que mesmo na Europa veio a
medicina tropical (Piso 1948), se ocupando desenvolver-se, em suas várias disciplinas,
também de animais e plantas. apenas no século XVII. Eram todos,
rigorosamente, apenas observadores
Os escritos quinhentistas ou
esforçados, uns mais talentosos em seus
seiscentistas do ciclo de “cronistas e
depoimentos que outros. Com efeito, a
missionários” que de alguma maneira
própria disciplina zoológica dava seus
trataram da história natural do Nordeste
primeiros passos na Europa no século XVI,
brasileiro foram omitidos pelos naturalistas
com Conrad Gesner, Pierre Belon e Ulisses
europeus, em verdade, porque não se
Aldrovandi, esse último, “fundador” do
tornaram conhecidos em seu tempo ou
termo ornitologia (Stresemann 1975).
porque não reuniam descrições capazes de
serem aproveitadas. Melhor razão Essas fontes, em suma, são
apresenta Cascudo (1956) quando lembra relevantes na medida em que, mantidas as
que os naturalistas do conde de Nassau limitações e na ausência de registros de
escreveram em latim, a língua culta da maior exatidão, fornecem indícios ou
época, enquanto diversos dos cronistas dos evidências de ocorrências pretéritas de
primeiros séculos o fizeram em português. animais e plantas em nosso país. Logo,
Embora Mello-Leitão (1937) os defenda tornam-se mais importantes no Nordeste,
relatando que estes traziam “descrições de considerando que essa é a região brasileira
exatidão igual ou maior” aquelas que, secularmente, mais sofreu em termos
encontradas em Marcgrave (Marcgrave de descaracterização ambiental (Coimbra-
1942), é preciso ceder aos argumentos de Filho & Câmara 1996).
Pinto (1979: 24) quando se manifesta sobre
o pouco aproveitamento das contribuições
zoológicas de Gabriel Soares de Souza, que PIONEIROS
via de regra correspondia ao quadro
As poucas citações sobre a avifauna
encontrado nos outros relatos similares de
do célebre catequista Padre Joseph de
seu período. Os três argumentos
Anchieta inseridas em sua Carta (cf. Leite
enumerados por Pinto (1979) para
1954-1960), preciosa sobre outros
demonstrar o quão inaproveitáveis eram as
aspectos, foram tidas por Pinto (1979),
descrições, que seriam em verdade “meras
como essencialmente “perfunctórias”.
referências, repletas de confusões e erros”
Garcia (1922: 863) já afirmara que sua
foram: a) referência vaga ou incompleta
Epístola “carece de requisitos essenciais
que permite apenas uma aproximação, b)
para ser arrolada entre depoimentos
referência impregnada de imprecisões que
científicos”. Em sua maioria, tais citações
permite uma identificação problemática e
parecem estar associadas com o litoral da
c) é de todo impraticável qualquer tentativa
antiga Capitania de São Vicente (= São
de identificação.
Paulo), de onde a escreveu e datou (31 de
Paiva (1986) destacou “que não havia maio de 1560), contudo, a menção de
muita distância entre os níveis de certos animais, como o peixe-boi marinho,
conhecimentos biológicos dos grandes atesta sua experiência anterior no litoral do

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Espírito Santo e Bahia. Curiosamente, “hemas”, que seriam aves de pernas
menciona o “avestruz americano”, que grandes, que pastariam ervas, senão em
seria a nossa ema, Rhea americana, campinas desimpedidas de matos e
própria dos campos do interior (portanto, arvoredos, e cujas penas seriam
Cerrado e Caatinga). É oportuno lembrar aproveitadas nos chapéus e gorros dos
que naquela época os indígenas do litoral militares (já em 1570!). Gandavo, parece
já usavam penas de ema, segundo contara, ser o primeiro a usar ema em lugar de
em 1578, Jean de Léry (Léry 1941). avestruz ou nhandu (tupi) (Pinto 1979).
Possivelmente as conseguiam por troca O autor da enciclopédica obra
com as tribos vizinhas do interior ou em Notícia do Brasil ou Tratado Descriptivo
incursões ao sertão. Portanto, isto não do Brazil em 1587, o fazendeiro português,
serviria como evidência de que as emas mais tarde Capitão-Mor e Governador,
ocorreriam no litoral percorrido por Gabriel Soares de Souza, radicado na
Anchieta ou mesmo que o Padre tenha Bahia, foi o mais abrangente dos escritores
percorrido o sertão. Pinto (1979) lamentou do século XVI que se ocuparam com a
que Anchieta tenha concedido às aves um descrição da natureza brasileira. Oferecida
lugar muito secundário dentre seus pelo autor ao rei Filipe II da Espanha, em
exemplos de citação da fauna (apenas dez 1587, foi publicada de forma completa,
menções no total), assinalando que, porém sem autoria, em Lisboa, apenas em
algumas vezes, ele participara da 1825. A autoria de Souza foi estabelecida
credulidade de seus contemporâneos, ao somente em 1851 pelo famoso historiador
acreditar que os beija-flores “alimentam- Francisco Adolfo de Varnhagen e a partir
se só de orvalho”. daí outras edições vieram a lume (p. ex.:
O cronista português Pero de Souza 1971). Diferentemente dos demais
Magalhães Gandavo, autor do que seria a autores de sua época, ele não se ocupou
primeira História do Brasil, publicada em apenas dos animais de interesse imediato
Lisboa em 1576, concedeu bastante aos índios e colonos, ou daqueles grandes
espaço aos assuntos de História Natural, e notáveis, mas, também, das imundícias,
mas foi breve com relação às aves (Pinto assim consideradas as espécies de menor
1979: 23). Apenas cerca de 15 “castas” de importância, como insetos e anfíbios (Paiva
aves foram mencionadas em suas duas 1986, 1995). Proprietário de terras e senhor
obras, sobretudo geográficas (Gandavo de engenhos durante dezessete anos no
1980). Segundo consta, ele teria Recôncavo Baiano (chegara em 1567), ele
percorrido, por não mais de cinco anos o inseriu em sua obra doze capítulos
litoral das capitanias de Itamaracá, Bahia, dedicados ao mundo alado, começando
Ilhéus, Porto Seguro, Espírito Santo, Rio por um intitulado “Sumário das aves que
de Janeiro e São Vicente e, pelo menos se criam na terra da Bahia de Todos os
numa das suas descrições, menciona Santos”, quase todos acompanhados dos
papagaios de nome anapuru que “criam- respectivos nomes tupis. Para o
se muito longe pelo sertão adentro”. ornitologista, frisa Pinto (1979),
Poderia estar se referindo apenas aos “infelizmente, há bem pouca coisa
papagaios Amazona aestiva, por que aproveitável nessa contribuição”,
afirmou que se tornariam mansos, parecendo que Souza, “melhor geógrafo e
domésticos e “se acomodariam à botânico do que zoologista (...) se valera
conversação da gente”. Mas há con- apenas da lembrança”, cometendo
trovérsias sobre a identidade dos flagrantes erros e confusões. Nesse sentido,
psitacídeos assim denominados, inclusive é verificável que apenas cerca de 20% das
uma, que defende ser o anapuru uma oitenta aves por ele mencionadas e
espécie extinta precocemente da Mata laconicamente descritas puderam ser
Atlântica pela invasão européia (Dean identificadas ao nível de espécie, muitas –
1996: 67). Mencionam também as quando possível – por analogia com os

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nomes vulgares fornecidos. Em sua apesar dos defeitos e incorreções
maioria, fizeram parte deste grupo de inevitáveis, mostraram-se ordinariamente
identificáveis, as aves de ampla muito mais completas e pormenorizadas,
distribuição ou privativas do litoral a ponto de nos permitirem determinar-lhes
florestado do Recôncavo Baiano. De geralmente o sentido, ainda quando se
interesse para a presente compilação do haja omitido o nome daquilo a que se
conhecimento sobre as aves da Caatinga, aplicam.”
apenas a menção – mais uma vez – das Ao todo, são descritas ou men-
emas ou nhandus (Rhea americana), cionadas cerca de 35 espécies. O fato de
acompanhada da observação de que “os que Cardim fora reitor do Colégio da Bahia,
índios aproveitavam suas penas para fazer pelo menos de 1590 a 1595, sugere como
rodas de penachos, usadas durante suas proveniente dessa capitania em particular
festas”. – ou do Nordeste em geral – a maior parte
Neiva (1929) considerou o livro de de suas observações naturalísticas (Pinto
Souza como “o marco inicial da zoologia e 1979). Menções merecedoras de crédito ao
botânica no Brasil”, por julgá-lo certamente macuco, araponga, mutum e quereiuá,
a mais copiosa das resenhas de História Cotinga maculata, atestam um contato
Natural do século XVI. estreito com a avifauna primeva da Mata
Entretanto, o Padre Leornardo do Atlântica baiana. São dignos de menção, a
Valle preparara “a maior soma de nomes presença inquietante do guigrajuba
de animais e de produtos animais, antes (Guaruba guarouba) e a do anapuru,
do magistral Gabriel Soares de Souza”, dentre o rol de aves tratadas por Cardim.
relacionando 351 nomes de vários grupos Do primeiro, ele informa que “muito
zoológicos, acompanhados de algumas estimados, por se trazerem de duzentas ou
características que permitem identificar as trezentas léguas”, e do segundo “papagaio,
espécies envolvidas (Papavero & Teixeira formoso de cores variadas – vermelho,
1999). Em termos numéricos, Souza verde, amarelo, preto, azul, pardo, cor de
supera o Padre Leornardo do Valle em rosmaninho”. Sobre este último, veja os
poucas espécies. A identificação das breves comentários, cinco parágrafos atrás,
espécies presentes no manuscrito datado onde está registrada a menção de Gandavo
de 1585 (do qual existem três cópias, ao intrigante (e mesmo?) anapuru.
incluindo uma na Biblioteca Nacional do
Cardim é outro escritor a mencionar
Rio de Janeiro) [ainda] será realizada em
a ema, com o nome de nhandugoaçu,
um prometido “Dicionário Histórico dos
destacando sua abundância e dando uma
Animais do Brasil” (Papavero & Teixeira
boa indicação de procedência para um
1999).
legítimo representante da Caatinga: “mas
O Padre Fernão Cardim, da
não andão senão pelo sertão dentro”.
Companhia de Jesus, autor, dentre outras
obras, dos Tratados da Terra e Gente do Contudo, em se tratando de raridade
Brasil, chegou à Bahia em 1584, residindo da Caatinga a mais instigante das aves
e percorrendo as mesmas capitanias que descritas por Cardim é a araruna,
Gandavo (Pinto 1979, Cardim 1980). etimologicamente arara-preta:
O Tratado fora anonimamente publicado “he todo preto espargido de verde, que lhe
em inglês por um famoso colecionador dá muita graça, e quando lhe dá o sol fica
londrino em 1625, porque havia sido tão resplandescente que he para folgar de
pilhado, em 1598, pelo pirata inglês Francis ver; os pés tem amarellos, e o bico e os
Cook. Pinto (1979: 15) ressalta elogiosa- olhos vermelhos; são de grande estima,
mente que: por sua formosura, por serem raros, por
“as aves referidas por Cardim são em não criarem senão muito dentro pelo
número mais restrito do que as de Gabriel sertão e de suas penas fazem seus
Soares; em compensação, as descrições, diademas, e esmaltes”

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Não se pode negar a grande Maranhão: Claude d’Abbeville, Yves
possibilidade de Cardim estar descrevendo d’Evreaux e Frei Cristovão de Lisboa (Souza
(com alguns defeitos inevitáveis de que e Brandão, tratados anteriormente, foram
falou Pinto) a arara-azul-de-lear, Ano- os outros dois). Esses três missionários da
dorhynchus leari, uma das poucas ordem dos capuchinhos, baseados na Ilha
espécies endêmicas da Caatinga. Esta seria de São Luiz, a julgar por seus relatos e pelo
a mais antiga e desavisada das menções a conjunto das aves mencionadas, não
essa arara. Cardim tem a seu favor a chegaram a conhecer a Caatinga (Pinto
proximidade entre o médio curso do rio 1979, Oren 1990, Nomura 1996c).
Vaza Barris, Bahia, pátria verificada destas Em se tratando de zoologia, a melhor
araras (Sick et al. 1987), e a cidade de contribuição das três, a de Cristovão de
Salvador, centro de suas observações. A Lisboa, foi a única não publicada em seu
única outra possibilidade de associação tempo, pois, depois de recuperada nos anos
(porém improvável) seria com a arara-azul- 1930, após ficar por muito tempo perdida,
grande, Anodorhynchus hyacinthinus, que veio a ser impressa pela primeira vez apenas
ocorre bem mais distante de Salvador (no em 1967, melhor dito 340 anos depois de
cerrado do oeste da Bahia) e que, escrita (Paiva 1986, 1995, Oren 1990). A
diferentemente de A. leari, não possui a feitura desse códice de árvores e animais,
plumagem azul-esverdeada ou “espargida entre 1624 e 1627, antecede em duas
de verde”. décadas a publicação do célebre livro de
De interesse da ornitologia do Marcgrave, de 1648 (Marcgrave 1942), e se
Nordeste são as notas naturalísticas constitui na primeira fonte brasileira de
contidas no Diálogo das Grandezas do História Natural que se fez acompanhada
Brasil, de um certo Ambrósio Fernandes por desenhos. Esses três missionários
Brandão, dito português (Pinto 1979). tiveram, mesmo que em São Luiz, a
Radicado desde sua chegada ao Brasil, em oportunidade de travar contato com uma
1583, na zona da mata de Pernambuco e fauna “mais amazônica”, que presen-
Paraíba, é deste último estado que escreve, temente está confinada, dia após dia, cada
em 1618, os seis “capítulos” que compõem vez mais ao oeste do Maranhão (Oren 1988).
os Diálogos (Paiva 1986, 1995). Entre
1848, quando pela primeira vez foi
publicada, até 1930, a obra havia sido
impressa apenas em periódicos e, algumas A ORNITOLOGIA DO NORDESTE
vezes, de forma incompleta (Paiva 1986, NO PERÍODO HOLANDÊS
1995). Depois disso registram-se quatro
edições (p.ex., Brandão 1968). Dentre as
É fundamental, e inigualável em todo
cerca de 70 espécies mencionadas,
o período colonial, a contribuição dos
especialmente as de maior porte e de
naturalistas que aqui trabalharam, durante
interesse para a caça, algumas poucas são
a ocupação holandesa no Nordeste
da Caatinga, tais como, a ema, a seriema
brasileiro, para o desenvolvimento das
e as “hyendaya, que se criam no sertão”.
ciências naturais, Georg Marcgrave (1610-
No último caso, possivelmente em
1644) e Wilhelm Pies (latinizado Guilherme
referência a Aratinga jandaya.
Piso, 1611-1678). A convite do culto
Dos cinco cronistas alçados por príncipe Johann Moritz von Nassau-Siegen
Paiva (1986, 1995) à condição de mais (Príncipe Maurício, Conde de Nassau),
importantes pioneiros da zoologia governador das possessões holandesas, o
nordestina dos séculos XVI e XVII, afora os astrônomo Marcgrave e o médico Piso,
naturalistas holandeses, três deixam de ser foram os primeiros verdadeiros cientistas
aqui melhor tratados porque estão a entrar em contato direto com a natureza
associados exclusivamente ao litoral do brasileira.

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Marcgrave chegou ao Brasil em Desde 1815, o acervo ornitológico
março de 1638 e regressou à Holanda, na (texto e iconografia) deixado por Marcgrave
companhia de Maurício de Nassau, em 23 e artistas da corte de Nassau foi examinado
de maio de 1644. Nesse período, em três por diversos especialistas (Lichtenstein
expedições, palmilhou os atuais estados de 1961, Schneider 1938, Pinto 1942). Faziam
Pernambuco, Paraíba e Rio Grande do parte desse conjunto, além da obra
Norte, embora tenha permanecido mais impressa, pinturas a óleo sobre papel, além
tempo na cidade de Mauritsstad, atual de poucos guaches, desenhos em nanquim
Recife (Gudger 1912 apud Teixeira 1992a). e crayons atribuídos a Albert Eckhout,
Contribuiu para o sucesso de Marcgrave, Zacharias Wagener e ao próprio Marcgrave
o declarado interesse de Nassau pelas (Albertin 1985, Teixeira 1992a, 1995,
ciências, que antes mesmo de sua posse, Whitehead & Boeseman 1989). Foram
ainda na Holanda, preparava as condições exatamente as ilustrações presentes na obra
necessárias junto à Companhia das Índias de Marcgrave (ou elaboradas em paralelo à
Ocidentais, para a realização de “uma mesma) que fizeram o grande diferencial
expedição científica, destinada a explorar entre a sua obra e a grande maioria das
os domínios de além-mar” (Garcia 1922: obras nos três primeiros séculos de colo-
863, Sick 1997). Esta produtiva associação nização brasileira. Até hoje, como acontece
entre naturalistas e pintores, durante os com as evidências materiais preservadas
trinta anos de ocupação holandesa (1624- (pele, fotografia, etc.) de qualquer registro,
1654), foi inequívoca justamente no o acervo iconográfico legado pelos artistas
“período mauriciano” (1637-1644) (Teixeira holandeses torna possível a verificação
1992a, 1995). independente da identidade.

As fartas observações acumuladas, Um estudo mais recente, melhor


no campo da zoologia e da botânica, foram elaborado e mais abrangente, teve a
magistralmente reunidas na obra Historia possibilidade de comparar as várias fontes
Rerum Naturalis Brasiliae, em oito livros iconográficas relacionadas ao acervo
ou partes, organizada por seu compatriota ornitológico, e foi capaz de retificar algumas
Johannes de Laet e publicada em falhas históricas e revelar um certo número
Amsterdã no ano de 1648. O sábio francês de novidades ainda não devidamente
Cuvier haveria registrado (apud Sick 1997: divulgadas (Teixeira 1992a). Analisando
48) que Marcgrave teria sido “o mais hábil, todo o acervo, foi determinado que havia a
o mais exato de quantos tenham descrito descrição (ou indicação) de 174 aves,
a história natural dos países remotos incluindo 25 indeterminadas, quatro
durante os séculos XVI e XVII”. Esta obra domésticas, três marinhas e oito exóticas
foi por mais de 150 anos a “única fonte (Teixeira 1992a: 111). Do conjunto de 134
fidedigna disponível sobre a fauna espécies autóctones (subtraídas as
brasileira” (Teixeira 1992a). indeterminadas, marinhas, domésticas e
exóticas) foram discriminadas (Teixeira
Os animais foram descritos, segundo
1992a: 111-12) 66 espécies (44%) de
os nomes indígenas coligidos, acom-
“paisagens antrópicas”, 34 de “aquáticas”,
panhados de notas biológicas e infor-
13 de hábitos “florestais”, 11 “cuja
mações sobre a utilização dos mesmos
presença parece ter sido registrada a partir
pelos nativos. A parte referente às aves
de espécimes cativos” e, finalmente, quatro
(Livro V) é composta de 113 descrições e
“escassas” espécies da Caatinga (Rhea
54 figuras (Marcgrave 1942). Algumas
americana, Cariama cristata,
dessas descrições e ilustrações serviram de
Sericossypha loricata e Crypturellus
base, um século mais tarde, integral ou
noctivagus zabele).
parcialmente, a vários batismos formais de
Linnaeus (1758) e seus seguidores, com o As indicações geográficas na obra de
advento da nomenclatura binominal por ele Marcgrave (1942) são bastante raras,
próprio estabelecida. contando-se apenas cinco casos dentre as

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113 descrições. No que concerne à distinguido entre si alguns dos diversos
Caatinga, interessa a menção de que a ema Cathartidae da região.
ocorreria em grande número nos “campos
Considerando a impossibilidade de
de Sergipe e Rio Grande [do Norte], mas
determinar a origem precisa das espécies, se
não em Pernambuco” (!), de que a
provenientes da região da Mata ou da
‘curicaca’ (Theristicus caudatus) e o ‘aiaia’
Caatinga, foi resolvido considerar todas as
(Ajaia ajaja) seriam abundantes ou
espécies ocorrentes na Caatinga na indicação
freqüentes junto ao rio São Francisco e que
de aproveitamento nomenclatural das fontes
o ‘urubu’ (Cathartes burrovianus, sensu
marcgravianas (texto ou ilustração) pelos
Teixeira 1992a) voaria em grandes bandos
descritores do século XVIII e XIX.
em Sergipe e no rio São Francisco. Nesse
último caso, reconhece Teixeira (1992a: 38) Diversas das fontes presentes na
que estes autores podem não ter Historia Naturalis de Marcgrave (1942)

Tabela 1 - Espécies ocorrentes na Caatinga descritas


precipuamente a partir de Marcgrave ou Piso.

Struthio americanus Linnaeus, 1758 = Rhea americana


Struthio rhea Linnaeus, 1766 = Rhea americana
Procellaria brasiliana Gmelin, 1789 = Phalacrocorax brasilianus
Mycteria americana Linnaeus, 1758 = Mycteria americana
Ibis nandapoa Vieillot, 1816 = Mycteria americana
Ciconia mycteria Lichtenstein, 1819 = Jabiru mycteria
Ardea maguari Gmelin, 1789 = Ciconia maguari
Anas brasiliensis Gmelin, 1789 = Amazonetta brasiliensis
Anas mareca Bonnaterre, 1790 = Amazonetta brasiliensis
Falco ur ubitinga Gmelin, 1788
urubitinga = Buteogallus urubitinga
Parra viridis Gmelin, 1789 = Porphyrula martinica
Parra brasiliensis Gmelin, 1789 = Jacana jacana
Parra nigra Gmelin, 1789 = Jacana jacana
Palamedea cristata Linnaeus, 1766 = Cariama cristata
Microdactylus marcgravii Geoffroy, 1809 = Cariama cristata
Psittacus aracanga Gmelin, 1788 = Ara chloroptera
Cuculus cornutus Gmelin, 1788 = Piaya cayana pallescens
Crotophaga ani Linnaeus, 1758 = Crotophaga ani
Cuculus guira Gmelin, 1788 = Guira guira
Strix brasiliana Gmelin, 1788 = Glaucidium brasilianum
Caprimulgus torquatus Gmelin, 1789 = Hydropsalis torquata
Trochilus thaumantias Linnaeus, 1766 = Polytmus guainumbi thaumantias
Alcedo maculata Gmelin, 1788 = Nystalus maculatus
Lanius pitangua Linnaeus, 1766 = Megarynchus pitangua
Oriolus japacani Gmelin, 1788 = Donacobius atricapillus
Oriolus jamacaii Gmelin, 1788 = Icterus jamacaii
Tanagra flava Gmelin, 1789 = Tangara cayana flava
Tanagra loricata Lichtenstein, 1819 = Sericossypha loricata
Em negrito estão indicadas as descrições válidas.

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foram aproveitadas como fundamento exclusivamente nessa fonte. Num outro
descritivo das milhares de espécies que caso, os autores lineanos combinaram
passaram a ser “minimamente” carac- duas ou mais fontes (p.ex. Marcgrave, do
terizadas pelos seguidores do sistema Brasil, com Sloane, da Jamaica) para
lineano. Cabe mencionar que, às vezes, descrever espécies que consideraram, em
algumas das descrições de Marcgrave suas análises, como as mesmas, o que
foram tratadas em obras “buffonianas” nem sempre se manteve como correto.
antes de serem batizadas pelos autores da Estas combinações se dividem entre
escola lineana (veja Pacheco 1997a). Um aquelas que privilegiaram as informações
primeiro grupo (n = 28) (Tabela 1) é formado (incluindo as de natureza geográfica) de
pelas espécies que foram descritas Marcgrave (n = 12) (Tabela 2) e outras que
primordialmente com base em Marcgrave apenas a usaram de maneira secundária
e cujas indicações originais se apóiam (n = 9) (Tabela 3).

Tabela 2 - Espécies ocorrentes na Caatinga, descritas com base em Marcgrave e outras fontes
estranhas ao Brasil, mas cuja localidade-tipo foi restringida no Nordeste do Brasil.

Plotus anhinga Linnaeus, 1766* = Anhinga anhinga


Platalea ajaja Linnaeus, 1758 = Ajaia ajaja
Palamedea cornuta Linnaeus, 1766 = Anhima cornuta
Anas carunculata Lichtenstein, 1819* = Sarkidiornis melanotos sylvicola
Psittacus ararauna Linnaeus, 1758 = Ara ararauna
Strix tuidara J. E. Gray, 1829 = Tyto alba tuidara
Trogon curucui Linnaeus, 1766 = Trogon curucui
Lanius nengeta Linnaeus, 1766* = Fluvicola nengeta
Hirundo tapera Linnaeus, 1766* = Progne tapera
Tanagra sayaca Linnaeus, 1766* = Thraupis sayaca
Tanagra jacarina Linnaeus, 1766 = Volatinia jacarina
Emberiza brasiliensis Gmelin, 1789 = Sicalis flaveola brasiliensis
* Fonte adicional da descrição não indicada por Teixeira (1992).
Em negrito estão indicadas as descrições válidas.

Tabela 3 - Espécies ocorrentes na Caatinga descritas com base em fontes estranhas ao Brasil,
mas secundariamente baseadas em Marcgrave.

Ardea cocoi Linnaeus, 1766 = Ardea cocoi


Ardea soco Vieillot, 1817* = Ardea cocoi
Ardea chalybea Stephens, 1819* = Butorides striatus
Ardea brasiliensis Linnaeus, 1766* = Tigrisoma lineatum
Cancroma cancrophaga Linnaeus, 1766 = Cochlearius cochlearius
Ibis alba Lesson, 1831 = Theristicus caudatus
Scolopax guarauna Linnaeus, 1766 = Aramus guarauna
Parra jacana Linnaeus, 1766 = Jacana jacana
Trochilus elatus Linnaeus, 1766 = Chrysolampis mosquitus
* Binômio não indicado em Teixeira (1992).
Em negrito estão indicadas as descrições válidas.

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A obra de Guilherme Piso, incontes- Natural através de informações colhidas,
tável em sua importância como tratado diretamente por eles, em território brasi-
pioneiro de medicina tropical (Piso 1948), leiro, apenas Francisco Antônio de
é, quanto ao aspecto da História Natural, Sampaio o fez com base na natureza
bastante inferior aquela de Marcgrave, nordestina (Nomura 1998). Sampaio,
conjuntamente publicada por J. de Laet em médico português radicado na Bahia na
1648 (Pinto 1979). Na maioria dos casos, metade do século XVIII, deixou dois
os escritos de Piso nessa área foram manuscritos: o primeiro tomo, dedicado ao
baseados naqueles de Marcgrave, do qual reino vegetal, é de 1782 e o segundo,
foi chefe, e carecem de originalidade. dedicado ao reino animal, é datado de
Embora haja uma preocupação maior pelo 1789. Tal material foi reunido e publicado
hábitat e a biologia das pouco menos de em conjunto apenas neste século (Sampaio
50 espécies tratadas, o autor se mostrou 1971). Suas observações sobre a avifauna
“mal preparado” para esse mister (Pinto foram sediadas na Vila de Cachoeira,
1979). A única das aves descritas por Piso atualmente cidade do mesmo nome, no
que deixou de ser tratada por Marcgrave Recôncavo Baiano, a 116km de Salvador.
foi o “maiagué”, base precípua de Um exercício de identificação foi feito por
Procellaria brasiliana Gmelin, 1789 (hoje, J. F. Pacheco (Nomura 1998: 107) com
Phalacrocorax brasilianus). base nos referidos escritos e ilustrações.
Outros autores do ciclo holandês A maioria das 44 espécies descritas e
(1624-1654) que se ocuparam da História figuradas é de capoeiras, roças e ambientes
Natural, notadamente Zacharias Wagener, aquáticos. Poucas, como o jaó (Cryp-
Joan Nieuhof e Gaspar von Baerle (Garcia turellus noctivagus), o tucano (Ram-
1922, Pinto 1979, Boeseman 1994, Paiva phastos vitellinus) e o japu (Psarocolius
1995, Nomura 1997), deixam de ter seus decumanus), exemplificam a avifauna da
dados tratados aqui pela quase completa Mata Atlântica de sua região. O autor não
falta de conexão com os temas de interesse faz menção ao sertão e à Caatinga em seus
da avifauna da Caatinga. relatos da avifauna, se bem que as poucas
espécies típicas do semi-árido (Cyanocorax
cyanopogon, Icterus jamacaii e Paroaria
SÉCULO XVIII: dominicana) notadas por ele em Cachoei-
ra, comprovam a prematura colonização
À MARGEM DOS PROGRESSOS das áreas do litoral, abertas pelo homem
DA ORNITOLOGIA desde o início do processo de ocupação.
Embora o Brasil tenha se mantido “à
Após a expulsão dos holandeses, o margem dos progressos que a ornitologia
Brasil retorna à condição de terra ignota extra-européia ia realizando a passos largos”
aos olhos da comunidade científica, uma durante todo o século XVIII, como registrou
vez que não havia interesse da Metrópole Pinto (1979), o profícuo período descritivo
em favorecer qualquer divulgação da das aves do Novo Mundo, iniciado com
riqueza dos três reinos aqui existentes (Pinto Linnaeus, Brisson e Buffon, utilizando-se de
1979). A principal iniciativa portuguesa do diferentes conceitos e métodos de
século, a célebre Viagem Filosófica pelas “descrever o mundo natural” (Stresemann
Capitanias do Grão-Pará, Rio Negro, Mato 1975), não foi completamente nulo para
Grosso e Cuiabá, entre 1783 e 1792, a ornitologia brasileira (Tabela 4). Da mesma
capitaneada pelo baiano Alexandre forma, que nos séculos precedentes,
Rodrigues Ferreira, doutor em filosofia pela animais do Novo Mundo continuavam sendo
Universidade de Coimbra, passou ao largo levados para a Europa, por navegantes
do Nordeste (Cunha 1991, Nomura 1998). (comerciantes ou aventureiros), sem a
Do escasso conjunto de nove indicação precisa de procedência. Esse
naturalistas, viajantes estrangeiros e comércio de produtos naturais, melhor dito
sertanistas que escreveram sobre História “tráfico de curiosidades”, sem a anuência

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Tabela 4 - Espécies ocorrentes na Caatinga descritas no século XVIII.

Anas moschata Linnaeus, 1758 “India” Cairina moschata


Psittacus araracina Linnaeus, 1776 Sem localidade Ara ararauna
Psittacus caeruleus Gmelin, 1788 Sem localidade Ara ararauna
Psittacus aureus Gmelin, 1789 supostamente Brasil Aratinga aurea
Psittacus brasiliensis Latham 1790* Brasil Aratinga aurea
Psittacus aestivus Linnaeus, 1758 America Amazona aestiva
Turdus atricapilla Linnaeus, 1766 “Cabo da Boa Esperança” Donacobius atricapillus
Turdus cyaneus P. L. S. Müller, 1776 “Cabo da Boa Esperança” Donacobius atricapillus
Loxia dominicana Linnaeus, 1758 Brasil Paroaria dominicana
Loxia dominica Linnaeus, 1776 Brasil Paroaria dominicana
Fringilla larvata Boddaert, 1783 Brasil Paroaria dominicana
Fringilla flava P.L.S. Muller, 1776 Brasil ? Sicalis flaveola
Loxia crispa P.L.S. Müller, 1776* Brasil Sporophila lineola
Loxia fusca Hermann, 1783* Brasil Sporophila lineola
Loxia bouvreuil P.L.S. Müller, 1776 “I’île de Bourbon” Sporophila bouvreuil
Loxia nigroaurantia Boddaert, 1783 “I’île de Bourbon” Sporophila bouvreuil
Loxia aurantia Gmelin, 1789 “I’île de Bourbon” Sporophila bouvreuil
Loxia angolensis Linnaeus, 1766 “Angola Oryzoborus angolensis
Loxia caerulea var. β Gmelin, 1789:863 Brasil Passerina brissonii
Loxia cyanea Linnaeus, 1758:174 ** “Angola” Passerina brissonii
* nome pré-ocupado; ** suprimido pela Comissão Internacional de Nomenclatura
Em negrito estão indicadas as descrições válidas.

das autoridades portuguesas, jamais foi SÉCULO XIX: O INÍCIO DO


interrompido e era estimulado por
“colecionadores de raridades”, que deviam
GRANDE CICLO DAS
recompensar financeiramente muito bem EXPEDIÇÕES CIENTÍFICAS
os seus agentes. De uma maneira ou outra,
araras, maracanãs, papagaios, beija-flores
ESTRANGEIRAS
e pássaros coloridos, como o tiê-sangue O início da etapa mais importante na
(Ramphocelus bresilius), chegaram à direção da revolução descritiva das aves do
Europa ainda nos primeiros anos de 1500 Brasil derivou diretamente de um
(Stresemann 1975: 27, Sick 1981a). Com acontecimento cotingencial da mais alta
o progresso das técnicas de preservação significância para a História do país,
de aves coletadas, iniciado de forma conforme descreve Lisboa (1997: 29):
incipiente na metade do século XVII e “Com a vinda da corte portuguesa ao
desenvolvido durante o final do século XVIII, Brasil, em 1808, não só os portos se abriram
os gabinetes de souvernirs e museus de para as “nações amigas”, mas também as
História Natural se disseminaram. Nessa portas para a entrada de estrangeiros. A
fase foi criado, em 1784 no Rio de Janeiro, colônia vive então o fim do exclusivismo
um pequeno museu histórico-natural, português. Comerciantes, especialmente
oficialmente Casa de História Natural, mais ingleses, artistas franceses e imigrantes,
tarde cognominada pelo povo de “Casa dos além de viajantes naturalistas de várias
Pássaros”, que tinha em seu diretor, regiões do Velho Mundo, têm a permissão
Francisco Xavier Cardoso Caldeira, um de estudar o que o país desconhecido
exímio taxidermista de aves (Pinto 1979). parecia prometer em novidades.”

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Nem todos os naturalistas, pilares da nas Beiträge (= Contribuições), estão
ornitologia, que fizeram parte do “Grande entremeadas de considerações biogeo-
Ciclo das Expedições”, travaram contato gráficas, das mais surpreendentes, para o
com a Caatinga. Neste sentido, é de se seu período, em parte por influência de seu
lamentar que o austríaco Johann Natterer, contemporâneo e amigo, o célebre e genial
“o príncipe dos coletores” e o maior nome Alexander von Humboldt (Pinto 1979, Roth
de nossa ornitologia desse período (Straube 1995, Pijning 1995).
2000), tenha desistido de recolher material Wied denominou essa região
no Nordeste. Muito embora pretendesse, planáltica e descampada do sudeste baiano
após sua longa permanência pelo interior de Campos-Gerais e a situara, grosso
do Brasil Central e Amazônia, atravessar os modo, entre o limite ocidental das florestas
estados mais setentrioniais do Brasil – litorâneas e os limites da província de Minas
Maranhão, Piauí, Ceará, Rio Grande do Gerais, sem contudo, rigorosamente,
Norte, Paraíba e Pernambuco – seu desejo jamais ter chegado a palmilhar esta
foi abortado pelo temor imposto pelos província (Bokermann 1957).
revoltosos da Cabanagem, movimento
Em sua primeira obra, em formato
popular contra as autoridades provinciais
de narrativa (Wied 1820-1821) é possível
que irrompera exatamente quando de sua
resgatar, antecipadamente, algumas das
chegada a Belém (Vanzolini 1993, Azevedo
espécies encontradas por ele nessa região
1997, Straube 2000). Se Natterer, “exímio
de contato com a Caatinga. O resultado
descobridor de miudezas”, houvesse tido
final foi apresentado em duas partes
a chance de coletar no Nordeste, é
sucessivas das Beiträge, publicadas dez
praticamente certo que novidades e
anos depois, sendo dois volumes (Wied
informações sobre a distribuição de vários
1830-1833) dedicados às aves recolhidas
elementos da avifauna – levantados apenas
em sua expedição empreendida entre o Rio
nesse início de século por seu conterrâneo
de Janeiro e Salvador (17 de julho de 1815
Otmar Reiser – teriam sido antecipadas.
- 10 de maio de 1817).
Nesta rica etapa de investigação O príncipe Wied, no segundo volume
ornitológica, o príncipe Maximiliano de Wied- de sua Reise, assinala (conforme se pode
Neuwied foi o primeiro naturalista – na acepção pinçar de suas edições vertidas para o
mais ampla deste vocábulo cuja única paixão português, comentadas e anotadas por
era desvendar os segredos da natureza (Pinto Olivério Pinto, cf. Wied 1940, 1958), a partir
1979: 74) – a contatar diretamente uma do terceiro capítulo, quando se dirigia ao
avifauna com elementos da Caatinga. Quando sertão, as suas primeiras impressões sobre
decidiu investigar os nossos sertões, estando a mata que “aqui se chama catinga” (a qual
na então Vila de Ilhéus, no litoral da Bahia, em Pinto anota, em pé de página, referir-se à
21 de dezembro de 1815, o Príncipe teve a caatinga, grafia legítima). Logo a seguir
possibilidade de encontrar na região planáltica (Wied 1958: 367) destaca que “Essas
de Vitória da Conquista, uma área de tensão matas secas apresentam também muitas
ecológica, onde elementos ornitológicos do árvores de espécies peculiares” e, em
Cerrado, Caatinga e Mata Atlântica se seguida que “Neste local (a apenas cerca
alternavam em mosaicos de vegetação. de 35km oeste de Itabuna!) o solo se
Seguiu em direção a Salvador, cruzando mostra coberto de touceiras de bromélias”.
trechos de Mata Atlântica mais interiorana
Bokermann (1957) estava correto ao
(floresta semidecidual), e algumas pontas de
afirmar que essa área se constitui em
transição desse bioma com a Caatinga.
transição entre a zona das matas e a zona
Tendo sido o Príncipe Wied, homem dos carrascos secos do interior, pois Wied
de larga cultura e muito bem preparado no seu caminho rumo ao interior, estava
nas várias disciplinas da História Natural, mesmo percorrendo trechos ora secos e
suas observações sobre a avifauna, tanto ora úmidos, como se depreende da leitura
na Reise (= Narrativas de viagem) como do capítulo terceiro. Prova melhor dessas

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interpenetrações é a menção de coleta bioma (veja Anexo 1).
(com respectivo batismo científico) na É oportuno destacar que pela primeira
mesma mata da “quem-quem” ou cancã vez um especialista estava relacionando um
(Cyanocorax cyanopogon) e do mico-leão- conjunto de aves ao ambiente semi-árido
de-cara-dourada (Hapale chrysomelas) do Nordeste. É igualmente importante
(Wied 1958: 373). De maneira interessante, ressaltar que nessa região de caatingas do
Wied ratificava a presença da cancã também sudeste da Bahia, nenhum outro
na região de florestas, como Francisco colecionador ou ornitólogo no século XIX
Sampaio antecipara – sem se dar conta – superou Wied em montante de dados. Em
no século anterior, para os arredores de certo momento, nesta mesma região de
Cachoeira, na região do Recôncavo. alternância de ambientes pertencentes a
Interessante testemunho de Wied (1958: biomas distintos (Mata Atlântica, Cerrado e
366) nessas matas mais interioranas diz Caatinga), das mais desconcertantes, vale
respeito ao zabelê: resgatar a seguinte passagem da narrativa
“O canto do juó (Crypturellus noctiva- de Wied (1958: 405):
gus), chamado aqui “zabelê” fez-se de novo “Imagina-se, às vezes, ter diante de
ouvir, após longo intervalo de tempo. Essa si uma planície contínua, e inopina-
ave, com efeito, é encontrada em toda parte damente a gente se encontra nos bordos
desde o Rio de Janeiro até o rio Belmonte, de um vale estreito, profundamente
mas parece não freqüentar as vizinhanças escarpado, ouvindo-se um rio murmurar
da costa deste rio até o Ilhéus”. no fundo, onde o olhar mergulha nos cimos
O paralelo distribucional nos tempos duma floresta cujas árvores variadamente
de Wied, entre a cancã e o zabelê, este floridas lhe guarnecem as margens”
último representado no Nordeste por uma Em paralelo, com a citação e
raça desbotada descrita do sertão (C.n. descrição formal de aves da Caatinga, Wied
zabele. v. Pinto 1964, Sick 1997), oferece descreve ineditamente ou assinala alguns
um interessante paralelo prematuro de representantes do cerrado provenientes do
penetração (talvez secundária) de sudeste da Bahia. Isolados de sua área
elementos do interior na direção do litoral, principal de ocorrência (cerrados a oeste
como percebido atualmente no Sudeste do rio São Francisco), esses representantes,
para vários elementos (p.ex. Alvarenga i.e. Geobates poecilopterus, Melanopareia
1990, Willis 1991, Pacheco 1993). torquata, Neothraupis fasciata, Chari-
Após longa jornada, ao alcançar tospiza eucosma e Porphyrospiza
finalmente o planalto campestre em Barra caerulescens, foram apenas muito
da Vereda (atual Inhobim, vide Paynter & recentemente encontrados no meio-leste
Traylor 1991: 292), Wied toma contato, da Bahia, mais precisamente nos
pela primeira vez, com as aves de áreas contrafortes da Serra do Sincorá (Parrini et
abertas do interior do país: “na planície al. 1999). Ele também foi o primeiro a
coberta de ervas altas, onde várias aves, travar contato com a “mata-de-cipó”, cujo
inteiramente novas para nós”, ou mais reconhecimento e melhor estudo datam de
adiante, “Passei aqui algum tempo (...) nossos dias, ao descrever o gravatazeiro,
para [melhor] conhecer as curiosidades Rhopornis ardesiaca (Wied 1831),
histórico-naturais dessas regiões altas”. endêmico dessa fisionomia vegetal (Maack
Na Reise (Wied 1820-1821) é 1963, Willis & Oniki 1981, Teixeira 1987,
possível reunir menções a 41 espécies que Gonzaga et al. 1995).
ocorrem na Caatinga e que foram coletadas Apesar de ter percorrido extensão
ou observadas nessa região de mosaicos relativamente pequena da Caatinga, Wied
do sudeste baiano. No total, considerando foi hábil em antecipar a ocorrência e a
as informações consolidadas nas Beiträge descrição dos seus elementos avifaunísticos
(Wied 1830-1833 e/ou retificadas em Wied mais conspícuos e disseminados (Aratinga
1850), chega-se a 73 espécies para o cactorum, Chrysolampis mosquitus,

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Phacellodomus rufifrons, Euscarthmus meses, vencendo as dificuldades de uma
meloryphus, Cyanocorax cyanopogon e grande seca, atinge a cidade alagoana de
Coryphospingus pileatus), bem como Penedo. Dessa cidade, dirige-se à capital
daqueles mais furtivos ou pouco da Bahia, onde explora com afinco os
representados em coleções até bem arredores do Recôncavo (Swainson é o
recentemente (Sakesphorus cristatus e descobridor de Pyriglena atra) e se
Hylopezus ochroleucus) (Whitney et al. encontra com os naturalistas Sellow e
1995) (Tabela 5). Freyress, que haviam feito, por terra, o
Em fins de 1816, chega a Pernam- caminho desde o Rio de Janeiro
buco o naturalista inglês William Swainson acompanhando, em parte (até Vitória), o
que pretendia empreender expedição de Príncipe Wied. Depois da zona do
coleta pelo interior, mas foi obrigado a Recôncavo, ele se encaminha ao interior,
renunciar ao seu desejo imediato em vista onde, até março de 1818, explora a região
do movimento revolucionário que se semi-árida da então província da Bahia. Em
instalara (Garcia 1922, Mello-Leitão, 1941, abril de 1818 embarca para o Rio de
Pinto 1979). Até junho de 1817, Janeiro, onde se encontra com vários
circunscreve aos arredores de Recife sua naturalistas estrangeiros, excursiona à Serra
atividade naturalística esperando pelo fim dos Órgãos e amplia suas coleções
do estado de perturbação, e em seguida calcadas sobretudo em aves, insetos e
inicia sua viagem ao sertão, rumo ao rio plantas (Carvalho 1918). Em agosto de
São Francisco, na qual ao cabo de dois 1818, está de volta à Inglaterra acom-

Tabela 5 - Espécies ocorrentes na Caatinga descritas por Wied com base em material
colhido nos sertões do sudeste da Bahia e sua correlação atual.

Falco rufifrons Wied, 1830 “Rio Mucuri, BA” = Gampsonyx swainsoni


Psittacus cactorum Kuhl, 1820 Brasilia = Aratinga cactorum
Caprimulgus diurnus Wied, 1821 Vereda, BA = Podager nacunda
Trochilus campestris Wied 1832 Campos Gerais = Calliphlox amethystina
Thamnophilus cristatus Wied 1831 Campos Gerais = Sakesphorus cristatus
Thamnophilus scalaris Wied, 1831 Brasilia = Thamnophilus torquatus
Myiothera strigilata Wied 1831 Bahia = Myrmorchilus strigilatus
Myiothera superciliaris* Wied 1831 Sertão da Bahia = Formicivora melanogaster
Myioturdus ochroleucus Wied 1831 Conquista = Hylopezus ochroleucus
Opetiorhynchus ruficaudus Wied 1831 “Minas Gerais” = Furnarius rufus
Anabates rufifrons Wied 1821 Ressaca, BA = Phacellodomus rufifrons
Dendrocolaptes rufus Wied 1831 Campos Gerais = Lepidocolaptes angustirostris
Muscipeta incanescens Wied, 1831 Bahia = Phyllomyias fasciatus fasciatus
Euscarthmus meloryphus Wied 1831 Minas Gerais e Bahia = Euscarthmus meloryphus
Muscipeta splendens Wied, 1831 Brasilia = Pachyramphus polychopterus
Sylvia amaurocephala Nordmann 1835 Brazil = Hylophilus amaurocephalus
Sylvia leucogastra* Wied 1831 Sertão da Bahia = Polioptila plumbea
Hirundo pascuum Wied 1830 Campos da Bahia = Progne tapera
Corvus cyanopogon Wied 1821 Rio Cachoeira, BA = Cyanocorax cyanopogon
Hylophilus caeruleus Wied, 1831 Bahia = Nemosia pileata caerulea
Fringilla pileata Wied 1821 Barra da Vereda, BA = Coryphospingus pileatus
* nome pré-ocupado.
Em negrito estão indicadas as descrições válidas.

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panhado de uma coleção composta, dentre Seus escritos não podem contribuir
outros itens, de 760 espécimes de aves. para o delineamento da distribuição das
aves na Caatinga, pois além da menção a
Swainson foi um dos mais ativos e
estados e poucos pontos de coleta no
destacados zoólogos de seu tempo,
Recôncavo (p.ex.: Pitangua, Humildes,
batizando um grande número de espécies
Urupê), não há indicação de qualquer
de variadas proveniências (dos cinco
localidade do sertão para alguma ave.
continentes), além de definir e nomear
muitos gêneros (p.ex.: Phaethornis, O ponto alto das investigações
Fluvicola e Pitangus) e famílias (56 de aves, (pioneiras) naturalísticas no Brasil,
Bock 1994). Foi proponente de polêmicos parafraseando Pinto (1979: 95), foi
modelos de classificação, os quais defendia alcançado – especialmente – por Johann
com o “fanatismo de um profeta” e, dentre Baptist von Spix e Karl Friedrich Phillipp von
outras idiossincrasias, fora ainda defensor Martius, em sua memorável jornada por
do “purismo” na nomenclatura. Discordava grande parte do país. Justifica-se Olivério
da nomeação das espécies feitas com base Pinto, afirmando que embora os anos de
em línguas não clássicas, como fazia, por 1815 e 1816 (com Langsdorff, Wied, Saint-
exemplo, Spix ao utilizar-se do tupi. Hilaire, Delalande, Swainson, Sellow e
Dedicou muitas vezes sua energia na Freyress) tenham sido muito importantes,
renomeação de espécies dessa forma “em nada lhe fica a dever” o ano de 1817.
batizadas. Assim, propusera chamar o O casamento, em 1817, da
nosso mutum-cavalo Mitu mitu de Ourax arquiduquesa Maria Leopoldina (filha de
erythrorhynchus Swainson, 1837 (Newton Francisco I, imperador da Áustria) com
1893-1896, Stresemann 1975, Farber Dom Pedro I, precipitou a vinda para o
1982, Mearns & Mearns 1988). Brasil de um séquito de artistas e homens
A contribuição de Swainson à de ciência (Oberacker 1963). Na condição
ornitologia da Caatinga é qualitativamente de cientistas, fizeram parte dessa comitiva
bem inferior aquelas de Wied e de Spix. Ele Johann E. Pohl, Johann Christian Mikan,
preparou um roteiro suscinto (Pinto 1979) Giuseppe Raddi, Martius e Spix, além do
de suas excursões pelo Brasil (Swainson notável Johann Natterer (Garcia 1922,
1819), mas se descuidara, como registrou Ramirez 1968, Pinto 1979, Straube 2000).
Pinto (1979), de “nos fornecer o roteiro de Destes, apenas Spix e Martius atingiram o
suas peregrinações, e bem assim de etiquetar Nordeste em suas peregrinações.
convenientemente” seus espécimes. Em Como se fossem dois irmãos
verdade, ele não produziu uma obra de inseparáveis, os bávaros Spix e Martius, o
narrativa como fizera Wied, Spix e vários primeiro zoólogo e o outro botânico,
outros viajantes-naturalistas. O problema empreenderam “a mais rápida das mais
maior está na forma fragmentária de longas” expedições científicas que se tem
divulgação, dispersa em inúmeras fontes notícia no Brasil. Partindo do Rio (passando
entre os anos de 1819 e 1838. Sua por São Paulo) com destino às fronteiras
contribuição à ornitologia brasileira, e ao brasileiro-peruanas do rio Solimões, e
Nordeste, em particular, somente poderá ser depois descendo todo o rio Amazonas
melhor dimensionada após a reunião das (com digressão no rio Negro, onde Spix
informações dispersas na literatura, associada sem a companhia de Martius navega até
a uma consulta de sua coleção, depositada, Barcelos) até Belém, de onde embarcam
em sua maioria, no Museu de Cambridge, para a Europa, a dupla de viajantes gastam
na Inglaterra. Embora, suas coleções tenham (apenas) 2 anos e onze meses (Papavero
permitido a descrição de alguns táxons da 1971). Natterer, em sua expedição de
região de interesse, ainda hoje considerados extensão equiparável, realizada entre o Rio
válidos (duas espécies, três subespécies), a de Janeiro e a fronteira venezuelana, mas
maioria de suas propostas foram relegadas tomando o rumo do Brasil Central, teria
à sinonímia (Tabela 6). gasto profícuos 17 anos (Vanzolini 1993).

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Tabela 6 - Espécies ocorrentes na Caatinga descritas ou
coletadas por Swainson e sua correlação atual.

Crypturellus lepidotus Swainson, 1837 interior da Bahia = Crypturellus tataupa lepidotus


Gampsonyx swainsonii Vigors, 1825 perto Salvador, BA = Gampsonyx swainsonii
Falco gracilis* Swainson, 1837 Bahia = Falco sparverius cearae
Falco cucullatus Swainson, 1837 “Brazil” = Falco rufigularis
Gallinula albifrons Swainson, 1837 “Brazil” = Laterallus melanophaius
Scolopax braziliensis Swainson 1832 “equinoctial Brazil”= Gallinago paraguaiae
Picus braziliensis Swainson, 1821 Bahia = Piculus chrysochlorus
Picus chrysosternus Swainson, 1821 Inland of Bahia = Colaptes campestris
Trogon purpuratus Swainson, 1837 “Brazil” = Trogon curucui
Crotophaga rugirostra Swainson, 1837 Brazil = Crotophaga ani
Crotophaga laevirostra Swainson, 1837 Brazil = Crotophaga ani
Furnarius melanotis Swainson, 1837 Bahia = Furnarius figulus
Malurus garrulus Swainson, 1822 Bahia = Phacellodomus rufifrons
Lepturus ruficeps Swainson, 1838 No locality = Euscarthmus meloryphus
Tyrannula ferruginea Swainson, 1837 Brazil = Myiophobus fasciatus
Fluvicola cursoria Swainson, 1831 Pernambuco = Fluvicola nengeta
Tyrannus ambulans Swainson, 1826 Pernambuco = Machetornis rixosus
Tyrannus crudelis Swainson, 1826 Northern Brazil = Tyrannus melancholicus despostes
Tyrannus leucotis Swainson, 1826 Northern Brazil = Empidonomus varius
Megastoma flaviceps Swainson, 1838 Northern Brazil = Megarynchus pitangua
Megastoma atriceps Swainson, 1838 Brazil = Megarynchus pitangua
Saurophagus pusillus Swainson, 1838 Brazil = Philohydor lictor
Psaris cuvierii Swainson, 1821 Brazil = Pachyramphus viridis
Pachyrynchus megacephalus Swainson, 1837 Brazil = Pachyramphus validus
Psaris strigatus Swainson, 1837 Brazil = Pachyramphus validus
Vireo bartramii Swainson 1832 Brazil = Vireo olivaceus agilis
Donacobius vociferans Swainson, 1831 Pernambuco = Donacobius atricapillus
Troglodytes aequinoctialis Swainson, 1834 No locality = Troglodytes aedon
Culicivora atricapilla Swainson, 1823 No locality = Polioptila plumbea atricapilla
Carduelis yarrellii Audubon, 1839 “Upper California” = Carduelis yarrellii
Sylvia plumbea Swainson, 1823 Brazil = Parula pitiayumi
Tanagra swainsoni G. R. Gray, 1844 Brazil = Thraupis sayaca
Tachyphonus fringilloides Swainson, 1825 Tableland of Bahia = Coryphospingus pileatus
Coccoborus magnirostris Swainson, 1837 Brazil = Oryzoborus angolensis
Icterus tibialis Swainson, 1837 Brazil = Icterus cayanensis tibialis
Agelaius ruficollis Swainson, 1837 Pernambuco = Agelaius ruficapillus frontalis
Molothrus brevirostris Swainson, 1837 Brazil = Molothrus bonariensis
* nome pré-ocupado.
Em negrito estão indicadas as descrições válidas.

Houve por parte deles, uma delibe- palpáveis resultados para a ornitologia) que
rada intenção em percorrer trechos até cruzaram a maior extensão do semi-árido
então pouco explorados do território nordestino em uma única travessia. Nem
brasileiro e, por isso, o interior nordestino mesmo a expedição austríaca de Otmar
foi escolhido dentre as regiões a serem Reiser no início do século seguinte é
cruzadas (Lisboa 1995). superior (Vanzolini 1992a). Utilizando-se
Spix e Martius também foram os das informações de Spix e Martius (1938),
naturalistas do século XIX (ao menos com Papavero (1971), Paynter & Traylor (1991)

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e Vanzolini (1992b), é possível estabelecer, O segundo volume da Reise de Spix
de modo geral, o itinerário dos naturalistas e Martius, que contempla a travessia pela
bávaros no Nordeste e áreas de caatinga: Caatinga, diferentemente daquela de Wied,
a) em Minas Gerais, Contendas, 19 julho- traz pouquíssima informação sobre a
15 agosto de 1818 (atual Brasília de Minas), avifauna (Spix & Martius 1828). Depois de
Brejo do Salgado, 16 agosto-1º setembro lançado o primeiro volume em 1823, a
(atual Januária); b) partem no rumo redação a quatro mãos do segundo volume
noroeste, onde se demoram explorando o fica comprometida com a morte prematura
cerrado baiano, na ocasião desabitado, por de Spix em 15 de maio de 1826, aos 45
cerca de três semanas; c) na Bahia, anos de idade (Lisboa 1997). Por ocasião
Carinhanha, partida em 24 de setembro, da morte de Spix, apenas o segundo capítulo
Malhada, permanência entre 24-29 de do quinto livro (início do volume 2)
setembro, cruzam o sertão na direção encontrava-se delineado e, por isso, foi
nordeste com passagens em Caetité em 5 preciso que Martius finalizasse sozinho todo
de outubro, Rio das Contas, em 17 de o segundo e terceiro volumes da obra
outubro, Maracás, final de outubro; d) no planejada. Martius jamais questionou a dupla
domínio da Mata Atlântica passam por autoria da obra e assim manteve-se como
Cachoeira (chegada em 4 de novembro) e co-autor mesmo que Spix, ao cabo de três
Salvador, e depois seguem rumo sul na volumes com 1.388 páginas de texto, tenha
direção de Ilhéus (de onde retornam à participado da escrita de apenas um terço
capital baiana em 17 de fevereiro de 1819); (Lisboa 1997: 55). Desta forma, a partir do
e) depois de conseguirem autorização de trecho em que narram sua permanência no
viagem seguem na direção do Maranhão, Distrito Diamantino, as menções à fauna
saindo de Cachoeira no dia 27 de fevereiro tornam-se mais escassas.
de 1819, passando pelas localidades Os resultados ornitológicos derivados
baianas de Feira de Santana (1º de março), da célebre jornada de Spix foram
Conceição de Coité (4 de março),