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ATHENAS GRUPO EDUCACIONAL

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1. A CONDIÇÃO HUMANA

Caro aluno, propomos uma conversa: vamos falar sobre ética? Esse é um tema
que toca de modo muito particular nossa existência. Porque quando falamos de ética,
não estamos falando de algo exterior ao ser humano, é da vida que tratamos. Ela sempre
será o ponto de partida e de chegada de toda reflexão ética. Mas não é sobre qualquer
modo de viver que a ética se ocupa. E qual seria, então? A vida pensada. A cada
momento somos convidados a definir nossa existência no mundo. Alternativas e
escolhas nos são ofertadas. E precisamos, dentre tantas possibilidades existenciais,
identificar a vida que nos parece digna de ser vivida e nos esforçar para a sua realização.
O estudo da ética tem, assim, fundamental importância para a reflexão acerca do
significado do nosso agir consciente no mundo. O olhar acadêmico que vamos lançar
sobre esse tema buscará revelar a sua importância nas ações cotidianas, bem como na
realização das atividades profissionais. Entender a ética como disciplina teórica que
estuda a moral, considerando suas diferentes características e dimensões, será nosso
objetivo central. Você é convidado a adentrar livremente neste campo do cognitivo
humano. A possibilidade de escolher realizar nossas aulas com dedicação e
comprometimento lhe é dada neste momento, pois a liberdade de escolha é um dos
fundamentos da ética e não podemos lhe negar essa possibilidade. Neste primeiro
capítulo, trataremos da realidade humana. Realidade que é demarcada pela situação,
liberdade e consciência. Desejamos, assim, que você tenha muito sucesso neste estudo
sobre a ética. Vamos ao trabalho!

1.1 O homem como um ser situado

Para iniciarmos nossos estudos sobre a ética, primeiramente precisamos tratar da


condição humana. Observando o fenômeno humano, o primeiro fato a constatarmos é
que o homem apresenta-se como um corpo, o qual se constitui em um tempo e espaço
concreto. A vida humana é dependente do meio, ou seja, do espaço físico que a rodeia.
Portanto, a sua existência é garantida a partir da vegetação, da fauna, do clima, do solo
etc. Destas primeiras palavras, observamos que o homem, antes de tudo, é um ser
natural.
Sobre isso, vamos analisar: será que o entendimento do homem como um ser
natural condicionado pelo meio pode explicar o que nos faz verdadeiramente humanos?
O que você acha?
O homem dá seus primeiros passos rumo à vida social quando deixa de ser
guiado por leis biológicas, condição anterior ao surgimento do homo sapiens, e passa a
se guiar por leis sócio-históricas. (LEONTIEV, 1978). Em outras palavras a vida
humana não é outra coisa senão a busca permanente de superação do condicionamento
imposto pela natureza.
Nesse processo, o homem não só modificou apenas a natureza externa, o mundo
a sua volta, mas a si próprio. À atividade intencional de transformar a natureza para
produzir os bens necessários à existência, conceitua sua ação.
Podemos dizer que é a partir das relações que os homens estabelecem entre si na
transformação da natureza que surgirão determinadas formas de condutas, ideias,
normas e princípios.
Temos então, o aparecimento da cultura que alimenta nossa vida individual e
coletiva com símbolos, mitos, crenças, valores e práticas. A cultura aparece aqui como
alicerce que sustenta o ser humano.
Por essa razão, a humanidade no homem não deriva da natureza. Ela surge de
sua relação ativa com o mundo, e a maneira como os indivíduos organizam-se em
sociedade para produzir suas próprias vidas, torna-se a base para a própria constituição
humana.
Por conseguinte, o indivíduo já ao nascer, além de uma localização geográfica,
se depara com uma época com características históricas efetivas e reais. Ele se defronta
com tradições, com uma linguagem estruturada; com costumes, crenças e significados já
definidos. Também encontram uma sociedade com instituições próprias, uma vida
econômica peculiar, uma forma de governo dentre outras. (SAVIANI, 2001).
Esse é o quadro da existência humana, em que construímos o que podemos
chamar de segunda natureza. Para auxiliar nossa compreensão, a seguir apresentamos
trecho de uma crônica de Marília Pêra, intitulada Persona.

É muito difícil ser o que se é. O que se é? Onde começa o fio dessa meada?
Esse é um dos mistérios da vida. Somos o que papai e mamãe fizeram de nós.
Ou vovô e vovó, titia, babá, professor e irmãos. Depois livros, filmes, peças,
melodias, novelas, hoje internet, nos moldam. Cores que outros artistas
pintaram em nós, eis o que se é.
Entender a vida como um projeto em constate transformação é fundamental para
nossos estudos, pois não podemos falar de normas, costumes e valores – temas
propriamente da reflexão ética – sem antes compreendermos a condição humana.
Frente à discussão que vimos fazendo, perguntamos a você: o homem é um ser
passivo ou ativo, em relação à realidade? O que você acha? Faça essa reflexão
considerando a imagem seguinte.

Disponível em: http://efectivamentesemmoralizar.blogspot.com.br/

Pois bem, a nossa vida não se passa como podemos inferir da imagem que você
analisou. Ela não é regida por forças externas das quais não temos nenhum controle;
pelo contrário, somos capazes de fazer escolhas e, sendo assim, a cada deliberação uma
vida diferente se nos aparece.
Então respondendo à indagação feita acima: o homem não é indiferente às coisas
que o cerca; isso significa dizer que ele não é um ser passivo ou determinado, mas ativo.
Não sendo refém das situações reais em que se encontra, o ser humano intervém,
reage, transforma, aceita e rejeita. Como a sua vida não está pronta ao nascer, agir
ativamente no mundo é condição para sua existência, para sua autocriação. Pois aquilo
que a natureza não nos legou, nós inventamos ou criamos.
Temos, assim, mais uma relevante observação: o ser humano se caracteriza
como autônomo e livre.
1.2 A liberdade do agir humano

A liberdade é o segundo aspecto que caracteriza a especificidade humana. O


conceito de liberdade, no âmbito da filosofia, significa a ausência de submissão, de
coerção ou de servidão. Essa é uma maneira negativa de pensar a liberdade. Mas,
também podemos conceituá-la de modo positivo: liberdade é a autonomia de agir ou
não, de aceitar ou rejeitar, de assumir pessoalmente determinadas posições.
A liberdade qualifica os atos humanos. Por conseguinte, no campo da ética
somente ao comportamento humano livre podemos atribuir valor moral. Voltaremos a
tratar deste tema nos próximos capítulos.
A liberdade não é outra coisa senão a capacidade de fazermos escolhas. E
fazemos isso da manhã à noite. Que roupas usar? Que profissão seguir? Onde estudar?
A vida cotidiana está carregada de alternativas, e quando decidimos por algo, estamos,
ao mesmo tempo, assumindo suas consequências. A escolha sempre supõe duas ou mais
alternativas.
Identificar a vida que vamos viver em detrimento de tantas outras, nem sempre é
tarefa fácil, pois é preciso considerar que nossas deliberações afetam não somente a nós,
mas aqueles que nos cercam e até mesmo a sociedade como um todo.
A pergunta a ser respondida é: se é livre aquele que escolhe o que ocorre quando
não temos alternativas? Pensemos em um exemplo: uma pessoa lhe pede emprestado
certa quantia em dinheiro, você pode decidir pelo empréstimo ou não.
Aqui estamos no campo da liberdade, pois há opção de escolha. Agora, imagine
uma pessoa com uma arma na mão mirando em você e dizendo: “é um assalto, passa a
grana”. Considerando a última situação, a que conclusão você chega?
Para que o sujeito seja responsável por suas ações, ele não pode sofrer nenhuma
pressão externa, pois quando o indivíduo se encontra sob uma força que lhe é exterior,
da qual não é fruto de uma decisão interna, perde o domínio consciente de seus atos.
Vale dizer: sem alternativas, não há escolha. Logo não há liberdade.
Assim sendo, o indivíduo é isento de responsabilidade moral quando não tiver
possibilidade de agir de outra maneira. (VÁZQUEZ, 2008)
1.3 A importância do outro

Como pessoalmente somos capazes de tomar decisões, de avaliar, de fazer


escolhas e comprometer-se com elas, assim também aquele que vive ao meu lado, perto
ou longe, é também uma pessoa e jamais uma coisa, um objeto.
A complexidade de nossas ações dá-se porque não vivemos em um mundo só
nosso, nós convivemos e nos relacionamos. Não vivemos em uma ilha deserta como
Robinson Crusoé, famoso náufrago do romance de Daniel Defoe.
Temos, então, um problema fundamental: para que possamos nos relacionar com
os outros, precisamos superar nossas próprias perspectivas, nossos interesses
individuais.
Sabemos que a atual sociedade valoriza fortemente do indivíduo. Mas, se
analisarmos cuidadosamente, hoje, também falamos de individualismo. Você saberia
explicar a diferença?
Em linhas gerais, indivíduo refere-se ao conjunto de qualidades – objetivas e
subjetivas – que nos constituí como pessoa. Já o individualismo, diz respeito ao
encerramento do sujeito em si mesmo; seus interesses pessoais sempre estão acima dos
demais ou dos outros.
Mas perguntamos a você, quem é esse outro?
O outro pode ser a pessoa que está à sua frente, um familiar, um amigo, um
estranho. Também compreendemos o outro como sendo a natureza, as ideias, as
culturas, as religiões. Por conseguinte, o outro é o mundo exterior que se apresenta a
nós a cada momento (BOFF, 2003).
A literatura nos ajuda a entender tal questão. Por exemplo: “Eu antes tinha
querido ser os outros para conhecer o que não era eu. Entendi então que eu já tinha sido
os outros e isso era fácil. A experiência maior seria ser o outro dos outros: e o outro dos
outros era eu.” (Clarice Lispector).
Nossas escolhas frente ao mundo revelam que não somos indiferentes ao outro.
O outro é sempre uma referência para a minha ação. A ética nasce quando o outro surge
diante de nós.
Desse modo, não há uma “muralha chinesa” entre o “eu” e o “tu”. Entre o “si
mesmo” e “diverso de si”. Nas palavras de Saviani (2001, p. 28): “[...] o fato de
reconhecer o valor do outro, sua liberdade, indica que o homem é capaz de transcender
sua situação e também suas opções pessoais para se colocar no ponto de vista do outro,
para comunicar-se com ele, para atuar em comum com ele”.
Em um diálogo constante, ainda que não percebamos, o meu eu vai se
construindo na relação como o outro, bem como o outro também vai se fazendo a partir
do que eu sou. Por isso, o encontro com o diferente de mim deve ser sempre celebrado e
alegrador.

1.4 A consciência

Ultrapassar a visão imediata do mundo, de como ele apresenta-se a nós com toda
a sua complexidade, exige uma atividade psíquica superior humana, qual seja: a
consciência. A consciência ao lado da situação e da liberdade caracteriza a condição
humana.
Quem nos ajuda a entender melhor essa questão é Vigotski (2009), psicólogo
russo que estudou a origem e o desenvolvimento do psiquismo humano. Para o autor, a
consciência individual é produto da unidade relacional entre indivíduo e sociedade.
Vejamos o que isso quer dizer.
Por meio da consciência podemos ultrapassar os limites situacionais e pessoais e
atuar em planos simbólicos (OLIVEIRA, 1999). Isso, por exemplo, não acontece no
mundo animal. O animal e a natureza são apenas um, não se diferenciam, sendo assim,
lhe resta apenas à adaptação.
Trazemos para essa discussão uma interessante reflexão realizada pelo
Genebrino J. J Rousseau. O texto é: “Discurso sobre a origem da desigualdade entre os
homens” e trata da especificidade do homem em relação aos demais seres da natureza.
Em sua compreensão, os animais são dotados de instintos. Um programa
existencial que herda de sua natureza. O instinto é tudo o que o animal tem e precisa
para conduzir sua vida, nas diferentes situações. O que nos permite concluir que eles já
vêm ao mundo prontos.
Seguindo seu instinto, um gato, programado para comer carne, definhará de
fome do lado de um prato de sementes. Não lhe passa pela cabeça saciar a fome com o
que lhe está sendo oferecido, esse improviso lhe escapa.
E o homem? O homem também tem instinto, afirma o iluminista Rousseau. Uma
criança, por exemplo, busca naturalmente o seio materno. No entanto, acredita que
aquilo que a natureza dá ao homem ao nascer não lhe basta para viver em sociedade,
não é suficiente. Ele sempre precisará de mais e mais e, por isso, o homem necessitará
criar sua própria vida. Algo impossível para os animais.
Pois bem, sendo o gato regido por instintos, não há outra alternativa para ele,
senão buscar atender às exigências de seu estômago. Sua ação não reflete uma escolha.
É puramente uma questão de sobrevivência.
Por outro lado, temos uma criança. Seu comportamento é tipicamente humano.
Na sua relação com o mundo, neste caso com um peixe, é capaz de atribuir valor e não
tratá-lo como alimento.
Diferente dos animais, as conquistas culturais como as ciências, as artes, a
filosofia, etc, não se fixam no cérebro do homem, portanto não são transmitidas às
novas gerações. (LEONTIEV, 1978).
Perceba, caro aluno, que o homem é um ser que nasce não-pronto e, assim, é
obrigado a ir se fazendo ao longo da vida. Nas palavras de Freire (1996, p. 33), “Só
somos porque estamos sendo”.
É justamente essa tomada de consciência de nosso inacabamento existencial que
nos põem em processo de aprendizagem, de crescimento. Diante do exposto, podemos
concluir: a consciência humana não é um dado natural ou inata. Ela constitui-se,
sobretudo, como uma conquista humana, sendo expressão das relações ativas que os
indivíduos mantêm com os outros e com o mundo a sua volta, com a sociedade.
Mas você pode questionar: todo agir do homem é consciente?
Pensemos nas tarefas que realizamos no dia a dia: na maior parte do tempo, elas
são ações espontâneas e naturais. Lembremos, por exemplo, de quando escovamos os
dentes. Essa é uma ação que pode ser feita com o pensamento em qualquer outro lugar.
Assim, não precisamos ficar contando os movimentos que fazemos em cada zona da
boca. Isso acontece naturalmente. É o que conceituamos de consciência irrefletida.
Os procedimentos que envolvem tal ação, como muitas outras, já foram
interiorizados e, em casos normais, não precisamos ficar o tempo todo refletindo,
escolhendo. Muito de nosso agir no mundo dispensa qualquer esforço de pensamento.
Contudo, a vida do homem não é feita só de comportamentos espontâneos.
Precisamos pensar para viver, recomendação filosófica por excelência, pois há
acontecimentos que interrompem o curso natural das coisas. Quando isso acontece,
deixamos de lado nossos comportamentos espontâneos e passamos a realizar uma busca
intencional que visa à compreensão dos problemas que se passam. No terreno da ética, a
consciência é entendida como a capacidade do ser humano de conhecer não apenas
valores, princípios e normas morais, mas também de aplicá-los nas diferentes situações
e de se responsabilizar por suas consequências.
O caráter livre e consciente do homem revela-se, assim, na capacidade que ele
possui de antecipar em sua consciência, os possíveis resultados de sua ação e, ao
fazemos isso, deixamos de agir “no piloto automático” e passamos a coordenar o rumo
de nossas condutas.
Sobre esta discussão, Sócrates, filósofo grego, tem uma máxima radical: "A vida
não examinada não vale a pena ser vivida". Este pensamento toma a vida por objeto de
investigação. Levar uma vida boa, isto é, coerente com os princípios éticos é a coisa
mais importante para o homem. Conseguimos isso, principalmente, por meio da
reflexão, da investigação e do exame crítico de nossos comportamentos.
Resumindo, à luz das considerações apresentadas neste primeiro capítulo,
tivemos a oportunidade de compreender o homem como um ser situado. Esperamos que
tenha ficado claro para você que a existência humana se realiza na temporalidade, isto é,
na história. Somos essencialmente históricos e, por isso, produtores do nosso próprio
jeito de ser e estar no mundo.
Podemos, assim, analisar que é da vida em sociedade que vão surgindo os
valores, as normas e os costumes que sustentam a nossa vida particular e coletiva. Vida
essa que se estrutura em três unidades básicas que se relacionam mutuamente. Você se
recorda quais são? Naturalmente que sim, são elas: a situação, a liberdade e a
consciência. Estes três elementos constituem matéria prima para a reflexão ÉTICA.