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Este documento é cópia do original, assinado digitalmente por SAMARA SCHUCH BUENO e Tribunal de Justica do Estado de Sao Paulo, protocolado em 30/07/2018 às 21:31 , sob o número WJMJ18409744228 Para conferir o original, acesse o site https://esaj.tjsp.jus.br/pastadigital/pg/abrirConferenciaDocumento.do, informe o processo 1061547-88.2018.8.26.0100 e código 4B846D9.

o processo 1061547-88.2018.8.26.0100 e código 4B846D9. JOSÉ ROBERTO OPICE BLUM RENATO MÜLLER DA SILVA OPICE BLUM

JOSÉ ROBERTO OPICE BLUM RENATO MÜLLER DA SILVA OPICE BLUM MARCOS GOMES DA SILVA BRUNO JULIANA ABRUSIO FLORÊNCIO RONY VAINZOF CAMILLA DO VALE JIMENE CAIO CÉSAR CARVALHO LIMA CELINA SOBRAL DE MENDONÇA EMELYN BÁRBARA ZAMPERLIN NASCIMENTO SAMARA SCHUCH BUENO GUILHERME CUNHA BRAGUIM RENATA YUMI IDIE CARLA SEGALA ALVES HELENA CATARINA F. COELHO DE MENDONÇA LUIS FERNANDO PRADO CHAVES MARCO JORGE EUGLE GUIMARÃES FERNANDO PAULO DA COSTA MORAIS RAMALHO RENATO GOMES DE MATOS MALAFAIA MARINA DE OLIVEIRA E COSTA GISELE AMORIM ZWICKER LUCIANA FERREIRA BORTOLOZO FERNANDA KAC MAURÍCIO ANTONIO TAMER LARISSA MARIE SANCHEZ PEREIRA DOUGLAS GUZZO PINTO ETTORE TARCISIO ZAMIDI

JOSÉ ROBERTO SPOLDARI YASMINE SILVA DE OLIVEIRA CAIO CÉSAR DE OLIVEIRA MARCELO DE CASTRO CUNHA FILHO MILENA FÓRIO PERTILE PAULA MARQUES RODRIGUES PAULO DE OLIVEIRA PIEDADE VIDIGAL PEDRO NACHBAR SANCHES CHIARA BATTAGLIA TONIN LUCAS MALDONADO DIZ LATINI

LETICIA DO POSSO RAPHAEL MARIZ ULISSES VINÍCIUS PENA DOS SANTOS THAIS APARECIDA VIEIRA BARBOSA EDUARDO SALIM CURIATI VICTOR TERRANOVA VENTURINI ISABELLI GOMES MAGDALENO MARCELLA JATOBÁ GUIDA FERNANDA MARTINS MIRANDA SOFIA TADEU APUZZO RENATA MARTINELLI RODRIGUES MARINA ALMEIDA COSTA MUÇOUCAH BEATRIZ DE CAMPOS GAZOLI RAFAEL LOURENÇO FACCHINI

fls. 100

EXMO. SR. DR. JUIZ DE DIREITO DA 16ª VARA CÍVEL CENTRAL DA COMARCA DA CAPITAL/SP

Autos nº 1061547-88.2018.8.26.0100

NS2.COM INTERNET S.A. (NETSHOES), pessoa jurídica de direito privado inscrita no CNPJ/MF n° 09.339.936/0001-16, com sede na Rua Vergueiro, n° 961, Bairro Liberdade, São Paulo/SP, CEP: 01.504-001, sendo o endereço eletrônico indicado para o recebimento de eventuais intimações o de seus patronos rony@opiceblum.com.br, samara@opiceblum.com.br, mauricio@opiceblum.com.br e paulo.vidigal@opiceblum.com.br, vem, nos autos da Ação Indenizatória por Danos Morais que lhe move HURST LTDA., por intermédio de seus advogados e bastante procuradores (doc. 01), com escritório em São Paulo/SP, na Al. Joaquim Eugênio de Lima, n.º 680, 1º andar, onde receberão futuras intimações, respeitosamente, à presença de Vossa Excelência, com fulcro no art. 335 e ss. do Código de Processo Civil, apresentar sua CONTESTAÇÃO, consubstanciada nas razões de fato e de Direito a seguir expostas:

Al. Joaquim Eugênio de Lima, 680 – 1º andar • 01403-000 São Paulo/SP – Brasil • Tel/Phone (55 11) 2189-0061 • Fax (55 11) 2189-0062

www.opiceblum.com.br

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Este documento é cópia do original, assinado digitalmente por SAMARA SCHUCH BUENO e Tribunal de Justica do Estado de Sao Paulo, protocolado em 30/07/2018 às 21:31 , sob o número WJMJ18409744228

Para conferir o original, acesse o site https://esaj.tjsp.jus.br/pastadigital/pg/abrirConferenciaDocumento.do, informe o processo 1061547-88.2018.8.26.0100 e código 4B846D9.

o processo 1061547-88.2018.8.26.0100 e código 4B846D9. fls. 101 I. SÍNTESE DA DEMANDA Trata-se de Ação de

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I. SÍNTESE DA DEMANDA

Trata-se de Ação de Indenização movida pela Autora em face da Ré em que se pleiteia a declaração de responsabilidade da Ré por suposto incidente de vazamento de dados de seus consumidores e a consequente condenação ao pagamento de indenização por danos morais no valor de R$ 10.000,00 (dez mil reais) para cada um dos consumidores cedentes representados pela empresa Autora.

Em síntese, alega a Autora que os dados confiados à Ré por seus consumidores foram expostos na Internet e que a Ré teria falhado ao não conferir a segurança necessária a tais dados e ao não agir diligentemente após o incidente, tudo a justificar a indenização pleiteada.

Entretanto, em que pese o esforço argumentativo da Autora, a demanda não deve prosperar, pois (i) preliminarmente, a Autora manifestamente carece de legitimidade ativa para a propositura da ação; e (ii) no mérito, não há provas de que os dados dos consumidores cedentes tenham sido expostos ou, ainda que tenham sido, não se verifica o dever de indenizar da Ré, diante do padrão de segurança por ela aplicado, da inocorrência de invasão aos seus sistemas, ausência de qualquer comprovação de dano e diante de sua postura de inconteste diligência.

II. PRELIMINARMENTE: DA ILEGITIMADE ATIVA DA AUTORA

O art. 17 do CPC/2015 alude à legitimação para a causa. Faltando esta legitimação, o juiz deverá indeferir liminarmente o pedido. 1

Antes de se adentrar ao mérito da causa, faz-se importante averiguar a falta de legitimidade ativa ad causam da empresa Autora.

Prescreve o Código de Processo Civil, em seu artigo 18, que “ninguém poderá pleitear direito alheio em nome próprio, salvo quando autorizado pelo

1 ALVIM, Arruda. Manual de direito processual civil: teoria do processo e processo de conhecimento, 17. ed. rev., atual. e ampl., São Paulo : RT, 2017, p. 161.

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o processo 1061547-88.2018.8.26.0100 e código 4B846D9. fls. 102 ordenamento jurídico ” . Ademais, o artigo 485,

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ordenamento jurídico. Ademais, o artigo 485, VI reza que “o juiz não resolverá

o mérito quando verificar ausência de legitimidade ou de interesse processual”.

Daí extrai-se que a regra geral, no processo civil brasileiro, é que figure como

parte o titular do direito alegado, que, portanto, pleiteará em nome próprio

direito próprio. Ou seja, a regra é que figure no polo ativo ou passivo quem

efetivamente gozar da chamada pertinência subjetiva da lide:

A legitimidade ad causam, uma das condições da ação em face do direito positivo brasileiro é definida em função dos elementos de direito material. A legitimatio ad causam é a atribuição, pela lei ou pelo sistema, do direito de ação ao autor, possível titular ativo de uma dada relação ou situação jurídica, bem como a possível sujeição do réu aos efeitos jurídicos-processuais e materiais da sentença. 2

Excepcionalmente, porém, a lei autoriza que alguém, em nome próprio,

defenda direito alheio em juízo, o que decorre de lei expressa ou do sistema

jurídico. Não se presume ou se cria ao prazer dos demandantes, como aliás,

tenta fazer a Autora nessa ação.

No presente caso, o que se verifica desde logo, é que a Autora sob a aparência

de uma cessão de crédito, em verdade, apresenta uma ação coletiva maquiada

ou travestida. Tergiversa o discurso para justificar uma legitimidade ativa que

manifestamente não possui.

Na ótica da tutela jurisdicional dos direitos transindividuais ou no trato coletivo

de direitos individuais homogêneos, como parece ser a pretensão, a

legitimidade ativa só se perfaz naquelas figuras elencadas taxativamente em lei

de forma concorrente e disjuntiva, quais sejam as entidades designadas nos

artigos 5º, XXI, 8º, III, 129, III e IX da Constituição Federal; artigo 5º da Lei

7.347/85 (Lei da Ação Civil Pública); e artigos 81, parágrafo único, III e 82, I

da Lei 8.078/90 (Código de Defesa do Consumidor).

Fato é que sob o nome de cessão de crédito o que faz a Autora é avocar

ilicitamente para si uma suposta condição de representante dos consumidores

que teriam sido atingidos pelos fatos. Propõe assim verdadeira ação coletiva

2 ALVIM, Arruda. Manual de direito processual civil: teoria do processo e processo de conhecimento, 17. ed. rev., atual. e ampl., São Paulo : RT, 2017, p. 162.

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1061547-88.2018.8.26.0100 e código 4B846D9. fls. 103 ainda homogêneos 3 , sem qualquer legitimidade para

ainda

homogêneos 3 , sem qualquer legitimidade para tanto.

que

assim

não

a

nomeie

para

tutela

de

direitos

individuais

E assim se afirma porque só são legitimados à propositura de ações coletivas aquelas entidades listadas em rol taxativo do art. 5º da Lei da Ação Civil Pública (I - o Ministério Público; II - a Defensoria Pública; III - a União, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios; IV - a autarquia, empresa pública, fundação ou sociedade de economia mista; V - a associação que, concomitantemente: a) esteja constituída há pelo menos 1 (um) ano nos termos da lei civil; b) inclua, entre suas finalidades institucionais, a proteção ao patrimônio público e social, ao meio ambiente, ao consumidor, à ordem econômica, à livre concorrência, aos direitos de grupos raciais, étnicos ou religiosos ou ao patrimônio artístico, estético, histórico, turístico e paisagístico), que são repetidos em parte no art. 82 do Código de Defesa do Consumidor.

Nesse tocante, importante ressaltar, desde logo, outras constatações que declaram a evidente ilegitimidade da Autora para o fim que pretende, o que talvez se justifique pelo próprio modelo de negócio ilegal que a pessoa jurídica demandante desenvolve, como será esclarecido na sequência, merecendo maior investigação do que a mera única página dedicada à questão na Inicial (fls. 2).

II.A DO MODELO DE NEGÓCIO ILEGAL DA EMPRESA AUTORA

Há um flagrante estado de beligerância na sociedade que explode de diversas maneiras. Vivemos dias de ira. Por trás de uma aparente serenidade, todos estamos prestes ao descontrole, basta o acenar de uma centelha, uma fagulha de contrariedade. A par dos estudos sociológicos e filosóficos sobre o fenômeno da

3 Os interesses individuais homogêneos possuem uma característica essencial que os diferenciam dos direitos difusos e direitos coletivos stricto sensu, a divisibilidade do objeto. É possível, assim o fracionamento do objeto, podendo ser definido o direito de cada um dos indivíduos. Essa classe de direitos, na palavra de Aluisio Gonçalves de Castro Mendes (2012, p. 220), é composta por “interesses ou direitos essencialmente individuais e acidentalmente coletivos” (MENDES, Aluisio Gonçalves De Castro. Ações coletivas no direito comparado e nacional. 2. ed., rev., atual. e ampl. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2010, p. 220).

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o processo 1061547-88.2018.8.26.0100 e código 4B846D9. fls. 104 pós- modernidade, a verdade é que estamos imersos

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pós-modernidade, a verdade é que estamos imersos em “nossos próprios umbigos” e, na contramão de um inspirado discurso jurídico favorável. 4

A princípio, cabe tecer algumas considerações sobre o modelo de negócio da

empresa Autora, o qual se revela ilegal, por (i) contrariar as regras estabelecidas para o exercício regular da advocacia, (ii) subverter a lógica processual da tutela de direitos coletivos e de defesa do direito ao consumidor,

bem como (iii) representar abuso ao direito de ação e ao bom funcionamento da atividade jurisdicional.

A verdade dos fatos precisa ser restabelecida e aclarada no presente caso.

A Autora, empresa constituída por ARTHUR FARACHE DE PAIVA (advogado),

CARLOS ANIBAL AMARA DE CARVALHO (consultor de TI) e DANIEL MOTTA (contador), tem como objeto social, dentre outros, a aquisição e intermediação de direitos creditórios.

Na prática, a Autora atua para supostamente facilitar o acesso de consumidores

à prestação jurisdicional. Assim, empenha-se e direciona seus discursos para identificar possíveis comportamentos empresariais que, em sua visão, constituem afronta a direitos de consumidores, para então abordar em massa os indivíduos eventualmente impactados, adquirindo mediante cessão os direitos indenizatórios, os quais passa a reclamar judicialmente.

Conforme noticiado espontaneamente pela Autora na mídia, em matéria publicada em 15 de abril de 2018 5 , referida empresa pretende viabilizar, por meio da tecnologia, a criação de “ações coletivas” de consumidores contra empresas. Nessa mesma notícia se apura que a Autora já teria auxiliado 1.900 consumidores e captado 1,2 milhões de reais em direitos a serem recebidos em ações judiciais. Além disso, a Autora já expandiu o modelo para explorar (i) a recuperação, para pequenas e médias empresas, de valores pagos a título de

4 Farias, Cristiano Chaves de. Curso de direito civil: responsabilidade civil, volume 3 / Cristiano Chaves de Farias; Nelson Rosenvald; Felipe Peixoto Braga Netto. 2. ed. rev., ampl. e atual. São Paulo: Atlas, 2015, p. 289. 5 https://exame.abril.com.br/tecnologia/robo-advogado-facilita-processos-de-consumidores- contra-empresas/. Acesso em 23.06.2018.

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o processo 1061547-88.2018.8.26.0100 e código 4B846D9. fls. 105 imposto e (ii) o ajuizamento de causas

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imposto e (ii) o ajuizamento de causas trabalhistas em favor de empregados. Pergunta-se: será que a empresa realmente auxilia os consumidores ou os atrai de forma irresponsável sob falsas promessas?

Para operacionalizar suas atividades, no que tange às causas consumeristas, a Autora se utiliza de um robô aplicação de software concebida para simular ações humanas de maneira padrão operante na mídia social Facebook, denominado “Haroldo – o Robô do Consumidor”, acessível na página https://www.facebook.com/HaroldoBot/ (todas as publicações expostas a seguir foram preservadas por Ata Notarial, o que confere fé pública ao alegado - doc. 02):

Notarial, o que confere fé pública ao alegado - doc. 02) : Na página principal da

Na página principal da Autora, https://hurst.capital, o robô Haroldo é anunciado da seguinte maneira:

doc. 02) : Na página principal da Autora, https://hurst.capital , o robô Haroldo é anunciado da

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o processo 1061547-88.2018.8.26.0100 e código 4B846D9. fls. 106 Na página do Youtube dedicada ao robô ,

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Na página do Youtube dedicada ao robô, por sua vez, há um vídeo que explica

da

usuário,

o passo

https://www.youtube.com/watch?v=0BgPRLejcw0, a seguir detalhado:

a

passo

interação

do

Passo 1. A “conversa” inicia com uma mensagem de “oi” submetida pelo usuário ao robô por meio do chat na plataforma do Facebook, que dá ensejo à resposta pré-programada que sugere ao usuário que assista ao vídeo que

explica o seu funcionamento:

que assista ao vídeo que explica o seu funcionamento: O usuário dá início à conversa com
O usuário dá início à conversa com o robô ao digitar a palavra “oi” no
O usuário dá
início à
conversa com o robô
ao
digitar
a
palavra
“oi”
no
chat
do
Facebook.

Passo 2. Em seguida, superado o vídeo, o robô pergunta ao usuário se esse pretende contar algum caso particular em que se sentiu prejudicado por alguma empresa ou se deseja ver a lista de casos de grande repercussão (Intel, Netshoes etc.). Repare-se que o robô faz menção ao caso ora discutido, face a empresa Ré, de forma direcionada e em verdadeira captação de clientela:

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1061547-88.2018.8.26.0100 e código 4B846D9. fls. 107 o usuário deseja ver a robô indaga se O lista
1061547-88.2018.8.26.0100 e código 4B846D9. fls. 107 o usuário deseja ver a robô indaga se O lista

o

usuário deseja ver a

robô indaga se

O

lista

de

“casos

de

grande

repercussão”,

incluído

o

presente

caso.

Passo 3. Se o usuário optar por

sequência de respostas automáticas que leva, finalmente, a uma página https://hurst.capital/ em que o usuário poderá firmar o malfadado contrato de cessão com a empresa Autora, utilizado no ajuizamento da causa.

lista de casos, é conduzido a uma

ver a

Além disso, para que se assegure que os consumidores tenham ciência

das

Facebook utiliza de publicações chamativas e de tom sensacionalista, para aumentar a captação da Autora, a exemplo daquela que anuncia a

URL

do

causas

que

a

Autora

pretende

ajuizar,

a

página

situação

https://www.facebook.com/HaroldoBot/posts/1862454513788999:

narrada

na

Inicial,

sustentada

pela

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o processo 1061547-88.2018.8.26.0100 e código 4B846D9. fls. 108 Ademais, chama atenção, na página do robô da

fls. 108

1061547-88.2018.8.26.0100 e código 4B846D9. fls. 108 Ademais, chama atenção, na página do robô da Autora no

Ademais, chama atenção, na página do robô da Autora no Facebook, uma série

de comentários inseridos por usuários e também por administradores da

página, em que se percebe com clareza a ilicitude que reveste a atividade da

Autora. A partir deles, nota-se, por exemplo, que a Autora nega que haja a

participação de advogados no seu quadro de atendimento e, a todo

momento, ressalta que a participação na ação judicial é totalmente

gratuita para os usuários, sendo apenas cobrado o valor de 30% (trinta

por cento) ao final, caso haja êxito:

https://www.facebook.com/HaroldoBot/posts/1862454513788999?comment_id=193

7737226260727&comment_tracking=%7B%22tn%22%3A%22R9%22%7D

7737226260727&comment_tracking=%7B%22tn%22%3A%22R9%22%7D

https://www.facebook.com/HaroldoBot/posts/1862454513788999?comment_id=193

7737226260727&reply_comment_id=1937738762927240&comment_tracking=%7B

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o processo 1061547-88.2018.8.26.0100 e código 4B846D9. fls. 109 No caso da situação narrada na Inicial, a

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1061547-88.2018.8.26.0100 e código 4B846D9. fls. 109 No caso da situação narrada na Inicial, a Autora faz

No caso da situação narrada na Inicial, a Autora faz questão de esclarecer a

todos os usuários que interagem na página que eles fariam supostamente jus a

uma indenização, prometendo por vias, ainda que indiretas, uma causa ganha

de forma totalmente irresponsável:

https://www.facebook.com/HaroldoBot/posts/1862454513788999?comment_id=193

6221329745650&comment_tracking=%7B%22tn%22%3A%22R9%22%7D

6221329745650&comment_tracking=%7B%22tn%22%3A%22R9%22%7D

https://www.facebook.com/HaroldoBot/posts/1862454513788999?comment_id=193

6221329745650&reply_comment_id=1936222016412248&comment_tracking=%7B

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%22tn%22%3A%22R9%22%7D Logo, há uma total automação da advocacia e pior, da

Logo, há uma total automação da advocacia e pior, da captação de clientela,

sendo que

consumidores são induzidos a alienarem seus direitos e pretensões

reparatórias

a

os

em

à

questão de segundos e sem

Essa

mecânica

está

a menor

longe

reflexão

com

Autora.

de cumprir

responsabilidade profissional que há na advocacia, que impõe que o advogado

pondere junto aos seus clientes os riscos da pretensão e as consequências que

poderão advir da demanda.

E é ainda mais grave que, mesmo sendo advogados, mudam o discurso nas

publicações como se não o fossem. Claramente, os profissionais que atuam

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Para conferir o original, acesse o site https://esaj.tjsp.jus.br/pastadigital/pg/abrirConferenciaDocumento.do, informe o processo 1061547-88.2018.8.26.0100 e código 4B846D9.

o processo 1061547-88.2018.8.26.0100 e código 4B846D9. fls. 110 pela Autora têm ciência da ilicitude da conduta

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pela Autora têm ciência da ilicitude da conduta e direcionam as ofertas de forma a travestir o ilícito. Nada mais espúrio em relação ao consumidor.

Aliás, desde já é importante afastar o frágil argumento de que a Autora, enquanto empresa adquirente de direitos e não dedicada à prática da advocacia, se exime da observância do dever de informar. É evidente que, voltados os contratos de cessão à propositura da demanda judicial embora maquiados de uma aparente legalidade nitidamente possuem natureza de contratos de patrocínio advocatício, sendo estendida tal obrigação à Autora.

A exemplo, em caso semelhante, a mesma Autora já atuou na captação ilícita de demandas trabalhistas. No caso, criou o robô Valentina (versão correlata do Haroldo). Em âmbito disciplinar, tal prática foi repudiada pelo IAB Instituto dos Advogados Brasileiros e pela OAB/RJ, em nota conjunta 6 que relembra que “a advocacia é atividade privativa de advogados e advogadas” e afirma que a Autora, no caso, “tenta explorar um dos efeitos mais danosos provocados pela chamada Reforma Trabalhista, qual seja, o do acesso à Justiça e ao Judiciário Trabalhista por aqueles que dependem de sua gratuidade”.

Assim, nota-se que a Autora HURST, a pretexto de facilitar o acesso à Justiça, pratica a mercantilização do exercício da advocacia, com práticas predatórias de aliciamento de clientela e estímulo à chamada Indústria do Dano Moral, à medida em que propaga, aos quatro ventos, incentivos à propositura de demandas sem ônus a consumidores que sequer sentem-se lesados.

Cumpre destacar que a presente demanda é provavelmente somente a primeira de outras muitas que pretende ajuizar a Autora face à Ré. Essa intenção, por assim dizer, multiplicadora de demandas, não só decorre do próprio modelo ilegal de negócio como também é admitida na própria página do robô Haroldo após questionamento de consumidor:

6 Disponível em http://www.migalhas.com.br/Quentes/17,MI282667,91041- IAB+e+OABRJ+denunciam+substituicao+de+advogados+por+robos+na+internet. Acesso em

29.06.2018.

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o processo 1061547-88.2018.8.26.0100 e código 4B846D9. fls. 111

fls. 111

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Este documento é cópia do original, assinado digitalmente por SAMARA SCHUCH BUENO e Tribunal de Justica do Estado de Sao Paulo, protocolado em 30/07/2018 às 21:31 , sob o número WJMJ18409744228

Para conferir o original, acesse o site https://esaj.tjsp.jus.br/pastadigital/pg/abrirConferenciaDocumento.do, informe o processo 1061547-88.2018.8.26.0100 e código 4B846D9.

o processo 1061547-88.2018.8.26.0100 e código 4B846D9. fls. 112 Nesse contexto, em um exercício de imaginação

fls. 112

Nesse contexto, em um exercício de imaginação para medir o impacto das atividades da Autora no universo processual brasileiro, admitida a presente demanda de forma ilícita e sem qualquer legitimidade ativa ou fundamento jurídico minimamente consistente invariavelmente ter-se-á um absurdo aumento de demandas a tramitar no Poder Judiciário, de forma artificial e robotizada.

Além disso, restará indiretamente validada a instauração da malfadada Indústria do Dano Moral, há tempos repudiada em nosso sistema. A Autora e seus usuários captados passarão a utilizar o Judiciário como um jogo de loteria, haja vista a demonstrada ânsia desenfreada em busca de ganhos fáceis.

ações

intentadas, pois, conforme prometido pela Autora, não arcarão com os custos judiciais e de contratação de advogado. A Autora, por sua vez, balanceará seus riscos em diversas demandas e nas suas demais atividades empresariais, de maneira a evitar prejuízos ainda que não obtenha 100% de êxito nas causas ajuizadas.

Os

usuários

não

terão

a

menor

responsabilidade

pelas

Logo, em questão de poucos anos, todo o Poder Judiciário funcionará para alimentar a sede de lucros da Autora. E, em caso de sucesso dessa ação, outras virão a atuar a partir do mesmo modelo de negócio. Ao final, o acesso à Justiça de todo o jurisdicionado estará intermediado (como um pedágio) pela Autora e demais empresas que a copiarem. Em última instância, restará corrompido todo o propósito da existência da atividade jurisdicional, que, sobrecarregada, será incapaz de atender aos que dela necessitam, para sustentar a Autora e seus clones. Em suma, o modelo de negócio da Autora, baseado na captação ilícita de clientes e na promoção repetidas de ações infundadas é manifestamente ilícito.

Isto posto, verifica-se que o modelo de negócio da Autora subverte a lógica processual existente da tutela coletiva de direitos. Em que pese insista em sua publicidade em dizer que promove “ações coletivas”, a Autora não detém legitimidade para tanto, pois não se encaixa em nenhuma das previsões legais aplicáveis, os já mencionados artigos 5º, XXI, 8º, III, 129, III e IX da

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Este documento é cópia do original, assinado digitalmente por SAMARA SCHUCH BUENO e Tribunal de Justica do Estado de Sao Paulo, protocolado em 30/07/2018 às 21:31 , sob o número WJMJ18409744228

Para conferir o original, acesse o site https://esaj.tjsp.jus.br/pastadigital/pg/abrirConferenciaDocumento.do, informe o processo 1061547-88.2018.8.26.0100 e código 4B846D9.

o processo 1061547-88.2018.8.26.0100 e código 4B846D9. fls. 113 Constituição Federal; artigo 5º da Lei 7.347/85

fls. 113

Constituição Federal; artigo 5º da Lei 7.347/85 (Lei da Ação Civil Pública); e artigos 81, parágrafo único, III e 82, I da Lei 8.078/90 (Código de Defesa do Consumidor), como se verificou acima. A lógica se inverte, pois, em vez de concentrar a tutela de muitos direitos em uma demanda, promove a pulverização de ações.

No mais, a sistemática de atuação via cessão de crédito idealizada pela Autora

se mostra contrária à lei, conforme se analisará a seguir.

Por todas essas razões, há de ser reconhecida como ilegal a atividade desenvolvida pela Autora, sendo inadmissível a utilização do modelo de negócio arquitetado para o exercício do direito de ação de consumidores na presente causa, sendo antijurídico o interesse verdadeiramente patrocinado pela Autora, por constituir ofensa ao sistema jurídico como um todo.

II.B DA INVALIDADE E INEFICÁCIA DA CESSÃO DE CRÉDITO

A Autora pauta a origem de sua legitimidade ativa na existência de contratos de cessão firmados com consumidores suspostamente afetados, suscitando uma espécie de legitimação extraordinária negocial.

O artigo 18 do Código de Processo Civil, porém, não admite a mecânica

utilizada pela Autora, ou seja, não alberga a possibilidade de que se firme um

contrato outorgando a outrem a legitimação para figurar em Juízo.

Para compreender isso, é preciso abrir as cortinas postas pelas Autora que

na

poderiam

modalidade contratual utilizada (cessão), para verificar que o modelo de negócio é claramente ilegal e inválido. E, assim sendo, o narrado negócio jurídico falece no segundo plano da escada ponteana, sendo inválido e totalmente impotente em produção de efeitos, quanto menos, minimamente apto a viabilizar a propositura e transcurso dessa demanda.

conferir

pretensa

pertinência

subjetiva,

e

se

aprofundar

Na lição de Silvio Rodrigues, “a cessão de crédito é o negócio jurídico, em geral de caráter oneroso, através do qual o sujeito ativo de uma obrigação a

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o processo 1061547-88.2018.8.26.0100 e código 4B846D9. fls. 114 transfere a terceiro, estranho ao negócio

fls. 114

transfere a terceiro, estranho ao negócio original, independentemente da

anuência do devedor. O alienante toma o nome de cedente, o adquirente o de

cessionário, e o devedor, sujeito passivo da obrigação, o de cedido7 .

O tema está regulamentado no Código Civil, nos artigos 286 e seguintes. Esse

primeiro, ao estipular condições para a validade do negócio, prescreve que “o

credor pode ceder o seu crédito, se a isso não se opuser a natureza da

obrigação, a lei, ou a convenção com o devedor; a cláusula proibitiva da

cessão não poderá ser oposta ao cessionário de boa-fé, se não constar do

instrumento da obrigação”.

Para facilitar a compreensão, Flávio Tartuce 8 esquematiza a mencionada

previsão legal em três regras, quais sejam:

1ª regra: Não é possível ceder o crédito em alguns casos, em decorrência da vedação legal como, por exemplo, na obrigação de alimentos (art. 1.707 do CC) e nos casos envolvendo os direitos da personalidade (art. 11 do CC).

2ª regra: Essa impossibilidade de cessão pode constar de instrumento obrigacional, o que também gera a obrigação incessível. De qualquer forma, deve-se concluir que se a cláusula de impossibilidade de cessão contrariar preceito de ordem pública não poderá prevalecer em virtude da aplicação do princípio da função social dos contratos e das obrigações, que limita a autonomia privada, em sua eficácia interna, entre as partes contratantes (art. 421 do CC).

3ª regra: Essa cláusula proibitiva não pode ser oposta ao cessionário de boa-fé, se não constar do instrumento da obrigação, o que está em sintonia com a valorização da eticidade, um dos baluartes do atual Código. Isso ressalta a tese pela qual a boa-fé objetiva é princípio de ordem pública, conforme o Enunciado n. 363 CJF/STJ, da IV Jornada de Direito Civil: ‘Os princípios da probidade e da confiança são de ordem pública, estando a parte lesada somente obrigada a demonstrar a existência da violação’.

Logo, a partir da primeira regra acima transcrita, que decorre diretamente da

previsão legal do artigo 286 do Código Civil, complementado pelo artigo 11 do

mesmo Diploma, que enuncia que “com exceção dos casos previstos em lei, os

direitos da personalidade são intransmissíveis e irrenunciáveis, não

vislumbra-se

podendo

claramente a impossibilidade legal da cessão articulada pela Autora.

o

seu

exercício

sofrer

limitação

voluntária”,

7 Direito Civil. 27ª ed. rev. atual. São Paulo: Saraiva, 1999, p. 291

8 Manual de Direito Civil. Volume único. 2ª ed. rev. atual. São Paulo: Método, 2012, p. 381.

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Para conferir o original, acesse o site https://esaj.tjsp.jus.br/pastadigital/pg/abrirConferenciaDocumento.do, informe o processo 1061547-88.2018.8.26.0100 e código 4B846D9.

o processo 1061547-88.2018.8.26.0100 e código 4B846D9. fls. 115 Assim, é possível tecer uma linha de raciocínio

fls. 115

Assim, é possível tecer uma linha de raciocínio sequencial que claramente

resulta na invalidade e decorrente ineficácia da cessão feita:

(i)

há manifesta violação legal na cessão do crédito feita, pois direito moral é

personalíssimo e intransmissível e a cessão vulnera, claramente, o

sistema de proteção ao consumidor;

(ii)

em assim sendo, a cessão de crédito é inválida em si considerada; e,

portanto,

(iii)

manifestamente ineficaz, inclusive para a pretensa configuração de uma

legitimidade ativa que inexiste e para promoção da presente demanda,

resultando na impossibilidade jurídica do pedido que conduz à

improcedência da demanda. Vejamos a clara ilicitude da cessão.

A um, em se tratando de cessão, por consumidores, de eventual e futura

indenização por dano moral fixada na presente ação, há incontestável

violação às normas legais mencionadas, posto que o dano moral é a lesão não

patrimonial aos direitos da personalidade dos indivíduos, e, assim,

intransmissíveis.

Nesse sentido, cite-se a brilhante Acórdão proferido pela 9 ª Turma do Tribunal

Regional do Trabalho da 2ª Região, de Relatoria da Desembargadora Federal

Jane Granzoto Torres da Silva:

Com efeito, o dano moral, objeto do conflito ora em exame, envolve os direitos da personalidade, assim entendidos como os direitos essenciais da pessoa, aqueles que formam a medula da personalidade, os direitos próprios da pessoa em si, existentes por natureza, como ente humano, ou ainda os direitos referentes às projeções da pessoa para o mundo exterior, em seu relacionamento com a sociedade. Trata-se, pois, de evidente direito personalíssimo, exercitável apenas pelo seu titular, o qual não se transmite, porquanto se extingue com a morte da pessoa natural, consoante expressamente previsto no artigo 11, do Código Civil. (TRT2, RO nº 01113200601702007, rel. Des. Jane Granzoto Torres da Silva).

De fato, considerado o caráter subjetivo e pessoal do dano moral, não há como

admitir sua transmissão. Isso porque os bens morais são inerentes ao titular,

ligados ao seu foro íntimo. Assim, é naturalmente impossível que a vítima

possa transferir suas dores e angústias para terceiros.

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Este documento é cópia do original, assinado digitalmente por SAMARA SCHUCH BUENO e Tribunal de Justica do Estado de Sao Paulo, protocolado em 30/07/2018 às 21:31 , sob o número WJMJ18409744228

Para conferir o original, acesse o site https://esaj.tjsp.jus.br/pastadigital/pg/abrirConferenciaDocumento.do, informe o processo 1061547-88.2018.8.26.0100 e código 4B846D9.

o processo 1061547-88.2018.8.26.0100 e código 4B846D9. fls. 116 E falar em impossibilidade de transferência não

fls. 116

E falar em impossibilidade de transferência não significa ignorar a existência de vítimas indiretas do evento 9 e que possam sofrer dano e gozar de legitimidade ativa. O que se diz, é que a Autora nem mesmo prejudicado indireto pode ser.

É verdade que o Superior Tribunal de Justiça já teve oportunidade de se manifestar sobre o tema, havendo entendimento no sentido de que “na ação de indenização de danos morais, os herdeiros da vítima carecem de legitimidade ativa ad causam” (REsp 302.029/RJ, 3ª Turma, Rel. Min. Nancy Andrighi, DJ de 01.10.2001); e outro no sentido de que “os pais – na condição de herdeiros da vítima já falecida estão legitimados, por terem interesse jurídico, para acionarem o Estado na busca de indenização por danos morais, sofridos por seu filho, em razão de atos administrativos praticados por agentes públicos” (REsp 324.886/PR, 1º Turma, Rel. Min. José Delgado, DJ de 03.09.2001).

Contudo, os casos que originaram o entendimento em tese aproveitável à Autora, se referem sempre ao óbito do titular do dano moral. Assim, evidente que o STJ, nessas ocasiões, se viu na difícil tarefa de fazer justiça aos familiares dos falecidos, os quais, naturalmente, não poderiam mais exercer seus direitos de ação e pleitear a devida reparação.

Impõe-se, porém, a desconstrução dessas decisões e a realização de verdadeira distinção para com o presente caso. Em suma, esse posicionamento não serve de precedente aqui, pois a ratio decidendi é manifestamente distinta.

Casos muito distintos, portanto, do ora em comento, em que os titulares da pretensão indenizatória têm plena capacidade de exercerem seus direitos, mas convenientemente e sem a devida instrução os cedem à Autora que em nenhum momento, de forma originária, é prejudicada, nem mesmo indiretamente, pelos supostos fatos narrados.

9 No caso do prejudicado indireto, ou seja, aquele que também sofreu um prejuízo em razão do dano padecido pela vítima imediata, o que faz com que outras pessoas sofram em razão direta do comportamento nocivo, como, por exemplo, quando surge o evento morte, o autor ou autores da ação será ou serão o pai, a mãe e os filhos em conjunto, ou apenas um deles figurando no vértice ativo da demanda.(SANTOS, Antonio Jeová. Dano moral indenizável, 6. ed. rev., atual. e ampl., Salvador : Juspodivm, 2016, p. 547).

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Este documento é cópia do original, assinado digitalmente por SAMARA SCHUCH BUENO e Tribunal de Justica do Estado de Sao Paulo, protocolado em 30/07/2018 às 21:31 , sob o número WJMJ18409744228

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o processo 1061547-88.2018.8.26.0100 e código 4B846D9. fls. 117 Ademais, para a transferência do direito à

fls. 117

Ademais, para a transferência do direito à indenização por dano moral no caso

de óbito do titular, há ainda a previsão legal do artigo 943, do Código Civil, que

orienta que “o direito de exigir reparação e a obrigação de prestá-la

transmitem-se com a herança”, o que – novamente não se aplica ao presente

caso, o qual não diz respeito à transmissão hereditária.

Nota-se, inclusive, que o próprio C. STJ em Informativo nº 459 sobre o tema

admite o dano moral reflexo ou por ricochete, se familiares da vítima direta são

atingidos em seu íntimo, mas assenta que se trata de direito personalíssimo:

Trata-se de REsp em que a controvérsia é definir se os pais da vítima sobrevivente de acidente de trânsito têm legitimidade para pleitear compensação por danos morais, considerando-se que, na espécie, a própria acidentada teve reconhecido o direito a receber a referida compensação por tais danos. A Turma assentou que, não obstante a compensação por dano moral ser devida, em regra, apenas ao próprio ofendido, tanto a doutrina quanto a jurisprudência têm firmado sólida base na defesa da possibilidade de os parentes do ofendido a ele ligados afetivamente postularem, conjuntamente com a vítima, compensação pelo prejuízo experimentado, conquanto sejam atingidos de forma indireta pelo ato lesivo. Observou-se que se trata, na hipótese, de danos morais reflexos, ou seja, embora o ato tenha sido praticado diretamente contra determinada pessoa, seus efeitos acabam por atingir, indiretamente, a integridade moral de terceiros. É o chamado dano moral por ricochete ou préjudice d’affection, cuja reparação constitui direito personalíssimo e autônomo dos referidos autores, ora recorridos. Assim, são perfeitamente plausíveis situações nas quais o dano moral sofrido pela vítima principal do ato lesivo atinja, por via reflexa, terceiros, como seus familiares diretos, por lhes provocar sentimentos de dor, impotência e instabilidade emocional. Foi o que se verificou na espécie, em que postularam compensação por danos morais, em conjunto com a vítima direta, seus pais, perseguindo ressarcimento por seu próprio sofrimento decorrente da repercussão do ato lesivo na sua esfera pessoal, visto que experimentaram, indubitavelmente, os efeitos lesivos de forma indireta ou reflexa, como reconheceu o tribunal de origem, ao afirmar que, embora conste da exordial que o acidente não atingiu diretamente os pais da vítima, eles possuem legitimidade para pleitear indenização, uma vez que experimentaram a sensação de angústia e aflição gerada pelo dano à saúde familiar. (STJ, Informativo 459, REsp 1.208.949- MG, Terceira Turma, Rel. Min. Nancy Andrighi, 10.12.2010)

Mas mesmo nesse caso, verifica-se que a Corte identificou nos próprios

familiares o sentimento de abalo e sofrimento de foro íntimo em razão de ato

ilícito provocado à vítima direta de quem eram parentes. Mas veja Exa. que

quem sofre o dano é o próprio familiar e o dano só ocorre em razão da

proximidade com a vítima direta, continuando a ser personalíssimo do

parente.

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Este documento é cópia do original, assinado digitalmente por SAMARA SCHUCH BUENO e Tribunal de Justica do Estado de Sao Paulo, protocolado em 30/07/2018 às 21:31 , sob o número WJMJ18409744228

Para conferir o original, acesse o site https://esaj.tjsp.jus.br/pastadigital/pg/abrirConferenciaDocumento.do, informe o processo 1061547-88.2018.8.26.0100 e código 4B846D9.

o processo 1061547-88.2018.8.26.0100 e código 4B846D9. fls. 118 A dois, uma vez mais considerada a natureza

fls. 118

A dois, uma vez mais considerada a natureza personalíssima dos direitos

cedidos, inadmissível a amarração contratual realizada. Isso porque a cessão,

em seu preâmbulo, em remissão ao artigo 893, do Código Civil, impõe aos

cedentes que a transferência do crédito implica a de todos os direitos que lhe

são inerentes.

Logo, com a transmissão ilícita os titulares prévios restam incapacitados ao

exercício dos instrumentos de proteção de seus direitos, por exemplo,

aqueles previstos no artigo 12 e 21 do Código Civil:

Art. 12. Pode-se exigir que cesse a ameaça, ou a lesão, a direito da personalidade, e reclamar perdas e danos, sem prejuízo de outras sanções previstas em lei.

Art. 21. A vida privada da pessoa natural é inviolável, e o juiz, a requerimento do interessado, adotará as providências necessárias para impedir ou fazer cessar ato contrário a esta norma.

A três, a cessão como feita vulnera claramente o sistema legal de

proteção do consumidor por vários motivos, ceifando consumidores

que, inconscientes juridicamente, são afastados de normas em tese

mais benéficas.

Vejamos, por exemplo, que a cessão sistematizada pela Autora consiste em

contrato de adesão com os consumidores cedentes, em que há previsão de

cláusulas abusivas, abaixo destacadas:

há previsão de cláusulas abusivas, abaixo destacadas: Quanto à Cláusula 1ª, essa contraria toda lógica
há previsão de cláusulas abusivas, abaixo destacadas: Quanto à Cláusula 1ª, essa contraria toda lógica

Quanto à Cláusula 1ª, essa contraria toda lógica jurídica processual brasileira,

que insere no rol de normas fundamentais do processo civil a conciliação,

mediação e outros métodos de solução consensual de conflitos (art. 3º, CPC), o

que no caso se revela inviável, dado que o cedente é obrigado a abrir mão de

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Para conferir o original, acesse o site https://esaj.tjsp.jus.br/pastadigital/pg/abrirConferenciaDocumento.do, informe o processo 1061547-88.2018.8.26.0100 e código 4B846D9.

o processo 1061547-88.2018.8.26.0100 e código 4B846D9. fls. 119 sua liberdade negocial sobre seus direitos,

fls. 119

sua liberdade negocial sobre seus direitos, atribuindo-a totalmente à Autora

cessionária. Pergunta-se, nesse contexto, como é possível alcançar os ideais erigidos na norma processual, se excluído da relação jurídica o titular, sujeito efetivamente e possivelmente impactado em sua personalidade pelos fatos narrados? Como um terceiro poderia transacionar direitos personalíssimos

intransmissíveis?

Cumpre ressaltar, ainda, que mesmo nos casos em que a legislação admite o instituto da legitimidade extraordinária alguns atos se reservam aos sujeitos

titulares do direito material, quais seja, prestar juramento, confissão, renúncia

a atos, renúncia à ação, reconhecimento da ação etc. No presente caso, portanto, inadmissível a previsão contratual imposta.

O parágrafo único da Cláusula 1ª, ao seu turno, uma vez que dispõe que a

Autora cessionária pode a qualquer tempo recusar a aquisição e transferência dos direitos do titular, afronta o princípio da inafastabilidade da jurisdição, previsto no artigo 5º, XXXV, direito público subjetivo do consumidor, pois coloca o titular a mercê da iniciativa da Autora em ingressar ou não com a demanda.

Em suma, o titular delega à empresa Autora a possibilidade de reclamar em Juízo reparação por dano moral em troca de incerto, eventual e futuro percentual sobre indenização. Contudo, caso a empresa Autora deixe de ingressar com a medida, nada poderá fazer o titular para obter a reparação pretendida, podendo esta vir a sucumbir aos efeitos da prescrição, por exemplo. Seus direitos ficam ilegalmente presos ao bel prazer da Autora. Logo, completamente desalinhada referida previsão contratual.

Por fim, a Cláusula 6ª torna irrevogável e irretratável a cessão, impossibilitando

o titular de retomar os preciosos direitos cedidos à Autora, em completo

desequilíbrio. Se a Autora, por força da Cláusula 1ª, parágrafo único, pode recusar a qualquer tempo a cessão, por que o titular não tem a mesma oportunidade? Isso só revela, mais uma vez, quão abusivo o arranjo contratual elaborado pela Autora, em prejuízo dos titulares, que não têm liberdade negocial para discutir nenhuma das cláusulas.

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o processo 1061547-88.2018.8.26.0100 e código 4B846D9. fls. 120 Desta feita, nulas as cláusulas abusivas

fls. 120

Desta feita, nulas as cláusulas abusivas constantes dos contratos de cessão

firmados, ante as previsões do Código de Defesa do Consumidor:

Art. 6º. São direitos básicos do consumidor:

VI a proteção contra a publicidade enganosa e abusiva, métodos comerciais

coercitivos ou desleais, bem como contra práticas e cláusulas abusivas ou impostas no fornecimento de produtos e serviços.

Art. 51. São nulas de pleno direito, entre outras, as cláusulas contratuais relativas ao fornecimento de produtos e serviços que:

IV - estabeleçam obrigações consideradas iníquas, abusivas, que coloquem o

consumidor em desvantagem exagerada, ou sejam incompatíveis com a boa-fé

ou a equidade.

XV - estejam em desacordo com o sistema de proteção ao consumidor.

Assim, o que se tem é que o Código de Defesa do Consumidor é flagrantemente

ignorado pela Autora que, em nome de interesses particulares e como fomento

do seu negócio escuso, aproveita da situação de vulnerabilidade técnica,

econômica e jurídica dos consumidores e forja contrato de cessão, ceifando-os

do CDC. Quem causa danos aos

da proteção jurídica

consumidores, portanto, não é a Ré, mas sim a própria Autora que

deles aproveita como verdadeiro insumo de sua atividade ilegal.

em tese posta

Destacadamente, direitos em tese dos consumidores ficam vinculados às mãos

da Autora com base em promessas de sucesso judicial, sendo que sequer pode

propor a demanda. Quer dizer, o consumidor inconsciente do seu direito e da

ausência de direito, como no mérito desse caso, confia suas esperanças em

empresa juridicamente impotente para promoção da demanda.

Ante o exposto, ainda que admitido o modelo de negócio escuso da Autora,

resulta inválida e ineficaz a cessão de crédito entabulada pela Autora e os

consumidores cedentes, seja pela impossibilidade de cessão dos direitos

personalíssimos, pela inaplicabilidade dos precedentes do Superior Tribunal de

Justiça ou, ainda, pela nulidade de cláusulas contratuais abusivas constantes

dos contratos de cessão firmados que claramente vulneram o sistema legal de

proteção ao consumidor.

II.C DAS CONCLUSÕES

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Este documento é cópia do original, assinado digitalmente por SAMARA SCHUCH BUENO e Tribunal de Justica do Estado de Sao Paulo, protocolado em 30/07/2018 às 21:31 , sob o número WJMJ18409744228

Para conferir o original, acesse o site https://esaj.tjsp.jus.br/pastadigital/pg/abrirConferenciaDocumento.do, informe o processo 1061547-88.2018.8.26.0100 e código 4B846D9.

o processo 1061547-88.2018.8.26.0100 e código 4B846D9. fls. 121 Do exposto de forma preliminar, conclui-se que a

fls. 121

Do exposto de forma preliminar, conclui-se que a Autora não tem legitimidade ativa para promover a presente ação, razão pela qual deve ser extinta sem resolução do mérito, inclusive pelo indeferimento da petição inicial pela manifesta falta de legitimidade, nos termos dos arts. 330, II, e 485, I e VI, primeira parte, do CPC, pois:

(i)

o modelo de negócio estabelecido pela Autora, em aproveitamento de consumidores, é manifestamente ilegal porque se perfaz no exercício irregular da advocacia com a indevida captação de clientela e se utiliza ilicitamente do Poder Judiciário em promoção da malfadada indústria do dano moral;

(ii)

é completamente inválida a cessão de crédito realizada e assim deve ser reconhecida por esse r. Juízo, pois está pautada na cessão de direitos morais que por serem personalíssimos são impossíveis de serem cedidos e porque vulnera a proteção jurídica aos consumidores;

(iii)

sendo vedado por lei o objeto da cessão, essa é ilícita e, por consequência, totalmente ineficaz inclusive para a pretensa configuração de uma legitimidade ativa que inexiste e para promoção da presente demanda; e

(iv)

a

cessão

de

crédito

não

confere

à

Autora

uma

legitimidade

extraordinária

para

promoção

dessa

ação

e

muito

menos

a

legitimidade ativa para intentar uma ação coletiva travestida como faz Autora nesses autos.

Posto tudo isso, não há outra direção para o presente feito, s.m.j., se não sua extinção sem resolução do mérito por falta de legitimidade ativa da Autora.

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o processo 1061547-88.2018.8.26.0100 e código 4B846D9. fls. 122 III. DO MÉRITO Ainda que V. Exa. entenda

fls. 122

III. DO MÉRITO

Ainda que V. Exa. entenda que o mérito dessa demanda deve ser debatido, o que se admite apenas por eventualidade, pois clara a falta de legitimidade da Autora, a Ré entende ser fundamental restabelecer a verdade dos fatos, sobre a qual tecerá sua defesa na sequência.

III.A DO RESTABELECIMENTO DA VERDADE DOS FATOS

Dentro da lógica de atuação predatória da Autora, de precocemente se

aproveitar de toda e qualquer notícia sobre empresas que possuem ampla base

de consumidores para lançar mão de uma de suas “ações coletivas”, há um

bom número de distorções fáticas exposto na petição inicial, as quais devem

ser corrigidas de início para que se restabeleça a verdade.

Antes de mais nada, ao contrário do que pretende fazer crer a Autora, a Ré tem

a proteção

colaboradores como um dos mais sólidos princípios de sua atuação. Como exemplo, a Ré conta com assessoria jurídica especializada em privacidade e proteção de dados, sistemas de gestão e segurança da informação adequados e frequentemente testados, além de possuir políticas internas sobre o tema, dentre outros.

e

e

segurança

de

dados

pessoais

de

seus

consumidores

Não à toa, conforme será melhor exposto adiante, a Ré adota rígidos padrões

de segurança para preservação de tais informações, os quais são considerados

avançados de acordo com a legislação, bem como com o atual estado da técnica e padrões de mercado.

Todas essas medidas perfazem a diligência, a cautela e a prudência da Ré no trato das informações e que, mesmo ainda não esteja em vigor lei geral de proteção de dados no país, estão alinhadas à exaustão com os padrões internacionais de segurança da informação, sobretudo aqueles reunidos no Regulamento Geral de Proteção de Dados Europeu e na Lei Geral Brasileira de Proteção de Dados recentemente aprovados.

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o processo 1061547-88.2018.8.26.0100 e código 4B846D9. fls. 123 Dito isso, a própria sequência de eventos contada

fls. 123

Dito isso, a própria sequência de eventos contada na inicial não condiz com a realidade, inclusive sequer houve quatro incidentes de vazamento de dados de consumidores da Ré. A forma como a Autora distorce o histórico é temerária, preocupante e até beira a má-fé.

Na verdade, o que se pôde apurar é que há um infrator com dados em sua posse e que tenta gradualmente extorquir a Ré mediante a ameaça de divulgação dessas informações, pois dessa forma acredita equivocadamente que suas chances de sucesso na tentativa de extorsão possam se elevar.

Assim, o infrator divulga em canais midiáticos, pouco a pouco, os dados que estão em sua posse. Não se fala, portanto, em quatro incidentes distintos, o que muda drasticamente o cenário descrito na inicial, mas em tentativas reiteradas e reprováveis de extorsão em face da Ré a partir de apenas um elemento de chantagem.

Também para dirimir as demais inconsistências apresentadas pela Autora e a fim de restabelecer de uma vez por todas a verdade dos acontecimentos, a Ré traz a seguir os esclarecimentos prestados à COMISSÃO DE PROTEÇÃO DOS DADOS PESSOAIS DO MINISTÉRIO PÚBLICO DO DISTRITO FEDERAL E TERRITÓRIOS, que bem delineiam os fatos até então apurados e que servem a atestar o alto grau de segurança aplicado pela Ré no manejo dos dados de seus consumidores e a diligência e cautela com que agiu desde o início. Vejamos.

Em 20.11.2017, a Ré recebeu e-mail de infrator com clara tentativa de extorsão. Por meio de tal mensagem, o remetente alegava possuir inúmeros dados de clientes da Ré, ameaçando divulgá-los na Internet. Para que tal divulgação não ocorresse, segundo o remetente, seria necessário que a empresa realizasse o pagamento de 1000 (mil) Bitcoins à determinada carteira virtual.

De pronto, diante de tal investida criminosa, a Ré requereu instauração de Inquérito Policial na DELEGACIA DE REPRESSÃO A CRIMES CIBERNÉTICOS DA SUPERINTENDÊNCIA REGIONAL DA POLÍCIA FEDERAL DO ESTADO DE SÃO

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o processo 1061547-88.2018.8.26.0100 e código 4B846D9. fls. 124 PAULO ( doc. 03 ) 1 0 ,

fls. 124

PAULO (doc. 03) 10 , a qual, em 18.12.2017, encaminhou o procedimento ao Núcleo de Corregedoria do Departamento, para emissão de parecer sobre a instauração de Inquérito Policial e início das investigações. Portanto, não houve inércia por parte da Ré com relação ao incidente, conforme faz querer crer a Autora, o que ficará claro a partir da descrição de todas as diligências adotadas pela Ré, de forma cronológica, mais a seguir.

Além disso, uma vez recebida a mensagem ilícita mencionada, a Ré realizou todos os testes pertinentes em seus sistemas, juntamente com empresa especializada, não tendo identificado qualquer indício de ataque ou vulnerabilidade, o que quer dizer que não se pode afirmar que os dados foram obtidos por meio de ataque cibernético que tenha afetado os servidores e sistemas informáticos utilizados pela Ré (doc. 04).

Portanto, não foi constatado qualquer incidente de segurança que tornasse possível relacionar a atuação criminosa do fraudador com alguma falha ou ataque cibernético nos servidores da Ré.

Importa esclarecer, ademais, que os arquivos contendo dados pessoais disponibilizados por criminoso não continham quaisquer dados sensíveis ou informações delicadas (tais como senhas, dados de cartão de crédito ou endereço).

Não obstante, preocupada com a segurança dos dados daqueles que seriam seus consumidores, diante da promessa de disponibilização ilícita por criminoso, a Ré promoveu um monitoramento técnico, em tempo real, da extensão da circularização dos dados pessoais em comento (doc. 05).

Referido monitoramento possibilitou à Ré constatar, em tempo real, a inserção de dados, de forma ilegal, apenas na plataforma PasteBin, conhecida por permitir postagens anonimizadas (sem identificação do usuário responsável) e, por isso, frequentemente utilizada por fraudadores digitais.

10 São objeto do referido Pedido de Instauração de Inquérito Policial as medidas de quebra de sigilo visando identificar o autor dos ilícitos, que, além da extorsão, expôs dados de usuários no provedor de aplicação Pastebin.

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o processo 1061547-88.2018.8.26.0100 e código 4B846D9. fls. 125 Com isso, a Ré pôde adotar imediatamente as

fls. 125

Com isso, a Ré pôde adotar imediatamente as medidas jurídicas para remover o conteúdo que expunha indevidamente na internet dados de usuários, por meio de notificação extrajudicial, conforme exemplar ora juntado (doc. 06 modelo de notificação enviada ao PasteBin).

Em suma, mesmo não tendo identificado qualquer indício de ataque cibernético nos sistemas da empresa, a Ré conseguiu junto à plataforma PasteBin A REMOÇÃO DE TODOS OS ARQUIVOS que continham base de dados pessoais atribuídas a seus consumidores expostas por criminoso de forma ilegítima, no menor tempo possível, o que, certamente, limitou a exposição de tais informações.

Além disso, cumpre à Ré esclarecer que, em que pese (i) a ausência de qualquer evidência de efetivo vazamento de dados em seus sistemas e (ii) a inexistência de obrigação legal de comunicar eventos de vazamento de dados na legislação brasileira até então vigente (o que, reitere-se, sequer pôde ser confirmado no caso em concreto), como medida de extrema boa-fé e transparência, a empresa encaminhou e-mail sobre segurança dos dados a toda sua base de clientes em decorrência do episódio ora em comento (doc. 07).

Além disso, atuando em parceria e colaboração com o MPDFT frente ao caso, a Ré continuou a manter fluxo de comunicação com todos os titulares de

ao

dados

identificados

por

e-mail,

enviando

relatórios

semanais

MINISTÉRIO PÚBLICO, a fim de que fosse possível acompanhar a evolução do envio e recebimento das mensagens aos usuários.

Adicionalmente, a Ré também disponibilizou em seu website, conforme link https://www.netshoes.com.br/guia-seguranca-digital, comunicado destinado ao público em geral, denominado “O que ocorreu no incidente de segurança de dados de 2017/2018” , o qual manteve no ar por tempo determinado pelo MPDFT, o que foi atestado em ata notarial (doc. 08).

Quanto ao formulário apresentado à Securities and Exchange Comission (SEC) citado pela Autora, a Ré esclarece que o uso do termo hacker se deu de forma

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o processo 1061547-88.2018.8.26.0100 e código 4B846D9. fls. 126 genérica, apenas e tão somente para consignar

fls. 126

genérica, apenas e tão somente para consignar que terceiro, não autorizado,

teria tido acesso a base de dados e tentou extorquir a empresa por meio

digital. Insta salientar que a ausência de violação foi inclusive reforçada no

texto do referido formulário, cabendo destacar o trecho:

(

após a conclusão de uma investigação interna levada a efeito por empresa independente de cibersegurança, não há indicação de que a infraestrutura de TI

tenha sido comprometida.

)

)

Nós confirmamos para todos os nossos consumidores e acionistas que (

Ademais, insta recordar, ainda no âmbito da colaboração da Ré com o MPDFT,

houve apresentação de exemplos de relatórios de testes de penetração

periodicamente realizados na infraestrutura da Ré por empresa especializada; e

relatório elaborado por empresa de segurança da informação, que confirma não

haver evidências de acesso externo aos sistemas da Ré (doc. 04).

Todos os esclarecimentos relacionados acima, que inclusive passaram pelo

rigoroso crivo da Comissão de Proteção de Dados do MPDFT e por tal órgão são

acompanhados, revelam a seriedade da Ré na prevenção e tratamento das

informações de seus clientes, o que corrobora com a afirmação inicial, de que

Ré tem a proteção de dados pessoais de seus consumidores e colaboradores

como um dos mais sólidos princípios de sua atuação.

III.B DA AUSÊNCIA DO DEVER DE INDENIZAR

III.B.1 DA IMPOSSIBILIDADE JURÍDICA DO PEDIDO: DA

ILEGALIDADE DA CESSÃO DE CRÉDITO

De forma objetiva, a Ré reitera a ilegalidade da cessão de crédito firmada pela

Autora, nos termos do item II.B da presente peça e sobre a qual tenta

respaldar seus pedidos.

Os arts. 17 e 485, VI, do CPC/2015 reduzem o número de condições da ação,

suprimindo a possibilidade jurídica do pedido a qual, hoje, está atrelada ao

mérito, ou seja, à procedência ou improcedência da ação. 11

11 “É certo que desapareceu a ‘possibilidade jurídica do pedido’ como condição da ação, e com razão, porque a doutrina veio a concluir que ela não era senão uma hipótese de improcedência

27

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Este documento é cópia do original, assinado digitalmente por SAMARA SCHUCH BUENO e Tribunal de Justica do Estado de Sao Paulo, protocolado em 30/07/2018 às 21:31 , sob o número WJMJ18409744228

Para conferir o original, acesse o site https://esaj.tjsp.jus.br/pastadigital/pg/abrirConferenciaDocumento.do, informe o processo 1061547-88.2018.8.26.0100 e código 4B846D9.

o processo 1061547-88.2018.8.26.0100 e código 4B846D9. fls. 127 são impossíveis juridicamente os pedidos feitos

fls. 127

são impossíveis

juridicamente os pedidos feitos dela decorrente e, portanto, se superada a falta de legitimidade ativa, o que a Ré confia que não ocorrerá, pois a ausência de tal condição da ação é manifesta, fato é que outro não pode ser o resultado senão a improcedência da demanda.

Assim, sendo ilegal a cessão de crédito, logicamente

III.B.2 DA INAPLICABILIDADE DO CÓDIGO DE DEFESA DO CONSUMIDOR À RELAÇÃO ENTRE A EMPRESA AUTORA E A RÉ

Havendo a Autora adquirido de consumidores, mediante cessão, a pretensão indenizatória ora exercida, tem-se de observar que resta descontruída a relação de consumo que havia entre a Ré e os consumidores que cederam seus direitos em favor da Autora.

A Autora, pessoa jurídica de direito privado que explora a compra e venda de direitos creditórios, não se vê diante da Ré em situação de

vulnerabilidade,

consumidor, não sendo destinatário final dos serviços da Ré, não fazendo jus portanto da arquitetura protetiva do Código de Defesa do Consumidor.

de

muito

menos

se

encaixa

no

conceito

legal

De fato, tem-se de reconhecer que, não obstante a cessão havida, os consumidores cedentes não deixam de ocupar a posição de destinatários finais dos serviços da Ré (venda e entrega de artigos esportivos), conservando a possibilidade de exigir da Ré o cumprimento de seus deveres como fornecedora.

Assim sendo, a empresa Autora, após a cessão, toma para si quando muito apenas a possibilidade de substituir referidos consumidores em Juízo em pleito indenizatório o que, como visto à exaustão é ilegal. De todo modo, o que é

manifesta, tratando-se, pois, de uma questão de mérito.” (TESHEINER, José Maria Rosa. THAMAY, Rennan Faria Krüger. Teoria geral do processo: em conformidade com o Novo CPC, 2. ed. rev., atual. e ampl., Rio de Janeiro : Forense, 2016, p. 177).

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Este documento é cópia do original, assinado digitalmente por SAMARA SCHUCH BUENO e Tribunal de Justica do Estado de Sao Paulo, protocolado em 30/07/2018 às 21:31 , sob o número WJMJ18409744228

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o processo 1061547-88.2018.8.26.0100 e código 4B846D9. fls. 128 certo e estanque de dúvidas é que INEXISTE

fls. 128

certo e estanque de dúvidas é que INEXISTE RELAÇÃO DE CONSUMO

ENTRE A AUTORA HURST E A RÉ.

Sobre isso, inclusive, o Superior Tribunal de Justiça já sedimentou

entendimento no sentido de que as condições personalíssimas do cedente não

se transferem ao cessionário, sendo inaplicável o Código de Defesa do

Consumidor nesses casos:

PROCESSUAL CIVIL, CIVIL E CONSUMIDOR. RECURSO ESPECIAL. EXCEÇÃO DE INCOMPETÊNCIA. AÇÃO DE ADIMPLEMENTO CONTRATUAL OBJETIVANDO A SUBSCRIÇÃO DE AÇÕES POR CESSÃO DE DIREITO. CESSIONÁRIO DE MILHARES DE CONTRATOS DE PARTICIPAÇÃO FINANCEIRA. DESMEMBRAMENTO DOS DIREITOS DOS CEDENTES. CONDIÇÕES

PERSONALÍSSIMAS

AO

DO

CEDENTE

QUE

NÃO

SE

TRANSFEREM

CESSIONÁRIO.

QUALIDADE

DE

CONSUMIDOR.

HIPOSSUFICIÊNCIA.

INAPLICABILIDADE

DAS

REGRAS

DO

CDC

PARA

A

DEFINIÇÃO

DE

COMPETÊNCIA.

1. A jurisprudência do STJ é firme em reconhecer a existência de relação de

consumo nos contratos para aquisição de linha telefônica com cláusula de

investimento em ações, haja vista que o contrato de participação financeira está atrelado diretamente aos serviços de telefonia.

2. Na hipótese, o recorrente é cessionário de milhares de contratos de participação

financeira e pleiteia, como ele mesmo afirma em sua inicial, "todas as diferenças havidas entre as ações entregues e as que deveriam à época terem sido, bem como todos os direitos e desdobros decorrentes dos eventos societários a que se submeteu a Companhia", tendo o acórdão recorrido asseverado que o mesmo adquiriu o direito de pleitear as ações "na qualidade de investidor" e não para "se utilizar pessoalmente dos serviços fornecidos pela empresa de telefonia". 3. Assim, houve desmembramento dos direitos dos cedentes, tendo ocorrido cessão parcial apenas daqueles referentes às diferenças entres as ações subscritas,

mantidos os direitos de uso dos serviços de telefonia pelos compradores originários. Portanto, desvinculando-se os serviços de telefonia da pretensão deduzida, não há falar em incidência dos ditames do código do consumidor e, por conseguinte, das regras conferidas especialmente ao vulnerável destinatário final. É que a mera cessão dos direitos à participação acionária acabou por afastar justamente a relação jurídica base - uso do serviço de linha telefônica - que conferia amparo à incidência do código protetor, por ser o comprador destinatário final dos referidos serviços de telefonia.

4. Ademais, é bem de ver que há condições personalíssimas do cedente que,

apesar de não impedirem a cessão, não serão transferidas ao cessionário caso ele

não se encontre na mesma situação pessoal daquele. De fato, a pessoa do credor, suas qualidades pessoais, muitas vezes possuem tamanha relevância para as condições do crédito ou para determinado tratamento peculiar que, embora não seja obstáculo para a cessão e troca da titularidade jurídica, limitará, a certo ponto, a transmissão dos acessórios que estejam diretamente vinculados a ele, é claro, desde que também não se reflitam como qualidades do cessionário.

5. No caso, o recorrente ajuizou ação objetivando adimplemento contratual em seu

domicílio - Florianópolis, Santa Catarina - por ser cessionário de milhares de contratos de participação financeira de consumidores de serviços de telefonia. Ocorre que não há falar em cessão automática da condição personalíssima de

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fls. 129

1061547-88.2018.8.26.0100 e código 4B846D9. fls. 129 hipossuficiente determinação do foro competente para o

hipossuficiente

determinação do foro competente para o julgamento. Deverá o magistrado, isto sim, analisar as qualidades deste para averiguar se o mesmo se encontra na mesma situação pessoal do cedente. Assim, afastando-se a qualidade de consumidor dos cedentes, principalmente quanto a sua hipossuficiência - condição personalíssima -, há de se aplicar, no tocante ao cessionário dos contratos de participação financeira, as regras comuns de definição do foro de competência. 6. A reapreciação da controvérsia, para infirmar a existência de conexão, tal como lançada nas razões do recurso especial, demandaria o revolvimento do conjunto fático-probatório dos autos, o que é vedado nos termos da Súmula 7 do STJ. Precedentes. 7. Recurso especial a que se nega provimento. (STJ, 4ª Turma, Recurso Especial n.º 1.266.388/SC, Rel. Min. Luis Felipe Salomão, j. 17.12.2013)

de

do

consumidor

originário

ao

cessionário

para

fins

Cumpre lembrar ainda que, mesmo em relação aos típicos consumidores, a

vulnerabilidade é uma presunção que tem de ser analisada caso a caso. Nesse

sentido, cite-se trecho de importante precedente do Superior Tribunal de

Justiça:

No âmbito do STJ, apesar de já reconhecida em diversas oportunidades a vulnerabilidade das pessoas jurídicas para efeitos de aplicação do CDC, a análise tem sido realizada caso a caso, o que não permite extrair uma definição quanto ao fato dessa fragilidade poder ou não ser genericamente presumida. (STJ, 3ª Turma, Recurso em Mandado de Segurança n.º 27.512-BA, Rel. Min. Nancy Andrighi, j.

20.08.2009)

No plano processual, igualmente não se verifica a alegada hipossuficiência da

Autora frente à Ré, pois não há disparidade técnica ou informacional entre as

partes, o que resulta na não aplicação em favor da Autora de institutos

facilitadores de defesa, como a inversão do ônus probatório.

III.B.3 DA NÃO COMPROVAÇÃO DA EXPOSIÇÃO DOS DADOS DOS

CONSUMIDORES CEDENTES

A Autora ingressa com a presente demanda representando cinco supostos

consumidores da Ré com quem firmou os contratos de cessão juntados (fls.

48/71), quais sejam, Adejulho Borges da Silva, Carlos Eduardo Pires da Silva,

Adailton da Silva, Camila de Souza Rocha, e Adaias Terto de Lima.

30

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o processo 1061547-88.2018.8.26.0100 e código 4B846D9. fls. 130 Para fins de comprovação do direito dos cedentes

fls. 130

Para fins de comprovação do direito dos cedentes à reparação pretendida, a

Autora junta a “ata digital” (fls. 82/88), lavrada em 06.12.2017, contendo

prints de página na Internet em que há lista dos dados divulgados como tendo

sido vazados da base de dados da Ré.

Na lista, cada linha se refere a um suposto consumidor afetado. Contudo, não

há, em quaisquer páginas constantes da ata digital juntada, OS NOMES

DOS CONSUMIDORES CEDENTES ORA REPRESENTADOS PELA AUTORA.

Assim sendo, a Autora não cumpre com o ônus probatório que lhe cabe, por

força do artigo 373, CPC:

Art. 373. O ônus da prova incumbe:

I ao autor, quando ao fato constitutivo de seu direito.

Dessa forma, no mérito, há de se reconhecer a ausência de provas, por parte

da Autora, quanto aos fatos constitutivos de direito, posto que não foi capaz de

demonstrar que os consumidores cedentes teriam experimentado a divulgação

de quaisquer dados em página de Internet.

Nesse tocante, cumpre colacionar julgado do TJ/DF, em que foi negado ao

consumidor pleito idêntico ao formulado pela Autora, por não cumprimento de

seu ônus probatório:

JUIZADOS ESPECIAIS CÍVEIS. CONSUMIDOR. VAZAMENTO DE

INFORMAÇÕES PESSOAIS DO BANCO DE DADOS DA RÉ. FATO NÃO COMPROVADO. ÔNUS PROBATÓRIO. ART. 333, I, CPC. RECURSO CONHECIDO E IMPROVIDO. SENTENÇA MANTIDA.

1. Com relação ao ônus probatório, impera a regra estabelecida no art. 333, I,

do CPC, segundo a qual incumbe ao autor provar o fato constitutivo do seu direito.

2. In casu, verifica-se que o autor não comprovou que seus dados pessoais

apresentar

reportagens sem efetivo conteúdo probatório. A mera presunção de que houve

vazamento de informações em razão da utilização da logo e domínio da ré não é suficiente para demonstrar o nexo causal. Ademais, não restou provado que falhas no site da ré possibilitaram o acesso aos dados dos consumidores lá cadastrados, porquanto os dados podem ter sido extraídos de inúmeros sítios da internet. Caberia ao consumidor demonstrar de forma inequívoca que as informações foram realmente retiradas do domínio da ré. Assim, têm- se como não provados os fatos constitutivos do direito do autor, nos termos do art. 333, inciso I, do Código de Processo Civil.

3. Recurso conhecido e desprovido. Sentença mantida.

foram

retirados

do

banco

de

dados

da

ré,

limitando-se

a

31

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o processo 1061547-88.2018.8.26.0100 e código 4B846D9. fls. 131 (TJ/DF, ACJ 20140110578952, 3ª Turma Recursal dos

fls. 131

(TJ/DF, ACJ 20140110578952, 3ª Turma Recursal dos Juizados Especiais do Distrito Federal, Rel. Marco Antonio do Amaral, j. 16.12.2014)

Vale pontuar que ainda está em apuração se os dados que o infrator detém e

divulga se referem a efetivos consumidores da Ré. Se as pessoas que teriam

cedido seus direitos à Autora não constam nas listas dos autos, falta

claramente prova dos fatos alegados e de que elas teriam algum vínculo à Ré.

Pergunta-se: como a ação pode ser procedente nessas condições? A resposta

só pode ser negativa.

III.B.4 DO ALTO PADRÃO DE SEGURANÇA DA RÉ E DA INOCORRÊNCIA

DE INVASÃO AOS SISTEMAS

A Autora, por diversas vezes na inicial, sugere que a Ré tenha tratado com

descaso o incidente havido, pouco se importando com a segurança das

informações que administra ou com as consequências do ocorrido. Tal

suposição não poderia estar mais distante da realidade!

Conforme amplamente debatido em colaboração com o MPDFT, as análises

técnicas conduzidas por empresas especializadas contratadas pela Ré não

identificaram a mínima evidência de incidente de vazamento de dados

diretas dos sistemas da Ré (doc. 04).

Nesse contexto, como dito, ainda se investiga se as informações são

efetivamente de consumidores da Ré e como elas teriam sido obtidas. Assim,

qualquer

até

o

presente

momento

não

pode

ser

imputado

comportamento inadequado à Ré que tenha resultado no alegado dano.

Ao contrário, a Ré demonstra e reitera seu compromisso com a ampla proteção

de dados de seus consumidores, ao adotar os rígidos e avançados padrões de

segurança, já anteriormente comentados, para preservação de tais

informações, que reúne os seguintes aspectos:

O sistema de armazenamento de dados conta com gestão de acesso e auditoria;

32

.

Este documento é cópia do original, assinado digitalmente por SAMARA SCHUCH BUENO e Tribunal de Justica do Estado de Sao Paulo, protocolado em 30/07/2018 às 21:31 , sob o número WJMJ18409744228

Para conferir o original, acesse o site https://esaj.tjsp.jus.br/pastadigital/pg/abrirConferenciaDocumento.do, informe o processo 1061547-88.2018.8.26.0100 e código 4B846D9.

o processo 1061547-88.2018.8.26.0100 e código 4B846D9. fls. 132 • Os acessos administrativos aos sistemas são

fls. 132

Os acessos administrativos aos sistemas são restritos as pessoas autorizadas,

com controle e revogação dos acessos mediante qualquer movimentação funcional

do colaborador;

Dados de cartão de crédito e/ou transações financeiras, enquanto em

processamento, são preservados sob criptografia 128 bits AES, com chave principal e auxiliar, e automaticamente excluídos após finalizada a operação. Tais dados não

trafegam expostos em nenhum momento na rede de computadores;

É utilizado protocolo SSL com criptografia TLS 1.2 para acesso aos sites

mantidos pela Ré, com cifras RSA de 2048 bits. Qualquer autenticação é feita sob

esse protocolo; e

São realizados testes periódicos trimestrais de análise de vulnerabilidades

internas e externas nas aplicações e na infraestrutura, com colaboração de empresa contratada, visando antecipar qualquer adaptação dos sistemas.

No plano legal, o Decreto nº 8.771/2016, em seu artigo 13, erigiu os padrões

de segurança e sigilo dos registros, dados pessoais e comunicações privadas,

assim dispondo:

Art. 13. Os provedores de conexão e de aplicações devem, na guarda, armazenamento e tratamento de dados pessoais e comunicações privadas, observar as seguintes diretrizes sobre padrões de segurança:

I - o estabelecimento de controle estrito sobre o acesso aos dados mediante a definição de responsabilidades das pessoas que terão possibilidade de acesso e

de privilégios de acesso exclusivo para determinados usuários;

II - a previsão de mecanismos de autenticação de acesso aos registros, usando, por exemplo, sistemas de autenticação dupla para assegurar a individualização do responsável pelo tratamento dos registros;

III - a criação de inventário detalhado dos acessos aos registros de conexão e de

acesso a aplicações, contendo o momento, a duração, a identidade do funcionário

ou do responsável pelo acesso designado pela empresa e o arquivo acessado,

inclusive para cumprimento do disposto no art. 11, § 3º, da Lei nº 12.965, de 2014;

e

IV

- o uso de soluções de gestão dos registros por meio de técnicas que garantam

a

inviolabilidade dos dados, como encriptação ou medidas de proteção

equivalentes.

Logo, demonstra-se que a Ré atende a todos os padrões impostos pela

legislação vigente.

Padrões impostos pelo Decreto

8.771/2016

Padrões aplicados pela Ré

Controle estrito sobre acesso dos dados, mediante definição de responsabilidades

Gestão de acesso e auditoria. Acesso ao sistema restrito a pessoas autorizadas,

33

.

Este documento é cópia do original, assinado digitalmente por SAMARA SCHUCH BUENO e Tribunal de Justica do Estado de Sao Paulo, protocolado em 30/07/2018 às 21:31 , sob o número WJMJ18409744228

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o processo 1061547-88.2018.8.26.0100 e código 4B846D9. fls. 133 das pessoas e privilégios de acesso exclusivos

fls. 133

das pessoas e privilégios de acesso exclusivos para determinados usuários (art. 13, I)

com controle e revogação de acessos.

Utilização de mecanismos de autenticação de acesso (ex.: autenticação dupla) (art. 13, II)

Sistemas contendo mecanismos de autenticação e autorização, com parâmetros de complexidade de senha e perfis de acesso específicos.

Criação de inventário detalhado dos acessos, contendo momento, duração, identidade do responsável pelo acesso e o arquivo acessado (art. 13, III)

Mecanismos de rastreabilidade (logs de auditoria), permitindo a identificação de origem de conexões às aplicações, bem como de ações críticas executadas nos sistemas.

Uso de soluções de gestão por meio de técnicas que garantam a inviolabilidade dos dados, como encriptação ou medidas de proteção equivalentes (art. 13, IV)

Dados de cartão de crédito e/ou transações financeiras preservados sob criptografia 128 bits AES, com chave principal e auxiliar.

Isto posto, de um lado tem-se a aplicação, pela Ré, de um alto padrão de

segurança de informação, em total cumprimento à legislação aplicável e, de

outro, a inocorrência de invasão aos sistemas da Ré, tudo a corroborar com a

higidez do proceder da Ré, a qual portanto não pode ser responsabilizada

pelo que se denominou vazamento de sua base de dados.

Assim, novamente, não havendo sido demonstrada qualquer invasão dos

sistemas da Ré, com as devidas adequações,

falar em

responsabilização.

não é possível

Aplicável, inclusive, o julgado colacionado acima, do TJ/DF, em ACJ

20140110578952, no sentido de que “não restou provado que falhas no

site da ré possibilitaram o acesso aos dados dos consumidores lá

cadastrados” e de que “caberia ao consumidor demonstrar de forma

inequívoca que as informações foram realmente retiradas do domínio

da ré”.

III.B.5 DAS DILIGÊNCIAS DA RÉ

34

.

Este documento é cópia do original, assinado digitalmente por SAMARA SCHUCH BUENO e Tribunal de Justica do Estado de Sao Paulo, protocolado em 30/07/2018 às 21:31 , sob o número WJMJ18409744228

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o processo 1061547-88.2018.8.26.0100 e código 4B846D9. fls. 134 Do mesmo modo que, preventivamente, a Ré tomou

fls. 134

Do mesmo modo que, preventivamente, a Ré tomou todas as medidas adequadas à proteção de dados de seus consumidores, após o episódio, a Ré não fez menos do que tudo o que estava ao seu alcance para mitigar eventuais impactos àqueles que seriam seus consumidores.

Todo esse arsenal de medidas foi aventado acima, no item III.A, reprisando os esclarecimentos feitos junto ao MPDFT e as medidas tomadas em conjunto com este. Abaixo, reiteram-se as diligências realizadas pela Ré:

 

DILIGÊNCIA

 

DESCRIÇÃO

1

Não Pagamento

De início, a Ré nunca ventilou a hipótese de realizar o pagamento

do

valor exigido pelo infrator, a título de extorsão, o que premiaria a

conduta ilícita praticada, e incentivaria condutas como esta.

 

Investigação

Logo após a ameaça recebida, a Ré requereu a instauração de

2

Inquérito Policial para apuração do ocorrido por autoridade competente.

 

Investigação

A

Ré realizou todos os testes pertinentes em seus sistemas,

3

juntamente com empresa especializada, não tendo identificado qualquer indício de ataque ou vulnerabilidade.

4

Monitoramento

A

Ré promoveu um monitoramento, em tempo real, da extensão da

circularização dos dados pessoais.

 

Contenção

A

Ré tomou as medidas jurídicas com sucesso para remoção

5

de

conteúdo nos sites que expunham indevidamente os dados na

Internet.

6

Comunicação

A

Ré comunicou por e-mail e telefone toda base de clientes em

decorrência do episódio.

   

A

Ré continuou a manter o fluxo de comunicação com todos os

7

Comunicação

titulares de dados identificados, enviando relatórios semanais ao MPDFT.

8

Comunicação

A

Ré disponibilizou em seu site comunicado destinado ao público

geral sobre o incidente.

35

.

Este documento é cópia do original, assinado digitalmente por SAMARA SCHUCH BUENO e Tribunal de Justica do Estado de Sao Paulo, protocolado em 30/07/2018 às 21:31 , sob o número WJMJ18409744228

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o processo 1061547-88.2018.8.26.0100 e código 4B846D9. fls. 135 Diante disso, observa-se que, diferente do que

fls. 135

Diante disso, observa-se que, diferente do que apresenta a Autora, a Ré agiu diligentemente, realizando tudo o que dela se podia esperar para afastar as consequências do incidente havido.

Inclusive, bom que se diga, a Ré foi muito além do que a lei impõe. Com efeito, no Brasil, não há em vigor uma legislação específica que cuide dos procedimentos a serem seguidos em caso de incidentes como o presente e que, nesse contexto, imponha obrigação de notificação do titular de dados, por exemplo.

Assim, diante da ausência de uma determinação legal específica, não há nada a repreender na conduta da Ré, que realizou todas as diligências que estavam ao seu alcance, bem como colaborou com o MPDFT em direção à melhor solução possível para o ocorrido, se mostrando comprometida e responsável.

Insta salientar, uma vez mais referindo-se à insistente alegação da Autora de que a Ré deveria ter comunicado seus consumidores quanto ao incidente, que até a legislação de proteção de dados mais rigorosa de que se tem notícia, o Regulamento Geral de Proteção de Dados Europeu, não obriga o controlador/processador de dados a notificar diretamente os consumidores ou autoridade competente (a qual sequer existe no Brasil), a não ser em casos em que haja elevado risco para os direitos e liberdades dos indivíduos 12 , hipótese

12 RGPD, Consideranda (85). Se não forem adotadas medidas adequadas e oportunas, a violação de dados pessoais pode causar danos físicos, materiais ou imateriais às pessoas singulares, como a perda de controlo sobre os seus dados pessoais, a limitação dos seus direitos, a discriminação, o roubo ou usurpação da identidade, perdas financeiras, a inversão não autorizada da pseudonimização, danos para a reputação, a perda de confidencialidade de dados pessoais protegidos por sigilo profissional ou qualquer outra desvantagem económica ou social significativa das pessoas L 119/16 PT Jornal Oficial da União Europeia 4.5.2016 singulares. Por conseguinte, logo que o responsável pelo tratamento tenha conhecimento de uma violação de dados pessoais, deverá notificá-la à autoridade de controlo, sem demora injustificada e, sempre que possível, no prazo de 72 horas após ter tido conhecimento do ocorrido, a menos que seja capaz de demonstrar em conformidade com o princípio da responsabilidade, que essa violação não é suscetível de implicar um risco para os direitos e liberdades das pessoas singulares. Se não for possível efetuar essa notificação no prazo de 72 horas, a notificação deverá ser acompanhada dos motivos do atraso, podendo as informações ser fornecidas por fases sem demora injustificada. RGPD, Consideranda (86). O responsável pelo tratamento deverá informar, sem demora injustificada, o titular dos dados da violação de dados pessoais quando for provável que desta resulte um elevado risco para os direitos e liberdades da pessoa singular, a fim de lhe permitir tomar as precauções necessárias. A comunicação deverá descrever a natureza da violação de dados pessoais e dirigir recomendações à pessoa singular em causa para atenuar potenciais

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Este documento é cópia do original, assinado digitalmente por SAMARA SCHUCH BUENO e Tribunal de Justica do Estado de Sao Paulo, protocolado em 30/07/2018 às 21:31 , sob o número WJMJ18409744228

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o processo 1061547-88.2018.8.26.0100 e código 4B846D9. fls. 136 que está longe da situação narrada. Mesma

fls. 136

que está longe da situação narrada. Mesma lógica é adotada pela Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) brasileira, recentemente aprovada no Congresso, segundo a qual comunicações aos titulares somente devem ocorrer “caso possa acarretar risco ou dano relevante aos titulares” (artigo 48), o que, por certo, não é o caso da base de dados ilicitamente divulgada, vez que esta não continha qualquer informação sensível ou que pudesse colocar consumidores em risco.

III.B.6 DA INAPLICABILIDADE DAS DECISÕES APRESENTADAS PELA AUTORA

Ademais, são inaplicáveis as decisões colacionadas pela Autora nos autos acerca de incidentes de exposição de dados de terceiros, vez que tratam de situações diversas da presente. Assim, por evidente distinção não são precedentes para dos fatos aqui tratados. Vejamos cada uma delas.

A) TJ/DF, Primeira Turma Recursal dos Juizados Especiais Cíveis e Criminais do Distrito Federal, Apelação Cível no Juizado Especial n.º 20060510074630, Relatora Gislene Pinheiro, j. 22.06.2007 (fls. 23/24 da Inicial).

Preliminarmente, destaca-se que a decisão já conta com mais de 11 anos, o que, por si só, afasta a correspondência contextual fática e histórica a justificar sua aplicação no presente caso.

No caso, a Ré BV Financeira ativamente disponibilizou os dados creditícios e relativos à renda mensal do consumidor em site da empresa à disposição de qualquer lojista conveniado. A Ré RBP Veículos, agravando a situação, divulgou na Internet os referidos dados, maximizando a exposição.

efeitos adversos. Essa comunicação aos titulares dos dados deverá ser efetuada logo que seja razoavelmente possível, em estreita cooperação com a autoridade de controlo e em cumprimento das orientações fornecidas por esta ou por outras autoridades competentes, como as autoridades de polícia. Por exemplo, a necessidade de atenuar um risco imediato de prejuízo exigirá uma pronta comunicação aos titulares dos dados, mas a necessidade de aplicar medidas adequadas contra violações de dados pessoais recorrentes ou similares poderá justificar um período mais alargado para a comunicação.

37

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Este documento é cópia do original, assinado digitalmente por SAMARA SCHUCH BUENO e Tribunal de Justica do Estado de Sao Paulo, protocolado em 30/07/2018 às 21:31 , sob o número WJMJ18409744228

Para conferir o original, acesse o site https://esaj.tjsp.jus.br/pastadigital/pg/abrirConferenciaDocumento.do, informe o processo 1061547-88.2018.8.26.0100 e código 4B846D9.

o processo 1061547-88.2018.8.26.0100 e código 4B846D9. fls. 137 Assim, a situação diverge – e muito –

fls. 137

Assim, a situação diverge e muito do presente caso, conforme quadro

comparativo:

TJ/DF Apelação n.º 20060510074630

Presente Caso

Rés ativamente disponibilizaram os dados creditícios e relativos à renda mensal do consumidor em site e, posteriormente, divulgaram na Internet.

Infrator alegou deter informações pessoais de consumidores (excluídas quaisquer informações de natureza financeira ou consideradas sensíveis), sem que tenha havido invasão dos sistemas da Ré ou participação desta de alguma maneira.

B) TJ/MG, 10ª Câmara Cível, Apelação Cível n.º 1.0145.12.052883-

4/001, Relatora Mariangela Meyer, j. 02.12.2014 (fls. 29/30 da Inicial).

Nesse caso, o dano moral pleiteado pela autora decorreu da cobrança indevida

a que foi submetida pela ré UOL. A ré TNL foi também condenada por repassar

à UOL os dados relativos à contratação com a autora, postura que possibilitou

que a UOL realizasse contratação ilícita, resultante na cobrança indevida.

Cumpre destacar que, no caso, o voto vencedor observou que a r. sentença

deveria ser mantida, pois “o apelante não trouxe aos autos quaisquer

elementos que pudessem comprovar a inexistência de falhas em seu sistema,

ou mesmo a culpa exclusiva do consumidor pelo vazamento de seus dados que

permitiram a cobrança indevida de serviços”. No caso, a Ré comprova

exatamente o alto nível de segurança de seus sistemas.

TJ/MG Apelação n.º 1.0145.12.052883-4/001

Presente Caso

Houve compartilhamento entre empresas parceiras de informações cadastrais de consumidor que resultou em cobrança indevida.

Infrator alegou deter informações pessoais de consumidores (excluídas quaisquer informações de natureza financeira ou consideradas sensíveis), sem que tenha havido invasão dos sistemas da Ré ou participação desta de alguma maneira.

A

empresa responsabilizada não

demonstrou a inexistência de falhas em

seu

sistema

 
 

A Ré comprovou o alto nível segurança de seus sistemas.

de

38

.

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o processo 1061547-88.2018.8.26.0100 e código 4B846D9. fls. 138 Assim, em que pese o esforço argumentativo da

fls. 138

Assim, em que pese o esforço argumentativo da Autora, os casos trazidos à baila, se minuciosamente analisados, revelam não se encaixarem à

a

situação

fundamentar eventual responsabilização da Ré.

presente,

pelo

que

não

podem

ser

considerados

III.B.7. DA RESPONSABILIDADE SUBJETIVA DA RÉ

Diante do padrão de segurança aplicado pela Ré aos dados que lhe foram confiados por seus consumidores, bem como do grau de diligência com que a Ré agiu desde o primeiro momento em que soube da tentativa de extorsão, está mais do que demonstrada a ausência de responsabilidade da Ré. Entretanto, como o tema é relativamente novo, carecendo de previsão legal específica em nosso ordenamento, compete tecer considerações, a demonstrar que a responsabilidade, de modalidade subjetiva, não se verifica no presente caso.

Cumpre destacar que nosso país vive um comemorado momento, em que se vê próximo da entrada em vigor de uma lei geral de proteção de dados, que deverá nos tirar do cenário de atraso regulatório. Como já mencionado, referida Lei Geral de Proteção de Dados encontra-se, atualmente, aprovada pelo Congresso Nacional e assim dispõe em seus artigos 42, 43 e 44:

Art. 42. O controlador ou o operador que, em razão do exercício de atividade de tratamento de dados pessoais, causar a outrem dano patrimonial, moral, individual ou coletivo, em violação à legislação de proteção de dados pessoais, é obrigado a repará- lo.

Art. 43. Os agentes de tratamento só não serão responsabilizados quando provarem:

I que não realizaram o tratamento de dados pessoais que lhes é atribuído;

II que, embora tenham realizado o tratamento de dados pessoais que lhes é atribuído, não houve violação à legislação de proteção de dados;

III que o dano é decorrente de culpa exclusiva do titular dos dados ou de terceiro.

Art. 44. O tratamento de dados pessoais será irregular quando deixar de observar a legislação ou quando não fornecer a segurança que o titular dele pode esperar, consideradas as circunstâncias relevantes, entre as quais:

I o modo pelo qual é realizado; II o resultado e os riscos que razoavelmente dele se esperam;

III as técnicas de tratamento de dados pessoais disponíveis à época em que foi

realizado.

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Para conferir o original, acesse o site https://esaj.tjsp.jus.br/pastadigital/pg/abrirConferenciaDocumento.do, informe o processo 1061547-88.2018.8.26.0100 e código 4B846D9.

o processo 1061547-88.2018.8.26.0100 e código 4B846D9. fls. 139 Parágrafo único. Responde pelos danos decorrentes

fls. 139

Parágrafo único. Responde pelos danos decorrentes da violação da segurança dos dados o controlador ou o operador que, ao deixar de adotar as medidas de segurança previstas no art. 46 desta Lei, der causa ao dano.

Inicialmente, relembra-se não ser o caso de se aplicar o Código de Defesa do Consumidor, diante do que se argumentou no item III.B.2 acima, posto que não há relação de consumo entre a empresa Autora e a Ré.

Logo, a partir dos dispositivos destacados acima, ressalta-se que o legislador, ao debruçar-se sobre a específica e complexa atividade de tratamento de dados, achou por bem fixar parâmetros de responsabilidade subjetiva aos agentes de tratamento, pois não seria cabível a responsabilidade objetiva, sobretudo considerando o contexto técnico das atividades desenvolvidas em ambiente online.

Assim, o surgimento da responsabilidade vê-se ligado à demonstração de que teria havido “violação à legislação de proteção de dados” ou, ainda, a ausência de adoção “das medidas de segurança”, tudo à luz do estado da arte e das obrigações existentes quando do tratamento.

No caso presente, a Ré demonstra, nos itens III.B.4 e III.B.5 acima, ter agido além do que dela se poderia esperar, sendo impossível atribuir a ela qualquer violação à legislação existente ou desídia no que tange aos seus deveres enquanto controladora de dados.

Ressalta-se, a título de comparação e referência, que neste mesmo sentido estabelece a legislação europeia de proteção de dados (GDPR), que assim enuncia:

Art. 82.

1. Qualquer pessoa que tenha sofrido danos materiais ou imateriais devido a uma

violação do presente regulamento tem direito a receber uma indenização do responsável pelo tratamento ou do subcontratante pelos danos sofridos.

2. Qualquer responsável pelo tratamento que esteja envolvido no tratamento é

responsável pelos danos causados por um tratamento que viole o presente regulamento ( )

Isto posto, inaplicável a lógica da responsabilidade objetiva arguida pela

Ré pressupõe a

Autora, uma vez

que

a

natureza

da

atividade

da

40

.

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o processo 1061547-88.2018.8.26.0100 e código 4B846D9. fls. 140 responsabilidade subjetiva, a qual não se

fls. 140

responsabilidade subjetiva, a qual não se verifica, diante do rigoroso cumprimento, por parte da Ré, de seus deveres à luz da legislação existente.

III.B.8 DA INEXISTÊNCIA DE DANO AOS CONSUMIDORES

No que tange aos danos eventualmente acarretados pelo incidente de divulgação de dados narrado na inicial, a princípio tem-se que os consumidores que cederam suas posições processuais à Autora sequer comprovaram a exposição de seus dados em página na Internet, conforme exposto no item II.B.3 acima.

Não obstante, ainda que fosse comprovada a efetiva exposição, insta salientar que a Autora não trouxe aos autos qualquer prova de que tais dados tenham sido utilizados para o cometimento de fraudes por terceiros, o que configuraria dano real.

Não à toa, a Autora se restringe a alegações vazias de que os consumidores cedentes estariam expostos “a inúmeros tipos de golpes e fraudes”, sem evidência de que efetivamente tenha ocorrido qualquer uma delas, mesmo porque sequer poderia ser estabelecida qualquer relação direta entre “golpes e fraudes” e a disponibilização indevida de dados em referência, vez que não houve exposição de senhas e logins, nem de dados de cartões de crédito.

De fato, tendo o incidente ocorrido em dezembro do ano de 2017, ou seja, há mais de 6 meses, somente o fato da Autora não ter mencionado em sua inicial a ocorrência de uma única fraude em que se tenha utilizado os dados alegadamente vazados já demonstra a inocorrência do alegado dano. Assim, não havendo dano, não há que se falar em reparação.

Na verdade, o que se verifica na Inicial é a utilização de linguagem sensacionalista, vazia, pouco técnica e em lamentável tom jocoso pela Autora, a qual confia piamente no que foi publicado pela imprensa e apela para termos genéricos e especulações. Por exemplo, a Autora taxa o ocorrido, segundo critério próprio e não esclarecido, como “o maior incidente de segurança ocorrido no Brasil”, sem que apresente qualquer justificativa para tanto.

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o processo 1061547-88.2018.8.26.0100 e código 4B846D9. fls. 141 Indaga- se como poderia ser este “o maior

fls. 141

Indaga-se como poderia ser este “o maior incidente de segurança”, se –

conforme demonstrado não se detectou qualquer invasão nos sistemas da

Ré? Além disso, indaga-se de que forma se mede um incidente desse gênero

em termos de grandiosidade? Em razão da quantidade de dados vazados, da

sensibilidade dos dados ou dos efetivos prejuízos acarretados? Nada disso é

esclarecido.

Em outro trecho, a Autora especula que a Ré teria optado por comunicar seus

consumidores por meio de ligação telefônica, opção supostamente mais

custosa, no pretenso intuito de diminuir a existência de provas em favor dos

consumidores, o que está longe de condizer com a verdade! Ao contrário do

que sugere a Autora, a Ré estabeleceu diversos canais de comunicação, de

forma a assegurar que os consumidores tivessem ciência do ocorrido, inclusive

por comunicados escritos (e-mails e postagens em seu site).

No que tange à espécie de dados expostos, divaga a Autora: “como pode se

confiar que foram apenas esses dados? Há inúmeros cedentes da Autora que se

queixam de compras irregulares realizadas em sites nunca acessados. E se os

dados bancários e de cartão de crédito foram juntos?” Nesse ponto, a audácia

da Autora beira a má-fé, vez que ela mesma reconhece não ter havido

exposição de dados de cartões de crédito:

https://www.facebook.com/HaroldoBot/posts/1862454513788999?comment_id=1

939285406105909&reply_comment_id=1939288486105601&comment_tracking=

%7B%22tn%22%3A%22R9%22%7D

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o processo 1061547-88.2018.8.26.0100 e código 4B846D9. fls. 142 Assim, a postura da Autora revela a fragilidade

fls. 142

1061547-88.2018.8.26.0100 e código 4B846D9. fls. 142 Assim, a postura da Autora revela a fragilidade de seus

Assim, a postura da Autora revela a fragilidade de seus argumentos e o caráter aventureiro da demanda, na qual, demonstrando pouco compromisso com a verdade, a Autora aposta que um dos tantos argumentos randômicos lançados convença V. Exa. de que há mérito em seu pedido, algo que fosse evidente não exigiria tal estratégia apelativa.

Além disso, ressalta-se que a retirada pela Autora dos efetivos consumidores do polo ativo impossibilita ao julgador perquiri-los quanto aos eventuais danos sofridos, uma vez que resta apenas as amplas e genéricas alegações da Autora, não sustentadas pelo eventual depoimento daqueles que seriam os reais titulares dos dados.

Por fim, no que tange à alegação da Autora de que os danos morais seriam presumidos (in re ipsa), cumpre destacar que não é este o entendimento constante da legislação de proteção de dados projetada, PLC 53/2018, já aprovada no Congresso, ou da repercutida legislação europeia que cuida da matéria (GPDR).

Ambas, ao fixarem a responsabilidade dos agentes de tratamento (conforme regras expostas no item III.B.7 acima), a condicionam a existência de efetivo

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Este documento é cópia do original, assinado digitalmente por SAMARA SCHUCH BUENO e Tribunal de Justica do Estado de Sao Paulo, protocolado em 30/07/2018 às 21:31 , sob o número WJMJ18409744228

Para conferir o original, acesse o site https://esaj.tjsp.jus.br/pastadigital/pg/abrirConferenciaDocumento.do, informe o processo 1061547-88.2018.8.26.0100 e código 4B846D9.

o processo 1061547-88.2018.8.26.0100 e código 4B846D9. fls. 143 dano moral ou patrimonial aos titulares dos dados

fls. 143

dano moral ou patrimonial aos titulares dos dados diretamente decorrentes da violação da segurança dos dados.

Isto posto, mais uma vez, não tendo havido violação à legislação vigente, invasão de sistemas ou, ainda, desídia no atendimento ao incidente, não há que se falar em responsabilidade da Ré. Ademais, não tendo sido demonstrado qualquer dano por parte da empresa Autora, sequer há o que se reparar.

III.C DO VALOR DE EVENTUAL INDENIZAÇÃO

Em que pesem as alegações acima, que isentam a empresa Ré de qualquer responsabilidade ante os seus consumidores sobre o alegado incidente de vazamento de dados, caso não seja esse o entendimento de V. Exa., o que se admite apenas por amor ao argumento, o valor de eventual indenização deve ser mensurado em patamar adequado, a partir de critérios de proporcionalidade

e razoabilidade.

Ao avaliarem-se os valores pleiteados pela empresa Autora em sua inicial, não há como deixar de lado a real pretensão da referida empresa com a presente demanda, abordada no item I.A acima, qual seja: a de a pretexto de propiciar o acesso à Justiça a consumidores indefesos instaurar a Indústria do Dano Moral no seio do Judiciário brasileiro, capitaneando uma legião de pessoas para obter volumosa indenização e tornar o exercício do direito de ação um rentável nicho de negócio.

Conforme confessa a Autora, em sua publicidade em mídias sociais, a presente demanda se trata apenas de um primeiro teste ao seu modelo de negócio. Na base da tentativa, a Autora especula no Judiciário paulista, escorando-se em alegados consumidores, enquanto torce e espera iludir os

ilustres julgadores, para então distribuir outras tantas demandas idênticas com

a força de um precedente a seu favor.

Nesse contexto, a indenização servirá a validar o modelo abusivo e ilegal de negócio estabelecido pela Autora. Por isso, de rigor que o valor fixado não dê suporte a se instaurar a Indústria do Dano Moral, como pretende a Autora.

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Para conferir o original, acesse o site https://esaj.tjsp.jus.br/pastadigital/pg/abrirConferenciaDocumento.do, informe o processo 1061547-88.2018.8.26.0100 e código 4B846D9.

o processo 1061547-88.2018.8.26.0100 e código 4B846D9. fls. 144 Além disso, lembra-se o ponto tratado no item

fls. 144

Além disso, lembra-se o ponto tratado no item II.B.3, de que a Autora não foi capaz de demonstrar que os consumidores cedentes que ora representa experimentaram a exposição de quaisquer de seus dados em página de Internet.

Ademais, verifica-se que os dados alegadamente vazados não justificam o alto valor pleiteado pela Autora. Isso porque é inconteste não terem sido expostos dados de natureza bancária, que poderiam ser utilizados por terceiros para o cometimento de fraude contra os consumidores ou, então, dados considerados sensíveis, os quais teriam potencial de causar danos mais intensos em situação de mau uso, que revelam elementos mais profundos da personalidade dos consumidores, como sua posição política, ideológica, sexual, relacionados à saúde, origem racial, étnica e genética 13 .

Além disso, fóruns especializados em tecnologia elucidam que os dados detidos pelo agente de extorsão são usualmente vendidos, em mercados negros na Internet, ao valor de US$ 1 (um dólar) por cada conjunto de um titular, o que significa R$ 3,92 (três reais e noventa e dois centavos) 14 , valor extremamente distante daquele pleiteado pela empresa Autora a título indenizatório.

Ainda que se tratassem de dados críticos, como de cartões de crédito, o valor de venda nos confins da Internet não seria tão elevado. Uma vez mais, estudos especializados apontam que 10 conjuntos de credenciais de cartões de crédito

13 O assunto é tratado no art. 5º do Anteprojeto de Proteção de Pessoais em seu art. 5º, inc. I (dado pessoal: dado relacionado à pessoa natural identificada ou identificável, inclusive a partir de números identificativos, dados locacionais ou identificadores eletrônicos) e III (dados sensíveis: dados pessoais que revelem a origem racial ou étnica, as convicções religiosas, filosóficas ou morais, as opiniões políticas, a filiação a sindicatos ou organizações de caráter religioso, filosófico ou político, dados referentes à saúde ou à vida sexual, bem como dados genéticos). É possível ver também o conceito de dado pessoal no art. 4º, inc. IV da Lei de Acesso à Informação (Lei 12.527/2011) e o conceito de dado sensível, ou informação sensível, no art. 3º, §3ª, inc. II da Lei do Cadastro Positivo (lei 12.414/2011). A mesma classificação, com pequenas variações, é usada praticamente em todos os países que regulam a proteção de dados pessoais. 14 https://canaltech.com.br/hacker/na-deep-web-seus-dados-pessoais-valem-us-1-para-

hackers-49675/.

em

05.07.2018.

seguranca/08/08/2017/trend-micro-investiga-destino-de-dados-roubados-on-line/.

http://tiinside.com.br/tiinside/seguranca/mercado-

Acesso

em

05.07.2018.

Acesso

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Para conferir o original, acesse o site https://esaj.tjsp.jus.br/pastadigital/pg/abrirConferenciaDocumento.do, informe o processo 1061547-88.2018.8.26.0100 e código 4B846D9.

o processo 1061547-88.2018.8.26.0100 e código 4B846D9. fls. 145 são adquiridos ao preço médio de R$ 200,00

fls. 145

são adquiridos ao preço médio de R$ 200,00 (duzentos reais), o que resulta em R$ 20,00 (vinte reais) para cada credencial 15 .

No plano jurisprudencial, em casos que trouxeram consequências preocupantes aos titulares dos dados (bem diferentes do presente caso, em que não há notícias de qualquer repercussão desse gênero), houve fixação de valores mais modestos do que os pleiteados pela Autora:

Pagamento através de boleto objeto de fraude. Obrigação de envio do boleto à residência da consumidora que faz parte da atividade do RÉU. Interceptação da correspondência com substituição ou vazamento de dados que permite a confecção de fatura de cobrança idêntica a original, acompanhada de boleto fraudado, que geram responsabilização do RÉU por representar falha no serviço prestado. RÉU que responde pelos danos decorrentes. Danos materiais correspondentes ao valor pago indevidamente pela AUTORA, que deve ser restituído na forma simples visto que não se cuidou de cobrança indevida perpetrada pelo RÉU. Danos morais presentes, decorrentes da preocupação e aborrecimentos gerados pela AUTORA em razão do ocorrido, além da permanente insegurança vivenciada pela fragilidade de segurança do serviço prestado pelo RÉU. Indenização a ser arbitrada, em atenção aos princípios da razoabilidade e da proporcionalidade em R$ 3.000,00. Provimento parcial do recurso.

(TJ/RJ, 3ª Turma Recursal dos Juizados Especiais Cíveis, RI 0279995- 80.2017.8.19.00001, Rel. Paulo Mello Feijó, j. em 26.03.2018)

APELAÇÃO Ação de repetição do indébito e indenização por danos morais Legitimidade passiva dos correqueridos Falha nos serviços bancários Vazamento de informações sigilosas que deu azo a atos fraudulentos Emissão de boleto falso no site do corréu Valores que, em vez de pagar a parcela em questão, foram destinados a conta de terceiros estelionatários Fraude caracterizada Responsabilidade civil objetiva das instituições financeiras Súmula 479 do Superior Tribunal de Justiça Deverá o autor ser ressarcido do valor referente ao pagamento da parcela Danos morais configurados Autor que foi vítima de fraude, tendo de arcar com o pagamento em duplicidade da parcela contratual Danos morais adequadamente fixados em R$ 2.000,00, dadas as particularidades do caso em testilha Honorários sucumbenciais mantidos, pois que os correqueridos deram causa ao ajuizamento da demanda Recursos dos corréus desprovidos.

(TJ/SP, 24ª Câmara de Direito Privado, 0006962-34.2015.8.26.0642, Rel. Jonize Sacchi de Oliveira, j. em 05.10.2017)

RECURSO INOMINADO. CONSUMIDOR. AÇÃO DE INDENIZAÇÃO POR DANOS MORAIS. EXPOSIÇÃO EM REDES SOCIAIS. VAZAMENTO DE DADOS DE CADASTRO DE ALUNA. UTILIZAÇÃO INDEVIDA POR TERCEIROS. FALHA NA PRESTAÇÃO DE SERVIÇO QUE CONTRIBUIU À SITUAÇÃO CONSTRAGEDORA DA ALUNA/PARTE AUTORA. CARACTERIZADO O DEVER DE INDENIZAR. PEDIDO PROCEDENTE EM PARTE. QUANTUM FIXADO A TÍTULO DE DANOS MORAIS EM

15 Trend Micro. Subindo na Hierarquia: o Submundo Cibercriminoso Brasileiro em 2015.

Disponível

content/br/pdfs/141117_mercadosubmundobr.pdf. Acesso em 05.07.2018.

http://www.trendmicro.com.br/cloud-

em

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Este documento é cópia do original, assinado digitalmente por SAMARA SCHUCH BUENO e Tribunal de Justica do Estado de Sao Paulo, protocolado em 30/07/2018 às 21:31 , sob o número WJMJ18409744228

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o processo 1061547-88.2018.8.26.0100 e código 4B846D9. fls. 146 R$ 7.000,00 MINORADO PARA R$ 3.000,00. SENTENÇA

fls. 146

R$ 7.000,00 MINORADO PARA R$ 3.000,00. SENTENÇA PARCIALMENTE REFORMADA. RECURSO PROVIDO EM PARTE.

(TJ/RS, Primeira Turma Recursal Cível, Recurso Cível n. º 71007601172 RS, Rel. Fabiana Zilles, j. em 24.04.2018)

Assim, totalmente descabido o montante pleiteado pela Autora, de R$ 10.000,00 (dez mil reais), o qual deverá ser consideravelmente reduzido, a partir do prudente arbítrio de V. Exa., considerado o propósito da empresa Autora de utilização do Judiciário como fonte de lucro; o valor de mercado das informações, de R$ 3,92 (três reais e noventa e dois centavos) para cada usuário, bem como os precedentes colacionados, que em situações que desencadearam reais consequências aos titulares dos dados fixaram valores indenizatórios 5 vezes menores do que os pleiteados.

IV. DA DISPENSA DA AUDIÊNCIA DE CONCILIAÇÃO

No que tange à conciliação, a Ré reconhece que essa se revela uma nobre possibilidade às partes para esvaziar o Judiciário do expressivo volume de demandas e trazer satisfação aos litigantes, sem que tenha de ser imposta uma decisão do Estado Juiz.

Contudo, no presente caso, por tudo o que se argumentou, verifica-se que a empresa Autora abusa do exercício do direito de ação, para coagir a Ré a remunerar sua empreitada e fazer valer seu modelo de negócio escuso.

Tanto é assim que a Autora divulga aos seus adeptos que sua intenção é realizar um acordo, para driblar os trâmites naturais do processo, como vê-se na publicação abaixo exposta em sua página do Facebook:

https://www.facebook.com/HaroldoBot/posts/1862454513788999?comment_id=194194

7179173065&reply_comment_id=1941953712505745&comment_tracking=%7B%22tn

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Para conferir o original, acesse o site https://esaj.tjsp.jus.br/pastadigital/pg/abrirConferenciaDocumento.do, informe o processo 1061547-88.2018.8.26.0100 e código 4B846D9.

o processo 1061547-88.2018.8.26.0100 e código 4B846D9. fls. 147 Portanto, a Autora se utiliza da autocomposição,

fls. 147

1061547-88.2018.8.26.0100 e código 4B846D9. fls. 147 Portanto, a Autora se utiliza da autocomposição, assim,

Portanto, a Autora se utiliza da autocomposição, assim, como verdadeira técnica de venda comercial de seu modelo ilícito de negócio.

Assim, em que pese a admiração da Ré pelos métodos consensuais de resolução do conflito, como forma eficiente e célere, no caso a Ré não admite que a aventura da Autora tenha efeito, razão pela qual declina da possibilidade

de

acordo, sem, portanto, a designação de audiência para esse fim.

V. DO SEGREDO DE JUSTIÇA

artigo 23 do Marco Civil da Internet prevê que cabe ao juiz tomar as

providências necessárias para garantir o sigilo das informações recebidas por

meio de ação judicial, bem como para preservar a intimidade e privacidade do usuário cujos dados sejam divulgados, sendo possível, para tanto, a determinação de segredo de justiça. 16

O

Paralelamente, é a previsão analógica do art. 773 do CPC, segundo o qual “O juiz poderá, de ofício ou a requerimento, determinar as medidas necessárias ao cumprimento da ordem de entrega de documentos e dados. Parágrafo único. Quando, em decorrência do disposto neste artigo, o juízo receber dados

16 Lei 12.965/14. Artigo 23: “Cabe ao juiz tomar as providências necessárias à garantia do sigilo das informações recebidas e à preservação da intimidade, da vida privada, da honra e da imagem do usuário, podendo determinar segredo de justiça, inclusive quanto aos pedidos de guarda de registro”.

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o processo 1061547-88.2018.8.26.0100 e código 4B846D9. fls. 148 sigilosos para os fins da execução, o juiz

fls. 148

sigilosos para os fins da execução, o juiz adotará as medidas necessárias para assegurar a confidencialidade.”.

Verifica-se que a Autora acosta, à peça Inicial, ata digital que contém lista de dados alegadamente vazados de consumidores da Ré, os quais antes dos esforços realizados pela Ré para remoção com sucesso estiveram expostos em página na Internet. Vale dizer, referida lista contém dados de consumidores que sequer estão representados pela Autora; os quais não fazem parte portanto da relação processual. Assim, não faz o menor sentido manter acessível, nos presentes autos, as informações presentes em tais listas, sob pena de ocasionar prejuízos à privacidade e intimidade dos consumidores a que dizem respeito.

Ademais, requer-se, desde logo, o trâmite deste processo judicial seja realizado sob segredo de justiça, nos termos dos artigos 5º, incisos X e LX, e 93, IX, da CF/88, arts. 189 e 773, p. ú. do CPC, e art. 23 do Marco Civil da Internet.

VI. DOS PEDIDOS

Diante do exposto, a Ré requer:

1. Seja dispensada a audiência de conciliação ou de mediação prevista no

art. 334 do Código de Processo Civil, nos termos do seu §4º;

2. O trâmite do processo em segredo de justiça, nos moldes dos artigos 5º,

incisos X, XXXIII e LX, e do art. 93, IX, da Constituição Federal, bem como artigos 189 e 773 do Código de Processo Civil e artigo 23 da Lei 12.965/14;

3. Preliminarmente, ante a manifestada ilegitimidade ativa da empresa Autora, seja extinto o processo, sem julgamento do mérito, nos moldes do artigo 485, VI, do Código de Processo Civil, com a condenação da Autora ao pagamento das custas judiciais e honorários advocatícios em grau máximo;

4. No mérito, A IMPROCEDÊNCIA TOTAL dos pedidos iniciais, com a

condenação da Autora ao pagamento das custas judiciais e honorários advocatícios, a partir do acolhimento das razões expostas nesta Contestação,

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o processo 1061547-88.2018.8.26.0100 e código 4B846D9. fls. 149 que demonstram (i) que a cessão feita é

fls. 149

que demonstram (i) que a cessão feita é ilícita de modo que os pedidos feitos

são juridicamente impossíveis; e (ii) não haver provas de que os dados dos

consumidores cedentes tenham sido expostos ou, ainda que tenham sido, não

se verificar o dever de indenizar da Ré, diante da ausência de qualquer dano,

do alto padrão de segurança por ela aplicado, da inexistência de invasão de

seus sistemas e diante de sua postura de inconteste diligência;

5. Subsidiariamente, na remota hipótese de V. Exa. entender que a Autora tem

legitimidade ativa e que seus pedidos são possíveis e procedentes, que o valor

indenizatório seja reduzido a patamar mínimo, proporcional e razoável, a não

fomentar a indústria de dano moral em que se baseia o modelo de negócio da

Autora.

Protesta provar o alegado por todos os meios de prova em direito admitidos,

sem exceção, em especial prova pericial, juntada de documentos e por prova

oral.

Por outro lado, requer que todas as intimações doravante sejam realizadas em

nome de RENATO MÜLLER DA SILVA OPICE BLUM, OAB/SP nº 138.578,

RONY VAINZOF, OAB/SP nº 231.678, SAMARA SCHUCH BUENO, OAB nº

324.812, MAURÍCIO ANTONIO TAMER, OAB/SP nº 328.987 e PAULO DE

OLIVEIRA PIEDADE VIDIGAL, OAB/SP nº 315.640.

Termos em que, pede deferimento. São Paulo, 27 de julho de 2018

Renato Opice Blum OAB/SP nº 138.578

Samara Schuch Bueno OAB/SP nº 324.812

Rony Vainzof OAB/SP nº 231.678

Maurício Antonio Tamer OAB/SP nº 328.987

Paulo de Oliveira Piedade Vidigal OAB/SP nº 315.640

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Este documento é cópia do original, assinado digitalmente por SAMARA SCHUCH BUENO e Tribunal de Justica do Estado de Sao Paulo, protocolado em 30/07/2018 às 21:31 , sob o número WJMJ18409744228 Para conferir o original, acesse o site https://esaj.tjsp.jus.br/pastadigital/pg/abrirConferenciaDocumento.do, informe o processo 1061547-88.2018.8.26.0100 e código 4B846DC.

 

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2.125.216/17-6

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NS2.COM INTERNET S.A.

CNPJ/MF: 09.339.936/0001-16

NIRE: 35.300.375.491

fls. 150

ATA DA ASSEMBLEIA GERAL EXTRAORDINÁRIA REALIZADA NO DIA 18 DE OUTUBRO DE 2017.

Data, Hora e Local: no dia 18 de outubro de 2017, às 10:00 horas, na sede social da

NS2.com Internet S.A. ("Companhia"), na Rua Vergueiro, n° 961, bairro da Liberdade, Município de São Paulo, Estado de São Paulo, CEP 01504-001.

2. Convocação e Presença: Acionistas representando a totalidade do capital social,

conforme assinaturas apostas no Livro de Presença de Acionistas, dispensada a

convocação, nos termos do parágrafo 40 do artigo 124 da Lei ti' 6.404/1976.

3. Composição da Mesa: Presidente: Mareio Kumruian; Secretário: Flávio Franco.

4. Ordem do dia: Deliberar sobre: (i) rerratificaçã.o do Número de Identificação do

Registro de Empresas (NIRE) da filial d.e Jaboatão de Guararapes I; (ii) alteração das

atividades na filial de Novo Hamburgo, de acordo com as respectivas Classificações

Nacionais de Atividades Econômicas ("CNAE") aplicáveis; (iii) aprovação para

realização do instrumento de cessão fiduciária de direitos creditórios em garantia junto

ao Banco Santander; (iv) aprovação do contrato de abertura de crédito documentário

para pagamento de importação junto ao Banco Santander; (v) aprovação do aumento de capital social da Companhia; (vi) aprovação do aporte de capital realizado na subsidiária da Companhia localizada na Argentina, denominada NS3 Internet S.A.; (vii) aprovação

do aporte de capital realizado na subsidiária da Companhia localizada no México,

denominada NS4.com Internet S.A.; e (viii) consolidação do nstatuto Social. da

Companhia.

1

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Este documento é cópia do original, assinado digitalmente por SAMARA SCHUCH BUENO e Tribunal de Justica do Estado de Sao Paulo, protocolado em 30/07/2018 às 21:31 , sob o número WJMJ18409744228 Para conferir o original, acesse o site https://esaj.tjsp.jus.br/pastadigital/pg/abrirConferenciaDocumento.do, informe o processo 1061547-88.2018.8.26.0100 e código 4B846DC.

 

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5.

Resumo das Deliberações: Os acionistas, por deliberação unânime desta Assembleia

Geral, decidiram:

5.1.

Renatificar os dados da filial de jaboatão dos Guararapes 1 para consolidar o Número

de Identificação cio Registro de Empresas, sendo inscrita sob o NIRE 26900604222 e

C.NPj/1\H"' n° 09.339.936/0007-01, localizada no Município de jaboatão dos

Guararapes, Il.,7st2do de Pernambuco, Rua Riachãc.), n° 200, Galpões 7A a 1.0A, Bloco A,

Bairro Munheca, CEP 54355-057.

5.2.

Aprovar exclusão das atividades exercidas na filial de Novo Hamburgo, conforme

abaixo:

a) Excluir do objeto social da Companhia, localizada no Município de Novo Hamburgo,

Estado do Rio Grande do Sul, na Rua Bento Gonçalves, n0 3.156, Bairro Guarani, CEP

93520-638, inscrita no CNPUMF 09.339.936/0014-30 e NIRE 4390187703-0, as

seguintes atividades:

CNAE

47-73-3-00

4772-5-00

47-71-7-01

47-89-0-05

47-29-6-99

Atividade Econômica

Comércio varejista de artigos médicos ortopédicos

Comércio varejista de cosméticos, produtos de perfumaria e de

higiene pessoal.

Comércio varejista de produtos farmacêuticos, sem manipulação de fórmulas

Comércio varejista de produtos saneantes domissanitários

Comércio varejista de proc. atos e suplementos alimentícios em

geral

5.3. Tendo em vista as deliberações dos itens 5.1 e 5.2 supra, os Artigos 2° e 4° do

Estatuto Social da Companhia passarão a vigorar com a seguinte redação:

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Este documento é cópia do original, assinado digitalmente por SAMARA SCHUCH BUENO e Tribunal de Justica do Estado de Sao Paulo, protocolado em 30/07/2018 às 21:31 , sob o número WJMJ18409744228 Para conferir o original, acesse o site https://esaj.tjsp.jus.br/pastadigital/pg/abrirConferenciaDocumento.do, informe o processo 1061547-88.2018.8.26.0100 e código 4B846DC.

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Capítulo I Nome, Sede e Duração

Artigo 2° Companhia tem sede no Município de São Paulo, Estado de São .Paulo, na Rua

Vergueiro, 961, Libodade, CEP 01304-001, onde exerce a atividade de Escritório

Administrativo.

Parágrafo 1°» Companhia poderá alnir, trandilir ou encerro:filiais, no território nacional ou no

exterior.

Parágrafi 2 ° A Companhia tem uma filial localkada no MunicOio de Bar/feri, Estado de São Paulo, na Avenida Aruanã, 854, ama .3, Tamboré. CEP 06460-010 (Boum' 1 SP - .N1RE

33.903.174.340, CNP1/71.1.17 n° (29.339.9.36/0002-05).

Parágrafo 3°A Companhia tem uma Jihal localkada no Município de Boum', Estado de São Paulo, na Avenida 14rztan(7, 854, área 3, Galpão 2, 3' andar, Rua .1-, 01 a 04, Bairro Tamboré CEP 06460-010 (Barueri .11 „SP - , .E 3590414051/, CNTPJ/ MF n0 09.3.39.9,36/0003-

88).

Parágrafo 4°4 Companhia tem ~afilia/ locali.zada no MuniOio de São Paulo, Estado de São

Paulo, na Rua Vergueiro, 943, Liberdade, CEP 01504-000 (Liberdade SP - N1RE

35904160636, (NP//MFn0 09.339.936/0004-69).

Parágrafo 5°A Companhia tem uma likal locakzada no Município de jaboatão dos Guararapes, Estado de Pernambuco, Rua Riacbão, n° 200, Galpies 7A a 10A, Bloco A, Bonn) Mitribeca,

CEP 34355-037 (faboaião dos Guararapes 1 PE - NTRE 26900604222, CA P1/21,117 n°

09.339.936/0007-01).

Parágrafo CA Companhia tem urna filia! locakada no Munid,plo de Extrema, Estado de Minas Gerais,. ria Estrada Municipal Maria Margarida Pinto Dona Belinha, 742, &lin?) do .Pires, acesso pela Rodovia Fernão Dias, XVI/ 891,50, Distrito Industrial, CEP: 37640-000 (Exuma I MC -

N1RE 3190241706-7, CNPI /

n" 09.3.39.936/ 0009-73).

Parágrafo 7". /1 Companhia tem uma filial loca,kuia no 2.11unidpio de jaboatão dos Guararapes,

Estado de Pernambuco, na Rua .Riachào. n° 200, Galpão

CEP 54355-057 Caboatão dos Guararapes 11 PE - NIRE 26900689872,

09.339.936/ 0010-07).

11,4, área 2, Bloco A, Bairro .Muribeca,

CNPI/AIF

.

Este documento é cópia do original, assinado digitalmente por SAMARA SCHUCH BUENO e Tribunal de Justica do Estado de Sao Paulo, protocolado em 30/07/2018 às 21:31 , sob o número WJMJ18409744228 Para conferir o original, acesse o site https://esaj.tjsp.jus.br/pastadigital/pg/abrirConferenciaDocumento.do, informe o processo 1061547-88.2018.8.26.0100 e código 4B846DC.

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