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UNIVERSIDADE FEDERAL DA BAHIA

FACULDADE DE MEDICINA DA BAHIA


Fundada em 18 de fevereiro de 1808

Monografia

Panorama brasileiro do processo transexualizador no


âmbito do SUS

Isis de Melo Maciel

Salvador (Bahia), 2017


ii

Maciel, Isis de M.
Panorama brasileiro do processo transexualizador
no âmbito do SUS / Isis de Melo Maciel. -- Salvador,
2017.
65 f.

Orientador: Marcio Josbete Prado.


TCC (Graduação - Medicina) – Universidade Federal
da Bahia, Faculdade de Medicina da Bahia, 2017.

1. Travestis. 2. Transexuais. 3. Saúde. 4. Acesso.


5. Barreiras. I. Inês Costa Dourado, Maria. II.
Título
iii

UNIVERSIDADE FEDERAL DA BAHIA


FACULDADE DE MEDICINA DA BAHIA
Fundada em 18 de fevereiro de 1808

Monografia

Panorama brasileiro do processo transexualizador no


âmbito do SUS

Isis de Melo Maciel

Professor orientador: Marcio Josbete Prado

Monografia de Conclusão do
Componente Curricular MED-
B60/2016.2, como pré-requisito
obrigatório e parcial à conclusão do
curso médico da Faculdade de Medicina
da Bahia da Universidade Federal da
Bahia, apresentada ao Colegiado do
Curso de Graduação em Medicina.

Salvador (Bahia), 2017


iv

Monografia: Panorama brasileiro do processo transexualizador no âmbito do


SUS, de Isis de Melo Maciel.

Professor orientador: Marcio Josbete Prado

COMISSÃO REVISORA

 Marcio Josbete Prado, Professor do Departamento de Ginecologia, Obstetrícia e


Reprodução Humana da Faculdade de Medicina da Bahia da Universidade Federal da
Bahia

Assinatura: ________________________________________________

 Camila Vasconcelos de Oliveira, Professora do Departamento de Medicina


Preventiva e Social da Faculdade de Medicina da Bahia da Universidade Federal da
Bahia

Assinatura: ________________________________________________

 Luciana Barros Oliveira, Professora do Departamento de Biorregulação do Instituto


de Ciências da Saúde da Universidade Federal da Bahia

Assinatura: ________________________________________________

 Ubirajara Barroso Junior, Professor do Departamento de Cirurgia Experimental e


Especialidades Cirúrgicas da Faculdade de Medicina da Bahia da Universidade
Federal da Bahia

Assinatura: ________________________________________________

TERMO DE REGISTRO ACADÊMICO: Monografia


avaliada pela Comissão Revisora, e julgada apta à
apresentação pública no Seminário Estudantil de Pesquisa
da Faculdade de Medicina da Bahia/UFBA, com posterior
homologação do conceito final pela coordenação do Núcleo
de Formação Científica e de MED-B60 (Monografia IV).
Salvador (Bahia), em ___ de _____________ de 2017.
v

“O verdadeiro foco da transformação


revolucionária nunca se restringe às situações de
opressão das quais buscamos escapar, mas
àquela parte do opressor que está arraigada no
fundo de cada um de nós.”

Audre Lorde
vi

EQUIPE

 Isis de Melo Maciel, Acadêmica de Medicina da Faculdade de Medicina


da Bahia da Universidade Federal da Bahia. Correio-e:
isismm@gmail.com

 Marcio Josbete Prado, Professor da Faculdade de Medicina da Bahia da


Universidade Federal da Bahia
vii

INSTITUIÇÕES PARTICIPANTES

UNIVERSIDADE FEDERAL DA BAHIA


 Faculdade de Medicina da Bahia

FONTES DE FINANCIAMENTO

Recursos Próprios
viii

AGRADECIMENTOS

Agradeço a minha família e meus amigos que me apoiaram firmemente durante o longo
percurso de desenvolvimento deste trabalho. Agradeço às pessoas trans que conheci, que me
tocaram e me instigaram e ao ativismo acirrado que fez possível o processo transexualizador
no Sistema Único de Saúde do Brasil e me inspirou a refletir sobre a causa. Agradeço ao meu
orientador pela continua compreensão e à banca orientadora pela disponibilidade. Agradeço
especialmente à Andressa, pelo amparo, pela paciência e pelo suporte irrestrito.
1

SUMARIO

ÍNDICE DE QUADROS, FIGURAS E TABELAS..............................................................2


LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS..........................................................................2
I. RESUMO ................................................................................................................. 3
II. OBJETIVOS......................................................................................................... 4
III. INTRODUÇÃO E JUSTIFICATIVA .................................................................. 5
IV. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA ....................................................................... 7
IV.1 Gênero e binarismo ...................................................................................................... 7
IV.2 Pessoas trans ................................................................................................................ 9
IV.3 Processo transexualizador e determinação social da saúde ....................................... 12
IV.4 Política Nacional de Saúde Integral de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e
Transexuais........................................................................................................................... 12
IV.5 Definições importantes: Política de saúde, portaria, resolução e nota técnica .......... 13
V. Metodologia ....................................................................................................... 15
VI. Resultados .......................................................................................................... 17
VI.1 Normas do ministério da saúde acerca do processo transexualizador ....................... 17
VI.1.1 VISÃO GERAL DAS NORMAS ...................................................................... 17
VI.1.2 SUMARIZAÇÃO DO PROCESSO TRANSEXUALIZADOR NO BRASIL .. 21
VI.2 RESOLUÇÕES E PARECERES DOS CONSELHOS FEDERAIS ......................... 26
VI.2.1 REGRAMENTOS DO CONSELHO FEDERAL DE MEDICINA (CFM) ...... 26
VI.2.2 REGRAMENTOS DO CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA (CFP) .... 32
VI.3 REVISÃO SISTEMATIZADA DA LITERATURA ................................................ 33
VII. DISCUSSÃO .................................................................................................. 40
VIII. CONCLUSÕES .............................................................................................. 49
IX. REFERÊNCIAS ................................................................................................. 50
2

ÍNDICE DE QUADROS, FIGURAS E TABELAS

LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS

PRT Portaria
PTS Processo Transexualizador no Sistema Único de Saúde (SUS)
MS Ministério da Saúde
3

I. RESUMO

Neste trabalho de Conclusão de Curso, busca-se apresentar um panorama do Processo


Transexualizador no Sistema Único de Saúde (SUS), reunindo os regramentos jurídicos que
possibilitam a realização deste processo assim como trabalhos acadêmicos que forneçam
informações sobre os aspectos práticos e as vivências das pessoas transexuais no SUS.
Metodologia: Identificação das portarias específicas do Ministério da Saúde, de resoluções e
pareceres dos Conselhos Federais de Medicina e Psicologia e revisão de literatura a respeito
das vivências das pessoas transexuais na participação deste processo. Resultados: Foram
encontradas 10 portarias do Ministério da Saúde, 17 regramentos do Conselho Federal de
Medicina e uma nota técnica e uma resolução do Conselho Federal de Psicologia. Na revisão
de literatura, foram encontrados 13 artigos que tratassem da vivência dos participantes ou
aspirantes do Processo Transexualizador no SUS. Discussões e Conclusão: O Processo
Transexualizador no SUS atualmente é normatizado pela PRT-2803 de 2013 do Ministério da
Saúde e ampliado e redefinido por quatro portarias subsequentes que habilitaram novos
serviços e incorporou novos procedimentos, permitindo uma maior abrangência da atenção à
população trans. O Processo Transexualizador no SUS é um grande avanço nos direitos
transexuais ao acesso à saúde e teve sua abrangência geográfica e de procedimentos ampliada
ao longo dos anos. Entretanto permanece o paradigma da patologização, sendo necessária a
busca por mudanças no discurso técnico-científico em relação às experiências transgêneras
tendo em vista uma atenção integral à saúde e o respeito à individualidade humana.

Palavras-chave: Transexualidade; transexualismo; transtorno de identidade de gênero;


processo transexualizador; sistema único de saúde; atenção especializada; atenção integral.
4

II. OBJETIVOS

PRIMÁRIO

Traçar um panorama do processo transexualizador âmbito do SUS

SECUNDÁRIOS

1. Identificar e apresentar aspectos da legislação brasileira e dos


posicionamentos dos conselhos profissionais quanto ao processo
transexualizador
2. Revisar a literatura quanto à implementação e atuação dos serviços no
processo transexualizador
3. Avaliar criticamente os serviços ofertados no âmbito do Sistema Único de
Saúde (SUS)
5

III. INTRODUÇÃO E JUSTIFICATIVA

O modo como uma pessoa define a si mesma enquanto “homem”, “mulher” ou


qualquer definição intermediária entre estas, é chamado de identidade de gênero. A identidade
de gênero é um conceito que vai além dos caracteres biológicos e deriva das vivências e
necessidades de cada pessoa. Identificar-se ou não com o gênero geralmente associado ao
sexo biológico que se tem ao nascer é um dos fatores decisórios para uma pessoa assumir uma
identidade cisgênera (em conformidade com o sexo biológico) ou transgênera (possui
identificação que destoa do que é formalmente definido quando ela nasce). Uma identidade
transgênera, portanto, é aquela que não se sente confortável com o papel de gênero (e todos os
seus estereótipos e implicações) que lhe foi atribuído ao nascer de acordo com seu sexo
biológico. Fala-se, atualmente, em várias identidades trans, que quebram aos poucos a
necessidade de classificar as pessoas em padrões binários de comportamento, mas de uma
maneira geral, a pessoa trans busca sentir-se confortável com seu corpo de acordo com o
gênero que ela se identifica e, assim, podem ser necessárias (mas não obrigatoriamente)
modificações corporais e comportamentais visando a sua saúde mental e seu bem-estar social.
A relação entre sexo anatômico e gênero não ocorre de forma direta e natural. Pessoas
se apresentam de formas diversas e há indivíduos que não se enquadram nas categorias
vigentes de sexo e gênero, divergindo dos modelos pré-fixados e ocidentalizados de binarismo
sexual. A transexualidade é um fenômeno complexo no qual há a descrição de um sentimento
de não pertencimento ao sexo anatômico, com uma experiência de incompatibilidade entre
sexo biológico e gênero sem que isto se configure como um distúrbio delirante ou que tenha
bases orgânicas, como a condição intersexual congênita ou anomalias endócrinas (1).
A institucionalização da assistência a pessoas transexuais no Brasil esteve inicialmente
associada ao modelo estritamente biomédico, entretanto hoje, com a noção de saúde integral,
tem-se promovido uma abertura para as redescrições da experiência transexual, de forma a
articular permanentemente os saberes biopolíticos dominantes e uma multiplicidade de
saberes locais e minoritários (2).
Ainda em um modelo normativo de patologização da transexualidade, a última
atualização do Manual Diagnóstico e Estatístico dos Transtornos Mentais (DSM-5) traz a
condição transexual, que antes era definida como transtorno de identidade de gênero, como
disforia de gênero (considerada uma denominação diagnóstica menos estigmatizante) e
6

mescla os critérios de identificação com o gênero oposto e aversão em relação a um gênero no


diagnóstico desta entidade (3).
Apesar de o tema ser relativamente novo, estudos já tem provado um aumento da
satisfação e qualidade de vida em indivíduos transexuais após processos de redesignação
sexual (4). Esse Processo Transexualizador, inserido contexto brasileiro, compreende um
conjunto de estratégias de atenção à saúde implicadas no processo de transformação dos
caracteres sexuais pelos quais os indivíduos transexuais demandam em determinado momento
de suas vidas (5). Envolvendo acompanhamento psicológico, tratamento hormonal e cirurgias
como tireoplastia, histerectomia, mamoplastia e transgenitalização, essa última envolvendo
tanto a neovaginoplastia quanto a neofaloplastia (ainda em caráter experimental).
No Brasil as diretrizes técnicas e éticas para a atenção ao Processo Transexualizador
no Sistema Único de Saúde (SUS) foram formalizadas pelo Ministério da Saúde através da
Portaria GM nº. 1.707, de 18 de agosto de 2008. Este trabalho visa demonstrar o panorama do
processo transexualizador, reunindo e analisando os dispositivos normativos relativos à
atenção à saúde da população transexual, bem apontar as barreiras e soluções de acordo com a
agenda dos movimentos sociais. Serão apresentadas, primeiramente, sob uma perspectiva
histórica, as portarias do Ministério da Saúde que tratam do processo transexualizador no
passado e as que estão vigentes. Dando suporte técnico e social a estas portarias, apresenta-se
aqui também os dispositivos normativos do Conselho Federal de Medicina e de Psicologia
numa perspectiva histórica, analisando os termos utilizados, a evolução no diálogo com as
demandas sociais e também as deficiências nesses dispositivos. Por fim, uma revisão de
literatura especificamente voltada para trabalhos onde se dá voz às pessoas que participam do
processo transexualizador no SUS, a fim de fazermos uma análise crítica comparando os
objetivos das Políticas Públicas com os efeitos reais dessas na vida de seus usuários e
usuárias.
7

IV. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

IV.1 GÊNERO E BINARISMO


Comumente a palavra sexo é empregada para se referir ao aspecto biológico enquanto
a palavra gênero faz referencia ao comportamento. Um dos principais dicionaristas da língua
portuguesa do Brasil, Aurélio Buarque de Holanda, conceitua gênero como “conjunto de
propriedades atribuídas social e culturalmente em relação ao sexo dos indivíduos” (6). O
gênero indica algo sobre padrões de comportamento socializados. Simplesmente viver no
mundo nos expõe a muitas imagens e ideias sobre identidades masculinas e femininas
apropriadas e desejáveis. As pessoas desde o dia do nascimento recebem incessantemente
mensagens sobre o que é apropriado para um macho e uma fêmea através da publicidade, dos
brinquedos, do vestuário, dos meios de comunicação populares e das suas interações
interpessoais.
E embora esse seja o significado mais empregado, a palavra gênero é utilizada de
diferentes maneiras pelas (os) teóricas (os) do tópico, sendo importante entender as
concepções de gênero mais comuns e como elas mudaram para se aprofundar no tema da
transgeneridade. Uma das teorias, o Determinismo Biológico, explica gênero baseado na
crença de que todas as diferenças entre homens e mulheres resultam da biologia, fazendo
generalizações e afirmando que certos comportamentos são justificáveis e imutáveis –
'Anatomia é o argumento do destino'. No entanto, esta visão da diferença 'natural' é difícil de
suportar quando as noções do comportamento apropriadas de cada gênero são mutáveis e
diferem entre si conforme o tempo, grupos culturais e mesmo dentro da própria família. Para
o conceito do Papel Social o comportamento de gênero não é inato, mas socialmente
condicionado desde sua infância (ou mesmo prévio ao nascimento) de acordo com as
diferentes expectativas sociais que lhes são impostas pela família e pelos seus outros pares. A
teoria do papel do sexo relaciona-se com a teoria do determinismo biológico porque, ao se
concentrar nos papéis de sexo, ele reforça a diferença com base na biologia. Ambas as teorias
falham em fornecer uma explicação adequada para a diversidade de comportamentos vistos
entre mulheres e homens (7).
Finalmente, a concepção da Construção do Gênero reconhece que as pessoas estão
ativamente envolvidas na construção de suas próprias identidades de gênero, não sendo
passivamente moldadas por forças sociais maiores, mas sim ativas na seleção e adaptação dos
padrões comportamentais, dependendo das situações e crenças em que estão integradas.
8

Assim, a compreensão do gênero é dinâmica e as pessoas são ativas na construção de suas


próprias identidades de gênero por formas particulares de masculinidade e feminilidade (7).
Ainda dentro da Construção do Gênero a palavra pode ser empregada de forma distinta de
acordo com o entendimento da sua relação com o sexo. Gênero é tipicamente pensado como
referencia a personalidade e comportamento, portanto algo distinto do sexo. De outro lado,
gênero tem sido cada vez mais como qualquer construção social que concernente com a
separação masculino/feminino, incluindo aquelas construções que distinguem os corpos
femininos dos masculinos. O sexo não pode ser independente do gênero, já que o próprio
corpo é visto através de uma interpretação social; assim, conceito de sexo é algo que é
englobado pelo gênero (8).
Concordando com a ideia de que sexo não pode ser independente do gênero, Judith
Butler afirma: “talvez o sexo sempre tenha sido o gênero, de tal forma que a distinção entre
sexo e gênero revela-se absolutamente nenhuma”, indicando que o sexo não é natural, mas é
ele também discursivo e cultural como o gênero (9). Dentro dos estudos de gênero, Butler é
uma autora fundamental, tendo expressiva influência acadêmica no Brasil. No cerne do seu
pensamento se encontra a ideia de que a visão de gênero baseada na heterossexualidade
produz uma visão heteronormativa em que os padrões das relações interpessoais são baseados
num binarismo pré-estabelecido. A heteronormatividade intrínseca a essa visão pode ser
entendida como uma padronização dos comportamentos voltados à vida afetiva e sexual de
acordo com o binarismo, isto é, com oposições tais quais homem/mulher e ativo/passivo,
indepentemente do sexo ou gênero dos envolvidos na relação (10).
Partimos da problematização das diferenças entre características naturais supostamente
pré-discursivas e processo socioculturais para a compreensão de uma estruturação binária na
concepção de gênero em que os corpos e suas características secundárias são polarizados e
passam a determinar o ser homem e o ser mulher. Em contraposição à essa ideia, há o
entendimento do gênero como um espectro, flutuante entre extremos de masculinidade e de
feminilidade, ou que simplesmente foge dessa linha, como os gêneros não-binários.
Da concepção de gênero advém o conceito de Identidade de Gênero, que de acordo
com o entendimento contido nos Princípios de Yogyakarta1 - utilizados como fundamento
para a Politica Nacional de Saúde Integral de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e
Transexuais – é:

1
Princípios de Yogyakarta: Princípios sobre a aplicação da legislação internacional de direitos
humanos em relação à orientação sexual e identidade de gênero.
9

A profundamente sentida experiência interna e individual do gênero de cada pessoa,


que pode ou não corresponder ao sexo atribuído no nascimento, incluindo o senso
pessoal do corpo (que pode envolver, por livre escolha, modificação da aparência ou
função corporal por meios médicos, cirúrgicos ou outros) e outras expressões de
gênero, inclusive vestimenta, modo de falar e maneirismos (11).
Aqui é importante fazer o contraponto da identidade de gênero com a Orientação
Sexual, que, também definidos pelos Princípios de Yogyakarta, é compreendido como:
Uma referência à capacidade de cada pessoa de ter uma profunda atração emocional,
afetiva ou sexual por indivíduos de gênero diferente, do mesmo gênero ou de mais de
um gênero, assim como ter relações íntimas e sexuais com essas pessoas (11).

IV.2 PESSOAS TRANS


O termo transgênero é definido por Buttler, em seu livro Desfazendo Gênero, como
referente às pessoas que se identificam ou vivem de acordo com as normas sociais de outro
gênero, mas que podem ou não ser submetidas a tratamentos hormonais ou cirurgias de
redesignação sexual (12). O conceito pode também ser utilizado de forma mais ampla para
designar pessoas que transitam no gênero, independente de modificação corporal realizada e
até desejada, incluindo neste as identidades não-binárias, como a travesti. A travestilidade é
socialmente relacionada à ambiguidade, pois traz uma ruptura com a concepção binária de
gênero, configurando-se como um terceiro elemento em que os símbolos referentes ao
masculino e feminino se relacionam mutualmente de tal forma que a travesti apresenta uma
postura feminina incorporada de um “lado masculino” (13).
O termo trans-feminino se refere às pessoas transgêneras que tiveram o sexo
masculino atribuído no nascimento que estão no espectro trangênero – idendificam-se como
mulher, male-to-female (MTF, do inglês ‘homem-para-mulher’), mulher trans, travestis e
muitas outras diversas identidades de gênero minoritárias. O termo trans-masculino descreve
as pessoas transgêneras que tiveram o sexo feminino atribuído no nascimento que estão no
espectro trangênero – identificam-se como homem, female-to-male (FTM, do inglês ‘mulher
para homem’), homem trans e muitas outras diversas identidades de gênero minoritárias.
Ainda há pessoas com os gêneros não-binários, que não se identificam como homem nem
como mulher, ou que integram ambos.
Estes conceitos se transformaram dinamicamente ao longo das décadas, dependendo
da esfera sociopolítica ou do contexto teórico ou ativista. A psiquiatria ocidental tem
classificado pessoas transgêneras como portadores de transtorno mental. A Classificação
10

Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados com a Saúde em sua 10ª


versão (CID-10) - utilizada como parâmetro diagnóstico para o Processo Transexualizador no
Sistema Único de Saúde (SUS) - define transexualismo como “O desejo de viver e ser aceito
como membro do sexo oposto, geralmente acompanhado de uma sensação de desconforto ou
inapropriação com o sexo anatômico, e um desejo de ser submetido a cirurgia e tratamento
hormonal para tornar seu corpo o mais congruente possível com sexo preferido” (14). Este
diagnóstico é organizado como o sub-tópico F64.0, dentro do capítulo V – “Transtornos
mentais e comportamentais” -, grupo de “Transtornos da personalidade e do comportamento
do adulto”, sob o código F64 - “Transtornos da identidade sexual”. Juntamente com o sub-
topico F64.9 – “Transtorno não especificado da identidade de gênero”, que também é
utilizado no processo transexualizador no SUS (14).
O Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (Diagnostic and Statistical
Manual of Mental Disorders – DSM), em sua quinta versão, enquadra pessoas transexuais no
diagnóstico de Disforia de Gênero (15) e estabelece os seguintes critérios diagnósticos:
Disforia de Gênero em Adolescentes e Adultos 302.85 (F64.1)
A. Incongruência acentuada entre o gênero experimentado/expresso e o gênero
designado de uma pessoa, com duração de pelo menos seis meses, manifestada por
no mínimo dois dos seguintes:
1. Incongruência acentuada entre o gênero experimentado/expresso e as
características sexuais primárias e/ou secundárias (ou, em adolescentes jovens, as
características sexuais secundárias previstas).
2. Forte desejo de livrar-se das próprias características sexuais primárias e/ou
secundárias em razão de incongruência acentuada com o gênero
experimentado/expresso (ou, em adolescentes jovens, desejo de impedir o
desenvolvimento das características sexuais secundárias previstas).
3. Forte desejo pelas características sexuais primárias e/ou secundárias do outro
gênero.
4. Forte desejo de pertencer ao outro gênero (ou a algum gênero alternativo diferente
do designado)
5. Forte desejo de ser tratado como o outro gênero (ou como algum gênero
alternativo diferente do designado).
6. Forte convicção de ter os sentimentos e reações típicos do outro gênero (ou de
algum gênero alternativo diferente do designado).
B. A condição está associada a sofrimento clinicamente significativo ou prejuízo no
funcionamento social, profissional ou em outras áreas importantes da vida do
indivíduo.
11

A Organização Mundial de Saúde (OMS) tem proposto alteração na 11ª versão do


Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados com a Saúde
(CID-11) para o diagnóstico Incongruência de Gênero (CID- 11: HA70), realocando o
diagnóstico para o capítulo “Condições relacionadas com a saúde sexual” (do inglês
Conditions related to sexual health) e esta proposta tem sido bem recebida por pesquisadores,
clínicos e pela comunidade mundial de transgêneros. Embora haja acirrada oposição ao
diagnóstico de incongruência de gênero para crianças pré-púberes (CID- 11: HA71) (16)(17).
Ainda há importante carência de conhecimento e informações apropriadas sobre a
população transgênera e suas necessidades para a sociedade em geral e para profissionais de
saúde, especificamente. A junção do desconhecimento, preconceito e estigma social resultam
em discriminação, assédio, abuso e inquietantes repercussões à saúde e bem estar de pessoas
transgêneras, como esquematizado na figura 1 (17).
Figura 1 - Cascata estigma-doença

Fonte: Traduzido de Reisner 2016

Politicas e praticas de saúde mudar para melhorar a saúde da população trans. Pessoas
transgêneras no mundo todo referem problemas no acesso à apropriada assistência à saúde
seja na atenção à necessidades específicas ou à questões gerais de saúde. Esforços em
garantir uma atenção apropriada são fundamentais para possibilitar que pessoas transgêneras
vivam em conformidade com sua identidade de gênero. Esses esforços incluem
desenvolvimento de políticas legais e sociais que impactem na vulnerabilidade e na eficiência
de programas de saúde; ampliar o conhecimento relativo à oferta de atendimento clínico
efetivo; bem como expandir o conhecimento epidemiológico acerca problemas de saúde que
afetam esta população.
12

IV.3 PROCESSO TRANSEXUALIZADOR E DETERMINAÇÃO SOCIAL DA


SAÚDE

Na legislação o processo transexualizador é, em suma, definido como a transformação


do fenótipo masculino para o feminino e do feminino para o masculino através de
intervenções médicas, com amparo do atendimento psicossocial. Ainda erguido sob a égide da
patologização, o processo transexualizador é visto como um tratamento para o Transtorno de
Identidade de Gênero definido na literatura médica, o que leva ao estabelecimento de um
modelo correcional de sexo-gênero, que muitas vezes reforça estereótipos. (18)
O próprio processo de avaliação dos pacientes para a realização de cirurgias de
transgenitalização é baseado num diagnóstico e não na autonomia destes, o que torna o
processo transexualizador excludente para alguns grupos dessas minorias, como as travestis,
que acabam por recorrer a técnicas ilegais e inseguras de transformação do próprio corpo. A
utilização do termo “readequação cirúrgica”, ao mesmo tempo em que aceita a identidade de
gênero como uma realidade individual e não como sintoma, também indica uma suposta
normalidade a ser restituída, recaindo em binarismos que não mais comportam a diversidade
do universo trans. (18)
A literatura indica que as demandas de saúde das pessoas transexuais, portanto, vão
para além das transformações estéticas e que o processo transexualizador não é definido
apenas por estas. O atendimento a pessoas transexuais deve ser voltado à integralidade da
atenção, sendo esta atenção humanizada, livre de discriminação e feita por uma equipe
multiprofissional devidamente orientada. O aporte psicológico e social necessário para que as
pessoas trans tenham qualidade de vida numa sociedade que as invisibiliza é um dos traços
fundamentais de uma atenção à saúde de forma plena durante o processo transexualizador e
por toda a vida das e dos pacientes.(19)

IV.4 POLÍTICA NACIONAL DE SAÚDE INTEGRAL DE LÉSBICAS, GAYS,


BISSEXUAIS, TRAVESTIS E TRANSEXUAIS

Instituída pela Portaria nº 2.836, de 1° de dezembro de 2011, e pactuada pela


Comissão Intergestores Tripartite (CIT), conforme Resolução n° 2 do dia 6 de dezembro de
13

2011, que orienta o Plano Operativo de Saúde Integral LGBT, a Política Nacional de Saúde
Integral de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais foi guiada pelas diretrizes do
programa “Brasil sem Homofobia”, que compunha a Política Nacional de Direitos Humanos.
Os primórdios da atenção à saúde da população LGBT se deu na década de 80, quando houve
a epidemia de HIV/AIDS cujo público com maior risco, à época, era o desta população. No
decorrer do tempo, houve o reconhecimento da complexidade da saúde LGBT, o que exigiu
que os movimentos sociais demandassem diferentes políticas públicas focadas na
transversalidade, englobando desde atenção e cuidado à saúde, chegando até políticas
educacionais de produção de conhecimento e participação social. (20)
Universalidade, Integralidade, igualdade de acesso e preservação de autonomia estão
dentre os princípios norteadores do Sistema Único de Saúde (21) e, tendo em vista as
dificuldades sociais causadas pela discriminação à população LGBT, foi necessário criar essa
política pública específica. (20).
Os princípios de Yogyakarta, publicados em 2006, nortearam as peculiaridades
relacionadas à identidade de gênero e orientação sexual na formação da política Nacional de
Saúde da População LGBT. Estes princípios tratam da aplicação da legislação internacional
de direitos humanos em relação à orientação sexual e de gênero. No princípio 17 de
Yogyakarta, é dito que toda pessoa tem o “direito ao padrão mais alto alcançável de saúde
física e mental, sem discriminação por motivo de orientação sexual ou identidade de gênero.
A saúde sexual e reprodutiva é um aspecto fundamental desse direito”. A partir daí obtém-se
as diretrizes internacionais que norteiam os cuidados de saúde inerentes à política afirmativa
de gênero. (11)

IV.5 DEFINIÇÕES IMPORTANTES: POLÍTICA DE SAÚDE, PORTARIA,


RESOLUÇÃO E NOTA TÉCNICA
Para traçar o Panorama do processo transexualizador no SUS é necessário elencar o
aparato jurídico e social que leva a concretização desses processos. Para tanto, neste trabalho,
fez-se leitura do texto Políticas de Saúde nacionais, além de Portarias, Resoluções e Notas
Técnicas dos Conselhos profissionais de Medicina e Psicologia, definidos a seguir.
 Política de Saúde: Política pública é um conjunto de disposições, medidas e
procedimentos que sinalizam a orientação política do governo do Estado e assim
direcionam as atividades governamentais que estiverem relacionadas às tarefas de
interesse público. Já políticas públicas de Saúde englobam o campo de ação social do
14

estado orientado para melhoria das condições de saúde da população e dos ambientes
natural, social e do trabalho. Ela organiza funções públicas a fim de proteger,
promover e recuperar a saúde de indivíduos ou da coletividade pertencentes ao público
ao qual é direcionada. (22)
 Portaria: É um documento de ato administrativo que visa estabelecer normas e
instruções referentes à organização, à ordem disciplinar e ao funcionamento de serviço
ou procedimentos. É utilizado também como norteador para o cumprimento de
dispositivos legais e jamais admite contra legem (ir de encontro ao disposto em lei).
(23)
 Resolução: É um ato administrativo que parte de autoridades superiores que não o
chefe do executivo, que disciplinam matérias de sua competência específica. Elas
servem como instrumento de esclarecimento a respeito dos regulamentos. (23)
 Nota Técnica: É um documento que trata de política pública ou programa de governo
com propósito de avaliar sua aplicabilidade e funcionamento e também se necessário
elaborar novas propostas para a melhoria deste. (24)
15

V. METODOLOGIA

Esse trabalho consiste em uma revisão de literatura mista. A coleta de dados foi
realizada em três diferentes etapas: 1 – Legislação brasileira; 2 – Conselhos profissionais de
medicina e psicologia; 3 – Revisão de literatura. Cada uma delas seguirá sua específica
metodologia para coleta dos dados, ao que se segue:

1 – Legislação Brasileira.
A busca realizada no Portal de Legislação da Saúde – Saúde Legis – do Ministério da
Saúde do Brasil, além de busca manual.

2 – Conselhos profissionais de saúde


Foram escolhidos apenas os conselhos federais de psicologia e medicina. E foram
selecionadas todos os documentos normalizadores disponíveis em suas paginas institucionais,
excetuando-se aquelas emitidas por conselhos estaduais.

3 – Revisão da literatura
Consiste em uma revisão bibliográfica sistematizada a fim de descrever a assistência à
saúde para pessoas travestis e transexuais no Brasil no Processo Transexualizador no SUS.
Foram considerados elegíveis para esta revisão estudos empíricos, de metodologias
qualitativas ou quantitativas, publicados do período de 2009 a 2016 (a primeira portaria do
processo transexualizador no SUS foi publicada em agosto de 2008), publicados em
português, inglês ou espanhol, que envolveram a população transgênero (travestis e
transexuais) e que apreciassem a atenção à saúde dessa população no Brasil. Destes foram
excluídos aqueles que abordassem apenas questões clinicas e/ou cirúrgicas e aqueles que não
abordassem saúde pública, saúde integral ou o processo transexualizador no SUS.
A busca de artigos científicos foi realizada nas bases de dados eletrônicos PubMed
(U.S. National Library of Medicine - National Institutes of Health), Scielo e Biblioteca
Virtual em Saúde (BVS).
A estratégia de busca em inglês utilizada em todas as bases previamente referidas foi:
(brasil OR brazil OR brazilian) AND (transgender OR (trans AND people) OR transsexual
OR transvestism OR Transvestite) AND (health OR care OR integrality OR healthcare) e a
estratégia em português utilizadas na BVS e no SciELO foi: (transexualismo OR
16

transgenitalização OR transexualidade OR transgênero OR transexual OR travesti OR


travestilidade OR (pessoas AND trans) OR ((redesignação OR readequação) AND sexual))
AND (saúde OR integral OR integralidade OR atenção OR cuidado).
Os artigos selecionados foram sumarizados em quadro contendo: autores, ano de
publicação, objetivo, método, N e População estudada, complexidade da assistência
envolvida, avaliação da assistência e propostas referentes ao processo transexualizador.
17

VI. RESULTADOS

VI.1 NORMAS DO MINISTÉRIO DA SAÚDE ACERCA DO PROCESSO


TRANSEXUALIZADOR

Ao todo foram identificadas dez normas brasileiras do Ministério da Saúde referentes


ao processo transexualizador no âmbito do SUS sendo que não estava disponível o acesso ao
texto completo de uma delas, como se segue na tabela 1.

VI.1.1 VISÃO GERAL DAS NORMAS

PORTARIA GM/MS Nº 1.707 DE 18 DE AGOSTO DE 2008 E PORTARIA


SAS/MS Nº 457, DE 19 DE AGOSTO DE 2008

A primeira legislação específica sobre o processo transexualizador no SUS foi


publicada em 2008, através da Portaria GM/MS nº 1.707, de 18 de agosto de 2008 e da
Portaria SAS/MS nº 457, de 19 de agosto de 2008. A Portaria nº 1707 (Posteriormente
revogada pela PRT GM/MS nº 2803 de 19/11/2013) foi a que instituiu o processo
transexualizador no âmbito do SUS. Esta levara em conta que a orientação sexual e a
identidade de gênero eram fatores reconhecidos pelo Ministério da Saúde como influentes na
situação de saúde dos cidadãos e cidadãs, e que o estigma social, junto aos processos
discriminatórios, lesam o direito à saúde estabelecido na constituição e o direito à não
discriminação, autonomia e livre desenvolvimento pressupostos na declaração universal dos
direitos humanos. Outro documento importante na formação dessa lei foi a Carta dos Direitos
dos Usuários da Saúde, instituída pela portaria nº 675/GM, de 31 de março de 2006, que
menciona o direito ao atendimento humanizado e sem discriminação a todos e todas que
fizerem uso dos serviços do SUS. Vale ressaltar também que resolução nº 1.562, de 6 de
novembro de 2002 do Conselho Federal de Medicina também serviu para dar base social e
científica ao disposto nessa portaria.
18

Tabela 1 – Normas referentes ao Processo Transexualizador


Origem da Data de Disponibilidade
Norma Ementa
norma publicação do texto
Altera o art. 9º da Portaria nº 2.803/GM/MS, de 19 de novembro de 2013, que redefine e amplia o Processo
PRT-2736 MS/GM 10/12/2014 Sim
Transexualizador no Sistema Único de Saúde (SUS).
Habilita o Hospital das Clínicas/Universidade Federal de Pernambuco/Recife/PE para realização do
PRT-1055 MS/SAS 14/10/2014 Não
Componente Atenção Especializada no Processo Transexualizador - modalidades ambulatorial e hospitalar
Torna pública a decisão de incorporar os procedimentos relativos ao processo transexualizador no Sistema
Único de Saúde - SUS: mastectomia simples bilateral; histerectomia com anexectomia bilateral e
PRT-11 MS/SCTIE 16/05/2014 Sim
colpectomia; cirurgias complementares de redesignação sexual; administração hormonal de testosterona e
acompanhamento de usuários no processo transexualizador apenas para tratamento clínico
PRT-629 MS/GM 24/04/2014 Sim Altera o parágrafo único do art. 9º da Portaria nº 2.803/GM/MS, de 19 de novembro de 2013
PRT-2803 MS/GM 21/11/2013 Sim Redefine e amplia o Processo Transexualizador no Sistema Único de Saúde (SUS).
PRT-1579 MS/GM 01/08/2013 Sim Suspende os efeitos da Portaria nº 859/SAS/MS de 30 de julho de 2013
PRT-859 MS/SAS 31/07/2013 Sim Redefine e amplia o Processo Transexualizador no Sistema Único de Saúde - SUS.
Institui, no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS), a Política Nacional de Saúde Integral de Lésbicas,
PRT-2836 MS/GM 01/12/2011 Sim
Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais (Política Nacional de Saúde Integral LGBT).
Aprova, na forma dos anexos desta portaria a seguir descritos, a regulamentação do Processo
PRT-457 MS/SAS 20/08/2008 Sim
Transexualizador no âmbito do sistema único de saúde – SUS.
Institui, no âmbito do sistema único de saúde (sus), o Processo Transexualizador, a ser implantado nas
PRT-1707 MS/GM 19/08/2008 Sim
Unidades Federadas
19

Também publicada em 2008, a Portaria nº 457 de 19 de agosto de 2008, trata de


regulamentar o processo transexualizador no SUS, estabelecendo as normas de
credenciamento das Unidades de Atenção Especializada no processo Transexualizador. Essa
unidade de Atenção Especializada é definida como uma "unidade hospitalar que ofereça
assistência diagnóstica e terapêutica especializada aos indivíduos com indicação para a
realização do processo transexualizador e possua condições técnicas, instalações físicas,
equipamentos e recursos humanos adequados a este tipo de atendimento." Além desse aparato
técnico, seria necessário, para ser uma Unidade de Atenção Especializada para pessoas
transexuais, ser um hospital de Ensino, certificado pelo Ministério da Saúde e Ministério da
Educação, ser hospital contratualizado com o SUS de acordo, estar integrado com o sistema
de saúde local e regional, dentre outros pré-requisitos.

PORTARIA Nº 2.836 DE 1º DE DEZEMBRO DE 2011

Com o decorrer dos avanços no diálogo entre os movimentos sociais e o poder


público, viu-se a necessidade de delinear melhor os direitos das pessoas LGBTT, incluindo-se
aí as pessoas transexuais. A Portaria nº 2.836 de 1º de Dezembro de 2011 concretizou este
diálogo, instituindo no âmbito do SUS a Política Nacional de Saúde Integral de Lésbicas,
Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais (Política Nacional de Saúde Integral LGBT.
Destacamos, aqui, cinco incisos de extrema relevância para que entendamos como esta
política influencia no processo transexualizador:
Art. 2º A Política Nacional de Saúde Integral LGBT tem os seguintes objetivos
específicos:
VII - promover iniciativas voltadas à redução de riscos e oferecer atenção aos
problemas decorrentes do uso prolongado de hormônios femininos e masculinos
para travestis e transexuais;
VIII - reduzir danos à saúde da população LGBT no que diz respeito ao uso
excessivo de medicamentos, drogas e fármacos, especialmente para travestis e
transexuais;
XVII - garantir o uso do nome social de travestis e transexuais, de acordo com a
Carta dos Direitos dos Usuários da Saúde;
VIII - elaborar protocolos clínicos acerca do uso de hormônios, implante de próteses
de silicone para travestis e transexuais;
20

IX - elaborar protocolo clínico para atendimento das demandas por mastectomia e


histerectomia em transexuais masculinos, como procedimentos a serem oferecidos
nos serviços do SUS;

PORTARIA Nº 2.803 DE 19 DE NOVEMBRO DE 2013

A constante transformação da sociedade implica melhorias nas bases jurídicas que


garantem os direitos das cidadãs e dos cidadãos. O grande avanço observado ao estabelecer-se
uma política pública específica para a população LGBT não fica isento, portanto, de
melhorias que dialoguem com as demandas sociais. Posto isso, dois anos após a publicação da
portaria nº 2.836 de 2011, temos a publicação das portarias 859, de 31 de julho de 2013,
revogada posteriormente pela Portaria 1.579, de 01 de agosto de 2013. Por fim, foi publicada
a portaria nº 2.803, de 19 de novembro de 2013, vigente até os dias atuais, com a qual se
pretende aumentar o número de serviços habilitados e o número de procedimentos a serem
realizados nos serviços que já atendem a população de transexuais e travestis. Este aumento
se daria tanto na atenção básica quanto na especializada, a respeito das quais a portaria
disserta:
Art. 3º A linha de cuidado da atenção aos usuários e usuárias com demanda para a
realização das ações no Processo Transexualizador é estruturada pelos seguintes
componentes:
I - Atenção Básica: é o componente da Rede de Atenção à Saúde (RAS) responsável
pela coordenação do cuidado e por realizar a atenção contínua da população que está
sob sua responsabilidade, adstrita, além de ser a porta de entrada prioritária do
usuário na rede; e
II - Atenção Especializada: é um conjunto de diversos pontos de atenção com
diferentes densidades tecnológicas para a realização de ações e serviços de urgência,
ambulatorial especializado e hospitalar, apoiando e complementando os serviços da
atenção básica de forma resolutiva e em tempo oportuno.

Esta portaria nos traz avanços em relação à política pública anterior por garantir um
melhor acesso e acolhimento destas pessoas para além dos procedimentos cirúrgicos e
hormonais, de modo a atender as necessidades das e dos transexuais de forma mais
humanizada. Há ainda desafios tais como garantir o acesso livre de discriminação e demais
barreiras sociais de todos os que necessitam desses serviços.

ALTERAÇÕES POSTERIORES
21

Ainda obtivemos como resultados quatro portarias publicadas em 2014. Destas, duas
alteram a Portaria nº 2.803/GM/MS de 19 de novembro de 2013. A Portaria nº 2.736 de 10 de
Dezembro de 2014 altera o artigo 9º, incluindo dentre os estabelecimentos autorizados para
atenção especializada o Hospital de Clínicas de Porto Alegre (UFRGS), o Hospital
Universitário Pedro Ernesto da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, o Hospital de
Clínicas da Faculdade de Medicina/FMUSP, Fundação Faculdade de Medicina, e o Hospital
das Clinicas - Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Goiás/Goiânia (GO). Já na
portaria nº 1.055, de 13 de outubro de 2014, fica para realização do Componente Atenção
Especializada no Processo Transexualizador, nas modalidades ambulatorial e hospitalar, o
Hospital das Clínicas/Universidade Federal de Pernambuco/Recife/PE. Há, ainda no ano de
2014, a portaria 629, que altera o parágrafo único do art. 9º da Portaria nº 2.803/GM/MS, de
19 de novembro de 2013, incluindo o Hospital de Clínicas da Faculdade de Medicina
FMUSP/Fundação Faculdade de Medicina MECMPAS - São Paulo/S.
Para além da ampliação do número de hospitais universitários autorizados a
atuar no processo transexualizador, a Portaria 11 MS/SCTIE de 16 de maio de 2014 incorpora
no SUS os procedimentos de mastectomia simples bilateral, histerectomia com anexectomia
bilateral e colpectomia, além de cirurgias complementares de redesignação sexual e
administração hormonal de testosterona e acompanhamento de usuários no processo
transexualizador apenas para tratamento clínico.

VI.1.2 SUMARIZAÇÃO DO PROCESSO TRANSEXUALIZADOR NO BRASIL

Baseando-se na portaria vigente nº 2.803 de 19 de novembro de 2013, juntamente com


seus modificadores posteriores pode-se sumarizar em quatro tópicos (cobertura da atenção,
critérios necessários para participação, procedimentos oferecidos e financiamento) as
principais características normatizadas do processo.

VI.1.2.1 COBERTURA DA ATENÇÃO ÀS PESSOAS TRANSEXUAIS NO BRASIL

A Atenção aos usuários e usuárias com demanda às ações do Processo


Transexualizador é constituída pelos componentes de Atenção Básica e de Atenção
22

especializada da linha de cuidado da atenção. O primeiro deve garantir acolhimento


humanizado (com respeito ao nome social - como estabelecido na portaria) e
encaminhamento regulado ao componente de Atenção Especializada, funcionando como porta
de entrada prioritária. Este organizado nas modalidades Ambulatorial e Hospitalar, podendo o
serviço ser habilitado somente em uma modalidade ou em ambas.
Inicialmente a habilitação no processo transexualizador era restrita a hospitais
universitários, entretanto com a redefinição do processo pela Portaria 2803/13 isso deixou de
ser exigência, tornando possível a ampliação das unidades habilitadas.

Figura 1 – Infográfico: Cobertura brasileira do Processo Transexualizador no SUS*

*Baseado em dados de 26 Janeiro 2016

i. Modalidade ambulatorial do componente de Atenção Especializada


A modalidade ambulatorial no Processo Transexualizador inclui o acompanhamento
clínico, acompanhamento pré e pós-operatório e hormonioterapia. Estando habilitados para tal
componente ao todo 13 unidades, listadas a seguir, contemplando 9 das 27 unidades
federativas do Brasil.
23

Tabela 2 – Serviços habilitados no processo transexualizador que realizam atendimento ambulatorial


Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Goiás/ Goiânia (GO)
Universidade Estadual do Rio de Janeiro - Hospital Universitário Pedro Ernesto/ Rio de Janeiro (RJ)
Hospital de Clínicas de Porto Alegre - Universidade Federal do Rio Grande do Sul/ Porto Alegre (RS)
Hospital de Clínicas da Faculdade de Medicina FMUSP/Fundação Faculdade de Medicina MECMPAS – São
Paulo (SP)
Hospital das Clínicas/Universidade Federal de Pernambuco – Recife (PE)
Instituto Estadual de Diabetes e Endocrinologia (IEDE) – Rio de Janeiro/RJ
Ambulatório do Hospital das Clínicas de Uberlândia – Uberlândia/MG
Centro de Referência e Treinamento (CRT) DST/AIDS – São Paulo/SP
Centro de Pesquisa e Atendimento para Travestis e Transexuais (CPATT) do Centro Regional de
Especialidades (CRE) Metropolitano – Curitiba/PR
Ambulatório AMTIGOS do Hospital das Clínicas de São Paulo – São Paulo (SP)
Ambulatório para travestis e transexuais do Hospital Clementino Fraga – João Pessoa (PB)
Ambulatório Transexualizador da Unidade de Referência Especializada em Doenças Infecto-Parasitárias e
Especiais (UREDIPE) – Belém (PA)
Ambulatório de Saúde Integral Trans do Hospital Universitário da Federal de Sergipe Campus Lagarto –
Lagarto (SE)
FONTE: Brasil, Ministério da Saúde, Portal Saúde. Acesso: <http://portalsaude.saude.gov.br/index.php/o-
ministerio/principal/secretarias/1174-sgep-raiz/lgbt/21885-processo-transexualizador>

ii. Modalidade hospitalar do componente de Atenção Especializada


A Modalidade Hospitalar consiste nas ações de âmbito hospitalar e é responsável pela
realização de cirurgias e acompanhamento pré e pós-operatório. Esta modalidade está
presente em cinco unidades federativas do Brasil, como se segue:

Tabela 3 – Serviços habilitados no processo transexualizador que realizam atendimento hospitalar


Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Goiás/ Goiânia (GO)
Universidade Estadual do Rio de Janeiro - Hospital Universitário Pedro Ernesto/ Rio de Janeiro (RJ)
Hospital de Clínicas de Porto Alegre - Universidade Federal do Rio Grande do Sul/ Porto Alegre (RS)
Hospital de Clínicas da Faculdade de Medicina FMUSP/Fundação Faculdade de Medicina MECMPAS – São
Paulo (SP)
Hospital das Clínicas/Universidade Federal de Pernambuco – Recife (PE)
FONTE: Brasil, Ministério da Saúde, Portal Saúde. Acesso: <http://portalsaude.saude.gov.br/index.php/o-
ministerio/principal/secretarias/1174-sgep-raiz/lgbt/21885-processo-transexualizador>
24

VI.1.2.2 CRITÉRIOS NECESSÁRIOS PARA PARTICIPAÇÃO DOS USUÁRIOS E


USUÁRIAS NO PROCESSO TRANSEXUALIZADOR

Podem ser contemplados no Processo apenas pessoas diagnosticadas com o CID-10


F64.0 (Transexualismo) ou F64.9 (Transtorno não especificado da identidade sexual) e com
idade de 18 a 110 anos, entretanto as pessoas com diagnóstico F64.9 são autorizadas apenas
para os procedimentos de tratamento hormonal e atendimento clínico e ainda existem
diferenças na faixa etária permitida para cada procedimento, como segue:
- 18 a 110 anos: Acompanhamento exclusivamente para atendimento clínico.
- 18 a 75 anos: Acompanhamento da(o) usuária(o) exclusivo nas etapas do pré e pós-
operatório; Tratamento hormonal e Tratamento hormonal preparatório para cirurgia de
redesignação sexual no processo transexualizador.
- 21 a 75 anos: Procedimentos cirúrgicos.

VI.1.2.3 PROCEDIMENTOS OFERECIDOS

Tabela 4 – Procedimentos incluídos


Modalidade Ambulatorial CID autorizado
Acompanhamento do usuário(a) no processo transexualizador exclusivo nas etapas do F64.0
pré e pós-operatório
Tratamento hormonal no processo transexualizador F64.0 e F64.9
Tratamento hormonal preparatório para cirurgia de redesignação sexual no processo F64.0 e F64.9
transexualizador.
Acompanhamento de usuário(a) no Processo Transexualizador exclusivamente para F64.0 e F64.9
atendimento clínico.
Modalidade Hospitalar CID autorizado
Redesignação sexual no sexo masculino F64.0
Tireoplastia F64.0
Mastectomia simples bilateral em usuária sob processo transexualizador F64.0
Histerectomia c/ anexectomia bilateral e colpectomia em usuárias sob processo F64.0
transexualizador
Cirurgias complementares de redesignação sexual F64.0
Plástica mamária reconstrutiva bilateral incluindo prótese mamária de silicone bilateral F64.0
no processo transexualizador
FONTE: Portaria vigente nº 2.803 de 19 de novembro de 2013
25

VI.1.2.4 FINANCIAMENTO

Todo o financiamento provém do Fundo de Ações Estratégicas e Compensação


(FAEC).
26

VI.2 RESOLUÇÕES E PARECERES DOS CONSELHOS FEDERAIS

VI.2.1 REGRAMENTOS DO CONSELHO FEDERAL DE MEDICINA (CFM)

Tabela 5 – Resoluções e pareceres do CFM referentes à Transexualidade e ao Processo Transexualizador


Tipo Nº/Ano Situação Ementa
Despacho 664/2016 Integra Nome social – Médico(a) - Transgênero – Carteira Profissional – Registro Civil.
Despacho 380/2016 Integra Médicos transgêneros – registros, identificações e inscrições nos CRM’s – utilização do nome social –
considerações jurídicas.
Despacho 598/2015 Integra Dúvidas relativas a validade e legalidade de Termo de ciência, compromisso e responsabilidade para pacientes
com disforia de gênero. Validade do termo. Impossibilidade de análise do termo anexado. Assunto particular.
Despacho 100/2015 Integra Alteração de fenótipo sem transgenitalização – aspectos legais
Despacho 14/2015 Integra É obrigatório o cadastro das pessoas jurídicas estatais e nacionais, como o Instituto Nacional de Seguro Social
- INSS, no conselho regional de medicina. Sem contudo, o recolhimento de anuidades, posto que são órgãos
públicos, incidindo, portanto, no que couber os artigos 1º, 2º, 4º, 5º e seguintes, da Res. CFM nº. 1980/2011
combinado com as resoluções CFM n.º 1651/2002 e CFM n.º 997/80.
Parecer 8/2013 Integra O adolescente com TIG deve ser assistido em centro especializado, de excelência e multiprofissional. A
hormonioterapia, de preferência, iniciada quando dos primeiros sinais de puberdade (bloqueio da puberdade
do gênero de nascimento). Aos 16 anos, caso persista o TIG, a hormonioterapia do gênero desejado deve ser
iniciada gradativamente.
Nota 10/2012 Integra É obrigatória a inscrição dos serviços de perícias do INSS (agências executivas das capitais) nos respectivos
Técnica CRMs, bem como a indicação de um médico como diretor técnico, de acordo com a legislação vigente.
Nota 5/2011 Integra É obrigatória a inscrição dos Serviços de Perícias do INSS (Agências Executivas das Capitais) nos respectivos
Técnica CRMs, bem como a indicação de um médico como diretor técnico, de acordo com a legislação vigente.
27

Resolução 1955/2010 Integra Dispõe sobre a cirurgia de transgenitalismo e revoga a Resolução CFM nº 1.652/2002. (Publicada no Diário
Oficial da União; n. 232, 2 dez.2002. Seção 1, p.80/81)
Resolução 208/2009 Integra Dispõe sobre o atendimento médico integral à população de travestis, transexuais e pessoas que apresentam
dificuldade de integração ou dificuldade de adequação psíquica e social em relação ao sexo biológico.
Parecer 2/2007 Integra As cirurgias para adequação do corpo de uma pessoa à sua identidade psicossexual de gênero só podem ser
indicadas por uma equipe multiprofissional que observe, em conjunto, o candidato, regularmente, por dois
anos seguidos.
Parecer 8/2004 Integra A falta de um salto biológico que caracterize a idade do ser humano, não justifica que a medicina se oriente
pelo Código Civil para procedimentos da complexidade de cirurgias transexuais
Resolução 1652/2002 Revogado Dispõe sobre a cirurgia de transgenitalismo e REVOGA a Resolução CFM nº 1.482/97. (Diário Oficial da
União; Poder Executivo, Brasília, DF, n. 232, 2 dez. 2002. Seção 1, p. 80).
Resolução 1482/1997 Revogado Autoriza a título experimental, a realização de cirurgia de transgenitalização do tipo neocolpovulvoplastia,
neofaloplastia e ou procedimentos complementares sobre gônadas e caracteres sexuais secundários com o
tratamento dos casos de transexualismo. (D.O.U.; Poder Executivo, Brasília, DF, 19 set. 1997. Seção 1, p.
20.944). REVOGADA pela Resolução CFM nº 1652/2002.
Parecer 39/1997 Integra Cirurgia transgenital
Parecer 12/1991 Integra Cirurgia de conversão sexual
Parecer 11/1991 Integra Cirurgia de conversão sexual

Para além da Ementa e das conclusões de cada parecer, é importante relatarmos entre os resultados as principais características e
embasamentos para que possamos compreender com maior clareza o processo que neste trabalho é discutido.
28

PROCESSO CONSULTA CFM N.º 0871/90


PC/CFM/Nº 12/1991

Nos primórdios do movimento transgênero, a cirurgia de readequação sexual era


chamada cirurgia de conversão sexual e enquadrada no artigo 129 do código penal e no artigo
42 do código de ética médica como mutilação e grave ofensa à integridade corporal. Neste
processo de número 0871/90, um homem transexual, designado ao nascer como mulher e,
inclusive, lido e tratado no feminino pelo parecer do conselho, requer a cirurgia como maneira
de sentir-se integrado à sociedade.
No entanto, além de enquadrar esta necessidade individual como um sintoma de uma
patologia e a cirurgia ser vista como crime, esta decisão ainda afirma que ao redesignar os
caracteres individuais do indivíduo, o direito e a medicina confeririam ao indivíduo uma
“capacidade”, no sentido jurídico, que ele não seria detentor. Ainda afirma-se que a
intervenção cirúrgica geraria ansiedade e desespero no indivíduo sem, no entanto, apontar
fatos científicos que comprovem esta suposição dada pelo conselho.
Conclui-se tal parecer com a afirmação de que “a cirurgia pleiteada, do modo como
foi proposta, não teria indicação formal, quer seja pelos relatórios e atestados médicos do
Departamento de Psiquiatria da Escola Paulista de Medicina, quer por ser considerada como
mutiladora, não encontrando, portanto, o devido amparo legal”. Não houve, portanto, a
permissão para que a intervenção cirúrgica fosse realizada a despeito dos desejos e direitos
individuais do requerente.

RESOLUÇÃO CFM Nº 1652/2002


Revoga a resolução nº 1482/97, que autorizava procedimentos cirúrgicos apenas a
título experimental, e dispõe sobre a cirurgia de transgenitalização.
Os critérios de definição do transexualismo, nessa resolução, são:
1. Desconforto com o sexo anatômico natural;
2. Desejo expresso de eliminar os genitais, perder as características primárias e
secundárias do próprio sexo e ganhar as do sexo oposto;
3. Permanência desses distúrbios de forma contínua e consistente por, no mínimo,
dois anos;
4. Ausência de outros transtornos mentais.
29

Ressalta-se o disposto no artigo 5º, no qual é determinado que “as cirurgias para
adequação do fenótipo feminino para masculino só poderão ser praticadas em hospitais
universitários ou hospitais públicos adequados para a pesquisa”, que posteriormente teve sua
matéria revogada, com exceção ao caráter experimental da neofaloplastia. Diferentemente,
para as mulheres trans, em que haveria a adequação dos caracteres masculinos para os
femininos, o artigo 6º permite esta prática tanto em hospitais públicos quanto privados, desde
que estejam respeitados os critérios expostos neste artigo quanto à equipe, conselho de ética,
entre outras exigências.

RESOLUÇÃO CFM Nº 1955/2010


Revoga a resolução do CFM de nº1652/02 e, assim, autoriza a cirurgia de
transgenitalização do tipo neocolpovulvoplastia e/ou procedimentos complementares sobre
gônadas e caracteres sexuais secundários. Também se refere a “tratamento dos casos de
transexualismo”, fato este que discutiremos posteriormente ao falar de patologização. Esta
resolução também autoriza, porém ainda a título experimental, a neofaloplastia.
Mantem os critérios anteriores de “diagnóstico do transexualismo”.
A seleção dos pacientes para a cirurgia também estaria delineada nessa resolução,
onde uma equipe multidisciplinar constituída por médico psiquiatra, cirurgião,
endocrinologista, psicólogo e assistente social deve indicar o “diagnóstico”. A cirurgia seria
feita, portanto, tendo este diagnóstico como critério, além de idade acima de 21 anos e
ausência de características físicas inapropriadas para a cirurgia.

PROCESSO-CONSULTA CFM Nº 8883/09 – PARECER CFM Nº 20/10


Trata-se de um parecer cujo interessado foi a promotoria de justiça do Ministério
Público do Distrito Federal/ Pró-vida e diz respeito à intervenção cirúrgica para os
procedimentos de transgenitalização e a ética que lhes concerne à medida em que são
atendidas as exigências contidas nas resoluções do Conselho Federal de Medicina.
Nesta resolução, é discutida a possibilidade de a regulamentação ser menos restritiva
aos procedimentos de transgenitalização, principalmente no que diz respeito ao fato de
classificar-se, à época, essas cirurgias como experimentais. Esta classificação restringia o
acesso da população que necessitava destas cirurgias para adaptar-se à sua identificação
sexual e ter uma melhora na sua qualidade de vida.
30

Deve-se ressaltar, porém, que a situação dos homens transexuais fora observada de
modo que a neofaloplasta foi mantida como experimental por conta das limitações funcionais
do órgão construído cirurgicamente.
Os subscritores desta resolução questionaram as razões médicas e éticas que
restringiam os procedimentos cirúrgicos para pessoas trans ao caráter experimental, visto que
histerectomias e mastectomias são realizadas comumente em mulheres por diversos motivos,
sendo, portanto, discriminativo o ato de não permitir o procedimento cirúrgico livremente
apenas pelo fato de ser para redesignação sexual. Permitir que o indivíduo trans manifeste sua
personalidade e sua identidade através de procedimentos estéticos foi visto como essencial
para um atendimento integral à sua saúde.
Em respeito à capacidade decisória dos pacientes, mas também atentando-se às
limitações técnicas, o conselho observou que a neofaloplastia deveria permanecer de caráter
experimental enquanto as intervenções sobre gônadas e caracteres sexuais secundários
deveriam ser autorizadas quando o paciente cumprisse as exigências de seleção e definição
exigidas.

PROCESSO - CONSULTA CFM nº 32/12


PARECER CFM nº 8/13
Outro avanço relevante na legislação dos direitos das pessoas transexuais é este
parecer que trata da assistência à saúde do adolescente com Transtorno de Identidade de
Gênero, a qual deve acontecer de forma precoce, promovendo o bloqueio hormonal da
puberdade aos primeiros sinais desta. Orienta também que em caso de persistência do
diagnóstico aos 16 anos, deve-se induzir gradativamente a puberdade para características do
gênero ao qual a pessoa se identifica.

DESPACHO Nº 100/2015
Tratando da alteração de fenótipo sem transgenitalização como parte do atendimento à
saúde da pessoa transexual, este despacho data do ano de 2015 e reflete avanços na
compreensão das diversas nuances da identidade de gênero e no respeito aos direitos
individuais das pessoas trans, que podem optar ou não por intervenções cirúrgicas e/ou
hormonais. Pautado primeiramente na Constituição Federal de 1988 (Preâmbulo, art 1º, art 3º
e art 5º), este despacho reafirma a não vedação da realização de alterações fenotípicas, visto
que, sendo esta feita por pessoa capaz, com volição livre e bem informada, é uma expressão
31

da autodeterminação e da personalidade do indivíduo, constituindo, portanto, um dos cernes


da dignidade da pessoa humana.
Desta forma, a hormonoterapia para pessoas transexuais, desde que obedecidos os
critérios éticos e técnicos fixados pelo CFM, sob a luz do livre consentimento informado pelo
paciente, não são observados quaisquer entraves legais nos procedimentos de alterações
fenotípicas independentemente da opção por cirurgia de transgenitalização ou não.

DESPACHO CFM Nº 598/2015


Trata de dúvidas relativas à validade e legalidade de termo de ciência, compromisso e
responsabilidade para pacientes com disforia de gênero. Importante para preservar os direitos
do profissional que realizará o tratamento nestes pacientes, assim como para impedir que haja
desavenças éticas no processo, este despacho afirma que o TCLE tem validade relativa, é
presumidamente válido, mas pode ser rechaçado em eventual processo judicial. Assim, o
TCLE é presumivelmente válido desde que obtido de forma legítima e que a análise no caso
específico de pacientes com disforia de gênero existe um caráter particular, havendo a
necessidade de um procurador próprio.

DESPACHO COJUR N.º 380/2016

Diz respeito ao uso do nome social de médicos e médicas trans nos registros,
identificações e inscrições nos Conselhos Regionais de Medicina. Direciona os conselhos a
promover a alteração de documentos internos, como contracheques, crachás, identificações
nas folhas de ponto e nos cadastros internos dos médicos inscritos. Porém, não se procede à
alteração da carteira de identificação profissional.
Ademais, as alterações limitam-se apenas ao acréscimo do nome social, com o
acompanhamento do nome civil.

DESPACHO COJUR Nº 664/2016


Trata-se de uma solicitação da Diretoria do CFM a fim de analisar-se a inclusão do
nome social das pessoas trans médicas no registro e na carteira de identidade do médico, tal
como ocorre na Ordem dos Advogados do Brasil. Foi feita posteriormente ao COJUR Nº
380/2016, e confirma a decisão de alterar a documentação interna dos médicos, sem alterar a
carteira profissional. Também mantém essa alteração apenas como acréscimo do nome social,
permanecendo exposto o nome civil da pessoa transgênera.
32

VI.2.2 REGRAMENTOS DO CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA (CFP)

Tabela 6 – Resoluções e pareceres do CFP referentes à Transexualidade e ao Processo Transexualizador


Tipo UF Nº/Ano Ementa
Resolução CFP 001/99 Estabelece normas de atuação para os psicólogos em
relação à questão da Orientação Sexual
Nota CFP 1.707/2008 Nota técnica sobre processo transexualizador e demais
técnica formas de assistência às pessoas trans

Uma das primeiras conquistas em relação aos direitos sociais dos LGBT foi a
resolução 01/99 do Conselho Federal de Psicologia, que determina que os psicólogos atuem
de forma ética e contribuam, com seu conhecimento, para uma reflexão sobre o preconceito e
o desaparecimento de discriminações e estigmas diversos contra os que apresentassem
“comportamentos ou práticas homoeróticas”.
Anos depois, em nota técnica pautada na portaria 1.707 de 2008 do Ministério da
saúde, o Conselho Federal de Psicologia trata especificamente das pessoas trans, onde afirma
que a psicologia tem como desafio garantir a essa população o respeito à dignidade e o acesso
aos serviços públicos de saúde. Importante avanço na questão da despatologização da
transexualidade e da travestilidade, esta nota deixa claro também que o acompanhamento
psicoterapêutico deve ir além da tomada de decisão sobre as cirurgias do processo
transexualizador, bem como promover a autonomia da pessoa durante todo esse processo.
33

VI.3 REVISÃO SISTEMATIZADA DA LITERATURA

Com a estratégia de busca utilizada foram encontrados ao todo 361 artigos que, após
avaliação criteriosa, culminou na seleção de 13 artigos para esta revisão. A sequência da
seleção dos artigos é esquematizada na figura 3 que se segue. Destes artigos foram tabelados
objetivo, método e local do estudo, população estudada, número de participantes, linha de
Cuidado da Atenção, avaliação da assistência prestada e possíveis propostas.

Figura 3 – Fluxograma da seleção de artigos


34

Quadro 7 - Caracterização da produção de conhecimento sobre assistência à saúde para pessoas travestis e transexuais no PTS
Autores, Ano de Objetivo Método e N e População Linha de Avaliação da assistência Propostas
Publicação Local estudada Cuidado da
Atenção
SILVA, D. C., et. Averiguar o impacto Estudo 47 mulheres Especializada - Significante melhora depois da Não se aplica
al., 2016(25) de intervenções prospective trans Hospitalar cirurgia de redesignação sexual nos
cirúrgicas na de coorte. domínios psicológicos e de relações
qualidade de vida de Todo o sociais do WHOQOL-100.
47 transexuais Brasil. - Em contraste, a saúde física e nível de
femininas brasileiras independência se mostraram
utilzado o World significativamente piores após a
Health cirurgia. Indivíduos que foram
OrganizationQuality submetidos a cirurgia adicional tiveram
of Life – 100. um decréscimo na qualidade de vida
refletidos nos domínios II e IV
(psicológico e relações sociais).
- Características demográficas não se
mostraram significativas quando
usadas para controlar a análise
estatística.
PETRY, Analidia Problematizar como História de 7 mulheres trans Especializada - Mulheres referem que processo Ampliar o debate a respeito de
Rodolpho., ocorrem os relatos vida. Rio Hospitalar ocorreu rapidamente e sem problemas gênero e sexualidade no
2011(26) de transexuais nos Grande do - Relato de prolongamento da fase pré- contexto da saúde pública.
processos de Sul. cirurgica, necessidade de mentir quanto
migração sexual e de ao bem estar.
gênero, considerando - Buscou-se delinear a flexibilidade, a
os antecedentes à multiplicidade e a provisoriedade de
intervenção identidades e de experiências que são
cirúrgica, bem como mobilizadas nesses processos
as mudanças de vida transexualizadores.
necessárias após a
transexualização.
Discutir algumas das
representações de
gênero, corpo e
sexualidade
mobilizadas nessas
narrativas.
35

Quadro 7 - Caracterização da produção de conhecimento sobre assistência à saúde para pessoas travestis e transexuais no PTS
Autores, Ano de Objetivo Método e N e População Linha de Avaliação da assistência Propostas
Publicação Local estudada Cuidado da
Atenção
ROCON, et al., Discutir as Entrevista 15 pessoas Especializada, - Desrespeito ao nome social, a Modificar o diagnóstico em
2016 (27) dificuldades de semiestrutur trans10 hospitalar e discriminação e o diagnóstico no sua função, já que a existência
pessoas trans ada. mulheres ambulatorial processo transexualizador como de uma patologia prévia não é
moradoras da região Vitória, ES transexuais, principais limitações no acesso ao requisito para acessar o SUS.
metropolitana da 1 homem trans, sistema de saúde. Aponta-se, também, a
Grande Vitória/ES 2 travestis, - Afirma-se que o diagnóstico contribui importância de elaborar
em acessarem os 1 gay (realizava para ocultar a responsabilidade da programas de educação e
serviços de saúde no uso de hormô- heteronormatividade e do binarismo de campanhas permanentes sobre
SUS. nios e adotava gênero pela marginalização social das o direito de acesso ao sistema
nome social pessoas trans. de saúde livre de
feminino) discriminação e com uso do
nome social.
SOUZA, M. H. Acompanhar os Pesquisa 49 travestis Atenção - Aponta o uso do silicone industrial Pensar o cuidado em saúde da
T., et al., 2014(28) itinerários etnográfica. básica não como primeira opção. população travesti, ampliando
terapêuticos, as Rio Grande especializados - Evitam serviços de saúde o olhar sobre o processo
complexas trajetórias do Sul : UPA e centro institucionalizados (não especializados: saúde-doença, incorporando
percorridas pelas de testagens) UPA e centro de testagens) devido elementos próprios desses
travestis, em busca discriminação sujeitos, como as
de cuidados com a - Desrespeito ao nome social no modificações corporais, a vida
saúde. atendimento não especializado em coletividade e a influência
As interlocutoras evitam os serviços das religiões afro-brasileiras
institucionalizados de saúde, optando em sua saúde, proteção e bem-
por outras formas de cuidado. estar.
- Destacou-se em relação a esse
aspecto que, das 49 travestis que
fizeram parte da pesquisa, 48
frequentavam o que denominavam de
“casas de religião afro” ou “batuque”.
As interlocutoras indicaram sua opção
em frequentar as “casas de religião
afro” por identificá-las como espaços
que, sem questionar as modificações
corporais e sua orientação sexual,
ofereciam formas de cuidado e
proteção.
36

Quadro 7 - Caracterização da produção de conhecimento sobre assistência à saúde para pessoas travestis e transexuais no PTS
Autores, Ano de Objetivo Método e N e População Linha de Avaliação da assistência Propostas
Publicação Local estudada Cuidado da
Atenção
BORBA, Rodrigo. Investigar as micro- Estudo de 1 mulher Assistência - Notou-se que a imposição do Compreender melhor a
2011(29) dinâmicas pelas caso. Rio de transexual e Psicológica / diagnóstico no processo história e os âmbitos macro-
quais sistemas de Janeiro. 1 psicóloga Psicoterapia transexualizador brasileiro ocasiona sociológico e macropolítico
conhecimento que deslegitimação da subjetividade que que produzem as
patologizam a pessoas transexuais trazem consigo interpretações dadas às
transexualidade para os programas de identidades das pessoas
como uma transgenitalização. transexuais.
enfermidade mental - A necessidade do diagnóstico é
sãoincorporados nas patologizante e impõe às interações
ações de entre profissionais de saúde e
profissionais de usuários/as trans estruturas que levam
saúde e usuários/as os profissionais a uma posição de
transexuais do juízes do gênero de outrem.
Sistema
Único de Saúde.
TAGLIAMENTO, Compreender o Estudoetno Entrevistados: Atenção As pessoas trans reportaram Buscar mudanças no discurso
Grazielle; acesso de pessoas gráfico / 5 mulheres especializada, dificuldades em suas trajetórias de técnico-científico em relação
PAIVA,Vera. transgêneras ao Entrevista. transexuais, hospitalar e vida, marcadas por discriminação e por às experiências transgêneras
2016.(30) sistema publico de Paraná. 2 travestis. ambulatorial padrões binários que dificultam o tendo em vista a
saúde brasileiro sob Informantes: reconhecimento de suas identidades. despatologização e o
a luz das novas 2 homens trans, Nos serviços especializados, as normas reconhecimento da fluidez da
políticas públicas 1 mulher trans, de gênero e os estereótipos foram identidade de gênero.
para este grupo 1 travesti, utilizados e impostos pelos prestadores
específico no Brasil. 1 mulher cis de serviço, demonstrando uma
predominância de um modelo que
patologiza a identidade de pessoas
trans.
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Quadro 7 - Caracterização da produção de conhecimento sobre assistência à saúde para pessoas travestis e transexuais no PTS
Autores, Ano de Objetivo Método e N e População Linha de Avaliação da assistência Propostas
Publicação Local estudada Cuidado da
Atenção
MOSCHETA, M. Encorajar o Estudo 1 travesti, Atenção Os profissionas da saúde isolaram Criar um contexto em que os
S., SOUZA, L. V., desenvolvmento de etnográfico/ 2 mulheres básica (Centro travestis de forma que isso reforça os usuários dos serviços de saúde
SANTOS, M. A., recursos para discussões trans, de testagem e preconceitos já arraigados na possam expressar-se e definir
2016.(31) melhorar o acesso e públicas e 2 homens gays, atendimento) sociedade. como gostariam de ser
o cuidado à saúde da entrevistas. 2 enfermeiras - Profissionais de saúde precisam estar tratados pelos profissionais,
população LGBT. Maringá, cisgêneras mais atentos às necessidades da possibilitando uma atenção à
Paraná. população LGBT saúde mais humanizada e
- Desconhecimento da diversidade de alinhada com ideais políticos
gênero e sexual pelos profissionais de que fundamentam o SUS.
saúde
- Aponta necessidade de perguntar às
travestis sobre seu desejo quanto à suas
alocações nas unidades hospitalares
masculinas/femininas
PETRY, Analidia Compreender as Entrevista 7 mulheres Atenção - O processo transexualizador feminino Não se aplica
Rodolpho. experiências de narrativa, transexuais especializada, envolve adequação de comportamento,
2015.(32) mulheres transexuais com análise hospitalar e postura, empostação da voz, uso de
em relação à temática. ambulatorial hormônios, dilatação do canal vaginal e
hormonioterapia e à Rio Grande complicações cirúrgicas.
cirurgia de do Sul - Importância do acompanhamento
redesignaçãosexual com a fonoaudiologia
que constituem o
Processo
Transexualizador.
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Quadro 7 - Caracterização da produção de conhecimento sobre assistência à saúde para pessoas travestis e transexuais no PTS
Autores, Ano de Objetivo Método e N e População Linha de Avaliação da assistência Propostas
Publicação Local estudada Cuidado da
Atenção
SAMPAIO, Investigar o processo História de 2 homens Assistência - A fila de espera no Sistema Único de Propõe-se que a história de
Liliana L. Pedral; transexualizador de vida e transexuais e especializada, Saúde (SUS), o protocolo pré- vida seja levada em
COELHO, Maria quatro pessoas, a entrevista 2 mulheres ambulatorial e operatório de dois anos, o custo das consideração no processo a
Thereza A. D., partir das suas semiestrutur transexuais hospitalar cirurgias nas clínicas particulares e a fim de promover melhor
2012(33) perspectivas. Com ada. falta de regulamentação jurídica para a acompanhamento psicológico,
ênfase nas Salvador, mudança de documentação são grandes cirúrgico e de outras
experiências que Bahia. dificuldades encontradas para a intervenções.
dizem respeito a concretização do processo
intervenções sobre o transexualizador.
corpo, tais como:
hormonioterapia,
cirurgias de
mastectomia,
histerectomia e
transgenitalização.
SOUZA, M. H. Apresentar os Pesquisa de 49 travestis Atenção - Desrespeito ao nome social. Pensar o cuidado em saúde
Teixeira; cuidados com a campo. básica e - Desconhecimento das trajetórias de desse grupo requer uma
PEREIRA, P. P. saúde de travestis do Santa atenção cuidados das travestis ampliação do olhar sobre o
Gomes; 2015.(34) município de Santa Maria, Rio especializada - Estranhamento com o cuidado com o processo saúde-doença,
Maria, Rio Grande Grande do ambulatorial silicone, com a utilização de hormônios incorporando elementos
do Sul, Brasil. Sul. e com desejo da feminilidade da próprios desses sujeitos, como
travesti. os determinantes sociais
envolvidos, as modificações
corporais, a vida em
coletividade e a influência das
religiões afro-brasileiras em
sua saúde, proteção e bem-
estar.
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Quadro 7 - Caracterização da produção de conhecimento sobre assistência à saúde para pessoas travestis e transexuais no PTS
Autores, Ano de Objetivo Método e N e População Linha de Avaliação da assistência Propostas
Publicação Local estudada Cuidado da
Atenção
COSTA, A. B. et Avaliar as Medida de 626 Atenção - 95% das pessoas que participaram do Necessidade urgente de
al.; 2016.(35) especificidades da tendência e participantes, básica e estudo evitaram o sistema de saúde por adequação das políticas de
atenção à saúde na freqüência 382 mulheres atenção histórico de discriminação. saúde e de treinamento dos
população central. São transexuais, 188 especializada profissionais nas questões de
transgênera com Paulo e Rio homens ambulatorial e gênero.
acesso ao sistema Grande do transexuais e 56 hospitalar
público de saúde Sul. pessoas não-
brasileiro. binárias

BORBA, Rodrigo. Problematizar História de 2 mulheres Atenção - Profissionais de saúde são vistos Buscar a
2014.(36) obstáculos vida. Local transexuais especializada como empecilho; despatologizaçãodatransexuali
discursivos para o não ambulatorial e - A dificuldade no acesso imediato ao dade, salientando a
cuidado integral e especificad hospitalar processo transexualizador acaba por importância desta prática para
humanizado à saúde o. fazer a pessoa trans abdicar de sua uma humanização da saúde.
de pessoas identidade real para performar uma
transexuais no identidade que “convença” a equipe
Processo profissional.
Transexualizador
brasileiro.
ROGERS, João; Analisar as Entrevista 14 pessoas Atenção - Não reconhecimento do Nome Social Reconhecer a Atenção
TESSER- dinâmicas e semiestrutur trans, básica no tratamento a pessoas trans em todos Primária a Saúde como um
JUNIOR, Zeno C., obstáculos impostos ada. 9 mulheres trans os momentos do processo de espaço estratégico onde
MORETTI- ao acesso de pessoas Florianópoli e atendimento nas UBS e UPA. podemos travar esse embate
PIRES, Rodrigo trans à APS e como s, Santa 5 homens trans - Observou-se a falta de habilidade político, na perspectiva de
O., KOVALESKI, a experiência de um Catarina. técnica relacionados a corpos trans quebrar o paradigma de uma
Douglas F., serviço de APS submetidos a terapias redesignadoras sociedade que oprime, subjuga
2016.(37) específico para esse como a hormonioterapia e cirurgias de e extermina corpos,
que rompe com o readequação corporal. identidades e expressões das
paradigma da pessoas trans.
patologização da
transsexualidade é
percebida por essas
pessoas.
40

VII. DISCUSSÃO

O Estado Democrático de Direito nunca pode estar à parte das transformações sociais.
O diálogo entre as diversas instâncias que corroboram para determinadas demandas é
fundamental para que ciência, Estado e movimentos sociais estejam em sintonia em relação
aos direitos fundamentais individuais garantidos na constituição.
Analisando sob esse prisma, pode-se depreender, a partir dos resultados aqui
mostrados, que há mudanças no ordenamento jurídico em relação à saúde de pessoas
transexuais que buscam acompanhar os novos paradigmas sociais e que muitas dessas
mudanças surgiram de um diálogo com os Conselhos Federais de Medicina e Psicologia, por
exemplo. Por outro lado, posteriormente também vamos analisar de que forma essas medidas
do Estado são aplicadas no cotidiano das pessoas transexuais que usam serviços de saúde
através da revisão de literatura que trata das vivências dessas, com recolhimento de seus
depoimentos e um olhar mais pragmático e menos técnico.
Legislação é palavra e as palavras dão substância aos aspectos da vida em sociedade.
O modo como os termos utilizados nas normas voltadas para pessoas trans foram se
transformando no decorrer dos anos é ilustrativo de como a dinâmica social tem caminhado
para uma atenção à saúde mais universal e talvez até para novos modos de enxergar gênero. A
linguagem utilizada nos regramentos reflete o entendimento das organizações formuladoras
quanto àquele tema e transforma-se dinamicamente conforme engloba diferentes perpectivas e
acolhe as novas demandas apresentadas. O que é considerado, a certa época, a nomenclatura
mais adequada, pode sempre ser alvo de contestações e críticas. A perspectiva patologizante
(discutida adiante) ainda é a predominante, mas é inegável o avanço ocorrido desde que pela
primeira vez referiu-se a pessoas transexuais no ordenamento jurídico brasileiro e em
portarias do CFM. Por exemplo, inicialmente, no artigo 129 do código penal e no artigo 42 do
código de ética vigentes em 1990, a cirurgia de “conversão sexual” era tida como “grave
ofensa à integridade corporal”; destaca-se, aqui, o uso do termo conversão sexual, hoje
considerado extremamente ofensivo, visto que não é um fator de reversão, mas sim uma
questão de readequar, redesignar fisicamente algo que não está de acordo a com a identidade
de um indivíduo. Quando passamos à resolução Nº 1652/2002, temos o termo
transgenitalização, mais aceito na comunidade transexual mas ainda transpassando uma
41

perspectiva patologizante. E em 2013, na portaria vigente do processo transexualizador, o


termo mais utilizado é a Redesignação sexual.
Essa evolução na linguagem ainda não atingiu o principal termo relacionado à
população trans. Nesse trabalho, optou-se por utilizar os termos “transexualidade”, mas nos
pareceres do CFM e afins ainda é utilizado o termo transexualismo, que usa o sufixo ismo,
característico de doenças de cunho comportamental. Além de também patologizar a
identidade de gênero das pessoas e reflete um padrão heteronormativo e cisgênero, segundo o
qual todo desvio da norma é considerado uma perversão.
Para além das alterações linguísticas nos regramentos apontadas, é importante analisar,
no contexto da atenção à saúde, os direcionamentos que as pautas têm tomado no decorrer dos
anos. Anteriormente, a atenção à saúde da pessoa trans era voltada unicamente para as
intervenções cirúrgicas, visando simplesmente uma conformação dos indivíduos à norma,
desumanizando o atendimento e tratando da pessoa trans apenas como uma anomalia a ser
consertada em vez de um cidadão ou cidadã cuja saúde deve ser vista de forma integrativa e
relacionada a um contexto sociocultural.
Nesse sentido, a visão do Sistema Único de Saúde transmitida através de suas ações
tem se transformado, aos poucos, em direção a uma assistência integral à pessoa trans. Como
exemplo, temos a portaria nº 2.803 de 2013 que, para além dos procedimentos cirúrgicos,
pretendia aumentar o número de serviços habilitados e de procedimentos, tanto na atenção
básica quanto na especializada, colocando a integralidade como princípio. Vai-se além na
promoção de cirurgias de mastectomia, histerectomia, entre outras, mas também vai-se além
na promoção de assistência especializada ambulatorial, que é o caso da hormonização, e
também nos cuidados básicos com a saúde promovidos nas Unidades Básicas de Saúde.
Outro fator importante e que ajuda na visibilidade de uma parcela da população trans
foi a inclusão das cirurgias de mastectomia e histerectomia no rol de cirurgias feitas pelo
SUS. Por outro lado, a neovulvoplastia ainda é de caráter experimental devido a limitações
técnicas no que diz respeito à funcionalidade e também à estética do órgão construído e só
pode ser feita em hospitais universitários. A inclusão dos homens trans no processo
transexualizador no SUS é um passo importante rumo a uma desconstrução dos padrões de
gênero e de sexualidade que muitas vezes são opressores.
Outro grupo invisibilizado na comunidade trans e que é caracterizado por um nítido
recorte de classe e de raça no Brasil é o grupo das travestis. Muitas vezes relacionadas à
prostituição e ao HIV, as travestis não se encontram nos extremos do gênero e, por isso,
42

muitas vezes são deixadas de lado durante o processo transexualizador, esperando mais tempo
e enfrentando mais dificuldades nas questões de hormonização bem como na atenção à saúde
como um todo(28,38). Mais adiante vamos entender as idiossincrasias das travestis e de como
se dá a participação (ou não) delas nos processos transexualizadores.
A hormonização é um processo importante quando a pessoa transexual pretende
alterar sua aparência a fim de adequar-se melhor ao seu desejo íntimo bem como ao que é
esperado dela pela sociedade. Nesse sentido, ressaltamos aqui a importância do parecer do
CFM de número 08 de 2013, que trata da assistência à saúde de adolescentes trans ou, como
ainda é definido pelo CFM e pelo CID 10, pessoas portadoras de transtorno de identidade de
gênero. Este parecer fala como o adolescente deve ter atendimento especializado e
multiprofissional e também direito ao bloqueio da puberdade do sexo com que nasceu à partir
dos 16 anos. Decisão polêmica do conselho, esta corrobora com diversas fontes que afirmam
que é preciso estar atento à saúde das crianças transexuais. Inclusive as pesquisas que estão
servindo de referência para a produção do CID 11 pela Organização Mundial da Saúde falam
sobre a incongruência de gênero na infância(17). Estabelecendo a cronologia dos regramentos
relativos à pessoas transexuais, pôde-se notar que normas do CFM precederam as portarias
ministeriais e algumas de suas alterações, entende-se assim a importância desse despacho –
publicado posteriormente à portaria de 2013 – para possíveis inclusões de pessoas mais
jovens no processo transexualizador.
Olhando numa outra direção e fazendo, talvez, dentre os outros conselhos
profissionais, um papel de vanguarda, o Conselho Federal de Psicologia se mostra incisivo
quando se trata de evitar discriminações e estigmas. Propõe, numa de suas notas técnicas, que
o acompanhamento psicoterapêutico ultrapasse o processo burocrático e estigmatizante de
decisão pela cirurgia. É um passo importante no contexto da atenção integral à saúde e
demonstra o quanto já ultrapassou-se barreiras convencionais a fim de promover qualidade de
vida e dignidade para pessoas trans.
O processo transexualizador geralmente foi aqui dividido em: Cobertura da atenção,
critérios necessários para participação, procedimentos oferecidos e financiamento. A
cobertura ainda é incipiente e concentra-se em apenas alguns estados. O atendimento
Especializado Ambulatorial tem se dado em Minas Gerais, Paraná, Paraíba, Pará e Sergipe. O
atendimento especializado Hospitalar, tem ocorrido em Pernambuco, Goiás, Rio de Janeiro,
São Paulo e Rio grande do Sul, que também realizam atendimento ambulatorial. Pelo fato de
43

o Brasil ser um país de dimensões continentais, isso dificulta bastante o acesso da população
transexual de outros estados que não são contemplados pela atenção especializada.
Observou-se que a cobertura geográfica do PTS é mais ampla na atenção especializada
ambulatorial que na hospitalar. O que é um fator importante na distribuição dos serviços, visto
que esse tipo de atenção envolve o acompanhamento no pré e no pós operatório, mas também
oferece cuidado independentemente da cirurgia e acompanhamento prolongado. Sendo
fundamental que esteja mais próximo dos(as) usuários(as) e possibilitando que mais pessoas
possam ter o acompanhamento multidisciplinar especializado. O atendimento ambulatorial
especializado, por suas características, oferece à população uma qualidade de atenção mais
digna, com enfoque na qualidade de vida da pessoa transexual usuária do SUS, para além das
intervenções cirúrgicas específicas.
Influenciando o alcance do atendimento no SUS, os critérios de “seleção” de pessoas
transexuais aptas a fazer parte do processo se baseiam em fatores muitas vezes arbitrários,
como por exemplo uma suposta obrigatoriedade de a pessoa trans viver de acordo com os
estereótipos de comportamento, vestimenta e relacionamento, do gênero que ela se identifica
(38). Ora, se é preciso performar o gênero para que ele seja verdadeiro aos olhos do Sistema
de Saúde, isso deslegitima a autonomia e a autodeterminação da identidade de gênero das
pessoas e fere direitos fundamentais. (39) Seria necessária uma homogeneização de todo o
espectro das pessoas trans para que as suas concepções de vida fossem respeitadas? A
existência de um “teste de vida real” para que as pessoas fossem consideradas “persistentes” o
suficiente na afirmação de sua identidade é uma forma de oprimir a diversidade das
identidades trans e limitar o acesso e a relação dos usuários e prestadores do sistema – como
discutido posteriormente.
A maioria da população que busca os serviços de saúde para se submeter ao Processo
Transexualizador no SUS já vive de acordo com o seu gênero e não com o que foi designada
ao nascer. Muitas vezes, por estarem na vida adulta, essas pessoas já fazem uso de hormônios
sem acompanhamento médico. No entanto, para fazer a cirurgia no PTS, a pessoa é
estimulada a refletir sobre o impacto que a cirurgia terá na sua vida e também sobre fatores
outros que não necessariamente correspondem a questões de saúde, mas de adequação social.
O prazo de dois anos é arbitrário e muitas vezes prolonga o sofrimento da pessoa trans, que já
vem de uma vida inteira de opressão (26). Seria importante, sim, avaliar a saúde mental e
física da pessoa que pretende passar pelo PTS, no entanto, é válido compreender a
necessidade de avaliação individual das necessidades e é esse processo e que pré-estabelecer
44

prazos para proporcionar atenção à saúde de um cidadão ou cidadã não é coerente com os
princípios básicos do SUS e do cuidado à saúde.
O acesso ao PTS também apresenta diferentes dificuldades a depender do
enquadramento ou não das pessoas nos diagnósticos previstos no CID. Este vínculo com o
CID é facilmente ilustrado pela situação das pessoas não binárias e transfemininas como as
travestis. Quando a pessoa é enquadrada no CID F64.0, de Transtorno de Identidade de
Gênero (TIG) - Transexualismo, ela possui acesso a todos os serviços especializados,
inclusive cirúrgicos e ambulatoriais, já o CID F64.9, que é de TIG não especificado, onde
estão inclusas as travestis, não tem acesso aos procedimentos cirúrgicos, mas apenas aos
ambulatoriais. Esse enquadramento, por mais que dependa da equipe multiprofissional do
SUS, é guiado pelas diretrizes do CID que incluem o desconforto com a genitália, caso este
que nem sempre ocorre com as travestis mas não exclui a possibilidade de estas desejarem
outras modificações corporais cirúrgicas, que serão discutidas posteriormente nesse trabalho
(5).
Outro aspecto que influencia no acesso ao PTS é mais burocrático e menos voltado a
paradigmas sociais de forma direta. O financiamento do PTS pelo SUS depende do Plano
Nacional de Saúde e dos “indicadores de desempenho e das iniciativas que serão
operacionalizadas pelas ações com a cobertura orçamentária determinada pela Lei
Orçamentária Anual correspondente a cada exercício do Plano Plurianual (PPA)”. A inter-
relação entre o planejamento estratégico do Ministério da Saúde e as diretrizes orçamentárias
contribui para que a realidade financeira do Sistema de Saúde não entre em desacordo com as
necessidades da população (40). Importante ressaltar que desde a inclusão do processo
transexualizador no SUS, em 2008, o número de procedimentos saltou mais de 3.000%,
partindo de 101 para 3.157 em 2014. A verba repassada pelo Ministério da Saúde para o
custeio desses procedimentos cresceu 832,5% no período, chegando a R$ 154,8 mil. Desde
2008 até 2015, foram 9.867 procedimentos realizados (41).
A despeito de iniciativas já tomadas pelo ministério da saúde na direção da defesa
dos direitos humanos na esfera do Sistema Único de Saúde como a Carta dos Direitos dos
Usuários do SUS lançada em 2006 (pelo menos três anos prévia à publicação das pesquisas
incluídas neste trabalho) - que em seu terceiro princípio assegura o atendimento humanizado,
acolhedor e livre de discriminação, restrição ou negação, inclusive quanto a identidade de
gênero, e garante que a(o) usuária(o) tenha um campo para registrar o nome pelo qual prefere
ser chamada(o), independentemente do registro civil – e da Portaria nº 1.820 que assegura o
45

uso do nome social no SUS (42). Percebe-se, na atenção básica em especial, mas também nos
serviços especializados, que o desrespeito ao nome social é algo marcante na atenção à
população transexual (27,28,34,37). Souza (2014) apresenta o relato de uma travesti, a cerca
da atenção básica, que demonstra a profundidade do desrespeito que pessoas trans podem
experenciar na busca por assistência no SUS: “Na saúde não é diferente do dia a dia. Tratam a
gente como não humanos, por isto eu não vou ao SUS, de jeito nenhum. Se preciso de
atendimento, vou onde posso pagar. Pagando sempre respeitam mais. SUS, nem pensar” (28).
Esse tipo de arbitrariedade integra a violência institucional; exercida pelos próprios
serviços públicos e cometida principalmente contra os grupos mais vulneráveis, ela favorece a
conservação e fortalecimento de uma ordem social injusta. Sendo possibilitada pelas
assimetrias nas relações de poder entre usuários e profissionais dentro das instituições. Esta
violência materializa-se não só através de atitudes de negligência e discriminação como os
maus-tratos dos profissionais para com os usuários, mas também através da banalização das
necessidades e direitos, da falta de escuta, rispidez, desqualificação do saber prático e da
peregrinação por diversos serviços até receber atendimento (43). Sendo, assim, inconciliável
com uma prática de saúde que vise à atenção integral e, sobretudo, com a consolidação de
uma sociedade que respeite plenamente a Dignidade da Pessoa Humana.
A saúde publica tem sido desafiada a acolher de forma humanizada a demanda da
população com dificuldades agravadas pela sua vulnerabilidade social. Mas as barreiras ainda
encontradas pelos(as) usuários(as) na assistência à saúde favorecem sua busca de cuidados
alternativos, como trazido por Souza “As travestis compreendem que saúde é algo que se
constrói nos espaços da moradia, nos pontos de prostituição, nos espaços públicos, nas ‘casas
de santo’”(SOUZA et al., 2014)
É importante pensar a questão das travestis e do seu acesso a serviços de saúde como
diferente da questão de mulheres e homens transexuais. Considerando a afirmação de Audre
Lorde, uma das mais influentes figuras do feminismo interseccional, de que não há hierarquia
entre as opressões e considerando também que estas opressões se interpenetram e se
relacionam de modo a formar algo para além da simples soma das partes, mas sim um produto
único e particular advindo e integrando essa interação. Pode-se entender a vulnerabilidade das
travestis não como algo superior à de outras pessoas trans, mas como algo de diferente
natureza e complexidade, produto da abjeção social a um corpo transgressor que integra
signos masculinos e femininos – a partir da ruptura com a concepção binária de gênero –,
46

juntamente com a condição de exclusão das classes populares e transpassada pela questão
racial.
A distinção entre mulheres transexuais e travestis interage de múltiplas formas com o
modelo médico-psiquiátrico, não apenas nas diferentes possibilidades de acesso e consumo a
este, mas também, possivelmente, na própria representatividade do estígma social destes
grupos de pessoas. Como levantado por Mario Carvalho(44):
Levanto a hipótese de uma distinção na origem da atribuição do estigma (ou do
desvio) entre travestis e transexuais. Enquanto as primeiras são pervertidas a partir
do olhar moral da sociedade, as segundas são incorporadas numa categoria
médicopsiquiátrica. É evidente que a incorporação dos diferentes rótulos na
construção da identidade tem suas repercussões e possivelmente constituirá
trajetórias distintas. Ser um desviante moral, como no caso de travestis, implicará no
manejo e na negociação constante com a oficialidade e a constituição de redes
sociais associadas à marginalidade. Enquanto ser um desviante “mental”, como no
caso de transexuais, implicará uma incorporação total ou parcial de uma experiência
de gênero medicalizada, que provavelmente passará por um processo de construção
identitária em interlocução com os saberes e práticas médicas.

A Portaria nº 2.803 incorpora do modelo médico-psiquiátrico, parcialmente, a


exclusão das travestis do processo transexualizador. Isso se dá através da diferente vinculação
dos códigos do CID aos procedimentos incluídos no PTS. O código “F64.0 Transexualismo”,
definido como “Desejo de viver e ser aceito como membro do sexo oposto, geralmente
acompanhado de uma sensação de desconforto ou sensação de inapropriação com o sexo
anatômico, e um desejo de ser submetido a cirurgia e tratamento hormonal para tornar o corpo
o mais congruente possível com o do sexo preferido”. As travestis não estariam então em
conformidade com esta definição, já que esta, partindo de uma concepção binária, não assume
em si a possibilidade de incorporar identidades não binárias ou pessoas que não demonstrem o
desejo de intervenção cirúrgica para transformar seu corpo “o mais congruente possível” com
o do sexo feminino. Elas podem então ser “enquadradas” no código “F64.9 Transtorno não
especificado da identidade de gênero”. Importante reforçar que, como dito anteriormente, os
procedimentos cirúrgicos (que englobam, além da cirurgia de redesignação sexual, a
tireoplastia, as cirurgias complementares e a plástica mamária reconstrutiva bilateral) são
vinculados apenas ao código F64.0.
A diferente vinculação dos procedimentos aos códigos, ao menos na portaria, carece
de fundamentação. Por que a ausência do desejo de realização de um procedimento cirúrgico
específico restringiria a realização dos outros procedimentos? Por que em uma portaria
ministerial, em um processo que tem como principio a integralidade da atenção a transexuais
47

e travestis, há distinção entre as pessoas transexuais autorizadas para certos procedimentos e


outras não?
Embora a modelagem corporal almejando a satisfação própria, dos(as)
companheiros(as) e/ou de clientes seja uma questão que transpassa a vida tanto de pessoas cis
como de pessoas trans; essa questão merece enfoque especial sob a saúde de indivíduos
transfemininas - particularmente travestis - provenientes de estratos socioeconomicamente
carentes, marginalizadas e oprimidas pela homo/trans/travestifobia, que recorrem ao auxilio
das “bombadeiras” como única opção factível de obter intervenções corporais desejadas. As
bombadeiras são, geralmente, travestis mais velhas e experientes que injetam silicone
industrial (inapropriado para implante em humanos) para a modelagem dos corpos de outras
travestis, comumente em condições incongruentes com o estabelecimento e manutenção de
uma técnica asséptica, e portanto, sob significativo risco de infecções e outras complicações,
inclusive morte súbita (30,45).
As pessoas trans que fazem uso do silicone industrial são conscientes dos seus altos
riscos e complicações. Mas a facilidade de acesso, menor custo em comparação com a
cirurgia, o não julgamento pelo procedimento e também o fato de o líquido “se movimentar”
no corpo e ser mais facilmente moldado (principalmente nos quadris e pernas), levam à sua
escolha inclusive como primeira opção(28,46). Como aponta o relato de uma travesti trazido
por Souza, 2014: “A gente sabe que é arriscado, portanto a culpa nunca vai ser da bombadeira
se acontecer alguma coisa. Se morrermos em uma sessão para bombar ela pode jogar o corpo
em qualquer lugar escondido e ninguém vai lá brigar. O importante é o corpo ficar ficar belo.”
(28)
Diante da gravidade desse tipo de situação, implementar ações de Redução de Danos
junto às bombadeiras pode ser um passo importante na preservação da saúde de travestis e
transexuais. Atualmente, há cartilhas que disponibilizam informação quanto aos riscos do uso
do silicone industrial pelas bombadeiras e também conscientizando a população travesti sobre
formas seguras de aplicação e cuidados com compartilhamento de agulhas e uso
indiscriminado de agulhas. É uma questão de saúde publica evitar que as pessoas trans passem
por processos de adoecimento e a expansão dessas políticas públicas, além de mais modos de
conscientizar a população-alvo, é um modo importante de evitar complicações médicas
maiores.
Há de se frisar que, para além do texto normalizador, travestis tem conseguido acesso
à cirurgias no PTS, como evidenciado pela revisão de literatura realizada (30,34). Entretanto
48

são múltiplos os relatos de que pessoas trans abdicam de sua identidade real para performar
uma identidade que “convença” a equipe profissional (29,30,46,47). Assim, com os dados
coletados, permanece nublada a questão de como e em que extensão as travestis e outras
identidades trans têm conseguido acesso ao processo transexualizador. No entanto, está claro
que a patologização de suas identidades de gênero constitui-se em uma barreira para a atenção
integral.
A patologização da identidade de gênero é “útil” quando se trata do contexto atual de
atenção à saúde mas, por outro lado, ela tira o foco da identidade pessoal e o coloca na
adequação a padrões sociais como se o desvio da cis-heteronormatividade fosse um sintoma e
não uma questão pessoal. A questão da despatologização perpassa, portanto, a humanização
do atendimento e possibilitaria que as equipes multiprofissionais entendessem melhor os
processos envolvidos na vivência transexual, contribuindo para a integralidade do cuidado.
(48)
É preciso, portanto, romper com as barreiras criadas através de diagnósticos que
tratam questões identitárias como sintomatológicas. A literatura reitera que “a
despatologização da transexualidade é central para a construção de relações intersubjetivas
entre equipes médicas e usuários/as transexuais baseadas em confiança mútua” (48).
Despatologizar é compreender a saúde de uma forma menos rígida e menos centrada
simplesmente em curar doenças: É ultrapassar a necessidade de remediar para pensar a vida
das pessoas para além de um paradigma de reparos, de retorno à norma. É preciso
despatologizar para que não se deixe que os preconceitos sejam reproduzidos pela medicina,
para que o que é vivido seja mais importante do que o que é estabelecido em manuais.
49

VIII. CONCLUSÕES

1. O Processo Transexualizador no SUS (PTS) atualmente é normatizado pela PRT-2803 de


2013 do Ministério da Saúde e ampliado e redefinido por quatro portarias subsequentes
que habilitaram novos serviços e incorporou novos procedimentos, permitindo uma maior
abrangência da atenção à população trans. As normas dos Conselhos Federais de
Medicina e Psicologia também são importantes no traçado do panorama do PTS pois
apresenta a desenvolvimento da visão biomédica quanto à atenção a saúde das pessoas
trans, contribuindo direta ou indiretamente para as decisões ministeriais.

2. A literatura revisada acerca do PTS apresenta – predominantemente através de análises


qualitativas – aponta a patologização como principal barreira para uma atenção integral e
mais humanizada à população trans.

3. O Processo Transexualizador no SUS é um grande avanço nos direitos transexuais ao


acesso à saúde e teve sua abrangência geográfica e de procedimentos ampliada ao longo
dos anos. Entretanto permanece o paradigma da patologização que, muitas vezes,
atrapalha o acesso e distorce a identidade de gênero como se a não adequação fosse algo
a ser “consertado”. O reconhecimento e o respeito a individualidade das pessoas trans
ainda permanece como um dos principais obstáculos, especialmente na atenção básica.
Assim, apresenta-se como necessária a elaboração de programas de educação e
campanhas permanentes sobre o direito de acesso ao sistema de saúde livre de
discriminação e com uso do nome social. E principalmente, a busca por mudanças no
discurso técnico-científico em relação às experiências transgêneras tendo em vista uma
atenção integral à saúde e o respeito à individualidade humana.
50

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