Você está na página 1de 26

Copyright © 2016 by Victor Almeida

Produção Editorial

GC Serviços Editoriais

Projeto Gráfico e Diagramação

Victor Almeida

Capa

Victor Almeida

Revisão

GC Serviços Editoriais e Josenir Bento

Texto de acordo com as normas do

Novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990,

que entrou em vigor no Brasil em 2009.

1ª Edição: Agosto/2016

Almeida, Victor.

Para Cada Infinito / Série: Contar e Criar - Vol. 2 /

Victor Almeida - Londrina: Ed. do Autor, 2016.

108 p. 11x16cm.

ISBN 978-85-921570-0-5

1. Ficção Brasileira. 2. Contos Brasileiros. 3. Séries. I.


Título.

Nenhuma parte desta publicação pode ser

reproduzida sem a devida autorização do

detentor do direito autoral.

Todo leitor é um escritor em potencial. Imagine,


então, aquele que tem algo a dizer, seja por meio de um blog ou canal? Foi pensando
nisso, nessa voz que há dentro de cada blogueiro e booktuber, que nasceu o Contar &
Criar.

Amamos compartilhar as histórias que nos marcam, mas também


queremos contar as nossas. Queremos trazer à vida personagens incríveis. Queremos
Contar & Criar.
“Pensar duas vezes é a distância entre os que sonham e os que vivem.”

— Ique Carvalho

É claro que o ônibus quebraria no meio do caminho. Nada


seria mais perfeito para completar a série de incidentes milimetricamente
orquestrados pelo universo, a fim de tornar aquela jornada impossível de ser
concretizada.

Miguel desceu logo depois da senhora que sentara ao lado dele.


Ela cheirava a legumes em conserva e carregava uma bolsa de praia imensa. Cada vez
que esbarrava na cabeça de alguém, na tentativa de passar pelo corredor, pedia
desculpa como se houvesse ferido um familiar da pessoa. O garoto podia jurar que a
senhora estava à beira das lágrimas — ou apenas muito aborrecida com outra coisa.

Ao pisar do lado de fora, Miguel respirou fundo e sentiu um


alívio imediato. Suas pernas, que formigavam devido à posição mantida por horas,
voltavam ao normal lentamente.

Daquele lado do ônibus, um círculo de passageiros se formava ao


redor do motorista. Ele explicava a situação em um tom preguiçoso, como se aquele
tipo de incidente acontecesse todo dia.

Ninguém parecia muito feliz com as notícias, uma vez que, nos
minutos seguintes, instaurou-se o caos. Os passageiros começaram a gesticular com
raiva e trocar palavras de insatisfação entre si. Os fones de ouvido, que tocavam
música no volume máximo, impediram Miguel de entender o que discutiam. Calmamente,
tirou um deles.

— Onde já se viu?! — ralhou o homem ao lado. Ele tinha os braços


em volta das duas filhas, que estavam com os olhos arregalados.

— Vocês não estão nem aí se a gente tem algum compromisso! —


reclamou uma mulher. Ela trajava roupas de ginástica e jogava as mãos para o alto,
a fim de demonstrar descontentamento. — É uma falta de respeito.

O motorista pareceu não se preocupar muito com as reclamações,


pois apenas concordava com a cabeça, sem discutir. Já devia ter passado por
situações piores. Ele fechou os olhos e falou de modo arrastado:

— Minha senhora, são os procedimentos da empresa. Infelizmente, o


próximo ônibus só consegue chegar aqui em cinco horas. Nós estamos em uma pista
pouco segura — explicou. — A única opção, se estiver com tanta pressa, é continuar
o caminho a pé.

A mulher pareceu não acreditar no que acabara de ouvir. Uma


expressão de aborrecimento tomou-lhe o rosto, com vincos se formando entre as
sobrancelhas. Miguel riu. Enquanto isso, deu--se início a uma nova onda de brados e
protestos.

O garoto suspirou e virou-se para o lado oposto, afastando-se do


grupo e colocando o capuz do moletom sobre a cabeça. Olhou a paisagem à frente
dele: uma estrada torta cercada por um morro de terra, que servia de muralha para
um conjunto de volumosas árvores logo atrás. Um cheiro agradável invadia o nariz de
Miguel. Verde. Cru.

Ele alcançou o celular no bolso, abriu a conversa com Liam e


começou a digitar.

M: ônibus quebrou, pra variar

Segundos depois, recebeu a resposta:

L: sabe os astros? eles cansaram de ser bons com a gente

Miguel sorriu. Ele se espantava com a facilidade de Liam em fazer


isso acontecer. O amigo sempre sabia a combinação correta de palavras capaz de
aliviar qualquer tensão. O celular vibrou com mais uma mensagem.

L: vai ter que esperar muito?

O garoto olhou para trás e viu que as pessoas se dispersavam.


Algumas haviam sentado no acostamento, outras voltavam para dentro do ônibus de
cara fechada. Uma criança chorava.

M: acho que sim

L: que droga

Mordendo o lábio, Miguel encaixou o fone de volta no ouvido,


fechando-se para o mundo ao redor. Escolheu algo mais suave e, enquanto ouvia,
encarou a tela, esperando que outro meio de condução se materializasse a partir
dali. Não havia nada que pudesse fazer.

No final das contas, não estava tão surpreso ou decepcionado. Já


não era a primeira vez que seus planos davam errado. Às vezes, realmente parecia
que forças superiores faziam de tudo para que ele não conseguisse chegar até o seu
destino.

Errado, elas gritavam e, então, colocavam imprevistos no caminho.


Pedras para que ele tropeçasse. A imagem da mãe veio à mente; o que ela diria? Mas
ele se recusou a pensar naquilo.

O coração de Miguel batia mais forte cada vez que se dava ao luxo
de imaginar as possibilidades. As mãos tremiam e suavam só de cogitar qualquer tipo
de conversa. Seria diferente, ele não teria personagens fictícios para salvá-lo.
Não poderia passar a noite pensando nas respostas perfeitas. Talvez não estivesse
pronto. Talvez devesse dar meia-volta até conseguir se conter. Mas ele sabia que
nunca seria capaz de fazer isso. Não quando se tratava de Liam.

E se...

Miguel divagou por tanto tempo, que acabou se assustando com o


vibrar do celular. Esse tipo de coisa o deixava louco. O seu corpo congelava todas
as vezes que recebia qualquer mensagem em uma situação tensa. Havia a possibilidade
de ser algo terrível – e ele sempre esperava pelo pior.

L: onde você tá? falta muito pra chegar aqui?

Miguel não sabia. Tentou consultar no próprio celular, mas não


obteve sucesso. Voltou até a entrada do ônibus, onde o motorista descansava apoiado
no batente e conversava com um rapaz mais novo, que tinha um bigode cheio e vestia
o uniforme da empresa rodoviária. Nenhum dos dois pareceu notar a presença do
garoto, pois se sobressaltaram quando Miguel falou com eles um pouco alto demais.

— Com licença... — O garoto tirou os fones, que o atrapalhavam, e


continuou: — Poderiam me informar onde estamos exatamente? — Quando viu que a
pergunta não causou reação alguma, tentou outra vez. — Só queria saber se falta
muito pra chegar.

O rapaz-que-não-era-o-motorista revirou os olhos, deu um tapinha


no ombro do colega e entrou na cabine, deixando-o sozinho para responder à
pergunta.

— Faltam uns 90 quilômetros. A gente tá na estrada principal, em


mais ou menos dois terços do caminho — disse em uma voz monótona, sem interesse.

Miguel agradeceu-lhe e repassou as informações a Liam. Elas não


eram de muita ajuda para Miguel, que vivia perdido. Se o motorista dissesse que
estavam quase chegando a Hogwarts, ficaria na mesma.

Quando o celular, enfim, vibrou com a resposta, Miguel leu a


mensagem três vezes para ter certeza de que era aquilo mesmo.

E, então, começou a entrar em desespero.

L: ok, eu vou aí te buscar, não se mexa!

— Eu preciso muito mijar!

— Tá bom, não grita. A gente já tá indo.

Miguel puxou o cartão de crédito da carteira e o entregou ao


caixa do supermercado. Enquanto esperava, a porta automática se abriu, e o vento
frio entrou, fazendo-o estremecer. Adorava aquela sensação. Thiago alternava,
impaciente, entre uma perna e outra, na esperança de que o pacote de compras se
fizesse sozinho. Miguel lançou um olhar de repreensão ao amigo, que suspirou
irritado.

— Você sabe que eu não queria fazer isso hoje à noite. O André é
um pé no saco — reclamou Miguel, guardando a carteira no bolso traseiro da calça,
para, em seguida, pegar metade das sacolas. — Dá pra ajudar?

Juntos, carregaram a abundância de bebidas até o porta-malas do


carro. As garrafas se chocavam em uma sinfonia de notas agudas pelo estacionamento.
O local estava quase deserto. Não havia outras pessoas ali, e os únicos carros
restantes estavam estacionados de maneira esparsa.

— Precisa mesmo de tudo isso? — perguntou Miguel, ofegante.

— Eu quero mijar! — Thiago o ignorou e esbravejou com os braços


abertos no ar, fazendo-se ecoar pelo grande pátio.

— Cala essa boca, eu já entendi! — O garoto chacoalhou as mãos e


olhou para os lados, envergonhado. — Se estiver tão desesperado, faz ali no canto.
— Não precisa pedir duas vezes.

Thiago correu até o arbusto que beirava a grade do estacionamento


e se aliviou ali mesmo. Soltou um grunhido para enfatizar o quão apertado estava.
Miguel balançava as chaves enquanto esperava na porta do carro, girando a cabeça em
todas as direções, preocupado em cobrir o delito do companheiro, e procurando
sinais de qualquer alma viva ou força autoritária.

— Agora a gente pode ir embora. — Thiago voltou, subindo o zíper


da calça de modo despreocupado.

— Já terminou o show?

— Já, obrigado.

Miguel revirou os olhos, entrou no carro e deu partida. Quando


chegaram ao apartamento, André estava sentado na soleira da porta com uma expressão
frustrada. Em seu colo havia várias embalagens de plástico, quase o fazendo
desaparecer atrás delas. André apoiou uma das mãos no chão para ficar em pé.

— Graças a Deus, chegaram! Achei que ia padecer de fome — disse,


terminando de se levantar com um pulo.

— A comida tá na sua mão. Por que não a comeu? — perguntou


Miguel, enquanto enfiava uma chave atrás da outra no buraco da fechadura, sem
sucesso.

Havia se mudado há pouco tempo e ainda não estava acostumado com


os trâmites. Não sabia para qual lado ir quando saía do elevador. Não conseguia
distinguir o síndico de qualquer outro morador do prédio. Não sabia nem ao menos
com qual chave se abria a porta.

E, para ajudar, estava apertado. Achou melhor não mencionar nada,


ou Thiago faria um grande espetáculo daquilo.

— Que tipo de pessoa eu seria se vocês chegassem e eu já tivesse


comido tudo? — Ele levantou a pilha de embalagens, tentando equilibrá-las. — Ou,
pelo menos, parte disso.

Miguel deu de ombros, não se importando muito. A verdade é que


nunca fora fã de André, que era apenas um amigo por tabela. Alguém com quem o
garoto era forçado a simpatizar para manter a companhia de Thiago. De certa
maneira, tanto Miguel quanto André sabiam disso.

— Voilá — cantou Miguel quando, enfim, acertou a chave. Empurrou


a porta com o pé e pegou as sacolas do chão.

— Não é realmente um truque de mágica quando você só consegue


abrir a porta com a última chave. — Thiago riu e deu uma cotovelada na barriga do
amigo, que se esquivou.

Miguel era sistemático. Acendeu as luzes, colocou as chaves


dentro de uma caneca no formato da cabeça de Darth Vader, tirou os sapatos e correu
para colocar as compras na cozinha. Tinha de fazer isso antes de tudo. André, por
outro lado, espalhava todos os potes e embalagens na mesa de centro, sem
preocupação. Sozinho, ele seria capaz de destruir o apartamento inteiro.

— Vocês estão cientes de que compramos bebidas para um batalhão,


né? — disse Miguel, enquanto fitava as sacolas.
— Cara, relaxa. Temos a noite toda — exclamou André, alcançando o
controle do video game. — Vocês querem ver o quê?

Na verdade, Miguel não estava a fim de ver televisão. A sua mente


não desgrudava do computador. Precisava verificar se Liam estava on-line. Se havia
postado algo novo. De quem era a vez de interagir. Em vez disso, ativou o piloto
automático e começou a guardar tudo no devido lugar. Cereais no armário. Bebidas na
geladeira. Sabão em pó na área de serviço.

Nem se lembrava de ter comprado sabão em pó. Em qual momento


parara e pensara: “Acho que preciso de sabão em pó”? Encarou a caixa azul perfumada
nas mãos, confuso.

— Ei, você tá legal? — Thiago surgiu na porta da cozinha. Ele se


apoiou ali, escondendo as mãos nos bolsos.

— Eu? Claro. Por que não estaria?

— Sei lá.

Os dois trocaram olhares, e Miguel sabia que o amigo era capaz de


dizer o que estava pensando naquele exato momento.

— Tá tudo certo. — Miguel ficou parado com a caixa de sabão nas


mãos por mais alguns segundos. — Quer dizer, eu poderia ser um pouco mais rico, mas
isso não dá pra gente escolher. — Riu de si mesmo enquanto se espremia entre o
varal de roupas na área de serviço. Assustou-se quando Thiago apareceu atrás dele,
levantando o braço para segurar as roupas, ajudando-o a abrir espaço.

— Credo, você tem que parar com essa coisa de surgir de repente —
murmurou Miguel, alcançando a pia do outro lado e deixando o sabão ali. — Obrigado.

Thiago não se moveu quando o garoto tentou voltar para a área da


cozinha. Ele firmou os pés e cruzou os braços, esperando que Miguel dissesse alguma
coisa.

— Você tá doido pra checar o computador — acusou, semicerrando os


olhos.

— O quê? Não.

A voz trêmula de Miguel o entregara, mas ele não cederia tão


fácil assim. Não admitiria que estava viciado. Que tinha o costume de conferir o
site pelo menos dez vezes ao dia — sem contar as vezes em que abusava da franquia
de internet no celular para carregar a página extremamente pesada.

— E também pare de me julgar — rebateu Miguel, evitando dar-se


por vencido.

— Não estou julgando, só fiz uma afirmação muito verdadeira. —


Thiago riu. — Você quer checar o computador.

— Não tire onda com a minha cara. Sei o que você pensa sobre
isso. — Apoiou as duas mãos no peito do amigo e o empurrou de volta até à cozinha.

Miguel abriu a geladeira e pegou duas cervejas, entregando uma


para o outro rapaz. Em seguida, sentou-se na bancada e forçou a boca da garrafa
contra a saliência do armário, a fim de tirar a tampinha.
— Não sabe, não. Você chega a conclusões muito precipitadas. —
Thiago imitou o gesto com a garrafa, mas resolveu sentar-se no chão. — Eu sempre
ouvi você falar desse “jogo” de bico calado. — Fez o sinal de aspas com as mãos.

— Não é só um “jogo”. — Miguel imitou as aspas com uma expressão


de desdém, revirando os olhos. — É uma experiência educativa.

Thiago gargalhou, quase derrubando a cerveja. Miguel deu um gole


longo e ficou em silêncio. Enquanto isso, André não parecia ter notado que ambos
estavam ausentes. Talvez estivesse comendo tudo o que trouxera e assistindo à
televisão sozinho. Ele não ligava se os dois não lhe faziam companhia. Só queria um
motivo para sair de casa na sexta-feira.

— Obrigado por essa, jamais vou me esquecer. — Thiago havia


lacrimejado de tanto rir e esfregava os olhos com as costas da mão. — Mas eu sei
muito bem o que é um RPG.

— É mais do que um RPG. Requer pensar e escrever. — Miguel


enalteceu as últimas palavras, como se aquilo fizesse toda a diferença. Pelo menos,
na cabeça dele, fazia.

— Certo.

— Tá vendo? Você está me julgando.

— Não estou! — disse Thiago, irritado. — Eu apenas não entendo a


graça do jogo. Eu. Thiago. — Ele bebeu mais um gole antes de prosseguir com o ato
cômico. — Se você achar divertido pintar unicórnios na parede do quarto e chamar
isso de “a brincadeira do arco-íris”, quem sou eu pra contestar?

Miguel fechou os olhos e respirou lentamente, preparando-se para


explicar, pela milésima vez, como funcionava o sistema do site. Thiago, prevendo o
discurso, jogou a cabeça para trás, já entediado.

— A graça está na imaginação. Eles colocam a gente em um cenário


determinado pelo moderador, e temos que inserir nossos personagens nele,
descrevendo as ações, os diálogos e pensamentos. É como escrever uma história, mas
você depende das outras pessoas pra continuar. Você não pode interferir no que vão
dizer ou como vão agir, e essa é a parte divertida. — Miguel notou que se sentia
extasiado ao descrever a experiência. Estava mesmo viciado, não conseguia parar de
pensar naquilo. Quando falava sobre o jogo, era com entusiasmo. Mas, então, pensou
em Liam. Talvez só se importava tanto, porque jogava com ele. Balançou a cabeça,
eliminando aqueles pensamentos, e voltou para o presente. — Aliás, pintar
unicórnios na parede do quarto não seria uma má ideia.

— Se você diz... — O amigo apenas deu de ombros e ficou em pé. Na


geladeira, pegou outra cerveja, que abriu da mesma maneira, pressionando-a contra o
armário. Como as mãos estavam ocupadas, esticou a perna para cutucar Miguel. — Faz
o seguinte: deixa que eu me viro com o André. — Thiago lhe deu um sorriso. Miguel
não soube dizer se era de cumplicidade ou pena, mas se sentiu aliviado de qualquer
modo. — Se ele perguntar, digo que você tá estudando. É menos bizarro.

— Tá. — Miguel riu e levantou a garrafa de cerveja em um brinde


imaginário. — Valeu.
Há mais de vinte e quatro horas que ele havia postado o
último turno, e Liam ainda não lhe respondera. Será que tinha escrito algo
ofensivo? Será que Liam se cansara de jogar? Miguel atualizou a página repetidas
vezes, na esperança de que a continuação da história surgisse abaixo da sua, mas
havia apenas um texto imenso de uma garota que nunca interagia com ninguém.

No jogo, Miguel e Liam — ou Whurthal e Kylo, como eram conhecidos


— se encontraram em uma taverna após terem atravessado o continente fantástico em
um extenuante resgate. Todo o batalhão havia morrido na guerra, e a missão falhara.
Whurthal consolava Kylo e fazia o seu papel habitual de melhor companheiro.
Feridos, exaustos e sozinhos, ambos despejavam suas dores e preocupações no balcão
da taverna, travando diálogos que iam de nada a lugar nenhum.

Ler o texto de Liam acalentava Miguel. O amigo escrevia muito


bem; as suas descrições mágicas sempre o faziam esquecer-se do mundo ao redor. Por
alguns segundos, tornava-se Whurthal — tocando o braço de Kylo e oferecendo-lhe
condolências; fitando os seus olhos castanhos (de acordo com a descrição do
personagem) e vendo a sua dor; observando seu cabelo mover-se com o vento;
engolindo em seco e sentindo que suas palavras não eram boas o bastante para
corresponder às filosofias de Liam. Ele fazia aquela experiência transformar-se em
algo real. Ele se fazia presente.

Miguel passou os olhos pela página, tentando encontrar algo que


pudesse ter aborrecido o parceiro de jogo. Sabia que estava exagerando, talvez Liam
apenas estivera muito ocupado para responder ao post. Miguel tinha noção de que nem
todas as pessoas eram isoladas como ele o era, preferindo viver no mundo fantástico
ao real. Leu o trecho final em voz alta — às vezes, somente quando fazia isso,
percebia o quão estúpido podia soar.

“A dor de perder familiares e amigos na batalha era insuportável.


A partir daquele momento, todas as lembranças se tornariam eternas, marcadas e
seladas por um cordão de espinhos em seu coração, machucando-o a cada batimento.
Nada mais restava, exceto Kylo.

Kylo, que sempre estava ao seu lado. O amigo que, por muitas
vezes, tornou-se mais importante que qualquer outro ramo de sua árvore genealógica.
O único que aceitava correr riscos junto a ele, sem medo de morrer ou de se
machucar. O único que fazia seu coração bater mais forte.

Whurthal levantou os olhos do ensopado em suas mãos e encarou os


lóbulos arredondados da orelha do guerreiro. À luz fraca do estabelecimento, seu
rosto brilhava parcialmente. Ele estava perfeito, olhando para o prato vazio à sua
frente.

E, então, Whurthal decidiu arriscar. Não tinha mais nada a


perder. Sua alma fora arrancada do corpo, deixando-o viver em uma casca vazia que
vivenciara horrores.

— Kylo — sussurrou, sem saber se o rapaz o ouvira.

Whurthal moveu o banco para se aproximar, sentindo o calor do


corpo de Kylo. Lentamente, alcançou sua mão e a apertou bem forte. Entrelaçou seus
dedos nos dele e virou o rosto ao perceber que ruborizara. Seu exterior não tremia,
mas suas entranhas, sim.

Quando atingiu o ápice de sua coragem, voltou a encarar Kylo. As


palavras saíram de uma vez. Como uma onda atingindo as pedras em uma baía. Como os
raios solares em choque contra a pele.
— Eu preciso de você.”

Será que Liam já havia lido aquilo? Miguel ainda não acreditava
que fora capaz de escrever a cena. Talvez estivesse entorpecido, ou com muito sono,
mas as palavras saíram pelos seus dedos de uma vez só. Não tinha pensado direito e,
como consequência, provavelmente, assustara o garoto.

Antes de fechar a página, decepcionado, Miguel resolveu checar a


sua inbox. Todos os dias recebia várias mensagens de pessoas solicitando novas
partidas com ele. Seus textos com Liam eram os mais acessados do site. Entretanto,
nenhum deles havia jogado com qualquer outro desde o cadastro. Miguel se sentia
especial por isso.

Passando o dedo pela rolagem do mouse, leu todas as prévias na


caixa de entrada, desinteressado. Quando já estava desistindo, a mensagem que
surgiu quase fez o seu coração parar.

Liam: oi!

Era a primeira vez que Liam o chamava para conversar em privado.


Ele viu uma pequena foto do perfil ao lado da mensagem. Ela mostrava um rapaz
jovem, de pele bronzeada e sobrancelhas grossas. Miguel não tinha ideia de como era
a aparência de Liam na vida real (nem se era mesmo um garoto), mas sabia que não
podia confiar naquela foto — a grande maioria utilizava imagens de atores e
cantoras famosas. Naquele jogo podiam ser quem quisessem.

Pensou em questionar, logo de cara, se Liam se ofendera com a sua


postagem no jogo, mas se controlou. Aquilo só o faria parecer desesperado e
patético. Respirou fundo e digitou.

Miguel: oie

Liam: desculpa, não tive tempo pra postar ainda

problemas no trabalho e tal :(

M: sem pressa! tá tudo certo por lá?

L: tá sim, tudo resolvido

M: que bom!

Para Miguel, era desconfortável e estranho conversar com Liam sem


todos os floreios e toda a ambientação. As palavras seriam realmente suas, não
ditas por intermédio de um personagem, e isso teria consequências.

M: mas e aí... conseguiu ler o que eu escrevi?

L: aham

M: e o que achou?

L: muito ousado ;)

M: é, eu sei, me desculpa

não sei o que eu tava pensando


acho que meu amigo me drogou, sei lá

L: ei calma! hahaha não disse isso como algo ruim!

Miguel se sentia envergonhado. Se não fosse tarde demais,


apagaria todo aquele texto ou editaria a parte final. Confuso com seus sentimentos,
arriscara a manobra. Deus, o que as pessoas que acompanhavam o tópico iriam dizer?
Não tinha pensado nisso.

L: eu gostei bastante

M: sério?

L: sim! na verdade, acho que Whurthal e Kylo demoraram demais pra


perceber os sentimentos um pelo outro, vc não acha?

M: quer dizer que o Kylo vai responder ao gesto de forma


positiva?

L: isso você só vai saber no meu turno

M: hum, misterioso hahaha vou aguardar então

O rapaz respirou aliviado. Seus dedos formigavam sobre o teclado.


Tinha até se esquecido de que precisava, desesperadamente, ir ao banheiro.
Entretanto, não ousou se mexer. Ficou observando a tela estática com os olhos
arregalados, à espera de uma nova mensagem.

L: aproveitando que consegui encontrar vc on-line... a gente


podia se conhecer um dia desses, né?

M: como assim? do tipo trocar facebook, coisa e tal?

Miguel se sentia burro naquela conversa. Liam demorou mais de um


minuto para responder.

L: não... do tipo off-line

O garoto olhou para os lados, desejando que alguém estivesse ali


em seu quarto. Qualquer pessoa que ele pudesse puxar pelo braço, apontar para a
tela e dizer “Tá vendo isso?”. Pensou em gritar por Thiago, mas ele trataria aquilo
com descaso, dizendo que Miguel não tinha motivos para se sentir tão ansioso.
Provavelmente faria alguma piada sobre o maníaco do parque.

M: tem certeza?

L: por quê? você não quer?

M: quero... eu acho

L: eu sei que é estranho, mas parece que a gente já se conhece há


tanto tempo

M: eu não sou nada como o whurthal

L: não importa... é sempre mais interessante conhecer a mente por


trás dos personagens.

M: ou uma grande decepção


L: duvido muito

Miguel percebeu que jogava a oportunidade no ralo. Sem


experiência em uma situação daquele tipo, não sabia como lidar com ela. Tinha medo
de que Liam corresse na direção contrária assim que o visse. Ou que não fosse
inteligente o suficiente para ser seu amigo na vida real. Ou que se comportasse
como um idiota. Apesar de os pensamentos atravessarem sua mente, suas mãos
decidiram ignorá-los e responderam:

M: acho que dá pra marcar alguma coisa

L: poxa, legal!

M: o que a gente vai fazer? eu nem sei onde você mora

L: espera

Miguel tamborilou os dedos na mesa do computador em um ritmo


frenético até que recebeu o endereço de Liam. No site, era possível escolher se os
dados privados seriam compartilhados, a fim de evitar usuários suspeitos e
perigosos.

M: vou precisar pegar um ônibus, mas não é tão longe daqui

L: perfeito... assim vamos poder tramar os próximos passos da


jornada dos nossos personagens... quem sabe não vencemos a guerra dessa vez?

Miguel riu e, então, lembrou-se de perguntar algo.

M: como eu vou te reconhecer?

L: pela minha foto de perfil :D sou exatamente o que você está


vendo... aqui, anota o meu telefone

O problema com o ar-condicionado era o seguinte: ele não


funcionava com o motor do ônibus desligado. E, por mais que o tempo estivesse frio,
ocupar um espaço fechado com outras trinta pessoas, todas em diferentes níveis de
higiene e saúde, não era uma boa ideia. Como consequência, a multidão impaciente se
instaurara do lado de fora do veículo.

O segundo problema tinha relação com as pessoas. Ao primeiro


sinal de caos — ou algo remotamente parecido —, elas pareciam abrir mão de seus
bons costumes. O acostamento havia se tornado um acampamento de desabrigados.
Passageiros estendiam toalhas e tecidos no chão e se acomodavam ali mesmo, de
frente para a nada magnífica vista do matagal. Duas crianças espalhavam as peças de
um jogo de tabuleiro sobre a calçada, e uma delas chorava porque havia esquecido os
dados em casa. Um casal sussurrava entre si e se aconchegava, próximo ao meio-fio,
em um grande edredom rosa-choque. Havia comida e sujeira por todo lado.

Enquanto isso, milhares de coisas passavam pela cabeça de Miguel.


Assombros que se perpetuavam há semanas, e outros mais novos e mais absurdos. Ele
olhava freneticamente cada carro que atravessava a rodovia, na esperança de que, em
algum deles, estivesse Liam. E se o garoto não fosse o mesmo da foto? E se fosse um
sequestrador ou algo parecido? Na verdade, Miguel sequer entendia por que estava
tão nervoso.

Após trocarem entre si os números de telefone semanas atrás, Liam


e ele pararam de postar no site. A história havia se esfriado, e os leitores
acabaram perdendo o interesse. Kylo retribuíra o gesto, levando Whurthal para fora
da taverna, a fim de que tivessem mais privacidade (essa cena quase causou em
Miguel um respeitável ataque de pânico). Em seguida, os personagens tiveram um
diálogo proposital, no qual os autores deixaram claro que a continuação da história
estava em aberto. Prometeram nos comentários que voltariam em breve, mas isso não
aconteceu.

Nada disso, porém, impediu que os dois se falassem todos os dias


pelo celular. Conversavam sobre tudo, desde desenhos animados até crises
existenciais — não havia limite. Liam o confortava, fazendo aquela amizade parecer
algo fácil. Mas agora, naquela situação, Miguel não sabia ao certo como se sentir.
E se não fosse tão fácil pessoalmente? E se ficassem se encarando sob um silêncio
constrangedor? Pensou em ligar para Thiago, mas logo notou o quão estúpida era a
ideia.

Precisava ocupar a mente até a chegada de Liam. Cada vez que


pensava que logo o conheceria, sua garganta se fechava, e ele era tomado por um
estupor. Aquilo, definitivamente, não era normal.

Miguel vasculhou os arredores pela milésima vez, procurando algo


para fazer. Estava ao lado de duas garotas, que pareciam conversar com entusiasmo,
de tanto que suas bocas não paravam fechadas. Com os fones no ouvido, a música que
Miguel escutava era mais alta que a discussão das meninas — não que estivesse
interessado em bisbilhotar, mas algo acabou chamando a sua atenção eventualmente.

A garota que estava mais distante usava óculos enormes, no


mínimo, três vezes maior que o rosto dela, e se movimentava levantando o calcanhar
do chão, inquieta. Para cima e para baixo, para cima e para baixo, ficando na ponta
dos pés. A da direita tinha o cabelo ruivo preso em um rabo de cavalo. Os olhos de
Miguel foram imediatamente para a camiseta dela, estampada com os dizeres “eu
(coração) RPG”. Ele se sentia exageradamente confortado quando encontrava outros
como ele, ainda que fossem jogadores de RPG de mesa, on-line, ou até LARP. Era como
pertencer à mesma tribo, comunicando-se por meio de um dialeto que apenas quem
fazia parte do grupo entendia. Era a sensação de não precisar se justificar por
gostar de algo que a maioria das pessoas considerava esquisito ou bizarro. Era a
sensação de que poderia se aproximar de alguém perguntando “E aí, quantos dragões
já matou hoje?” e não receber um olhar de desprezo em retorno.

Miguel abaixou o volume da música, subitamente interessado na


conversa.

— Eu sempre torci pra isso acontecer — disse a menina ruiva,


balançando os braços. — Qual é! Era óbvio que os dois estavam apaixonados, só pelo
modo como escreviam. Era questão de tempo.

Não. Não ali. Seria muita coincidência. Miguel tirou os fones de


vez, guardando-os no bolso, e escutou com atenção, tentando não se entregar.

— E você percebeu como os textos foram ficando maiores? —


perguntou a outra amiga, arrumando os óculos no rosto com um toque. — Kylo nunca
economizou nos sentimentos. — A garota ruiva concordou, e ambas riram.

Kylo.

Miguel olhou para cima e murmurou para o céu:


— Tá brincando, né?

De todos os lugares possíveis, logo ali encontraria pessoas que


acompanhavam a sua história. O universo devia estar se divertindo à beça. Agradeceu
em silêncio pela sua decisão de não mostrar o rosto verdadeiro na internet. Sabe-se
lá o que aconteceria se o reconhecessem. Miguel tentou disfarçar a própria
inquietação escondendo as mãos nos bolsos do moletom.

— Quem sabe não me deixam entrar no jogo e dar uma ajudinha? Sou
um ótimo cupido. — A garota ruiva gesticulou, fingindo lançar uma flecha ao ar com
um arco invisível.

Por fim, continuaram discutindo sobre como a história deveria


prosseguir: talvez uma troca de olhares repleta de faíscas; um toque capaz de
substituir todo e qualquer diálogo; um beijo pomposo que selaria a paixão dos dois
em um momento épico.

Miguel não as interrompeu. Não tinha coragem de se revelar como


Whurthal, dizer que tinha planos, e esperava que eles dessem certo. Então,
controlou a aflição e apenas observou o entusiasmo das duas. Nunca tivera a
experiência de conhecer alguém que realmente lia o que ele escrevia no site. Não
queria arruinar a ilusão de que toda aquela história era somente dele e de Liam.
Entretanto, ouvir os comentários o deixara animado, com vontade de pegar o
computador ali mesmo e despejar palavras em uma página. Seria muito mais fácil. O
seu cérebro não o tentaria confundir. Entraria em um transe, e quando saísse dele,
saberia de verdade o que estava sentindo. Seus anseios estariam explícitos, ditados
por seus dedos descontrolados.

— Achei você. — Miguel sentiu um cutucão no ombro e virou-se


assustado, libertando--se do devaneio.

A pessoa à sua frente era alta, morena e com um penteado que


formava um topete para o lado esquerdo. Ele vestia uma camiseta simples e jeans
rasgados na altura do joelho. Seus olhos castanhos afrontavam a expressão congelada
de Miguel.

Liam. Em toda a sua glória.

O sangue de Miguel subiu rapidamente para a cabeça, esquentando o


corpo, fazendo os sentidos se esvaírem por alguns segundos. Hipnose instantânea.
Quando se deu conta de que estava parado, com a boca semiaberta e sem dizer nada,
abriu um sorriso e cumprimentou Liam com um abraço. O perfume doce do rapaz logo o
invadiu. Miguel se perguntou como ele o reconhecera.

— Adivinhei que era você pela estampa do desenho Apenas um show —


respondeu, apontando para o moletom de Miguel. Talvez Liam fosse capaz de ler
mentes. Talvez possuísse outros poderes sobrenaturais. Talvez fosse um vampiro.
Corra, Miguel, corra.

— A seção infantil sempre tem as melhores coleções — foi a


primeira coisa que conseguiu dizer, sussurrando as palavras de modo automático.
Xingou a si mesmo em pensamento. Tente parecer normal, droga.

Liam riu.

E como aquele som era agradável.

— E aí, tá pronto pra ir? — Ele balançou as chaves e acenou com a


cabeça para o Gol vermelho parado no acostamento. Miguel reergueu as alças da
mochila de forma desajeitada e concordou. Seu abdômen formigava, como se o coração
e o estômago pulsassem juntos, no mesmo ritmo.

Liam. Liam.

Tu-dum. Tu-dum.

— Eu só preciso... Avisar. Eu acho — disse, lançando um olhar


para o ônibus.

O rapaz concordou, e eles seguiram juntos. Após uma breve


conversa, estava claro que o motorista não se importaria com a ida de Miguel.
Pareceu aliviado por ter de lidar com uma pessoa a menos. Liam logo descobriu que o
senhor se chamava Dionísio — o rapaz era muito bom em puxar papo —, e se despedira
dando um tapinha nas costas dele. Desejou, de modo amigável, que a safra de vinhos
daquele ano fosse abençoada.

Piada mitológica, ha-ha.

Miguel, nervoso, esfregou as mãos suadas na calça e riu meio


forçado. Não entendia o motivo de estar agindo daquele modo. Ele tinha outros
amigos, não era uma pessoa incapaz de socializar. Por que tudo estava sendo tão
confuso? De certa maneira, o conflito se travava entre as suas inseguranças e a
capacidade de Liam de tornar tudo aquilo mais fácil. Nada fazia sentido, e tudo era
claro, ao mesmo tempo. Quando estavam próximos do carro, Miguel resolveu quebrar o
silêncio:

— Sabe aquelas duas meninas que estavam do meu lado, ali atrás?

— Sei, a da camiseta de “eu amo RPG”.

Miguel se surpreendeu com o fato de Liam ter observado aquele


detalhe. Por isso, e muitas outras coisas, considerava-o especial. Diferente.

— Elas eram leitoras — fez uma pausa, buscando pelo tom


dramático, e, então, completou: — da nossa história, no caso.

Liam parou de andar e girou o tronco, com as sobrancelhas


arqueadas. Sua expressão era animada, como se Miguel tivesse dito que estavam
distribuindo sorvete de graça.

— Sério? Vamos lá falar com elas!

Miguel o interrompeu, segurando-o pelo braço para que ele não


corresse.

— Não, por favor.

— Por quê?

Liam, no começo, pareceu não compreender a hesitação e esboçou


uma expressão confusa. Miguel desviou o olhar, a fim de mostrar que não se sentiria
confortável com aquele tipo de atenção.

— Tá bem — disse Liam, de modo tranquilizador. Até o seu timbre


de voz tinha aquele poder. — Mas você precisa admitir que isso é demais. Nunca
encontrei uma alma viva que lesse aquilo.
— É, talvez seja legal. — Miguel deu de ombros. — Pelo menos me
sinto mais aliviado.

— Como assim?

— Não sei. Tinha medo de que o meu texto acabasse com tudo. Que
ninguém mais fosse ler. Sabe, o negócio do romance lá.

— O negócio do romance lá — Liam repetiu, com os lábios se


inclinando de leve, quase rindo da inocência de Miguel.

— É.

Os dois se fitaram por um breve momento, e a realidade atingiu


Miguel, fazendo-o corar. Aquilo estava acontecendo. Liam era real e estava ali do
seu lado. Era muito mais vivo do que todos os cenários criados em sua cabeça.

O rapaz destrancou as portas do Gol, e ambos entraram. O som do


mundo logo foi abafado, dando lugar a um silêncio que, dessa vez, não era tão
terrível assim. Era um silêncio que entoava a própria melodia, preenchendo o
interior do carro com expectativas, com o calor dos dois sentados lado a lado. Uma
canção inteiramente dedicada a eles.

— Liam — disse Miguel baixinho.

— Sim?

— Vamos matar dragões.

Liam sorriu e concordou com um aceno de cabeça, girando a chave


na ignição.

— Só vai levar um minuto — comentou Liam, quando se


aproximaram do posto de gasolina.

Era gigantesco, com duas construções de madeira agregadas. À


direita, um casebre que vendia produtos naturais e outras coisas peculiares que só
era possível encontrar em um lugar como aquele; logo atrás, uma elevação em meio à
reserva florestal, com escadas que levavam até o banheiro no piso inferior.

— Tudo bem. Acho que vou jogar uma água na cara enquanto isso —
respondeu Miguel, olhando fixamente para um ponto qualquer à sua frente.

Assim que se afastaram do ônibus, Liam informou que precisava


abastecer o Maestro — esse era o nome do seu carro. “Ele vive no conserto. Pena que
é conserto com ‘s’ e não com ‘c’”, explicara o rapaz. Miguel achou a sacada muito
engraçada. Singular como tudo o que Liam fazia, falava ou escrevia.

Ele estacionou próximo a uma das bombas disponíveis e saiu para


falar com o frentista — provavelmente, faria amizade nos primeiros segundos. Miguel
sinalizou para o conjunto de banheiros, e Liam disse que o esperaria ali.

O vento estava mais forte naqueles arredores. O local não era


muito movimentado. Havia apenas algumas pessoas conversando próximas ao cercado que
envolvia a área da reserva florestal. No entanto, onde ficavam os banheiros, mais
embaixo, estava deserto. Aliás, para Miguel, toda essa ideia de posicionar os
banheiros dentro de um matagal era, no mínimo, estranha (para não dizer irônica).
Ele desceu as escadas e entrou pela porta do lado masculino.

— Se controla — murmurou ao encarar sua imagem no espelho. Abaixo


dos olhos, bolsas escuras e enormes evidenciavam que dormira pouco na noite
anterior.

Inspirou e expirou algumas vezes. Ao inspirar, pensava em coisas


boas, coisas que podiam dar certo, invocando-as para si. Ao expirar, tentava se
livrar de todos os pensamentos negativos e das paranoias que consumiam o seu
cérebro. Aprendera esse exercício com Thiago. Na maioria das vezes, não funcionava
muito bem — ou, pelo menos, não surtia efeito imediato —, mas já havia virado um
costume.

Inspirou.

Nós estamos nos divertindo. Liam é maravilhoso e engraçado. Vai


dar tudo certo.

E expirou.

Ele não me acha estranho. Já somos amigos, e não preciso me


preocupar em dizer a coisa errada.

Quando terminou de recitar o mantra, limpando a sua mente, foi


até uma das cabines para se aliviar. Só então percebeu o quanto estava apertado –
era como se todas as outras preocupações estivessem comandando o seu corpo.

E, aí, o pior aconteceu. Ao tentar sair, percebeu que trinco


havia emperrado, trancando-o ali dentro.

Sua primeira reação foi rir. Já era de se esperar que algo assim
acontecesse. Em seguida, quando recobrou a consciência da situação, começou a se
desesperar. Forçou o trinco algumas vezes, mas ele não se mexeu. Tentou empurrar a
porta para afrouxá-lo, mas não funcionou. Suas bochechas começaram a queimar, e seu
coração, a palpitar. Devia mandar uma mensagem para Liam pedindo ajuda, no entanto,
não tinha coragem.

— Tem alguém aqui? — gritou, e a pergunta ecoou pelo banheiro


vazio. Ninguém lhe respondeu. — Droga.

Sentou no vaso, fitando o trinco e amaldiçoando-o mentalmente,


enquanto pensava no que fazer. Estava suado com todo o esforço, e minutos já haviam
se passado quando, enfim, escutou o chamado de Liam. Ele se pôs de pé no mesmo
instante.

— Miguel?

— Aqui. — Sua voz falhou, soando mais como um lamento. Ouviu a


movimentação do outro lado, e a sombra de Liam se projetou debaixo da cabine.

— Você desapareceu. Tá tudo bem?

— Acho que não.

— O que houve?

Miguel hesitou brevemente.


— Estou preso. Não consigo abrir a porta.

Liam ficou em silêncio, e Miguel tentou imaginar a expressão do


rapaz, como se estivesse segurando o riso ou então de cara fechada, descontente com
todas as desventuras acumuladas.

— Já tentou destrancar a porta?

— Ha, ha. Muito engraçado. — Ele forçou a fechadura novamente e


empurrou a porta, ainda sem sucesso. A cabine chacoalhou com a movimentação. — A
tranca tá emperrada.

— Quer que eu te ajude?

— Mas como?

Mais um momento de silêncio.

— Espera um pouco.

Não demorou muito e ouviu mais passos de Liam. Quando escutou a


porta de outra cabine ranger como se tivesse mais de cem anos, percebeu que o rapaz
entrara na do lado. Em seguida, ecoaram estampidos e o som de uma respiração
pesada. Miguel quase ousou perguntar se Liam estava bem, mas a divisão esquerda da
cabine se mexeu, e a cabeça do garoto surgiu por cima dela.

— Oi.

Miguel se assustou. Liam tentava tencionar o corpo e pular para


dentro de sua cabine.

— Tá maluco, Liam? E se alguém entrar aqui?

— Relaxa. — Ele estendeu a mão. — Agora me dá uma força pra eu


conseguir passar.

Ele se apoiou em Miguel, que teve de segurá-lo pela cintura para


que pudesse completar a travessia. Não pôde deixar de notar a rigidez do corpo de
Liam, enquanto suas mãos formigavam sob o toque. O espaço, de repente, pareceu
ínfimo.

— Pronto — ofegou Liam, limpando as mãos na calça. — Cara, você


tá vermelho igual a um pimentão.

Miguel desviou o olhar para a fechadura, como se tentasse provar


o contrário. Não estou, não. Pare com isso.

— Vê se consegue abrir isso logo — resmungou em resposta.

Liam abriu um sorriso debochado.

— O quê? Não tá gostando de ficar trancado aqui comigo? —


provocou, puxando a manga do moletom de Miguel. Liam provavelmente percebeu que o
garoto ficara ainda mais vermelho, pois parou de implicar e se virou para mexer na
fechadura, fazendo a cabine balançar mais uma vez.

Agora que o observava, Miguel só pensava em como os textos de


Liam transmitiam perfeitamente a sua essência. O rapaz estava certo: eles já se
conheciam antes mesmo de se encontrarem pessoalmente. Era estranho, mas
interessante — como se tivessem feito o processo inverso. Primeiro por dentro,
depois por fora. O cérebro e o coração de Liam, e, então, o seu corpo. Era algo
intenso de se imaginar.

— Ei, olha só o que escreveram na porta — comentou Liam, enquanto


sacava o molho de chaves do bolso para ajudar a forçar o trinco.

Havia uma frase rabiscada por alguém. O estrago era profundo na


porta de madeira, com certeza causado por algo mais forte do que um simples
alfinete. Cada traço era composto por vários outros traços, como se o autor
estivesse furioso quando escreveu. Como se precisasse dizer aquilo para alguém. Os
olhos de Miguel se focaram e leram:

PARA CADA INFINITO

EXISTEM PEQUENOS MOMENTOS

— É legal — disse, tentando soar desinteressado, mas logo se


repreendeu por isso.

— É genial — Liam leu a frase em voz alta. — Faz todo o sentido.

— O que você quer dizer?

O rapaz, ainda com as mãos forçando a fechadura, virou o seu


tronco para encarar Miguel.

— Que algo inesquecível não é, necessariamente, um grande


acontecimento. Não são explosões ou fogos de artifício. Momentos inesquecíveis são
constituídos de coisas menores do que isso. Gestos singelos, que nem sempre
precisam estar expostos ao mundo. Às vezes, são quase invisíveis.

Mesmo depois de explicar, não tirou os olhos de Miguel.


Permaneceram naquele momento, deixando as suas mentes conversarem em silêncio. Como
um exemplo daquilo que Liam havia acabado de falar. Um gesto singelo.

— Uau — sussurrou Miguel.

— É. Uau.

E, então, a fechadura fez um barulho, e o trinco saiu do lugar.


Liam retornou para a posição vertical e ergueu os braços, como se comemorasse a
vitória.

— Pronto, consegui. — Ele guardou as chaves no bolso e respirou


aliviado. — Quem disse que Kylo era o único com habilidades de arrombar fechaduras?

Miguel riu.

— Obrigado.

Continuaram ali, sem nenhuma vontade de se moverem. Os olhares se


encontraram, e o estômago de Miguel foi de novo ao chão. Ficar próximo de Liam
ainda o deixava confuso. O garoto provavelmente notou esse desconforto e disse, por
fim:

— Vamos então. — Liam se colocou de lado e estendeu o braço, como


se abrisse caminho. — Primeiro você, caro Whurthal.
Quando Miguel era criança, seus pais o levavam à praia uma
vez por ano. Não era tão longe de onde moravam, mas não tinham tempo e dinheiro
suficientes para viajar regularmente. Ele sempre aguardava pela chegada daquele
dia. Pelo momento em que seus pais começariam a fazer as malas. Era a única ocasião
em que pareciam formar uma família feliz — com os vidros do carro abaixados, o
toca-fitas no volume máximo, e uma caixa térmica repleta de refrigerantes e batata
chips no banco detrás. Miguel trocava de lugar com o pai e assumia a
responsabilidade de ser o “copiloto” enquanto sua mãe dirigia. É claro que ela o
deixava dormir durante todo o trajeto. Quando, enfim, chegavam à cidade litorânea,
ela o acordava gentilmente com um psiu. A primeira coisa que faziam era visitar o
velho fliperama, o lugar preferido de Miguel.

Com o tempo, o costume foi se perdendo. “Ano que vem, talvez”, os


pais diziam quando o garoto os questionava. De repente, era como se aquela viagem
não fosse mais interessante para eles, apenas para Miguel. Os momentos em que eram
forçados a ficar juntos, a cantarolar as músicas que tocavam no rádio, a inventar
brincadeiras e a trocar histórias perderam a importância. Entretanto, por mais
mundano que tudo parecesse, era o que os unia. Seu pai se tornara viciado em
trabalho, e sua mãe deixara de ser a pessoa amável de sempre. Era outra
completamente diferente, controlando tudo o que Miguel fazia.

Viajar com Liam trazia todos aqueles sentimentos de volta. O


cheiro do interior do carro, misturado com o dos campos verdes que adornavam as
estradas; a tonelada de salgadinhos que compraram e estava no banco detrás; até a
ocasional ultrapassagem. Tudo isso fazia Miguel sentir-se nostálgico. Era uma
chance de reviver os bons momentos. Uma chance que Liam lhe proporcionava sem nem
mesmo desconfiar. De certo modo, isso tornava tudo mais especial.

— Você está quieto. No que está pensando? — Liam perguntou.

— Nada demais. — Miguel trançou os puxadores do gorro do moletom


nos dedos e levantou a cabeça para olhar através da janela. — É só que... Há muito
tempo que eu não fazia isso. Sair de casa, viajar. Não me lembrava de como era a
sensação. — Ele desviou o olhar da paisagem para observar Liam, que também o fitou.
— É boa.

Liam, em silêncio, voltou a olhar para a estrada. Miguel jurava


que era possível ouvir as engrenagens do cérebro do garoto trabalhando. Um som
constante.

— Se importa se eu colocar uma música?

Miguel fez que não com a cabeça, e Liam conectou o celular no


cabo USB, que pendia solto. Após um breve momento, a música começou a tocar, suave.
Era Hero, da banda Family of the Year.

— Pode ser essa?

Em vez de responder-lhe, Miguel cantarolou um trecho, fazendo


Liam sorrir e descansar o celular no porta-copos. Os dois batucavam os dedos na
perna, no mesmo ritmo, balançando os ombros e sussurrando letras ao vento.

Your masquerade
I don’t wanna be a part of your parade

Everyone deserves a chance to

Walk with everyone else

— Me desculpa se eu não estou fazendo isso certo — disse Miguel,


acanhado.

— O quê? Cantar?

Ele levou algum tempo para responder.

— Não. Essa questão de novos amigos. Eu não sou muito bom nisso.

Liam tirou uma mão do volante e alcançou um pote de batatinhas no


banco traseiro. Tirou a tampa com a boca, pegou um punhado e ofereceu para Miguel.

— Deixa eu te contar uma coisa sobre mim.

Miguel segurou o pote para que Liam pudesse dirigir. Não sentia
muita fome. Seu estômago estava perturbado demais para aceitar qualquer comida.

— Na quinta série, uma das professoras resolveu passar um


trabalho em grupo para a turma. A gente precisava reproduzir o corpo humano com
massinha de modelar. A missão era retratar todos os órgãos, colocando-os no lugar
certo, de acordo com o que ela havia ensinado. Eu não tinha muitos amigos, então
acabei ficando em um grupo de pessoas com as quais não tinha afinidade. Elas eram
relativamente populares. — Liam estendeu a mão e pegou mais uma porção de batatas,
enfiando todas de uma vez na boca. Quando as engoliu, voltou a falar. — Eu estava
bem animado. Por um momento, achei que faria parte daquele grupo. Não só no
trabalho, sabe? Pensei que iriam me aceitar como um deles. Aquela coisa de
frequentar a casa um do outro, passar a tarde juntos, e tudo o mais.

Miguel permaneceu em silêncio enquanto escutava a história. Seus


olhos viajavam dos de Liam para os lábios do rapaz, descendo em seguida até o
pescoço e voltando à posição inicial.

— Nós marcamos o dia e combinamos de fazer o trabalho na minha


casa. Naquela noite, fiz o maior escândalo com os meus pais, insistindo que tudo
precisava estar impecável, e a geladeira abastecida com sanduíches. Sabe como é, a
gente tenta impressionar.

Liam deu uma piscadela para Miguel e prosseguiu:

— Mas nenhum deles apareceu. — Ele fez uma pausa e respirou


fundo. — Minha mãe me olhava como se já esperasse por aquilo e estava sofrendo por
me ver tão chateado.

“O trabalho era para o dia seguinte. Tentei ligar pra todo mundo,
mas ninguém me atendia. Não tinha outra opção a não ser fazer tudo sozinho. Minha
mãe acabou me ajudando, e até que o resultado ficou legal.

Quando cheguei à escola no dia seguinte, descobri que haviam


feito o trabalho sem mim. Fizeram outros planos na casa de alguém, e acabei ficando
de fora. Questionei, e me disseram que eu era bizarro demais. Que tinham medo de ir
até a minha casa. Medo de mim, porque eu sempre fui meio anormal.”

Ele esperou um pouco antes de concluir a história. Miguel vestia


uma expressão de total compreensão. Sabia como era ser rotulado daquela maneira.
Liam abaixou o seu vidro até o fim e apoiou o cotovelo na borda da janela.

— Depois disso, eu me fechei completamente. Não só durante o


restante do ano, mas até hoje. Era como se aquilo tivesse se tornado o meu legado,
sabe? Ser esse garoto bizarro de quem os outros têm medo.

Liam então posicionou a mão sobre o ombro de Miguel, fazendo o


coração do garoto disparar. Seu corpo enrijeceu, mas ele tentou não transparecer o
nervosismo. A história o fizera sentir uma imensa empatia por Liam.

— Você foi a primeira pessoa com quem eu tive coragem de começar


a conversar diariamente, mesmo que fosse através do jogo. Senti que tinha feito um
amigo.

Liam concluiu com um sorriso e retornou a mão até o volante.


Miguel demorou um pouco para reagir a tudo aquilo, mas uma onda de felicidade o
preencheu. As palavras de Liam ecoaram em seus ouvidos.

— Então nós somos amigos — disse baixinho.

— Creio que sim.

Miguel cedeu e começou a comer as batatas. A música havia


acabado, e outra, que ele não conhecia, entrara no lugar. Liam continuou a se mexer
no ritmo.

— Isso parece tão fácil pra você. Fazer amigos.

— Eu sei disfarçar bem — Liam respondeu, passando a língua pelos


dentes.

Miguel notou que ele diminuía a velocidade, dirigindo-se ao


acostamento. Talvez precisasse checar as direções ou havia algo de errado com o
carro. Estavam no meio do nada. Do lado direito de onde Liam parara, via-se um
campo vasto e cercado. A vegetação se estendia além do alcance dos olhos. Ela
farfalhava com o vento frio. A alguns metros de distância, o terreno se inclinava e
formava uma colina, com apenas uma árvore em cima. A propriedade era marcada por
uma placa de madeira, com uma identificação numérica. Não havia nada além disso.

— O que aconteceu? — perguntou Miguel.

— Já sei o que podemos fazer.

Liam saiu do carro e deu a volta até a porta de Miguel, que


parecia confuso. Abriu-a, estendeu a mão e disse:

— Você não queria matar dragões?

— Quando falei sobre matar dragões, não quis dizer invadir


uma propriedade privada! — protestou Miguel, enquanto Liam escalava a cerca,
apoiando-se nos vãos entre as ripas. Ele só podia estar louco. O que pretendia com
aquilo?

— Deixa de drama, Whurthal. — Ele finalmente alcançou o topo da


cerca e sentou-se ali, com uma perna de cada lado. Estendeu a mão para Miguel e
completou: — Se permita viver um pouco.

O garoto hesitou. Não era impulsivo como Liam. Não conseguia


vestir uma roupagem de que tudo estava bem, confiante em relação às suas atitudes.
Entretanto, Liam tinha razão. Miguel deixara de viver e por muito tempo se
escondera na sombra dos próprios medos.

Apenas percebeu o quão sozinho estava quando o seu olhar


encontrou o de Liam pela primeira vez algumas horas atrás. Naquele momento, teve
certeza de que precisava da sua companhia. De que Liam o ajudaria.

Miguel se aproximou da cerca, mordendo os lábios de ansiedade.


Liam, com uma expressão empolgada, manteve a mão estendida, esperando que fosse
aceita.

Seus dedos se tocaram, e uma mão se fechou ao redor da outra. Com


a ajuda de Liam, Miguel escalou a cerca de madeira até atingir o mesmo patamar,
sentando-se ali também.

— Viu? Não foi difícil.

— Você é maluco.

Miguel percebeu que Liam ainda não o soltara. Suas mãos estavam
unidas e suadas, como se um vapor quente dançasse no espaço entre elas. Aquilo era
confuso e maravilhoso.

— E agora? — indagou Miguel, semicerrando os olhos para enxergar


até onde conseguisse.

Liam abriu um sorriso.

— Quer apostar uma corrida?

Puxando Miguel consigo, jogou-se do alto da cerca. Os dois caíram


do outro lado, rindo. Liam o ajudou a se levantar do chão, segurando sua mão
novamente e começando a correr.

— Espera, o que você tá fazendo?

Os dois dispararam em direção à colina mais à frente.

— Sempre... Quis correr assim... Em um campo aberto. — ofegou


Liam, estendendo o outro braço no ar, fechando os olhos e respirando fundo. — Me
sentir livre.

Miguel observou Liam e, dessa vez, não hesitou. Não se permitiu


questionar. Não se permitiu sentir medo, nem pensar no passado. Apenas se permitiu
fazer o mesmo que o amigo: libertar-se.

Fechou os olhos.

Levantou a cabeça.

E inspirou.

As pernas se moveram por conta própria. Também estendeu o braço,


e o impacto do vento o atingiu. Sua mente abriu mão do que a afligia, deixando tudo
para trás à medida que corria. Uma das mãos segurava Liam como se ele fosse o
alicerce que o impediria de levantar voo.

Mas, ao mesmo tempo, voavam juntos.

Estavam em uma missão diferente das anteriores. Dois guerreiros,


munidos apenas um do outro, enfrentando o dragão que os aterrorizava todas as
noites.

O vento era a espada.

O coração era o escudo.

Juntos, correram e lutaram.

Seus braços se tocaram durante a corrida, e cada muro ao redor do


coração ruiu. Miguel soube exatamente o que sentia, não precisava mais traduzir as
suas emoções em palavras escritas para ter certeza. A certeza estava ali.

Para cada infinito existem pequenos momentos.

Aquilo se tornava tão fácil de acreditar... Enquanto Miguel


mergulhava na imensidão dos acontecimentos. Enquanto seus dedos se chocavam, e o
calor do corpo viajava de um para o outro.

Esse era mais um pequeno momento, em meio a tantos outros. Era o


apaziguar do coração. A paz em meio ao caos. O começo das possibilidades. O
princípio do novo.

Uma explosão invisível.

Singela e sem fim.

Quando chegaram à colina, os pés de Miguel se cruzaram, e ele


tropeçou, levando Liam consigo. Ofegantes, caíram de costas no gramado,
gargalhando. Não havia arrependimento. Liam, ainda rindo do que acabaram de fazer,
virou-se para Miguel e apertou a sua mão mais forte.

— Caramba. — Ele não conseguia formar uma frase completa entre os


períodos de respiração. — Até que você me acompanhou bem.

— Se eu não o acompanhasse, acho que você sairia me arrastando —


respondeu Miguel, também com dificuldade.

— É bem provável.

Riram novamente.

Miguel puxou a mão de volta para limpar o suor que escorria da


testa e depois a colocou sobre o peito, sentindo o coração pulsar de modo
frenético. Liam fez o mesmo, e assim ficaram até que a respiração deles se
normalizasse. Por fim, permaneceram deitados, encarando o céu sem nuvens. O mundo
era encantador. O sorriso dos astros aquecia a pele.

— O que você acha que Kylo e Whurthal devem fazer agora? —


questionou Liam, olhando para cima sem piscar.

Miguel não tinha certeza se a pergunta se referia ao jogo ou ao


momento. Pensou em algumas respostas, mas não queria correr o risco de estragar
tudo com palavras inúteis. Então, desatou a falar:

— A gente ainda precisa encontrar uma maneira de recuperar os


homens perdidos na guerra. A base principal já era, mas ainda temos uma chance se
recrutarmos...

— Miguel — sussurrou Liam, interrompendo-o. O tom leve de sua voz


abafava os estampidos agudos da mente de Miguel.

Liam, ainda deitado, virou-se e apoiou a cabeça na mão, fitando


Miguel. Uma simples troca de olhar era capaz de fazer o garoto viajar para o
passado e o futuro em apenas um segundo. Completar-se e desconstruir-se.

— O quê?

— Eu não sei se quero mais jogar — disse Liam, receoso.

Miguel não entendeu o motivo da afirmação do garoto. Não tinha


sido tudo perfeito até agora? Decepcionado, fechou o semblante. Não soube o que
dizer. Talvez Liam estivesse cansado de fingir ser quem não era.

Após um momento de silêncio, Miguel respirou fundo e perguntou:

— Por que não?

Liam olhou ao redor, abrindo e fechando a boca várias vezes, como


se procurasse pelas palavras certas.

— Acho que prefiro viver no mundo real. — Seu cabelo balançou com
o vento e caiu sobre a testa. Ele o afastou e voltou a fitar Miguel. — Agora eu
tenho um bom motivo pra isso.

Miguel pensou em como se apaixonara por quem Liam era. Pela


maneira como os pensamentos do garoto pareciam correr na direção contrária. Por sua
sinceridade e seu senso de humor. E, agora, pela amizade dele — ou algo que Miguel
não conseguia definir muito bem, mas que o fazia feliz.

— Sem medo?

— Sem medo.

Miguel sentiu, assim como Liam, que aquele era o momento de dar
um passo à frente.

— Eu também quero viver no mundo real.

Liam sorriu. De certo modo, era uma despedida de Kylo e Whurthal,


feita longe dos olhos do público. Apenas os dois saberiam o desfecho dos
personagens. Esse desfecho era diferente, pois começava com uma nova história.

Liam se apoiou no chão para se levantar e estendeu a mão para que


Miguel fizesse o mesmo. Quando já estavam de pé, contornou o rosto do garoto com a
ponta dos dedos e disse:

— Gosto muito de você, Miguel.

Miguel alcançou a outra mão de Liam, entrelaçando os seus dedos


nos dele, e respondeu:
— Eu também gosto muito de você, Liam.

E seguiram para o topo da colina.

Miguel e Liam estavam sentados de pernas cruzadas


debaixo da árvore, um de frente para o outro. Conversavam sobre tudo. Miguel sentia
o rosto ruborizar sempre que Liam o tocava. Na perna, no rosto, no braço, nas mãos.
Seu corpo recebia as cargas elétricas e vibrava em resposta.

O dia estava longe de acabar. Ainda tinham algumas horas pela


frente antes que Miguel precisasse pegar o ônibus de volta para casa.

— Quer terminar a nossa viagem? Faltam alguns quilômetros —


indagou Liam.

— Não. — O garoto olhou para cima e tentou enxergar o sol através


das frestas desenhadas pelos galhos da árvore. — Vamos ficar aqui mais um pouco.

Miguel não estava pronto para se despedir daquele lugar. Era


simbólico. Ali, recebera as respostas que procurava. Havia sido o seu campo de
batalha. Mais adiante, ele imaginava o seu estandarte oscilando ao vento, como se
declarasse vitória e uma oportunidade de recomeço. Era como uma promessa — não de
que Liam resolveria todos os seus problemas, mas de que, dessa vez, Miguel não os
teria de enfrentar sozinho.

Faz sentido se eu disser que essa é a parte mais


difícil? Já bateu até aquele nervosismo, porque eu tenho convicção de que vou me
esquecer de alguém. Ei, se esse alguém for você, me perdoa, ok? Vacilo meu.

Primeiro de tudo, não posso deixar de agradecer aos meus pais,


que sempre me apoiaram em toda a minha jornada como leitor. Por todas as vezes em
que fingiam que estavam prestando atenção enquanto eu falava um monte de coisa que
só interessava a mim.

Em segundo lugar, aos meus amigos. Todos aqueles que seguraram a


minha mão nos momentos de crise (e foram muitos, isso eu garanto), e que não me
deixaram desistir de fazer vídeos, abandonar a escrita ou ligar para o crush às 3
da manhã. Palmas para todos vocês pela tarefa árdua chamada: me aturar.

Obrigado à Gleice Couto, por me incentivar e por pular de cabeça


nesse projeto comigo. Sem você, isso aqui ainda seria um arquivo do word jogado
dentro de uma pasta aleatória. E obrigado, claro, ao Wes Vieira, que inspirou essa
lindeza de conto.

Um abraço de urso em todos os inscritos do Geek Freak. Obrigado


pelo carinho, pela força e pelas risadas. Vocês sabem que meu amor por vocês é
daqueles que transborda.

E Morangas, agradeço por fazer a piada do Gol acontecer. É nóis.