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Copyright © 2016 by Gleice Couto

Produção Editorial

GC Serviços Editoriais

Projeto Gráfico e Diagramação

Victor Almeida

Capa

Victor Almeida

Revisão

GC Serviços Editoriais e Josenir Bento

Texto de acordo com as normas do

Novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990,

que entrou em vigor no Brasil em 2009.

1ª Edição: Agosto/2016

Couto, Gleice.

Antes do Agora / Série: Contar e Criar - Vol. 1 /

Gleice Couto - Rio de Janeiro: Ed. do Autor, 2016.

104 p. 11x16cm.

ISBN 978-85-918055-2-5

1. Ficção Brasileira. 2. Contos Brasileiros. 3. Séries. I.


Título.

Nenhuma parte desta publicação pode ser

reproduzida sem a devida autorização do

detentor do direito autoral.

Todo leitor é um escritor em potencial. Imagine,


então, aquele que tem algo a dizer, seja por meio de um blog ou canal? Foi pensando
nisso, nessa voz que há dentro de cada blogueiro e booktuber, que nasceu o Contar &
Criar.

Amamos compartilhar as histórias que nos marcam, mas também


queremos contar as nossas. Queremos trazer à vida personagens incríveis. Queremos
Contar & Criar.
Egoísmo*

substantivo masculino

1 amor exagerado aos próprios interesses a despeito dos de outrem

2 exclusivismo que leva uma pessoa a se tomar como referência a


tudo; orgulho, presunção

*Dicionário eletrônico Houaiss, 2013.

Sentia o meu rosto sendo esfolado. Nunca pensei que a


areia clara e fina do parquinho do colégio pudesse ser tão áspera. Ela sempre me
pareceu inofensiva quando eu a molhava para construir castelos ou brincava de
casinha com as minhas colegas de classe.

Meu cabelo longo, preto, escorrido e sempre bem arrumado, formava


um ninho, um verdadeiro nó de marinheiro decorado com areia e fios sem rumo. Uma
pressão incomum, que vinha de cima, empurrava a minha cabeça cada vez mais para
baixo, como se fosse possível fazer com que afundasse ainda mais naquela areia.
Tentei protestar, fazendo força contrária, e abri a boca, mas foi como se uma
escavadeira dragasse uma grande quantidade de areia, que depois cuspi junto com um
filete de saliva que pendia no canto da minha boca.

A cena era, no mínimo, constrangedora.

Permaneci com os olhos fechados. Fazia tanta força, que via finas
listras horizontais pipocando na escuridão. Não me atrevia a abri-los, tentando
manter intacta ao menos uma parte do meu rosto.

Os sons estavam abafados, como se alguém tivesse colocado um


tampão em meus ouvidos. Ainda assim, conseguia distinguir alguns grunhidos (que
deviam ser meus), berros (que também deviam ser meus), xingamentos (de meu
agressor, acho) e... Aplausos? Meu Deus, meus coleguinhas de classe estavam
aplaudindo aquilo!

Senti os meus olhos arderem, e, mesmo que ainda estivessem


fechados, lágrimas escorreram pela lateral deles, abrindo caminhos em minhas
bochechas.

Então, um forte puxão me suspendeu, e o ar chegou aos meus


pulmões em longas golfadas. Afobada, no processo, praticamente almocei areia. Tossi
tanto que pensei ter sentido o meu estômago trocar de lugar com o fígado. Os
pulmões deviam estar em algum lugar do esôfago.

As vozes estavam mais brandas, havia apenas um zumbido


intermitente na minha cabeça. Eu ainda sentia um aperto firme em minha blusa,
puxando-me para trás.

Finalmente, quando consegui prestar atenção ao que acontecia, eu


o vi através dos meus olhos embaçados (de dor, vergonha, raiva): Gustavo me
encarava com uma feição assassina.
Ele também estava uma bagunça e chorava.

— Seu horário acabou.

— Hm... Certo.

Era meio-dia em ponto. Conferi no relógio que ficava logo atrás


de Eliza, na sua estante com poucos livros, mas repleta de pequenas esculturas de
metal abstratas. Perdi a conta das vezes em que observei essas peças por horas,
enquanto tentava expressar em palavras o que estava muito bem guardado em algum
buraco negro das minhas memórias. Guardado, não. Perdido deliberadamente para que
não houvesse muitas chances de resgate.

Particularmente, uma estátua em bronze de uma criança carregando


um adulto no colo sempre me chamou atenção. Era essa que eu fitava quando Eliza
falou comigo de novo.

—Acho que temos muito no que pensar nos próximos dias.

— Temos?

Eu tinha.

Ela não disse nada de imediato, apenas me observou, como se


esperasse mais algum comentário meu. Eliza sempre fazia isso. Quando comecei a
encontrá-la, isso me incomodava, era como se houvesse uma espécie de obrigação de
responder qualquer coisa, apenas para me sentir útil e participante do processo.
Com o tempo, percebi que o meu silêncio podia dizer muito mais para ela do que um
monte de palavras aleatórias usadas apenas para preencher o vazio – não apenas o da
sala, como também o interno.

— Nos vemos semana que vem?

— Claro – confirmei em um tom firme, demonstrando confiança. Um


sorriso caía bem também. Então, sorri, meus lábios se deformando de um jeito
automático e pouco gracioso. – Até semana que vem!

Meus passos, quando deixei a terapia, eram determinados, meus pés


sabiam qual caminho seguir: um projeto na rádio da faculdade precisaria da minha
atenção nas próximas cinco semanas. O sucesso dele podia ser o passaporte para uma
tão sonhada bolsa de pesquisa na área de Comunicação Social.

Entretanto, esses mesmos pés que sabiam para onde ir vacilaram


horas depois, recuando dois passos até as minhas pernas encostarem na cadeira atrás
de mim, fazendo-me sentar.

1...2...3... Inspira. Expira.

Uma versão um pouco mais velha de Gustavo me estendia a mão


esquerda, estampando no rosto um sorriso aberto que fiquei irritada comigo mesma
por conseguir decifrá-lo. Vi expectativa naqueles lábios finos e levemente rosados.
Aqueles expressivos olhos castanho-claros confirmavam essa informação.

— Olá, Gustavo. Tudo bem? – Apertei a mão dele de modo casual,


sem estender muito o contato, como se encontrá-lo todo dia fizesse parte da minha
rotina atual.

Notei que usava um casaco preto, mesmo com o calor de quase


quarenta graus que fazia lá fora. Percebi também que o cabelo estava mais curto,
porém, ainda assim, dava para ver os anelos loiros se formando de modo discreto. Um
cacho teimava no meio da testa, inclusive.

— Júlia... – O meu nome dançou em sua boca mais tempo do que eu


gostaria. – Estou levando, e você?

Uma lembrança brotou na minha mente.

Gustavo batendo na porta.

— Tudo bem. – Acenei com a cabeça.

Eu do lado de dentro. Inspira.

— Hm... Vocês se conhecem? – Meu amigo André parecia animado,


sorrindo de orelha a orelha. Ele estava desesperado para conseguir alguém que nos
ajudasse no projeto. O tempo era curto, havia muito trabalho a ser feito, e ele
também sonhava com a bolsa de pesquisa. Eram apenas três vagas para toda a
graduação de Comunicação Social.

— Sim, mas não nos vemos há... o quê? Três anos? – Eu não olhava
para Gustavo, prestava atenção nos papéis à minha frente, tentando ler o que estava
escrito neles.

Percebi que estavam em branco. Minha mente também.

As chaves na minha mão. Expira.

— Dois anos e sete meses...

— Ah, isso! Não sabia ao certo e...

— E quatro dias – interrompeu ele para completar as suas contas.


Gustavo usava a mão esquerda para isso. Se eu tivesse duas mãos esquerdas,
dominaria o mundo. Ele costumava dizer.

Pelo visto, nesses dois anos, sete meses e quatro dias, ele não
havia dominado o mundo. A sua mão direita permanecia no mesmo lugar. A esquerda
também. As minhas apertavam as folhas em branco com uma vontade exagerada,
amassando as bordas, a ponta dos dedos perdendo um pouco de cor com a pressão.

— Cinco! Cinco dias – corrigiu ele, balançando a cabeça. O


sorriso nos lábios aumentou um pouco, como se saber o tempo exato que não nos
víamos fosse algo para se orgulhar.

Faltou dizer as horas e os minutos.

Sete horas e trinta e três minutos.

Eu não me orgulhava de saber disso.

Também não me orgulhava da minha covardia. Queria que aquilo


terminasse logo para sair correndo daquela sala. Olhei para André, na esperança de
descobrir que eu tinha poderes telepáticos para que ele me entendesse. Ele era meu
calouro, mas não nos conhecemos em uma chopada, e, sim, na rádio da faculdade, há
um ano e meio. Mesmo com esse tempo de convivência, ele não conseguia me ler na
maioria das vezes. Mas, quando eu me esforçava e praticamente pendurava uma placa
de luzes neon no meu pescoço, ele me entendia.

Era exatamente o que acontecia naquele momento.

— Então, estava vendo o seu currículo... – André, percebendo que


deveria agilizar a entrevista, assumiu a sua voz profissional enquanto mexia em
algumas folhas soltas dentro da agenda.

Por que mesmo deixei que ele selecionasse os currículos?

André me passou um dos papéis. Era o currículo de Gustavo. De


imediato, percebi: ele escolheu a dedo qual foto 3x4 colocar. Era horrível,
Gustavo, inclusive, estava meio vesgo nela. Não o reconheceria se aquilo caísse
primeiro em minhas mãos. Esperto. Concentrei-me no restante do currículo, como se
fosse um mapa que me indicaria informações sobre Gustavo e sua vida durante o tempo
no qual não nos vimos. Nada fazia referência a isso. Apenas li o que já sabia sobre
ele. Na verdade, isso era estranho. Ele não havia feito nada nesse tempo todo? Um
curso? Faculdade?

— Vi que não está cursando Jornalismo...Isso me chamou a atenção.


– André comentou, enquanto fingia escrever algo no currículo, mas de onde eu estava
podia vê-lo desenhar uma casa, um sol e um jardim. – Por que o interesse no
projeto?

O que eu queria mesmo saber era por que André havia selecionado
esse currículo, se Gustavo não possuía experiência com rádio nem qualquer
qualificação que pudesse nos ajudar.

Também queria saber por que a casa desenhada por André tinha
tantas janelas. E enormes, quase não se viam as paredes. Nunca desenhei uma casa
com janela. Eliza faria uma análise desse detalhe se eu desenhasse uma para ela.

Então, lembrei-me da sessão de terapia mais cedo, e meus ombros


penderam, exaustos.

Provavelmente, respirei fundo demais, pois, quando meus olhos


deixaram o currículo de Gustavo, e levantei a cabeça, os dois me observavam.

— Tudo bem, Ju? – André estendeu a mão e tocou a minha,


apertando-a de leve. Ele podia ser um pouco desligado, mas, no final das contas,
sempre foi atencioso comigo.

Respondi à pergunta dele com um gesto positivo de cabeça. Não


deixei de notar que Gustavo não me fitava mais. Sua atenção estava na minha mão e
na de André juntas.

Poderia ter afastado a minha mão da do meu amigo a qualquer


momento. Ele não ligaria. O apelido de André era “Homem-polvo”. Ele era todo toque
e praticamente se comunicava apenas com as mãos, independentemente da pessoa com
quem estivesse falando. Caso André se encontrasse um dia com o Papa, quebraria
todos os protocolos possíveis, dando até tapinhas nas costas do líder da Igreja
Católica.

Então, não existia segundas intenções em nossas mãos juntas, mas


queria que Gustavo pensasse o contrário. Meus dedos apertaram os de André de volta
e sorri para ele.
— Só cansada. – Recolhi a mão e inclinei a cabeça. Percebi que eu
não era tão boa assim em fingir e me senti desconfortavelmente infantil agindo
desse jeito.

Em seguida, quando fitei Gustavo, percebi que estava certa, eu


não servia mais para esse papel. Os olhos de Gustavo não compraram o que viram, e
percebi provocação neles.

Eu não devia me importar. Não devia.

Mas me importei.

— Terminei o ensino médio e alguns meses depois tive que tirar um


tempo para mim – Gustavo explicou, olhando de relance para André, mas me encarando
todo o restante do tempo. – Tive que organizar algumas coisas.

Organizar algumas coisas.

Coisas.

— O projeto é sobre música, certo?

— Isso – confirmou André. – Queremos falar sobre a música como


movimento de contracultura no período do regime militar.

— No próximo semestre, começo a cursar música. Não aqui, em outra


faculdade – continuou Gustavo. – Então, acho que posso ajudar, mesmo não tendo
experiência com rádio.

— Música? Que ótimo! – comentou André, animado, virando-se para


mim, com expressão de viu-como-eu-sou-bom-em-achar-pessoas-para-nos-ajudar.

Tanto ele como eu sabemos que foi pura sorte. Para o projeto, não
para mim.

— Com certeza, vai ajudar muito!

Quando escutei o “vai ajudar” saindo da boca do meu ex-calouro,


soube que Gustavo já fazia parte da equipe. Eu podia argumentar contra, mais tarde,
com André, mas tínhamos outras opções? O Gustavo de dois anos, sete meses, cinco
dias, sete horas e... olhei para o meu relógio de pulso... cinquenta e três minutos
atrás era uma biblioteca musical ambulante. Se ele não tivesse mudado, realmente,
seria de grande ajuda.

Se ele não tivesse mudado.

No fundo, preferia que ele tivesse, mas sempre fui cética em


relação a mudanças. E sabia que Gustavo também o era.

Sempre achei os dentes da frente de Gustavo grandes


se comparados à sua boca pequena e seus lábios finos – nada que ficasse muito
estranho nele, na verdade, até o deixava charmoso. Mas não me lembrei de que achava
esse detalhe fofo quando esses mesmos dentes bateram contra os meus, fazendo a
minha cabeça inclinar para trás, a dele acompanhando o movimento, não se separando
de mim. Fechei os olhos por instantes, uma reação ao choque repentino. Quando
foquei Gustavo de novo, eu não sentia mais dentes, mas, sim, os lábios dele nos
meus apertando-os com força. Fiquei sem ação. Não estava esperando isso.

Muito menos as suas mãos na barra da minha blusa, me puxando de


modo desajeitado. Eu devia fazer algo com as minhas? Mas como? Os meus braços
pendiam inertes ao lado do meu corpo, tão incapazes de se moverem quanto todo o
restante de mim. Nem o meu cérebro funcionava direito. Como mesmo tínhamos chegado
a esse ponto?

Se alguém me contasse que o garoto que arrastou a minha cara no


parquinho de areia, tempos depois, seria o responsável pelo meu primeiro beijo, eu
não acreditaria.

Algo úmido se mexeu contra os meus lábios de modo mais


determinado e, na fração de segundo que soltei a respiração pela boca, em surpresa,
essa coisa úmida atacou os meus dentes. No instante seguinte, quando encostou na
minha língua, entendi.

Gustavo estava me beijando de verdade.

Era o meu maldito primeiro beijo de verdade!

Não me lembrava de quando tinha permitido isso.

Minhas mãos finalmente recobraram os movimentos e as usei para


empurrá-lo para o mais longe de mim possível. Mas as dele já seguravam o meu rosto
com firmeza. Sem conseguir sucesso desse jeito, arquitetei um plano simples. E bem
dolorido.

Primeiro, tratei de me acalmar e tentei corresponder ao beijo.


Não sabia se estava fazendo certo. Quer dizer, fiquei mexendo a língua também. Os
dedos dele se afrouxaram um pouco na minha nuca, mas não o bastante para eu
conseguir me afastar. A aparência magrela de Gustavo enganava, ele chegava a ser
bruto de tão forte.

Então, coloquei o plano em prática e mordi a língua dele com


vontade. Seu guincho de dor reverberou pela minha boca, e ele se afastou tão rápido
que perdeu o equilíbrio, fazendo um baque surdo ao atingir o chão.

Havia um gosto levemente ferroso na minha boca.

— Você tá doida?! – Gustavo gritou, limpando, do canto da boca,


um pouco de sangue com a palma da mão.

— Não era para ser assim.

— E realmente não era – reafirmei para Eliza, que apenas


balançou a cabeça de modo afirmativo, com a expressão concentrada como se eu
estivesse dando uma ótima ideia para o fim da fome no mundo ou informando que
descobri a cura do câncer.

Ela sempre vestiu essa feição nas sessões, de que tudo o que eu
dizia era algo fundamental para a vida no planeta. Mas, sendo sincera... Como um
beijo de uma garota de 12 anos podia ser tão importante?
— Mas você o beijou outras vezes depois.

Não era uma pergunta. Esse assunto não era novo para Eliza. Eu
podia ter ficado esse tempo todo sem ver o Gustavo, mas a sua presença me
assombrava constantemente, como que arranhando a porta para entrar e fixar moradia
em mim.

A minha porta costumava permanecer fechada. O problema era que,


às vezes, eu fingia esquecer onde havia deixado as chaves quando, na verdade,
sempre estiveram comigo.

— Sim, muitas vezes – suspirei. – Incontáveis.

Saí da sessão me sentindo pior do que quando cheguei.

E ter uma reunião marcada com a produção do projeto não ajudava


muito a melhorar o meu humor. Ao menos seria a última antes de começarmos com as
gravações, primeiro, das entrevistas e, depois, dos offs. Toda a parte de pré-
produção já estava engatilhada, e havíamos conseguido a colaboração de grandes
nomes da música brasileira.

O pior era ter de admitir que, sem Gustavo, não teríamos


conseguido grande parte daquilo. Ele parecia conhecer todo mundo. Ser amigo de todo
mundo. Amar todo mundo. Era fácil conviver com ele. Sempre foi assim.

Não tenho culpa se as pessoas gostam da minha companhia.

Era como se eu ainda escutasse o Gustavo de 15 anos me dizendo o


motivo de ser tão popular no nosso colégio.

Tem culpa, sim. Disse naquela época, e a minha opinião a respeito


disso não havia mudado.

— Cara, aquele é o João? – André, como de costume, conseguia


fazer os comentários mais aleatórios, cortando o meu pensamento e a própria
conversa dele com Gustavo.

Eu não fazia ideia do que falavam. Sei que envolvia bola e


futebol e campeonato e coisas do tipo, algo como poder extraordinário de fazer os
meus olhos penderem de sono só de pensar nelas.

A reunião já havia terminado, e apenas nós três tínhamos ficado


para trás. André, porque queria tomar mais um café. Gustavo, porque, segundo ele,
queria tirar dúvidas finais comigo e com André – embora ainda não tivesse feito
pergunta alguma depois do término da reunião. Eu, porque sou burra mesmo. Devia ter
feito válido o meu esforço de evitar Gustavo na semana que passou. De algum modo,
que eu considerava quase sobrenatural, não ficamos sozinhos uma vez sequer – algo
que ele havia tentado bastante.

Mas vi esse meu esforço ser reduzido a nada quando André se


levantou de repente e forçou a vista em um ponto mais à frente.

— É ele mesmo! Só um minuto, vou ali falar com o João. Não o vejo
há tanto tempo!

Nesse instante, eu comecei a desejar algum tipo de morte bem


lenta para o André, algo que envolvesse sofrimento. Ao mesmo tempo, ainda tinha de
lidar com o fato de estar sozinha com Gustavo.
Ele e aquele sorriso de canto de boca.

Ele não devia estar sorrindo para mim. Eu não sorria para ele.

— Jura que não se convenceu de que não tem poderes?

Não respondi. Preguiça de fingir que estávamos em um momento


nostálgico de amigos que não se viam há anos.

— Você não vai conseguir matar o André com o pensamento. Ele não
percebeu que você me evitou a semana toda. Ele é um cara bacana, mas não consegue
ler você.

Apenas dei um gole no meu café. Se André não demorasse com esse
tal de João, em alguns minutos eu conseguiria respirar direito de novo.

— E pensar que no dia da minha entrevista... – murmurou Gustavo,


mas não continuou.

Ele fez isso de propósito. Falou baixo, mas em um tom para que eu
ainda o escutasse. Ele queria que eu perguntasse “Como? O que você disse?”, porque
aí ele completaria com algumas de suas frases pré-fabricadas, com o rótulo de made
in GustavoLand.

O combo “Sinto a sua falta + beijo” era o preferido dele.


Comprei-o muitas vezes.

Em todo caso, não perguntei. Não queria saber. Não me interessava


o que ele tinha pensado no dia da entrevista.

— Pode, ao menos, olhar para mim e parar de fingir que não temos
o que conversar? – A voz de Gustavo saiu firme e com uma camada de irritação por
cima dela.

Temos?

— Por que você está fazendo isso ser tão difícil? – continuou
ele.

Talvez porque seja.

— Você acha que é fácil para mim? Não é, acredite.

Sei que, para mim, não é.

— Não encontrei você, depois desse tempo todo, à toa, Júlia.

Provavelmente, foi o modo como ele disse o meu nome; devagar,


enfatizando as vogais. Como se tivesse algum direito sobre ele ou sobre mim. Mas
também podia ter relação com a sonoridade que as aquelas sílabas ganhavam em sua
voz carregada de tensão.

De qualquer modo, isso borbulhou irritação em mim.

— Você fala como se eu tivesse te pedido alguma coisa.

— Não disse que...


— Por que você veio, afinal? – eu o interrompi, bruscamente. Já
estava de saco cheio. A reunião foi longa. Toda aquela cafeína começava a me
afetar, quase me deixando louca. E ainda tinha o projeto. A bolsa de pesquisa.
Gustavo. Sua boca. Seus olhos. Seu sorriso. Minhas memórias. Tudo de uma vez, todo
dia. – É um projeto de verão, que, para mim, é muito importante, mas que não vai
fazer muita diferença na sua área ou mesmo para você. Você inclusive disse que nem
vai estudar nessa faculdade!

— Você sabe por que eu vim – disse Gustavo, demonstrando estar


mais calmo. Bem mais do que eu, ao menos. Eu bufava. Parecia a vilã de um desenho
animado. – Apesar de o projeto ser interessante, e eu achar que isso vai fazer,
sim, diferença no meu currículo, eu tinha que vir.

Não, não tinha. Eu já havia me acostumado com a ideia de você não


fazer mais parte da minha vida. Você estava do lado de fora, eu estava dentro da
casa com a porta trancada e as chaves nas minhas mãos.

— Júlia... – Gustavo tentou continuar, mas eu não estava disposta


a escutá-lo. E se o que ele dissesse fizesse sentido? E se eu, contra a minha
vontade, acreditasse nele? E se o deixasse levar embora o pouco de sanidade que me
restava?

Eu tinha de ser forte.

Permanecer entre as quatro paredes da minha casa interior. Fechar


a porta. Passar a chave nela.

Gustavo do lado de fora.

Ele estendeu uma de suas mãos e tocou as minhas, que estavam


unidas, apertadas uma contra a outra em cima da mesa. Eu tentei afastá-las, mas ele
as segurou mesmo assim.

Hoje, ele vestia uma jaqueta jeans.

Forte.

Não levantei o rosto para não ter de ver quais sentimentos os


olhos dele expressavam. Não queria saber de sentimentos. Minhas mãos começam a
ficar brancas com a pressão.

Forte.

— Me deixa entrar.

Ele disse de modo brando, mas foi como se gritasse. Um som agudo
machucando, incomodando.

Me deixa entrar!

Puxei as minhas mãos das dele com tanta vontade, que a mesa
trepidou.

Ainda consegui escutar o som das xícaras atingindo o chão e se


espatifando, quando me levantei e dei as costas para Gustavo.

A minha respiração saiu pesada, mas aliviada.

As chaves ainda estavam comigo.


Um pé e depois o outro sempre foi um movimento
tranquilo para mim. Chinelo, salto, tênis, não importava o que usasse, era difícil
que eu tropeçasse. Sempre fui uma garota com uma boa coordenação motora. Então,
quando senti as minhas pernas parecerem duas borrachas, esbarrando uma na outra de
modo não muito natural, fiquei um pouco preocupada.

Essa preocupação aumentou quando o mundo ao meu redor começou a


ter traços de uma pintura surrealista. As pessoas ganharam cores mais vivas, e as
coisas, formas mais abstratas. Um barulho zoava nos meus ouvidos, e tudo parecia
balançar ao ritmo dele. Inclusive o chão.

Foi quando a náusea me acertou um soco de esquerda no estômago


que eu realmente me preocupei. De repente, não sentia mais o gosto do álcool arder
na minha língua e garganta. No lugar dele, uma saliva amarga acumulava na minha
boca, que tive de cobrir com as mãos. Tinha receio de que todos os meus órgãos
saíssem por ela. Tudo se remexia dentro de mim.

Por que mesmo vim a essa festa?

Eu tentava achar a resposta para essa pergunta que, naquele


momento, soava como digna de uma crise existencial, quando senti dedos se fechando
em meu pulso e me puxando.

Pisquei e estava em um local aberto. Com menos luz, som e


pessoas. A mão ainda segurava o meu pulso.

Pisquei e estava em um lugar mais macio, mas a posição não me


deixava confortável, algo restringia o meu tronco. Algumas luzes piscavam, um som
de motor. A mão continuava me segurando.

Pisquei e estava contra o chão gelado, me segurando em algo, e a


cabeça pendendo. Tive a impressão de que o frango que havia comido no almoço saía
pela minha boca. A mão ainda estava lá.

Pisquei e estava deitada em um lugar macio e quente, o cheiro


familiar. A mão não estava mais no meu pulso, mas envolvia a minha cintura.

Fiz esforço para me concentrar e ficar lúcida por pouco mais que
o tempo de uma piscada. Quando consegui, reconheci o meu abajur em forma de
joaninha. Estava no meu quarto. O lugar macio era a minha cama. A mão na minha
cintura era a de Gustavo.

Tentei me virar, mas ele me restringiu.

— Não se mexa. O enjoo vai piorar.

A voz grogue de Gustavo, apesar de baixa, teve o efeito de


fincadas de pregos na minha cabeça. Não me dei por satisfeita e tentei de novo
ficar de frente para ele.

— Shhh... Quietinha...

Não sei de onde reuni forças, só sei que no minuto seguinte ele
rolava para fora da minha cama, perdendo o equilíbrio.
— Porra, Júlia!

— Porra?! – Àquela altura, já estava acordada. Não era como se


estar bêbada ou vomitar todo o meu banheiro estivesse na wishlist da minha vida. –
Por que você me levou àquela festa?

Fui para cima dele, no chão, apoiando os meus joelhos ao lado do


seu quadril.

— Saia de cima de mim!

— Por que me deu aquela cerveja?

— Pare com isso!

— Por que...

Eu deveria estar gritando porque, com um movimento rápido,


Gustavo apoiou as mãos na minha nuca e me calou com um beijo. A primeira coisa que
percebi foi que o gosto estava bom, sem vestígio de álcool. A língua dele tinha
sabor de menta e desconfio que a minha também. Ele escovou os meus dentes?

A segunda coisa que percebi era que, quando acabou, eu queria


mais. Sempre mais.

— Não grita... Seus pais vão acordar... – ele falou em um


sussurro, os lábios ainda se mexendo levemente sobre os meus. Suas mãos não mais me
seguravam com força, elas me tocavam com gentileza, alternando entre os meus
cabelos e lateral do meu corpo, me acalmando. – Queria que você não estivesse tão
bêbada.

— Por quê?

— Eu queria te beijar mais... – Suspirou ele, e entendi que era


uma reclamação. – Não gosto de fazer isso quando você está assim, não é certo.

Pisquei, e estávamos deitados na minha cama de novo. Eu, com a


cabeça encostada no peito dele, meus dedos deslizando pela parte interna do seu
braço.

— Hein? Promete que vai me deixar te beijar amanhã quando estiver


sóbria? – Senti o calor da voz de Gustavo em meu ouvido.

Eu queria responder à pergunta, mas pisquei de novo e, então, já


era outro dia. A mão dele não estava mais na minha ou em qualquer parte de mim.

Gustavo havia ido embora.

— E foi ele, o Gustavo, que levou você para aquela festa?

— Isso... – confirmei.

— Ele também deu bebida alcoólica para você.


— A ideia era que tivéssemos o primeiro porre juntos.

Eliza me fitou em silêncio por mais tempo do que eu considerava


confortável. Quando começou a ficar difícil desviar meu olhar do dela, escutei a
sua voz monótona:

— E mesmo assim você o beijou de volta.

Depois desse comentário, não falei muito mais no restante da


sessão.

Assim, como me limitei a poucos comentários nas gravações daquele


dia para o projeto. Eram as duas entrevistas mais importantes, uma aconteceu à
tarde, com um cantor lendário de MPB, que não só roubou toda a nossa atenção com as
suas histórias de bastidores de shows e encontros musicais, mas também com algumas
comoventes relacionadas ao período da ditadura militar e sua repressão violenta e
irracional.

A outra entrevista havia começado há pouco tempo, cerca de 15


minutos atrás, com um produtor igualmente renomado, que falava mais da parte
técnica do gênero musical, de como havia surgido e influenciado outros gêneros ao
redor do mundo. André a conduzia, assim como aconteceu com todas as entrevistas que
estávamos gravando para o projeto. Além da produção, ele fazia as vezes de
repórter, sua voz era boa para o rádio, e ele era mais descontraído para esse tipo
de coisa. Eu conseguia me sair bem nos offs, me sentia confortável com o roteiro.
Sabia o que falar com antecedência, podia treinar antes de gravar, modificar o
texto na hora que quisesse, regravar quando tivesse ficado ruim.

Bem que a vida poderia ser assim. Queria saber exatamente para
onde ela estava indo e ter a oportunidade de reescrever algumas cenas e falas.
Talvez, se isso fosse possível, não estaria tão incomodada com Gustavo sentado ao
meu lado na sala de controle, enquanto víamos, através da janela de vidro, André e
o produtor engatando em um assunto no estúdio.

Era tarde da noite, o pessoal da rádio já havia ido embora. Na


verdade, tivemos de pedir autorização para usarmos o estúdio àquela hora, que foi a
única disponível na agenda do produtor.

Então, era isso. Apenas 15 minutos de entrevista haviam passado,


e eu tinha de lidar sozinha com Gustavo nos próximos sessenta.

E eu não tinha sequer a porcaria de um roteiro.

— Como você consegue?

A pergunta de Gustavo saiu cansada, e isso me chamou atenção.


Durante todos aqueles dias de convívio, havia percebido raiva, impaciência,
determinação e até mesmo carinho em sua voz. Cansaço, não. Olhei para ele, que
encarava mais à frente, como se estivesse prestando atenção na entrevista que
acontecia no estúdio.

— Como consegue se manter distante? – ele refez a pergunta, mas


eu ainda não a havia entendido completamente.

Gustavo permaneceu na mesma posição. Braços cruzados no peito,


ponta dos dedos fazendo força na própria pele. Ele sempre foi alto, no colégio
costumava ser o mais alto da turma, mas, daquele ângulo, parecia ainda maior. Ou eu
me sentia menor?
— Nessas três semanas, tenho tentado me aproximar de você. Sabia
que não seria fácil, porque nunca foi – continuou. – Imagina, então, depois de mais
de dois anos sem nos vermos e...

Ele parou de falar de modo abrupto, seus lábios se contraíram.


Era como se não soubesse como continuar verbalizando o que pensava, ou somente não
queria mais.

— Sabe, eu sempre me perguntei isso... Desde que éramos mais


novos. – Gustavo virou o rosto e me fitou. – Nossa, como a Júlia consegue não
sentir?

Sinto... muito.

— Não pensei que depois de todo esse tempo continuaria me fazendo


a mesma pergunta.

Mantive a minha expressão, apesar de começar a sentir minhas mãos


tremerem levemente. Criei uma imagem mental: eu dentro, Gustavo fora. Sempre havia
sido desse jeito e ainda assim doía. Algo diferente disso machucaria mais.

— E olha que eu pensei em muitas coisas nesse período que não


mantivemos contato. – Percebi um tom amargo em sua risada entrecortada. – Como foi
para você?

A pergunta era retórica. Gustavo sempre fazia isso quando queria


falar algo sobre si mesmo.

— Sei que tivemos alguns momentos difíceis, nosso relacionamento


nunca foi exemplar... Mas foi real... Ao menos para mim. Ficar longe de você foi
estar longe da realidade.

A realidade.

Pouco ar na sala.

— Eu não... Eu não culpo você por isso, Júlia. – Gustavo, como se


estivesse com calor, em um gesto natural, puxou as mangas do casaco até a altura
dos cotovelos.

Sem ar na sala.

Ar, preciso de ar.

— Você não deveria se culpar também.

Levantei da cadeira de modo abrupto, e o chão oscilou.

Ar.

Senti a mão quente de Gustavo apertar o meu pulso, como se


tentasse me manter de pé. Ele não percebia que isso era pior? Eu queria cair. Tinha
de cair.

Tentei me soltar, mas o aperto continuou firme. Meus olhos


seguiram o contato, e foi aí que as chaves começaram a escorregar por entre meus
dedos...

Não vi apenas as marcas vermelhas que os dedos de Gustavo


deixaram em meu pulso.

Enxerguei as cicatrizes no dele.

Verticais. Horizontais. Finas. Apenas uma mais grossa.

Dois tons mais claros que a cor da sua pele.

Minha culpa.

— Vou embora assim que o projeto terminar – disse ele perto


demais, percebi. Sua respiração fazendo cócegas em uma das minhas bochechas. – Vou
cursar música no exterior.

Minha culpa.

— Não quero deixar coisas não ditas. – A mão dele não mais
apertava o meu pulso, mas fazia pequenos círculos nele com o polegar. – Nem sem
tentar.

Ficamos um tempo nessa posição, quietos, até eu me acalmar.

— Não queria deixar você nervosa, desculpa... – O tom era ainda


mais baixo que antes. – Só queria...

Gustavo não completou o pensamento. Ao se afastar de mim, voltou


a prestar atenção na entrevista no estúdio. Reparei que, devagar, abaixou as mangas
do casaco de novo.

Não comentamos mais nada até o final da gravação. Quando, então,


eu o deixei lá, com as suas cicatrizes e palavras não ditas. Apenas levei comigo a
minha culpa.

As mãos de Gustavo eram a parte de seu corpo que eu


mais admirava. Sempre gostei delas, com dedos finos e longos. Nem os calos,
resultantes da prática de tocar violão, podiam me fazer mudar de ideia. O toque
delas conseguia passar de uma firmeza sem hesitação para uma suavidade extrema em
poucos segundos. Eu gostava das duas opções, mas, naquela noite, o modo suave
estava ligado, fazendo cada terminação nervosa do meu corpo reagir com mais
intensidade que o habitual. Ele percebeu isso, e eu não me incomodei.

— Você quer?

Se Gustavo não tivesse perguntado isso encostando os lábios na


minha orelha, eu não teria escutado, de tão baixa que a sua voz estava.

Afirmei com um gesto de cabeça, mas pensei que ele não


entenderia, então guiei a sua boca até a minha e o beijei. Minha mão deslizando até
a sua nuca e pegando o seu cabelo com mais força. Estava curto e molhado de suor,
mas eu não me importava. O que eu gostava era de escutar sua respiração ficar
entrecortada sempre que eu fazia isso.

— Você... Não?

Gustavo, sem desgrudar a boca da minha, comprimiu mais o corpo


contra o meu. A minha resposta estava ali.

Não era a primeira, nem a segunda, nem a terceira vez que


tínhamos chegado àquele ponto: tarde da noite, sozinhos no quarto dele. Mas era a
primeira vez que decidimos não parar.

— Minha bolsa... Camisinha...

Ele me fitou por instantes. Identifiquei surpresa nos seus olhos,


como se o fato de eu ter uma camisinha na bolsa quisesse dizer que eu já pensava em
transar com ele.

Não satisfiz a sua curiosidade.

— Seu pai vai chegar daqui a pouco... – Me mexi embaixo dele,


impaciente.

Gustavo piscou algumas vezes como se voltasse à realidade e se


afastou, indo mexer na minha bolsa. Quando voltou, seu olhar não era mais de
surpresa, mas, sim, determinação. Havia também outra coisa que fiquei com receio de
ser um reflexo do meu próprio olhar. Então, cerrei as pálpebras e dali em diante
deixei os outros sentidos tomarem conta.

— Vocês tiveram muitas primeiras experiências – Eliza falou


depois de alguns minutos de silêncio. Eu estava concentrada em tirar alguns pelos
do braço da poltrona em que estava sentada, por isso não olhei para ela.

— Quando mais novos, vocês se agrediram... Sua primeira briga –


continuou ela. – Depois, teve o episódio do primeiro beijo, que você comentou que
não era para ser daquele jeito. Então, teve a primeira bebedeira, quando ele levou
você à festa. E agora... A primeira experiência sexual.

Havia um pelo maior que não queria sair por nada daquela
poltrona.

— Mas, dessa vez, você não falou como se tivesse sido uma
experiência ruim, como quando contou as outras – Eliza pronunciava as palavras
devagar, como se eu tivesse algum tipo de dificuldade para entender o português. –
O que me leva a questionar se as outras experiências realmente foram tão ruins
assim.

Ruins para quem?

Então, lembrei-me de que Gustavo, sim, arranhou todo o meu rosto


na areia do parquinho do colégio. Isso, depois de eu ter feito o mesmo com ele.
Gustavo havia lanchado com outra colega de classe. Eu estava com ciúmes.

Gustavo também me pegou desprevenida, me beijando. Mas eu havia


pedido um beijo... Só não esperava que seria daquele jeito.

Ele também me levou àquela festa e me passou a primeira latinha


de cerveja da noite. Mas antes dela, outras bebidas já tinham passado por mim, até
porque a ideia do porre tinha sido minha.

Na nossa primeira noite juntos, não houve provocações.


Nem culpa. Essa veio tempos depois.

Desviei a minha atenção dos pelos na poltrona. Em um espaço ao


lado da estante atrás de Eliza, havia uma casa de madeira. Não era muito grande,
mas tinha alguns móveis, também de madeira, e bonecos de pano. Um deles era uma
menina de vestido vermelho. Eu também estava usando um.

— A terapeuta com quem divido o consultório começou a atender


crianças – Eliza explicou, mas eu não reparava mais naquilo.

Pensava em Gustavo socando a minha porta trancada, tentando


entrar. Suas cicatrizes físicas tentando alcançar as minhas emocionais, enquanto
dizia: Não é culpa sua!

Essa frase martelou na minha mente desde a última vez em que


estive a sós com Gustavo. Na verdade, ela nunca deixou de estar lá, mas, em alguns
momentos, conseguia soterrá-la em algum lugar na minha cabeça.

Depois da sessão com Eliza, aquelas palavras entraram em uma


espécie de loop eterno, repetidas a cada segundo. Eu as escutei quando comprei um
pão doce antes de ir para a rádio. Não é culpa sua! Quando atravessei a rua para a
calçada do prédio da rádio. Não é culpa sua! Quando peguei o elevador, com preguiça
de subir dois andares de escada para chegar até o estúdio da rádio. Não é culpa
sua! Quando entrei na rádio e de cara encontrei com Gustavo. Não é culpa sua!
Quando André e eu começamos a editar as entrevistas. Não é culpa sua! Depois,
quando almoçamos... Não é culpa sua! E tomamos café... Não é culpa sua! A noite
começou e entrei em estúdio para gravar os offs.

Não é culpa sua! Não é culpa sua! Não é culpa sua! Não é culpa
sua! Não é culpa sua! Não é culpa sua! Não é culpa sua!

— ...lia? Júlia? – A voz de André chegou inquieta aos meus


ouvidos.

Olhei para a frente, e, do outro lado da janela de vidro, ele e


Gustavo me observavam. André com uma expressão confusa, Gustavo, preocupada.

— O que...? – Tentei formular uma pergunta, mas nem sabia por


onde começar a entender o que aconteceu.

— Você estava lendo o texto, mas, de repente, parou.

Não posso deixar isso afetar o meu trabalho, a única coisa


estável que tenho. O desespero devia estar estampado no meu rosto, porque André
falou comigo de modo suave:

— Podemos continuar amanhã, o.k.? O dia foi longo. Não foi culpa
sua nem...

Não é culpa sua!

Não aguentava mais escutar isso.

Em um ímpeto, retirei o fone de ouvido e saí do estúdio.

— Júlia, o que foi que...

— Amanhã a gente continua – interrompi André, enquanto eu


arrumava as coisas dele. – Pode ir, eu fecho a rádio.

— Mas...

— Vai! – Comecei a empurrá-lo e depois me virei para Gustavo: –


Você fica.

André olhou para mim e depois para Gustavo, que percebi ter
acenado com a cabeça. Meu companheiro de projeto jogou as mãos para o alto, em um
gesto de rendição e foi embora.

Bastou que eu ouvisse o clique da porta para ir com tudo para


cima de Gustavo.

— Saia da minha cabeça! – Eu o peguei desprevenido, pois ele


recuou um pouco quando o empurrei pelos ombros.

Não me importei com a sua feição surpresa.

— Pare de ficar dizendo que a culpa não é minha! Pare!

Outro empurrão, mais passos para trás.

— A culpa é minha! Você sabe que é!

Outro empurrão, e ele não recuou mais, um armário estava contra


as suas costas. Nesse momento, senti apenas duas coisas: as mãos dele restringindo
as minhas, e meu peito explodindo de sentimentos com os quais eu não sabia lidar.

— Eu sabia que fazia mal a você! E continuei. Eu sabia que eu te


puxava para a direção errada e continuei! Continuei... – Minha voz foi perdendo
força, e meu raciocínio, o pouco de lógica que restava. Fiquei reduzida a alguns
soluços secos. Eu não chorava.

Não ofereci resistência quando senti o meu corpo trêmulo ser


envolvido em um abraço. Segurei-me nele, em seus ombros, e afundei o rosto no vão
entre o seu ombro e pescoço. Uma de suas mãos deslizou das minhas costas até a
parte de trás da minha cabeça, onde ficou acariciando o meu cabelo, a ponta dos
dedos indo e vindo.

— Eu deixei você continuar... Não percebe? – ele falou baixo no


meu ouvido e depois mais para si mesmo. – Por que você não percebe isso?

O desespero na voz dele fez algo dentro de mim ruir.

— Então, não me deixe continuar dessa vez... – murmurei contra o


tecido fino de seu casaco, incerta se ele conseguiria escutar.

A pressão nas minhas costas e na minha cabeça sumiram, e senti


frio. Não me distanciei completamente dele, minhas mãos apoiando em seu peito.
Subindo e descendo conforme a sua respiração. Eu sabia que ele estava me encarando,
esperando que eu retribuísse o olhar, querendo lê-lo.

Não queria que ele percebesse os meus medos. A minha culpa. O meu
egoísmo.

Mesmo que ele já os conhecesse.

Mesmo que ele dissesse não se importar com eles.


Mesmo que ele desejasse vê-los.

— Se você não continuar, vai sempre ficar presa àquele momento.

A gentileza das palavras de Gustavo me espatifou, cacos de mim


tilintando no chão.

Por trás daquelas palavras escutei outras muito nítidas: Não


quero tomar as chaves de você. Apenas quero entrar por um instante.

Desviei a minha atenção para o rosto dele e vi o mesmo sentimento


que refletia em seus olhos na noite em que dormimos juntos pela primeira vez.

Como a Júlia pode não sentir? Ele tinha perguntado alguns dias
antes, e respondi mentalmente: Eu sinto... muito.

Eu sinto e muito e o mesmo. Devia ter verbalizado na ocasião.

Mas, ali, na rádio, apenas me limitei a abrir a porta. Gustavo


entrou e me beijou.

Ele não parecia estar disposto a parar.

E não parou.

Não até eu adormecer, horas depois, em seu quarto de hotel.

Estávamos de pé no meio da sala, meus pais haviam


saído, e as chaves da porta da frente da minha casa machucavam a minha mão de tanto
que eu as apertava.

— Não quero mais te ver – disse sem me importar com um Gustavo


quebrado diante de mim. – Não quero que mantenhamos contato. Não quero que me
procure. Não quero que me ligue. Não quero que olhe para mim quando cruzarmos na
rua.

O meu hobby era colecionar os primeiros momentos de Gustavo.


Queria ser a causa das suas primeiras experiências.

A primeira briga.

O primeiro beijo.

O primeiro porre.

A primeira transa.

Até mesmo a primeira desilusão amorosa.

Gustavo me deu sua total atenção desde o início, quando deixou de


sentar com seus amigos porque me viu chorando no meu primeiro dia de aula em uma
escola estranha. A partir de então, assumi-a como única e exclusivamente minha.

Ele era meu.


E eu era egoísta.

Em algum momento, a estrada começou a mudar, e experimentei


necessidades das quais não queria depender. Era Gustavo me conduzindo até ele, seu
lar. Ao sair de mim, perdi o controle, deixando meus móveis de sentimentos já
conhecidos para trás, as roupas dos meus medos encobertos na casa que eu
abandonava. Eu.

Quando as minhas chaves começaram a deslizar por entre os meus


dedos, passando para as mãos dele, soube que era hora de parar. Não deixaria o
lugar no qual já me sentia confortável para entrar em um novo e ter de descobrir
onde ficava a louça de jantar ou o material de limpeza.

Dei um passo para trás, depois outro e, então, estava distante de


Gustavo. Eu o havia deixado do lado de fora.

Ele tentou entrar de novo e me puxar.

E usei as mesmas palavras que a mãe dele dissera para o pai,


quando os abandonou. Gustavo tinha me contado a história no dia em que brigamos no
colégio. Fazia mais de uma semana que ele estava diferente, preferindo ficar
sozinho, falando pouco. Não era o meu Gustavo. Naquele dia, finalmente, me
aproximei e perguntei o que havia acontecido. Minha mãe foi embora. Ele chorou e,
daquela vez, era eu quem oferecia a minha atenção a ele. No intervalo, ele lanchou
com outra menina. Eu senti ciúmes, mas o que me fez provocar a briga foi ver que
ele mantinha uma expressão triste no rosto ainda inchado de tanto chorar. Preferia
que ele sentisse qualquer coisa que não fosse dor pela sua mãe. Era melhor que
sentisse raiva de mim se isso o ajudasse a lidar com o abandono dela.

No entanto, a briga que tinha provocado há quase 3 anos não foi


física. Machucaria de outra maneira usando o discurso da mãe.

Por que está dizendo essas coisas, Júlia?

Você gosta de mim também!

Do que você tem medo?

Me deixa entrar!

Me deixa entrar!

Me deixa entrar!

Até que ele cansou de bater do lado de fora.

Na semana seguinte, eu estava na sala assistindo a TV, quando uma


ambulância passou na minha rua.

Meu telefone tocou na cozinha.

Escutei meu pai falar baixo com a minha mãe.

Escutei o choro dela.

Ela veio até mim, o rosto vermelho.

— Foi um pouco mais fundo dessa vez – disse.


Escutei gritos. Tapei os ouvidos, mas eles não diminuíram.
Ocuparam a sala, a minha cabeça, os meus lábios.

Os berros eram meus.

— Como isso pode não ser culpa minha? – Minha cabeça


estava enterrada entre as minhas mãos. Eu soluçava e comprimia a minha têmpora,
como se isso fosse diminuir a pressão dos meus pensamentos.

Pela primeira vez, naqueles quase três anos de terapia, eu estava


sendo completamente sincera naquela sala. Já havia contado essa história para Eliza
– aliás, era por isso que toda semana eu a encontrava –, mas em diferentes versões.
Algumas mais brandas, outras mais impactantes. Essa era a verdadeira, a que eu
tentava encarar durante todo esse tempo.

— Gustavo já apresentava um quadro instável, Júlia.

Foi um pouco mais fundo dessa vez.

— Mas eu fiz isso piorar. Nossa... Nosso... Essa coisa que a


gente tinha... Não fazia bem a ele.

— Ele aceitava a relação de vocês.

Respirei fundo, tentando respirar.

— E a relação não foi prejudicial só para ele, também foi para


você.

Ri, de maneira amarga.

— Bem, não era eu que me cortava e...

Não completei, e ficamos em silêncio por alguns minutos. Eu já


havia parado de chorar, mas o peso ainda estava no meu peito. Apertando. Fazendo o
ar desaparecer.

— Não posso abandonar a minha culpa.

— É ela que te faz sentir falta de ar?

Apenas quando Eliza perguntou que percebi que tinha uma das mãos
no lado esquerdo do peito, apertando a camisa até meus dedos ficarem pálidos.

— Prestou atenção no que você disse?

E também só entendi a pergunta dela mais tarde, quando estava no


evento de apresentação do projeto da rádio. Eu não havia tentado aplacar a dor de
um modo tão contundente quanto o de Gustavo, mas a minha culpa, no final das
contas, já não estava fazendo esse trabalho?

Reunimos, no salão de eventos da faculdade, poucas pessoas para a


ocasião, apenas aquelas que estavam envolvidos diretamente com o documentário, como
a equipe do projeto, professores e alguns dos entrevistados. Foi algo bem informal,
André e eu apresentamos o conceito do projeto e a nossa proposta de pesquisa. Ela
foi bem aceita pelos docentes, que vieram nos parabenizar após escutarem parte do
documentário – a versão completa seria analisada depois pela banca examinadora. Eu
estava confiante. Podia ter dúvidas em relação a muitas coisas na minha vida, mas
nenhuma quando se tratava dos meus estudos e do meu trabalho.

— Você nem disfarça que acha que a pesquisa já foi aprovada. – A


voz de Gustavo soou séria atrás de mim, mas, quando me virei, ele tinha um pequeno
sorriso nos lábios.

Não nos falamos além do necessário depois que ficamos juntos na


semana anterior. Eu nem precisei fugir dele, como nos outros dias, era Gustavo quem
me evitava – e eu não reclamei disso, não me restava muita força. Mergulhei no
projeto para não ter de voltar à superfície e encarar a confusão de sentimentos que
eu havia deixado à deriva.

— Mas eu também acho que conseguiu a bolsa de pesquisa –


continuou ele. – Então, já vou me adiantar e parabenizar pela conquista.

Ele estendeu a mão para mim, que apertei de leve, e logo recolhi
a minha.

— Até porque, semana que vem, quando sair o resultado, não vou
estar mais aqui.

Vou cursar música no exterior.

Havia me esquecido disso. Eu não o veria amanhã para discutir


algo sobre o projeto.

— Eu... Eu não acho que te devo um pedido de desculpas por ter


reaparecido na sua vida depois desse tempo. Precisava te ver e... Falar com você.

Eu não o veria colocar mais açúcar do que o humanamente


suportável no café.

— Sei que foi difícil para você, quando eu... Perdi a cabeça. Na
verdade, sei que sempre foi difícil para você.

Não o veria coçar o maxilar de leve quando estava concentrado.

— Disse para você que não queria ir embora e deixar coisas não
ditas... – hesitou antes de continuar. – Sei que você frequentava um fórum on-line
sobre automutilação. Vi uma vez no histórico do seu navegador. Sei também que você,
escondida dos seus pais, começou a frequentar um grupo informal de amigos de
pessoas que se machucavam.

Não o veria levantar a manga da blusa até o cotovelo para depois


abaixá-la até os pulsos.

— Você pode achar que não, mas sei que fazia essas coisas
pensando em me ajudar, em tentar me compreender para saber lidar com isso...
Comigo. Por isso, não consigo pensar que a culpa tenha sido sua, Júlia. Você não
causou isso... – levantou um dos braços – Em mim.

Nem o veria bater a ponta dos dedos em qualquer lugar


quando se sentia entediado.

— Quando me mudei, devo ter deixado essa impressão. Não era isso
que eu queria. Não pedi ao meu pai para irmos embora porque pensava que você fosse
a culpada, fui embora porque sabia que seria difícil para você lidar com a bagunça
que eu era. – Respirou fundo.

Ou colocando as mãos atrás da nuca quando estava cansado.

— Nesses anos que não mantivemos contato, tentei arrumar a casa –


apontou para a cabeça e depois para o peito. – Deixá-la menos bagunçada. Quando
achei que estava apresentável, procurei saber sobre você, e isso me trouxe até
aqui. Pensei que depois desse tempo... Seria mais fácil para você lidar comigo. Mas
vi que ainda é difícil.

Não veria mais nada daquilo.

— Acho que fui pretensioso. – Riu com amargura. – Nem tudo gira
em torno de mim. Você também tem as suas questões para resolver.

Eu não o veria mais. Ele sabia disso desde o início, desde a


entrevista para o projeto.

E isso me irritou, porque ele voltou sabendo que iria embora.

— E o que mudaria se fosse diferente?

Gustavo me fitou, surpreso, por eu ter falado alguma coisa depois


do seu monólogo.

— Você está indo embora de qualquer jeito – afirmei, acusando-o.

Seu rosto ficou mais duro, e seus olhos, mais tristes. Não
entendi essa reação.

— Mudaria tudo.

Mudaria tudo.

A frase ecoou na minha cabeça desde a última vez em que falei com
Gustavo, havia quatro dias. Ele sabia do meu ceticismo em relação a mudanças. Por
isso, o seu semblante tinha ficado triste ao me responder isso. E eu sabia como ele
também se sentia em relação a esse assunto. Sua experiência, principalmente com a
mudança que havia passado quando sua mãe o deixou, fez isso com ele. Por que ele
diria algo assim, então?

Mudaria tudo.

Aquela frase me fez chegar aqui, em frente à porta do quarto de


hotel em que ele estava hospedado. O mesmo no qual havia estado com ele dias atrás.
A lembrança me fez estremecer.

A recepção do hotel não concordou em me anunciar, dizendo que era


muito cedo. Então, às 6h da manhã, tive de ligar para André pedindo o telefone do
Gustavo (havia me recusado a anotar quando vi o número no currículo dele). André
ficou irritado, não entendeu nada, mas me passou o telefone.

Quando consegui falar com Gustavo, a sua voz grogue de sono


telefonou para a recepção e autorizou a minha subida até o seu quarto.

Agora, estou diante de um Gustavo com a barba por fazer, de


cabelo em pé e olhos inchados.

— O que você quis dizer com mudar tudo? – disparo assim que ele
abre a porta.

— O que... Como... – Gustavo esfrega o rosto com as mãos, como se


isso o ajudasse a acordar. – Por que você está aqui, Júlia?

— O que você quis dizer com mudar tudo? – repito a pergunta.

Ele pega minha mão e me faz entrar no quarto, fechando a porta


devagar, com um suave clique.

— Me responda – Levanto a mão sinalizando para ele não se


aproximar muito. – Você me disse que se o nosso reencontro tivesse sido diferente,
isso mudaria tudo. O que é mudar tudo para você?

Gustavo desvia o olhar do meu por instantes, e sei que ele está
escolhendo quais palavras usar.

— Mudar tudo é querer tentar de novo. Eu quero tentar de novo, e


se você também quiser, isso muda tudo.

Meu coração começa a bater em um compasso irregular.

— Eu sou egoísta.

— Eu sei.

— Não, é sério – digo, nervosa. Ele precisa acreditar em mim. –


Eu sempre quis que todas as suas primeiras experiências fossem comigo, até as
ruins.

— Já parou para pensar que eu gostei que elas tenham sido com
você? – Ele sorri de leve.

Ele aceitava a relação de vocês. Escuto as palavras de Eliza na


minha mente e me lembro de outro ponto importante.

— Eu faço terapia. Toda semana. Nela, me afundo na culpa e nesse


meu egoísmo.

— Tudo bem. Eu também faço terapia, basicamente falo da minha mãe


nas sessões. É o que me ajuda com isso. – Ele levanta um dos braços.

E só então percebo que eles estão descobertos. Gustavo está


usando uma regata branca. A sua boxer também é branca. Desvio o olhar.

— Eu... Tenho a minha pesquisa aqui. Você vai estudar em outro


país.

— Eles têm um polo de estudo em uma cidade vizinha a esta. – O


sorriso dele aumenta, como se os meus comentários lhe dessem algum tipo de
resposta.

Fico muda. Mudar tudo não podia ser tão simples assim.
— Pode não dar certo.

— Eu sei. Mas isso não é sobre dar certo, é sobre tentar –


Gustavo fala de modo suave. – Só o fato de tentar pode mudar tudo. Entendeu agora?

Estico uma das mãos e encosto em seu antebraço – aquele que ele
costumava machucar.

— Você não está vestindo camisa de manga comprida.

— Na verdade, quase não uso mais esse modelo.

Isso é uma mudança.

— Comprei algumas para usar quando estivesse perto de você –


completa Gustavo.

Olho para ele, confusa.

— Não sabia como se sentiria ao ver as marcas. Quando mais novo,


não apenas as escondia para que ninguém descobrisse, mas também porque tinha
vergonha delas – explica. – Não me sinto mais assim hoje. Elas me mostram que tenho
conseguido passar por isso.

Meu dedo indicador traça uma a uma devagar.

— Não sinto vergonha delas, nunca senti. É que... Vê-las me faz


lembrar de você sofrendo – esclareço. – Mas isso também pode mudar, não pode? Essas
lembranças?

Gustavo balança a cabeça de modo afirmativo antes de se aproximar


e me apertar contra o peito. Eu o abraço de volta e repouso a cabeça no ombro dele,
inspirando o cheiro de lembranças, algumas ruins, mas outras muito boas. Sinto o
calor do corpo dele pressionado ao meu e fecho os olhos.

— Mais uma de suas primeiras experiências para mim... — murmuro,


incerta se ele me escuta. – Dessa vez, é de recomeço.

A automutilação é um comportamento agressivo com o


próprio corpo sem intenção consciente de suicídio. As lesões mais recorrentes são
cortes e queimaduras nas áreas dos braços e das pernas; e representam uma maneira
de aliviar fisicamente uma dor que é psicológica e emocional. Muitos são os motivos
que levam alguém à automutilação (depressão, ansiedade, distúrbio alimentar etc),
e, em alguns casos, esse comportamento autodestrutivo — mais comum em jovens e
adolescentes — camufla problemas ainda mais graves; de modo que não pode ser
subestimado.

Infelizmente, um conto não é o suficiente para falar sobre o


assunto, nem esta página, então, recomendo o documentário Prazer Meu Nome é
Automutilação. Produzido pelo Grupo Universitário IPEP de Campinas-SP, reúne
depoimentos de pessoas que se automutilam e de profissionais da área de saúde.

É importante também destacar o trabalho de grupos de apoio —


tanto presenciais, quanto on-line —, cujo objetivo é dar suporte àqueles que sofrem
de ansiedade, depressão, automutilação e outros. Um deles é o S.O.S Jovem, que
oferece atendimento virtual para quem precisa de uma palavra amiga em momentos
difíceis. Conheça o site do projeto para saber mais a respeito:
http://www.sosjovem.com.br/

Escrever este conto foi uma das coisas mais difíceis


que já fiz. Muitos sentimentos em poucas palavras. E, apesar de o meu nome estar na
capa, há muitas pessoas por trás dele que me ajudaram. É a elas que aqui
agradeço...

... pelo amor e compreensão (família);

... por lerem o primeiro rascunho e opinarem (Isabel Fernandes,


Leilane Soares, Bruna Xavier, Josenir Bento, Nathalia Cardoso e Ká Leôncio);

... pela parceria sem limites (Victor Almeida);

... por deixarem tudo mais divertido (bonitinhos – leitores,


inscritos do Ultraviolet e quem me acompanha nas redes sociais).

Obrigada!