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Idelber Avelar, num artigo recente publicado no Estado da Arte do Jornal Estadão,

intitulado “Borges e a justiça” (2017), desenvolve uma reflexão sobre a imagem da justiça

presente na obra do escritor argentino, e a associa com a cena do duelo como duas forças

em igualdade de condições. Segundo o estudioso de literatura latino-americana, “[t]rata-

se de uma justiça não estatal, não policial, na qual o decisivo é o resultado da luta”, ele

afirma para logo em seguida concluir: “Mas o teatro em que a justiça se realizaria nunca

acontece” (AVELAR, 2017). Vejamos detidamente suas ideias sobre a ficção borgeana.

Conforme afirma Avelar, Borges, além de contos metafísicos e fantásticos,

escreveu narrativas de duelos que fariam, não só uma profunda e extensa releitura da

literatura argentina, mas, sobretudo, uma revisão da própria noção de justiça. Isso ficaria

mais evidente a partir da publicação do conto “Hombre de la esquina rosada”, publicado

no livro Historia universal de la infâmia. Para o estudioso, trata-se de seu primeiro grande

conto que inaugura suas revisitas ao gênero da gauchesca, tido como concluído com a

publicação da obra Martin Fierro (1879), poema de José Hernández, “sobre um gaúcho

vadio e selvagem depois cooptado pela máquina estatal através do exército” (Ibidem).

Para Avelar, os contos de Borges que tematizam o duelo e outros elementos da

gauchesca não se resumiriam a uma simples releitura dessa tradição, haveria ali, segundo

ele, uma minuciosa desmontagem da operação nacionalista feita por intelectuais como

Ricardo Rojas e Leopoldo Lugones de alçar Fierro como herói nacional. E teria ainda a

complexa e original elaboração de uma teoria sobre a justiça. Esse empreendimento

estaria associado à predileção de Borges por homens de ação para seus personagens,

decorrente, segundo ele, da tensão entre as linhagens familiares divididas entre homens

de armas e de letras. Tal tematização já estaria presente na poesia heroica e nostálgica de

Borges mas, ao passar à narrativa, ganharia mais profundidade além de sua fina ironia.
Avelar começa focalizando o conto “Hombre de la esquina rosada”, que narra da

perspectiva de um personagem “miserável e desprezível, sem acesso às mulheres e

ignorado pelos valentes” (Ibidem), a chegada de um forasteiro, o personagem Francisco

Real famoso de uma região rival, e o desafio ao duelo lançado a Rosendo Juárez, valentão

famoso naquela milonga periférica de Buenos Aires. Sob os olhares ansiosos dos que ali

frequentam e com a provocação de sua companheira, a personagem Lujanera, Juárez se

sente impelido pelas forças daquele contexto a provar que é valente e seguir representando

seu papel de homem de coragem e dono da mulher mais cobiçada da noite. Mas, para

surpresa e estupefação de todos, ele larga a facão no chão, abandona a mulher e a milonga.

Levando em conta o fato de a coragem dele estar em questão, Avelar considera

que a aceitação ao duelo estaria acossada por uma “contradição performática”, ou seja,

“[n]o momento em que alguém lhe estende a faca com um chamado para que prove que

é homem, a possibilidade de fazê-lo já está automaticamente cancelada. Se é necessário

que alguém faça a convocação, fazer jus a ela já é impossível”, diz o estudioso. Noutras

palavras, o que está em cheque, a nosso ver, é a dificuldade, ou mesmo impossibilidade,

de Juárez provar sua natureza valente somente motivado por forças externas. Nisso, com

sua recusa em dar uma performance de sua valentia e coragem, ele tem que aceitar a

vergonha e a humilhação do outro tomar-lhe a fama e a mulher Lujanera.

Sua imagem de valente é arranhada e até mesmo problematizada, como o faz

Avellar ao analisar essa cena literária: “a grandiosidade do protagonista Rosendo só é

possível como efeito ilusório construído pela distância narrativa”, ele diz. Seu argumento

faz muito sentido se considerarmos a ideia de que no mito da coragem, ou em qualquer

mito, a voz narrativa não aparece ou mesmo não há enquanto voz autônoma de ficção.

O mito resulta da distância entre a voz e o fato. “De perto ninguém é valente”, ele
parafraseia um trecho de uma canção de Caetano Veloso resumindo bem esse jogo de

corpos, luzes e representação no conto de duelo.

Essa ideia se fará mais forte se considerarmos o desfecho do conto: o forasteiro

aparece misteriosamente morto. Até o fim do conto rende a dúvida: para lembrarmos do

filme de duelo de John Ford, quem matou (o facínora)? Fora o personagem-narrador,

abatido pela vergonha que o estrangeiro causou no melhor homem de seu bairro, “[O]

miserável e desprezado havia seguido o forasteiro até a escuridão em que era possível

apunhalá-lo”, afirma Avelar. O narrador vingaria, assim, a honra manchada e o valor

perdido das pessoas daquela região, restabelecendo a ordem convencional perdida.

Em todo caso, haveria, segundo Avelar, um descompasso entre o sujeito que

representa um código e a manutenção desse código. No conto “Historia de Rosendo

Juárez”, publicado quarenta anos depois, Borges de novo problematiza o código de honra.

O mito de sua fama se deu a partir de um duelo novamente às escondidas no qual ele

apunhalou um homem caído pelas costas. Avelar, com isso, concluí que o código da

coragem sempre emergiria a partir de atores desprovidos de toda coragem, o que, ao nosso

ver, poderia ser dito de outra forma, a saber, que os personagens que representam a fama

de valente a recebem de modo posterior e sem ter, efetivamente, feito e demonstrado

merecimento dela. Borges, em nosso modo de ver, está tentando pensar como um homem

se forja de forma autônoma, e, para tanto, levará ao limite suas dificuldades e impasses,

como no caso desse e de outros relatos do escritor argentino.

Avelar afirma, acertadamente, que os contos de duelo em Borges nos mostram a

ideia de justiça como utópica e virtual. Essa ideia talvez possa ser mais investigada através

da obra A verdade e as formas jurídicas (2002), de Michel Foucault. “Não apenas nunca

acontece, mas ela só aparece como imagem privilegiada na medida em que suas origens

permanecem escondidas”. Segundo Foucault, a justiça próxima e imediata era,


justamente, aquela prática presente no Direito Germânico que através de provas e desafios

de seus integrantes (duelos) produziam ali mesmo a verdade justa dos acontecimentos.