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O REALISMO DA CRÍTICA E A INVENÇÃO DO FUTURO

Juarez Guimarães – professor do Departamento de Ciência Política da Universidade


Federal de Minas Gerais (UFMG) – Especial para a Carta Maior, 05/10/2005

É preciso construir um campo analítico-normativo que mova o debate sobre as opções


econômicas do país para a defesa estratégica de uma economia do setor público, necessária
para sustentar a distribuição de renda.

Todo pensamento social tem uma dimensão analítico-normativa, analisa o que é a partir de
uma visão do que deve ser. A sua riqueza e consistência depende exatamente de como
conjuga estas duas dimensões: teorias conservadoras apegam-se a um realismo positivista
porque fazem a apologia do que é como o que deve ser; teorias utópicas idealistas tecem
frágil relação entre o que julgam que deveria ser e a realidade com a qual se defrontam.

O debate econômico recente no Brasil tem se polarizado entre, de um lado, a apologia


conservadora do que é e, de outro, frágeis construções analítico-normativas das alternativas
ao que existe. A fragilidade das alternativas renova a cada momento a legitimidade das
opções conservadoras. Sem renovar o campo analítico-normativo das alternativas, o debate
não avançará.

Este ensaio pretende em primeiro lugar examinar a consistência analítica e a coerência


normativa dos pensamentos alternativos à apologia das idéias hoje predominantes. E, depois,
indicar as diretrizes de um campo analítico-normativo capaz de mover o debate para a defesa
de um desenvolvimento que se apóie na distribuição de renda.

O realismo parcial da crítica

As primeiras críticas à política econômica do governo Lula acentuavam o que havia de


continuidade em suas opções em relação ao segundo mandato do governo FHC e
prognosticavam, a partir daí, a possibilidade ou até a iminência do país viver novas crises
cambiais, dinâmicas recessivas ou de baixo crescimento e ser incapaz de criar um ciclo de
crescimento sustentado em função da sua vulnerabilidade externa (maiores taxas de
crescimento imporiam maior taxa de importação, gerando déficits comerciais e crises
cambiais de ajuste).

O fato é que estas previsões em grande medida não se confirmaram. Por quê?

A primeira razão é decorrente do vício da analogia, no caso, temporal. Mantidas as opções


centrais da política econômica, o país viveria ciclos de crescimento interrompidos por crises
cambiais como aconteceu com os governos FHC. Houve uma grave subestimação de um fato
novo: o verdadeiro boom de crescimento das exportações brasileiras nos últimos anos, que
gerou recordes seguidos de superávit comercial, criou saldos positivos no Balanço de
Pagamentos, permitiu uma substantiva acumulação de reservas e criou condições para
superar a dependência dos financiamentos do FMI. As exportações cresceram a sua
participação no PIB, diversificaram e ampliaram seus destinos, impactando fortemente
através do efeito multiplicador a dinâmica da economia e a geração de empregos formais.
Hoje é menor a vulnerabilidade da economia brasileira, da dívida pública lastreada em dólar e
não parece estar no horizonte a ameaça de uma crise cambial.

As explicações para este boom das exportações ainda não estão de todo assentadas. Elas se
baseiam primordialmente em um ciclo vigoroso mas instável de crescimento da economia
mundial. Refletem mudanças estruturais em curso na divisão internacional do comércio, com
os efeitos da inserção da economia chinesa no mercado mundial, com forte impacto no preço
das commodities. Expressam o amadurecimento de cadeias produtivas exportadoras
brasileiras sequiosas de mercado em um quadro ainda de pouco dinamismo do mercado de
consumo interno. A desvalorização do real em 2003 deu a sua contribuição e a manutenção
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de um patamar cambial muito diverso do primeiro mandato de FHC, apesar do artificial e


preocupante surto recente de valorização do real, cria um cenário ainda positivo para o surto
exportador.

Há uma segunda explicação para os erros de prognóstico dos críticos da política econômica.
Refletindo a ancoragem teórica destas críticas, centradas nas teorias keynesianas, neo-
keynesianas e pós-keynesianas, que incidem de modo central sobre o comportamento da
autoridade monetária, subestimaram-se as mudanças estruturais importantes introduzidas
pelo governo Lula em uma série de agentes estatais de peso. Os entes econômicos estatais
do governo Lula não guardam uma lógica fechada e coerente como no reinado de Malan sob a
hegemonia incontestável do neoliberalismo: BNDES, BB, Petrobrás, Caixa Econômica Federal,
Ministério do Exterior, Fundos de Pensão, opções de dispêndio das políticas de cobertura
social têm agido compensando, em parte, as políticas escandalosamente conservadoras de
crédito e contracionistas do Banco Central. Os novos dinamismos de crédito consignado, de
investimentos no setor de energia, de consumo entre os mais pauperizados com o Bolsa-
Família e a recuperação inicial do poder de compra do salário-mínimo, de incentivo à
agricultura familiar, a recente retomada do crédito habitacional e a expansão dos
investimentos em saneamento, entre outros, compõem potencialidades apenas entrevistas e
que estavam literalmente travadas no período de domínio neoliberal. Se a esquerda valorizou
pouco este expansionismo dos gastos públicos, o mesmo não se deu com os liberais: estes
iniciaram desde o segundo semestre de 2004 uma campanha cerrada contra a
“irresponsabilidade fiscal” do governo e por um aumento do superávit primário.

A diminuição importante da vulnerabilidade externa e a recuperação inicial de uma dinâmica


de crescimento não anulam de todo os prognósticos críticos. A dependência de um
crescimento baseado em exportações do ciclo instável da economia mundial, o não
aproveitamento pleno das potencialidades de crescimento, a dinâmica ainda insegura do
mercado interno com a recuperação lenta do emprego e da renda, o peso da dívida interna
mantido com os super-privilégios dos rentistas, a contenção dos gastos necessários do Estado
em investimentos em infra-estrutura e gastos sociais indicam o limite fundamental das
soluções adotadas. Mas ao ter diagnósticos fundamentais contraditados, a crítica de esquerda
à política econômica perdeu legitimidade pública em proveito de uma gestão conservadora,
inercial e processual da economia brasileira.

A dimensão normativa incerta da crítica

Em uma medida importante, a raiz da parcialidade realista da crítica reside na imprecisão,


incompletude, incerteza de seus fundamentos normativos. Isto é, o foco da crítica na gestão
macro-econômica sobrecarregaria esta dimensão em detrimento de fundamentos alternativos
estratégicos para a economia brasileira. Na ausência da formulação destes fundamentos
alternativos, a racionalidade da administração do status quo se impõe ante a incerteza ou
“aventureirismo” das alternativas.

Como políticas keynesianas expansionistas lidariam com os nós górdios do financiamento da


economia? Como distribuir renda e expandir massivamente o mercado interno sem provocar
fortes conflitos distributivos e surtos inflacionários não controláveis? Como compatibilizar a
estrita regulação e controle dos capitais externos com o domínio de interesses corporativos
transnacionais em setores chaves? Como reestruturar a dívida pública – vital para recuperar a
capacidade de investimento do Estado brasileiro - sem provocar fuga de capitais?

Os impasses normativos da economia política crítica no Brasil devem ser lidos a partir da crise
do nacional-desenvolvimentismo no pré-64 e das vitórias do neoliberalismo nos anos noventa.
O estruturalismo historicizado do nacional-desenvolvimentismo construiu o diagnóstico do
subdesenvolvimento, a assimetria entre centro e periferia, que se reproduziria na cristalização
de assimetrias sócio-econômicas no Brasil. A sua superação exigiria a intervenção
planificadora do Estado, sobrepondo-se à reprodução inercial pelo mercado das assimetrias, e
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reformas estruturais ou de base. O impasse do nacional-desenvolvimentismo apontava para o


Estado brasileiro incapaz de processar democraticamente as demandas de reforma estrutural.

Hoje, após os impasses do modelo estatal-associado promovido pelo regime militar e do


modelo privatista - de inserção passiva do neoliberalismo, devemos partir de onde o nacional-
desenvolvimentismo chegou ao impasse, atualizando criticamente os seus diagnósticos
históricos. A assimetria que reproduz o subdesenvolvimento não é de fonte primariamente
econômica-social mas diz respeito aos próprios fundamentos de origem e constituição do
Estado brasileiro. A forte assimetria entre direitos e deveres que ainda fundamenta o cerne
das finanças do Estado brasileiro – as perguntas fundamentais de a quem se arrecada e como
se gasta – é que primariamente reproduz as assimetrias sociais e econômicas. A superação
do subdesenvolvimento passa pela republicanização do Estado brasileiro, de sua estrutura de
direitos e deveres, e a sua expressão material mais forte que é a construção da economia do
setor público.

Sem uma construção qualitativamente mais ampla, com inédita e renovada capacidade
sistêmica e de regulação, da economia do setor público não há como afirmar uma nova
dinâmica histórica de desenvolvimento com distribuição de renda. Mesmo com a eventual
retomada do crescimento, continuará agindo a assimetria dos fatores institucionais,
patrimoniais e de mercado que reproduzem as desigualdades.

Esta economia do setor público, por definição, expressa a ação de agentes econômicos de
sentido universalista e submetidos a controle público e democrático. Envolve um misto, a ser
particularizado criativamente diante de cada problemática, entre Estado democratizado, zonas
de confluência entre o Estado e o privado, e a regulação forte do privado mercantil.

As quatro principais criações da economia do setor público seriam: a formação de uma


poderosa rede pública de financiamento de longo prazo da economia brasileira, a construção
de uma dinâmica e estrutura de Estado do Bem-Estar Social, a criação de um forte sistema
nacional de inovação e uma reforma do agrário brasileiro que potencializasse as suas
capacidades produtivas, distributivistas e ecológicas. As experiências de economia solidária,
cooperativa e auto-gestionária, que já alcançaram no país um protagonismo incipiente,
encontrariam nesta expansão da economia do setor público a macro-economia ideal para o
seu pleno desenvolvimento.

A construção desta economia do setor público depende de uma vontade política nacional,
soberana e socialmente larga no sentido pluriclassista. É a partir deste campo normativo que
deveria se renovar a crítica dos limites das opções atuais da política econômica do governo
Lula.

Um novo campo analítico-normativo

A crítica do realismo parcial da análise e da incerteza estratégica da alternativa proposta


conduz à formação de um novo campo analítico-normativo no debate da política econômica.
Ele é capaz de apreender o contraditório instalado no conjunto da atuação do Estado na
economia sob o governo Lula e propor soluções mutuamente coerentes para os seus dilemas
mais profundos.

A primeira contradição instalada diz respeito à superação da financeirização da economia


brasileira, institucionalmente produzida ao longo dos anos noventa. Isto é, um modo de
funcionamento sistêmico que transfere renda do setor produtivo para o rentismo, desvirtua o
funcionamento creditício dos bancos, neutraliza o sentido estratégico de longo prazo dos
agentes financeiros estatais, oprime as finanças públicas e expõe a economia brasileira aos
movimentos especulativos financeiros internacionais. A financeirização foi apenas
parcialmente superada: na diminuição da vulnerabilidade externa, no reposicionamento do
sentido creditício estratégico dos bancos estatais e fundos de pensão, nas linhas de expansão
do crédito para o consumo, na interrupção do ciclo de crescimento da relação dívida/PIB e sua
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diminuição na margem. Mas a administração da dívida pública tem mantido um padrão


absurdo de remuneração dos títulos públicos em compasso com uma asfixia da recuperação
da capacidade de investimento do Estado e o liberalismo na regulação do crédito tem
convivido com taxas de juros escandalosas praticadas por um regime bancário oligopolista. E,
mais importante, ainda não se promoveu uma estratégia coerente para se afirmar um sistema
público poderoso de financiamento de longo prazo (as chamadas PPs podem funcionar apenas
para os investimentos de infra-estrutura de alta rentabilidade garantida).

No que diz respeito à meta da construção de um Estado do Bem-Estar Social, que pressupõe
um movimento forte de formalização do mercado de trabalho, de inclusão social e de
ascensão da expansão da rede público de serviços, foram dados passos importantes mas em
ritmo contido pelos altos superávits primários praticados. O governo Lula parece estar
invertendo a curva prevalecente nos anos noventa de informalização do mercado de trabalho,
mas o estoque acumulado de desemprego e a precarização do mercado de trabalho
permanecem elevados. Nunca houve na história brasileira um tal leque convergente de
políticas de inclusão social, tendo como carro chefe o Bolsa-Família, mas permanece o desafio
histórico de promover a padrões de cidadania estável uma população de cinqüenta milhões de
brasileiros. O aumento do orçamento da saúde e na educação, agora com a criação do
Fundeb, têm sido conquistas importantes contra a lógica contracionista do Ministério da
Fazenda mas estão ainda longe de inaugurar um novo surto histórico de expansão dos
serviços públicos.

No que diz respeito à construção de um Sistema Nacional de Inovação, o governo Lula


retomou o esforço,arquivado nos anos noventa, de construção de uma política industrial
focada em ramos e setores considerados tecnologicamente estratégicos, em conjunto com a
retomada da missão desenvolvimentista do BNDES e a tentativa de relegitimar, através de
uma reforma universitária amplamente discutida, o sistema público universitário brasileiro.
Mas o engate entre este potencial de inovação e as opções de gestão macro-econômica
continua a ser um desafio: sem um ciclo estável de crescimento vigoroso e sustentado, um
Sistema Nacional de Inovação não pode adquirir desenvoltura.

Por fim, o governo Lula iniciou um ciclo fortemente expansivo do crédito à agricultura familiar
(que foi quase quadruplicado) e retomou metas crescentes de assentamento de reforma
agrária, ao mesmo tempo que manteve a política prioritária de incentivo ao grande agro-
business exportador. Não se formou claramente no governo Lula uma política estratégica de
reforma no agrário brasileiro que apontasse para a plena utilização de seu potencial
democratizante e de inclusão social, produtivo, de emprego e ecologicamente sustentável.

Enfim, um balanço da atuação do governo Lula na economia evidenciaria que ela, em sua
resultante, está imprimindo dinâmicas globalmente diferentes do período neoliberal no que diz
respeito à privatização de estatais, informalização e precarização do mercado de trabalho,
aprofundamento da vulnerabilidade externa e da crise financeira do Estado, de privatização
dos serviços sociais. Apoiado nas condições internacionais, um novo ciclo de crescimento
potencial da economia brasileira foi instalado. Mas a sua consolidação e, principalmente, a sua
relação com a necessária e inadiável democratização da renda e propriedade na sociedade
brasileira não está ainda claramente assentada.

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RUPTURA OU CAPITULAÇÃO: PARA ONDE CAMINHA O GOVERNO LULA?

Ricardo Carneiro - Ricardo Carneiro é professor do Instituto de Economia e


diretor do Centro de Estudos de Conjuntura e Política Econômica da
Unicamp - Especial para a Carta Maior, 11/10/2005

Um dos aspectos dramáticos da história da esquerda brasileira tem sido a sua oscilação entre
dois pólos da ação política: a ruptura ou a capitulação. Isto tem ocorrido sobretudo na
economia, um campo da ação política de inegável centralidade nas sociedades
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contemporâneas, pois no seu entorno se cristalizam interesses cruciais expressos na natureza


das políticas econômicas. Nesse assunto, aqui como alhures, a esquerda tem ignorado
reiteradamente o desafio da esfinge: “Decifra-me ou te devoro”, e tem sido, invariavelmente,
devorada. Dessa perspectiva é fundamental realizar uma avaliação crítica da trajetória do
governo Lula. Em que medida vem se constituindo numa experiência nova capaz de superar,
na prática, os termos dessa polaridade?

É preciso louvar qualquer iniciativa que venha alimentar o debate sobre essa verdadeira
síndrome bipolar da esquerda brasileira, sobretudo aquelas contribuições que recusem o
diagnóstico fácil de que a política econômica que aí está é única possível, ou as pregações
revolucionaristas para quais o único caminho é a ruptura integral com o sistema vigente.
Dessa perspectiva cabe discutir o artigo recente de Juarez Guimarães, intitulado “O realismo
da crítica e a invenção do futuro” e publicado pela Carta Maior em 5/10/2005. Sua tese
central é inequívoca: o governo Lula foi capaz de superar essa polaridade ao construir no
exercício do poder, um novo caminho, com falhas e equívocos, porém, uma superação. Nas
palavras do autor: ‘’Enfim, um balanço da atual gestão do governo Lula na economia
evidenciaria que ela, em sua resultante, está imprimindo dinâmicas globalmente diferentes do
período neoliberal...”

O texto inicia com uma tese ambígua ao afirmar: “O debate econômico recente no Brasil tem
se polarizado entre, de um lado, a apologia conservadora do que é e, de outro, frágeis
construções analítico-normativas das alternativas ao que existe”. A primeira pergunta a fazer
é a quem o autor está se referindo? Ou, por que faz, na prática, coro com os que
desqualificam as alternativas? Pode-se admitir que não há hoje, nem no Brasil, nem em
outros países, uma alternativa integral, nos moldes do socialismo, ao regime econômico
vigente, a globalização. Mas é possível encontrar, além de políticas práticas, testadas e em
execução em outros países, críticas sistemáticas e sugestões de políticas alternativas ao que
aí está. Convém enfatizar que a disputa não ocorre apenas no campo ideológico, pois as
formas de inserção dos países periféricos na economia globalizada, fundadas em políticas
alternativas, foram bastante distintas, como se constata através da comparação entre a
América Latina e a Ásia em desenvolvimento. Essas experiências alternativas são hoje objeto
de intenso debate, inclusive na imprensa conservadora, através do confronto: Consenso de
Washington versus Consenso de Pequim.

Se no caso brasileiro, as críticas e alternativas, mesmo as moderadas e reformistas não


viraram políticas concretas, não parece correto buscar as razões na debilidade do pensamento
crítico no plano das idéias, mas na esfera do poder, em particular, nas práticas do governo
Lula e na sua opção por determinado caminho. Deixando de lado as alternativas
revolucionaristas, caberia perguntar como o governo Lula tratou a tradição do pensamento
desenvolvimentista brasileiro, aliás, boa parte dela incorporada a documentos políticos
importantes do PT como “Outro Brasil é Possível” e o “Programa de Governo 2002”?

Custa crer que essas idéias sintetizadas numa proposta de um desenvolvimento mais
autônomo e distributivo possam ser tratadas como radicais. Afirmar que eram insuficientes ou
apenas idéias gerais não resolve o problema. Constitui apenas uma desculpa para disfarçar a
opção pelas políticas conservadoras. Afinal, se as políticas alternativas eram débeis, por que o
governo Lula, em tese comprometido com os seus princípios, não promoveu no aparelho de
Estado pelo menos uma discussão sobre as mesmas? Ou ainda por que, através do grupo
dirigente do PT, interditou o debate sobre a política econômica no âmbito partidário? O que se
viu foi a desqualificação sistemática das idéias e políticas alternativas por parte de próceres
do governo através do recurso ao discurso conservador e o reforço, nas esferas do Estado,
dos quadros técnicos mais identificados com o pensamento liberal.

O autor contudo prefere atribuir o reforço das políticas conservadoras aos equívocos teóricos
da esquerda nos seus vários matizes. Estas, ao recusarem as políticas de corte liberal, foram
incapazes de perceber que essas políticas poderiam, ao contrário do que apregoavam,
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produzir o sucesso, e não o fracasso. Ao invés das crises observou-se uma redução da
vulnerabilidade externa, o afastamento da crise cambial e, por aí vai. No afã de criticar os
críticos das políticas, esquece-se de perguntar sobre a profundidade dessa melhoria, sua
sustentabilidade e, o mais importante, suas relações com as ações postas em prática.

É possível demonstrar que a melhoria da economia brasileira veio sobretudo do excepcional


cenário internacional. Países que praticaram políticas distintas e até mesmo contrárias a do
Brasil como a Argentina tiveram desempenho superior ao nosso. Aliás, não se pode deixar de
anotar que a nossa performance foi sofrível quando comparada como os demais países
periféricos. Numa lista dos quinze maiores, ocupamos a 13ª posição quanto ao crescimento
econômico entre 2003 e 2005. Todos receberam o mesmo impulso, mas o crescimento foi
bem distinto. Ora, a que atribuir isto senão à política econômica local?

Outro aspecto a ser questionado é sobre a perenidade da mudança. O autor aponta fatores
estruturais a ela subjacente; no plano externo, o peso da China e da “nova divisão do
trabalho”, puxando para cima os preços das commodities e, no plano interno, “o
amadurecimento das cadeias produtivas exportadoras”. Ora, a ser isto verdade, como se trata
de fatores estruturais, cujo tempo de maturação é longo, não deveria haver nenhuma relação
com as políticas econômicas postas em práticas no governo Lula. Nesse último aspecto o
autor propõe uma tese equivocada ao elogiar a política cambial: “A desvalorização do real em
2003 deu sua contribuição e a manutenção de um patamar cambial muito diverso do primeiro
mandato de FHC, apesar do artificial e preocupante surto recente de valorização do real, cria
um cenário ainda positivo para o surto exportador.”

O ponto central é que o real se apreciou desde o início do governo Lula, a bem da verdade
desde o último trimestre de 2002, e se dependesse da taxa de câmbio, e não do cenário
externo, o desempenho das exportações teria sido acanhado. Mas voltemos a questão da
sustentabilidade. Podemos contar de fato com a sustentação dos preços das commodities ou
estamos mais uma vez diante de ciclos de preços, identificados por Prebisch, no seu clássico
sobre a economia da América Latina, e que na sua reversão terminarão por levar à
deterioração de nossos termos de troca como já observado no passado? Até que ponto, com o
passar do tempo, a China constitui um fator liquidamente positivo para nossas exportações?
Vários estudos atestam que ela está se tornando uma importante concorrente nas
commodities industriais exportadas por nós para os mercados centrais; o aço é um bom
exemplo. Por sua vez, até que ponto o quadro internacional favorável não está inflado por um
ambiente especulativo que deve reverter-se, tirando parte dos estímulos ao comércio e aos
fluxos de capitais para a periferia?

O azar e a sorte fazem parte da vida, e o governo Lula teve muita sorte. Desde o seu início e
durante seu desenrolar o cenário internacional foi excepcional. Tão bom como não se via
desde os trinta anos do pós Segunda Guerra. Da perspectiva da avaliação crítica do
desempenho das políticas do governo Lula, a pergunta a fazer não se confunde com aquela do
calendário eleitoral e que tem a reeleição como horizonte. O sentido da questão é mais
profundo: e se o ciclo internacional durar o suficiente para que o presidente tenha o seu
segundo mandato, o que se pode esperar do futuro? O governo Lula de fato aproveitou a
conjuntura internacional favorável para impulsionar mudanças estruturais na economia
brasileira?

Olhada da ótica da inserção externa e da política cambial lato senso, a resposta é não. A
valorização do real ao longo de todo o governo Lula se comprovará como um erro estratégico
que cobrará seu preço em termos de competitividade das exportações industriais e da
capacidade de atração de investimentos estrangeiros em setores intensivos em tecnologia . A
maior abertura financeira aprovada no Conselho Monetário Nacional também constituirá um
elemento de fragilização na frente externa ante a provável reversão dos fluxos de capitais. O
ponto essencial a assinalar aqui é que a política de crescente liberalização dos fluxos de
capitais – iniciada no governo Collor, intensificada nos governos FHC e ampliada no governo
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Lula – e de flutuação exacerbada da taxa de câmbio, acompanhada de sua forte valorização


recente, não contribui para uma inserção de melhor qualidade na economia globalizada. A
afirmação anterior não se baseia em teorias, mas nas experiências exitosas de
desenvolvimento que indicam uma presença decisiva do gerenciamento dos fluxos de capitais
e da taxa de câmbio. O governo Lula todavia optou, nesse campo, por um padrão
excessivamente liberal que interessa prioritariamente aos detentores de riqueza financeira e
aos investidores de curto prazo.

Mas, afinal, descontada a contribuição da conjuntura internacional, esse perfil de política


econômica liberal adotado pelo governo Lula na área cambial não seria exatamente o mais
correto, não só por ter produzido a melhoria dos indicadores apontada por Juarez Guimarães,
como, sobretudo, por ser um antídoto eficaz contra novas crises? A resposta é novamente
não, mas merece qualificações. No que tange ao curto prazo, as possibilidades de uma crise
cambial motivada por um ataque especulativo contra o real são iguais ou maiores do que no
passado. A combinação da ampliação da liquidez internacional com um ambiente doméstico
mais liberalizado e altas taxas de juros implicou a entrada de volumes significativos de capital
especulativo no país sob variadas formas, algumas das quais virtuais, como é o caso dos
derivativos, estes últimos uma verdadeira bomba de nêutrons para as contas cambiais.

Da ótica do longo prazo, há dados positivos, como a redução da dívida externa e o novo
patamar das exportações, mas em razão da ausência de políticas domésticas a continuidade
dessa melhoria dependerá sobretudo do cenário internacional. Uma reversão desse cenário
pode implicar, para além de um ataque especulativo, a deterioração dos indicadores de longo
prazo, em particular uma queda do crescimento das exportações. Em resumo, os avanços
foram associados a variáveis sobre as quais não possuímos controle algum. E se elas
mudarem?

Na seqüência do texto, o autor aprofunda a sua crítica aos críticos da política econômica e
enuncia tese principal: “Há uma segunda explicação para os erros de prognóstico dos críticos
da política econômica. Refletindo a ancoragem teórica destas críticas, centradas nas teorias
keynesianas, neokeynesianas e pós-keynesianas, que incidem de modo central sobre o
comportamento da autoridade monetária, subestimaram-se as mudanças estruturais
importantes introduzidas pelo governo Lula em uma série de agentes estatais de peso”. A
tese é, portanto, inequívoca: o governo Lula não quis ou não pôde realizar mudanças
substantivas na política macroeconômica, mas o fez exatamente onde se faziam necessárias e
eram cruciais, no plano estrutural. Subjacente à tese está também a idéia de hierarquia das
políticas econômicas, vale dizer a gestão macroeconômica seria inferior aquelas atinentes à
reorientação dos agentes estatais.

A primeira objeção às opiniões de Juarez Guimarães podem ser formuladas no campo da


política. Se, é verdade que as políticas econômicas são hierarquizadas, as estruturais
possuindo maior importância do que as macroeconômicas, pode-se concluir que o governo
Lula optou por um maior enfrentamento com os interesses dominantes, vale dizer, buscou
uma mudança nas políticas que envolvem uma maior disputa de interesses, deixando de lado
aquelas como menor nível de conflito. Outra idéia discutível é a da hierarquia e preeminência
do que o autor chama de políticas estruturais.

Seria mais correto classificar a orientação das políticas por sua combinação particular. Assim,
por exemplo, a articulação de políticas macroeconômicas e estruturais conservadoras, como
no caso da era FHC, produzem uma política econômica de corte conservador. No pólo oposto
teríamos as políticas progressistas em ambas as dimensões. No caso do governo Lula pode-se
verificar a coexistência de uma política macroeconômica conservadora com uma política
estrutural com elementos progressistas, embora de intensidade e alcance limitados. Ora,
nessa combinação o que termina por acontecer é que o caráter progressista dessa última
perde densidade, terminando por transformá-la em política compensatória, cujo papel é
atenuar os efeitos negativos da primeira.
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A ninguém é dado desconhecer a centralidade da política macroeconômica, sobretudo a da


fixação dos juros numa economia capitalista. Aliás, os donos do poder sabem bem da sua
importância. Tanto é assim que têm feito um esforço excepcional para excluir a gestão da
política monetária do campo da política republicana. A tese do banco central independente
nada mais objetiva do que excluir a gestão da moeda das injunções do poder político. Assim,
desse ponto de vista, o ideal seria que no voto popular se disputasse o poder mitigado,
excluindo a política monetária, a cambial, a fiscal. Essas políticas deveriam funcionar por
regras ou operadas por instituições com total independência dos governos, constituindo um
verdadeiro “Estado de exceção”, na definição do filósofo político Giorgio Agamben .

Obviamente não se pode ser ingênuo e acreditar que há razões técnicas a embasar essas
propostas conservadoras. Sua rationale repousa na capacidade dos preços macroeconômicos,
em particular da taxa de juros em definir a trajetória da economia e alterar a distribuição da
renda e da riqueza. O ponto essencial nesse caso é que tanto Marx quanto Keynes estariam
de acordo sobre a essencialidade da taxa de juros e, mais do que isto, sobre o caráter político
da determinação do seu valor, ao sabor da correlação de forças entre os detentores de
riqueza financeira e os demais agentes econômicos, mediadas pelo poder estatal. O essencial
a reter é que patamares distintos de taxa de juros definem ritmos também distintos de
crescimento da produção e direitos diferenciados de apropriação sobre a riqueza criada.

Um exemplo pode elucidar a proposição acima. No Brasil, a manutenção de taxas de juros


reais sistematicamente superiores a 11% ao ano, no último decênio, diminuiu o potencial de
crescimento do país ao favorecer a aplicação financeira em desfavor da produção. O resultado
tem sido um menor crescimento da renda e sua repartição crescentemente desigual em favor
dos rentistas e em detrimento de lucros e salários. Esse é o verdadeiro núcleo duro do
problema distributivo, denominado pelos economistas de distribuição funcional da renda. Não
há indicações de que essa distribuição tenha melhorado no governo Lula. Ao contrário, a
prática de taxas de juros extravagantes por um Banco Central ultraconservador sugere a sua
deterioração. À luz desses dados, a afirmação de Juarez Guimarães, para quem a
financeirização da economia foi, no governo Lula, parcialmente superada, mostra-se
infundada.

Na manutenção do rentismo na economia brasileira, um dado definitivo é o do orçamento


público. Ao longo do governo Lula, a conta de serviço da dívida tem se mantido em torno de
9% do PIB, valor equivalente àquele observado no segundo mandato de FHC. Os superávits
primários canalizados diretamente para pagamento dos juros têm se ampliado
continuadamente, devendo alcançar esse ano valor próximo a 5% do PIB, algo como 15% dos
gastos públicos totais. Esta é uma das vias pela qual se processa a concentração funcional da
renda, aludida acima, impedindo na prática que se obtenha através do gasto público uma
desconcentração da renda pessoal. Como, assegurar uma política de inclusão social por meio
da ampliação da oferta de bens públicos – saúde, educação, moradia, saneamento, transporte
coletivo – intensivas em recursos fiscais, quando se transfere anualmente aos rentistas algo
como R$ 150 bilhões, valor superior à soma de vários orçamentos sociais, inclusive ao maior
deles, o da Previdência. Esses dados por si sós constituiriam uma desqualificação adicional da
tese da superação parcial do rentismo. Aliás, diante da contínua ampliação do superávit
primário no governo Lula, a proposição soa uma tanto esquisita.

Uma outra afirmação do autor a ser considerada é a de que a política econômica do governo
Lula marca uma mudança na operação de agentes estatais de peso. Um primeiro ponto a
destacar é a percepção de que de fato a gestão de certas entidades públicas mudou. Mas é
preciso não a superestimar, nem perder de vista que as mudanças ocorreram na forma de
operação de instituições já existentes, muita delas oriundas do período desenvolvimentista.
Ou seja, se houve nesse campo mudanças operacionais, elas não configuram um padrão
essencialmente distinto fundado, por exemplo, na criação de novos agentes, ou numa forma
diferente de articulação entre Estado e mercado.
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A política financeira, por exemplo, tem aspectos positivos e negativos. A preservação do


crédito dirigido, uma herança do período desenvolvimentista, constitui um aspecto positivo da
política econômica. A reorientação da gestão das instituições públicas como BNDES, CEF, BB,
Basa e BNB, no sentido de seu maior comprometimento com as operações de crédito, ante as
operações de tesouraria, é fato inegável. Porém, mesmo nesse campo é possível apontar
limitações, como a preservação das restrições a empréstimos a entes públicos – empresas,
prefeituras, e governos estaduais – oriundas de determinações do Conselho Monetário
Nacional originárias do período FHC, e que excedem, pelo seu rigor, as determinações da
regulação prudencial emanadas do acordo de Basiléia. Outro fator limitante é a redução do
potencial de empréstimo dos bancos públicos, através do confisco de parcela de seus lucros
para compor o superávit primário.

Nas relações com o sistema financeiro privado, percebe-se o pouco avanço e, por que não
dizer, a capitulação do governo Lula. Um indicador importante dessas relações é o
comportamento da margem de lucro dos bancos, o spread bancário. A preservação de
spreads elevados constitui uma das vias pelas quais a distribuição funcional da renda aludida
acima se deteriora, pois implica transferência da renda dos assalariados e do lucro
empresarial para os bancos. A manutenção da margem média de lucro dos bancos (spread) se
deu apesar de todas as concessões do governo ao setor bancário, incluindo uma nova Lei de
Falências. A despeito da proteção ampliada, os bancos relutaram em reduzir suas margens,
exceto em algumas linhas como a do crédito consignado na qual a legislação posta em prática
pelo governo criou uma espécie de capitalismo sem risco.

A pergunta quanto ao crédito consignado é se terá valido a pena tantas concessões aos
bancos para, afinal, beneficiar os cidadãos necessitados de crédito. Olhada pelo custo dessas
linhas, em média 40% ao ano, taxas de fazer corar agiota de país civilizado, a resposta é não.
Mas alguns argüirão que as demais linhas custam o dobro, ou mais do que o dobro… Trata-se
portanto de escolher entre o ruim e o péssimo. Ao questionamento anterior pode se agregar
outro, relativo à dimensão do crédito consignado. Embora tenha crescido rapidamente a partir
da sua implantação pelos bancos, esse tipo de crédito representa cerca de 10% do estoque de
financiamentos concedidos às pessoas físicas. O crescimento, por sua vez, tende a arrefecer
consoante as estratégias de diversificação de carteira dos bancos.

Um aspecto adicional na reorientação dos entes estatais ressaltada por Juarez Guimarães
refere-se à ampliação da infra-estrutura econômica. Novamente aqui os dados são
contraditórios. É visível a ampliação dos investimentos das empresas estatais na área de
energia (petróleo e energia elétrica), mas que não é acompanhado nos demais segmentos. A
nota negativa nesse caso refere-se ao desempenho medíocre dos investimentos públicos com
origem no orçamento fiscal. Seus valores em 2003 e 2004, de R$ 8 bilhões e R$ 11 bilhões,
correspondentes a respectivamente 0,4% e 0,6% do PIB, são os mais baixos da história
recente do país, menores inclusive do que aqueles do segundo mandato FHC, durante o qual
já foram bem reduzidos. A execução orçamentária do ano em curso não autoriza pensar em
retomada ante a meta ampliada de superávit primário.

Pensar em crescimento sustentado diante de patamar tão baixo de investimentos públicos soa
como miragem. Contrariando as opiniões de Guimarães, as determinações macroeconômicas
aparecem aqui como cruciais. No plano dos gastos públicos, através dos elevados e
crescentes superávits primários. E convém não subestimar a inteligência conservadora, pois o
sistema de contabilização dos gastos públicos adota o princípio de vasos comunicantes, logo
excesso de gastos numa área há de ser compensado por cortes em outras. Assim, o superávit
primário, filho dileto da política de juros altos, constitui o cobertor curto do setor público
brasileiro.

No exame das políticas sociais do governo Lula, o entusiasmo do autor leva-o a afirmar:
“Nunca houve na história brasileira um tal leque convergente de políticas de inclusão social,
tendo como carro chefe o Bolsa-Família, mas permanece o desafio histórico de promover a
10

padrões de cidadania estável uma população de cinqüenta milhões de brasileiros”. Uma


primeira distinção a ser estabelecida diz respeito à diferença entre políticas de Estado e
políticas de governo. A distinção não é irrelevante pois a parcela mais expressiva da política
social constitui política de Estado e está inscrita na Constituição. Desse ponto de vista não
pode ser atribuída ao governo Lula. Logo, a política social cuja ampliação de fato se deve ao
governo Lula é o Bolsa-Família.

Uma comparação dos recursos alocados no Bolsa-Família com alguns programas consagrados
na Constituição cidadã de 1988 é elucidativa. Em 2005 a estimativa de gastos com o Bolsa-
Família é de R$ 5,8 bilhões, ou 0,33% do PIB. Os programas de assistência continuada e da
renda mensal vitalícia somam quase R$ 10 bilhões, cerca de 0,65% do PIB ou duas vezes
mais do que o Bolsa-Família. O seguro-desemprego também deve gastar no ano corrente algo
como R$ 10 bilhões, novamente o dobro do Bolsa-Família. As vinculações constitucionais de
receitas e obrigatoriedade de despesas em Saúde e Educação representam valores várias
vezes superiores ao do Bolsa-Família. Tudo isto não mostra a irrelevância do programa, mas
lhe confere a verdadeira dimensão e certamente lhe retira o caráter de carro-chefe da política
social.

É necessário ademais tratar o Bolsa-Família com o necessário senso crítico. O programa é


fruto das concepções do Banco Mundial, cujo objetivo é focalizar os gastos sociais e direcioná-
los para os “super-pobres”, reduzindo os custos da política social. Essa mesma concepção
questiona políticas como a educação superior gratuita, o seguro-desemprego etc. Ora, se de
fato há um elemento humanitário a sustentar a defesa desse programa, não se pode
confundi-lo com os programas necessários para ampliar a oferta de bens públicos gratuitos,
como educação, saúde, habitação, saneamento e transporte coletivo, pois esses são os
capazes de reduzir, em bases permanentes, a desigualdade social. Em resumo, o Bolsa-
Família é um programa eminentemente compensatório, necessário para uma sociedade como
a brasileira, com níveis elevados de pobreza absoluta, mas claramente insuficiente como
elemento de transformação social. Esta última envolve ações muito mais complexas para
além da ampliação da oferta de bens públicos, como por exemplo a elevação significativa e
continuada do salário mínimo e a reforma agrária.

Ainda no campo social, o autor faz referência ao crescimento do emprego e a seu novo
padrão: “O governo Lula parece estar invertendo a curva prevalecente nos anos noventa de
informalização do mercado de trabalho, mas o estoque acumulado de desemprego e a
precarização do mercado de trabalho permanecem elevados.” A afirmação não é de toda
incorreta, mas deixa de esclarecer o enigma do crescimento do emprego, pelo menos quando
se considera os números brandidos sistematicamente pelo governo. O enigma pode ser posto
da seguinte forma: a se confirmarem os prognósticos de crescimento do PIB em 3,5% para o
ano corrente, a economia terá crescido nos três anos do governo Lula, em média, 2,6% ao
ano. Ora, a partir desse dado, como entender um crescimento do emprego da magnitude
apregoada pelo governo, que supera em muito aquele do segundo mandato FHC, no qual a
economia cresceu em média 2,2% ao ano?

A resposta é relativamente simples. Os dados utilizados pelo governo não dizem respeito
exclusivamente a criação de novos postos de trabalho e, portanto, a novos empregos.
Referem–se a dois aspectos distintos do mercado de trabalho: a criação de novos postos de
trabalho e a formalização de postos de trabalho que já existiam. A dimensão da formalização
não é irrelevante, mas tampouco traduz um dinamismo elevado na criação de empregos como
quer o governo, pois não cria novos postos. É provável até que tenha resultado da melhor
fiscalização do Ministério do Trabalho, combinada com a ampliação do emprego nos setores
exportadores, onde predominam empresas maiores. O ponto negativo é que esse ritmo de
crescimento do emprego não é suficiente para retirar o mercado de trabalho do seu estado de
letargia e conferir maior poder de barganha aos trabalhadores. Uma prova inconteste disso é
a continuidade da queda, no primeiro ano do governo Lula, e a posterior estagnação, do
rendimento médio dos assalariados.
11

Ao fim e ao cabo, a que conclusões levam as considerações tecidas ao longo desse texto?
Certamente bastante distintas daquelas do artigo de Juarez Guimarães. Mesmo admitindo que
há no governo Lula algumas políticas com orientação menos liberal quando comparadas com
às do período FHC, pode-se também concluir que sequer arranham o núcleo duro das políticas
conservadores, nem tampouco promovem mudanças de profundidade. Ou seja, constituem
políticas eminentemente compensatórias. Por conseguinte, é lícito concluir que olhado do
ponto de vista da polaridade sugerida por este artigo, o governo Lula situa-se no plano da
capitulação. Esse julgamento construído à luz dos fatos não significa negar as possibilidades
de mudanças na trajetória desse governo. Afinal, se possibilidades de mudanças existem, elas
partem, em maior medida, do campo democrático e popular no qual as forças de esquerda
que participam do governo se situam. Para tanto, o pensamento crítico deve dar a sua
contribuição.

***

A OPORTUNIDADE DE UM NOVO PARADIGMA PARA A ECONOMIA

Juarez Guimarães – professor do Departamento de Ciência Política da Universidade


Federal de Minas Gerais (UFMG) – Especial para a Carta Maior, 05/10/2005

Só podemos nos sentir honrados e agradecidos ao artigo polêmico do companheiro e


economista Ricardo Carneiro, intelectual orgânico da rica tradição desenvolvimentista
organizada em torno à Unicamp. Este diálogo deveria ser entendido como parte de um
esforço mais amplo de renovar os laços entre os vários centros da economia política do
desenvolvimento e a cultura petista no momento em que o PT está desafiado a fazer o
balanço da experiência de governo e projetar suas propostas de transformação para o futuro
do país.

Como não se tratam de posições antagonistas, que excluem-se pelos fundamentos


alternativos que adotam, a postura que adotamos é a de reconhecer os pontos comuns,
desfazer falsas polêmicas e acentuar o foco nas divergências que podem contribuir para uma
nova síntese.

É exatamente por valorizar a natureza deste debate que não podemos concordar com a
afirmação de Ricardo Carneiro de que o pequeno ensaio “O realismo da crítica e a invenção do
futuro” faz “coro com os que desqualificam as alternativas” ao paradigma neoliberal ou às
orientações econômicas predominantes no governo Lula. O pluralismo e a capacidade auto-
reflexiva são dimensões constitutivas ao pensamento crítico. O que se busca é a maior
agudeza e potência persuasiva da crítica e, principalmente, uma nova postura na construção
de um paradigma alternativo ao liberal.

Não se partilha do diagnóstico unilateral que as razões das derrotas recentes das tradições
desenvolvimentistas não residem “nas debilidades do pensamento crítico no plano das idéias,
mas na esfera do poder, em particular, nas práticas do governo Lula e na sua opção por
determinado caminho”. Entre o campo das idéias e o poder político existe o princípio da
legitimidade, que em um contexto democrático, resulta do embate entre tradições que
encarnam valores, racionalidades e projetos antagonistas para o país. Quando o governo Lula
tomou posse em 2003 estavam construídos os fundamentos de legitimidade democrática para
se adotar um novo paradigma econômico para o país, alternativo ao neoliberal em crise?

Uma resposta realista teria que afirmar um sim parcial e condicionado. A histórica eleição de
Lula significou uma magnífica rejeição ao projeto neoliberal mas não a afirmação clara de uma
alternativa. A votação expressiva do “continuísmo sem continuidade” de Serra no segundo
turno, a vitória de candidatos liberais e conservadores para os governos estaduais de maior
peso do país, a eleição de uma maioria conservadora na Câmara Federal e no Senado
indicavam por sua vez o caminho democrático difícil da construção de um novo paradigma.
12

Claramente ainda não se afirmou no país uma cultura pública de um novo paradigma de
desenvolvimento, baseado na soberania nacional, na distribuição de renda e na
universalização da cidadania. E isto tem relação direta com a própria história do nacional-
desenvolvimentismo e do pensamento marxista sobre a economia brasileira. 1964
representou uma derrota histórica de uma síntese imperfeita e em processo, os anos do
regime militar foram de exílio e resistência, a transição para a democracia não forneceu um
chão histórico sólido para a retomada e os anos neoliberais foram de destruição de
legitimidade e de redes de inteligência criadora. Como afirmar, então, que a “tese nova” está
pronta e falta a decisão da “esfera do poder” ?

Um exame da trajetória do pensamento crítico da economia brasileira revelaria, em grande


medida, o processo em aberto da síntese. Houve muita descontinuidade e dispersão. Houve
perda de aparato institucional – de pesquisa, de ensino, de edição, de inserção midiática –
frente à pressão da montante neoliberal. Impasses teóricos precisam ser revistos e
atualizados em um país e mundo tomados por dinâmicas ainda não de todo desenhadas.
Desenvolvimentos internacionais recentes em tradições teóricas críticas ao neoliberalismo
(neo-schumpeterianos, neo-kaldorianos, neo e pós-keynesianos) precisam encontrar o espaço
de síntese renovado com a economia política do desenvolvimento brasileiro. E,
principalmente, a exclusão por décadas do centro do poder do país acentuou no pensamento
democrático do desenvolvimentismo as suas dimensões críticas em detrimento de seu
potencial propositivo, dificultou a síntese da ideação com a realidade capitalista hostil e em
mutação do país.

Este diagnóstico da incompletude da síntese de uma alternativa não autoriza a idéia de que
restava apenas ao governo Lula o caminho do continuísmo em dimensões fundamentais do
paradigma neoliberal. Muitas composições mais ou menos realistas eram possíveis. Mas o que
ela indica que o caminho da construção de um paradigma alternativo na economia brasileira
está à nossa frente como desafio, demanda um rico período de criação histórica, não só do
pensamento ou do exercício de poder mas, para voltar a um conceito claro, da práxis da
emancipação.

Princípio normativo e crítica

O companheiro Ricardo Carneiro escreveu que o ensaio por ele criticado afirma que as
orientações predominantes na política econômica do governo produziram o “sucesso” e não o
“fracasso”. E acrescentou: “esquece-se de perguntar sobre a profundidade desta melhoria,
sua sustentabilidade e, o mais importante, suas relações com as ações postas em prática”.

Uma leitura mais atenta do artigo criticado não autoriza esta leitura. Lá se diz apenas que
foram criadas dinâmicas de crescimento, de diminuição da vulnerabilidade externa e de
superação de parte dos constrangimentos cambiais a uma retomada do crescimento. Estas
dinâmicas, por sua vez, teriam resultado da combinação do boom exportador, propiciado pela
conjuntura econômica externa excepcionalmente favorável, e de ações de entes econômicos
do Estado brasileiro. Afirma-se expressamente que estas dinâmicas são, no entanto,
instáveis, condicionadas e limitadas. Daí o realismo parcial da crítica, não a sua inteira
negação.

O mais importante, porém, é o uso das expressões “sucesso” e “fracasso”. A crítica se valida
pelo “fracasso” e se invalida pelo “sucesso” ? “Sucesso” e “ fracasso” em relação a qual
horizonte normativo ? O de um eventual retorno do crescimento capitalista? A aposta
argumentativa que fazemos no ensaio criticado é que um certo desequilíbrio da crítica se
explica pela insuficiência de seu norte normativo. Isto é, uma dinâmica de crescimento
capitalista ameaçaria a própria permanência da crítica: esta para se relegitimar teria que ter
passado da previsão recessiva ao crescimento “medíocre” de 2004 ; como este não se
verificou, passou-se à retomada da tese do “vôo da galinha”, isto é, do crescimento que não
se alça pela pressão cambial; como o “vôo da galinha” não se verificou passa-se agora à
13

noção de que o crescimento está aquém da média dos emergentes. Se o país crescer mais de
3,5 % este ano e mais de 4,5 % no próximo, a crítica terá se deslegitimado? Ou ela espera
uma crise da economia mundial para ver legitimadas suas previsões ?

Houve, de fato, uma redução do horizonte normativo da crítica desde a posse do governo
Lula. O acento foi posto no exercício híper-liberal ou monetarista da fixação das metas de
inflação, criticadas como excessivamente rigorosas, ou na condução cripto-liberal da busca
destas metas através das escandalosas taxas de juros fixadas pelo Copom. Metas de inflação
menos severas e uma condução menos conservadora do Copom satisfariam aos críticos ?

A hegemonia de um pensamento define-se por sua capacidade de definir o campo central da


problemática. A hegemonia do pensamento nacional-desenvolvimentista diante do liberal nos
anos cinqüenta assentou-se no campo muito largo, histórico e estrutural, da problemática da
superação do subdesenvolvimento. O domínio do pensamento neoliberal no Brasil dos anos
noventa assentou-se na definição da problemática básica da estabilização, concebida em
termos liberais, como pré-condição e condicionante para uma retomada sustentada do
crescimento. Ao aceitar discutir como central o grau de rigor no controle da inflação ou do
aperto fiscal, da elevação necessária ou não dos juros básicos da economia e do controle da
margem da apreciação cambial, não se estará aceitando de fato o fundamento e a
racionalidade liberal no comando da economia? Não se trata, é claro, de perder o foco da
crítica à gestão macro-econômica neoliberal, mas de fazê-la a partir da demonstração de
como ela neutraliza, interdita parcialmente ou bloqueia uma dinâmica possível e necessária de
crescimento com distribuição de renda.

É muito relevante para se compreender a natureza do impasse que enfrentamos hoje no


debate econômico a entrevista do economista Belluzzo à revista Carta Capital de 13 de julho
passado. Nela, o economista que forma com Maria da Conceição Tavares um dos pilares
fundamentais da tradição crítica e desenvolvimentista, relata o clima defensivo do debate
entre os economistas do núcleo dirigente da campanha de Lula em 2002, frente à chantagem
dos mercados financeiros dirigidas pelo governo FHC e pelo candidato José Serra. Belluzzo
afirma, que, neste contexto, os economistas mais à esquerda do grupo, chegaram a defender,
por realismo, a manutenção de Armínio Fraga à frente do Banco Central e, mais importante, a
sua “independência operacional” com outro fórum para definir as metas de inflação.

O ponto central do ensaio “ O realismo da crítica e a invenção do futuro” é que o pensamento


crítico precisa disputar publicamente com a racionalidade liberal, que está institucionalizada
no Estado brasileiro e é agressivamente vocalizada pela mídia, os fundamentos de um novo
paradigma econômico para o país. Sem estes fundamentos alternativos referenciais, o debate
fica estagnado nos caminhos da otimização da racionalidade liberal.

O Banco Central é uma construção histórica dos liberais brasileiros, a sua verdadeira
casamata, e a ampliação institucional dos seus poderes é uma alavanca permanente de
desconstituição da economia do setor público do país. Toda a construção política do
neoliberalismo foi a de concentrar e expandir os poderes do Banco Central, esvaziando ou
subordinando o papel do Ministério do Planejamento e outras agências do Estado. Assim,
através do manejo da política monetária, cambial e fiscal, o Ministério da Fazenda e o BC
acabam minando os espaços para o exercício pleno do potencial virtuoso de uma série de
políticas desenvolvimentistas estratégicas como a industrial, a de planejamento regional, de
reforma agrária, na área de habitação e saneamento, do Ministério da Ciência e Tecnologia,,
além das áreas sociais.

Dizendo mais peremptoriamente: não é o conjunto do funcionamento do setor público do país


que deve orbitar pelas regras do BC, mas o padrão de funcionamento deste deveria, ao
invés, ser sistemicamente orientado pelas necessidades de desenvolvimento da economia do
setor público. Este novo desenvolvimento do setor público deveria incorporar
programaticamente as dimensões do controle de preços e da responsabilidade fiscal mas em
uma perspectiva e regulação diversas dos padrões neoliberais.
14

A inteligência da proposta de déficit zero, defendida com certa audiência por Delfim Netto, ao
propor trocar as metas de superávit primário pelas de déficit nominal zero, está em furar
este cerco mas...pela direita, aumentando o superávit primário e tornando a evolução da
dívida financeira – e, portanto, a fixação da taxa de juros pelo Copom – uma variável
dependente na equação.

Ora, a legitimidade do setor público está estabelecida? O “público”, confundido e reduzido ao


“Estado burocrático, ineficaz e corrupto” não continua sendo permanentemente deslegitimado
pela propaganda liberal? Está se travando, de conjunto, esta batalha política fundamental pela
qualificação, renovação e expansão da economia do setor público sem a qual não há dinâmica
possível de soberania, distribuição de renda e universalização da cidadania? Não deixar de
ser expressivo o fato de que o artigo da polêmica do companheiro Ricardo Carneiro seja
concentrado na defesa do “realismo” pleno” da crítica, desdenhando as dimensões normativas
da polêmica.

Retorno ao realismo parcial

Faz parte do acento polêmico do artigo de Ricardo Carneiro a afirmação de que o ensaio
criticado defende o ponto de vista de que a economia sob o governo Lula teria superado a
polaridade entre “ruptura” e “capitulação”, produzindo “um novo caminho, com falhas e
equívocos, porém, uma superação”. De novo, uma leitura rigorosa do ensaio não confirmará
esta leitura.

O que se diz, ao invés, é o diagnóstico de “dinâmicas diferentes” daquelas predominantes nos


anos neoliberais. Trabalha-se aqui com uma caracterização geral de que o governo Lula é
“Diferente do que era, aquém do possível, melhor do que parece” (ver Periscópio número 43,
de fevereiro de 2005, www.fpabramo.org.br). Ao invés de se operar analiticamente de modo
simplista com o par ruptura/continuidade, cria-se um campo analítico capaz de flagrar
dinâmicas intermediárias, parciais ou contraditórias em uma lógica de transição. Esta
perspectiva analítica não é sem conseqüências: quer se evitar justamente, de um lado, a
apologia mistificadora das mudanças e, do outro, o juízo sectário de que o governo Lula é
mera continuidade de FHC em seus traços fundamentais.

Seria, neste sentido, fundamental diferenciar conceitualmente a gestão macro-econômica da


política monetária, cambial ou fiscal (que é, rigorosamente, continuidade e aprofundamento
da lógica do segundo mandato de FHC) do que poderíamos chamar de políticas estratégicas
de desenvolvimento, que se relacionam à inserção internacional, ao posicionamento dos
agentes financeiros do Estado, de sua atuação em áreas chaves como energia, ensino e
pesquisa tecnológica, da postura em relação à regulação do mercado de trabalho e de
desenvolvimento agrário. Nestas últimas, há nítidos deslocamentos do governo Lula em
relação ao período neoliberal. Seria necessário, inclusive, valorizar as disputas e tensões
públicas entre estas novas dimensões desenvolvimentistas e a continuidade dos fundamentos
neoliberais na gestão macro-econômica.

É preciso reconhecer, por um lado, que várias dinâmicas econômicas típicas dos anos
neoliberais sofreram interrupção durante os anos Lula: o BNDES e os fundos de pensão não
estão mais tensionados para o grande esforço de privatização, não se prosseguiu em uma
dinâmica de informalização do mercado de trabalho e de cassação dos direitos dos
trabalhadores, de aceleração da vulnerabilidade externa e de crescimento explosivo da dívida
pública em relação ao PIB, de sucateamento de vários órgãos e agências estatais, de inserção
na agenda da Alca , de repressão e criminalização dos movimentos sociais em detrimento de
uma postura negociadora do governo em relação às suas demandas econômicas. E, de outro
lado, que a transição para um outro paradigma de regulação econômico é muito parcial,
desigual, contida e bloqueada em suas dinâmicas potencialmente criativas por dimensões
estruturantes de continuidade da gestão macro-econômica.
15

A noção de que estão em cursos dinâmicas econômicas diferentes daquelas típicas do período
neoliberal não autoriza a conclusão de que o paradigma neoliberal de gestão da economia foi
superado. Dinâmicas econômicas são produzidas de modo complexo e multi-determinado,
como de fato o são os grandes movimentos da sociedade.

Há aí uma primeira grande concordância com Ricardo Carneiro. Ele afirma que “a melhoria da
economia brasileira veio sobretudo do excepcional cenário internacional”, “tão bom como não
se via desde os 30 anos do pós guerra”. Se bem que a comparação entre os dois períodos
muito distintos do capitalismo merecesse uma qualificação, a afirmação é inquestionável: sem
este cenário excepcional, o boom exportador vivido pela economia brasileira não teria
ocorrido e teria sido outra a dinâmica de retorno ao crescimento, de geração de superávits
comerciais e de geração de empregos formais.

Não seria o caso, porém, de estabelecer um automatismo entre o cenário internacional e o


boom exportador. A desvalorização do real em 2002 devido à chantagem financeira eleitoral e
a ampliação dos mercados conquistada pela ofensividade da política externa do governo Lula
jogaram o seu papel.

Parece paradoxal, após este reconhecimento, a afirmação de Ricardo Carneiro de que “no
curto prazo, as possibilidades de uma crise cambial motivada por um ataque especulativo
contra o real são iguais ou maiores do que no passado”. Não é a avaliação de um conjunto de
economistas críticos, como Paulo Nogueira Batista e o próprio Beluzzo, a partir do exame de
uma série de indicadores que vão na direção oposta. Talvez seria mais correto afirmar, como
faz em outra passagem Carneiro, de que a política econômica liberal não contribuiu “para
uma inserção de melhor qualidade na acumulação globalizada” ao aprofundar a liberalização
dos fluxos financeiros e de que a melhoria conseguida é dependente da manutenção de um
cenário internacional favorável. É limitada e incerta, portanto, apesar de importante.

A análise do companheiro Carneiro parece também subestimar tanto o peso na economia


como as alterações de posicionamento e função de vários órgãos do Estado brasileiro no setor
de energia, como a Petrobrás, no BNDES e na CEF, no Banco do Brasil, nas políticas sociais e
na política de reforma agrária e financiamento da agricultura familiar. Não deixa de ser algo
paradoxal já que estas novas políticas sofrem um ataque cerrado dos economistas neoliberais
e são, no fundamental, criação da tradição nacional-desenvolvimentista. Todas estas
mudanças foram produzidas publicamente à contra-corrente das orientações liberais
prevalecentes no Ministério da Fazenda e no BC. São pontos fundamentais de apoio para a
criação de um novo paradigma e diferenciam estruturalmente a economia brasileira da
maioria das economias latino-americanas, inclusive a Argentina. É redutor chamar estas
mudanças de meramente “operacionais”, como faz Carneiro.

A superação da financeirização

Seria necessário afirmar a coincidência do diagnóstico de que a gestão econômica do governo


Lula não foi capaz até agora de superar o núcleo duro da financeirização, isto é, a forma como
se gere a dívida pública em proveito dos rentistas, em detrimento dos setores produtivos, dos
trabalhadores e do setor público da economia. A persistência deste núcleo duro está
vinculado, como diz de modo muito expressivo Carneiro, ao “esforço excepcional para excluir
a gestão da política monetária do campo da política republicana”, conformando um verdadeiro
“ Estado de exceção”. Isto é, ele não será superado enquanto não for questionada a tese da
autonomia, institucionalizada ou operacional, do Banco Central e seu modus operandi,
estreitamente vinculado aos interesses do capital financeiro.

A partir de uma visão histórica e estrutural, seria necessário, no entanto, alargar o campo
propositivo das soluções para o impasse central da financeirização. Já o mestre Furtado, em
polêmica com os liberais nos anos cinqüenta, que argumentavam a inarredável dependência
da poupança externa para o desenvolvimento, colocava o centro da resposta na necessária
institucionalização de mecanismos de captação dos excedentes e sua planejada alocação
16

produtiva. O modelo dependente-associado, posto em prática pelo regime militar, esbarrou


neste impasse central no diagnóstico histórico configurado por Maria da Conceição Tavares.
Os anos do neoliberalismo para a periferia do mundo capitalista tiveram o sentido
fundamental de envolver estas economias em lógicas submetidas à especulação e ao
rentismo.

No Brasil, graças à gravitação decisiva ao centro do poder dos interesses do grande capital
financeiro nos anos noventa, esta agenda se cumpriu e se enraizou. Superar a financeirização
– não apenas fazer sua crítica – implica em voltar ao dilema clássico posto por Furtado e
concebido por Conceição. Isto é, institucionalizar de forma republicana – democrática e
submetida ao controle social – uma grande agência pública de financiamento do
desenvolvimento, formando uma âncora que dissolva o impasse entre a persistência do
rentismo especulativo e a ameaça de fuga de capitais. Uma proposta criativa, entre as que se
encaminham neste sentido, vem sendo feita pelo economista mineiro César Medeiros autor do
livro “Banco Universal contemporâneo. Uma estratégia para financiar os investimentos. O
papel do banco do Brasil , dos demais Bancos Oficiais e dos fundos de Pensão”. (Insight
Editorial, 1996).

Oportunidade histórica

A recente crise política, ainda não superada em uma direção republicana, expõe
dramaticamente as eleições de 2006 como um terceiro turno da grande disputa entre o
neoliberalismo e as forças de transformação reunidas em torno à provável candidatura de
reeleição de Lula. Mas o impasse do debate público em torno aos três anos de política
econômica do governo Lula gerou uma forte dispersão política das tradições
desenvolvimentistas e críticas dos economistas brasileiros.

Por outro lado, o esforço de refundação do PT que mobilizou a intelectualidade crítica, as


lideranças cristãs das comunidades eclesiais de base, os setores de maior ponderação do
movimento sindical brasileiro e dos movimentos sociais no campo, além de centenas de
milhares de petistas em todo o país deve ser canalizado para uma nova síntese programática
em torno às perspectivas do governo Lula.

É neste contexto que é preciso reposicionar a possibilidade de síntese entre a cultura petista e
as tradições críticas e desenvolvimentistas dos economistas brasileiros. Esta nova síntese não
poderá se produzir se persistir um enfoque economicista do debate. Como sabia bem Gramsci,
seguindo as intuições de Lênin, mesmo a crítica economicista é, ao final, uma forma de
liberalismo. Uma nova hegemonia só pode se produzir se os fundamentos ético-políticos do
Estado são direcionados rumo a outras possibilidades civilizatórias para além do liberalismo. A
defesa da retomada, apenas entrevista de forma parcial e incompleta pelas conquistas
democrático e populares na Constituição de 1988, de uma economia do setor público traduz
este novo eixo de gravidade necessário para o debate. O Brasil já experimentou
historicamente um modelo econômico comandado pela mão autoritária do Estado e outro
esterilizado pela apologia dogmática das virtudes do mercado. As eleições de 2006 são a
oportunidade histórica para construir a legitimidade do público – democraticamente gerido e
com universalismo de propósitos – como centro de gravidade para uma nova economia
brasileira.
17

NEM RUPTURA, NEM CONCILIAÇÃO!

Fernando Nogueira da Costa é professor licenciado do Instituto de Economia da


Unicamp, vice-presidente da Caixa Econômica Federal, Carta Maior, 25/10/2005

Um equívoco repetido sem cessar, da direita à esquerda, da imprensa à academia, pode


aparentar ser verdade não por razão lógica, mas por ser simplesmente opinião fácil. Trata-se
do lugar comum: “a política econômica do governo Lula é continuísmo da praticada no
(segundo) governo FHC”. Na verdade, a caracterização de uma política econômica exige a
análise da combinação de instrumentos utilizados e – importante – em que grau. Basta
alterar-se a intensidade no uso de alguns deles e/ou incluir-se um novo instrumento para
produzirem-se novos resultados macroeconômicos. Isto ocorre porque se trata de uma
decisão crucial, que altera o contexto de maneira irreversível.

O debate é paradoxal sob o ponto de vista da lógica. A oposição, com sua arrogância de achar
que ninguém pode ser mais competente do que ela, afirma: – “A política econômica atual é
cópia da anterior”. A situação retruca: – “Mas por que então a atual produz resultados
macroeconômicos tão superiores aos produzidos anteriormente?”. O contra-argumento,
geralmente, é: – “O contexto internacional agora é favorável”. Logicamente, a sentença final
seria: – “Bom, então, naquele contexto, a julgar pelos resultados então apresentados, a
política econômica estava equivocada e seria irracional dar-lhe continuidade!”.

Mas não é só isso, as mídias (e os leitores de colunistas) têm grande dificuldade de detectar o
novo, pois só acompanham opiniões alheias e não forjam suas próprias com base em novas
evidências empíricas que iluminam o presente e o futuro. Em outras palavras, aprende-se
mais sobre o país interpretando novas estatísticas e pesquisas do que lendo aqueles
repetidores do senso comum.

Pior, o debate degenerou-se para a mera crítica de (falta de) manipulação dos dois preços
básicos de referência, a taxa de juros (para baixo) e a taxa de câmbio (para cima). Muitas
vezes, observam-se representantes da extrema-esquerda dizendo o mesmo que os da direita
conservadora: – “Desce juros! Sobe câmbio!”. É o encontro de interesses reduzido a
desgastar a imagem do governo.

Outros oposicionistas clamavam pela imediata expansão dos gastos governamentais, desde o
início do governo, ignorando a fuga de capitais dos investidores amedrontados pela elevada
relação entre a dívida pública e o PIB. Se o governo então gastasse mais, aí sim haveria uma
necessidade de elevação superior da taxa de juros, para convencê-los a continuar carregando
os títulos de dívida. Essa alta de juros provocaria uma entrada de capital que superaria a
queda do saldo corrente derivado do aumento de importações, provocado pela elevação da
demanda agregada. O predomínio do superávit no balanço de pagamentos levaria à
apreciação da moeda nacional e a uma nova queda do saldo corrente. Enfim, o país não teria
aproveitado nem do crescimento da economia mundial nem reduzido sua vulnerabilidade
externa, como se conseguiu neste governo.

Qualquer (bom) manual de macroeconomia aberta diz que a política fiscal ativa é ineficaz para
retomar o crescimento com câmbio flexível e forte mobilidade de capital, condições
atualmente necessárias para um relacionamento proveitoso com o resto do mundo. Sugere
também que a opção, nessas condições, deve ser por uma política fiscal mais rígida e uma de
crédito expansiva. Este instrumento-chave de política econômica – política de crédito – nunca
foi utilizado nos dois mandatos de FHC. A preocupação maior era controlar a demanda
agregada e sanear os bancos públicos, preparando-os para uma futura privatização.

Pois bem, com a expansão do crédito – o saldo total cresceu mais de 40% em dois anos e
meio, com uma variação absoluta de cerca de R$ 154 bilhões –, das operações de mercado de
capitais – cerca de R$ 50 bi acumulados no ano corrente – e das operações de leasing – mais
de R$ 18 bi em 2005 – adotou-se o instrumento adequado para retomar o crescimento
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econômico. O crédito, estimulando consumo e investimento, e o superávit comercial foram os


grandes componentes do impulso à demanda agregada, que levou ao crescimento da renda e
à queda do desemprego. Ora, mesmo sem pressionarem a inflação, essas políticas expansivas
não fizeram parte do receituário da política econômica anterior.

Outro lugar comum desmentido pelos fatos foi o que se afirmava sobre a taxa de câmbio e as
importações. Basta consultar de colunistas diaristas a conceituados acadêmicos para
relembrar de seus prognósticos, sempre catastróficos, nunca conferidos (e desculpados).
Diziam que uma baixa taxa de câmbio – inclusive muito favorável ao país não sofrer tanto
com a atual alta do preço do petróleo e a baratear importações de máquinas e equipamentos
para investimentos – levaria, inevitavelmente, à deterioração do saldo comercial. Esqueceu-se
que há outros determinantes do fluxo comercial, particularmente, o crescimento de outros
países, a produtividade (caso do agronegócio brasileiro) e a política comercial ativa, com o
novo e estratégico papel da diplomacia brasileira, cuja crítica demagógica da oposição às
viagens do Presidente Lula tenta desqualificar a importância.

O melhor desempenho do governo Lula em relação a todos indicadores macroeconômicos


encontrados, quando assumiu a direção da política econômica, revela o cumprimento dos
compromissos assumidos em sua campanha (ver quadro estatístico abaixo). Retomou a
estabilidade inflacionária, que evita a corrosão do poder aquisitivo principalmente das classes
populares. Propiciou o crescimento da renda e do emprego, inclusive com novidades
históricas: crédito para os trabalhadores (ativos e inativos), crédito para os informais
(microcrédito e cooperativas de crédito), bolsas-famílias para os extremamente pobres, que
passavam fome.

As metas de curto prazo estão sendo alcançadas. Portanto, não se confirmaram as críticas ao
uso dos instrumentos de política econômica.

Na verdade, os críticos privilegiam o ataque aos meios e não avaliam justamente se os fins –
estabilização e condições para retomar o crescimento sustentado da renda e do emprego –
estão sendo alcançados ou não. Revelam assim mais um rancor pelo fato ou de suas idéias
não estarem sendo implementadas ou por não estarem eles mesmos participando da equipe
econômica.

Alguns deles, geralmente posicionados à esquerda dentro do espectro ideológico, chegam a


dizer que preferem ser seguidamente derrotados em eleições a reverem suas velhas idéias
não aceitas pela sociedade. Para eles, a derrota eleitoral, “em uma sociedade burguesa”, seria
a prova de que suas idéias estão certas!

Uma dessas velhas idéias que se choca com o trauma histórico da sociedade brasileira é a do
“confisco da poupança” e/ou da “quebra dos contratos financeiros”, que suportam “a
manutenção do rentismo na economia brasileira”. Por isso, a atual política econômica adotou
um gradualismo processual ao invés de um tratamento de choque no elevado endividamento
público. A demanda por “ruptura dos contratos”, aparentemente um ato de valentia, na
verdade, seria própria daqueles que não medem a (má) conseqüência social de seus atos.

Infelizmente (ou não), não se pode tratar de situações complexas com palavras simples,
estabelecendo dilemas tipo “socialismo ou fascismo”, “ruptura ou capitulação”, etc. O “fim do
rentismo” não será, simplesmente, diminuir a taxa de juros. Será que os que propõem isso
nunca se perguntaram: – “Se é tão fácil, por que não já fizeram isso? Será falta de
inteligência, monopolizada pelos que estão fora do governo? Será que todos os
administradores públicos ´se vendem´ ao mercado financeiro?”. Não basta se perguntar: –
“Entre ruptura ou capitulação, para onde caminha o governo Lula?”. Só há esses dois
caminhos?

Uns defendem as moratórias realizadas pela Argentina – o “corralito”, a da dívida pública e a


da externa – como um bom exemplo para o Brasil. Outros acham que o melhor exemplo de
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“governo de esquerda” é o de Chavez, na Venezuela. Talvez imaginem que a sociedade


brasileira prefira viver a fuga de capitais e o empobrecimento como ocorridos na Argentina ou
os conflitos sociais acontecidos na Venezuela...

As comparações internacionais têm de ser muito cuidadosas. Não se pode diferenciar


“espaços” ignorando as diferenças no “tempo”, isto é, não é correto simplesmente fazer um
corte temporal no ano presente, para denunciar que “ocupamos uma posição inferior no
ranking de crescimento”. Pois bem, e onde fica o “estruturalismo”, “a tradição do pensamento
desenvolvimentista brasileiro”? Não há diferenças estruturais entre os países, então, como
ignorá-las nessas comparações? Comparar o crescimento brasileiro com o de um país que se
recupera agora de 20% de encolhimento em quatro anos de recessão?! Comparar com o de
um país produtor de petróleo, durante um choque de preços?! Comparar com o da China?!
Ora, “todos receberam o mesmo impulso”?!

Mas chega-se a argumentar que “o governo Lula teve muita sorte, devido ao excepcional
cenário internacional”. De fato, o país está muito bem colocado no “ranking internacional da
sorte”: obteve o 6º maior saldo comercial e a 3ª maior taxa de crescimento das exportações
no mundo, no ano passado, e caminha para repetir essa “sorte” no ano corrente. Parece até
que “Deus joga dado”... e é brasileiro! Dizem que uma reversão desse cenário internacional,
já que dele depende todo sucesso alcançado até o momento, será o apocalipse! A esquerda
brasileira, mais uma vez, se fraciona no presente em nome de divergência quanto ao futuro.

Outro problema no atual debate econômico é o do uso da conhecida arma retórica de


embaralhar metas de curto prazo com as de longo prazo. As primeiras são as passíveis de
serem implementadas em um mandato pela política econômica. As outras, historicamente,
nunca foram possíveis ser alcançadas apenas em um único governo. É o caso de, quando se
desfia o sucesso nas primeiras, o interlocutor contrapõe, por exemplo, o fato de o Brasil
continuar ser o 8º país em termos de concentração de renda! Pela experiência histórica de
outros países, exceto em casos de revolução socialista, a melhoria de distribuição de renda se
alcançou depois de muitas lutas democráticas. Dependeram de sucessivos governos de
origem trabalhista com programas de fortalecimento democrático das instituições – Estado,
justiça, partidos, sindicatos, imprensa, contratos, etc. –, tributação progressiva e gastos
sociais (em educação, saúde, saneamento, habitação, transporte) orientados para os mais
pobres, além de reforma agrária quando a sociedade era ainda predominantemente rural.
Essas são as lições dos países bem sucedidos, para a população obter uma melhor qualidade
de vida.

Mais do que da bandeira “desapropriação dos expropriadores”, a melhoria da distribuição de


renda dependerá da mobilidade social massiva – e não apenas de alguns poucos. No século
passado, a urbanização talvez tenha sido o maior fator de aumento do status social dos filhos
em relação ao de seus pais. Entre os fatores atuais, destaca-se o aumento do tempo de
estudo – aqui, ao contrário de outros países, quase 3/4 da população ainda exerce ocupações
manuais, sendo ¼ dos indivíduos no estrato mais baixo (ocupações manuais rurais) e 2/4 nos
estratos manuais urbanos. Quando se completar a massificação do ensino, inverter-se-ão
essas posições através da abundância de trabalhadores intelectuais e da escassez de
trabalhadores manuais, diminuindo o leque salarial e, portanto, melhorando a distribuição de
renda.

Outro fator de mobilidade social é o ingresso da mulher no mercado de trabalho, elevando a


renda da família. Também é o controle da natalidade, conseqüência normal de maior nível
educacional, com elevação da renda per-capita familiar.

Quanto ao empreendedorismo, há mais de 3 milhões de empresas formais sem empregados,


ocupando quase 4.300.000 proprietários ou sócios, e cerca de 15 milhões de
empreendedores, sendo 53% deles por oportunidade e o restante por necessidade. O Brasil
possui a 7ª maior taxa de atividade empreendedora.
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No que se refere à urbanização, a intensificação da migração rural-urbana com a abertura de


oportunidades nas cidades impulsionou uma grande quantidade de indivíduos a atingir uma
situação social mais alta do que a de seus pais. Mas significou uma explosão na demanda por
residências urbanas.

Entretanto, na geração de nossos pais, antes de 1970, o Sistema Financeiro de Habitação era
muito pouco desenvolvido. As despesas com Habitação ainda ocupam o primeiro lugar na lista
das despesas nos orçamentos das famílias brasileiras, chegando a 37% na faixa de renda
mais baixa, enquanto na mais alta ficam em 23% (só o item Aluguel consome em média 17%
do total de despesas na mais baixa e 10% na mais alta). O financiamento da casa própria é
um grande fator de impulso à mobilidade social. Graças às medidas empreendidas pelo
governo Lula, o Brasil vive uma nova fase no crédito imobiliário e no setor habitacional. No
total, alcançadas as metas, serão cerca de R$ 15 bilhões de financiamento imobiliário, em
2005, o maior valor da história do país. Mas isso também parece não ter importância para os
críticos...

Alguns analistas acham que “o verdadeiro núcleo duro do problema distributivo” [da renda]
está na “sua repartição crescentemente desigual em favor dos rentistas e em detrimento de
lucros e salários”. Daí, inclusive, “a essencialidade da taxa de juros” ocorre pela sua
capacidade “em definir a trajetória da economia e alterar a distribuição da renda e da
riqueza”. Ora, novamente, parece que basta colocar um desses analistas na presidência do
COPOM para se resolver em uma só tacada, definitivamente, esses problemas conjunturais e
estruturais!

Para encerrar, vamos fazer apenas duas pequenas observações. Primeira, são “grandes
rentistas” os fundos mútuos de investimento de varejo (onde estão “o seu, o meu, o nosso
dinheiro”), os fundos de pensão (onde estão futuras aposentadorias de trabalhadores), as
instituições financeiras públicas federais (onde o rendimento com os títulos públicos compensa
a falta de rentabilidade com a missão social). Segunda, na origem da renda dos brasileiros
mais ricos – assim como na dos mais pobres (ver TD 1014 IPEA, mar 2004) – predomina a do
trabalho em relação à do capital, em outras palavras, eles recebem relativamente mais
salários (75%), aposentadorias e pensões (18%), aluguéis (5%) do que juros e dividendos
(2%). Nesse sentido, o controle da inflação, mesmo utilizando o instrumento da taxa de juros,
é uma das metas mais importantes da política econômica de curto prazo, para não deteriorar
ainda mais a distribuição de renda. Combinada com o acesso popular a bancos e crédito é
uma arma poderosa para elevar o poder aquisitivo da população não rica, que antes recebia
só o “dinheiro de pobre” não protegido da inflação. Só o “dinheiro de rico” tinha correção
monetária contra a inflação, nos bancos. Esta realidade mudou, no governo Lula.

Talvez pudesse se fazer mais (e de maneira mais eficaz) se os economistas de esquerda não
se dedicassem ao esporte de “dar tiro no pé” e “lavar as mãos”. Ficar apenas fazendo
oposição à política econômica do governo, como ela fosse a mesma política neoliberal de FHC,
e criticando a coalizão parlamentar com os “conservadores”, que constitui a base governista,
é se esquivar da responsabilidade histórica de apoiar o primeiro governo de um partido de
esquerda no Brasil. Esse esforço exige uma crítica construtiva, isto é, não destruir o existente
sem propor uma alternativa econômica e política viável. Senão, estará somente aumentando-
se a turbulência política que a direita deseja para derrubar o governo Lula e “acabar com
nossa raça”.