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LUSITÂNIA

SACRA

REVISTA DO CENTRO DE ESTUDOS DE HISTÓRIA RELIGIOSA

UNIVERSIDADE CATÓLICA PORTUGUESA

PROTESTANTISMO E CATOLICISMO EM PORTUGAL NOS SÉCULOS XIX E XX

SERIE

TOMO

XII

2000

LUSITÂNIA

SACRA

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PROPRIEDADE, EDIÇÃO E ADMINISTRAÇÃO:

Centro de Estudos de História Religiosa Universidade Católica Portuguesa (UCP)

Palma de Cima

1649-023 LISBOA

Tel. 217214130 ou 217214000 (ext. 5110)

Fax: 217270256

E-mail: secretariado@cehr.ucp.pt

DIRECÇÃO:

Carlos A. Moreira Azevedo, UCP - Porto, Director David Sampaio Dias Barbosa, UCP - Lisboa Ana Maria Rodrigues, U. Minho José Paulo Leite Abreu, UCP - Braga Ana Maria Jorge, UCP - Lisboa

Paulo F. de Oliveira Fontes, UCP - Lisboa, Secretário

COORDENAÇÃO DO VOLUME:

António Matos Ferreira

Paulo F. de Oliveira Fontes

SECRETARIADO ADMINISTRATIVO:

Isabel Costa

Assinatura:

Capa: Xavier Neves

PORTUGAL - 20 ESTRANGEIRO - US $50

Composição e Arranjos Gráficos: João Nuno Bastos

Impressão: SerSilito - Empresa Gráfica, Lda. /Maia

Distribuição: SODILIVROS - Sociedade Distribuidora de Livros e Publicações, Lda. - LISBOA

Depósito legal: 27944/89

ISSN: 0076-1508

ISBN: 972-8361-16-5

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LUSITÂNIA

SACRA

REVISTA DO CENTRO DE ESTUDOS DE HISTÓRIA RELIGIOSA

UNIVERSIDADE CATÓLICA PORTUGUESA

PROTESTANTISMO E CATOLICISMO EM PORTUGAL NOS SÉCULOS XIX E XX

2 a SERIE

TOMO

XII

2000

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A edição deste Tomo de Lusitânia Sacra foi parcialmente subsidiada pela

FCT Fundação para a Ciência e a Tecnologia

MINISTÉRIO DA CIÊNCIA t DA TECNOLOGIA

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2 a Série

ÍNDICE

2000

Tomo XTT

Apresentação

 

2

7.ÍT.TA OSÓRIO DF CASTRO

Cultura e ideias do liberalismo

12

T

.1 Tf S ACtUIAR

SANTOS

Protestantismo em Portugal (sécs. XIX-XX): linhas de força da sua história e

 
 

historiografia

31

NUNO OI AIO

Carlos João Rademaker ( 1828-1885): percurso do restaurador da Companhia de Jesus em Portugal

ó_5

JOSÉ F.DIJARDO FRANCO

A visão do Outro na literatura antijesuítica em Portugal: de Pombal à Primeira

República

FRNF.STO CASTRO T.F.AT.

Nuno Alvares: símbolo e mito nos séculos XIX-XX

121

143

RR TINO CARDOSO RFTS

A Concordata de Salazar? Uma análise a partir das notas preparatórias de Março

d e 1917

1£5

NUNO F.STF.VÂO

Os meios católicos portugueses perante a guerra colonial: reconfigurações da

questão religiosa

221

NF.T.SON COSTA RTRF.TRO

A Rádio Renascença na transição de regime: do 25 de Abril ao 25 de Novembro

J. PINHAR ANDA GOMES

267

Notas de Investigação

355

Cristãos-Novos e Judaísmo no início da Época Moderna: identidade religiosa e

"Razão de Estado" (Claude B. Stuczynski)

355

Mythe, religion et politique: la "légende négre" des jésuites (Michel Leroy)

367

Os participantes do I o Congresso Católico Português ( 1871-1872) (Ana Maria Jorge)

377

A igreja de Nossa Senhora de Fátima em Lisboa e a arte moderna em Portugal (Paulo Alexandre dos Santos Costa)

413

O Movimento de Renovação da Arte Religiosa e o papel artístico e pastoral do seu

Boletim (José Carlos Francisco Pereira)

"Fazer história"

para "fazer santos": uma (im)possível compatibilidade (Maria de

431

Lurdes Rosa)

439

Testemunhos

A propósito de um testemunho sobre o Padre Abel Varzim (1902-1964) (Paulo Fontes)

457

O padre Abel Varzim e o seu tempo (António Cerejo)

461

Crónica

493

Prof. Isaías da Rosa Pereira < 1919-1998). In memoriam (António Montes Moreira)

493

Colóquio Internacional

"O Cristianismo no Japão " (João Paulo Costa)

497

Colóquio Internacional sobre o Protestantismo (David Sampaio Barbosa)

498

"Entre o Céu e a Terra ": Exposição de arte sacra da diocese de Beja (José António Falcão)

500

Exposição

"Rosa M\ stica" (José António Falcão)

507

Exposição

"Eucaristia na Arte

Sacra " (Deolinda Carneiro)

5 1

0

/

Enc o ntro

a Hospitaleira de S. João de Deus (João Luis Inglês Fontes)

Int e rna c io n a l

s ob re

Patrim ó ni o Artís tic o - C ult u ral da O rdem

5 1

3

VI Jornadas do Património Cultural da Arquidiocese de Braga (José Paulo Leite de Abreu)

5L5

Celebração dos 450 anos da diocese e cidade de Portalegre (João Pires Coelho)

5 1

6

Salvaguarda do património cultural móvel: dos adquiridos e dos desafios (Raquel Henriques da Silva)

520

Congressos de Arquivística em Espanha (Pedro Penteado)

523

Curso de Formação de Técnicos-Adjuntos de Arquivo: Variante de Arquivos Religiosos (Paulo F. de Oliveira Fontes)

524

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Linha de Intervenção do CEHR no Campo dos Are/uivos Religiosos (Paulo F. de

Oliveira Fontes)

5?6

Curso Aberto e Seminário de "Diplomática Eclesiástica " (Maria de Lurdes Rosa)

527

Iniciativas científicas e culturais no campo da História Religiosa (1999/2000) (Paulo

F. Oliveira Fontes, com a colaboração de Isabel Teixeira Costa)

528

Actividades do CEHR (P. F.)

545

Recensões

555

Maria Benedita Araújo - Superstições populares portuguesas (Manuel Clemente)

555

Aires A. Nascimento,

introd.

e

trad.

- Cister: os documentos primitivos no

9"

Centenário da fundação de Cister (Ana Maria C, M. Jorge)

55(S

Aires A, Nascimento, introd. e trad. - Navegação de S. Brandão nas fontes portu-

guesas medievais (Ana Maria C. M. Jorge)

Aires A. Nascimento, introd. e trad. - Hagiografia de Santa Cruz de Coimbra: Vida de

D. Telo. Vida de D. Teotónio. Vida de Martinho de Soure (Ana Maria C. M. Jorge)

556

556

Alexandra B. Mariano; Aires A. Nascimento, eds. - Egéria: Viagem do Ocidente à

Terra Santa, no Séc. IV (Ana Maria C. M. Jorge)

Maria Alegria Fernandes Marques - Estudos sobre a história de Cister em Portugal (Antónia Fialho Conde)

^52

Maria José Azevedo Santos - Vida e morte de um mosteiro cisterciense (Antónia Fialho

Conde)

562

Leonor Correia de Matos - A Ordem de Cister e o Reino de Portugal (Antónia Fialho

Conde)

Cister no Vale do Douro (Ana Maria C. M. Jorge)

564

Antonio Linage Conde - Biobibliografia (Ana Maria C. M. Jorge)

Patrícia Anne Odber de Baubeta - Igreja, pecado e sátira social na Idade Média por-

tuguesa (Américo Lindeza Diogo; Ana Maria S. A. Rodrigues)

Visitações e Pastorais de São Pedro da Ericeira 1609-1855 (Ângela Barreto Xavier)

Daniel Augusto da Cunha Faria - A vida e conversão de Frei Agostinho: entre a apren-

dizagem e o ensino da Cruz (Vanda Anastácio)

^28

Carlos Silva [et al.] - Martinho Lutero: diálogo e modernidade (Paulo Mendes Pinto)

António Lopes - Vieira o encoberto: 74 anos da sua utopia (Zélia Pereira)

^M.

Ana Cristina Araújo - A morte em Lisboa: atitudes e representações ( 1 700-1830)

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Fernando Catroga O céu da memória: cemitério romântico e culto cívico dos mortos em Portugal, 1756-1911 (Bruno Cardoso Reis)

584

Manuel Pedro Cardoso - Por vilas e cidades: notas para a história do protestantismo

em Portugal (Luís Aguiar Santos)

590

Manuel da Silva Rodrigues Linda - Andragogia política em Dom António Ferreira Gomes (Paulo Abreu)

591

António Ferreira Gomes - Homilias da paz ( 1970-1982) (Paulo Abreu)

592

Simpósio Internacional "Profecia e Liberdade em D. António Ferreira Gomes" Actas

(Paulo Abreu)

591

Pinto Cardoso - Santo António dos Portugueses em Roma: guia histórico e artístico da

igreja (Maria de Lurdes Rosa)

595

Nota de leitura sobre Misericórdias (Pedro Penteado)

596

Livros Oferecidos

6 1

Revistas em Permuta

619

Resumos (Abstracts)

623

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APRESENTAÇÃO

O presente tomo de Lusitânia Sacra aborda aspectos da contempo- raneidade portuguesa e é organizado, tematicamente, em torno de dois

pólos: protestantismo e catolicismo. A problematização para que remete é a da diversificação mental e religiosa verificada no país ao longo dos dois últimos séculos. Tal diversificação compreende-se num alargado processo histórico em que se enquadram as mutações verificadas na sociedade e na cultura

portuguesas de Oitocentos, nomeadamente a emergência do liberalismo

político e ideológico. É essa ambiência só cio -cultural e ideológica que é

apresentada no artigo de Zília Osório de Castro com que a Revista abre, "Cultura e ideias do liberalismo" , resultado de uma sua colaboração com a Faculdade de Teologia da Universidade Católica, no Curso de Verão sobre "Religiosidade e Secularização em Portugal". A afirmação dos ideários liberais corresponde à ampliação do entendimento da socie- dade como pluralidade, com vários níveis de autonomia, próprios do

processo de secularização, tal como o texto refere. Começando por uma

se bem que o liberalismo

ressalva metodológica, nele se afirma: «[

postule a liberdade, nem este tem um sentido unívoco, nem ser liberal

pressupõe um único modo de ser e de estar, nem as sociedades e os esta-

dos que o invocam lhe aplicam o mesmo significado. Sendo assim, falar de liberalismos talvez seja a atitude conceptualmente mais correcta, desde que seja a ideia de liberdade o ponto fulcral de toda a reflexão, por

nela radicarem as suas raízes conceptuais e o seu significado cultural».

Analisando as raízes culturais e o processo histórico de afirmação plural

do liberalismo, nomeadamente a relação do homem com o tempo e a his- tória, a autora sublinha que «o liberalismo na sua origem e concretiza- ção ao longo do século XIX, foi representativo da secularização política,

com acentuações circunstanciais de tradição e de evolução que indivi-

]

dualizaram as diversas formalizações [

através da obra de grandes clássicos, sublinhando a relação entre racio-

nalidade e temporalidade como as coordenadas em torno das quais se

definem e articulam diversas tradições filosóficas e políticas.

]»;

formalizações que analisa,

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É ainda no campo desta diversificação mental e religiosa que se

situa o trabalho de Luís Aguiar Santos: "Protestantismo em Portugal

(sécs. XIX-XX): linhas de força da sua história e historiografia". Nele se

afirma: «De facto o aparecimento e desenvolvimento do Protestantismo em Portugal é parte de um problemática mais geral: a da lenta desagre-

gação do paradigma da uniformidade confessional na sociedade portu- guesa e cujas origens podemos remontar ao fim do século XVIII». Analisando a passagem da situação de tolerância de facto à tolerância de

jure, no alargado arco temporal que vai do liberalismo à actualidade, o

autor concentra-se, de seguida, na análise da dinâmica interna do

Protestantismo português, a partir de uma tripartida categorização dos

movimentos religiosos entretanto surgidos no seu seio: Igrejas "sino-

dais"; Denominações "congregacionais" ; Igrejas e Denominações "não

ecuménicas". Por último, tece algumas considerações acerca do

"Protestantismo português" que, historicamente, considera ser um

objecto de estudo coerente, para além das diferenças teológicas e institu- cionais de cada uma das suas expressões individualizadas: «O Protestantismo no seu todo plural foi desde o século XIX em Portugal uma experiência de diferenciação relativamente à forma dominante de

ser cristão, a do catolicismo romano». Os restantes artigos da Revista abordam aspectos vários da dinâmica

do catolicismo nos séculos XIX e XX. Dois textos referem-se à presença da Companhia de Jesus no país, embora a partir de temas e perspectivas dis- tintas. No primeiro deles, Nuno Olaio apresenta o percurso do padre Carlos João Rademaker, "restaurador da Companhia de Jesus em Portugal", situando a sua acção no seio do chamado catolicismo intran-

sigente e no quadro do movimento de recomposição do catolicismo portu- guês no século XIX: «Carlos Rademaker encontrava- se imbuído num espí- rito de missão, entendido enquanto empresa de Deus, para uma nova

evangelização» em «resposta ao contexto de crise». O percurso deste je- suíta surge, assim, como um importante testemunho para a compreensão

do debate cultural, ideológico e político travado, desde meados do século,

em torno da questão religiosa, onde as ideias de regeneração católica e de

regeneração nacional parecem convergir. Segundo o autor: «O paradigma

de regeneração oitocentista encarnado por Rademaker, algo que Ale- xandre Herculano apelidou perjurativamente de neocatolicismo, significa uma reacção positiva por parte da Igreja para o estabelecimento de uma

nova mundivivência católica alicerçada no neotomismo».

Por seu turno, José Eduardo Franco analisa a questão do antije- suítismo em Portugal, de Pombal à Primeira República, procurando

C opy r igti t ed m ate r ial

identificar e dissecar os tópicos mais recorrentes nas diversas formas dis- cursivas que contribuíram para uma figuração mítica e " diabo lização"

dos Jesuítas num processo de dicotomização da realidade, «cindindo-a

entre trevas e luz, entre progresso e decadência, entre liberdade e escra-

vidão», definindo assim o lugar de um "Nós" e de um "Outro". «O Nós é aquele que planifica e persegue incansavelmente a realização de uma

utopia luminosa, positiva, a utopia do progresso, da felicidade do povo,

da harmonia social, da regeneração dos corpos sociais pela educação

moderna e esclarecida do indivíduo. Este Nós é entendido por vezes como sendo o Estado e os seus agentes, outras vezes é um grupo político -ideo-

lógico, mas o Nós concentra sempre o ideal de exaltação e progresso

nacional e a elevação da pátria [

O Outro são os Jesuítas e a sua filo-

].

sofia de vida, o pensamento político, a sua acção social e educativa e a

sua influência religiosa que é mais um estado de espírito que é geral-

mente designado de jesuitismo [

que era considerado como a «decadência do país» e «promover a higie-

nização do mal» que supostamente lhe estaria na origem. Nesta perspec- tiva, o mito jesuítico surge, para o autor, como o reverso do mito do sebastianismo, tendo como denominador comum o facto de ambos resul-

tarem de «um diagnóstico negativo feito à realidade da nação portu- guesa». «Assim, enquanto que o mito do sebastianismo é o fruto de uma utopização positiva, em resultado da desilusão frente ao estado da nação,

o mito jesuíta decorre da constituição da Companhia de Jesus como locus

de catarse desse mesmo estado nacional decaído». É também no campo do estudo da mitologia nacional se situa o artigo de Ernesto Castro Leal: «Nuno Alvares: símbolo e mito nos sécu-

los XIX e XX». Se o processo de canonização de Joana d'Are, em França,

foi um importante estímulo para a beatificação de Nun'Alvares e subse- quente culto oficial, a partir de 1918, a ideia da sua exemplaridade ética, política e patriótica, encontrava-se já enraizada em parte das elites por- tuguesas desde o século XIX. Começando por referir «o dispositivo litúr- gico apoteótico - popular, oficial, publicista - desenvolvido desde o século XVI até meados do século XX», que provocou múltiplas represen-

tações ligadas à ideia do político, do herói, do santo e até do místico, o

texto propõe-se percorrer os principais "lugares da memória" com par-

ticular incidência para «o período mediado entre os anos 70 de Oito- centos e os anos 50 de Novecentos»: Literatura e História; Arte;

Monumentos ou Panteonização; Associações; e, por último, Culto reli- gioso e Culto cívico. Na análise feita sublinha-se o significado da con-

vergência entre ambos os cultos, num modelo celebrativo iniciado em

]».

A finalidade do mito é explicar o

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1928 (peregrinação seguida de romagem), culminando em 1931 no 5 o

Centenário da Morte de Nuno Álvares Pereira. Assinala-se assim um

novo ciclo no comemorativismo histórico oficial, que se prolonga com

grande vigor nos anos 40 mas que perduraria, pelo menos, até 1960, ano

do 6 o Centenário do Nascimento de Nuno Alvares Pereira, coincidindo também com o 5 o Centenário da Morte do Infante D. Henrique. O artigo termina com um conjunto de considerações finais, nomeadamente acerca da importância do recurso simbólico a Nun 'Álvares como factor de uni- ficação dos vários nacionalismos portugueses, desde os anos 90 do

século XIX até finais dos anos 30 do século XX. E referindo-se ao parti- cular significado da forte dinâmica cultual contemporânea ao Santo Condestável, verificada entre 1918 e 1940, conclui: «Toda a ritualização cívica e religiosa praticada contribuiu para a articulação institucional entre a Igreja Católica, as Forças Armadas e a Administração Pública,

enraizando em áreas da elite nacionalista, que serão importantes seg- mentos da elite do "Estado Novo", uma imagem orgânica e funcional do

Poder».

Das relações institucionais do Estado Novo com a Igreja Católica ocupa-se Bruno Cardoso Reis no artigo seguinte: «A Concordata de

Salazar? Uma análise a partir das notas preparatórias de Março de 1937». Duas questões orientam o texto: «De que forma a Concordata se

integrou no projecto político do fundador do Estado Novo? De que forma

a Concordata - no seu texto e no processo negocial que lhe deu origem

permite perceber mais claramente a posição de Salazar relativamente aos pontos chave da questão religiosa aberta pela separação entre Estado e

Igreja a partir de 20 de Abril de 1911 ?». Se a complexidade do processo

negocial é conhecida, estendendo-se por um período de três anos e des-

dobrando-se na negociação de um texto paralelo (o Acordo Missionário),

a identificação das grandes fases e crises negociais permite ao autor ava-

liar o papel dos diversos intervenientes, e perspectivar melhor a postura

negocial de cada um, no quadro mais geral das relações Estado -Igreja.

Nesta perspectiva, conclui sublinhando que a natureza do "sistema de

separação cordial" estabelecido {uma separação concordatada) se

enquadra, em traços gerais, na linha geral adoptada pelos países de estrutura demo-liberal europeus reconhecendo embora que «esta é uma separação que tem sobretudo nas voluntárias omissões, possibilidades

neo-regalistas»; possibilidades que nos momentos de crise nacional se

evidenciariam com maior facilidade.

«Os meios católicos portugueses perante a guerra colonial: reconfi- gurações da questão religiosa» é o tema do artigo de Nuno Estevão, que

C opy rigriíed m ato rial

analisa exactamente um dos tópicos da identidade e crise nacionais neste período: a questão ultramarina. O autor procura demonstrar a relação

estabelecida entre os posicionamentos dos católicos em face das guerras desencadeadas entre o Estado português e os movimentos de libertação

de Angola, Moçambique e Guiné e o que designa como a «reconfiguração

da questão religiosa na sociedade portuguesa» desde finais dos anos 50

até às mudanças políticas de 1974. Tal reconfiguração caracteriza- se

nomeadamente pela «desvalorização de um modelo unitário de catoli- cismo e com pretensões hegemónicas sobre a sociedade» evoluindo para

a percepção do catolicismo como espaço plural, em articulação com outros sectores sócio-culturais. De algum modo, e ainda que circunscre-

vendo-se a análise à dimensão política, o artigo descreve um movimento

de diferenciação interna ao próprio catolicismo que o autor resume do seguinte modo: «o conflito colonial implicou modificações relevantes no plano da relação entre os católicos e a sociedade, nomeadamente: os ele-

mentos introduzidos numa problemática que se encontrava em discussão

contribuíram para que alguns sectores exercessem o seu direito de cida- dania e constituíram um factor significativo na afirmação de um contexto

social de laicidade. As reinvindicações de cariz político e a respectiva for-

malização alteraram o panorama da compreensão e do exercício do reli-

gioso, assim como o enquadramento da sua relação com a sociedade».

E ainda no alargado período da transição democrática portuguesa, que se inicia antes e se prolonga para além de 1974, que se situa o artigo seguinte, da autoria de Nelson Costa Ribeiro: «A Rádio Renascença na

transição de regime: do 25 de Abril ao 25 de Novembro». Integrando um trabalho mais amplo realizado no âmbito de um trabalho final do Curso de Comunicação Social da Universidade Católica Portuguesa, a investi-

gação procura balizar e analisar as várias fases de um complexo pro-

cesso social e político em que "o caso" da Rádio Renascença (RR) se

integra. Da trama dos acontecimentos, o autor retira várias conclusões:

«o caso da RR tem grande impacte na situação política que se viveu em Portugal no pós 25 de Abril, nomeadamente no Verão Quente de 75, quando, no Norte e no Centro do país, milhares de pessoas se mobiliza- ram em redor do Episcopado e da Emissora Católica, não só defendendo

a restituição da RR à Igreja Católica, como também manifestando o seu

desagrado para com o processo político que estava a ser percorrido pela

revolução». E, como sublinha o texto, se este caso se transformou «numa das lutas político-ideológicas com maior visibilidade junto da sociedade

portuguesa, graças à forte tradição e ao elevado nível de implantação da

Igreja Católica», este período «ficou igualmente marcado por um debate

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sobre o papel que a Igreja Católica deveria assumir na nova sociedade». «Esta discussão, situada no seio da própria Igreja, está patente nos

diversas posições, muitas vezes contraditórias, tomadas por diversos sec- tores católicos em relação ao caso da RR» - conclui. O último dos artigos, da autoria de J. Pinharanda Gomes inscreve-

-se ainda no campo de estudo do catolicismo, mais concretamente no da sua relação com a sociedade no âmbito da reflexão cultural contemporâ- nea: «Aspectos da filosofia católica em Portugal na segunda metade do

século XX». Percorrendo as várias tradições filosóficas presentes em Portugal, o artigo assinala os autores, obras e iniciativas mais relevan- tes no panorama cultural português. E conclui, em jeito programático,

com algumas considerações em torno do diálogo fé/razão. Um debate em aberto que nos conduz à possibilidade de, em tempos de autonomização

da filosofia relativamente à teologia - num movimento de secularização cultural - se poder questionar a validade operativa do conceito de "filo-

sofia católica", como aconteceu, aliás, com parte significativa das elites

culturais católicas, num movimento que a reflexão teológica do II

Concílio do Vaticano (1962-1965) ractificaria.

*

*

*

Seguindo a estrutura habitual da Revista, este tomo inclui ainda um

conjunto de outros textos na secção Notas de Investigação. Os dois pri- meiros têm como ponto de partida a publicação de obras estrangeiras que, entretanto, suscitaram reflexões orientadas para o conhecimento da reali-

dade portuguesa, referindo-se a temáticas não especificadamente confina- das à época contemporânea. Ana Maria Jorge apresenta os resultados de

uma investigação sobre «Os participantes do I o Congresso Católico

Português (1871-1872)», acontecimento marcante no catolicismo portu- guês no final do século XIX. Dois outros textos introduzem dois momentos

do debate do catolicismo com a arte moderna no século XX: em «A Igreja

de Nossa Senhora de Fátima em Lisboa e arte moderna em Portugal»,

Paulo Alexandre dos Santos Costa analisa a polémica suscitada pela

construção daquela igreja nos anos 30, sublinhando o papel determinante

do cardeal-patriarca de Lisboa, D. Manuel Gonçalves Cerejeira, na deci-

são de avançar com o projecto; José Carlos Pereira analisa

«O

Movimento de Renovação da Arte Religiosa e o papel artístico e pastoral

do seu Boletim», que tão importante foi nos anos 50 e 60 em Portugal. Já Maria de Lurdes Rosa reflecte sobre a relação entre a história da santidade e a hagiografia, tendo como ponto de partida a publicação de

C opy rigriíed m ato rial

"fazer santos": uma

(im)possível compatibilidade». O debate está em aberto, a propósito,

aliás, de uma iniciativa patrocinada pelo Centro de Estudos de História

Religiosa.

um estudo de caso: «"Fazer história" para

Uma novidade surge neste tomo: a abertura de uma nova secção:

Testemunhos. De facto, dada a especificidade da problemática contempo- rânea e a necessidade de se estabelecer, com rigor, a distinção entre fon-

tes e estudos historiográficos, esta pareceu a melhor solução, de modo a

permitir o conhecimento de textos significativos para o avanço do conhe-

cimento histórico, a que, de outro modo, não se teria acesso. No caso con- creto, a publicação de um texto de António Cerejo sobre o Padre Abel

Varzim (1902-1964) permite à Revista Lusitânia Sacra assinalar o cente- nário do nascimento de tão marcante figura do catolicismo português.

E também em jeito de memória que se inicia a secção Crónica relem-

brando a figura do Professor Isaías da Rosa Pereira, último responsável

pela publicação da Lusitânia Sacra antes da sua integração na Universidade Católica Portuguesa, como órgão do Centro de Estudos de

História Religiosa. A secção integra ainda múltiplas notas de informação

e avaliação relativas às mais variada iniciativas com interesse para a

História Religiosa de Portugal. A fechar, a habitual secção de Recensões e listas de Livros Ofere- cidos e de Revistas em Permuta.

*

#

#

Uma última palavra, ainda de apresentação, se impõe: a realização

deste tomo de Lusitânia Sacra resultou do trabalho desenvolvido no âmbito do Centro de Estudos de História Religiosa, onde desde alguns

anos se vem promovendo o debate e a reflexão sobre as questões aqui abordadas. Tal reflexão tem sido realizada tanto em articulação com o tra-

balho de docência universitária, quanto a partir do desenvolvimento de

alguns projectos de investigação, nomeadamente «O movimento católico

e a presença da Igreja na sociedade», este com o apoio da Fundação para

a Ciência e a Tecnologia, que aqui se regista.

Paulo Fontes

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CULTURA E IDEIAS DO LIBERALISMO

ZÍLIA OSÓRIO DE CASTRO *

Falar em liberalismo enquanto regime político que consubstancia a

ideia de liberdade implica lembrar a exaltação da razão enquanto valor em si, e perspectivar o ser humano entendido na individualidade da sua natu-

reza, e a emergência do temporal como condição da sua existência. Mas

implica igualmente considerá-lo do ponto de vista da subjectividade

romântica dos sentimentos, com filiação numa comunidade histórica ou

contratualmente formada e denominada nação, e a adopção da temporali- dade, do tempo que se vive, como característica essencial da natureza humana. Ou seja, se bem que o liberalismo postule a liberdade, nem esta

tem um sentido unívoco, nem ser liberal pressupõe um único modo de ser e de estar, nem as sociedades e os estados que a invocam lhe aplicam o

mesmo significado. Sendo assim, falar em liberalismos talvez seja a ati-

tude conceptualmente mais correcta, desde que seja a ideia de liberdade o ponto fulcral de toda a reflexão, por nela radicarem as suas raízes concep-

tuais e o seu significado cultural.

Tendo em conta que a concepção de liberdade implica a noção de uno,

singular ou colectivo, identifica-o como tal, fazendo do relacionamento com os outros um acto pessoal, isto é, um acto de razão e vontade desse mesmo uno. Sendo assim, a liberdade em si mesma tende a subalternizar a relação interpessoal face à identidade do uno onde encontra a sua plena

expressão. E a igualdade apenas consagra implicações de ordem externa ao sujeito, impostas coactivamente, como seja a liberdade perante a lei e as

propostas liberais de sufrágio universal.

Na sequela do pensamento racionalista iluminista, os caminhos da

igualdade correram paralelamente aos da justiça e desaguaram nas políticas eleitorais. Só viria a ser prestada atenção à vertente social que lhe estava

implícita quando uma outra "filosofia" e as suas implicações políticas

* Professora da F.C. S.H.-U.N.L.

LUSITÂNIA SACRA, série, 12 (2000)

17-35

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18

ZÍLIA OSÓRIO DE CASTRO

abalaram a ordem liberal em nome de princípios democráticos, ou seja, quando ao uno se sobrepôs o múltiplo. Daqui que o liberalismo postulando

teórica e ideologicamente a ideia de liberdade, desse origem à concepção minimalista de estado, cujo objectivo consistia, tão-só, na sua garantia que

era afinal a garantia dos direitos do cidadão livre e da soberania da nação,

considerando ilegítimo qualquer outro tipo de intervenção. A igualdade,

por seu lado, encontrou expressividade política na democracia, forma de governo que a consagrava, considerando-a a sua própria razão de ser, e

empenhando-se na sua efectivação, que representava o reconhecimento do

múltiplo, ou seja, do carácter social do ser humano. Tendo em conta a pureza dos princípios, a irredutabilidade entre o uno e o múltiplo, a liberdade e a igualdade, o liberalismo e a democracia, apre- senta-se por demais evidente. Nunca um liberal apostou na igualdade, nem um democrata na liberdade, como valores dominantes. O mesmo não acon- teceu com a prática da sua concretização histórica - do tempo que flui - sempre passível de conjugações, a menos que se acredite na possibilidade de concretizar o absoluto teórico que lhe subjaz. Apenas a consciência da transfinitude das ideias e dos homens enquanto seres pensantes contorna o

pragmatismo imediato ditado pelas circunstâncias, levando