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DAS MEDIDAS ASSECURATÓRIAS PENAIS – providências cautelares constritivas e reais como


importantes instrumentos na busca da efetividade da jurisdição penal

Gabriela de Carvalho Carapeba


Analista Processual do MPF

De forma simples, pretende-se discorrer sobre tema de suma importância na busca da efetividade da jurisdição
penal, o qual, todavia, não tem recebido o merecido destaque por parte de nossos doutrinadores.

A demora na conclusão da instrução processual penal, desencadeada por diversos motivos sobre os quais não
cabe aqui discorrer, faz das medidas assecuratórias fortes aliadas na busca pela tutela criminal patrimonial.

Com o presente texto busca-se contribuir para utilização das referidas medidas, mormente, no combate aos
delitos contra a ordem tributária, a ordem econômica, o sistema financeiro nacional, nos crimes de “lavagem” e
ocultação de bens, direitos e valores e em qualquer outro delito do qual resulte prejuízo ao erário.

GENERALIDADES

No curso de uma ação criminal ou até mesmo antes de seu início é comum acontecerem situações que
demandem providências urgentes, por parte do ministério público ou da própria vítima do delito, hábeis a
acautelar interesses, ora assegurando a correta apuração da infração penal, ora garantindo a futura execução da
pena que se pretende ver aplicada, ou ainda, garantindo o ressarcimento do dano causado pela prática criminosa.

Neste contexto, as medidas assecuratórias penais de cunho patrimonial visam a tutelar, provisoriamente,
direitos até o momento em que o Estado-Juiz possa decidir, definitivamente, a demanda, resolvendo, inclusive, o
pagamento das custas processuais e o ressarcimento do dano causado à vítima do delito.

No ordenamento jurídico pátrio, as medidas cautelares penais estão previstas de maneira bastante confusa. O
Código de Processo Penal dispõe sobre elas de maneira dispersa e sem sistematização. Da matéria tratam ainda
normas esparsas como o Decreto-lei n.º 3.240/41 e a Lei 9.613/98, entre outras.
2
Analisando os artigos 125 a 144 do Código de Processo Penal, constata-se que as medidas assecuratórias são
previstas como processos incidentais, os quais deverão ser propostos perante o juízo competente para julgar a
ação criminal, sendo autuadas em apartado, a fim de não tumultuar a instrução da ação criminal.

Tais medidas, além das condições gerais para propositura de qualquer ação, sejam elas, a legitimidade das
partes, a possibilidade jurídica do pedido e o interesse de agir, possuem mais dois requisitos, quais sejam, o
fumus boni iuris e o periculum in mora.

Vale salientar que, no processo penal, o sentido de urgência que inspira as medidas assecuratórias possui
particularidades que o diferenciam do processo civil. A respeito, vejamos o que diz João Gualberto Garcez
Ramos1:

A urgência, no caso, é quase onipresente. Essa qualidade decorre de diversas razões. Em primeiro
lugar, do fato de que o crime é, ontologicamente, a maior ofensa ao próximo que prevê o ordenamento
jurídico. Se é à pessoa do indivíduo, muitas vezes também o é ao seu patrimônio, irrazoadamente
atingido. Sendo assim, ocorrendo o prejuízo patrimonial, justificada está a reação estatal enérgica.
Outra razão é referente ao destinatário das regras viabilizadoras da responsabilidade patrimonial.
Tendo o agente cometido um crime patrimonial doloso ou crime não patrimonial motivado pela cobiça,
por exemplo, é razoável pensar-se que, uma vez consumado o crime, seu objetivo passe a ser manter o
status quo alcançado com a prática da infração penal; talvez até com a repetição de ações moralmente
reprováveis. Nisso também reside a potencial inutilidade das medidas patrimoniais do processo se
desvestidas de urgências.

Sobre a autonomia do processo penal cautelar, ou seja, sobre a existência de um processo cautelar distinto do
processo de conhecimento ou do de execução, existem controvérsias entre os processualistas. No entanto, em
relação às medidas assecuratórias aqui comentadas, não se pode deixar de reconhecer como suas características:
a acessorialidade (apesar de ser possível a existência de uma medida cautelar sem a futura ação penal), a
preventividade, a provisoriedade, a revogabilidade e a referibilidade, bem como a possibilidade de
contenciosidade.

Vale registrar ainda que, como nosso direito processual penal assegura ao magistrado o amplo conhecimento
judicial dos fatos, bem como em face do poder geral de cautela conferido ao magistrado, é possível a concessão
de medidas cautelares de ofício pelo próprio juiz da causa, no curso do procedimento, sem necessidade de
petição inicial e de correspondente sentença.

Passamos, agora, as particularidades de cada uma das medidas.


1
In “A Tutela de Urgência no Processo Penal Brasileiro”, Ed. Del Rey, 1998, p. 287
3

DO “SEQÜESTRO” DE IMÓVEIS (artigos 125 a 131 do CPP)

De acordo com Fernando da Costa Tourinho Filho2, o art. 125 do CPP contém impropriedade técnica ao se
referir a seqüestro:

“Embora não se trate, a rigor, de coisa sobre cuja propriedade haja controvérsia, e só assim seria
seqüestro, por outro lado, não podem ser seqüestrados quaisquer bens do indiciado; apenas aqueles
imóveis adquiridos por ele com os proventos da infração.”

Citando Tornaghi, o citado autor conclui que a medida assecuratória prevista no dispositivo em análise seria
“um misto de seqüestro e de arresto”.

Deficiência terminológica à parte, o certo é que estamos diante de providência que, fundada no interesse público,
visa a antecipar o perdimento de bem produto do crime ou o proveito do crime (vantagem indiretamente
auferida pelo agente com a prática criminosa) como efeito da futura e eventual condenação.

Desta feita, o seqüestro é medida adotada no interesse do ofendido e do próprio Estado, com o escopo de
antecipar os efeitos da sentença penal condenatória, salvaguardando a reparação do dano sofrido pelo ofendido,
bem como o pagamento das custas e da pena de multa a ser fixada na sentença. Ela também tem por objetivo
assegurar que da atividade criminosa não resulte vantagem econômica para o infrator.

Neste sentido, o Código Penal, em seu artigo 91, prevê entre os efeitos civis da condenação a indenização do
dano causado pelo crime e o confisco de bens (instrumentos e do produto do crime).

Nos artigos 125 e 126 do CPP está previsto como requisito para a concessão da medida a presença de indícios
veementes da origem ilícita dos bens do indiciado ou acusado, mesmo que estes tenham sido transferidos a
terceiros.

Vejamos o que entendem nossos Tribunais sobre a presença de indícios suficientes da origem ilícita dos bens:

2
In “Processo Penal”, Vol. 3, Editora Saraiva, 2005, p. 28.
4
Origem: STF - Agravo Regimental em Inquérito N.º 705-6/140-DF. Relator: Ilmar Galvão. DJ:
20.10.1995
EMENTA: DESPACHO QUE, EM INQUÉRITO POLICIAL, DECRETOU LIMINARMENTE, AD
REFERENDUM DO PLENÁRIO, SEQÜESTRO DE BENS QUE TERIAM SIDO ADQUIRIDOS
PELOS INDICIADOS COM OS PROVENTOS DA INFRAÇÃO (ARTS. 125 E 132 DO CPP).
IMPUGNAÇÃO MANIFESTADO POR AGRAVO DE INSTRUMENTO.
Contemporaneidade da aquisição dos ditos bens com a imputada prática de atos delituosos, os
quais, segundo consta, envolveram elevadas somas de dinheiro. Circunstância bastante para
autorizar a presunção de que se está diante de produto da ilicitude.
Exclusão, todavia de parte ideal (1/20) de imóvel que coube ao primeiro acusado por sucessão, ao qual
teriam sido por este incorporadas valiosas benfeitorias após a sucessão de fatos criminosos narrados na
denúncia, em face da impossibilidade física de serem estas destacadas, para fim de concretização do
confisco, medida que, de outra parte, não se poderia executar sobre o respectivo valor, sem prejuízo
para os demais condôminos, terceiros de boa fé, cujos direitos se acham expressamente ressalvados no
art. 91, II, do Código Penal, já que exigiria a cessação da indivisão do bem, por meio de sua conversão
em dinheiro. Exclusão, também, de imóvel anteriormente adquirido pelo segundo acusado.
Despacho referendado com as ressalvas acima explicitadas.
Agravos regimentais de que não se conhece, por sua inadequação a casos de despacho do relator que
adiante providência cautelar ad referendum do Plenário. Precedentes do STF.

Acordão Origem: TRF - PRIMEIRA REGIÃO Classe: ACR - APELAÇÃO CRIMINAL –


200635000101023 Processo: 200635000101023 UF: GO Órgão Julgador: QUARTA TURMA Data da
decisão: 10/10/2006 Documento: TRF100238392 Fonte DJ DATA: 10/11/2006 PAGINA: 37
Relator(a) DESEMBARGADOR FEDERAL HILTON QUEIROZ Decisão unânime. Data Publicação
10/11/2006
Ementa PROCESSUAL PENAL. SEQÜESTRO E INDISPONIBILIDADE DE BENS DOS SÓCIOS.
ARTS. 129 E 131 DO CPP. EXISTÊNCIA DE AÇÃO PENAL. ORIGEM NÃO DEMONSTRADA.
INTERESSE AO PROCESSO. MANUTENÇÃO DA DECISÃO. APELAÇÃO IMPROVIDA.
1. O art. 131 do Código de Processo Penal não impede a ratificação do seqüestro pretensamente
caduco.
2. Inexistência de vício de forma do seqüestro, formulado na própria denúncia e deferido nos autos da
ação penal.
3. Os acréscimos patrimoniais que os apelantes e suas empresas tiveram são provenientes,
segundo a denúncia, das práticas criminosas que se lhes imputam, sendo, pois, veementes os
indícios.
4. Não tendo sido demonstrado o bom direito de propriedade, nem a origem lícita dos bens, e
interessando a apreensão ao processo (art. 118 do CPP), a manutenção da decisão que deferiu o
seqüestro, arresto e busca e apreensão dos bens pertencentes aos sócios é a medida que se impõe.
5. Apelação improvida
5

Acordão Origem: TRIBUNAL - QUARTA REGIÃO Classe: ACR - APELAÇÃO CRIMINAL


Processo: 199904010076331 UF: SC Órgão Julgador: SEGUNDA TURMA Data da decisão:
06/11/2000 Documento: TRF400078935 Fonte DJU DATA:17/01/2001 PÁGINA: 271 Relator(a)
FERNANDO QUADROS DA SILVA Decisão unânime Data Publicação 17/01/2001
Ementa PROCESSO PENAL. SEQUESTRO DE BENS. FUNDAMENTOS. PRÉVIO
ESGOTAMENTO DA VIA ADMINISTRATIVA. INADMISSIBILIDADE. INDÍCIOS
VEEMENTES DEMONSTRADOS. DECISÃO MANTIDA.
1- Por força do princípio da separação dos poderes, é inviável pretender que o Poder Judiciário tenha
sua atuação condicionada à prévia manifestação de órgãos administrativos do Poder Executivo.
2- Privilegiar tal entendimento eqüivaleria a nulificar o poder jurisdicional, que restaria na
dependência prévia da manifestação de autoridades fiscais, entendimento que confronta com art. 127, e
129, I, da Carta Política.
3- Para decretação do seqüestro, a legislação processual penal exige apenas a presença de
indícios veementes da origem ilícita dos bens.
4- Exame profundo da matéria fática deve ser diferida para a instrução penal, mediante amplo
contraditório entre acusação e defesa.
5- Apelação improvida.

Acordão Origem: TRIBUNAL - QUARTA REGIÃO Classe: MS - MANDADO DE SEGURANÇA


Processo: 200104010465253 UF: RS Órgão Julgador: SÉTIMA TURMA Data da decisão: 28/08/2001
Documento: TRF400081618 Fonte DJU DATA:12/09/2001 Relator(a) JOSÉ LUIZ B. GERMANO
DA SILVA Decisão unânime. Data Publicação 12/09/2001
Ementa PROCESSUAL PENAL. MANDADO DE SEGURANÇA. MEDIDA ASSECURATÓRIA.
SEQÜESTRO DE BENS. ART. 125 E SS. DO CPP. INQUÉRITO POLICIAL. INDÍCIOS DE
SEREM OS BENS FRUTO DE ILÍCITOS PENAIS.
1. A decretação do seqüestro de bens é medida assecuratória prevista em lei que pode ser operada pelo
Juiz em qualquer fase, mesmo antes da ação penal, quando ainda na fase inquisitorial.
2. Se das investigações da Polícia apurou-se a existência de fortes indícios de que a impetrante
participa de organização criminosa, especializada em roubo de cargas e distribuição do produto
do roubo por várias regiões do país, sendo filha do cabeça da quadrilha, que utiliza suas contas
bancárias para movimentação de dinheiro proveniente do ilícito, merece ser mantida a decisão
que determinou o seqüestro de seus bens.
3. Ordem denegada.

Ocorre que muitas vezes o criminoso tem, na frente da atividade criminosa, uma atividade lícita que oculta a
origem criminosa do seu patrimônio, dificultando sobremaneira a demonstração da relação entre o patrimônio e
a atividade ilícita, todavia, a jurisprudência vem, com acerto, permitindo a desconsideração da personalidade
jurídica nestas hipóteses. Vejamos o seguinte precedente:
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Acordão Origem: TRIBUNAL - QUARTA REGIÃO Classe: ACR - APELAÇÃO CRIMINAL


Processo: 200070000272889 UF: PR Órgão Julgador: SÉTIMA TURMA Data da decisão: 25/09/2001
Documento: TRF400082018 Fonte DJU DATA:17/10/2001 PÁGINA: 1070 Relator(a) JOSÉ LUIZ B.
GERMANO DA SILVA Decisão unânime. Data Publicação 17/10/2001
Ementa PROCESSO PENAL. MEDIDAS ASSECURATÓRIAS. INDÍCIOS DO CRIME. EMPRESA
USADA COMO MEIO PARA ATOS ILÍCITOS. DESCONSIDERAÇÃO DA PERSONALIDADE
JURÍDICA.
1. As medidas assecuratórias previstas no CPP têm ensejo quando houver indícios veementes de atos
ilícitos e a competência para apreciar o cabimento da medida é do Juízo Criminal.
2. Se a pessoa jurídica serve como instrumento para a prática de delitos como sonegação fiscal,
entre outros, cabe a desconsideração da personalidade jurídica e o seqüestro de bens, a fim de
acautelar o ressarcimento do prejudicado.

É certo que o ônus da prova cabe a quem alega, assim, quem postula a medida caberá provar a proveniência
ilícita dos bens, já que esse é requisito para concessão da medida. No entanto, dada a dificuldade na
comprovação da origem ilícita dos bens nos delitos de "lavagem" ou ocultação de bens, direitos e valores,
entende-se possível a inversão do ônus da prova, cabendo ao acusado do crime provar que o patrimônio é lícito
(v. g. art. 4º, § 2º da Lei n.º 9.613/98).

Neste caso, a possibilidade da inversão do ônus da prova, mesmo tratando-se de medida que visa garantir os
efeitos de uma eventual e futura condenação criminal, dá-se porque a constrição é meramente patrimonial, ou
seja, incide sobre o patrimônio e não sobre a liberdade do indivíduo.

Por sua vez, o artigo 127 do CPP dispõe que o seqüestro pode ser ordenado “antes de oferecida a denúncia ou
queixa”, ou, “em qualquer fase do processo”. Ressalta-se, aqui, que a determinação da medida, antes de
iniciada a ação penal, deve-se ao risco de que durante o inquérito o investigado se desfaça dos bens produto do
crime ou adquiridos com os haveres obtidos por meios criminosos, tornando difícil ou impossível a reparação do
dano.

Quanto à competência para decretar a medida, apenas o juiz penal a possui. Agora, claro que não é qualquer juiz
penal, só o competente. Logo, as regras de competência devem ser observadas.

Com efeito, distribuído o inquérito policial, a competência para determinar o seqüestro de bens será do juiz
competente para o inquérito. Caso ainda não tenha havido distribuição do procedimento investigatório, a
competência será do juiz penal competente para eventual e futura ação penal, o qual determinando o seqüestro de
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bens, antes da distribuição do inquérito policial, ficará prevento para o mesmo e, posteriormente, para a
eventual ação penal. Vejamos as decisões a seguir ementadas:

Origem: TRF- 4ª Região. Apelação criminal. Processo n°. 2003.71.04.001096-4/RS. Decidido em


24.06.2003, relator JOSÉ LUIZ B. GERMANO DA SILVA, DJU DATA:16/07/2003 PÁGINA: 369
EMENTA: PROCESSO PENAL. APELAÇÃO CRIMINAL. SEQUESTRO. HIPOTECA LEGAL.
MEDIDA CAUTELAR. PROCESSO INCIDENTE. COMPETÊNCIA. AÇÃO CAUTELAR.
1. A realização de quaisquer das medidas assecuratórias prevista em nossa legislação processual
penal são questões incidentais, cuja competência para presidi-las é do juiz competente para o
processo principal.
2. Havendo cessado a competência para decidir a causa, com a prolação da sentença, a medida cautelar
deveria ter sido proposta originariamente no Tribunal.
3. Mantida a decisão que indeferiu as medidas postuladas por entender não haver poderes para o
processamento e julgamento das mesmas. Apelação desprovida.
4. Nada obsta que o pedido seja conhecido como ação cautelar incidental de hipoteca legal de imóveis
e seqüestro de móveis.

Acordão Origem: TRIBUNAL - TERCEIRA REGIÃO Classe: ACR - APELAÇÃO CRIMINAL –


9691 Processo: 200061810004071 UF: SP Órgão Julgador: QUINTA TURMA Data da decisão:
07/11/2000 Documento: TRF300054995 Fonte DJU DATA:08/05/2001 PÁGINA: 361 Relator(a)
JUIZA SUZANA CAMARGO Decisão unânime. Data Publicação 08/05/2001
Ementa APELAÇÃO CRIMINAL. MEDIDA CAUTELAR. PROCESSO INCIDENTE.
COMPETÊNCIA DO JUIZ QUE PRESIDE O PROCESSO CRIMINAL. INEXISTÊNCIA DE
NULIDADE. PRELIMINAR REJEITADA. ARTIGO 125 E 132 DO CÓDIGO DE PROCESSO
PENAL. DECRETAÇÃO DO SEQÜESTRO. ARTIGO 126 DO CÓDIGO DE PROCESSO PENAL.
EXISTÊNCIA DE SÉRIOS INDÍCIOS ACERCA DA ORIGEM ILÍCITA DOS VALORES
DEPOSITADOS NAS CONTAS DO APELANTE, NO EXTERIOR. FUMAÇA DO BOM DIREITO
E 'PERICULUM IN MORA' PRESENTES. RECURSO IMPROVIDO.
I. Código de Processo Penal, em seu Capítulo VI, cuidou de disciplinar as chamadas medidas
cautelares, também chamadas providências assecuratórias, visando, assim, tornar certa a satisfação de
obrigações, bem como garantir a execução de sentenças criminais.
II. As medidas assecuratórias previstas no processo penal visam evitar o dano proveniente da
morosidade da ação penal, garantindo, através da guarda judicial das coisas, o ressarcimento do
prejuízo causado pelo delito, sendo que por ter a natureza de processos incidentais, a
competência para presidi-las é do juiz competente para o processo criminal.
III. A competência do Juízo Federal da 1ª Vara Criminal de São Paulo para processar a medida
cautelar preparatória em exame, expressa na ordem de seqüestro criminal dos ativos existentes
em contas no exterior, decorre da circunstância de ser o competente para o processo criminal
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principal, que apura os fatos relacionados a operação que envolveu a apontado desvio de verbas
públicas na construção do Fórum Trabalhista de São Paulo.
IV. A e. Quinta Turma, nos autos dos 'Habeas Corpus' nºs 2000.03.00.020550-1/SP e nº
2000.03.00.022340-0, firmou a competência do r. Juízo Federal da 1ª. Vara Criminal de São Paulo
para o processo e julgamento da ação penal principal, nos termos dos artigos 70 e 83 do Código de
Processo Penal.
V. Não remanescendo qualquer ordem de incompetência por parte do r. Juízo da 1a Vara Criminal de
São Paulo, em determinar o seqüestro dos numerários, inexiste qualquer nulidade que esteja a inquinar
a respectiva decisão.
VI. Nos termos do que dispõe o artigo 125 do Código de Processo Penal, serão passíveis de seqüestro
todos os bens adquiridos com os proventos da infração, tanto imóveis quanto móveis, caso não seja
possível a sua busca e apreensão, sendo nesse sentido o disposto no artigo 132 do mesmo codex.
VII. A teor do que dispõe o artigo 126 do Código de Processo Penal, para a decretação do seqüestro,
basta a existência de indícios veementes da proveniência ilícita dos bens.
VIII. Se a ordem de seqüestro em reexame partiu da existência de sérios indícios acerca da origem
ilícita dos valores depositados nas contas do apelante no exterior, presente encontra-se a fumaça do
bom direito autorizadora da medida cautelar em reexame, bem como o 'periculum in mora', expresso
na eventual dissipação desses recursos.
IX. Preliminar de nulidade rejeitada. Recurso improvido.

Nos termos do art. 127, podem requerer o seqüestro: 1) o Ministério Público, mesmo antes de proposta a ação
penal, obedecidas as regras de competência e de atribuições; 2) a autoridade policial, mediante representação ao
juiz; 3) o ofendido mediante requerimento ao juiz; 4) apesar de não haver disposição expressa, entende-se que se
o ofendido for incapaz, seus representantes legais poderão requerer a medida e, se falecido, seus herdeiros
também poderão fazê-lo, isto com fundamento no art. 63 do CPP; 5) por fim, reza o mencionado dispositivo que
o juiz pode decretar a medida de ofício, ou seja, independente de provocação de qualquer uma das pessoas antes
mencionadas.

Uma vez ordenada a medida, o magistrado determinará a autuação do incidente em apartado, bem como a
expedição do competente mandado, o qual, segundo Tourinho3“conterá a descrição do bem cujo seqüestro se
ordenou, sua localização, o motivo e fins da diligência, sendo subscrito pelo escrivão e assinado pelo Juiz.”

Mais adiante, prossegue o citado processualista:

“De posse do mandado, dois Oficiais de Justiça dirigir-se-ão ao lugar em que estiver localizado o
imóvel (dentro da respectiva comarca, é óbvio; se fora, expedir-se-á precatória), dando ciência da

3
In “Processo Penal”, Vol. 3, Editora Saraiva, 2005, p. 30/31.
9
diligência ao seu proprietário. De qualquer sorte, encontrado ou não o proprietário ou possuidor,
lavrarão o respectivo auto, tudo conforme o art. 665 do CPC.”

Com a juntada do mandado, cumprido dentro das exigências legais, o magistrado determinará a inscrição do
seqüestro no Cartório de Registro de Imóveis, nos moldes estabelecidos na Lei n.º 6.015/73 (Lei de Registros
Públicos), sendo esta a única disposição legal que não se aplica ao seqüestro de bens móveis, já que, por motivos
óbvios, não é cabível.

Nosso Código de Processo Penal não prevê um procedimento próprio para a efetivação do seqüestro, motivo
pelo qual entende-se pela aplicação das normas atinentes à penhora, previstas no Código de Processo Civil. As
regras previstas nos artigos 125 a 133 do CPP aplicam-se tanto ao seqüestro de imóveis como o de móveis,
salvo, como dito anteriormente, o registro no Cartório de Imóveis, o qual é aplicável apenas ao seqüestro de
imóveis.

Aqui, cabe uma importante observação. No caso dos bens imóveis seja ele PRODUTO ou PROVEITO do crime,
sempre caberá o seqüestro. Tratando-se de bens móveis PRODUTO do crime caberá a busca e apreensão nos
termos do art. 240, §1º do CPP, medida que aqui não se aprofunda a análise por tratar de providência cautelar
probatória e não medida constritiva real. Neste último caso, não é necessária uma medida de seqüestro sendo
suficiente a busca e apreensão que é menos formal, consistindo numa tutela mais rápida.

Desta feita, temos que enquanto existir o produto ou o instrumento do crime (bem móvel), caberá a busca e
apreensão do mesmo e, estando ele apreendido, ficará garantido para um eventual confisco.

Por outro lado, se os bens móveis forem PROVEITO do crime, terá que haver uma ação de seqüestro.

Conclui-se que quando o bem objeto do crime se transforma, p. ex. o veículo furtado que foi desmanchado para
venda das peças, ele passa a ser PROVEITO do crime (resultado indireto) e as peças terão de ser seqüestradas.
No caso não caberá mais a restituição do automóvel ou a sua busca e apreensão, eis que o bem já fora todo
desmanchado, em todo caso, caberá a indenização da vítima.

O seqüestro, é bom frisar, atinge única e exclusivamente o patrimônio adquirido ilicitamente pelo agente. Ele
não tem caráter de punição, é apenas a recuperação daquilo que foi perdido pela vítima, seja o produto ou o
proveito de crime em se tratando de bens imóveis ou apenas o proveito em se tratando de bem móvel. Se houver
o reconhecimento judicial de que estes bens são produto de ilícito, aí sim, haverá, como efeito da condenação, o
perdimento do(s) bem(ns).
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4
Efetivada medida poderão ser opostos embargos (art. 129 do CPP), meio de defesa conferido ao indiciado ou
réu, ao terceiro senhor e possuidor e ao terceiro de boa-fé (art. 130 do CPP).

É importante, assim, atentar para distinção entre terceiro estranho e terceiro adquirente dos bens. Neste sentido,
traz-se os ensinamentos de Marcellus Polastri Lima5, que, citando Sérgio de Moraes Pitombo, esclarece:

“Em processo, o terceiro aflora como pessoa diversa daqueles que litigam. Quem não tomou parte no
feito, pessoalmente ou por via de representação e, se não pode sujeitar, diretamente à eficácia dos atos
jurisdicionais dimanantes é terceiro (...) Costuma-se apartar, no processo penal, o terceiro (arts. 125 e
129 do Cód. de Proc. Penal) do terceiro de boa-fé (art. 130, n. II, do Cód. de Proc. Penal). Simples
terceiro seria o senhor e possuidor do bem seqüestrado, estranho ele ao delito, por completo alheio à
infração penal. Terceiro de boa-fé, apenas aquele que adquiriu, ao menos a preço justo, bens do
acusado, resultantes da infração ignorando-lhes, de modo invencível, a proveniência ilícita.
Seqüestráveis, outrossim, são os bens, móveis ou imóveis, adquiridos pelo terceiro, com o produto
direto, ou indireto da infração penal, o qual lhe foi, disfarçadamente, fornecido pelo indiciado.
(destacamos)”.

Em seguida, Marcellus Polastri Lima acrescenta:

Os embargos de terceiro estranho estão previsto no art. 129 do CPP, in verbis:


(...)
Neste caso o terceiro não tem qualquer vinculação com a infração, como é o caso do seqüestro de bem
que é do terceiro e não do acusado. Poderá este terceiro, que deseja ser mantido na posse do bem, o
qual acabou, injustamente, sendo apreendido, ser o proprietário do mesmo, possuidor direto ou
indireto. Inexiste qualquer condição para a oposição destes embargos, pois, na verdade, o possuidor
está sofrendo um esbulho por parte do Estado
(...)
Em relação aos embargos de terceiro de boa-fé, a previsão se dá no inciso II do art. 130 do CPP,
litteris:
(...)
Ao contrário dos embargos de terceiro estranho, que podem ser julgados a qualquer tempo, uma vez
que a apreensão foi indevida e com burla dos requisitos legais exigidos, os embargos do acusado e de
terceiro de boa-fé só serão julgados após transitar em julgado a sentença condenatória”.

Neste diapasão, traz-se à colação o seguinte julgado:

4
Neste sentido, Fernando da Costa Tourinho Filho, in “Processo Penal, Volume 3, Editora Saraiva, p. 31.
5
In “Tutela Cautelar no Processo Penal”, Ed. Lumen Juris, 2005, p. 170/172.
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Acordão Origem: TRF - PRIMEIRA REGIÃO Classe: AG - AGRAVO DE INSTRUMENTO –
9401374210 Processo: 9401374210 UF: MT Órgão Julgador: TERCEIRA TURMA Data da decisão:
6/2/1995 Documento: TRF100029289 Fonte DJ DATA: 6/4/1995 PAGINA: 19355 Relator(a) JUIZ
TOURINHO NETO Decisão unânime. Data Publicação 06/04/1995
Ementa PROCESSO PENAL. EMBARGOS DE TERCEIRO DE BOA-FE. SEQUESTRO.
JULGAMENTO.
1. OS EMBARGOS DE TERCEIRO DE BOA-FE, AO CONTRARIO DOS EMBARGOS DO
SENHOR E POSSUIDOR, POR NÃO SER UM ESTRANHO AO FATO CRIMINOSO, SO
PODERÃO SER JULGADOS DEPOIS DE TRANSITADA EM JULGADO A SENTENÇA
CRIMINAL, CONFORME DISPÕE O ART. 130, PARAG. UNICO, DO CODIGO DE
PROCESSO PENAL.
2. AGRAVO IMPROVIDO.

Na hipótese do seqüestro ter sido requerido pelo Ministério Público, a contestação aos embargos ficará a seu
cargo. Quando requerido pelo ofendido ou determinado de ofício pelo juiz, o órgão do Ministério Público deverá
intervir como custos legis.

Eugênio Pacelli6, discorrendo sobre as matérias que podem ser alegadas nos embargos, adverte:

“É bem de ver, porém, que a exigência de fundamentação vinculada (às matérias mencionadas no art.
130, CPP) dos embargos pode esbarrar, no caso concreto, nas franquias constitucionais do devido
processo legal , uma vez que ninguém será privado de seus bens sem a sua observância (art. 5º, LIV).
Assim, parece-nos, também aqui, irrecusável a observância do princípio da ampla defesa e
contraditório.”

De acordo com a regra inserta no art. 130, parágrafo único do CPP, a decisão sobre os embargos somente deverá
ser proferida após o trânsito em julgado da eventual sentença penal condenatória.

Quanto ao recurso cabível contra a decisão que determina o seqüestro ou o indefere, não há unanimidade entre
os doutrinadores. Há os que defendam ser tal decisão irrecorrível já que a mesma não é prevista no rol exaustivo
do artigo 581 do CPP (recurso em sentido estrito), como também, entendendo que ela não seria definitiva nem
teria força de definitiva, não seria hipótese de cabimento de apelação (art. 593, II do CPP). Para esses, a
legalidade da referida decisão somente poderá ser questionada através de mandado de segurança, no qual,
todavia, é pacífico o entendimento de que não é cabível dilação probatória. Vejamos as decisões a seguir
ementadas:

6
In “Curso de Processo Penal”, Ed. Del Rey, 2006, p. 278
12
Acordão Origem: STJ - SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA Classe: ROMS - RECURSO
ORDINARIO EM MANDADO DE SEGURANÇA – 3272 Processo: 199300194216 UF: SP Órgão
Julgador: QUINTA TURMA Data da decisão: 29/03/1995 Documento: STJ000087193 Fonte DJ
DATA: 15/05/1995 PÁGINA:13414 LEXSTJ VOL.:00075 PÁGINA:282 Relator(a) ASSIS TOLEDO
Decisão unânime. Data Publicação 15/05/1995
Ementa PROCESSUAL PENAL. SEQUESTRO DE BENS. RENOVAÇÃO.
1. SEQUESTRO DE BENS IMOVEIS ANTE A EXIGENCIA DE INDICIOS DE
PROCEDENCIA ILICITA (ARTS. 126 E 127 DO CPP). MATERIA QUE, ENVOLVENDO
QUESTÃO DE FATO CONTROVERTIDA, NÃO COMPORTA EXAME NA VIA
SUMARISSIMA DO "MANDAMUS".
2. POSSIBILIDADE DE RENOVAÇÃO DO SEQUESTRO PREPARATORIO VENCIDO, COM O
OFERECIMENTO DA DENUNCIA. ALEGAÇÃO DE DECURSO DE PRAZO PREJUDICADA.
RECURSO EM MANDADO DE SEGURANÇA IMPROVIDO.

Acordão Origem: TRIBUNAL - QUARTA REGIÃO Classe: MS - MANDADO DE SEGURANÇA


Processo: 200204010113432 UF: RS Órgão Julgador: OITAVA TURMA Data da decisão: 11/11/2002
Documento: TRF400086152 Fonte DJU DATA: 27/11/2002 PÁGINA: 989 Relator(a) LUIZ
FERNANDO WOWK PENTEADO Decisão unânime. Data Publicação 27/11/2002
Ementa: MANDADO DE SEGURANÇA. ADMISSIBILIDADE. PROCESSO PENAL. CRIME DE
SONEGAÇÃO FISCAL. MEDIDA CAUTELAR DE SEQÜESTRO. DEPRECIAÇÃO DOS
VEICULOS. DEPÓSITO PÚBLICO. NOTÓRIA DEPRECIAÇÃO.
1. Na linha de precedentes do e. STJ, aos quais têm-se ajustado as decisões dessa Turma, não
obstante restrito o uso do mandado de segurança na esfera penal, cumpre admiti-lo em face de
decisão não arrolada no art. 581 do CPP e desprovida de cunho terminativo, referentemente à
relação processual, cuja natureza, de outra parte, afasta eventual modificação pela via
correicional.
2. Apenas na hipótese de flagrante ilegalidade, contra direito líquido e certo, verificável de
pronto, é cabível, em tese, a busca da reparação na via mandamental.
3. Inexistindo elementos concretos para aferir, em sede de cognição sumária, a exata correspondência
entre os débitos satisfeitos por conta de parcelamento operado junto ao REFIS e aqueles pelos quais os
réus estão respondendo à ação penal, descabe proceder ao levantamento de seqüestro efetivado, em
sede cautelar, em garantia dos cofres públicos.
4. Objetivando resguardar a garantia visada pela medida cautelar de seqüestro, mostra-se devida a
liberação de bens constritos em depósito público, sujeitos à notória depreciação, depositando-os em
nome dos respectivos proprietários.

Outros processualistas, como Tourinho7, entendem que da decisão que defere ou indefere o pedido de seqüestro
cabe apelação, eis que tem natureza definitiva ou com força de definitiva (art. 593, II do CPP). Isto porque uma

7
In “Processo Penal”, Vol. 3, Editora Saraiva, 2005, p. 30.
13
vez determinado o seqüestro, a medida perdurará até o término da ação penal, ou, se ao revés, for denegado o
pedido, o requerente terá seus direitos desprotegidos até uma eventual decisão final da ação penal. Tal
entendimento é majoritário, vejamos as decisões a seguir ementadas:

Acordão Origem: TRF - PRIMEIRA REGIÃO Classe: MS - MANDADO DE SEGURANÇA -


200001001114394 Processo: 200001001114394 UF: MG Órgão Julgador: SEGUNDA SEÇÃO Data
da decisão: 10/3/2004 Documento: TRF100160137 Fonte DJ DATA: 24/3/2004 PAGINA: 4
Relator(a) DESEMBARGADOR FEDERAL OLINDO MENEZES Decisão unânime. Data Publicação
24/03/2004
Ementa PROCESSUAL CIVIL. MANDADO DE SEGURANÇA. PROCESSUAL PENAL.
SEQÜESTRO. DECISÃO QUE INDEFERE O LEVANTMENTO. RECURSO CABÍVEL.
1. A decisão que indefere levantamento de seqüestro, no processo penal, desafia apelação
supletiva, nos termos do art. 593, II do Código de Processo Penal - decisões que encerram a
relação processual, julgam o mérito, mas não condenam nem absolvem -, não sendo cabível o
mandado de segurança, salvo nos casos de ilegalidade manifesta. Precedentes da Seção.
2. Extinção do processo, sem exame do mérito.

Acordão Origem: TRIBUNAL - QUARTA REGIÃO Classe: MS - MANDADO DE SEGURANÇA


Processo: 200604000192882 UF: PR Órgão Julgador: OITAVA TURMA Data da decisão: 27/09/2006
Documento: TRF400133411 Fonte DJU DATA: 04/10/2006 PÁGINA: 1070 Relator(a) PAULO
AFONSO BRUM VAZ Decisão unânime. Data Publicação: 04/10/2006.
Ementa PROCESSO PENAL. MANDADO DE SEGURANÇA. DESCONSTITUIÇÃO DE
SEQÜESTRO PATRIMONIAL. EXISTÊNCIA DE RECURSO ESPECÍFICO. EXTINÇÃO DO
MANDAMUS SEM RESOLUÇÃO DO MÉRITO.
No processo penal, as decisões que ordenam o seqüestro ou a hipoteca legal de bens do réu, bem
como a que indefere o levantamento de tais constrições, por possuírem natureza definitiva, estão
sujeitas ao recurso de apelação (CPP, art. 593, II).
Existindo instrumento jurídico próprio para atacar tais atos judiciais, a utilização do mandado de
segurança não se apresenta admissível (art. 5º, II, da Lei nº 1.533/51 e Súmula nº 267 do STF).

Outros doutrinadores defendem ainda que, ante a ausência de efeito suspensivo dos embargos (art. 129 e 130 do
CPP), deve-se admitir a possibilidade de impetração de mandado de segurança para suspender a medida. Tal
hipótese, todavia, seria possível apenas em casos extremos e excepcionais, bem como quando o impetrante
comprovar, de plano, a origem dos bens seqüestrados, já que não é possível a dilação probatória no mandamus,
justificando, assim, a transferência da medida para o juízo cível.

Agora, da decisão que acolhe ou nega os embargos, o entendimento pacífico, seja doutrinário, seja
jurisprudencial, é o de que cabível apelação (art. 593, II do CPP).
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O seqüestro poderá ser levantado nas hipóteses previstas no artigo 131 do CPP. A primeira delas ocorre “se a
ação penal não for intentada no prazo de 60 dias, contado da data em que ficar concluída a diligência”.
Entenda-se aqui, contado de sua efetivação, e não, da sua inscrição. Acrescente-se, ainda, que levantado o
seqüestro antes do início ação penal, poderá haver a renovação da medida quando aquela se iniciar.

Vale salientar, que nossos Tribunais vêm mitigando a aplicação de tal prazo quando houver justo motivo para a
demora na propositura da ação penal ou o interesse público assim justificar. O entendimento predominante é o
de que não se deve proceder ao levantamento do seqüestro nas referidas hipóteses. Neste sentido, destacamos as
seguintes decisões:

Acordão Origem: STJ - SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA Classe: ROMS - RECURSO


ORDINARIO EM MANDADO DE SEGURANÇA - 9999 Processo: 199800533460 UF: SP Órgão
Julgador: QUINTA TURMA Data da decisão: 01/06/1999 Documento: STJ000271127 Fonte DJ
DATA:28/06/1999 PÁGINA:132 LEXSTJ VOL.:00125 PÁGINA:354 Relator(a) JOSÉ ARNALDO
DA FONSECA Decisão unânime. Data Publicação 28/06/1999.
Ementa RECURSO EM MANDADO DE SEGURANÇA. PROCESSUAL PENAL. INDICIADO
POR ESTELIONATO. CRIME CONFESSADO. SEQÜESTRO DA CONTA NO QUAL FORA
DEPOSITADO "QUANTUM" OBJETO DO DELITO. AÇÃO PENAL NÃO INTENTADA.
EXCESSO DE PRAZO. ART. 131, I, CPP. EXCEPCIONALIDADE DA CAUSA. SEQÜESTRO
QUE DEVE SER MANTIDO.
O recorrente confessou não só o crime, mas também que seu fruto fora depositado na conta poupança
em seu nome, a qual fora determinado o seqüestro.
Apesar de não ter sido intentada a ação penal no prazo descrito no art. 131, I do CPP, o
seqüestro merece ser mantido, considerando a excepcionalidade do caso e as informações
ministeriais no sentido de não se tratar de inércia daquele órgão, mas, sim, de dificuldades no
cumprimento de certas diligências e na apuração dos fatos.
Recurso desprovido.

Acordão Origem: TRIBUNAL - TERCEIRA REGIÃO Classe: ACR - APELAÇÃO CRIMINAL -


23119 Processo: 200461090043796 UF: SP Órgão Julgador: QUINTA TURMA Data da decisão:
06/11/2006 Documento: TRF300109768 Fonte DJU DATA:05/12/2006 PÁGINA: 572 Relator(a)
JUIZ ANDRÉ NEKATSCHALOW Decisão unânime. Data Publicação 05/12/2006
Ementa PENAL. PROCESSUAL PENAL. ANTECIPAÇÃO DE TUTELA. SEQÜESTRO. PRAZO.
REQUISITOS. ORIGEM LÍCITA DO NUMERÁRIO. SUBSTITUIÇÃO POR CARTA DE FIANÇA
BANCÁRIA.
1. Não havendo desídia do Ministério Público Federal quanto à propositura da ação penal, tendo
esta sido efetivamente distribuída, incide o princípio da razoabilidade quanto ao cumprimento
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do prazo indicado no art. 131, I, do Código de Processo Penal. À míngua de prejuízo
decorrente de inexistente prolongamento da constrição judicial sem a correspondente
instauração da ação penal, é de se rejeitar a alegada decadência do seqüestro.
2. Não restou comprovada a alegação principal do apelante, quanto à origem lícita do numerário
seqüestrado em sua conta corrente, o qual consistiria em capital de giro de postos varejistas de
combustíveis.
3. O seqüestro do proveito do delito de lavagem de capitais (Lei n. 9.613/98, art. 4º) constitui eficiente
meio de prevenção e repressão a esse crime, assegura os interesses da União e dos lesados quanto a
eventual ressarcimento civil do dano (CPP, art. 133 e parágrafo único) e evita que sejam utilizados
para fins contrários aos interesses da justiça.
4. Fica prejudicado o pedido de antecipação de tutela recursal, de duvidosa pertinência no processo
penal, dado o julgamento do recurso, inclusive, no sentido do seu desprovimento.
5. Recurso desprovido. Pedido de antecipação de tutela recursal prejudicado.

Acordão Origem: TRIBUNAL - QUARTA REGIÃO Classe: MS - MANDADO DE SEGURANÇA


Processo: 200204010070123 UF: RS Órgão Julgador: SÉTIMA TURMA Data da decisão: 06/08/2002
Documento: TRF400084952 Fonte DJU DATA:21/08/2002 PÁGINA: 860 Relator(a) VLADIMIR
PASSOS DE FREITAS Decisão unânime.
Ementa: MANDADO DE SEGURANÇA. LEI 1.533/51, ART. 15. MEDIDA CAUTELAR DE
SEQÜESTRO CRIMINAL. CÓD. PROCESSO PENAL, ARTIGOS 127 E 131.
- O seqüestro na esfera penal, como medida que venha a assegurar eventual indenização às
vítimas, deve ser concluído em 60 dias. Ainda que tolerado eventual excesso, por motivo
justificado e flagrante interesse público, não é possível admitir-se que persista a medida preventiva
por mais de três anos sem que seja proposta a correspondente ação penal.
Segurança concedida.

A segunda hipótese, também prevista no art. 131 do CPP, ocorre “se o terceiro, a quem tiverem sido
transferidos os bens, prestar caução que assegure a aplicação do disposto no art. 74, II, b, segunda parte, do
Código Penal”, leia-se, aqui, artigo 91, II, “b”, que substituiu o art. 74 da lei anterior.

A terceira e última hipótese ocorre “se for julgada extinta a punibilidade ou absolvido o réu, por sentença
transitada em julgado”. Vejamos decisão relativa à extinção da punibilidade em decorrência do óbito do
acusado:
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Acordão Origem: TRIBUNAL - QUARTA REGIÃO Classe: QUOACR - QUESTÃO DE
ORDEM NA APELAÇÃO CRIMINAL Processo: 200371080068552 UF: RS Órgão Julgador:
OITAVA TURMA Data da decisão: 26/05/2004 Documento: TRF400096064 Fonte DJU
DATA:09/06/2004 PÁGINA: 639 Relator(a) LUIZ FERNANDO WOWK PENTEADO Decisão
unânime. Data Publicação 09/06/2004
Ementa QUESTÃO DE ORDEM. SEQÜESTRO DE BENS. PENA DE PERDIMENTO.
REPARAÇÃO DO DANO. EFEITOS DA CONDENAÇÃO. ÓBITO DE ACUSADO. EXTINÇÃO
DA PUNIBILIDADE. DESONERAÇÃO DOS BENS.
1 - Se a medida cautelar de seqüestro fundamenta-se no fato de que, em caso de eventual
condenação, os bens objeto do crime sofreriam pena de perdimento em favor da União, bem
como serviriam para o pagamento do prejuízo causado pelo delito praticado, a morte do
acusado, que extingue a punibilidade, faz com que a constrição imposta perca efeito.
2 - A pena de perdimento e o dever de reparar o dano causado pelo delito decorrem da
condenação, o que não se verificará em razão do falecimento do réu.
3 - Questão de ordem acolhida para liberar os bens seqüestrados dos falecidos.

Não se pode deixar de registrar, ainda, importante precedente do Superior Tribunal de Justiça que garantiu a
permanência de medida assecuratória penal havendo a suspensão do curso de processo – hipótese de suspensão e
não de extinção da punibilidade - em decorrência de adesão do réu à programa de recuperação de crédito
(PAES), vejamos:

Acordão Origem: STJ - SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA Classe: RESP - RECURSO


ESPECIAL - 733455 Processo: 200500396926 UF: RS Órgão Julgador: QUINTA TURMA Data da
decisão: 27/09/2005 Documento: STJ000649500 Fonte DJ DATA:07/11/2005 PÁGINA:370 RSTJ
VOL.:00198 PÁGINA:549 Relator(a) ARNALDO ESTEVES LIMA Decisão unânime. Data
Publicação 07/11/2005
Ementa PROCESSO PENAL. CRIME CONTRA A ORDEM TRIBUTÁRIA. HIPOTECA E
SEQÜESTRO. INCLUSÃO NO PROGRAMA PAES. SUSPENSÃO DO CURSO DO PROCESSO.
NÃO-OCORRÊNCIA DA EXTINÇÃO DA PUNIBILIDADE. LEGALIDADE DAS MEDIDAS
INCIDENTES. RECURSO PROVIDO.
1. A mera suspensão do processo não constitui causa extintiva da punibilidade, somente
ocorrendo esta com o pagamento integral do débito tributário.
2. O levantamento do seqüestro e o cancelamento da hipoteca impõem-se como efeitos acessórios
da não-incriminação, seja pela absolvição ou pela extinção da punibilidade, sendo que,
inexistindo essas causas, não há óbice para a decretação ou manutenção do seqüestro e da
hipoteca, que se orientam por regras e princípios próprios.
3. Recurso provido para reformar a decisão proferida pela Oitava Turma do Tribunal Regional Federal
da 4ª Região e restabelecer as medidas incidentes impostas pelo Juízo de 1º grau.
17
Ocorre que não é esse o entendimento que tem prevalecido na Jurisprudência, pelo menos no TRF 4ª Região,
vejamos três de suas decisões sobre a matéria:

Acordão Origem: TRIBUNAL - QUARTA REGIÃO Classe: MS - MANDADO DE SEGURANÇA


Processo: 200504010546672 UF: RS Órgão Julgador: OITAVA TURMA Data da decisão: 01/02/2006
Documento: TRF400119501 Fonte DJU DATA:15/02/2006 PÁGINA: 630 Relator(a) SALISE
MONTEIRO SANCHOTENE Decisão unânime. Data Publicação 15/02/2006
Ementa PROCESSO PENAL. CRIMES CONTRA A ORDEM TRIBUTÁRIA. PARCELAMENTO
DO DÉBITO FISCAL. MEDIDAS ASSECURATÓRIAS. SEQÜESTRO. HIPOTECA LEGAL.
ARRESTO. DESPROPORCIONALIDADE DA MEDIDA.
1. A decretação do seqüestro (CPP, art. 125) e arresto (CPP, art. 137) do patrimônio do acusado,
consistindo em medidas excepcionais, pautar-se-ão com base no princípio da proporcionalidade, isto é,
em sua necessidade concreta para a garantia de eventual ressarcimento do dano ou pagamento da
multa.
2. Encontrando-se suspensa ação penal em que se apura a prática de crimes contra ordem
tributária em virtude do parcelamento administrativo do débito que embasa o libelo, a
constrição dos bens de propriedade do denunciado apresenta-se ilegítima, sendo de rigor o
levantamento da indisponibilização.

Acordão Origem: TRIBUNAL - QUARTA REGIÃO Classe: MS - MANDADO DE SEGURANÇA


Processo: 200504010023596 UF: RS Órgão Julgador: SÉTIMA TURMA Data da decisão: 31/05/2005
Documento: TRF400107377 Fonte DJU DATA:15/06/2005 PÁGINA: 1039 Relator(a) TADAAQUI
HIROSE Decisão unânime. Data Publicação 15/06/2005
Ementa PENAL. MANDADO DE SEGURANÇA. CRIME CONTRA A ORDEM TRIBUTÁRIA.
ART. 1º, INCISO I, DA LEI Nº 8.137/90. MEDIDAS ASSECURATÓRIAS. ESPECIALIZAÇÃO DA
HIPOTECA LEGAL. SEQÜESTRO PRÉVIO (ARRESTO). CPP, ARTIGOS 134 E 137.
PROCEDIMENTO FISCAL PENDENTE. IMPOSSIBILIDADE DE CARACTERIZAÇÃO DA
FIGURA TÍPICA. CONSTRANGIMENTO ILEGAL.
1. O crime tipificado no inciso I do art. 1º da Lei nº 8.137/90, é material ou de resultado, carecendo,
para sua consumação, de lançamento definitivo do crédito tributário pelo Fisco (Precedentes do STF);
2. Em havendo impugnação ao Auto de Infração, o lançamento não ocorre antes do término do
processo fiscal. Por conseqüência, não há crédito tributário, tampouco sonegação de tributos;
3. Inexiste interesse por parte do Ministério Público em denunciar a prática de sonegação fiscal antes
do lançamento tributário, visto que ainda não há débito;
4. Caracteriza constrangimento ilegal o recebimento da denúncia que descreve omissão fiscal quando o
procedimento administrativo que discute o lançamento ainda está pendente, porquanto ausentes as
condições necessárias à tipicidade da conduta.
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5. A hipoteca legal e o seqüestro (arresto) são medidas assecuratórias impostas sobre
quaisquer bens imóveis e móveis do Réu, com a finalidade de garantir a reparação do dano
causado pelo delito praticado (CPP, arts. 134 e 137);
6. Para a providência acautelatória, que visa a reparação do dano causado e o pagamento das
custas processuais, é necessária a materialidade delitiva e os indícios da autoria.

Acordão Origem: TRIBUNAL - QUARTA REGIÃO Classe: MS - MANDADO DE SEGURANÇA


Processo: 200404010336820 UF: RS Órgão Julgador: OITAVA TURMA Data da decisão: 03/11/2004
Documento: TRF400101568 Fonte DJU DATA:01/12/2004 PÁGINA: 700 Relator(a) PAULO
AFONSO BRUM VAZ Decisão unânime. Data Publicação 01/12/2004
Ementa: MANDADO DE SEGURANÇA. PROCESSO PENAL. MEDIDA CAUTELAR. ARTS. 6º
DO DECRETO-LEI Nº 3.240/41 E 131, III, DO CPP. ADESÃO AO PAES. SUSPENSÃO DA AÇÃO
PENAL PRINCIPAL. INEXISTÊNCIA DE PROCESSO EM CURSO. LEVANTAMENTO DA
MEDIDA CONSTRITIVA.
- Os arts. 6° do Decreto-lei nº 3.240/41 e 131, III, do CPP, vedam o levantamento da medida cautelar
antes do trânsito em julgado da decisão proferida na ação principal em curso. Hipótese em que os
denunciados aderiram aos PAES, estando suspensa a pretensão punitiva do Estado, não se
justificando, pois, a manutenção da medida cautelar incidental sem que haja uma ação penal em
andamento.

Transitada em julgado a sentença penal condenatória, sem ter sido o seqüestro levantado, competirá ao juiz que
determinou a medida, qual seja, o próprio juiz criminal, de ofício ou a requerimento do interessado, determinar a
avaliação e a venda dos bens em leilão público (art. 133 do CPP).

O parágrafo único, do art. 133 do CPP reza ainda que “Do dinheiro apurado, será recolhido ao Tesouro
Nacional o que não couber ao lesado ou a terceiro de boa-fé.” Não existindo licitante, o bem será adjudicado à
vítima.

O depósito e a administração dos bens seqüestrados é regulado de acordo com as regras do Código de Processo
Civil (arts. 148 a 150), que serão aplicadas subsidiariamente no processo penal.

Por fim, traz-se à colação precedente do STJ que, em face da preponderância do interesse público sobre o
privado, garantiu a manutenção do sigilo em medida cautelar de seqüestro até a sua efetiva concretização,
vejamos:

ORIGEM: SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA. RECURSO EM MANDADO DE


SEGURANÇA Nº 18.673 - PR (2004/0103290-9) RELATOR : MINISTRO GILSON DIPP. DJ:
01.08.2005
19
EMENTA: CRIMINAL. RMS. MEDIDA CAUTELAR DE SEQÜESTRO DE BENS
CONDUZIDA SOB SIGILO. ACESSO IRRESTRITO DE ADVOGADO. NÃO CONFIGURAÇÃO
DE DIREITO LÍQUIDO E CERTO. PREPONDERÂNCIA DO INTERESSE PÚBLICO SOBRE O
PRIVADO. RECURSO DESPROVIDO.
I. O direito do advogado de acesso aos autos não é absoluto, pois em se tratando de processos
guardados com segredo de justiça, esse direito sofre restrições, independentemente da existência ou
não de procuração.
II. Hipótese em que foi decretada medida cautelar de seqüestro de bens pertencentes aos acusados,
incidental à ação penal instaurada com vistas à apuração da existência de criminalidade organizada
voltada à prática de evasão de divisas.
III. Determinação de que a medida se desenvolvesse de forma sigilosa, tendo indeferido o pedido
de vista dos autos formulado pelos ora recorrentes até a concretização do seqüestro e decisão
judicial em contrário.
IV. Não há ilegalidade na decisão que, considerando estar a medida cautelar de seqüestro
gravada de sigilo, negou, fundamentadamente, aos recorrentes, vista dos autos, especialmente
porque buscava-se privilegiar a efetividade dos atos jurisdicionais, especialmente em se tratando
de ação criminal que coloca em risco a segurança da sociedade e do Estado, na qual deve
prevalecer a supremacia do interesse público sobre o interesse privado.
V. Recurso desprovido.

DA HIPOTECA LEGAL (ART. 134 E 135 DO CPP)

Eugênio Pacelli8 aponta alguns traços distintivos entre a hipoteca legal e o seqüestro:

Ao contrário do seqüestro, que incide diretamente sobre o bem litigioso, e no qual a litigiosidade é
revelada pela possibilidade de ter sido ele adquirido com proventos da infração, a hipoteca legal sobre
imóveis do acusado independe da origem ou da fonte de aquisição da propriedade. Trata-se de medida
cujo único objetivo é garantir a solvabilidade do credor, na liquidação de obrigação ou
responsabilidade civil decorrente de infração penal.
(...)
Observe-se que para a decretação do seqüestro a exigência era de indícios veementes da proveniência
ilícita do bem, sem a necessidade da mesma constatação em relação à autoria. A razão de semelhante
distinção é muito simples: enquanto o seqüestro dirige-se à coisa litigiosa, que poderá pertencer até
mesmo a terceiros, estranhos ao crime, a hipoteca tem como alvo unicamente o patrimônio do suposto
autor do fato criminoso, em atenção à sua responsabilidade civil. E por isso poderá recair sobre

8
In Curso de Processo Penal, Editora Del Rey, 2006, Belo Horizonte, p. 278.
20
quaisquer imóveis, desde que suficientes para garantir a futura recomposição patrimonial dos danos,
bem com o pagamento das custas e despesas processuais.

É possível, pois, serem especializados bens imóveis do imputado, adquiridos antes do cometimento do crime,
sendo irrelevante provar que o réu está dilapidando o seu patrimônio ou demonstrar a relação do bem com a
prática delituosa. Neste sentido, transcreve-se as decisões a seguir ementadas:

Acordão Origem: TRIBUNAL - QUARTA REGIÃO Classe: ACR - APELAÇÃO CRIMINAL


Processo: 200470000335728 UF: PR Órgão Julgador: OITAVA TURMA Data da decisão: 16/08/2006
Documento: TRF400131983 Fonte DJU DATA:30/08/2006 PÁGINA: 790 Relator(a) ÉLCIO
PINHEIRO DE CASTRO Decisão unânime. Data Publicação 30/08/2006
Ementa PROCESSO PENAL. SEQÜESTRO E HIPOTECA LEGAL. ARTIGOS 134 E 136 DO CPP.
MINISTÉRIO PÚBLICO. LEGITIMIDADE. REQUISITOS. COMPETÊNCIA. BENS DE PESSOA
JURÍDICA. CAPITAL SOCIAL INTEGRALIZADO POR IMÓVEIS DE CO-RÉU. INDÍCIOS DE
MANOBRAS FRAUDULENTAS. MEAÇÃO.
1. Nos termos do artigo 142 do Código de Processo Penal, o Ministério Público tem legitimidade para
requerer o seqüestro e posterior hipoteca legal de imóveis, havendo interesse da Fazenda Pública.
2. Compete ao Juiz Criminal decretar as medidas constritivas, conforme expressa disposição legal
(artigos 125 e seguintes do CPP).
3. As providências assecuratórias insculpidas nos artigos 134 e 136 do Estatuto Penal Adjetivo
pressupõem apenas a certeza da infração e os indícios suficientes da autoria, sendo irrelevante se
o bem foi comprado com recursos do ilícito.
4.Mostra-se regular a constrição de bens da empresa, quando figuram em seu quadro societário tão-só
gestor condenado por crimes contra sistema financeiro, sua esposa e filhas, e houve aumento do capital
social, com a integralização apenas de imóveis pertencentes ao réu, à época em que teve início a
persecutio criminis, por meio da abertura de diversos inquéritos policiais.
5. A autonomia patrimonial da pessoa jurídica não pode ser utilizada com o fim de proteger os
bens particulares de quem pratica ilicitudes, porquanto os institutos de direito privado não
existem para obstar as conseqüências legais de atividades criminosas.
6. Mesmo carecendo a recorrente de legitimatio ad causam para argüir ofensa à meação de terceiros,
insta registrar que essa tese somente poderá ser alegada no caso de transitar em julgado eventual
decreto condenatório, quando os bens poderão ser alienados em hasta pública, pois medidas
assecuratórias não têm o condão de transferir a propriedade.

Acordão Origem: TRIBUNAL - QUARTA REGIÃO Classe: ACR - APELAÇÃO CRIMINAL


Processo: 200470000152488 UF: PR Órgão Julgador: SÉTIMA TURMA Data da decisão: 30/05/2006
Documento: TRF400126540 Fonte DJU DATA: 14/06/2006 PÁGINA: 587 Relator(a) NÉFI
CORDEIRO Decisão APRESENTADO EM MESA. A TURMA unânime. Data Publicação
14/06/2006
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Ementa PENAL E PROCESSO PENAL. CRIME CONTRA O SISTEMA FINANCEIRO
NACIONAL. EMBARGOS DE TERCEIRO. MEDIDAS ASSECURATÓRIAS. MINISTÉRIO
PÚBLICO. LEGITIMIDADE. HIPOTECA LEGAL E ARRESTO PROVISÓRIO.
PENHORABILIDADE. BEM DE FAMÍLIA. EXCEÇÃO. MEAÇÃO. PERICULUM IN MORA.
PRESUNÇÃO LEGAL.
1. Nos termos do artigo 142 do CPP, em havendo interesse da Fazenda Pública o Ministério Público
tem legitimidade para requerer medida cautelar de arresto provisório e posterior hipoteca legal, bem
como o arresto de bens móveis.
2. Para a providência acautelatória, que visa à reparação do dano causado e ao pagamento de
multa e custas, exige-se prova da materialidade do fato criminoso e indícios suficientes da
autoria, sendo desnecessária prova de que esteja o réu dilapidando seu patrimônio.
3. O arresto (constrição sobre bens móveis do patrimônio do réu) ou a hipoteca legal (constrição sobre
bens imóveis do patrimônio do réu) não podem atingir bens impenhoráveis.
4. A proteção legal ao bem de família, da Lei nº 8.009/90, tem expressamente excepcionadas
hipóteses em que pode ser tal bem atingido pela constrição, entre elas a reparação por sentença
criminal condenatória, pelo grave dano social causado pela infração penal.
5. Constitucional é a exceção do art. 3º, VI, da Lei nº 8.009/90, pois se analogamente decidiu o
Supremo Tribunal Federal ser constitucional restringir o direito de moradia em face da proteção
à fiança - RE 407688 - ainda mais razoável é a proteção pelo dano criminal.
6. É do credor o ônus de demonstrar que a esposa aproveitou-se do resultado da infração penal -
afastando dela a prova negativa que se daria com a inversão do ônus probatório - e os efeitos da
meação somente se darão em fase de eventual alienação dos bens indivisíveis, mas desde logo deve
ficar assegurado expressamente esse direito.
7. O periculum in mora nas cautelares penais se dá por presunção legal absoluta, não se admitindo
prova de que na espécie inexiste o risco de desfazimento do patrimônio do réu.

Pode-se dizer que a hipoteca legal é direito real de garantia em virtude do qual um bem imóvel, que continua em
poder do devedor, assegura ao credor o pagamento da dívida.

Quanto ao momento para interposição da medida, dispõe o artigo 134 do CPP que ela poderá ser oferecida em
qualquer fase do processo, o que vem acarretando controvérsias, já que há os que entendem possível a
especialização da hipoteca antes do início da ação penal, ou seja, na fase do inquérito, e os que entendem em
sentido contrário.

São dois os pressupostos necessários para a especialização da hipoteca legal: a prova inequívoca da
materialidade e indícios suficientes de autoria. Vejamos a decisão do STF a seguir ementada:
22
ORIGEM: SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL. AG.REG.NA AÇÃO CAUTELAR 1.189-2
DISTRITO FEDERAL RELATOR: MIN. JOAQUIM BARBOSA AGRAVADO(A/S): MINISTÉRIO
PÚBLICO FEDERAL DJ: 02.02.2007
EMENTA: AGRAVO REGIMENTAL. SEQÜESTRO E ARRESTO DOS BENS DOS INDICIADOS
PARA POSTERIOR INSCRIÇÃO DE HIPOTECA LEGAL. PRESENÇA DOS REQUISITOS
NECESSÁRIOS À CONCESSÃO DE MEDIDAS CAUTELARES. GARANTIA DE
RESSARCIMENTO DO ERÁRIO. DECISÃO MANTIDA. AGRAVO DESPROVIDO.
Agravo regimental interposto contra decisão que determinou o seqüestro de bens móveis e o arresto de
bens imóveis dos agravantes.
A decisão agravada encontra-se suficientemente fundamentada, existindo nos autos numerosos
indícios aptos a demonstrar a presença dos pressupostos necessários à concessão de medidas
cautelares.
A reduzida participação do agravante no capital da NOV Patrimonial Ltda. não desautoriza o
acautelamento dos bens pertencentes à empresa, ante os indícios de confusão patrimonial
existentes.
Não há prova nos autos de que os valores apurados unilateralmente e recolhidos aos cofres
públicos pelo agravante sejam suficientes ao ressarcimento do Erário em caso de condenação.
A mera circunstância de a Receita Federal não ter ajuizado ação própria contra os agravantes, bem
como a inexistência de ação penal ou civil em que se lhes impute o cometimento de fraudes ou o
desvio de recursos públicos, não os exime das medidas cautelares justificadas à luz dos indícios de
prática criminosa apresentados pela Procuradoria-Geral da República.
Agravo regimental desprovido.

Na hipótese de ser proposta a ação civil ex delicto poderá o interessado requerer a especialização da hipoteca
legal no juízo cível competente para decidir a medida. Não obstante, tratando-se, aqui, de medida assecuratória
penal, a competência será do juízo competente para processar a ação penal.

Dispõe o artigo 140 do CPP que a garantia proveniente da especialização da hipoteca legal abrange, além do
ressarcimento do dano, as despesas processuais e as penas pecuniárias caso aplicadas, tendo o
ressarcimento ex delicto preferência em relação às despesas processuais e penas pecuniárias, isto é, indeniza-se o
ofendido em primeiro lugar, e o que sobrar o Estado recolhe.

Poderão requerer a especialização da hipoteca legal: o ofendido, seu representante legal ou seus herdeiros (art.
842, I e 827, VI do CCB), bem como pelo Ministério Público, quando o ofendido for pobre e a ele requeira, ou
se houver interesse da fazenda pública (municipal, estadual ou federal), nesta última hipótese, a própria pessoa
jurídica de direito público também poderá formular o pedido.
23
No que tange à previsão, contida no art. 142 do CPP, de que o MP pode requerer a especialização da hipoteca
legal quando a vítima for pobre e a ele requerer, entendemos que tal regra tem constitucionalidade duvidosa, haja
vista que o direito à indenização é individual disponível, bem como a defesa dos necessitados, atualmente, é
atribuição da Defensoria Pública.

Com efeito, em relação à dispositivo análogo, seja ele o art. 68 do CPP, o STF vem decidindo por sua
inconstitucionalidade progressiva, ou seja, na medida em que a Defensoria Pública for estruturada nos Estados, a
regra passaria a ser inconstitucional. Tratando da questão, discorre Tourinho9:

Onde houver Defensor Público, a legitimidade para as atividades de que cuidam essas disposições é da
sua exclusividade. Onde não houver, ela se desloca para o Ministério Público.

De acordo com o art. 134 do CPP, a medida pressupõe a certeza da infração e indícios suficientes da autoria.
Registre-se, contudo, que tais pressupostos também são necessários para o recebimento da Denúncia, motivo
pelo qual alguns doutrinadores defendem que a especialização da hipoteca legal poderá ser deferida ainda na fase
policial da persecutio criminis.

Melhor explicando, recebida a Denúncia os pressupostos da medida em comento já estariam presentes, quais
sejam, a prova do crime e indícios suficientes de sua autoria, logo, como é certo que não se encontram na lei
palavras inúteis, caso a especialização da hipoteca legal fosse apenas possível depois de iniciada a ação penal,
não seria necessária a inclusão de tais requisitos no art. 134 do CPP.

O procedimento para especialização da hipoteca legal é definido no art. 135 do CPP. O requerimento deverá ser
instruído “com as provas ou indicação das provas em que se fundar a estimação da responsabilidade, com a
relação dos imóveis que o responsável possuir, se outros tiver, além dos indicados no requerimento, e com os
documentos que comprobatórios do domínio.” Recebido o requerimento, o juiz mandará proceder o
arbitramento do valor da responsabilidade e à avaliação do imóvel, podendo “corrigir o arbitramento do valor
da responsabilidade, se lhe parecer excessivo ou deficiente.”

Transitada em julgado a sentença penal condenatória, e não havendo discordância a respeito do arbitramento, os
autos deverão ser remetidos ao juízo cível, onde deverão ser executados (art. 63 c/c art. 143, ambos do CPP).

O art. 136 do CPP, com intuito de oferecer maiores garantias, permite aos legitimados à postulação da
especialização da hipoteca legal outra medida preventiva, já que o processo de especialização e registro pode ser
muito demorado. Assim, os legitimados poderão requerer o arresto dos bens sobre os quais se pretenda recair

9
In “Processo Penal”, Vol. 3, Editora Saraiva, 2005, p. 39.
24
a hipoteca, até que tal medida seja efetivamente concretizada. Uma vez deferido o arresto e efetivada sua
diligência deverá o requerente promover o registro e especialização da hipoteca legal no prazo de 15 dias, sob
pena de revogação da medida preliminar.

Caso os bens do responsável sejam insuficientes para garantir o valor total arbitrado, o juiz ainda assim poderá
conceder a medida garantindo pelo menos parte do valor da indenização.

Cumpre registrar, que a inscrição (registro) da hipoteca legal é requisito indispensável para a medida valer contra
terceiros.

Nos termos do art. 141 do CPP, a hipoteca legal será cancelada se por sentença irrecorrível o réu for absolvido
ou for julgada extinta a sua punibilidade.

Da decisão que determina ou indefere a inscrição e especialização da hipoteca legal cabe recurso de apelação,
sendo apenas legitimados para sua interposição as partes, não podendo terceiro prejudicado fazê-lo.

DO ARRESTO DE MÓVEIS (art. 137 do CPP)

Como não se permite a hipoteca de bens móveis (salvo, excepcionalmente, sobre navios e aeronaves), o
legislador, no art. 137 do CPP, redação dada pela Lei n.º 11.435/2006, autorizou aos legitimados para requerer
a hipoteca legal, quando inexistentes bens imóveis em nome do acusado ou do responsável civil, e caso
existentes, insuficientes para garantir o valor estipulado para a reparação do dano, despesas processuais e penas
pecuniárias, a requerer o arresto de móveis.

Deve-se observar a restrição legal para que esse tipo de medida recaia, tão somente, sobre bens que sejam
suscetíveis de penhora, quais sejam, os não arrolados no artigo 649 do Código de Processo Civil, com redação
dada pela Lei. 11.382/2006.

Observação importante diz respeito ao fato de que nossos Tribunais, analisando casos de bens de família, vêm
decidindo pela constitucionalidade da exceção prevista no art. 3º, VI, da Lei n.º 8.009/90 (dispõe sobre a
impenhorabilidade do bem de família), de penhorabilidade dos bens adquiridos “com produto do crime ou para
execução de sentença penal condenatória a ressarcimento, indenização ou perdimentos de bens.” Neste sentido,
vejamos a decisão a seguir:
25
Acordão Origem: TRIBUNAL - QUARTA REGIÃO Classe: ACR - APELAÇÃO CRIMINAL
Processo: 200470000152488 UF: PR Órgão Julgador: SÉTIMA TURMA Data da decisão: 30/05/2006
Documento: TRF400126540 Fonte DJU DATA:14/06/2006 PÁGINA: 587 Relator(a) NÉFI
CORDEIRO Decisão unânime. Data Publicação 14/06/2006
Ementa: PENAL E PROCESSO PENAL. CRIME CONTRA O SISTEMA FINANCEIRO
NACIONAL. EMBARGOS DE TERCEIRO. MEDIDAS ASSECURATÓRIAS. MINISTÉRIO
PÚBLICO. LEGITIMIDADE. HIPOTECA LEGAL E ARRESTO PROVISÓRIO.
PENHORABILIDADE. BEM DE FAMÍLIA. EXCEÇÃO. MEAÇÃO. PERICULUM IN MORA.
PRESUNÇÃO LEGAL.
1. Nos termos do artigo 142 do CPP, em havendo interesse da Fazenda Pública o Ministério Público
tem legitimidade para requerer medida cautelar de arresto provisório e posterior hipoteca legal, bem
como o arresto de bens móveis.
2. Para a providência acautelatória, que visa à reparação do dano causado e ao pagamento de multa e
custas, exige-se prova da materialidade do fato criminoso e indícios suficientes da autoria, sendo
desnecessária prova de que esteja o réu dilapidando seu patrimônio.
3. O arresto (constrição sobre bens móveis do patrimônio do réu) ou a hipoteca legal (constrição sobre
bens imóveis do patrimônio do réu) não podem atingir bens impenhoráveis.
4. A proteção legal ao bem de família, da Lei nº 8.009/90, tem expressamente excepcionadas
hipóteses em que pode ser tal bem atingido pela constrição, entre elas a reparação por sentença
criminal condenatória, pelo grave dano social causado pela infração penal.
5. Constitucional é a exceção do art. 3º, VI, da Lei nº 8.009/90, pois se analogamente decidiu o
Supremo Tribunal Federal ser constitucional restringir o direito de moradia em face da proteção
à fiança - RE 407688 - ainda mais razoável é a proteção pelo dano criminal.
6. É do credor o ônus de demonstrar que a esposa aproveitou-se do resultado da infração penal -
afastando dela a prova negativa que se daria com a inversão do ônus probatório - e os efeitos da
meação somente se darão em fase de eventual alienação dos bens indivisíveis, mas desde logo deve
ficar assegurado expressamente esse direito.
7. O periculum in mora nas cautelares penais se dá por presunção legal absoluta, não se admitindo
prova de que na espécie inexiste o risco de desfazimento do patrimônio do réu.

Há decisão, todavia, entendendo que a exceção prevista no art. 3º, VI, da Lei n.º 8.0009/90, não incide quando se
tratar de pena de multa aplicada. Vejamos:

Acordão Origem: TRIBUNAL - QUARTA REGIÃO Classe: ACR - APELAÇÃO CRIMINAL


Processo: 200370000472466 UF: PR Órgão Julgador: SÉTIMA TURMA Data da decisão: 12/09/2006
Documento: TRF400133395 Fonte DJU DATA:04/10/2006 PÁGINA: 1063 Relator(a) MARIA DE
FÁTIMA FREITAS LABARRÈRE Decisão POR MAIORIA. Data Publicação 04/10/2006
Ementa PENAL. APELAÇÃO CRIMINAL. CRIMES CONTRA O SISTEMA FINANCEIRO. LEI Nº
7.492/86. MEDIDAS ASSECURATÓRIAS. SEQÜESTRO DE BENS. HIPOTECA. ARTS. 134, 135
26
E 136 DO CPP. LEGITIMIDADE DO MINISTÉRIO PÚBLICO. ORIGEM DOS BENS. BEM DE
FAMÍLIA. LEI Nº 8.009, ART. 3º, IV. ESTIMATIVA SOMENTE DA PENA DE MULTA.
IMPOSSIBILIDADE DA CONSTRIÇÃO.
1. É permitida a concessão de medida cautelar de seqüestro (arresto) de bens móveis e imóveis ante à
possível demora no procedimento de inscrição da hipoteca legal.
2. A hipoteca legal e o seqüestro (arresto) são medidas assecuratórias, de caráter provisório, impostas
sobre quaisquer bens imóveis e móveis do Réu com a finalidade de garantir, até o trânsito em julgado
de eventual condenação, a reparação do dano causado pelo delito praticado (CPP, arts. 134 e 137),
enquanto o seqüestro em sentido estrito (art. 125, CPP) é adotado com o fim de reter os bens
adquiridos com os proventos da infração perpetrada.
3. Nos termos do art. 142 do CPP, o Ministério Público está legitimado para requerer o seqüestro e a
posterior hipoteca legal;
4. Para as providências acautelatórias basta a materialidade delitiva e os indícios da autoria, os mesmos
requisitos para o recebimento da denúncia.
5. O Lei nº 8.009/90 contempla a impenhorabilidade dos bens de família, e em seu art. 3º
determina as exceções. O inc. IV possibilita a constrição de bem de família para garantir a
execução de eventual sentença condenatória a perdimento de bens, ressarcimento e indenização.
A pena de multa não é abrangida pela exceção legal.
6. É vedada a constrição de bem de família quando o Ministério Público, ao fundamentar o
pedido, discrimina apenas a estimativa da pena de multa abstratamente cominada ao delito,
apesar de a ela se referir expressa e erroneamente como "estimativa do dano". Para a
manutenção da medida constritiva deve ser pormenorizada a estimativa de dano decorrente de
sentença condenatória no que se refere a eventual ressarcimento ou indenização.
7. Deve ser reconhecido como bem de família o único imóvel registrado em nome do Réu,
considerando-se as informações da Declaração de Ajuste Anual do IRPF. Tal é reforçado quando, no
decorrer da ação, o imóvel é indicado como sua residência, sendo que lá recebeu as intimações
efetivadas. A contraprova constitui encargo do Ministério Público.

Os bens arrestados, nos moldes do art. 139 do CPP, ficarão sujeitos ao regime do processo civil, sendo entregues
a terceiro estranho à lide, o qual será responsável pelo seu depósito e administração.

Nos termos do art. 137 do CPP, se os bens móveis arrestados forem fungíveis e facilmente deterioráveis, deverão
ser avaliados e levados à leilão público, devendo o dinheiro apurado ser depositado em uma conta corrente ou
entregue ao terceiro que os detinha se for pessoa idônea, o qual assinará termo de responsabilidade (art. 137, § 1º
c/c art. 120, § 5º do CPP). Vejamos a decisão a seguir ementada:

Acordão Origem: TRIBUNAL - QUARTA REGIÃO Classe: MS - MANDADO DE SEGURANÇA


Processo: 200604000131479 UF: RS Órgão Julgador: OITAVA TURMA Data da decisão: 26/07/2006
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Documento: TRF400128911 Fonte DJU DATA:02/08/2006 PÁGINA: 633 Relator(a) PAULO
AFONSO BRUM VAZ Decisão unânime. Data Publicação 02/08/2006
Ementa PROCESSO PENAL. MANDADO DE SEGURANÇA. MEDIDAS ASSECURATÓRIAS.
CONDENAÇÃO. PRESCINDIBILIDADE PARA A DECRETAÇÃO DO SEQÜESTRO
PATRIMONIAL. CONSTRIÇÃO DE BENS DE PROCEDÊNCIA LÍCITA. POSSIBILIDADE.
RISCO DE SUCATEAMENTO. ALIENAÇÃO ANTECIPADA. LEGITIMIDADE.
1. Para a validade da decretação das medidas assecuratórias previstas no CPP, apresenta-se
despicienda, em razão do caráter provisório de tais providências cautelares, a exigência de condenação,
bastando, além da certeza da infração e da presença de fortes indícios de autoria, a necessidade da
constrição para assegurar a coleta de elementos de prova que interessem ao processo ou, então, para
garantir a eficácia de futuro e eventual decreto condenatório (seja quanto à reparação do dano
decorrente da infração penal ou quanto ao pagamento de despesas processuais ou penas pecuniárias).
2. Não é necessário que o arresto decretado para assegurar a satisfação de casuais reprimendas
pecuniárias que venham a ser infligidas pela sentença ao denunciado incida exatamente sobre o
patrimônio por ele adquirido com o produto do crime, bastando que recaia sobre bens sujeitos à
responsabilidade patrimonial, ainda que conquistados de forma lícita.
3. A alienação antecipada de bem constrito judicialmente em processo penal, já perdurando a
medida por prolongado período de tempo, legitima-se com a finalidade de preservação do valor
patrimonial da res . Uma vez alienado o patrimônio em hasta pública, todavia, o valor auferido
com a venda deverá reverter para uma conta-corrente à disposição do Juízo, aguardando-se o
desfecho da ação penal para a destinação da importância.

Na hipótese dos bens móveis arrestados gerarem rendas, caberá ao juiz arbitrar um valor proveniente de tais
rendimentos, com o objetivo de prover à manutenção do acusado e de sua família.

DA MEDIDA PREVISTA NO DECRETO-LEI N.º 3.240/41:

Instituído com a finalidade específica de regular o seqüestro de bens de pessoas indiciadas por crimes dos quais
resulte prejuízo para a Fazenda Pública, o Decreto-Lei n.º 3.240/41, ainda vigor, conforme entendimento
jurisprudencial dominante a respeito, é norma especial, a qual, uma vez configurada a hipótese de delito do que
resulte prejuízo ao Erário, prevalecerá sobre as normas gerais previstas no Código de Processo Penal que
disciplinam o seqüestro de bens como medida assecuratória para os crimes em geral. Sobre a vigência e
aplicabilidade do referido texto normativo, o STJ, reiteradamente, vem decidindo:
28
Acordão Origem: STJ - SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA Classe RESP - RECURSO
ESPECIAL Nº 149.516 - SC (1997/0067222-0) RELATOR: MINISTRO GILSON DIPP Data da
publicação: 17.06.2002.
EMENTA PENAL. RESP. SEQÜESTRO DE BENS. DELITO QUE RESULTA PREJUÍZO À
FAZENDA PÚBLICA. DISSÍDIO JURISPRUDENCIAL NÃO DEMONSTRADO. AFRONTA AO
ART. 1º DO DECRETO-LEI 4.240/41. CONFIGURAÇÃO. INAPLICABILIDADE DO ART. 125
DO CPP À ESPÉCIE. TIPOS QUE REGULAM ASSUNTOS DIVERSOS E TÊM EXISTÊNCIA
COMPATÍVEL. IMPROPRIEDADE DA ARGUMENTAÇÃO ACERCA DO MOMENTO EM QUE
OS BENS SEQÜESTRADOS FORAM ADQUIRIDOS. RECURSO CONHECIDO PELA ALÍNEA
"A" E PROVIDO.
I. Impõe-se, para demonstração da divergência jurisprudencial a comprovação da divergência e a
realização do confronto analítico entre julgados, de modo a evidenciar sua identidade ou semelhança, a
teor do que determina o art. 255, §§ 1º e 2º do RISTJ.
II. Não sobressai ilegalidade na decisão monocrática que, calcada na norma que visa ao
seqüestro dos bens o quanto bastem para a satisfação de débito oriundo de crime contra a
Fazenda Pública, determina o seqüestro de todos os bens dos indiciados.
III. O art. 1º do Decreto-Lei n° 4.240/41. por ser norma especial, prevalece sobre o art. 125 do
CPP e não foi por este revogado eis que a legislação especial não versa sobre a mera apreensão
do produto do crime, mas, sim. configura específico meio acautelatório de ressarcimento da
Fazenda Pública, de crimes contra ela praticados. Os tipos penais em questão regulam assuntos
diversos e têm existência compatível.
IV. Não há que se argumentar sobre o momento em que os bens submetidos a seqüestro foram
adquiridos, pois o dispositivo do r. Decreto-Lei visa a alcançar tantos bens quanto bastem à
satisfação do débitos decorrente do delito contra a Fazenda Pública.
V. Evidenciada a apontada afronta à legislação infraconstitucional, deve ser cassado o acórdão
recorrido, a fim de ser restabelecida a decisão monocrática que determinou o seqüestro de todos os
bens dos ora recorridos, por seus judiciosos termos.
VI .Recurso conhecido pela alínea a e provido, nos termos do voto do relator.

Acordão Origem: STJ - SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA Classe RESP - RECURSO


ESPECIAL Nº 132.539-SC (REG N.º 97/0034758-3). RELATOR: WILLIAM PATTERSON. Data da
publicação: 09.02.1998.
EMENTA: PENAL. SEQÜESTRO DE BENS. CRIME DE SONEGAÇÃO FISCAL. DECRETO-LEI
Nº 3.240, DE 1941. APLICAÇÃO.
A teor da orientação já firmada na Sexta Turma do STJ, não está revogado, pelo Código de
Processo penal, o Decreto-lei n.º 3.240, de 1941, no ponto em que disciplina o seqüestro de bens
de pessoa indiciada por crime de que resulta prejuízo para a fazenda pública.
Recurso especial conhecido e provido.
29
Acordão Origem: STJ - SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA Classe: ROMS - RECURSO
ORDINARIO EM MANDADO DE SEGURANÇA - 4161 Processo: 199400069162 UF: PB Órgão
Julgador: SEXTA TURMA Data da decisão: 20/09/1994 Documento: STJ000125688 Fonte DJ
DATA:05/08/1996 PÁGINA:26416 Relator(a) PEDRO ACIOLI Decisão POR MAIORIA. Data
Publicação 05/08/1996
Ementa ADMINISTRATIVO. MANDADO DE SEGURANÇA. SEQUESTRO DE BENS EM
FAVOR DA FAZENDA PUBLICA E PERDA DO PRODUTO DO CRIME. CATEGORIAS LEGAIS
DIVERSAS. CONVIVENCIA DO DECRETO-LEI N. 3.240/41 COM O CODIGO PENAL.
APLICAÇÃO DO PARAGRAFO 1. DO ART. 2. DA LICC. RECURSO CONHECIDO E
IMPROVIDO.

Entre as particularidades da medida prevista no Decreto-Lei n.º 3.240/41 pode-se citar o fato de não exigir que
os bens do indiciado ou acusado, objeto da medida, sejam decorrentes da prática delituosa, sendo, por isso,
irrelevante a origem dos bens que sofrerão a constrição.

Com efeito, não importa se tais bens foram adquiridos antes ou depois da prática criminosa; se são, ou
não, produto do crime, bem como se foram, ou não, adquiridos com proventos da infração, e ainda, se são
bens móveis ou imóveis.

Aqui, verifica-se uma impropriedade da denominação utilizada pelo referido Decreto-Lei ao falar em seqüestro,
uma vez que este pressupõe que os bens sejam produto do crime ou adquiridos com o produto do crime (proveito
do crime) e, no caso da medida ora comentada, o bem não precisa ter nenhuma relação com o fato criminoso.

Outrossim, por destinar-se à proteção dos interesses da fazenda pública, o art. 4º do mencionado Decreto-Lei
prevê que a medida poderá “recair sobre todos os bens do indiciado, e compreender os bens em poder de
terceiros desde que estes os tenham adquirido dolosamente, ou com culpa grave”, alcançando, assim, tantos
bens quantos forem necessários ao ressarcimento do prejuízo sofrido pelo Erário. Vejamos os seguintes
precedentes:

Acordão Origem: TRIBUNAL - QUARTA REGIÃO Classe: ACR - APELAÇÃO CRIMINAL


Processo: 200071000295302 UF: RS Órgão Julgador: TURMA ESPECIAL Data da decisão:
17/07/2002 Documento: TRF400084836 Fonte DJU DATA:31/07/2002 Relator(a) AMIR SARTI
Decisão unânime Data Publicação 31/07/2002
30
Ementa INCIDENTE DE RESTITUIÇÃO DE COISAS APREENDIDAS. PEDIDO DE
DEVOLUÇÃO DE TALONÁRIOS. LIBERAÇÃO DE VALORES E VISTA DOS TERMOS
CIRCUNSTANCIADOS. MANDADO DE BUSCA E APREENSÃO. ARTS. 1º E 4º, DO
DECRETO-LEI Nº 3.240/41. SEQÜESTRO. RESSARCIMENTO DE DANOS. ARTS. 125 E 131,
DO CPP. ART. 119, DO CP.
- Nos termos da jurisprudência do STJ, não está revogado pelo CP o Decreto-lei nº 3.240/41, que
disciplina a possibilidade de seqüestro de bens de pessoa indiciada por crime que resulta em prejuízo à
Fazenda Pública. É possível o seqüestro de todos os bens do indiciado, incluindo aqueles em poder
de terceiros, desde que doados após a prática do crime (arts. 1º e 4º).
- O seqüestro visa o ressarcimento dos danos causados pelos crimes imputados aos titulares da
empresa. Nos termos do art. 125, do CPP, a medida assecuratória não é pena e pode alcançar
quaisquer bens adquiridos com os proventos da infração “ainda que já tenham sido transferidos
a terceiros”.
- Não há falar em ofensa aos princípios da razoabilidade e da proporcionalidade. O seqüestro só pode
ser levantado quando tenha perdido a sua eficácia (art. 131, do CPP). As coisas passíveis de
perdimento “não poderão ser restituídas, mesmo depois de transitar em julgado a sentença final” (art.
119, do CP).
- Quanto aos talonários de notas fiscais, ausente demonstração objetiva no sentido de que esses
documentos não conservam nenhuma possível relevância processual, aplica-se a regra do art. 118, do
CP.

Acordão Origem: TRIBUNAL - QUARTA REGIÃO Classe: ACR - APELAÇÃO CRIMINAL


Processo: 199804010536568 UF: PR Órgão Julgador: OITAVA TURMA Data da decisão: 12/11/2001
Documento: TRF400082647 Fonte DJU DATA:16/01/2002 Relator(a) AMIR SARTI Decisão
unânime Data Publicação 16/01/2002
Ementa PROCESSO PENAL - DECISÕES INTERLOCUTÓRIAS - RECURSO CABÍVEL -
PRINCÍPIO DA FUNGIBILIDADE - CRIME - SEQÜESTRO DE BENS - PREJUÍZO PARA A
FAZENDA PÚBLICA - POSSIBILIDADE - OFENSA À COISA JULGADA - INEXISTÊNCIA.
Embora no processo penal, o recurso cabível contra as decisões interlocutórias é, por analogia com o
processo civil, o agravo de instrumento, tornando-se inviável a aplicação do princípio da fungibilidade
para aproveitar recurso diverso daquele, em face da manifesta impropriedade da via escolhida, essa
solução radical não é a que melhor atende ao caráter instrumental do processo - até pela novidade da
alternativa recomendada.
O STJ considera estar em pleno vigor o Decreto-lei nº 3.240/41, no ponto em que disciplina o
seqüestro de bens de pessoa indiciada por crime de que resulta prejuízo para a Fazenda Pública,
podendo, o seqüestro, recair sobre todos os bens, inclusive os que estejam em poder de terceiros,
mesmo que doados após a prática do crime, sem nenhuma ressalva ou restrição, bastando que o
indiciado tenha auferido locupletamento ilícito.
31
Não há falar em ofensa à coisa julgada pois o acórdão da antiga 2ª Turma deste Tribunal, decidiu
sobre o seqüestro decretado com base nos artigos 125 e seguintes do CPP, hipótese diversa do
presente.

Outra peculiaridade da medida em análise é a possibilidade de ser deferida sem audiência da parte contrária, o
que é, expressamente, autorizado pelo art. 2º do referido texto normativo.

Uma vez presentes indícios veementes da responsabilidade do indiciado não há impedimento para a
decretação do seqüestro de tantos bens quantos forem necessários a assegurar o ressarcimento dos prejuízos
sofridos pelo Erário (art. 3º do Decreto-lei n.º 3.240/41). Vejamos as seguintes decisões:

Acordão Origem: TRIBUNAL - QUARTA REGIÃO Classe: MS - MANDADO DE SEGURANÇA


Processo: 200604000341747 UF: PR Órgão Julgador: SÉTIMA TURMA Data da decisão: 18/12/2006
Documento: TRF400139199 Fonte DATA:17/01/2007 Relator(a) NÉFI CORDEIRO Decisão A
TURMA, POR UNANIMIDADE, DECIDIU DENEGAR A SEGURANÇA E JULGAR
PREJUDICADO O AGRAVO REGIMENTAL. Data Publicação 17/01/2007
Ementa MANDADO DE SEGURANÇA. CRIME CONTRA A ORDEM TRIBUTÁRIA,
QUADRILHA, FALSIDADES IDEOLÓGICA E DOCUMENTAL E USO DE DOCUMENTO
FALSO. SEQÜESTRO AMPARADO NO DECRETO-LEI Nº 3.240/41. APLICAÇÃO. CONEXÃO
ENTRE DELITOS AFETOS À JUSTIÇA FEDERAL E CRIME DE COMPETÊNCIA DA JUSTIÇA
ESTADUAL. COMPETÊNCIA DA JUSTIÇA FEDERAL. LEGITIMIDADE DO MINISTÉRIO
PÚBLICO FEDERAL. REQUISITOS PARA A DECRETAÇÃO DO SEQÜESTRO
DEMONSTRADOS. ABRANGÊNCIA DA MEDIDA ACAUTELATÓRIA.
1. Na esteira da jurisprudência do E. STJ, o seqüestro de bens com fulcro no Decreto-Lei nº 3.240/41
não foi revogado pelo Estatuto Processual Penal, tendo sido recepcionado pela Constituição Federal
de1988 e permanece em vigor até os dias de hoje.
2. Utilizados documentos material e ideologicamente falsificados perante o Poder Judiciário Federal e
a Secretaria da Receita Federal, é a Justiça Federal competente para o processo e julgamento do
conexo crime de sonegação fiscal que, isoladamente, seria de competência da Justiça Estadual (Súmula
122 do E. STJ).
3. Havendo representação da autoridade fazendária ao Ministério Público Federal, este torna-se parte
legítima para a propositura da medida constritiva prevista no Decreto-Lei nº 3.240/41.
4. Fixada a competência da Justiça Federal para o processo e julgamento da ação penal deflagrada em
desfavor do impetrante, por conseguinte tem-se também por atraída a competência dessa jurisdição
para o processo e julgamento da respectiva medida cautelar penal, com atuação do Parquet federal,
ainda que na defesa do ressarcimento de dano sofrido por fazeda estadual.
5. Apontada na decisão atacada a participação e responsabilidade do impetrante nos delitos
investigados, inclusive, como um dos líderes das atividades criminosas empreendidas por meio de
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empresa de "fachada", tem-se como demonstrados os indícios veementes da responsabilidade,
condição exigida para a decretação do seqüestro em tela.
6. Demonstrada, ainda, a existência de representação da autoridade fazendária ao Ministério
Público Federal, a ocorrência de prejuízo à Fazenda Pública provocado por crimes e o
locupletamento ilícito do indiciado, comprovados estão os requisitos indispensáveis à contrição
dos bens.
7. A medida acautelatória prevista no Decreto-Lei nº 3.240/41 presta-se para assegurar o
ressarcimento da totalidade do prejuízo experimentado pelo erário, no qual estão incluídas as
multas e os juros incidentes sobre o principal.

Acordão Origem: TRIBUNAL - QUINTA REGIAO Classe: ACR - Apelação Criminal - 231
Processo: 8905030033 UF: PE Órgão Julgador: Primeira Turma Data da decisão: 28/04/2005
Documento: TRF500101895 Fonte DJ - Data::13/09/2005 - Página::474 - Nº::176 Relator(a)
Desembargador Federal Élio Wanderley de Siqueira Filho Decisão UNÂNIME Data Publicação
13/09/2005
Ementa PROCESSO PENAL. APELAÇÃO CRIMINAL. SEQÜESTRO DE BENS DE RÉU
ENVOLVIDO NO DESVIO DE RECURSOS FEDERAIS. SUFICIÊNCIA DE INDÍCIOS DE QUE
TAIS BENS SERIAM FRUTO DA ATIVIDADE CRIMINOSA. "ESCÂNDALO DA MANDIOCA".
DECRETO-LEI Nº 3.240/41. NÃO REVOGAÇÃO DO MESMO PELO ADVENTO DO CÓDIGO
DE PROCESSO PENAL. PRECEDENTES DO C. STJ. APELO MINISTERIAL CONHECIDO E
PROVIDO. SENTENÇA REFORMADA.
1. No caso de crimes de que resulte prejuízo para a Fazenda Pública, o seqüestro de bens é
disciplinado pelo Decreto-Lei nº 3.240/41 e pode recair sobre todos os bens do indiciado, a teor
do art. 4º desse diploma.
2. A decretação do seqüestro de bens como medida cautelar no processo penal não exige prova plena
de serem eles fruto da atividade criminosa, bastando a existência de indícios razoáveis de tanto.
Precedentes deste E. TRF da 5ª Região.
3. Vigência do Decreto-Lei nº 3.240/41, no ponto em que disciplina o seqüestro de bens de pessoa
indiciada por crime de que resulta prejuízo para a Fazenda Pública. Precedentes do C. STJ.
4. Apelo ministerial conhecido e provido. Sentença reformada.

Acordão Origem: TRIBUNAL - QUINTA REGIAO Classe: MS - Mandado de Segurança - 81701


Processo: 200205000228526 UF: CE Órgão Julgador: Pleno Data da decisão: 30/10/2002 Documento:
TRF500068775 Fonte DJ - Data::03/06/2003 - Página: 748 Relator(a) Desembargador Federal Paulo
Roberto de Oliveira Lima Decisão POR MAIORIA. Data Publicação 03/06/2003
Ementa PENAL. PROCESSO PENAL. CONSTITUCIONAL. MANDADO DE SEGURANÇA.
SEQUESTRO DE BENS PARA RESSARCIMENTO DE DANOS PROVOCADOS AO ERÁRIO
PÚBLICO. FUNDAMENTOS LEGAIS. LIBERAÇÃO DE QUANTIA MÍNIMA NECESSÁRIA AO
PROVIMENTO ALIMENTAR. POSSIBILIDADE.
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1 .SE É POSSÍVEL O SEQÜESTRO DE BENS MÓVEIS OU IMÓVEIS, PARA O
RESSARCIMENTO AO ERÁRIO PÚBLICO, AINDA DURANTE AS INVESTIGAÇÕES
(SEGUNDO O AINDA VIGENTE DECRETO-LEI Nº 3.240/41), TANTO MAIS QUANDO JÁ
OFERECIDA DENÚNCIA, A QUAL SE PRESUME ESTAR CALCADA EM INDÍCIOS
VEEMENTES DE RESPONSABILIDADE DO ACUSADO;
2 .A INDISPONIBILIZAÇÃO ABSOLUTA DE TODOS OS BENS DO IMPETRADO (RÉU EM
DEMANDA PENAL), POR SEU TURNO, ENSEJA O COMPROMETIMENTO DAS FINANÇAS
NECESSÁRIAS À SUA MANTENÇA E DE TODA A SUA FAMÍLIA, VERDADEIRO
PADECIMENTO POR INANIÇÃO, O QUE REPULSA À BOA CONSCIÊNCIA JURÍDICA;
3 .DEVIDA A CONCESSÃO PARCIAL DA SEGURANÇA PARA LIBERAR, DOS VALORES
SEQÜESTRADOS, APENAS OS RENDIMENTOS RECEBIDOS DE PESSOAS JURÍDICAS, A
TÍTULO DE VERBAS ALIMENTÍCIAS, EM VALOR CORRESPONDENTE AOS DO ANO
ANTERIOR, DECLARADOS QUANDO DO AJUSTE ANUAL DO IMPOSTO DE RENDA;
4 .SEGURANÇA PARCIALMENTE CONCEDIDA.

Por fim, salienta-se o entendimento, retirado do julgado abaixo transcrito, de que o prazo estipulado no art. 136
do CPP não se aplica às hipóteses da medida em comento, em face da especialidade da regra contida no art. 4º, §
2º do Decreto-Lei n.º 3.240/41, a qual não determina prazo peremptório a ser observado para a especialização,
vejamos:

Acordão Origem: TRIBUNAL - TERCEIRA REGIÃO Classe: RCCR - RECURSO CRIMINAL -


2730 Processo: 199961160029189 UF: SP Órgão Julgador: QUINTA TURMA Data da decisão:
19/11/2002 Documento: TRF300070787 Fonte DJU DATA: 11/03/2003 PÁGINA: 310 Relator(a)
JUIZA SUZANA CAMARGO Decisão unânime. Data Publicação 11/03/2003
Ementa APELAÇÃO CRIMINAL - FUNGIBILIDADE RECURSAL - MEDIDA CAUTELAR DE
SEQUESTRO DE BENS - ARTIGO 134 DO CÓDIGO DE PROCESSO PENAL - PRESENÇA DA
MATERIALIDADE DELITIVA E INDÍCIOS SUFICIENTES DA AUTORIA. FUMUS BONI IURIS
E PERICULUM IN MORA PRESENTES - INTELIGÊNCIA DO ARTIGO 6º DO DECRETO-LEI Nº
3.240/41 - RECURSO IMPROVIDO.
1. Inviável é a utilização do recurso em sentido estrito, não se afigurando o decisum recorrido dentre
aqueles mencionados pelo artigo 581, do Código de Processo Penal, devido a enumeração taxativa de
suas hipóteses de cabimento, podendo, todavia, ser aplicado o princípio da fungibilidade recursal, de
conformidade com o artigo 579, da mesma norma processual, para o efeito de receber a insurgência
como recurso de apelação, verificando-se que a hipótese de cabimento que melhor se amolda ao caso,
está prevista no artigo 593, inciso II, do referido diploma legal, e não restando, ademais, caracterizado
qualquer erro grosseiro, nem mesmo má-fé do recorrente na interposição do recurso.
2. Verificado a existência da materialidade delitiva e de indícios veementes da autoria do delito
previsto no artigo 1º, inciso III, da Lei nº 8.137/90, bem como constatado o dano de vulto praticado
contra a Fazenda Pública, presente encontra-se a fumaça do bom direito autorizadora da medida
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cautelar em reexame, e o periculum in mora, expresso na eventual dissipação do patrimônio
imobiliário dos recorrentes, denotando a necessidade da medida cautelar de seqüestro de bens, de
conformidade com o artigo 134 do Código de Processo Penal.
3. O Decreto-Lei nº 3.240/41, diploma legal específico em relação aos prejuízos causados à
Fazenda Pública, trata-se de norma que se coaduna com as regras do Código de Processo Penal,
relativas as medidas de cautela assecuratórias da efetiva reparação dos danos à vitima do fato
delituoso.
4. O prazo marcado pelo artigo 136 do Código de Processo Penal, não se aplica aos casos de
crimes praticados contra a Fazenda Pública, nos quais incide a regra contida no artigo 4º, § 2º,
do Decreto-Lei nº 3.240/41, que, no tocante a providência da hipoteca legal dos bens imóveis
seqüestrados, não determina peremptoriamente prazo a ser observado para sua especialização,
e, ademais, a fixação desse lapso temporal é despiciendo, posto que a providência deve ser
tomada no interesse e em favor da Fazenda Pública, como garantia da reparação dos tributos
suprimidos de seus cofres e porque tais prazos, fixados em relação ao Ministério Público, são
impróprios.
5. Recurso improvido.

RESUMO

Em apertada síntese, pode-se dizer que:

O seqüestro é reservado ao produto ou proveito do delito, podendo o mesmo recair sobre bens imóveis
(artigos 125 a 131 do CPP) ou sobre móveis (artigo 132 do CPP). A medida atinge única e exclusivamente o
patrimônio adquirido ilicitamente pelo agente.

Nos termos dos artigos 125 e 126 do CPP, é requisito para a concessão do seqüestro a presença de indícios
veementes da origem ilícita dos bens do indiciado ou acusado, mesmo que estes tenham sido transferidos a
terceiros.

O seqüestro não tem caráter de punição, é apenas a recuperação daquilo que foi perdido pela vítima, se houver o
reconhecimento judicial de que estes bens eram produto de ilícito, aí sim, haverá, como efeito da condenação, o
perdimento do(s) bem(ns).

O seqüestro é medida adotada no interesse do ofendido e do próprio Estado, com o escopo de antecipar os
efeitos da sentença penal condenatória, salvaguardando a reparação do dano sofrido pelo ofendido, bem
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como o pagamento das custas e da pena de multa a ser fixada na sentença. Ela também tem por objetivo
assegurar que da atividade criminosa não resulte vantagem econômica para o infrator.

Observa-se que no caso dos bens imóveis, seja ele PRODUTO ou PROVEITO do crime, sempre caberá
seqüestro. Tratando-se de bens móveis PRODUTO do crime caberá busca e apreensão, nos termos do art. 240,
§1º do CPP, e, tratando-se de bens móveis PROVEITO do crime a medida cabível será o seqüestro.

A hipoteca legal recai sobre imóveis do acusado e independe da origem ilícita do bem. Seu único objetivo é
garantir a solvabilidade do credor na liquidação de obrigação ou responsabilidade civil decorrente de
infração penal, ou seja, recomposição patrimonial dos danos, bem com o pagamento das custas e despesas
processuais.

São dois os pressupostos necessários para a especialização da hipoteca legal, quais sejam, a prova inequívoca
da materialidade e indícios suficientes de autoria. É possível, pois, serem especializados bens imóveis do
imputado adquiridos antes do cometimento do crime, sendo irrelevante provar que o réu está dilapidando o seu
patrimônio ou demonstrar a relação do bem com a prática delituosa.

Por seu turno, o arresto pode recair sobre bens imóveis (art. 136 do CPP), servindo como medida preparatória
da hipoteca legal, bem como sobre bens móveis (art. 137 do CPP), destinando-se, em ambas as hipóteses, à
garantia da ressarcimento do dano “alcançando também as despesas processuais e as penas pecuniárias,
tendo preferência sobre estas a reparação do dano ao ofendido” (art. 140 do CPP).

O art. 136 do CPP, com intuito de oferecer maiores garantias, permite aos legitimados à postulação da
especialização da hipoteca legal requererem o arresto dos bens sobre os quais se pretende recair a hipoteca, até
que esta medida seja efetivamente concretizada.

Por outro lado, como não se permite a hipoteca de bens móveis (salvo, excepcionalmente, sobre navios e
aeronaves), o legislador, no art. 137 do CPP, redação dada pela Lei n.º 11.435/2006, autorizou aos legitimados
para requerer a hipoteca legal, quando inexistentes bens imóveis em nome do acusado ou do responsável civil, e
caso existentes, insuficientes para garantir o valor estipulado para a reparação do dano, despesas processuais e
penas pecuniárias, a requererem o arresto de móveis.

Por fim, temos a medida prevista no Decreto-Lei 3.240/41, denominada incorretamente de seqüestro, quando na
realidade trata-se de uma modalidade de arresto que incide na hipótese de delitos que acarretem prejuízo ao
erário.
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Tal medida não exige que os bens do indiciado ou acusado sejam decorrentes da prática delituosa, sendo, por
isso, irrelevante a origem dos bens que sofrerão a constrição.

Com efeito, não importa se tais bens foram adquiridos antes ou depois da prática criminosa; se são, ou não,
produto do crime, bem como se foram, ou não, adquiridos com proventos da infração, e ainda, se são bens
móveis ou imóveis. Não obstante de origem absolutamente legítima, os bens poderão ser convertidos em
garantia.

Ademais, por destinar-se à proteção dos interesses da fazenda pública, o art. 4º do mencionado Decreto-Lei
prevê que a medida poderá “recair sobre todos os bens do indiciado, e compreender os bens em poder de
terceiros desde que estes os tenham adquirido dolosamente, ou com culpa grave”, alcançando, assim, tantos
bens quantos forem necessários ao ressarcimento do prejuízo sofrido pelo Erário.