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3.

Burocratismo

Costuma-se atribuir o estado deplorável em que se encontram os serviços forenses a


duas variáveis, as conhecidas carências de material e de pessoal. Segundo me parece, ficar
apenas nisso é desconhecer um elemento que contribui, de modo significativo, para essa
inaceitável situação, aquilo que alguns estudiosos chamam deburocratismo, um conjunto
de variáveis perfeitamente evitáveis.

A burocracia, diz qualquer dicionário, compreende um conjunto de atos necessários a que a


administração de algum projeto, especialmente na área da administração pública, atinja os fins
propostos. Todo processo, como processo que é, exige a superação de fases, sendo as
ulteriores dependentes das anteriores. Isso vale especialmente para os processos judiciais. O
burocratismo, no entanto, surge quando a ele se adicionam fases desnecessárias, que fazem o
processo desviar-se do caminho que, em tese, permitiria atingir o fim proposto em menor
tempo. E isso ocorre porque cada nova fase desnecessariamente acrescentada terá um natural
desdobramento, pelo qual a fase anterior exige uma fase ulterior coerente com ela, armando-
se um processo de tal desnecessária complexidade que os estudiosos a comparam a uma
dessas árvores que deitam galhos para todos os lados, de cada qual brotando novos ramos,
num processo que se repetirá indefinidamente, em aparente desordem.

Da mesma forma como os cientistas tratam da chamada Teoria do Caos, quer estudando a
aparente desordem como atuam os elementos dentro de um processo complexo, acabaram
por descobrir que há uma ordem dentro da aparente desordem, penso que se poderia
começar a tentar ver qual a ordem interna que preside esse burocratismo, que contamina o
processo judicial, e que elementos podem e devem ser eliminados para que a árvore, mantida
a comparação, cresça para cima e não para os lados.

Exemplifico: o deputado federal Antonio Carlos de Mendes Thame encarregou-me, tempos


atrás, de elaborar um projeto de lei disciplinando a prática dos atos ao longo de um processo
judicial, com vistas a dar-lhe maior rapidez. Elaborei então um projeto de lei que, basicamente,
dizia o seguinte (não tenho mais comigo o trabalho feito, mas as idéias principais são estas):

Artigo 1º - Compete ao juiz fundamentalmente:

• a)presidir as audiências;

• b)proferir decisões nos processos, assim definidas no Código de Processo Civil;

• c)traçar normas de conduta para os serventuários submetidos a sua autoridade, a


serem incrementadas pelo escrivão, sob permanente fiscalização do juiz.

Artigo 2º - Compete fundamentalmente ao escrivão, obrigatoriamente formado em Direito:

• a) cumprir e fazer cumprir as determinações do juiz a que esteja subordinado;

• b) lançar nos autos e nas petições despachos ordenatórios, assim definidos no Código
de Processo Civil, os quais serão por ele assinados;

• c) fazer a conclusão dos autos quando seja o caso de ali dever ser proferida alguma
decisão;

• d) delegar aos seus funcionários as atribuições constantes dos incisos supra, de acordo
com o organograma do cartório, estabelecido pelo juiz.
Parágrafo único – Juiz e escrivão exercerão sobre seus subordinados correição permanente,
com vistas ao aprimoramento da prestação do serviço judicial, para eventual correção de
desvios e eventual punição de infrações cometidas, quando disso for o caso.

Tal projeto de lei, sendo submetido à apreciação da Associação dos Advogados do Estado de
São Paulo, recebeu um cáustico parecer contrário a sua aprovação, fazendo o relator constar
de seu trabalho uma desnecessária observação: “só faltou ao projeto mandar chamar o
escrivão de Excelência.” Era, pelo menos, o desconhecimento daquilo que se vê na prática: em
muitos fóruns, o cartório é que lança nos autos despachos e até decisões, que serão assinados
pelo juiz. A perda de tempo nesse ir e vir é evidente, criando-se umlooping desnecessário, uma
retro-alimentação do caos.

Assim, um elemento secundário (“dar poder” ao escrivão) prejudicou a aprovação da lei.


Ignorou-se que uma das mais importantes variáveis que comprometem a regularidade do
sistema do processo judicial, já em si naturalmente complexo, pelos inúmeros atos necessários
que exige, é precisamente a desnecessária concentração de “poder” nas mãos do juiz (talvez
exatamente para que não estejamos valorizando indevidamente o escrivão, como deixou
anotado o infeliz parecer da AASP).

4. Um caso concreto

Ilustro isso com um exemplo concreto: nos autos do processo nº 583.00.2000.642.737-8, em


trâmite perante a 14ª. Vara Cível do foro central da comarca da Capital do Estado, ocorreu um
desses vitandos loopings a que me referi acima e que vale a pena relatar, para bem
compreender o que foi exposto. Em data de 17 de abril os autores despacharam uma petição
com o juiz, solicitando que fosse cumprido despacho anterior, no qual havia sido determinada
a expedição de mandado de execução. O juiz ali lançou uma determinação condicional “sim,
em termos”. Como a petição dizia respeito ao cumprimento de uma decisão anterior, caberia
ao cartório simplesmente dar cumprimento à tal decisão, sem desvio de rumo, pois a condição
a que estava sujeito o pedido (“se o pedido estiver em termos de ser atendido”) existia: era
um despacho anterior que já determinara a expedição do agora reclamado mandado de
execução. Acontece que em data de 12 de abril o réu havia protocolado uma petição
solicitando o prazo de 5 (cinco) dias para apresentar determinados documentos, petição essa
que, a nosso entender, não necessitaria de decisão alguma. O juiz lançou um dispensável
despacho: “J. cls.”. Ocorre que, passado um mês, nem os autos haviam ido à conclusão nem o
executado havia cumprido a promessa feita, no sentido de juntar os documentos em 5 dias!

E criou-se um desvio de rota absurdo: os autos agora foram finalmente à conclusão, sob o
argumento de que assim fora determinado pelo juiz, o que, em realidade, se dera há mais de
um mês, para que ele agora apreciasse um pedido que já estaria prejudicado pela própria
conduta anti-ética (o réu já foi punido por tal conduta, mas não se emendou) do executado,
em lugar de dar o cartório cumprimento à determinação de que se expedisse mandado de
execução. É evidente que, conhecendo, como conhece, o volume de autos existentes no
cartório, sabia o juiz que o prazo de 5 dias decorreria muito antes de o cartório dar
cumprimento à desnecessária determinação de conclusão dos autos, o que de fato veio a
acontecer. Indo os autos à conclusão, após decorrido prazo superior a seis vezes o prazo que
havia sido solicitado, conceder ou não conceder agora o tal prazo não teria efeito prático
algum, dado o vencimento, de há muito, do prazo que fora solicitado. A menos que se
agravasse ainda mais o absurdo: o prazo de 5 dias, se concedido, só começaria a ser contado
quando o requerente viesse a ser intimado!
Eis, porém, o incrível despacho proferido:

D O E - 19/5/2006 - Varas Cíveis Centrais - 14ª Vara Cível 583.00.2000.642737-8/000000-000


- nº ordem 2634/2000 - Procedimento Ordinário (em geral) – M. A. M. E OUTRO X N. C. S/A -
Fls. 502 - Fls. 499: Defiro o prazo de quinze dias, impreterivelmente. Decorrido, sem
manifestação, ficará convalidado o despacho de fls. 500 e deferida a expedição do mandado
para citação em execução.

Tendo sido pedido o prazo de 5 dias, no dia 12 de abril, no dia 19 de maio não é concedido o
prazo solicitado, mas o triplo dele! Como explicar algo tão estapafúrdio assim? Premia-se, com
isso, o infrator, que ganha tempo e retarda o cumprimento de suas obrigações, pois não cabe
mais recurso algum da decisão definitiva proferida naqueles autos. Edward Lorenz, que se
demorou no estudo do que chamou “efeito borboleta”, isto é, a capacidade de um incidente
irrelevante dar a um processo um encaminhamento absurdo, certamente exclamaria: Simples
mariposas provocando vendavais!

Curiosamente, o Brasil tem algo a ver com o nome daquele estudo, ainda que por mera
casualidade. A conferência pioneira, proferida pelo matemático Edward Lorenz e que cuida do
tema, se intitulou “Predicability: does the Flap of a Butterfly’s Wings in Brazil set off a Tornado
in Texas?”7, apresentada na Sociedade Americana para o Progresso da Ciência, em
Washington, em 29 de dezembro de 1979, cerca de apenas meio quarto de século passado.8 A
Teoria do Caos pretende exatamente limpar os processos complexos desses desvios de rotas,
que, no limite, leva a um retardamento absurdo.

No caso acima referido, não é a falta de funcionários nem o número inadequado de


computadores que estão a causar esse inaceitável retardamento no cumprimento do julgado.
É o burocratismo, com sua desnecessária multiplicação de atos no processo, que deixa de
servir a quem demonstrou ter razão, para beneficiar aquele que comprovadamente não tem
razão. Ou seja, faz-se exatamente o contrário daquilo a que o processo judicial se destina. E
isso não se deve ao número insatisfatório de funcionários no cartório nem ao número
insatisfatório de instrumentos de trabalho, mas à ocorrência de variáveis, de processos
secundários que não têm razão de ser.

Isso, certamente, não ocorreria se se dispensasse essa desnecessária concentração de prática


de atos não decisórios nas mãos do juiz e se houvesse a adequada fiscalização dos agentes do
sistema complexo que se chama processo judicial, que, visto de perto, é algo extremamente
simples, pois, apresentada a defesa do réu, ocorre a limitação do campo de discussão (os
romanos falavam em litiscontestatio para designar esse momento solene) , cabendo ao juiz
não permitir que essa simplicidade fique prejudicada pelo “caos” que uma das partes, por
espírito chicaneiro ou por despreparo de seu procurador, tente introduzir no processo. Além
disso, o combate ao burocratismo é fundamental para que se consiga essa simplificação. E isso
pode ser conseguido, desde que haja disposição da magistratura para tanto, mesmo sem
alteração legislativa, bastando que a Corregedoria de Justiça, com seu poder de normatização
dos serviços cartorários, assim determine.

5. Conclusão

Repetindo: está dito no Código de Processo Civil que, sendo apresentada a resposta do réu,
estabelecem-se os limites das questões a serem decididas. Cabe assim ao juiz, é o Código
quem o diz mas muitos juízes não o ouvem, explicitar o objeto da controvérsia e, portanto,
definir quais os meios de prova cabíveis. Esse é o primeiro momento em que o juiz deve ser
molestado, pois até ali tudo pode perfeitamente ser encaminhado pelo escrivão, desde o
recebimento da petição inicial até o findar do prazo para a apresentação da resposta, com ou
sem ela, como propunha o projeto Mendes Thame.

Ainda segundo aquele projeto, definidas que sejam as provas a serem produzidas, isto se dará
por três formas, talvez cumulativas: juntada de documentos, perícia e tomada de
depoimentos. Dessas, somente a última há de ser feita pelo juiz, pois a juntada de documentos
e a realização da perícia não necessitam de sua presença, bastando a fiscalização por parte do
escrivão, que, à sua vez, estará sempre sendo fiscalizado pelo juiz.

Designada (pelo escrivão) a audiência, surge agora o segundo momento em que o juiz é
reclamado. Tendo em mãos os elementos de prova até ali produzidos (sob a fiscalização do
escrivão) e havendo colhido os depoimentos, duas serão suas atitudes possíveis: ou decide
desde logo o feito, ou converte o julgamento em diligência para complementação da prova,
quando disso seja o caso (a experiência mostra que tal situação é absolutamente excepcional).

Sendo isso assim, como se justificar que os autos de um processo tenham de ir tão amiúde à
conclusão, como é de nossa cultura burocracista?

Além disso, a irracional recorribilidade de toda e qualquer decisão sempre foi vista como um
incentivo à chicana, pois o direito ao duplo grau de jurisdição não pode levar ao evidente
abuso do direito de recorrer. A simples diminuição do número de recursos, como agora se
pretende, não basta, sendo necessária a introdução da chamada “sucumbência incidental”:
sempre que o juiz decidir um incidente, responsabiliza processualmente o perdedor do
incidente, carregando-lhe não só as custas como honorários advocatícios relativos a tal
incidente. Com isso, eliminaríamos muitas das variáveis que tanto retardam o julgamento final.

Última observação: quando um médico causa dano a um paciente, ele vem a ser condenado,
com a invocação do genérico “falta dos cuidados necessários” com que se houve ele, o que
caracteriza error in procedendo. Quando, porém, são os juizes que assim atuam, cometendo
também errores in procedendo, que lhes acontece? Veja-se, por exemplo, o que (não) ocorre
quando da concessão a alguém de habeas corpus por parte do tribunal sob o fundamento de
haver o juiz agido com abuso de poder. Muito embora o abuso de poder caracterize, em
princípio, crime previsto em lei específica, que rege a conduta das autoridades públicas, jamais
algum tribunal remeteu cópia dos autos ao Ministério Público para apreciação de eventual
ocorrência de tal crime, presumindo-se, juris et de jure, que não houve por parte do juiz “má
fé”.

O mesmo ocorre quando o tribunal anula o feito pela ocorrência de error in procedendo. Qual
a diferença entre o erro médico, que causa dano a um paciente, e o erro judicial, que causa
dano a número inimaginável de pessoas, dada a necessária repetição de atos processuais, com
gasto de tempo que poderia ter sido evitado com um pouco mais de diligência por parte do
juiz (aquilo mesmo que ele exige do médico), tempo esse que poderia estar a ser empregado
na apreciação de outro processo?

Em todas as “radiografias” feitas a respeito do “estrangulamento dos serviços forenses” jamais


notei um levantamento a respeito do número de idas e vindas desnecessárias dos autos ao
gabinete do juiz, como se isso fosse a coisa mais natural na tramitação da causa. Qual a média
dessas remessas até que sobrevenha a sentença? Não sabemos. Quais dessas idas eram
efetivamente indispensáveis? Ignoramos.
Se a Corregedoria Geral da Justiça, como longa manus do Conselho Superior da Magistratura,
exercer sobre o magistrado sua autoridade, providenciando sua punição quando crie
desnecessários incidentes processuais ou dê margem à anulação do feito (error in
procedendo), e desde que o juiz faça o mesmo em relação ao escrivão, o tempo de tramitação
de um processo tenderá a cair. Resta saber se os juízes têm interesse nisso, pois a cultura do
“digam” está intimamente ligada ao propósito de protrair o momento crucial de ter de decidir
a causa. Reduzido, porém, em seus afazeres, graças às incumbências específicas que se
venham a dar ao escrivão, o juiz terá, obviamente, mais tempo para dedicar ao estudo e
fiscalização de cada processo, evitando que a sua complexidade o transforme em uma “renda
de Koch”, isto é, o que ocorre com um dos lados de um triângulo eqüilátero depois de
sucessivas introduções de novos triângulos eqüiláteros iguais e um terço menor do que o
anterior.

Aliás, para finalizar, deixo-lhe uma pergunta: se você fosse mostrar graficamente os incidentes
ocorridos na tramitação do processo movido pelo Ministério Público contra o ex-prefeito de
São Paulo, iniciado em 1970 e encerrado em 2006, qual destas duas figuras você escolheria
para isso?

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