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FAETAD

FACULDADE DE EDUCAÇÃO TEOLÓGICA


DAS ASSEMBLEIAS DE DEUS

PROJETO

TEOLOGIA E CIÊNCIA

TÍTULO

TEOLOGIA É FILOSOFIA, CIÊNCIA

OU TEOLOGIA?

Édna M. Coutinho Januário

Cerejeiras – RO
Agosto / 2017
Teologia e Ciência Página 01
Matéria

Teologia é Filosofia, Ciência ou Teologia?


Parte I

Filosofia ou cosmovisão é um sistema de crenças ou pensamentos, que reflete as questões


mais importantes da vida. Todo ser humano procura um propósito para a criação do universo e sua
existência nele e a filosofia procura harmonizar essa percepção de mundo com sua realidade através da
razão. Filósofos como Sócrates, Platão e Aristóteles buscaram resposta para essas questões. Sócrates
olhou para dentro de si, o conhecimento interior, para encontrar a verdade e resolver assuntos práticos e
éticos da vida do homem de tal forma que o conduzisse à sabedoria e a prática do bem. Platão acreditava
que a verdade suprema e absoluta, somente era encontrada no mundo das ideias, onde a mente, a alma,
habita; o corpo, considerado transitório e mau, era apenas o veículo da alma. Aristóteles defendeu que as
ideias se dão através da observação de objetos (concreto) e formulação da ideia dos mesmos (real) pela
razão humana, ou seja, todo conhecimento que o homem construiu foi assentado sobre verdades óbvias
iniciais, motivado por uma causa inicial, chamada de Teoria do Movedor Inamovível e da Primeira Causa.
Esses grandes pensadores do passado contribuíram para o debate intelectual de uma cosmovisão que
procurava preencher as necessidades de autoconhecimento do homem, mas toda sabedoria desses
pensadores foi insuficiente para revelar a Verdade que tanto buscavam.
Contudo, quando buscamos conhecer a Verdade pela perspectiva de Deus, encontramos
na Teologia uma ferramenta que envolve reflexão e pensamento cuidadosos e ordenados [e ela é]
dependente e focada na revelação (Franke; FAETAD, p. 32). Ou seja, a Teologia, o discurso ou uma
palavra sobre Deus, só poderá encontrar o verdadeiro conhecimento de Deus e o que Ele se revela de Si
mesmo se permanecer submissa à revelação bíblica, pois sem a revelação divina tornam-se apenas
ponderações para debates filosóficos e, toda vez que a razão humana sobrepõe a revelação divina, o
homem se afasta de Deus. Com uma mensagem Cristológica, baseada na fé em Jesus Cristo e no Deus
Único e Verdadeiro, a Igreja de Cristo precisou formar sua própria Teologia, com uma cosmovisão
puramente cristã, pois sempre enfrentou obstáculos, perseguições e heresias. Fundamentados na revelação
do AT, apologistas homens como Justino Mártir, Irineu de Lião e Orígenes defenderam teologicamente a
fé centrada no Deus cristão; os Pais da Igreja, Alexandre, Atanásio, Tertuliano, Basílio, o grande, Gregório
de Nissa e Gregório de Nazianzo, suportaram a pressão política e eclesiástica de seu tempo e formaram a
Doutrina da Trindade e da Cristologia, argumentando filosoficamente contra uma cosmovisão helenística,
para corroborar a proclamação do Evangelho da verdade sobre Deus revelada nas Escrituras. A Teologia
enfrenta outros obstáculos na cosmovisão do mundo pós-moderno, com o surgimento de novas filosofias,
principalmente aquelas que falam e agem abertamente contra a verdade absoluta expressa nas Escrituras
e por uma fé centralizada Naquele que se chama a Verdade, Jesus Cristo. O pragmatismo e naturalismo
do mundo pós-moderno tomou para si o direito de advogar sobre a verdade, através da prática e
observações que possam atestar a verdade e considerá-la real, a realidade apenas pelo mensurável,
moldando culturas e mudando conceitos, tornando-os princípios fundamentais para uma nova
cosmovisão, uma nova ordem ética na sociedade que atenda aos seus próprios interesses, conforme sua
necessidade. Mas, independente da hostilidade que o Cristianismo esteja passando ou venha a passar, com
mudanças filosóficas ou sociais ao seu redor, sua base teológica ou fundamento em relação à verdade
permanece sempre firmado nas Escrituras. A igreja cristã tem uma identidade: a Identidade de Cristo, que
deve ser sua diretriz, sua regra de convivência exposta em Sua Palavra, a Bíblia.
Teologia é Filosofia? O conceito de filosofia é a busca do autoconhecimento e do entendimento da verdade
desse mundo, procurando a verdadeira sabedoria. Enquanto permanecer com seus olhos voltados apenas
para a razão humana, sem a fé que move o homem ao Criador; enquanto não mudar a direção de sua busca,
inclinando-se a Cristo, pois NEle estão escondidos todos os tesouros da sabedoria e da ciência (Cl 2.3),
permanecerá vazia e sem respostas satisfatórias ao coração do homem. Quando a filosofia buscar respostas
com o mesmo propósito da Teologia, buscar a Deus e Sua revelação, esta só poderá acrescentar saberes
mais elevados à Filosofia. Dessa forma, o Cristianismo é um sistema filosófico completo, fundamentado
sobre o ponto axiomático de que a Bíblia é a Palavra de Deus e ponto de partida de sua filosofia.
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Teologia é Filosofia, Ciência ou Teologia?

Parte II

Em meio a tantos discursos e questionamentos que encontramos na Teologia, talvez a mais


acirrada esteja entre a Ciência. Teólogos e cientistas não se coadunam. Durante a Idade Média, cientistas
e teólogos andavam unidos, pois os grandes avanços científicos tiveram lugar em uma cosmovisão cristã.
A separação entre ciência e teologia veio no Período Moderno e ficaram mais distantes com a pós-
modernidade, quase que incompatíveis. Mudanças significativas ocorreram na visão cientifica: sua fonte
de autoridade passou a ser pesquisas observáveis e sistemáticas e tornou-se um instrumento de utilidade
prática, na busca do conhecimento pela razão, observação e experimentação, pondo de lado o criacionismo
e adotando o evolucionismo de Darwin. Apesar das diferenças visíveis entre o teólogo e o cientista, existe
um item comum desses dois círculos: a fé, que no âmbito da fé cristã, são distintas. A fé do cientista não
é como a fé cristã. O cientista crê no que outros homens dizem; naquilo que precisa ser provado, crendo
conforme seu interesse para provar que está correto, limitando ao que é observável e mensurável. Crê em
suas pesquisas que não podem ser desmentidas jamais. Baseado na opinião comum, as pessoas creem que
o que é verificado é verdadeiro, portanto, Ciência seria verificável e infalível e a Teologia seria inatingível.
A verdade sobre os cientistas, segundo McMurtry, é que eles são preconceituosos, não são objetivos, são
humanos, e, portanto falíveis (McMurtry, FAETAD, pág.91). Entretanto, para o teólogo, a fé cristã é
direcionada para Deus e no que diz a Bíblia! A fé é o que move sua busca no conhecimento transcendental,
pois crê no sobrenatural, crê em Deus e Sua Palavra; no que é certo para corrigir sua vida conformado à
Palavra de Deus. Diferentemente do cientista, a função do teólogo exige uma fé ativa, racional e
admissível, direcionada a algo ou a alguém, no caso do teólogo cristão, centralizada em Cristo. A fé do
teólogo envolve todo seu ser: o emocional – fé como certeza e segurança; o intelectual – compromisso
com a verdade, e o volitivo – viver, pensar e agir pela vontade de Deus. A fé é justamente a certeza de
que Deus irá cumprir Sua Palavra, pois Ele é fiel e poderoso para cumpri-la. A fé não elimina a
inteligência, não desconsidera a razão, e nem aliena o pensamento do cristão em relação à natureza e suas
investigações. Pelo contrário, a fé o conduz ao exercício da razão para crer e de que o objeto de sua crença
não é incoerente, mas inteligível, discernível e acessível, para se crer e entender. O elemento único de sua
fé é justamente o Criador do universo. Logo, a teologia pode ter um lugar na academia e na comunidade
científica? Será que fazer teologia como ciência, de forma acadêmica, não se perderá o foco do
cristianismo e de Deus, e vir a perder a fé? Se tratarmos teologia apenas como reprodução de
conhecimentos, deixando a fé de lado, a resposta seria sim, perderíamos a fé substituindo-a pelo ceticismo.
Mas, quando o teólogo investiga o mundo segundo a perspectiva de Seu Criador e Sua Palavra, o estudo
científico passa a ser um estudo do que Deus criou. A teologia precisa responder, em cada contexto, a
razão de sua fé pelo uso da razão, instruindo a todo homem, pois “a Escritura é divinamente inspirada, e
proveitosa para ensinar, para redarguir, para corrigir, para instruir em justiça; para que o homem de Deus
seja perfeito, e perfeitamente instruído para toda a boa obra” (IITm 3.16,17). Portanto, o objeto da teologia
é o falar de Deus, o elemento único de sua fé.
Então, Teologia pode ser Ciência? Não creio. A Teologia tem a responsabilidade de refletir e falar sobre
Deus, conduzir o homem na busca esse entendimento através da fé e do conhecimento para que “todos
cheguemos à unidade da fé, e ao conhecimento do Filho de Deus, a homem perfeito, à medida da estatura
completa de Cristo” (Ef 4.13).
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Teologia é Filosofia, Ciência ou Teologia?


Parte III

Vivemos em um período da história humana cujos padrões se transformam rapidamente. A


desordem é de ordem moral, cultural e social. As sociedades na cultura pós-moderna são complexas, com
súbitas mudanças que marcam profundamente os valores na vida das pessoas. Assuntos como vida, aborto
e morte sempre causaram desconforto, mas atualmente são temas de discussões em varias áreas da
sociedade. Em relação ao aborto a discussão é sobre sua institucionalização, pois muitas mulheres poderão
perder sua vida ao provocar o aborto de qualquer maneira. Mas, existem justificativas para o aborto e é
moralmente correto? Quando que um feto é considerado um ser humano, uma vida? Os debates éticos
sobre a vida existem desde a antiguidade clássica, e mesmo antes disso. Por exemplo, para Aristóteles o
feto tinha vida, e ela acontecia desde o primeiro movimento fetal; e Platão considerava vida somente
quando a alma entrava no corpo do feto no ato do nascimento, tanto que, por causa desse posicionamento,
na antiguidade clássica abortar não era considerado crime. Encontramos cinco estimativas cientificas para
o momento em que o feto pode ser considerado um ser humano, as visões: genética; embrionária;
neurológica; ecológica e metabólica. Um aborto pode acontecer de forma natural, acidental ou terapêutico.
Mas, o que a Teologia diz sobre o aborto? Esse tema não é assunto para debates teológicos. A Bíblia
responde de forma categórica: “Pois possuíste o meu interior; entreteceste-me no ventre de minha mãe.
Eu te louvarei, porque de um modo assombroso, e tão maravilhoso fui feito; maravilhosas são as tuas
obras, e a minha alma o sabe muito bem” (Sl 139.13,14). A vida é um dom de Deus, e ela se dá no ato da
concepção. E a morte? Quando que um corpo pode ser considerado sem vida? Alguém tem direito de tirar
sua vida no leito do sofrimento? Encontramos respostas também na Bíblia? Existem duas formas de impor
um fim à vida: a eutanásia, que é a interrupção da vida com direito de matar ou de morrer; e a ortotanásia,
que é a morte sem sofrimento para o paciente, mas não a interrupção da vida. A Bíblia é contra a eutanásia,
pois “nenhum homem há que tenha domínio sobre o espírito, para o reter; nem tampouco tem ele poder
sobre o dia da morte” (Ec 8.8), pois “há tempo de nascer e tempo de morrer” (Ec 3. a). Ou seja, para “tudo
tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo o propósito debaixo do céu” (Ec 3.1). Então, o que
dizer do tempo na vida do homem? Ele tem controle sobre esse tempo? Nós podemos até contar nossos
dias, segundo calendários elaborados pelo homem, mas como determinar claramente o tempo? Tempo é
oportunidade, situação e ocasião. De forma simplificada, tempo é o que fazemos dele. Para o cristão, o
tempo é valioso, mais que a própria vida, pois são momentos de estar na presença de Seu Criador, em
oração, leitura e meditação de Sua Palavra, de intimidade com o Seu Salvador. Não teme a chegada do
tempo, em qualquer situação, porque sabe que Deus está no controle de todas as coisas no universo e na
terra, pois é “Ele quem muda os tempos e as estações; Ele remove os reis e estabelece os reis; ele dá
sabedoria aos sábios e conhecimento aos entendidos” (Dn 2.21). O fim do tempo não finaliza os planos
de Deus, mas é o início de uma nova etapa, perfeita e eterna onde todos os que cofiam em Seu Salvador
Jesus Cristo estarão reunidos para uma eternidade sem fim de tempos. Teologia, Filosofia e Ciência não
serão mais tópicos de debates, reflexões e de interesses dos homens, pois na Presença do Criador nada
mais faz sentido. Ao lado de Deus, a Teologia já não se faz necessária, pois nada mais há para se explicar
AQUELE que está a mostrar a Sua Face, “porque agora vemos por espelho em enigma, mas então veremos
face a face; agora conheço em parte, mas então conhecerei como também sou conhecido” (I Co 13.12).
Portanto, enquanto existir mundo, temos necessidade da Teologia, a pura TEOLOGIA, porquanto
ela tem grande responsabilidade em discernir as muitas vozes sendo pronunciadas no mundo. Como disse
o apóstolo Paulo, “há, por exemplo, tanta espécie de vozes no mundo, e nenhuma delas é sem significação”
(I Co 14.10). Há vozes de engano, mostrando que todos os caminhos levam a Deus; há vozes da carne,
dizendo que cada um pode seguir o caminho que deseja, porque no amanhã morreremos e ano existe mais;
há a voz da angústia, do vazio, do desespero, tomando conta do coração do ser humano e dizendo “pode
tirar sua vida, pois ela não tem sentido e viver não tem graça”; há a voz do mundo, dizendo para não servir
a Jesus, não seguir seus fardos, regras, e padrões morais, pois são sem valor nesse mundo pós-moderno,
onde cada pessoa é livre para fazer o que quiser. Somente a voz verdadeira do Senhor Jesus, a Verdade,
conduzirá as pessoas à eternidade para ouvirmos a Voz do Nosso Senhor dizendo: “Eis aqui o tabernáculo
de Deus com os homens, pois com eles habitará, e eles serão o seu povo, e o mesmo Deus estará com eles,
e será o seu Deus” (Ap 21.3). Teologia precisa ser Teologia - um discurso ou uma palavra sobre Deus,
que só poderá encontrar o verdadeiro conhecimento de Deus e o que Ele se revela de Si mesmo se
permanecer submissa à revelação bíblica. Logo, conhecer a Deus requer fé e relacionamento, vivenciar o
que a Teologia possa ensinar sobre Deus e Sua Palavra. Teologia é Teologia!
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BIBLIOGRAFIA

BÍBLIA SAGRADA, Nova Versão Internacional, 10ª ed. São Paulo.

BÍBLIA SAGRADA, traduzida por João Ferreira de Almeida, Corrigida e fiel ao texto original. Versão

digital (Freeware), 2010 por Marcelo Ribeiro de Oliveira. http://www.blasterbit.com

PORTA, Paul; Gunar Berg de Andrade; Teologia e Ciência; Manual de Estudos Independentes; Equipe

Editorial FAETAD; Campinas, SP, FAETAD, 2010.