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Este livro aborda urna pequena área dentro da conseqüéncía maior desta conjuncáo histórica: as

formas culturais estereofónicas, bilíngües ou bifocais originadas pelos - mas nao mais
propriedade exclusiva dos - negros dispersos nas estruturas de
sentimento, producáo, cornunicacáo e memória, a que tenho chamada heuristicamente mundo
atlántico negro. Este capítulo, portanto, tem como raiz e como rota o esforco envolvido em tentar
olhar para (pelo menos) duas direcóes simultaneamente. 35

Em particular, este capítulo busca explorar as relacóes


especiais entre "raca", cultura, nacionalidade e etnia que possuem
relevancia nas histórias e culturas políticas dos cidadáos negros
do Reino Unido. 36

SENHORES, SENHORAS, ESCRAVOS E AS ANTINOMIAS1 DA MODERNIDADE

O problema: a modernidade.

Faz alguns anos que a teoria social, a filosofia e a crítica cultural euroamericanas têm
abrigado debates acerbos e politicamente carregados sobre o conteúdo e status do
conceito da modernidade e das idéias afins de modernismo e modernização. 102

- Debates que nem sempre foram realizados explicitamente e que são


matizados de acordo com as disciplinas em que os autores se filiam, fomentando
trocas na oposição, no embate e no debate teórico. 102

Focos de abordagens das análises do “pós-moderno”:

- Os autores às vezes se preocupam em identificar e explicar mudanças


decisivas recentes no clima cultural dos países superdesenvolvidos e em sua relação
com o resto do mundo.

- Muitos participantes construíram desvios intelectuais pela modernidade como


um modo de demarcar o que é moderno ou historicamente original na condição pós-
moderna contemporânea.

- Outros analisam o pós-moderno como se este simplesmente tivesse apagado


ou substituído o moderno e, como Lyotard, não mergulham profundamente na história
do pós-moderno, seu surgimento a partir da modernidade ou sua relação com os
processos de modernização.

O elemento comum entre eles

[...] compartilham uma preocupação com o impacto das mudanças do pós-


guerra sobre as bases cognitivas2 e tecnológicas da vida social e cultural no mundo
superdesenvolvido. 102

1
Substantivo feminino: Rubrica: filosofia. Na tradição cética ou em doutrinas influenciadas pelo
ceticismo, tal como o kantismo, contradição entre duas proposições filosóficas igualmente críveis,
lógicas ou coerentes, mas que chegam a conclusões diametralmente opostas, demonstrando os limites
cognitivos ou as contradições inerentes ao intelecto humano. 2. Derivação: por extensão de sentido.
Contradição entre quaisquer princípios, doutrinas ou prescrições. Ex.: a a. entre a Bíblia e os Vedas. 3.
Derivação: por extensão de sentido. Posição ou disposição totalmente contrária; oposição. 4. Rubrica:
termo jurídico. Contradição real ou aparente entre leis, ou entre disposições de uma mesma lei, o que
dificulta sua interpretação (HOUAISS, 2009).
O conceito de pós-modernismo é freqüentemente introduzido para
enfatizar a natureza radical ou mesmo catastrófica da ruptura entre as
condições contemporâneas e a época do modernismo. 103

O que os defensores e críticos da modernidade não “viram” ou o que


geralmente fica de fora desses focos de investigação.

Dessa forma, pouca atenção é dada a possibilidade de que grande parte


do que é identificado como pós-moderno possa ter sido pressagiado ou
prefigurado nos contornos da própria modernidade. Tanto os defensores como
os críticos da modernidade parecem não atentar para o fato de que a história e
a cultura expressivas da diáspora africana, a prática da escravidão racial ou as
narrativas de conquista imperial européia podem exigir que todas as
periodizações simples do moderno e do pós-moderno sejam drasticamente
repensadas. 103

A relação do moderno com o pós-moderno põe questões adicionais

- A relação crucial entre o moderno e o pós-moderno levanta uma série de


questões adicionais, principalmente porque constitui uma pequena parte das
investigações mais amplas sobre a viabilidade contínua daquilo que Habermas chamou
de projeto iluminista (ou projeto da modernidade (BAUMANN). 103

Os intelectuais (contra e a favor) não são “inocentes” nessas discussões,


tomam posições políticas e contribuem para que o tal projeto se perpetue,
pronunciando-se sobre questões nodais desse projeto, tais como as noções
teleológicas de progresso e civilização.

As questões postas

- A relação entre liberdade e razão “ameaçadas” pelos levantes políticos


e as transformações tecnológicas;

- A reestruturação contemporânea das relações políticas e econômicas


nos países superdesenvolvidos colocou em questão muitas das
suposições históricas do racionalismo ocidental.

- As vozes incrédulas questionando as pretensões audaciosas e


universalistas da modernidade ocidental e sua confiança arrogante em
sua própria infalibilidade. 104

Modernidade – mundo pensado por especialistas e burocratas ou Algumas


razões da crise da modernidade.

2
Adjetivo: 1. Relativo ao conhecimento, à cognição. 2. Rubrica: linguística. Relativo ao processo mental
de percepção, memória, juízo e/ou raciocínio. 3. Rubrica: psicologia. Diz-se de estados e processos
relativos à identificação de um saber dedutível e à resolução de tarefas e problemas determinados. 4.
Rubrica: psicologia. lato sensu, diz-se dos princípios classificatórios derivados de constatações,
percepções e/ou ações que norteiam a passagem das representações simbólicas à experiência, e tb.
da organização hierárquica e da utilização no pensamento e linguagem daqueles mesmos princípios
(HOUAISS, 2009).
A crise da modernidade como a crise da posição dos intelectuais
“modernistas”.

- [...] gostaria muito de enfatizar que este debate internacional extenso e


incomum está claramente vinculado tanto ao destino de uma casta intelectual distinta
e oficial como ao futuro das universidades nas quais tantos de seus doutos
protagonistas adquiriram postos seguros.

- Esta é apenas uma dentre várias razões pelas quais se pode argumentar que
aquilo que cada vez mais é percebido como a crise da modernidade e dos valores
modernos talvez seja melhor entendido como a crise dos intelectuais cuja
autoconsciência foi outrora servida por essas condições. 105

O declínio das forças socialistas nos países superdesenvolvidos não invalida a


hipótese anterior.

- Debates recentes sobre a modernidade e seu possível eclipse estão associados


ao recente declínio das forças expressamente socialistas nos países
superdesenvolvidos. 105

Por que esse debate é importante?

- Pode-se argumentar que grande parte da suposta novidade do pós-moderno


se evapora quando vista à luz histórica inexorável dos encontros brutais entre
europeus e aqueles que eles conquistaram, mataram e escravizaram.

- É essencial para nossa compreensão da categoria de "raça" em si


mesma (?) e da gênese e do desenvolvimento das formas sucessivas da
ideologia racista.
- É pertinente, acima de tudo, na elaboração de uma interpretação das
origens e da evolução da política negra. Essa tarefa requer uma atenção
cuidadosa à complexa mistura entre idéias e sistemas filosóficos e culturais
europeus e africanos.
- Um conceito de modernidade que se preze deve, por exemplo, ter algo
a contribuir para uma análise de como as variantes particulares de radicalismo
articuladas pelas revoltas de povos escravizados fez uso seletivo das ideologias
da Era da Revolução ocidental e depois desaguou em movimentos sociais de
um tipo anticolonial e decididamente anticapitalista.
- Por último, a superação do racismo científico (um dos produtos
intelectuais mais duráveis da modernidade) e sua transmutação no pós-guerra
em formas culturais mais novas, que enfatizam a diferença complexa em lugar
da hierarquia biológica simples, podem fornecer um exemplo concreto e
revelador do significado do ceticismo em relação às narrativas grandiosas da
razão científica. 106-107

Uma ressalva (107)

- [...] abordar essas questões prementes de raça e racismo não significa dizer
que todos os elementos de sua resolução bem-sucedida já se encontram em
evidência (no debate pós-moderno). (Por quê?)
- [...] não se apresenta nos debates contemporâneos em torno do
conteúdo filosófico, ideológico ou cultural e das consequências da
modernidade.

- Em seu lugar, uma modernidade inocente emerge das relações sociais


aparentemente felizes que agraciaram a vida pós-Iluminismo em Paris, Berlim e
Londres.

- O que poderia ser rotulado como pós-modernismo fácil ataca


tanto a racionalidade como a universalidade com um relativismo óbvio e
banal, mas tal posição não é o bastante para os que recuam diante da
sugestão de que todos os modos de vida são irreconciliáveis e da idéia
correlata de que qualquer posição ética ou politica é tão válida quanto
qualquer outra.
(...). Num mundo que se gaba de uma capacidade sem precedentes de melhorar as
condições humanas com reorganização das atividades em bases racionais, o racismo expressa
a convicção de que certas categorias de seres humanos não pode ser incorporadas à ordem
racional, seja qual for o esforço que se faça. Num mundo que se notabiliza pela continua
redução dos limites à manipulação científica, tecnológica e cultural, o racismo proclama que
certas falhas de determinada categoria de pessoas não podem ser removidas ou retificadas
(...). Num mundo que proclama a formidável capacidade de treinamento e conversão cultural,
o racismo isola certa categoria de pessoas que não pode ser alcançada (...) pela argumentação
ou qualquer outro instrumento de treinamento (...). (BAUMANN, p. 87, 19983).

Objetivos do capítulo

- O trabalho de uma série de pensadores negros será examinado adiante


como parte de uma argumentação geral de que há outras bases para a ética e a
estética que não as que parecem imanentes às versões da modernidade elaboradas
pelas míopes teorias eurocêntricas. Este capítulo examinará algumas omissões e
ausências nesses debates, além de algumas das premissas inadvertidas e
frequentemente etnocêntricas a partir das quais eles têm sido conduzidos.

- Desejo também apresentar uma crítica e uma correção a essas trocas, e meu
interesse fundamental pela história da diáspora africana necessita do ponto de partida
específico - o Atlântico negro - que estabeleci no capítulo 1. As experiências históricas
características das populações dessa diáspora criaram um corpo único de reflexões
sobre a modernidade e seus dissabores, que é uma presença permanente nas lutas
culturais e políticas de seus descendentes atuais.

- Quero trazer para o primeiro plano da discussão elementos dessa sequência


alternativa de investigações sobre a política de vida no Ocidente. Essa "tradição"
descontínua tem sido obstruída pela dominação das elites literárias européias e
americanas, cujas vozes modernistas altissonantes dominaram o clamor dos discursos
filosóficos e políticos que se elevam desde o século XVIII para agora nos assombrar.

- Não pretendo apenas questionar a credibilidade de uma concepção ordenada


e holística da modernidade, mas argumentar também em favor da inversão da relação

3
BAUMAN, Zygmunt. Modernidade e Holocausto. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998.
entre margem e centro, tal como tem se manifestado nos discursos senhoriais da raça
dos senhores. Em outras palavras, estou buscando contribuir para certo trabalho
intelectual reconstitutivo que, por olhar para a história cultural moderna dos negros no
mundo moderno, tem uma grande relação com as idéias sobre o que era e é hoje o
Ocidente.

A ESCRAVIDÃO E O PROJETO ILUMINISTA

Uma revisão das “promessas” da modernidade

- [...] a promessa não realizada do projeto iluminista da modernidade continua


a ser uma fonte cerceada mas, ainda assim vibrante, que mesmo hoje pode ser capaz
de orientar a prática das lutas sociais e políticas contemporâneas. 109

- Em oposição a esta visão, proponho que a história da diáspora africana e uma


reavaliação da relação entre modernidade e escravidão podem exigir uma revisão das
condições nas quais os debates sobre a modernidade têm sido elaborados, uma
revisão mais completa do que qualquer um de seus participantes acadêmicos pode
estar disposto a admitir. 109

Marshall Berman e sua “perspectiva modernista especial”.

- Apesar das muitas qualidades positivas do trabalho de Berman, a


generalidade persuasiva de seu argumento o leva a falar um tanto
apressadamente em "unidade íntima entre o eu moderno e o ambiente
moderno". 109

- [...] observações como esta pareceriam não só endossar a visão da


modernidade como ruptura absoluta com seu passado, mas também
negar a possibilidade de que a especificidade do eu moderno poderia
consistir em ser ele uma entidade necessariamente fraturada ou
compósita. 109-110

- Berman aumenta essas dificuldades ao afirmar que "os ambientes e


experiências modernos cruzam todas as fronteiras de geografia e etnia,
de classe e nacionalidade, de religião e ideologia: nesse sentido, pode-se
dizer que a modernidade une toda a humanidade".

Parêntese: Onde Berman e Gilroy se “separam”

- Esta abordagem, portanto, corre em sentido oposta ao de minha


própria preocupação com as variações e as descontinuidades na
experiência moderna e com a natureza descentrada e indiscutivelmente
plural da subjetividade e da identidade modernas. 110

Retomada

Como Habermas, Berman faz algumas afirmações muito audaciosas em


favor do legado ideológico e político do Iluminismo [...]. 110
Devo enfatizar que não estou escolhendo Berman aqui como alvo de
ataque e que sinto uma grande dose de simpatia por sua explicação
convincente e estimulante sobre a modernidade e suas respectivas
opções políticas. 112

Entretanto, nenhum desses insights importantes interrompe sua pressa


em agregar as formas culturais do Atlântico negro a uma imagem da
classe trabalhadora. Secundariamente, a incapacidade de Berman de
atribuir o devido peso a pluralidade que acredito ser essencial ao
moderno suscita problemas profundos adicionais sobre sua
apresentação da continuidade da identidade moderna e a integridade
totalizante que ele investe em sua concepção da experiência moderna.
112-113

As Particularidades das experiências negras modernas, dentro e fora


da modernidade.

- A chave para compreender isto não reside na separação precipitada


das formas culturais particulares a ambos os grupos (senhores e
escravos) em alguma tipologia étnica, mas em uma apreensão detalhada
e abrangente de seu complexo entrelaçamento. As realizações
intelectuais e culturais das populações do atlântico negro existem em
parte dentro e nem sempre contra a narrativa grandiosa do Iluminismo
e seus princípios operacionais. Seus caules cresceram fortes, apoiados
por um entrelaçamento da política e das letras ocidentais. 113

- Essas formações políticas negras modernas permanecem


simultaneamente dentro e fora da cultura ocidental, que tem sido um
padrasto peculiar. 14

Jürgen Habermas: uma fé profunda no potencial democrático da modernidade

- A modernidade é compreendida como uma configuração distinta, com suas


próprias características espaciais e temporais definidas sobretudo pela
consciência da novidade que cerca o aparecimento da sociedade civil, do
estado moderno e do capitalismo industrial. 114

- A modernidade é apreendida por seus contradiscursos e freqüentemente


defendida somente por seus elementos contrafactuais, embora as análises
deles permaneçam substancialmente não afetadas pelas histórias de
brutalidade que parecem ser uma característica tão proeminente no abismo
crescente entre experiência moderna e expectativa moderna. 114

- Nesse contexto, dificilmente surpreende que, se a história da escravidão


chega a ser percebida como relevante ainda assim é considerada uma tarefa
para autores negros. 115

- Como muitos ex-escravos e abolicionistas, Habermas está tenazmente


comprometido com a proposta de fazer a sociedade civil burguesa cumprir suas
promessas políticas e filosóficas. Deduzindo sua teoria da modernidade da obra
de Kant e Hegel, ele observa suas crises contemporâneas, mas diz que elas só
podem ser solucionadas de dentro da própria modernidade pela conclusão do
projeto iluminista. 115

- Habermas reconhece os laços íntimos entre a idéia de modernidade e o


desenvolvimento da arte européia que é capaz de atuar como reconciliador dos
momentos fragmentados da razão. 115

- Recorrendo a Weber e a Nietzsche, ele também define a modernidade


por sua superação de visões de mundo religiosas e o processo de racionalização
cultural por meio do qual ciência, moralidade e arte são separadas em esferas
autônomas, cada uma governada por suas próprias regras epistemológicas e
seus procedimentos de validação. 115

- Dessa forma, a modernização da experiência de vida vê os conceitos de


autenticidade, estética e ética claramente diferenciados enquanto o moderno é
identificado na lacuna entre as esferas secular e sagrada da ação, que se cria a
partir da morte de Deus. 116

- Essa divergência prossegue estreitamente articulada com a


retificação da consciência que pode ser apreendida no afastamento de culturas
especializadas da experiência de vida e com a "colonização" destas últimas por
formas degradadas de pseudo-razão que servem apenas para integrar e dar
funcionalidade ao sistema social. 116

- Habermas não segue Hegel ao afirmar que a escravidão é em si mesma uma


força modernizadora porque leva tanto o senhor como o escravo, primeiro, a
autoconsciência e, em seguida, a desilusão, forçando ambos a enfrentar a
percepção infeliz de que a verdade, o bom e o belo não têm uma origem
comum única. 116

Patricia Hill Collins: uma epistemologia do ponto de vista das mulheres negras

- [...] argumento em favor da existência de uma epistemologia do ponto de


vista das mulheres negras é conduzido em parte com o mesmo espírito crítico,
reconstrutivo e revisionista que orienta meu pensamento aqui. 119

- Hill Collins afirma que as tradições ocidentais do pensamento e do


pensamento sobre o pensamento, ao qual as ciências humanas estão
confinadas, têm sistematicamente tentado separar essas atividades
privilegiadas do mero existir. 119

- Embora eu concorde com a maior parte do diagnóstico feito por Hill Collins
para este estado de coisas, ao mesmo tempo discordo de suas respostas. Sua
resposta à separação ocidental entre pensar (e pensar sobre o pensar) e ser é
implodi-los de volta um para dentro do outro, de modo que constituam uma
unidade funcional que possa ser acriticamente celebrada. 119-120

- Começo esta crítica com uma defesa da idéia de construção social de "raça" e
de gênero. Não há nenhuma essência de mulher ou uma mulher em geral que
possa encarnar o projeto emancipador da política feminista por isso, uma
epistemologia feminista deve continuar a construir seu próprio ponto de vista
dirigido a esta falta. 120

- No discurso feminista (não negro), os termos mulher e feminista são distintos


e devem permanecer separados para que a crítica opere com credibilidade. 120

- Entretanto, outra versão de essencialismo racial é contrabandeada pela porta


dos fundos mesmo quando Hill Collins eloqüentemente a expulsa pela porta da
frente. Em sua transposição, o termo "negro" cumpre uma dupla obrigação. Ele
cobre as posições do conhecer e do ser. Suas dimensões epistemológicas e
ontológicas são inteiramente congruentes. 120

- Hill Collins enfatiza reiteradamente que o ponto de vista que


ela está explorando é "autodefinido".

- A massa de mulheres negras possui experiências que abrem caminho


rumo a formas únicas de consciência. Entretanto, elas são incapazes de
"articular" o seu ponto de vista e para fazerem isto necessitam da ajuda
de um quadro de elite de intelectuais negras que vacinem as pessoas
comuns com os produtos de sua teorização crítica, com isto gerando
resistência. 121

- Seja o que for que se pense sobre as estratégias políticas envolvidas em tudo
isso, é surpreendente como a imagem de um sujeito integral, humanista e
completamente cartesiano sustenta e anima o constructo do eu que tem sido
situado no cerne deste "ponto de vista das mulheres negras” [...]. 121

- Mas o que devemos entender do fato de que o eu sempre vem primeiro nesta
litania? Que tipo de entendimento sobre o eu deve suprir a subjetividade capaz
de focalizar o sujeito da política negra? 122

- As respostas de Hill Collins para essas perguntas sugerem a


continuidade de uma imbricação nas premissas do iluminismo,
apesar dos gestos ostensivos de deserção dessa corrente. 122

Como reler a alegoria de Hegel?

- Apesar de todo o seu visível masculinismo e eurocentrismo, a alegoria de


Hegel é relacional. Pode ser usada para destacar o valor da incorporação do
problema da formação do sujeito tanto na epistemologia como na prática
política. Isto também significaria seguir a pista de um pós-modernismo
politizado e deixar em aberto as categorias de investigação. 122

- Meu interesse na famosa seção do início da Fenomenologia


do espírito de Hegel é duplo: primeiro, ela pode ser usada para
iniciar uma análise da modernidade, que é renegada por Habermas
porque aponta diretamente para uma abordagem que vê a
estreita associação entre modernidade e escravidão como uma
questão conceitual chave. 122
- Em segundo lugar, um retorno à explicação de Hegel do conflito e das
formas de dependência produzidas na relação entre o senhor e o
escravo traz para o primeiro plano as questões de brutalidade e terror
que também são muito freqüentemente ignoradas. 123

Proposta de abordagem: transcender o debate improdutivo entre um


racionalismo eurocêntrico e um anti-humanismo igualmente ocidental.

- Considerados em conjunto, esses problemas oferecem uma


oportunidade para transcender o debate improdutivo entre um
racionalismo eurocêntrico, que expulsa a experiência escrava de suas
narrativas da modernidade e ao mesmo tempo afirma que as crises da
modernidade podem ser solucionadas internamente, e um anti-
humanismo igualmente ocidental que situa as origens das crises atuais
da modernidade nos fracassos do projeto iluminista. 123

A discussão das origens da política negra na era da revolução euro-americana


ou reconstruindo a história primordial da modernidade a partir dos escravos

- O modo como essas populações continuam a fazer uso criativo e


comunicativo da memória da escravidão (plantation) aponta, de modo
construtivo, para além das posições equivalentes que até agora têm
sobredeterminado o debate sobre a modernidade. 125

- Afora esses problemas, as perspectivas dos escravos necessitam de


uma postura crítica sobre o discurso do humanismo burguês que
diversos estudiosos têm sugerido na ascensão e consolidação do
racismo científico. Utilizar a memória da escravidão como dispositivo
de interpretação sugere que este humanismo simplesmente não pode
ser reparado pela introdução das figuras de negros, que anteriormente
haviam sido confinadas a categoria intermediária entre o animal e o
humano. 125

- Ao manterem os componentes espirituais que também ajudam a


distingui-las da racionalidade secular moderna, as perspectivas dos
escravos apenas secundariamente incluem a idéia de uma utopia
racionalmente buscada. Suas categorias primárias são impregnadas da
idéia de um apocalipse revolucionário ou escatológico - o jubileu. 127

Questionamentos:

- os avanços da modernidade são avanços insubstanciais


ou pseudo-avanços;

- a crítica da modernidade não pode ser concluída de


dentro de suas próprias normas filosóficas e políticas; 127

Parece-me que, para que a crítica de Gilroy se efetue de maneira


satisfatória, ele precisa demonstrar que o atlântico negro está dentro e
fora da modernidade ao mesmo tempo, e por isso pode “julgar” a
modernidade. Ele diz que:

- No entanto, suas perspectivas críticas (autores que Gilroy vai analisar)


a seu respeito (da modernidade) apenas em parte eram fundamentadas
em suas próprias normas (normas filosóficas e politicas modernas).

Aqui, Gilroy sustenta que esses autores bebem das imagens e


símbolos pré-modernos. 127

- Essas figuras contribuíram para a formação de uma variedade


vernacular de consciência infeliz que demanda repensarmos os
significados de racionalidade, autonomia, reflexão, subjetividade e
poder a luz de uma meditação prolongada, tanto sobre a condição dos
escravos quanto sobre a sugestão de que o terror racial não é
meramente compatível com a racionalidade ocidental mas
voluntariamente cúmplice dela. 127

Baumann diz que a Sociologia ortodoxa via o Holocausto como um


fracasso, não um produto da modernidade. Para o autor, no entanto, o
Holocausto é uma possibilidade que a modernidade contém4.

- Em termos de política e teoria social contemporânea, o valor desse


projeto reside em sua promessa de descobrir tanto uma ética da
liberdade para colocar ao lado da ética da lei da modernidade e
as novas concepções de construção do eu e de individuação que
aguardam ser construídas do ponto de vista dos escravos - para
sempre dissociadas dos correlatos psicológicos e epistemológicos
da subordinação racial. 127-128

- Tendo reconhecido a força cultural do termo "modernidade", também


devemos estar preparados para mergulhar nas tradições especiais da
expressão artística que emergem da cultura do
escravo. 128

- Em oposição à suposição do Iluminismo de uma separação


fundamental entre arte e vida, essas formas expressivas reiteram a
continuidade entre arte e vida. Elas celebram o enraizamento do
estético em outras dimensões da vida social [...]. A subjetividade é aqui
vinculada de modo contingente a racionalidade [...] Nesse espaço
severamente restrito, sagrado ou profano (plantation), a arte se
tornou a espinha dorsal das culturas políticas dos escravos e de
sua história cultural. 128-129

- Essa prática artística, portanto, está inevitavelmente tanto dentro


como fora da proteção duvidosa que a modernidade oferece. 130

SENHOR E ESCRAVO EM UM IDIOMA NEGRO

4
Idem, p. 23, 24.
Frederick Douglass: “crítico da modernidade”

- Sua relação com a modernidade foi complexa e mutável, particularmente


porque ele reteve e desenvolveu as convicções religiosas que jaziam no cerne
de sua oposição original ao sistema escravo. No entanto, Douglass não
precisaria de nenhuma lição de Habermas e seus seguidores sobre a natureza
incompleta do projeto iluminista, ou sobre a necessidade de uma crítica à
religião antes das outras formas de crítica social. 132

- A falta de acesso do Estado à plantation ilustrava a inacessibilidade geral da


plantation às modalidades da razão política moderna e secular necessárias à
sua reforma. 132

- Douglass defendia a humanidade dos escravos africanos e atacava a exclusão


da África da história em uma célebre conferência etnológica que ele
apresentou em várias localidades a partir de 1854. 133-134

- É óbvio que a atração do Egito como evidencia da grandeza das culturas


africanas pré-escravidão, como símbolo duradouro da criatividade negra e da
civilização, sempre teve um significado especial nas respostas do Atlântico
negro à modernidade... O Egito também fornecia o meio simbólico para
localizar fora do repertório filosófico do Ocidente a crítica ao aspecto universal
do Iluminismo feita pela diáspora. 134-135