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ÁGABO, UM PROFETA DE SEGUNDA CATEGORIA?

"Demorando-nos ali por muitos dias, desceu da Judeia um profeta, de nome Ágabo; e
vindo ter conosco, tomou a cinta de Paulo e, ligando os seus próprios pés e mãos, disse:
Isto diz o Espírito Santo: Assim os judeus ligarão em Jerusalém o homem a quem
pertence esta cinta, e o entregarão nas mãos dos gentios.
Quando ouvimos isto, rogamos-lhe, tanto nós como os daquele lugar, que não subisse a
Jerusalém. Então Paulo respondeu: Que fazeis chorando e magoando-me o coração?
Porque eu estou pronto não só a ser ligado, mas ainda a morrer em Jerusalém pelo nome
do Senhor Jesus" (Atos 21.10-13)
No Novo Testamento há uma diferença entre a profecia como um dom espiritual,
exercitado por qualquer crente (1 Co 14.12) e o ofício profético, reservado a alguns a
quem Deus escolheu (Ef 4.11). Nesse aspecto nem sempre quem profetiza é um profeta,
enquanto todo profeta, evidentemente, profetiza. Isso pode ser ilustrado com as figuras
de Ágabo, um profeta que aparece no livro de Atos e as filhas de Filipe, que mesmo não
possuindo o oficio de profeta, no entanto, profetizavam. Foi ao profeta Ágabo e não às
filhas de Filipe, que o Espírito Santo usou para falar com Paulo (At 11.28; 21.8-11). O
conceituado teólogo Wayne Grudem escreveu em 1988 um livro sobre o dom da
profecia no Novo Testamento, ao qual intitulou de O Dom da Profecia. A tese de
Grudem é que a profecia no Novo Testamento não está no mesmo patamar daquela dos
profetas do Antigo Testamento. Ele argumenta que essas profecias “eram simplesmente
um relatório bastante humano – e, às vezes, parcialmente equivocado – do que o
Espírito Santo trazia à mente de uma pessoa em especial” (GRUDEM, Wayne. O Dom
da Profecia - Do Novo Testamento aos dias atuais. Editora Vida, São Paulo, 2004). Para
fundamentar sua tese, Grudem cita o caso de Ágabo, profeta do Novo Testamento.
Primeiramente, Grudem ao fazer uma análise de At 21.10,11, acusa Ágabo de tentar
falar como os profetas do Antigo Testamento: “a frase introdutória de Ágabo – “Isto diz
o Espírito Santo" – sugere uma tentativa de falar como os profetas do AT que diziam:
“Assim diz o Senhor...”. Grudem vai mais longe em seu argumento e tenta agora provar
que Ágabo mentiu e que se vivesse nos dias do Antigo Testamento seria apedrejado
como falso profeta. “Pelo padrão do AT”, diz ele, “Ágabo teria sido condenado como
falso profeta, porque em Atos 21.27-35 nenhuma de suas previsões é cumprida”. De
acordo com Grudem, o primeiro erro de Ágabo teria sido a sua previsão errada de quem
“amarraria” a Paulo. Ágabo dissera que seriam os judeus, quando na verdade foram os
romanos. O segundo erro de Ágabo, na análise de Grudem, foi ter se enganado quanto
ao fato de ter predito que os judeus “entregariam” Paulo nas mãos dos gentios quando
na verdade as autoridades romanas (gentios) o teriam tomado a força das mãos dos
judeus.
Pois bem, eu lamento que Wayne Grudem, na sua análise chegue a essa conclusão
desastrosa e totalmente divorciada do texto bíblico. A sua exegese simplesmente não se
sustenta dentro do contexto da teologia lucana registrada em Atos. Em primeiro lugar,
se Ágabo, de fato, tivesse errado ou mentido como sugeriu Grudem, Lucas que escreveu
o livro de Atos e acompanhou Paulo a partir de Atos 16.10, teria sido o primeiro a dizer
isso. Pelo contrário, não há nada na teologia lucana que sugira isso. A teologia
carismática de Lucas, como demonstrou Roger Stronstad, mostra que Ágabo está dentro
daquilo que foi profetizado na era messiânica – a restauração do Espírito profético na
era da igreja (STRONSTARD, Roger. The Prophethood of All Believers – a study in
Luke’s Charismatic Tehology. CPT Press, Cleveland, U.S.A, 2010). Lucas mostra
Ágabo, dentro da nova era messiânica, como um verdadeiro profeta do Senhor. A
acusação de que Ágabo se confundiu e errou ao trocar “judeus” por “romanos”,
simplesmente não se sustenta. O profeta previu a causa do aprisionamento de Paulo, o
que está claramente mostrado em Atos 21.27-30, que ele foi motivado pelos judeus. “E
quando os sete dias estavam quase a terminar, os judeus da Ásia, vendo-o no templo,
alvoroçaram todo o povo e lançaram mão dele” (Atos 21:27). Os judeus foram a causa
do aprisionamento de Paulo e o Espírito profético que estava sobre Ágabo viu com
antecipação esse fato. Se um juiz manda prender um marginal e o policial cumpre a
ordem, ninguém vai dizer que o policial prendeu o bandido, mas que o juiz fez isso. O
juiz foi a causa da prisão. Da mesma forma quem causou o aprisionamento de Paulo
foram os judeus e não os gentios. Grudem, que se apega a minúcias do texto grego,
quando tenta desacreditar o profeta Ágabo, deveria ter percebido que o termo grego
“agarraram” (gr. epiballô) usado em Atos 21.27,30, tem o sentido de “capturar”, “lançar
as mãos sobre” e é usado em relação aos judeus e não aos romanos.
O segundo suposto erro de Ágabo, na análise de Grudem, está nos detalhes do
cumprimento da profecia. Em vez de Paulo ter sido “entregue”, ele na verdade teria sido
“tomado” a força pelos gentios. Isso é confundir seis com meia dúzia. Grudem aqui
gasta muita tinta fazendo cruzamento de referências para mostrar que, levando-se em
conta esses detalhes, Ágabo errou redondamente. Um exemplo da profecia do Velho
Testamento resolve essa questão dos detalhes que acompanham aquilo que o cronista
registra em pronunciamento profético. A profecia possui uma essência, uma mensagem
principal, sendo que os detalhes não a contradizem. Vejamos o livro de 2 Reis 9.1-10.
Nesse texto, o profeta Eliseu chama um dos filhos dos profetas e manda-o entregar uma
profecia a Jeú, comandante das forças de Israel. Eliseu deu instruções detalhadas ao seu
discípulo dizendo que deveria levar um vaso de azeite e lá chegando, profetizar: “Assim
diz o Senhor: Ungi-te rei sobre Israel. Então, abre a porta, foge e não te detenhas” (2 Rs
9.3). Era só isso que o profeta mandou dizer. Mas veja os detalhes que são
acrescentados na entrega da profecia no versículo 6-10: “Então se levantou, entrou na
casa, e derramou o azeite sobre a sua cabeça, e disse: Assim diz o Senhor Deus de
Israel: Ungi-te rei sobre o povo do Senhor, sobre Israel. E ferirás a casa de Acabe, teu
senhor, para que eu vingue o sangue de meus servos, os profetas, e o sangue de todos os
servos do SENHOR, da mão de Jezabel. E toda a casa de Acabe perecerá; destruirei de
Acabe todo o homem, tanto o encerrado como o absolvido em Israel. Porque à casa de
Acabe hei de fazer como à casa de Jeroboão, filho de Nebate, e como à casa de Baasa,
filho de Aías. E os cães comerão a Jezabel no pedaço de campo de Jizreel; não haverá
quem a enterre. Então abriu a porta e fugiu” (2 Reis 9:6-10).
Se Paulo foi “entregue” ou “tomado a força” em nada muda a essência da profecia de
Ágabo da mesma forma que os detalhes da profecia do discípulo dos profetas em nada
destoou da profecia original que lhe foi entregue por Eliseu. A essência da profecia era
clara: Paulo será preso, como era clara a profecia de Eliseu: Deus ungiu a Jeú rei.
Ambas se cumpriram na íntegra! (Texto extraído do livro de minha autoria: Maravilhosa
Graça, CPAD, 2016).

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