Você está na página 1de 24

MEMÓRIAS ANCORADAS

EM CORPOS NEGROS
2a edição revista e ampliada

PONTIFtCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃo PAULO


Reitora: Anna Maria Marques Cintra
8/8L10TECA NGK. PUC:'$P

e<lu~
EDITORADAPUC-SP
11111/1111111111111111111 I11
100283411
Direção: Miguel Wady Chaia

Conselho Editorial
Anna Maria Marques Cintra (Presidente)
Cíbele Isaac Saad Rodrigues
Ladislau Dowbor Biblioteca
Mary Jane Paris Spink Nad\r Gouvêa Kfour\
PUC-SP
Maura Pardini Bicudo Véras
Norval Baitello Junior
Oswaldo Henrique Duek Marques ~A(jtJ~
Rosa Maria B. B. de Andrade Nery
Sonia Barbosa Camargo Igliori São Paulo
2014
© 2014. Maria Antonleta Antonnccl. Fui I'l'Ito ti d\'IH,~It" 1,·u.oI
I'

Antonacci, Maria Antonieta


Memórias ancoradas em corpos negros / Maria Antonieta Antonaccl. ) (.d, SIlO 11",01,,: Hduc,
2014.
382 p.; 23 em
Bibliografia.

ISBN 978-85-283-0476-3

1. Africanos - Diáspora, 2. Cultura - Brasil- Influências africanas. 3. Dança - África. 4. Música-


África. 5. Negros - Brasil- Canções e música - Influências africanas. 6. Literatura folclórica brasileira -
Brasil, Nordeste - Influências africanas. I. Título.
CDD 306.40981
398.109813
780.96
783.3196
784.50981

Direção
Miguel Wady Chaia

Produção Editorial
Sonia Montone N!=" -----
Preparação
Sirnéia Mello

Revisão
f~tJ~2~
I/ALO,\
ROCED
~ __
Wr!fJ1c,

Síméia Mello •... .'-'

~o~~~ Bebe! Nepomuceno

»
Editoraçàa Eletrônica
Gabrie! Moraes \

fo?J~J' Waldir Alves

~b }I\
Capa
Waldir Alves

Administração e Vendas
f)/) '))
o-'0Jt Ronaldo' Decicino

':A.osque aqui nos jogaram"

e<:hJt: - Editora PUC-SP Walter Calixto Ferreira, o Mestre Borel


Rua Monte Alegre, 984 Sala S16
05014-901 São Paulo SP
Tel./Fax: (11) 3670 8085
À memória de meus pais, Antonio e Suzana,
E-mail: educ@pucNp,h,'
Site: www.pucsp.br/cdu •. que aqui se encontraram e me cultivaram.
COLONIALlDADE DE CORPOS E SABERES:
ENSAIO SOBRE A DIÁSPORA
DO EUROCENTRADO'

Na contramão da modernidade global, reunimos vozes e imagens,


peiformances e literaturas insurgentes que vêm abalando o predomínio
norte ocidental com seus sistemas de avaliações e classificações. Enquanto
processo civilizatório, a modernidade capitalista europeia plantou seus
cânones em ilhas e continentes. Modernidade e colonialidade, face e
contra face de dinâmicas de expansão e dispersão de povos e culturas
nunca antes conectados, projetaram imaginários do ''homem europeu",
submetendo, a malhas administrativas de Estados nacionais, outras
histórias e memórias, línguas e escritas. Desvirtuando costumes e redes
simbólicas, agentes da ordem europeia usufruíram de corpos, ofícios e
saberes de povos estigmatizados como primitivos, bárbaros, atrasados.
Em" 501 anos cabeza abajo'" , a ciência e a razão iluminaram a moderni-
dade ocidental, encobrindo seu lado noturno, a colonialidade que expro-
priou e excluiu habitantes e habitares de Áfricas e Américas. Corpos e
tradições, racializados e discriminados enquanto fulcros de cognição e
socialização, ficaram invisíveis e ininteligíveis. Histórias locais, experiên-
cias vivenciadas e incrustadas no corpo - locus em que ficam codificadas
memórias, crenças, hábitos, ofícios transmitidos em compartilhados
rituais cotidianos - foram renegadas.

1 Versão apresentada no I Seminário Internacional Áfricas: historiografia e ensino de história,

Salvador e Florianópolis (2009).


2 Subtítulo de SUR, Mapa Mundi invertido que abre e compõe a capa de Lander (2005).
11

11 '1

f
I,
I " I li'!IIIA"III. ('ll.o\ll~llll
I t '111'l'~I " •." •• ,
t'

de POVII,.. I' t:llIlllI'l udflll'rtlM11.'(11\1111


Sem pensar quc lllllhnrCI:l 1\ 111'11111
SI' Ii f"ol'!.(IU capitalista raclallzn .' 111111111111/1\
i'()lIhcdlll(.ln10H, III.I/-IMI
de racionalidades etnocêntricas, 6 PONMlvl.1 IlIh"'I,.:II' 1'()I11corpos 1\ 11'11/11 fica comunicações, submete costumes " IHIIIM concepções de bem·,(IN1111\
ções vivas nas "dobras" da produção do Odd(\lIh', A16m de sil.~l1d(l'" I
torna-se indispensável questionar seus pressupostos, decoloniallznndo
preconceitos eurocêntricos ante Outros, apreende-se pulsares de cnllllh' cotidianos a partir dos que têm em corpos, línguas e expressões ()l"I {M
ções extraocidentais, reinventando modos de vida na contramão d •. ticas, âncoras de outras memórias e diferentes viveres.
nossas dicotomias. Sem viverem oposições disjuntivas cultura/natll1'('11I, Apreendendo funções sensíveis e cognitivas em corpos engendrndn
corpo/saberes, arte/vida, povos e culturas africanas," amerindias I' d. a realidades vividas, já foram valorizados sentidos e consciência corpórc:
suas díásporas, renovando-se diante de práticas imperiais, atravessarmu na perspectiva que não temos, mas somos um corpo que nos insere a 11111
a modernidade. Ainda que ignoradas e catalogadas como Índices de I'O~'II mundo imediato." Em outra dimensão, em clima de conflito, quando li
inferiores, artes e literaturas subestimadas" persistem em peiformal1Çt',~ I arte contribuía para minar o militarismo na Argentina, Sarlo sustentou
esparsos sinais vitais "entre-lugares", atualizando alteridades e espaços d. que "olhar politicamente a arte supõe descobrir fissuras no consolidado",
autonomia.
aguçando "a percepção das diferenças como qualidades alternatlvns."
Desde meados do século XX, acessando mídias mundiais, homens I Para essa crítica literária argentina, "trata-se de atentar no menos VIM{V!'I,
mulheres de culturas profanadas vêm sendo ouvidos, expondo intlm menos audível," trabalhando "ativamente em favor de rumores e csho~'o,
dades de agressões seculares e assumindo latências político-ideológica que podem ser a forma presente do futuro" (ibid. , pp. 60-61).
Abalando fronteiras e prejuízos, "ao subverterem a pauta do previslv('l" Neste ensaio, acompanhando configurações de poética e pollll('1I
suas reverberações estremecem "um passado que parecia definitivamo 11I1 decoloniais, interroga-se fundamentos do conhecer civilizatório. UMIIIlIln
organizado". Enquanto fontes de outros "materiais e perspectivnx", e rejeitando corpos e saberes de outros povos e culturas, a epistcmo
evidências de rebeldias inundam "olhos e ouvidos de artistas e intcler- logia eurocêntrica assumiu perfis excludentes que atingiram colonlzrulo
tuais sensíveis às diferenças e ao novo" (Sarlo, 1995, pp. 59-60), que V~1I1 e colonizadores em racialização dos Outros e de si mesmos. Enquanto os
interrogando colonialidades de seres, saberes e poderes. 5 desenraizados se renovam e questionam a ordem dominante desde NUiI,
experiências e sensibilidades históricas, abrindo para diferença colonial
e fazendo-se sentir em práticas e pensamentos Iuninares.' os senhores d.1
3 Diante de complexidades de universos africanos, partimos de aproximações a tradíçõcs .111
turais de Áfricas do Oeste, tendo presente, com Hampâté Bâ, que "quando se fala de "rndl Terra entram em crises no âmago de seus branqueados solos e COI'PO",
ção africana' jamais se pode generalizar". Além de apoio em autores africanos enraízad.» IhI Sentindo de onde vêm e por onde passam o racismo e o coloniallsmu,
costa atlântica, prestamos atenções como 1frica Remix: 1'art contcml'Oflll1l
a Museus e Exposições,
d 'un continent, Paris: Centre 2005; Arte da 1frica, Museu Etnol6gko .1,
Georges Pompidou,
Berlim, Rio de Janeiro: CCBB, 2004; La memoire du Conqo ; Tervuren: Musée Royal de I' A''t-Iqll
epistemológico de rompimento com a rnodernidade, advém de Walsh (2004). Cr. C6HII",.
Central, 2005; SOGOBO: Máscaras e marionetas do Mali, Lisboa: Museu Nacional de Etnololllll,
(2006); Lander (2005); Santos (2004) e Santos e Menezes (2009).
2005; A arte de curar em Africa: entre a tradição e a modernidade, Lisboa, Sociedade de Gcogt'III1"
6 Cf. Merleau-Ponty (1994), que insiste na p. 257: "O uso que um homem fará de seu (.011111
de Lisboa, Exposição e Ciclo de Conferi\ncias, 2005. Em 2004, participamos das diHCUNNI;.'~
I
transcendente em relação a esse corpo enquanto ser simplesmente biológico. ( ... ) NOHHO ('1)1pll
montagem do Museu Afro-Brasil de São Paulo, em equipe coordenada por Maria Lucia MOIIII'.,
sob curadoria do consagrado artista negro Emanoel Araujo. é inseparável de uma visão de mundo e é esta mesma visão realizada".

4 Em abre caminho a poéticas extraocidentais, cf. Gil e Risério (1988); Risério (1993 i' 19'1(,
7 A diferença colonial sinaliza subjetividades, conhecimentos, imaginários cxtraocldcntals, \/1.111
vez que "Pensar a partir da diferença colonial obriga-l1os a considerar com mais scrlcdlld.' \'HII,'
5 Colonialidade do poder, termo cunhado por Ambal Quijano, especifica o poder I1I0d.'I.,1I
tégias id('oI6gico-simbólicas" na contramão do mundo colonial, racial, moderno. Cl', GI"OHI'Ogtll"
colonial que se origina e expande desde América, sendo o,~,~UlT1ldocomo colol1lal1datl" j,tlll
(2009, pp. \% 197). Ultrapassando tdcín Ilnl'I1I' d,' d"HI1/lvolvlmcnto hIHIÓI"IrI), li Jwn~llIill'l\tll
bal por Walter Mignolo ao pensar derivações em tel"I11ÔHd., jl'llll""'" II Nnb("·"R II1IP(\f'Ii"~, 1'111
1\ 1111IIWHI11I)tempo
11mItIlI1, 1t111'1"'1\11IInHnrdesde tl·odl~·õ('H1\1(11'11111'11111111 d.1 I1l\lIhlll)lll tI.,IIIH,
dinâmicas e ressignificações local/global. Já dCCl)loI1IJlJdllllr, 1l101'hUlliI 1t1nvlnwllio 11H'II ÍlII I
('f' MII'IIIIIII ,'110 I, 1'. 107).
7
'I' '111"111'''1'1 ULCC",I

('01110Inlur uma língua, e111 pl'l"H'IH"II·III~\\idl.11,.111


t'OI,tllHh' d, "
os dcscrdados pCl\lHIIll l' ,lpOII«"" 'I!t· 1111.1""A,i jl IH1 dl'llllolll',llll ""11
"
(Castro, 2002, pp. 387-390)9, vai (Mil I d, .10111111,11'
seu léxlc
efeitos. Em lutas contra violênclas de ol\ld,'~'I\I'" f'I,.I"\lM"\'ullunliM, 1II'IIItlII
sendo "assumir uma cultura, suportar () pl~HOde uma civili'l,t\ç'flO'
e intelectuais do Terceiro Mundo têm leg,ltlo Id"III,.dt, dcmocrací ,
pois "todo idioma é um modo de pensar" - , Fanon alertou para pato·
emancipada, sem restrições de gênero, raça ou berço cultural que Ihdlll.\
logias dos que queriam ou se sentiam na premência de usarem Hnguns
acesso a bens como língua, escolarização e letramento dominantes.
estrangeiras. Nessa perspectiva, permite pensar que abalar a língua c seu
Assim, desde tradições vivas recalcadas "pelo pensamento mOdc.'I'1I11 regime oral ou escrito atinge o cerne do viver de povos, fragilizando sua,
ocidental", ao naturalizar o corpo e ignorar "categorias de pensar, aHIH'1I culturas, modos de ser e reconhecer a si mesmos.
tadas em línguas não-ocidentais (árabe, urdú, aymara, quéchua, swahlll, Criticando rupturas e oposições binárias da modernidade, com pel'lIo
bambara, wolof, russo, indú, nahuatl, tojolobal, criollo francês e ingl picácia, Fanon interferiu nos conflitos dos anos 1950. Denunciou O narcl
no Caribe, etc.)", tornou-se possível alcançar patrimônios orais sismo e a alienação de lutas pautadas na retórica das cores, advertindo:
peiformances contestatórias, banalizadas por representações eurocêntrtcn "O negro nao
- e., N em tampouco o b"ranco. D os sub"terraneos racis. t ali ( I

que importa romper. Pensar, viver, comunicar-se nessas e demais língu" impérios coloniais, desvendou embates corporais, mentais e epístcmo
lógicos na ânsia de posse e controle do diferente por parte dos COIOIlII',,\
desdenhadas, ainda que "insustentável na epistemologia ocidental",
dores. Diante de confrontações de raça alçadas por interesses e símbolo
conforme Mignolo, não significa que "tenham desaparecido ou morriclo"
do capitalismo ocidental, hoje, transmutado em globalização, Fanon I·
(Mignolo, 2006b, p. 20)8. Entre banimentos e distorções, sons, texto",
percebera que "a civilização branca e a cultura europeia impuseram 1\0
corpos dissonantes renovaram-se e suas heranças perduram entrelaçad,
negro um desvio existencial" (Fanon, 2008, P: 31), com agressões 1'1/011<'111',
a práticas culturais e conhecimentos dominantes que urge desconstrulr psíquicas, morais contestadas por rebeldias, artimanhas e írreverênc'lu« "
decolonializar.
seus poderes.
Ideias e percepções de Fanon alcançaram tal densidade ao r-ulr o
1. Por diferentes formas, em contínuos retornos, irrompem marct "esquema corporal" montado por seu "eu" ante o olhar bran
de "diferença colonial", necessidade reclamada por Frantz Fanon, médico ao mesmo tempo responsável pelo meu corpo, pela minha raça, Iwlo
psiquiatra da Martinica, que combateu o colonialismo e o racismo n meus ancestrais" (ibid., P: 84). Diante do desprezo de línguas e tnHIi~'ú"N,
Europa, África e Caribe, denunciando violências de uma civilização com o difícil exercício da diferença, que extravasa em desajustes, 1i,11l0"
abraçou a "descolonização mental", perspectiva que vem sendo rel()lIl,III11
que leva o Outro a viver como estranho, condenado e despersonalizaclo
em inúmeras experiências em Áfricas e Américas, levando a r('p~'II/lI\I
em sua morada. Seu protestar em Pele negra, máscaras brancas advém cl
imposição de línguas imperiais que descaracterizaram os colonizado nossa formação.
Em dinâmicas decoloniais, algumas trajetórias tornam-se cmhlvm:
em relação a seus corpos e tradições, atingindo o âmago de suas vida
ticas pelo que trazem à tona, como a de Ngugi wa Thiong'o, cstritol' do
comunitárias, "uma vez que falar é existir absolutamente para o outro"
(Fanon, 2008, p. 33).
9 Ao rornctor ao "caráter performado mais que dado do corpo", entre ptl"()~ nl'II'I(llrllll~ .I.,
Amo'/flllhl, ('''.11'11 destaca que seus corpos n50 s50 "pcn8od(J~ Mtlb tllllOtltl t1ojf"", "HI~ dllll-llll",
,,1'.111111111111
'1111 11"III1~\l'ução cultural do COI'jJO "o {'UI'IIIil humana" "1111"111111
.• \. ""111111111111
8 Ainda conforme Mignolo, lInguas c "relações cplstêrnlcns IlId(UI'nn~ rom o natureza", (11\111
povos amcríndíos, revelam cORmoltlgla~ 9LW fH\Q dlNNOrlUl11 \1111111.\I 1I.lllll'l'/n. 111I1'" .1,"1'" 11•• , '''I'''u
338 l'lIllt'iltINiAIIt:,IIW I jolt l"ftl'Cl\ ,.1
111

Quênía em luta 1>,\1\1 (ltI~' povos t' ('Olllllllld,lcl"1I di' 1'\ t'"IAnlllli f'I'I'qlll."tl'm /:Icr!lll,'l'ltlOIlg'O pcsquísou rit 1111111,
11111"'1111'11
tlllhllM ('/iOI\OIWI ('111('ulllu",
suas línguas locais, Em adeus ao ingl~/i! p"hllt'lIl1 f)ll('fllolll,\'/IIII 1/'1' 1/111101 ....nçõcs, provérbios, adivinhaçüoa I'\ll kllqtlll, 1I111'prCCIHkndo MI'I', 1'111
(1986), opção político-cultural pelo kikuio, NII" IIngul\ matcrun. ('1111111 situações limítrofes, que emergem 1'01"'\\/1t' vozes além de 110~'Üt'iId('
"tudo que passa pela língua torna-se condição necessária para elc!'I'!""", tradição pura, autêntica e nativa, I I ou reprodução do idêntico, Nt'NNI
lizat o espírito", Thiong' o investiu contra literaturas africanas em IIl1gtlll procedimento entrou em contato com um "renas cimento de tradh,'t)t'M
europeias, que "inventaram as bases do vocabulário e da sil)1hlllo)~I,1 orais, mais pulsantes que nunca", assumindo:
racista" (Thiong'o, 2011, P: 145), Enquanto leitor de Fanon e 11('nl.,/
ideólogo do nacionalismo que no espírito da língua do "povo" "h'lIlilll Nossa maior audácia consistiu em reivindicar para literaturas orais um lugar em prln1tllt
vinculou nação e literatura -, desde o título do manifesto de "rl/pt 111 plano. As tradições orais são ricas e variadas. Sua frequência poderá inspirar novos prou

epistemológica" com seu passado de "literatura afro-europeía", n (1'1111 dimentos e encorajar a experimentação de novas formas. O ensino de literatum 01,11

riência de Thiong' o descortina contradições do decolonializar em (~I' completa, sem substituir, o da literatura africana moderna. Fiel àquela herança, a I1ClVil
teme do Ocidente, literatura poderá se abrir a outras ideias e formas sem perder suas raizes. (Thlol1l!'(',

20 I I, pp. 145-147)
Nessa equação crucial, Anthony Appiah, filósofo de Gana, alerta "'lt/
a descolonização ideológica está destinada a fracassar, se negligendlll'
Esse apontar vigorosas mediações tradição/modernidade em Il'I'/11I1
'tradição' endógena ou as ideias 'ocidentais' exógenas," Considcruudn
de expressões literárias africanas, com virtuais caminhos em IItH\M 11";1111
impossível desprezar que "intelectuais do Terceiro Mundo são produto dfl

encontro histórico com o Ocidente" (Appiah, 1997, pp, 13 e 105),1(1'1"' duas mil línguas locais (cf, Caron, 2008), revela fraturas que estudo!4 ('111
torno da língua, seus conceitos, vocábulos e ideárío vêm trazendo ,\ 1111
inventou as Áfricas e Américas, Appiah insiste na "natureza problcmát 11 "
dessa questão, que remete a discussões do polêmico postcoloniaJ S(II(//('I,II
Na esteira de Fanon, no sentido de que, "cada língua forja uma vl~ilO d

Mas além de questões acadêmicas, em insurgência à dualidade l'(1I1'1I


mundo" diferente, filósofos africanos têm aberto "alternativas a l'I>IIHI'tlll
e espírito, Thiong' o defendeu falares locais e abraçou heranças \\1'11 ocidental" enfrentand? desafios de "escapar a ordem de seu clIN(,III'/ltI"

canas latentes em tradições orais no Quênia, Sem pensar tradição ;\11I1'i (Mangeon, 2010, pp, 124-137), como a tradições filosóficas e/i('/'!tn",

a dinâmicas históricas e culturais, interagindo com formações 111 em direção a um "Philosopher en Afrique" (Revista Critique, 20 I 1),11
rárias na oralidade da língua kikuio, esse escritor registrou que tallt Paradox~lmente, o limite a tal campo filosófico reside na extensão d(
dores "interpretaram cantos tradicionais impondo mudanças o 1111,' línguas faladas no mundo negro, sem deixar de sinalizar o potcncínl dI

línguas, renovando e revigorando-as,. injetando novas palavra", pesquisas que prenunciam díásporas do eurocentrado,
sões inéditas, habituando-se a dar conta das novas transformações I1 Formados em universidades e línguas europeias, filósofos af'ri(',1I111
África e do mundo" (Thiong' o, 2011, P: 52),12 Para respaldar sua 11(, analisam a lógica do oral diante da razão gréiflca, engajados na ('()/l('()1I1i
tância de processos de deconstrução e decolonialidade da cpiSI~'l1l11l()lf"l

10 Nessa passagem remete li reflexões da intelectual indiana Spivak (2010), que npfllllllll ~'I (
"intelectual" produto de uma determinada formação social. ancorando-se "no 'teatro do oprimido' de Augusto Boal", o qu<.' foz lcmhrur aJlr'()1tllll.I\'III'~ ('11111
\I Sobre "este rio de múltiplos afluentes", com suas tel1d~l1cln~, dlv,'r'g~ndl'N (' 1'll'\('f'oj.!i',"ldluli cineasta ~('rll'gnl~N Ousrnanc Scmbenc e Glaubcr Rocha, e rcvcln o pr('f11~"d\l cli' ""1\11111.1'111
de lugares, acentuando vertentes do cult ura! nudk» 1}I'1tRlllro~, '!1!I"/lrllI I/lrt//r.! IlIlIhIlIO.' I"'" ,Irculto" Arr 11,1./llr,lHII para além de "rotas da ('srrnvld:lo",
-colonial studtes norte -amerlcanoa, "r.
Ihyllrl ('0 IO), 1I Sohl'l' "I"II,ldll. IlIlIh(~\I()H do Il1v('''~':I'tI\,olollh,1 daR tr',I\II\',i,'~", v."' It11flW'1(II/H'I),
12 Acornpanhnndn ('H('r'It",'.,~ "l'drllfHIH '1UI', c1"Hlh' I1 IU111II'/H IIIH/ "li I) 11{I" 10,(I'P,J 11111.:;n. I~ 11\1/111.
.11,,111 011" '111. ti.' "11('/11)\,'0/'111r'" 11111",,1(1"
111',11',11'11"rl/IH1'\ IA, "111,1',,1"111(11111
dll 11""., 11
produ:t.hllll ,'f't, 1I111:1I11~101'1;lH,111'1111'I"I!' I'.' fI'\'1'1 I"'~'I~ di 10,.11111101 ~I~IIIII dl ••dl 1111"1. (1011 )
o 1111111111
111'1"I )1"''''CIIIA 1_11
111JlII 111I1 iIc,ALcI~ "lI

domínante. II\HllddOM "111V'·I·t('l\tw~ dCIfllClMIIIIII .;dl!.';c, IclI"I'1I11I NIIII dilJllil


>lI"pllll'l_
PCI'/ip,·(·t!V,'II\·1I1 rivoma, conformo () 1'0"1,1 hl'"hlt'd (;lINHQlll,"1
pertença, produzindo pcnHamcntoM IlltlIIHlIII,.(K ""111 (~I'lllldvll\lX, ?() l l,
versa!", ('!lnforme proposições d~' 1"IItH) Illlwrlcanos com Ramon
p. 617).15 Seus procedimentos vêm lcvautm« lu jlllIl,I"IIl\INeundcn h\N, ('Cllllfl Grosfogucl, Walter Mignolo e outros,
aponta Kwasi Wiredu, filósofo de Gana, qm', tlHltlllolHloldclas e <1".111111
Em abertura a práticas fronteiriças, liminares, Bidima aponta aborda-
conceitual akan, chegou a impasses na vontade de romper com o mio gens em "travessia" entre heranças africanas e ocidentais, fazendo lembrar
nialismo mental em direção à produção de convincente filosofia al'rknlhl, reflexões de Ben Oguah, no sentido de "que o material para refletir
Diante de dificuldades para traduzir, em termos filosófl.cos ocidcntu .." sobre certos problemas perenes na filosofia ocidental se acha disponível
línguas e valores locais, sentindo "ameaças de desafricanização menr.il, no vocabulário conceitual fanti" (Appiah, 1997, P: 141). Ou recepção a
salvo recorrer de maneira voluntarista às próprias línguas", declarou H' tradições filosóficas ocidentais via leituras de filósofos africanos, como
"por de colonização conceitual na filosofia africana". Manthia Diawara saudando "ler Foucault por intermédio de Mudimbc"
(Kodjo-Grandvaux, 2011, P: 620). Ou, ainda, em direção à "historicidacl
Por decolonização conceitual, entendo dois gestos complementares, De uma parte, (, ) da Razão em África", trabalhada por "filósofos sul-africanos que recupl.'-
uma tomada de consciência crítica à assimilação mental inconsciente de quadros COIH 1,1 raram elementos da tradição africana bantofone para extrair a noção d
tuais de pensar subjacentes às filosofias estrangeiras que tiveram impacto sobre a vldll Ubuntu, indicando ética de experiência vivida" (Bidima, 2011, p. 677).17
o pensar africanos, E na versão positiva, explorar com discernimento recursos de nO!,',11
São desdobramentos vitais, em termos de conhecimentos e laços
próprios esquemas conceituais nativos, (Wiredu apud Jeffers, 20 11, pp, 643-644)
de pertença a partir da língua, também em discussão nas Amóricn»,
conforme Mignolo em texto sobre circuitos de colonialidade e plurl-
Sem querer perder mais tempo a discutir como "filosofar em lingll.\
-versatilidade epistêmica.
de uma colonização a criticar", o também filósofo africano jenu
-Godefroy Bidima, titular da Universidade de Tulane (EUA), aHslI1111 li A "ciência" (conhecimento e sabedoria) não pode ser separada da Ifngua; as Ifngu
romper com pretensões de controlar exercícios filosóficos em Árl'I.'1I não são meros fenômenos "culturais" em que os povos encontram a sua "identldade":
de hoje. Em elenco de nove questões que mobilizam seu campo li são também o lugar em que o conhecimento está inscrito, E, uma vez que as Ifngull'

discussão, destaca-se suas atenções a "relações indivíduo / comunida<fl>" c ,


não são algo que os seres humanos têm, mas algo que os seres humanos são, a Colol11n
lidade do poder e do saber veio a gerar a colonialidade do ser, (Mignolo, 2004, p, 669)
"escrita / oralidade: questão que comporta o estatuto da oralidadc f:H'1' •
scrita - como redefinir a noção de texto, seu tecido e sua teccdurn 1'111
Extravasando muros e banimentos, além de restrições do "carnavnl
]'egime de oralidade?" (Bidima, 2011, p. 674). Discussões nevrálgiCON'1\11
acadêmico" - no dizer de Bayart, reivindicando atenções a coníllto
permitem a Bidima superar a "filiação vertical" por "filiação diagOlIlII",
de ruas em Paris, em 2005,18 -, crises sistêmicas de saturação capltu
'm direção a "universal lateral". Nesse sentido, seu pensar artlculn ~,•• 1
lista, depredações em antigas metrópoles ou novas cidadelas da OI"(il'111

imperial, abismos culturais e mobilizações mundias persistem om


1\ nlll 1'~'lrtçii() ti "urna mancirn de pensar que não c
Inspirada em suas pr6pdn~ lIutllil\ nl atos e vozes com significados locais, transmitidos pelos mais recente
I' 1'~iI pl't\II\lltlO domlnar c humllhal', [produztnclo] pensar que, por ser unIVl'I'Hnhl1C'lllI' III,I!
HIIIIII I' Ij'oWTIlIlIlnl'lo, lIí1'U I' ctnoeldu", ver Mtgnl,lo (2003, p, 104, em dl611)go "0111 "ltlllllll,
IIIH I), 'l\ll1lhl<111 IIlIM Ol'l\'H, d('Hd(' Hunll rlill';l'N o I)1W'ndnM, 01'11"1011 d" 'l'i'I'I'I'lm Mlllldo 1'~l'nl 111 16 Ver 1'01('11\11'11
<li' Dolcuzc c Guatarri por Glissant.
I"II"d"xlI~ dll IIIHI'I\'licll1odlllHd/j.ll'llllll, 1111"xIHlMI\'l'Io 1',,1 ,hlll' 11111111/1'1,1111111/
di' 111111111'1\
1'11111111111 1750111'1' 1/1"1111/1,11I1I1'1·ItO éuco e categoria cplMtecnnl6glcn do pOnM~IÍWIIIII 111111111,
VI'I' HI\IIII1"1
I'ill' 1""I'I'ItIIlI' IIl1kl\I'. 11111I1í\~1111I
IllId" 11/1~"í1Ic11l I'"MMIIIIII, ('I', 1'111111.01,I" 1'1111;'1)1I1'{'11(1'1111., (2()()!1)1 M~~IIi" (.I(lOI/), l lnuntond]! (19%) o Mudlmhc (I ()~H),
1111111.111011 '1'111,11,)() 11),
1M('I', ,,"1,1 111
342 ~lIl'iCll\IM"'IIi:('IV-'-'M 1II t'-'I\I;L'~ 11I':.\IfI 11\ ! ("'I". ,'"
I' '111"111'''111

meios tecnológtcos de nrn~gimenlol~'(\o 'o ((Ilillllll, .\\'\11, nUl dll"illlll SI"I" plllil\'l'.IHfazem lembrar o IlllrMi<'o101\1110)
PI'I., AIIl1utl.1I
11 I 1\111

impressas no próprio corpo, com SOtlHIl III(Oílllll(~MI'I'lIt(\1i que utlllzou Meu corpo e música como tll'n'III1pUI'a 111
ruas e praças, construindo canais de solidol'llod:Hllo111('111
de :lHHl·n,hll'l.hj t6rio livre - a "República Popular de Kalakuta'r" ,~'1I1(,,,11'1'0dI' 1,lIgcl",
partidos políticos ou associações, povos C grupos subaltcrnlzadua 1111 nos anos 1970, Ao reagir à produção americana cito seu c1lN('() "A"1I1
Áfricas, Américas, Europa, Oriente Médio têm engendrado dramát 1\" arrangements", Fela Kuti revelou angústias e pensares a semelhança di
e violentos protestos, encaminhando reivindicações por legltlrllldudl Hamidou Kane, emitindo sentidos da música africana em Imaglonli qll(~
de seus direitos civis, suas terras e suas crenças, como reconh(.·('IIIII;III!" ecoam na escrita do escritor senegalês:
público internacional de suas mem6rias, lutas e histórias.
o que fizeram a meu disco? Os produtores não compreenderam, eles deSllulld'll o
2. Para rastrear sinais mais longínquos desse abismo cultural, 1'11 conceito africano de música. ( ... ) assim destroem a história africana. Como
o que eu digo com meu sax? Será que sabem que a Ilngua africana é um cantol III Iliill
expressões além de rebeldias "politicamente corretas", são V\l1l1l~\I
estudos sem recortes disciplinares, como intervenções de músicos, 1'1111 toco somente música, eu digo coisas, eu falo. Os africanos, quando escutam a múslr" t'"1
Lagos, cantam com os solos, colocam palavras sobre os solos. (Seck e Clelioulllc, I ')!II"
astas, dramaturgos e outros artistas que sustentaram e renovaram 11111
r
pp.81-82)
tivas e estéticas na contramão de cânones ocidentais. No interdiaclpllnut
e intertextual, vislumbram-se testemunhos imprevisíveis, (rC)Mlglllfl
Chamando atenção para fazer musical em ínterconexão ('I)fPO I
cações e contestações que mesmo insulares, desalojam conhecinu-utu
instrumento sonoros, reagiu à banalização de sua arte como dn hlHl/lIl1I
continentais engessados e fechados em si mesmos.
africana dissociada de suas linguagens. Em cultura do ou vir, l'OIh" tllll
Nesse sentido, importa a contundência do escritor senegalês ('lI!
palavras, ritmos, gestos e tonalidades a mensagens traduzklas, 11111'1111
Hamidou Kane, rompendo trinta anos de constrangimentos apóH 'U'II
diano, por grupos que têm no corpo força decisiva para mediar 1111111'''\
autobiográfico Aventura ambígua - onde avaliou a ausência de \lcl 1111I
1
gens e contornar dispositivos de poderes orientados a descnlacvs dI' "1'11
negro" no substituir canhões por escolas coloniais (Kane, 1984)1 ) .Ihll.l
viveres, Em "totalidade de organização cínética"," músicos, COl'l·(,g"ldt.".
ressaltar sentido de gliôs em sociedades africanas, entrelaçando m!..'dlclIlI
artesãos de sons, em vibrantes mobilizações, desde muito dispOI'"1 d,
de linguagens guardiãs de mem6rias:
suas virtuosidades artísticas, produzindo criativas ações e repn'lIl'lIh'~'11I
No silêncio cavaram grutas de ritmos, relâmpagos luminosos de guitarra, profui1(I\I~ vI11 a partir de seus universos, pluralizando vozes e sujeitos na polltll'll.
de lendas. Durante milênios, antes que o fio da escrita intemamente e por todos 0\ 1,111"
costurasse o mundo negro a si mesmo, os griôs, por meio da voz e dos insln.JJIII1III••
20 Kalakuta quer dizer proscrito, amaldiçoado. Após um mês, a República l'tll dl'Hlniltl" 1" I"
que imaginaram, foram os demiurgos que construíram esse mundo e suas tcstOlllllll1r governo da Nigéria; Fela foi torturado, sua mãe morreu; tempos depois refez M('U 1'"lhl~'1Id,
(Kane apud Barry, 200 I, p. 5) autonomia, com novas prisões e detonações. Cf. Moore (2011).
21 "Da mesma forma que encontramos mais de um centro de movimento na dOI\\'.1 .,1'1'11.111."
11
músico não produz apenas sons" na "totalidade da organização cínéuca da prOd\l\11I1 11111"".,1".
19 Diante da tensão escola ocidental versus herança africana, meditou: "Pois os l'c..:6nH'III'l:t"dr •• onde "conceitos e padrões são comuns à música e à dança", cf. Kubik (1981, pp. <)() I) I),
se sabiam matar com eficiência, também sabiam curar com arte. (. .. ) A ('Nl,;ol" 1I1()(h'llI~ "'111 22 Ações pl1l1t"'~~ em shows musicais, como SO WHY 7, concerto em ParlH/ I <)9(" 1"y,"I •• 1\ 11111
partilhava ao mesmo tempo da natureza do canhão to da f()r~" .I" 1,11.,\.tn do I1m1. M.II. ti 1111111 flítos ('111AI''''''~ (IIravado por Papa Wenda, Lourdes Ven-Duncm, YUU~H()UN'tllllll. 111.~
canhão, 3 escola moderno p{'r(',Ii~1I n t'ollCllIlillo, O (',111111111 .11111111111
11. 1111 fi"".
I1 1'","I~ 111 Duhc); 11111111 C '11I1', 1111 1rr1ca Live, ol'ganl~ado pOI' YOUHHOU N'Dour "111('I)Il\IMlr .\ 11I111,'111,1(1:1"
netiza as almas'', Soh,'(' o "dOlll 'W/{I,,,II Illl~ 111t'1II(ldIlN.1,0 11,'1111,11111
~ 11111'.d', M,IlIj.(I'"11 (.11I111. YIIII" "111 I IVII 111. IIII//Il11rk Malar/o Cnlln'rl; ,OOS); Show Q!liflltl/ rlt' S~fIIl)" 111I,.11
li. dlrlj,lldll 1'"'

pp. l!l~ I HH). I'llItI" 11"" 4'''' tll" d,,~ 1!"1'1'''''~ "111 AII!(llhl, JOOlj tlll {'Il~. (""rl" d" Wl ••t" dI :'kllgltlll. Y'"111
344 ~1I1,Cllil

Festas, celchl'\\~'iH'II,11'1\11'0,
li dll\'lIlI\ l'lIl li' "ri 11.11111" 111d"lrll/l gllnhÍ\11I
'I
DlagIl1', 11111""1'0 da Universidade de I).,k.lI" I )Iagllt' .'p,·",."d,." n "lIlgka
sentido em seus horlzontca, em cscuin ti polllh ,lIllel" do oral" dllll'lItindo a "razão gráfica" de A 16BlcO JrJ C,I'cr/lel, do ,1111
I'opllI<1\10
descartados e folclorízados. inglês Jack Goody, que chegou a essa denomjnação analisando altl'I',\I,'Ú"r
No mesmo sentido, o cineasta e dramaturgo nigcrlao(), 011, I\\IllIglIlI na sociedade, língua, religião com o advento da escrita, suas <':o\1di~'()l'N
di'
ao analisar formas e sentidos de manifestações artísticas l'lIl i'VI'1I1" exercício, suportes e fundamentos em direção à racionalidadc do ('()I\h"
africanos, reforça que desde "a arte dos contadores de hístórtaa 11',111111
•• cimento científico (Goody, 1987, 1996, 1997).
nais" até danças, rituais, festas e festivais, interagem "um COIlJlIlIIII"lll" Articulando oralidade ao pulsar de filosofias em Áfricas
complexo ( ... ), misturando música e danças a exibições O1as('\\I.III., em suportes de produção e transmissão de ofícios e valores em s
cânticos poéticos", abarcando grandes acontecimentos. Accntuandu 11" africanas, Diagne abriu caminho à arqueologia de saberes e memórl.u
"encontramo-nos aqui em presença de uma arte cujo objetivo ('11/'1('1111.,1 da oralidade. Ressaltou que em "cultura oral são produzidos fenômeno
consiste em servir de veículo às manifestações coletivas de limo VI'I'II~I' remarcáveis, ausentes ou sem a mesma função em cultura escrita," sendo
ou de um ritual sagrado," alerta para "raramente serem praticados ('11111
I' enfático: "A dramatização não é envelope formal e redundante, 6 SlIpOI'!t'
único fim de divertir" (Balogun, 1977, pp. 44-45). pedagógico adaptado ao contexto oral" (Diagne, 2005, P: 160).
Combinando peiformances a outros elementos de expressão c (,()l\llIlIi A própria construção do memorável em torno de Brande,l' IImlll',\

cação, encontros como dos Sonianke remetem a vivências com todoll " e Brandes ações, arrancados ao contingente pelo mito, conto 011
sentidos de experimentação sensorial, advindas da participação c epopéia, "dita valores e antivalores do grupo social", uma VC'I. <lil\' "o
de comunidades sem nenhuma preocupação de representação OU ."Ir,,1 recurso frequente a imagens e metáforas, a mise en scêne sob {'O r I1111 lli
ração distante e silenciosa. No clímax, libertam-se "miríades" de rlt 11 til história, libera enunciados a reter" no arquivo. Ante sistemas de 1'/lfllI

cores, formas, vibrações, expressando a "presença de uma realidade ('''11 ciabilidade, estudados por Foucault em Aroueologia do Saber (I %1),
ritual superior, (... ) constituindo um daqueles momentos de supn'lllI Diagne aponta para condições de enunciação na lógica oral, cstrut 1Il'illh\
comunhão entre o presente e o passado do clã, entre as dimensões 111011
I.' em protocolos alheios à lógica da escrita ocidental (Diagne, 2011,
riais e espirituais da sua existência" (ibid., pp. 83-84).24 pp. 629-638). Produzida no fazer-se do jato, em perspectiva qlll
Tal dramatização, teatralização;" inerente à aprendizagem não há um fato em si mesmo, isolado de relações histórica e cultural
veiculação de saberes em culturas sob a lógica do oral - qUl' i'sl I II mente vividas, a pedagogia do saber oral detém-se em procedimentos ,
turam e transmitem memórias em arquivo vivo sem utilizar ou ('011'1111" recursos do jeito, questionando o cerne do arquivo ocidental que irmOI'!)11
uso marginal do suporte escrito -, habitam preocupações de Malll1HHIIH a arqueologia da VOZ.26
Tratando do patrimônio oral de contos a provérbios, cnigrnllll t
llt
Codou Sene & Youssou N' Dour, Yoices irom the heart l'Africaj Baaba Maal. Mi Yccwnllj Y"U •• ""
adivinhações, transmitidos e mantidos com técnicas próprias, Dhlg
N'Dour. The Lion, e incontáveis outros músicos, refere-se a estratégias cognitivas que denomina "astúcias da razão 01'."".
23 Sobre festas e celebrações negras no Caribe e Brasil, cf. Nepomuceno (2011)j suh" 1";1111 manifestas na utilização de rodeios simbólicos, imagens e estratng('III.\
negro, ver Moracen (2004),
performáticos que conduzem a "saber profundo, mas oculto", no sl.'lItldo
24 Analisou formas, sentidos e conteúdos de artes africanas, detendo-se no Niger, ourk- clI'.c. li
dentes de Sonni Ali Ber, soberano Shongai, ainda realizam a danço dlll~1 dos Soníanke.
25 Entendendo que "no incessante discurso que faz de si mesma, I' HllI'h·tI~dc' IW\'I'IMIIdc. l"cllI_ .1
vozes portadoras de mensagens arrancadas ItCC'OR[{O 1hlll' 1'111)11)\)
di) ~cllllt~IIII", /.1\111 IlIC'I'~,III1'.11, 26 Sobre ti desprezo da voz no (klcl"III1'. !c'lIdo "a hlst6da da metnff81ca como uma d"lIvllntll
d,'II'loI", 11111I1\'IIN,clIII,"h·\'1'11.·"1
"presença da voz" cu]a "rnanlf'('HI\lç':io rnolN 1'('vt'lod()r~ (', 111'111 :tn~'~1Idll/oll/ll dI' 1'11I1~1)O 1)(01',1,1.,",,I 1\IV.lIll'lI (1011); GIiMMout(2005)j llnvl·llI\'k (IC)%).
dadc daquilo quc nós dCHIRnoll1olllwlo 1r-r 1110 IlIl1hlU"1Ili. ,.,1'10'" 1'1 :111\1111111 (I'}'f/, li ',I,) í',lIIlllh.1I (I "'1'/)
346 MEMÓRIAS ANCORADAS EM CORPOS NEGROS DECOLONIALlDADE DE CORPOS ~ SABI RI ~. I NVlU ",I lI"'1 A I JIA',I'OIVl 1)( J 1I/ll(lI; Illll\A11I

de não divulgado. Sem se tornar público - o que estaria além de valores conexão a movimentos anatômicos - entalhados em máscaras, l'N(,1I1

e técnicas de culturas orais -, conduz ao adágio de Hampâté Bâ (1982, turas, literaturas orais -, artes africanas asseguraram sua cntrad. 1'111

p. 171): "Na África, um velho que morre é uma biblioteca que queima". ateliês e mercado de artes europeu, sem seus conhecimentos c g"Olwo
Entre "modos de arquivamento que concernem ao escrito e ao oral, à
logia conquistarem status no campo epistemológico do Ocidente.
publicidade e ao secreto" - ou sagrado, para "preservar a palavra dos
Com mais propriedade se reconhece que, de memórias lmpressaa 1111
riscos de alteração que poderiam acarretar repercussões fatais sobre
morfologia e dinâmica de corpos negros, fluem arquivos vivo.\' de MalH'
a ordem que ela instaura" (Diagne, 2005, p. 13) -, filósofos africanos
doria africana. E questionando reducionismos que veem artes arrieo".\,
situam premência de paradigmas decoloniais para entender Áfricas e suas
diásporas. como "relíquias do passado", 29 surpreende-se em corpos negros histlH'll\r

Questão urgente também em termos de documento/monumentos de Áfricas e suas diásporas espalhando arco de saberes e filosofia poli til 'i\

históricos, pois além de "arte narrativa", outras artes e funções diferen- africanas nas margens do Atlântico.
ciam sabedoria africana. Capacidades e habilidades sensoriais, como o O escritor nigeriano Esiaba Irobi já considerou que africanos "liolll't
próprio ser e criatividade da lógica oral, ainda emergem em configura- viveram à travessia do Atlântico trazendo consigo escritas pCifOrl/ltll/rcl''',
ções plásticas com que escultores talham máscaras e estátuas, de ond
utilizando seus corpos como ferramentas para interrogar a hcg('J)1011
ill dll
irrompem locus de saberes e valores. Manthia Diawara, professor de lite-
Ocidente. Como a "ontologia da maioria dos povos africanos l' 1'1'1111111
ratura e cinema africanos, analisando figura religiosa fang do século XIX,
dialmente espiritual, o corpo físico incorpora, em certo nível, Id,hllll
leiloada em Paris, em 1966, por alto valor, menciona como aquela "escul-
tura marca o espaço e o tempo" com "movimentos do corpo em ritmos memoriais [em que] atividades funcionais são inventadas e 1'1',\111'1\111''',''
contrastantes", concluindo ser essa expressão de arte africana "uma obra Nessa perspectiva, enquanto "centro de percepção e expressão I /wln 1'11411'11

arquitetônica que estabelece relações rítmicas em suas diversas parte/'! ou transcendental," lrobi lê o corpo africano como "receptáculo HlllIllO

(... ) com corpo perfeitamente delineado e, por isso, superior" (Diawar .•, lico e expressivo", manifestando-se "por meio do gesto, da múalcn I' dll

1998, no site artafrica.info). 27


dança" (Irobi, 2012, p. 276).
Como o conjunto de palavras e imagens construído em regime de
Enquanto construções culturais em movimento, corpos I\l'gt'()
oralidade é "fabricado" no corpo humano, foi com singular conhecimento
tornam-se sensíveis em conjugações de linguagens e lugares de mcmórl«
físico e psíquico do corpo, de sua estrutura biológica, ânimo e funções,
como revela a trajetória do cineasta senegalês Sembene Ousmaru-, 1\111'
que expressões artísticas de sociedades tradicionais africanas continuam
valorizadas. De saberes sobre órgãos do corpo que enunciam a voz" em traduziu tradições orais para cinematografia africana desde a indl'IH'1I

dência do Senegal, em 1960. Com diálogos em wolof - língua d" Arl k.1
do Oeste -, encenou oralidades nos primeiros filmes africanos em lilll'tlll
27 Vale retomar Kubik (1981), que utilizou o termo policêntrico para diferenciar o corpo afrk,11I1I
em ato de dançar. "Atitude corporal" que encontra na música e na dança do povos africanos. local, como Le Mandat (1968) eXala (1974), quando verteu sua \lh'I.1
28 Articulada nas vísceras, tecida na laringe e cordas vocais, associado ao sopro C rc~plr,,~·.\II,
tornando-se verbo na cavidade bucal, "a palavra é 'fabrlcada' no ('OIPU humano, de ondo I'c,th"
tura afro-curopcia (1966 e 1973) para o cinema c intcrauiu com l!I'iuld\

'substâncias' que a compõem láguo, terra, fogo, ar]", S\lhn' O"pllll'I'"~O d,I (\fnl~"~() dn p"I'\I'I.,·
entre os dogons c os bambnr» cio Mall, .'(1111d.,tnlhanWIIIII dI, "'11\111 di' III'lI.To" 1111<'11I".dll
corpo It "boca c S('UN <111""'1'1111'" .I,
IIIJ.!.III~(j.!III'j.!II'"IIII",1I11~lh\, 1111'.)",1111I11
",,"'''VIII ." ,'.t,"tl'"' li, Ali ,'', ti" IIII",~"III,. \\'I~I Wltlihl tlllIl1ll' "11\\11.t'.!1I •• '11 t'IW IldOl",1011111dll "I":'uh o" 11,-."
••1.1..1
e torna "~('IhIU''''I!IIII, I I' (',,11111111;,1.,,11, (Jt)O I, 1'1' t.~ 1.1.) 1111".(''1111t1 I' li, I' ;11111, I' t..t I,)
1", .•1·" 1'1{ (li' ItllA1I1IAIli Ili I ( 11(/'11'01.
fiAIIII'I.S·111'j!.I'H'. "'I·' "I IIA',I'tli••.•.1111I 1111111
I I III••.•.
nl

público, Ao v(,lndlll' l'O1l1 l'l'('IIl'NClN 1IIIuglll di'


Illhlgt',tllYIII1'111111 jjj'j I~II
l'l'Odll",lndo cinema em "escuta de si />1'<>1'1'10", lutando pOl' dll'\·lIo
populares afHcanoli, seul! IIlml'S (,'xpnndll,tllll 1',llh'lllI vololl!"I" \'11111111,1 a imagens que habitam gêneros orais, Sembene recusou parâmctro«
em circuitos boca a ouvidos, captadas em SUOí! c ol'll.:lwl. 11I
l1l1dl\Il~'''M da Nouvelle Vague, Em opção por cinematografias alternativas, como do
Sob respaldo de padrões próprios de comunicação entre VIV"I' Cinema Novo no Brasil, em seus enquadramentos e teatralidade, dialogou
abalados pelo colonialismo, estruturando filmes no uso d.. com imagens de Glauber Rocha (Colloque sur litterature et esthetique 110E/1'O

conforme herança de mídias orais, Sernbene projetou "estétíce -cifricaines, 1979), em sua crítica ao colonialismo e respaldo em tradl-
tência", causando estranheza a críticos ocidentais que ignoram o ('"III,dlll ções orais afro-brasileiras. Conforme estudioso dessas trocas atlântlcas, n
simbólico e comunitário de corpos negros (Shohat eStam, )00". oralidade foi "polo imantador da estética de ambos" (Souza, 2012),11
P: 407),31 Com saber-fazer alcançado em estágio no Stuclio (;,"~I Cabe ressaltar que, em balanço da cinematografia em África cio

(Moscou), encenou pulsações e gestuais africanos em narratlvns 1',IIt1 Oeste, Diawara reforça o vigor da conjugação cinema, conto, oralldach-,
acentuando:
timbres e tons de língua falada, atingindo "eloqüência po 1If'l\11I111'
onde "a função da voz é sublinhada e a atenção do olhar volta-se 1"""
A descoberta de Sembene consistiu na possibilidade de usar o cinema para roM111l1t
a palavra" (Busch e Annas, 2009, P: 134),32 Palavras de imngluilllll à África sua dignidade, do mesmo modo como havia sido utilizado por colonlnlhl'l' I
proverbial wolof, usadas como recurso linguístico em contextos 1'1101'
I! racistas para destruir a imagem do povo negro, (Diawara, 2007, p, 64)
marcados por impasses entre ordem tradicional versus desordem colunlul
Em entrevista a Correio da Unesco, testemunhou como saJvaglHll'dlll1 Ao avaliar atuais cineastas da África do Oeste, Diawara valoriza "dl'/H'O

tradições locais: berta do estilo narrativo griótico", arte de narrar" que permite ,',1('1'
nação "com gestos estilizados e a utilização de palavras como armua",
Um cineasta africano, produzindo para o cinema, ou seja, atuando no mUlldll ti não só por alcançarem amplo público, como por deixarem "espcctadorv
imagem, possui uma herança muito antiga, mas sempre viva: a orafidade. (. .) I> fascinados com as formas sofisticadas de línguas mandinga e bamba r n, cln
forma, na tradição africana o cinema é uma realidade de envolver todo o homem, ( quais os griôs são considerados guardiões" (Diawara, 2007, pp, 64 c
O cinema africano é uma escuta de si próprio, Há muita coisa que corremos O ,I\t 1I 1I Não ao acaso, modalidades de financiamento cínematogrúllro
perder: com o cinema podemos salvaguardá-Ias, e as pessoas podem vê-Ias, (Oll~lIl,tll da União Europeia interferem na produção e circulação de f'ilnwM
1990, p. 5) africanos, levando críticos como N gugi Wa Thiong' o a dcnunct.rr:
"A batalha de imagens é a mais feroz, mais implacável e, o que é 1'101,
contínua", Daí perguntar, como descolonizar a mente "quando n1'in MI'
30 Expulso com 14 anos de escola colonial, Sembbe exerceu ofícios na construção civil, I\II~","
-se no Exército Senegalês da 11Guerra Mundial, trabalhou como estivador em Marselhn, IlIf!II'. pode ver claramente, quando a memória do que foi e do que podcrln li"
sou na CGT e no Partido Comunista Francês, ganhando bolsa estágio de um ano em MII~I"" sido foi completamente distorcida? Como descolonizar se a imagel)1 do
Querendo discutir, via imagens em wolof, impasses do p6s-independência, íllmou (' 1111'11111 111
gerador para rodar em vilas e aldeias seus filmes, até que Ceddo (1976) foi protbido 111'1111'"'.1
dente do Senegal, Leopoldo Sédar Senghor,
33 Esses circuitos Áfricas/Brasil também foram assumidos por Wa Thiong'o que, abondollllllllo
31 Os autores comentam que "estéticas alternativas" remetem "11 prÓlkON t1ii.()-I'(••,II~Io\" (
a Hngua inglesa, optou por tcntrn cm IInguo kikuio, no Quênia desde os anos 1970,011('01\1,,11,1
possuem ritmos históricos dívcrsos, outras ostrutums narl'tIllvlI" I' dlli'rll'1I<\~ VIH"'!I'""01011. "
-sc "no 'teatro do oprimido' dt' i\1I1:1I~1" 1l()~I", Cf, Thiong'o (2011, P: 99),
rpo, n scxualtdadc, n t!Npll'illlOlldodc \Í n vida coletivo",
1+ S~(l Paulo desfrutou dt'H~ll ''1\1 lI' 1\111
"lllvII" W'I}\'OS OS vindas de S()tlgul Klllynl{' t' Ht'IIH111""~
l' Sohl'(' S!lOlbànt', d', 1/i'!r/"V r,0: ,1I1l1I"/tJrl(~ (/',11I rl"~III" 1111/"1111.11
mltl')1 II"~III/I' '.'I;II'III/lf, 11I1 IloHHOIWl' '!'O(l'lI:IIIY KllIY\II(',j!,III • .I. 11111 111111FilHO, Snhl'(' n [11'(('d(IHN('H('IlIl"ICI"rl'N d(. hl~ltllli\,
lu "~\r,(? 000 I); (;\1111'1[0(}O()7),
1111I1.1111/11\
1'1', (,r/II' ,~M, I/rlIII ,1111((lOO"), I li" ,. I l,hl'l ()II(H J,
350 MI'MÓI\IA~ANCUIIAIW; fM (,lll\I'm Nl ',1\0 DECOLONIALlDADE DE CORPOS E SABERES: ENSAIO SOBRE A DIÁSPORA DO EUROCENTRAD'

mundo é colonial?" (Thiong'o, 2007, pp. 30-31). Ou, pergunta-se, com Em Os olhos do Império, analisando relatos de viajantes em Áfricas"
substanciar o corpo se imperam imagens e enunciados sob a ordem do Américas, nos séculos XVIII e XIX, Pratt contribui para descolonízação
discurso? mental acompanhando representações européias do mundo não europeu.
Tal disputa por imagens e memórias também vem sendo travada em "Tarefa que inclui compreender os caminhos por onde o Ocidente, em
culturas nativas nos Andes, onde Bolívia, Equador e Colômbia assumiram um só processo: a) constrói seu conhecimento do mundo, alinhado às suos
-se como nações "pluriculturais" e comunicadores bolivianos indianizam ambições econômicas e políticas, b) subjuga e absorve os conhecimentos
técnicas de filmagem, transformando-as "em ferramenta de descolonl e as capacidades de produção de conhecimento de outros" (ibid., p. 15).
zação". Reunindo comunidades de falantes aymara, "o vídeo converteu Com tais procedimentos, remete a operações mentais do raciocínio
-se em tecnologia essencial para a reinvenção de culturas indígenas, eurocêntrico, ressaltando que "as ex-colônias européias lutam até hoje
dirigido contra efeitos da longa discriminação de suas gentes, línguu, com seus legados coloniais". 35

práticas médicas, como suas relações econômicas e sociais". Conforme Interagindo com textos de viajantes sob análise, essa estudiosa troz
Schiwy, enfrentando a colonização mental - impressa em leis e outra: elementos de grande interesse para questões aqui abordadas, alertanclo
"pressões para assimilação via migrações e programas para aprender 1i que qualquer esforço para enfrentar procedimentos coloniais, "deve St'I',
ler e escrever" -, povos aymara têm recuperado, em produções locais, entre outras coisas, um exercício de humildade",
sua autoimagem estilhaçada pelos efeitos da colonialidade (Schiwy, 2006,
pp.25-27). Pois o que traz, obrigatoriamente, à cena são expressões contestatórias oriund,lr, d,l"

áreas onde ocorreram as intervenções imperiais, há muito ignoradas na metrópole: .\


Expressões acústicas, coreográficas, cinematográficas, literárias V('1I1
crítica ao império tal como codificada em ação e in loco, [desponta] em cermônla, d"'I>""
sustentando arqueologia de saberes na contracorrente do colonial i
paródia, filosofia, contraconhecimento e contra-história, em textos descurados ~lIplI
racial, vitalizando diferenças, ampliando entrelaçamentos culturais, dcs
midos, perdidos, ou simplesmente encobertos pela repetição e irrealidade. (PI íltt, I'}I}'.,
fiando processos que tentam subjugar a Singularidade histórica de POVOh,
pp,24-25)
culturas e lugares. No local, são emitidas vozes e formas de compreensàn
que as culturas não são, mas estão em processos de Relação, como enunr-l.i Mergulhada em embates do fazer-se colonial racial, reconhece 1\ Itlll'l
o poeta e ensaísta caribenho Édouard Glissant, ao renunciar a qualquer textualidade de repúdios a poderes estrangeiros desde o corpo, IlHlll'I'hl
pretensão de absoluto, propondo "pensamentos de deslocamento qUI lidade e subjetividade básicas. Reforça que narrativas corporais pn'dMllI1I
também são pensamentos de não-certeza" e arriscar até mesmo na "sup: ser escavadas como palimpsestos, para írromperem memórias dt'silllO
ração de gêneros literários instituídos" (Glissant, 2005, pp. 148-152). cadas da barbárie européia, deixando emergir heranças e valores civllll"l\
Em modos de ser e viver de grupos e culturas alheias ao indiviclun cionais de povos encobertos pela personalidade dominante.
lismo, à competição, ao consumo massivo, o artista é o intelectual, Captando confrontos e transgressões a conquistas ocídcntats, CUl1hOl1
desencadeando sensibilidades e percepções em comunidades onde imlu -" zonas d e contacto ",enquanto
a expressao "d
espaço e encon t rOM1'0I\I
cações letra e corpo marcam presença. Diante do domínio do conlnxi niais, no qual pessoas geográfica e historicamente separadas \.'nll'\1I1I('111
mento científico acoplado à subalternização de povos e culturas I'C)I"O
tllI

restrito mundo ocidental, a linguista canadense Mery Louisc Prntt '\1'01 \ tIl
ser "a descolonização do conhecimento {' d.\ 1I\I'1Il!' (11110
101"('/'0 IIH'riwl,
1\ Ml'~mo O~ 1'~loldo~ Unidos, "um poder Imperial, continuam Inrl't:l~d()~ 1'0" 111111\11!111!lhll\~,ll1
l'olol\l'/,uhc", 1111111\"'1 '1"<' "em v~rl~~ (Il~dpllno~o('ad~ml(,M,() ('UI'()('I'lllrl""111 Uhlih, III'I'MI.I,
na qual intelectuais e ar tiMlOS ck-vem PI'I'IlHIIII'('i'l I'CIIl1i1t'ol"IIIII'IlIloli l'lllllil 11111 ,,11, '" IlIldl',1I1011 t,\lHo 1"11111,11111111() hll'Om('\(llItI''', \'nljIIoHlIIl''.' .1\1111,1,1.111, I' fi.

durante ITcrnçõ,'s"(I'I',llt, 11)1)1), p, 1(1). ""III'M".,oIlI, 11 h,II,II., ,,"Illllltllll N""I,,,II.IIII,"ldIlN 1"11 1111".1.,"1011,10110"(1'1 ••11, 1'1'1'/ I' IG'I
352 MI 1-11'11\1"', AI ,11"1"-1 Illceilll" i',llI i,lti'
I 'Il , 'I' IIlIAl11lÀ1J1I il ( Illtl'l I'. r fiAllllil LI III'/AI'

contacto umas com as outras e estahl~k('(\1I1I,-f.I\'III'"II~NeH'lildaM"


dl'('1II1 força, 1li IYOH.lf'dcanos e da díáspora, ('011111
1111
\(.dlldloli, ll'[IIlSgt'i'd11-1\111
"
tâncias de coerção, desigualdade radical (' obNtlrliUI,I"(Ihkl., p. 27). PI\I,' hostilidades coloniais e raciais revitallzando ,~l'lIlihorizontes em It1l'dl.l
vislumbrar incorporações históricas em zonas de rol/IUCIO, evitando tl tllr" ções com culturas e práticas de colonizador ~....
mica "de olhos imperiais [que] passivamente vcern e possuem", penMollld" Em evidência que zonas de contacto não se referem tão somente
em povos que sem poderem controlar emanações do colonizado!" "di'h'l confrontos onde e quando ocorrem, ao publicar pesquisas sobre sistemas
minam, em graus variáveis, o que absorvem em sua cultura e no (1'11'ti de escrita entre povos africanos, o linguísta e estudioso de semiótlc
utilizam", retomou de Ortiz e Rama o termo transculturação.ê" E h'nde I do Canadá, Simon Battestini, expandiu, no tempo e espaço, dinârnlc
práticas coloniais sem esquecer intervenções de autoridades nativas, 'flII de confronto e de exclusão. "Alargando noções de escrita e de texto"
construíram empatias com projetos coloniais, Pratt reforçou CrltiCIlM d, trabalhando escrita como traço codificado de texto social, onde as pala
Fanon ao "intelectual colonizado [que] se lançou com avidez na culuu a vras exercem efeitos, animando-o, enquanto signos e símbolos denotam
ocidental", fazendo "sua a cultura europeia que assimilou", agindo ('ClIIIII o pensar emanado de uma cultura, sinalizou para cerca de 90 sistcmr
um "colonizado seduzido" (Fanon, 1968, pp. 182-184). de comunicação e conservação de mensagens no continente afrlcnno
Na perspectiva de alcançar a diversidade de linguagens em 7.01/1/1' cI que desde Derrida se consideram escritas" (Battestini, 1996, P: t 9!L,
contacto, vislumbrando como pessoas em espaços e inserções cultural Como todo "sistema de escrita constitui conjunto finito de elcmcntoa,
distintas resistem ancoradas em seus universos, são relevantes tcsu-rn« produzido por escolha de signos utilizados coletivamente" como ,~rr/I'/.
nhos do professor Brazão Mazula, ex-reitor da Universidade Mondluui ainda avaliou que "à base da recusa ocidental em perceber escrita (' I(·"tu

Relembrando lutas em Moçambique contra o poder de Por1I1g.d. na paisagem simbólica e literária africana residem motivações" (\1('111
dl\

mencionou que entre grupos populares "as primeiras retvíndlcnçm escrita (Battestini, 1997, p. 17).39
Para esse estudioso, África foi considerada continente de 01''''1(/11(''
foram expressas em canções, danças e até mesmo esculturas, ('011'"
e de "povos sem escrita" em função de efeitos desastrosos da proJ(·"IiO
formas tradicionais de expressão cultural nas quais eram esculpido" 11
de estruturas intelectuais, econômicas e políticas do Ocidente em 1111
sofrimentos e as ameaças do poder colonizador"; enquanto "os inh,lC'I
"tendência a soldar os humanos, a uniformizá-los, tornando pONsiVt'1
tuais exprimiam o sentimento de discriminação, exploração, espolio""" I
o poder político com a gestão do cotidiano". Nessa direção, IcVilllt.\
através de contos, pinturas e poesias" (Basílio, 2010, pp. 58 e 60).
a questão que a propalada "ausência de escrita" constituiu chave pal'.I
Em corpo a corpo cultural, "vozes do corpo" configuram "mcm/n l«
uma construção pseudorracional, visando justificar o injustíflcávcl: .1
. "
sem arqUIVOSou " arqUIVOS
. ."
VIVOS,em pestormance presencia. I" ,con f'(li 1111
"y<,f;
colonialidade de Áfricas, Américas e afro-américas. Dai insistil" til"
estudiosos de culturas da voz e do corpo.V Enquanto fontes vivaHpl'I
"Decolonializar o discurso africanista, é decolonializar, em longo Imlm,
madas por sentidos e sensibilidades históricas, corpos performáti('()I1 YI'IiI
nossos próprios cotidianos" (ibid.). 40
renovando patrimônios em pelejas que evidenciam como submet Idll

38 Conferir Derrida (1999).


Transculturação
36 foi cunhado pOI' 11('1111111(111
(), II~. 'lOd6logo cuhnnn, (,81l1d~nd() ('111111I ". "I. li 39 Para poder ser colonizada, "África devia ser inculta, exótica, confusa, mI8tl'l'lo~iI, 11111/1'1111.
-cubanas nos anos 1940; no~ I\IIII~ 1'1'10, " i , li1111IIh','~dll 1"'UI.\"lIlo AI'gl,1 !tomo, ('111('/011/1/. ,/" e evidentemente ílctrada" (Battestini, 1996, P: 201).
Letras, lançou mão d(\HNI' h'HIIIII"" ,\ ".11,,1111, ~I" " •• "". dll vldl' 111'11111111
/1'1.\1111111,1111.
III,I~ I'., 111 .0 "A d(.'NC'ololll~\\\'nO I: um largo processo que apenas ata em 8CU~InldOH e [('111l'OIllIlI'OIHII~IIII
7T('rm1)H (,\ll1hl1d,,~, "'-lfI ,111.,"" "" , IfI" (',,1,',(11 (JOtI),
(2000), ,,\llIllhlll (1'/'/1)
MIUIIII/II (JOOlhl)i \'1~.,\l11I nccl'H.611>1"11". """Ii.ltdodes. Um novo olhar sobr sIHt.cmo~ de 1'~('I'II'1(, PII'\I' d,'.",
d".,"11I
11111'~'ltlll""IIII"I" d"",u'lllolJdllrll'H I' (hl~ 111~,lllItS'Õ(\HIJIhlrl., p, 19\)),
I!I
354 1'111 Hl!\IA'IAI ICOI\f\I)A'i 111 G()I'J'I ",1111,1\11'

a nO~'I'1I d,. pl'MSOa,mdíssocíávcl da palavra, ~'()IH'{'lll IIl' 1\ clt' 1I00'll'lhllh I

Seu prefaciado r considera "n50 ser II1I 11"\'1i-.I\I_"III uru salto no dt~MI'1I
visão de mundo e divindade. E onde a lógica do pensamento IIlt11húlll'O
nhecido, mas retorno ao passado antes do II'IIIIII() da modcrnhl.ule",
e da interpretação numérica, em particular o valor scxuado atrlhuído
Reafirmando,
3 e 4, com 7 significando o casamento e a palavra, evidenciam In~'()N <1\11
fortalecem a palavra em relação a elementos cósmicos e ex.pllc(ls·fiodo
foram os modelos de desenvolvimento do mundo ocidental que levaram países arrlClUH1
a transformarem-se em sociedades comparáveis àquelas de fins do XIX, quando O ilI101 mundo (Griaule, 1966).
fabetismo em sociedades europeias deixava largo espaço para scripts não lingufstiw ••
Sob outro ângulo, Hampâtê Bâ, introduzindo reflexões sobre a unidade
com status universais, (Spielmann, 1997, p. 12) cósmica entre povos peul e bambara, ressaltou esse amalgama pC/lson/
comunidade/palavra à cognição experimental em realidade vivida /WIII

lançou a pergunta: "As catedrais - para pegar o exemplo mais famoso fraturas cartesianas, cultura versus natureza, oral versus escrito. AI\l('"
não foram consideradas verdadeiros textos para o ensino de f'j{·1 acentuou que onde tudo é "interdependência, sendo que material e I.'H\
iletrados?" Assim lembra que, deixadas à margem pela imprecisão de seu ritual jamais são dissociados" (Hampâté Bâ, 1972, P: 22), o dcscnvolv
alcances, antigas formas significantes foram sucedidas pela ciência e IHIII mento técnico acompanha o da palavra.
Desfazendo ídeias preconceituosas a comunidades orais afrlcanaa, 11""1
epistemologia racionalista (ibid.).
Cauvin, que ficou oito anos junto aos Minyanka (Mali) , a propósito do vi Vl'1
Tais questionamentos à leitura eurocêntrica de ausência de cscrltu
proverbial registrou: "O homem mynianka 'diz' e 'faz' a socicdad~' 111'111
entre povos africanos, redefine o campo onde nosso pensamento /H
provérbios", chamando atenção para injunções imaginário e n'lIl 1.1.11I.
forma e acelera a revisão de pressupostos de ciências que tomaram I1
proverbial (Cauvin, 1977, P: 39). Conforme esse linguista, na ('oNI,1 do
África por objeto. Politizando tal "descaso" em relação a escritas rcco 11
Marfim, nem toda "população fala via provérbios, mas todos CIiUlO .11'1 " 1\
nhecidas na África Negra desde séculos, Battestini abre ao paradoxo
compreendê-los. Provérbios formam a armadura e a fina base dt, \1111tlp"
de "África desafiar nosso saber sobre o escrito porque sua escrita fi 11
de comunicação mais vasta: a linguagem porimagens" (Cauvin, 19H 1, p, \
excluída". Questão insustentável para o conhecimento ocidental, pul
Familiarizado com povos de culturas orais na África do Oeste, ('\tIlVIII
"quando a palavra torna-se visível, o pensamento só ganha sentido gnl~'11
referiu-se a sua "arte de viver e seu humor"; e perguntando-Al' pOI 'l'"
aos signos. Paradoxalmente, a escrita torna a palavra muda e secreta,
comunidades africanas anteriores ao colonialismo não adotaram .\ 1'.1'11111.1,
coagula o pensar forçando a ressuscitá-lo de outro modo". Perspccttv»
que compromete "a semiôtica da escrita, desafiada teórica e metodolou abriu para
camente por ignorar o vasto domínio dos signos das Ajricas" (Battcstlnl, (...) a diferença profunda que justifica a aparente recusa da escrita pela Árrle,l, qlll' ,I

1997, pp. 19-20).41 conheceu seja por contato cultural (árabe), seja por invenção (alrabetos vay, b.lIlIlIlI)

Como a escrita emudece a palavra, restringe sua circulação, 1'('1'11 Trata-se de uma opção de salvaguardar a identidade cultural que permite" ollllhhilln:
relação face a face. memória comunitária. aspecto concreto de pensamcrllo (,111tI~",,11I
zendo meios de expressão e comunicação, impasses oral ou (.'Mc'I"lllI
revelam muito de suas sociedades. Griaule, a partir de encontros COI1I 11 de imagens. (...) não separado da vida. (Cauvin, 1980. pp. 46-47)

sábio africano Ogotemmêli, já enfatizara, em relação aos dogon, a f'W\'1I VIVI'l't'M ('111
de coesão social alcançada em sociedades tradicionais africanas, olld Nesse articular oralidade a

41 Sob sua rlirrç[io, qU('NIÕ"M IIgíldM ,\O 1'1'111\1111'110 grMh'o ,,,',11\11111 "'1111 1111111'1 1'1II1t1olllll. 1

Incentivo Nohl~'lkH",
li".11I1
1"t'"II,ldl'~
"111 Il.ltt,·~t
'11'(J()()j,)
5 ti 1'11'1""I'i\' •. 1 1I I "I\I,~~§II I (,i il'H-,j I 11(.1'('"

sJg\lllk,'\'IIO que permitam n~VI'I' 1'11111' ttüM"IIIIH'I'1I1nlllo/i. I\llIdl' ""'I'li'''1


da palavra vlvn l' Ilhl~l·t,1no r+uno 11e·/c) '1"''/ 1(111.1 1'.11.,111 IIdlllI,, 11111'111 /1'.1
para urgt!ncla de pesquisas a moclos Ih' 1111"1 IIH'II ,'í\ o c U'on!ll\lIMKllO
11\11'11
de sua criação, conservação e tranSmltill[\()" ("'111 HI,Ullgl', 197H, 1', 'I),
culares, locais, comunitários, em dlnGlld('!l\1I(;ultul'ais entre tCl'npOMl'
Referindo-se a bases incompatíveis a Op~'ilWIl'VOIl()tnlcos, pollt h'l'
intelectuais marcadas por relações de mercado, saber conccitual (' Id"h, lugares, resistindo à rigidez da modernidadc ocidental.
individuais, o linguista africano Jacques Fédry também avalia que, nWHIIII. Nos últimos anos, contestando paradigmas e Identídadcs lixas,

conhecendo técnicas de escrita, sociedades africanas não a adotaram, pensadores diaspóricos do Terceiro Mundo, como Stuart HaU c 1\01111
Bhabha, trazem questões que desestabilizam visões dicotômicas, abor
(...) sem dúvida pressentindo o que havia de destruidor em relação àquela "mldln 1111111 dando "fusão entre diferentes tradições culturais" ou "figuras complexa,.,
têntica", conforme Lévi-Strauss, Não houve uma escolha consciente, mas uma I oJtll~,I,, de diferença e identidade". Remetendo a ações, arranjos ou instala~'õl~H
inconsciente, por repulsa instintiva à escrita como a morte do face a face, (Fédly, 20 I 0,
artísticas e performáticas enquanto fulcros de insurgências c irrt'W
pp, 294-295)
rências ao exercicio de poderes globais, Hall evidencia o uso do "corpo
como se fosse, e muitas vezes foi, o único capital cultural que tínhanios'',
Entre estudiosos que abraçaram povos de tradições orais, com IIlhl
marcando "a emergência das sensibilidades descolonizadas". Pcnsarulo Ii
histórias e memórias em artes e palavras, a avaliação mais contundeuü
cultura popular negra como "local de contestação estratégica", pl'odll"
sobre o letramento na modernidade capitalista vem do socíolingulxt.
reflexões que "têm permitido trazer à tona elementos de um dis('III,,.UI
francês Louis-Jean Calvet. Contrário a ideias de evolução e subord
nação da escrita à língua, a noções de línguas inacabadas ou incompk-tnx, que é diferente",
evidenciando o "estreito vínculo entre escrita e poder" - "a escrita 111111
Em sua expressividade, sua musicalidade, sua oralidade e na sua rica, profunda e VIII'll\Chi
teve por tarefa transcrever obras literárias ou poesia, mas levar a contu
atenção à fala; em suas inf1exões vernaculares e locais; em sua rica produção de (01111,'
bilidade (impostos, contratos, etc.), difundir e conservar editos c I,••.•, narrativas; e, sobretudo, em seu uso metafórico do vocabulário musical. (1-101\, 'OOIH,
manter vivo sobre as tumbas lembranças de personagens importanu- "
pp, 341-342)
(Calvet, 2008, p. 278) -, Calvet considera ter sido "a introdução ti"
escrita em sociedade de tradição oral un Jacteur de destruction" (Cnlvet , Se Hall sinaliza para complexidade de "espaços performátlt'()/I",
1984, p. 7). que questionam sistemas de representação eurocentrados; Bh,,"IHl
Atento a relações tradição/modernidade em Áfricas, acompanhumln chama atenção: "Os termos do embate cultural, seja através de ontago
o letramento ocidental no continente, desde traduções da Bíblia a língllll nismo ou afiliação, são produzidos performativamente" (Bhahha, I !)'Hl,
africanas, Appiah remete a essa avaliação de Calvet em outros termo
P: 20). Interagindo com situações "entre-lugares", este pensadcr 111110
Mencionando "vigorosas práticas vivas de cultural oral- religiosas, IIllto
-britânico detem-se no híbrido'", ao que sendo semelhantc c (\11'('1,,'"\1'
lógicas, poéticas e narrativas - na maioria das mil e tantas l1ngu"1I d'l
ao mesmo tempo - como viveres e pensares fronteiriços -, cnnllglll'" Me'
África ao sul do Saara", referiu-se "à importância das poucas IIngunM 1(11I'
como estranho, como ameaça de equilíbriO. Ainda cnfaüza (1'11', "1"
estavam reduzidas à escrita antes da era colonial" (Appiah, 1997, p. I)),
frontei
ronteíras entre o tra diiciona I e o novo, o po Io d"a tra di çao
- " t1N'l'MH Itli li ,.11'
grifos nossos).

3. São questões que transtornam ri IrlNI(H'i('lI do !lU"'1


('Onl(lI'(I(\lINiiO ~2 Bhl,hlw1'1 1111111I 11
1
termo hlbrtdo de forma radlcalmenle dlHlIllln do NIlU tlNIl PIII' l \1111'1\111

africanos, amcrfndios (' cio c11r,lIpol'a,illlpolldo pn:IIII.III.111


di /lIMIt~II"IH d, (I ')'1'1)
1'11111 IIIII""IICI,'I'AUM 1 f'l t.~}f"'1 j~ 111(,111

H,.tlllllllllllu Césairc em /)1,\'C'l//W' 111/"" " IIIJIIIIII,/lww, Mlglllllo 14111111


1i
reinscrever atraves das l'()lIdl~'ó('/Id~· l'olltlIlW'illlr. (li') fl"I \1111\\IlI'gt'
dífcrcnça de sua crítica colonial dlanu: d,· ()IIII'''~l~orlali criticaM. Ao tI'\I,'IH'
ciação complexa", assumindo pe1orrnallcl',I' IIIH' \'111d '11
111
11:11\
"nossos dl·11111
paralelo entre o domínio europeu no Atlântico, inerente ao cscrnvlsmo
ções de tradição e modernidade" (ibid., pp. 20 7 t t-
e a plantation desde o século XVI, a práticas de poder então vigcnl
Com tais projeções e reflexões no final do século, acornpnnhn lU
na Europa, Césaire estabeleceu nexos entre colonialismo e fascismo,
críticos latino-americanos que discutem modernidade versus cxpcrlêru 111
levando mais longe suas leituras sobre a crise da Europa. Os colonlzad<
colonial, propondo abordagens em torno de geopolítica e corpo-poluln
e racializados, vivenciando o tráfico, o extermínio, os campos de trabalh
do conhecimento, nestes primórdios do século XXI, discutindo illll
forçado durante séculos, ainda geraram um acúmulo de experi~nciaR em
de colonial inerente a deconstrução do conhecimento racial.
termos de exercício de poderes em intenso e extenso vigiar c punh',
Enquanto o filósofo mexicano Enrique Dussel, alertando que o (','/"
usufruído por seus senhores como padrão totalitário de governo c gl'n'lI
coaito precede o eao conquisto, questiona pretensões da modcrnkhuh
ciamento. Evidenciou, assim, como mecanismos sístêmicos de exclusão
outorgar benefícios da civilização aos colonizados, o sociólogo perU.1I111
hierarquização racial impregnaram todos os tecidos e ínterstícíoa l4C 11 '111
Anibal Quijano discute o eixo de colonialidade do poder fundado 1'111
classificação racial! étnica da população, indissociável da divisão intl'I', e institucionais do Ocidente.
nacional do trabalho e do capitalismo. O antropólogo argentino W"ItI'I' Enquanto o "homem europeu" ignorou o ser e a cultura di
Mignolo, ante dinâmicas saberes locais / projetos alobais, interroga a COIC)IlIII vizados, mantendo-se distante de sofrimentos impostos, o '\~N'1'\\\11",

lidade a partir de diferença colonial e emergência de pensamento lím I11.11


, sentindo o perverso poder de seu "amo", atingiu capacidadl'/I dtO\\\.\11 I

sendo que o antropólogo colombiano Arturo Escobar, denunciando qlli conhecimento que ultrapassaram a razão de seus senhores. M,ddlllhlllll
na episteme global a cultura se constitui sem lugar, sem memória, SI'III -Torres aponta que "os escravos e os colonizados apareccm ('()I11t1tini
pertença, acentua construções identitárias no local. E os filósofos POI'to fonte epistemológica necessária para que a Europa PUdCSNl' I\d'l"l, I,
-riquenhos Nelson Maldonado- Torres e Rámon Grosfoguel propõeru 'clareza' e 'distinção' com respeito à sua própria identidade e 0:\1111\"/11
dI:
conhecimento além de hierarquias raciais, de gênero e geopolíticas. \'111 seu projeto histórico" (Maldonado- Torres, 2006, p. 186).
direção a epistemologias de convivência ou "pluriversais". Formulando seu Discurso sobre o colonialismo em debate com o /)/S('flf,\'iI

Diante da linearidade do mapeamento geo-histórico da modernídruh sobre o método, de Descartes, Césaire avaliou a falência da razão CUl'Olwl1l
ocidental, Mignolo vem direcionando suas atenções a fluxos de pCl1/m em termos de sua incapacidade para resolver os dois problemas ll'gado
mentos liminares enquanto atos sem sistematizações e enquadramcnto por sua racionalidade civilizatória: o do operariado e o do colonízwlo. Ac'
"Estar ou sentir-se entre" - como foi reconhecida palavra de falollh questionar a razão cartesiana pela autorreferência a suas verdades, dl.lllli
Nahuatl na segunda metade do século XVI -, revela a perenidade di de sua "eao" política do conhecimento, lembrou princípios de "sodt·tllld,·
contestações ao colonialismo, permitindo rastrear histórias e geografia destruí das pelo imperialismo":
esquecidas. Apreendendo que pensamentos liminares, enunciados '"111
Américas e, como vimos, em Áfricas, falam da fratura profundo ('1111'1 Eram sociedades comunitárias, nunca de todos para alguns; sociedad
antecapitalistas, mas também anticapita!istas; sociedades cooperativas [que] 1'1'''"111111111111
visões de mundo, simbologias, imaginários e formas de cogni~·ao (1111
,IPO'II\I
intacta a esperança. (...) Elaseram o fato, não tinham pretensões de ser aldeia, (J
não vivem clivagens cartesianas, questiona a abslrn~'fio do pcnsanu-ntn
de seus defeitos não eram nem odiosas nem condenáveis, contentavamse (0111 CI ~I'I,
ocidental, a crença em "ser humano" indqwndl'I1I1'"II'lItl' di' aun ('\111111'111
re na desi
a "e' esmcorpornçao ~ ( I() pt'I)S,1I1Il'lI
1n " , (C6r.alro, 1971, p. 25)
' 'L"" !J!! (,I' illl~IIII", il 1" ([li"

1,"1'"\11I1.-10\'I~n'hll 111""1110"11111' 1411\1".1,"1,·11,,,.1""111 do (>rld.'1\1


prov(·diluM IHlsdtam imagens e lclturus, pl'Il.dl(' ,IIIII'VI'" - 'hl pl'l'sl>l'l'
eu W" iI·71lçtk,. "01'1,)('pllll ~1I,,~,.\Ii, Mlgllolo
\' 01111'1111 HIINII'IlI., Ij li" (', '""Ir I

tíva que u corpo " lmp
• ca pessoa - o corpo comum íd a d e, ou ao cc vir~ a ser
li""
l'otlNlnJlu "rc'II"1I110 qll\' não provém
1111111 daM ('al~'g()l'iilli dl' 1)('111411111'-"1111
pessoa" em comunidades da África do Oeste.
Od.111I (' humanidades, sobretudo da lIIosoflll, N/III qUi
Nesse devir pessoa, impossível ignorar ambiguidades de relações
provem do corpo, da pcrsistência quase incurável da fcric/a ('01011/,,1; d,
individuo / comunidade experimentadas por africanos em p6s-colonial
lima mcm6ria sem arquivo" (Mignolo, 2006a, p. 198). P,lI"titldo d,
instituído sob a chancela de direitos do homem do Ocidente, que tem
bordagem, pensadores críticos fundamentam trabalhar com IIH'lllill f"
conturbado a vida pública e privada de nações com outras tradições de
ancoradas no corpo, entre povos e culturas das Áfricas e Amérit'aM, 11\ cJI"
filosofia política. Habitando um mundo sem disjunções homem/natu-

a viragem decolonial propõe mudar os termos e não só o conteúdo d reza, ancestrais filosofias africanas conceberam mais que um corpo, um

para pensar desde categorias de pensamento negadas: desde a corporeidadc do (( 111" " corpo-pessoa em interações a corpo-comunitário, salvaguardando a
negros, a sexualidade, as Ifnguasexóticas ou desde o que o eurocêntrico chama pi'~~'IlI, i condição humana em equilíbrios socioambientais. Corpo-pessoa escul-
(. ..)
pido "de cultura para o corpo, mas corpo que abarca e atravessa todos os
A viragem decolonial surge de tudo que o pensamento único, ao se cOllslllllh("11-" corpos individuais: é um corpo que contém em si a herança dos mort ()/I
único reduziu ao silêncio, ao passado, à tradição, ao demônio, ao superado, no 1/,,,, e a marca ial dos rrtos",
SOCla . "C entro e "d
trans utor "d e rorças
c e rcg inu:
tentável. Surge não da "recuperação" do passado, posto que o passado é il rCCU"I'1 ,Iv"/
simb6licos, corpos negros canalizaram o máximo de energias dísponí
e ao pretender recuperá-Io corre-se o risco de fundamentalismo. Mas o passodo 1" li I,
para suas comunicações orais, "ligadas à potência do corpo comunttárlo I
ser "reativado" não em sua pureza, sim como pensamento liminar crftico, (...) rl(lIl~,1i li
na materialidade de outros lugares, de outras memórias, de outros corpos. (MIHIII ,li I, do corpo singular". Ainda com o fil6sofo Gil, essas
2006c, pp. 13 e 16)
sociedades tinham resolvido um problema com o qual o Ocidente se debate, o (h1'.

.ssc voltar-se ao corpo, enquanto fonte de mem6rias sem arqUIvo, relações singularidades-coletividade; é certo que tinham encontrado um equilfbrlo abso-
lutamente notável entre o desenvolvimento das singularidades individuais e a "pressão"
nlcança reflexões da sabedoria de Hampâté Bâ. Centrado no "simboliNIIIII
social. (,..) O que permitia que os códigos fossem transmitidos e compreendidos (lI
10 corpo" e na "complexidade do psíquísmo" entre povos e CUIlIll,1
uma detenrninada função do corpo. (Gil, 1997, pp, 52-65)
u("'lcanas - expresso em provérbio bambara e peul, "As pessoas da 1'1',\\'1111

,WlO numerosas na pessoa" (Hampâté Bâ, 1982, p. 195t3 _ , aquele 1110


A proeminência da comunidade sobre o indivíduo, de matrizes 1'iI(
sulc) do Mali enunciou distância ante corpos e mentes da modernj(hul4
s6ficas africanas, enunciada em Carta Mandinga, cunhada em corpos dI'
1'010111(\1,marcando persistências de viver comunitário entre povos .tI'., gerações de griôs e súditos desde o primeiro grande império na A /'rkll
'ólllOS, evocando o que hoje denominamos diferença colonial. Em 111l\l~1
do Oeste, o de Sundjata Keita, no Mali do século XIII, vem s("lIlo
lI,ir/o exprcsao nesse provérbio, povos africanos vivem parentcscoM nl{'111
discutida por juristas e fil6sofos africanos a luz de recorrências cotklinnns,
In~'()s l'Ol1llnngu{neos, interligando vivos e mortos no usufruto c 11'1111
no sentido de contornar suas tensões.
IlIlslHíO dt, lH'ns rnnt(~rlnl.~ e memoráveis em ('nc/dó) Nolldnri.\. Clt'IlI(' Ijth
Essa Carta Mandinga, transmitida na dinâmica "indivíduo r()!' I

para a comunidade" - em "verdadeiro pensar coletivista" onde "o IlIdl


víduo s6 pode dizer: eu sou porque nos somos; c nos HO/1'WN, pol
DECOLONIALlDADI III I 1 11\1', I', I
362 MEMÓRIASANCORADAS EM CORPOS NEGROS

contemporânea." Utilizando () ('OI'PIII'IIIIIII VI·ll'lIltl tI(· IlH,dla,'Õ\'M, ('1111'


eu SOU"44 -, veicula um viver-conjunto-em-nossas-diferenças após primeiros
laça tempos e espaços de Áfdrl\H I' Odtll'lItl', l,tll"II~[\l1d()1"'1'11\'1\/1,
l'IH"
exercícios de governabilidade alargada na região (Bachir Diagne, 2011,
gias, espíritos afro em cotidianos til' vida \lI'II'lIH\,
pp. 664-671 ).45 Proferida e repassada com recursos e dispositivos orais, o
Contextualizando que do corpo l'llilc.:o fluem "gcstuais de roonlfl\Ktl1,'lltl
viver sob a égide dessa filosofia sociopolítica marcou civilizações do oeste
de outros corpos", "corpos ímateriaia", em entrevista a AJr.iculturc'~l Kol'I
africano, que, hoje, trespassado por princípios da democracia ocidental,
Kôkô referiu-se a interações com o corpo-memória e o corpo-cspJrlto,
vive conflitos que ganham representação no mundo eurocêntrico como
guerras tribais.
o corpo-memória armazena a experiência e joga muito nas expressões. O cOIT
Mas, neste ensaio, interessa destacar que, em culturas orais, provér- -espírito liga-se às energias; sua amplidão varia segundo o vivido pelo corpo nslco t
bios e suas imagens interagem mutuamente, cabendo perguntar: Com corpo-memória; transcende e pode nos transportar à vastidão do universo, [para quu.l o
quais metáforas e imagens, corpos são materializados e vividos entre corpo físico seja outra coisa que suporte de um movimento mecânico (...), rcatlvumlo n
povos da África do Oeste? Como pensam, fabricam e transmitem seus memória corporal. (Koffi Kôkô, 1999, pp. 5-7)
corpos? Como constroem imagens, realidades, modos de ser e estar no
mundo distantes do Ocidente? Corpo enquanto patrimônio físico-cultural, que vem de longl I

Cabe saber que na linguagem visual de dançares africanos, "memória ganha densidade quando Koffi Kôkô explica que o "arqueado de nu
corporal" e "escrita coreográfica" de corpos negros "sustenta história (... ) postura" - "manifestação do apelo ao Sol" - "age sobre a morfologln di
inscrita em memória arcaica de nossos corpos". Suas filiações ancestrais l nossos corpos", "igualmente inscrita em nossas memórias." Com h\l~1
marcadas "por ancoragem ao sol, ondulações, movimentos circulares nessa arquitetura corporal, fundada em forças e energias entre vivo.
regeneradores, exprimem nossa maneira de ser sur tetre, possibilitando mortos, Koffi Kôkô justifica que "em África é possível dançar at~ l)() 011
talvez que África não tenha perdido o pé na dança". 100 anos". Considerando que "cada civilização" produz corpos cl1qllllllln
Esse vocabulário é do coreógrafo e bailarino do Benin, Koffi Kôk" , "utensílio de materialização de nossa expressão", abre dístâncln I'111
que formado em dança clássica e contemporânea na França, dirigiu () relação a opções corporais fundadas em ultrapassagens de rccordrx I

"Ballet National du Bénin" e apresentou-se no Brasil em 2003, quando extensão de trabalhos além do limite humano.
desfrutamos da rara oportunidade de acompanhar sua peiformance. EJI! A menção a essa inclinação corpo-Terra ao Sol, que, conformo I'M111
ato de dançar vinculado a teatro ritual do universo religioso vodum , dioso de números e simbologia de episteme de povos da África <lu ()l'fojtl,
em sua peiformance transita entre tradicionais deuses, mitos e hístórlax, materializa-se na proporção 3 masculino por 4 feminino - em IIlógll'lI
retomando sinais do oráculo Fa, que simbolizam deuses com qW'111 numérica com predominância do número 7, símbolo de c011lpl(lt\ldl
entrou em contato na infância e que, hoje, presentífíca em sua <1011\'11 por significar a pessoa humana sem distinções de gênero,,47 ,l,dl'II~\i II
compreensão de viveres corpo humano-universo solar. CS/lO 1'('101\11,,111

44 o filósofo do Quênia, john Mbiti (1969) discutindo a noção africana de "índlvfduo J101'c' 1"11
a comunidade - verdadeiro cogito coletivista, lançou o oxímoro: 'I'tndtvtdu no pCUL quc t1lr~l/~ '11/1
46 Mostra Sesc de Artes-Latinidades, onde Koffi KÔkÔ apresentou c~pcl&t'1I10 "0111 ~" 1111
parce que nous sommes; et nous sommes, donc je suis'" (cf. Bachir Diagne, 2011, p. 665).
Scsc-ConsoJação, retomando sinais elo oráculo africano Pa, qtlC, com 16 slnnlN MHIl'm 1\ ) 'I" "hllll.
45 Discutindo tensões direitos individuais X comunitários, Soulcyrnanc I~nl'hlr Dlngllll IIlilllll>' ompllados, produz uma variedade ele profecias expressas no ato de dOllçnr. Pl1l'11"JlI'ílKII'lill,'I\!I
formulações do filósofo do Quênía, Jhon Mbitl (1969) e pCH<luiROR<1<.1 "hIHtol'iadol'll~ dil ()".h omplexidade dessa divindade, a versão I Ching 6 formada da 8 81MI~ bOHlcC1HI' M íllIll'!I~ ~1t1l\1.
africano que, trabalhando sobre material 01'01, "('t:OIl~lltll("IIlI1, pOI' 1'('('OI'!í'H, IIqll(ll,," 1'11111111,1
~ompnados.
dos e os aprcscntnrnm MO'b n fhl'1I111di' ~lIt'I'H~~1I dI' III·tIMo~, 11IIJ'f1hlllllo li" "'" ('!,,,r/. '/11 111,"111 47 Sobre corpo humano c realidade numéríea entre pOVOH bnmbam, r11í11~II"1'1'('1'1',d,l AI',IIi\ d"
seguindo C'onlwl'ldoH ('01111. 1'"1'11111"1\11111111111,,","'n JOO'I, 1'•• 11("'1'1" li/,III.lIIII/" 1'11111 111111111111
1

()c'HIi'. VI'I' K'IIIII (1011, pp, 710,725).


d,,) d" 11I11I1I1I1I1I"dl
11\'101I1WHIII 1'11111011I\lllllIfllllol 1111111,ti 11111110
I' r 1I''I IIAIIIIAI11'I1I ,,c '!ti
1'11111'1""'",I( (It\ÁUM II1 [( ""'!,I~ 11I1~.lu·,

rcl(\~'I'H'III,\dols,de gt:m~l'o I' "llgllllh:\!! \'lililtlrldilllll\ do ,'01 1"11


11\111,,111.11\'110
de rcprcscntaçao dI' "()I'pu 1"""lnlno I' 11I\1/j11l1l1l'" d,' Hllldll,llI
1111 111I14,'
inerente a estratégias pal'o ~'()III"ohll (I I'IHI~II\IIPl'odul'.ldo pela modt'I'1I
numérico, revela ausêncto de n.·M1I'I,'Õl'N di' H~III"'() ('1111I'IIIIIdlllhll
sociedades africanas, aprofundando O /lel!tIdo do provérbio "VII' '.\11"
dade colonial! racial.
Uma vez que o ego cogito situou (Ia corporalidade dos sujeitos colo
por Hampâté Bâ para situar o universo cultural afrlcano :\ n'v,,1I11 .I"
niais como máquinas exploráveis", Dussel questiona, sob outro &nglllo, II
Ocidente.
práxis do domínio ocidental, em sua "constituição do corpo como more
O hábito ocidental de ler o corpo racionalmente dividido ('111('lIi 1"1
doria quantificável com um preço", tanto no sistema escravista ou salarlo!
matéria e corpo razão, estigmatizado por diferenças em tcrrno« ,I. (Dussel, 2009, p. 295). Nessa racionalidade, "o colonizado aparecc como
conceitos europeus de raça, sexo, beleza, inteligência, deve mull 11 'I o 'outro da razão', justificando o exercício de um poder disciplinar"
tradições filosóficas que, com Descartes, alcançaram a modcrnklud,
associado a mecanismos jurídicos para alcançar "sua completa ocidental!
Para Quijano, a concepção de corpo cartesiano radicalizou a antiga ,111,"
zação" (Castro-Gomez, 2005, pp. 177_178).49
dagem dualista corpo e não-corpo em termos de separação entre ""01'1\11
Criando um âmbito humano divorciado da natureza, a lógica COI"1('
sujeito" e "corpo":
siana separou o "homem europeu" do mundo natural e sobrenatural. tini
pesquisa a comunidades afro-colombianas de hoje, na costa do Padnl,t),
A razão não é somente uma secularização da ideia de "alma", mas uma mulaçl'l(J 111"1
nova id-entidade, a "razão/sujeito", a única entidade capaz de conhecimento ",.leloII'II", Escobar rejeita essas premissas da modernidade que, secularizando 1\

em relação à qual o "corpo" é e não pode ser outra coisa além de "objeto" de cOIIIII" I sociedades "com sua estrita separação entre o mundo biofísico, humnn«
mente, (Quijano, 2005, p. 252)48 e sobrenatural", invalidam outros modos de vida. A radical dicotollllll
cultura/natureza ignorou universos locais que, segundo esse antropblogo
Sem tal concepção, que converteu o corpo em natureza a ser clvll colombiano, "em muitos contextos não ocidentais, são concebidos ('01110
zada, reprimida, domesticada, esse sociólogo peruano avalia que "dlfldl sustentados sobre vínculos de continuidade entre as três esferas \hlol'l
mente teria sido possível tentar a teorização científica do problcmn 11,1 sico, humano e sobrenatural]".
raça durante o século XIX". Localizando a colonialidade do poder (' dI!
saber nessa matriz, Quijano investe contra a "imposição de uma dOI4NII Esta continuidade - que poderia ser vivida como problemática e incerta - está cullt I

cação racial/étnica da população do mundo como pedra angular" d"/HI. ralmente arraigada através de símbolos, rituais e práticas e está plasmada em Ohp'
cial em relações sociais que também se diferenciam do tipo moderno, copll,lltsl.l1
a expansão marítima. Tanto por "codificar, na ideia de 'raça', as dlr"
[muitas] culturas concebem o universo inteiro como um ser vivente, som 'JUpll
renças entre conquistadores e conquistados ( ... ), colocando uns IHIIIIII
ração entre humanos e natureza, indivíduo e comunidade, comunidade c dtlu~!••,
situação de natural inferioridade em relação aos outros", como por "I(,tlll
(Escobar, 2005, p. 140)
as relações de gênero e os modos europeus de produzir conhccínu-ntu
(Quijano, 2005, pp. 252-254). Ligando o capitalismo ao trabalho l' n 1',1\'11 Além de evidenciar culturas que "concebem o universo inteiro ('011\0
(não só à classe), como à razão iluminista, evidencia um penso r c,'vlvr: um ser vivente", seus estudos fundamentam saberes locais, abol'dadll

48 Quijano aponta que, no dualismo cartcsíano, u corpo "prxh- N'II' Il1r\llr~do, 1111111111111 I
49Como alertou Merleau-Ponty (1994, P: 9) "Para que outro não seja uma palavra v~, {, P"I'I IHlI
morto." Pensando na confusão radical de "mço"l'tn rl'lo,Jo .\ "('(11''', I'''plle 1\01 '1"1' NI'"""%11(. 11",1 que minha existência não se reduza à consciência que tenho de existir. O verdMl<:h'() ('ul/lIl' ,"111
mente um atributo btológico (Implico P,'Ol'('HHOH hlolóf\II'IIH) I' 11111" I'
11'111 VI'I' 1'''"1 "H~IIIIII", 1I define a existência do sujeito pelo pensamento de existir que ele tem (. ,,) não HlIhNI1I111li l" 11
"cor" 6, literalmente, limo IlIvI'n~'~o ('lll'I)(,~lltllt'il 1""1\1111111111'1'",~IIII" ",,,,1\11,,1"11111,llIlt'whll It.
"raça", já que nada tem .1VI'!' 1'11111
hlllJIII~I,'" ((JIIII~Il'I, )()()I), I' I I I prio mundo pela significação mundo".
I-'Il IIIII<l/III/)A!
I II111UIIII"Ar fiA/li 111
~.111').A11j
~ülll'l"LtIÁ',I'I:mA
DOIUI\Of11111"'111)
Jb'

11111111 "illh'iillHltl pt'Mk'il. /jllllilllll, l'IIII~llllIld,1 1'"1 hl/llilll,I df' /,1'1\111 ,I


'111:t.CI/lII,~
de contacto entre mídias orais e letradas, permitindo sentir o
l"I,ojN.ldlllll'IHllllllldillll~íl''', HI'NPlllllll\lo 1'111IINIIIIIIIHdi' 14111'101014111,
('('III,,~:III,
poder dos meios de comunicação. Argumentos nessa direção permitem
IllollIgllI, n'Ii!II"II,"tillgl'I, UIi('ohnl' ('I1I~ltl:t.JI) ('1)1PC) ('ot)w ('1'1,,,111I.I"
melhor acompanhar questões em andamento desde ideias, sensações e
1I\lII1dO.\lllhl~,\('I,1 ,h'NII" ('onhecil11l:l1los compartilhados na (;()1'po,'!'III,ItI,
subjetividades" de Fanon e Césaire. Conforme Mignolo
1.\ ('ogl1iç'50 local. Compreendendo que movimentos corpOl'olN 1','11" I

(/,01,1111a organização espacial em ímbrícaçõcs mútuas, conclui 'I'!" "li


Seria demasiado esperar que um homem branco da Europa (e aqui entramos na
IlIg,lI'I'Nsão criações históricas" e "não estam os separados desse 11111111111". conjunção entre geopolitica e corpo-polftica do conhecimento) pudesse pensar como
POIN "cada ato do conhecimento de fato, produz um mundo" (Ihlll • um homem negro da Martinica, cuja tradição "religiosa" remete ao pensamento africano
P, 145), real por fazer parte de experiências de vida locais, Intt'\'rog,1I1t11l mais que ao cristão. que é o pensamento do colonizador, o pensamento secularizado na
() lmpórío da geopolitica do conhecimento moderno, suas argunwnln\'(l1 Europa desde o século XVIII, (Mignolo, 2006a, p. 197)

lembram a ali vista indiana Vandana Shiva, em Sua rejeição a "monoculn»,


cllI ,>,'p/rlto" (Mignolo, 2004, p. 691).50 Qualificando a tradição "religiosa" de Césaire entre aspas, sensível a
Pl'scluisa/l na contramão de ciências instituídas permitem P('I'('(IIII'I cosmologias africanas, estigmatizadas como animistas por racionalidades
('01)10 o mundo ficou restrito a si mesmo com a razão do "1101111'111 de religiões reveladas;" Mignolo reafirma necessidade de romper com
('III'OpClI" e seu progresso civHizatório. Desincorporando lIa,h('I'( esquemas herméticos. Como pensares no avesso da colonialidade são
culturas, O cooito de Descartes abstraiu, individualizou e univ("r,~.\Il"(l11 múltiplos, diluídos e soterrados pelo conhecer dominante, considera
idcntal. Ao naturalizar as diferenças culturais, posslhllltelll vital não perder de vista a geo (terra) e memórias ancoradas em corpos dos
m idcia de raça vincada a fenótipos corporais. S('III lU!' que, desterrados, sem morada ou convencionais documentos históricos,
xcJusão elo corpo diante da preponderância de urna 'NI\IJ têm na terra e no corpo inscrições de suas divindades, antepassados e
aprofunda laços da modernídads ao colonial, raclonu] I histórias.
''.I(·iol, dcsartículando corpos de seu chão cultural.
A reviravolta decolonial investe em genealogias sem arquivo ou
ntcxto, importa retomar Irobí e Zumthor. Pensando 1H"'II"\'11 arquivo desmembrado, pois sua "epistemologia não oculta uma geografia
l/'I'i('nnas no Novo Mundo - "veiculadas a transmissões de g('I',I\'i\" íl
do poder, já que o pensamento não se processa em mente desincorpo-
~l','a\'ão por meio da inteligência do corpo humano" -, lrobi I'('('O'TC'IIri
rada, incolor e geo-historicamente desvinculada". Ciente ele limites da
Mvrlcau-Ponty, que, "contrário a
abstrata premissa do penso, 101/11 ('111/11.
cognição eurocêntrica e de desafios à introdução de outras dinâmicas no
'ol\ill<!t'!'oU'ser um corpo é estar ligado a certo mundo', pois 'nollllo ('11'1"1
âmbito de histórias e filosofias montadas na Europa por homens brancos,
sllcncialmente no espaço, mas pertence a clc'" (Irobi, }O I))
de línguas imperiais e pensamentos greco-Iatinos, Mignolo reforça
I>lnlogtl"cI() com Merleau-Ponty, Zumthor já concctara o ccwpo .\ "(',u '1'1
('pINI('I11Ulóglcn", pois "nossos sentidos não são somente (t'rrill\1('I\I,I~ tlt
\'('gllltro, ,~H() CJrgãOIlde conhecimento", cnfatízando 'IU(' CIO ('o"pu d.) n 51 Enquanto Maldonado- Torres (2006, p. 192) contesta a razão cartesiana por se fechar a ideias,
sensações constituintes e transformadoras de realidades hist6ricas que perspectivas eurocêntrí-
"H'cl/tI" (' (\11 cHnwnsões do mundo" (Zumthor, 2007, pp. 77 (' li I),
cas resistem a acolher; Cavarero (2011, p. 275) considera "Com Descarte, trata-se de uma sub-
1.I'ndu ('01'1'0 como "texto cultural" qU(\ "prclit'ntlllt'ó\ nl('lIl/" 1,1 jetividade toda redobrada sobre sÍ mesma, fechada e autorreferencial que não tem necessidade
('!lfl/H1~C\d" t'OI'IlCJ"l'n" J,""hl i\ ZUtl1lho,' cnpt,lI'cllll cTIIiP'\\'(H'Md(. 1'1111111 de nenhum mundo exterior para fundar o regime da verdade".
52 Apoiado em Del6ria, Mignolo ''lembra, para os que tem mem6ria fraca, a persistência de for-

mas de mem6ria que não s6 oferecem religiões alternativas, mas mais importante ainda, altcr-
11,0.,,,111, , •••• ,. 'p"'.I,"'. 'h' /",11." \'~'I' "".,, ao 10)
11.11 nativas ao conceito de religião que é fundamental na arquitetura do imaglnól'io do dvill:r.Il~'llo
ocidental". Cf. Mignolo (2005, p. 100).
111i ,_
'jI 1111"111'''1'1 I!I I_,,,"I',-,~ I

il '"'/11'1 pndl" dl" ('O'IHI/' 1'11' .1"'"1"11 .1, "1',11',1 ('(,",Ilre ,


111tI/II/II(/ lrrompem no Caribe, concebido como grande área cultural,
1,1111111 Ic,1 11I11.' opçao I' IH'('('/lIIIcI,HII', /lI.IM11\10 0111
incrustada entre as Américas, esse ensaísta legou balizas para viver a
"I~'''O 11('111 1111'1111'11111 IlIlpn.:MIHl em HCU próprlo COI'pO, como I()I'tl11I I' lIitO
mundialízação na contramão de dispositivos globais. Sem advogar esta-
tI:l ,tlHI':lllldadc mais que as da grecolatinidadf..'" (Migl1olo,
IS 1I11"I1I(wlas
tuto de cientista, abandonou o ser vislumbrando o sendo da política da
0060, pp, J 98 e 20 I).
Relação, proposição que por não ser "poética do magma, do indiferen-
1'l~I'gllntando por que Cósairc e outros pensadores negrO/l scntlrnm ,I
ciado, do neutro", situa-se no avesso do multiculturalismo, pois "para que
('0111lnuídadc colonialismo/fascismo, "despertando rumores dOH clcscr
haja relação é preciso que haja duas ou várias identidades ou entidades
cI,ld(),~",o fiJ6sofo porto-riquenho Ram6n Grosfoguel também Invcsu
donas de si e que aceitem transformarem-se ao permutar com o outro"
('ol;1r~ m(tica de um conhecimento universal e "lança diretamente
(Glissant, 2005, p. 32).
a e corpo-política do conhecimento", sem deixar de saudar
Para Glissant, a emblemática insularidade caribenha, resultante
de "universalidade"s3 encaminhada por Césaire:
histórica de colonizações entre disputas imperiais, reuniu condições
para plasmar culturas crioulizadas do Sul dos Estados Unidos até Norte
tes pensadores negros pensando desde seu corpo, desde sua pele, sentem processo"
ImpercepUveis ao homem europeu. Trata-se de mudança na geograna da razão, conut e Nordeste do Brasil, onde o africano "criou algo imprevisível a partir
buindo para produzir não um novo conhecimento na genealogia temporal do pell~,1 unicamente dos poderes da memória", ou desde "pensamentos de rastro/
mento ocidental, sim outro conhecimento pensado desde um espaço e outro corpo /l,\ resíduos, que lhe restavam." Em seu pensar,
conflguração do poder mundial. (G rosfogue I, 2006, pp. 149-150)
A escrita, ditada por deus, está associada à transcendência, à imobilidade do corpo, está
Alkerçados em heranças de homens e mulheres "entre-IugarcM" associada a uma espécie de tradição de encadeamento que chamaríamos de pensa-

corno Frantz Fanon, Aimé Césaire, Édouard Glissant, Gloria Anzalclún, mento linear. A oralidade, o movimento do corpo se manifesta na repetição, na redun-

SyJvia Wyntcr, Rigoberta Menchu, zapatístas de La Candona e muito dância, na preponderância do ritmo, na renovação das assonâncias e tudo isto se dá bem
longe do pensamento de transcendência, e da segurança que este pensamento continha,
0111ros pensadores latino-americanos contestam paradigmas curocên
bem como dos exageros sectários que esse pensamento desencadeia como que natu-
tdco/l, realçam mem6rias corporais, reforçam "pensamento sem arquivu
ralmente. (Ibid., p. 47)
que pcrvivc desde a escravidão", entrevendo hist6rias a partir do tr6l",,,
.ItI6n1ic'o ou extermínio e desmonte de viveres de povos autóctones cI"
Anlrricas. Suas percepções, enlaçando corpo e saberes, retomam o caminho
crítico de Fanon, que da língua chegou à experiência vivida pelo negro,
N('SHCquestionar retóricas da modernidade, partindo de pOVON1111
em choque por ser seu "corpo unicamente uma atividade de negação".
,,'upo,~ que mantêm sua diferença, ou seu fugar cultural diante do 'Ii"/,,
Saturado de sentimentos e emoções desde hostilidades racistas, Fanon
(/ mundo, da utopia de Édouard Glissant, vale trazer reflexões de li'"
detonou a abstração instaurada pelo cogito de Descartes, extravasando a
I'NNl'Intl'kC'tunl cJjosp6rico da Martíníca. Pensando em culturas ('011I/ ;
'1 represada questão do corpo entre culturas negras e ocidentais.
sttn», ()I'llllld"s da crIOIlI/%orão de raizes africanas, nativas e curopctns, 11'11

Sim, nós somos atrasados, simplórios, livres nas nossas manifestações. É que, para nós,

, "M'"lhll'IIIII'I'I'\11I1 d" \l1I'vt'l'~ul (, d" 111.1IIII'Vl"'~I,II'lI'O dI' lodo 1'"'111'111"" 1'1,'0 d" 1Ii1111~1',i,l' o corpo não se opõe àquilo que vocês chamam de espírito. Nós estamos no mundo,
I 1111111'.,"1"01'1111111111110
" l'IH'ICI~lIl1dll ,'0111 lodll~ o. 1"111" IrI'"'I'.," Alrllb ('('.,11, li. (\111" II MIIIIII, 1 E viva o casal Homem-Terra! (.,,)
//1111111'1,
l'lr,,,
S", /l'I,l"'" dll P,'I tldll ('OIlI\lI\INI., l'I',tll'~N, 1·~"II'11I1i11l I,"')o' • .t" ."11111111/,11111111".1111 Coso-me com o mundo! Eu sou o mundo! O branco nunca compreendeu esta substi-
tlllc~n 11lnHlcn, O branco quer o mundo. Ele se considera o senhor predestinado deste
111' , li' IHIIIIII IAlII. 1"11. ((11\1'(1'11 SAI\II'I ~ I f IVi'_ J ~t'ill'l

1111111011,( i ô1;ln!l!\I'lU' 111111""'" 111111111111111111111\1,,1,\1;,"1 01, ,II'III"iI.l~"I), i"1.1"1'\(1'10'1'1


I'adlcais em suas críticas à hegclllolll<l do conhecimento ocidental
1'01"'111
\1411111'''1"' .t,~, "'1111111111.,11'1 (()1I1 ti IIlIlllllIClllio. 111t11"IIIIIII'I.lIII1, Itl\lbo do lu,lIltti
e precisam ser lidos como "resposta do mundo colonizado, e particular-
"11111111111111111111111",""ldldl) pltl" (\10 o 1'111" Oh seus. (101"01', )OOU, pp, 116-11/)
mente da diáspora africana, ao moderno projeto civilizatório enraizado
Em "puro nro dI' exercício de Ilbcrdad na filosofia de Rene Descartes" (Maldonato- Torres, 2006, pp. 178-179).
Illt'iUht> c o mundo" (Camargo, 201 I), ciente da Em campo de forças, artistas e pensadores de humanidade com
corpos, imaginários, saberes histórica e culturalmente produzidos em
•• humanidade curopeía, que, perdendo o controle de s
perversas e contínuas relações de exclusão, aqui reunidos, apontam para
racial colonialista, entrava em crises que transbordam e avassalam todo
"diferença irredutível, mas não separação absoluta" em relação ao conhe-
(),~contlnentcs. Ainda registrou no que seria seu trabalho de conclusno
cimento dominante, "pois a viragem decolonial constrói-se incorporando
'1)1 psiquiatria, uma "última prece": "Oh corpo, faça de mim um homem
princípios epistemológicos da modernidade e deslocando-os até que
que questione semprel" (Fanon, 1983, p. 190). Enquanto s{ntelic d!
revelem o limite do pensamento imperial" (ibid., p. 198). Fanon sempre
Intimidades corpo/saber da humanidade negra, nessa prece, regis1rou
esteve consciente que a cultura do colonizado desponta no "céu do colo-
expectativas na subjetividade de corpos negros em alerta.
nizador" (Fanon, 1968, p. 184). Respaldado nessa dinâmica, Bhabha
Na perda de condições dos colonizados firmarem sua humantdn.I«,
acentua que "A significação mais ampla da condição pós-moderna reside
alcançou o sentido da "danação" dos condenados a se autoescravIZ:lI'!'II1, na consciência de que os 'limites' epistemológicos das ideias etnocên-
'nredados na modernidade europeia. Modernidade que sobrcvivenn- ,li'
tricas são também as fronteiras enunciativas de uma gama de outras vozes
Norte do Ocidente, expropria dons dos que estão fora daquele rnumlu,
e histórias dissonantes, até dissidentes" (Bhabha, 1998, pp. 23-24).
Já que "a lógíca da dádiva e da doação se transformou na perversa Ibgh'" Os previamente colonizados, interpelando a civilização ocidental,
ela possessão" (Maldonato-Torres, 2006, p. 189).54 Essa rcfcrê 11<'
111
posicionaram-se ante impasses da crise europeia desde anos 1950.
cosmopolita "tese do dom negro" - "a preservação e o desenvolvlnwlltlJ Contra o "americanismo", o comunismo e a geopolítica de Heidegger,
da cultura negra é inseparável de sua capacidade de particípnr pll'lhl que recompôs a epistemologia racista, plantando alicerces da moder-
mente das trocas culturais mundiais, de modo que aprovettcmos dOIl
nidade no eixo greco-germano, Césaire e Fanon questionaram a racio-
cios outros e eles façam parte dos nossos" (jcffcrs, 2011, p. 647)" nalidade do "homem europeu". Diante de seu conhecer e intervir
ncontra-sc latente em artistas e pensadores negros, adquirindo li"\',, fundado na colonialidade racial, o Discurso sobre o colonialismo, junto •
renovadas em demandas deste inicio de século. Pele neSTa, máscaras brancas e Os condenados da terra, "são talvez os textos
'ontlnuamente atualizado, Fanon permite pensar que hOm('1I1l1'( 1111 que mais clara e fortemente representaram a terceira via que se abrlu
pr/c llClI'(l, vendo-se na contingência de afirmarem sua hurnanldnd« 1'11111 no pós-guerra": a dos condenados da terra (Maldonato-Torres, 2006,
másrnras brancas, negociam em peformances espaço« de nltcl'idlld(1 I' IIlit" pp.188-189).
nnmla. Não no acaso, Maldonado-Torrcs acentuo qU!' C('lln i1'(1" hlllllll Introduzindo subjetividade e sociabilidade crítica ao etnocêntrico,
esses escritores e artistas caribenhos projetaram alteridade polülc ..,
cultural e epistemológica com base em experiências da diáspora e cio
~ l'O'II~,lIldtl dluolH til, dOlI~',j(J !"I(IUO'1I0 !tini"'/': <1(, ~(wlohllld.HI(,~ 1,,11111IIIIIIII~, "'11,/11.11/,11101"
,,,11'11 ~'lIhlfl dc· pn'"I(glo I' .111111/\ plll,,,\Clo~ C'III "I'dJll'Oddlit/(' 111111',11,MII(I~" I '''IIt'~tll''''/''1I colonialismo. As ciências europeias - que em seu racismo e racion:
11.'11/11',111110"1IIIIC·,l/l'olll,.,llo ('('011/\1101,'0. ('I' MIIIIHH ('()() I, pp. I H'/ I HH)
lismo perderam de vista os meios, celebrando a vitória da razão 56-, <-ml
1"'1 H/li" tlvIIH d" d"Ii\'flc'. ,1111111,,1" ,'.t.l" ,li' 1111'111/,,11,. d,· (·III.I~ AII"d"" """11' "" '_li' t:tlil d"
,,1111, M/\ "SI' p,,",".III'O"" 1.\111 11/1111' ,',,,111 d,c 1I1I1\'I'III","I,tI, '"11111111""\ IIh,l. ~.III"''''''jj
1,," ., ""o(~,I, "I,. "1,,, .III"H "01·.;, 1111•• I" 1"ldIlH"
6 Sobre a "vitória da razão", cf. Antonacci (1993).
.,
III ( ! 11(II~IAIIIIAIII 111! IIIII'! 1',11LA!II [ir •• 111';.1111)
r.CIIIIII!" ['I,v,I'(JM no I \JlH)(j t'l i MIIO '7

~luhi!III,lj.~'-'"lIlh'lIlillll dll'\"'\"I~'"'' el"e' I"VIIIII (\ dllh'\'",'II. pautundo problemas locais, regionais, ou contlncntals, esboçando utopias
I" f; IIIII.I/j d,· vkln luunana crnm IIIdll/cI'IM \'11' dINCU/'NO I1I1I1i
em meio a novas divisões de mundo que delineiam retornos a racismos e
'"'Ido dI.' dvlIl~\I\'i\CI·'. II d/lh'('nça, nos mutações de "Nl'I' o Outro", tornou
colonialismos, nos impasses do século XXI.
se "urna posl~'ú() de forma diferenciallperl'ormatica]
'"111'1.'.\<1:1 dentro d
A nosso alcance, como história e política exigem que sejam vislum-
cadela discursíva" (1Inll, 2003b, pp. 116-117).
bradas novas imagens e imaginários para pensar o futuro, entendendo
Nesse alçar de Epistemolo8ias do Sul, que "representa um enorme enri-
que muitas pelejas estão contidas nas leis 10.639/2003 e 11.64512009,
quecimento das capacidades humanas", em "pluralidade epistemológle
assumir seus significados culturais e educacionais, trabalhando seus
do mundo" que "obriga a análises e avaliações mais complexas produzíd
potenciais, abalam alicerces do instituído e conduzem a descobrimentos.
por diferentes conhecimentos" (Souza e Menezes, 2009, p. 12), anall
Enquanto legislação que resguarda aspirações e lutas dos movimentos
sondo o racismo brasileiro, Gomes chama atenção:
negro e indígena nos últimos 500 anos no Brasil, apontam desafios mas
potencializam discussões e trocas entre universos africanos, indígenas e
o "outro da razão" passa a ocupar os lugares da racional idade cientfflca desaflando-a pOI

meio de uma outra racionalidade que não se dissocia da corporeidade, da rnusicalidado,


europeus.
das narrativas, da vivência da periferia, das culturas negras, das formas comunitári Assumir suas demandas desponta como possibilidade de repúdio a
aprender. (Gomes, 2009, p. 429) exclusões embutidas em tempos lineares, historicismos e abstrações, em
direção a narrativas locais ou entte-Íuqares, subvertendo marcos e dispu-
urpreender, em culturas audiovisuais, pegadas de povos e grupo, sições de poderes raciais coloniais. Ao permitirem ouvir, desenhar, sentir
rcbelados, significa não só ir além de histórias estabelecidas, COIllO a diferença colonial e formas de pensar liminares, empoderar a promul-
descobrir documento/ monumentos de memórias polifônicas e carn.i gação dessas leis pode abrir caminhos a conhecimentos compósitos, trans
valizadas, em abertura para a diáspora do eurocentrado. Sair da "sombra versais, transculturais, proliferando vozes, distinções e interações erudlto /
de seus monumentos [que] se estende e se multiplica", espalhando N('II popular ao prenunciar o advento de outros sujeitos culturais.
"espírito" e "realizações", torna-se condição para abertura a "problema Politizando a produção e transmissão de conhecimentos, de dírctrlzcs
novos que exigem verdadeiras invenções" (Fanon, 1968, p. 272). curriculares, de pedagogias de ensino e materiais didáticos, seus enun-
omo amplo desafio, desencadeado por gerações em luta com legado, ciados questionam mundos sistêmicos e nos aproximam de "pensamentos
coloniais, na decolonialidade, desracialização, desconstrução do conhece: de rastro/resíduo". Como levam à pluralidade de documento/monu-
viver, sem perspectivas de ganhos decisivos há sempre espaços a /)("'\"11 mentos, permitem travessias entre registros ocidentais, de povos africanos
Icnn~;Rdosou retomados, aproveitando conjunturas em que estra1('gfn e nativos das Américas, cruzando patrimônios, arquivos e arqueologia de
\'olnnl";AClorasestão suscetíveis a desafios e reivindicações dos "/'C)I'[l d.I saberes, do letramento moderno a estatuto e suportes históricos de sabe
(Wdl'l11" estão na "ordem do dia".
dorias que privilegiam condições de enunciar.
a arcabouço desse elenco de devires explícita a responsabilidade
4, I:u<ju<lnto movimento em direção à dláspora do eUI'OCCnl",Ic!o.fi ética e política dos que abraçam seus potenciais, que não se limitam no
<leI(' II'OZ\'IlW/l n discussão constltul ensaio prclimlnar na rOrlllul,,\';tn d. campo disciplinar da história, em função de suas inserções no currículo
l'illlll'0 d\' Cjul'/oIlõ('s, em que vnl'io/i n1ol'c'H, Ic'11()I'\'/i, ('sCTIIOl'('N, tOlll1l
escolar de todos os níveis e graus de escolaridade. Diante de guellté"SeM
1
dOI'I'/I du P\\IIIVI'" IH' lil";\'1)) 11"('/I('l1tl'/I. S('III pl'I'NIH'I'llvII~ ('111 \t""'11 ,"11/111111,
problemas advindos do ensino/aprendizagem de Hist6ria da Ál'l'icll, dt
.1•• rl'lC"~tlH:N II'v,IIILIII.,,, PI\'II"lIlc'III ,11!c'IIHil I 1"111"1/11\,11'11 '~."II,eCl,lcleIlL,
Povos Indígenas, de suas cultural'! e diásporas, fica impos/l{v(,1n.11lP"IIIh11
7'1 1111
1':!f'lfMJiI

1'111l',dIl1:lIfhl,. .11111111111.1111,
'1111'"11111' 1I1I1\'l"Ilil.ll\ 11'11'1, VII'I" IIIHIH'c~1í1 A JI J 'IAI I, A. (1997). Na casa de meu pai: a Africa na filoscj1a da cultura. Rio
1"111"111
pnuhl/ll l"d,III".ldl'/I" /II1·IINlhllldq<l",.pllhl vlv"1 "111Ill,III\,Ol'V, ,,11"1 de Janeiro, Contraponto.
1'11111\111111.10.101114
,Ivlllllll IOllnIM.
BALOGUN, O. (1977). "Forma e expressão nas artes africanas". In: SOw,
S"1I1 Pl"'<I,'I' t1t' VIIlI.1qtl(,~ /l.claçocs, entre iguolll, pn.'lIllllp<WIlI .Ij,'II\.1I1 A. et al, Introdução à cultura Africana. Luanda, Instituto Nacional do
,10 "'II)p1'O do l"Elar" I' <\ Inserção cultural no Todo-o-mundo, /ll'1l1 I>".dll Livro e do Disco.
1I1(lIloMou convivências culturalístas que fragilizam difercn\"\II, IllljlOI'I.11I1 BARBOSA, M. S. (2010). A crítica pós-colonial no pensamento indiano
PI'i)IIt'(\1I quc "se intervalorizem" para que "possam ser t'olo('(ldoM "111 contemporâneo. Afro-Asia, n. 39. Salvador, Ceao/UFBA.
1'(,ltIS'oo",produzindo "resultantes imprevisíveis". Para Cllssnn; BARRY, B. (2001). Seneqàmbia: o desqfio da História Reaional. Rio de
Janeiro, Ucaml Ceaa e Sephis.
hogamos a um momento da vida das humanidades em que o ser humnn 1111'''"' BASíLIO, G. (2010). O Estado e a escola na construção da identidade polí-
celtar a idela que ele mesmo está em perpétuo processo. Não r, I11n~••••'u I••
tica moçambicana. Tese de doutorado em Supervisão e Currículo. São
orno todo sendo, muda.
Paulo, PUC-SP.
[Nesse] panorama do mundo uma questão importante apresenta-50: como ~!11 ~I
mosmo sem fechar-se ao outro e como abrir-se ao outro sem perder-se tl ~IIT1"~III(J/ BATTESTIN1, S. (1996). "Escrituras africanas: inventário y problemá-
(Glissanl, 2005, pp. 27-33) tica". ln: CATACH, N. (org.). Hacia una teoria de Ia lenpua escrita.
Barcelona, Gedisa Editorial.
Neste finalmente importa saber que saímos da "grande noíte "111 ____ (1997). Écritllre et texte: conttibutton cif'ricaine. Quebec, Les
(11I(~cstlvcmos mergulhados", expressão da consciência de Fanon (l %H, Presses de L'Université Laval.
p. 271)5\ em Intensa Proximidade, tema da Tríenal de Arte Contcmpu ____ (dir.) (2006). De l'ectit cyricain a 1'oral. Paris, L'Hatmattan.
rânca de Paris,58 que sob a curadoria do nigeriano Okwui Enw\'zOl, BAYART, J. (2010). Les études postcoloniales: carnaval académique, Paris,
JwrNonalidade do mundo artístico, explora crenças e esperanças d"NIH'1 Karthala.
1,,<lalipelas artes em mundo globalizado e aooa1e]lsado, em que o p"'ndlllll BHABHA, H. (1998). O local da cultura. Belo Horizonte, Editora da
o longínquo interagem em tempo e espaço abertos a novas int(~rí.\\'tIt UFMG.
('ult urais e pollticas. BIDIMA, J. (2011). Philosophies, démocraties et pratiques: à Ia recherche
d'un universel lateral. Critique. Tomo "Philosopher en Afrique",
n. 771/772, Paris, Editions les Minuit.
RfTFRtNClAS BIBLIOGRÁFICAS
BUSCH,A.;ANNAS, M. (2009). Choréographie de Ia langue. !lfricultures,
n. 76. Paris, L'Harmattan.
~j'rl<[(Ic 50: sinau!arité d'un cinema au pluriel (2005). Paris, L' I Iarmaunn.
AN'rONACCI, M. A. (1993). A vit6ria da razão(?): ° IDORT e a .\'o('/('tf"tI,.
CALAME-GRIAULE, G. (2003). A nasalidade e a morte. Projeto História,

/1tI1I11,wCJ. São Paulo, Marco Zero/CNPq.


26. São Paulo, Educ/CNPq.
CALVET, L. (1984). La tradition orale. Paris, Presses Universitaires de
France.
\/ P~PI"'"Hlto "l1tlllll~d" por Mlwmbc (20 I O), ncmcondo \'Nllltlo em IOI'HO tI(, d(I(·olollll1ll11l'oI. ____ (2008). Historia de Ia escritura: de Mesopotamia hasta nuestros
"fllJ~" \lnll( d\nlm
,11'111,"11' d,' Nk()I.1H Snrku:t.I, nn lInlv",.~ld\ld(,
dIHCIII"H() d,. l)llklll' (2()O'!).
dias. Buenos Aires, Paidós.
M III'I''''~ l'w!lIU/,d: '1111'
IIII~A 11I IIflItW/ft du prtJrh~ ~( ti" III/mon, "\110\1"11" 11I11'H'.1
11jll'lll"tll ti" • ""1
111"I" tll1 'l'tI,'m,1 d" A'll' ('IIII'il'lIplll'~III'II, 1'111.\110
dI' 'r'lqlllll (1"1t1•• t IlIhllll,"! t "\1111,\ N.III"I"d CAMARGO, O. de (2011). Exposição indícios da escrita neara. São Paulo,
d". A.,_ 1'1•••11'1"".,J/) 1J)
Bíbllaspa.