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W. W. ATKINSON E EDWARD E.

BEALS

O PODER ESPIRITUAL

OU

A FONTE INFINITA

“O Universo é apenas a capa exterior, dentro da qual está oculta uma


atividade espiritual credora – um esforçar, sentir, vibrar como o que
experimentamos em nós mesmos.” – Wundt.

1ª Edição

São Paulo

Círculo Esotérico da Comunhão do Pensamento

2012
© Copyright by W.W. Atkinson e Edward E. Beals, 2012
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)

Atkinson, W.W. e Beals, Edward E.


O Pode Espiritual ou a Fonte Infinita
Autor W.W. Atkinson e Edward E. Beals
São Paulo
Círculo Esotérico da Comunhão do Pensamento
2012
ISBN xxx-xx-xxxxxx-x-x
Religião
CCD-200

Índice para Catálogo Sistemático

Religião - 200
Todos os direitos reservados de acordo com a legislação em vigor.
Impresso no Brasil - Printed in Brazil

Revisão Final:
Élcio Lima

Capa e Diagramação:
Three-R Editora e Comunicação Ltda Me

Impressão e Acabamento:
Local da Impressão

Círculo Esotérico da Comunhão do Pesamento


Rua Dr. Rodrigo Silva, 65 - Liberdade - São Paulo - SP
www.cecpensamento.com.br
SUMÁRIO

Prefácio............................................................................................ 7

I. A pesquisa da Verdade............................................................. 9

II. A Substância Material............................................................ 25

III. A Energia Atuante.................................................................. 37

IV. O Espírito Imanente............................................................... 51

V. O Espírito: Vida Essencial...................................................... 63

VI. O Espírito: Poder Essencial.................................................... 75

VII. O Criador e a Criação........................................................... 85

VIII. Em Uníssono com o Infinito................................................. 101


PREFÁCIO

Não podiam os autores fazer melhor coisa do que publicar um


volume sobre “A Fonte Infinita”, de que tudo emana.
Esta é a base fundamental de todos os poderes, sem a qual nenhum
poder é real, valioso e consistente. Qualquer poder desenvolvido sem
uma intervenção real e efetiva da Suprema Fonte é como uma casa
construída na areia: ao primeiro sopro, rui tudo por terra.
Para haver um desenvolvimento real de qualquer poder, é
necessário o “contato” com a Fonte de que se origina e que lhe serve
de alimento permanente. Encontram-se numerosos exemplos de
desenvolvimento do Poder da Vontade que, não sendo realizado pelo
contato com a Suprema Fonte, mas apenas pela aplicação de meios
mecânicos, conduziram seus possuidores à ruína material e moral,
tirando-lhes toda coragem para novas iniciativas. Essas vontades
puderam ser denominadas vontades de ferro, pois eram dotadas de
grande resistência, porém, a vontade de aço, aquela que nunca é
vencida, encontra seu apoio e sustento na Suprema Fonte de origem.
Não se esqueça, pois, o leitor, que tem interesse em desenvolver
seus poderes, de referendá-los àquele PODER de que brotam todos os
poderes como água de fonte cristalina.

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I
A PESQUISA DA VERDADE

O homem é um ser inquiridor. Desde os primitivos dias da


história do gênero humano, através de todas as fases intermediárias
da evolução humana, até a época atual, o homem esteve inquirindo
a si, aos seus companheiros, à própria natureza, a respeito dos fatos
fundamentais do mundo, de si e do que constitui e move a ambos. Sua
evolução mental sempre foi acompanhada de seu constante inquirir e
de suas descobertas de respostas, ao menos parciais, à sua pergunta
contínua do “porque”, sendo realmente produzida por elas.
A vida intelectual do homem é representada pelo termo
“inquirir”. Manifestou o espírito de sua aspiração intelectual por meio
de suas perguntas. As inquirições do homem foram sempre sobre os
fatos fundamentais referentes ao mundo e a si mesmo. Suas perguntas
foram sempre baseadas nesta inquirição. Sempre pediu respostas a
estas perguntas: “Quem? Por quê? Como? Que há?”
Na primeira fase de sua vida intelectual, contentou-se em
perguntar apenas coisas relativas às necessidades de sua vida física.

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Depois, começou a inquirir sobre as leis que governam as atividades
manifestadas no mundo de coisas que o rodeiam e sobre si mesmo. Em
seguida, pôs-se a inquirir sobre a natureza e substância fundamentais
das coisas do mundo físico e das causas fundamentais que produzem
o aparecimento, as mudanças e o desaparecimento delas.
O Professor Nicholas Murray Butler, presidente da Universidade
de Columbia, diz:

“Um passo importante e de grande alcance em suas


conseqüências foi dado, quando os homens procuraram,
pela primeira vez, a causa da mudança e decadência em si e
nas leis que parecem governar as coisas, e não nos poderes e
forças exteriores e fora de si. Quando fizeram, pela primeira
vez, a pergunta: “Que é que persiste no meio de todas as
mudanças e está coberto por elas?”, nova era estava para
despertar na história das maravilhas humanas e seu desejo de
saber... Quando o Mundo é considerado como Totalidade,
não há, certamente, nada com que se possa compará-lo,
nada de que dependa, nenhuma fonte externa de que possa
ser derivada sua energia. Portanto, passamos, nesta fase do
saber, do plano de interdependência, relatividade, ao plano
de dependência própria, relação consigo mesmo, atividade
própria. A Totalidade auto-ativa é a fonte e origem de
todas as forças, energias e movimentos que, numa ou em
outra manifestação, são observados em suas inter-relações
e interdependências”.

A Pesquisa empreendida neste livro é a que leva à descoberta da


natureza e caráter desta Auto Atividade da Totalidade que conhecemos
como Universo ou Cosmos – ou aquilo que, numa idéia mais familiar,
é conhecido por Natureza. Limitar-nos-emos estritamente ao plano
da Natureza. Não tentaremos invadir o plano do Sobrenatural.
Limitaremos nossa pesquisa ao campo do pensamento filosófico

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cientifico adiantado. Evitaremos, cuidadosamente, penetrar no campo
da Teologia ou da Metafísica abstrata. Isto não quer dizer que nos
opomos à Teologia ou aos seus ensinos, nem à Metafísica abstrata e suas
diversas teorias. Significa, apenas, que preferimos deixar esses campos
respectivos aos que são especialistas nos assuntos que lhes pertencem.
De tempos em tempos, nos referiremos a certos ensinos teológicos ou
metafísicos, porém apenas o faremos com fim ilustrativo.
Certas escolas de pensamento nos recordam, frequentemente,
que a Razão (concebida como Intelecto) é incapaz de penetrar
dentro do véu da aparência fenomenal que encobre, mas revela, a
presença e atividade do Poder Infinito, que reside no Lugar Secreto
da Eternidade. Citam, com aprovação, a antiga inscrição gravada no
velho Templo de Ísis, no Egito, que anunciava a todos os leitores:
“Eu Sou Ísis; tudo o que é, o que foi e o que será; nenhum homem
jamais levantou meu véu.”
Assim também nos fazem recordar a célebre expressão dos
antigos budistas: “A imaginação, a inteligência sempre se esforçarão
em vão para representar o Eterno Infinito. Pois nenhuma forma do
Infinito (a que pertencem o pensar e o falar) pode exprimir o Infinito;
nem pode, o que é temporal, exprimir a Eternidade; não pode a Idéia
resultante da Cadeia de Causa compreender o Sem-Causa e Auto-
Existente. Portanto, deixamos de lado todas essas especulações e vãs
disputas, não nos preocupando com elas.”
No poema de Edwin Arnold, “A Luz da Ásia”, diz o Buda:

“Om Amataya!
Não meçais com palavras o Incomensurável;
Nem mergulheis a corrente de pensamentos no Inimaginável.
Quem pergunta erra; quem responde erra, diz tolice!
Verá alguém com os olhos mortais?
Ou conhecerá o investigador com a mente mortal?
Levantar-se-ão véus após véus – mas continuarão a existir
Véus após véus”.

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Porém, tanto os antigos egípcios como os budistas, sabiam
e ensinavam que existem outros meios de “saber” que não os do
Intelecto, limitado pelos sentidos. Ambos pretendiam que o homem
pode desenvolver faculdades superiores de conhecimento – um
mecanismo superior de conhecimento – pelos quais “o incognoscível
se torna conhecido”. Os antigos egípcios ensinavam que certas almas
adiantadas tinham adquirido poderes transcendentes de conhecimento
por meio dos quais podiam perceber aquilo que está além dos poderes
da percepção ordinária e “conhecer o que é incognoscível” aos poderes
ordinários da mente.
Os budistas também ensinaram que os Budas e outras mentes
iluminadas da humanidade podiam pensar naquilo que o Intelecto
inferior é incapaz de compreender e podiam conhecê-lo. Com efeito,
a suprema pretensão dos budistas é que seus ensinos básicos são o
resultado do Pensamento – o pensamento do iluminado Gautama, o
Buda daquele período. Um dos hinos dos antigos monges budistas tem
como seu coro a repetição: “Ele o pensou; ele o pensou!” O orgulho
do Budismo é que seu sistema é baseado no Pensamento e não somente
na Fé. Porém, por “pensamento” querem dizer a Razão Superior em
que as informações da Intuição são misturadas com as do Intelecto.
Estas antigas escolas de Idéia filosófica, da mesma forma que
muitas escolas mais recentes, ensinam que, embora seja verdade
que o Intelecto, por si mesmo, dependente como é das informações
interpretadas dos sentidos para seu material básico e sendo, assim,
necessariamente, limitado em seu campo e alcance, é, por isso, incapaz
de “desatar o nó” – informar corretamente a respeito do que está atrás
do Véu da Materialidade – também é verdade que a Razão é capaz de
transcender as limitações do Intelecto, não ajudado, quando chama
em seu auxilio esta irmã gêmea, conhecida por Intuição e, assim,
obtém os materiais com os quais a Razão Superior pode trabalhar,
tecer e coordenar na fábrica gloriosa da Verdade.
A filosofia moderna tem dado grande interesse a certas formas
de atividade mental que são agrupadas sob a categoria de “Intuição”.

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Nesse emprego do velho termo “Intuição”, esses filósofos não se
referiam às atividades ordinárias conscientes ou subconscientes
cuja fonte permanece secreta e a que, freqüentemente, se referem
como intuitivas. Nem se referem aos hábitos adquiridos de agir, que
outrora eram realizados conscientemente, mas agora se manifestam
subconscientemente e são conhecidos por “instintos”.
Pelo contrário, empregam o termo para indicar a forma superior
de Razão que se torna possível pelas informações das faculdades
superconscientes, a respeito da percepção de certas verdades superiores,
cujas informações são, então, passadas para o Intelecto, para um
raciocínio baseado na indução ou dedução ou formas semelhantes de
pensamento. Pretendem que estas informações da Intuição não são
contrárias às do Intelecto, mas apenas mais diretas e convincentes
no “sentir” e servem antes para apoiar as informações do Intelecto
treinado do que para se oporem a elas ou contradizê-las.
A Razão, sendo-lhe fornecidas as informações combinadas do
Intelecto e da Intuição, acha-se de posse de material que ultrapassa
muito, tanto em quantidade como em qualidade, os que resultam
apenas das informações dos sentidos. Por conseguinte, a Razão
Superior é capaz de produzir materiais de uma qualidade e beleza
muito superior ao que pode produzir, quando se limita aos materiais
comparativamente escassos e imperfeitos dos sentidos. Ou, empregando
outra figura de linguagem, podemos dizer que a Razão Superior, na
qual o Intelecto é reforçado pela Intuição, age como o geômetra hábil
que, tendo-lhe sido dados certos “pontos observados”, é capaz de
medir e fazer mapa de grandes regiões de terra ou espaço, pelos quais
seus pés nunca passaram, as asas de seu aeroplano nunca voaram, nem
seus olhos jamais viram. A Razão Superior, possuindo, assim, esses
“pontos observados”, que a Intuição lhe fornece, é capaz de medir,
classificar e delinear grandes áreas de pensamento e conhecimento,
pelos quais seus sentidos não viajaram e que não podem perceber.
Bergson opina que o Intelecto é convenientemente empregado
com as aparências externas da vida; a Intuição, com os fatos íntimos

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da vida. O Intelecto, diz ele, é uma limitação ou focalização da
consciência, presa em campo limitado pela sua própria natureza. Fora
deste campo limitado está a região da Intuição. No seu próprio campo,
diz Bergson, o Intelecto é considerado possuidor de supremacia. A
Intuição não começou a alcançar a eficiência do Intelecto neste campo.
Por sua vez, a Intuição é suprema em seu próprio campo. Vai muito
além do Intelecto nesta região e nos dá conhecimentos impossíveis de
serem obtidos pelo Intelecto não auxiliado. Deve-se notar, porém, que
este conhecimento superior não contraria a informação do Intelecto
levado ao seu limite máximo, nas linhas de um pensamento lógico,
treinado. Apenas transcende os limites do Intelecto e vai além deles.
Quando o Intelecto, pondo de lado seus preconceitos e
falso orgulho, faz perguntas à Intuição a respeito de assuntos
que permanecem no campo da atividade intuitiva e, então, toma a
informação da Intuição e emprega-a como base de indução e dedução
racional, obtém um admirável resultado. Dá-se, assim, uma notável
mistura e surge um campo inteiramente novo de pensamento à Razão
do pensador individual. As atividades correlatas e coordenadas do
Intelecto e da Intuição produzem o que se pode chamar de informação
da Razão Superior ou da Razão Completa. Então o individuo obtém
“a fé de que sabe, não a que apenas crê”.
Acha-se expressa uma tremenda verdade na célebre expressão
de Bergson: “Existem coisas que só o Intelecto é capaz de procurar,
porém, por si mesmo, ele nunca as encontrará. Essas coisas só a
Intuição pode encontrar, mas ela nunca as procurará por si mesma.” A
intuição nunca se move por si mesma para explorar suas profundezas
a fim de obter a Verdade – ela não precisa deste esforço. Sabe e tem
como certo que todos conhecem a resposta; não sabe da existência do
problema em questão, nem da necessidade de respondê-lo, nem tem
desejo de que seja respondido.
Como nos ensinou Bergson, a Intuição, embora seja a única
capaz de encontrar a resposta a certas questões a respeito de fatos
importantes, por si mesma nunca procurará a resposta. Só quando

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o Intelecto (que é único capaz de procurar a resposta, mas é incapaz
de encontrá-la por si mesmo), se atreve a pedir á Intuição que olhe
para dentro de si, a fim de encontrar a resposta necessária, é que a
Intuição faz a investigação e fornece a informação pedida. Desde que o
Intelecto faça com que a pergunta se torne clara à Intuição, esta se põe
facilmente a respondê-la. Os fatos assim apresentados ao Intelecto são,
então, sujeitos aos processos de raciocínio lógico – sendo empregados
como premissas de tal raciocínio – e a Razão Superior, finalmente,
forma seu juízo e conclusões lógicas.
A correlação e coordenação do Intelecto e da Intuição, no trabalho
da Razão Superior ou Razão Completa resultam, frequentemente, no
que é chamado “iluminação intelectual” ou num “raio de luz” que
descesse ao Intelecto como que “do Alto”. A Intuição, sobrepondo suas
informações ao Intelecto, acende a chama da iluminação – a “iluminação
intelectual” de que foram obtidos clarões por muitos grandes homens e
mulheres, conforme são relatados em suas biografias ou autobiografias.
Algumas das maiores descobertas e outras realizações mentais foram
realizadas sob a influência desta “iluminação intelectual”, assim
produzida, pela ação e reação, entre o Intelecto e a Intuição.
O Intelecto constitui o aspecto “vidente” do saber; a Intuição o
aspecto “sensiente”. Quando aprendemos uma verdade por meio de
nosso Intelecto, dizemos que a “vemos”; quando a aprendemos por meio
da Intuição, dizemos que a “sentimos”. O “sentir” é tão válido quanto
o “ver”, desde que seja corretamente compreendido e interpretado.
Com efeito, o “sentimento” parece ser mais profundo que a “visão” –
tem a ver com o lado “íntimo”, mais do que com o lado “exterior” da
experiência. Parece pertencer essencialmente ao indivíduo, ao passo que
a “visão” parece estar mais relacionada com o mundo exterior.
Existem certas leis, princípios e verdades fundamentais que o
Intelecto e a Intuição, combinados e correlacionados como Razão
Superior ou Completa, devem, inevitável, invariável e infalivelmente,
informar serem verdades necessárias, necessidades do pensamento, pela
própria natureza de seus caracteres respectivos e fatos essenciais. “Ver”

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isto intelectualmente e “senti-lo” intuitivamente é conhecer a Verdade.
E o que é tão importante -muitos o julgam ainda mais importante -
esta percepção intelectual e realização intuitiva equivalem a ser capaz
de manifestar e exprimir a Verdade na experiência mundana, sob a
forma ou fase de Poder Pessoal da mais alta ordem. Tais foram sempre
a informação, a promessa e a profecia dos grandes mestres espirituais
da humanidade.
Eis a informação, promessa e profecia de alguns dos grandes
gigantes espirituais da humanidade, baseados na experiência de
tais almas iluminadas, espalhadas em vários séculos de pensamento
filosófico e transcendente:
A Profecia referente á Verdade.

“Quando fordes capazes de perceber, intelectualmente,


e realizar, intuitivamente, a Verdade, como ela vos é
inevitável, invariável e infalivelmente informada por
meio do exercício conveniente de vossa Razão Superior
ou Razão Completa , então sereis capaz de manifestar a
Verdade em vossos pensamentos, atos e obras, á proporção
de vossa percepção e realização da Verdade.”

Pedindo que aceite esta informação, promessa e profecia a


respeito da Verdade como sendo feitas de boa fé e sinceridade, conforme
a luz possuída pelos que a fazem, convidaremos você a subir conosco
no Caminho da Realização, que contorneia a Montanha da Verdade.
A chegada ao cimo da montanha nos compensará amplamente dos
rigores da subida e do cansaço da viagem. A esse respeito, diz um
inspirado escritor:

“O cimo da montanha representa o ponto mais alto a


que um excursionista pode chegar e pensar em termos da
consciência relacionada com o mundo material. Porém,
podemos lançar um olhar para além dele, embora seja

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uma sublime elevação em que muitos peregrinos se
contentam de parar. Abaixo dele estão os reinos; acima
dele, as estrelas; tanto os reinos como as estrelas são dele.
Porém, ele não é o fim. Mais abaixo dos reinos e mais
acima das estrelas, estão as nuvens que envolvem a ambos.
E só ali há Paz; a paz que o mundo material não pode
dar; a paz que excede a inteligência treinada nas coisas
materiais; a Paz Infinita e Eterna – a paz da Consciência
Ilimitada unida à Vontade Ilimitada.”

O pensador, quando começa a contemplar o mundo que percebe


existir e manifestar atividade ao redor de si, logo descobre três classes
de coisas neste mundo. Logo começa a generalizar e a classificar estas
três grandes espécies de coisas em três categorias fundamentais. Estas
três grandes categorias são as seguintes: (1) a Substância – seu aspecto
exterior como lhe é mostrado pelos seus sentidos; (2) os Poderes,
Energias e Forças que fazem os movimentos e as ações das coisas,
as mudanças, imperceptíveis aos seus sentidos, embora manifestando
seus efeitos de modo a ser aprendido pelos sentidos; (3) a Vida das
coisas – o Algo íntimo que se manifesta em atividades vitais, ações
voluntárias, sentimento, pensamento e vontade – experimenta isso em
si mesmo e julga que as outras coisas também o possuem, em virtude
das ações delas, as quais percebe.
À proporção que a evolução intelectual do homem prossegue, ele
descobre certas leis que governam cada uma destas três grandes classes
de coisas ou fatos. Percebe certas leis que governam o aspecto físico
ou material das coisas, certas leis que governam as forças produtoras
de atividades nestas coisas físicas e materiais, certas leis que governam
as operações e atividades dos processos vitais e dos processos mentais.
Agrupa estas leis e, nas bases delas, erige sua estrutura de Ciência.
Durante muito tempo, o homem pensador teve tempo bastante para
pensar no assunto das “coisas”. Como o pequeno urso, tem todas
as suas dificuldades à sua frente. É só quando entra na Filosofia ou

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Metafísica que suas dificuldades verdadeiras nestes assuntos começam
realmente. Vamos mostrar porque é assim.
O homem de Ciência se preocupa apenas em saber “o modo
pelo qual as coisas agem”, os princípios que governam suas ações e
processos. Pergunta apenas “como?” e se satisfaz com uma resposta
a esta pergunta. Pelo contrário, o Filósofo Metafísico vai além na
investigação: não se satisfaz com a fase “como” da questão. Procura
a resposta à nova pergunta do “por quê?”. Prossegue nas suas
pesquisas até chegar à pergunta final expressa da forma seguinte: “O
que é o Princípio Final de Todas as Coisas e de que todas elas são
manifestações?” Não se contenta com a classificação científica das
coisas naturais nas três grandes categorias: (1) Substância; (2) Energia;
(3) Vida ou Espírito. Julga que algum destes três deve ser o Princípio
Final, os outros dois sendo aspectos subordinados ou manifestações
desta Realidade Final. Não explica claramente o “porquê exato”
de todas as coisas deverem ser manifestações de um só Princípio.
Considera-o provado e vos pede para fazer o mesmo. Pergunta-lhe
como e porque se dá isso e ele vos responderá, com grande dignidade
nos modos e no tom: “Toda filosofia digna deste nome pretende que, no
final, tudo deve ser reduzido a Um Princípio Final. A descoberta deste
Princípio Final é o objeto e fim de toda verdadeira idéia filosófica.”
Premido para dar uma resposta mais completa, abandona o
assunto com a observação: “Platão estabeleceu este assunto uma vez
por todas, há vários séculos” e nos denomina ignorantes, imprudentes
se nos arriscarmos a pedir que diga ou mostre “como Platão soube
disso”. Parece que há certos limites, além dos quais não podemos
passar nas pesquisas de certo Filósofos Metafísicos. É, para eles, um
caso de “Assim disse o Senhor!” – Platão representando o papel do
Senhor. Os pensadores que, neste assunto, são “de Missouri” e pedem
para que “se lhes mostre”, são apelidados de antifilosóficos, porém,
seu número aumenta e suas fileiras contam agora com as mentes mais
brilhantes da humanidade. Parece que os metafísicos abstratos estão
casados com seus ídolos.

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Este pedido de redução de todas as coisas a um Princípio Final,
desde há muito, dividiu o exército da Filosofia Metafísica em dois
grandes campos, cada um dos quais, por sua vez, se acha dividido
em grupos menores. Estas duas grandes divisões filosóficas são
conhecidas por (1) Materialismo e (2) Idealismo, respectivamente.
Estes grandes campos, embora em contínua luta um com o outro, se
apegam, entretanto, firmemente, à mesma idéia fundamental de que
existe um Princípio Final. Um pretende que este Princípio Final seja
a Matéria e o outro, que é o Espírito ou a Mente. Empenhados numa
contínua luta entre si, estes dois campos se acham unidos contra um
terceiro campo, denominado Realismo, que pretende existirem dois
Princípios Universais e não um – sendo um a Substância Material e
outro a Essência Espiritual. Vejamos quais são as idéias fundamentais
e básicas destas três escolas divergentes.
O Professor Thomas Case, Presidente do Colégio “Corpo de
Cristo”, da Universidade de Oxford, no seu grande artigo sobre a
“Metafísica”, na Enciclopédia Britânica, undécima edição, diz:

“O Materialismo Metafísico é a opinião de que tudo o


que se conhece é o corpo ou matéria, porém, ao passo que,
conforme os antigos materialistas, a alma é apenas outro
corpo, conforme os materialistas modernos, a mente
sem alma é apenas um atributo ou função do corpo. O
Idealismo Metafísico é a opinião de que tudo o que se
conhece é mente ou algum estado mental que alguns
idealistas supõem exigir uma alma substancial, outros,
não, conquanto todos concordem que o corpo não tem
diferente entidade da mente. O Realismo Metafísico é
a opinião intermediária de que tudo o que se conhece é
corpo ou alma, nenhum dos quais ocupa todo o universo
da existência. Aristóteles, o fundador da Metafísica como
ciência distinta, foi também o fundador do Realismo
Metafísico e ainda continua a ser principal autoridade.

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A força do Materialismo consiste no reconhecimento da
Natureza, sem explicá-la de qualquer forma. Sua fraqueza
consiste na consciência, tanto em sua natureza como em
sua origem. Por outro lado, é virtude do Idealismo dar
preponderância ao fato da consciência, porém, tem o
defeito de exagerá-lo, tendo a conseqüência de procurar
toda espécie de paradoxo para negar a realidade material e
libertar-se dos corpos. Porém, não é justo discutir como se
só existisse o monismo materialista ou o idealista, deixando
de lado o Realismo. Existem, realmente, duas espécies de
substância ou coisas inteiramente diferentes”.

Cada uma das duas respectivas escolas filosóficas que se apegam


á teoria básica de um Princípio Final tem seus pontos fortes e seus
pontos fracos. A terceira escola, a do Realismo, procura combinar os
respectivos pontos fortes e eliminar os pontos fracos de cada uma, por
meio de uma nova síntese, em que a Substância Material e a Essência
Espiritual são consideradas duplos princípios ou aspectos duplos da
Realidade Final. Tal síntese, como se vê, contém e inclui os pontos
fortes de cada uma das duas escolas, ao mesmo tempo em que torna
desnecessárias as hipóteses extremas que constituem os pontos fracos
de uma e de outra. Se acompanharmos a análise apresentada nas
páginas seguintes deste capítulo, poderemos reconhecer e compreender
as vantagens que se encontram na Escola Realista de Filosofia, e os
defeitos de cada uma das outras duas.
O ponto forte do Materialismo foi sempre o de satisfazer o pedido
da Intuição de uma base substancial, firme, constante e material, para
apoio e sustento do mundo das coisas materiais. Esta base substancial
é negada pelo Idealismo na sua insistente afirmação de que “Tudo é
Mente; a Mente é Tudo”. É a este fato que se deve a reação natural e
“volta” ao Materialismo, que sempre sucedeu à extrema e exagerada
apresentação das doutrinas do Idealismo. Se o Materialismo se
contentasse como o postulado básico de que a “Substância Material

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é Real”, receberia a aprovação completa da Intuição e também do
Intelecto. Porém, não o faz e não se contenta com isso. Pelo contrário,
acrescenta a cláusula prejudicial: “e a Substância Material é a ÚNICA
Realidade”.
O ponto fraco do Materialismo, o ponto que repugna
absolutamente a Intuição, é aquele em que afirma que a “Vida, a
Mente e o Espírito são propriedades, atributos, aspectos, fases, modos
de Matéria, ou então a criação, manifestação ou expressão dela”. O
Materialismo foi tão longe, até que (em certo tempo), pretendeu que
a “Matéria segrega a Vida e a Mente, da mesma forma que o fígado
segrega a bílis”. A Intuição, compreendendo perfeitamente que ela, em
sim mesma, é Espírito, recusa absolutamente admitir esta opinião do
Materialismo. Reconhece a Matéria em seu lugar, no seu plano, porém
considera-a sempre “estranha” ao Espírito – o oposto antitético do
Espírito. Reconhece sua própria identidade com o Espírito e sabe que
o Espírito é uma Finalidade e não um derivado ou produto da Matéria
ou de qualquer outra coisa.
O ponto forte do Idealismo foi sempre seu postulado de que o
Espírito, a Vida e a Mente são fatos finais da existência e não derivados
ou produtos da Matéria ou da Força Material. A Intuição recebe-o de
braços abertos ao trazer esta mensagem. Tal mensagem satisfaz a alma
e produz contentamento espiritual. Neste ponto, é muito provável que
nenhum materialista, “nas profundezas de sua alma”, sinta, realmente
que a Vida, a Mente e o Espírito sejam produtos da Matéria: o
materialista pode pensar que vê a verdade desta opinião, porém nunca
consegue sentir que ela seja verdadeira. Dentro dele, o próprio Espírito
lhe grita: “EU SOU Espírito e não Matéria e nem produto da Matéria!”
Sua Intuição protesta sempre contra seu extremo materialismo.
O ponto fraco do Idealismo foi sempre a sua afirmação de que
“Tudo é Mente, a Mente é Tudo; a Matéria é uma Ilusão e não tem
existência real; o Mundo Material é um Sonho ou Erro da Mente
Mortal”. A Intuição se revolta contra isso, embora o Intelecto seja
frequentemente seduzido pelo seu sofisma e engano plausível. É

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provável que nenhum Idealista sinta realmente que “não há realidade
na Matéria”. Embora ele empregue essas palavras, continua a agir,
“como se” a Matéria fosse uma realidade. Todos os seus atos são
baseados no reconhecimento tácito da presença e realidade da Matéria.
É verdade que o Intelecto, muitas vezes, é obscurecido e obumbrado
pelo jogo de palavras frequentemente empregadas na filosofia do
Idealismo, sob seus diferentes nomes e formas. O Idealismo é uma
“Metafísica Retardatária”. Disse um escritor, a respeito destas escolas
de pensamento: “De tais ensinos, os que ouvem nada entendem e os
que ensinam não compreendem, realmente”.
Que os objetos materiais existem de modo real é o veredito do
Bom Senso e da Intuição de qualquer pessoa que dê ouvidos à voz dela.
Diz o Professor Ladd: “Deve-se confiar no bom senso e, virtualmente,
todos confiam nele, com respeito à confiança inviolável e inalterável
na existência de um mundo real, cheio de acontecimentos efetivos,
alguns dos quais se sabem terem causa estabelecida e também na
crença confiante de que, embora o saber humano não crie este mundo
e o conheça de um modo muito imperfeito e parcial, o conhece, na
verdade, de modo a poder dizer que realmente existe e age.”
Diz Reid: “Percebo a matéria objetivamente – que ela é algo
que é objeto intermediário de meu tato e de minha vista. E tomo este
objeto pela matéria e não por uma idéia. E com quanto os filósofos
me tenham ensinado que o que eu toco imediatamente é uma idéia e
não a matéria, entretanto nunca pude descobrir isso pela mais perfeita
atenção às minhas próprias percepções”.
Escreve Benjamin Paul Blood: “Um homem moderno deve
ter algo das “loucuras do Idealismo” de Spencer, para duvidar que,
mesmo que a Terra fosse desprovida de todas as coisas e ficasse estéril,
como nos parece a lua – o homem, suas filosofias, histórias e religiões
desaparecessem num momento – as gloriosas estrelas, entre as quais,
por cálculo analógico, sua Terra é apenas um ponto, continuariam a
girar, ao menos teoricamente, como giraram sempre, sem dar atenção
a toda sensibilidade impertinente aos tempos.”

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Esta informação do bom senso e da Intuição é praticamente
aceita por todos os homens - até os idealistas extremos- em sua vida
e atividades diárias. Podem “falar de uma coisa e agir em desacordo
com ela”, é verdade, porém, a melhor prova das verdades realmente
intuitivas do homem se encontra mais em seus atos do que nas suas
palavras – a mais alta prova da Verdade é a vontade de confiar a vida
e o bem-estar a ela.
Como diz Blood: “O mais profundo idealista confessa a
integridade da Matéria. Uma batida na cabeça dá uma convicção
de realidade que nenhuma idéia que saia do cérebro pode refutar. A
critica do bom senso cai-lhe no próprio rosto, como a abelha e a vespa
deixam seus ferrões na picada e são fatais a si mesmas.
Um crítico pode dizer ao comum idealista indolente: “Estais no
alto da árvore da vida, mas estais cortando o galho que vos sustenta.”
E, como diz Ladd: “Podia alguém admitir que teria vontade de
dispensar a realidade de todo o mundo físico, se apenas a idéia de
comer pão fosse regularmente seguida pela idéia de não mais ter fome
e de achar-se revigorado.”
Entre os extremos do Materialismo e do Idealismo, se encontra
a posição do Meio Áureo – o Ponto de Equilíbrio – representado pela
escola filosófica do Realismo. O Realismo reconhece a existência real
e atual, tanto da Essência Espiritual como da Substancia Material, a
primeira constituindo a “alma” das coisas e a última o “corpo” delas.
O mundo é considerado e explicado como resultado da ação e reação
do Espírito e da Matéria. Pretende que certas coisas são materiais e
outras são espirituais. A história do Realismo no mundo ocidental
começa com Aristóteles; no oriental, vai até filósofos muito mais
antigos. Estas antigas escolas pretendiam que o Espírito e a Matéria
são princípios universais finais, distintos e diferentes um do outro,
embora produzindo ação e reação mútua. Pretendiam que o Espírito
é a Essência Íntima e a Matéria, a Substância Exterior do Cosmos.
É verdade que o Espírito nunca pode conhecer a Matéria “em si
mesma”, pode apenas

- 23 -
Conhecer as sensações provenientes de seu contato com a
Matéria. Porém, é verdade também que o Espírito é obrigado a
depender dessas sensações provenientes do contato com a Matéria
para ter os “materiais grosseiros” do pensamento, sentimento e outros
processos mentais. Conhecemos a Matéria apenas através da Mente,
porém, a Mente deve depender da Matéria para obter seus objetos
grosseiros de conhecimento. Há uma interdependência universal e
coordenação entre a Mente e a Matéria e a Matéria e a Mente – a
ação e reação entre a Essência Espiritual e a Substância Material.
Tal é o ensino do verdadeiro Realismo filosófico. A instrução
contida neste livro se apóia neste ensino básico. No decurso desta
instrução, você descobrirá, intimamente, que estas bases são sólidas
e que a estrutura é bem sustentada por elas. Se, de um lado, sentiu
repulsão pelas doutrinas baixas e grosseiras do Materialismo
grosseiro e, do outro, ficou “atordoado” pelas doutrinas visionárias
e contrárias à prática, do Idealismo extremo, você encontrará, no
ensino do Realismo racional, uma posição satisfatória entre os dois
extremos, em que não só é possível a reconciliação e explicação das
duas doutrinas opostas, mas elas são um fato.

- 24 -
II
A SUBSTÂNCIA MATERIAL

Uma das primeiras generalizações importantes feitas pelo


homem em seu raciocínio filosófico é a que todas as coisas têm “corpo”,
substância material ou “estofo” de que se compõe uma forma exterior.
A realização da presença universal da substância material, “corpo”
ou “estofo” é um elemento básico do pensamento do homem. Com
efeito, descobre-se que partilha da qualidade do saber intuitivo.
Nossos termos verbais empregados no falar e no escrever
exemplificam a qualidade fundamental deste elemento de nosso
pensamento. Nossas palavras foram criadas, primeiramente,
para atender a necessidade de exprimir nossas noções a respeito
de objetos e atividades materiais. Mesmo os termos destinados a
expressar nossos conceitos de coisas mentais e espirituais são, de
ordinário, termos realmente metafóricos em que os objetos materiais
são empregados como símbolos para representar coisas imateriais.
Assim, nossos termos “espírito”, “psychê”, “espectro”, etc., foram,

- 25 -
originalmente, empregados para indicar respiro, sopro de vento,
aragens, etc.
Da mesma forma, nossas mentes, quase instintivamente,
identificam as coisas materiais como coisas reais. A Materialidade é
implicitamente aceita como Realidade, no nosso pensar ordinário, ao
menos enquanto ele não é perturbado pela Metafísica. O termo “real”
representa uma coisa de existência substancial e não imaginária ou
que apenas existe como idéia. O que é informado como realmente
existente é o que é descoberto como aparente aos sentidos ou que
registra sua presença em algum instrumento físico. Aquilo que se diz
estar inteiramente na nossa mente não é considerado real na idéia
comum. O termo legal “propriedade real” exemplifica este pensamento
básico. A propriedade real consiste na terra e no que pertence a ela,
sendo a Terra a coisa mais material que o homem conhece, portanto,
a coisa mais “real” no pensar ordinário.
Em vista destes fatos, não é para se admirar que a mente humana
se ache obrigada a admitir a existência de uma substância material,
estofo ou corpo universal, servindo como material fundamental de que
todas as coisas físicas são feitas e servindo também de base, terreno,
apoio e sustentáculo material do universo de coisas variadas. Todo
pensamento humano admite, tacitamente, a existência de tal base ou
terreno de substância material, mesmo quando a mente foi turvada por
demasiado ensino e especulação metafísica. O pensamento humano
recusa realmente crer que as coisas materiais são simples fantasias ou
ilusões, mesmo que tente chegar a crer nisso. Seja o que for que diga,
age sempre como se as coisas materiais fossem “reais”, estivessem
presentes e manifestas.
O Intelecto, bem dirigido e empregado, vê que é verdade dever
existir um material ou estofo substancial, sob as formas do universo
físico e a Intuição corrobora e põe em evidência esta informação. O
Intelecto é incapaz de “pensar” sem esta premissa fundamental. Acha-
se embaraçado, obscurecido e confuso, quando tenta seguir a premissa
fundamental oposta e contrária, isto é, que não há Substância Material

- 26 -
fundamental e que toda aparência de Matéria é uma ilusão ou produto
do pensamento ou da imaginação.
Da mesma forma, a Intuição se acha obrigada a apresentar uma
verdade idêntica, que encontra dentro de si mesma, quando se lhe
faz a pergunta. Tão real é isto que a Intuição, posta em contato com
as opiniões dos idealistas extremos e pedindo-se-lhe que corrobore
suas informações, experimenta um sentimento de afundar, como se o
principio das coisas tivesse sido posto muito abaixo de seus pés, não
deixando, senão, um grande vácuo, um profundo abismo, em lugar do
fundamento substancial em que estava apoiada. Entretanto, percebe a
falsidade da informação num momento e rejeita-a com indignação.
O indivíduo médio – a pessoa de senso comum – que não se
entregou demasiado à idéia metafísica, também tem esta consciência
fundamental da existência necessária de um estofo substancial básico,
um material fundamental de que são compostos e criados os corpos e
as formas físicas das coisas. Vê que é incapaz de pensar num universo
em que não haja materialidade. Vê que a substância e o “estofo”
material são necessidades de seu pensamento – fatos sem os quais não
pode continuar seu pensamento e seu raciocínio. Apesar da pretensa
aquiescência aos ensinos do idealismo, ninguém foi realmente capaz
de conceber ou imaginar que falte ao universo o “estofo” de que são
feitas suas formas. O pedido de “estofo” é persistente e insistente
na mente do homem. Por mais que tente, nunca pode pensar sem o
conceito principal do Estofo – este recusa ser posto fora da existência.
Até a recente idéia da chamada desmaterialização da Matéria não
afetou esta necessidade do pensamento. A “Matéria desmaterializada”,
embora não seja mais Matéria na antiga concepção científica, nem por
isso deixa de ser a Substância constituinte ou o Estofo fundamental.
O pedido intelectual e intuitivo da presença de uma Substância
elementar ou de um Estofo fundamental provém não só da percepção
de que existe um aspecto físico ou material de todas as coisas
conhecidas pelo homem na experiência, mas também de que a mente
filosófica compreende a necessidade de uma base e terreno substancial

- 27 -
para explicar e ter em consideração as formas variáveis do universo
físico e material. A Substância, a Matéria ou o Estofo de qualquer
espécie, seja embora concebido como infinitamente rara, tênue, fina
etérea, sutil, é exigida pelo Intelecto e a Intuição.
Se quisermos, poderemos provar esta informação fundamental
por nós mesmos. Basta-nos apenas tentar pensar em algo, qualquer
coisa, enfim – como existente sem corpo, substância material ou estofo
para apoiá-lo, dar-lhe forma e fornecer-lhe material com que agir e
manifestar-se. Não podemos pensar na “forma”, “configuração”,
“aparência”, sem este atributo de substância, material ou estofo.
Tentar fugir do estofo ou Substância é como tentar fugir da própria
sombra, tentar girar com tanta rapidez que possa beijar os próprios
lábios ou tentar fazer que as partes dianteiras e traseiras se encontrem.
É como o esforço em pensar numa vara com uma só ponta, numa
alavanca sem apoio ou numa roda sem eixo. Descobriremos logo e
por fim que, ao menos a idéia de uma substância, material ou estofo
etéreo é necessária para apoio de nosso conceito das Coisas.
Podemos passar sem a Matéria de gênero “sólido”, líquido ou
gasoso – com efeito, a própria Ciência o fez por nós e nos deu algo
infinitamente mais fino e raro do que eles, porém, devemos nos apegar
à concepção de uma Substância ou Estofo de alguma espécie. Podemos
pensar nela como Substância Etérea, Substância Astral, Substância
Espiritual ou empregando outros termos destinados a designar uma
substância mais sutil e etérea do que a Matéria ordinária. Porém,
a idéia essencial de Substância e Estofo deve estar contida nela, se
pretendemos empregá-la em nosso pensar.
Lancemos pela porta a fora a idéia de Estofo substancial e ela
voltará pelas janelas. Somos incapazes de pensar no próprio Espírito,
sem empregar um estofo para o aspecto de corpo que é necessário à
sua manifestação; devemos conceder-lhe, ao menos, um “espectro” de
estofo ou uma sombra de substância. O único meio de fugirmos da
necessidade da idéia de estofo é pensarmos nas coisas em termos do
simbolismo algébrico (como x, y ou z) e deixá-las passarem assim.

- 28 -
Até os pensadores que negam a realidade final da Matéria ou da
Substância Material geralmente aceitam sua presença como material
ou estofo derivado, a fim de tomar em consideração e explicar a
multidão constantemente variável de coisas materiais. Percebe-se
a necessidade de uma base e terreno fundamental para sustentar e
servir de apoio ao universo material variável – a necessidade de algo
que responda à pergunta: “Que é que muda; que é que permanece
constante e continuo, através das mudanças universais?”
A filosofia teve sempre, como sua grande aspiração e propósito,
a descoberta de uma Realidade Substancial Final, suficiente para servir
de base ou terreno sobre que se apóie e se sustenha esta série continua
ou concatenação de coisas móveis, processos e acontecimentos, que
constituem o universo fenomenal. Em Filosofia, o termo “Realidade”
denota “aquilo que permanece constante, como essência da mudança
ou porvir universal”. Platão afirma que o fim da Filosofia é a descoberta
da identidade essencial que sustenta, apóia e encobre o universo
variável das coisas móveis. Kant julgou que a Realidade Final é o
Real no Tempo: “aquilo que reside e permanece persistente, contínua
e constantemente, enquanto tudo o mais muda”. Herbert Spencer
julgou que “Só o Real é permanente; só o Permanente é Real”. Nas
primeiras páginas desta investigação, você ficou ao par da pergunta
de Nicholas Murray Butler: “Que é que persiste no meio de todas as
mudanças e está de baixo de cada mudança?”
A Filosofia exige uma Constante Substância Fundamental e
Final, para apoio e sustentáculo do mundo material de Mudança e
Desenvolvimento. Pelo termo Constante, se designa “firme, perpétuo,
imutável, invariável, incessante, contínuo ininterrupto; estável, Firme,
durável, persistente”. Por mudança, se exprime “qualquer variação ou
alteração; qualquer passagem de um estado, forma ou condição para
outro”. Por desenvolvimento, se exprime “o ato de entrar em nova
forma, estado ou condição”. Deveis, aqui, notar que o termo Forma
(no emprego científico e filosófico) significa não só “a forma, figura
ou configuração de qualquer coisa”, mas também a constituição,

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arranjo condicional, organização ou sistema de uma coisa – como,
por exemplo, “a água toma a forma de gelo”, ou “o carbono se
manifesta na forma de diamante”. A mudança material se realiza por
meio de Transmutação, isto é, “mudança de uma natureza, caráter ou
substância em outra”, ou Transformação, isto é, “mudança de uma
forma, feitio ou aparência em outra”.
A investigação científica e o raciocínio filosófico descobrem o
fato de que todas as coisas materiais existentes no universo, todos
os objetos, coisas, acontecimentos e atividades materiais estão,
contínua e constantemente, passando pelo processo de Mudança e
Desenvolvimento. Todas as coisas materiais (a) provêm, originalmente
e entram na existência de outra coisa ou outras coisas materiais
precedentes, por meio do processo de Mudança e Desenvolvimento;
(b) ficam, temporariamente, equilibradas na existência, num estado
de Mudança e Desenvolvimento; (c) finalmente, saem da existência
para subsequentes formas, estados ou condições materiais, através de
processos de Mudança e Desenvolvimento.
“Nada é constante senão a mudança”, diz o antigo filosófico.
“Tudo e todas as coisas existem num estado de fluxo e futuridade”,
diz outro, de igual antiguidade. A mudança e o desenvolvimento são
fatos básicos da existência material objetiva e são manifestados em
toda a parte do universo em conjunto. Nada escapa à mudança e ao
desenvolvimento – isto é, nada, exceto o Poder que produz a mudança
e o desenvolvimento. A criação prossegue por mudança. A evolução
prossegue por mudança. A Lei da mudança impõe seus editos a tudo,
ao alto e ao baixo, ao grande e ao pequeno, ao bom e ao mau. Nada
lhe escapa.
Todas as atividades físicas, todos os acontecimentos
fenomênicos são observados como processos – processos de mudança
e desenvolvimento. Tudo nasce de alguma outra coisa, tem existência
temporalmente equilibrada e seu desaparecimento final – tudo pelo
processo de mudança e desenvolvimento. O Cosmos é observado
como um processo cósmico. Nada está fixo; tudo passa. Tudo nasce

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de algo precedente e desaparece em algo subseqüente; nada provém de
nada, nem se transforma em nada.
O universo é semelhante a uma grande chama: parece ser todo
ele a mesma coisa, em sua existência completa e, num sentido, assim
é. Porém, noutro sentido, nem mesmo em dois segundos de tempo é a
mesma coisa. No ponto de vista restrito e técnico, vê-se que a chama é
apenas um processo de combustão, uma série de sucessivas partículas
a arderem. Porém, sob outro ponto de vista, vê-se e sente-se que há
algo encoberto nela, uma constante unidade e identidade substancial
de realidade e significação que encobrem o processo de mudança.
O intelecto, obscurecido por este constante e contínuo processo
de mudança e desenvolvimento, às vezes, experimenta o medo de
que seu mundo seja construído sobre areia movediça e não sobre a
rocha sólida. De acordo com isso, pede e recebe a certeza e garantia
da Intuição a respeito da existência de uma constante Substância
fundamental debaixo de toda Mudança e Desenvolvimento.
A Intuição assegura ao Intelecto que há e deve existir uma Substância
fundamental que persiste e permanece constante, através de todas as
mudanças – que está debaixo de todas as mudanças de forma, estado e
condições das coisas materiais e lhes serve de apoio – algo constante e
estável, imutável e firme. O intelecto, por sua vez, há milhares e milhares
de anos, formulou uma Lei do Pensamento que contém esta informação
da Intuição: “Uma coisa sempre permanece ela mesma e nada senão ela
mesma, apesar dos diversos estados, formas e condições por que passa e
sob os quais se manifesta e se apresenta na aparência.”
Esta verdade axiomática leva à sua conclusão lógica, não conduz
diretamente à concepção final de uma Substância Fundamental última.
Como diz Dahlke: “Toda aplicação consistente das leis do pensamento
parece levar forçosamente a uma Constante Invariável, colocada na
raiz da coisa. Todo pensar humano, sem exceção, se manifesta com o
conceito de uma Substância Constante que se acha na raiz das coisas.
Tu, ó crítico, deves conformar-te com esta regra. É uma necessidade
do pensamento”.

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A maior parte das oposições à concepção de uma Substância
Fundamental, de um Material ou Estofo como Fato ou Princípio
Final, tanto nas idéias filosóficas antigas como nas modernas e na
filosofia ocidental como na oriental, nasceu da falsa concepção da
natureza essencial deste fato ou princípio final. Na sua forma de
Matéria, julgaram-no um estofo grosseiro, sólido e pesado. Quando
se empregou a palavra “Matéria”, a mente pôs-se logo a conceber algo
semelhante, por exemplo, a um bloco de granito, uma barra de aço,
um monte de barro ou uma massa de lodo. Isto foi realmente verdade
na filosofia do mundo ocidental. A filosofia oriental pelo seu lado,
sempre pensou que a Substância, Matéria ou Estofo em seu estado,
forma ou condição essencial, elementar e final é algo muito diferente
disso, realmente, completamente oposto a isso. As antigas filosofias
orientais sempre consideraram a Substância Material Fundamental
como algo infinitamente fino, infinitamente raro, infinitamente tênue,
sutil, etéreo, algo muito mais fino do que o gás mais fino, quanto este
excede, em rarefação, uma peça de metal ou um pedaço de pedra, algo
infinitamente mais fino do que o próprio Éter Universal da moderna
Ciência Ocidental.
A moderna Ciência Ocidental chegou em seu tempo à conclusão
de que os elementos finais da Matéria são partículas infinitésimas,
chamadas átomos, em subdivisões de uma finura, rarefação e tenuidade
quase incrível. Julgou-se que as formas mais grosseiras e sólidas da
Matéria eram constituídas deles, sendo feitas ou organizadas pelas forças
naturais. Julgavam existirem de oitenta a noventa classes de tais átomos
elementares. Porém, a Ciência tomou um bom caminho, ao resolvê-
los no mais fino e tênue de todos, isto é, o átomo de Hidrogênio e em
julgar que os outros átomos são compostos ou derivados deste “estofo”
final. Porém, antes de chegar a este ponto, foi descoberto o Rádio – e
verificou-se que o átomo não era a forma final da Matéria, mas, antes,
ser composto de algo mais fino e mais elementar, isto é, os elétrons, os
íons ou corpúsculos de uma substância infinitamente tênue e etérea.
A partir do Século XX, a concepção da Ciência a respeito da

- 32 -
natureza final da Matéria, pôde ser expressa no seguinte extrato de
uma conferência feita por William Crookes: “Os físicos dizem que
há possibilidade de que não exista a Matéria, como era compreendida
anteriormente por este termo. Dizem alguns que o elétron é pura
eletricidade sem corpo, aproximadamente assim da antiga idéia de
Boscovitch, aceita por Faraday, de que o átomo é apenas um centro
de Força. A idéia dos elementos químicos como algo absolutamente
primário e final diminuiu e tornou-se cada vez mais apagada, até que
se admitiu a possibilidade de resolvê-los em formas mais simples ou
refiná-los completamente. Com a divisão do átomo em centenas de
pequenas partículas, estas partículas de resíduo passam a ser nada mais
do que camadas superpostas de eletricidade positiva e negativa.”
Acrescenta outro cientista: “Crookes deixou de nos dizer o que
aconteceria se algum investigador mais profundo do futuro descobrisse
um método de fazer que essas camadas de “mais” e “menos” se
cancelassem mutuamente na existência”.
Einstein vai além. Supõe a Matéria como consistindo de
infinitésimos “centros de perturbação” em algo ainda mais etéreo
cuja natureza nem mesmo tenta explicar ou analisar. Os elétrons são
avaliados como tão extremamente pequenos que se podem reunir
milhões deles na ponta da mais fina agulha e tão tênues e rarefeitos que
um átomo de hidrogênio parece sólido em comparação deles. Einstein,
porém, vai mais além, como se pode ver pela referência à afirmação
de Joseph Thompson, num artigo de uma revista científica inglesa, na
qual diz o seguinte: “A dimensão dos “centros de perturbação”, que,
na teoria de Einstein, se acham associados à Matéria, tem para com a
dimensão do elétron quase as mesmas proporções que a dimensão da
menor partícula visível no mais perfeito microscópio tem para com a
dimensão da própria Terra.”
Estas descobertas e experiências foram consideradas produtoras
da “desmaterialização da Matéria” – e assim é, se seguirmos a antiga
concepção da Matéria. Porém, existem outras e melhores concepções
filosóficas da Substância Final, como veremos agora. Antes de prosseguir,

- 33 -
chamamos a atenção ao fato de que até a essas “partículas finais”,
ultimamente descobertas, foram dados atributos de “dimensão”, “feitio”
e “forma”. Pretende-se que “tenham extensão” e “ocupem lugar no
espaço” por menor que este seja, pertencendo, claramente, à categoria
básica de Substância, Matéria ou Estofo. E até os mais extremistas dentre
os físicos admitem que a idéia da eletricidade sem substância, corpo
ou estofo é praticamente inconcebível. Afinal, vê-se que descobriram,
apenas, mais uma substância, material ou estofo ainda mais sutil e
elementar, em que a eletricidade encontra seu “corpo” necessário!
A “imaterialidade” e “desmaterialização” relativas desta nova
forma de Substância, Material ou Estofo, descoberta pela ciência, são
indicadas no seguinte trecho de Hohn Burroughs, eminente naturalista:
“A ciência persegue a Matéria até o ponto de desaparecimento
dela, em que cessa de ser Matéria e se torna Pura Força ou Espírito.
O que sucede no mundo imaginário em que se acaba a Matéria
ponderável e a Força perde seu corpo, em que os átomos hipotéticos
não são mais indivisíveis, podemos conjecturar, porém nunca saber. A
teoria atômica da Matéria nos leva a um mundo não material ou que
é inverso do mundo sólido de três dimensões, que nossos sentidos nos
revelam ou a Matéria num quarto estado. Conhecemos os sólidos,
os líquidos e os gases, porém as emanações que não são nem uma
coisa, nem outra, só conhecemos como espíritos ou fantasmas, por
sonhos ou de ouvidos. Entretanto, este quarto ou etéreo estado da
Matéria parece ser a posição final, real e fundamental. Como difere
do Espírito, não é fácil de deslindar. A ciência despoja a Matéria do
seu estado grosseiro. Tendo-o feito, ela não é mais o algo obstrutivo
que conhecemos e pegamos; fica reduzida a Pura Energia. A linha que
a separa do Espírito não existe.”
Entretanto, Burroughs foi levado um pouco longe demais pela
sua admiração, a respeito das novas concepções da Matéria. A pura
Energia sem Substância ou Estofo é inconcebível: Pura Força não tem
sentido, como veremos ao considerar a Energia e a Força, no capítulo
seguinte deste livro. E, Como veremos algures, há uma positiva

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linha de distinção entre esta concepção e a do Espírito – a distinção
consistindo no fato de que o Espírito explica a Vida, ao passo que
a Matéria e a Pura Forma não podem fazê-lo. Contudo, Burroughs
estava muito certo, quando se referiu ao quarto ou etéreo estado da
Matéria que parece ser a posição final, real e fundamental. Porquanto,
é isto, justamente, o que os antigos sábios orientais diziam sempre:
que a Substância Final é e deve ser; e o que a Ciência começava a
ver que devia ser antes de seu pensamento ser desviado pelas novas
descobertas acima referidas – posição esta a que ela deve voltar.
A ciência sonhou durante muito tempo com um “estado etéreo
da Matéria” e tentou estabelecê-lo, na sua hipótese, um tanto imperfeita
e indefinida, do Éter Universal. Depois de ser desfeita, reconciliada ou
apagada a divergência da teoria eletrônica, se há de ver que a ciência
voltará á sua primeira posição referente ao Estado Final Etéreo da
Matéria. Com efeito, muitos cientistas eminentes nunca abandonaram
inteiramente esta idéia e passaram a colocá-la na frente da idéia científica.
Muitas mentalidades científicas de valor julgam que os elétrons, íons ou
corpúsculos, a “eletricidade sem corpo” ou os “centros de perturbação”
na Substância Etérea, Matéria ou Estofo dela mesma.
Esta Substância Etérea, o Éter, é considerada pela ciência
como enchendo o espaço, sendo, infinitamente, tênue, rarefeita e
imponderável – tanto que um crítico disse que é “a matéria com a
propriedade do vácuo” – pois enche até o espaço de que se tirou o ar.
Reside até no meio dos elétrons, íons, pontos de eletricidade ou “centros
de perturbação, precedentemente mencionados. Tão completamente
essencial e final é ele, tão verdadeiramente etéreo que foi chamado
“mais uma infinita possibilidade de coisas, do que uma coisa em si”.
Entretanto, as experiências científicas provaram, conclusivamente,
que existe ou, nos casos extremos de prudência conservadora, que
“existe algo semelhante a ele”. Assim, a ciência ocidental dirige seus
passos para a concepção da antiga Filosofia Oriental, chegando a um
acordo com o ensino antigo da Substância Etérea Final.
O artigo da “Enciclopédia Britânica”, Undécima Edição, que

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trata do assunto do Éter, diz que ele é “uma substância material de uma
espécie mais sutil do que os corpos visíveis, que se supõe existir nas
partes do espaço que são aparentemente vazias”. Refere-se também a
ele, como sendo considerado “diferente da matéria ordinária em grau,
não em espécie”. Fala também da concepção científica das partículas
atômicas da matéria, como sendo “cada uma o núcleo de uma
modificação intrínseca impressa na região circundante do éter. Pode-
se conceber que seja da natureza do movimento turbilhonante de um
líquido dentro de um vaso, produzindo, assim, um átomo turbilhão,
ou de um sorvedouro intrínseco de qualquer espécie, irradiando
de um anel, o que produziria um átomo elétrico”. Finalmente, fala
das descobertas científicas da radioatividade e do elétron livre, etc.
e acrescenta: “Estes resultados constituem um desenvolvimento de
grande alcance da teoria moderna ou eletrodinâmica do éter cujas
consequências dificilmente podem ser vistas.”
Teremos mais a dizer a respeito do estado etéreo da Matéria
– o Éter da ciência, em relação com a Substância Etérea Final da
Filosofia Oriental – num ponto mais adiantado desta instrução. Agora
nos contentamos em dar apenas como um conceito a idéia de uma
Substância Infinitamente etérea, que se estende por todo o espaço, em
que todas as coisas materiais residem, movem e têm sua existência, e
que é o material, a substância e o estofo de que o “corpo” de todas as
coisas materiais é constituído, composto e formado.
Se desejarmos formar uma pintura mental desta Substância
Essencial, podemos tentar a experiência, começando com uma pintura
mental da forma mais dura e mais sólida da Matéria, depois passando
pelas fases de sólidos mais finos e pelos líquidos, desde os mais densos
até os mais tênues; em seguida, pelos gases, desde os mais pesados
até os mais rarefeitos e, por último, a uma infinidade de refinamento,
redução e resolução, resultando numa Essência Absolutamente
Elementar! Teremos, então, encontrado ao menos a direção em que a
concepção desta Substância Final, desde o Éter final, deve ser levada
e encaminhada!

- 36 -
III
A ENERGIA ATUANTE

Pedimos agora que considere a Energia Atuante que age para


“mover as coisas”, para produzir mudanças nelas, para fazê-las executar
atos. Como diz Dahlke: “Acha-se presente um algo, uma atualidade, que
designamos pelo nome coletivo de “Mundo”. O Sistema do Mundo se
nos apresenta sob dois aspectos: de um lado, como “algo que existe”,
isto é, coisas; do outro, como “algo que acontece”, isto é, a ação dos
acontecimentos sobre as coisas. Uma “coisa”, sem um acontecimento”
ligado a ela, se encontra tão poucas vezes como um “acontecimento”
sem uma “coisa”. No sistema do Mundo, conhecemos, principalmente,
só processo, acontecimentos, sucessos.
O Intelecto e a Intuição informam que os acontecimentos, sucessos
e processos só se dão quando se acha presente e ativa uma Energia
Atuante. Pelo termo “Atuante” se designa o “colocar em ação ou
movimento; mover ou incitar a ação”. Nesta instrução, o termo Energia
é empregado no sentido e com a significação de “poder, força, vigor,
capacidade interna ou inerente de agir, mover e produzir efeitos”.

- 37 -
O termo “Poder” é, frequentemente, empregado como sinônimo
de Energia, mas Poder tem também uma variação de sentido, que é “a
capacidade de executar trabalho, principalmente, o trabalho dirigido
para um fim”. O termo “Força” também é, frequentemente, empregado
como sinônimo de Energia, porém tem também um sentido especial,
que é o de “poder de impor ou forçar a ação e o movimento de outras
coisas”. O termo “Fortaleza”, que indica um elemento essencial de
Energia, Força, Poder é definido como “qualidade ou estado de ser
forte, isto é, ter grande poder de agir ou de resistir à ação, suportar a
aplicação da força”.
O característico particular e especial da Energia é indicado
pelo sentido original do termo empregado para indicá-la. O termo
latino “Energia” é derivado da junção de duas palavras gregas que
significam “em” e “trabalho”, respectivamente. De modo que o termo
“Energia”(em + ergia) equivale a “Energia ou Poder Interno”. Note
que sua definição traz o sentido de “interno ou inerente”. A Energia é
uma “In-Força”, um “In-Poder”, uma “In-Fortaleza”. Ela está “em” as
coisas e trabalha “em” elas e de “dentro” delas. Este fato é importante
e deve ser lembrado. É impossível conceber a Energia “fora” das coisas
ou “não dentro” delas. É sempre o “Poder Interno”, a “Fortaleza
Íntima”, a “Força Interior”.
A ciência física, adaptando tacitamente a opinião materialista,
define francamente a Energia como “estado ou atributo em virtude
do qual a Matéria pode produzir mudanças em outra matéria”. Esta
definição ignora, porém, a Energia Mental, de que a Força de Vontade
é um exemplo característico. Veja, entretanto, que até a opinião
materialista contém a idéia de “poder interno e inerente” na sua
concepção de Energia. Uma obra de consulta, ao considerar a Energia
sob o ponto de vista da ciência Física, diz: “Ignoramos a natureza final
da Energia assim como a da Matéria; nem conhecemos a Energia a
não ser pela observação direta, a não ser como ligada à Matéria”. O
materialismo e a Ciência física consideram anteriormente a Energia
como atributo ou propriedade dos átomos e massas de matéria.

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Porém, desde a descoberta de que a matéria não é a Substância final,
há uma tendência manifesta para considerar a Energia um atributo,
propriedade, qualidade ou poder do Éter Universal, a Matéria, como
vimos, sendo considerada um produto derivado do Etér e “composto”
pela Energia Elementar.
A Energia Atuante, considerada categoria geral ou princípio
compreensivo, inclui, em seu conteúdo, todas as formas, espécies,
classes e graus de Energia, Poder, Força e vigor ativo, tanto físicos,
como mentais e espirituais, manifestados ou potenciais no Cosmos. É
esta Energia Atuante que produz toda Mudança e Desenvolvimento e,
portanto, toda Atividade Criadora no Cosmos. A “Criação” designa
“todo ato de dar existência pela mudança e transformação” e não
a “criação do nada”, defendida por certa Teologia Ilógica (embora
não por toda Teologia, nem pela melhor Teologia). A melhor idéia
filosófica, científica ou teológica considera a Existência (em sua
essência e substância) como Eterna, e que de “nada, nada se cria”.
Portanto, a Energia Atuante é a Causa Atuante de todas as formas
da Existência, de todos os acontecimentos e sucessos. É o Poder
Causador que opera nas coisas e sobre elas todas, manifestando
constante Criação, Evolução, Mudança e Desenvolvimento. Na sua
inteireza, totalidade e no seu estado, modo e condição final, deve ser
considerada a Causa das Causas, como o Supremo Poder Causador.
Por “Supremo” se designa “o mais alto em autoridade, governo ou
poder”. Por “Causador” se exprime “causa efetiva; que exprime e
manifesta causa, isto é, a produção de efeitos”. A significação completa
do termo ultimamente mencionado, será dada no parágrafo seguinte
em que o termo e conceito de “causa” é considerado em detalhe.
O sentido geral de “Causa” é “aquilo que produz um resultado ou
efeito”. “Causa e Efeito” é considerado como a “regularidade da seqüência
que relaciona antecedentes efetivos e subsequentes efetuados”.
A seguinte exposição a respeito das Causas deve ser
cuidadosamente estudada, pois contém o espírito essencial do conceito
da Causa: “As causas de um acontecimento são os acontecimentos

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precedentes, sem os quais aquele não teria sucedido ou vindo à
existência, as circunstâncias que devem ter precedido um acontecimento,
a fim de que ele se desse; os acontecimentos precedentes, sem os quais
o acontecimento em questão não podia ter acontecido ou entrado
em existência, mas estando presentes aqueles, o acontecimento em
questão deve suceder, ocorrer ou vir à existência.”
Na exposição acima, notamos que o termo “acontecimento” é
empregado tanto no sentido de um sucesso que se realiza como no de
uma coisa que vem à existência. No emprego filosófico e científico,
um “Acontecimento” é o “que sucede, acontece, se realiza por meio
de mudança e desenvolvimento; mudança nas coisas ou coisa móvel”.
Como todos os acontecimentos são “mudanças nas coisas” e como
todas as coisas são “coisas móveis”, vê-se que todos os acontecimentos
e “todas as coisas” (em particular ou no todo) estão sob o termo geral
de “acontecimentos” e são governadas pela Lei geral de Causa. Todas
as coisas que “sucedem, ocorrem, se dão, mudam ou se transformam”,
estão sob a Lei de Causa e “sucedem, acontecem, se realizam, mudam”,
em virtude do Supremo Poder Causador, que, como vimos, é a “Energia
Atuante”, que constitui o assunto de nossa consideração atual.
A Ciência e toda Filosofia lógica e racional (tanto a filosofia
materialista como a espiritualista)
e também toda Teologia racional estão praticamente de acordo
sobre o fato de que o Universo Material – o Cosmos – é um Processo
Cósmico. O “Cosmos”, como vimos, é “o universo concebido como
prosseguindo de acordo com a Lei e a Ordem, com a Causa e o
Efeito”. O termo “processo” (como é empregado no pensamento
filosófico e cientifico) é “uma série de atos, movimentos, ocorrências,
que prosseguem em operação contínua, sequência regular e tendência
ordenada”. Em todos os processos se acha manifestada a Lei de Causa
e Efeito, sob a operação da Energia Atuante do Cosmos.
Percebe-se que o universo “prossegue”, isto é, “se move para
cima e para frente”. O rio está sempre presente, porém o mesmo
lugar nunca é a cena da passagem das mesmas partículas, até em dois

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segundos consecutivos – novas partículas e formas substituem as que
passaram para diante. Disse um antigo filósofo grego: “O mesmo rio
nunca é o mesmo por dois momentos consecutivos de tempo; é um
rio diferente, embora o chamemos o mesmo, ou antes, num sentido
é o mesmo rio e noutro sentido é um rio diferente”. Ou, empregando
a figura favorita dos antigos budistas, podemos dizer que o “universo
em prosseguimento” ou o “processo universal” é semelhante à chama
acesa de que pensamos e falamos como a mesma e idêntica chama,
enquanto queima, embora suas partículas ardentes sempre estejam
passando e sejam sucedidas por novas.
Os filósofos e poetas modernos compararam o processo do
universo a uma fita de cinema, suas cenas movendo-se sempre e sendo
substituídas por novas que as seguem em ordem regular. Quando
pensamos que estamos considerando um universo estável ou uma
de suas cenas, estamos apenas olhando para uma seção cortada da
“fita”. O corte é, porém, feito por nosso próprio ato de atenção e o
pedaço de fita não é realmente separado do perpassar do Tempo –
ele também se move e é substituído por outro. Como disse o poeta:
“Dizem que o “tempo passa”, porém não é assim, o tempo fica e nós
passamos”. Heráclito, filósofo grego que viveu há uns 2.500 anos,
disse: “O universo acha-se num estado de fluxo – flui sempre adiante,
sempre o mesmo e sempre diferente”. Gautama, o Buda, disse: “Tudo
passa, exceto o processo de passagem”. Diz a ciência: “Nenhuma
forma permanece, todas as formas passam, tudo é um processo”.
Porém, não há processo, passagem, regularidade de seqüência e
tendência ordenada, sem a operação da Causa – e a Causa é a Criação, pois,
até quando desfaz, cria os materiais para um novo processo construtivo.
Todas as coisas do universo provieram de alguma coisa precedente – que
é sua fonte e origem relativa, sua causa, como a denominamos; por sua
vez, esta causa relativa, fonte ou origem teve, como se percebe, outra
causa, fonte ou origem precedente – e esta, por sua vez, outra ainda
mais remota – e assim por diante, até que se perde de vista o processo
de sequência no “regresso ao Infinito” ou “Fluxo Eterno”. Da mesma

- 41 -
forma, dirigindo o olhar para frente, a cadeia de Causa e Efeito pode ser
vista em imaginação e pensamento, continuar para frente até o Infinito
– no “progresso do Infinito ou Fluxo Eterno”.
Não só isso, mas também se percebe que o caráter das coisas
nasce da influência e presença de outras coisas e é determinado
por elas, que, por sua vez, podem ser chamadas “causas” – “causas
condicionais”. Há uma causa ou razão para a forma, caráter e
circunstâncias de tudo no universo. Vê-se que tudo possui um caráter,
forma e disposição definida, que é, direta ou indiretamente, derivada
da presença e influência de outras coisas. Não só é verdade que “tudo
existe em virtude de outras coisas que existiram”, mas também é
verdade que “tudo é exatamente o que é e está justamente no lugar
que ocupa em virtude de outras coisas que foram justamente o que
foram e ocuparam exatamente seus lugares”.
Tudo o que existe é, pois, como se vê, um laço numa cadeia
infinita de regularidade de sequência e disposição ordenada, sempre
prosseguindo para cima e para frente, em virtude da Lei de Causa e
Efeito. A cadeia prossegue até tão longe em todas as direções, tanto
no passado como no futuro, que o pensamento humano vacila e a
imaginação humana empalidece, quando se tenta pensar na extensão
da cadeia ou formar uma imagem dela. De fato, é uma “cadeia
ilimitada” de Causa Infinita – a Eterna Criação – girando ao redor da
incomensurável roda do Processo Infinito e Eterno.
Esta roda, porém, como outra roda qualquer, gira apenas em
virtude do Poder que fornece sua fonte e meios de movimento; gira
eternamente porque é movida eternamente para frente, por um Poder
Causador Eterno, seja qual for a concepção que se forme deste Poder.
Além disso, visto que o Processo Universal é, distinta e claramente, um
Processo Criador, deve-se supor a existência e atividade de um Infinito
e Eterno Poder Criador, que produz, impele e governa o Processo
Universal. Todo ato é um efeito e todo efeito supõe uma causa. Uma
infinidade de efeitos propriamente, uma Causa Infinita que abarca todas
as coisas e assim produz, direta ou indiretamente, todos os efeitos.

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O pensamento humano, exercido e entendido até seus limites
máximos nas linhas do lógico pensamento filosófico, inevitável,
invariável, infalivelmente chega, cedo ou tarde, ao ponto em que se vê
obrigado a postular a existência, presença, poder e atividade necessárias
de um Supremo Poder Criador – uma Suprema Causa Criadora –
para tomar em consideração e explicar a presença e o movimento do
Processo Infinito que é o universo. Este pensamento foi expresso de um
modo notável na seguinte exposição de um escritor moderno:
“Observando a uniformidade, a imutabilidade dos processos da
Natureza, reconhecemos que todo fato tem seu antecedente e este, por sua
vez, o tem, prosseguindo-se sempre desta forma, até que, no descrever o
processo, nós nos perdemos, após alguns passos mais, na simples Causa
Universal. Perdemo-nos no Infinito. Reconhecemos as manifestações,
as obras do Eterno Poder, tanto em nós como na Natureza em geral. E
sabemos, pela história humana, geológica e astronômica, que a Natureza
se manifestou assim, desde que há memória dos tempos.”
No seu grande poema “A Luz da Ásia”, Edwin Arnold pintou a
antiga concepção budista do Eterno Infinito da Criação, nas seguintes
belas linhas:

“E a Causa, a Sequência e o Decorrer do Tempo,


E a maré incessante dos Seres,
Que, sempre móvel, prossegue, ligada como um rio,
De onda em onda, ora ligeiro, ora vagaroso –
O mesmo, sem ser o mesmo – desde longínqua nascente
Até onde as águas entram nos mares.
Estes, evaporando com o sol,
Entregam às nuvens as ondas perdidas,
Para que se elevem sobre as montanhas e desçam de novo,
Não havendo pausa ou descanso.”

Entretanto, mesmo nesta imagem poética, pode-se notar a


implicação constante e invariável do Supremo Poder Criador que

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é a Final Energia Atuante da Criação. Este é o Poder que anima,
energiza, inspira e produz a totalidade da infinidade de atividade,
que é manifestada na Criação Eterna. Esta é a Energia Atuante da
“incessante maré dos seres” que prossegue e se manifesta nas Causas,
na Sequência e no Decorrer do Tempo. Este é o Poder Eterno que “faz
as rodas girarem” no Eterno Processo Criador.
Este é o Poder Criador Final que, no processo eterno, “cria, conserva
em equilíbrio e destrói” todas as formas materiais das coisas,
enquanto a Criação, em conjunto, continua, persiste, sem cessar e sem
interrupção. Este é o Algo Eterno de que fala Omar Khayam:

“Cuja Secreta Presença, pelas veias da Criação,


Correndo como mercúrio, destrói vossas penas;
Tomando todas as formas, de Mah até Mahi,
Que, todas, mudam e perecem – ELE, porém, permanece.”

O Intelecto e a Intuição estão de acordo a respeito desta


convicção básica de que está e deve estar presente e ativa uma Suprema
Energia Atuante que explica e motiva, produz e cria a infinidade de
formas finitas, móveis e passageiras de que se compõe o universo
criado, a qual governa, dirige, regula e determina as muitas e diversas
atividades que são manifestadas no universo. Se o Intelecto tenta fugir
desta convicção, a Intuição reage para fazer o filho pródigo voltar à
casa da Verdade, depois de ter vivido das cascas do ceticismo e entre
os porcos do chiqueiro da Negação.
Por mais que se esforce, o Intelecto nunca fica realmente
satisfeito com os subterfúgios, evasões e substitutos verbais que
lhe são oferecidos em lugar desta informação básica da existência
necessária de um Supremo Princípio Atuante. Se for suficientemente
ativo, geralmente, consegue separar e lançar por terra a massa de
palavras que compõem o corpo desses substitutos, para encontrar no
íntimo da idéia uma confirmação e não uma contradição ao verdadeiro
princípio básico. Os sofismas, frequentemente, deixam de encobrir

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inteiramente a Verdade que procuram negar. Muitas vezes, até servem
para revelar a Verdade, quando se aplica ao problema um pensamento
suficientemente penetrante.
No que diz respeito á Intuição, ela nunca é, nem sequer,
perturbada pelo assunto – ela sabe e sabe o que sabe. O Intelecto,
muitas vezes, se move num círculo vicioso, como o homem que se
perde na floresta, como o esquilo dando voltas dentro de sua gaiola
– sempre andando, sem nunca chegar a um lugar qualquer – no seu
esforço de fugir dessa convicção fundamental. Porém, cedo ou tarde,
encontra a paz e a certeza, em virtude da influência da Intuição, que
lhe foi imposta. A própria Intuição nunca é afetada por essa dúvida –
ela nunca duvida desta Verdade, pois sabe com certeza, que a Verdade
é essa.
Podeis satisfazer-vos a respeito do fato que o postulado da
presença e atividade do Supremo Poder Criador, desta Suprema
Energia Atuante é uma necessidade do pensamento lógico, se apenas
tentardes pensar neste Universo Móvel, desprovido de tal Supremo
Princípio Atuante. Descobrireis logo que é impossível ter em
consideração e explicar o Cosmos, sem este postulado fundamental.
Além disso, descobrireis que, no âmago de todas as filosofias, de todas
as idéias científicas, de todas as metafísicas racionais e semelhantes
informações da razão, sempre se encontra (embora, às vezes, disfarçada
ou parcialmente oculta) a asserção real ou implícita da presença e
poder deste Princípio Supremo de Atividade, seja qual for o nome que
os escritores ou mestres lhe tenham aplicado. Sempre está presente
no pensamento filosófico; deve estar presente, pois, se sua presença e
atividade não estiverem envolvidas na idéia do Cosmos, o conceito do
mesmo cai inteiramente.
A Energia Universal Atuante, que vimos ser o Agente Criador ou
a Causa do Cosmos, também tem outro papel importante no processo
cósmico. Além de ser a Causa Ativa do Processo Criador da Mudança
e Desenvolvimento, serve também de Agente Unificador, que torna
unida em combinação, correlação e coordenação, as diversas coisas

- 45 -
individuais e aparentemente separadas, num sistema ou unidade em
que se manifestam uma interdependência universal e constante e uma
mútua ação recíproca.
Esta função da Energia Atuante pode ser exposta da forma
seguinte:

“A função de conservar juntos os elementos, partes, fatores


e objetos separados do universo, numa unidade, um todo
ou sistema de coisas em que todas as coisas existem e
agem em interação ou coordenação recíproca e mútua.” O
termo “coordenação” designa: “O estado de movimento e
ação comum em que as coisas separadas são combinadas,
correlacionadas e recebem existência e atividade mútua.”
O termo “combinar” significa: “unir ou juntar; fazer ligar-
se; conservar junto por afinidade ou atração natural”. O
termo “correlacionar” denota: “Por ou colocar em relação
recíproca ou em relação mútua”.

Todo pensamento filosófico e observação científica resultam na


informação de que o universo é composto e constituído de partes,
elementos e fatores, que são colocados e conservados juntos por
forças naturais e que existem em relação, laço e estado mútuo e em
ação recíproca coordenada, formando, assim, um sistema unido, total
e inteiro. O termo “Universo” é derivado de duas palavras latinas que
significam “girar ou mover como um todo”. É definido: “O conjunto
das coisas vistas como constituindo um todo ou sistema”.
Um Sistema é “um conjunto de objetos que se acham arranjados
ou que existem em subordinação, dependência e relação regular; daí,
todo o conjunto de coisas criadas, consideradas como formando um
plano ou todo completo, isto é, o universo, que consiste de todas as
coisas criadas ou fenomenais, vistas como constituindo um sistema,
unidade ou todo.” Os antigos gregos empregavam o termo “O
Cosmos” no sentido e na significação do “mundo concebido como um

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grande número de coisas separadas não relacionadas, não combinadas
e não coordenadas, existindo e prosseguindo em organização e num
estado sem lei e sem ordem.”
A Ciência e a Filosofia estão completamente de acordo sobre o
fato de que o universo é um sistema de coisas, unificado, combinado,
correlacionado e coordenado. Como diz o Professor Nicholas Murray
Butler: “Tudo exemplifica as leis que prendem o universo numa
unidade coerente. Vê-se agora, que nenhum objeto é independente.
Cada qual depende de outro e a dependência ou relatividade é
o princípio diretor do universo”. Tudo se acha em combinação,
correlação e coordenação com todas as outras coisas. Tudo depende
de outras coisas; a interdependência das coisas é universal. As coisas
se conservam juntas e formadas numa sociedade cooperativa universal
e realizam trabalho em comum.
Nenhuma coisa é absolutamente independente e separada de
qualquer outra coisa – nem da totalidade das coisas. Não há separação
absoluta entre quaisquer coisas no universo. As coisas apenas parecem
ser separadas, em virtude de nossa incapacidade em discernir os
laços de união que as liga em correlação e coordenação. As coisas
podem estar separadas no espaço, porém são conservadas unidas
por atrações e influências naturais e estão tão realmente em mútuo
contato prático, como as partículas componentes do átomo, de um
bloco de aço ou do corpo humano. Da mesma forma, as coisas podem
estar separadas no tempo, porém são combinadas, correlacionadas e
coordenadas pelos laços de Causa e Continuidade, da mesma forma
que as sucessivas gerações dos homens, dos animais ou das plantas,
ou a personalidade da criança com a do mais velho, que dela proveio.
Como um antigo escritor disse: “A separação é apenas a ficção do
trabalho da Criação.”
Observa-se que o universo existe num estado de Relatividade
Infinita. Seus objetos existem e agem em infinita combinação, correlação
e coordenação. Tudo no universo existe num estado ou condição de
interdependência. O universo é um mecanismo cósmico cujas inúmeras

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partes agem, contínua e constantemente, em combinação, correlação
e coordenação. Da mesma forma que as coisas existem porque outras
coisas existiram, assim elas são como são, porque outras coisas foram
exatamente o que foram e é também verdade que as coisas agem como
o fazem, porque outras coisas agiram como fizeram – efetivamente
como todas as outra coisas agiram.
Não existe no Cosmos ato realizado “mais ou menos” ou pela
“sorte cega” ou “acaso”. O arranjo sistemático e processo ordenado
da multidão de objetos e atividades do universo, tudo mostra com
certeza a Lei e Ordem cósmica. “O Universo é governado por Lei
e prossegue de acordo com uma Ordem.” Diz o Professor Bowne:
“Que as coisas formam um Sistema e que este Sistema é uno é uma
das mais profundas convicções da inteligência refletiva e a suprema
suposição do saber organizado. Dentro deste Sistema, todas as coisas
são determinadas em relações mútuas, de modo que cada uma está
onde está e é o que é, por causa de suas relações com o todo.”
A presença de Sistema, Combinação, Correlação e Coordenação
no Cosmos não provem do Acaso, nem pode claramente provir dele,
assim como não pode ser continuada por ele. É claramente o efeito e
resultado da presença e atividade de um Agente universal coordenador
e unificador – e este Agente só pode ser uma Causa. Aqui percebemos,
mais uma vez, a presença e atividade de uma Energia Causadora –
um Poder que não só produz mudanças criadoras e desenvolvimentos,
mas também uma unidade coordenadora no Cosmos.
Esta Energia, Força, Poder Atuante, que descobrimos ser o
Supremo Poder Criador que se manifesta no Cosmos e o Supremo
Poder Unificador e Coordenador, que também se manifesta nele, é
necessariamente Final. Deve sê-lo a fim de ser o que é – a fim de representar
os papéis que vemos representar e que nada mais pode representar. Se
fosse derivado ou subordinado – se fosse uma dentre diversas forças
coordenadas que agissem sob o poder de uma Causa Superior – então
se encontraria nesta Causa Superior o Poder Causador Final. Seja como
for, toda a razão humana chega inevitável, invariável e infalivelmente, a

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um ponto em que um Poder Causador Final( seja qual for a concepção
que dele se faça em sua natureza essencial) deve ser postulado, a fim de
ter em consideração e explicar as atividades do Cosmos.
As filosofias não materialistas sempre insistiram firmemente em
que esta Energia Atuante ou Poder Causador Final é e deve ser o Poder da
Vontade. É axioma delas que: “Todo Poder é, em última análise, Poder
da Vontade”. As filosofias materialistas também insistiram firmemente
que esta Energia ou Poder Final não deve ser um Poder Espiritual, porém
deixam de explicar o que pode ou deve ser então. O velho materialismo
quereria que acreditássemos que a Energia é apenas um atributo,
propriedade ou qualidade da Matéria ou, ao menos, um aspecto da
Realidade, do qual a Matéria seria um aspecto gêmeo.
O materialismo, que pretende que a Energia seja uma Realidade
ou aspecto da Realidade, insiste em que se pode considerá-la como
Pura Energia ou Pura Força; afirma também que esta Energia Final
deve ser “Energia Material”, visto que não é “Energia Espiritual”.
Porém, ninguém parece ser capaz de explicar exatamente o que é
a Pura Força. Conhecemos a Mente ou o Espírito por experiência,
porém não temos experiência alguma da Pura Força. Parece que a
idéia de Pura Força foi imposta, à força, aos ouvidos, para evitar a
admissão de que “Todo Poder é Poder de Vontade”.
Um escritor moderno disse que, depois de reunir o material de
concepções que temos da Energia, Força, Poder, veremos que podemos
“destilar” toda a noção geral, até ficar apenas a simples concepção
expressa pelo termo “Força” (Fortaleza). Seja o que for o Poder, a
Energia ou a Força, devem ser considerados como a qualidade de ser
forte. Os não materialistas dizem que esta Força é Força de Vontade,
Força Vital, Força Espiritual. Os materialistas, dizem que é Força
Material, Pura Força, sem indicar o que são essas coisas.
O materialismo, procura ter em consideração e explicar o
Mundo em termos de Força Mecânica e Energia Química – sendo
ambas consideradas Forças sem Vida. Entretanto, cuidadosos físicos
mostraram que a idéia da Força Mecânica Universal é uma ilusão;

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sob ela, o Mundo seria como um relógio a que se deu corda – a que
algo deu corda e pôs em movimento (Quem? Que coisa?) e que está
destinado a diminuir sua marcha e parar completamente com o tempo.
É necessário algo mais, algo como uma Energia que se renova, de
ordem espiritual e viva: algo como uma Vontade Viva. Por exemplo,
a Energia Química é hoje considerada pelo pensamento científico
adiantado como uma forma de energia de vida elementar e não uma
força mecânica “morta”.
Pensadores cuidadosos indicaram que nossas idéias e conceitos
da Energia são derivados de nossa experiência da Energia Viva da
Vontade que experimentamos em nós mesmos. Disseram: “Assim como
a Vontade humana é uma causa da Natureza e constitui realmente a
base de nossa concepção de todas as causas, também todas as causas,
provavelmente, são de caráter volitivo. E também: “O esforço de mover
a mão, a cabeça e os olhos é o tipo e a norma por que interpretamos,
como resultado da energia, as mudanças de posição e de massa, que
tão frequentemente observamos.” Enfim, o Homem obtém suas idéias
da Energia pelas experiências, com sua própria Força de Vontade e a
observação revela que toda Energia opera “como se” fosse Força de
Vontade. Teremos a falar mais coisas sobre este assunto no último
capítulo deste livro.

- 50 -
IV
O ESPÍRITO IMANENTE

Nesta instrução, procuramos convencê-los de que a Energia


Atuante do Cosmos – a fonte e origem, a causa e razão, do movimento,
ação, mudança, desenvolvimento, acontecimento, sucessos – é o Poder
Espiritual, o Poder do Espírito.
O Espírito, como vereis, não é só o Algo que manifesta a Vida e
a Vitalidade, que sente, percebe, sabe, aspira, deseja, mas também é o
algo que age, executa, cria.
O Cosmos, isto é, o Mundo prosseguindo de acordo com a Lei
e a Ordem, pela Mudança e Desenvolvimento – o Processo Cósmico,
enfim – é explicável e compreensível apenas sob a hipótese da ação do
Espírito sobre a Substância material – do Espírito “trabalhar sobre” a
Matéria e “elaborá-la” pelo poder de sua Vontade dirigida pelo poder
de sua Mentalidade animando o Mundo com um Sopro de Vida.
O Mundo é a Substância material, animado, informado,
vivificado pelo Espírito Imanente.
O termo “Imanente” significa “que reside, habita, permanece

- 51 -
dentro, inerente, intrínseco, inato, íntimo, interno.” O termo “Espírito”
frequentemente não é entendido e até, muitas vezes, é mal entendido.
A maioria das pessoas tem um conceito vago e obscuro do que seja o
Espírito e quase sempre ninguém percebeu e compreendeu os elementos
mais essenciais do sentido do termo e do espírito de seu conceito.
Portanto, vamos, primeiramente, chegar a uma clara compreensão e
inteligência do verdadeiro sentido do termo e conceito de “Espírito”.
Devemos fazê-lo para continuarmos de um modo inteligente com esta
instrução.
As definições do termo “Espírito” variam extraordinariamente;
este termo é empregado com diversas variedades de sentido que,
aparentemente, não têm relação alguma, mas, por uma análise e
comparação cuidadosa, se vê que têm uma base comum, de acordo e
natureza essencial. Pedimos que nos sigam em nosso breve exame do
sentido radical do termo e das diversas variedades de sentido adquirido,
de modo que possamos compartilhar da compreensão do sentido
completo e essencial do conceito e termo, o qual foi esquadrinhado e
extraído por uma atenção concentrada e um exame exaustivo.
O termo “Espírito” é derivado do latim “Spiritus”, que por sua
vez, proveio do antigo latim “Spirare” que significa “respirar, soprar
(como o vento ou a respiração)”. Um exame do emprego da palavra
“Spiritus”, no lugar e no tempo de sua origem, mostra que designava
a idéia de “respiração” ou “sopro do vento”, no sentido figurado e
simbólico, para indicar a “existência essencial”, isto é, uma existência
de caráter tão etéreo que o termo “Matéria” não podia conter uma
idéia de sua natureza.
O termo “Essentia” (de que se deriva nosso termo “Essência”)
veio depois para exemplificar a essência do sentido do termo
“Espírito”, mais do que qualquer outro termo latino. Devemos notar
aqui que a palavra “Essentia” derivou-se do termo latino “Esse”, que
significa “ser” e indica o Ente reduzido ao seu último e final estado de
refinamento. Chamamos a atenção para esses fatos, a fim de podermos
compreender a ideia que se procurou, originalmente, fazer representar

- 52 -
pelo termo radical de “Espírito” – a ideia de “existência essencial”,
isto é, existência reduzida e refinada até seu estado final.
Devemos notar, aqui, que um dos vários usos modernos do
termo “Espírito” é o de “essência tênue ou vaporosa, possuidora de
qualidades ativas; daí, qualquer líquido produzido por destilação,
refinamento, concentração, etc., em que é reduzido ao seu estado final,
essencial, elementar e puro. Devemos notar, também, que o termo é
empregado frequentemente para indicar “o sentido real ou caráter
essencial de uma coisa”, como, por exemplo, “o espírito do discurso”,
“o espírito da peça teatral”, “o espírito do termo”, etc. Este último
sentido é explicado nos dicionários do modo seguinte: “A intenção
ou sentido real – em oposição à letra ou forma de uma palavra, frase,
expressão ou discurso de qualquer espécie.”
Temos, pois, a identificação do termo “Espírito” com o termo
“Essência”, sendo este definido: “O estado, modo, forma, condição,
caráter ou natureza final, último e fundamental de uma coisa; a
natureza básica e elementar de uma coisa, depois que seus aspectos
mais grosseiros e suas formas temporárias lhe foram tiradas; a “coisa
em si” de tudo que fica depois de deixar de manifestar formas e
aparências fenomenais; o que está presente quando uma coisa foi
reduzida ao seu estado de existência mais pura possível.”
Seguindo passo a passo este sentido essencial, vemos que
o termo, como foi empregado originalmente, também indicava o
“princípio atuante”, isto é, o princípio inerente, íntimo, que move e
incita a coisa a agir ou mover. Para compreendermos melhor este fato,
comparemos as seguintes definições do termo “Atividade” e o termo
“Espirituoso”. “Atividade” significa estado ou qualidade de ser ativo,
vigoroso, ágil, esperto, enérgico. “Espirituoso” significa enérgico,
cheio de vigor e energia, vivo, rápido, ativo, esperto”. Nos dicionários,
um dos sentidos do termo “Espírito” é o de “Energia, vivacidade,
atividade, ardor, entusiasmo, coragem, etc.” Aqui, pois, temos a idéia
de “Espírito” como sendo ativo, enérgico, vivo, vigoroso, enfim, como
sendo a “energia atuante”.

- 53 -
Há, porém, uma terceira e importantíssima significação contida
no antigo termo latino “Spiritus” e no seu derivado “Espírito” - a
significação de: “Vida, vitalidade, vivacidade, energia vital, a essência
da vida”. Os dicionários dão, como um dos sentidos de “Espírito”,
o de “vida ou substância vivente, considerada independentemente da
existência corpórea; ou o que dá vida e vigor ao corpo humano e aos
corpos das plantas e dos animais; o princípio vital ou força vital”.
Este sentido de “Espírito” pode ser expresso por “vida em seu estado,
modo ou condição original, elementar, pura e essencial”.
No sentido do termo “Espírito”, que se acha nos dicionários, como
“a alma ou entidade essencial de uma coisa viva, concebida tanto no
corpo como fora dele”, existe a idéia combinada de “existência etérea”
e “vida ou vitalidade essencial”. O termo “espírito”, frequentemente
empregado como sinônimo de “espectro”, é simplesmente uma forma
deste sentido particular.
É interessante notar que os equivalentes do termo “Espírito”,
empregados em outras línguas, têm o mesmo sentido fundamental
e essencial que se encontra no termo latino “Espírito” e no nosso
derivado “Espírito”. Tais termos têm suas raízes em algum termo
que significa “sopro” ou “ar em movimento”; exprimem também
os sentidos respectivos de (a) existência etérea ou quintessência de
existência, (b) principio atuante ou energia ativa, (c) vida, vitalidade
e atos vivos que exprimem abundante vida e vitalidade, e (d) almas
ou entidades encarnadas ou desencarnadas. Esta correspondência é
significativa, principalmente quando se nota que ela se encontra em
línguas não derivadas latinas.
Os povos primitivos dessas diversas raças parecem ter todos
encontrado, no símbolo do “sopro” ou “ar móvel”, o melhor
exemplo figurado de algo tênue, etéreo, possuidor de atividade e de
vida. Representava algo “presente e sentido, porém invisível, que
manifestava sua presença pelo seu movimento e não por sua forma”.
O Sopro e o Vento eram as duas coisas mais etéreas e tênues que o
homem primitivo conhecia, e, naturalmente, ele as empregou como

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símbolos daquele Algo que sentia, intuitivamente, estar presente e
ativo no universo de coisas, forças e acontecimentos. Representava
para ele a Existência, a Energia e a Vida reduzidas à sua forma final de
refinamento e pureza.
Para ilustrar o fato significativo acima, damos os seguintes
exemplos.
Nas Escrituras Hebraicas, no Gênesis, II, v. 7, acha-se escrito:
“O Senhor Deus formou o homem do limo da terra e soprou-lhe nas
ventas o sopro de vida; e o homem se tornou uma alma vivente”. No
original hebraico, a frase “o sopro de vida” é expresso por “neshemet
ruach chayim”; o termo “neshemet” significando “a respiração física
ou o ato de respirar”; o termo “ruach” significando “o espírito ou
essência da vida”; e o termo “chayim” significando “vida, vidas
ou vitalidade”. Assim, o sentido literal do trecho, em questão, das
Escrituras é o seguinte: “O Senhor Deus soprou nas ventas do homem
o sopro do espírito ou essência de vida ou vitalidade, ou que o Ente
Supremo assim transmitiu a vida à sua criação ou criatura e “a fez
uma alma vivente”.
Da mesma forma, na antiga língua grega, o termo “Pneuma”, que
significa “vento, sopro, soprar como o vento”, era também empregado
no sentido de “o espírito ou essência de vida”, ou “o princípio de
vida” ou “Espírito”. Até em nossos dias e em nossa língua, vemos
que a Teologia e a Filosofia empregam o termo “pneumatologia”
para indicar a “ciência da existência espiritual ou dos fenômenos
espirituais de qualquer espécie”. Ao mesmo tempo, a Física emprega o
termo “pneumática” para indicar “a ciência que trata do poder e das
propriedades do ar”, sendo assim, claramente exemplificadas as duas
significações.
O termo grego “Psiquê”, que significa “alma, mente, espírito” (e
de que se deriva o termo “Psicologia”), originalmente significava “o
vento em movimento ou o sopro”.
A palavra inglesa “Ghost” (espectro) é derivada do termo anglo-
saxônico “gest”, de que provieram o termo alemão “geist” e Inglês

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antigo “gost”, que tinham todos, originalmente, o sentido de “sopro
ou vento” e depois foram empregados para exprimir a idéia de “alma,
espírito ou entidades viventes encarnadas ou desencarnadas”.
Devemos notar, a este respeito, que a palavra inglesa “Ghost”
e a alemã “Geist” são empregadas para indicar uma fase ou aspecto
da Divindade, a saber, “The Holy Ghost”- em Português: “O
Espírito Santo”. Na Teologia cristã é verdade axiomática que “Deus
é Espírito”, seguindo-se, neste ponto, a afirmação original desta
doutrina no texto grego em que o termo “Pneuma” é empregado no
sentido de “Espírito”. Semelhante sentido duplo de “sopro ou vento”
e “existência essencial viva, ativa e etérea; alma ou espírito se encontra
também no Sânscrito e em outras antigas línguas orientais. Cremos
que isso é mais do que simples coincidência; as mesmas necessidades
do pensamento procuraram as mesmas formas de exemplos – as
mesmas causas produziram os mesmos resultados.
Se considerarmos esta necessidade do pensamento e a dificuldade
de expressá-la nos termos de coisas materiais, apreciaremos o emprego
quase intuitivo dos termos, como “Espírito”, “Pneuma”, “Geist”,
etc., para representar a Essência, Energia e Vida Puras. Ainda hoje,
o termo “Espírito” serve, imperfeitamente ao menos, para exprimir
um conceito quase inexprimível em termos materiais. Edgar Allan Poe
mostrou esta dificuldade no seguinte trecho significativo:
“Esta pura simplicidade de palavras e outras expressões que
existem em quase todas as línguas não é, de modo algum, a expressão
de uma idéia, mas apenas um esforço para ela. Representa a tentativa
possível de uma concepção impossível. O homem precisava de um
termo pelo qual pudesse mostrar a direção deste esforço – a nuvem
atrás da qual permanece sempre invisível o objeto da tentativa.
Enfim, era procurada uma palavra por meio da qual um ente humano
pudesse pôr-se em relação com outro ente humano de certa tendência
do intelecto humano. Dali nasceu um termo, que, assim, representa
apenas um pensamento de um pensamento.”
Embora o homem saiba certamente – com mais certeza do que

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pode saber qualquer outra coisa – que o Espírito existe e está presente
e ativo dentro de si, acha quase impossível definir esta Realidade
com os termos ordinários que denotam qualidades, propriedades e
atributos materiais. Tantas qualidades opostas se encontram em suas
manifestações – propriedades que se apagam mutuamente e assim
não podem ser consideradas atributos essenciais da Realidade em
manifestação – de modo que fica tão pouco em que a mente possa
apoiar-se e que serve de substância de “mastigação mental” no
processo do raciocínio.
Um escritor exprimiu a ideia de que “o Espírito devia ser
considerado mais como uma Possibilidade Infinita ou a como a
Possibilidade de uma Infinidade de Manifestação e Expressão, do que
como uma Entidade”. Porém, apenas exprime a metade de uma verdade.
O Espírito é uma verdadeira Entidade, isto é, um Ser Real, uma Essência
Real, uma Existência Real, embora só possa ser conhecido por suas
manifestações, com exceção de um caso – a experiência da Consciência
do Eu. A dificuldade de sua apreensão e compreensão como Entidade,
provém do fato de que, sendo Infinito e sendo Pura Essência, portanto,
sendo desprovido de qualidades e caracteres finitos e sendo livre das
aparências de suas formas de expressão, não pode “ser apanhado”
pelo Intelecto ou a Imaginação, pois estes são destinados e apropriados
apenas ao conhecimento e representação das formas e imagens de coisas
materiais e das qualidades e caracteres destas.
Porém, apesar desta dificuldade, o Intelecto, sendo aplicado
convenientemente e dirigido pela Intuição, é capaz de perceber a
presença de vários aspectos ou modos da Realidade Essencial do
Espírito. Seja o que for que o Espírito possa ser ou não ser, deve possuir
estes diversos aspectos ou modos próprios, a fim de ser Espírito. Sem
pretender limitar ou restringir a Realidade Essencial do Espírito aos
seguintes aspectos ou modos seus, devemos insistir em que sempre se
percebe estarem estes presentes em todas as manifestações e expressões
do Poder Presente do Espírito de que o Intelecto e a Intuição humana
têm conhecimento ou experiência.

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Estes aspectos e modos conhecíveis e perceptíveis do Espírito a
que nos referimos aqui são os seguintes:
Presença: manifestação de Essência, Realidade e Atualidade.
Vida: manifestação de Sentimento, Conação e Volição.
Poder: manifestação de Força, Energia e Vigor.

Convidamos o caro leitor a considerar mais detalhadamente


os diversos aspectos e modos do Espírito, acima indicados, e suas
diversas manifestações.

A Presença do Espírito

Na Consciência do eu, percebe-se que o Espírito é uma Entidade


realmente Presente e Existente e não a simples idéia ou pensamento
da Mente, nem um mero símbolo verbal ou palavra que exprima algo,
sem existência e presença real. Por “Presença” se designa Estado de
ser presente, isto é, de existir realmente a certo tempo e em certo
lugar”. Que o Espírito está presente é provado pela informação, da
Consciência do Eu – a informação inevitável, invariável e infalível de
que “Eu estou Presente”, que se acha implícita em todo pensamento
consciente e é intensamente impressa na consciência, quando é
dirigida para dentro. Isto é acompanhado pela informação invariável
e infalível da Intuição de que “Eu sou Espírito”! Além disso, como
a Atividade Espiritual é aparente, mesmo quando é manifestada por
outros em atos de Vontade viva e como é axiomático que “onde quer
que uma coisa aja, ela deve estar presente”, segue-se que a Presença
Real do Espírito deve ser admitida.
O Aspecto ou Modo do Espírito conhecido por Presença
se manifesta em Essência, Realidade, Atualidade. Examine,
resumidamente, cada uma destas expressões, na ordem apresentada:

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A Essência foi definida no decurso desta instrução. Você está
familiarizado com a significação deste termo e conceito. Compreende
que indica a natureza final e o puro ser da existência a que o termo
é aplicado e que o conceito representa. Pedimos, agora, que chegue
à compreensão de que o Espírito é Pura Essência Espiritual – a Pura
Essência da Vida, Mente, Consciência, Vontade – a Pura Essência de
tudo o que não é Substância material, nem manifestação desta. O
Espírito é a Essência Final da Espiritualidade e das Coisas Espirituais.
O Espírito é a Essência Espiritual, da mesma forma que a Matéria
Etérea é a Substância Material – cada um deles representa a “coisa em
si”, de sua classe ou categoria.
Da mesma forma que a Substância Material enche todo o Espaço,
assim também a Essência Espiritual ocupa todo o Tempo. Bergson
e Einstein ensinarão mais coisas a respeito deste fato admirável, se
você quiser adquirir este conhecimento. É muito “profundo” para
esta consideração e deve-se aprender a nadar, antes de se arriscar a
explorar suas águas. A muito
falada e longamente procurada “Quarta Dimensão” pertence ao
Tempo e ao Espírito, não ao
Espaço e à Matéria em cujo plano foi procurada. Este é também
outro assunto “profundo”, que não procuraremos explicar inteiramente
aqui. Indicamos a direção em que se encontra a explicação: Você deve
procurá-la por si mesmo, se desejar fazê-lo.
A Realidade significa “o estado de ser real, atual, verdadeiramente
existente; não imaginário, fictício, vago ou desprovido de
substancialidade”. O Espírito é Real, não imaginário ou fictício. É um
fato, não um Sonho. Você pode duvidar dos sentidos, porém, nunca
pode duvidar de que “é vivo” – e a Vida é um aspecto ou modo do
Espírito. Pode sonhar com a Matéria, sem que esta esteja presente,
porém nunca pode sonhar com a Vida e a Mente, sem que a Vida
e a Mente estejam presentes e ativas em si – e estes são aspectos ou
modos do Espírito. Pode conhecer a Matéria apenas através da Mente
Vivente, porém não pode conhecer nem a Matéria, nem a Mente, por

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meio da Matéria desprovida da presença imanente da Vida e da Mente.
Sua consciência do “EU SOU” é a coisa mais certa e mais real que
pode conhecer. Tudo o mais pode ser um sonho, neste ponto de vista,
porém ISTO não pode ser sonho, a não ser que haja um Sonhador – e
se houver um Sonhador, ele será você, um ponto focal ou centro de
Espírito Vivente!
Você achará difícil descobrir “o que” o Espírito - que é você -
realmente é, porém, nunca pode duvidar de que EXISTE e é REAL.
A dificuldade fundamental do pensamento humano, a respeito do
Espírito, é esta: que é o Espírito procurando contemplar a si mesmo
– tentativa exatamente comparável ao esforço de “voltar-se de dentro
para fora”. Da mesma forma que a vista, embora veja todas as
outras coisas, é incapaz de ver a si mesma, assim também o Espírito
está impedido nos seus esforços de ver a si mesmo em pensamento.
Da mesma forma que o estômago, embora digira todas as outras
substâncias vivas colocadas nele, nunca digere a si mesmo. Assim
também o Espírito é capaz de experimentar tudo por meio dos sentidos,
exceto a si mesmo. Porém, pode “conhecer” a si mesmo, “sentir” a
si mesmo na experiência de Consciência do Eu e pode “intuir” a si
mesmo nos processos da Intuição. Tal “conhecimento”, “sentimento”
e “intuição” sempre trazem, além disso, a informação: “EU SOU, e Eu
sou REAL!
Por meio da Intuição, o Espírito informa inevitável, invariável
e infalivelmente: “EU SOU!”, “EU SOU EU” ou, quando o Intelecto
o aperta para dar uma informação mais definida: “EU SOU O QUE
SOU!”
O “EU SOU EU”, este ponto focal de consciente Espírito
Imanente que é você, informa por meio do Intelecto e da Intuição:
“Eu penso, eu sinto, eu ajo, eu me movo por minha própria Vontade
e meu próprio Poder. Portanto, EU SOU o EU SOU REAL e não
fictício, uma Realidade e não a ficção de um sonho! Mesmo que eu
fosse um sonho, haveria necessidade de existir um sonhador e este
sonhador estaria contido na sua idéia sonhada – e este “EU SOU EU”

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seria então o EU SOU do Sonhador e, ao mesmo tempo, da Pessoa do
sonho!” Ninguém pode dizer realmente: “Eu NÃO sou REAL” – pois,
na sua própria negação, estaria implicado o fato de que o “Eu”, que
está negando, deve ser Real.
Nenhum homem de bom juízo poderá negar sua própria
Realidade e ter o sentimento de convicção de que está afirmando
a Verdade! Suas dificuldades começam apenas quando se põe a
considerar se as coisas que lhe são externas, o universo material,
também é Real! Se a Realidade do Espírito for posta em dúvida ou
negada, então se deve colocar em dúvida ou negar a Realidade de
Tudo – porquanto todas as coisas só são conhecidas pelo Espírito e em
virtude da Realidade do Espírito. Negue a Realidade do Conhecedor
– e também ficará negada a Realidade do Conhecido, não ficando, em
tal caso, nada para conhecer ou para ser conhecido.
“Atualidade” significa: “O estado de ser atual, isto é, real
e verdadeiramente agente ou ativo; existente em ato real.” A
atualidade do Espírito não pode ser posta em dúvida tanto como sua
“Realidade”. Todo indivíduo que realizou qualquer ato de volição ou
vontade experimentou uma prova inevitável, invariável e infalível da
Atualidade do Espírito. Não precisa voltar-se para a informação final
da Filosofia e também da ciência progressista de que: “Todo Poder é
Poder da Vontade; toda Ação é Ação da Vontade”. Basta-lhe, apenas,
referir-se à própria experiência no querer.
Noutra parte deste livro, referimos a história de Edison agitando
a ponta de seu dedo a Bois-Raymond e pedindo-lhe que respondesse
a esta pergunta: “Que é isto?” Edison conhecia a Atualidade de seu
Espírito Imanente e sua simples pergunta admirou o outro grande
cientista. O mais simples ato voluntário da criatura vivente prova a
Atualidade do Espírito. Em todo movimento, em todo ato, em toda
mudança de posição, até em cada pensamento, a criatura dá prova
indubitável do fato de que o Espírito é Ativo, Atual, uma Atualidade e
possui o Poder de Agir e “age”.
Assim, pois, veja que ocupamos posição sólida ao atribuirmos

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ao Espírito os aspectos e modos – os atributos e propriedades, se o
quiser – de Presença e suas manifestações conhecidas por Essência,
Realidade, Atualidade. Pedimos que as fixe em sua mente, de modo
que, ao pensar no Espírito, pensará a seu respeito, em primeiro
lugar, em termos e idéias de Presença, isto é, Essência, Realidade e
Atualidade.
Nos dois próximos capítulos deste livro, sugerimos que sejam
considerados os outros dois grandes aspectos ou modos do Espírito,
a saber, a “Vida”, que manifesta Sentimento, Conação, Volição, e o
“Poder”, que manifesta Vigor, Energia e Força.

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V
O ESPÍRITO: VIDA ESSENCIAL

Tendo considerado o primeiro grande modo ou aspecto do


Espírito, isto é, o de Presença, que se manifesta como Essência,
Realidade, Atualidade, convidamos todos a, agora, considerarem o
segundo grande modo ou aspecto do Espírito, a saber, a Vida, que se
manifesta como Sentimento, Conação e Volição. Este é o característico
único, original e distintivo do Espírito. A Vida e a Vitalidade são a
própria Quintessência do Espírito – o próprio “espírito” do Espírito!
O Espírito é VIDA – a Vida é Espírito!
Pela palavra “Vida” se exprime o “estado de estar vivo, de viver
ou a força vital, animação, vitalidade. As definições básicas são pobres,
magras e insatisfatórias, porém, visto que a Vida só pode ser definida
em termos de Vitalidade, não há aperfeiçoamento possível para essas
definições. Não existe nada semelhante à Vida com que esta possa ser
comparada, contrastada ou classificada ou que possa ser empregado
para exemplificá-la ou defini-la. É preciso experimentar a Vida para
compreender seu sentido real. O termo “Vitalidade” não é grande

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coisa; sua definição é apenas sugestiva, a saber, “o estado de ser vivo,
vivente, ativo, vigoroso, espirituoso e capaz de vivacidade e vigor”.
Todas estas definições nos remetem à palavra Vida e vê-se que a vida
é “sui generis”, formando uma classe própria que está acima e fora
de qualquer definição ou explicação, qualquer descrição ou ilustração
em termos de outra coisa qualquer. A vida só é conhecida por meio da
experiência. Conhecer a Vida é viver; viver é conhecer a Vida.
A Vida é um atributo básico e fundamental do Espírito. O
Espírito não seria Espírito se fosse desprovido da qualidade de viver.
Podemos conceber o Espírito como sendo inconsciente, porém não
podemos concebê-lo sem vida. A Vida é mais fundamental do que a
Consciência; uma criatura pode perder a consciência e continuar a
viver, porém, não pode ficar sem vida e continuar a ser consciente.
Todo sentimento, todo pensamento e vontade podem ser inativos
numa criatura, entretanto, ela continua a viver, porém, se não tem
vida, não pode manifestar nunca o pensamento, o sentimento ou a
vontade. Se quisermos pensar no Espírito, em sua natureza e caráter
íntimo mais essenciais, fundamentais e básicos, pensemos nele como
VIDA e VITALIDADE.
As três manifestações particulares da Vida do Espírito são as
seguintes: Sentimento, Conação e Volição, que vamos considerar
resumidamente agora.

SENTIMENTO – Por “Sentimento” se exprime “a faculdade ou


poder de sentir, perceber, apreender e conhecer mentalmente”. Estes são
os diversos poderes mentais primários e elementares; os processos mentais
superiores são apenas fases mais complexas destas atividades mentais
mais simples; estas faculdades fornecem os “materiais grosseiros” que
são elaborados e preparados até formarem o produto mental completo.
Na Sensação, o Espírito recebe impressões de objetos materiais; na
Percepção, o Espírito reconhece e interpreta as informações da Sensação;
na Apreensão Mental, o Espírito “apodera-se” das idéias e concebe-as;
na Cognição, o Espírito “sabe” as coisas parcial ou completamente.

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A idéia de Sentimento está intimamente ligada à de “Consciência”,
termo este que, como a palavra “Vida”, está fora de uma definição
adequada, é melhor definido pela palavra “Conhecimento”. A
Consciência foi comparada à vitalidade ou vivacidade mental –
sendo esta uma valiosa ilustração sugestiva. Na psicologia moderna,
a Consciência é considerada apenas como “Presença da Mente” ou
a “mente presente no momento” – uma secção de cruzamento do
processo mental, uma atenção focalizada em certa parte limitada de
todo o processo mental. Grande parte da atividade mental, a maioria
dos processos mentais se manifesta em planos de “mentação” exterior,
que se acham abaixo ou acima do plano da consciência ordinária.
Muitas pessoas ou quase todas estão acostumadas a considerar
o Espírito como idêntico à “Mente” – acham difícil pensar no Espírito
de outra forma qualquer. Porém, na psicologia moderna, a “Mente”
é considerada mais um processo do que uma Entidade. Como expõe
uma obra de consulta: “Não só a mente, em seu todo, é uma corrente
de pensamento e sentimento, mas também cada elemento separado da
mente ou de formação mental que nossa análise extrai da consciência
total também é um processo. Toda sensação se levanta, se equilibra e
cai por seu modo característico; até a idéia é denominada um “processo
variável” e as formações, como a emoção e a volição, trazem estampadas
em si o sinal de processo”. O Espírito, pelo contrário, é Entidade
absoluta e atual, não um processo; é a Essência, Base e Campo, Apoio e
Sustentáculo e a Identidade Constante do Processo Mental.
O Espírito não se acha limitado à “Mente”, nem a “Mente” é
outro nome do Espírito. Pelo contrário, o Espírito tem a Mente, usa a
Mente, emprega a Mente, isto é, o processo mental como instrumento,
ferramenta ou máquina útil em suas atividades criadoras ou não. Nem é
conveniente também considerar a Consciência como idêntica ao Espírito
ou um estado absolutamente essencial e permanente do mesmo.
G. E. Moore, numa obra de valor sobre Filosofia e Psicologia,
diz: “É comum a todos os sentidos de Espírito a concepção de “o que
é consciente”. A Consciência não é considerada como sendo Espírito,

- 65 -
mas sim um atributo dele, de modo que o Espírito é concebido como
algo capaz de existir sem ser consciente. Por outro lado, não há
concepção positiva do que é este elemento permanente do Espírito;
é apenas concebido abstratamente como o que (seja o que for) é o
assunto ou a substância da consciência e, negativamente, como não
sendo idêntica a nenhuma qualidade conhecida.”
Porém, observe que, embora seja possível conceber o Espírito
como “não sendo consciente”, não é possível concebê-lo como “não
sendo vivo”, nem como “incapaz de ter consciência”. A Vida é o
atributo primário; a Consciência é a propriedade secundária. Porém,
como o Espírito é sempre Vida e como a Vida tem sempre a faculdade
ou capacidade de Sentimento e Consciência, vemos que onde quer que
o Espírito esteja presente, deve também estar presente a capacidade de
Sentimento e Consciência, de qualquer forma, espécie, modo ou grau.

CONAÇÃO: “Tendência para um esforço, tentativa,


experimentação, ação, proveniente da presença de sentimento,
emoção ou desejo”. Foi publicado em uma obra famosa: “A Conação
consiste num esforço, numa tentativa de alcançar algo. A tentativa de
chamar um nome á memória é uma conação. Ela é comum ao desejo,
aspiração, ambição e querer, enfim, a todos os estados mentais que têm
uma tendência inerente a ir além de si mesmos. Tem a Conação por
objeto a consecução de seu desejo, daquilo que gosta e acha agradável
ou afastamento daquilo de que não gosta ou acha desagradável”. Em
resumo, a conação é o desejo que procura passar para o ato na direção
que mais o contenta, satisfaz e lhe é agradável.
A conação ou Desejo Ativo é um elemento universal da Vida.
Encontra-se em todas as coisas vivas e é o propulsor de todas as
ações de todos os entes criados, desde as mais simples células vivas
até as mais complexas formas e organismos vivos. Muitos filósofos a
consideraram o elemento mais essencial da Vida e como sendo a parte
mais íntima da mente, alma ou espírito de tudo o que vive e da Vida,
em geral e em conjunto.

- 66 -
Schopenhauer supõe-na o fato fundamental de todas as
atividades, tanto inorgânicas como orgânicas.
Diz Wundt: “O universo mecânico é a capa exterior dentro da
qual está encoberta uma atividade criadora espiritual, um esforço,
sentimento e sensação como os que nós mesmos experimentamos,
sendo a conação a essência fundamental desta atividade”.
A conação é uma propriedade fundamental da Vida e é mais
elementar ainda do que o Sentimento, em sua fase de sensação, pois
nas mais baixas classes de criaturas vivas se manifesta com grande
energia, mesmo quando o Sentimento se manifesta na sua forma
mais simples. Na vida das plantas, representa o principal elemento
físico, sendo o Sentimento expresso apenas em grau mínimo. Certos
filósofos, como Schopenhauer e sua escola, julgam que o “Espírito
do Mundo” é animado principalmente pela sua “Vontade de Viver”,
isto é, seu desejo de exprimir atividades vitais, de forma que, para
eles, o Princípio Universal de Vida é o Desejo essencialmente conato e
não a Razão. Outros modificaram esta opinião e dão ao Sentimento
uma posição igual à da Conação, embora admitam que, nas formas
inferiores de vida, esta seja predominante.
Visto que a Conação é um elemento essencial da Vida e que
a Vida e Vitalidade constituem um atributo essencial primário e
fundamental do Espírito, segue-se que onde quer que o Espírito esteja
presente e ativo, também a Conação está presente e ativa. Embora
não se aceite a posição extrema das escolas de filosofia há pouco
referidas, é impossível fugir da convicção de que, quando o Espírito
Cósmico manifesta Poder Criador, deve experimentar o desejo conato
de fazê-lo – e que esta Conação é a “causa” atuante e o “porquê” da
Atividade Criadora do Espírito. Sem ela, a Criação nunca teria sido
manifestada. Sem ela, a Criação não teria continuado e não estaria
em atividade agora.

VOLIÇÃO: Exprime o ato de querer ou o exercício da Vontade;


o poder de querer e determinar. A propriedade da Vida conhecida por

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Volição pode ser discriminada por “o Poder de querer ou o Poder de
Vontade. A Vontade é o poder de atividade própria, de movimento
próprio e o exercício do esforço e ação voluntária.
Diz o professor Halleck a respeito da Vontade: “A Vontade se
relaciona com a ação, por mais complexo que pareça o processo.
Nossos atos são resultados de um poder particular e ativo que
chamamos Vontade. Desde o berço até o túmulo, nunca estamos
sem esta atividade da Vontade, no sentido mais lato do termo. Onde
quer que haja emoção, também há um elemento motor que tende a
manifestar-se em ação e este elemento é a Vontade. Em certas emoções,
o elemento voluntário pode ser tão pequeno que será difícil descobri-
lo, porém seu gérmen aí está.”
O característico que distingue a Atividade da Vontade é
o elemento importante da vida, conhecido por Espontaneidade.
A Espontaneidade está tão presa à Vida que muitos pensadores
cuidadosos a consideraram como uma pedra de toque, pela qual se
pode experimentar e determinar a Vitalidade das coisas. Esta opinião é
expressa no axioma: “Onde a Espontaneidade está presente, a Vida está
presente; onde a Vida está presente, a Espontaneidade está presente”.
Os autores aceitam esta opinião e consideram como verdade evidente
este axioma, que serve de padrão infalível por meio do qual se pode
decidir conclusivamente sobre a presença da Vida e da Vitalidade.

ESPONTANEIDADE: Exprime o estado de ser espontâneo,


isto é, proceder por impulso, energia ou tendência natural interna,
sem força externa. Na sua manifestação pelas criaturas viventes, a
Espontaneidade é definida “a ação proveniente do sentimento,
tendência, emoção, temperamento, disposição ou desejo natural
e que se manifesta por eles, sendo talvez modificada pela reflexão,
consideração ou juízo baseado nos resultados de experiências
precedentes – mas sempre sem imposição ou força exterior”.
Vê-se, pois, que a Espontaneidade é uma fase da Atividade
própria, Volição ou Vontade – fase objetiva daquilo de que a Conação

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e a Volição são as fases ou aspectos subjetivos. Todo ato voluntário
proveniente de sentimento ou desejo conato é Atividade própria. A
Atividade própria é atividade resultante da Vontade conata, volitiva,
do indivíduo e não de força, pressão ou energia externa. Todo ato ou
atividade voluntária, tanto mental como física, é Atividade própria.
Toda Atividade própria é Espontaneidade. A essência da Conação,
Volição, Vontade, Atividade própria e Espontaneidade é a mesma;
cada qual representa o Poder da Vontade, que é o Poder de Vida e o
Poder Espiritual.
Disse um antigo filósofo grego: “Vontade é a capacidade
inerente de ação espontânea ou movimento próprio e não age por
força externa, embora sua direção possa ser influenciada, por causas
externas representadas na mentalidade.”
Diz Carus: “Deve-se entender por Espontaneidade esta espécie
de atividade que nasce da natureza da coisa ou ente que é ativo. Um
movimento que é causado por pressão ou força não é espontâneo, mas um
movimento cujo poder motor reside no objeto que se move é espontâneo.
No caráter de uma coisa está a fonte de sua ação espontânea”.
O Dicionário Colegial de Webster dá três termos, a saber,
Voluntário, Livre e Não-forçado como sinônimos do termo
Espontâneo, acrescentando: “O que é voluntário é o resultado de uma
volição ou ato de escolha, portanto, implica certo grau de consideração
e pode ser o resultado de simples razão, sem sentimento excitado. O
que é espontâneo brota inteiramente do sentimento ou de um impulso
repentino que não admite reflexão.” Esta distinção está bem feita e
merece respeito. Entretanto, deve notar-se que, embora algumas
volições se realizem “sem sentimento excitado”, sempre há, ao menos,
algum grau de sentimento e desejo presente, senão não haveria, nem
poderia haver motivo para ação conata e voluntária.
Como dissemos, muitos pensadores cuidadosos julgam que a
Espontaneidade ou Atividade própria é a característica invariável
da Vida. Nesta opinião, tudo o que manifesta a propriedade de
Espontaneidade deve ser vivo. A presença da Espontaneidade nas

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coisas geralmente consideradas não viventes indica, então, que há vida.
Como se acha presente a Espontaneidade até nos átomos e elementos
químicos, julgam estes pensadores que eles manifestam qualidades de
vida e que “o universo é vivo em todas as suas partes e no seu todo”.
Como a Vida é um atributo do Espírito, nesta opinião, seguir-se-ia que
o universo é animado e inspirado pelo Espírito.
Foi objeção favorita do materialismo a expressão: “Se o Espírito
é a Origem e Fonte de todas as coisas, então o Espírito - isto é, a
Vida, a Mente e a Vontade - deve ser encontrado, ao menos até certo
grau, em tudo!” A resposta da moderna Filosofia Espiritual é: “Tudo
MANIFESTA Vida, Mente e Vontade (Espírito) em certo grau e sob
alguma forma.” Os antigos sábios
sempre acreditaram intuitivamente e ensinaram esta verdade,
porém, foi privilégio da ciência física demonstrá-la pela observação
e a experiência. As mentes adiantadas da Filosofia e da Ciência
concordam com a proposição de que “o universo é vivo, em conjunto
e em cada uma de suas partes”, sendo que cada nova descoberta serve
para apoiar esta idéia e cada ano aumentam as fileiras dos que a
defendem.
Luthero Burbank, como resultado de sua vida inteira de estudo
da Vida, diz: “Todas as minhas investigações me afastaram da idéia
de um universo morto, tendo sido impelido por várias forças à idéia
de um universo que é, absolutamente, todo vida, alma ou pensamento
ou seja qual for o nome que se dê a essas coisas. Toda a vida de nosso
planeta está, por assim dizer, apenas na parte exterior deste oceano de
força. O universo não é meio morto, mas inteiramente vivo”.
Haeckel, o eminente cientista filósofo, diz: “Considero toda
Matéria como animada, isto é, dotada de sentimento (prazer e
sofrimento) e com movimento ou, antes, o poder de movimento. Como
atração e repulsão elementar (atômica), estes poderes se afirmam em
qualquer simples processo químico e nele se baseiam todos os outros
fenômenos e, por conseguinte, também a mais altamente desenvolvida
atividade da alma do homem. As moléculas (ou os átomos) de dois

- 70 -
elementos, sendo colocados a uma distância conveniente, “sentem-se”
mutuamente e, por atração, se movem uma para a outra ou se dá o
contrário, em virtude de repulsão. (Doutrina de Empédocles do “amor
e ódio dos átomos”). Não posso imaginar o mais simples processo
químico e físico, sem atribuir os movimentos das partículas materiais à
sensação inconsciente. A idéia de afinidade química consiste no fato de
que os vários elementos químicos percebem as diferenças qualitativas
em outros elementos. Experimentam “prazer” ou “repulsão” ao
contato com eles e executam movimentos específicos nesta base.”
Haeckel cita também, com aprovação, a afirmação de Naegeli,
outro cientista, que disse: “Se as moléculas possuem algo que se
relacione, por mais distante que seja, com a sensação, deve ser-lhes
agradável serem capazes de acompanhar suas atrações e repulsões e
desagradável serem obrigadas a agir de outro modo.”
Diz Flammarion: “A Mente brilha em todo átomo. Há mente em
tudo, não só na vida humana e animal, mas também nas plantas, nos
minerais, no espaço.”
Diz Cope: “A base da vida e da mente está além dos átomos e
pode ser encontrada no éter universal!
Exprime Hemstreet: “A Mente no éter não é mais antinatural do
que a mente na carne e no sangue.”
Expressa Saleeby: “A Vida é potencial na Matéria; a energia
vital não é uma coisa única e criada num tempo dado do passado. Se
a Vida é potencial na Matéria, é mil vezes mais evidente que a Mente
é potencial na Vida. O evolucionista é levado a crer que a Mente é
potencial na Matéria. A célula microscópica, diminuta partícula de
matéria que deve tornar-se um homem, tem em si a promessa e o
gérmen da Mente. Não podemos, então, inferir que os elementos da
Mente estão presentes nos elementos químicos – Carbono, Oxigênio,
Hidrogênio, Nitrogênio, Enxofre, Fósforo, Sódio, Potássio, Clorina –
que se encontram na célula? Não só devemos fazê-lo, mas também
devemos ir além, pois que sabemos que cada um destes elementos e
todos os outros são constituídos de uma unidade invariável, o elétron,

- 71 -
e devemos, portanto, dizer que a Mente é potencial na unidade da
Matéria – o próprio elétron.”
Diz Carus: “De boa vontade estou de acordo com o professor
Haeckel em que toda a Natureza é viva. Além disso, insisti, com grande
ênfase, em que há uma Espontaneidade que penetra toda a Natureza.
O termo “Vida” é empregado, aqui, num sentido mais lato do que de
ordinário. Significa Espontaneidade ou Movimento próprio, ao passo
que no seu significado comum é restringido às ações espontâneas
de seres organizados, isto é, das plantas e animais. Proponho o que
podia ser melhor denominado Panbiotismo, exposto resumidamente
na máxima: “Tudo é carregado de Vida; tudo contém Vida; tudo tem
capacidade de viver.”
Não temos aqui espaço para descrever detalhadamente as
experiências e observações que levaram a ciência a esta conclusão – à
conclusão de que “há Vida em tudo; tudo vive” – por mais interessante e
instrutiva que seja tal descrição. Com efeito, apenas podemos nos referir
resumidamente aos resultados gerais. A referência aos anais da Física e
da Biologia servirá para provar nossas afirmações. A respeito da Vida,
mesmo nas mais simples formas animais, não temos necessidade de falar.
A Ciência provou, inquestionavelmente, a presença da Vida e da Mente
Elementar na vida das plantas, mesmo nas suas formas mais simples.
Os cristais são considerados hoje como formas “quase vivas”,
apenas um pouco inferior, na escala, às plantas. Certos cientistas até
lhes atribuíram um “sexo” elementar. A este respeito, é interessante
comparar os cristais ordinários com as ínfimas formas de vida
conhecidas por diátomos ou “cristais vivos” ou também “formas
geométricas viventes” como foram
denominadas. E também notar o quanto os cristais de neve e gelo
se assemelham às formas de folhas, ramos, folhagens, etc. – examinar
o “jardim de flores de gelo” formadas na vidraça das janelas, durante
o inverno. As experiências produziram uma flor de cristal semelhante
a uma orquídea, de um disco de salitre submetido à luz polarizada.
As célebres “Experiências de Bose” provam, conclusivamente,

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que as substâncias inorgânicas podem ser enfraquecidas, adoecidas
e mortas pela pressão ou correntes elétricas, o processo da “morte”
sendo registrado por si mesmo, de um modo positivo, no mecanismo
delicado que se emprega. Além disso, os metais e os maquinismos
feitos de metais sofrem “cansaço” e aproveitam um “descanso”. Os
diapasões e as lâminas de navalha são exemplos deste fato. Todo
maquinista sabe que “há alguma coisa nisso”. Os metais podem ser
“envenenados” por certos produtos químicos e realmente “mortos”,
em certos casos. A Ciência conhece uma “doença das vidraças” –
ela é contagiosa e se espalha de uma vidraça para outra, sob certas
condições. Os casos que exemplificam este fato geral da “vida” das
coisas inorgânicas podiam ser multiplicados indefinidamente – sua
lista aumenta anualmente, em conseqüência de novas experiências.
Vida, Mente, Vontade, Consciência, Desejo, Volição,
Espontaneidade, Atividade própria, Energia Conata: descobriu-se
que estas coisas existem em toda a Natureza. Nós as conhecemos
diretamente pela nossa própria experiência. Pela observação científica,
percebe-se indiretamente como manifestadas em todas as outras
coisas. Estão fora da análise química ou da dissecção física. Não são
reveladas pelo tubo de experiência, nem pela retorta; o escalpelo não
mostra a presença delas; o microscópio não as faz visíveis; as mais
delicadas balanças dos físicos não lhes marcam o peso, porém certos
instrumentos delicados que se inventaram registram os efeitos psíquicos
manifestados por elas. Não podem ser produzidas sinteticamente por
combinações, correlações ou coordenações de elementos químicos;
nem a força mecânica pode tomá-las em consideração ou explicá-las
– muito menos produzi-las.
A Biologia nos informa que “toda vida” provém da Vida. Nunca
se soube que a qualidade de viver proviesse da não existência dessa
qualidade. Afinal, vê-se que a Vida é Final e Universal; a qualidade
de viver é uma manifestação de um Infinito Princípio de Vida – e se
descobre que este Princípio é ESPÍRITO e nada mais. O pensamento
honesto e o raciocínio lógico fornecem uma informação invariável,

- 73 -
inevitável e infalível para esse fim. Se tivesse havido um tempo em que
a Vida não estivesse presente, então não haveria hoje capacidade de
viver. A Vida estando presente hoje deixa evidente que a Vida sempre
esteve presente sob alguma forma, fase ou condição. O pensamento
filosófico encontra a única fonte ou origem da Vida no Princípio Final
do Espírito.
Onde quer que haja Vida, deve haver Espírito. Como a vida
é universal, o Espírito deve ser universal. O Espírito reduzido à sua
natureza final dá informação de si mesmo como Vida. O Espírito sem
Vida é inconcebível. A Vida reduzida á sua natureza final dá informação
de si mesma como Espírito. A Vida sem Espírito é inconcebível. Assim
se vê que a Vida e o Espírito são apenas diferentes nomes do mesmo
Fato, Princípio, Poder Final. Se desejarmos pensar no Espírito nos seus
termos mais simples, devemos empregar as palavras Vida e Vitalidade.
Seja o que for que o Espírito possa ser ou não ser, em primeiro lugar,
é sempre Vida e Vitalidade.

- 74 -
VI
O ESPÍRITO: PODER ESSENCIAL

Tendo considerado o Espírito em seus dois modos ou aspectos


respectivos de Presença, que manifesta a Essência, a Realidade e a
Atualidade; de Vida, que manifesta o Sentimento, a Conação e a
Volição; você é agora convidado a considerar o Espírito em seu
terceiro grande modo ou aspecto, a saber, o de Poder, que manifesta a
Força, Energia e Vigor.
Definimos os diversos termos que são Poder, Fortaleza, Energia
e Força, num capítulo anterior deste livro e admitiremos que está
familiarizado com as diversas variedades de sentido neles contidas,
que lhe pedimos combinar em seu conceito do Poder Espiritual.
Consideramos fora de dúvida que o Espírito possui Fortaleza de
um grau e extensão infinitos; que o Espírito possui o Poder íntimo
denominado Energia em grau e extensão infinitos; que o Espírito possui
a forma de Poder conhecida por Força ou capacidade de agir sobre
as outras coisas, também em grau e extensão infinitos. Em resumo,
consideramos axiomático e evidente por si mesmo que o Espírito não

- 75 -
só possui um Poder Infinito – todo o Poder que existe – mas também
que ele mesmo é a própria Essência do Poder.
Este Poder íntimo do Espírito, que se manifesta como Fortaleza,
Energia e Força, é impelido, exercido e aplicado pela Vontade. E a
Vontade, como sabemos, é uma manifestação da Vida, que, por sua
vez, é um aspecto ou modo do Espírito. De acordo com isso, o Poder
Espiritual, em certo sentido, pode ser considerado Poder de Vontade.
No indivíduo, acha-se expresso como Poder de Vontade pessoal; no
Cosmos, é expresso como Poder de Vontade cósmico. No indivíduo, é
a manifestação e expressão do Espírito; no Cosmos, é a manifestação
e expressão do ESPÍRITO INFINITO ou a Totalidade do Espírito.
De agora em diante, quando empregarmos o termo “ESPÍRITO”,
em letras maiúsculas, indicaremos o Infinito Princípio Espiritual, que é a
Totalidade de Espírito, o “Espírito do Cosmos”, o “Espírito do Mundo”,
o “Espírito Universal”, como o homem se aprouve a designá-lo.
Desde há muito, tem sido pretensão de diversos filósofos, assim
como de vários cientistas e de certos teólogos de tendências filosóficas
que “Todo Poder é Poder de Vontade, em última análise”. Muitos
interpretaram a “Energia Infinita e Eterna” de Herbert Spencer, como
sendo essencialmente Infinito Poder de Vontade ou, ao menos, como
“agindo de modo semelhante ao Poder de Vontade”. Onde quer que
se fale do Poder, na Filosofia Espiritualista, sempre se designa Poder de
Vontade de qualquer espécie, forma, fase ou grau.
Diz o professor Nicholas Murray Butler: “Um poderoso grupo
de cientistas julga que a própria Matéria, em seu estado final, pode ser
reduzida, pela análise, à Energia, a qual por sua vez, só é explicável
como Vontade. A Filosofia interpreta, em termos da Vontade, o nome
da única Energia que a Consciência conhece diretamente, a Energia
que tão abundantemente se manifesta por toda a parte, na Natureza
e na História. A tendência dominante da Filosofia, poderosamente
apoiada pelos resultados do saber científico, é a que vê o Todo como
Energia, que é Vontade.”
Diz o Professor Fleming: “Na sua essência final, a Energia nos é

- 76 -
incompreensível, se não for tomada como uma expressão da operação
direta daquilo que denominamos Mente e Vontade.”
O Professor George Trumbull Ladd diz? “O moderno homem
de ciência, no seu emprego do princípio de Causa, atribui o fato à
ação e reação de diversas formas de Energia. Porém, de onde tira
sua concepção de Energia? Onde está sua garantia para aplicar esta
concepção ao esforço das coisas psíquicas? Como os mais hábeis
em análise psicológica são quase unânimes em admitir, a concepção
provém de sua experiência consigo mesmo, como Vontade. Seus
atos de Vontade são, muitas vezes, senão sempre, acompanhados do
“sentimento de esforço” e são seguidos de importantes mudanças em
seu próprio organismo físico e nas coisas que o rodeiam, na proporção
em que elas estejam em relações convenientes com este organismo. As
coisas, até o ponto em que são separadas e individuais, são dotadas
pela Ciência de Vontade própria. Até o ponto em que se influenciam
mutuamente, reconhece-se que elas têm certa consideração para com
as Vontades umas das outras. No ponto em que constituem um grande
sistema, um universo de coisas, são consideradas como estando sob a
direção de uma Vontade.”
Outros escritores e mestres indicaram o fato de que a Ciência,
sob a hipótese do materialismo, é inteiramente incapaz de explicar
e tomar em consideração o Movimento Perpétuo manifestado no
Cosmos. Julgam que, sob tal hipótese, seguir-se-ia que o Cosmos, em
algum momento da Eternidade, chegaria a um ponto de parada, a um
“centro morto”, a um estado de “ter acabado a corda”, como nos
relógios antigos. Além disso, consideram que, nesta hipótese, nunca se
poderia ter lhe dado corda e posto a andar. Aqui a Teologia marca um
ponto possível com sua oferta de fornecer a Mão que dá a corda e o
Dedo que o põe em movimento.
A Filosofia e a Ciência, porém, têm outra explicação, a saber,
a da operação de um Infinito Poder de Vontade – uma Infinita
Atividade própria – que é inesgotável e se renova a si mesma, sendo
também capaz de mudar a direção de sua atividade sob a influência

- 77 -
da Consciência Viva com que está ligada. Esta Atividade própria ou
Poder de Vontade cósmico poderia “desenrolar” e “enrolar” a corda
– poderia “pôr em movimento” conservar o movimento e mudar a
direção deste, à vontade, pelo seu próprio Poder vivo de Vontade.
A Energia material ou Pura Força do materialismo é admitida
por ele como uma Força cega e não vivente. Da mesma forma que
o antigo materialismo considerava o universo de coisas como “o
concurso fortuito de átomos” (“fortuito” significando “que acontece
por acaso, incidente, acidental”; “concurso” significando “uma
reunião ou encontro”), assim também esta Força cega e não vivente
deve ser considerada um “Processo ou Acontecimento Fortuito”. Em
ambos os casos o elemento do “Acaso” acha-se contido na concepção;
isto, apesar de que na Ciência nada mais é firmemente afirmado do
que “tudo prossegue de acordo com a Lei e a Ordem; não existe o
Acaso”. A concepção do Poder não espiritual é completamente
incapaz de explicar ou tomar em consideração o Agente combinador,
correlacionador, coordenador, que se descobriu estar sempre presente
e ser sempre ativo na Natureza. A Lei, a Ordem e o Sistema só podem
resultar do Poder da Mente e Vontade viventes e, como se nota aqueles
serem onipresentes na Natureza, a conclusão que a Mente e a Vontade
devem estar presentes e ativas nos processos da Natureza é inevitável.
O Intelecto assim informa e a Intuição insiste positivamente sobre a
sua verdade.
A Filosofia Espiritualista, por sua vez, afirma que “todo Poder é
Poder de Vontade” – o Poder de Vontade do ESPÍRITO vivente. Até as
forças puramente materiais são consideradas por elas como fases ou
formas deste Poder de Vontade. Se os átomos e partículas de Matéria
são “animados” com os elementos do Sentimento e da Vontade, como
Haeckel e outros afirmam positivamente, então as agregações desses
átomos e partículas da Matéria são provas de “simpatias e antipatias”
e da resposta da Vontade a elas, então semelhante explicação é lógica
também para o caso das “atrações e repulsões” de massas de Matéria.
Como a maioria das manifestações de Poder Físico é observada como

- 78 -
resultado de atração e repulsão de partículas ou massas de Matéria,
a conclusão lógica é evidente. Da mesma forma, a mesma conclusão
é inevitável no caso da Atração e Repulsão atômicas que produzem
a “afinidade química” e sua oposta, as quais constituem a razão e a
causa dos processos e mudanças químicas.
Que a Vida tem força, poder, energia, sabemos pela própria
observação e experiência. Vê-se o “poder motor” das plantas em
crescimento, das raízes das árvores, etc. O Poder da Vida levanta as
gigantescas árvores de pau vermelho muito acima do solo, empregando
a Gravitação como alavanca – como algo com que empurra ou dá
um impulso. O Poder de Vida nos troncos de árvores em crescimento
separa rochas sólidas. O Poder de Vida no cogumelo gigante em
crescimento levanta e rompe pavimentos de concreto. Todo este Poder
de Vida é Poder vivo de Vontade. Grandes pensadores crêem que o
Poder da Gravidade e o da Eletricidade, assim como o de todas as
outras grandes formas de Poder Natural são Poder Vivo de Vontade,
sob alguma forma ou fase de manifestação e expressão. O Poder
Natural, assim interpretado, se torna algo muito mais inteligível do
que interpretado como Força cega. Podemos compreendê-lo muito
melhor desta forma, porque parece muito mais semelhante a nós –
mais de acordo com o Poder de Vida manifestado em nós e por nós.
O Movimento próprio é explicável em termos e conceitos de Poder
Vivo de Vontade. Realmente, ele não é explicável, nem inteligível, sob
qualquer outra interpretação. Como vimos na instrução precedente,
a própria idéia de Energia nasceu na mente humana, somente porque
o homem experimentou primeiro a presença e atividade do Poder da
Vontade em si mesmo. Energia significa “Em-ergia” – “In-força”:
sendo estas idéias derivadas da experiência real com o Poder da
Vontade. O Poder de Vontade é Atividade própria, Espontaneidade, o
Poder Interno! Enviamos uma corrente de Poder de Vontade a nosso
braço e ele se move. Dobramos os dedos – tarefa das mais estupendas,
se a considerarmos cuidadosamente. A simplicidade aparente da
tarefa e a familiaridade com ela nos fazem esquecer a sua significação

- 79 -
e importância – não damos valor a ela, porém é necessário o mais alto
grau e qualidade de explicação para ser realmente compreensível. Só
as maiores mentalidades são capazes de apreciar a maravilha quase
inconcebível deste pequeno ato comum.
Edison, uma das maiores mentalidades de nossos tempos,
mostrou sua apreciação deste fato na narração de sua entrevista com
Du Bois-Raymond, outro grande cientista. Eis a narração de Edison:
“Quando estive em Berlim, encontrei Du Bois-Raymond. Dobrando
a ponta de meu dedo, disse a ele: “Que é isto?”Disse que não sabia;
que os investigadores levaram dois mil e quinhentos anos na tentativa
de descobri-lo. Se alguém lhe pudesse dizer o que dobrava o dedo,
o problema da Vida estaria resolvido. A Natureza é uma máquina
de movimento perpétuo e o movimento perpétuo implica uma força
sustentadora e impulsora.”
Nicholas Murray Butler também julga que o movimento
perpétuo da Natureza só pode ser tomado em consideração e explicado
sob a hipótese de um vivo Poder de Vontade Cósmico.
Pense no que o seu próprio Poder de Vontade faz, fez e pode
fazer. Depois, eleve esta idéia do Poder da Vontade até o Infinito e
considere se não seria, então, capaz de mover a “máquina do Cosmos”
ou executar o papel de Poder Criador e de Agente coordenador. Que
informa seu Intelecto? Sobre que insiste sua Intuição? Não é esta idéia
mais clara e mais compreensível, mais concebível, mais razoável do que
a de ser esta grande obra executada por um Poder, Força ou Energia
cega e “não vivente”? Qual é a informação de toda a sua natureza
mental e espiritual a esse respeito – de sua natureza intelectual,
intuitiva, emotiva, estética, moral e religiosa? Como costumava dizer
o professor Browne: “Ninguém pode compreender a história desta
crença, sem tomar em consideração todos esses pontos e fatores.”
Porém, objetam o antigo materialismo e seu descendente,
o Energismo material: “Como podemos conceber o Espírito a
criar formas materiais – formando rochas duras e cristais, metais
resistentes e substâncias sólidas – a Matéria sólida, firme e pesada?”

- 80 -
Respondamos-lhes na proverbial forma irlandesa, que também é o
método Socrático, isto é, fazendo outra pergunta. Perguntemos ao
materialista ou ao energista material: “Como cria sua Pura Força ou
Energia Material a Matéria sólida, firme e dura?
Respondem: “Criando turbilhões ou centros de perturbação
no Éter ou Estado Final da Matéria: a Força ou a Energia elabora-os
em formas, estados e condições mais sólidas de Matéria em elétrons,
átomos, moléculas, em massas – em matéria radiante, gases, fluídos e
sólidos, a diferença entre estes estados sendo apenas questão de grau de
vibração e das distâncias relativas entre as partículas. O pedaço duro
de aço é apenas “gás congelado” ou então apenas “elétrons, turbilhões
etéricos” ou “centros de perturbação elaborados”. É assim que a Pura
Força ou a Energia Material cria a Matéria sólida, firme, dura!”
Respondemos: “Muito bem, para simplificar a explicação,
admitamos que a Pura Energia, Força ou Poder Espiritual no seu aspecto
de Infinito Poder de Vontade do ESPÍRITO proceda exatamente como
pretendem que a Pura Força ou Energia Material faz. Admitamos que
este Infinito Poder de Vontade comece sua obra criando “turbilhões”
ou “centros de perturbação” na Substância Etérica que admitimos ser
o Estado Final da Substância Material, pondo-se depois a “elaborá-los
em elétrons, átomos, moléculas, massas – em matéria radiante, gases,
fluídos, sólidos – por meio de vibração e atração e repulsão mútua e
recíproca. Não julgam que nosso Infinito Poder Vivo de Vontade é
bem capaz de executar este trabalho, exatamente da mesma forma
que a “sua” Energia não vivente e Força cega? Não julgam que pode
até executá-lo mais fácil e mais efetivamente, em vista do fato de que
tem Mente Infinita para guiar e dirigir, ao passo que “sua” Energia
Material ou Pura Força é sem vida e sem mente e deve “andar às
cegas”, por simples Acaso e não por Direção Mental?”
Podemos, pois, mostrar que o Poder de Vida não é noviço na
tarefa de elaborar “substância sólida”. Para compreendê-lo, basta
dizer que o Poder de Vida fabrica as duras presas de marfim e os
dentes do elefante, a dura noz do marfim vegetal, a ponta do peixe-

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espada, os chifres do boi, o duro, firme e sólido cerne do ébano, do
mogno, da madeira de teca, da nogueira americana e do carvalho.
Tem a Pura Força cega ou a Energia Material melhores produtos do
que estes a seu favor? Há um osso no corpo humano de que dizem
que até o mais forte fogo de carvão não pode reduzir a cinzas – nem
mesmo um fogo que derreta o mais duro dos metais. O Poder de
Vida produziu esse osso duro com os elementos da alimentação do
ente humano. Não se julga que, dados os materiais básicos, poderia
também produzir sílex, granito, diamante, aço, da mesma forma, sob as
condições convenientes? Com efeito, à luz do nascente conhecimento
da “qualidade de vida” manifestada nos processos de cristalização,
já se vê que o Poder de Vida está fazendo esta espécie de trabalho.
Os elementos de Vida e Mente, sobrepostos á Energia, Força
e Poder, certamente não lhes tiram o poder e a potencialidade,
a efetividade e as capacidades. Pelo contrário, parece que toda
inteligência refletiva perceberia que este seria um acréscimo muito
desejável ao conceito, servindo para dar um sentido e significação que
lhe faltava anteriormente. Pense nisto. Intua durante alguns momentos
e obterá a resposta. Temos um sentimento seguro de que sabemos qual
será a resposta. Quando você tiver “apanhado o espírito” da idéia
do Infinito Poder de Vontade, recusará a sugestão de Infinita Força
cega como um insulto à sua inteligência e uma afronta a seus poderes
intuitivos de mentalidade.
Pedimos que submeta este assunto do caráter e natureza final do
Poder Final a uma prova em desuso, descoberta por sábios orientais,
há vários milhares de anos. Esses sábios raciocinaram entre si da
forma seguinte: “Se há uma Energia, Força ou Poder Final e Essencial
na Natureza, então ele deve residir e estar presente em toda coisa
individual da Natureza – no ponto mais central do âmago da entidade
de tal coisa. Se tem que ser achado, aí é que o será.” E, assim, puseram-
se a procurar sua presença em todas as coisas, no mais íntimo delas.
Primeiramente, descobriram que podiam encontrar provas dele
nas ações de todas as coisas vivas e de muitas coisas anteriormente

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consideradas não vivas. Percebeu-se que tudo age espontaneamente,
às vezes, manifestando, assim, uma Atividade própria que era, ao
menos, “algo semelhante à Ação da Vontade”. Isto era, porém, apenas
a observação dos atos e o juízo sobre a fonte deles. Embora fosse
satisfatório, de certo modo e até certo ponto, não era concludente,
nem absolutamente convincente. Então, disseram os sábios: “Vejamos
em nós mesmos. Se ELE está em toda a parte, deve estar no centro ou
âmago de nosso ser.”
E eis que, no centro ou âmago da alma de cada um deles foi
encontrado Algo que possuía o poder de Atividade própria, Movimento
próprio, Espontaneidade. Isto era o que chamavam Poder de Vontade.
Ao interrogarem este Poder residente, viram que era Vivo e Consciente.
Perguntaram quem era e respondeu “EU SOU EU!” Perguntaram-lhe
o que era e respondeu “EU SOU O QUE SOU!” Tentaram separá-
lo de si mesmos, porém não podia ser separado de si mesmos, porém
não podia ser separado de seu possuidor, nem mesmo em pensamento.
Então, disseram os sábios: “Achamos AQUILO que está no âmago
e centro de todas as coisas e descobrimos que é a Vontade Viva do
Espírito – este ESPÍRITO que é o Eu de todas as coisas e também da
Totalidade das Coisas”.
Faça para si essa prova, por você e em você mesmo. Talvez
encontre o que os antigos sábios orientais encontraram. Com efeito,
estamos certos que o fará. E, tendo-o encontrado, terá achado um
Grande Segredo da Natureza, da Vida, do Ser e do Poder.

- 83 -
- 84 -
VII
O CRIADOR E A CRIAÇÃO

Nesta instrução, se considera o Cosmos como seguindo


continuamente um processo de Evolução Criadora ou de Criação
progressiva – processo sem começo, sem interrupção e sem fim. Esta
é a opinião aceita pela melhor idéia científica, filosófica e teológica da
época atual – assim como das melhores idéias do passado, a respeito
deste assunto. Os mundos aparecem, continuam em existência durante
algum tempo, depois desaparecem, para serem substituídos por outros
mundos compostos da mesma Substância Fundamental e energizados
pelo mesmo Poder Atuante. A Criação cósmica é concebida como
constituindo um Ciclo infinito de Ciclos. O Espírito Criador é Eterno;
a Atividade Criadora é Eterna: tal é a informação da melhor idéia de
todos os tempos, todos os países e todos os povos.
A Criação – o Processo de Criação – resulta da ação e reação,
a coordenação e correlação do Positivo Princípio Criador, isto é, o
Espírito Criador com o Negativo Princípio Criador, a Substância

- 85 -
Material Criadora. O Espírito Positivo atua sobre a Matéria Negativa,
dando-lhe energia, pondo-a em atividade, elaborando formas cada
vez mais complexas e intrincadas, por meio do Processo Criador da
Mudança e Desenvolvimento.
A Criação tem seus ciclos maiores e menores, suas marés, seu
fluxo e refluxo, porém, o Processo Criador em conjunto é considerado
contínuo, constante, ininterrupto, sem fim – igual em Eternidade aos
Princípios Positivo e Negativo que a manifestam.
Porém, você pode nos perguntar: Onde se encontra Deus na
Criação? Não há lugar para Ele no Processo Criador?
Ao responder esta pergunta, lembramos nossa promessa de não
invadir o campo da Teologia, mais do que nos é realmente necessário. A
Teologia é “a Ciência de Deus e da Religião, a qual trata da existência,
caráter, atributos e obras de Deus”. Portanto, preferimos que obtenha
sua Teologia das fontes autorizadas.
Entretanto, julgamos que, nesta instrução, nada há em desacordo
com qualquer opinião teológica racional e séria. Pelo contrário,
cremos que essas opiniões encontrarão nesta instrução um apoio
vivo e resistente. Esta instrução não se destina a suplantar a Teologia,
nem constitui nossas opiniões teológicas particulares: não vemos
dificuldade em reconciliar nossos ensinos com os que são recebidos
das fontes teológicas autorizadas.
Todavia, sentimos que seria deixar alguma coisa sem dizer,
se negligenciássemos em mostrar certas implicações importantes de
nossos ensinos, embora, ao fazê-lo, pareçamos invadir o campo da
idéia teológica – ao menos até o ponto de pormos nossos pés nas linhas
limítrofes. Por isso, pedimos que se considerem as seguintes deduções
lógicas das premissas anteriormente estabelecidas nesta instrução.
Antes de tudo, lembramos que todos os ensinos teológicos
informam que “Deus é Espírito”. Se assim é (e não se pode conceber
que Deus seja Matéria), então Deus deve ser encontrado em
ESPÍRITO, se o tivermos de encontrar. Porém onde deve ser procurado
em ESPÍRITO? Vamos responder pelo sistema irlandês ou Socrático,

- 86 -
fazendo a pergunta: Onde é você – você mesmo – encontrado na
essência real de seu ser que sabe ser Espírito? Resposta: “No centro ou
âmago de meu ser espiritual”.
Perguntamos, então: O que informa a você que é este Eu, quando
lhe faz a pergunta? Sua resposta é: “Diz ele, antes de tudo, EU; depois,
“EU SOU”; em seguida, “EU SOU EU!”e, apertado para dar sua
resposta final, diz: “EU Sou AQUILO que Sou!”e compreendo que
por AQUILO indica Puro Espírito.”
Perguntamos, então, mais uma vez: Que respondeu o Deus em
que credes, quando lhe perguntaram quem e o que era? Resposta:
“Disse apenas “EU Sou O QUE Sou!”
Então, diremos: Você mesmo respondeu a pergunta que nos fez,
a saber: “Onde se encontra Deus? Não tem ele lugar no Cosmos?”
Ele tem um lugar no Cosmos e você encontrou este lugar. Ele é bem
no centro ou âmago do ESPÍRITO. Seu Espírito é o Microcosmo. O
ESPÍRITO é o Macrocosmo! Lembre-se do antigo axioma hermético:
“O que está em baixo é como o que está em cima; o que está fora é
como o que está dentro, o pequeno é semelhante ao grande!” Deus (seja
qual for o nome que se lhe dê ou mesmo que não se lhe dê nenhum)
é o “EU”, o “EU SOU”, o “EU SOU EU”, O Eu do ESPÍRITO; e diz
tudo o que pode dizer a respeito de sua natureza ao falar assim: “Eu
Sou O QUE EU Sou!”
Se, apesar de nosso desejo em nos mantermos fora do campo da
Teologia, ainda insistir sobre outra resposta – a resposta à pergunta:
“Deus é Espírito Pessoal ou Impessoal?” – designando um Ser
infinitamente transcendente às limitações da finita existência pessoal
como a conhecemos, então devemos dizer que, em nossa opinião, Deus
é Impessoal. Porém, se por Pessoal você designa um Ser possuidor do
atributo de Consciência própria e capaz de ter consciência do “EU
SOU”, “EU SOU EU” ou “Eu Sou O QUE Sou!” – então, em nossa
opinião, este Ser pode ser realmente considerado Pessoal.
Não passaremos adiante em assuntos relacionados com a
Teologia. Falando francamente, achamos que cada um deve poder

- 87 -
determinar por si mesmo o ponto de equilíbrio do problema, auxiliado
pelos ensinos teológicos que são aceitáveis, tanto pelo Intelecto como
pela Intuição – pela Razão Completa, como os definimos. Disse um
antigo mestre oriental: “Não basta que os homens creiam em Deus;
é preciso que obtenham a Deus!” Acrescentamos: “Os homens obtêm
Deus por meio do Algo que está dentro deles – o Espírito íntimo. Se
Deus é a Entidade Essencial do ESPÍRITO e se o Espírito que está
dentro de você é um ponto focal ou centro de expressão do ESPÍRITO,
então Deus deve estar dentro de seu Espírito, da mesma forma que
está dentro do ESPÍRITO do Universo. Com toda certeza poderá
encontrá-lo e “obter a Deus”, como disse o velho adágio. Podemos
apenas apontar o caminho. Você é que deve seguir por ele.

O ESPÍRITO (e O QUE é “o Eu do ESPÍRITO”) não só é a


Infinidade da Existência – existe em toda a parte – mas também é o
Espírito Íntimo que reside dentro de nós e que é a Realidade Final
ou o Eu Real de nossa individualidade. Na contemplação do Infinito
da Existência Exterior, não ignore o Algo que está dentro de você.
Tudo é o TODO e o TODO é Tudo. Não podemos fugir do campo do
ESPÍRITO Infinito, mas também é verdade que o ESPÍRITO não pode
fugir da existência dentro de nós! ELE está em nós da mesma forma
que estamos NELE!
Nesta última expressão se acha contida a essência da Grande
Verdade dos Ensinos secretos de todas as Filosofias e Religiões.
Quando se compenetrar desta Verdade, você saberá “aquilo que sendo
sabido, tudo o mais se sabe”. Esforce-se para “apanhar seu espírito”.
Leia e considere as seguintes linhas significativas, embora um tanto
extravagantes, de um escritor desconhecido:

“Tu, grande Infinito Eterno, o grande Todo Ilimitado cujo


Corpo é o Universo e cujo Espírito é sua Alma!
Se enches a Imensidade, se és Tudo em Tudo, então devo
estar dentro de Ti ou não estar em lugar algum.

- 88 -
Como poderia eu viver fora de Ti, se enches a Terra e o ar?
Não há certamente lugar para mim, fora de algures!
Se és Deus e enches o Infinito do Espaço, então estou em
Deus, pensem os homens como for, ou, então, não tenho
lugar.
E se não tenho lugar em Ti e se não estou em Ti, onde
posso estar, onde posso habitar e não estar em algures?
Portanto, devo ser uma parte de Ti, por menor que seja,
pois se eu não sou parte de Deus, então Deus não existe!”

O conceito da Divindade íntima não é novo na idéia filosófica


e teológica. Pelo contrário, é uma das mais velhas crenças filosóficas
e é muito primitiva na idéia teológica de quase todas as religiões.
Tecnicamente, é conhecida por doutrina da Imanência (do latim
“immanere”, que significa “permanecer dentro”). A Enciclopédia
Britânica, Undécima Edição, em seu artigo sobre a Imanência, diz:
“A Imanência, na Filosofia e na Teologia, é um termo aplicado -
como contradistinção à transcendência - ao fato ou estado de estar
inteiramente dentro de alguma coisa. Seu emprego mais importante
é na concepção teológica de Deus como existente dentro do mundo
criado, em oposição, por exemplo, ao Deísmo, que o concebe como
separado e acima do universo.
Deve-se observar que a doutrina da Imanência não destrói a
crença na transcendência de Deus. Assim, Deus pode ser considerado
como estando acima do mundo (transcendente) e, ao mesmo tempo,
presente nele e o penetrando (imanente).
A concepção de Deus como inteiramente externo ao homem,
teoria puramente mecânica da criação, é considerada por toda a
Cristandade tão contrária ao ensino do Novo Testamento como
também à Experiência cristã.
A opinião contrária adquiriu terreno em certas partes, de tal
forma que postularam um elemento divino nos seres humanos, ligando
tão definidamente o finito e o infinito que foi até certo ponto admitida

- 89 -
pelo grosso dos primeiros mestres cristãos. O desenvolvimento da
teoria da Imanência de Deus coincidiu com o reconhecimento mais
profundo da natureza essencial da Divindade em contraste com a
mais antiga concepção meio pagã, encontrada, amiúde, no Antigo
Testamento, de Deus como sendo, principalmente, um rei poderoso
a quem se dá obediência comparável à de um vassalo a um monarca
absoluto.
A idéia filosófica, teológica e metafísica de hoje tem forte
inclinações para a doutrina geral da Imanência e a influência desta
idéia geral se manifesta praticamente em todas as discussões e escritos
recentes, relativos ao assunto. O Professor William James exprime este
fato na seguinte exposição que se encontra em uma de suas obras:

“Aqueles dentre nós que são sexagenários observaram em


nossas próprias pessoas uma dessas graduais mudanças
de condições intelectuais, devidas a inúmeras influências,
que fazem as idéias da geração passada parecerem tão
estranhas à que lhe sucedeu, como se fosse a expressão de
uma raça diferente de homens.

A máquina teológica que falava tão vivamente aos nossos


avós, com sua idade finita do mundo, sua criação do
nada, sua moralidade e escatologia judicial, seu gosto de
recompensas e castigos, seu tratamento de Deus como um
planejador externo, um “governador inteligente e moral”,
nos parece tão estranho como se fosse alguma estranha
religião selvagem.

Nossa mentalidade contemporânea, tendo de uma


vez alcançado a possibilidade de um mais íntimo
“weltanschauung”(compreensão do mundo), a única
opinião que é realmente digna de chamar nossa atenção
acha-se no campo geral do que pode ser chamado,

- 90 -
grosseiramente, o campo de vista panteísta, a visão de
Deus como o divino íntimo e não o criador externo e
da vida humana, como parte e parcela desta realidade
profunda.”

Há alguns anos, um escritor, numa das principais revistas


americanas, apresentou uma série de artigos em que expôs o que
suas investigações tinham revelado serem os princípios dominantes
do ensino filosófico e teológico de nossas grandes universidades.
O seguinte trecho é citado de um dos artigos da série. Representa
corretamente a moderna tendência do pensamento nestes assuntos:

“Agora que o homem descobriu que reside em sua natureza


um espírito ou energia que é divina, os colégios dizem
que pode pô-lo a fazer sua vontade. Nenhum homem
pode calcular a potência e a operação futura desta força
espiritual. Pela psicologia, a ciência encontrou um caminho
para Deus. As oportunidades da humanidade, por meio da
invocação na consciência humana do Espírito sustentador
que enche todo o espaço, são absolutamente infinitas. A
ciência, portanto, está demonstrando por novos meios
ou, ao menos pretende que está demonstrando, que o
homem é Deus manifestado. E a filosofia moderna, como
é exposta nas universidades americanas, considera essa
encarnação não como um ideal fantástico e simplesmente
belo, mas como um princípio ativo e compreensível da
alma da humanidade. Portanto, os professores que estão
cavando o que julgam ser a sepultura de dogmas mortos,
apresentam-se como expositores do ensino que o homem
é a encarnação e expressão consciente da força que guia
toda vida e conserva a matéria na sua carreira. O homem
começou o ciclo desta ousadia triunfal, profetizada
pelos antigos videntes e que exerceu forte influência na

- 91 -
imaginação de Poe. Os professores não dizem apenas em
retórica religiosa, mas, na realidade, que o homem é o
avatar de Deus.”

Em relação a isto, pedimos também que o leitor considere os


seguintes extratos da notável conferência intitulada “A Religião do
Futuro”, feita pelo Professor Charles W. Eliot, antigo presidente da
Universidade Harvard, na Escola Veranista da Teologia, de Harvard:

“A nova idéia de Deus será seu elemento mais característico.


Este ideal compreenderá o Jeová judaico, o Pai Universal
dos cristãos, a Energia onipresente e inesgotável do físico
moderno e a concepção biológica de uma Força Vital. O
Espírito Infinito penetra o universo, da mesma forma que
o espírito do homem penetra seu corpo e age, consciente
ou inconscientemente, em cada átomo dele. O vigésimo
século aceitará, literal e implicitamente, a afirmação de
S. Paulo: “Nele vivemos, nos movemos e temos nossa
existência.” E Deus é esta atmosfera vital ou inspiração
incessante.

A nova religião é, pois, inteiramente monoteísta, seu


Deus sendo a única força infinita. Porém este Deus não
está afastado, mas habita dentro, especialmente, de toda
criatura vivente.

A doutrina científica é que há uma Energia onipresente,


eterna, que informa e inspira toda a criação em todo
momento e através do espaço infinito.

A doutrina da Imanência de Deus está em desacordo com


a concepção de que Ele põe o universo em movimento
e depois Se retira, deixando o universo ser movido por

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leis físicas, que seriam seus vice-regentes ou substitutos.
Se Deus é inteiramente imanente em toda a criação, não
pode haver “causas segundas”, tanto no universo material
como no espiritual.”

A contemplação do conceito do Espírito íntimo – a Imanência da


Divindade – tende a levar o indivíduo ao sentimento e consciência de
sua Unidade encoberta, com a Fonte Final da Existência. Realiza, então,
na sua própria consciência, o fato de que, como exprimiu o poeta:

“O TODO é uno e tudo é parte,


Porém, não separadas como parecem.
E o sangue de Vida tem um só coração,
que pulsa em Deus, no barro e em mim.”

No espírito desta nova concepção da relação entre o Infinito


ESPÍRITO e o Espírito individual, considere, cuidadosamente, as
seguintes palavras admiráveis do Professor Josiah Royce, de Harvard,
este eminente filósofo e disseminador de verdades filosóficas:

“O Infinito Eu, na própria pequenez das experiências


diárias, é conhecido como algo Presente. Esta é a mais
profunda tragédia de nossa finitude, que continuamente
Ele se dirige ao que lhe pertence e este não O recebe;
que Ele se faz carne no menor incidente de nossas vidas,
enquanto nós, olhando, admirados, para o mundo dele,
procuramos, aqui e acolá, as primeiras causas, andamos
à cata de milagres e lhe pedimos que nos mostre o
Pai, pois só isso nos chegará. Não é para admirar que
permaneçamos agnósticos. “Estiveste tanto tempo comigo
e ainda não me conheceste?” Tal é a eterna resposta do
Logos a toda pergunta de dúvida. Não O procuremos
como uma hipótese exterior para explicar a experiência.

- 93 -
Não O procuremos vagando por entre as nuvens. Toda
experiência O contém. Ele é a realidade, a alma dela.
Se tivermos a verdadeira visão do idealismo profundo,
poderemos voltar de nosso caos para Ele, que é nosso eu
verdadeiro divino e poderemos ouvir dele, com absoluta
certeza, estas palavras: “Oh vocês que se desesperam,
Eu sofro em vocês. Seus sofrimentos são meus. Nenhum
transe de sua finitude deixa de ser meu também. Sofro
tudo, pois tudo é meu; suporto-o e, entretanto, triunfo!”
Estas palavras do Eu, posso afirmar, são certas, pois são
certas, pois são as palavras finais de toda a nossa idéia
filosófica.”

Alguns filósofos julgam que o Poder Criador está, total e


completamente, envolvido em sua Criação. Outros pretendem que
apenas uma parte ou porção do Poder Criador está envolvida em sua
Criação. Com efeito, algumas escolas orientais julgam que “apenas
uma infinitésima parte do Ser Infinito está envolvida na Manifestação
da Criação ou se relaciona com ela”.
Outras escolas julgam que o Espírito Criador entra na
Substância Material e penetra como o sal entra nas águas do Oceano
e as penetra. Outros supõem que a ação do Espírito Criador sobre a
Substância Material é semelhante à do ímã sobre a massa de limalha
de ferro, isto é, por indução – a emanação magnética “animando” as
pequenas partículas de aço, fazendo-as tomarem forma e manifestarem
movimento, da mesma forma que o Espírito “anima” a Substância
material com resultados semelhantes.
Empregam outros o símbolo do Sol do Espírito brilhando na
superfície do grande Oceano de Substância Material e sendo refletido
em sua superfície. O Sol é considerado como penetrando o Oceano por
meio de seus raios emanados, sendo refletido em todos os pontos da
superfície dele e produzindo movimento e manifestações superficiais
de formas, na parte exterior do grande corpo de água. Nesta opinião,

- 94 -
julga-se que o próprio Sol do Espírito nunca “entra” realmente na
Substância Material – apenas seus raios emanados “entram” nela,
trabalhando com o estofo material, elaborando-o e, assim, criando
formas e atividades e manifestando o Processo de Desenvolvimento.
Prosseguindo nesta ilustração simbólica do Sol e o Oceano, vê-se
que o Sol, continuamente, faz quantidades de água do Oceano subirem
sob forma de vapor que, condensando-se, cai sob a forma de chuva
ou sereno. Aqui chamamos atenção ao fato de que, em cada gota de
chuva ou de orvalho que cai, da mesma forma que no próprio Oceano,
se acha sempre refletida a imagem e a forma do Sol. Cada gota tem
Sol, sua luz, sua irradiação! A este respeito, cada gota é como que uma
miniatura do Oceano. O reflexo do Sol aparece no grande Oceano
e em cada gotinha de chuva ou orvalho – entretanto, o próprio Sol
sempre permanece acima de tudo, apesar de suas emanações estarem
sempre em tudo.
Assim, pelo símbolo do Sol e do Oceano é explicada a natureza
do Poder Presente do Espírito na Substância Material. Assim, é
exemplificada a Transcendência e a Imanência do Poder Criador
Presente. É uma admirável ilustração simbólica efetiva – merecedora
de respeito, embora não seja aceita como uma representação própria
e completa da Verdade. Note que ela “tomará vulto” à proporção
que a considerar – ela se enroscará em sua mente como as raízes
na lã dos carneiros. O Sol foi sempre um símbolo favorito para o
Poder Supremo ou o Ser Supremo. Parece despertar poderosamente
a natureza religiosa, a imaginação poética e a intuição filosófica
do homem. Talvez a Intuição o reconheça como o símbolo mais
apropriado e conveniente de uma Verdade que só pode ser expressa
por símbolos.
Assim como a mente humana sempre especulou a respeito
do “como” da Criação, assim também procurou vivamente uma
explicação do “porquê” da Criação. Em todo pensamento filosófico,
metafísico e teológico desenvolvido se encontra ao menos uma
tentativa para responder à pergunta: “Por que o Supremo Poder

- 95 -
criou o universo?” Em certos casos se nota a tentativa de abandonar
o assunto como parte do Grande Mistério – algo que está fora do
conhecimento ou do pensamento do homem. Porém, mesmo em tais
casos, geralmente se encontra uma tentativa de qualquer espécie de
explicação.
Muitas destas chamadas explicações são tão grosseiramente
antropomórficas – respostas evidentemente tão ingênuas de
mentalidades infantis – que não necessitam de séria consideração ou
discussão filosófica. Aqueles que as formularam, certamente, eram
deficientes em imaginação filosófica.
Algumas dessas supostas explicações ofendem a inteligência
do pensador, como, por exemplo, a explicação de que “desejou ser
adorado e glorificado e assim criou seres para adorá-Lo e cantar seus
louvores”.
Outras ofendem tanto o coração como o intelecto do homem
como, por exemplo, a idéia de que o Cosmos é apenas uma fita de
cinema divertida, passada por Deus, a fim de servir de “passatempo da
Eternidade” ou também a idéia de que a Vida é apenas um grande jogo
com que Deus se diverte, tendo suas criaturas por peças – divertimento
este de que Ele se serve para exibir seu próprio Poder Infinito ou, talvez,
com o fim de derrotar um fantasma imaginado. A Intuição se revolta
com tais idéias. Ela sabe que deve haver uma Infinita Significação
Racional ligada à Manifestação Infinita do Infinito Poder Presente.
Nada inferior a isso satisfará as necessidades da Intuição.
Muito mais satisfatória, tanto ao Intelecto como à Intuição, é a
explicação fornecida pela escola denominada Vitalismo. O Vitalismo,
sob vários nomes, se acha bem representado na história da ideia
filosófica antiga e moderna. Bergson é um dos mais eminentes dos
seus defensores modernos. Seu espírito é expresso de uma forma um
tanto desagradável por Schopenhauer e seus seguidores. Está também
implícito nos ensinos básicos do antigo Budismo. Esta larga vista
filosófica do pensamento conhecido por Vitalismo pode ser indicada
pela seguinte exposição geral de sua concepção básica:

- 96 -
“O ESPÍRITO” tem seu atributo mais essencial e ativo
na Vida ou Vitalidade. O Princípio Vital do Universo, que
é o ESPÍRITO em um de seus aspectos, sendo essencial
e caracteristicamente Vitalidade, naturalmente acha sua
expressão normal nas atividades da Vida, por meio das
múltiplas formas de Vida que criou com o fim de expressar-
se. A expressão e a manifestação de Vida e Vitalidade
constituem a atividade legítima e natural de sua natureza
e caráter essencial. Assim, o Princípio de Vida, que é um
aspecto do ESPÍRITO, cria eternamente a Infinita Série
de Universo, a fim de manifestar e exprimir, na forma
objetiva, a Vitalidade essencial, que está dentro dele como
seu elemento mais íntimo. Cria a fim de poder “viver”,
isto é, expressar sua Vitalidade na forma objetiva. A fim
de fazê-lo, trabalha na Substância Material Universal e a
elabora, de modo a produzir formas materiais para serem
animadas, energizadas e inspiradas pela sua viva energia
espiritual. Cria “corpos” de Substância Material com o
fim de soprar neles “o Sopro do Espírito de Vida” e depois
viver e agir neles e por meio deles.”

O conceito básico de Bergson pode ser expresso da forma


seguinte: “Uma Vida livre e espontânea é a própria Essência do Real.
Brotando de dentro, procurando expressão, a Vida jorra e irrompe
em criação original. As leis da Natureza são hábitos da Vida – seus
modos de proceder e de fazer as coisas. A Realidade é Pura VIDA
Criadora: a Vida alimentada de dentro e não de fora. Evoluciona e
cria por meio de seu próprio poder criador inerente e espontâneo. A
vida não é estática – não é algo que anteriormente foi diferente – não
é um passado que ficou e um futuro que se apresentou; é um simples
movimento contínuo que leva consigo todo o seu passado e se avança
num futuro que está criando sempre. A Evolução é o ímpeto original
da Vida – o ato de viver em progresso.”

- 97 -
Este conceito geral da presença e atividade de uma “Vontade
de Viver” na Natureza faz parte de várias formas de idéias filosóficas.
Exerce uma fascinação especial sobre a mentalidade filosófica. O
filósofo que uma vez esteja sob sua influência quase nunca escapa
inteiramente dela. A concepção é apoiada pelos fatos observáveis
referentes à presença evidente na Natureza de um princípio, energia
ou força ativa que manifesta os caracteres atribuídos a esta hipotética
Vontade de Viver. Existe, indubitavelmente, uma Energia Conata que
age na Natureza, que tem como propósito evidente a manifestação,
expressão, perpetuação e continuação da Vida – de formas viventes.
Com efeito, a própria idéia da “Natureza” contém implicitamente
a noção deste elemento que inspira constantemente os processos
naturais. O instinto de preservação e o da perpetuação da espécie
constituem duas das mais fortes e ativas energias da Natureza – neles
a Vontade de Viver se mostra mais claramente.
A Vontade de Viver está sempre em atividade, esforçando-se,
tentando, procurando manifestar-se e expressar-se em realidade e
vitalidade objetiva. Sua presença é claramente discernível na semente
em germinação e na planta em crescimento, no gérmen e embrião em
desenvolvimento e nos recém nascidos da vida animal, na adaptação
da criatura a seu meio e em suas diferenciações destinadas a atender
as exigências da mudança de meios, na provisão de sustento, no apoio
e sobrevivência do ser vivo e nos arranjos para a perpetuação da vida
e da vitalidade nos descendentes. Quando pensamos e falamos nos
“Processos da Natureza” que se relacionam com as criaturas viventes,
estamos pensando na manifestação e expressão desta Vontade de Viver
que é um dos aspectos do ESPÍRITO.
Schopenhauer ficou tão impressionado com esta idéia da Vontade
de viver e encontrou tantas provas de sua presença e atividades em
todas as partes da Natureza que julgou estar em terreno firme ao
considerar verdade certa de que ela é o elemento e fator mais essencial
do Espírito do Mundo, que julgou ser o Agente Criador do Universo.
Avançou tanto, até que aplicou a este Espírito Criador o nome de

- 98 -
“Vontade de Viver”. Da mesma forma, os Budistas consideram-no a
Energia Atuante do Universo, julgando que a Vontade de Viver é o
“Criador, o Conservador e o Destruidor do Universo.” Consideram
também todas as formas de Desejo ou de Vontade como formas, fases
ou modos de atividades desta Vontade de Viver universal. Outros,
com a mesma disposição de espírito, consideram a Energia Atuante
universal ou Espírito Criador como “Poder com o Desejo de agir ou
Desejo com Poder de agir, o fim, aspiração, propósito, sendo o motivo
principal de tal ato manifestar a Vitalidade”.
Entretanto, nesta consideração do Espírito Criador como VIDA,
não devemos perder de vista o fato de que “onde há Vida, também há
Mente; onde há Mente também há Vida.” A Vida e a Mente são atributos
do Espírito, a Vida sendo o mais fundamental – a Mente sendo uma
forma de expressão da Vida. Se o Universo é animado de Vida, então a
Mente deve estar contida em todas as suas partes. E assim é como todos
os pensadores cuidadosos descobrem mais cedo ou mais tarde.
Que a Mente está presente nos processos criadores do universo
material sempre foi evidente às mentes pensadoras e refletidas. A
presença de Lei, Ordem e Sistema é uma indicação inevitável, invariável
e infalível do Poder Presente da Mente Vivente. A Lei, a Ordem e o
Sistema são aparentes na Natureza, por toda a parte. Por mais que
nos esforcemos, não podemos fugir desta convicção. Além disso, nos
Processos Cósmicos se encontra uma invariável sequência lógica de
Causa e Efeito – Pura lógica que não conhece exceções, variações ou
contradições. “Isto estando presente, aquilo se desenvolve; isto sendo
ativo resulta aquilo” é a regra da lógica cósmica.
Um cientista reverente disse que a Ciência é apenas “uma leitura
feita pela mente humana dos pensamentos da Mente Infinita”. Um
famoso astrônomo disse que seu trabalho consistiu apenas em “pensar
nos pensamentos de Deus, de acordo com Ele”. Deve haver Mentação
nos processos da Natureza, pois, do contrário, a mente humana não
poderia ler processos lógicos nele. A Ciência é baseada na presença e
resultado desta lógica da Natureza. Entretanto, a lógica é impossível

- 99 -
e inconcebível, sem a premissa de uma Mente lógica. E a Mente é
impossível e inconcebível, sem a premissa da vida. A Natureza, sendo
o que é, deve ser a manifestação da Mente Vivente!
E assim temos, pois, descoberto que o Cosmos, o Universo, o
Mundo em que “vivemos, nos movemos e temos nossa existência”, é
a Atividade Criadora de um Infinito e Eterno ESPÍRITO vivente, de
que todas as coisas fluem e provêm e de que todas elas são formas
de manifestação e expressão. VOCÊ, o indivíduo que está lendo
estas linhas, é um ponto ou centro focal da manifestação da Vida,
Mente e Vontade neste Mundo de Manifestação e Expressão. Você é o
Microcosmo, correspondente em natureza e essência ao Macrocosmo
de que é um ponto focal de expressão. Partilha de Sua natureza e
Ser; é como ELE em espírito, é feito à Sua imagem espiritual. Como
ELE, você possui o Espírito Criador e está manifestando (em maior ou
menor extensão) as atividades da Criação em sua vida diária.
O espírito individual, que é você, está sempre em trabalho,
manifestando seu Poder Criador, agindo sobre a Substância material,
trabalhando neste Meio Plástico e elaborando-o pelo poder de sua
Vontade. Você esteve fazendo este trabalho, principalmente de um modo
inconsciente, instintivo, sem conhecimento da fonte de seu poder, sem
saber os métodos de empregar efetivamente este grande Poder Criador
que está dentro de você. Veja imediatamente que, se puder apenas abrir
um canal mais direto de comunicação com a Infinita Fonte de Poder,
poderá obter um maior quinhão deste Poder Criador.
O Poder Criador Espiritual lhe é aproveitável. Você pode obter
seus serviços e empregá-los nas tarefas e trabalhos de sua vida diária e
para a consecução de seus ideais. VOCÊ, o Espírito Criador individual,
é, por direito de nascimento, intitulado a pedir o auxílio e a assistência
do ESPÍRITO Infinito e Eterno, em que vive, se move e tem sua existência
e de que provêm e fluem sua vida e poder. Você tem o direito natural e
inalienável de receber da Infinita Fonte de Poder Criador e de aplicar
este poder nos seus próprios canais criadores. Levemos conosco este
pensamento no nosso estudo do capítulo seguinte deste livro.

- 100 -
VIII
EM UNÍSSONO COM O INFINITO

Os ensinos esotéricos ou íntimos de muitas escolas de misticismo


e ocultismo antigo e moderno, dos países orientais e ocidentais,
sob vários nomes e disfarces, mostraram, inevitável, invariável e
infalivelmente, um fim supremo a ser alcançado pelo estudante da
doutrina secreta ou sabedoria antiga dos sábios. Este fim supremo
pode ser chamado “uníssono com o Infinito” ou contato e harmonia
consciente com o Infinito Princípio Espiritual de Vida, Consciência e
Poder.
O espírito essencial e a essência deste ensino íntimo são expressos
na exposição da Mensagem da Verdade, como foi anunciada de
uma forma ou de outra pelos grande gigantes espirituais e mestres
iluminados do passado e do presente, de todas as terras e povos e de
todas as grandes religiões. O verdadeiro sábio ouve a Mensagem da
Verdade, confia à memória e torna-a o fato básico e essencial de sua
vida mental e espiritual. Preste-lhe atenção. Reflita sobre ela. Analise-a.
Disseque-a à mastigação mental, à ruminação mental, à digestão

- 101 -
mental, à assimilação mental. Volte-se para ela muitas e muitas vezes,
até se apropriar inteiramente dela.

A Mensagem da Verdade

Você, você mesmo, em seu ser, natureza e entidade essencial e


real, é Espírito e nada mais, senão Espírito – está no ESPÍRITO e é
Dele; é espiritual e não material. A Matéria, em quaisquer de suas
formas, é seu instrumento de expressão – o estofo criado para seu uso
e serviço em sua expressão de Vida, Mente e Vontade. É sua serva –
não senhora. Acondicione, limite e dê forma – não ela a você. Modele
– não ela a você, quando reconhecer e compreender, à percepção de
sua relação real com o ESPÍRITO e de sua relação com você.

A informação do ESPÍRITO, recebida pelos seus acreditados


centros individuais de expressão e por eles transmitida a você é esta:
“No grau em que perceber, reconhecer e realizar sua identidade
essencial COMIGO, o Supremo Poder Presente, a Realidade Final,
neste grau receberá e será capaz de manifestar meu Poder Espiritual.
EU ESTOU acima e por cima de você, em baixo e por baixo de você,
rodeando-o de todos os lados. EU ESTOU, também, dentro de você
e você está em Mim – de Mim procede e em Mim vive, ses move e
tem sua existência. Procure-me, olhando dentro de seu próprio ser e
também olhando no Infinito, pois resido tanto dentro como fora de
seu ser. Quando viver de acordo com esta Verdade, poderá manifestar
estar Verdade – nela e somente por ela se encontram a Liberdade e a
Invencibilidade, e se descobre, percebe, realiza e manifesta a verdadeira
e real Presença e Poder.”
A Mensagem de Verdade lhe informa que você deve “perceber,
reconhecer e realizar” sua identidade essencial com o Infinito
Poder Presente, a fim de poder manifestar este Poder Espiritual.
Esta “percepção, reconhecimento, realização” é experimentada

- 102 -
na Razão Completa, isto é, pelo Intelecto e a Intuição combinados
e coordenados. Na instrução precedente procuramos despertar a
percepção, o reconhecimento e a realização intelectual. Julgamos que
conseguimos fazê-lo.
A percepção, reconhecimento e realização intuitivas diferem da
compreensão intelectual, porquanto a Intuição não tem necessidade
de que se lhe ensine – ela já sabe; tudo o que é necessário, nesse
caso, é despertar na Intuição o fato de seu saber, de forma que ela
possa enviar ao campo do Intelecto sua informação. Este despertar
pode ser realizado de dois modos, a saber: (1) pela consideração das
informações da experiência das almas iluminadas que nos precederam
no Caminho da Realização e que deixaram um registro de suas
experiências espirituais; (2) pelo cultivo do real “contato” espiritual
entre nosso espírito individual e o Espírito Universal, entrando, assim,
em harmonia e uníssono real com este.
A contemplação e o recebimento simpático das informações
dos grandes dirigentes espirituais da humanidade, as almas
iluminadas que alcançaram o cimo da montanha da Sabedoria e
Consciência Espiritual, servirão para estabelecer em nossa alma um
grau e qualidade de vibrações espirituais que será suficiente para
induzir um uníssono e uma harmonia correspondente com o Infinito
Princípio Espiritual. – a Infinita Super-Alma. Pela leitura das palavras
de tais informações, muitas vezes “apanharemos o espírito” de seus
autores e entraremos no mesmo plano de consciência espiritual
em que eles estavam, quando escreveram e de onde vieram suas
mensagens.
Por esta razão, pedimos que sejam consideradas as seguintes
citações de “A Super-Alma”, no notável ensaio de Emerson. É
escrita de um dos mais altos planos de Consciência Espiritual e
suas palavras e linhas acham-se saturadas da mais alta qualidade de
vibrações espirituais. É praticamente certo que desperta uma nota
correspondente na alma que entra em contato simpático com ela. Eis
as citações:

- 103 -
“O coração que se abandona à Mente Suprema se
acha ligado a todas as suas obras e seguirá a estrada
real para conhecimentos e poderes particulares. Pois,
subindo a este sentimento primário e original, dirigimo-
nos instantaneamente de nossa estação remota na
circunferência ao centro do mundo, onde vemos as causas
e antecipamos o universo que é apenas um efeito lento.
Esta comunicação é um influxo da Mente Divina em nossa
mente. É uma baixa-mar do regato individual, antes que
surja o fluxo do mar da Vida”.

“Toda apreensão distinta desta ordem central agita os


homens com espanto e prazer. Um estremecimento passa
por todos os homens ao receberem uma nova verdade ou
execução de uma grande ação que provém do coração
da natureza. Nestas comunicações, o poder de ver não
é separado da vontade de fazer, mas a visão provém da
obediência e a obediência provém de uma percepção
alegre. Todo momento em que o indivíduo se sente
invadido por ela é memorável. Creio que, pela necessidade
de nossa constituição, sempre certo entusiasmo resulta
da consciência individual da Presença Divina. O caráter
e a duração deste entusiasmo variam com o estado do
indivíduo.”

“Existem formas variadas deste estremecimento de


admiração e prazer com que a alma individual sempre se
mistura com a alma universal. A natureza destas revelações
é sempre a mesma; são percepções da lei absoluta. São
soluções das próprias perguntas da alma. Não respondem
às perguntas que a inteligência faz. A alma nunca responde

- 104 -
por palavras, mas pela própria coisa pela qual se pergunta.
Veja, diz ela, que eu nasci na grande mente universal. Eu,
que sou imperfeita, adoro o Perfeito que está em mim. Sou
um tanto receptiva à grande alma e, por isso, esqueço o sol
e as estrelas e sinto serem apenas puros acidentes e efeitos
que mudam e passam. Cada vez mais os impulsos da
natureza permanente entram em mim e me torno pública
e humana em meus modos e atos. Assim, passo a viver em
pensamentos e a agir com energias que são imortais”.

Parece presunçosa, irreverente, proibida esta idéia de atrair para


si a inspiração e a iluminação do Espírito Infinito? Se assim é, dirija-
se para seu livro favorito, como autoridade religiosa, seja ele qual for,
Judaico, Cristão, Mahometano, Brahmane, Budista, Zoroastriano, -
não importa qual deles, pois todos trazem a Mensagem da Verdade sob
uma forma ou outra e nele encontrará o convite a pedir e a promessa
de receber as mensagens intuitivas, inspiradas e iluminadas da
Verdade, de ajuda, força, auxílio e conforto nas horas de necessidade.
Por exemplo: “Se alguém quer sabedoria, peça-a a Deus” ou “Antes
que me chamem, responderei e quando eu falar, ouvirão” ou “Pedi e
recebereis” ou “Batei e abrir-se-vos-á”. O convite sempre está presente;
a promessa de realização sempre o acompanha.
Em seguida, oferecemos à sua consideração simpática as
seguintes citações de um pequeno manual esotérico, apreciado por
muitos e que alguns julgam ter sido inspirado por uma autoridade
espiritual superior. Este manual é conhecido por “Luz no Caminho”
e foi escrito por Mabel Collins. Nas seguintes linhas, dele extraídas,
sua qualidade fala por si mesma de sua grande soma de Ensinos
Secretos:

“Procurai a Verdade, mergulhando-vos nas misteriosas e


gloriosas profundidades de vosso mais íntimo ser. Procurai,
experimentando toda experiência, utilizando os sentidos,

- 105 -
a fim de compreenderdes o desenvolvimento e significado
da individualidade e a beleza e obscuridade dos outros
fragmentos divinos que lutam a vosso lado e formam a
raça a que pertenceis. Procurai a Verdade pelo estudo das
leis do ser, das leis da natureza, das leis do sobrenatural e
procurai-a em profunda obediência da alma à débil estrela
que brilha dentro de vós. Firmemente, à proporção que
vigiais e adorais, sua luz se fará mais forte. Sabereis, então,
que descobristes o começo do caminho. E, quando tiverdes
encontrado o fim, sua luz se mudará repentinamente na
Luz Infinita”.

“Terdes visto vossa alma na sua flor é terdes obtido um


vislumbre da transfiguração que oportunamente vos fará
mais que homem; reconhecer é realizar a grande tarefa de
fixar a brilhante luz sem fechar os olhos e não desmaiar
de terror como diante de um horrível fantasma. Isto
acontece a alguns; e, assim, quando a vitória está quase
ganha, é perdida. Virá, então, uma calma, como as que
se apresentam nos países tropicais depois de violenta
tempestade, quando a natureza age tão repentinamente
que se pode ver sua ação. Esta calma virá ao espírito
fatigado. E, no silêncio profundo, sucederá o misterioso
acontecimento que mostrará ter sido encontrado o
caminho.”

“Muitas e muitas vezes, a batalha deve ser dada e ganha.


É apenas por intervalo que a natureza pode estar parada.
Porém, é impossível aprender, enquanto não se ganhar
a primeira grande batalha. A mente pode reconhecer a
verdade, porém o espírito não pode recebê-la. Tendo
passado pela tempestade e alcançado sua paz, então
sempre é possível aprender, embora o discípulo vacile,

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hesite e volte para trás. A Voz do Silêncio permanece dentro
dele; e, embora ele abandone inteiramente o caminho, ela
ressoará, o dividirá e separará suas paixões de suas divinas
possibilidades. Então, com sofrimento e desesperados
gritos do abandonado eu inferior, ele voltará.

Só fragmentos do grande canto chegam a vossos ouvidos,


enquanto sois apenas um homem. Escutai-os, porém e
lembrai-vos deles fielmente, de modo que nada do que vos
chegue se perca; e procurai aprender deles o mistério que
vos rodeia. Com o tempo, não precisareis de mestre. Pois,
assim como o indivíduo tem voz, assim a tem aquilo em
que o indivíduo existe. A própria vida tem linguagem e
nunca está em silêncio. E sua voz não é, como supondes
vós, que sois surdos, um grito; é um canto. Escutai o canto
da vida. Fixai na memória a melodia que ouvis. Apreendei
dela a lição de harmonia. Procurai e escutai, primeiramente
em vosso próprio coração. A princípio vos parecerá que
não está nele; quando procurais, só encontrais discórdia.
Olhai mais profundamente. Se ainda não a encontrardes,
fazei uma pausa e procurai mais no fundo ainda. Há uma
melodia natural, uma fonte obscura em todo coração. Pode
estar muito encoberta e completamente apagada e silenciosa
– porém, lá está. Na base mais profunda de vossa natureza,
encontrareis fé, esperança e amor. Procurai-os ali.”

Não procuraremos explicar, nem comentar as inspiradas


expressões acima apresentadas. À proporção que ponderar sobre elas,
tornar-se-lhes-ão cada vez mais aparentes. O estudo e a meditação
delas abrirão seus ouvidos espirituais e darão agudeza à sua audição
espiritual. Basta-nos dizer que o canto, a melodia oculta, é o Canto da
Alma – a Voz harmoniosa do Espírito Íntimo, que fala sem palavras. É
a Voz do Silêncio que canta: “Resido dentro de você, da mesma forma

- 107 -
que reside dentro de Mim; o Reino dos Céus está dentro de você,
da mesma forma que você está no Reino dos Céus do ESPÍRITO –
d’AQUILO que EU SOU!”
O ESPÍRITO reside dentro de sua Criação – dentro de você,
da mesma forma que você está presente em seus pensamentos, suas
idéias, ações voluntárias e processos vitais. Brota nas alturas de
sua Consciência Espiritual e, quando seus ouvidos estiverem bem
harmonizados com suas altas vibrações, apanharão notas esparsas
de seu grande canto de Vida Infinita. Bem aventurado é aquele que
é capaz de paralisar tanto os sons do mundo fenomenal que seus
ouvidos consigam receber as notas da Voz do Silêncio – perceber os
ritmos do Som silencioso da Harmonia Infinita!
Cultivando um real “contato” espiritual de seu espírito individual
com o Espírito Universal, você age como a pessoa que sobe a um
lugar descampado para que os raios do sol caiam sobre si. Como um
grande Sol de Poder Espiritual, o ESPÍRITO está presente, acima de
você, irradiando-lhe seus raios de Poder Presente. Quando reconhecer e
realizar sua presença e abrir os canais de seu ser ao influxo de suas forças
benéficas, então ele energizará, animará e inspirará todo seu ser. Como
você viu na “Mensagem de Verdade”, o poder aproveitável destes raios e
o grau de sua receptividade para eles, depende de seu grau de percepção,
reconhecimento e realização do Poder Presente do Sol do ESPÍRITO.
Este Sol sempre está presente, irradiando seu Poder sobre todos, porém,
se o indivíduo não se abrir à sua influência, não o receberá.
Visto que O ESPÍRITO é Vida Infinita, Mente Infinita, Vontade
Infinita, suas radiações partilham da presença e poder destes três
aspectos dele. Estes raios recebidos em seu ser lhe darão Vida cada vez
mais eficiente, Mentalidade cada vez mais eficiente e Vontade cada vez
mais eficiente. Todo Poder Vital, todo Poder Mental, todo Poder de
Vontade flui desta Fonte Original e você pode receber uma quantidade
maior destas fases e formas de Poder Espiritual, se apenas acompanhar
o espírito da “Mensagem de Verdade” que lhe foi exposta.
Como disse um escritor: “Quando alguém chega a uma relação

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completa e consciente de sua unidade com a Vida e Poder Infinitos e
vive continuamente nela, tudo o mais o acompanha. É isto que traz
a realização de tais esplendores, belezas e alegrias, que só uma vida
assim relacionada com o Poder Infinito pode conhecer. Isto é chegar à
realização dos mais ricos tesouros celestes na vida terrestre. Isto é trazer
o Céu à Terra ou, antes, levar a Terra ao Céu. Isto é mudar a fraqueza
e a impotência em vigor, mudar as tristezas e suspiros em alegrias e
mudar o medo e os receios em fé. É mudar as aspirações vagas em
realizações. Isto é chegar à totalidade da Paz, Poder e Abundância.”
Os Ensinos Íntimos de todas as grandes religiões contêm
referências a um Lugar Silencioso da Alma em que o Espírito Individual
comunga com o Infinito Espírito de Vida. Muitas são as referências à
Câmara Secreta cuja porta será aberta àquele que sabe bater. Diversos
são os conselhos de “Entra em tua Câmara Íntima e fecha a Porta”.
Esta Câmara Secreta não é o lugar físico que tantos julgaram ser. É
o lugar tranquilo da Alma – o Santuário do Espírito – o estado de
Consciência Espiritual.
Existe um estado mental em que você pode acalmar as águas
do Oceano de Vida, de modo que a imagem do Sol Infinito possa
refletir clara e distintamente em seu seio. Este estado é denominado
“O Silêncio”. É o lugar tranquilo da Alma cujo valor é explicado
pelos místicos. É o Silêncio no meio das tempestades da Vida. Ali os
ventos dos sentidos e as vagas das paixões são acalmadas, ficando as
águas da mente livres de movimentos perturbadores, de redemoinhos
e turbilhões, de modo que o seio do Oceano fica quieto e tranquilo e
permite o Sol do Espírito refletir-se em sua superfície plácida.
Neste estado de Quietação e Paz, ouve-se o Som imperceptível –
a Voz do Silêncio sopra palavras de conforto e animação, de coragem e
força, à alma cansada. Neste Silêncio, o homem comunga com a grande
Chama do Espírito de que emergiu a Fagulha Divina que está dentro
dele. Emerge-se dele refrigerado e revigorado, confortado e satisfeito,
mais apto a atender as exigências do dever, do trabalho e do serviço
no mundo exterior – o mundo em que se enfurecem as tempestades

- 109 -
da mudança e do desenvolvimento. No mais íntimo da tempestade,
no lugar tranquilo da alma, no Silêncio do Espírito, reinam a Paz e o
Poder, a Sabedoria e a Vontade, a Vida e a Vitalidade – a Quintessência
do Poder Presente do ESPÍRITO. O homem inteligente procurará,
encontrará e se apropriará da Paz e da “Força do Silêncio”.
O Espírito do Silêncio se acha expresso no velho hino escrito
por Martineau, intitulado “O Lugar Secreto”. Suas palavras deram
conforto e paz a milhares de almas atribuladas que procuraram força,
vida e sabedoria. Eis as palavras da primeira estrofe desse hino:

“Aquele que deseja conhecer a si e a Deus


que vá para o Silêncio; e, levantando véu após véu, chegue
ao mais íntimo possível.”

Diz um escritor: “Quando estiverdes em dúvida sobre a carreira


a seguir, depois de vos terdes dirigido a todos os meios externos de
direção, deixai que a vista interna veja, deixai que o ouvido interno
ouça e permiti que este processo simples, natural e belo prossiga sem
impedimentos por perguntas ou dúvidas.”
Nas horas difíceis e nas ocasiões de grande perplexidade, basta-
nos apenas seguir uma simples direção que se encontra como todas as
direções necessárias se encontram no velho livro que tantos leem, porém,
muito poucos interpretam: “Entra em teu Secreto e fecha a porta”.
Diz outro escritor: “Um dos homens mais intuitivos que
encontramos, tinha um gabinete num escritório em que vários outros
homens constantemente estavam em negócios, muitas vezes falando
alto. Totalmente livre de perturbações pelos diversos e variados
sons que havia ao redor dele, esse homem concentrado e cheio de
fé, em qualquer momento de perplexidade, fechava as cortinas de
seu isolamento, tão completamente que ficava inteiramente fechado
na própria aura e, assim, tão efetivamente afastado de todas as
distrações, como se estivesse só, numa mata virgem. Tomando consigo
a dificuldade no Silêncio místico, sob a forma de uma pergunta direta

- 110 -
a que esperava uma resposta direta, ficava inteiramente passivo até
vir a resposta, e, durante vários anos de experiência, nunca ele teve
desilusões e direção errada.”
Nunca se esqueça de que a expectativa e o desejo são pares
inseparáveis e logo verá seu caminho, até então obscuro, aumentar
sua luminosidade pela radiação celeste, pois todos os céus exteriores
cooperarão incessantemente com o céu interior.
Ralph Waldo Trine, autor popular de “Em Harmonia com o
Infinito”, diz nessa obra: “O grande fato central da vida humana, de
vossa vida e da minha, é chegarmos a uma realização vital consciente de
nossa unidade com esta Vida Infinita e abrir-nos a este divino influxo.
Exatamente no mesmo grau em que chegamos a uma realização
consciente de nossa unidade com a Vida Infinita e nos abrimos a
este influxo divino, tornamos possível aos poderes superiores agirem
e se manifestarem em nós. No grau em que O reconhecemos como
o Infinito Espírito de Vida e Poder que está agora, neste momento,
agindo e se manifestando em tudo e por meio de tudo e no grau em
que chegamos à realização de nossa unidade com esta Vida, em tal grau
também compartilhamos dela e assim fazemos reais em nós mesmos
as qualidades da vida d’Ele. No grau em que nos abrimos ao influxo
desta vida imanente e transcendente, nos tornamos canais, através dos
quais a Inteligência Infinita pode agir.”
Nas citações acima, vemos a insistência que se dá ao “grau de
reconhecimento e realização” do Infinito Poder Presente. Os grandes
mestres espirituais de todos os tempos, países e credos sempre
insistiram nesse ponto que ocupa um lugar importante na “Mensagem
de Verdade” que lhe foi apresentada. É um axioma da Filosofia
Espiritualista antiga e moderna que o ESPÍRITO, o Supremo Poder
Presente, a Realidade Final, se identifica com o indivíduo na mesma
proporção da aproximação e do interesse com que este se identifica
com Ele. Este é o Segredo do Poder Espiritual. Faça-o seu e traga
sempre consigo seu espírito e significação. Guarde-o bem e nunca o
deixe sair de sua posse. Antes de tudo, nunca o perca!

- 111 -
Não é apenas no Silêncio que deve estabelecer o contato mental
com o ESPÍIRTO. Fora dele, também, você deve trazer sua consciência
da identidade essencial de seu Espírito individual com o ESPÍRITO
Infinito. Deve sempre viver, mover-se e ter sua existência na consciência
que VOCÊ – seu “EU SOU EU” – é um ponto focal e centro de
consciência, vida, vontade e poder do ESPÍRITO e no conhecimento
de que sua consciência do ESPÍRITO é apenas uma parte da própria
consciência do ESPÍRITO. Todos os corpos são modos da Extensão
Infinita, todas as almas, modos do Infinito Poder Presente Espiritual.
Nunca perca de vista esta tremenda verdade de seu ser essencial. Seja ela
uma base de seu pensamento, sentimento e vontade. Nesta consciência
de sua identidade essencial com o ESPÍRITO, pode permanecer em Paz,
Segurança e Liberdade. Faça-se ciente de que, na verdade, “descansa na
cavidade de Sua mão” e que os Braços embaladores e protetores sempre
estão ao seu redor e que a Mão invisível sempre está estendida, pronta
e disposta a pegar na sua e a guiá-lo, dirigi-lo, auxiliá-lo e apoiá-lo na
viagem da vida. Nela, sentir-se-á, nas horas de desânimo e necessidades,
apertado ao Seio infinito, como a criança ao seio de sua mãe. Nela, terá
o sentimento de que “A Bondosa Luz” está sempre presente, brilhando
“no meio da treva que rodeia” e sempre “o guiando para frente”,
passo a passo – cada passo por sua vez, passo seguro, passo real para a
Realização e a Vitória.
Com a Luz da Consciência Espiritual acesa dentro de si, viva e
brilhante, você pode vencer o Medo com uma Coragem indomável,
vencer a Dúvida e o Ceticismo com a Fé que sabe, vencer a Tristeza
com a Alegria, vencer o Desassossego com a Paz. Nesta Luz infinita, a
Presença alentadora do ESPÍRITO o rodeará e cobrirá, estendendo-se,
inteiramente, à sua volta. Apoiando-se na Rocha sólida da Verdade,
verá que sua Presença, seu Poder, sua Paz, sua Alegria se lhe sobreporá
e sua Essência e Vitalidade penetrarão todo seu ser.
Quando, nas horas de necessidade especial, desejar atrair os
raios do Poder Presente do ESPÍRITO, empregue a seguinte meditação
que é, em substância e espírito, a que foi transmitida de mestre a

- 112 -
discípulo, de geração em geração, durante muitos séculos, em todos
os países, pelos adeptos da grande Filosofia Espiritual. Ela o ajudará a
descobrir novamente a Luz, se a perder temporariamente, ela o ajudará
a descobri-la, se ainda não a descobriu. Nela está brilhantemente acesa
a Chama do Espírito – a única Fonte de Luz, de que todas as Luzes
provêm. Nela será atendido seu pedido de “Luz, mais Luz!.” Esta Luz
Infinita do ESPÍRITO iluminará as obscuridades de sua alma, banindo
a dúvida, a tristeza, o medo, a desconfiança.

Meditação Espiritual

Afaste de sua consciência os pensamentos, idéias, sentimentos


e imagens mentais perturbadoras de seu meio finito e limitado e
concentre sua atenção total no ESPÍRITO, o Infinito e Eterno Poder
Presente, a Realidade Final da Existência. Pense na sua Vida infinita e
eterna, na sua Consciência infinita e eterna, na sua Vontade infinita e
eterna, no seu Poder infinito e eterno. Desta forma, encherá sua mente
e sua alma de Luz infinita e toda obscuridade da alma desaparecerá.
A noite obscura da alma será transformada em luz clara do meio-dia
espiritual. Levante seus pensamentos do temporal e fixe no Eterno.
Eleve seus pensamentos do finito, firmando-os no Infinito, tire seus
pensamentos do que é móvel e fixe no que não muda. Tendo feito
isto, está, então, preparado para voltar às coisas e cenas da existência
pessoal finita, temporal e mutável, retomando seu trabalho, deveres e
serviço, voltando, entretanto, infinitamente refrigerado, revigorado e
repleto de nova vida, espírito, coragem, sabedoria e vontade.
Queremos chamar, aqui, sua atenção para outro ponto
importante a respeito deste “contato” com o ESPÍRITO – este
“Uníssono com o Infinito” de que falamos. O termo “Uníssono”
significa “Harmonia, acordo, concórdia, união”. No uso que dele
fazemos, o termo contém a idéia correspondente ao significado que
lhe dão na música, isto é, “Identidade de tom; coincidência de sons

- 113 -
proveniente de igualdade no número de vibrações que dois ou mais
corpos sonoros oferecem num tempo dado”. Ainda mais significativa,
neste ponto, é a idéia familiar de “tonalização” dos instrumentos
receptores e emissores como televisores, rádios e os mais variados
aparelhos de acesso à Internet.
Como sabemos, o éter pode ser cheio de inúmeras mensagens
“sem fio” ou sons transmitidos, sem que determinado instrumento
receptor “apanhe” ou registre quaisquer delas, a não ser que esteja
“tonalizado” numa sintonia correspondente ao dos instrumentos
emissores ou “conectado à Rede”. Para todos os instrumentos
receptores “desconectados” é praticamente como se tais mensagens
e ondas de forças não existissem. Aqui temos um caso notável das
admiráveis analogias que se encontram em toda a Natureza e que são
indicadas neste axioma dos ensinos herméticos: “O que está em cima
é como o que está em baixo; o que está dentro é como o que está fora;
o que está no grande é como o que está no pequeno.”
A idéia fundamental contida em nosso pensamento a respeito
do uníssono entre o Espírito individual e o ESPÍRITO infinito, se
baseia no fato expresso pelo termo “Vibrações”, convenientemente
entendido. Não só todas as coisas materiais estão em vibração
– vibrando em virtude da influência do ESPÍRITO sobre elas e do
Espírito que reside nelas – mas também todo Espírito e o próprio
ESPÍRITO devem ser concebidos como “vibrantes”. Nada é imóvel –
tudo está em movimento – onde há Espírito ou ESPÍRITO. É verdade
que, como nos informam os antigos sábios e seus modernos sucessores,
existe um estado de existência em que as vibrações são de intensidade
e rapidez tão infinitas que tudo parece não ter movimento e estar
parado, porém, afinal, se observa que isto é Movimento Infinito e
não falta de movimento. As vibrações espirituais irradiam-se e podem
ser “apanhadas” por instrumentos espirituais convenientemente
tonalizados, conectados. O ESPÍRITO é “radioativo”!
Quando a alma individual se harmoniza com a Super-Alma –
quando o Espírito individual está no tom do ESPÍRITO – então a Vida,

- 114 -
Mente, Vontade e Força do ESPÍRITO fluem no Espírito individual
que é seu centro focal de expressão e manifestação. Quando o
Espírito individual é assim tonalizado ao ESPÍRITO, então, não só as
mensagens do ESPÍRITO alcançam sua mente e alma, mas também o
Poder do ESPÍRITO – seu Poder Espiritual – flui nos canais do Espírito
individual, para ser empregado e usado por este, quando aprender a
aplicá-lo convenientemente.
Você ouviu falar do “segundo fôlego mental” que, como o
“segundo fôlego físico” vem ao andarilho cansado, muitas vezes, é
conseguido por alguém, quando está mentalmente exausto. Além
disso, talvez já tenha notado a sugestão do professor William James de
que há um “terceiro fôlego”, um quarto, quinto, sexto, sétimo fôlegos
de energia física, mental e espiritual que podem ser aproveitados pelo
indivíduo que aprendeu a “bater” em sua fonte. Estas “fontes são
realmente fases da Fonte Infinita de Todo Poder que, nesta instrução,
denominamos “PODER” e que, na sua essência e natureza finais, é
Poder Espiritual.
Os grandes mestres espirituais da humanidade sempre ensinaram
e ainda ensinam, que esta Fonte infinita de Poder é ilimitada e
inexgotável em extensão, quantidade e grau, sendo suas limitações
aparentes produzidas apenas pela incapacidade do indivíduo para
receber e aplicar este Poder. Entrando em “contato” com o Infinito
Suprimento, pondo-se em Uníssono com o Infinito, tonalizando seu
aparelho espiritual receptor, você poderá “receber” e empregar a
constante e inesgotável corrente de vibrações espirituais que sempre
estão sendo irradiadas e emanadas do ESPÍRITO, a Fonte de Todo
Poder. Isto é muito mais do que uma simples figura de linguagem ou
representação metafórica: é a expressão, por meio de palavras físicas,
de uma tremenda verdade de Poder Espiritual. Sua realidade pode ser
aprovada por você em sua experiência real, desde que “se dirija a ele
pelo reto caminho” – e lhe indicamos esse “reto caminho”.
Não basta que perceba, reconheça e realize a Verdade a respeito
do Poder Espiritual. Você deve também manifestar as energias que ele

- 115 -
põe à sua disposição, deve provar a Verdade em sua vida e trabalho
diários. O Infinito Poder Espiritual não é estático: é dinâmico. Não
é para descanso, mas sim para uso, ação e emprego nas atividades
do mundo. Entretanto, é impossível possuir algum grau notável de
percepção, reconhecimento e realização desta Verdade, sem manifestá-
la e prová-la, ao menos até certo grau. Até uma percepção e realização
parcial do Infinito Poder Presente do ESPÍRITO lhe fornecerá uma
maior eficiência, proficiência e método de aplicação de suas energias e
forças. A aplicação consciente do Poder Espiritual logo passa ao plano
de seu Subconsciente e desde então se torna habitual e instintiva.
Pela aplicação reta do Poder Espiritual, você abre as portas do
armazém do Suprimento Infinito. O Suprimento Infinito fornece o
material e os meios pelos quais as necessidades são supridas, satisfeitas
e saciadas. Todos os materiais e todas as forças estão sob o domínio
do Poder Espiritual. Você tem direito a tudo o que é necessário para
sua expressão completa e justa da Vida e Espírito que estão dentro
de você. O material de suas necessidades se acha contido dentro da
Substância que é plástica e adaptável ao Poder do Espírito. O Espírito
contém todo Poder necessário para amoldar e modelar este material
na forma objetiva. Tudo o que é necessário é a Fé e a Vontade de
aplicar este Poder que está dentro de você.
Na Natureza inteira encontramos em ação a Lei de Suprimento,
a Lei do Uso. Toda Vida tira, instintivamente, do Suprimento Infinito
tudo o que é necessário às suas necessidades e exigências normais.
A existência de uma “necessidade” instintiva implica a existência
do suprimento material que a satisfaça. Esta promessa implícita de
Suprimento se encontra em toda a Natureza. Seu espírito é expresso
na sentença inspirada que “Deus há de prover”. Esta promessa não é
uma vã zombaria: é uma grande verdade da Existência. O Suprimento
está sempre presente; a criatura tem apenas que abrir seus canais ao
influxo e se dirigir para a Fonte.
Tendo obtido acesso legal e reto à grande fonte do Suprimento
Infinito e sabendo que você é o verdadeiro herdeiro de seus tesouros,

- 116 -
seu suprimento é limitado apenas pela sua capacidade de encontrar
o que precisa para sua expressão reta da Vida. Esta capacidade pode
ser desenvolvida e aperfeiçoada, por meio de um grau crescente de
Uníssono com o Infinito – de uma maior percepção, reconhecimento e
realização da Verdade a respeito do Poder Espiritual. “O Suprimento
é igual ao Pedido”, porém o pedido deve ser feito conveniente e
confiantemente, com Fé e Coragem.
Quando puser em ação o Poder Espiritual à sua disposição,
você começará a atrair aquilo que é necessário para uso, necessidade
e sustento – aquilo que há de aliviar e remover sua falta e necessidade.
Você o fará exatamente da mesma forma que os lírios do campo
atraem para si aquilo que precisam para seu sustento e uso – aquilo
que os faz crescer ao estado de magnificência natural que excede até
o próprio “Salomão em toda a sua glória”, como ensinou uma grande
autoridade espiritual.
Você é um Criador. Cria seu meio – sempre o fêz. Quer o
faça conscientemente, quer não, suas forças espirituais sempre o
estão fazendo. Consciente ou inconscientemente, voluntária ou
involuntariamente, está pondo em ação grandes forças espirituais
que produzem certos efeitos materiais. É um construtor, um criador,
embora não saiba disso. Sendo assim, a sabedoria aconselha que você
edifique inteligentemente e de acordo com os “desejos de seu coração”.
Assim, pois: “Construa-lhe mansões mais majestosas, ó minha’alma!”,
deve ser seu pedido constante. Construa para você a espécie de mundo
com que sonha. Faça que seus sonhos sejam verdadeiros!
Trine exprime uma grande verdade, quando diz: “Cada qual está
construindo seu próprio mundo. Construímos de dentro e atraímos de
fora. O pensamento é a força com que construímos e os pensamentos
são forças. O semelhante constrói o semelhante e atrai o semelhante.
Na proporção da espiritualização do pensamento, ele se torna mais
sutil e poderoso em suas ações. Esta espiritualização está de acordo
com a lei e se acha ao alcance de todos. Tudo é feito, primeiramente,
no invisível, antes de se manifestar no visível; no ideal, antes de se

- 117 -
realizar no real; no espiritual, antes de se apresentar no material. O
plano do invisível é o plano do efeito. A natureza de um efeito é
sempre determinada e limitada pela natureza de sua causa.”

Considerações finais

O pequeno manual oculto, que muitos crêem ter sido inspirado,


a que nos referimos neste livro, contém o seguinte fragmento instrutivo
e sugestivo de ensino esotérico. Ele se refere à Batalha da Vida no
Plano da Existência Material e do Eu Real (ESPÍRITO) que reside
como Eu Íntimo no Espírito individual e se expande em atos, quando
é percebido, reconhecido, realizado e aceito pela alma individual e
quando seu auxílio e serviço são pedidos por esta como sua herança
de direito. Escute a voz da mensagem:

“Põe-te de lado na batalha vindoura e, embora lutes, não


sejas o guerreiro. Procura o guerreiro e deixa-o lutar em ti.
Recebe suas ordens para a batalha e obedece-o. Obedece-o,
não como se ele fosse um general, mas como se fosses tu
mesmo, mas infinitamente mais sábio e mais forte do que
tu. Procura-o, porque, no furor e ímpeto da batalha, podes
passar por ele e ele não te conhecerá, se não o conheceres.
Se teu clamor alcançar seus ouvidos atentos, então ele
lutará em ti e encherá o vácuo sombrio que ficará em ti.
E, se assim for, poderás entrar, fria e despreocupadamente
na luta, ficando de lado e deixando-o lutar por ti. Então
te será impossível errar um só alvo. Porém, se o não
procurares, se passares por ele, não haverá salvação para
ti. Teu cérebro vacilará, teu coração perderá a firmeza e,
na poeira do campo de batalha, tua vista e teus sentidos
se obscurecerão e não distinguirás teus amigos de teus
inimigos.

- 118 -
“Ele é tu mesmo; entretanto, és apenas finito e sujeito ao
erro. Ele é eterno e infalível. Ele é a verdade eterna. Uma
vez que tenha entrado em ti e se tornado teu guerreiro, não
mais te abandonará completamente e, no dia da grande
paz, se tornará uno contigo.

Podes ficar ereto, agora, firme como uma rocha no meio da


tormenta, obedecendo ao guerreiro que é tu mesmo e teu
rei. Estranho à batalha, a não ser para executar suas ordens,
não tendo mais cuidado algum a respeito do resultado da
batalha – pois só uma coisa é importante, que o guerreiro
ganhe.E sabes que ele não pode ser vencido – permanecendo,
assim, calmo e atento, emprega a audição que adquiriste
pelo sofrimento e a destruição do sofrimento.”

Guarde no coração o eco das palavras finais da Mensagem de


Verdade, como lhe foi apresentada nesta instrução:

“No grau em que perceberdes, reconhecerdes e realizardes


vossa identidade essencial COMIGO, o Supremo Poder
Presente, a Realidade Final, neste grau recebereis e sereis
capaz de manifestar meu poder Espiritual. EU ESTOU
acima e por cima de vós, em baixo e por baixo de vós;
rodeio-vos de todos os lados. EU ESTOU também dentro
de vós e vós estais em Mim – de Mim procedeis e em Mim
viveis, vos moveis e tendes vossa existência. Procurai-me
olhando dentro de vosso próprio ser e também olhando no
Infinito, pois resido tanto dentro como fora de vosso ser.
Quando viverdes de acordo com esta Verdade, podereis
manifestar esta Verdade – nela e somente por ela se
encontram a Liberdade e a Invencibilidade e se descobre,
percebe, realiza e manifesta a verdadeira e real Presença
e Poder.”

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