Você está na página 1de 466

ais fácil!

Tornando tudo m
Filosofia

Coloque sua cabeça para

a
pensar sobre as grandes

Filosofi
questões da vida Abra este livro
e encontre:
A Filosofia pode ser um assunto

Filosofia
desconcertante, deixando-o com mais • Pesos-pesados da Filosofia,
perguntas do que aquelas com que começou. desde Platão a Confúcio
Este guia fácil de seguir é uma introdução • O debate sobre Deus
essencial ao assunto, abordando grandes • Como saber a diferença entre
questões e conduzindo-o por tópicos como certo e errado
existência, conhecimento, verdade e beleza.
• A verdadeira história da
Mergulhando nas obras de grandes filósofos Filosofia política
e examinando como suas teorias ainda nos
• Uma pegada filosófica sobre a
afetam hoje em dia, este livro realmente
sociedade e suas funções
colocará você para pensar.
• Uma introdução à estética e aos
valores humanos
• Do que trata a Filosofia? — desvendar a ciência • O que a Filosofia oriental
do pensamento e colocar seu próprio chapéu do põe na mesa
pensamento
• Desafios filosóficos para
• Conheça melhor a história — desde os tempos mantê-lo pensando
antigos aos dias atuais, aprenda sobre filósofos
essenciais de todo o mundo

• Compreenda os “ismos” — descubra as palavras e


Acesse o site
teorias que moldaram a filosofia
www.paraleigos.com.br Aprenda sobre:
• Entenda o arroz com feijão — faça uma jornada
através da lógica, do conhecimento e da linguagem e conheça outros títulos! • A história da Filosofia desde os
tempos antigos aos dias atuais
• Onde está sua cabeça? — mergulhe nas
profundezas sombrias da mente e investigue a • Lógica, conhecimento, ética,
consciência, a moralidade e mais consciência e mais
• Examine a conexão entre Filosofia e ciência — • Textos filosóficos essenciais e os
descubra como filósofos lançaram as bases para significados por trás das palavras
teorias sobre espaço, tempo e tudo nesse meio
• Maneiras de se tornar um pensador
filosófico

Martin Cohen é um bem-sucedido autor de Filosofia


ISBN: 978-85-7608-882-0
Cohen
que escreveu inúmeros livros, incluindo 101 Problemas
de Filosofia e 101 Dilemas Éticos. Martin é editor de
The Philosopher, um dos periódicos de filosofia mais
antigos do Reino Unido.
/paraleigos
Martin Cohen
/altabooks Autor e editor de Filosofia

Philosophy_For_Dummies_Capa_CQCG.indd 1 26/03/2015 09:27:28


ais fácil!
Tornando tudo m
Filosofia

Coloque sua cabeça para

a
pensar sobre as grandes

Filosofi
questões da vida Abra este livro
e encontre:
A Filosofia pode ser um assunto

Filosofia
desconcertante, deixando-o com mais • Pesos-pesados da Filosofia,
perguntas do que aquelas com que começou. desde Platão a Confúcio
Este guia fácil de seguir é uma introdução • O debate sobre Deus
essencial ao assunto, abordando grandes • Como saber a diferença entre
questões e conduzindo-o por tópicos como certo e errado
existência, conhecimento, verdade e beleza.
• A verdadeira história da
Mergulhando nas obras de grandes filósofos Filosofia política
e examinando como suas teorias ainda nos
• Uma pegada filosófica sobre a
afetam hoje em dia, este livro realmente
sociedade e suas funções
colocará você para pensar.
• Uma introdução à estética e aos
valores humanos
• Do que trata a Filosofia? — desvendar a ciência • O que a Filosofia oriental
do pensamento e colocar seu próprio chapéu do põe na mesa
pensamento
• Desafios filosóficos para
• Conheça melhor a história — desde os tempos mantê-lo pensando
antigos aos dias atuais, aprenda sobre filósofos
essenciais de todo o mundo

• Compreenda os “ismos” — descubra as palavras e


Acesse o site
teorias que moldaram a filosofia
www.paraleigos.com.br Aprenda sobre:
• Entenda o arroz com feijão — faça uma jornada
através da lógica, do conhecimento e da linguagem e conheça outros títulos! • A história da Filosofia desde os
tempos antigos aos dias atuais
• Onde está sua cabeça? — mergulhe nas
profundezas sombrias da mente e investigue a • Lógica, conhecimento, ética,
consciência, a moralidade e mais consciência e mais
• Examine a conexão entre Filosofia e ciência — • Textos filosóficos essenciais e os
descubra como filósofos lançaram as bases para significados por trás das palavras
teorias sobre espaço, tempo e tudo nesse meio
• Maneiras de se tornar um pensador
filosófico

Martin Cohen é um bem-sucedido autor de Filosofia


ISBN: 978-85-7608-882-0
Cohen
que escreveu inúmeros livros, incluindo 101 Problemas
de Filosofia e 101 Dilemas Éticos. Martin é editor de
The Philosopher, um dos periódicos de filosofia mais
antigos do Reino Unido.
/paraleigos
Martin Cohen
/altabooks Autor e editor de Filosofia

Philosophy_For_Dummies_Capa_CQCG.indd 1 26/03/2015 09:27:28


Filosofia Para Leigos a
Folhola
O que é a vida? As pedras têm alma? A filosofia se resume a ponderar o imponde-
de C
rável — e o que é ponderável também. Se você é do tipo que gosta de filosofar por
aí, saber os nomes daqueles que o fizeram anteriormente, algumas das questões
outrora debatidas e jargões comuns aos filósofos pode ser uma mão na roda.

Grandes Nomes da Filosofia na Antiguidade


No estudo da filosofia, é importante estar familiarizado com alguns nomes. Esta lista
contém os principais pensadores da antiguidade:
•• Pré-socráticos: Anaximenes, Anaximandro, Anaxágoras. Nomes estranhos,
porém famosos. Alguns dos primeiros filósofos que se tem registro. Além de
Tales, que acreditava que o mundo era, em essência, água. Os pré-socráticos
eram pura proto-ciência especulativa. Obviamente, não faziam ideia de que eram
pré-socráticos. Mas nós sabemos que eram.
•• Sócrates: Ensinava filosofia através do chamado Método Socrático (não brinca?!).
Foi às ruas em busca de conhecimento. Foi morto a pedido do povo. Ensinou a Platão.
•• Platão: Aprendiz de Sócrates, com quem escreveu diálogos. Talvez o filósofo
mais famoso de todos os tempos. Ensinou ao último membro do laurel
filosófico, Aristóteles.
•• Aristóteles: Aluno de Platão. Lógica codificada. Todo mundo busca a felicidade.
Ensinou a Alexandre, o Grande. Platão enfatizava o outro mundo; Aristóteles
concentrava seus esforços neste aqui.
•• Os estoicos: Sêneca, Epíteto e Marco Aurélio são os estoicos romanos mais
conhecidos. Conselho máximo para lidar com qualquer dificuldade na vida:
coloque em perspectiva e passe por cima.

Grandes Perguntas que os Estudantes Fazem


A vida apresenta questões e a filosofia se encarrega de ponderar a respeito delas. As
perguntas que estudantes de filosofia (e, quem sabe, estudantes da vida em si) mais
costumam fazer são:
•• Por quê?
•• O quê?
•• Cai na prova?

Para Leigos®: A série de livros para iniciantes que mais vende no mundo.

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


Filosofia Para Leigos a
Folhola
de C

Questões que os Filósofos Levantam


Os problemas apresentados pelos grandes filósofos podem aprimorar a sua percepção
de mundo. Você provavelmente já se fez alguma destas perguntas sem fazer ideia de
que estava pensando como alguns dos maiores pensadores da história!
Aqui está uma amostra das questões mais recorrentes no campo da filosofia:
•• Nós podemos realmente aprender qualquer coisa?
•• O que é bom na vida?
•• Nós somos livres como parecemos ser ou apenas robôs programados segundo a
natureza ou Deus?
•• Somos apenas corpos, ou temos almas também?
•• Existe vida após a morte?
•• Deus existe?
•• Qual o sentido da vida?

Glossário dos Termos Fundamentais da Filosofia


Para ser um grande (ou mesmo razoável) filósofo, você precisa entender o linguajar da
filosofia. Alguns termos fundamentais da filosofia são:
•• Filosofia: Amor pelo conhecimento.
•• Estética: O estudo da beleza, da feiura, e talvez até do sublime. A pergunta “O que
é arte?” é estética.
Dica meta-estética: Se um teórico estético não conseguir combinar um terno com uma
gravata, ou uma saia com uma blusa, seja cético quanto ao que ele(a) fala.
•• Epistemologia: O estudo da crença, da verdade, do conhecimento e da racionalidade.
•• Ética: O estudo do bem e do mal, certo e errado, regras e valores, caráter e vício,
sucesso e felicidade.
A ética possui inúmeras subáreas, que incluem:
•• Ética de negócios: O que eu posso fazer?
•• Ética judicial: Quem eu posso processar?
•• Ética médica: Quando eu posso clonar?
•• Ética tecnológica: Por que eu posso teclar no telefone?
•• Metafísica: O estudo do ser, ou do que realmente existe. Todas as questões
‘supremas’ são as metafísicas. Meta significa depois ou transcender.
•• Conhecimento: Percepção prática para a vida.

Para Leigos®: A série de livros para iniciantes que mais vende no mundo.

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


Filosofia

Martin Cohen

Rio de Janeiro, 2015

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


Filosofia Para Leigos Copyright © 2015 da Starlin Alta Editora e Consultoria Eireli.
ISBN: 978-85-7608-882-0
Translated from original Philosophy For Dummies © 2012 by Wiley Publishing, Inc. ISBN 978-85-7608-882-0. This trans-
lation is published and sold by permission John Wiley and Sons Ltd, the owner of all rights to publish and sell the same. POR-
TUGUESE language edition published by Starlin Alta Editora e Consultoria Eireli, Copyright © 2014 by Starlin Alta Editora e
Consultoria Eireli.

Todos os direitos reservados e protegidos por Lei. Nenhuma parte deste livro, sem autorização prévia por escrito da editora,
poderá ser reproduzida ou transmitida.

Erratas: No site da editora relatamos, com a devida correção, qualquer erro encontrado em nossos livros. Procure pelo título
do livro.

Marcas Registradas: Todos os termos mencionados e reconhecidos como Marca Registrada e/ou Comercial são de responsa-
bilidade de seus proprietários. A Editora informa não estar associada a nenhum produto e/ou fornecedor apresentado no livro.

Impresso no Brasil — 1ª Edição, 2015

Vedada, nos termos da lei, a reprodução total ou parcial deste livro.

Produção Editorial Gerência Editorial Design Editorial Captação e Marketing e Promoção


Editora Alta Books Anderson Vieira Aurélio Corrêa Contratação Hannah Carriello
de Obras Nacionais marketing@altabooks.com.br
Produtor Responsável Supervisão Editorial
J. A. Rugeri Vendas Atacado
Marcelo Vieira Angel Cabeza
Marco Pace e Varejo
Sergio Luiz de Souza
autoria@altabooks. comercial@altabooks.com.br
com.br
Ouvidoria
ouvidoria@altabooks.com.br

Carolina Giannini Juliana Oliveira Milena Lepsch


Claudia Braga Letícia Vitoria Rômulo Lentini
Equipe Editorial
Gabriel Ferrira Mayara Coelho Thiê Alves
Jessica Carvalho Mayara Soares Silas Amaro

Tradução Revisão Gramatical Revisão Técnica Diagramação Copidesque


Joris Bianca da Silva Mariana Marcon Benicá Diego Pinheiro Ana Lucia S. Quaresma Paola Gossain Lima
Professor, graduado em
História e pós-graduado
em Filosofia

Rua Viúva Cláudio, 291 – Bairro Industrial do Jacaré


CEP: 20970-031 – Rio de Janeiro – Tels.: (21) 3278-8069/8419
www.altabooks.com.br – e-mail: altabooks@altabooks.com.br
www.facebook.com/altabooks – www.twitter.com/alta_books

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


Sobre o Autor
Martin Cohen é escritor e editor de livros filosóficos em tempo integral.
Ele tanto ensinou como pesquisou filosofia em diversas universidades
no Reino Unido e na Austrália, mas é mais conhecido por seus livros,
nos quais advoga e desenvolve um método de ensino da filosofia
por vezes conhecido como modularidade. Essa é uma técnica (que é
muito apropriada para o estilo Filosofia Para Leigos) na qual grandes
problemas complexos são desmembrados em partes, que são, cada
uma, independentes e autossustentadas (tanto quanto possível). Ele foi
originalmente encorajado à prática por George MacDonald Ross, para
quem foi pesquisador em um ambicioso projeto, nos anos de 1980, visando
mudar a forma como a filosofia é ensinada em universidades do Reino
Unido e deixá-la menos “atravancada” e mais prática.

Entre os primeiros livros de Martin estão 101 Problemas de Filosofia, 101


Ethical Dilemmas, Political Philosophy, Wittgenstein’s Beetle and Other
Classic Thought Experiments, Casos Filosóficos e Mind Games.

Além de professor universitário e pesquisador, Martin também é


professor de nível fundamental, tendo ensinado em escolas de Yorkshire
e Staffordshire, com crianças a partir dos sete anos. Ele se mantém um
advogado da “filosofia para crianças”, e seus livros da série “101” são
populares entre muitos professores.

Embora seu livro Casos Filosóficos retrate uma imagem nada lisonjeira
de Karl Marx, Martin entende que o “sentido da filosofia”, como disse
Marx, não é meramente interpretar o mundo, mas mudá-lo, e ele esteve
envolvido com muitas questões de ética e ambiente.

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


A compra deste conteúdo não prevê o atendimento e fornecimento de suporte técnico operacional, instalação ou
configuração do sistema de leitor de ebooks. Em alguns casos, e dependendo da plataforma, o suporte poderá ser
obtido com o fabricante do equipamento e/ou loja de comércio de ebooks.

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


Agradecimentos
O estilo Para Leigos não permite notas de rodapé (o que é, sem dúvida,
correto — sai para lá, nota de rodapé!), nem mesmo notas finais. No
entanto, isso pode ser um convite para tomar emprestado sem dar
reconhecimento. Então esta seção é um esforço para compensar algumas
das muitas pessoas que realmente devem ser reconhecidas, visto que, de
fato, este livro não é todo feito de minhas próprias ideias, mas meramente
da destilação da leitura, pesquisa e discussões com outros. Aqui está
apenas um pouco desse pessoal filosófico de cujas ideias me beneficiei e
tentei comunicar para um novo público:

Brenda Almond, Gideon Calder, Anna Cohen, James Danaher, Pierre-


Alain Gouanvic, Wendy Hamblet, Trevor Jordan, Colin Kirk, Mary Lenzi,
Yuli Liu, George MacDonald Ross, Tom Morris, Chris Onof, Andrew Porter,
John Sellars, Daniel Silvermintz, Dean D’Souza, Steven Thornton, Zenon
Stravinides e Brad Weslake.

Na parte da produção, também devo agradecer a todos aqueles “Leigos


profissionais” da Wiley — notoriamente, Nicole Hermitage, que me
apresentou à ideia Para Leigos, e Simon Bell, que me aturou muito
pacientemente com minha incredulidade ocasional quanto às exigências
do “Estilo Para Leigos”. Gostaria de agradecer também aos vários leitores
do manuscrito, especialmente a Zenon, por seus cuidadosos comentários,
correções e conselho.

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014
Sumário Resumido
Introdução���������������������������������������������������������������������� 1
Parte I: O que É Filosofia?������������������������������������������������ 7
Capítulo 1: Do que Trata a Filosofia?��������������������������������������������������������������������������������� 9
Capítulo 2: Descobrindo Por que a Filosofia Importa���������������������������������������������������� 25
Capítulo 3: Tornando-se um Pensador Filosófico���������������������������������������������������������� 45

Parte II: A História da Filosofia�������������������������������������� 61


Capítulo 4: Olhando as Filosofias Antigas����������������������������������������������������������������������� 63
Capítulo 5: Da Idade das Trevas à Atualidade���������������������������������������������������������������� 77
Capítulo 6: Uma Olhada na Filosofia Oriental�������������������������������������������������������������� 105
Capítulo 7: Entendendo os “Ismos”�������������������������������������������������������������������������������� 121

Parte III: O Feijão com Arroz da Filosofia���������������������� 141


Capítulo 8: Vendo os Limites da Lógica������������������������������������������������������������������������ 143
Capítulo 9: Entendendo o Conhecimento��������������������������������������������������������������������� 165
Capítulo 10: Separando Fato de Ficção������������������������������������������������������������������������� 179
Capítulo 11: Interpretando a Linguagem����������������������������������������������������������������������� 197

Parte IV: Explorando a Mente, a Consciência


e a Moralidade������������������������������������������������������������ 219
Capítulo 12: Explorando a Estranha Noção de Mente������������������������������������������������� 221
Capítulo 13: Olhando a Ética e a Moralidade��������������������������������������������������������������� 239
Capítulo 14: Filosofia Política����������������������������������������������������������������������������������������� 277
Capítulo 15: Cuidando da Liberdade����������������������������������������������������������������������������� 307
Capítulo 16: Estética e Valores Humanos���������������������������������������������������������������������� 323

Parte V: Filosofia e Ciência������������������������������������������ 349


Capítulo 17: Da Ciência Antiga à Filosofia Moderna��������������������������������������������������� 351
Capítulo 18: Investigando a Ciência Social������������������������������������������������������������������� 365
Capítulo 19: Explorando a Verdade Científica e as Tendências Científicas������������� 387

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


x  Filosofia Para Leigos

Parte VI: A Parte dos Dez��������������������������������������������� 407


Capítulo 20: Dez Livros Filosóficos Famosos — e o que Eles Dizem������������������������� 409
Capítulo 21: Dez Desafios Filosóficos para Mantê-lo Pensando��������������������������������� 417

Índice������������������������������������������������������������������������� 429

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


Sumário
Introdução����������������������������������������������������������������������������� 1
Sobre Este Livro����������������������������������������������������������������������������������������������������� 2
Convenções Utilizadas Neste Livro���������������������������������������������������������������������� 2
Só de Passagem...�������������������������������������������������������������������������������������������������� 2
Penso que...������������������������������������������������������������������������������������������������������������ 3
Como Este Livro Está Organizado������������������������������������������������������������������������ 3
Parte I: O que É Filosofia����������������������������������������������������������������������������� 3
Parte II: A História da Filosofia������������������������������������������������������������������� 3
Parte III: O Arroz com Feijão da Filosofia������������������������������������������������� 4
Parte IV: Explorando a Mente, a Consciência e a Moralidade��������������� 4
Parte V: Filosofia e Ciência������������������������������������������������������������������������� 4
Parte VI: A Parte dos Dez���������������������������������������������������������������������������� 4
Ícones Utilizados Neste Livro������������������������������������������������������������������������������� 5
Daqui para Lá, de Lá para Cá������������������������������������������������������������������������������� 6

Parte I: O que É Filosofia?������������������������������������������������������ 7

Capítulo 1: Do que Trata a Filosofia?������������������������������������������������������9


Definindo o Trabalho�������������������������������������������������������������������������������������������� 9
Então, o que é filosofia?���������������������������������������������������������������������������� 10
Então qual é o sentido da filosofia?��������������������������������������������������������� 10
Amando a Sabedoria������������������������������������������������������������������������������������������ 11
Decidindo o que Conta como Conhecimento “Real”������������������������������������� 13
Esmiuçando Três Tipos de Conhecimento������������������������������������������������������� 15
Explorando o Mundo Físico à sua Volta����������������������������������������������������������� 17
Testando se a Terra está se movendo������������������������������������������������������ 18
Procurando a meia de Locke������������������������������������������������������������������� 21
Sendo místico com o bispo Berkeley������������������������������������������������������ 22

Capítulo 2: Descobrindo Por que a Filosofia Importa������������������������25


Lançando as Bases para a Ciência�������������������������������������������������������������������� 26
Tales bota as mãos na massa�������������������������������������������������������������������� 26
Filósofos ficando sem Tempo e encontrando o Nada�������������������������� 28
Encontrando algum espaço���������������������������������������������������������������������� 28
Explorando o espaço com o poder do sonho���������������������������������������� 29
Conhecendo o Mundo Físico����������������������������������������������������������������������������� 31
Impondo ordem em um mundo desordenado�������������������������������������� 32
Livre-arbítrio e determinismo������������������������������������������������������������������� 33
Inventando Sistemas e Lógica���������������������������������������������������������������������������� 34

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


xii  Filosofia Para Leigos

As leis do pensamento������������������������������������������������������������������������������ 36
Duvidando de Tudo que Você não Conhece�������������������������������������������������� 42

Capítulo 3: Tornando-se um Pensador Filosófico������������������������������45


Tendo uma Discussão Filosófica����������������������������������������������������������������������� 46
Debatendo com Sócrates�������������������������������������������������������������������������� 46
Imaginando as coisas com Galileu���������������������������������������������������������� 47
Passo a passo com Platão������������������������������������������������������������������������� 50
Dando uma Espiada na Mente do Filósofo������������������������������������������������������ 54
Impressionando as pessoas com paradoxos������������������������������������������ 57
Procurando padrões no dado������������������������������������������������������������������ 59

Parte II: A História da Filosofia�������������������������������������������� 61

Capítulo 4: Olhando as Filosofias Antigas ������������������������������������������63


Preparando o Terreno com os Primeiros Filósofos Gregos���������������������������� 63
Apresentando Tales e seu pupilo, Anaximandro����������������������������������� 64
Sendo enigmático com Heráclito������������������������������������������������������������ 65
Somando Pitágoras������������������������������������������������������������������������������������ 65
Um Pratão de Platão (e Sirvamos Sócrates)����������������������������������������������������� 67
Entendendo a conexão Platão/Sócrates������������������������������������������������� 67
Descobrindo A República de Platão e outras obras������������������������������ 69
Argumentando com Aristóteles������������������������������������������������������������������������� 71
Tudo tem um propósito���������������������������������������������������������������������������� 72
Fazendo sucesso no mundo islâmico����������������������������������������������������� 73
Escrevendo seu caminho para o reconhecimento ������������������������������� 74
Encontrando a verdade����������������������������������������������������������������������������� 75

Capítulo 5: Da Idade das Trevas à Atualidade������������������������������������77


Provando a Existência de Deus na Europa Medieval�������������������������������������� 78
Tentando entender Santo Agostinho������������������������������������������������������� 79
Entendendo Deus: O argumento ontológico������������������������������������������ 82
Examinando a evidência com Tomás de Aquino���������������������������������� 82
Tentando Viver sem Deus����������������������������������������������������������������������������������� 84
Lidando com a dúvida de Descartes������������������������������������������������������� 84
Procurando Espinoza�������������������������������������������������������������������������������� 87
Uma olhada em Locke������������������������������������������������������������������������������ 87
Percebendo com Berkeley����������������������������������������������������������������������� 89
Sendo despertado por Hume������������������������������������������������������������������� 90
Pensando Como Máquinas��������������������������������������������������������������������������������� 92
Aprendendo a amar Leibniz��������������������������������������������������������������������� 93
Marchando ao lado de Hegel no ritmo da razão dialética������������������� 97
Tirando Kant de seus cochilos dogmáticos�������������������������������������������� 98

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


Sumário   xiii
Botando a Filosofia de Lado com a Matemática������������������������������������������� 100
A matemática de contar cachorros������������������������������������������������������� 101
Filosofia analítica������������������������������������������������������������������������������������� 103

Capítulo 6: Uma Olhada na Filosofia Oriental ����������������������������������105


Contemplando o Misterioso Tao���������������������������������������������������������������������� 106
Tao Te Ching�������������������������������������������������������������������������������������������� 106
Fazendo I Ching��������������������������������������������������������������������������������������� 108
Homenageando Confúcio�������������������������������������������������������������������������������� 110
Encontrando-se com Mêncio����������������������������������������������������������������� 113
Tremulando com Chuang Tzu���������������������������������������������������������������� 114
Debatendo com Buda��������������������������������������������������������������������������������������� 115
Aceitando o Sofrimento: Hinduísmo��������������������������������������������������������������� 116
Nascendo outra vez: Reencarnação������������������������������������������������������ 117

Capítulo 7: Entendendo os “Ismos”����������������������������������������������������121


O que É um Ismo?���������������������������������������������������������������������������������������������� 121
Escolhendo entre Empirismo e Idealismo������������������������������������������������������ 124
Implorando por uma abordagem mais prática������������������������������������ 124
Recheando frangos com Francis Bacon����������������������������������������������� 125
Tentando Detalhar o Idealismo����������������������������������������������������������������������� 126
O idealista ideal��������������������������������������������������������������������������������������� 127
Fazendo poções mágicas com George Berkeley��������������������������������� 129
Aplicando Utilitarismo�������������������������������������������������������������������������������������� 130
Deixando Tudo em Suspenso com o Relativismo����������������������������������������� 134
Rejeitando a Emoção com o Estoicismo�������������������������������������������������������� 136
Duvidando com os Céticos������������������������������������������������������������������������������ 136
Evitando “Ismos” Perigosos������������������������������������������������������������������������������ 138

Parte III: O Feijão com Arroz da Filosofia���������������������������� 141

Capítulo 8: Vendo os Limites da Lógica���������������������������������������������143


Entendendo o que a Lógica É Realmente������������������������������������������������������ 144
Apreciando as Coisas que Aristóteles Acertou���������������������������������������������� 145
Fazendo inferências�������������������������������������������������������������������������������� 146
Investigando silogismos�������������������������������������������������������������������������� 147
Sai a informalidade — entram os sistemas formais!���������������������������� 149
Quando um argumento é válido?���������������������������������������������������������� 150
Regras e ferramentas������������������������������������������������������������������������������� 151
Dizendo a verdade por meio de tabelas����������������������������������������������� 154
Corrigindo as Coisas que Aristóteles Errou����������������������������������������������������� 155
Desenvolvendo a lógica moderna��������������������������������������������������������� 156
Provando seus argumentos e arranjando seus termos������������������������ 158

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


xiv  Filosofia Para Leigos

Detectando Falácias������������������������������������������������������������������������������������������ 159


Falácias e táticas falaciosas em argumentação informal�������������������� 161
Examinando Declarações sem Sentido���������������������������������������������������������� 163

Capítulo 9: Entendendo o Conhecimento ������������������������������������������165


Lançando as Bases do Conhecimento������������������������������������������������������������ 165
Afinando a língua com a epistemologia����������������������������������������������� 168
Sabendo as coisas instintivamente�������������������������������������������������������� 169
Admirando a intuição����������������������������������������������������������������������������� 170
Decodificando o Empirismo e o Racionalismo��������������������������������������������� 171
Deduzindo Verdades Impressionantes com Descartes��������������������������������� 173
A segunda meditação de Descartes������������������������������������������������������� 173
Passando uma semana preguiçosa com Descartes
sonhando na fornalha������������������������������������������������������������������������ 175

Capítulo 10: Separando Fato de Ficção����������������������������������������������179


Como Saber se Você Não Está Sonhando Agora Mesmo? ��������������������������� 180
Duvidando de Tudo com Descartes���������������������������������������������������������������� 182
Penso, logo existo������������������������������������������������������������������������������������ 183
Dualismo��������������������������������������������������������������������������������������������������� 183
Lembrando o Papel da Memória��������������������������������������������������������������������� 183
Usando a mente como estoque������������������������������������������������������������� 184
Examinando questões de identidade���������������������������������������������������� 185
Usando máquinas de transferência de mente�������������������������������������� 186
Ouvindo as histórias da mente subconsciente������������������������������������� 187
O que Acontece Quando o Cérebro Erra?������������������������������������������������������ 191
Dr. Sacks e seus contos curiosos������������������������������������������������������������ 192
A filosofia encontra a neurociência������������������������������������������������������ 194

Capítulo 11: Interpretando a Linguagem��������������������������������������������197


Desconstruindo a Linguagem�������������������������������������������������������������������������� 198
Conversando com os gregos antigos����������������������������������������������������� 200
Construindo o estruturalismo����������������������������������������������������������������� 203
Confiando na gramática�������������������������������������������������������������������������� 205
Fazendo jogos de palavras���������������������������������������������������������������������� 206
Conduzindo Investigações Filosóficas com Wittgenstein����������������������������� 208
Mexendo em Termos de Cores com Pinker��������������������������������������������������� 209
Investigando as Causas de Incêndios com Benjamin Whorf������������������������ 211
Encontrando Relatividade Linguística entre os Índios Hopi������������������������ 213
Desconstruindo a Linguagem Novamente com Derrida������������������������������� 214

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


Sumário   xv
Parte IV: Explorando a Mente, a Consciência
e a Moralidade������������������������������������������������������������������ 219

Capítulo 12: Explorando a Estranha Noção de Mente��������������������221


Tentando Entender a Filosofia da Mente�������������������������������������������������������� 221
Testando o Problema de Pesky de Outras Mentes����������������������������������������� 223
Examinando a mente com mais conforto, um tempo depois������������ 224
Encontrando o outro misterioso������������������������������������������������������������ 225
Fazendo computadores realizarem testes na Sala Chinesa���������������� 227
Explorando o Existencialismo com o Fantasma na Máquina de Ryle�������� 231
Atendo-se ao seu senso de identidade pessoal������������������������������������ 231
Descobrindo a Vontade para Filosofar����������������������������������������������������������� 234
Encontrando a vontade de viver na filosofia francesa������������������������ 236
A ética como o encontro com o outro�������������������������������������������������� 237

Capítulo 13: Olhando a Ética e a Moralidade������������������������������������239


O que Deus Faria?���������������������������������������������������������������������������������������������� 240
Apontando a Diferença entre Certo e Errado������������������������������������������������ 243
Alcançando o equilíbrio na China Antiga�������������������������������������������� 246
Conseguindo apenas um pouco de justiça������������������������������������������� 246
Tomando decisões de vida ou morte���������������������������������������������������� 247
Olhando práticas de negócio����������������������������������������������������������������� 248
Separando a tortura��������������������������������������������������������������������������������� 249
Olhando os três Rs da lei������������������������������������������������������������������������ 251
Entendendo as Principais Teorias Éticas�������������������������������������������������������� 251
Separando ética e metaética������������������������������������������������������������������ 252
Pesando utilitarismo e consequencialismo������������������������������������������ 253
Não deixe de cumprir com seu dever��������������������������������������������������� 255
Sendo virtuoso com Aristóteles�������������������������������������������������������������� 258
Sendo emocional com o relativismo, o emotivismo
e a antimoralidade������������������������������������������������������������������������������ 263
Aplicando Ética a Casos Difíceis��������������������������������������������������������������������� 265
Quando é certo matar?���������������������������������������������������������������������������� 266
Livrando-se de gente velha��������������������������������������������������������������������� 266
Separando o planeta������������������������������������������������������������������������������� 267
Examinando a ética ambiental�������������������������������������������������������������� 268
Dando direitos aos animais�������������������������������������������������������������������� 269
Tomando o vegetarianismo�������������������������������������������������������������������� 271

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


xvi  Filosofia Para Leigos

Capítulo 14: Filosofia Política��������������������������������������������������������������277


Conhecendo os Grandes Filósofos Políticos�������������������������������������������������� 278
Escolhendo entre Autoridade e Anarquia: Platão����������������������������������������� 278
Necessárias: Algumas boas Thatchers��������������������������������������������������� 279
Entrando na República de Platão���������������������������������������������������������� 281
Saudando Hegel e o Totalitarismo������������������������������������������������������������������ 284
Uma batalha sangrenta��������������������������������������������������������������������������� 285
O Absoluto������������������������������������������������������������������������������������������������ 286
Temendo Hitler e os Efeitos Cativantes da Propaganda������������������������������� 286
Mein Kampf���������������������������������������������������������������������������������������������� 288
Nazismo����������������������������������������������������������������������������������������������������� 290
Manipulando a opinião pública com propaganda������������������������������ 291
Marchando pelo Marxismo������������������������������������������������������������������������������ 295
O Manifesto Comunista��������������������������������������������������������������������������� 296
O problema com o capitalismo������������������������������������������������������������� 298
Economia marxista: Predições do apocalipse������������������������������������� 298
Marxismo e psicologia humana������������������������������������������������������������� 300
Assinando o Contrato Social���������������������������������������������������������������������������� 300
Preocupando-se com o mundo mau de Hobbes��������������������������������� 301
Desafiando Hobbes��������������������������������������������������������������������������������� 303
Aplicando a Cola Social de Maquiavel����������������������������������������������������������� 304

Capítulo 15: Cuidando da Liberdade ��������������������������������������������������307


Louvando a Liberdade: A Declaração de Independência
Norte-Americana������������������������������������������������������������������������������������������� 308
Fazendo emendas������������������������������������������������������������������������������������ 309
Guardando a Constituição: A Suprema Corte�������������������������������������� 311
A Constituição e a política���������������������������������������������������������������������� 311
Lucrando com o Comércio de Escravos com John Locke��������������������������� 312
Todos são iguais (bem, quase todos)���������������������������������������������������� 313
Propriedade de escravos: Filosoficamente, está tudo bem���������������� 316
Dando uma Virada Democrática com J. S. Mill��������������������������������������������� 317
Votando na Vida, Liberdade e Busca por Riqueza��������������������������������������� 319
Buscando Igualdade de Resultado ou de Oportunidade����������������������������� 319

Capítulo 16: Estética e Valores Humanos������������������������������������������323


Então, o que Exatamente É Arte?�������������������������������������������������������������������� 324
Argumentando sobre Arte e Intenções����������������������������������������������������������� 325
Descobrindo falsificações����������������������������������������������������������������������� 326
Arte africana ou kitsch de rua?��������������������������������������������������������������� 327
Censurando livros������������������������������������������������������������������������������������ 330
Apreciando o Senso Estético���������������������������������������������������������������������������� 330
Considerando Estética, Arte e Beleza������������������������������������������������������������� 331
Lustrando a visão sublime de Kant�������������������������������������������������������� 333
Reconhecendo a armadilha do belo����������������������������������������������������� 335

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


Sumário   xvii
Respeitando a visão desagradável de Nietzsche���������������������������������� 337
Escolhendo entre Arte Banida e Aprovada���������������������������������������������������� 338
Diotima no Sexo Grego��������������������������������������������������������������������������� 342
Testando os limites da liberdade de expressão����������������������������������� 342
Retornando à Natureza������������������������������������������������������������������������������������� 343
Caminhando no bosque com Thoreau������������������������������������������������� 344
Valorizando as maravilhas da natureza������������������������������������������������ 345

Parte V: Filosofia e Ciência������������������������������������������������� 349

Capítulo 17: Da Ciência Antiga à Filosofia Moderna����������������������351


Teorizando Sobre Tudo com os Primeiros Filósofos Gregos������������������������ 352
Vendo água por toda parte com Tales�������������������������������������������������� 352
Dividindo tudo em átomos com Demócrito����������������������������������������� 353
Descobrindo o Mundo com os Filósofos Naturalistas����������������������������������� 354
O não ser e o nada����������������������������������������������������������������������������������� 354
Briga sobre a ciência: Aristóteles e Platão�������������������������������������������� 356
Abrindo o livro da natureza com Isaac Newton���������������������������������� 357
Fazendo amizade com a natureza��������������������������������������������������������� 359
Explicando a evolução com Darwin����������������������������������������������������� 360
Descobrindo a relatividade com Galileu���������������������������������������������� 361

Capítulo 18: Investigando a Ciência Social��������������������������������������365


Entendendo a Ciência Social��������������������������������������������������������������������������� 365
Mantendo-se Positivo com Comte������������������������������������������������������������������� 366
Socializando com Durkheim���������������������������������������������������������������������������� 368
Regras e sociedade���������������������������������������������������������������������������������� 369
Sociedades simples e complexas����������������������������������������������������������� 371
Sendo Burocrático com Weber����������������������������������������������������������������������� 372
Tratando Pessoas como Entidades Econômicas������������������������������������������� 374
Sentindo a mão invisível de Adam Smith��������������������������������������������� 375
Manipulando o mercado com J. K. Galbraith�������������������������������������� 377
Mais manipulação de pobres consumidores���������������������������������������� 380
Desacreditando o herói capitalista de Ayn Rand�������������������������������� 382
Descobrindo mercados e a teoria do caos������������������������������������������� 384

Capítulo 19: Explorando a Verdade Científica e as


Tendências Científicas�������������������������������������������������������������������������387
Montando o Cenário: Razão e Ciência����������������������������������������������������������� 388
Ptolomeu e as esferas������������������������������������������������������������������������������ 388
Kant: Razão e a não Razão��������������������������������������������������������������������� 389
Causando Problemas à Ciência com o Problema da Causa������������������������ 390
Compreendendo causa e efeito������������������������������������������������������������� 390
Sendo desafiado por Hume�������������������������������������������������������������������� 390
Deixando Cisnes Negros Destruírem Teorias Caras��������������������������������������� 394

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


xviii  Filosofia Para Leigos

Mudando de Paradigmas e Causando Revoluções Científicas�������������������� 395


Analisando como os cientistas realmente trabalham:
Thomas Kuhn�������������������������������������������������������������������������������������� 396
Abolindo o método com Paul Feyerabend ����������������������������������������� 398
Comparando a Mecânica Quântica com a Mecânica Comum�������������������� 400
Consultando a teoria quântica��������������������������������������������������������������� 400
Pensando sobre a indeterminação ������������������������������������������������������� 402
A teoria da incompletude����������������������������������������������������������������������� 403
Forças estranhas sendo inventadas para unir os
átomos novamente����������������������������������������������������������������������������� 404

Parte VI: A Parte dos Dez��������������������������������������������������� 407

Capítulo 20: Dez Livros Filosóficos Famosos — e o que


Eles Dizem������������������������������������������������������������������������������������������������409
A Crítica da Razão Pura, de Immanuel Kant�������������������������������������������������� 409
A República, de Platão������������������������������������������������������������������������������������� 410
Temor e Tremor, de Søren Kierkegaard���������������������������������������������������������� 410
Ética, de Baruch Espinoza�������������������������������������������������������������������������������� 411
Discurso do Método, de René Descartes�������������������������������������������������������� 411
Tratado da Natureza Humana, de David Hume�������������������������������������������� 412
Leviatã, de Thomas Hobbes����������������������������������������������������������������������������� 412
Três Diálogos Entre Hylas e Philonous, de George Berkeley������������������������ 413
Ética (A Nicômaco), de Aristóteles����������������������������������������������������������������� 414
Existencialismo e Humanismo, de Jean-Paul Sartre�������������������������������������� 415

Capítulo 21: Dez Desafios Filosóficos para


Mantê-lo Pensando��������������������������������������������������������������������������������417
Investigando o Problema de Protágoras��������������������������������������������������������� 417
Brincando na Caixa de Areia com o Problema de Sorites��������������������������� 419
Identificando a Meia de Locke������������������������������������������������������������������������ 420
Conhecendo sua Própria Mente com Monstros do Pântano������������������������ 420
Perdendo suas Bolas de Gude com Professor Davidson������������������������������ 422
Brigando pela Tábua de Carnéades���������������������������������������������������������������� 422
Desistindo da Realidade com a Máquina X-perience����������������������������������� 423
Saltando pelo Cosmos��������������������������������������������������������������������������������������� 424
Preocupando-se com o que Acontece Depois que o Sol se Põe����������������� 425
Levando a Relatividade no Elevador de Einstein������������������������������������������ 426

Índice������������������������������������������������������������������������������� 429

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


Introdução

F ilosofia Para Leigos! Que tal isso? Na verdade, não parece muito certo.
Filosofia Para Pessoas Pensativas, talvez. Filosofia Para Gênios. Sim,
gosto desse jeito. Mas Filosofia Para Leigos, não. Porque a filosofia tem
um certo toque de classe: tem um certo status, bem grandioso. Você não
acha? Quantos geógrafos, ou químicos, ou astrônomos antigos são citados
carinhosamente todos os dias, não apenas por interesse histórico, mas
como autoridades? Os filósofos certamente são. Quantos sujeitos podem
sobreviver simplesmente com reimpressões, sem terem que produzir novo
material? A filosofia é assim. Nós preferimos ler as palavras de um filósofo
antigo, ou pelo menos um filósofo falecido altamente conhecido, a ouvir
as últimas ideias de algum professor vivo que, muito provavelmente, não
será lembrado em mil anos.

Então, sim, a filosofia tem um lado um tanto pesado, sério, e é adequada


àqueles sujeitos sérios, graves. Porém essa é só uma forma de vê-la. Ela é
também um assunto surpreendentemente atraente. Afinal, quantos Cafés
Geográficos há por aí? Encontros informais de jovens discutindo geografia
nos bares? Não muitos. Mas há jovens discutindo filosofia. E quantas
pessoas correm para fazer um curso com o fim de ensinar, digamos,
química para crianças muito novas — chamando isso de Química Para
Crianças, talvez? Mas a Filosofia Para Crianças (quer dizer, menores de sete
anos) decolou mesmo — e os pequenos a adoram!

O que é mais notável, os “pequenos” são muito bons nisso. E é por isso que
Filosofia Para Leigos não é uma ideia tão estúpida. As verdadeiras questões
e as reais ideias da filosofia pertencem a todos, e ela sempre esteve
tradicionalmente um pouco presa a seu pedestal, um tanto cheia demais
de seu jargão obscuro, termos em latim e assim por diante, então há muitas
razões para esmiuçá-la um pouquinho e devolvê-la para os lugares, onde
começou, as arenas públicas, como uma busca para todos. Espero ao
término deste livro tê-lo convencido de que você também pode “filosofar”
— e, igualmente importante, que alguns daqueles especialistas em
filosofia, cujos livros chatos podem tê-lo afastado antes, não estejam tão no
topo do assunto quanto acham que estão. Subversivo? Bem, sim. Mas isso
é filosofia. É por isso que ela importa. E é por isso que todo mundo deveria
se interessar por ela.

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


2  Filosofia Para Leigos

Sobre Este Livro


Filosofia Para Leigos oferece duas coisas a você. Primeiro, os fatos
essenciais — o básico — de 3.000 anos de pessoas filosofando. E segundo,
oferece as ferramentas de métodos e técnicas para lidar com problemas e
perguntas traiçoeiras. Essas ferramentas são o que de fato tornam a filosofia
valiosa, visto que podem ser utilizadas igualmente bem no decorrer da
vida, não apenas em problemas filosóficos tradicionais.

Convenções Utilizadas Neste Livro


Para ajudá-lo a tirar o máximo deste livro, sigo algumas convenções:

UUO itálico enfatiza e destaca novas palavras ou termos estranhos que eu


definirei em seguida...
UUOs boxes (aquelas caixas cinzas com as quais você irá se deparar
de vez em quando) contêm deliciosos trechos de trabalhos
filosóficos clássicos, normalmente baseados em traduções padrão
contemporâneas, mas vez por outra serão levemente reformulados
para que a leitura seja mais natural.
UUEu não dou datas o tempo todo, por exemplo, em relação
aos filósofos ou seus livros, exceto quando sinto que é diretamente
útil à passagem.

Só de Passagem...
O livro está dividido em cinco partes, mais a já comum “Parte dos Dez”
do Para Leigos. Essas partes, assim como os capítulos, podem ser lidas
em qualquer ordem. Da mesma forma, dentro de cada capítulo, o uso
extensivo de notas laterais, títulos e subtítulos convida e permite que você
entre e saia do texto. Não há necessidade de ler este livro de cabo a rabo,
simplesmente pegue ideia por ideia, debate por debate. E faça muitas
pausas para pensar, claro!

Você verá vários ícones sobre o texto que você pode ler ou deixar para lá:
espero que goste do ícone “Ideia de Jerico”, que, é claro, não é sério, e que
confira o “Experiência de Pensamento” sempre que ele aparecer.

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


Introdução   3

Penso que...
Ao escrever este livro, pensei algumas coisas sobre quem você é:

UUVocê é curioso e motivado a descobrir mais sobre filosofia, mesmo


que não esteja 100 por cento certo de como fazê-lo.
UUTem a mente aberta e não alcançou a plenitude de opções sólidas
— especialmente as filosóficas.
UUEstá interessado em saber sobre as ligações entre diferentes
tradições e ideias filosóficas.
UUEstá aberto à ideia de que a filosofia é um campo bem amplo, que
vai das ciências naturais e sociologia até as buscas tradicionais por
cursos padrão de faculdade.

Além disso, não presumi muito; espero. Este livro é para você, quer tenha
sete ou setenta anos, seja PhD ou membro do parlamento.

Como Este Livro Está Organizado


Um pouco mais sobre as seis partes de Filosofia Para Leigos.

Parte I: O que É Filosofia


Ótimo lugar para começar! Mas, honestamente, “o que é filosofia” é um
ponto mais difícil de definir do que deveria. A minha interpretação não é
como a versão da maioria dos outros filósofos, porém eu estou longe de só
defender que a filosofia é uma ferramenta prática para lidar com questões
reais. Esta parte esboça os alvos gerais e o “escopo” da filosofia, garantindo
que o que hoje chamamos de “ciência” seja colocado onde deve — no
cerne do assunto. A Parte I termina estabelecendo algumas das técnicas de
que você precisará para de fato começar a “fazer filosofia”, praticando-a
como uma atividade.

Parte II: A História da Filosofia


Esta parte cobre tudo que você precisa saber sobre o que os filósofos
disseram e argumentaram e fizeram de fato no passado. Da origem de
vários debates filosóficos, tanto na Grécia quanto na China antigas, até os
últimos ismos filosóficos confusos (como existencialismo e utilitarismo),
esta parte esclarece os debates e os coloca em contexto.

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


4  Filosofia Para Leigos

Parte III: O Arroz com Feijão da Filosofia


Esta é a seção do “como” — como usar a “lógica” eficientemente, como
descobrir coisas (em vez de somente pensar que descobriu algo e estar
enganado!) e como ficar com um pé atrás com tudo que acabou de
descobrir e perceber que, na verdade, você ainda não sabe realmente. Isso
pode parecer com desfazer o básico de sua ferramenta filosófica, mas, ei,
isso também é meio útil. O problema é: ninguém sabe (ainda) como reunir
tudo que “nós sabíamos”.

Parte IV: Explorando a Mente, a


Consciência e a Moralidade
Esta é sem dúvida a parte mais valiosa do livro. Por que digo isso? Porque
tem a ver com valores. E, embora isso soe meio como “pregação” — vá
para casa, Vigário! —, quando tiver lido, acho que irá querer chamar o
Vigário de volta, sentar com ele para um chá com biscoitos e discutir
muitas das questões levantadas aqui, de “O que é Arte?” até se as forças
econômicas sempre funcionam para o melhor.

Parte V: Filosofia e Ciência


Os filósofos são meio ressentidos com a ciência. Na verdade, a maioria
das apresentações da filosofia e algumas universidades consideram que a
filosofia da ciência não é filosofia propriamente dita de jeito nenhum — e
que, talvez, devesse estar em um livro (ou sala de aula) separado, bem,
bem longe. Essa é uma visão bem estúpida, como esta parte mostrará. E,
de fato, a ciência, cada vez mais, está na ponta da filosofia, com filósofos
tradicionais lutando para se unirem a seus colegas supostamente práticos.
Não fique para trás — leia isto e entre nos grandes novos debates!

Parte VI: A Parte dos Dez


Todo livro Para Leigos tem uma. A Parte dos Dez oferece capítulos
pequenos cheios de desafios filosóficos tentadores e deliciosos trechos de
textos filosóficos.

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


Introdução   5

Ícones Utilizados Neste Livro


Espalhados pelo livro, você verá vários ícones para guiá-lo em seu caminho.
Os ícones são uma forma da Para Leigos de chamar atenção para algo
importante, interessante e de que você precisa saber para ficar atento.

Partes essenciais de informação que compensam uma, bem,


olhada melhor.

Isto é coisa que talvez você queira guardar em seu banco de memórias
— as melhores partes da filosofia.

Os filósofos adoram sua terminologia obscura e linguajar exclusivo.


Este ícone dará traduções claras e diretas.

É o outro lado da moeda — isto é, coisas que, talvez, você queira


apagar do seu banco de memórias, mas não fique tentado a fazê-lo,
essas ideias ainda têm influência e são parte da história da filosofia.

Estes são cenários imaginários que investigam problemas filosóficos de


uma maneira mais científica.

Pequenos pedaços de informação para suavizar seu entendimento.

Tome nota cuidadosa dos conselhos neste ícone e você


evitará calamidades.

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


6  Filosofia Para Leigos

Daqui para Lá, de Lá para Cá


Eu organizei este livro de forma que você possa ler o que bem entender
quando quiser. Ele não é escrito especificamente para ser lido do
início ao fim, embora você possa fazê-lo se quiser. Em geral, contudo,
você encontrará o que deseja ler no Sumário ou no Sumário resumido
e poderá ir direto para a seção. Ou, se preferir ler de uma maneira
mais convencional, a Parte I dará a você o básico para começar
do zero na filosofia e irá direcioná-lo a outros pontos no livro onde
encontrará informação mais detalhada em assuntos nos quais esteja
particularmente interessado.

Boa sorte e... feliz filosofia!

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


Parte I

O que É Filosofia?

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


Nesta parte...
F ilosofia é um nome bem bacana para um assunto bem bacana.
A maioria de nós não precisa saber qualquer coisa a respeito,
você pensaria. Jardinagem, como dirigir carros, talvez um pouco
de informática hoje em dia, mas filosofia? Acorde-me quando o
professor sair!
Mas a filosofia não é chata nem inútil de jeito nenhum. Esta parte
explica por que você pode achar incrivelmente útil ler o resto do livro
e por que apreciaria descobrir tudo sobre todas aquelas questões
filosóficas estranhas, desafios e ideias. Pronto? Então, chega mais!

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


Capítulo 1

Do que Trata a Filosofia?


Neste Capítulo
XX
Uma abordagem leve sobre alguns enganos a respeito da filosofia
XX
Captando algumas das grandes ideias
Retornando à história antiga e explorando a origem das ideias filosóficas
XX
fundamentais

N este capítulo, nós descobrimos “o que é a filosofia” — e o que era


também (que não é a mesma coisa). Resolvemos imediatamente
um dos maiores problemas da filosofia — o problema do conhecimento —
e vemos as experiências de uma galinha gananciosa e uma meia furada.

Definindo o Trabalho
Filosofia é a “terra de ninguém” entre a ciência e a teologia, sob
ataque de ambos os lados.

— Bertrand Russel

Ou, como os filósofos podem preferir, ciência e religião são na verdade duas
fatias de pão, com a filosofia sendo o recheio saboroso no meio. Os cientistas
reduzem o mundo à “matéria”, transformam o mundo em uma máquina e
destroem o livre-arbítrio e o propósito. Por outro lado, os tipos espirituais, que
buscam um propósito e a liberdade de encontrá-lo, são atraídos para religiões
e todas aquelas atividades “irracionais”, como astrologia e assistir TV. E eles
não sentem a menor necessidade de realizar algo. Entre os dois campos,
parece que não sobra muito espaço para a filosofia!

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


10  Parte I: O que É Filosofia?

Vista de fora, a filosofia parece ser um assunto bem peculiar, para não dizer sem
sentido, cheia de charadas não respondidas e perguntas como “O rei da França é
careca?” ou “Aquela mesa existe?”, o que ninguém em seu juízo perfeito faria.

De fato, os cursos de filosofia frequentemente começam (como se


determinados a refutar o ponto, mas inadvertidamente apenas o
reforçando) perguntando “O que é filosofia?” — uma pergunta que
nenhum estudo com respeito próprio normalmente precisaria fazer. O que
é química? O que é gastronomia? O que é geografia? Ainda assim, filósofos
certamente parecem gostar de fazer essas perguntas com “o que é”, e fazê-
las sobre seu próprio tema parece ser a coisa certa a fazer. O ponto para
eles, no final das contas, é fazer perguntas, não respondê-las.

Então, o que é filosofia?


Filosofia é um assunto sem um conteúdo em particular e não cobre
nenhuma área específica. É, sim, um tipo de cimento intelectual que tenta
unir o restante do edifício intelectual (isso soa grandioso).

Ou, colocando de outra forma (que soa menos grandiosa), a filosofia


é um tipo de estrume. Faça uma pilha grande em alguns lugares e
ele apodrece e começa a feder. Mas espalhe-o por aí e ele se torna
surpreendentemente útil. Essa foi a visão de alguns defensores da filosofia
no final do século passado. Ao mesmo tempo, pessoas de todo o Mundo
Ocidental perguntavam “Qual é o sentido da filosofia?” e decidiram que
não havia um. As pessoas estavam começando a ver departamentos de
filosofia fazendo treinamento para fazer perguntas esquisitas e impossíveis
de serem respondidas ou para repetir pedaços de textos antigos como
perda de tempo. À fria luz da retração econômica, críticos consideraram
desperdício de dinheiro os esforços de filósofos sérios em investigar os
seguintes problemas sagrados da filosofia e outros similares:

UUComo eu sei que existo?


UUComo eu sei que Deus existe?
UUComo eu sei que o mundo existe?
UUO céu é azul?
UUSe uma árvore cair em uma floresta e não houver ninguém para
ouvir, ela faz algum som?

Então qual é o sentido da filosofia?


Por outro lado, os esforços dos práticos para encontrar um sentido em suas
áreas — médicos, advogados, astrônomos, físicos, químicos, historiadores,

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


Capítulo 1: Do que Trata a Filosofia?   11
linguistas, qualquer um precisa fazê-lo — sempre pareciam voltar a
certas perguntas paradoxais ou traiçoeiras que são, essencialmente, bem,
filosóficas. Então, mesmo que a filosofia como hobby das classes abastadas
tenha sido jogada fora, entrou em cena a filosofia como estudo prático
— na forma de minicursos para a ética médica, ou empresarial, ou como
pensamento crítico e (para os cientistas) teorias de espaço e tempo.

E isso foi, de certa forma, o retorno às raízes da filosofia — porque, para os


gregos antigos (que inventaram a palavra, mas certamente não a atividade,
não importa o que você leia por aí!), a filosofia é um guia de ação —,
ajudando a responder a perene questão: “O que eu devo fazer?”.

Amando a Sabedoria
Faz bastante sentido para muitas mentes filosóficas hoje em dia evitar o
uso da palavra filosofia e, em vez disso, estudar questões práticas.

O pessoal médico pode querer dar uma olhada em perguntas como:

UUQuando começa a “vida”?


UUO que é consciência?

O sujeito empresário pode querer ponderar a respeito de charadas como:

UUQuando empresas de sucesso se tornam monopólios?


UUAs organizações têm a obrigação de distribuir riqueza?

E físicos e químicos podem se perguntar:

UUO tempo pode retroceder?


UUHá em Marte uma forma de água composta de três átomos de
hidrogênio e dois de oxigênio (H3O2 em vez de H2O) — e, se
houver, ainda é água?

Eventualmente todo mundo começa a se perguntar:

UUUnicórnios têm um ou dois chifres?


UUTodos os solteiros são (realmente) homens não casados?

Mas aguenta aí! Isso não está ficando um pouco como os antigos e
tradicionais cursos de filosofia? As perguntas não são práticas de jeito
nenhum! O que mudou? E a resposta é, claro, nada mudou. Os filósofos, no
final das contas, não gostam de mudança. Eles gostam de verdade e certeza.
Gostam de problemas nos quais sejam os únicos especialistas. Ainda assim,
mesmo que “filósofos profissionais” estejam relutantes em mudar, quando os
práticos olham o tema, os fundamentos da filosofia tornam-se mais claros.

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


12  Parte I: O que É Filosofia?

Guias recentes sobre “o que é a filosofia”


Está se perguntando o que a filosofia real- que as pessoas engajadas em pensar e
mente é? Esses quatro escritores oferecem escrever sobre o tema fazem constante-
algumas das respostas mais populares: mente. A sugestão é que a filosofia é o
estudo da justificativa.”
“O que é filosofia? Esta é uma pergun-
ta notavelmente difícil. Uma das formas — John Hospers em An Introduction to
mais fáceis de respondê-la é dizer que Philosophical Analysis (“Uma Introdução
filosofia é o que os filósofos fazem e, à Análise Filosófica”, em tradução livre)
então, apontar os escritos de Platão,
De todas, a primeira não passa do que filó-
Aristóteles, Descartes... e outros filóso-
sofos de verdade chamam de argumento
fos famosos.”
circular — imediatamente levanta a questão:
— Nigel Warburton em O Básico da se filosofia é o que os filósofos fazem, então
Filosofia o que torna alguém um filósofo? Claramente
é fazer filosofia. E a única resposta possível
“Filosofia, substantivo. O assunto deste
para essa pergunta é: a coisa que torna al-
dicionário. Aqueles que a estudam dis-
guém filósofo é fazer filosofia. Certamente
cordam até hoje sobre como deveriam
parece plausível, mas a resposta coloca-o
definir seu campo.”
em um círculo.
— Geoffrey Vesey e Paul Foulkes em seu
A segunda resposta é francamente uma en-
Dicionário de Filosofia
cheção de linguiça. Mas poupa muita chate-
“Filosofia é pensar sobre o pensar.” ação ao escritor! (Eu optei por essa resposta
quando editei um dicionário também.)
— Richard Osborne em Filosofia Para
Principiantes A terceira resposta é mais artística, mas está
simplesmente errada.
“O que é filosofia? Muitas pessoas que
têm estudado e pesquisado o assunto A quarta resposta é mais complicada, mas,
por anos não concordariam com uma basicamente, diz que filosofia é o estudo
definição... Assim como você só pode das razões que as pessoas têm para pensar
aprender a nadar entrando na água, só como pensam — para mergulhar um pouco
pode saber o que acontece em filosofia mais fundo em um ou outro assunto. E, tal-
envolvendo-se com ela. Todavia, para vez, então, por mais inadequada que pareça,
descrever a filosofia, vamos experimen- essa última resposta pode ainda ser a me-
tar pelo menos uma sugestão plausível lhor. Isso porque foi a única que ficou de pé
que cobre a maior parte, se não tudo, do depois que as outras foram derrubadas.

A filosofia não é um corpo de conhecimento com um conjunto de


“respostas” a perguntas comuns para serem aprendidas. A filosofia é uma
técnica, uma forma de desembaralhar e examinar a realidade para que
não só você a compreenda um pouco melhor, mas para que possa atuar
mais efetivamente, alcançar seus objetivos mais completamente, viver um

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


Capítulo 1: Do que Trata a Filosofia?   13
pouco melhor. E não é contradição dizer que a cada vez mais, atualmente,
encontramos os verdadeiros filósofos não em departamentos de filosofia
empoeirados, debruçados sobre os jornais equivocadamente chamados
de “filosofia”, cheios de lançamentos de linguagem (discutindo sobre as
definições de palavras) e matemática não muito boa (lógica filosófica),
mas em hospitais, em tribunais de recurso, laboratórios de física — em
qualquer lugar, menos lá em cima nas torres de marfim.

Por outro lado, e certamente para muitos colegas professores, os livros e


artigos de filosofia são textos importantes nos quais os filósofos apresentam
os frutos de seu trabalho intelectual — abundantes em “teorias”, como
a da identidade corpo-mente, e também superteorias ou abordagens
teóricas, como o Idealismo e o Materialismo. Para muitos professores
de “filosofia”, o trabalho consiste não apenas na apresentação de uma
técnica, mas também na apresentação de um corpo de pensamento
desenvolvido no decorrer do milênio pelo uso dessa técnica.

Decidindo o que Conta como


Conhecimento “Real”
É claro que filósofos profissionais podem ajudar a encontrar respostas também
— quando querem. De fato, filósofos podem ter um papel especial como uma
espécie de árbitro ou juiz em disputas que surgem dos fundos de pesquisa ou
prática em todos os outros assuntos ou áreas. Eles podem entrar em uma área
sem o ônus de muitas presunções e esclarecer o fundamental. E o que poderia
ser mais fundamental do que decidir o que conta como conhecimento em
vez de meras crenças ou superstições? Porque ninguém gosta de pensar que
sabe algo se houver a chance de outra pessoa mostrar mais tarde que estava
errado. Muitos “fatos” são assim — são coisas que você acha que sabe, mas
na realidade só as toma com a confiança na pessoa (ou livro, ou programa de
TV) que lhe conta, em vez de realmente saber. Há muito poucas coisas que
você pode saber diretamente, por conta própria.

Por exemplo, “saber” que você pode morder uma maçã, porque ela é crocante,
diferente de uma pedra, que é muito dura, ou saber que o sol nascerá amanhã.
Ambas as situações parecem seguras o suficiente para contar como “coisas
que você sabe”, mas, você nem imagina, os filósofos discutem até por isso.
Seu argumento é que ambas suposições amparam-se em nada além de
experiências passadas, e experiências passadas não são um guia confiável.

O filósofo britânico do século XX Bertrand Russel conta uma história legal de


algumas galinhas para ilustrar esse problema. Essas aves domesticadas têm
um pequeno galinheiro do lado de fora da casa da fazenda, e todas as manhãs
a esposa do fazendeiro vem e joga um punhado de grãos para elas. A cada

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


14  Parte I: O que É Filosofia?

manhã, portanto, faz sentido para as aves correr para fora do galinheiro e dar
o primeiro cacarejo com os deliciosos grãos. Essa é a teoria da galinha sobre
o assunto pelo menos. Mas, um dia (sem que as galinhas saibam), a esposa
do fazendeiro está planejando fazer uma canja. Faz sentido sair correndo do
galinheiro em direção à esposa do fazendeiro aquela manhã?

Na realidade, não faz sentido a galinha fazer qualquer coisa senão


esconder-se nos fundos do galinheiro aquela manhã, mas não há evidência
retirada de experiências passadas que pudesse demovê-la dessa suposição,
e, ao contrário, há muitas evidências que a apoiariam! Isso é o que os
filósofos chamam de problema de indução, que é uma forma complicada
de raciocinar, baseando-se na presunção de que o que você já vê fala
sobre o que encontrará a seguir. As pessoas fazem isso o tempo inteiro,
mas filosoficamente não é válido; na verdade é altamente ilógico.

Por que pessoas seguem linhas ilógicas de raciocínio? A resposta é porque


(como diz John Locke) elas não têm escolha. Se você só agisse em coisas
que “realmente sabe” no caso, não agiria em muitas coisas.

Um diálogo entre duas galinhas


Imagine uma conversa entre duas galinhas monstração direta não terá certeza de nada
que estão pensando se deixam a segurança no mundo senão de perecer rapidamente”.
de seu galinheiro em uma manhã.
Galinha 1: (Impressionada.) Bem, sim, mas eu
Galinha 1: Eu não vou sair (pelos grãos); não tenho um palpite de que hoje os fazendeiros
confio naqueles fazendeiros. estão planejando nos matar! Eu não vou sair
até que você me persuada de que sem dúvi-
Galinha 2: Por que não? Eu confio neles. On-
das é seguro.
tem eles nos deram grãos, anteontem nos
deram grãos, no dia anterior a este nos de- Galinha 2: Bem, agora, minha covarde amiga,
ram grãos... Eles nos deram grãos por todo o eu tenho uma teoria que chamo de “Princí-
tempo até onde me lembro! Galinha, eu acho pio da Conservação da Crença”, que diz que
que eles vão nos dar alguns grãos hoje! se pode aceitar certas crenças básicas sem
prova absoluta se descartá-las exigisse jogar
Galinha 1: Bem, sei não, esses são apenas
fora muitas de suas outras crenças. Crenças
fatos sobre o passado. Não provam nada do
são seu mapa indispensável da realidade que
que vai acontecer desta vez. Não é nenhum
nos orienta no decorrer do dia. Conhecimen-
tipo de prova lógica, é?
to, por outro lado, é um apoio a mais.
Galinha 2: Eu me lembro de ter ouvido em al-
(A Galinha 2 deixa o galinheiro e é esganada
gum lugar que o filósofo britânico John Locke
pela esposa do fazendeiro, que estava pre-
disse uma vez: “O homem que, nas tarefas
parando o almoço de domingo.)
comuns da vida, não admitir nada além de de-

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


Capítulo 1: Do que Trata a Filosofia?   15

Alguns filósofos famosos decidindo o que


conta como conhecimento “real”
O filósofo francês René Descartes separou qualquer questão), Francis Bacon, o filósofo
crenças “claras e distintas” de outras e as inglês que tem o crédito de haver cunhado
chamou de conhecimento. Um filósofo da lin- a frase “conhecimento é poder” (pensando
guagem mais recente, de Oxford, J. L. Austin, em conhecimento prático), uma vez disse:
sugeriu que dizer que você sabe algo é dar “Se um homem for começar com certezas,
sua palavra de que é assim, fazer um tipo es- deverá terminar com dúvidas. Mas, se ele
pecial de jura. Por outro lado (e os filósofos se contentar em começar com dúvidas, pode
sempre tentam olhar para o outro lado de acabar em certezas”.

Na prática, muitas pessoas diriam que, dada a fragilidade humana, é


suficiente para dizer que você sabe algo se:

UUVocê acredita ser verdade


UUVocê tem uma boa e relevante razão para sua crença
UUA coisa em que você acredita saber é na verdade como você
acredita — você está certo!

Isso é conhecimento como o que os filósofos chamam de “crença


verdadeira justificada”. É assim chamada porque você acredita, essa é a
“porção de crença”; você tem uma razão para sua crença, essa é a porção
de justificativa; e (o que mais?) é verdade, essa é a porção (adivinha!) de
“verdade”. Selecionar conhecimento é fácil! Contudo, em muitos casos,
como naquele da Galinha 2 (veja o box anterior), algumas alegações
satisfazem todas as três condições e, ainda assim, você poderia sentir que
não contam como conhecimento real — que você precisa de algo mais
para torná-lo absolutamente certo (no Capítulo 9, abordo o que esse “algo
mais” poderia ser).

Esmiuçando Três Tipos


de Conhecimento
Há várias maneiras diferentes de saber se algo existe. Você pode saber um
fato, conhecer um amigo e pode saber pintar ou amarrar os cadarços:

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


16  Parte I: O que É Filosofia?

Razões para ação


Os fatos são bons, mas todos sabem que Crença + desejo → ação
o que motiva é tudo menos isso. Em vez de
Por exemplo, a crença de que “dinheiro
seguirem algum grande e logicamente váli-
faz as pessoas felizes” mais o desejo “eu
do sistema de dedução, as pessoas seguem
quero ser feliz” podem levar à ação “vou
seus próprios caprichos e preconceitos.
roubar um banco”.
Suas ações são afetadas por uma complexa
mistura de emoção, suspeita e preconceito Mas e se você também acreditar que rou-
puro e simples. A filosofia pode ajudar a me- bar bancos é errado? Então terá um conflito
lhorar isso? Não acredite. em seu sistema de crença que precisa re-
solver. E é aí que entra outro ótimo uso da
Muita coisa sem sentido que soa compli-
filosofia: decidir a coisa “certa” a fazer (ex-
cada está escrita sobre isso, mas o ponto é
ploro isso no Capítulo 13). Uma pena que as
que, de acordo com uma visão bem padrão,
pessoas não usem esse aspecto da filosofia
como os filósofos profissionais (e de leitura
um pouco mais!
maçante) gostam de dizer, suas crenças e
desejos determinam as razões para suas
ações. Não há lugar para fatos!

UUSaber que essa fruta é saborosa, que dois mais dois são quatro,
que o tempo estará bom amanhã
UUSaber (como) andar de bicicleta, ler, conferir provas lógicas
UUSaber (conhecer) por familiaridade a melhor maneira
de evitar o trânsito na hora do rush, uma boa loja de queijos,
os vizinhos

O primeiro tipo de conhecimento é o que mais interessa aos filósofos,


mesmo que fiquem só no que conta como conhecimento, em oposição à
mera crença ou ao julgamento de valor.

Você pode achar que separar fatos de opinião é bem simples, mas se já
é complicado ao ler o jornal de hoje, imagine com um pouco mais
de filosofia. Por exemplo, você pode pensar que seu lugar no espaço e
tempo é certo, mas muitos físicos diriam, falando estritamente, que não
há qualquer resposta absoluta ou verdadeira e que é mais uma questão de
convenção. Ou você pode achar que o apresentador da previsão do tempo
que diz que choverá amanhã não sabe realmente se choverá ou não —
mas se ele estiver certo, e daí? Ele sabia realmente?

Os filósofos são inclinados a estreitar a tarefa de definir conhecimento às


alegações mais simples, mesmo que no final não passem de tautologia (a

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


Capítulo 1: Do que Trata a Filosofia?   17
mesma coisa dita duas vezes). Eles preferem que as pessoas digam coisas
como “maçãs são maçãs”. Afaste-se dessas alegações simples e pode cometer
um erro. Por exemplo, “maçãs são frutas” só é seguro de ser dito porque todo
mundo concorda que, bem, maçãs são frutas, mas você sofrerá se disser
“tomates são frutas”! Atenha-se a “tomates são tomates” e não errará...

No final, a busca por conhecimento é simplesmente procurar sentido


em diferentes tipos de crenças. Colocando desta forma, está claro que
há diferentes tipos de conhecimento, assim como há diferentes tipos de
crença. Talvez a distinção mais importante para a filosofia esteja entre fatos
e opiniões — ou, para usar um jargão ouvido com mais frequência, entre
alegações objetivas e subjetivas:

UUAlegações objetivas tratam de coisas que “estão lá” no mundo sobre


o qual você sabe pela impressão sensorial, pela experiência e pela
medição. Isto é o que os filósofos chamam de conhecimento empírico.
UUAlegações subjetivas baseiam-se em coisas como suas opiniões
pessoais, seus valores, seus julgamentos e preferências. São
alegações que dão propósito e significado à sua vida, embora,
normalmente, os filósofos desde Platão deem a elas um status mais
baixo do que o dado às objetivas.

Explorando o Mundo Físico


à sua Volta
As pessoas frequentemente pensam que os filósofos se preocupam apenas
com ideias e abstrações e deixam o mundo físico para o pessoal com
menos cérebro, como, bem, os cientistas. E se pode facilmente traçar esse
preconceito (porque é isso que realmente é) até a figura mais importante
da filosofia antiga: o próprio Platão. Mas Platão não conseguiu persuadir
Aristóteles, que passou quase 20 anos estudando com ele, que era o caso
de preocupar-se somente com ideias. Ao contrário, o método de Aristóteles
para obter conhecimento era começar a olhar à sua volta, tanto para a
evidência física quanto para a opinião convencional da época (algo que
seu chefe, Platão, particularmente desprezava!).

Uma das experiências mais influentes de Aristóteles foi decidir se a Terra


estava — ou não — fixa, imóvel no centro do universo.

Na realidade, em torno de 2.000 anos atrás, todos diziam que a Terra era
plana e fixa no espaço. Por que pensavam isso? Bem (você não adivinharia),
é porque os filósofos haviam convencido-os por argumentos. Agora todo
mundo diz que a Terra é uma esfera girando em torno do Sol. Se você
acha que isso está correto, pode contar como pelo menos um exemplo de

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


18  Parte I: O que É Filosofia?

como “todo mundo” pode estar errado. E isso mostra o quão incrivelmente
influente a filosofia pode ser, tanto de forma positiva como negativa.

Mas, de fato, houve algum debate sobre tudo isso entre os antigos, com um
deles, Arquimedes, observando (em O Contador de Areia) que tinha ouvido
de um parceiro, chamado Aristarco, que havia feito um livro que consistia
de certas hipóteses, incluindo algumas noções impressionantes como estas:

UUAs estrelas e o Sol não se movem


UUA Terra gira em círculo ao redor do Sol, estando este no
centro da órbita
UUA distância entre a Terra e as estrelas fixas é enorme

O livro de Aristarco, contudo, perdeu a batalha de ideias, mesmo que sua


teoria da Terra móvel tenha sido influente o suficiente para um ex-pugilista
chamado Cleantes, que, entre outras coisas, foi líder dos estoicos na Grécia
antiga (os estoicos foram um grupo de filósofos cujos nomes acabaram por
parar na linguagem do dia a dia, significando pessoas que eram boas em
suportar dor!). Cleantes recomendou a condenação de Aristarco devido à:

…culpa de impiedade por colocar em movimento o lar do universo


[e] supor que o céu permanece em repouso e a Terra gira em uma
elipse, enquanto gira, ao mesmo tempo, em seu próprio eixo...

Felizmente, Aristarco nunca foi condenado, embora pareça que seu livro
desapareceu. Em vez disso, foi uma obscura teoria de outros muitos filósofos
antigos — os pitagóricos — que supunha a Terra e o Sol orbitando um “fogo
central”, que veio a desafiar a impressão costumeira de que os humanos
viviam em uma rocha imóvel em torno da qual os céus e o Sol giravam. Platão
foi muito influenciado pelos pitagóricos, e ele dá indicações (no Timeu) da
ideia, ousada para a época, de que a Terra poderia girar em seu próprio eixo.

Testando se a Terra está se movendo


A ideia de Aristarco de que a Terra poderia mover-se estava claramente
pegando! Você sabe que Aristarco estava certo, é claro, e Cleantes e todos os
outros nos séculos seguintes estavam errados. A história de como a filosofia
levou as pessoas a acharem que a Terra (e, assim, a própria humanidade)
estava realmente fixa, imóvel no centro do universo, é motivo para cautela.

Tudo se resume a um argumento filosófico colocado por Aristóteles


em um relato particularmente vago chamado “Nos Céus”. Ele começa
lembrando a seus leitores de que aqueles “pitagóricos” acham:

…que no centro do universo há fogo, enquanto a Terra, que é vista


como uma das estrelas, move-se em volta em um círculo que produz
a noite e o dia...

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


Capítulo 1: Do que Trata a Filosofia?   19
Depois, ele rapidamente desconsiderou a ideia, como sendo
“impossível”. Você pode ver isso, explica Aristóteles, considerando
a evidência visual, notavelmente a de que uma pedra jogada
verticalmente para cima cai verticalmente, em vez de cair levemente
para um lado, como aconteceria caso a Terra estivesse realizando
algum tipo de movimento. De fato, todos os objetos se comportam de
forma similarmente muito sensata e não fazem nenhum movimento
senão aquele esforço diligente de retornar ao centro do universo.
Para Aristóteles, isso provava “que assim acontecia porque a Terra e o
universo possuíam o mesmo centro” e deduziu que o planeta não só
deveria estar imóvel no espaço, como igualmente imóvel em seu eixo.

É claro que pedras (e outras coisas) caem, sim, diretamente para baixo
— mas não pela razão dada por Aristóteles. Tem a ver com o momento
— mas esse conceito não havia sido inventado até então! Isso ilustra o
importante princípio filosófico de que o que você observa depende não só
do que está “lá fora” (os fatos), mas do que está “aí dentro”, em sua cabeça
— isto é, o que você observa depende dos seus conceitos e, sim, de suas
crenças também. Essa é uma ideia à qual sempre se retorna, seja qual for a
parte da filosofia de que se esteja tratando.

É suficiente dizer aqui, pelo momento, que, quando (uns 400 anos depois) o
astrônomo Ptolomeu construiu sua ideia cosmológica, a Terra foi colocada
seguramente no centro, imóvel como uma pedra, assim como parece
estar na vida comum. E lá permaneceu por milhares de anos até que outro
filósofo-astrônomo, Galileu, revirou tudo argumentando o contrário.

Pode parecer fácil rir das pessoas que diziam que a Terra estava no centro
do universo e fazia o Sol e as estrelas passearem obedientemente em torno
dela, mas, de muitas maneiras, esta é a forma que a percepção procede.
Afinal, considere por um momento sua própria posição no universo.
Onde estava você exatamente um minuto atrás? No mesmo lugar? Se
estivesse em um trem poderia dizer (astuciosamente): “Não, eu estava a
20 quilômetros de distância!”. Mas, se, em vez disso, você estivesse parado,
quieto em algum lugar, pareceria esquisito dizer: “Ah, eu estava a 100
quilômetros de distância devido à rotação da Terra me fazendo girar”. E,
mais estranho ainda, você poderia dizer: “Ah, eu estava a 1.000 quilômetros
de distância devido à translação da Terra ao redor do Sol”. E, ainda assim,
está deixando de lado a translação do sistema solar em torno do centro da
galáxia e o afastamento da galáxia de seu local original do Big Bang!

Na realidade, no decorrer dos séculos, esse modelo geocêntrico se


mostrou uma ferramenta valiosa para embarcações e navegadores,
e mesmo para prever fenômenos celestes, como eclipses. De fato,
cientificamente falando, para que faça sentido os planetas girando em
torno do sol, é preciso aceitar toda sorte de ideias estranhas que têm a ver
com o que o grande físico do século XX, Albert Einstein, descreveu como

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


20  Parte I: O que É Filosofia?

objetos celestes caindo pelo “espaço-tempo curvo” — não propriamente


uma suposição a que se chega imediatamente pelo senso comum!

Você pode ler mais a respeito das conclusões impressionantes e as não


tão impressionantes de Aristóteles nos Capítulos 4 e 8, mas a ideia de que
o conhecimento tem que ser baseado na impressão sensorial não era só
dele. Um dos filósofos britânicos mais sensatos, John Locke, que escreveu
durante o século XVII na Inglaterra, tinha visões igualmente sensatas.
Filho sensato de uma família sensata de mercadores de classe média
de Somerset, ele foi particularmente influenciado e impressionado pelas
novas descobertas da filosofia natural (que é o que hoje chamamos de
física) — especialmente aquelas de seu compatriota Isaac Newton.

Uma das visões de senso comum de Locke era a de que se reunissem


todos os materiais do conhecimento humano (isto é, todos os fatos e
opiniões que se compartilham sobre o mundo e como ele funciona) do
mundo inteiro pela impressão sensorial ou indiretamente, das mesmas
fontes, por seu mundo mental interno, através da introspecção — isto é,
pensando a respeito (ou meio que lembrando) de coisas que foram vistas,
cheiradas ou degustadas anteriormente. Mas isso é correto? Você pode
ver algumas das razões para se pensar que reunir conhecimento não é tão
simples no final das contas nos Capítulos 10 e 11. Mas, para Locke, é bem
simples. Ele acreditava que o cérebro era um tipo de tábula rasa onde
objetos externos e internos deixavam marcas continuamente (na verdade,
Locke falava da mente, não do cérebro). Locke expõe desta forma:

Todos aqueles pensamentos sublimes que se elevam acima das


nuvens, e chegam até a alcançar o próprio céu, erguem-se e
impulsionam-se daqui; por toda enorme extensão onde a mente vaga
naquelas remotas especulações com as quais parece se elevar, ela
não mexe nem um pouco além dessas ideias cujo sentido ou reflexão
ofereceu para sua contemplação.

Como a filosofia de Newton molda


o nosso mundo
A grande ideia de Isaac Newton foi a de que pensar o que as pessoas faziam sem conhe-
o mundo físico é feito de vários objetos sal- cer a gravidade antes dele! Ainda assim,
tando e atingindo uns aos outros — reagin- pause um minuto e verá que a ideia é bem
do a forças como o momento e a gravidade. estranha, visto que a gravidade age instanta-
Todo mundo conhece sua invenção de uma neamente, invisivelmente e através do vasto
nova força — a gravidade — para explicar vazio do espaço. É filosofia, não ciência, que
por que maçãs caem de árvores. É difícil cria coisas assim.

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


Capítulo 1: Do que Trata a Filosofia?   21
As ideias de Locke foram influentes. Por exemplo, veja a distinção que ele
fez entre ideias de qualidades primárias e secundárias:

UUAs qualidades primárias são, de alguma forma, fundamentais e


inseparáveis do objeto, sendo solidez, extensão, figura, quer o
objeto esteja em repouso ou em movimento, e número.
UUAs qualidades secundárias, por outro lado — cores, cheiros, sons
e assim por diante —, são “em verdade”, como Locke coloca no
Livro II de seu clássico filosófico, Ensaio Acerca do Entendimento
Humano, nada nos objetos em si, mas meramente “poderes para
produzir várias sensações em nós”. Uma qualidade secundária do
fogo, por exemplo, é que ele provoca dor (sob certas circunstâncias;
pode causar calor em outras). A dor não é uma parte essencial do
fogo, nem (aguarde, filósofos adoram este exemplo!) ser branca é
uma parte essencial de ser neve.
As qualidades secundárias induzem ao erro, devido a óculos azuis, um
resfriado ou seja lá o que for (Ei, tudo parece azul hoje, e meu crumble de
maçã não cheira bem...). Mas como outro grande britânico (irlandês, para
ser preciso), bispo George Berkeley, logo apontou, pode-se dizer o mesmo
das qualidades primárias, como tamanho e peso. Por exemplo, objetos
podem parecer menores quando distantes ou uma bolsa pode parecer
pesada quando se está cansado.

O objetivo do bispo era lembrar às pessoas de que o senso comum


frequentemente está errado. Contudo, a visão de Locke, de que o mundo
físico consiste somente de matéria em movimento, tornou-se a base
aceita de teorias de som, calor, luz e eletricidade. E, ainda hoje, quando a
mecânica quântica funciona com princípios totalmente diferentes, muito
da compreensão das pessoas segue sua forma de pensar, errada (baseada
em falsas crenças!) ou não.

Procurando a Meia de Locke


Mas é só até aí que vai o senso comum.

John Locke reconheceu isso quando propôs um cenário envolvendo


sua meia favorita que fura. Ele ponderou se seria a mesma meia após
receber um remendo no furo. Se sim, então ainda seria a mesma meia após
receber um segundo ou mesmo terceiro remendo? Seria ainda, de fato,
a mesma meia muitos anos depois, mesmo que todo o material da meia
original houvesse sido substituído por remendos?

O problema preocupou-o, ao menos um pouco, porque, se a meia fosse


a mesma apesar de todas aquelas mudanças práticas, só o seria uma vez

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


22  Parte I: O que É Filosofia?

que algo acima e além da “percepção sensorial” física da meia existisse,


definido por seu lugar no espaço e no tempo.

Lendo a teoria de Locke não muito tempo depois, Berkeley escreveu (em
Princípios do Conhecimento Humano) que:

…quanto àquele furo, estou inclinado a pensar que a maior parte, se


não toda, dessas dificuldades que até aqui têm entretido os filósofos,
e bloqueado o caminho até o conhecimento, devem-se inteiramente
a nós mesmos — que nós primeiro levantamos poeira e depois
reclamamos que não conseguimos enxergar.

Foi em uma tentativa de espanar um pouco dessa “poeira filosófica” que


o bom bispo teve uma das mais esquisitas e mais citadas — e menos
compreendidas — teorias filosóficas de todas. Ele divisou a doutrina de que
esse est percipi (“ser é ser percebido”). Em outras palavras, objetos materiais
— tudo no mundo à sua volta — só existem por serem percebidos por seres
conscientes. À objeção de que nesse caso uma árvore em uma floresta, por
exemplo, deixaria de existir quando não houvesse ninguém por perto, ele
respondeu que Deus sempre percebia tudo. Em sua opinião, esse foi um
argumento irrefutável, porém, até então, ele era um bispo.

Sendo místico com o bispo Berkeley


Os melhores escritos de George Berkeley são os diálogos no estilo de Platão,
e ele (o bispo) os escreveu ainda em seus vinte e poucos anos. Em um
livro chamado Diálogos de Hylas e Philonous (publicado em 1713), seu
argumento contra os cientistas e seu mundo de matéria inerte e maçante é
melhor estabelecido. O livro começa com dois sujeitos discutindo em um
estilo de “conversa com taxista”: Hyla, que soa como o “taxista” e fala pelo
senso comum científico, e Philonous (como um passageiro desafortunado),
que expõe a própria visão de Berkeley. Após alguns comentários amistosos,
à maneira de Platão e Sócrates, Hylas diz que seu amigo detém a visão de
que não há matéria. Pode algo ser “mais fantástico, mais repugnante ao
senso comum ou a um ceticismo mais manifesto que isso!”, ele exclama.

Philonous tenta explicar que as coisas que agora nós consideramos dado do
sentido são na verdade mentais, como mostra a experiência cotidiana da
água morna. Coloque uma mão fria na água e ela parecerá morna; coloque
uma mão quente e ela parecerá fria. Hylas aceita esse ponto, mas prende-
se à realidade de outros casos cotidianos da experiência de impressão
sensorial. Philonous, então, diz que sabores são agradáveis ou desagradáveis
e são, portanto, mentais, e o mesmo pode ser dito dos cheiros.

Hylas valentemente retruca nesse ponto e diz que sons não viajam pelo
vácuo. Disso, ele conclui que [os sons] devem ser “movimentos de

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


Capítulo 1: Do que Trata a Filosofia?   23
moléculas de ar”, não trecos mentais, como seu amigo tenta persuadi-lo.
Philonous responde que, se for de fato som real, não carrega nenhuma
semelhança com o que nós conhecemos por som, então, nesse caso,
o som pode bem ser um fenômeno mental afinal! O mesmo argumento
derruba Hylas quando se trata da discussão de cores, quando percebe que
elas também desaparecem sob certas condições, como quando se vê uma
nuvem dourada ao pôr do sol, mas de perto não passa de névoa cinza.

As cores são reais?


Para os filósofos, pelo menos, há (no mínimo) E isso sem deixar de mencionar as pessoas
dois problemas traiçoeiros sobre cor. Um daltônicas, que veem o verde como verme-
é se ela está “lá fora” ou “aqui dentro”. Em lho, ou animais, que dificilmente veem qual-
outras palavras, ela está realmente na mente quer cor. Pior ainda, o que é verdade no que
de quem enxerga ou em pequenas vibrações concerne às cores também o é para todas as
eletromagnéticas? E que diferença há entre outras percepções do sentido, mesmo que
uma sensação real de cor e uma imaginária? John Locke e outros tenham tentado marcar
as cores como um caso especial de conheci-
Colocando de outra maneira, os pontos cin-
mento não confiável.
zas na imagem abaixo (conhecida como Ilu-
são da Grade) são reais ou imaginários?

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


24  Parte I: O que É Filosofia?

Mesmo algo como tamanho varia dependendo da posição do observador.


Aqui, o conveniente homem das deixas de Berkeley, Hylas, gentilmente
tenta defender o senso comum dizendo que se deveria distinguir o objeto
da impressão, permitindo que talvez o ato de perceber esteja totalmente na
mente, mas que o objeto material ainda exista. Philonous rapidamente rebate,
replicando: “qualquer coisa que seja imediatamente percebida é uma ideia:
e alguma ideia pode existir fora da mente?”. Em outras palavras, a percepção,
digamos, de uma árvore existe apenas na mente — não “lá fora”. Mesmo o
cérebro de Hylas, sugere Philonous jocosamente, “existe apenas na mente”!

A própria visão de Berkeley é a de que existem bases convincentes


e lógicas para concluir que o mundo físico é uma ilusão e apenas
mentes e eventos mentais realmente existem. Entretanto, se você estiver
começando a achar isso tudo muito louco para se levar a sério e que
é melhor ficar com a ciência, pode ter interesse em ouvir que o maior
cientista do século XX, o próprio Albert Einstein, explicou (em 1938) ter
chegado à conclusão de que:

…conceitos físicos são criações livres da mente humana e não são,


seja lá como pareça, unicamente determinados pelo mundo externo.

Einstein foi além e ofereceu sua própria metáfora de um relógio em


funcionamento para explicar o problema de tirar um sentido do mundo:

Em nossa jornada para entender a realidade, somos um pouco


como um homem tentando entender o mecanismo de um relógio
fechado. Ele vê a superfície e os ponteiros se movendo, e até escuta o
tique-taque, mas não tem como abrir o invólucro. Se for engenhoso,
ele pode formar uma ideia de um mecanismo que poderia ser
responsável por todas as coisas que ele observa, mas pode ser que
nunca tenha certeza de que sua ideia é a única que poderia explicar
suas observações. Ele nunca conseguirá comparar sua ideia com o
verdadeiro mecanismo e não pode sequer imaginar a possibilidade
ou significados de tal comparação.

De fato, como Einstein diz, a única forma de abordar verdades centrais


da realidade é através da filosofia. O mundo realmente é mais complexo
do que as pessoas normalmente acham que é. Não se trata só de filósofos
criando mistérios.

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


Capítulo 2

Descobrindo Por que a


Filosofia Importa
Neste Capítulo
XX
Veja o que um pouco de filosofia pode fazer quando você a aplica
XX
Obtenha uma nova perspectiva sobre a ciência
XX
Adquira uma visão ordenada do mundo
XX
Abraçando a incerteza

“E qual é, Sócrates, o alimento da alma?”

“Certamente”, disse Sócrates, “o conhecimento é o alimento da alma.”

– Platão

A té o final do século XVIII, o que nós hoje chamamos de ciência era


meramente uma ramificação da filosofia, a filosofia da natureza,
estudada por pessoas como Copérnico, Kepler, Galileu, Bacon e Descartes.
Hoje em dia, apenas os dois últimos figuram em livros de filosofia, e os
três primeiros são chamados de astrônomos — mas todos eles fizeram um
pouco das duas.

Igualmente (e confusamente), o que as pessoas chamavam então “ciência”


chamam agora de filosofia ou “conhecimento do que é necessariamente
verdade”. De fato, de muitas formas, a ciência começou somente com
Isaac Newton, que assim como fez excelentes descobertas, traçou também
um novo sistema de modos de categorizar e nomear coisas, que foi, à sua
maneira, tão influente quanto o de Aristóteles 2.000 anos antes. É devido a
Newton que hoje o mundo não só tem “physiks” (tal qual Newton grafava),
como a ciência também.

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


26  Parte I: O que É Filosofia?

Lançando as Bases para a Ciência


A suposição central da ciência é a de que o mundo segue regras que
podem ser investigadas e identificadas. A mais importante dessas regras é a
da causa e efeito. O mundo é ordenado e consistente, e as pessoas supõem
que condições idênticas produzirão resultados idênticos. Mas tudo isso
é na realidade teoria filosófica. A ideia é que, quando se identifica uma
regra ou lei da natureza, pode-se fazer previsões acuradas. A previsão de
fenômenos tais como a aparição de cometas e as marés foi considerada
uma grande façanha da filosofia aplicada.

Tales bota as mãos na massa


Uma das coisas que as pessoas gostam de dizer sobre a filosofia é
que ela parece oferecer uma chance para fugir do detalhe sombrio
e da decepcionante realidade do mundo cotidiano. Frequentemente
usam a palavra assim — dizem que os pontos são mais filosóficos que
práticos ou que alguém que ignora um infortúnio está sendo filosófico.
E, se você ler seus livros e artigos, pensará que os filósofos pagos de
universidades hoje estão quase que inteiramente preocupados com
ideias abstratas e distinções obscuras. Porém, as raízes da filosofia
encontravam-se firmemente no mundo cotidiano — o mundo natural —
e os antigos filósofos gregos foram claros que eles falavam não apenas
de abstrações, mas que realmente tentavam lidar com a realidade e
compreender assuntos práticos.

Um bom exemplo desse gosto antigo por filosofia aplicada é Tales.


Tales viveu por volta de 2.500 anos atrás, onde é hoje a Turquia, e é
frequentemente descrito como tendo sido o “verdadeiro” primeiro filósofo
(embora esta seja uma alegação bem questionável). Porém, ele certamente
tem a honra de ter sido colocado por escritores posteriores entre os Sete
Homens Sábios do Mundo Antigo, admirado em particular por sua sabedoria
matemática e astronômica, das quais ele fez bom uso prático.

Entre suas realizações esteve a previsão do eclipse de 585 a.C., que deixou
a região em quase que completa escuridão e, mais importante, aconteceu
durante uma batalha — sem dúvida confundindo a mira dos soldados
em meio a uma invasão. Outro feito, narrado por Aristóteles, fala como
Tales certa vez usou a filosofia para prever uma boa estação para safra e
contratou de antemão todas as prensas de azeitonas de Mileto. Quando de
fato aconteceu a colheita abundante de azeitonas naquele ano, ele pôde
recontratar as prensas com um lucro considerável.

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


Capítulo 2: Descobrindo Por que a Filosofia Importa   27
Mas os filósofos admiram Tales menos por suas previsões do tempo e
mais por ter sido pioneiro no estudo das essências. Em outras palavras,
ele deu início à tendência filosófica de definir as coisas por suas
características essenciais, em vez de por suas aparências superficiais
frequentemente enganosas e não confiáveis. Tanto Tales quanto, um
pouco depois, Aristóteles compartilhavam de uma preferência por
identificar propriedades naturais em vez de criar grandes e novas
entidades teóricas. Por exemplo, Tales concluiu que a qualidade
essencial do mundo era a água, e a essência da alma humana era sua
capacidade de agir como um tipo de ímã, emitindo um impulso invisível
sobre o corpo e fazendo-o se mover.

A noção de essência está conectada à importância acordada por Platão e


seus seguidores da busca por definições das coisas. Tales e outros filósofos
naturais antigos focaram seus esforços no trabalho sobre a “constituição”
das coisas, isto é, do que as coisas eram feitas. A constituição do mundo
foi pensada para explicar os funcionamentos visíveis dele (há mais sobre
isso no Capítulo 17). Contudo, Platão conta uma história bem diferente
no Teeteto, um de seus diálogos, de um Tales muito menos prático. Ele
descreve o sábio como tão ocupado, fitando as estrelas uma noite, que
caiu em um poço, onde foi visto por uma serva trácia, de passagem pelo
lugar, que riu dele! Essa é a caricatura que a maioria das pessoas tem
hoje em dia dos filósofos. Mas é uma caricatura — na verdade, a reflexão
filosófica é uma parte inseparável da vida.

Considerando a causação
Compreender o que causa as coisas não é alguém fazendo dieta é realmente livre para
somente um objetivo primário da investiga- ficar sem doce se a química de seu corpo
ção científica, mas é essencial para teorias está forçando-o a comer um pouco mais de
filosóficas sobre percepção (como você vê?) torta de maçã?
e ética. Uma questão relacionada e muito
Não surpreende que um dos primeiros filóso-
espinhosa (que ainda deixa perplexos os
fos, Demócrito, tenha dito que preferiria des-
metafísicos) é como algo não físico como
cobrir “uma causa verdadeira” a conquistar
a “mente” pode afetar a matéria. Pegue o
o reino da Pérsia! Mais recentemente, Sa-
livre-arbítrio, por exemplo. Alguém está re-
muel Alexander (1859–1938) também sugeriu
almente fazendo de forma livre a escolha,
que a causação era a essência da própria
digamos, de fazer uma refeição se a quími-
existência, acrescentando que “ser real” é
ca de seu corpo está forçando-o a querer
ter “poderes causais”. Como uma bruxa!
comer algo? Ou, colocando de outra forma,

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


28  Parte I: O que É Filosofia?

Filósofos ficando sem Tempo e


encontrando o Nada
Outro importante conceito muito debatido pelos filósofos, sem o qual nós
certamente estaríamos em apuros, é o tempo, visto que, quando se pensa a
respeito (não que muitos de nós o façamos normalmente; falta tempo...), é
uma coisa muito estranha.

Nas palavras do escritor do século XX, T. S. Eliot, há algo de esquisito a


respeito do tempo, sendo: ele consiste de um “padrão de momentos sem
tempo”. Tudo se dá naquele infinitamente breve momento do presente, a
fonte de onde o rio do tempo jorra a partir do nada, produzindo o lago sem
fundo do passado. Os eventos, tendo vindo a nado à existência e partido
flutuando, são eternamente reais, e o futuro absolutamente não existe.

Platão, de uma forma bastante poética, chamou o tempo de “uma imagem


da eternidade em movimento”, que, embora seja bem bacana como
frase, não ajuda muito. Contudo, Aristóteles discutiu a natureza do tempo
em mais detalhes, dizendo que ele (tempo) é o resultado da mudança
no mundo real. Uma vez que os objetos ao seu redor mudam de forma
suavemente contínua (plantas crescem, florescem, definham e morrem
— e depois começam tudo outra vez), então, ele deduziu, o tempo
deve fluir suave e continuamente. É claro, como Plotino, um filósofo
romano, apontou alguns séculos depois, que essa definição de tempo
envolve referência à coisa sendo discutida no processo, um traço de uma
definição ruim (ou seja, Aristóteles usou a noção de “mudança”, que é, por
definição, passar do tempo).

Encontrando algum espaço


Se o tempo permanece uma criatura escorregadia, então o que dizer de
outra entidade estranha, o espaço? Não o espaço sideral particularmente,
cheio de estrelas e galáxias — mas, simplesmente, o espaço vago. Nada.
O vazio. Se, hoje em dia, a filosofia do espaço é uma área de estudo
negligenciada dos departamentos de filosofia, ela teve importantes
seguidores no passado.

Na Grécia Antiga, Demócrito disse simplesmente que o vazio era o que


“não era”. Aristóteles disse que o espaço era apenas um traço a ser inferido
da presença de objetos reais. Platão, que, como é normal, teve a palavra
definitiva sobre isso, assim como em muitos outros assuntos, pensava que
o espaço era um tipo de coisa muito especial, nem feito de matéria, como
o resto do universo, nem inteiramente abstrato, como ideias e conceitos.
Era um meio-termo. Ou pelo menos é o que diz o amigo de Sócrates,

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


Capítulo 2: Descobrindo Por que a Filosofia Importa   29
Timeu, no diálogo que Platão batizou com seu nome: “algo invisível e sem
característica, que recebe todas as coisas e compartilha de uma maneira
impressionante de tudo que é inteligível.”

A única maneira de investigar as propriedades do espaço é por “um tipo


de raciocínio bastardo (por bastardo, Timeu quer dizer que o pensamento
não possui qualquer base racional) que não envolve percepção sensorial”
— por exemplo, como por um transe onírico.

Explorando o espaço com o poder do sonho


Este não é o método que vem à mente de muitos pesquisadores hoje em
dia! Ele é geralmente evitado por outros filósofos e mesmo físicos, até (mas
não necessariamente incluindo) Einstein. Einstein teve suas melhores
ideias em sonho — ou enquanto tomava banho.

Em contrapartida, Descartes achava que a razão pura era boa o suficiente


para falar sobre o espaço. De fato, no século XVII, no início da era
científica, ele propôs que o espaço em si era realmente um tipo de objeto
físico, um objeto real composto de um tipo incomum de matéria, que não
tem nenhuma das qualidades comuns da matéria (tal qual se conhece),
como ser sólida ou ter dimensões.

Por volta de um século depois, Immanuel Kant também pensou que a


razão pura era o jeito para se explorar o espaço, ainda que alguns de seus
achados — como sua teoria de que existia vida inteligente em todos os
planetas, sendo que a inteligência diminuía à medida que se distanciava
do Sol — não tenham sido muito impressionantes (mas a maioria dos
outros filósofos que analisavam a questão tinha também seus hobbies
cósmicos). Contudo, Kant também teve ideias bem mais influentes. Uma
tratava de se o espaço era fixo e absoluto (fornecendo uma estrutura para
o resto da realidade) ou subjetivo e relativo (dependendo de quais objetos
estavam no espaço e do ponto de vista de qualquer observador). Em
outras palavras, em relação ao Sol e às estrelas, a Terra gira em torno do
Sol em um grande círculo. Porém, em relação à Terra, o Sol e as estrelas é
que giram. Há algo no universo que não seja relativo à outra coisa?

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


30  Parte I: O que É Filosofia?

Espaço-tempo
Nossa concepção de espaço, baseada na é independente e absoluto, mas flexível e di-
Teoria da Relatividade Geral de Einstein, dis- nâmico, enredado no tempo e relativo. Então
pensa todas as elegantes verdades da geo- não se pensa mais no espaço como sendo
metria que tanto impressionaram os antigos independente do tempo. O espaço e as re-
como Platão. Na contramão, sua teoria pro- lações espaciais são meras manifestações
põe que a geometria ou curvatura do espaço do espaço-tempo, dependendo do ponto de
(ou, mais precisamente, do espaço-tempo) vista do observador. Falando de outro modo,
depende dos corpos imersos nele. Está con- o espaço é relativo, mas o espaço-tempo é
fuso? Vai ficar! absoluto: é um algo.
Einstein propôs que, embora o espaço seja o
material bruto da realidade subjacente, não

Kant examinou essa questão imaginando um universo que consistia de


apenas uma coisa: uma luva. Nada mais existe. Agora, o crucial a respeito
das luvas é que são exatamente as mesmas se forem medidas — há quatro
dedos e um polegar e todas as proporções são idênticas. Porém, como
diz Kant, embora você possa virá-la o quanto quiser, se for uma luva para
mão esquerda, sempre permanecerá o sendo. Experimente fazê-lo! O
desafio de Kant é que, em um universo que consiste de apenas uma luva,
será possível dizer se é uma para a mão esquerda ou direita — ou não? Se
Kant estiver certo, então, sua experiência mental mostra que pelo menos
algumas coisas não são relativas e dependentes de outras ou do ponto de
vista do observador.

A abordagem original de Platão sobreviveu às versões tanto de Descartes


quanto de Kant do espaço como invisível, mas que asseguravam ser
permanente e fixo. Isso se dá porque a ideia de Platão possui elementos
de relatividade. Quando objetos são impressos em um curso, como
Platão coloca de forma bastante misteriosa (mas em uma linguagem
certamente adequada às noções mais atuais, como campos de energia),
ele consequentemente muda e, mudando, afeta os objetos novamente.
“Ele mexe-se irregularmente em todas as direções enquanto é agitado por
aquelas coisas e, sendo posto em movimento, por sua vez, os agita.” A
matéria atua sobre o espaço, e o espaço atua sobre a matéria. A ideia de
Platão é basicamente a Teoria da Relatividade Geral de Einstein resumida,
2.000 anos antes do físico desenvolvê-la!

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


Capítulo 2: Descobrindo Por que a Filosofia Importa   31

As charadas do espaço-tempo de Zenão


Um dos filósofos mais acessíveis do espa- que avançar um pouco mais também. Mas,
ço e do tempo foi Zenão de Eleia, que viveu enquanto ele o faz, a tartaruga avança um
no século V a.C., bem a tempo de conhecer pouco mais ainda. Para espanto de Aquiles,
Sócrates (ou seja, uma geração antes de parece que não importa o quão rapidamente
Platão). A filosofia de Zenão foi posta em um ele corra para onde estava a tartaruga, ele
livro que incluía todas aquelas histórias en- nunca consegue alcançá-la.
graçadas das quais as pessoas ainda falam.
É claro que na realidade não é assim. Mas
Uma dessas histórias falava de uma corrida
o que Zenão quer mostrar é que as supo-
improvável entre Aquiles e uma tartaruga.
sições que as pessoas fazem questão de
Na corrida, a tartaruga larga com vantagem. manter a respeito do espaço e do tempo le-
Aquiles, o famoso atleta, então corre para vam a contradições e impossibilidades lógi-
onde ela estava, sem dúvida muito veloz- cas. Então elas precisam repensar algumas
mente. Porém, à medida que ele corre, a tar- dessas suposições.
taruga avança um pouco. Então Aquiles tem

Conhecendo o Mundo Físico


A filosofia não trata, naturalmente, apenas de teorias físicas e
compreensões do espaço, do tempo e similares, ela está por trás de
teorias da biologia e da sociedade também. Considere a influência da
Teoria da Seleção Natural de Darwin, a teoria biológica que vê o mundo
como um tipo de campo de batalha no qual os mais rápidos e fortes
sobrevivem, enquanto o resto deve perecer. Se você quiser entender
como a ciência e a filosofia estão intrinsecamente relacionadas, este é
um ótimo lugar para começar.

Essa teoria é tão prática que raramente é considerada “filosófica” hoje


em dia. Nos Estados Unidos, é altamente controverso para escolas e
faculdades tratá-la como uma teoria em vez de fato irrefutável e absoluto.
Ainda assim, é teoria, tendo sido sujeitada no passado à significativa
revisão e pode (nas melhores tradições científicas) ser alterada e revista
no futuro também, ou mesmo ser totalmente descartada! Da mesma forma,
a seleção natural como teoria é mais um atestado do poder de ideias
filosóficas do que do poder da observação metódica — embora Darwin
também tenha realizado um excelente trabalho pioneiro nessa área,
esperando oferecer evidência para apoiar sua teoria.

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


32  Parte I: O que É Filosofia?

Impondo ordem em um
mundo desordenado
Outra parte do objetivo filosófico para encontrar um sentido para o
universo é o esforço em descobrir as leis que o governam (ou pelo
menos as que as pessoas acreditam que deveriam governá-lo). Elas
são chamadas de leis da natureza. Espera-se que sejam absolutamente
verdadeiras, ceteris paribus.

“Ceter o quê?”, posso imaginar você perguntando. Ceteris paribus é, em


latim, “tudo o mais é constante”. Todas as leis científicas têm a frase ceteris
paribus implícita.

Darwin (e o darwinismo)
Charles Darwin (1809–82) nasceu em e, portanto, desenvolver-se, ou por não se
Shrewsbury, Inglaterra, e sua primeira pai- adaptar, logo, extinguir-se, as espécies len-
xão foi por rochas e química, e não por tamente evoluíram para uma miríade de for-
biologia. Após estudar animais marinhos mas que se veem hoje.
invertebrados não muito interessantes na
Darwin abertamente estendeu sua teoria
Universidade de Edimburgo, ele interessou-
para incluir a raça humana, desafiando
-se por como os animais mudam e saiu em
muitas suposições de sua época. Ele in-
viagem, descobrindo não só tartarugas gi-
cluiu até valores morais como sendo ape-
gantes, mas também o que foi para ele tipos
nas outra forma de comportamento gerado
de humanos curiosamente diferentes. Ele re-
aleatoriamente, cujo efeito foi aprimorar as
gistrou seus achados na celebrada narrativa
chances de preservação da espécie. Para
A Origem das Espécies por Meio da Seleção
alguns filósofos, essa aplicação da Teoria
Natural ou a Preservação de Raças Favore-
da Seleção Natural à sociedade e cultura
cidas na Luta pela Vida (1859).
humanas é inapropriada. Porém, quer seja
Em seu trabalho, ele usou vários exempla- ou não inapropriada, ela foi frequentemente
res de espécies recém-descobertas ou aplicada dessa maneira, e muitas vezes pe-
pouco conhecidas para tentar ampliar uma los piores motivos. Hitler utilizou-a para jus-
teoria preexistente e demonstrar que es- tificar sua “limpeza étnica” na Europa e, até
pécies relacionadas tiveram em algum mo- a década de 1970, o governo dos Estados
mento um ancestral comum. Sua teoria era Unidos usou-a para justificar a esterilização
a de que, por um processo de adaptar-se de indígenas americanos.
de forma bem-sucedida às circunstâncias

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


Capítulo 2: Descobrindo Por que a Filosofia Importa   33
Na realidade, debate-se se quaisquer leis da natureza realmente existem.
Newton criou algumas certamente, como a lei da gravitação, que pareceu
funcionar, porém isso exigiu um pouco de invenção criativa de sua parte,
notoriamente os conceitos de espaço e tempo absolutos. Sem esses, sua
teoria sobre a mecânica não poderia funcionar.

Já na Alemanha, seu rival contemporâneo, o polímata (sabe-tudo)


Gottfried Leibniz, zombou de sua abordagem (a de inventar coisas para
fazer com que a teoria funcione), escrevendo para o secretário de Newton,
Samuel Clarke:

Para concluir. Se o espaço (que o autor fantasia) vazio de todos os


corpos não está plenamente vazio, então está cheio de quê? Está
cheio de espíritos extensos talvez, de substâncias materiais, capazes
de expandirem-se e contraírem-se; e nisso penetram uns nos outros
sem inconveniência, como as sombras de dois corpos sobrepõem-
se na superfície de uma parede... O princípio do desejo por uma
razão suficiente não afasta por conta própria esses espectros da
imaginação. Os homens facilmente buscam ficções, pela vontade de
utilizar corretamente esse grande princípio...

Hoje em dia, desde a Teoria da Relatividade Geral de Einstein, ninguém


acha que as “ficções” de Newton realmente existam. Que se saiba: apesar
do nome “Teoria da Relatividade Geral”, a meta de Einstein era (como
tantos outros filósofos) impor uma ordem ao universo. Ele também
começou, afinal, estabelecendo a velocidade da luz como constante em
todos os lugares o tempo inteiro, e sua teoria conclui oferecendo uma
nova entidade teórica chamada espaço-tempo. O espaço-tempo é somente
tão absoluto quanto qualquer coisa na ciência clássica.

Livre-arbítrio e determinismo
Os deterministas pensam que os eventos, inclusive as ações das pessoas,
não acontecem por acaso, mas são causados, ou predeterminados, por
algo já decidido. A cadeia de eventos é traçada retroativamente de tal
forma que, em certo momento, será preciso uma causa primeira, que as
pessoas geralmente acham ser de caráter divino. A teoria implica, é claro,
que todo o futuro está definido. Os gregos tinham a noção de moiras, as
personificações do destino vestidas de branco e normalmente descritas
como megeras frias, impiedosas e insensíveis (o que é tanto sexista quanto
preconceituoso com idosos, mas essa é a Grécia Antiga).

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


34  Parte I: O que É Filosofia?

Entretanto, Epicuro ofereceu uma ponta de esperança para o povo. Ele


modificou o atomismo de Demócrito para incluir o desvio aleatório e
indeterminado das partículas da vida. Porém, após Newton (no final
do século XVIII) elegantemente demonstrar que seria possível explicar
e antecipar os misteriosos movimentos do cosmos por medições
aliadas à matemática, o universo foi reduzido, parece, a um brinquedo
mecânico, e, com isso, a humanidade mais uma vez pareceu ter
perdido sua liberdade de agir.

Hoje em dia, a mecânica quântica busca explorar se poderia realmente


haver algo no desvio de Epicuro. Porém, nos pontos mais amplos do
determinismo, o debate sobre o que é e não é realmente possível fazer
continua firmemente sendo uma questão filosófica, e não científica.

Inventando Sistemas e Lógica


A ascensão da filosofia grega foi feita nas asas da matemática, por assim
dizer, e a matemática continua fascinando filósofos desde então, sem
falar nos esforços dos lógicos para reduzir o pensamento humano a um
tipo de notação simbólica. Pitágoras ensinou que todo aprendizado
envolvia números, e Os Elementos de Euclides, em que ele estabelece
definições e axiomas para demonstrar a riqueza de fatos geométricos,
tornou-se, por mil anos, o exemplo brilhante do conhecimento puro tão
desejado pelos filósofos.

Euclides dita as regras


Euclides não só inventou muita geometria, UU Se você somar iguais com iguais, os to-
como também um sistema matemático para tais são iguais.
provar alegações. Por tal, ele é responsável
UU Se você subtrair iguais de iguais, os res-
por muito sofrimento em salas de aula:
tos são iguais.
Os axiomas de Euclides, baseados em te-
UU Coisas que coincidem umas com as ou-
orias egípcias, ofereceram apenas cinco
tras são iguais umas às outras.
suposições necessárias sobre as quais se
poderia construir uma geometria muito boa: UU O todo é maior que a parte.

UU Coisas que são iguais à mesma coisa


são iguais entre si.

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


Capítulo 2: Descobrindo Por que a Filosofia Importa   35

Se você não pensa muito nessas coisas, não dadeiras, linha por linha, foi muito atraente
gostará tampouco das provas formais! Mas para muitos filósofos subsequentes — para
a abordagem de Euclides de estabelecer es- não mencionar todos os professores de ma-
sas suposições e depois demonstrar por que temática subsequentes.
algumas alegações matemáticas eram ver-

Os gregos imaginavam que a geometria euclidiana era um exemplar de


conhecimento puro, com suas regras invioláveis, tais como “linhas paralelas
nunca se encontram”, “os ângulos de um triângulo sempre somam 180°” e
assim por diante. De qualquer forma, a geometria de Euclides é apenas um
tipo possível, e há a possibilidade de olhar as coisas de outras maneiras,
de modo que linhas paralelas se encontrem e os ângulos de um triângulo
somem bem mais que 180°. Pense em voar ao redor da Terra, por exemplo.
Os ângulos de um triângulo desenhado em um globo somam, sim, mais
de 180 graus, e dois aviões voando em um curso paralelo correm um risco
considerável de colidir em algum momento!

Os fatos matemáticos não são tão certos afinal. Filósofos com interesse em
matemática, como Henri Poincaré, aceitaram que não só há diferentes
geometrias possíveis, como estas são mutuamente incompatíveis, e é
impossível escolher entre uma ou outra por convenção.

A palavra grega axioma significa, literalmente, “digno de respeito”, e os


axiomas alegam sê-lo. Os argumentos lógicos, matemáticos e filosóficos em
geral dependem de certas suposições subjacentes, sem as quais nenhuma
progressão pode ocorrer. Infelizmente, essas suposições são, com
frequência, tudo menos certas.

Pegue como exemplo os números. O que são essas coisas bobas? Você não
pode tocá-los, vê-los, que dirá comê-los... Bem, parece que os primeiros
números que as pessoas escreveram foram os inteiros positivos, I, II, III,
IIII, IIIII, derivados de montes de pedrinhas ou marcações em gravetos,
expressos apenas posteriormente pela notação arábica 1, 2, 3 etc. Os
números inteiros positivos são muito úteis e práticos para fazer registros,
como quantas ovelhas você tem, e para medir terrenos e prédios. Os
egípcios e mesopotâmios logo complicaram as coisas decidindo que
precisavam de frações, também chamadas de números racionais, com
a inevitável consequência de, não muito tempo depois, Pitágoras e seus
seguidores descobrirem os números irracionais. Estes não podem ser
expressos exatamente nem como fração, nem como decimal, não importa
o quanto se prolongue um número, como a raiz quadrada de dois. Conta
a lenda que um membro da escola pitagórica foi afogado por revelar a
existência de tais números bagunçados, para o horror do público.

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


36  Parte I: O que É Filosofia?

A matemática não pôde avançar muito antes da invenção do zero,


que é, de fato, um número estranho. Foram matemáticos indianos que
sistematizaram seu uso por volta do século VII e, pouco depois, foi
possível trabalhar com números negativos e mesmo com os primeiros
números imaginários (a raiz quadrada de um número negativo é
chamada de número imaginário). Newton e Leibniz pensaram em
números tão pequenos, para criar a matemática do cálculo, que não
era possível expressá-los (infinitesimais). E a manipulação do infinito,
logo dividido em variedades contáveis e incontáveis, aconteceu no
século XIX, principalmente como resultado do trabalho de outro filósofo
matemático, Georg Cantor.

A maioria dos paradoxos de Zenão (veja no box anterior) e muito da


filosofia do espaço e do tempo envolvem teoria do número. E, assim
como Zenão desafiou as suposições de sua época com paradoxos de
movimento, muito da ortodoxia da filosofia e matemática modernas
restringiu-se a certas convenções numéricas acordadas que certamente
não são tão antigas ou mesmo, talvez, tão inevitáveis quanto as pessoas se
acostumaram a pensar. Por exemplo, na matemática o número de pontos
em uma reta é sempre o mesmo, não importa quão longa ela seja! Em
física, o movimento é uma mistura complicada de três coisas: posição,
tempo e lugar; a receita exata para cada uma ainda não está estabelecida.

As leis do pensamento
A filosofia ocidental foi, em grande extensão, fundada sobre leis de
pensamento. As pessoas acreditam que seu pensamento deveria esforçar-
-se para eliminar ideias vagas, contraditórias ou ambíguas, e a melhor
forma de consegui-lo e, portanto, embasar seu pensamento em ideias
claras e distintas é seguir estritamente as leis do pensamento.

Então, quais são as leis do pensamento? São regras lógicas como:

UUAs leis da identidade (A é igual A)


UUA lei da não contradição (A não é igual a não A)
UUA lei do meio excluído (ou A ou não A, mas não ambos, A e não A)

Aff! Que receita intelectual indigesta! Mas, dizendo de outra forma,


as leis falam:

UUTodas as maçãs são maçãs


UUSe algo não é uma maçã, então não pode considerá-lo uma maçã
UUAlgo não pode ser tanto maçã como “não maçã” ao mesmo tempo

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


Capítulo 2: Descobrindo Por que a Filosofia Importa   37
A despeito do quão pouco essas leis do pensamento pareçam dizer, não
ficaram livres de críticas, e filósofos de Heráclito a Hegel levantaram
poderosos argumentos contra elas. Voltando às origens, foi Parmênides,
um dos filósofos pré-socráticos do século V a.C., que primeiro sonhou com
a lei da não contradição: “nunca irá se sustentar que aquilo que não é, é”.
Platão citou essa visão em seu diálogo Sofista: “O grande Parmênides do
início ao fim testificou... ‘Nunca se deve provar que coisas que não são,
são’”. Como é que é? Certamente, algo não pode ser ambos, como “ser e
não ser uma maçã” ao mesmo tempo.

Pode parecer esquisito que o princípio da não contradição tenha


precisado ser inventado, mas parece que antes de Parmênides o
jeito natural de pensar era que tudo era um pouco dos dois. Como
disse Heráclito: “Coisas frias esquentam; o quente esfria; o molhado
seca; o ressecado umidifica-se”.

Fazer de tudo um pouco dos dois tinha sentido para Heráclito, porque
ele pensava que, para que algo pudesse mudar, já precisaria conter as
sementes daquilo que se tornaria. Por exemplo, a água não é dura como
a pedra, mas é dura quando congela. Assim, a água tanto é como não
é dura, dependendo da temperatura. Entretanto, Platão e Parmênides
estavam focados em coisas melhores que água terrena — eles queriam
falar sobre a “verdadeira” água, essência da água. E esta, seguramente, é
molhada e aguada, não dura.

Buscando o “verdadeiro” conhecimento com Platão


Os pitagóricos, a antiga escola de filósofos, também pensavam que o
verdadeiro conhecimento tinha que ser sobre coisas que não mudassem.
Queriam objetos de pensamento que fossem puros, fixos e eternos. E
acharam que os encontrariam no mundo abstrato da matemática. Os
pitagóricos trabalharam nas qualidades essenciais dos números de zero a
dez com zelo religioso, decidindo que nada poderia impedir que o um se
tratasse de totalidade, o dois de dualidade e assim por diante.

Foi sua noção de que os números existem em uma realidade paralela


mais elevada que inspirou Platão a buscar entidades similares, “perfeitas
e imutáveis”, no mundo abstrato das formas (ou ideias). De fato, em A
República, um de seus diálogos mais celebrados, Platão põe Sócrates
pronunciando firmemente: “É óbvio que a mesma coisa nunca irá fazer
ou sofrer oposições, no mesmo aspecto, em relação à mesma coisa, ao
mesmo tempo.” Assim, Platão deixa sua considerável autoridade atrás de
duas leis: a lei da não contradição e a do meio excluído.

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


38  Parte I: O que É Filosofia?

Não pergunte “para que” a filosofia serve


Uma história contada sobre Platão revela- instruiu outro garoto a dar ao aluno uma
-o tanto ríspido como dogmático, mas tam- moedinha “para que ele apreciasse melhor
bém idealista. Um aluno pediu para que ele o valor do conhecimento” — e depois o
explicasse a aplicação prática dos cursos expulsou da escola.
que estava tendo. Platão simplesmente

Mas Platão não era bobo. Ele entendeu os problemas com as leis
na prática. Em outro de seus diálogos, desta vez Eutidemo, Dionisodoro
(pense em dinossauro) zomba de uma das leis dizendo que, se
fosse verdade, então Sócrates deve ser pai de um cachorro! É assim
que ele “prova” isso:

1. De acordo com as leis do pensamento, algo não pode ser


tanto uma coisa em particular e não sê-la (ser tanto A como
não A) ao mesmo tempo.

2. Sócrates é pai.

3. O cachorro tem um pai.

4. Algo não pode tanto ser como não ser pai ao mesmo tempo.

5. Conclusão: Sócrates deve ser o pai do cachorro.

Na verdade, caso você esteja se perguntando, Sócrates não era o pai do


cachorro, mas é a essa conclusão que as leis o levam. Também não fica
bem claro onde a falha está. Platão tenta sair dessa dizendo que a lei
está correta, mas que, em nossa realidade terrena, todos os objetos estão
enredados. Então, o problema aqui é que o tipo de pai que Sócrates era é
diferente do tipo de pai que o cachorro tinha. Resumindo, são dois tipos
de pai. Confuso, no entanto.

A busca por essências


Como Platão, Aristóteles acreditava nas leis do pensamento e considerava
que elas ofereciam bases sólidas para todo pensamento correto. Ele
tentou arrumar as leis um pouco e deixá-las mais rigorosas, de forma que
só fossem aplicadas a certos contextos e momentos. Sugeriu um novo
modo de pensar sobre diferentes tipos de coisas no mundo — como os
diferentes tipos de animais —, que envolvesse uma noção melhor de
suas essências impalpáveis. De fato, um quarto dos escritos de Aristóteles

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


Capítulo 2: Descobrindo Por que a Filosofia Importa   39
parece preocupar-se com a categorização da natureza, particularmente
dos animais. O homem, na mente de Aristóteles, é um tipo particular de
animal — um animal racional, porque uma pessoa é um tipo de animal, e
o que é singular em uma pessoa é sua racionalidade. Bem, era isso que ele
achava. Na realidade, muitas pessoas diriam que animais frequentemente
são racionais também — eles sabem o que é de seu interesse e utilizam
esse conhecimento para fugir de predadores ou fazer abrigos — e,
portanto, é preciso uma essência diferente (alguns disseram que o homem
é um animal moral, por exemplo).

Com o desenvolvimento de máquinas no século XVII e a tendência


filosófica de perseguir o universo em tais termos, a busca por essas
características essenciais tomou um rumo levemente diferente. Em seu
Ensaio Acerca do Entendimento Humano, John Locke retoma novamente
essa questão das essências usando o exemplo de um morango.

O que é importante a respeito dos morangos? O bom sabor? A cor


vermelha brilhante? Seu aroma? Mas Locke não aceitaria nada disso.
Ele achava que a característica importante em relação a um morango
não deveria ter nada a ver com seu sabor, cor ou seu aroma, porque
tudo isso é subjetivo — isto é, depende do observador. Algumas pessoas
acham que o cheiro do morango é doce e delicioso, outras podem
achar que têm cheiro de uva azeda. Por outro lado, Locke achava que
a forma do morango (tirando sua cor) era objetiva — todos deveriam
concordar acerca de sua forma.

A lógica inflexível das leis do pensamento, dessa forma, levou os filósofos


a criarem um novo tipo de mundo onde pudessem ter uma autoridade e
uma regra indiscutíveis. Mas que tipo de mundo era esse?

Entendendo as formas misteriosas


A Teoria das Formas de Platão é uma das ideias mais importantes da
história da filosofia. O estranho, no entanto, é que não é muito bem
compreendida. Ou talvez seja por isso que é tão influente.

A melhor maneira de chegar a um acordo com a teoria é perceber


que Platão estava dizendo que as pessoas estão cientes de dois
tipos de realidade:

UUUma que é mutável e imprecisa, que é o mundo das coisas ao redor


percebidas pelas impressões sensoriais.
UUUma que é fixa e eterna, embora também um tanto imprecisa, que
são seus conceitos e ideias.

Platão usa diversos exemplos para tentar explicar isso, porém a mais fácil
de abordar é a beleza. Você pode ver muitas coisas bonitas — como
flores ou uma colina arborizada —, no entanto, inevitavelmente, essas

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


40  Parte I: O que É Filosofia?

coisas “reais” são imperfeitas. As flores murcham e a colina tem uma


linha de cabos de alta-tensão a atravessando. E, de qualquer modo, o
que as duas coisas têm em comum, o que as torna bonitas? Então, Platão
diz que é preciso ter em mente algo separado com o qual comparar as
impressões sensoriais, algo que se vê — ele prefere dizer reconhece —
tanto nas flores como na colina. Essa é a qualidade de ser bonito. Ele o
chama de forma, mas às vezes as pessoas referem-se a isso como ideia ou
conceito. Mas uma coisa certa a respeito da forma é que ela não existe
em qualquer sentido material corriqueiro — encontra-se apenas em
um reino interno que só pode ser acessado pela razão, ou o que Platão
chama de intelecção ou noesis.

Platão na matemática
Sobre a entrada para a Academia de Pla- O diálogo de Platão, Timeu, ecoa essa pers-
tão havia um famoso escrito: “Que nenhum pectiva, com cinco formas geométricas
ignorante da matemática entre aqui”. Por — ou sólidos — representando os quatro
essa razão, a história (no diálogo de Mênon; elementos: fogo, ar, água e terra, mais o uni-
veja o Capítulo 3 para ler um trecho) de Só- verso, tomado como um todo. Os astrônomos
crates tirando informações de um menino gregos fizeram muitas observações (sem
escravo sobre o teorema de Pitágoras é telescópios, é claro), mas os filósofos pre-
um comentário socialmente importante. Ela sumiam que os céus exibissem a geometria
oferece uma definição mais sutil, inclusive dos deuses, que era o porquê de ser neces-
de competência educacional, demonstran- sário insistir nas estrelas e planetas girando
do que mesmo um escravo que nunca foi em torno da Terra em perfeitas esferas de
à escola nascia com importantes concei- cristal, produzindo música à medida que ro-
tos matemáticos impressos em sua mente! davam (é daí que vem a expressão “a música
das esferas”) muito depois de longas obser-
vações minarem essa hipótese.

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


Capítulo 2: Descobrindo Por que a Filosofia Importa   41

Mas aqui também Platão reclama de que a pazes de qualquer plano ou informação para
“grande massa da humanidade” considera qualquer propósito” e diz que as pessoas de-
as descrições mecânicas e geométricas dos veriam buscar verdades mais profundas no
fenômenos como “causas únicas das coi- misterioso mundo paralelo das Formas.
sas”. Ele protesta que tais causas são “inca-

Qual o sentido de algo que não existe em nenhum senso material, mas
somente dessa maneira intangível? Os cientistas não vão muito bem sem
essas coisas? Entretanto, eles se baseiam muito mais nessas entidades
imaginadas para unir e tirar um sentido de tudo do que todos os demais.
Ideias, como espaço e tempo, e conceitos matemáticos, como os números
ou o infinito, são todos tão misteriosos e diretamente insondáveis quanto
qualquer coisa no estranho universo paralelo das formas de Platão.

A história intelectual do ocidente intentou criar uma compreensão


fundada sobre leis universais. Para criar tais leis universais, as pessoas
tentaram eliminar todos os objetos de pensamento para os quais essas leis
não se aplicam universalmente. E isso é, por si só, irracional, visto que
frequentemente há exceções — inclusive para nossas melhores e mais
brilhantes regras. Por exemplo, a regra de que a mesma causa sempre
resulta no mesmo efeito não se aplica realmente a eventos tanto na ciência
quanto na vida social. Pegue um médico que de forma bem-sucedida trata
um paciente com câncer receitando aspirina — isso seria um exemplo de
“efeito placebo”, porque a aspirina não cura câncer, mas só o incentivo
psicológico de tomar alguns comprimidos (as pesquisas frequentemente
confirmaram) pode deixar as pessoas melhores! Coisas como o efeito
placebo são “irracionais”, sim, mas reais.

No século XVIII, as leis ainda causavam tantos problemas aos filósofos que
Immanuel Kant se prontificou a publicar “uma tentativa de introduzir o
conceito de quantidades negativas na ciência”. Em seu livro, Kant tentou
identificar contradições internas em várias teorias muito abstratas, muito
metafísicas, derivadas da pura lógica (isto é, teorias que tratavam de coisas
que nunca poderiam ser vistas ou mensuradas). Essencialmente, Kant
aponta que, embora a lógica A ou não A seja verdadeira, na realidade algo
pode tanto ser A como não A. Por exemplo, um corpo tanto pode estar
em movimento como estar estático, porque isso depende de quem está
observando. Os trens hoje em dia oferecem um bom exemplo disso. Sente-
se em um trem e coloque uma xícara de café sobre a mesa. Para você,
a xícara não está em movimento. Mas, para alguém observando o trem
passar rapidamente, ela certamente está!

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


42  Parte I: O que É Filosofia?

Hegel, o sucessor alemão de Kant, também viu o problema e voltou


à posição de Heráclito, que era que a mudança, e em particular a
contradição e o conflito, era a verdadeira realidade e o mundo estático e
imutável das leis do pensamento era a falsa.

Hegel, inclusive, atacou especificamente a lei de identidade, apontando


que ela, em si, diz muito pouco. O fato é, ele diz, que “A é igual a A” não
passa de tautologia e tem pouco significado (uma tautologia, afinal, é a
mesma coisa dita duas vezes). Saber que algo é a mesma coisa que algo
não nos diz quase nada a respeito dele. A única maneira pela qual uma
coisa assume uma identidade é pela alteridade ou pelo que não é.

Duvidando de Tudo que


Você não Conhece
Buscar certeza e procurar coisas que você sabe de forma garantida é uma
velha preocupação da filosofia. Porém, também o é investigar as alegações
dos outros para saber as coisas.

Mesmo durante os estimulantes dias de Platão e Aristóteles, os gregos


sempre foram céticos, tanto a respeito do conhecimento que tinham
(isso era realmente bom?) como sobre a possibilidade de um dia saber
as coisas. Duas escolas, os céticos e os cínicos, ficaram preocupadas
com charadas e paradoxos indecifráveis e começaram a ensinar que
era impossível encontrar a verdade. Você pode encontrar mais detalhes
sobre os céticos no próximo box, “Ceticismo e os céticos”, e sobre as duas
escolas nos Capítulos 7 e 10.

Um dos cínicos mais cínicos foi Diógenes (de Sínope — houve três Diógenes
famosos nessa época), que tentou chocar os compatriotas gregos aristocratas
com sua complacência de “viver como um cachorro”. Isso envolvia usar
mulambos e dormir em um barril de vinho, e, em uma ocasião notória,
masturbar-se na praça pública enquanto explicava que “a vida seria muito
melhor se ao menos se conseguisse livrar do desejo por comida esfregando
o estômago”! Outras demonstrações envolviam ficar de pé no frio abraçando
uma estátua de bronze (para treinar o corpo a ignorar o frio) e provocar as
pessoas a insultá-lo de modo a endurecer suas emoções. Tudo isso levou
Platão a chamar Diógenes de “Sócrates maluco”, pelo que ele provavelmente
deixou implícito um pouquinho de crítica a Sócrates também.

Mas, sem dúvidas, em filosofia, o grande questionador deles todos foi


René Descartes, 2.000 anos depois. Descartes diz que, para separar
conhecimento verdadeiro de boato não confiável, ilusão de ótica e truques
de outras pessoas (inclusive demônios malévolos), deve-se presumir que

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


Capítulo 2: Descobrindo Por que a Filosofia Importa   43
tudo que dizem, tudo que você vê ou ouve e tudo que não pode ter certeza
absoluta, é um truque. Eu abordo algumas de suas influentes experiências
de pensamento para explorar suas dúvidas no Capítulo 10.

Mas Descartes admite que estava apenas brincando de duvidar de tudo


para encontrar certa segurança. Foram os antigos céticos gregos que
realmente se especializaram em duvidar, e sua conclusão foi a de que
ninguém pode realmente estar certo de qualquer coisa. É por isso que
são chamados de céticos. Descartes é famoso porque, no momento em
que todo o conhecimento humano parece ter sido reduzido a meras
convenções e suposições otimistas, ele apresentou, com um fantástico
floreio, algo que ele disse ser absolutamente confiável e certo — algo
de que você pode estar realmente certo! Isso é provavelmente o maior
rebuliço da filosofia (veja o Capítulo 5 para saber mais sobre isso).

Ceticismo e os céticos
Ceticismo deriva da palavra grega skepsis, Outro grupo de antigos, conhecidos como
que significa “consideração cuidadosa”, estoicos, insistiam que havia formas de divi-
mas atualmente ceticismo implica não acre- dir conhecimento e dados sensoriais e dis-
ditar nas coisas. A evidência dos sentidos tinguir absurdos errôneos de evidência bem
sempre foi particularmente suspeita. Os cé- fundamentada. Mas essa nunca foi a visão
ticos da Grécia Antiga, como Arcesilau de dos verdadeiros céticos. O debate segue até
Pitane e Carnéades de Cirene, chegaram ao hoje na filosofia, com a posição convencio-
ponto de dizer que não se pode justificar a nal sendo a de que conhecimento é “crença
alegação de conhecimento sobre qualquer verdadeira justificada”. O próprio Platão é
coisa no mundo, pode-se apenas fazer de- bem cético, oferecendo várias razões para
clarações ingênuas e otimistas. não se acreditar em coisas e, especifica-
mente, rejeitar essa visão de conhecimento.

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


44  Parte I: O que É Filosofia?

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


Capítulo 3

Tornando-se um
Pensador Filosófico
Neste Capítulo
XX
Experimentando algumas técnicas filosóficas
XX
Saboreando alguns textos filosóficos clássicos
XX
Pegando algumas dicas e truques para filosofar

Quanto a mim, só sei que nada sei. Porém outros sabem


menos ainda.

– Sócrates

E ntão, qual é a receita secreta dos grandes filósofos? É uma grande


mistura, e não se segue nenhuma rota ou método comum. Alguns
levantam a lógica e a racionalidade, outros as denunciam como mito e
ilusão. Alguns são realmente cientistas, que começam pela observação
do mundo, enquanto outros deliberadamente deixam tudo isso de lado
e olham para dentro de si em busca de insights. Platão tinha um enorme
desprezo pelos seguidores do “senso comum”, embora Aristóteles o
considerasse o ponto de partida. No século XVIII, o século de dois dos
indubitavelmente “maiores” filósofos, um, David Hume, usou o senso
comum para guiar suas celebradas indagações, enquanto o outro, Georg
Hegel, elaboradamente o rejeitou.

Neste capítulo, abordo algumas das formas com que os filósofos


usam argumentos, colocam questões e exploram enigmas como parte
do desenvolvimento de suas ideias. No processo, indicarei as
semelhanças e diferenças entre as abordagens de Platão e Sócrates,
apreciarei a importância da imaginação mesmo no pensamento mais
“abstrato” e tomarei notas de algumas das muitas armadilhas
intelectuais pelo caminho.

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


46  Parte I: O que É Filosofia?

Tendo uma Discussão Filosófica


Desde que as pessoas começaram a estudar alguma coisa, mais ainda a
filosofia, existiu uma tensão entre duas maneiras diferentes de abordar a
busca por conhecimento. Na Grécia Antiga, as duas abordagens divergentes
são resumidas por duas de suas grandes figuras fundadoras, Platão e
Sócrates. O confuso é que a maioria das pessoas conhece Sócrates pelas
narrativas de Platão sobre ele, como “estrela” de seus diálogos. Porém,
Sócrates certamente teve suas próprias visões, e há outras fontes históricas
que descrevem suas ideias, como os escritos de Xenofonte (435–354 a.C.).

Debatendo com Sócrates


O estilo de Sócrates era o dos antigos sofistas gregos, que eram especialistas
na arte da retórica, da oratória e do debate. Diferentemente de Sócrates,
os sofistas geralmente esperavam pagamento por compartilharem suas
habilidades, sendo seu principal mercado cidadãos abastados que
esperavam aprimorar sua performance — quer fosse como políticos ou
advogados — em assembleias públicas, que eram a característica central da
vida na Grécia Antiga. Então, o método de Sócrates é um pouco como o de
um advogado na corte ou de um político em um debate. Ele toma os pontos
dos “oponentes” e os amplia, normalmente tentando mostrar que eles têm
consequências ridículas ou entram em conflito com algo que já haviam
dito. O próprio Sócrates frequentemente utiliza a analogia com os esportes
de combate (como o pugilismo) para a prática do debate filosófico — no
treinamento, a meta não é realmente ferir a outra pessoa, mas aprimorar
suas defesas e elevar suas habilidades. O melhor resultado para Sócrates é
quando o pupilo consegue derrotar o mestre!

Outro aspecto importante do Método Socrático é que o que é dito não é


tão importante quanto como é dito — o debate não se preocupa com
fatos ou casos em particular (embora esses possam ser levantados),
mas com que flua livremente e seja essencialmente imprevisível em
termos de que tópicos possam ou não surgir. Os sofistas, e Sócrates, não
se utilizavam muito de leitura e escrita, mas valorizavam a rapidez e a
agilidade na fala. Sócrates, até onde todos sabem, nunca escreveu nada e,
na realidade, parece ter se incomodado com a prática, considerando-a um
embotamento para a mente e que a deixa preguiçosa.

Outro nome dado ao “Método Socrático” é elenchos, que é uma daquelas


palavrinhas gregas às quais os filósofos se apegam, e outro termo, ainda, é
raciocínio dialético. Todavia, ambos descrevem a técnica exemplificada por
Platão em sua demonstração dos debates de Sócrates com outros atenienses.
Suas características são que ambos os lados estão em uma busca conjunta

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


Capítulo 3: Tornando-se um Pensador Filosófico   47
pela verdade, sendo a investigação uma pessoa expondo uma ideia e outra
a desafiando, sugerindo uma falha ou um problema com ela. Isso obriga a
primeira pessoa a refinar ou aprimorar sua sugestão original.

Na Europa medieval, esse tipo de debate era muito popular. O público


assistia avidamente os habilidosos debatedores abordando questões
filosóficas até que um deles se contradissesse, ponto em que o público o
declarava perdedor.

Um exemplo, dos tempos medievais, é o debate sobre por que uma lança
continua movendo-se pelo ar após ter sido arremessada. O problema
parecia ser que, após ter deixado a mão do lanceiro, ela segue sem nada
a impulsionando. Hoje em dia, nós estamos familiarizados com a ideia
do momento, que diz que as coisas permanecem em movimento a menos
que algo a interrompa; entretanto, no período medieval, a influência de
Aristóteles tornou esse problema controverso, ao dizer que as coisas param
de se mover imediatamente quando outras coisas param de impulsioná-
la. Então, em um debate, um “aristotélico” tentou sugerir que a lança
segue em movimento pelo ar (após ter sido liberada da mão) porque
moléculas de ar a pressionavam com mais força na extremidade cega
do que na ponta — criando uma espécie de empuxo. A resposta a isso
foi pedir ao público para simplesmente imaginar alguém arremessando
uma lança com as duas pontas afiadas. Agora um aristotélico pergunta se
tal lança não conseguiria voar e cair ao chão imediatamente, visto que
claramente as moléculas de ar pressionariam, então, as duas pontas. E o
argumento, como a maioria dos bons argumentos, é imediatamente tanto
compreensível como convincente. Os “debates” dos tempos modernos, em
contraste, são discursos ensaiados previamente, em que as questões são
ignoradas em prol de oferecer pequenas falas engessadas.

Imaginando as coisas com Galileu


Outra maneira de utilizar perguntas eficazmente para expor um ponto
é oferecer exemplos imaginários ou “experiências de pensamento”. Um
dos exemplos mais importantes da história intelectual foi colocado pelo
astrônomo Galileu. Aqui ele demonstra, apenas pelo poder das palavras
e ideias, os princípios fundamentais da relatividade — isto é, que todo
movimento é “relativo” a um fundo estável.

O objetivo de Galileu com a experiência do navio, posta em seu


Diálogo Sobre os Máximos Sistemas do Mundo (do qual você pode
não ter ouvido falar, mas é um dos livros mais importantes na história
da ciência — e ainda muito divertido de ler!), era explicar por que,
se o mundo realmente é uma esfera girando em seu próprio eixo no
espaço, nós não estamos conscientes disso. Em 1632, a ideia de que nós

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


48  Parte I: O que É Filosofia?

vivíamos em uma rocha girando em torno do Sol ainda era muito difícil
de engolir, e a experiência, hoje lugar-comum, de um movimento suave
e constante em uma direção (por exemplo, em um trem, se não em um
carro) ainda era algo raro.

“O navio de Galileu” ilustra que apenas saindo da “estrutura local”, isto


é, neste caso, do navio, que podemos saber o que está imóvel e o que
está em movimento. Para perceber o movimento do navio, por exemplo,
teríamos que olhar a costa, ou o sol, distanciando-se através da escotilha.
Para ver o movimento da Terra, devemos olhar para o céu noturno e o
movimento das estrelas (é claro que a costa poderia estar encolhendo ou
as estrelas circulando nas esferas de cristal...).

A experiência mental foi retomada posteriormente de várias formas


parecidas por outros físicos com o objetivo de fazer outras intuições úteis
acerca da natureza do universo. Em 1907, Einstein percebeu que estender
os mesmos princípios a uma espaçonave acelerando uniformemente
demonstraria, de maneira similar, a impossibilidade de distinguir entre o
empuxo de uma aceleração constante e o empuxo gravitacional, e, daí,
surgiu a Teoria da Relatividade Geral.

Sócrates e a arte da discussão filosófica


Nesse trecho extraído de A República de TRASÍMACO: Ouve, então. Eu proclamo
Platão, vemos Sócrates envolvido em um que a justiça nada mais é que interes-
debate incomumente robusto sobre a natu- se do mais forte. E, agora, por que não
reza da Justiça. me aclama? Previsivelmente, vai se re-
cusar a fazê-lo.
TRASÍMACO: Contemplem! A sabedoria
de Sócrates; ele recusa-se a ensinar e SÓCRATES: Bem, primeiro, deixe-me en-
vive a aprender de outros, ainda assim tendê-lo. Justiça, você diz, é “o interesse
nunca agradece! do mais forte”. O que, Trasímaco, você
quer dizer com isso? Você não pode estar
SÓCRATES: Dizer que eu aprendo com
querendo dizer que Polidamas, o lutador,
outros é bem verdade; mas dizer que sou
é mais forte que nós e acha o consumo
ingrato, nego-o completamente. Eu não te-
de carne de boi o melhor para sua força
nho nenhum dinheiro e, portanto, pago as
física, e comer muita carne bovina é, por-
pessoas com aclamações, que é tudo que
tanto, certo e justo para nós.
tenho. Quão prontamente e desejoso de
aclamar alguém que me parece falar bem, TRASÍMACO: Isso é abominável de sua
você descobrirá muito em breve quando parte, Sócrates; você toma as palavras
responder; pois espero que você me dê no sentido mais danoso ao argumento.
uma boa resposta à minha pergunta.

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


Capítulo 3: Tornando-se um Pensador Filosófico   49

SÓCRATES: De modo algum, bom com- bre esse acréscimo não estou tão certo
panheiro. Tento entendê-las; e desejo e devo, portanto, analisá-lo mais.
que seja um pouco mais claro.
TRASÍMACO: Prossiga.
TRASÍMACO: Bem, nunca ouviu falar que
SÓCRATES: Irei fazê-lo; primeiro, diga-
as formas de governo diferem; há tiranias,
-me, você diz que é justo que os cida-
e há democracias, e há aristocracias?
dãos obedeçam seus governantes?
SÓCRATES: Bem, sim, eu sei tudo isto.
TRASÍMACO: Sim.
TRASÍMACO: E que o governo é o poder
SÓCRATES: Mas os governantes dos Es-
em cada Estado?
tados são absolutamente infalíveis ou, às
SÓCRATES: Certamente. vezes, estão sujeitos ao erro?
TRASÍMACO: E cada forma de governo TRASÍMACO: Para ser exato, eles estão
faz suas leis democráticas, aristocráticas sujeitos a cometerem enganos às vezes.
ou tirânicas, dependendo de seus pró-
SÓCRATES: Então, ao criarem leis, eles
prios interesses particulares; e essas leis,
podem fazê-lo corretamente e às vezes
criadas por eles segundo seus próprios
incorretamente?
interesses, são a “justiça” que disponibi-
lizam, e qualquer um que as transgrida é TRASÍMACO: Verdade.
punido de acordo com os interesses do
SÓCRATES: Quando eles as fazem cor-
que eles chamam “justiça”. É isso que
retamente, fazem-na funcionar segun-
quero dizer quando falo que em todos os
do seus interesses; quando cometem
Estados há o mesmo princípio de justiça,
erro, fazem o contrário a seus interes-
que é o interesse do governo. E, como se
ses; admite-o?
espera que os governos possuam poder,
a única conclusão razoável é que em toda TRASÍMACO: Sim.
parte há um único princípio de justiça, SÓCRATES: E as leis que eles criam
que é o interesse do poderoso. devem ser obedecidas por seus gover-
SÓCRATES: Agora entendo; contudo, nados — pois é isso que você chama
quer esteja certo ou não, ainda terei de justiça?
que investigar um pouco mais para ten- TRASÍMACO: Sem dúvida.
tar descobrir.
SÓCRATES: Então, justiça, segundo
Neste ponto, Platão expôs um forte argu- seu argumento, não é só obediência
mento, e nos perguntamos como Sócrates li- ao interesse do mais forte, mas obedi-
dará com ele. Caracteristicamente, Sócrates ência àquilo que não é de interesse do
o faz mais tentando fazer parecer que seu mais forte?
oponente tem uma visão maculada por con-
tradições do que entrando no “problema”. TRASÍMACO: O que você está dizendo?
Isso, é claro, faz com que seu oponente pa- SÓCRATES: Creio que estou repetindo
reça tolo também! apenas o que você disse.
SÓCRATES: Agora ambos concordamos Sócrates vence, como se espera. Mas obser-
que a justiça é de alguma forma um inte- ve o método — ele faz perguntas, procurando
resse, mas você diz “do mais forte”; so- levar seu “oponente” a uma contradição.

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


50  Parte I: O que É Filosofia?

(Salviati explica a experiência no elegante diálogo de Galileu, citado no


próximo box, “O Navio de Galileu”.)

Passo a passo com Platão


No trecho abaixo, extraído de um dos diálogos de Platão chamado Mênon,
como seu personagem principal, o filósofo coloca Sócrates com um estilo
bem diferente para ilustrar que certos conhecimentos são “intrínsecos”
em nós, embora nós talvez precisemos de ajuda para redescobri-los ou
“recuperá-los”. Ninguém sabe se essa versão das discussões socráticas é
precisa ou apenas inventada para ilustrar as próprias visões de Platão. Mas,
certamente, o estilo está muito mais para um palestrante ou um professor.

O Navio de Galileu demonstra os


Princípios da Relatividade
Como parte de um tipo de “diálogo socrá- que desejar, desde que o movimento seja
tico”, Salviati pede a seu amigo para tentar uniforme e que não haja balanço devido à
um tipo de “experiência mental”. flutuação. Você não notará a menor mudan-
ça em todos os efeitos citados nem poderia
“Tranque-se com algum amigo na cabine
distinguir, através desses efeitos, se o navio
principal abaixo do convés de algum navio
está em movimento ou parado. Ao pular, irá
grande e coloque lá algumas moscas, bor-
deslocar-se pelo chão o mesmo espaço que
boletas e outros pequenos animais voado-
antes, também não dará saltos maiores em
res. Coloque também uma tigela grande com
direção à popa ou à proa, muito embora o
alguns peixes dentro; pendure uma garrafa
navio esteja movimentando-se rapidamente,
que se esvazie gota a gota sobre um vaso.
a despeito do fato de que, enquanto estiver
Com o navio parado, observe cuidadosamente no ar, o chão sob você esteja indo em uma
como os pequenos animais voam com veloci- direção oposta ao seu pulo. Ao jogar algo
dade igual a todos os lados da cabine. O peixe para seu companheiro, não precisará de
nada indiferentemente para todas as direções; nenhuma força a mais para fazê-lo chegar a
as gotas caem no vaso e, ao jogar algo para ele, quer ele esteja na direção da proa ou da
seu amigo, não precisa fazê-lo com mais força popa, enquanto você está no lado oposto.
para uma direção ou outra, sendo as distâncias
As gotas cairão como antes no vaso abaixo,
iguais; pulando de pés juntos, irá deslocar-se
sem mover-se em direção à popa, embora,
por espaços iguais em toda direção.
enquanto elas estiverem no ar, o navio des-
Quando houver observado todas essas coi- loca-se por um bom trecho. O peixe na tigela
sas cuidadosamente (embora não haja dú- nadará para a frente da tigela sem mais es-
vida de que, quando o navio estiver parado, forço do que para trás e irá com igual faci-
tudo deve acontecer dessa forma), faça lidade em direção a uma isca colocada em
com que o navio prossiga com a velocidade qualquer parte na borda da tigela. Finalmen-

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


Capítulo 3: Tornando-se um Pensador Filosófico   51

te, as borboletas e moscas continuarão seu riam se separado durante longos intervalos
voo indiferentemente em qualquer direção, por manterem-se no ar...”
não acontecerá de elas ficarem concentra-
De Diálogos Sobre os Máximos Sistemas do
das na direção da popa, como se cansadas
Mundo (1632).
por seguir o curso do navio, do qual elas te-

O importante a respeito disso é, contudo, que o aprendizado seja


desmembrado em pequenas etapas, das quais, cada uma deve ser
plenamente compreendida e aceita. No próximo box, “Sócrates e Platão
dão uma demonstração de geometria”.

Academia de Platão
Sócrates foi, certamente, um grande orador, mas Platão, por outro lado, foi
tanto um grande escritor como um “palestrante” afiado, ansioso por expor
longamente suas teorias e compartilhar suas descobertas. Ele inventou a
“Academia”, um tipo de faculdade situada em um parque fora dos muros
da cidade de Atenas, de que se diz ser o arquétipo de todas as faculdades
modernas de ensino superior (é de onde vem o termo “acadêmico”
também). Na Academia de Platão, a principal forma de ensino era a
palestra, que era ouvida passivamente pelos alunos. Os livros de Platão
pretendem ser um tipo de notas de palestra.

Embora sejam todos escritos como diálogos, muitos desses “debates”


pouco passam de monólogos em que Sócrates (que recebe, confusamente,
um estilo educacional bem diferente!) torna-se a “estrela”, dispensando
uma visão especializada, e vários pontos de vista são representados apenas
por outros personagens para que sejam rapidamente refutados.

No diálogo de Platão A República, o ensino da filosofia é colocado no topo


da hierarquia do treinamento educacional, que começa na juventude, com
atividades físicas (como esporte e treinamento militar), e só termina na
filosofia, quando os indivíduos chegam ao quinquagésimo ano! Espera-se
que o professor de filosofia tenha um ar de sábio ancião, de “barba cinza”,
como os chineses o chamam.

Enquanto Sócrates esperava aprimorar a forma como as pessoas ativas


na vida pública pensavam as questões, Platão objetivava distanciar as
“melhores mentes” de preocupações práticas e direcioná-las, em vez disso,
a verdades filosóficas abstratas. Não é à toa que a influência de Platão
deixou a educação com um preconceito contra habilidades práticas em
favor de teoria pura. Sócrates oferece suas técnicas para todos, porém
Platão imagina que a contemplação da “verdade, beleza e virtude” só é
possível a uma elite altamente educada.

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


52  Parte I: O que É Filosofia?

Unindo as duas abordagens


Hoje em dia, as universidades contêm elementos tanto das filosofias
educacionais de Sócrates como de Platão. Há palestras, dadas por
“experts”, acompanhadas por aprendizagem e memorização repetitivas —
mas há também “seminários” e oportunidades para discussão e interação.
Esse padrão surgiu na Idade Média, em universidades medievais, e
persiste desde então. Entretanto, no decorrer dos séculos, houve um
desvio regular da oralidade em favor da literatura. Em outras palavras,
distanciou-se daquelas técnicas de escutar e falar, que Sócrates tanto
prezava, em direção à produção de material escrito. Hoje em dia se
espera que estudantes de filosofia obtenham suas ideias mais importantes
de livros e que as “aprendam”, resumindo-as em forma de redações. O
debate raramente acontece. A consequência é que filósofos “profissionais”
são tanto debatedores quanto escritores de discussões banais de
questões filosóficas. Pelo menos é assim que a filosofia é ensinada em
universidades. Em escolas, é (felizmente) bem mais ativa.

É claro, até a invenção da imprensa, e na verdade por até um longo


tempo após, os livros eram trabalhosamente manuscritos e apenas para
bibliotecas de monastérios e aristocratas mais ricos. Então, a filosofia tinha
que ser estudada por debates e diálogos. Porém, uma outra guinada a favor
de Platão e contra Sócrates é mais difícil de explicar por meras mudanças
tecnológicas: a crescente ênfase na “excelência” individual ao custo da
atividade cooperativa e uma busca conjunta por respostas.

Sócrates e Platão dão uma


demonstração de geometria
SÓCRATES: Eu disse-lhe, Mênon, ainda ago- Sócrates: Diga-me, menino, você sabe que
ra que você é um trapaceiro! Agora você essa figura é um quadrado?
me pede para ensiná-lo algo, embora minha
Menino: Eu sei.
opinião seja a de que não se ensina coisas
a pessoas, pode-se apenas lembrá-las delas. Sócrates: E você sabe que uma figura qua-
Você indubitavelmente imagina que irá me drada tem essas quatro linhas iguais?
envolver em uma contradição.
Menino: Certamente.
MÊNON: De fato, Sócrates, protesto, pois não
Sócrates: E você concorda que essas linhas
tinha tal intenção. Apenas fiz uma pergunta
que eu desenhei atravessando o meio do
por hábito; mas, se você puder provar-me que
quadrado são iguais também?
o que diz é verdade, gostaria que o fizesse.
Menino: Sim.
[Um menino escravo é convocado...]

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


Capítulo 3: Tornando-se um Pensador Filosófico   53

Sócrates: E que um quadrado pode ser de Menino: Quatro, Sócrates.


qualquer tamanho?
Sócrates: E não poderia haver outro quadra-
Menino: Certamente. do com o dobro do tamanho desse e tendo,
como esse, as linhas iguais?
Sócrates: E, se um lado de nosso quadrado
for de duas unidades e o outro também de Menino: Sim.
duas unidades, qual será o total de unida-
Sócrates: E quantas unidades daria isso?
des? Deixe-me explicar: se, em uma dire-
ção, o espaço era de duas unidades e, em Menino: Oito.
outra direção, de uma unidade, o total seria
Sócrates: Agora, tente e me diga qual é o
de duas unidades tomadas uma vez?
comprimento daquela linha que forma o lado
Menino: Sim. do quadrado duplo: se o de uma é dois, qual
será o da outra?
Sócrates: Mas, uma vez que esse lado é de
duas unidades, há duas vezes duas unidades? Menino: Claramente, Sócrates, será o dobro
também.
Menino: Há.
Sócrates (à parte): Observe, Mênon, que eu
Sócrates: Então um quadrado é de duas ve-
não estou ensinando nada a esse menino,
zes dois?
mas apenas fazendo perguntas a ele; ainda
Menino: Sim. assim, ele sabe quão longa uma linha preci-
sa ser para produzir uma figura quadrada de
Sócrates: E quanto dá duas vezes dois? Con-
oito pés, não sabe?
te e me diga.

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


54  Parte I: O que É Filosofia?

Algumas das mudanças mais importantes entre as duas principais


abordagens ao transformar pessoas comuns em “pensadores filosóficos”
estão expostas na Tabela 3-1.

Tabela 3-1 Duas abordagens diferentes para a filosofia


Aprendizado Ativo A Academia
Origens Os sofistas gregos A Academia original de
históricas demonstrando habilidades e Platão em Atenas tendo
tendo debates científicos. este como líder.
Métodos de Aprendizado ativo por Aprendizado passivo.
ensino discussões abertas — o
chamado Método Socrático. Platão foi, por sua vez,
influenciado pelo estilo
Os alunos e professores são reservado e monástico de
iguais, sem hierarquia. Pitágoras e seus discípulos,
que são obrigados a aprender
A meta é alunos e professores de cor verdades matemáticas
discutirem e explorarem e filosóficas muito prezadas —
questões juntos. em total silêncio.

O foco encontra-se no
progresso individual.
Técnicas Conversa, discussão e Cópia, memorização e
argumentação. aprendizado de métodos e
fatos.

Dando uma Espiada na


Mente do Filósofo
Então, o que se passa na mente de um filósofo? Eles pensam de forma
diferente do resto de nós, veem realmente o mundo de modo diferente?

A primeira coisa a considerar sobre os grandes filósofos é que eles não


são tão diferentes do resto de nós. São egotistas, são dogmáticos, são
bem ignorantes. Mas, até certo ponto, são pessoas que tentaram se elevar
acima dessa herança humana comum e empregar suas vidas em algumas
técnicas poderosas de pensamento.

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


Capítulo 3: Tornando-se um Pensador Filosófico   55
E, se fatos filosóficos (quem foi Hegesias de Cirene? Qual é a definição
de “ideia clara e distinta”?) não têm tanta demanda em lugar nenhum —
exceto nos departamentos de filosofia —, habilidades filosóficas são outra
questão. A Tabela 3-2 mostra algumas dessas coisas de que esses filósofos
alegam serem capazes. Entretanto, nós devemos ter algumas dúvidas!

Tabela 3-2 Habilidades Filosóficas


Habilidades de raciocínio Habilidades sociais
Análise e síntese de conceitos e ideias Ouvir e tirar um sentido de diferentes
(desmembrá-los em pequenas partes pontos de vista (bem, é isso que
ou, alternativamente, unir fragmentos filósofos alegam fazer...).
de ideias para criar outras).
Identificar ideias-chave e Trabalhar cooperativamente em
suposições ocultas. equipe, ainda assim apto a trabalhar
independentemente.
Detectar falhas no raciocínio ou na Refletir sobre as próprias ideias e
“lógica” dos argumentos. suposições.
Abstrair informação e identificar a Dar um passo atrás em questões
estrutura dos argumentos. e sugestões e colocá-las em um
contexto social e ético mais amplo.
Inventar e pensar em casos traiçoeiros
e “contraexemplos” para testar ideias.

Os três “As”
Outra forma de ver o pensamento filosófico é como um conjunto de
ferramentas. Devemos resumi-las como os “Três As”:

UUAnálise — desmembrar questões complicadas e examinar as partes


cuidadosamente para melhor compreender a questão ou problema.
Quando funciona, é uma ótima ferramenta capaz de “desatar nós
mentais” e separar o que é importante do que não é — de entulhos
irrelevantes ou problemas paralelos.
UUAvaliação — particularmente, uma vez que um problema tenha sido
desmembrado em suas partes constituintes, os filósofos também
precisam parar para avaliar e estimar as alegações e escolher
entre explicações rivais e opostas. O mundo atual está cheio de
tais alegações opostas e fontes conflitantes de informação — nós
precisamos ter cuidado especial ao lidar com elas.

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


56  Parte I: O que É Filosofia?

UU Argumento — provavelmente o que a maioria de nós associa aos filósofos.


Eu conheço vários exemplos de grupos de filósofos profissionais que não
conseguem tomar decisões simples como aonde ir para beber, porque
não conseguem evitar transformar isso em uma discussão. Mas “discutir” é
o ponto, é assim que as ideias se desenvolvem. E as discussões filosóficas
não deveriam ser meramente uma disputa de grito, e, sim, ocasiões em
que as pessoas apresentam razões claras para suas crenças e demonstram
como as conclusões seguem (o que é igualmente importante de se saber)
ou não diretamente de suas suposições.

É muito mais fácil, todavia, ensinar “fatos” às pessoas do que ensiná-las


a pensar. Ainda assim, mesmo que a filosofia pudesse ser reduzida a um
conjunto de fatos técnicos-históricos a serem despejados nos alunos (talvez
para capacitá-los a passar na prova um mês depois), seria uma tática muito
ineficiente e contraproducente fazê-lo dessa forma. Os filósofos da educação
sabem, como estudos de pesquisa frequentemente demonstraram, que, em
termos de aprendizado, dizer às pessoas é extraordinariamente ineficaz. Feita
da forma correta, a filosofia pode ser um ótimo antídoto tanto para as formas
comuns de pensar como de aprender, o que quase que invariavelmente
envolve ouvir passivamente enquanto a informação é passada. Considere o
seguinte: após as aulas, apenas 5% da informação dada é retida. Ou seja, se a
aula durar uma hora, apenas três minutos são digeridos ou absorvidos!

Quando o medo persegue a


sala de aula de filosofia
Wittgenstein, aquele célebre ícone filosófico, chegava a hora da “aula de lógica”. Na enor-
certa vez golpeou uma aluna teimosa no nariz me sala, os alunos amontoados em filas de dez
a ponto de fazê-lo sangrar por ela não ter en- ou mais assentos mais distantes do atril por
tendido um de seus pontos. Esse é um exemplo medo de serem “o escolhido” pelo professor
extremo, mas com que frequência eu vi termos para responder perguntas. É claro que a coisa
filosóficos usados como armas para intimidar mais segura a se fazer era matar a aula inteira!
ou mesmo humilhar os outros? Medo, de fato,
Verdadeiros filósofos — como Sócrates —
costumava assombrar salas de aula de uma
sempre acolhem pontos de vista diferentes.
certa universidade onde eu dava aula quando

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


Capítulo 3: Tornando-se um Pensador Filosófico   57

A qualidade das perguntas


Mesmo quando um “professor” está guiando “professor” já sabe a resposta! São aquelas
um aluno em algo para o qual não há realmente com as quais o professor ou palestrante tam-
um debate relacionado (como Sócrates guiando bém poderia se surpreender e terminar com
Mênon e seu menino servo no famoso teorema sua visão modificada também.
de Pitágoras), o tipo correto de pergunta é de
É por isso que a melhor abordagem para a fi-
grande valia. Ela não deve ser nem tão simples
losofia não é como um corpo de conhecimen-
nem muito traiçoeira, de modo que o aluno possa
to, mas centrada em questões e questiona-
compartilhar de uma sensação de descoberta.
mentos. Esse, no final das contas, era o estilo
Por vezes, os melhores tipos de perguntas filosófico da Grécia e da China Antigas e en-
são aquelas abertas e com a maior extensão contra-se no cerne de muitas grandes obras
possível de respostas — não aquelas que o da filosofia, dos diálogos de Platão em diante.

Pior ainda, muito disso sequer entrou por um ouvido e saiu pelo outro,
simplesmente nem entrou. Muito da conversa filosófica é assim: a ideia
deixa as bocas de quem fala e flutua direto para o céu filosófico sem ser
interceptada por qualquer um no público.

Mas e se o orador utilizar projeções de slides, anedotas, música, clipes


musicais, convidados famosos — e livros Filosofia Para Leigos —, como
auxiliares? A evidência é que os melhores e mais capacitados oradores,
professores, palestrantes podem aumentar a taxa de “transmissão” de sua
informação em 25%. Isso significa que, em 3/4 do tempo, o público não
está seguindo-os ou está dormindo.

A realidade é que apenas a participação ativa possui alguma chance de


alcançar mais do que 50% de retenção ou compreensão dos debates
filosóficos. Então, é por isso que a abordagem filosófica centrada em questões
reais, paradoxos, dilemas éticos, questões pessoais, problemas do mundo real
e mistérios é mais eficaz do que a filosofia como uma coletânea de termos
técnicos desassociados e trivialidades históricas. O que, lamentavelmente, é
assim que é quase que universalmente ensinada, e sim, examinada.

Impressionando as pessoas com paradoxos


Os gregos antigos adoravam desafios (como o do Mentiroso, que
essencialmente pergunta: “podemos acreditar numa pessoa que nos diz
que ela mente o tempo todo?”. Sem esquecer os vários esforços de Zenão
— mencionado no Capítulo 2), que eles utilizavam como ponto de partida

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


58  Parte I: O que É Filosofia?

para debates sobre grandes questões e que invariavelmente são encontrados


no cerne das grandes obras filosóficas. Platão e Descartes lutaram de
forma parecida com estranhos casos de coisas que pareciam continuar as
mesmas em um sentido, mas que mudavam radicalmente em outro. Como,
digamos, a cera que perde sua “forma” tão facilmente quando derrete ou a
água que parece bem diferente quando congela ou ferve. Elas alteram suas
formas físicas, ainda assim nós ficamos contentes em dizer que ainda são as
mesmas coisas — cera ou água. Pensar nesses casos estranhos encorajou os
dois filósofos a supor que a “mente” era mais fundamental do que a matéria
física. Outros filósofos também usaram charadas e desafios para expor seus
casos. Os argumentos um tanto secos e técnicos de Kant incluem em seu
centro quatro desafios ou “antinomias”, e um tipo semelhante de coisa
encontra-se no cerne da filosofia cética de David Hume.

Paradoxos verdadeiros — por sua própria natureza — são não


solucionáveis, mas os filósofos os valorizam de qualquer modo, parte
como “exercício”, parte como seu papel de disparar novas ideias. Como
Bertrand Russell certa vez disse: “uma teoria lógica pode ser testada por
sua capacidade de lidar com desafios, e é um plano favorável, no pensar a
lógica, encher a mente com tantos desafios quanto possível”.

De forma parecida, em ética (veja o Capítulo 13 para uma visão


detalhada), e mais geralmente na definição de termos e conceitos, os
paradoxos podem ser empregados para reexaminar termos e definições.
Pegue, por exemplo, o caso do capitão de um bote salva-vidas superlotado
afundando lentamente — sua tarefa é atirar um ou dois passageiros ao
mar? O paradoxo é que, se ele não fizer nada, será responsável pelo
afogamento de todos no bote, o que é ruim; porém, se ele agir, ainda
pode ser responsável por matar inocentes, o que também parece bem
ruim. Nesse caso, algumas pessoas poderiam dizer que “os interesses de
um número maior” tornam aceitável um mal menor, mas outros poderiam
argumentar que certos princípios e valores não podem ser comprometidos.

Muitos casos podem ser esclarecidos expondo casos traiçoeiros — casos


limítrofes, como os filósofos às vezes os chamam.

Isso, explica Schopenhauer, deve-se à nossa “vaidade inata, que é


particularmente sensível no que diz respeito a nossos poderes intelectuais”.
Obviamente, uma saída para esse conflito de interesses é garantir que nossas
afirmações sejam bem estabelecidas e sensatas. Mas isso, como observa
Schopenhauer, exigiria que as pessoas pensassem antes de falar. E, como
para muitas pessoas, “a vaidade inata é acompanhada de loquacidade e
desonestidade inata”, elas precisam falar muito antes de pensar e, mesmo
que logo após comecem a perceber que o que disseram está errado, elas
quererão que pareça o contrário. “Então, pelo bem da vaidade, o que é
verdadeiro deve parecer falso e o que é falso deve parecer verdadeiro.”

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


Capítulo 3: Tornando-se um Pensador Filosófico   59

Procurando padrões no dado


Uma das ideias mais interessantes da filosofia é a de que o mundo chega até
nós como um grande fluxo de “impressões sensoriais”, por si só insignificantes,
que, então, temos que selecionar por meios intelectuais. Especialistas
em neurociência (ou a ciência de como o cérebro funciona) concordam
atualmente que formas, cores, cheiros estão todos intrinsecamente conectados
ao modo como nosso cérebro funciona, de maneira que, quando algo dá
errado (digamos, quando uma árvore cai sobre a cabeça de alguém), as
pessoas podem começar a “interpretar o dado” das formas mais bizarras.
Em um famoso caso descrito por Oliver Sacks, um homem chegou a ponto
de começar a ter dificuldade em distinguir sua esposa de seu chapéu. Não,
literalmente: ele tentava colocar a mulher na cabeça!

Como se pode confundir uma pessoa com um chapéu? Parecia que ambos
eram redondos e cobertos de tecido preto. Tais casos destacam como
o cérebro funciona, e é uma questão mais para filósofos do que o senso
comum poderia permitir.

Hoje em dia, não só filósofos, como biólogos e físicos, assumem que


as estruturas conceituais que chamamos de “conhecimento” são em si
construídas por aprendizes ativos que modelam seu pensamento em
reação tanto ao que eles vivenciam como o que acham que vivenciam.
O mundo que cada um de nós percebe — para o bem ou para o mal
— é singular para nós. E as implicações são mais gerais do que apenas
indivíduos tendo problemas para fazer coisas em particular — como se
lembrar de fatos, ou reconhecer pessoas, ou continuar caminhando!

Para nos tornarmos pensadores filosóficos, temos que tentar, em primeiro


lugar, perceber que tudo que sabemos, tudo que vemos e tudo que
“pensamos que pensamos” é mediado por uma série de processos mentais
internos e automáticos, que, por sua vez, são afetados por “o que quer que
esteja realmente lá fora”. Esse desejo de “nos distanciar” de nossos valores
e crenças é o primeiro passo para alcançarmos novas ideias e insights.

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


60  Parte I: O que É Filosofia?

A arte de estar certo


“Se a natureza humana não fosse a base”, es- nossa posição em desfavor da de nosso opo-
creveu o filósofo alemão Arthur Schopenhauer, nente em um debate. Quer vençamos ou não,
em seu iconoclástico livro A Arte de Ter Sem- “não deveríamos considerar como questão de
pre Razão, “nós não deveríamos ter em todo importância ou, em qualquer grau, de impor-
debate nenhum outro objetivo senão a desco- tância secundária. Ainda assim, a preocupa-
berta da verdade”. Não deveríamos nos preo- ção principal é com como as coisas são.”
cupar com encontrar a verdade que favoreça

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


Parte II

A História da
Filosofia

“Não vá lá fora — é aquele tal de Darwin de novo!”

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


Nesta parte...
A h, História: é sempre uma boa maneira de olhar para algo que
parece complicado. Visto que a maioria das coisas começou
simples e, então, acabou ficando confusa com um monte de detalhes
a mais, complicações e acréscimos (chame-os como quiser). Mas,
por incrível que pareça, a filosofia não é assim. Ela é complicada
desde o princípio! Se você consegue entender sobre o que os gregos
antigos discutiam, então pode compreender o que estudiosos mais
recentes da filosofia estão fazendo agora ou — para ser mais exato
— o que estão tentando fazer.
De fato, a história da filosofia é muito mais importante, digamos, do
que a história da química ou do cinema, ou do que a história da
história. A história da filosofia também é assunto atual da filosofia.
Saber o que os filósofos pensavam e diziam é saber quais são as
questões atuais, e, também, muito do que são os possíveis argumentos
e estratégias para lidar com elas.
E nesta parte, tendo perambulado pelas antigas pedras da Grécia
Antiga, nós fazemos uma viagem especial ao Extremo Oriente
para ver como muitas ideias filosóficas realmente se originaram lá.
Depois, eu traço um tipo de mapa filosófico desses palavrórios — os
“ismos” da filosofia –, capazes de fritar nossos neurônios, para evitar
exatamente que façam isto: fritar nossos neurônios!

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


Capítulo 4

Olhando as Filosofias Antigas


Neste Capítulo
XX
Tendo contato com alguns dos grandes nomes do negócio
XX
Mergulhando na história antiga e explorando as origens das ideias filosóficas essenciais
XX
Juntando tudo em uma sequência organizada e coesa

Quanto mais você conseguir olhar para trás, mais adiante


conseguirá enxergar.

– Winston Churchill

A filosofia é algo peculiar por não ter realmente uma linha do tempo —
parte do charme do assunto é esse aspecto atemporal das discussões.
Onde mais você estudaria textos antigos, escritos por “hippies” e esquisitões
3.000 anos atrás, com tanto respeito — até mais — quanto o que se tem
pelos últimos livros dos maiores professores de universidades? Bem, eu
suponho que há lugares, para não se esquecer de religiões inteiras.

Entretanto, a filosofia é diferente da religião e aproxima-se mais das ciências


sobre as quais ela — mais ou menos — se constrói. E mesmo que muitos debates
filosóficos não tenham respostas óbvias, apenas pontos de vista possíveis, sempre
faz sentido, para os filósofos, lembrar-se do que as pessoas disseram no passado.
Neste capítulo, abordo o que os antigos pensavam sobre a vida e o universo,
porque é um ponto de partida crucial para filósofos posteriores.

Preparando o Terreno com os


Primeiros Filósofos Gregos
Uma das coisas engraçadas a respeito da filosofia é que, quanto mais se
retrocede no tempo, mais interessante fica. É claro que há duas razões
muito práticas para começar pelos gregos antigos:

UUEles inventaram a palavra filosofia, se não exatamente a atividade


UUQuase que toda a filosofia posterior refere-se a seus debates

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


64  Parte II: A História da Filosofia

A palavra filosofia vem do grego philia, amor, e sophia, sabedoria.

Mas é importante lembrar que os gregos não foram os únicos a fazer as


grandes perguntas que constituem a filosofia. Por incrível que pareça,
pela época em que os gregos começaram a filosofar na Europa, os
indianos e chineses, em particular, já estavam fazendo o mesmo (você
pode conferir no Capítulo 6).

Os gregos antigos, embora fossem realmente antigos, não eram bem


gregos. Na verdade, eles estavam espalhados pelo Mediterrâneo, da
Turquia ao norte da África e Itália. Mas, onde quer que os primeiros
filósofos europeus tenham vivido, estavam todos ligados pela cultura
de navegação em surgimento. Grécia Antiga é um termo que cobre uma
área substancialmente maior do que a Grécia atual. E, em suas viagens,
os gregos também viriam a entrar em contato com as últimas ideias e
invenções do mundo — como a geometria dos egípcios, a astronomia dos
persas e a filosofia do Extremo Oriente.

Todos os filósofos descritos nas próximas seções viveram antes de


Sócrates e — adivinhe! — são conhecidos como filósofos pré-socráticos.
Eles frequentemente criavam teorias que eram tanto interessantes quanto
estavam (no caso de Anaximandro) bem à frente de seu tempo, mas a
maior parte de seus escritos se perdeu. Restam apenas “fragmentos”. Não é
antes de Platão e Aristóteles (um século ou mais depois) que se começa a
encontrar obras filosóficas e debates completamente documentados.

Apresentando Tales e
seu pupilo, Anaximandro
Um dos primeiros filósofos gregos antigos foi Tales, um político e geômetra
do porto de Mileto, que atualmente é a Turquia. Além das espertezas
para ganhar dinheiro (mencionadas no Capítulo 2), ele estabeleceu suas
credenciais como amante da sabedoria por prever corretamente o eclipse
de 585 a.C. (não se sabe como!). Dando início a uma tendência de teorias
grandiosas, unificadoras na ciência, ele alegou que tudo no mundo (com
o que ele quis dizer o universo) era feito de... água. Pode não parecer uma
teoria filosófica detalhada, mas mostra, sim, como os filósofos estavam
pensando a respeito do mundo muito antes mesmo de a ciência começar.

Outro importante dos primeiros filósofos foi Anaximandro, uma espécie


de pupilo de Tales. Ele é lembrado por sugerir que as pessoas haviam
evoluído do peixe — o que o põe 2.000 anos à frente da mais conhecida
teoria sobre evolução de Charles Darwin!

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


Capítulo 4: Olhando as Filosofias Antigas   65

Sendo enigmático com Heráclito


Outro importante dos primeiros filósofos foi Heráclito. Ele viveu logo depois
de Anaximandro (por volta de 540–475 a.C.) e foi um aristocrata que viveu
na costa Jônia da Grécia. Sua preferência por compor ditos filosóficos
curtos, quase contraditórios, concedeu-lhe, posteriormente, o apelido de
“O Obscuro”. Entre seus misteriosos ditos está o seguinte, sobre rios, que
deflagrou a maioria dos debates desde então: “Não se pode entrar no mesmo
rio duas vezes”. Às vezes esse dito é colocado mais precisamente como: “As
águas que fluem por aqueles que entram no mesmo rio serão diferentes”.

De qualquer maneira, o que é tão importante nisso? Bem, alguns dizem


que isso significa que nada no mundo físico permanece o mesmo,
porque, por exemplo, uma flor logo murcha e morre enquanto, digamos,
um vulcão aparece. Dizem que isso sugere que é preciso ignorar o
mundo ao redor (percebido por meio dos sentidos) se quiser encontrar
verdadeiro conhecimento. Quer Heráclito tenha intencionado dizer
isso ou não, sua influência levou Platão a rejeitar informação obtida
no mundo corriqueiro dos sentidos e, a partir daí, veio a própria Teoria
das Formas (veja o Capítulo 1 para saber mais sobre essa enormemente
importante teoria filosófica).

E, como muitas das ideias de outros antigos filósofos — de outras formas


bastante obscuros —, Heráclito reaparece dois mil anos mais tarde,
quando o filósofo alemão Hegel encontrou no pequeno dito de Heráclito
a semente da nova “filosofia do mundo”(veja o Capítulo 5 para mais
sobre esse assunto).

Somando Pitágoras
Provavelmente o pré-socrático mais famoso de todos é o homem em quem
você provavelmente esbarrou — talvez sem querer! — na aula de álgebra:
Pitágoras. Pitágoras foi um filósofo muito influente, bem como matemático.

Ele nasceu na ilha de Samos talvez por volta de 570 a.C. (ninguém sabe
ao certo). Era bem versátil — não só deu importantes contribuições na
música e astronomia, metafísica, filosofia natural, política e teologia, como
também foi a primeira pessoa a levar os conceitos de reencarnação e céu
e inferno para o mundo ocidental. Pitágoras acreditava que essas doutrinas
eram uma revelação pessoal de Deus para ele.

Infelizmente para ele, um governante local chamado Polícrato decidiu


que ele era subversivo e forçou Pitágoras e seus seguidores a deixarem a
ilha. Então Pitágoras foi para a Itália, onde estabeleceu uma espécie de
comunidade filosófica baseada no vegetarianismo, na pobreza e celibato
— portanto, nada de carne, nada de dinheiro e nada de sexo.

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


66  Parte II: A História da Filosofia

Jantando com Pitágoras


Um dos pupilos de Pitágoras registrou que ele Pitágoras não só mostrou respeito pelos ani-
considerava a morte de animais assassinato e mais, como também pelas árvores, sobre as
comê-los, canibalismo. Isso se seguiu à crença quais ele insistia que as pessoas não ferissem
dele na reencarnação. Certamente, ele implo- a menos que não houvesse absolutamente
rava aos homens que não comessem animais. nenhuma outra alternativa. Plantas menores
Suas refeições consistiam de favos de mel, também mereceram sua preocupação: em
pão de milho ou cevada e verduras. Pitágoras uma ocasião, ele ordenou a um boi que não
chegava ao ponto de pagar aos pescadores pisasse em uma plantação de feijão. Não está
para que jogassem sua pesca de volta ao mar registrado se o boi obedeceu! De qualquer
e certa feita disse a um urso feroz para comer forma, você pode ver por que Pitágoras era
cevada e nozes em vez de humanos! considerado um tanto excêntrico na época…

O evento crucial da vida de Pitágoras foi a invasão do Egito, em 525


a.C., enquanto estava lá para uma visita, aprendendo com sacerdotes,
arquitetos e músicos. Ele foi levado à Babilônia (atualmente Iraque)
como prisioneiro de guerra, porém, suas experiências não parecem
ter sido de todo ruins; durante o tempo em que aguardava que alguém
pagasse seu resgate, ele foi apresentado a uma rica tradição de
conhecimentos geométricos e matemáticos.

O significativo a respeito de toda essa matemática foi o método da dedução. A


tradição moderna da prova matemática, base da ciência ocidental, remete em
linha direta (via Platão) a Pitágoras. Se não fosse por eles, a filosofia e a busca
por conhecimento teriam permanecido firmemente nas mãos dos místicos. Mas
essa nova abordagem mostrou que mesmo o conhecimento muito especializado
era acessível a todos — somente se eles pudessem aprender a pensar
sistematicamente. E é disso, claro, que os filósofos se orgulhavam de fazer.

Dos antigos como Pitágoras vieram as crenças filosóficas de que se pode


investigar e explicar o mundo usando o raciocínio humano e que se pode
deduzir as leis da natureza puramente pelo pensamento. Mesmo o filósofo e
cientista Isaac Newton, no século XVII, referenciava Pitágoras. A filosofia está
por trás da maior parte da ciência moderna — e os físicos modernos ainda
debatem a estranha filosofia grega antiga. A ideia-chave é a de que a filosofia
é uma investigação (que, posteriormente, veio a se chamar a priori) racional.

Pitágoras foi matemático, e isso influenciou sua filosofia em um nível


significativo. Ele acreditava que a matemática oferecia uma ideia de uma
realidade perfeita, um reino dos deuses que nosso mundo imperfeitamente
refletia. Ele acreditava que a alma humana estava presa em corpos

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


Capítulo 4: Olhando as Filosofias Antigas   67
imperfeitos e em um mundo imperfeito. Outra crença central dos pitagóricos
era a de que os números eram a chave para compreender toda criação.
Demonstrou-o exibindo como cordas de diferentes comprimentos, ao serem
tocadas, produziam sons diferentes, e a mesma veneração aos “números”
aparece muitas vezes em trabalhos posteriores de Platão e Aristóteles.

Um Pratão de Platão
(e Sirvamos Sócrates)
As pessoas geralmente consideram Platão (427–347 a.C.) o maior filósofo
de todos. Platão nasceu, estudou, ensinou e morreu em Atenas, apesar das
muitas viagens no meio-tempo. Como parte de suas viagens, ele visitou os
centros comerciais gregos da África e da Itália, absorvendo as estranhas
ideias dos pitagóricos, como a de que os números eram mais reais do que
gravetos e pedras, e então, em 387 a.C., retornou a Atenas.

Uma história conta que ele foi capturado por piratas e mantido preso para
resgate. Quer seja verdade ou não, a segunda metade de sua vida é muito
mais tranquila, com o estabelecimento de sua famosa Academia para o
estudo da filosofia nos subúrbios do oeste de Atenas. A Academia era um
parque ao ar livre onde Platão expunha suas ideias. Hoje em dia as pessoas
dizem que a Academia foi a primeira universidade.

Embora Platão tenha sido principalmente um estudioso, em vez de


político, houve uma exceção em sua existência como tal. Durante a
década de 360 a.C., ele viajou por duas vezes para Siracusa, capital da
Sicília grega, para aconselhar o novo rei, Dionísio II. Alega-se por vezes
que isso foi sua tentativa de pôr em prática os ideais esboçados em A
República. Se tiver sido, a realidade foi desastrosa. Platão não teve sucesso
com o rei, que preferiu suas próprias opiniões, e apenas conseguiu livrar-se
da situação para retornar à relativa tranquilidade de sua vida como líder da
Academia. O registro que há é de que ele morreu durante o sono, à idade
de 80 anos, após desfrutar da festa de casamento de um de seus alunos.

Entendendo a conexão Platão/Sócrates


Sócrates encontra-se em todas as pequenas peças de Platão — ele é a
estrela. Isso é legal porque o verdadeiro Platão aprendeu filosofia com
o verdadeiro Sócrates. Mas é um tanto forçado achar que Platão registra
realmente as visões de Sócrates.

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


68  Parte II: A História da Filosofia

Reis filósofos
A família de Platão era ateniense, com cone- na filosofia ocidental, como é considerada
xões políticas, e tinha linhagem aristocrática um manifesto político. Na obra, ele deixa
(talvez ele mesmo se via como de descen- claro seu desprezo pela democracia, que
dência “real”). Seu verdadeiro nome era ele condena como sendo governo do não
Aristocles, mas, em seus dias de escola, ele sábio. Ele explica que, em vez da democra-
recebeu o apelido de “Platon” (que significa cia, é melhor que uma seleta elite de filóso-
amplo) por conta de seus ombros largos, e é fos governe a sociedade. Uma vez que Ate-
assim que é lembrado na história. Como era nas era uma “democracia” na época (isto é,
normal em sua época, Platão treinou como para homens gregos abastados), isso limi-
soldado, assim como aprendeu sobre poesia. tou as opções de Platão em casa e, em 399
Ele de fato escreveu poemas muito bons, po- a.C., ele deixou a cidade declarando que as
rém é mais conhecido por ter proposto que a coisas nunca dariam certo até que “ou reis
poesia fosse banida de sua obra A República. fossem filósofos, ou filósofos fossem reis”.
Eu acho que é justo dizer que Platão era um
Platão certamente tinha ambições políticas,
filósofo um tanto metido!
e sua República não só é um texto central

Na realidade, ninguém sabe muito sobre o verdadeiro Sócrates; só se sabe,


na maior parte, o que Platão disse que Sócrates disse.

Sócrates não gostava de escrever — ele achava que a escrita era inimiga do
pensamento — e, portanto, a única maneira de saber sobre ele é por meio
dos relatos de outras pessoas. E, comparando esses relatos, vê-se bastante
discordância. Contudo, visto que Platão fez de Sócrates o porta-voz para
seus debates, a maioria das pessoas concorda que ele foi o filósofo mais
influente de todos, apesar do fato de que ninguém está bem certo do que
ele disse (muito menos do que pensou...)!

Os historiadores consideram Diógenes Laércio a fonte mais confiável, na


verdade a única, de fatos acerca do “Sócrates histórico” — mas Diógenes
viveu talvez uns 500 anos depois, então, quão confiáveis são seus relatos?
Seja como for, todos os relatos dizem mais sobre as preferências do autor
do que sobre Sócrates.

De qualquer modo, ofuscando todos os outros que escreveram sobre


Sócrates, está a imagem platônica que criou o Sócrates que os filósofos
conhecem e amam. Platão, ele mesmo um idealista, oferece um ídolo,
quase um santo filosófico, o profeta do “deus Sol”, que foi, posteriormente,
condenado como herege pelo desprezível governo ateniense por conta de
seus ensinamentos.

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


Capítulo 4: Olhando as Filosofias Antigas   69

Descobrindo A República de Platão e


outras obras
Embora muitas ideias de filósofos antigos tenham se perdido na história,
cinco grandes volumes da obra de Platão ainda existem. Muitos estudiosos
posteriores a viram não só como a maior obra filosófica que existe, mas,
também, como uma das maiores obras da literatura.

Da República de Platão — um pouco do


debate sobre a justiça
O estilo singular de Platão é incrivelmente Sócrates: Então, do indivíduo, nós podemos
atemporal — e sem jargão. Entretanto, por presumir que ele possui, em sua própria
trás da tagarelice, há muito acontecendo. alma, os mesmos três princípios encon-
Um tanto demais, na verdade. Não é de se trados no Estado; e pode ser correta-
surpreender que filósofos profissionais ain- mente descrito nos mesmos termos, por-
da debruçam-se sobre os textos para tentar que é afetado da mesma maneira?
compreendê-los! Aqui Platão recorda uma
Glauco: Certamente.
suposta conversa entre Sócrates e um aris-
tocrata grego chamado Glauco. O tópico é em Sócrates: Mais uma vez, então, meu ami-
geral sobre “como conduzir a sociedade”. go, nós trouxemos à luz uma questão
fácil: a alma possui esses três princí-
Sócrates: Quando duas coisas, uma maior e
pios ou não?
outra menor, são chamadas pelo mesmo
nome, elas são iguais ou diferentes, ape- Glauco: Uma questão fácil! Não, Sócrates, o
sar de serem chamadas do mesmo jeito? provérbio diz que difícil é o bem.

Glauco: São iguais. Sócrates: Muito verdadeiro, e eu não penso


que o método que estamos empregando
Sócrates: O homem justo, portanto, se con-
seja de modo algum a solução precisa
siderarmos somente a ideia de justiça,
dessa questão; o verdadeiro método é
será como o Estado justo?
outro, e mais longo. Ainda assim pode-
Glauco: Será. mos chegar à solução não abaixo do ní-
vel da investigação anterior.
Sócrates: E um Estado foi pensado por
nós como sendo justo quando as três Glauco: Que não fiquemos satisfeitos com
classes realizavam estritamente suas isso? Sob as circunstâncias, estou bem
funções; e também foi considerado co- satisfeito.
medido, corajoso e sábio por razão de
O trecho é do “Livro V” de A República.
outras certas afeições e qualidades
Como é bem típico de Platão, a discussão
dessas mesmas classes?
apenas aponta como tudo é complicado!
Glauco: Verdade.

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


70  Parte II: A História da Filosofia

As obras de Platão consistem de uma série de pequenas peças


estrelando Sócrates, em que estão registradas conversas entre Sócrates
e vários outros personagens, frequentemente com espirituosidade,
sempre com sutileza. O próprio Platão nunca aparece em qualquer
diálogo desses, mas é impossível dizer de quem são as visões ensaiadas
ou onde elas se passam. Essas peças exibem a visão de Platão, ou de
Sócrates, ou de Pitágoras, ou...? Atualmente, o mais famoso de todos os
diálogos de Platão é A República, que esboça uma teoria de governo,
e a maioria dos especialistas acha que essa, pelo menos, é a visão de
Platão — porém, quer seja ou não sua visão, ninguém jamais levou a
receita política muito a sério.

Os escritos de Platão são tão importantes na filosofia que as pessoas


frequentemente fazem referência não só ao diálogo em particular, mas
à seção, à subseção — e ao número da linha! É de fato interessante o
quanto a coisa toda é loquaz, dado que o livro tem atualmente 2.300
anos! E o estilo do debate é bem intimista — nem bem um debate! Com
uma ou outra exceção, Platão sempre coloca Sócrates vencendo todas
as “discussões” muito facilmente, e seus oponentes parecem passar a
maior parte do tempo concordando com ele. Na verdade, os personagens,
inclusive Sócrates, são apenas convenientes porta-vozes para certos pontos
de vista que Platão quis expor de forma vívida.

Seus diálogos, que aparentemente registram conversas históricas entre


Sócrates e vários concidadãos, vão desde a distinção entre a mente e a
matéria, ecoada depois por Descartes (veja o Capítulo 5), até a estranha
teoria de formas ou ideias celestiais. Isso fica claro no lugar especial que
Platão dá à “forma do bem” e sua muito citada, mas, ainda assim, bastante
ambígua, metáfora da caverna (ambas em A República), que dizia que
prisioneiros acorrentados só podem ser libertados quando a luz lançada
pelo conhecimento do bem iluminar suas miseráveis existências terrenas.

Pessoas inteligentes convencionalmente dividem os diálogos de Platão em


três períodos principais:

UUOs filósofos acreditam que o primeiro, os primeiros diálogos, foi o


daqueles escritos em sua juventude, quando ele ainda devia estar
refletindo a respeito da influência de Sócrates. Eles acham que esses
são os mais acurados relatos das próprias visões de Sócrates. O
principal diálogo desse período é Apologia, escrito aparentemente
pouco depois da execução de Sócrates.
UUO segundo período, os diálogos médios, inclui o que os filósofos
hoje acreditam ser as mais importantes obras filosóficas, com
Platão no auge de seu brilhantismo. São os diálogos de A República,
o Simpósio e Fedro. A República lida não só com a estrutura e a
organização do Estado ideal, como também com a natureza do

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


Capítulo 4: Olhando as Filosofias Antigas   71
conhecimento e das formas; o Simpósio, ou O Banquete, lida com
a natureza da beleza, do amor e o significado da vida; e Fedro lida
com a questão da imortalidade e da alma.
UUO terceiro período consiste de diálogos em que Platão parece
mudar de rumo, interessantes críticas de visões colocadas nas
primeiras obras e um pobre e velho Sócrates deixado de lado. Diz-
se que os últimos diálogos são Críton, As Leis, Filebo, O Sofista, O
Político e o Timeu.

Não se pode levar nada de Platão ao pé da letra. Embora A República inclua


uma condenação aparentemente clara da poesia e mesmo do sexo (no
Estado ideal os filhos seriam produzidos de uma forma mais controlada
e lógica), em Simpósio ele oferece uma visão completamente diferente.
Neste, após descrever os fervores psicológicos que a presença física de
uma amante pode criar (os fervores são tremendamente condenados em
A República como “tirânicos”), Platão mostra esse Sócrates dizendo que
apenas o amor impede que “as asas da alma” definhem e ressequem, e vai
além, escandalosamente considerando eros (o amor sexual) um deus!

A única coisa que parece clara sobre as próprias ideias de Platão é que
ele (como outros gregos, notoriamente Pitágoras) tinha uma hierarquia de
conhecimento na qual a ética encontra-se no topo, a pura matemática vem
em segundo lugar e o conhecimento prático, obtido grandemente pela
vivência, em último.

A obra de Platão na verdade incluiu o pensamento de vários filósofos


antigos, em vez de simplesmente apresentar as opiniões do verdadeiro
Sócrates. Suas obras incluem teorias pitagóricas, bem como reúnem
várias correntes de pensamento antigas. Mas não se esqueça de que ele
se contradiz e cria novas ideias em cada obra, então não existe nenhuma
teoria “platônica” única.

Argumentando com Aristóteles


Aristóteles (384–322 a.C.) nasceu a tempo de conhecer Platão. Ele
tentou organizar cada assunto existente com impressionante zelo.
Aristóteles, como outros filósofos gregos, não fez nenhuma distinção entre
investigações científicas e filosóficas. Ele era interessado particularmente
na observação da natureza; muito tempo depois, sua biologia foi bastante
admirada por Darwin, entre outros.

Quantidades substanciais da obra de Aristóteles sobreviveram e foram


muito influentes historicamente. Na realidade, ele escreveu muito mais do
que as obras que existem hoje, incluindo alguns diálogos aparentemente
muito animados à maneira de seu ilustre predecessor. Nenhum desses

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


72  Parte II: A História da Filosofia

resistiu, no entanto, deixando apenas uma seca coletânea pseudocientífica


de anotações e teorias. Apesar disso, ele certamente foi o pensador mais
influente da Europa durante a Idade Média — muito mais do que Platão
ou qualquer um dos outros gregos. Ele foi tão importante que, só no
século XIII, o Papa em Roma baniu seus livros não menos que cinco vezes!
Assim como movimentos políticos hoje em dia, o porquê de as ideias de
Aristóteles terem sido ofensivas é menos importante que o fato de que as
pessoas as consideravam merecedoras de banimento.

Tudo tem um propósito


A teoria preferida de Aristóteles era a de que tudo na natureza tem
uma função ou um propósito e, se você descobrir qual é, então, poderá
entender tudo. Por exemplo, ele disse que, se você vir os ramos de uma
planta curvando-se em direção à luz, então, a explicação é a de que eles
estão “buscando a luz”. Isso parece certo. Mas o que dizer das pessoas?
A função da humanidade é, ele sugere, raciocinar, porque é nisso que as
pessoas são melhores do que qualquer outro membro do reino animal.
Como ele diz: “O homem é um animal racional”. Mas essa abordagem
contrasta com a dos cientistas modernos, que tentam explicar as coisas
por referência a mecanismos. Eles dizem que a planta se curva em
direção à luz porque as células expostas ao sol encolhem, fazendo com
que o talo se curve e assim por diante.

A astuciosa teoria política de Aristóteles


De muitas maneiras, A Política de Aristóteles Para Aristóteles, a liberdade era funda-
alcança um ponto astuto. Ele definiu o Estado mental para os cidadãos, mas trata-se de
como uma coletânea de um certo tamanho um tipo peculiar de liberdade, mesmo para
de cidadãos participando dos processos ju- os membros privilegiados da sociedade.
diciais e políticos da cidade. Mas seu termo Ele achava que o Estado deveria reservar
cidadãos não incluía muitos habitantes da ci- o direito de garantir o uso eficiente da pro-
dade. Ele não incluiu escravos nem (diferente priedade, em próprio proveito. Ele também
de Platão) mulheres, que eram consideradas concordou com Platão que o Estado deveria
“irracionais” e foram comparadas a animais controlar a produção de filhos para garantir
domésticos. “Alguns homens”, escreveu Aris- que os novos cidadãos tivessem o “melhor
tóteles, “pertencem por natureza a outros”, físico” (Platão o expõe de forma mais ge-
e propriamente tais poderiam ser ambos, es- nérica, dizendo que deveria ser feito dessa
cravos ou bens móveis (isto é, coisas que se forma para “aprimorar a natureza”). E, nova-
possuem, como um livro ou um lápis). mente como Platão, Aristóteles queria que

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


Capítulo 4: Olhando as Filosofias Antigas   73

todo mundo fosse educado da maneira de- ve uma longa lista de formas como o Estado
terminada pelo Estado. Ele disse: “Assuntos deveria controlar as vidas dos cidadãos.
públicos devem ser administrados publica- Para ele, o governo deveria ser como o pai
mente; e nós não deveríamos pensar que em um lar bem regulado: os filhos (os cida-
todo cidadão é dono de si, mas que perten- dãos) devem ter “um afeto natural e dispo-
ce ao Estado”. Aristóteles produziu inclusi- sição para obedecer”.

Aristóteles marcou o zênite da filosofia grega antiga; depois dele, tudo foi
meio que ladeira abaixo. Ele mesmo nasceu 15 anos depois da execução
de Sócrates (em 399 a.C.) e teve sorte de estar na Academia de Atenas com
Platão. Embora esperasse se tornar o sucessor de Platão, foi o sobrinho
deste, Espeusipo, que, na realidade, assumiu.

Indubitavelmente muito indignado depois disso, Aristóteles deixou a


Grécia e foi para o local que é hoje a Turquia, onde, pelos cinco anos
seguintes, concentrou-se em desenvolver sua filosofia e biologia. Ele,
então, retornou à Macedônia, no norte da Grécia, para ser o tutor de um
jovem aristocrata — que veio a ser Alexandre, O Grande (um mago do
militarismo que conquistou a maior parte da Europa). Essa poderia ter
sido uma oportunidade para que ele espalhasse suas visões políticas —
expostas em um longo livro chamado A Política —, porém, Alexandre não
parece ter se interessado muito por ouvir filosofia.

Fazendo sucesso no mundo islâmico


Embora os historiadores frequentemente tratem Aristóteles como braço
direito de Platão, durante sua vida e por muitos anos após, ele foi
considerado um tanto medíocre. O renomado cético Tímon de Fliunte
escarneceu da “triste tagarelice do vazio Aristóteles”, e outro grego
antigo, Teócrito de Quios, escreve um verso nada lisonjeiro sobre ele,
no qual o chama de cabeça oca. Muito provavelmente esses críticos
não concordavam com as visões políticas de Aristóteles, em vez de
verem a fraqueza de suas teorias científicas e lógicas. Ou, talvez, tenham
simplesmente notado pequenos erros que ele cometeu, como o de que
as mulheres têm menos dentes que os homens, o que, é claro, pode ser
conferido por qualquer pessoa simplesmente contando.

Felizmente para Aristóteles, seus escritos chegaram ao mundo islâmico,


onde foram amplamente estudados. Lá, estudiosos saudaram-no como
“o sábio” ou “o Filósofo” (com “F” maiúsculo). As visões de Aristóteles
sobre as origens e o funcionamento do universo encaixaram-se bem nos

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


74  Parte II: A História da Filosofia

ensinamentos islâmicos, e o fato de ele colocar a mulher como inferior


não feriu sua popularidade por lá. Por outro lado, os filósofos islâmicos
fizeram seleção nos textos de Aristóteles, usando-os como autoridade
quando eram adequados a seus propósitos ou rejeitando suas teorias
como “ciência estrangeira” quando não se adequavam. Uma coisa certa,
contudo, é que foi por conta desses estudiosos islâmicos que suas ideias
ficaram disponíveis para serem redescobertas na Idade Média por monges
estudiosos da Igreja Católica e tornaram-se altamente influentes. E, de fato,
suas ideias ainda o são.

Escrevendo seu caminho


para o reconhecimento
Os filósofos geralmente dizem que os maiores feitos de Aristóteles
foram suas leis do pensamento (veja o Capítulo 2 para mais sobre isso),
que foram parte de sua tentativa de colocar a linguagem cotidiana
em uma base lógica. Como muitos filósofos contemporâneos, ele
considerava que a lógica fornecia a chave para o progresso filosófico.
Para Aristóteles, a lógica é um conjunto de regras que descrevem como
raciocinar corretamente evita erros. Trata-se de como argumentar, não
de o que argumentar.

Tudo isso parece razoável — mas não acredite! Seu livro, chamado
Analytica Priora, é a primeira tentativa de criar um sistema de lógica
dedutiva formal e Analytica Posteriora tenta utilizá-la para sistematizar o
conhecimento científico.

Embora os títulos dos livros de Aristóteles soem grandiosos, eles são


na realidade bem simples. Analytica é uma coletânea de coisas que ele
analisou, priora significando “leia esta parte antes” e posteriora significando
“esta parte é a que se segue” — da mesma forma que o posterior (quem
vem depois) segue você quando você caminha!

Na realidade, aproximadamente um quarto dos escritos de Aristóteles


preocupa-se com a criação de sistemas e categorias, sendo que seus
trabalhos de maior sucesso (que as pessoas usam até hoje) diziam respeito
à natureza, em particular a animais. Ele catalogou, o que é menos útil, as
diferentes formas que a alma assume em diferentes criaturas. Depois, há
muita coisa influente sobre a essência do espaço e do tempo, mas eu vou
deixar isso para a Parte V. Basta dizer que foi graças a Aristóteles que por
mil anos as pessoas acharam que a Terra ficava parada enquanto o Sol, os
planetas e todas as estrelas se moviam.

Hoje em dia isso parece risível. Mas as pessoas ainda levam as visões de
Aristóteles, certas e erradas, muito a sério. Elas estão expostas em dois

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


Capítulo 4: Olhando as Filosofias Antigas   75
livros, chamados Ética a Nicômaco e Ética Eudemônica. Ética a Nicômaco
é um dos mais influentes livros da filosofia moral, incluindo relatos do que
os gregos consideravam as grandes virtudes. Nele, Aristóteles apresentava
um “homem de grande alma” que falava com uma voz profunda e calma,
e, sabiamente, lembra aos leitores que “sem amigos, ninguém escolheria
viver, mesmo que possuísse todos os demais bens”. A ideia principal aqui
é de que ser bom significa comportar-se “virtuosamente” — eu abordo isso
com mais detalhes no Capítulo 13.

Encontrando a verdade
Aristóteles diz que o “fim da humanidade” apropriado — isto é, aquilo que
todo mundo deveria almejar — é a busca pela felicidade. Isso parece bem
satisfatório, mas, na realidade, ele utiliza a palavra eudemonia.

Eudemonia, em grego, significa um tipo muito particular de felicidade.


Ela tem três aspectos: além do mero prazer, há a honra política e as
recompensas da contemplação. Que tipo de contemplação? Palavras
cruzadas? TV? Não. Só a filosofia serve, é claro.

Muitas das ideias que são creditadas a Aristóteles, notoriamente o mérito


de preencher sua função, de cultivar virtudes e do caminho de ouro entre
dois extremos desejáveis são, na realidade, muito mais velhas. Platão, de
fato, expõe todas essas ideias também. Todavia, existe uma importante
diferença entre Aristóteles e Platão. É aquela resumida no grande quadro
de grandes filósofos pintado pelo italiano Rafael. Nele, Platão aponta
para cima, como se indicasse suas formas celestiais. Mas Aristóteles está
apontando para baixo, como que dizendo “Não, devemos olhar ao nosso
redor!”. E a maior influência de Aristóteles encontra-se em sua ideia de
que é observando e analisando a evidência física ao redor que se pode
descobrir de verdade como o universo funciona.

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


76  Parte II: A História da Filosofia

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


Capítulo 5

Da Idade das Trevas


à Atualidade
Neste Capítulo
XX
Analisando Deus sob uma ótica filosófica
XX
Analisando a filosofia por uma ótica cética também
XX
Tentando transformar filósofos em máquinas pensantes
XX
Vendo como filósofos analíticos partiram para a matemática

O conceito “Deus” inventado como o conceito antiético na vida —


tudo que é danoso, nocivo, caluniador, toda a inimizade mortal à
vida colocada em uma terrível unidade!

– Nietzsche

A antiga filosofia é filosofia pura, em que o pensar vem em primeiro


lugar, o observar vem em segundo, e parece que tudo se segue. É por
isso que os mil anos que incluíram o apogeu dos gregos antigos são, para
muitos filósofos, a era dourada do assunto. Mas eras douradas, como luas
de mel, acabam, e neste capítulo eu falo sobre o que veio depois.

Por mil anos após a queda do Império Romano, a vida na Europa foi
muito menos ordeira, aquelas estradas romanas foram construídas de
modo a deixar as casas à prova de bandidos, e a filosofia na Europa
refugiou-se em monastérios, o que significa que apenas monges ainda
liam livros e trocavam teorias. E, naturalmente, as preocupações dos
monges centravam-se em Deus. Pensadores religiosos desviaram a filosofia
para certos caminhos, uma situação que começou a frustrar filósofos por
volta do século XVII, visto que, para eles, parecia que novas invenções e
ideias práticas — por exemplo, como governar países — estavam mais
interessantes do que nunca. Entre os séculos XVII e XIX, o foco dos debates
filosóficos passou dos céus para a Terra, com pensadores como David
Hume desconsiderando completamente as antigas formas de pensar.

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


78  Parte II: A História da Filosofia

Porém, mesmo enquanto a filosofia se desvencilhava das amarras


religiosas, tentava encontrar para si outro tipo de certeza — a certeza da
matemática e da lógica.

Provando a Existência de Deus na


Europa Medieval
Para olhar para a maioria das histórias da filosofia, parece que, após a era
de ouro dos gregos, a chama do pensamento filosófico, por assim dizer, foi
apagada por 1.000 anos à medida que hordas bárbaras varriam a Europa.
Porém isso, é claro, não está bem correto. A filosofia continuou, mas
“sob nova direção” — as ordens religiosas da Igreja Cristã. E esses novos
filósofos, sendo pessoas religiosas, tinham prioridades que eram levemente
diferentes. Em particular, eles queriam provar que Deus de fato existia e
mostrar como ir para o céu.

A Tabela 5-1 mostra alguns argumentos quase que sacros, se não sacros
mesmo, apresentados pelos filósofos supondo que deve realmente haver
algum tipo de Deus lá em cima.

Tabela 5-1 Bem, Deus Existe?


Argumento Quem o iniciou O que diz
Argumento Agostinho O jeito como as coisas são não é
da existência determinado por nós, mas por outro
alguém. E esse alguém deve ser Deus.
Argumento Anselmo Seres perfeitos existem sempre
ontológico — eles têm que existir, para serem
perfeitos!
Argumento Talvez Aristóteles Algo fora do espaço e do tempo deve
cosmológico ter criado o espaço e o tempo.
Causa primeira Aristóteles e São Alguém deve ter dado início ao universo.
Tomás de Aquino
Argumento Talvez Platão, Só se pode conceber a bondade
do grau Agostinho porque existe a pura bondade em
usa uma linha algum lugar.
parecida
Argumento Estoicos antigos O universo é complicado demais para
do desígnio ter acontecido por acaso.

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


Capítulo 5: Da Idade das Trevas à Atualidade   79

Tentando entender Santo Agostinho


Agostinho de Hipona (354–430 d.C.) foi um filósofo bem singular e muito
influente. Ele é lembrado pela narrativa muito franca de seus hábitos
pessoais, que incluíam fazer muito sexo e roubar peras. Quanto sexo
é muito sexo, então? Simplesmente fazê-lo. Pelo menos se você quiser
tornar-se santo, o que ele acabou se tornando, mas depois de morrer, é
claro. Ele nasceu no norte da África, que era, então, parte do Império
Romano, e seu primeiro trabalho apropriado foi ensinar filosofia em
Roma e Milão. Ele só se tornou cristão (como sua mãe) em 387, ano de
sua conversão. Ele, então, retornou ao norte da África para encabeçar
o ataque a visões religiosas divergentes, que as pessoas consideravam
heresias perigosas. Por seu trabalho valioso nesse sentido, foi consagrado
bispo da cidade de Hipona em 395, e foi lá, enquanto a cidade estava
sitiada pelos vândalos (a tribo germânica, isto é, não apenas os
pichadores de muros), que ele morreu.

O zelo de Agostinho no combate à heresia explica-se parcialmente


pelo fato de que, na juventude, ele mesmo havia sido tentado por uma
seita radical conhecida como maniqueísmo, que oferecia aos seus
seguidores explicações convenientes para problemas doutrinários,
como o corpo físico de Jesus ser apenas uma ilusão, como se Deus
estivesse meramente usando o corpo humano como uma capa. Mas
foi sua explicação para o problema do mal, uma preocupação de
Agostinho por toda sua vida, que mais o atraiu.

Para crentes em Deus, o maior problema do mundo é que ele parece


estar bem apodrecido. Se, como a Bíblia diz, Deus é completamente bom,
sabe tudo que se há para saber e pode fazer tudo que quer (benevolente,
onisciente e onipotente), então por que coisas ruins acontecem a qualquer
um? Por exemplo, por que bebês recém-nascidos, que não podem ter a
ofendido Deus, adoecem e até morrem?

Para os cristãos radicais como os maniqueístas, a explicação era que o


bem e o mal são duas forças rivais, e as almas humanas são seu campo de
batalha. Isso era mais ou menos como a visão de Platão também, embora
ele acrescentasse a ideia bastante poética de que as almas são partículas
de luz que foram aprisionadas na escuridão do mundo material. Agostinho
gostou desse negócio, como explica em sua obra mais influente, as
Confissões (veja o próximo box para saber mais sobre esse texto).

A ideia de Agostinho de que males acontecem a pessoas aparentemente


normais, porque contrariaram Deus, foi influente. Também o foi outra
parte de sua busca por uma solução para o problema do mal. No Livro VII
das Confissões, Agostinho diz:

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


80  Parte II: A História da Filosofia

Eu sabia que tinha um desejo da mesma forma que sabia estar


vivo. Portanto, quando eu desejava ou não desejava algo, estava
plenamente ciente de que ninguém além de mim estava desejando-o
ou não o desejando.

Sexo e religião não combinam


As Confissões começam com Agostinho ex- nham aqueles que voltam as costas, e
plicando como ele descobriu sua natureza não a face, a Vós. Ai de mim! E como
má aos 16 anos, enquanto estava afasta- ouso dizer que ficastes em paz, oh, meu
do da escola e “um período de ociosidade Deus, quando eu me afastava de Vós?
se impôs devido à limitação da fortuna dos E Vós de fato ficastes em paz diante de
meus pais e um espinheiro de desejos in- mim? E de quem, senão Vossas, foram
distintos tomou minha mente sem que nada essas palavras que por meio de minha
pudesse arrancá-lo” (pense nisso. Ele tem 16 mãe, Vossa fiel, Vós pronunciastes em
anos e seus pais estão longe…). meus ouvidos? Nenhuma delas pene-
trou em meu coração, para que se as
Ele então delicadamente apresenta o terrível
cumprisse. Pois ela desejou e alertou-
assunto das ereções indesejadas:
-me em privado de não cometer forni-
Quando meu pai me viu durante o banho, cação e, sobretudo, de não corromper a
agora entrando na puberdade, e revesti- esposa alheia.
do da inquieta adolescência, ele, como
Lamentavelmente, como observaram mui-
se daí já antecipasse sua descendência,
tos comentaristas em desaprovação, com
alegremente contou-o à minha mãe, re-
16 anos de idade, ele não conseguiu con-
jubilando naquele tumulto de sensações
ter sua luxúria e pecou. Entretanto, poste-
em que o mundo esquece-vos como
riormente, Agostinho mudou suas visões,
Criador e enamora-se de Vossa criatura,
pois concluiu que não gostava da ideia de
em vez de Vós, pelos vapores daquele
Deus não ser onipotente e, portanto, sua
vinho invisível de sua vontade própria,
solução preferida tornou-se…. adivinhe!
dando um passo ao lado e curvando-se
Abolir o mal. Dali em diante, todo o mal que
às coisas mais baixas.
acontecia às pessoas, mesmo aos bebês,
Felizmente sua mãe, Mônica, uma católica era na realidade apenas punições por seus
devota, diferente do resto de sua família pe- próprios pecados — fossem na vida pre-
cadora, estava menos contente. Santa Môni- sente ou na passada. O mundo ainda é po-
ca (como viria a se tornar): dre (cheio de males), mas é assim que Deus
quer! Não é de se espantar que Agostinho
….sobressaltou-se, com um temor e um
diz que Deus quer apenas algumas poucas
tremor sacros; apesar de eu não haver
pessoas na próxima vida, no céu.
ainda sido batizado, temeu por mim os
caminhos tortuosos pelos quais cami-

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


Capítulo 5: Da Idade das Trevas à Atualidade   81
O famoso dito filosófico de Descartes — “Penso, logo existo” — , na
realidade, vem de… Santo Agostinho. Nenhuma grande coincidência aqui,
porque ele foi educado por monges agostinianos.

O principal argumento para a existência de Deus que Agostinho oferece


começa pela pergunta de se sabemos que nós existimos, apontando que
é preciso existir para argumentar que não se existe. Em seguida, ele vai
além e diz que, se você concorda com isso, então deve estar pronto para
argumentar, isto é, discernir um bom argumento de um ruim. Bons e maus
argumentos são diferentes. Mas quem faz dessa maneira? Não somos nós.
Assim como 12 mais 12 são 24, quer nós possamos somar ou não, o que
é verdade não é decidido pelas pessoas, mas determinado por Deus. Ou,
pelo menos, é o que ele diz. Deus, dessa forma, torna-se uma espécie de
árbitro cósmico, fazendo todos os julgamentos.

Bebê mau e ganancioso!


Na Idade Média, especialistas sacros como raivosamente para seu irmão que se ali-
Agostinho viam a vida humana como essen- mentava do leite da mãe…. Dificilmente
cialmente uma espécie de provação moral pode ser inocência, quando a fonte do
bastante desagradável, sendo a desagrada- leite é rica e abundante, não suportar
bilidade uma parte necessária para se alcan- que o alimento seja compartilhado com
çar a santidade. Agostinho acreditava (um seu consanguíneo, que tem profunda
tanto negativamente para o gosto moderno, necessidade e cuja vida depende exclu-
como colocou Bertrand Russell certa vez) sivamente daquele alimento.
que a humanidade era uma massa de cor-
Escrevendo assim, não é de se espantar que
rupção e pecado, seguindo inevitavelmente
Agostinho tenha sido o maior filósofo da Eu-
para o inferno. No Livro I de Confissões, ele
ropa por oito séculos — até que outro santo,
descreve o mal como já existindo mesmo em
Aquino, retirou-o de sua posição de número
bebês recém-nascidos, antes de ir além e
um, substituindo suas versões requentadas
mostrar como o adulto não é nada melhor.
de Platão (o que os filósofos chamam de
Eu pessoalmente observei e estudei neoplatonismo) pelas novas e empolgantes
um bebê invejoso. Ele ainda não fala- teorias de Aristóteles, cujos manuscritos ha-
va e, pálido de ciúme e amargura, olhou viam acabado de ser redescobertos.

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


82  Parte II: A História da Filosofia

Agostinho também é muito bem-conceituado por outro livro, chamado A


Cidade de Deus. Este foi particularmente elogiado pelos filósofos por supor
que a história tem um padrão — a despeito do fato de que o historicismo
(como se conhece) sempre encorajou ditadores e, quanto a isso, a história
não possui nenhum padrão. Ele também foi intrigante no tocante à sua
discussão de tempo, em que conclui, o que ficou famoso, que apenas o
momento presente existe. O preocupante a esse respeito é que o momento
presente está sempre se extinguindo e virando passado — literalmente, o
momento presente é absurdamente pequeno!

Entendendo Deus: O argumento ontológico


Foi Santo Anselmo (1033–1109), um padre italiano que acabou se tornando
Arcebispo de Canterbury no século XI, que idealizou o argumento ontológico.
O argumento, que ele apresentou devotamente na forma de prece a Deus,
começa O descrevendo como “não se pode pensar em nada maior que Ele”.

A lógica do argumento é que, por ser aceito por todos — por definição
—, Deus é o ser que há de maior e que, secundariamente, existe pelo
menos no fato de que as pessoas têm Seu conceito (ou seja, ele existe
“no entendimento”); só é preciso um passo além para perceber que Deus
existe em realidade também. Então, que passo é esse? Bem, a terceira
parte, sagaz, do argumento fornece-o. Ele declara que “algo que existe em
realidade, assim como em teoria, é maior do que algo que existe apenas
no entendimento”. Em uma frase: visto que Deus é o maior, e porque não
existir não é tão grande quanto existir, ele deve existir em realidade, assim
como em entendimento.

É isso. Os monges consideraram essa demonstração da existência de Deus


um triunfo. Porém, o ponto fraco desse argumento é que Deus ainda existe
apenas por definição.

Examinando a evidência com


Tomás de Aquino
Um problema com o velho argumento ontológico (veja a seção anterior)
é que pode ser mais perfeito existir como ideia abstrata do que existir
em uma realidade imunda. De fato, parece bem provável que seria mais
perfeito existir daquela forma.

Por conta dessa fraqueza, e outras dúvidas que pairavam, Tomás de


Aquino (1225–1274) concluiu que as pessoas precisavam de razões
totalmente novas para acreditar em Deus. Ele resumiu vários outros
argumentos filosóficos com essa finalidade:

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


Capítulo 5: Da Idade das Trevas à Atualidade   83
UUArgumento cosmológico: Realmente um “tipo” de forma de
olhar o problema diferentemente de qualquer caso particular.
Como era de se esperar, Platão já havia dado sua própria versão
em uma de suas peças. Mas o argumento cosmológico foi
esclarecido por Aquino. Pode-se resumir sua versão dizendo que
deve ter havido um tempo antes de o universo existir e, visto que
coisas físicas existem agora, deve ter havido algo não físico que
as criou. Esse algo tinha que ser não físico, pois está se falando
de um tempo em que coisas físicas não existiam. Algumas
pessoas chamam-no de regresso infinito.
Um regresso infinito é um argumento que dá voltas e mais voltas,
embasando-se em si próprio. E, ah, sim, é péssimo que argumentos
façam isso.
UUCausa primeira: Esta ideia se baseia na suposição de que
se pode ver que o movimento existe no universo e que todos
sabem que nada se põe em movimento a menos que alguém o
faça. Este argumento também parece um regresso infinito. Ele
não é, particularmente, convincente como argumento, porque
atualmente todos aceitam que as coisas, na realidade, continuam
em movimento a menos que sejam impedidas (por exemplo, pela
fricção). A questão do porquê de as coisas no universo se moverem
desaparece sem a necessidade de provar a existência de Deus.
Este argumento foi desenvolvido por Aquino a partir da
questionável ciência de Aristóteles, que não era um crente
religioso, mas um biólogo com inclinações filosóficas. Ele pensava
que, visto que as pedras ficavam paradas no chão a menos que
fossem chutadas, tudo no universo também ficaria parado, a
menos que algo o impulsionasse.
UUArgumento do grau: Outro argumento de Aquino para Deus, que o
filósofo contemporâneo Richard Dawkins (mas dificilmente outra pessoa
hoje em dia) chama de argumento do grau, é o de que as pessoas podem
tanto ser boas quanto más, portanto não se pode encontrar a forma mais
pura de bondade nelas. Logo, outra coisa que é bondade pura deve
existir, e as pessoas chamam esse bem máximo de Deus.
Todavia, novamente, este argumento apenas parece lidar com ideias
e ideais: o ideal de bondade, sim, mas também a ideia de ser uma
mesa, ou uma cadeira, ou talvez ainda a ideia de ser um número
como 2. Deus acaba por existir no mundo alternativo intangível da
Teoria das Formas de Platão (veja o Capítulo 2) — não no universo!
UUArgumento do desígnio: Este argumento diz que o mundo é tão
complicado que alguém deve tê-lo criado — não poderia ter vindo
a existir por acaso, poderia? É onde Charles Darwin entra, com sua
explicação subversiva de como formas de vida complexas podem
desenvolver-se simplesmente por tentativa e erro (para saber mais
sobre isso, consulte o Capítulo 18).

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


84  Parte II: A História da Filosofia

O problema para os teólogos, como Aquino, era levar a existência de Deus


apenas do mundo mental para o mundo físico também.

Tentando Viver sem Deus


Em algum ponto, as pessoas concluíram que poderia ser melhor deixar
Deus fora de suas filosofias, visto que era tão difícil provar sua existência.
Esse afastamento é muito aclamado hoje em dia como Iluminismo — mas
pouco desse movimento foi de fato iluminado. Isso foi, na verdade, uma
resposta prática às novas invenções muito impressionantes da Era da
Ciência; coisas como os primeiros relógios mecânicos nas torres de igrejas,
telescópios capazes de mostrar os montes lunares e, claro, armas. Tudo
isso tornou o pensamento científico e matemático muito mais prestigioso
do que fuçar velhos textos religiosos empoeirados em busca de indícios da
realidade fundamental.

Muitos filósofos, começando por Descartes, tentaram produzir


argumentos para acreditar no universo, que exigiam, logicamente, que
Deus também existisse.

Lidando com a dúvida de Descartes


Chega René Descartes (1596–1650), com quem, dizem os livros e cursos
de filosofia, a verdadeira filosofia veio a existir. “Aqui nós finalmente
chegamos em casa”, escreveu Hegel, o famoso filósofo alemão, alguns
séculos depois (o estilo lembra que ele não era apenas filósofo, mas,
também, professor) em seu peso-pesado História da Filosofia, “como um
marinheiro após uma longa jornada no mar tempestuoso, podemos gritar
‘terra à vista!’, pois com Descartes a cultura e o pensamento dos tempos
modernos realmente começam”.

Os fins de manhã de Descartes


Como Sócrates, Descartes é uma lenda filosó- cartes confidencialmente previu que havia
fica. E também é possível entender as obras descoberto uma “ciência totalmente nova” e
do cavalheiro militar que escreveu as Medi- anunciou sua intenção de revelar tudo em um
tações e o Discurso do Método como produto livro. Porém depois, temendo ser ridiculariza-
de um egotista, assim como o trabalho de um do, ele não suportou se comprometer, e seu
gênio. Então, foi à idade de 23 anos que Des- livro, após anos de revisão, foi deixado de

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


Capítulo 5: Da Idade das Trevas à Atualidade   85

lado. O mesmo destino aguardava seu próxi- que possa adquirir no futuro”. Ironicamente,
mo projeto, “Regras para a Direção do Espíri- esse foi o livro intitulado Discurso do Método,
to”, e também o outro após este, “Elementos que no momento certo viria a ser considerado
da Metafísica”. Talvez sua incapacidade de aquele que introduziu o método da dúvida.
finalizar um projeto devia-se ao hábito de não
Descartes morreu apenas alguns anos de-
sair da cama antes das 11h (ele dizia que pas-
pois da publicação de sua obra-prima, as
sava esse tempo lá lendo). Mas o fato é que
Meditações, na Suécia, aquela “terra de ur-
no meio de sua vida, Descartes não havia
sos entre rochas e gelo”, como ele descre-
publicado nada, e dizem os rumores que era
veu o país de forma nada afetuosa. Ele este-
um grande enrolador — alardeava muito, mas
ve envolvido na escrita até o fim — mas não
não produzia nada.
(como aqueles versados na lenda de Des-
Entretanto, Descartes ainda não havia aca- cartes podem presumir) grandes tratados
bado. Em uma carta para seu amigo monge filosóficos, e sim terminando uma comédia
Marin Mersenne, ele escreveu que, embo- e um balé para diversão da rainha da Suécia
ra por necessidade tivesse que modificar, e seus cortesões. De fato, o que parece ter
abandonar ou recomeçar trabalhos ante- acabado com ele foi ter que acordar muito
riores, visto que havia conquistado novo cedo toda manhã para dar aula de filosofia
conhecimento, ele agora tinha um trabalho para a rainha. Dessa forma, Descartes final-
que finalmente estaria além da modificação, mente demonstrou uma verdade importante:
“independentemente de novo conhecimento acordar cedo faz mal para algumas pessoas!

Então, o que há de tão bom em Descartes — que tão frequentemente se


encontra no cerne dos cursos de filosofia? Os filósofos enaltecem Descartes
por duas coisas:

UUO método da dúvida


UUO dualismo

Método da dúvida
Descartes dizia que, para separar nosso conhecimento real de boatos não
confiáveis, ilusões de ótica e armadilhas de outras pessoas (inclusive de
demônios malévolos), deve-se suspeitar de tudo que você acha que sabe,
não confiar em qualquer coisa que vir ou ouvir e até mesmo presumir que
tudo pode ser um sonho ou um truque malévolo.

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


86  Parte II: A História da Filosofia

O Cogito
Filósofos gostam do “Penso, logo existo” de se, donc je suis” (ainda está bom para quem
Descartes. O engraçado é que não foi exa- quiser impressionar franceses). Essa, super-
tamente isso que ele disse. “Ego sum, ego ficialmente, parece mais com a versão em
existo, quoties a me profertur, vel mente con- português. Em português foi traduzido como
cipitur, necessario esse verum” é o texto ori- “Penso, logo existo”, mas a tradução mais
ginal em latim de 1641, para quem quiser im- precisa é “Estou pensando, logo existo”.
pressionar as pessoas. Descartes escrevia Veja, o francês não tem uma forma de distin-
em latim para fazer exatamente isso. Mas, guir os dois sentidos. Se isso parece confuso
sendo francês, também escreveu uma ver- para você é porque é confuso e, de fato, fez
são em sua língua, e aqui está ela: “Je pen- muita confusão na filosofia desde então.

Como observado no Capítulo 2, Descartes estava longe de ser o primeiro a se


perguntar sobre isso. Os céticos gregos antigos já o tinham feito, e sua conclusão
foi de que não se pode ter certeza de absolutamente nada. Mas Descartes é
famoso porque, no momento em que todo o conhecimento humano parecia
reduzir-se a palpites otimistas ou convenção, ele aparece dramaticamente com
algo que é absolutamente confiável e certo — algo de que se pode realmente ter
certeza. Esta provavelmente é a citação mais famosa da filosofia: “Penso, logo
existo”. Ninguém, diz ele, pode duvidar da verdade disso.

Dualismo
A segunda coisa pela qual Descartes é lembrado é o dualismo. Descartes
separa pensamentos de experiências.

O dualismo é o jargão filosófico para o ato de ver o mundo como sendo


composto de duas coisas: mente e matéria. Descartes pensava que todo
mundo possuía uma mente e um corpo. Contudo, ele achava que animais
possuíam apenas corpo — e ele chegou ao ponto de dissecar alguns para
testar sua teoria. Com certeza, ele não encontrou nenhuma mente dentro
dos bichos. A Igreja gostou de sua abordagem, porque ela se adequava
bem à ideia de almas. Descartes chegou, inclusive, a encontrar uma
pequena glândula (a glândula pineal, não que isso importe) nos seres
humanos, que parecia não fazer nada, então ele sugeriu que era nela que
morava a alma humana, orientando o corpo.

Isso é filosofia besta e também não é boa ciência. A glândula pineal é apenas
uma glândula. Porém, mesmo que fosse verdade, ainda havia um problema
muito prático com a teoria. Se mentes e almas não possuem partes físicas,
como podem ter qualquer efeito físico — como pode somente minha alma
(seja lá onde esteja) dizer ao meu braço de carne e sangue para virar a página?

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


Capítulo 5: Da Idade das Trevas à Atualidade   87

Procurando Espinoza
Espinoza (1632–1677) foi um alemão, fabricante de lentes ( não
exatamente um “fabricante espetacular”, como alguns livros tentam dizer)
que recusou uma cadeira em filosofia na faculdade grã-fina de Heidelberg
para continuar martelando e polindo suas lentes.

Espinoza achava que Descartes estava errado (veja a seção anterior) em


dividir o mundo em dois tipos de coisas e, ao contrário dele, uniu-as,
dizendo que tudo é fundamentalmente feito da mesma coisa. Ele disse que
mente e corpo são apenas dois aspectos de algo mais, que, por sua vez,
possui muitos aspectos, dentre eles o de ser Deus.

O cerne das ideias de Espinoza vem de tradições filosóficas orientais,


especialmente do taoismo (veja o Capítulo 6). Hoje em dia, os filósofos
admiram muito os escritos de Espinoza, supostamente uma série de provas
no estilo matemático ou euclidiano (ele foi o filósofo preferido de Einstein),
mas ele não teve tanta influência quanto qualquer um dos filósofos antigos.

Espinoza discordou de outras ideias cartesianas (relativas a Descartes). Ele


não acreditava em mentes nem em almas, nem mesmo na matéria bruta.
Concluiu que a impressão que se tem de escolher fazer coisas é uma ilusão.
Em outras palavras: Espinoza não acreditava em livre-arbítrio. Em seu
Tratado Teológico-Político (1670), ele subversivamente examina a Bíblia,
tratando-a como textos que estudiosos deveriam analisar em vez de tratar
como revelação divina. Ele acreditava que os estudiosos deveriam examinar
e analisar a Bíblia sem necessariamente presumir que é a verdade.

Em 1656, quando Espinoza tinha apenas 24 anos, os mais velhos de sua


sinagoga cansaram. Eles excomungaram-no da comunidade judia. A
sentença oficial fala de “opiniões e atos maléficos”, “heresias abomináveis”
e “ações monstruosas”. Parece bem animado! Porém, lamentavelmente, a
sentença não registra ações específicas, então os filósofos tiveram que se
contentar em especular sobre isso desde então.

Uma olhada em Locke


John Locke (1632–1704) nasceu em um tranquilo vilarejo em Somerset, no período
bem menos tranquilo da Guerra Civil entre o Parlamento e os monarquistas.

Como jovem caçador, seus interesses eram amplos, com seu Ensaio Acerca do
Entendimento Humano, de 1689, refletindo um interesse em novas máquinas
e outras invenções científicas da época, detalhando como a mente pode
absorver “ideias simples ou complexas” através dos sentidos para montar um

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


88  Parte II: A História da Filosofia

conhecimento. Ele acreditava que o mundo complexo é construído de impressões


sensoriais simples. Bebês que brincam com formas e cores tornam-se conscientes
do espaço e do tempo, do problema do mal, indução e causação — tudo!

Isso foi radical, visto que Platão havia dito que as pessoas nascem com
muitos conhecimentos inatos, prontas para fazer coisas complexas, como
matemática, e também falar, como argumentou o americano meio que
filósofo Noam Chomsky.

Contudo, é a teoria política de John Locke, publicada em Dois Tratados Sobre


o Governo (1690), que foi, através do tempo, mais influente. Como a de Platão,
sua teoria começa com uma busca por autoridade moral. E, assim como
Platão, Locke diz que a consciência humana deve contar com Deus somente
no julgamento de todos os assuntos, colocando julgamentos individuais
firmemente acima tanto da Igreja quanto do Estado, e limitando a função deste
último a proteger a propriedade. “Sendo todos iguais e independentes, ninguém
deve ferir outro em sua vida, saúde, liberdade ou posses”, proclama Locke. Isso
lembra alguma coisa? Deveria: é a base do sistema político dos Estados Unidos.

John Locke adequou-se tão bem aos tempos (Bertrand Russell chegou
a descrevê-lo como “Apóstolo da Revolução de 1688”) que políticos e
pensadores contemporâneos adotaram ativamente sua filosofia. O filósofo
francês do século XVIII Voltaire usou as ideias de Locke em seus escritos para
inspirar os princípios da Revolução Francesa. A partir de então, os americanos
foram encorajados pelo pensamento de Locke a declarar que tinham “direitos
fundamentais” também (ou, pelo menos, que alguns americanos tinham…).

Locke limita a liberdade


No seu Dois Tratados, John Locke diz que “ini- Porém, crucialmente, Locke acrescenta uma
cialmente a terra e todas as criaturas inferio- outra exigência para se ser livre. A liberda-
res” pertencem a todos — com uma exceção de de alguém para seguir sua própria vonta-
importante. Os indivíduos possuem de fato uma de está agora “atrelada a se possuir razão
coisa; eles possuem a si próprios. No “estado para que seja capaz de instruir-se acerca
original” (que é como ele acredita que viviam da lei pela qual deve ser governado…”.
as pessoas antes de haver governos), ninguém Essa exigência adicional permitiu que Locke
tinha nenhum direito sobre o corpo de outrem; justificasse a posse de escravos e até que
ele acrescenta: “É apenas essa propriedade investisse em uma empresa de comércio es-
que dá liberdade aos indivíduos”. cravagista ele próprio.

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


Capítulo 5: Da Idade das Trevas à Atualidade   89

Apresentando uma grande trinca britânica


Locke–Berkeley–Hume são os três britânicos de coisas externas por meio dos sentidos;
que tiveram uma enorme influência na filo- Berkeley disse que tudo vem das ideias na
sofia britânica. Os filósofos os adoram! Mas mente, pois tudo que se sabe é o que se pen-
eles também compõem uma boa trinca teó- sa que sente; e Hume disse que na realidade
rica. Locke disse que o conhecimento vem não se sabe absolutamente nada.

Em seus escritos, Locke cria a imagem de um mundo no qual a


racionalidade é a autoridade máxima, não Deus, e certamente não, como
insistia o filósofo inglês Thomas Hobbes, a força bruta. Ele defende que
todas as pessoas possuem certos direitos fundamentais e também procura
devolver o outro lado da raça humana, a parte feminina, ao seu lugar
próprio e igual na história, na família e no governo.

Só é uma pena que, na época, seu trabalho no governo era organizar o


comércio de escravos. Nada de direitos para escravos!

Percebendo com Berkeley


George Berkeley foi um bispo irlandês que viveu no século XVIII.

Ele tinha uma visão muito estranha do mundo — a de que objetos


materiais como pedras, ou mesmo cães de estimação, existem somente
como complexos de ideias que se tem pela percepção. À objeção de
que se fosse o caso, uma árvore, por exemplo, em uma floresta deixaria
de existir quando ninguém estivesse por perto, ele respondeu que Deus
sempre percebe tudo. Em sua opinião, esse era um argumento de peso.

Os filósofos sempre expressam essa conclusão, como o cogito ergo sum


de Descartes, em latim: esse est percipi (foi melhor fazer uma observação
sobre esta, caso contrário ela deixaria de existir).

A conclusão do bispo Berkeley é a de que ele possui bases excelentes e


plenamente lógicas para manter a visão de que apenas mentes e eventos
mentais existem. Isso ainda não era suficiente para muitos de seus
paroquianos, que tinham roupa para lavar e comida para fazer — mas foi
bom o suficiente para ser adotado por Hegel e outros filósofos posteriores
(a seção “Marchando ao lado de Hegel no ritmo da razão dialética” cobre
esse assunto neste capítulo).

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


90  Parte II: A História da Filosofia

Sendo despertado por Hume


O escocês David Hume (1711–1776) e o bispo Berkeley não teriam se
dado bem, muito embora Hume tenha nascido em uma devota família
presbiteriana. Porém, a partir da idade de 17 anos, ele começou a
trabalhar em um grande projeto filosófico que, no momento devido,
viria a desafiar todas as velhas ideias tanto na ciência como na religião e
“despertar o mundo filosófico de seu cochilo dogmático”, como o célebre
contemporâneo Kant pertinentemente colocou (mais sobre ele na próxima
seção, “Tirando Kant de seus cochilos dogmáticos”).

A mente sobre a matéria


Berkeley escreveu suas principais obras pode ser dito dos cheiros. Hylas valente-
quando tinha vinte e poucos anos: Uma mente retruca nesse ponto e diz que sons
Nova Teoria da Visão em 1709, Princípios não viajam pelo vácuo. Disso, ele conclui
do Conhecimento Humano um ano depois e que [os sons] devem ser “movimentos de
Diálogos Entre Hylas e Philonous em 1713. moléculas de ar”, não entidades mentais,
Neste último, ele expõe da melhor forma seu como seu amigo tenta persuadi-lo. Philo-
argumento de que as mentes são reais e a nous responde que, se for de fato som real,
matéria, imaginária. Hylas (todos os nomes não carrega nenhuma semelhança com o
têm significados particulares também) de- que nós conhecemos por som, então, nes-
fende o senso comum científico, e Philonous, se caso, o som bem pode ser um fenômeno
a própria visão de Berkeley. Após alguns co- mental afinal! O mesmo argumento derru-
mentários amistosos, à maneira de Platão e ba Hylas quando se trata da discussão de
Sócrates, Hylas diz que ouviu que seus ami- cores, quando percebe que elas também
gos defendem a visão de que não há maté- desaparecem sob certas condições, como
ria. Pode algo ser mais fantástico, mais re- quando se vê uma nuvem dourada ao pôr do
pugnante ao senso comum ou um ceticismo sol, mas de perto não passa de névoa cinza.
mais manifesto que isso, ele exclama!
Da mesma maneira, o tamanho varia de-
Philonous tenta explicar que o dado senso- pendendo da posição do observador. Aqui
rial é na verdade um fato mental, como se Hylas sugere que se deve distinguir o objeto
pode ver considerando a experiência da da percepção — o fato de perceber é men-
água morna: coloque uma mão fria na água tal afinal –, mas um objeto material ainda
e ela parecerá morna; coloque uma mão existe. Philonous replica: “Qualquer coisa
quente na água e ela parecerá fria. Hylas que seja imediatamente percebida é uma
aceita esse ponto, mas prende-se a outras ideia: e alguma ideia pode existir fora da
qualidades sensíveis. Philonous então diz mente?”. Em outras palavras, para que algo
que os sabores são agradáveis ou desagra- seja percebido, deve haver uma mente em
dáveis e são, portanto, mentais, e o mesmo algum lugar percebendo-a.

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


Capítulo 5: Da Idade das Trevas à Atualidade   91
Aos 23 anos, Hume deixou a Escócia e foi a La Flèche, uma pequena
cidade na França, lar da faculdade jesuíta frequentada por Descartes um
século antes, e pôs no papel a maior parte de seu Tratado Sobre a Natureza
Humana. Alguns filósofos começam cedo.

Em sua introdução do Tratado, David Hume aconselha o leitor a desconfiar


de filósofos que “insinuam elogios aos seus próprios sistemas, desprezando
todos aqueles que haviam sido desenvolvidos antes deles”. Ele prossegue
denunciando as fracas bases dos sistemas filosóficos de todos os outros,
repletos de “incoerências”, que são “uma desgraça para a própria filosofia”
e propõe um sistema completo das ciências, dele mesmo.

Visto que Hume é um pensador profundamente moderno, ele baseia seus


argumentos somente em raciocínio abstrato ou experimental:

Se pegarmos em nossa mão qualquer volume de divindade


ou metafísica escolar, por exemplo; perguntemos: possui
qualquer raciocínio abstrato concernente a quantidade ou
número? Não. Então, jogue-o ao fogo: pois não contém nada
senão sofismo e ilusão.

Não há espaço nem função para a religião em sua filosofia. O conhecimento,


a ética e Deus são obrigados a voltarem à Terra pelo escrutínio de Hume.

Hume enxerga as pessoas essencialmente como animais, com a facilidade


adicional de uma linguagem sofisticada. A razão é meramente um produto
do uso da linguagem, e os animais podem também raciocinar, embora de
maneiras mais simples. Ele oferece relatos tanto de emoções quanto de ideias,
como se as pessoas fossem essencialmente máquinas, motivadas pelo prazer
e pela dor, ou, como o filósofo subversivo inglês Thomas Hobbes colocou
anteriormente, por “apetites e aversões”. A observação de Hume de que “um
é não implica um deve” também enfatiza que, mais cedo ou mais tarde, as
pessoas sucumbem aos seus sentimentos para fazer quaisquer escolhas.

No último período de sua vida, Hume aceitou o rótulo de cético, e


certamente é assim que seus contemporâneos viam-no. A primeira vítima
de sua abordagem foi a consciência, ou o eu, aquela sensação de que
você existe. Hume diz que não se pode ter certeza de existir. Isso acontece
porque a consciência é sempre de algo, de algum tipo de impressão
— estar quente, frio, ou seja lá o que for —, então, você (e eu) é, na
realidade, apenas um pacote dessas sensações ou percepções. Ninguém
pode, certamente, perceber o eu, como tal, em outra pessoa. Dessa forma,
Hume deu um passo além do bispo Berkeley, que havia demonstrado que
não existia matéria, provando que não existia mente também.

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


92  Parte II: A História da Filosofia

Sem causas, sem efeitos


Hume rejeitava a noção de causa e efeito, mos, de banana, achará muito estranho. Mas
o que é bem drástico, que diz, por exemplo, Hume diz que sua pressuposição de que ma-
que, quando você vê um evento constante- çãs terão gosto de maçã é um pensamento
mente seguido por outro, só pode inferir que o preguiçoso. Esse é, na verdade, outro as-
o primeiro evento causou o segundo. Con- pecto do problema da indução. “A suposição
tudo, “nós não podemos penetrar a razão de que o futuro se assemelha ao passado
da conjunção”. Por exemplo, se você come não é fundamentada em qualquer tipo de ar-
maçãs, espera que tenha um certo gosto. Se gumento, mas deriva-se somente de hábito.”
você dá uma mordida e ela tem gosto, diga-

Dada toda essa incerteza, parece que você deve concluir que todo
conhecimento é falho e que não temos razão para acreditar em nada que
esteja além de nossas impressões sensoriais, e as simples ideias em nossa
memória derivam-se dessas impressões. Hume vê isso, mas, como era um
filósofo cavalheiro, sugere que “descuido e desatenção” oferecem um
remédio — deve-se negligenciar as falhas em seus argumentos e continuar
a usar a razão sempre que achar adequado. A filosofia segue sendo, então,
apenas uma forma agradável de passar o tempo (pelo menos é o que ele
achava), não uma razão para mudar suas visões.

Hume poderia ter considerado a filosofia uma carreira agradável se não


fosse pela controvérsia levantada por sua crítica à religião. Em vez disso,
seu grande amigo Adam Smith (na época, um filósofo muito mais famoso)
respondeu ao pedido de uma recomendação para Hume se candidatar a
um posto de professor de ética e filosofia pneumática (não me pergunte
por que era pneumática) em Edimburgo, alertando contra a indicação de
seu amigo! Esse é o preço que se paga por dizer que a filosofia é bobagem.

Hume nos leva a uma espécie de parada teórica — leva a filosofia para o brejo.
Isso não afastou os filósofos, todavia. Na verdade, só fez com que redobrassem
seus esforços; particularmente, para pensar e agir como máquinas.

Pensando Como Máquinas


Durante o século XVIII, vários pensadores abordaram o problema de desenvolver
uma forma mecanizada de pensar, formalizando o raciocínio humano em
uma série de cálculos lógicos. Entre esses filósofos, cujos interesses incluíam
matemática e as primeiras calculadoras, estavam Leibniz, Pascal, Hegel e Kant.

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


Capítulo 5: Da Idade das Trevas à Atualidade   93

Aprendendo a amar Leibniz


Gottfried Leibniz (1646–1716) nasceu em Berlim e logo se tornou um dos
maiores intelectuais do século XVII e um lógico famoso. Quando era apenas
um menininho, aprendeu latim sozinho com um livro ilustrado e, com
apenas 15 anos, criou o primeiro do que seriam vários esquemas grandiosos,
“Da Arte Combinatória” — um sistema pelo qual reduz-se todo raciocínio
a uma complicada grade de números, sons e cores. Esse foi o início de sua
busca pela “linguagem universal”, com o que, posteriormente, ele tentou
construir o que teria sido o primeiro computador.

Leibniz, de fato, como muitos outros filósofos antes dele e desde então,
era apaixonado por números. Seu caso com os números ficou sério
quando, esperando para começar a faculdade, ele tomou conhecimento
da filosofia matemática dos pitagóricos e em particular de sua visão de
que os números são a realidade definitiva. Que ótima ideia, ele pensou!
Pitágoras revelou-lhe que o universo era como um todo harmonioso,
baseado em razões matemáticas simples, como aquelas dos intervalos
básicos na música (a “harmonia das esferas”). A filosofia de Leibniz
reflete essas duas perspectivas.

Visto que a estrutura fundamental da realidade parecia ser matemática,


como lógico, Leibniz achava possível e desejável construir uma linguagem
artificial para investigar problemas filosóficos traiçoeiros. O primeiro
passo foi tornar o mundo em si mais racional, sugerindo uma maneira de
rearranjar o universo (ou a forma como as pessoas pensam a respeito dele)
em simples fatos fundamentais e eternos — ou átomos lógicos, para utilizar
o termo que Bertrand Russell posteriormente cunhou. Esses átomos lógicos
se tornaram, para Leibniz, os blocos construtores definitivos da realidade
e ele deu-lhes um nome especial: as mônadas. O conhecimento do
universo era para ele essencialmente uma questão de analisar esses blocos
construtores da realidade.

Por conta desse tipo de crença no poder da mente humana para resolver
grandes questões simplesmente pela força da razão, Leibniz é lembrado
hoje em dia como um filósofo racionalista essencial — ao lado de
Descartes e Espinoza (para saber mais sobre estes dois, veja a seção
“Tentando Viver sem Deus”, anteriormente neste capítulo).

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


94  Parte II: A História da Filosofia

Pascal aplica um pouco de matemática


Blaise Pascal (1623–62) nasceu em Clermont- a questões filosóficas da vida humana trata-
-Ferrand na França e logo se tornou um céle- va da velha questão de se Deus existe ou não.
bre filósofo cujos Pensées (pensamentos, em Algumas pessoas contam a “Aposta de Pas-
francês) foram reunidos em uma coletânea e cal” como um argumento para a existência de
publicados pouco depois de sua morte. Ape- Deus, mas ela não passa meramente de um
sar de — ou talvez por conta de — ser mate- argumento para acreditar em Deus, ou, colo-
mático, seus ensaios filosóficos são modelos cando de outra forma, um conselho a pessoas
de elegância e precisão (certa vez ele escre- egoístas de como melhor cuidar de seus inte-
veu se desculpando a um amigo para explicar resses. Pense, talvez Deus não queira gente
que sua carta era tão longa “porque não teve assim no céu!
tempo de escrever uma curta”).
Pascal pensava que as bases do conheci-
O tema central de seus escritos é a na- mento encontravam-se na fé em vez da razão.
tureza desgraçada e pecadora da vida Isso torna todo o conhecimento incerto, sen-
humana. Se era assim que ele enxerga- do o exemplo óbvio o conhecimento de Deus.
va sua própria época na Terra, ele cer- Sua aposta é a de que, visto que não se pode
tamente deixou para trás contribuições ter certeza de que Deus existe, você deveria
importantes para a geometria, teoria do presumir que existe, pois as consequências
número e probabilidade, assim como a de erro nesse caso são nulas, mas, se você
criação de um tipo inicial de computador. presumir que Deus não existe e estiver erra-
Outro modo como ele aplicava a matemática do, a consequência é a condenação eterna!

Como indivíduo, entretanto, Leibniz levou uma vida bem modesta,


trabalhando como secretário pessoal do arcebispo da Magúncia e,
posteriormente, na corte eleitoral de Hannover. Contudo, ele foi
um grande alpinista social — “um homem elegante com peruca
empoeirada”, como um de seus contemporâneos resumiu-o — e usava
suas posições como base para se corresponder ativamente com a
maioria dos outros pensadores da Europa na época e também com
muitos nomes da alta sociedade. “Eu amo Leibniz”, disse um deles,
o escritor e filósofo francês Voltaire, “Ele é seguramente um grande
gênio, mesmo que seja também um tanto charlatão... aliado a isso, suas
ideias são sempre um pouco confusas”. Mas nem todo mundo o amava;
conhecidamente, ele se desentendeu com o mais famoso cientista da
época, Isaac Newton, da Inglaterra, a respeito da questão de qual deles
teria sido o primeiro a inventar o cálculo.

O único livro que Leibniz publicou em sua vida inteira não tinha nada
a ver com matemática. Foi Teodiceia (em 1710), que se ocupava do
problema do mal. Esse é o trabalho que avança sua visão, parodiada por

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


Capítulo 5: Da Idade das Trevas à Atualidade   95
Voltaire em sua novela Cândido, em que tudo que acontece neste mundo
é para o melhor — porque as pessoas viviam no “melhor dos mundos
possíveis”. Mas como pode ser quando existem tanta dor e sofrimento no
mundo? Em um ensaio, “Princípios da Natureza e da Graça Fundados na
Razão”, Leibniz explica a aparente contradição:

Depreende-se da suprema perfeição de Deus que ele escolhe o melhor


plano possível na produção do universo, plano no qual há a maior
variedade aliada à maior ordem…. A mais cuidadosa utilização do
terreno, do lugar e do tempo, o maior efeito produzido pelos mais
simples meios; o máximo de poder, conhecimento, felicidade e
bondade nas coisas criadas que o universo poderia permitir.

De uma perspectiva divina, as coisas que parecem apodrecidas não são ruins
de jeito nenhum, visto que são necessárias para criar mais felicidade em outro
lugar. O mundo presente é o melhor possível. Seu argumento, é claro, possui
implicações políticas, e Leibniz era tido como aristocrata e esnobe.

Mas, e sua máquina pensante? Leibniz era, de fato, um inventor habilidoso.


Ele fez um relógio com duas rodas simetricamente equilibradas que
funcionavam alinhadas. Inventou um dispositivo para calcular a posição
de um navio sem a necessidade de bússola ou observação das estrelas.
Desenhou um barômetro aneroide e criou vários aprimoramentos para
o desenvolvimento de lentes, sem falar em um motor de ar comprimido
para propelir veículos e projéteis ou planos para um navio que poderia
submergir de modo a escapar da detecção inimiga. Dessa forma, Leibniz
foi meio Leonardo Da Vinci, interessado não apenas em todas as artes e
ciências, mas também prático o suficiente para implementar suas ideias.

Talvez, de todas as suas invenções, o computador tenha sido seu


feito mais característico (e mais impressionante). Em 1673, Leibniz
demonstrou sua “máquina de cálculo” à Real Sociedade de Londres,
que prontamente o elegeu como membro, assim enfurecendo Newton.
Escrevendo em 1685, Leibniz dá o seguinte relato de seu momento de
inspiração para essa invenção:

Quando, muitos anos atrás, eu vi pela primeira vez um instrumento que,


quando carregado, automaticamente registrava o número de passos
dados por um pedestre, ocorreu-me de uma só vez que toda a aritmética
poderia ser sujeitada a um tipo similar de maquinário, de forma que
não só a contagem, como também adição e subtração, multiplicação
e divisão pudessem ser realizadas por uma máquina adequadamente
arranjada, de maneira fácil, rápida e com resultados seguros.

Entretanto, como em sua disputa com Dr. Newton acerca de qual


deles havia inventado o cálculo, Leibniz não foi o primeiro a pensar
no computador. O filósofo matemático francês Pascal havia feito uma
máquina calculadora uma geração antes para ajudar seu pai — um

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


96  Parte II: A História da Filosofia

auditor fiscal — com suas tediosas somas. Embora a máquina de Pascal


conseguisse somar números de cinco dígitos, não conseguia fazer
nenhum outro cálculo, era muito caro para fabricar e dava defeito
com facilidade. Provavelmente apenas algumas poucas dezenas de
máquinas foram produzidas (o box anterior, “Pascal aplica um pouco de
matemática”, fala mais sobre ele).

O pai de Leibniz não era auditor-fiscal como o de Pascal, mas um filósofo moral,
e, adequadamente, a máquina de Leibniz foi desenhada para automatizar a
(igualmente terrível) tarefa de resolver problemas morais. Ela utilizava:

….um método geral com o qual todas as verdades da razão seriam


reduzidas a um tipo de cálculo. Ao mesmo tempo, seria uma espécie
de escrita da linguagem universal, porém infinitamente diferente de
todas aquelas imaginadas anteriormente, porque seus símbolos e
palavras direcionariam a razão, e os erros — exceto aqueles do fato
— seriam meros erros de cálculo.

Leibniz e a primeira linguagem computacional


Como parte de sua busca original por uma B) não é possível, ou, para outro exemplo:
“linguagem universal”, pronta para a compu-
“(Leibniz NÃO é um ótimo inventor) É (não
tação do pensamento, Leibniz percebeu que
possível)”.
as linguagens existentes são pobremente
estruturadas, ilógicas e, consequentemente, Especialistas dizem que isso é um passo
inadequadas para o pensamento profundo. inicial para o sistema finalmente produzido
Por essa razão, ele pôs-se a criar uma lin- por George Boole (1815−64), que hoje em
guagem nova, lógica (baseada no latim), uma dia é central para a ciência computacional.
empreitada no espírito do próprio Aristóteles. Boole manipula declarações às quais são
De fato, Leibniz é às vezes chamado o “Aris- dados valores de verdade, mas Leibniz ten-
tóteles da Era Moderna”. ta ir um passo além e transforma conceitos
em números para melhor manipulá-los me-
Então, como isso funcionava? A frase “Leib-
canicamente. Intrigantemente, como lógicos
niz inventou o cálculo”, por exemplo, ele pre-
posteriores, ele concluiu que todos os con-
feria ver expressa como “Leibniz é o inventor
ceitos são compostos por outros menores e
do cálculo”. Leibniz decidira que se deve ali-
mais simples que podem ser desmembrados,
jar todos os verbos, com exceção de um: ser.
semelhante à forma como os números são
Mais importante (pelo menos para Leibniz),
compostos de fatores, exceto pelos primos (8
expressões como “Todo A é B” deveriam ser
também é 2 x 4, mas o pobre 13 será sempre
reescritas, como, por exemplo, “todos os Lei-
13, por exemplo).
bnizes são ótimos inventores” para (A não é

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


Capítulo 5: Da Idade das Trevas à Atualidade   97
Leibniz viveu em uma era antes da eletricidade, que dirá da eletrônica.
Inevitavelmente, sua máquina mostrou-se um sonho vão. Contudo, ele
haveria tido mais sucesso se tivesse continuado a estudar o sistema
binário e, na realidade, foi um dos primeiros matemáticos a fazê-lo.
Ele era fascinado pela forma como seria possível expressar toda a
aritmética com apenas dois números (ou símbolos), 1 e 0, e concluiu,
da mesma forma, que todo o universo foi criado do ser puro e do nada.
“Deus é o ser puro: a matéria é um composto de ser e de nada”, ele
escreveu de forma impressionante.

Marchando ao lado de Hegel no


ritmo da razão dialética
Se as filosofias políticas do comunismo e do fascismo parecem bem
diferentes, na realidade, ambas devem suas origens a Georg Hegel (Georg
Wilhelm Friedrich, seu nome completo, 1770−1831), ex-mestre e professor
de filosofia. As ideias de Hegel não só fizeram Marx se enfiar na Biblioteca
Britânica todo dia em busca de pegadas do materialismo dialético, como
também inspirou Nietzsche, Gentile e muitos outros com sua fala acerca da
nova era a ser conduzida em meio a guerra e destruição. Segundo Hegel, e,
dessa forma, também os marxistas e fascistas, a nova era era inevitável —
era nada menos do que um objetivo da história.

O materialismo dialético é a versão marxista da razão dialética de Hegel.


Parece complicado, mas na realidade não é. A ideia em ambos os
casos é que duas forças opostas — ideias ou argumentos para Hegel,
classes sociais ou mesmo nações para Marx — entram em conflito e, no
processo, destroem-se mutuamente, resultando em uma ideia ou estágio
novo e superior.

Hegel enxerga os seres humanos como engrenagens em uma máquina


cósmica impessoal e irresistível, girando nas sociedades para, em dado
momento, produzir... adivinhe o quê! Pura racionalidade. Os seres
humanos são incapazes de serem plenamente racionais, sendo meras
criaturas de carne e sangue, mas os governos ou Estados podem sê-lo. Em
Filosofia do Direito, Hegel explica de modo excelente e magistral que os
indivíduos devem entender que o Estado não existe para eles, mas, ao
contrário, que o indivíduo existe para o Estado. Ele escreve: “No Palco da
História Universal, no qual nós podemos observá-la e compreendê-la, o
Espírito mostra-se em sua realidade mais concreta”. Convenientemente, a
realidade concreta também era o empregador de Hegel: o rei da Prússia!
Hegel finaliza com sua grandiosa promessa:

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


98  Parte II: A História da Filosofia

O Espírito Alemão é o espírito do novo mundo. Seu objetivo


é a realização da verdade absoluta como a autodeterminação
ilimitada da liberdade.

Hegel alerta contra a permissão de quaisquer restrições na ascensão desse


espírito germânico, como aquelas de organizações internacionais com
a tarefa de prevenir conflitos, explicando (novamente em Filosofia do
Direito) que a guerra era crucial:

Assim como o soprar dos ventos preserva o mar da sujeira que seria
o resultado de uma calma prolongada, assim também a corrupção
nas nações seria o produto de uma paz prolongada, mais ainda de
uma paz “perpétua”.

Especialistas gostam de dizer que os pensamentos de Hegel representam


o ápice do idealismo filosófico da Alemanha no século XIX. Após, houve
uma queda. Primeiro veio o materialismo histórico do jovem hegeliano
Karl Marx — isto é, a visão de que a História é a história das pessoas
combatendo umas às outras por comida, terra e dinheiro. Depois veio
a nova filosofia do fascismo na Itália, Espanha, Áustria e Alemanha. O
fascismo baseia-se na ideia de que as pessoas lutam por ideais abstratos,
como a nação e a grandeza.

Em 1831 houve uma epidemia de cólera em Berlim (o colega e inimigo


intelectual de Hegel, Schopenhauer, apesar de — ou talvez por — ser um
famoso pessimista, rapidamente abandonou a cidade e foi para os climas
mais saudáveis da Itália), mas Hegel ficou, talvez pela preferência por sua
própria nação, contraiu a doença e morreu.

Tirando Kant de seus cochilos dogmáticos


Immanuel Kant (1724–1804) — ou o Chinês de Königsberg, como de
forma bastante obscura Nietzsche o apelidou — passou sua carreira
criando regras como professor universitário (o que o tornou um dos
primeiros grandes filósofos a serem pagos para filosofar). Aristóteles já
havia escrito as leis do pensamento, mas Kant agora acrescentava algumas
próprias (veja o Capítulo 13). São essas regras, rígidas e inflexíveis, mas
(supostamente) também a manifestação da própria razão, que tornam o
pensamento de Kant tão distinto. Dessas, a mais conhecida talvez seja a
que ele chama de imperativo categórico. Ela diz:

Aja somente segundo uma máxima que você possa, por sua vontade,
tornar uma lei geral.

Isso é um pouco como a antiga máxima cristã “faça com os outros


apenas aquilo que gostaria que fizessem com você”, que permeia

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


Capítulo 5: Da Idade das Trevas à Atualidade   99
o Novo Testamento como o mofo permeia o queijo azul. E quando
a versão de Kant aparece em Metafísica dos Costumes (1785), ele a
oferece para decidir todas as questões morais. Curiosamente, porém,
todas as regras parecem desabar ante o mais fácil dos testes. Por
exemplo, elas permitem coisas que certamente deveriam ser banidas,
mas proíbem coisas que parecem não ter muita importância. Uma
regra, por exemplo, que diz que qualquer pessoa que derramar chá
em um livro Para Leigos deve ser espancada com uma vara e ter
sua língua cortada é aprovada porque é universalizável (ou seja, é
logicamente possível aplicar essa regra em todos os casos), mas fazer
empréstimo é proibido porque, se todo mundo o fizesse, causaria uma
correria ao banco. Kant teria que condenar as iniciativas que oferecem
microempréstimos a agricultores do Terceiro Mundo para que comprem
sementes e pás, por exemplo, como algo maléfico.

Kant argumentava que se deve seguir princípios morais


incondicionalmente e sem preocupação com as consequências. É isso
que torna seu imperativo tão categórico. Então, por exemplo, certamente
é sempre necessário dizer a verdade, mesmo que seja para um louco à
caça de sua avó para matá-la. Quando ele perguntar a você “Para que
lado sua avó correu?”, não deixe de responder honestamente para qual
lado foi! (Kant, então, diz que, se o louco matá-la, isso é responsabilidade
dele, enquanto que mentir seria responsabilidade sua.) Por outro lado,
alguém que nunca faz nada para ferir o outro não é uma boa pessoa se sua
ação se basear somente em medo de ir para a prisão. De certa forma, isso
tanto é ética antiga como um esforço moderno para construir um código
moral ou mesmo uma máquina para lidar com essas questões traiçoeiras
concernentes ao certo e errado (no Capítulo 13, falo com mais detalhes
sobre quão bem-sucedido é o imperativo).

Apesar de seus interesses científicos, Kant critica o conhecimento obtido


por meio dos sentidos e sugere que é melhor quando ele se deriva de
“dedução transcendental”. Infelizmente, ninguém nunca conseguiu
descobrir o que é isso. Mas certamente a mente é melhor do que a matéria,
que, em qualquer caso, só assume a forma que assume graças a você
olhando para ela. Embora essa seja uma antiga história filosófica, Kant teve
a audácia de descrever sua ideia no prefácio à segunda edição de Crítica
da Razão Pura como “revolução copernicana” na filosofia. E, caso não
estivesse claro, ele acrescentou, “Atrevo-me a dizer que não há um único
problema metafísico que não tenha sido solucionado ou que, pelo menos,
a chave para a solução não tenha sido fornecida”.

Certamente Kant fez uma corajosa e importante tentativa de mostrar as


respectivas contribuições de duas faculdades humanas — percepção
sensorial e razão — à criação do conhecimento humano. Ele pensava,
como Locke, que todo conhecimento do mundo deriva-se das impressões
sensoriais (que, entretanto, ele chama confusamente de “intuições”)

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


100  Parte II: A História da Filosofia

e não podem ir além delas; mas insistia que tais impressões, se fossem
gerar conhecimento sobre objetos estáveis, deveriam ser organizadas
em conformidade com conceitos oferecidos pelo entendimento. A
Dedução Transcendental era aquela parte de um projeto para identificar
quais conceitos em particular eram necessários à organização de nossas
impressões em conhecimento de objetos.

Uma grande parte de Crítica da Razão Pura é dedicada a expor os erros que
se seguem quando se deixa de compreender a verdadeira natureza do espaço
e do tempo. Isso é um pouco como Zenão e seus paradoxos, e, na realidade,
a parte mais eficiente das 700 estranhas páginas da Crítica é a curta seção
“Antinomia”, que busca demonstrar quatro exemplos de raciocínio paradoxal:

UUO mundo precisava ter tido um início em ambos, no espaço e no


tempo, e isto pode não ter sido feito.
UUTudo deve ser composto de partes menores, e tudo deve ser parte
da mesma coisa.
UUCausa e efeito são completamente mecânicos — e não o são.
UUDeus existe necessariamente — e Deus não necessariamente existe.

Seja quanto Kant tenha tomado emprestado dos debates de Zenão e dos
antigos, ele certamente impressionou Georg Hegel, que conduziu toda sua
filosofia usando o mesmo estilo de tese seguida de antítese (para saber
mais sobre Hegel, veja a seção “Marchando ao lado de Hegel no ritmo da
razão dialética”, anteriormente neste capítulo). Hegel, contudo, soluciona
as charadas, acrescentando uma suposta síntese (uma resposta obtida pela
combinação de duas visões opostas), enquanto Kant, assim como Zenão,
contentava-se com meramente desacreditar certas formas de pensar.
Então, a influência filosófica mais importante de Kant talvez não tenha
sido uma de suas regras, mas um de seus métodos — um tipo de sistema
racional automatizado.

Kant vai além em A Religião nos Limites da Simples Razão (1793)


para demolir todas as teorias populares da existência de Deus, e foi
proibido, por seu problema, de fazê-lo novamente por Frederico
Guilherme III, o então governante da Prússia. Dessa vez, Kant quebrou
as regras evidentemente!

Botando a Filosofia de Lado


com a Matemática
O sonho dos filósofos de criar uma linguagem lógica para tornar a
resolução de problemas filosóficos uma questão de cálculo, e não um
debate interminável, deu outro passo gigantesco à frente (bem, foi isso

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


Capítulo 5: Da Idade das Trevas à Atualidade   101
que eles pensaram) em 1890, quando o filósofo britânico Bertrand Russell
conheceu o famoso lógico italiano Giuseppe Peano em uma conferência
de filosofia em Paris.

Peano inspirou o jovem Russell a assumir a tarefa de colocar a matemática


em um fundamento lógico. Como Gottlob Frege, seu contemporâneo
alemão, o objetivo de Russell era demonstrar que era possível reduzir a
matemática à lógica e que isso dependia de nada além da pura razão. A
princípio, tudo correu muito bem. De 1907 a 1910, Russell trabalhou em
seu estudo em Cambridge de 10 a 12 horas por dia, escrevendo teoremas
lógicos sob a supervisão benevolente de Alfred North Whitehead, de quem
a história registrou os “lendários chás da tarde”. Isso viria a se tornar o
magistral (leitura complicada e muito técnica) Principia Mathematica (as
anotações de Russell, não os chás de Whitehead).

A matemática de contar cachorros


O Principia é muito longo e muito chato e não muito lido hoje em dia.
Mas é possível resumir seu propósito em apenas uma frase: a lógica é mais
importante que a matemática, o que, de fato, se reduz a somente alguns
princípios lógicos.

Por exemplo, Russell revela que números, tão caros à matemática, são
meramente adjetivos. “Três cachorros”, por exemplo, é apenas outra forma de
falar de alguns cachorros que possuem a qualidade de “ser três”. Está vendo
aquele grupo de cachorros ali? Eles pertencem à classe “ser três”, junto com
o número de folhas que um trevo tem, o número de chances que você tem
para acertar a coisa branca no beisebol, as primeiras três mulheres de Russell
— de fato, um ou outro grupo de coisas possui essa qualidade efêmera. Mas e
aquela matilha de seis cachorros? Os cachorros também pertencem ao grupo
de três coisas? A matilha contém dois grupos de três cachorros.

Mas isso já está ficando complicado. Parece que está na hora de deixar
essa questão para os especialistas. Então, como a abordagem de Russell
é um aprimoramento? Para muitos filósofos modernos, é. Eles acham que
a linguagem comum é muito melhor expressa formalmente utilizando a
lógica (para saber mais sobre isso, veja o Capítulo 11). Deve-se desnudar
as frases de suas “superstições canibais” para revelar sua essência lógica,
lembrando uma frase politicamente incorreta que Russell usa em seu livro
Mind and Matter (Mente e Matéria, em tradução livre).

Russell preocupa-se com o que pode ser feito com palavras que precedem
substantivos, como alguns, nenhum, um, todo — ou quantificadores, como
ele os chama. Essa preocupação se deve ao fato de que, assim como
unicórnio ou rei da França, elas não significam nada. Sócrates significa
Sócrates, e a palavra filósofo significa certos atributos educacionais em

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


102  Parte II: A História da Filosofia

uma pessoa, mas na frase “Sócrates é um filósofo”, o que significa o um?


Uma quantidade, sim, mas isso complica as coisas. Porque dizer que um
unicórnio tem um chifre não significa realmente que existe um unicórnio
que tem um, e somente um, chifre. É preciso esclarecer até frases simples
como “a neve é água congelada”, pois, que tipo de verbo o é é? (Aqui se
usou o mesmo verbo duas vezes seguidas.) Esse é é um é como quando se
afirma algo? Ou esse é é o é (já foram três seguidos aqui!) como igual? Ou
é um é descrevendo uma propriedade da neve? Qual é?

Outro problema chato era o das negativas. Dizer “Sócrates é um homem” é


complicado, mas dizer “Sócrates não é uma mulher” é muito, muito pior.
Russell queria proibir essas assertivas negativas também. Ele queria tornar
todas as afirmações simples diretamente relacionadas a verdades lógicas
ou empíricas. E como se pode referir diretamente a algo que não existe?
Claramente negativas não servem. Ou eu deveria dizer, talvez, apenas
afirmativas servem.

De qualquer forma, esses são os tipos de questões que os filósofos


analíticos como Russell debatiam no século XX. Russell concluiu que
tudo que se diz deve ser consistente somente com afirmações (talvez
combinadas) sobre coisas das quais se tenha conhecimento imediato e
direto — conhecimento, quintessencialmente, pela percepção sensorial.

Mesmo após todo esse estreitamento das regras para o pensamento e a


linguagem, Russell viu-se confrontado com um problema, que veio a se
mostrar amargo também. Na realidade, no momento certo viria a se tornar
seu monumento filosófico — conhecido desde então em filosofia como
o paradoxo de Russell. Expressa-se em linguagem matemática como “o
problema do conjunto de todos os conjuntos que não são membros de si
mesmos”, e o problema é simplesmente se é um membro de si mesmo ou
não. Mas você pode fazer melhor que isso se lembrar do caso do barbeiro
de Hindu Kush.

Era uma vez, no distante Hindu Kush, um barbeiro que deveria cortar
o cabelo de todos na cidade que normalmente não cortassem seus
próprios cabelos. Para o barbeiro, o leque de possíveis clientes para
cortes de cabelo era bem simples: ou as pessoas cortam os próprios
cabelos, ou não cortam. Mas e seu próprio cabelo? Se o barbeiro
normalmente não corta o próprio cabelo, ele certamente pode cortá-lo
desta vez. Mas se ele corta, pareceria cortar o cabelo de alguém que
normalmente corta o próprio cabelo — o que ele não deve fazer. Então
o barbeiro não deve cortar o próprio cabelo. Porém, se ele não cortar
o próprio cabelo, então claramente ele se enquadra na categoria de
pessoas cujos cabelos ele pode cortar.

Isso dá voltas e voltas em um fútil fiasco autorreferencial. Então Russell


decidiu salvar sua excelente teoria, proibindo todas as declarações
que sejam autorreferenciais (e não só as que dizem respeito a

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


Capítulo 5: Da Idade das Trevas à Atualidade   103
barbeiros). Essa é sua teoria dos tipos. Para esse grande trabalho, Russell
naturalmente esperava uma aclamação pública igualmente grande. Mas
ele se decepcionou.

Todavia, pelo menos ele não foi para a prisão dessa vez, como aconteceu
duas vezes posteriormente, porque o aristocrático “Earl Russell” também
era meio que um desajustado social e radical político. Talvez isso tenha
sido a inevitável consequência de aplicar a lógica à vida cotidiana.

Filosofia analítica
Bertrand Russell escreveu durante a primeira parte do século XX, época
em que alguns dos filósofos mais eminentes, como Ludwig Wittgenstein
(às vezes aluno de Russell), Gottlob Frege e G.E. Moore, também reagiam
às especulações metafísicas e a grandiosas teorias do século anterior.
Todos eles acreditavam que os estudiosos precisavam promover o
desmembramento ou análise de declarações com um método mais
filosoficamente rigoroso. Todos os seus praticantes estavam muito
ocupados quebrando a cabeça com números e lógica para se importar
em olhar para trás em suas abordagens, mas todos compartilhavam de
uma similaridade na abordagem a Leibniz, com sua busca por uma forma
de computar as respostas a questões filosóficas, e aos gregos antigos,
com suas tentativas de aplicar as técnicas, que funcionavam tão bem
na geometria para solucionar problemas matemáticos, para questões e
debates filosóficos.

Pelo final da Segunda Guerra Mundial, a filosofia havia avançado


ligeiramente e Wittgenstein zombeteiramente parodiou sua própria
posição acerca da natureza como superssimplista. Gilbert Ryle
questionou a ideia de que as chamadas simples “proposições atômicas”
(como “A neve é branca” ou “Filosofia é complicada”), que os filósofos
buscavam na linguagem, poderiam refletir fatos, quando a própria
realidade não é composta de partes assim. Segundo o filósofo americano
Willard Quine, a tentativa estava condenada desde o início, porque a
linguagem não possui estrutura definidora.

Condenada ou não, a filosofia sempre procurou analisar declarações, e o


método frequentemente adotado foi traduzi-las para outras declarações
menores e mais simples. Platão, em A República, procura analisar o
significado de justiça em termos de harmonia em um Estado ideal; Locke,
Berkeley e Hume procuram analisar o significado de objetos físicos em
termos de ideias na mente. Como Fred Holman colocou recentemente
em seu artigo “Análise” em Essentials of Philosophy and Ethics, “…filosofia
analítica foi mais um nome novo do que uma nova ideia e uma nova forma
de exprimir debates muito velhos”.

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


104  Parte II: A História da Filosofia

Deixando de lado o nome do movimento, os praticantes da filosofia


analítica gostavam de pegar termos da química — como atômico e
molecular —, sugerindo uma analogia com a ciência laboratorial onde
químicos analisam e quebram substâncias comuns em seus constituintes
básicos, átomos e moléculas.

O que Russell e outros daquela estirpe pensaram estar fazendo era


substituir alegações descritivas vagas, desajeitadas, imprecisas e
insuficientemente discriminantes da fala comum e escrevê-las com
proposições atômicas logicamente equivalentes, mas muito mais básicas.
Essas proposições são declarações muito precisas de um fato que não
pode ser expresso de forma mais simples. Ironicamente, sua rejeição às
grandiosas alegações feitas por filósofos do passado ocultava uma nova
e igualmente grandiosa alegação — que a própria realidade consistia de
entidades simples, básicas, com atributos ou relações simples. O projeto
deles só fez sentido porque acharam que suas proposições atômicas
retratavam melhor e ajudavam as pessoas a entender a realidade, mas as
ambiguidades e contradições de linguagem escondiam essa realidade das
pessoas e relegavam todas as alegações para o conhecimento duvidoso.

À medida que o século XX avançava, um novo e diferente propósito tomou


conta daqueles engajados na filosofia analítica. Eles adotaram o que
também era, à sua maneira, uma grandiosa posição metafísica, alegando
que apenas as declarações empíricas (baseadas em medições físicas
e similares), notoriamente as científicas, e as declarações tautológicas
(truísmos) eram significativas. Faltava valor de verdade a todas as outras
alegações, inclusive às éticas, teológicas e estéticas, que eram, falando
estritamente, “bobagem”. Meros grunhidos!

Esse era para ter sido o fim da filosofia, embora filósofos profissionais
fossem, agora, ajudar as pessoas a expressarem-se apropriadamente. O
problema foi que, nesse ponto, para os demais, parecia que os filósofos
haviam deixado de falar sobre coisas com que as pessoas se importavam.
E, quanto à lógica, na segunda metade do século XX, chegaram
os computadores, que eram capazes de realizar as manipulações
proposicionais favoritas dos novos filósofos analíticos em milésimos de
segundo! Pelo menos Leibniz teria ficado feliz…

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


Capítulo 6

Uma Olhada na
Filosofia Oriental
Neste Capítulo
XX
Dando um pulo na China para encontrar Confúcio preocupado em como
conduzir a sociedade
XX
Explorando a fascinação de Lao Tzu com a noção de mudança
XX
Atazanando Buda a respeito do problema do sofrimento humano
XX
Ponderando as impressionantes e alarmantes possibilidades da reencarnação

Por três métodos podemos aprender a sabedoria: primeiro, pela


reflexão, o que é nobre; segundo, pela imitação, o que é mais fácil; e
terceiro, pela experiência, que é o mais amargo.

– Confúcio

Q uase todos os guias de filosofia (pelo menos os que são escritos em


português) são guias para a filosofia ocidental. Um século atrás,
pessoas como Bertrand Russell colocavam esse fato bem em frente ao
título, de modo que seu muito lido História da Filosofia Ocidental não
fingisse ser nada mais abrangente. Hoje em dia, contudo, a maioria dos
filósofos ou não percebe que existe diferença entre a filosofia oriental
e ocidental, ou não se preocupa em reconhecê-la. Para eles, a filosofia
ocidental tornou-se toda a filosofia. Mas não precisa ser assim com a gente!
Você pode conquistar uma compreensão muito mais profunda não só da
história da filosofia, mas também das questões e ideias, se permitir que
tradições — filosofia indiana, japonesa, coreana, africana, ameríndia e,
sobretudo, chinesa — sejam depositadas na mesa filosófica.

Agora, um livro Para Leigos, como um garçom sobrecarregado, não pode cobrir
tudo, mas, se você não tiver uma boa porção da filosofia oriental pelo menos,
então fica mais como um chá da tarde sem biscoitos ou andar de bicicleta sem

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


106  Parte II: A História da Filosofia

rodas. A filosofia oriental é holística. Seus sábios não dividem tudo como muitos
filósofos ocidentais na longa tradição de Aristóteles (que gostava de colocar
tudo organizadinho em caixas de categorias mutuamente excludentes), mas
gostavam de deixar tudo unido. E é isso que nós deveríamos fazer.

Este capítulo ajuda a corrigir o equilíbrio entre o tipo de filosofia ocidental


dominante e todas as outras. Em particular, ele fala o que você precisa
saber sobre a filosofia oriental.

Contemplando o Misterioso Tao


A filosofia ocidental começou com Descartes dividindo o mundo em
duas partes: mente e matéria. Mas as filosofias orientais consideram o
pensamento e a ação dois aspectos de uma atividade — dois lados da
mesma moeda. A filosofia chinesa em particular diz que a realidade
definitiva (T’’ai Chi) é uma combinação de mente (li) e matéria (chi). O
objetivo, tanto para o filósofo quanto para os demais, é alinhar-se ao Tao
(as pessoas frequentemente traduzem Tao como “O Caminho”, e o “t” é
pronunciado como “d”, Dao). Mas o que é o Tao?

Lao Tzu (ou Lao Zi, ou ainda Lao Tsé) escreveu no quarto capítulo do Tao
Te Ching que o Tao é vazio:

….como uma bacia, pode ser usado, mas nunca esvaziado, não
tem fundo, o ancestral de todas as coisas, ele cega o que é afiado,
desata nós, suaviza a luz, torna-se um com o mundo empoeirado —
profundo e imóvel, ele existe para sempre.

No clássico livro de Hergé, Tintin, O Lótus Azul, o louco tenta reunir as pessoas
com o Tao cortando suas cabeças com uma cimitarra. Mas você pode fazer
melhor que isso se voltar às origens de um dos textos filosóficos da China Antiga.

Tao Te Ching
A história conta que, um dia, Lao Tzu estava infeliz com a China e decidiu
abandoná-la para viajar pelo mundo. Para seu aborrecimento (como
muitas celebridades desde então), um guarda reconheceu-o na fronteira
como “o grande sábio” e recusou-se a permitir sua passagem, a menos que
ele antes registrasse, em pergaminho, toda sua sabedoria.

Apesar de — ou talvez por — ser tão sábio, Lao Tzu conseguiu fazê-lo em
apenas algumas semanas. O resultado foi um volume pequeno com pouco
mais de 5.000 caracteres chineses. É a obra clássica da filosofia chinesa.
Em seu cerne, por exemplo, uma das reflexões filosóficas de Lao Tzu diz:

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


Capítulo 6: Uma Olhada na Filosofia Oriental   107
Algo amorfo e consumado existiu antes do Céu e da Terra.

Solidão! Vasta! Sozinha, inalterada. Indo a todas as partes, ainda


assim não ameaçada.

Pode ser considerada a Mãe do Mundo.

Não sei seu nome, então designo-o “Tao”.

Compelido a considerá-lo, chamei-o “o Grande”.

De qualquer forma, entregando o texto completo ao guarda, Lao


Tzu então reclinou-se sobre seu boi e desapareceu, indo (talvez
significativamente?) para o oeste. Imagens do sábio montado em seu boi
são populares na China até hoje.

Esse texto é atualmente conhecido como Tao Te Ching (o clássico O


Caminho e seu Poder). As primeiras cópias do manuscrito encontradas
datam do século II a.C. Visto que esse período é de alguns séculos depois
daquele em que Lao Tzu viveu, alguns especialistas ocidentais questionam
se Lao Tzu sequer existiu (ainda assim, ninguém questiona a existência
de Sócrates, e ele não deixou nenhum registro escrito!). Enquanto isso,
no outro extremo, seguidores devotados dos ensinamentos de Lao Tzu
consideram que o texto tem origem divina e reverenciam seu autor não
meramente como um profeta, mas também como imortal. Ainda, para
aqueles que quiserem registrar Lao Tzu apenas com o mesmo nível de
prova histórica que, digamos, Platão, ele nasceu no século VI a.C., em He
Nan, no estado de Chu, e foi o autor original do Tao Te Ching.

Mas quem quer que o tenha escrito, o Tao Te Ching é um depósito de


grandes ideias. Uma delas é a noção de yin e yang. Esses são os dois
aspectos de tudo na realidade. Yin, o aspecto feminino, é escuro, macio e
complacente. Yang, o aspecto masculino, é claro, duro e inflexível. Tudo
no mundo consiste dos dois elementos e tudo está fluindo, mudando para
se tornar mais yin ou mais yang.

Os seres humanos nascem macios e flexíveis; contudo, quando


morrem, estão rígidos e duros….

As plantas brotam suaves e delicadas; contudo, quando morrem,


estão murchas e secas….

Assim, os rígidos e duros são discípulos da morte, os suaves e


flexíveis são discípulos da vida.

Assim, um exército inflexível não é vitorioso, uma árvore que não se


curava partir-se-á.

O rígido e maciço será mitigado, o suave e fluido crescerá.

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


108  Parte II: A História da Filosofia

Essa ideia da natureza cíclica da realidade reapareceu na Grécia Antiga, na


filosofia de Heráclito, que influenciou Platão.

Fazendo I Ching
Outra mensagem do Tao Te Ching é a de que tudo segue certos padrões — “o
caminho”. Os seres humanos também deveriam seguir o caminho e ceder aos
momentos e influências. Julgar e ceder de acordo com as épocas é também o
tema de um texto ainda mais antigo, o I Ching, ou Livro das Mudanças. I Ching
pronuncia-se da mesma forma que se lê, meio como uma caixa registradora
antiga. Ele foi escrito por etapas e originou-se de tradições de previsão do
futuro. O I Ching inclui comentários filosóficos escritos por volta de 5.000 anos
atrás, o que o torna provavelmente o livro mais antigo do mundo. O que os
gregos antigos estavam fazendo nessa época? Os arqueólogos acreditam que
a agricultura havia acabado de chegar ao norte europeu — com serras de
madeira com dentes feitos de lascas de pedra —, ainda assim, a maioria dos
livros dirá que os gregos foram os primeiros filósofos!

O I Ching é um guia de ação para se alcançar o melhor resultado das


circunstâncias. O grande psicólogo e filósofo do século XX C. G. Jung escreveu
sobre o I Ching, “este é um livro para amantes da sabedoria”, e é isso que é. Mas
é muito mais um guia prático de ação, consultado, pelos últimos três mil anos,
acima de tudo por imperadores e sábios, mas posteriormente por agricultores e
generais também. Porque, afinal, é parte da filosofia que “o caminho” se aplica
a coisas muito pequenas e às grandes coisas.

Textos como I Ching e Tao Te Ching contêm muitas ideias essenciais da


filosofia ocidental. Embora não se possa dizer que uma levou à outra,
é certamente digno de nota que os chineses escreveram sobre esses
assuntos, e com muita sofisticação, primeiro. Pode ser apenas que os
europeus haviam preferido subestimar seu débito intelectual com o oriente
da mesma forma que a história da inovação técnica e da invenção foi
reescrita para dar ao ocidente o papel principal.

Você pode não perceber às vezes, mas foram os pensadores orientais


(especialmente os chineses) que foram os desbravadores do
desenvolvimento da astronomia, da medicina, da impressão e da
matemática, então seria notável se não tivessem também produzido obras
essenciais da filosofia. O que se escreve recentemente sobre os antigos
filósofos chineses da história da filosofia tem mais a ver com preconceitos
políticos e sociais do que intelectuais ou mesmo filosóficos.

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


Capítulo 6: Uma Olhada na Filosofia Oriental   109
O I Ching é um livro como nenhum outro de filosofia. Ele consiste de
64 estranhos diagramas compostos de seis linhas cada — chamados
hexagramas (a figura 6-1 mostra um exemplo). Cada linha é inteira ou
dividida em duas — traçada. Representam, assim, ou yin ou yang. Criando
um dos 64 hexagramas aleatoriamente, pelas maravilhas da coincidência
(ou o que o psicólogo C. G. Jung chamou de sincronicidade — ele era fã do
I Ching), pode-se colocar seu pequeno eu e suas pequenas preocupações
no contexto de todas as tendências vigentes do universo! Nada mal!

É claro que a interpretação é a chave. E os hexagramas são, bem,


inescrutáveis. Pegue o hexagrama 64, por exemplo, mostrado na Figura
6-1. Para você ou para mim, é um bloco de seis linhas inteiras ou partidas
alternadas, mas, para os sábios da China Antiga, ele lembra uma árvore
com galhos duplos no topo, indicando que a árvore está carregada de
flores ou folhas e significa “ainda não” ou “incompleto”, no sentido de
continuidade do ciclo eterno.

Esse hexagrama é chamado Wei Chi, que significa “Antes do Fim” (todos
os hexagramas têm um nome). Os sábios acreditavam que ele simboliza a
pureza da ordem e da harmonia.

Figura 6-1:
Antes do Fim.

Para os chineses antigos, pelo menos, esse símbolo possui um significado


profundo, expresso em palavras como:

Árvore nua antes que venham as folhas.

Cruzando a ordem e a harmonia.

O passado passou, o futuro ainda por vir.

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


110  Parte II: A História da Filosofia

Homenageando Confúcio
Se Lao Tzu é pouco conhecido no ocidente (veja a seção anterior deste
capítulo), pelo menos os filósofos reconhecem seu contemporâneo
Confúcio (551−479 a.C.) como importante pensador. Confúcio foi a
essência do sábio chinês antigo: um filósofo social, educador e estrela de
um texto altamente influente: os Analetos.

Confúcio sempre se apresentava como transmissor que não havia criado


nada e enfatizava que havia aprendido com os sábios antigos. Dessa forma,
ele parece com Sócrates, que também negava qualquer conhecimento
especial ou especialidade. Não obstante, as fontes indicam que ao todo
ele teve 3.000 discípulos e que “72 deles foram influentes”. E os outros
2.928? Seus ensinamentos, preservados nos Analetos, formam a base do
muito posterior pensamento chinês acerca da educação, do governo e da
conduta humana. Dessa forma, também, a influência de Confúcio pode ser
comparada com a de Sócrates no ocidente.

As pessoas frequentemente reduzem as ideias filosóficas de Confúcio a


uma coleção de aforismos e máximas morais, que dificilmente bastam
para explicar a profundidade da influência do confucionismo. Se sua
filosofia fosse meramente isso, o impacto histórico das ideias de Confúcio
teria sido muito menor. Os Analetos, como toda filosofia chinesa, exigem
muita decodificação.

A vida do mestre
Confúcio nasceu em Qufu, no estado de Lu sistiu da carreira política. Começou uma
(hoje parte da província de Shandong), e jornada de 12 anos pela China, buscando o
morreu à idade de 72 anos. Quando crian- caminho e tentando sem sucesso convencer
ça, diz-se que Confúcio gostava de colocar vários governantes de suas crenças políticas
vasos de rituais em mesas de sacrifício. Sua e torná-las realidade.
primeira função foi como gerente adminis-
Confúcio retornou ao lar por volta do seu se-
trativo no estado de Lu, mas logo ascendeu
xagésimo ano e passou o resto de sua vida
à posição de ministro da justiça, na qual con-
ensinando e editando os clássicos antigos.
quistou reputação por ser justo, por sua poli-
Tornou-se o que os chineses chamam de “rei
dez e amor ao aprendizado.
sem trono”, procurando compartilhar suas ex-
Contudo, por volta da idade de 50 anos, não periências com seus discípulos e transmitir a
vendo forma de melhorar o governo, ele de- velha sabedoria às gerações posteriores.

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


Capítulo 6: Uma Olhada na Filosofia Oriental   111
No coração da filosofia de Confúcio encontram-se os conceitos gêmeos
de ritos ou rituais (que ele chama de li) e a forma correta para as pessoas
viverem (que ele chama de ren).

Toda a noção de “ritos” pode parecer estranha hoje em dia, mas pense
na importância das tradições religiosas e das instituições sociais, como o
casamento, aniversários e funerais!

Em sua ênfase das regras, Confúcio opõe-se ao espírito do taoismo (a


escola de pensamento que segue Lao Tzu), que fundamentalmente
busca um tipo de liberdade que, embora integrada ao mundo, não
tem limitações e não depende de nada. Os taoistas consideram os ritos
tradicionais artificiais e falsos, uma restrição externa nas vidas das pessoas.
Lao Tzu chegou a afirmar que tentar se adequar era “uma expressão
superficial de lealdade e fidelidade e o começo da desordem”. Para
Confúcio, os ritos eram a chave para a virtude, mas para Lao Tzu eram um
obstáculo na busca pelo caminho.

Outra escola, chamada legalismo, também se opunha às tradições


confucianas e aos códigos sociais construídos em torno desses ritos
especiais — dessa vez com um ponto de vista muito prático. O objetivo
dos legalistas era um Estado rico e poderoso; uma visão muito diferente
do ideal confucionista de um mundo ordeiro e de paz, harmonia
e simples contentamento. Em um mundo onde enormes exércitos
preparavam-se para batalhas terríveis, os legalistas ofereciam-se como
especialistas na arte de enriquecer e fortalecer o Estado. E um elemento-
chave de sua abordagem era advogar pela destruição de antigas
distinções hierárquicas, incluindo a ética de Confúcio, que eles viam
como perpetuadora de velhas práticas e valores feudais.

Confúcio e seus seguidores insistiam, entretanto, que o problema


não se encontrava nos próprios ritos ou tradições, mas na forma
como eram conduzidos e no fato de que as pessoas não mais os
seguiam apropriadamente. Para reconquistar a validade dos ritos, os
confucionistas diziam que as pessoas precisavam conseguir praticá-
los significativamente em suas vidas. Dessa maneira, Confúcio retirou
a ênfase moral das ações e colocou-as nas motivações — saindo da
moralidade objetiva em direção ao sujeito moral.

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


112  Parte II: A História da Filosofia

Música Confuciana
Confúcio não só disse coisas interessantes, pessoas, como moldava-os também, assim,
ele as cantou e fazia o acompanhamento ela poderia moldar o caráter delas. Ele espe-
com um qi (tipo de cítara; uma palavra útil rava que a harmonia (pelo menos na música
para jogadores de scrabble — jogo de tabu- tradicional chinesa), que era a essência da
leiro cujo objetivo é montar palavras existen- música, poderia então encontrar seu cami-
tes com letras disponíveis) enquanto cantava nho até o âmago do coração humano.
poesia clássica. Na China, a imagem do filó-
Isso é um grande contraste com Platão, que
sofo-músico é firmemente estabelecida.
suspeitava da influência da música, preocu-
E Confúcio tinha ideias claras sobre a impor- pando-se com que fascinasse gente simples,
tância da música. Ele disse: “Que um homem levando-a a maus hábitos. Mas, para Confú-
seja estimulado pela poesia, estabeleça-se cio, a prática musical é o método mais efi-
pelas regras da propriedade e aperfeiçoe- ciente para mudar o caráter moral do homem
-se pela música”. Confúcio considerava que e manter a sociedade em ordem.
a música não só refletia os sentimentos das

Para Confúcio, o que deve ser enfatizado na execução do ritual é


ter a atitude correta. Por exemplo, quando realizar um sacrifício, ele
disse, deve-se sentir a reverência pelos espíritos; quando conduzindo
ritos de luto, deve-se sentir o luto do falecido. Sem esse componente
emocional, o ritual torna-se uma performance vazia. Confúcio certa vez
comentou: “Um homem que não possui humanidade, o que pode ter a
ver com um ritual?”. Não basta fazer a coisa certa, deve-se ter a atitude
correta. Esse importante conceito ético reaparece no ocidente com
debates filosóficos entre os utilitaristas, que enfatizam os resultados
independentemente dos motivos, e os seguidores de Aristóteles e Kant,
com sua ênfase em virtude pessoal e deveres.

Ainda, é inimaginável para Confúcio que se possa entender regras morais


e virtudes separadamente. Ele argumentava (assim como fizeram alguns
filósofos orientais) que se deve ver a ética da virtude e a ética das regras
como uma somatória, em vez de como mutuamente excludentes.

E o confucionismo também se opunha ao legalismo a respeito da questão


de se deve-se ou não forçar as massas a serem boas por meio de um
sistema severo de lei penal. Como disse Confúcio:

Conduza as pessoas com medidas governamentais e regule-as por


lei e punição e elas evitarão fazer o errado, mas não terão senso de
honra e vergonha. Conduza-as com virtude e regule-as por regras de

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


Capítulo 6: Uma Olhada na Filosofia Oriental   113
propriedade e elas terão senso de vergonha e, sobretudo, tornar-se-ão
retas e chegarão à bondade.

Encontrando-se com Mêncio


Mêncio (371–289 a.C.) nasceu no estado de Zou, localizado no que é hoje a
província de Shandong, apenas 30 quilômetros ao sul de Qufu, cidade natal
de Confúcio. Assim como Confúcio na tradição oriental estava para Sócrates
na tradição ocidental, está Mêncio para Platão. Os escritos de Platão tratam
da visão do “bem” de Sócrates e, assim, os livros de Mêncio são todos sobre a
sabedoria de Confúcio. Pois Mêncio, conhecido como “o Segundo Sábio”, é o
comunicador da filosofia confuciana, conhecida por sua insistência em que a
natureza humana é basicamente boa. Suas visões, expostas no Livro de Mêncio
ou Mengzi, foram adotadas como a base dos exames para o serviço civil no
século XIV e permaneceram como textos centrais pelos 600 anos seguintes.

Mêncio contra o utilitarismo


Certa vez, quando desafiado a justificar tra- a se fazer para o homem primitivo, é bem
dições funerais elaboradas, Mêncio replicou: correto hoje em dia que o filho de um ho-
mem prepare o funeral para seu pai.
Nos tempos antigos, não se enterravam
os pais. Quando um dos pais de uma As tradições funerárias são muito valoriza-
pessoa morria, o corpo era simplesmen- das na filosofia chinesa — e não o são em
te jogado em uma vala. Quando passava debates ocidentais! Mas, se parece uma
pelo local depois, via que o corpo estava escolha estranha de exemplo filosófico,
sendo comido por raposas ou picado por não é necessariamente ruim. Pois trata-se
mosquitos ou moscas… Ela não supor- de algo com que as pessoas se identificam
tava a visão. O sentimento do coração fortemente, mas que não parece ter um pro-
mostrou-se em seu rosto. Ela então cor- pósito prático, utilitarista. A forma eficaz de
reu para casa e retornou com cestos e arranjar a sociedade, mesmo na forma que
uma espada para cobrir o corpo. Se co- maximize a felicidade, talvez ainda não seja
brir um corpo humano era a coisa certa o jeito certo de fazê-lo.

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


114  Parte II: A História da Filosofia

Mêncio declarava que a natureza humana é fundamentalmente boa.


Por exemplo, ele argumenta que, se uma pessoa vê uma criança prestes
a cair em um poço, invariavelmente terá um sentimento de alarme
e compaixão e correrá para salvá-la. Além disso, essa ação não tem
o propósito de ganhar a simpatia dos pais da criança ou de buscar
aprovação de seus vizinhos e amigos, ou, por medo da culpa, deixar de
salvar a criança. É, ao contrário, uma resposta altruísta e espontânea de
sua natureza humana compartilhada. Disso, segue-se que os sensos de
simpatia, arrependimento, cortesia e julgamento do que é certo e errado
são os quatro inícios da humanidade, retidão, propriedade e sabedoria.
Ninguém insere, de fora, esses princípios em você. São partes integrais da
natureza universal.

Infelizmente, muitas pessoas perderam o rastro de sua herança moral.


É por isso que certa vez Mêncio lamentou: “Quando as galinhas e
cachorros das pessoas se perdem, elas sabem o suficiente para procurá-
los novamente; mas se perdem sua mente/coração humano, não os
procuram”. Segundo Mêncio, o objetivo do cultivo moral é retornar à
natureza inata. Esse também é o objetivo do Estado ideal que Platão
tentou construir em sua República.

Tremulando com Chuang Tzu


Outro dos grandes sábios da filosofia chinesa, Chuang Tzu (369–286
a.C.), enfatiza a unidade de todas as coisas e a relação dinâmica entre
os opostos. Bom e mau, ele aponta, são como tudo o mais: relacionados
e intercambiáveis. O que é bom para o coelho — um monte de grãos
gostosos e suculentos para mordiscar — é ruim para o agricultor, para
dar um exemplo meu bem fraco. Um livro chamado Chuang Tzu — que
os historiadores acreditam ser aproximadamente um quarto da obra de
Chuang — é vívido e divertido, uma mistura de histórias e poesia com
argumentos filosóficos, e sempre foi altamente popular na China.

A influência de Chuang Tzu através do oriente, indo de Buda (que


conclui de seus ensinamentos que o sofrimento é principalmente
resultado de recusar-se a aceitar o que é) à filosofia zen (que reflete
seu amor pelos paradoxos ou koans) foi profunda. E sua mensagem de
inconformismo e liberdade desvencilharam a mente chinesa de alguns
dos efeitos do ultrarrígido confucionismo.

Um exemplo de sua argumentação simples, mas elegante, é uma passagem na


qual ele descreve a forma como a linguagem funciona. A linguagem, diz Chuang,
é uma rede de pesca jogada nas águas da realidade, útil para pegar significados.
Pensamentos e conceitos são peixes escorregadios e precisa-se da rede da
linguagem para capturá-los. Mas a própria rede é só um meio para um fim.

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


Capítulo 6: Uma Olhada na Filosofia Oriental   115
Outro exemplo simples tenta mostrar a relatividade de julgamentos
morais. Chuang pergunta se, como alguns sábios disseram, matar é errado
e, depois, se seria errado matar uma lebre se fosse a única forma de
livrar-se de morrer de fome. Certamente não. Talvez, então, seja sempre
errado matar outro ser humano? Mas e se esse ser humano for um ladrão
intentando matar e roubar uma família? Certamente, então, não é errado
matar o ladrão, se for a única maneira de deter esse humano?

Todo conhecimento moral depende, dessa forma, de contexto e


situações: é relativo. Chuang vai além para provar que de fato todo
conhecimento — não apenas julgamentos estéticos ou morais — está
igualmente enraizado no contexto e é igualmente relativo. Ele o expõe
desta forma perfeitamente inescrutável:

Certa vez, eu, Chuang Chou, sonhei que era uma borboleta e era
feliz como borboleta. Estava consciente de que estava bem satisfeito
comigo mesmo, mas eu não sabia que era Chou. Repentinamente eu
despertei, e lá estava eu, visivelmente Chou. Eu não sei se era Chou
sonhando ser uma borboleta ou a borboleta sonhando ser Chou.

A filosofia ocidental está enraizada numa busca por definições — ou justiça,


verdade ou conhecimento. A conclusão de Chuang Tzu, ao contrário, era de
que se deve lutar para transcender o mundo das distinções.

Debatendo com Buda


O budismo descreve um tipo de abordagem educacional desenvolvido por
Buda, um tal Sidarta Gautama (veja o box “O Buda original”). O budismo
não é uma religião no sentido ocidental normal. É uma educação filosófica
que leva a insights sobre a verdadeira natureza da vida. Originário da Índia,
o budismo rapidamente se espalhou através da Ásia, pela Ásia Central,
Tibete, Sri Lanka e sudeste da Ásia, assim como pelos países do leste da
Ásia, China, Mongólia, Coreia e Japão.

Hoje em dia há aproximadamente 350 milhões de budistas e um número


crescente deles é ocidental. Eles podem seguir muitas formas diferentes
do budismo, mas todas as tradições caracterizam-se pela não violência,
não possuir dogma ou livro de regras oficial, tolerância às diferenças e,
normalmente, pela prática da meditação. O objetivo das práticas budistas
é livrar-se do sofrimento e desenvolver as qualidades de consciência,
bondade e sabedoria.

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


116  Parte II: A História da Filosofia

O Buda original
Sidarta Gautama foi um príncipe nascido há do por um senso de profunda compaixão pe-
aproximadamente 2.500 anos em um peque- los seres em sofrimento, Buda compartilhou
no reino indiano, onde é hoje o sul do Nepal. sua sabedoria com eles e, assim, embarcou
Ele renunciou à sua herança real para esca- na carreira de ensinar que duraria aproxima-
par do ciclo humano de nascimento, morte e damente 50 anos. Ele viajou pela Índia ensi-
renascimento que ele via que inevitavelmente nando a todos que desejassem escutar, res-
levava ao sofrimento, à perda e à dor. Após pondendo às necessidades e mentalidades
seis anos buscando, afligindo seu corpo com dos ouvintes e habilidosamente adaptando
práticas extremas, ele finalmente alcançou a seus ensinamentos a cada um. De seus 79
iluminação pelos 30 (e poucos) anos. Motiva- anos, ele dedicou 49 a ensinar.

Ainda que o budismo seja somente educação, essa forma raramente é


vista hoje em dia. Através dos séculos, o budismo assumiu a forma de uma
religião organizada. Afinal, Albert Einstein concluiu que ele possuía:

….as características do que se esperaria em uma religião cósmica


para o futuro: transcende um Deus pessoal, evita dogmas e teologia,
aborda tanto o natural como o espiritual e baseia-se em um senso
religioso, aspirando da experiência de todas as coisas, naturais e
espirituais, como uma unidade significativa.

Aceitando o Sofrimento: Hinduísmo


Uma das principais mensagens do budismo, com todas as suas implicações
sociais, é convencer as pessoas a aceitarem seu lugar na sociedade, seja
alto ou baixo, sem reclamar. Dessa maneira, um arranjo político fica
entranhado de dever religioso. Pode-se colocar efeitos filosóficos similares
à porta de outra quase filosofia: o hinduísmo.

O hinduísmo, como o budismo, não é bem uma filosofia, nem também uma
religião. É uma combinação de ambas, tornando-se um fenômeno complexo
e multifacetado com manifestações sociais, culturais e religiosas. Seus
ensinamentos, tanto quanto seus rituais, refletem a miríade de perspectivas
geográficas, sociais, raciais e linguísticas do vasto subcontinente indiano.
Há variedades altamente intelectuais do hinduísmo, apenas uma parte da
profunda piscina da filosofia indiana com suas investigações da natureza da

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


Capítulo 6: Uma Olhada na Filosofia Oriental   117
percepção, do espaço e do tempo e da forma correta de viver. Ao lado das
versões intelectuais, existe a prática simples, mesmo ingênua, de milhões de
aldeões, e são todas essas juntas que formam o hinduísmo.

O hinduísmo é cheio de contradições, mas parece lutar com esse


antagonismo criativo. Vários textos essenciais são associados ao
hinduísmo, como os Vedas, textos antigos e anônimos que se originaram
como parte de uma tradição oral de conhecimento entre 1500 e 500 a.C.
As partes mais antigas são na forma de hinos ou preces e as mais recentes,
incluindo os Upanishads (que impressionaram particularmente Espinoza
— discutido no Capítulo 5 — na Holanda do século XVII), foram escritas
entre 400 e 200 a.C. e são mais filosóficas em natureza e conteúdo.

Nascendo outra vez: Reencarnação


Outra ideia-chave oriental que reaparece na filosofia grega, que filósofos
ocidentais ignoraram dando de ombros, é a da reencarnação. É a teoria de
que as pessoas possuem algum tipo de identidade pessoal acima e além da
identidade física e, além disso, essa identidade (pessoas religiosas chamam-
na alma) pode sobreviver à destruição do corpo físico (morte). Tendo
sobrevivido, a alma ou vai para o céu, ou reencarna e reaparece na Terra em
uma nova forma — para os budistas, como animais ou, se você tiver sido muito
bom, como homem (não mulher; o budismo tradicional é totalmente sexista).
Na realidade, para os budistas e filósofos como Platão, o objetivo definitivo
para uns poucos sortudos é ser libertado do corpo e tornar-se espírito puro.

Todos sabem (bem, poucas pessoas sabem) que a crença na reencarnação


é parte de muitas religiões orientais. O que menos pessoas ainda se
lembram é de que a ideia parece ter estado com a humanidade desde os
primórdios e em diferentes, e aparentemente desconectadas, culturas.

De fato, a crença na reencarnação é parte dos entendimentos tradicionais


do universo dos aborígenes australianos e outros habitantes de ilhas do
Pacífico, assim como de muitos povos do círculo ártico: finos, lapões,
daneses e nórdicos, assim como os inuítes (esquimós). Mais perto de
casa, os celtas antigos da Gália, Gales, Inglaterra e Irlanda supunham
que as pessoas renasciam, que é o motivo pelo qual eles enterravam as
importantes com todo seu equipamento de caça e armas.

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


118  Parte II: A História da Filosofia

Hinduísmo e a vida social


O hinduísmo é integral na vida de seus segui- siderada parte essencial do ser humano, e o
dores, não apenas uma cerimônia semanal na ramo medieval do tantrismo especificamente
igreja, mas um guia para ações diárias que celebra a iluminação trazida pela união se-
engloba tudo e todos, do berço ao túmulo. xual imaginativa. As deusas hindus, descri-
No pensamento hindu, como em praticamen- tas em entalhes em templos que chocaram
te toda filosofia oriental, a reflexão tirada da os exploradores ocidentais posteriormente,
prática não possui significado. O hinduísmo são seres eróticos de grande poder sexual.
não é organizado ou ensinado, mas o costume
Duzentos anos atrás, o raja Ram Mohan Roy
e a prática cotidianos que envolvem a todos
(1774–1833), que era familiarizado tanto com
do nascimento à morte — regras e estruturas
a filosofia ocidental quanto com a oriental,
sociais, com efeito. E muitas dessas se opõem
tentou reformar o hinduísmo. Ele esperava
totalmente aos valores ocidentais. O hinduís-
que filosofias liberais e iluminadas serviriam
mo permite costumes como o casamento in-
a reformas necessárias na Índia. E, de fato,
fantil, a poligamia, a idolatria, os sacrifícios de
o governo aboliu muitas práticas como resul-
animais e o pernicioso sistema de castas.
tado — pelo menos no papel, visto que sis-
Apesar das muitas restrições às mulheres, o temas religiosos tradicionais são altamente
hinduísmo oferece um grande contraste às resistentes à reforma. Na Índia, o sistema
noções ocidentais de propriedade em sua de castas, como a discriminação a mulhe-
celebração do sexo (Platão também ocasio- res em muitos Estados muçulmanos, ou as
nalmente louva o sexo — mas só entre ho- castas japonesas, ou mesmo o sistema de
mens!). Revigorantemente e em contraste classes na Inglaterra, que apelaram à reli-
com os ensinamentos tradicionais do cristia- gião para se justificar, perpetua-se apesar
nismo ou do islamismo, a sexualidade é con- de ter pouco apoio em textos religiosos.

Mas, voltando aos gregos antigos, os estoicos defendiam que a alma


humana é imortal e reencarna periodicamente. Pitágoras ensinou que
pessoas e animais compartilham as mesmas almas. Em uma ocasião ele
alegou ter ouvido a voz de um amigo nos uivos de um cachorrinho sendo
espancado e, em outra, começou a chorar ao ver um escudo com marcas
de batalha, dizendo que havia sido seu escudo durante a batalha de Troia!

Pitágoras pode não ser muito convincente para a teoria (mas, e daí, é
o homem que alegou que um rio, repito, um rio, havia reconhecido-o
e chamado-o pelo nome), mas Sócrates e Platão também parecem ter
estado comprometidos com a ideia de reencarnação e suas visões foram
muito influentes.

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


Capítulo 6: Uma Olhada na Filosofia Oriental   119
Platão usou o exemplo do conhecimento instintivo ou intrínseco para
defender que as pessoas herdavam suas mentes de gerações anteriores,
enquanto Sócrates, nós sabemos pelos diálogos que Platão escreveu
sobre seus últimos dias aguardando a execução, tinha tanta certeza de
sua reencarnação que devotou “sua última manhã para raciocinar sobre a
real distinção entre a alma e o corpo e as bases para acreditar que ela não
nasce com o corpo nem morre com ele”. Esses debates filosóficos tiveram
enorme influência na literatura e religiões ocidentais — e parcialmente
explicam por que as obras de Platão frequentemente estiveram na lista de
livros banidos da Igreja Católica.

O Renascimento pela Europa significou um novo interesse nas ideias de


pessoas como Platão e Pitágoras, e mesmo pessoas com mente científica
como Leonardo Da Vinci na Itália e Paracelso (que foi pioneiro em
vacinas) discutiram a ideia exaustivamente em suas anotações. Como
expôs Paracelso:

Algumas crianças nascem do céu; outras, do inferno, porque cada ser


humano possui tendências inerentes, e essas tendências pertencem a
seu espírito e indicam o estado no qual existiram antes de nascer.

Alguns séculos depois, Espinoza e Leibniz (que foram contemporâneos)


escreveram sobre a imortalidade humana e a reencarnação, e, na França,
Voltaire declarou: “Não é mais surpreendente nascer duas vezes do que
nascer uma; tudo na natureza é ressurreição”.

De todo o interesse filosófico na teoria encontra-se o pequeno livro de Kant


acerca da reencarnação, que é o mais inesperado. Kant oferece uma nova
ideia também: a de que as pessoas não só renascem neste planeta, como
em outros também. Bem, por que não? Isso traz Star Trek à vida….

Foi Schopenhauer, contudo, o primeiro dos tempos contemporâneos a


coletar e publicar referências à teoria da reencarnação, acrescentando
uma introdução curta na qual ele fala da ideia que “aflora das primeiras
e nobres eras da raça humana, sempre espalhada vastamente pela Terra
como a crença da grande maioria da humanidade”. Ou, como seu amigo,
o célebre escritor Johann Goethe, expressou-o:

Estou certo de que já estive aqui como estou agora milhares de vezes
antes e espero retornar milhares de vezes mais... O homem é um
diálogo entre a natureza e Deus. Em outros planetas, esse diálogo
sem dúvida terá um caráter superior e mais profundo. O que falta é
Autoconhecimento. Após isso, segue-se o resto.

O antigo oráculo grego de Delfos não poderia ter dito melhor.

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


120  Parte II: A História da Filosofia

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


Capítulo 7

Entendendo os “Ismos”
Neste Capítulo
XX
Fuçando alguns ismos confusos da filosofia, desde o empirismo até o idealismo
XX
Decodificando alguns dos gigantes ismos éticos, como o utilitarismo e o relativismo
XX
Preocupando-se com o significado dos ismos políticos, como o socialismo e o fascismo

….a despeito de si próprio, qualquer movimento que pense e aja em termos


de um “ismo” torna-se tão envolvido na reação contra outro “ismo” que é
involuntariamente controlado por ele. Pois isso então forma seus princípios
por reação contra o outro “ismo”, em vez de pôr uma investigação
abrangente e construtiva de necessidades, problemas e possibilidades reais.

– John Dewey

E ste capítulo aborda o que é um “ismo” e do que se tratam alguns ismos


filosóficos importantes em particular. Muitos dos debates na filosofia
são representados por dois lados opostos, cada um operando sob seu
próprio “ismo” — por exemplo, os grandes debates entre o empirismo e o
idealismo ou entre o fascismo e o socialismo. Além disso, frequentemente
as diferenças não são tão claras quanto parecem e, embora seja fácil rotular
uma visão criando ou usando um ismo, fazê-lo com frequência confunde
em vez de esclarecer. E, embora os ismos sejam tão abstratos, tais confusões
podem ter consequências e perigos muito reais.

O que É um Ismo?
Por exemplo, o que são imperialismo, vegetarianismo, monetarismo,
platonismo, surrealismo, pós-racionalismo, utilitarismo, nazismo e
neoconservadorismo, fundamentalismo, islamismo, consumismo, freeganismo,
comunismo, libertarianismo, pós-modernismo, modernismo, autoritarismo,
romantismo, ambientalismo… A lista de ismos não acaba! É alarmante!

Mas, de fato, um ismo é basicamente apenas uma palavra que teve o sufixo
“ismo” acrescentado a ela.

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


122  Parte II: A História da Filosofia

Originalmente, era uma ideia bastante prática. As pessoas acrescentavam o


sufixo ismo a verbos ,que descrevem ações, para formar substantivos, que
descrevem coisas. Por exemplo, os vigários batizam bebês em igrejas, e isso leva
à necessidade de um novo substantivo para descrever a ocasião — batismo. Ou
pegue a atividade de resenhadores criticando livros; não há palavra melhor para
chamar senão criticismo. Na verdade, existem vários tipos de ismos bastante
diferentes que as pessoas usam para expressar diferentes tipos de conceitos. A
Tabela 7-1 lista aqueles que interessam aos filósofos particularmente.

Tabela 7-1 Diferentes Tipos de Ismo


Categoria Conceitual Exemplo
Doutrina ou filosofia Empirismo, relativismo, hedonismo, existencialismo
Teoria desenvolvida Platonismo, hegelianismo, marxismo
por um indivíduo
Movimento político Fascismo, socialismo, feminismo
Preconceito ou viés Sexismo, idadismo, racismo, especismo
Movimento artístico Surrealismo, expressionismo, impressionismo

Os ismos só se tornam algo propriamente dito no final do século XVII (os


dicionários registram o primeiro uso conhecido do termo em 1680), mas, uma
vez identificados, a partícula logo pega, particularmente como uma forma de
ser rude em relação a certos grupos de pessoas. Pela metade do século XIX,
vários usos depreciativos haviam se tornado populares nos Estados Unidos,
tendo sido os ismos uma forma conveniente para resumir movimentos
supostamente “benfeitores”, como o feminismo, proibicionismo (aqueles
que tentam proibir coisas, como o álcool) e, sobretudo, o socialismo. A
maioria dos americanos odeia o socialismo, e a palavra empresta-se a longos
resmungos raivosos de desaprovação graças ao sufixo ismo. Em 1856, um
jornal, o Richmond Examiner, resumiu tudo publicando uma série de editoriais
com o título “Nossos Inimigos, os Ismos e seus Propósitos”.

Um dicionário pode dizer que ismos são palavras que descrevem coisas:
sufixos que vieram a representar uma forma de categorizar, classificar e
amalgamar áreas do conhecimento. Porém os ismos são, na realidade, coisas
em si. Por exemplo, o feminismo é agora também uma filosofia, assim como
um movimento político, com crenças e valores filosóficos distintos. Criar
um ismo não é meramente criar uma palavra, mas uma nova forma de
pensar o mundo, ainda mesmo revelar a até aqui obscura forma platônica.
O “socialismo” pode não existir na Terra, mas certamente existe no universo
alternativo de Platão. Colocando de outra maneira, um novo ismo bem-
sucedido torna-se um ideal permanente de algum tipo, com uma espécie
de status eterno no mundo do conhecimento. Não é de se espantar que
os ismos se tornaram tão integrados às formas de pensar das pessoas. No

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


Capítulo 7: Entendendo os “Ismos”   123
mundo misterioso dos ismos, não só os gigantes ismos políticos existem,
como socialismo e fascismo, mas também os fundamentais ismos sociais e
econômicos, como capitalismo e monetarismo, ao lado de ismos filosóficos
mais tradicionais, como relativismo e existencialismo. Sem esquecer os
ismos culturais e artísticos… Bem, eu já tinha esquecido.

Se em um momento bastava criar um ismo para que este fosse muito


admirado, hoje em dia apenas alguns merecem atenção. O fascismo
é interessante, por exemplo, com uma longa história, relevância
contemporânea e muita confusão acerca de seu significado e natureza
fundamentais. Ele merece sua própria palavra, mesmo que ninguém
realmente a use corretamente. Mas muitos outros ismos, como o
platonismo, por exemplo, mais ainda o neoplatonismo, parecem mais
confusos que esclarecedores. Nós passaríamos bem sem eles!

Infelizmente, os ismos confusos existem. Porém, pelo menos, você


pode decidir usá-los ou não. O neoplatonismo, por exemplo, descreve
os esforços de filósofos posteriores para reconciliar os trabalhos de
dois grandes mestres, Platão e Aristóteles, geralmente considerando a
abordagem prática de Aristóteles como um caminho para a “sabedoria
superior” de Platão. Você consegue viver sem isso? Pode apostar! Como o
platonismo e o aristotelismo, tem mais a ver com impressionar as pessoas
por meio de jargões do que com transmitir uma ideia em particular. Mas
outros ismos, embora pareçam intimidadores a princípio, são mais difíceis
de dispensar. Pegue dois exemplos centrais na busca filosófica pelo
conhecimento, empirismo e idealismo, que as próximas seções discutem.

Social-ismo
Foi no século XIX que os críticos das socie- Embora as pessoas frequentemente liguem o
dades industriais emergentes, como Robert marxismo ao socialismo, o próprio Marx des-
Owen, Henri de Saint Simon e Pierre Prou- denhava de tais aspirações, vendo-as como
dhon, utilizaram pela primeira vez o termo meras reformas, de fato, reformismo, incapa-
socialismo. Esses três críticos compartilha- zes de endereçar os problemas fundamen-
vam uma preocupação em comum a respeito tais do capitalismo. Em contrapartida, ele
dos excessos do capitalismo, como os vistos propôs obter-se o verdadeiro socialismo por
nas cruéis condições dos trabalhadores nas meio do comunismo, um movimento que tem
novas fábricas, que talvez fossem ilumina- um conjunto de características que Marx e
das a gás e cheias de químicos venenosos, e seu colaborador Engels estabeleceram em
queriam substituir a produção por lucro pela seu Manifesto Comunista. O elemento mais
produção social, por necessidade. Em sua importante é a posse pelo Estado de todos
visão otimista, as comunidades de trabalha- os meios de produção. Contrário aos refor-
dores organizariam essa produção social em mistas, isso implica que o Estado controla e
pequena escala. possui o trabalho das pessoas também.

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


124  Parte II: A História da Filosofia

Escolhendo entre Empirismo


e Idealismo
O empirismo e o idealismo são dois dos conceitos-chave na história da filosofia.

O empirismo, na filosofia pelo menos, é a teoria de que se tem acesso


direto à realidade por meio dos sentidos, e, de fato, construiu todas as suas
grandiosas teorias da interação sensorial comum com o mundo. Ele diz que
nada está no intelecto a menos que tenha estado previamente nos sentidos.

O idealismo, em contraste, mantém que a realidade é definitivamente


baseada na mente, de forma que tudo que nós podemos realmente saber
ou ter certeza é de nossos pensamentos.

Esta seção explica cada conceito e mostra suas principais diferenças.

Implorando por uma abordagem mais prática


O empirismo contrasta com teorias como aquela exposta em Mênon por
Platão (veja o Capítulo 3), em que um menino escravo é “levado a lembrar”
como compreender a área de um triângulo, supostamente demonstrando a
visão de Platão de que as pessoas já nascem equipadas com vários conceitos
importantes. Platão diz que isso se dá porque a alma existe antes do corpo e
está em “um estado de comunhão” com todas as ideias importantes em um
tipo de universo paralelo abstrato. Infelizmente (Platão explica), nascer é muito
traumático para a alma, então, dessa forma, ela esquece-se temporariamente
de muito do que sabia previamente quando se une ao corpo no nascimento. Se
as pessoas tiverem sorte, à medida que crescem, relembram (“re-lembrar”) suas
ideias perdidas e desenvolvem progressivamente uma compreensão mais clara
das coisas que elas (ou suas almas) sabiam.

Isso soa bastante teórico, para não dizer implausível ou mesmo insubstancial,
e não é de se surpreender que outras pessoas imediatamente defenderam
um retorno a uma abordagem mais prática. Uma longa série de pensadores,
do aluno de Platão, Aristóteles, até os neurocientistas de hoje, supõe, em
oposição, que se pode concluir todas as sutilezas e complexidades do
conhecimento simplesmente da experiência sensorial do mundo externo
junto à reflexão mental posterior sobre o que se vivenciou ou observou.

Essa abordagem é o empirismo, e um dos grandes impulsionadores da teoria foi


John Locke, que (escrevendo no século XVII), sem rodeios, rejeitava quaisquer
teorias de ideias inatas (como as de Platão) e ofereceu, em contrapartida,
a analogia de que a mente no nascimento é como um papel em branco
esperando experiências sensoriais para que se escreva informações nele. Para
ele, e outros empiristas, o mundo mental é um coproduto do mundo físico.

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


Capítulo 7: Entendendo os “Ismos”   125
Se Platão parece bem antiquado e Locke muito mais científico, isso não quer
dizer que o assunto esteja definido. Na realidade, no século XX, o influente
filósofo Noam Chomsky propôs que a mente humana tem, sim, uma estrutura
inata, à maneira suposta por Platão. Contudo, Chomsky prefere caracterizá-
la como um tipo de gramática universal que se revela quando uma criança
pequena aprende a falar rapidamente, antes mesmo de aprender outras coisas
práticas como chutar bolas ou empilhar caixas (menos ainda de comer), e
tudo isso apesar de uma exposição limitada à sua língua nativa.

Recheando frangos com Francis Bacon


Francis Bacon (1561–1626) foi advogado, filósofo e político na corte da
rainha Elizabeth (e, posteriormente, do rei James), na Inglaterra dos Tudor.
Como se já não fosse honra suficiente, ele também é tradicionalmente
citado como o primeiro empirista britânico.

Bacon sintetizou a fé renascentista no método científico e devotou-se a


desenvolver um sistema combinando um dado extraído da experiência
com um esplêndido novo ismo e uma forma de raciocínio negativo
chamado, hoje em dia, de indução eliminativa (mas, esplêndido ou não,
não se preocupe em fazer uma anotação disso — é jargão). Seu objetivo
era oferecer uma base sólida para certos conhecimentos enquanto
permitia a maior extensão possível para ideias e pesquisa. Por exemplo,
cientistas analisando a relação entre calor e luz deveriam preocupar-se
com casos onde o calor está presente, como nos raios do sol, e onde está
ausente, como nas fosforescências. A abordagem refletia o treinamento
jurídico de Bacon, como as leis comuns inglesas desenvolvem-se
indutivamente (como olhando decisões tomadas em casos anteriores),
antes de serem aplicadas como uma lei estabelecida para casos novos.

As investigações práticas de Bacon também incluíam um interesse pela


teoria das semelhanças naturais, a antiga preocupação de herboristas e
curandeiros (e médicos magos). Eles pensavam, por exemplo, que flores
com bolhas que se assemelhavam a sangue poderiam ser boas para o
sangue ou que comer nozes (que parecem pequenos cérebros) poderia
ser bom para o cérebro. Bacon percebeu que a neve e o sal eram ambos
cristais brancos e criou a hipótese de que rechear frangos com neve
poderia preservar a carne de forma parecida à que o sal fazia. De fato, ele
não só criou essa hipótese, como, em um dia frio de inverno, colocou-a em
prática, que é como faz o empirismo. Infelizmente, no caso dele, ele pegou
pneumonia e morreu logo depois, que é o que os idealistas (veja a seção a
seguir), não os empiristas, deveriam fazer. Para piorar mais ainda as coisas,
ele deixou seu livro mais importante, Novum Organum (1620), inacabado.

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


126  Parte II: A História da Filosofia

Tentando Detalhar o Idealismo


É melhor selecionar filósofos empiristas do que idealistas, porque o idealismo
é uma doutrina mal definida. Por outro lado, o idealismo é a visão de que as
ideias são o próprio estudo da filosofia, porque só se tem consciência de ideias
e, de fato, elas são, bem possivelmente, tudo que existe. O idealismo puro, em
particular, opõe-se ao que se poderia considerar visão de senso comum de
que um mundo real existe lá fora e, ainda que imprecisamente, as ideias são
criadas fora dele. Mas, por outro lado, o idealismo também é a visão de que as
ideias de algum modo se relacionam, sim, com o mundo das coisas. A Figura
7-1 resume a posição idealista.

Bem, então, quais filósofos são idealistas? Lamentavelmente, nem isso está
claro. Desde que Platão argumentou que os aspectos fundamentais da
realidade eram as ideias, e as percepções sensoriais, meras sombras, ele
pode ser um bom candidato, mas a maioria dos filósofos insiste que essa
abordagem não é estritamente idealismo, porque ele parece pensar que as
ideias existem sim — fora da mente, em um universo paralelo mental que
ele chama de “mundo das formas”.

Diferentes tipos de ideias inatas


Para René Descartes, há três tipos de não exercem nenhuma função no conhe-
ideias — um termo que ele utiliza para se cimento científico.
referir tanto a conceitos quanto a verda-
UU Ideias inatas são diferentes das outras
des filosóficas:
duas, em que ambas são muito gerais e
UU Ideias adventícias (que entram na mente muito claras e distintas. Isso capacita-
a partir de uma fonte externa) incluem -as a oferecer as bases de certos co-
aquelas de coisas em particular, dores, nhecimentos — ou pelo menos é isso
sons, cores e outras sensíveis (que po- que diz Descartes. Ideias nessa cate-
dem ser sentidas), qualidades que são goria incluem Deus, liberdade, imorta-
definitivamente adquiridas por meio do lidade, substância, mente e matéria e
uso dos sentidos. Tais ideias não pode- outros conceitos matemáticos, como
riam ser o material de certos conheci- círculos e triângulos, bem como uma
mentos, porque os sentidos são falhos e série de outras (alegadamente) verda-
potencialmente enganosos. des autoevidentes (que Descartes nun-
ca define precisamente).
UU Ideias fictícias (criadas ou inventadas
pela mente) são produtos de fantasia e

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


Capítulo 7: Entendendo os “Ismos”   127

O idealista ideal
A maioria dos filósofos apega-se a Descartes (1596–1650) como exemplo
de idealista, com sua distinção caprichosa entre o mundo de extensão
lá fora (objetos que podem ser medidos porque estão “estendidos” no
espaço) e o mundo das mentes, povoado somente de ideias.

Identificando o Idealismo

Há um mundo lá fora
feito de matéria.

Por exemplo, há uma árvore


na floresta.
Eu
posso vê-la, tocá-la
e cheirá-la.
Nós só podemos perceber o
mundo da matéria por meio
dos sentidos.

A mente cria ideias acerca


do mundo usando dados
sensoriais que ela recebe.

Nós só estamos diretamente


conscientes dessas ideias.

Mas Mas
A mente também cria ideias
sem quaisquer dados Às vezes nós sentimos coisas
sensoriais — por exemplo, que realmente não existem.
em sonhos.

A única coisa que é real


é a ideia.

Figura 7-1: “O mundo é minha ideia” — A árvore na floresta só está


Entendendo esta é uma verdade válida lá desde que seja a ideia de
o idealismo. para cada criatura viva — alguém ou de algo.
Schopenhauer

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


128  Parte II: A História da Filosofia

Idealismo crítico
Immanuel Kant tentou, mas não conseguiu, esse algo, ele pensava, deve sempre conti-
impor alguma estrutura ao idealismo (do nuar inalcançável para nós.
que decorre que sua escola seja às vezes
Kant viveu em Bergsônico, onde hoje é a
chamada de idealismo crítico), objetando a
Rússia, mas escreveu em alemão, e foram
filósofos que utilizam a palavra ideias para
particularmente filósofos alemães obscu-
englobar tanto coisas físicas, como ser ver-
ros (notoriamente Fiche, Schelling e Hegel)
melho, assim como teóricas, como justiça.
que levaram esse último elemento de sua
Kant também achava que certos conceitos,
filosofia adiante, produzindo crescente-
como os de espaço e tempo, estruturam
mente teorias metafísicas da realidade
ideias e, portanto, devem ser anteriores a
fundamental e a suprema importância da
elas. De fato, ele escreveu que todas as ou-
mente humana nisso.
tras ideias se baseiam em algo mais — mas

Idealismo, como termo, só aparece depois de Descartes. Entretanto, quer o ismo tenha
existido ou não, a visão de Descartes de fato ajudou a motivar Leibniz (1646–1716) a criar
sua própria teoria idealista e grandiosa do universo composto de misteriosas mônadas
(que são, propriamente, pensamento puro). Isso se deu porque o mundo de matéria
tridimensional de Descartes parecia-lhe sem vida, passivo e inerte, e, assim, precisava de
algum elemento espiritual para trazê-lo à realidade.
Escrevendo na mesma época em que Leibniz, o bispo Berkeley (1685–
1710) parece representar uma forma de idealismo bem puro, porque
ele afirma firmemente que tudo de que as pessoas têm ciência é ideia
e concluiu que não se pode dizer que qualquer coisa que não seja uma
ideia tenha qualquer existência, sendo alegações em contrário apenas isto:
alegações. Outros filósofos britânicos (notoriamente, Hume e Bradley)
assumiram a visão oposta e tentaram ressuscitar a percepção sensorial
como produtora de ideias verdadeiras, com as outras ideias abstratas
sendo produzidas posteriormente, como eram, desse material bruto.

Suspeita-se de que o célebre autor inglês e escritor de um dos primeiros


dicionários, Dr. Johnson, tenha conhecido Berkeley pessoalmente e lidou
rispidamente com sua teoria sobre a inexistência da matéria chutando
uma pedra grande e dizendo “assim eu refuto isso”.

E a visão de que sua percepção cotidiana do mundo é direta (em vez de


sujeita a alguns intermediários mentais, menos ainda a alguma mutreta
aleatória que alguns filósofos acalentam!) é chamada de idealismo ingênuo.
Ele diz, categoricamente, que aquilo que as pessoas pensam antes de estudar
filosofia é geralmente correto. A cadeira realmente está ali, a neve realmente é
branca e a pedra realmente machuca seu pé se você chutá-la.

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


Capítulo 7: Entendendo os “Ismos”   129

Fazendo poções mágicas com George Berkeley


O bispo George Berkeley é normalmente colocado no outro extremo filosófico
que Francis Bacon. No Capítulo 5, abordo a teoria de que objetos materiais
existem apenas por meio da percepção que se tem deles, o que torna as ideias
reais e as experiências sensoriais imaginárias e ilusórias. Isso faz com que
ele pareça nada prático — portanto, um “idealista”, como mandam os ismos
filosóficos. Ainda assim, curiosamente, como Francis Bacon, Berkeley também
teve seu lado prático. Ele foi o primeiro dos grandes filósofos europeus a viver
nas Américas e, enquanto esteve aqui, observou bem seus entornos e descobriu
o que veio a chamar de água de alcatrão. Trata-se de uma infusão que tem
como base a seiva de pinheiros acrescentada à água, e Berkeley acreditava que
tinha propriedades medicinais extraordinárias. Então, quando de seu retorno,
ele encontrou seus conterrâneos irlandeses sofrendo por dois anos de fome e
praga, tentou tratá-las com essa “panaceia” — e, mais, parecia ajudar!

Berkeley demonstrou que mesmo os idealistas podem ser muito práticos


quando querem, preparando sua água de alcatrão da mesma forma
tanto para enfermos como para famintos, misturando cuidadosamente
alcatrão de pinheiro (seiva) com água, deixando assentar e, então,
drenando o líquido e engarrafando-o. É bom que se saiba, ele também
encontrou tempo para escrever seu guia filosófico, Siris, com o subtítulo
“Reflexões e pesquisas filosóficas concernentes às virtudes da água de
alcatrão e diversos outros temas conexos entre si e originados um do
outro”, que detalhava as virtudes da água de alcatrão para curar a maioria
das doenças. Seu próprio ismo inventado previamente — a teoria do
imaterialismo — reapareceu aqui, agora inserido em um relato de como
a água de alcatrão medicinal funciona. E é em Siris que o ismo realmente
deixou sua marca. Não mais apenas uma teoria filosófica empoeirada, o
livro tornou-se um best-seller na Europa, bem como na América!

Berkeley estava tão encorajado pelo sucesso de seu livro que chegou a
escrever um poema intitulado simplesmente “On Tar” (Do Alcatrão), que
faz uma conexão entre sua cura terrena e a verdade celestial, e, à sua
forma, também é útil para distinguir o empirismo do idealismo. Contudo, a
maioria dos compradores de Siris leu-o por seu conselho médico e deixou
passar a significância das reflexões filosóficas e eclesiásticas. O relato
de Berkeley dos poderes curativos universais da água de alcatrão por
referência à teoria das formas de Platão, assim como a Trindade e outras
doutrinas antigas, provavelmente era rico demais para a gente comum,
especialmente quando estava faminta e doente.

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


130  Parte II: A História da Filosofia

Sentido, dado sensorial e sensação


Os filósofos gostam de inventar novos concei- No século XIX, nos Estados Unidos, William Ja-
tos para explicar os velhos. O que é exatamen- mes e outros pensaram que a psicologia exigia
te que os sentidos sentem? Por que não dado tal distinção também. De fato, muitos filósofos
sensorial? Um tipo parecido de truque trabalha defenderam, desde então, que são apenas es-
com aquele ismo um tanto alarmante chama- ses dados sensoriais que são percebidos e,
do epifenomenalismo. Essa doutrina de nome consequentemente, percebem-se esses dados
grandioso na verdade propõe uma teoria bem sensoriais muito bem e o mundo real, muito mal.
pé no chão, a de que os estados de consciên-
Como discutido no Capítulo 5, Berkeley, em
cia, inclusive sentimentos e emoções, são ape-
particular, desconsiderava a ideia de que se
nas coprodutos de vários estados cerebrais.
sente, digamos, uma pedra morna, porque
Ou, como T. H. Huxley elegantemente colocou,
isso atribuiria uma qualidade a um objeto
sentimentos são tão completamente impoten-
inanimado que certamente não deveria estar
tes em modificar a função dos sentidos quanto
lá — o calor é simplesmente uma sensação
o “apito de vapor que acompanha o funciona-
que você tem em sua mente. Similarmente,
mento do motor de uma locomotiva é uma in-
Berkeley reclamou de que, quando se apro-
fluência em seu maquinário”.
xima de uma árvore, ela torna-se maior, mas
Mas voltando ao dado sensorial. O novo con- na realidade não se torna — ela meramen-
ceito foi introduzido na filosofia de língua te parece mudar. O filósofo presbiteriano
inglesa no século XX, por meio dos escritos escocês, e muito pé no chão, Thomas Reid
de filósofos como G. E. Moore e Bertrand (1710–1796), desconsiderou completamen-
Russell, porém muito antes de que outros fi- te tais mudanças na aparência como sendo
lósofos (majoritariamente anglófonos) tives- exatamente aquilo que se deveria esperar,
sem indicado a necessidade de tal nova en- visto que, se você estiver olhando para um
tidade. Locke teve suas “ideias sensoriais” e objeto real, ele deve mudar à medida que
Berkeley teve suas “qualidades sensíveis”, e você muda de posição em relação a ele.
Hume criou também as “impressões”.

Aplicando Utilitarismo
Compartilhando do paternalismo de Berkeley (o desejo de atuar em prol
do melhor interesse dos outros, como um bom pai faz ao seu filho), o
filósofo britânico Jeremy Bentham (1748−1832) via o mundo como uma
fenda entre duas grandes forças: a busca por prazer e a fuga da dor.
Disso, ele intuiu que seria melhor maximizar o primeiro e minimizar
o último e que todas as outras considerações irrelevantes. Isso ficou
conhecido como princípio da utilidade, e os escritos de Bentham são uma
pura forma de utilitarismo.

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


Capítulo 7: Entendendo os “Ismos”   131
A doutrina não dá espaço para o gosto individual, assim como não
permite lugar para direitos ou deveres, embora Bentham permita que
tenha funções sociais desejáveis como ficções convenientes. Como ele
escreve na frase de abertura na introdução de Princípios da Moral e da
Legislação (1789):

O princípio de utilidade julga qualquer ação como correta


pela tendência que ela tem de parecer aumentar ou diminuir a
felicidade daquele cujos interesses estejam em questão… Se for a
comunidade, a felicidade da comunidade; se for um indivíduo, a
felicidade desse indivíduo.

Construindo prisões para colocar


todo mundo com Bentham
A obra de Bentham foi extensa e podia pa- e também ao lado da janela correspon-
recer errática às vezes. Ele dispendeu muito dente à guarita. Por meio desse imple-
tempo e energia tentando avançar na vigi- mento, o menor sussurro de um poderia
lância como ferramenta para uma sociedade ser ouvido pelo outro, especialmente se
bem conduzida, chegando a desenhar planos ele tivesse a percepção de colocar seu
detalhados para a construção de prédios cir- ouvido no tubo.
culares onde apenas uma pessoa — um ins-
Quanto à inspeção:
petor — poderia vigiar e controlar as ações
de muitas. Ele considerou sua invenção …pode ser restrita às horas de estudo
particularmente adequada para prisioneiros, ou pode ser feita em tempo integral, in-
mas os Panopticons ou casas de inspeção clusive nas horas de repouso, lanche
são também, Bentham esclarece, aplicáveis ou recreação. Às primeiras dessas apli-
a qualquer tipo de estabelecimento onde as cações, o mais capcioso acanhamento
pessoas precisam ser mantidas sob inspe- sequer fantasiaria uma objeção: con-
ção, como hospitais, fábricas, manicômios cernente às horas de estudo, não pode
— e escolas e faculdades! haver, eu acho, um desejo senão o de
que elas devam ser aplicadas ao estudo.
Em carta a um amigo filosófico, Bentham des-
Pouco se precisa observar de que gra-
creveu tudo entusiasmadamente em detalhes:
des, barras e ferrolhos e toda circuns-
Para poupar o esforço problemático de tância da qual uma Casa de Inspeção
voz que poderia ser de outra forma ne- possa adquirir um caráter terrível não
cessário e impedir que um prisioneiro possuem função aqui. Toda brincadeira,
saiba que o inspetor está ocupado com toda conversa, resumindo, toda distra-
outro à distância, um pequeno tubo fino ção de todos os tipos está banida para
estender-se-ia de uma cela à outra até a todos os efeitos….
guarita do inspetor, atravessando a área

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


132  Parte II: A História da Filosofia

Esse é o princípio básico do utilitarismo. Contudo, é em um livro menos


formal de Bentham, The Commonplace Book, que se encontra a frase
“a felicidade do maior número”, que realmente resume a filosofia
(Commonplace books eram um tipo de caderno de rascunho sofisticado,
popular na época entre intelectuais, onde copiavam seus poemas preferidos
e assim por diante). Na realidade, essa frase se originou um pouco antes,
com Frances Hutcheson (1694–1746), que disse que “A melhor ação é a que
assegura a maior felicidade para os maiores números”.

Que tipo de pessoa era Jeremy Bentham? De algumas maneiras, ele era
um radical, iconoclasta e progressista; de outras, era um reacionário, um
intransigente e desmancha-prazeres. As pessoas frequentemente usam
seu sistema, o utilitarismo, para justificar atos que, individualmente, são
repugnantes. Pegue, por exemplo, o uso de animais em experimentos. Pode
parecer cruel fazer cachorros fumarem cigarros ou colocar xampu nos olhos
de gatos, mas os fins justificam os meios, sendo esse fim a proteção da saúde
humana. E, embora a maioria dos argumentos filosóficos para experimentos
com animais seja utilitarista — justificada dizendo que os benefícios para
os humanos pesam mais que do os danos aos animais —, o “pai” dessa
escola opunha-se firmemente a tais argumentos. Em Princípios da Moral e da
Legislação, Bentham diz firmemente:

Virá o dia em que o resto da criação animal poderá conquistar


aqueles direitos que nunca deveriam ter-lhes sido negados senão
pelas mãos da tirania. Os franceses já descobriram que o tom
escuro da pele não é razão por que um ser humano deveria ser
abandonado sem reparação por parte do tormentador. Que venha o
dia em que se reconheça que o número de pernas, a vilosidade da
pele ou a terminação do sacro sejam razões igualmente insuficientes
para relegar um ser sensível ao mesmo destino. O que mais há que
deveria traçar a linha insuperável? É a faculdade da razão ou, talvez,
a faculdade do discurso? Entretanto, um cavalo ou um cachorro
adulto é além de qualquer comparação mais racional, bem como
mais sociável, que um bebê de um dia, ou de uma semana, ou
mesmo de um mês de idade? Porém suponha que o caso fosse o
contrário, em que ajudaria? A questão não é, eles podem raciocinar?,
nem eles podem falar?, mas eles podem sofrer?

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


Capítulo 7: Entendendo os “Ismos”   133

Racionalismo ou irracionalismo?
Eis a questão…
Racionalismo vem da palavra latina para ra- ficientes. De qualquer forma, os humanos
zão, e ser racional é, supostamente, o maior não são animais racionais de forma alguma,
objetivo da filosofia. Contudo, há julgamentos são no máximo quintessencialmente animais
de valores e preconceitos intrínsecos na bus- irracionais. Os animais organizam a informa-
ca pela racionalidade. Por que, afinal, o mun- ção em seus focinhos para encontrar comi-
do é obrigado a ser racional apenas porque da, abrigo e reproduzir; os seres humanos fa-
as pessoas querem ser? O racionalista procu- zem um pouco mais que isso. É por isso que
ra aplicar seus poderes de raciocínio, lógica os sábios chineses chamavam o humano de
e capacidades analíticas a conquistar en- “animal moral”. Platão certamente achava
tendimento completo. O empirismo, por outro que os maiores processos de pensamentos
lado, diferente do racionalismo, alega não só não eram simplesmente um negócio mun-
prejulgar questões, mas também meramente dano de processar informação, ainda que
tomar notas, para observar e deduzir. apenas alguns (filósofos) pudessem alcançar
esses processos, e de uma forma um tan-
Hoje em dia, não somente psicólogos, como
to mística (irracional). São Tomás de Aqui-
também economistas, fizeram bom uso do
no também tinha certeza de que algumas
fato de que o animal humano é tudo menos
conclusões importantes dependiam não da
racional, e um ramo da filosofia, conhecido
razão, mas da “fé apenas”. Como foi obser-
como teoria dos jogos, tenta explorar situ-
vado em outra parte, Aristóteles distinguia
ações em que decidir o que é racional em
homens de mulheres, dizendo que apenas os
vários casos depende do que o outro de-
homens eram racionais.
cide, com todo o problema de retorno que
isso implica. Já no século XVIII e no Iluminismo, a racio-
nalidade voltou a ser prezada, e pensadores
Desde que Aristóteles declarou que “O
como Locke, Leibniz, Bentham e Espinoza
homem é um animal racional”, a irracio-
engajaram-se em tentar alcançar sistemas
nalidade tem sido vista como um modo de
bem-ordenados para processar informações
operação somente dos desajustados ou de-
e obter conclusões plausíveis.

Como Francis Bacon, Jeremy Bentham era advogado (descendente de


duas gerações de advogados), inglês e muito prático em sua abordagem.
Quanto aos debates jurídicos, ele achava que o que seus contemporâneos
celebravam como direitos naturais eram pouco mais do que direitos
imaginários, e que leis reais criavam direitos reais. Ele descrevia a
Declaração dos Direitos Humanos francesa como “bobagens em pernas de
pau”, alertando que querer algo não é supri-lo, da mesma forma que fome
não é a mesma coisa que pão.

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


134  Parte II: A História da Filosofia

Contudo, ele ainda tratou de seus próprios esquemas bastante idealistas,


como seu Plano para uma Paz Universal e Perpétua (1789). Resoluto pela
recepção calorosa ao seu Panopticon (veja o box “Construindo prisões
para colocar todo mundo com Bentham”), esse plano é o mesmo princípio
escrito mais extensamente, essencialmente fiando-se em um “olho”
supranatural para policiar o mundo — não à força, é claro, mas pela livre
troca de informação, envergonhando quaisquer nações transgressoras
para que entrem na linha. Ainda, sem dúvidas ciente da falta de resposta
política ao seu Panopticon, Bentham fez campanha ativa pela reforma do
sistema político britânico, defendendo, à época, radical, o caso de “para
cada homem, um voto”.

Bentham viu-se na função de líder espiritual de um tipo de movimento


utilitarista e doou seu corpo (após a morte) para a University College
London (que ele ajudou a fundar), onde permanece até hoje, preservado
em uma caixa de vidro.

Deixando Tudo em Suspenso


com o Relativismo
Se você acha que “os fins justificam os meios” — princípio caro ao
utilitarismo, parece um atropelo às liberdades civis, está certo — é sim.
Mas o princípio filosófico tão querido pelos utilitaristas é, de muitas
formas, uma antimoralidade: ele joga fora todas as noções de certo e
errado, substituindo-as por apenas a medida do que é útil. Dessa forma, o
utilitarismo não se opõe totalmente a esse outro grande ismo, o relativismo.

Relativismo
O relativismo é a ideia de que julgamentos, relativos: aos seus próprios gostos, expe-
posicionamentos e conclusões são relati- riências, cultura e atitudes. O relativismo
vos a culturas individuais, situações diver- substitui a variabilidade de pontos de vista
gentes e percepções diferentes. Ele nega a e mecanismos perceptuais por universais
existência de critério universal ou absoluto, quando se consideram questões morais,
mantendo, em contraste, a posição de que bem como alegações gerais de conheci-
o que se sabe e o que se há para saber são mento, inclusive da ciência.

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


Capítulo 7: Entendendo os “Ismos”   135
“O homem é a medida de todas as coisas”, disse Protágoras, na Grécia
Antiga, e isso é o cerne do relativismo filosófico. O que é bom para você
pode não ser para mim se você for um canibal e eu, um vegetariano. O que
é grande para você pode não ser para mim, se você for uma formiga e eu,
um elefante. De fato, Protágoras era particularmente preocupado com esse
último tipo de relativismo perceptual.

Existem muitos tipos de relativismo. Eles vão desde versões fortes, que
defendem que todas as verdades são relativas, às mais limitadas, que
meramente destacam o grande número de padrões, valores e costumes
sociais divergentes.

É fácil ver por que o relativismo frequentemente anda de mãos dadas


com o ceticismo. Mas o relativismo possui mais do que um olhar cético;
ele defende que melhor e pior — em procedimentos de teste ou em
resoluções éticas — não têm base fora da caixa de percepção, não se
estendendo além de um indivíduo ou cultura em particular. Platão cita
o sofista Protágoras: “As coisas existem para mim na forma como elas
parecem para mim; e as coisas existem para você na forma como elas
parecem para você” (Teeteto, 152ª). Contudo, isso também destaca um
problema para o relativismo: que não pode haver falsidade.

Os antigos eram bem cientes do relativismo cultural. As famosas Histórias


de Heródoto descreviam a gama de costumes que ele encontrou em suas
viagens. Uma de suas histórias mais conhecidas trata de estranhas práticas
dos calacianos, uma sociedade que considerava essencial que as pessoas,
por um sincero sentimento moral, comessem seus pais depois que estes
morressem. Isso contrasta com a visão em nossa própria cultura de que
comer pessoas é totalmente mórbido. A moral é, se você realmente quiser
ser relativista, é melhor estar disposto a comer seus pais também!

Entretanto o relativismo cresceu paralelamente a uma tendência histórica.


O principal teor das eras moderna e pós-moderna desafiou e, em grande
medida, deslocou ideias como o animismo da natureza e a autoridade
definitiva de Deus, apenas à medida que uma consciência comum da
diversidade de culturas e ângulos de percepção vieram à luz (animismo,
aliás, é a ideia de que a matéria, das rochas aos humanos, passando pelos
animais, contém um sopro de ânimo de espírito). Assim como fez com
Heródoto, o conhecimento de outras perspectivas minaram certezas de
que uma verdade universal ou incondicional existe.

Mesmo a respeito de julgamentos éticos, os relativistas defendem que


posições morais não refletem verdades absolutas. Ao contrário, elas
enfatizam que esses julgamentos se desdobram de costumes sociais,
tendências culturais ou preferências pessoais.

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


136  Parte II: A História da Filosofia

Rejeitando a Emoção
com o Estoicismo
O estoicismo é a antiga escola filosófica grega, fundada por Zenão de
Cítio, por volta de 300 a.C., que reconhece que os sentidos podem ser
enganados, mas acha que a reflexão calma poderia contornar esse
problema. Como doutrina, mostrou-se especialmente popular entre os
romanos e famosos estoicos italianos, incluindo Sêneca (um tipo de
dramaturgo filosófico que foi especialmente bom em descrever o mal) e
mesmo um imperador — Marco Aurélio.

Todos os estoicos eram materialistas, mas também identificavam Deus


com a natureza. Eles defendiam que apenas a virtude é propriamente boa,
porém, reconheciam que é sempre melhor ser rico que ser pobre, embora
nenhum dos estados devesse alterar sua felicidade. Eles argumentavam
que as emoções são imprestáveis, porque se baseiam em julgamentos
equivocados, e que se deve superá-las com base em uma análise de
julgamentos. Em seu racionalismo estrito, eles seguiam Sócrates e, de fato,
alguns dos estoicos também queriam ser chamados de socráticos.

Hoje em dia, os filósofos lembram-se dos estoicos mais por sua rejeição
à emoção (consequentemente, as pessoas utilizam a palavra estoico por
essa razão). Os estoicos diziam que respostas emocionais são produto
do julgamento de que algo ruim aconteceu. Porém, uma vez que coisas
externas não possuem valor intrínseco, tais julgamentos são um equívoco.
Se um ladrão toma suas posses, então, tudo que você perdeu é o que eles
chamavam de indiferentes preferidos, que não possuem consequência.
Desde que suas virtudes estejam intactas, nada ruim de fato aconteceu,
pois apenas isso tem valor intrínseco.

Sêneca reconta a história de Estilbão, um estoico cuja cidade foi capturada


por invasores, resultando no desaparecimento de sua esposa, na morte
de seus filhos e na destruição de todas as suas posses mundanas. Mas,
quando outro filósofo perguntou a Estilbão se ele havia perdido algo, ele
respondeu “Claro que não, eu tenho tudo que é valioso comigo”.

Duvidando com os Céticos


Embora ceticismo derive da palavra grega skepsis, que significa
consideração, nos dias de hoje o ceticismo implica duvidar de várias
coisas. A evidência dos sentidos é suspeita, dada a (ocasional)
incapacidade de distinguir uma percepção real de uma falsa. Os antigos
céticos gregos como Arcesilau de Pitane (cerca de 315–240 a.C.) e

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


Capítulo 7: Entendendo os “Ismos”   137
Carnéades de Cirene (cerca de 210–130 a.C.) insistiam em que ninguém jamais
deveria justificar a alegação de conhecimento a respeito de qualquer coisa no
mundo; em vez disso, poderia apenas fazer assertivas otimistas e ingênuas.

O relativismo e a física
Aqueles que ensinam filosofia desdenharam outro grande físico, James Clarke Maxwell.
do relativismo, vendo-o como algo a ser ex-
Ela faz duas alegações. A primeira é que a
tirpado dos alunos. Não foi assim com a fí-
velocidade da luz é a mesma para todos os
sica. Desde Einstein, o relativismo tem sido
observadores, independentemente de seu mo-
central na tentativa de encontrar um sentido
vimento em relação à fonte dela. A segunda é
no universo. Em um artigo intitulado “Geo-
que todos os observadores se movendo em
metria e Experiência”, Einstein escreveu:
velocidade constante devem observar as mes-
“Até onde as proposições da matemática
mas leis físicas. Mas Einstein mostrou matema-
referem-se à realidade, não se estão corre-
ticamente que a única forma pela qual se pode
tas; até onde elas estão corretas, elas não se
combinar essas duas suposições é tornando o
referem à realidade”. De fato, ele disse que
espaço e o tempo (quão grande algo é) relati-
a matemática e a física operam por regras
vos. Isso vai de encontro à nossa experiência
diferentes e devem ficar separadas até certo
cotidiana, em que assumimos que o tempo
ponto. A física é empírica, baseada em medi-
passa na mesma velocidade em todos os lu-
ções, mas a matemática baseia-se em axio-
gares e os objetos têm apenas um “tamanho”,
mas que se assumem no princípio.
mas, desde então, a teoria tem sido demonstra-
A Teoria Especial de Einstein substituiu os da em vários experimentos sólidos.
conceitos preferidos de Newton do que ele
A descoberta de Einstein da relatividade do
chamava espaço absoluto e tempo absoluto,
espaço e do tempo levou a outro insight: a
ambos eternos e imutáveis, por sistemas fun-
matéria e a energia estão fundamentalmente
damentalmente relacionais, mais complexos.
conectadas — de fato, são a mesma coisa.
As consequências surpreendentes da Teoria
Isso é resumido na famosa equação:
Especial são que corpos possuem compri-
mentos diferentes, relógios funcionam em ve- E=mc², onde m= massa e c= velocidade
locidades diferentes e o mesmo evento pode da luz, ao quadrado.
ocorrer em diversos momentos — dependen-
O legal é que a teoria só é chamada de “es-
do do movimento relativo do observador.
pecial” porque ainda não está bem completa.
“A Teoria Especial da Relatividade” (que ele Ela não inclui os efeitos da gravidade. Para in-
publicou em 1905) foi inicialmente intitulada cluí-los, Einstein levou mais 11 anos. O resul-
“A Eletrodinâmica de Corpos em Movimen- tado final: a teoria, que parece sombria, mas
to” e foi pensada para tratar de aparentes mais importante, da Relatividade Geral.
inconsistências na teoria eletromagnética de

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


138  Parte II: A História da Filosofia

Outros estoicos posteriormente insistiram que havia outras formas de dividir


o conhecimento de dado sensorial e distinguir bobagens puras de evidências
bem fundamentadas. Contudo, essa nunca foi a visão dos verdadeiros céticos.
Durante o Renascimento, 1.800 anos depois, as disputas internas ressurgiram
com o interesse renovado pelos escritos de Sexto Empírico (cerca de 150–
210), que havia discutido as possíveis razões para tais distinções estoicas.

Esse antigo debate estoico ainda é central na filosofia. A posição


convencional é de que o conhecimento é crença real justificada.

Descartes oferece um critério (inútil) em seus escritos de conhecimento


como qualquer coisa que é percebida de forma “clara e distinta”, isso,
por sua vez, estando na alegação de que Deus não enganaria. A resposta
mais astuta do bispo Berkeley às alegações céticas sobre o que as pessoas
pensam que percebem foi dizer que o que você acha que percebe é
exatamente o que você percebe, porque não existe nada superior ou mais
real que os pensamentos, afinal (você pode encontrar muito mais ideias
sobre o que torna algo “conhecimento” nos Capítulos 9 e 10).

Evitando “Ismos” Perigosos


Existem muitos ismos perigosos — especialmente quando se começa a
entrar na área de teoria política. O fascismo é talvez o mais famoso. A
doutrina política combina três outros ismos: nacionalismo, militarismo
e totalitarismo somados. O Estado fascista suprime todos os direitos
individuais nos interesses não tanto da maioria quanto da nação
encapsulada por seu líder. A maior marca da doutrina veio antes
da Segunda Guerra Mundial, quando Mussolini na Itália, Hitler na
Alemanha, Franco na Espanha e o imperador do Japão declararam-se
orgulhosamente fascistas.

Como fórmula política, o fascismo veio a ter uma utilização muito mais
ampla, contudo significando uma abordagem política que glorifica
a nação, celebra o poderio militar e oprime direitos individuais —
individualismo. De fato, a doutrina original do fascismo fez todas essas
coisas, porém, o mesmo faz o socialismo. Na realidade, o fascismo é um
dos termos menos compreendidos do vocabulário político.

Isso é menos surpreendente quando se descobre que Mussolini


foi auxiliado em seus escritos por um eminente advogado do neo-
hegelianismo, um professor de filosofia chamado Giovanni Gentil, que
foi enforcado, devido aos incômodos que causava, pelos aliados ao final
da Segunda Guerra Mundial. Se isso torna o neo-hegelianismo um ismo
perigoso ou só fascismo não está claro. Porém o filósofo do século XX
Karl Popper achou que o problema não era nenhum desses ismos, mas a

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


Capítulo 7: Entendendo os “Ismos”   139
visão de que a história tinha um padrão, o que se chama historicismo. Para
Gentil, assim como para Hegel e muitos outros teóricos da história (tanto
de esquerda como de direita), o mundo seguia por uma marcha inexorável
de progresso que era essencialmente benigno, ainda que acompanhado
por muito sangue, destruição e chacina.

De fato, um dos aspectos do fascismo é a celebração do sangue, da


destruição e da chacina, por serem considerados a marca apenas desse
tipo de darwinismo social. O darwinismo social é outro ismo perigoso que
ensina que é a maneira da natureza de promover o forte em detrimento do
fraco. Pessoas usaram essa teoria para justificar programas de esterilização
de raças supostamente inferiores e a morte de crianças “defeituosas” em
muitos países, inclusive nos Estados Unidos.

Os fascistas italianos, especificamente, compararam sua abordagem ao


liberalismo clássico (com sua ênfase em direitos e liberdades individuais)
e interpretavam-na de forma dialética como uma reação ao absolutismo
(isto é, sociedades controladas por monarcas com poder absoluto,
por exemplo). Esse tipo de sociedade com todo o poder investido
na monarquia havia exaurido sua função histórica, então apareceu o
liberalismo, tentando dar todo o poder ao povo. Os fascistas acreditavam
que os problemas da sociedade poderiam ser melhor resolvidos pelo
novo Estado fascista, para o qual o Estado é a expressão da consciência e
da vontade do povo.

Isso é exatamente o mesmo pensamento que está por trás de dois


grandes ismos esquerdistas — marxismo e comunismo —, que são menos
surpreendentes quando se lembra de que Marx e Engels, como os fascistas,
também foram influenciados pelo neo-hegelianismo!

Mas, se você acha que os ismos estão começando a fazer sentido, chega
o nazismo, que se somou ao grande teatro fascista (e não se esqueça de
que ele também se autodeclarava um tipo de socialismo — nacional-
-socialismo), uma camada sinistra não só do darwinismo social, como
de um violento racismo. E foi nisso que o lado perigoso dos ismos deu:
nos assassinatos em massa em nome de uma ideologia carregada pelo
regime nazista.

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


140  Parte II: A História da Filosofia

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


Parte III

O Feijão com Arroz


da Filosofia

“Tenho certeza de que Aristóteles teria


sido mais filosófico a respeito de um pneu
estourado, querido.”

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


Nesta parte...
A rroz é bom, mas feijão é melhor, e nesta parte você terá
ambos. O arroz encontra-se na lógica, é claro, e, se você quiser
descobrir sobre o conhecimento, terá que comer arroz. Que papo é
esse? É uma tentativa de usar metáfora e analogia, e, quando você
terminar de ler o capítulo sobre a filosofia da linguagem, verá que é
mais difícil fugir disso do que você imaginava. Quando você chama
uma pá de pá, está envolvido em um exercício social e linguístico
bem complexo. É por isso que os filósofos nunca chamam pá de pá:
eles basicamente a chamariam de “ferramenta útil para cavar” e,
metaforicamente, é isso que a filosofia é.
Confuso? Não fique. Esta parte não só separa as coisas sofisticadas da
epistemologia e da linguística, como também coloca-as em
seu devido lugar.

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


Capítulo 8

Vendo os Limites
da Lógica
Neste Capítulo
XX
Vendo o que um pouco de lógica pode fazer quando você a aplica
XX
Esmiuçando o raciocínio
XX
Testando algumas novas formas de pensar

Os poetas não enlouquecem; mas enxadristas, sim. Matemáticos


enlouquecem e, também, operadores de caixa; mas artistas
criativos, raramente. Eu não estou, como ver-se-á, de modo algum
atacando a lógica: só digo que esse perigo se encontra na lógica,
não na imaginação.

– G. K. Chesterton

E ste capítulo aborda o que é a lógica e por que os gregos antigos


mergulharam fundo nela. E é onde entra a obra de Aristóteles.
Aristóteles viu que algumas das formas pelas quais as pessoas raciocinam
na vida cotidiana não são confiáveis e são enganadoras e, assim, tentou
estabelecer, de uma vez por todas, as formas corretas de raciocinar. Sua
promessa é de que, se seguidas, as regras sempre levam a conclusões
verdadeiras, e ele também tenta indicar argumentos a serem evitados,
porque levam a erros e conclusões falsas.

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


144  Parte III: O Feijão com Arroz da Filosofia

Entendendo o que a Lógica


É Realmente
Lógica filosófica é o estudo da estrutura dos argumentos. Ela não
necessariamente ajuda com qualquer argumento em particular,
concernente a fatos e valores pessoais, mas dá um guia geral para o seu
raciocínio, alertando contra formas de pensar sobre questões que podem
levar a equívocos. A ideia é essa, afinal.

E, certamente, a lógica é grande em departamentos de filosofia hoje em


dia, o que é bem estranho, realmente, porque não é um ramo da filosofia
de jeito nenhum. É, na verdade, um tipo de matemática, carregando
apenas o mesmo tipo de conexão com debates filosóficos que, digamos,
estudar geometria carrega. A ideia de que, quando se debate, se está
na realidade manipulando fatos da mesma forma que matemáticos
manipulam números em suas equações é mais um sonho do que uma
realidade. Mas o legal a respeito da matemática é que, após ter provado
algo, todo mundo fica satisfeito e admira a elegância de seu trabalho.

Então, todo mundo quer ser lógico mais ainda do que ser filosófico. De
fato, se você quiser insultar alguém, é só dizer que ele está sendo ilógico,
que se contradisse ou que sua colocação não é válida. Tudo isso apela à
lógica como um tipo de arbítrio no grande jogo da verdade e da falsidade.
Mas quão imparcial é a lógica afinal? Você deveria sempre confiar nos
julgamentos dela?

Os filósofos sempre quiseram impor ordem nos conceitos, nas linguagens


e ideias, particularmente depois que Euclides produziu suas elegantes
provas geométricas, que, certamente, são muito melhores — têm
muito mais autoridade! — do que os argumentos ordinários, usando a
linguagem ordinária. Aristóteles proveitosamente deu à filosofia uma forma
matemática de olhar o mundo, embora apenas uma forma que somente de
longe carregue uma semelhança com a matemática, inteiramente baseada
nas suposições com as quais se começa.

Apesar desse problema, a maior parte da lógica filosófica segue de uma


maneira muito preto no branco, contente em tratar de todos os tipos de
questões. Muitos de seus proponentes veem apenas a excelência de suas
provas, e não os limites da estratégia geral. Leibniz, em particular, achava
que a lógica capacitaria a humanidade a construir uma máquina para
resolver todos os seus problemas (“Venha, vamos calcular”), um engano
muito popular desde a invenção do computador.

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


Capítulo 8: Vendo os Limites da Lógica   145

Apreciando as Coisas que


Aristóteles Acertou
Aristóteles não foi o primeiro filósofo a tentar ser lógico, mas os filósofos
geralmente tomam os escritos dele, especialmente Analytica Priora e
Posteriora, como a primeira tentativa séria de se construir um sistema
de lógica. Para ser justo, entretanto, Aristóteles estava construindo esse
sistema com base na obra de outros pensadores gregos, como Zenão de
Eleia e Parmênides. Em seus escritos, ele introduz conceitos-chave na
lógica, como o das proposições, que são, basicamente, frases que têm
um valor de verdade, o que significa que fazem uma alegação sobre a
realidade que é verdadeira ou falsa. “Matemática é divertido”, ou “Todos
os cachorros gostam de ossos”, ou “Meu cabelo está uma bagunça”, por
exemplo, são proposições, mas “Olhe aquilo!” e “Vamos nadar” não o são.

Observe que o verbo é tem uma função especial, tanto na linguagem


quanto na lógica. Ele age como o sinal de igual na matemática, uma coisa
de um lado é igual à coisa do outro lado. Outras palavras também têm
funções especiais:

UUTodo(a) como em “Todas as pessoas são mortais”.


UUNenhum(a) como em “Nenhuma pessoa pode viver para sempre”.
UUAlgum(a) como em “Algumas pessoas chegam aos 100 anos”.
UUAlguma... não como em “Algumas pessoas não chegam aos 100 anos”.

Agora respire fundo à medida que formos ficando mais formais


neste assunto. Esses quatro tipos especiais de frases são chamados
respectivamente de:

UUAfirmação universal (“Todo S é P”).


UUNegação universal (“Nenhum S é P”).
UUAfirmação particular (“Algum S é P”).
UUNegação particular (“Algum S não é P”).

Você vê como logo o jargão rapidamente se empilha! Realmente


impressionante. E tudo graças a Aristóteles. Mas, não contente com isso,
Aristóteles identifica as proposições como um tipo especial de frase tendo
duas partes (que ele chama de termos). Na linguagem, os substantivos
representam estas duas partes. “Meu cabelo”, por exemplo, e “uma
bagunça” são ambos substantivos. Um dos termos é o sujeito e o outro é o
predicado. É por isso que os lógicos usam as letras S e P aqui: o S fica para
o sujeito e o P, para o predicado. Nesse caso, o sujeito é “meu cabelo” e
o predicado (falando vagamente, a coisa prevista seria a mesma palavra
novamente, só que predicada) é que está “uma bagunça”. Somado a isso,

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


146  Parte III: O Feijão com Arroz da Filosofia

há os conectivos (palavras como é que juntam os Ss e Ps) e operadores


como todo e não, que, bem, operam neles.

Fazendo inferências
Aristóteles indicou que, no raciocínio e na argumentação, as pessoas
fazem inferências de fatos. Por exemplo, se houver um furo no pneu de
sua bicicleta, você diz que não conseguirá chegar em casa a tempo. Isto
é, você infere uma nova proposição (não conseguirá chegar em casa a
tempo) da primeira. O fato de que há um furo possui implicações (chegar
em casa tarde, não ter chá, perder o segundo episódio de Zambo contra
os Anões Intergaláticos) e, de fato, os filósofos gostam de falar de coisas
sendo implicadas por outras. Contudo, quando um lógico diz que algo está
implicado, não o faz como você faz no dia a dia (que permite um elemento
de dúvida sobre o assunto); ele diz que se segue absolutamente. “Se há
um furo na minha bicicleta, então, eu chegarei tarde em casa” torna-se, em
lógica, uma certeza. Esse é um problema na lógica, porque, na realidade,
muito poucas coisas são tão simples e, mesmo que haja um furo, você
pode conseguir chegar em casa cedo — alguém pode lhe dar uma carona
ou você pode ser muito bom em remendar furos.

Não importa quão boa a lógica seja, há uma lacuna entre a certeza da
representação lógica dos fatos e o mundo em si.

Códigos secretos dos lógicos


Embora os lógicos ajam como se tudo fosse concordar sobre como representar os “ope-
preto no branco, na realidade eles sequer radores” na lógica, coisas como e, não e ou.
conseguem concordar entre si em muita Apenas alguns dos símbolos que eles utili-
coisa. Por exemplo, eles não conseguem zam são mostrados nesta tabela.

Não P ~P -P ¬P P
PeQ P.Q PQ P Q P&Q
P ou Q PvQ P Q PQ
Se P então Q P⊃Q P→Q

P se Q P≡Q P↔Q P~Q

(P se, e
somente
se, Q)

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


Capítulo 8: Vendo os Limites da Lógica   147
Aristóteles, todavia, como a maioria dos lógicos depois dele, estava menos
interessado no quão bem a lógica se encaixa no mundo e mais interessado
na lógica como abstração teórica.

Investigando silogismos
Aristóteles inventou uma forma simples de argumento chamada
silogismo, que consiste em apenas três proposições (frases com um valor
de verdade). As duas primeiras chamam-se premissas e são coisas que
você alega serem verdade. O importante acerca das duas premissas
é que elas devem compartilhar um termo (chamado termo médio), e
essa é a chave para se chegar a uma conclusão e saber que a deduziu
validamente das duas primeiras.

Deduzindo coisas logicamente


com Sherlock Holmes
Uma lógica dedutiva é aquela que permite Isso é o que os lógicos chamariam de pre-
deduzir coisas como o detetive ficcional do missas (afirmações com um valor de verda-
autor Sir Arthur Conan Doyle, Sherlock Hol- de) — elas são verdadeiras ou falsas, não
mes, fazia. Como Holmes, você coloca as ambas e, certamente, não nenhuma. Então, o
coisas que sabe em uma longa lista e, então, que você pode deduzir?
deduz um achado interessante e significativo
Tendo dado suas premissas, Holmes geral-
dessa lista. Holmes costumava dizer coisas
mente solucionaria um crime medonho. No
como “Sr. Wilson era um trabalhador braçal”
exemplo, você deve se contentar com de-
(concluído da observação de que sua mão
duzir que Moppet, o gato, subiu na janela
direita era maior que a esquerda) e que este-
e derrubou o aquário para comer o pobre
ve escrevendo algo recentemente (deduzido
Félix, o peixe.
da observação de que havia uma manchinha
no punho da manga de seu casaco). Esse é o Mesmo assim, esse é um exemplo de como
Holmes clássico. Mas pegue algumas obser- usar um tipo de lógica informal para resol-
vações da vida real que você pode fazer: ver problemas corriqueiros. Mas não é bem
assim que se usa lógica na filosofia. Porque,
UU Há uma poça de água no carpete junta-
por mais engenhosa que sua lógica possa
mente com cacos de vidro.
ser, não é muito confiável. Existem inúme-
UU A janela está aberta e a cortina balan- ras explicações alternativas para explicar o
çando por causa do vento. desaparecimento do peixe Félix. Os filósofos
querem certeza.
UU Félix, o peixe de estimação sumiu.

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


148  Parte III: O Feijão com Arroz da Filosofia

Eis um exemplo:

Maçãs são frutas

Todas as frutas são comestíveis

________________ (Logo; o grande marcador de conclusão)

Maçãs são comestíveis

Não é muito impressionante, certo? Mas o método é a coisa. Aqui, o termo


médio compartilhado é ser uma fruta e, daí, maçãs também compartilham a
propriedade de ser comestível. Todas as frutas são comestíveis? Na verdade,
eu acho que não. Mas isso é lógica, e não se trata realmente de fatos.

Usando essa ideia básica, Aristóteles traçou uma lista de todas as formas
como as pessoas poderiam argumentar, chegando a não menos que 256
tipos diferentes possíveis de silogismos, dos quais apenas alguns poucos,
dado que eles partem de suposições reais, sempre produzirão conclusões
verdadeiras. São argumentos de apenas três linhas: duas premissas (frases
dizendo algo que pode ser verdadeiro ou falso) seguidas de uma conclusão.

Silo-quê?
Silogismos são argumentos com duas premis- UU Algum S é P
sas seguidas de uma conclusão. Nos tempos
UU Algum S não é P
medievais, eles tinham nomes como barbara,
festino e baroco. Bem tonto! Um exemplo é: Essas podem ser arranjadas de várias formas
em um silogismo, levando no total a 256 argu-
Todas as maçãs crescem em árvores.
mentos silogísticos diferentes. A grande maio-
Todas as Delícias Douradas são maçãs. ria é inválida, e Aristóteles concentra-se nas
formas válidas. Mas como ele prova que as
____________________________
formas válidas são válidas? Afinal, a ideia origi-
Todas as Delícias Douradas crescem em nal era de que ele mostraria que os argumen-
árvores. tos são válidos, porque são uma das formas
válidas. Não parece ser possível aplicar isso à
Não é uma boa peça de dedução, esta, mas
forma do argumento propriamente. Contudo,
ilustra o processo de inferência e qualifica-
Aristóteles argumenta que há inevitavelmente
-se como argumento em termos filosóficos.
pontos de partida para qualquer cadeia de ra-
Ela utiliza um tipo muito comum de estrutura
ciocínio que, sozinha, não é provada. Tais pon-
argumentativa — Todo S é P, como os lógi-
tos de partida são aceitáveis, ele acha, desde
cos dizem. De fato, Aristóteles identificou e
que sejam autoevidentes. Essa noção de ser
definiu quatro tipos de “alegações”:
autoevidente é central em sua abordagem, mas
UU Todo S é P a questão sempre aparece: autoevidente para
quem? De fato, dizer que algo é autoevidente é
UU Nenhum S é P
mais uma afirmação psicológica que lógica.

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


Capítulo 8: Vendo os Limites da Lógica   149
Aristóteles inventou toda uma notação para seu raciocínio, sendo pioneiro
no uso de letras para termos, com isso demonstrando uma forma fácil
para os filósofos darem a impressão de dizerem grandes coisas, no que os
filósofos estão em grande débito com ele.

Os silogismos são impressionantes, especialmente quando recebem nomes


em latim e são arranjados de 256 formas diferentes! Então, nenhuma
surpresa que pelos 2.000 anos seguintes aprender filosofia envolvia fazer
apenas isto: tatear silogismos tontos. Mas nada disso teria sido possível sem
outro feito de Aristóteles — estabelecer as leis do pensamento —, que foi
um necessário primeiro estágio em seu esforço para colocar a linguagem
cotidiana em uma base lógica (veja o Capítulo 2).

Como eu digo, Aristóteles precisava de silogismos para criar e guiar sua


lógica. Mas não pense que só porque a lógica requer certas suposições,
elas são de fato o caso. Afinal, aqueles gregos antigos, os filósofos estoicos,
criaram uma lógica bem diferente baseada na ideia de que não há dois
tipos de afirmações (verdadeiras e falsas), mas três! Na lógica estoica,
existem também afirmações que estão entre verdadeiras e falsas, uma
nova categoria que se encaixa bem na realidade (isso é uma lagoa, um
lago, ou algo entre um e outro? Eu passei ou fracassei nessa redação, ou
algo no meio?). Naturalmente, três valores de verdade são mais difíceis de
manipular logicamente.

Sai a informalidade — entram


os sistemas formais!
Aristóteles desenvolveu suas ideias em um livro chamado Analytica
Priora, que foi a primeira tentativa de criar um sistema de lógica formal
dedutiva, e deu prosseguimento a essa grande obra com outra chamada
Analytica Posteriora, que, a despeito de seu nome um tanto rude, trata de
formas de utilizar métodos lógicos para tornar o conhecimento científico
mais sistemático.

Então o que é um sistema de lógica formal dedutiva afinal? Vamos dar um


passo de cada vez. Por quê? Porque essa é a chave para a lógica: sempre
se dar um passo por vez. Se isso parece um pouco com matemática, é
porque a lógica é um tipo de matemática. De qualquer forma, formal
(como contrário de informal) significa seguindo regras. Um sistema formal
é aquele que possui regras, e um sistema informal, não. Uma exigência
formal para trabalhar na Austrália, por exemplo, é que se deve ter
passaporte australiano ou um visto especial. Uma exigência informal é que
você não deve ter medo de aranhas.

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


150  Parte III: O Feijão com Arroz da Filosofia

Quando um argumento é válido?


O que torna um argumento convincente? Não é que uma evidência
advinda de uma alegação seja correta, deve existir alguma razão para
aceitar a conclusão que se segue da evidência.

Pegue esse argumento ruim, por exemplo:

Todos os cachorros têm quatro pernas.

Minha mesa tem quatro pernas.

_________________

Minha mesa é um cachorro.

As premissas (as duas primeiras linhas do argumento) são verdadeiras


(ou próximas o suficiente disso para o propósito). Contudo, a conclusão
não é muito convincente. Por quê? Você pode responder de duas formas.
Uma é apenas olhar a lista de diferentes tipos de argumentos de Aristóteles
— ele chama-a de diferentes formas de argumentos. A distinção mais
importante é entre as formas de argumento que são “válidas” e aquelas
que são “inválidas”. Então, olhe bem e você verá que esse é um argumento
inválido. A conclusão não segue as suposições.

Para entender por que, você precisa desnudar o argumento particular em


sua estrutura básica, ignorando detalhes em particular. Os argumentos
desnudados funcionam mais ou menos assim (vamos usar a letra C para
designar a propriedade de ser um cachorro, a letra P para a propriedade
de ter quatro pernas e M para a propriedade de ser mesa).

Todo C é P.

Todo M é P.

________

Todo M é C.

O problema não é que as premissas (que cachorros têm quatro pernas


e que minha mesa tem quatro pernas) são falsas, pois são verdadeiras
(até onde vai esse exemplo, pelo menos). E o que parece (mas não é)
um termo médio propriamente compartilhado existe — a propriedade
de ter quatro pernas. Mas a conclusão é, certamente, falsa. Meu cachorro
não é uma mesa, tampouco são todos os cachorros mesas. Na lógica, um
argumento com premissas verdadeiras que termina com uma conclusão
falsa é inválido. Isso acontece, na lógica, porque premissas verdadeiras não
garantem que uma conclusão seja verdadeira a menos que o raciocínio (o
argumento) seja válido. Nesse caso, o argumento não é válido.

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


Capítulo 8: Vendo os Limites da Lógica   151

Regras e ferramentas
A mesma coisa surge em filosofia de tempos em tempos, e em nenhum
lugar isso acontece mais do que na lógica. De fato, toda a ideia de
estabelecer argumentos em suas “formas” gerais é mostrar como vários
debates compartilham a mesma estrutura lógica — então, compartilham
a mesma resposta. Que ótima ideia! Mas, quando você tiver “desnudado
os argumentos”, eles parecerão bem simples. Aqui estão alguns dos mais
conhecidos argumentos “pré-fabricados” e as deduções associadas, juntos
conhecidos como “regras de inferência”.

Talvez surpreendentemente, quando combinadas com algumas “regras de


substituição” simples, como “simplificação” (que diz que, se você tem P e
Q, também pode dizer apenas que tem um P), essas regras permitem que
lógicos digam que o cálculo proposicional (outro nome da lógica formal)
está “completo”. Isso significa que os axiomas utilizados são suficientes
para demonstrar qualquer proposição verdadeira ou justificar qualquer
argumento válido. Só imagine isso! A Tabela 8-1 mostra algumas das regras
filosóficas e seus significados.

Tabela 8-1 Regras Filosóficas


Nome da Forma lógica Exemplo em Comentário
regra da regra português claro
Modus Se P então Q Se estiver Sim, você está certo.
Ponens chovendo, então O “argumento”
P vou me molhar. está basicamente
repetindo a alegação
__ Está chovendo. original.
Q Logo, vou me
molhar.
Modus Se P então Q Se eu tivesse lido Há uma lição de
Tollens meu livro Filosofia vida útil!
Não Q Para Leigos, teria
passado na prova.
__
Não li meu livro
Não P
Filosofia Para
Leigos.

Logo, não passei


na prova.
(Continua)

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


152  Parte III: O Feijão com Arroz da Filosofia

Tabela 8-1 (Continuação)


Nome da Forma lógica Exemplo em Comentário
regra da regra português claro
Silogismo Se P então Q Se meu cachorro Conclusões podem
hipotético acordar, terei que parecer esquisitas,
Se Q então R alimentá-lo. mas ainda serem
lógicas...
__ Se eu alimentar
meu cachorro,
Se P então R
terei que botar
a chaleira para
ferver.

Logo, se meu
cachorro acordar,
terei que colocar
a chaleira para
ferver.
Silogismo Ou P ou Q Ou é peixe ou são Útil, mas não é
disjuntivo ovos cozidos para um raciocínio
Não P o chá. incrivelmente
impressionante.
__ Não é peixe.
Q Logo, são ovos
cozidos.
Dilema Se (P então Q) Se eu me atrasar Há um dilema!
construtivo e (se R então de novo para o
S) trabalho, então terei
que fazer o café e,
Ou P ou R se o patrão estiver
de mau humor,
__
então terei que
Logo, ou Q limpar o armário do
ou S. estoque.

Com certeza, ou eu
chegarei atrasado
no trabalho, ou o
patrão estará de
mau humor.

Logo, ou eu terei
que fazer o café, ou
terei que limpar o
armário do estoque.

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


Capítulo 8: Vendo os Limites da Lógica   153

Biggles usa a lógica


Em uma das famosas histórias do capitão Se você cair, uma de duas coisas é
W. E. John, o heroico ás dos jatos, Biggles, certa. Ou você estará ferido, ou não
usa uma lógica legal para explicar sua indi- estará ferido. Se você não estiver feri-
ferença ao risco: do, não há necessidade de se preocu-
par. Se estiver ferido, uma de duas coi-
“Quando você está voando, tudo está
sas é certa. Ou você vai se recuperar,
bem ou não está bem. Se estiver tudo
ou não vai se recuperar. Se você se
bem, não há necessidade de se pre-
recuperar, não há necessidade de se
ocupar. Se não estiver bem, uma de
preocupar. Se você não se recuperar,
duas coisas acontecerá. Ou você vai
não poderá se preocupar.”
cair, ou não vai cair. Se você não cair,
não há necessidade de se preocupar. De Spitfire Parade (1941), de W. E. Johns.

A contribuição de Aristóteles foi ver que os argumentos têm estruturas ou


formas diferentes e apenas alguns deles sempre produzem confiavelmente
conclusões verdadeiras. A lógica formal, então, é muito simples: é o estudo
das formas dos argumentos.

Por que usar símbolos?


Na maior parte da lógica (como na matemá- Porém, para ser generoso, aqui está um
tica), usam-se símbolos em vez de palavras. exemplo bem confuso do uso das palavras
Isso obviamente simplifica e, portanto, ajuda para explicar a definição de validade: se um
a revelar a estrutura dos argumentos — mas argumento é válido, então a proposição com-
também torna impossível aplicar o senso posta que consiste da conjunção de todas as
comum para o que alguém está dizendo ou suas premissas ligadas à sua conclusão por
apresentando. A suspeita surge quando uma posterior implicação é uma tautologia.
aqueles que gostam de colocar argumentos
Puxa vida! Então, às vezes símbolos são me-
filosóficos em símbolos também gostam de
lhores. Pelo menos, usar palavras não é ga-
sua própria linguagem privada para impres-
rantia de clareza.
sionar ou mesmo confundir as pessoas!

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


154  Parte III: O Feijão com Arroz da Filosofia

Na linguagem cotidiana, as pessoas dizem que pontos são válidos, ou


conclusões de argumentos são válidas, de forma bem livre, essencialmente
para dizer que concordam com o ponto ou a conclusão, por acharem
que o ponto está correto ou a conclusão é justificada (isto é, apoiada
por evidência). Mas, na lógica filosófica, a validade é bem diferente. Ela
aplica-se apenas a argumentos completos (não a alegações ou conclusões
individuais) e simplesmente significa que o argumento segue as regras da
lógica. Isso importa? Claro que sim, porque significa que um argumento
pode ser filosoficamente válido, mas ter uma conclusão que é falsa.

Dizendo a verdade por meio de tabelas


Uma forma com que lógicos e outros (Tabelas-verdade são muito
populares hoje em dia entre engenheiros eletrônicos) podem examinar
um argumento é listando todos os valores possíveis que um argumento
pode ter. Confuso? Não fique. Tabelas-verdade são muito fáceis. É por
isso que são muito populares entre engenheiros eletrônicos. Uma tabela,
normalmente, contém várias linhas e colunas, com a linha superior
representando as variáveis lógicas e combinações, em complexidade
crescente, que leva à função final. Nossa tabela não ficará muito
complexa, não se preocupe. Nós só consideraremos o argumento:

Se estiver chovendo, a grama ficará molhada.

Está chovendo.

________

A grama está molhada.

Nesse argumento, há somente quatro possibilidades. A Tabela 8-2 dá todas


elas. Cada possibilidade é bem automática:

Tabela 8-2 Como Encontrar a Verdade


Está chovendo A grama está molhada Se está chovendo, então a
grama estará molhada
verdadeiro verdadeiro
verdadeiro falso
falso verdadeiro
falso falso

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


Capítulo 8: Vendo os Limites da Lógica   155
A terceira coluna é preenchida pela aplicação da regra e, observando cada
linha, cada “mundo possível”, para ver se funciona. A Tabela 8-3 mostra a
tabela completa.

Tabela 8-3 Como Discernir a Verdade Completa


Está chovendo A grama está molhada Se está chovendo, então a
grama estará molhada
verdadeiro verdadeiro VERDADEIRO
verdadeiro falso FALSO
falso verdadeiro FALSO
falso falso FALSO

Como eu preenchi a terceira coluna? Nas terceira e quarta linhas, o


argumento, ou “função”, exige que esteja chovendo para ser verdadeiro.
Mas não está chovendo, então a função retorna “falso”, não importa o
estado da grama! Em outras palavras, se não está chovendo, mas a grama
está molhada, isso não prova que, quando chover a grama ficará molhada.
Parece muita confusão para afirmar o óbvio? É lógica!

Corrigindo as Coisas que


Aristóteles Errou
As pessoas utilizaram a lógica de Aristóteles (conhecida como lógica
clássica) sem muita modificação por quase 2.000 anos. Mas, no final do
século XIX e começo do século XX, os filósofos desafiaram a lógica, porque
ela tinha dois grandes defeitos:

UUEstá incompleta — cobre apenas alguns de todos os tipos possíveis


de argumentos dedutivos.
UUNão é absolutamente confiável em relação aos argumentos
dedutivos que cobre.

Uma terceira objeção à lógica clássica é que Aristóteles presumiu que


o sujeito de uma premissa, como em “todo gato tem bigode”, existia.
Posteriormente, os lógicos quiseram evitar isso e mudaram o sentido para:
“para qualquer x, se esse x é um gato, então esse x tem bigode”. Isso, em si,
produz uma lacuna entre a linguagem comum e a lógica.

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


156  Parte III: O Feijão com Arroz da Filosofia

Existe outro debate sobre se os sujeitos podem ser predicados em algum


momento. Por exemplo, pegue essa afirmação “meu cabelo está uma
bagunça”: meu cabelo igual à bagunça. Nesse caso, o sujeito é meu cabelo
e a propriedade, “estar uma bagunça”, é o predicado. Mas, às vezes, estar
uma bagunça poderia ser sujeito de uma frase também, como em “seu
quarto está uma bagunça”. A distinção sujeito-predicado desaba! Você
pode dizer: Viva! Deixe tudo ficar igual e relativo, e por que não colocar
uma flor no cabelo também? Mas Frege e Russell e outros acharam que
precisavam tentar corrigir o problema e, assim, surgiu a lógica moderna.

Desenvolvendo a lógica moderna


A lógica moderna é, claro, muito melhor do que a velha. O sistema de
Aristóteles permite que se lide com apenas duas premissas (consistindo de
três termos) por vez. A lógica moderna permite que se amontoe qualquer
número de premissas em um grande argumento monstruoso, e, de fato,
que se junte qualquer número de termos em uma proposição tão longa
que ficará parecendo uma cobra.

O novo tipo de lógica, a lógica moderna, consiste de várias novas coisas


de nomes esquisitos, como cálculo proposicional e cálculo predicado. O
cálculo proposicional preocupa-se com como as proposições se relacionam
entre si, e o cálculo predicado preocupa-se com a estrutura interna das
proposições. Mas isso não é tudo! Agora também há a lógica modal, que
se preocupa com a necessidade, probabilidade e possibilidade (algo é
necessário, provável ou meramente possível), e a lógica temporal, que tem
a ver com o tempo — o passado, o futuro e o presente.

Os filósofos frequentemente dizem que a lógica moderna começou em


1879, creditada a Gottlob Frege (1846–1925), com trabalho adicional de
Bertrand Russell (1872–1970) no século XX. Aristóteles estava interessado
na estrutura das frases, mas muito da lógica moderna tenta tratar frases
como proposições e unidades que então são manipuladas, normalmente
por meio de símbolos e notação.

Os principais símbolos e notação de que se precisa são:

UUE: ou, para dar um nome mais “elegante”, conjunção


UUOu: disjunção
UUNão: negação
UUSe... então: condicional
UUSe: bicondicional

Existe todo tipo de símbolo esquisito para representá-los, dependendo das


fantasias dos filósofos. O ou em lógica é inclusivo — ambas possibilidades

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


Capítulo 8: Vendo os Limites da Lógica   157
podem ser verdadeiras. Se um lógico perguntar se você gostaria de suco
de laranja ou chá e você responder “Sim, obrigado”, não fique surpreso
quando receber uma mistura nada saborosa. E outra coisa confusa é que
o condicional, o “se... então”, não implica qualquer tipo de relação, causal
ou de outro tipo...

A questão de a que ponto a lógica realmente é como as pessoas


raciocinam está no cerne de muito da filosofia ocidental contemporânea.
Por exemplo, a definição de validade utilizada em uma lógica formal
padrão é que ela não deve ser possível para as premissas de um argumento
serem verdadeiras e, ainda assim, a conclusão ser falsa.

Você tem que engolir duas consequências estranhas e ligeiramente


ridículas mesmo nessa suposição tão modesta. A primeira é que qualquer
argumento com premissas inconsistentes é válido, independentemente
de quais sejam as conclusões desse argumento. Por exemplo, se “a neve
é sempre branca” for a primeira premissa e a segunda for “às vezes a
neve não é branca”, segue-se logicamente que a lua é um balão, porque
qualquer coisa se segue de premissas inconsistentes.

Bom Gottlob! Frege (1848–1935)


O objetivo do lógico alemão Gottlob Frege era Os lógicos consideram Fundamentos da Arit-
demonstrar que se pode reduzir a matemática mética (1884) um clássico filosófico. O livro
à lógica e que isso depende não mais que da aborda esforços anteriores para explicar nú-
pura razão. Alega-se que esse é o primeiro meros e matemática. No processo de análise
sistema formal, distinguindo axiomas de re- da natureza dos argumentos dedutivos, Frege
gras de inferência. Para definir números, ele também oferece uma forma de olhar a natu-
produziu algumas complicadas afirmações reza da linguagem. Ele distingue o sentido de
lógicas, como esta, para números cardinais: uma palavra (que é objetiva e determina seu
“a classe de todas as classes que podem ser valor de verdade) de sua cor, que é subjetiva
mapeadas uma a uma para uma dada classe” e tem a ver com o contexto em que ela apa-
e muitas outras de que eu não preciso men- rece. Além disso, ele explora a referência da
cionar aqui, senão para dizer que no proces- palavra. O exemplo perene é o planeta Vênus,
so ele deu uma contribuição considerável ao que normalmente aparece no céu noturno
estudo dos fundamentos da aritmética. Essa duas vezes, na alvorada e no crepúsculo, e já
definição dos números cardinais, incidental- foi chamado de Estrela D’alva e Estrela Ves-
mente, só diz meramente que se, por exemplo, pertina. Assim, a palavra Vênus possui dois
você tiver tantas facas quanto garfos em uma sentidos, mas apenas um referente.
mesa, sabe que tem o mesmo número sem
precisar contá-los.

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


158  Parte III: O Feijão com Arroz da Filosofia

Outra coisa incrível é que, se a conclusão for necessariamente verdadeira,


então o argumento é válido, independentemente de quais foram as
premissas. Isso se dá porque não existe nenhuma circunstância na qual
a conclusão possa ser falsa e as premissas, verdadeiras, porque a própria
conclusão não pode ser falsa. De forma parecida, “se gatos podem voar
em vassouras, então cachorros podem dirigir ônibus” é uma inferência
perfeitamente válida, porque uma afirmação falsa implica absolutamente
qualquer afirmação (porque a única forma com que você pode falsificar
“Se P então Q” é encontrando uma situação onde P seja verdadeiro e Q
seja falso, o que nunca pode acontecer aqui).

Provando seus argumentos e


arranjando seus termos
Na fala comum, um argumento é uma discussão ou uma disputa ácida,
mas, mesmo assim, há muito em um debate cotidiano que você pode
expressar filosoficamente.

A maioria das discordâncias se concentra em um fato ou alegação e


o argumento segue sendo trabalhado de frente para trás, como se, ao
oferecer razões pelas quais a afirmação é verdadeira ou falsa, dependesse
do ponto de vista de quem fala. Os filósofos normalmente apresentam
argumentos como uma série de afirmações (proposições) que são, em si,
verdadeiras ou falsas, aliadas a uma conclusão. O filósofo então julga se as
afirmações implicam ou logicamente necessitam de uma conclusão. Isso
depende não só da verdade das próprias proposições, mas da estrutura do
argumento. Um exemplo preferido mostra que Sócrates é mortal. Ele é:

Sócrates é um homem. (primeira proposição)

Todos os homens são mortais. (segunda proposição)

_____________

Sócrates é mortal.

Aristóteles examinou a estrutura de argumentos como esse e concluiu


que, quer eles fossem razoáveis ou não (um argumento razoável preserva
a verdade; isto é, se as suposições feitas forem todas verdadeiras, então,
pode-se ter certeza de que a conclusão também o será), darão início ao
fascínio filosófico com a estrutura dos argumentos.

Puxa vida! Eu sinto um diagrama de Venn chegando! Dê uma olhada na


Figura 8-1:

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


Capítulo 8: Vendo os Limites da Lógica   159
O Universo
Homens
Figura 8-1:
O obrigatório X
Diagrama
de Venn.
Mortais

Ele apenas diz a mesma coisa em forma de diagrama. Um círculo representa


um conjunto, por exemplo, o conjunto de “mortais”, e você pode usar
um sombreamento para indicar (como aqui) que a categoria de homens
que não são mortais está vazia, isto é, não possui membros (se não for
sombreada não significa nada, por outro lado). Sócrates fornece todos os
membros de que eu preciso para povoar meu diagrama muito bem. Ele
pertence ao centro, porque é um membro tanto do conjunto de homens
quanto do conjunto de mortais (eu marquei-o com um x). Talvez o diagrama
não faça muito aqui, embora possa abrilhantar livros de lógica e, ei, você
deveria estar surpreso: os diagramas de Venn também podem ser uma
poderosa ferramenta para analisar as complexidades de certos tipos de
argumentos, especialmente aqueles argumentos silogísticos chatos.

Detectando Falácias
Em lógica, uma falácia é um argumento inválido — um argumento
em que é possível que todas as premissas sejam verdadeiras e, ainda
assim, a conclusão seja falsa. Sendo assim, você claramente deve evitar
o argumento inválido. As pessoas frequentemente utilizam o termo
coloquialmente para incluir argumentos que consideram falsos, porque
discordam de uma ou outra premissa. “É uma falácia que pagar bolsa-
auxílio às pessoas encoraja a preguiça” é, provavelmente, uma crítica do
seguinte argumento informal:

Se as pessoas podem conseguir dinheiro sem ter que trabalhar por


ele primeiro, então elas ficarão preguiçosas.

A bolsa-auxílio é uma forma de conseguir dinheiro sem ter que


trabalhar por ele.

________________

A bolsa-auxílio encoraja a preguiça.

Aqui, o argumento diz que “se as pessoas conseguem dinheiro sem ter que
trabalhar, então elas ficarão preguiçosas”, o que parece plausível quando
entendido como “às vezes, se as pessoas podem conseguir dinheiro

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


160  Parte III: O Feijão com Arroz da Filosofia

sem trabalhar, então elas ficarão preguiçosas”, mas não tanto quando
entendido como “em todos os casos”.

Mas, em lógica, “se X então Y” é uma função absoluta e automática, da


mesma forma que é para desenvolver circuitos eletrônicos ou algo que
o valha (quando programadores escrevem “se x=2 então dia=terça”, não
estão planejando deixar aberta a possibilidade de que x seja igual a dois,
mas o dia pode ser segunda).

Falácias de implicação material


Como essa frase soa grandiosa! Mas é, na Q também o é. P implica Q. Bertrand Russell
verdade, bem mundana. Implicação material inventou o termo, mas os lógicos odeiam-no
é apenas uma alegação lógica de que você por isso, porque, falando logicamente, nada
não pode ter P e ainda não ter Q. Isso signi- está implicado, materialmente ou não. De
fica que, sempre que P for verdadeiro, então qualquer forma, esse não é o seu problema.

Aqui estão duas formas Se P então Q Se P então Q


válidas de implicação
material para praticar Se Q então R Se P então R
suas habilidades
____ ____
simbólicas:
Se P então R Se P então (Q e R)
E aqui estão duas formas Se P então Q Se P então Q
“inválidas” de implicação
material na qual nunca Q Não P
mais tropeçar...
____ ____

P Não P

O que é inválido a respeito das duas últi- Mas, na verdade, a razão para isso é que os
mas? Bem, a primeira, “Se P então Q”, se- vizinhos podem ter ligado seus sprinklers
guida por Q, é falha, porque Q poderia ser turbo novamente. O segundo argumento in-
verdadeiro por uma razão diferente pela válido é dizer que porque “não está choven-
qual P é. Pense “se estiver chovendo, então do”, então nós sabemos que “a grama não
a grama está molhada”, mais o fato de que vai ficar molhada” também, mas é claro que
a grama está molhada. Sim, é verdade que, poderia ficar — por um motivo diferente
se estiver chovendo, a grama ficará mo- (como aquele sprinkler turbo).
lhada e, sim, a grama pode estar molhada.

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


Capítulo 8: Vendo os Limites da Lógica   161
Incidentalmente, enquanto estou no (ou perto do) assunto, o filósofo
britânico, John Stuart Mill, famoso como especialista tanto em lógica
quanto em matéria de certo e errado, considerava que esse argumento
em particular era de fato coerente, usando-o para alertar contra os
perigos do Estado tentando ajudar setores da sociedade. Séries inteiras
de falácias e argumentos problemáticos existem, então agora dê uma
olhada em alguns deles.

Falácias e táticas falaciosas em


argumentação informal
Argumentação é o processo de fornecer razões para apoiar uma posição.
As razões são, na prática, limitadas a produzirem autoridades de quem
as pessoas alegam ter a mesma visão, talvez pessoas importantes, livros
importantes ou, é claro, Deus.

Aqui está meia dúzia de táticas legítimas:

UUReductio ad absurdum: Do latim, reduzir ao absurdo, o processo


de tomar o argumento da outra pessoa e mostrar que ele leva,
logicamente, a consequências absurdas.
UUAfirmar o antecedente: Um argumento da forma “Se P então Q (P,
logo Q)”. Se é outono, então as folhas cairão das árvores. É outono;
logo, as folhas cairão das árvores. Embora válido, o argumento
é um pouco diferente da tática ilegítima descrita posteriormente
nesta lista como “clamando pela questão”. Aristóteles chamava-o de
modus ponens.
Por outro lado, negar o antecedente (por exemplo, dizer que, se
é outono, então as folhas cairão das árvores, mas não é outono,
logo, as folhas não cairão das árvores) é uma falácia, porque as
árvores podem perder suas folhas por inúmeras razões (como uma
seca, por exemplo).
UUNegar o consequente: Um argumento da forma “Se P então Q (P,
logo Q)”. Se você comer muitas tortas de creme, ficará gordo. Você
não é gordo, logo, não comeu muitas tortas de creme. Embora
argumentos dessa forma sejam tecnicamente válidos, é claramente
mais uma verdade lógica do que prática! Aristóteles chamava-o de
modus tollens.
UUAnalogias: Alguns dizem que uma experiência de pensamento é
uma forma de analogia e, certamente, você pode usar o termo dessa
forma. Uma analogia é simplesmente uma comparação onde se
alega que um caso é “como” o outro em algum aspecto importante.

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


162  Parte III: O Feijão com Arroz da Filosofia

UUContraexemplo: Um tipo especial de analogia que desafia, ou


mesmo demonstra, a falsidade do que alguém alegou.
UUEntimema ou premissas suprimidas: Esses são argumentos para
os quais se devem acrescentar premissas a mais para que se tornem
válidos, como “fumar em bares afeta pessoas quer elas estejam
fumando ou não; logo, deveria ser proibido”. Aqui, as premissas a
mais seriam que “o efeito de fumar é ruim para as pessoas” e “coisas
ruins devem ser proibidas”.

E aqui estão 12 táticas ilegítimas que as pessoas frequentemente parecem


usar em argumentos:

UUAfirmar o consequente: Um erro surpreendentemente comum da


forma “se P então Q (P logo Q)”. Se é outono, as folhas cairão das
árvores. As folhas estão caindo da árvore, logo, é outono. Isso é uma
falácia, porque as folhas poderiam estar caindo por outra razão,
como uma seca. Uma falácia comum relacionada no argumento, às
vezes chamada de confusão de correlação, consiste em presumir que
por duas coisas frequentemente acontecerem juntas, então, deve
haver uma ligação.
UUClamando pela questão: A falácia de assumir o próprio ponto
em questão. Em efeito, a conclusão é uma das premissas em
um argumento que, supostamente, o provaria. É uma forma de
argumento circular.
UUFalsa dicotomia: Você dá duas escolhas quando, na realidade,
outras alternativas são possíveis.
UUEquívoco e ambiguidade: Você usa uma palavra ou frase que
tem dois ou mais significados como se tivesse só um. Existem vários
tipos de ambiguidades: a léxica refere-se a palavras individuais, a
ambiguidade referencial ocorre quando o contexto não é claro, e a
ambiguidade sintática resulta de confusões gramaticais.
UUNon sequiturs e falácias genéticas: Do latim, significa “aquilo
que não decorre”. Você oferece afirmações de forma a sugerir que
elas decorrem umas das outras logicamente quando, na verdade,
tal ligação não existe. A importante falácia genética tanto é um
non sequitur como um tipo de ambiguidade; é daí que se tiram
suposições sobre algo traçando sua origem a algo anterior quando,
na realidade, você não pode fazer uma ligação necessária entre a
situação presente e a alegada originalmente.
UUAlegação especial: Emprega valores ou padrões contra as posições
do oponente, mas não as aplica à sua própria posição.
UUPensamento desejoso: Supor conclusões porque deseja que
elas sejam assim. Um apelo à opinião majoritária para apoiar uma
alegação factual é um tipo particular de pensamento desejoso.

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


Capítulo 8: Vendo os Limites da Lógica   163
UUArenque vermelho: Tópicos ou argumentos irrelevantes são
trazidos à discussão com o efeito de permitir que a questão real
não seja examinada. Aparentemente, no passado, caçadores
às vezes usavam arenques para confundir os cachorros que
perseguiam raposas.
UUEspantalho: Introduzir e atribuir uma posição fraca ou absurda a
um oponente e, em seguida, demoli-la.
UUAtaques ad hominem: Do latim, significa “ao homem”. São
comentários direcionados não à questão, mas ao oponente
individualmente (as pessoas ocasionalmente também usam o termo
para se referir à tática legítima de expor uma inconsistência no
argumento de outra).
Outra variedade de ataque ad hominem que acontece antes que
você introduza o argumento principal é chamada envenenar o
poço. Há também a tática da má companhia, em que se critica
a posição do oponente por sua suposta associação com alguma
outra visão. Os nazistas sempre aparecem em argumentos para
esse propósito.
UUHumpty Dumpty: Vem do personagem de cabeça ovoide de
Lewis Carroll, que, sentado em um muro (mas não, aparentemente,
uma cerca), insiste:
“Quando eu uso uma palavra”, Humpty Dumpty disse em um tom
desdenhoso, “ela significa apenas o que eu quero que signifique —
nem mais, nem menos”.
UUAutocontradição: E, finalmente, a tendência infeliz de dar um tiro
no próprio pé com um argumento pobre.

Examinando Declarações sem Sentido


Muitas declarações sem sentido são possíveis, embora, por alguma razão, os
filósofos esforcem-se para criar muitos exemplos. Elas sempre se enquadram
em um exemplo famoso criado pelo filósofo da linguagem contemporâneo
Noam Chomsky, que é: “Ideias verdes incolores dormem furiosamente”.
Isso deveria ilustrar que, mesmo quando se seguem regras do ordinário, a
linguagem cotidiana (gramática) pode perder o significado.

Contudo, os lógicos não se interessam muito por declarações sem sentido


como essa; ao contrário, estão interessados em pôr em regra e tirar de
regra certos tipos de assuntos como sendo adequados para serem tratados
como argumentos lógicos. Por exemplo:

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


164  Parte III: O Feijão com Arroz da Filosofia

UUAs pessoas têm livre-arbítrio ou os humanos estão realmente


programados como máquinas biológicas?
UUAs pessoas são algo além de corpos — os humanos têm mentes
ou almas?
UUDeuses existem? O quê, nem unzinho?
UUExiste vida após a morte, como as pessoas religiosas gostam
de acreditar?

Essas questões certamente ainda não foram respondidas. E talvez não


possam ser, o que é o suficiente para que algumas pessoas digam que
não faz nenhum sentido perguntá-las — mesmo sem sentido. Um grupo
de filósofos, conhecido como positivistas lógicos, concentrado em Viena,
na Áustria, pouco antes da Segunda Guerra Mundial (por isso, também
são conhecidos como o Círculo de Viena), insistia que essas questões
não eram adequadas para estudo. Eles achavam que filósofos deveriam
abordar apenas questões que ou a lógica ou a ciência empírica pudesse
esclarecer. É claro que isso reduziu a carga de trabalho dos filósofos
enormemente. Mas, também, deixou de fora a maioria das questões com
as quais as pessoas se importavam.

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


Capítulo 9

Entendendo o
Conhecimento
Neste Capítulo
XX
Procurando uma verdade pétrea com Platão e Descartes
XX
Entrando em uma discussão com Locke e Leibniz
XX
Separando algumas formas diferentes de saber as coisas

A totalidade do nosso assim chamado conhecimento ou crenças,


dos assuntos mais casuais de geografia e história até as leis
mais profundas da física atômica ou mesmo da pura matemática
e lógica, é um material feito pelo homem que afeta apenas
marginalmente a experiência.

– Willard Quine, Dois Dogmas do Empirismo

E ste capítulo aborda em detalhes o que os filósofos querem


dizer com “conhecimento”, um estudo que eles chamam
grandiosamente de “epistemologia”, e o debate entre aqueles que
acham que ele pode ser encontrado procurando e cuidadosamente
examinando o mundo, e aqueles que acham que o conhecimento
vem de uma reflexão igualmente cuidadosa sobre as ideias. O grande
campeão desse ponto de vista é Descartes, cujas visões serão colocadas
em detalhe posteriormente neste capítulo.

Lançando as Bases do Conhecimento


As crenças são muito importantes. Como o filósofo contemporâneo Tom
Morris coloca, elas são o mapa pelo qual você orienta sua vida. Como
tal, é importante que o mapa seja preciso ou você pode acabar perdido.

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


166  Parte III: O Feijão com Arroz da Filosofia

Descobrir se seu mapa da vida é preciso ou não é o mesmo problema que


traçar as bases do conhecimento.

A maioria das teorias filosóficas de conhecimento tem três componentes


essenciais. Antes de dizer que sabe algo:

UUVocê deve acreditar que é o caso


UUDeve ter razões boas e relevantes para sua crença
UUO que você acredita deve ser, de fato, verdade

Se fizer tudo isso, então, pode dizer que sabe algo. Parece bem seguro,
não? Só que não é bem assim.

A vaca no pasto
Imagine um fazendeiro, Farmer Field, que Ele também vê um grande pedaço de papel
está preocupado com sua vaca premiada, preto e branco que ficou preso na árvore.
Daisy. Na verdade, imagine que ele está tão Agora fica estranho. Daisy está no pasto,
preocupado que, quando seu ordenhador diz como Farmer Field pensou. Mas é certo dizer
que Daisy está no pasto alegremente pastan- que ele sabia que ela estava?
do, ele diz que precisa ter certeza disso. Ele
Você deve achar que a resposta é não, por-
não quer ter apenas 99% de certeza de que
que a crença do fazendeiro baseou-se em
Daisy está segura, ele quer estar apto a dizer
uma impressão errada, então não pode con-
que Daisy está bem.
tar como verdadeiro conhecimento. Ainda,
Farmer Field sai para o pasto e, parando ao neste exemplo:
lado da porteira, vê a distância, por trás das
UU Farmer Field acreditou que a vaca estava
árvores, uma forma preta e branca que ele
segura.
reconhece como sua vaca preferida. Ele vol-
ta para o ordenhador e diz a seu amigo que UU Farmer Field tinha evidência de que esta-
ele sabe que Daisy está no pasto. va (sua crença era justificada).

Aqui vem a dúvida filosófica. Neste pon- UU Era verdade que a vaca estava segura.
to, Farmer Field realmente sabe que a for-
E tudo isso é bom o suficiente para contar.
ma que ele viu é a vaca? Bem, talvez sim,
Contudo, você ainda pode sentir que Farmer
talvez não.
Field não sabia realmente que sua vaca es-
Mas, então, o ordenhador diz que vai confe- tava no pasto.
rir também e vai até o pasto. Lá, ele encontra
Fonte: Adaptado de 101 Problemas de Filoso-
Daisy dormindo em um espaço atrás de uma
fia, Martin Cohen (Loyola, 1999).
moita, bem fora de visão a partir da porteira.

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


Capítulo 9: Entendendo o Conhecimento   167
Milhares de anos atrás, o filósofo mais famoso de todos, Platão, belamente
expôs o problema do conhecimento em sua pequena obra, o Teeteto
(linhas 201c a 210d, se você estiver procurando, e, acredite ou não, muita
gente faz isso). O problema tem encafifado os filósofos desde então. E
ficou mais chato para eles desde o interesse, no século XX, pela filosofia
analítica (analítico é o nome que se dá a pessoas que gostam de tomar as
coisas por partes; nesse caso, os filósofos que separam frases para analisar o
significado exato de cada uma das palavras. Há mais sobre isso no final do
Capítulo 5). O que casos de problemas, como o da vaca no pasto, sugerem
é que os filósofos precisam de uma definição diferente para conhecimento.
Embora todo conhecimento tenha que ser verdade, crenças justificadas,
não totalmente verdade, parecem ser conhecimento. Então, muitos filósofos
dizem que o que se precisa é de um relato mais complicado!

Uma tática usada por eles é tentar acrescentar uma regra extra, como
a de que nenhuma visão (mesmo que de fato esteja certa) conta
como conhecimento quando se baseia em uma crença falsa. Mas,
então, como saber quais crenças são falsas? E, de qualquer forma,
essa abordagem parece varrer muitas coisas que você está feliz por
contar como conhecimento, já que, na prática, elas funcionam. Outros
filósofos foram na direção contrária e tentaram dispensar a primeira
exigência (que você deve acreditar que algo é verdadeiro), permitindo
que as pessoas saibam das coisas sem necessariamente acreditarem
nelas. E outros ainda quiseram tornar o critério para saber algo mais
do que apenas uma crença, sugerindo que o que deve ser exigido é
aceitação, seja lá o que isso for...

O enigma de como encontrar certeza pétrea é um dos grandes temas por


trás da filosofia como praticada pelos gregos antigos e resumida por Platão
em Teeteto, onde ele expôs as três condições, mas deixou o problema para
ser resolvido por filósofos posteriores. Lamentavelmente, nenhum o fez!
Em vez disso, você ainda tem que se perguntar se pessoas (ou galinhas)
realmente sabem algo quando dizem que sabem.

Assim, os filósofos continuaram a se preocupar com o que conta como


conhecimento e tiveram que fixar, em vez de estabelecer, algumas regras:

UUDefinir os limites do conhecimento — quais perguntas os


filósofos deveriam fazer e quais deveriam reconhecer como
impossíveis de responder.
UUApreciar o papel próprio da ciência, visto que existem limites aqui
também. Por exemplo, até que ponto o senso comum colabora
com as teorias científicas quando os cientistas dizem que o
mundo dos objetos sólidos e de uma miríade de cores é quase que
completamente espaço vazio cheio de partículas sem cor?

Como disse Willard Quine em Os Modos do Paradoxo e Outros Ensaios:

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


168  Parte III: O Feijão com Arroz da Filosofia

Eu sou um objeto físico em um mundo físico. Algumas das forças


deste mundo físico afetam minha superfície. Raios de sol atingem
minhas retinas; moléculas bombardeiam meus tímpanos e pontas
dos dedos. Eu o atinjo de volta, emanando ondas concêntricas de
ar. Essas ondas tomam a forma de uma torrente de discurso sobre
tabelas, pessoas, moléculas, raios de luz, retinas, ondas de ar,
primeiros-ministros, classes infinitas, alegria e tristeza, bem e mal.

Afinando a língua com a epistemologia


Às vezes se ouve (em conferências de filosofia, um pouco menos nos bares)
que os séculos XVII e XVIII foram a era da epistemologia. Essa foi a época
de Descartes ruminando em sua bela e quente fornalha sobre a questão do
que o conhecimento realmente é e também de um interesse renovado pelo
ceticismo, a filosofia de filósofos como Pirro na Grécia Antiga. Esses filósofos
diziam que as pessoas sabiam muito pouco, e muito disso que elas achavam
que sabiam estava, na verdade, equivocado. Platão foi influenciado por suas
visões e pensou em uma distinção entre os tipos de coisas das quais se pensa
ter certeza e as coisas que meramente se acredite ser verdade (um tipo de
conhecimento que ele chamava de doxa).

Aristóteles concluiu que a matéria era mais simples, dizendo que, quando
você tem razões boas e relevantes para sua crença, então de fato possui
um conhecimento confiável (o que ele chamava de episteme). Sua única
concessão aos que duvidam, de céticos a Platão, era que as razões devem
ser muito boas. Quintessencialmente, de fato, saber algo significa acreditar
na conclusão de um argumento que é logicamente válido.

Pirro e o porco filosófico


O primeiro grande cético do mundo antigo Todos ao seu redor estavam correndo e em
foi Pirro, que viajou pela Europa na compa- pânico, enquanto ele estava sentado e pa-
nhia de Alexandre, o Grande, no terceiro recia impassível. Quando perguntado sobre
século d.C. Quando reapareceu na Grécia, como conseguia ficar tão calmo, diz-se que
deu aulas de sua filosofia pessoal, que era ele simplesmente apontou para um porqui-
essencialmente que uma pessoa sábia é nho que estava no barco, contentemente
indiferente ao mundo ao seu redor. Uma mastigando sua comida mesmo enquanto a
famosa história que se conta sobre ele diz tempestade se abatia. Assim, o conselho de
que, certa vez, estava em uma embarcação Pirro era para que os humanos buscassem
que foi pega em uma violenta tempestade. imitar a praticidade calma do porquinho.

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


Capítulo 9: Entendendo o Conhecimento   169
Isso tudo é muito bom, mas os argumentos não são melhores que as
suposições que os alimentaram no começo; acaba que, ao final, você não
sabe muito mais do que sabia antes de começar — coisas como a neve é
branca, 2 + 2 = 4, que Platão já havia oferecido (especialmente no diálogo em
A República) como conhecimento. Então existe alguma concordância, que é
sempre uma forma de reasseguramento em questões sobre conhecimento.

Sabendo as coisas instintivamente


Você chega neste mundo equipado com conhecimento instintivo. Você
sabe como respirar, como dormir, como digerir. Depois você sabe como
sorrir, falar, rir, amarrar os cadarços, piscar e solucionar teoremas lógicos
complexos (bem, pelo menos algumas pessoas sabem). Mas isso não
deveria distraí-lo da característica importante desse tipo de conhecimento:
é um tipo de conhecimento físico, às vezes visto como genético, e é
certamente um tipo de conhecimento compartilhado pelos animais.

De qualquer modo, aqui estão algumas das diferentes formas de “saber”


que eu sei:

UUSaber como: Saber como (ou know-how) é um conhecimento


prático sobre matérias práticas. Existem vários níveis de
conhecimento prático. Primeiro, há as habilidades físicas
(corporais), que são todas aquelas coisas instintivas como comer ou
fugir de lobos. Depois, há as habilidades que se tem que aprender,
como esquiar ou pedalar, e também coisas tecnológicas, como
programar um gravador de vídeo ou ligar para outro estado. O know-
how, assim, inclui coisas nas quais você não pensa conscientemente
e coisas em que pensa, talvez repetindo regras para si mesmo (como
“aperte o botão verde duas vezes”).
UUSaber fatos, conhecer amigos e como amarrar o cadarço:
Você sabe como é uma dor de cabeça? Sim? Mas provavelmente
não porque alguém lhe contou como é ou deu-lhe um livro
sobre isso. Similarmente, você sabe que não gosta de pulôveres
amarelos, mas gosta dos verdes. Talvez saiba que o verde caia
melhor em você, em geral. Enfim, este é o segundo tipo de
conhecimento — por familiaridade.
UUSaber por experiência: De fato, nós construímos a maior parte
de nosso conhecimento por meio da experiência (familiaridade
e experiência estão intimamente ligadas; talvez a principal
diferença que valha a pena mencionar é que a primeira é mais
prática, e a segunda, mais teórica) — quando bebês, nós logo

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


170  Parte III: O Feijão com Arroz da Filosofia

descobrimos que o chão é duro quando caímos nele ou que a


grama não é saborosa quando a experimentamos. Depois de
descobrir algumas coisas assim, podemos generalizar e isso pode se
tornar um conhecimento teórico, conceitual. Mas o conhecimento
começou pela experiência.
UUSaber que: Este é o tipo de conhecimento que interessa aos
filósofos. Envolve linguagem e conceitos, e basicamente exclui o
restante do reino animal. Seu cachorro pode saber que sua refeição
será colocada em uma tigela onde há o nome “Rex” toda noite,
mas isso é só aquela coisa de conhecimento por familiaridade.
Cachorros (no que diz respeito à filosofia) não sabem de nada.

Admirando a intuição
A intuição é uma coisa engraçada. Por intuição, as pessoas querem dizer
a capacidade de obter conhecimento sem necessariamente conseguir
produzir qualquer evidência ou raciocínio para apoiá-lo. “Eu sabia
intuitivamente que escrever um livro Para Leigos seria um passo ruim
em minha carreira”, por exemplo! Algumas pessoas dizem que mulheres
são mais intuitivas do que os homens; alguns dizem que isso as ajuda a
ganhar na loteria ou evitar acidentes de carro. Muitas pessoas dizem que
a intuição não é algo respeitável para se dizer que tem, de qualquer forma
— é melhor, de longe, ficar com os fatos. Mas também se poderia dizer
que a intuição é um tipo de processamento subconsciente de informação
e dados, que são obtidos observando detalhes e pistas mínimas no
ambiente. Seria imprudente confiar somente no que se sabe ou lembra
conscientemente, quando se esquece ou não percebe a grande maioria da
informação que se tem.

E outro tipo de uso importante da intuição está na ética. Os filósofos


deram-lhe um termo especial: intuições morais. As pessoas podem sentir
que algo é errado (ou talvez certo) sem conseguir explicar por que
sentem dessa forma. Muitas vezes, as pessoas acham que algo é certo, mas
hesitam, sentindo uma dúvida, uma intuição contrária. Novamente, um
filósofo seria imprudente se desprezasse todas essas intuições morais.

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


Capítulo 9: Entendendo o Conhecimento   171

Decodificando o Empirismo
e o Racionalismo
O Capítulo 7 é dedicado a abordar todos os diferentes ismos. Mas aqui,
para entender o empirismo e o racionalismo, você precisará compreender
que há uma divisão entre filósofos em:

UUEmpiristas, que acham que se obtém conhecimento por meio


dos sentidos.
UURacionalistas (às vezes conhecidos como idealistas), que acham
que o conhecimento vem da reflexão sobre as ideias.

Não diga que vem de ambos, ou criará uma terceira categoria e, com isso,
mais aborrecimento. De fato, a divisão faz sentido apenas da mesma forma
que separar pessoas em seres físicos direcionados por mentes faz.

A questão filosófica tinha nuances religiosas e políticas. Por alguma razão,


a maioria dos empiristas era britânica e a maioria dos racionalistas era da
Europa continental, assim dando outro aspecto bastante político a esse
debate filosófico supostamente abstrato.

Vamos dar aos empiristas a primeira rodada no debate. Um passo à frente,


então, John Locke coloca a posição britânica — sem quaisquer concessões.
Supõe-se que John Locke tenha decidido escrever seus “Ensaios Acerca
do Conhecimento Humano” em 1689, após um impetuoso debate entre
seus amigos sobre o assunto, quando eles não conseguiram resolvê-lo
satisfatoriamente. Isso explica parcialmente a linguagem bem firme de seu
ensaio. Ele começa aconselhando as pessoas a pararem de “intrometer-se em
coisas” que estão além de suas capacidades naturais de compreensão. Ele então
nos pede para “supor que a mente é um papel em branco, sem nada escrito” e
depois pergunta: “de onde vêm todos os materiais da razão e conhecimento?”.
Sua resposta se resume à visão empirista: “tudo que sabemos vem da
experiência sensorial e da reflexão sobre a experiência”. Ele prossegue dizendo:

É uma opinião estabelecida entre alguns homens, que há, no


entendimento, certos princípios inatos; algumas noções primárias,
características, como se estivessem estampadas na mente do homem,
que a alma recebe quando vem a existir e traz ao mundo consigo.
Seria suficiente para convencer os leitores sem preconceitos da
falsidade dessa suposição se eu apenas mostrasse (como espero
fazer nas partes seguintes deste discurso) como homens, meramente
pelo uso de suas faculdades naturais, podem ater-se a todo o
conhecimento que possuem, sem o auxílio de quaisquer impressões
inatas, e podem chegar à certeza sem quaisquer dessas noções ou
princípios originais.

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


172  Parte III: O Feijão com Arroz da Filosofia

Racionalismo continental e
racionalistas continentais
O racionalismo é um termo amplo que abran- cionalismo continental, significando o con-
ge uma variedade de posicionamentos fi- tinente europeu, assim excluindo as ilhas
losóficos. A única coisa que eles têm em britânicas. Sob esse título vem um grupo de
comum é uma confiança de que a razão hu- peso de filósofos, incluindo René Descartes
mana pode encontrar respostas para todas da França, Baruch Espinoza da Holanda,
as grandes perguntas filosóficas e é o cami- Immanuel Kant da Prússia (à época uma re-
nho para o verdadeiro conhecimento. gião com ligações mais fortes com a Polô-
nia, embora seja normalmente chamado de
Porque a maioria dos filósofos britânicos
filósofo alemão) e Gottfried Leibniz e G. W.
pensava de outra forma, surgiu o termo ra-
F. Hegel da Alemanha.

Mas, logo em seguida, veio uma resposta continental. “A alma é vazia


como uma tábula sobre a qual nada foi escrito?”, respondeu Leibniz, no
que ele pontualmente chamou de “Novo Ensaio Sobre o Entendimento
Humano”. Ele diz:

Nossas diferenças são acerca de assuntos de alguma importância. Há


a questão de se a alma é em si completamente vazia como tábulas
sobre as quais nada foi escrito [tábula rasa], como Aristóteles e o
autor [John Locke] mantêm, ou se tudo inscrito nela vem somente
dos sentidos e da experiência, ou se a alma contém desde o começo
a fonte de várias noções e doutrinas, que objetos externos despertam
apenas em certas ocasiões, como eu acredito junto com Platão e
mesmo com alguns estudiosos e todos aqueles que encontram esse
significado na passagem de São Paulo, onde ele afirma que a lei de
Deus está escrita em nossos corações.

Leibniz (e outros) se preocupavam com o fato de, se todo conhecimento


viesse originalmente dos sentidos físicos, então as pessoas eram pouco
diferentes dos animais! Como ele diz, no mesmo ensaio:

…é nesse aspecto que o conhecimento humano difere daquele das


bestas. As bestas são puramente empíricas e guiadas somente por
situações, pois, até onde nós conseguimos julgar, elas nunca conseguem
formar proposições necessárias, enquanto o homem é capaz do
conhecimento demonstrativo. Nisso, a faculdade que as bestas possuem
para vislumbrar consequências é inferior à razão que os humanos têm.

Isto é verdade: os animais são ruins de filosofia.

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


Capítulo 9: Entendendo o Conhecimento   173

Deduzindo Verdades Impressionantes


com Descartes
René Descartes (pronuncia-se “Decar”) nasceu em Poitiers, França, nos
últimos anos do século XVI e, embora a maioria de seus contemporâneos
tivesse hobbies práticos, como cavar lotes de terra ou mexer com produtos
químicos, ele tinha uma mente muito superior (apesar de ter entrado no
exército) e preferia perseguir suas investigações do conhecimento, usando
a matemática e o raciocínio lógico rigoroso. Por essa razão, ele, às vezes,
é considerado o pai da filosofia moderna. Seu livro mais influente, as
Meditações, descreve suas perguntas a si mesmo enquanto meditava em
uma bela e quente fornalha. Em dado momento, pensou ter encontrado
a resposta para a pergunta “o que eu sei por certo?”, na certeza da
consciência de seus próprios pensamentos, famosamente encapsulados
com o Cogito ergo sum (Penso, logo existo). Mas ele não afirma isso em
Meditações, embora em “Respostas ao Segundo Conjunto de Objeções”
oferece Ego cogito, ergo sum, sive existo (“Estou pensando, logo existo”),
que diz basicamente a mesma coisa, mas de uma forma desesperançosa e
merecidamente esquecida.

Essa simples alegação, René acreditava, era algo que ele definitivamente
sabia — não apenas acreditava ser o caso. Foi muito influente, tendo um
efeito profundo em como as pessoas enxergam o mundo, na maior parte
para a pior, mas isso é outra história, parte ética, parte política, e, pelo
momento, é melhor nos atermos ao que era o raciocínio de Descartes...

A segunda meditação de Descartes


Descartes começa sua segunda meditação (não exatamente uma
meditação no sentido estrito, místico, mas mais períodos extensos de
reflexão filosófica) tirando conclusões de sua primeira meditação, em que
tenta separar — em sua mente — as coisas que realmente sabe das coisas
em que meramente acredita, e acaba jogando tudo fora.

Eu suponho que tudo que nós vemos é falso. Acredito que nada
que minha memória enganosa representa tenha existido. Não tenho
absolutamente nenhum sentido. Corpo, forma, extensão, movimento
e lugar são todos quimeras.

Quimeras, aliás, são um tipo de animal imaginário composto do corpo de


uma leoa, cabeça de bode e uma cobra como rabo. Você não vai querer
um negócio desse o seguindo por aí! Descartes, então, argumenta que,
mesmo que todas as crenças que ele mantinha antes sejam falsas (não
apenas duvidosas), ao menos uma delas deve ser verdade.

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


174  Parte III: O Feijão com Arroz da Filosofia

Então é o caso de que eu não existo? …há algum enganador ou


outro que seja supremamente poderoso e astuto e que está sempre
deliberadamente me enganando? Então, também, não há dúvida de
que eu existo, se ele está me enganando. E que ele faça o melhor de
seu engano, nunca far-me-á crer que eu não sou nada desde que eu
pense que sou algo. Assim, depois de tudo cuidadosamente pesado,
deve finalmente estabelecer-se que este pronunciamento “Eu sou,
eu existo” é necessariamente verdade toda vez que eu o profira ou
conceba em minha mente.

Descartes não estava somente sonhando ociosamente naquela fornalha


quente. De jeito nenhum! Isso é uma dedução filosófica. E o argumento
formal (não que ele o expresse formalmente) é algo assim:

Se eu não estou sendo enganado, então eu existo.

Se eu estou sendo enganado, então eu existo.

Ou eu estou sendo enganado, ou não estou.

__________(Logo)

Eu existo.

Isso é um silogismo (veja o Capítulo 8 para saber mais). O argumento


certamente é bem persuasivo. Certamente é válido quando você vê que
usa a mesma estrutura para algo menos dramático:

Se é segunda-feira, então a cantina servirá legumes no almoço.

Se não é segunda-feira, então a cantina servirá legumes no almoço.

Ou é segunda-feira, ou não é.

__________

A cantina servirá legumes no almoço.

A suposição crucial é a segunda, “Se estou sendo enganado, então eu


existo” (mas não tão crucialmente, “Se não é segunda-feira, então a
cantina servirá legumes no almoço”). Essa é a suposição interessante,
mas é não originalmente de Descartes, na verdade. Foi sugerida pelo
filósofo predecessor Santo Agostinho (354–430), que disse Fallor,
ergo sum, para aqueles que gostam de colecionar frase em latim para
impressionar as pessoas. Na verdade, isso não significa “Penso, logo
existo”, mas “Se estou enganado, pelo menos estou”, que é uma frase
muito mais útil. Por exemplo, quando você acaba de se sair mal em uma
prova, com uma nota de 1.7 (como eu lembro ter me saído mal em lógica
uma vez), pode escrever embaixo Fallor, ergo sum, e certamente sentir-se
um pouco melhor.

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


Capítulo 9: Entendendo o Conhecimento   175
É importante ver que o ponto crucial do argumento, tanto de Descartes
como de Santo Agostinho, é que, desde que estejam pensando (estando
enganados ou acertando em suas ideias, não importa), então eles existem.

Essa ideia é um tanto ambígua, porque você poderia ler um argumento


como para existir deve estar pensando, o que obviamente não é
verdade (por exemplo, você poderia dormir). Mas, se você der a
Descartes o benefício da dúvida, permanece uma ambiguidade da qual
não pode se livrar.

A ótima ideia de Descartes, a pedra fundamental para construir um sistema


confiável de todo conhecimento, é que no mínimo ele está ciente de sua
existência desde que esteja ciente de seus pensamentos. Mas, colocado
assim, é óbvio que ele não pode estar confiante de que esses pensamentos
pertençam a ele absolutamente. Teria sido melhor se tivesse suposto que:

Se há um pensamento, então há um pensador.

Um pensamento existe.

________

Há um pensador.

Infelizmente, argumentar desse jeito não prova que Descartes existe,


apenas que há um pensador, que poderia ser outra pessoa. Parece
maluco? Mas você pode pensar em um unicórnio e isso não faz com que o
unicórnio exista — pelo menos não no sentido normal. Talvez, no entanto,
seu raciocínio pudesse (como Descartes esperava) servir como prova de
Deus, se tudo que se exige de Deus é que seja pensamento puro.

Passando uma semana preguiçosa com


Descartes sonhando na fornalha
As Meditações de Descartes tinham muito a ver com ele como indivíduo.
Quando a obra foi impressa pela primeira vez, foi apresentada como
uma coleção de pessoas famosas falando sobre um novo ensaio — as
Meditações de Prima Philosophia por Renatus Des Cartes (como Descartes,
que era francês, decidiu assinar, usando um tipo de floreio latim). Entre
as pessoas famosas que ele convidou para comentar seus trabalhos
filosóficos estava Thomas Hobbes, o filósofo inglês que acusa o francês
de não realmente “duvidar de tudo”, apesar de suas pretensões. Descartes
sutilmente descarta essa objeção, dizendo rispidamente que apenas havia
mencionado a doença da dúvida no espírito de um escritor médico com
a intenção de, um momento depois, demonstrar como curá-la e, portanto,

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


176  Parte III: O Feijão com Arroz da Filosofia

não tinha intenção de duvidar de tudo (e, talvez ciente dos comentários
recebidos, Descartes acrescenta no prefácio às Meditações que seu livro
não pretende ser adequado para “intelectos mais fracos”).

Então, qual é a conclusão de Descartes após todas as suas meditações?


Basicamente, a ideia de que seus sentidos são confiáveis afinal de contas, desde
que se tire conclusões deles cuidadosamente. É claro que as ideias de Descartes
não foram realmente sonhadas em alguns dias em um cômodo quente; elas
parecem ter surgido nele bem lentamente durante muitos anos, por mais que ele
descreva no livro que o processo de raciocínio durou seis dias. A noção apelativa
da fornalha e a semana de reflexão são um dispositivo literário — e muito bem-
sucedido. Somado a isso, todo o processo de iluminação tem nuances religiosas
(jesuítas) e também o tem, muito particularmente, a escolha de seis dias. Deus
criou o universo em seis dias; Descartes modestamente objetiva algo similar!

É assim que o livro se sucede, em minha própria visão:

UUNo primeiro dia, Descartes entra no aterrador mundo do nada,


permitindo que tudo seja desconhecido e incerto.
UUNo segundo dia, ele acalma seus medos, refletindo que, pelo menos,
sabe uma coisa, que ao menos está duvidando, temendo, pensando
algo: “O que sou eu? Uma coisa que pensa, o que é isso? Uma coisa
que duvida, entende, afirma, nega, tem vontade, não tem vontade e
também imagina e possui percepções sensoriais…”.
UUNo terceiro dia, ele prova para si mesmo que a existência de Deus
é certa.
UUNo quarto dia, ele ensina a si mesmo algumas formas de evitar erros.
UUNo quinto dia, ele se arma de uma prova superior da existência
de Deus.
UUNo sexto e último dia (de trabalho), ele descarta quaisquer
dúvidas e prepara-se para reentrar no mundo equipado com uma
nova ciência para compreendê-lo, uma ciência que aplica mais
cuidadosamente as mesmas ferramentas da percepção sensorial
originalmente alijadas no dia um.

Os achados de Descartes são uma das joias da filosofia ocidental — porém,


quando se olha bem, não tem nada de mais. Mas não deixe que isso o
afaste. Não se espera que a busca por conhecimento dentro da filosofia
produza muito.

Como disse Bertrand Russell em O Valor da Filosofia:

A filosofia, como outros estudos, almeja primariamente o


conhecimento... Mas não se pode defender que a filosofia teve uma
grande medida de sucesso em suas tentativas de oferecer respostas
definidas às suas perguntas. Se você perguntar a um matemático,
um mineralogista, um historiador ou qualquer outro homem de

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


Capítulo 9: Entendendo o Conhecimento   177
conhecimento qual corpo de verdades foi certificado por sua ciência,
a resposta durará tanto quanto você estiver disposto a ouvir. Mas,
se fizer a mesma pergunta a um filósofo, ele terá que confessar, se
for cândido, que seu estudo não alcançou resultados positivos como
foram alcançados pelas ciências...

Russell ainda acrescenta:

…a um grande ponto, a incerteza da filosofia é mais aparente


que real: aquelas perguntas que já podem ter respostas definidas
são feitas nas ciências, enquanto aquelas às quais, no presente,
nenhuma resposta pode ser dada continuam no resíduo que é
chamado de filosofia.

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


178  Parte III: O Feijão com Arroz da Filosofia

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


Capítulo 10

Separando Fato
de Ficção
Neste Capítulo
XX
Considerando sono e realidade
XX
Olhando as dúvidas de Descartes
XX
Pensando sobre a memória
XX
Vendo como a filosofia e a neurociência interagem

A realidade é meramente uma ilusão, embora uma ilusão


bem persistente.

– Albert Einstein

A maioria dos livros de filosofia fala sobre apenas uma coisa: como
distinguir uma resposta certa de todas as erradas. Porque, para
a maioria das pessoas, parece ser importante conseguir fazê-lo. Pegue
atravessar uma rua, como exemplo. Faça-o corretamente e chegará do
outro lado. Faça-o incorretamente e pode ser atropelado. Simples! Ou
considere comprar um remédio para resfriado. Você quer um que o cure,
não que só tenha um gosto horrível ou, pior ainda, provoque terríveis
efeitos colaterais. O ponto é que você está acostumado a pensar nas coisas
em termos de respostas fatuais e provas demonstráveis. As pessoas são
criadas, hoje em dia, com uma visão geral organizada e lógica sobre os
fatos, evidência e regularidade.

Ainda assim, de muitas, muitas formas, a lacuna entre fato e ficção


não é estreita — sequer está lá. Médicos que prescrevem remédio para
resfriado, por exemplo, sabem que frequentemente as pessoas melhoram
com placebos (remédios sem nenhum princípio ativo, sobre os quais,
todavia, os pacientes melhoram simplesmente por acreditarem na
eficácia da pílula que acreditam estar tomando). Igualmente, pessoas
deprimidas podem adoecer. Em ambos casos, os efeitos físicos da
doença são respostas a um estado puramente mental — psicológico.

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


180  Parte III: O Feijão com Arroz da Filosofia

Alguns podem dizer “tudo bem, mas doença é meio que um caso
especial”. Mas, então, e o que falar das coisas que você lembra terem
acontecido? São fatos ou ficções? Aquele grande especialista no
funcionamento da mente humana, Sigmund Freud, descobriu que muitos
de seus pacientes tinham problemas que se relacionavam a coisas que
elas lembravam ter acontecido; coisas que (aguarde só) ele suspeitava
nunca terem acontecido. Essas pessoas estavam presas em um mundo
insatisfatório — de pais horríveis, incidentes traumáticos ou o que
fosse — e eram libertadas não pela investigação da realidade, mas pela
investigação da irrealidade — suas esperanças, seus medos, seus sonhos.

Como dizem os psicólogos, o que você é, definitivamente, é um tipo


de narrativa — uma história ficcional que é feita por você e pelos que
o rodeiam. A realidade dificilmente entra aí. Investigar a forma como a
mente funciona é do que trata este capítulo.

Como Saber se Você Não Está


Sonhando Agora Mesmo?
Os filósofos sempre se interessaram pelo que as pessoas conseguem
fazer quando estão dormindo. Porém, isso não é tanto porque a maioria
das pessoas cochila durante discussões filosóficas, mas, mais, porque
eles acham que no sono a alma liberta-se das correntes da experiência
sensorial terrena para chegar a verdades filosóficas (bem, é isso que você
deve dizer quando for pego cochilando no trabalho!).

Segundo Platão, todo conhecimento consiste de recuperar experiências


pré-nascimento das formas ideais. Aquele grande filósofo alemão,
Immanuel Kant, expôs otimisticamente em Crítica da Razão Prática que
“o sono mais profundo, talvez a maior perfeição da mente poderia ser
exercitada em um pensamento racional”. Que se saiba, Kant também
achava que cada ser humano tinha apenas uma certa quantidade desse
inestimável sono em si e alertava para que não o utilizasse muito depressa
— por exemplo, ficando deitado na cama de manhã.

Por outro lado, como notou o filósofo pessimista medieval São Tomás
de Aquino, se um homem divisa argumentos lógicos enquanto dorme,
ao acordar “ele, invariavelmente, reconhece uma falha em algum
aspecto”. E o próprio Platão registra que Sócrates perguntou a Glauco:
“sonhar não consiste em confundir a semelhança da realidade com a
própria realidade?”.

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


Capítulo 10: Separando Fato de Ficção   181
Mas foi Descartes que levou a questão mais a sério. Ele escreveu no Discurso
do Método que “todos os pensamentos e concepções que nós temos
acordados também vêm a nós no sono”, acrescentando mais tarde em uma
carta: “eu tinha uma boa razão para afirmar que a alma humana está sempre
consciente em quaisquer circunstâncias, mesmo no útero da mãe”.

Ficção e os filósofos
A ficção levanta algumas questões descon- medo no público. Platão achava que a ficção
certantes para filósofos — como algo não era em princípio objecionável, mas, se as
real pode ser importante? O que acontece pessoas precisam dela (por exemplo, como
quando você reage emocionalmente à fic- a poesia), então que seja plena e edificante.
ção? Aristóteles pensava que o drama deve- Mas é Agostinho que escreve mais eloquen-
ria sempre criar os sentimentos de piedade e temente em As Confissões, Livro III:
Peças também me absorviam, cheias de imagens de minhas desgraças
e de combustível para meu fogo. Por que o homem deseja ficar triste,
assistindo coisas melancólicas e trágicas, onde ele mesmo de forma
alguma sofreria? Ainda assim, ele deseja como espectador sentir pesar,
e esse mesmo pesar é seu prazer. O que é isso senão uma loucura
desgraçada? Pois, quanto mais um homem é afetado por essas ações,
menos livre ele é de tais afeições. Entretanto, quando ele sofre em sua
própria pessoa, é uma desgraça à sua maneira; quando se compadece
de outrem, então é misericórdia. Mas que tipo de compaixão é essa por
paixões fingidas e encenadas? Pois o espectador não é chamado apenas
para aliviar, mas somente para lamentar: e ele aplaude mais o ator dessas
ficções quanto mais lamenta. E se as calamidades de outras pessoas
(sejam antigas ou meras ficções) forem encenadas de tal forma que o
espectador não vá às lágrimas, ele vai embora desgostoso e criticando;
mas, se for levado à paixão, ele permanece absorto e chora de alegria.

Os filósofos sempre debateram a respeito da alidade é na verdade ficção. Movimento,


questão da verdade; na ficção, “Rei Lear tem força e mesmo matéria são feitos pelas
filhas ingratas” parece ser o mesmo tipo de pessoas; não existem no mundo. David
afirmação que em “Rainha Elizabeth II tem Hume juntou-se também, denunciando a
vários netos”, ainda que, na primeira, Rei Lear substância, o eu e o espaço e tempo como
pareça não existir realmente ou, como dizem ficções (isso para nem começar a conside-
os filósofos (na linguagem de Meinong e Fre- rar o status de coisas como direitos, valo-
ge), não há referente (nenhuma “coisa” no res, deveres e obrigações...). Em Tratado
mundo) ao qual se possa finalmente amarrar da Natureza Humana, Hume acrescenta
a verdade ou falsidade da alegação. que uma identidade pessoal não é nada
mais nada menos que uma construção
Estranhamente, como Jeremy Bentham
complexa feita das atividades e experiên-
apontou, muito do que se passa como re-
cias de sua vida, juntas, não separadas.

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


182  Parte III: O Feijão com Arroz da Filosofia

Duvidando de Tudo com Descartes


Descartes definitivamente concluiu em Meditações que Deus era
“supremamente bom e não podia errar”, uma pessoa racional ainda deve
conseguir distinguir qualquer informação falsa apresentada à alma nas terras
oníricas do conhecimento (supostamente) organizado e coerente do mundo.
Nem Bertrand Russell, nem Leibniz compartilharam de tal confiança. Leibniz
disse que “não é impossível, falando metafisicamente, que possa haver um
sonho tão contínuo e duradouro quanto a vida de um homem” — ou mesmo
a vida de uma borboleta, como descrito, em algumas linhas no verso do
grande expoente da vida como um sonho (de uma borboleta) —, o antigo
sábio chinês, Chuang Tzu (como descrito no Capítulo 6, por exemplo).

Descartes diz que, para separar verdadeiro conhecimento de boatos


não confiáveis, ilusões de ótica e engodo de outras pessoas (incluindo
demônios malévolos), deve-se presumir que tudo que falam, tudo que se
vê e se ouve e tudo de que não se possa estar absolutamente certo é um
truque. Ele pergunta:

Como saber se não estou no meio de um terrível pesadelo filosófico?


Um pesadelo de proporções incomuns, certamente, que acontece
com notáveis consistência e detalhes — mas um miasma, todavia,
separado da realidade? Ou, como saber que não caí nas artimanhas
de um demônio maligno, no intento de enganar-me?

Ou, talvez, mesmo de um médico maligno. Que haja recuperado


meu cérebro após algum terrível acidente e agora mantém-no
suspenso em uma cuba com produtos químicos como parte de
um macabro experimento médico? Como saber que tudo que
estou vivenciando não é, na verdade, “dado sensorial” inventado,
alimentando meu pobre e velho cérebro em uma cuba por meio de
fios coloridos: roxo para audição, preto para tato, amarelo para
paladar, azul para visão...?

Bem alarmante, ninguém sabe, mas presume essas coisas. Porém Descartes
resume a busca filosófica por algo melhor que isso — a busca pelo
conhecimento verdadeiro.

Descartes estava longe de ser o primeiro a duvidar de tudo. Os antigos


céticos gregos, que aborreciam Platão, especializaram-se em duvidar,
e suas conclusões foram que não se pode estar certo de absolutamente
nada. É por isso que são chamados de céticos.

Você pode pensar que nunca seria enganado por um demônio maligno
nem por um médico. Mas esse é um passo muito curto entre vivenciar
algo diretamente e indiretamente. Pegue as experiências lembradas, por
exemplo. Quão reais são essas experiências?

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


Capítulo 10: Separando Fato de Ficção   183

Penso, logo existo


Descartes é famoso porque, no momento em que ele parece ter reduzido
todo o conhecimento humano a meras deduções otimistas e convenções,
expõe dramaticamente que algo que ele diz é absolutamente confiável e
certo — algo de que você pode realmente ter certeza. Esta provavelmente
é a frase mais famosa da filosofia:

Penso, logo existo.

Dualismo
A segunda coisa pela qual Descartes é lembrado é o dualismo: ver o
mundo como sendo feito de duas coisas — mente e matéria.

Dualismo é o jargão filosófico para ver o mundo como composto de duas


coisas: Mente e Matéria.

Descartes pensava que todo mundo tinha uma mente e um corpo. Contudo,
ele achava que os animais possuíam somente corpos — e chegou a
dissecar alguns para testar sua teoria. Certamente, ele não encontrou mente
nenhuma dentro. A Igreja gostou de sua abordagem, visto que se encaixava
bem à ideia de almas. Havia, entretanto, um problema prático com a teoria.
Se as mentes não possuem partes físicas, como podem ter efeitos físicos —
como poderia minha mente pura dizer ao meu braço para virar a página?

Lembrando o Papel da Memória


Todo mundo guarda lembranças — adesivos de rock ou termômetros
feitos de conchas de resorts à beira-mar, como Blackpool e Bognor
Regis, ou outras mais pessoais, como uma corda arrebentada da guitarra
de Bob Dylan. Mas, acima de tudo, lembranças estão na forma de
memória em sua cabeça.

Entretanto, como pode algo do passado, que não mais existe, continuar
presente em nossa memória? No alvorecer da filosofia, estudiosos
debateram essa questão. Platão descreveu a memória como um sistema
de estoque feito de cera. Expandindo sua metáfora, Aristóteles alegou
que a memória era feita de traços físicos das experiências, que, de certa
forma as registrava e representava. Similarmente, filósofos empiristas
britânicos (veja o Capítulo 7) como John Locke e David Hume pensavam
na memória como um estoque de ideias copiadas de impressões

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


184  Parte III: O Feijão com Arroz da Filosofia

anteriores. Hume insistia que as memórias diferiam tanto das impressões


perceptuais como das ideias puramente imaginárias apenas em seu grau
de vivacidade. E é a visão de Hume que continua dominante até hoje.

Usando a mente como estoque


Embora os detalhes exatos dessa visão de estoque tradicional
estejam constantemente sendo modificados para ir ao encontro
de resultados da pesquisa neurocientífica, a maioria dos filósofos
e cientistas cognitivos compartilharam da abordagem geral. Por
exemplo, de acordo com o psicólogo gestáltico Wolfgang Köhler
(1887–1967) e o renomado neurocientista António Damasio (1944–),
nossas experiências são armazenadas em nosso cérebro como traços
fisiológicos codificados. Isto é, nossas memórias são armazenadas
fisicamente e indexadas como “representações neurais” em algum
ponto na parte posterior do cérebro. Quando você se lembra de algo,
seu cérebro procura-o no índice, então decodifica-o e recupera o dado
memorial armazenado.

Nos séculos XIX e XX, Bertrand Russell (1872–1970) e William James


(1842–1910) tentaram expandir a teoria de Aristóteles e Hume, sugerindo
que o imaginário é uma condição necessária, mas não suficiente, para
a memória — deixando um mistério sobre o que seria a outra parte. O
aluno de Russell, Wittgenstein, e outros wittgensteinianos posteriores
discutiram as suposições por trás de toda essa abordagem. Eles
defendiam que era uma ilusão pensar que poderia existir uma imagem
que contivesse sua interpretação em si mesma. Fazê-lo seria como sugerir
que uma flecha aponta somente porque você a conecta mentalmente a
uma imagem dela.

Wittgenstein sempre discordou do, por vezes seu supervisor, Bertrand


Russell, mas, neste caso, ele, com certeza, está certo. Pegue as
lembranças de Bognor Regis e do show de Bob Dylan, por exemplo.
Adesivos de rock não parecem cidades costeiras, nem cordas de guitarra
arrebentadas fazem qualquer som, muito menos como um músico. Ainda
assim, em sua mente, uma aponta alegremente para a outra.

Nada a respeito de uma imagem complexa (ou estado) poderia fazê-


la referir a um único estado de atividades. Mesmo que uma imagem
mental acompanhe, digamos, uma xícara de café, não pode explicá-
la, porque você, por sua vez, teria que reconhecer que ambas estão
realmente conectadas.

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


Capítulo 10: Separando Fato de Ficção   185

Examinando questões de identidade


O que torna algo, algo? O que faz de mim eu, ou o navio de Teseu o navio de
Teseu — e não outra coisa? Questões de identidade, especialmente identidade
pessoal, preocuparam filósofos no decorrer dos séculos e continuam a
levantar novos problemas hoje em dia, à medida que os avanços na medicina
criam ainda mais possibilidades e, com elas, perguntas.

No diálogo de Platão em A República e no Banquete, apenas formas


imateriais divinas nunca alteram a si mesmas, porque são completas e
perfeitas. Tudo o mais, inclusive pessoas, está em constante mudança,
tanto no espaço como no tempo.

Apesar dessa realidade física, a ideia de que cada pessoa tem uma identidade
fixa é central a sistemas de ética, lei, medicina e mesmo nas interações
cotidianas pessoais e sociais. Mas o que em uma pessoa permanece o mesmo?

No decorrer dos séculos, os filósofos sempre retornaram ao problema,


focando em diferentes aspectos. Alguns encontraram identidade
na natureza dos nomes; outros na identidade espacial; outros ainda
discerniram-no nas almas. Alguns se perguntaram a respeito dos
elementos essenciais do corpo; afinal, os cientistas dizem que nosso
código genético, ou DNA, sempre permanece o mesmo. Muitos
ponderaram, de uma forma ou outra, acerca da natureza do cérebro, da
mente, consciência, memória e experiência.

Experiências de pensamento clássicas usadas para explorar a questão incluem:

UUO Navio de Teseu (em que um navio é gradualmente substituído,


tábua por tábua, até que nem uma única parte física dele
continue a mesma).
UU O debate medieval sobre a sobrevivência da alma que levou à experiência
mental de Tomás de Aquino, da família de canibais que parecem consistir
dos átomos de pessoas que precisam deles para entrar no céu.

O Ensaio Acerca do Entendimento Humano (1690), de John Locke, inclui


um dos primeiros tipos de troca de corpo, nesse caso entre um príncipe
e um sapateiro; mas você pode fazer melhor do que isso se imaginar uma
máquina de transferência total de corpo e alma.

Mas as questões não são somente teóricas. Hoje em dia, a manipulação


genética, biotecnologia, cirurgia ou drogas afetam sutilmente a identidade
pessoal. As pessoas, às vezes, submetem-se a alterações dramáticas,
incluindo mudanças de sexo e colocação de partes biônicas ou
transplantadas (inclusive partes de animais). Cientistas loucos alegremente
misturam diferentes espécies de animais em experiências quiméricas (isto
é, aqueles criados por imaginações extremamente fantasiosas), criando
monstruosidades patéticas e desesperadas.

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


186  Parte III: O Feijão com Arroz da Filosofia

Usando máquinas de transferência de mente


São abundantes as histórias de transferência de corpo (mente) — são
um misto de folclores e ficção científica, não apenas filosofia. Mesmo
Aristóteles ponderou sobre a essência de Sócrates e Platão, perguntando-se
se poderiam ser definitivamente a mesma coisa, e John Locke usou aquele
conto pioneiro do príncipe e do sapateiro que acordaram e descobriram
que haviam trocado de corpos para mostrar que a identidade tem
realmente mais a ver com características mentais do que com as físicas.

Mas pegue um caso mais recente de meu próprio livro, Wittgenstein’s Beetle
and Other Classic Thought Experiments (Blackwell, 2004, A Abelha de
Wittgenstein e Outras Experiências Mentais Clássicas, em tradução livre),
de Dr. Gibb — um acadêmico chato, feio e engomadinho que descobriu a
existência de uma “máquina de transferência de corpo” no estacionamento
da faculdade de ciências. Após algumas pesquisas por almas, ele
decide tentar. Entra em uma cabine e transfere vários elementos de suas
capacidades mentais para Steve — um aluno seu de pós-graduação bonito e,
francamente, não muito brilhante —, que está na segunda cabine.

Steve acha que irá se beneficiar por ter algumas das capacidades de seu tutor
e o conhecimento implantado nele e fica muito animado. Mas, na realidade,
Gibb tem intenções mais sinistras. Ele quer tomar todo o corpo de seu aluno,
reprogramando-o com seus atributos mentais, e ao mesmo tempo transferir a
mente do pobre Steve para seu cachorro decrépito. Entre as opções piscando
no painel de controle estão a de transferir todas as suas capacidades, todas as
suas memórias e mesmo todas as suas preferências pessoais e idiossincrasias.

Em um lapso maligno, para piorar as coisas, Gibb digita em detalhes


para quem a conta do processo deve ir depois. Como a conta é de vários
milhões, isso não é brincadeira. É claro que o pobre Steve não pode pagá-
la — ele pode acabar indo para a prisão por não conseguir pagar.

Agora Gibb é um tremendo canalha: ele quer fazer essa coisa egoísta.
Ele imediatamente começa a digitar o nome de Steve e endereço da
faculdade. Mas, depois, ele pausa. Se está se transferindo para o corpo de
Steve, ele não deveria enviar a conta para o Gibb velho, que, em breve,
terá os pensamentos de Steve, em vez do novo no corpo de Steve?

Sendo isso apenas uma experiência mental, para decidir quem é quem,
você pode imaginar várias possibilidades. Suponha, por exemplo, que Gibb
escolheu transferir todas as suas memórias, capacidades e personalidade.
Nesse caso, a experiência mental pode fazer você pensar que é astucioso,
para não dizer antiético, ele enviar a conta (e, consequentemente, a
sentença de prisão) para o velho e decrépito “Gibb”, que tem as memórias e

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


Capítulo 10: Separando Fato de Ficção   187
habilidades do pobre Steve. Enquanto isso, o Gibb real ficaria livre no corpo
de Steve. Tal abordagem encaixa-se na intuição de que a identidade pessoal
realmente tem a ver com atributos mentais, não físicos. Então, isso está claro.

Contudo, o que você pensaria se a cabine desse defeito após enviar os


atributos mentais de Gibb para Steve, deixando-os ainda intactos no Gibb
original? Ou (pior ainda) se ela simplesmente apagasse todos os atributos
mentais de Gibb, deixando Steve desapontado por não obter nenhuma
das capacidades de seu tutor, que, de outra forma, estariam intactas?
Então você pode ter certeza de que um Gibb real existia, um que agora é
definido apenas por sua casca física e que agora seria duplamente infeliz
por acabar na bancarrota por conta do processo.

Ouvindo as histórias da mente subconsciente


No final do século XIX, as pessoas geralmente entendiam distúrbios mentais em
termos positivistas como algo com raiz em um distúrbio do corpo. Positivismo
significa olhar para o mundo por causas e efeitos mensuráveis e desconsiderar
coisas intangíveis como o que as pessoas estavam pensando. O tratamento
normalmente incluía ser posto em um sanatório e receber injeções de várias
substâncias químicas. Entretanto, um médico austríaco, chamado Sigmund
Freud, estava interessado em tratar a mente e compreender sua função.

Sigmund Freud (1856–1939) nasceu na Morávia, então parte do império


austro-húngaro, em uma família etnicamente judia, mas não praticante,
muito respeitável (isso tornou suas incursões posteriores nas fantasias
sexuais altamente notáveis, para não dizer infames, é claro).

Quando Freud tinha quatro anos, sua família mudou-se para Viena e lá ele
praticou como médico e permaneceu pela maior parte de sua vida. De
fato, Freud sempre viu suas teorias como parte de uma tradição científica,
empírica, mas também o fizeram Aristóteles e muitos outros que, agora, os
estudiosos reconhecem como essencialmente filósofos. Freud considerava
expandir a compreensão do ser humano, tanto o normal como o
patológico (ou doente, como as pessoas agora evitam chamar).

Fantasias e o Complexo de Édipo


Em uma famosa série de histórias de casos, Freud apresenta vários pacientes
e seus sintomas e descreve o processo de falar por meio de memórias
associadas, que normalmente se enraizam nos anos da primeira infância.

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


188  Parte III: O Feijão com Arroz da Filosofia

O estranho caso de Anna O.


Na década de 1880, Freud e seu colega Josef de que se poderia tratar sintomas físicos e
Breuer trataram várias mulheres ricas de Vie- mentais da mesma forma, falando sobre eles
na usando hipnose. O mais conhecido desses — o que os psicanalistas chamam do concei-
casos é o de Anna O., uma jovem mulher que to de cura pela fala (e o resto de nós chama-
sofria de uma série de queixas físicas inca- mos de muito dinheiro!). Mas o significado
pacitantes que pareciam não ter uma causa. filosófico está na ideia de que o eu está divi-
Anna O. queixava-se de paralisias que às ve- dido em um eu consciente, racional e social,
zes eram tão severas que ela não conseguia e um outro eu oculto, que habita um mundo
andar. Em outros momentos, não conseguia interior paralelo fora da razão e do controle
falar em sua língua nativa, o alemão, mas social e que o consciente do “dia a dia” está
apenas em uma variedade de línguas estran- em constante batalha para reprimir.
geiras. Freud e Breuer trataram-na induzindo
A explicação de Freud para tudo isso foi de
um estado hipnótico e então mergulhando
que os seres humanos são guiados pela li-
em suas memórias mais profundas (não pela
bido, um poderoso impulso sexual. Ele ob-
última vez, o tratamento de Anna O. teve que
servou em seus pacientes que eles podiam
ser abruptamente interrompido, porque ela se
direcionar a libido a muitos objetos, o que às
apaixonou por seu analista!).
vezes levava a conflito interno. A tentativa de
Mas, antes desse terrível resultado, o caso reprimir o que os pacientes achavam ser de-
de Anna O. levou Freud a desenvolver a ideia sejos proibidos poderia produzir sintomas.

Uma coisa que rapidamente atingiu Freud foi quantas pacientes mulheres
lembravam de serem seduzidas por seus pais ou outras figuras masculinas da
família. Por volta de 1897, Freud havia chegado a uma visão de que isso eram
fantasias da primeira infância, memórias falsas, que essas experiências eram
imaginárias e não reais. Freud descreveu essas fantasias como complexo de
Édipo, segundo o mito grego no qual um filho mata seu pai e casa-se com a
mãe, e argumentou que essa era uma fase pela qual todo mundo tem que
passar. Não literalmente, entenda! Falando estritamente, o Complexo de Édipo
é uma síndrome que meninos novos têm quando se apegam muito às suas
mães e odeiam seus pais, enquanto as meninas têm seu próprio complexo —
o Complexo de Electra —, quando se apaixonam pelo pai e odeiam a mãe.
Até certo ponto, toda criança se apaixona por um dos pais, o de sexo oposto,
e torna-se rival daquele do mesmo sexo. Quando tudo vai bem, isso é apenas
uma fase e a criança supera esses sentimentos satisfatoriamente, chegando a
uma abordagem equilibrada de ambos os pais e ambos os gêneros.

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


Capítulo 10: Separando Fato de Ficção   189

Ego, egoísmo e egoístico


Para Sigmund Freud, a mente tem três par- — só um pouquinho não faz mal!” e outro di-
tes: o id, o ego e o superego. O id tem ape- zendo “Lembre-se de sua promessa de nun-
tites, mas não é racional; é o que Freud ca mais beber enquanto estiver de serviço!”.
chamou originalmente de inconsciente. O De qualquer forma, em tudo isso o ego repre-
superego, por outro lado, é a faculdade mo- senta a posição de compromisso ditada pela
ral do corpo, é a consciência, capaz de atu- prudência e pela responsabilidade.
ar não só sobre os interesses do indivíduos,
Em ética, egoísmo (às vezes chamado de
mas considerando um interesse idealizado
egoísmo normativo ou egoísmo racional, em-
ou geral. Porém, é o ego que fala de verda-
bora não faça diferença) é a visão que satis-
de com você; ele tem que tentar decidir en-
fazer a si mesmo é uma justificativa suficien-
tre duas predisposições opostas do id e do
te para escolher uma ação em detrimento de
superego. É meio como o desenho de um
outra. Em A República de Platão, Trasímaco
bêbado olhando para uma garrafa de uísque
defende fortemente o egoísmo e, similarmen-
enquanto balões de pensamento aparecem,
te, o egoísmo é o princípio fundador do go-
um com um diabinho dizendo “Vá em frente
verno para Thomas Hobbes em Leviatã.

O id, o ego e o superego


Mais adiante, Freud concluiu que isso era, na verdade, mais complicado do
que ele havia imaginado e que, de fato, três elementos guiavam as pessoas:

UUO id: A parte irracional e primitiva das emoções e da libido.


UUO ego: A parte que tenta regular e controlar o id, que é o
lado racional.
UUO superego: Criado do senso de normas sociais e éticas do
indivíduo. Como um diretor de escola rigoroso, o superego está
focado em impedir e punir mau comportamento.

Freud concluiu que os estranhos sintomas de seus pacientes eram,


na verdade, o resultado de um superego superpoderoso e intolerante
tentando reprimir o id e o ego.

Em A Interpretação dos Sonhos (1900), Freud descreveu o mundo


inconsciente do id. No inconsciente, não existe nenhuma lógica, mas tudo
pode coexistir e seus desejos mais proibidos ditam as regras. O inconsciente
revela-se em seus sonhos e por meio de movimentos da língua. A mente
consciente tenta reprimir desejos que o superego considera amorais
ou socialmente não permitidos, mas o inconsciente revela-se de forma
distorcida: em símbolos que você tem que decodificar e interpretar.

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


190  Parte III: O Feijão com Arroz da Filosofia

As ideias de Freud e o futuro


As ideias de Freud foram muito influentes no conceito moderno do eu
humano e de como a mente humana funciona. Suas teorias entraram na
linguagem comum, e seus conceitos — as diferentes partes da mente e os
mundos conflitantes de desejo e demandas morais e sociais — moldam
o conceito moderno do eu. Mas é claro que toda ação tem uma reação
contrária e, na tradição da ciência empírica, o colega vienense de Freud,
Karl Popper, fez uma crítica devastadora à psicanálise. Popper, um
filósofo com interesse particular no funcionamento da ciência, reclamou
que as ideias de Freud e da psicanálise não atendiam a qualquer critério
científico e não possuíam base objetiva, mas eram meramente assertivas
que não podiam ser provadas.

A divisão entre a realidade objetiva e mensurável e o mundo subjetivo e


mutante do eu, observada por Platão muito tempo antes, continua. E, se a
neurociência, com suas máquinas sofisticadas capazes de mostrar a atividade
elétrica do cérebro, é atualmente celebrada por alguns como uma nova forma
de, finalmente, definir o que determina a personalidade e o comportamento, o
trabalho de Freud lembra que a mente humana é cheia de contradições.

William James e o consciente


Outro filósofo com um profundo interesse em como a mente funciona é
William James (1842–1910), que tem uma árvore genealógica interessante (e
possivelmente confusa), sendo filho de Henry James, o filósofo religioso, e
irmão de outro Henry James, o novelista. Ele próprio era filósofo e psicólogo,
deu aula em Harvard, publicando Princípios da Psicologia (1890), um relato
de como o cérebro se relaciona com a mente, ou com o consciente.

James pegou a visão de Darwin, de que o consciente tem uma origem e


um propósito evolutivo; ele desenvolveu a noção de que a consciência é
um estado transitório do cérebro que este continuamente destrói e renova.
Isso é o que se tornou o famoso fluxo de consciência.

Uma das ideias influentes de William James é a distinção entre o eu e o


mim. James diz que o eu é o pensador e o mim é feito do mim material, que
se preocupa essencialmente com os interesses do corpo, e do mim social,
que se preocupa com como os outros o percebem em situações sociais. A
identidade pessoal consiste do eu lembrando-se das demandas de vários
mins. Nesse sentido, James é um fenomenologista: ele acredita que estados
mentais se baseiam em processos físicos. Contudo, ele faz uma exceção.
Ele espera que o livre-arbítrio seja, de fato, livre, argumentando que o eu é
capaz de escolher livremente os pensamentos sobre os quais quer pensar.

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


Capítulo 10: Separando Fato de Ficção   191

Entendendo o inconsciente
Carl Jung (1875–1961) nasceu em Kesswill, lhos práticos do inconsciente ao consciente,
Suíça, e morreu em Zurique. Ele foi o pai fun- auxiliando no alcance da individuação. Em
dador da psicologia analítica. Ele conheceu Homem Moderno à Procura de uma Alma,
Freud em Viena, em 1907, e inicialmente co- Jung sugere que o mundo moderno causa
laborou com ele. Jung foi presidente da So- alienação, separando o homem de suas raí-
ciedade Psicoanalítica Internacional de 1911 zes, que são essenciais para o crescimento
a 1914, mas tornou-se cada vez mais crítico psicológico e, consequentemente, para a
aos métodos de Freud. Eles romperam com- satisfação. Isso tem resultado em níveis de
pletamente em 1913, após a publicação de depressão, desespero e sofrimento sem pre-
Psicologia do Inconsciente, de Jung. cedentes. A humanidade deve entender seus
símbolos e permitir que eles informem o de-
Jung assume uma visão muito positiva da
senvolvimento criativo da mente consciente.
mente e enxerga a psique como um sistema
Por essa razão, Jung colocou grande ênfase
autorregulado e criativo, lutando por uma
no sonho para permitir que o inconsciente se
identidade individual, que foi chamada de
comunique com a mente consciente. Isso é
individuação. Os sonhos fornecem conse-
um processo natural.

O que Acontece Quando o


Cérebro Erra?
O neurologista e escritor Oliver Sacks descreveu como certos tipos
de danos cerebrais resultam em uma memória acentuada, de fato, a
capacidade extraordinária de lembrar-se, dia a dia, de cada evento
que o indivíduo vivenciou. Ele supõe disso que o cérebro do indivíduo
saudável contém um registro completo de tudo que ele vivenciou desde o
nascimento, mas, misericordiosamente, a maior parte dele é inacessível à
nossa mente consciente.

Mas se você não consegue se lembrar de nada além dos últimos minutos,
então pode ser mais sério. Pois, à medida que você perde contato com seu
passado, não pode funcionar no presente.

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


192  Parte III: O Feijão com Arroz da Filosofia

Uma experiência pessoal de perda de memória


Uma vez eu sofri um acidente de bicicleta. machucado, então, todo dia minha família
Bati com a cabeça e fiquei inconsciente por, tinha que explicar as mesmas coisas para
aproximadamente, meia hora — além de ter mim. A experiência apoiou a teoria de que a
sofrido outras lesões terríveis. Levou em tor- mente é um tipo de estoque, que está dividi-
no de um mês para eu ficar bem o suficiente do em duas partes — uma parte de memó-
para caminhar pela casa novamente — mas rias de curto prazo e uma parte permanente,
isso foi apenas a recuperação das lesões organizada, de longo prazo. No meu caso, o
físicas visíveis. Acontece que os efeitos cérebro estava guardando eventos na me-
mentais, invisíveis, duraram muito mais. Na mória de curto prazo, então, arquivando-as
verdade, havia perdido a capacidade de me incorretamente e, assim, perdendo-as.
lembrar de coisas novas que aconteciam. Eu
Depois de aproximadamente seis semanas,
conseguia lembrar da minha infância, mas
meu sistema de arquivamento, de alguma
não o que havia acontecido ontem. Eu não
forma, se corrigiu e pude lembrar novamen-
conseguia sequer lembrar por que estava
te. Tive sorte. Mas outros não têm.

Dr. Sacks e seus contos curiosos


Em O Homem que Confundiu sua Esposa com um Chapéu (Companhia das
Letras, 1985), um relato fascinante de vários tipos de desastres que podem
afetar o cérebro, Dr. Sacks descreve o caso de uma pessoa com a memória
comprometida, Jimmie, “o marinheiro perdido”, um homem nos seus sessenta
anos cuja memória apagou quaisquer lembranças de eventos ocorridos após
seus 30 anos. Jimmie fica continuamente chocado com as mudanças ao
seu redor, tanto no mundo físico quanto, estarrecedoramente, nas pessoas
que ele conhecia (quando ele as reconhece). “Acho que algumas pessoas
envelhecem rápido”, ele diz em uma tentativa de explicação.

Dr. Sacks tenta substituir a falha da memória de Jimmy, oferecendo a ele


um sistema simples de cópia de segurança — um bloco de notas. Jimmie
escreve os eventos em seu diário e, então, Dr. Sacks pode pedir para que
ele os relembre. Quão bem isso funciona? Não muito bem. Inicialmente,
tais truques servem para “dar um empurrãozinho” na memória. Mas Jimmie
simplesmente não reconhece o que ele mesmo escreveu. “Eu escrevi isso?”,
ele pergunta, e mais “Eu fiz isso?”. Quando Dr. Sacks pergunta a Jimmie
como ele está se sentindo, a resposta é bem triste. Ele diz: “Como me sinto?
Não posso dizer que me sinto mal. Mas não posso dizer que me sinto bem.
Não posso dizer que sinto qualquer coisa”. E coça a cabeça confuso.

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


Capítulo 10: Separando Fato de Ficção   193
O paciente de Dr. Sacks está em mau estado; perdido em um mundo de
dez minutos, ele mal se sente vivo! Mas existe um lampejo de esperança
nesse caso. Sacks consulta uma passagem de sua bíblia profissional,
Neuropsicologia da Memória, de A. R. Luria, que diz:

Mas o homem não consiste apenas de memória. Ele tem


sentimento, vontade, sensibilidades, ser moral — assunto do qual a
neuropsicologia não pode falar. E é aqui, além do reino da psicologia
impessoal, que se pode encontrar meios de tocá-lo e mudá-lo.

E, de fato, Dr. Sacks descobre que, quando Jimmie está cantando, ou


rezando na capela, ou quando está jogando certos jogos ou resolvendo
passatempos desafiadores, ele se torna uma pessoa diferente, mais
completa. Desde que esteja plenamente ocupado com o presente, sua
perda de memória para de aborrecê-lo. Mas é claro que ele não pode
passar todo o tempo rezando ou resolvendo passatempos...

A excelente “cura” de Dr. Sacks é dar o jardim do hospital para Jimmie


cuidar. Uma vez lá, Jimmie começa a ter um bom progresso. A princípio,
todo dia o jardim é novo para ele e ele tem que redescobri-lo por inteiro,
mas, depois de algum tempo, ele começa a lembrar e consegue construir
planos e estratégias para cuidar dele. Como Sacks coloca, Jimmie está
perdido no espaço-tempo, mas alocado no que ele chama de tempo
intencional. Embora Jimmie não consiga organizar as memórias no tempo
e no espaço, ele pode criar um tipo de mundo de memória, baseado em
sentimentos estéticos, religiosos, morais e dramáticos.

O cheiro de café — de novo!


Dr. Sacks também descreve o caso de um Mas os fatos médicos permanecem inal-
homem cujo olfato está irrecuperavelmen- terados. Seu nariz conseguia sentir tanto
te destruído. O olfato é um sentido sutil que cheiro quanto seu ouvido. Os aromas que
afeta o dia a dia muito mais do que se pos- ele estava sentindo estavam totalmente em
sa pensar. O interessante sobre este caso é, sua mente, mas não imaginados exatamen-
contudo, não o quanto ele sofre e lida com a te. Eram experiências prévias que sua men-
perda, mas que um dia ele pega uma bebida te subconsciente estava fielmente reprodu-
e sente aquele rico aroma do café novamen- zindo no momento certo.
te. O mesmo milagre acontece quando ele
pega seu cachimbo e enche-o de tabaco.

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


194  Parte III: O Feijão com Arroz da Filosofia

A filosofia encontra a neurociência


Muitas crianças pequenas não conseguem genuinamente diferenciar
algo que elas inventaram de algo que realmente existe ou aconteceu (os
professores sabem que isso torna as crianças testemunhas não confiáveis,
não que isso diga respeito a suas atividades). Isso permite-lhes ter amigos
imaginários, festas imaginárias e, claro, vidas imaginárias. Contudo, essa
charmosa característica das crianças tem uma infeliz companhia sombria
no mundo adulto dos distúrbios cerebrais.

Paul Broks, um neurocientista com sede na fria cidade de Plymouth,


no Reino Unido, descreve em seu livro filosófico-psicológico, Into the
Silent Islands (Atlantic Books, 2004, Na Ilha Silenciosa, tradução livre),
uma paciente. Quando ele pergunta à moça “você sabe onde está?”, ela
responde que está na exótica Maiorca e desabotoa o casaco por causa do
calor. “Se eu fosse você, continuaria com ele”, Broks diz à sua paciente
de forma bem seca. Ele percebe que o cérebro de sua paciente havia
registrado a imagem em um cartão-postal da pequena ilha tropical que
estava sobre sua mesa e está agora agitadamente criando uma rede de
conexões completamente falsas com a informação, confundindo eventos
no mundo mental privado com eventos no mundo externo público.

Vida no mundo real


Apenas no mundo real, as ações têm efeitos demonstráveis e
consequências tangíveis, como o amigo do bispo Berkeley tentou
demonstrar chutando uma pedra de verdade. Contudo, real é uma palavra
problemática. O bispo Berkeley era insistente em que o que é real no
mundo não são as pedras, mas os pensamentos. O mundo material, ele
diz, existe apenas em nossas mentes. Você supõe que as imagens que
tem na mente, como as sensações aparentemente involuntárias que o
acometem (por exemplo, se a pedra for muito grande ou se o sapato for
muito pequeno) foram causadas por uma cadeia mecânica de eventos que
começam pela matéria física, são convertidas por meios eletroquímicos
através de vários sentidos e terminam como uma representação mental
organizada em sua cabeça. Mas, Berkeley diz, por que supor isso? Não
seria muito mais simples dizer que o que você tem em seu mundo mental é
real e o que pensa que pode corresponder a isso lá fora é imaginário?

Uma grande parte da resposta a esse mistério de “quem você é” é que


você cria em sua cabeça uma história de vida, uma narrativa interna
cuja continuidade ou sentido é sua vida. Você pode dizer que essa
narrativa é você, é sua identidade (os existencialistas falam muito disso
— veja o Capítulo 12).

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


Capítulo 10: Separando Fato de Ficção   195
Biologicamente falando, as pessoas não são muito diferentes. São as
narrativas pessoais que realmente dão identidades distintas. As histórias
de vida de algumas pessoas são cheias de contos de azar e repressão,
fardos impostos e oportunidades perdidas. Outras são cheias de
oportunidades especiais, habilidades excepcionais e boa sorte. Se as
histórias “reais” estavam muito distantes — ou mesmo invertidas — não
tem importância. Tais narrativas têm sua própria lógica. O indivíduo
exerce uma função determinada por sua história de vida, não por um
fato cru histórico ou físico.

Romantismo
O romantismo é notavelmente difícil de definir, tanto como movimento
histórico quanto como escola de pensamento. Ele não tem um ponto de
início ou fim definitivos, mas sua influência é ampla. Escritores, pintores,
músicos e filósofos foram influenciados pelos ideais românticos.

Durante o século XVIII, a Europa vivenciou a Era do Iluminismo, na


qual muitos intelectuais começaram a sentir que os humanos estavam
aproximando-se de saber tudo que havia para se saber no mundo
científico. Contudo, esse intenso foco na descoberta científica objetiva
também fez com que as pessoas se sentissem pequenas e desimportantes,
deixadas sem propósito ou desígnio. Este último sentimento levou um
grupo pequeno e oculto de antirracionalistas a criar o que, desde então,
ficou conhecido como Movimento Romântico.

Romantismo, no sentido mais geral, tira a ênfase da razão objetiva e


coloca-a junto das emoções, intuição, natureza, fé ou outros conceitos
“irracionais”. Mesmo os gregos antigos fizeram isso. Aristóteles, por
exemplo, dedica o Livro VIII de Ética a Nicômaco à discussão da amizade
e Platão devota todo o seu Banquete a uma longa discussão acerca da
natureza do amor. Contudo, o movimento romântico do século XVIII
é radical em sua rejeição à racionalidade. Embora Platão e Aristóteles
defendam que o papel próprio da razão está no controle das paixões
irracionais, os verdadeiros românticos invertem esses papéis.

Um dos grandes filósofos românticos foi o excêntrico franco-suíço Jean-


-Jacques Rousseau, que escreve em aclamação à glória do “homem
natural”, da superioridade do “nobre selvagem” e contra a corrupção da
modernidade e da ciência. John Stuart Mill também é frequentemente
considerado um filósofo romântico devido ao papel central da felicidade
em sua ética. Mill, que se mostrou secamente lógico, posteriormente
influenciou enormemente poetas românticos como Wordsworth e
Coleridge. Mas o filósofo mais romântico de todos é, provavelmente, Søren
Kierkegaard. Em seu livro Temor e Tremor, Kierkegaard defende que há

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


196  Parte III: O Feijão com Arroz da Filosofia

três maneiras básicas de existir; dessas, a mais alta que se pode atingir é
apenas por meio de um grande salto de fé plenamente irracional.

Todavia, como Travis Rieder recentemente colocou, o romantismo


filosófico nunca se tornou mais do que um soluço na história da filosofia
ocidental. A dura realidade tem seu jeito de se impor.

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


Capítulo 11

Interpretando
a Linguagem
Neste Capítulo
XX
Olhando o estranho papel das palavras em nossos pensamentos
XX
Fuçando os trabalhos dos maiores cérebros do século XX para tornar a linguagem
mais lógica
XX
Ponderando sobre as palavras mais sutis dos índios Hopi

Eu realmente acredito que as línguas são os melhores espelhos


da mente humana e que uma análise precisa dos significados das
palavras nos diria mais do que qualquer outra coisa a respeito das
operações da compreensão.

– Leibniz

T odos os filósofos, mais cedo ou mais tarde, têm que abordar


duas questões. A primeira é: qual a relação dos pensamentos na
mente com as palavras que as pessoas utilizam para expressá-los? E a
segunda: qual é a relação das palavras como as pessoas as expressam
com as coisas no mundo?

Em todos os sistemas filosóficos, com exceção, talvez, daqueles


ligeiramente suspeitos baseados em meditação, as palavras e a linguagem
são a ligação entre a mente e a matéria ou a barreira separando-as.

Este capítulo é uma tentativa de mostrar como os filósofos investigaram o


enigma das palavras e da linguagem no passar dos séculos e um resumo
dos últimos pensamentos na área, por se relacionar a muitos aspectos da
vida moderna, da computação aos direitos dos animais.

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


198  Parte III: O Feijão com Arroz da Filosofia

O escritor britânico do século XX, George Orwell (o que inventou o Grande


Irmão — Big Brother — e alerta sobre a manipulação do governo) ficou
perplexo com o abuso da língua que ele via ao seu redor. Escrevendo em
seu popular livro de 1946 Política e a Língua Inglesa, ele diz:

Quando se observa algum escroque cansado no púlpito


mecanicamente repetindo frases conhecidas — atrocidades bestiais,
tortura, tirania sangrenta, povos livres do mundo, caminhar ombro
a ombro — frequentemente se têm sensações curiosas de que
não se está observando um ser humano, mas um tipo de boneco:
uma sensação que repentinamente fica mais forte em momentos
que a luz atinge os espetáculos do orador e transforma-os em
discos em branco que parecem não ter olhos por trás deles. E isso
não é uma completa fantasia. Um orador que utiliza esse tipo de
fraseologia já percorreu um longo caminho em direção a fazer
de si uma máquina. Os ruídos apropriados saem de sua laringe;
mas seu cérebro não está envolvido, como estaria se ele estivesse
escolhendo as palavras por conta própria.

Desconstruindo a Linguagem
A linguagem é filosofia. Ela tanto é o meio que devemos usar para
conduzir o estudo como o assunto deste estudo.

E, assim como alguns filósofos buscaram tornar o mundo apenas o


que se sente, outros tentaram reduzir as ideias a apenas palavras que
se usam. Mas, para muitos outros filósofos, o problema da linguagem é
que ela é imprecisa; então, um tema perene na filosofia foi a busca por
formas melhores e mais lógicas de exprimir achados. Essa foi a missão
de Leibniz, Russell, Frege, os positivistas lógicos e Wittgenstein, para
mencionar apenas alguns.

Muitos filósofos do século XX, como G. E. Moore e J. L. Austin (que


escreveu um livro chamado Como Fazer Coisas com Palavras, que
tomou muitas palavras para fazer muito pouco…), investigaram o jogo
das palavras, contrastando o uso corriqueiro com outros filosóficos
supostamente mais rigorosos. Outros (como Suzanne Langer ou Paul
Ricoeur) exploraram o uso da metáfora, que, de muitas formas, é a
essência da língua, oferecendo significado por meio do uso de símbolos.
Na realidade, muitas palavras, mesmo as mais abstratas, derivam-se
originalmente de outras que designam coisas muito tangíveis, comuns.

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


Capítulo 11: Interpretando a Linguagem   199
Nos anos mais recentes, as pessoas também têm estado muito interessadas
na forma como as palavras transmitem preconceitos, como racismo,
idadismo, sexismo e mesmo especismo. Especismo, em linguagem, envolve
o uso de palavras ou frases que tornam a exploração animal aceitável.
Não muitos de nós pensamos sobre isso, mas, uma vez que se começa
a procurar, há muitos casos. Por exemplo, as pessoas frequentemente
utilizam o termo animais para se referir a animais não humanos, embora,
literalmente, os humanos sejam animais. Dessa forma, as pessoas
distanciam-se de seus irmão animais — e à custa dos animais!

Propagandistas podem torcer as palavras, reforçando preconceitos


ou minimizando o significado de ações por meio de eufemismos; os
resultados disso foram vistos de tempos em tempos nas piores atrocidades
da história humana. Hitler e seu chefe de propaganda Goebbels dão um
obscuro exemplo disso. Em sua autobiografia, Mein Kampf, que é cheia de
tiradas longas, divagantes e cheias de ódio, há também uma sofisticada
análise do uso da propaganda, em que Hitler diz “Palavras constroem
pontes para regiões inexploradas” e prossegue explicando como ele
utilizou sua aptidão com palavras para construir e inflamar a opinião
pública contra aqueles que ele chama de judeus e democratas sociais.

Como criar palavras a partir de coisas


O estudo da origem das palavras lança luz Há também a palavra da língua inglesa ha-
sobre como as pessoas tanto usam como zard, que significa algo perigoso. Ela vem do
desenvolvem a linguagem. Muitas palavras termo árabe al zahar, que simplesmente sig-
parecem começar bem literais e então tor- nifica dado. Da mesma forma, a palavra dado
nam-se cada vez mais abstratas. Religião, por em inglês adquiriu um uso a mais, como ver-
exemplo, deriva-se de um termo em latim para bo: a frase dicing with death (“dadeando”
amarrar as pessoas com cordas (ligature). — jogando dados — com a morte) significa
fazer algo arriscado.
Outro caso curioso é o da palavra assassino,
que pode ser utilizada para descrever um Finalmente, a palavra importante deriva-se
certo tipo de matador politicamente moti- diretamente da atividade comercial, importar
vado. A palavra deriva do caso histórico de e exportar. A implicação é que algo importa-
uma certa seita religiosa que costumava ma- do é digno de nota e interessante.
tar as pessoas enquanto estavam sob influ-
ência de haxixe. A palavra para quem fuma
haxixe é hashashin.

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


200  Parte III: O Feijão com Arroz da Filosofia

Em Política e a Língua Inglesa, Orwell diz o seguinte a respeito do uso do


eufemismo por políticos:

Em nossa época, o discurso e a escrita política são grandemente


a defesa do indefensável. Coisas como a continuação do controle
britânico na Índia, as remoções e deportações na Rússia, o
lançamento de bombas atômicas no Japão podem, de fato, ser
defendidas, mas apenas por argumentos que são brutais demais
para que as pessoas os encarem e que não se enquadram com as
metas professadas de partidos políticos. Assim, a linguagem política
consiste grandemente de eufemismo, petição de princípio e vagueza
absolutamente obscura. Vilas indefesas são bombardeadas pelo ar,
os habitantes retirados das zonas rurais, o gado é metralhado, as
cabanas postas em chamas com balas incendiárias: isso é chamado
de pacificação. Milhões de camponeses têm suas fazendas roubadas
e são levados a caminhar penosamente ao longo das estradas com
não mais do que aquilo que conseguem carregar: isso é chamado de
transferência de população ou retificação de fronteiras.

Mas essas preocupações com a linguagem não são as mais filosóficas.

Conversando com os gregos antigos


Os gregos antigos preocupavam-se com o problema particular do que
eles chamavam de universais, ou descobrir como exatamente uma
palavra pode descrever todo o grupo de coisas. Os gregos também
investigaram como as pessoas reúnem palavras em frases e orações, e,
mais importante, como se poderia utilizar as palavras corretamente para
fazer alegações sobre o mundo.

Universais são termos como dourado ou quente. A palavra Sócrates


pode ser universal também, se você quiser usá-la assim. Por exemplo,
você pode dizer que Zenon Stavrinides, o filósofo contemporâneo, é o
Sócrates do norte.

Platão descreve o filósofo sofista Górgias como aquele que levantou


a muito importante dúvida filosófica sobre a lacuna entre as palavras
e as ideias. Górgias diz que pedir para alguém pensar em, digamos,
um cachorro fofinho (este não é o exemplo deles, por falar nisso) não
significa que ele realmente pensará em uma coisa fofinha ou em uma
coisa canina — menos ainda que seja fofinha e canina ao mesmo tempo.
Por exemplo, ele pode achar que a palavra “fofinho” signifique acima do
peso e pensar em um cachorro gordo, ou, pior ainda, pode considerar
cachorros tipos de lobos e, na verdade, visualizar um lobo fofinho. Para

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


Capítulo 11: Interpretando a Linguagem   201
não esquecer que você — quem perguntou — pode ter utilizado a palavra
errada desde o começo. Você pode ter querido dizer não fofinho, mas
peludinho, e misturou as palavras. Todo mundo faz isso. Isso mostra como
a palavra e a ideia em sua cabeça não são uma e a mesma coisa. Ou são?
Alguns psicólogos dizem que uma escolha aparentemente errônea de uma
palavra revela o que realmente está se passando em sua cabeça. Se alguém
em uma livraria disser “Você tem alguma dobra sofisticada?”, quando
na verdade queria dizer “Você tem alguma obra sofisticada?”, alguns
especialistas dizem que isso significa que essa pessoa estava pensando em
(e querendo) mais livros (de filosofia?)…

Em outro dos diálogos de Platão, Crátilo discute com Sócrates o que ficou
conhecido como teoria da correspondência — a ideia de que originalmente
qualquer palavra seja arbitrária, assim como escolher nomes para novos
bebês, novos planetas ou novas espécies (tudo bem, eu sei que em
muitos casos a escolha não é arbitrária, mas pensada cuidadosamente);
certamente, o uso do rótulo após ela tornar-se estabelecida é tudo, menos
arbitrário. Se você chamar seu bebê de João, na próxima vez que levá-
lo ao médico quer ter certeza de que seja o seu bebê, o bebê João, que
retorne, não algum outro bebê que se chamava Samantha, ou Eustácio,
ou Jéssica. Ou, mais uma vez, o rótulo cachorro escocês aplica-se apenas
a certos animais. Se você quiser adotar um cachorro escocês no abrigo
local, não vai querer que eles lhe entreguem um doberman ou um pitbull,
dizendo que é apenas arbitrário e convencional você por acaso chamar
diferentes tipos de cachorros. Pode até ser arbitrário, mas também importa.

Platão achava que as palavras eram, na verdade, sinais ou símbolos para


as Formas — objetos ideais ou exemplos de tudo (nós abordamos essa
estranha, mas importante, teoria no Capítulo 2). Mas, logo em seguida,
Aristóteles queixou-se de que Formas celestiais deveriam incorporar a
essência de objetos mundanos — isto é, todos os cachorros, de escoceses
a dobermans pinschers, participam da Forma do Cachorro (como
Platão coloca); então, tudo que Platão fez foi criar uma coisa com certas
propriedades que, por sua vez, têm que ser explicadas. O que a Forma do
Cachorro e o cachorro terreno têm em comum, ele pergunta-se. Todavia,
certamente isso deixa passar a sutileza da teoria de Platão, porque as
Formas não são realmente coisas, mas essências. A ideia é a de que todos
os cachorros do mundo compartilham a propriedade de serem cães, ou
são cães, para dizer de forma mais simples. Fim do problema, graças ao
uso das palavras. Bem, talvez…

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


202  Parte III: O Feijão com Arroz da Filosofia

Teoria da suposição
William de Okham (1285–1347), apelidado de leva as pessoas a usarem a palavra huma-
o Médico Mais que Sutil, foi um monge fran- nidade e, então, os filósofos supõem que
ciscano que nasceu perto de Guildford, na humanidade é uma qualidade que todas as
Inglaterra, mas que trabalhou principalmen- pessoas possuem.
te próximo a Oxford. Ele foi imortalizado pelo
Pare aí!, diz Okham, brandindo sua navalha.
poder da linguagem: a Navalha de Ockham
Para ele, em contrapartida, a palavra huma-
recebeu seu nome. Não se trata de uma na-
nidade é meramente um tipo de marcador
valha de cortar cabelo, mas da regra de ra-
mental que se aplica a todas as pessoas que
ciocínio também conhecida como técnica da
você conhece ou de quem ouviu falar menos
parcimônia. Colocando de forma simples, a
suas outras características (específicas, in-
regra diz que, dada uma gama de possíveis
dividuais, coletivas). Dessa forma, a teoria de
explicações, deve-se escolher a mais sim-
Okham propõe-se a explicar como as pala-
ples. Mais pessoas deveriam escutar isso!
vras que se usa em uma frase, que ele cha-
A abordagem faz um contraste com aqueles ma de termos, referem-se às coisas. Infeliz-
a partir de Aristóteles, que gostam de gerar mente não é por isso que a teoria é também
novas categorias e distinções. Mas o aspec- chamada de teoria da suposição, ao contrá-
to da navalha que nos diz respeito é a abor- rio, esse rótulo está atado, por assim dizer,
dagem de Okham para o nominalismo, ou porque originalmente, em latim, a palavra su-
questões acerca do uso apropriado da lin- posição significa apoiando e se aproxima da
guagem (um nominalista é uma pessoa que referência em português (em latim, suppone-
acha que o que os cachorros têm em comum re, ou colocar alguma coisa sob outra, para
é apenas o uso da palavra — isto é, que são servir de apoio). (Pense em teoria de apoio.)
chamados de cachorros).
Okham teve grande influência na teorização
A contribuição de Okham foi criar uma distin- de outros filósofos ingleses — como Thomas
ção entre palavras sobre palavras e palavras Hobbes e John Locke — sobre a linguagem.
que apontam para palavras. Sua conclusão Por todo seu trabalho afincado sobre isso
é de que muitos erros filosóficos surgem (e outros assuntos), ele foi convocado pelo
devido à má compreensão da linguagem. papa em 1324, não para uma boa conversa,
Grandiosos termos filosóficos são os pio- mas para encarar acusações de heresia!
res culpados, em sua visão. Por exemplo, Outras diferenças com a Igreja pouco depois
tentar pensar nos seres humanos em geral levaram esta a excomungá-lo.

Ser cão, nesse sentido, embora seja útil, ainda é claramente abstrato. As
Formas de Platão não existem no sentido normal. Então, os filósofos, dos
céticos gregos em diante, buscaram descartar essas entidades inventadas
— criações metafísicas — e atêm-se a um universo mais simples, composto
de apenas palavras e coisas. Palavras são rótulos colados nas coisas, e as
ideias não entram aí. Faz sentido. Mas esse truque resolve o problema? Não

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


Capítulo 11: Interpretando a Linguagem   203
mesmo, porque o problema com a abordagem é que as palavras perdem
seus significados. Então, no século XVII, os filósofos retomaram a noção de
signos de Aristóteles: tornar as palavras signos para ideias e as ideias em si,
signos para coisas.

Isso segue em um círculo contínuo (como a filosofia sempre faz) e bem fútil.

Construindo o estruturalismo
O estudo sistemático da linguagem e seu papel nas sociedades floresceram
em uma disciplina quase científica no século XIX. A figura fundadora
da disciplina foi o linguista suíço Ferdinand de Saussure (1857–1913).
Saussure disse que a língua era um sistema de signos que eram, em si,
completamente arbitrários.

Contudo, o trabalho de Ferdinand de Saussure só se tornou realmente


uma tendência na segunda metade do século XX (aqueles loucos
anos 1960!), quando um belo novo ismo, o estruturalismo, decolou
(confusamente, muitas pessoas o chamam de estudo da estrutura de
linguagem semiótica, em vez de estruturalismo! Esse foi o termo preferido
do filósofo americano Charles Pierce).

A ideia original de Saussure era a de que é a estrutura da língua, em


oposição às regras da lógica, que explica como se pensa e se fala. Sua
noção de signo e da língua como um sistema, chamada de semiologia,
ressuscitou uma distinção mais antiga entre a estrutura da língua, que
agora ele chama de langue, e manifestações da língua, chamadas parole.
O jogo de xadrez é uma forma de ilustrar isso: as regras só existem
abstratamente, mas seu incorporamento é um jogo em particular. Da
mesma forma, a língua é um sistema de signos que as pessoas usam para
expressar ideias — comparável à escrita, à linguagem de sinais para
pessoas surdas e rituais simbólicos. O signo, é claro, é arbitrário. É apenas
um sistema que dá aos signos seus significados.

No século XX, o filósofo e antropólogo francês Claude Levi-Strauss


redescobriu a linguística estrutural e aplicou-a à cultura como um todo,
como antropólogo. Ele acreditava que, por a língua ser uma característica
distintiva da humanidade, ela também definia fenômeno cultural.
Se falamos de humanidade, falamos de linguagem; e se falamos de
linguagem, falamos de sociedade. Os estruturalistas olharam abaixo da
superfície das palavras para descobrir o sistema significante oculto — a
langue. Todos os problemas filosóficos tornaram-se problemas de análise
de sistemas de signos que estruturavam o mundo.

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


204  Parte III: O Feijão com Arroz da Filosofia

Um sistema de signos
A ideia central da teoria de Ferdinand de Saus- linguagem (que se saiba, você não deve levar
sure é que o significado das palavras e frases essa comparação muito longe; sinais de trân-
tem mais a ver com a relação com outras pa- sito não são inteiramente arbitrários ou, mesmo
lavras e frases do que com algo fora do siste- que sejam, é melhor não tratá-los dessa forma).
ma — digamos, objetos ou acontecimentos do Saussure defende que existe uma língua nas
mundo. Ele insiste, em oposição, na arbitrarie- mentes de seus usuários, mas que é, por sua
dade do signo. Palavras são símbolos, como vez, “bem independente do indivíduo, essen-
sinais de trânsito são símbolos. Seu significa- cialmente social; pressupõe a coletividade”.
do vem de sua função no sistema ou jogo de

Os estruturalistas explicaram o mundo à nossa volta dizendo que as pessoas


separam o continuum do espaço e do tempo, com o qual estão rodeados em
segmentos, de forma que estejam predispostos a pensar no ambiente de certas
formas. Por exemplo, as pessoas estão habituadas a enxergar o mundo como
consistindo de várias coisas separadas que pertencem a classes nomeadas e tirar
um sentido da mudança, vendo um fluxo monodirecional de tempo carregando-
as (com eventos) suave e inexoravelmente do passado para o futuro.

Outro filósofo francês do século XX, Michel Foucault, desenvolveu a


abordagem defendendo que o poder opera por meio de estruturas sociais
complexas, incorporando a visão de que o conhecimento e a verdade
estavam longe de serem fixos, estavam constantemente mudando. Ele foi,
em alguns aspectos, o primeiro pós-estruturalista.

Posteriormente, o um pouco mais jovem contemporâneo francês de Foucault,


Jacques Derrida, tentou derrubar o edifício do estruturalismo quando escreveu
que suas criações eram meramente imaginários metafísicos. Buscar uma
ciência dos signos, tentar tirar um sentido da relação entre palavras e coisas, era
irrelevante, ele disse, como a sugestão de Descartes (feita para explicar como a
mente pode influenciar a matéria quando as duas coisas não têm absolutamente
nada em comum) de que o corpo e alma caminham juntos como dois relógios
sincronizados. Derrida prossegue queixando-se de que a forma como os filósofos
usaram conceitos historicamente e as alegações da filosofia para lutar com a
verdade são pretensas. Todo o exercício, ele diz, não era nada além de lero-lero
— nada mais do que uma forma de fazer coisas com palavras.

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


Capítulo 11: Interpretando a Linguagem   205

Confiando na gramática
A filosofia da linguagem começa convencionalmente com a discussão
dos gregos antigos (eu também fiz isso!); porém, o primeiro tratamento
filosófico da questão provavelmente vem não da tradição ocidental, mas
da oriental. Já em 380 a.C. toda uma escola dos primeiros lógicos tinha
interesse na relação entre a linguagem e a realidade, que era conhecida
como Escola Chinesa de Nomes. E (como eu menciono no Capítulo
6) o célebre pensador Chuang Tzu certa vez comparou a linguagem a
uma rede de pesca que tenta capturar significados (visto que as palavras
individuais são inúteis, elas adquirem significados apenas em contexto e
na combinação com outras) e perguntou se existem quaisquer diferenças
entre “piadinhos de bebês pássaros” e as palavras das pessoas.

Ainda outro filósofo chinês, Kung-Sun Lung (cerca de 320–250 a.C.),


argumentou que um cavalo branco não é um cavalo, dizendo que a
palavra “cavalo” denota a forma, e “branco” denota a cor:

O que denota a cor não denota a forma. Portanto, um cavalo branco


não é um cavalo.

Do que ele está falando? Bem, Kung-Sun Lung, então, explica que ele quer
dizer que, se um cavaleiro pede um cavalo, seu escudeiro trará um branco,
ou um amarelo, ou um preto. Contudo, se ele pedir um cavalo branco, então
seu escudeiro não trará nem um cavalo amarelo, nem um preto. Isso prova,
Kung-Sun Lung diz, que um cavalo branco não é um cavalo, porque se fosse,
então qualquer que fosse o que o escudeiro trouxesse teria que ser o mesmo.

Antigos filósofos indianos também estavam confusos com o papel das


palavras. A Gramática Sânscrita de Panini (cerca de 350 a.C.) e o Patanjali,
200 anos depois, foram especialmente as primeiras tentativas de se
estabelecer regras para o uso da língua. Mas é com o filósofo budista
Nagarjuna (que viveu por volta de 150–250 d.C.) que o debate indiano
torna-se mais verdadeiramente filosófico. Uma das ideias de Nagarjuna foi
a de que a linguagem não se refere a coisas, mas é autorreferencial. Por
exemplo, dizer que “Filosofia é difícil” é tautológico (isto é, algo que diz
a mesma coisa duas vezes), pois, sem a referência à filosofia, o ato de ser
difícil não ocorre e, da mesma forma, se você tirar a propriedade de ser
difícil da filosofia, ela já não é mais o mesmo tipo de assunto!

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


206  Parte III: O Feijão com Arroz da Filosofia

Semântica e semiótica
Semântica é o estudo dos signos linguísticos, Semiótica é a teoria geral que cuida dos
particularmente a interpretação das frases e signos, neste caso, distinguindo ícones,
das palavras das linguagens. Em Fundamen- como imagens que parecem o que elas de-
tos da Teoria dos Signos (1938), o filósofo vem representar (típico de sinais de trân-
americano Charles Morris dividiu o estudo da sito que indicam o deslizamento de terra
relação entre os signos em três partes: o es- e assim por diante), sinais naturais (como
tudo da relação de signos com outros signos, nuvens cinzas significando chuva) e sinais
que tem a ver com a sintaxe, comunicação ou convencionais (como o trevo de quatro fo-
a relação dos signos com seus usuários, que lhas significando boa sorte).
é a pragmática, e a relação dos signos com as
coisas que representam, que é a semântica.

Fazendo jogos de palavras


Os filósofos, há muito tempo, brincam com a linguagem, esperando tirar sentido
dela ou mesmo remodelá-la em algo melhor. Duas das tentativas mais diligentes
nesse sentido foram feitas, respectivamente, por Gottfried Leibniz e (alguns
séculos depois) Bertrand Russell, que achavam possível e desejável construir
uma linguagem artificial para exibir melhor a forma lógica dos argumentos.

Russell e a linguagem artificial


Bertrand Russell, que achava possível e desejável construir uma linguagem
artificial para exibir melhor a forma lógica dos argumentos.

Em uma época em que os cientistas estavam falando muito sobre criar


tipos de compostos (principalmente plásticos, infelizmente) a partir de
elementos químicos, Russell falava de criar proposições moleculares
de átomos lógicos e Leibniz já havia passado várias décadas felizes
descrevendo possíveis arranjos complexos de suas mônadas. Como parte
disso, Leibniz explicou que as mônadas, como os “átomos”, não existem
realmente, mas devem ser postuladas, feitas, pelo menos na lógica, para
explicar a realidade e entender a significância da linguagem.

Russell, contudo, alertou contra esse grandioso “sistema de construção” e


preferiu enfatizar a necessidade de identificar a estrutura lógica da língua
e as formas confusas nas quais ela poderia diferenciar da gramática. Por
exemplo, de quantas formas o é pode ser usado? Russell disse que era uma

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


Capítulo 11: Interpretando a Linguagem   207
desgraça se usasse-se o é em mais de uma forma. Muito melhor, ele pensou,
dividir todas as formas diferentes de utilizar o verbo mais importante.
Ele organizadamente lista vários usos diferentes (embora sua lista seja
ligeiramente diferente daquelas de especialistas filosóficos anteriores, como
a de Aristóteles, de Aquino, de Duns Escoto…). Quantas listas podem ser
feitas das maneiras como as pessoas usam o é?! De qualquer forma, tendo
anunciado firmemente a necessidade de separar os estranhos modos como
as pessoas podem realmente utilizar as palavras e a linguagem, Russell
nunca seguiu sua ideia. Porém, a ideia, sim, tornou-se, posteriormente, o
projeto de um aluno de doutorado, Wittgenstein (veja a seção a seguir).

Wittgenstein e os jogos de linguagem


Na realidade, foi Wittgenstein, em suas aulas em Cambridge, em meados
do século XX, que empregou pela primeira vez, aparentemente, o termo
jogos de linguagem. É claro que na época não eram jogos de verdade,
mas meramente formas filosoficamente curiosas de as pessoas usarem a
linguagem. Os exemplos preferidos de Wittgenstein eram coisas como “dar
ordens” e “pedir, agradecer, maldizer, cumprimentar, rezar” (como ele
coloca em seu livro Investigações Filosóficas, 1953). Então por que chamar
isso de jogos de linguagem? Ah, mas o termo quer dizer “destacar que falar
uma língua é parte de uma atividade”, Wittgenstein explica. Nem sempre
as palavras fazem a mesma coisa ou têm o mesmo propósito. Nem apenas
transmitem pensamentos passivamente de uma mente à próxima, como
pensamentos sobre o clima, o tempo ou os últimos resultados do críquete.

Um pequeno exemplo de como as palavras não necessariamente


significam uma coisa foi proposto por outro professor de filosofia britânico,
altamente influenciado por Wittgenstein, chamado Peter Geach (1916–
2013). Geach foi, na verdade, uma metade de um raro casal filosófico,
com Elizabeth Anscombe (1919–2001, também conhecida como G.E.M.
Anscombe), cuja obra filosófica (de iniciativa dela) incluiu destruir os
documentos de Wittgenstein para ocultar sua homossexualidade. Geach,
contudo, tem uma influência mais direta na filosofia britânica, no sentido
em que ele produziu livros abomináveis e artigos travestidos de linguagem
técnica, como Referência e Generalidade (1962), no qual procurou
demonstrar que a palavra todo em afirmações como “todo cachorro tem
quatro patas” não se refere a um cachorro em especial. Qual cachorro?,
você pode se perguntar. Por que o todo cachorro, que alguns poderiam
achar que de outra forma teria essa característica interessante?

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


208  Parte III: O Feijão com Arroz da Filosofia

Estruturas linguísticas
Rudolf Carnap (1891–1970) foi um aluno de questões em matemática e lógica e obter
Frege, o lógico preocupado com as questões respostas verdadeiras objetivamente, mas,
de sentido e referência, e um influente mem- fora dessas áreas, apenas os métodos da
bro do chamado Círculo de Viena nos anos observação científica eram úteis. Contudo,
1930. Seu tema particular foi o de que as ele reconheceu que mesmo lógicos e ma-
discordâncias filosóficas eram na realidade temáticos baseiam-se em suposições que
produzidas por diferenças entre estruturas não podem ser justificadas por nada mais
linguísticas. Sua abordagem é às vezes cha- rigoroso que o julgamento da praticidade
mada de empirismo lógico e suas ideias apa- ou expediente e que também a ciência tem
receram em Der logische Aufbau der Welt (A suas suposições. Em A Sintaxe Lógica da
Estrutura Lógica do Mundo, 1928). Linguagem (1934), ele explica que “não é
responsabilidade nossa estabelecer proibi-
Rudolf acreditava firmemente que as pes-
ções, mas chegar a convenções”.
soas poderiam discutir racionalmente

Conduzindo Investigações Filosóficas


com Wittgenstein
A posição de Wittgenstein na filosofia da linguagem é bem grandiosa; pelo
menos, se você ler livros escritos por seus colegas de Oxbridge, no Reino
Unido. Isso talvez se dê porque sua posição não é bem clara ou, para ser
mais preciso, é totalmente incoerente e contraditória.

Em princípio, como diz seu livro Tractatus, deveria ser possível construir
uma nova linguagem logicamente rigorosa. É claro que essa nova linguagem
não lidará com muitos assuntos, porque, como ele (famosamente) diz no
livro, “onde um não pode falar, outro deve ficar em silêncio” e:

A maioria das proposições e questões que foram escritas sobre assuntos


filosóficos não é falsa, mas sem sentido. Portanto, nós não podemos
responder perguntas desse tipo de jeito nenhum, mas apenas dizer que
são sem sentido. A maioria das questões e proposições dos filósofos
resulta do fato de que nós não entendemos a lógica de nossa linguagem.

Esse é o tipo de linguagem que diz que filósofos posteriores deram a


Wittgenstein o crédito de ser a inspiração e um dos líderes do Círculo de
Viena — o grupo informal de filósofos do entre guerras que se dedicava a
tornar a razão filosófica tão lógica e científica quanto possível. Mas isso é

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


Capítulo 11: Interpretando a Linguagem   209
um mito. Wittgenstein era um jovem zé-ninguém à época e, de qualquer
forma, acreditava firmemente que existia uma realidade superior, mística,
que nem a linguagem, nem a lógica poderiam alcançar.

Em parte por conta dessas crenças, após publicar Tractatus, sua juvenil receita
para colocar o mundo em uma bela estrutura lógica, Wittgenstein tentou
deixar a filosofia. Mas, certamente, após alguns anos, ele retornou, assumindo
uma cadeira em Cambridge. E, embora ele não tenha se comprometido
novamente a lançar nada, muitas de suas anotações, comentários e aulas
foram posteriormente compiladas e publicadas. É nesse material que
Wittgenstein descreve a linguagem como uma série de jogos linguísticos
interligados, em que as palavras e frases podem atuar de várias formas
diferentes e sutis: como ações, símbolos e comandos. Palavras, ele diz
(tomando emprestado, sem conhecimento, como era seu estilo, do grande
estruturalista suíço Ferdinand de Saussure), são como peças em um jogo de
xadrez, assumindo seu significado apenas no contexto do jogo.

Isso é uma reviravolta. Em um aparte em Investigações Filosóficas,


Wittgenstein pesarosamente reconhece:

É interessante comparar a multiplicidade de ferramentas na


linguagem e das formas como são usadas, a multiplicidade dos tipos
de palavra e frase com que os lógicos falaram sobre a estrutura da
linguagem (inclusive o autor de Tractatus Logico-Philosophicus).

Mexendo em Termos de Cores com Pinker


Em tudo isso, filósofos como Ferdinand de Saussure e Wittgenstein estavam
tentando libertar-se da antiga suposição de que a língua meramente se
seguia ao pensamento, o que, por sua vez, dependia de leis da lógica ou
razão, que deveriam ser as mesmas para todos, não importa que linguagem
usasse. Foi essa convicção que mantinha Russell lutando com a tarefa de
produzir o que ele chamava de fundamento lógico.

Mas você pode olhar as coisas de outra forma e deixar a linguagem


bem desimportante e, em contrapartida, tentar conectar pensamentos à
realidade — direta.

Um passo à frente, então, Steven Pinker, um filósofo contemporâneo


que normalmente se descreve mais como um cientista cognitivo
(bem ciente do poder da linguagem!), explica, em seu livro Instinto da
Linguagem, que a ideia de que o pensamento é o mesmo que a linguagem
é um exemplo do que se pode chamar de absurdo convencional.
Pinker, proveitosamente, esboça a ciência (negligenciando o papel da
consciência, na qual os cientistas cognitivos não acreditam):

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


210  Parte III: O Feijão com Arroz da Filosofia

…as células do olho são conectadas a neurônios de uma forma que


faz com que estes reajam [a certas cores]. Não importa quão influente
a linguagem possa ser, seria um disparate para um fisiologista que ela
pudesse atingir a retina e reconectar as células ganglionares.

E Pinker novamente:

A ideia de que a linguagem modela o pensamento era plausível


quando os cientistas não sabiam como o pensamento funciona ou
mesmo como estudá-lo. Agora que cientistas cognitivos sabem como
pensar sobre o pensamento…

A hipótese do professor Pinker é de que o cérebro humano funciona como


um tipo de computador, uma máquina de processamento de símbolos que
converte dados, sejam linguísticos ou sensoriais, de acordo com regras
predeterminadas, conectadas biologicamente.

No cérebro pode haver três grupos de neurônios, um usado para


representar o indivíduo de que trata a proposição (Sócrates, Rod
Stewart e assim por diante), um para representar a relação lógica
da proposição (é um, não é, parece e assim por diante) e um
para representar a classe ou tipo em que o indivíduo está sendo
caracterizado (homens, cães, galinhas e assim por diante). Cada
conceito corresponderia à ativação de um neurônio em particular;
por exemplo, no primeiro grupo de neurônios, o quinto neurônio
poderia ser ativado para representar Sócrates, e o décimo sétimo
para representar Aristóteles; no terceiro grupo, o oitavo neurônio
poderia ser ativado para representar homens, e o décimo segundo
para representar cães. O processador poderia ser uma rede de outros
neurônios se alimentando desses grupos, conectados de tal forma
que reproduzisse um padrão de ativação em um grupo de neurônios
em outro grupo… Com muitos milhares de representações e um
conjunto de processadores um pouco mais sofisticados… você
poderia ter um cérebro ou computador genuinamente inteligente.

Isso, diz Pinker, é a:

…teoria “computacional” da mente. Nessa visão, realmente há uma


cor vermelha codificada no cérebro (em “mentalês”), mesmo que a
linguagem que as pessoas utilizem não a tenha.

E agora Pinker joga sua carta coringa contra todas aquelas teorias rivais,
que tentam colocar uma barreira linguística entre pensamentos na cabeça
e dados sensoriais sendo recebidos. Sua arma secreta contra tudo isso é o
que ele chama de “A experiência irrefutável conduzida nas montanhas de
Nova Guiné por Eleanor Rosch”, em 1972.

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


Capítulo 11: Interpretando a Linguagem   211
Brincando com cores
Então, vamos para as montanhas de Nova Guiné. E lá, o povo Dani,
como Eleanor Rosch descobriu, tem apenas dois termos para cor. Há
mola para cores vivas e quentes e mili para cores escuras e frias. Visto
que os tribais só reconhecem essas duas cores, algumas pessoas ficam
tentadas a referir-se a elas simplesmente como “preto e branco”, como
o próprio professor Pinker as chama. Contudo, a professora Rosch
descobriu que os danis eram bons em diferenciar o espectro de cores em
testes; então, parecia que sua falta de palavras para cores era irrelevante
para sua percepção. Fim da história, até onde Rosch está preocupada.
Mas não tão rápido! Pois mesmo a pesquisa de Rosch deixou a desejar.
Metodologicamente, seus testes, que envolviam parear cores em tabelas,
parecem ter sido inadvertidamente enviesados precisamente na direção
das cores típicas das categorias de um falante da língua portuguesa —
azul, vermelho, verde e assim por diante —, sobrepondo-se aos tons
distribuídos em volta deles. Então, o teste foi tão complicado que meros
20 por cento dos danis conseguiu completá-lo.

Na realidade, pareceu bem o contrário. As percepções das pessoas são


influenciadas por seus vocabulários — e sua estrutura linguística.

Investigando as Causas de Incêndios


com Benjamin Whorf
Benjamin Lee Whorf nasceu em Winthrop, Massachusetts, em 24 de
abril de 1897, o mais velho de três meninos. Seu pai, Harry Whorf, foi
evidentemente um pouco polímata cultural, ganhando a vida como
artista comercial, autor, fotógrafo, cenógrafo e dramaturgo. Sua mãe,
Sarah, encorajou Benjamin em “um grande senso de maravilhamento”
com o universo, como colocou seu biógrafo, Trager. O jovem Benjamin
era fascinado por criptogramas e desafios e lia muito sobre botânica,
astrologia, história mexicana, arqueologia maia e fotografia. Na vida
adulta, ele entrou na antropologia por meio de uma rota incomum da
física e muitas outras coisas de nome complicado, como sincronicidade
junguiana, teoria de sistemas, psicologia da gestalt (com seu anteprojeto e
sua experiência) e, sobretudo, a linguística.

Mas Whorf só conseguia seguir seus estudos nas horas vagas e em viagens de
ônibus. Pois seu trabalho era bem mundano — investigador e engenheiro
em uma empresa de seguro contra incêndios. Entretanto, o tempo no
trabalho não era ,de forma alguma, desperdiçado. Dentro de seu trabalho,
cruzou com muitos exemplos do que, posteriormente, enxergaria como a
linguagem influenciando padrões de pensamento, e sua teoria linguística

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


212  Parte III: O Feijão com Arroz da Filosofia

apareceu em diversos artigos influentes em torno do assunto prevenção


de incêndio. As pessoas, ele observou no primeiro deles, tendiam a ser
descuidadas na proximidade de tambores vazios de gasolina e tambores
vazios de petróleo, mas igualmente cheios de vapores mais explosivos do
que o líquido. Ele notou como as pessoas eram complacentes com águas
residuais industriais e um composto à base de calcário (spun limestone),
ambos, novamente, inflamáveis e perigosos, a despeito da inofensividade
que as palavras água e pedra (stone) transmitem.

Seu livro Linguagem, Pensamento e Realidade não tem um título muito


interessante e, de muitas formas, o assunto de Benjamin Whorf não é muito
promissor, sendo sobre a estrutura e a natureza da linguagem. Mas, em
poucas palavras, eis a essência da filosofia, a estranha, imprecisa, porém
absolutamente crucial, forma em que as três coisas se relacionam. Lembre-
se de que o grande filósofo chinês Chuang Tzu mostra-a muito gentilmente
em um de seus apartes metafóricos — a linguagem, ele disse, é como uma
rede de pesca jogada nas águas da realidade, útil para pescar “significados”.
Pensamentos, conceitos são peixes escorregadios, e nós precisamos da rede
da linguagem para capturá-los. Mas a própria rede é um meio para um fim.

A filosofia chinesa antiga não é muito conceituada na filosofia acadêmica,


muitas vezes eu perdi por número de votos sobre sua relevância e
importância em discussões com filósofos. A obra de Benjamin Whorf, que
nunca foi um acadêmico de verdade, mas meramente um investigador em
uma companhia de seguro contra incêndio, também não é. Essas pessoas,
é claro, não produzem teorias importantes, então as ideias de Benjamin
Whorf não são levadas muito a sério. Sua grande ideia, entretanto, que
ele chamou de Princípio da Relatividade Linguística, foi renomeada (e,
assim, recebeu novo crédito) por seu supervisor acadêmico, Edward Sapir,
como Hipótese Sapir-Whorf. Quantos estudantes de graduação tiveram
suas ideias tomadas por professores? Mas, na realidade, eu não acredito
que Sapir particularmente quisesse fazer isso; era, provavelmente, mais
um tipo de preconceito institucional de que um certo tipo de pessoa
terá ideias muito importantes e distorcer o mundo para encaixar essa
suposição. Benjamin Whorf não se adequava à imagem de professor de
filosofia, então seus trabalhos não poderiam ter sido muito importantes.
Sua ideia, entretanto, foi de algum interesse; logo, deve ter sido por conta
de outra pessoa. E, assim, deve-se renomear a ideia. Lá se vai o Princípio
da Relatividade Linguística e vem em seu lugar a Hipótese Sapir-Whorf.

Agora a coisa legal (ainda que levemente irônica) sobre tudo isso é que ilustra
exatamente o que Whorf queria mostrar: que o mundo é construído em torno
dos termos que as pessoas usam. As pessoas fazem isso o tempo todo — quando
se diz “forças aliadas minimizaram danos colaterais”, ou o “Primeiro Ministro
divulgou as reformas na cidade de Londres” não se descreve qualquer coisa
objetivamente, mas transmite-se toda uma série de suposições psicológicas e
culturais. Essa foi a ideia que Whorf transmitiu muito elegantemente.

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


Capítulo 11: Interpretando a Linguagem   213

Encontrando Relatividade Linguística


entre os Índios Hopi
Em seu livro (bem, não estritamente falando seu livro, mas meramente uma
compilação tardia de seus ensaios feita em nome dele), Whorf examina as
estruturas linguísticas dos índios americanos. Ele usa as estruturas deles para
ilustrar sua ideia (que não se origina com as línguas indígenas, mas com seu
trabalho investigando as causas de incêndios) de que as pessoas dissecam a
natureza por linhas traçadas por suas línguas nativas. Ele diz:

As categorias e tipos que isolamos do mundo dos fenômenos não as


encontramos lá, porque eles encaram cada observador fixamente;
ao contrário, o mundo é apresentado em um fluxo caleidoscópico de
impressões, que devem ser organizadas por nossas mentes — e isso
significa grandemente pelos sistemas linguísticos em nossas mentes.
Nós separamos a natureza, organizamo-la em conceitos e atribuímos
a ela significados nesse ínterim, em grande medida porque somos
partes em um acordo que está conectado à nossa comunidade de
fala e é codificado em padrões de nossa língua.

O acordo é, claro, “implícito e não declarado”, Whorf continua, mas “seus


termos são absolutamente obrigatórios; nós não podemos falar de forma
alguma a menos que nos inscrevamos na organização e na classificação de
dados que o acordo decreta”.

Garantindo que todos os mundos sejam relativos


Benjamin Whorf não inventou a ideia da completamente impossível sem a linguagem
relatividade linguística, que não é, propria- e que esta determinava totalmente o pensa-
mente dita, uma ideia particularmente nova. mento (não é de forma alguma a posição de
Na verdade, é bem antiga, mais antiga que Whorf). A teoria de von Humboldt ganhou
a variedade na física, remontando ao fun- nova vida após a demonstração da relativi-
dador da linguística do século XIX, barão dade do espaço e tempo, de Einstein. O pró-
Wilhelm von Humboldt, na Alemanha. O pró- prio Einstein citou a teoria de von Humboldt
prio barão via o pensamento como sendo em um programa de rádio.

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


214  Parte III: O Feijão com Arroz da Filosofia

Essa, então, é a teoria e é apoiada por uma riqueza de exemplos


fascinantes e pesquisa escrupulosa. É curioso, portanto, que o trabalho
de Whorf seja universalmente desconsiderado. Em filosofia, como
observei na seção anterior, ele é excluído do panteão; dentro da
disciplina nominal da linguística de Whorf, Noam Chomsky descreve
seu trabalho como “completamente prematuro” e “desprovido de
precisão e ‘popularizadores’”, e Stephen Pinker explica que a ideia de
Whorf de que o pensamento é o mesmo que a linguagem (não que seja
isso que Whorf diz, é claro) é um exemplo do que “pode ser chamado
de um absurdo convencional”.

Em outro de seus ensaios, Whorf acrescenta:

Na visão [dos] hopi, o tempo desaparece e o espaço é alterado,


de forma que não seja mais o espaço homogêneo e instantâneo
atemporal de nossa suposta intuição ou da clássica mecânica
newtoniana. Ao mesmo tempo, novos conceitos e abstrações
fluem na imagem, assumindo a tarefa de descrever o universo
sem uma referência como o tempo ou o espaço — abstrações
para as quais faltam à nossa língua termos adequados. Essas
abstrações… indubitavelmente parecerão para nós como
psicológicas ou místicas em caráter…

Desconstruindo a Linguagem
Novamente com Derrida
Jacques Derrida nasceu em Algiers e, após algumas transições educacionais
conturbadas, acabou na elitista École Normal Superieur, em Paris, onde
também lecionou. Seu livro sobre o filósofo existencialista alemão Edmund
Husserl, Voz e Fenômeno (1967), estabelece a maioria de suas ideias, inclusive
sua noção de desconstrução. A década de 1960 (pense no poder das flores
e os hippies) foi uma época muito boa para que acadêmicos aderissem
à reviravolta das estruturas convencionais, se tal radicalismo, talvez, não
estivesse um pouco antiquado. De qualquer forma, os desconstrucionistas são
radicais intelectuais que dizem que devem ser jogados fora todos os frutos da
filosofia: epistemologia, metafísica, ética — toda a caixa de maçãs. Afinal, são
produtos de uma visão de mundo com raízes em “falsas oposições”, como a
científica de é/não é, o tempo cronológico passado/futuro e a ética do bom/
ruim. Derrida explica que, juntas, todas as alegações e contra-alegações de
outros pensadores e filósofos, teorias e achados não passam de elaborados
jogos de palavra. Eles vêm brincando, como ele coloca, de lero-lero conosco.
Lero-lero, ei! Isso significa fazer bagunça com palavras… Não é permitido.

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


Capítulo 11: Interpretando a Linguagem   215
Em oposição, a desconstrução preocupa-se com a categoria que chama de
totalmente outra e em impedir a violenta exclusão da alteridade.

Derrida toma o projeto de Ferdinand de Saussure para descrever o


funcionamento da linguagem e o desconstrói para mostrar que, na busca
por uma lista de distinções entre a escrita e a fala, o pai do estruturalismo
inadvertidamente produziu uma — é arbitrária na forma, material
e relativa — que se aplica tanto à fala quanto à escrita. A diferença
entre a fala e a escrita é, assim, revelada como nada mais que uma
ilusão filosófica (veja como a desconstrução astuciosamente toma as
suposições ocultas em um texto e põem-nas contra elas mesmas).

Derrida, então, tenta desenvolver uma suposta concepção radicalmente


diferente da linguagem que começa de algo bem alarmante,
chamado “irredutibilidade da diferença para a identidade”, daí
trazendo uma concepção correspondentemente diferente de
responsabilidade ética e política.

Seguindo sua bem-sucedida desconstrução da distinção de fala/escrita,


ele procura destruir aquela de alma/corpo de Descartes (veja o Capítulo
5), para derrubar a diferença entre as coisas que a mente sabe e as coisas
que os sentidos sabem e para rejeitar distinções entre literal e metafórico,
criações naturais e culturais, masculino e feminino e mais.

Outro filósofo do século XX que lutou dolorosamente com o


existencialismo foi Martin Heidegger, que, assim como foi um dos
protegidos de Husserl, também foi uma grande influência para muitos
intelectuais franceses, inclusive Derrida. Em particular, de Heidegger,
Derrida também tira a noção de presença. Ele diz que a tarefa central da
filosofia é destruir essa noção. As pegadas de Heidegger também estão
no conceito de ser e na diferença entre seres e ser, que ele chama de
diferença ôntico-ontológica e descreve em extensão heroica em um livro
chamado Identidade e Diferença.

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


216  Parte III: O Feijão com Arroz da Filosofia

Qual a diferença entre


différance e différence?
Há muita competição entre filósofos para -se como a história da razão como um
criar novos termos de nome complicado. desvio da escrita. Assim, ela difere de si
Mas foi Edmund Husserl, contudo, que criou mesma para reapropriar a si mesma.
um dos “grandões” — o termo de sonorida-
E você achava que a linguagem tinha a tudo a
de alarmante fenomenologia transcendental,
ver com comunicação! Tem a ver com feitiço.
observando que:
De qualquer forma, essa é a origem de diffé-
Razão é o logos que é produzido na his- rance, o trocadilho preferido de Derrida, assu-
tória. Ela transpassa o ser, tendo a si mindo os dois sentidos, de diferir em posição
própria em vista, para parecer para si (no espaço) e deferir ou ceder com o tempo
mesma, isto é, para afirmar e ouvir a si — isto é, defer-ência (qual a diferença entre
mesma como logos… Ao emergir de si différance e différence, como no título do box,
mesma, ouvir a si mesma falar constitui- aliás? Não há uma! É apenas “lero-lero”…).

Derrida não é realmente um grande filósofo; na verdade, ele é ruim.


Mas, ei, um monte de gente estuda-o, então vamos ter um gostinho do
seu tipo de filosofia.

Em Gramatologia, ele diz:

Todos os dualismos, todas as teorias da imortalidade da alma ou


do espírito, bem como monismos, espiritualistas ou materialistas,
dialéticos ou vulgares, são o tema único da metafísica cuja história
inteira foi compelida a lutar em direção à redução do traço. A
subordinação do traço à plena presença resumida nos logos, a
humildade de escrever sob uma fala sonhando com plenitude,
assim são os gestos exigidos por uma ontoteologia determinando
o significado arqueológico ou escatológico do ser, como presença,
como parousia, como a vida sem différance: outro nome para morte,
metonímia histórica onde o nome de Deus detém a morte.

É um grande jogo para Derrida, e ele não se faz de rogado a esse respeito,
admitindo não só inventar palavras novas quando quer, mas utilizando as
existentes de forma que ninguém mais o faz. É isso que se chama “Humpty
Dumptying” às vezes — inspirado no grande ovo parado na parede em
Alice no País das Maravilhas — e diz firmemente que as palavras significam
o que ele quiser que elas signifiquem. Que se saiba, Derrida não considera
que faz isso. Em Semiologia e Gramatologia, ele retorna às suas velhas

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


Capítulo 11: Interpretando a Linguagem   217
raízes estruturalistas, admitindo que as palavras são uma rede interligada
ou tapeçaria — ou, como ele coloca (novamente com trocadilho!), têxtil.

A função de diferenças supõe, em efeito, sínteses e referentes que


proíbem, a qualquer momento ou em qualquer sentido, que um
elemento simples esteja presente em si ou de si, referindo-se apenas
a si. Seja na ordem do discurso falado ou escrito, nenhum elemento
pode atuar como signo sem se referir a outro elemento que, em si,
não esteja simplesmente presente… Essa interligação, esse têxtil, é
o texto produzido apenas na transformação de outro texto. Nada,
nem entre os elementos, nem entre o sistema, está em qualquer
lugar simplesmente presente ou ausente. Há, em todos os lugares,
diferenças e traços de traços.

De fato, Derrida defende que não pode haver significado, visto que
nada é fixo dentro da grande rede da linguagem, ou mesmo vida e
percepção. Tudo é miragem ou, pior, um tipo de “poeira fina” residual
deixada para trás pela destilação de suposições político-sexuais —
termos carregados como é em oposição a não é, ou mim que se opõe a
ti. Devemos destruir a rede de palavras!

Confuso? O que exatamente Derrida está dizendo? Ninguém sabe,


nem mesmo o próprio Derrida. Ele certa vez declarou, em sua “Carta a
um Amigo Japonês”, que nunca é possível dizer que a desconstrução
“é isso e aquilo” ou “a desconstrução não é isso nem aquilo”, pois a
construção da oração já seria falsa.

Um tradutor, Alan Bass, que pode ser visto como um entusiasta, diz que
Derrida é “difícil de ler”. Não só por virtude de seu estilo, mas também
porque “ele deseja seriamente desafiar as ideias que governam a forma
como nós lemos… Algumas das dificuldades podem ser resolvidas
alertando o leitor”.

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


218  Parte III: O Feijão com Arroz da Filosofia

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


Parte IV

Explorando a Mente,
a Consciência e a
Moralidade

“As pessoas sempre perguntam ao Darren por que


ele se tornou budista.”

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


Nesta parte...
A gora nós estamos começando a chegar no ponto. O que
exatamente acontece em nossas cabeças? Como teorias
médicas sobre os cérebros humanos encaixam-se em teorias
filosóficas sobre mentes desincorporadas? O que neste mundo
poderia ser essa força que nós, agora, descobrimos manipular
pessoas ao nosso redor como marionetes? Somado a isso, quem teria
pensado em arranjar o mundo assim, pelo amor de Deus? Todas
essas grandes questões, de valores pessoais a julgamentos políticos
e mecanismos ocultos da economia e da vida social, são expostas,
reveladas e explicadas aqui.
Bem, talvez isso esteja indo longe demais, mas vamos começar
assim mesmo.

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


Capítulo 12

Explorando a Estranha
Noção de Mente
Neste Capítulo
XX
Acordando para as diferentes formas de estar acordado
XX
Refletindo sobre refletir
XX
Sendo apresentado ao outro

A mente é o atributo dos deuses e de muito poucos homens.

– Platão

M ente é uma coisa esquisita quando se pensa a respeito. Você tem certeza
de que possui uma mente e pode usá-la, mas e quanto às pessoas
ao nosso redor? E quanto aos animais, plantas e pedras? Se você acredita
que plantas e pedras não possuem mentes, então em que ponto da escala
evolucionária os humanos começaram a pensar? Se seres humanos evoluíram de
formas mais simples de vida, tais formas possuem mentes, também?

Neste capítulo, observamos questões estonteantes como o que queremos


dizer por “pensar”. É algo que os computadores fazem? E quanto àquela
sensação geral de existência que parece que todos nós temos – uma coisa
chamada “consciência”? Pode-se ser consciente sem, exatamente, pensar,
mas pode-se estar vivo sem ser consciente? Esses são os tipos de questões
que este capítulo irá desenvolver.

Tentando Entender a Filosofia da Mente


Segundo uma antiga escola de filósofos conhecidos como pampsiquistas,
até as pedras têm mentes, e a única coisa diferente nos humanos é
que, com o passar dos anos, eles ficaram cada vez mais complexos, e
o que uma vez foram mentes simples desenvolveram-se até as atuais,
ligeiramente mais impressionantes.

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


222  Parte IV: Explorando a Mente, a Consciência e a Moralidade

Consciência
Descartes deixou um legado de consciên- todos os processos das atividades mentais
cia como característica crucial do conheci- humanas da alma, e, daí, parte de ser cons-
mento, mas também o problema de se essa ciente, e todas as atividades animais em
coisa crucial era um fenômeno mental ou reações inconscientes pré-programadas de
físico. Certamente a consciência é algo difí- máquinas. Porém não ofereceu boas razões
cil de definir. Parece haver algum sentido na para essa separação e, hoje em dia, tais
noção, mas é uma forma de fala interna ou, análises (embora amplamente adotadas) pa-
meramente, uma série de reações automáti- recem superficiais.
cas a estímulos? O próprio Descartes tornou

A questão-chave para a filosofia da mente (como é chamada) não é


o estudo prático de como a mente funciona (que os estudiosos agora
separam como psicologia), mas se algo merece o nome de qualquer forma.
Se há um sentido nesse termo, então, quando eu digo “eu acho que posso
ver o sol aparecendo”, não relato meramente alguma sensação de fótons
ou seja lá o que esteja chegando aos meus olhos, mas um evento mental.
Ainda assim, as duas coisas estão ligadas. Isso causou muita angústia aos
filósofos no decorrer dos séculos.

Olhando a questão pela outra perspectiva, como era, os filósofos


consideraram o que resta quando se separa a mente de todas as suas
fontes de informação sensorial. Se você estiver meramente processando
informação sensorial em sua mente e alcançar um ponto em que isso pare
(talvez após um acidente terrível, e vamos levar em conta também que
nós tenhamos perdido a memória), pareceria que não resta muito para a
mente seguir em frente em qualquer sentido. De forma bastante sinistra, os
médicos talvez tenham que julgar se há algo que mereça ser chamado de
mente ou estar vivo com vítimas de coma quando precisam decidir quando
desligar as máquinas de manutenção da vida.

Hoje em dia, os filósofos da mente também abordam questões levantadas


pelos diferentes tipos de conteúdos que os fenômenos mentais podem
incluir, como dores e coceiras; ou ver cores e cheirar flores; ou as
impressões deixadas depois de imagens e sonhos e assim por diante.
Eles também questionam a respeito dos diferentes tipos de pensamentos
envolvidos em processos mentais, como acreditar, ter esperança ou
(mais importante de todos para muitas pessoas!) querer. Esses processos
mentais são muito mais sutis do que a maioria dos processos sensoriais.
Como os psicólogos sabem, as ações das pessoas são impulsionadas por
um misto de motivações, e as pessoas nem sempre estão plenamente

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


Capítulo 12: Explorando a Estranha Noção de Mente   223
conscientes dessas motivações. O filósofo político (e agitador) Friedrich
Engels observou isso em uma carta para um de seus amigos, escrevendo
que “ideologia é um processo alcançado pelo chamado pensador,
mas com uma consciência falsa. As verdadeiras forças motivadoras,
compelindo-o, permanecem desconhecidas para ele; de outra forma,
simplesmente não seria um processo ideológico”. Em um certo sentido,
todas as consciências são falsas.

Testando o Problema de Pesky de


Outras Mentes
Aquela citação de Platão (que abre o capítulo) é apenas uma de duas
visões diferentes que o mestre tinha da “mente”. Nós podemos supor que
ele mudou de ideia! Mas, na realidade, Platão é cheio de afirmações muito
profundas que se contradizem. Talvez por isso que sejam tão profundas.
No diálogo chamado Timeu, Platão parece pensar que a característica
das mentes é conter conhecimento. É por isso que são os deuses os
verdadeiros possuidores de mentes.

A outra forma de pensar as mentes, contudo, é como coisas que


meramente sentem impressões, que “põem tudo em ordem e organizam as
coisas da melhor forma”, como Platão coloca em outro diálogo, chamado
Fédon. É a essa visão que o contemporâneo mais jovem de Platão e meio
que aluno (ele tenta discordar de Platão em tudo, lembre-se), Aristóteles,
apega-se. De fato, Aristóteles torna a mente um tipo de órgão sensorial:
como o ouvido é a parte do corpo que escuta, a mente é a parte que
recebe “essências”. Por exemplo, quando você olha para um tomate
vermelho, seu olho vê a cor e seus dedos sentem a forma, mas é sua mente
que vê o verdadeiro tomate.

No último livro De Anima, que não significa “dos animais”, mas “forças que
dão ânimo (ou algo assim), Aristóteles escreve:

A mente, como temos descrito, é o que é por virtude de tornar-se


todas as coisas, enquanto há outra que é o que é pela virtude de
fazer todas as coisas: isso é um tipo de estado positivo, como a
luz; pois, em um sentido, a luz torna cores potenciais em cores de
fato. A mente nesse sentido é inseparável, impassível, não mista...
Quando a mente é libertada de suas condições presentes, ela aparece
somente como é e nada mais; isso, por si só, é imortal e eterno (nós,
no entanto, não nos lembramos de suas atividades prévias, pois,
enquanto a mente nesse sentido é impassível, a mente passível é
destrutível) e, sem isso, nada pensa.

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


224  Parte IV: Explorando a Mente, a Consciência e a Moralidade

Essa passagem causou muitos problemas a tradutores posteriores e


comentaristas. Dan O’Connor, um dos últimos, diz que é justo dizer que
ninguém sabe o que isso significa. Mas São Tomás de Aquino identificou a
mente, como descrito por Aristóteles, como a alma imortal cristã, e outros
disseram que a noção de mente de Aristóteles é Deus. Naturalmente,
ninguém concorda com qualquer um, mas o tema parece bom quando
jogado em conversas.

Examinando a mente com mais conforto,


um tempo depois
O próximo grande passo na filosofia da mente foi dado por René
Descartes. Então, pule para quase 2.000 anos depois e sua pequena
fornalha na França. Infelizmente, o resultado final da ponderação de
Descartes foi deixar a mente e o corpo completamente separados, o que
criou dois problemas terríveis para filósofos subsequentes:

UUComo saber que outras pessoas — quanto mais animais, plantas e


tudo mais — têm pensamentos ou sentimentos? Isso é normalmente
chamado de problema das outras mentes.
UUComo alguém pode ser afetado por outrem? Como minha mente pode
falar à minha boca para dizer “por favor, passe a mostarda” sem possuir
algum mecanismo físico — digamos, sinais elétricos — para fazê-lo?

Mas Descartes não permite que a mente crie pequenos sinais elétricos
ou qualquer outra coisa física. Ela tem que ser, é claro, mente pura,
pensamento puro. Uma coisa boa a esse respeito, para Descartes e muitos
religiosos, é que a mente pode sobreviver à morte do corpo. De fato, sendo
inteiramente não física, ela dificilmente pode fazer de outra forma.

A ideia de Descartes, no final das contas, é que se se pode ter certeza


de alguma coisa é de que “há pensamentos”, e esses pensamentos
aparecem em uma mente, que ele presumiu (incorretamente, a maioria
dos filósofos acha) ser a mente dele. Assim, aqui está outro problema da
mente. Se tudo que se pode saber são os pensamentos em sua própria
cabeça (como parece), então como saber se a pessoa que reage àquele
pedido feito acima (“Por favor, passe a mostarda”) também tem uma
mente, descodificou as ondas de som em pensamentos e, depois, optou
(livremente também) por passar a mostarda? Como saber se a outra
pessoa que reage não é, na verdade, apenas uma máquina que responde
passivamente, quimicamente ou qualquer coisa a estímulos físicos?

Na época de Descartes, ele ofereceu um exemplo de um complicado


mecanismo de relógio disfarçado de computador, mas hoje em dia pode
ser usado um exemplo muito mais plausível — um computador em uma

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


Capítulo 12: Explorando a Estranha Noção de Mente   225
sala (veja em seção posterior “Fazendo computadores realizarem testes
na Sala Chinesa”). Como saber se todo mundo ao seu redor não é um
computador complicado? Na verdade, não se sabe, e vários cientistas de
fato acham que todos nós somos somente máquinas complicadas. Lá se
vai a mente pela janela!

Mas não é o que parece. Você realmente pensa que pensa e, se o faz,
por que não outras pessoas também o fazem? É por isso que outros
filósofos, como Espinoza, concluíram que a melhor forma de resolver as
contradições nisso tudo era tornar tudo mente e tudo eterno. As pedras e
sua tia Sandra são ambas aspectos da mente, assim como Deus: tudo feito
exatamente da mesma coisa.

Na realidade, Espinoza defendia que a mente e a matéria (ou em sua


terminologia, pensamento e extensão) eram aspectos de Substância, que
ele também chama de “Deus” ou “Natureza”. Essa teoria recebeu seu
próprio nome — a Teoria do Duplo Aspecto. Sai o dualismo, entra
o duplo aspecto!

Encontrando o outro misterioso


Uma razão que os filósofos viram para pensar que outras pessoas são
como você e têm mentes e pensamentos como você é simplesmente que
as outras pessoas se comportam como você. Ponha um chocolate no pires
de chá de seu amigo e ele irá devorá-lo. Cutuque alguém nas costas e ele
reclamará. Outras pessoas agem como você; logo, elas provavelmente
são o mesmo tipo de coisa que você. Isso é normalmente chamado de
argumento da analogia. Muitas pessoas se contentam em deixar esse
argumento encerrar o assunto das “outras mentes”. Se quer saber, meu
cachorro age assim também. Ponha um chocolate em sua cumbuca e ele
irá devorá-lo. Cutuque-o nas costas e ele reclamará! Mas muito poucas
pessoas têm certeza de que cachorros e pessoas pensam da mesma forma.
Descartes certamente não pensava, insistindo que a analogia certa para
fazer com cachorros era a com relógio mecânico — não pessoas!

Isso me leva a uma das poucas piadas que existem na filosofia, que
é o argumento behaviorista para a existência de outras mentes. O
behaviorismo é uma teoria psicológica que diz que a única medida ou,
devemos dizer, a única medida significativa para se ter certeza do que se
passa na mente de outra pessoa é vendo o que essa pessoa faz. Então um
convidado que veio para o jantar pode dizer que gosta de sua surpresa de
couve-flor, em termos convencionais, relatando a visão de sua mente —
mas, se na realidade ele deixá-la no canto do prato sem comê-la, é melhor
ter uma abordagem behaviorista e dizer que não gostou do seu prato
especial. Os behavioristas sempre foram astutos em tentar experiências

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


226  Parte IV: Explorando a Mente, a Consciência e a Moralidade

cruéis, especialmente com animais, então você pode seguir aquele estilo
de investigação filosófica forçando seu convidado a comer a couve-flor. Se
o convidado ficar, então, enjoado, você pode dizer que isso confirma que
ele, na verdade, não gostou, apesar de ter dito o contrário (sem dúvida em
um esforço tolo de ser educado).

Mas essa não é a piada; aqui está ela: dois behavioristas fazem sexo
(é claro que os behavioristas não “fazem amor”). Depois, o primeiro
behaviorista diz “Isso foi ótimo para você — como foi para mim?”.
Entendeu? (o behaviorista tenta descobrir como as pessoas pensam
observando reações/comportamento).

Muitas pessoas criticam o behaviorismo. Essas pessoas certamente


percebem que estar com dor envolve, bem, sentir dor e que há uma
diferença entre ter uma dor de dente e meramente querer sair do trabalho
mais cedo. Isso é o que o filósofo britânico John Stuart Mill escreveu sobre
o assunto em Exame da Filosofia de Sir William Hamilton (1889):

Eu concluo que outros humanos têm sentimentos como eu, porque,


primeiro, eles têm corpo como eu, o que eu sei, em meu próprio caso,
que é a condição antecedente aos sentimentos e porque, em segundo
lugar, eles exibem atos e outros sinais externos, que ,em meu próprio
caso, sei por experiência que são causados por sentimentos.

Estou consciente por mim mesmo de uma série de fatos


conectados por uma sequência uniforme, da qual o começo
é a modificação de meu corpo, o meio são os sentimentos e
o fim são comportamentos externos. No caso de outros seres
humanos, tenho a evidência de meus sentidos para a primeira e
a última ligação da série, mas não para a intermediária. Eu acho,
entretanto, que a sequência entre a primeira e a última é tão
regular e constante naqueles outros casos quanto é no meu. No
meu próprio caso, sei que a primeira ligação produz a última por
meio da intermediária, e não poderia produzi-la sem esta.

A experiência, portanto, obriga-me a concluir que deve haver uma


ligação intermediária, que pode ser a mesma nos outros como é
em mim ou diferente: eu devo acreditar por estar vivo ou por ser
autômata e, acreditando que estão vivos, isto é, apoiando que a
ligação seja da mesma natureza daquela que eu vivencio, e que em
todos os outros aspectos é similar, eu ponho outros seres humanos,
como fenômenos, sob a mesma generalização que eu sei por
experiência que são a verdadeira teoria de minha própria existência.

Mill era tanto lógico como economista, então seu relato é um tanto seco.
No continente europeu, as pessoas tinham uma visão mais nuançada do
que poderia se passar nas mentes de outras.

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


Capítulo 12: Explorando a Estranha Noção de Mente   227
Na filosofia europeia moderna (um termo que não possui um conteúdo
particular, mas certamente inclui ideias desconcertantes e obscuras como
as do desconcertante e obscuro Edmund Husserl), o outro é todo mundo
exceto você, o ego. O filósofo francês do século XX, Emmanuel Levinas,
defende que toda a ética se encontra no respeito à “alteridade do outro”.
Ele escreve em Totalidade e Infinito (1961):

O outro absoluto é o Outro. Ele e eu não formamos um número. A


coletividade em que eu digo “você” ou “nós” não é plural de “eu”.

Fazendo computadores realizarem


testes na Sala Chinesa
Uma das melhores experiências de pensamento da filosofia é aquela da
Sala Chinesa, proposta pelo filósofo americano contemporâneo John
Searle. Na verdade, a ideia por trás da experiência não é de Searle, mas do
célebre quebrador de código britânico da Segunda Guerra Mundial, Alan
Turing, que desenvolveu os primeiros verdadeiros comparadores e sugeriu
que, quando não se pode distinguir a diferença, após um questionário
prolongado, entre falar com uma máquina ou com um ser humano, deve-
se considerar que tal máquina possui inteligência.

O teste, originalmente chamado de “Teste de Turing”, em que


computadores estão em uma sala, pessoas em outra e um terceiro grupo
de testadores humanos em outra, é comumente conduzido hoje em dia.
Os testadores podem comunicar-se com as outras pessoas ou com os
computadores apenas digitando as perguntas em teclados. Visto que,
após um período pensando em perguntas e discutindo pontos de vistas,
os testadores não conseguem distinguir computador de humano, deve-se
admitir que o computador possui inteligência.

Searle, contudo, não queria admitir qualquer coisa a computadores de


forma alguma, então acrescentou o aspecto chinês, que na realidade não
ajuda muito, porque muralhas chinesas significam barreiras imaginárias à
comunicação com o propósito de privacidade. Por exemplo, você pode
fingir que existe um Muralha da China em um banco, entre as mesas dos
negociadores de ações e as dos reguladores.

De qualquer forma, a experiência da Sala Chinesa ainda trata basicamente


de computadores — não de chineses, nem de muralhas, nem de salas.
Dito isso, a versão de John Searle começa com ele oferecendo-se para
ser trancado na sala imaginária com uma pilha de ideogramas chineses.
Searle, então, pede para você imaginar o que aconteceria se, de tempos
em tempos, alguém fora da sala colocasse perguntas em chinês na caixa
de correspondências para que ele escolhesse e retornasse respostas.

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


228  Parte IV: Explorando a Mente, a Consciência e a Moralidade

Searle começa seu relato dizendo que ele “não sabe nada de chinês, seja
escrito ou falado” e que, para ele, “a escrita chinesa é só um monte de
rabisco sem significado”. Então você pode esperar que suas respostas às
perguntas em chinês sejam apenas tentativa e erro. Mas agora suponha
que, à medida que acontece, algumas instruções são coladas na parede,
escritas em português, que explicam precisamente qual ideograma colocar
de volta, não importa qual seja entregue para ele. Agora, quando alguém
põe uma pergunta na caixa de correspondência, um momento depois
Searle pode devolver a resposta correta. E, para a pessoa fora da sala, pode
certamente parecer que a pessoa dentro da sala tanto entende chinês
como entende as perguntas.

Todavia, as aparências, nesse caso, podem ser enganosas, ou, pelo menos,
é isso que Searle quer que você conclua. Sua meta é provar que tal pessoa
em tal sala não entende chinês. É por isso que ele começou a experiência
dizendo que “não sabe nada de chinês, seja escrito ou falado”. Parece uma
boa forma de ganhar uma discussão!

E, visto que os computadores operam de forma análoga, Searle, então,


prosseguiu dizendo que não é muito preciso dizer que computadores são
inteligentes ou que entendem coisas, mesmo que produzam respostas
aparentemente inteligentes.

Então o experimento mostra que computadores não pensam — que não


são parte de um misterioso outro? A experiência é bem convincente em
mostrar que a pessoa na sala não entende chinês. No entanto, como Searle
coloca: “do ponto de vista externo — isto é, do ponto de vista de alguém
fora da sala onde estou trancado — minhas respostas às perguntas são
absolutamente indistinguíveis daquelas de falantes nativos de chinês”.

Mas o que parece que o professor Searle esqueceu é que não é tanto
que a pessoa dentro da sala parece saber chinês, mas que todo o
sistema — pessoa na sala, conjunto de símbolos em cartões, mais
instruções coladas na parede — dá a impressão de entender chinês.
E isso é muito mais plausível. Afinal, quem quer que tenha escrito as
instruções entendia chinês.

O que parece mais provável de ter acontecido nesse exemplo é que o


conhecimento do autor das instruções foi transferido, por meio de regras
escritas, para a pessoa na sala. Se a configuração for então substituída por
um computador, programado com as regras, assim sendo, o conhecimento
do falante de chinês foi transferido, pelo menos em alguns casos, para a
máquina. Visto dessa maneira, é muito mais difícil para Searle, ou qualquer
outra pessoa, negar que o computador possui algum conhecimento ou
entendimento. Até porque hoje em dia você pode ser tratado em hospitais,
receber conselhos de carreira ou saber onde escavar para encontrar ouro,

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


Capítulo 12: Explorando a Estranha Noção de Mente   229
em quem jogar bombas, ou seja, o que for, por computadores executando
“sistemas especializados” de regras e procedimentos retirados do
conhecimento humano.

Inteligência altamente artificial


Na década de 1960, Joseph Weizenbaum, um pesquisador de inteligência
artificial no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), desenvolveu
alguns programas que aceitavam linguagem natural de um usuário, que
digitava em uma máquina de escrever e respondia com o que parecia
ser uma linguagem natural por meio de uma impressora. O mais célebre
desses programas foi o Eliza, que foi modelado com base na psicoterapia.
Eliza geralmente retornava o que quer que as pessoas digitassem em uma
ordem ligeiramente diferente, talvez tendo selecionado uma palavra-
chave. Embora o programa fosse simples, ele tornou-se muito popular.
Os psiquiatras adotaram-no como a base para sessões de terapia reais. Os
usuários tornaram-se apegados e dependentes de Eliza, e os aficionados
por computadores citavam-na como exemplo de como computadores
poderiam aprender a “falar”.

Após essa experiência, Weizenbaum concluiu que computadores não


deveriam ser autorizados a dar respostas que parecessem humanas. “O
que eu não havia percebido é que uma exposição extremamente curta
a um programa de computador relativamente simples poderia induzir
um poderoso pensamento ilusório em pessoas normais”, ele observou
tristemente. Esse alerta, que tem mais a ver com a psicologia humana do
que com qualquer outra coisa, todavia teve pouco efeito.

Wizenbaum descreve tudo isso em um artigo de 1964, chamado


“Contra o Imperialismo da Razão Instrumental”. As respostas puramente
aleatórias de sim e não para um paciente plenamente consciente, diz
Weizenbaum, são interpretadas como pensamento profundo, refletindo
a aura que o computador possui para muitos. Weizenbaum esperava
demonstrar que os computadores pareciam falar sem compreensão
do conteúdo do que diziam. Esse foi um debate conduzido a partir do
desafio da Segunda Guerra Mundial de Alan Turing a pesquisadores que,
quando não se pode dizer a diferença, após um questionário prolongado,
entre se está se falando com uma máquina ou um ser humano, deve-se
considerar que a máquina tem inteligência.

Filósofos como John Searle (veja a seção anterior) buscaram oferecer


razões para não dar a meras máquinas coisas tão boas, mas a vitória do
computador na mente do público reflete-se pelo hábito (observado pelo
pedagogo e psicólogo Jerome Bruner) das pessoas de compararem-se
cada vez mais a máquinas processadoras de informações. As pessoas
imaginam os dados entrando em sua unidade de processamento, o
cérebro, que os separa em várias partes da memória e manipula-as

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


230  Parte IV: Explorando a Mente, a Consciência e a Moralidade

seguindo regras internas — do mesmo jeito que fazem os computadores!


Desde o início da década de 1980, um pôster do governo britânico
mostrava o ser humano como tendo uma memória de 2.048.000 kilobytes
(isso é só dois megabytes — aproximadamente uma música em um iPod
— mas na época parecia muita coisa!).

Tentativas de criar verdadeiras “máquinas pensantes” originalmente


seguiram uma abordagem “de cima para baixo”, usando complexas
regras programadas, muito como resultado da influência de Marvin
Minsky e Seymour Papert nos EUA. Sua influência no final da década de
1960, ridicularizando as tentativas de modelar sistemas biológicos para
fazer com que computadores imitassem a arquitetura física e biológica
do cérebro, junto com hardwares disponíveis, resultou na nova ciência
da inteligência artificial tentando a emulação de características do
raciocínio humano.

Redes neurais
Não muito depois, entretanto, a inteligência artificial (veja a seção
anterior) abandonou a abordagem baseada em regras organizadas por
uma mais irracional, orgânica.

Redes neurais tornaram-se muito mais elegantes, como seus advogados


fazendo alegações magníficas de seus poderes. Uma rede neural é
uma série de elementos processadores simples baseados em chips de
memória, conectados uns aos outros e a vários “inputs” e “outputs”.
As informações são inseridas nesses inputs e a atividade resultante é
monitorada. As relações entre as partes são “mexidas” até que certos inputs
sempre produzam um output desejado. Dessa forma, diz-se que a rede
neural “aprende”. A primeira rede neural comercial, construída por Igor
Aleskander e outros em Londres, foi empregada com sucesso encontrando
componentes defeituosos em linhas de produção e distinguindo cédulas
em bancos. Sistemas de inteligência artificial baseados em regras foram,
em contraste, muito mal no reconhecimento de formas e padrões.

Certamente parece que os computadores podem, agora, ser inteligentes


afinal, se por inteligente queira-se dizer capaz de responder perguntas
traiçoeiras; mas o filósofo contemporâneo (ou “cientista cognitivo”,
se preferir) Marvin Minsky alegou, em nome dos humanos, que falta
aos computadores bom senso. Ou, colocando de outra forma, os
computadores são bons em pensar precisamente, mas apenas os humanos
são bons em pensar abstratamente.

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


Capítulo 12: Explorando a Estranha Noção de Mente   231

Explorando o Existencialismo com o


Fantasma na Máquina de Ryle
Gilbert Ryle usou a expressão “fantasma na máquina”, em seu livro O
Conceito de Mente (1949), como parte de seu ataque ao que ele chamou
de “mito” de Descartes — isto é, a visão de que a mente é um tipo de
fantasma misteriosamente enterrado em uma máquina (o corpo físico),
com todos os problemas lógicos e existenciais que ela traz consigo
(existencial no sentido de que o fantasma de Descartes habita um universo
diferente do corpóreo). Isso, o professor Ryle sobriamente alertou, é um
erro de categoria; ou seja, o erro de tratar algo como se pertencesse a uma
categoria quando, na realidade, pertence à outra. Perguntar como a mente
pode influenciar o corpo é como perguntar qual é a cor do número 5. A
pergunta resulta de um mal-entendido anterior e de confusão da questão.
Nós podemos simpatizar com Ryle aí!

Ryle defendia que as noções tradicionais de vontade, imaginação,


percepção, pensamento e assim por diante estão todas contaminadas pelo
cartesianismo (em particular, a visão de que há dois tipos diferentes de
coisas no universo — mente e matéria) e deve-se alijar esse “fantasma na
máquina” por um tipo de modelo behaviorista de como a mente funciona.
É, ele diz, um tipo de erro de categoria tratar fenômenos mentais da
mesma forma que se tratam fenômenos físicos — ações não são feitas das
duas partes que Descartes propõe, a ideia mental e a ação física, mas são
apenas uma parte: comportamento (behaviour).

Ryle, como muitos de seus contemporâneos, viu-se manipulando as


ferramentas da análise lógica para resolver e esclarecer todas as outras
questões filosóficas, à maneira do celebrado iconoclasta e rebelde
filosófico da Universidade de Cambridge, Wittgenstein.

Atendo-se ao seu senso de


identidade pessoal
Então, quem é você? A sua mente é sua ou de outra pessoa? Talvez os
demais tenham mentes de fato e as pessoas sejam apenas um tipo de
automação — como Searle em sua sala chinesa trancada (veja seção
anterior, “Fazendo computadores realizarem testes na Sala Chinesa”)
—, respondendo às suas necessidades. Ridículo? Sim, mas, como ideia,
teve uma atração considerável no continente (particularmente na
França e na Alemanha).

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


232  Parte IV: Explorando a Mente, a Consciência e a Moralidade

Sentindo-se existencial novamente


Uma das escolas mais extravagantes da filosofia recente, os existencialistas,
acusa de fingimento aqueles que não estão em seu campo, ou de não
serem verdadeiros em seus próprios eus e de exibir má-fé. O francês
antenado, Jean Paul Sartre (1905–1980) zomba da burguesia com seus
confortáveis sensos de dever; homossexuais que fingem ser heterossexuais
e, o mais famoso de todos, garçons que se apressam. Todas essas
pessoas, ele diz, são escravas da percepção das outras — com medo da
consideração do outro e, assim, exibindo má-fé —, não sendo verdadeiras
consigo mesmas, mas deixando que outras pessoas decidam para elas
como devem ser.

Saiba que Sartre, assim como seu mentor, Karl Marx, sempre foi um
homem de letras, não um homem de ação. Criado na França rural, Jean
Paul descreve-se como tendo passado a maior parte de sua infância na
biblioteca de seu avô e sua adolescência em faculdades de elite da França,
emergindo apenas para se tornar professor.

Quando a Segunda Guerra Mundial chegou e interrompeu sua


intelectualização, Sartre tornou-se meteorologista no exército e, quando
a França se rendeu aos nazistas vitoriosos, viu-se prisioneiro de guerra,
embora com uma correia longa que lhe permitia liberdade para
organizar sua primeira peça e mesmo o retorno à filosofia. Quando a
guerra terminou, ele decidiu abandonar a vida de professor e escolheu
ser escritor e intelectual.

A filosofia de Sartre é característica de todos os existencialistas em


enfatizar o uso da imaginação. Sartre diz que somente no processo de
exercitar a imaginação — imaginando o que poderia ser — que se é
verdadeiramente livre.

Ele enfatiza o que não é acima do que é, sendo este último uma
tarefa meio que prosaica, consistindo dos tipos de fatos que os
cientistas examinam, enquanto o que não é é realmente muito mais
interessante. Em O Ser e o Nada (1943), ele resume sua visão (se é que
“resumir” é em algum momento uma palavra apropriada para a escrita
existencialista) assim:

A Natureza da consciência é simultaneamente ser o que não é e


não ser o que é. E é aí que nossa busca por identidade, identidade
pessoal, chega a um fim. Nós existimos, sim, mas o importante é
como “nos definimos”?

E, para ilustrar o significado dessa pergunta, Sartre dá seu famoso


exemplo do garçom:

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


Capítulo 12: Explorando a Estranha Noção de Mente   233
Seu movimento é rápido e adiantado, um pouco preciso demais,
um pouco rápido demais. Ele vem em direção aos fregueses
com um passo um tanto rápido demais. Ele inclina-se um
pouco ansiosamente demais; sua voz, seus olhos expressam
um interesse um pouco solícito demais ao pedido do cliente.
Finalmente ele retorna, tentando imitar em seu caminhar a
rigidez inflexível de algum tipo de autômata enquanto carrega
sua bandeja com a despreocupação de quem caminha na corda
bamba, colocando-a em um equilíbrio perpetuamente instável,
perpetuamente quebrado que ele perpetuamente restabelece por
um leve movimento da mão e do braço.

Essa passagem é um tanto esnobe para o meu gosto (desdenhando dos


trabalhadores?), mas as pessoas frequentemente a aclamam como se
oferecesse a luz para a consciência, e certamente é parte do que tornou o
nome de Sartre o de um pensador original. Mas algumas pessoas acham
que ele mesmo estava mostrando um pouco de má-fé quando alegou ter
pensado nessa ideia.

Tomando emprestado de Simone de Beauvoir


Curiosamente, outro livro que saiu em 1943, Ela Veio para Ficar, foi da
companheira e confidente intelectual de vida inteira de Sartre, Simone de
Beauvoir, e ela também descreve vários tipos de consciências, em termos
muito similares aos de Sartre.

O livro muito menos conhecido de Simone de Beauvoir oferece descrições


existencialistas clássicas de como é caminhar por um teatro vazio (o
palco, as paredes, as cadeiras, incapazes de vir à vida até que haja um
público) ou observar uma mulher em um restaurante ignorar o fato de que
seu companheiro começou a apertar seu braço (“Ela fica lá, esquecida,
ignorada, a mão do homem estava apertando um pedaço de carne que já
não pertencia a ninguém”) — bem como esta:

“É quase impossível acreditar que outras pessoas são seres


conscientes, cientes de seus próprios sentimentos internos, como nós
mesmos somos cientes dos nossos”, disse Françoise. “Para mim, é
terrível quando o compreendemos. Temos a impressão de não mais
sermos nada senão uma fábula da mente de outro alguém.”

Parece que alguém andou copiando alguém! E Simone de Beauvoir


escreveu seu livro anos antes do de seu parceiro (mesmo que ainda
não tivesse sido publicado). Que bonito! Na verdade, Sartre chega a
registrar em seu diário como Beauvoir teve que corrigi-lo várias vezes
por seu entendimento atrapalhado da filosofia. Se você já se perguntou
por que todos os “filósofos famosos” são homens, este é um exemplo de
como esse fato estranho acontece. Sartre simplesmente tomou todas as

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


234  Parte IV: Explorando a Mente, a Consciência e a Moralidade

ideias de Beauvoir emprestadas e utilizou-as sem reconhecimento em


seu próprio trabalho (se você estiver interessado no relacionamento
filosófico, veja o relato de Kate e Howard Fullbrooks, de 1994, Simone de
Beauvoir and Jean-Paul Sartre).

Outra explicação para que Simone de Beauvoir tenha generosamente


emprestado todas as suas ideias para seu parceiro pode ser de que ela,
diferentemente de Sartre, reconhecia suas fontes. Ela estava ciente de que
muitos elementos do existencialismo não eram novos, mas, ao contrário,
vinham da tradição filosófica oriental. E, o mais importante, aquela noção
essencial existencialista do outro.

Pegue o budismo, por exemplo. Quando se trata de pensar “no outro”,


o ponto de vista budista tende, como o comentarista James Whitehill
colocou, em matéria de eu e comunidade, a ser “biocêntrico e
ecológico”. Bio quê? Abraçar árvore, verdinho, amorzinho. Ou, como
ele continua, o budismo não começa com o “eu substancial, separável
e distintivo” tanto da filosofia como da religião ocidental. Dito isso,
o posterior desenvolvimento de Beauvoir da noção para classificar a
mulher como “o outro” em uma sociedade dominada pelo homem foi, e
continuou sendo, dela mesma.

Descobrindo a Vontade para Filosofar


Tradicionalmente, como os professores de filosofia gostam de dizer (para
reassegurar os nativos), a vontade é um tipo de faculdade mental, ou
atributo da mente, com a útil capacidade de tomar decisões, escolher,
decidir e inventar. Além do mais, os filósofos (tradicionalmente) viam essa
faculdade como sendo peculiarmente humana — como se animais não
pudessem tomar decisões ou ter ideias!

A razão pela qual os filósofos achavam que a vontade deve ser peculiar
aos humanos era que as atividades como decidir e ter uma ideia pareciam
envolver a criação de algo novo e escapar de restrições tanto do que foi
quanto do que é atualmente. Então não é de se espantar que Immanuel
Kant (veja o Capítulo 5) tenha enfatizado a importância da vontade em
seus escritos sobre certo e errado, dizendo que são o que suas ações dizem
sobre suas intenções que importam, não as consequências de suas ações.
Diga isso a uma pessoa que você atropelou enquanto corria com o carro
para ajudar na quermesse da igreja! De qualquer forma, felizmente, a
filosofia da vontade foi auxiliada, logo depois de Kant fazer sua pequena
contribuição, por outro filósofo alemão, Schopenhauer, que nasceu em
meio a uma era peculiarmente frutífera para a filosofia alemã (os inimigos
de Schopenhauer eram mais velhos e melhores: Immanuel Kant, que

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


Capítulo 12: Explorando a Estranha Noção de Mente   235
viveu de 1724 a 1804; Georg Hegel, 1770–1831 e Johan Fichte, 1762–1814; o
próprio Schopenhauer viveu de 1788 a 1860).

Então o que é esse negócio que nós chamamos de vontade? É volição,


instinto, desejo — chame do que você tiver, er..., vontade —, a força básica
que direciona a vida. Não há nada por trás disso — nenhuma estratégia,
nenhuma razão, nenhum propósito. A vontade está fora do espaço e do
tempo; afinal, ela os cria, cria regularidades, aparências. A vontade é
primária, ela varre a percepção diante de si, dita todas as ações. Ela até
mesmo direciona a evolução, e não o contrário, como Darwin supunha.
Schopenhauer inclusive diz que os animais refletem sua vontade em suas
formas — a timidez do coelho torna-se física por meio das grandes orelhas,
sempre prontas para detectar o menor sinal de ameaça. Similarmente,
o cruel bico do falcão e suas garras refletem seu constante desejo por
destroçar outras criaturas.

A vontade também é irracional; ela pode criar a razão, mas de nenhuma


forma é atrelada a ela. Tanto a vontade de viver como a vontade de ter
filhos são irracionais, um ponto que ele ilustra com referência a um tipo
de formiga particularmente terrível que vive na Austrália, que adora um
canibalismo, especialmente depois do sexo. A mensagem da formiga da
Austrália — e de Schopenhauer — é que a vida é insignificante, que a
realidade é que o nascimento deve rapidamente levar à morte, e a única
atividade útil entre uma e a outra parece ser produzir filhos que possam,
então, repetir o ciclo — não que isso dê ao ciclo muito propósito.

De qualquer forma, para Schopenhauer, apenas a vontade existe. Ela


precede e sucede o indivíduo — é indestrutível. Na realidade, existe um
elemento de livre-arbítrio, que surge nos atos que se escolhem livremente,
entre comer outras formigas ou fazer sexo. Mas deve-se descobrir quais
escolhas foram feitas, um ponto que os existencialistas franceses e
alemães repetiram posteriormente (Schopenhauer queixa-se de que a
valiosa tentativa de Kant de demonstrar que as pessoas são fins em si
mesmas é mero egotismo). Os humanos, Schopenhauer amargamente
conclui, são como tantas moscas de maio — criadas um dia e mortas no
próximo, deixando apenas seus ovos. A natureza tem usos apenas para
espécies, não para indivíduos e, na realidade (pergunte aos dinossauros),
frequentemente nem mesmo para as espécies.

Em um tom mais positivo, até mesmo a morte é uma ilusão.


Schopenhauer também escreve sobre a necessidade de penetrar o “véu
de Maya” para ver a realidade comum da vontade, que é o Maharakya,
ou “Grande Mundo”, sabedoria hindu (Schopenhauer é um dos
pouquíssimos filósofos a usar igualmente referências a obras orientais
como ocidentais). É por isso que a dor é a norma e a felicidade, a
exceção. É do budismo também que vem sua solução: nada. Nada é

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


236  Parte IV: Explorando a Mente, a Consciência e a Moralidade

exatamente o melhor que se pode obter. Nada, afinal, é o significado


literal de nirvana, que é o que os budistas dizem que todos buscam.

Em seu ensaio, Da Vaidade da Existência, Schopenhauer explica:

A vaidade da existência é revelada na forma plena que


a existência assume: na infinitude do tempo e do espaço
contrastada com a finitude do indivíduo em ambos; no presente
fugidio como a única forma em que a realidade existe; na
contingência e na relatividade de todas as coisas em contínuo
tornarem-se sem ser; no desejo contínuo sem satisfação; na
contínua frustração de lutar em que a vida consiste. O tempo e
aquela probabilidade de todas as coisas existindo no tempo que o
próprio tempo faz são simplesmente a forma sob a qual a vontade
de viver, que, como coisa em si, é imperecível, revela a si mesma
a vaidade de lutar. Tempo é aquilo por cuja virtude tudo se torna
nada em nossas mãos e perde todo valor real.

Não é difícil ver que esse tipo de vontade que busca preservar a si própria
por meio da reprodução é muito parecido com as ideias da biologia
moderna sobre como a genética direciona o comportamento. Contudo,
a originalidade de Schopenhauer está perdida e esquecida. E, hoje em
dia, as pessoas atribuem a ideia de um gene egoísta ao brilhantismo de
cientistas como Richard Dawkins e a ideia de “vontade de potência”
aos desvarios de Nietzsche; e a noção encapsulada no título do livro
de Schopenhauer de um mundo criado pela vontade é removida e
transplantada no vaso ornamental da filosofia existencialista.

Quanto àquele furto intelectual, Schopenhauer tenta oferecer uma


perspectiva mais filosófica. Em seu livro O Mundo como Vontade e
Representação, ele escreve:

A Terra gira do dia para a noite; o indivíduo morre; mas o próprio sol
queima sem interrupção, um eterno meio-dia. A vida é certa para a
vontade de viver; a forma da vida é o eterno presente; não importa
como os indivíduos, o fenomênico da Ideia, surgem e esvaem-se com
o tempo, como sonhos fugazes.

Encontrando a vontade de viver na


filosofia francesa
O filósofo do século XX Levinas oferece uma imagem mais calorosa, mais
pessoal e até com mais propósito do espírito e da motivação humanos
que Schopenhauer. Levinas aponta para um sentido mais sutil do outro,
“a irredutível estranheza do Outro”. Seres humanos passam uma grande

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


Capítulo 12: Explorando a Estranha Noção de Mente   237
parte de suas vidas procurando outra pessoa — os behavioristas dizem
que as pessoas procuram alguém para fazer sexo, mas outros dizem que
estão procurando sua outra metade perdida para se tornarem plenas (o
laço entre duas pessoas é mais complexo e duradouro do que o sexual...).
“Mesmo antes de eu notar a cor de seus olhos, a Outra silenciosamente
comanda que não a machuque, nem a force a conformar-se com a imagem
que tenho dela”, diz Levinas.

Ao descrever o “encontro com Outra”, Levinas emprega a palavra


transcendência — mas não no sentido clássico desse termo. Levinas não
quer dizer que transcende o mundo cotidiano para uma suposta realidade
separada, mais perfeita, mas pretende, ao contrário, destacar a força
transformadora que o outro pode ter sobre você. Seu parceiro ajuda-o a
elevar-se acima do que você poderia ser de outra forma.

A ética como o encontro com o outro


De acordo com Descartes, todo mundo tem a ideia do infinito dentro de si.
Ele faz disso a prova da existência de Deus, dizendo que, como criaturas
finitas, os humanos não podem conceber o infinito em si mesmos. Apenas
alguma entidade igualmente infinita poderia contar com essa ideia (logo,
Deus existe). Na versão de Levinas desse argumento, o divino vem à mente
sempre que se é confrontado pela inquietante presença do outro. Em
todos os seus encontros com o outro, encontra-se a sensação esquisita de
que algo, uma presença infinita que não a sua nem deste mundo (como o
filósofo britânico contemporâneo John Caruana colocou-o), efetivamente
desloca seu centro de atenção. “Dessa forma, a capacidade inexorável
do Outro para me chamar a uma questão insinua o divino sem mesmo
pô-lo como tal”, diz Caruana. É claro que, botando o pé no chão por um
momento ao estilo de Schopenhauer, outras pessoas podem ter o efeito
inverso e arrastar pessoas de outras formas boas para seu próprio nível
desgraçado e vil.

Mas esse pensamento parece não ter ocorrido a Levinas. Ao contrário,


ele passou a melhor parte de sua carreira descrevendo a ética como
“provocação do Outro”, querendo dizer que é a consideração com o outro
que inspira as pessoas a, em algum momento, desenvolver e conceber
costumes, leis e teorias morais. Por Outro, Levinas quer dizer, novamente
na frase de Caruana, “a pessoa singularmente única que fica em frente a
mim à guisa de amiga ou amante decepcionada, uma criança dependente,
uma estranha no meio de mim que procura orientação”, ou mesmo o sem-
teto deitado na calçada pelo qual você passa. Somente o Outro, Levinas
argumenta, tem o poder de, pessoalmente, obrigá-lo.

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


238  Parte IV: Explorando a Mente, a Consciência e a Moralidade

Levinas diz que relatos convencionais de ética dão o poder da obrigação


a uma força impessoal — para Platão é o Bem, a Forma das Formas, e
para Kant é o Imperativo Categórico. Mas Levinas defende que as ideias e
os princípios, embora sublimes e nobres, não possuem a força imaginada
para eles pelo comportamento. Os princípios são simplesmente abstratos
e genéricos demais para mudar o comportamento humano. Em vez disso,
ele toma a presença do Outro, aquela estranha sensação de ser observado
ou de que estão pensando em você. O que acontece em nossa mente
depende do que acontece nas mentes de outras pessoas!

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


Capítulo 13

Olhando a Ética
e a Moralidade
Neste Capítulo
XX
Olhando o certo e errado
XX
Detonando os jargões daqueles termos éticos pomposos
XX
Desconstruindo um pouquinho daqueles que dizem saber mais que o resto

Dizer que a felicidade é um bem maior parece uma banalidade.

– Aristóteles

O estudo do bem e do mal, como Platão não tinha dúvida e filósofos


políticos como Marx insistem que deveria ser, é essencialmente um
estudo prático. Ética diz respeito a regular comportamento, tanto ações
individuais como atividades mais gerais, tudo isso significa entrar no reino
político. Muitas pessoas acham que os políticos deveriam ficar longe da
ética, mas essa visão é ingênua. As leis baseiam-se essencialmente nas
percepções de certo e errado e, no final das contas, são os políticos que
as fazem. Como eles chegam às leis é frequentemente bem complicado e,
certamente, tanto especialistas filosóficos como religiosos (assim como o
já normal interesse econômico) exercem uma função.

Na maior parte do tempo, para a maioria das pessoas, é o poder, na forma


da lei, que faz o correto. Pegue relações sexuais íntimas, por exemplo.
O governo de Sua Majestade (o Reino Unido) tem visões muito claras
sobre esse assunto. Ninguém deve ter mais do que um cônjuge e existem
limites estritos de idade — isto é, idade mínima! —, para não esquecer
sexo com animais ou em lugares públicos, muito menos em troca de uma
quantia em dinheiro. Não poderia ser mais claro, não é? E apenas seguir
as leis poupa muitos problemas às pessoas, porque elas não precisam
retornar aos primeiros princípios. Era isso que os cidadãos alemães de

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


240  Parte IV: Explorando a Mente, a Consciência e a Moralidade

bem (e franceses e outros também!) pensavam quando a lei dizia-lhes


para entregar quaisquer vizinhos judeus que eles soubessem estarem
escondidos no sótão para a Gestapo, a fim de que fossem transportados a
um campo de concentração para “processamento”…

Mas a lei não é bem, de fato, um guia para separar o certo do errado por
muitas boas razões. Uma é que a lei varia. Em alguns países, por exemplo,
pode-se ter vários cônjuges e homens podem ter crianças como esposas.
No Reino Unido, as relações homossexuais são um direito humano, mas
em outros países você pode ser executado por ter um parceiro do mesmo
sexo. Em alguns países, o Estado organiza a prostituição como um serviço
público, como plano odontológico ou noites de bingo; em outros, a
prostituição é considerada um mal indizível e punida com prisão. E tem
mais, o que é errado em um lugar em uma época frequentemente muda
com a tendência ou a circunstância, como (por exemplo) as leis sobre a
homossexualidade mudaram no Reino Unido. Em muitas áreas da vida
humana, a lei é menos a coisa que decide o que é certo e errado e mais
uma reflexão a respeito de atitudes predominantes. Na Alemanha nazista,
a lei refletia um preconceito amplamente espalhado contra o povo judeu,
homossexuais e ciganos, sem mencionar as visões “nazi” da nova (mas
eleita democraticamente, não se esqueça!) liderança alemã. Então, em
ética, a referência a códigos legais não é geralmente muito esclarecedora.

Então, neste capítulo, eu começo com as alegações dos sujeitos religiosos


de terem encontrado um atalho para o conhecimento do certo e errado
— porque eles têm livros baseados na palavra de Deus. Em seguida, eu
abordo algumas perspectivas “radicais” sobre moralidade, como a visão
de Nietzsche de que todos as possuem às avessas (menos ele), porque
o que chamam de certo é “errado” e o que chamam de ruim é “bom”!
Depois pegamos algumas partes da tentativa de tornar a ética científica
e, finalmente, tentamos modernizar a ética — aplicando-a a árvores e
animais. Bem, por que não?

O que Deus Faria?


Há rumores de que o ex-vice-presidente americano Al Gore tinha um bloco
de madeira em seu gabinete na Casa Branca com a inscrição WWGD,
acrônimo da frase “O que Deus faria?” (em inglês, What Would God do?).
Isso apesar do fato de que, nos EUA, a religião e a política devem — está
escrito lá na constituição americana — ficar bem longe uma da outra.
Alguma esperança!

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


Capítulo 13: Olhando a Ética e a Moralidade   241
A realidade é que todos aqueles textos religiosos antigos — a Torá
judaica, a Bíblia cristã e o Corão muçulmano — não falam só de céu e
vida após a morte, mas também tentam estipular o modo correto de se
comportar para todos os estágios da vida e, como um estado totalitário,
aliam esse “conselho” a ameaças e punições terríveis. Infelizmente,
existem duas importantes fraquezas lógicas em todas as tentativas de
basear a moral em um texto religioso:

UUUma delas é que os textos não concordam: Seja entre eles ou


dentro deles. A Bíblia, por exemplo, contém muitas instruções para
que os crentes exterminem impiedosamente seus rivais — homens,
mulheres e crianças inclusive —, juntamente a regras para perdoar e
amar seus inimigos!
UUO que os filósofos chamam de Dilema de Eutífron: Esse
problema aparece em uma das peças de Platão, em que um sujeito
chamado Eutífron está pensando em processar seu pai para, como
ele coloca (para o horror de Sócrates), agradar aos deuses. Isso
leva Sócrates a fazer a pergunta simples, mas profunda: algo é
bom porque os deuses dizem que é bom (caso em que os deuses
podem dizer que absolutamente qualquer coisa é boa e as pessoas
devem aceitá-lo) ou os deuses dizem que as coisas são boas porque
eles veem que são boas? Deuses, você pode supor, seriam bons
julgadores para tais coisas, mas, se ainda é isso que torna as coisas
certas e não erradas, ter a aprovação dos deuses não oferece
nenhuma explicação do porquê de uma coisa ser boa ou não.

De fato, os textos religiosos não são melhores do que códigos legais para
oferecer uma explicação apropriada do porquê de algo ser certo ou
errado. Você deve, é claro, levar em conta o que consideram fé. Então,
por razões reais, o mundo precisa de filósofos. Mas nem eles conseguem
concordar na possibilidade de um insight mais profundo. Aliás, alguns
filósofos ainda acham que Deus definitivamente decide o certo e o errado
— aliás, sujeitos religiosos admitem otimisticamente que a necessidade
humana pela política para haver uma diferença entre certo e errado, aliada
ao fato de que a filosofia não oferece uma, nos dá uma razão para supor
que Deus existe. Outros, contudo (sem dúvida detectando a fraqueza no
último argumento!), tentam basear seu sistema ético na lógica e outros,
ainda, em um tipo de matemática baseada no cálculo das consequências
de qualquer ação. E, é claro, outros filósofos dizem que a noção de certo e
errado ou é uma ficção ou apenas uma questão de aplicar gostos pessoais.

Prova:  Philosophy_For_Dummies_PFCorrG  Data: 09/12/2014


242  Parte IV: Explorando a Mente, a Consciência e a Moralidade

Ética islâmica
O islã é a abordagem abrangente para o A única flexibilidade no sistema é o fato de
viver, cobrindo todos os aspectos tanto da que ele subdivide bom (hasan) e mau (qibih)
vida individual como da social. Um texto co- em várias categorias: imperativa, recomen-
nhecido como Corão (que se originou por dada, permitida e proibida. O Corão diz que
volta do ano 700) é reverenciado pelos mu- o propósito de tudo isso é capacitar as pes-
çulmanos como a palavra literal de Deus, soas a melhorarem a si mesmas. Os huma-
suplantando todas as revelações anterio- nos são vistos como “uma fonte de poten-
res, como a Bíblia. Ele proíbe a jogatina, o cialidade”, não suficiente como são, mas,
consumo de sangue animal, alimentos ofe- pelo menos, não “caídos”, como nas histó