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II Encontro de História, Memória e Oralidade:

“Movimentos Migratórios, Memória e Vivência”


Assis, 14-17 de outubro de 2014

A MEMÓRIA DE UM COLONO JAPONÊS.


DUAS NARRATIVAS ENTRE “VERDADES E MENTIRAS” SOBRE A IMIGRAÇÃO
JAPONESA.

PAULO EDUARDO TEIXEIRA (UNESP)

INTRODUÇÃO

A minha experiência como pesquisador dos movimentos migratórios recaiu


sobretudo nos processos de povoamento do interior paulista a partir do século XVIII e
XIX, portanto um tempo bastante recuado e onde as fontes escritas são utilizadas de
forma intensa.

Quando observamos o avanço da fronteira rumo ao Oeste paulista, notamos


processos que permitem identificar suas correlações com outros fatores, como o
econômico, por exemplo, e também o político. Ciclos econômicos como o do açúcar e
café representaram um marco na apropriação do território paulista. As guerras
europeias, muitas delas também em momentos diversos, proporcionaram condições
favoráveis para a vinda de portugueses, italianos, espanhóis, alemães e muitos outros
grupos.

Nesse sentido, podemos visualizar o avanço das fronteiras por meio da criação
dos trilhos de trem, ou ainda pela fundação das cidades. Isso criou uma denominação,
“Oeste Paulista”, que flutuou na medida do tempo e do espaço ora designado, isto é, no
século XVIII representava a região de Campinas, posteriormente, em meados do século
XIX, passou a compreender o atual norte do estado, conformado pelas cidades de
Ribeirão Preto, Araraquara, São José do Rio Preto, recebendo o nome de Novo Oeste
Paulista, finalmente, no início do século XX, o Oeste Paulista se deslocou para a região
que se iniciava com os trilhos da estrada Noroeste de Bauru.

O contexto desse último movimento de deslocamento do Oeste Paulista foi


protagonizado pela ferrovia, que ao ser implantada em áreas ainda habitadas por povos
nativos, lançou a semente para a criação de diversas cidades que em seu rastro foi
acompanhada por inúmeros grupos de migrantes, nacionais e estrangeiros, que foram
se estabelecendo, como por exemplo, os japoneses. A maciça presença nipônica marcou
esse território, de tal forma que não pode ser percebida apenas como contribuição
numérica para a região, mas deve ser entendida como algo mais complexo, visto que

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seus costumes, idioma, culinária e cultura de uma forma mais abrangente, tornaram-se
parte das características da região.

A partir de 2006, quando iniciei minhas atividades na UNESP/Marília, a presença


japonesa entre a população me chamou a atenção, eram pessoas circulando pela cidade,
templos, restaurantes, o Nikkey Clube, a Japan Fest, e outras evidências, de modo que
iniciei meu interesse de maneira mais sistemática pelo tema da imigração japonesa para
a região. Em 2013 iniciei a orientação de um trabalho de Conclusão de Curso de Ciências
Sociais intitulado “O nacionalismo japonês no Brasil: um estudo sobre a fundação da
organização Shindo Renmei”, de André Lorente Kaneko. Assim, interessado em discutir
a questão das organizações japonesas que surgiram nos anos iniciais da presença
japonesa no Brasil, chegou a mim a monografia de Conclusão do Curso de Arquivologia
de 2013 da aluna Natacha Kajimoto, cujo título é: “Gestão do conhecimento aplicada à
constituição da memória do movimento Shindo Renmei”. Nesse trabalho há várias
entrevistas, sendo uma delas com o Sr. Tokuiti Hidaka, onde podemos ler o seguinte:

[O senhor já ouviu falar no livro ‘Corações sujos’?]


Ah, aquilo lá é tudo mentira!
(...)
Me convidaram para assistir aquele cinema ‘Corações sujos’,
você assistiu? Puta merda! É uma mentira (risos).
[Ah... é? O senhor assistiu? O que achou?]
Bom como filme não sei se é bom ou ruim, não sou comentarista
de cinema nem nada (risos), mas é completamente mentira (...)
tenho até vergonha de falar isso para você Natacha, você é
mulher, me desculpe, mas vou falar... (risos) ela disse assim, traz
um pano branco que eu ponho na minha... (risos) e faço uma
bandeira do Japão para vocês, aí ficou ruim, porque a gente não
matava mulher e ela desrespeitou a bandeira né, aí mataram o
marido dela para vingar, deram tiro nele, não foi igual conta no
filme, no filme mostra que foi com katana, mas foi tiro, aquela
cena que mostra todos nós com katana na rua também é
mentira, como íamos andar armado durante o dia daquele jeito.
Esse livro aqui do Toyama é verdadeiro, aquele lá é muita
mentira. (KAJIMOTO, 2013: 68-71)

O trecho dessa entrevista sugere verdade e mentira. A verdade está relatada no


livro de Osamu Toyama, jornalista japonês radicado no Brasil desde 1965, e que
escreveu Cem anos de águas corridas da Comunidade Japonesa: Por que os três
baluartes desmoronaram? Qual a verdade sobre os casos terroristas atribuídos à
Shindo Renmei? Qual o futuro da comunidade?, que foi publicado em São Paulo no ano
de 2009 pela AGWN com apoio da Japan Foundation, por ocasião da comemoração do
Centenário da Imigração japonesa ao Brasil. Por sua vez, a mentira é atribuída ao livro
de Fernando Morais, Corações Sujos, publicado pela primeira vez em 2000 pela

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Companhia das Letras, sendo que em 2011 foi editada a terceira edição, mesmo ano que
foi lançada uma adaptação do livro para as telas do cinema (Corações Sujos, 2011 – Dir.
Vicente Amorim).

O autor dessas declarações é o senhor Tokuiti Hidaka, o primeiro, da direita para


a esquerda, dentre os “sete heróis” de Tupã, que aparece na fotografia de capa do livro
Corações Sujos. Assim, a declaração procede de alguém que vivenciou o período em que
ocorreram os fatos relacionados à Shindo Renmei, bem como ele foi entrevistado por
Fernando Morais e Osamu Toyama.

François Dosse, refletindo sobre a oposição História e Memória, sobretudo para


o historiador que em sua pesquisa valoriza o status da verdade, questiona: “de que
valeria uma verdade sem fidelidade ou uma fidelidade sem verdade.” E imediatamente
ele assegura: “É pela mediação da narrativa que se pode realizar uma articulação entre
essas duas dimensões.” (DOSSE, 2004:180) Nesse sentido, o objetivo desta comunicação
é refletir sobre o trabalho do historiador/mediador, sobretudo a partir da análise das
narrativas de Fernando Morais e Osamu Toyama, os quais, mediante o uso de fontes
orais, escritas e imagéticas, criaram algumas “verdades”.

I – O NARRADOR E O CAMPO DA HISTÓRIA

A narrativa, ..., é ela própria, ... uma forma


artesanal de comunicação. Ela não está
interessada em transmitir o “puro em si” da
coisa narrada como uma informação ou um
relatório. Ela mergulha a coisa na vida do
narrador para em seguida retirá-la dele.
Assim se imprime na narrativa a marca do
narrador, como a mão do oleiro na argila do
vaso. (Benjamin, 1994: 204)

O início do século XX foi palco de inúmeras transformações advindas do processo de


desenvolvimento do capitalismo, sobretudo europeu, e que alterou profundamente o dia-a-dia
das pessoas. Uma dessas transformações é indicada por Walter Benjamin em seu texto A obra
de arte na era de sua reprodutibilidade técnica (1935/1936), em que o autor destaca os
mecanismos de reprodução de imagens com uma velocidade que somente os meios técnicos
poderiam permitir. Nesse mesmo contexto, suas reflexões recaem sobre a imprensa,
preocupada sobretudo com as informações de última hora advindas de todo o mundo. Assim,
Walter Benjamin, em um ensaio muito conhecido chamado O Narrador (1936), afirmou que essa
nova forma de comunicação, a informação, estava ganhando cada vez mais espaço e
importância na vida das pessoas no início do século XX, e que em oposição, a narrativa, estaria
se desfazendo, sobretudo aquelas narrativas de “histórias surpreendentes”.

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Em um artigo de Peter Burke publicado no Brasil pela Editora Unesp em 1992, o
historiador britânico discutia o “renascimento da narrativa”, colocando a questão que
polarizava, de um lado, aqueles que defendiam que a escrita da história deveria “considerar as
estruturas mais seriamente que os acontecimentos”, em oposição àqueles que diziam que “a
função do historiador é contar uma história”. (BURKE, 1992: 330) A proposta de Burke era “de
se investigar a possibilidade de encontrar um modo de escapar a este confronto entre
narradores e analistas.” (Idem: 333) Em suma, seria possível “fazer uma narrativa densa o
bastante, para lidar não apenas com a sequência dos acontecimentos e das intenções
conscientes dos atores nesses acontecimentos, mas também com as estruturas – instituições,
modos de pensar, etc. – e se elas atuam como freio ou um acelerador para os acontecimentos.
Como seria uma narrativa desse tipo?” (Idem: 339) E nessa tentativa, ele sugere: “Poder-se-ia
esperar que o chamado “romance de não-ficção” pudesse ter tido algo a oferecer aos
historiadores, ...” (Idem: 340)

Anos mais tarde, as historiadoras Raquel Glezer e Sara Albieri, no artigo O campo da
história e as “obras fronteiriças” (Revista IEB, nº 48, março de 2009, 15-30), define como “obras
fronteiriças” aquelas que o leitor comum considera de história, e que são “formas tradicionais
de primeiro contato do leitor com a história, fora do contexto escolar.” E elas acrescentam que:

As primeiras obras indicativas do surto atual de “obras fronteiriças”


foram as biografias, que para o público leigo estão associadas à
história, pois contando fatos das vidas de pessoas notáveis por algum
motivo. Escritas em linguagem ficcional, geralmente por jornalistas –
alguns dos quais se tornaram especialistas no gênero – abriram
caminho para os historiadores também se dedicarem a elas, malgrado
as tensões que marcam as relações entre Biografia e História. (GLEZER
& ALBIERI, 2009: 19, 20)

E um dos jornalistas citados pelas autoras é Fernando Morais, que escreveu Olga (1985),
Chatô: o rei do Brasil (1994), e Corações sujos (2000 e que recebeu o Prêmio Jabuti – Livro do
ano de 2001). Estas obras fronteiriças, também chamadas pelas autoras de “quase história” se
aproximam de obras escritas por historiadores que adotaram a forma de narrativa literária,
“como o faz Mary del Priore, em O Príncipe Maldito.”
A questão colocada pelas autoras remete a uma discussão de como identificar as marcas
de uma obra histórica, não-ficcional, de uma obra literária, como a de um romance histórico,
uma vez que o que as define parece ser “a boa certificação histórica de parte de seus elementos
constitutivos – personagens, cenários ou episódios.” (GLEZER & ALBIERI, 2009: 25) No entanto,
o que mais chamam a atenção, trata-se das “convenções discursivas da história”, que balizam e
justificam o conhecimento confiável, em síntese, o conhecimento histórico científico,
demarcado por uma série de procedimentos e condutas diante das fontes, onde “a exatidão não
é uma qualidade do historiador, mas sua obrigação”, e mais, “por trás do discurso
historiográfico, há um sujeito que o produz”. (BORGES, 2006: 217, 220)
Talvez todas essas questões possam ser melhor pensadas à luz da diferença atribuída
por Walter Benjamin (1994: 209) entre o cronista e o historiador, quando diz para prestarmos
atenção entre “quem escreve a história, o historiador, e quem a narra, o cronista. O historiador
é obrigado a explicar de uma ou outra maneira os episódios com que lida...”

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II – O NARRADOR DE CORAÇÕES SUJOS

Fernando Morais nasceu em 1946 no município de Mariana, Minas Gerais, e desde a


década de 1960 é jornalista, atuando nas redações da Folha de São Paulo, Veja, Jornal da Tarde
e TV Cultura. Seus livros seguem os conceitos do chamado Novo Jornalismo (New Jornalism)
proposto por Truman Capote (A sangue frio, 1966), Tom Wolf (Os eleitos, 1979 e A fogueira das
vaidades, 1987), Norman Mailer, John Hersey, e outros, que propuseram “atrelar as técnicas de
apuração e seleção jornalísticas a elementos da narrativa literária, com a intenção de prender o
leitor à história contada com o máximo de fidelidade ao real que fosse possibilitada pela palavra
escrita.” (FRANCO & SOUZA, 2012: 3) Além dessas características, o Novo Jornalismo rompe com
a objetividade da informação jornalística e abre espaço para a linguagem subjetiva, comum na
literatura, possibilitando a mescla de história verídica com relato ficcional, acompanhado de
fotografias dentro do livro para ilustrar a história que está sendo narrada. Nas palavras de Carlos
Rogé Ferreira (2003: 319) o livro reportagem como uma categoria de produção cultural está
vinculado “às tensões existentes entre os discursos da literatura, do jornalismo e da história”.
Assim, Fernando Morais é possivelmente um dos primeiros jornalistas brasileiros a adotar esse
gênero, quando lançou em 1976 A Ilha. No entanto, uma das obras de maior sucesso foi Olga
(1985), relançada em 1993 e que em 2004 ganhou as telas do cinema (Dir. Jayme Monjardim).
Corações Sujos: a história da Shindo Renmei, lançado em 2000 pela Companhia das
Letras, trouxe ao leitor a seguinte sinopse do livro:

A Shindo Renmei, ou "Liga do Caminho dos Súditos", nasceu em São


Paulo após o fim da Segunda Guerra, em 1945. Para seus seguidores,
a notícia da rendição japonesa não passava de uma fraude aliada.
Como aceitar a derrota, se em 2.600 anos o invencível Japão jamais
perdera uma guerra? Em poucos meses a colônia nipônica, composta
de mais de 200 mil imigrantes, estava irremediavelmente dividida: de
um lado ficavam os kachigumi, os "vitoristas" da Shindo Renmei,
apoiados por 80% da comunidade japonesa no Brasil. Do outro, os
makegumi, ou "derrotistas", apelidados de "corações sujos" pelos
militantes da seita. Militarista e seguidora cega das tradições de seu
país, a Shindo Renmei declara guerra aos "corações sujos", acusados
de traição à pátria pelo crime de acreditar na verdade. De janeiro de
1946 a fevereiro de 1947, os matadores da Shindo Renmei percorrem
o Estado de São Paulo realizando atentados que levam à morte 23
imigrantes e deixam cerca de 150 feridos. Em um ano, mais de 30 mil
suspeitos dos crimes são presos pelo DOPS, 381 são condenados e 80
são deportados para o Japão. Nesta sua volta à grande reportagem,
Fernando Morais conta a história da seita nacionalista que aterrorizou
a colônia japonesa no Brasil.
(http://www.companhiadasletras.com.br/detalhe.php?codigo=11294
acessado em 12 de outubro de 2014, às 21:35hs)

A narrativa pode ser caracterizada a partir de alguns elementos, tais como foco
narrativo, tempo, espaço, personagens e enredo. A análise de narrativas nos ajudará a traçar o
perfil de Corações Sujos, tendo em vista também seu diálogo com a história.
O foco narrativo pode ser de dois tipos, segundo Brait (2002), o narrador em primeira e
em terceira pessoa do singular. No caso de Corações Sujos, a forma inicial de sua história começa
dizendo assim:

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A voz rouca e arrastada parecia vir de outro mundo. Eram
pontualmente nove horas da manhã do dia 1º de janeiro de 1946
quando ela soou nos alto-falantes dos rádios de todo o Japão. A
pronúncia das primeiras sílabas foi suficiente para que 100 milhões de
pessoas identificassem quem falava. Era a mesma voz que quatro
meses antes se dirigia aos japoneses, pela primeira vez em 5 mil anos
de história do país, para anunciar que havia chegado o momento de
“suportar o insuportável”: a rendição do Japão às forças aliadas na
Segunda Guerra Mundial. (MORAIS, 2011: 9)

Como se percebe, o narrador aparece como uma voz onisciente, muito comum em
documentários que utilizam do artifício da “voz over”, para narrar determinados fatos ou
circunstâncias que ajudem o leitor/ouvinte a se situar no contexto histórico. Na visão de Brait
(2002:53) a visão desse tipo de narrador, isto é, o de terceira pessoa, corresponde ao papel de
“uma verdadeira câmera” que sabe de tudo que se passa dentro da história.
O ar de intimidade com que trata o narrador determinadas situações, indicam um
apurado grau de conhecimento das fontes, primárias e secundárias, que permitiram a
reconstrução de diálogos e situações, como se o narrador estivesse estado no local. Assim,
Franco & Souza (2012: 8) afirmam que a “onisciência deste narrador chega ao seu ápice quando
é oferecida voz ao personagem, “mostrando” o que ele poderia estar pensando, uma maneira
de demonstrar que o narrador realmente conhece seu personagem a fundo.”

Afinal, perguntava-se Kikawa, o que fazia entre empresários,


jornalistas e diplomatas o coronel Jinsaku Wakiyama, um patriota, que
já havia até sido preso pelo DOPS, sob suspeita a favor do Japão? (...)
A cada notícia de derrota militar do Japão, os imigrantes reagiam com
desânimo e prostração. Na cabeça de Kikawa, era chegada a hora de
alguém unificar de novo a colônia em torno do Yamatodamashii, o
espírito japonês”. (MORAIS, 2011: 98-99)

Mas a palavra, quando dada aos personagens, ocorre de forma rara, isto porque foi
permitido ao narrador conhecer uma personagem de forma profunda, e por tratar-se de um
livro-reportagem, “estes recursos literários necessários são utilizados para estruturar a narrativa
e fazem parte do que Aristóteles chamou de verossimilhança, ou seja, aquilo que não é
necessariamente o verdadeiro, mas o que parece sê-lo, graças à coerência da representação-
apresentação fictícia”. (Franco & Souza, 2012: 8)

O segundo elemento narrativo é o tempo, que geralmente é o tempo cronológico e o


psicológico. O tempo cronológico tem por característica dar a ideia de linearidade dos fatos do
enredo, formando uma sequência sem lacunas. Nota-se, que o livro começa demarcando o
período, ou seja, fim da Segunda Guerra Mundial e a rendição do Japão. Não obstante, o
narrador transita no tempo histórico para trazer informações que ele julga importante para a
melhor compreensão da trama descrita por ele. Vejamos:

Na revolução de 1932, São Paulo chegou a ter nisseis nas suas


trincheiras, mas nada que significasse comprometimento da colônia
com a causa. No final de 1938, entretanto, medidas tomadas pelo
presidente Getúlio Vargas para enfrentar os “inimigos internos” iriam
repercutir duramente na vida da comunidade japonesa.” (MORAIS,
2011: 33)

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Por sua vez, Cândida Gancho (2006: 25) define tempo psicológico como o tempo que
está ligado ao enredo não-linear, no qual os acontecimentos estão fora da ordem natural e que
é determinado “pelo desejo ou pela imaginação do narrador ou das personagens”.
No episódio que Morais narra a tentativa de matar o empresário Shibata Myakochi,
podemos ver o uso do tempo psicológico do personagem Hidaka:

Os japoneses tiveram que dar meia-volta e desistir do plano. Meio


século depois o tokkotai Tokuiti Hidaka se lembraria envergonhado do
malogro daquela noite:
“Nós estávamos tão perdidos naquela cidade desconhecida que
parecíamos onze caipiras japoneses fazendo turismo na porta da casa
do Matarazzo em plena madrugada...” (MORAIS, 2011: 164)

Além das acelerações no tempo, são utilizados recursos como flashbacks, retardações e
elipses na narrativa. O primeiro capítulo do livro apresenta o “caso bandeira” e na sequencia os
“sete heróis” de Tupã, de forma sumária, sem aprofundamento da história e de seus
personagens, no entanto, no capítulo 7, quando Morais trata de Eiiti Sakane, um dos “heróis”
de Tupã, utiliza um flashback para fazer referência ao capítulo primeiro.

No dia 1º de janeiro de 1946, ao saber que, no bairro Coim, um militar


tinha limpado as botas com a bandeira japonesa, foi Sakane quem
propôs ao chefe da Shindo a montagem imediata de um comando para
vingar o insulto com o fuzilamento do cabo Edmundo. (MORAIS, 2011:
262)

Morais ainda utiliza a retardação através de digressões, desvios da sequência narrativa,


que é quando o narrador interrompe o desenrolar da narrativa. Nesse caso, podemos citar a
volta ao ano de 1908, descrita no capítulo 1, quando chega ao Brasil o primeiro navio japonês,
o Kasato-maru, trazendo os primeiros imigrantes. Por fim, a elipse também é notada no texto
de Morais, e ocorre quando o tempo dá um salto na história para o futuro, por ex., “em 30 de
julho, onze dias após a reunião com os japoneses (...).” (MORAIS, 2011: 230)

O terceiro elemento que iremos tratar é o espaço, que é entendido como o lugar onde
ocorrem as “cenas” narradas. Em Corações Sujos, encontramos o espaço urbano, representado
pela cidade de São Paulo, e o espaço rural, onde são descritas as atividades agrícolas realizadas
em cidades do interior paulista, como Bastos, Tupã, Marília, e outras. O espaço pode ser aberto
ou fechado, e nesse sentido, podemos notar a conjunção de dois elementos, no qual o espaço
rural normalmente é aberto, como na descrição que Morais faz da perseguição policial aos
tokkotai, dizendo:

A expedição prosseguiu pelo mato. Cortou as terras da antiga


aldeia Icatu, dos índios caingangues, e por volta das dez horas da
manhã chegou a São Martinho. (...) O grupo acabou chegando à casa,
no meio de um cafezal. (MORAIS, 2011: 321)

Cândida Gancho (2006:19) conceitua ambiente como sendo a relação entre tempo e
espaço, e onde situações socioeconômicas, morais, religiosas e psicológicas podem determinar
o clima do espaço social. Em Corações Sujos, o ambiente é formado por um clima de terror,
advindo da Segunda Guerra mundial, das proibições e das leis que restringiram a mobilidade da
população japonesa no Brasil, e posteriormente pelos ataques que levaram a morte várias
pessoas da comunidade nos meses que seguiram após o fim da Guerra.

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O quarto elemento a ser tratado são as personagens, e uma vez que elas são as
responsáveis pelo desenvolvimento do enredo, podem ser protagonistas, antagonistas, ou ainda
personagem secundária. Corações Sujos apresenta diversas personagens, e a própria “Shindo
Renmei pode ser considerada protagonista na história, já que o livro gira em torno desta
organização japonesa.” (FRANCO & SOUZA, 2012: 5) Por sua vez, o coronel Junji Kikawa é
constantemente citado durante todo o enredo por comandar a Shindo Renmei, mas ele pode
ser categorizado, segundo definições de Gancho (2006), como secundário, visto que é um dos
“cabeças” do grupo, mas dentro do enredo ele não é o foco, assim como os “sete heróis” de
Tupã e muitos outros.

Finalmente, o último elemento a ser analisado é o enredo, ou seja, o que aconteceu?


Em Corações Sujos, Fernando Morais conta a história da organização japonesa Shindo Renmei,
também conhecida como Liga do Caminho dos Súditos. Formada por imigrantes japoneses que
moravam principalmente em São Paulo, acreditavam fielmente que o Japão jamais perderia a
Segunda Guerra Mundial, uma vez que jamais havia perdido uma guerra antes. Assim, começou
uma batalha interna na colônia japonesa entre os makegumi, isto é, os “derrotistas”, aqueles
que aceitavam a derrota do Japão, e os kachigumi, ou seja, os “vitoristas” ou “patriotas”, que
era a maioria da comunidade. Assim, os kachigumi declararam que os makegumi, isto é, os
“corações sujos” deveriam ser mortos.
O enredo é construído a partir de pesquisa, que no caso de Corações Sujos se valeu de
uma variada quantidade de documentos consultados em diversos arquivos, públicos e privados,
tanto da capital quanto de cidades do interior, além de 88 entrevistas com personagens, e
consulta a periódicos japoneses e brasileiros de São Paulo e do interior. Finalmente, essa base
documental foi acompanhada de uma extensa bibliografia, bem como diversas fotografias.
Corações Sujos, como uma obra do Novo Jornalismo, faz o uso dessa vasta massa
documental de forma indireta na maior parte da narrativa, e apenas em algumas situações é
dado a perceber a origem das informações e dos acontecimentos tratados pelas personagens e
até mesmo pelo narrador. Por exemplo:

Em vários pontos da cidade, segundo o jornal A Tribuna, formaram-se


feiras livres improvisadas, no meio da rua, nas quais os japoneses
tentavam remediar a situação vendendo o que podiam:
Colhidos de surpresa pela medida da Ordem Política e
Social, numerosos japoneses trataram de se desfazer de
seus bens. (MORAIS, 2011: 58)

III – O NARRADOR JAPONÊS DE CEM ANOS DE ÁGUAS CORRIDAS

Uma pequena biografia de Osamu Toyama foi publicada no livro Cem anos de águas
corridas da comunidade japonesa. Ele nasceu em Hamamatsu, província de Shizuoka, em 1941.
Formou-se no Departamento de Ciências Políticas da Faculdade de Direito da Universidade de
Doshisha, em 1965. No ano seguinte veio ao Brasil como imigrante. Depois de trabalhar como
repórter no jornal de língua japonesa São Paulo Shimbun, em 1982, foi editor da Agro-Nascente,
a revista agrícola que fundou com alguns colegas. É jornalista autônomo desde 1987.
O livro Cem anos de águas corridas da comunidade japonesa foi publicado inicialmente
em 2006, em língua japonesa, e no ano seguinte recebeu da Sociedade Brasileira de Cultura
Japonesa e de Assistência Social (Bunkyo) o Prêmio Literário da Colônia. Em 2009, com apoio da
Fundação Japão, o “livro de não-ficção” recebeu a versão em português com 597 páginas,

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divididas por uma mensagem do Embaixador do Japão no Brasil Ken Shimanouchi, a
apresentação por Hachiro Nagayama, o Prefácio do autor, seguidos por 24 capítulos e a
Conclusão.
Na mensagem do embaixador nos é dito:

“Particularmente, considero ser esta, uma das obras mais significativas


já publicadas em japonês, resgatando de maneira acurada a história
da imigração japonesa no Brasil o que deverá ser, por muito tempo,
uma referência para os estudos sobre a saga da comunidade japonesa
no Brasil. É leitura indispensável para historiadores, sociólogos,
antropólogos, diplomatas, pesquisadores em geral...” (TOYAMA, 2009:
7)

Hachiro Nagayama, que se apresenta como “amigo e colaborador” do autor, afirmou


que a obra de Toyama é “destinada a servir de referência para os próximos cem anos.” Assim,
tais declarações demonstram a forma como a comunidade nipo-brasileira vem reagindo ao
lançamento do livro de Osamu Toyama. Portanto, caracterizar essa narrativa a partir dos seus
elementos básicos (foco narrativo, tempo, espaço, personagens e enredo) nos ajudarão a
compreender melhor a obra de Toyama.

Diferente da forma adotada por Fernando Morais, o foco narrativo em Cem anos de
águas corridas da comunidade japonesa, Osamu Toyama, o narrador, se coloca na primeira
pessoa, em outras palavras, é o sujeito responsável pela ação, “é um ser que pertence à história
e que portanto, só existe como tal se participa efetivamente do enredo, isto é, se age e fala.”
(GANCHO, 2006: 14) Essa opção é vista pelo leitor nos três primeiros parágrafos do capítulo 1,
em que o autor narrará sobre os pioneiros da imigração japonesa para o Brasil. Vejamos:

Vivia antigamente em São Paulo um japonês idoso, que a


comunidade japonesa conhecia como Nanju Suzuki. Na realidade
chamava-se Teijiro Suzuki e morava em algum lugar da cidade, não sei
bem onde, mesmo porque a época a que me refiro remonta à década
de 1960. Ele costumava perambular pelas imediações da rua Galvão
Bueno, no bairro da Liberdade conhecido como “bairro japonês”. (...)
Eu não passava então de um rapazola de vinte e poucos anos
recém-chegado do Japão e não fazia a menor ideia de quem era ele.
(TOYAMA, 2009: 17)

Como podemos notar, o narrador em primeira pessoa se coloca dentro do enredo, como
personagem, que inclusive se vale da memória para iniciar seu relato, sua história. Aliás, o
artifício utilizado pelo narrador é o de se valer das histórias contadas pelo personagem Nanju
para guia-lo ao passado, a esse tempo anterior aos anos de 1960, em que se iniciou a narrativa.
No entanto, o autor do livro, assegura no Prefácio que:

Presenciei, na década de 1990, uma das maiores tragédias da


história da comunidade japonesa no Brasil. Foi isso que me levou a
produzir a reportagem que se transformou nesse livro. Refiro-me à
extinção das cooperativas Cotia e Sul Brasil e a absorção do Banco
América do Sul.” (TOYAMA, 2009: 12)

Assim, a partir dessas palavras, podemos notar como o autor escolhe, com cuidado o
foco narrativo a ser adotado, pois passados quase trinta anos de sua presença no Brasil, o autor,
como integrante dessa comunidade japonesa de imigrantes e como jornalista da comunidade,

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não acreditou no que aconteceu, e um sentimento de inconformidade com a ausência de
respostas o levaram a buscá-las, e nesse processo acabou retrocedendo no tempo do navio
Kasato-maru.

O tempo, assim, na narrativa de Cem anos de águas corridas da comunidade japonesa,


pode ser notado de imediato em seu título, trata-se de celebrar o período que se inicia em 1908
com a chegada do primeiro navio que trouxe os imigrantes japoneses ao Brasil, e chega ao ano
de 2008. Nesse sentido o tempo cronológico está definido, inclusive na ordenação dos capítulos,
que se inicia com Os Pioneiros, no capítulo 3 trata do período da Colonização desenfreada,
Legislação chocante é o título do capítulo 5, que remete ao período da Segunda Guerra,
momento que Surgem as cooperativas, abordadas no capítulo 6, para então designar o capítulo
7 de O tsunami, como o momento da declaração da derrota do Japão. Logo em seguida, os
capítulos 8, 9 e 10 apresentam o mesmo nome, A verdade sobre o terror, parte 1, 2 e 3. Os
capítulos 11 e 12 tratam do Reerguimento e Renovação da colônia japonesa, mas que é seguida
por Agitação, Fluxo e refluxo, capítulos 13 e 14, que antecedem o Furação, capítulo 15, para
então passar a tratar da extinção dos três baluartes da comunidade japonesa no Brasil. A
gigantesca falência 1 e 2 é tratada nos capítulos 16 e 17, seguidos por outros até o capítulo 23
cujo título, E o Banco América do Sul também, para encerrar com o capítulo 24 dito Fatos
posteriores e uma pequena Conclusão.
No entanto, o tempo cronológico cede lugar ao tempo psicológico, e isso pode ser
observado ao longo da narrativa.

Mas, enfim, Nanju ... morreu em 1970, aos 92 anos. Entretanto,


os dois volumes que escreveu e foram publicados contêm um acervo
de histórias bastante interessantes. (...)
Em 1958, então com 80 anos, Nanju viajou a Florianópolis ... (...)
Mas voltemos à segunda metade do século XIX, época da
Restauração Meiji no Japão. (TOYAMA, 2009: 24-26)

O tempo psicológico aqui é retratado pelo desejo do narrador em contar as histórias


daquilo que ele chamou de “pré-história” ou seja, a “fase anterior à chegada do Kasato-maru”,
e onde a objetividade ou precisão das datas não tem a mesma importância do tempo físico
destinado a reconstruir a história da comunidade nos cem anos. A técnica aqui é a retardação.
Em relação a duração do tempo, o narrador usa da pausa, uma forma para inserir uma
digressão ou descrição de algo que julga pertinente. Isso fica muito evidente quando Toyama
passa a descrever, no capítulo 4, as atividades de algumas colônias. Vejamos:

A Colônia Aliança recebeu até 1939, dez anos após sua instalação, 697
famílias, totalizando mais de 3.780 colonos.
O êxito da Colônia Aliança estimulou a participação de
províncias japonesas em empreendimentos coloniais no Brasil,
inaugurando uma nova fase da imigração.
Por que as províncias participaram?
A resposta a esta dúvida também será esclarecida no final deste
capítulo.

Faço aqui uma pequena digressão.


(...)
Mas por que teria o governo japonês lançado mão de
empreendimentos dessa natureza?
Responderei a essa pergunta também adiante.
(...)

10
Mas qual a razão dos subsídios às cooperativas? E da concessão
simultânea de crédito?
Permitam-me outra vez responder a essa questão adiante.
(...)
Por ora deixo de falar da Tozan para voltar aos investimentos
japoneses no Brasil.
(...)
Outra vez reservo esse assunto para falar adiante. Peço-lhes um
pouco de paciência.
(...)
Por quê? É a pergunta que faço pela sexta vez e prometo
responder adiante, quando falar dos bastidores da política.
Mas, antes, não posso deixar de mencionar um triste fato...
(TOYAMA, 2009: 129-141)

Essa forma de narrar é muito comum no texto de Toyama, ou seja, o uso de digressões,
e estas muitas vezes apresentam histórias no meio de outras histórias, para então voltar à
história anterior, chamada de alternância. (Cf. MAGALHÃES; SENTO SÉ; GUENA, 2013: 11)
Interessante notar que o próprio texto indica essas figuras de duração (pausa/alternância) com
um espaço maior entre os parágrafos. O longo trecho a seguir ilustra bem isso.

Assim se iniciou a célebre Colônia Hirano.


Pelo porte, a Colônia Hirano poderia ser considerada de fato
uma colônia. Na realidade, não passava de uma comunidade
improvisada, sem nenhum planejamento. Não havia médicos nem
recursos para combater as doenças endêmicas. E esse inimigo atacou
sem tardança, como que aproveitando do descuido. Em poucos meses,
a virulência atingia o ápice. Todos os colonos foram contaminados, e
mais de sessenta deles morreram – um quadro dantesco.

É importante observar que a maioria das fontes de referência


cita tal epidemia como malária (conhecida então como maleita), e essa
versão passou a ser a mais aceita hoje. Eu mesmo acreditei nisso, mas
existem objeções a isso.
Por exemplo, Eiichi Kayama, residente em Ibiúna, afirma: “Não
creio que a malária possa provocar uma tragédia dessa amplitude em
pessoas bem alimentadas”.
O sr. Kayama faria 90 anos em 2005, quando fez essa afirmação.
Veio para o Brasil menino e instalou-se com a família na Colônia Tietê.
Conheceu de perto a malária.
Escreve também Nanju:
“Quem sabe tenha ocorrido um surto de febre
paratifoide em seguida à malária. O tratamento da
febre paratifoide é bem diferente do da malária.
Talvez tenham continuado a administrar o
tratamento para a malária acreditando piamente
que se tratasse dessa doença, sem perceber o que
acontecia. Não seria essa a causa da taxa de
mortalidade tão elevada?”

O médico Shizuo Hosoe, que chegou ao Brasil pouco mais de


anos após o desastre da Colônia Hirano, diz também em seu livro:

11
“Ouço que foi malária maligna, agravada por
icterícia. Entretanto, eu duvido. Não teria sido
febre amarela florestal?”

Retomo o fia da história.


Não existindo médicos na Colônia Hirano, (...) (TOYAMA, 2009:
98-99)

Como o espaço corresponde ao lugar/es onde ocorrem as “cenas” narradas, podemos


dizer que dada a ideia de Osamu Toyama realizar uma história da imigração japonesa para o
Brasil, os espaços são os mais variados. O Japão (Yokohama, Nagasaki, Ibaragi, Yamagata,
Tóquio, Kobe, Hokkaido, Hiroshima, Fukushima, Kumamoto, etc.) e o Brasil (São Paulo, Rio de
Janeiro, Florianópolis, Salvador, Pará, Paraná, etc.) são os dois espaços constantemente
tratados, quer para contextualizar alguns personagens ou mesmo para dar uma explicação sobre
fatos ocorridos, no entanto, Rússia, Peru, Havaí, Estados Unidos, Paraguai também aparecem
no texto. Obviamente, São Paulo, é o espaço que apresenta maior destaque, com um número
muito grande de cidades, vilas, fazendas, e colônias.

Aquele ano de 1933 foi feliz também para Nanju. Em


comemoração do aniversário dos 25 anos da imigração, o cônsul-geral
de São Paulo, Iwataro Uchiyama, o premiava com uma passagem
marítima ao Japão, “em recompensa pela ingente dedicação ao serviço
da imigração iniciado a partir da fase de preparação à chegada dos
imigrantes do Kasato-maru”. (...)
Mas Nanju nem sequer se deu ao trabalho de agradecer ao
cônsul-geral antes de embarcar para o Japão. ... Se aceitou mesmo
assim a passagem foi porque ardia de saudade do seu primeiro amor
e queria revê-la – e conseguiu. Com a intermediação de um amigo
encontraram-se em um hotel da cidade de Tendo, província de
Yamagata. Naturalmente não passou de um encontro platônico.
(TOYAMA, 2009: 157)

Como se depreende do trecho citado acima, o autor tece uma combinação de tempo e
espaço, procurando criar um ambiente que permite perceber e informar ao leitor as confusões
psicológicas em que as personagens estão inseridas. (Cf. FRANCO & SOUZA, 2012: 7) Nesse caso,
o amor de um senhor de 50 anos, casado, mas que ainda alimentava sentimentos pelo seu
“primeiro amor”, Otatsu-san. O deslocamento de Nanju de São Paulo para a cidade de Tendo, e
desta para um hotel, revela a transição do espaço público para o privado, de um espaço social
amplo e aberto, para um microespaço. Aliás, essa é uma das únicas passagens que o narrador
quebra a sequência de relatos onde os protagonistas das ações são figuras masculinas.
Obviamente, o caráter da narrativa romântica aqui exposta está adaptado ao interesse do
narrador, que em nenhum momento deseja sugerir que houve algo entre o casal, até mesmo
porque ele afirma que “Nanju possuía também família em São Paulo. Queria apenas vê-la e
conversar com ela – era o que bastava. Coisas como essa ocorriam nessa época sem causar
surpresa a ninguém.” (TOYAMA, 2009: 157)
Essa história que revela segredos, contada para o leitor, como se fossem íntimos, é uma
forma de dialogar com o passado expresso no capítulo primeiro, quando ao descrever a origem
do velho Nanju, declara:

12
Nanju nasceu na província de Yamagata em 1878. Usava o pseudônimo
literário Nanju para escrever versos apaixonados de tanka, dedicados
ao primeiro amor de sua vida. Passou a vida compondo versos sem
nenhum constrangimento:

“Eis que se vão quarenta anos desde que por ti me


apaixonei,
Resta-me velada no peito apenas a tristeza.”

Esse poema foi composto quando ele tinha cinquenta e poucos


anos, numa época em que homens dessa idade se preparavam para
deixar este mundo... Os versos eram vulgares, o próprio autor
reconhecia isso, mas mesmo assim continuava a compor. (TOYAMA,
2009: 36)

O caráter de reportagem no livro de Osamu Toyama repercute na seleção de


personagens. A relação de personagens é muito grande, embora a temporalidade admitida na
obra de Toyama tenha requerido isso. De qualquer forma, não é o senhor Nanju, apresentado
ao leitor logo na primeira página do capítulo um, e nem mesmo Ryo Mizuno, Shuhei Uetsuka e
Umpei Hirano, considerados os pioneiros da imigração japonesa no Brasil, respectivamente o
‘Patriarca da imigração’, o ‘Pai dos imigrantes’ e o ‘Herói trágico’. Nem tampouco o é o coronel
Kikawa, presidente da Shindo Renmei. Nem mesmo o milionário da colônia Kunihiro Miyamoto.
Como se depreende de uma fala do narrador no capítulo 5, em que ele diz: “Relatei no capítulo
anterior que a correnteza da história dos japoneses neste país se transformaria em um rio
caudaloso. Mas isso não passou de um sonho.” (TOYAMA, 2009: 190), podemos dizer que o
personagem principal, o protagonista por excelência é um grupo de pessoas, são todos os
japoneses que vieram para o Brasil. Daí a necessidade de mostrar ao leitor essa profusão de
sujeitos, indivíduos que juntos construíram a Colônia japonesa no Brasil, apesar do Tsunami e
Furacão que tentaram acabar com ela. Isso fica nítido pela escolha do título do livro, Cem anos
de águas corridas da comunidade japonesa, reforçada no Prefácio, assim como na Conclusão do
livro, em que o narrador descreve da seguinte forma:

Em todo o caso, na década de 1990 a colônia japonesa foi


gradualmente tomada por um estado de apatia que permaneceu
durante vários anos.
“A colônia está acabando...”
Tal opinião era sussurrada em diversos cantos.
Depois de um tempo, a colônia viu a aproximação do ano de
2008, que comemorava cem anos da vinda do navio Kasato-maru.
Nessa oportunidade surgiu uma propensão a aproveitar a data para
recuperar a vitalidade da colônia e planejar uma nova forma de
sociedade que substituísse a tradicional.
Talvez como reflexo dessa mentalidade urgiu a tendência de
evitar conscientemente o uso do termo “colônia” para, em troca, usar
“comunidade nikkei”. (TOYAMA, 2009: 594)

Vale ainda dizer que a comunidade japonesa foi retratada como um pequeno rio que
em sua nascente se assemelha a pequenos ribeiros de água, que ao correrem rumo ao seu
destino vão recebendo águas de outros pequenos rios, e assim ele vai se tornando cada vez mais
caudaloso.
De qualquer forma, tanto no livro de Fernando Morais quanto no de Toyama, a presença
feminina é quase inexistente, muitas vezes sem nome, como a “irmã de Hirama” (TOYAMA,

13
2009: 327), nesse sentido são personagens secundárias na trama, quase como uma sombra na
vida dos homens descritos em seus perfis e histórias.

Finalmente, o enredo narrado por Osamu Toyama, refletiu a tentativa do autor de


recontar a história dos japoneses e seus descendentes no Brasil nestes cem anos desde a
chegada do navio Kasato-maru, em 1908. Diz o autor que “segui o curso da história, porém em
sentido oposto.” Isto porque, como ele mesmo disse, foi levado a essa história devido ter
presenciado, “na década de 1990, uma das maiores tragédias da história da comunidade
japonesa no Brasil”, ou seja, o fim das cooperativas Cotia e Sul do Brasil, e a falência do Banco
América do Sul. Nesse rastro da história, não foi possível se desviar dos episódios de terrorismo
do período pós Segunda Guerra, aos quais procurou dar respostas a muitos interlocutores.
Para dar conta de tamanho enredo, o autor/narrador se valeu de inúmeros tipos de
fontes, escritas e orais. No entanto, em nenhum momento há referência direta quanto ao
número e tipo. Podemos apenas pinçar, nas entrelinhas da própria narrativa, o uso de livros,
memórias, cartas, trabalhos de historiadores (apenas uma referência na página 144), jornais e
documentos oficiais (Relatório da Ordem Política/DOPS, Relatório de confissão dos acusados,
etc.) citados pelo narrador. Por exemplo, Nanju escreveu dois livros que foram publicados, O
pioneiro dos pioneiros da imigração japonesa no Brasil (1967), e Os pioneiros – Vestígios que se
apagam (1969). (TOYAMA, 2009:23) Também Roturo Koyama escreveu História dos quarenta
anos de imigração japonesa, mas que não se sabe se foi publicado ou não. (TOYAMA, 2009:56)
Cabe uma nota quanto ao trabalho de pesquisa oral, uma vez que em vários momentos do texto
ele faz referências a essa prática, que no entanto, não é descrita de forma a perceber como ele
as tratou. Em um dos relatos sobre esse trabalho o narrador/autor nos diz:

Eu já o conhecia [Takao Oshiiwa] havia mais de trinta anos. Sabia


alguma coisa do seu passado, mas nunca o tinha entrevistado como
jornalista. Foi a primeira vez. Não foi fácil, sendo ele já idoso e por
abordar fatos já distantes no tempo. Na verdade, visitei-o mais de dez
vezes, para fazê-lo, aos poucos, lembrar-se de sua história. E fui
anotando os fragmentos da sua memória, que eram confirmados no
encontro seguinte. Ao fim de algum tempo consegui compor as
“Memórias de Oshiiwa”, que apresento a seguir. (TOYAMA, 2009:284)

Outra dificuldade anotada foi localizar membros do grupo sobrevivente dentre os


terroristas, o que contou com a ajuda de amigos e conhecidos. Tal procura se deu ao longo de
vários anos, pois “O ideal, eu bem sabia, seria encontrar um participante direto dessas ações e
entrevistá-lo, para colher as verdadeiras circunstâncias. (...) No entanto, o milagre aconteceu”,
disse o narrador/autor. (TOYAMA, 2009:333) Assim, em 2004 Toyama entrevistou a F, que veio
ainda criança com os pais para o Brasil, e que contava com 79 anos de idade. Posteriormente,
em 2008, obteve declarações de dois outros participantes: Taro Mushino e Hisamatsu Mitake, e
isto graças a ajuda de “alguns colaboradores”, pois segundo ele nos disse a respeito de Mushino,
“Antes de mim, outros jornalistas que localizaram tentaram entrevistá-lo, mas sem sucesso.
Uma equipe de reportagem de uma TV japonesa também teve a porta fechada na cara.”
(TOYAMA, 2009:356)

14
IV – A MEMÓRIA DE UM COLONO JAPONÊS

O Sr. Tukuiti Hidaka, uma das personagens do livro Corações Sujos foi entrevistado por
Morais, embora as condições não sejam do conhecimento do leitor, o fato é que isso permitiu a
ele criar uma imagem de Hidaka. A primeira aparição ocorre no episódio da bandeira, quando
ele é descrito como o menor e mais jovem do grupo, parecia um agricultor pacato que não falava
bem o português, e era budista. Além do mais, ele é mostrado como um verdadeiro samurai,
que saltou diante do cabo Edmundo com uma espada levantada pronto para lhe dar um golpe,
sendo necessário cinco soldados para o desarmarem. (MORAIS, 2011:13) Mais adiante, quando
está indo para São Paulo, é dito que ele tinha 20 anos de idade e era comerciário, que ainda vivia
com os pais. (MORAIS, 2011:79) A declaração pessoal de Hidaka, quando foi entrevistado por
Morais por volta de 1996, afirma que se parecia como um caipira a andar na cidade de São Paulo,
quando dos preparativos para o atentado terrorista. (MORAIS, 2011:82) Em suma, Hidaka é
referido como o “caçula dos tokkotai do “caso da bandeira”, em Tupã” (MORAIS, 2011:95) que
deu dois disparos no atentado a Wakiyama, embora apenas um tenha sido no peito (MORAIS,
2011:97). Sabemos que foi preso e um dos condenados a serem exilados para fora do Brasil, mas
durante o governo de JK todos foram anistiados. (MORAIS, 2011:164) A última menção a Hidaka
ocorre logo após a informação da anistia, e diz que em 2000 Tokuiti Hidaka era um dos três
tokkotai que ainda estava vivo, vivendo de uma loja de bicicleta na cidade de Quintana.
O uso de linguagem ficcional, beirando a dramaticidade em alguns momentos do texto,
bem como a fragmentação das identidades individuais, são elementos das obras de “quase
história” que permeiam episódios, ou melhor, fatos, que são mesclados de certo exotismo, e
que no caso de Corações Sujos, pode muito bem ser representado pelas imagens, inclusive de
capa, que desperta no leitor a curiosidade pela diferença.
Por essas e talvez outras questões que nos escapem ao entendimento, podemos dizer
que a afirmação do sr. Hidaka de que o que estava escrito no livro Corações Sujos é “mentira”,
se faz entender a partir desses elementos de análise. Por sua vez, porque ele atribui a “verdade”
ao texto de Toyama, sendo que este autor também é um jornalista e faz, como demonstramos,
também um livro de reportagem?
A resposta pode estar na forma de narrar os acontecimentos que envolveram Hidaka.
Osamu Toyama inicia seu relato sobre Tokuichi Hidaka falando de quando se encontrou
com ele pela primeira vez, em 2001. A descrição da personagem é intercalada por citações do
próprio Hidaka, certamente colhidas durante as entrevistas, de modo a construir uma imagem
positiva do “terrorista”. Veja a seguinte descrição:

Quando eu os procurei, Kitamura já era falecido.


Hidaka e Yamashita contavam então com mais de 70 anos (em
2001).
Encontrei-me com os dois pela primeira vez em 2001 e tive a
mesma impressão que me passou Oshiiwa: pessoas equilibradas, de
semblante pacífico; enfim, pessoas comuns como as que encontramos
no dia a dia em qualquer lugar.
Ressalvo: não tenho nenhuma intenção de exaltar o terrorismo.
Quero apenas transmitir fielmente a impressão que ambos me
causaram. (Toyama, 2009: 290)

Ao descrever o jovem Hidaka, em especial o episódio que o marcou no livro de Fernando


Morais, ou seja, o episódio da bandeira, o narrador Toyama assim se refere:

Quando do incidente em que um policial usara a bandeira


japonesa para limpar o coturno, Hidaka, juntamente com Shimpei

15
Kitamura, fazia parte do grupo que tinha ido à delegacia exigir
satisfações.
Regressava do curso noturno da escola e estava ainda com os
livros na mão. (Toyama, 2009: 292)

Muito diferente a forma como é apresentada e narrada aquela que talvez seja uma das
cenas de maior impacto dramático no leitor de Corações Sujos. E a pergunta é, por quê? Porque
Fernando Morais procurou desde o início trazer à tona a existência de uma “seita que sustentava
que o Japão havia vencido a Segunda Guerra Mundial” (MORAIS, 2011: 14), a qual possuía um
exército de tokkotai, dentre os quais alguns estavam entre os “sete samurais” de Tupã, e que a
Shindo Renmei era a organização que agregava a maior parte dos kachegumi, e que em última
instância foi a responsável pelos diversos atentados terroristas ocorridos entre a colônia
japonesa do Estado de São Paulo, e que tal movimento causou a denúncia de 381 japoneses
“suspeitos de ligações com a seita”. E mais, porque Morais intenta reforçar o caráter verídico de
sua reportagem no Epílogo, fazendo questão de listar cada um dos nomes dos condenados à
prisão, com destaque para os oitenta integrantes da Shindo Renmei que foram expulsos do Brasil
por meio de um decreto assinado pelo presidente Dutra, e que em 1956, por meio de outra ação
presidencial, foram todos colocados em liberdade. (MORAIS, 2011: 331-334)
A ação da narrativa em Cem anos de águas corridas difere radicalmente da escrita em
Corações sujos nesse ponto, uma vez que Toyama opta não por descrever as ações praticadas
pelos terroristas, mas sua preocupação é a de trazer uma explicação para os fatos, que não
podem ser negados, mas que precisam ser recontados de maneira a assegurar a unidade da
comunidade. E porque ele quer dar uma outra interpretação da história dos casos terroristas,
ele se volta para os sujeitos comuns, como o Sr. Hidaka, e procura revelar o japonês em sua
essência, o ser patriota, fiel ao seu Imperador, fiel aos ensinos recebidos na escola japonesa
(Associação para a Educação de Japoneses). Assim, diz o narrador/autor, as “entrevistas com os
envolvidos mostraram que muito do que se tem escrito sobre os incidentes é falso.” (TOYAMA,
2009: 301)
Finalmente, uma última diferença que se estabelece entre a narrativa de Corações Sujos
e Cem anos de águas corridas, a busca pela compreensão dos acontecimentos. No livro de
Fernando Morais, em diversos trechos, ele repete os julgamentos que pressupõe serem o de
sujeitos contemporâneos à Shindo Renmei mas não pertencentes à comunidade nipônica;
exemplo disso são qualificações como: “um bando de japoneses desequilibrados”. Na leitura de
Rafael Evangelista (2014), como

... não há uma interpretação clara do autor sobre a Shindo, tem-se a


impressão de que esse é um julgamento possível, que ela pode ter sido
formada por um bando de loucos. Há também um certo caráter
anedótico na descrição de Morais de algumas ações mal sucedidas dos
tokkotai. ... Esses dois elementos contribuem para que o leitor tenha
a possibilidade de fazer um julgamento também anedótico e
construído em cima de estereótipos.

Em suma, Fernando Morais não está preocupado com a busca de um modelo explicativo
para as ações dos sujeitos envolvidos na trama de uma maneira densa, capaz de levar o leitor a
entender o que foi a Shindo Renmei, mas em lugar disso, a explicação simplista revela uma seita
de malucos. Assim, elementos como a diferença cultural, a desinformação, o desejo de voltar ao
Japão, e muitas outras questões poderiam ser empregadas de modo mais acurado para dar uma
interpretação ao seu trabalho.
Por sua vez, Osamu Toyama, como personagem dessa comunidade centenária, não
pôde deixar os relatos e as descrições sem explicações, sem uma razão para as mesmas, e assim
ele se aproximou do ofício do historiador, ao menos aquele apregoado por Peter Burke. (Cf.

16
1992: 346) de que as “categorias de uma cultura particular determinam os modos pelos quais
seus membros percebem e interpretam seja o que for que aconteça em sua época.” Vejamos
uma das explicações dadas por Toyama ao terrorismo na Colônia:

Acredito que tenham sido provocados por grupos ou indivíduos


independentes. Suponho que tenha havido uma grande quantidade
deles nessa época.
O fato é que se formava um consenso dentro da colônia
japonesa de que a produção de casulos e de hortelã constituía
atividade hostil ao Japão. Nessas circunstâncias, é muito mais fácil,
psicologicamente falando, repetir um ato hostil que alguém já
cometeu.
É o chamado “psicologia de massa”.
Entretanto, mesmo que se tratasse de efeito da psicologia de
massa, isso não isenta a Kodosha do envolvimento nos atentados.
(TOYAMA, 2009: 340)

Em outras passagens, o narrador se demora em explicar, relacionar, e assim dar uma


explicação causal para dizer que “os equívocos de ambas as partes ocasionaram confrontos e
provocaram cisão na colônia japonesa.” (TOYAMA, 2009: 363)

Além disso, no início dos atentados, houve confusão a respeito


do nome Tokkotai, divulgado como grupo terrorista pertencente à
Shindo Renmei. Por essa razão, a colônia japonesa e a sociedade
brasileira em geral passaram a acreditar nessa versão, comumente
aceita até hoje, passados quase sessenta anos.
Até os jornalistas não perceberam o engano quando trataram
do assunto. (TOYAMA, 2009: 364)

V – CONSIDERAÇÕES FINAIS

Ao iniciar o desembarque de japoneses em terras brasileiras, iniciava-se também, não


apenas a chegada de trabalhadores, mão-de-obra para os cafezais paulistas, mas o princípio de
uma história de estratégias de sobrevivência e de vivência. O habitus japonês, analisado por
Fábio Ocada (2002), corresponde a um “capital cultural particular”, interiorizado, e que a noção
de gambarê pode muito bem exemplificar, pois sua definição significa “ter força para suportar
com perseverança e resignação, todas as adversidades impostas pelo destino, a fim de que cada
indivíduo possa dar sua contribuir para que se possa, coletivamente, atingir a harmonia.”
Essa noção e compreensão de gambarê foi o “ethos que se fundou a decisão dos
imigrantes de aqui permanecer e lutar por condições melhores de vida.” (OCADA, 2002: 8)
Assim, se adaptar ao novo idioma, alimentação diferente, costumes, cultura, obrigou os
japoneses a buscarem estratégias para continuarem a manter seus valores culturais, herdados
de uma tradição cultural milenar, onde as noções de solidariedade, hierarquia, disciplina,
respeito pelos mais velhos, autocontrole das emoções, silêncio diante de situações adversas, e
principalmente, noções de honra e lealdade para com a família e os pais. E durante todo o
processo imigratório descrito no livro de Toyama, parece que o narrador em sua escrita quis
dizer gambarê aos japoneses e filhos de japoneses migrados ao Brasil, assim como aos japoneses
que vivem e leem a história de parte de seu povo que saiu do Japão.
Nesse sentido, a “mentira” de Fernando Morais parece que é devida pelo fato de haver
um distanciamento de sua forma narrativa de contar a história da Shindo Renmei aos olhos de
um imigrante japonês. Uma forma narrativa que não levou em consideração os códigos
culturais, algo que Toyama não apenas conhece, mas vive.

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